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- 1 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
- 2 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DO 
AMAZONAS
CONSELHO EDITORIAL
Presidente
Henrique dos Santos Pereira
Membros
Antônio Carlos Witkoski 
Domingos Sávio Nunes de Lima
Edleno Silva de Moura
Elizabeth Ferreira Cartaxo
Spartaco Astolfi Filho
Valeria Augusta Cerqueira Medeiros Weigel
COMITÊ EDITORIAL DA EDUA
Louis Marmoz Université de Versailles
Antônio Cattani UFRGS
Alfredo Bosi USP
Arminda Mourão Botelho Ufam
Spartacus Astolfi Ufam
Boaventura Sousa Santos Universidade de Coimbra
Bernard Emery Université Stendhal-Grenoble 3
Cesar Barreira UFC
Conceição Almeira UFRN
Edgard de Assis Carvalho PUC/SP
Gabriel Conh USP
Gerusa Ferreira PUC/SP
José Vicente Tavares UFRGS
José Paulo Netto UFRJ
Paulo Emílio FGV/RJ
Élide Rugai Bastos Unicamp
Renan Freitas Pinto Ufam
Renato Ortiz Unicamp
Rosa Ester Rossini USP
Renato Tribuzy Ufam
Reitor
Sylvio Mário Puga Ferreira
Vice-Reitor
Jacob Moysés Cohen
Editor
Sérgio Augusto Freire de Souza
- 3 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
SERVIÇO SOCIAL, 
TRABALHO E 
SUSTENTABILIDADE
A presente obra foi financiada pela
- 4 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Comitê Científico Alexa Cultural
Presidente
Yvone Dias Avelino (PUC/SP)
Vice-presidente
Pedro Paulo Abreu Funari (UNICAMP)
Membros
Adailton da Silva (UFAM – Benjamin Constant/AM) 
Alfredo González-Ruibal (Universidade Complutense de Madrid - Espanha)
Ana Cristina Alves Balbino (UNIP – São Paulo/SP)
Ana Paula Nunes Chaves (UDESC – Florianópolis/SC)
Arlete Assumpção Monteiro (PUC/SP - São Paulo/SP)
Barbara M. Arisi (UNILA – Foz do Iguaçu/PR)
Benedicto Anselmo Domingos Vitoriano (Anhanguera – Osasco/SP)
Carmen Sylvia de Alvarenga Junqueira (PUC/SP – São Paulo/SP)
Claudio Carlan (UNIFAL – Alfenas/MG)
Denia Roman Solano (Universidade da Costa Rica - Costa Rica)
Débora Cristina Goulart (UNIFESP – Guarulhos/SP)
Diana Sandra Tamburini (UNR – Rosário/Santa Fé – Argentina) 
Edgard de Assis Carvalho (PUC/SP – São Paulo/SP)
Estevão Rafael Fernandes (UNIR – Porto Velho/RO)
Evandro Luiz Guedin (UFAM – Itaquatiara/AM)
Fábia Barbosa Ribeiro (UNILAB – São Francisco do Conde/BA)
Fabiano de Souza Gontijo (UFPA – Belém/PA)
Gilson Rambelli (UFS – São Cristóvão/SE)
Graziele Acçolini (UFGD – Dourados/MS)
Iraíldes Caldas Torres (UFAM – Manaus/AM)
José Geraldo Costa Grillo (UNIFESP – Guarulhos/SP)
Juan Álvaro Echeverri Restrepo (UNAL – Letícia/Amazonas – Colômbia) 
Júlio Cesar Machado de Paula (UFF – Niterói/RJ)
Karel Henricus Langermans (Anhanguera – Campo Limpo - São Paulo/SP)
Kelly Ludkiewicz Alves (UFBA – Salvador/BA)
Leandro Colling (UFBA – Salvador/BA)
Lilian Marta Grisólio (UFG – Catalão/GO)
Lucia Helena Vitalli Rangel (PUC/SP – São Paulo/SP)
Luciane Soares da Silva (UENF – Campos de Goitacazes/RJ)
Mabel M. Fernández (UNLPam – Santa Rosa/La Pampa – Argentina)
Marilene Corrêa da Silva Freitas (UFAM – Manaus/AM)
María Teresa Boschín (UNLu – Luján/Buenos Aires – Argentina) 
Marlon Borges Pestana (FURG – Universidade Federal do Rio Grande/RS)
Michel Justamand (UFAM – Benjamin Constant/AM)
Miguel Angelo Silva de Melo - (UPE - Recife/PE)
Odenei de Souza Ribeiro (UFAM – Manaus/AM)
Patricia Sposito Mechi (UNILA – Foz do Iguaçu/PR)
Paulo Alves Junior (FMU – São Paulo/SP)
Raquel dos Santos Funari (UNICAMP – Campinas/SP)
Renata Senna Garrafoni (UFPR – Curitiba/PR)
Renilda Aparecida Costa (UFAM – Manaus/AM) 
Rita de Cassia Andrade Martins (UFG – Jataí/GO)
Sebastião Rocha de Sousa (UEA – Tabatinga/AM)
Thereza Cristina Cardoso Menezes (UFRRJ – Rio de Janeiro/RJ)
Vanderlei Elias Neri (UNICSUL – São Paulo/SP)
Vera Lúcia Vieira (PUC – São Paulo/SP)
Wanderson Fabio Melo (UFF – Rio das Ostras/RJ)
- 5 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Roberta Ferreira Coelho de Andrade
Hamida Assunção Pinheiro
Lidiany de Lima Cavalcante
Marinez Gil Nogueira Cunha 
organizadoras
SERVIÇO SOCIAL, 
TRABALHO E 
SUSTENTABILIDADE
Embu das Artes
2019
- 6 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
PARECERISTAS DA COLETÂNEA
Cristiane Bonfim Fernandez (UFAM)
Débora Cristina Bandeira Rodrigues (UFAM)
Iraildes Caldas Torres (UFAM)
João Bosco Ladislau de Andrade (UFAM)
Kátia de Araújo Lima Vallina (UFAM)
Lucilene Ferreira de Melo (UFAM)
Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves (UFAM)
Maria Magela Mafra de Andrade Ranciaro (UFAM)
Rosemeire dos Santos (UFT)
Sandra Helena da Silva (UFAM)
Simone Eneida Baçal de Oliveira (UFAM)
Vera Lúcia Batista Gomes (UFPA)
Diretor e Editor - Karel Langermans
Revisão técnica - Michel Justamand
Capa e Editoração Eletrônica - Alexa Cultural
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
A553 - ANDRADE, Roberta Ferreira Coelho de 
C376 - CAVALCANTE, Lidiany de Lima
C972 - CUNHA, Marinez Gil Nogueira
P654 - PINHEIRO, Hamida Assunção
Serviço Social, trabalho e sustentabilidade, Hamida Assunção Pinheiro, 
Lidiany de Lima Cavalcante, Marinez Gil Nogueira Cunha e Roberta 
Ferreira Coelho de Andrade, Alexa Cultural: São Paulo / Edua: Manaus, 
2019
14x21cm - 240 páginas
ISBN - 978-85-5467-143-3 
1. Serviço Social, 2. Artigos,3. Trabalho, 4. Sustentabilidade, 5. Ensino 
a distância, I-Título, II-Sumário, III-Bibliografia 
 ‘ 
 CDD - 300
Índices para catálogo sistemático:
1. Serviço Social
2. Trabalho
3. Sustentabilidade 
Alexa Cultural Ltda 
Rua Henrique Franchini, 256
Embú das Artes/SP - CEP: 06844-140
alexa@alexacultural.com.br
alexacultural@terra.com.br
www.alexacultural.com.br
www.alexaloja.com
Editora da Universidade Federal do Amazonas
Avenida Gal. Rodrigo Otávio Jordão Ramos, 
n. 6200 - Coroado I, Manaus/AM
Campus Universitário Senador Arthur Virgilio 
Filho, Centro de Convivência – Setor Norte
Fone: (92) 3305-4291 e 3305-4290
E-mail: ufam.editora@gmail.com
- 7 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
PREFÁCIO
Serviço Social, Trabalho e Sustentabilidade no Brasil e, em 
particular, na Amazônia brasileira se constituem o universo temá-
tico desta coletânea organizada pelas professoras doutoras Roberta 
Ferreira Coelho de Andrade, Hamida Assunção Pinheiro, Lidiany 
de Lima Cavalcante e Marinez Gil Nogueira Cunha, vinculadas à 
Universidade Federal do Amazonas (UFAM), cujos artigos que a 
compõem, em geral, estão ancorados em resultados de pesquisas 
empíricas que evidenciam as precárias condições de trabalho e de 
formação profissional em Serviço Social, a degradação ambiental, a 
precarização das políticas sociais em face aos desmedidos desmon-
tes dos direitos sociais. 
Trata-se, então, de um qualificado acervo de dados empíricos 
que aportam profundas reflexões e análises que colocam em evi-
dência as expressões da questão social determinadas, historicamen-
te, pelo movimento contraditório estabelecido pela relação capital 
x trabalho. Assim, os referidos artigos aportam atenção especial à 
formação econômica, política e social do Brasil e da Amazônia, 
guardando, entre si, a dimensão da totalidade social, na medida em 
que os autores não se furtaram a realizar a análise teórico-reflexiva 
dos objetos de estudos na atual crise estrutural do capital, tarefa esta 
imperiosa, para desvendar as transformações societárias provoca-
das pela crise do capital agravada a partir de 2008, com a sua neces-
sidade intrínseca de valorização, desta vez, via o capital financeiro, 
em nível mundial, com graves consequências para as sociedades, 
em particular, a brasileira que afetam todas as esferas da vida social, 
sobretudo, daqueles que vivem da venda da sua força de trabalho, 
assim como, daqueles que nem conseguem vendê-la!
Configuram-se, com efeito, novos desafios em faces das 
novas formas de trabalho caracterizadas por “velhas” e “novas” 
formas de precarização do trabalho e, consequentemente, da vida 
social, expressas pelas intensivas jornadas de trabalho, baixos sa-
lários, crescimento do trabalho informal, uberizado, pejotizado, 
- 8 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
contratação por projetos, fragmentaçãoe fragilidade da organiza-
ção política dos trabalhadores, perda da proteção social agravada 
pela aprovação das Leis: Terceirização, Nº 13.429, de 31 de março 
de 2017. e da “Contrarreforma” Trabalhista Nº 14.467/2017 que 
sob o discurso da modernização das relações de trabalho e da gera-
ção de emprego e renda se radicaliza o desmonte dos direitos con-
quistados com duras lutas da classe trabalhadora. 
Por esta razão, os artigos que compõem esta importante co-
letânea parecem cumprir com uma das mais importantes tarefas 
acadêmico-científica e política que é reservada a todos/as pesquisa-
dores/es, em geral e, em particular, os/as assistentes sociais compro-
metidos com outro projeto societário distanciado da sociabilidade 
competitiva do mercado, individualista permeada pelo pensamento 
conservador. Ou seja: desvendar, denunciar, resistir a todas as for-
mas de dominação e opressão que assolam por muitos anos a socie-
dade brasileira, sobretudo, nos últimos em que “convivemos coti-
dianamente com a despolitização da política, com o crescimento do 
ideário conservador, a criminalização dos movimentos sociais e de 
suas lideranças, a violência social e doméstica da qual são vítimas 
mulheres, crianças, adolescentes, idosos, a discriminação por ques-
tões de gênero e etnia, a moradia na rua ou em habitações precárias, 
a fome e a alimentação insuficiente e outras questões relativas à 
injustiça resultante da questão social brasileira” (IASBEK, 2006, 
p.23).
Diante deste quadro de barbárie da vida social, sem dúvida, 
os artigos constantes nesta coletânea ensejam o pensamento crítico 
do leitor, na medida em que, de maneira didática, de um lado pro-
vem o intercâmbio entre pesquisadores das regiões sul e sudeste, 
com um marco profundo sobre a Amazônia brasileira, tão cobiça in-
ternacionalmente, mas ainda desconhecida por muitos amazônidas. 
Assim, os referidos artigos alargam o debate sobre a temática da 
referida coletânea, fomentam o intercâmbio entre os pesquisadores, 
fortalecendo, ainda mais, os grupos de estudos e pesquisas, conver-
gindo, assim, para consolidação dos Programas de Pós-Graduação 
envolvidos na publicação da mesma. 
Além disso, esta coletânea contribui para dar visibilidade ao 
conhecimento produzido pelos pesquisadores das regiões acima 
mencionadas, o que de certo, impulsiona, potencializa a continuida-
- 9 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
de a tão necessária produção acadêmica, sobretudo, em tempos da 
atual crise brasileira que é, em essência, a do capital mundializado, 
bem como, de uma crise política e institucional que tem se efetiva-
do pelos comandos do capital neoliberal. Nesta esteira tem-se no 
governo brasileiro a forte participação dos militares no governo do 
presidente Bolsonaro com a adesão da extrema direita, o que tem 
conduzido a radicalização das privatizações, cortes de verbas para 
os gastos sociais (PEC 55/2019), dentre os quais, para a educação, 
a pesquisa científica, a saúde etc.
Assim, as análises dos dados empíricos e as discussões re-
alizadas pelos autores ensejam a compreensão da temática Servi-
ço Social, Trabalho e Sustentabilidade no Brasil e nos convidam 
a pensar sobre os desafios para pensar o mundo contemporâneo de 
maneira critica, emancipatória em conformidade com o que pre-
coniza o projeto ético-político do serviço social. Por tudo isso, é 
louvável a grandiosa inciativa das professoras organizadoras desta 
inédita publicação que aponta subsídios para os desafios à resistên-
cia e ao enfrentamento das contradições sociais que estão postas em 
nossos tempos, apesar das incertezas e do difícil contexto as par-
ticularidades do exercício profissional do/a assistente social, pois 
os “homens fazem a sua própria história (...) mas nas condições 
diretamente dadas e herdadas do passado” (MARX, 18 Brumário 
de Luís Bonaparte).
Profª Drª Vera Lúcia Batista Gomes
Programa de Pós-Graduação em Serviço Social
Universidade Federal do Pará
- 10 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
- 11 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
SUMÁRIO
PREFÁCIO
Profª Drª Vera Lúcia Batista Gomes
- 7 -
APRESENTAÇÃO
- 15 -
SEÇÃO I - FORMAÇÃO E TRABALHO
EM SERVIÇO SOCIAL
TRABALHO E FORMAÇÃO DO ASSISTENTE
SOCIAL: UM BINÔMIO INDISSOCIÁVEL
Jane Cruz Prates, Erica Bomfim Bordin e Rodrigo dos Santos Nunes
- 23 -
A INICIAÇÃO CIENTÍFICA NOS CURSOS DE
SERVIÇO SOCIAL: A CONTRIBUIÇÃO PARA A 
FORMAÇÃO PROFISSIONAL
Thaynara Reis do Nascimento Cruz e Roberta Ferreira Coelho de Andrade
- 41 -
FORMAÇÃO E TRABALHO DE ASSISTENTES SOCIAIS 
EM BELÉM (PA): DEBATENDO A COERÊNCIA COM AS 
DIRETRIZES CURRICULARES DA ABEPSS
Reinaldo Nobre Pontes, Cilene Sebastiana da Conceição Braga, Olga Maria 
Tabaranã Silva e Karina Kamille Marques Cezar
- 59 -
TRABALHO, FORMAÇÃO PROFISSIONAL E A PRÁXIS 
EDUCATIVA NO SERVIÇO SOCIAL
Eliane Marques de Menzes Amicucci e 
Cirlene Aparecida Hilário da Silva Oliveira
- 77 -
- 12 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
O COMPROMISSO ÉTICO COM O ENSINO DE 
GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL EM RORAIMA: O 
TRATO DAS ATRIBUIÇÕES PRIVATIVAS
Maria Gracileide Alberto Lopes e Roberta Ferreira Coelho de Andrade
- 95 -
SEÇÃO II TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE
IMPLICAÇÕES DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO 
PARA OS TRABALHADORES DA CONSTRUÇÃO CIVIL DO 
COMPLEXO PETROQUÍMICO DO RIO DE JANEIRO
(COMPERJ): UMA ANÁLISE DO CONTEXTO APÓS O
PROCESSO DE PARALIZAÇÃO DAS OBRAS E 
DEMISSÕES EM MASSA
Ana Caroline Gimenes Machado e Inez Terezinha Stampa
- 115 -
RELAÇÕES DE TRABALHO NA COMUNIDADE 
RIBEIRINHA SANTO EZEQUIEL MORENO EM PORTEL,
MARAJÓ-PA
Danielson Corrêa Leite e Solange Maria Gayoso da Costa
- 131 -
DELETÉRIOS EFEITOS DA CRISE ESTRUTURAL DO 
CAPITAL SOBRE O TRABALHO
Lígia da Nóbrega Fernandes e Cirlene A. Hilário da S. Oliveira
- 151 -
SEÇÃO III: SUSTENTABILIDADE E POLÍTICAS 
PÚBLICAS
QUESTÃO AMBIENTAL E HABITACIONAL:
PARTICULARIDADES DOS ASSENTAMENTOS PRECÁRIOS 
NA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM – PA
Joana Valente Santana, Rovaine Ribeiro e Anna Carolina Gomes Holanda
- 167 -
- 13 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
SUSTENTABILIDADE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO 
PROSAMIM-AM
Barbara Gabriella Oliveira Chaves e Débora Cristina Bandeira Rodrigues
- 187 -
O MUNICÍPIO DE MESQUITA E A POLÍTICA NACIONAL 
DE RESÍDUOS SÓLIDOS - LEI 12.305/2010: AVANÇOS E 
RETROCESSOS DO PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL 
DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS
Aline Alves Silva e Valéria Pereira Bastos
- 201 -
POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO SOB O PRISMA DA 
SUSTENTABILIDADE: ESTUDO NOS MARCOS DE UMA 
ESCOLA RIBEIRINHA NA AMAZÔNIA
Jéssica Daiane de Lemos Rodrigues e 
Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves
- 221 -
- 14 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
- 15 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
APRESENTAÇÃO
O Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Sustenta-
bilidade na Amazônia (PPGSS) foi criado no ano de 2007 vincula-
do ao Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), 
antigo Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), da Universi-
dade Federal do Amazonas (UFAM). O mestrado desenvolvido no 
PPGSS é de natureza acadêmica, e tem fomentado a produção de 
conhecimento científico sobre a questão social na Amazônia, o que 
exige pensar a realidade local sem perder a visão de totalidade da 
realidade social, no âmbito de uma discussão crítica sobre a susten-
tabilidade socioambiental.
A área de concentração do PPGSS abrange o Serviço Social, 
as Políticas Públicas, e a discussão sobre Trabalho e Sustentabilida-
de na Amazônia, visando o conhecimento das múltiplas expressões 
da questão social na Amazônia. Assim, a Sustentabilidade Socio-
ambiental é uma temática transversal na proposta do programa, por 
isso, o mesmo é intitulado “Serviço Social e Sustentabilidade na 
Amazônia”.
A noção de sustentabilidade socioambiental da qual parte a 
proposta deste programa é pautada na matriz discursiva contra-he-
gemônica da noção de “desenvolvimento sustentável”(instrumen-
tal à perspectiva política neoliberal da globalização). Essa matriz 
discursiva, contra-hegemônica, está fundamentada no pensamento 
ambiental latino-americano, que defende cinco dimensões da sus-
tentabilidade, que são: social, econômica, ecológica, espacial/geo-
gráfica e cultural.
Essa concepção crítica sobre sustentabilidade socioambien-
tal tem seu suporte na matriz discursiva da equidade, em que se 
articulam princípios de ecologia e de justiça social, o que exige re-
distribuição mais equânime das riquezas da sociedade, levando em 
conta os princípios ecológicos de limites do potencial de produção 
dos ecossistemas, para garantir a sobrevivência das futuras gera-
ções, o que se contrapõe ao modelo de desenvolvimento capitalista 
autofágico.
- 16 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A racionalidade ambiental implícita na noção de sustentabili-
dade socioambiental traz à discussão a necessidade de o Estado pro-
mover uma gestão social efetiva, voltada para o enfrentamento dos 
problemas públicos sociais e ambientais, o que exige a promoção de 
inovação na formulação de políticas públicas e arranjos institucio-
nais, visando um desenvolvimento que seja realmente sustentável.
É no quadro contextual da realidade amazônica do Estado 
do Amazonas que se inscreve a proposta pedagógica do PPGSS. A 
criação deste Programa é decorrente do necessário investimento na 
formação de recursos humanos com competência técnica e científi-
ca para propor e implementar políticas públicas que sejam coeren-
tes com o contexto regional, sem desconsiderar o âmbito nacional 
e internacional.
É indubitável que muitos são os desafios para o desenvol-
vimento socioeconômico, tecnológico e sustentável do estado do 
Amazonas, diante de um quadro multifacetado de expressões da 
questão social materializadas em diferentes questões socioambien-
tais, desde questões ambientais decorrentes do modo como o capital 
se apropria da natureza, como os conflitos no uso das terras agríco-
las e solo urbano, como aquelas diretamente decorrentes da forma 
de apropriação da força de trabalho, cujas manifestações mais visí-
veis estão no desemprego, trabalho informal, precarização e diver-
sas formas de insegurança no trabalho, que têm como derivações 
outras expressões no âmbito da sociabilidade, tais como a violência 
urbana, doméstica, abuso e exploração de crianças e adolescentes, e 
várias formas de desrespeito aos Direitos Humanos.
Assim, mesmo nos mais tradicionais espaços sócio-ocupa-
cionais do assistente social, como saúde e assistência social, dentre 
outros, é necessário na Amazônia desvelar as especificidades regio-
nais das necessidades sociais para subsidiar o fomento de políticas 
públicas e uma gestão social que realmente tenha condições de pro-
mover a sustentabilidade do desenvolvimento da região.
Por essa razão, essa coletânea está composta por capítulos 
que estão distribuídos em 3 eixos temáticos, que tratam questões 
sobre o Serviço Social, o Trabalho e a Sustentabilidade. Portan-
to, é um produto da necessidade de apresentar as reflexões que re-
sultaram de pesquisas locais (de docentes e egressos do PPGSS), 
- 17 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
com contribuições de pesquisadores nacionais que, em sua maioria, 
compõem a equipe do projeto intitulado “A Formação e o Trabalho 
Profissional do Assistente Social: aproximações e particularidades 
entre Amazônia e sul do Brasil”, desenvolvido pela Universidade 
Federal do Amazonas (UFAM) em parceria com a Universidade 
Federal do Pará (UFPA) e a Pontifícia Universidade Católica do 
Rio Grande do Sul (PUC/RS), no âmbito do Programa Nacional 
de Cooperação Acadêmica (PROCAD) na Amazônia – Edital nº 
21/2018.
 A Seção I, intitulada Formação e Trabalho em Serviço So-
cial, composta por 5 capítulos, traz discussões importantes sobre o 
processo de formação profissional e sua necessária relação com o 
trabalho profissional, a iniciação científica como relevante espaço 
formativo e o trato das atribuições privativas.
 O capítulo Trabalho e formação do assistente social: um 
binômio indissociável, de Jane Cruz Prates, Erica Bomfim Bordin e 
Rodrigo dos Santos Nunes, nos evidencia a relação intrínseca entre 
formação e trabalho profissional, o que pressupõe um arcabouço 
crítico e reflexivo que conduza à construção de estratégias profis-
sionais que favoreçam a ampliação dos direitos sociais.
 A iniciação científica nos cursos de Serviço Social: a con-
tribuição para a formação profissional, de Thaynara Reis do Nasci-
mento Cruz e Roberta Ferreira Coelho de Andrade, reflete, a partir 
dos cursos de Serviço Social na cidade de Manaus, acerca da ini-
ciação científica na formação profissional, a qual tem o potencial de 
suscitar o espírito científico e contribuir para o desenvolvimento da 
dimensão investigativa, tão necessária ao trabalho profissional do 
assistente social.
 O capítulo Formação e trabalho de assistentes sociais em 
Belém (PA): debatendo a coerência com as diretrizes curriculares 
da ABEPSS, de autoria de Reinaldo Nobre Pontes, Cilene Sebastia-
na da Conceição Braga, Olga Maria Tabaranã Silva e Karina Ka-
mille Marques Cezar, nos traz uma discussão interessante a partir 
de uma pesquisa desenvolvida junto a assistentes sociais de Belém 
– Pará. Nela são postas em contraste as novas diretrizes curricula-
res e as leituras dos sujeitos sobre o seu processo de formação e as 
inflexões sobre o trabalho profissional.
- 18 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
 Eliane Marques de Menezes Amicucci e Cirlene Aparecida 
Hilário da Silva Oliveira no capítulo Trabalho, formação profissio-
nal e a práxis educativa no Serviço Social, também nos conduzem 
ao debate sobre a relação dialética entre formação e trabalho pro-
fissional, ressaltando a necessidade de que as atividades educativas 
sejam orientadas pela ótica da práxis, de modo a articular a leitura 
da realidade, a intervenção profissional e o compromisso com os 
princípios e valores inscritos no projeto ético-político profissional.
O capítulo O compromisso ético com o ensino de graduação 
em Serviço Social em Roraima: o trato das atribuições privativas, 
escrito por Maria Gracileide Alberto Lopes e Roberta Ferreira Co-
elho de Andrade, nos propõe a problematização sobre o trato das 
atribuições privativas na formação em Serviço Social em nível de 
graduação, de modo a capacitar os futuros profissionais quanto às 
reais atribuições do assistente social para que possam atuar nos di-
ferentes espaços sócio-ocupacionais, dentre os quais a docência.
A Seção II, designada Trabalho na contemporaneidade, 
aporta a discussão sobre o mundo do trabalho, diante do atual ce-
nário de crise estrutural do capital, de ordem brasileira e mundial. 
As contribuições científicas apresentam o limiar de agudização da 
reestruturação produtiva para o universo de trabalhadores urbanos e 
rurais, o que fomenta efeitos sem precedentes com rebatimentos em 
todas as esferas da vida social.
Ana Caroline Gomenes Machado e Inez Terezinha Stam-
pa nos brindam com o capítulo intitulado: Implicações da Preca-
rização do Trabaho para os Trabalhadores da Construção Civil 
do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ): uma 
análise do contexto após o processo de paralização das obras e 
demissões em massa. O capítulo apresenta, de forma crítica, as con-
dições de trabalho na construção civil e as demissões em massa, 
que aumentam o “fantasma” do desemprego e alavancam o exército 
de reserva. Ressaltam ainda a importância da respectiva discussão 
para o Serviço Social brasileiro, em face às particularidades da crise 
política e econômica que assola o país.
Danielson Corrêa Leite e Solange Maria Gayoso da Costa 
apresentam o capítulo denominado: Relações de Trabalho na Co-
munidade Ribeirinha Santo Ezequiel Moreno em Portel-Marajó-
- 19 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
-PA. Os autores evidenciam as problemáticas das relações de tra-
balho na Amazônia, com recorteespecífico em uma comunidade 
rural. Abordam como a ocupação e exploração predatórias assolam 
a região e apontam a contradição existente entre os modos de vida 
tradicionais e a lógica da exploração, frente aos ditames da ordem 
mundial do capital.
Lígia da Nóbrega Fernandes e Cirlene Aparecida Hilário da 
Silva Oliveira apresentam o capítulo intitulado: Deletérios Efeitos 
da Crise Estrutural do Capital sobre o Trabalho. A reflexão teórica 
debate a crise cíclica do capital e as consequências sobre o trabalho 
assalariado, por meio da precarização, apassivamento, subordina-
ção e expropriação de direitos. Assevera ainda como a reestrutu-
ração produtiva se caracteriza como mecanismo estratégico para 
a produção e reprodução do capital, fomentando o desemprego e, 
consequentemente, o crescimento do exército de reserva, agravados 
pela condição de subordinação e dependência econômico-financei-
ra do Brasil aos ditames do capital. 
A Seção III é dedicada à discussão sobre Sustentabilidade 
e Políticas Públicas, sendo composta por textos que convidam o 
leitor à aproximação com temáticas inovadoras, criativas e que, so-
bretudo na última década, têm ganhado mais espaço entre os assis-
tentes sociais. São 4 capítulos que trazem à tona a questão habita-
cional, a educação ambiental, o cotidiano dos catadores de resíduos 
sólidos e algumas nuances da política de educação na Amazônia. 
 Joana Valente Santana, Rovaine Ribeiro e Anna Carolina 
Gomes Holanda apresentam o capítulo intitulado: Questão ambien-
tal e habitacional: particularidades dos assentamentos precários 
na Região Metropolitana de Belém – PA, nele são tratadas algumas 
das especificidades dos problemas habitacionais na região amazô-
nica. As autoras trazem uma riquíssima discussão acerca da relação 
entre os aspectos sociais e os urbano-espaciais, evidenciando que o 
planejamento habitacional no Brasil é feito de forma homogênea, o 
que, por sua vez, tem trazido graves prejuízos para o homem (em 
sentido genérico) e para a natureza. 
 Barbara Gabriella Oliveira Chaves e Débora Cristina Ban-
deira Rodrigues expõem no capítulo Sustentabilidade e educação 
ambiental no Prosamim-Am a importância da educação ambiental 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
como elemento propulsor para a efetiva mudança de ações cotidia-
nas, tomando como referência as condições de vida de beneficiários 
de um programa habitacional em Manaus. 
 Aline Alves Silva e Valéria Pereira Bastos nos presenteiam 
com o capítulo O município de Mesquita e a Política Nacional de 
Resíduos sólidos – Lei 12.305/2010: avanços e retrocessos do pro-
cesso de inclusão social dos catadores de materiais recicláveis. 
Este texto revela o protagonismo do município de Mesquita (RJ) no 
que diz respeito às ações de reciclagem para resíduos sólidos, sem 
deixar de destacar os avanços e os limites desse processo. Além dis-
so, mostra as teias rumo à inclusão social dos catadores de resíduos 
sólidos e seus inúmeros desafios. 
Jéssica Daiane de Lemos Rodrigues e Maria do Perpétuo So-
corro Rodrigues Chaves contribuem com o capítulo Políticas pú-
blicas de educação sob o prisma da sustentabilidade: estudo nos 
marcos de uma escola ribeirinha na Amazônia. Nele tratam, a partir 
da realidade amazônica em uma comunidade ribeirinha, os gargalos 
e as contradições da política educacional brasileira. As autoras aler-
tam para a necessidade de se questionar a forma pela qual a política 
de educação vem sendo implementada nos espaços da realidade ru-
ral, na grande maioria das vezes, sem considerar suas especificida-
des socioculturais.
É nesse sentido que convidamos o/a leitor/a a mergulhar 
conosco na produção de conhecimento resultante de programas de 
pós-graduação em Serviço Social de instituições de ensino do Ama-
zonas, Pará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo.
Hamida Assunção Pinheiro
Roberta Ferreira Coelho de Andrade
Marinez Gil Nogueira Cunha
Lidiany de Lima Cavalcante
Organizadoras
Comissão de Coordenação do PPGSS 
Gestão 2019-2021
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
SEÇÃO I
FORMAÇÃO E TRABALHO 
EM SERVIÇO SOCIAL
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
TRABALHO E FORMAÇÃO DO ASSISTENTE 
SOCIAL: UM BINÔMIO INDISSOCIÁVEL
Jane Cruz Prates1, 
Erica Bomfim Bordin2
Rodrigo dos Santos Nunes3
1. Introdução
Iniciam-se as reflexões sobre trabalho e formação com um 
trecho de Berman (1986) escrito nos anos 80, do século XX, mas 
que continua extremamente atual, para quem, ser moderno 
(...) é experimentar a existência pessoal e social como um tor-
velinho, ver o mundo e a si próprio em perpétua desintegração 
e renovação, agitação e angústia, ambigüidade e contradição: é 
ser parte de um universo em que tudo o que é sólido desmancha 
no ar (p. 347). 
A seguir, afirma-se o reconhecimento quanto à impossibili-
dade de dicotomizar trabalho e formação profissional do assistente 
social, afinal forma-se para o trabalho, e o modo como ele é ma-
terializado no exercício profissional precisa sistematicamente ser 
objeto de reflexão da academia para que, à luz de pesquisas e produ-
ções simbólicas da área e das áreas com as quais a profissão dialo-
ga, possam subsidiar a produção de conhecimentos realimentando 
a formação para dar conta dos novos desafios demandados pela so-
ciedade a essa área do conhecimento e especialização do trabalho. 
Não é por outra razão que as diretrizes da Associação Brasileira de 
Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) dizem respeito à 
1 Assistente social, mestre e doutora em Serviço Social, pela PUCRS e Pós-doutora em Serviço Social 
pela PUC-SP; Coordenadora e professora do PPGSS PUCRS, Coordenadora do Núcleo de Estudos em 
Políticas e Economia Social (NEPES) e líder do Grupo de Estudos sobre Teoria Marxiana, Ensino e Polí-
ticas Públicas (GTEMPP), pesquisadora produtividade do CNPq e editora da Revista Textos & Contextos 
Porto Agre. E-mail: jprates@pucrs.br 
2 Assistente social, mestre e doutora em Serviço Social, pela PUCRS e realiza Pós-doutorado no PPGSS 
PUCRS como bolsista PNPD, pesquisadora do Núcleo de Estudos em Políticas e Economia Social (NE-
PES) e do Grupo de Estudos sobre Teoria Marxiana, Ensino e Políticas Públicas (GTEMPP). E-mail: 
ebordin@pucrs.br / ericabomfimbordin@gmail.com
3 Assistente social, mestre e doutor em Serviço Social, pela PUCRS e realiza Pós-doutorado no PPGSS 
PUCRS como bolsista PNPD, pesquisador do Núcleo de Estudos em Políticas e Economia Social (NE-
PES) e do Grupo de Estudos sobre Teoria Marxiana, Ensino e Políticas Públicas (GTEMPP). E-mail: 
rodrigo.nunes@pucrs.br / rodrigo.s.nunes@hotmail.com
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
formação e ao trabalho profissional.
 Afirma-se, do mesmo modo, o reconhecimento do trabalho 
como constituinte do ser social, destacando seu aspecto ontológi-
co. Para Marx, o trabalho no seu sentido ampliado é toda a forma 
de produção e expressão humana, o homem não só trabalha para 
transformar a natureza e atender suas necessidades do estômago e 
da fantasia, mas desenvolve seu processo de humanização a partir 
do trabalho, transforma e se transforma ao produzir. E exatamente 
em razão da potencialidade dessa categoria, por ser ela a chama que 
movimenta o processo de produção criando valor, o capitalismo 
dela se apropria alienando o sujeito que produz de diversas formas 
e em diversos níveis. 
Para Marx, “a objetivação da essência humana, tanto do pon-
to de vista teórico como prático, é necessária para humanizar os 
sentidos do homem e criar a sensibilidade humana correspondente 
a toda a riqueza do ser humano e natural” (MARX, 1993, p. 200). 
Ao não conseguir objetivar-se, ver-se naquilo que realiza, em ra-
zão da alienação o homem não só não desenvolve potencialidades 
racionais, como restringe o desenvolvimento de sua sensibilidade, 
ou seja do homem como ser integral. Marx inicia esse debate nos 
Manuscritos Econômicos e Filosóficose o retoma na obra o Capital.
Na sua obra de maturidade, Marx (1989) explicita os níveis 
de alienação e estranhamento do homem que trabalha no modo de 
produção capitalista, em relação ao produto do trabalho, uma vez 
que nem sempre pode dele usufruir para o atendimento de suas ne-
cessidades, e não raras vezes não se reconhece naquilo que produ-
ziu; em relação ao processo de produção, na medida em que não 
escolhe o que produzir, nem como produzir; na relação consigo 
mesmo, considerando que o trabalho restringe-se a fardo, desgaste e 
adoecimento e por fim em relação aos demais produtores, conside-
rando que ao invés de cooperar com seus pares, com eles estabelece 
uma relação de competição.
Portanto, no modo de produção capitalista os processos que 
constituem a cadeia produtiva são capturados por aqueles que de-
têm os meios de produção de modo que a riqueza socialmente pro-
duzida seja centralizada nas suas mãos, restando ao trabalhador o 
estranhamento, a penúria, a pobreza e o adoecimento. 
O contexto atual marcado pelo desmonte, o descarte e o espe-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
táculo reflete as refrações de uma construção social que, a partir de 
bases econômicas, cria a cultura ideológica do consumo e subverte 
todos os valores humanos para valorizar aparências, individualis-
mo, fragmentos, episódios. 
Este contexto empobrecido e egoísta, que mercantiliza sujei-
tos e relações, acaba por frustrar as expectativas singulares e cole-
tivas instigando a violência, a competição desmedida, a despreocu-
pação com o outro, o descompromisso, a conformação com “não 
lugares” para os pobres, os negros, os indígenas, a naturalização da 
desigualdade, políticas reducionistas e focais.
A fragmentação sem consistência e o individualismo que 
dela decorre, provocam a perda de referências e sentidos, facilitan-
do o que Giovanni Alves (2011) chama de captura da subjetividade 
do trabalhador. Diz o autor que a nova produção do capital busca 
capturar não apenas o fazer e o saber dos trabalhadores, “mas a sua 
disposição intelectual-afetiva construída para cooperar com a lógi-
ca da valorização” (p. 111) ou seja, uma lógica cada vez mais sutil 
e manipulatória.
Nessa direção, vivencia-se o acirramento da lógica liberal as-
sociada ao fundamentalismo, o desmonte da Universidade pública, 
a ameaça de perder-se a autonomia da universidade e a liberdade 
de expressão do pensamento crítico. Nesse momento sombrio de 
avanço mundial do conservadorismo e do retrocesso, no âmbito do 
reconhecimento e da garantia de direitos, em nível mundial, o Bra-
sil se mostra como um dos pilares do retrocesso, negando avanços 
históricos conquistados pela sociedade, porém ainda inconclusos, 
fruto de uma, ainda jovem, democracia, ao negar os espaços de 
participação da sociedade, historicamente interditados por longos 
períodos de ditadura, colonialismo e escravismo, ao criminalizar 
movimentos sociais e lideranças indígenas, defensores do meio am-
biente, sindicais, do movimento estudantil, entre outras. 
Sem dúvida, num contexto adverso como esse, o desafio de 
formar profissionais críticos é ainda mais difícil, porém mais neces-
sário do que nunca.
Afinal o imperialismo simbólico, conforme Bourdieu (2001, 
n.p.) “sob uma capa de modernização neoliberal busca reconstituir 
o mundo, fazendo tábula rasa das conquistas sociais e econômicas 
dos últimos cem anos, descritas a partir dos novos tempos como 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
arcaísmos e obstáculos a nova ordem nascente”. 
2. A necessária formação crítica
Uma formação substantiva de profissionais requer o desen-
volvimento de processos que ultrapassem a lógica do mercado de 
trabalho, sem deixar de contemplar suas exigências. Para além da 
empregabilidade, a formação de nível superior precisa instigar o 
desenvolvimento de competências que, criticando os limites do ins-
tituído, possa contribuir para o aprimoramento de alguns processos 
e para a transformação de outros, em tempos onde o torvelinho co-
tidiano, destacado por Berman (1986), continua a requisitar de do-
centes e discentes a capacidade de trabalhar com muitas incertezas.
Formar profissionais que não se contentem com o aparente, 
que não naturalizem as desigualdades, que não fragmentem a rea-
lidade limitando seu sentido, que estejam atentos aos processos de 
alienação que capturam a subjetividade do trabalhador, e tenham 
capacidade critica e autocrítica, postura ética e compromisso com a 
sociedade do seu tempo, é o mínimo que se espera da Universidade. 
Uma praxis fragmentária não consegue interpretar as leis e a 
estrutura dos fenômenos, portanto não chega ao seu “núcleo inter-
no essencial” e ao seu conceito correspondente. Kosik (1989, p.11) 
chama “mundo da pseudo-concreticidade” ao complexo de fenôme-
nos que constituem o ambiente cotidiano da vida humana que, com 
sua “regularidade, imediatismo e evidência”, assumem um aspecto 
natural e independente ao penetrarem na consciência dos sujeitos. 
A dialética é o pensamento crítico, que se propõe a superar a pseu-
do-concreticidade para atingir a concreticidade. Trata-se de um pro-
cesso, “...no curso do qual, sob o mundo da aparência, se desvenda 
o mundo real; por trás da aparência externa...a lei do fenômeno, por 
trás do movimento visível, o movimento real, interno; por trás do 
fenômeno a essência”. (KOSIK, 1989, p.16).
Como professores que formam profissionais somos desafia-
dos a enfrentar as exigências de um mercado de trabalho competi-
tivo que demanda um trabalhador polivalente, pronto para reprodu-
zir, normas e procedimentos, sem questioná-los. Recebemos alunos 
trabalhadores em condições cada vez mais precárias, assumindo 
muitas atividades ao mesmo tempo, com formações anteriores pou-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
co sedimentadas, mas por outro lado é preciso que se reconheça 
que, nos últimos anos, os filhos de trabalhadores tiveram maiores 
possibilidades de acesso à Universidade, inserção que no atual go-
verno brasileiro vem sendo ameaçada.
No caso do Serviço Social, somos requisitados, a partir de 
um projeto profissional construído coletivamente, a formar profis-
sionais críticos que auxiliem na redução de processos subalterni-
zadores e contribuam para a potencialização de processos sociais 
emancipatórios no caminho de uma efetiva transformação social. 
Entendemos como processos sociais subalternizadores as dife-
rentes formas de exploração, subjugação, violência, manipulação, 
dominação, entre outras, que violam direitos e destituem iniciati-
vas, desmoralizam e agridem, de forma velada ou explícita, sujei-
tos e grupos expondo-os à condição de dependência, passividade, 
desmoralização. Já por processos sociais emancipatórios, aqueles 
que conformam o processo pedagógico de participação e incluem 
iniciativas como a mobilização, organização, conscientização, ca-
pacitação e gestão autônoma da vida e de processos que os sujeitos 
constroem e se inserem, mesmo que limitadas pelos contextos his-
tórico-culturais e condições de vida. (PRATES, 2017).
Marx aborda a emancipação humana na obra A questão Ju-
daica. Num debate profundo com Bauer sobre emancipação política 
afirma:
A emancipação política representa, sem dúvida, um grande 
progresso. Não constitui porém, a forma final de emancipa-
ção humana, antes é a emancipação humana dentro da ordem 
mundana até agora existente” porque se pauta não na “essência 
da comunidade”, mas na “essência da diferenciação”. É agora 
apenas a confissão abstrata da loucura individual, da fantasia 
privada, do capricho.” Nem vale a pena dizer que estamos aqui 
a falar da emancipação real, prática (MARX, s/d, p. 15) 
 
E complementa Marx destacando que a revolução política 
ou burguesa aboliu apenas o caráter político da sociedade civil, es-
clarecendo que “(...) o homem não se libertou da religião, recebeu 
a liberdade religiosa. Não se libertou da propriedade, recebeu a li-
berdade da propriedade,não foi libertado do egoísmo do comércio, 
recebeu a liberdade para se empenhar no comércio” (Idem, p. 28).
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Não há dúvidas que, nos marcos do modo de produção ca-
pitalista, não há como se falar em emancipação humana, embora 
muitas políticas e programas apresentem entre seus objetivos o de 
“emancipação dos sujeitos”, há no máximo a possibilidade de con-
tribuirmos com a emancipação política, mas fundamentados nas 
contribuições de Marx, é possível sim provocarmos o que o pensa-
dor alemão chamou de “pequenas convulsões revolucionárias” que, 
embora não desestabilizem a ordem econômica na sua totalidade, 
provocam pequenas rupturas. O assistente social media seu trabalho 
por meio das políticas e programas sociais, logo tem muito a contri-
buir para explicar sua estrutura e dinâmica.
Mas é sempre bom reiterar que Marx e Engels (1993), na 
Ideologia Alemã, chamam a atenção para o fato de que é preciso 
condições materiais para que os sujeitos tenham as condições de 
desenvolver consciência e não o inverso.
Porém, o desenvolvimento de processos sociais emancipató-
rios é possível, afinal é sempre importante reafirmar que nosso Pro-
jeto Ético Político tem na emancipação humana seu inédito viável, 
para usar uma expressão de Paulo Freire (2005). 
É sem dúvida um imenso desafio, em tempos tão obscuros 
de desmonte de direitos, de regressão de espaços democráticos e 
interdição da liberdade de pensamento, formar profissionais que 
tenham postura investigativa, clareza de finalidade naquilo que re-
alizam, que contribuam para desocultar os fetiches que conformam 
a relação capital e trabalho e para além das demandas do mercado, 
respondam às necessidades da sociedade no caminho de outro pata-
mar de sociabilidade. 
Mas, Marx (1993) já destacava nas Teses sobre Feuerbach 
que o educador também precisa ser educado. E nos Manuscritos de 
Paris (1993a) ressaltava que precisamos educar não só a razão, mas 
também os sentidos, pois com eles capturamos o mundo. O olho 
que não aprende a ver não enxerga ou tem uma visão limitada. 
 A linguagem que pode provocar a descoberta e instigar a li-
bertação, pode ser instrumento de dominação. Porém, diz Lefebvre 
(1966, p.52), a linguagem não suscita o que os homens têm a dizer. 
“Não possui este poder mágico, ou só possui temporariamente, de 
maneira precária”. E, continua ressaltando, que “o que os homens 
dizem vem da praxis” (trabalho, atos, lutas reais) ... “mas tudo que 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
eles fazem só entra na consciência passando pela linguagem”. E 
complementa referindo que: “As ideologias constituem mediações 
entre a praxis e a consciência (isto é, a linguagem). Mediação que 
pode também servir de anteparo, obstáculo e bloquear a consciên-
cia” (1966, p.56).
