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PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Professora Dra. Rachel de Maya Brotherhood Professora Me. Waléria Henrique dos Santos Leonel GRADUAÇÃO Unicesumar C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; BROTHERHOOD, Rachel de Maya; LEONEL, Waléria Henrique dos Santos. Psicologia da Educação. Rachel de Maya Brotherhood; Waléria Henrique dos Santos Leonel. Maringá-Pr.: UniCesumar, 2016. 182 p. “Graduação - EaD”. 1. Educação. 2. Psicologia . 3. Aprendizagem 4. EaD. I. Título. ISBN: 978-85-459-0140-2 CDD - 22 ed. 150 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Direção Operacional de Ensino Kátia Coelho Direção de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha Direção de Operações Chrystiano Mincoff Direção de Mercado Hilton Pereira Direção de Polos Próprios James Prestes Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida Direção de Relacionamento Alessandra Baron Gerência de Produção de Conteúdo Juliano de Souza Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo Coordenador de conteúdo Marcia Maria Previato de Souza Design Educacional Yasminn Zagonel Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Editoração Priscila Stadler Revisão Textual Jaquelina Kutsunugi Ilustração André Luís Onishi Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e so- lução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsabilida- de: as escolhas que fizermos por nós e pelos nos- sos farão grande diferença no futuro. Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar assume o compromisso de democratizar o conhe- cimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão – “promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” –, o Centro Universi- tário Cesumar busca a integração do ensino-pes- quisa-extensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consci- ência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar al- meja ser reconhecido como uma instituição uni- versitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; con- solidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrati- va; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relaciona- mento permanente com os egressos, incentivan- do a educação continuada. Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quan- do investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequente- mente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capa- zes de alcançar um nível de desenvolvimento compa- tível com os desafios que surgem no mundo contem- porâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialó- gica e encontram-se integrados à proposta pedagó- gica, contribuindo no processo educacional, comple- mentando sua formação profissional, desenvolvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inse- ri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproxi- mação entre você e o conteúdo”, desta forma possi- bilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pes- soal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cres- cimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos peda- gógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possi- bilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e en- quetes, assista às aulas ao vivo e participe das discus- sões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica. Diretoria Operacional de Ensino Diretoria de Planejamento de Ensino Professora Dra. Rachel de Maya Brotherhood Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Alagoas (1970), especialização em Métodos e Técnicas de Ensino pela Universidade Federal do Ceará (1974), mestrado em Psicologia Educacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1977) e doutorado em Psicologia Escolar pela Universidade de São Paulo (1994) . Professora Me. Waléria Henrique dos Santos Leonel Possui graduação em Psicologia pelo Centro Universitário de Maringá (2003). Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Clínica, Psicologia da Aprendizagem, Psicologia Escolar e Psicologia do Desenvolvimento. Pós-graduada em nível de Mestrado em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá. Especialização em Trabalho Pedagógi- co em Educação Infantil (UEL). Pós- graduação em Docência para o Ensino Superior (Centro de Ensino Superior do Paraná). Pós-graduação em Atendi- mento Educacional Especializado Educação Especial e Inclusiva pelo Centro Universitário de Maringá . A U TO RE S SEJA BEM-VINDO(A)! Prezado(a) acadêmico(a), nossa disciplina, Psicologia da Educação, é um dos fundamen- tos da prática pedagógica. Seu estudo nos possibilita uma visão do educando por meio de seus processos de desenvolvimento e também descreve as maneiras como a apren- dizagem ocorre e quais são os seus condicionantes. Sabendo da importância desta disciplina e também do seu apelo motivacional para to- dos os acadêmicos(as), pois também favorece a compreensão dos nossos próprios pro- cessos de desenvolvimento, esperamos que você encontre no seu estudo o prazer da busca de uma qualificação que possa fazer da profissão docente o seu futuro e também a compreensão do seu próprio eu, pelo entendimento dos processos de sua construção. O material foi escrito em duas mãos, por uma profissional da Educação e uma da Psi- cologia, ambas atuantes no campo da docência, mais especificamente, no ensino da Psicologia Escolar. Compreendemos a importância de uma abordagem pluridisciplinar dos fenômenos que ocorrem na escola, dentre os quais se incluem os processos de de- senvolvimento e aprendizagem de crianças e jovens. Assim, a Psicologia é um dentre outros fundamentos da ação educativa e base de compreensão dos fenômenos indivi- duais e sociais que condicionam e ao mesmo tempo resultam dos processos educativos que ocorrem no contexto escolar. Assim, esperamos que você faça uma reflexão crítica sobre as teorias apresentadas e busque, a partir destes referenciais, refletir sobre a prática pedagógica possível e neces- sária para que a escola possacontar com o vigor e a esperança da sua ação fundamen- tada cientificamente para promover uma transformação social na busca de realidades mais justas, igualitárias e solidárias. Somos a professora Rachel Brotherhood e a professora Waléria Henrique dos Santos Le- onel e elaboramos este material sobre Psicologia da Educação. Queremos ajudá-lo(a) a ler o material para que ele atinja seu objetivo. A finalidade desta apresentação é fa- vorecer a sua compreensão do livro, que trata dos processos psicológicos e sociais que ocorrem na escola. A Psicologia da Educação reúne estudos de diversas áreas, buscando compreender o homem e explicar os processos sociais, cognitivos e afetivos no qual ele se insere. Para explicá-lo(a), a Psicologia lança mão da sociologia, da epistemologia, da antropologia, dentre outras ciências, cujo objeto de estudo também é o ser humano. Na unidade I definimos aprendizagem e mostramos que o sentido deste termo está li- gado a diferentes visões epistemológicas. Assim, no início do nosso livro, conceituamos aprendizagem, seus objetivos e outros conceitos básicos, como os conceitos de me- tacognição, raciocínio e estratégias de aprendizagem, além de apresentarmos alguns fatores interferentes no processo, e indicarmos as possibilidades de trabalhar com tais conceitos, isto é, as diferentes teorias pedagógicas às quais eles correspondem. Aborda- mos também os objetivos do processo formal de educação. APRESENTAÇÃO PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Na unidade II abordamos algumas teorias explicativas do desenvolvimento. Inicial- mente, falando de determinantes do desenvolvimento, destacamos as diferentes posturas e ênfases nos determinantes genéticos e ambientais. Em seguida, falamos das teorias de desenvolvimento. Apresentamos conceitos básicos da Análise do Comportamento, prática que se apoia nos princípios do Behaviorismo para explicar a aprendizagem. Posteriormente, discutimos o Construtivismo Interacionista e So- ciointeracionista, no qual a ênfase concentra-se nos processos de pensamento e nos comportamentos que refletem tais processos. Para demonstrar o construtivismo, apresentamos os pontos de vista de Piaget e Vy- gotsky sobre como se aprende. Expomos a Epistemologia Genética (Piaget) e a Teo- ria Histórico-Cultural (Vygotsky). Piaget enfatiza o processo de construção de novos conhecimentos a partir dos conhecimentos anteriores, mas com uma explicação baseada na biologia. Já Vygotsky ressalta as relações sociais, nos fatores contextuais mediados que afetam o desenvolvimento. Para este autor, o indivíduo aprende por meio de internalizações possibilitadas pela interação social. Dando continuidade às abordagens do processo de aprendizagem/desenvolvimen- to, chegamos ao Humanismo. Este tira o foco da aprendizagem tanto dos processos cognitivos como do processo de condicionamento e o coloca na visão do indivíduo como constituído de várias dimensões, em que a dimensão afetiva atinge direta- mente as dimensões cognitiva e comportamental. Na unidade III discutimos o desenvolvimento cognitivo descrito por Piaget. Para o autor, o desenvolvimento cognitivo da criança avança em uma série de quatro es- tágios que envolvem tipos qualitativamente distintos de operações mentais, nos quais você irá conhecer a partir da leitura do livro. A seguir, na unidade IV, abordamos o processo de desenvolvimento da personalida- de, com uma apresentação da Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud. Uma aborda- gem psicanalítica do desenvolvimento é a busca de uma explicação dos processos de desenvolvimento ou a tentativa de explicar os fatos relativos a esses processos, pelos conceitos fundamentais da psicanálise. Freud defende que o desenvolvimen- to humano é moldado por forças inconscientes que você terá oportunidade de es- tudar na unidade. Dando sequência em nosso estudo, abordamos, na unidade V, temas de relevância para a sociedade contemporânea, os quais foram selecionados dentre outros que também são importantes. O critério de escolha dos temas foram seus reflexos no ambiente escolar e sua força determinante no processo de aprender e na relação professor – aluno. Falamos de violência, um tema que perpassa vários outros, tais como: relações na escola, falta de interesse ou de esforço nas atividades escolares, constituição fami- liar, consumismo etc. APRESENTAÇÃO 09 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A violência escolar, sobre a qual vamos direcionar nossa atenção ao bullying, é uma temática que exige nossa reflexão, pois na atualidade é uma questão que tem se tor- nado desafiadora e resulta em consequências extremamente negativas para as pes- soas envolvidas e para o ambiente escolar. A unidade V ainda abrange o conceito e a importância da família na formação do indivíduo, a educação moral e a socialização, e diferentes maneiras de enfrentar os dilemas da escola. Na leitura desta unidade, procure questionar o texto, dialogar com ele, complementá-lo e enriquecê-lo com sua própria experiência. Esperamos, com esse enfoque da Psicologia da Educação, favorecer sua formação profissional, dando ao ensino um caráter de prática social viva e multidisciplinar, cientificamente fundamentada e individualmente compreendida e construída. Bom estudo! APRESENTAÇÃO SUMÁRIO 11 UNIDADE I APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS 17 Introdução 18 Aprendizagem e Desenvolvimento Humano: Conceitos Básicos 24 Fatores que Influenciam a Aprendizagem 25 Desenvolvimento 26 A Psicologia Evolutiva no Século XX 30 Compreendendo as Influências do Processo de Maturação e do Ambiente no Desenvolvimento 34 Compreendendo o Desenvolvimento na Ênfase Sócio-Histórica Cultural 34 Fatores Determinantes do Desenvolvimento 42 Considerações Finais UNIDADE II TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM 51 Introdução 52 Diferentes Abordagens Teóricas do Processo de Aprendizagem 69 Considerações Finais SUMÁRIO UNIDADE III DESENVOLVIMENTO SÓCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA 77 Introdução 78 O Desenvolvimento Segundo Jean Piaget 88 O Desenvolvimento Moral 90 Moral da Obediência e Moral de Cooperação 91 Considerações Finais UNIDADE IV O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE 101 Introdução 102 Desenvolvimento da Personalidade 105 A Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud 110 Fases de Desenvolvimento Psicossexual 113 Considerações Finais SUMÁRIO 13 UNIDADE V TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA 123 Introdução 124 Socialização: Emancipação ou Normatização? 