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O poema abaixo transcrito, do escritor português Miguel Torga (1907 - 1995), estabelece uma intertextualidade com a Odisseia de Homero. Esse poema épico narra o retorno de Ulisses (ou Odisseu) que, tendo partido de seu reino (a ilha de Ítaca) para combater na Guerra de Troia, enfrenta vários percalços em sua jornada de volta. Durante todo o período em que se desenvolveu essa guerra e mesmo depois de ela ter terminado, Penélope, mulher de Ulisses, permanece em Ítaca e continua esperando pelo marido, apesar de estar cercada por muitos homens que queriam desposá-la. Penélope Ulisses desterrado No mar da vida, Digo o teu nome e encho a solidão. Mas pergunto depois ao coração Por quanto tempo poderás ainda Tecer e destecer a tela da saudade... Vê se não desesperas E me esperas Até que eu volte, e à sombra da velhice Te conte, envergonhado, As indignas façanhas Que cometi Na pele do semideus que nunca fui Sê tu divina, de verdade, aí, Nessa ilha de esperança, Fiel ao nosso amor De humanas criaturas. Faz que seja bonito O mito Das minhas aventuras. Leia esse poema tantas vezes quantas achar necessárias e, em seguida, avalie as afirmativas que são feitas, abaixo, sobre ele. A- Tal como Ulisses, o eu lírico encontra-se longe da mulher amada e não sabe por quanto tempo ela poderá “ainda tecer e destecer a teia da saudade” – clara referência à artimanha de Penélope para adiar sua decisão sobre qual dos pretendentes escolher. B- O eu lírico sente-se envergonhado de suas façanhas “na pele do semideus” que – reconhece – nunca foi e pede a Penélope que, ao menos, ela seja divina de verdade em Ítaca. C- No poema de Miguel Torga, Ítaca torna-se uma ilha abstrata (“ilha de esperança”), onde a própria constância de Penélope é que emprestará beleza (“Faz que seja bonito”) ao “mito / das minhas aventuras”. Agora que você leu o poema e as afirmativas sobre ele, redija um texto, que tenha entre 20 e 30 linhas, registrando e justificando suas escolhas: - todas as afirmativas estão corretas? - todas as afirmativas estão incorretas? - há alguma(s) correta(s) e outra(s) incorreta(s)? - conclua seu texto considerando a seguinte afirmação: o poema, em sua totalidade, traça um perfil da mulher amada, cuja beleza interior preenche a solidão e o vazio interior do eu lírico, dando-lhe a esperança no “amor / de humanas criaturas”. A literatura é uma das contribuições do mundo clássico que ainda sobrevive com vigor na era contemporânea. Dar a palavra escrita um valor estético é algo que sempre aconteceu, mas não com a intensidade e importância que adquiriu na Antiguidade Clássica. Pode-se afirmar que as literaturas ocidentais são filhas e devedoras autorais da literatura grega. Quase todos os gêneros literários (o que utilizam o mito são, o drama, especialmente a tragédia e o épico) que conhecemos hoje nasceram no mundo greco-romano. A partir deles, passaram para a literatura latina e de lá para nossa literatura moderna. Porém, a literatura grega não só nos legou a forma dos vários gêneros (épico, lírico, dramático, etc.), mas também é de onde os temas, os mitos e conteúdo são constantemente extraídos. Um dos mitos gregos mais conhecidos na atualidade é o de Ulisses e Penélope, onde o seu elemento essencial reside na astúcia, fé e perseverança. Quanto ao poema sugerido, acredita-se que todas as afirmavas A e B possam ser consideradas corretas; visto compreender que o poeta se utilizou do mito da Odisseia de Homero como metáfora para representar o seu eu lírico. Isto fica evidenciado nos tempos verbais do texto “digo”, “pergunto”, “eu volte”, etc. Nele, o poeta busca expressar seus sentimentos, agruras da vida e expectativas em relação ao futuro – ou não – com a sua eleita (“Vê se não desesperas / E me esperas / Até que eu volte”), reconhecendo se arrepender de suas escolhas, mostrando-lhe uma face que ele não reconhecer ter, de quem ele realmente é (“Te conte, envergonhado / As indignas façanhas / Que cometi”). Considero que a alegação C também esteja correta, percebe-se nesta última parte que o poeta prefere acreditar que sua amada o espere - assim como na odisseia da espera Penélope por Ulisses -; mesmo que ele tenha desviado do seu caminho em “suas aventuras” ele deseja que ela esteja integra, intacta, fiel ao amor dos dois, de humanas criaturas: “Fiel ao nosso amor / De humanas criaturas". O eu poético de Miguel Torga dá destaque à esperança e ao duelo entre o "Tecer e destecer a tela da saudade...”. O desejo latente de regresso para junto de seu amor é tanto que o simples o fato de se lembrar de sua beleza e de sua humanidade preenche todos os momentos de vazio e solidão que sua ausência provoca, abarrotando-o de arrependimento.