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1 
 
THYMELI ESCOLA DE TEATRO, MÚSICA E DANÇA 
 
 
 
 
 
 
 
ANÁLISE DA OBRA “ÓPERA DO MALANDRO” DE CHICO 
BUARQUE 
 
 
 
 
 
 
 
Adailton dos Santos Junior 
5N 
Curso Técnico em Teatro Musical 
Professora Mestre Fernanda Camargo 
 
 
Março de 2020 
2 
 
SUMÁRIO 
 
1. INTRODUÇÃO ...................................................................................... 3 
2. A ÓPERA DO MALANDRO ................................................................. 4 
2.1. CONTEXTO HISTÓRICO .................................................. 4 
2.2. TEMÁTICAS ABORDADAS .............................................. 5 
2.3. ANÁLISE DAS MÚSICAS ................................................. 6 
2.3.1. O MALANDRO ............................................................. 7 
2.3.2. CASAMENTO DOS PEQUENOS BURGUESES ........ 7 
2.3.3. HOMENAGEM AO MALANDRO ............................... 7 
2.3.4. FOLHETIM .................................................................. 8 
2.3.5. GENI E O ZEPELIM .................................................... 8 
2.3.6. PEDAÇO DE MIM ....................................................... 9 
2.4. AS ÓPERAS DE GAY, BRECHT E BUARQUE .......... 10 
3. CONCLUSÃO: O MALANDRO DE Nº2 ............................................. 12 
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................. 13 
 
 
3 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
Chico Buarque é um dos maiores compositores e letristas da música popular 
brasileira. Compositor de grandes músicas como “Cálice”, “Roda Viva”, “A Banda”, 
entre outras, Chico se consagrou ao longo da história, não só como um grande artista, 
mas como um cidadão com um posicionamento bastante forte, contra pensamentos 
de direita e governos totalitários, como a ditadura militar, época essa que ele viveu. 
Devido seu forte posicionamento contra o governo militar, suas músicas, cheias 
de críticas políticas, são embebidas de lirismo para que essas pudessem passar pela 
censura que assolava a arte na época. Músicas como “Cálice”, “Geni e o Zepelim”, 
“Roda Viva”, “Malandro n°2”, entre outras, são grandes exemplos da genialidade do 
artista. O que muitos não sabem é que algumas das músicas do artista são originárias 
de uma peça teatral composta por Chico Buarque chamada Ópera do Malandro. 
Escrita em 1978, a peça teve suas letras de música, melodias, paródias, 
adaptações feitas e texto dramatúrgico feitas por Chico com colaborações de uma 
equipe liderada por Luís Antônio Martinez Correa. A peça se baseia em outros dois 
textos: Ópera dos Mendigos de 1728 do dramaturgo John Gay e Ópera dos Três 
Vinténs de 1928 do dramaturgo Bertold Brecht em parceria com o músico Kurt Weill. 
Na peça de Chico, a história é atualizada para o cenário político-social do Rio de 
Janeiro de 1940, no final do Estado Novo. 
A história acompanha Max Overseas, um malandro contrabandista que se casa 
às escondidas com a jovem Teresinha Fernandes de Duran, filha do comerciante e 
dono de prostíbulos Fernandes de Duran e sua esposa Vitória Régia. Ao descobrir do 
casamento da filha, Duran e Vitória começam a tramar o assassinato de Max, 
colocando o chefe da polícia, Inspetor Chaves para cumprir a missão. O que eles não 
esperavam é que Chaves e Max são amigos de infância e o inspetor não iria vender 
essa amizade facilmente. 
O seguinte trabalho tem como objetivo analisar o contexto histórico da obra, 
algumas de suas temáticas, suas músicas e simbolismos e a influência dos textos de 
Gay e Brecht, mostrando como uma peça dos anos 70 que se passa nos anos 40, 
muito tem a dizer sobre o cenário político-social brasileiro de 2020. 
4 
 