128 Violência na Escola – O Bullying 134 Educação Moral 140 Atuando na Formação Intelectual e Social: Ensino para a Compreensão 143 Ambiente Familiar 152 Atuando na Área da Interação Social: uma Proposta Teórica 161 Atuando na Formação Moral do Indivíduo 163 Considerações Finais 171 Conclusão 173 Referências 181 Gabarito U N ID A D E I Professora Dra. Rachel de Maya Brotherhood Professora Me. Waléria Henrique dos Santos Leonel APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Objetivos de Aprendizagem ■ Estudar a Psicologia da Educação como área do conhecimento: objeto de estudo. ■ Compreender as principais dimensões da Psicologia da Educação. ■ Conhecer o processo de desenvolvimento e aprendizagem em diferentes abordagens teóricas. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Aprendizagem e desenvolvimento humano: conceitos básicos ■ Fatores que influenciam a aprendizagem ■ Desenvolvimento ■ A psicologia evolutiva no século XX ■ Compreendendo as influências do processo de maturação e do ambiente no desenvolvimento ■ Compreendendo o desenvolvimento na ênfase sócio-histórica cultural ■ Fatores determinantes do desenvolvimento INTRODUÇÃO O homem é um ser em desenvolvimento, logo, frente a sua complexidade, muitasciências buscam compreender e explicar como esse desenvolvimento acontece. Entre algumas ciências como a medicina, a biologia, encontramos a psicologia, que, a partir de teorias explicativas, auxilia na compreensão do homem, nos seus aspectos biopsicossociais. Pensando no processo de desenvolvimento cognitivo, debruçamos na compreensão das teorias da Psicologia da Educação, esta vem para auxiliar e somar aos profissionais no entendimento desse homem. Dessa forma, entendemos que o profissional da área da educação tem uma influência decisiva e uma grande responsabilidade com a formação de crianças e jovens. A Psicologia irá auxiliar o trabalho do professor e poderá compreender os processos de desenvolvimento e aprendizagem que são descritos e explica- dos pela Psicologia Escolar, que tem como objeto de estudo o ser humano nas dimensões consideradas e indica diretrizes para que os profissionais da educação encaminhem com cientificidade a sua prática. Justifica-se, assim, a importância da disciplina Psicologia Escolar no currículo. Vamos estudar três dimensões do desenvolvimento humano essenciais para a compreensão do processo ensino-aprendizagem – o desenvolvimento da per- sonalidade, o desenvolvimento cognitivo e o desenvolvimento sociocultural. As teorias escolhidas para a análise dessas dimensões são as de Freud, Piaget e Vygotsky, respectivamente. O desafio é, partindo dessas teorias, chegarmos à compreensão do indivíduo, buscando entender o particular, mas o particular inserido no social; sendo uma compreensão dialética, que dá corpo a uma reflexão sobre as múltiplas conexões desses processos individuais na unidade homem-mundo, considerando como referencial, sobretudo, o ambiente escolar, e como critério a relação teoria-prática. 17 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Descrevemos, a seguir, os principais enfoques dados pela Psicologia Educacional no processo de aprendizagem. Nosso estudo tem como ponto central as aborda- gens citadas anteriormente, no entanto, frente a sua importância, apresentaremos os pressupostos teóricos do Comportamentalismo e Humanismo, por possuir influência na educação. Analisaremos algumas práticas pedagógicas preconi- zadas na atualidade (Skinner, Piaget, Vygotsky e Rogers), iniciando com uma apresentação de alguns conceitos e ideias que fundamentam as propostas peda- gógicas que serão vistas. A Psicologia da Aprendizagem é um ramo da Psicologia Educacional cujo interesse, historicamente documentado, é “contribuir para a formação intelectual dos alunos com a qualidade de suas aprendizagens, bem como com o seu completo desenvolvimento pessoal e social” (BORUCHOVITCH; BZUNEK, 2004, p. 7). Muitas vezes, nas licenciaturas ou mesmo na pós-graduação, o aluno se pergunta: “por que preciso estudar psicologia, se não pretendo ser psicólogo?”. Acontece que a Psicologia tem o mesmo objeto de estudo, de interesse de outros campos do saber, o ser humano. Na Educação e na Psicologia, as relações com o outro são o eixo central, para construir a prática pedagógica nos complexos espaços interativos da escola precisamos buscar na psicologia o entendimento dessas relações, assim, a compreensão dos processos de aprendizagem e desen- volvimento possibilita a construção de novas práticas pedagógicas, mais efetivas. Voltando à definição de Psicologia Educacional, nela podemos identificar 19 Aprendizagem e Desenvolvimento Humano: Conceitos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . duas dimensões: a primeira dimensão é o processo de aprendizagem dos alu- nos, a segunda, o seu desenvolvimento pessoal e social. Vejamos como cada um desses dois pontos pode ser abordado. O objetivo de promover a aprendizagem começa a ser alcançado mediante a compreensão de como o aluno aprende. Esse fenômeno envolve processos e fato- res. Em outras palavras, saber como acontece a aprendizagem constitui-se em elemento facilitador e promotor do desenvolvimento de estratégias de ensino mais eficazes. Salientando os processos, vejamos alguns conceitos. ■ APRENDIZAGEM – comportamento novo e relativamente estável, que aparece em decorrência da experiência ou do treino, uso de conhecimento na resolução de problemas, construção de novos significados, de novas estruturas cognitivas, aquisição de informação etc. ■ COMO APRENDEMOS – por imitação, insight, condicionamento e raciocínio; o raciocínio é a forma de aprender exclusiva do ser humano. ■ RACIOCÍNIO – operação mental que envolve: prever, julgar, plane- jar, levantar hipóteses, fazer deduções, avaliar a situação para encontrar soluções. O processo de ensino consiste em promover a aprendizagem do aluno. Sendo a aprendizagem um processo interno, a função da escola e do professor é levar o aluno a dominar esse processo, desenvolvendo estratégias de aprendizagem. ■ ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM – ações mentais e comporta- mentos com os quais se envolve o aluno durante a aprendizagem, com o objetivo de realizar a codificação e assim possibilitar a aquisição e o pro- cesso de recuperação das informações armazenadas na memória. Tornar-se um processador de informações eficaz e conhecer diferentes estraté- gias de aprendizagem, bem como saber por que, como e quando usá-las, torna o sujeito um bom aprendiz. ■ OBJETIVOS – Houve um momento na história da educação brasileira, quando o paradigma dominante era o do Tecnicismo (últimas décadas do século XX), em que os objetivos de aprendizagem, formulados de maneira comportamental, estavam voltados, sobretudo, para as questões de con- teúdos. Nesta perspectiva, APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I a pesquisa científica, a tecnologia educacional, a análise experimental do comportamento garantem a objetividade da prática escolar, uma vez que os objetivos instrucionais (conteúdos) resultam da aplicação de leis naturais que independem dos que a conhecem ou executam (LIBÂ- NEO, 1985, p. 29). Pode-se dizer que a formulação de objetivos educacionais como exigência para a realização de uma prática pedagógica eficiente se traduzia, a partir de meados da década de 1950, na utilização da taxionomia de objetivos educacionais de Benjamim Bloom (domínio cognitivo 1956 e domínio afetivo 1964), proposta que sustentava o pragmatismo economicista norte-americano e correspondia à Pedagogia Tecnicista (LUCKESI, 2011). Os objetivos comportamentais da prática pedagógica deveriam colocar ênfase no conteúdo e definir critérios de execução e parâmetros de avaliação eficientes, capazes de direcionar a prática escolar. Funcionavam quase como uma “camisa de força” da ação do professor, não permitindo nenhuma flexibilidade e/ou adap- tação às características dos alunos. Com o advento das denominadas Pedagogias Críticas, a formulação de objetivos foi amplamente atacada e finalmente perdeu seu significado no pla- nejamento escolar. Atualmente, observa-se um movimento de retomada desse processo com uma conotação diferente (LUCKESI, 2011). O autor defende que há, na formu- lação de objetivos comportamentais, uma qualidade a ser retomada neste início de século XXI e argumenta que os objetivos trazem: O entendimento e a configuração clara do que se deseja ao exercitar as práticas pedagógicas no ensino escolar, formulado em termos precisos e organizados, tendo por base processos fundamentais da psicologia humana relacionados com o ensino e a aprendizagem (LUCKESI, 2011, p. 39). Para Luckesi (2011, p. 39), a formulaçãode objetivos possibilita “[...]uma ges- tão eficiente, que se assenta no tripé planejamento, execução efetiva e avaliação consistente” do processo educativo que considera os seus determinantes filosó- ficos e práticos1. 1 Leia na íntegra o artigo: LUCKESI, Cipriano. Taxonomia: de objetivos educacionais – sessenta anos depois. Educatrix: a 21 Aprendizagem e Desenvolvimento Humano: Conceitos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O que se observa atualmente é que a educação tem trabalhado com obje- tivos mais amplos e está voltada para um enfoque pluridimensional da ação pedagógica, que considera as dimensões técnica, política, ética e estética, além da dimensão de transmissão e domínio dos conteúdos produzidos pela huma- nidade, pela ciência. Essa mudança de foco, ampliação do foco da ação educativa sistematizada está ligada diretamente a uma visão mais política do processo educativo e à responsa- bilidade da escola com a formação de cidadãos capazes de intervir na realidade, por meio da criação de saberes e valores na busca da realização do bem comum. Assim, a finalidade do trabalho educativo seria, segundo Rios (2006, p. 61), uma educação que buscaria “[...]a realização do bem comum, como finalidade da ação coletiva dos seres humanos vivendo em sociedade”. Para cumprir tal finalidade, a autora defende o equilíbrio na articulação de todas as capacidades dos seres humanos, tanto para intervir na realidade como para se relacionar com os seus semelhantes, entretanto, também enfatiza a importância dos conteúdos nessa ação e destaca que o valor destes estaria em não se restringir a conceitos, mas englo- bar também comportamentos e atitudes como explicitado na seguinte citação: Se a educação é um processo contínuo de busca de um saber ampliado e aprofundado, de um viver inteiro, é preciso que os indivíduos estejam inteiros nesta busca. Ao lado da razão, a imaginação, os sentimentos, os sentidos são instrumentos de atuação na realidade e criação de saberes e valores. O bom ensino será, então, estimulador do desenvolvimento desses instrumentos/capacidades (RIOS, 2006, p. 61). Este posicionamento corresponde à proposta pedagógica Progressista Libertadora de Paulo Freire que vê a educação como “[...]uma atividade onde professores e alunos, mediatizados pela realidade que apreendem [...], atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, a fim de nela atuarem num sentido de trans- formação social” (LIBÂNEO, 1985, p. 33). Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da Autonomia (1996), abordando a for- mação do professor em uma perspectiva ampla e multidimensional, apresenta nove pressupostos da prática docente que contêm as diretrizes da sua doutrina2 Revista que pensa a Educação, Natal: Editora Moderna, ano 1, n. 1, p. 39-47, set. 2011. Disponível em: <http://issuu.com/ ed_moderna/docs/educatrix_edicao_01>. Acesso em: 22 abr. 2015. 2 Os pressupostos apresentados e explicitados por Paulo Freire em sua obra “Pedagogia da Autonomia” (1996) são: APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I e afirma que, no processo de ensinar/aprender, “[...]participamos de uma expe- riência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética [...]” (FREIRE, 1996, p. 24). A citação nos mostra que o enfoque do autor, tão representativo do pensamento pedagógico da atualidade, coincide com a perspectiva de formação do cidadão pela escola, como exposto anteriormente. Por outro lado, Pimenta (1999 apud RIOS, 2006, p. 27), questionando tam- bém o aspecto das finalidades da educação, pergunta: Como garantir que todos os alunos se apropriem dos instrumentos ne- cessários para se situarem no mundo? Como estabelecer os vínculos entre conhecimentos, formação cultural, desenvolvimento de hábitos, atitudes e valores? Para que ensinar? Que materiais, equipamentos, mídias preci- sam ser mobilizados no processo de ensino? Diante desses questionamentos, vemos que, embora a posição de muitos cientistas da educação seja acerca da necessidade de uma educação voltada para a formação integral do educando, ainda se está em busca de formas efetivas de atingir as fina- lidades e objetivos da educação no século XXI. No entanto há alguns construtos que permanecem presentes na nossa prática pedagógica e que são objetivos pre- liminares que possibilitam a busca das finalidades da edu- cação da maneira como já foram defendidas. Estamos falando da Motivação e da Autorregulação, que fazem parte dos processos Metacognitivos dos seres humanos e que abordare- mos a seguir. ENSINAR EXIGE: 1) rigorosidade metódica; 2) pesquisa; 3) respeito aos saberes dos educandos; 4) criticidade; 5) estética e ética; 6) corporeificação das palavras pelo exemplo; 7) risco, aceitação do novo, rejeição a qualquer forma de discriminação; 8) reflexão crítica sobre a prática; 9) reconhecimento e assunção da identidade cultural. 23 Aprendizagem e Desenvolvimento Humano: Conceitos Básicos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ■ AUTORREGULAÇÃO – controle do comportamento, das emoções e dos processos cognitivos. ■ MOTIVAÇÃO – construto central da autorregulação e do desenvolvi- mento de todas as formas de controle voluntário; a etimologia da palavra sugere que “motivo” é aquilo que move uma pessoa, que a põe em ação ou a faz mudar de curso e assegura a persistência em uma atividade (BZUNECK, 1987 apud BORUCHOVITCH; BZUNECK, 2001). É um processo psicológico dinâmico, presente em qualquer atividade humana. Em sala de aula, leva o aluno a envolver-se em atividades pertinentes ao seu processo de aprendizagem, escolhendo um curso de ação dentre outros possíveis e ao seu alcance. É a motivação que assegura a ocorrência de produtos de aprendizagem ou tipos de desempenho socialmente valoriza- dos. Atualmente, com a notável prevalência das abordagens cognitivistas e sócio-históricas da aprendizagem, e com o destaque na importância do outro significativo no desenvolvimento e na aprendizagem, o estudo da motivação do aluno tem-se voltado para os componentes internos da motivação, cognitivos, como metas, crenças, atribuições, percep- ções, com destaque para a crença na autoeficácia e outras variáveis ligadas ao self, como autorrealização, satisfação, medo, ansiedade, entre outras, e também para o processo de socialização, pois a presença do outro é fundamental para a aprendizagem e o desenvolvimento. Pode-se dizer que a escola deve trabalhar no sentido de desenvolver a motivação do aluno na busca de sua autorregulação cognitiva, emocional e social, que promove uma educação para a vida e o exercício da cidadania. Considerando todos os aspectos motivacionais e autorregulares, pode-se afirmar que o desenvolvimento cognitivo é: ■ Exercer controle sobre a atenção e os processos de memória. ■ Desenvolver regras e estratégias para pensar e resolver problemas. ■ Organizar o pensamento e ajustar o comportamento (curso da ação) sem- pre que necessário. APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Tal processo de busca da autorregulação visa substituir a regulação externa assis- tida por uma autorregulação baseada nas ferramentas adquiridas na relação com o outro, chegando o aluno a um controle consciente, reflexivo. Segundo Ribeiro (2003), a partir dos estudos de Flavel e Wellman (1977), entendemos que a metacognição é a capacidade de compreendermos o que foi aprendido. É a capacidade de irmos além de nossa capacidade de pensar, e de ser autorreflexivos, isto é, pensar sobre seus pensamentos de forma consciente. Clarificando, “[...]metacognição significapara além da cognição, isto é, a faculdade de conhecer o próprio ato de conhecer, ou, por outras palavras, consciencializar, analisar e avaliar como se conhece” (RIBEIRO, 2003, p. 109). Alunos com desempenho escolar insatisfatório apresentam claros atrasos no desenvolvimento metacognitivo, ou seja, um dos pontos principais de diferença entre alunos com alto e baixo desempenho escolar é o grau de autorregulação da aprendizagem deles. FATORES QUE INFLUENCIAM A APRENDIZAGEM Pensemos agora em alguns fatores determinantes da aprendizagem do aluno. Destacamos que aqui vamos apenas citá-los, já que pretendemos abordá-los com maior profundidade dentro do enfoque das três teorias que serão estudadas no nosso curso. Podemos dividir esses fatores, para fins didáticos, em: ■ FATORES INTRAPESSOAIS – são fatores internos e individuais, que resultam de capacidades genéticas, história de vida, situações informais e formais de aprendizagem, entre outros. Como exemplo, podemos citar: idade mental, nível de inteligência, maturidade emocional, prontidão, com- portamentos sociais, padrões familiares, motivação. Também podemos falar de temperamento, personalidade, nível de inteligência e autoeficácia. ■ FATORES SITUACIONAIS – os interpessoais são fatores do contexto social. O contexto escolar possibilita interação com os pares, interação professor-aluno, socialização. Esses aspectos contextuais possibilitam o 25 Desenvolvimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . atendimento da necessidade do indivíduo de pertencer e estabelecer vín- culos essenciais na construção da identidade e têm reflexos importantes na aprendizagem e no desenvolvimento humano. Destacamos que com- portamentos desadaptados, disfuncionais ou patologias mais severas na adolescência e na vida adulta podem ser resultantes ou agravados por vivências escolares. Ressaltamos que os aspectos intrapessoais e situacionais da aprendizagem não se opõem nem representam uma divisão dicotômica, mas são inseparáveis e se constituem em visões complementares de um mesmo fenômeno psicológico, a aprendizagem. Dessa forma, devemos refletir sobre a formação do professor na atualidade, pois, a prática desse tem grande importân- cia, fortalecendo também nas discussões sobre os aspectos psicológicos e socioemocionais dos alu- nos. Vejamos no próximo item como podemos caracterizar o desenvolvimento e como esse pro- cesso se relaciona com a aprendizagem. DESENVOLVIMENTO O ser humano é dotado de capacidades como a memória, pensamento, lingua- gem, inteligência. Ainda podemos mencionar a capacidade motora, física, nosso comportamento, entre muitas outras, mas para entender como tudo isso se forma e também muda no homem no decorrer da vida, é de interesse do campo da Psicologia do Desenvolvimento, também conhecida de Psicologia Evolutiva. Griggs (2009, p. 236) nos diz que “A psicologia do desenvolvimento é o estudo científico do desenvolvimento biológico, cognitivo, social e da persona- lidade ao longo de todo o período da vida”. APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Porém, para compreender as questões evolutivas sob uma perspectiva psicoló- gica, faz-se necessária uma reflexão sobre alguns núcleos conceituais significativos, tais como: as bases das grandes orientações teóricas da Psicologia Evolutiva, os conceitos de aprendizagem e de desenvolvimento decorrentes dessas orientações, o significado de estágios de desenvolvimento ou períodos críticos, dentre outros. Só partindo dessas reflexões poderemos entender as orientações predomi- nantes na atualidade sobre o desenvolvimento do ser humano, vendo-o não como determinado exclusivamente pela herança biológica nem pela força do ambiente, mas como fenômeno histórico e culturalmente determinado. Para chegar a essa compreensão, iniciamos este item apresentando as prin- cipais orientações teóricas da Psicologia Evolutiva no último século. A seguir, explanamos o conceito de desenvolvimento adotado por alguns autores repre- sentativos da Psicologia Evolutiva e o papel atribuído à herança e ao ambiente por esses autores. Para concluir, aprofundamos um pouco as visões de Piaget e Vygotsky neste campo. A PSICOLOGIA EVOLUTIVA NO SÉCULO XX3 O objeto de estudo da Psicologia Evolutiva é toda a vida das pessoas e os pro- cessos de mudanças psicológicas que nela ocorrem. Durante séculos, essa preocupação não esteve presente na ciência psicoló- gica, uma vez que a Psicologia fazia parte do campo da Filosofia e seu objeto central decorria das visões de homem e de mundo predominantes nas teorias filosóficas e da resultante relação sujeito-objeto do conhecimento. Os principais autores que se ocuparam especificamente das questões evoluti- vas sob uma perspectiva psicológica situam-se na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, porém, as bases das grandes orientações 3 As ideias expostas neste item são defendidas principalmente por Pallacios (1988 apud COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004). 