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1. Fundamentação teórico
Dentre as temáticas mais estudadas dentro da psicologia, a personalidade é a que mais carece de uma definição consensual. É possível notar uma concordância entre autores de que a personalidade pode ser caracterizada como algo relativamente estável, único e específico que distingue os indivíduos e define sua identidade frente a sociedade, todavia existem perspectivas divergentes que relativizam sua estrutura e os componentes que a influenciam (RIBEIRO, 2013).
A origem da palavra "personalidade" é estigmatizada por diversos autores como um conjunto de significâncias que caracterizam uma certa "máscara", a forma como as pessoas se introduzem e se revelam em suas interações. Queiroz (1997), afirma que a personalidade se compõe por uma série de fatores internos apresentados como mais ou menos estáveis, fazendo com que o comportamento do indivíduo se torne sólido durante sua vida e diferente do comportamento que é apresentado por outros dentro do mesmo contexto. Entretanto, o processo afeta a maneira como o indivíduo se adapta ao ambiente, além do fato de que as experiências do indivíduo definem os traços de sua personalidade pelas suas vivências.
No geral, a personalidade pode ser caracterizada como uma organização dinâmica do indivíduo, dos sistemas psicofísicos que determinaram seu comportamento e seus pensamentos (ALLPORT, 1966). 
Entretanto, de acordo com Hutz e Bandeira (2003), personalidade referenciava as próprias características do indivíduo, sendo assim única e o diferenciando dos padrões de sentimentos, pensamentos e comportamentos.
As teóricas iniciais acerca da personalidade, majoritariamente, centravam-se apenas no individuo, segregando-o da sociedade e descartando a ideia de que a personalidade surge por meio do comportamento que o indivíduo demonstra em suas interações. Para alguns autores, como Bighetti (2010), essas teorias preconizam uma incompleta definição de personalidade, por excluírem fatores essenciais, como diferenças culturais, sexuais, histórico cultural etc. Apesar de algumas teorias afirmarem que os traços de personalidade se isolam das influências do ambiente, diversas teorias mais recentes consideram as experiências de vida, implicando que a dinâmica da personalidade de fato sofre influência do meio, resultando assim em d	diversas ações públicas, expressões verbais e não-verbais. 
Os Cinco Grandes Fatores se originam de um conjunto de pesquisas acerca da personalidade, advindo de traços de personalidade e teorias fatoriais. De acordo com Nunes e Hutz (2010), um dos pioneiros no desenvolvimento dos CGF foi McDougall, que sugeriu uma análise da linguagem para conseguir entender a personalidade de uma população na década de 30 e acabou por propor um modelo na qual ela seria analisada partindo de cinco fatores independentes. Após esse passo, muitos trabalhos e pesquisas seguiram o modelo realizando diversos estudos.
O modelo foi estudado por possibilitar a descrição da personalidade de forma simples e direta, quase econômica e ainda assim sendo efetiva, pois outros modelos da época ainda eram complexos demais para serem utilizados com frequência como esse poderia ser. Por exemplo, o modelo de Cattell apresenta pelo menos 16 traços distintos de personalidade enquanto o de Allport sugere traços únicos e peculiares existentes para cada pessoa, considerando assim uma infinidade de traços possíveis (PERVIN E JOHN, 2004).
Depois do avanço das pesquisas foi notado pelos pesquisadores, que mesmo as pesquisas sendo complexas, os resultados quando avaliados empregando a análise fatorial indicam resoluções compatíveis com o modelo dos CFT. Ou seja, independentemente do quão complexo seja o modelo, ele acaba no final resultando no mesmo quando feito seguindo o modelo mais simples do CFT.
Embora ainda existam certas divergências perante a denominação dos fatores, Garcia (2006) afirma que chegaram a um consenso em relação ao conteúdo das dimensões, independendo do instrumento de avaliação, pessoa avaliada e país no qual é realizado o teste. Os traços de personalidades podem ser úteis para resumir, prever e tornar possível a explicação de conduta do indivíduo, indicando assim uma explicação para o comportamento X ser encontrado na pessoa de fato ao invés de encontrar na situação, sugerindo consequentemente que existe um processo interno que produz o comportamento. Entretanto, apesar de considerado constante, devido a representa uma tendência, os traços são mutáveis (PACHECO E SISTO, 2003). 
