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1 APS ADVOCACIA PREVENTIVA AO CONTENCIOSO TRABALHISTA MICHELE OLIVEIRA CARDOSO | RA 8299146 | TURMA 3109A04 Apresente parecer circunstanciado e fundamentado sobre a correção ou não das condutas estabelecidas pela empresa com aval do Departamento de Recursos Humanos. A empresa Bitcoin Serviços de Informática Ltda contrata seu escritório de advocacia objetivando efetivar o levantamento jurídico trabalhista das pendências que envolvem a empresa considerando a recente reforma da legislação trabalhista. A empresa possui quadro de empregados diretos além de contar com quadro fixo de 80 trabalhadores autônomos, e 20 estagiários assim distribuídos: um diretor, um gerente, quatro assistentes e quatro auxiliares da área administrativa; um diretor, oito supervisores (sendo que um deles exerce as atribuições de gerência), vinte e oito vendedores; 80 representantes comerciais autônomos e dos 20 estagiários, todos subordinados a diretoria comercial. Em levantamento in loco preliminar que restou apresentado a diretoria da empresa foram eleitas as seguintes questões: (i) A empresa não possui qualquer planejamento relacionado a medicina e segurança do trabalho, pois, segundo orientação do Departamento de Recursos Humanos não há risco na atividade desenvolvida. Em síntese, levando em consideração a atividade da empresa, isto é, a prestação de serviços de informática, não há que se falar em risco evidente na atividade desenvolvida. Destarte, em atenção as disposições gerais da segurança e da medicina do trabalho elencadas nos artigos 154 e seguintes da Consolidação da Leis do Trabalho, bem como as disposições complementares ao Capítulo V da Legislação Trabalhista instituídas pelas Normas Regulamentadores (NR), não existem obrigações, diretos ou deveres infrigidos pelo empregador ou trabalhadores que deixem de resguardar o desempenho do labor de modo seguro e sadio, precavendo a ocorrência de doenças e acidentes de trabalho. Ainda assim, mister salientar e fixar que deve o empregador, bem como o empregado, 2 atentar-se as normas abaixo elencadas, a fim do bom garantismo das disposições gerais da segurança e medicina do trabalho: CLT, art. 157. Cabe às empresas: i. Cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho; ii. Instruir os empregados, através de ordens de serviço, quanto às precauções a tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais; iii. Adotar as medidas que lhes sejam determinadas pelo órgão regional competente; iv. Facilitar o exercício da fiscalização pela autoridade competente. CLT, art. 158. Cabe aos empregados: i. Observar as normas de segurança e medicina do trabalho, inclusive as instruções de que trata o item II do artigo anterior; ii. Colaborar com a empresa na aplicação dos dispositivos deste Capítulo. (ii) A empresa é ré em várias ações objetivando indenizações que apresentam como causa de pedir fática o tratamento vexatório diuturno a que são submetidos os vendedores e representantes comerciais que não alcançam o patamar de metas estabelecidos pelo supervisor que exerce as atribuições de gerência na área comercial, sendo que o Departamento de Recursos Humanos, ao analisar os casos informou a diretoria da empresa que a atitude do supervisor em presentear os vendedores com menor patamar de vendas com uma camiseta com a inscrição “Sou o Lanterninha do Mês”, não é ofensivo e que todos os vendedores melhoram sua produção nos meses seguintes. Afigura-se responsabilidade ao empregador a prática de evidenciar os piores vendedores em captação de clientes e na venda de produtos. De modo consequente, o que se percebe desta ação é que o tratamento é discriminatório, vexatório, constrangedor e 3 humilhante. Isto posto, ao invés de estimular o vendedor ou representante comercial a obter melhores resultados, o expõe ao rídiculo, com o flagrante intuito de tentar diminuí- lo profissionalmente perante aos demais, podendo ainda causar abalo psicológico em tal, afetando de modo concomitante à honra do mesmo. Nesta senda, é nítido que a situação denuncia incontestável exorbitação do exercício do poder diretivo do empregador. Assim sendo, poderá acarretar a tal configuração de assédio moral, sendo pois fixada indenização para atrair a devida reparação financeira cabível aos trabalhadores reclamantes. Outrossim, os fundamentos jurídicos que embasam os constrangimentos suportados pelos empregados e provável restauração pecuniária, encontram-se listados abaixo: CF, art. 5°. (...). x. são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; CC, art. 932. São também responsáveis pela reparação civil: iii. o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; CC, art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos. CC, art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano. CLT, art. 483. O empregado poderá considerar rescindido o contrato e pleitear a devida indenização quando: e. praticar o empregador ou seus prepostos, contra ele ou pessoas de sua família, ato lesivo da honra e boa fama; (iii) Parte dos representantes comerciais são obrigados no comparecimento diário na sede da empresa, em horário determinado pelo diretor 4 comercial, sendo certo que em eventual ausência o dia de trabalho é descontado das comissões no mês de referência, sendo que os demais somente comparecem a empresa para aviamento das necessidades comerciais (entrega de pedidos, recebimento de mostruários e recebimento de comissões), conduta esse aprovada pelo Departamento de Recursos Humanos da empresa. A Consolidação das Leis do Trabalho trata