27 A Psicologia Evolutiva no Século XX Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . teóricas da Psicologia Evolutiva se encontram em época bem anterior. No século XVII e XVIII, encontramos os britânicos John Lock e David Hume, cujos posi- cionamentos filosóficos são conhecidos como empirismo. Dentre as principais ideias de Lock encontra-se a conhecida metáfora segundo a qual, no momento do nascimento, a mente humana seria uma folha em branco, uma ‘tábula rasa’. O conteúdo psíquico seria resultante apenas da experiência que o indivíduo adquire em contato com o meio, da estimulação que recebe. Para dizê-lo de forma mais clássica, remetendo a Aristóteles, “[...]nada existe na inteligência que não tenha passado antes pelos sentidos”. Fundados nesse princípio estão, de forma geral, os modelos mecanicistas de desenvolvimento, de base behaviorista. Resumindo esta visão, podemos dizer que o empirismo filosófico inglês do século XVIII fundamenta, mais de duzentos anos depois, o Condutivismo Psicológico, que defende que a história psicológica das pessoas não é mais do que a história de suas aprendizagens. De forma diferente, Jean Jacques Rousseau e Immanuel Kant (século XVIII) exemplificam o ponto de vista acerca da existência de determinadas categorias inatas no ser humano. Rousseau pensava sobre a bondade natural da criança; e Kant, a existência de categorias inatas de pensamento. Rousseau também sugere uma divisão da infância em estágios, cada um dos quais apresentando características próprias e exigindo tratamento educacional diferenciado. Essa abordagem inatista-maturacionista parte do princípio de que fatores hereditários ou fatores maturacionais têm mais importância para o desenvolvi- mento da criança e para a determinação de suas capacidades do que os fatores relacionados à aprendizagem e também à experiência (FONTANA; CRUZ, 1997). Podemos pensar que a hereditariedade é um conjunto de qualidades que estão fixadas no indivíduo desde o nascimento, ou seja, é sua herança gené- tica que não dependeria inicialmente de fatores externos. Para os teóricos que defendem tal pensamento, a inteligência, as aptidões individuais, traços como a cor dos olhos, são características herdadas e independem da aprendizagem e da experiência (FONTANA; CRUZ, 1997). APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Vale ressaltar que é também neste período (século XVII, XVIII) que movi- mentos culturais e religiosos, como o IIuminismo e o Protestantismo, deram origem a uma visão de infância diferente daquela da Idade Média. Pois até então considerava-sea criança como adultos menores, mais frágeis e menos inteligen- tes. Na Idade Média, as crianças se tornavam aprendizes no sistema de trabalho a partir dos 7 anos, sob a tutela de um adulto, passando a ter responsabilidades que se tornavam progressivamente mais próximas daquelas do adulto. Os avanços das descobertas científicas oportunizaram que se diminuísse o índice de mortalidade infantil até então, muito comum nesse período da histó- ria, ainda no século XVII, de forma gradativa, passou-se a considerar a criança como diferente do adulto, o que até então não ocorria, a ela era permitido parti- cipar de todas as atividades dos adultos, incluindo trabalho e festas (FONTANA; CRUZ, 1997). Segundo Fontana e Cruz (1997), no século XVIII, Rousseau traz suas ideias sobre a criança apontando a diferenciação do funcionamento da mente da criança e do adulto, possibilitando com isso o estudo da criança e do seu comportamento numa visão científica. As ideias dos filósofos da época influenciaram o pensa- mento de grandes nomes na história da Psicologia. Esses estudos científicos somente se efetivaram no século XX e se estendem até a atualidade por meio de pesquisas na busca de compreender o desenvolvimento infantil, sendo de inte- resse da Psicologia Evolutiva. A Psicologia Evolutiva tem raízes na concepção Inatista de desenvolvimento, a qual enfatiza os fatores inatos do desenvolvimento na determinação de aptidões individuais. Com essa linha de pensamento foram se desenvolvendo os primei- ros estudos com foco na avaliação da inteligência humana. Podemos citar, como um grande nome, Alfred Binet (1857-1911), que focou seus estudos na avalia- ção da inteligência por meio de testes (FONTANA; CRUZ, 1997). Os estudiosos começaram a trabalhar a partir de um modelo de teoria evo- lucionista, entendendo o homem como determinado biologicamente restando ao ambiente pouca influência (PILETTI; ROSSATO; ROSSATO, 2014). Com o interesse científico pela criança no final dos séculos XIX e início do XX, surgem várias abordagens na busca pela compreensão dos processos de desenvolvimento e aprendizagem, com uso de diferentes métodos de acordo com cada ênfase teórica (FONTANA; CRUZ, 1997). 29 A Psicologia Evolutiva no Século XX Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Piletti, Rossato e Rossato (2014) nos dizem que na perspectiva empirista nosso desenvolvimento é influenciado e determinado pelo ambiente no qual estamos inseridos, sofremos influência do meio social e físico. Nesta perspectiva, para o aprendizado são importantes a experiência e o ambiente, não enfatizando a hereditariedade no seu desenvolvimento. Na visão interacionista do ambiente e da hereditariedade, os teóricos que a defendem afirmam que a interação pode ocorrer desde a concepção, não impedindo que se destaque um ou outro aspecto ao longo do desenvolvimento (PILETTI; ROSSATO; ROSSATO, 2014). Concluindo essa discussão sobre a importância dada à hereditariedade ou ao meio no processo de desenvolvimento, bem como a origem dessas posições, podemos apresentar a visão atualmente predominante na Psicologia sobre o tema. Segundo Papalia, Olds e Feldman (2009), algumas influências têm origem prin- cipalmente na hereditariedade – traços inatos ou características herdadas dos pais biológicos. Outras vêm do meio (interno e externo) – o mundo que está do lado de fora do eu e que começa no útero, e a aprendizagem está relacionada à experiência. Para as autoras, os cientistas já são capazes de definir com mais pre- cisão, em uma determinada população, o papel da hereditariedade e do ambiente no desenvolvimento de alguns traços. Assim, traços como a inteligência, por exemplo, são influenciados fortemente pela hereditariedade, “[...]a estimulação parental, a educação, a influência dos amigos e outras variáveis também a afe- tam” (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2009, p. 14). Arnold Gessel (1880-1961) foi o maior expoente das teorias do desenvol- vimento que dão ênfase à maturação. É considerado o primeiro psicólogo escolar norte-americano. Entre muitas obras do autor, destacamos: GESSEL, A. L. A criança dos 0 aos 5 anos. São Paulo: Martins Fontes, 1996. Fonte: Fontana; Cruz (1997). APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Pode-se concluir, portanto, que embora ainda exista algum debate sobre a questão da importância relativa da natureza e da experiência no desenvolvi- mento, muitos teóricos acreditam que esses dois fatores operam juntos e estão buscando formas de determinar como essa operação se dá. COMPREENDENDO AS INFLUÊNCIAS DO PROCESSO DE MATURAÇÃO E DO AMBIENTE NO DESENVOLVIMENTO Define-se maturação como “[...]o desdobramento de uma sequência natural de mudanças físicas e padrões de comportamento, que incluem a prontidão para adquirir novas habilidades como andar e falar”, resultantes de mudanças bioló- gicas no corpo e no cérebro (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2009, p. 14). Os estudiosos do desenvolvimento parecem concordar sobre a importância do papel da maturação na emergência de capacidades típicas da primeira e da segunda infância. Pode-se, portanto, atribuir à maturação a emergência daqueles processos comuns a todos os indivíduos. Os eventos maturacionais, que embora apareçam em momentos ou ritmos diferentes, mantêm uma média de idade, decorrem das características herdadas do indivíduo. Dentre eles, podemos citar a primeira palavra, o primeiro passo, a primeira menstruação, o desenvolvimento do pensamento lógico, a menopausa, dentre outros. Vê-se que não são eventos relacionados apenas ao desenvolvimento biológico, mas também intelectual. Considerando o desenvolvimento intelectual, a visão maturacional levou à criação do conceito de Prontidão. Para Watson (1982 apud OLSON; TORRANCE, 2000), o conceito de Prontidão tem origem nas ideias de Comenius (1592-1670), que acreditava que a criança não estava pronta para o ensino formal antes dos seis anos. Já Rousseau (1712-1778), que tinha uma visão mais naturalista sobre as sensibilidades e capacidades iniciais da criança e defendia a importância das experiências iniciais para o desenvolvimento, via a instrução formal como 31 Compreendendo as Influências do Processo de Maturação e do Ambiente no Desenvolvimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . complemento à experiência que “[...]não deveria ser imposta até que as sensibi- lidades naturais da criança estivessem suficientemente desenvolvidas no final da infância ou na adolescência” (OLSON; TORRANCE, 2000, p. 132). William James (1842-1910) também argumentava a favor do início tardio do ensino formal, em função da imaturidade intelectual da criança. Dewey (1859-1952), embora defendesse a possibilidade de desenvolvimento por meio da atividade da criança e a prontidão como dependente da interação entre a maturação e a experiência da criança ativa, acreditava que o ensino for- mal (da leitura) deveria esperar até que a criança chegasse aos oito anos de idade. Argumentava que “[...]a mente da criança pré-escolar é amplamente indiferen- ciada e egocêntrica” (OLSON; TORRANCE, 2000, p. 133). No século XX, a noção de prontidão surge na teoria de aprendizagem de Torndike (1874-1949). O autor falava de ‘unidades de condução neuronal’ que são ativadas quando determinado potencial de estímulo é satisfeito, mas defendia que haveria uma progressão constante por meio de vários platôs de capacidades gerais, portanto maturacionais. Continuando a apresentar o processo histórico de construção do conceito de prontidão e sua influência no processo de aprendizagem formal, Olson e Torrance (2000) definem prontidão como a maturidade biológica da criança que prepara e possibilita aaprendizagem. Assim, qualquer forma de apressar ou interferir no desenvolvimento seria considerado prejudicial. Pensando o ensino formal condicionado, a premissa supramencionada, a solução seria esperar até que a criança tenha amadurecimento suficiente para aprender, isto é, que esteja pronta. Vimos a aplicação desse princípio à educa- ção até bem recentemente, quando o processo de alfabetização era condicionado pela prontidão, o que resultava em submeter o ingresso da criança na educação formal ao atingimento da maturação biológica, aos seis ou sete anos de idade. Atualmente, existem métodos de pesquisa capazes de determinar com mais precisão, em uma determinada população, o papel da hereditariedade e do meio no desenvolvimento de alguns traços específicos, no entanto, ainda existe muita discussão e polêmica sobre o tema da influência desses fatores no desenvolvimento. Tem-se a impressão de que há um predomínio entre teóricos e pesquisado- res acerca da interação entre os dois fatores: há uma combinação entre meio e APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I hereditariedade na definição do processo de desenvolvimento. Olson e Torrance (2000), em uma abordagem inovadora, definem um novo conceito de prontidão, qual seja: a capacidade adaptativa dos indivíduos a exi- gências institucionais, que envolvem demandas sociais, físicas e intelectuais; conceito que está presente atualmente em nossas escolas, decorrente das novas visões de escola, de sala de aula e de educação, das descobertas da Psicologia do Desenvolvimento e das ‘novas pedagogias’. Em relação às influências ambientais, considerando que os serem humanos são seres sociais e que o desenvolvimento não ocorre de forma descontextua- lizada, Papalia, Olds e Feldman (2009, p. 15-19) apresentam um conjunto de fatores que interferem no desenvolvimento. As autoras citam a família, os condi- cionantes socioeconômicos e a vizinhança, cultura e etnia, raça e etnia e contexto histórico. O contexto familiar, que é afetado pelos demais e tem atualmente uma nova configuração, será abordado mais adiante na unidade V. A seguir, apresentamos os conceitos condensados dos fatores que abordamos. ■ Ambiente – totalidade das influências não hereditárias ou experienciais sobre o desenvolvimento. ■ Família nuclear – unidade econômica e doméstica que compreende laços de parentesco envolvendo duas gerações e que consiste em um ou dois genitores e seus filhos biológicos, adotados ou enteados. ■ Família extensa – rede de parentesco envolvendo muitas gerações formadas pelos pais, filhos e outros parentes às vezes vivendo juntos no mesmo lar. ■ Condições socioeconômicas – combinação de fatores econômicos e sociais que descrevem um indivíduo ou uma família, que incluem renda, edu- cação e ocupação. ■ Cultura – modo de vida global de uma sociedade ou de um grupo, que inclui costumes, tradições, crenças, valores, linguagem e produtos mate- riais – todo comportamento adquirido que é transmitido dos pais para os filhos. ■ Grupo étnico – grupo unido por ancestralidade, raça, religião, língua e/ ou origens nacionais que contribuem para formar um senso de identi- dade comum. 