Ressaltando o caráter contraditório da linguagem, o autor 
afirma que para Marx, nem o pensamento, nem a língua formam es-
fera independente. Diz o autor (1966, p. 53): “Nesse tesouro ou de-
pósito confiado ao conjunto da sociedade que é a língua, caem e se 
acumulam ilusões e erros, verdades triviais e verdades profundas”.
Esse processo de dupla dimensão, que mostra a contradição, 
é claramente explicitado por Graciliano Ramos (2002), em Vidas 
Secas, quando o personagem Fabiano, ludibriado pela linguagem 
que não conseguia decodificar, se vê fascinado por ela. 
Diz o retirante nordestino, principal personagem da história:
(Fabiano) Ouvira falar em juros e em prazos. Isto lhe dera uma 
impressão bastante penosa: sempre que os homens sabidos 
lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-
-se escutando-as. Evidentemente só serviam para encobrir 
ladroeiras. Mas eram bonitas. As vezes decorava algumas e 
as empregava fora de propósito (RAMOS, 2002, p. 97)
 A sedução e o fascínio são elementos que tornam presas fá-
ceis sujeitos condicionados pelo processo de alienação. Marx des-
taca que os sentidos presos à grosseira necessidade têm apenas um 
sentido restrito. E por fim ressalta que todos os órgãos da individu-
alidade humana, e aqui inclui não só os sentidos – a visão, audição, 
olfato, mas também o amor e a vontade “são substituídos pela alie-
nação dos sentidos, pelo sentido do ter”. (MARX, 1993a, p. 197).
E ressalta ainda, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos 
(1993, p. 210-211),
Quanto menos cada um comer, beber, comprar livros, for ao 
teatro ou ao baile, ao bar, quanto menos pensar, amar, teorizar, 
cantar, pintar, poetar, etc. tanto mais poupará, tanto maior será 
o seu tesouro, que nem a traça, nem a ferrugem roerão, o seu 
capital. Quanto menos cada um for, quanto menos cada um 
expressar a sua vida, tanto mais terá, tanto mais será a sua vida 
alienada e maior será a poupança de sua vida alienada. 
- 30 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
 Portanto, formar profissionais críticos pressupõe não 
só instigar o desenvolvimento da razão, mas também o 
aguçamento da sensibilidade fundamental a captura do 
mundo e ao estabelecimento de relações sociais.
Capturamos o real através dos sentidos, para depois articulá-
-los e mediá-los pela razão constituindo o concreto pensado, logo, 
os sentidos humanos também precisam ser educados. Diz Marx 
(1993, p. 197):
O sentido musical do homem só é despertado pela música. A 
mais bela música nada significa para o ouvido completamente 
amusical, não constitui nenhum objeto, porque o meu objeto só 
pode ser a confirmação de uma das minhas faculdades. Portanto 
só pode existir para mim na medida em que a minha faculdade 
existe para ele como capacidade subjetiva, porque para mim o 
significado de um objeto só vai até onde chega o seu sentido. 
Nesse sentido para além da importante ampliação da cadeia 
de mediações que nos permite fazer a análise de contextos e da 
movimentação entre o particular e o universal, desocultando as con-
tradições, reconhecendo as múltiplas dimensões que conformam as 
desigualdades e as formas de resistência, porque não trabalhamos 
só com desigualdades, mas também com potencialidades e formas 
criativas empreendidas pelos usuários para enfrentá-las, temos de 
reinventar formas criativas para movimentar esses saberes median-
do-os a partir do uso de um instrumental técnico-operativo.
Contudo, o processo que antecede essa mediação operativa 
precisa estar instruído por fundamentos ético-políticos e teórico-
-metodológicos. 
Para Marx (1989), o instrumental é o conjunto de elementos 
que o trabalhador utiliza para efetivar o trabalho como energia físi-
ca e intelectual que é direcionada ao objeto do trabalho ou à matéria 
prima. A diferença, para Marx, é que o primeiro (o objeto) já sofreu 
a ação do trabalho e a segunda não. O instrumental, portanto, inclui 
instrumentos e técnicas, mas também outros elementos. O termo 
instrumental, cunhado por Marx, inclui saberes, estratégias análi-
ses e instrumentos de ordens diversas. Embora fundamental para o 
autor, podendo limitar ou até impedir o trabalho, não é o único ele-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
mento, mas sem ele a materialização do trabalho perde substância 
e potencialidade. 
A característica interventiva do Serviço Social é um dos ele-
mentos que o aproxima à teoria marxiana, porque a transformação, 
segundo o pensador alemão, não pode se efetivar apenas por obra 
do pensamento, embora este a informe, “a atividade revolucionária 
é prático-crítica”, diz o autor. (MARX, 1993).
 Portanto, ser executor terminal de políticas é uma atividade 
de extrema relevância, embora a profissão não possa ser restrita a 
esse âmbito de atuação, mas a execução terminal, se realizada com 
competência “prático critica”, para usar a expressão marxiana, é de 
suma importância para a sociedade, desde que não seja limitada a 
mera reprodução do já produzido. 
Para conhecer “modo de vida”, diz Martinelli (1994, p.13): 
“... temos que conhecer as pessoas... E onde o sujeito se revela? No 
discurso e na ação.” Conhecer o modo de vidado sujeito pressupõe 
o conhecimento de sua experiência social. 
A aproximação da população usuária, viabilizada pelo con-
tato direto do profissional, mediada por um conjunto de estratégias 
fundamentadas pela teoria crítica, pode instigar o desenvolvimen-
to de processos sociais emancipatórios, especialmente em tempos 
de ampliação do conservadorismo, quando a politização de nossas 
ações é ainda mais necessária. E ressalte-se, nesses espaços tam-
bém é fundamental o uso de processos como o planejamento, a ges-
tão e a postura investigativa, em que pese a relevância de ocupar-
mos também esses espaços como funções institucionais. 
Outro aspecto que merece destaque é que o trabalho alienado 
não se expressa só na execução terminal das políticas, mas também 
nos âmbitos do planejamento, da gestão, da docência, enfim em 
qualquer âmbito de realização do trabalho, logo a vigilância quanto 
à captura do trabalhador, a partir desses processos é fundamental. 
Em estudo realizado pelo Grupo de Estudos sobre Teoria 
Marxiana, Ensino e Políticas Públicas – GTEMPP, com apoio do 
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico 
– CNPq, em 2012, sobre a inserção de assistentes sociais no mer-
cado de trabalho na região metropolitana de Porto Alegre, a partir 
de análises documentais e da coleta direta junto a profissionais, via 
- 32 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
questionários on-line, entre outras informações, verificou-se que: as 
condições precárias de trabalho, incluindo uma média de 16h de tra-
balho invisível semanais, relações a condições de trabalho precárias 
geravam a insatisfação dos profissionais, mas como contraponto, 
o estudo explicitou o compromisso dos profissionais investigados 
com os valores da profissão e um amor pelo que fazem, apesar das 
condições precárias mencionadas. 
O estudo mostrou também que as demandas requisitadas di-
recionadas pelo mercado eram, na ocasião, conhecimentos de nor-
mas e procedimentos estabelecidos pelas políticas, elaboração de 
projetos e captação de recursos, além da elaboração de produtos 
como relatórios, laudos e pareceres. 
Ao falarem sobre os conhecimentos que, na sua avaliação, 
precisavam ser aprofundados para a realização de seu trabalho, os 
profissionais pesquisados destacaram o adensamento de conheci-
mentos sobre planejamento, a realização de diagnósticos (de territó-
rio, de vulnerabilidades, de cobertura, etc.) o trato com o orçamento 
público e o manejo mais adequado de instrumentos e técnicas, mas 
a articulação dessa mediação aos fundamentos ético-políticos e te-
órico-metodológicos apareceu em poucas expressões. (PRATES, 
2012).
Na verdade, os profissionais acabam por reproduzir as impo-
sições de um mercado que limita seu fazer a operações, mesmo que 
sejam operações complexas, situação essa que se intensifica pelo 
aguçamento da precarização do trabalho e do ensino.
Nessa direção parece importante retomar o necessário pro-
cesso de reelaboração do objeto, importante contribuição de Bap-
tista (2002), porque precisamos nos desafiar a constantemente deso-
cultar processos, ir além do aparente. Não reelaboramos no sentido 
de buscar um “novo objeto” ou de modificá-lo, mas de aprofun-
dá-lo, decodificá-lo, desocultá-lo, desfetichizá-lo, por sucessivas 
aproximações. Este é um processo de suma importância que precisa 
ser sistematicamente reiterado e trabalhado na formação graduada 
e permanente.
Além de uma formação que contemple o ensino da opera-
cionalização dos instrumentos, para além da necessária articulação 
com as teorias explicativas e avaliações de contextos, universais, 
regionais, locais, grupais e singulares que informam a escolha dos 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
instrumentos e técnicas mais adequadas é preciso problematizar os 
processos sociais que mobilizamos numa reunião, numa entrevista 
ou no uso da dramatização. Precisamos pensar em como mobilizar, 
como instigar reflexão no sentido de ampliar consciência, como ins-
tigar a organização interna, singular e coletiva. 
O debate sobre processos sociais emancipatórios é também 
fundamental para que não se reitere, mesmo movimentando os ins-
trumentos com habilidade, processos subalternizadores, enquadra-
dores, conformadores, violando direitos ao invés de buscar garan-
ti-los, ou seja, é preciso que tenhamos a clareza de que não basta, 
a profissionais comprometidos com processos transformadores, o 
adequado manejo de procedimentos e normas que nos exige o mer-
cado de trabalho.
Há sem dúvida uma resistência especialmente dos teóricos da 
profissão em relação à retomada do debate sobre o uso de instrumen-
tos e técnicas, temerosos de que este processo realizado de modo 
reducionista e deslocado dos fundamentos acabe por instigar um re-
trocesso tecnicista, como parte da reestruturação produtiva que cap-
tura não só a subjetividade do trabalhador, mas também os processos 
de formação. Esse medo real é absolutamente pertinente, num tempo 
em que a supervalorização da técnica e da tecnologia tem sido tema 
de intenso debate e preocupação de quem fundamenta o trabalho a 
partir de uma concepção ampliada como a aportada por Marx.
Os defensores do capitalismo cognitivo, por exemplo, argu-
mentam que o lugar hoje ocupado pela tecnologia e pelo conheci-
mento torna obsoleta a lei do valor. Mas isso não deve nos deses-
timular de enfrentar esse debate, ao contrário, é preciso que esses 
fetiches sejam desocultados. 
O uso da técnica precisa estar articulado a análises anteriores 
ou diagnósticos que instruam sua escolha. E aqui referimo-nos não 
só a opção por realizarmos entrevistas, reuniões de grupo, visitas 
domiciliares, mas também o emprego de técnicas como a dramatiza-
ção, o grafodrama4, ou o uso de vídeos, entre outras alternativas, de 
acordo com as avaliações realizadas e a finalidade que se pretende 
atingir.
4 Técnica que articula o desenho representativo à vida, como elemento provocador da expressão do pes-
quisado, a partir do qual se busca significados, vivências que serão descritos a partir da vida atribuída aos 
personagens.
- 34 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A mediação da prosa, da poesia, de letras de música ou de 
artigos de jornal analisados em sala de aula ou com grupos de usu-
ários para mediar o desvendamento de processos de alienação, as 
contradições cotidianas, sentimentos dos sujeitos, reducionismos, 
estigmas velados, enfim as expressões da questão social no cotidia-
no, tem se mostrado bastante efetiva como instrumento pedagógico.
 Entre tantos exemplos, se poderia citar a articulação do po-
ema A Família de Olhos de Baudrillar, como texto auxiliar para 
trabalhar a teoria da alienação de Marx, ou ainda a articulação do 
conto ou do filme O estudante de Praga e dos Manuscritos Eco-
nômicos e Filosóficos, de Marx, para interpretar os processos de 
alienação, materializados na vida do estudante que vende a alma ao 
diabo, ou ainda a utilização de letras de música de Chico Buarque 
de Holanda, Legião Urbana, Caetano Veloso ou Raul Seixas, para 
expressar a inversão de valores impostos pela sociedade capitalista, 
processos de discriminação e violência, sonhos e estratégias de re-
sistência dos sujeitos sociais. (PRATES, 2003).
 Entende-se que os instrumentos não são desta ou daquela 
ciência, mas da ciência, da sociedade, e a partir das mediações que 
realizamos os utilizando como ferramentas, aportamos as particu-
laridades de nossas áreas de conhecimento ao seu uso. Um artis-
ta mediando o mesmo filme, O estudante de Praga, mencionado 
anteriormente, talvez destacasse aspectos relativos à qualidade da 
fotografia, da luz empregada, da tomada realizada pela câmera na 
filmagem, da expressão dos atores, da qualidade da história. A fina-
lidade articulada às teorias explicativas e ao método utilizado dão 
a direção às mediações que realizamos, mediamos técnicas para o 
manejo de situações reais.
O uso, por exemplo, de técnicas de grupo, do mesmomodo 
que um filme passado a esmo, sem que seja considerada a dinâmica 
do grupo, seu movimento, suas necessidades e expectativas, seus 
vínculos construídos ou não, avaliação sem a qual não seria possí-
vel a escolha adequada de uma determinada técnica para auxiliar o 
favorecimento deste ou daquele processo social, seria tão mecânica 
quanto um filme utilizado desse modo, ambos poderiam ser consi-
derados processos tecnicistas, ambos careceriam de efetividade por 
que mal fundamentados. 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Por fim, embora não seja da natureza das teorias sociais ofe-
recer conhecimentos prático-interventivos para instrumentalizar 
profissões, é importante dizer que, embora a teoria marxiana não 
seja suficiente para informar todos os processos interventivos reali-
zados pelo assistente social, ou por outros profissionais interessados 
em intervir na realidade, ela aporta importantes subsídios não só 
para explicar o real, mas também para nele incidir concretamente. 
As categorias marxianas que conformam a dinâmica do método são 
analítico-interventivas, dependendo do modo como as movimenta-
mos. Entendemos também que o movimento de detour, que se rea-
liza para efetivar a reflexão dialética, conforme o explicita Lefebvre 
(1991), pode ser empregado no processo interventivo. 
Em nossa experiência profissional, trabalhando com popula-
ções em situação de rua, em reuniões de grupo partíamos da análise 
da estrutura, buscando evidenciar o contexto presente com o grupo, 
voltávamos na história buscando desocultar os processos que con-
formaram a situação atual, refletíamos realizando mediações entre 
contextos e vivências similares, particulares e processos universais 
que podiam ser articulados com elas para melhor explicá-las e retor-
návamos ao presente (movimento de ida e volta) buscando fazer uma 
nova totalização coletiva, sempre provisória. Nesse movimento, ou-
tras mediações eram realizadas por conta de processos grupais que se 
explicitavam e precisavam ser trabalhados, mas o eixo condutor era 
o movimento de detour. Utilizávamos a história (relatada por cada 
participante do grupo) como contraprova, processualmente ressigni-
ficada, reelaborada pelos sujeitos com o auxilio do processo grupal.
O “como fazer” precisa estar instruído por questões anteriores 
como “o que fazer?” e o “por que fazer?” Estes processos pressu-
põem atitude investigativa, planejamento e cadeias de mediações a 
serem acionadas, além de outras construídas no momento da inter-
venção, todas instruídas pelos fundamentos.
Segundo Pontes (1995), a categoria mediação tem papel fun-
damental no plano metodológico devido a sua dupla natureza, onto-
lógica e reflexiva. Destaca o autor que as mediações que estruturam 
(ontológicas) devem ser reconstruídas pela razão (reflexivas) para 
que seja possível realizar a análise sobre o movimento e a consti-
tuição do objeto, bases para orientar a intervenção (PONTES, 1995, 
p.175-176).
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
 Para o autor (1995, p.177), o assistente social: “... é um 
articulador de mediações. Numa palavra, ele atua nos sistemas de 
mediações que infibram as refrações da questão social constitutivas 
das demandas sociais à profissão”. 
 É por meio das mediações que penetramos nos nexos consti-
tutivos do real desvendando suas contradições.
O instrumental movimentado pelo trabalhador para articular 
processos, realizar mediações, provocar reflexões é também com-
posto pelo produto do trabalho de outros trabalhadores. Depen-
dendo do lugar que ocupa na cadeia produtiva, diz Marx (1989), 
uma ferramenta pode ser um instrumento ou produto do trabalho. 
Um plano, que num dado momento constituiu-se como produto do 
trabalho de alguém, ao ser consultado por outro trabalhador, é um 
instrumento de trabalho, logo compõe o que Marx (1989) chama 
de instrumental. Portanto, o instrumental utilizado pelos assistentes 
sociais inclui a manipulação de técnicas, o uso de equipamentos, 
mas também a mediação de teorias para fundamentar a realização 
de visitas domiciliares, reuniões, entrevistas, elaboração de planos 
de trabalho, de pesquisas, de estudos sociais, que ora são produto e 
ora são instrumentos de trabalho, dependendo do lugar que ocupam 
na cadeia produtiva.
Por fim é sempre bom afirmar, que não há um processo de 
trabalho do assistente social, mas processos de trabalho nos quais 
o assistente se insere. Nessa direção, Iamamoto é muito clara ao 
afirmar que: 
1. (...) Não existe um processo de trabalho do Serviço Social, 
visto que o trabalho é atividade de um sujeito vivo, enquanto 
realização de capacidades, faculdades e possibilidades do su-
jeito trabalhador. Existe, sim, um trabalho do assistente social 
e processos de trabalho nos quais se envolve na condição de 
trabalhador especializado. (Idem, 2007, p. 429).
2. (...) existem diferentes processos de trabalho nos quais se ins-
creve a atividade do assistente social, contra o mito de um único 
processo de trabalho do assistente social. Quando se admite o 
processo de trabalho do assistente social opera-se uma simples 
mudança terminológica de “prática” para “trabalho” (...), sem 
que se altere o universo de sua construção teórica abstrata. 
3. Em outros termos, reitera-se o viés liberal de pensar a prática 
como atividade do indivíduo isolado, forjando o “encaixe” dos 
elementos constitutivos desse trabalho concreto em um “modelo 
universal” para a análise de todo e qualquer processo de trabalho 
- 37 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
– como se ele fosse suspenso da história e das relações sociais 
que o constituem. (IAMAMOTO, 2007, p. 430-431). 
3. À guisa de uma breve totalização provisória
Atilio Borón, por ocasião do aniversário de morte de Marx, 
em 2012, escreveu sobre o pensador alemão: 
O mundo de hoje, surpreendentemente, se parece ao que ele e seu 
jovem amigo Engels prognosticaram em um texto assombroso: 
o Manifesto Comunista. Esse sórdido mundo de oligopólios 
de rapina, predatórios, de guerras de conquista, degradação 
da natureza e saque dos bens comuns, de desintegração social, 
de sociedades polarizadas e nações separadas por abismos 
de riqueza, poder e tecnologia, de plutocracias travestidas de 
democracia, de uniformização cultural pautada pelo american 
way of life, é o mundo que antecipou em todos os seus escritos. 
(BORÓN, 2012, n.p.).
Infelizmente as análises de Marx e Engels sobre o capitalis-
mo e sua selvageria intrínseca e insuperável se mantêm ainda atuais 
e fundamentam nossas análises para desocultar o real, à luz da tota-
lidade concreta, pois o capital permanece “celebrando suas orgias” 
(MARX, 1989). Contudo, no tempo presente, o refinamento das 
estratégias de dominação e manipulação exigem de nós mais acui-
dade e fundamentação nas teorias explicativas e no uso de métodos 
radicais (que vão à raiz) como o aportado por Marx, no conjunto de 
sua obra. O método nos aporta valores assim como elementos ca-
tegoriais para nos auxiliar em processos analíticos e interventivos, 
entre os quais se destaca o compromisso ético de materializar um 
trabalho que contribua para a superação das desigualdades, da vio-
lação de direitos e subjugação de sujeitos, grupos e povos. Nosso 
projeto ético político, destacam Yazbek e Silva (2005, p. 37), 
supõe uma formação generalista, sólida, pautada pela crítica 
social e pela competência teórico-metodológica e operativa 
orientada pelas Diretrizes Curriculares, pela teleologia do Código 
de Ética Profissional e pela Lei de Regulamentação da Profissão.
Formar pressupõe inicialmente uma troca e um compromisso 
assumido conjuntamente entre os agentes educandos e educadores 
que se modificam no processo; pressupõe capacidade de interpre-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
tar a realidade, de explicá-la, ou de investigá-la sistematicamente, 
capacidade de síntese e de propor sobre ela alternativas de enfren-
tamento ao que se torna visível, pelareflexão conjunta dos agentes 
que a protagonizam, seja porque vivem as situações ou porque estão 
compromissados, política e eticamente, com a sua superação. 
Marx apropria-se das categorias que emanam da realidade e 
volta a ela utilizando-as para explicar o movimento de constituição 
dos fenômenos, a partir de sucessivas aproximações e da constitui-
ção de totalizações provisórias, passíveis de superação sistemática, 
porque históricas. Nesse processo, o autor considera fundamental 
dar visibilidade às contradições inclusivas que o permeiam e às 
transformações ocorridas no percurso; que resultam de múltiplas 
determinações, cuja análise interconectada amplia a possibilidade 
de atribuir-se sentidos e explicações à realidade, condição não su-
ficiente, mas essencial a sua transformação. Não intervimos subs-
tancialmente no que conhecemos superficialmente e conforme o 
próprio Marx destaca, nas Teses sobre Feuerbach, não basta criticar 
o mundo, é preciso transformá-lo. 
O papel dos intelectuais, segundo Cardenal (apud IAMA-
MOTO, 1999, p. 79), “é devolver claramente às massas o que delas 
se recebeu confusamente” para que possamos superar coletivamen-
te os processos de alienação e construir novos patamares de socia-
bilidade. 
Apesar do contexto obscuro e das profundas adversidades a 
que estamos expostos nesse momento de desmonte de direitos e 
ameaça aos espaços democráticos no Brasil, temos a clareza de que 
não é negando ou desconhecendo a realidade que podemos modi-
ficá-la, mesmo porque precisamos conhecer profundamente aquilo 
que queremos transformar, identificando espaços, relações de po-
der, possibilidades de alianças, reconhecendo o caráter político de 
nosso trabalho profissional. Afinal, como bem destaca Diego Pal-
ma (1986),
A institucionalização democrática não representa um jogo de 
cartas marcadas, no qual as classes subordinadas estão, desde 
o início, fatalmente condenadas a perder. Ao contrário, se trata 
de uma arena contraditória, dinâmica, onde se abrem e fecham 
espaços e alternativas segundo as iniciativas - sempre relacionais 
e opostas dos sujeitos coletivos que nela se encontram e confron-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
tam. Jogar este jogo, ganhar forças para apoiar o próprio projeto, 
debilitar a vigência do projeto contrário, ampliar e controlar 
espaços - isto é fazer política.
 
4. Referências
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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- 41 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A INICIAÇÃO CIENTÍFICA NOS CURSOS DE 
SERVIÇO SOCIAL: 
a contribuição para a formação profissional
 
Thaynara Reis do Nascimento Cruz15
 Roberta Ferreira Coelho de Andrade26
1. Introdução 
A presente investigação surgiu a partir dos estudos e reflexões 
feitos na pesquisa realizada no período de 2015 a 2016, por meio da 
participação da pesquisadora no Programa Institucional de Bolsas de 
Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal do Amazonas e 
que foi ampliada para uma pesquisa de dissertação de mestrado, cuja 
defesa ocorreu em 2019. A escolha desse objeto de investigação re-
fere-se à relevância da pesquisa no âmbito do Serviço Social e da sua 
inclusão no projeto de universidade baseado no tripé ensino, pesquisa 
e extensão. 
Pouco se tem pesquisado sobre a iniciação científica, inclusi-
ve no âmbito do Serviço Social. É importante destacar que, na pes-
quisa bibliográfica, não encontramos dissertações ou teses voltadas 
para a iniciação científica no âmbito do Serviço Social. A pesquisa 
teve como objetivo geral analisar a iniciação científica como espaço 
de formação em Serviço Social nas Instituições de Ensino Superior 
(IES) de caráter público e privado da cidade de Manaus. Diante dis-
so, realizamos um levantamento prévio nas instituições de ensino 
privado, o que nos permitiu identificar que oito instituições possuem 
programas de iniciação científica. Ao conversarmos com os coorde-
nadores do curso de Serviço Social, constatamos que somente quatro 
dessas instituições possuem relatórios finais de iniciação científica 
produzidos por discentes e professores do curso de Serviço Social.
1 Assistente Social e Mestra em Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal 
do Amazonas (2019). Estuda temáticas relacionadas à iniciação científica, pesquisa e formação profissio-
nal em Serviço Social, e-mail: thaynaranascimento20@gmail.com
2 Professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e 
Sustentabilidade na Amazônia (PPGSS) da Universidade Federal do Amazonas, graduada em Serviço 
Social, doutora e mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia, líder do Grupo de Pesquisa Estudos de 
Sustentabilidade, Trabalho e Direitos na Amazônia – ESTRADAS, e-mail: roberta_ufam@yahoo.com.br
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Diante do exposto, a pesquisa foi feita nos Cursos de Serviço 
Social de uma IES pública e de três instituições de ensino supe-
rior de caráter privado da cidade de Manaus. Visando coletar dados 
mais contemporâneos,o estudo centrou-se nos anos de 2015 a 2017, 
o que coincidiu com a recente implementação de alguns programas 
de iniciação científica das referidas instituições. Vale destacar que, 
atualmente, os cursos de Serviço Social da cidade, em especial os 
ofertados em nível presencial estão fechando, dentre as três insti-
tuições aqui em estudo, uma encerrou o curso em 2018 e outra está 
finalizando a última turma do curso de Serviço Social em 2019. O 
que vemos é a expansão e a prevalência de cursos a distância, pois 
a cada ano cresce o quantitativo de instituições cadastradas junto ao 
Ministério da Educação.
Como delineamento da pesquisa utilizamos a pesquisa bi-
bliográfica e de campo. Na pesquisa de campo, fizemos entrevistas 
mediadas por formulários semiestruturados para coleta de dados 
primários; os formulários foram aplicados com 25 discentes e 14 
orientadores de iniciação científica, com perguntas abertas e fecha-
das. Sendo a pesquisa uma construção dinâmica de constante ação/
reflexão/ação, acreditamos que a perspectiva crítica seja a que mais 
se afina com a proposta de investigação, na medida em que nos 
permite estudar o objeto de pesquisa em todos os seus aspectos e 
suas conexões. 
A tabulação e a análise dos dados juntamente com a interpre-
tação dos dados foram feitas à luz do referencial de Bardin (2011), 
a qual salienta que a análise de conteúdo tem como características 
metodológicas: objetividade, sistematização e inferência. “Portan-
to, toda comunicação que implica a transferência de significados 
de um emissor a um receptor pode ser objeto de análise de con-
teúdo” (p. 225). A autora define a análise de conteúdo ou análise 
documental uma técnica de pesquisa que objetiva obter por meio de 
procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo, 
indicadores quantitativos e qualitativos que permitam inferir conhe-
cimentos acerca do fenômeno em estudo.
A realização mostrou-se relevante e necessária para a pro-
dução de conhecimento no âmbito da profissão, na medida em que 
representou a possibilidade de discussão acerca do incentivo à prá-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
tica da pesquisa nas instituições de ensino superior da cidade de 
Manaus, de caráter público e privado, de modo a identificarmos as 
contribuições e possibilidades dessa atividade na formação profis-
sional em Serviço Social.
2. O desenvolvimento da pesquisa em Serviço Social
O Serviço Social nasce e se desenvolve em torno do pensa-
mento conservador. Primeiramente passa pela influência do pensa-
mento conservador europeu franco-belga até a sociologia conser-
vadora norte-americana a partir dos anos de 1940 (IAMAMOTO, 
2013). Ao longo do processo histórico, o Serviço Social recebeu 
diferentes influências teórico-metodológicas que refletiram na es-
trutura curricular do curso no Brasil. Primeiramente isso acontece 
desde o surgimento da própria profissão em 1930, fundamentado na 
doutrina social da Igreja Católica (ABREU, 2016). 
No início da década de 1960, grupos de assistentes sociais 
questionam a natureza e a operacionalidade do Serviço Social na 
América Latina, a fim de adequá-lo à realidade do seu país. “[...] 
Esse questionamento começa a consolidar-se com os chamados 
seminários regionais promovidos por assistentes sociais latino-a-
mericanos” (AGUIAR, 1995, p. 119). Netto (2011) afirma que é a 
partir de 1965, no movimento de renovação do Serviço Social37, que 
a profissão se põe como objeto de pesquisa. 
No decorrer da história da profissão foi possível identificar o 
quanto a formação profissional em Serviço Social incorporou 
e modificou seus fundamentos teórico-metodológicos, ético-
-políticos e técnico-operativos. Para Netto (1999), as décadas 
de 1970 a 1980 foram significativas para a profissão, pois 
marcam um momento em que a categoria se propõe a enfrentar 
o conservadorismo profissional. Abreu (2016) destaca que tais 
décadas foram bastante favoráveis para a constituição do novo 
projeto ético-político profissional, a partir da aproximação dos 
assistentes sociais com o pensamento crítico marxista.
Na década de 1980 deslancha-se uma profunda discussão do 
corpo profissional, por meio da realização de vários encontros na-
3 Expressão utilizada por Netto (2011, p. 152), ao examinar a literatura profissional do Serviço Social, 
“[...] difundida nacionalmente entre 1965 e 1985”. Esse período refere-se ao Movimento de Reconceitua-
ção no Brasil.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
cionais de pesquisa envolvendo pesquisadores de Serviço Social. 
Os encontros tiveram como foco os debates em torno da relevância 
da pesquisa no âmbito acadêmico e profissional. E então, a partir 
da década de 1990, a pesquisa torna-se presente na profissão, sendo 
reconhecida pelas agências de fomento (IAMAMOTO, 2015).
Com base na relação entre intervenção e investigação, a pro-
fissão estabelece a pesquisa como matéria já no primeiro currículo 
mínimo determinado pela Lei n. 1889 de 13 de junho de 1953, a 
qual dispõe os objetivos do ensino do Serviço Social e reafirmou a 
sua importância no segundo currículo mínimo, por meio do Parecer 
n. 286, aprovado em 19 de outubro de 1962. No terceiro currículo, 
sob o Parecer n. 242, aprovado em 13 de março de 1970, a pesquisa 
não aparece no rol de matérias obrigatórias, por já estar de maneira 
implícita no espírito integrador ensino-pesquisa da Reforma Uni-
versitária de 1968. Em 1977, as unidades de ensino e a antiga As-
sociação Brasileira de ensino de Serviço Social (ABESS) iniciam 
discussões sobre a reformulação do terceiro currículo mínimo, tra-
zendo novamente a pesquisa como instrumento fundamental para 
a formação e o trabalho do Serviço Social, isso resulta no quarto 
currículo mínimo aprovado por meio do Parecer n. 412/82, do Con-
selho Federal de Educação (SETUBAL, 2007). 
Setubal (2007) expõe que, nas últimas décadas do século XX, 
o Serviço Social adotou como matriz teórica hegemônica o método 
marxista dialético-histórico, que consolidou a importância da pes-
quisa para a produção de conhecimento no âmbito da profissão. A 
explicação da importância de utilizar a matriz marxista refere-se 
ao fato de o assistente social trabalhar diretamente com a questão 
social e de a teoria crítica marxista proporcionar ao profissional o 
conhecimento do contexto histórico de cada objeto, a fim de des-
vendar a realidade concreta e a complexidade do mesmo. 
De acordo com Kameyama (1988), a produção de conheci-
mento no campo do Serviço Social no Brasil tem início a partir dos 
anos de 1970 no contexto de ditadura militar. Nesse período sur-
gem os primeiros cursos de pós-graduação no âmbito das Ciências 
Sociais e do Serviço Social. Antes disso, a profissão possuía um 
caráter mais técnico-operativo, devido sua prática ser voltada desde 
os primórdios para a intervenção. 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A inserção da pesquisa no âmbito do Serviço Social foi du-
rante muito tempo catastrófica, porque existia uma influência dura-
doura do tecnicismo na profissão, em que o pragmatismo imperava 
e onde a formação universitária era precária devido à falta do incen-
tivo ao olhar crítico. “[...] E relacionada a essas atitudes ressalta-se 
a falta de espírito crítico da maioria dos profissionais e a existência 
da velha, mas ainda atual dicotomia entre teoria e prática no desem-
penho da profissão” (PEREIRA, 2005, p. 20).
Um marco importante para a profissão e no campo acadêmi-
co foi o surgimento de cursos de pós-graduação (mestrado e dou-
torado). É nesse período que se firma a produção de conhecimento 
no Serviço Social, a qual delineou uma considerável massa crítica, 
que permitiu à profissão a consolidação junto às Ciências Sociais. 
Apesar de o Serviço Social não ser considerado ciência como a so-
ciologia, este fato não o impediu que produzisse conhecimentos de 
natureza teórica, estudos, pesquisas, introduzidos pelas ciências hu-
manas e sociais (NETTO, 1999). 
Em 1981,na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 
(PUC-SP), começava a funcionar a primeira turma de doutorado 
em Serviço Social na América Latina. Em 1982, a pesquisa ga-
nha destaque no meio profissional e também reconhecimento pelo 
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico 
(CNPq), abrindo portas para a construção de um comitê próprio 
para a avaliação dos projetos desenvolvidos pelos assistentes so-
ciais engajados no âmbito da pesquisa (SILVA, 2011).
O Serviço Social, atualmente, como área de conhecimento 
das Ciências Sociais Aplicadas, demanda uma ação profissional in-
vestigativa e interventiva. Nesse sentido, a pesquisa é o caminho 
essencial para que o discente estude e conheça as particularidades 
da questão social em sua totalidade, para assim criar alternativas de 
intervenção frente à realidade social.
Para Oliveira (2009), a pesquisa direciona o aluno ou profis-
sional a fazer do seu objeto de estudo, um objeto de conhecimento. 
E para compreender esse objeto deve-se estudá-lo primeiramente 
do particular para o universal. Esse processo de ida e vinda pro-
porcionará uma leitura do objeto e também possíveis propostas de 
intervenção, adequadas às particularidades desse objeto. Nesse sen-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
tido, para que haja uma ação efetiva diante do objeto de estudo, é 
preciso conhecê-lo como uma totalidade que possui peculiaridades 
e que se relaciona com as totalidades maiores. Por isso, segundo a 
autora, a investigação é um instrumento privilegiado para o desve-
lamento da realidade. 
A pesquisa tem se mostrado como instrumento de fundamen-
tal relevância para o Serviço Social. Podemos levar em considera-
ção que a pesquisa é um processo que foi se aperfeiçoando como 
parte da formação do Serviço Social, assim como as discussões em 
torno da cientificidade da pesquisa, o que impulsionou o olhar in-
vestigativo da profissão diante da questão social.
De acordo com Bourguignon (2008), a atitude investigativa 
do Serviço Social deve ser estimulada desde a graduação para que 
a investigação das expressões da questão social seja um dos pilares 
do trabalho profissional do assistente social. O conhecimento no 
Serviço Social é desenvolvido pelo trabalho dos assistentes sociais 
frente à questão social como objeto de trabalho profissional (SE-
TUBAL, 1995). 
Em tempos de contrarreformas dos direitos sociais, em espe-
cial da educação, verificamos que vários são os desafios em manter 
a relação entre ensino, pesquisa e extensão, pois ainda existe a pre-
valência nas atividades de ensino, o que dificulta a participação dos 
alunos em grupos de pesquisa e outras investigações coletivas que 
são fundamentais para a formação profissional. As mudanças no 
mundo do trabalho oriundas da reestruturação produtiva trouxeram 
consigo uma nova configuração no perfil do trabalhador, mudanças 
no papel do Estado no campo social, como também o novo perfil 
profissional, acrítico e funcional às demandas do mercado de tra-
balho.
No que se refere ao desenvolvimento da pesquisa na uni-
versidade, Setubal (2007) relata que, ao desenvolverem políticas 
administrativas que inviabilizam a prática da investigação, as uni-
versidades acabam negando o compromisso social e político com a 
formação profissional, tendo em vista que, segundo a autora, “[...] 
é na relação pesquisa e ação, profissional e pesquisa que se adquire 
maturidade intelectual, que se desmitifica o aparente como realida-
de concreta, que se reconhece na realidade a sua complexidade e 
riqueza ao se constituir como totalidade” (p. 69-70).
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Moraes (2013, p. 253) nos mostra que a pesquisa deve ser 
estimulada primeiramente na universidade para que assim o profis-
sional crie o hábito de desenvolvê-la fora dos muros acadêmicos. 
Vejamos:
No entanto, se durante o processo de formação profissional o 
discente não tem acesso a disciplinas de pesquisa que trabalhem 
articuladas a outras disciplinas do currículo e vice-versa; se 
essas disciplinas não abordam a particularidade da produção do 
conhecimento no Serviço Social articulando teoria e prática de 
forma unitária; se o discente não tem oportunidade de participar 
de projetos e grupos de pesquisa, além de não ter acesso a bolsas 
de iniciação científica, por exemplo, torna-se complexo plasmar 
a pesquisa na prática profissional, pois além das naturais dificul-
dades vinculadas à operacionalização da proposta de pesquisa na 
prática profissional, existem questões (da formação profissional) 
que vinculam a falta de bagagem teórica, metodológica, ética e 
política para que essa atividade seja desenvolvida com qualidade 
pela universidade e rompa os muros acadêmicos.
Desse modo, é possível perceber que a pesquisa é um dos 
pilares fundamentais da formação universitária, na medida em que 
permite indagar, problematizar e responder a questões que emergem 
da realidade social. Aliás, junto com o ensino e a extensão, constitui 
a base para uma dinâmica de aprendizagem, pois, segundo Demo 
(2008), não adianta somente ouvir o professor em sala de aula, é 
preciso pesquisar, elaborar, mas essa atitude parte inicialmente do 
incentivo da universidade em ofertar para os alunos universitários 
projetos de pesquisa e extensão.
Portanto, a pesquisa dentro do Serviço Social tornou-se um 
norte para a profissão, tanto no campo da atuação profissional quan-
to no âmbito do trabalho do assistente social, proporcionando um 
olhar científico crítico da realidade que vai além da aparência, tor-
nando o aluno ou profissional pesquisador inquieto frente à realida-
de concreta, fazendo-o olhar a realidade social sob uma perspectiva 
de totalidade, desviando-se da superficialidade.
3. A contribuição da iniciação científica para a formação 
em Serviço Social
A iniciação científica (IC) nasce do anseio pelo conhecimen-
to científico, é um processo de construção desse conhecimento, ten-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
do como ponto de partida a investigação sobre determinado tema 
ou assunto. Segundo Massi e Queiroz (2010), a iniciação científica 
é um processo que permite um conjunto de conhecimentos e habi-
lidades indispensáveis para o jovem iniciante produzir e fazer parte 
do jogo científico. 
Os projetos de pesquisa desenvolvidos por meio dos progra-
mas de iniciação científica são os primeiros passos trilhados pe-
los alunos de graduação na pesquisa científica. Ingressar no campo 
científico permite ao alunado a formação de profissionais pesquisa-
dores, preparados para contribuir para a sociedade como um todo, 
pois auxilia no desenvolvimento pessoal do acadêmico, aprimora 
sua capacidade de conhecer a realidade e entender as atividades 
referentes à sua profissão.
Realizamos uma pesquisa de campo por meio de entrevista 
mediada pela aplicação de formulários semiestruturados com alu-
nos e professores dos cursos de Serviço Social que participaram de 
programas de iniciação científica em quatro instituições de ensino 
superior da cidade de Manaus que ofertam o curso. 
Entrevistamos um total de 25 jovens pesquisadores48, que 
equivale a (43%) do total discentes de graduação que fizeram ini-
ciação cientifica, sendo 68% de IES pública e 32% de instituições 
de ensino privado. Também entrevistamos 14 (87%) do universo 
de docentes pesquisadores dos cursos de Serviço Social que orien-
taram projetos de iniciação científica, sendo 64% de IES pública 
e 36% de instituição privada. O período do estudo centrou-se nos 
anos de 2015 a 2017, dado ao objetivo de coletar dados mais con-
temporâneos e à inserção do corpo discente e docente dos cursos 
de Serviço Social das IES privadas nos programas de IC a partir de 
2015. Na investigação, observamos que os acadêmicos adentram 
nas instituições de ensino superior e nos programas de iniciação 
científica muito jovens, pois 48% dos 25 jovens pesquisadores en-
trevistados estavam na faixa etária de 20 a 22 anos, 32% entre 23a 25 anos, 4% com 26 a 28 anos, 8% com 19 a 31 anos e 8% entre 
38 a 43 anos.
4 Utilizamos os termos “pesquisadores iniciantes” e “jovens pesquisadores” para nos referirmos aos aca-
dêmicos desenvolveram projetos de iniciação científica. No momento da pesquisa, muitos deles já haviam 
concluído o curso, portanto, não eram mais acadêmicos.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Questionamos os sujeitos quanto à contribuição da iniciação 
científica para a formação em Serviço Social e 100% dos jovens 
pesquisadores enfatizaram que a atividade foi bem positiva e expu-
seram diferentes contribuições. De acordo com os jovens a inicia-
ção científica possibilita aos acadêmicos o contato e o aprendizado 
sobre a parte metodológica da pesquisa, propiciando um olhar mais 
investigativo do objeto de estudo, além de ampliar conhecimentos 
sobre a profissão de Serviço Social, compreendendo conteúdos que 
são abordados em sala de aula e até mesmo fora desse espaço. 
Antes de iniciar as disciplinas de pesquisa, eu já havia participado 
da iniciação científica, então essa atividade foi fundamental para 
meu entendimento a respeito da pesquisa, além de possibilitar um 
olhar mais crítico sobre o objeto de estudo (Jovem Pesquisadora 
n.2, Pesquisa de Campo, 2018).
Santos (2016) destaca que os benefícios da iniciação científi-
ca podem ser percebidos no desempenho dos alunos nas disciplinas 
do curso, pois, no processo de pesquisa, os alunos adquirem um 
referencial crítico e não se tornam tão passivos nas aulas, porque 
conseguem argumentar e participar das discussões de forma efetiva 
e com qualidade, trazendo para o debate os resultados de pesquisas 
e leituras realizadas durante o processo de pesquisa.
Bôas (2003), ao abordar os efeitos das mudanças curriculares 
e a experiência dos Programas de Iniciação Científica, percebeu que 
a participação dos alunos em projetos de pesquisa dos professores 
aparece como algo favorável para a diminuição da evasão e melho-
ria da graduação. De acordo com Cabrero (2007), a IC torna-se um 
fator de estímulo para o engajamento nos estudos. A pesquisadora 
iniciante n. 5 menciona que a iniciação científica foi um caminho de 
encontro à profissão que queria seguir.
Quando eu iniciei o curso, eu não sabia muito que profissão eu 
queria. Mas, com a iniciação científica, pude conhecer melhor 
a profissão e o que era a pesquisa. Pude me encontrar enquanto 
universitária. Essa pesquisa contribuiu para a construção do 
meu trabalho de conclusão de curso (Jovem Pesquisadora n. 5, 
Pesquisa de Campo, 2018).
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A iniciação científica, segundo os acadêmicos, permite leitu-
ras, experiências e conhecimentos que só em sala de aula eles não 
teriam. O aluno tem mais contato com o orientador por meio de 
encontros semanais e quinzenais e isso o possibilita tirar dúvidas, 
fazer discussões, produzir textos e ter contato com outros acadêmi-
cos e profissionais por meio dos grupos de pesquisa, estas são ex-
periências que adensam o processo de construção do conhecimento.
Para jovens pesquisadores, a iniciação científica aprimora 
conhecimentos sobre a pesquisa e aguça a dimensão investigativa, 
além de facilitar a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso 
(TCC). Destacaram ainda que essa experiência é um exercício para 
a escrita, pois os alunos precisam fazer fichamento e produzir textos 
e isso requer bastante leitura. Quando chegam à fase de construir 
o TCC, já não sentem tanta dificuldade de desenvolver o trabalho, 
porque já passaram por um processo de pesquisa, ao contrário de 
outros acadêmicos que não tiveram a mesma experiência. 
Os professores, ao serem questionados sobre o signifi-
cado da iniciação científica para a formação em Serviço So-
cial, 64% responderam que a IC permite a formação de futu-
ros pesquisadores. Segundo a Professora n. 7
É na iniciação científica que o aluno tem o primeiro contato com 
a pesquisa, porque que eu digo o primeiro contato, às vezes um 
aluno de iniciação científica que nos procura ele está no terceiro 
período, então ele não fez nenhuma disciplina de pesquisa, é por 
isso que a gente precisa fazer aulas de metodologia de pesquisa, 
porque, por exemplo, nesse semestre eu tenho aluno de terceiro 
período que não tem nenhuma base né. Então, eu penso que a 
iniciação científica favorece esse contato inicial para que o aluno 
adentre no mundo da pesquisa e se apaixone, para que ele perceba 
que a nossa profissão tem esse caráter investigativo. Não existe a 
noção de que nós temos aquele pesquisador e o assistente social 
não, o assistente social precisa ser um pesquisador. [...] Então, 
eu penso que a iniciação científica vai muito além dos muros 
que nós criamos muitas vezes, das limitações e ela favorece 
a apresentação de outro mundo para o discente e sempre um 
aprendizado para o docente também. Às vezes pensamos que 
estamos ali só para ensinar, mas muitas vezes aquele aluno tem 
muito a ensinar para a gente em outros aspectos (Pesquisa de 
Campo, 2018).