em seus dispositivos 2° e 3° acerca dos requisitos ensejadores que tipificam o contrato de trabalho, os quais, por sua vez, diferenciam-se da relação de representação comercial autônoma. Os elementos característicos da relação de emprego são: (a) subordinação; (b) habitualidade/não eventualidade; (c) onerosidade; (d) pessoalidade; e (e) alteridade. Destarte, ao contrário do trabalhador autônomo, o empregado com vínculo empregatício sujeita-se às ordens do empregador, isto pois, há um estado de dependência do trabalhador em relação ao seu empregador. Esta, deriva da própria estrutura da relação jurídica de emprego, que se baseia na transferência pelo empregado ao empregador do poder de direção sobre o seu trabalho. Outrossim, o empregado é um trabalhador que presta serviços continuamente, ou seja, serviços não eventuais. Assim sendo, a prestação de serviço é habitual, repetitiva e rotineira. Portanto, as obrigações das partes se prolongam no tempo, com efeitos frequentes. Além do mais, o empregado é um trabalhador que presta serviços pessoalmente, logo, não pode fazer-se substituir por terceiros, pois na relação de emprego, a obrigação é infungível. Deste modo, no caso em tela, o fato do representante comercial ter de comparecer a empresa em data e horário pré-fixado pelo empregador, configura, sob qualquer perspectiva, vínculo entre as partes, posto encontrar-se presente a subordinação, a habitualidade e a pessoalidade. Isto pois, notamos a quebra ou a restrição da autonomia laboral do representante comercial e a exigência da realização de requisitos possibilitadores do tachado contrato de trabalho. (iv) Todos os estagiários (cursando Administração de Empresas, Tecnologia da Informação e Direito) são contratados diretamente pela empresa, sem qualquer formalidade efetivada pelo Departamento de Recursos Humanos, a não ser o pagamentode vale transporte e bolsa auxílio e se 5 ativam exclusivamente no recebimento dos pedidos de compras, independentemente da área acadêmica que pertençam e laboram oito horas diários e semanalmente são submetidos a horas extras. Consoante aos termos do artigo 9° da Lei n° 11.788/2008, as pessoas jurídicas de direito privado podem oferecer estágio, observadas as seguintes obrigações: (i) celebrar termo de compromisso com a instituição de ensino e o educando, zelando por seu cumprimento; (ii) ofertar instalações que tenham condições de proporcionar ao educando atividades de aprendizagem social, profissional e cultural; (iii) indicar funcionário de seu quadro pessoal, com formação ou experiência profissional na área de conhecimento desenvolvida no curso do estagiário; (iv) contratar em favor do estagiário seguro contra acidentes pessoais, cuja apólice seja compatível com valores de mercado; (v) por ocasião do desligamento do estagiário, entregar termo de realização do estágio com indicação resumida das atividades desenvolvidas, dos períodos e da avaliação de desempenho; (vi) manter à disposição da fiscalização documentos que comprovem a relação de estágio; e (vii) enviar à instituição de ensino, com periodicidade mínima de 6 (seis) meses, relatório de atividades, com vista obrigatória ao estagiário. Destaca-se que a jornada de atividade em estágio será definida de comum acordo entre a instituição de ensino, a parte concedente e o aluno estagiário ou seu representante legal, devendo constar do termo de compromisso, ser compatível com as atividades escolares e não ultrapassar 6 (seis) horas diárias e 30 (trinta) horas semanais, no caso de estudantes do ensino superior, da educação profissional de nível médio e do ensino médio regular, vide artigo 10 da Lei de Estágio. Assim sendo, o estagiário que labora 8 (oito) horas diárias e semanalmente é submetido ao desempenho de horas extras enquadra-se na jornada celetista, logo, resta constituída a relação de trabalho. (v) Um dos assistentes comerciais foi denunciado por um dos clientes em razão de furto de numerário (o cliente apresentou vídeo contendo as filmagens do local onde a conduta restou comprovada), no entanto, o Departamento de Recursos Humanos da empresa desaconselhou a demissão sob alegação do mesmo ser detentor de estabilidade em decorrência de acidente do trabalho, em relação ao qual foi emitida a CAT 6 (comunicação de Acidente do Trabalho) com afastamento médico de 10 dias. Nesta situação, apesar do funcionário ser detentor de estabilidade em decorrência de acidente do trabalho, errou o Departamento de Recursos Humanos ao desaconselhar sua demissão. Nota-se que o empregado cometeu falta grave, onde o motivo da dispensa resta claramente demonstrado de forma robusta, vide provas existentes. Assim sendo, não há que se falar em proteção por estabilidade, o caso é de rescisão contratual. (vi) Os empregados da empresa, com exceção dos Diretores. Gerentes e Supervisores recebem em média o valor de R$ 4.500,00, fruto do percentual comissional das vendas realizadas, além do valor fixo de R$ 2.000,00. O Departamento de Recursos Humanos, orientou a empresa, no sentido que a fixação de pagamento de parcela salarial fixa desonera a empresa de qualquer reflexo ou integração em relação aos valores comissionais. Mister destacar, desde a Reforma Trabalhista, conforme preceitua o artigo 457, § 1°, da Consolidação das Leis do Trabalho, as gratificações legais e as comissões pagas pelo empregador integram o salário a importância fixa estipulada. Assim sendo, o Departamento de Recursos Humanos equivoca-se quando orienta o empregador em sentido contrário ao legal. Deste modo, a renda variável reflete na renda fixa.