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Os ajustes feitos minuto a minuto que mantêm a concentração da glicose sanguínea em cerca de 4,5 mM envolvem as ações combinadas da insulina, do glucagon, da adrenalina e do cortisol sobre os processos metabólicos em muitos tecidos corporais, sobretudo no fígado, no músculo e no tecido adiposo. ➢ A insulina sinaliza para esses tecidos que a glicose sanguínea está mais alta do que o necessário; como resultado, as células captam o excesso de glicose do sangue e o convertem em glicogênio e triacilgliceróis para armazenamento ➢ O glucagon sinaliza que a glicose sanguínea está muito baixa e os tecidos respondem, produzido glicose pela degradação do glicogênio, pela gliconeogênese (no fígado) e pela oxidação de gorduras para reduzir a necessidade da glicose ➢ A adrenalina é liberada no sangue para preparar os músculos, os pulmões e o coração para um grande aumento de atividade. ➢ O cortisol é responsável por mediar a resposta corporal a fatores de estresse de longa duração. Essas regulações hormonais serão discutidas no contexto de três estados metabólicos normais – alimentado, em jejum e em inanição – e serão vistas as consequências metabólicas do diabetes melito, doença que resulta de alterações nas vias de sinalização que controlam o metabolismo da glicose. A insulina é uma proteína pequena com duas cadeias polipeptídicas, A e B, unidas por duas ligações dissulfeto. Ela é sintetizada no pâncreas como um precursor inativo de uma só cadeia, a pré- pró-insulina, com uma “sequência sinalizadora” aminoterminal que direciona sua passagem para as vesículas secretoras. A remoção proteolítica da sequência-sinal e a formação de três ligações dissulfeto produzem pró-insulina, que é armazenada em grânulos secretores em células β-pancreáticas. Quando a glicose sanguínea estiver suficientemente elevada para desencadear a secreção da insulina, a pró-insulina é convertida em insulina ativa por proteases específicas, que hidrolisam duas ligações peptídicas e formam a molécula de insulina madura e o peptídeo C, que são liberados por exocitose no sangue. Todos os três fragmentos têm efeitos fisiológicos: a insulina estimula a captação de glicose e síntese de gordura, e o peptídeo C age por meio de receptores acoplados à proteína G (GPCR) em vários tecidos para mitigar os efeitos da redução da síntese de insulina, como a nevralgina que ocorre no diabetes. INSULINA OPÕE-SE A NÍVEIS ALTOS DE GLICOSE SANGUÍNEA Agindo por meio de receptores na membrana plasmática, a insulina estimula a captação da glicose pelos músculos e pelo tecido adiposo, onde a glicose é convertida em glicose-6-fosfato. No fígado, a insulina também ativa a glicogênio- sintase e inativa a glicogênio-fosforilase (degradação do glicogênio), de modo que grande parte da glicose-6-fosfato é canalizada para formar glicogênio. No fígado, a insulina ativa a oxidação da glicose- 6-fosfato em piruvato pela glicólise e a oxidação do piruvato em acetil-CoA. O excesso de acetil-CoA não necessário para a produção de energia é usado para síntese de ácidos graxos, e os ácidos graxos são exportados do fígado para o tecido adiposo na forma de TAG das lipoproteínas do plasma (VLDL). A insulina estimula a síntese de TAG nos adipócitos, a partir de ácidos graxos liberados dos TAG de VLDL. Os ácidos graxos são derivados do excesso de glicose captado do sangue pelo fígado. Em resumo, o efeito da insulina é favorecer a conversão do excesso de glicose sanguínea em duas formas de armazenamento: glicogênio (no fígado e no músculo) e triacilgliceróis (no tecido adiposo). PRÉ-PRÓ-INSULINA •remoção proteolitica da sequência sinal PRÓ-INSULINA •elevação da glicose INSULINA regulação hormonal do metabolismo GLICOSE E INSULINA Imediatamente após uma refeição rica em calorias, a glicose, os ácidos graxos e os aminoácidos entram no fígado. ➢ setas azuis seguem o caminho da glicose; ➢ setas cor de laranja seguem o caminho dos lipídeos. A insulina, liberada em resposta à alta concentração sanguínea de glicose, estimula a captação de glicose pelos tecidos. Parte da glicose é exportada para o cérebro para suas necessidades energéticas e parte para os tecidos adiposo e muscular. No fígado, o excesso de glicose é oxidado a acetil- CoA, a qual é usada para síntese de triacilgliceróis para exportação para o tecido adiposo e muscular. O NADPH necessário para a síntese de lipídeos é obtido pela oxidação da glicose na via das pentoses- fosfato. O excesso de aminoácidos é convertido em piruvato e acetil-CoA, também usados para a síntese