Além disso, Sisto e Oliveira (2007) postulam que os traços de personalidade seriam características da psique, representando tendências estáveis na forma de pensar, sentir e agir dos indivíduos, caracterizando uma possibilidade de alteração, como produto das interações de pessoas com o meio social que estão introduzidos, como se os traços pudessem ser influenciados por aspectos atitudinais, comportamentais, motivacionais e afetivos.
No Brasil, os cinco fatores são conhecidos por: extroversão, Neuroticismo, socialização, realização e abertura à experiência, porém podem existir incongruências com os nomes. Por exemplo, alguns afirmam que os nomes corretos de alguns seriam agradabilidade, escrupulosidade e estabilidade emocional, ou intelecto ou amabilidade e fator de realização, ou conscienciosidade (NUNES, HUTZ E GIACOMONI, 2009).
2. The Big Five
Cada um dos cinco fatores é dividido em seis facetas distintas e todos os traços possuem polaridades, por exemplo: no caso do traço da Extroversão temos a introversão e extroversão; no neuroticismo podemos ver a estabilidade e o neuroticismo; na realização vemos a inescrupulosidade e conscienciosidade; na abertura temos a convencionalidade e abertura e por fim na socialização temos antissociabilidade e sociabilidade (DIGMAN, 1996).
Nunes e Hutz (2002) definiram "extroversão" como a quantidade e intensidade das interações interpessoais preferidas, nível de atividade, necessidade de estimulação e capacidade de se alegrar. Indivíduos com essas características tendem a ser expansivos e persuasivos, adaptáveis e eloquentes; com facilidade de se aproximar de outros, sendo carinho e amigável; evitam estar sozinhos e tendem a liderar e dominar situações sociais ainda tendo uma disposição energética e ser propenso a ser ocupado. Porém, os introvertidos tendem a ser mais reservados e reclusos, estar cercado por pessoas muitas vezes pode acabar por drenar suas energias, preferindo assim atividades individuais e tendo um estilo de vida mais lento com uma inclinação para quietude (CAMPUZANO E MARTINEZ, 2005).
Socialização (Conscienciosidade) se caracteriza por ser uma dimensão interpessoal que interfere aos tipos de interações que o indivíduo apresenta. Representa o inverso da impulsividade, sendo assim indivíduos que tendem a ponderar sobre situações antes de agirem, cautelosamente e tomando responsabilidade pelos seus autos. Muitas vezes suas ideias giram em torno de uma organização e perseverança. Quando dado positivo para esse tipo de personalidade a pessoa tem capacidade de lidar com desafios, tem uma clareza e abordagem metódica, são dogmáticos e tem muitos motivadores e disposição.
Caso a pontuação seja baixa, na sua polaridade, eles tendem a ser mais impulsivos e descontraídos, agindo com espontaneidade que caracteriza sua abordagem aos desafios e problemas (CAMPUZANO E MARTINEZ, 2005).
Realização representaria o grau de organização, persistência, controle e motivação para alcançar objetivos, girando ao redor da ideia de confiança e honestidade. Em suas facetas temos o fato de ser inclinado a acreditar na honestidade de terceiros, tem facilidade de expressar seus sentimentos e pensamentos, é altruísta, conformista e modesto, além de empático com todos. São moderados interpessoalmente e procurar ver o lado positivo de todos. Entretanto, no caso de uma pontuação baixa tendem a ser mais cautelosos e suspeitar mais das pessoas ao seu redor, além de serem mais astuciosos. No geral, caracterizam-se através da afeição, pessoas amáveis transmitemconfiança e companheirismo, às demais pessoas, já a baixa pontuação nesta escala significaria frieza, por exemplo, pessoas caracterizadas como encrenqueiras e indelicadas. (CAMPUZANO E MARTINEZ, 2005).