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Para a docente, a iniciação científica representa uma expe-
riência além do contato com a pesquisa, oportuniza que o aluno 
veja o ato de investigação como necessário para a profissão e não 
como algo distante e restrito somente ao docente, pois o assistente 
social precisa da dimensão investigativa para que seu trabalho não 
recaia no imediatismo. A iniciação científica, além de ser o primei-
ro contato com a pesquisa, torna-se um instrumento de aprendizado 
tanto para o discente quanto para o docente, na medida em que o 
professor pensa estratégias para a superação de algumas limitações 
apresentadas pelos alunos.
Para 14% dos professores, a IC promove a autonomia do 
aluno para que ele possa ter suas próprias reflexões e que desen-
volva a prática da pesquisa como sendo necessária para a profis-
são. Estar nessa atividade de pesquisa cria alguns hábitos, como 
a organização, o cumprimento de prazos. A IC foi defendida por 
14% dos docentes como sendo uma vivência além da sala de aula e 
8% informaram que a atividade possibilita a formação de profissio-
nais diferenciados. A Professora n. 9 destaca que essa atividade de 
pesquisa, além de requerer um perfil de aluno organizado, desperta 
qualidades e estimula os acadêmicos à continuidade da formação.
A iniciação científica tem um papel importante no sentido de 
que ela contribui para autonomia do aluno, para que ele possa 
caminhar com as próprias pernas, para que ele possa desenvolver 
as próprias reflexões, pra que ele possa vislumbrar a continuidade 
da formação dele. O universo da iniciação científica te possibilita 
que você veja que existe outro espaço formador além da sala de 
aula e que esse espaço é tão rico e tão desafiador que ele incita 
a continuar a estudar. [...] E isso demanda um perfil de aluno, 
uma pessoa que precisa ter no mínimo um pouco de disciplina, 
planejamento e ser organizado. Se a pessoa não tem um pouco 
esse perfil ele vai fugir disso, então se a pessoa tem esse perfil 
vai querer mais, eaí ele vai querer continuar, vai querer fazer 
mestrado e doutorado. A iniciação científica desperta a curiosi-
dade, o aluno ser criativo e, sobretudo a autonomia (Pesquisa 
de Campo, 2018).
Segundo Santos (2016), a iniciação científica pode contribuir 
também para a autonomia e maturidade dos acadêmicos, na medida 
em que eles precisam se organizar para conciliar as tarefas da gra-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
duação com as da pesquisa para que nem as disciplinas dos cursos e 
nem a pesquisa fiquem prejudicadas. Cabrero (2007) menciona que 
a IC ensina o estudante a respeitar os prazos com intuito de finalizar 
a pesquisa no prazo estipulado pelo programa e isso desenvolve o 
interesse dos alunos em delinear metas em toda atividade que ele 
fizer. 
Ao perguntarmos se essa experiência de pesquisa precisa ser 
vivenciada pelos acadêmicos do curso de Serviço Social,tanto os 
jovens pesquisadores quanto os docentes responderam positiva-
mente. Apesar de sabermos que nem todos os acadêmicos poderão 
participar de programas de iniciação científica por causa da quanti-
dade de bolsas, de orientadores e até de vagas, percebemos ao longo 
desta pesquisa que é uma atividade que, de fato, contribui para a 
formação do aluno, aprofundando assuntos que somente no âmbito 
do ensino não seria possível. 
Para outros professores, esta atividade deveria ser incenti-
vada desde os primeiros períodos da graduação e até mesmo ser 
pré-requisito para formação. Segundo Moraes (2015), a dimensão 
investigativa deve ser aguçada pela universidade, sobretudo pelos 
docentes desde a graduação. Mesmo que a categoria docente vi-
vencie diariamente a precarização de suas condições de trabalho, 
devem manter o compromisso ético-político, técnico e operativo na 
formação de assistentes sociais, “seja por meio de disciplinas mi-
nistradas em sala de aula, seja por meio da organização de eventos 
de cunho científico, bem como de espaços de debates e reflexões 
críticas” (p. 306).
Considerando que um dos objetivos da iniciação científica 
é despertar o interesse dos alunos pela pesquisa e incentivá-los à 
busca pela pós-graduação foi que indagamos os pesquisadores ini-
ciantes quanto ao interesse deles na continuidade dos estudos por 
meio das especializações ou pós-graduação stricto sensu, ao que 
96% manifestaram interesse. 
Em relação aos 4% que enfatizaram não ter vontade de cursar 
uma pós-graduação, evidenciamos a fala da Jovem Pesquisadora n. 
16 que afirma: “não, interesso-me mais pela prática profissional, 
não apenas pela pesquisa” (Pesquisa de Campo, 2018). A jovem 
reduz o exercício da pesquisa como atribuição apenas do docente, 
- 53 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
porém o projeto ético-político do Serviço Social prevê a pesquisa 
como elemento intrínseco à profissão. A formação permanente é um 
compromisso assumido pelo profissional com os serviços sociais 
prestados à população. Segundo Setubal (2007), torna-se inaceitá-
vel, nos dias atuais, recém graduados e pós-graduados (lato sensu) 
reduzir a profissão como eminentemente prática e essa ideia “[...] 
vem sendo aos poucos eliminada pelo reconhecimento da obrigato-
riedade dos profissionais de campo saberem apreender a realidade 
para nela introduzir mudanças” (p. 69).
A satisfação em fazer pesquisa e a ânsia pelo conhecimento 
foram os motivos apontados pelos jovens pesquisadores para bus-
carem uma pós-graduação. A jovem pesquisadora n. 22 nos diz que:
Estou quase concluindo uma especialização sobre Serviço Social 
e previdência e eu vou entrar no mestrado porque é avalanche 
no crescimento profissional, principalmente nos concursos que 
a titulação é muito alta pra quem tem mestrado e doutorado e 
aprofundar os conhecimentos e contribuir nas disciplinas obriga-
tórias da graduação, principalmente nos Fundamentos do Serviço 
Social (Jovem Pesquisadora n. 22, Pesquisa de Campo, 2018).
Na fala da pesquisadora iniciante vemos que dar continui-
dade na formação profissional por meio dos cursos de pós-gradua-
ção é uma necessidade para obtenção de mais conhecimento, como 
também uma exigência do mercado de trabalho. Além do interesse 
demonstrado pelos jovens, perguntamos se a partir da experiência 
que tiveram na iniciação científica eles se sentiam preparados para 
ingressar em programas de pós-graduação (mestrado e doutorado). 
A maioria, o que equivale a 52% (13), disse estar totalmente prepa-
rada, 44% (11) responderam parcialmente e 4% disseram que não.
Quanto aos que responderam totalmente, 46% mencionaram 
que a iniciação científica é uma preparação para entrar na pós-gra-
duação. Segundo a pesquisadora n. 11, “a gente já tem certa expe-
riência e nos sentimos preparados para continuar fazendo pesquisa. 
Porque não é algo que começa do zero” (Pesquisa de Campo, 2018).
Dentre os entrevistados, 16% (4) deles passaram no processo 
de seleção do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Serviço 
Social e Sustentabilidade na Amazônia. Isso demonstra que um dos 
objetivos da iniciação científica, que é a inserção mais rápida dos 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
discentes em cursos de mestrado e doutorado, está sendo realizado. 
Vale destacar que, no momento da pesquisa, 32% dos jovens entre-
vistados já estavam fazendo especialização. Para Massi e Queiroz 
(2010), a contribuição proporcionada pela iniciação científica na 
formação profissional se materializa por meio do ingresso dos aca-
dêmicos em cursos de pós-graduação.
Cabrero (2007) destaca que a IC desperta nos alunos o inte-
resse pela pós-graduação, ajudando-os na definição mais consciente 
da trajetória profissional. Para o autor, os alunos que não tiveram 
essa oportunidade de fazer pesquisas durante a graduação, muitas 
vezes são despertados bem mais tarde para a carreira acadêmica.
Diante disso, podemos afirmar que a iniciação científica é um 
espaço de formação profissional, na medida em que permite ao alu-
no desenvolver o espírito investigativo, crítico e inquiridor diante 
da realidade. A dimensão investigativa é vital para a profissão de 
Serviço, visto que necessita atuar sobre a realidade, o que exige do 
profissional a busca pelo conhecimento. Essa dimensão está expres-
sa nas competências e atribuições profissional.
4. Considerações finais
A atual conjuntura de alguns cursos de Serviço Social presen-
ciais da cidade de Manaus, em especial os da modalidade presen-
cial é de encerramento das atividades. Em contrapartida, temos um 
aumento significativo de cursos na modalidade a distância, o que 
impossibilita ainda mais que a formação profissional seja baseada 
no princípio da indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão, 
bem como nas Diretrizes Curriculares da Associação Brasileira de 
Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) de 1996. Uma das 
instituições privadas aqui em estudo teve a última turma de Serviço 
Social formada no primeiro semestre do ano de 2018, e outra IES 
encontra-se em fase de encerramento do curso.
Várias foram as contribuições da iniciação científica (IC) 
para a formação em Serviço Social apontadas pelos entrevistados. 
Para 64% dos docentes, a IC representa a formação de futuros pes-
quisadores, possibilitando aos alunos o olhar crítico da realidade, 
o aprimoramento da escrita e segurança. Em relação aos jovens 
pesquisadores, a atividade contribuiu para o entendimento sobre a 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
pesquisa científica, além da facilidade abordada por eles quanto à 
elaboração de trabalhos científicos. 
Identificamos que a iniciação científica realmente cumpre um 
dos seus objetivos que é a redução do tempo de ingresso dos aca-
dêmicos em programas de pós-graduação (mestrado e doutorado), 
pois 16% dos jovens entrevistados da universidade pública ingres-
saram no curso de mestrado em Serviço Social e Sustentabilidade 
na Amazônia no ano de 2019 e 32% dos jovens pesquisadores tanto 
da IES pública como das IES privadas já estavam fazendo especia-
lização, o que nos aponta a busca pelo aprimoramento intelectual 
por parte dos entrevistados. O percentual de egressos de iniciação 
científica (IC) em programas de pós-graduação stricto sensu pode 
ser pequeno, mas durante a experiência da pesquisadora na inicia-
ção científica foi possível identificar uma inserção expressiva de 
egressos da atividade em cursos de mestrado durante os anos de 
2014 a 2019.
Apesar das quatro instituições de ensino demonstrarem o 
compromisso com a produção do conhecimento, ofertando ativida-
des que estimulem à pesquisa, observamos que a produção de co-
nhecimento acontece de maneira mais consolidada na universidade 
pública, na medida em que os docentes se encontram envolvidos em 
grupos de pesquisa, projetos de pesquisa e extensão. Ao contrário, 
os professores das faculdades privadas, em sua grande maioria, são 
trabalhadores horistas e não possuemdedicação exclusiva para de-
senvolver o tripé ensino, pesquisa e extensão.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
FORMAÇÃO E TRABALHO DE 
ASSISTENTES SOCIAIS EM BELÉM (PA): 
debatendo a coerência com as diretrizes 
curriculares da ABEPSS
 Reinaldo Nobre Pontes19
Cilene Sebastiana da Conceição Braga210
Olga Maria Tabaranã Silva311
Karina Kamille Marques Cezar412
1. Introdução
Este artigo se baseia nos resultados finais da pesquisa Serviço 
Social e Seguridade social: perfil teórico-metodológico dos assis-
tentes sociais em Belém, desenvolvida no período de 2012-2014, 
que compõe as atividades do Grupo de Estudos e Pesquisas em Ser-
viço Social, Política Social e Formação Profissional (GEPSS) arti-
culado ao Programa de Pós-graduação em Serviço Social – Mestra-
do em Serviço Social da Universidade Federal do Pará. O campo da 
seguridade social, que abrange a área da saúde, previdência e assis-
tência social, foi escolhido por abrigar a maioria dos profissionais 
de Serviço Social, e por se constituírem nas áreas cujos avanços e 
contradições se mostram mais proeminentes. 
O período pesquisado (2002-2012) coincide com um impor-
tante movimento de mudança/aprimoramento da orientação polí-
tico-pedagógica na área. A partir dessa nova regulamentação, os 
cursos de Serviço Social passaram a reorientaram seus Projetos 
Pedagógicos e suas respectivas estruturas formativas. Ressalte-se 
que nesse recente, mas denso percurso histórico da profissão, dese-
nhou-se e materializou-se – nas distintas esferas profissionais (aca-
dêmica, organizativa e institucional interventiva) – o Projeto ético-
-político do Serviço Social (PEP), o qual veio se processando desde 
finais da década de 1970 com o Congresso da Virada, passando pela 
1 Professor Associado da UFPA. Professor permanente do PPGSS/UFPA. Coordenador do GEPSS.
2 Professora Adjunto da UFPA. Professora permanente do PPGSS/UFPA. Vice-coordenadora do GEPSS.
3 Assistente social. Mestra em Serviço Social e doutoranda pelo PPGSS/UFPA.
4 Assistente Social. Mestranda em Serviço Social pelo PPGSS. Bolsista Capes.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
aprovação de um novo Código de Ética para a Profissão (1993), do 
Currículo Mínimo de 1982 e nas já mencionadas Diretrizes Curri-
culares (1996/2002).
O processo metodológico adotado percebeu o movimento do 
objeto de estudo numa perspectiva crítico-dialética, associando na 
análise as dimensões quantitativa e qualitativa da realidade. Foram 
realizadas revisão bibliográfica (estado da arte) e de pesquisa de 
campo, utilizando-se entrevistas semiestruturadas com assistentes 
sociais que atuavam na área da seguridade social e foram formados 
no período das novas diretrizes. Foi produzido um Seminário sobre 
Seguridade Social em Belém, como forma de socializar os resul-
tados preliminares e criar espaço de debate para captura de novos 
dados para a pesquisa. Os dados obtidos pelas diferentes técnicas 
foram sistematizados e analisados.
O artigo se inicia com a contextualização da política de edu-
cação superior no Brasil e a particularidade do Serviço social; em 
seguida trata das novas diretrizes em Serviço Social e a particula-
ridade dos Projetos Pedagógicos de Serviço Social da UFPA e da 
UNAMA. Na terceira parte analisa os dados da pesquisa de campo 
compreendendo as concepções e práticas de assistentes sociais da 
área da seguridade social.
2. Educação superior sob o neoliberalismo e o Serviço So-
cial
Paradoxalmente no período estudado a formação profissio-
nal em Serviço social sofreu avanços e retrocessos. Os avanços se 
deram nas ações de construção de novos projetos pedagógicos em 
todas as escolas, enfrentando tensões e debates com os interesses 
que mercantilizam a educação; e no campo da educação pública 
enfrentando as forças que precarizam e limitam o alcance e a quali-
dade da formação pública (CAPUTI, 2014).
A partir dos anos 1990, influenciado pelo Neoliberalismo, o 
Estado brasileiro atua de forma focalista na execução das po-
líticas sociais abrindo espaço, assim, para a iniciativa privada 
instalar-se em áreas como saúde e educação, transformando-as 
em mercadoria. No tocante à educação, a iniciativa privadaestende sua rede de influência ao ensino superior, expandindo 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
sua mercantilização. 
Para Dahmer (2008), o longo processo de mercantilização 
somente alcança eficácia quando expande o elemento ideoló-
gico que o legitima, passando a ideia de que os direitos sociais 
transmutam-se em ‘serviços’ oferecidos por empresas privadas.
A educação mostra-se então um mercado lucrativo para o ca-
pital além de um espaço promissor para propagar sua ideia de socie-
dade intelectualizada e colaborativa. Os responsáveis por implanta-
rem essa nova modalidade de ensino mercantilizado no Brasil nos 
anos 1990 foram Collor (1990-1992) e Itamar (1992-1994), mas o 
auge do alcance neoliberal no país veio no governo de Fernando 
Henrique Cardoso (1995-2003) e Lula da Silva (2003-2010). O Es-
tado, ainda sofrendo a influência da crise de acumulação, passa a 
ser definido como ineficiente e burocratizado fazendo com que seja 
necessário reformá-lo.
Um movimento que ocorreu nos governos FHC e Lula que 
devemos levar em consideração foi a naturalização da relação 
público-privada. Relação essa que vem dar abertura para a inicia-
tiva privada investir na política de educação, tirando do Estado 
a responsabilidade única sobre sua execução, cabendo a esta 
apenas o repasse de recursos para a educação. Outro exemplo da 
relação público-privada é a criação em 1999 do Fundo de Finan-
ciamento Estudantil (FIES) criado no governo FHC e ampliado 
no governo Lula que tem como objetivo financiar a graduação 
no ensino superior de estudantes em instituições não gratuitas. 
Ainda segundo a autora, o discurso para a efetivação da expan-
são e democratização do acesso ao ensino superior se utiliza de 
meios como a criação do Programa Universidade para Todos 
(PROUNI), massivo investimento no ensino à distância (EAD), 
reestruturação do ensino público com a inserção do Programa de 
Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades 
Federais (REUNI), entre outros.
Aprova-se em 1996 a Lei das Diretrizes e Bases da Educa-
ção (LDB) que dentro do cenário daquela época provoca grandes 
mudanças na política do ensino superior. Destacamos aqui nesse 
contexto a expansão das unidades de ensino superior à distância que 
começaram com a proposta de profissionalização e que em 2003, 
em meio à contrarreforma da educação, foram estimuladas por de-
- 62 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
cretos e medidas provisórias a expandir seus objetivos e ingressa-
rem no mercado da educação superior. Esta modalidade chega ao 
Serviço Social apenas em 2006 gerando grandes debates dentro da 
categoria profissional.
A política nacional da Educação no Brasil é legitimada pelo 
Consenso de Washington de 1989 que determina condições para 
um reajuste macroeconômico e políticos, servindo como um rea-
juste da reforma educacional. Essas determinações retratam o mo-
vimento de resposta do capital a sua própria crise estrutural. ‘[...] É 
sabido que a ofensiva neoliberal foi aprimorada pelo Dissenso de 
Washington, em 2000, e que viabiliza a abertura e expansão da ex-
ploração do capital privado e a minimização do Estado’ (CAPUTI, 
2014, p. 56).
Como estratégia para alcançar as metas estabelecidas pelo 
Banco Mundial, o governo brasileiro criou o Programa Universida-
de para Todos (PROUNI) e o Programa de Apoio aos Planos de Re-
estruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) para 
trazer o discurso de democratização da educação superior, discur-
so esse assumido pelos governos de Lula e Dilma. O REUNI tem 
como objetivo aumentar o número de vagas nas universidades, mas 
o programa apresenta uma séria problemática: aumenta o número 
de vagas, mas não melhora a estrutura educacional.
Na contramão desse movimento, o Serviço Social, por meio 
de suas entidades representativas, resistiu aos influxos liberalizan-
tes e mercadológicos, buscando implantar as Novas Diretrizes Cur-
riculares que avançavam em todos os sentidos em comparação ao 
Currículo de 1982, conforme se aborda a seguir.
 3. As novas diretrizes curriculares e o projeto pedagógico 
da UFPA e da UNAMA
Diante do contexto acima descrito, a entidade que representa 
a instância máxima de ensino e pesquisa em Serviço Social, na épo-
ca conhecida como Associação Brasileira de Ensino de Serviço So-
cial (ABESS), iniciou um processo em 1993, a XXVIII Convenção 
da Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social encaminha o 
processo de revisão curricular, em função da clara necessidade das 
72 (setenta e duas) unidades de ensino credenciadas, dedicarem-se 
- 63 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
a partir de então à discussão sobre os rumos e as implicações das 
transformações operadas na vida social para o exercício profissio-
nal e o ensino do Serviço Social na contemporaneidade. Após três 
anos de estudos, pesquisas e debates envolvendo as entidades ge-
rais da categoria – ABESS (Associação Brasileira de Ensino em 
Serviço Social), hoje ABEPSS (Associação Brasileira de Ensino e 
Pesquisa em Serviço Social), CFESS (Conselho Federal de Serviço 
Social) e ENESSO (Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço 
Social) – reunidas em fórum nacional, aprovam, em 8 de novembro 
de 1996, a versão final do documento intitulado Diretrizes Gerais 
para o Curso de Serviço Social, com a participação de quase 80% 
das universidades públicas e particulares envolvidas com a forma-
ção profissional dos assistentes sociais. Esse processo foi também 
resultado de um novo movimento interno ao Serviço Social pós-
-reconceituado, que repensou e aprofundou processos iniciados na 
década de 1980. 
No entanto, a proposta original sofre adaptações à nova ló-
gica da política educacional, intrinsecamente formada pelo conteú-
do neoliberal, sendo então aprovada em 2002, com a determinação 
para que todos os cursos de Serviço Social adequassem seus proje-
tos pedagógicos.
Essa proposta buscava definir formas de atuação para a pro-
fissão, inserida nos diversos espaços sócio-ocupacionais diante da 
Questão Social, fundamento da existência do Serviço Social, no 
contexto de desenvolvimento de novas relações entre o público e 
o privado, restituição do papel do Estado diante da reestruturação 
produtiva, do neoliberalismo, da organização de classes e das con-
figurações das lutas sociais.
Definindo, assim, quatro pressupostos que norteiam a cons-
trução do currículo: o Serviço Social é uma profissão interventiva 
que atua no âmbito da questão social a partir do desenvolvimento 
do capitalismo monopolista; pauta-se no atendimento da questão 
social em seus processos constitutivos de um processo de trabalho; 
em face das particularidades da reestruturação produtiva no Brasil 
e reorganização do Estado e das classes trabalhadoras; e, por fim, 
considera que o processo de trabalho profissional é determinado por 
condições estruturais e conjunturais históricas, sociais e políticas.
- 64 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
 Destaque-se nas Novas Diretrizes o reconhecimento da ne-
cessidade de flexibilidade nos currículos com particularidade para 
cada região, porém sem deixar de levar em consideração o rigor te-
órico-metodológico para apreensão da totalidade complexa e dialé-
tica da realidade a se intervir, bem como o direcionamento crítico a 
ser desenvolvido pelo profissional. Outra característica importante 
trazida pelas novas diretrizes é o caráter do trabalho interdisciplinar 
desenvolvido pelo profissional e a indissociabilidade entre ensino, 
pesquisa e extensão, contribuindo para o outro objetivo do currículo 
que é superar a fragmentação da realidade de análise e intervenção. 
Além disso, compõe o currículo a importância e necessidade de plu-
ralidade para desenvolvimento de debates analíticos sobre as várias 
tendências teóricas que norteiam a análise da realidade social. Por 
fim, torna central a questão da ética profissional como forma de nor-
matização da prática profissional, sendo ressaltada em todoo curso.
 Um eixo fundante da proposta de formação dos currículos 
de Serviço Social é a necessidade de reconhecimento e desenvol-
vimento das competências teórico-metodológica, técnico-operativa 
e ético-política para alcançar os objetivos traçados historicamente 
para a profissão como a apreensão da dimensão crítica da totalidade 
social, compreendendo os processos histórico-sociais formativos 
dessa realidade, imersa no capitalismo, e suas demandas que che-
gam ao profissional no mercado de trabalho com necessidade de 
respostas compatíveis com as legislações que regem o social e a 
profissão.
Três núcleos de fundamentação sustentam a proposta das No-
vas Diretrizes: Núcleo de fundamentos teórico-metodológicos da 
vida social, Núcleo de fundamentos da particularidade da formação 
sócio-histórica da sociedade brasileira e Núcleo de fundamentos do 
trabalho profissional. O primeiro deve trabalhar com a complexida-
de histórica de formação do ser social e, com isso, fundamentar os 
dois outros núcleos específicos da particularidade do ser social e, 
consequentemente da profissão.
Essas fundamentações servem de base teórico-pedagógica 
para alcançar os princípios acima citados, rompendo assim com a 
visão fragmentada dos currículos anteriores e aperfeiçoando a re-
lação teoria-prática. Deve-se valorizar também “a intensa convi-
- 65 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
vência acadêmica entre professores, alunos e sociedade” (ABESS, 
1996, p. 9). O objetivo central dessas definições é articular com 
qualidade a formação pautada na construção de tendências de pen-
samento crítico, indagações, investigação e busca de soluções para 
a realidade, conectando-se a diferentes sistemas de mediações só-
cio-políticas da realidade social. 
No caso das escolas de Serviço Social objeto de estudo neste 
trabalho (Universidade Federal do Pará e da Universidade da Ama-
zônia), o início do processo de reconstrução dos projetos pedagó-
gicos ocorreu desde a década de 1990 e foi concluído na primeira 
metade da década seguinte.
A reformulação do projeto pedagógico do Curso de Servi-
ço Social da UFPA – fundado em 1950, e agregado à UFPA em 
1963 – com base nas Diretrizes de 2002 (MEC/SESu) iniciou-se 
em 1993, mas se intensificou depois da aprovação das mencionadas 
Diretrizes e o projeto proposto foi colocado em debate na faculda-
de e somente aprovado em 2004 pelo Colegiado. Segundo o novo 
Projeto Pedagógico, o objetivo central do curso de Serviço Social é 
formar profissionais habilitados para responder às demandas so-
ciais e suas diferentes formas de manifestações (UFPA, 2005). 
A organização curricular do curso de Serviço Social da Uni-
versidade Federal do Pará ficou centralizada em três núcleos obe-
decendo à reformulação curricular da ABEPSS, e a partir desses 
núcleos estruturam-se as matérias, o estágio curricular e o TCC 
(Trabalho de Conclusão de Curso). As matérias se desdobram em 
disciplinas, seminários, oficinas, laboratórios, atividades integrado-
ras indispensáveis do currículo, atividades de extensão e atividades 
complementares, totalizando 3130 horas. O Projeto Pedagógico 
prevê a integração entre ensino, pesquisa e extensão. A avaliação 
do projeto pedagógico acontecerá de forma continuada e estratégi-
ca, por meio da criação de uma comissão permanente de controle e 
acompanhamento das práticas pedagógicas.
No caso do curso de Serviço Social da Universidade da Ama-
zônia, existente desde 1985, os processos de revisões curriculares 
iniciaram desde 1988, e ocorreram também nos anos de 1996, 2001 
e 2003. Esta última está relacionada às diretrizes curriculares de 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
2002. Depois dessa revisão, a carga horária total do curso caiu para 
3600 horas.
O objetivo do Curso, segundo o novo projeto, é 
formar profissionais para: interpretar a realidade social e os 
fenômenos dela derivados; atender com competência analítica 
e técnica, às demandas regionais, desenvolvendo atividades de 
ensino, pesquisa e extensão que contemplem as múltiplas expres-
sões da questão social na sociedade amazônica (...) (UNAMA, 
2012, p. 11). 
Neste sentido, a nova estrutura curricular, também estrutu-
rou sua proposta nos três núcleos de fundamentação, amplifica a 
discussão acerca do estudo das questões amazônicas, da família e 
de temas como corpo, sexualidade e gênero. Forma para a atuação 
profissional com competência para o planejamento, gestão, execu-
ção, avaliação e controle social de políticas públicas e privadas. 
(UNAMA, 2012). 
4. Reflexões sobre as concepções e práticas de assistentes 
sociais formados nas novas diretrizes
 A pesquisa iniciada em 2012 e concluída em 2014 compre-
endeu a apreensão da realidade da execução das diretrizes curricu-
lares por meio dos Projetos Pedagógicos de Serviço Social UFPA 
e da UNAMA, por meio de percepção e de práticas de assistentes 
sociais atuantes na seguridade social. Realizaram-se entrevistas 
com assistentes sociais formados nas novas diretrizes (turmas que 
ingressaram desde 2005 na UFPA e desde 2003 na UNAMA) e que 
atuam na área de seguridade social sediadas em Belém. O quadro 
de sujeitos estava composto da seguinte forma: nove entrevistadas, 
sendo seis da saúde (três da UFPA e três da UNAMA), dois da 
previdência (UFPA) e um da assistência social (UFPA)513. As infor-
mações dessas entrevistas foram transcritas e sistematizadas foram 
transformadas em dados qualitativos. 
As entrevistas foram realizadas por intermédio de formu-
lários com questões objetivas e subjetivas. As primeiras visaram 
5 O desequilíbrio entre a colocação dos sujeitos, seja na instituição de formação, seja na instituição de 
trabalho, deveu-se à dificuldade real de encontrarmos profissionais formados segundo as diretrizes traba-
lhando em Belém.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
conhecer o perfil socioeconômico e laboral dos assistentes sociais. 
As subjetivas abordaram as seguintes categorias: 1- Fundamentos 
da formação profissional; 2- base teórico-metodológica; 3- seguri-
dade social; 4- trabalho do assistente social. Para efeito do presente 
artigo, por questão de espaço, serão considerados apenas os dados 
das entrevistas com os assistentes sociais das questões subjetivas e 
delas nos centraremos na categoria 2 por questão de espaço. 
Esclarece-se que o desequilíbrio entre a colocação dos sujei-
tos, seja na instituição de formação, seja na instituição de trabalho, 
deveu-se à dificuldade real de encontrarmos profissionais formados 
segundo as diretrizes trabalhando em Belém.
Para a análise da categoria base teórico-metodológica foi 
solicitado aos sujeitos da pesquisa que falassem sobre a sua orien-
tação teórico-metodológica, sobre a formação obtida em relação 
ao método dialético e à categoria de mediação e também à relação 
teoria-prática. 
Sobre a orientação teórica desses profissionais na sua forma-
ção. Sabe-se que as Diretrizes Curriculares da profissão indicam um 
direcionamento crítico-dialético predominante e diálogo pluralista 
com outras correntes, processo esse que se construiu e se constrói 
de forma particular no âmbito da correlação de forças dentro de 
cada curso pelo Brasil a fora, logo atravessado por tensões e con-
tradições, já que cada sujeito do processo formativo se relaciona de 
forma particularizada.
Sobre o conhecimento/escolha da teoria social os sujeitos 
assim se manifestaram: 
A teoria que me orienta é o materialismo histórico-dialético. 
Assim, toda vez que eu faço atendimento [...] eu converso, faço 
abordagem, pergunto, procuro entender quais são os motivos que 
fazem com que ela permaneça nessa situação [...] É você elencar 
diversas determinações (AS SAÚDE/ UFPA 1).
[...] a gente estuda muito autores que interpretaram Marx, a 
gente não estuda a ... literatura do Marx propriamente dita [...] o 
marxismo eu acho isso até hoje. Eu tenho muitas dúvidas, porque 
tem pessoas que tem Marx de um jeito; tem gente que tem de 
outro. Tem genteque assume que é marxista e tenta até se vestir, 
se portar de maneira... [...] (AS SAÚDE/ UFPA 2)
- 68 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
É possível perceber importantes limitações conceituais e 
hesitações analíticas e até contradições na chamada “adoção” da 
teoria crítico-dialética nessas falas, independente da instituição de 
formação. Interessante registrar a diversidade de posturas identifi-
cadas pelo sujeito 2 nos discursos e atitudes. Na sua visão é possível 
captar a tentativa de trazer para o cotidiano a análise teórica, numa 
tentativa de compreensão numa perspectiva de totalidade.
 Quando questionadas sobre a teoria social em que baseiam 
sua prática, elas respondem: “[...] no Marxismo, nas mediações, nas 
relações sociais de produção, na questão econômica [...] tentando 
uma perspectiva de mudança né? [...] o sistema a gente não conse-
gue transformar ele, mas a gente consegue transformar o dia a dia. 
[...] (AS SAÚDE/UNAMA 6, grifei). Com essa informante admite 
a percepção crítico-dialética e até se refere a categorias centrais na 
teoria marxiana, mas não vê possibilidade de transformar o modo 
de produção, caindo num fatalismo histórico. Só percebe a micro-
transformação do dia a dia, do caso a caso, sem uma perspectiva de 
historicidade, indissociável da perspectiva marxiana.
Eu acho que a marxista. Foi a que mais eu tive conhecimento, 
proximidade. Eu acho que infelizmente eu não pude conhecer 
as outras. [...] eles acabavam tipo meio que como se diz ... é.... 
deixando de lado e as outras teorias a gente acabou não conhe-
cendo. [...] Até então, embora, eu pense que eu deveria conhecer 
um pouco mais das outras, mas eu acho que até então é a que 
melhor explica a minha realidade. (AS SAÚDE/ UFPA 7).
O sujeito 7 revela um problema importante teórico episte-
mológico: a teoria crítico-dialética enfraquece seu poder heurístico 
quando ensinada isolada do debate com outras tradições intelectu-
ais, ou pior, isolada da própria realidade. O risco do dogmatismo e 
suas trágicas consequências teóricas e políticas são evidentes.
Eu aprendi a teoria na disciplina de FHTM, foi onde eu tive uma 
clareza. Eu tento incorporá-la o máximo possível. É sempre a 
questão de apreender os fenômenos sociais e tentar não as julgar 
de acordo com o senso comum. Saber o sempre, o porquê que 
ele existe. É sempre o concreto. O concreto que é o conjunto 
das múltiplas determinações que todo fenômeno social, que toda 
expressão da questão social vem até em mim. Eu tento incor-
porar mesmo que a prática seja tão forte podendo até engolir a 
- 69 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
parte teórica me fazendo até pensar que haja um descolamento 
da teoria e da prática, mas eu tento sempre usar a teoria. (AS 
ASSISTÊNCIA/ UFPA 9).
 
A proposta das novas diretrizes curriculares opta por um di-
recionamento materialista crítico-dialético, as falas acima corrobo-
ram com este direcionamento e reiteram que a disciplina de FHTM 
foi a que mais contribuiu na formação para o reconhecimento desta 
perspectiva. 
Especificamente sobre a categoria mediação do método 
dialético, verificando todas as referências dos sujeitos da pesquisa 
sobre o tema dialética em geral e mediação em particular, percebe-
-se que em ambos casos há uma clara fragilidade em ambas escolas 
de formação, com pouco melhor clareza nos formados da UFPA. 
Especialmente, no que tange à categoria de mediação predominou 
ou uma visão confusa ou a admissão do desconhecimento. Anali-
semos:
[...] a gente precisa lidar com essa mediação, porque a gente lida 
assim: paciente, família [...]. Isso aí gera às vezes um conflito 
muito grande dentro do nosso trabalho [...]. Porque por a gente 
não consegui manter um bom relacionamento, uma boa dinâmica, 
assim pra que esse trabalho tenha uma dinâmica que dê certo 
[...] Vez por outra a gente precisa recorrer pra mediação. (AS 
SAÚDE/ UNAMA 5, grifo nosso).
Como se pode notar, a profissional da Unama apenas “vez 
por outra” recorre à categoria de mediação, para melhorar o rela-
cionamento. Tomando a mediação no sentido de intermediação de 
conflitos, quando a questão proposta foi em direção à categoria do 
método; logo na refração institucional se instrumentalizou, segundo 
se pode depreender. Enquanto que a da UFPA afirma na mesma 
direção: “A gente utiliza muito aqui. A mediação de conflitos entre 
profissionais, entre o próprio usuário e a instituição e às vezes den-
tro do seio familiar do usuário. Onde existem conflitos entre eles e a 
gente precisa entrar nesse meio pra tentar intervir e ver se melhora. 
[...] (AS SAÚDE/ UFPA 7, grifo nosso).
Examinando as falas sobre a mesma questão de outras infor-
mantes é possível notar a mesma confusão anotada acima e mais 
um problema com a categoria essência/aparência: 
- 70 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
É você ir buscar a essência desse ser, o mais subjetivo possível, 
você sair da via da aparência, porque o aparente ele é vazio, ele 
é nulo ele te dá uma prática seca. Quando você vai à busca da 
essência você, você vai buscar o subjetivo [...]. (AS SAÚDE/
UNAMA 6, grifo nosso). 
Ao contrário do que preconiza ser o caminho metodológico 
mais correto aquele que vai do abstrato ao concreto e o encontra 
como síntese de muitas determinações (MARX, 1982).
Informantes formados na UFPA admitem que não lembram 
ou não têm domínio sobre o tema da dialética em particular da me-
diação: “Não, foi fraco. Tanto que eu fiquei até agora nervosa. Falei 
‘meu Deus eu não me lembro da mediação!” (AS SAÚDE/ UFPA 
8). “Não, não me lembro de ter estudado isso”. (AS ASSISTÊN-
CIA/ UFPA 9). “Mediação... [pensando] ...se eu te falar que eu me 
lembro pouco?” (AS PREVIDÊNCIA/ UFPA 10).
 Identifica-se com estas respostas o quanto esta categoria do 
método, que foi um avanço no amadurecimento teórico profissional 
da década de 1990, ainda precisa ser aprofundada ou até mesmo 
inserida no debate, porque das profissionais que se arriscam em res-
ponder, confundem-na com a mediação de conflitos, dando desta-
que ao relacionamento com o usuário e com outros profissionais, 
há ainda as que não se lembram ou afirmam nem sequer terem-na 
estudado.
Outra evidência revelada nas respostas às questões em tela 
é o problema da confusão entre teoria social e legislação social 
ou direitos sociais. “É, procurar estudar principalmente legislação. 
Que a gente precisa muito desse conhecimento. [...]” (AS SAÚDE/ 
UFPA 8). “[...] As políticas sociais que a gente vai buscar. Dentro 
das políticas sociais porque, é fundamental a previdência, a assis-
tência, é fundamental a gente ter esse apoio de buscar as políticas. 
[...]” (AS SAÚDE / UNAMA 5). Esta fala reflete o desconheci-
mento completo da concepção de teoria social e também se torna 
um fator a ser considerado no desenvolvimento da formação tendo 
como prisma as novas diretrizes.
Estas duas falas revelam uma questão muito preocupante 
quanto à relação que é a visualização de que a teoria da profissão 
se resume às legislações com que o profissional lida diariamente. O 
- 71 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
não reconhecimento da teoria enquanto acompanhamento do mo-
vimento do objeto, do real, é certamente motivo de reflexão e de 
avaliação. 
 No que respeita à compreensão da relação teoria-prática os 
sujeitos assim se manifestaram:
Eu entendo que a teoria ela enriquece muito o nosso conheci-
mento ela faz a gente entender a nossa prática; ela faz entender 
e relacionar, mas, pra utilizar mesmo pra por em prática, pra 
tentar melhorar, pra trazer melhoria pro serviço não. [...] Porque 
você chega aqui você é engolida de certa forma e essa hierarquia 
eu acho que ela impede. (AS SAÚDE/ UNAMA 4, grifos nossos).
O reconhecimento da importância da teoria para interpretar e 
sua inutilidade para transformar colide frontalmente com a famosa 
frase do jovem Marx quanto à necessidade da interpretação levar à 
transformação (MARX, 1982). É um entendimento problemáticodo poder institucional e do saber do profissional na sua inserção ins-
titucional, desconsiderando as possibilidades da correção de forças 
na luta contra-hegemônica, já bem estudado desde a reconceituação 
(PONTES, 2016).
[...] A teoria ela é muito bonita, te dá a opção do geral, do conhe-
cimento amplo, conhecimento. A prática ela é a questão real, é 
quando você se depara com as dificuldades com as limitações, 
então você utiliza a teoria dentro da prática é pra fundamentar 
essa prática. [...] Mas quando a gente vê que tá dentro de uma 
instituição que você não pode ultrapassar o elo dessa instituição 
[...] Então, são esses aspectos assim que a gente vai vendo que 
não é bem como se diz na teoria, mas, sem a teoria o profissional 
não consegue fazer uma prática fundamentada. (AS SAÚDE/
UNAMA 6, grifos nossos).
 
Essa rica manifestação põe em confronto noções corretas 
e distorções. Percebe autonomia relativa de cada dimensão, bem 
como sua indissociabilidade, mas resvala para o fatalismo institu-
cional, da impossibilidade de resistir à dominação, como a anterior 
informante.
Além disso, pode-se questionar a afirmação de que “você não 
pode ultrapassar o elo dessa instituição”, porque revela uma grave 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
incompreensão do significado da categoria de contradição e de his-
toricidade. Ao contrário do que parecem, as contradições manifes-
tas no espaço sócio-ocupacional são as próprias mediações com as 
quais trabalha o assistente social e não meros obstáculos (PONTES, 
2016).
Mas, o problema de que a relação teoria-prática quando “che-
ga” na dimensão prática é eclética teoricamente se manifestou: 
[...] dificilmente tu vai lidar com a prática fundamentada em 
Marx, baseada no Marxismo, fundamentada no positivismo, ou 
no funcionalismo. Elas servem de base pra ti conhecer a reali-
dade. Na questão de ação, de intervenção todas elas se juntam, 
na minha prática eu utilizo assim [...] (AS SAÚDE/ UFPA 2).
 Quando o sujeito 2 afirma que na prática “todas as teorias 
se juntam” resvala para o ecletismo, comprometendo efetivamente 
os pressupostos da formação profissional segundo as novas diretri-
zes. A questão da importância do reconhecimento de outras teorias 
é evidenciada nas falas, porém, com o objetivo de compreensão e 
segurança na efetivação do debate, conforme se pode verificar a se-
guir: “[...] Apesar de a proposta ser né a formação nessa perspectiva 
crítica, além de sentir falta da questão da própria teoria do Marx, 
eu sinto dificuldade hoje na própria questão do conhecimento em 
geral. Que a gente estudou minimamente o funcionalismo, a feno-
menologia, então, nem se fala [...]’’ (AS SAÚDE/ UFPA3).
 É nítida a preocupação destas profissionais com o aprofun-
damento do seu conhecimento da teoria marxista, já que é o princi-
pal direcionamento profissional, assim como a sua articulação com 
a prática. Elas se preocupam em desenvolver uma prática crítica, 
porém ficam inseguras diante da complexidade da teoria e revelam 
a necessidade que têm de conhecer também as outras teorias sociais 
clássicas e quiçá contemporâneas.
 Por fim, de uma forma geral, quando questionadas sobre 
como processam a relação teoria-prática, destacam-se as seguintes 
respostas: “a nossa formação é muito precária e a realidade ela é 
muito mais complexa. Acho que o curso que a gente deu na federal 
não prepara a gente [...] depois que você vai pra prática você vai 
ver o quanto foi precária a tua formação”. (AS SAÚDE/ UFPA 2). 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
[...] Eu acho que a teoria é a teoria a prática é a prática, mas ambas 
estão ligadas, uma não sobreviveria ser a outra. Como eu posso me 
apropriar dos saberes que eu tive na academia pra que eu possa fa-
zer uma prática melhor possível? (AS SAÚDE/ UNAMA 5).
O choque entre a formação e a complexidade do real pro-
move confusão de percepções nos informantes. A teoria não “se 
aplica” como muitos afirmam, porque é ontológica e emerge da 
própria entranha do ser social (PONTES, 2016), razão porque são 
dialeticamente articuladas. Os sujeitos percebem isso. No entanto, 
parecem não identificar o componente dialético da prática sobre a 
teoria, quando esta põe à prova princípios e teses, destroçando-os, 
muitas vezes, e fazendo a teoria dialeticamente se recriar. Aí está 
a práxis, categoria não identificada em nenhuma fala dos sujeitos.
O sujeito 10 abaixo identifica o caráter “mecânico” e repeti-
tivo do cotidiano como um obstáculo a ser superado.
[...] É porque tem dia que fica mecânica né?! [...] eu sempre 
quando posso, pelo menos semanalmente, de quinze em quinze 
dias, eu tento fazer alguma leitura de Serviço Social para não 
perder a teoria. [...] as colegas se reúnem, contam um pouquinho 
das nossas vivências, perguntas, nossas dúvidas, a gente comenta 
muito como foi nossos atendimentos e para poder questionar 
uma com a outra e tentar ver, não se a gente está certo ou está 
errada, mas tirar as dúvidas (AS PREVIDÊNCIA/ UFPA 10).
E verifica que sem uma reflexão grupal o caráter reificador 
das instituições e suas práticas burocratizadas vencem as resistên-
cias da reflexão teórico-prática. Expõe uma vivência de resistência 
com a criação desse espaço de estudos e críticas, certamente pouco 
usual em nossas precarizadas instituições.
De um modo geral, cotejando os avanços com a construção 
das novas diretrizes de Serviço Social com as tendências apresen-
tadas nas respostas, pode à primeira vista parecer desanimador, da-
das as limitações encontradas nas compreensões e visões de prática 
profissional. Sem embargo, havemos de contextualizar que a afir-
mação de uma perspectiva crítico-dialética num cenário de tama-
nhas regressões promovidas pela onda neoliberal tem-se aqui uma 
trincheira de resistência, que os dados revelam a necessidade de 
aprimoramento.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
5. Conclusão
A pesquisa cujos resultados finais são em parte apresentados 
no presente artigo se revelou necessária e útil ao cotejar o produ-
to da formação profissional na forma de visões e concepções de 
assistentes sociais formado segundo as novas diretrizes (2002) de 
duas escolas pública (UFPA) e privada (UNAMA). Dentro de um 
escopo de precarização do ensino superior público e mercantiliza-
ção da formação profissional sob os influxos neoliberal no Brasil. 
Revela a luta por consolidar avanços teórico-metodológicos trazi-
dos na consolidação do projeto ético político da categoria, em meio 
a condições desfavoráveis. 
A pesquisa revelou, na dimensão privilegiada pelo presente 
artigo – a dos fundamentos teórico-metodológicos – importantes 
problemas e avanços na UFPA e na UNAMA, os quais passamos a 
explicitar: é um claro avanço perceber em ambas escolas o esforço 
por dar uma formação com ênfase na teoria crítico-dialética e tendo 
os valores ético-políticos como base para alcançar o perfil profis-
sional desejado. 
Quanto aos limites mais importantes na apreensão da di-
mensão teórico-metodológica identificou-se que uma parte dos in-
formantes identifica com clareza a fundamentação teórica, no que 
respeita a noção de teoria social, método dialético, categoria de 
mediação e relação teoria prática, mas a predominância das per-
cepções tendeu a revelar compreensões distorcidas das categorias 
teórico-metodológicas da teoria crítica como mediação e práxis. 
Revelando que, embora os projetos pedagógicos avancem em re-
lação ao currículo de 1982, a sua execução necessita importantes 
aprimoramentos. 
