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A terapia de grupo ajuda os pacientes?
De fa to, ajuda. Urn convincente corpus de pes-
quisas sobre seus resultados demonstra de ma-
neira inequfvoca q,-!~ a terapia de grUpo e uma
forma bastante efetiva de psicoterapia e que
ela e pelo menos igual a psicoterapia individual
em sua capacidade de proporcionar beneficios
significativos. l
Como a terapia de grupo ajuda os pacien-
tes? Uma questao ingenua, talvez, mas se pu-
dermos responde-Ia com urn certo grau de pre-
cisao e certeza, teremos a nossa disposi<;ao urn
prindpio organizacional central com 0 qual po-
deremos abordar os problemas mais provo can-
tes e controversos da psicoterapia. Uma vez
identificados, os aspectos cruciais do processo
de mudan<;a constituirao uma base racional para
o terapeuta selecionar as taticas e estrategias
necessarias para moldar a experiencia de gru-
po, de modo a maximizar sua potencia com di-
ferentes pacientes e em diferentes cenarios.
Acredito que a mudan<;a terapeutica seja
urn processo enormemente complexo, que
ocorre por uma intera<;ao intricada de experien-
cias humanas, que chamarei de "fatores tera-
peuticos". Existe uma vantagem consideravel
em se abordar 0 complexo pelo simples, 0 fe-
nomeno total por seus processos componentes
basicos. Dessa forma, come<;o descrevendo e
discutindo esses fatores elementares.
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Os Jatores terapeuticos
Segundo a minha perspectiva, linhas na-
turais dividem a experiencia terapeutica em 11
fatores primarios:
1. Instila<;ao de esperan<;a
2. Universalidade
3. Compartilhamento de informa<;6es
4. Altrufsmo
5. Recapitula<;ao corretiva do grupo familiar
primario
6. Desenvolvimento de tecnicas de sociali-
za<;ao
7. Comportamento imitativo
S. Aprendizagem interpes.s.oal
9. Coesao grupal
10. Catarse
11. Fatores existenciais
No restante deste capftulo, discuto os pri-
meiros sete fatores. Considero a aprendizagem
interpessoal e a coesao grupal tao importantes
e complexas que trato delas separadamente,
nos dois capftulos seguintes. Os fatores exis-
tenciais sao discutidos no Capftulo 4, onde sao
mais bern compreendidosno contexte de ou-
tros materiais apresentados. A catarse esta in-
trinsecamente entremeada com outros fatores
terapeuticos e tambem sera discutida no Ca-
pftulo 4.
24 IRVIN D. YALOM
As distinr;:oes entre esses fatores sao arbi-
trarias. Embora eu os discuta individualmen-
te, eles sao interdependentes e nenhum deles
ocorre ou funciona separadamente. Alem dis-
so, esses fatores podem representar diferentes
partes do processo de mudanr;:a: alguns fato-
'res (por exemplo, a autocompreensao) atuam
no myel da cognir;:ao; alguns (por exemplo, 0
desenvolvimento de tecnicas de socializar;:ao)
atuam no myel da mudanr;:a comportamental;
al~ms (por exemplo, a catarse) atuam no nf-
vel da emor;:ao; e alguns (por exemplo, a coe-
sao) podem ser mais bern descritos como
precondir;:oes para a mudanr;:a.Y Embora os
mesmos fatores terapeuticos operem em todos
os tipos de grupos de terapia, sua interar;:ao e
importancia diferencial podem variar muito de
grupo para grupo. Alem disso, devido a dife-
renr;:as individuais, os participantes de urn mes-
mo grupo beneficiam-se com diferentes con-
juntos de fatores terapeuticos.Y
Tendo em mente que os fatores terapeu-
ticos sao constructos arbitrarios, podemos con-
siderar que eles proporcionam urn mapa cog-
nitivo para 0 estudante-Ieitor. Esse agrupamen-
to dos fatores terapeuticos nao e visto concreta-
mente, e outros clinicos e pesquisadores chega-
ram a grupos de fatores diferentes e tambem
arbitrarios.2 Nenhum sistema explicativ~ pode
abranger toda a terapia. Em seu nucleo, 0 pro-
cesso terapeutico e infinitamente complexo e
nao existe limite para 0 numero de caminhos
atraves da experiencia. (Discutirei essas ques-
toes de maneira mais ampla no Capftulo 4.)
o inventario de fatores terapeuticos que
proponho parte de minha experiencia clfnica,
da experiencia de outros terapeutas, e de pes-
quisas sistematicas relevantes. Entretanto, ne-
nhuma dessas fontes esta livre de questiona-
mento. Nenhum membro de grupo ou lfder de
grupo e inteiramente objetivo, e nossa me-
todologia de pesquisa muitas vezes e incipiente
e inaplicavel.
Com os terapeutas de grupo, obtemos urn
inventario variado e internamente inconsisten-
te de fatores terapeuticos (ver Capftulo 4). Os
terapeutas, que de mane ira alguma sao obser-
vadores desinteressados ou imparciais, inves-
tern tempo e energia consideraveis para apren-
der e dominar determinada abordagem tera-
peutica, fazendo com que suas respostas se-
jam estipuladas por sua escola de convicr;:ao.
Mesmo entre terapeutas que compartilham da
mesma ideologia e falam a mesma Ifngua pode
nao haver consenso quanta as razoes pelas
quais os pacientes melhoram. Na pesquisa so-
bre grupos de encontro, meus colegas e eu
aprendemos que muitos lfderes de grupos bem-
sucedidos atribufram seu sucesso a fatores que
eram irrelevantes para 0 processo de terapia.
Por exemplo, a tecnica do hot-seat (desenvol-
vida por Fritz Peds, fundador da terapia gestalt,
na qual urn paciente senta-se no centro do dr-
culo, enquanto 0 lfder e os outros membros do
grupo concentram-se nele por urn longo perfo-
do de tempo), ou exerdcios nao-verbais, ou 0
impacto direto da pessoa do terapeuta (ver Ca-
pftulo 16).3 Mas isso nao nos surpreende. A
historia da psicoterapia esta cheia de terapeutas
que eram efetivos, mas nao pelas razoes que
supunham. Em outras epocas, nos terapeutas
jogamos as maos aos ceus em espanto. Quem
nunca teve urn paciente que tenha tide vastas
melhoras por razoes inteiramente obscuras?
Ao final de uma terapia de grupo, os par-
ticipantes podem fornecer dados sobre os fa-
tores terapeuticos que consideravam mais e me-
nos proveitosos. Ainda assim, sabemos que es-
sas avaliar;:oes serao 'incompletas e sua preci-
sao, limitada. Sera que os membros do grupo
talvez nao se concentrem principalmente em
fatores superficiais e omitam alguma forr;:a cu-
rativa profunda que possa estar alem de sua
consciencia? Sera que suas respostas nao se-
rao influenciadas por uma variedade de fato-
res diffceis de controlar? E inteiramente possf-
vel, por exemplo, que suas visoes possam ser
distorcidas pela natureza de sua relar;:ao com 0
terapeuta ou com 0 grupo. (Uma equipe de
pesquisadores demonstrou que quando pacien-
tes foram entrevistados quatro anos depois da
conclusao da terapia, eles estavam muito mais
aptos para comentar aspectos uteis ou preju-
diciais de sua experiencia com 0 grupo do que
quando entrevistados imediatamente apos a
sUa conclUSaO.)4 A pesquisa tambem mostrou,
por exemplo, que os fatores terapeuticos valo-
rizados por membros do grupo pod em ser
amplamente diferentes dos citados pelos seus
terapeutas ou observadores do grupo,s uma
observar;:ao feita tambem na psicoterapia indi-
vidual. Alem disso, muitos fatores de conftlSaO
influenciam a avaliar;:ao do paciente sobre os
fatores terapeuticos: por exemplo, 0 tempo em
tratamento e 0 nfvel de funcionamento do pa-
ciente,6 0 tipo de grupo (ou seja, se externo,
interno, hospital-dia, terapia breve),? a idade
e 0 diagn6stico do paciente,8 e a ideologia do
lfder do grupO.90utro fator que complica a
busca por fatores terapeuticos comuns e 0 nf-
vel em que diferentes membros do grupo per-
cebem e experimentam 0 mesmo evento de
diferentes rnaneiras. Y Deterrninada experien-
cia pode ser importante ou proveitosa para al-
guns e nao trazer conseqiiencias ou ate ser pre-
judicial para outros.
Apesar dessas limitar;:oes, os relatos dos
pacientes sao uma fonte rica e relativamente
intocada de informar;:oes. Afinal, e a sua expe-
riencia, sua apenas, e quanto mais nos afasta-
mos da experiencia dos pacientes, mais ilativas
Sa9 as nossas conclusoes. Certamente, existem
aspectos do processo de mudanr;:a que operam
fora da consciencia do paciente, mas isso nao
significa que devamos desconsiderar aquilo que
os pacientes dizem.
Existe uma artepara obter os relatos dos
pacientes. Questionarios para preencher ou de
escolha proporcionam dados facilmente, mas
muitas vezes nao conseguem captar as nuances
e a riqueza da experiencia dospacientes. Quan-
to Illais 0 questionador puder entrar no mun-
do de experiencias do paciente, mais lucido e
significativo se torna 0 relato da experiencia
da terapia. Ate onde consegue suprimir ten-
dencias pessoais e evitar influenciar as respos-
tas do paciente, 0 terapeuta se torna 0
questionador ideal: 0 terapeuta e confiavel e
entende mais do que qualquer urn 0 mundo
interne do paciente.
AMm das visoes dos terapeutas e relatos
dos pacientes, existe urn terceiro metoda im-
portante de avaliar os fatores terapeuticos: a
abordagem de pesquisa sistematica. A estra-
tegia de pesquisa mais comum e correlacionar
variaveis internas da terapia com 0 seu re-
sultado. Descobrindo quais variaveis estao sig-
nificativamente relacionadas com variaveis
bem-sucedidas, pode-se estabelecer uma base
razoavel para comer;:ar a delinear os fatores
PSICOTERAPIA DE GRUPO ~5
terapeuticos. Todavia, existem muitos problc;--
mas inerentes a essa abordagem: a mensurar;:ao
do resultado ja e uma confusao metodologica.,
e a seler;:ao e mensurar;:ao de variaveis internas
da terapia sao igualmente problemaricas:lO
Todos esses metodos derivaram os fato-
res terapeuticos discutidos neste livro. Ainda.
assim, nao considero essas conclus6es defini-
tivas. Em vez disso, oferer;:o-as como diretrizes
provisorias, que podem ser testadas e aprofun-
dadas por outros pesquisadores clmicos. De
minha parte, estou satisfeito de que eles sao
derivados das melhores evidencias disponlveis
no momenta e que constituem a base de uma
abordagem efetiva a terapia.
INSTlLACAo DE ESPERANCA
A instilar;:ao e a manutenr;:ao da esperan-
r;:a sao cruciais em qualquer psicoterapia. A es-
peranr;:a nao apenas e necessaria para manter
o paciente em terapia para que outros fatores
terapeuticos passam ter efeito, como a fe em
urn modo de tratamento pode ern si ja ser
terapeuticamente efetiva. Diversos estudos
demonstraram que uma expectativa elevada de
ajuda antes de comer;:ar a terapia esta signifi-
cativamente correlacionada com urn resultado
positivo.l1 Considere tambem a quantidade de
dados que documentam a eficacia da cura pela
fe e 0 tratamento com placebo - terapias me-
diadas inteiramente pela esperanr;:a e pela con-
vicr;:ao. E mais provavel que a psicoterapia te-
nha urn resultado positivo quando 0 paciente
e 0 terapeuta tiverem ex.pectativas semelhan-
. tes para 0 tratamento.12 0 poder das expecta-
tivas estende-se aMm da imaginar;:ao apenas.
* Podemos avaliar melhor os resultados da terapia
de urn modo geral do que mensurando as relar;6es
entre essas variaveis de processo e resultados.
Kivlighan e colaboradores desenvolveram uma es-
cala promissora, a Escala de Grupo de Ajuda de
Irnpacto, que tenta capturar a totalidade do proces-
so terapeutico de gropo de urn modo multidimensio-
nal, que abranja tarefas terapeuticas e relar;6es te-
rapeuticas, bern como variaveis relacionadas com 0
processo, 0 cliente e 0 lider do grupo.
26 IRVIN D. YAlOM
Estudos recentes com imagem demonstram que
o placebo nao e inativo, mas pode ter urn efei-
to psicologico direto sobre 0 cerebro. I3
Os terapeutas de grupo podem capitali-
zar esse fator; fazendo 0 que podem para au-
mentar a cren~a e a confian~ dos pacientes
na eficacia do modele de grupo. Essa tarefa
inicia antes do grupo come~ar, na orienta~ao
pre-grupo, na qual 0 te~apeuta refor~a expec-
tativas positivas, corrige preconceitos negati-
vos e apresenta uma explica~ao lucida e pode-
rosa das propriedades curativas do grupo. (Ver
Capitulo 10 para uma discussao completa do
procedimento de prepara~ao pre-grupo.)
A terapia de grupo nao apenas se baseia
nos efeitos gerais das expectativas positivas
sobre a melhora, como tambem se beneficia
como uma Fonte de esperan~a que e unica do
formato de grupo. Os grupos de terapia invaria-
velmente contem individuos que estao em pon-
tos diferentes ao longo de urn continuum de
enfrentamento e colapso. Assim, cada membro
tern urn contato consideravel com outros -
muitas vezes individuos com problemas seme-
lhantes - que melhoraram como resultado da
terapia. Muitas vezes, ouvi pacientes comen-
tarem ao final de sua terapia de grupo 0 quan-
to foi irnportante para eles observar a melhora
dos outros. Notavelmente, a esperan~a pode
ser uma for~a poderosa, mesmo em grupos de
individuos que combatem urn cancer avan~a
do e que perdem membros estimados do gru-
po para a doen~a. A esperan~a e flexivel - ela
se redefine para se encaixar em parametros
imediatos, tornando-se esperan~a de confor-
to, de dignidade, de conexao com outros mem-
bros ou de redu~ao do desconforto fisico. I4
Os terapeutas de grupo nao devem, de
mane ira alguma, isentar-se de explorar esse fa-
tor, chamando aten~ao periodicamente para as
melhoras que os membros fizeram. Se eu rece-
ber recados de membros que tiveram termino
recente informando-me de suas melhoras con-
tinuadas, fa~o questao de compartilhar isso com
o grupo atual. Os membros antigos do grupo
muitas vezes assumem essa fun~ao, oferecen-
do testemunhos espontaneos a membros no-
vos e ceticos.
Pesquisas mostraram que tambem e vital
que os terapeutas acreditem em si mesmos e
na eficacia de seu grupO.IS SirIceramente, creio
que sou capaz de ajudar cada paciente moti-
vado que esteja disposto a trabalhar com 0 gru-
po por pelo menDs seis meses. Em meus pri-
meiros encontros individuais com os pacien-
tes, compartilho essa convic~ao com eles e ten-
to imbui-Ios de meu otimismo.
Muitos dos grupos de auto-ajuda - por
exemplo, para pais enlutados, homens que agri-
dem, vitimas de irIcesto e pacientes de cirurgia
cardiaca - enfatizam amplamente a instila~ao
de esperan~a.I6 Uma parte irnportante dos en-
contros do Recovery; Inc. (para pacientes psi-
quiatricos atuais e passados) e do Alcoolicos
Anonimos dedica-se a testemunhos. A cada en-
contro, os membros do Recovery; Inc. contam
incidentes potencialmente estressantes, nos
quais evitam a tensao, aplicando seus meto-
dos, e membros bem-sucedidos do Alcoolicos
Anonimos contam suas historias de queda e
resgate pelo AA. Urn dos pontos fortes do Al-
coolicos Anonimos e 0 fato de que os lideres
sao todos alcoolicos - inspira~ao viva para os
outros.
Os programas de tratamento para abuso
de substancias geralmente mobilizam a espe-
ran~a dos participantes, usando dependentes
de drogas recuperados como lideres de grupo.
Os membros recebem inspira~ao, levantando-
se as expectativas, pelo contato com aqueles
que ja percorreram 0 mesmo caminho e en-
contraram 0 caminho de volta. Uma aborda-
gem semelhante e us ada para irIdividuos com
doen~as medicas cronicas, como artrite e doen-
~as cardiacas. Esses grupos de automanejo
usam membros treinados para estimular os-
outros membros a enfrentarem ativamente as
suas condi~6es medicas. I7 A irIspira~ao que os
participantes proporcionam aos seus pares re-
sulta em melhoras substanciais em resultados
medicos, reduz os custos do cuidado de saude,
pro move 0 sentido de auto-eficacia do indivi-
duo e muitas vezes torna as irIterven~6es de
grupo superiores as terapias irIdividuais. I8
UNIVERSALIDADE
Muitos individuos come~am a terapia com
o pensamento perturbador de que sao singula-
res em sua desgra~a, que apenas eles tern cer-
tos problemas, pensamentos, impulsos e fan-
tasias assustadores e irIaceitaveis. E claro que
existe urn nucleo de verdade nessa no~ao, pois
a maioria dos pacientes tern uma consteIa<;ao
inusitada de estressores graves em suas vidas
e periodicamente e irIundada por material apa-
vorante que vazou de seu irIconsciente.
Ate urn certo grau, isso e verdade para
todos nos, mas muitos pacientes, devido ao seu
isolamento social extremo, tern urn sentido ele-
vado de singularidade. Suas dificuldades
interpessoais impedem a possibilidade de uma
intimidadeprofunda. Na vida cotidiana, eles
nao aprendem sobre as experiencias e os sen-
timentos anaIogos dos outros e nao se valem
da oportunidade de confidenciar e finalmente
ser validados e aceitos por outras pessoas.
Na terapia de grupo, especialmente nos
primeiros estagios, a invalida<;ao dos sentimen-
tos de singularidade de urn paciente e uma po-
derosa Fonte de alivio. Apos ouvir outros mem-
bros revelarem preocupa<;6es semelhantes as
suas, os pacientes relatam sentir-se mais em
contato com 0 mundo e descrevem 0 processo
como uma experiencia "bem-vinda,para a ra<;a
humana". Colocado de forma simples, 0 feno-
meno encontra expressao no cUche "estamos
todos no mesmo barco" - ou talvez, de forma
mais cetica, "a miseria adora companhia".
Nao existe urn ato ou pensamento huma-
no que esteja completamente fora da experien-
cia das outras pessoas. Ja ouvi membros de
grupos revelarem atos como incesto, tortura,
roubo, peculato, homiddio, tentativa de suid-
dio e fantasias de natureza ainda mais deses-
perada. Invariavelmente, eu observava outros
membros de grupos aceitarem esses mesmos
atos como dentro dos limites de suas proprias
possibilidades, muitas vezes seguindo pela por-
ta da revela<;ao aberta pela confian<;a ou pela
coragem de urn membro do grupo. Tempos
atras, Freud observou que os tabus mais fir-
mes (novamente incesto e parriddio) foram
precisamente construidos porque esses mesmos
impulsos fazem parte da natureza mais pro-
funda do ser humano.
E essa forma de ajuda nao se lirnita a te-
rapia de grupo. A universalidade tambem de-
sempenha urn pape! na terapia individual,
PSICOTERAPIA DE GRUPO 27
embora, neste formato, haja menos oportuni-
dade para valida<;ao consensual, a medida que
os terapeutas decidem restrirIgir 0 seu grau de
transparencia pessoal.
Durante as 600 horas de minha propria
analise, tive urn encontro pessoal marcante com
o fator terapeutico da universalidade. Ele ocor-
reu quando eu estava descrevendo meus senti-
mentes extremamente ambivalentes com rela-
<;ao a minha mae. Fiquei bastante perturbado
com 0 fato de que, apesar de meus fortes sen-
timentos positivos, tambem me senti acossado
por sentimentos de morte por ela, assim como
resisti a herdar parte do que era dela. Meu
analista simplesmente respondeu "que parece
ser a forma como nos construimos". Essa de-
clara<;ao sincera nao apenas me trouxe cons i-
deravel alivio, como possibilitou que eu explo-
rasse minha ambivalencia em grande profun-
didade.
Apesar da complexidade dos problemas
humanos, certos denominadores comuns .sao
claramente evidentes entre os irIdividuos, e os
membros de urn grupo terapeutico logo perce-
bern suas semelhan~s. Urn exemplo e ilustra-
tivo: por muitos anos, solicitei a membros de
grupos-T (que nao sao pacientes - formados
principalmente por estudantes de medicina, re-
sidentes psiquiatricos, enfermeiros, tecnicos
psiquiatricos e voluntarios da Peace Corps; ver
Capitulo 16) para participarem de uma tarefa
"secreta", na qual deveriam escrever, em uma
tir:a de papel e de forma anonima, a coisa que
estavam menDs inclinados a compartilhar com
o grupo. Os segredos se mostravam notavel-
mente semelhantes, com alguns temas impor-
tantes predominando. 0 segredo mais comum
era a convic~ao profunda de uma inadequa<;ao
basica - urn sentimento de ser basicamente
incompetente, de ter side urn blefe ao longo
da vida. 0 proximo em freqii@ncia eum senti-
do profundo de aliena~ao interpessoal- ou seja,
apesar das aparencias, nao se deve, ou nao se
pode, cuidar ou amar outra pessoa. A terce ira
categoria mais freqiiente e alguma variedade
de segredo sexual. Essas preocupa<;6es impor-
tantes de nao-pacientes sao qualitativamente
as mesmas em individuos que buscam ajuda
pro fissional. Quase invariave!mente, nossos pa-
cientes experimentam uma profunda preocu-
28 IRVIN D. YALOM
pa<;ao com seu sentido de valor e sua capaci-
dade de se relacionar com os outros.·
Alguns grupos especializados, compostos
de individuos para os quais 0 segredo tern sido
urn fator especialmente importante e de isola-
mento, enfatizam particularmente a universa-
lidade. Por exemplo, grupos estruturados de
curta dura<;ao para pacientes bulimicos tern em
seu protocolo uma forte exigencia de auto-reve-
la<;ao, especialmente quanto a atitudes para
com a imagem corporal e narrativas detalhadas
dos rituais alimentares e praticas de purga de
cada membro. Corn raras exce<;oes, os pacien-
tes expressam grande alfvio ao descobrirem que
nao estao sos, que os outros compartilham os
mesmos dilemas e experiencias de vida.19
Os membros dos grupos de abuso sexual
tambem se beneficiam consideravelmente com
a experiencia de universalidade.20 Uma parte
integral desses grupos e 0 compartilhamento
fntimo, muitas vezes pela primeira vez na vida
de cada membro, dos detalhes do abuso e da
devasta<;ao intema que sofreram como conse-
qiiencia. Os membros desses grupos podem
encontrar outros que sofreram semelhantes
viola<;oes quando crian<;as, que nao foram res-
ponsaveis pelo que lhes aconteceu, e que tam-
bern sofreram sentimentos profundos de ver-
gonha, culpa, raiva e impureza. 0 sentido de
universalidade muitas vezes e urn passo fun-
damental na terapia de paCientes sobrecar-
regados pela vergonha, estigma e culpa, por
exemplo, pacientes corn HIV / AlDS ou aqueles
que lidam com as conseqiiencias de urn sui-
ddio.21
Os membros de grupos homogeneos 12.0-
dem falar uns dos outros com uma autentici-
• Existem diversos metodos para usar essas infor-
ma~6es no trabalho do grupo. Uma tecnica efetiva
e redistribuir os segredos anonimos aos membros,
cada urn recebendo 0 segredo do outro. Cada mem-
bro entao Ie 0 segredo em voz alta e revela como se
sente ao guardar esse segredo. Esse metodo geral-
mente se mostra uma demonstra~ao valiosa de uni-
versalidade, empatia e da capacidade dos outros de
entender.
dade poderosa que vern de sua experiencia ern
primeira mao, de maneiras que os terapeutas
talvez nao consigam fazer. Por exemplo, uma
vez, supervisionei urn terapeuta, de 3S anos,
que estava liderando urn grupo de homens
deprimidos na faixa entre os 70 e os 80 anos.
Em urn certo ponto, urn homem de 77 anos,
que havia perdido a esposa recentemente, ex-
pressou sentimentos suicidas. 0 terapeuta he-
sitou, temendo que qualquer coisa que pudes-
se dizer parecesse ingenua. Entao, urn mem-
bro do grupo de 91 anos falou e descreveu
como havia perdido sua esposa apos 60 anos
de casamento, e como havia mergulhado em
urn desespero suicida e havia, finalmente, se
recuperado e retomado a vida. Essa declara-
<;30 teve repercussao profunda e nao foi igno-
rada facilmente.
Ern grupos multiculturais, talvez os tera-
peutas necessitem prestar particular aten<;ao
ao fator clfnieo da universalidade. Minorias
culturais em urn grupo predominantemente
branco podem sentir-se exclufdas por causa de
atitudes culturais diferentes para com a reve-
la<;3o, as intera<;ao e a expressao afetiva. Os
terapeutas devem ajudar 0 grupo a ultrapas-
sar 0 foco ern diferen<;as culturais concretas
para respostas transculturais - ou seja, univer-
sais - a situa<;oes e tragedias humanas.22 Ao
mesmo tempo, os terapeutas devem estar agu-
damente conscientes dos fatores culturais em
jogo. Os profissionais da saude mental muitas
vezes nao possuem 0 conhecimento dos fatos
culturais da vida que sao necessarios para tra-
balhar de maneira efetiva com membros cul-
turalmente diversos. E imperativo que os te-
rapeutas aprendam 0 maximo possfvel sobre
as culturas dos pacientes, bern como de seu
vinculo ou aliena<;ao com a sua cultura.23
A universalidade, como outros fatores
terapeuticos, nao possui limites nftidos, mes-
clando-se com outros fatores terapeuticos. A
medida que os pacientes percebem sua seme-
lhan<;a com os outros e compartilham suas mais
profundas preocupa<;6es, eles se beneficiam
ainda mais da catarse que acompanha a tera-
pia e da aceita<;ao dos outros membros (ver
Capftulo3 sobre a coesao grupal).
COMPARTILHAMENTO DE INFORMA~iiES
Na categoria geral do compartilhamento
de informa<;6es, incluo a instru<;ao didatiea
sobre a saude mental, doen<;as mentais e a
psieodinfunica geral fomecida pelos terapeutas,
bern como 0 aconselhamento, as sugestoes ou
a orienta<;ao direta do terapeuta ou outros
membros do grupo.
Instrut;iio diiJcitica
A maioria dos partieipantes, na conclu-
sao de uma terapia de grupo interacional bem-
sucedida, aprende muito sobre 0 funcionamen-
to psfquico, 0 significado dos sintomas, a dina-
mica interpessoal e de grupo e 0 processo da
psieoterapia. De urn modo geral, 0 processo
educacional e implfcito. A maioria dos tera-
peutas de grupo nao bferece ip.stru<;ao dida.ti-
ca explfcita ern terapia de grupo interacional.
Todavia, ao longo da ultima decada, muitas
abordagens de terapia de grupo fizeram da ins-
tru<;ao formal, ou psieoeduca<;ao, uma parte
importante do programa.
Urn dos precedentes historicos mais po-
derosos para a psicoeduca<;ao pode ser encon-
trado na obra de MaxWell Jones, que, em seu
trabalho corn grupos grandes na decada de
1940, palestrava para seus pacientes por tres
horas por semana a respeito da estrutura, do
funcionamento e da relevancia do sistema ner-
voso para os sintomas psiquiatricos e a defi-
ciencia.24
Marsh, que escreveu na decada de 1930,
tambem acreditava na importancia da psicoe-
duca<;ao e de aulas organizadas para seus pa-
cientes, completadas corn palestras, tarefas de
casa e notas.2S
o Recovery, Inc., 0 mais antigo e maior
programa de auto-ajuda do pais para pacien-
tes psiquiatricos atuais e ex-pacientes, e orga-
nizado basicamente ao longo de linhas dida.ti-
cas.26 Fundada em 1937 por Abraham Low, essa
organiza<;ao tern mais de 700 grupos operan-
do hojeY A participa<;ao e voluntaria e os lfde-
res nascem dos membros. E~bora nao haja
PSICOTERAPIA DE GRUPO 29
orienta<;ao pro fissional formal, a condu<;3o dos
encontros foi altamente estruturada pelo Dr.
Low. Partes de seu livro, Mental Health Through
Will Training,28 sao lidas em voz alta e discuti-
das a cada reuniao. A doen<;a psieologica e
explicada com base ern alguns prindpios sim-
ples, que os membros memorizam - por exem-
plo, 0 valor de "identificar" comportamentos
problematieos e autodestrutivos; que os sinto-
mas neuroticos sao perturbadores, mas nao
perigosos; que a tensao intensifica e mantem 0
sintoma e deve ser evitada; que 0 usa do livre
arbftrio do individuo e a solu<;ao para os dile-
mas do paciente nervoso.
Muitos outros grupos de auto-ajuda
enfatizam 0 compartilhamento de informa<;oes.
Grupos como os para adultos sobreviventes ao
incesto, pais anonimos, jogadores anonimos,
apoio aos pacientes com cancer, para pais sem
parceiros e para pessoas solitarias estimulam
a troca de informa<;oes entre os membros e fre-
qiientemente convidam especialistas para fa-
lar ao grupO.29 0 ambiente do grupo onde a
aprendizagem ocorre e importante. 0 contex-
to ideal e de parceria e colabora<;ao, ao inves
de prescri<;ao e subordina<;ao.
A literatura recente da terapia de grupo
tern descri<;6es abundantes de grupos especiali-
zados para individuos que tern algum trans-
tomo espedfico au que enfrentam alguma cri-
se decisiva em suas vidas - por exemplo, trans-
tomo de panico, 30 obesidade,31 bulimia,32 adap-
ta<;ao apos 0 divorcio,33 herpes,34 doen<;a
coronariana,35 pais de crian<;as que sofreram
abuso sexual,36 homens violentos,37Iuto,38 HIV /
AIDS,39 disfun<;i5es sexuais,40 estupro,41 adap-
ta<;ao a auto-imagem apos mastectomia,42 dor
cronica,43 trans plante de orgaos44 e preven<;ao
de recafdas da depressao.45
Alem de oferecerem apoio mutuo, esses
grupos geralmente envolverri. urn componente
psieoeducacional, oferecendo instru<;ao explici-
ta sabre a natureza da doen<;a ou do problema
do paciente e examinando as concep<;6es erra-
neas e respostas autodestrutivas a sua doen<;a.
