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A terapia de grupo ajuda os pacientes? 
De fa to, ajuda. Urn convincente corpus de pes-
quisas sobre seus resultados demonstra de ma-
neira inequfvoca q,-!~ a terapia de grUpo e uma 
forma bastante efetiva de psicoterapia e que 
ela e pelo menos igual a psicoterapia individual 
em sua capacidade de proporcionar beneficios 
significativos. l 
Como a terapia de grupo ajuda os pacien-
tes? Uma questao ingenua, talvez, mas se pu-
dermos responde-Ia com urn certo grau de pre-
cisao e certeza, teremos a nossa disposi<;ao urn 
prindpio organizacional central com 0 qual po-
deremos abordar os problemas mais provo can-
tes e controversos da psicoterapia. Uma vez 
identificados, os aspectos cruciais do processo 
de mudan<;a constituirao uma base racional para 
o terapeuta selecionar as taticas e estrategias 
necessarias para moldar a experiencia de gru-
po, de modo a maximizar sua potencia com di-
ferentes pacientes e em diferentes cenarios. 
Acredito que a mudan<;a terapeutica seja 
urn processo enormemente complexo, que 
ocorre por uma intera<;ao intricada de experien-
cias humanas, que chamarei de "fatores tera-
peuticos". Existe uma vantagem consideravel 
em se abordar 0 complexo pelo simples, 0 fe-
nomeno total por seus processos componentes 
basicos. Dessa forma, come<;o descrevendo e 
discutindo esses fatores elementares. 
• • 
• • 
• 
• • 
• • 
Os Jatores terapeuticos 
Segundo a minha perspectiva, linhas na-
turais dividem a experiencia terapeutica em 11 
fatores primarios: 
1. Instila<;ao de esperan<;a 
2. Universalidade 
3. Compartilhamento de informa<;6es 
4. Altrufsmo 
5. Recapitula<;ao corretiva do grupo familiar 
primario 
6. Desenvolvimento de tecnicas de sociali-
za<;ao 
7. Comportamento imitativo 
S. Aprendizagem interpes.s.oal 
9. Coesao grupal 
10. Catarse 
11. Fatores existenciais 
No restante deste capftulo, discuto os pri-
meiros sete fatores. Considero a aprendizagem 
interpessoal e a coesao grupal tao importantes 
e complexas que trato delas separadamente, 
nos dois capftulos seguintes. Os fatores exis-
tenciais sao discutidos no Capftulo 4, onde sao 
mais bern compreendidosno contexte de ou-
tros materiais apresentados. A catarse esta in-
trinsecamente entremeada com outros fatores 
terapeuticos e tambem sera discutida no Ca-
pftulo 4. 
24 IRVIN D. YALOM 
As distinr;:oes entre esses fatores sao arbi-
trarias. Embora eu os discuta individualmen-
te, eles sao interdependentes e nenhum deles 
ocorre ou funciona separadamente. Alem dis-
so, esses fatores podem representar diferentes 
partes do processo de mudanr;:a: alguns fato-
'res (por exemplo, a autocompreensao) atuam 
no myel da cognir;:ao; alguns (por exemplo, 0 
desenvolvimento de tecnicas de socializar;:ao) 
atuam no myel da mudanr;:a comportamental; 
al~ms (por exemplo, a catarse) atuam no nf-
vel da emor;:ao; e alguns (por exemplo, a coe-
sao) podem ser mais bern descritos como 
precondir;:oes para a mudanr;:a.Y Embora os 
mesmos fatores terapeuticos operem em todos 
os tipos de grupos de terapia, sua interar;:ao e 
importancia diferencial podem variar muito de 
grupo para grupo. Alem disso, devido a dife-
renr;:as individuais, os participantes de urn mes-
mo grupo beneficiam-se com diferentes con-
juntos de fatores terapeuticos.Y 
Tendo em mente que os fatores terapeu-
ticos sao constructos arbitrarios, podemos con-
siderar que eles proporcionam urn mapa cog-
nitivo para 0 estudante-Ieitor. Esse agrupamen-
to dos fatores terapeuticos nao e visto concreta-
mente, e outros clinicos e pesquisadores chega-
ram a grupos de fatores diferentes e tambem 
arbitrarios.2 Nenhum sistema explicativ~ pode 
abranger toda a terapia. Em seu nucleo, 0 pro-
cesso terapeutico e infinitamente complexo e 
nao existe limite para 0 numero de caminhos 
atraves da experiencia. (Discutirei essas ques-
toes de maneira mais ampla no Capftulo 4.) 
o inventario de fatores terapeuticos que 
proponho parte de minha experiencia clfnica, 
da experiencia de outros terapeutas, e de pes-
quisas sistematicas relevantes. Entretanto, ne-
nhuma dessas fontes esta livre de questiona-
mento. Nenhum membro de grupo ou lfder de 
grupo e inteiramente objetivo, e nossa me-
todologia de pesquisa muitas vezes e incipiente 
e inaplicavel. 
Com os terapeutas de grupo, obtemos urn 
inventario variado e internamente inconsisten-
te de fatores terapeuticos (ver Capftulo 4). Os 
terapeutas, que de mane ira alguma sao obser-
vadores desinteressados ou imparciais, inves-
tern tempo e energia consideraveis para apren-
der e dominar determinada abordagem tera-
peutica, fazendo com que suas respostas se-
jam estipuladas por sua escola de convicr;:ao. 
Mesmo entre terapeutas que compartilham da 
mesma ideologia e falam a mesma Ifngua pode 
nao haver consenso quanta as razoes pelas 
quais os pacientes melhoram. Na pesquisa so-
bre grupos de encontro, meus colegas e eu 
aprendemos que muitos lfderes de grupos bem-
sucedidos atribufram seu sucesso a fatores que 
eram irrelevantes para 0 processo de terapia. 
Por exemplo, a tecnica do hot-seat (desenvol-
vida por Fritz Peds, fundador da terapia gestalt, 
na qual urn paciente senta-se no centro do dr-
culo, enquanto 0 lfder e os outros membros do 
grupo concentram-se nele por urn longo perfo-
do de tempo), ou exerdcios nao-verbais, ou 0 
impacto direto da pessoa do terapeuta (ver Ca-
pftulo 16).3 Mas isso nao nos surpreende. A 
historia da psicoterapia esta cheia de terapeutas 
que eram efetivos, mas nao pelas razoes que 
supunham. Em outras epocas, nos terapeutas 
jogamos as maos aos ceus em espanto. Quem 
nunca teve urn paciente que tenha tide vastas 
melhoras por razoes inteiramente obscuras? 
Ao final de uma terapia de grupo, os par-
ticipantes podem fornecer dados sobre os fa-
tores terapeuticos que consideravam mais e me-
nos proveitosos. Ainda assim, sabemos que es-
sas avaliar;:oes serao 'incompletas e sua preci-
sao, limitada. Sera que os membros do grupo 
talvez nao se concentrem principalmente em 
fatores superficiais e omitam alguma forr;:a cu-
rativa profunda que possa estar alem de sua 
consciencia? Sera que suas respostas nao se-
rao influenciadas por uma variedade de fato-
res diffceis de controlar? E inteiramente possf-
vel, por exemplo, que suas visoes possam ser 
distorcidas pela natureza de sua relar;:ao com 0 
terapeuta ou com 0 grupo. (Uma equipe de 
pesquisadores demonstrou que quando pacien-
tes foram entrevistados quatro anos depois da 
conclusao da terapia, eles estavam muito mais 
aptos para comentar aspectos uteis ou preju-
diciais de sua experiencia com 0 grupo do que 
quando entrevistados imediatamente apos a 
sUa conclUSaO.)4 A pesquisa tambem mostrou, 
por exemplo, que os fatores terapeuticos valo-
rizados por membros do grupo pod em ser 
amplamente diferentes dos citados pelos seus 
terapeutas ou observadores do grupo,s uma 
observar;:ao feita tambem na psicoterapia indi-
vidual. Alem disso, muitos fatores de conftlSaO 
influenciam a avaliar;:ao do paciente sobre os 
fatores terapeuticos: por exemplo, 0 tempo em 
tratamento e 0 nfvel de funcionamento do pa-
ciente,6 0 tipo de grupo (ou seja, se externo, 
interno, hospital-dia, terapia breve),? a idade 
e 0 diagn6stico do paciente,8 e a ideologia do 
lfder do grupO.90utro fator que complica a 
busca por fatores terapeuticos comuns e 0 nf-
vel em que diferentes membros do grupo per-
cebem e experimentam 0 mesmo evento de 
diferentes rnaneiras. Y Deterrninada experien-
cia pode ser importante ou proveitosa para al-
guns e nao trazer conseqiiencias ou ate ser pre-
judicial para outros. 
Apesar dessas limitar;:oes, os relatos dos 
pacientes sao uma fonte rica e relativamente 
intocada de informar;:oes. Afinal, e a sua expe-
riencia, sua apenas, e quanto mais nos afasta-
mos da experiencia dos pacientes, mais ilativas 
Sa9 as nossas conclusoes. Certamente, existem 
aspectos do processo de mudanr;:a que operam 
fora da consciencia do paciente, mas isso nao 
significa que devamos desconsiderar aquilo que 
os pacientes dizem. 
Existe uma artepara obter os relatos dos 
pacientes. Questionarios para preencher ou de 
escolha proporcionam dados facilmente, mas 
muitas vezes nao conseguem captar as nuances 
e a riqueza da experiencia dospacientes. Quan-
to Illais 0 questionador puder entrar no mun-
do de experiencias do paciente, mais lucido e 
significativo se torna 0 relato da experiencia 
da terapia. Ate onde consegue suprimir ten-
dencias pessoais e evitar influenciar as respos-
tas do paciente, 0 terapeuta se torna 0 
questionador ideal: 0 terapeuta e confiavel e 
entende mais do que qualquer urn 0 mundo 
interne do paciente. 
AMm das visoes dos terapeutas e relatos 
dos pacientes, existe urn terceiro metoda im-
portante de avaliar os fatores terapeuticos: a 
abordagem de pesquisa sistematica. A estra-
tegia de pesquisa mais comum e correlacionar 
variaveis internas da terapia com 0 seu re-
sultado. Descobrindo quais variaveis estao sig-
nificativamente relacionadas com variaveis 
bem-sucedidas, pode-se estabelecer uma base 
razoavel para comer;:ar a delinear os fatores 
PSICOTERAPIA DE GRUPO ~5 
terapeuticos. Todavia, existem muitos problc;--
mas inerentes a essa abordagem: a mensurar;:ao 
do resultado ja e uma confusao metodologica., 
e a seler;:ao e mensurar;:ao de variaveis internas 
da terapia sao igualmente problemaricas:lO 
Todos esses metodos derivaram os fato-
res terapeuticos discutidos neste livro. Ainda. 
assim, nao considero essas conclus6es defini-
tivas. Em vez disso, oferer;:o-as como diretrizes 
provisorias, que podem ser testadas e aprofun-
dadas por outros pesquisadores clmicos. De 
minha parte, estou satisfeito de que eles sao 
derivados das melhores evidencias disponlveis 
no momenta e que constituem a base de uma 
abordagem efetiva a terapia. 
INSTlLACAo DE ESPERANCA 
A instilar;:ao e a manutenr;:ao da esperan-
r;:a sao cruciais em qualquer psicoterapia. A es-
peranr;:a nao apenas e necessaria para manter 
o paciente em terapia para que outros fatores 
terapeuticos passam ter efeito, como a fe em 
urn modo de tratamento pode ern si ja ser 
terapeuticamente efetiva. Diversos estudos 
demonstraram que uma expectativa elevada de 
ajuda antes de comer;:ar a terapia esta signifi-
cativamente correlacionada com urn resultado 
positivo.l1 Considere tambem a quantidade de 
dados que documentam a eficacia da cura pela 
fe e 0 tratamento com placebo - terapias me-
diadas inteiramente pela esperanr;:a e pela con-
vicr;:ao. E mais provavel que a psicoterapia te-
nha urn resultado positivo quando 0 paciente 
e 0 terapeuta tiverem ex.pectativas semelhan-
. tes para 0 tratamento.12 0 poder das expecta-
tivas estende-se aMm da imaginar;:ao apenas. 
* Podemos avaliar melhor os resultados da terapia 
de urn modo geral do que mensurando as relar;6es 
entre essas variaveis de processo e resultados. 
Kivlighan e colaboradores desenvolveram uma es-
cala promissora, a Escala de Grupo de Ajuda de 
Irnpacto, que tenta capturar a totalidade do proces-
so terapeutico de gropo de urn modo multidimensio-
nal, que abranja tarefas terapeuticas e relar;6es te-
rapeuticas, bern como variaveis relacionadas com 0 
processo, 0 cliente e 0 lider do grupo. 
26 IRVIN D. YAlOM 
Estudos recentes com imagem demonstram que 
o placebo nao e inativo, mas pode ter urn efei-
to psicologico direto sobre 0 cerebro. I3 
Os terapeutas de grupo podem capitali-
zar esse fator; fazendo 0 que podem para au-
mentar a cren~a e a confian~ dos pacientes 
na eficacia do modele de grupo. Essa tarefa 
inicia antes do grupo come~ar, na orienta~ao 
pre-grupo, na qual 0 te~apeuta refor~a expec-
tativas positivas, corrige preconceitos negati-
vos e apresenta uma explica~ao lucida e pode-
rosa das propriedades curativas do grupo. (Ver 
Capitulo 10 para uma discussao completa do 
procedimento de prepara~ao pre-grupo.) 
A terapia de grupo nao apenas se baseia 
nos efeitos gerais das expectativas positivas 
sobre a melhora, como tambem se beneficia 
como uma Fonte de esperan~a que e unica do 
formato de grupo. Os grupos de terapia invaria-
velmente contem individuos que estao em pon-
tos diferentes ao longo de urn continuum de 
enfrentamento e colapso. Assim, cada membro 
tern urn contato consideravel com outros -
muitas vezes individuos com problemas seme-
lhantes - que melhoraram como resultado da 
terapia. Muitas vezes, ouvi pacientes comen-
tarem ao final de sua terapia de grupo 0 quan-
to foi irnportante para eles observar a melhora 
dos outros. Notavelmente, a esperan~a pode 
ser uma for~a poderosa, mesmo em grupos de 
individuos que combatem urn cancer avan~a­
do e que perdem membros estimados do gru-
po para a doen~a. A esperan~a e flexivel - ela 
se redefine para se encaixar em parametros 
imediatos, tornando-se esperan~a de confor-
to, de dignidade, de conexao com outros mem-
bros ou de redu~ao do desconforto fisico. I4 
Os terapeutas de grupo nao devem, de 
mane ira alguma, isentar-se de explorar esse fa-
tor, chamando aten~ao periodicamente para as 
melhoras que os membros fizeram. Se eu rece-
ber recados de membros que tiveram termino 
recente informando-me de suas melhoras con-
tinuadas, fa~o questao de compartilhar isso com 
o grupo atual. Os membros antigos do grupo 
muitas vezes assumem essa fun~ao, oferecen-
do testemunhos espontaneos a membros no-
vos e ceticos. 
Pesquisas mostraram que tambem e vital 
que os terapeutas acreditem em si mesmos e 
na eficacia de seu grupO.IS SirIceramente, creio 
que sou capaz de ajudar cada paciente moti-
vado que esteja disposto a trabalhar com 0 gru-
po por pelo menDs seis meses. Em meus pri-
meiros encontros individuais com os pacien-
tes, compartilho essa convic~ao com eles e ten-
to imbui-Ios de meu otimismo. 
Muitos dos grupos de auto-ajuda - por 
exemplo, para pais enlutados, homens que agri-
dem, vitimas de irIcesto e pacientes de cirurgia 
cardiaca - enfatizam amplamente a instila~ao 
de esperan~a.I6 Uma parte irnportante dos en-
contros do Recovery; Inc. (para pacientes psi-
quiatricos atuais e passados) e do Alcoolicos 
Anonimos dedica-se a testemunhos. A cada en-
contro, os membros do Recovery; Inc. contam 
incidentes potencialmente estressantes, nos 
quais evitam a tensao, aplicando seus meto-
dos, e membros bem-sucedidos do Alcoolicos 
Anonimos contam suas historias de queda e 
resgate pelo AA. Urn dos pontos fortes do Al-
coolicos Anonimos e 0 fato de que os lideres 
sao todos alcoolicos - inspira~ao viva para os 
outros. 
Os programas de tratamento para abuso 
de substancias geralmente mobilizam a espe-
ran~a dos participantes, usando dependentes 
de drogas recuperados como lideres de grupo. 
Os membros recebem inspira~ao, levantando-
se as expectativas, pelo contato com aqueles 
que ja percorreram 0 mesmo caminho e en-
contraram 0 caminho de volta. Uma aborda-
gem semelhante e us ada para irIdividuos com 
doen~as medicas cronicas, como artrite e doen-
~as cardiacas. Esses grupos de automanejo 
usam membros treinados para estimular os-
outros membros a enfrentarem ativamente as 
suas condi~6es medicas. I7 A irIspira~ao que os 
participantes proporcionam aos seus pares re-
sulta em melhoras substanciais em resultados 
medicos, reduz os custos do cuidado de saude, 
pro move 0 sentido de auto-eficacia do indivi-
duo e muitas vezes torna as irIterven~6es de 
grupo superiores as terapias irIdividuais. I8 
UNIVERSALIDADE 
Muitos individuos come~am a terapia com 
o pensamento perturbador de que sao singula-
res em sua desgra~a, que apenas eles tern cer-
tos problemas, pensamentos, impulsos e fan-
tasias assustadores e irIaceitaveis. E claro que 
existe urn nucleo de verdade nessa no~ao, pois 
a maioria dos pacientes tern uma consteIa<;ao 
inusitada de estressores graves em suas vidas 
e periodicamente e irIundada por material apa-
vorante que vazou de seu irIconsciente. 
Ate urn certo grau, isso e verdade para 
todos nos, mas muitos pacientes, devido ao seu 
isolamento social extremo, tern urn sentido ele-
vado de singularidade. Suas dificuldades 
interpessoais impedem a possibilidade de uma 
intimidadeprofunda. Na vida cotidiana, eles 
nao aprendem sobre as experiencias e os sen-
timentos anaIogos dos outros e nao se valem 
da oportunidade de confidenciar e finalmente 
ser validados e aceitos por outras pessoas. 
Na terapia de grupo, especialmente nos 
primeiros estagios, a invalida<;ao dos sentimen-
tos de singularidade de urn paciente e uma po-
derosa Fonte de alivio. Apos ouvir outros mem-
bros revelarem preocupa<;6es semelhantes as 
suas, os pacientes relatam sentir-se mais em 
contato com 0 mundo e descrevem 0 processo 
como uma experiencia "bem-vinda,para a ra<;a 
humana". Colocado de forma simples, 0 feno-
meno encontra expressao no cUche "estamos 
todos no mesmo barco" - ou talvez, de forma 
mais cetica, "a miseria adora companhia". 
Nao existe urn ato ou pensamento huma-
no que esteja completamente fora da experien-
cia das outras pessoas. Ja ouvi membros de 
grupos revelarem atos como incesto, tortura, 
roubo, peculato, homiddio, tentativa de suid-
dio e fantasias de natureza ainda mais deses-
perada. Invariavelmente, eu observava outros 
membros de grupos aceitarem esses mesmos 
atos como dentro dos limites de suas proprias 
possibilidades, muitas vezes seguindo pela por-
ta da revela<;ao aberta pela confian<;a ou pela 
coragem de urn membro do grupo. Tempos 
atras, Freud observou que os tabus mais fir-
mes (novamente incesto e parriddio) foram 
precisamente construidos porque esses mesmos 
impulsos fazem parte da natureza mais pro-
funda do ser humano. 
E essa forma de ajuda nao se lirnita a te-
rapia de grupo. A universalidade tambem de-
sempenha urn pape! na terapia individual, 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 27 
embora, neste formato, haja menos oportuni-
dade para valida<;ao consensual, a medida que 
os terapeutas decidem restrirIgir 0 seu grau de 
transparencia pessoal. 
Durante as 600 horas de minha propria 
analise, tive urn encontro pessoal marcante com 
o fator terapeutico da universalidade. Ele ocor-
reu quando eu estava descrevendo meus senti-
mentes extremamente ambivalentes com rela-
<;ao a minha mae. Fiquei bastante perturbado 
com 0 fato de que, apesar de meus fortes sen-
timentos positivos, tambem me senti acossado 
por sentimentos de morte por ela, assim como 
resisti a herdar parte do que era dela. Meu 
analista simplesmente respondeu "que parece 
ser a forma como nos construimos". Essa de-
clara<;ao sincera nao apenas me trouxe cons i-
deravel alivio, como possibilitou que eu explo-
rasse minha ambivalencia em grande profun-
didade. 
Apesar da complexidade dos problemas 
humanos, certos denominadores comuns .sao 
claramente evidentes entre os irIdividuos, e os 
membros de urn grupo terapeutico logo perce-
bern suas semelhan~s. Urn exemplo e ilustra-
tivo: por muitos anos, solicitei a membros de 
grupos-T (que nao sao pacientes - formados 
principalmente por estudantes de medicina, re-
sidentes psiquiatricos, enfermeiros, tecnicos 
psiquiatricos e voluntarios da Peace Corps; ver 
Capitulo 16) para participarem de uma tarefa 
"secreta", na qual deveriam escrever, em uma 
tir:a de papel e de forma anonima, a coisa que 
estavam menDs inclinados a compartilhar com 
o grupo. Os segredos se mostravam notavel-
mente semelhantes, com alguns temas impor-
tantes predominando. 0 segredo mais comum 
era a convic~ao profunda de uma inadequa<;ao 
basica - urn sentimento de ser basicamente 
incompetente, de ter side urn blefe ao longo 
da vida. 0 proximo em freqii@ncia eum senti-
do profundo de aliena~ao interpessoal- ou seja, 
apesar das aparencias, nao se deve, ou nao se 
pode, cuidar ou amar outra pessoa. A terce ira 
categoria mais freqiiente e alguma variedade 
de segredo sexual. Essas preocupa<;6es impor-
tantes de nao-pacientes sao qualitativamente 
as mesmas em individuos que buscam ajuda 
pro fissional. Quase invariave!mente, nossos pa-
cientes experimentam uma profunda preocu-
28 IRVIN D. YALOM 
pa<;ao com seu sentido de valor e sua capaci-
dade de se relacionar com os outros.· 
Alguns grupos especializados, compostos 
de individuos para os quais 0 segredo tern sido 
urn fator especialmente importante e de isola-
mento, enfatizam particularmente a universa-
lidade. Por exemplo, grupos estruturados de 
curta dura<;ao para pacientes bulimicos tern em 
seu protocolo uma forte exigencia de auto-reve-
la<;ao, especialmente quanto a atitudes para 
com a imagem corporal e narrativas detalhadas 
dos rituais alimentares e praticas de purga de 
cada membro. Corn raras exce<;oes, os pacien-
tes expressam grande alfvio ao descobrirem que 
nao estao sos, que os outros compartilham os 
mesmos dilemas e experiencias de vida.19 
Os membros dos grupos de abuso sexual 
tambem se beneficiam consideravelmente com 
a experiencia de universalidade.20 Uma parte 
integral desses grupos e 0 compartilhamento 
fntimo, muitas vezes pela primeira vez na vida 
de cada membro, dos detalhes do abuso e da 
devasta<;ao intema que sofreram como conse-
qiiencia. Os membros desses grupos podem 
encontrar outros que sofreram semelhantes 
viola<;oes quando crian<;as, que nao foram res-
ponsaveis pelo que lhes aconteceu, e que tam-
bern sofreram sentimentos profundos de ver-
gonha, culpa, raiva e impureza. 0 sentido de 
universalidade muitas vezes e urn passo fun-
damental na terapia de paCientes sobrecar-
regados pela vergonha, estigma e culpa, por 
exemplo, pacientes corn HIV / AlDS ou aqueles 
que lidam com as conseqiiencias de urn sui-
ddio.21 
Os membros de grupos homogeneos 12.0-
dem falar uns dos outros com uma autentici-
• Existem diversos metodos para usar essas infor-
ma~6es no trabalho do grupo. Uma tecnica efetiva 
e redistribuir os segredos anonimos aos membros, 
cada urn recebendo 0 segredo do outro. Cada mem-
bro entao Ie 0 segredo em voz alta e revela como se 
sente ao guardar esse segredo. Esse metodo geral-
mente se mostra uma demonstra~ao valiosa de uni-
versalidade, empatia e da capacidade dos outros de 
entender. 
dade poderosa que vern de sua experiencia ern 
primeira mao, de maneiras que os terapeutas 
talvez nao consigam fazer. Por exemplo, uma 
vez, supervisionei urn terapeuta, de 3S anos, 
que estava liderando urn grupo de homens 
deprimidos na faixa entre os 70 e os 80 anos. 
Em urn certo ponto, urn homem de 77 anos, 
que havia perdido a esposa recentemente, ex-
pressou sentimentos suicidas. 0 terapeuta he-
sitou, temendo que qualquer coisa que pudes-
se dizer parecesse ingenua. Entao, urn mem-
bro do grupo de 91 anos falou e descreveu 
como havia perdido sua esposa apos 60 anos 
de casamento, e como havia mergulhado em 
urn desespero suicida e havia, finalmente, se 
recuperado e retomado a vida. Essa declara-
<;30 teve repercussao profunda e nao foi igno-
rada facilmente. 
Ern grupos multiculturais, talvez os tera-
peutas necessitem prestar particular aten<;ao 
ao fator clfnieo da universalidade. Minorias 
culturais em urn grupo predominantemente 
branco podem sentir-se exclufdas por causa de 
atitudes culturais diferentes para com a reve-
la<;3o, as intera<;ao e a expressao afetiva. Os 
terapeutas devem ajudar 0 grupo a ultrapas-
sar 0 foco ern diferen<;as culturais concretas 
para respostas transculturais - ou seja, univer-
sais - a situa<;oes e tragedias humanas.22 Ao 
mesmo tempo, os terapeutas devem estar agu-
damente conscientes dos fatores culturais em 
jogo. Os profissionais da saude mental muitas 
vezes nao possuem 0 conhecimento dos fatos 
culturais da vida que sao necessarios para tra-
balhar de maneira efetiva com membros cul-
turalmente diversos. E imperativo que os te-
rapeutas aprendam 0 maximo possfvel sobre 
as culturas dos pacientes, bern como de seu 
vinculo ou aliena<;ao com a sua cultura.23 
A universalidade, como outros fatores 
terapeuticos, nao possui limites nftidos, mes-
clando-se com outros fatores terapeuticos. A 
medida que os pacientes percebem sua seme-
lhan<;a com os outros e compartilham suas mais 
profundas preocupa<;6es, eles se beneficiam 
ainda mais da catarse que acompanha a tera-
pia e da aceita<;ao dos outros membros (ver 
Capftulo3 sobre a coesao grupal). 
COMPARTILHAMENTO DE INFORMA~iiES 
Na categoria geral do compartilhamento 
de informa<;6es, incluo a instru<;ao didatiea 
sobre a saude mental, doen<;as mentais e a 
psieodinfunica geral fomecida pelos terapeutas, 
bern como 0 aconselhamento, as sugestoes ou 
a orienta<;ao direta do terapeuta ou outros 
membros do grupo. 
Instrut;iio diiJcitica 
A maioria dos partieipantes, na conclu-
sao de uma terapia de grupo interacional bem-
sucedida, aprende muito sobre 0 funcionamen-
to psfquico, 0 significado dos sintomas, a dina-
mica interpessoal e de grupo e 0 processo da 
psieoterapia. De urn modo geral, 0 processo 
educacional e implfcito. A maioria dos tera-
peutas de grupo nao bferece ip.stru<;ao dida.ti-
ca explfcita ern terapia de grupo interacional. 
Todavia, ao longo da ultima decada, muitas 
abordagens de terapia de grupo fizeram da ins-
tru<;ao formal, ou psieoeduca<;ao, uma parte 
importante do programa. 
Urn dos precedentes historicos mais po-
derosos para a psicoeduca<;ao pode ser encon-
trado na obra de MaxWell Jones, que, em seu 
trabalho corn grupos grandes na decada de 
1940, palestrava para seus pacientes por tres 
horas por semana a respeito da estrutura, do 
funcionamento e da relevancia do sistema ner-
voso para os sintomas psiquiatricos e a defi-
ciencia.24 
Marsh, que escreveu na decada de 1930, 
tambem acreditava na importancia da psicoe-
duca<;ao e de aulas organizadas para seus pa-
cientes, completadas corn palestras, tarefas de 
casa e notas.2S 
o Recovery, Inc., 0 mais antigo e maior 
programa de auto-ajuda do pais para pacien-
tes psiquiatricos atuais e ex-pacientes, e orga-
nizado basicamente ao longo de linhas dida.ti-
cas.26 Fundada em 1937 por Abraham Low, essa 
organiza<;ao tern mais de 700 grupos operan-
do hojeY A participa<;ao e voluntaria e os lfde-
res nascem dos membros. E~bora nao haja 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 29 
orienta<;ao pro fissional formal, a condu<;3o dos 
encontros foi altamente estruturada pelo Dr. 
Low. Partes de seu livro, Mental Health Through 
Will Training,28 sao lidas em voz alta e discuti-
das a cada reuniao. A doen<;a psieologica e 
explicada com base ern alguns prindpios sim-
ples, que os membros memorizam - por exem-
plo, 0 valor de "identificar" comportamentos 
problematieos e autodestrutivos; que os sinto-
mas neuroticos sao perturbadores, mas nao 
perigosos; que a tensao intensifica e mantem 0 
sintoma e deve ser evitada; que 0 usa do livre 
arbftrio do individuo e a solu<;ao para os dile-
mas do paciente nervoso. 
Muitos outros grupos de auto-ajuda 
enfatizam 0 compartilhamento de informa<;oes. 
Grupos como os para adultos sobreviventes ao 
incesto, pais anonimos, jogadores anonimos, 
apoio aos pacientes com cancer, para pais sem 
parceiros e para pessoas solitarias estimulam 
a troca de informa<;oes entre os membros e fre-
qiientemente convidam especialistas para fa-
lar ao grupO.29 0 ambiente do grupo onde a 
aprendizagem ocorre e importante. 0 contex-
to ideal e de parceria e colabora<;ao, ao inves 
de prescri<;ao e subordina<;ao. 
A literatura recente da terapia de grupo 
tern descri<;6es abundantes de grupos especiali-
zados para individuos que tern algum trans-
tomo espedfico au que enfrentam alguma cri-
se decisiva em suas vidas - por exemplo, trans-
tomo de panico, 30 obesidade,31 bulimia,32 adap-
ta<;ao apos 0 divorcio,33 herpes,34 doen<;a 
coronariana,35 pais de crian<;as que sofreram 
abuso sexual,36 homens violentos,37Iuto,38 HIV / 
AIDS,39 disfun<;i5es sexuais,40 estupro,41 adap-
ta<;ao a auto-imagem apos mastectomia,42 dor 
cronica,43 trans plante de orgaos44 e preven<;ao 
de recafdas da depressao.45 
Alem de oferecerem apoio mutuo, esses 
grupos geralmente envolverri. urn componente 
psieoeducacional, oferecendo instru<;ao explici-
ta sabre a natureza da doen<;a ou do problema 
do paciente e examinando as concep<;6es erra-
neas e respostas autodestrutivas a sua doen<;a. 