Embora o projeto pedagógico da UFPA seja mais enfático 
quanto à necessidade da solidez teórica que o da UNAMA (porque 
o da UFPA destina mais carga horária teórica), se encontrou proble-
mas e virtudes em informantes de ambas escolas. Ainda no campo 
teórico metodológico, percebeu-se nas falas a queixa por falta de 
aprofundamento do método dialético e falta de aproximação a ou-
tras tradições teóricas, o que fragiliza a formação.
- 75 -
SERVIÇOSOCIAL - trabalho e sustentabilidade
6. Referências
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Profissional. Revista Serviço Social & Sociedade. São Paulo. 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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In: Serviço Social: Direitos Sociais e Competências Profissionais. 
Brasília. CFESS/ABEPSS/CEAD. UnB. 2000.
- 77 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
TRABALHO, FORMAÇÃO PROFISSIONAL 
E A PRÁXIS EDUCATIVA NO SERVIÇO 
SOCIAL
Eliane Marques de Menezes Amicucci114
Cirlene Aparecida Hilário da Silva Oliveira215
1. Introdução
As reflexões tecidas neste capítulo são resultantes de nossas 
indagações, inquietações advindas das problemáticas que envolvem 
a formação e o exercício profissional, que culminaram na constru-
ção da tese de doutorado em Serviço Social. A tese teve como ob-
jeto de estudo a dimensão pedagógica da supervisão acadêmica de 
estágio na formação profissional em Serviço Social.
Entendemos a formação profissional como um processo pelo 
qual o sujeito agrega conhecimentos teóricos, saberes e vivências 
do cotidiano em um movimento permanente do conhecimento, es-
tabelecendo a relação entre teoria e realidade. A partir dessa afirma-
ção, depreende-se que a formação profissional é um extenso e per-
manente caminho de aprendizagem e está no âmbito da educação 
na perspectiva da criticidade, criatividade e transformação social.
 A educação no sistema capitalista não tem essa caracterís-
tica, além disso, o indivíduo, nessa lógica, está tendenciado para 
a produção de mercadorias, para as necessidades do capital e para 
reproduzir esse sistema. Não sendo preparado, portanto, para que 
construir conscientemente opiniões, princípios e valores emanci-
patórios.
Isso se agrava mais em tempos com alto grau de conserva-
dorismo e intolerâncias diversas, seja à religião, às relações sociais 
1 Assistente Social. Doutora em Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da 
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais-UNESP/Franca. Docente do curso de graduação e mestrado em 
Serviço Social da PUC Goiás. Membro do GEFORMSS - Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Formação 
Profissional em Serviço Social e do GEPESE-Grupo de Estudos sobre Serviço Social na Educação, cadas-
trados no CNPq. E-mail: elianeamicucci@yahoo.com.br
2 Assistente Social. Doutora em Serviço Social. Docente do Curso de Graduação e do Programa de Pós-
-Graduação em Serviço Social da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais-UNESP/Franca. Líder do 
GEFORMSS - Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Formação Profissional em Serviço Social, cadastrado 
no CNPq. E-mail: cirleneoliveira@terra.com.br
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
de gênero, à cor, à raça ou à etnia. O capital sucumbe à reprodução 
de processos alienantes de forma constante e, na educação, não é 
diferente.
Nesta forma de sociabilidade, há desigualdade entre as clas-
ses sociais e exploração do trabalho, somadas à educação, voltadas 
à reprodução dos interesses do capital. Nesse contexto, a subjetivi-
dade do indivíduo fica subestimada ao mundo objetivo. 
Assim, não há a preocupação de desenvolver a subjetividade 
do homem, seus valores, comportamentos e sentimentos; ou seja, o 
homem nesta sociabilidade não é visto em sua totalidade ─ que é 
composta pela objetividade e subjetividade ─ e prevalece apenas a 
objetividade, o que impede a formação integral do ser social.
A partir destas considerações, propomos discutir o processo 
formativo para além de uma capacitação para o exercício profissio-
nal na direção dos interesses do mercado de trabalho. Não se trata 
de ignorar essa relação, mas de refletir se por meio da práxis edu-
cativa inerente ao Serviço Social é possível vislumbrar a formação 
de assistentes sociais reflexivos, críticos na busca e luta constante 
por outra sociabilidade. Para tal proposta dividimos o capítulo em 
duas seções. 
Na primeira seção, apresentamos a indissociabilidade entre 
formação e trabalho profissional. Como mencionado anteriormente, 
não se ignora essa relação que já vem estabelecida nas Diretrizes 
Curriculares da ABEPSS de 1996316, e que pressupõem a formação de 
um perfil profissional crítico, capaz de interpretar a realidade social 
para nela intervir por meio das dimensões teórico-metodológicas, 
ético-políticas e técnico-operativas do Serviço Social. Também 
analisamos como as alterações do mundo do trabalho incidem na 
propositura de novo perfil profissional. 
Na segunda seção, atemo-nos à discussão sobre a forma-
ção profissional e a práxis educativa, refletindo a possibilidade da 
formação humana por meio de atividades educativas no âmbito 
do processo formativo, o que sinaliza uma formação voltada aos 
princípios e valores do projeto ético-político profissional.
3 A proposta para implantação do novo currículo para os cursos de Serviço Social foi apreciada na Oficina 
Nacional de Formação Profissional e aprovada em Assembleia Geral da ABEPSS, ambas realizadas no 
Rio de Janeiro, nos dias 07 e 08 de novembro de 1996, posteriormente encaminhado para aprovação do 
Ministério de Educação – MEC. Em 04/07/2001 o texto final foi homologado pelo MEC, mas com “[...] 
forte descaracterização no que se refere à direção social da formação profissional, aos conhecimentos e ha-
bilidades consideradas essenciais ao desempenho do assistente social [...]”. (IAMAMOTO, 2014, p.616) 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
2. Indissociabilidade entre formação e trabalho profissional
Compreendemos que formação e trabalho profissional estão 
intrínsecos e precisam ser refletidos de forma articulada. Pensar na 
formação profissional requer análise histórica da sociedade e da 
profissão, requer articulação entre formação profissional e mercado 
de trabalho que está condicionado às transformações do mundo do 
trabalho, bem como, identificar as contradições presentes na rea-
lidade e entre as classes sociais para que o assistente social possa 
responder às demandas apresentadas em seu cotidiano profissional 
de forma qualificada. 
É importante sinalizar que partimos da concepção que Serviço 
Social é trabalho, considerando a dimensão ontológica dessa 
atividade que parte da relação direta do homem com a natureza e 
geraum produto e valor, condicionando o processo de acumulação 
capitalista.
 O processo de trabalho do assistente social é guiado por 
uma intencionalidade e, na sua condição de profissional assalaria-
do, envolve uma relação de troca, por meio da venda da sua força de 
trabalho ao empregador, tendo valor de uso porque responde a uma 
necessidade social e produz um resultado que tem objetividade ma-
terial ou social, dada sua particularidade na divisão social e técnica 
do trabalho, assim, considera-se o Serviço Social como trabalho. 
(IAMAMOTO, 2008).
O Serviço Social opera como trabalho produtivo e improdu-
tivo. É produtivo “[...] quando participa da geração das condições 
para extração da mais-valia [...] embora não opere diretamente no 
chão da fábrica como o operário, no entanto, ele igualmente partici-
pa do processo-como trabalhador coletivo-[...]”. (GRANEMANN, 
1999, p.160).
O Serviço Social é improdutivo quando não opera na extra-
ção da mais-valia, quando, na condição de assalariado não gera va-
lor ao empregador; neste caso, encontra-se o assistente social que é 
contratado para executar as políticas sociais, ou seja, “[...] o assis-
tente social contratado para desenvolvê-las troca seu valor de uso 
– sua força de trabalho – por um salário em troca de uma atividade 
que não agrega valor para o Estado, por não cumprir o objetivo de 
se transformar em capital [...].” (GRANEMANN, 1999, p.161).
- 80 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A mesma autora afirma que compreender o Serviço Social 
como trabalho é compreender sua inscrição na história e seu signi-
ficado social:
O reconhecimento do Serviço Social como trabalho está hipo-
tecado ao entendimento da gênese de várias profissões que, em 
um dado tempo do desenvolvimento do modo de produção torna-
ram-se quase tão igualmente necessárias para a sua continuidade 
como o próprio trabalho operário. De tal modo, isso é possível 
constatar no movimento do real, que não foi tão somente o Ser-
viço Social que surgiu na passagem do capitalismo concorrencial 
ao capitalismo monopolista. Acompanharam-no, por exemplo, 
os surgimentos de engenharias de produção, da propaganda (e 
de outras ligadas à comunicação) e do conhecimento da subje-
tividade humana. (GRANEMANN, 1999, p. 159).
Elucidamos que o processo de institucionalização do Serviço 
Social no Brasil está imbricado na intervenção do Estado, com su-
porte da Igreja Católica, na perspectiva de enfrentamento das mani-
festações da questão social a partir do ano de 1930, em um processo 
de industrialização e consolidação do sistema do capitalismo mo-
nopolista; logo, as manifestações da questão social se constituem 
como objeto, matéria-prima da profissão, bem como justificativa de 
constituição do Serviço Social na divisão sociotécnica do trabalho.
A profissão de Serviço Social surge no modo de produção 
capitalista e tem nas Diretrizes Curriculares da ABEPSS de 1996 a 
centralidade da categoria trabalho na formação profissional. Assim 
sendo, sua análise e compreensão devem se realizar a partir das suas 
particularidades na inserção dos assistentes sociais no mercado de 
trabalho.
A conjuntura interfere diretamente no trabalho dos assisten-
tes sociais, nas suas formas de realização. Da mesma forma, os pro-
cessos de contrarreformas neoliberais impõem novas configurações 
ao mercado de trabalho.
Assim, verificamos que a reestruturação produtiva teve im-
plicações na esfera da produção e no aparato institucional implican-
do na mudança do papel do Estado, além da desregulamentação e 
flexibilização dos direitos do trabalho, na reconfiguração das polí-
ticas sociais com tendências de privatização, mercantilização e de 
refilantropização. (ALMEIDA, ALENCAR, 2011).
- 81 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Essas modificações trazem novas exigências ao Serviço So-
cial. O mercado de trabalho passa a requisitar novas competências, 
habilidades, redesenhando as atribuições profissionais. Estas mu-
danças estão diretamente relacionadas às formas políticas e insti-
tucionalizadas de enfrentamento da questão social e das mediações 
existentes entre as instituições sociais, trabalho profissional dos as-
sistentes sociais e as políticas sociais.
As políticas sociais estão subordinadas à desregulamentação 
dos mercados com suporte do Estado não viabilizando a univer-
salidade, pelo contrário, focalizando tais políticas aos segmentos 
empobrecidos da classe trabalhadora.
Os assistentes sociais operacionalizam essas políticas sociais 
de forma institucionalizada. As instituições ocupam um espaço 
político nas relações entre Estado e sociedade civil. (FALEIROS, 
2009).
As instituições exercem um papel hegemônico na sociedade 
e servem como mecanismos reguladores das crises do desenvolvi-
mento capitalista. Na forma de controle por meio das entrevistas, 
visita domiciliar, acompanhamento da população, e até de coerção, 
colocam as pessoas que as buscam numa situação de subordinação, 
porque o profissional utiliza de seu saber técnico e das possibili-
dades institucionais para atender as demandas a partir das legali-
dades existentes. Dessa maneira, o sujeito é posto numa condição 
de passividade, ou seja, é “incluído” ou “excluído” dos benefícios 
possíveis. (FALEIROS, 2009). 
A configuração das áreas e espaços institucionais de atuação 
profissional insere-se no contexto mais amplo da configuração do 
mundo do trabalho, ou seja, no processo de produção e reprodução 
da vida social; daí a sua dinamicidade. É nesse espaço que se mani-
festam as expressões da questão social, o que desafia o profissional 
a assimilar as demandas tradicionais e emergentes. 
O processo de produção e reprodução social permite com-
preender a profissão de Serviço Social na sociedade capitalista. A 
reprodução social significa o modo de vida em sociedade nos ter-
mos materiais, espirituais e culturais, são condições que permeiam 
a trama das relações sociais. (YAZBEK, 1999).
A reprodução social é uma categoria importante para o en-
tendimento do trabalho profissional porque o assistente social atua 
- 82 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
diretamente na reprodução das relações sociais e nessa dinamicida-
de pode fortalecer um dos dois polos de sua intervenção: ao traba-
lhador ou ao empregador. Permite entender que a profissão não é 
contraditória, entretanto, está inserida historicamente nos processos 
contraditórios entre capital e trabalho.
A apreensão da profissão na sociedade e seu significado so-
cial estão atrelados a unidades contraditórias: de um lado, como o 
profissional se aproxima e investiga a realidade social e a expressa 
pela sua compreensão teórico-metodológica, ético-política e técni-
co-operativa; e de outro, como o Serviço Social, sendo determinado 
socialmente pelo contexto e circunstâncias, direciona o exercício 
profissional.
Nessa perspectiva, é preciso reconhecer que há implicações 
políticas nas ações dos assistentes sociais, já que seu exercício pro-
fissional se desenvolve no interior dessas relações sociais, entre as 
classes sociais, polarizado pelos interesses existentes nas condições 
objetivas e subjetivas que se surgem no momento da realização do 
trabalho profissional.
Pode-se afirmar que o Serviço Social contribui para o pro-
cesso de reprodução dos interesses do capital como as respostas das 
necessidades de sobrevivência da classe trabalhadora. (YAZBEK, 
1999).
Esta condição significa que o Serviço Social é polarizado por 
essa contradição, porém, ele pode criar estratégias profissionais e 
políticas para reforçar os interesses da população com a qual traba-
lha. Neste âmbito requerem-se profissionais que estejam em “[...] 
sintonia com as mudanças e atenção à qualificação contínua” (KOI-
KE, 2009, p. 81). 
Ao mesmo tempo, o trabalho profissional cotidiano deve es-
tar voltado para a consolidação do projeto ético-político profissio-
nal e, sobretudo, para o reconhecimento do homem como ser social. 
(NETTO, 1999. p. 91). O grandedesafio posto ao profissional de 
Serviço Social é desenvolver a capacidade de decifrar a realidade e 
construir propostas criativas e efetivar direitos por meio de aportes 
teórico-metodológicos, ético-políticos, que norteiam seu trabalho, 
o que possibilita a transformação da realidade social na perspectiva 
da práxis.
- 83 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Nessa dimensão, é imprescindível mencionar que a formação 
profissional deve estar articulada ao exercício profissional, uma vez 
que ela está presente na contraditoriedade da sociedade capitalista e 
requer sua apreensão para que se construa uma prática voltada à so-
ciedade civil, “[...] mas também a visão de mundo dos subalternos, 
decifrando seus códigos, suas maneiras particulares de expressão de 
sua vida social em formas culturais”. (IAMAMOTO, 1998, p.196).
Diante dessa reflexão, é preciso que:
[...] a formação profissional possibilite aos assistentes sociais 
compreender criticamente as tendências do atual estágio da ex-
pansão capitalista e suas repercussões na alteração das funções 
tradicionalmente atribuídas à profissão e no tipo de capacitação 
requerida pela “modernização” da produção e pelas novas formas 
de gestão da força de trabalho, que dê conta dos processos que 
estão produzindo alterações nas condições de vida e de trabalho 
da população que é alvo dos serviços profissionais [...]. (IAMA-
MOTO, 2008, p.180). 
 Ressaltamos a resistência da categoria profissional a este 
cenário em que predomina a ideologia neoliberal, a reestruturação 
do capital e a mercantilização do Ensino Superior, gerando a ne-
cessidade do fortalecimento do projeto ético-político profissional, 
sendo preciso: 
[...] ênfase numa formação acadêmica qualificada, alicerçada 
em concepções teórico-metodológicas críticas e sólidas, capaz 
de viabilizar uma análise concreta da realidade social, formação 
que deve abrir o passo à preocupação com a (auto) firmação 
permanente e estimular uma constante postura investigativa. 
(NETTO, 1999, p. 105).
Para compreender o processo dinâmico da formação profis-
sional na contemporaneidade é necessário conceber os fundamen-
tos da profissão de Serviço Social ancorados na perspectiva da to-
talidade histórica, ou seja, o Serviço Social se explica na história 
da realidade brasileira e não somente na história da profissão; mas, 
logicamente, a própria evolução da profissão, suas diferentes fases, 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
momentos, como por exemplo, o Movimento de Reconceituação417, 
tem o seu significado nesta totalidade histórica.
O projeto de formação profissional também explica esse pro-
cesso, compreendendo as relações entre as classes sociais e o Es-
tado. O Serviço Social é expressão do debate social e cultural do 
seu tempo, resultado de luta dos seus agentes, que está inserida na 
divisão sociotécnica do trabalho. 
Formação profissional é um processo contínuo e inacabado 
de auto-qualificação, de educação permanente, de construção e re-
construção de saberes mediatizados pela prática social e profissio-
nal de sujeitos. 
3. Formação profissional em Serviço Social e a práxis edu-
cativa
 A formação integral do homem perpassa pelas condições de 
uma educação que propicie a consciência crítica do ser social, que 
ele seja participativo, criativo e não meramente preparado para ob-
ter competências e habilidades para o mercado de trabalho.
A educação também é para além das salas de aula e se ela 
abarca a vida social, o processo de ensino-aprendizagem precisa 
ultrapassar a educação formal que se encontra imbuída pela lógi-
ca do capital. A educação entendida como construção coletiva de 
produção do conhecimento, da ação social, da busca intencional de 
sentidos e significados, do diálogo e interação, perpassa todas as 
práticas sociais.
Toda ação humana deve ser interpretada como atitude in-
fluenciada pelo contexto, pelo momento e pela posição. Tudo o que 
dá sentido a ela, seja do ponto de vista da sociedade ou do próprio 
indivíduo, precisa ser entendido a partir da constituição cultural e 
histórica em suas relações sociais.
A educação integra, junto com outras dimensões da vida so-
cial, o conjunto de práticas sociais necessárias à continuidade de 
4 Este movimento aconteceu no contexto de mudanças econômicas, políticas, sociais e culturais que ex-
pressaram nos anos de 1960 configurações, que caracterizaram a expansão do capitalismo mundial e que 
impuseram à América Latina um estilo de desenvolvimento excludente e subordinado. A vanguarda da 
profissão, movida pelas inquietações e insatisfações do referido momento histórico, iniciou um amplo mo-
vimento de questionamentos acerca do Serviço Social tradicional; que resultou num processo de revisão 
na totalidade da profissão, tanto no seu exercício profissional como nos seus fundamentos teórico-meto-
dológico, técnico-operativo, ético-político, “[...] abrindo espaços para o debate, para a reflexão e para a 
crítica [...] (MARTINELLI, 2009, p.143).
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
um modo de ser e às formas de sociabilidade que particularizam 
uma determinada sociedade. Sua função social, portanto, é marcada 
pelas contradições, pelos projetos e pelas lutas societárias. 
A educação é historicamente e hegemonicamente conserva-
dora, constitui um espaço de disputa, o que dificulta, nesta sociabili-
dade, a formação integral do homem, pois ela atende aos interesses 
das classes dominantes.
É neste momento que descobrimos a natureza e função 
da educação. Cabe a ela, aqui conceituada num sentido 
extremamente amplo, a tarefa de permitir aos indivíduos 
a apropriação dos conhecimentos, habilidades e valores 
necessários para se tornarem membros do gênero humano. 
(TONET, 2016, p.97).
A educação como está, organizada nos moldes do capital, 
não permite a construção de uma visão crítica da realidade, muito 
menos da sociabilidade alienada e alienante.
É necessário criar estratégias para modificar as condições 
objetivas de reprodução a partir da universalização da educação 
e do trabalho como atividade humana auto-realizadora, pensar a 
educação para além do capital, exige pensar na sobrevivência do 
ser humano. (MÉSZAROS, 2008). 
É por meio da educação que o despertar crítico para a leitura 
da realidade social pode acontecer, assim como a construção do 
conhecimento das contradições inerentes ao sistema capitalista.
A educação para além do capital pressupõe uma dimensão 
educativa que envolve a todos os interessados em uma mudança 
social, participação inclusive dos educadores que também precisam 
ser educados. (MÉSZAROS, 2008). 
Nesse sentido, formação profissional do assistente social está 
no âmbito da educação. Educação é um processo mais amplo, [...] 
é uma prática humana direcionada por uma determinada concep-
ção teórica. A educação é um típico ‘que fazer’ humano, ou seja, 
um tipo de atividade que se caracteriza fundamentalmente por uma 
preocupação, por uma finalidade a ser atingida. (LUCKESI, 1993, 
p. 21). 
O processo educacional envolve, não apenas a socialização 
de conhecimentos e informações para o outro, mas também valores, 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
conceitos, significados e finalidades que norteiam a vida em socie-
dade quando superados conteúdos enviesados pela sociabilidade 
burguesa.
Ao processo educacional deve estar articulado uma prática 
pedagógica, uma prática de ensino que propicie, ou melhor, desen-
cadeie a formação profissional de sujeitos assistentes sociais, en-
tretanto, antes, que sujeitos críticos partícipes dos processos que 
envolvem a dinâmica da vida social.
A defesa de uma práxis educativa é necessária em tempos 
de avanços do capital no campo da educação, que também é uma 
dimensão da vida social e, a partir dela, (da práxis educativa), a 
formação humana estará voltada à construção de uma nova socia-
bilidade. 
 A práxis é utilizada para compreender, interpretar o mundo, 
por isso não pode serutilizada no sentido utilitário, mas, sim, em 
uma concepção filosófica, onde há a realização de uma atividade 
consciente objetiva, possibilitando transformar a realidade social e 
não apenas interpretá-la.
Esta é a perspectiva na busca de uma educação que caminhe 
na contraposição imposta pelo capital. O educador precisa também 
ter a consciência deque as atividades, o processo comunicativo, as 
reflexões em sala de aula e fora dela precisam ser guiadas por uma 
filosofia da práxis.
 A educação é entendida como atividade política, assim, é 
preciso construir conteúdos que permitam estabelecer ações contra 
hegemônicas que desenvolvam nas classes subalternas a formação 
de uma consciência crítica à hegemonia cultural e política.
 A práxis revolucionária exige a superação da consciência 
comum porque eleva à consciência do natural, do imediato 
do proletariado, permitindo uma visão científica a respeito da 
atividade prática do homem, aproximando o pensamento da ação. 
(VÁZQUEZ, 2007).
Assim, a práxis revolucionária permite superar a consciência 
comum na medida em que possibilita ultrapassar o imediatismo no 
cotidiano, bem como, aquelas concepções dotadas de preconceitos. 
Isso porque, na perspectiva do homem que não enxerga possibi-
lidades de mudança, a visão de mundo é dotada de pessimismo e 
- 87 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
negatividade, justamente porque é possuidora de uma consciência 
comum.
A consciência comum é mais fácil de ser manipulada, aten-
de a ideologia da classe dominante. Essa consciência possui um 
esvaziamento de consciência política porque, inclusive, vê o traba-
lho tal como a ideologia dominante, no sentido da produção, com 
caráter utilitário, prático, material. Há uma deformação do homem 
que possui a consciência comum. Essa despolitização favorece a 
manutenção da ordem vigente.
O apoliticismo de grandes setores da sociedade os exclui da 
participação consciente na solução dos problemas econômi-
cos, políticos e sociais fundamentais, e com isso, fica aberto 
o caminho para que uma minoria se encarregue das tarefas 
de acordo com seus interesses particulares de grupo ou de 
classe. Tanto o politicismo “prático” como o apoliticismo por 
motivos “práticos” satisfazem as aspirações e os interesses 
do homem comum e corrente, do homem “prático”, mas, na 
verdade, só servem para afastá-lo de uma verdadeira atividade 
política e, especialmente, de uma práxis revolucionária [...]. 
(VÁZQUEZ, 2007, p. 34).
O homem que não alcançou a consciência da práxis revolu-
cionária, não o fez porque está imerso em sua cotidianidade e não 
percebe o trabalho, a atividade política como constituintes do ser 
social e passíveis de transformação da realidade social.
O resultado disso é que o capitalismo estabelece um modelo 
societário, que é o modelo vigente, no qual há uma série de deter-
minantes que aparecem sintetizados no real. 
Estes elementos (considerados pilares da dominação social 
existente) estabelecem mediações nos mais diversos âmbitos da 
vida: trabalho, escola, instituições religiosas, meios de comunica-
ção, formando o contexto no qual se desenrola o cotidiano. Assim 
sendo essas mediações acabam por se expressar na singularidade 
do indivíduo.
Partindo dessa análise e por meio do pensamento marxia-
no compreendemos que aquilo que o ser social apreende de forma 
imediata, como um todo desorganizado, são aparências, representa-
ções, requisitando dos indivíduos respostas funcionais às situações.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A realidade só é dada ao homem e permite conhecê-la por 
meio de sua práxis, da ação transformadora que ultrapassa o ime-
diato, a aparência a partir da historicidade e a concretude do real.
Assim, como o homem influencia o contexto, também é in-
fluenciado por este. Logo, como resultado do modo de produção 
capitalista na qual produz e reproduz a vida ─ permeado por ideo-
logias, valores e normas ─ consolida o domínio do capital sobre o 
trabalho, estabelecendo um cotidiano alienado, também instrumen-
talizado para a reprodução capitalista.
A realidade no sistema capitalista apresenta outras caracterís-
ticas além de um cotidiano alienado. A sociabilidade fica relegada 
a um plano inferior em detrimento da individualidade; o trabalho 
como parte fundamental do cotidiano e do ser social, também se 
encontra alienado; a consciência se apresenta reificada. A reificação 
que caracteriza a organização social capitalista é um processo no 
qual se mascara as relações sociais entre os homens e a realidade.
A consciência reificada não consegue ver que em qualquer 
produto resultante do trabalho humano há síntese de múltiplas rela-
ções sociais. Como consequência desse processo, ocorre a distorção 
do real tornando os homens apenas elementos passivos, mantendo 
relações coisificadas diante de uma realidade, na qual as mercado-
rias, os produtos inertes são atuantes e dotados de vida. 
Existem algumas formas de práxis, dentre elas, destacamos a 
práxis política, os atos dos sujeitos estão “[...] orientados para sua 
transformação enquanto ser social e por isso, destinados a mudar 
suas relações econômicas, políticas e sociais [...].” (VÁZQUEZ, 
2007, p.231).
Essa práxis, denominada também como práxis social, está 
voltada a grupos ou classes sociais que buscam a transformação 
de uma dada sociedade e consiste essa atividade em uma atividade 
política. Envolve certamente correlações de forças porque lida di-
retamente com o poder, inclusive com o próprio Estado, pois pode 
divergir das ideias, programas, projetos criados por este. Esta práxis 
social exige organização política, no caso aqui, mobilização e orga-
nização do proletariado, no sentido da luta para o enfrentamento das 
contradições entre as classes sociais.
A práxis política pressupõe as possibilidades inscritas na re-
alidade social para que a mudança ocorra, portanto, ela deve ser 
- 89 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
consciente, organizada, dirigida para um fim. (VÁZQUEZ, 2007). 
O proletariado precisa adquirir a consciência de classe para travar 
essa luta, a partir de estratégias e táticas visando à transformação 
social.
O proletariado precisa adquirir a consciência de classe para 
travar essa luta, a partir de estratégias e táticas visando à transfor-
mação social.
A práxis política se relaciona diretamente com os princípios 
do projeto ético-político profissional do assistente social. Sua com-
preensão, apreensão e desenvolvimento no cotidiano profissional 
são essenciais para propiciar a consciência política da população 
atendida e sua própria consciência enquanto classe trabalhadora.
É importante apresentar estas considerações sobre a práxis 
porque é no embate da filosofia da práxis que os educadores 
compreendem a leitura das contradições que envolvem os 
processos educativos e a tendência da educação mercantilizada e 
seus rebatimentos na formação profissional.
 Se a educação é para a vida, para leitura crítica e conscien-
te da realidade, a filosofia da práxis propicia a interpretação desse 
mundo, permite à transição da teoria à prática tornando-as indisso-
ciáveis, ela é elemento para possibilidade de atividades que visam 
à transformação social.
A atividade humana, para se constituir enquanto práxis, pre-
cisa ser guiada por uma intencionalidade e por um fim, produzir 
algo, resultado e efetividade, tem que causar mudança, trata-se de 
uma atividade consciente.
Por isso, na sociedade capitalista não é tarefa da educação 
conduzir a um processo revolucionário, de transformação social. 
Entretanto, a educação por meio de atividades educativas emanci-
padoras conduz a um processo de ensino-aprendizagem que per-
mite ao indivíduo apreender valores a fim de torná-lo membro do 
gênero humano, para que sejam participativos, criativos, críticos. 
(TONET, 2016).
As atividades educativas devem contribuir, portanto, para o 
processo de formação e emancipação, criando condições em que 
os indivíduos, socialmente,conquistem a autonomia (VIANA, s/d, 
p.10).
- 90 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Partilhamos da concepção de Tonet (2016) sobre possibilida-
des do desenvolvimento de atividades educativas de caráter eman-
cipador, porque compreendemos que estão atreladas à dimensão 
educativa da intervenção profissional do assistente social e como 
defendemos, na perspectiva da práxis. 
Estas atividades educativas são travadas com as lutas especí-
ficas e gerais da classe trabalhadora, seu conteúdo deve ser embasa-
do no conhecimento crítico do processo histórico e social; compre-
ensão da gênese do sistema capitalista, dassuas contradições e na 
busca da superação desse sistema. 
O cotidiano profissional também se configura como espaço 
privilegiado para a construção do conhecimento e socialização de 
saberes. É, nesse espaço, e no desenvolvimento de atividades edu-
cativas, que podem ser discutidos conteúdos que trazem os elemen-
tos da conjuntura política, econômica e social.
No âmbito da educação superior não é diferente, embora 
exista uma dimensão educativa inerente à atribuição do docente é 
necessário compreender qual a direção social do desenvolvimento 
das atividades propostas.
As atividades de cunho educativo precisam ter direção para 
processos emancipatórios, devem ser o norte na ação profissional. 
Fazer a crítica da realidade social, pois a emancipação é condição 
humana e política para outra sociabilidade. 
Quando há o diálogo, a troca de conhecimento entre o pro-
fessor e o estudante existe a possibilidade de desenvolvimento da 
consciência crítica, das potencialidades desse sujeito. Essa é a pro-
posta do ser mais e de educação libertadora trazida por Paulo Freire 
(2013) e coerente com as lutas políticas do Serviço Social no que 
tange uma educação participativa, democrática que não reproduza 
os interesses capitalistas.
4. Considerações finais
As exigências postas à educação, devido à crise do capital, 
demandam outras formas para preparar o indivíduo para o mercado 
de trabalho de acordo com o novo vigente de produção. Para isso, 
o capital busca diversos vieses e impulsiona-o à qualificação pro-
fissional no sentido de adquirir novas habilidades, por outro lado, 
impede ou aniquila sua capacidade criadora.
- 91 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Por isso, é imprescindível discutir o processo formativo de 
forma indissociável do trabalho profissional. Evidenciamos as alte-
rações do mundo do trabalho e as necessidades postas hoje à pro-
fissão de acordo com o reordenamento do padrão de acumulação 
capitalista, bem como a regulação da vida social que exige do pro-
fissional o redimensionamento na sua forma de pensar e de agir.
A capacitação permanente, quando pensada e desenvolvida 
por meio da práxis educativa, permite a construção da identidade 
profissional em uma perspectiva crítica, vislumbrando um perfil 
profissional capaz de intervir eticamente, consciente e superar a 
formação profissional que meramente prepara profissionais para 
obterem competências e habilidades para o mercado de trabalho.
Essa intencionalidade inscrita na práxis educativa também é 
vislumbrada no projeto de formação crítica para a formação profis-
sional dos assistentes sociais e corrobora para a construção desse 
perfil. Consideramos de suma importância a apreensão de tal proje-
to pelos educadores, afinal, constitui-se a materialidade do projeto 
ético-profissional.
Ressaltamos que a educação é mediação para reprodução da 
totalidade social, em uma relação direta entre os homens e que pro-
picia a construção de conhecimentos e compromisso com valores 
universais. 
A educação no seu processo histórico tem se tornado uma di-
mensão complexa da vida social; ela possui caráter ontológico por-
que constitui o ser social, os modos de existência humana. Entretanto, 
nesse ínterim, na lógica de acumulação e reprodução do capital, a 
educação está intimamente relacionada e se encontra polarizada pelas 
disputas das classes sociais. Por isso, estar atento a essas contradições 
possibilita ultrapassar a reprodução dos interesses capitalistas e as 
funcionalidades do mercado.
Nessa perspectiva, a práxis educativa permite ultrapassar os 
moldes de processos educativos alienantes e alienadores postos pelo 
ideário do capital. Embora, desafiante ao educador, reiteramos que as 
atividades educativas se tornam a possibilidade e materialidade para 
a superação do que está (im)posto. É a dimensão política presente na 
ação educativa que permite elevar à consciência crítica e à ativa de 
sujeitos históricos para agir e transformar, para recriar a realidade.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A conjuntura brasileira, tão desfavorável ao processo edu-
cativo, remete-nos a defender que a práxis educativa se torna pre-
mente para seu enfrentamento, para o processo de luta e resistência 
objetivando formação de seres sociais e profissionais pensantes, crí-
ticos, que não reproduzam energicamente os interesses do capital.
Nesse contexto, há o questionamento de como preparar efe-
tivamente profissionais que atuem de forma competente no plano 
teórico, político e operativo, assegurando a compreensão do próprio 
significado social do Serviço Social, na sociedade brasileira hoje, 
perfil esse parametrado nas Diretrizes Curriculares da ABEPSS de 
1996.
Iamamoto (1998, p. 164) afirma que a formação profissional 
“deve contribuir para recriar o perfil profissional do assistente so-
cial, indicando e antecipando perspectivas no âmbito da elaboração 
científica e da intervenção profissional, de acordo com um dever 
profissional”.
Este dever profissional se circunscreve no compromisso com 
a formação de assistentes sociais críticos, propositivos, perpassan-
do pelo rigor teórico-metodológico no âmbito do processo de ensi-
no-aprendizagem; assim como num processo contínuo de educação 
permanente visando o desenvolvimento do exercício profissional na 
perspectiva da práxis, em consonância com projeto ético-político da 
profissão.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
O COMPROMISSO ÉTICO COM O ENSINO 
DE GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL EM 
RORAIMA: o trato das atribuições privativas 
Maria Gracileide Alberto Lopes1 
18Roberta Ferreira Coelho de Andrade219 
1. Introdução
Como fruto do processo de amadurecimento do Serviço So-
cial no Brasil tem-se a construção coletiva do que hoje chamamos 
de Projeto Ético-Político, um projeto que se sustenta na Lei de Re-
gulamentação da profissão Nº 8662/93, no Código de Ética/93 e nas 
Diretrizes Curriculares para o curso de Serviço Social propostas 
pela ABEPSS em 1996. Esse conjunto dá à formação profissional 
as condições para construir o perfil profissional que se quer formar. 
Por ser uma profissão de nível universitário, o Serviço So-
cial, como já mencionado, tem uma regulamentação, um projeto 
ético-político e um projeto de formação profissional próprio, cons-
truídos numa direção social que, dentre seus princípios, elege a li-
berdade como valor central. Portanto, requer um perfil determinado 
de profissional. 
 Caminhar nessa perspectiva de formação demanda um 
compromisso ético daqueles que vivenciam o processo de formação 
profissional: docentes, discentes, supervisores de campo, coorde-
nadores de curso etc. Pressupõe que a caminhada formativa poten-
cialize a construção do perfil profissional idealizado coletivamente, 
o que implica em oferecer elementos para a leitura crítica da rea-
lidade, para a discussão e a apropriação do Código de Ética, para 
a compreensão clara do que é Serviço Social e de quais são suas 
atribuições e competências, do que é seu objeto de trabalho, qual a 
relação da profissão com as políticas sociais, dentre outras questões.
1 Mestre em Serviço Social e Sustentabilidade da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas 
(UFAM). Pesquisadora do Grupo de Estudos de Sustentabilidade, Trabalho e Direitos na Amazônia (ES-
TRADAS-UFAM). Estudas temáticas relacionadas à Formação Profissional, Trabalho e Docência no Ser-
viço Social, e-mail: asgracilopes@hotmail.com
2 Professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e 
Sustentabilidade na Amazônia (PPGSS) da Universidade Federal do Amazonas, graduada em Serviço 
Social, doutora e mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia, líder do Grupo de Pesquisa Estudos de 
Sustentabilidade, Trabalho e Direitos na Amazônia – ESTRADAS, e-mail: roberta_ufam@yahoo.com.br
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
 O presente estudo é fruto do resultado do processo de mes-
trado vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social 
e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Ama-
zonas (PPGSS/UFAM), defendida no ano de 2018.
 O método marxista de análise da realidade social norteou o 
estudo, o qual se baseia numa perspectiva crítico-dialética e sócio-
-histórica do objeto estudado. O referencial teórico que fundamen-
ta as discussões dessa pesquisa está guiado, a princípio, pelas se-
guintes categorias analíticas: formação profissional, serviço social, 
atribuição privativa.
Para a efetivação da pesquisa, foi realizada uma busca preli-
minar, no portal E-mec320, de instituições de ensino superior que ofer-
tavam cursos de graduação em Serviço Social na cidade de Boa 
Vista (RR). Segundo este portal, havia em 2017, quatro instituições 
que ofertavam o curso de Serviço Social na referida cidade, sendo 
que destas apenas duas ofertavam o curso na modalidade presen-
cial. Portanto, realizamos a pesquisa com apenas as duas IES ofer-
tantes do curso presencial.
A abordagem metodológica utilizada foi a qualiquantitativa, 
com o desenvolvimento de uma pesquisa de natureza explicativa. A 
principal técnica utilizada foi a entrevista, tendo como instrumental 
de trabalho o formulário semiestruturado aplicado as docentes de 
dois cursos de Serviço Social, sendo um particular e outro público. 
Constitui o universo da pesquisa todas as assistentes sociais do-
centes tanto da IES pública quanto da privada no ano de 2017, que 
totalizaram 17 (dezessete) professoras. É pertinente frisarmos que 
contrastar e/ou avaliar o ensino púbico com o privado não foi ob-
jetivo da pesquisa. A amostra se restringiu a 12 (doze) professoras 
pesquisadas com mais de três anos de trabalho institucional, corres-
pondendo a 70% do universo. Os dados quantitativos e qualitativos 
dialogaram durante o processo de análise dos dados.
Ressaltamos que por envolver seres humanos a pesquisa foi 
devidamente submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da Univer-
sidade Federal do Amazonas e obteve aprovação.
 De maneira geral, a pesquisa constatou que todas as docen-
tes entrevistadas têm entendimento sobre as atribuições privativas 
3 Portal E-mec. Disponível em: <http//: emec.mec.gov.br>.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
do/da assistente social e que o trato das atribuições privativas na 
formação graduada pode acontecer tanto de modo transversal nas 
diferentes disciplinas como nos outros momentos que compõem 
essa formação, tais como: a extensão e o estágio supervisionado. 
As principais estratégias e/ou espaços que as docentes consideram 
importantes para privilegiar a discussão das atribuições privativas 
são a monitoria e o estágio supervisionado.
2. As Atribuições Privativas e Competências no Serviço 
social
O Serviço Social brasileiro assume em seu Código de Ética 
o compromisso com a construção de uma sociedade emancipada, 
livre da dominação e da exploração de classe, etnia e gênero, conse-
quência irrefutável do amadurecimento intelectual e ético-político 
da categoria profissional a partir de meados da década de 1980 e 
alimentado pela postura crítica da profissão em se manter conectada 
com os movimentos sociais e com as estratégias de luta da classe 
trabalhadora (BARROCO, 2003). 
Portanto, a escolha do Serviço Social brasileiro pelo proje-
to de uma sociedade emancipada não poderia ter outro projeto de 
formação profissional a não ser esse que reafirma o seu compromis-
so vinculado ao processo de construção desta nova sociedade, que 
revela não somente a coerência com a compreensão teórica sobre 
a realidade social e profissional, mas também o correto dimensio-
namento entre os valores éticos defendidos, o trabalho profissional 
e a teleologia da práxis histórica, que tem como horizonte a eman-
cipação humana (KOIKE, 2009). 
O compromisso com a construção da sociedade emancipada 
expressa o lado em que a categoria profissional escolheu ficar na 
luta de classes. Esta escolha revela também um dos significados da 
ruptura com o conservadorismo profissional e com a neutralidade 
antes presente na profissão. Neste sentido, o projeto de formação 
profissional do Serviço Social, construído numa direção social que, 
dentre seus princípios, elege a liberdade como valor central e uma 
nova ordem societária que assegure o pleno desenvolvimento de 
individualidades, livre de opressão e da dominação. 
Neste princípio fundamental da ética profissional é que se 
impõe o compromisso ético-político da categoria com a formação 
- 98 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
profissional que se remete a um perfil que caracteriza esse profis-
sional como: competente na área que desempenha o Serviço Social, 
generalista por sua formação intelectual, cultural e política, portan-
to, capacitado para apresentar propostas inovadoras e criativas no 
desenvolvimento do seu trabalho(ABESS/CEDEPSS, 1996).
Neste sentido, a formação profissional é pensada como um 
processo dialético, aberto e dinâmico, uma vez que proporciona o 
conhecimento da realidade específica sem isolá-la da realidade so-
cial. Esse profissional deve estar capacitado para uma atuação pro-
fissional em nível macro, amplamente habilitado para desenvolver 
competências e atribuições inerentes à profissão. Por esta razão, é 
central a preocupação em como a formação profissional graduada 
tem tratado as atribuições e competências profissionais.
Todo o processo de amadurecimento da profissão levou ao 
que hoje chamamos de Projeto Ético Político do Serviço Social, um 
projeto que se sustenta na Lei de Regulamentação da Profissão Nº 
8662/93, no Código de Ética/93 e nas Diretrizes Curriculares para 
o curso de Serviço Social propostas pela ABEPSS em 1996. Esse 
conjunto dá à formação profissional as condições para construir o 
perfil profissional que se quer formar. Essa concepção de formação 
é fruto de uma construção coletiva da categoria profissional, que 
estabelece estreita relação entre trabalho e formação profissional, 
dado que na sua essência a profissão é “uma especialização do tra-
balho coletivo, dentro da divisão sociotécnica do trabalho, partícipe 
do processo de produção e reprodução das relações sociais” (IA-
MAMOTO, 2014, p. 610).
Nos anos 2000 todo esse amadurecimento teórico trouxe 
para a categoria profissional uma veia política e organizativa, guia-
da pelo compromisso com os interesses da classe trabalhadora, a 
direção social eleita pelos assistentes sociais, expressa por meio 
das resoluções do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), as 
quais foram pensadas e construídas pela categoria que legitima o 
exercício dessa profissão no Brasil. É importante destacar que além 
da dimensão jurídico-política as demais como: as requisições do 
mercado de trabalho, as demandas sociais, as instituições emprega-
doras, dentre outras, constituem os pilares que sustentam o projeto 
ético-politico.
- 99 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A definição de atribuições e competências para o/a assisten-
te social já data desde 1957, quando a profissão é regulamentada, 
portanto, trata-se de um tema relativamente recente. Atualmente, 
os princípios, direitos e deveres inscritos no Código de Ética Pro-
fissional de 1993, na Lei de Regulamentação da Profissão (Lei nº 
8662/93), bem como nas Diretrizes Curriculares da ABEPSS (1996) 
exigem do profissional o compromisso para com essas atribuições 
e competências. Estes instrumentos afirmam a concepção de pro-
jeto ético-político profissional hegemônica no Serviço Social bra-
sileiro, gestado desde o final dos anos 1970. Tais instrumentos são 
considerados um ganho contemporâneo da trajetória da profissão 
no Brasil, os quais reafirmam “uma identidade profissional forjada 
nos fundamentos e na direção do projeto ético-político profissional” 
(IAMAMOTO, 2002, p. 22).
Essa nova legislação que vigora desde 1993 até os dias atuais 
juntamente com os arsenais de resoluções construídos pelo CFESS 
que complementam essa legislação trouxeram um novo patamar le-
gal com possibilidades mais concretas de intervenção, pois definem 
com maior contundência as atribuições privativas e competências 
profissionais dos (as) assistentes sociais, e assim, nortear o seu tra-
balho profissional com domínio teórico-metodológico, técnico-ope-
rativo e postura ética. Esse domínio requer uma sólida formação 
acadêmica profissional.
A regulamentação do trabalho profissional permite que os 
(as) assistentes sociais exerçam a profissão em todo território na-
cional como trabalhadores assalariados, os quais desenvolvem seu 
trabalho com várias atribuições: prestam orientação a indivíduos, 
grupos e famílias; planejam, organizam e administram benefícios 
sociais; realizam estudos sociais com vistas ao acesso de bens e 
serviços públicos; assessoram órgãos; atuam na docência tanto no 
nível de graduação como pós-graduação; realizam pesquisas e in-
vestigação científica; elaboram pareceres sociais, laudos, projetos e 
relatórios (CFESS, 2012). 
Portanto, se há uma lei que rege a profissão e que determina 
a existência de competências e atribuições privativas para a for-
mação e o trabalho profissional, é possível oferecer durante a for-
mação graduada bases para que o futuro profissional de Serviço 
- 100 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Social conheça e exerça essas atribuições. Essa lei (juntamente com 
o Código de Ética) é um guia para a formação acadêmico-profis-
sional e, por esta razão, as diretrizes curriculares elaboradas pelas 
ABEPSS “não permitem a fragmentação e segmentação das dis-
ciplinas, nem mesmo a abstração e autonomização dos conteúdos 
concretos” (GUERRA, 2005, p. 149). Essa perspectiva de formação 
não permite a separação entre ensino teórico e ensino prático, entre 
investigação e intervenção, entre ética e política, entre teoria e prá-
tica (SANTOS, 2013). 