Por exemplo, as lfderes de urn grupo para pa-
cientes com transtomo de panieo descrevem a
causa fisiologica dos ataques de panico, expli-
30 IRVIN D. Y ALOM
cando que 0 estresse e a excita~ao aumentam
o fluxo de adrenalina, que pode resultar em
hiperventila~ao, falta de ar e tontura. 0 pacien-
te interpreta os sintomas incorretamente, de
maneira que apenas os exacerba ("estou mor-
rendo" ou "estou enlouquecendo"), perpetuan-
do assim urn drculo vicioso. Os terapeutas dis-
cutem a natureza benigna dos ataques de pa-
nico e of ere cern instru<;:ao sobre como produ-
zir urn ataque leve e como preveni-Io. Eles for-
necem instru~oes detalhadas sobre tecnicas de
respiraC;ao adequada e relaxamento muscular
progressivo.
Os grupos muitas vezes sao cenarios ade-
quados para se ensinarem novas abordagens
de redw;:ao do estresse baseadas em medita-
~ao e concentrac;ao. Aplicando urn foco discipli-
nado, os membros aprendem a se tomar obser-
vadores esdarecidos, receptivos e imparciais
de seus pensamentos e sentimentos e a redu-
zir 0 estresse, a ansiedade e a vulnerabilidade
a depressao.46
Os lfderes de grupos para pacientes HIV-
positivo frequentemente fomecem informac;6es
medicas consideraveis relacionadas com as
doen~as e ajudam a corrigir os temores irracio-
nais e as concep~oes erroneas dos membros
sobre a infec~ao. Eles tambem podem aconse-
lhar os outros membros com rela~ao a meta-
dos para informar outras pessoas sobre sua
condi~ao e moldar urn estilo de vida que pro-
voque menos culpa.
Os lfderes de grupos para 0 luto podem
proporcionar informa~6es sobre 0 cido natu-
ral do luto, para ajudar os membros a enten-
der que existe uma seqiiencia de dor, pela qual
estao progredindo, e que a sua perturba~ao tera
uma redu~ao natural e quase inevitavel, a me-
dida que avan~arem atraves dos estagios des-
sa sequencia. Os Hderes podem ajudar os pa-
cientes a preyer, por exemplo, a anglistia agu-
da que sentem a cada data importante (feria-
dos, aniversarios e outras comemora~oes) du-
rante 0 primeiro ana de luto. Grupos psicoedu-
cacionais para mulheres com cancer de mama
primario fomecem aos membros informac;oes
sobre a sua doen~a, op~oes de tratamento e
riscos futuros, bern como recomendac;6es para
urn estilo de vida mais saudavel. A avalia~ao
do resultado desses grupos mostra que os par-
ticipantes apresentam beneficios psicossociais
significativos e duradouros.47
A maioria dos terapeutas de grupo usa
alguma forma de orienta~ao antecipatoria para
os pacientes que iniciam a situac;ao assustado-
ra do grupo de psicoterapia, como uma sessao
preparatoria, visando esclarecer importantes
razoes para disfunc;oes psicologicas e propor-
cionar instru~oes em metodos de auto-ex-
plora~ao.48 Prevendo os medos dos pacientes,
proporcionando-lhes uma estrutura cognitiva,
ajudamo-os a enfrentar de forma mais efetiva
o choque cultural que podem encontrar quan-
do entram para 0 grupo de terapia (ver Ca-
pitulo 10).
Dessa forma, a instru~ao didatica e em-
pregada de varias maneiras na terapia de gru-
po: para transferir informac;oes, alterar padroes
de pensamento destrutivos, estruturar 0 gru-
po, expIicar 0 processo da doenc;a. Essa instru-
~ao muitas vezes funciona como a for~a de Ii-
gac;ao inicial para 0 grupo, ate que outros fato-
res terapeuticos entrem em operac;ao. Contu-
do, a expIica<;ao e 0 esclarecimento ja funcio-
nam em parte como agentes terapeuticos. Os
seres humanos sempre abominaram a incerte-
za e, atraves das eras, tentaram organizar 0
Universo, fornece'ndo explicac;oes, principal-
mente reIigiosas ou cientfficas. A expIica~ao de
urn fenomeno e 0 primeiro passo para 0 seu
controle. Se uma erup~ao vulcanica e causada
por urn deus descontente, entao, pelo menos,
existe esperanc;a de agradar ao deus.
Frieda Fromm-Reichman enfatiza 0 pa-
pel que a incerteza tern de produzir ansieda-
de. A consciencia de nao ser 0 proprio piloto,
afrrma ela, de que as proprias percep~6es e
comportamentos sao controlados por for~as
irracionais, e uma fonte comum e fundamen-
tal de ansiedade.49Em nosso mundo contemporaneo, somos
for~ados a confrontar 0 medo e a ansiedade com
frequencia. Em particular, os eventos de 11 de
setembro de 2001 colocaram essas emo~oes
perturbadoras em primeiro plano de forma mais
clara na vida das pessoas. E extremamente im-
portante confrontar ansiedades u'aurmiticas com
urn enfrentamento ativo (por exemplo, envol-
vendo-se na vida, falando abertamente e pro-
porcionando apoio mutuo), ao contrario de ce-
der a urn retraimento desmoraIizado. Nao ape-
nas essas respostas agradam ao nosso senso co-
mum, mas, como demonstra a pesquisa neuro-
biologica contemponlnea, essas formas de
enfrentamento ativo estimulam importantes cir-
cuitos neurais no cerebro que ajudam a regular
as reac;6es de estresse do COrpO.50
E e isso que ocorre com os pacientes em
psicoterapia: 0 medo e a ansiedade que pro-
vern da incerteza da fonte, do significado e da
gravidade dos sintomas psiquiatricos podem
causar uma disforia tao grande que a explora-
~ao efetiva se torna muito mais dificil. A ins-
truc;ao didarica, por proporcionar estrutura e
explica~ao, tern valor intrinseco e merece urn
lugar em nosso repertorio de instrumentos
terapeuticos (ver Capitulo 5).
Aconselhamento direto
Ao contrario da instruc;ao didatica expH-
cita do terapeuta, 0 aconselhamento direto dos
membros ocorre sem exce~ao elfl cada grupo
de terapia. Em grupos de terapia interacional
dinamica, ela invariavelmente ffiz parte da vida
inicial do grupo e ocorre com tal regularidade
que po de ser usada para se estimar a idade do
grupo. Se observo ou ou~o uma gravac;ao de
urn grupo no qual os pacientes, com uma certa
regularidade, dizem coisas como: "acho que
voce deveria ... " ou ''voce deve fazer ... " ou "por
que voce nao ... ?", posso ter uma certeza razoa-
vel de que e urn grupo novo ou que e urn gru ..
po antigo com alguma dificuldade que impe-
diu 0 seu desenvolvimento ou produziu uma
regressao temporaria. Em outras palavras, 0
aconselhamento pode refletir uma resistencia
a urn envolvimento mais intimo, com os mem-
bros tentando administrar os relacionamentos,
em vez de se conectarem. Embora 0 aconselha-
mento seja comum no come~o da terapia de
grupo interacional, e raro que conselhos espe-
dficos beneficiem qualquer paciente direta-
mente. Todavia, de maneira indireta, 0 acon-
selhamento serve a urn proposito. 0 processo
de aconselhar, ao inves do conteudo do conse-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 31
lho, pode ser benefico, implicando e transmi-
tindo interesse e cuidado mutuos, como real-
mente e verdade.
o comportamento de dar ou pedir con-
selhos muitas vezes e uma pista importante na
elucida<;iio de patologias interpessoais. 0 pa-
ciente que, por exemplo, pede conselhos e su-
gest6es continuamente para outras pes so as,
para depois rejeita-Ios e frustrar os outros, e
bastante conhecido dos terapeutas de grupo,
como 0 paciente "queixoso que rejeita ajuda"
ou 0 paciente "sim ... mas" (ver Capitulo 13).51
Alguns membros de grupos podem buscar aten-
~ao e carinho, pedindo sugest6es sobre urn pro-
blema que seja insoluvel ou que ja tenha sido
resolvido. Outros absorvem conselhos com uma
sede insaciavel, mas nunca agem de forma re-
dproca com pessoas que tambem estejam ne-
cessitadas. Alguns membros de grupos estao
tao interessados em manter urn status superior
no grupo ou uma fachada de auto-suficiencia
. tranqiiila que nunca pedem ajuda diretamen-
te, outros sao tao ansiosos para agradar que
nunca pedem nada para si mesmos, outros ain-
da sao excessivamente efusivos em sua grati-
dao, e outros nunca reconhecem 0 presente,
mas levam-no para casa, como urn osso, para
roe-Io em particular.
Outros tipos de grupos mais estruturados
que nao ~ concentram nas interac;oes entre os
membros fazem uso explfcito e efetivo de su-
gestoes e conselhos diretos. Por exemplo, gru-
pos para moldar 0 comportamento, grupos de
transic;ao e planejamento da alta hospitalar,
grupos de habilidades para a vida, grupos de
habilidades de comunicac;ao, 0 Recovery; Inc.
e 0 Alcoolicos Anonimos, todos proferem uma
quantidade consideravel de conselhos diretos.
Urn grupo de habilidades de comunica~ao para
pacientes com doen~as psiquiatricas cronicas
relata resultados excelentes com urn progra-
rna de grupo e'struturado que inclui feedback
focado, reprodu~ao de gravac;oes e projetos de
resolu~ao de problemas. 52 0 AA usa conselhos
e slogans. Por exemplo, os membros devem
permanecer em abstinencia apenas pelas pro-
ximas 24 horas - "urn dia de cad a vez". 0
Recovery; Inc. ensina os membros a identificar
sintomas neuroticos, a apagar e reescrever, a
t
f
f'
.l!
32 IRVIN D. YALOM
ensaiar e inverter e mostra como aplicar a for-
C;a de vontade de maneira efetiva.
Existem conselhos melhores que os ou-
tros? Os pesquisadores que estudaram urn gru-
po para moldar 0 comportamento de agressores
sexuais do sexo masculino observaram que 0
aconselhamento era comum e era proveitoso
para diferentes membros em graus variados. A
forma menos efetiva de conselho era a suges-
tao direta, e a mais efetiva era uma serie de
sugest6es altemativas sobre como chegar a urn
objetivo desejado.S3 A psicoeducac;ao com re-
lac;ao ao impacto da depressao sobre relacio-
namentos fami!iares e muito mais efetiva quan-
do os participantes examinam, em urn nfvel
direto e emocional, a maneira como a depres-
sao esta afetando suas vidas e seus relaciona-
mentos familiares. As mesmas informac;6es
apresentadas de mane ira intelectualizada e
desconectada sao muito menos valiosas.S4
ALTRUiSMO
Existe uma antiga historia hassfdica de
urn rabino que teve uma conversa com Deus
sobre 0 Ceu e 0 Inferno. "Eu the mostrarei 0
Inferno", disse Deus, e conduziu 0 rabino ate
uma sala com urn grupo de pessoas desespera-
das e famintas, sentadas ao redor de uma gran-
de mesa circular. No centro da mesa, estava
urn grande prato de came ensopada, mais do
que 0 suficiente para todos. 0 cheiro do enso-
pado era entao delicioso que deixou 0 rabino
com agua na boca. Ainda assim, ninguem co-
rnia. Cada pessoa ao redor da mesa tinha na
mao uma colher com urn longo cabo - longo 0
suficiente para alcanc;ar 0 prato e tirar uma co-
lherada de ensopado, mas longa demais para
chegar a propria boca. 0 rabino viu que 0 so-
frimento realmente era terrivel e sacudiu a ca-
bec;a em compaixao. '~gora, eu the mostrarei
o ceu", disse Deus, enquanto entravam em
outra sala, identica a primeira - a mesma gran-
de mesa redonda, 0 mesmo grande prato de
ensopado, as mesmas colheres de cabo longo.
Ainda assim, havia alegria no ar. Todos pare-
ciam bem-nutridos, rechonchudos e exuberan-
tes. 0 rabino nao conseguia entender e olhou
para Deus. "E simples", disse Deus, "mas exige
certa habilidade. Veja, as pessoas desta sala
aprenderam a se alimentar umas as outras!"·
Nos grupos de terapia, bern como no ceu
e no inferno imaginados da historia, os mem-
bros ganham por darem, nao apenas por rece-
berem ajuda como parte da seqiiencia redpro-
ca de dar e receber, mas tambem por se bene-
ficiarem com algo que e intrinseco ao ato de
dar. Muitos pacientes psiquiatricos que come-
c;am a terapia estao desmoralizados e possu-
em urn sentido profundo de nao ter nada de
valor para oferecer aos outros. Eles ha muito
se consideram urn fardo, e a experiencia de
descobrir que podem ser importantes para ou-
tras pessoas e renovadora e aumenta sua auto-
esrima. A terapia de grupo e peculiar por ser a
unica que oferece aos pacientes a oportunida-
de debeneficiar outras pessoas, e tambem es-
rimula a versatilidade de papeis, exigindo que
os pacientes se altemem nos papeis de receber
e dar qjuda. ss
E, e claro, os pacientes sao imensamente
uteis uns para os outros no processo terapeutico
de grupo. Eles proporcionam apoio, tranqiii-
lizac;ao, sugest6es, insight e compartilham pro-
blemas semelhantes entre si. Com freqiiencia,
e muito mais faci! que os membros do grupo
aceitem observac;6es de outro membro do que
do terapeuta. Para muitospacientes, 0 terapeu-
ta permanece sendo 0 profissional pago. Os ou-
tros membros representam 0 mundo real, e
pode-se contar com suas reac;6es e seus comen-
tarios espontaneos e verdadeiros. Observando
o curso da terapia retrospectivamente, quase
• Em 1973, uma participante abriu 0 primeiro en·
contro do prirneiro grupo para pacientes de dincer
avan<;ado distribuindo essa parabola para os outros
membros do grupo. Essa mulher (sobre a qual ja
escrevi antes, referindo-me a elacomo Paula West;
ver I. Yalom, Momma and the Meaning of Life [New
York: Basic Books, 1999]) esteve envolvida comigo
desde 0 principio em conceituar e organizar esse
grupo (ver tanlbem 0 Capitulo 15). Sua parabola
mostrou-se presciente, pois muitos membros se be-
neficiaram com 0 fator terapeutico do altrufsmo.
todos os membros creditam importancia aos
outros membros em sua melhora. As vezes, eles
ciram seu apoio e conselhos expHcitos; em ou-
tras, referem-se ao simples fato de estarem pre-
sentes e permitirem que outras pessoas cres-
c;am como resultado de urn relacionamento
facilitador e solidario. Com a experiencia do
altruismo, os membros do grupo aprendem em
primeira mao que tern obrigac;6es para com
aqueles de quem desejam receber carinho_
Uma interac;ao entre dois membros de urn
grupo e ilustrativa. Derek, urn homem na faixa
de 40 anos, cronicamente ansioso e isolado e
que recentemente entrou para 0 grupo, irritou
os outros membros, rejeitando seus comenta-
rios e sua preocupac;ao. Em resposta, Kathy;
uma mulher de 3S anos com depressao croni-
ca e problemas com abuso de substancias, di-
vidiu com ele uma lic;ao fundamental em sua
experiencia com 0 <grupo. Durante meses, ela
rejeitou a preocupac;ao de todos porque sentia
que nao merecia. Posteriormente, depois que
outros membros disseram que a sua rejeic;ao os
agredia, ela tomou a decisao consciente de ser
mais receptiva aos presentes que the ofereciam
e logo observou, para sua surpresa, que havia
comec;ado a se sentir muito melhor. Em outras
palavras, ela nao apenas se 'beneficiou com 0
apoio recebido, como tambem por poder aju-
dar 2!' outros a sentir que tinham algo de valor
para oferecer. Ela esperava que Derek conside-
rasse essas possibilidades para si mesmo.
o altrufsmo e urn fator terapeutico vene-
ravel em outros sistemas de cura. Em culturas
primitivas, por exemplo, costuma-se atribuir a
uma pessoa com problemas a tarefa de prepa-
rar urn banquete ou realizar algum tipo de ser-
vic;o para a comunidade.56 0 altrufsmo desem-
penha uma parte importante no processo de
cura em santuarios catolicos, como 0 de
Lourdes, onde os doentes rezam nao apenas
para si mesmos, mas para outras pessoas. As
pessoas precisam sentir que sao necessarias e
uteis. E comum alcoolistas manterem seus con-
tatos do M por anos apos terem alcanc;ado
sobriedade totaL Muitos membros relatam sua
historia de queda e recuperac;ao pelo menos
mil vezes e continuam a desfrutar da satisfa-
c;ao de oferecer ajuda aos outros.
PSICOTERAPIA DE GRUPO 33
No come<;o, os membros neofitos de gru-
pos nao gostam do irnpacto curativo dos ou-
tros membros. De fato, muitos possfveis candi-
datos resistem a qualquer sugestao de terapia
de grupo com a questao: "como pode urn cego
conduzir outro cego?" ou "0 que posso ganhar
com outras pessoas que estao tao confusas
quanta eu? Acabaremos nos afundando uns ao
outros". Essa resistencia e mais bern resolvida
explorando-se a auto-avaliac;ao critica do pa-
ciente. De urn modo geral, urn individuo que
rejeita a perspectiva de obter ajuda de outros
membros do grupo na verdade esta dizendo:
"eu nao tenho nada de valor para oferecer".
Existe outro beneficio mais suti! inerente
ao ate altruista. Muitos pacientes que se quei-
xam de falta de significado estao imersos em
uma auto-absorc;ao morbida, que assume a for-
rna de uma introspecc;ao obsessiva ou de urn
esforc;o resoluto para se cumprir. Concordo com
Victor Franld, de que 0 sentido de significado
na vida pode ser 0 resultado, mas que ele nao
deve ser deliberadamente perseguido: 0 signi-
ficado na vida sempre e urn fenomeno deriva-
do, que se materializa quando transcendemos
nos mesmos, quando esquecemos de nos mes-
mos enos absorvemos em outra pessoa (ou
algo) fora de nos mesmosY 0 foco no signifi-
cado da vida e no altruismo e componente par-
ticularmente importante das psicoterapias de
grupo para pacientes que enfrentam doenc;as
medicas fatais, como 0 cancer e a AIDS.YsS
A RECAPITULA~AO CORRETIVA
DO GRUPO FAMILIAR PRIMARIO
A grande maioria dos pacientes que en-
tram para grupos de terapia - com exce<;ao dos
que sofrem de transtorno de estresse pos-trau-
matico ou de algum estresse medico ou am-
biental - terri urn historico de uma experiencia
extremamente insatisfatoria em seu primeiro
e mais importante grupo: a familia primaria.
o grupo de terapia se parece com uma familia
em muitos aspectos: existem figuras de autori-
dade/parentais, figuras de irmaos/fraternas,
revelac;6es pessoais profundas, emoc;6es fortes
e uma intimidade profunda, bern como senti-
34 IRVIN D. YALOM
mentos hostis e competitivos. De fato, os gru-
pos de terapia muitas vezes sao liderados por
uma equipe de homens e mulheres terapeutas
em urn esforc;:o deliberado de estimular a con-
figura<;ao parental ao maximo possiveL Quan-
do 0 desconforto inicial e superado, e inevirn-
vel que, mais cedo ou mais tarde, os membros
interajam com os !ideres e com outros mem-
bros de forma semelhante a suas intera<;oes
com seus pais e irmaos.
Se os !ideres de grupos forem vistos como
figuras parentais, eles produzirao rea<;oes as-
sociadas a figuras parentais/de autoridade: al-
guns membros se tomarao desesperadamente
dependentes dos lideres, a quem imbuem co-
nhecimento e poder irreais, outros desafiarao
os lideres cegamente, po is percebem-nos como
controladores e infantilizadores, outros ainda
terao medo deles, pois acreditam que querem
privar os membros de sua individualidade. Al-
guns membros tentam dividir os co-terapeutas,
na tentativa de incitar discordancias e rivali-
dades parentais, alguns se revelam mais quan-
do urn dos co-terapeutas esta ausente, e ou-
tros competem amargamente corn os outros
membros, esperando acumular unidades de
aten<;ao e carinho dos terapeutas. Alguns sen-
tern inveja quando a aten<;ao do !ider se volta
para outras pessoas, outros gastam sua ener-
gia em busca de aJiados entre ~ outros mem-
bros para derrubar os terapeutas, enquanto
outros negligenciam seus proprios interesses
em uma tentativa aparentemente abnegada de
satisfazer os lideres e os outros membros.
Obviamente, fenomenos semelhantes
ocorrem na terapia individual, mas 0 grupo
proporciona urn numero e uma variedade bas-
tante maiores de possibilidades de recapitu-
la<;ao. Em urn dos me us grupos, Betty, uma
participante que havia pass ado dois encontros
amuada, reclamou de nao estar em terapia in-
dividual. Ela disse que se sentia inibida por-
que sabia que 0 grupo nao poderia satisfazer
as suas necessidades, e que conseguiria falar
Jivremente sobre seus problemas ern uma con-
versa particular corn 0 terapeuta ou com qual-
quer urn dos membros do grupo. Quando pres-
sionada, Betty expressou sua irrita<;ao por
achar que os outros eram favorecidos no gru-
po. Por exemplo, 0 grupo havia recentemente
recebido bern outro membro que retomava
de ferias, ao passo que 0 seu retorno das ferias
havia passado despercebido pelo grupo. Alem
disso, outro membro do grupo foi elogiado
por dar uma importante interpreta<;ao para
urn membro, ao passo que ela havia feito urn
comentario semelhante algumas semanas an-
tes e ninguem havia notado. Ha algum tem-
po, ela tambem vinha mencionando sua in-
digna<;ao crescente por ter que dividir 0 tem-
po corn 0 grupo, sentindo-se impaciente quan-
do precisasse esperar a sua vez e irritada sem-
pre que a aten<;ao se afastava dela.
Sera que Betty estava certa? Sera que a
terapia de grupo era 0 tratamento errado para
ela?Absolutamente nao! Essas mesmas criti-
cas - que tinham raizes ern seus relacionamen-
tos corn seus irmaos - nao constituem obje<;oes
validas para a terapia de grupo. Pelo contra-
rio, 0 formata de grupo era particularmente
vaJioso para ela, pois perrnitia que a sua inveja
e seu desejo por aten<;ao viessem a tona. Na
terapia individual - onde os terapeutas pres-
tam aten<;ao a cada palavra e preocupa<;ao do
paciente e se espera que 0 individuo use todo
o tempodisponivel - esses conflitos especifi-
cos poderiam emergir so mente tard~ demais,
ou nunca.
Todavia, 0 importante nao e apenas que
conflitos familiares precoces sejam revividos,
mas que sejam revividos de maneira corretiva.
A nova exposi<;ao sem reparo apenas torna pior
uma situa<;ao que ja era ruim. Nao se deve per-
mitir que padroes de relacionamento que ini-
bern 0 crescimento se congelem no sistema ri-
gido e impenetravel que caracteriza muitas
estruturas familiares. Pelo contrario, devem-se
explorar e desafiar continuamente os papeis
fixos, estabelecendo regras basicas que incen-
tivem a investiga<;ao de relacionamentos e 0
teste de novos comportarnentos. Para muitos
membros de grupos, discutir problemas com
terapeutas e outros membros do grupo tam-
bern e resolver negocios inacabados de ha
muito tempo. (0 grau ern que 0 trabalho com
o pass ado deve ser explicito e uma questao
complexa e controversa, a qual abordarei no
Capitulo 5.)
DESENVOLVIMENTO DE TECNICAS DE SOCIAUZA~Ao
A aprendizagem social - 0 desenvolvi-
mento de habilidades sociais basicas - e urn
fator terapeutico que opera em todos os gru-
pos de terapia, embora a natureza das habili-
dades ensinadas e 0 grau ern que 0 processo e
exp!icito variem muito, dependendo do tipo de
terapia de grupo. Pode haver uma enfase ex-
plicita no desenvolvimento de habilidades so-
ciais ern, por exemplo, grupos que pr~param
pacientes hospitalizados para a alta ou grupos
de adolescentes. Os membros do grupo podem
ter que dr<lmatizar como abordar urn possivel
empregador ou convidar alguem para sair.
Ern outros grupos, a aprendizagem social
e mais indireta. Os membros de grupos de te-
rapia dinamicos, que tern regras basicas que
estimulam comentarios abertos, podem obter
inforrna<;oes consideraveis sobre comportamen-
tos sociais mal-adaptativos.Um membro pode,
por exemplo, descobrir que tern uma tenden-
cia desconcertante de evitar olhar para a pes-
soa corn quem esta conversando, conhecer as
impress6es dos outros sobre a sua atitude ar-
rogante e orgulhosa ou uma v~riedade de ha-
bitos sociais que, sem a pessoa notar, tern atra-
palhado os seus relacionamentos. Para indivi-
duos que nao tern relacionamentos intimos, 0
grupo muitas vezes representa a primeira opor-
tunidade para urn feedback interpessoal preci-
so. Muitos lamentam sua inexplicavel solidao;
e a terapia de grupo proporciona uma rica opor-
tunidade para que os membros aprendam so- "
bre como contribuem para 0 seu proprio isola-
mento e solidao. S9
Urn homem, por exemplo, que ha anos
estava ciente de que os outros evitavam conta-
tas sociais com ele, descobriu na terapia de
grupo que a sua inclusao obsessiva de detalhes
minimos e irrelevantes ern suas conversas era
desconcertante. Anos depois, ele me contou que
urn dos eventos mais importantes de sua vida
foi quando urn membro do grupo (cujo nome
ele havia esquecido ha tempos) the disse:
"Quando voce fala dos seus sentimentos, gosto
de voce e quero me aproximar, mas quando
voce come<;a a falar de fatos e detalhes, eu
quero fugir da sala!".
PSICOTERAPIA DE GRUPO 35
Nao quero simplificar demais. A terapia e
urn processo complexo e obviamente envolve
muito mais do que 0 simples reconhecimento e
a altera<;ao deliberada e consciente do comporta-
mento social. Contudo, como mostrarei no Capi-
tulo 3, esses ganhos sao muito mais do que bene-
ficios extras, eles muitas vezes sao instrumentais
nas fases iniciais da mudan<;a terapeutica. Eles
perrnitem que os pacientes entendam que exis-
te uma discrepancia enorme entre sua inten<;ao
eo seu impacto verdadeiro sobre os outros.Y
Frequentemente, membros antigos de gru-
pos de terapia adquirem habilidades sociais so-
fisticadas: sintonizarn-se com 0 processo (ver
Capitulo 6), aprendem como responder de for-
ma util aos outros, adquirem metodos de reso-
lu<;ao de conflitos, sao menos provaveis de jul-
gar e mais capazes de experimentar e expressar
empatia. Essas habilidades ajudam esses pacien-
tes em intera<;oes sociais futuras, e constituem
as bases da inteligencia emocional.60
COMPORTAMENTO IMITATIVO
Durante a psicoterapia individual, os pa-
cientes podem sentar, caminhar, falar e ate pen-
sar como seus terapeutas. Existem evidencias
consideraveis de que os terapeutas influenci-
am os padroes de comunica<;ao ern seus gru-
pos, modelando certos comportamentos, por
exemplo, revela<;6es pessoais ou apoio.61 Nos
grupos, 0 processo de imita<;ao e mais difuso:
os pacientes podem modelar-se a partir de as-
pectos dos outros membros do grupo e do
terapeuta.62 Os membros do grupo aprendem
observando os outros a lidarem corn seus pro-
blemas. Isso pode ser particularmente forte em
grupos homogeneos que se concentram em
problemas compartilhados - por exemplo, urn
grupo cognitivo-comportamental que ensina
estrategias a pacientes psicoticos para reduzir
a intensidade de suas alucina<;6es auditivas.63
E diflcil medir a importancia do compor-
tamento imitativo no processo terapeutico, mas
a pesquisa social-psicologica sugere que os
terapeutas podem te-lo subestimado. Bandura,
que ha muito afirmou que a aprendizagem so-
cial nao po de ser expJicada adequadamente
36 IRVIN D. YALOM
com base no refon;o direto, demonstrou de
forma experimental que a imita<;ao e uma for-
<;a terapeutica efetiva.y64 Na terapia de grupo,
nao e incomum que urn membro se beneficie
observando a terapia de outro membro com
uma constela<;ao de problemas semelhante -
urn fenomeno geralmente chamado de terapia
vicaria ou por espectador. 65
o comportamento imitativo geralmente
desempenha urn papel mais importante nos pri-
meiros estagios de urn grupo, a medida que os
membros se identificam com os membros an-
tigos ou com os terapeutas.66 Mesmo que 0
comportamento imitativo seja, em si, efemero,
ele pode ajudar a descongelar 0 individuo 0
suficiente para que ele experimente com 0 novo
comportamento, 0 que pode dar inicio a urn
espiral adaptativo ever Capitulo 4). De fato,
nao e incomum que, ao longo da terapia, os
pacientes "experimentem" partes e aspectos de
outras pessoas e os rejeitem por nao se encaixa-
rem neles. Esse processo pode ter urn impacto
terapeutico solido. Descobrir 0 que nao somos
e progredir rumo a descobrir 0 que somos.
A aprendizagem interpessoal, como eu a
defino, e urn fator terapeutico amplo e com-
plexo. Ela e 0 analogo na terapia degrupo de
importantes fatores rerapeuticos da terapia in-
dividual, como 0 insight, a resolu<;;ao da trans-
ferencia e a experiencia emocional corretiva.
Porem, ela tambem representa processos uni-
cos do cenario "de grupo, que somente se des-
dobram como resultado do trabalho especifico
do terapeuta. Para definir 0 com:eito de apren-
dizagem interpes'soal e descrever 0 mecanis-
mo pelo qual ela medeia a mJdan<;;a terapeuti-
ca no individuo, devo antes discutir tres ou-
tros conceitos:
1. A importancia de relacionamentos inter-
pessoais
2. A experiencia emocional corretiva
3. 0 grupo como micro cosmo social
A IMPORTANCIA DE
RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS
Qualquer perspectiva pela qual se estude
a sociedade humana - se examinarmos a his-
toria da evolu<;;ao da humanidade ou 0 de-
senvolvimento de urn unico individuo - sem-
pre nos obriga a considerar 0 ser humane na
matriz de seus relacionamentos interpessoais.
Existem dados convincentes do estudo de pri-
matas nao-humanos, culturas humanas primi-
tivas e da sociedade contemporiinea de que os
seres humanos sempre viveram em grupos que
• •
• •
•
• •• •
Aprendizagem interpessoal
se caracterizaram por relacionamentos intensos
e persistentes entre os membros e que a necessi-
dade de fazer parte e uma motiva<;ao poderosa,
fundamental e global. l A rela<;ao interpessoal
foi claramente adaptativa no sentido evolucio-
nista: sem vinculos interpessoais profundos,
positiv~s e reciprocos, nao seria possivel a so-
brevivencia individual ou da especie.