Por exemplo, as lfderes de urn grupo para pa-
cientes com transtomo de panieo descrevem a 
causa fisiologica dos ataques de panico, expli-
30 IRVIN D. Y ALOM 
cando que 0 estresse e a excita~ao aumentam 
o fluxo de adrenalina, que pode resultar em 
hiperventila~ao, falta de ar e tontura. 0 pacien-
te interpreta os sintomas incorretamente, de 
maneira que apenas os exacerba ("estou mor-
rendo" ou "estou enlouquecendo"), perpetuan-
do assim urn drculo vicioso. Os terapeutas dis-
cutem a natureza benigna dos ataques de pa-
nico e of ere cern instru<;:ao sobre como produ-
zir urn ataque leve e como preveni-Io. Eles for-
necem instru~oes detalhadas sobre tecnicas de 
respiraC;ao adequada e relaxamento muscular 
progressivo. 
Os grupos muitas vezes sao cenarios ade-
quados para se ensinarem novas abordagens 
de redw;:ao do estresse baseadas em medita-
~ao e concentrac;ao. Aplicando urn foco discipli-
nado, os membros aprendem a se tomar obser-
vadores esdarecidos, receptivos e imparciais 
de seus pensamentos e sentimentos e a redu-
zir 0 estresse, a ansiedade e a vulnerabilidade 
a depressao.46 
Os lfderes de grupos para pacientes HIV-
positivo frequentemente fomecem informac;6es 
medicas consideraveis relacionadas com as 
doen~as e ajudam a corrigir os temores irracio-
nais e as concep~oes erroneas dos membros 
sobre a infec~ao. Eles tambem podem aconse-
lhar os outros membros com rela~ao a meta-
dos para informar outras pessoas sobre sua 
condi~ao e moldar urn estilo de vida que pro-
voque menos culpa. 
Os lfderes de grupos para 0 luto podem 
proporcionar informa~6es sobre 0 cido natu-
ral do luto, para ajudar os membros a enten-
der que existe uma seqiiencia de dor, pela qual 
estao progredindo, e que a sua perturba~ao tera 
uma redu~ao natural e quase inevitavel, a me-
dida que avan~arem atraves dos estagios des-
sa sequencia. Os Hderes podem ajudar os pa-
cientes a preyer, por exemplo, a anglistia agu-
da que sentem a cada data importante (feria-
dos, aniversarios e outras comemora~oes) du-
rante 0 primeiro ana de luto. Grupos psicoedu-
cacionais para mulheres com cancer de mama 
primario fomecem aos membros informac;oes 
sobre a sua doen~a, op~oes de tratamento e 
riscos futuros, bern como recomendac;6es para 
urn estilo de vida mais saudavel. A avalia~ao 
do resultado desses grupos mostra que os par-
ticipantes apresentam beneficios psicossociais 
significativos e duradouros.47 
A maioria dos terapeutas de grupo usa 
alguma forma de orienta~ao antecipatoria para 
os pacientes que iniciam a situac;ao assustado-
ra do grupo de psicoterapia, como uma sessao 
preparatoria, visando esclarecer importantes 
razoes para disfunc;oes psicologicas e propor-
cionar instru~oes em metodos de auto-ex-
plora~ao.48 Prevendo os medos dos pacientes, 
proporcionando-lhes uma estrutura cognitiva, 
ajudamo-os a enfrentar de forma mais efetiva 
o choque cultural que podem encontrar quan-
do entram para 0 grupo de terapia (ver Ca-
pitulo 10). 
Dessa forma, a instru~ao didatica e em-
pregada de varias maneiras na terapia de gru-
po: para transferir informac;oes, alterar padroes 
de pensamento destrutivos, estruturar 0 gru-
po, expIicar 0 processo da doenc;a. Essa instru-
~ao muitas vezes funciona como a for~a de Ii-
gac;ao inicial para 0 grupo, ate que outros fato-
res terapeuticos entrem em operac;ao. Contu-
do, a expIica<;ao e 0 esclarecimento ja funcio-
nam em parte como agentes terapeuticos. Os 
seres humanos sempre abominaram a incerte-
za e, atraves das eras, tentaram organizar 0 
Universo, fornece'ndo explicac;oes, principal-
mente reIigiosas ou cientfficas. A expIica~ao de 
urn fenomeno e 0 primeiro passo para 0 seu 
controle. Se uma erup~ao vulcanica e causada 
por urn deus descontente, entao, pelo menos, 
existe esperanc;a de agradar ao deus. 
Frieda Fromm-Reichman enfatiza 0 pa-
pel que a incerteza tern de produzir ansieda-
de. A consciencia de nao ser 0 proprio piloto, 
afrrma ela, de que as proprias percep~6es e 
comportamentos sao controlados por for~as 
irracionais, e uma fonte comum e fundamen-
tal de ansiedade.49Em nosso mundo contemporaneo, somos 
for~ados a confrontar 0 medo e a ansiedade com 
frequencia. Em particular, os eventos de 11 de 
setembro de 2001 colocaram essas emo~oes 
perturbadoras em primeiro plano de forma mais 
clara na vida das pessoas. E extremamente im-
portante confrontar ansiedades u'aurmiticas com 
urn enfrentamento ativo (por exemplo, envol-
vendo-se na vida, falando abertamente e pro-
porcionando apoio mutuo), ao contrario de ce-
der a urn retraimento desmoraIizado. Nao ape-
nas essas respostas agradam ao nosso senso co-
mum, mas, como demonstra a pesquisa neuro-
biologica contemponlnea, essas formas de 
enfrentamento ativo estimulam importantes cir-
cuitos neurais no cerebro que ajudam a regular 
as reac;6es de estresse do COrpO.50 
E e isso que ocorre com os pacientes em 
psicoterapia: 0 medo e a ansiedade que pro-
vern da incerteza da fonte, do significado e da 
gravidade dos sintomas psiquiatricos podem 
causar uma disforia tao grande que a explora-
~ao efetiva se torna muito mais dificil. A ins-
truc;ao didarica, por proporcionar estrutura e 
explica~ao, tern valor intrinseco e merece urn 
lugar em nosso repertorio de instrumentos 
terapeuticos (ver Capitulo 5). 
Aconselhamento direto 
Ao contrario da instruc;ao didatica expH-
cita do terapeuta, 0 aconselhamento direto dos 
membros ocorre sem exce~ao elfl cada grupo 
de terapia. Em grupos de terapia interacional 
dinamica, ela invariavelmente ffiz parte da vida 
inicial do grupo e ocorre com tal regularidade 
que po de ser usada para se estimar a idade do 
grupo. Se observo ou ou~o uma gravac;ao de 
urn grupo no qual os pacientes, com uma certa 
regularidade, dizem coisas como: "acho que 
voce deveria ... " ou ''voce deve fazer ... " ou "por 
que voce nao ... ?", posso ter uma certeza razoa-
vel de que e urn grupo novo ou que e urn gru .. 
po antigo com alguma dificuldade que impe-
diu 0 seu desenvolvimento ou produziu uma 
regressao temporaria. Em outras palavras, 0 
aconselhamento pode refletir uma resistencia 
a urn envolvimento mais intimo, com os mem-
bros tentando administrar os relacionamentos, 
em vez de se conectarem. Embora 0 aconselha-
mento seja comum no come~o da terapia de 
grupo interacional, e raro que conselhos espe-
dficos beneficiem qualquer paciente direta-
mente. Todavia, de maneira indireta, 0 acon-
selhamento serve a urn proposito. 0 processo 
de aconselhar, ao inves do conteudo do conse-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 31 
lho, pode ser benefico, implicando e transmi-
tindo interesse e cuidado mutuos, como real-
mente e verdade. 
o comportamento de dar ou pedir con-
selhos muitas vezes e uma pista importante na 
elucida<;iio de patologias interpessoais. 0 pa-
ciente que, por exemplo, pede conselhos e su-
gest6es continuamente para outras pes so as, 
para depois rejeita-Ios e frustrar os outros, e 
bastante conhecido dos terapeutas de grupo, 
como 0 paciente "queixoso que rejeita ajuda" 
ou 0 paciente "sim ... mas" (ver Capitulo 13).51 
Alguns membros de grupos podem buscar aten-
~ao e carinho, pedindo sugest6es sobre urn pro-
blema que seja insoluvel ou que ja tenha sido 
resolvido. Outros absorvem conselhos com uma 
sede insaciavel, mas nunca agem de forma re-
dproca com pessoas que tambem estejam ne-
cessitadas. Alguns membros de grupos estao 
tao interessados em manter urn status superior 
no grupo ou uma fachada de auto-suficiencia 
. tranqiiila que nunca pedem ajuda diretamen-
te, outros sao tao ansiosos para agradar que 
nunca pedem nada para si mesmos, outros ain-
da sao excessivamente efusivos em sua grati-
dao, e outros nunca reconhecem 0 presente, 
mas levam-no para casa, como urn osso, para 
roe-Io em particular. 
Outros tipos de grupos mais estruturados 
que nao ~ concentram nas interac;oes entre os 
membros fazem uso explfcito e efetivo de su-
gestoes e conselhos diretos. Por exemplo, gru-
pos para moldar 0 comportamento, grupos de 
transic;ao e planejamento da alta hospitalar, 
grupos de habilidades para a vida, grupos de 
habilidades de comunicac;ao, 0 Recovery; Inc. 
e 0 Alcoolicos Anonimos, todos proferem uma 
quantidade consideravel de conselhos diretos. 
Urn grupo de habilidades de comunica~ao para 
pacientes com doen~as psiquiatricas cronicas 
relata resultados excelentes com urn progra-
rna de grupo e'struturado que inclui feedback 
focado, reprodu~ao de gravac;oes e projetos de 
resolu~ao de problemas. 52 0 AA usa conselhos 
e slogans. Por exemplo, os membros devem 
permanecer em abstinencia apenas pelas pro-
ximas 24 horas - "urn dia de cad a vez". 0 
Recovery; Inc. ensina os membros a identificar 
sintomas neuroticos, a apagar e reescrever, a 
t 
f 
f' 
.l! 
32 IRVIN D. YALOM 
ensaiar e inverter e mostra como aplicar a for-
C;a de vontade de maneira efetiva. 
Existem conselhos melhores que os ou-
tros? Os pesquisadores que estudaram urn gru-
po para moldar 0 comportamento de agressores 
sexuais do sexo masculino observaram que 0 
aconselhamento era comum e era proveitoso 
para diferentes membros em graus variados. A 
forma menos efetiva de conselho era a suges-
tao direta, e a mais efetiva era uma serie de 
sugest6es altemativas sobre como chegar a urn 
objetivo desejado.S3 A psicoeducac;ao com re-
lac;ao ao impacto da depressao sobre relacio-
namentos fami!iares e muito mais efetiva quan-
do os participantes examinam, em urn nfvel 
direto e emocional, a maneira como a depres-
sao esta afetando suas vidas e seus relaciona-
mentos familiares. As mesmas informac;6es 
apresentadas de mane ira intelectualizada e 
desconectada sao muito menos valiosas.S4 
ALTRUiSMO 
Existe uma antiga historia hassfdica de 
urn rabino que teve uma conversa com Deus 
sobre 0 Ceu e 0 Inferno. "Eu the mostrarei 0 
Inferno", disse Deus, e conduziu 0 rabino ate 
uma sala com urn grupo de pessoas desespera-
das e famintas, sentadas ao redor de uma gran-
de mesa circular. No centro da mesa, estava 
urn grande prato de came ensopada, mais do 
que 0 suficiente para todos. 0 cheiro do enso-
pado era entao delicioso que deixou 0 rabino 
com agua na boca. Ainda assim, ninguem co-
rnia. Cada pessoa ao redor da mesa tinha na 
mao uma colher com urn longo cabo - longo 0 
suficiente para alcanc;ar 0 prato e tirar uma co-
lherada de ensopado, mas longa demais para 
chegar a propria boca. 0 rabino viu que 0 so-
frimento realmente era terrivel e sacudiu a ca-
bec;a em compaixao. '~gora, eu the mostrarei 
o ceu", disse Deus, enquanto entravam em 
outra sala, identica a primeira - a mesma gran-
de mesa redonda, 0 mesmo grande prato de 
ensopado, as mesmas colheres de cabo longo. 
Ainda assim, havia alegria no ar. Todos pare-
ciam bem-nutridos, rechonchudos e exuberan-
tes. 0 rabino nao conseguia entender e olhou 
para Deus. "E simples", disse Deus, "mas exige 
certa habilidade. Veja, as pessoas desta sala 
aprenderam a se alimentar umas as outras!"· 
Nos grupos de terapia, bern como no ceu 
e no inferno imaginados da historia, os mem-
bros ganham por darem, nao apenas por rece-
berem ajuda como parte da seqiiencia redpro-
ca de dar e receber, mas tambem por se bene-
ficiarem com algo que e intrinseco ao ato de 
dar. Muitos pacientes psiquiatricos que come-
c;am a terapia estao desmoralizados e possu-
em urn sentido profundo de nao ter nada de 
valor para oferecer aos outros. Eles ha muito 
se consideram urn fardo, e a experiencia de 
descobrir que podem ser importantes para ou-
tras pessoas e renovadora e aumenta sua auto-
esrima. A terapia de grupo e peculiar por ser a 
unica que oferece aos pacientes a oportunida-
de debeneficiar outras pessoas, e tambem es-
rimula a versatilidade de papeis, exigindo que 
os pacientes se altemem nos papeis de receber 
e dar qjuda. ss 
E, e claro, os pacientes sao imensamente 
uteis uns para os outros no processo terapeutico 
de grupo. Eles proporcionam apoio, tranqiii-
lizac;ao, sugest6es, insight e compartilham pro-
blemas semelhantes entre si. Com freqiiencia, 
e muito mais faci! que os membros do grupo 
aceitem observac;6es de outro membro do que 
do terapeuta. Para muitospacientes, 0 terapeu-
ta permanece sendo 0 profissional pago. Os ou-
tros membros representam 0 mundo real, e 
pode-se contar com suas reac;6es e seus comen-
tarios espontaneos e verdadeiros. Observando 
o curso da terapia retrospectivamente, quase 
• Em 1973, uma participante abriu 0 primeiro en· 
contro do prirneiro grupo para pacientes de dincer 
avan<;ado distribuindo essa parabola para os outros 
membros do grupo. Essa mulher (sobre a qual ja 
escrevi antes, referindo-me a elacomo Paula West; 
ver I. Yalom, Momma and the Meaning of Life [New 
York: Basic Books, 1999]) esteve envolvida comigo 
desde 0 principio em conceituar e organizar esse 
grupo (ver tanlbem 0 Capitulo 15). Sua parabola 
mostrou-se presciente, pois muitos membros se be-
neficiaram com 0 fator terapeutico do altrufsmo. 
todos os membros creditam importancia aos 
outros membros em sua melhora. As vezes, eles 
ciram seu apoio e conselhos expHcitos; em ou-
tras, referem-se ao simples fato de estarem pre-
sentes e permitirem que outras pessoas cres-
c;am como resultado de urn relacionamento 
facilitador e solidario. Com a experiencia do 
altruismo, os membros do grupo aprendem em 
primeira mao que tern obrigac;6es para com 
aqueles de quem desejam receber carinho_ 
Uma interac;ao entre dois membros de urn 
grupo e ilustrativa. Derek, urn homem na faixa 
de 40 anos, cronicamente ansioso e isolado e 
que recentemente entrou para 0 grupo, irritou 
os outros membros, rejeitando seus comenta-
rios e sua preocupac;ao. Em resposta, Kathy; 
uma mulher de 3S anos com depressao croni-
ca e problemas com abuso de substancias, di-
vidiu com ele uma lic;ao fundamental em sua 
experiencia com 0 <grupo. Durante meses, ela 
rejeitou a preocupac;ao de todos porque sentia 
que nao merecia. Posteriormente, depois que 
outros membros disseram que a sua rejeic;ao os 
agredia, ela tomou a decisao consciente de ser 
mais receptiva aos presentes que the ofereciam 
e logo observou, para sua surpresa, que havia 
comec;ado a se sentir muito melhor. Em outras 
palavras, ela nao apenas se 'beneficiou com 0 
apoio recebido, como tambem por poder aju-
dar 2!' outros a sentir que tinham algo de valor 
para oferecer. Ela esperava que Derek conside-
rasse essas possibilidades para si mesmo. 
o altrufsmo e urn fator terapeutico vene-
ravel em outros sistemas de cura. Em culturas 
primitivas, por exemplo, costuma-se atribuir a 
uma pessoa com problemas a tarefa de prepa-
rar urn banquete ou realizar algum tipo de ser-
vic;o para a comunidade.56 0 altrufsmo desem-
penha uma parte importante no processo de 
cura em santuarios catolicos, como 0 de 
Lourdes, onde os doentes rezam nao apenas 
para si mesmos, mas para outras pessoas. As 
pessoas precisam sentir que sao necessarias e 
uteis. E comum alcoolistas manterem seus con-
tatos do M por anos apos terem alcanc;ado 
sobriedade totaL Muitos membros relatam sua 
historia de queda e recuperac;ao pelo menos 
mil vezes e continuam a desfrutar da satisfa-
c;ao de oferecer ajuda aos outros. 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 33 
No come<;o, os membros neofitos de gru-
pos nao gostam do irnpacto curativo dos ou-
tros membros. De fato, muitos possfveis candi-
datos resistem a qualquer sugestao de terapia 
de grupo com a questao: "como pode urn cego 
conduzir outro cego?" ou "0 que posso ganhar 
com outras pessoas que estao tao confusas 
quanta eu? Acabaremos nos afundando uns ao 
outros". Essa resistencia e mais bern resolvida 
explorando-se a auto-avaliac;ao critica do pa-
ciente. De urn modo geral, urn individuo que 
rejeita a perspectiva de obter ajuda de outros 
membros do grupo na verdade esta dizendo: 
"eu nao tenho nada de valor para oferecer". 
Existe outro beneficio mais suti! inerente 
ao ate altruista. Muitos pacientes que se quei-
xam de falta de significado estao imersos em 
uma auto-absorc;ao morbida, que assume a for-
rna de uma introspecc;ao obsessiva ou de urn 
esforc;o resoluto para se cumprir. Concordo com 
Victor Franld, de que 0 sentido de significado 
na vida pode ser 0 resultado, mas que ele nao 
deve ser deliberadamente perseguido: 0 signi-
ficado na vida sempre e urn fenomeno deriva-
do, que se materializa quando transcendemos 
nos mesmos, quando esquecemos de nos mes-
mos enos absorvemos em outra pessoa (ou 
algo) fora de nos mesmosY 0 foco no signifi-
cado da vida e no altruismo e componente par-
ticularmente importante das psicoterapias de 
grupo para pacientes que enfrentam doenc;as 
medicas fatais, como 0 cancer e a AIDS.YsS 
A RECAPITULA~AO CORRETIVA 
DO GRUPO FAMILIAR PRIMARIO 
A grande maioria dos pacientes que en-
tram para grupos de terapia - com exce<;ao dos 
que sofrem de transtorno de estresse pos-trau-
matico ou de algum estresse medico ou am-
biental - terri urn historico de uma experiencia 
extremamente insatisfatoria em seu primeiro 
e mais importante grupo: a familia primaria. 
o grupo de terapia se parece com uma familia 
em muitos aspectos: existem figuras de autori-
dade/parentais, figuras de irmaos/fraternas, 
revelac;6es pessoais profundas, emoc;6es fortes 
e uma intimidade profunda, bern como senti-
34 IRVIN D. YALOM 
mentos hostis e competitivos. De fato, os gru-
pos de terapia muitas vezes sao liderados por 
uma equipe de homens e mulheres terapeutas 
em urn esforc;:o deliberado de estimular a con-
figura<;ao parental ao maximo possiveL Quan-
do 0 desconforto inicial e superado, e inevirn-
vel que, mais cedo ou mais tarde, os membros 
interajam com os !ideres e com outros mem-
bros de forma semelhante a suas intera<;oes 
com seus pais e irmaos. 
Se os !ideres de grupos forem vistos como 
figuras parentais, eles produzirao rea<;oes as-
sociadas a figuras parentais/de autoridade: al-
guns membros se tomarao desesperadamente 
dependentes dos lideres, a quem imbuem co-
nhecimento e poder irreais, outros desafiarao 
os lideres cegamente, po is percebem-nos como 
controladores e infantilizadores, outros ainda 
terao medo deles, pois acreditam que querem 
privar os membros de sua individualidade. Al-
guns membros tentam dividir os co-terapeutas, 
na tentativa de incitar discordancias e rivali-
dades parentais, alguns se revelam mais quan-
do urn dos co-terapeutas esta ausente, e ou-
tros competem amargamente corn os outros 
membros, esperando acumular unidades de 
aten<;ao e carinho dos terapeutas. Alguns sen-
tern inveja quando a aten<;ao do !ider se volta 
para outras pessoas, outros gastam sua ener-
gia em busca de aJiados entre ~ outros mem-
bros para derrubar os terapeutas, enquanto 
outros negligenciam seus proprios interesses 
em uma tentativa aparentemente abnegada de 
satisfazer os lideres e os outros membros. 
Obviamente, fenomenos semelhantes 
ocorrem na terapia individual, mas 0 grupo 
proporciona urn numero e uma variedade bas-
tante maiores de possibilidades de recapitu-
la<;ao. Em urn dos me us grupos, Betty, uma 
participante que havia pass ado dois encontros 
amuada, reclamou de nao estar em terapia in-
dividual. Ela disse que se sentia inibida por-
que sabia que 0 grupo nao poderia satisfazer 
as suas necessidades, e que conseguiria falar 
Jivremente sobre seus problemas ern uma con-
versa particular corn 0 terapeuta ou com qual-
quer urn dos membros do grupo. Quando pres-
sionada, Betty expressou sua irrita<;ao por 
achar que os outros eram favorecidos no gru-
po. Por exemplo, 0 grupo havia recentemente 
recebido bern outro membro que retomava 
de ferias, ao passo que 0 seu retorno das ferias 
havia passado despercebido pelo grupo. Alem 
disso, outro membro do grupo foi elogiado 
por dar uma importante interpreta<;ao para 
urn membro, ao passo que ela havia feito urn 
comentario semelhante algumas semanas an-
tes e ninguem havia notado. Ha algum tem-
po, ela tambem vinha mencionando sua in-
digna<;ao crescente por ter que dividir 0 tem-
po corn 0 grupo, sentindo-se impaciente quan-
do precisasse esperar a sua vez e irritada sem-
pre que a aten<;ao se afastava dela. 
Sera que Betty estava certa? Sera que a 
terapia de grupo era 0 tratamento errado para 
ela?Absolutamente nao! Essas mesmas criti-
cas - que tinham raizes ern seus relacionamen-
tos corn seus irmaos - nao constituem obje<;oes 
validas para a terapia de grupo. Pelo contra-
rio, 0 formata de grupo era particularmente 
vaJioso para ela, pois perrnitia que a sua inveja 
e seu desejo por aten<;ao viessem a tona. Na 
terapia individual - onde os terapeutas pres-
tam aten<;ao a cada palavra e preocupa<;ao do 
paciente e se espera que 0 individuo use todo 
o tempodisponivel - esses conflitos especifi-
cos poderiam emergir so mente tard~ demais, 
ou nunca. 
Todavia, 0 importante nao e apenas que 
conflitos familiares precoces sejam revividos, 
mas que sejam revividos de maneira corretiva. 
A nova exposi<;ao sem reparo apenas torna pior 
uma situa<;ao que ja era ruim. Nao se deve per-
mitir que padroes de relacionamento que ini-
bern 0 crescimento se congelem no sistema ri-
gido e impenetravel que caracteriza muitas 
estruturas familiares. Pelo contrario, devem-se 
explorar e desafiar continuamente os papeis 
fixos, estabelecendo regras basicas que incen-
tivem a investiga<;ao de relacionamentos e 0 
teste de novos comportarnentos. Para muitos 
membros de grupos, discutir problemas com 
terapeutas e outros membros do grupo tam-
bern e resolver negocios inacabados de ha 
muito tempo. (0 grau ern que 0 trabalho com 
o pass ado deve ser explicito e uma questao 
complexa e controversa, a qual abordarei no 
Capitulo 5.) 
DESENVOLVIMENTO DE TECNICAS DE SOCIAUZA~Ao 
A aprendizagem social - 0 desenvolvi-
mento de habilidades sociais basicas - e urn 
fator terapeutico que opera em todos os gru-
pos de terapia, embora a natureza das habili-
dades ensinadas e 0 grau ern que 0 processo e 
exp!icito variem muito, dependendo do tipo de 
terapia de grupo. Pode haver uma enfase ex-
plicita no desenvolvimento de habilidades so-
ciais ern, por exemplo, grupos que pr~param 
pacientes hospitalizados para a alta ou grupos 
de adolescentes. Os membros do grupo podem 
ter que dr<lmatizar como abordar urn possivel 
empregador ou convidar alguem para sair. 
Ern outros grupos, a aprendizagem social 
e mais indireta. Os membros de grupos de te-
rapia dinamicos, que tern regras basicas que 
estimulam comentarios abertos, podem obter 
inforrna<;oes consideraveis sobre comportamen-
tos sociais mal-adaptativos.Um membro pode, 
por exemplo, descobrir que tern uma tenden-
cia desconcertante de evitar olhar para a pes-
soa corn quem esta conversando, conhecer as 
impress6es dos outros sobre a sua atitude ar-
rogante e orgulhosa ou uma v~riedade de ha-
bitos sociais que, sem a pessoa notar, tern atra-
palhado os seus relacionamentos. Para indivi-
duos que nao tern relacionamentos intimos, 0 
grupo muitas vezes representa a primeira opor-
tunidade para urn feedback interpessoal preci-
so. Muitos lamentam sua inexplicavel solidao; 
e a terapia de grupo proporciona uma rica opor-
tunidade para que os membros aprendam so- " 
bre como contribuem para 0 seu proprio isola-
mento e solidao. S9 
Urn homem, por exemplo, que ha anos 
estava ciente de que os outros evitavam conta-
tas sociais com ele, descobriu na terapia de 
grupo que a sua inclusao obsessiva de detalhes 
minimos e irrelevantes ern suas conversas era 
desconcertante. Anos depois, ele me contou que 
urn dos eventos mais importantes de sua vida 
foi quando urn membro do grupo (cujo nome 
ele havia esquecido ha tempos) the disse: 
"Quando voce fala dos seus sentimentos, gosto 
de voce e quero me aproximar, mas quando 
voce come<;a a falar de fatos e detalhes, eu 
quero fugir da sala!". 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 35 
Nao quero simplificar demais. A terapia e 
urn processo complexo e obviamente envolve 
muito mais do que 0 simples reconhecimento e 
a altera<;ao deliberada e consciente do comporta-
mento social. Contudo, como mostrarei no Capi-
tulo 3, esses ganhos sao muito mais do que bene-
ficios extras, eles muitas vezes sao instrumentais 
nas fases iniciais da mudan<;a terapeutica. Eles 
perrnitem que os pacientes entendam que exis-
te uma discrepancia enorme entre sua inten<;ao 
eo seu impacto verdadeiro sobre os outros.Y 
Frequentemente, membros antigos de gru-
pos de terapia adquirem habilidades sociais so-
fisticadas: sintonizarn-se com 0 processo (ver 
Capitulo 6), aprendem como responder de for-
ma util aos outros, adquirem metodos de reso-
lu<;ao de conflitos, sao menos provaveis de jul-
gar e mais capazes de experimentar e expressar 
empatia. Essas habilidades ajudam esses pacien-
tes em intera<;oes sociais futuras, e constituem 
as bases da inteligencia emocional.60 
COMPORTAMENTO IMITATIVO 
Durante a psicoterapia individual, os pa-
cientes podem sentar, caminhar, falar e ate pen-
sar como seus terapeutas. Existem evidencias 
consideraveis de que os terapeutas influenci-
am os padroes de comunica<;ao ern seus gru-
pos, modelando certos comportamentos, por 
exemplo, revela<;6es pessoais ou apoio.61 Nos 
grupos, 0 processo de imita<;ao e mais difuso: 
os pacientes podem modelar-se a partir de as-
pectos dos outros membros do grupo e do 
terapeuta.62 Os membros do grupo aprendem 
observando os outros a lidarem corn seus pro-
blemas. Isso pode ser particularmente forte em 
grupos homogeneos que se concentram em 
problemas compartilhados - por exemplo, urn 
grupo cognitivo-comportamental que ensina 
estrategias a pacientes psicoticos para reduzir 
a intensidade de suas alucina<;6es auditivas.63 
E diflcil medir a importancia do compor-
tamento imitativo no processo terapeutico, mas 
a pesquisa social-psicologica sugere que os 
terapeutas podem te-lo subestimado. Bandura, 
que ha muito afirmou que a aprendizagem so-
cial nao po de ser expJicada adequadamente 
36 IRVIN D. YALOM 
com base no refon;o direto, demonstrou de 
forma experimental que a imita<;ao e uma for-
<;a terapeutica efetiva.y64 Na terapia de grupo, 
nao e incomum que urn membro se beneficie 
observando a terapia de outro membro com 
uma constela<;ao de problemas semelhante -
urn fenomeno geralmente chamado de terapia 
vicaria ou por espectador. 65 
o comportamento imitativo geralmente 
desempenha urn papel mais importante nos pri-
meiros estagios de urn grupo, a medida que os 
membros se identificam com os membros an-
tigos ou com os terapeutas.66 Mesmo que 0 
comportamento imitativo seja, em si, efemero, 
ele pode ajudar a descongelar 0 individuo 0 
suficiente para que ele experimente com 0 novo 
comportamento, 0 que pode dar inicio a urn 
espiral adaptativo ever Capitulo 4). De fato, 
nao e incomum que, ao longo da terapia, os 
pacientes "experimentem" partes e aspectos de 
outras pessoas e os rejeitem por nao se encaixa-
rem neles. Esse processo pode ter urn impacto 
terapeutico solido. Descobrir 0 que nao somos 
e progredir rumo a descobrir 0 que somos. 
A aprendizagem interpessoal, como eu a 
defino, e urn fator terapeutico amplo e com-
plexo. Ela e 0 analogo na terapia degrupo de 
importantes fatores rerapeuticos da terapia in-
dividual, como 0 insight, a resolu<;;ao da trans-
ferencia e a experiencia emocional corretiva. 
Porem, ela tambem representa processos uni-
cos do cenario "de grupo, que somente se des-
dobram como resultado do trabalho especifico 
do terapeuta. Para definir 0 com:eito de apren-
dizagem interpes'soal e descrever 0 mecanis-
mo pelo qual ela medeia a mJdan<;;a terapeuti-
ca no individuo, devo antes discutir tres ou-
tros conceitos: 
1. A importancia de relacionamentos inter-
pessoais 
2. A experiencia emocional corretiva 
3. 0 grupo como micro cosmo social 
A IMPORTANCIA DE 
RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS 
Qualquer perspectiva pela qual se estude 
a sociedade humana - se examinarmos a his-
toria da evolu<;;ao da humanidade ou 0 de-
senvolvimento de urn unico individuo - sem-
pre nos obriga a considerar 0 ser humane na 
matriz de seus relacionamentos interpessoais. 
Existem dados convincentes do estudo de pri-
matas nao-humanos, culturas humanas primi-
tivas e da sociedade contemporiinea de que os 
seres humanos sempre viveram em grupos que 
• • 
• • 
• 
• •• • 
Aprendizagem interpessoal 
se caracterizaram por relacionamentos intensos 
e persistentes entre os membros e que a necessi-
dade de fazer parte e uma motiva<;ao poderosa, 
fundamental e global. l A rela<;ao interpessoal 
foi claramente adaptativa no sentido evolucio-
nista: sem vinculos interpessoais profundos, 
positiv~s e reciprocos, nao seria possivel a so-
brevivencia individual ou da especie. 