de lipídeos. As gorduras da dieta deslocam-se do intestino na forma de quilomícrons, via sistema linfático, para o fígado, o músculo e o tecido adiposo. AS CÉLULAS BETA-PANCREÁTICAS SECRETAM INSULINA EM RESPOSTA A ALTERAÇÕES NA GLICOSE SANGUÍNEA Quando a glicose entra na corrente sanguínea a partir do intestino após uma refeição rica em carboidratos, a quantidade aumentada de glicose no sangue provoca um aumento na secreção de insulina (e uma redução na secreção do glucagon) pelo pâncreas. A liberação de insulina é regulada pelo nível de glicose sanguínea que irriga o pâncreas. Os hormônios peptídeos insulina, glucagon e somatostatina são produzidos por agrupamentos de células pancreáticas especializadas, as ilhotas de Langerhans. células α produzem glucagon; células β produzem insulina; células δ produzem somatostatina. Quando o nível sanguíneo de glicose é alto, o metabolismo ativo de glicose nas células β aumenta a [ATP] intracelular, fechando os canais de K+ na membrana plasmática e, assim, despolarizando-a. Em resposta a essa despolarização da membrana, os canais Ca2+ dependentes de voltagem abrem-se, permitindo o influxo de Ca2+ na célula. (O Ca2+ é também liberado do RE, em resposta à elevação inicial de [Ca2+] no citosol) A [Ca2+] citosólica é agora alta o suficiente para provocar a liberação de insulina por exocitose. Os processos numerados são discutidos a seguir: ❶: Quando a glicose sanguínea aumenta, os transportadores GLUT2 carregam a glicose para dentro das células β, onde ela é imediatamente convertida em glicose-6-fosfato pela glicocinase e entra na glicólise. ❷: Com a taxa de catabolismo da glicose mais alta, a [ATP] aumenta, causando o fechamento dos canais de K+ dependentes de ATP na membrana plasmática. ❸: O efluxo reduzido de K+ despolariza a membrana. ❹: A despolarização abre canais de Ca2+ dependentes de voltagem, ❺: E o aumento resultante na [CA2+] citosólica desencadeia a liberação da insulina por exocitose. O GLUCAGON OPÕE-SE A NÍVEIS BAIXOS DE GLICOSE SANGUÍNEA Várias horas após a ingestão de carboidratos, os níveis de glicose sanguínea diminuem levemente devido à oxidação da glicose pelo cérebro e por outros tecidos. A diminuição da glicose sanguínea desencadeia a secreção do glucagon e reduz a liberação da insulina. O glucagon causa um aumento na concentração sanguínea da glicose de várias maneiras: degradação de glicogênio (fígado) síntese de glicogênio (fígado): menos glicose armazenada como glicogênio. glicólise (fígado): menos glicose usada como combustível no fígado gliconeogênese (fígado) mobilização de ácidos graxos (tecido adiposo): menos glicose usada como combustível pelo fígado e pelo músculo. cetogênese: fornece alternativa à glicose como fonte de energia para o cérebro. Embora seu alvo principal seja o fígado, o glucagon (como a adrenalina) também afeta o tecido adiposo, ativando a degradação de TAG por causar fosforilação dependente de cAMP da perilipina e da lipase sensível a hormônio. As lipases ativadas liberam ácidos graxos livres, que são exportados como combustível para o fígadoe outros tecidos, poupando glicose para o cérebro. O efeito final do glucagon é, portanto, estimular a síntese e a liberação da glicose pelo fígado e mobilizar os ácidos graxos do tecido adiposo para serem usados no lugar da glicose por outros tecidos que não o cérebro. Todos esses efeitos do glucagon são mediados por fosforilação proteica dependente de cAMP. Após algumas horas sem alimento, o fígado torna-se a principal fonte de glicose para o cérebro. O glicogênio hepático é degradado e a glicose-1- fosfato produzida é convertida em glicose-6-fosfato e, em seguida, em glicose livre, que é liberada na corrente sanguínea. Os aminoácidos procedentes da degradação das proteínas no fígado e no músculo e o glicerol oriundo da degradação dos TAG no tecido adiposo são utilizados para a gliconeogênese. O fígado usa os ácidos graxos como seu combustível principal, e o excesso de acetil-CoA é convertido em corpos cetônicos exportados para outros tecidos; o cérebro é particularmente dependente desse combustível quando há deficiência de fornecimento de glicose. ➢ as setas azuis mostram a trajetória da glicose; ➢ as setas alaranjadas mostram a trajetória dos lipídeos; ➢ as setas roxas mostram a trajetória dos aminoácidos. O METABOLISMO É ALTERADO DURANTE O JEJUM E A INANIÇÃO PARA PROVER COMBUSTÍVEL PARA O CÉREBRO As reservas de combustível de um adulto humano saudável são de três tipos: ➢ glicogênio armazenado no fígado e, em menor quantidade, no músculo; ➢ grandes quantidades