John Bowlby, a partir de seus estudos do
relacionamento entre mae e mho, nao apenas
concrui que 0 comportamento de apego e ne-
cessario para a sobrevivencia, mas tambem que
ele e essencial, intrinseco e geneticamente pro-
gramado.2 Se a mae e 0 bebe forem separados,
ambos experimentam uma grande ansiedade
concomitante com a sua busca pelo objeto per-
'. dido. Se a separa<;ao for prolongada, as con-
seqiiencias para 0 bebe serao profundas.
Winnicott tambem observou que: "0 bebe nao
existe, 0 que existe e urn par de mae e bebe".3
Vivemos em uma "matriz relacional", segundo
Mitchell: "A pessoa somente e compreensivel
dentro dessa rede de relacionamentos passa-
dos e presentes".4
De manejra semelhaIi.te, urn seculo atras,
o grande psicologo-filosofo norte-americano
William James disse:
Nao apenas somos animais gregarios que gos-
tarn de estar it vista de seus arnigos, como te-
mos uma propensao inata a nos fazermos no-
tad os, e notados de maneira favoravel, por
nossa especie. Nao se poderia imaginar puni-
~ao mais cruel, se isso fosse fisicamente possi-
38 IRVIN D. Y ALDM
vel, do que uma pessoa ser largada na socie-
dade e ser absolutamente ignorada por todos
os membros dali em diante.s
De fato, as especula<;oes de James foram
corroboradas muitas vezes pela pesquisa con-
temporanea, que documenta a dor e as conse-
qiiencias adversas da solidao. Por exemplo,
existem evidencias convincentes de que a taxa
de quase todas as causas de morte importan-
tes e significativamente maior para os solita-
rios, os solteir~s, os divorciados e os viuvos.6
o isolamento social e tanto urn fator de risco
para a mortalidade precoce quanta fatores de
risco fisico obvio, como 0 tabagismo e a obesi-
dade.7 0 inverso tambem e verdadeiro: a co-
nexao e a integra<;ao sociais tern urn impacto
positiv~ sobre 0 curso de doen<;as serias, como
o cancer e a AIDS. B
Reconhecendo a primazia do relaciona-
mento e do apego, os modelos contemporaneos
da psicoterapia dinamica evoluiram de uma psi-
cologia freudiana individual e baseada no im-
pulso para uma psicologia relacional de duas
pessoas, que coloca a experiencia interpessoal
do paciente no centro da psicoterapia efetiva. YJ
A psicoterapia contemporanea emprega urn
"modelo relacional, segundo 0 qual se acredi-
ta que a mente nasce de configura<;6es intera-
cionais do self em rela<;ao aos outroS".IO
Com base nas contribuic;,:6es de Harry Stack
Sullivan e sua teoria interpessoal da psiquia-
tria,l1 os modelos interpessoais de psicoterapia
passaram a predominar.12 Embora 0 trabalho
de Sullivan tenha tido importancia seminal, as
gerac;,:oes contemporaneas de terapeutas rara-
mente 0 leem. Em primeiro lugar, sua lingua-
gem muitas vezes e obscura (embora existam
excelentes interpretac;,:oes de seu trabalho em
ingles simples) .13 Em segundo lugar, seu traba-
Iho tanto permeou 0 pensamento psicotera-
peutico contemporaneo que suas obras origi-
nais parecem familiares ou obvias. Entretanto,
com 0 recente foco na integra<;il.o de aborda-
gens cognitivas e interpessoais na terapia indi-
vidual e na terapia de grupo, ressurgiu 0 inte-
resse em suas contribui<;oes.14 Kiesler de fato
argumenta que 0 arcabou<;o interpessoal e 0
modele mais apropriado para que os terapeutas
possam sintetizar as abordagens cognitivas,
comportamentais e psicodinamicas de manei-
ra significativa - e a mais abrangente das psico-
terapias integrativas.yls
As formula<;oes de Sullivan sao muito
importantes para se entender 0 processo
terapeutico de grupo. Embora uma discussao
abrangente da teoria interpessoal esteja aMm
dos limites deste livro, descreverei aqui alguns
conceitos fundamentais. Sullivan afirma que a
personalidade e quase inteiramente produto da
interac;,:ao com outros seres humanos significa-
tivos. A necessidade de se relacionar intima-
mente com outras pessoas e tao basica quanta
qualquer necessidade biologica e, a luz do pro-
longado perfodo de impotencia da primeira
infancia, e igualmente necessaria para a sobre-
vivencia. A crian<;a em desenvolvimento, na
busca por seguranc;,:a, tende a cultivar e
enfatizar os tra<;os e aspectos do self que tern
aprova<;ao e silenciar ou negar aqueles que sao
desaprovados. Finalmente, 0 individuo desen-
volve urn conceito de self com base em sua per-
cepc;,:ao das avalia<;oes de outras pessoas impor-
tantes.
Pode-se dizer que 0 self e feito de avalia<;6es
refletidas. Se elas forem principalmente ne-
gativas, como no caso de uma crian,<;3 indese-
jada que nunca foi amada ou de uma crian<;a
que caiu nas maos de pais adotivos que nao
tern interesse real nela como crian<;a; como
costumo dizer, se 0 dinamismo do self for prin·
cipalmente formado por experiencias negati-
vas, ele facilitara. avalia<;6es depreciativas de
outras pessoas e produzini avalia<;6es depre-
ciativas e hostis de si mesmo.l6
. Esse processo de construir nossa auto-es-
tima com base em avalia<;oes refletidas que le-
mos nos olhos de pessoas importantes continua,
e claro, ao longo do ciclo evolutivo. Grunebaum
e Solomon, em seu estudo com adolescentes,
enfatizaram que relacionamentos satisfatorios
com amigos e a auto-estima sao conceitos
inseparaveisY 0 mesmo e verdadeiro para os
idosos - nunca ultrapassamos a necessidade de
urn relacionamento significativo.IB
Sullivan usava 0 termo "distorc;,:oes parata-
xicas" para descrever a propensao dos indivi-
duos a distorcer suas percepc;,:oes dos outros.
Uma distorc;,:ao paratcixica ocorre em uma situa-
c;,:ao interpessoal quando uma pessoa nao se
relaciona com outra com base em atributos
realistas da outra, mas com base em uma per-
sonificac;,:ao que existe principalmente na fan-
tasia da pessoa. Embora a distor<;ao parataxica
se assemelhe ao conceito de transferencia, ela
difere em duas maneiras importantes. Em pri-
meiro lugar, seu alcance e mais amplo, referin-
do-se nao apenas a visao distorcida de urn in-
dividuo sobre 0 terapeuta, mas a todos os rela-
cionamentos interpessoais (incluindo, e claro,
relacionamentos distorcidos entre membros do
grupo). Em segundo lugar, a teoria de origem
e mais arripla: a distorc;,:ao parataxica nao se
constitui apenas na simples transferencia de
atitudes para com figuras do passado para re-
lacionamentos contemporaneos, mas na dis-
tor<;ao da realidade interpessoal em resposta a
necessidades intrapessoais. Usarei os dois ter-
mos de forma intercambiavel. Apesar das dife-
ren<;as de origem, a' transferencia e a distor<;ao
parataxica podem ser consideradas identicas .
no sentido operacional. Alem disso, muitos
terapeutas atualmente utilizam 0 termo "trans-
ferencia" referindo-se a todas as distor<;oes in-
terpessoais, em vez de confinaI:'em seu uso ao
relacionamento entre 0 paciente e 0 terapeuta
(ver Capitulo 7).
As distor<;oes da transferencia surgem a
partir de urn con junto de memorias p.£.ofunda-
mente distorcidas de experiencias de interac;,:oes
antigas. 19 Essas memorias contribuem para a
constru<;ao de urn modele de trabalho interne
que moIda os padroes de apego do individuo ao
longo de sua vida.20 Esse modelo de trabalho
interno, tambem conhecido como esquema,21
consiste nas crenc;,:as do individuo sobre si mes-
mo, na maneira como ele entende pistas de re-
lacionamentos e no comportamento interpessoal
que se segue - nao apenas 0 seu, mas 0 tipo de
comportamento que ele evoca em outras pes-
soas.22 Por exemplo, e provavel que umajovem,
ao crescer com pais depressiv~s e sobrecarrega-
dos, sinta que deve manter-se conectada e ape-
gada aos outros, que nao deve fazer exigencias
e que deve suprimira sua independencia e su-
bordinar-se as necessidades emocionais das ou-
tras pessoas. Y A psicoterapia pode representar
a prinleira oportunidade para rejeitar esse mapa
interpessoal rigido e linIitante.
PSICOTERAPIA DE GRUPO 39
As distorc;,:6es interpessoais (ou sejam,
parataxicas) tendem a se autoperpetuar. Por
exemplo, urn individuo com uma auto-imagem
negativa e degradada pode, por proje<;§o ou
desatenc;,:ao seletiva, perceber incorretamente
que outra pessoa 0 trata de forma severa e 0
rejeita. AMm disso, 0 processo ocorre porque
esse individuo pode gradualmente desenvol-
ver maneirismos e trac;,:os comportamentais -
por exemplo, servilismo, antagonismo defen-
sivo ou condescendencia - que acabam fazen-
do com que os outros, na realidade, sejam se-
veros e 0 rejeitem. Essa seqiiencia costuma ser
chamada de "profecia auto-realizavel" - 0 in-
dividuo preve que os outros responderao de
uma dada maneira e entao, de maneira
involuntaria, se comporta de modo a fazer com
que isso aconte<;a. Em outras palavras, a cau-
salidade nos relacionamentos e circular, nao
linear. A pesquisa interpessoal corrobora essa
tese, demonstrando que as cren<;as interpes-
soais do indivfduo expressam-se em compor-
tamentos que tem um impacto previsfvel so-
bre as outras pessoas.23
As distorc;,:oes interpessoais, na visao de
Sullivan, sao principalmente modificaveis por
valida<;ao consensual - ou seja, comparando-
se as avalia<;oes interpessoais do indivfduo com
a de outras pessoas. A valida<;ao consensual e
urn conceito particularmente importante na
terapia de grupo. Com uma certa freqiiencia,
urn membro do grupo altera suas distor<;6es
ap6s compara-las com as visoes dos outros
membros sobre algum incidente importante.
Isso nos traz a visao de Sullivan do pro-
cesso terapeutico. Ele sugere que 0 foco ade-
quado de pesquisa em saude mental e 0 estu-
do de processos que ocorrem entre as pessoas
ou que as envolvem.24 0 transtorno mental, ou
a sintomatologia psiquiatrica em todas as suas
manifesta<;6es variadas, deve ser traduzido em
termos interpessoais e tratado dessa forma. 2S
As psicoterapias atuais para muitos trans tor-
nos enfatizam esse principio.Y 0 "transtorno
mental" tambem consiste em processos inter-
pessoais que sao inadequados a situac;,:ao so-
cial ou excessivamente complexos porque 0 in-
dividuo esta se relacionando com as outras
pessoas, nao apenas como sao, mas em termos
de imagens distorcidas baseadas em quem re-
40 IRVIN D. YAlOM
presentam do passado. 0 comportamento
interpessoal mal-adaptativo pode ser tambem
definido por sua rigidez, extremismo, diston;ao,
circularidade e sua aparente inescapabili-
dade.26
Dessa forma, 0 tratamento psiquiatrico
deve ser voltado para a corre~ao de diston;:5es
interpessoais, possibilitando assim que 0 indi-
viduo leve uma vida mais abundante, partid-
pe e trabalhe em con junto com outras pessoas,
obtenha satisfa<;ao interpessoal no contexto de
reladonamentos interpessoais realistas e mu-
tuamente satisfatorios: "0 individuo atinge a
saude mental ate 0 nivel em que esta ciente
dos proprios relacionamentos interpessoais".27
A cura psiquiMrica e a "expansao do self ate
urn efeito tao decisive que 0 paciente, como
ele se conhece, seja a mesma pessoa que se
relaciona com os outroS".28 Embora suas cren-
<;as negativas basicas sobre si mesmo nao de-
sapare<;am totalmente com 0 tratamento, 0 tra-
tamento efetivo gera uma capacidade de do-
minio interpessoal,29 de modo que 0 paciente
possa responder com urn repertorio ampliado,
flexivel, empatico e mais adaptativo de com-
portamentos, substituindo ciclos viciosos com
ciclos construtivos.
Melhorar a comunica~ao interpessoal e 0
foco de uma variedade de interven~5es
psicoterapeuticas de grupos de pais e filhos que
abordam transtomos de conduta e 0 compor-
tamento anti-social na infancia. A falta de co-
munica~ao das necessidades da crian<;a e das
expectativas dos pais produz sentimentos de
desamparo e falta de efetividade pessoal em
crian~as e pais, levando a comportamentos de
atua~ao por parte das crian<;as, bern como a
respostas parentais que muitas vezes sao hos-
tis, depreciativas e inadvertidamente provoca-
doras.30 Nesses grupos, pais e filhos aprendem
a reconhecer e corrigir cidos interpessoais mal-
adaptativos, pelo uso de psicoeduca~ao, reso-
lu~ao de problemas, treinamento em habilida-
des interpessoais, dramatiza~ao de papeis e
feedback.
Essas ideias - que a terapia e amplamen-
te interpessoal, tanto em seus objetivos quan-
to em seus meios - sao muito pertinentes na
terapia de grupo. Isso nao significa que todos
ou a maioria dos pacientes que entram em uma
terapia de grupo pe~am explicitamente por aju-
da em seus relacionamentos interpessoais. Ain-
da assim, observei que os objetivos terapeuticos
dos pacientes muitas vezes passam por uma
mudan~a apos algumas sess5es. Seu objetivo
inicial, 0 alivio do sofrimento, e modificado e
finalmente substituido por novos objetivos,
geralmente de natureza interpessoal. Por exem-
plo, os objetivos em buscar alivio da ansiedade
ou da depressao podem ser modificados em
aprender a se comunicar com os outros, ser
mais confiavel e honesto com os outros, apren-
der a amar. Nas terapias de grupo breves, tal-
vez essa tradu~ao de preocupa~5es e aspira-
<;5es dos pacientes para quest5es interpessoais
deva ocorrer mais cedo, na fase de avaliac;ao e
prepara~ao ever Capitulo 10).31
A mudan~ de objetivos do alivio do so-
frimento para a mudan~a no funcionamento
interpessoal e urn passo inicial essencial no
processo terapeutico dinamico, sendo tambem
importante no pensamento do terapeuta. 0
terapeuta nao pode, por exemplo, tratar a de-
pressao em si: a depressao nao sugere urn ins-
trumento terapeutico efetivo, uma base racio-
nal para. se examinarem os relacionamentos
interpessoais, que, como espero dernpnstrar, e
a chave para 0 poder terapeutico do grupo de
terapia. Ii necessario, em primeiro lugar, tradu-
zir a depressao em termos interpessoais e entao
tratar a patologia interpessoal subjacente. As-
sim, 0 terapeuta traduz a depressao em suas
quest5es interpessoais - por exemplo, depen-
dencia pass iva, isolamento, subserviencia, in-
capacidade de expressar raiva, hipersensibili-
dade a separa~ao - e entao aborda essas ques-
toes interpessoais na terapia.
A dedara~ao de Sullivan sobre 0 proces-
so geral e os objetivos da terapia individual e
profundamente condizente com os objetivos da
terapia de grupo interacional. Esse foco inter-
pessoal e relacional e urn dos pontos fortes que
definem a terapia de grupo.! A enfase em 0
paciente compreender 0 pass ado, 0 desenvol-
vimento genetico de posturas interpessoais mal-
adaptativas, pode ser menos crucial na terapia
de grupo do que no cenario individual em que
Sullivan trabalhava ever Capitulo 6).
A teoria dos relacionamentos interpes-
soais tomou-se uma parte tao integral do teci-
do do pensamento psiquiatrico que nao preci-
sa ser mais enfatizada. As pessoas necessitam
de pessoas - para sua sobrevivencia inicial e
continua, para a socializa~ao, para a busca da
satisfa~ao. Ninguem - nem os moribundos, nem
os exdufdos, nem os poderosos - transcende a
necessidade de contato humano.
Durante os muitos anos em que conduzi
grupos de individuos com alguma forma avan-
~ada de d\.ncer,32 observei repetidamente que,
diante da morte, nao tememos tanto 0 nada
ou 0 nao 'ser, mas a completa solidao que os
acompanha. Os pacientes terminais podem ser
assombrados por preocupa~oes interpessoais -
quanta a ser abandonados, por exemplo, e ate
exduidos pelo mundo dos vivos. Uma mulher,
por exemplo, planejou urn grande evento so-
cial e descobriu na manha anterior que 0 seu
cancer, ate entao"supostamente controlado,
havia desenvolvido metastases. Ela manteve a
informa~ao em segredo e deu a festa, todo 0
tempo com 0 horrfvel pensamento de que a
dor de sua doen~a se tomaria tao insuportavel
que ela se tomaria menos humana e, finalmen-
te, inaceitavelpara os outros.
o isolamento dos mon'bundos muitas ve-
zes e uma faca de dois gumes. Os proprios pa-
cientes costumam evitar as pessoas de quem
mais gostam, temendo que iraQ arras tar seus
familiares e amigos para 0 pantano de seu de-
sespero. Assim, evitam conversas morbidas"
desenvolvem uma fachada alegre e animada e
guardam seus temores para si mesmos. Seus
amigos e sua familia contribugm para 0 isola-
mento retraindo-se, nao sabendo como falar
com urn moribundo, nao querendo incomoda-
10 ou se incomodarem. Concordo com Elizabeth
Kubler-Ross, quando diz que a questao nao e
se, mas como contar ao paciente, de maneira
aberta e honesta, sobre sua doen~a fatal. 0
paciente sempre e informado de forma dissi-
mulada que esta morrendo, por meio da atitu-
de e pelo afastamento dos viVOS.33
Os medicos muitas vezes aumentam 0 iso-
lamento, mantendo pacientes com cancer avan-
~ado a uma distfmcia psicologica consideravel-
talvez para evitar sua sensac;ao de fracasso e
PSICOTERAPIA DE GRUPO 41
futilidade, talvez tambem para evitar 0 medo
de sua propria morte. Eles cometem 0 erro de
conduir que, afinal, nao ha nada que possam
fazer. Ainda assim, do ponto de vista do pacien-
te, esse e exatamente 0 momento em que 0
medico e mais necessario, nao por sua ajuda
tecnica, mas pela simples presen~a humana. 0
paciente precisa fazer contato, ser capaz de
tocar outras pessoas, falar abertamente de suas
preocupa~5es, ser lembrado de que nao esta
apenas a parte, mas que tambem faz parte. As
abordagens psicoterapeuticas estao come~an
do a tratar dessas quest5es especificas dos
doentes terminais - seu medo do isolamento e
seu desejo de manter a dignidade em seus re-
lacionamentos.! Considere os individuos pros-
critos - individuos considerados tao acostuma-
dos com a rejei~ao que suas necessidades inter-
pessoais tomaram-se quase insensiveis. Pois
esses individuos tambem tern necessidades so-
dais. Uma vez, tive uma experiencia em uma
prisao que me proporcionou urn lembrete for-
~ado da natureza ubiqua dessa necessidade
humana. Urn tecnico psiquiatrico sem forma-
~ao consultou-me a respeito de seu grupo de
terapia, composto de 12 prisioneiros. Os mem-
bros do grupo eram todos reincidentes, cujas
agress5es variavam de abuso sexual violento
de urn menor a assassinato. 0 grupo, confor-
me ele se queixava, era lento e continuava se
concentrando em material insignificante e ex-
temo. Concordei em observar 0 grupo e sugeri
que, antes, obtivessemos algumas infonna~5es
sociometricas, solicitando em particular que
cada membro classificasse os outros membros
do grupo quanta a sua popularidade gera!. (Eu
esperava que a discussao dessa tarefa induzis-
se 0 grupo a voltar a aten~ao para si mesmo).
Embora tivessemos planejado discutir os resul-
tados antes da sessao seguinte, circunstancias
inesperadas nos for~ararri a cancelar nossa reu-
niao antes da sessao do grupo.
Durante a proxima reuniao do grupo, 0
terapeuta, entusiasmado, mas profissionalmen-
te inexperiente e insensfvel as necessidades
interpessoais, anunciou que leria os resultados
da pesquisa de popularidade. Ao ouvirem isso,
os rnembros do grupo ficaram agitados e te-
merosos. Eles deixaram claro que nao queriam
42 IRVIN D. YALOM
saber os resultados. Varios membros falaram
de forma tao veemente da devastadora possi-
bilidade de que pudessem aparecer no final da
Iista que 0 terapeuta abandonou, nipida e per-
manentemente, 0 seu plano de ler a lista em
voz alta.
Sugeri urn plano alternativo para 0 pro-
ximo encontro: cada membro indicaria aquele
ctljo voto mais Ihe interessasse e depois explica-
ria a sua escolha. Esse instrumento tambem foi
amea~ador demais, e apenas urn ter~o dos
membros aventurou-se a apresentar a sua es-
colha. Entretanto, 0 grupo mudou para urn ni-
vel de intera~ao e desenvolveu urn grau de ten-
sao, envolvimento e alegria antes desconheci-
do. Esses homens haviam recebido a mensagem
de rejei~ao final da sociedade como urn todo:
eles foram aprisionados, segregados e explicita-
mente rotulados como proscritos. Para urn ob-
servador casual, eles pareciam endurecidos,
indiferentes as sutilezas da aprova<;ao e desa-
prova~ao interpessoais. Mesmo assim, eles se
importavam, e se importavam profundamente.
A necessidade de aceita~ao e intera~o com
outras pessoas nao e diferente entre pessoas no
polo oposto do destino humane - aquelas que
ocupam os dominios do poder, do renome ou
da riqueza. Vma vez, trabalhei com uma pacien-
te muito rica por tres anos. As principais ques-
toes giravam_em tomo do abismo que 0 dinhei-
ro criava entre ela e os outros. Sera que alguem
a valorizava por si mesma, em vez de seu di-
nheiro? Sera que as pessoas a estavam explo-
rando? A quem ela poderia se queixar do fardo
de uma fortuna de 90 milhoes de dolares? 0
segredo de sua riqueza a mantinha isolada das
outras pessoas. E os presentes! 'Como poderia
ela dar presentes adequados, sem que os outros
se sentissem decepcionados ou impressionados?
Nao ha necessidade de se perder tempo nesse
assunto, a solidao dos que sao muito privilegia-
dos e conhecimento comum. (A solidao, inci-
dentalmente, nao e irrelevante para 0 terapeuta
de grupo. No Capitulo 7, discutiremos a solidao
inerente ao papel de lider do grupo.)
Todo terapeuta de grupo, estou certo dis-
so, ja encontrou membros que professem sen-
tir indiferen<;a ou desapego pelo grupo. E1es
proclamam: "Nao me importo com 0 que di-
zem ou pensam. Eles nao significam nada para
mim. Nao tenho respeito pelos outros mem-
bros", ou palavras do tipo. Minha experiencia
tern sido de que se eu puder manter esses pa-
cientes no grupo por tempo suficiente, seus de-
sejos por contato inevitavelmente acabarao vin-
do a tona. Eles se preocupam com 0 grupo em
urn nfvel muito profundo. Vma participante que
manteve sua postura indiferente por muitos
meses foi convidada a contar 0 seu segredo para
o grupo, a questao que ela mais desejasse co-
locar diante do grupo. Para perplexidade de
to dos, essa mulher aparentemente distante e
desapegada colocou a seguinte questao: "Como
voces conseguem me agiientar?"
Muitos pacientes esperam pelas reunioes
com muita avidez ou ansiedade. Alguns tam-
bern se sentem abalados demais para conse-
guirem voltar para casa dirigindo ou dormir
naquela noite. Muitos tern conversas imagina-
rias com 0 grupo durante a semana. Alem dis-
so, esse envolvimento com outros membros
costuma ser prolongado. Conhe~o muitos pa-
cientes que pensam e sonham com 0 grupo por
meses, ate anos, apos 0 grupo ter acabado.
Resumindo, as pessoas nao se sentem in-
diferentes para com os outros membros do gru-
po por muito tempo. E os pacientes nao aban-
donam grupos de terapia porque estao,entedia-
dos. Acredite em desprezo, raiva, medo, falta
de estimulo, vergonha, panico, odio! Acredite
em qualquer uma dessas op~oes, mas nunca
acredite em indiferen~a!
Em sintese, revisei alguns aspectos do
desenvolvimento da personalidade, do funcio-
namento maduro, do psicopatologia e do trata-
mento psiquiatrico do ponto de vista da teo ria
interpessoal. Muitas das questoes que levantei
tern uma influencia vital no processo terapeu-
tico da terapia de grupo: 0 conceito de que a
doen<;a mental emana de relacionamentos in-
terpessoais perturbados, 0 papel da vaJida<;ao
consensual na modifica~ao de distor<;oes inter-
pessoais, a defini<;ao do processo terapeutico
como uma modifica<;ao adaptativa para relacio-
namentos interpessoais, e a natureza duradou-
ra e a for<;a das necessidades sociais dos seres
humanos. Voltemo-nos agora para a experien-
cia emocional corretiva, 0 segundo dos tres con-
ceitos necessarios para se compreender 0 fator
terapeutico da aprendizagem interpessoal.
A EXPERIENCIA EMOCIONAL CORRETIVA
Em 1946, Franz Alexander, ao descrever
o mecanisme da cura psicanalitica, introduziu
o conceito da "experiencia emocional correti-
va". 0 principio basico do tratamento, disse,
"e expor 0 paciente, sob circunstancias mais
favoraveis,a situa~oes emocionais que ele nao
conseguiu enfrentar no passado. Para ser aju-
dado, 0 paciente deve passar por uma experien-
cia emocional corr~tiva adequada para repa-
rar a influencia traumatica da experiencia an-
terior".34 Alexander insistia que apenas 0 insight
intelectual e insuficiente, devendo tambem ha-
ver um componente emocional e urn teste sis-
tematico da realidade. Os pacientes, enquanto
interagem afetivamente com seu terapeuta de
forma distorcida por causa da transferencia,
devem se tomar gradualmente conscientes do
fato de que "essas rea~oes nao sao adequadas
para as rea~oes do"analista, nao apenas por-
que ele (0 analista) e objetivo, mas porque ele .
e 0 que e, uma pessoa em seu proprio direito.
Elas nao sao adequadas a situa~ao que ocorre
entre 0 paciente e 0 terapeuta, e sao igualmen-
te inadequadas para os rel£l.cionamentos
interpessoais atuais do paciente em sua vida
cotidiana".35
Embora a ideia da experiencia emocional
corretiva tenha side criticada ao longo dos anos
porque era mal-interpretada como sendo inven-
tada, artificial ou manipuladora, as psicoterapias'
contemporiineas a consideram wna das bases
da efetividade terapeutica. A mudan~a, no nl-
vel comportamental e no nfvel mais profundo
de imagens intemalizadas de relacionamentos
passados, nao ocorre principalmente por meio
da interpreta~ao e do insight, mas por uma sig-
nificativa experiencia relacional no aqui-e-ago-
ra, que rejeita as cren~as patogenicas do pacien-
te.36 Quando isso ocorre, a mudan~a pode ser
dramatica: os pacientes expressam mais emo-
~oes, lembram de experiencias formativas e re-
levantes mais pessoais, e demonstram evidencias
de mais coragem e urn sentido de self maiorY
Esses principios basicos - a irnportancia
da experiencia emocional na terapia e na des-
coberta do paciente, por intermedio do teste
da realidade, da inadequa~ao de suas rea<;oes
interpessoais - sao tao cruciais na terapia de
PSICOTERAPIA DE GRUPO 43
grupo quanta na terapia individual, e possi-
velmente mais, pois 0 cenario de grupo of ere-
ce mais oportunidades para gerar experiencias
emocionais corretivas, No cenario individual,
a experiencia emocional corretiva, com todo 0
seu valor, pode ser mais dificil de acontecer,
pois 0 relacionamento entre 0 paciente e 0
terapeuta e mais estreito e 0 paciente e mais
capaz de questionar a espontaneidade, a abran-
gencia e a autenticidade desse relacionamen-
to. (Creio que Alexander estava ciente disso,
pois sugeria que 0 analista fosse urn ator e que
desempenhasse urn papel para criar a atmos-
fera emocional desejada,)38
Essa simula<;ao nao e necessaria na tera-
pia de grupo, que contem muitas tensoes em-
butidas - tens6es cujas raizes alcan~am pro-
fundamente, nas camadas basicas: rivalidade
entre irma os, competi<;ao pela aten~ao dos If-
deres/pais, a luta por domina~ao e status, ten-
soes sexuais, distor~oes parataxicas e diferen-
<;as de classe social, educa<;ao e valores entre
os membros. Mas a evocap'io e a expressao do
afeto bruto nao sao suficientes: elas devem ser
transformadas em uma experiencia emocional
corretiva. Para que isso ocorra, sao necessarias
duas condi<;oes: (1) os membros devem cons i-
derar 0 grupo suficientemente seguro e solida-
rio, para que essas tensoes possam ser expres-
sadas abertamente; (2) deve haver suficiente
envolvimento e feedback honesto para permi-
tir 0 teste da realidade efetivo.
Durante muitos anos de trabalho clinico,
tomei como pra.tica comum entrevistar pacien-
tes que conclulram a terapia de grupo. Sem-
pre pergunto sobre algum incidente crltico, urn
ponto de mudan~a ou 0 evento mais proveito-
so na terapia. Embora 0 termo "incidente criti-
co" nao seja sin6nimo de fator terapeutico, os
dois nao sao desconectados, e pode-se apren-
der muito com uma investiga~ao de eventos
importames, Meus pacientes quase invariavel-
mente citam algum incidente que foi emocio-
nalmente carregado e que envolveu outros
membros do grupo, raramente 0 terapeuta.
o tipo mais comum de incidente que meus
pacientes relatam (como os pacientes descri-
tos por Frank e Ascher) 39 envolve uma expres-
sao repentina de aversao ou de raiva para com
outro membro. Em todos os exemplos, a co-
44 IRVIN D. YALOM
municac;ao foi mantida, a tempestade passou
e 0 paciente experimentou uma sensac;ao de
libera<;ao de coibic;oes interiores, bern como
uma capacidade maior de explorar seus rela-
cionamentos interpessoais de forma mais pro-
funda.