2. A ÓPERA DO MALANDRO 
2.1. CONTEXTO HISTÓRICO 
 
Quando a peça foi estreada em 1978, o Brasil ainda vivia, já entrando no final, 
a ditadura militar. Iniciada em 1964, a ditadura foi um momento nebuloso do cenário 
político do Brasil. O antigo presidente João Goulart (Jango), sofreu um golpe militar 
em 64 por ser considerado comunista e uma grande ameaça para o Brasil e seu 
aliado, Estados Unidos. 
Assim o Brasil entrou em uma grande era de trevas, onde o congresso foi 
fechado atos contra os direitos do povo foram instituídos, militares assumiram o poder 
e um grande movimento de censura se iniciou no país como forma de controlar a 
opinião pública sobre o governo. 
Como forma de protestar, diversos artistas como Caetano Veloso, Taiguara, 
Gilberto Gil e até mesmo Chico Buarque, usavam do lirismo para esconder críticas 
sobre o governo em suas músicas. “Como Nossos Pais” de Belchior, “Que as Crianças 
Cantem Livres” de Taiguara e “É Proibido Proibir” de Caetano Veloso, são exemplos 
de músicas que passaram pela censura e conseguiram cumprir seus papéis de 
informantes sobre a política. 
Quando essas críticas eram descobertas, para os artistas famosos, o exílio era 
uma opção: as pessoas eram “convidadas” a se retirarem do país. Já as pessoas não 
conhecidas como militantes, integrantes de grupos reacionários como a ALN (Ação 
Libertadora Nacional), eram presas e muitas vezes levadas a tortura física e 
psicológica levando a mortes e desaparecimentos, como o caso do jornalista Vladimir 
Herzog que foi assassinado em uma das instalações do governo (DOPS) onde eram 
feitas as torturas. 
Um fato importante é que os militantes revolucionários que lutavam contra o 
governo eram pertencentes a uma elite intelectual da época que frequentava 
faculdades, tinha acesso a notícias verídicas e a bibliografias. O proletariado, 
manipulado pelas mídias da época, estava sendo controlado pelo regime. Militantes 
eram tidos como terroristas e tinham suas mortes anunciadas nos jornais e 
comemoradas pela grande massa. 
5 
 
Dessa elite intelectual, artistas e músicos se faziam presentes usando sua arte 
como forma de protesto. Chico Buarque estava entre esse grupo, compondo e 
escrevendo grandes peças com críticas ao governo como Calabar-Um elogio a traição 
(que foi fortemente censurada), Roda Viva, Gota d’água e Ópera do Malandro. 
2.2. TEMÁTICAS ABORDADAS 
 
A obra mais musicada de Chico Buarque explora diversas temáticas. Com um 
clima bastante cotidiano, Ópera do Malandro traça assuntos desde sexualidade ao 
processo de globalização, sendo assim, uma obra rica de assuntos podendo-se tecer 
diversos debates sobre. 
Algo bastante evidente na obra é o fim de uma era e início de outra, no caso, o 
início do processo de globalização. A personagem Teresinha é a maior evidente desse 
tema ao ver em seu marido, Max Overseas, a possibilidade de ascensão de sua 
empresa de contrabandos. Em muitos momentos, o processo de globalização é 
colocado em voga, como na cena onde Teresinha tenta ensinar aos malandros um 
pouco de língua inglesa. Tendo em vista a ascensão dos Estados Unidos pós primeira 
guerra, a necessidade do conhecimento sobre o inglês se faz necessária. Mas pra 
frente, os malandros são demitidos pela nova chefe por não dominarem o idioma. 
A própria fala de Teresinha, momentos antes de seu marido morrer pelas mãos 
de seu amigo Chaves, nos trás o ideal da globalização e do capitalismo, mostrando a 
decadência da Lapa e o início da industrialização do país, que dava adeus aos velhos 
costumes da cultura brasileira para dar espaço à cultura americana. 
 
TERESINHA – [...]Ninguém aguenta mais esse clima, 
esse sufoco! Tá todo mundo precisando duma coisa 
nova, mais aberta, mais limpa e arejada. Tá na cara 
que tem que mudar tudo e já! Tem que abrir avenidas 
largas, tem que levantar muitos arranha-céus, tem que 
inventar anúncios luminosos, e a MAXTERTEX faz 
parte do grande projeto. Você devia se orgulhar, Max, 
porque nisso tudo tem um pedaço do teu nome e um 
pouquinho do teu espírito. (HOLANDA, p. 128, 1978). 
 