33 Compreendendo as Influências do Processo de Maturação e do Ambiente no Desenvolvimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Papalia, Olds e Feldman (2009) trazem em sua obra uma interpretação do desen- volvimento afetado por todos os fatores já indicados e ressaltam que cada um deles pode influir diferentemente, em função do momento em que estão pre- sentes na vida dos indivíduos. Para maior entendimento, em relação ao momento do desenvolvimento em que os fatores atingem o indivíduo, determinando o seu efeito no com- portamento, é importante trazer o conceito de períodos críticos ou sensíveis. Os períodos críticos seriam “[...]intervalos de tempo específicos em que um determinado evento [ou fator] ou sua ausência causa grande impacto sobre o desenvolvimento” (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2009, p. 21). Exemplos des- ses períodos, que deixam bem clara a sua importância para o desenvolvimento, são relacionados à vida intrauterina, como: mães submetidas a raios X ou que ingerem determinados medicamentos, ou contraem doenças, podem ter efeitos nocivos específicos sobre seus fetos; na infância, alguns tipos de experiências também podem impedir o desenvolvimento de habilidades específicas, como, por exemplo, a incapacidade de focar os dois olhos no mesmo objeto, que, se não for corrigida cirurgicamente logo no início da infância, pode impedir o desen- volvimento da percepção de profundidade. Outro conceito importante relacionado ao desenvolvimento é o da plasti- cidade, que, em contraposição ao conceito de períodos críticos, gera polêmica entre os cientistas, pois se sabe que mesmo no domínio biológico/neurológico há uma ‘modificabilidade de desempenho’, uma capacidade adaptativa do indi- víduo que pode levá-lo a superar os efeitos dos fatores ambientais. Devido à polêmica, sugerimos o uso do termo “períodos sensíveis” (ao invés de críticos), para definir quais aspectos do comportamento são mais sensíveis aos efeitos do ambiente e em que momento do desenvolvimento. Na continuidade deste item, apontamos um exemplo sobre os efeitos diferenciados de um evento (a grande depressão americana da década de 1930), em função da idade e condição social. APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I COMPREENDENDO O DESENVOLVIMENTO NA ÊNFASE SÓCIO-HISTÓRICA CULTURAL A Psicologia construiu suas bases nas ciências biológicas, todavia, a partir do século XX, surgem na história as discussões que envolvem os aspectos da cultura no desenvolvimento humano, considerando as relações e as condições objetivas e os contextos culturais (PILETTI; ROSSATO; ROSSATO, 2014). Pautados nesse pensamento, revelamos a importância de compreender a relação entre homem e sociedade, pois “[...]o homem é um ser social, político e histórico e é construído, cria e é recriado mediado pelas relações sociais estabe- lecidas historicamente” (PILETTI; ROSSATO; ROSSATO, 2014, p. 35). Por isso, entendemos que o homem vai construindo seu mundo, transformando a socie- dade e sendo transformado por ela. Na construção desse pensamento, por volta de 1920, originou-se na Rússia a Teoria Histórico-Cultural, concebida por L. S. Vygotski (1896-1934), a partir dos ideais do Materialismo Histórico-Dialético proposto por Karl Marx (1818- 1883). Marx contou com os seguidores Alexander Romanovich Luria (1902-1977) e Alexei Nicolaevich Leontiev (1903-1979) que o ajudaram a construir a teoria que vem sendo muito utilizada na atualidade, na busca de compreender esse homem social, visto que suas transformações ocorrem em um processo dialé- tico a partir de suas relações (TULESKI, 2008). FATORES DETERMINANTES DO DESENVOLVIMENTO O estudo do desenvolvimento teve início no século XVIII, com as ’biografias de bebês’. Alguns cientistas evolucionistas acreditavam que a observação do compor- tamento infantil poderia levar a uma melhor compreensão da espécie humana. O estudo do desenvolvimento na adolescência, quando essa etapa da vida pas- sou a ser vista como um período específico do desenvolvimento, só aconteceu a partir do início do século XX, e a inclusão de todo o ciclo da vida como objeto de 35 Fatores Determinantes do Desenvolvimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . estudo do desenvolvimento é ainda mais recente: só na década de 1920 os psicó- logos começaram a se interessar pelo envelhecimento. Atualmente, a maioria dos cientistas do desenvolvimento reconheceque esse processo continua ao longo de toda a vida. Esse conceito é conhecido como desenvolvimento do ciclo da vida e já existe uma estrutura teórica consistente para que se compreenda todo o processo de desenvolvimento. Para estudar o ciclo da vida, os cientistas criaram uma divisão em perío- dos ou etapas, a qual é uma construção teórica, arbitrária e muitas vezes não se aplica igualmente a todas as sociedades, mas é amplamente aceita na sociedade para facilitar a compreensão dos processos de desenvolvimento. Segue, então, a tabela que representa o ciclo. FAIXA ETÁRIA DESENVOLVIMENTO FÍSICO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL PERÍODO PRÉ-NATAL (DA CONCEPÇÃO AO NASCIMENTO) Ocorre a concepção por fertilização nor- mal ou por outros meios. Desde o começo, a dotação genética interage com as influências ambien- tais. Formam-se as es- truturas e os órgãos corporais básicos: inicia-se o surto de crescimento do cérebro. O crescimento físico é o mais acelerado do ciclo de vida. É grande a vulnerabilidade às influências ambientais. Desenvolvem-se as capacidades de aprender e lembrar, bem como as de responder aos estí- mulos sensoriais. O feto responde à voz da mãe e desenvolve uma preferência por ela. APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I PRIMEIRA INFÂNCIA (DO NASCIMENTO AOS 3 ANOS) No nascimento, todos os sentidos e sistemas corpo- rais funcionam em graus variados. O cérebro aumenta em complexida- de e é altamente sensível à influência ambiental. O crescimento físico e o desenvol- vimento das habili- dades motoras são rápidos. As capacidades de aprender e lembrar estão presentes, mesmo nas primei- ras semanas. O uso de símbolos e a capacidade de resolver problemas se desenvolvem por volta do final do segundo ano de vida. A compreensão e o uso da linguagem se desenvolvem rapidamente. Formam-se os vínculos afetivos com os pais e com outras pessoas. A autoconsciência se desenvolve. Ocorre a passagem da dependência para a autonomia. Aumenta o inte- resse por outras crianças. 37 Fatores Determinantes do Desenvolvimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . SEGUNDA INFÂNCIA (3 A 6 ANOS) O crescimento é constante; a aparência torna-se mais esguia e as proporções mais parecidas com as de um adulto. O apetite diminui e são comuns os problemas com o sono. Surge a preferência pelo uso de uma das mãos; aprimo- ram-se as habilida- des motora fina e gerais e aumenta a força física. O pensamento é um tanto egocên- trico, mas aumenta a compreensão do ponto de vista dos outros. A imaturidade cognitiva resulta em algumas ideias ilógicas sobre o mundo. Aprimoram-se a memória e a lingua- gem. A inteligência torna- -se mais previsível. É comum a experi- ência do maternal e mais ainda a da pré-escola. O autoconceito e a compreensão das emoções tornam- -se mais comple- xos, a autoestima é global. Aumentam a independência, a iniciativa e o auto- controle. Desenvolve-se a identidade de gênero. O brincar torna-se mais imaginativo, mais elaborado e, geralmente, mais social. Altruísmo, agres- são e temor são comuns. A família ainda é o foco da vida social, mas outras crianças tornam-se mais importantes. APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I TERCEIRA INFÂNCIA (6 A 11 ANOS) O crescimento tor- na-se mais lento. A força física e as habilidades atléti- cas aumentam. São comuns as do- enças respiratórias, mas de um modo geral a saúde é melhor do que em qualquer outra fase do ciclo de vida. Diminui o egocen- trismo. As crianças começam a pensar com lógica, porém concretamente. As habilidades de memória e lingua- gem aumentam. Ganhos cognitivos permitem à criança beneficiar-se da instrução formal na escola. Algumas crianças demonstram ne- cessidades educa- cionais e talentos especiais. O autoconceito torna-se mais com- plexo, afetando a autoestima. A co-regulação reflete um desloca- mento gradual no controle dos pais para a criança. Os colegas assu- mem importância fundamental. ADOLESCÊNCIA (11 A APROX. 20 ANOS) O crescimento físico e outras mu- danças são rápidas e profundas. Ocorre a maturida- de reprodutiva. Os principais riscos para a saúde emer- gem de questões comportamentais, tais como transtor- nos alimentares e abuso de drogas. Desenvolve-se a capacidade de pensar em termos abstratos e de usar o raciocínio cien- tífico. O pensamento imaturo persiste em algumas atitudes e comportamentos. A educação se concentra na preparação para a faculdade ou para a profissão. A busca pela iden- tidade, incluindo a identidade sexual, torna-se central. O relacionamento com os pais geral- mente amadurece. Os amigos podem exercer influência positiva ou nega- tiva. 39 Fatores Determinantes do Desenvolvimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . INÍCIO DA VIDA ADULTA (20 A 40 ANOS) A condição física atinge o auge, depois declina ligeiramente. Opções de estilo de vida influenciam a saúde. O pensamento e os julgamentos morais tornam-se mais complexos. São feitas as esco- lhas educacionais e vocacionais. Traços e estilos de personalidade tornam-se relati- vamente estáveis, mas as mudanças na personalida- de podem ser influenciadas pelos estágios e eventos da vida. São tomadas deci- sões sobre relacio- namentos íntimos e estilos de vida pessoais. A maioria das pes- soas casa-se e tem filhos. VIDA ADULTA INTERMEDIÁRIA (40 A 65 ANOS) Pode ocorrer uma lenta deterioração das habilidades sensoriais, da saú- de, do vigor e da força física, mas são grandes as diferen- ças individuais. As mulheres entram na meno- pausa. As capacidades mentais atingem o auge, a especializa- ção e as habilidades relativas à solução de problemas práti- cos são acentuadas. A criatividade pode declinar, mas sua qualidade é melhor. Para alguns, o sucesso na car- reira e o sucesso financeiro atingem seu máximo; para outros, poderá ocorrer esgotamen- to ou mudança de carreira. O senso de iden- tidade continua a se desenvolver, pode ocorrer uma transição para a meia-idade. A dupla responsa- bilidade pelo cuida- do dos filhos e dos pais idosos pode causar estresse. A saída dos filhos deixa o ninho vazio. APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I VIDA ADULTA TARDIA (65 ANOS EM DIANTE) A maioria das pessoas é