As caracteristicas importantes desses in-
cidentes cdticos sao:
1. 0 paciente expressou forte afeto negativo.
2. Essa expressao foi uma experiencia unica
ou nova para 0 paciente.
3. 0 paciente sempre teve medo de expres-
sar raiva. Mesmo assim, nao houve nenhu-
rna catastrofe: ninguem fugiu ou morreu,
e 0 teto nao caiu.
4. Rouve teste da realidade. 0 paciente com-
preendeu que a raiva expressada era ina-
dequada em sua intensidade ou dire<;ao
ou que havia side irracional evitar a ex-
pressao de afeto. 0 paciente pode ter
ganho algum insight ou nao, ou seja, com-
preendido as razoes que explicam 0 afeto
inadequado ou a evitac;ao da experiencia
ou da expressao do afeto.
5. 0 paciente conseguiu interagir mais livre-
mente e explorar relacionamentos inter-
pessoais de forma mais profunda.
Assim, quando vejo dois membros em
conflito entre si, creio que ha uma excelente
chance de que eles sejam particularmente im-
portantes urn para 0 outro no decorrer da te-
rapia. De fato, se os conflitos forem particular-
mente desconfortaveis, posso tentar reduzir
parte do desconforto expressando essa intui-
c;ao em voz alta.
o segundo tipo mais comum de inciden-
te cdtico que meus pacientes descrevem tam-
bern envolve urn afeto forte - mas, nesses ca-
sos, afeto positivo. Por exemplo, urn paciente
esquizoide descreveu urn incidente em que pro-
curou e confortou urn membro do grupo que
estava perturbado e que havia saido da sala.
Mais tarde, ele contou 0 quanta havia sido afe-
tado por aprender que podia cuidar e ajudar
alguem. Outros falaram que descobriram vida
ou se sentiram em contato consigo mesmos.
Esses incidentes tinham as seguintes caracte-
rlsticas em comum:
1. 0 paciente expressou um forte afeto posi-
tivo - uma ocorrencia inusitada.
2. A catastrofe temida nao aconteceu - me-
nosprezo, rejei<;ao, escarnio, destrui<;ao
por. parte dos outros.
3. 0 paciente descobriu uma parte desconhe-
cida de si mesmo e, assim, conseguiu se
relacionar com os outros de maneira nova.
A terceira categoria mais comum de inci-
dente cdtico e semelhante a segunga. Os pa-
cientes lembram de urn incidente, geralmente
envolvendo a auto-revelac;ao, que fez com que
mergulhassem em urn envolvimento maior com
o grupo. Por exemplo, urn homem anteriormen-
te retraido e reticente que tinha faltado a al-
guns encontros revelou para 0 grupo 0 quanta
queria ouvir os membros do grupo dizerem que
haviam sentido sua falta durante a ausencia.
Outras pessoas tambem, de urn modo ou ou-
tro, pedem ajuda ao grupo abertamente.
Para sintetizar, a experiencia emocional
corretiva na terapia de grupo tern diversos com-
ponentes:
1. Uma forte expressao de emoc;oes, de na-
tureza interpessoal e que constitui urn ris-
co que 0 paciente correu.
2. Urn grupo suficientemente solidario para
perrnitir que se corram riscos.
3. Teste da realidade, que permite que 0 in-
dividuo examine 0 incidente com ajuda da
valida<;iio consensual dos outros membros.
4. 0 reconhecimento da inadequac;ao de cer-
tos sentimentos ou comportamentos inter-
pessoais ou da inadequa<;ao de se evita-
rem certos comportamentos interpessoais.
5. A facilita<;ao final da capacidade do indi-
viduo de interagir com os outros de forma
mais profunda e honesta.
A terapia e uma experiencia emocional e
corretiva. Essa natureza dual do processo
terapeutico e de significado fundamental, e
devo retomar a ela muitas vezes neste texto.
Devemos experimentar as coisas com intensi-
dade, mas tambem devemos, por meio denos-
sa faculdade da razao, entender as implicac;oes
da experiencia emocional. Y Com 0 passar do
tempo, as crenc;as profundas dos pacientes mu-
dam - e essas mudan<;as serao refor<;adas se os
novos comportamentos interpessoais dos pa-
cientes evocarem respostas interpessoais cons-
trutivas. Mesmo altera<;oes interpessoais sutis
podem refletir uma mudanc;a profunda e de-
vern ser reconhecidas e reforc;adas pelo tera-
peuta e pelos membros do grupo.
Barbara, uma mulher deprimida, descreveu de
forma vivida 0 seu isolamento e aliena<;iio do
grupo, voltando-se para Alice, que estava cala-
da. Barbara e Alice brigavam muitas vezes, pois
Barbara acusava Alice de ignoni-la e rejeita-la.
Porem, nessa reuniao, Barbara usou urn tom
mais gentil e perguntou a Alice qual era 0 sig-
nificado do seu silencio. Alice respondeu que
estava ouvindo com cuidado e pensando 0
quanta elas tinham em comum. Acrescentou
que a pergunta mais gentil de Barbara havia
permitido que ela pudesse falar sobre seus
sentimentos em vez de se defender contra a
acusa~ao de nao se importar, uma seqiiencia
que ja havia terminado 'mal para elas em ou-
tras sess6es. A mudan~a aparentemente pe-
quena, mas vitalmente importante, na forma
de Barbara abordar Alice criou uma oportuni-
dade empatica para reparar, em vez de repetir.
Essa formula<;ao tern relevancia direta
para um conceito fundamental da terapia de
grupo, 0 aqui-e-agora, que discutiremos em
profundidade no Capitulo 6. Aqui, apresenta-
rei apenas esta premissa basica: Quando 0 gru-
po de terapia se concentra no aqui-e-agora, ele
aumenta seu poder e sua efetividade. ,
Mas para que 0 foco no aqui-e-agora (ou
seja, 0 foco no que esta acontecendo na sala
no presente imediato) seja terapeutico, ele deve
ter do is componentes: os membros do grupo
devem experimentar uns aos outros com 0
maximo de espontaneidade e honestidade pos-
sivel, e tambem devem refletir sobre essa ex-
periencia. Essa reflexao, esse circuito auto-re-
flexivo, e crucial para que a experiencia emocio-
nal seja transformada em uma experiencia te-
rapeutica. Como veremos na discussao das ta-
refas do terapeuta no Capitulo 5, a maioria dos
grupos tem pouca dificuldade para entrar no
fluxo emocional do aqui-e-agora. Contudo, de
um modo geral, a tarefa do terapeuta e conti-
nuar direcionando 0 grupo para 0 aspecto auto-
reflexivo do processo.
PSICOTERAPIA DE GRUPO 45
o pressuposto erroneo de que uma expe-
riencia emocional forte, em si, e uma forc;a su-
ficiente para a mudan<;a e sedutor e tambem
veneravel. A psicoterapia modema foi conce-
bida sobre esse mesmo erro: a primeira descri-
c;ao da psicoterapia dinfunica (os Estudos sobre
a histeria, de Freud e Breuer, de 1895)40 des-
crevia um metodo de tratamento catartico ba-
seado na convic<;ao de que a histeria e causada
por urn evento traumatico, ao qual 0 individuo
nunca respondeu de forma emocional. Como
a doenc;a supostamente era causada pelo afeto
estrangulado, 0 tratamento visava dar voz a
emoc;oes natimortas. Freud nao demorou para
reconhecer 0 erro: a expressao emocional,
embora necessaria, nao e uma condi<;ao sufi-
ciente para a mudanc;a. As ideias que Freud
descartou negaram-se a morrer e foram a se-
mente para novas ideologias terapeuticas. 0
tratamento catartico vienense do fim do secu-
10 ainda vive atualmente nas abordagens do
grito primal, na bioenergetica enos muitos li-
deres de grupos que colocam uma enfase exa-
gerada na catarse emocional.
Meus colegas e eu conduzimos uma am-
pIa investigac;ao do processo e dos resultados
das muitas tecnicas de encontros populares na
decada de 1970 (ver Capitulo 16), e nossas
constatac;oes sustentam os componentes emo-
cionais-intelectuais do processo terapeuticoY
Exploramos, em varias maneiras, a rela-
c;ao entre a experiencia de cada membro do
grupo e os resultados que obtiveram. Por exem-
plo, solicitamos que os membros refletissem
apos a conclusao do grupo sobre os aspectos
da experiencia de grupo que consideravam
mais pertinentes para a sua mudanc;a. Tambem
pedimos, ao final de cada encontro, ainda no
pedodo de reuni5es do grupo, que descreves-
sem 0 evento que houvesse tido 0 significado
mais pessoal. Quando correlacionamos 0 tipo
de evento com os efeitos, obtivemos resulta-
dos surpreendentes, que negavam muitos dos
estereotipos contemporaneos sobre os ingre-
dientes principais da experiencia de gropo bem-
sucedida. Embora as experiencias emocionais
(expressao e experiencia de afeto forte, auto-
revelac;ao, dar e receber feedback) tenham side
consideradas extremamente importantes, elas
nao diferenciaram membros do grupo bem-
II
I, i
, j
:j
I
46 IRVIN 0. YALOM
sucedidos e malsucedidos. Em outras palavras,
os membros que nao mudaram ou mesmo os
que tiveram uma experiencia destrutiva eram
tao provaveis quanta os membros bem-sucedi-
dos de valorizarem os incidentes emocionais
do grupo.
Que tipos de experiencia diferenciaram os
membros bem-sucedidos dos malsucedidos?
Houve evidencias claras de que urn componen-
te cognitivo era essencial. Era necessario algum
tipo de mapa cognitivo, algum sistema inte-
lectual que estruturasse a experiencia e fizesse
sentido nas emo<;oes que 0 grupo evocava. (Ver
Capitulo 16 para uma discussao ampla desse
resultado.) 0 fato de que essas constata<;oes
vieram de grupos com lideres que nao atri-
buiam muita importiincia ao componente inte-
lectual mostra que ele nao faz parte da facha-
da, mas do alicerce do processo de mudan<;a.42
D GRUPD COMO MICRDCDSMO SOCIAL
Urn grupo interativo livre, com poucas
restri<;oes estruturais, em tempo, se transfor-
mara em urn microcosmo social para os parti-
cipantes. Com tempo suficiente, os membros
do grupo come~arao a ser eles mesmos: come-
<;arao a interagir com os outros membros como
interagem com pessoas em sua esfera social,
criarao no gmpo 0 mesmo universo interpessoal
que sempre habitaram. Em outras palavras, os
pacientes, com 0 tempo, come~arao automati-
ca e inevitavelmente a apresentar seus com-
portamentos interpessoais mal-adaptativos no
gmpo de terapia. Nao e necessario que descre-
yam ou deem urn historico detalhado de sua
patologia: mais cedo ou mais tarde, eles a apre-
sentarao ante osolhos dos membros do grupo.
Alem disso, seu comportamento serve como urn
dado preciso e nao possui os pontos cegos
involuntarios, mas inevitaveis, dos relatos pes-
soais. As patologias de carater costumam ser
dificeis de relatar, po is estao muito assimila-
das no tecido do self e fora do consciente e da
consciencia explicita. Como resultado, a tera-
pia de grupo, com sua enfase no feedback, e
urn tratamento particularmente efetivo para
individuos com patologias de carater.43
Esse conceito tern importancia fundamen-
tal na terapia de grupo e e a pedra fundamen-
tal de toda a abordagem da terapia de grupo.
o estilo interpessoal de cad a membro acaba
aparecendo em suas transa<;oes no grupo. Al-
guns estilos resultam em atritos interpessoais
que se manifestam no come<;o do grupo. Por
exemplo, individuos bravos, vingativos, muito
criticos, retraidos ou sedutores produzirao uma
grande estatica interpessoal ja nos primeiros
encontros. Seus padroes sociais mal-adapta-
tivos logo chamam a aten~ao do grupo. Outros
podem pre cisar de mais tempo ern terapia an-
tes que suas dificuldades se manifestem no
aqui-e-agora do grupo. Isso inclui pacientes que
podem ser igualmente ou mais problematicos,
mas cujas dificuldades interpessoais sejam mais
sutis, como individuos que exploram os outros
silenciosamente, aqueles que alcan~am urn
grau de intimidade e, ficando assustados, se
desligam, ou aqueles que se pseudo-envolvem,
mantendo uma posi~ao subordinada e condes-
cendente.
o inicio do trabalho de urn grupo consis-
te em lidar corn aqueles membros cuja patolo-
gia seja mais ostensiva do ponto de vista
interpessoal. Certos estilos interpessoais tor-
nam-se claros a partir de uma linicq transa-
<;ao, alguns a partir de urn linico encontro dogrupo, e outros exigem muitas sessoes de ob-
serva~ao para serem compreendidos. 0 desen-
volvimento da capacidade de identificar e de
trabalhar terapeuticamente com comportamen-
tos interpessoais mal-adaptativos observados
no microcosmo social de urn grupo pequeno e
uma das principais tarefas de urn programa de
forma~ao para psicoterapeutas de grupo. Al-
guns exemplos clinicos podem tomar esses
principios mais claros:
* Nos exemplos clinicos a seguir, assim como no res-
ta do texto, protegi a privacidade dos clientes, alte-
rando certos faros, como nomes, ocupa<;6es e ida-
des. AMm disso, a intera<;ao descrita no texto nao e
reproduzida literalmente, mas foi reconstruida a
partir de notas clinicas detalhadas obtidas em cada
encontro terapeutico.
A grande dama
Valerie, uma musicista de 27 anos, pro-
curou minha terapia principalmente por causa
de problemas conjugais, que ja duravam anos.
Ela havia feito consideraveis terapias indivi-
duais e hipnoticas que nao trouxeram muitos
beneficios. Seu marido, segundo ela relatou,
era urn alcoolista que hesitava para se relacio-
nar com ela social, intelectual e sexualmente.
o grupo poderia, como muitos grupos fazem,
ter investigado 0 seu casamento de maneira
interminavel. Os membros poderiam ter obti-
do urn historico completo do periodo de na-
moro, da evolu~ao da discordancia, da patolo-
gia do marido, das razoes para terem casado,
do papel dela no conflito. Eles poderiam ter
coletado essas informa<;oes aconselhando-a a
mudar a intera<;ao marital ou talvez sugerindo
que experimentasse separar-se por urn tempo
ou definitivamente:
Mas toda essa atividade historica e de re-
solu~ao de problemas teria sido em vao: toda
essa linha de investiga~ao nao apenas desconsi-
dera 0 potencial linico dos grupos de terapia,
como tambem se baseia na pr~missa questio-
navel de que 0 relata de urn paciente sobre 0
seu casamento e pelo menos razoavelmente
preciso. Os grupos que funcionam dessa ma-
neira nao ajudam 0 protagonista e tambem
sofrem desmo;;liza~ao, por causa da falta de
efetividade da abordagem historica de resolu-
~ao de problemas na terapia de grupo. Em vez
disso, vamos observar 0 comportamento.de
Valerie, a medida que ele se desdobra no aqui-
e-agora do grupo.
o comportamento de Valerieno grupo era
vistoso. Em prinleiro lugar, havia sua entrada
grandiosa, sempre 5 ou 10 minutos atrasada.
Enfeitada em trajes elegantes, mas espalhafa-
tosos, ela invadia a sala, as vezes jogando bei-
jos, e imediatamente come<;ava a falar, indife-
rente a algum membro estar no meio de uma
senten<;a. Isso era narcisismo puro! Sua visao
de mundo era tao solipsistica que nem cogita-
va a possibilidade de que poderia haver vida
no grupo antes de sua chegada.
Apos alguns encontros, Valerie come<;ou
a trazer presentes: para uma mu!her obesa, urn
PSICOTERAPIA DE GRUPO 47
novo livro de dietas; para urn paciente gay
efeminado, uma assinatura da revista Field and
Stream (visando, sem dlivida, masculiniza-Io);
e apresentou urn homem virgem de 24 anos a
uma amiga sua divorciada, que era promiscua.
Gradualmente, ficou claro que os presentes nao
eram de gra<;a. Por exemplo, ela se metia no
relacionamento que surgiu entre sua amiga e
o jovem e insistia em atuar como confidente e
intermediaria, exercendo assim urn grande con-
trole sobre ambos os individuos.
Suas tentativas de dominar logo coloriram
todas as suas intera<;oes no grupo. Tomei-me
urn desafio para ela, que fez varias tentativas
de me controlar. Por total acaso, alguns meses
antes, eu havia atendido a sua irma e indicada
a urn terapeuta competente, urn psicologo cli-
nico. No grupo, Valerie me cumprimentou pela
tatica brilhante de enviar a sua irma a urn psi-
cologo, pois eu devia ter adivinhado a sua pro-
funda aversao a psiquiatras. De maneira seme-
!hante, em outra ocasiao, ela respondeu a urn
comentario meu: "Como voce foi sensivel por
ter notado minhas maos tremendo".
A armadilha estava montada! De fato, eu
nao tinha "adivinhado" a suposta aversao de
sua irma por psiquiatras (eu simplesmente a
havia indicado ao me!hor terapeuta que conhe-
<;o) ou notado as suas maos tremendo. Se acei-
tasse seu tributo indevido em silencio, eu par-
ticiparia de urn conluio desonesto com ela, mas,
se, por outro lado, eu admitisse a minha falta
de sensibilidade para com 0 tremor de suas
maos ou a aversao da irma, reconhecendo a
minha falta de percep<;ao, tambem daria cer-
to. Ela me..controlaria de qualquer forma! Nes-
sas situa<;oes, 0 terapeuta tern apenas uma op-
<;ao real: mudar de estrutura e comentar 0 pro-
cesso - a natureza e 0 significado da annadi-
lha. (Tenho muito mais a dizer sobre tecnicas
terapeuticas relevantes no Capitulo 6.)
Valerie competia comigo de muitas ou-
tras maneiras. Intuitiva e intelectualmente
talentosa, ela se tomou a especialista do gru-
po em interpreta<;ao de sonhos e fantasias. Em
uma ocasiao, ela me procurou entre duas ses-
soes para perguntar se poderia usar 0 meu
nome para tirar urn livro da biblioteca medica.
Em urn nivel, 0 pedido era razoavel: 0 livro
48 IRVIN O. YAlOM
(sobre musicoterapia) estava relacionado com
a sua profissao. AMm disso, nao sendo ligada
a universidade, ela nao poderia usar a biblio-
teca. No contexto do processo do grupo, po-
rem, 0 pedido era complexo, no sentido de que
ela estava testando os limites. Conceder 0 seu
pedido teria indicado ao grupo que ela tinha
uma relac;ao unica e especial comigo. Esclareci
essas considerac;oes para ela e sugeri que dis-
cutissemos 0 assunto na proxima sessao. Apos
essa rejeic;ao percebida, no entanto, ela ligou
para as casas de tres homens do grupo e, apos
jurarem segredo, marcou encontros com eles.
Valerie teve relac;oes sexuais com dois deles. 0
terceiro, que era gay, nao estava interessado
em seus avanc;os sexuais, mas ainda assim ela
lanc;ou uma tentativa formidavel de seduc;ao.
A reuniao seguinte do grupo foi horrivel.
Extraordinariamente tensa e improdutiva, de-
monstrou 0 axioma (que discutiremos poste-
riormente) de que se uma coisa importante
para 0 grupo esta sendo ativamente evitada,
tambem nao se consegue falar sobre outra coi-
sa de interesse. Dois dias depois, Valerie, to-
mada de ansiedade e culpa, solicitou uma ses-
sao individual comigo e fez uma confissao com-
pleta. Ela concordou que tudo deveria ser dis-
cutido no proximo encontro do grupo.
Valerie abriu 0 proximo encontro com as
palavras: "Hoje e dia de confissao! Va em fren-
te, Charles!", e continuou dizendo: "sua vez,
Louis", habilmente manipulando a situac;ao, de
modo que as transgress6es confess as se torna-
ram responsabilidade apenas dos homens em
questao, e nao suas. Os homens agiram como
ela mandou e, mais adiante na reuniao, rece-
beram dela uma avaliac;ao Cfitica de seu de-
sempenho sexuaL Algumas semanas depois,
Valerie contou ao marido 0 que havia aconte-
cido, e ele mandou recados ameac;adores aos
tres homens. Essa foi a gota d'agua! Os mem-
bros decidiram que nao podiam mais confiar
nela e, no unico caso do tipo que conhec;o, vo-
taram a sua exclusao do grupo. (Ela entrou em
outro grupo e continuou a fazer terapia.) A saga
nao termina aqui, mas ja devo ter contado 0
suficiente para ilustrar 0 conceito do grupo
como micro cosmo sociaL
Deixe-me fazer uma sintese. 0 primeiro
passo foi que Valerie demonstrou claramente a
sua patologia interpessoal no grupo. Seu narci-
sismo, sua necessidade de adulac;ao, sua ne-
cessidade de controle, seu relacionamento sa-
dico com homens - toda a tragica lista compor-
tamental- desemolaram-se no aqui-e-agora da
terapia. 0 proximo passo era reac;ao e feedback.
Os homens expressaram sua profunda humi-
Ihac;ao e raiva por terem de "saltar pelo aro"
para ela e depois receberem "notas" por seu
desempenho sexual. Eles se afastaram dela e
comec;aram a refletir: "Nao quero um boletim
cada vez que tiver uma relaC;ao sexuaL Isso e
controle, como dormir com a minha mae! Ago-
ra comec;o a entender por que 0 maridofu-
giu!", e assim por diante. Os outros membros
do grupo, as mulheres e os terapeutas, com-
partilhavam dos sentimentos dos homens com
relac;ao ao curso intencionalmente destrutivo
do comportamento de Valerie - destrutivo para
o grupo e para ela mesma.
Mais importante de tudo, ela tinha de Ii-
dar com esse fato: havia entrado para um gru-
po de individuos com problemas, que estavam
ansiosos para se ajudarem e que ela passara a
gostar e a respeitar. Ainda assim, no decorrer
de algumas semanas, ela havia envenenado 0
seu proprio, ambiente de maneira que, contra
seus desejos conscientes, ela se tomop uma
paria, excluida de um grupo que poderia ter
side muito uti! para ela. 0 fato de enfrentar e
refletir sobre essas questoes em seu proximo
grupo de terapia possibilitou-lhe fazer mudan-
c;as substanciais e empregar grande parte de
seu consideravel potencial de forma construtiva
em seus outros relacionamentos e atividades.
o homem que gostava de Robin Hood
Ron, urn advogado de 48 anos que havia
se separado de sua esposa, comec;ou a fazer
terapia devido a sua depressao, ansiedade e sen-
timentos intensos de solidao. Seus relaciona-
mentos com homens e mulheres eram muito
problematicos. Ele desejava ter urn amigo pro-
ximo, mas nao tinha urn desde a escola. Seus
relacionamentos atuais com homens assumiam
duas formas: relacionavam-se de maneira bas-
tante competitiva e antagonica, que se aproxi-
maya perigosamente da combatividade, ou ele
adotava urn papel excessivamente dominante
e logo achava a relac;ao vazia e chata.
Seus relacionamentos com mulheres sem-
pre seguiram uma seqiiencia previsivel: atra-
c;ao instantanea, paixao crescente e perda d-
pida de interesse. Seu amor por sua esposa
havia desaparecido ha anos e ele atualmente
se encontrava no meio de um divorcio doloroso.
Inteligente e articulado, Ron imediata-
mente assumiu uma posic;ao de grande influen-
cia no grupo. Ele of ere cia urn fluxo continuo
de observac;oes uteis e criteriosas aos outros
membros, mas mantinha sua propria dor e suas
necessidades ocultas. Ele nao pedia nada e nao
aceitava nada de mim ou de minha co-tera-
peuta. De fato, cada vez que tentei interagir
com Ron, senti-me pronto para a batalha. Sua
resistencia antagonica era tao grande que, por
meses, minha principal interac;ao com ele con-
sistiu em pedir repetidamente que ele exami-
nasse sua relutancia para experimentar a mim
como alguem que poderia ajuda-Io.
"Ron", sugeri, fazendo 0 melhor que pude,
"vamos entender·o que esta acontecendo. Voce
tern muitas areas de infelicidade em sua vida.
Sou urn terapeuta experiente e voce me procu-
rou porque precisava de ajuda. Voce vern regu-
larmente, nunca falta a urn enc6ntro, paga por
meus servic;os, mas me impede sistematicamen-
te de ajudar voce. Ou entao esconde tanto a
sua dor que eu tenho pouco a lhe oferecer ou,
quando oferec;o ajuda, voce a rejeita de umjei-
to ou outro. A razao diz que deveriamos ser
aliados. Nao deveriamos estar trabalhando para
ajuda-Io? Diga-me, como chegamos a ser ad-
versarios?"
Mas ate isso nao conseguiu alterar 0 nos-
so relacionamento. Ron parecia se divertir e
especulava de forma habil e convincente que
eu poderia estar identificando urn dos meus
problemas, em vez dos seus. Seu relacionamen-
to com os outros membros do grupo se caracte-
rizava por sua insistencia para ve-Ios fora do
grupo. Ele sistematicamente organizava algu-
rna atividade extragrupo com cad a urn dos
membros. Ele era piloto e os levava para voar;
outros, para velejar; outros ainda, para janta-
res generosos. Deu conselhos juridicos para
alguns, se envolveu com uma das mulheres e
(a gota d'agua) convidou minha co-terapeuta,
PSICOTERAPIA DE GRUPO 49
uma residente psiquiatrica, para passar urn tim
de semana esquiando.
Alem disso, ele se negava a examinar 0
seu comportamento 01.1 a discutir esses encon-
tros extragrupos no grupo, embora a prepara-
c;ao pre-grupo (ver Capitulo 12) tenha enfa-
tizado para todos os membros que, quando nao
examinados 01.1 discutidos, esses encontros ge-
ralmente sabotavam a terapia.
Apos uma reuniao em que 0 pressiona-
mos para examinar 0 significado dos comites
para sair, especiaimente 0 convite para esqtiiar
com a co-terapeuta, ele saiu da sessao confuso
e abalado. Em seu caminho para cas a, Ron
inexplicaveimente comec;ou a pensar em Robin
Hood, seu heroi favorito da infancia, algo em
que ele nao pensava ha decadas.
Seguindo seus impulsos, ele foi direta-
mente para a seC;ao infanti! da biblioteca pu-
blica mais proxima, sentou em uma cadeirinha
para crianc;as e leu a historia novamente. Como
urn relampago, 0 significado de seu comporta-
mento se iluminou! Por que a lenda de Robin
Hood sempre 0 havia fascinado e divertido?
Porque Robin Hood salvava as pessoas, especial-
mente as mulheres, de tiranos!
Esse tema havia desempenhado urn forte
papel em sua vida interior, comec;ando com as
disputas edipianas em sua propria familia. Mais
tarde, como urn jovem adulto, ele montou urn
escritorio de advocacia de sucesso e atraiu os
funcionarios de seu patrao para trabalharem
p,ara ele. Ele muitas vezes se sentia atraido por
mulheres ligadas a homens poderosos. Ate
mesmo seus motivos para se casar haviam sido
obscuros: ele nao conseguia distinguir 0 amor
por sua esposa de seu desejo por salva-la de
seu pai tirano.
o primeiro estagio da aprendizagem
interpessoal e a demonstrac;ao patologica. Os
modos caracteristicos de Ronse relacionar com
homens e mulheres se desdobraram de forma
vivida no micro cosmo do grupo. Seu principal
tema interpessoal era combater e derrotar ou-
tros homens. Ele competia abertamente e, par
causa de sua inteligencia e de suas grandes ha-
bilidades verbais, logo buscava 0 papel domi-
nante no grupo. Ele entao comec;ou a mobili-
zar os outros membros na conspiraC;ao final: a
derrocada do terapeuta. Formou alianc;as inti-
50 IRVIN O. YAlOM
mas por meio de encontros fora do grupo e ao
colocar outros membros em divida, oferecen-
do-lhes favores. Depois disso, ele tentou cap-
turar as "minhas mulheres" - primeiramente,
a mulher mais atraente e depois a minha co-
terapeuta.
Nao apenas a patologia interpessoal de
Ron se apresentou no grupo, como as suas con-
seqiiencias adversas e autodestrutivas. Suas
disputas com os homens sabotaram a propria
razao pela qual ele come<;ara a fazer terapia:
obter ajuda. De fato, a disputa competitiva era
tao poderosa que qualquer ajuda que eu Ihe
oferecesse nao era vista como ajuda, mas como
uma derrota, urn sinal de fraqueza.
Alem disso, 0 microcosmo do grupo re-
velou as conseqiiencias de seus atos sobre a
textura de seus relacionamentos com as pes-
soas. Com 0 tempo, os outros membros enten-
deram que Ron nao queria realmente se relacio-
nar com eles. Ele apenas parecia se relacionar
mas, na verdade, os estava usando como uma
forma de se relacionar comigo: 0 homem po-
deroso e temido no grupo. Os outros logo se
sentiram usados, sentiram a ausencia de urn
desejo genuino da parte de Ron de conhece-
los e come<;aram a se distanciar gradualmente
dele. Somente depois que conseguiu entender
e alterar suas maneiras intensas e distorcidas
de se relacionar comigo, Ron foi capaz de se
voltar para os outros membros do grupo e de
se relacionar com eles.
"Malditos homens"
Linda, 46 anos e divorciada tres vezes,
entrou para 0 grupo por ansiedade e graves
perturba<;oes gastrintestinais funcionais. Seu
principal problema interpessoal era 0 seu rela-
cionamento atormentado e autodestrutivo com
o seu atual namorado. De fato, em sua vida,
ela teve uma longa serie de homens (pai, ir-
maos, patroes, amantes e maridos) que haviam
abusado dela ffsica e psicologicamente. Seu
relato do abuso que sofreu, e ainda sofria nas
maos dos homens, era angustiante.
o grupo pouco podia fazer para ajuda-Ia,
alem de aliviar as suas feridas e ouvir empa-
ticamente as suas narrativas de maus-tratos
continuos por seu chefe atual e por seu namo-
rado.Mas urn dia aqonteceu urn incidente inu-
sitado que esdareceu a sua dinamica. Ela me
telefonou uma manha, muito perturbada. Ra-
via tido uma briga ¢xtremamente seria com 0
namorado e estava em panico e pensando em
suiddio. Ela sentia que nao conseguiria espe-
rar ate a proxima reuniao do grupo, que seria
dentro de quatro dias, e pedia para ter uma
sessao individual imediatamente. Embora fos-
se bastante inconveniente, troquei meus com-
promissos da tarde e marquei urn horario para
encontra-Ia. Aproximadamente 30 minutos
antes de nosso horario, ela ligou e deixou urn
recado com minha secretaria de que nao viria.