Outro tema ligado ao processo de industrializaçãocolocado na peça é a 
exploração do trabalho e desigualdade de classes imposta tanto por Duran com suas 
6 
 
prostitutas quanto por Max e seus capangas. Em diversas cenas essa relação de 
trabalho é colocada em discussão, como no final do primeiro ato, quando as prostitutas 
terão que trabalhar para pagar os prejuízos que houve em um dos bordéis. Na cena 
inicial, onde Duran negocia com a jovem Fichinha para inclui-la como uma de suas 
funcionárias, a cena traz a relação de trabalho de uma forma muito forte, além da 
questão do êxodo rural e da migração de nordestinos para o sudeste. 
A questão do trabalho é trazida com mais fervor na cena após a prisão de Max 
onde há o encontro dos capangas com as prostitutas e os dois discutem suas relações 
de trabalho e o que fariam se estivessem na posição de seus superiores na música 
“Se Eu Fosse Teu Patrão”. 
Algo interessante, ainda sobre essa luta de classes, é que, ao analisar o 
comportamento dos personagens, pode-se ver que todos são malandros, cada um de 
sua forma. A peça não coloca seus personagens como heróis ou vilões, mas como 
seres sob o controle do capitalismo. Os malandros da ópera de Chico compõem 
sambas, aplicam golpes, roubam, se entregam à prostituição. Contrabandistas, 
gigolôs, agiotas, prostitutas, policial, cafetão, pais interesseiros e filha desajuizada: 
todos se voltam para o dinheiro, onde têm duas escolhas: lutar pra sobreviver ou lutar 
para acumular, sem tempo para lembrar da ética. 
Outras temáticas, que eram tabus para a época, foram levantadas na peça, 
como a prostituição, casamento, homossexualidade. Vejamos essas temáticas sendo 
abordadas nas canções da peça no próximo tópico. 
2.3. ANÁLISE DAS MÚSICAS 
 
Como supracitado, durante o regime militar, Chico Buarque teve que usar 
símbolos e figuras líricas para expressar suas críticas contra os governos autoritários. 
Cálice é sua composição mais famosa, uma música cheia de figuras e lirismo para 
compor uma das maiores críticas a ditadura militar. 
Na peça em questão, não é diferente. Chico usa bastante da poética para trazer 
as questões de cada um dos personagens. Analisemos, então, as músicas “O 
malandro”, “O Casamento dos Pequenos Burgueses”, “Homenagem ao malandro”, 
“Folhetim”, “Geni e o zepelim”, e “Pedaço de mim”. 
7 
 
2.3.1. O MALANDRO 
 
A música de abertura, “O Malandro”, é um samba de breque baseado na música 
da Ópera dos Três Vinténs de Brecht, “Die Moritat Von Mackie Messer”. A música 
parodiada descreve o ciclo de corrupção no Brasil, estabelecendo uma ordem 
progressiva, onde os indivíduos vão desde o malandro mais simples aos norte-
americanos e empresários. 
A peça abre com essa música nos mostrando o quanto a malandragem é um 
ciclo vicioso, praticado em todas as camadas sociais. A habilidade da malandragem 
foi se aperfeiçoando na forma de pequenos golpes e com o passar do tempo, foram 
sendo praticados tanto pelos reconhecidamente marginais como o malandro, o 
garçom, o distribuidor; quanto pelos institucionalizados o galego, o usineiro, os 
ianques (norte-americanos). Aqui, o malandro é aquele que se coloca num contexto 
de malandragem sabotando os outros independentemente de sua postura individual. 
É o inserido no sistema, em diferentes classes e posições sociais. (THOMAZ, p. 57, 
2016). 
2.3.2. O CASAMENTO DOS PEQUENOS 
BURGUESES 
 
Em uma época onde o casamento era algo bastante sagrado e extremamente 
patriarcal (é até os dias de hoje), a música “Casamento dos Pequenos Burgueses” 
mostra um inverso da época: uma forma de dessacralização do casamento onde 
Teresinha se mostra uma mulher imponente, controladora do próprio destino, 
passando em cima das decisões dos pais e de seu marido. 
2.3.3. HOMENAGEM AO MALANDRO 
 