saudável e ativa, embora ge- ralmente haja um declínio da saúde e das capacidades físicas. O tempo de reação mais lento afeta alguns aspectos funcionais. A maioria das pessoas é men- talmente alerta. Embora inteligência e memória possam se deteriorar em algumas áreas, a maioria das pessoas encontra meios de compensação. A aposentadoria pode oferecer novas opções para o aproveitamento do tempo. As pessoas desen- volvem estratégias mais flexíveis para enfrentar perdas pessoais e a morte iminente. O relacionamento com a família e com amigos ínti- mos pode propor- cionar um impor- tante apoio. A busca de sig- nificado para a vida assume uma importância funda- mental. Tabela 1: Principais desenvolvimentos típicos em oito períodos do desenvolvimento humano Fonte: Papalia, Olds e Feldman (2009, p. 12-13). As ideias apresentadas anteriormente nos levam a concluir que, atualmente, a Psicologia Educacional tem uma visão interacionista da influência da here- ditariedade, ambiente e maturação na aprendizagem e no desenvolvimento.Pode-se também destacar que à medida que a criança se torna adolescente e depois adulta, embora a maturação continue a influenciar certos aspectos bio- lógicos do desenvolvimento, as experiências de vida de cada indivíduo têm uma influência fundamental nas características inatas. Essas influências estão liga- das à nutrição, à estimulação parental, à influência dos amigos, à educação, ao contexto familiar e cultural, dentre outros fatores, que passam a ter papel impor- tante no desenvolvimento. Para representar as ideias sobre desenvolvimento aqui apresentadas, traze- mos uma síntese das ideias de Baltes (1987 apud PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2009, p. 23-24) sobre os princípios básicos do desenvolvimento do ciclo da vida, na seção ‘Leitura Complementar’, encontrada ao final desta unidade. 41 Fatores Determinantes do Desenvolvimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Resumindo, sobre a relação desenvolvimento-aprendizagem, na perspectiva his- tórico-cultural, Vygotsky e Luria (1996, p. 53) demonstram em seus estudos que o desenvolvimento psicológico está “[...]solidamente introduzido no contexto de todo o desenvolvimento social e revela-se em seu elemento constituinte orgânico”. Assim, Tuleski (2008) afirma que os processos de desenvolvimento estão ligados dialeticamente, de modo que um é responsável por transformar o outro, rompendo com o determinismo biológico, pois este é o que iguala o homem aos animais, reduzindo-o a simples reações e reflexos fisiológicos. A mesma autora discorre que romper com o determinismo biológico leva à consciência da trans- formação do homem biológico em homem social. Conforme a nossa compreensão, seguem alguns tópicos orientados pela con- cepção Histórico-Cultural: ■ A expansão e o aprofundamento da experiência individual é decorrência da apropriação da experiência social. ■ Na dinâmica do processo de desenvolvimento das funções mentais supe- riores do ser humano, há uma internalização da dimensão cultural por meio de um processo de interação/mediação. ■ Aprendizagem e desenvolvimento não acontecem de modo simétrico, paralelo, nem igual para todos os indivíduos, eles dependem da atividade e das características sociointerativas e individuais de cada um. ■ Mesmo considerando a influência dos fatores biológicos no desenvolvi- mento, o sujeito se constitui na relação. Há, verdadeiramente, duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ci- ência consiste em saber; em crer que se sabe está a ignorância. Fonte: Hipócrates. APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO HUMANO: CONCEITOS BÁSICOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade procuramos definir alguns parâmetros para a aplicação dos estu- dos da Psicologia à Educação e à Aprendizagem. Conceituamos aprendizagem e mostramos a relação dela com diferentes visões epistemológicas. Buscamos demonstrar algumas vertentes de estudo na área de aprendizagem que hoje ocu- pam lugar de destaque nas pesquisas sobre a aplicação dos princípios da Psicologia à Educação. Dentre as vertentes, destacamos os estudos sobre metacognição, raciocínio e estratégias de aprendizagem, além de apresentarmos alguns fato- res interferentes no processo de indicarmos as possibilidades de trabalhar com esses conceitos, isto é, as diferentes teorias pedagógicas às quais eles correspon- dem e os objetivos do processo formal de educação. A seguir, analisamos os conceitos relativos ao Desenvolvimento do ser humano, identificando os fatores determinantes do processo e as maneiras de abordar o seu estudo. Expomos a discussão sobre a influência da hereditariedade e do ambiente sobre o desenvolvimento, trazendo diferentes pontos de vista sobre o tema, destacando diferentes visões teóricas sobre o estudo do ciclo da vida. Também mencionamos o desenvolvimento na ênfase da perspectiva his- tórico-social e cultural, apontando a visão de homem apresentada por esse pensamento teórico que vem norteando a compreensão e a prática dos profis- sionais da Psicologia e da Educação. Esperamos que o domínio dos conceitos sobreditos possa lastrear a definição de uma prática pedagógica coerente com os princípios da ciência, no que tange à compreensão do educando em seu processo de aprendizagem e desenvolvimento. Sugerimos que você, caro(a) aluno(a), busque, a partir de seus interesses pesso- ais, aprofundar os conceitos estudados, por meio de pesquisa e estudo. Sabemos que debruçar-se sobre o desenvolvimento humano exige muito, no entanto, é a partir de uma base sólida fundamentada em teorias científicas que irá alcançar respostas para as indagações corriqueiras que surgem ao nos depararmos com um objeto de estudo tão complexo quanto o homem. 43 1. A aprendizagem em seu processo de desenvolvimento pode ser influenciada por fatores intrapessoais e situacionais, visto sua ação direta ou indireta na aprendizagem da criança, é essencial que o professor compreenda sobre os reflexos dos fatores citados em sua prática, para isso é importante conhecer e refletir sobre os mesmos, para práticas interventivas assertivas. Pautado(a) na afirmação, apresente os fatores descritos que interferem no desenvolvimento e aprendizagem. 2. Os cientistas evolucionistas se interessavam por compreender o desenvolvi- mento humano estudando o comportamento infantil. A partir da década de 1920, a ciência se interessou por compreender outros períodos de desenvolvi- mento, como o envelhecimento humano, isso revela que o processo de desen- volvimento ocorre em todas as fases da vida. Diante do exposto, descreva os períodos de desenvolvimento humano e as características típicas do desenvol- vimento psicossocial na vida adulta tardia. 3. O pensamento teórico com ênfase sócio-histórica cultural nos diz que a matu- ração é um fator secundário no desenvolvimento, sendo a experiência social dominante para o desenvolvimento humano. De acordo com a afirmação, apre- sente a compreensão de ‘homem’, a partir dessa perspectiva teórica. PSICOLOGIA ESCOLAR E EDUCACIONAL Vamos apresentar alguns fragmentos da entrevista com o professor Lino de Macedo4 Entrevistadora: Marilene Proença Rebello de Souza LINO DE MACEDO é Professor Titular na área de Psicologia do Desenvolvimento e Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo, instituição em que desenvolveu sua carreira docente, no Instituto de Psicologia. Um dos maiores estudiosos da Teoria de Piaget no Brasil, o Professor Lino é unanimidade quando se trata de pensar, problemati- zar e discutir temas educacionais. Marilene: Lino, como se deu sua aproximação com a área de Psicologia Escolar e Edu- cacional? Lino de Macedo: [...] Fiz a escola normal e, com 18 anos, já era professor de alunos das primeiras séries de uma escola rural. Fiz o curso Pedagogia (1963-1966) e recém-forma- do passei a dar aulas de Psicologia de Desenvolvimento nesta mesma faculdade. Desde 1970, sou professor desta disciplina na USP (primeiro em Ribeirão Preto e, a partir de 1976, no Instituto de Psicologia, em São Paulo) considerando suas aplicações à perspec- tiva da aprendizagem escolar de crianças e adolescentes. [...] Em síntese, posso dizer que, em toda minha vida, a questão escolar, principalmente em sua relação com a Psicologia do Desenvolvimento foi uma constante. Minha tese de doutorado (1973) refere-se a um trabalho experimental sobre as relações entre desenvolvimento operatório e aprendizagem. Finalmente, desde 1988, coordeno um laboratório onde os jogos são usados como recursos para a promoção dos processos de desenvolvimento das crianças em favor de sua aprendizagem escolar. Marilene: Lino, que contribuições você considera que Piaget tem trazido para a Psicolo- gia Escolar e Educacional? Lino de Macedo: Para mim, sua contribuição é fundamental, necessária, ainda que insu- ficiente e incompleta paradar conta da complexidade desta questão. Enumero algumas das contribuições de Piaget: - Análise teórica e experimental dos processos de tomada de consciência, abstração, generalização, construção de possíveis e necessários, correspondências e transforma- ções, implicações, lógica das significações e formas elementares da dialética. Todos es- ses temas foram estudados na perspectiva do sujeito que conhece, no caso, crianças, com idade, aproximadamente, entre 5 e 15 anos, entrevistadas em uma dada situação experimental. 4 Conheça na íntegra a entrevista em: SOUZA, Marilene P. R. de. Entrevista com o professor Lino de Macedo. Psicol. Esc. Educ., Campinas, v. 8, n. 2, dez. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pee/v8n2/v8n2a13.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2015. 45 - Descrição dos níveis ou estádios de desenvolvimento das crianças em relação a temas fundamentais à sua compreensão e realização de problemas da lógica e da matemática, como, por exemplo, classificar, ordenar, quantificar, inferir, excluir variáveis, comparar, anular, compensar, estabelecer relações, deduzir etc. - Descrição dos níveis ou estádios de desenvolvimento da função simbólica na criança (imagem, imitação, jogo, representação, linguagem etc.). - Análise das formas pelas quais as crianças aprendem pouco a pouco a cooperar, trocar pontos de vista, descentrar, relacionar-se segundo regras, superar sua visão simpática ou antipática em favor da reciprocidade e da vontade como regulação social e afetiva das trocas interindividuais. Ora, esses temas são fundamentais tanto para o professor como para o aluno. Piaget e colaboradores fizeram muitos estudos experimentais sobre noções e opera- ções da lógica e da matemática na criança. Disse na criança e não da criança. Por que saber isso é necessário ao processo educacional? As disciplinas escolares ensinam ainda hoje os conteúdos (conceitos e operações) pautados na perspectiva dos adultos, isto é, do conhecimento científico tal como estabelecido, demonstrado pelos pesquisadores. A didática tradicional, neste sentido, consistia em apenas um esforço de simplificar e organizar os conceitos de modo didático e em propor exercícios e problemas que, em princípio, facilitariam a aprendizagem das crianças. Marilene: Você tem se preocupado em buscar possíveis aproximações da teoria de Pia- get com o processo educativo, com a prática em sala de aula, como você analisa tais possibilidades? Lino de Macedo: Penso que há uma correspondência entre os interesses teóricos de Piaget e os objetivos da prática em sala de aula. Para ambos, o tornar-se é a questão mais importante. No caso da escola, como a criança torna-se alfabetizada? Como aprende noções de