John Bowlby, a partir de seus estudos do 
relacionamento entre mae e mho, nao apenas 
concrui que 0 comportamento de apego e ne-
cessario para a sobrevivencia, mas tambem que 
ele e essencial, intrinseco e geneticamente pro-
gramado.2 Se a mae e 0 bebe forem separados, 
ambos experimentam uma grande ansiedade 
concomitante com a sua busca pelo objeto per-
'. dido. Se a separa<;ao for prolongada, as con-
seqiiencias para 0 bebe serao profundas. 
Winnicott tambem observou que: "0 bebe nao 
existe, 0 que existe e urn par de mae e bebe".3 
Vivemos em uma "matriz relacional", segundo 
Mitchell: "A pessoa somente e compreensivel 
dentro dessa rede de relacionamentos passa-
dos e presentes".4 
De manejra semelhaIi.te, urn seculo atras, 
o grande psicologo-filosofo norte-americano 
William James disse: 
Nao apenas somos animais gregarios que gos-
tarn de estar it vista de seus arnigos, como te-
mos uma propensao inata a nos fazermos no-
tad os, e notados de maneira favoravel, por 
nossa especie. Nao se poderia imaginar puni-
~ao mais cruel, se isso fosse fisicamente possi-
38 IRVIN D. Y ALDM 
vel, do que uma pessoa ser largada na socie-
dade e ser absolutamente ignorada por todos 
os membros dali em diante.s 
De fato, as especula<;oes de James foram 
corroboradas muitas vezes pela pesquisa con-
temporanea, que documenta a dor e as conse-
qiiencias adversas da solidao. Por exemplo, 
existem evidencias convincentes de que a taxa 
de quase todas as causas de morte importan-
tes e significativamente maior para os solita-
rios, os solteir~s, os divorciados e os viuvos.6 
o isolamento social e tanto urn fator de risco 
para a mortalidade precoce quanta fatores de 
risco fisico obvio, como 0 tabagismo e a obesi-
dade.7 0 inverso tambem e verdadeiro: a co-
nexao e a integra<;ao sociais tern urn impacto 
positiv~ sobre 0 curso de doen<;as serias, como 
o cancer e a AIDS. B 
Reconhecendo a primazia do relaciona-
mento e do apego, os modelos contemporaneos 
da psicoterapia dinamica evoluiram de uma psi-
cologia freudiana individual e baseada no im-
pulso para uma psicologia relacional de duas 
pessoas, que coloca a experiencia interpessoal 
do paciente no centro da psicoterapia efetiva. YJ 
A psicoterapia contemporanea emprega urn 
"modelo relacional, segundo 0 qual se acredi-
ta que a mente nasce de configura<;6es intera-
cionais do self em rela<;ao aos outroS".IO 
Com base nas contribuic;,:6es de Harry Stack 
Sullivan e sua teoria interpessoal da psiquia-
tria,l1 os modelos interpessoais de psicoterapia 
passaram a predominar.12 Embora 0 trabalho 
de Sullivan tenha tido importancia seminal, as 
gerac;,:oes contemporaneas de terapeutas rara-
mente 0 leem. Em primeiro lugar, sua lingua-
gem muitas vezes e obscura (embora existam 
excelentes interpretac;,:oes de seu trabalho em 
ingles simples) .13 Em segundo lugar, seu traba-
Iho tanto permeou 0 pensamento psicotera-
peutico contemporaneo que suas obras origi-
nais parecem familiares ou obvias. Entretanto, 
com 0 recente foco na integra<;il.o de aborda-
gens cognitivas e interpessoais na terapia indi-
vidual e na terapia de grupo, ressurgiu 0 inte-
resse em suas contribui<;oes.14 Kiesler de fato 
argumenta que 0 arcabou<;o interpessoal e 0 
modele mais apropriado para que os terapeutas 
possam sintetizar as abordagens cognitivas, 
comportamentais e psicodinamicas de manei-
ra significativa - e a mais abrangente das psico-
terapias integrativas.yls 
As formula<;oes de Sullivan sao muito 
importantes para se entender 0 processo 
terapeutico de grupo. Embora uma discussao 
abrangente da teoria interpessoal esteja aMm 
dos limites deste livro, descreverei aqui alguns 
conceitos fundamentais. Sullivan afirma que a 
personalidade e quase inteiramente produto da 
interac;,:ao com outros seres humanos significa-
tivos. A necessidade de se relacionar intima-
mente com outras pessoas e tao basica quanta 
qualquer necessidade biologica e, a luz do pro-
longado perfodo de impotencia da primeira 
infancia, e igualmente necessaria para a sobre-
vivencia. A crian<;a em desenvolvimento, na 
busca por seguranc;,:a, tende a cultivar e 
enfatizar os tra<;os e aspectos do self que tern 
aprova<;ao e silenciar ou negar aqueles que sao 
desaprovados. Finalmente, 0 individuo desen-
volve urn conceito de self com base em sua per-
cepc;,:ao das avalia<;oes de outras pessoas impor-
tantes. 
Pode-se dizer que 0 self e feito de avalia<;6es 
refletidas. Se elas forem principalmente ne-
gativas, como no caso de uma crian,<;3 indese-
jada que nunca foi amada ou de uma crian<;a 
que caiu nas maos de pais adotivos que nao 
tern interesse real nela como crian<;a; como 
costumo dizer, se 0 dinamismo do self for prin· 
cipalmente formado por experiencias negati-
vas, ele facilitara. avalia<;6es depreciativas de 
outras pessoas e produzini avalia<;6es depre-
ciativas e hostis de si mesmo.l6 
. Esse processo de construir nossa auto-es-
tima com base em avalia<;oes refletidas que le-
mos nos olhos de pessoas importantes continua, 
e claro, ao longo do ciclo evolutivo. Grunebaum 
e Solomon, em seu estudo com adolescentes, 
enfatizaram que relacionamentos satisfatorios 
com amigos e a auto-estima sao conceitos 
inseparaveisY 0 mesmo e verdadeiro para os 
idosos - nunca ultrapassamos a necessidade de 
urn relacionamento significativo.IB 
Sullivan usava 0 termo "distorc;,:oes parata-
xicas" para descrever a propensao dos indivi-
duos a distorcer suas percepc;,:oes dos outros. 
Uma distorc;,:ao paratcixica ocorre em uma situa-
c;,:ao interpessoal quando uma pessoa nao se 
relaciona com outra com base em atributos 
realistas da outra, mas com base em uma per-
sonificac;,:ao que existe principalmente na fan-
tasia da pessoa. Embora a distor<;ao parataxica 
se assemelhe ao conceito de transferencia, ela 
difere em duas maneiras importantes. Em pri-
meiro lugar, seu alcance e mais amplo, referin-
do-se nao apenas a visao distorcida de urn in-
dividuo sobre 0 terapeuta, mas a todos os rela-
cionamentos interpessoais (incluindo, e claro, 
relacionamentos distorcidos entre membros do 
grupo). Em segundo lugar, a teoria de origem 
e mais arripla: a distorc;,:ao parataxica nao se 
constitui apenas na simples transferencia de 
atitudes para com figuras do passado para re-
lacionamentos contemporaneos, mas na dis-
tor<;ao da realidade interpessoal em resposta a 
necessidades intrapessoais. Usarei os dois ter-
mos de forma intercambiavel. Apesar das dife-
ren<;as de origem, a' transferencia e a distor<;ao 
parataxica podem ser consideradas identicas . 
no sentido operacional. Alem disso, muitos 
terapeutas atualmente utilizam 0 termo "trans-
ferencia" referindo-se a todas as distor<;oes in-
terpessoais, em vez de confinaI:'em seu uso ao 
relacionamento entre 0 paciente e 0 terapeuta 
(ver Capitulo 7). 
As distor<;oes da transferencia surgem a 
partir de urn con junto de memorias p.£.ofunda-
mente distorcidas de experiencias de interac;,:oes 
antigas. 19 Essas memorias contribuem para a 
constru<;ao de urn modele de trabalho interne 
que moIda os padroes de apego do individuo ao 
longo de sua vida.20 Esse modelo de trabalho 
interno, tambem conhecido como esquema,21 
consiste nas crenc;,:as do individuo sobre si mes-
mo, na maneira como ele entende pistas de re-
lacionamentos e no comportamento interpessoal 
que se segue - nao apenas 0 seu, mas 0 tipo de 
comportamento que ele evoca em outras pes-
soas.22 Por exemplo, e provavel que umajovem, 
ao crescer com pais depressiv~s e sobrecarrega-
dos, sinta que deve manter-se conectada e ape-
gada aos outros, que nao deve fazer exigencias 
e que deve suprimira sua independencia e su-
bordinar-se as necessidades emocionais das ou-
tras pessoas. Y A psicoterapia pode representar 
a prinleira oportunidade para rejeitar esse mapa 
interpessoal rigido e linIitante. 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 39 
As distorc;,:6es interpessoais (ou sejam, 
parataxicas) tendem a se autoperpetuar. Por 
exemplo, urn individuo com uma auto-imagem 
negativa e degradada pode, por proje<;§o ou 
desatenc;,:ao seletiva, perceber incorretamente 
que outra pessoa 0 trata de forma severa e 0 
rejeita. AMm disso, 0 processo ocorre porque 
esse individuo pode gradualmente desenvol-
ver maneirismos e trac;,:os comportamentais -
por exemplo, servilismo, antagonismo defen-
sivo ou condescendencia - que acabam fazen-
do com que os outros, na realidade, sejam se-
veros e 0 rejeitem. Essa seqiiencia costuma ser 
chamada de "profecia auto-realizavel" - 0 in-
dividuo preve que os outros responderao de 
uma dada maneira e entao, de maneira 
involuntaria, se comporta de modo a fazer com 
que isso aconte<;a. Em outras palavras, a cau-
salidade nos relacionamentos e circular, nao 
linear. A pesquisa interpessoal corrobora essa 
tese, demonstrando que as cren<;as interpes-
soais do indivfduo expressam-se em compor-
tamentos que tem um impacto previsfvel so-
bre as outras pessoas.23 
As distorc;,:oes interpessoais, na visao de 
Sullivan, sao principalmente modificaveis por 
valida<;ao consensual - ou seja, comparando-
se as avalia<;oes interpessoais do indivfduo com 
a de outras pessoas. A valida<;ao consensual e 
urn conceito particularmente importante na 
terapia de grupo. Com uma certa freqiiencia, 
urn membro do grupo altera suas distor<;6es 
ap6s compara-las com as visoes dos outros 
membros sobre algum incidente importante. 
Isso nos traz a visao de Sullivan do pro-
cesso terapeutico. Ele sugere que 0 foco ade-
quado de pesquisa em saude mental e 0 estu-
do de processos que ocorrem entre as pessoas 
ou que as envolvem.24 0 transtorno mental, ou 
a sintomatologia psiquiatrica em todas as suas 
manifesta<;6es variadas, deve ser traduzido em 
termos interpessoais e tratado dessa forma. 2S 
As psicoterapias atuais para muitos trans tor-
nos enfatizam esse principio.Y 0 "transtorno 
mental" tambem consiste em processos inter-
pessoais que sao inadequados a situac;,:ao so-
cial ou excessivamente complexos porque 0 in-
dividuo esta se relacionando com as outras 
pessoas, nao apenas como sao, mas em termos 
de imagens distorcidas baseadas em quem re-
40 IRVIN D. YAlOM 
presentam do passado. 0 comportamento 
interpessoal mal-adaptativo pode ser tambem 
definido por sua rigidez, extremismo, diston;ao, 
circularidade e sua aparente inescapabili-
dade.26 
Dessa forma, 0 tratamento psiquiatrico 
deve ser voltado para a corre~ao de diston;:5es 
interpessoais, possibilitando assim que 0 indi-
viduo leve uma vida mais abundante, partid-
pe e trabalhe em con junto com outras pessoas, 
obtenha satisfa<;ao interpessoal no contexto de 
reladonamentos interpessoais realistas e mu-
tuamente satisfatorios: "0 individuo atinge a 
saude mental ate 0 nivel em que esta ciente 
dos proprios relacionamentos interpessoais".27 
A cura psiquiMrica e a "expansao do self ate 
urn efeito tao decisive que 0 paciente, como 
ele se conhece, seja a mesma pessoa que se 
relaciona com os outroS".28 Embora suas cren-
<;as negativas basicas sobre si mesmo nao de-
sapare<;am totalmente com 0 tratamento, 0 tra-
tamento efetivo gera uma capacidade de do-
minio interpessoal,29 de modo que 0 paciente 
possa responder com urn repertorio ampliado, 
flexivel, empatico e mais adaptativo de com-
portamentos, substituindo ciclos viciosos com 
ciclos construtivos. 
Melhorar a comunica~ao interpessoal e 0 
foco de uma variedade de interven~5es 
psicoterapeuticas de grupos de pais e filhos que 
abordam transtomos de conduta e 0 compor-
tamento anti-social na infancia. A falta de co-
munica~ao das necessidades da crian<;a e das 
expectativas dos pais produz sentimentos de 
desamparo e falta de efetividade pessoal em 
crian~as e pais, levando a comportamentos de 
atua~ao por parte das crian<;as, bern como a 
respostas parentais que muitas vezes sao hos-
tis, depreciativas e inadvertidamente provoca-
doras.30 Nesses grupos, pais e filhos aprendem 
a reconhecer e corrigir cidos interpessoais mal-
adaptativos, pelo uso de psicoeduca~ao, reso-
lu~ao de problemas, treinamento em habilida-
des interpessoais, dramatiza~ao de papeis e 
feedback. 
Essas ideias - que a terapia e amplamen-
te interpessoal, tanto em seus objetivos quan-
to em seus meios - sao muito pertinentes na 
terapia de grupo. Isso nao significa que todos 
ou a maioria dos pacientes que entram em uma 
terapia de grupo pe~am explicitamente por aju-
da em seus relacionamentos interpessoais. Ain-
da assim, observei que os objetivos terapeuticos 
dos pacientes muitas vezes passam por uma 
mudan~a apos algumas sess5es. Seu objetivo 
inicial, 0 alivio do sofrimento, e modificado e 
finalmente substituido por novos objetivos, 
geralmente de natureza interpessoal. Por exem-
plo, os objetivos em buscar alivio da ansiedade 
ou da depressao podem ser modificados em 
aprender a se comunicar com os outros, ser 
mais confiavel e honesto com os outros, apren-
der a amar. Nas terapias de grupo breves, tal-
vez essa tradu~ao de preocupa~5es e aspira-
<;5es dos pacientes para quest5es interpessoais 
deva ocorrer mais cedo, na fase de avaliac;ao e 
prepara~ao ever Capitulo 10).31 
A mudan~ de objetivos do alivio do so-
frimento para a mudan~a no funcionamento 
interpessoal e urn passo inicial essencial no 
processo terapeutico dinamico, sendo tambem 
importante no pensamento do terapeuta. 0 
terapeuta nao pode, por exemplo, tratar a de-
pressao em si: a depressao nao sugere urn ins-
trumento terapeutico efetivo, uma base racio-
nal para. se examinarem os relacionamentos 
interpessoais, que, como espero dernpnstrar, e 
a chave para 0 poder terapeutico do grupo de 
terapia. Ii necessario, em primeiro lugar, tradu-
zir a depressao em termos interpessoais e entao 
tratar a patologia interpessoal subjacente. As-
sim, 0 terapeuta traduz a depressao em suas 
quest5es interpessoais - por exemplo, depen-
dencia pass iva, isolamento, subserviencia, in-
capacidade de expressar raiva, hipersensibili-
dade a separa~ao - e entao aborda essas ques-
toes interpessoais na terapia. 
A dedara~ao de Sullivan sobre 0 proces-
so geral e os objetivos da terapia individual e 
profundamente condizente com os objetivos da 
terapia de grupo interacional. Esse foco inter-
pessoal e relacional e urn dos pontos fortes que 
definem a terapia de grupo.! A enfase em 0 
paciente compreender 0 pass ado, 0 desenvol-
vimento genetico de posturas interpessoais mal-
adaptativas, pode ser menos crucial na terapia 
de grupo do que no cenario individual em que 
Sullivan trabalhava ever Capitulo 6). 
A teoria dos relacionamentos interpes-
soais tomou-se uma parte tao integral do teci-
do do pensamento psiquiatrico que nao preci-
sa ser mais enfatizada. As pessoas necessitam 
de pessoas - para sua sobrevivencia inicial e 
continua, para a socializa~ao, para a busca da 
satisfa~ao. Ninguem - nem os moribundos, nem 
os exdufdos, nem os poderosos - transcende a 
necessidade de contato humano. 
Durante os muitos anos em que conduzi 
grupos de individuos com alguma forma avan-
~ada de d\.ncer,32 observei repetidamente que, 
diante da morte, nao tememos tanto 0 nada 
ou 0 nao 'ser, mas a completa solidao que os 
acompanha. Os pacientes terminais podem ser 
assombrados por preocupa~oes interpessoais -
quanta a ser abandonados, por exemplo, e ate 
exduidos pelo mundo dos vivos. Uma mulher, 
por exemplo, planejou urn grande evento so-
cial e descobriu na manha anterior que 0 seu 
cancer, ate entao"supostamente controlado, 
havia desenvolvido metastases. Ela manteve a 
informa~ao em segredo e deu a festa, todo 0 
tempo com 0 horrfvel pensamento de que a 
dor de sua doen~a se tomaria tao insuportavel 
que ela se tomaria menos humana e, finalmen-
te, inaceitavelpara os outros. 
o isolamento dos mon'bundos muitas ve-
zes e uma faca de dois gumes. Os proprios pa-
cientes costumam evitar as pessoas de quem 
mais gostam, temendo que iraQ arras tar seus 
familiares e amigos para 0 pantano de seu de-
sespero. Assim, evitam conversas morbidas" 
desenvolvem uma fachada alegre e animada e 
guardam seus temores para si mesmos. Seus 
amigos e sua familia contribugm para 0 isola-
mento retraindo-se, nao sabendo como falar 
com urn moribundo, nao querendo incomoda-
10 ou se incomodarem. Concordo com Elizabeth 
Kubler-Ross, quando diz que a questao nao e 
se, mas como contar ao paciente, de maneira 
aberta e honesta, sobre sua doen~a fatal. 0 
paciente sempre e informado de forma dissi-
mulada que esta morrendo, por meio da atitu-
de e pelo afastamento dos viVOS.33 
Os medicos muitas vezes aumentam 0 iso-
lamento, mantendo pacientes com cancer avan-
~ado a uma distfmcia psicologica consideravel-
talvez para evitar sua sensac;ao de fracasso e 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 41 
futilidade, talvez tambem para evitar 0 medo 
de sua propria morte. Eles cometem 0 erro de 
conduir que, afinal, nao ha nada que possam 
fazer. Ainda assim, do ponto de vista do pacien-
te, esse e exatamente 0 momento em que 0 
medico e mais necessario, nao por sua ajuda 
tecnica, mas pela simples presen~a humana. 0 
paciente precisa fazer contato, ser capaz de 
tocar outras pessoas, falar abertamente de suas 
preocupa~5es, ser lembrado de que nao esta 
apenas a parte, mas que tambem faz parte. As 
abordagens psicoterapeuticas estao come~an­
do a tratar dessas quest5es especificas dos 
doentes terminais - seu medo do isolamento e 
seu desejo de manter a dignidade em seus re-
lacionamentos.! Considere os individuos pros-
critos - individuos considerados tao acostuma-
dos com a rejei~ao que suas necessidades inter-
pessoais tomaram-se quase insensiveis. Pois 
esses individuos tambem tern necessidades so-
dais. Uma vez, tive uma experiencia em uma 
prisao que me proporcionou urn lembrete for-
~ado da natureza ubiqua dessa necessidade 
humana. Urn tecnico psiquiatrico sem forma-
~ao consultou-me a respeito de seu grupo de 
terapia, composto de 12 prisioneiros. Os mem-
bros do grupo eram todos reincidentes, cujas 
agress5es variavam de abuso sexual violento 
de urn menor a assassinato. 0 grupo, confor-
me ele se queixava, era lento e continuava se 
concentrando em material insignificante e ex-
temo. Concordei em observar 0 grupo e sugeri 
que, antes, obtivessemos algumas infonna~5es 
sociometricas, solicitando em particular que 
cada membro classificasse os outros membros 
do grupo quanta a sua popularidade gera!. (Eu 
esperava que a discussao dessa tarefa induzis-
se 0 grupo a voltar a aten~ao para si mesmo). 
Embora tivessemos planejado discutir os resul-
tados antes da sessao seguinte, circunstancias 
inesperadas nos for~ararri a cancelar nossa reu-
niao antes da sessao do grupo. 
Durante a proxima reuniao do grupo, 0 
terapeuta, entusiasmado, mas profissionalmen-
te inexperiente e insensfvel as necessidades 
interpessoais, anunciou que leria os resultados 
da pesquisa de popularidade. Ao ouvirem isso, 
os rnembros do grupo ficaram agitados e te-
merosos. Eles deixaram claro que nao queriam 
42 IRVIN D. YALOM 
saber os resultados. Varios membros falaram 
de forma tao veemente da devastadora possi-
bilidade de que pudessem aparecer no final da 
Iista que 0 terapeuta abandonou, nipida e per-
manentemente, 0 seu plano de ler a lista em 
voz alta. 
Sugeri urn plano alternativo para 0 pro-
ximo encontro: cada membro indicaria aquele 
ctljo voto mais Ihe interessasse e depois explica-
ria a sua escolha. Esse instrumento tambem foi 
amea~ador demais, e apenas urn ter~o dos 
membros aventurou-se a apresentar a sua es-
colha. Entretanto, 0 grupo mudou para urn ni-
vel de intera~ao e desenvolveu urn grau de ten-
sao, envolvimento e alegria antes desconheci-
do. Esses homens haviam recebido a mensagem 
de rejei~ao final da sociedade como urn todo: 
eles foram aprisionados, segregados e explicita-
mente rotulados como proscritos. Para urn ob-
servador casual, eles pareciam endurecidos, 
indiferentes as sutilezas da aprova<;ao e desa-
prova~ao interpessoais. Mesmo assim, eles se 
importavam, e se importavam profundamente. 
A necessidade de aceita~ao e intera~o com 
outras pessoas nao e diferente entre pessoas no 
polo oposto do destino humane - aquelas que 
ocupam os dominios do poder, do renome ou 
da riqueza. Vma vez, trabalhei com uma pacien-
te muito rica por tres anos. As principais ques-
toes giravam_em tomo do abismo que 0 dinhei-
ro criava entre ela e os outros. Sera que alguem 
a valorizava por si mesma, em vez de seu di-
nheiro? Sera que as pessoas a estavam explo-
rando? A quem ela poderia se queixar do fardo 
de uma fortuna de 90 milhoes de dolares? 0 
segredo de sua riqueza a mantinha isolada das 
outras pessoas. E os presentes! 'Como poderia 
ela dar presentes adequados, sem que os outros 
se sentissem decepcionados ou impressionados? 
Nao ha necessidade de se perder tempo nesse 
assunto, a solidao dos que sao muito privilegia-
dos e conhecimento comum. (A solidao, inci-
dentalmente, nao e irrelevante para 0 terapeuta 
de grupo. No Capitulo 7, discutiremos a solidao 
inerente ao papel de lider do grupo.) 
Todo terapeuta de grupo, estou certo dis-
so, ja encontrou membros que professem sen-
tir indiferen<;a ou desapego pelo grupo. E1es 
proclamam: "Nao me importo com 0 que di-
zem ou pensam. Eles nao significam nada para 
mim. Nao tenho respeito pelos outros mem-
bros", ou palavras do tipo. Minha experiencia 
tern sido de que se eu puder manter esses pa-
cientes no grupo por tempo suficiente, seus de-
sejos por contato inevitavelmente acabarao vin-
do a tona. Eles se preocupam com 0 grupo em 
urn nfvel muito profundo. Vma participante que 
manteve sua postura indiferente por muitos 
meses foi convidada a contar 0 seu segredo para 
o grupo, a questao que ela mais desejasse co-
locar diante do grupo. Para perplexidade de 
to dos, essa mulher aparentemente distante e 
desapegada colocou a seguinte questao: "Como 
voces conseguem me agiientar?" 
Muitos pacientes esperam pelas reunioes 
com muita avidez ou ansiedade. Alguns tam-
bern se sentem abalados demais para conse-
guirem voltar para casa dirigindo ou dormir 
naquela noite. Muitos tern conversas imagina-
rias com 0 grupo durante a semana. Alem dis-
so, esse envolvimento com outros membros 
costuma ser prolongado. Conhe~o muitos pa-
cientes que pensam e sonham com 0 grupo por 
meses, ate anos, apos 0 grupo ter acabado. 
Resumindo, as pessoas nao se sentem in-
diferentes para com os outros membros do gru-
po por muito tempo. E os pacientes nao aban-
donam grupos de terapia porque estao,entedia-
dos. Acredite em desprezo, raiva, medo, falta 
de estimulo, vergonha, panico, odio! Acredite 
em qualquer uma dessas op~oes, mas nunca 
acredite em indiferen~a! 
Em sintese, revisei alguns aspectos do 
desenvolvimento da personalidade, do funcio-
namento maduro, do psicopatologia e do trata-
mento psiquiatrico do ponto de vista da teo ria 
interpessoal. Muitas das questoes que levantei 
tern uma influencia vital no processo terapeu-
tico da terapia de grupo: 0 conceito de que a 
doen<;a mental emana de relacionamentos in-
terpessoais perturbados, 0 papel da vaJida<;ao 
consensual na modifica~ao de distor<;oes inter-
pessoais, a defini<;ao do processo terapeutico 
como uma modifica<;ao adaptativa para relacio-
namentos interpessoais, e a natureza duradou-
ra e a for<;a das necessidades sociais dos seres 
humanos. Voltemo-nos agora para a experien-
cia emocional corretiva, 0 segundo dos tres con-
ceitos necessarios para se compreender 0 fator 
terapeutico da aprendizagem interpessoal. 
A EXPERIENCIA EMOCIONAL CORRETIVA 
Em 1946, Franz Alexander, ao descrever 
o mecanisme da cura psicanalitica, introduziu 
o conceito da "experiencia emocional correti-
va". 0 principio basico do tratamento, disse, 
"e expor 0 paciente, sob circunstancias mais 
favoraveis,a situa~oes emocionais que ele nao 
conseguiu enfrentar no passado. Para ser aju-
dado, 0 paciente deve passar por uma experien-
cia emocional corr~tiva adequada para repa-
rar a influencia traumatica da experiencia an-
terior".34 Alexander insistia que apenas 0 insight 
intelectual e insuficiente, devendo tambem ha-
ver um componente emocional e urn teste sis-
tematico da realidade. Os pacientes, enquanto 
interagem afetivamente com seu terapeuta de 
forma distorcida por causa da transferencia, 
devem se tomar gradualmente conscientes do 
fato de que "essas rea~oes nao sao adequadas 
para as rea~oes do"analista, nao apenas por-
que ele (0 analista) e objetivo, mas porque ele . 
e 0 que e, uma pessoa em seu proprio direito. 
Elas nao sao adequadas a situa~ao que ocorre 
entre 0 paciente e 0 terapeuta, e sao igualmen-
te inadequadas para os rel£l.cionamentos 
interpessoais atuais do paciente em sua vida 
cotidiana".35 
Embora a ideia da experiencia emocional 
corretiva tenha side criticada ao longo dos anos 
porque era mal-interpretada como sendo inven-
tada, artificial ou manipuladora, as psicoterapias' 
contemporiineas a consideram wna das bases 
da efetividade terapeutica. A mudan~a, no nl-
vel comportamental e no nfvel mais profundo 
de imagens intemalizadas de relacionamentos 
passados, nao ocorre principalmente por meio 
da interpreta~ao e do insight, mas por uma sig-
nificativa experiencia relacional no aqui-e-ago-
ra, que rejeita as cren~as patogenicas do pacien-
te.36 Quando isso ocorre, a mudan~a pode ser 
dramatica: os pacientes expressam mais emo-
~oes, lembram de experiencias formativas e re-
levantes mais pessoais, e demonstram evidencias 
de mais coragem e urn sentido de self maiorY 
Esses principios basicos - a irnportancia 
da experiencia emocional na terapia e na des-
coberta do paciente, por intermedio do teste 
da realidade, da inadequa~ao de suas rea<;oes 
interpessoais - sao tao cruciais na terapia de 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 43 
grupo quanta na terapia individual, e possi-
velmente mais, pois 0 cenario de grupo of ere-
ce mais oportunidades para gerar experiencias 
emocionais corretivas, No cenario individual, 
a experiencia emocional corretiva, com todo 0 
seu valor, pode ser mais dificil de acontecer, 
pois 0 relacionamento entre 0 paciente e 0 
terapeuta e mais estreito e 0 paciente e mais 
capaz de questionar a espontaneidade, a abran-
gencia e a autenticidade desse relacionamen-
to. (Creio que Alexander estava ciente disso, 
pois sugeria que 0 analista fosse urn ator e que 
desempenhasse urn papel para criar a atmos-
fera emocional desejada,)38 
Essa simula<;ao nao e necessaria na tera-
pia de grupo, que contem muitas tensoes em-
butidas - tens6es cujas raizes alcan~am pro-
fundamente, nas camadas basicas: rivalidade 
entre irma os, competi<;ao pela aten~ao dos If-
deres/pais, a luta por domina~ao e status, ten-
soes sexuais, distor~oes parataxicas e diferen-
<;as de classe social, educa<;ao e valores entre 
os membros. Mas a evocap'io e a expressao do 
afeto bruto nao sao suficientes: elas devem ser 
transformadas em uma experiencia emocional 
corretiva. Para que isso ocorra, sao necessarias 
duas condi<;oes: (1) os membros devem cons i-
derar 0 grupo suficientemente seguro e solida-
rio, para que essas tensoes possam ser expres-
sadas abertamente; (2) deve haver suficiente 
envolvimento e feedback honesto para permi-
tir 0 teste da realidade efetivo. 
Durante muitos anos de trabalho clinico, 
tomei como pra.tica comum entrevistar pacien-
tes que conclulram a terapia de grupo. Sem-
pre pergunto sobre algum incidente crltico, urn 
ponto de mudan~a ou 0 evento mais proveito-
so na terapia. Embora 0 termo "incidente criti-
co" nao seja sin6nimo de fator terapeutico, os 
dois nao sao desconectados, e pode-se apren-
der muito com uma investiga~ao de eventos 
importames, Meus pacientes quase invariavel-
mente citam algum incidente que foi emocio-
nalmente carregado e que envolveu outros 
membros do grupo, raramente 0 terapeuta. 
o tipo mais comum de incidente que meus 
pacientes relatam (como os pacientes descri-
tos por Frank e Ascher) 39 envolve uma expres-
sao repentina de aversao ou de raiva para com 
outro membro. Em todos os exemplos, a co-
44 IRVIN D. YALOM 
municac;ao foi mantida, a tempestade passou 
e 0 paciente experimentou uma sensac;ao de 
libera<;ao de coibic;oes interiores, bern como 
uma capacidade maior de explorar seus rela-
cionamentos interpessoais de forma mais pro-
funda. 
As caracteristicas importantes desses in-
cidentes cdticos sao: 
1. 0 paciente expressou forte afeto negativo. 
2. Essa expressao foi uma experiencia unica 
ou nova para 0 paciente. 