A concepção de formação profissional em Serviço Social 
supõe uma formação que imprima um perfil crítico, fundado em 
rigorosa capacidade teórico-metodológica, ético-política e técnico-
-operativa voltada ao conhecimento e à transformação da realidade. 
Essa concepção de competência profissional presente nas diretri-
zes curriculares é também consensual entre os principais autores 
da área do Serviço Social ao afirmarem que para uma competência 
profissional faz-se necessário uma formação profissional que valo-
rize e realize o ensino teórico-prático.
No Serviço Social o conceito de competência pressupõe a 
existência da “capacidade para apreciar ou dar resolutividade a de-
terminado assunto, não sendo exclusiva de uma única especialidade 
profissional, mas a ela concernentes em função da capacitação dos 
sujeitos profissionais” e atribuições se referem às “funções privati-
vas do/a assistente social, isto é, as suas prerrogativas exclusivas” 
(CFESS, 2012, p. 6). Assim, as atribuições privativas são aquelas 
que se referem diretamente à profissão, como a atribuição privati-
va de coordenar cursos, bem como, equipes de Serviço Social nas 
instituições públicas e privadas. E competências são aquelas ações 
que os (as) assistentes podem desenvolver, embora não lhes sejam 
exclusivas. 
A noção de competência no Serviço Social trata-se, pois, da 
competência crítica capaz de desvendar os fundamentos conser-
vantistas e tecnocráticos do discurso da competência burocrática. 
“O discurso é competente e crítico quando vai à raiz e desvenda a 
trama submersa dos conhecimentos que explica as estratégias de 
ação” (IAMAMOTO, 2009, p. 17). Por isso, as competências refe-
renciadas no Serviço Social não se confundem com um discurso de 
competência institucionalizado nas instâncias empregadoras, e sim 
- 101 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
capacidade analítica e reflexiva das demandas postas à categoria 
profissional em seu trabalho cotidiano.
Desta forma, para pensar a formação profissional é preciso 
tomar a realidade na perspectiva de totalidade, sem desconectá-la 
do contexto atual, isto porque, o profissional precisa em seu traba-
lho profissional conhecer a realidade como objeto sobre o qual se 
pretende introduzir mudanças por meio da sua atividade laborativa, 
e mais, deve agir de modo competente, crítico e qualificado teorica-
mente (IAMAMOTO, 2005). Na ótica proposta por Silva (1984, p. 
5): “parte-se do pressuposto de que a formação profissional numa 
realidade específica, não pode ser considerada isoladamente da re-
alidade social, expressa pelo aspecto cultural e conjuntural do sis-
tema educativo [...]”. Portanto, o exercício da profissão exige um 
sujeito profissional que busque agir com competência e, consequen-
temente, com habilidades que possibilitem desenvolver atribuições 
específicas no exercício do trabalho profissional, para isso, pressu-
põe-se uma formação acadêmica profissional que contribua com a 
promoção, proteção, restituição e exigibilidadedos direitos huma-
nos e sociais e os meios de acesso aos mesmos conforme preconiza 
a direção intelectual e ideopolítica, os quais são componentes impe-
rativos do projeto profissional. 
O (a) assistente social desenvolve seu trabalho em diversos 
espaços sócio-ocupacionais no âmbito das relações entre as classes 
e destas com o Estado no enfrentamento das múltiplas expressões 
da questão social, uma vez que é indissociável da sociabilidade ca-
pitalista (NETTO, 2001). Assim, as diretrizes curriculares reafir-
mam a questão social como base de fundação sócio-histórica da 
profissão, ao destacar as respostas do Estado às reivindicações da 
classe trabalhadora como um processo de constituição dos direitos 
sociais (ABESS/CEDEPSS, 1996). Deste modo, a política social se 
configura numa mediação fundamental do trabalho profissional vol-
tado para formulação, execução e avaliação dessas políticas, que se 
constituem em uma das competências inerentes ao assistente social. 
Para tanto, é de suma importância que durante o processo de for-
mação o acadêmico obtenha uma formação de qualidade que inclua 
uma instrumentalização profissional e articule o ensino da prática, 
que implica nas dimensões técnico-instrumental, teórico-intelectu-
al, investigativa, ético-política e formativa (GUERRA, 2005).
- 102 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Dentre as conquistas do patrimônio ideopolítico construído 
coletivamente no Serviço Social, sem dúvida a qualificação das 
competências e atribuições do (a) assistente social resguardas pela 
Lei de Regulamentação da Profissão atribuiu maior visibilidade ao 
trabalho deste profissional. As atribuições e competências profis-
sionais articuladas com princípios, direitos e deveres, devem ser 
observadas e respeitadas pelos/as profissionais, bem como, pelas 
instituições empregadoras. Dessa forma, a brochura Atribuições 
privativas do/a assistente social elaborada pelo Conselho Federal 
de Serviço Social (2012) expressa, ao mesmo tempo, o compromis-
so e o desafio que a profissão tem para dar concretude às atribuições 
nos diversos espaços sócio-ocupacionais e por meio delas orientar 
um exercício profissional emancipatório conforme prevê o projeto 
ético-político da profissão.
Por ser considerado um debate inovador no interior da cate-
goria, os organismos profissionais e de formação e as unidades de 
ensino pouco debatiam a respeito de competências para os (as) pro-
fissionais, principalmente, sobre como estas competências seriam 
garantidas na elaboração do Projeto Político Pedagógico e, espe-
cialmente, no processo de formação, tampouco como as atribuições 
privativas têm sido exercidas pelos/as assistentes sociais. Todavia, 
não se pode perder de vista que debater as atribuições privativas e 
competências profissionais de assistentes sociais é discutir a pro-
fissão. E esse debate se faz a partir de uma nítida concepção de 
profissão, aquela que se forja na ruptura com o conservadorismo 
que marcou o início das atividades da profissão no Brasil e seu novo 
direcionamento social que está expresso no atual Código de Ética 
do (a) Assistente Social, na Lei de Regulamentação da Profissão 
de 1993 e nas Diretrizes Curriculares da Associação Brasileira de 
Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS (MATOS, 2015).
Consequentemente, o debate das atribuições privativas, as-
sim como das competências profissionais posiciona no cenário 
acadêmico-profissional não apenas uma discussão do que é função 
exclusiva do assistente social, como exige a lei que regulamenta 
a profissão, mas aquilo que potencialmente deve ser desenvolvido 
no trabalho profissional, para isso é preciso um levantamento cri-
terioso das condições e relações de trabalho do assistente social, 
- 103 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
nas suas várias áreas de atuação, com o objetivo de identificar as 
funções, competências e atribuições que vêm sendo realmente pra-
ticadas por este profissional na atualidade (IAMAMOTO, 2014). 
Uma vez que as competências e atribuições profissionais não se 
dissociam de uma direção ético-política, exigindo do (a) assistente 
social um comprometimento com a consolidação e ampliação dos 
direitos, é preciso, então, romper com o trabalho de meros operacio-
nalizadores das políticas emanadas do Estado, para assim, construir 
estratégias que respondam às demandas que lhe são impostas.
Como diz a própria lei, constituem atribuições privativas do 
assistente social (dentre outras); “[...] a supervisão direta de esta-
giários de Serviço Social; a direção e coordenação de Unidades de 
Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação e pós-graduação; 
assumir o magistério de Serviço Social [...]”. Entretanto, os cur-
sos de formação nem sempre capacitam para essa atribuição, pois, 
como sinaliza Guerra (2005, p. 151), “não há um acompanhamento 
aos supervisores de campo, nem mesmo uma qualificação sistemá-
tica do corpo universitário”, ou seja, a formação profissional em 
Serviço Social apresenta limites no trato das competências e atri-
buições profissionais. 
Não há dúvida de que o ensino de Serviço Social tem que 
responder à dimensão formativa, que habilite competentemente os 
profissionais ao exercício dessas competências e atribuições, tanto 
na graduação quanto em forma de capacitação permanente aos as-
sistentes sociais, uma vez que a formação profissional não se reduz 
a um mero treinamento e sim a um constante aprimoramento e ama-
durecimento intelectual. Essa formação precisa, de fato, capacitar 
os profissionais a investigar, analisar criticamente a realidade, pro-
blematizar o contexto socioinstitucional e os significados sócio-his-
tóricos da profissão, desenvolver sua capacidade argumentativa e 
atuar em equipes, com isso, habilitaria o assistente social a desen-
volver competências e atribuições que lhe são específicas. 
 Portanto, é preciso domínio teórico, adequação dos estágios 
supervisionados, integrações curriculares, condições favoráveis de 
trabalho e pesquisas na área do Serviço Social, para assim superar-
mos tarefas permeadas de ações instrumentais, imediatistas e bu-
rocratizadas e que muitos assistentes sociais desempenham. É por 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
meio de uma formação profissional de qualidade que essas práti-
cas são superadas e há o exercício de competências e atribuições 
envolvidas no trabalho profissional. Com isso, ao considerarmos 
o método materialismo histórico dialético, como movimento para 
uma reflexão e releitura do trabalho profissional em seus múlti-
plos espaços, indubitavelmente, possibilitaria, por exemplo: que 
a supervisão fosse exercida entendendo que o estagiário está em 
processo de formação e seu estágio não pode ser confundido com 
treinamento, para isso, necessitaria que o supervisor transmitisse 
princípios e valores éticos na direção social adotada pela profissão 
com o projeto profissional do qual pressupõe que o assistente social 
seja conhecedor.
O desenvolvimento de atribuições e competências profissio-
nais não é somente de responsabilidade dos (as) assistentes sociais 
que as exercem, pois a universidade por meio da extensão, da pes-
quisa e da produção do conhecimento que gera a partir do ensino, 
juntamente com as entidades da profissão, têm uma relevante con-
tribuição para qualificação da formação e das condições éticas e 
técnicas do trabalho profissional (MATOS, 2015).
A apropriação das competências e atribuições na formação 
do Serviço Social deve ocorrer no cotidiano das ações pedagógicas, 
como no desenvolvimento das disciplinas, seminários temáticos, 
oficinas de debates e laboratórios, no estágio e na pesquisa/exten-
são. No Serviço Social, especificamente, é comum as oficinas de 
debates explicitarem os instrumentais utilizados pelo profissional 
no seu trabalho como: visita domiciliar, parecer, relatórios, entre-
vistas com famílias e grupos etc. Ou seja, proporcionar um espaço 
durante a formação profissional dos alunos como essepossibilita 
o desenvolvimento de competências e atribuições, principalmen-
te quando articulada com as disciplinas específicas, para assim fa-
cilitar a aproximação do acadêmico com a realidade profissional 
(WERNER, 2010).
A defesa por uma formação profissional de qualidade capaz 
de viabilizar a capacitação teórico-metodológica, ético-política e 
técnico-operativas como requisito fundamental para o trabalho pro-
fissional interventivo e investigativo que materializa no campo de 
atuação profissional suas atribuições exclusivas, permite que o as-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
sistente social tenha capacidade para exercê-las de forma ética, crí-
tica e propositiva. O direcionamento da formação profissional está 
claro nas Diretrizes Curriculares do Serviço Social, as quais cons-
tituem uma expressão privilegiada do projeto ético-político, que os 
princípios básicos para uma formação profissional devem cumprir 
as competências e atribuições privativas previstas na legislação em 
vigor (ABESS/CEDEPSS, 1996). 
Ressalta-se que, se a prática interventiva e investigativa do 
Serviço Social nas suas diferentes áreas de atuação requer o desen-
volvimento e articulação das dimensões profissionais, por sua vez, a 
formação profissional deve contemplar, realmente, os conhecimen-
tos necessários a essas competências e atribuições privativas, seja 
por meio de conhecimentos teóricos, ético-políticos e procedimen-
tais. Desde que estes habilitem para intervir com competência na 
realidade, a qual é desafiadora e instigante, pois é pelo desenvolvi-
mento dessas dimensões profissionais de forma ética, crítica e cria-
tiva que a profissão é reconhecida, valorizada e respeitada. Então, 
significa dizer que a formação profissional seja graduada ou pós-
-graduada em Serviço Social necessita aprofundar o debate acerca 
das atribuições privativas e dar base para que os profissionais as 
exerçam nos diferentes espaços sócio-ocupacionais.
3. O Trato das Atribuições Privativas na Formação Gra-
duada em Serviço Social de Roraima
Ao apresentarmos os principais resultados de nossa pesquisa 
no que tange ao trato das atribuições privativas na formação gradu-
ada nos cursos pesquisados, julgamos pertinente abordar se durante 
os cursos de graduação das entrevistadas ocorreu o debate das atri-
buições privativas. Neste sentido, 8% afirmaram que as atribuições 
não foram abordadas e 92% disseram que sim, mas somente na dis-
ciplina de ética profissional e de forma pontual.
A maioria das entrevistadas sinalizou que o ensino sobre as 
atribuições ocorreu superficialmente, porque faltou um melhor trato 
sobre essa temática durante suas graduações. Todas foram unâni-
mes ao afirmar que é urgente o debate das atribuições privativas, 
pois a grande maioria dos (as) alunos (as) conclui a graduação sem 
dominá-las. Isso revela, portanto, que se não conhecemos as atri-
buições privativas do assistente social durante o nosso processo de 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
formação não dominaremos aquilo que o profissional deve fazer no 
seu espaço de trabalho.
Debater as atribuições privativas na formação profissional é 
importante não somente porque está na lei que regulamenta a pro-
fissão, mas, sim porque a direção profissional que almejamos no 
Serviço Social pressupõe uma formação generalista que seja capaz 
de analisar e decifrar a realidade. 
O Serviço Social, por ser uma profissão de nível superior, 
inscrita na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível 
Superior (CAPES) dentro da área das ciências sociais aplicadas, 
oferece na graduação o grau de bacharelado, a fim de formar pro-
fissionais com sólidos conhecimentos teórico-práticos, capacidade 
de examinar, analisar e interpretar a sociedade capitalista, esta, que 
têm na sua base estrutural a produção da questão social e suas múl-
tiplas expressões. 
Diferentemente de um curso de licenciatura que habilita para 
o ensino do ofício de ser professor, o bacharel em Serviço Social 
realiza o exercício da profissão nos diversos espaços sócio-ocupa-
cionais, tendo como principal empregador as instituições dos en-
tes federativos. Sabemos que por ser um bacharelado, a formação 
profissional em Serviço Social não objetiva a docência, apesar de 
valorizá-la e reconhecê-la como uma atribuição privativa do assis-
tente social. Portanto, é preciso valorizar essa atribuição privativa 
exercida por muitos profissionais no Brasil que queremos pensar 
como têm sido tratadas as atribuições nos cursos presenciais de Boa 
Vista-RR em que as docentes entrevistadas estão inseridas.
Ao considerarmos que as professoras fazem parte desse pro-
cesso de formação e contribuem sobremaneira para a construção 
do arcabouço teórico-metodológico e ético-político dos discentes 
que julgamos necessário conhecer como as docentes pesquisadas 
entendem a atribuição privativa no Serviço Social, na medida em 
que este entendimento reflete no modo como tratam ou não esta 
questão no curso. 
Quanto à compreensão das assistentes sociais docentes so-
bre atribuições privativas no Serviço Social, a maioria do grupo 
de entrevistadas demonstra domínio sobre o que é a atribuição pri-
vativa, destaca-se em suas falas o que prevê o art. 5º da Lei que 
regulamenta a profissão e que se difere do art. 4º que preconiza as 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
competências. Esse entendimento é identificado nas falas de 92% 
das professoras entrevistadas, como destacada a professora n° 05: 
São atividades que somente o profissional com formação em 
Serviço Social e registrado em conselho de classe – CRESS pode 
exercer, não sendo possível outro profissional realizar tais atribui-
ções, estão previstas no art. 5º (PESQUISA DE CAMPO, 2017).
Nas entrevistas, 8% das professoras não se referiram direta-
mente às atribuições privativas do assistente social, como sinaliza 
o art. 5º da Lei de regulamentação da profissão. Para a professora 
nº 10, o entendimento de atribuições privativas “é tudo aquilo que 
é específico ao Serviço Social no âmbito das políticas públicas e 
da questão social” (PESQUISA DE CAMPO, 2017). Esse entendi-
mento é contrário ao que sinaliza o artigo da lei de regulamentação, 
uma vez que executar políticas públicas não se constitui atribuição 
privativa e sim competência como sinaliza o art. 4º da mesma lei: 
“elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto à 
órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, enti-
dades e organizações populares” (BRASIL, 1993).
Todas as assistentes sociais docentes consultadas afirmaram 
que o trato das atribuições privativas nas IES em que trabalham 
se dá em disciplinas específicas, principalmente, na disciplina de 
ética profissional e nas disciplinas de estágio supervisionado. Isto 
porque, segundo as mesmas, são nas disciplinas específicas, que 
somente os assistentes sociais podem ministrar que o docente deve 
trabalhar tal discussão na formação. Ministrar as disciplinas especí-
ficas em matéria de Serviço Social também está previsto no art. 5º 
da lei 8.662/93 como uma atribuição privativa do assistente social.
No que concerne à forma de se trabalhar tal discussão no 
curso, todas as docentes acreditam que o debate deve ocorrer em 
todas as disciplinas do curso e em todos os momentos durante a 
formação, mas, mesmo se assim for, há necessidade de uma disci-
plina específica que enfoque as competências e atribuições privati-
vas do assistente social. As professoras apontaram que a discussão 
deve ser eminentemente transversal, deve ser presente em todas as 
disciplinas que compõem os núcleos fundamentais, bem como na 
pesquisa e na extensão, como orientam as Diretrizes Curriculares 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Nacionais para os Cursos de Serviço Social. Nosso entendimento 
é que a transversalidade da discussão nas diferentes disciplinas e 
atividades acadêmicas permite uma maior apropriação das atribui-
ções e competências,razão pela qual não consideramos coerente 
resolver a questão de seu trato com a criação de uma disciplina 
específica.
A pesquisa questionou especificamente sobre como é possí-
vel ensinar as atribuições privativas do assistente social nos cursos 
em que as docentes entrevistadas atuam, as quais responderam que 
o ensino sobre as atribuições privativas pode ocorrer a partir de 
diferentes estratégias adotadas por elas, como: “aulas dialogadas, 
debates, rodas de conversas, seminários temáticos, na oralidade por 
meio de palestras, ao ofertar monitoria de disciplinas, ao implemen-
tar o estágio docente na graduação e ao inserir na grade curricular 
uma disciplina específica” (PROFESSORA Nº 11, PESQUISA DE 
CAMPO, 2017). 
A pesquisa revelou que as principais estratégias e/ou espaços 
que os docentes consideram importantes para privilegiar a discus-
são das atribuições privativas são a monitoria e o estágio docente. 
Sabemos que a monitoria no curso visa desenvolver a vivência do 
estudante de graduação com as especificidades do ensino superior, 
principalmente com o trabalho docente exercido pelo professor as-
sistente social. A monitoria permite que o aluno se aproprie dos 
conteúdos curriculares da profissão para integrar-se ao saber ensi-
nar a partir da experiência numa dada disciplina. A relação entre a 
monitoria e as atribuições privatistas e de ambas podem ser desen-
volvidas na formação graduada.
Em recente publicação, Matos (2015) reitera a necessidade 
de discutimos e refletirmos sobre as atribuições e competências 
profissionais dos assistentes sociais, uma vez que elas se particu-
larizam na intervenção profissional nos diversos espaços em que 
os assistentes sociais estão inseridos e desenvolvem a profissão 
cotidianamente. Essas reflexões e discussões não se descolam da 
formação, pelo contrário, precisam estar na formação profissional. 
Em complemento ao autor acima citado, Werner (2010), a partir de 
pesquisa realizada em sua tese de doutorado afirma que há muitas 
fragilidades na formação profissional em Serviço Social, principal-
mente quanto à concepção de atribuições, competências e habilida-
- 109 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
des, portanto, necessita-se de um amplo debate de como elas podem 
ser desenvolvidas na formação e de como incluí-las nos currículo 
de forma transversal.
A pesquisa questionou ainda se as professoras entrevistadas 
consideravam que a formação recebida na graduação/pós-gradua-
ção tem preparado os assistentes sociais para assumir as atribuições 
privativas como sinaliza a lei da profissão. Sobre isso, 83% das do-
centes responderam que sim, entretanto de forma parcial, pois para 
elas falta muito para afirmar que a atual formação, seja da gradu-
ação e/ou da pós-graduação, tem preparado, além do mais no mo-
mento difícil que a educação superior vem vivendo; 17% disseram 
que a formação não tem preparado, sobretudo, porque não especifi-
ca numa disciplina a discussão das atribuições privativas, conforme 
é identificado nos dizeres da professora nº 04: 
 
Porque determinados cursos de graduação e pós-graduação não 
enfatizam as competências e atribuições privativas, sobretudo 
porque há professores que assumem disciplinas apenas ex-
clusivamente para manter sua condição material de vida e/ou 
complementação de renda, não havendo qualquer compromisso 
de fato com a formação em Serviço Social. Incluo nesse rol, 
grande parte dos docentes de universidades públicas e privadas 
e EAD. (PESQUISA DE CAMPO, 2017). 
Neste sentido, percebemos que preparar para o desenvol-
vimento de competências e atribuições requer um compromisso 
ético dos professores para tratá-las na formação seja graduada ou 
pós-graduada. Entretanto, na fala da professora acima é possível 
dizermos que as professoras não tem tido esse compromisso. Isso, 
porque o trabalho docente no Serviço Social não pode ser reduzi-
do às questões salariais, ou seja, não é uma simples troca com o 
empregador. O compromisso com a formação profissional deve ser 
traduzido em sala de aula a fim de impulsionar práticas formativas e 
visões críticas da realidade como caminho metodológico para con-
cretizar o trabalho profissional. Dessa forma, os professores favo-
recerão uma formação crítica, na medida em que buscarem desen-
volver com qualidade e compromisso o ensino das competências e 
atribuições privativas.
A pesquisa revelou ainda que mesmo aquelas assistentes so-
ciais docentes que atuam em outros campos profissionais buscam 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
fazer a mediação desta experiência com a sala de aula. Com isso 
é possível dizer que há o compromisso com o ensino no Serviço 
Social. Percebemos, também, que as docentes possuem valores pro-
fissionais, demonstrados por meio da busca para efetivar o projeto 
ético-político da profissão vinculado à construção de uma nova or-
dem societária.
Sinalizamos que a articulação entre a formação profissional 
e o trabalho profissional é entendida como um processo que não 
se esgota com a conclusão da graduação. A formação profissional 
deve ser entendida com um processo inacabado, que jamais se esgo-
taria na graduação, até porque, como já mencionamos, a profissão 
está intrinsicamente ligada à realidade social, que uma vez mudada, 
muda-se também o conjunto das relações da sociedade e o contexto 
histórico que se processa a realidade.
Para isso, certamente, necessitamos ter uma proposta de for-
mação que oportuniza a discussão das atribuições privativas. E por 
que a preocupação em dar ênfase a essas atribuições privativas? 
Porque assumi-las é um compromisso profissional com a própria 
profissão e com seu projeto ético-político, é construir resistência e 
mirar na construção de uma sociedade em que a riqueza produzida 
seja socializada igualmente. Exercê-las é assumir um compromisso 
ético com a formação profissional pautada em princípios e valores 
éticos profissionais, propondo desta forma um trabalho que não se 
desloca da prática social, mas que faz parte da realidade social.
4. Conclusão 
Esta pesquisa, certamente, não abrange completamente a rea-
lidade de todos os cursos de formação graduada no Brasil, uma vez 
que a pesquisa apontou apenas a realidade dos cursos de Serviço 
Social no extremo norte do país, entretanto, a leitura da realidade e 
a atual conjuntura política e econômica da sociedade brasileira nos 
permite fazer uma análise mais ampla dessa realidade e revelar a 
complexidade da temática e a necessidade de se pautar a questão 
em âmbito nacional.
A pesquisa nos revelou que ainda há limites no trato das atri-
buições privativas, isso porque, apesar das docentes entrevistadas 
indicarem que na graduação há possibilidade para esse trato, ela 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
não tem sido realizada de forma transversal. A discussão sobre as 
atribuições privativas na formação graduada das docentes nos cur-
sos das IES de Boa Vista (RR) também foi limitada ou quase ine-
xistente na época da formação dessas professoras. Destacaram que 
não participaram nem na formação em nível de graduação e nem em 
nível de pós-graduação de debates acerca das atribuições privativas 
e competências do assistente social.
Portanto, a necessidade é urgente do aprofundamento dessa 
discussão durante o processo de formação. O primeiro passo pode 
ser dado na graduação e obrigatoriamente ser aprofundada na pós-
-graduação. 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
SEÇÃO II
TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
IMPLICAÇÕES DA PRECARIZAÇÃO DO 
TRABALHO PARA OS TRABALHADORES 
DA CONSTRUÇÃO CIVIL DO COMPLEXO 
PETROQUÍMICO DO RIO DE JANEIRO 
(COMPERJ): Uma análise do contexto após o 
processo de paralização das obras e demissões 
em massa 
Ana Caroline Gimenes Machado121
Inez Terezinha Stampa222
1. Introdução
O processo vivenciado pelos trabalhadores do Comperj é re-
flexo do cenário atual de crise brasileira, o qual, por sua vez, está ar-
ticulado a uma crise que afeta a economia mundial desde o final dos 
anos de 1970, uma crise estrutural que vem suscitando transforma-
ções no universo da classe trabalhadora. O aumento do desemprego 
e a extensão do tempo médio para retornar ao mercado de trabalho 
formal corroboram para uma maior pauperização da população. 
Vivem-se, neste contexto, mudanças significativas no inte-
rior da classe trabalhadora e no seu movimento sindical. Antunes 
(2018) sinaliza que há uma diminuição ampliada dos empregos, e 
os que se mantêm empregados colecionam perdas em decorrência 
das configurações capitalistas atuais, dentre as quais se destaca o 
desmonte de direitos conquistados ao longo das lutas travadas pela 
classe trabalhadora, precarização das relações trabalhistas, rebaixa-
mento salarial, terceirização, aumento da informalidade e do traba-
lho intermitente, entre outras particularidades próprias da reestrutu-
ração produtiva.
Tendo em vista esse cenário, este artigo objetivou apresentar 
como as demissões em massa afetaram os trabalhadores da cons-
1 Assistente Social. Mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 
Especialista em Assistência Social e Direitos Humanos pela PUC-RJ. E-mail: anacaroline.gimenes.m@
gmail.com.br.
2 Assistente Social e Socióloga. Doutora em Serviço Social. Coordenadora adjunta da área de Serviço So-
cial da Capes. Bolsista produtividade em pesquisa CNPq. Professora associada da Pontifícia Universidade 
Católica do Rio de Janeiro. E-mail: inezstampa@gmail.com.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
trução civil do Complexo Petroquímico de Itaboraí/RJ (Comperj), 
compreendendo a importância em analisar as condições de trabalho 
atuais dos trabalhadores da construção civil após as demissões em 
massa no Comperj, no município de Itaboraí/RJ, sob o contexto 
atual de radicalização do neoliberalismo. As obras foram interrom-
pidas em virtude de mudanças no planejamento original do empre-
endimento - tendo reduzido a apenas uma o número de construções 
de refino, queda do preço do petróleo em 2014 no mercado interna-
cional, falhas no licenciamento ambiental, aumento de dívidas na 
Petrobras e superfaturamento nos contratos apurados pelo Tribunal 
de Contas da União em 2010. 
A investigação da Operação Lava-Jato (parcial e política e 
impulsionada pela grande mídia), na qual diversas empresas com 
contrato no Comperj estavam envolvidas, além de representar um 
desmonte do setor de petróleo no estado do Rio de Janeiro, vis-
to que o mercado de petróleo representa mais de 30% do PIB flu-
minense, impactou a economia brasileira como um todo, afetando 
austeramente os trabalhadores que prestavam serviço para a estatal.
Nesse sentido, dentre os mais prejudicados encontram-se 
aqueles oriundos das camadas mais pobres, provenientes de outros 
estados, expostos ao “fantasma” do desemprego, submetidos às 
formas mais precárias de trabalho, que vislumbraram o Comperj 
como esperança de uma empregabilidade perene, durante o tempo 
estimado pela construção. Indústrias e empresas que foram atraídas 
para a região em decorrência da construção do Comperj também 
foram afetadas com a suspensão das obras, produzindo falência de 
empreendimentos, frustração das previsões otimistas em relação ao 
desenvolvimento do Complexo e suas repercussões e um número 
elevado de desempregados no município de Itaboraí e arredores.
De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores 
Empregados nas Empresas de Manutenção e Montagem Industrial 
de Itaboraí (Sintramon), o Comperj chegou a ter de 28 a 30 mil 
trabalhadores (MACHADO, 2019). As obras de montagem, geral-
mente, possuem uma rotatividade maior, pois os trabalhadores da 
construção civil são contratados pelo tempo determinado para reali-
zarem o serviço previsto. Entretanto, somente no mês de janeiro de 
2015, ao retornarem do recesso de final de ano, 15 mil trabalhado-
res foram demitidos. Partindo do pressuposto de que as demissões 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
em massa foram decorrentes do acirramento da crise capitalista atu-
al, associada à crise política e econômica por que passa o país e, 
em particular, o estado do Rio de Janeiro, esta artigo buscou refletir 
como foram afetados os trabalhadores da construção civil do Com-
plexo, no município de Itaboraí/RJ. 
Não obstante, em relação aos desdobramentos da atual crise 
sobre os trabalhadores do Comperj, existe pouca literatura especia-
lizada sobre a temática das demissões em massa dos trabalhadores 
do complexo e, em sua maior parte, é relativa a pesquisas realizadas 
até 2015 (ALMEIDA, 2016; INCID, 2015; LIMA, 2015; NEVES, 
2010). Foi necessário, portanto, realizar uma aproximação a esta 
problemática com o intuito de desvelar as atuais condições de tra-
balho dos trabalhadores da construção civil do Comperj, visto que 
a dinâmica temporal se modifica constantemente, entrelaçando a 
análise da conjuntura capitalista atual com os dados obtidos.
Para tanto, o presente artigo foi construído a partir de pesqui-
sa realizada sobre os trabalhadores desempregados após a paraliza-
ção das obras do Comperj323, na qual foram utilizados instrumentos de 
investigação como pesquisa bibliográfica; busca de obras recentes 
nas plataformas, nos bancos de dados,repositórios de teses e disser-
tações, entendendo a importância das reflexões e análises. Em outra 
frente, a pesquisa documental, com exame de normas e legislação, 
de registros relativos à temática abordada, analisando o conteúdo de 
boletins produzidos pelos sindicatos dos trabalhadores do Comperj; 
pesquisa em sítios da Internet e em jornais de grande circulação, 
buscando dados secundários de pesquisas já realizadas sobre o tema 
e sobre o contexto político-econômico do país, procurando situar o 
objeto de estudo com mais propriedade, preparando a análise dos 
dados primários e secundários. 
Em relação aos dados primários, a entrevista foi o principal 
instrumento de coleta de dados para a pesquisa, a qual foi realizada 
com uma amostra não probabilística, sendo utilizado o método de 
amostragem intencional por conveniência. Os trabalhadores entre-
vistados eram profissionais desempregados do setor da construção 
civil do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, com baixa es-
3 Trata-se do estudo intitulado “Tijolo com tijolo num desenho trágico”: condições de trabalho na cons-
trução civil após as demissões em massa no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), apre-
sentado como dissertação de mestrado ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-Rio, 
em 2019 (MACHADO, 2019).
- 118 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
colaridade, com idades entre 39 e 66 anos, provenientes de outros 
estados brasileiros e, em sua maioria, não possuem bases familiares 
em Itaboraí, residindo no município e arredores por não consegui-
rem regressar para seus estados de origem.
O acirramento das expressões da questão social, reflete, por 
conseguinte, nas práticas sociais que incidem no processo de repro-
dução material da força de trabalho, onde se insere a experiência 
profissional dos assistentes sociais. Neste sentido, reafirma-se a im-
portância de se conhecer a conjuntura atual para o profissional de 
Serviço Social que atua diretamente na viabilização dos direitos da 
população e seu acesso às políticas sociais. Santos (2012) aponta 
que a pesquisa “devidamente informada numa perspectiva ético-po-
lítica e teórico-metodológica, é um instrumento essencial” (p. 248). 
Sendo assim, investigação, intervenção, pesquisa e ação, ciência e 
técnica não devem ser percebidas como dimensões desconectadas. 
Ao contrário, esforços devem ser empreendidos para analisar os fe-
nômenos presentes no cotidiano, produzidos pela lógica capitalista, 
a fim de construir estratégias de enfrentamento à luz de uma refle-
xão teórica, que possibilite o surgimento de inquietações, reflexões 
e problematizações necessárias para uma atuação profissional mais 
consciente e consistente.
2. Transformações recentes no mundo do trabalho
Expressivas transformações sofridas dentro da esfera da pro-
dução vêm afetando fortemente a classe trabalhadora e seu movi-
mento sindical. Isso se intensifica em países com histórica e pro-
funda desigualdade social como o Brasil. Antunes e Druck (2014) 
analisam que o trabalho contratado e regulamentado, predominante 
no século XX, vem sendo substituído por diferentes formas de ter-
ceirização, precarização e informalidade, e que esta tem deixado de 
ser exceção para se tornar regra.
Um contingente expressivo de trabalhadores é conduzido 
ao desemprego, por não conseguir mais se inserir no mercado de 
trabalho formal, visto que o trabalho que antes executavam, agora 
é realizado por maquinários que os substituem, em menor tempo, 
com maior produtividade. Em sua busca pela reprodução de capital, 
as empresas tendem a investir mais em capital constante e menos 
em capital variável, o que leva ao aumento da composição orgânica 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
do capital e à diminuição da taxa de lucro. O desemprego, deriva-
do deste maior investimento em capital constante em detrimento 
do capital variável, torna mais dificultoso aos capitalistas obter a 
mais-valia.
No entanto, como o capital é uma relação social eivada de 
contradições, cabe lembrar Maranhão (2010), que reflete que o 
amplo quantitativo de trabalhadores excedentes é essencial para a 
reprodução atual do capital. Segundo o autor, o processo denomi-
nado e analisado por Marx de “acumulação primitiva ou originária” 
(MARANHÃO, 2010, p.98) produziu uma enorme oferta de força 
de trabalho. 
Com a desapropriação de terras, ferramentas de trabalho e 
meios de produção, o desenvolvimento das indústrias atraiu um 
expressivo contingente de trabalhadores do campo para os centros 
urbanos em busca de obter seus meios de subsistência, gerando uma 
superpopulação relativa de trabalhadores como “um inesgotável re-
servatório de força de trabalho” (MARANHÃO, 2010, p. 99). O 
autor afirma que o processo de expansão mundial da superpopula-
ção relativa, que se deu concomitantemente ao processo de mundia-
lização financeira, resultou na obtenção de superlucros, por meio 
dos baixos salários praticados pelo grande número de trabalhadores 
desocupados no mercado.
Essa população empobrecida, que não está inserida no mer-
cado formal de trabalho e que já se tornou supérflua com os avanços 
tecnológicos, possibilita a ampliação da exploração dos trabalhado-
res ocupados, reduz seus salários e exerce uma pressão sobre a or-
ganização política desses trabalhadores formais, visto que se veem 
compelidos a abrir mão da luta política em detrimento de seus em-
pregos. Assim, aqueles que não se encontram inseridos no mercado 
de trabalho por vias formais também são extremamente importan-
tes para a economia. Nessa conjuntura, muitas empresas reduzem 
o quantitativo de funcionários para economizar gastos. Esses cortes 
no capital variável têm se tornado cada vez mais recorrentes e o 
tempo para se realocar no mercado de trabalho vem se expandindo 
devido à ampla concorrência.
Segundo Maranhão (2010), houve um aumento no tempo 
médio da procura por trabalho, ou seja, “o mundo industrializado 
- 120 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
se caracteriza cada vez mais pelo desemprego de longa duração” 
(p.94). Esse crescimento abrupto do desemprego acirrou ainda mais 
a desigualdade de renda no país. Ressalte-se que a atual conjuntura 
brasileira é marcada pela “informalidade” e o desemprego oculto 
pelo trabalho precário, os quais vêm se ampliando cada vez mais. 
“Os ‘sem-emprego’, grupo constituído pelos desempregados e pe-
los trabalhadores informais, são hoje a maioria dos trabalhadores 
brasileiros” (DRUCK, 2013, p. 65). A autora, em sua crítica sobre a 
precarização social do trabalho no Brasil, afirma que a situação que 
melhor demonstra a fragilização que afeta o mundo do trabalho é o 
desemprego, que “deixa de ser uma condição provisória e transfor-
ma-se numa situação de longo prazo ou mesmo permanente” (p 62). 
A precarização, de acordo com Antunes e Druck (2014), “passa a 
ser o centro da dinâmica do capitalismo flexível” (p. 13).
Os efeitos dos ajustes neoliberais sobre a classe trabalhadora 
têm sido desastrosos. Os programas de austeridade, supressão ou 
redimensionamento dos gastos públicos, principalmente os gastos 
sociais, juntamente com os processos de mercantilização e priva-
tização, ampliaram as expressões da questão social (BEHRING, 
2013). O que é corroborado por Lole e Stampa (2018):
[...] a redução/congelamento dos gastos com políticas sociais e 
o maior redirecionamento do fundo público aos interesses do 
capital; o retorno ao primeiro damismo e a intenção de deslo-
camento da política de assistência social para o campo do não 
direito; a indicação das contrarreformas da previdência social, da 
educação e do trabalho; a destruição da universalidade e gratui-
dade do Sistema Único de Saúde (SUS); entre outras atrocidades 
(LOLE; STAMPA, 2018, p. 10).
As autoras ressaltam que a conjuntura atual brasileira tem 
sido permeada por esses retrocessos, os quais se têm somado ao 
aumento do desemprego e exacerbação da exploração da força de 
trabalho. Nesse contexto,onde a acumulação flexível é quem “dita 
as ordens”, as relações trabalhistas se tornaram mais fragilizadas, 
muitos dos direitos conquistados foram desregulamentados, houve 
crescimento do desemprego e, com isso, do agravamento da pobre-
za. Conforme Mota (2010), “as transformações ocorridas nos pro-
cessos e nas relações de trabalho afetaram profundamente a com-
posição e a prática político-organizativa dos trabalhadores” (p. 41).
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Santos (2012) alerta que “as formas de trabalho mais ins-
táveis e menos protegidas tendem a se ampliar, fazendo com que 
o medo de perder o emprego apareça novamente como a princi-
pal força disciplinadora do trabalho” (p. 197). A necessidade de se 
manterem nos espaços ocupacionais, impele os trabalhadores a se 
submeterem a condições aviltantes de trabalho. Neste sentido, cres-
cem postos de trabalhos precarizados, terceirizados, temporários, 
sem garantias e sem direitos trabalhistas. Ao analisar as formas de 
trabalho contemporâneas cada vez mais precárias, fruto da conjun-
tura regida pelos ditames neoliberais, no contexto do capital finan-
ceiro, Antunes (2018) pondera que “a informalidade deixa de ser a 
exceção para tendencialmente se tornar a regra” (p. 172). 
Um conjunto de medidas vem sendo adotadas para garantir a 
“submissão” dos trabalhadores aos ditames da acumulação capita-
lista ao redor do mundo. No Brasil, além da contrarreforma traba-
lhista, destaca-se a questão previdenciária. A proposta da reforma da 
previdência – Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 6/2019 
prevê, entre outras, mudanças na idade mínima de aposentadoria, 
no tempo mínimo de contribuição e no cálculo da aposentadoria, 
diminuição no valor dos benefícios previdenciários, aumentando a 
idade mínima para o recebimento do Benefício de Prestação Con-
tinuada (BPC). Ressalte-se que já foi emitida por meio de medida 
provisória uma minirreforma da previdência, modificando vários 
benefícios do INSS, sobretudo o salário maternidade e o auxílio 
reclusão. O texto da PEC exposto pelo governo Bolsonaro demons-
tra que haverá uma grande alteração nos regimes de aposentadoria, 
principalmente a aposentadoria por tempo de contribuição. Caso 
seja aprovada, o trabalhador contribuinte necessitará de uma idade 
mínima para se aposentar de 65 anos para os homens e 62 anos 
para as mulheres, sendo necessário para poder receber o valor de 
forma integral, isto é, 100% da média das contribuições, 40 anos de 
contribuição.
Apesar da reforma previdenciária ainda não ter sido com-
pletamente aprovada, pode-se afirmar que na proposta apresentada 
pelo governo Bolsonaro a intenção é instituir no Brasil um sistema 
de aposentadorias nos arquétipos do sistema do Chile, o qual é de-
nominado sistema de capitalização, onde todo trabalhador realiza 
contribuições para uma conta individual. Nesse modelo de capitali-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
zação, as contribuições são administradas por fundos privados, que 
buscam investir o dinheiro no mercado financeiro, com a finalidade 
de obter uma melhor rentabilidade. Conforme a proposta, esse siste-
ma seria, inteiramente, apenas para aqueles que ainda não entraram 
no mercado de trabalho. Para os trabalhadores que já contribuem, 
sem possuir os critérios para a aposentadoria, permanecerá a valer 
um sistema de repartição simples.
Percebe-se claramente a intenção do governo, atendendo a 
interesses do capitalismo financeiro, sobretudo em apostar na capi-
talização da previdência, medida que fará com que o dinheiro das 
contas individuais seja administrado por empresas privadas, que 
podem investir no mercado financeiro, semelhante ao modelo chile-
no. Essas medidas provocaram inúmeros problemas para a popula-
ção chilena, o que tem impelido o governo a rever essas alterações. 
Caso seja aprovada a PEC apresentada, os trabalhadores sofrerão 
mais um duro golpe, ficando sem perspectiva de ter uma aposenta-
doria. A perspectiva, inclusive, é de trabalhar até a morte.
Soma-se a isso a Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017, com 
duras alterações na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e 
a chamada Lei da Terceirização (Lei nº 13.429/17), que permite 
a terceirização de qualquer atividade, com prejuízo dos benefícios 
trabalhistas e aumento de tempo do trabalho temporário. Lole e 
Stampa (2018) afirmam que a lei supracitada revela a imagem de 
um trabalhador “invisível, abstrato, sem identidade própria em seu 
ambiente laboral, sem plano de carreira, que não incorpora conhe-
cimento técnico, que no quadro atual não tem condições de evoluir 
profissionalmente e materialmente” (p.11). 
Este cenário de desregulamentação dos direitos conquista-
dos, de precarização do trabalho e de flexibilização das relações 
trabalhistas corroboram para a fragmentação da classe trabalhadora 
e enfraquecimento do movimento sindical. A terceirização reflete 
na sindicalização dos trabalhadores, visto que aumenta a dificul-
dade de sindicalizar os terceirizados (estando estes cada vez mais 
fragmentados, segmentados, apartados), e sendo boa parte do sindi-
calismo de terceirizados de caráter patronal (com discursos e ações 
que favorecem empresas e não os trabalhadores).
Com a Lei da Terceirização, as empresas podem contar com 
a terceirização de maneira ampla e irrestrita, sendo possível terceiri-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
zar todas as suas atividades, suprimindo a distinção entre atividades 
fim e meio. A empresa poderá contratar outra para a execução das 
atividades, em vez de contratar diretamente o trabalhador. O setor 
da construção civil é permeado por esse modelo, no qual o traba-
lhador é chamado para executar os serviços para uma construtora, 
porém será contratado e pago por uma empreiteira. E essa emprei-
teira pode ainda terceirizar este trabalhador de outra empresa, o que 
caracteriza uma quarteirização (“terceirização dos terceirizados”).
O desemprego crescente tende a provocar conformação e 
naturalização dos processos de precarização do trabalho na socie-
dade, corroborando para a ampliação da exploração da força de tra-
balho. Ao discorrerem sobre os impactos da terceirização, a qual 
está intrinsecamente ligada à precarização, Antunes e Druck (2014) 
ponderam que “a terceirização é o fio condutor da precarização do 
trabalho no Brasil” (p. 20). Os autores sintetizam a prática da tercei-
rização descrevendo que:
[...] as empresas do setor industrial buscam garantir seus altos 
lucros, exigindo e transferindo aos trabalhadores a pressão pela 
maximização do tempo, pelas altas taxas de produtividade, pela 
redução dos custos com trabalho e pela “volatilidade” nas formas 
de inserção e contratos (ANTUNES; DRUCK, 2014, p.17).
Tais elementos permitem inferir que as mudanças no mundo 
do trabalho afetam diretamente a classe trabalhadora, levando-a a 
se submeter a espaços ocupacionais cada vez mais instáveis, a fim 
de obter seus meios de sobrevivência. Neste sentido, Braga (2016) 
sinaliza que o maior desafio para a classe trabalhadora brasileira 
é resistir a este novo ciclo de ataque aos direitos e às suas condi-
ções de trabalho, buscando formas de interromper a ampliação da 
espoliação dos trabalhadores. Ressalta a importância da organiza-
ção política como forma de resistência. Com base nesse contexto, 
ocupa-se, na seção seguinte com os impactos da precarização do 
trabalho sobre os trabalhadores do Comperj.
3. Interrupções nas obras e demissões em massa
O crescimento econômico logrado pelo Brasil durante a pri-
meira década de 2000 foi fruto, entre outras razões, de políticas 
de ampliação de créditos, de transferência de renda para os setores 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
mais empobrecidos, expansão do mercado consumidor interno, e 
aumento de postos de trabalho. A indústria da construção, confor-
me a Classificação Nacional de Atividades Econômicas - Cnae 2.0 
compreende os seguintes setores: construçãode edifícios, obras de 
infraestrutura e serviços especializados para construção. De acordo 
com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socio-
econômicos (Dieese, 2012), o setor de construção civil foi o que 
teve maior crescimento no período entre os anos de 1999 e 2009. 