No proximo encontro do grupo, quando
perguntei 0 que havia acontecido, Linda disse
que havia cancelado a sessao de emergencia
porque estava se sentindo urn pouco melhor a
tarde, e que sabia que eu tinha uma regra de
que somente atenderia urn paciente em emer-
gencia uma vez durante toda a terapia de gru-
po. Por isso, ela achava melhor guardar essa
op<;§.o para urn momento em que pudesse es-
tar mais em crise.
Achei sua resposta desconcertante. Nunca
tive tal.regra, nunca me recusei a atender al-
guem em crise e nenhum dos outros membros
do grupo lembrava de eu ter falado sobre essa
norma. Mas Linda manteve sua posi<;ao, insis-
tindo que havia me ouvido dizer aquilo, e nao
seria dissuadida por minha nega<;ao ou pelo
consenso unanime dos outros membros do gru-
po. Ela tambem nao parecia preocupada com a
inconveniencia que me havia causado. Na dis-
cussao em grupo, ela ficou defensiva e caustica.
Esse incidente, que se desenvolveu no
micro cosmo social do grupo, foi bastante in-
formativo e permitiu que tivessemos uma pers-
pectiva importante sobre a responsabilidade de
Linda com alguns de seus relacionamentos pro-
blematicos com os homens. Ate aqueIe ponto,
o grupo havia baseado-se completamente em
sua visao dos relacionamentos. Os relatos de
Linda eram convincentes e 0 grupo passara a
aceitar a sua visao de si mesma como uma viti-
rna de "todos aqueles malditos homens la fora".
Uma analise do incidente no aqui-e-agora in-
dicou que Linda havia distorcido suas percep-
<;oes de pelo menos urn homem importante em
sua vida: seu terapeuta. Alem disso - e isso e
extremamente importante - ela havia distDrci-
do 0 incidente de maneira bastante previsivel:
ela me sentia muito mais desinteressado, in-
sensivel e autoritario do que eu realmente era.
Era urn novo dado, e urn dado convincen-
te - e se apresentou perante os olhos de todos
os membros. Pela prime ira vez, 0 grupo come-
<;ou a questionar a exatidao dos relatos de Lin-
da sobre seus relacionamentos com os homens.
: Sem duvida, ela falava fieimente de seus senti-
mentos, mas ficou aparente que havia distor<;oes
de percep<;§.o em a<;ao: por causa de suas ex-
pectativas dos homens e de seus relacionamen-
tos conflituosos com eles, ela percebia as atitu-
des deles para com ela de forma distorcida.
Mas ainda ha mais para se aprender com
o microcosmo social. Urn dado importante foi 0
tom da discussao: a defesa, a irrita<;ao, a raiva.
Com 0 tempo, eu tambem me irritei pela ingra-
ta inconveniencia que havia SOfridD, mudando
meu horario para atender Linda. Fiquei ainda
mals irritado com a sua insistencia de que eu
havia prodamado uma regra insensive1, quan-
do eu (e 0 resto do grupo) sabia que nao tinha.
Cai em urn devaneio e me perguntei: "Como
sera conviver com Linda todo 0 tempo, em vez
de apenas uma hora e meia por semana?" Se
houvesse muitos incidentes como esse, eu po-
deria me imaginar ficando bravo, exasperado e
indiferente para com ela. Esse e urn exemplo
particularmente claro do conceito de profecia .
auto-realizavel descrito na pagina 39. Linda
previu que os homens se comporrariam de cer-
ta forma com ela e entao, inconscientemente,
agiu de modo a fazer a sua previsao acontecer.
"omens que nao conseguiam sentir
Allen, urn cientista solteiro de 30 anos,
procurou a terapia por urn unico problema,
nitidamente cielineado: ele queria conseguir se
sentir sexuaimente estimulado por uma mu-
lher. Intrigado com esse dilema, 0 grupo pro-
curou urna resposta. Eles investigaram sua vida,
seus habitos sexuais e fantasias. Finalmente,
perplexos, eles se voltaram para outras ques-
toes do grupo. A medida que as sessoes conti-
nuavam, Allen parecia impassivel e insensivel
PSICOTERAPIA DE GRUPO 51
para com a sua dor e ados outros. Uma vez,
por exemplo, uma mulher solteira muito per-
turbada anunciou aos prantos que estava gra-
vida e que planejava fazer urn aborto. Durante
a narrativa, ela tambem contou que tinha tido
uma experiencia ruirn com heroina. Allen, apa-
rentemente insensivel as suas lagrimas, conti-
nuou a fazer perguntas intelectuais sabre os
efeitos do "po de anjo" e ficou estarrecido quan-
do 0 grupo comentou a sua insensibilidade.
Tantos incidentes semelhantes ocorreram
que 0 grupo ja nao esperava emo<;oes dele.
Quando foi questionado diretamente sobre seus
sentimentos, ele respondeu como se tivesse sido
abordado em sanscrito ou em aramaico. Apos
alguns meses, 0 grupo formulou uma resposta
para a questao tao repetida: "Por que nao con-
sigo ter sentimentos sexuais para com uma
mulher?". Eles pediram que ele na verdade con-
siderasse por que nao tinha sentimentos para
com qualquer pessoa.
As mudam;as em seu comportamento
ocorreram muito gradualmente. Ele aprendeu
a localizar e a identificar sentimentos, obser-
vando sinais autossomicos: rubor facial, pres-
sao gastrica, suor nas maos. Em uma ocasiao,
uma mulher amea<;ou deixar 0 grupo porque
estava exasperada tentando se relacionar com
urn "maid ito robo psicologicamente surdo e
mudo". Allen manteve-se impassivel, respon-
dendo apenas: "Nao yOU descer ate 0 seu nivel".
Entretanto, na semana seguinte, quando
)he questionaram sabre as sentimentos que
havia levado do grupo, ele disse que, apos a
reuniao, havia ida para casa e chorado como
urn bebe. (Quando deixou 0 grupo urn ana
depois e olhou para tras, ele identificou esse
incidente como urn ponto cdtico de mudan-
<;a.) Nos meses seguintes, ele sentiu-se mais
capaz de sentir e expressar seus sentimentos
para as outros membros. Seu papel no grupo
mudou, passando do mascote tolerado para 0
companheiro aceito, e sua auto-estima aumen-
tou de acordo com sua consciencia de que os
membros 0 respeitavam mais.
Em outro grupo, Ed, urn engenheiro de
47 anos, procurou a terapia por causa de sua
solidao e de sua incapacidade de encontrar uma
companheira adequada. 0 padrao de relacio-
namentos socia is de Ed era improdutivo: ele
52 IRVIN 0. YALOM
nunca teve amigos Intimos e somente tinha
relacionamentos sexualizados, insatisfat6rios
e f<ipidos com mulheres que invariavelmente
o rejeitavam. Suas habilidades sociais e seu sen-
so de humor faziam que fosse bastante valori-
zado pelos outros membros nos primeiros es-
tagios do grupo.
A medida que 0 tempo passou e os mem-
bros aprofundaram seus relacionamentos, Ed
foi deixado para tras: em seguida, sua experien-
cia no grupo se parecia com a sua vida social
fora do grupo. 0 aspecto mais 6bvio do seu
comportamento era a sua abordagem limitada
e of ens iva para com as mulheres. Seu olhar se
dirigia principalmente para seus seios ou sua
braguilha. Sua aten<;:ao era voyeuristicamente
voltada para suas vidas sexuais. Seus comen-
tarios geralmente eram de carater simplista e
sexual. Ed considerava os homens do grupo
competidores indesejaveis. Por meses, ele nao
deu infcio a contatos com nenhum homem.
Com tao pouca apreciac;ao por apegos, ele
considerava as pessoas substituiveis. Por exem-
plo, quando uma mulher descreveu sua fanta-
sia obsessiva de que seu namorado, que sem-
pre se atrasava, morresse em urn acidente au-
tomobilistico, a resposta de Ed foi garantir-Ihe
que ela era jovem, charmosa e atraente e que
nao teria dificuldade para encontrar outro ho-
mem pelo menos do mesmo nivel. Outro exem-
plo: Ed sempre ficava confuso quando outros
membros pareciam se incomodar coma ausen-
cia temporaria de urn dos co-terapeutas ou,
mais tarde, com a iminente saida permanente
de urn dos terapeutas. Sem dlivida, ele suge-
ria, mesmo entre os estudantes, que haveria
urn terapeuta de igual competencia. (De fato,
ele havia visto uma psicologa de seios grandes
no corredor que particularmente gostaria de
ter como terapeuta.)
Ed colocou tudo de forma mais sucinta
quando descreveu 0 seu RDM (requisito diario
mInimo) de afeto. Com 0 tempo, ficou claro
para 0 grupo que a identidade do fornecedor
do RDM era incidental para Ed - muito menos
relevante do que a garantia de que viria.
Assim passou a primeira fase do processo
de terapia de grupo: a demonstrac;ao da pato-
logia interpessoal. Ed nao se relacionava com
os outros tanto quanto os usava como equipa-
mentos, como objetos para suprir suas necessi-
dades. Nao demorou para que ele recriasse no
grupo 0 seu universo interpessoal habitual- e
solitario -, desconectando-se de todos. Os ho-
mens retribuiam a sua total indiferenc;a e as
mulheres, em geral, nao se sentiam inclinadas
a suprir seu RDM, enquanto as mulheres que
ele desejava especialmente se sentiram repe-
lidas por suas atenc;oes unicamente sexuais. 0
curso subseqiiente da terapia de grupo, de Ed
foi bastante informado por essa demonstrac;ao
de patologia interpessoal dentro do grupo, e
sua terapia teve gran des beneffcios, concen-
trando-se exaustivamente em seus relaciona-
mentos com os outros membros do grupo.
o MICROCOSMO SOCIAL: UMA INTERA~AO DlNAMICA
Existe uma rica e sutil interac;ao dinami-
ca entre 0 membro do grupo e 0 ambiente do
grupo. Os membros moldam 0 seu proprio
microcosmo, que por sua vez evoca compor-
tamentos defensivos caracterfsticos de cada
urn. Quanto mais esponcinea a interac;ao, mais
rapido e autentico sera 0 desenvolvimento do
microcosmo social e isso aumenta a probabi-
lidade de que as questoes problematicas cen-
trais de todos os membros sejam ev~cadas e
abordadas.
Por exemplo, Nancy, uma jovem com
transtomo de personalidade borderline, entrou
para 0 grupo por causa de uma depressao
debilitante, urn estado subjetivo de des integra-
c;ao e uma tendencia a desenvolver panico
quando ficava so. Todos os sintomas de Nancy
intensificaram-se pela ameac;a de dissoluc;ao da
pequena comunidade onde vivia. Ela sempre
havia sido sensivel ao rompimento de unida-
des nucleares. Quando crianc;a, sentia que sua
tarefa era manter sua familia volatil unida, e
agora, adulta, alimentava a fantasia de que,
quando se casasse, as divers as facc;oes existen-
tes entre seus familiares se reconciliariam de
forma permanente.
De que maneira a dinamica de Nancy foi
evocada e trabalhada no microcosmo social do
grupo? Lentamente! Levou tempo para que
essas preocupac;oes se manifestassem. No prin-
cipio, as vezes durante semanas, Nancy traba-
lhava confortavelmente em areas de conflitos
irnportantes, mas menores. Mais adiante, pe-
quenos eventos no grupo atic;aram seus pro-
blemas latentes, em uma conflagrac;ao ansio-
sa. Por exemplo, a ausencia de algum membro
a deixava inquieta. De fato, bern mais adiante,
em uma entrevista de revisao ao terminG da
terapia, Nancy comentou que ficava tao ator-
doada com a ausencia de qualquer membro que
era incapaz de participar durante a sessao.
Mesmo 0 fato de alguem se atrasar ja a
perturbava, e ela repreendia quem nao era
pontuaL Se urn membro pensasse em deixar 0
grupo, Nancy tlcava tao preocupada e 0 pressio-
nava muito para continuar, independentemente
do interesse da pessoa. Quando os membros
faziam contatos fora do grupo, ela ficava ansio-
sa, pela ameac;a a integridade do grupo. As
vezes, os membros sentiam-se repreendidos por
ela, afastando-se e expressando suas objec;oes
aos telefonemas que e1a fazia para comentar
sua ausencia ou atraso. Quando insistiam para
que ela relaxasse em suas exigencias, a sua
ansiedade crescia, .fazendo com que ela aumen-
tasse seus esforc;os protetores.
Embora Nancy desejasseconforto e segu-
ranc;a no grupo, foi 0 proprio surgimento des-
sas vicissitudes perturbadoras,' de fato, que
possibilitou que suas principais areas de con-
flitos fossem expostas e entrassem no fluxo do
trabalho terapeutico.
o grupo pequeno nao apenas representa
urn microcosmo social onde 0 comportamento
mal-adaptativo dos membros e demonstrado
claramente, como tambem se torna urn labo-
ratorio onde se demonstram, muitas vezes com
grande clareza, 0 significado e a dinamica do
comportamento. 0 terapeuta nao enxerga ape-
nas 0 comportamento, mas os eventos que 0
desencadeiam e, as vezes, de maneira mais
importante, as respostas antecipadas e reais dos
outros.
A interac;ao do grupo e tao rica que 0 ci-
clo de transac;oes mal-adaptativas de cada
membro se repete muitas vezes, e os membros
tern diversas oportunidades para reflexao e
entendimento. Contudo, para que as crenc;as
patogenicas sejam alteradas, os membros do
grupo devem receber feedback claro e utiliza-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 53
vel. Se 0 estilo do feedback for estressante e
provocativo demais, os membros nao conse-
guirao processar aquilo que os outros tiverem
para lhes oferecer. As vezes, 0 feedback pode
ser prematuro - ou seja, fornecido antes que
exista confianc;a suficiente para amaciar a sua
crftica. Em outros momentos, 0 feedback pode
ser experimentado como uma desvalorizac;ao,
coac;ao ou agressao.44 Como podemos evitar 0
feedback inlitil ou prejudicial? Os membros sao
menos provaveis de se atacarem e culparem
quando olham alem do comportamento super-
ficial e se tomam sensiveis as experiencias in-
ternas e intenc;oes subjacentes dos outros. Y
Assim, a empatia e urn elemento crftico no su-
cesso do grupo, mas sentir empatia, particu-
larrnente com pacientes provocativos ou agres-
sivos, pode ser dificil para os membros do gru-
po e mesmo para os terapeutas.Y
As recentes contribuic;oes do modelo
intersubjetivo sao relevantes e proveitosas neste
ponto.45 Esse modelo coloca aos membros e
terapeutas questoes como: "Qual a minha im-
plicac;ao naquilo· que interpreto como a sua
provocac;ao? Qual e a minha parte nela?" Em
outras palavras, os membros do grupo e 0
terapeuta se afetam continuamente. Seus rela-
cionamentos, seus significados, padroes e na-
tureza nao sao fixos ou ordenados por influen-
cias extemas, mas construfdos conjuntamen-
teo Uma visao tradicional do comportamento
dos membros enxerga a distorc;ao com a qual
el~s relatam os eventos - sejam do passado ou
da interac;ao do grupo - como criac;ao e res-
ponsabilidade unicas daquela pessoa. A pers-
pectiva intersubjetiva reconhece as contribui-
c;oes do lfder e dos outros membros para a ex-
periencia de cada urn no aqui-e-agora - bern
como para a textura de toda a sua experiencia
no grupo.
Considere 0. paciente que se atrasa repe-
tidamente para a reuniiio do grupo. 1sso sem-
pre e urn evento irritante, e os membros do
grupo inevitavelmente expressam a sua irrita-
c;ao. Contudo, 0 terapeuta tambem deve incen-
tivar 0 grupo a explorar 0 significado do com-
portamento daquele paciente especffico. Che-
gar atrasado pode significar: "Nao me importo
com 0 grupo", mas tambem pode ter outros
significados interpessoais mais complexos:
I
54 IRVIN D. YALOM
"Nada acontece sem mim, entao, por que devo
me apressar?" ou "aposto que ninguem tera
notado a minha ausencia - eles nao parecem
me notar quando estou la" ou "essas regras sao
para os outros, e nao para mim".
o significado subjacente do comporta-
mento do individuo e 0 impacto desse com-
portamento nos outros deve ser revelado e pro-
cess ado para que os membros cheguem a urn
entendimento empatico. A capacidade empa-
tica e urn componente fundamental da inteli-
gencia emocional46 e facilita a transferencia de
aprendizagem do grupo de terapia para 0 mun-
do mais amplo do paciente. Sem urn sentido
do mundo interne dos outros, os relacionamen-
tos sao confusos, frustrantes e repetitivos, a
medida que alistamos os outros de forma ne-
gligentecomo atores com papeis predetermi-
nados em nossas proprias historias, sem ligar
para suas motiva<;6es ou aspira<;6es reais.
Leonard, por exemplo, entrou para 0 gru-
po com urn grande problema de procrastina<;ao.
Segundo ele, a procrastina<;ao naci era apenas
o problema, mas uma explica<;ao. Ela explica-
va seus fracassos, tanto profissional quanta
socialmente. Ela explicava 0 seu des animo,
depressao e aJcoolismo. E, ainda assim, era uma
explica<;ao que impedia urn insight significati-
vo e outras explica<;6es mais precisas.
No grupo, aprendemos bern e muitas ve-
zes nos irritamos ou frustramos com a
procrastina<;ao de Leonard. Ela servia como 0
seu modo supremo de resistencia a terapia,
quando toda a resistencia fracassava. Apos os
membros trabalharem muito com Leonard, e
quando parecia que uma parte de seu carater
neurotico estava para ser desenraizado, ele
encontrou maneiras de retardar 0 trabalho do
grupo. "Nao quero ser incomodado pelo grupo
hoje", ele dizia, ou "meu novo emprego e vai
ou racha para mim", "estou pendurado pelas
un has", "me da urn tempo - nao sacode 0 bar-
co", "eu estava sobrio havia tres meses, mas 0
ultimo encontro me fez parar no bar no cami-
nho para casa". Ai; varia<;6es eram muitas, mas
o tema era consistente.
Urn dia, Leonard anunciou urn grande
avan<;o, para 0 qual tinha trabalhado duro: ele
havia pedido demissao e conseguido uma vaga
como professor. Faltava apenas urn unico pas-
so: obter urn certificado de professor; preen-
chendo urn formuJario que exigiria aproxima-
damente duas horas de trabalho.
Bomente duas horas, mas ele nao conse-
guia faze-lo! Ele protelou ate que 0 tempo es-
tava praticamente esgotado e, com apenas urn
dia faltando, informou 0 grupo sobre 0 prazo e
lamentou a crueldade de seu demonic pessoal,
a procrastina<;iio. Todos no grupo, incluindo 0
terapeuta, tiveram urn forte desejo de colocar
Leonard em uma cadeira, possivelmente ate no
colo, colocar uma caneta entre seus dedos e
conduzir a sua mao pelo formulario. Uma pa-
ciente, a mais maternal do grupo, fez exata-
mente isso: ela 0 levou para casa, alimentou-o
e guiou-o atraves da ficha.
Quando come<;amos a revisar 0 que ha-
via ocorrido, pudemos ver a sua procrastina<;ao
pelo que era: urn desejo anacronico e lamentoso
por uma mae. Muitas coisas se encaixaram,
incluindo a dinamica por tras das depress6es
(que tambem eram apelos desesperados por
amor) , 0 alcoolismo e a compulsao alimentar
de Leonard.
A ideia do microcosmo social e, creio eu,
suficientemente clara: se 0 grupo for conduzido
de modo que os membros possam se comportar
de maneira desarmada e desinibida, eles irao,
de forma vlvida, recriar e demanstrar a sua pa-
talogia no grupo. Ai;sim, nesse drama vivo do
encontro do grupo, 0 observador treinado tern
uma oportunidade unica de entender a dina-
mica do comportamento de cada paciente.
RECONHECIMENTO DE PADROES
COMPORTAMENTAIS NO MICROCOSMO SOCIAL
Para que os terapeutas consigam usar 0
micro cosmo social de forma terapeutica, eles
devem primeiramente identificar os padroes
interpessoais mal-adaptativos recorrentes dos
membros do grupo. No incidente que envol-
veu Leonard, a pista vital para 0 terapeuta foi
a resposta emocional dos membros e lfderes
ao seu comportamento. Essas respostas emo-
cionais sao dados vaIidos e indispensaveis, e
nao devem ser ignoradas ou subestimadas. 0
terapeuta ou outros membros do grupo podem
sentir raiva para com urn membro, ou ainda se
sentir explorados, usados, coagidos, intimida-
dos, aborrecidos, tristes, ou qualquer uma das
infinitas maneiras que uma pessoa pode se sen-
tir para com outra.
Esses sentimentos representam dados -
uma pequena parte da verdade sobre a outra
pessoa - e devem ser levados a serio pelo
terapeuta. 0 fato de os sentimentos produzi-
dos em outras pessoas discordarem muito dos
sentimentos que 0 paciente gostaria de produ-
zir nos outros, ou de os sentimentos incitados
serem desejaveis, mas inibirem 0 crescimento
(como no caso de Leonard), e uma parte crucial
do problema do paciente. Claro que existem
muitas complica<;6es inerentes nessa tese. Al-
guns criticos diriam que uma resposta emocio-
nal forte muitas vezes se deve a uma patologia
do individuo que responde, e nao do sujeito.
Por exemplo, se urn homem autoconfiante e
assertivo evoca fortes sentimentos de medo,
inveja ou ressentimento em outro homem, po-
demos concluir que a resposta reflete a patolo-
gia do primeiro. Ha uma vantagem distinta no
formato do grupo de terapia: como 0 grupo
contem diversos observadores, e mais faci! di-
ferenciar respostas idiossincraticas e subjetivas
demais das mais objetivas.
A resposta emocional de qualquer mem-
bro individual nao e suficiente, e os terapeutas
precisam de evidencias confirmatorias. Eles
procuram padr6es repetitivos ao longo do tem-
po e para respostas multiplas - ou seja, as rea-
<;6es de diversos outros membros (chamadas
de valida<;ao consensual) ·ao individuo. Essen-
cialmente, os terapeutas baseiam-se nas eviden-
cias mais confiaveis de todas: suas proprias
respostas emocionais. Eles devem prestar aten-
<;ao em suas proprias rea<;6esao paciente, uma
habilidade essencial em todos os modelos
relacionais. Se, como afirma Kiesler, somos "fis-
gados" pelo comportamento interpessoal de urn
membro, nossas proprias rea<;6es sao nossas
melhores informa<;oes interpessoais sobre 0
impacto do paciente nos outroS.47
Porem, somente existe valor terapeutico
se conseguirmos nos "soltar" - ou seja, resistir-
mos a demonstrar 0 comportamento que 0 pa-
ciente geralmente evoca de outras pessoas, que
apenas refor<;a os ciclos interpessoais usuais.
Esse processo de reter ou recuperar nossa ob-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 55
jetividade nos proporciona urn feedback signi-
ficativo sobre a transa<;ao interpessoal. Segun-
do essa perspectiva, os pensamentos, fantasias
e comportamentos que cada membro evoca no
terapeuta devem ser tratados como ouro. Nos-
sas rea<;6es sao dados inestimaveis, e nao fra-
cassos. E impossivel nao sermos fisgados por
nossos pacientes, a menos que permane<;amos
tao distantes da experiencia dos pacientes que
nem somos tocados por ela - urn distancia-
mento impessoal que reduz a efetividade tera-
peutica.
Urn critico poderia perguntar: "Como po-
demos ter certeza de que as rea<;6es dos
terapeutas sao 'objetivas'?" A co-terapia respon-
de essa questao. Os co-terapeutas sao expos-
tos juntos a mesma situa<;ao clinica. Uma com-
para<;ao de suas rea<;6es permite uma discri-
mina<;ao mais clara entre suas proprias respos- .
tas subjetivas e avalia<;oes objetivas das inte-
ra<;6es. Alem disso, os terapeutas de grupo po-
dem ter urn ponto de vista calma e privilegiado,
pois, ao contrario dos terapeutas individuais,
eles testemunham urn numero incontavel de
dramas interpessoais mal-adaptativos que se.
desdobram sem que eles estejam no centro de
todas essas intera<;oes.
Ainda assim os terapeutas possuem seus
pontos cegos, suas proprias areas de conflitos
e distor<;6es interpessoais. Como podem ter
certeza de que elas nao estao turvando as suas
observa<;6es no decorrer da terapia? Aborda-
,rei essa questao de forma mais detalhada nos
capitulos sobre forma<;ao e sobre as tarefas e
tecnicas do terapeuta, mas, por enquanto, se
lembre que esse argumento e uma forte razao
para os terapeutas se conhecerem 0 maximo
possive!. Dessa forma, 0 terapeuta de grupo
neofito deve embarcar em uma viagem de auto-
explora<;ao para toda a sua vida, uma jornada
que envolve a terapia individual e de grupo.
Nada disso implica que os terapeutas nao
devam levar as respostas e 0 feedback de todos
os pacientes a serio, incluindo os de pacientes
muito perturbados. Mesmo as respostas mais
exageradas e irracionais contem urn pouco de
realidade. Alem disso, 0 paciente perturb ado
pode ser urna fonte valiosa e precisa de feedback
em outros momentos: nenhum individuo e
conflituoso demais em todas as areas. E e cla-
56 IRVIND. Y ALOM
ro que uma resposta idiossincratica pode con-
ter muitas informa<;6es sobre a pessoa que a
expressa.
Esta ultima questao constitui urn axioma
basico para 0 terapeuta de gropo. Com freqiien-
cia, os membros de urn gropo respondem de
maneira bastante diferente ao mesmo estimu-
10. Pode ocorrer urn incidente no grupo que
cada urn dos sete ou oito membros perceba,
observe e interprete de urn modo diferente. Um
estfmulo comum e oito respostas diferentes -
como pode ser? Parece haver apenas uma ex-
plica<;ao plausfvel: existem oito mundos interio-
res diferentes. Esplendido! Afinal, 0 objetivo
da terapia e ajudar os pacientes a entenderem
e alterarem seus mundos interiores. Assim, a
analise dessas respostas diferentes e urn cami-
nho real - uma via regia - ao mundo interior
do membro do grupo.
Por exemplo, considere a prime ira ilus-
tra<;ao apresentada neste capftulo, 0 grupo de
Valerie, uma mulher controladora e espalhafa-
tosa. Segundo seu mundo interior, cada urn dos
membros do grupo respondia a ela de mane ira
diferente, variando da condescendencia obse-
quiosa a luxuria e gratidao para a ruria impo-
tente ou confronto totaL Ou considere certos
aspectos estruturais do encontro de grupo: os
membros tern respostas notavelmente diferen-
tes ao compartilharem a aten<;ao do grupo ou
do terapeuta, ao se revelarem, ao pedirem aju-
da ou ao ajudarem os outros. Em nenhum ou-
tro lugar, essas diferen<;as sao tao claras quan-
to na transferencia - as respostas dos mem-
bros ao lfder: diferentes membros experimen-
tado 0 mesmo terapeuta como afetuoso, frio,
cdtico, aprobativo, competente ou desajeita-
do. Essa variedade de perspectivas pode ser
opressiva e ate destrutiva para os terapeutas,
particularmente para os iniciantes.
o MICROCOSMO SOCIAL - SERA REAL?
Muitas vezes, ou<;o membros de grupos
desafiarem a veracidade do microcosmo social.
Os membros podem alegar que seu comporta-
mento nesse grupo espedfico e atfpico, e que
nao representa 0 seu comportamento normal.
Ou que e urn grupo de indivfduos com proble-
mas que tern dificuldade para perceM-Ios de
forma precisa. Ou mesmo que a terapia de gru-
po nao e real, que e uma experiencia fechada e
artificial que distorce, em vez de refietir, 0 com-
portamento real. Para 0 terapeuta neofito, es-
ses argumentos parecem formidaveis, ate per-
suasivos, mas de fato eles distorcem a verdade.
De certa forma, 0 grupo e artificial: os membros
nao escolhem seus amigos no grupo, nao sao
centrais uns para os outros, nao convivem, tra-
balham ou fazem refei<;oes juntos. Embora se
relacionem de maneira pessoal, todo 0 seu rela-
cionamento consiste de encontros em urn con-
sultorio profissional uma ou duas vezes por se-
mana, e os relacionamentos sao passageiros -
o final do relacionamento e embutido no con-
trato social firmado ja no come<;o.
Ao enfrentar esses argumentos, muitas
vezes penso em Earl e Marguerite, membros
de urn grupo que dirigi ha muito tempo. Earl
ja estava no grupo ha quatro meses quando
Marguerite foi apresentada. Ambos coraram ao
se verem, pois, por acaso, urn mes antes, ha-
viam feito urn passeio do Sierra Club juntos
por uma noite e tide "intimidades". Nenhum
dos dois queria ficar no grupo com 0 outro.
Para Earl, Marguerite era uma garota tola e
vazia, urn "rabo sem cabe<;a", como ele colo-
cou mais adiante para 0 grupo. Para Margue-
rite, ele era uma pessoa sem importancia e te-
diosa, cujo penis ela havia usado como forma
de retalia<;ao contra 0 seu marido.
Eles trabalharamjuntos no grupo uma vez
por semana, por quase urn ano. Durante esse
tempo, passaram a se conhecer intimamente,
no sentido mais integral da palavra: comparti-
Iharam seus sentimentos mats profundos, ti-
veram batalhas ardentes e crueis, apoiaram-se
em depressoes suicidas e, em mais de uma oca-
siao, choraram pelo outro. Qual era 0 mundo
real e qual era 0 artificial?
Urn membro do grupo disse: "Por muito
tempo, eu acreditei que 0 grupo era urn lugar
natural para experiencias artificiais. So mais
tarde entendi 0 oposto - e urn lugar artificial
para experiencias naturais".48 Uma das coisas
que torna 0 grupo de terapia real e que ele eli-
mina os jogos socia is, sexuais e de status. Os
membros passam por experiencias de vida
cruciais juntos, derrubam juntos fachadas que
distorcem a realidade e tentam ser honestos
uns com os outros. Quantas vezes ouvi urn
membro de algum grupo dizer: "Esta foi a
primeira vez que contei isso a qualquer pes-
soa". Os membros do grupo nao sao estranhos.
Pelo contrario, eles se conhecem profunda e
completamente. Sim, e verdade que os mem-
bros passam apenas uma pequena fra<;ao de
suas vidas juntos, mas a realidade psicologica
nao equivale a realidade fisica. Do ponto de
vista psicologico, os membros do grupo pas-
sam infinitamente mais tempo juntos do que
no encontro ou nos encontros semanais em que
ocupam 0 mesmo consultorio.