3. 0 paciente sempre teve medo de expres-
sar raiva. Mesmo assim, nao houve nenhu-
rna catastrofe: ninguem fugiu ou morreu, 
e 0 teto nao caiu. 
4. Rouve teste da realidade. 0 paciente com-
preendeu que a raiva expressada era ina-
dequada em sua intensidade ou dire<;ao 
ou que havia side irracional evitar a ex-
pressao de afeto. 0 paciente pode ter 
ganho algum insight ou nao, ou seja, com-
preendido as razoes que explicam 0 afeto 
inadequado ou a evitac;ao da experiencia 
ou da expressao do afeto. 
5. 0 paciente conseguiu interagir mais livre-
mente e explorar relacionamentos inter-
pessoais de forma mais profunda. 
Assim, quando vejo dois membros em 
conflito entre si, creio que ha uma excelente 
chance de que eles sejam particularmente im-
portantes urn para 0 outro no decorrer da te-
rapia. De fato, se os conflitos forem particular-
mente desconfortaveis, posso tentar reduzir 
parte do desconforto expressando essa intui-
c;ao em voz alta. 
o segundo tipo mais comum de inciden-
te cdtico que meus pacientes descrevem tam-
bern envolve urn afeto forte - mas, nesses ca-
sos, afeto positivo. Por exemplo, urn paciente 
esquizoide descreveu urn incidente em que pro-
curou e confortou urn membro do grupo que 
estava perturbado e que havia saido da sala. 
Mais tarde, ele contou 0 quanta havia sido afe-
tado por aprender que podia cuidar e ajudar 
alguem. Outros falaram que descobriram vida 
ou se sentiram em contato consigo mesmos. 
Esses incidentes tinham as seguintes caracte-
rlsticas em comum: 
1. 0 paciente expressou um forte afeto posi-
tivo - uma ocorrencia inusitada. 
2. A catastrofe temida nao aconteceu - me-
nosprezo, rejei<;ao, escarnio, destrui<;ao 
por. parte dos outros. 
3. 0 paciente descobriu uma parte desconhe-
cida de si mesmo e, assim, conseguiu se 
relacionar com os outros de maneira nova. 
A terceira categoria mais comum de inci-
dente cdtico e semelhante a segunga. Os pa-
cientes lembram de urn incidente, geralmente 
envolvendo a auto-revelac;ao, que fez com que 
mergulhassem em urn envolvimento maior com 
o grupo. Por exemplo, urn homem anteriormen-
te retraido e reticente que tinha faltado a al-
guns encontros revelou para 0 grupo 0 quanta 
queria ouvir os membros do grupo dizerem que 
haviam sentido sua falta durante a ausencia. 
Outras pessoas tambem, de urn modo ou ou-
tro, pedem ajuda ao grupo abertamente. 
Para sintetizar, a experiencia emocional 
corretiva na terapia de grupo tern diversos com-
ponentes: 
1. Uma forte expressao de emoc;oes, de na-
tureza interpessoal e que constitui urn ris-
co que 0 paciente correu. 
2. Urn grupo suficientemente solidario para 
perrnitir que se corram riscos. 
3. Teste da realidade, que permite que 0 in-
dividuo examine 0 incidente com ajuda da 
valida<;iio consensual dos outros membros. 
4. 0 reconhecimento da inadequac;ao de cer-
tos sentimentos ou comportamentos inter-
pessoais ou da inadequa<;ao de se evita-
rem certos comportamentos interpessoais. 
5. A facilita<;ao final da capacidade do indi-
viduo de interagir com os outros de forma 
mais profunda e honesta. 
A terapia e uma experiencia emocional e 
corretiva. Essa natureza dual do processo 
terapeutico e de significado fundamental, e 
devo retomar a ela muitas vezes neste texto. 
Devemos experimentar as coisas com intensi-
dade, mas tambem devemos, por meio denos-
sa faculdade da razao, entender as implicac;oes 
da experiencia emocional. Y Com 0 passar do 
tempo, as crenc;as profundas dos pacientes mu-
dam - e essas mudan<;as serao refor<;adas se os 
novos comportamentos interpessoais dos pa-
cientes evocarem respostas interpessoais cons-
trutivas. Mesmo altera<;oes interpessoais sutis 
podem refletir uma mudanc;a profunda e de-
vern ser reconhecidas e reforc;adas pelo tera-
peuta e pelos membros do grupo. 
Barbara, uma mulher deprimida, descreveu de 
forma vivida 0 seu isolamento e aliena<;iio do 
grupo, voltando-se para Alice, que estava cala-
da. Barbara e Alice brigavam muitas vezes, pois 
Barbara acusava Alice de ignoni-la e rejeita-la. 
Porem, nessa reuniao, Barbara usou urn tom 
mais gentil e perguntou a Alice qual era 0 sig-
nificado do seu silencio. Alice respondeu que 
estava ouvindo com cuidado e pensando 0 
quanta elas tinham em comum. Acrescentou 
que a pergunta mais gentil de Barbara havia 
permitido que ela pudesse falar sobre seus 
sentimentos em vez de se defender contra a 
acusa~ao de nao se importar, uma seqiiencia 
que ja havia terminado 'mal para elas em ou-
tras sess6es. A mudan~a aparentemente pe-
quena, mas vitalmente importante, na forma 
de Barbara abordar Alice criou uma oportuni-
dade empatica para reparar, em vez de repetir. 
Essa formula<;ao tern relevancia direta 
para um conceito fundamental da terapia de 
grupo, 0 aqui-e-agora, que discutiremos em 
profundidade no Capitulo 6. Aqui, apresenta-
rei apenas esta premissa basica: Quando 0 gru-
po de terapia se concentra no aqui-e-agora, ele 
aumenta seu poder e sua efetividade. , 
Mas para que 0 foco no aqui-e-agora (ou 
seja, 0 foco no que esta acontecendo na sala 
no presente imediato) seja terapeutico, ele deve 
ter do is componentes: os membros do grupo 
devem experimentar uns aos outros com 0 
maximo de espontaneidade e honestidade pos-
sivel, e tambem devem refletir sobre essa ex-
periencia. Essa reflexao, esse circuito auto-re-
flexivo, e crucial para que a experiencia emocio-
nal seja transformada em uma experiencia te-
rapeutica. Como veremos na discussao das ta-
refas do terapeuta no Capitulo 5, a maioria dos 
grupos tem pouca dificuldade para entrar no 
fluxo emocional do aqui-e-agora. Contudo, de 
um modo geral, a tarefa do terapeuta e conti-
nuar direcionando 0 grupo para 0 aspecto auto-
reflexivo do processo. 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 45 
o pressuposto erroneo de que uma expe-
riencia emocional forte, em si, e uma forc;a su-
ficiente para a mudan<;a e sedutor e tambem 
veneravel. A psicoterapia modema foi conce-
bida sobre esse mesmo erro: a primeira descri-
c;ao da psicoterapia dinfunica (os Estudos sobre 
a histeria, de Freud e Breuer, de 1895)40 des-
crevia um metodo de tratamento catartico ba-
seado na convic<;ao de que a histeria e causada 
por urn evento traumatico, ao qual 0 individuo 
nunca respondeu de forma emocional. Como 
a doenc;a supostamente era causada pelo afeto 
estrangulado, 0 tratamento visava dar voz a 
emoc;oes natimortas. Freud nao demorou para 
reconhecer 0 erro: a expressao emocional, 
embora necessaria, nao e uma condi<;ao sufi-
ciente para a mudanc;a. As ideias que Freud 
descartou negaram-se a morrer e foram a se-
mente para novas ideologias terapeuticas. 0 
tratamento catartico vienense do fim do secu-
10 ainda vive atualmente nas abordagens do 
grito primal, na bioenergetica enos muitos li-
deres de grupos que colocam uma enfase exa-
gerada na catarse emocional. 
Meus colegas e eu conduzimos uma am-
pIa investigac;ao do processo e dos resultados 
das muitas tecnicas de encontros populares na 
decada de 1970 (ver Capitulo 16), e nossas 
constatac;oes sustentam os componentes emo-
cionais-intelectuais do processo terapeuticoY 
Exploramos, em varias maneiras, a rela-
c;ao entre a experiencia de cada membro do 
grupo e os resultados que obtiveram. Por exem-
plo, solicitamos que os membros refletissem 
apos a conclusao do grupo sobre os aspectos 
da experiencia de grupo que consideravam 
mais pertinentes para a sua mudanc;a. Tambem 
pedimos, ao final de cada encontro, ainda no 
pedodo de reuni5es do grupo, que descreves-
sem 0 evento que houvesse tido 0 significado 
mais pessoal. Quando correlacionamos 0 tipo 
de evento com os efeitos, obtivemos resulta-
dos surpreendentes, que negavam muitos dos 
estereotipos contemporaneos sobre os ingre-
dientes principais da experiencia de gropo bem-
sucedida. Embora as experiencias emocionais 
(expressao e experiencia de afeto forte, auto-
revelac;ao, dar e receber feedback) tenham side 
consideradas extremamente importantes, elas 
nao diferenciaram membros do grupo bem-
II 
I, i 
, j 
:j 
I 
46 IRVIN 0. YALOM 
sucedidos e malsucedidos. Em outras palavras, 
os membros que nao mudaram ou mesmo os 
que tiveram uma experiencia destrutiva eram 
tao provaveis quanta os membros bem-sucedi-
dos de valorizarem os incidentes emocionais 
do grupo. 
Que tipos de experiencia diferenciaram os 
membros bem-sucedidos dos malsucedidos? 
Houve evidencias claras de que urn componen-
te cognitivo era essencial. Era necessario algum 
tipo de mapa cognitivo, algum sistema inte-
lectual que estruturasse a experiencia e fizesse 
sentido nas emo<;oes que 0 grupo evocava. (Ver 
Capitulo 16 para uma discussao ampla desse 
resultado.) 0 fato de que essas constata<;oes 
vieram de grupos com lideres que nao atri-
buiam muita importiincia ao componente inte-
lectual mostra que ele nao faz parte da facha-
da, mas do alicerce do processo de mudan<;a.42 
D GRUPD COMO MICRDCDSMO SOCIAL 
Urn grupo interativo livre, com poucas 
restri<;oes estruturais, em tempo, se transfor-
mara em urn microcosmo social para os parti-
cipantes. Com tempo suficiente, os membros 
do grupo come~arao a ser eles mesmos: come-
<;arao a interagir com os outros membros como 
interagem com pessoas em sua esfera social, 
criarao no gmpo 0 mesmo universo interpessoal 
que sempre habitaram. Em outras palavras, os 
pacientes, com 0 tempo, come~arao automati-
ca e inevitavelmente a apresentar seus com-
portamentos interpessoais mal-adaptativos no 
gmpo de terapia. Nao e necessario que descre-
yam ou deem urn historico detalhado de sua 
patologia: mais cedo ou mais tarde, eles a apre-
sentarao ante osolhos dos membros do grupo. 
Alem disso, seu comportamento serve como urn 
dado preciso e nao possui os pontos cegos 
involuntarios, mas inevitaveis, dos relatos pes-
soais. As patologias de carater costumam ser 
dificeis de relatar, po is estao muito assimila-
das no tecido do self e fora do consciente e da 
consciencia explicita. Como resultado, a tera-
pia de grupo, com sua enfase no feedback, e 
urn tratamento particularmente efetivo para 
individuos com patologias de carater.43 
Esse conceito tern importancia fundamen-
tal na terapia de grupo e e a pedra fundamen-
tal de toda a abordagem da terapia de grupo. 
o estilo interpessoal de cad a membro acaba 
aparecendo em suas transa<;oes no grupo. Al-
guns estilos resultam em atritos interpessoais 
que se manifestam no come<;o do grupo. Por 
exemplo, individuos bravos, vingativos, muito 
criticos, retraidos ou sedutores produzirao uma 
grande estatica interpessoal ja nos primeiros 
encontros. Seus padroes sociais mal-adapta-
tivos logo chamam a aten~ao do grupo. Outros 
podem pre cisar de mais tempo ern terapia an-
tes que suas dificuldades se manifestem no 
aqui-e-agora do grupo. Isso inclui pacientes que 
podem ser igualmente ou mais problematicos, 
mas cujas dificuldades interpessoais sejam mais 
sutis, como individuos que exploram os outros 
silenciosamente, aqueles que alcan~am urn 
grau de intimidade e, ficando assustados, se 
desligam, ou aqueles que se pseudo-envolvem, 
mantendo uma posi~ao subordinada e condes-
cendente. 
o inicio do trabalho de urn grupo consis-
te em lidar corn aqueles membros cuja patolo-
gia seja mais ostensiva do ponto de vista 
interpessoal. Certos estilos interpessoais tor-
nam-se claros a partir de uma linicq transa-
<;ao, alguns a partir de urn linico encontro dogrupo, e outros exigem muitas sessoes de ob-
serva~ao para serem compreendidos. 0 desen-
volvimento da capacidade de identificar e de 
trabalhar terapeuticamente com comportamen-
tos interpessoais mal-adaptativos observados 
no microcosmo social de urn grupo pequeno e 
uma das principais tarefas de urn programa de 
forma~ao para psicoterapeutas de grupo. Al-
guns exemplos clinicos podem tomar esses 
principios mais claros: 
* Nos exemplos clinicos a seguir, assim como no res-
ta do texto, protegi a privacidade dos clientes, alte-
rando certos faros, como nomes, ocupa<;6es e ida-
des. AMm disso, a intera<;ao descrita no texto nao e 
reproduzida literalmente, mas foi reconstruida a 
partir de notas clinicas detalhadas obtidas em cada 
encontro terapeutico. 
A grande dama 
Valerie, uma musicista de 27 anos, pro-
curou minha terapia principalmente por causa 
de problemas conjugais, que ja duravam anos. 
Ela havia feito consideraveis terapias indivi-
duais e hipnoticas que nao trouxeram muitos 
beneficios. Seu marido, segundo ela relatou, 
era urn alcoolista que hesitava para se relacio-
nar com ela social, intelectual e sexualmente. 
o grupo poderia, como muitos grupos fazem, 
ter investigado 0 seu casamento de maneira 
interminavel. Os membros poderiam ter obti-
do urn historico completo do periodo de na-
moro, da evolu~ao da discordancia, da patolo-
gia do marido, das razoes para terem casado, 
do papel dela no conflito. Eles poderiam ter 
coletado essas informa<;oes aconselhando-a a 
mudar a intera<;ao marital ou talvez sugerindo 
que experimentasse separar-se por urn tempo 
ou definitivamente: 
Mas toda essa atividade historica e de re-
solu~ao de problemas teria sido em vao: toda 
essa linha de investiga~ao nao apenas desconsi-
dera 0 potencial linico dos grupos de terapia, 
como tambem se baseia na pr~missa questio-
navel de que 0 relata de urn paciente sobre 0 
seu casamento e pelo menos razoavelmente 
preciso. Os grupos que funcionam dessa ma-
neira nao ajudam 0 protagonista e tambem 
sofrem desmo;;liza~ao, por causa da falta de 
efetividade da abordagem historica de resolu-
~ao de problemas na terapia de grupo. Em vez 
disso, vamos observar 0 comportamento.de 
Valerie, a medida que ele se desdobra no aqui-
e-agora do grupo. 
o comportamento de Valerieno grupo era 
vistoso. Em prinleiro lugar, havia sua entrada 
grandiosa, sempre 5 ou 10 minutos atrasada. 
Enfeitada em trajes elegantes, mas espalhafa-
tosos, ela invadia a sala, as vezes jogando bei-
jos, e imediatamente come<;ava a falar, indife-
rente a algum membro estar no meio de uma 
senten<;a. Isso era narcisismo puro! Sua visao 
de mundo era tao solipsistica que nem cogita-
va a possibilidade de que poderia haver vida 
no grupo antes de sua chegada. 
Apos alguns encontros, Valerie come<;ou 
a trazer presentes: para uma mu!her obesa, urn 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 47 
novo livro de dietas; para urn paciente gay 
efeminado, uma assinatura da revista Field and 
Stream (visando, sem dlivida, masculiniza-Io); 
e apresentou urn homem virgem de 24 anos a 
uma amiga sua divorciada, que era promiscua. 
Gradualmente, ficou claro que os presentes nao 
eram de gra<;a. Por exemplo, ela se metia no 
relacionamento que surgiu entre sua amiga e 
o jovem e insistia em atuar como confidente e 
intermediaria, exercendo assim urn grande con-
trole sobre ambos os individuos. 
Suas tentativas de dominar logo coloriram 
todas as suas intera<;oes no grupo. Tomei-me 
urn desafio para ela, que fez varias tentativas 
de me controlar. Por total acaso, alguns meses 
antes, eu havia atendido a sua irma e indicada 
a urn terapeuta competente, urn psicologo cli-
nico. No grupo, Valerie me cumprimentou pela 
tatica brilhante de enviar a sua irma a urn psi-
cologo, pois eu devia ter adivinhado a sua pro-
funda aversao a psiquiatras. De maneira seme-
!hante, em outra ocasiao, ela respondeu a urn 
comentario meu: "Como voce foi sensivel por 
ter notado minhas maos tremendo". 
A armadilha estava montada! De fato, eu 
nao tinha "adivinhado" a suposta aversao de 
sua irma por psiquiatras (eu simplesmente a 
havia indicado ao me!hor terapeuta que conhe-
<;o) ou notado as suas maos tremendo. Se acei-
tasse seu tributo indevido em silencio, eu par-
ticiparia de urn conluio desonesto com ela, mas, 
se, por outro lado, eu admitisse a minha falta 
de sensibilidade para com 0 tremor de suas 
maos ou a aversao da irma, reconhecendo a 
minha falta de percep<;ao, tambem daria cer-
to. Ela me..controlaria de qualquer forma! Nes-
sas situa<;oes, 0 terapeuta tern apenas uma op-
<;ao real: mudar de estrutura e comentar 0 pro-
cesso - a natureza e 0 significado da annadi-
lha. (Tenho muito mais a dizer sobre tecnicas 
terapeuticas relevantes no Capitulo 6.) 
Valerie competia comigo de muitas ou-
tras maneiras. Intuitiva e intelectualmente 
talentosa, ela se tomou a especialista do gru-
po em interpreta<;ao de sonhos e fantasias. Em 
uma ocasiao, ela me procurou entre duas ses-
soes para perguntar se poderia usar 0 meu 
nome para tirar urn livro da biblioteca medica. 
Em urn nivel, 0 pedido era razoavel: 0 livro 
48 IRVIN O. YAlOM 
(sobre musicoterapia) estava relacionado com 
a sua profissao. AMm disso, nao sendo ligada 
a universidade, ela nao poderia usar a biblio-
teca. No contexto do processo do grupo, po-
rem, 0 pedido era complexo, no sentido de que 
ela estava testando os limites. Conceder 0 seu 
pedido teria indicado ao grupo que ela tinha 
uma relac;ao unica e especial comigo. Esclareci 
essas considerac;oes para ela e sugeri que dis-
cutissemos 0 assunto na proxima sessao. Apos 
essa rejeic;ao percebida, no entanto, ela ligou 
para as casas de tres homens do grupo e, apos 
jurarem segredo, marcou encontros com eles. 
Valerie teve relac;oes sexuais com dois deles. 0 
terceiro, que era gay, nao estava interessado 
em seus avanc;os sexuais, mas ainda assim ela 
lanc;ou uma tentativa formidavel de seduc;ao. 
A reuniao seguinte do grupo foi horrivel. 
Extraordinariamente tensa e improdutiva, de-
monstrou 0 axioma (que discutiremos poste-
riormente) de que se uma coisa importante 
para 0 grupo esta sendo ativamente evitada, 
tambem nao se consegue falar sobre outra coi-
sa de interesse. Dois dias depois, Valerie, to-
mada de ansiedade e culpa, solicitou uma ses-
sao individual comigo e fez uma confissao com-
pleta. Ela concordou que tudo deveria ser dis-
cutido no proximo encontro do grupo. 
Valerie abriu 0 proximo encontro com as 
palavras: "Hoje e dia de confissao! Va em fren-
te, Charles!", e continuou dizendo: "sua vez, 
Louis", habilmente manipulando a situac;ao, de 
modo que as transgress6es confess as se torna-
ram responsabilidade apenas dos homens em 
questao, e nao suas. Os homens agiram como 
ela mandou e, mais adiante na reuniao, rece-
beram dela uma avaliac;ao Cfitica de seu de-
sempenho sexuaL Algumas semanas depois, 
Valerie contou ao marido 0 que havia aconte-
cido, e ele mandou recados ameac;adores aos 
tres homens. Essa foi a gota d'agua! Os mem-
bros decidiram que nao podiam mais confiar 
nela e, no unico caso do tipo que conhec;o, vo-
taram a sua exclusao do grupo. (Ela entrou em 
outro grupo e continuou a fazer terapia.) A saga 
nao termina aqui, mas ja devo ter contado 0 
suficiente para ilustrar 0 conceito do grupo 
como micro cosmo sociaL 
Deixe-me fazer uma sintese. 0 primeiro 
passo foi que Valerie demonstrou claramente a 
sua patologia interpessoal no grupo. Seu narci-
sismo, sua necessidade de adulac;ao, sua ne-
cessidade de controle, seu relacionamento sa-
dico com homens - toda a tragica lista compor-
tamental- desemolaram-se no aqui-e-agora da 
terapia. 0 proximo passo era reac;ao e feedback. 
Os homens expressaram sua profunda humi-
Ihac;ao e raiva por terem de "saltar pelo aro" 
para ela e depois receberem "notas" por seu 
desempenho sexual. Eles se afastaram dela e 
comec;aram a refletir: "Nao quero um boletim 
cada vez que tiver uma relaC;ao sexuaL Isso e 
controle, como dormir com a minha mae! Ago-
ra comec;o a entender por que 0 maridofu-
giu!", e assim por diante. Os outros membros 
do grupo, as mulheres e os terapeutas, com-
partilhavam dos sentimentos dos homens com 
relac;ao ao curso intencionalmente destrutivo 
do comportamento de Valerie - destrutivo para 
o grupo e para ela mesma. 
Mais importante de tudo, ela tinha de Ii-
dar com esse fato: havia entrado para um gru-
po de individuos com problemas, que estavam 
ansiosos para se ajudarem e que ela passara a 
gostar e a respeitar. Ainda assim, no decorrer 
de algumas semanas, ela havia envenenado 0 
seu proprio, ambiente de maneira que, contra 
seus desejos conscientes, ela se tomop uma 
paria, excluida de um grupo que poderia ter 
side muito uti! para ela. 0 fato de enfrentar e 
refletir sobre essas questoes em seu proximo 
grupo de terapia possibilitou-lhe fazer mudan-
c;as substanciais e empregar grande parte de 
seu consideravel potencial de forma construtiva 
em seus outros relacionamentos e atividades. 
o homem que gostava de Robin Hood 
Ron, urn advogado de 48 anos que havia 
se separado de sua esposa, comec;ou a fazer 
terapia devido a sua depressao, ansiedade e sen-
timentos intensos de solidao. Seus relaciona-
mentos com homens e mulheres eram muito 
problematicos. Ele desejava ter urn amigo pro-
ximo, mas nao tinha urn desde a escola. Seus 
relacionamentos atuais com homens assumiam 
duas formas: relacionavam-se de maneira bas-
tante competitiva e antagonica, que se aproxi-
maya perigosamente da combatividade, ou ele 
adotava urn papel excessivamente dominante 
e logo achava a relac;ao vazia e chata. 
Seus relacionamentos com mulheres sem-
pre seguiram uma seqiiencia previsivel: atra-
c;ao instantanea, paixao crescente e perda d-
pida de interesse. Seu amor por sua esposa 
havia desaparecido ha anos e ele atualmente 
se encontrava no meio de um divorcio doloroso. 
Inteligente e articulado, Ron imediata-
mente assumiu uma posic;ao de grande influen-
cia no grupo. Ele of ere cia urn fluxo continuo 
de observac;oes uteis e criteriosas aos outros 
membros, mas mantinha sua propria dor e suas 
necessidades ocultas. Ele nao pedia nada e nao 
aceitava nada de mim ou de minha co-tera-
peuta. De fato, cada vez que tentei interagir 
com Ron, senti-me pronto para a batalha. Sua 
resistencia antagonica era tao grande que, por 
meses, minha principal interac;ao com ele con-
sistiu em pedir repetidamente que ele exami-
nasse sua relutancia para experimentar a mim 
como alguem que poderia ajuda-Io. 
"Ron", sugeri, fazendo 0 melhor que pude, 
"vamos entender·o que esta acontecendo. Voce 
tern muitas areas de infelicidade em sua vida. 
Sou urn terapeuta experiente e voce me procu-
rou porque precisava de ajuda. Voce vern regu-
larmente, nunca falta a urn enc6ntro, paga por 
meus servic;os, mas me impede sistematicamen-
te de ajudar voce. Ou entao esconde tanto a 
sua dor que eu tenho pouco a lhe oferecer ou, 
quando oferec;o ajuda, voce a rejeita de umjei-
to ou outro. A razao diz que deveriamos ser 
aliados. Nao deveriamos estar trabalhando para 
ajuda-Io? Diga-me, como chegamos a ser ad-
versarios?" 
Mas ate isso nao conseguiu alterar 0 nos-
so relacionamento. Ron parecia se divertir e 
especulava de forma habil e convincente que 
eu poderia estar identificando urn dos meus 
problemas, em vez dos seus. Seu relacionamen-
to com os outros membros do grupo se caracte-
rizava por sua insistencia para ve-Ios fora do 
grupo. Ele sistematicamente organizava algu-
rna atividade extragrupo com cad a urn dos 
membros. Ele era piloto e os levava para voar; 
outros, para velejar; outros ainda, para janta-
res generosos. Deu conselhos juridicos para 
alguns, se envolveu com uma das mulheres e 
(a gota d'agua) convidou minha co-terapeuta, 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 49 
uma residente psiquiatrica, para passar urn tim 
de semana esquiando. 
Alem disso, ele se negava a examinar 0 
seu comportamento 01.1 a discutir esses encon-
tros extragrupos no grupo, embora a prepara-
c;ao pre-grupo (ver Capitulo 12) tenha enfa-
tizado para todos os membros que, quando nao 
examinados 01.1 discutidos, esses encontros ge-
ralmente sabotavam a terapia. 
Apos uma reuniao em que 0 pressiona-
mos para examinar 0 significado dos comites 
para sair, especiaimente 0 convite para esqtiiar 
com a co-terapeuta, ele saiu da sessao confuso 
e abalado. Em seu caminho para cas a, Ron 
inexplicaveimente comec;ou a pensar em Robin 
Hood, seu heroi favorito da infancia, algo em 
que ele nao pensava ha decadas. 
Seguindo seus impulsos, ele foi direta-
mente para a seC;ao infanti! da biblioteca pu-
blica mais proxima, sentou em uma cadeirinha 
para crianc;as e leu a historia novamente. Como 
urn relampago, 0 significado de seu comporta-
mento se iluminou! Por que a lenda de Robin 
Hood sempre 0 havia fascinado e divertido? 
Porque Robin Hood salvava as pessoas, especial-
mente as mulheres, de tiranos! 
Esse tema havia desempenhado urn forte 
papel em sua vida interior, comec;ando com as 
disputas edipianas em sua propria familia. Mais 
tarde, como urn jovem adulto, ele montou urn 
escritorio de advocacia de sucesso e atraiu os 
funcionarios de seu patrao para trabalharem 
p,ara ele. Ele muitas vezes se sentia atraido por 
mulheres ligadas a homens poderosos. Ate 
mesmo seus motivos para se casar haviam sido 
obscuros: ele nao conseguia distinguir 0 amor 
por sua esposa de seu desejo por salva-la de 
seu pai tirano. 
o primeiro estagio da aprendizagem 
interpessoal e a demonstrac;ao patologica. Os 
modos caracteristicos de Ronse relacionar com 
homens e mulheres se desdobraram de forma 
vivida no micro cosmo do grupo. Seu principal 
tema interpessoal era combater e derrotar ou-
tros homens. Ele competia abertamente e, par 
causa de sua inteligencia e de suas grandes ha-
bilidades verbais, logo buscava 0 papel domi-
nante no grupo. Ele entao comec;ou a mobili-
zar os outros membros na conspiraC;ao final: a 
derrocada do terapeuta. Formou alianc;as inti-
50 IRVIN O. YAlOM 
mas por meio de encontros fora do grupo e ao 
colocar outros membros em divida, oferecen-
do-lhes favores. Depois disso, ele tentou cap-
turar as "minhas mulheres" - primeiramente, 
a mulher mais atraente e depois a minha co-
terapeuta. 
Nao apenas a patologia interpessoal de 
Ron se apresentou no grupo, como as suas con-
seqiiencias adversas e autodestrutivas. Suas 
disputas com os homens sabotaram a propria 
razao pela qual ele come<;ara a fazer terapia: 
obter ajuda. De fato, a disputa competitiva era 
tao poderosa que qualquer ajuda que eu Ihe 
oferecesse nao era vista como ajuda, mas como 
uma derrota, urn sinal de fraqueza. 
Alem disso, 0 microcosmo do grupo re-
velou as conseqiiencias de seus atos sobre a 
textura de seus relacionamentos com as pes-
soas. Com 0 tempo, os outros membros enten-
deram que Ron nao queria realmente se relacio-
nar com eles. Ele apenas parecia se relacionar 
mas, na verdade, os estava usando como uma 
forma de se relacionar comigo: 0 homem po-
deroso e temido no grupo. Os outros logo se 
sentiram usados, sentiram a ausencia de urn 
desejo genuino da parte de Ron de conhece-
los e come<;aram a se distanciar gradualmente 
dele. Somente depois que conseguiu entender 
e alterar suas maneiras intensas e distorcidas 
de se relacionar comigo, Ron foi capaz de se 
voltar para os outros membros do grupo e de 
se relacionar com eles. 
"Malditos homens" 
Linda, 46 anos e divorciada tres vezes, 
entrou para 0 grupo por ansiedade e graves 
perturba<;oes gastrintestinais funcionais. Seu 
principal problema interpessoal era 0 seu rela-
cionamento atormentado e autodestrutivo com 
o seu atual namorado. De fato, em sua vida, 
ela teve uma longa serie de homens (pai, ir-
maos, patroes, amantes e maridos) que haviam 
abusado dela ffsica e psicologicamente. Seu 
relato do abuso que sofreu, e ainda sofria nas 
maos dos homens, era angustiante. 
o grupo pouco podia fazer para ajuda-Ia, 
alem de aliviar as suas feridas e ouvir empa-
ticamente as suas narrativas de maus-tratos 
continuos por seu chefe atual e por seu namo-
rado.Mas urn dia aqonteceu urn incidente inu-
sitado que esdareceu a sua dinamica. Ela me 
telefonou uma manha, muito perturbada. Ra-
via tido uma briga ¢xtremamente seria com 0 
namorado e estava em panico e pensando em 
suiddio. Ela sentia que nao conseguiria espe-
rar ate a proxima reuniao do grupo, que seria 
dentro de quatro dias, e pedia para ter uma 
sessao individual imediatamente. Embora fos-
se bastante inconveniente, troquei meus com-
promissos da tarde e marquei urn horario para 
encontra-Ia. Aproximadamente 30 minutos 
antes de nosso horario, ela ligou e deixou urn 
recado com minha secretaria de que nao viria. 