de triacilgliceróis no tecido adiposo; ➢ e proteínas teciduais que podem ser degradadas, quando necessário, para fornecer combustível. Duas horas após uma refeição, o nível de glicose sanguínea está levemente diminuído, e os tecidos recebem glicose liberada a partir do glicogênio hepático. Há pouca ou nenhuma síntese de triacilgliceróis. Quatro horas após a refeição, a glicose sanguínea está mais reduzida, a secreção de insulina diminuiu e a secreção de glucagon está aumentada. Esses sinais hormonais mobilizam os triacilgliceróis do tecido adiposo, que agora se tornam o principal combustível para o músculo e o fígado. ❶: Para fornecer glicose para o cérebro, o fígado degrada determinadas proteínas – aquelas mais dispensáveis em um organismo que não está se alimentando. ❷: Seus aminoácidos não essenciais são transaminados ou desaminados, e os grupos amina extras são convertidos em ureia, que é exportada pela corrente sanguínea para os rins e excretada na urina. ❸: No fígado e nos rins, os esqueletos carbonados dos aminoácidos glicogênicos são convertidos em piruvato ou intermediários do ciclo do ácido cítrico. Esses intermediários (assim como o glicerol dos TAG do tecido adiposo) fornecem os materiais de partida para a gliconeogênese no fígado. ❹: A gliconeogênese no fígado gera glicose para exportar para o cérebro. ❺: Os ácidos graxos liberados do tecido adiposo são oxidados a acetil-CoA no fígado. ❻: Mas, como o oxalacetato está esgotado pelo uso de intermediários do ciclo do ácido cítrico na gliconeogênese, a entrada da acetil-CoA no ciclo é inibida e ela se acumula. ❼: Isso favorece a formação de acetoacetil-CoA e corpos cetônicos. ❽: Após alguns dias de jejum, os níveis de corpos cetônicos no sangue aumentam, à medida que são exportados do fígado para o coração, músculo esquelético e cérebro, os quais utilizam esses combustíveis em vez da glicose. ❾: O excesso de corpos cetônicos vai para a urina. Os triacilgliceróis armazenados no tecido adiposo de um adulto com peso normal podem fornecer combustível suficiente para manter uma taxa metabólica basal por cerca de três meses; um adulto muito obeso tem combustível armazenado suficiente para suportar um jejum de mais de um ano. Quando acabam as reservas de gordura, começa a degradação de proteínas essenciais; isso leva à perda das funções cardíaca e hepática, e, na inanição prolongada, à morte. Diabetes melito é uma doença relativamente comum. Existem duas classes clínicas principais da doença: ➢ diabetes tipo 1, às vezes denominado diabetes melito insulina-dependente (DMID), ➢ diabetes tipo 2, ou diabetes melito não insulina- dependente (DMNID), também chamado de diabetes resistente à insulina. DIABETES TIPO 1 O diabetes tipo 1 começa cedo na vida e os sintomas rapidamente se tornam graves. Essa doença responde à injeção de insulina, visto que o defeito metabólico se origina da destruição autoimune das células β-pancreáticas e de uma consequente incapacidade de produzir insulina em quantidade suficiente. O diabetes tipo 1 requer insulinoterapia e controle cuidadoso, por toda a vida, do equilíbrio entre a ingestão dietética e a dose de insulina. Os sintomas característicos do diabetes tipo 1 (e tipo 2) são: sede excessiva; poliúria; polidipsia; glicosúria. DIABETES TIPO 2 O diabetes tipo 2 desenvolve-se lentamente (em geral em pessoas mais velhas e obesas) e os sintomas são mais brandos e, com frequência, não reconhecidos no início. Este é, na verdade, um grupo de doenças nas quais a atividade reguladora da insulina está perturbada: a insulina é produzida, porém alguns aspectos do sistema de resposta ao hormônio estão defeituosos. As pessoas com essa enfermidade são resistentes à insulina. EXAMES BIOQUÍMICOS As medidas bioquímicas de amostras de sangue ou de urina são essenciais no diagnóstico e no tratamento do diabetes. O teste de tolerância à glicose constitui um critério diagnóstico sensível. A pessoa faz jejum por 12 horas, depois bebe uma dose-teste de 100 g de glicose dissolvida em um copo de água. A concentração sanguínea da glicose é medida antes do teste e por várias horas em intervalos de 30 minutos. ➢ Uma pessoa saudável assimila a glicose rapidamente, e o aumento no sangue não é maior do que 9 a 10 mM; pouca ou nenhuma glicose aparece na urina. ➢ No diabetes, a pessoa assimila muito pouco da dose-teste de glicose; o nível do açúcar no sangue aumenta drasticamente e retorna muito lentamente ao nível do jejum. Uma vez que os níveis sanguíneos de glicose excedem o limiar do rim (cerca de 10 mM), ela aparece também na urina.