VlsAo GERAL
Retornemos ao principal objetivo deste
capftulo: definir e descrever 0 fator terapeutico
daaprendizagem inteipessoaL Todas as pre-
missas necessarias foram apresentadas e des-
critas nesta discussao sobre:
L A importancia de relacionamentos inter-
pessoais. ,
2. A experiencia emocional corretiva.
3. 0 gropo como microcosmo'social.
Discuti esses componentes separadamen-
teo Agora, se os recombinarmos em uma se-
qiiencia logica, 0 mecanisme da aprendizagem
interpessoal como fator terapeutico torna-se
evidente:
I. A sintomatologia psicologica emana de re-
lacionamentos interpessoais perturbados.
A tarefa da psicoterapia e ajudar 0 paciente
a aprender como desenvolver relaciona-
mentos interpessoais sem distor<;oes e gra-
tificantes.
II. 0 grupo de psicoterapia, desde que seu
desenvolvimento nao seja atrapalhado por
restri<;oes estruturais graves, evolui em urn
microcosmo social, uma representa<;ao em
miniatura do universo social de cad a
membro.
III. Os membros do grupo, por meio do
feedback dos outros, da auto-reflexao e da
auto-observa<;ao, conscientizam-se de as-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 57
pectos importantes do seu comportamen-
to interpessoal: seus pontos fortes, suas li-
mita<;oes, suas distor<;oes interpessoais e
o comportamento mal-adaptativo que evo-
ca respostas indesejadas de outras pessoas.
o paciente, que muitas vezes ja tera tide
uma serie de relacionamentos desastrosos
e sofrido rejei<;ao, nao aprendeu com es-
sas experiencias, pois os outros, sentindo
a inseguran<;a geral da pessoa e respei-
tando as regras da etiqueta que govemam
as intera<;oes sociais normais, nao comu-
nicaram as razoes para a rejei<;ao. Portan-
to, e isso e importante, 0 paciente nunca
aprendeu a discriminar aspectos objetaveis
de seu comportamento e de sua auto-irna-
gem como uma pessoa totalmente aceita-
vel. 0 grupo de terapia, com seu estfmulo
ao feedback preciso, possibilita tal discri-
mina<;ao.
Iv. No grupo de terapia, h8. uma seqiiencia
interpessoal regular:
A. Demonstra<;ao patologica: 0 membro
demonstra seu comportamento.
B. Por meio do feedback e da auto-obser-
va<;ao, os pacientes:
L tomam-se melhores testemunhas
de seu proprio comportamento;
2. compreendem 0 impacto desse
comportamento sobre:
a) os sentimentos dos outros;
b) as opinioes dos outros sobre
.. eles;
c) as opinioes que tern de si mes-
mos.
V. 0 paciente que esta totalmente ciente des-
sa seqiiencia tambem se conscientiza da
responsabilidade pessoal por ela: cada in-
divfduo e autor de seu proprio mundo
interpessoal.
VI. Os indivfduos que aceitain a responsabili-
dade pessoal pela cria<;ao de seu mundo
interpessoal podem entao come<;ar a lidar
com 0 corolario dessa descoberta: se cria-
ram seu mundo social-relacional, e1es tern
o poder para muda-Io.
VII. A profundidade e 0 significado desses en-
tendimentos sao diretamente proporcio-
nais a quantidade de afeto associado a se-
qiiencia. Quanto mais real e mais emocio-
I,
I
!
" f
I:,
I:
58 IRVIN D, YALOM
nal uma experiencia for, mais potente serao seu impacto. Quanto mais distante e
intelectualizada a experiencia, menos efe-
tiva a aprendizagem.
VIII. Como resultado dessa seqiiencia de tera-
pia de grupo, 0 paciente muda gradual-
mente, arriscando novas maneiras de es-
tar com os outros. A probabilidade de que
haja mudanr;a e fuw;ao:
A. da motivar;ao do paciente para mudar
e da quantidadede desconforto e de
insatisfar;ao pessoais com os modos de
comportamento atuais;
B. do envolvimento do paciente no gru-
po - ou seja, de quanta importfmcia 0
paciente da ao grupo;
C. da rigidez da estrutura de carater e do
estilo interpessoal do paciente.
IX. Quando ocorre a mudanr;a, ainda que mo-
desta, 0 paciente entende que a calamida-
de temida, que impedia esse novo com-
portamento, era irracional e pode ser ne-
gada. A mudanr;a no comportamento nao
resultou em calamidades como a morte, a
destruir;ao, 0 abandono, 0 escarnio ou a
subjugar;ao.
X. 0 conceito de microcosmo social e bidire-
cional: 0 comportamento exterior nao ape-
nas se manifesta no grupo, mas 0 compor-
tamento aprendido no grupo acaba sendo
levado ao ambiente social do paciente,
surgindo alterar;oes no comportamento
interpessoal do paciente fora do grupo.
XI. Gradualmente, coloca-se em movimento
urn espiral adaptativo, primeiramente den-
tro do-grupo e, depois, fora dele. A medi-
da que as distorr;oes interpessoais do pa-
ciente diminuem, sua capacidade de for-
mar relacionamentos gratificantes aumen-
tao A ansiedade social diminui, a auto-es-
tima aumenta e diminui tambem a neces-
sidade de auto-ocultar;ao. A mudanr;a
comportamental e urn componente essen-
cial da terapia de grupo efetiva, pois mes-
mo pequenas mudanr;as evocam respos-
tas positivas dos outros, que demonstram
mais aprovar;ao e aceitar;ao para com 0
paciente, 0 que aumenta sua auto-estima
e estimula outras mudanr;as.49 Finalmen-
te, 0 espiral adaptativo alcanr;a tal auto-
nomia e eficacia que a terapia profissio-
nal nao se faz mais necessaria.
Cada urn dos passos nessa seqiiencia exi-
ge uma facilitar;ao diferente e especifica por
parte do terapeuta. Em diversos momentos, por
exemplo, 0 terapeuta deve oferecer feedback
especifico, estimular a auto-observar;ao, escla-
recer 0 conceito de responsabilidade, incitar 0
paciente a correr riscos, negar fantasias d~ con-
seqiiencias calamitosas, reforr;ar a transferen-
cia de aprendizagem e assim por diante. Cada
uma dessas tarefas e tecnicas sera discutida com
maior detalhe nos Capftulos 5 e 6.
TRANSFERENCIA E INSIGHT
Antes de concluir a investigar;ao da apren-
dizagem interpessoal como mediadora da mu-
danr;a, quero chamar atenr;ao para dois con-
ceitos que merecem ser discutidos. A transfe-
rencia e 0 insight tambem desempenham urn
papel central na maioria das formular;oes do
processo terapeutico para que sejam vistos ape-
nas superficialmente. Baseio-me amplamente
nesses conceitos, em meu trabalho terapeutico,
e nao pre tendo menospreza-los. 0 que fiz nes-
te capitulo e encaixa-los no fator da aprendi-
zagem interpessoal.
A transferencia e uma forma especifica de
distorr;ao da aprendizagem perceptual. Na
psicoterapia individual, 0 reconhecimento e a
resolur;ao dessa distorr;ao sao de importancia
fundamental. Na terapia de grupo, como ja vi-
mos, tambem e importante resolver distorr;oes
interpessoais. A resolur;ao da transferencia -
ou seja, a distorr;ao no relacionamento com 0
terapeuta - agora se torna apenas mais uma
em uma serie de distorr;oes a ser examinada
no processo terapeutico.
Para muitos pacientes, talvez a maioria, esse
e 0 relacionamento mais importante a ser resol-
vido, pois 0 terapeuta e a personificar;ao de ima-
gens paternas e matemas, de professores, de au-
toridades, de tradir;oes estabelecidas, de valores
incorporados. Contudo, a maioria dos pacientes
tambem tern conflitos em outros dominios
interpessoais: por exemplo, poder, assertividade,
raiva, competitividade com amigos, intimidade,
sexualidade, generosidade, cobir;a, inveja.
Uma quantidade consideravel de pesqui-
sas enfatiza a importancia que muitos mem-
bros de grupos colocam em resolver relaciona-
mentos com outros membros, ao inves de com
o !ider.so Para dar urn exemplo, uma equipe de
pesquisadores solicitou que os membros, em
urn acompanhamento de 12 meses para urn
grupo de crise de curta durar;ao, indicassem a
fonte da ajuda que haviam recebido. Quarenta
e dois por cento sentiram que os membros do
grupo, e naG 0 terapeuta, haviam sido uteis, e
28% responderam que ambos haviam sido
uteis. Somente 5% disseram que 0 terapeuta
foi a principal contribuir;ao para a mudanr;a.S1
Esse COrplLS de pesquisas tern implicar;oes
importantes para a tecnica do terapeuta de
grupo: em vez de se concentrarem exclusiva-
mente no relacionamento entre 0 paciente e 0
.terapeuta, os terapeutas devem facilitar 0 de-
senvolvimento e a resolur;ao de interar;oes en-
tre os membros; Falarei mais sobre essas ques-
toes nos Capftulos 6 e 7.
o insight desafia uma descrir;ao precisa.
Ele nao e urn conceito unitario. Prefiro emprega-
10 no sentido geral de "enxergar para dentro" -
urn processo que abrange esclarecimento, ex-
plicar;ao e desrepressao. 0 insight ocorre quan-
do 0 individuo descobre algo importante sobre
si mesmo - sobre seu comportamento, seu sis-
tema motivacional ou seu inconsciente.
No processo de terapia de grupo, os pa-
cientes podem obter insight em pelo menos
quatro niveis diferentes:
1. Os pacientes podem adquirir uma pers-
pectiva mais objetiva de seu quadro inter-
pessoal. Pela primeira vez, eles podem en-
tender como outras pessoas os enxergam:
como tensos, afetuosos, indiferentes, se-
dutores, amargos, arrogantes, pomposos,
obsequiosos e assim por diante.
2. Os pacientes podem adquirir urn entendi-
mento de seus padroes de comportamen-
to interacionais mais complexos. Urn vas-
to numero de padroes pode ficar claro para
eles: por exemp!o, que exploram os ou-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 59
tros, buscam admirar;ao constante, sedu-
zem e depois rejeitam ou se retraem, com-
petem de forma inescrupulosa, imploram
por amor, ou se relacionam apenas com 0
terapeuta ou com outros membros de de-
terrninado sexo.
3. 0 terceiro myel pode ser chamado insight
motivacional. Os pacientes podem enten-
der por que fazem 0 que fazem com as ou-
tras pessoas. Uma forma comum que esse
tipo de insight assume e a aprendizagem
de que 0 individuo se comporta de de-
terrninadas maneiras por causa da crenr;a
de que um comportamento diferente cau-
saria alguma catastrofe: ele pode ser hu-
milhado, ridicularizado, destrufdo ou aban-
donado. Pacientes indiferentes e distantes,
por exemplo, podem compreender que evi-
tam a proximidade por medo de serem di-
lufdos e se perderem. Pacientes com-
petitivos, vingativos e controladores podem
entender que temem seus desejos profun-
dos e insaciaveis por carinho, e individuos
timidos e obsequiosos podem temer a erup-
r;ao de sua raiva reprimida e destrutiva.
4. 0 quarto myel de insight, 0 insight geneti-
co, visa a <uudar os pacientes a entender
como chegaram a ficar assirn como sao.
Por intermedio de uma investigar;ao do
impacto das primeiras experiencias fami-
liares e ambientais, 0 paciente entende a
genese dos pad roes atuais de comporta-
mento. 0 arcabour;o te6rico e a linguagem
em que a explicar;ao genetica e expressa-
da dependem amplamente da escola de
convicr;oes do terapeuta.
Listei esses quatro nfveis por ordem de
grau de inferencia. Urn erro conceitual indese-
jave! e duradouro resulta, em parte, da ten-
dencia de igualar uma seqiiencia "superficial-
profundo" a essa seqiiencia de "grau de
inferencia". AMm disso, 0 "profundo" tornou-
se igual a "complexo" ou "born", e 0 superfi-
cial, a "trivial", "6bvio" ou "irrelevante". No pas-
sado, os psicanalistas disseminaram a crenr;a
de que quanta mais profundo era 0 terapeuta,
mais complexa era a interpretar;ao (segundo a
perspectiva dos eventos iniciais da vida) e, des-
60 IRVIN D. YALOM
sa forma, mais completoseria 0 tratamento.
Contudo, nao exi.ste a mlnima evidencia para
sustentar essa conclusao.
Todo terapeuta ja encontrou pacientes
que alcanc;:aram urn grau consideravel de
insight genetico de alguma teoria aceita de de-
senvolvimento infantil ou de psicopatologia -
seja de Freud, Klein, Winnicott, Kernberg ou
Kohut -, mas, mesmo assim, nao fizeram ne-
nhum progresso terapeutico. Por outro lado, e
comum que mudanc;:as clinicas significa/:ivas
ocorram na ausencia de insight genetico. Tam-
bern nao existe uma relac;:ao demonstrada en-
tre a aquisic;:ao de insight genetico e a persis-
tencia da mudanc;:a. De fato, existem muitas
raz6es para se questionar a validade de nossos
pressupostos mais estimados sobre a relac;:ao
entre os tipos de experiencias iniciais e 0 com-
portamento adulto e a estrutura do carater.52
Devemos levar em conta as recentes pes-
quisas neurobiologicas sobre 0 armazenamento
da memoria. A memoria hoje e compreendida
como duas formas diferentes, com duas vias
cerebrais distintas.53 Somos mais familiarizados
com a forma de memoria conhecida como "me-
moria explicita", que consiste em detalhes e
eventos lembrados e as recorda<;6es da vida do
individuo e, historicamente, tern sido foco de
explorac;:ao e interpretac;:ao nas terapias psicodi-
namicas. Uma segunda forma de memoria, a
"memoria implicita", armazena nossas experien-
cias relacionais mais antigas, muitas das quais
precedem 0 nosso uso da linguagem ou de sim-
bolos. Essa memoria (tambem chamada "me-
moria de procedimento") molda nossas cren<;as
sobre como procedemos no mundo de nossos
relacionamentos. Ao contrano da memoria ex-
pifcita, a memoria implicitil nao e alcanc;:ada
totalmente por intermedio do diaJ.ogo psicotera-
peutico normal, mas por meio do componente
relacional e emocional da terapia.
A teoria psicanalitica tern mudado como
resultado dessa nova compreensao da memo-
ria. Fonagy; urn proeminente teorico e pesqui-
sador anaiftico, realizou uma exaustiva revi-
sao da literatura sobre 0 processo psicanaiftico
e seus resultados. Sua conclusao foi: 'Ji recupe-
rafao de experiencias passadas pode ser util, mas
a compreensao de formas atuais de estar com a
outro e a chave para a mudanfa. Par isso, pode
ser preciso alterar as representafoes do self e do
outro, e isso somente pode ser feito efetivamente
no aqui-e-agora".54 Em outras palavras, a ex-
periencia real do paciente e do terapeuta a cada
momento no relacionamento terapeutico e 0
instrumento da mudan<;a.
Uma discussao mais ampla sobre a causa-
lidade nos afastaria demais da aprendizagem
interpessoal, mas retornarei a essa questao nos
Capitulos 5 e 6. Por enquanto, e suficiente enfa-
tizar que existe pouca dlivida de que 0 entendi-
mento intelectual lubrifica a maquina da mu-
dan<;a.· E importante que 0 insight - "olhar para
dentro" - ocorra, mas, em seu sentido generico, e
nao genetico. E os psicoterapeutas devem
desconectar 0 conceito de entendimento inte-
lectual "profundo" ou "significativo" de cons ide-
ra<;6es temporais. Algo que se sente profunda-
mente ou que tenha urn significado profundo
para urn paciente pode estar ou - como costu-
rna ocorrer - nao estar relacionado com a expli-
ca<;ao da genese inicial do comportamento.
Neste capitulo, examino as propriedades
da coesao, as evidencias consideniveis da coe-
sao grupal como fator terapeutico e os diver-
sos caminhos pelos quais ela exerce a sua in-
fluencia terapeutica. .
o que e a coesao e como ela influencia 0
resultado terapeutico? A resposta mais simples
e que a coesao eo analogo na terapia de grupo
do relacionamento na terapia individual. Em pri-
meiro lugar, tenha em mente que existe urn
vasto corpus bibliografico sobre a psicoterapia
individual demonstrando que tim born relacio-
namento entre 0 terapeuta e 0 paciente e es-
sencial para urn resultado positivo. Sera que
urn born relacionamento terapeutico e essen-
cial na terapia de grupo? Mais uma vez, a lite-
ratura deixa poucas duvidas de que 0 "relacio-
namento" e basico para 0 resultado positivo
na terapia de grupo. Mas 0 relacionamento na
terapia de grupo e urn conceito muito mais
complexo do que 0 relacionamento na terapia
individual. Afinal, existem apenas duas pessoas
na transa<;ao da terapia individual, ao passo
que diversos individuos, geralmente de seis a
dez, trabalhamjuntos na terapia de grupo. Nao
sera suficiente dizer que urn born relaciona-
mento e necessario para 0 sucesso da terapia
de grupo - devemos especificar qual relacio-
namento: 0 relacionamento entre 0 paciente e
o terapeuta do grupo (ou terapeutas, se hou-
ver co-lideres)? Ou entre 0 paciente e os ou-
tros membros do grupo? Ou quem sabe entre
o individuo e 0 "grupo" como urn todo?
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Coesao grupal
Ao longo dos ultimos 40 anos, urn vasto
numero de estudos controlados de resultados
de psicoterapias demonstrou que a pessoa
media que faz psicoterapia melhora significa-
tivamente e que 0 resultado da terapia de gru-
po e praticamente identico ao da terapia indi-
vidual. 1 Alem disso, existem evidencias de que
certos pacientes podem obter mais beneffcios
com a terapia de grupo do que com outras abor-
dagens, particularmente pacientes que lidam
com estigmas ou com isolamento social e aque-
les que procuram desenvolver novas habilida-
des de enfrentamento.2
As evidencias ~m favor da efetividade da
psicoterapia de grupo sao tao convincentes que
nos fazem voltar n.ossa aten<;ao para outra ques-
~.ao: Quais sao as condi<;6es necessarias para a
psicoterapia efetiva? Afinal, nem toda a psi-
coterapia e bem-sucedida. De fato, existem
evidencias de que 0 tratamento pode melho-
rar ou piorar - embora a maio ria dos terapeutas
ajude seus pacientes, alguns terapeutas fazem
os pacientes piorarem.3 Por que? 0 que torna
uma terapia bem-sucedida? Embora muitos
fatores estejam envolvidos, urn relacionamen-
to terapeutico adequado e uma condi<;ao sine
qua non para uma terapia efetiva.4 Evidencias
de pesquisas defendem a conclusao de que a
terapia de sucesso - na verdade, a terapia
farmacologica de sucesso - e mediada por urn
relacionamento entre 0 terapeuta e 0 paciente
que se caracterize por confianc;:a, afeto, enten-
dimento emparico e aceita<;ao.5 Embora uma
62 IRVIN D. YALOM
alian~a terapeutica positiva seja comum a to-
dos os tratamentos efetivos, ela nao e estabele-
cida com facilidade ou rotineiramente. Algu-
mas pesquisas amplas sobre terapias concen-
trararn-se na natureza da alian~a terapeutica e
nas interven~6es espedficas que sao necessarias
para alcan~a-Ia e mante-Ia.6
Sera que a qualidade do relacionamento
esta relacionada com a escola de convic~ao do
terapeuta? As evidencias dizem que "nao". CH-
nicos experientes e efetivos de diferentes es-
colas (freudiana, nao-diretiva, experimental
gestalt, relacional, interpessoal, cognitivo-com-
portamental, psicodrama) sao parecidos (e di-
ferem de individuos de sua propria escola que
nao sao especialistas) em sua concep~ao do re-
lacionamento terapeutico ideal e no relaciona-
mento que estabelecem com seus pacientesJ
Observe que 0 relacionamento terapeu-
tico envolvido e coeso e necessario em todas as
psicoterapias, mesmo nas chamadas aborda-
gens mecanicista - cognitiva, comportamental,
ou formas sistemicas de psicoterapia.8 Uma
recente analise secundaria de urn grande teste
comparativo de psicoterapias, 0 Treatment of
Depression Collaborative Research Program, do
Nacional Institute of Mental Health's, concluiu
que a terapia de sucesso, seja ela cognitivo-
comportamental ou interpessoal, exige "a pre-
sen~a de urn apego positivo com uma figura
de autoridade benevolente, solidaria e tranqiii-
lizadora".9 A pesquisa mostra que 0 vinculo
entre 0 paciente e 0 terapeuta e os elementos
tecnicos da terapia cognitiva sao sinergicos: urn
vinculo forte e positivo em si ja ajuda a desfa-
zer cren~as depressivas e facilita 0 trabalho de
modificar distor~6es cognitivas. A ausencia de
urn vinculo positivo tornaas interven~6es tecni-
cas ineficientes e ate prejudiciais. IO
. Conforme ja observado, 0 relacionamen-
to desempenha urn papel igualmente crucial
na psicoterapia de grupo. Contudo, 0 anaJogo
na terapia de grupo do relacionamento entre 0
paciente e 0 terapeuta na terapia individual
deve ser urn conceito mais amplo, abrangendo
o relacionamento do individuo com 0 terapeuta
do grupo, com os outros membros do grupo e
com 0 grupo como urn todo.Y Correndo urn
risco de provocar uma confusao semantica, re-
firo-me a todos esses relacionamentos no gru-
po com 0 termo "coesao grupal". A coesao e
uma propriedade basica dos grupos que ja foi
bastante pesquisada, explorada em centenas
de artigos de pesquisa. Infelizmente, existe
pouca coesao na literatura, que sofre com 0
uso de diferentes defini~6es, escalas, sujeitos
e pontos de vista de observadores.u
Todavia, de urn modo geral, existe con-
cordancia de que os grupos diferem na quanti-
dade de "agrupamento" presente. Aqueles com
urn sentido maior de solidariedade, ou de urn
"nos", valorizam mais 0 grupo e 0 defenderao
contra arnea~as internas e externas. Esses gru-
pos tern uma taxa maior de participa~ao, fre-
qiiencia e apoio mutuo do que grupos com
menos espirito de solidariedade. Entretanto, e
diffcil formular uma defini~ao precisa. Uma
revisao abrangente e criteriosa recente concluiu
que a coesao "e como a dignidade: todos po-
dem reconhece-la, mas aparentemente nin-
guem pode descreve-la, muito menos mensura-
la".12 0 problema e que a coesao refere-se a
dimens6es sobrepostas. Por urn lado, existe urn
fenomeno de grupo - a solidariedade total. Por
outro lado, existe a coesao do membro indivi-
dual (ou, mais exatamente, a atra~ao do indi-
vidlio pelo grupO).I3
Neste livro, a coesao e amplamente defi-
nida como 0 resultado de todas as for~as que
agem sobre todos os membros, de maneira que
permane~am no grupO,14 ou, de forma mais
simples, a atra~o de urn grupo por seus mem-
bros. IS Os membros de urn grupo coeso sen-
tern afeto, conforto e urn sentido de pertenci-
mento no grupo. Eles valorizam 0 grupo e sen-
tern que sao valorizados, aceitos e amparados
pelos outros membros.16y
o espfrito de corpora~ao e a coesao indi-
vidual sao interdependentes, e a coesao grupal
muitas vezes e computada simplesmente so-
mando-se 0 nfvel de atra~ao dos membros in-
dividuais pelo grupo. Metodos mais novos de
mensurar a coesao grupal a partir de avalia-
~6es de observadores do clima do grupo pos-
suem maior precisao quantitativa, mas nao
negam 0 fato de que a coesao do grupo perm a-
nece sendo a fun~ao e a soma do sentido de
pertencimento dos membros individuaisY Te-
nha em mente que os membros do grupo sao
diferencialmente atrafdos pelo grupo e que a
coesao nao e fixa - uma vez alcan~ada, garan-
tida para sempre -, mas flutua amplamente no
decorrer do grupO.18 Para que 0 grupo aborde
o trabalho mais diffcil que surge posteriormente
no seu desenvolvimento, 11 medida que ocor-
rem mais conflitos e desconforto, e essencial
que haja coesao e envolvimento ja desde 0 ini-
CiO.19 Pesquisas recentes tambem diferenciam
o sentido de pertencimento do individuo e sua
avalia~ao de como 0 grupo todo esta funcio-
nando. Nao e incomum que urn individuo sin-
ta que "0 grupo funciona bern, mas nao fa~o
parte dele". 20 TamMm e possivel que membros
(por exemplo, pacientes com transtornos ali-
mentares) valorizem a intera~ao e os vinculos
do grupo, mas se oponham fundamentalmen-
te ao seu objetivo.2l
Antes de deixarmos a questao da defini-
~ao, devo dizer que a coesao do grupo nao e
uma for~a terapeutica potente por si so. Ela e
uma precondi~ao para queoutros fatores
terapeuticos funcionem de mane ira otima.
Quando, na terapia individual, dizemos que 0
relacionamento e 0 que cura, nao queremos
dizer que 0 arnor ou a aceita~ao sejam suficien-
tes, mas que urn relacionamento ideal entre 0
paciente e 0 terapeuta cria condi~6es nas quais
os riscos, a catarse e a explora~lio intrapessoal
e interpessoal necessarios possarn ocorrer. 0
mesmo serve para a terapia de grupo: a coesao
e necessaria para que outros fatores terapeu-
ticos operem no grupo.
A IMPORTAruCIA DA COEsAo GRUPAL
Embora tenhamos discutido os fatores
terapeuticos separadamente, ate certo ponto,
eles sao interdependentes. Por exemplo, a
catarse e a universalidade nao sao processos
completos. 0 importante nao e 0 processo de
ventila~ao, nao e apenas a descoberta de que
os outros tern problemas semelhantes e a ne-
ga~ao subseqiiente da singularidade desafor-
tunada do indivfduo. 0 que parece ter impor-
tancia fundamental e 0 compartilhamento
afetivo do mundo interior do indivfduo e a acei-
ta(:iio dos outros. 0 fato de ser aceito pelos ou-
tros desafia a cren~a do paciente de que ele e
basicamente repugnante, inaceitavel e detes-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 63
tavel. A necessidade de fazer parte e inata em
todos nos. A aft!ia~ao no grupo e 0 apego no
cenario individual tratam dessa questao.22 Os
grupos de terapia produzem urn circuito de
auto-refor~o positivo: confian~a - auto-revel a-
~ao - empatia - aceita~ao - confian~a. 23 0 gru-
po aceitara urn individuo desde que ele siga as
regras de procedimento do grupo, independen-
temente de experiencias de vida, transgress6es
ou fracassos sociais passados. Estilos de vida
fora dos padr6es, historico de prostitui~ao,
perversao sexual, crimes hediondos - tudo isso
pode ser ace ito pelo grupo de terapia, desde
que as normas imparciais de aceita~ao e inclu-
sao sejam estabelecidas no come~o do grupo.
Na maior parte, as habilidades interpes-
soais perturbadas de nossos pacientes limitam
suas oportunidades de compartilhamento efeti-
vo e aceita~ao em relacionamentos fntimos.
Alem disso, alguns membros estao convencidos
de que seus impulsos e fantasias abominaveis
os impedem de ter intera~6es sociais. Y Conheci
muitos pacientes isolados, para os quais 0 gru-
po representava 0 linico contato humano pro-
fundo. Apos apenas algumas sess6es, eles se sen-
tern mais em casa no grupo do que em qualquer
outro lugal: Posteriormente, mesmo alguns anos
depois, quando a maior parte das outras recor-
da~6es do grupo ja se desvanecera da memoria,
eles ainda lembram a sensa~ao confortavel de
pertencimento e de aceita~ao.
Como disse urn paciente que refletia so-
bre dois an os e meio de terapia: "0 mais im-
portante foi apenas ter 0 grupo la, pessoas com
quem eu podia falar, que nao fugiriam de mim.
Havia tanto carinho, odio e amor no grupo, e
eu fazia parte dele. Estou melhor agora e te-
nho minha vida, mas e triste pensar que 0 gru-
po nao existe mais".
Alem disso, os membros do grupo enxer-
gam que nao sao apenas beneficiarios passivos
da coesao do grupo, eles tambem produzem
essa coesao, criando relacionamentos dura-
veis - talvez pela prime ira vez em suas vidas.
Urn membro de urn grupo comentou que sem-
pre atribufa a sua solidao a alguma falha de
carater nao-identificada, intratavel e repugnan-
teo Somente depois que parou de faltar aos en-
contros regularmente por se sentir desanima-
do e fUtil foi que ele descobriu a responsabili-
64 IRVIN D. YALOM
dade. que exercia em sua propria solidao: os
reIaclOn~mentos nao desapareciam inevitavel-
me~t: - ISS0 acontecia principalmente por sua
decisao de negligencia-Ios.
" ' Alguns individuos intemalizam 0 gropo:
E Como se 0 gropo estivesse sentado no meu
ombro, assistindo ao que eu fa<;o. Sempre me
pe;'Ft~: 0 que 0 gropo diria disso ou daqui-
10 ... MUitas vezes, as mudan\3s terapeuticas
persu:tem e se consolidam porque, mesmo anos
depOls, os membros nao querem decepcionar
o grupO.24
': ~articipa<;ao, a aceita\iio e a aprova<;ao
em vanos gropos sao de importancia funda.
~ental,na .sequencia evolutiva do individuo. A
lffiportancla de pertencer a gropos de a . infli . mlgos
na ?-cla, panelinhas de adolescentes, clu-
bes ou tIm:s ou ao gropo social "legal" nao pode
ser s~b~stJmada. Nada parece ser de maior im-
portancla para a auto-estimae para 0 bem-es-
~r d? adolescente, por exemplo, do que ser
~clu~do e aceito em algum gropo social, e nada
e mals devastador do que a exclusao.25
Todavia, a maioria dos nossos pacientes
tern urn historico gropal pobre. Eles nunca fo-
ram valorizados e nunca foram partes integrais
de u~ ~po. Para esses individuos, a simples
negocla<;a?, bem-sucedida de uma experiencia
de grupo Ja po de ser curativa par si s6. Fazer
parte do grupo aumenta a auto-estima e sa tis-
faz a dependencia dos membros, e dessa for-
~a fo~enta a responsabilidade e a autonomia,
a medlda que cada membro contribui para 0
bem-estar do grupo e intemaliza a atmosfera
de urn grupo coeso.26
Assim, de divers as maneiras, os membros
de ~m grupo de terapia passam a significar
mUlto ~ns para os outros. 0 grupo de terapia,
perceb!do. no come<;o como urn grupo artificial
~ue n~o I~porta, pode passar a ter grande
~mportancla. Conheci grupos cujos membros
Juntos, experi~e?taram depressoes, psicoses:
casamentos, dlvorcios, abortos, suiddio mu-
dan<;as de carreira, incesto (atividade s~xual
entre os membros do grupo), e compartiIha-
ram seus pensamentos rna is profundos. Ja vi
urn ~po carre gar urn de seus membros ate 0
hospital e vi muitos grupos enlutados pela
mor~e de membros. Ja vi membros de grupos
de cancer fazerem louvores no funeral de urn
membr? falecido. Os relacionamentos sao
cons~ldos ao longo de situa<;oes emotivas
o~ pe;1gosas. Quantos relacionamentos na
Vida tern aspectos tao ricos?