No proximo encontro do grupo, quando 
perguntei 0 que havia acontecido, Linda disse 
que havia cancelado a sessao de emergencia 
porque estava se sentindo urn pouco melhor a 
tarde, e que sabia que eu tinha uma regra de 
que somente atenderia urn paciente em emer-
gencia uma vez durante toda a terapia de gru-
po. Por isso, ela achava melhor guardar essa 
op<;§.o para urn momento em que pudesse es-
tar mais em crise. 
Achei sua resposta desconcertante. Nunca 
tive tal.regra, nunca me recusei a atender al-
guem em crise e nenhum dos outros membros 
do grupo lembrava de eu ter falado sobre essa 
norma. Mas Linda manteve sua posi<;ao, insis-
tindo que havia me ouvido dizer aquilo, e nao 
seria dissuadida por minha nega<;ao ou pelo 
consenso unanime dos outros membros do gru-
po. Ela tambem nao parecia preocupada com a 
inconveniencia que me havia causado. Na dis-
cussao em grupo, ela ficou defensiva e caustica. 
Esse incidente, que se desenvolveu no 
micro cosmo social do grupo, foi bastante in-
formativo e permitiu que tivessemos uma pers-
pectiva importante sobre a responsabilidade de 
Linda com alguns de seus relacionamentos pro-
blematicos com os homens. Ate aqueIe ponto, 
o grupo havia baseado-se completamente em 
sua visao dos relacionamentos. Os relatos de 
Linda eram convincentes e 0 grupo passara a 
aceitar a sua visao de si mesma como uma viti-
rna de "todos aqueles malditos homens la fora". 
Uma analise do incidente no aqui-e-agora in-
dicou que Linda havia distorcido suas percep-
<;oes de pelo menos urn homem importante em 
sua vida: seu terapeuta. Alem disso - e isso e 
extremamente importante - ela havia distDrci-
do 0 incidente de maneira bastante previsivel: 
ela me sentia muito mais desinteressado, in-
sensivel e autoritario do que eu realmente era. 
Era urn novo dado, e urn dado convincen-
te - e se apresentou perante os olhos de todos 
os membros. Pela prime ira vez, 0 grupo come-
<;ou a questionar a exatidao dos relatos de Lin-
da sobre seus relacionamentos com os homens. 
: Sem duvida, ela falava fieimente de seus senti-
mentos, mas ficou aparente que havia distor<;oes 
de percep<;§.o em a<;ao: por causa de suas ex-
pectativas dos homens e de seus relacionamen-
tos conflituosos com eles, ela percebia as atitu-
des deles para com ela de forma distorcida. 
Mas ainda ha mais para se aprender com 
o microcosmo social. Urn dado importante foi 0 
tom da discussao: a defesa, a irrita<;ao, a raiva. 
Com 0 tempo, eu tambem me irritei pela ingra-
ta inconveniencia que havia SOfridD, mudando 
meu horario para atender Linda. Fiquei ainda 
mals irritado com a sua insistencia de que eu 
havia prodamado uma regra insensive1, quan-
do eu (e 0 resto do grupo) sabia que nao tinha. 
Cai em urn devaneio e me perguntei: "Como 
sera conviver com Linda todo 0 tempo, em vez 
de apenas uma hora e meia por semana?" Se 
houvesse muitos incidentes como esse, eu po-
deria me imaginar ficando bravo, exasperado e 
indiferente para com ela. Esse e urn exemplo 
particularmente claro do conceito de profecia . 
auto-realizavel descrito na pagina 39. Linda 
previu que os homens se comporrariam de cer-
ta forma com ela e entao, inconscientemente, 
agiu de modo a fazer a sua previsao acontecer. 
"omens que nao conseguiam sentir 
Allen, urn cientista solteiro de 30 anos, 
procurou a terapia por urn unico problema, 
nitidamente cielineado: ele queria conseguir se 
sentir sexuaimente estimulado por uma mu-
lher. Intrigado com esse dilema, 0 grupo pro-
curou urna resposta. Eles investigaram sua vida, 
seus habitos sexuais e fantasias. Finalmente, 
perplexos, eles se voltaram para outras ques-
toes do grupo. A medida que as sessoes conti-
nuavam, Allen parecia impassivel e insensivel 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 51 
para com a sua dor e ados outros. Uma vez, 
por exemplo, uma mulher solteira muito per-
turbada anunciou aos prantos que estava gra-
vida e que planejava fazer urn aborto. Durante 
a narrativa, ela tambem contou que tinha tido 
uma experiencia ruirn com heroina. Allen, apa-
rentemente insensivel as suas lagrimas, conti-
nuou a fazer perguntas intelectuais sabre os 
efeitos do "po de anjo" e ficou estarrecido quan-
do 0 grupo comentou a sua insensibilidade. 
Tantos incidentes semelhantes ocorreram 
que 0 grupo ja nao esperava emo<;oes dele. 
Quando foi questionado diretamente sobre seus 
sentimentos, ele respondeu como se tivesse sido 
abordado em sanscrito ou em aramaico. Apos 
alguns meses, 0 grupo formulou uma resposta 
para a questao tao repetida: "Por que nao con-
sigo ter sentimentos sexuais para com uma 
mulher?". Eles pediram que ele na verdade con-
siderasse por que nao tinha sentimentos para 
com qualquer pessoa. 
As mudam;as em seu comportamento 
ocorreram muito gradualmente. Ele aprendeu 
a localizar e a identificar sentimentos, obser-
vando sinais autossomicos: rubor facial, pres-
sao gastrica, suor nas maos. Em uma ocasiao, 
uma mulher amea<;ou deixar 0 grupo porque 
estava exasperada tentando se relacionar com 
urn "maid ito robo psicologicamente surdo e 
mudo". Allen manteve-se impassivel, respon-
dendo apenas: "Nao yOU descer ate 0 seu nivel". 
Entretanto, na semana seguinte, quando 
)he questionaram sabre as sentimentos que 
havia levado do grupo, ele disse que, apos a 
reuniao, havia ida para casa e chorado como 
urn bebe. (Quando deixou 0 grupo urn ana 
depois e olhou para tras, ele identificou esse 
incidente como urn ponto cdtico de mudan-
<;a.) Nos meses seguintes, ele sentiu-se mais 
capaz de sentir e expressar seus sentimentos 
para as outros membros. Seu papel no grupo 
mudou, passando do mascote tolerado para 0 
companheiro aceito, e sua auto-estima aumen-
tou de acordo com sua consciencia de que os 
membros 0 respeitavam mais. 
Em outro grupo, Ed, urn engenheiro de 
47 anos, procurou a terapia por causa de sua 
solidao e de sua incapacidade de encontrar uma 
companheira adequada. 0 padrao de relacio-
namentos socia is de Ed era improdutivo: ele 
52 IRVIN 0. YALOM 
nunca teve amigos Intimos e somente tinha 
relacionamentos sexualizados, insatisfat6rios 
e f<ipidos com mulheres que invariavelmente 
o rejeitavam. Suas habilidades sociais e seu sen-
so de humor faziam que fosse bastante valori-
zado pelos outros membros nos primeiros es-
tagios do grupo. 
A medida que 0 tempo passou e os mem-
bros aprofundaram seus relacionamentos, Ed 
foi deixado para tras: em seguida, sua experien-
cia no grupo se parecia com a sua vida social 
fora do grupo. 0 aspecto mais 6bvio do seu 
comportamento era a sua abordagem limitada 
e of ens iva para com as mulheres. Seu olhar se 
dirigia principalmente para seus seios ou sua 
braguilha. Sua aten<;:ao era voyeuristicamente 
voltada para suas vidas sexuais. Seus comen-
tarios geralmente eram de carater simplista e 
sexual. Ed considerava os homens do grupo 
competidores indesejaveis. Por meses, ele nao 
deu infcio a contatos com nenhum homem. 
Com tao pouca apreciac;ao por apegos, ele 
considerava as pessoas substituiveis. Por exem-
plo, quando uma mulher descreveu sua fanta-
sia obsessiva de que seu namorado, que sem-
pre se atrasava, morresse em urn acidente au-
tomobilistico, a resposta de Ed foi garantir-Ihe 
que ela era jovem, charmosa e atraente e que 
nao teria dificuldade para encontrar outro ho-
mem pelo menos do mesmo nivel. Outro exem-
plo: Ed sempre ficava confuso quando outros 
membros pareciam se incomodar coma ausen-
cia temporaria de urn dos co-terapeutas ou, 
mais tarde, com a iminente saida permanente 
de urn dos terapeutas. Sem dlivida, ele suge-
ria, mesmo entre os estudantes, que haveria 
urn terapeuta de igual competencia. (De fato, 
ele havia visto uma psicologa de seios grandes 
no corredor que particularmente gostaria de 
ter como terapeuta.) 
Ed colocou tudo de forma mais sucinta 
quando descreveu 0 seu RDM (requisito diario 
mInimo) de afeto. Com 0 tempo, ficou claro 
para 0 grupo que a identidade do fornecedor 
do RDM era incidental para Ed - muito menos 
relevante do que a garantia de que viria. 
Assim passou a primeira fase do processo 
de terapia de grupo: a demonstrac;ao da pato-
logia interpessoal. Ed nao se relacionava com 
os outros tanto quanto os usava como equipa-
mentos, como objetos para suprir suas necessi-
dades. Nao demorou para que ele recriasse no 
grupo 0 seu universo interpessoal habitual- e 
solitario -, desconectando-se de todos. Os ho-
mens retribuiam a sua total indiferenc;a e as 
mulheres, em geral, nao se sentiam inclinadas 
a suprir seu RDM, enquanto as mulheres que 
ele desejava especialmente se sentiram repe-
lidas por suas atenc;oes unicamente sexuais. 0 
curso subseqiiente da terapia de grupo, de Ed 
foi bastante informado por essa demonstrac;ao 
de patologia interpessoal dentro do grupo, e 
sua terapia teve gran des beneffcios, concen-
trando-se exaustivamente em seus relaciona-
mentos com os outros membros do grupo. 
o MICROCOSMO SOCIAL: UMA INTERA~AO DlNAMICA 
Existe uma rica e sutil interac;ao dinami-
ca entre 0 membro do grupo e 0 ambiente do 
grupo. Os membros moldam 0 seu proprio 
microcosmo, que por sua vez evoca compor-
tamentos defensivos caracterfsticos de cada 
urn. Quanto mais esponcinea a interac;ao, mais 
rapido e autentico sera 0 desenvolvimento do 
microcosmo social e isso aumenta a probabi-
lidade de que as questoes problematicas cen-
trais de todos os membros sejam ev~cadas e 
abordadas. 
Por exemplo, Nancy, uma jovem com 
transtomo de personalidade borderline, entrou 
para 0 grupo por causa de uma depressao 
debilitante, urn estado subjetivo de des integra-
c;ao e uma tendencia a desenvolver panico 
quando ficava so. Todos os sintomas de Nancy 
intensificaram-se pela ameac;a de dissoluc;ao da 
pequena comunidade onde vivia. Ela sempre 
havia sido sensivel ao rompimento de unida-
des nucleares. Quando crianc;a, sentia que sua 
tarefa era manter sua familia volatil unida, e 
agora, adulta, alimentava a fantasia de que, 
quando se casasse, as divers as facc;oes existen-
tes entre seus familiares se reconciliariam de 
forma permanente. 
De que maneira a dinamica de Nancy foi 
evocada e trabalhada no microcosmo social do 
grupo? Lentamente! Levou tempo para que 
essas preocupac;oes se manifestassem. No prin-
cipio, as vezes durante semanas, Nancy traba-
lhava confortavelmente em areas de conflitos 
irnportantes, mas menores. Mais adiante, pe-
quenos eventos no grupo atic;aram seus pro-
blemas latentes, em uma conflagrac;ao ansio-
sa. Por exemplo, a ausencia de algum membro 
a deixava inquieta. De fato, bern mais adiante, 
em uma entrevista de revisao ao terminG da 
terapia, Nancy comentou que ficava tao ator-
doada com a ausencia de qualquer membro que 
era incapaz de participar durante a sessao. 
Mesmo 0 fato de alguem se atrasar ja a 
perturbava, e ela repreendia quem nao era 
pontuaL Se urn membro pensasse em deixar 0 
grupo, Nancy tlcava tao preocupada e 0 pressio-
nava muito para continuar, independentemente 
do interesse da pessoa. Quando os membros 
faziam contatos fora do grupo, ela ficava ansio-
sa, pela ameac;a a integridade do grupo. As 
vezes, os membros sentiam-se repreendidos por 
ela, afastando-se e expressando suas objec;oes 
aos telefonemas que e1a fazia para comentar 
sua ausencia ou atraso. Quando insistiam para 
que ela relaxasse em suas exigencias, a sua 
ansiedade crescia, .fazendo com que ela aumen-
tasse seus esforc;os protetores. 
Embora Nancy desejasseconforto e segu-
ranc;a no grupo, foi 0 proprio surgimento des-
sas vicissitudes perturbadoras,' de fato, que 
possibilitou que suas principais areas de con-
flitos fossem expostas e entrassem no fluxo do 
trabalho terapeutico. 
o grupo pequeno nao apenas representa 
urn microcosmo social onde 0 comportamento 
mal-adaptativo dos membros e demonstrado 
claramente, como tambem se torna urn labo-
ratorio onde se demonstram, muitas vezes com 
grande clareza, 0 significado e a dinamica do 
comportamento. 0 terapeuta nao enxerga ape-
nas 0 comportamento, mas os eventos que 0 
desencadeiam e, as vezes, de maneira mais 
importante, as respostas antecipadas e reais dos 
outros. 
A interac;ao do grupo e tao rica que 0 ci-
clo de transac;oes mal-adaptativas de cada 
membro se repete muitas vezes, e os membros 
tern diversas oportunidades para reflexao e 
entendimento. Contudo, para que as crenc;as 
patogenicas sejam alteradas, os membros do 
grupo devem receber feedback claro e utiliza-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 53 
vel. Se 0 estilo do feedback for estressante e 
provocativo demais, os membros nao conse-
guirao processar aquilo que os outros tiverem 
para lhes oferecer. As vezes, 0 feedback pode 
ser prematuro - ou seja, fornecido antes que 
exista confianc;a suficiente para amaciar a sua 
crftica. Em outros momentos, 0 feedback pode 
ser experimentado como uma desvalorizac;ao, 
coac;ao ou agressao.44 Como podemos evitar 0 
feedback inlitil ou prejudicial? Os membros sao 
menos provaveis de se atacarem e culparem 
quando olham alem do comportamento super-
ficial e se tomam sensiveis as experiencias in-
ternas e intenc;oes subjacentes dos outros. Y 
Assim, a empatia e urn elemento crftico no su-
cesso do grupo, mas sentir empatia, particu-
larrnente com pacientes provocativos ou agres-
sivos, pode ser dificil para os membros do gru-
po e mesmo para os terapeutas.Y 
As recentes contribuic;oes do modelo 
intersubjetivo sao relevantes e proveitosas neste 
ponto.45 Esse modelo coloca aos membros e 
terapeutas questoes como: "Qual a minha im-
plicac;ao naquilo· que interpreto como a sua 
provocac;ao? Qual e a minha parte nela?" Em 
outras palavras, os membros do grupo e 0 
terapeuta se afetam continuamente. Seus rela-
cionamentos, seus significados, padroes e na-
tureza nao sao fixos ou ordenados por influen-
cias extemas, mas construfdos conjuntamen-
teo Uma visao tradicional do comportamento 
dos membros enxerga a distorc;ao com a qual 
el~s relatam os eventos - sejam do passado ou 
da interac;ao do grupo - como criac;ao e res-
ponsabilidade unicas daquela pessoa. A pers-
pectiva intersubjetiva reconhece as contribui-
c;oes do lfder e dos outros membros para a ex-
periencia de cada urn no aqui-e-agora - bern 
como para a textura de toda a sua experiencia 
no grupo. 
Considere 0. paciente que se atrasa repe-
tidamente para a reuniiio do grupo. 1sso sem-
pre e urn evento irritante, e os membros do 
grupo inevitavelmente expressam a sua irrita-
c;ao. Contudo, 0 terapeuta tambem deve incen-
tivar 0 grupo a explorar 0 significado do com-
portamento daquele paciente especffico. Che-
gar atrasado pode significar: "Nao me importo 
com 0 grupo", mas tambem pode ter outros 
significados interpessoais mais complexos: 
I 
54 IRVIN D. YALOM 
"Nada acontece sem mim, entao, por que devo 
me apressar?" ou "aposto que ninguem tera 
notado a minha ausencia - eles nao parecem 
me notar quando estou la" ou "essas regras sao 
para os outros, e nao para mim". 
o significado subjacente do comporta-
mento do individuo e 0 impacto desse com-
portamento nos outros deve ser revelado e pro-
cess ado para que os membros cheguem a urn 
entendimento empatico. A capacidade empa-
tica e urn componente fundamental da inteli-
gencia emocional46 e facilita a transferencia de 
aprendizagem do grupo de terapia para 0 mun-
do mais amplo do paciente. Sem urn sentido 
do mundo interne dos outros, os relacionamen-
tos sao confusos, frustrantes e repetitivos, a 
medida que alistamos os outros de forma ne-
gligentecomo atores com papeis predetermi-
nados em nossas proprias historias, sem ligar 
para suas motiva<;6es ou aspira<;6es reais. 
Leonard, por exemplo, entrou para 0 gru-
po com urn grande problema de procrastina<;ao. 
Segundo ele, a procrastina<;ao naci era apenas 
o problema, mas uma explica<;ao. Ela explica-
va seus fracassos, tanto profissional quanta 
socialmente. Ela explicava 0 seu des animo, 
depressao e aJcoolismo. E, ainda assim, era uma 
explica<;ao que impedia urn insight significati-
vo e outras explica<;6es mais precisas. 
No grupo, aprendemos bern e muitas ve-
zes nos irritamos ou frustramos com a 
procrastina<;ao de Leonard. Ela servia como 0 
seu modo supremo de resistencia a terapia, 
quando toda a resistencia fracassava. Apos os 
membros trabalharem muito com Leonard, e 
quando parecia que uma parte de seu carater 
neurotico estava para ser desenraizado, ele 
encontrou maneiras de retardar 0 trabalho do 
grupo. "Nao quero ser incomodado pelo grupo 
hoje", ele dizia, ou "meu novo emprego e vai 
ou racha para mim", "estou pendurado pelas 
un has", "me da urn tempo - nao sacode 0 bar-
co", "eu estava sobrio havia tres meses, mas 0 
ultimo encontro me fez parar no bar no cami-
nho para casa". Ai; varia<;6es eram muitas, mas 
o tema era consistente. 
Urn dia, Leonard anunciou urn grande 
avan<;o, para 0 qual tinha trabalhado duro: ele 
havia pedido demissao e conseguido uma vaga 
como professor. Faltava apenas urn unico pas-
so: obter urn certificado de professor; preen-
chendo urn formuJario que exigiria aproxima-
damente duas horas de trabalho. 
Bomente duas horas, mas ele nao conse-
guia faze-lo! Ele protelou ate que 0 tempo es-
tava praticamente esgotado e, com apenas urn 
dia faltando, informou 0 grupo sobre 0 prazo e 
lamentou a crueldade de seu demonic pessoal, 
a procrastina<;iio. Todos no grupo, incluindo 0 
terapeuta, tiveram urn forte desejo de colocar 
Leonard em uma cadeira, possivelmente ate no 
colo, colocar uma caneta entre seus dedos e 
conduzir a sua mao pelo formulario. Uma pa-
ciente, a mais maternal do grupo, fez exata-
mente isso: ela 0 levou para casa, alimentou-o 
e guiou-o atraves da ficha. 
Quando come<;amos a revisar 0 que ha-
via ocorrido, pudemos ver a sua procrastina<;ao 
pelo que era: urn desejo anacronico e lamentoso 
por uma mae. Muitas coisas se encaixaram, 
incluindo a dinamica por tras das depress6es 
(que tambem eram apelos desesperados por 
amor) , 0 alcoolismo e a compulsao alimentar 
de Leonard. 
A ideia do microcosmo social e, creio eu, 
suficientemente clara: se 0 grupo for conduzido 
de modo que os membros possam se comportar 
de maneira desarmada e desinibida, eles irao, 
de forma vlvida, recriar e demanstrar a sua pa-
talogia no grupo. Ai;sim, nesse drama vivo do 
encontro do grupo, 0 observador treinado tern 
uma oportunidade unica de entender a dina-
mica do comportamento de cada paciente. 
RECONHECIMENTO DE PADROES 
COMPORTAMENTAIS NO MICROCOSMO SOCIAL 
Para que os terapeutas consigam usar 0 
micro cosmo social de forma terapeutica, eles 
devem primeiramente identificar os padroes 
interpessoais mal-adaptativos recorrentes dos 
membros do grupo. No incidente que envol-
veu Leonard, a pista vital para 0 terapeuta foi 
a resposta emocional dos membros e lfderes 
ao seu comportamento. Essas respostas emo-
cionais sao dados vaIidos e indispensaveis, e 
nao devem ser ignoradas ou subestimadas. 0 
terapeuta ou outros membros do grupo podem 
sentir raiva para com urn membro, ou ainda se 
sentir explorados, usados, coagidos, intimida-
dos, aborrecidos, tristes, ou qualquer uma das 
infinitas maneiras que uma pessoa pode se sen-
tir para com outra. 
Esses sentimentos representam dados -
uma pequena parte da verdade sobre a outra 
pessoa - e devem ser levados a serio pelo 
terapeuta. 0 fato de os sentimentos produzi-
dos em outras pessoas discordarem muito dos 
sentimentos que 0 paciente gostaria de produ-
zir nos outros, ou de os sentimentos incitados 
serem desejaveis, mas inibirem 0 crescimento 
(como no caso de Leonard), e uma parte crucial 
do problema do paciente. Claro que existem 
muitas complica<;6es inerentes nessa tese. Al-
guns criticos diriam que uma resposta emocio-
nal forte muitas vezes se deve a uma patologia 
do individuo que responde, e nao do sujeito. 
Por exemplo, se urn homem autoconfiante e 
assertivo evoca fortes sentimentos de medo, 
inveja ou ressentimento em outro homem, po-
demos concluir que a resposta reflete a patolo-
gia do primeiro. Ha uma vantagem distinta no 
formato do grupo de terapia: como 0 grupo 
contem diversos observadores, e mais faci! di-
ferenciar respostas idiossincraticas e subjetivas 
demais das mais objetivas. 
A resposta emocional de qualquer mem-
bro individual nao e suficiente, e os terapeutas 
precisam de evidencias confirmatorias. Eles 
procuram padr6es repetitivos ao longo do tem-
po e para respostas multiplas - ou seja, as rea-
<;6es de diversos outros membros (chamadas 
de valida<;ao consensual) ·ao individuo. Essen-
cialmente, os terapeutas baseiam-se nas eviden-
cias mais confiaveis de todas: suas proprias 
respostas emocionais. Eles devem prestar aten-
<;ao em suas proprias rea<;6esao paciente, uma 
habilidade essencial em todos os modelos 
relacionais. Se, como afirma Kiesler, somos "fis-
gados" pelo comportamento interpessoal de urn 
membro, nossas proprias rea<;6es sao nossas 
melhores informa<;oes interpessoais sobre 0 
impacto do paciente nos outroS.47 
Porem, somente existe valor terapeutico 
se conseguirmos nos "soltar" - ou seja, resistir-
mos a demonstrar 0 comportamento que 0 pa-
ciente geralmente evoca de outras pessoas, que 
apenas refor<;a os ciclos interpessoais usuais. 
Esse processo de reter ou recuperar nossa ob-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 55 
jetividade nos proporciona urn feedback signi-
ficativo sobre a transa<;ao interpessoal. Segun-
do essa perspectiva, os pensamentos, fantasias 
e comportamentos que cada membro evoca no 
terapeuta devem ser tratados como ouro. Nos-
sas rea<;6es sao dados inestimaveis, e nao fra-
cassos. E impossivel nao sermos fisgados por 
nossos pacientes, a menos que permane<;amos 
tao distantes da experiencia dos pacientes que 
nem somos tocados por ela - urn distancia-
mento impessoal que reduz a efetividade tera-
peutica. 
Urn critico poderia perguntar: "Como po-
demos ter certeza de que as rea<;6es dos 
terapeutas sao 'objetivas'?" A co-terapia respon-
de essa questao. Os co-terapeutas sao expos-
tos juntos a mesma situa<;ao clinica. Uma com-
para<;ao de suas rea<;6es permite uma discri-
mina<;ao mais clara entre suas proprias respos- . 
tas subjetivas e avalia<;oes objetivas das inte-
ra<;6es. Alem disso, os terapeutas de grupo po-
dem ter urn ponto de vista calma e privilegiado, 
pois, ao contrario dos terapeutas individuais, 
eles testemunham urn numero incontavel de 
dramas interpessoais mal-adaptativos que se. 
desdobram sem que eles estejam no centro de 
todas essas intera<;oes. 
Ainda assim os terapeutas possuem seus 
pontos cegos, suas proprias areas de conflitos 
e distor<;6es interpessoais. Como podem ter 
certeza de que elas nao estao turvando as suas 
observa<;6es no decorrer da terapia? Aborda-
,rei essa questao de forma mais detalhada nos 
capitulos sobre forma<;ao e sobre as tarefas e 
tecnicas do terapeuta, mas, por enquanto, se 
lembre que esse argumento e uma forte razao 
para os terapeutas se conhecerem 0 maximo 
possive!. Dessa forma, 0 terapeuta de grupo 
neofito deve embarcar em uma viagem de auto-
explora<;ao para toda a sua vida, uma jornada 
que envolve a terapia individual e de grupo. 
Nada disso implica que os terapeutas nao 
devam levar as respostas e 0 feedback de todos 
os pacientes a serio, incluindo os de pacientes 
muito perturbados. Mesmo as respostas mais 
exageradas e irracionais contem urn pouco de 
realidade. Alem disso, 0 paciente perturb ado 
pode ser urna fonte valiosa e precisa de feedback 
em outros momentos: nenhum individuo e 
conflituoso demais em todas as areas. E e cla-
56 IRVIND. Y ALOM 
ro que uma resposta idiossincratica pode con-
ter muitas informa<;6es sobre a pessoa que a 
expressa. 
Esta ultima questao constitui urn axioma 
basico para 0 terapeuta de gropo. Com freqiien-
cia, os membros de urn gropo respondem de 
maneira bastante diferente ao mesmo estimu-
10. Pode ocorrer urn incidente no grupo que 
cada urn dos sete ou oito membros perceba, 
observe e interprete de urn modo diferente. Um 
estfmulo comum e oito respostas diferentes -
como pode ser? Parece haver apenas uma ex-
plica<;ao plausfvel: existem oito mundos interio-
res diferentes. Esplendido! Afinal, 0 objetivo 
da terapia e ajudar os pacientes a entenderem 
e alterarem seus mundos interiores. Assim, a 
analise dessas respostas diferentes e urn cami-
nho real - uma via regia - ao mundo interior 
do membro do grupo. 
Por exemplo, considere a prime ira ilus-
tra<;ao apresentada neste capftulo, 0 grupo de 
Valerie, uma mulher controladora e espalhafa-
tosa. Segundo seu mundo interior, cada urn dos 
membros do grupo respondia a ela de mane ira 
diferente, variando da condescendencia obse-
quiosa a luxuria e gratidao para a ruria impo-
tente ou confronto totaL Ou considere certos 
aspectos estruturais do encontro de grupo: os 
membros tern respostas notavelmente diferen-
tes ao compartilharem a aten<;ao do grupo ou 
do terapeuta, ao se revelarem, ao pedirem aju-
da ou ao ajudarem os outros. Em nenhum ou-
tro lugar, essas diferen<;as sao tao claras quan-
to na transferencia - as respostas dos mem-
bros ao lfder: diferentes membros experimen-
tado 0 mesmo terapeuta como afetuoso, frio, 
cdtico, aprobativo, competente ou desajeita-
do. Essa variedade de perspectivas pode ser 
opressiva e ate destrutiva para os terapeutas, 
particularmente para os iniciantes. 
o MICROCOSMO SOCIAL - SERA REAL? 
Muitas vezes, ou<;o membros de grupos 
desafiarem a veracidade do microcosmo social. 
Os membros podem alegar que seu comporta-
mento nesse grupo espedfico e atfpico, e que 
nao representa 0 seu comportamento normal. 
Ou que e urn grupo de indivfduos com proble-
mas que tern dificuldade para perceM-Ios de 
forma precisa. Ou mesmo que a terapia de gru-
po nao e real, que e uma experiencia fechada e 
artificial que distorce, em vez de refietir, 0 com-
portamento real. Para 0 terapeuta neofito, es-
ses argumentos parecem formidaveis, ate per-
suasivos, mas de fato eles distorcem a verdade. 
De certa forma, 0 grupo e artificial: os membros 
nao escolhem seus amigos no grupo, nao sao 
centrais uns para os outros, nao convivem, tra-
balham ou fazem refei<;oes juntos. Embora se 
relacionem de maneira pessoal, todo 0 seu rela-
cionamento consiste de encontros em urn con-
sultorio profissional uma ou duas vezes por se-
mana, e os relacionamentos sao passageiros -
o final do relacionamento e embutido no con-
trato social firmado ja no come<;o. 
Ao enfrentar esses argumentos, muitas 
vezes penso em Earl e Marguerite, membros 
de urn grupo que dirigi ha muito tempo. Earl 
ja estava no grupo ha quatro meses quando 
Marguerite foi apresentada. Ambos coraram ao 
se verem, pois, por acaso, urn mes antes, ha-
viam feito urn passeio do Sierra Club juntos 
por uma noite e tide "intimidades". Nenhum 
dos dois queria ficar no grupo com 0 outro. 
Para Earl, Marguerite era uma garota tola e 
vazia, urn "rabo sem cabe<;a", como ele colo-
cou mais adiante para 0 grupo. Para Margue-
rite, ele era uma pessoa sem importancia e te-
diosa, cujo penis ela havia usado como forma 
de retalia<;ao contra 0 seu marido. 
Eles trabalharamjuntos no grupo uma vez 
por semana, por quase urn ano. Durante esse 
tempo, passaram a se conhecer intimamente, 
no sentido mais integral da palavra: comparti-
Iharam seus sentimentos mats profundos, ti-
veram batalhas ardentes e crueis, apoiaram-se 
em depressoes suicidas e, em mais de uma oca-
siao, choraram pelo outro. Qual era 0 mundo 
real e qual era 0 artificial? 
Urn membro do grupo disse: "Por muito 
tempo, eu acreditei que 0 grupo era urn lugar 
natural para experiencias artificiais. So mais 
tarde entendi 0 oposto - e urn lugar artificial 
para experiencias naturais".48 Uma das coisas 
que torna 0 grupo de terapia real e que ele eli-
mina os jogos socia is, sexuais e de status. Os 
membros passam por experiencias de vida 
cruciais juntos, derrubam juntos fachadas que 
distorcem a realidade e tentam ser honestos 
uns com os outros. Quantas vezes ouvi urn 
membro de algum grupo dizer: "Esta foi a 
primeira vez que contei isso a qualquer pes-
soa". Os membros do grupo nao sao estranhos. 
Pelo contrario, eles se conhecem profunda e 
completamente. Sim, e verdade que os mem-
bros passam apenas uma pequena fra<;ao de 
suas vidas juntos, mas a realidade psicologica 
nao equivale a realidade fisica. Do ponto de 
vista psicologico, os membros do grupo pas-
sam infinitamente mais tempo juntos do que 
no encontro ou nos encontros semanais em que 
ocupam 0 mesmo consultorio. 