Neuroticismo se refere ao nível de ajustamento emocional e instabilidade, concentrando-se nas experiências de emoções negativas, tendem a ser mais propensos a mudanças de humor súbitas e reatividade emocional. retrata pessoas nervosas, com alto nível de tensão e sensibilidade, excessivamente preocupadas com a vida, com labilidade emocional. Podem ser ansiosos e inquietos, hostis tendendo a experimentar frustração com mais frequência, tem propensão a vivenciar sintomas depressivos como perda de energia, dificuldade de se concentrar e insonia. Além disso, se sente desconfortável frente aos outros e são impulsivos e vulneráveis, gerando incapacidade de controlar seus desejos e lidar com estresse, dependendo dos outros para apoiar-se. Todavia, caso apresentada uma baixa pontuação, em seu oposto, pode apresentar indivíduos emocionalmente estáveis, calmos e satisfeitos, mostram uma maior estabilidade emocional, sendo mais relaxados, sabendo lidar melhor com seus sentimentos e confiando em sua capacidade de lidar com frustrações e situações estressantes (CAMPUZANO E MARTINEZ, 2005).
Abertura se caracteriza por comportamentos exploratórios, além do reconhecimento da importância de ter novas experiências está relacionada com o intelecto, pessoas com abertura são espontâneas e criativas, abertas a novas experiências. Inversamente baixa abertura significa superficialidade e simplicidade Os. traços dessa personalidade tendem a ter uma forte imaginação, rica e criativa, valorizando a arte, como poesia e música, além de ter sentimentos receptivos e sentir intensamente, sempre dispostos a explorar e conhecer lugares diferenciados, uma nova cultura tendo uma curiosidade intelectual que acompanham esses indivíduos. No caso de uma baixa pontuação, encontramos pessoas mais convencionais e pé no chão (CAMPUZANO E MARTINEZ, 2005).
3. Descrição de Pesquisa
No artigo Bem-estar pessoal nas organizações: o impacto de configurações de poder e características de personalidade de Marina Dessen e Maria da Paz visou identificar o impacto das configurações de poder organizacional e das características de personalidade do Big Five. A partir de uma amostra de 319 trabalhadores de duas organizações de Brasília, todos com mais de três meses de serviço, fora utilizada três escalas validadas, a Escala de Bem-Estar Pessoal nas Organizações, Escala de Configurações de Poder Organizacional e Inventário Reduzido dos Cinco Fatores de Personalidade (ICFP-R). A Escala de Bem-Estar Pessoal nas Organizações possuí 15 itens e é unifatorial, onde cada alternativa varia de 0 (nunca) a 4 (sempre). Já o instrumento Escala de Configurações de Poder Organizacional é uma escala Likert com cinco pontos, variando de 0 (não se aplica) a 4 (totalmente aplicável). Por fim, fora utilizada uma versão simplificada do ICFP-R, os fatores são denominados: Neuroticismo (19 itens, α de 0,89), Extroversão (12 itens, α de 0,83), Conscienciosidade (20 itens, α de 0,88), Abertura (17 itens, α de 0,82) e Amabilidade (13 itens, α de 0,82). 
Após a coleta e dados, as análises foram realizadas. Os primeiros resultados referem-se ao paralelo entre as configurações de poder e o bem-estar. Em seguida, foi relacionado as análises do Modelo dos cinco Grandes Fatores. 
A partir da análise dos dados foi possível identificar que, conscienciosidade prediz bem-estar, ou seja, as pessoas com alto grau dessa característica, que tendem a se perceber como mais organizadas, persistentes, decididas e ambiciosas, possuem maior bem-estar no trabalho. Esse traço pode levar o indivíduo a lutar e alcançar seus objetivos, tornando-os mais felizes com a organização. Já a característica de personalidade conscienciosidade lutam e persistem dentro da organização, sentindo-se bem ao desempenhar o trabalho que desenvolvem naquela organização, já que se identificam com os valores e cultura da organização.