Reforçando a ideia já mencionada sobre fim de um tempo e o início de outro, 
no caso, a globalização, a música “Homenagem Ao Malandro”, que abre o segundo 
ato, nos reforça mais ainda esse assunto. A letra nos diz sobre uma malandragem 
totalmente influenciada pelo sistema, coerente com os novos tempos e presente na 
esfera pública. A antiga malandragem (representada por Max) dá espaço para uma 
8 
 
malandragem institucionalizada (representada por Teresinha que faz a empresa dever 
aos bancos, mantem relações com banqueiros e acredita que ser pessoa jurídica é o 
melhor a se fazer). Esse novo malandro se torna mais perigoso pois agora está sob a 
proteção do Estado e de seus aliados. 
2.3.4. FOLHETIM 
 
 Uma das músicas mais bonitas, eternizada na voz de Gal Costa, “Folhetim”, é 
cantada pela prostituta Fichinha após passar por uma transformação e trabalhar para 
Duran. A música fala sobre a relação de uma noite de uma prostituta e como seus 
clientes são apenas mais um entre vários, porém, a música pode esconder uma 
temática diferenciada, falando sobre o controle midiático e censura exercido pelo 
regime militar da época. 
Além da metáfora do nome da música que se refere a uma narrativa em prosa 
publicada em um jornal, ao trocarmos algumas palavras, podemos notar a dualidade 
da canção. Nos primeiros versos, ao trocar a palavra “mulheres” por jornalistas, a 
canção nos leva a outro rumo. 
 
Tanto por meio de tortura – “uma noitada boa” – quanto 
por corrupção – “se tiveres renda / aceito uma prenda / 
qualquer coisa assim”. Dos governantes fará as vontades, 
pois dirá ao povo “meias verdades”, “sempre à meia-luz”, 
ou seja, aos olhos da repressão. Tais publicações 
tornariam os governantes vaidosos, porque estes 
suporiam ser os mais importantes a deter o controle da 
mídia. E a música termina como um enfrentamento, pela 
esperança de que “na manhã seguinte” a ditadura seja 
“página virada / descartada” do (seu) folhetim. (THOMAZ, 
p. 58, 2016). 
 
2.3.5. GENI E O ZEPELIM 
 
A Ópera do Malandro tem diversas músicas que ficaram eternamente 
consagradas, como “Folhetim”, “Pedaço de Mim”, entre outras. Mas nenhuma chegou 
ao estouro que foi “Geni e o Zepelim”. Quando lançada, a música tocava diversas 
vezes na rádio e o seu refrão, que parece que gruda na cabeça, era entoado pelas 
pessoas na rua em festa. A música, cantada pelo homossexual Genival, narra a 
9 
 
história de uma cidade que, ao se ver ameaçada de um perigo fatal, implora pela ajuda 
de uma prostituta, uma qualquer, que era constantemente humilhada pelos cidadãos. 
Essa música tem diversas análises possíveis, podendo trazer debates sobre 
homofobia, hipocrisia, preconceitos; porém, uma das visões possíveis, é que essa 
música pode narrar a manipulação do eleitor brasileiro pelas classes elitizadas. 
A personagem Geni da canção representaria o eleitor pobre brasileiro, por ela 
não representar o burguês, já que está sempre ao lado do “nego torto”, “dos cegos”, 
“dos retirantes”, “de quem não tem mais nada”. Os mais ricos, representados pelos 
cidadãos da cidade, tentam manipula-la para que Geni siga os desejos da elite em 
questão: “vai com ele, vai Geni / você pode nos salvar [potencial do voto] / você vai 
nos redimir [esperança de que o voto transforme o país] / você dá pra qualquer um 
[ou vota em qualquer um] / bendita Geni”. 
Por pertencer a população sem informação, Geni aceita as ordens de uma 
classe diferente da sua, acreditando que sua atitude ajudará a modificar a situação. 
Após os insistentes pedidos (as campanhas políticas), a população mais humilde 
domina seu asco, elegendo quem favoreça a classe dominante que também é 
manipulada pelo governo para poder conseguir o que quer. Depois de eleito, o 
candidato das campanhas a favor do povo desaparece, fazendo com que a classe 
baixa volte a sofrer com as pedras jogadas pela elite. 
2.3.6. PEDAÇO DE MIM 
 