Destacou-se também por ter sido o setor com menores remunera-
ções, maior rotatividade, formalização mais modesta e composto 
por trabalhadores com baixa qualificação. Almeida (2016) destaca 
características do trabalho na construção civil:
Predominância do sexo masculino, realização do trabalho muitas 
vezes ao ar livre, predomínio de baixa escolaridade e qualifi-
cação, o uso elevado de horas extras, baixos salários e elevada 
rotatividade, intensificação do trabalho, regime de remuneração 
de acordo com a produtividade, elevados acidentes trabalho entre 
outros (ALMEIDA, 2016, p.24-25).
Em 2007 o governo federal anunciou o Programa de Acelera-
ção do Crescimento (PAC) para retomar o planejamento e execução 
de grandes obras de infraestrutura, objetivando, assim, um desen-
volvimento “acelerado e sustentável”. Em meio à crise financeira 
que afetou diversos países capitalistas centrais a partir de 2008, o 
programa representou um alento para muitos trabalhadores brasi-
leiros que, devido ao aumento da oferta de empregos, mantiveram 
a economia ativa, por meio do consumo, mitigando as sequelas da 
crise sobre as empresas nacionais. O PAC, criado para ser o respon-
sável pela gestão, execução e acompanhamento de vários empreen-
dimentos pelo país, funcionou como um catalizador de empregos, 
especialmente no setor de construção civil. Conforme o Ministério 
do Planejamento, devido às obras do PAC o mercado de trabalho 
brasileiro criou 5.277.071 milhões de novos empregos entre 2009 
e 2014, com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e 
Desempregados (Caged).
Véras (2014), em sua análise sobre conflitos e negociações 
nos canteiros de obras do PAC em 2011, afirma que o programa foi 
utilizado como o instrumento fundamental para o discurso eleitoral 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
da candidatura da ex-presidente Dilma Rousseff, e que “por meio 
de investimentos em infraestrutura, o governo visou aumentar a 
produtividade das empresas, estimular investimentos privados, ge-
rar emprego e renda e reduzir as desigualdades regionais” (p. 115). 
De 2015 a 2018, a avaliação de investimentos com o PAC era R$ 
1,04 trilhão. Com a queda de arrecadação devido à crescente crise 
político-econômica, o governo federal reduziu o repasse em 2016. 
Duas mil obras foram interrompidas, o que colaborou para consti-
tuir o cenário de demissões na construção civil e de desaceleração 
do crescimento econômico do país.
Conforme dados da Relação Anual de Informações Sociais 
(Rais), os vínculos empregatícios no setor foram menos 146,4 mil, 
o que representa uma redução de 7,4% no período entre os anos de 
2011 a 2017. Foram mais de 7400 obras paralisadas só no Programa 
Agora é Avançar do governo Temer. O Comperj consistiu no maior 
empreendimento individual de toda a história da Petrobras, cons-
truído a partir da parceria entre o Grupo Ultra, o Banco Nacional 
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Petrobras. 
Sua criação foi anunciada em 2006 pelo governo federal (primeiro 
mandato de Lula). 
Os investimentos, avaliados em cerca de U$ 8,4 bilhões, atra-
íram para o município de Itaboraí distintas frações da sociedade, 
que viam na implantação deste empreendimento um estímulo para 
a instalação de empresas e indústrias, geração de empregos diretos 
e indiretos, trazendo para o município (e arredores) a promessa de 
desenvolvimento e produção de riqueza. A expectativa era criar 212 
mil empregos diretos e indiretos. Na fase de operação, a expectativa 
da Petrobras era de que o Comperj gerasse um faturamento anual de 
US$ 5,8 bilhões. Muitos empreendimentos se instalaram na região 
do município de Itaboraí, o que despertou o interesse de um número 
expressivo de pessoas, em sua maioria vindas de outros estados, 
sem redes de apoio nos municípios ao redor, que vislumbravam 
oportunidades de trabalho.
O Comperj foi incluído no PAC como uma das mais impo-
nentes obras do governo federal, o que gerou grande expectativa 
com a promessa da criação de muitos postos de trabalho para o 
setor da construção civil, por meio do uso de diversos consórcios 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
durante as distintas fases da construção. Não obstante, conforme 
apontou o estudo do Incid (2015), devido à investigação de denún-
cias de favorecimento e desvio de dinheiro nos contratos de grandes 
empreiteiras com a Petrobras, que envolviam empresas contratadas 
para as obras do Comperj e, também, por causa de mudanças no 
planejamento original do empreendimento, justificado pela rene-
gociação dos contratos para amortizar os custos, tendo reduzido a 
apenas uma o número de construções de refino, em meados de 2014 
e início de 2015, ocorreram interrupções nas obras, demissões em 
massa no Comperj, falência de empreendimentos na região levando 
à frustração das previsões otimistas em relação ao desenvolvimento 
do Complexo e suas repercussões.
A queda no número de empregos formais no setor da cons-
trução civil atingiu profundamente o município de Itaboraí, tendo 
aumentado o número de trabalhadores sem garantias, sem direi-
tos, que recorrem ao setor informal como forma de subsistência. A 
terceirização no setor de construção civil se apoia no caráter tem-
porário das atividades ocupacionais, na baixa especialização dos 
trabalhadores, o que representa uma significativa redução de cus-
tos para grandes empresas que contratam subempreiteiras, além de 
terceirizar os riscos e os conflitos desses trabalhadores. A reforma 
trabalhista alterou pontos importantes da Consolidação das Leis do 
Trabalho de 1943. Entre as implicações para a construção civil, po-
de-se mencionar as mudanças nos acordos coletivos, fracionamento 
de férias, jornada de trabalho e rescisão contratual.
A expansão da terceirização traz consigo diferentes formas 
de precarização dos trabalhadores, tanto nos tipos de contrato, 
como na remuneração, nas condições de trabalho e saúde e, ain-
da, na representação sindical, conforme apontam Antunes e Druck 
(2014, p.19) com base na pesquisa de Druck e Franco (2007). Indi-
ca Almeida (2016):
No Comperj, utiliza-se a “terceirização em cascata”, onde 
acontece a subcontratação por empresas contratadas pelos con-
sórcios. Com isso, os consórcios, compostos por uma empresa 
ou conjunto de empresas, gerenciam o contrato principal e as 
empresas subcontratadas quanto aos prazos e exigências do 
cronograma (p. 53).
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Soma-se a isso a insegurança devido à instabilidade no em-
prego que, por vezes, apesar de formal, também é terceirizado, o 
que pode conduzir o trabalhador ao desemprego abruptamente, 
como ocorreu com os trabalhadores do Comperj. Cabe ressaltar 
que, alguns desses, num primeiro momento, ficaram sem receber 
suas verbas rescisórias. O processo de demissões afetou diversas 
categorias profissionais que trabalhavam no Comperj. Entretanto, o 
grupo de trabalhadores da construção civil foi demasiadamente pre-
judicado com as demissões, devido à baixa qualificação profissio-
nal, à diminuição das obras em todo o país, dificuldade de reinser-
ção no mercado de trabalho, por serem migrantes de outros estados 
e estarem sem uma rede de apoio na região do Complexo. Por se 
tratar da execução de obras de um complexo, o número de contrata-
ção de trabalhadores do setor da construção civil foi superior ao dos 
outros setores, o que revela, em contrapartida, que o quantitativo de 
demissões foi maior para os trabalhadores dessa área.
4. Conclusão
Harvey (2016) aponta que crises são essenciais para a repro-
dução do capitalismo. De acordo com o momento histórico exami-
nado, o capitalismo apresenta expressões da questão socialcom dis-
tintas especificidades, sendo estas inerentes ao modelo capitalista. 
Netto (2001) reflete que “diferentes estágios capitalistas produzem 
diferentes manifestações da ‘questão social’” (p. 157).
O contexto em que as demissões no Comperj ocorreram 
corresponde a um cenário onde a crise brasileira, articulada à cri-
se mundial, tem no desemprego estrutural uma de suas principais 
expressões. Ao examinar algumas particularidades da conjuntura 
brasileira atual, foi possível observar que a radicalização do neoli-
beralismo corroborou para produzir novas expressões de uma ques-
tão social mais expandida e diversificada em meio à crise estrutural 
que se estabeleceu desde os anos de 1970.
A investigação para essa pesquisa mostrou que os trabalha-
dores do setor da construção civil demitidos do complexo petroquí-
mico encontraram grande dificuldade em se reinserir no mercado 
formal de trabalho. Os espaços ocupacionais que auferiram desde as 
demissões em 2014 e 2015 foram, em sua maioria, informais, tem-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
porários, com remunerações bastante inferiores em relação aos ven-
cimentos percebidos no período em que trabalharam no Comperj, 
devido à baixa qualificação profissional, à diminuição das obras em 
todo o país, dificuldade de reinserção no mercado de trabalho, por 
serem migrantes de outros estados e estarem sem uma rede de apoio 
na região do Complexo, dentre outras razões abordadas.
Com base nos dados coletados, poder-se-ia inferir que quan-
to menor a qualificação profissional, maior a inserção em espaços 
mais precarizados, informais e sem garantias. Não obstante, os tra-
balhadores que possuem maior qualificação profissional tendem a 
demorar mais a retornar para o mercado de trabalho, visto que ficam 
à espera de uma empregabilidade mais perene, com benefícios e 
garantias laborais semelhantes ao emprego que dantes possuíam.
O desemprego deixa de ser uma condição efêmera e torna-
-se duradouro, à medida que os trabalhadores não encontram novas 
vagas de empregos formais e vão improvisando meios de sobrevi-
vência cada vez mais precários. A reforma trabalhista e a possível 
aprovação da reforma da previdência, por sua vez, geram consequ-
ências perniciosas que obstaculizam a possibilidade do trabalhador 
se inserir em espaços laborais com garantias e benefícios. A desre-
gulamentação dos direitos, a precarização do trabalho e a flexibili-
zação das relações trabalhistas corroboram para a fragmentação da 
classe trabalhadora e enfraquecimento do seu movimento sindical.
O trabalhador da construção civil vislumbrou as obras do 
Comperj como uma oportunidade de reinserção no mercado de 
trabalho, em um espaço ocupacional que possibilitasse melhores 
condições de vida. Itaboraí, município sede do Comperj, atraiu 
investidores, empresas e empreendimentos que acreditaram que o 
Complexo simbolizava um renascimento econômico para a cida-
de. Entretanto, em vez disso, o Comperj criou um problema ainda 
maior para a cidade. Por ter atraído diversas empresas, houve gran-
de expansão populacional, consoante à oferta de empregos (direta e 
indiretamente) inicialmente anunciada, cerca de 200 mil. 
Desta forma, com a paralisação das obras, o número de de-
sempregados no município ampliou significativamente, trazendo 
consigo repercussões negativas. A explosão demográfica associada 
ao Comperj representou um grave problema social para o município 
quando as obras foram interrompidas e os investimentos na região 
foram desacelerados. Atualmente, ao circular pela cidade de Itabo-
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
raí, pode-se perceber os transtornos causados pela interrupção das 
obras, desde canteiros de obras abandonados a estabelecimentos co-
merciais e empresas fechados.
Este artigo pretendeu contribuir com elementos para com-
preender os efeitos causados pelo fenômeno do desemprego nos 
trabalhadores da construção civil em decorrência da interrupção das 
obras do Comperj. Há de se considerar, contudo, que o que vem 
ocorrendo com esses trabalhadores é apenas uma expressão da de-
gradação que tem afetado a classe trabalhadora como um todo.
A conjuntura hodierna é tracejada de perdas diárias para a 
classe trabalhadora. O Estado ignora o aumento abrupto do desem-
prego e o empobrecimento de grande parcela da população. O des-
comprometimento com aqueles que possuem apenas a sua força de 
trabalho como forma de sobrevivência é revelado em cada medida 
desastrosa adotada pelos últimos governos em desfavor dos traba-
lhadores.
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sindicatos surpreendidos e a saúde dos trabalhadores do Complexo 
Petroquímico do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Fundação 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
RELAÇÕES DE TRABALHO NA 
COMUNIDADE RIBEIRINHA SANTO 
EZEQUIEL MORENO EM PORTEL, 
MARAJÓ-PA
Danielson Corrêa Leite124
Solange Maria Gayoso da Costa225
1. Introdução 
As relações de trabalho na Amazônia são determinadas pela 
inserção subordinada da região na ordem econômica mundial e por 
relações de trabalho tradicionais que expressam valores e crenças 
construídas secularmente que, contraditoriamente, convivemem 
tensão com relações de trabalho sustentadas na exploração do ho-
mem pelo homem (CASTRO, 1999; FIALHO NASCIMENTO, 
2006). 
Segundo Fialho Nascimento (2006), a Amazônia foi histo-
ricamente expropriada de suas riquezas naturais e culturais, além 
disso, carrega uma característica histórica precisa: ser “lucrativa” 
para o capital por ter uma riqueza natural imprescindível à produ-
ção de mercadorias. 
Na Amazônia, o trabalho desenvolvido por comunidades tra-
dicionais ou organizado em unidades de pequena produção fami-
liar convive em tensão com empresas que desejam se apropriar dos 
recursos naturais presentes na região (CASTRO, 1999, p. 31). As 
consequências resultantes do ingresso e da permanência da Ama-
zônia no circuito de produção do valor podem acarretar constantes 
transformações nas relações de trabalho. 
Os vários períodos de ocupação e de exploração predatória 
dos recursos naturais, tendo papel importante à ação intervencio-
1 Assistente Social. Mestre em Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – 
PPGSS/UFPA, ano de conclusão 2018. Servidor do Tribunal de Justiça do Estado do Pará – Comarca de 
Soure. E-mail: <danielsonleite@gmail.com>.
2 Assistente Social. Doutora em Ciências Socioambientais. Professora Adjunto IV da Faculdade de Ser-
viço Social e do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Pará/UFPa. 
Desenvolve pesquisas nas linhas mobilidade do capital, conflitos sociais e resistências; processo de ter-
ritorialização, meio ambiente e políticas de ordenamento territorial; projetos de infraestrutura e logística, 
remanejamento e reassentamentos urbanos e rurais. E-mail: <solgayoso@ufpa.br>.
- 132 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
nista do Estado, principalmente, na ditadura militar (1964-1985), 
sempre objetivou a apropriação da máxima quantidade de maté-
ria-prima possível para o aumento do lucro de empresas capitalis-
tas. Essa lógica vem consolidando o avanço do capitalismo sobre 
territórios que não estão sob seu controle, conforme Luxemburgo 
(1970) apontou no início do século XX. 
As determinações que perpassam os processos sociais que 
tem relação direta com a exploração da força de trabalho, na Ama-
zônia, tem sua explicação nas próprias contradições do capital. A 
extração de matérias-primas, nesta região, executada pelos povos 
das florestas, cumprem um papel importante para o capital, não ape-
nas em tempos de crise do sistema capitalista, pois a internaciona-
lização do capital implica na necessidade de forças compensatórias 
que objetivem a manutenção da lucratividade média dos capitalis-
tas. 
Na esteira do pensamento de Rosa Luxemburgo, o estudo 
sobre a acumulação por espoliação de Harvey (2014) pode nos aju-
dar a pensar nesse processo de subordinação da Amazônia e das 
contradições nas relações de trabalho nessa região. Segundo este 
autor, a implicação é que os territórios não capitalistas deveriam ser 
forçados não só a abrir-se ao comércio, mas, que o capital invista 
em empreendimentos lucrativos usando força de trabalho e maté-
rias-primas mais baratas, terras de baixo custo e, assim, por diante. 
No entanto, esses processos de exploração que Harvey se refere não 
acontecem sem contradições na Amazônia, pois, envolvem a luta 
política e étnica, as quais tentam impor resistência às tentativas de 
expropriação das terras tradicionalmente ocupadas e de uso comum 
dos recursos naturais, como apontado por Almeida (2004). 
Nesse sentido, a inserção subordinada da Amazônia na eco-
nomia mundial, ainda hoje, é configurada por “processos sociais (de 
exploração, resistência e assimilação) que conformaram a ocupa-
ção do espaço amazônico”, engendram e “originaram uma cultura 
com características próprias” (FIALHO NASCIMENTO, 2006, p. 
94). Isso inclui sujeitos que constroem e partilham sentidos sobre a 
realidade vivida não apenas com a finalidade de interpretá-la, mas 
também de transformá-la. 
Este artigo traz uma reflexão sobre as relações de trabalho 
estabelecidas em uma comunidade tradicional e os agentes do capi-
- 133 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
tal, evidenciando as contradições que se apresentam no processo de 
inserção de tais sujeitos, com modos de vida tradicionais, na lógica 
da exploração capitalista. 
O texto apresenta resultados da pesquisa de dissertação de 
mestrado, a qual teve como método de análise da realidade o ma-
terialismo histórico dialético, buscando refletir sobre as relações de 
trabalho na região Amazônica por meio do estudo de caso da co-
munidade Santo Ezequiel Moreno. Para levantamento dos dados 
realizou-se o trabalho de campo na comunidade no mês de janeiro 
de 2018, com aplicação de entrevistas semiestruturadas com seis 
moradores que estiveram envolvidos na atividade de extração de 
palmito nas décadas de 1970/80, período de recorte da pesquisa
2. Relações de trabalho capitalistas e natureza na Amazô-
nia: o caso da Comunidade Santo Ezequiel Moreno
O trabalho se constitui enquanto protoforma da sociabilidade 
humana (LUKÁCS, 2013). Ele só existe em relação com o outro. 
Relações de trabalho não são homogêneas, e sim permeadas pela 
cultura e pelas determinações que se destina o produto do traba-
lho. Em todas as sociedades, o trabalho é mediador entre o homem 
e a natureza (MARX, 2013). As relações de trabalho, assim, são 
constitutivas das relações sociais. Essas relações envolvem aspec-
tos políticos, religiosos, éticos, filosóficos e culturais que acabam 
determinando a forma e a destinação do produto do trabalho.
As relações de trabalho na Amazônia apenas podem ser com-
preendidas se for considerado os sentidos que os amazônidas dão as 
suas práticas sociais. O trabalho enquanto produtor da vida material 
depende das práticas que são secularmente herdadas e culturalmen-
te construídas em relações sociais que abarcam saberes sobre re-
cursos naturais e suas estratégias de uso e de exploração comercial 
(CASTRO, 1999, p. 33). 
Tal realidade pode ser observada na Comunidade Santo Eze-
quiel Moreno localizada às margens do Rio Acutipereira, interior 
do município de Portel, Marajó/PA, foi fundada em meados da dé-
cada de 1960, pelo casal João e Marcíra. Nessa época exerciam 
atividades agrícolas, em especial o plantio de mandioca para pro-
duzir farinha e, além disso, atividades de trabalho do extrativismo 
- 134 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
da seringa. As relações de trabalho se vinculavam, então, apenas à 
subsistência dos dois que necessitavam de algum tipo de renda (mo-
netária) para a manutenção das condições básicas e reprodução do 
casal – a farinha tinha duplo objetivo para o casal: para o consumo 
e geração de renda por meio da comercialização do excedente326. 
Antes mesmo da chegada dos primeiros moradores da comu-
nidade – João e Marcíra – já havia a convivência dos moradores dos 
rios adjacentes com relações de trabalho que se configurava como 
“um padrão de contrato de trabalho, ausente de qualquer garantia 
de direitos trabalhistas”, embasado sempre no acordo verbal, sem 
rendimentos fixados. Esses acordos eram pagos por cada contrato 
de trabalho que durava certo período de tempo – a quantidade de se-
ringa que devia ser produzida, por exemplo –, exigindo um produto 
no final de cada processo de trabalho. 
No início, quando João e Marcíra se mudaram para a comu-
nidade, Canuto, o filho mais velho, já havia nascido. Começou a 
trabalhar na extração do palmito desde pequeno, aos 10 anos de 
idade. No entanto, em pouco tempo já tinham “fabricado mais 04 
filhos” Todos foram envolvidos nas atividades de extração do pal-
mito da floresta nas décadas de 1970 e 1980 (CANUTO, CSEM, 
entrevista em 13/01/2018). 
Quando chegaram por lá, viram que era um “paraíso”, pois 
havia muito palmito para ser retirado das matas ainda virgens e a 
“procura era muita” (CANUTO, CSEM, entrevista em 13/01/2018). 
Naquele tempo a procura pela espécie estava “em alta”. “Todo dia 
tinha comprador”. Era muitodifícil que faltasse comprador. Os en-
trevistados relatavam que quando um deles “furava, vinha logo ou-
tro para comprar a produção” (TIO BENA, CSEM, entrevista em 
18/01/2018).
Os poucos moradores da comunidade – na verdade apenas 
três ainda – já vislumbravam a possibilidade de “ganhar dinhei-
ro”. A frequência dos “atravessadores” em contato constante com 
João, principalmente, começava a criar uma estrutura que marcaria 
o modo de pensar dos moradores e seus descendentes. Este modo de 
pensar se expressava nas falas dos nossos entrevistados de muitas 
3 Consideramos o excedente como a produção de determinados bens – no caso dos ribeirinhos a extração 
de determinados recursos naturais – que ultrapassa as necessidades imediatas de sobrevivência de indiví-
duos ou grupos de indivíduos (para um resumo sobre o excedente na ótica marxista, cf. NETTO e BRAZ, 
2011, pp. 65-7; para uma análise alternativa cf. SMITH, 1988, p. 77). 
- 135 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
formas, mas, especialmente, quando revelavam que por meio da 
renda do palmito podiam sobreviver “sem muito sacrifício” (TIO 
BENA, TEÓFRO, CANUTO, BAIXINHO, 2018).
As relações estabelecidas entre “atravessadores” e comunitá-
rios iniciam um processo de circulação de mercadorias primárias, 
importantes, como ponto de partida da produção capitalista. Pode-
mos perceber uma incipiente gestação de uma determinada lógica 
contraditória de dependência das relações de trabalho capitalistas 
para com territórios não capitalistas. 
Partindo das reflexões de Luxemburgo (1970, p. 317), pode-
mos perceber que no processo de acumulação ampliada de capital 
“o capitalismo aparece e se desenvolve historicamente num meio 
social não capitalista”. Ainda segundo a autora, isso “depende, so-
bretudo, do fato de se fabricarem tão-somente produtos cuja pers-
pectiva de realização seja certa, isto é, que possam ser trocados por 
dinheiro” (LUXEMBURGO, 1988, p. 9). 
O tipo de relações de trabalho que João e Marcíra iniciaram 
naquele local, comandadas pelo sistema de troca de mercadorias 
entre comunitários e “atravessadores”, era, portanto, responsável 
pela extração de matérias-primas para a produção de valor. Dessa 
maneira, puderam transformar a natureza e satisfazer suas necessi-
dades sociais, ao mesmo tempo em que o excedente de sua produ-
ção era determinado por certo tipo de relação de troca capitalista. 
Castro (1999) chama atenção para o fato de que o trabalho 
desenvolvido na Amazônia é multifacetado e envolve relações so-
ciais e determinações do universo capitalistas e não capitalista. Ou 
seja:
O trabalho está longe de ser uma realidade simplesmente econô-
mica nas sociedades tradicionais, no seio da pequena produção 
agroextrativista, o trabalho é representado por um caráter único, 
ou seja, reúne nos elementos técnicos e de gestão o mágico, o 
ritual, enfim, o imaginário coletivo recriado no mundo simbólico 
(CASTRO, 1999, p. 35). 
O exame das relações de trabalho na Amazônia, segundo 
Castro (1999) pode trazer mais explicação à noção de trabalho, jus-
tamente porque permite um distanciamento do padrão dominante 
de relação salarial. É uma relação de trabalho que está aproximada 
- 136 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
do mercado por meio do trabalho familiar extrativista de produtos 
naturais que, mantendo relações comerciais com terceiros, trans-
formam-se em matérias-primas ou são, logo, destinadas à satisfa-
ção de necessidades de subsistência. Nesse sentido, o trabalho é um 
conjunto de relações sociais que “envolvem tecnologias simples e 
formas particulares de gestão dos recursos naturais e compõe um 
quadro singular de relações de trabalho” (CASTRO, 1999, p. 37).
O extrativismo constitui um dos principais meios de repro-
dução material de algumas comunidades tradicionais amazônicas. 
Além de se constituir como importante meio de sobrevivência de 
comunidades tradicionais, o extrativismo é combinado ao saber po-
pular e pouca tecnologia, sendo gestado e apropriado por estas co-
munidades no seu cotidiano (CARVALHO e GOMES, 2012). Con-
forme pode ser observado na Comunidade Santo Ezequiel Moreno. 
2.1 Relações de trabalho e parentesco
Relações de parentesco determinavam as relações de traba-
lho na Comunidade Santo Ezequiel Moreno, pois era a partir delas 
– considerando a relação entre gêneros – que eram estruturadas a 
divisão do trabalho e a distribuição dos produtos do trabalho entre 
as famílias. Nesse caso, a divisão do trabalho dependia em que fa-
mília, o membro do grupo se encontrava, o grau de parentesco e se 
pertencia ao grupo dos casados ou de solteiros. 
A Comunidade Santo Ezequiel Moreno, sempre marcada por 
vínculos de pertencimento familiar, tinha em Marcíra a liderança 
para conduzir o tipo de relações sociais e os papéis desempenhados 
pelos membros do grupo. A obediência que os filhos exerciam com 
a matriarca da família era sempre ressaltada nas entrevistas. Os fi-
lhos de Marcíra e João Baía foram crescendo e casando já no final 
da década de 1960, começando por Canuto, que constitui família 
com Luiza aos 16 anos de idade. A família de Marcíra foi cres-
cendo, rapidamente, com o nascimento de netos, filhos de Canuto 
e Luiza, os quais foram importantes para a multiplicação dos mo-
radores e a definição da estrutura da troca de mercadorias com o 
“atravessador” que requeria o palmito nas décadas de 1970/80. 
Se no início, João e Marcíra eram os líderes do local, pois 
todos os filhos – com exceção de Canuto – ainda eram solteiros, 
- 137 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
agora se multiplicaram as famílias. Entretanto, a família do filho 
mais velho (Canuto) foi a única que nas décadas de 1970/80 dispo-
nha de maior quantidade de força de trabalho (09 pessoas) para aju-
dar no corte do palmito e no trabalho agrícola. O cotidiano familiar 
era caracterizado pela “divisão de tarefas do trabalho” entre João, 
Marcíra, Canuto e, posteriormente, outros irmãos mais novos que 
vinham nascendo. 
Tio Bena viveu sob “o mesmo teto” da mãe (Marcíra) e do 
irmão mais velho, Canuto. “Trabalhava com meu irmão e o meu 
cunhado [...] eu tirava e entregava para o meu irmão porque ele era 
o mais velho. Aí quando ele se casou, foi então que trabalhei para 
minha mãe [...] trabalhava para ela, porque ela conversava com o 
regatão” (TIO BENA, CSEM, entrevista em 20/01/2018). Cabia a 
mãe a administração e controle dos recursos financeiros da família.
O dinheiro ficava com a mamãe [...] quando a gente precisava 
para comprar uma roupa à gente falava com ela e pedia para 
comprar roupa ou então ela mesma ia comprar roupa para a 
gente, mas, sempre era ela que ia tomar conta do dinheiro [...], 
por exemplo, “mãe eu quero ir numa festa” eu dou então tanto 
para ti e o resto ela tomava conta, sendo que era para comprar 
despesa para casa (TIO BENA, entrevista em 18/01/2018).
No diálogo com Canuto e Tio Bena, já podemos perceber o 
nascimento de estruturas de relações de parentesco no interior do 
espaço da recente comunidade. Tio Bena, por exemplo, morou com 
Canuto e a mãe, devendo “obediência” aos dois. Quando Canuto 
se casou, e foi morar em outra residência na localidade, Tio Bena, 
ainda solteiro, continuava sob o “comando” de sua mãe, porque “os 
filhos naquela época tinham que obedecer aos pais” (TIO BENA, 
CSEM, entrevista em 20/01/2018).
O papel que cada membro da comunidade desempenhava, 
dependia das funções executadas na divisão (sexual) do trabalho e 
na sua característica conjugal ou não. Ou seja, os membros casados 
tinham determinadas funções nas atividades laborais a serem segui-
das, bem como os solteiros. Os primeiros (sempre do sexo mascu-
lino) deviam manter as condições de reprodução das suas famílias. 
Aqueles do segundo grupo deviam executar tarefas requeridas por 
- 138 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Marcíra ou os irmãos mais velhos. Em resumo, este deveria “obe-
decer às ordens”, àquele deveria “dar ordens” porqueera o líder de 
determinada família. 
As relações entre casados e solteiros eram bastante diferen-
tes. Os casados exerciam “papéis” socialmente aceitos, como “pai”, 
“mãe” (“chefe de família”) ou mesmo “filho”. Os filhos deviam 
“obediência” aos seus pais, porque “moravam no mesmo teto”. 
Marcíra e João tiveram nove filhos e nesse período morava quatro 
com o casal. Com o falecimento de João, em meados da década de 
1970, Marcíra ficou responsável por manter a “ordem na família”, 
constituída depois de algum tempo por ela, Tio Bena, Socorro e 
Miguel. 
2.2 Relações de trabalho e gênero
O trabalho feminino era bastante significativo, mesmo não 
sendo dada importância pelos/as entrevistados/as. As mulheres 
eram responsáveis pelos trabalhos domésticos e pelo “cuidado” 
com a roça. Cuidavam de plantações diversas (principalmente no 
cultivo da mandioca), muitas vezes o dia todo. Trabalhavam no ma-
nuseio do palmito e não dividiam as tarefas da casa com os homens. 
No “centro” eram requisitadas para a plantação da mandioca. 
Na maioria das vezes não realizavam o corte do palmito na várzea, 
mas em poucas ocasiões eram requisitadas para “escapiar” o palmi-
to (retirando as camadas do corte do palmito próximas ao “miolo”, 
sua parte comestível). Ainda segundo alguns entrevistados, o corte 
de palmito na várzea era considerado difícil e perigoso, por isso 
que as mulheres quase não participavam dessa etapa do processo de 
trabalho. Os homens iriam cortar o palmito no mato e as mulheres 
ajudavam no trabalho doméstico e, também, a “escapiar” o palmito 
quando “era muito” (TEÓFRO, CSEM, entrevista em 17/01/2018). 
A divisão do trabalho marcada pelas relações de parentesco e 
de gênero, fundada na figura do “líder” da família, expressava a di-
visão das tarefas de “quem vai cuidar da roça hoje”, ou se “hoje nós 
vamos tirar o palmito” ou pela necessidade “de ir para roça”. Pauli-
lo (1987) afirma que há uma distinção entre trabalho “leve” e “pesa-
do”. Para os comunitários a roça era o trabalho considerado leve e a 
extração do palmito era um trabalho apenas para os homens. Nesse 
- 139 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
sentido, podemos dizer que essas relações de parentesco e de gêne-
ro eram configuradas e determinadas por complexos que envolvem 
a reprodução material e também espiritual – marcadas, entre outros 
fatores, pelo tempo da natureza e pelas crenças do grupo familiar 
que se desenvolvia ali. 
Independente da condição de gênero, todos os integrantes 
das famílias eram mobilizados para as jornadas de trabalhos, se-
jam, aquelas destinadas à extração do palmito ou às atividades da 
roça. Não se podia fazer uma roça sem a solidariedade do grupo, 
geralmente, sendo realizado por meio de mutirões. Esses mutirões 
sempre mantinham o controle sobre o trabalho feminino. 
Ninguém para de trabalhar na roça. Quando era para beneficiar 
a farinha era as mulheres que davam conta. Nós não tirávamos 
a farinha para manter as despesas, pois, era só para nos alimen-
tarmos. E, aí, as mulheres davam conta. E nós dávamos conta 
das outras despesas. E quando chegava o tempo de beneficiar 
a roça aí nos dedicávamos. Trabalhávamos com mutirão. [...] 
Elas ajudavam muito na roça. Todos os meus filhos trabalharam 
no palmito. O trabalho das mulheres era escapiar o palmito 
(CANUTO, CSEM, entrevista em 25/01/2018).
As crianças também participavam realizando algum tipo de 
atividade dentro das jornadas de trabalho. Desde cedo as crianças 
do sexo masculino aprendiam a técnica de corte do palmito com 
terçado, instrumento utilizado para muitas atividades agrícolas. 
Muitas vezes, dependendo da demanda por palmito na região, as 
crianças, do sexo masculino, acompanhavam os homens adultos 
nas jornadas de mata “adentro”. 
- 140 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Quadro 1: Divisão do trabalho entre homens, mulheres e crianças 
na Comunidade Santo Ezequiel Moreno na década de 1980
Trabalho com o 
palmito
Trabalho na Roça 
(“centro”)
Trabalho Do-
méstico
Homens
Corte do palmito na 
várzea; Retirada do 
palmito cortado da 
várzea; Negociação 
com o “atravessa-
dor”.
Capina e queima do 
espaço onde será 
plantado a mandioca e 
outros plantios de ár-
vores frutíferas;
Não realizavam
Mulheres
“Escapiar”; Sepa-
rar por qualidade e 
quantidade; Somente 
a Marcíra negociava 
com o “atravessador” 
a quantidade de pal-
mito a ser retirada da 
várzea.
Plantio da mandioca 
e outros plantios de 
árvores frutíferas; Cul-
tivo das plantações.
Realizavam 
todo o trabalho.
Crianças
“Escapiar”;
Separar por quali-
dade e quantidade;
As crianças, do sexo 
masculino, a partir dos 
10 anos de idade, aju-
dam os adultos do sexo 
masculino na Capina e 
queima do espaço onde 
será plantado a mandi-
oca e outros plantios de 
árvores frutíferas;
As crianças, do sexo 
feminino, a partir dos 
10 anos de idade, aju-
davam os adultos do 
sexo feminino Plantio 
da mandioca e outros 
plantios de árvores 
frutíferas;
Cultivo das plantações.
As crianças, do 
sexo femini-
no, ajudavam 
os adultos a 
realizar todo o 
trabalho.
Fonte: Pesquisa de campo em janeiro de 2018, elaboração dos autores. 
Em estudo empírico do extrativismo da mangaba, praticado 
por mulheres nas regiões norte e nordeste do Brasil (MOTA et al., 
2008) parte do pressuposto que na divisão sexual do trabalho coe-
xistem dominação, complementaridade e vínculos sociais entre ho-
mens, mulheres e crianças nos processos individuais e coletivos que 
vivenciam no dia a dia do extrativismo.
- 141 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
O entendimento que os moradores da comunidade tinham, 
nas décadas de 1970/80, em relação à vinculação do trabalho ao gê-
nero, implicava em gestos e rituais específicos daquela localidade. 
O trabalho na extração do palmito, predominantemente masculino, 
escamoteava a presença das mulheres do grupo, enquanto o traba-
lho doméstico era predominantemente feminino. Na verdade, os 
homens realizavam trabalhos domésticos e elas participavam, cons-
tantemente, das atividades de extrativismo do palmito. Todavia, nas 
falas dos entrevistados, essa importância era relegada a um segundo 
plano, tanto em homens como em mulheres.
2.3 Relações de trabalho e jornada de trabalho
A jornada de trabalho sempre dependia do tempo da 
natureza e da demanda de palmito que era solicitada pelos 
“atravessadores”. 
Tinha vez que nós saíamos às 8 horas da casa e tinha a maré. 
Quando a maré estava boa, quando encontrávamos palmito para 
conseguir uma diária, nós vínhamos cedo, e quando a gente não 
encontrava palmito era porque a maré estava baixa. Nós tínha-
mos que esperar a maré novamente subir para sair dali. Tinha 
essa situação. Tinha vez que a gente saía cedo, mas, chegava 
só de noite. Mas tinha dia que a gente saía 8 horas e meio dia 
já estava aqui. Depende da questão da maré (TEÓFRO, CSEM, 
entrevista em 22/01/2018). 
Para retirar os cortes de palmito da várzea os moradores 
necessitavam que a maré contribuísse para o transporte que leva-
va instrumentos de trabalho, como o terçado e o machado. Com a 
jornada de trabalho semanal comprometida pela maioria do tempo 
destinada ao palmito, havia uma clara opção pela extração do pal-
mito em detrimento das atividades da roça. Estas eram deixadas em 
segundo plano: “Nós trabalhávamos segunda, terça, quarta, quinta 
e sexta, só parávamos sábado e domingo no palmito, não tínhamos 
tempo para começar nem terminar” (TIO BENA, CSEM, entrevista 
em 18/01/2018). “Na roça trabalhávamos pouco tempo, nós nos de-
dicávamos quando era para plantar. No palmito era a semana toda 
que a gente trabalhava. Dependia muito da questão do consumo” 
(TEÓFRO, CSEM, entrevista em 22/01/2018). 
- 142 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Para os moradores de Santo Ezequiel o tempo da natureza e 
a terra427 estão intimamente relacionados com as relações de trabalho, 
as quais garantem a subsistência de suas famílias. Nessa ótica, o 
trabalho extrativistapresente na família de ribeirinhos é dependente 
de relações de troca de mercadorias. Para a realização do trabalho 
familiar extrativista, é necessário o envolvimento de uma miríade 
de concepções de natureza, águas e florestas, que são difíceis de se-
rem entendidas sob os valores de lógicas que presidem a sociedade 
capitalista (ACEVEDO MARIN, 1998). 
Mesmo em uma lógica contraditória, as relações de trabalho 
entre atravessadores e os comunitários de Santo Ezequiel produ-
ziam não apenas a vida material dos moradores, mas, também, sa-
beres e fazeres tradicionais. Pacheco e Silva (2013) identificaram 
essa mesma relação em outras comunidades ribeirinhas no Mara-
jó, nos dizem os autores: “artes da pesca, da produção da farinha, 
do artesanato, os quais permitiram aproximações com formas de 
trabalho, alimentação e relações que homens, mulheres e crianças 
[marajoaras] estabelecem com a natureza” (PACHECO e SILVA, 
2013, p. 10).
Este modo de vida peculiar, portanto, não se insere na lógi-
ca de valorização do capital, mas o capital consegue estender, de 
uma forma ou de outra, sua dominação sobre estas características. 
No caso específico desta comunidade, nas décadas de 1970/80, este 
espaço acaba se tornando uma extensão da fábrica de palmitos, ge-
rando riqueza apropriada privadamente.
As jornadas de trabalho dos moradores, nas décadas de 
1970/80, eram bastante desgastantes e perigosas no extrativismo do 
palmito, principalmente, devido à existência de serpentes na várzea, 
local de extração do palmito. “Foi muito difícil. A gente percebe 
que é muito arriscado trabalhar o palmito no gapó, sem nenhuma 
proteção” (TEÓFRO, CSEM, entrevista em 22/01/2018). 
Os homens eram responsáveis por definir o ritmo e a duração 
da jornada de trabalho, com exceção da família de Marcíra – a qual 
ditava as regras da sua família. Isso se dava porque eram responsá-
veis pela reprodução do grupo familiar e pela execução do “traba-
lho mais pesado”, no caso dos homens. A destinação do excedente 
4 A categoria terra não é entendida, aqui, apenas na sua constituição agrária. Numa perspectiva ampliada 
entendemo-la ontologicamente como parte da reprodução da vida material em geral, em especial de co-
munidades tradicionais. Nestas populações ganha relevo, ainda, como protoforma de tradições, crenças, 
valores, rituais e simbologias.
- 143 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
de produção seja do palmito ou de qualquer produto do trabalho era 
pensada pelo líder do grupo familiar. 
Uma parte da jornada de trabalho comunitário, também, era 
empregada para “destapar” o igarapé que dá acesso à Comunidade, 
possibilitando, assim, a liberdade de ir e vir e o estabelecimento 
de vínculos de troca de mercadorias entre “atravessadores” e co-
munitários (principalmente a possibilidade da troca de palmito por 
dinheiro). Os “atravessadores” que mediavam à matéria-prima com 
o capitalista dono da fábrica de palmitos, compravam o produto do 
trabalho e não a jornada de trabalho. Nesse sentido, os moradores 
não eram trabalhadores assalariados, condição para a produção ca-
pitalista, mas participavam do circuito de produção do capital por 
meio de relações de trabalho que tinham objetivo, única e exclusi-
vamente para eles, a subsistência.
2.4 Relações comerciais e preços do palmito
Os moradores da comunidade, desde o limiar, reivindicavam 
práticas trazidas do passado caracterizadas pelo trabalho de sub-
sistência e pela troca de mercadorias. No caso de João e Marcíra, 
o extrativismo do palmito permeou todas as relações de trabalho 
emergentes da sua família e, posteriormente, da família de seus fi-
lhos. Nesse caso, a natureza se configurava como os fatores mais 
importantes para a reprodução das famílias da comunidade. Entre-
tanto, a reprodução material de João, Marcíra e seus descendentes 
dependiam, além das condições naturais, da mediação do mercado. 
Na metade da década de 1960 já se constituía uma fase em-
brionária das relações de troca entre comunitários e “atravessado-
res”. A partir das décadas de 1970, a família de Marcíra e Canuto 
dependia da manutenção de relações de troca com “atravessado-
res”. Dessa forma, as primeiras famílias da comunidade mantinham 
a sua “confiança” nessas relações de troca, quais sejam: de nunca 
faltar comprador para o palmito que, na visão de Tio Bena, parecia 
que “nunca ia acabar” (CSEM, entrevista em 18/01/2018). No en-
tanto, quando Teófro fez seu relato das relações que vivenciava, já 
no final da década de 1980, afirmava que “o palmito já era pouco”. 
Para a nascente comunidade, a renda advinda da extração do 
palmito era necessária apenas para a sua reprodução – com certeza, 
aquelas relações de trabalho emergentes (baseadas na extração da 
- 144 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
seringa e, posteriormente, do palmito) foram determinantes para o 
modo de pensar dos indivíduos que iriam constituir as relações de 
trabalho naquela localidade. Desse modo, “a noção de condições de 
vida refere-se à reprodução social no sentido objetivo, como possi-
bilidade de acesso por meio do trabalho aos bens de consumo cole-
tivo e subjetivo” (SCOPINHO et al. 2015, p.139).
As relações de troca de mercadorias entre comunitário e 
“atravessador”, principalmente, eram determinadas pelo equivalen-
te geral: o dinheiro. O que movia os “atravessadores” era o preço 
do palmito abaixo do mercado – “não lembro quanto era, mas era 
muito pouco que a gente ganhava por cada tira de palmito [...] hoje 
vale uns cinco centavos cada tira” (TEÓFRO, CSEM, entrevista em 
17/01/2018). Para os comunitários interessava que a manutenção da 
vida material fosse atendida, não importava se “justo ou injusto o 
preço” (CANUTO, CSEM, entrevista em 25/01/2018). 
Eles vinham aqui embarcar. Eles falavam que eles vinham buscar 
o palmito e íamos receber o dinheiro na fábrica. E dizia quantos 
palmitos tinha. Era ele que dizia o preço. Como era agora 
naquele tempo o cara não manda no que é dele. É porque 
ele não deixava a gente dar o preço da gente, porque a gente 
ia puxar pelo sacrifício que a gente tinha que era mais justo 
(CANUTO, CSEM, entrevista em 25/01/2018). 
As “fábricas”, mediadas pelos “atravessadores”, eram con-
sideradas importantes à manutenção da emergente comunidade, 
pois consideravam a roça como “apenas para o comer” (TEÓFRO, 
CSEM, entrevista em 17/01/2018). Eram as “fábricas” que, pos-
sivelmente, atraiam muitos “atravessadores”. “Alguns eram ‘atra-
vessadores’, outros, empregados da firma” (TIO BENA, CSEM, 
entrevista em 20/01/2018). 
Na sociedade capitalista, o produto do trabalho não perten-
ce ao trabalhador, lhe é estranho. As relações sociais capitalistas 
fundadas sobre a exploração do homem têm tendência a ser condi-
cionada pelo poder das coisas, que tudo domina e tudo subordina 
(MARX, 2013). Nesta sociedade, o processo de trabalho e os ins-
trumentos para a realização do trabalho estão sob o comando dire-
to do capital. Todavia, nas relações de trabalho não capitalistas os 
instrumentos de trabalho não estão sob o comando do capital. Para 
Luxemburgo (1970), o avanço do capitalismo sobre territórios que, 
- 145 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
ainda, não estão sob seu comando, se justifica pela necessidade de 
apropriação privada de matérias-primas para a produção capitalista 
de mercadorias. 
Como não havia apenas um mediador na troca de merca-
dorias com a comunidade – um único “atravessador” – os preços 
nunca eram fixos e as relações de trabalho sempre se caracteriza-
vam por serem bastante dinâmicas. Não havia certeza alguma por 
parte dos moradores da comunidade, se existiria comprador “para 
os palmitos” no dia seguinte ou seria o mesmo comprador que iria 
negociar a retirada do palmito da várzea (TEÓFRO, CSEM, entre-
vista em 17/01/2018). Só podiam extrair a matéria-prima, portan-
to, se ela fosse “encomendada” (CANUTO, CSEM, entrevista em 
25/01/2018). 
Ele só mandava os empregados virem pegar [...] ele vinha debarco grande todo dia [...] a gente tirava palmito e a gente pegava 
toda semana dinheiro [...] tem que vender logo se não estraga 
[...] a gente não podia tirar sem ter o comprador para vender [...] 
quando não vinha o dono, vinha o empregado” (TIO BENA, 
CSEM, entrevista em 20/01/2018).