VlsAo GERAL 
Retornemos ao principal objetivo deste 
capftulo: definir e descrever 0 fator terapeutico 
daaprendizagem inteipessoaL Todas as pre-
missas necessarias foram apresentadas e des-
critas nesta discussao sobre: 
L A importancia de relacionamentos inter-
pessoais. , 
2. A experiencia emocional corretiva. 
3. 0 gropo como microcosmo'social. 
Discuti esses componentes separadamen-
teo Agora, se os recombinarmos em uma se-
qiiencia logica, 0 mecanisme da aprendizagem 
interpessoal como fator terapeutico torna-se 
evidente: 
I. A sintomatologia psicologica emana de re-
lacionamentos interpessoais perturbados. 
A tarefa da psicoterapia e ajudar 0 paciente 
a aprender como desenvolver relaciona-
mentos interpessoais sem distor<;oes e gra-
tificantes. 
II. 0 grupo de psicoterapia, desde que seu 
desenvolvimento nao seja atrapalhado por 
restri<;oes estruturais graves, evolui em urn 
microcosmo social, uma representa<;ao em 
miniatura do universo social de cad a 
membro. 
III. Os membros do grupo, por meio do 
feedback dos outros, da auto-reflexao e da 
auto-observa<;ao, conscientizam-se de as-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 57 
pectos importantes do seu comportamen-
to interpessoal: seus pontos fortes, suas li-
mita<;oes, suas distor<;oes interpessoais e 
o comportamento mal-adaptativo que evo-
ca respostas indesejadas de outras pessoas. 
o paciente, que muitas vezes ja tera tide 
uma serie de relacionamentos desastrosos 
e sofrido rejei<;ao, nao aprendeu com es-
sas experiencias, pois os outros, sentindo 
a inseguran<;a geral da pessoa e respei-
tando as regras da etiqueta que govemam 
as intera<;oes sociais normais, nao comu-
nicaram as razoes para a rejei<;ao. Portan-
to, e isso e importante, 0 paciente nunca 
aprendeu a discriminar aspectos objetaveis 
de seu comportamento e de sua auto-irna-
gem como uma pessoa totalmente aceita-
vel. 0 grupo de terapia, com seu estfmulo 
ao feedback preciso, possibilita tal discri-
mina<;ao. 
Iv. No grupo de terapia, h8. uma seqiiencia 
interpessoal regular: 
A. Demonstra<;ao patologica: 0 membro 
demonstra seu comportamento. 
B. Por meio do feedback e da auto-obser-
va<;ao, os pacientes: 
L tomam-se melhores testemunhas 
de seu proprio comportamento; 
2. compreendem 0 impacto desse 
comportamento sobre: 
a) os sentimentos dos outros; 
b) as opinioes dos outros sobre 
.. eles; 
c) as opinioes que tern de si mes-
mos. 
V. 0 paciente que esta totalmente ciente des-
sa seqiiencia tambem se conscientiza da 
responsabilidade pessoal por ela: cada in-
divfduo e autor de seu proprio mundo 
interpessoal. 
VI. Os indivfduos que aceitain a responsabili-
dade pessoal pela cria<;ao de seu mundo 
interpessoal podem entao come<;ar a lidar 
com 0 corolario dessa descoberta: se cria-
ram seu mundo social-relacional, e1es tern 
o poder para muda-Io. 
VII. A profundidade e 0 significado desses en-
tendimentos sao diretamente proporcio-
nais a quantidade de afeto associado a se-
qiiencia. Quanto mais real e mais emocio-
I, 
I 
! 
" f 
I:, 
I: 
58 IRVIN D, YALOM 
nal uma experiencia for, mais potente serao seu impacto. Quanto mais distante e 
intelectualizada a experiencia, menos efe-
tiva a aprendizagem. 
VIII. Como resultado dessa seqiiencia de tera-
pia de grupo, 0 paciente muda gradual-
mente, arriscando novas maneiras de es-
tar com os outros. A probabilidade de que 
haja mudanr;a e fuw;ao: 
A. da motivar;ao do paciente para mudar 
e da quantidadede desconforto e de 
insatisfar;ao pessoais com os modos de 
comportamento atuais; 
B. do envolvimento do paciente no gru-
po - ou seja, de quanta importfmcia 0 
paciente da ao grupo; 
C. da rigidez da estrutura de carater e do 
estilo interpessoal do paciente. 
IX. Quando ocorre a mudanr;a, ainda que mo-
desta, 0 paciente entende que a calamida-
de temida, que impedia esse novo com-
portamento, era irracional e pode ser ne-
gada. A mudanr;a no comportamento nao 
resultou em calamidades como a morte, a 
destruir;ao, 0 abandono, 0 escarnio ou a 
subjugar;ao. 
X. 0 conceito de microcosmo social e bidire-
cional: 0 comportamento exterior nao ape-
nas se manifesta no grupo, mas 0 compor-
tamento aprendido no grupo acaba sendo 
levado ao ambiente social do paciente, 
surgindo alterar;oes no comportamento 
interpessoal do paciente fora do grupo. 
XI. Gradualmente, coloca-se em movimento 
urn espiral adaptativo, primeiramente den-
tro do-grupo e, depois, fora dele. A medi-
da que as distorr;oes interpessoais do pa-
ciente diminuem, sua capacidade de for-
mar relacionamentos gratificantes aumen-
tao A ansiedade social diminui, a auto-es-
tima aumenta e diminui tambem a neces-
sidade de auto-ocultar;ao. A mudanr;a 
comportamental e urn componente essen-
cial da terapia de grupo efetiva, pois mes-
mo pequenas mudanr;as evocam respos-
tas positivas dos outros, que demonstram 
mais aprovar;ao e aceitar;ao para com 0 
paciente, 0 que aumenta sua auto-estima 
e estimula outras mudanr;as.49 Finalmen-
te, 0 espiral adaptativo alcanr;a tal auto-
nomia e eficacia que a terapia profissio-
nal nao se faz mais necessaria. 
Cada urn dos passos nessa seqiiencia exi-
ge uma facilitar;ao diferente e especifica por 
parte do terapeuta. Em diversos momentos, por 
exemplo, 0 terapeuta deve oferecer feedback 
especifico, estimular a auto-observar;ao, escla-
recer 0 conceito de responsabilidade, incitar 0 
paciente a correr riscos, negar fantasias d~ con-
seqiiencias calamitosas, reforr;ar a transferen-
cia de aprendizagem e assim por diante. Cada 
uma dessas tarefas e tecnicas sera discutida com 
maior detalhe nos Capftulos 5 e 6. 
TRANSFERENCIA E INSIGHT 
Antes de concluir a investigar;ao da apren-
dizagem interpessoal como mediadora da mu-
danr;a, quero chamar atenr;ao para dois con-
ceitos que merecem ser discutidos. A transfe-
rencia e 0 insight tambem desempenham urn 
papel central na maioria das formular;oes do 
processo terapeutico para que sejam vistos ape-
nas superficialmente. Baseio-me amplamente 
nesses conceitos, em meu trabalho terapeutico, 
e nao pre tendo menospreza-los. 0 que fiz nes-
te capitulo e encaixa-los no fator da aprendi-
zagem interpessoal. 
A transferencia e uma forma especifica de 
distorr;ao da aprendizagem perceptual. Na 
psicoterapia individual, 0 reconhecimento e a 
resolur;ao dessa distorr;ao sao de importancia 
fundamental. Na terapia de grupo, como ja vi-
mos, tambem e importante resolver distorr;oes 
interpessoais. A resolur;ao da transferencia -
ou seja, a distorr;ao no relacionamento com 0 
terapeuta - agora se torna apenas mais uma 
em uma serie de distorr;oes a ser examinada 
no processo terapeutico. 
Para muitos pacientes, talvez a maioria, esse 
e 0 relacionamento mais importante a ser resol-
vido, pois 0 terapeuta e a personificar;ao de ima-
gens paternas e matemas, de professores, de au-
toridades, de tradir;oes estabelecidas, de valores 
incorporados. Contudo, a maioria dos pacientes 
tambem tern conflitos em outros dominios 
interpessoais: por exemplo, poder, assertividade, 
raiva, competitividade com amigos, intimidade, 
sexualidade, generosidade, cobir;a, inveja. 
Uma quantidade consideravel de pesqui-
sas enfatiza a importancia que muitos mem-
bros de grupos colocam em resolver relaciona-
mentos com outros membros, ao inves de com 
o !ider.so Para dar urn exemplo, uma equipe de 
pesquisadores solicitou que os membros, em 
urn acompanhamento de 12 meses para urn 
grupo de crise de curta durar;ao, indicassem a 
fonte da ajuda que haviam recebido. Quarenta 
e dois por cento sentiram que os membros do 
grupo, e naG 0 terapeuta, haviam sido uteis, e 
28% responderam que ambos haviam sido 
uteis. Somente 5% disseram que 0 terapeuta 
foi a principal contribuir;ao para a mudanr;a.S1 
Esse COrplLS de pesquisas tern implicar;oes 
importantes para a tecnica do terapeuta de 
grupo: em vez de se concentrarem exclusiva-
mente no relacionamento entre 0 paciente e 0 
.terapeuta, os terapeutas devem facilitar 0 de-
senvolvimento e a resolur;ao de interar;oes en-
tre os membros; Falarei mais sobre essas ques-
toes nos Capftulos 6 e 7. 
o insight desafia uma descrir;ao precisa. 
Ele nao e urn conceito unitario. Prefiro emprega-
10 no sentido geral de "enxergar para dentro" -
urn processo que abrange esclarecimento, ex-
plicar;ao e desrepressao. 0 insight ocorre quan-
do 0 individuo descobre algo importante sobre 
si mesmo - sobre seu comportamento, seu sis-
tema motivacional ou seu inconsciente. 
No processo de terapia de grupo, os pa-
cientes podem obter insight em pelo menos 
quatro niveis diferentes: 
1. Os pacientes podem adquirir uma pers-
pectiva mais objetiva de seu quadro inter-
pessoal. Pela primeira vez, eles podem en-
tender como outras pessoas os enxergam: 
como tensos, afetuosos, indiferentes, se-
dutores, amargos, arrogantes, pomposos, 
obsequiosos e assim por diante. 
2. Os pacientes podem adquirir urn entendi-
mento de seus padroes de comportamen-
to interacionais mais complexos. Urn vas-
to numero de padroes pode ficar claro para 
eles: por exemp!o, que exploram os ou-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 59 
tros, buscam admirar;ao constante, sedu-
zem e depois rejeitam ou se retraem, com-
petem de forma inescrupulosa, imploram 
por amor, ou se relacionam apenas com 0 
terapeuta ou com outros membros de de-
terrninado sexo. 
3. 0 terceiro myel pode ser chamado insight 
motivacional. Os pacientes podem enten-
der por que fazem 0 que fazem com as ou-
tras pessoas. Uma forma comum que esse 
tipo de insight assume e a aprendizagem 
de que 0 individuo se comporta de de-
terrninadas maneiras por causa da crenr;a 
de que um comportamento diferente cau-
saria alguma catastrofe: ele pode ser hu-
milhado, ridicularizado, destrufdo ou aban-
donado. Pacientes indiferentes e distantes, 
por exemplo, podem compreender que evi-
tam a proximidade por medo de serem di-
lufdos e se perderem. Pacientes com-
petitivos, vingativos e controladores podem 
entender que temem seus desejos profun-
dos e insaciaveis por carinho, e individuos 
timidos e obsequiosos podem temer a erup-
r;ao de sua raiva reprimida e destrutiva. 
4. 0 quarto myel de insight, 0 insight geneti-
co, visa a <uudar os pacientes a entender 
como chegaram a ficar assirn como sao. 
Por intermedio de uma investigar;ao do 
impacto das primeiras experiencias fami-
liares e ambientais, 0 paciente entende a 
genese dos pad roes atuais de comporta-
mento. 0 arcabour;o te6rico e a linguagem 
em que a explicar;ao genetica e expressa-
da dependem amplamente da escola de 
convicr;oes do terapeuta. 
Listei esses quatro nfveis por ordem de 
grau de inferencia. Urn erro conceitual indese-
jave! e duradouro resulta, em parte, da ten-
dencia de igualar uma seqiiencia "superficial-
profundo" a essa seqiiencia de "grau de 
inferencia". AMm disso, 0 "profundo" tornou-
se igual a "complexo" ou "born", e 0 superfi-
cial, a "trivial", "6bvio" ou "irrelevante". No pas-
sado, os psicanalistas disseminaram a crenr;a 
de que quanta mais profundo era 0 terapeuta, 
mais complexa era a interpretar;ao (segundo a 
perspectiva dos eventos iniciais da vida) e, des-
60 IRVIN D. YALOM 
sa forma, mais completoseria 0 tratamento. 
Contudo, nao exi.ste a mlnima evidencia para 
sustentar essa conclusao. 
Todo terapeuta ja encontrou pacientes 
que alcanc;:aram urn grau consideravel de 
insight genetico de alguma teoria aceita de de-
senvolvimento infantil ou de psicopatologia -
seja de Freud, Klein, Winnicott, Kernberg ou 
Kohut -, mas, mesmo assim, nao fizeram ne-
nhum progresso terapeutico. Por outro lado, e 
comum que mudanc;:as clinicas significa/:ivas 
ocorram na ausencia de insight genetico. Tam-
bern nao existe uma relac;:ao demonstrada en-
tre a aquisic;:ao de insight genetico e a persis-
tencia da mudanc;:a. De fato, existem muitas 
raz6es para se questionar a validade de nossos 
pressupostos mais estimados sobre a relac;:ao 
entre os tipos de experiencias iniciais e 0 com-
portamento adulto e a estrutura do carater.52 
Devemos levar em conta as recentes pes-
quisas neurobiologicas sobre 0 armazenamento 
da memoria. A memoria hoje e compreendida 
como duas formas diferentes, com duas vias 
cerebrais distintas.53 Somos mais familiarizados 
com a forma de memoria conhecida como "me-
moria explicita", que consiste em detalhes e 
eventos lembrados e as recorda<;6es da vida do 
individuo e, historicamente, tern sido foco de 
explorac;:ao e interpretac;:ao nas terapias psicodi-
namicas. Uma segunda forma de memoria, a 
"memoria implicita", armazena nossas experien-
cias relacionais mais antigas, muitas das quais 
precedem 0 nosso uso da linguagem ou de sim-
bolos. Essa memoria (tambem chamada "me-
moria de procedimento") molda nossas cren<;as 
sobre como procedemos no mundo de nossos 
relacionamentos. Ao contrano da memoria ex-
pifcita, a memoria implicitil nao e alcanc;:ada 
totalmente por intermedio do diaJ.ogo psicotera-
peutico normal, mas por meio do componente 
relacional e emocional da terapia. 
A teoria psicanalitica tern mudado como 
resultado dessa nova compreensao da memo-
ria. Fonagy; urn proeminente teorico e pesqui-
sador anaiftico, realizou uma exaustiva revi-
sao da literatura sobre 0 processo psicanaiftico 
e seus resultados. Sua conclusao foi: 'Ji recupe-
rafao de experiencias passadas pode ser util, mas 
a compreensao de formas atuais de estar com a 
outro e a chave para a mudanfa. Par isso, pode 
ser preciso alterar as representafoes do self e do 
outro, e isso somente pode ser feito efetivamente 
no aqui-e-agora".54 Em outras palavras, a ex-
periencia real do paciente e do terapeuta a cada 
momento no relacionamento terapeutico e 0 
instrumento da mudan<;a. 
Uma discussao mais ampla sobre a causa-
lidade nos afastaria demais da aprendizagem 
interpessoal, mas retornarei a essa questao nos 
Capitulos 5 e 6. Por enquanto, e suficiente enfa-
tizar que existe pouca dlivida de que 0 entendi-
mento intelectual lubrifica a maquina da mu-
dan<;a.· E importante que 0 insight - "olhar para 
dentro" - ocorra, mas, em seu sentido generico, e 
nao genetico. E os psicoterapeutas devem 
desconectar 0 conceito de entendimento inte-
lectual "profundo" ou "significativo" de cons ide-
ra<;6es temporais. Algo que se sente profunda-
mente ou que tenha urn significado profundo 
para urn paciente pode estar ou - como costu-
rna ocorrer - nao estar relacionado com a expli-
ca<;ao da genese inicial do comportamento. 
Neste capitulo, examino as propriedades 
da coesao, as evidencias consideniveis da coe-
sao grupal como fator terapeutico e os diver-
sos caminhos pelos quais ela exerce a sua in-
fluencia terapeutica. . 
o que e a coesao e como ela influencia 0 
resultado terapeutico? A resposta mais simples 
e que a coesao eo analogo na terapia de grupo 
do relacionamento na terapia individual. Em pri-
meiro lugar, tenha em mente que existe urn 
vasto corpus bibliografico sobre a psicoterapia 
individual demonstrando que tim born relacio-
namento entre 0 terapeuta e 0 paciente e es-
sencial para urn resultado positivo. Sera que 
urn born relacionamento terapeutico e essen-
cial na terapia de grupo? Mais uma vez, a lite-
ratura deixa poucas duvidas de que 0 "relacio-
namento" e basico para 0 resultado positivo 
na terapia de grupo. Mas 0 relacionamento na 
terapia de grupo e urn conceito muito mais 
complexo do que 0 relacionamento na terapia 
individual. Afinal, existem apenas duas pessoas 
na transa<;ao da terapia individual, ao passo 
que diversos individuos, geralmente de seis a 
dez, trabalhamjuntos na terapia de grupo. Nao 
sera suficiente dizer que urn born relaciona-
mento e necessario para 0 sucesso da terapia 
de grupo - devemos especificar qual relacio-
namento: 0 relacionamento entre 0 paciente e 
o terapeuta do grupo (ou terapeutas, se hou-
ver co-lideres)? Ou entre 0 paciente e os ou-
tros membros do grupo? Ou quem sabe entre 
o individuo e 0 "grupo" como urn todo? 
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Coesao grupal 
Ao longo dos ultimos 40 anos, urn vasto 
numero de estudos controlados de resultados 
de psicoterapias demonstrou que a pessoa 
media que faz psicoterapia melhora significa-
tivamente e que 0 resultado da terapia de gru-
po e praticamente identico ao da terapia indi-
vidual. 1 Alem disso, existem evidencias de que 
certos pacientes podem obter mais beneffcios 
com a terapia de grupo do que com outras abor-
dagens, particularmente pacientes que lidam 
com estigmas ou com isolamento social e aque-
les que procuram desenvolver novas habilida-
des de enfrentamento.2 
As evidencias ~m favor da efetividade da 
psicoterapia de grupo sao tao convincentes que 
nos fazem voltar n.ossa aten<;ao para outra ques-
~.ao: Quais sao as condi<;6es necessarias para a 
psicoterapia efetiva? Afinal, nem toda a psi-
coterapia e bem-sucedida. De fato, existem 
evidencias de que 0 tratamento pode melho-
rar ou piorar - embora a maio ria dos terapeutas 
ajude seus pacientes, alguns terapeutas fazem 
os pacientes piorarem.3 Por que? 0 que torna 
uma terapia bem-sucedida? Embora muitos 
fatores estejam envolvidos, urn relacionamen-
to terapeutico adequado e uma condi<;ao sine 
qua non para uma terapia efetiva.4 Evidencias 
de pesquisas defendem a conclusao de que a 
terapia de sucesso - na verdade, a terapia 
farmacologica de sucesso - e mediada por urn 
relacionamento entre 0 terapeuta e 0 paciente 
que se caracterize por confianc;:a, afeto, enten-
dimento emparico e aceita<;ao.5 Embora uma 
62 IRVIN D. YALOM 
alian~a terapeutica positiva seja comum a to-
dos os tratamentos efetivos, ela nao e estabele-
cida com facilidade ou rotineiramente. Algu-
mas pesquisas amplas sobre terapias concen-
trararn-se na natureza da alian~a terapeutica e 
nas interven~6es espedficas que sao necessarias 
para alcan~a-Ia e mante-Ia.6 
Sera que a qualidade do relacionamento 
esta relacionada com a escola de convic~ao do 
terapeuta? As evidencias dizem que "nao". CH-
nicos experientes e efetivos de diferentes es-
colas (freudiana, nao-diretiva, experimental 
gestalt, relacional, interpessoal, cognitivo-com-
portamental, psicodrama) sao parecidos (e di-
ferem de individuos de sua propria escola que 
nao sao especialistas) em sua concep~ao do re-
lacionamento terapeutico ideal e no relaciona-
mento que estabelecem com seus pacientesJ 
Observe que 0 relacionamento terapeu-
tico envolvido e coeso e necessario em todas as 
psicoterapias, mesmo nas chamadas aborda-
gens mecanicista - cognitiva, comportamental, 
ou formas sistemicas de psicoterapia.8 Uma 
recente analise secundaria de urn grande teste 
comparativo de psicoterapias, 0 Treatment of 
Depression Collaborative Research Program, do 
Nacional Institute of Mental Health's, concluiu 
que a terapia de sucesso, seja ela cognitivo-
comportamental ou interpessoal, exige "a pre-
sen~a de urn apego positivo com uma figura 
de autoridade benevolente, solidaria e tranqiii-
lizadora".9 A pesquisa mostra que 0 vinculo 
entre 0 paciente e 0 terapeuta e os elementos 
tecnicos da terapia cognitiva sao sinergicos: urn 
vinculo forte e positivo em si ja ajuda a desfa-
zer cren~as depressivas e facilita 0 trabalho de 
modificar distor~6es cognitivas. A ausencia de 
urn vinculo positivo tornaas interven~6es tecni-
cas ineficientes e ate prejudiciais. IO 
. Conforme ja observado, 0 relacionamen-
to desempenha urn papel igualmente crucial 
na psicoterapia de grupo. Contudo, 0 anaJogo 
na terapia de grupo do relacionamento entre 0 
paciente e 0 terapeuta na terapia individual 
deve ser urn conceito mais amplo, abrangendo 
o relacionamento do individuo com 0 terapeuta 
do grupo, com os outros membros do grupo e 
com 0 grupo como urn todo.Y Correndo urn 
risco de provocar uma confusao semantica, re-
firo-me a todos esses relacionamentos no gru-
po com 0 termo "coesao grupal". A coesao e 
uma propriedade basica dos grupos que ja foi 
bastante pesquisada, explorada em centenas 
de artigos de pesquisa. Infelizmente, existe 
pouca coesao na literatura, que sofre com 0 
uso de diferentes defini~6es, escalas, sujeitos 
e pontos de vista de observadores.u 
Todavia, de urn modo geral, existe con-
cordancia de que os grupos diferem na quanti-
dade de "agrupamento" presente. Aqueles com 
urn sentido maior de solidariedade, ou de urn 
"nos", valorizam mais 0 grupo e 0 defenderao 
contra arnea~as internas e externas. Esses gru-
pos tern uma taxa maior de participa~ao, fre-
qiiencia e apoio mutuo do que grupos com 
menos espirito de solidariedade. Entretanto, e 
diffcil formular uma defini~ao precisa. Uma 
revisao abrangente e criteriosa recente concluiu 
que a coesao "e como a dignidade: todos po-
dem reconhece-la, mas aparentemente nin-
guem pode descreve-la, muito menos mensura-
la".12 0 problema e que a coesao refere-se a 
dimens6es sobrepostas. Por urn lado, existe urn 
fenomeno de grupo - a solidariedade total. Por 
outro lado, existe a coesao do membro indivi-
dual (ou, mais exatamente, a atra~ao do indi-
vidlio pelo grupO).I3 
Neste livro, a coesao e amplamente defi-
nida como 0 resultado de todas as for~as que 
agem sobre todos os membros, de maneira que 
permane~am no grupO,14 ou, de forma mais 
simples, a atra~o de urn grupo por seus mem-
bros. IS Os membros de urn grupo coeso sen-
tern afeto, conforto e urn sentido de pertenci-
mento no grupo. Eles valorizam 0 grupo e sen-
tern que sao valorizados, aceitos e amparados 
pelos outros membros.16y 
o espfrito de corpora~ao e a coesao indi-
vidual sao interdependentes, e a coesao grupal 
muitas vezes e computada simplesmente so-
mando-se 0 nfvel de atra~ao dos membros in-
dividuais pelo grupo. Metodos mais novos de 
mensurar a coesao grupal a partir de avalia-
~6es de observadores do clima do grupo pos-
suem maior precisao quantitativa, mas nao 
negam 0 fato de que a coesao do grupo perm a-
nece sendo a fun~ao e a soma do sentido de 
pertencimento dos membros individuaisY Te-
nha em mente que os membros do grupo sao 
diferencialmente atrafdos pelo grupo e que a 
coesao nao e fixa - uma vez alcan~ada, garan-
tida para sempre -, mas flutua amplamente no 
decorrer do grupO.18 Para que 0 grupo aborde 
o trabalho mais diffcil que surge posteriormente 
no seu desenvolvimento, 11 medida que ocor-
rem mais conflitos e desconforto, e essencial 
que haja coesao e envolvimento ja desde 0 ini-
CiO.19 Pesquisas recentes tambem diferenciam 
o sentido de pertencimento do individuo e sua 
avalia~ao de como 0 grupo todo esta funcio-
nando. Nao e incomum que urn individuo sin-
ta que "0 grupo funciona bern, mas nao fa~o 
parte dele". 20 TamMm e possivel que membros 
(por exemplo, pacientes com transtornos ali-
mentares) valorizem a intera~ao e os vinculos 
do grupo, mas se oponham fundamentalmen-
te ao seu objetivo.2l 
Antes de deixarmos a questao da defini-
~ao, devo dizer que a coesao do grupo nao e 
uma for~a terapeutica potente por si so. Ela e 
uma precondi~ao para queoutros fatores 
terapeuticos funcionem de mane ira otima. 
Quando, na terapia individual, dizemos que 0 
relacionamento e 0 que cura, nao queremos 
dizer que 0 arnor ou a aceita~ao sejam suficien-
tes, mas que urn relacionamento ideal entre 0 
paciente e 0 terapeuta cria condi~6es nas quais 
os riscos, a catarse e a explora~lio intrapessoal 
e interpessoal necessarios possarn ocorrer. 0 
mesmo serve para a terapia de grupo: a coesao 
e necessaria para que outros fatores terapeu-
ticos operem no grupo. 
A IMPORTAruCIA DA COEsAo GRUPAL 
Embora tenhamos discutido os fatores 
terapeuticos separadamente, ate certo ponto, 
eles sao interdependentes. Por exemplo, a 
catarse e a universalidade nao sao processos 
completos. 0 importante nao e 0 processo de 
ventila~ao, nao e apenas a descoberta de que 
os outros tern problemas semelhantes e a ne-
ga~ao subseqiiente da singularidade desafor-
tunada do indivfduo. 0 que parece ter impor-
tancia fundamental e 0 compartilhamento 
afetivo do mundo interior do indivfduo e a acei-
ta(:iio dos outros. 0 fato de ser aceito pelos ou-
tros desafia a cren~a do paciente de que ele e 
basicamente repugnante, inaceitavel e detes-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 63 
tavel. A necessidade de fazer parte e inata em 
todos nos. A aft!ia~ao no grupo e 0 apego no 
cenario individual tratam dessa questao.22 Os 
grupos de terapia produzem urn circuito de 
auto-refor~o positivo: confian~a - auto-revel a-
~ao - empatia - aceita~ao - confian~a. 23 0 gru-
po aceitara urn individuo desde que ele siga as 
regras de procedimento do grupo, independen-
temente de experiencias de vida, transgress6es 
ou fracassos sociais passados. Estilos de vida 
fora dos padr6es, historico de prostitui~ao, 
perversao sexual, crimes hediondos - tudo isso 
pode ser ace ito pelo grupo de terapia, desde 
que as normas imparciais de aceita~ao e inclu-
sao sejam estabelecidas no come~o do grupo. 
Na maior parte, as habilidades interpes-
soais perturbadas de nossos pacientes limitam 
suas oportunidades de compartilhamento efeti-
vo e aceita~ao em relacionamentos fntimos. 
Alem disso, alguns membros estao convencidos 
de que seus impulsos e fantasias abominaveis 
os impedem de ter intera~6es sociais. Y Conheci 
muitos pacientes isolados, para os quais 0 gru-
po representava 0 linico contato humano pro-
fundo. Apos apenas algumas sess6es, eles se sen-
tern mais em casa no grupo do que em qualquer 
outro lugal: Posteriormente, mesmo alguns anos 
depois, quando a maior parte das outras recor-
da~6es do grupo ja se desvanecera da memoria, 
eles ainda lembram a sensa~ao confortavel de 
pertencimento e de aceita~ao. 
Como disse urn paciente que refletia so-
bre dois an os e meio de terapia: "0 mais im-
portante foi apenas ter 0 grupo la, pessoas com 
quem eu podia falar, que nao fugiriam de mim. 
Havia tanto carinho, odio e amor no grupo, e 
eu fazia parte dele. Estou melhor agora e te-
nho minha vida, mas e triste pensar que 0 gru-
po nao existe mais". 
Alem disso, os membros do grupo enxer-
gam que nao sao apenas beneficiarios passivos 
da coesao do grupo, eles tambem produzem 
essa coesao, criando relacionamentos dura-
veis - talvez pela prime ira vez em suas vidas. 
Urn membro de urn grupo comentou que sem-
pre atribufa a sua solidao a alguma falha de 
carater nao-identificada, intratavel e repugnan-
teo Somente depois que parou de faltar aos en-
contros regularmente por se sentir desanima-
do e fUtil foi que ele descobriu a responsabili-
64 IRVIN D. YALOM 
dade. que exercia em sua propria solidao: os 
reIaclOn~mentos nao desapareciam inevitavel-
me~t: - ISS0 acontecia principalmente por sua 
decisao de negligencia-Ios. 
" ' Alguns individuos intemalizam 0 gropo: 
E Como se 0 gropo estivesse sentado no meu 
ombro, assistindo ao que eu fa<;o. Sempre me 
pe;'Ft~: 0 que 0 gropo diria disso ou daqui-
10 ... MUitas vezes, as mudan\3s terapeuticas 
persu:tem e se consolidam porque, mesmo anos 
depOls, os membros nao querem decepcionar 
o grupO.24 
': ~articipa<;ao, a aceita\iio e a aprova<;ao 
em vanos gropos sao de importancia funda. 
~ental,na .sequencia evolutiva do individuo. A 
lffiportancla de pertencer a gropos de a . infli . mlgos 
na ?-cla, panelinhas de adolescentes, clu-
bes ou tIm:s ou ao gropo social "legal" nao pode 
ser s~b~stJmada. Nada parece ser de maior im-
portancla para a auto-estimae para 0 bem-es-
~r d? adolescente, por exemplo, do que ser 
~clu~do e aceito em algum gropo social, e nada 
e mals devastador do que a exclusao.25 
Todavia, a maioria dos nossos pacientes 
tern urn historico gropal pobre. Eles nunca fo-
ram valorizados e nunca foram partes integrais 
de u~ ~po. Para esses individuos, a simples 
negocla<;a?, bem-sucedida de uma experiencia 
de grupo Ja po de ser curativa par si s6. Fazer 
parte do grupo aumenta a auto-estima e sa tis-
faz a dependencia dos membros, e dessa for-
~a fo~enta a responsabilidade e a autonomia, 
a medlda que cada membro contribui para 0 
bem-estar do grupo e intemaliza a atmosfera 
de urn grupo coeso.26 
Assim, de divers as maneiras, os membros 
de ~m grupo de terapia passam a significar 
mUlto ~ns para os outros. 0 grupo de terapia, 
perceb!do. no come<;o como urn grupo artificial 
~ue n~o I~porta, pode passar a ter grande 
~mportancla. Conheci grupos cujos membros 
Juntos, experi~e?taram depressoes, psicoses: 
casamentos, dlvorcios, abortos, suiddio mu-
dan<;as de carreira, incesto (atividade s~xual 
entre os membros do grupo), e compartiIha-
ram seus pensamentos rna is profundos. Ja vi 
urn ~po carre gar urn de seus membros ate 0 
hospital e vi muitos grupos enlutados pela 
mor~e de membros. Ja vi membros de grupos 
de cancer fazerem louvores no funeral de urn 
membr? falecido. Os relacionamentos sao 
cons~ldos ao longo de situa<;oes emotivas 
o~ pe;1gosas. Quantos relacionamentos na 
Vida tern aspectos tao ricos? 