“Pedaço de Mim”, a última música do casal Max e Teresinha, é cantada 
momentos antes da execução de Max, onde o malandro se encontra atrás das grades 
e Teresinha do lado de fora. A letra apresenta um o canto de dor de uma amante 
separada de seu par. De forma implícita, amúsica nos traz uma fala sobre a anistia 
aos presos políticos, vítimas do autoritarismo do regime militar, e no lugar de 
Teresinha, temos uma pátria que chora ao ver seu filho exilado. 
Sempre sendo repetida, a expressão “pedaço de mim” acaba aprofundando a 
questão de uma continuidade que acabou se perdendo, devido ao exílio que foi 
forçado. A nação perde o indivíduo e sua ausência é capaz de dividir o outro, 
desfazendo a identidade. Essa divisão conduz as citações dos “pedaços”, “metades” 
ao sentimento de saudade, causado pela dor da separação de sua terra natal. Os 
10 
 
verbos no particípio presentes em cada estrofe (“afastada”, “exilada”, “arrancada” e 
“amputada”), ajudam a enfatizar o sentimento brusco do exílio. 
2.4. AS ÓPERAS DE GAY, BRECHT E BUARQUE 
 
As temáticas abordadas por Chico em sua peça já foram abordadas diversas 
vezes por outros dramaturgos. Para a escrita de sua peça, chico se espelhou em duas 
obras de dois dramaturgos: A Ópera dos Mendigos de John Gay e A Ópera dos Três 
Vinténs de Bertold Brecht. 
Para que possamos entender a intertextualidade presente nas obras, 
entendamos suas narrativas e como estavam extremamente relacionadas ao seu 
momento histórico. 
John Gay, dramaturgo londrino, escreveu A Ópera dos Mendigos como uma 
forma de sátira para os policiais e políticos da Londres do séc. XVIII. Na história, 
Peachum é o personagem principal, um agenciador de mendigos que ajuda as 
pessoas a explorar a compaixão alheia. Para realizar isso, Peachum oferece 
acessórios que auxiliam que alguém possa ter uma aparência mais moribunda, digna 
de pena. Logo conhecemos MacHeath, chefe de um bando de ladrões que se casa 
com Polly, filha de Peachum e com Lucy, filha de Lockit, um carcereiro. Ao saber do 
casamento da filha com um contraventor, Peachum ameaça destruir a carreira de 
Lockit se ele não prender MacHeath. Ao fim da peça, MacHeath é salvo da morte pois 
a rainha não queria, no dia de sua coroação, nenhuma execução. Após isso, todos 
são perdoados de seus crimes e a peça acaba com uma grande comemoração. 
Com essa breve sinopse, pode-se ver que há uma temática única presente em 
nas três dramaturgias: a corrupção das instituições do estado e nas diversas camadas 
sociais. As peças mostram a podridão humana e como todos nós praticamos atos 
corruptos. Sendo assim, se torna impossível demarcar quais são os limites do crime 
e da lei e de apontar quem são os verdadeiros culpados, que estão entre marginais e 
detentores do poder. (OLIVEIRA, p. 24, 1999). 
Bebendo da fonte de John Gay, em 1928, Brecht cria a Ópera dos Três Vinténs, 
mantendo o enredo e personagens sem alteração. Aqui, Peachum também é um 
agenciador de mendigos e sua filha, Polly, casa-se com MacHeath, chefe de um bando 
11 
 
de ladrões de rua. Peachum e MacHeath são ambos amigos de Brown, o Tigre, que 
é chefe da polícia. No final, um porta-voz da rainha aparece e manda perdoar todos 
os crimes. 
Mesmo com a grande semelhança, a Ópera de Brecht tem suas 
particularidades, principalmente na linguagem desse novo teatro e na sua intenção, já 
que o teatro proposto pelo dramaturgo tem uma atividade totalmente politizadora, 
épica e apela para a razão do espectador e sua capacidade de transformação. 
As características das duas óperas apresentadas aqui são retomadas por 
Buarque. Desde o enredo até mesmo a melodia das músicas, muito foi bebido para 
que a Ópera do Malandro pudesse ser construída onde a crítica social é usada por 
meio de uma obra dramatúrgica. Desde o nome que coloca a palavra ópera, que tem 
uma conotação erudita, de riqueza e tradição, com a palavra malandro, que é 
relacionada ao indivíduo pobre, das favelas e que não trabalha. 
E essa é a grande abordagem dos três textos: tanto a ópera de Gay, quanto a 
de Brecht e Buarque trazem nos seus títulos, em diferentes contextos históricos, a 
mistura dos elementos relacionados a pobreza e miséria com uma palavra de 
etimologia culta e elitizada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
12 
 