Para os comunitários de Santo Ezequiel, que viviam, cotidia-
namente, as negociações constantes com “atravessadores”, a venda 
do palmito ocasionou certo sentimento de “segurança”, pois eles 
achavam “que o palmito dava mais; a gente achava que dava para 
compensar porque a farinha dá muito mais trabalho do que tu ir 
lá tirar o palmito do mato, o retorno era mais rápido” (TEÓFRO, 
CSEM, entrevista em 22/01/2018). Essa característica estabeleci-
da por específicas relações de trabalho chegou ao ponto, de acordo 
com Teófro, “da gente ficar sem mandioca, sem a farinha”. 
Esta forma de relação comercial, baseada na extração do pal-
mito, mediada por “atravessadores”, buscava equivalentes (troca 
de dinheiro por mercadorias rentáveis), geralmente, não detinham 
nenhum vínculo de trabalho assalariado. Entretanto, as relações co-
merciais que protagonizavam, embutiam o objetivo da máxima da 
lógica capitalista. Neste caso, comunitários e “atravessadores” era 
expressão das relações de troca que envolvia força de trabalho e da 
matéria prima, essenciais para a produção capitalista. Nesse senti-
do:
- 146 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
O atravessador possui significado importante à reprodução cam-
ponesa, entretanto ao intermediar a comercialização, possuindo 
o monopólio da compra da produção familiar reduzindo o preço 
do produto, o atravessador reforça a subordinação da unidade 
familiar. Diante das poucas condições materiais para completar 
o circuito da produção-circulação-distribuição os camponeses 
entregam sua produção ao atravessador (OLIVEIRA JÚNIOR, 
2012, p. 147; 190-1).
As relações que os “atravessadores” mantinham com a Co-
munidade se configuravam apenas como relações sociais que consi-
deram o que o outro pode “dar ou tem para oferecer” (como merca-
doria) e não pelo que é. É uma relação que se destina ao interesse de 
comprar e de vender apenas. Há, portanto, uma relação de “livres” 
proprietários de mercadorias. O que interessava nessa relação (entre 
“atravessadores” e comunitários) é que eram possuidores de mer-
cadorias.
Como realização histórica, a lógica capitalista tenta penetrar 
em espaços que não estão sob seu comando. O extrativismo de pro-
dutos naturais não pertence à lógica capitalista. É, ao contrário, uma 
característica secular de reprodução de povos das florestas. No en-
tanto, essa atividade laboral ganha contornos capitalistas quando o 
produto do trabalho – isto é, o produto natural extraído – passa pela 
lógica da produção de mercadorias e deixa de servir apenas como 
valor de uso. 
Pensar as relações de trabalho na Amazônia implica com-
preender a lógica contraditória que move o capital na direção de 
espaços não capitalistas. Nesse caso, não é possível entender que 
haja a determinação salarial e o controle dos meios de produção e 
do ritmo de trabalho por parte do capitalista. Em territórios tradi-
cionais os instrumentos e a gestão do trabalho são controlados pelo 
indivíduo que pertence àqueles espaços. Entretanto, a mediação do 
mercado capitalista na Amazônia implica um espaço que propicia a 
acumulação de capital e, concomitantemente, a subsistência de gru-
pos culturais. Ademais, vai depender de como se explicitam essas 
contradições em territórios não capitalistas para o desenvolvimento 
das relações de trabalho.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
3. Conclusão 
O estudo de caso da Comunidade Santo Ezequiel Moreno, 
nas décadas de 1970/80, mostra a convivência contraditória de re-
lações de trabalho capitalistas e não capitalistas. Essas relações de-
pendem da mediação de indivíduos sociais que estejam dispostos a 
trocar mercadorias. A reprodução das condições sociais da Comu-
nidade, nesse período, depende, pois, da realização de produtos do 
trabalho na troca por dinheiro. 
As relações de trabalho eram objetivadas de forma atípica 
ao capitalismo, mas impregnavam como finalidade a produção de 
valor. Mesmo não existindo o controle da jornada de trabalho e dos 
instrumentos de realização do trabalho pelo capitalista, o “atraves-
sador” cumpria papel de mediador. 
Os instrumentos de trabalho eram possuídos pelos próprios 
comunitários, os quais decidiam a jornada de trabalho e negociavam 
o produto do trabalho (palmito) com “atravessadores”. Estes manti-
nham estreita relação comercial com empresas que se apropriavam 
do palmito retirado da floresta pelos comunitários. A mediação dos 
“atravessadores”, pois, não retirava o caráter de exploração, típica 
do capitalismo, mesmo inexistindo, por parte do capitalista, o con-
trole da jornada e dos instrumentos de trabalho. O que interessa 
ressaltar é que, mesmo em bases atípicas, o capitalismo se apropria 
de valor novo gerado por um processo de exploração da força de 
trabalho. 
Como podemos observar, na sociedade comandada pelo 
modo de produção capitalista, o trabalhador pode ser submetido 
às mais diferenciadas formas de exploração, seja diretamente pelo 
capitalista com controle dos instrumentos e da jornada de trabalho 
ou mediadas por padrões estranhos à extração da mais-valia, como 
alcançado por “atravessadores”, na verdade, comuns na região ma-
rajoara. Portanto, as relações de trabalho presentes nesta pesquisa, 
mesmo atípicas ao modo de produção capitalista, revelam que a 
lógica capitalista de produção de mercadorias não é estranha a pre-
sença de territórios não capitalistas, ao contrário, estes, são parte 
ineliminável do avanço capitalismo na busca de controlar e expan-
dir a produção de capital. 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
4. Referências 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
DELETÉRIOS EFEITOS DA CRISE 
ESTRUTURAL DO CAPITAL SOBRE O 
TRABALHO
 Lígia da Nóbrega Fernandes128 
Cirlene A. Hilário da S. Oliveira229
 
1. Introdução
O trabalho na cena contemporânea tanto em suas condições 
de realização como nas relações laborais tem se mostrado, nos dife-
rentes espaços da sociabilidade capitalista, cada vez mais “solapa-
do”, subsumido e precarizado. 
Esse aspecto tornou-se uma tendência planetária que “enla-
ça” tanto os países centrais que detém o domínio dos atuais fluxos 
da acumulação como os países em desenvolvimento localizados na 
periferia do capitalismo dependente e associado. 
Em outros termos, a crise cíclica do capital que se abateu no 
sistema metabólico de produção e reprodução capitalista “contra-a-
tacou/contra-ataca” em todas as direções do planeta o trabalho vivo.
Tem-se como resultado disso – dentre outros aspectos – o 
aguçamento de mecanismos da exploração do trabalho assalaria-
do, sua precarização, apassivamento e subordinação do conjunto 
dos trabalhadores, que, nos domínios do capitalismo e em nome da 
sobrevivência material – ainda que insuficiente – perdem paulatina-
mente suas resistências tornando-se “servis” ao objetivo do capital 
que se concentra na necessidade de geração de mais-valor. 
Essa é a reflexão-guia do presente artigo que tem como obje-
tivo central explicitar os efeitos deletérios que a crise estrutural do 
capital vem provocando sobre o trabalho, estudo que, se alicerça na 
1 Possui doutorado em Serviço Social pela UNESP/SP (2018), mestrado em Serviço Social pela UFRN 
(2004) e graduação em Serviço Social pela UERN (2000). É docente em Serviço Social na UERR desde 
2006 e Assistente Social desde 2008 no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima 
- IFRR. 
2 Possui doutorado em Serviço Social pela UNESP (2003), mestrado em Serviço Social pela PUC/SP 
(1994) e graduação em Serviço Social pela UNESP (1987). É Livre-Docente (2010) pela UNESP do 
curso de Serviço Social e do PPGSS na mesma Universidade. Realiza estágio pós-doutoral no PPGSS em 
Serviço Social da UERJ (2018-2019). 
- 152 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
pesquisa bibliográfica e na realidade sócio-histórica do tempo pre-
sente na qual explicita que o trabalho é cada vez mais atravessado 
pelo reino do valor que comanda com disciplinamento a intensida-
de e ritmos de realização do trabalho, suas formas contratuais, os 
índices de produtividade, as metas a serem alcançadas, formas de 
comportamentos etc.
Para melhor compreensão desses revesses dividiu-se o pre-
sente estudo em três momentos fundamentais: um momento que 
apresenta a reflexão do trabalho enquanto momento ontológico e 
inseparável do “se fazer humano; um segundo momento que situa a 
crise estrutural do capital e seus efeitos deletérios sobre o trabalho 
assalariado; e um terceiro que explicita o cenário da reestruturação 
produtiva enquanto mecanismo estratégico “moderno” do processo 
de produção e reprodução do capital.
Por fim, são apresentadas as conclusões, que se constitui en-
quanto expressão sintética da reflexão desenvolvida. 
2. Trabalho: categoria ontológica central da sociabilidade 
humana
Uma das categorias que está no cerne do debate marxiano 
que contribui para problematizar o modo de produção capitalista é 
a categoria trabalho. 
Para Marx, o trabalho é o distintivo que funda o ser social. 
Enquanto categoria ontológica, o trabalho possibilita a constituição 
do indivíduo no ato de produzir respostas às necessidades humano-
-materiais. Isso acontece porque essa dinâmica exige que seja colo-
cada em movimento uma dada capacidade teleológica que permite 
os indivíduos fazerem escolhas, projetar ações, objetivar resultados 
etc. e transformar-se, sendo este o selo distintivo da separação e 
distanciamento da atividade animal, como aponta Marx (2013, p. 
255-256):
Pressupomos o trabalho numa forma em que ele diz respeito uni-
camente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes 
às do tecelão, e uma abelha envergonha muitos arquitetos com a 
estrutura de sua colmeia. Porém, o que desde o início distingue 
o pior arquiteto da melhor abelha é o fato de que o primeiro 
tem a colmeia em sua mente antes de construí-la com a cera. 
No final do processo de trabalho, chega-se a um resultado que 
- 153 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
já estava presente na representação do trabalhador no início 
do processo, portanto, um resultado que já existia idealmente. 
Isso não significa que ele se limite a uma alteração da forma do 
elemento natural; ele realiza neste último, ao mesmo tempo, seu 
objetivo, que ele sabe que determina, como lei, o tipo e o modo 
de sua atividade e ao qual ele tem de subordinar sua vontade.
Mas, trabalho para Marx não se resume ao simples ato de (re) 
produção material, o que já se exige considerar essa categoria com 
ressalva, uma vez que no modo de produção capitalista ela torna-se 
uma das categorias privilegiadas porque contém em si - mediada 
pelas interversões do capital - a potencialidade de ratificar a extra-
ção de mais-valia.
Tais interversões têm a capacidade de converter tudo em 
aparência e em contrários. Nesse sentido, a troca de trabalho por 
dinheiro se converte em troca por equivalentes; o salário se conver-
te em forma de distribuição da riqueza material socialmente produ-
zida; o valor passa a figurar dinheiro; a liberdade transmuta-se na 
possibilidade de se poder trocar/intercambiar trabalho por salários. 
São interversões que projetam a dinâmica do modo de pro-
dução capitalista, mas que, precisam ser veementemente negadas e/
ou camufladas, já que são partes inseparáveis da lei do mais-valor 
e, portanto, da apropriação e acumulação.
E como fica os sujeitos sociais nessa relação? Figuram como 
indivíduos que negam a si mesmos, tornando-se objetos – até cer-
to limite – de domínio e dominação do capital, pois se convertem 
na forma mercadoria-conduzida que, não decidem, não escolhem, 
não planejam conforme suas decisões e vontades; figurando nesta 
relação social como a própria encarnação, imagem e semelhança do 
capital, uma vez que, como sintetiza Iamamoto (2007, p. 48):
[...] quanto mais se desenvolve a produção capitalista, mais as 
relações sociais de produção se alienam dos próprios homens, 
confrontando-os como potências externas que os dominam. Essa 
inversão de sujeito e objeto, inerente ao capital como relação so-
cial, é expressão de uma história da auto-alienação humana [...]. 
Assim, sua nulidade enquanto sujeito ativo e avesso a esse 
status quo fica latentemente patenteada – mas não sem resistência 
– e o capital passa a tomar todas as rédeas do motor histórico, con-
- 154 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
duzindo e arquitetando com toda liberdade, a fluidez da economia 
política a fim de atender os grupos oligopólicos herdeiros – e usur-
padores – sobre o direito da compra e venda da força de trabalho 
humana e de seus resultados como indica Marx (s/d, p. 19):
[...] o produto é propriedade do capitalista, não do produtor 
imediato, o trabalhador. O capitalista paga, por exemplo, o valor 
diário da força de trabalho. Sua utilização, como a de qualquer 
outra mercadoria, por exemplo, a de um cavalo que alugou por 
um dia, pertence-lhe durante o dia [...].
Não se pode, porém deixar escapar que se erguem aqui estra-
tégias lodaçais para obscurecer e legitimar a exploração capitalista 
e a subsunção do trabalho ao capital, com destaque para a ideolo-
gia e seus complexos – religião, indústria cultural, família, estética 
musical, etc. –, que em cotejada dosagem são responsáveis por: 
atribuir aos sujeitos direção pelo insucesso material, sócio-cultural, 
educacional, etc.; e pelo reforço de uma democracia liberal que de-
fende uma mitigadacidadania fundada, conforme Tonet (2005, p. 
470), na sociabilidade do capital que se resume no acesso a parcos 
direitos em detrimento da emancipação humana. 
Marx oxigena a discussão das estratégias lodaçais do capital 
para legitimar a exploração capitalista – via trabalho assalariado – 
principalmente quando discute o conceito de liberdade. Para tanto, 
parte da concepção da necessidade de humanizar o homem, de tor-
nar-lhe protagonista da sua própria história, de serem eliminadas as 
barreiras que o desumaniza. 
Reconhece com isso que a desumanização se solidifica com o 
trabalho, assalariado, uma vez que ao entregar-se a este, os sujeitos 
tornam-se subsumidos e dominados por ele, o que contribui para 
diluir a capacidade da formação sensível, do convívio, do apren-
dizado integral; aprendizado que não ultrapassa a esfera da socia-
bilidade e racionalidade do capital que contempla apenas o limite 
da instrumentalidade – voltada e utilizada – como forma de atendi-
mento das necessidades materiais e do valor. 
É justamente essa perspectiva que passa a dominar os ciclos 
da acumulação e crise do capitalismo, trazendo consigo efeitos 
deletérios para as condições e relações daqueles/daquelas que 
precisam vender seu labor nos diferentes mercados. 
- 155 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
3. Crise estrutural do capital e seus efeitos sobre o traba-
lho
Na primeira década de 2000, especialmente no ano de 2008, 
a materialização da crise de acumulação do capital passa a estar pre-
sente de forma muito intensa nos diferentes cenários econômicos. 
Tem-se nesse período, a crise metabólica/sistêmica do capital em 
escala generalizada. 
Em outros termos, o capital apresenta (sobretudo a partir de 
2008) enorme dificuldade – mesmo em cenários econômicos está-
veis – de realizar vigorosa acumulação. 
Importa destacar, no entanto, que as gravitações da crise eco-
nômica e financeira na dinâmica interna do capital não são novas no 
cenário de desenvolvimento e reprodução do capitalismo. Eclodem 
desde que o capital passou a comandar a produção, sendo constitu-
tivas, sucessivas e até hoje inevitáveis do modo de produção capita-
lista e do movimento do capital.
Paulo Netto e Braz (2006, p. 156, grifo do autor), sobre isso 
pronunciam: 
A história, real e concreta, do desenvolvimento do capitalismo, a 
partir da consolidação do comando da produção pelo capital, é a 
história de uma sucessão de crises econômicas – de 1825 até às 
vésperas da Segunda Guerra Mundial, as fases de prosperidade 
econômica foram catorze vezes acompanhadas por crises; a úl-
tima explodiu em 1937/1938, mas foi interrompida pela guerra. 
Em pouco mais de um século, como se constata, a dinâmica 
capitalista revelou-se profundamente instável, com períodos de 
expansão e crescimento da produção sendo bruscamente coarta-
dos por depressões, caracterizadas por falências, quebradeiras e, 
no que toca aos trabalhadores, desemprego e miséria.
Inseparáveis do desenvolvimento capitalista, Marx esbarra 
com elas nos anos de 1847 a 1848 e de 1857 a 1858 (HARVEY, 
2014a, p. 14), lhe possibilitando analisar e compreender suas con-
tradições e tendências. Assim, antes de serem fortuitas, as crises 
são fenômenos sociopolítico-econômicos que transversam o cená-
rio mundial no século XIX, alcançam solidez no século XX e obtêm 
amplo vigor e dimensões diferenciadas no século XXI. 
Nas primeiras décadas do século XX, os estudos de Lenin 
(2012, p. 12) já apontavam que as crises do capital figuram como 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
etapas fundamentais e necessárias do modo de produção capitalista. 
Em seu eixo argumentativo, Lenin já elucida, em 1917, o potencial 
regenerador contido nas crises do capital para dinamizar a acumu-
lação, a (re)constituição da riqueza e dos lucros. Harvey (2014a, p. 
20) reitera o argumento leninista, reconhecendo ser a crise do capi-
tal expressão endêmica do modo de produção capitalista. 
Acresce-se que, para além de endêmica, as crises do capital 
tornaram-se epidêmicas e avassaladoras dada a instauração mundial 
de um caótico quadro econômico, social, político e cíclico que se 
instaura e permanece no século XXI. 
No século XXI, a crise do capital passa a ter caráter biforme, 
ou seja, ao mesmo tempo em que adquire capacidade de espraiar-se 
por todas as fronteiras, espargindo os respingos da recessão econô-
mica e social nos diferentes cenários –dos países cêntricos aos pe-
riféricos –, também lança estratégias de recuperação, mundializa-se 
graças ao massivo investimento na política de internacionalização 
de capitais que tem como intenção central quebrar as barreiras dos 
mercados para que os fluxos de capitais circulem sem maiores di-
ficuldades.
É nesse sentido que se pode afirmar que a crise do capital no 
século XXI, portanto, para além de ser “[...] mundializada, global, 
sistêmica: ultrapassa todas as crises internacionais do passado, em 
1857, em 1907-1908 e mais ainda em 1929 e na década de 1930” 
(HERRERA, 2015, p. 8); tendo assim um caráter tipificado, pois, 
mesmo sendo estrutural, adquire formas contemporâneas de recu-
peração/acumulação que são aparentemente abstratas, mas objeti-
vas, na perspectiva de escapar à estagnações econômicas a exem-
plo, como informa Herrera (2015, p. 8), das crises do México dos 
anos de 1982 e 1994; da crise dos Estados Unidos de 1987 e 2000; 
da União Europeia entre 1992-1993; Japão em 1995; da Ásia em 
1997-1998, Rússia e Brasil nos anos de 1998 e 1999, dentre outras 
que eclodem após 2007 na dinâmica do capitalismo global (HAR-
VEY, 2014a, p. 17).
São crises que se desencadeiam pelo aumento de produtivi-
dade, ampliação da oferta de produtos, crise de consumo, arrecada-
ção etc. Se expressam quando a queda do processo de produção de 
capitais torna-se mais ampliada do que o processo de circulação; 
- 157 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
quando “[...] o desenvolvimento das forças produtivas ultrapassa 
as necessidades de reprodução do capital” (SOUZA, 1992, p, 48). 
No decurso do modo de produção capitalista, pelo menos até 
a década de 1970, Mandel (1990, p. 37), identifica 20 crises de su-
perprodução desde que se formou o mercado mundial. Assim, diz 
o autor: 
Desde a formação do mercado mundial do capitalismo industrial, 
houve exatamente vinte crises de superprodução, com intervalos 
mais ou menos regulares. São elas: de 1825, 1836, 1847, 1857, 
1866, 1873, 1882, 1891, 1900, 1907, 1913, 1921, 1929, 1937, 
1949, 1953, 1958, 1961, 1970 e a de 1974/75 [...]. 
O entendimento de Mandel (1990, p. 37) e o de Harvey 
(2014b, p. 78) se cruzam quando este afirma que crises são “[...] 
excedentes de capital (em termos de mercadorias, moeda e capaci-
dade produtiva) e excedentes de força de trabalho lado a lado, sem 
que haja aparentemente uma maneira de conjugá-los lucrativamen-
te [...]”.
Ao contrário do que se pode pensar, as inúmeras crises, não 
eliminaram as grandes fortunas. Dados sobre isso – com ênfase na 
desigualdade econômica e social nos países estadunidenses e ao re-
dor do planeta –, estão expostos no livro Thomas Piketty e o segredo 
dos ricos, onde abundam informações sobre a dinâmica do movi-
mento do capital, suas leis imanentes e formação das desigualdades. 
Mesmo havendo certa limitação teórico-política de Piketty, 
– reconhecida por Jacoby (2014, p. 107) –, em ter como saída para 
esse estado de coisas a taxação via política fiscal do capitalismo, o 
livro oferece um panorama, com dados interessantes e concretos, 
da atual face da crise e seu sistema acumulativo. Assim, mesmo 
com um panorama frente à desigualdade e ampliação da pobreza à 
revelia das grandes fortunas, Piketty não tematiza nem vai à raiz do 
problema desse estado de coisas, pois, com argumentos utópicos, 
ao não tratar de categorias como trabalho excedente, alienado etc., 
romantiza a administração e as contradições do capitalismo, o que 
contrasta com o pensamento marxiano cuja defesa não é regular ouadministrar o capitalismo, mas suplantá-lo. 
Qual seria então um dos caminhos contemporâneos estratégi-
cos adotados pelo capital, sobretudo a partir da crise de 2008, para 
restaurar a acumulação e recuperação da sua rentabilidade? 
- 158 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
A crise de 2008, agudizada especialmente a partir da segunda 
metade de 2008, se revelou em termos de profundidade, extensão, 
abrangência e gravidade como uma das mais severas e intensas des-
de os anos 1930. Viralizada para todo planeta, sacudiu todo o siste-
ma financeiro, quebrou bancos e empresas, aprofundou a pobreza e 
a desigualdade social em todo o mundo e avançou sobre o trabalho, 
demarcando a necessidade de ampliar o desemprego e precarizar as 
condições de trabalho. Sampaio Júnior (2009, p. 10, grifo do autor), 
aponta que seus efeitos foram devastadores para os trabalhadores:
A Organização Internacional do Trabalho calcula que, apenas 
em 2008, o número de desempregados aumentou em quase 
nove milhões e que mais de 100 milhões de pessoas passaram a 
integrar o número de trabalhadores pobres, ou seja, pessoas que 
ganham uma renda insuficiente para manter a família (menos de 
US$ 2 per capita por mês).
Esses efeitos são devastadores para o conjunto dos trabalha-
dores que têm como única forma de manutenção da sua existência a 
mercantilização do labor em troca de um salário.
Tais efeitos vão se expressar por meio de estratégias avassa-
ladoras do ponto de vista das condições de trabalho, como é exem-
plo, a reestruturação produtiva que dentre outros elementos as for-
mas contemporâneas de domínio e exploração do trabalho, como 
será apresentado a seguir. 
4. A reestruturação produtiva enquanto mecanismo estra-
tégico para “solapar” o trabalho contemporâneo
A reestruturação produtiva inaugura a recomposição da ideo-
logia taylorista-fordista no que tange a controlabilidade do trabalho 
e sua submissão, pois para além de resgatar a ideia de controle de 
tempos-movimento no trabalho, coloca em voga a flexibilização, a 
polivalência, a “cooperação” e a instabilidade nas relações de tra-
balho como parâmetro-guia para tentar garantir a recuperação da 
lucratividade capitalista. Soma-se a isso a busca desenfreada para 
aumentar a produtividade, a qualidade dos produtos e serviços a 
partir da redução de custos.
Esse conjunto de mudanças no lastro da reestruturação pro-
dutiva incide diretamente sobre a força de trabalho na medida em 
- 159 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
que contribui para alavancar a precarização que é motivada pela 
constante necessidade de reduzir e/ou flexibilizar direitos trabalhis-
tas, intensificar jornadas de trabalho, diminuir o quantitativo das 
contratações, parcializar tarefas, rebaixar os salários, plurifuncio-
nalizar os trabalhadores. 
Antunes (2009, p. 77-78), sobre isso ressalta:
[...] As formas mais estáveis de emprego, herdadas do fordismo, 
foram desmontadas e substituídas pelas formas flexibilizadas, 
terceirizadas, do que resultou um mundo do trabalho totalmente 
desregulamentado, um desemprego maciço, além da implantação 
de reformas legislativas nas relações entre capital e trabalho [...].
Essa degradação pela via da precarização do e no trabalho 
também se realiza pela via subjetiva, dado aos intermináveis me-
dos e as constantes ameaças individuais e coletivas da perda do 
trabalho, uma vez que o trabalho estável torna-se acuado diante do 
exército de reserva de plantão e sobrante para o capital e uma mer-
cadoria descarta a ser usada para os processos de maximização e 
reprodução do capital. 
Hirata (2011, p. 16), ao tratar um dos aspectos da degradação 
do trabalho, de forma veemente enfatiza que:
O trabalho precário conduz à intensificação do trabalho, porque 
há uma ameaça sobre os trabalhadores estáveis dos que estão 
desempregados e que procuram trabalho, e estão dispostos, de 
certa forma, a aceitar condições salariais e condições de trabalho 
mais difíceis e mais penosas. Ao mesmo tempo, essa intensifi-
cação é também o resultado das novas formas de organização 
do trabalho e da produção. Trata-se de organizações flexíveis do 
trabalho e da produção, essenciais para a própria reprodução do 
sistema de trabalho e de emprego no momento atual.
Além disso, há também nessa nova forma de organizar e pen-
sar o trabalho, a captura subjetiva dos trabalhadores, sobretudo para 
adesão, envolvimento, aceitação voluntária e passiva aos processos 
de trabalho agora dominado, em escala planetária, pelos valores 
ideológicos da reestruturação produtiva e sua flexibilidade. 
Essa subordinação mercantil plena é identificada por Engels 
ao falar sobre o fenômeno da concorrência mercantilizada na con-
tratação da classe trabalhadora. Sobre isso o autor se pronuncia:
- 160 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
[...] o operário é, de direito e de fato, um escravo da classe 
proprietária, da burguesia; é seu escravo a ponto de ser vendido 
como uma mercadoria e, tal como uma mercadoria, seu preço 
aumenta e diminui. Se a procura por operários cresce, seu preço 
sobe; se diminui, seu preço cai; e se a procura cai a ponto de um 
certo número de operários não ser vendável, eles ficam como 
que em estoques [...]. (ENGELS, 2010, p. 121).
A concorrência assim é visualizada por Engels (2010, p. 117) 
como a “expressão mais completa da guerra de todos contra todos” 
onde “cada um constitui um obstáculo para o outro” sendo por isso 
a necessidade de se eliminar aqueles que tentem tomar seu lugar.
Reacende-se nesse processo, com todo vigor, além da subor-
dinação subjetiva, formal e intelectual do trabalho (ALVES, 2005, 
p. 30), as formas indeléveis da alienação e/ou estranhamento que 
são do domínio próprio da acumulação e da nova materialidade ca-
pitalista contemporânea. 
Fundamentalmente, essa forma de produção flexibilizada busca a 
adesão de fundo por parte dos trabalhadores, que devem assumir 
o projeto do capital. Procura-se uma forma daquilo que chamei 
de envolvimento manipulatório levado ao limite [...], em que o 
capital busca o consentimento e a adesão dos trabalhadores, no 
interior das empresas, para viabilizar um projeto que é aquele 
desenhado e concebido segundo seus fundamentos exclusivos. 
Trata-se de uma forma de alienação ou estranhamento (Entfrem-
dung) que, diferenciando-se do despotismo fordista, leva a uma 
interiorização ainda mais profunda do ideário do capital, avan-
çando no processo de expropriação do savoir-faire do trabalho. 
(ANTUNES, 2009, p. 188).
Esvai-se paulatinamente nesse contexto os princípios de so-
lidariedade e de luta coletiva, sobreposta pela exacerbação da indi-
vidualidade, o que não significa o desaparecimento dos conflitos de 
classe e de suas reivindicações, mesmo diante dos atuais recuos po-
líticos-organizativos frente à coercitiva investida do capital contra 
o trabalho, aspecto que pode afirmar apenas a liberdade superficial-
-legalista da forma capitalista, como acentua Duarte (2013, p. 172):
Do ponto de vista puramente formal, isto é, perante a lei, o 
trabalhador é um cidadão livre, que pode escolher onde traba-
lhar e o tipo de trabalho que quer realizar. Ele é proprietário 
- 161 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
de sua força de trabalho e pode vendê-la a quem quiser. Mas a 
realidade é outra, pois ele precisa de dinheiro para sobreviver e, 
para isso, precisa encontrar um capitalista que queira comprar 
sua atividade. 
A raiz causal desses elementos se explica na avalanche da 
crise capitalista que para revigorar suas taxas acumulativas soterra 
qualquer tentativa de contrarresposta. 
Não é à toa que de forma vil e planejada, o capital busca a 
realização do seu mais-valor que hegemonicamente se realiza na 
ordem do capital, por meio da exploração da compra e venda da 
força de trabalho, supressão dos direitos dos trabalhadores e de suas 
condições materiais de existência. 
Como isso objetivamente se impõe?
As primeiras e objetivas expressões selocalizam na retirada 
de direitos sociais. No Brasil, essa investida é claramente reiterada 
pela Lei nº 13.467/17 que flexibilizou mais de 200 dispositivos da 
CLT-Consolidação das Leis do Trabalho e, consequentemente, re-
lações entre trabalhadores e empregadores. 
Dentre os efeitos mais deletérios impostos aos trabalhadores 
estão:
O fim da contribuição sindical obrigatória. Esse mecanismo 
dentre outros elementos objetivou/objetiva desarticular/quebrar 
qualquer unidade entre os trabalhadores. Em seu fim último, isso 
representa a legitimação dos princípios neoliberais de acirra-
mento da competitividade entre os trabalhadores e de qualquer 
pacto de solidariedade;
Estabelecimento do contrato de trabalho intermitente. Também 
chamado de “contrato zero”, visa deixar os trabalhadores à mercê 
de um contrato de trabalho formal, porém à disposição patronal 
a qualquer tempo;
Estabelecimento do teletrabalho ou home office. Tal modalidade 
otimiza as atividades de trabalho em única via. Ou seja, como 
esse tipo de atividade possibilita ser realizado em qualquer 
espaço/lugar, sendo ele virtualizado ou realizado no espaço 
do lar, são os trabalhadores que terminam arcando com alguns 
custos de execução. Assim por exemplo, se determinado trabalho 
exigir, conexão em rede, contatos telefônicos, uso frequente de 
aparelhos elétricos ligados etc., cabe ao trabalhador arcar com 
tais custos;
- 162 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Fracionamento de férias. Anterior à reforma trabalhista as férias 
podiam ser fracionadas em até duas vezes, como o menor período 
fixado em 10 dias. Após a reforma o fracionamento é autorizado 
em até três vezes, o que pode significar a perda da qualidade no 
gozo das férias trabalhistas.
Tais mecanismos quando impostos conjuntamente ao “mun-
do” do trabalho contribuem para tornar mais vil os mecanismos de 
exploração do trabalho assalariado, pois além de impactar objetiva-
mente nas condições de sobrevivência material da classe que vive 
do trabalho ainda exerce efeitos nefastos na sociabilidade dos su-
jeitos, uma vez que repõe os indivíduos sociais na pré-história do 
capitalismo... 
5. Conclusão
O trabalho é o ato distintivo do ser social. Em si, é a “chave” 
potencializadora da transformação humano-genérica. Assim sendo, 
são pelos atos teleológicos do trabalho que são desenvolvidas as 
mais elaboradas capacidades/habilidades intelectuais, relacionais, 
sociais, neurais, psíquicas e espirituais.
No entanto, o trabalho ao ser transmutado em ato para além 
do atendimento das necessidades sociais/vitais, ou seja, ao ser 
transmutado em trabalho assalariado – mesmo não perdendo seu 
princípio ontológico – do ponto de vista da reprodução capitalista, 
torna-se mero meio de valor de troca e de satisfação das necessi-
dades de manutenção da ordem sociometabólica do capital, já que, 
transmuta-se em mera ferramenta de produção de mais-valor es-
vaindo – até certa medida – sua capacidade humano-genérica.
À medida que as crises de reprodução capitalista se 
intensificam, esse aspecto é tornado mais evidente, uma vez que, 
faz avançar de forma mais aguda as estratégias de espoliação do 
trabalho como é exemplar os processos de reestruturação produtiva 
cujos mecanismos – ao aliar-se aos princípios do “enxugamento” 
de direitos trabalhistas – corroboram cada vez mais para “solapar”, 
precarizar, individualizar, subordinar e flexibilizar as condições 
e relações de trabalho, aspectos que representam, sobretudo os 
deletérios efeitos da crise estrutural do capital, imposições que 
na conjuntura brasileira se expressam, dentre outras coisas, no 
- 163 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
aumento – desde o ano de 2017 – do trabalho informal e na cifra de 
13 milhões de desempregados. 
Tal realidade revela dentre outras coisas, a opção e inserção 
subordinada, periférica e dependente do Brasil na “ciranda” econô-
mica e financeira global cujos efeitos deletérios não são localizados 
apenas nos centros dinâmicos das economias, mas compartilhados 
por todos os países... 
6. Referências
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complexo de reestruturação produtiva. In: O novo (e precário) 
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- 165 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
SEÇÃO III
SUSTENTABILIDADE E 
POLÍTICAS PÚBLICAS
- 166 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
- 167 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
QUESTÃO AMBIENTAL E HABITACIONAL: 
particularidades dos assentamentos precários na 
Região Metropolitana de Belém – PA
Joana Valente Santana130
Rovaine Ribeiro231 
Anna Carolina Gomes Holanda332
1. Introdução
A discussão sobre a questão ambiental tem ganhado signi-
ficativa importância na área de Serviço Social. Pesquisa realiza-
da, em 2016, pelo Grupo Temático de Pesquisa (GTP) Questões 
Agrária, Urbana e Ambiental da Associação Brasileirade Ensino e 
Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), em 12 revistas qualificadas 
pela Área de Serviço Social, no período de 2005 a 2016, demonstra 
que dos 201 artigos publicados nessas revistas (referentes às ques-
tões agrária, urbana e ambiental), 103 enfatizaram a questão urba-
na, 26 a questão agrária/rural e 72 a questão ambiental433 (BEZERRA 
et al, 2018).
O Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, do Conselho 
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq re-
gistra (para o ano de 2018) 29 Grupos relativos ao tema da questão 
1 Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Docente da Faculdade de 
Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Pará. 
Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas, Cidade, Habitação e Espaço Humano (GEP-CIHAB/
PPGSS). Bolsa Produtividade em Pesquisa do CNPq. joanavalente@ufpa.br
2 Geógrafa, Doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Docente da Faculdade de 
Serviço Social da Universidade Federal do Pará - Campus Belém. Integrante da Coordenação do Grupo 
de Estudos e Pesquisas, Cidade, Habitação e Espaço Humano (GEP-CIHAB/PPGSS). Possui trabalhos 
nos seguintes temas: planejamento urbano, política habitacional, rede urbana e cidades. rovaine@ufpa.br.
3 Arquiteta e Urbanista, Mestre em Planejamento do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Pará 
(UFPA). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFPA. Arquiteta da 
Companhia de Habitação do Estado do Pará. Integrante da Coordenação do Grupo de Estudos e Pesquisas, 
Cidade, Habitação e Espaço Humano (GEP-CIHAB/PPGSS). Possui trabalhos nos seguintes temas: polí-
tica habitacional e cidades na Amazônia. acgholanda@gmail.com.
4 Temas tratados nos 72 artigos acerca da temática ambiental: Recursos Hídricos, Sustentabilidade, Con-
flitos Socioambientais, Política Ambiental, Preservação, Impacto ambiental, Grandes Projetos (Amazô-
nia), Movimentos Sociais, Gestão Ambiental, Meio Ambiente, Resíduos Sólidos, Ecologia, Mudanças 
climáticas, Processo Migratório, Saúde e Meio ambiente, Saneamento, Turismo ambiental, Sobrevivên-
cia alimentar, Proteção Social, Educação Ambiental, Desenvolvimento Regional na Amazônia, Desenvol-
vimento Local, Impacto Ambiental e Trabalho Social.
- 168 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
ambiental534, sendo as regiões Norte e Nordeste com a maior concen-
tração (8 em cada região), seguido das regiões Sudeste (6), Sul (5) 
e Centro Oeste (2). Por sua vez, dos 2.545 trabalhos de conclusão 
de curso (mestrado e doutorado) defendidos no período de 2013 a 
2017, nos Programas de Pós-Graduação na área de Serviço Social, 
91 referem-se ao tema da questão urbana e ambiental, 88 à questão 
agrária e 40 referem-se à questão ambiental. Destes 40 trabalhos, o 
Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Sustentabilidade 
na Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas é o que tem 
mais publicações no período, totalizando 09 trabalhos (ABEPSS, 
2019).
As pesquisas da área de Serviço Social têm apontado para a 
necessidade de uma maior articulação nos estudos entre as questões 
agrária, urbana e ambiental, que priorize a leitura dos fundamentos, 
em nível de totalidade. Para Bezerra et al. (2018):
Somente a busca aos fundamentos das ênfases particulares 
(urbano, agrário e ambiental) em uma perspectiva de totalida-
de, poderá contribuir para a articulação entre elas, rompendo 
a aparente fragmentação entre as demandas sociais, demandas 
institucionais, requisições institucionais e respostas profissionais. 
Este conjunto, ao fim e ao cabo, está mediado: pela luta de classes 
na sociabilidade burguesa que atravessa o objetivo incessante de 
lucros pelas frações de classe dominante; pelo papel do Estado no 
processo de dominação de classe, por meio das políticas sociais. 
(...) A apropriação dessas determinações nessa perspectiva (de 
totalidade) pode contribuir para a construção de uma direção 
social estratégica da profissão em favor da classe trabalhadora 
e contra todas as formas de opressão, com base no Projeto Éti-
co-Político profissional (BEZERRA et al., 2018, p. 79).
Nesta perspectiva, este texto – com base em levantamento 
bibliográfico e documental – busca analisar as mediações entre a 
questão ambiental e habitacional, tomando como objeto de inter-
pretação a realidade dos assentamentos precários na Região Metro-
politana de Belém. 
As reflexões são apresentadas em duas seções. A primeira 
discute os fundamentos da relação entre a questão ambiental e a 
questão habitacional e a segunda apresenta a discussão sobre os 
5 Filtro aplicado: Grande Área: Ciências Sociais Aplicadas; Área: Serviço Social.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
assentamentos precários na Amazônia, particularmente na Região 
Metropolitana de Belém.
2. Fundamentos da relação entre a questão ambiental e a 
questão habitacional
Os pesquisadores da área de Serviço Social têm feito um 
esforço em articular produção do conhecimento, formação profis-
sional, exercício profissional e lutas sociais, tomando por base a 
necessidade de interpretar, pela raiz, a questão social e suas ma-
nifestações na ordem burguesa. A questão ambiental, uma dessas 
manifestações, é referida por Silva: 
ao conjunto das manifestações da destrutividade na natureza – 
cujas raízes encontram-se no desenvolvimento das relações de 
propriedade – e seus desdobramentos sócio-políticos, para os 
quais a ação dos movimentos ambientalistas tiveram importância 
fulcral (SILVA, 2012, p. 16).
Silva (2012) argumenta que a degradação ambiental é um 
tema que inquieta a humanidade à medida que o processo produtivo 
capitalista avança para a destrutividade da natureza, o que coloca 
em risco a vida no planeta, “impondo-se como uma questão que 
exige mecanismos de controle para que as condições materiais e 
simbólicas de sua reprodução sejam asseguradas” (p. 18, grifo no 
original)6.35 
Sauer e Ribeiro (2012) argumentam que a questão am-
biental diz respeito à maneira como a sociedade se relaciona 
com o meio em que vive nas suas variadas formas, articulada 
a processos sociais e políticos. As autoras referem-se ao termo 
“questão socioambiental”, para ampliar as discussões em tor-
no do tema para além da relação entre flora e fauna. 
A questão ambiental é reconhecida atualmente como uma 
problemática de caráter predominantemente social e político. 
É social, visto que o homem se constrói e se constitui como tal 
neste espaço, e faz parte do meio ambiente, convivendo com 
6 A autora afirma, ainda que: “Este processo resulta, historicamente, da necessidade de expansão da pro-
dução, como impulso à acumulação privada. A mercantilização da natureza e sua transformação em fator 
de produção institui a supremacia das necessidades e ritmos da atividade econômica, desconsiderando-se, 
moto contínuo, a capacidade de recuperação dos ecossistemas por ela afetados” (SILVA, 2012, p 19, grifo 
no original).
- 170 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
todos os demais seres vivos concomitantemente, construindo-o 
e modificando-o ao longo dos anos, uma vez que nenhuma forma 
de vida existe à parte do sistema a que pertence; é político, pois 
depende em muito das decisões e ações das quais nos valemos 
diariamente, da forma como nos relacionamos com a natureza. 
Assim, “meio ambiente” não é um espaço exterior ao homem, 
com o qual não se tem nenhuma relação ou responsabilidade; ao 
contrário, nós – seres humanos – somos o meio ambiente, assim 
como todas as outras vidas deste planeta (SAUER; RIBEIRO, 
2012, p. 391). 
Parece importante refletir sobre as mediações entre as ex-
pressões da questão social, a exemplo das mediações entre a ques-
tão ambiental e a questão habitacional. Na vida profissional do as-
sistente social, um dos campos dessa mediação refere-se à atuação 
em projetos habitacionais, onde 
Ao pensar em uma situação do cotidiano do assistente social, 
pode-se apontara questão de moradias localizadas em “áreas de 
risco” (áreas insalubres, sem condições sanitárias ou próximas 
a encostas). Estas significam alternativas de vida para pessoas 
que, não tendo onde viver, foram ocupando morros e locais 
periféricos, de forma que é tarefa do poder público responder 
e encontrar soluções viáveis para estes sujeitos, seja através de 
remanejamento populacional, contenção de encostas, dentre 
outras soluções viáveis. (SAUER; RIBEIRO, 2012, p. 393). 
 
No Brasil, uma manifestação da questão social que articula 
a questão ambiental e a questão habitacional tem sido a ocupação 
de assentamentos precários, que de acordo com Cardoso, Araújo e 
Ghilhardi (2009) compreendem: 
• os cortiços;
• as favelas;
• os loteamentos irregulares de moradores de baixa renda;
• os conjuntos habitacionais produzidos pelo poder público, 
que se acham em situação de irregularidade ou de degradação, 
demandando ações de reabilitação e adequação (CARDOSO; 
ARAÚJO; GHILHARDI, 2009, p. 95. Itálico no original.)
Esses assentamentos são, em geral, localizados em espaços 
mal servidos de infraestrutura urbana (particularmente de sanea-
- 171 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
mento básico) e encontram-se em periferias distantes, morros, mar-
gens de rios, lagoas, etc., e são ocupados por trabalhadores de baixa 
renda. “A relação predatória com o meio ambiente agrava as con-
dições de vida dessa população, que, em muitos casos, fica sujeita 
a riscos de inundações, desabamentos, deslizamentos de encostas e 
outros” (GONDIM, 2012, p. 120-121).
Nestes termos, a questão ambiental se entrecruza com a ques-
tão habitacional, sendo complexa a resolutividade da moradia da 
classe trabalhadora (FERREIRA, 2009). Como afirma Gondim: 
A dificuldade de acesso à terra urbanizada, em particular, pode ser 
considerada o núcleo do problema da habitação de baixa renda no 
Brasil e em outros países da América Latina. Tal dificuldade leva 
à ocupação e à degradação de áreas ambientalmente vulneráveis, 
mesmo que elas estejam protegidas pela legislação ambiental e 
urbanística (GONDIM, 2012, p. 117-118).
A discussão sobre a interseção entre a questão ambiental e a 
questão da moradia, mais particularmente a discussão sobre a pre-
cariedade da moradia, conforme assinalado, tem sua expressão mais 
contundente nas áreas identificadas como assentamentos precários, 
nas quais o problema habitacional se apresenta de forma concen-
trada, constituindo aglomerados de moradias precárias, irregulares 
(sem segurança da posse) e em espaços que apresentam pouca ou 
nenhuma infraestrutura e serviços urbanos. 
No entanto, apesar da relevância desse problema nas cida-
des brasileiras, não há um indicador oficial consolidado, que seja 
utilizado para mensurá-lo, tal como já estão consolidados o défi-
cit habitacional e a inadequação habitacional736. Especialistas que 
discutem a questão habitacional geralmente utilizam informações 
advindas de pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Esta-
tística (IBGE) que classificam alguns setores censitários como setor 
especial de aglomerado subnormal, assim definido:
conjunto constituído por um mínimo de 51 domicílios, ocupando 
ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade 
7 O déficit habitacional, que mensura a necessidade de construção de novas moradias, e a inadequação 
habitacional, relacionadas às melhorias necessárias para que a habitação atenda aos parâmetros mínimos 
de habitabilidade, são indicadores oficiais assumidos como balizadores das ações da política habitacional 
no país desde a década de 1990, e apesar de algumas críticas e questionamentos sobre os conceitos e 
metodologia de cálculo, sua existência e continuidade no tempo tem possibilitado o acompanhamento da 
situação e as discussões em torno da questão habitacional no Brasil (RUSSO, 2017). 
- 172 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
alheia (pública ou particular), dispostos, em geral, de forma 
desordenada e densa, e carentes, em sua maioria, de serviços 
públicos essenciais (BRASIL, 2007, p. 15).