cálculo? No caso de Piaget, como a criança torna-se operatória, cooperativa, sensível a uma interação pautada por regras e projetos? No meu caso, especificamente, o propósito sempre foi o de saber compartilhar o pro- cesso construtivo de meus orientandos em favor de sua formação pós-graduada. Em outras palavras, como um aluno torna-se mestre e doutor? Como produz uma pesquisa, escreve uma tese? Não se trata de ser construtivista (no sentido ideológico), mas de aprender a observar e a favorecer um processo de construção. Onde está uma tese que ainda não foi escrita? Onde está a alfabetização de um aluno ainda ignorante da leitura e da escrita? O interessante da idéia de construção - que na maior parte das vezes refe- re-se a uma reconstrução - resume-se ao problema do como criar o que não existe (caso, por exemplo, da tese) ou de transpor o que existe em um plano ou escala (já temos ciências da linguagem, os professores já sabem ler e escrever) para um outro (tornar o aluno alfabetizado). O que é construção como processo revela-se, pouco a pouco, como descoberta daquilo que já é conhecido no plano social, por exemplo. O que é constru- ção se expressa, na prática, como invenção de estratégias ou recursos para aprender. Mas construir não se reduz de imediato a inventar ou a descobrir. Em outras palavras, os objetivos da escola coincidem, correspondem aos interesses de Piaget, ainda que este não tenha uma contribuição específica para a aprendizagem escolar. ABORDAGEM DE BALTES AO DESENVOLVIMENTO DO CICLO DE VIDA Paul B. Baltes e seus colegas (1987; BALTES, LINDENBERGER; STAUDINGER, 1998; STAU- DINGER & BLUCK, 2001) identificaram seis princípios básicos em sua abordagem do desenvolvimento do ciclo de vida que retoma muitos dos conceitos discutidos neste capítulo. Juntos, esses princípios servem como uma estrutura conceitual amplamente aceita para o estudo do desenvolvimento do ciclo de vida: 1. O desenvolvimento é vitalício. O desenvolvimento é um processo vitalício de mudança na capacidade de se adaptar às situações escolhidas ou nas quais a pessoa se encontra. Cada período do ciclo de vida é afetado pelo que aconteceu antes e afetará o que está por vir. Cada período tem suas próprias características e valores; nenhum é mais ou menos importante que qualquer outro. Mesmo pessoas muito velhas podem crescer emocionalmente e intelectualmente. A experiência da morte pode ser última tentativa de chegar a um acordo com a própria vida – em resumo, de se desenvolver. 2. O desenvolvimento envolve ganho e perda. O desenvolvimento é multidimen- sional e multidirecional. Ocorre ao longo de múltiplas dimensões que interagem – biológica, psicológica e social –, cada uma delas podendo se desenvolver em ritmos diferentes. O desenvolvimento também prossegue em mais de uma di- reção. Enquanto as pessoas ganham em uma área, podem perder em outra, às vezes ao mesmo tempo. As crianças crescem principalmente em uma direção – para cima – tanto em tamanho quanto em habilidades. Depois o equilíbrio aos poucos se desloca. Os adolescentes ganham em termos de habilidade física, mas perdem a facilidade em aprender uma língua. Algumas habilidades, como o vocabulário, continuam crescendo ao longo da idade adulta; outras, como a capacidade de resolver problemas não familiares, poderão diminuir; e alguns novos atributos, como o conhecimento especializado, poderão se desenvolver na meia-idade. As pessoas procuram maximizar os ganhos concentrando-se em fazer coisas que sabem fazer bem e minimizar perdas aprendendo a administrá- -las ou compensá-las – por exemplo, escrevendo listas de coisas a serem lembra- das quando a memória se debilita. 3. Influências relativas de mudanças biológicas e culturais sobre o ciclo de vida. O processo de desenvolvimento é influenciado tanto pela biologia quanto pela cultura, mas o equilíbrio entre essas influências se altera. Influências biológicas, como acuidade sensorial, força e coordenação muscular, tornam-se mais fracas com a idade, mas apoios culturais, tais como educação, relacionamentos e am- bientes tecnologicamente amigáveis à idade podem ajudar a compensar. 47 4. Desenvolvimento envolve mudança na alocação de recursos. Os indivíduos escolhem como “investir” seus recursos de tempo, energia, talento, dinheiro e apoio social de várias maneiras. Os recursos podem ser usados para o crescimen- to (por exemplo, aprender a tocar um instrumento ou aprimorar uma habilida- de), para a conservação ou recuperação (praticar para manter ou recobrar uma proficiência), ou para lidar com a perda quando a conservação e a recuperação não forem possíveis. A alocação de recursos para essas três funções muda ao longo da vida, à medida que diminui o conjunto de recursos disponíveis. Na in- fância e no início da vida adulta, a maior parte dos recursos é direcionada para o crescimento; na velhice, para a regulação da perda. Na meia-idade, a alocação é mais equilibrada entre as três funções. 5. O desenvolvimento revela plasticidade. Muitas capacidades como a memória, a força física e a resistência, podem ser aperfeiçoadas com o treinamento e a práti- ca, mesmo em idade avançada. Mas, como aprendeu Itard, até mesmo nas crian- ças a plasticidade tem limites. Uma das tarefas da pesquisaem desenvolvimento é descobrir até que ponto determinados tipos de desenvolvimento podem ser modificados em diversas idades. 6. O desenvolvimento é influenciado pelo contexto histórico e cultural. Cada pes- soa se desenvolve em múltiplos contextos – circunstâncias ou condições defi- nidas em parte pela maturação e em parte pelo tempo e lugar. Além da regula- ção pela idade e das influências não-normativas os seres humanos não apenas influenciam, mas também são influenciados pelo contexto histórico-cultural. Conforme discutiremos ao longo deste livro, os cientistas do desenvolvimento descobriram diferenças significativas entre cortes no funcionamento intelectu- al, no desenvolvimento emocional de mulheres na meia-idade e na flexibilidade da personalidade na velhice. Fonte: FELDMAN, Ruth Duskin; PAPALIA, Diane E. Desenvolvimento Humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH. MATERIAL COMPLEMENTAR Aqui você encontra artigos e vídeos sobre o Behaviorismo e a importância do ambiente no desenvolvimento: <https://psico0809.wordpress.com/2008/10/14/behaviorismo/>. Para saber mais sobre Metacognição, leia o artigo: <http://www.scielo.br/pdf/cp/v35n125/a1135125.pdf>. Artigos sobre as ideias de Vygotsky e Paulo Freire podem ser encontrados no site: <http://www.centrorefeducacional.com.br/vygotsky.html>. Caso você queira aprender mais a respeito das sínteses interessantes sobre as ideias de Piaget, com referências a sua vida e obras, que podem ajudá-lo(a) a fixar e reelaborar a teoria do autor discutida aqui, acesse o link: <http://penta.ufrgs.br/~marcia/piaget.htm>. U N ID A D E II Professora Dra. Rachel de Maya Brotherhood Professora Me. Waléria Henrique dos Santos Leonel TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Objetivos de Aprendizagem ■ Identificar os pressupostos epistemológicos das principais abordagens da aprendizagem. ■ Analisar as abordagens do processo de aprendizagem. ■ Descrever as teorias de Piaget e Vygotsky. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Comportamentalismo ■ Construtivismo: a epistemologia genética de Jean Piaget ■ Teoria histórico-cultural: Vygotsky ■ Humanismo INTRODUÇÃO Vimos, na unidade anterior, os conceitos básicos de aprendizagem e desenvol- vimento, com o objetivo de facilitar a compreensão e o domínio das teorias que estudaremos nesta e nas próximas unidades. Sabemos que uma teoria é uma tentativa de sistematizar os conhecimentos construídos por um autor ou grupo de autores sobre um determinado objeto de estudo ou uma área de conhecimento. Portanto, é uma maneira particular de ver e explicar os fenômenos e orientar a solução de problemas. Segundo Moreira (1999), de uma maneira geral, as teorias de aprendiza- gem estão contidas em teorias mais amplas de desenvolvimento, como é o caso, por exemplo, da teoria de Piaget, que, embora sendo uma teoria de desenvolvi- mento, causa muitas implicações para a aprendizagem. Outra questão ressaltada pelo autor é que a aprendizagem tem componen- tes cognitivos, afetivos e psicomotores, mas em cada situação há o predomínio de um desses componentes. A aprendizagem cognitiva, foco da maioria das teorias, destaca os processos de construção e o armazenamento organizado de informações e conhecimentos na memória do aprendiz; a aprendizagem afetiva trata de experiências, como prazer e dor, satisfação e descontentamento, alegria ou ansiedade; a aprendizagem psicomotora enfoca habilidades adquiridas por meio do treino e da prática. Aqui, por necessidade de definirmos um foco e não por considerarmos exclu- sivas ou mais importantes, abordamos duas das principais linhas de pensamento sobre aprendizagem cognitiva (Piaget e Vygotsky) e a teoria de Freud, que des- creve aspectos motivacionais e de constituição da personalidade por meio de estágios na infância e adolescência, por sua importância para a compreensão da educação escolar. Posteriormente, explicitamos as principais linhas de pensa- mento da Psicologia Escolar, destacando o enfoque de cada uma dessas linhas. 51 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II DIFERENTES ABORDAGENS TEÓRICAS DO PROCESSO DE APRENDIZAGEM COMPORTAMENTALISMO O comportamentalismo sur- giu nos Estados Unidos, no início do século XX, tendo B. F. Skinner como princi- pal representante. A teoria Behaviorista de Skinner tem seus fun- damentos nos trabalhos de Ivan Pavlov, John Watson e Edward L. Thorndike, que desenvolveram o Conexionismo, teoria que supõe que todas as respostas (comportamentos) são eliciadas por estímulos, ou seja, a ideia de conexão entre estímulo e resposta (S-R). É uma abordagem periférica, que não leva em consideração o que ocorre na mente do indivíduo durante o processo de aprender. Segundo Glassman (2008), tiveram grande importância na construção da teoria comportamentalista nomes como Edwin Lynn Thordike (1874-1949) e John B. Watson (1878-1958), conhecido como o fundador do Behaviorismo radical, assim chamado por apresentar escassez de fatos, no entanto, com os experimentos (particularmente em animais) de Thordike e os escritos e ideias de Watson, abriram caminho para o behaviorismo, oportunizando dados expe- rimentais mensuráveis sobre o comportamento humano. Dentro do pensamento comportamentalista, a ênfase é dada nas rela- ções entre o ambiente e o comportamento. No que diz respeito à perspectiva Behaviorista, o foco está no papel dos estímulos ambientais em nossa forma de agir. Dessa maneira, a aprendizagem, de acordo com essa visão, “é uma mudança 53 Diferentes Abordagens Teóricas do Processo de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . no comportamento que ocorre como resultado da experiência” (GLASSMAN, 2008, p. 122). Para compreendermos o processo de aprendizagem, conforme essa perspectiva teórica, precisamos entender alguns conceitos importantes que respaldam a teoria. O Behaviorismo é distinguido por sua ênfase na relação entre os comporta- mentos observáveis (respostas) e mensuráveis, ou seja, é uma linha de pensamento que acredita no estudo das respostas do sujeito aos estímulos externos e aos eventos ambientais (estímulos). Logo, segundo essa concepção, a experiência humana pode ser compreendida como inter-relações entre os estímulos e as res- postas (GLASSMAN, 2008). O Behaviorismo, em sua base, é formado pelos pressupostos da Parcimônia, a qual, na