A pesquisa em questão contribui para a compreensão do bem-estar nas organizações, pois da indícios de algumas variáveis que podem impactar tal questão, como a personalidade. Quando falamos de bem-estar em uma organização, é impossível separar o quesito personalidade. Uma organização possui valores, ritmo e cultura, tais aspectos que possuem de certa forma uma “personalidade organizacional”. É de extrema importância que, o trabalhador se encaixe em tais aspectos para que exista o bem-estar. No momento em que um gestor de recrutamento e seleção realiza o processo de recrutamento, é de suma importância que tenha em mãos o perfil de personalidade do gestor responsável para que assim, exista harmonia dentro do ambiente de trabalho.
O artigo Traços de Personalidade e Comportamentos de Risco no Trânsito: Um estudo correlacional de Daniel Bartholomeu tem como objetivo como analisar as relações entre
os traços de personalidade e os comportamentos de risco no trânsito. A partir de 74 participantes, com idade variando entre 18 a 47 anos, utilizou-se a lista Big Five, uma lista de 64 descritores de traços aos quais os participantes assinalaram de acordo com a intensidade que tais descritores (adjetivos) os descrevem, variando de 1 (discordo totalmente) até 5 (concordo totalmente). O fator I informa sobre o traço Socialização, e os indicadores que os caracterizam são: Afável, Dócil, Sociável, Agradável, Generosa, Romântica, Gentil, Amável, Compreensível, Amigável, Fria, Bondosa, Apaixonada, Simpática, Sentimental e Delicada. Já o Fator II diz respeito à Extroversão, e seus indicadores são: Acanhada, Extrovertida, Comunicativa, Desembaraçada, Introvertida, Envergonhada, Tímida, Quieta, Inibida e Calada. O Fator III tem informações sobre Realização, seus indicadores são: Honrada, Responsável, Dedicada, Esforçada, Estudiosa, Honesta, Desorganizada, Eficiente, Cuidadosa, Metódica, Organizada, Meticulosa, Assídua e Compenetrada. O fator IV concerne ao Neuroticismo, seus itens são: Pessimista, Feliz, Aborrecida, Afirmativa, Egoísta, Infeliz, Deprimida, Insegura, Antipática, Solitária, Ansiosa e Triste. Por fim, o Fator V fala sobre Abertura, e seus adjetivos são: Curiosa, Engraçada, Criativa, Filosófica, Corajosa, Enérgica, Aventureira, Audaciosa, Imaginativa, Intelectual, Artística e Impulsiva.
	A partir das descrições de comportamentos que caracterizam infrações fornecidas pelo Código Nacional de Trânsito Brasileiros foram compostas 148 frases afirmativas nas quais os indivíduos deveriam responder a intensidade que esses comportamentos ocorriam em uma escala Likert de três pontos, nunca, às vezes e sempre. A aplicação foi coletiva, os participantes responderam primeiramente os questionários relacionado as condutas infratoras e logo em seguida o Big Five.
	Após a aplicação, fora feito a análise. Foi possível observar que, o traço Extroversão apresentou a média das pontuações mais baixa, enquanto os sujeitos de forma geral tenderam a fornecer mais respostas de Socialização. Os dados analisados indicam que quanto mais Socialização o indivíduo demonstra, mais tendem a não dar passagem pela esquerda e a não reduzir ao ultrapassar ciclistas, assim como sinalizar quando há carga derramada na via. Esses indivíduos podem ser caracterizados como socialmente agradáveis, calorosos, altruístas, dóceis, amorosos e com apoio emocional, enquanto seu oposto se caracteriza por hostilidade. 
	Sobre a extroversão, ela estaria associada ao cometimento de acidentes de trânsito, embora não tenha sido investigado a fundo na pesquisa em questão, mas existe um indício que a probabilidade de acontecer situações dessa natureza é maior em casos de extroversão.
REFERENCIAS
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