Porém, o conceito de assentamento precário é mais amplo e 
pode se referir a diversas situações de precariedade e irregularidade 
das moradias, estando geralmente imbricada à questão ambiental, 
na medida em que essas ocupações geralmente ocorrem em áreas 
de risco e proteção ambiental:
O conceito de assentamentos precários foi então ampliado, pas-
sando a englobar diversas tipologias habitacionais, tendo como 
características comuns a precariedade das condições de moradia 
e a sua origem histórica. Definidos como uma categoria abran-
gente das inúmeras situações de inadequação habitacional e de 
irregularidade, seja urbanística – quanto ao parcelamento do solo 
e em relação à edificação, com o descumprimento da legislação 
de uso e ocupação do solo, seja ambiental – com a ocupação de 
áreas de risco e de proteção ambiental, seja fundiária – quanto 
à propriedade da terra (BRASIL, 2009, p. 95).
Tal relação – do surgimento de assentamentos precários em 
áreas de risco e proteção ambiental – verifica-se ao longo do proces-
so de urbanização brasileira, associada ao processo de periferização 
da cidade e as contradições sociais que se materializam na produção 
do espaço urbano de modo geral, e na particularidade dos espa-
ços metropolitanos, a exemplo da Região Metropolitana de Belém 
(RMB) apresentada a seguir. 
3. Assentamentos precários na Amazônia: a particularida-
de da Região Metropolitana de Belém
Importante estudo coordenado pelo Centro de Estudos da Me-
trópole (CEM/CEBRAP)837 desenvolveu metodologia que permitiu 
complementar os dados oferecidos por meio dos setores censitários 
subnormais do Censo 2000, identificando os setores precários, com 
o objetivo de melhor aferir o quadro dos assentamentos precários 
8 Estudo contratado pelo Ministério das Cidades para subsidiar melhor compreensão e mensuração dos 
assentamentos precários no Brasil. A metodologia aplicada pelo CEM/CEBRAP considerou as caracterís-
ticas físicas, econômicas e sociais encontradas nos setores subnormais levantados pelo IBGE no Censo 
2000, e expandiu essa característica para setores não-especiais, classificados como setores precários, con-
siderando então a soma dos setores subnormais e setores precários para estimar os assentamentos precá-
rios, complementando, assim, os números originalmente encontrados pelo IBGE. Para mais detalhes, ver 
o estudo “Assentamentos Precários no Brasil Urbano” (BRASIL, 2007).
- 173 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
no Brasil (BRASIL, 2007). Nesse estudo, entre as grandes regiões 
brasileiras, os números demonstram a concentração do problema, 
em termos quantitativos, nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, con-
forme se observa na Tabela 01, mas, ao se considerar a proporção 
de domicílios, a Região Norte ganha destaque, superando a região 
Nordeste e alcançando a proporção que chega a mais que o dobro 
das demais regiões e do Brasil.
Tabela 01 – Estimativa de domicílios em assentamentos precários 
nas grandes regiões brasileiras em 2000.
Região
Domicílios 
em setores 
subnormais 
(A)
Domicílios 
em setores 
precários 
(B)
Estimativa de 
Domicílios em 
Assentamen-
tos Precários 
(A+B)
% de do-
micílios 
em Assen-
tamentos 
Precários
Norte 172.677 154.050 326.727 29,1
Nordeste 303.468 440.361 743.829 17,1
Regiões Centro-
-Oeste e Sudeste 1.036.341 796.589 1.832.930 12,0
Região Sul 106.550 155.250 261.800 7,2
Brasil 1.618.836 1.546.250 3.165.086 13,0
Fonte: Adaptação a partir de BRASIL (2007). 
O destaque do problema na região Norte não pode ser descon-
siderado, e nos remete a possíveis questionamentos sobre as causas 
que levam a esses números. No que se refere à questão habitacio-
nal, a abordagem recorrente relaciona o agravamento das carências 
habitacionais e a urbanização impulsionada pelo processo de indus-
trialização, que marcou a formação dos grandes aglomerados urba-
nos no Brasil, principalmente no centro-sul dopaís (MARICATO, 
1982; RIBEIRO; PECHMAN, 1985; BONDUKI; ROLNIK,1982). 
No entanto, na Amazônia, onde o processo de industrializa-
ção se deu de forma mais restrita, outros fatores contribuíram para o 
agravamento das necessidades habitacionais, principalmente prove-
nientes da dinâmica da instalação de atividades capitalistas apoia-
das pela atuação estatal. A década de 1960 marca um período de 
grandes transformações na ocupação e urbanização da Amazônia, 
identificado por diversos autores como urbanização da fronteira 
amazônica (BECKER, 1990, MACHADO, 1999, BROWDER; 
- 174 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
GODFREY, 2006), que pode estar na origem da atual conforma-
ção urbana, e consequentes carências habitacionais nessa região, 
resultantes da formação de uma rede urbana incompleta e precária, 
numa dinâmica imposta pela atuação estatal a serviço do capital 
nesse espaço de fronteira econômica, que ignorou (e ignora) as ca-
racterísticas da região, descartando, e mesmo negando, a relação 
com o meio natural amazônico. Analisando as consequências desse 
processo intenso iniciado desde meados do século XX, Loureiro 
(2004) assevera:
Essa estranha rede de cidades constitui um rompimento visível 
com o mito da modernização e do desenvolvimento amazônico. 
Não expressa uma articulação com a natureza que as envolve, 
mas sim, o resultado da perda de controle pelo Estado e pela so-
ciedade em geral, sobre um projeto desenvolvimentista estranho 
à região. Um projeto que desconectou o homem da natureza e 
que revela, também, o rompimento das antigas formas e padrões 
naturais da sociedade regional. Assim como reflete uma perda 
gradativa e acentuada da antiga identidade cultural do homem – 
natural da região – com a natureza (LOUREIRO, 2004, p. 316).
No sentido de avançar na compreensão entre a importante re-
lação da cidade com a natureza na Amazônia, que caracteriza a ur-
banodiversidade amazônica proposta por Trindade Junior (2013), 
destaca-se:
A leitura da diversidade urbana, considerando aqui a presença de 
cidades tradicionais, tidas como pobres, pouco desenvolvidas, 
mas com experiências de produção do espaço que valorizam a 
interação com floresta e com rio nas suas múltiplas dimensões, 
chama a atenção para a necessidade de apontar possibilidades 
de outras formas de desenvolvimento. Estas devem considerar a 
pluralidade de tempos e de espaços e, concomitantemente, fazer 
contraponto a um modelo único de políticas de desenvolvimento 
que neguem o ambiente da floresta em nome da edificação de 
cidades modernas e distantes das verdadeiras potencialidades 
ecológicas e culturais da região. 
Da concepção de “cidade na floresta”, que domina as políticas 
territoriais e urbanas na Amazônia, cumpre atentarmos para as 
experiências de vidas urbanas presentes nas “cidades da floresta”. 
Estas últimas, que ainda assumem grande importância na estrutu-
ra da rede urbana regional, são normalmente invisibilizadas nas 
políticas oficiais, mesmo oferecendo possibilidades de reflexão 
que encaminham não só para a avaliação sobre a natureza da 
urbanização em curso, como também que estimulam outras 
formas de conceber e de “ordenar” os espaços urbanos na região 
- 175 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
de maneira menos formatada a padrões externos. Essas mesmas 
possibilidades, portanto, sinalizam para a existência de poten-
cialidades endógenas a ser consideradas; potencialidades estas 
sempre assentadas na vida cotidiana dessas populações urbanas 
e na forma como se articulam com o ecossistema do qual fazem 
parte (TRINDADE JUNIOR, 2013, p. 19-20).
O modelo de urbanização completamente desconectado das 
características naturais da região pode ser um dos fatores que con-
tribuem para altos números de precariedade habitacional encontra-
dos nos indicadores oficiais. Adentrando para observar os números 
comparativos entre os estados da região Norte, em relação aos aglo-
merados subnormais, os dados do IBGE identificam o agravamento 
do problema principalmente no estado do Pará entre os anos 1996 
e 2010, que apresentou um aumento significativo. No mesmo perí-
odo, observa-se uma melhoria dos números nos demais estados da 
região, conforme demonstram a Tabela 02 e o Gráfico 01. Ressal-
ta-se que, em 1996, o estado do Amazonas apresentava o número 
proporcional mais relevante no quadro regional, correspondendo ao 
dobro do estado do Pará, situação que se mostra completamente 
diferente pouco mais de 10 anos depois, quando os números do Pará 
superam os do estado do Amazonas. 
Tabela 02 – Domicílios em aglomerados subnormais nos estados 
da região Norte nos anos 1996 e 2010.
Estados
Domicílios em aglomerados subnormais
1996¹ 2010²
Absoluto Relativo Absoluto Relativo
Brasil 1.575.336 5,1 3.224.529 5,61
Norte 165.977 9,3 463.444 11,62
Acre 4.281 6,7 10.001 5,23
Amapá 8.177 15,9 23.909 15,25
Amazonas 67.218 18,3 89.933 11,22
Pará 79.947 9,1 324.596 17,39
Rondônia 1.835 2,1 12.605 2,76
Roraima 1.421 6,1 303 0,26
Tocantins 3.097 2,0 2.097 0,52
Fonte: Elaborado a partir de Abelém (1996), apud Holanda (2011) e do 
IBGE (2010).
- 176 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Gráfico 01 – Comparativo da evolução dos domicílios em aglomerados 
subnormais nos estados da região Norte entre os anos 1996 e 2010.
Fonte: Elaborado a partir de Abelém (1996), apud Holanda (2011) e do 
IBGE (2010).
No estudo citado anteriormente, sobre os assentamentos pre-
cários no Brasil no ano 2000 (BRASIL, 2007), foram identificados 
15 municípios na região Norte com assentamentos precários, no en-
tanto, a pesquisa identificou que há um destaque na situação da Re-
gião Metropolitana de Belém (RMB) que, sozinha, apresenta 63% 
do total dessas áreas em toda a região Norte, como se verifica nos 
números da Tabela 03. Os números proporcionais de assentamentos 
precários são bastante significativos em toda a RMB, caracterizan-
do praticamente 50% do total de domicílios nessa região metro-
politana, mas não se pode deixar de ressaltar que essa proporção 
chega a alcançar 73% do total de domicílios em Benevides, 77% em 
Marituba e 100% em Santa Bárbara do Pará.
- 177 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Tabela 03 – Estimativa de domicílios em assentamentos precários em 
municípios da região Norte em 2000.
Região Nome do município
Domicí-
lios em 
setores 
subnor-
mais (A)
Domicí-
lios em 
setores 
precários 
(B)
Estimativa 
de Domicí-
lios em As-
sentamentos 
Precários 
(A+B)
% de 
domicí-
lios em 
Assenta-
mentos 
Precários
RM Be-
lém¹
Ananindeua 22.153 18.760 40.913 44,34
Belém 99.815 46.544 146.359 49,69
Benevides 0 3.771 3.771 73,29
Marituba 8.983 3.674 12.657 77,04
Santa Bárbara do Pará 0 802 802 100,00
Total da RM Belém 130.951 73.551 204.502 (63%) 49,98
Demais 
municí-
pios da 
Região 
Norte
Boa Vista (RR) 0 1.559 1.599 3,25
Castanhal (PA) 0 1.172 1.172 4,24
Macapá (AP) 1.965 11.898 13.863 23,88
Manaus (AM) 39.220 45.313 84.533 26,02
Marabá (PA) 0 3.493 3.493 11,38
Palmas (TO) 0 2.385 2.385 6,95
Porto Velho (RO) 0 9.663 9.663 12,23
Rio Branco (AC) 0 2.448 2.448 4,24
Santana (AP) 541 1.234 1.775 11,89
Santarém (PA) 0 1.334 1.334 3,39
Total demais municípios da 
Região Norte 41.726 80.499
122.225 
(37%) 17,11
Total da Região Norte 172.677 154.050 326.727 (100%) 29,1
Fonte: Adaptação a partir de BRASIL (2007). 
¹ Na realização do Censo 2000, a RMB era composta por esses cinco mu-
nicípios. Em 2010, foi incorporado o município de Santa Izabel do Pará, 
e em 2011, foi acrescido o município de Castanhal.
Diante dos números encontrados em todo o Brasil, o estudo 
do CEM/CEBRAP (BRASIL, 2007) afirma que a RMB é conside-
rada “a região com maior presença de assentamentos precários de 
todo o Brasil urbano”, na qual metade da população vive em condi-
ções habitacionais inadequadas: 
- 178 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Em comparação com as estimativas para o conjunto de regiões 
do Brasil, os resultados para a Região Metropolitana de Belémmostram que esta é a região com maior presença de assentamen-
tos precários de todo o Brasil urbano. Mais da metade dos domi-
cílios e da população residente na RM de Belém localizava-se 
em setores com condições habitacionais e sociais inadequadas. 
Com relação a investimentos em políticas de habitação para este 
conjunto de municípios, esta região representa um desafio, dado 
à grandeza do problema e ao volume considerável de recursos 
necessários para responder adequadamente à precariedade ha-
bitacional existente (BRASIL, 2007, p. 60). 
 Apesar dos números levantados se referirem ao final do sé-
culo XX e início do século XXI, conforme afirmado anteriormente, 
as grandes transformações na urbanização da Amazônia se inicia-
ram na década de 1960. Analisando as principais características 
da metrópole polarizada pela capital paraense, Browder e Godfrey 
(2006) afirmam que sua configuração urbana expressa os períodos 
históricos vividos na região amazônica. Por séculos, Belém se cons-
tituiu em cidade primaz, principalmente durante o momento histó-
rico de exploração da borracha no final do século XIX e início do 
século XX.
No entanto, a capital regional perdeu sua importância relati-
va no Pará desde a abertura das rodovias federais (Belém-Brasília 
e Transamazônica) e os projetos de desenvolvimento implantados 
no interior do Estado, bem como na região, após a instalação da 
Zona Franca em Manaus a partir da década de 1960. Mas a perda 
da importância econômica de Belém no Pará e na Região Norte 
após a abertura de outras frentes de expansão é acompanhada pela 
intensificação do fluxo migratório rumo à capital, formada por um 
contingente de trabalhadores forçados a sair do campo devido à ins-
talação e expansão das atividades capitalistas no território estadual, 
contribuindo para o agravamento do problema habitacional e o au-
mento das ocupações informais na RMB (SANTANA, 2011). 
A Região Metropolitana de Belém (RMB) foi sendo deline-
ada no processo de urbanização amazônica, iniciada pela ocupação 
regional colonial na margem dos rios9, e que no caso de Belém mar-
9 No processo de colonização da região amazônica os rios serviam como principais portas de acesso ao 
território e como meios de circulação da população e de produtos. Nesse sentido, a ocupação das porções 
do território que estavam na embocadura dos grandes rios, tal como o sítio onde foi situada a cidade de 
Belém, posteriormente também serviram como espaços de proteção da região, com o estabelecimento de 
- 179 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
cou não só a ocupação da cidade em meados do século XVII, mas 
principalmente um sítio marcado por uma densa drenagem interna, 
tal como apontou Abelém (1988): 
Situando-se Belém no vértice de um estuário, sofre as influências 
do rio e do oceano que inclusive determinaram inicialmente a 
direção do crescimento da cidade: um vetor que acompanhava 
o rio Guamá e outro que corria ao longo da baía do Guajará e 
que deram origem ao aparecimento dos dois primeiros bairros, a 
Cidade e a Campina respectivamente (...) Da época da fundação 
da cidade (1616) até meados do século XVII a cidade cresceu à 
beira rio (Fase Ribeirinha), passando a partir daí a se interiorizar 
(Fase de Penetração) e após a segunda metade do século XIX a 
sofrer a influência maior do continente, diminuindo as influências 
fluviais (Fase de Continentalização). À medida em que a cidade 
se expandiu e recebeu seus primeiros equipamentos urbanos, 
encontrou os acidentes hídricos, contornando-os em vez de 
saneá-los, o que levou a ocupação a ser feita preferencialmente 
nos terrenos de cotas mais altas, deixando grandes áreas deso-
cupadas, formadas por terrenos alagados ou alagáveis, de cotas 
baixas. Isso deu um perfil irregular à cidade condicionando seu 
crescimento ao comprimento até a Primeira Légua Patrimonial, o 
que trouxe sérias dificuldades a sua expansão, pois era limitadas 
por áreas de propriedade do Exército, Marinha, Aeronáutica, 
Universidade e de outras unidades educacionais (ABELÉM, 
1988, p. 35-36). 
Em seu estudo sobre o processo de formação da RMB, Trin-
dade Junior (2016) demonstra que a ocupação das “áreas de baixa-
da” (terrenos de cotas mais baixas em Belém), como apontou Abe-
lém (1988), produziu uma periferização do centro10. Além disso, a 
formação da RMB delineou duas formas de configuração e ocupa-
ção, uma mais concentrada na primeira légua patrimonial até mea-
dos do século XIX, e uma mais dispersa, a partir da segunda metade 
do século XX, na segunda légua patrimonial, configurada a partir da 
transposição do “cinturão institucional” que marcou novos eixos de 
expansão da cidade e da própria RMB, na ocupação do município 
de Ananindeua num primeiro momento e os demais municípios que 
dela fazem parte, posteriormente. 
fortes ao longo dos rios na Amazônia, assim como o Forte do Presépio (posterior Forte do Castelo em 
Belém) (CORRÊA, 2001). 
- 180 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Com a ultrapassagem do ‘cinturão institucional’, a partir princi-
palmente da década de 1970, a malha urbana se expandiu para 
localidades até então consideradas distantes, notadamente para 
a Rodovia Augusto Montenegro (eixo Belém-Icoaraci) e para 
a BR-316 e Estrada do Coqueiro (eixo Belém-Ananindeua), ou 
seja, para além dos bairros integrantes da Primeira Légua ou 
daqueles adjacentes a esta. Um dos fatores dessa concentração 
foi a não expansão, com a mesma intensidade, dos equipamen-
tos urbanos do sistema viário para a chamada Segunda Légua 
Patrimonial (...). Outro fator, considerado aqui como de maior 
importância, foi, sem dúvida nenhuma, o processo de ocupação 
intensiva das áreas de baixadas. Até os anos 1940, essas áreas 
não eram vistas como espaços que despertassem tanta atenção 
por parte dos investimentos urbanos, fossem eles públicos ou 
privados. A partir dos anos 1950, as dimensões da produção do 
espaço urbano belenense repercutiram de forma mais significa-
tiva sobre as mesmas, intensificando-se nos anos 1960, 1970 e 
início dos anos 1980, como parte do processo de urbanização 
deflagrado com a nova dinâmica de produção do espaço regional 
(TRINDADE JUNIOR, 2016, p. 99-101).
Browder e Godfrey (2006) afirmam que a expansão urbana 
de Belém foi, e ainda é fortemente marcada pela precariedade dos 
assentamentos espontâneos, conformados devido às características 
físicas de seu território, que geraram as ocupações nas baixadas em 
meados do século XX e mais recentemente ocupações informais nas 
áreas periféricas. Os autores destacam as grandes disparidades da 
metrópole, onde arranha-céus convivem com áreas desprovidas de 
infraestrutura mínima. Sem atividades econômicas de vulto, Belém 
mantém sua importância enquanto centro administrativo regional, 
tendo grande parte da população da região metropolitana absorvida 
pelo setor informal da economia (BROWDER; GODFREY, 2006). 
Ao analisar a RMB, Cardoso, Lima e Fernandes (2018) en-
fatizam que a metrópole paraense é uma “expressão periférica, va-
riante do padrão de metrópole industrial nacional” (p. 28), onde 
coexistem duas dinâmicas importantes: uma, de construção secular, 
como cidade primaz de uma rede amazônica baseada no comércio 
e no extrativismo, que está relacionada à cidade tradicional ribeiri-
nha; outra, enquanto metrópole capitalista, atrelada à dinâmica do 
capital industrial e financeiro, nacional e internacional, que atua de 
forma seletiva em partes pontuais do território que fornecem pro-
- 181 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
dutos de interesse ao mercado global (CARDOSO; LIMA; FER-
NANDES, 2018). Expressando em seu território as contradições e 
contrastes da atuação dos diversos agentes (exógenos e endógenos), 
no tempo e no espaço, em processos de modernização e resistência, 
destaca-se a descrição dos autores sobre as áreas alagadas/alagáveis 
(baixadas) da metrópole, apropriadas por populações locais empo-
brecidas:
A presença das baixadas e a flexibilidade espacial(manifesta na 
possibilidade de inserção de tipologias nos miolos de quadras, 
na diversidade tipológica das edificações e na disponibilidade 
de vazios) criaram uma segregação fortemente ligada à de-
gradação ambiental. A ocupação da várzea, ou da baixada, foi 
incremental, improvisada, não regulada, mas extremamente 
bem-sucedida quanto a criação de solo e, mais que isso, de 
localizações urbanas. Em que pesem o sacrifício ambiental e os 
riscos à saúde pública decorrentes da carência de saneamento e 
da elevada densidade, migrantes pobres encontraram na várzea 
dos anos 1980 e 1990, território familiar, que gerou conexões 
entre a ocupação e o modo de vida típico da região amazônica 
e o modo de vida urbano na região metropolitana (CARDOSO; 
LIMA; FERNANDES, 2018, p. 33).
A realidade dos assentamentos precários em Belém expressa 
a inter-relação entre a questão habitacional e a questão ambiental, 
visto que na produção do espaço urbano da Amazônia, as frações de 
classe trabalhadora ocuparam historicamente os lugares insalubres 
e desprovidos de equipamentos urbanos e saneamento, que no caso 
da RMB, foram marcados pela ocupação das áreas de baixadas, 
consideradas áreas alagadas ou alagáveis, que têm causado forte 
pressão sobre áreas de proteção ambiental e de risco. 
4. Considerações Finais
 A questão habitacional e a questão ambiental na RMB têm 
sido historicamente marcadas por uma relação intrínseca, acompa-
nhando o processo de urbanização regional, que tem expressado 
uma pluralidade da produção do espaço, seja do ponto de vista eco-
nômico, social e cultural, caracterizando uma urbanodiversidade, 
como afirma Trindade Junior (2013). Contudo, tem-se observado 
que a política habitacional não tem considerado a pluralidade das 
- 182 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
formas espaciais e dos conteúdos urbanos delineados ao longo do 
tempo na região, na medida em que o planejamento urbano e a im-
plementação de programas habitacionais são propostos e imple-
mentados de forma homogênea em cidades com formações socio-
espaciais diferentes, ou em diferentes áreas das cidades. 
 Esses elementos apresentam-se como fundamentais para a 
compreensão da questão habitacional na Amazônia de modo geral, e 
na particularidade da RMB, na medida em que, conforme apontado 
anteriormente pelos estudos do CEM/CEBRAP (2007), os assen-
tamentos precários nessas regiões se destacam quando observados 
num quadro comparativo inter e intra-regionalmente – em relação 
ao quadro nacional a Região Norte destaca-se com um percentual 
de 29,1% em relação às demais regiões brasileiras; internamente a 
RMB aponta um percentual de aproximadamente 50% de assenta-
mentos precários, quando comparadas às demais RM’s do Norte. 
 Cabe salientar, tal como apresentado anteriormente, que os 
assentamentos precários na RMB foram se conformando ao longo 
do tempo, a partir, principalmente, da ocupação das áreas de bai-
xadas, alagadas ou alagáveis, não saneadas e com pouca distribui-
ção de equipamentos urbanos, por populações de menor renda, pela 
ausência de políticas públicas ou pela implementação de políticas 
públicas que tendem a ver o espaço urbano de maneira homogênea.
 Assim, chama-se a atenção para a necessidade de propor 
políticas urbanas, notadamente a habitacional, que considerem a 
diversidade urbano regional, fortemente marcada pela relação in-
trínseca entre os elementos naturais e sociais na produção do espaço 
urbano.
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
- 187 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
SUSTENTABILIDADE E EDUCAÇÃO 
AMBIENTAL NO PROSAMIM-AM
Barbara Gabriella Oliveira Chaves139
Débora Cristina Bandeira Rodrigues240
1. Introdução
As discussões em torno da questão socioambiental e da sus-
tentabilidade assumem posição de destaque, sobretudo, a partir da 
década de 1970 em âmbito mundial, principalmente no contexto das 
sociedades com vigência do modelo econômico de ordem capitalista, 
cuja lógica de produção se baseia na apropriação de recursos 
renováveis e não renováveis, bem como na utilização do trabalho 
humano para atender aos interesses de acumulação do capital para 
manutenção de tal sistema, cujo processo de consolidação tem 
conduzido para um cenário de crise socioambiental (LEFF, 2009).
Diante de tal crise, segundo Sachs (1986), emerge como 
pauta de discussão para o desenvolvimento socioeconômico, seus 
limites e possibilidades em relação às presentes e futuras gerações, 
nesse contexto o conceito de sustentabilidade é evidenciado mun-
dialmente, no intuito de pensar estratégias para um desenvolvimen-
to que vise à articulação entre as dimensões econômica, social e 
ambiental. Para o referido autor, o ambiente é uma dimensão do 
desenvolvimento e de fato deve receber especial atenção, articulado 
às demais quais sejam: econômica, social, cultural, territorial, am-
biental e política tanto nacional como internacional.
Entre as estratégias discutidas, sobretudo a partir da década 
de 1970, para responder as demandas da questão socioambiental, e 
efetivação da sustentabilidade, estão as chamadas políticas públi-
cas ambientais que são representadas pelo conjunto de legislações e 
ações voltadas para (re)pensar a relação homem-natureza.
1 Mestre em Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia. Assistente Social na Unidade de Pronto 
Atendimento José Rodrigues. E-mail: barbarachaves2014@gmail.com
2 Doutora na área de Gestão da Inovação em Biotecnologia, Professora Associada do Departamento de 
Serviço Social e do Programa de Pós-graduação em Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia da 
Universidade Federal do Amazonas. Pesquisadora do Grupo Inter-Ação/UFAM e do Núcleo de Estudos 
e Pesquisa sobre trabalho, saúde e Intersetorialidade (NETSI/PUCRS). E-mail: deb.band@gmail.com. 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Contudo para efetivação de tais políticas faz-se necessário 
conhecer os diferentes contextos, fomentando avanços e efetiva 
transformação da realidade, para tanto é preciso atentar para as es-
pecificidades de cada região, em seu processo de formação sócio-
-histórica, às quais apresentam características que lhe são inerentes, 
considerando os recursos e potencialidades locais para construção 
de uma nova proposta de desenvolvimento, pautada na justiça, equi-
dade, e efetivação dos direitos sociais, com equilíbrio e articulação 
entre os saberes (SACHS, 1986).
Na esteira desta discussão, é imprescindível considerar o de-
senvolvimento de diferentes estudos em diversas áreas do conheci-
mento, os quais objetivam pensar soluções para as problemáticas 
socioambientais identificadas. Dentre estas, destacam-se as abor-
dagens em torno do crescimento das cidades, sobretudo a partir 
do século XVIII com consolidação das indústrias nestes espaços, 
provocando impactos sociais e ambientais a partir do crescimento 
desordenado destes, resultante, sobretudo, do processo de migração 
das populações do campo para cidade, em busca de melhores con-
dições de vida. 
Não obstante a esta discussão, a fim de abordar tais proble-
máticas, o artigo reflete sobre a região amazônica, considerando seu 
espaço e suas especificidades, sem, contudo, desarticulá-la do con-
texto global, enfatizando a Política Nacional de Educação Ambien-
tal implementada nos Parques Residenciais do Programa Social e 
Ambiental dos Igarapés de Manaus (PROSAMIM), criada em 2003 
e operacionalizada em 2006, localizados na Bacia Hidrográfica do 
Educandos. Faz uma abordagem sobre a perspectiva de sustenta-
bilidade presente na Política Nacional de Educação Ambiental no 
PROSAMIM-AM, no processo de enfrentamento da questão socio-
ambiental na cidade de Manaus. 
Importa destacar que as reflexões que fundamentam o debate 
apresentado são oriundas da dissertação de mestrado Sustentabi-
lidade social e cultural da Política de Educação Ambiental: um 
estudo de caso no Programa Social e Ambiental dos Igarapés de 
Manaus-AM, apresentada ao PPGSS341/UFAM em 2018. O estudo 
contou com a participação de 44 informantes, sendo 40 informan-
3 Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia – PPGSS da Universi-
dade Federal do Amazonas/UFAM. 
- 189 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
tes de 08 parques residenciais localizados na Bacia Hidrográfica442 
de Educandos, e de 04 profissionais, da equipe do PROSAMIM 
responsáveis pela implementação da política pública de Educação 
Ambiental, sendo estes de áreas de formação diferenciadas.
Deste modo, o artigo traz uma breve discussão sobre a ques-
tão socioambiental e sustentabilidade, evidenciando a política pú-
blica de EA como primordial ferramenta política de transformação 
ambiental e social (LEONARDI, 2002; SILVA, 2008; LOUREI-
RO, 2012).
2. Sustentabilidade: marcos históricos e conceituais
A preocupação com a temática ambiental, conforme Sachs 
(2002) possui como uma de suas emergências a descoberta huma-
na de sua fragilidade sobre a terra, e o reconhecimento dos limites 
desta. Em um contexto marcado por tais preocupações de ordem 
ambiental em nível global e local, o conceito de sustentabilidade 
ganha notoriedade, sendo pauta de discussão em diversos eventos 
internacionais que visavam encontrar medidas para responder as 
problemáticas socioambientais apresentadas.
Contudo, importa salientar as diferentes perspectivas de sus-
tentabilidade, uma vez que esta não possui uma definição unânime, 
mas várias concepções que se entrecruzam. Na leitura de Caval-
canti (2002), “Sustentabilidade quer dizer o reconhecimento de 
limites biofísicos colocados, incontornavelmente, pela biosfera no 
processo econômico” (CAVALCANTI, 2002, p. 38), ou seja, exis-
tem limites, e estes exigem uma relação de respeito à finitude e 
capacidade de apropriação dos recursos naturais, para atender aos 
interesses da sociedade.
Para Leff (2009), a perspectiva de sustentabilidade deve es-
tar pautada na construção de uma nova racionalidade, que esteja 
baseada na observância dos potenciais ecológicos e nos aspectos 
culturais, em um processo de construção de uma nova concepção 
de civilização. 
Na leitura de Sachs (2002), é imprescindível, para efetivação 
do pressuposto da sustentabilidade o respeito à natureza, seus limi-
4 A área geográfica da Bacia do Educandos, no PROSAMIM, é composta por oito parques residenciais, os 
quais se constituíram locus dapesquisa: Parque Residencial Manaus, Parque Residencial Jefferson Peres, 
Parque Residencial Gilberto Mestrinho, Parque Residencial Mestre Chico I; Parque Residencial Cachoei-
rinha; Parque Residencial Cajual; Parque Residencial Liberdade e Parque Residencial Mestre Chico II 
(Equipe técnica do PROSAMIM/UGPE, 2017)
- 190 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
tes, possibilidades e diversidade, além do uso racional dos recursos 
naturais, levando em consideração o aproveitamento sustentável 
destes recursos, tendo em vista suas potencialidades, a partir das 
diferentes dimensões da sustentabilidade. Neste processo, faz-se 
necessário o desenvolvimento de trabalhos na ótica da interdiscipli-
naridade, buscando associação entre as ciências naturais, sociais e 
exatas, como fundamental para efetivação real da sustentabilidade.
De acordo com os autores citados, apesar de possuírem pers-
pectivas particulares sobre o conceito de sustentabilidade, compar-
tilham de que o termo está diretamente associado ao processo de 
se pensar um novo paradigma de desenvolvimento socioeconômico 
que leve em consideração os aspectos qualitativos das diferentes 
sociedades, considerando as questões socioeconômicas e culturais, 
não somente ambientais e ecológicas. 
Na esteira desta compreensão, Sachs (2002) afirma que a 
sustentabilidade deve, necessariamente, estar associada à noção de 
desenvolvimento, como inerente e indispensável a este, sendo fun-
damental para a própria condição de existência humana e sadia qua-
lidade de vida, levando-se em consideração todas as suas dimen-
sões quais sejam: social, cultural, ambiental, ecológica, territorial, 
econômica, política nacional e política internacional. Para reflexão 
proposta no artigo destacam-se quatro dimensões que podem ser 
visualizadas no quadro a seguir.
Quadro 01: Caracterização das dimensões da sustentabilidade
DIMENSÕES DA 
SUSTENTABILI-
DADE
CARACTERÍSTICAS
AMBIENTAL
Sobre a sustentabilidade ambiental, o autor destaca que esta 
se refere ao respeito à capacidade do meio ambiente em sua 
resiliência, inclusive no sentido de contribuir para que esta 
seja ressaltada. 
CULTURAL
Articulação entre os diversos saberes, valorização das mais 
diversas formas de conhecimento que contribuem para o al-
cance da sustentabilidade.
SOCIAL
Garantia de uma sociedade mais justa e igualitária, acesso 
aos direitos e deveres, bens e serviços necessários a qualida-
de de vida e a cidadania.
TERRITORIAL
Referente à sustentabilidade territorial, Sachs (2002) cita 
que sua relação é de levar em consideração os aspectos 
particulares de determinado território, identificando seus 
limites e possibilidades e também destacando suas poten-
cialidades.
Fonte: Sistematizado por Chaves a partir de Sachs (2002)
- 191 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
Vale ressaltar que a partir das concepções identificadas e dis-
cussões realizadas em diferentes espaços e fóruns em torno da sus-
tentabilidade, seja em âmbito internacional ou nacional, as políticas 
viabilizadas neste século XXI devem contemplar a perspectiva de 
sustentabilidade em seu escopo teórico-prático, a fim de assegurar 
os recursos naturais existentes e a vida do homem no planeta terra. 
Desse modo, as políticas públicas se constituem neste século 
XXI como ferramentas importantes, nas mais diferentes áreas de 
intervenção, principalmente do Estado, para garantir acesso a bens 
e serviços sociais, assegurando melhoria de qualidade de vida e 
consolidação da cidadania, com justiça e equidade social. Contudo, 
para efetivação deste pressuposto é urgente e necessário um repen-
sar da relação homem-natureza, o qual pode ser operacionalizado, 
não somente, mas principalmente por meio de políticas públicas 
de educação ambiental, as quais estão intimamente relacionadas ao 
debate da sustentabilidade em suas diferentes dimensões. 
3. Políticas públicas para sustentabilidade: educação am-
biental em foco
As propostas de desenvolvimento pautadas na sustentabili-
dade precisam de políticas públicas. Neste caso, tais políticas pre-
cisam, impreterivelmente, considerar em seu processo de planeja-
mento e implementação as particularidades locais, potencialidades, 
cultura, não deixando de articulá-las com o contexto global, tendo 
em vista a diversidade entre as sociedades e até mesmo entre regi-
ões de um mesmo país (SACHS, 1986; BELLIA, 1996).
Destaca-se dentre as políticas públicas para alcance da sus-
tentabilidade, a política pública de Educação Ambiental, que de 
acordo com Leonardi (2002), tem estado em pauta, conquistando 
espaço significativo nas abordagens de educadores, alunos e inte-
lectuais de áreas a fins. 
A história da Educação Ambiental data dos pressupostos de 
Rousseau no século XVIII, e mais adiante no século XX com Frei-
net, os quais proclamavam a eficácia do meio como estratégia de 
aprendizagem. Já na década de 1960, em 1968, na Europa, Grã-Bre-
tanha, surgiu o Conselho para Educação Ambiental, e demais países 
europeus, que a exemplo da França, começaram a integrar em suas 
- 192 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
propostas curriculares a Educação Ambiental (LEONARDI, 2002). 
Contudo, somente na década de 1970, devido às urgências relacio-
nadas à questão socioambiental em âmbito internacional é que o 
tema ganha evidência, e políticas públicas voltadas para educação 
ambiental começam a ser pensadas e operacionalizadas em vários 
países, no Brasil este processo só ocorre na década de 1990.
No que se refere à concepção de Educação Ambiental, de 
acordo com Leonardi (2002), não há um consenso. A autora afirma 
que há variedade de conceitos, os quais são inerentes à diversidade 
de intelectuais que a abordam, tendo em vista as diferentes pers-
pectivas teóricas e diferentes posicionamentos político-ideológicos. 
Na perspectiva apresentada por Leonardi (2002), a Educação 
Ambiental objetiva “contribuir com a conservação da biodiversida-
de” com vistas à melhoria da qualidade de vida a partir da autorrea-
lização comunitária e individual aliada a autogestão política e eco-
nômica. Para Guimarães (1995), a EA é entendida como formação 
de cidadania, reflete diretamente na relação do homem-natureza, 
possui objetivos bem definidos, porém sua operacionalização tem 
se mostrado desafiadora. 
Na ótica de Loureiro (2012), a EA não se trata meramente 
de um conceito que vem se popularizando, nem tampouco é basea-
da apenas no indivíduo, mas no coletivo, levando em consideração 
o contexto onde estes estão inseridos, a partir de uma correlação 
de saberes e não imposição de um saber sobre outro, com análise 
crítica da realidade, pretendendo uma transformação gradativa da 
realidade.
As concepções visibilizam as particularidades apresentadas 
sobre a educação ambiental, da complexidade conceitual do tema 
até sua aplicabilidade, ressaltando que a EA não diz respeito so-
mente à conservação do meio ambiente, mas visa refletir na quali-
dade de vida do conjunto da sociedade, bem como na transformação 
ética de uma consciência ecológica, emerge como alternativa a ser 
fortalecida pelas políticas públicas (LEONARDI, 2002).
No que concerne a legislações sobre EA, no contexto inter-
nacional tem-se o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades 
Sustentáveis e Responsabilidade Global de 1992. Dentre seus prin-
cípios destaca-se que a EA deve ser crítica e inovadora, com pers-
- 193 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
pectiva interdisciplinar e holística, relacionando homem-natureza-
-universo, valorizando as culturas e etnias, influenciando a criação 
de novos estilos de vida (LEONARDI, 2002). 
Resultante deste processo, no Brasil a Educação Ambiental 
tem respaldo legal a partir da criação da Lei Federal nº 9.795/1999, 
que dispõe sobre a Política Nacional de Educação Ambiental, a par-
tir da qual foi constituído pelo Ministério do Meio Ambiente, o 
Programa Nacional de Educação Ambiental o ProNEA, e de acordo 
com o disposto no Art. 1º da referidalei: 
Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos 
quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, 
conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas 
para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do 
povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.
Importante salientar que esta Política apresenta como prin-
cipais objetivos a serem alcançados: a) conservação do meio am-
biente; b) garantia de qualidade de vida; e c) alcance da sustentabi-
lidade. Sendo os principais responsáveis pela promoção da política, 
disposto em seu Art. 3º: Poder Público, instituições educativas, aos 
órgãos integrantes do Sistema Nacional do Meio Ambiente - SIS-
NAMA, aos meios de comunicação de massa, as empresas, entida-
des de classe, instituições públicas e privadas e por fim a sociedade 
como um todo.
No âmbito deste debate uma região que se destaca por sua 
relevância, no contexto mundial e nacional, é a Amazônia. Segun-
do Esterci (2002), a Amazônia tem sido um espaço privilegiado de 
discussões para a operacionalização de políticas ambientais com o 
imperativo de sustentabilidade, sobretudo por suas riquezas natu-
rais e socioculturais, onde cada vez mais os olhares se voltam para 
as comunidades locais. 
No que concerne à Política de Educação Ambiental no Ama-
zonas e na cidade de Manaus, a base legal para as ações desenvol-
vidas em sua localidade encontra-se na Lei Nacional nº 9.795/1999 
e a Lei Estadual 3.222/2008, bem como apresenta em sua Lei Or-
gânica Municipal – LOMAN, Art. 289, a respeito da promoção da 
educação ambiental como matéria extracurricular no âmbito esco-
- 194 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
lar, como um dos instrumentos legais da política de meio ambiente 
em sua abrangência territorial.
4. Educação ambiental no Programa Social e Ambiental 
dos Igarapés de Manaus/AM 
Com base nas discussões e perspectivas acerca da sustenta-
bilidade e política pública de educação ambiental, tem-se a opera-
cionalização da EA em um contexto específico do território brasi-
leiro, com base no Programa Social e Ambiental dos Igarapés de 
Manaus-PROSAMIM/BHE, operacionalizado na cidade Manaus, 
capital do Estado do Amazonas.
A proposta do PROSAMIM é baseada na Política de Reas-
sentamento disposta na Política Operacional - OP 710, apresentada 
pelo BID, desde a implantação do Programa em 2003 na cidade de 
Manaus, que dispõe acerca do Reassentamento Involuntário, com 
o objetivo de minimizar os impactos ambientais e sociais gerados 
pela necessidade de remoção de moradias e consequente desloca-
mento de seus moradores.
A fim de mitigar os limites socioambientais identificados nas 
áreas, o Programa desenvolve atividades, que vão desde a promo-
ção de interação social entre os moradores dos parques residenciais 
como também ações de saúde, e ainda ações de Educação ambiental 
e Sanitária, conforme o proposto pelo Plano de Trabalho Social e de 
Sustentabilidade Ambiental - PTSSA.
Em pesquisa de campo no Prosamim-AM, foram entrevista-
dos 40 moradores, distribuídos pelos nove parques residenciais que 
estão localizados na região da Bacia Hidrográfica do Educandos, e 
04 profissionais que atuam na execução da Educação Ambiental no 
referido local.
Um dos itens de destaque da pesquisa diz respeito às con-
dições de moradia anteriores ao PROSAMIM. As casas encontra-
vam-se localizadas nas áreas de entorno dos igarapés de Manaus, 
sem saneamento básico, áreas consideradas insalubres, e depois da 
inserção no PROSAMIM, bem como sua relação com as políticas 
de Educação Ambiental e Sustentabilidade viabilizadas no âmbito 
do Programa. 
Quanto às moradias, um dado relevante visibilizado pela 
pesquisa diz respeito ao desejo dos moradores de permanecerem 
- 195 -
SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
nos locais em que residiam, não manifestam vontade de mudança 
para áreas distantes, afirmam que gostariam que os igarapés fossem 
limpos e implementado sistema de saneamento básico. Importante 
destacar que na cultura amazônida, um elemento de destaque para 
as populações é a referência dos rios e lagos, grande parte desta 
população é oriunda do interior do Estado ou tem referências fami-
liares no interior da Amazônia, o que reflete na escolha da moradia 
próximos as áreas de igarapés, entre os povos da Amazônia pode-se 
falar do estabelecimento da “cultura das águas”. 
Importante destacar ausência dos serviços de coleta de resí-
duos e/ou lixo nestas áreas, de acordo com 55% dos informantes da 
pesquisa, já 45% informou que sim, havia coleta seletiva, conside-
rando que moravam próximo das ruas onde passava o carro coletor. 
Dos que informaram não possuir a coleta, afirmaram que costuma-
vam descartar os resíduos sólidos nas ruas onde passava o carro 
coletor, mas alguns relataram despejar os resíduos diretamente no 
igarapé, gerando poluição, danos ao meio ambiente e insalubridade. 
Neste caso, importa ressaltar que o descarte indevido de re-
síduos e/ou lixo em áreas inapropriadas nas cidades se constitui, no 
final do século XX e início do século XXI, como um dos principais 
desafios a serem solucionados pelo poder público e sociedade em 
geral. Importante frisar que estes descartes em locais inapropriados 
se constituem como um dos principais responsáveis pelo agrava-
mento das questões socioambientais, interferindo diretamente na 
qualidade de vida dos moradores dos grandes centros. 
Na nova localidade que residem, fazendo parte do Programa 
PROSAMIM, o serviço de coleta de lixo é realizado todos os dias, 
no entanto existem horários específicos e os mesmos são orientados 
a observar tais horários para fazer o descarte, com o intuito de evitar 
contaminação do meio ambiente, surgimento de animais e insetos 
nas lixeiras, porém de acordo com informantes nem todos os mora-
dores consideram tal orientação.
Os dados da pesquisa ratificam a necessidade de ações de 
EA, pautada na ótica da cidadania, as quais devem refletir direta-
mente na relação do homem-natureza-sociedade, atuando, de acor-
do Guimarães, (1995) e Loureiro (2012), na perspectiva do cole-
tivo, considerando o contexto em sua totalidade, correlacionando 
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SERVIÇO SOCIAL - trabalho e sustentabilidade
diferentes saberes, promovendo análise crítica a fim de transformar 
a realidade 
Importante destacar quanto à nova moradia, 85% consideram 
que a mudança para a nova habitação foi melhor para eles e suas 
famílias, dos que informaram que melhorou, um dos moradores res-
pondeu:
Com certeza, porque melhorou muito a minha vida, fiquei consi-
derada como gente né? eu era abandonada, eu e minha família, 
meus filhos e hoje em dia, hoje tenho posição (risos) eu estou 
muito feliz. (Beneficiário 01, Residencial Jerferson Peres).
A fala do beneficiário “fiquei considerada como gente né?” 
visibiliza, de certo modo, entendimento de não se sentir considera-
do como “gente” anteriormente, expressando sentimento de discri-
minação por morar em área próxima às margens do igarapé, com a 
mudança para uma nova residência afirma que se sente mais feliz. 
Os que informaram que não se sentem melhor na nova mo-
radia, relataram que só saíram de onde moravam porque foi neces-
sário, e optaram pelo apartamento apenas por ser em área central, e 
não quererem ir para bairros considerados por estes como distantes, 
os que afirmaram estar parcialmente satisfeitos, informaram que a 
localidade é melhor, porém o custo de vida aumentou consideravel-
mente. 
Entre os principais problemas enfrentados na nova localida-
de, de acordo com informantes, a falta de segurança foi a que mais 
se destacou, seguida da “falta de educação” dos vizinhos, tráfico de 
drogas, falta de limpeza pública, valor exacerbado da energia elé-
trica, falta de área de lazer, poluição sonora, demora do transporte 
coletivo, entupimento de esgoto e falta de privacidade.
Neste contexto, técnicos do Programa PROSAMIM têm de-
senvolvido ações de EA, visando a sustentabilidade, priorizando

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