3. CONCLUSÃO: O MALANDRO DE Nº2 
 
Escrita em 1978, a Ópera do Malandro de Chico Buarque pode ser considerada 
uma das maiores obras teatrais brasileiras. Com diversas críticas presentes, o 
compositor nos entrega uma comédia musical cotidiana trazendo personagens 
marginalizados e uma temática quase que atemporal: o ser humano malandro e 
corrupto. 
Esse tema, já abordado antes por John Gay em Ópera do Mendigo e por Bertold 
Brecht em Ópera dos Três Vinténs, se mostra bastante recorrente. Seja um Duran, 
um Max ou um Chaves, todos conhecemos um malandro ou até mesmo somos um, 
em diversas áreas da vida. Um texto atemporal, Ópera do Malandro poderia muito 
bem se passar nos dias de hoje, onde muitos querem ver os tais “bandidos” mortos 
enquanto os próprios são piores do que os que acusam. 
Com suas músicas eternizadas na boca do povo brasileiro, Chico Buarque 
conseguiu beber de duas obras bastante semelhantes e criar um texto autêntico com 
a raiz do povo brasileiro, seu cotidianíssimo, seus trejeitos, seus preconceitos e, é 
claro, sua corrupção, escancarando no rosto do espectador os parasitas que todos 
somos. 
O que distingue os malandros de gravata e capital dos malandros da antiga 
Lapa, são seus destinos: Enquanto o malandros protegidos pelo estado e poder 
público se mantém atrás de suas mesas de escritório como Duran, o empresário, os 
malandros da antiga Lapa, como Max, acabam mortos por armas de fogo e pelas 
mãos de engravatados. 
Então vemos o quanto a Ópera do Malandro se torna um texto real, com os 
abusos no trabalho, o homossexual apedrejado, os novos malandros comandando a 
nação e os malandros de rua, negros, periféricos, mortos a tiros pelos capitães da 
polícia, como diz a música do epílogo do epílogo, “Malandro nº2”. 
O seu rosto/Tem mais mosca Que a birosca/Do Mane O 
malandro/É um presunto De pé junto/E com chulé O 
coitado/Foi encontrado Mais furado/Que Jesus E do 
estranho/Abdômen Desse homem/Jorra pus. (BUARQUE, 
p.147, 1978). 
 
13 
 
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
OLIVEIRA, Solange Ribeiro. De Mendigos e Malandros: Chico Buarque, Bertold 
Brecht e John Gay: Uma leitura transcultural. UFOP, Ouro Preto, 1999. 
 
THOMAZ, Anderson Luis; SOUZA, Maurini de; LIMA, Marcelo Fernando de. 
Categorias sociais da Ópera do malandro. Aletra, v. 26, Belo Horizonte, 2016 
 
HOLLANDA, Chico Buarque de. Ópera do Malandro. Rio de Janeiro, 1978. 
 
Wanderley, Cremilda da Silva Aguiar. O Conteúdo Político na Dramaturgia de 
Chico Buarque: “Calabar”, “Gota D’água”, “Os Saltimbancos” e “Ópera do 
Malandro”. Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2008. 
 
SANTOS, Tiago Xavier dos. A Ópera Do Malandro Como Documento Histórico 
Para Análise Do Conceito De Malandragem De Chico Buarque. Tese (Dissertação 
de Mestrado), Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2010. 
 
JUNIOR, Gilberto Rateke. Artes, Manhas E Artimanhas Do Malandro Na Literatura 
Dramática Brasileira (Astúcia, Sedução & Criminalidade Em O Noviço E Ópera 
Do Malandro). Tese (Dissertação de Mestrado), Universidade Federal de Santa 
Catarina, Santa Catarina, 2006. 
 
MOSCARDO, Gleiciele Mendes Viana. A "Ópera do Malandro" de Chico Buarque 
de Hollanda: uma metáfora do cenário brasileiro na década de 1970. Tese 
(Dissertação de Mestrado), Universidade Federal de Goiás, Goiás, 2012.

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