Evidencias
_As evidencias empiricas do impacto da
coes~~ de gropo nao sao tao amplas ou tao sis-
te.manc,:, q~ando as pesquisas que documentam
a.lffiport~cIa.do ~e!acionamento na terapia indi-
v:d~~. E. malS dificil estudar 0 efeito da coe-
sao, pOlS ~nvolve pesquisar variaveis intima-
mente relaclonadas com a coesao, como 0 clima
(0 gra~ de e~volvimento, fuga e conflitos no
grupo) e a aIian<;a do grupo (0 relacionamento
entre os ~embros e 0 terapeuta). 29 Os resultados
d~s pesqulSas em todas essas perspectivas, toda-
Via, apontam para a mesma conclusao: 0 relacio-
namento esta no centro da boa terapia. Isso nao
se toma menos ~portante na era do managed
care e da superVIsao terceirizada do que no pas-
s~do. De fato, 0 terapeuta de grupo contempo-
raneo tern uma responsabilidade ainda maior
?e pr~teger 0 relacionamento terapeutico de
mtrusoes e de controles extemos.30
Discutirei agora uma pesquisa relevante
sobre a coesao. (Leitores que estejam menos
mteressados em metodologia de pesquisa tal-
vez prefiram passar diretamente para a ,._ _ " proXl
rna se<;ao Resumo", ver p. 64).
• ~ urn· antigo estudo de ex-pacientes de
p:lcoterapia de grupo, no qual as explica-
<;?es de membrossobre os fatores terapeu-
tJcos em suas terapias foram transcritas e
categorizadas, os pesquisadores observaram
que mais da metade consideravam ser 0
apoio. mutuo 0 principal modo de ajuda na
t~rapla de grupo. Os pacientes que perce-
blam ~eu ~po como coeso participavam
de mms sessoes, experimentavam mais con-
tato social com outros membros e sentiam
q~e 0 grupo tirIha sido terapeutico. Os pa-
cle~tes que haviam melhorado eram signifi-
catJ~amente mais provaveis de se sentirem
aceltos pelos outros membros e de mencio-
~arem individuos espedficos quando ques-
tlOnados sobre sua experiencia de grupO.31
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• Em 1970, publiquei urn estudo no qual pa-
cientes bem-sucedidos de grupos de terapia
avaliaram a sua experiencia e cIassificaram,
em ordem de efetividade, a serie de fatores
terapeuticos que descrevo neste livro.32 Des-
de aquela epoca, urn grande nUmero de es-
tudos, usando modelos analogos, produziu
uma quantidade consideravel de dados so-
bre as visoes dos pacientes dos aspectos mais
proveitosos da terapia. Analisarei esses re-
sultados com maior profundidade no proJd'.
mo capitulo. Por enquanto, ja e suficiente
observar que existe urn forte consenso de que
os pacientes consideram a coesao grupal
como determinante muito importante para
o sucesso do gropo de terapia.
• Em urn estudo de seis meses com dois gru-
pos de terapia de longa durac;ao,33 obser-
vadores avaliaram 0 processo de cada ses-
sao, atribuindo urn escore a cada membro
em cinco variaveis: a·ceita<;ao, atividade,
dessensibiliza<;ao, ab-rea<;ao e melhora.
Cada membro tambem fez auto-avalia<;oes
semanaiS. Tanto os observadores quanta os
membros dos grupos consideraram a "acei-
ta<;ao" como a variavel mais relacionada
com a meIhora. >
• Conciusoes semelhantes foram obtidas em
urn estudo com 47 pacientes em 12 grupos
de psicoterapia. A percep<;ao de mudanc;a
na personalidade dos membros apresentou
uma correla<;ao significativa com seus sen-
timentos de envolvimento no gropo e sua
avalia<;ao da coesao total do grupO.34
• Meus colegas e eu avaliamos 0 resultado
em urn ana de 40 pacientes que haviam
iniciado terapia em 5 grupos para pacien-
tes extemos.35 Os resultados foram correla-
cionados com variaveis mensuradas nos pri-
meiros tres meses de terapia. 0 resultado
positiv~ na terapia somente apresentou cor-
rela<;ao significativa com duas variaveis
indicativas: coesao grupaP6 e popularida-
de geral- ou seja, os pacientes que, no co-
me<;o da terapia, tinham mais aprec;o pelo
grupo (coesao alta) e que foram avaliados
como sendo mais populares pelos outros
membros na sexta e na decima segunda se-
manas tiveram urn resultado melhor na te-
rapia na decima quinta semana. A popula-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 65
ridade, que neste estudo teve correla<;ao
ainda mais positiva com 0 resultado do que
com a coesao, e, como discutiremos breve-
mente, relevante para a coesao grupal e in-
fluencia 0 mecanismo pelo qual a coesao
grupal promove a mudan<;a.
• A mesma constatac;ao ocorre em grupos mais
estruturados. Urn estudo de 51 pacientes que
participaram de 10 sessoes de terapia de gru-
po comportamental demonstrou que a "atra-
<;ao grupal" estava significativamente corre-
lacionada com urn aumento na auto-estima
e inversamente correlacionada com a taxa
de abandono do grupoY
• A qualidade dos relacionamentos entre os
membros tambem foi documentada como
urn ingrediente essencial em grupos-T (tam-
bern chamados grupos de treinamento em
sensibilidade, de processo, de encontro ou
experirnentais; ver 0 Capitulo 16). Urn es-
tudo rigorosamente projetado observou
uma rela<;ao significativa entre a qualidade
dos relacionamentos entre os membros e 0
resultado em umgrupo-T de 11 sujeitos que
se reuniam duas vezes por semana, totali-
zando 64 horas. 38 Os membros que tiveram
os relacionamentos mais mutuamente
terapeuticos entre duas pessoas apresenta-
ram uma melhora maior ao longo da tera-
pia.39 Alem disso, 0 relacionamento perce-
bide com 0 lider do grupo nao estava re-
lacionado com 0 grau de mudan<;a.
• Meus colegas M.A. Liebennan, M. Miles e
eu conduzimos urn estudo com 210 sujei-
'tos em 18 grupos de encontro, abrangendo
10 escolas ideol6gicas (gestalt, analise tran-
sacional, grupos-T, Synanon, crescimento
pessoal, Esalen, psicanalitica, maratona,
psicodrama, grava<;ao do encontro). 40 (Ver
o Capitulo 16 para uma discussao detalha-
da desse projeto.) A coesao foi avaliada de
divers as maneiras e correlacionada com os
efeitos,41 indicando que a atra<;ao pelo gru-
po de fato e urn poderoso detenninante dos
resultados. Todos os metodos para deter-
minar a coesao apresentaram uma correla-
<;ao positiva entre a coesao e seus efeitos.
Urn membro que experimentasse urn senti-
do pequeno de pertencimento ou atra<;ao
pelo grupo, mesmo no come<;o das sessoes,
66 IRVIN D. YALOM
dificilmente se beneficiaria com 0 grupo e,
de fato, provavelmente teria urn resultado
negativo. Alem disso, os grupos com nfveis
gerais maiores de coesao tiveram urn resul-
tado total significativarnente melbor do que
grupos com pouca coesao.
• Outro grande estudo (N = 393) de grupos
de treinamento experimentais apresentou
uma rela~ao forte entre a afilia~ao(urn
construto consideravelmente sobreposto a
coesao) e 0 resultadoY
• MacKenzie e Tschuschke, estudando 20 pa-
cientes em grupos de longa dura~ao para
pacientes intern os, diferenciaram 0 relacio-
namento emocional do grupo da sua avalia-
~ao do "trabalbo do grupo" como urn todo.
o sentido de pertencimento pessoal do in-
divfduo apresentou correla~ao com 0 resul-
tado futuro, ao passo que as escalas de tra-
balho total do grupo, nao.43
Budman e colegas desenvolverarn uma es-
cala para mensurar a coesao por meio de
observa~6es de sess6es filmadas por obser-
vadores treinados. Eles estudaram 15 gru-
pos de terapia e observaram redu~6es maio-
res em sintomas psiquiatricos e melhora na
auto-estima nos grupos que tinham urn fun-
cionamento mais coeso. A coesao grupal evi-
dente no infcio - dentro dos primeiros 30
minutos de cad a sessao - indicava urn re-
sultado melbor.44
Diversos estudos examinaram 0 papel do
relacionamento entre 0 paciente e 0 Ifder do
grupo. Marziali e colegas45 examinararn a
coesao grupal e 0 relacionamento entre 0
paciente e 0 Iider do grupo em uma terapia
interpessoal manualizada em 30 sess6es para
pacientes com transtomo de personalidade
borderline. A coesao e 0 relacionamento apre-
sentararn uma correla~ao forte, corroboran-
do os resultados de Budman,46 e ambos apre-
sentaram correla~ao positiva com 0 resulta-
do. Contudo, a medida do relacionamento
entre membra e Iider foi urn indicador mais
forte do resultado. 0 relacionamento entre
o paciente e 0 terapeuta pode ser particular-
mente importante para pacientes que tern
relacionamentos interpessoais volateis e para
os quais 0 terapeuta tenha uma importante
fun~ao de conten~ao.
• Em urn estudo de urn grupo de terapia cog-
nitivo-comportamental estruturado e de
curta dura~ao para fobia social,47 0 relacio-
namento com 0 terapeuta aprofundou-se ao
longo das 12 semanas de tratamento e apre-
sentou correla~o positiva com 0 resulta-
do, mas a coesao foi estatica e nao teve re-
la~ao com 0 resultado. Nesse estudo, 0 gru-
po foi 0 cenario para a terapia e nao urn
agente terapeutico. Os terapeutas nao cul-
tivaram vfnculQS entre os membros, levan-
do os autores a conduir que, em grupos
muito estruturados, 0 que mais importa e a
colabora~ao entre paciente e terapeuta em
torno das tarefas da terapia.48
• Urn estudo de 34 pacientes com depressao e
isolamento social, tratados em urn grupo
interacional de resolu~ao de problemas em
12 sess6es, relaton que os pacientes que des-
creverarn ter experimentado afeto e interes-
se positiv~ por parte do Ifder tiveram resul-
tados melbores. a oposto tambem foi obser-
vado nesse estudo. as resultados negativos
foram associados a relacionarnentos negati-
vos entre 0 Ifder e 0 membro. Esse estudo de
correla~ao, porem, nao aborda causas e efei-
tos. Sera que os terapeutas gostam mais de
pacientes que se saem melbor na terapia, ou
o fato de 0 terapeuta gostar de alguem pro-
move mais bem-estar e esfor~0?49
• as resultados observados em grupos de trei-
namento intensivo breve da Associa~ao
Norte-Americana de Psicoterapia de Grupo
foram influenciados por nfveis maiores de
envolvimento. so Os resultados positiv~s po-
dem ser mediados pelo envolvimento, que
promove mais comunica~ao interpessoal e
auto-revela~ao. 51
Resumu
Ja citei evidencias de que os membros do
grupo valorizam profundamente a aceita~ao e
o apoio que recebem de seu grupo de terapia.
A percep~ao dos resultados da terapia apresen-
ta correla~ao positiva com 0 apre~o pelo gru-
po. Grupos muito coesos tern urn resultado
geral melbor do que grupos com menos espiri-
to de solidariedade. A conexao emocional e a
experiencia de efetividade do grupo contribuem
para a coesao grupal. Indivfduos com resulta-
dos positivos tiveram mais relacionamentos
mutuamente satisfatorios com os outros mem-
bros. Os grupos coesos apresentam nfveis maio-
res de auto-revela~ao. Para alguns pacientes e
alguns grupos (especialmente os grupos mui-
to estruturados), 0 relacionamento com 0 Ii-
der pode ser 0 fator essencial. Urn relaciona-
mento terapeutico forte pode nao garantir urn
resultado positivo, mas urn relacionamento
terapeutico fraco certamente nao resultara em
urn tratamento efetivo.
A presen~a de coesao no come~o de cada
sessao, bern como nas primeiras sess6es do gru-
po, esta co~relacionada com resultados positi-
vos. E crucial que os grupos tomem-se coesos
e que os Ifderes estejam alertas para a experien-
cia pessoal de cada membra com 0 grupo e
abordem problemas de coesao rapidamente. 0
resultado positiv~ para 0 paciente tambem esta
correlacionado com a popularidade no grupo,
uma variavel relacionada com 0 apoio e a acei-
ta~ao. Embora a mudan~a terapeutica seja
multidimensional, esses resultados vistos em
con junto sustentam a afirma~ao de que a coe-
sao grupal e urn determinante essencial para
urn resultado terapeutico p6sitivo.
Alem dessa evidencia direta, existem evi-
dencias indiretas consideraveis de pesquisas
com outros tipos de grupo. Uma variedade de
estudos demonstra que, em tarefas de grupo
no laboratorio, nfveis elevados de coesao gruPal
produzem muitos resultados que podem ser
considerados fatores que intervem na terapia.
Por exemplo, a coesao grupal resulta em maior
freqiiencia, maior participa~ao dos membros,
maior propensao a ser influenciado pelos mem-
bros e muitos outros efeitos. Considerarei es-
ses resultados brevemente, enquanto discuto
o mecanisme pelo qual a coesao promove a
mudan~a terapeutica.
MECANISMO DE A~Ao
De que modo a aceita~ao, 0 apoio e a con-
fian~a do grupo ajudam indivfduos com proble-
mas? Certamente, deve haver mais do que sim-
ples apoio ou aceita~ao. Os terapeutas apren-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 61
dem no come~o de suas carreiras que 0 arnor
nao e suficiente. Embora a qualidade do relacio-
namento entre terapeutas e pacientes seja
crucial, os terapeutas devem fazer mais do que
simplesmente se relacionarem de forma afetuo-
sa e honesta com 0 paciente.52 0 relacionarnen-
to terapeutico cria condi~oes favoraveis para
colocar outros processos em movimento. Que
outros processos? E como eles sao importantes?
As visoes profundas de Carl Rogers do
relacionamento terapeutico sao tao relevantes
hoje em dia quanto foram ha quase 50 anos.
Varnos come~ar nossa investiga~ao examinan-
do suas vis6es sobre 0 modo de a~ao do relacio-
namento terapeutico na terapia individual. Em
sua descri~ao mais sistematica do processo de
terapia, Rogers afirma que, quando existe a
condi~ao de urn relacionarnento ideal, 0 seguin-
te processo caracteristico se inicia:
1. 0 paciente sente-se cada vez mais livre
para expressarseus sentimentos.
2. Ele come~a a testar a realidade e se toma
mais discriminatorio em seus sentimentos
e percep~6es de seu ambiente, de seu self,
de outras pessoas e de suas experiencias.
3. Ele se torna cada vez mais ciente da in-
congruencia entre suas experiencias e seu
conceito de si mesmo.
4. Ele tambem se toma ciente de sentiIl!..en-
tos que antes eram negados ou distorcidos
na consciencia.
5. Seu conceito de si mesmo, que agora incIui
aspectos distorcidos ou negados, se toma
mais congruente com a sua experiencia.
6. Ele se torna cada vez mais capaz de experi-
mentar - sem sentir-se amea~ado - a aten-
~ao positiva incondicional do terapeuta e
de sentir urn auto-respeito incondicional.
7. Cada vez mais, ele se sente 0 foco de ava-
lia~ao da natureza e do valor de urn obje-
to ou experiencia.
8. Ele reage menos a experiencia em termos
de suas percep~6es da avalia~ao dos ou-
tros sobre si e mais em termos de sua
efetividade para promover 0 seu proprio
desenvolvimento.53
Central as vis6es de Rogers e a sua for-
mula~ao de uma tendencia realizada, uma ten-
68 IRVIN D. YAlOM
dencia inerente em todas as formas de vida de
se expandir e desenvolver - uma visao que re-
monta as antigas vis6es filosoficas que Nietzsche
enunciou claramente ha urn seculo.54 A tarefa
do terapeuta e funcionar comourn facilitador
e criar condir;:6es favoraveis para a auto-expan-
sao. A primeira tarefa do individuo e a auto-
explorar;:ao: a investigar;:ao dos sentimentos e das
experiencias que eram negados a consciencia.
Essa tarefa e urn estagio comum na psico-
terapia dinamica. ;Iorney, por exemplo, enfa-
tizava a necessidade de autoconhecimento e
auto-realizar;:ao para 0 indivfduo, afmnando
que a tarefa do terapeuta e remover obstacu-
los no caminho para esses processos auto-
nomos. 55 Os modelos contemporaneos reco-
nhecem 0 mesmo principio. Os pacientes mui-
tas vezes procuram a terapia com urn plano de
rejeitar crenr;:as patogenicas que obstruam 0
crescimento eo desenvolvimento.56 Em outras
palavras, todos os individuos tern uma inclina-
r;:ao inata de crescimento e auto-realizar;:ao. 0
terapeuta nao precisa inspirar essas qualida-
des nos pacientes (como se pudesse!). Em vez
disso, nossa tarefa e remover os obstaculos que
bloqueiam 0 processo de crescimento. Uma
maneira de fazer isso, portanto, e criar uma
atmosfera terapeutica ideal no grupo de tera-
pia. Urn vfnculo forte entre os membros nao
apenas nega a inutilidade do indivfduo, como
tambem gera maior disposir;:ao entre os pa-
cientes para se revelarem e correrem riscos
interpessoais. Essas mudanr;:as ajudam a desa-
tivar velhas crenr;:as negativas sobre 0 self em
relar;:ao ao mundoY
Existem evidencias experimentais de que
a sintonia na terapia individual e seu equiva-
lente (coesao) na terapia de grupo estimulam
o paciente a participar do processo de reflexao
e explorar;:ao pessoal. Por exemplo, Truax,58 es-
tudando 45 pacientes hospitalizados em tres
grupos heterogeneos, demonstrou que os par-
ticipantes de grupos coesos eram significativa-
mente mais inclinados a se envolverem em uma
auto-explorar;:ao profunda e ampla.59 Outras
pesquisas demonstram que a coesao esta bas-
tante relacionada com graus elevados de inti-
midade, riscos, escuta emparica e feedback. 60
o reconhecimento pelos membros do grupo de
que 0 grupo esta funcionando na tarefa de
aprendizagem interpessoal produz mais coe-
sao, em urn circuito positiv~ e que se auto-ali-
menta.61 0 sucesso na tarefa do grupo fortale-
ce seus vinculos emocionais.
Talvez a coesao seja vital porque muitos
de nossos pacientes nao tiveram 0 beneficio de
uma aceitar;:ao solida e continua por parte de
seus amigos na infancia. Portanto, a validar;:ao
por outros membros do grupo e uma experien-
cia nova e vital. Aiem disso, a aceitar;:ao e 0
entendimento entre os membros podem tra-
zer maior poder e significado do que a aceita-
r;:ao por parte do terapeuta. Afinal, os outros
membros do grupo nao precis am cuidar ou en-
tender ninguem. Eles nao sao pagos para isso,
nao eo seu "trabalho".62
A intimidade desenvolvida no grupo pode
ser vista como uma forr;:a contrana em uma cul-
tura tecnologica que, de todas as maneiras -
social, profissional, residencial e recreativa-
mente -, desumaniza os relacionamentos de
forma inexoravel.63 Em urn mundo onde os Ii-
mites tradicionais que mantem os relaciona-
mentos sao cada vez mais permeaveis e efe-
meros, existe uma necessidade cada vez maior
de pertencer ao grupo e de identificar-se com
ele. 64 Segundo Rogers, a experiencia humana
profunda no grupo pode ser de mais v,alor para
o individuo. Mesmo que ela nao cause nenhum
efeito visivel, nenhuma mudanr;:a externa no
comportamento, os membros do grupo ainda
experimentarao uma parte mais humana e mais
rica de si mesmos, que sera seu ponto de refe-
rencia interno. Essa ultima questao merece ser
enfatizada, pois e urn dos ganhos da terapia -
especialmente da terapia de grupo - que emi-
quece a vida interior do individuo, mas que nao
tern, pelo menos por urn longo perfodo, mani-
fe!J,.tar;:6es comportamentais externas. Dessa
forma, pode escapar da mensurar;:ao de pes-
quisadores e da compreensao de administra-
dores da saude, que determinam a quantidade
e 0 tipo de terapia indicados.
A aceitar;:ao dos membros do grupo de si
mesmos e a aceitar;:ao dos outros membros sao
interdependentes. A auto-aceitar;:ao nao ape-
nas depende basicamente da aceitar;:ao por
outras pessoas, como somente e possfvel acei-
tar os outros apos 0 indivfduo aceitar a si mes-
mo. Esse prindpio e sustentado pela sabedoria
clinica e pela pesquisa.65 Os membros de urn
grupo de terapia podem sentir urn grande des-
prezo por si mesmos e pelos outros. A mani-
festar;:ao desse sentimento pode ser vista na re-
cusa inicial em entrar para "urn grupo de lou-
cos" ou na relutiincia em se envolver intima-
mente com urn grupo de individuos com pro-
blemas, por medo de ser sugado pelo redemo-
inho da miseria. Urn homem na faixa dos 80
anos deu uma resposta particularmente
evocativa a perspectiva de fazer terapia de gru-
po quando foi convidado para participar de urn
grupo para homens idosos deprimidos: "Era
inutil desperdir;:ar tempo molhando urn monte
de arvores mortas" - foi sua metafora para os
outros homens de sua clfnica.66
Em minha experiencia, todos os indivf-
duos que buscam assistencia de urn profissio-
nal da saMe mental tern duas dificuldades fun-
damentais em comum: (I) estabelecer e man-
ter relacionamentos interpessoais significati-
o vos; e (2) manter urn sentido de valor pessoal
(auto-estima). E dificil discutir essas duas areas
interdependentes como entidades separadas,
mas, como me dediquei mais ao estabelecirnen-
to de relacionamentos interpe~soais no capi-
tulo anterior; voltarei brevemente agora it auto-
estima.
A auto-estima e a estirna publica sao bas-
tante interdependentes.67 A auto-estima r~e
re-se it avaliar;:ao de urn individuo do seu valor
real, e esta indissoluvelmente relacionada com
as experiencias da pessoa em relacionamentos
sociais anteriores. Lembre-se da frase de
Sullivan: "Pode-se dizer que 0 self e formado
por avaliar;:6es refletidas".68 Em outras palavras,
durante 0 desenvolvirnento irlicial, as percep-
c;6es do individuo sobre as atitudes de outras
pessoas para consigo passam a determinar
como ele se enxerga e valoriza. 0 indivfduo
internaliza muitas dessas percepr;:6es e, se fo-
rem consistentes e congruentes, baseia-se nes-
sas avaliac;6es intemalizadas para ter certa
medida de valor pessoal.
Contudo, alem desse reservatorio interior
de valor pessoal, em urn grau maior ou menor,
as pessoas tambem estao sempre interessadas
e sao influenciadas pelas avaliac;6es atuais dos
outros - especialmente a avaliar;:ao dos grupos
aos quais pertencem. A pesquisa da psicologia
PSICOTERAPIA DE GRUPO 69
social sustenta essa compreensao clinica: os
grupos e relacionamentos de que participamos
sao incorporados ao self.69 0 apego do indivi-
duo a urn grupo e multidimensional. Ele e
moldado pelo grau de confianr;:a do membro
na atrar;:ao do grupo - "Sera que sou urn mem-
bro desejavel?" - e seu relativo desejo de afilia-
r;:ao - "Eu quero fazer parte?".
A influencia da estirna publica - ou seja,
da avaliar;:ao do grupo - sobre urn indivfduo
depende de diversos fatores: do quanto a pes-
soa sente que 0 grupo e irnportante; da fre-
qiiencia e a especificidade das comunicar;:6es
do grupo para a pessoa a respeito da estima
publica; e da irnportancia dos trar;:os em ques-
tao para a pessoa. (Presumivelmente, conside-
rando a auto-revelar;:ao honesta e intensa nos
grupos de terapia, essa irnportancia realmente
e muito grande, pois esses trar;:os aproximam-
se da identidade nuclear da pessoa.) Em ou-
tras palavras, quanta mais 0 grupo for signifi-
cativo para a pessoa, e quanto mais a pessoa
concordar com os valores do grupo, mais ela
estara inclinada a valorizar e concordar com 0
julgamento do grupo.7° Essa ultima questao
tern grande relevancia clinica. Quanto mais
atrafdo 0 indivfduo for pelo grupo, mais ele
respeitara 0 seu julgamento e prestara aten-
r;:ao e levara a serio qualquer discrepancia en-
tre a estima publica e a auto-estima. Uma dis-
crepancia entre as duas criara urn estado de
dissoniincia, que 0 indivfduo tentaracorrigir.
Suponhamos que essa discrepancia vire
para 0 lade negativo -:- ou seja, a avaliac;ao do
individuo pelo grupo e inferior it sua auto-ava-
liac;ao. Como resolver essa discrepanc[.a? Uma
possibilidade e negar ou distorcer a avaliar;:ao
do grupo. Em urn grupo de terapia, essa nao
seria uma evolur;:ao positiva, pois geraria urn
drculo vicioso: 0 grupo, em primeiro lugar,
avalia mal este individuo, pois ele nao partici-
pa da tarefa do grupo (que em urn grupo de
terapia consiste na explorar;:1io ativa do proprio
self e dos relacionamentos com os outros).
Qualquer aumento na posiC;1io defensiva e pro-
blemas de comunicar;:ao reduzira ainda mais a
estima do grupo por esse membro especifico.
Urn metodo comum usado pelos membros para
resolver esse tipo de discrepancia e desvalori-
zar 0 grupo - enfatizando, por exemplo, que 0
'.'
i! ,
,:
Ii
'i , ,
70 IRVIN D. YALOM
grupo e artificial e composto de individuos per-
turbados, e comparando-o de maneira desfa-
vor<lvel com outro grupo (por exemplo, urn
grupo social ou ocupacional) cuja avalia~ao
pelo membro seja diferente. Os membros que
seguem essa seqiiencia (por exemplo, indivi-
duos com comportamentos fora dos padr5es
do grupo, descritos no Capitulo 8) geralmente
abandonam 0 grupo.
Perto do final de uma terapia de grupo
bem-sucedida, uma participante de urn grupo
revisou as suas primeiras recorda~5es do gru-
po da seguinte maneira: "Por muito tempo, eu
dizia para mim mesma que todos voces eram
lou cos e que os seus comentarios sobre a mi-
nha postura defensiva e minha inacessibilidade
eram ridiculos. Eu queria largar 0 grupo - ja
fiz isso muitas vezes -, mas senti uma conexao
suficiente aqui e decidi ficar. Quando fiz essa
escolha, comecei a dizer a mim mesma que
voces nao podiam estar sempre errados a meu
respeito. Esse foi 0 ponto de mudan~a na mi-
nha terapia". Esse e urn exemplo do metodo
terapeutico de resolver a discrepancia para 0
individuo: ou seja, aumentar a estima publica
mudando os comportamentos e as atitudes que
o grupo criticava. Esse metodo e mais adequa-
do se 0 individuo se sentir muito atraido pelo
grupo e se a estima publica nao for muito mais
baixa do que a auto-estima.
Contudo, sera que 0 uso de pressao de
grupo para mudar 0 comportamento ou as ati-
tudes individuais e uma forma de engenharia
social? Nao sera mecanico? Nao seria negligen-
ciar niveis mais profundos de integra~ao? De
fato, a terapia de grupo emprega princfpios
behavioristas. A psicoterapia, em todas as suas
varia~5es, basicamente e uma forma de apren-
dizagem. Mesmo os terapeutas rna is nao-
diretivos usam, em urn nivel inconsciente, tec-
nicas de condicionamento operante: eles indi-
cam condutas ou atitudes desejaveis para os
pacientes, seja de forma explfcita ou sutil.71
Esse processo, todavia, nao sugere que
assumimos uma visao mecanica e behaviorista
explfcita do paciente. 0 condicionamento ad-
verso DU operante de comportamentos e atitu-
des nao e, em minha opiniao, possivel, nem
efetivo, quando aplicado como uma tecnica iso-
lada. Embora os pacientes muitas vezes rela-
tern somente melhorar apos alguma queixa
debilitante ser remediada por tecnicas de tera-
pia comportamental, uma inspe~ao minuciosa
do processo invariavelmente revela que rela-
cionamentos interpessoais importantes foram
afetados. 0 relacionamento entre 0 terapeuta
e 0 paciente nas terapias comportamentais e
cognitivas foi mais significativo do que 0
terapeuta tenba compreendido (e as pesquisas
substanciam isSO),72 ou alguma mudan~a im-
portante, iniciada pelo alfvio sintomatico, ocor-
reu nos relacionamentos sociais do paciente,
servindo para refor~ar e manter a sua melho-
ra. Mais uma vez, como enfatizei antes, todos
os fatores terapeuticos sao intricadamente
interdependentes. A mudan~a de comporta-
mento e de atitude, independentemente de sua
origem, produz outras mudan~as. 0 grupo al-
tera sua avalia~ao de urn membro, fazendo com
que 0 membro se sinta mais auto-satisfeito no
grupo e com 0 grupo, e inicia-se 0 espiral
adaptativo descrito no capitulo anterior.