Evidencias 
_As evidencias empiricas do impacto da 
coes~~ de gropo nao sao tao amplas ou tao sis-
te.manc,:, q~ando as pesquisas que documentam 
a.lffiport~cIa.do ~e!acionamento na terapia indi-
v:d~~. E. malS dificil estudar 0 efeito da coe-
sao, pOlS ~nvolve pesquisar variaveis intima-
mente relaclonadas com a coesao, como 0 clima 
(0 gra~ de e~volvimento, fuga e conflitos no 
grupo) e a aIian<;a do grupo (0 relacionamento 
entre os ~embros e 0 terapeuta). 29 Os resultados 
d~s pesqulSas em todas essas perspectivas, toda-
Via, apontam para a mesma conclusao: 0 relacio-
namento esta no centro da boa terapia. Isso nao 
se toma menos ~portante na era do managed 
care e da superVIsao terceirizada do que no pas-
s~do. De fato, 0 terapeuta de grupo contempo-
raneo tern uma responsabilidade ainda maior 
?e pr~teger 0 relacionamento terapeutico de 
mtrusoes e de controles extemos.30 
Discutirei agora uma pesquisa relevante 
sobre a coesao. (Leitores que estejam menos 
mteressados em metodologia de pesquisa tal-
vez prefiram passar diretamente para a ,._ _ " proXl 
rna se<;ao Resumo", ver p. 64). 
• ~ urn· antigo estudo de ex-pacientes de 
p:lcoterapia de grupo, no qual as explica-
<;?es de membrossobre os fatores terapeu-
tJcos em suas terapias foram transcritas e 
categorizadas, os pesquisadores observaram 
que mais da metade consideravam ser 0 
apoio. mutuo 0 principal modo de ajuda na 
t~rapla de grupo. Os pacientes que perce-
blam ~eu ~po como coeso participavam 
de mms sessoes, experimentavam mais con-
tato social com outros membros e sentiam 
q~e 0 grupo tirIha sido terapeutico. Os pa-
cle~tes que haviam melhorado eram signifi-
catJ~amente mais provaveis de se sentirem 
aceltos pelos outros membros e de mencio-
~arem individuos espedficos quando ques-
tlOnados sobre sua experiencia de grupO.31 
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• Em 1970, publiquei urn estudo no qual pa-
cientes bem-sucedidos de grupos de terapia 
avaliaram a sua experiencia e cIassificaram, 
em ordem de efetividade, a serie de fatores 
terapeuticos que descrevo neste livro.32 Des-
de aquela epoca, urn grande nUmero de es-
tudos, usando modelos analogos, produziu 
uma quantidade consideravel de dados so-
bre as visoes dos pacientes dos aspectos mais 
proveitosos da terapia. Analisarei esses re-
sultados com maior profundidade no proJd'. 
mo capitulo. Por enquanto, ja e suficiente 
observar que existe urn forte consenso de que 
os pacientes consideram a coesao grupal 
como determinante muito importante para 
o sucesso do gropo de terapia. 
• Em urn estudo de seis meses com dois gru-
pos de terapia de longa durac;ao,33 obser-
vadores avaliaram 0 processo de cada ses-
sao, atribuindo urn escore a cada membro 
em cinco variaveis: a·ceita<;ao, atividade, 
dessensibiliza<;ao, ab-rea<;ao e melhora. 
Cada membro tambem fez auto-avalia<;oes 
semanaiS. Tanto os observadores quanta os 
membros dos grupos consideraram a "acei-
ta<;ao" como a variavel mais relacionada 
com a meIhora. > 
• Conciusoes semelhantes foram obtidas em 
urn estudo com 47 pacientes em 12 grupos 
de psicoterapia. A percep<;ao de mudanc;a 
na personalidade dos membros apresentou 
uma correla<;ao significativa com seus sen-
timentos de envolvimento no gropo e sua 
avalia<;ao da coesao total do grupO.34 
• Meus colegas e eu avaliamos 0 resultado 
em urn ana de 40 pacientes que haviam 
iniciado terapia em 5 grupos para pacien-
tes extemos.35 Os resultados foram correla-
cionados com variaveis mensuradas nos pri-
meiros tres meses de terapia. 0 resultado 
positiv~ na terapia somente apresentou cor-
rela<;ao significativa com duas variaveis 
indicativas: coesao grupaP6 e popularida-
de geral- ou seja, os pacientes que, no co-
me<;o da terapia, tinham mais aprec;o pelo 
grupo (coesao alta) e que foram avaliados 
como sendo mais populares pelos outros 
membros na sexta e na decima segunda se-
manas tiveram urn resultado melhor na te-
rapia na decima quinta semana. A popula-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 65 
ridade, que neste estudo teve correla<;ao 
ainda mais positiva com 0 resultado do que 
com a coesao, e, como discutiremos breve-
mente, relevante para a coesao grupal e in-
fluencia 0 mecanismo pelo qual a coesao 
grupal promove a mudan<;a. 
• A mesma constatac;ao ocorre em grupos mais 
estruturados. Urn estudo de 51 pacientes que 
participaram de 10 sessoes de terapia de gru-
po comportamental demonstrou que a "atra-
<;ao grupal" estava significativamente corre-
lacionada com urn aumento na auto-estima 
e inversamente correlacionada com a taxa 
de abandono do grupoY 
• A qualidade dos relacionamentos entre os 
membros tambem foi documentada como 
urn ingrediente essencial em grupos-T (tam-
bern chamados grupos de treinamento em 
sensibilidade, de processo, de encontro ou 
experirnentais; ver 0 Capitulo 16). Urn es-
tudo rigorosamente projetado observou 
uma rela<;ao significativa entre a qualidade 
dos relacionamentos entre os membros e 0 
resultado em umgrupo-T de 11 sujeitos que 
se reuniam duas vezes por semana, totali-
zando 64 horas. 38 Os membros que tiveram 
os relacionamentos mais mutuamente 
terapeuticos entre duas pessoas apresenta-
ram uma melhora maior ao longo da tera-
pia.39 Alem disso, 0 relacionamento perce-
bide com 0 lider do grupo nao estava re-
lacionado com 0 grau de mudan<;a. 
• Meus colegas M.A. Liebennan, M. Miles e 
eu conduzimos urn estudo com 210 sujei-
'tos em 18 grupos de encontro, abrangendo 
10 escolas ideol6gicas (gestalt, analise tran-
sacional, grupos-T, Synanon, crescimento 
pessoal, Esalen, psicanalitica, maratona, 
psicodrama, grava<;ao do encontro). 40 (Ver 
o Capitulo 16 para uma discussao detalha-
da desse projeto.) A coesao foi avaliada de 
divers as maneiras e correlacionada com os 
efeitos,41 indicando que a atra<;ao pelo gru-
po de fato e urn poderoso detenninante dos 
resultados. Todos os metodos para deter-
minar a coesao apresentaram uma correla-
<;ao positiva entre a coesao e seus efeitos. 
Urn membro que experimentasse urn senti-
do pequeno de pertencimento ou atra<;ao 
pelo grupo, mesmo no come<;o das sessoes, 
66 IRVIN D. YALOM 
dificilmente se beneficiaria com 0 grupo e, 
de fato, provavelmente teria urn resultado 
negativo. Alem disso, os grupos com nfveis 
gerais maiores de coesao tiveram urn resul-
tado total significativarnente melbor do que 
grupos com pouca coesao. 
• Outro grande estudo (N = 393) de grupos 
de treinamento experimentais apresentou 
uma rela~ao forte entre a afilia~ao(urn 
construto consideravelmente sobreposto a 
coesao) e 0 resultadoY 
• MacKenzie e Tschuschke, estudando 20 pa-
cientes em grupos de longa dura~ao para 
pacientes intern os, diferenciaram 0 relacio-
namento emocional do grupo da sua avalia-
~ao do "trabalbo do grupo" como urn todo. 
o sentido de pertencimento pessoal do in-
divfduo apresentou correla~ao com 0 resul-
tado futuro, ao passo que as escalas de tra-
balho total do grupo, nao.43 
Budman e colegas desenvolverarn uma es-
cala para mensurar a coesao por meio de 
observa~6es de sess6es filmadas por obser-
vadores treinados. Eles estudaram 15 gru-
pos de terapia e observaram redu~6es maio-
res em sintomas psiquiatricos e melhora na 
auto-estima nos grupos que tinham urn fun-
cionamento mais coeso. A coesao grupal evi-
dente no infcio - dentro dos primeiros 30 
minutos de cad a sessao - indicava urn re-
sultado melbor.44 
Diversos estudos examinaram 0 papel do 
relacionamento entre 0 paciente e 0 Ifder do 
grupo. Marziali e colegas45 examinararn a 
coesao grupal e 0 relacionamento entre 0 
paciente e 0 Iider do grupo em uma terapia 
interpessoal manualizada em 30 sess6es para 
pacientes com transtomo de personalidade 
borderline. A coesao e 0 relacionamento apre-
sentararn uma correla~ao forte, corroboran-
do os resultados de Budman,46 e ambos apre-
sentaram correla~ao positiva com 0 resulta-
do. Contudo, a medida do relacionamento 
entre membra e Iider foi urn indicador mais 
forte do resultado. 0 relacionamento entre 
o paciente e 0 terapeuta pode ser particular-
mente importante para pacientes que tern 
relacionamentos interpessoais volateis e para 
os quais 0 terapeuta tenha uma importante 
fun~ao de conten~ao. 
• Em urn estudo de urn grupo de terapia cog-
nitivo-comportamental estruturado e de 
curta dura~ao para fobia social,47 0 relacio-
namento com 0 terapeuta aprofundou-se ao 
longo das 12 semanas de tratamento e apre-
sentou correla~o positiva com 0 resulta-
do, mas a coesao foi estatica e nao teve re-
la~ao com 0 resultado. Nesse estudo, 0 gru-
po foi 0 cenario para a terapia e nao urn 
agente terapeutico. Os terapeutas nao cul-
tivaram vfnculQS entre os membros, levan-
do os autores a conduir que, em grupos 
muito estruturados, 0 que mais importa e a 
colabora~ao entre paciente e terapeuta em 
torno das tarefas da terapia.48 
• Urn estudo de 34 pacientes com depressao e 
isolamento social, tratados em urn grupo 
interacional de resolu~ao de problemas em 
12 sess6es, relaton que os pacientes que des-
creverarn ter experimentado afeto e interes-
se positiv~ por parte do Ifder tiveram resul-
tados melbores. a oposto tambem foi obser-
vado nesse estudo. as resultados negativos 
foram associados a relacionarnentos negati-
vos entre 0 Ifder e 0 membro. Esse estudo de 
correla~ao, porem, nao aborda causas e efei-
tos. Sera que os terapeutas gostam mais de 
pacientes que se saem melbor na terapia, ou 
o fato de 0 terapeuta gostar de alguem pro-
move mais bem-estar e esfor~0?49 
• as resultados observados em grupos de trei-
namento intensivo breve da Associa~ao 
Norte-Americana de Psicoterapia de Grupo 
foram influenciados por nfveis maiores de 
envolvimento. so Os resultados positiv~s po-
dem ser mediados pelo envolvimento, que 
promove mais comunica~ao interpessoal e 
auto-revela~ao. 51 
Resumu 
Ja citei evidencias de que os membros do 
grupo valorizam profundamente a aceita~ao e 
o apoio que recebem de seu grupo de terapia. 
A percep~ao dos resultados da terapia apresen-
ta correla~ao positiva com 0 apre~o pelo gru-
po. Grupos muito coesos tern urn resultado 
geral melbor do que grupos com menos espiri-
to de solidariedade. A conexao emocional e a 
experiencia de efetividade do grupo contribuem 
para a coesao grupal. Indivfduos com resulta-
dos positivos tiveram mais relacionamentos 
mutuamente satisfatorios com os outros mem-
bros. Os grupos coesos apresentam nfveis maio-
res de auto-revela~ao. Para alguns pacientes e 
alguns grupos (especialmente os grupos mui-
to estruturados), 0 relacionamento com 0 Ii-
der pode ser 0 fator essencial. Urn relaciona-
mento terapeutico forte pode nao garantir urn 
resultado positivo, mas urn relacionamento 
terapeutico fraco certamente nao resultara em 
urn tratamento efetivo. 
A presen~a de coesao no come~o de cada 
sessao, bern como nas primeiras sess6es do gru-
po, esta co~relacionada com resultados positi-
vos. E crucial que os grupos tomem-se coesos 
e que os Ifderes estejam alertas para a experien-
cia pessoal de cada membra com 0 grupo e 
abordem problemas de coesao rapidamente. 0 
resultado positiv~ para 0 paciente tambem esta 
correlacionado com a popularidade no grupo, 
uma variavel relacionada com 0 apoio e a acei-
ta~ao. Embora a mudan~a terapeutica seja 
multidimensional, esses resultados vistos em 
con junto sustentam a afirma~ao de que a coe-
sao grupal e urn determinante essencial para 
urn resultado terapeutico p6sitivo. 
Alem dessa evidencia direta, existem evi-
dencias indiretas consideraveis de pesquisas 
com outros tipos de grupo. Uma variedade de 
estudos demonstra que, em tarefas de grupo 
no laboratorio, nfveis elevados de coesao gruPal 
produzem muitos resultados que podem ser 
considerados fatores que intervem na terapia. 
Por exemplo, a coesao grupal resulta em maior 
freqiiencia, maior participa~ao dos membros, 
maior propensao a ser influenciado pelos mem-
bros e muitos outros efeitos. Considerarei es-
ses resultados brevemente, enquanto discuto 
o mecanisme pelo qual a coesao promove a 
mudan~a terapeutica. 
MECANISMO DE A~Ao 
De que modo a aceita~ao, 0 apoio e a con-
fian~a do grupo ajudam indivfduos com proble-
mas? Certamente, deve haver mais do que sim-
ples apoio ou aceita~ao. Os terapeutas apren-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 61 
dem no come~o de suas carreiras que 0 arnor 
nao e suficiente. Embora a qualidade do relacio-
namento entre terapeutas e pacientes seja 
crucial, os terapeutas devem fazer mais do que 
simplesmente se relacionarem de forma afetuo-
sa e honesta com 0 paciente.52 0 relacionarnen-
to terapeutico cria condi~oes favoraveis para 
colocar outros processos em movimento. Que 
outros processos? E como eles sao importantes? 
As visoes profundas de Carl Rogers do 
relacionamento terapeutico sao tao relevantes 
hoje em dia quanto foram ha quase 50 anos. 
Varnos come~ar nossa investiga~ao examinan-
do suas vis6es sobre 0 modo de a~ao do relacio-
namento terapeutico na terapia individual. Em 
sua descri~ao mais sistematica do processo de 
terapia, Rogers afirma que, quando existe a 
condi~ao de urn relacionarnento ideal, 0 seguin-
te processo caracteristico se inicia: 
1. 0 paciente sente-se cada vez mais livre 
para expressarseus sentimentos. 
2. Ele come~a a testar a realidade e se toma 
mais discriminatorio em seus sentimentos 
e percep~6es de seu ambiente, de seu self, 
de outras pessoas e de suas experiencias. 
3. Ele se torna cada vez mais ciente da in-
congruencia entre suas experiencias e seu 
conceito de si mesmo. 
4. Ele tambem se toma ciente de sentiIl!..en-
tos que antes eram negados ou distorcidos 
na consciencia. 
5. Seu conceito de si mesmo, que agora incIui 
aspectos distorcidos ou negados, se toma 
mais congruente com a sua experiencia. 
6. Ele se torna cada vez mais capaz de experi-
mentar - sem sentir-se amea~ado - a aten-
~ao positiva incondicional do terapeuta e 
de sentir urn auto-respeito incondicional. 
7. Cada vez mais, ele se sente 0 foco de ava-
lia~ao da natureza e do valor de urn obje-
to ou experiencia. 
8. Ele reage menos a experiencia em termos 
de suas percep~6es da avalia~ao dos ou-
tros sobre si e mais em termos de sua 
efetividade para promover 0 seu proprio 
desenvolvimento.53 
Central as vis6es de Rogers e a sua for-
mula~ao de uma tendencia realizada, uma ten-
68 IRVIN D. YAlOM 
dencia inerente em todas as formas de vida de 
se expandir e desenvolver - uma visao que re-
monta as antigas vis6es filosoficas que Nietzsche 
enunciou claramente ha urn seculo.54 A tarefa 
do terapeuta e funcionar comourn facilitador 
e criar condir;:6es favoraveis para a auto-expan-
sao. A primeira tarefa do individuo e a auto-
explorar;:ao: a investigar;:ao dos sentimentos e das 
experiencias que eram negados a consciencia. 
Essa tarefa e urn estagio comum na psico-
terapia dinamica. ;Iorney, por exemplo, enfa-
tizava a necessidade de autoconhecimento e 
auto-realizar;:ao para 0 indivfduo, afmnando 
que a tarefa do terapeuta e remover obstacu-
los no caminho para esses processos auto-
nomos. 55 Os modelos contemporaneos reco-
nhecem 0 mesmo principio. Os pacientes mui-
tas vezes procuram a terapia com urn plano de 
rejeitar crenr;:as patogenicas que obstruam 0 
crescimento eo desenvolvimento.56 Em outras 
palavras, todos os individuos tern uma inclina-
r;:ao inata de crescimento e auto-realizar;:ao. 0 
terapeuta nao precisa inspirar essas qualida-
des nos pacientes (como se pudesse!). Em vez 
disso, nossa tarefa e remover os obstaculos que 
bloqueiam 0 processo de crescimento. Uma 
maneira de fazer isso, portanto, e criar uma 
atmosfera terapeutica ideal no grupo de tera-
pia. Urn vfnculo forte entre os membros nao 
apenas nega a inutilidade do indivfduo, como 
tambem gera maior disposir;:ao entre os pa-
cientes para se revelarem e correrem riscos 
interpessoais. Essas mudanr;:as ajudam a desa-
tivar velhas crenr;:as negativas sobre 0 self em 
relar;:ao ao mundoY 
Existem evidencias experimentais de que 
a sintonia na terapia individual e seu equiva-
lente (coesao) na terapia de grupo estimulam 
o paciente a participar do processo de reflexao 
e explorar;:ao pessoal. Por exemplo, Truax,58 es-
tudando 45 pacientes hospitalizados em tres 
grupos heterogeneos, demonstrou que os par-
ticipantes de grupos coesos eram significativa-
mente mais inclinados a se envolverem em uma 
auto-explorar;:ao profunda e ampla.59 Outras 
pesquisas demonstram que a coesao esta bas-
tante relacionada com graus elevados de inti-
midade, riscos, escuta emparica e feedback. 60 
o reconhecimento pelos membros do grupo de 
que 0 grupo esta funcionando na tarefa de 
aprendizagem interpessoal produz mais coe-
sao, em urn circuito positiv~ e que se auto-ali-
menta.61 0 sucesso na tarefa do grupo fortale-
ce seus vinculos emocionais. 
Talvez a coesao seja vital porque muitos 
de nossos pacientes nao tiveram 0 beneficio de 
uma aceitar;:ao solida e continua por parte de 
seus amigos na infancia. Portanto, a validar;:ao 
por outros membros do grupo e uma experien-
cia nova e vital. Aiem disso, a aceitar;:ao e 0 
entendimento entre os membros podem tra-
zer maior poder e significado do que a aceita-
r;:ao por parte do terapeuta. Afinal, os outros 
membros do grupo nao precis am cuidar ou en-
tender ninguem. Eles nao sao pagos para isso, 
nao eo seu "trabalho".62 
A intimidade desenvolvida no grupo pode 
ser vista como uma forr;:a contrana em uma cul-
tura tecnologica que, de todas as maneiras -
social, profissional, residencial e recreativa-
mente -, desumaniza os relacionamentos de 
forma inexoravel.63 Em urn mundo onde os Ii-
mites tradicionais que mantem os relaciona-
mentos sao cada vez mais permeaveis e efe-
meros, existe uma necessidade cada vez maior 
de pertencer ao grupo e de identificar-se com 
ele. 64 Segundo Rogers, a experiencia humana 
profunda no grupo pode ser de mais v,alor para 
o individuo. Mesmo que ela nao cause nenhum 
efeito visivel, nenhuma mudanr;:a externa no 
comportamento, os membros do grupo ainda 
experimentarao uma parte mais humana e mais 
rica de si mesmos, que sera seu ponto de refe-
rencia interno. Essa ultima questao merece ser 
enfatizada, pois e urn dos ganhos da terapia -
especialmente da terapia de grupo - que emi-
quece a vida interior do individuo, mas que nao 
tern, pelo menos por urn longo perfodo, mani-
fe!J,.tar;:6es comportamentais externas. Dessa 
forma, pode escapar da mensurar;:ao de pes-
quisadores e da compreensao de administra-
dores da saude, que determinam a quantidade 
e 0 tipo de terapia indicados. 
A aceitar;:ao dos membros do grupo de si 
mesmos e a aceitar;:ao dos outros membros sao 
interdependentes. A auto-aceitar;:ao nao ape-
nas depende basicamente da aceitar;:ao por 
outras pessoas, como somente e possfvel acei-
tar os outros apos 0 indivfduo aceitar a si mes-
mo. Esse prindpio e sustentado pela sabedoria 
clinica e pela pesquisa.65 Os membros de urn 
grupo de terapia podem sentir urn grande des-
prezo por si mesmos e pelos outros. A mani-
festar;:ao desse sentimento pode ser vista na re-
cusa inicial em entrar para "urn grupo de lou-
cos" ou na relutiincia em se envolver intima-
mente com urn grupo de individuos com pro-
blemas, por medo de ser sugado pelo redemo-
inho da miseria. Urn homem na faixa dos 80 
anos deu uma resposta particularmente 
evocativa a perspectiva de fazer terapia de gru-
po quando foi convidado para participar de urn 
grupo para homens idosos deprimidos: "Era 
inutil desperdir;:ar tempo molhando urn monte 
de arvores mortas" - foi sua metafora para os 
outros homens de sua clfnica.66 
Em minha experiencia, todos os indivf-
duos que buscam assistencia de urn profissio-
nal da saMe mental tern duas dificuldades fun-
damentais em comum: (I) estabelecer e man-
ter relacionamentos interpessoais significati-
o vos; e (2) manter urn sentido de valor pessoal 
(auto-estima). E dificil discutir essas duas areas 
interdependentes como entidades separadas, 
mas, como me dediquei mais ao estabelecirnen-
to de relacionamentos interpe~soais no capi-
tulo anterior; voltarei brevemente agora it auto-
estima. 
A auto-estima e a estirna publica sao bas-
tante interdependentes.67 A auto-estima r~e­
re-se it avaliar;:ao de urn individuo do seu valor 
real, e esta indissoluvelmente relacionada com 
as experiencias da pessoa em relacionamentos 
sociais anteriores. Lembre-se da frase de 
Sullivan: "Pode-se dizer que 0 self e formado 
por avaliar;:6es refletidas".68 Em outras palavras, 
durante 0 desenvolvirnento irlicial, as percep-
c;6es do individuo sobre as atitudes de outras 
pessoas para consigo passam a determinar 
como ele se enxerga e valoriza. 0 indivfduo 
internaliza muitas dessas percepr;:6es e, se fo-
rem consistentes e congruentes, baseia-se nes-
sas avaliac;6es intemalizadas para ter certa 
medida de valor pessoal. 
Contudo, alem desse reservatorio interior 
de valor pessoal, em urn grau maior ou menor, 
as pessoas tambem estao sempre interessadas 
e sao influenciadas pelas avaliac;6es atuais dos 
outros - especialmente a avaliar;:ao dos grupos 
aos quais pertencem. A pesquisa da psicologia 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 69 
social sustenta essa compreensao clinica: os 
grupos e relacionamentos de que participamos 
sao incorporados ao self.69 0 apego do indivi-
duo a urn grupo e multidimensional. Ele e 
moldado pelo grau de confianr;:a do membro 
na atrar;:ao do grupo - "Sera que sou urn mem-
bro desejavel?" - e seu relativo desejo de afilia-
r;:ao - "Eu quero fazer parte?". 
A influencia da estirna publica - ou seja, 
da avaliar;:ao do grupo - sobre urn indivfduo 
depende de diversos fatores: do quanto a pes-
soa sente que 0 grupo e irnportante; da fre-
qiiencia e a especificidade das comunicar;:6es 
do grupo para a pessoa a respeito da estima 
publica; e da irnportancia dos trar;:os em ques-
tao para a pessoa. (Presumivelmente, conside-
rando a auto-revelar;:ao honesta e intensa nos 
grupos de terapia, essa irnportancia realmente 
e muito grande, pois esses trar;:os aproximam-
se da identidade nuclear da pessoa.) Em ou-
tras palavras, quanta mais 0 grupo for signifi-
cativo para a pessoa, e quanto mais a pessoa 
concordar com os valores do grupo, mais ela 
estara inclinada a valorizar e concordar com 0 
julgamento do grupo.7° Essa ultima questao 
tern grande relevancia clinica. Quanto mais 
atrafdo 0 indivfduo for pelo grupo, mais ele 
respeitara 0 seu julgamento e prestara aten-
r;:ao e levara a serio qualquer discrepancia en-
tre a estima publica e a auto-estima. Uma dis-
crepancia entre as duas criara urn estado de 
dissoniincia, que 0 indivfduo tentaracorrigir. 
Suponhamos que essa discrepancia vire 
para 0 lade negativo -:- ou seja, a avaliac;ao do 
individuo pelo grupo e inferior it sua auto-ava-
liac;ao. Como resolver essa discrepanc[.a? Uma 
possibilidade e negar ou distorcer a avaliar;:ao 
do grupo. Em urn grupo de terapia, essa nao 
seria uma evolur;:ao positiva, pois geraria urn 
drculo vicioso: 0 grupo, em primeiro lugar, 
avalia mal este individuo, pois ele nao partici-
pa da tarefa do grupo (que em urn grupo de 
terapia consiste na explorar;:1io ativa do proprio 
self e dos relacionamentos com os outros). 
Qualquer aumento na posiC;1io defensiva e pro-
blemas de comunicar;:ao reduzira ainda mais a 
estima do grupo por esse membro especifico. 
Urn metodo comum usado pelos membros para 
resolver esse tipo de discrepancia e desvalori-
zar 0 grupo - enfatizando, por exemplo, que 0 
'.' 
i! , 
,: 
Ii 
'i , , 
70 IRVIN D. YALOM 
grupo e artificial e composto de individuos per-
turbados, e comparando-o de maneira desfa-
vor<lvel com outro grupo (por exemplo, urn 
grupo social ou ocupacional) cuja avalia~ao 
pelo membro seja diferente. Os membros que 
seguem essa seqiiencia (por exemplo, indivi-
duos com comportamentos fora dos padr5es 
do grupo, descritos no Capitulo 8) geralmente 
abandonam 0 grupo. 
Perto do final de uma terapia de grupo 
bem-sucedida, uma participante de urn grupo 
revisou as suas primeiras recorda~5es do gru-
po da seguinte maneira: "Por muito tempo, eu 
dizia para mim mesma que todos voces eram 
lou cos e que os seus comentarios sobre a mi-
nha postura defensiva e minha inacessibilidade 
eram ridiculos. Eu queria largar 0 grupo - ja 
fiz isso muitas vezes -, mas senti uma conexao 
suficiente aqui e decidi ficar. Quando fiz essa 
escolha, comecei a dizer a mim mesma que 
voces nao podiam estar sempre errados a meu 
respeito. Esse foi 0 ponto de mudan~a na mi-
nha terapia". Esse e urn exemplo do metodo 
terapeutico de resolver a discrepancia para 0 
individuo: ou seja, aumentar a estima publica 
mudando os comportamentos e as atitudes que 
o grupo criticava. Esse metodo e mais adequa-
do se 0 individuo se sentir muito atraido pelo 
grupo e se a estima publica nao for muito mais 
baixa do que a auto-estima. 
Contudo, sera que 0 uso de pressao de 
grupo para mudar 0 comportamento ou as ati-
tudes individuais e uma forma de engenharia 
social? Nao sera mecanico? Nao seria negligen-
ciar niveis mais profundos de integra~ao? De 
fato, a terapia de grupo emprega princfpios 
behavioristas. A psicoterapia, em todas as suas 
varia~5es, basicamente e uma forma de apren-
dizagem. Mesmo os terapeutas rna is nao-
diretivos usam, em urn nivel inconsciente, tec-
nicas de condicionamento operante: eles indi-
cam condutas ou atitudes desejaveis para os 
pacientes, seja de forma explfcita ou sutil.71 
Esse processo, todavia, nao sugere que 
assumimos uma visao mecanica e behaviorista 
explfcita do paciente. 0 condicionamento ad-
verso DU operante de comportamentos e atitu-
des nao e, em minha opiniao, possivel, nem 
efetivo, quando aplicado como uma tecnica iso-
lada. Embora os pacientes muitas vezes rela-
tern somente melhorar apos alguma queixa 
debilitante ser remediada por tecnicas de tera-
pia comportamental, uma inspe~ao minuciosa 
do processo invariavelmente revela que rela-
cionamentos interpessoais importantes foram 
afetados. 0 relacionamento entre 0 terapeuta 
e 0 paciente nas terapias comportamentais e 
cognitivas foi mais significativo do que 0 
terapeuta tenba compreendido (e as pesquisas 
substanciam isSO),72 ou alguma mudan~a im-
portante, iniciada pelo alfvio sintomatico, ocor-
reu nos relacionamentos sociais do paciente, 
servindo para refor~ar e manter a sua melho-
ra. Mais uma vez, como enfatizei antes, todos 
os fatores terapeuticos sao intricadamente 
interdependentes. A mudan~a de comporta-
mento e de atitude, independentemente de sua 
origem, produz outras mudan~as. 0 grupo al-
tera sua avalia~ao de urn membro, fazendo com 
que 0 membro se sinta mais auto-satisfeito no 
grupo e com 0 grupo, e inicia-se 0 espiral 
adaptativo descrito no capitulo anterior. 