Uma ocorrencia muito mais comum no
grupo de psicoterapia e uma discrepancia na
dire~ao oposta: a avalia~ao de urn membro pelo
grupo e maior do que a auto-avalia~ao do pro-
prio membro. Mais uma vez, 0 mem.bro e colo-
cado em urn estado de dissonancia e ten tara
resolver a d~crepancia. 0 que pode fazer urn
membro nessa posi~ao? Talvez a pessoa redu-
za sua estima publica, revelando inadequa~5es
pessoais. Em grupos de terapia, todavia, esse
comportamento tern 0 efeito paradoxal de le-
vantar a estima publica - a revela~ao de
inadequa~5es e uma norma valorizada no gru-
po e aumenta a aceita~ao do giUpo. Outro ce-
nario possivel, e terapeuticamente desejavel,
ocorre quando os membros do grupo reexami-
nam e alteram 0 seu nivel baixo de auto-esti-
rna. Uma vinheta clinica ilustrativa demonstra
essa formula~ao:
• Marietta, uma dona de casa de 34 anos, de
origem emocionalmente pobre, procurou te-
rapia por conta da ansiedade e da culpa que
sentia por uma serie de casos extracon-
jugais. Sua auto-estima estava muito bai-
xa. Nada escapava a sua automutila~ao: sua
aparencia fisica, sua inteligencia, seu dis-
curso, sua falta de imagina<;ao, seu fun-
cionamento como mae e como esposa. Em-
bora tivesse aHvio com sua religiao, isso ti-
nha urn sentido dubio, pois ela se sentia in-
capaz de socializar com 0 pessoal da igreja
em sua comunidade. Ela casou com urn
homem que considerava repugnante, mas
que era urn born homem - certamente su-
ficientemente born para ela. Somente em
seus casos sexuais - particularmente quan-
do estava com diversos homens ao mesmo
tempo - ela parecia estar viva, sentindo-se
atraente, desejavel e capaz de dar algo de
si que parecesse de valor para os outros.
Esse comportamento, no entanto, conflitava
com suas convic<;5es religiosas e resultava
em consideravel ansiedade e mais autode-
precia<;ao.
Enxergando 0 grupo como urn microcosmo,
o terapeuta logo observou tendencias ca-
racterfsticas no comportament.o de Marietta
no grupo. Ela falava muito da culpa por seu
comportamento sexual e, por horas, 0 gru-
po se debatia com todas as ramifica~5es
excitantes do seu comportamento. Em to-
dos os outros momentos, porem, ela se des-
ligava e nao of ere cia nada. Ela se relacio-
nava com 0 grupo como com 0 seu ambien-
te social. Podia pertencer a ele, mas nao se
relacionava de verdade com as outras pes-
soas: a unica coisa de real interesse que sen-
tia que poderia oferecer eram seus orgaos
genitais.
Com 0 passar do tempo, Marietta come~ou
a responder e a questionar os outros, e a
oferecer afeto, amparo e feedback. Ela des-
cobriu outros aspectos nao-sexuais para re-
velar a si mesma e falou abertamente de
uma ampla variedade de interesses em sua
vida. Logo, Marietta estava sendo cada vez
mais valorizada pelos outros membros. Gra-
dualmente, ela reexaminou e negou sua
cren<;a de que tinha pouco de valor para
oferecer. A discrepancia entre sua estima pu-
blica e sua auto-estima ampliou-se (isto e,
o grupo a valorizava mais do que ela mes-
rna se valorizava), e ela logo foi for~ada a
ter uma visao mais realista e positiva de si
PSICOTERAPIA DE GRUPO 71
mesma. Gradualmente, houve urn espiral
adaptativo: Marietta come~ou a estabele-
cer relacionamentos nao-sexuais dentro e
fora do grupo e esses, por sua vez, aumen-
taram a sua auto-estima ainda mais.
Quanto mais a terapia desfizer a auto-ima-
gem negativa do paciente por meio de novas ex-
periencias relacionais, mais efetiva ela Sera.73
Auto-estima, estima pu-blica
e mudaDl.a terapeutica: evidencias
A pesquisa sobre a terapia de grupo nao
investigou especificamente a rela~ao entre a
estima publica e as mudan~as na auto-estima.
Todavia, uma constata<;ao interessante de urn
estudo de grupos experimentais (ver Capitulo
16) foi que a auto-estima dos membros dimi-
nuiu quando a estima publica diminuiu.74 (A
estima publica e medida por dados sociome-tricos, 0 que envolve solicitar que os membros
se classifiquem em diversas variaveis.) Os pes-
quisadores tambem descobriram que quanta
mais urn membro de urn grupo subestimava a
sua estima publica, mais aceitavel ele era para
os outros membros. Em outras palavras, a ca-
pacidade de enfrentar as proprias deficiencias,
ou mesmo de se julgar de forma urn pouco rf-
gida, aumenta a estima publica. A humildade,
dentro de limites, e muito mais adaptativa do
que a arrogancia.
Tambem e interessante considerar dad os
sobre a popularidade no grupo, uma variavel
intimamente relacionada com a estima publi-
ca. Membros considerados mais populares pe-
los outros membros apos 6 e 12 semanas de
terapia apresentaram resultados significativa-
mente melhores do que os outros membros ao
final de urn ano. 7S Assim, parece que os pacien-
tes que tem'uma estima publica elevada logo
no come~o de urn grupo sao destinados a ter
melhores resultados na terapia.
Que fatores parecem ser responsaveis pela
popularidade em grupos de terapia? Tres varia-
veis, que nao apresentam correla<;ao com 0
resultado, apresentam uma correla~ao signifi-
cativa com a popularidade:
72 IRVIN D. YALOM
1. Auto-revela<;iio anterior.76
2. Compatibilidade interpessoal:77 individuos
que (talvez por acaso) tern necessidades
interpessoais que combinam com as de
outros membros tornam-se populares no
grupo.
3. Outras medidas sociometricas. Os mem-
bros que costumam ser escolhidos como
companheiros para 0 lazer e trabalham
bern com os colegas tomam-se populares
no grupo. Urn estudo cllnico dos membros
mais populares e menos populares reve-
lou que os membros populares tendem a
ser jovens, com boa forma<;iio, inteligen-
tes e introspectivos. Eles preenchem 0 va-
cuo de lideran<;a que ocorre no come<;o
do grupo, quando 0 terapeuta niio assu-
me 0 papel tradicional de lider.78
Os membros mais impopulares foram os
mais rigidos, moralistas, niio-introspectivos e
menos envolvidos com a tarefa do grupo. Al-
guns estavam claramente fora dos padroes,
atacando 0 grupo e se isolando. Alguns mem-
bros esquizoides se apavoraram com 0 proces-
so do grupo e permaneceram perifericos. Urn
estudo com 66 membros de grupos de terapia
concluiu que os membros menos populares (ou
seja, aqueles vistos de forma menos positiva
pelos outros membros) foram mais inclinados
a abandonar 0 grupoJ9
Os pesquisadores da psicologia social tam-
bern investigaram os atributos que conferem
maior status social em grupos socia is. 0 atri-
buto da extroversiio da personalidade (mensu-
rado por urn questionario de personalidade, 0
NEO-PI)8o e urn forte indicador de popularida-
de. 81 A extroversiio conota os tra<;os de
envolvimento social ativo e energico, ou seja,
a pessoa que e otimista e emocionalmente ro-
busta. A pesquisa neurobiologica de Depue82
sugere que esses individuos convidam os ou-
tros para se aproximarem deles. A promessa
de resposta positiva por parte do extrovertido
recompensa e incentiva 0 envolvimento.
o estudo de grupos de encontro de
Lieberman, Yalom e Miles corrobora essas con·
clusoes.83 Dados sociometricos revelaram que
os membros com resultados mais positivos fo-
ram influentes e tiveram comportamento em
harmonia com os valores do grupo relaciona-
dos com correr riscos, espontaneidade, aber-
tura, auto-revela<;ao, expressividade, facilita-
<;iio do grupo e apoio. Pesquisas cHnicas e da
psicologia social com grupos pequenos demons-'
traram que os membros que aderem mais as
normas do grupo alcan<;am posi<;6es de popu-
laridade e influencia.84 Os membros que aju-
dam 0 grupo a cumprir com suas tarefas ob-
tern maior status. 85
Para resumir: os membros que siio po-
pulares e influentes em grupos de terapia tern
maior probabilidade de mudar. Eles obtem po-
pularidade e influencia no grupo em virtude
de sua participa<;ao ativa, auto-revela<;iio, auto-
explora<;iio, expressao emocional, ausencia de
posturas defensivas, lideran<;a, interesse nos ou-
tros e apoio do grupo.
E importante observar que 0 individuo
que adere as normas do grupo nao apenas e
recompensado pela estima publica dentro do
grupo, como tambem usa essas mesmas habili-
dades para lidar de forma mais efetiva com
problemas interpessoais fora do grupo. Assim,
a maior popularidade no grupo atua terapeuti-
camente de duas formas: aumentando a auto-
estima e refor<;ando habilidades socia}s adapta-
tivas. Os ricos ficam mais ricos. 0 desafio na
terapia de grupo e ajudar os pobres a enrique-
cerem tambem.
Coesao grupal e freqiiencia de participaf!ao
A continua<;ao no grupo obviamente e urn
pre-requisito necessario, mas nao suficiente,
para 0 sucesso do tratamento. Diversos estu-
dos indicam que os pacientes que se desligam
durante a terapia de grupo obtem poucos be-
neficios.86 Em urn estudo, mais de 50 pacien-
tes que abandonaram grupos de terapia de lon-
ga dura<;ao nos primeiros 12 encontros relata-
ram que 0 fizeram por causa de algum proble-
ma com 0 grupo. Eles nao ficaram satisfeitos
com a experiencia da terapia e nao melhora-
ram. De fato, muitos desses pacientes se sentiam
piores.87 Os pacientes que permanecem no
grupo por pelo menos alguns meses tern uma
probabilidade elevada (85% em urn estudo)
de tirar beneficios da terapia.88
Quando maior a atratividade do grupo
para urn membro, mais inclinada essa pessoa
estara a permanecer em grupos de terapia ou
em grupos de encontro, grupos de laboratorio
(formados para alguma pesquisa) e grupos de
tarefa (estabelecidos para realizar alguma tare-
fa espedfica). 89 0 estudo de grupos de encontro
de Lieberman, Yalom e Miles descobriu uma
correla<;ao elevada entrt'! uma coesiio baixa e 0
abandono do grupO.90 Os individuos que larga-
ram os grupos tinham pouco sentido de perten-
cimento e deixaram os grupos porque sentiam-
se rejeitados, atacados ou desconectados.
A rela<;iio entre a coesiio e a manuten<;iio
dos membros tambem tern implica<;oes para 0
grupo como urn todo. Os membros menos coe-
sos niio apenas abandonam e mo se beneficiam
com a terapia, como grupos niio-coesos com
muita rotatividade- de membros mostram-se
menos terapeuticos para os membros que per-
manecem. Os pacientes que desistem desafiam
o sentido de valor e a efetividade do grupo.
A estabilidade da participa<;iio e uma con-
di<;ao necessaria para a terapia de grupo de
curta e longa dura<;iio. Embora a maio ria dos
grupos de terapia pa:;se por I1ma fase inicial de
instabilidade, durante a qual alguns membros
abandonam e sao acrescentadas novas adi<;oes,
a partir dai, os grupos se mantem em uma lon-
ga fase esrave~ na qual ocorre grande parte do
trabalho solido da terapia. Alguns grupos pa-
recem entrar nessa fase de estabilidade em
pouco tempo, enquanto outros nunca a alcan-
<;am. 0 abandono de uns faz com que outros
membros deixem 0 grupo. E outros pacientes
podem sair logo apos a saida de urn membro
fundamental. Em urn estudo de seguimento
com grupos de terapia, os pacientes esponta-
neamente enfatizaram a importiincia da esta-
bilidade dos membros.91
No Capitulo 15, discutirei a questao da
coesao grupal em cenarios clinicos que impe-
dem a participa<;ao estavel de longa dura<;ao.
Por exemplo, grupos de crise ou grupos em uma
clinica para pacientes agudos raramente tern
uma participa<;ao consistente, mesmo por dois
encontros consecutivos. Nessas situa<;oes clini-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 73
cas, os terapeutas devem alterar radicalmente
as suas percep<;oes sobre 0 desenvolvimento
da vida do grupo. Creio, por exemplo, que 0
tempo de vida adequado para urn grupo para
pacientes agudos seja uma unica sessao. 0
terapeuta deve lutar para ser eficiente e of ere-
cer ajuda efetiva para 0 maximo de membros
possivel durante cada sessao individuaL
Os grupos de terapia breve pagam urn
pre<;o particularmente elevado pela falta de
consistencia na freqiiencia, nesse caso, os
terapeutas devem fazer urn esfor<;o especial
para aumentar a coesao no come<;o do grupo.
Essas estrategias(incluindo uma forte prepa-
ra<;1io antes do grupo, composi<;ao homogenea
e interven<;oes estruturadas)92 seriio discutidas
no Capitulo 15.
Coesao grupal e expressao de hostilidade
Seria urn engano comparar a coesiio com
conforto. Embora os grupos coesos possam
apresentar maior aceita<;ao, intimidade e en-
tendimento, existem evidencias de que eles tam-
bem perrnitem maior desenvolvimento e e.xpres-
sao de hostilidade e conflito. Os grupos coesos
possuem normas (ou seja, regras de compor-
tamento verbais aceitas pelos membros) que
estimulam a expressao aberta de desacordos
ou conflitos, alem de apoio. De fato, a menos
que se possa expressar a hostilidade abertamen-
te, atitudes hostis disfar<;adas e persistentes
podem impedir 0 desenvolvimento de coesao
e de uma aprendizagem interpessoal efetiva.
A hostilidade reprimida simplesmente ferve
oculta, para extravasar de maneiras indiretas,
que nao facilitam 0 processo terapeutico do
grupo. Nao e facil continuar a se comunicar de
forma honesta com alguem de quem nao se
gosta ou que se detesta. A tenta<;ao de evitar a
pessoa e romper a comunica<;ao e muito gran-
de. Ainda assim, quando se fecham os canais
de comunica<;ao, se acabam tambem as espe-
ran<;as de resolver os conflitos e de crescimen-
to pessoal.
1sso e tao verdadeiro no nivel do megagru-
po - mesmo no nacional- quanta no do diadi-
co. 0 experimento da Caverna dos Ladroes, urn
I
j.,
!
74 IRVIN D. YALOM
famoso projeto de pesquisa realizado ha bas-
tante tempo, na infiincia da pesquisa da dina-
mica de grupo, * proporciona evidencias expe-
rimentais ainda relevantes para 0 trabalho cli-
nico contemporaneo.93 Urn acampamento de
garotos de 11 anos bem-adaptados foi dividi-
do no come<;o em dois grupos, sendo depois
colocados em uma competi<;ao. Em seguida,
ambos os grupos desenvolveram uma grande
coesao e urn sentido profundo de hostilidade
para com 0 outro grupo. Tornou-se impossiv:!,!l
qualquer comunica<;ao significativa entre os
dois grupos. Por exemplo, se fossem colocados
em proximidade ffsica no refeitorio, os limites
entre os grupos permaneciam impermeaveis.
A comunica<;ao entre os grupos consistia de in-
sultos, escarnio e ataques.
Como se poderia restaurar a comunica-
<;ao significativa entre os membros dos dois gru-
pos? Essa era a busca dos pesquisadores. Fi-
nalmente, eles pensaram em uma estrategia
bem-sucedida. A hostilidade entre os grupos
somente diminuiu quando se conseguiu criar
urn sentido de lealdade a urn grupo unico
maior. Os pesquisadores criaram objetivos su-
periores que rompiam os limites entre os
grupos pequeno;; e for<;avam os garotos a tra-
balharem juntos em urn grande grupo. Por
* Diniimica e urn termo usado com freqiiencia no
vocabulario da psicoterapia e deve ser definido. Ele
tern urn significado leigo e urn significado tecnico,
derivando do grego dunasthi, que significa "ter po-
der ou for~a". No sentido leigo, entao, a palavra
evoca energia ou movimento (urn jogador de fute-
bol ou orador dinamico), mas em seu sentido tecni-
co, ela se refere a ideia de "for~as". Na terapia indi-
vidual, quando falamos da "psicodinamica" de urn
c1iente, estamos nos referindo as varias for~as em
conflito dentro do c1iente, que resultam em certas
configura~6es de sentimentos e comportamentos.
Em uso comum desde 0 advento de Freud, pressu-
p6e-se que algumas das for~as em conflito existam
em diferentes niveis de consciencia - de fato, algu-
mas delas estao inteiramente fora da consciencia e,
pelo mecanisme da repressao, habitam 0 inconscien-
te dinamico. No trabalho do grupo, a dinamica re-
fere-se a construtos inferidos e invisiveis ou a pro-
priedades do grupo (por exemplo, coesao, pressao
do grupo, 0 usa de alguem como bode expiat6rio e
a forma~ao de subgrupos) que afetam os movimen-
tos gerais do grupo.
exemplo, urn carrinho com comida para uma
caminhada noturna caiu em urn buraco e so-
mente pode ser resgatado com os esfor<;os co-
operativos de todos os garotos. Urn filme que
desejavam muito assistir somente poderia ser
alugado sejuntassem as contribui<;oes de todo
o acampamento. 0 suprimento de agua foi in-
terrompido e apenas poderia ser restaurado
pelos esfor<;os cooperativos de todos os cam-
pistas.
A motiva<;iio para fazer parte pode criar
sentimentos poderosos dentro dos grupos. Os
membros com uma adesiio firme ao que ocor-
re dentro do grupo podem sentir uma forte
pressiio para excluir e desvalorizar 0 que ocor-
re fora dos limites do grupO.94 Nao e incomum
que individuos desenvolvam preconceitos con-
tra grupos aos quais niio pertencem. Portanto,
nao e de surpreender que muitas vezes haja
hostilidade contra membros de grupos etnicos
ou raciais cuja participa<;iio e impossivel para
pessoas de fora. A implica<;iio para conflitos
intemacionais e visivel: a hostilidade entre gru-
pos pode desaparecer diante de alguma crise
mundial, que somente uma coopera<;iio supra-
nacional pode evitar, como a polui<;iio atmos-
ferica ou uma epidemia internacional de AIDS.
Esses prindpios tambem tern implica<;i5es para
o trabalho clfnico com grupos peque~os.
Os conflitos entre os membros no decor-
rer da terapia de grupo devem ser contidos.
Acima de tudo, a comunica<;ao nao po de ser
interrompida. Alem disso, os adversarios de-
vern continuar a trabalhar juntos de maneira
significativa, assumir a responsabilidade por
suas declara<;oes e estar dispostos a ir alem de
xingamentos. Essa e uma importante diferen-
<;a entre os grupos de terapia e os gmpos sociais,
nos quais os conflitos resultam no rompimen-
to permanente dos relacionamentos. As des-
cri<;oes dos pacientes sobre incidentes crfticos
na terapia (ver Capitulo 2) muitas vezes en-
volvem urn episodio no qual expressaram for-
te afeto negativo. Contudo, 0 paciente sempre
consegue amainar a tempestade e continuar a
se relacionar (as vezes de maneira mais grati-
ficante) com 0 outro membro.
Por tras desses eventos, existe a condi<;ao
da coesiio. 0 grupo e os membros devem sig-
nificar 0 suficiente uns para os ou(ros para es-
tarem dispostos a suportar 0 desconforto de
resolver 0 conflito. Os grupos coesos, de certa
forma, siio como fammas, com suas guerras
destrutivas, mas urn forte sentido de lealdade.
Diversos estudos demonstram que a coe-
sao tern correla<;iio positiva com a disposi<;iio
para correr riscos e intera<;oes intensivas.95
Assim, a coesao nao e sinonimo de amor ou de
urn fluxo continuo de declara<;oes solid arias e
positivas. Os grupos coesos sao grupos que con-
seguem aceitar 0 conflito e tirar beneffcios cons-
trutivos dele. Obviamente, em epocas de con-
flito, as escalas de coesao que enfatizam 0 afe-
to, 0 alivio' e 0 apoio se invertem, fazendo com
que muitos pesquisadores tenham reservas quan-
to a se considerar a coesao como urna variavel
unidimensional precisa, estavel, mensuravel,
considerando-a multidimensional. 96
Quando 0 grupo consegue lidar com 0
conflito de forma construtiva, a terapia inten-
sifica-se de muitas" maneiras. Ja mencionei a
importancia da catarse, de se correrem riscos,
de explorar gradualmente partes evitadas ou
desconhecidas de si mesmo e de reconhecer
que a catastrofe temida e quimerica. Muitos
pacientes tern urn medo desesperado da raiva -
da sua e da dos outros. Urn grupo muito coeso
estimula os membros a tolerarem a dor e 0
sofrimento que a aprendizagem interpessoal
po de produzir.
Tenha em mente que e esse envolvimento
inicial que possibilita 0 trabalho posterior.97 A
expressao prematura de hostilidade excess iva
antes que 0 grupo esteja coeso foi estabelecida
como uma das principais causas de fragmenta-
<;ao dos grupos. E importante que os pacientes
entendam que a sua raiva nao e letal. Tanto
ele quanta os outros podem e devem sobrevi-
ver a uma expressiio de sua impaciencia,
irritabilidade e ate raiva direta. Para alguns pa-
cientes, tambem e importante ter a experien-
cia de resistir a urn ataque. No processo, eles
pode conhecer melhor as razoes paraa sua
posi<;ao e aprender a suportar a pressao dos
outroS.98
o conflito tambem pode proporcionar a
auto-revela<;ao, pois cad a oponente tende a se
revelar cada vez mais para esclarecer a sua
posi<;ao. Quando os membros conseguirem ir
alem da simples declara<;ao de suas posi<;oes,
PSIGOTERAPIA DE GRUPO 75
a medida que come<;arem a entender 0 mundo
das experiencias do outro, passadas e presen-
tes, e enxergarem a posi<;iio do outro a partir
de sua referenda, talvez comecem a entender
que 0 ponto de vista do outro pode ser tao apro-
priado para aquela pessoa, quanta 0 seu e para
si mesmo. A resolu<;ao da aversao extrema ou
do adio por outra pessoa e uma experiencia de
grande valor terapeutico. Urn exemplo clinico
demonstra muitas dessas quest6es (outro
exemplo pode ser encontrado em meu livro A
cum de Schopenhauer).99
• Susan, uma mulher de 4Q anos que era uma
excelente diretora escolar, e Jean, uma jo-
vern de 21 anos que havia abandonado a
escola, entraram em uma disputa cruel.
Susan menosprezava Jean por causa de seu
estilo de vida libertine e pelo que imagina-
va ser pregui<;a e promiscuidade. Jean ti-
nha raiva da sensatez de Susan, da sua san-
tidade, da sua atitude amarga de solteiro-
na, da sua postura fechada para 0 mundo.
Felizmente, ambas estavam profundamen-
te comprometidas com 0 grupo. (Circuns-
tancias fortuitas desempenharam urn papel
importante nesse caso. Jean havia sido uma
das principais participantes do grupo por
urn ano, casou-se e viajou para 0 exterior
por tres meses. Nessa epoca, Susan entrou
para 0 grupo e, durante a ausencia de Jean,
envolveu-se bastante.)
Ambas haviam tido bastante dificuldade
para tolerar e expressar raiva. Ao longo de
urn periodo de quatro meses, elas intera-
giram bastante, as vezes em batalhas fero-
zes. Por exemplo, Susan exploditfem indig-
na<;ao quando descobriu que Jean conse-
guia vale-refei<;ao do govemo de forma ile-
gal; enquanto Jean, ao saber da virgindade
de Susan, disse que ela era uma curiosida-
de, uma pe<;a de museu, uma reliquia
vitoriana.
Grande parte do trabalho do grupo ocor-
reu porque Jean e Susan, apesar de seu con-
flito, nunca romperam a comunica<;iio. Elas
aprenderam muito sobre a outra e COffi-
preenderam a crueldade de seus julgamen-
tos mutuos. Finalmente, conseguirarn en-
tender 0 quanta significavam uma para a
76 IRVIN D. YALOM
outra nos nfveis pessoal e simb6lico. Jean
precisava desesperadamente da aprova<;ao
de Susan, que invejava Jean profundamen-
te pela liberdade que nunca permitiu a si
mesma. No processo de resolu<;ao, ambas
experimentaram sua raiva completamente.
Elas se encontraram e aceitaram partes an-
tes desconhecidas de si mesmas. Finalmen-
te, desenvolveram uma compreensao empa-
tica e aceita<;ao pela outra. Nenhuma delas
poderia ter tolerado 0 desconforto extre-
mo do conflito se nao fosse pela forte coe-
sao que, apesar da dor, as uniu ao grupo.
Os grupos coesos nao apenas sao mais
capazes de expressar hostilidade entre os mem-
bros, como tambem existem evidencias de que
eles sao mais capazes de expressar hostilidade
para com 0 lfder.100 Independentemente do
estilo pessoal ou da habilidade dos lfderes, 0
grupo de terapia ira, dentro dos 12 primeiros
encontros, experimentar algum grau de hosti-
lidade e ressentimento para com eles. ever
Capitulo 11 para uma discussao ampla sobre
essa questao.) Os lfderes nao satisfazem as ex-
pectativas fantasiadas dos membros e, na vi-
sao de muitos membros, nao se importam 0
suficiente, nao orientam 0 suficiente e nao ofe-
recem alfvio imediato. Se os membros do gru-
po suprimem esses sentimentos de decep<;ao
ou raiva, podem haver diversas conseqiiencias
prejudiciais. Eles podem atacar urn bode
expiat6rio conveniente - outro membro ou al-
guma institui<;ao como a "psiquiatria" ou os
"medicos". Eles podem experimentar uma
irrita<;ao latente em si mesmos ou no grupo
como um todo. Em suma, eles podem come<;ar
a estabelecer normas que desestimulem a ex-
pressao aberta de sentimentos. Esse uso de
bodes expiat6rios pode ser urn sinal de que a
agressividade esta sendo desviada de sua fon-
te mais legitima - 0 terapeuta.101 Os lfderes que
desafiam em vez de ser coniventes com isso
nao apenas se protegem contra urn ataque in-
justo, como tambem demonstram seu compro-
metimento com a autenticidade e com a res-
ponsabilidade nos relacionamentos.
o grupo que consegue expressar senti-
mentos negativos para com 0 terapeuta quase
invariavelmente e fortalecido pela experiencia.
Esse e urn excelente exercfcio em comunica-
<;ao direta e proporciona uma importante ex-
periencia de aprendizagem - ou seja, que se
pode expressar hostilidade diretamente sem
que ocorra nenhuma calamidade irreparavel.
E muito melhor que 0 terapeuta, 0 verdadeiro
objeto da raiva, seja confrontado, do que a rai-
va ser desviada para outro membro do grupo.
Alem disso, espera-se que 0 terapeuta esteja
muito mais preparado para aglientar 0 confron-
to do que urn membro escolhido como bode
expiat6rio. 0 processo se auto-refor<;a, e 0 ata-
que ao lfder, que e tratado de forma nao-de-
fens iva e nao-retaliat6ria, serve para aumen-
tar a coesao ainda mais.
Uma nota de precau<;ao sobre a coesao:
ideias erroneas sobre a coesao podem atrapa-
lhar a tarefa do grupO.102 Janis cunhou 0 ter-
mo "groupthink" para descrever 0 fenomeno
da "deteriora<;ao da eficiencia mental, teste da
realidade e julgamento moral que resulta da
pressao do grupO".103 A pressao do grupo para
se conformar e para manter 0 consenso pode
criar urn ambiente de groupthink. Isso nao e
uma coesao baseada na alian<;a que facilita 0
crescimento dos membros do grupo. Pelo con-
trario, e uma alian<;a erronea, baseaqa em pres-
supostos ingenuos ·ou regressivos de perten-
cimento. 0 lfder deve endossar e estimular 0
pensamento crftico e analftico dos membros do
grupo, como uma norma essenciaL 104 Lideres
autocraricos, fechados e autoritarios desesti-
mulam esse pensamento. Os seus grupos, por-
tanto, sao mais propensos a resistir a incerte-
za, a ser menos reflexivos e a encerrar a explo-
ra<;ao de forma prematura. lOS
Coesao grupal e outras variaveis
relevantes para a terapia
Pesquisas com grupos de terapia e de la-
borat6rio demonstram que a coesao grupal tern
uma variedade de conseqiiencias importantes,
que tern relevancia 6bvia para 0 processo tera-
peutico do grupO.l06 Por exemplo, ja se mostrou
que os membros de urn grupo coeso, ao con-
trario dos membros de urn grupo nao-coeso:
1. tentariio influenciar muito os outros mem-
bros do grupo;107
2. estariio mais abertos a influencia dos ou-
tros membros;IOB
3. estarao mais dispostos a ouvir os outroslO9
e aceita-Ios; 1I0
4. experimentarao maior seguran<;a e alfvio
da tensao no grupo;lll
5. participariio mais dos encontros;112
6. revelar-se-ao mais;1I3
7. protegerao as normas e exerceriio mais
pressao sobre os indivfduos que as que-
bram;1I4
8. serao menos suscetiveis a perturba<;oes no
grupo quando urn membro terminar a sua
participa<;ao;1\S
9. sentirao maior dominio da experiencia da
terapia de grupO.1I6
RESUMO
Por defini<;ao, a coesao refere-se a atrati-
vidade que os membros sentem por seu grupo
e pelos outros membros. Ela e sentida nos ni-
veis interpessoal, intrapessoal e intragrupal. Os
membros de urn grupo coeso aceitam-se uns
aos outros, sao solidarios>e tendem a formar
relacionamentos sigruficativos no grupo. A coe-
PSICOlERAPIA DE GRUPO 77
sao e urn fator significativo no sucesso da tera-
pia de gtllpo. Em condi<;oes de aceita<;ao e en-
tendimento, os membros estarao mais incli-
nados a se expressarem e explorarem, a ter
consciencia e integrar aspectos inaceitaveis do
self, ease relacionarem de forma mais profun-
da com os outros. A auto-estima e bastante in-
fluenciada pelo papel do paciente em urn gru-
po coeso. 0 comportamento social exigido para
que os membros tenham a estima do grupo e
socialmente adaptativo para 0 indivfduo fora
do grupo.
Alem disso,grupos muito coesos sao mais
estaveis, com maior freqiiencia e menos rotati-
vidade. Foram apresentadas evidencias indi-
cando que essa estabilidade e vital para 0 su-
cesso da terapia: 0 termino precoce bloqueia
os beneffcios para 0 paciente envolvido e im-
pede 0 progresso do resto do grupo. A coesao
favorece a auto-revela<;ao, a aceita<;ao dos ris-
cos e a expressao construtiva de conflitos no
grupo - urn fenomeno que facilita a terapia.
Ainda falta considerar quais sao os deter-
minantes da coesao. Quais sao as causas de
muita ou pouca coesao? 0 que 0 terapeuta pode
fazer para facilitar 0 desenvolvimento de urn
grupo coeso? Essas importantes questoes se-
rao discutidas nos capftulos que tratam das
tarefas e das tecnicas do terapeuta de grupo.