Uma ocorrencia muito mais comum no 
grupo de psicoterapia e uma discrepancia na 
dire~ao oposta: a avalia~ao de urn membro pelo 
grupo e maior do que a auto-avalia~ao do pro-
prio membro. Mais uma vez, 0 mem.bro e colo-
cado em urn estado de dissonancia e ten tara 
resolver a d~crepancia. 0 que pode fazer urn 
membro nessa posi~ao? Talvez a pessoa redu-
za sua estima publica, revelando inadequa~5es 
pessoais. Em grupos de terapia, todavia, esse 
comportamento tern 0 efeito paradoxal de le-
vantar a estima publica - a revela~ao de 
inadequa~5es e uma norma valorizada no gru-
po e aumenta a aceita~ao do giUpo. Outro ce-
nario possivel, e terapeuticamente desejavel, 
ocorre quando os membros do grupo reexami-
nam e alteram 0 seu nivel baixo de auto-esti-
rna. Uma vinheta clinica ilustrativa demonstra 
essa formula~ao: 
• Marietta, uma dona de casa de 34 anos, de 
origem emocionalmente pobre, procurou te-
rapia por conta da ansiedade e da culpa que 
sentia por uma serie de casos extracon-
jugais. Sua auto-estima estava muito bai-
xa. Nada escapava a sua automutila~ao: sua 
aparencia fisica, sua inteligencia, seu dis-
curso, sua falta de imagina<;ao, seu fun-
cionamento como mae e como esposa. Em-
bora tivesse aHvio com sua religiao, isso ti-
nha urn sentido dubio, pois ela se sentia in-
capaz de socializar com 0 pessoal da igreja 
em sua comunidade. Ela casou com urn 
homem que considerava repugnante, mas 
que era urn born homem - certamente su-
ficientemente born para ela. Somente em 
seus casos sexuais - particularmente quan-
do estava com diversos homens ao mesmo 
tempo - ela parecia estar viva, sentindo-se 
atraente, desejavel e capaz de dar algo de 
si que parecesse de valor para os outros. 
Esse comportamento, no entanto, conflitava 
com suas convic<;5es religiosas e resultava 
em consideravel ansiedade e mais autode-
precia<;ao. 
Enxergando 0 grupo como urn microcosmo, 
o terapeuta logo observou tendencias ca-
racterfsticas no comportament.o de Marietta 
no grupo. Ela falava muito da culpa por seu 
comportamento sexual e, por horas, 0 gru-
po se debatia com todas as ramifica~5es 
excitantes do seu comportamento. Em to-
dos os outros momentos, porem, ela se des-
ligava e nao of ere cia nada. Ela se relacio-
nava com 0 grupo como com 0 seu ambien-
te social. Podia pertencer a ele, mas nao se 
relacionava de verdade com as outras pes-
soas: a unica coisa de real interesse que sen-
tia que poderia oferecer eram seus orgaos 
genitais. 
Com 0 passar do tempo, Marietta come~ou 
a responder e a questionar os outros, e a 
oferecer afeto, amparo e feedback. Ela des-
cobriu outros aspectos nao-sexuais para re-
velar a si mesma e falou abertamente de 
uma ampla variedade de interesses em sua 
vida. Logo, Marietta estava sendo cada vez 
mais valorizada pelos outros membros. Gra-
dualmente, ela reexaminou e negou sua 
cren<;a de que tinha pouco de valor para 
oferecer. A discrepancia entre sua estima pu-
blica e sua auto-estima ampliou-se (isto e, 
o grupo a valorizava mais do que ela mes-
rna se valorizava), e ela logo foi for~ada a 
ter uma visao mais realista e positiva de si 
PSICOTERAPIA DE GRUPO 71 
mesma. Gradualmente, houve urn espiral 
adaptativo: Marietta come~ou a estabele-
cer relacionamentos nao-sexuais dentro e 
fora do grupo e esses, por sua vez, aumen-
taram a sua auto-estima ainda mais. 
Quanto mais a terapia desfizer a auto-ima-
gem negativa do paciente por meio de novas ex-
periencias relacionais, mais efetiva ela Sera.73 
Auto-estima, estima pu-blica 
e mudaDl.a terapeutica: evidencias 
A pesquisa sobre a terapia de grupo nao 
investigou especificamente a rela~ao entre a 
estima publica e as mudan~as na auto-estima. 
Todavia, uma constata<;ao interessante de urn 
estudo de grupos experimentais (ver Capitulo 
16) foi que a auto-estima dos membros dimi-
nuiu quando a estima publica diminuiu.74 (A 
estima publica e medida por dados sociome-tricos, 0 que envolve solicitar que os membros 
se classifiquem em diversas variaveis.) Os pes-
quisadores tambem descobriram que quanta 
mais urn membro de urn grupo subestimava a 
sua estima publica, mais aceitavel ele era para 
os outros membros. Em outras palavras, a ca-
pacidade de enfrentar as proprias deficiencias, 
ou mesmo de se julgar de forma urn pouco rf-
gida, aumenta a estima publica. A humildade, 
dentro de limites, e muito mais adaptativa do 
que a arrogancia. 
Tambem e interessante considerar dad os 
sobre a popularidade no grupo, uma variavel 
intimamente relacionada com a estima publi-
ca. Membros considerados mais populares pe-
los outros membros apos 6 e 12 semanas de 
terapia apresentaram resultados significativa-
mente melhores do que os outros membros ao 
final de urn ano. 7S Assim, parece que os pacien-
tes que tem'uma estima publica elevada logo 
no come~o de urn grupo sao destinados a ter 
melhores resultados na terapia. 
Que fatores parecem ser responsaveis pela 
popularidade em grupos de terapia? Tres varia-
veis, que nao apresentam correla<;ao com 0 
resultado, apresentam uma correla~ao signifi-
cativa com a popularidade: 
72 IRVIN D. YALOM 
1. Auto-revela<;iio anterior.76 
2. Compatibilidade interpessoal:77 individuos 
que (talvez por acaso) tern necessidades 
interpessoais que combinam com as de 
outros membros tornam-se populares no 
grupo. 
3. Outras medidas sociometricas. Os mem-
bros que costumam ser escolhidos como 
companheiros para 0 lazer e trabalham 
bern com os colegas tomam-se populares 
no grupo. Urn estudo cllnico dos membros 
mais populares e menos populares reve-
lou que os membros populares tendem a 
ser jovens, com boa forma<;iio, inteligen-
tes e introspectivos. Eles preenchem 0 va-
cuo de lideran<;a que ocorre no come<;o 
do grupo, quando 0 terapeuta niio assu-
me 0 papel tradicional de lider.78 
Os membros mais impopulares foram os 
mais rigidos, moralistas, niio-introspectivos e 
menos envolvidos com a tarefa do grupo. Al-
guns estavam claramente fora dos padroes, 
atacando 0 grupo e se isolando. Alguns mem-
bros esquizoides se apavoraram com 0 proces-
so do grupo e permaneceram perifericos. Urn 
estudo com 66 membros de grupos de terapia 
concluiu que os membros menos populares (ou 
seja, aqueles vistos de forma menos positiva 
pelos outros membros) foram mais inclinados 
a abandonar 0 grupoJ9 
Os pesquisadores da psicologia social tam-
bern investigaram os atributos que conferem 
maior status social em grupos socia is. 0 atri-
buto da extroversiio da personalidade (mensu-
rado por urn questionario de personalidade, 0 
NEO-PI)8o e urn forte indicador de popularida-
de. 81 A extroversiio conota os tra<;os de 
envolvimento social ativo e energico, ou seja, 
a pessoa que e otimista e emocionalmente ro-
busta. A pesquisa neurobiologica de Depue82 
sugere que esses individuos convidam os ou-
tros para se aproximarem deles. A promessa 
de resposta positiva por parte do extrovertido 
recompensa e incentiva 0 envolvimento. 
o estudo de grupos de encontro de 
Lieberman, Yalom e Miles corrobora essas con· 
clusoes.83 Dados sociometricos revelaram que 
os membros com resultados mais positivos fo-
ram influentes e tiveram comportamento em 
harmonia com os valores do grupo relaciona-
dos com correr riscos, espontaneidade, aber-
tura, auto-revela<;ao, expressividade, facilita-
<;iio do grupo e apoio. Pesquisas cHnicas e da 
psicologia social com grupos pequenos demons-' 
traram que os membros que aderem mais as 
normas do grupo alcan<;am posi<;6es de popu-
laridade e influencia.84 Os membros que aju-
dam 0 grupo a cumprir com suas tarefas ob-
tern maior status. 85 
Para resumir: os membros que siio po-
pulares e influentes em grupos de terapia tern 
maior probabilidade de mudar. Eles obtem po-
pularidade e influencia no grupo em virtude 
de sua participa<;ao ativa, auto-revela<;iio, auto-
explora<;iio, expressao emocional, ausencia de 
posturas defensivas, lideran<;a, interesse nos ou-
tros e apoio do grupo. 
E importante observar que 0 individuo 
que adere as normas do grupo nao apenas e 
recompensado pela estima publica dentro do 
grupo, como tambem usa essas mesmas habili-
dades para lidar de forma mais efetiva com 
problemas interpessoais fora do grupo. Assim, 
a maior popularidade no grupo atua terapeuti-
camente de duas formas: aumentando a auto-
estima e refor<;ando habilidades socia}s adapta-
tivas. Os ricos ficam mais ricos. 0 desafio na 
terapia de grupo e ajudar os pobres a enrique-
cerem tambem. 
Coesao grupal e freqiiencia de participaf!ao 
A continua<;ao no grupo obviamente e urn 
pre-requisito necessario, mas nao suficiente, 
para 0 sucesso do tratamento. Diversos estu-
dos indicam que os pacientes que se desligam 
durante a terapia de grupo obtem poucos be-
neficios.86 Em urn estudo, mais de 50 pacien-
tes que abandonaram grupos de terapia de lon-
ga dura<;ao nos primeiros 12 encontros relata-
ram que 0 fizeram por causa de algum proble-
ma com 0 grupo. Eles nao ficaram satisfeitos 
com a experiencia da terapia e nao melhora-
ram. De fato, muitos desses pacientes se sentiam 
piores.87 Os pacientes que permanecem no 
grupo por pelo menos alguns meses tern uma 
probabilidade elevada (85% em urn estudo) 
de tirar beneficios da terapia.88 
Quando maior a atratividade do grupo 
para urn membro, mais inclinada essa pessoa 
estara a permanecer em grupos de terapia ou 
em grupos de encontro, grupos de laboratorio 
(formados para alguma pesquisa) e grupos de 
tarefa (estabelecidos para realizar alguma tare-
fa espedfica). 89 0 estudo de grupos de encontro 
de Lieberman, Yalom e Miles descobriu uma 
correla<;ao elevada entrt'! uma coesiio baixa e 0 
abandono do grupO.90 Os individuos que larga-
ram os grupos tinham pouco sentido de perten-
cimento e deixaram os grupos porque sentiam-
se rejeitados, atacados ou desconectados. 
A rela<;iio entre a coesiio e a manuten<;iio 
dos membros tambem tern implica<;oes para 0 
grupo como urn todo. Os membros menos coe-
sos niio apenas abandonam e mo se beneficiam 
com a terapia, como grupos niio-coesos com 
muita rotatividade- de membros mostram-se 
menos terapeuticos para os membros que per-
manecem. Os pacientes que desistem desafiam 
o sentido de valor e a efetividade do grupo. 
A estabilidade da participa<;iio e uma con-
di<;ao necessaria para a terapia de grupo de 
curta e longa dura<;iio. Embora a maio ria dos 
grupos de terapia pa:;se por I1ma fase inicial de 
instabilidade, durante a qual alguns membros 
abandonam e sao acrescentadas novas adi<;oes, 
a partir dai, os grupos se mantem em uma lon-
ga fase esrave~ na qual ocorre grande parte do 
trabalho solido da terapia. Alguns grupos pa-
recem entrar nessa fase de estabilidade em 
pouco tempo, enquanto outros nunca a alcan-
<;am. 0 abandono de uns faz com que outros 
membros deixem 0 grupo. E outros pacientes 
podem sair logo apos a saida de urn membro 
fundamental. Em urn estudo de seguimento 
com grupos de terapia, os pacientes esponta-
neamente enfatizaram a importiincia da esta-
bilidade dos membros.91 
No Capitulo 15, discutirei a questao da 
coesao grupal em cenarios clinicos que impe-
dem a participa<;ao estavel de longa dura<;ao. 
Por exemplo, grupos de crise ou grupos em uma 
clinica para pacientes agudos raramente tern 
uma participa<;ao consistente, mesmo por dois 
encontros consecutivos. Nessas situa<;oes clini-
PSICOTERAPIA DE GRUPO 73 
cas, os terapeutas devem alterar radicalmente 
as suas percep<;oes sobre 0 desenvolvimento 
da vida do grupo. Creio, por exemplo, que 0 
tempo de vida adequado para urn grupo para 
pacientes agudos seja uma unica sessao. 0 
terapeuta deve lutar para ser eficiente e of ere-
cer ajuda efetiva para 0 maximo de membros 
possivel durante cada sessao individuaL 
Os grupos de terapia breve pagam urn 
pre<;o particularmente elevado pela falta de 
consistencia na freqiiencia, nesse caso, os 
terapeutas devem fazer urn esfor<;o especial 
para aumentar a coesao no come<;o do grupo. 
Essas estrategias(incluindo uma forte prepa-
ra<;1io antes do grupo, composi<;ao homogenea 
e interven<;oes estruturadas)92 seriio discutidas 
no Capitulo 15. 
Coesao grupal e expressao de hostilidade 
Seria urn engano comparar a coesiio com 
conforto. Embora os grupos coesos possam 
apresentar maior aceita<;ao, intimidade e en-
tendimento, existem evidencias de que eles tam-
bem perrnitem maior desenvolvimento e e.xpres-
sao de hostilidade e conflito. Os grupos coesos 
possuem normas (ou seja, regras de compor-
tamento verbais aceitas pelos membros) que 
estimulam a expressao aberta de desacordos 
ou conflitos, alem de apoio. De fato, a menos 
que se possa expressar a hostilidade abertamen-
te, atitudes hostis disfar<;adas e persistentes 
podem impedir 0 desenvolvimento de coesao 
e de uma aprendizagem interpessoal efetiva. 
A hostilidade reprimida simplesmente ferve 
oculta, para extravasar de maneiras indiretas, 
que nao facilitam 0 processo terapeutico do 
grupo. Nao e facil continuar a se comunicar de 
forma honesta com alguem de quem nao se 
gosta ou que se detesta. A tenta<;ao de evitar a 
pessoa e romper a comunica<;ao e muito gran-
de. Ainda assim, quando se fecham os canais 
de comunica<;ao, se acabam tambem as espe-
ran<;as de resolver os conflitos e de crescimen-
to pessoal. 
1sso e tao verdadeiro no nivel do megagru-
po - mesmo no nacional- quanta no do diadi-
co. 0 experimento da Caverna dos Ladroes, urn 
I 
j., 
! 
74 IRVIN D. YALOM 
famoso projeto de pesquisa realizado ha bas-
tante tempo, na infiincia da pesquisa da dina-
mica de grupo, * proporciona evidencias expe-
rimentais ainda relevantes para 0 trabalho cli-
nico contemporaneo.93 Urn acampamento de 
garotos de 11 anos bem-adaptados foi dividi-
do no come<;o em dois grupos, sendo depois 
colocados em uma competi<;ao. Em seguida, 
ambos os grupos desenvolveram uma grande 
coesao e urn sentido profundo de hostilidade 
para com 0 outro grupo. Tornou-se impossiv:!,!l 
qualquer comunica<;ao significativa entre os 
dois grupos. Por exemplo, se fossem colocados 
em proximidade ffsica no refeitorio, os limites 
entre os grupos permaneciam impermeaveis. 
A comunica<;ao entre os grupos consistia de in-
sultos, escarnio e ataques. 
Como se poderia restaurar a comunica-
<;ao significativa entre os membros dos dois gru-
pos? Essa era a busca dos pesquisadores. Fi-
nalmente, eles pensaram em uma estrategia 
bem-sucedida. A hostilidade entre os grupos 
somente diminuiu quando se conseguiu criar 
urn sentido de lealdade a urn grupo unico 
maior. Os pesquisadores criaram objetivos su-
periores que rompiam os limites entre os 
grupos pequeno;; e for<;avam os garotos a tra-
balharem juntos em urn grande grupo. Por 
* Diniimica e urn termo usado com freqiiencia no 
vocabulario da psicoterapia e deve ser definido. Ele 
tern urn significado leigo e urn significado tecnico, 
derivando do grego dunasthi, que significa "ter po-
der ou for~a". No sentido leigo, entao, a palavra 
evoca energia ou movimento (urn jogador de fute-
bol ou orador dinamico), mas em seu sentido tecni-
co, ela se refere a ideia de "for~as". Na terapia indi-
vidual, quando falamos da "psicodinamica" de urn 
c1iente, estamos nos referindo as varias for~as em 
conflito dentro do c1iente, que resultam em certas 
configura~6es de sentimentos e comportamentos. 
Em uso comum desde 0 advento de Freud, pressu-
p6e-se que algumas das for~as em conflito existam 
em diferentes niveis de consciencia - de fato, algu-
mas delas estao inteiramente fora da consciencia e, 
pelo mecanisme da repressao, habitam 0 inconscien-
te dinamico. No trabalho do grupo, a dinamica re-
fere-se a construtos inferidos e invisiveis ou a pro-
priedades do grupo (por exemplo, coesao, pressao 
do grupo, 0 usa de alguem como bode expiat6rio e 
a forma~ao de subgrupos) que afetam os movimen-
tos gerais do grupo. 
exemplo, urn carrinho com comida para uma 
caminhada noturna caiu em urn buraco e so-
mente pode ser resgatado com os esfor<;os co-
operativos de todos os garotos. Urn filme que 
desejavam muito assistir somente poderia ser 
alugado sejuntassem as contribui<;oes de todo 
o acampamento. 0 suprimento de agua foi in-
terrompido e apenas poderia ser restaurado 
pelos esfor<;os cooperativos de todos os cam-
pistas. 
A motiva<;iio para fazer parte pode criar 
sentimentos poderosos dentro dos grupos. Os 
membros com uma adesiio firme ao que ocor-
re dentro do grupo podem sentir uma forte 
pressiio para excluir e desvalorizar 0 que ocor-
re fora dos limites do grupO.94 Nao e incomum 
que individuos desenvolvam preconceitos con-
tra grupos aos quais niio pertencem. Portanto, 
nao e de surpreender que muitas vezes haja 
hostilidade contra membros de grupos etnicos 
ou raciais cuja participa<;iio e impossivel para 
pessoas de fora. A implica<;iio para conflitos 
intemacionais e visivel: a hostilidade entre gru-
pos pode desaparecer diante de alguma crise 
mundial, que somente uma coopera<;iio supra-
nacional pode evitar, como a polui<;iio atmos-
ferica ou uma epidemia internacional de AIDS. 
Esses prindpios tambem tern implica<;i5es para 
o trabalho clfnico com grupos peque~os. 
Os conflitos entre os membros no decor-
rer da terapia de grupo devem ser contidos. 
Acima de tudo, a comunica<;ao nao po de ser 
interrompida. Alem disso, os adversarios de-
vern continuar a trabalhar juntos de maneira 
significativa, assumir a responsabilidade por 
suas declara<;oes e estar dispostos a ir alem de 
xingamentos. Essa e uma importante diferen-
<;a entre os grupos de terapia e os gmpos sociais, 
nos quais os conflitos resultam no rompimen-
to permanente dos relacionamentos. As des-
cri<;oes dos pacientes sobre incidentes crfticos 
na terapia (ver Capitulo 2) muitas vezes en-
volvem urn episodio no qual expressaram for-
te afeto negativo. Contudo, 0 paciente sempre 
consegue amainar a tempestade e continuar a 
se relacionar (as vezes de maneira mais grati-
ficante) com 0 outro membro. 
Por tras desses eventos, existe a condi<;ao 
da coesiio. 0 grupo e os membros devem sig-
nificar 0 suficiente uns para os ou(ros para es-
tarem dispostos a suportar 0 desconforto de 
resolver 0 conflito. Os grupos coesos, de certa 
forma, siio como fammas, com suas guerras 
destrutivas, mas urn forte sentido de lealdade. 
Diversos estudos demonstram que a coe-
sao tern correla<;iio positiva com a disposi<;iio 
para correr riscos e intera<;oes intensivas.95 
Assim, a coesao nao e sinonimo de amor ou de 
urn fluxo continuo de declara<;oes solid arias e 
positivas. Os grupos coesos sao grupos que con-
seguem aceitar 0 conflito e tirar beneffcios cons-
trutivos dele. Obviamente, em epocas de con-
flito, as escalas de coesao que enfatizam 0 afe-
to, 0 alivio' e 0 apoio se invertem, fazendo com 
que muitos pesquisadores tenham reservas quan-
to a se considerar a coesao como urna variavel 
unidimensional precisa, estavel, mensuravel, 
considerando-a multidimensional. 96 
Quando 0 grupo consegue lidar com 0 
conflito de forma construtiva, a terapia inten-
sifica-se de muitas" maneiras. Ja mencionei a 
importancia da catarse, de se correrem riscos, 
de explorar gradualmente partes evitadas ou 
desconhecidas de si mesmo e de reconhecer 
que a catastrofe temida e quimerica. Muitos 
pacientes tern urn medo desesperado da raiva -
da sua e da dos outros. Urn grupo muito coeso 
estimula os membros a tolerarem a dor e 0 
sofrimento que a aprendizagem interpessoal 
po de produzir. 
Tenha em mente que e esse envolvimento 
inicial que possibilita 0 trabalho posterior.97 A 
expressao prematura de hostilidade excess iva 
antes que 0 grupo esteja coeso foi estabelecida 
como uma das principais causas de fragmenta-
<;ao dos grupos. E importante que os pacientes 
entendam que a sua raiva nao e letal. Tanto 
ele quanta os outros podem e devem sobrevi-
ver a uma expressiio de sua impaciencia, 
irritabilidade e ate raiva direta. Para alguns pa-
cientes, tambem e importante ter a experien-
cia de resistir a urn ataque. No processo, eles 
pode conhecer melhor as razoes paraa sua 
posi<;ao e aprender a suportar a pressao dos 
outroS.98 
o conflito tambem pode proporcionar a 
auto-revela<;ao, pois cad a oponente tende a se 
revelar cada vez mais para esclarecer a sua 
posi<;ao. Quando os membros conseguirem ir 
alem da simples declara<;ao de suas posi<;oes, 
PSIGOTERAPIA DE GRUPO 75 
a medida que come<;arem a entender 0 mundo 
das experiencias do outro, passadas e presen-
tes, e enxergarem a posi<;iio do outro a partir 
de sua referenda, talvez comecem a entender 
que 0 ponto de vista do outro pode ser tao apro-
priado para aquela pessoa, quanta 0 seu e para 
si mesmo. A resolu<;ao da aversao extrema ou 
do adio por outra pessoa e uma experiencia de 
grande valor terapeutico. Urn exemplo clinico 
demonstra muitas dessas quest6es (outro 
exemplo pode ser encontrado em meu livro A 
cum de Schopenhauer).99 
• Susan, uma mulher de 4Q anos que era uma 
excelente diretora escolar, e Jean, uma jo-
vern de 21 anos que havia abandonado a 
escola, entraram em uma disputa cruel. 
Susan menosprezava Jean por causa de seu 
estilo de vida libertine e pelo que imagina-
va ser pregui<;a e promiscuidade. Jean ti-
nha raiva da sensatez de Susan, da sua san-
tidade, da sua atitude amarga de solteiro-
na, da sua postura fechada para 0 mundo. 
Felizmente, ambas estavam profundamen-
te comprometidas com 0 grupo. (Circuns-
tancias fortuitas desempenharam urn papel 
importante nesse caso. Jean havia sido uma 
das principais participantes do grupo por 
urn ano, casou-se e viajou para 0 exterior 
por tres meses. Nessa epoca, Susan entrou 
para 0 grupo e, durante a ausencia de Jean, 
envolveu-se bastante.) 
Ambas haviam tido bastante dificuldade 
para tolerar e expressar raiva. Ao longo de 
urn periodo de quatro meses, elas intera-
giram bastante, as vezes em batalhas fero-
zes. Por exemplo, Susan exploditfem indig-
na<;ao quando descobriu que Jean conse-
guia vale-refei<;ao do govemo de forma ile-
gal; enquanto Jean, ao saber da virgindade 
de Susan, disse que ela era uma curiosida-
de, uma pe<;a de museu, uma reliquia 
vitoriana. 
Grande parte do trabalho do grupo ocor-
reu porque Jean e Susan, apesar de seu con-
flito, nunca romperam a comunica<;iio. Elas 
aprenderam muito sobre a outra e COffi-
preenderam a crueldade de seus julgamen-
tos mutuos. Finalmente, conseguirarn en-
tender 0 quanta significavam uma para a 
76 IRVIN D. YALOM 
outra nos nfveis pessoal e simb6lico. Jean 
precisava desesperadamente da aprova<;ao 
de Susan, que invejava Jean profundamen-
te pela liberdade que nunca permitiu a si 
mesma. No processo de resolu<;ao, ambas 
experimentaram sua raiva completamente. 
Elas se encontraram e aceitaram partes an-
tes desconhecidas de si mesmas. Finalmen-
te, desenvolveram uma compreensao empa-
tica e aceita<;ao pela outra. Nenhuma delas 
poderia ter tolerado 0 desconforto extre-
mo do conflito se nao fosse pela forte coe-
sao que, apesar da dor, as uniu ao grupo. 
Os grupos coesos nao apenas sao mais 
capazes de expressar hostilidade entre os mem-
bros, como tambem existem evidencias de que 
eles sao mais capazes de expressar hostilidade 
para com 0 lfder.100 Independentemente do 
estilo pessoal ou da habilidade dos lfderes, 0 
grupo de terapia ira, dentro dos 12 primeiros 
encontros, experimentar algum grau de hosti-
lidade e ressentimento para com eles. ever 
Capitulo 11 para uma discussao ampla sobre 
essa questao.) Os lfderes nao satisfazem as ex-
pectativas fantasiadas dos membros e, na vi-
sao de muitos membros, nao se importam 0 
suficiente, nao orientam 0 suficiente e nao ofe-
recem alfvio imediato. Se os membros do gru-
po suprimem esses sentimentos de decep<;ao 
ou raiva, podem haver diversas conseqiiencias 
prejudiciais. Eles podem atacar urn bode 
expiat6rio conveniente - outro membro ou al-
guma institui<;ao como a "psiquiatria" ou os 
"medicos". Eles podem experimentar uma 
irrita<;ao latente em si mesmos ou no grupo 
como um todo. Em suma, eles podem come<;ar 
a estabelecer normas que desestimulem a ex-
pressao aberta de sentimentos. Esse uso de 
bodes expiat6rios pode ser urn sinal de que a 
agressividade esta sendo desviada de sua fon-
te mais legitima - 0 terapeuta.101 Os lfderes que 
desafiam em vez de ser coniventes com isso 
nao apenas se protegem contra urn ataque in-
justo, como tambem demonstram seu compro-
metimento com a autenticidade e com a res-
ponsabilidade nos relacionamentos. 
o grupo que consegue expressar senti-
mentos negativos para com 0 terapeuta quase 
invariavelmente e fortalecido pela experiencia. 
Esse e urn excelente exercfcio em comunica-
<;ao direta e proporciona uma importante ex-
periencia de aprendizagem - ou seja, que se 
pode expressar hostilidade diretamente sem 
que ocorra nenhuma calamidade irreparavel. 
E muito melhor que 0 terapeuta, 0 verdadeiro 
objeto da raiva, seja confrontado, do que a rai-
va ser desviada para outro membro do grupo. 
Alem disso, espera-se que 0 terapeuta esteja 
muito mais preparado para aglientar 0 confron-
to do que urn membro escolhido como bode 
expiat6rio. 0 processo se auto-refor<;a, e 0 ata-
que ao lfder, que e tratado de forma nao-de-
fens iva e nao-retaliat6ria, serve para aumen-
tar a coesao ainda mais. 
Uma nota de precau<;ao sobre a coesao: 
ideias erroneas sobre a coesao podem atrapa-
lhar a tarefa do grupO.102 Janis cunhou 0 ter-
mo "groupthink" para descrever 0 fenomeno 
da "deteriora<;ao da eficiencia mental, teste da 
realidade e julgamento moral que resulta da 
pressao do grupO".103 A pressao do grupo para 
se conformar e para manter 0 consenso pode 
criar urn ambiente de groupthink. Isso nao e 
uma coesao baseada na alian<;a que facilita 0 
crescimento dos membros do grupo. Pelo con-
trario, e uma alian<;a erronea, baseaqa em pres-
supostos ingenuos ·ou regressivos de perten-
cimento. 0 lfder deve endossar e estimular 0 
pensamento crftico e analftico dos membros do 
grupo, como uma norma essenciaL 104 Lideres 
autocraricos, fechados e autoritarios desesti-
mulam esse pensamento. Os seus grupos, por-
tanto, sao mais propensos a resistir a incerte-
za, a ser menos reflexivos e a encerrar a explo-
ra<;ao de forma prematura. lOS 
Coesao grupal e outras variaveis 
relevantes para a terapia 
Pesquisas com grupos de terapia e de la-
borat6rio demonstram que a coesao grupal tern 
uma variedade de conseqiiencias importantes, 
que tern relevancia 6bvia para 0 processo tera-
peutico do grupO.l06 Por exemplo, ja se mostrou 
que os membros de urn grupo coeso, ao con-
trario dos membros de urn grupo nao-coeso: 
1. tentariio influenciar muito os outros mem-
bros do grupo;107 
2. estariio mais abertos a influencia dos ou-
tros membros;IOB 
3. estarao mais dispostos a ouvir os outroslO9 
e aceita-Ios; 1I0 
4. experimentarao maior seguran<;a e alfvio 
da tensao no grupo;lll 
5. participariio mais dos encontros;112 
6. revelar-se-ao mais;1I3 
7. protegerao as normas e exerceriio mais 
pressao sobre os indivfduos que as que-
bram;1I4 
8. serao menos suscetiveis a perturba<;oes no 
grupo quando urn membro terminar a sua 
participa<;ao;1\S 
9. sentirao maior dominio da experiencia da 
terapia de grupO.1I6 
RESUMO 
Por defini<;ao, a coesao refere-se a atrati-
vidade que os membros sentem por seu grupo 
e pelos outros membros. Ela e sentida nos ni-
veis interpessoal, intrapessoal e intragrupal. Os 
membros de urn grupo coeso aceitam-se uns 
aos outros, sao solidarios>e tendem a formar 
relacionamentos sigruficativos no grupo. A coe-
PSICOlERAPIA DE GRUPO 77 
sao e urn fator significativo no sucesso da tera-
pia de gtllpo. Em condi<;oes de aceita<;ao e en-
tendimento, os membros estarao mais incli-
nados a se expressarem e explorarem, a ter 
consciencia e integrar aspectos inaceitaveis do 
self, ease relacionarem de forma mais profun-
da com os outros. A auto-estima e bastante in-
fluenciada pelo papel do paciente em urn gru-
po coeso. 0 comportamento social exigido para 
que os membros tenham a estima do grupo e 
socialmente adaptativo para 0 indivfduo fora 
do grupo. 
Alem disso,grupos muito coesos sao mais 
estaveis, com maior freqiiencia e menos rotati-
vidade. Foram apresentadas evidencias indi-
cando que essa estabilidade e vital para 0 su-
cesso da terapia: 0 termino precoce bloqueia 
os beneffcios para 0 paciente envolvido e im-
pede 0 progresso do resto do grupo. A coesao 
favorece a auto-revela<;ao, a aceita<;ao dos ris-
cos e a expressao construtiva de conflitos no 
grupo - urn fenomeno que facilita a terapia. 
Ainda falta considerar quais sao os deter-
minantes da coesao. Quais sao as causas de 
muita ou pouca coesao? 0 que 0 terapeuta pode 
fazer para facilitar 0 desenvolvimento de urn 
grupo coeso? Essas importantes questoes se-
rao discutidas nos capftulos que tratam das 
tarefas e das tecnicas do terapeuta de grupo.

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