filosofia, compreende-se como um princípio que busca explicações mais simples possíveis para cada evento. Também tem suas origens no Associacionismo, doutrina defendida por Aristóteles, que compreende os processos mentais, espe- cialmente, a aprendizagem, com suas bases na criação de conexões entre ideias e eventos, isto é, a teoria behaviorista compreende as teorias sobre a forma de como as associações são criadas (GLASSMAN, 2008). Encontramos limitações na teoria, visto que a ênfase do Behaviorismo se dá pelos eventos observáveis, pensamento, sentimentos e outros eventos mentais internos que não podem ser estudados de forma empírica. Diante disso, entenderemos alguns conceitos importantes da teoria: o com- portamento pode ser influenciado por um estímulo, que pode ser mensurado, como um evento, um fato, situação, objeto que provoca mudança no ambiente e altera o comportamento. O comportamento observado, que pode ser mensurado a partir de um estímulo, é a resposta. Para o Behaviorismo, há uma distinção entre reflexos e ações voluntárias. Podemos dizer que o termo ‘reflexos’ corres- ponde a uma resposta não aprendida, que pode ser desencadeada por estímulos ambientais específicos; o denominado ‘respostas voluntárias’significa uma reposta controlada pelo indivíduo (GLASSMAN, 2008). De acordo com Glassman (2008), Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) desco- briu, por meio de suas pesquisas com cães, o que chamou de salivação psíquica, isto é, a salivação do animal antes da oferta da comida. As descobertas de Pavlov foram a base para o condicionamento clássico, no TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II qual dizemos, de acordo com a perspectiva Behaviorista, que é “[...]o estudo da aprendizagem que envolve respostas reflexas, em que um estímulo neutro passa a despertar uma resposta reflexa já existente” (GLASSMAN, 2008, p. 128). Glassman (2008) revela que, para Pavlov, condicionado significa aprendido, dessa forma, traz as explicações de resposta não condicionada, que é uma res- posta reflexa que se produz por um estímulo; estímulo não condicionado é um estímulo que desperta uma resposta reflexa; já o estímulo condicionado ocorre no momento em que, a partir de vários estímulos repetidos, passa a dar respostas condicionadas. Compreende-se que a extinção do comportamento no condi- cionamento clássico ocorre quando há uma cessação de respostas, diante da apresentação do estímulo condicionado repetidas vezes, sem a oferta da recom- pensa, isto irá progressivamente extinguir o comportamento condicionado. Skinner teve papel relevante na construção da teoria Behaviorista, visto que foi o pioneiro do Condicionamento Operante. Quando se estabelece uma conexão entre uma resposta do indivíduo (com- portamento eliciado por algum estímulo e que é reforçado) e outro estímulo (estímulo inicialmente neutro, porque não eliciava aquela resposta), e pela conti- guidade e repetição, o estímulo neutro passa a eliciar a resposta que anteriormente não era ligada a ele, então dizemos que houve condicionamento. Segundo Gleitman (2009, p. 242), Skinner chama as respostas (condiciona- mentos) de operante, isto é, “[...]operam sobre o ambiente para causar alguma mudança que leva a alguma consequência”. No comporta- mento operante, o indivíduo age para obter o reforço (o reforço aumenta a probabi- lidade de manifestação do comportamento). Já o com- portamento denominado respondente ocorre quando o indivíduo age para fugir de uma situação desagradável ou para evitá-la. 55 Diferentes Abordagens Teóricas do Processo de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Na concepção de Skinner, outro conceito importante diz respeito à mode- lagem, qual seja, “o processo de orientação da aquisição de uma nova resposta através do reforçamento por aproximações sucessivas da resposta desejada” (GLASSMAN, 2008, p. 149). A modelagem consiste em condicionar a apresen- tação de um comportamento complexo por meio de aproximações sucessivas, ou seja, reforça-se o comportamento próximo daquele que se deseja (comporta- mento inicial) e segue-se reforçando os comportamentos que mais se aproximam do comportamento terminal desejado, até que o indivíduo o atinja. Os comportamentos condicionados podem ser extintos ou esquecidos pela eliminação do reforço. Quando o indivíduo emite o comportamento, muitas vezes, (o número de vezes varia de acordo com o indivíduo, com a importância do comportamento para ele e uma série de outros fatores significativos) sem que seja reforçado, sua probabilidade de ocorrência diminui e ele pode ser esque- cido pelo sujeito. Considerando a relação entre condicionamento e aprendizagem, pode- -se dizer que a aprendizagem é muito mais ampla do que o condicionamento. Enquanto o condicionamento é o aumento de frequência de uma resposta asso- ciada ao reforçador positivo, sob condições determinadas, a aprendizagem é definida como uma mudança de comportamento provocada pela experiência e pelo contato com o meio. Segundo Fontana e Cruz (1997), as práticas educativas têm sido influenciadas pela ideia de que os comportamentos humanos são aprendidos em decorrência de contingências ambientais. Considerando a aprendizagem, Skinner destaca que é necessário concen- trar-se no lado do reforço e das contingências de reforçamento (condições sob as quais o reforço é atribuído). A aprendizagem ocorre pela presença das con- tingências de reforço; o papel do professor é o de arranjar as contingências de reforço, no momento apropriado, para aumentar a possibilidade de que o aluno apresente um comportamento desejável. De acordo com Fontana e Cruz (1997, p. 31), para Skinner: [...]ensinar é planejar/organizar essas contingências de modo a tornar mais eficiente a aprendizagem de determinados conteúdos e habilida- des. A utilização de reforçadores e a organização da aprendizagem por pequenos passos são princípios decorrentes dessa abordagem. TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II O Behaviorismo Skinneriano funda- menta a proposta tecnológica da Instrução Programada, processo de modelagem que pressupõe uma atividade didática na qual a função do professor é apresentar estímu- los para o aluno e reforçar positivamente as respostas desejáveis, a fim de aumentar a pos- sibilidade de o aluno continuar apresentando essas respostas (aprendizagem). Definiam-se objetivos os comportamentos esperados dos alunos que podiam ser observados, o que eles deveriam fazer, sob que condições e em quanto tempo; a avaliação consistia em verificar se as condutas definidas nos objetivos eram apresentadas pelos alunos ao final da instrução. Revelamos em nosso estudo que o Behaviorismo baseia-se no estudo de even- tos que podem ser observáveis, isto é, na compreensão do comportamento devem ser observadas as interações entre o organismo e o ambiente, não sendo de inte- resse estudar a consciência e os estados subjetivos internos (GLASSMAN, 2008). CONSTRUTIVISMO: A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA DE JEAN PIAGET O principal pressuposto filosófico do cognitivismo é que a cognição, ou apren- dizagem, se dá por construção. Jean Piaget (1896-1980) preocupou-se em seus estudos com a questão de como o ser humano elabora seus conhecimentos, che- gando a construir, no decorrer de sua vida, sistemas complexos e com alto nível de abstração (FONTANA; CRUZ, 1997). Denomina-se cognitivismo porque seu foco é a cognição, como o indivíduo conhece, como constrói sua estrutura cognitiva. No sentido oposto ao comportamentalismo, o cognitivismo se ocupa dos pro- cessos mentais que ocorrem entre a estimulação do meio e a resposta do indivíduo (ação ao meio). Os processos mentais, focos do cognitivismo, são as funções supe- riores – percepção, solução de problemas, tomada de decisões, compreensão, processamento de informações. 57 Diferentes Abordagens Teóricas do Processo de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O cognitivismo é também uma teoria interacionista, ou seja, “[...]supõe que os eventos e objetos do universo são interpenetrados pelo sujeito cognoscente. O ser humano tem a capacidade criativa de interpretar e representar o mundo, não somente de responder a ele” (MOREIRA, 1999, p. 15). Na prática pedagógica, essa concepção resulta em ’metodologias construti- vistas’ que implicam em deixar de ver o aluno como receptor de conhecimentos e passar a considerá-lo como agente da cons- trução de sua própria estrutura cognitiva, porém, não significa que a simples ‘atividade manipulativa’ do aluno resulte em aquisição de conhecimentos ou aprendizagem por ‘des- coberta’. É preciso considerar os processos dessa construção, que são sistemáticos e uni- versais e são o foco de estudo das Teorias Construtivistas. A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA Jean Piaget (1896-1980), nascido na Suíça, é o criador da EpistemologiaGenética. Seu interesse principal foi pela questão do conhecimento, não tinha como foco a criança, ou a psicologia, ou a educação, mas a forma como se constrói um conheci- mento novo. Por sua formação, que passou por muitos domínios do conhecimento, como ciências biológicas, filosofia, física, até chegar à lógica formal e à teoria da ciência, Piaget fez que a Epistemologia Genética não fosse somente uma teoria entre as outras, mas uma matéria interdisciplinar que se ocupa de todas as ciên- cias. Neste contexto, ele tentou a compreensão da evolução do sistema cognitivo numa perspectiva biológica, usando modelos biológicos e buscando estabelecer um nexo biológico para a questão do conhecimento. Na perspectiva do Construtivismo, podemos dizer também que a visão de Piaget é interacionista, pois ele parte do Inatismo, que consiste em uma ênfase no potencial genético do sujeito, e do Empirismo, ênfase na ação do meio, para explicar o desenvolvimento por meio da interação, compreendendo o que cada TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II um desses polos traz para o desenvolvimento e como se dá a interação entre eles. A interação caracteriza, portanto, no processo de construção do conhecimento, um diálogo estrutura-meio-procedimentos. Partindo da ideia de diálogo, evoluir seria estabelecer situações de recipro- cidade com o meio (relações dialéticas), por meio de um processo adaptativo de equilibrações sucessivas. Vale lembrar que, nesse processo de interação, estão envolvidos aspectos intelectuais, afetivos, sociais e morais – donde se conclui que a teoria de Piaget é sociointeracionista, embora Piaget coloque mais ênfase na interação com o meio físico. A Teoria da Equilibração é a espinha dorsal de todo o pensamento de Piaget, uma vez que equilibração é a ideia central de sua teoria, é a matriz de funcio- namento que permite a compreensão do sistema cognitivo. De acordo com Fontana e Cruz (1997), Piaget afirma que o processo de desenvolvimento depende de fatores internos ligados à maturação, da experi- ência adquirida pelo indivíduo em contato com o meio e particularmente do processo de autorregulação, nomeado de equilibração. Por meio da equilibração, um estado de equilíbrio, ou de adaptação em relação ao meio, é mantido. Podemos dizer que sempre que vivenciamos con- flitos, contradições, entra em cena a nossa capacidade de autorregulação, isto é, equilibração. Importante dar ênfase na compreensão acerca da equilibração, visto que esta tem a sua importância para o entendimento da construção do pensamento e para o desenvolvimento cognitivo, na perspectiva de Piaget. A primeira ideia a destacar é que o equilíbrio aqui considerado é um equi- líbrio dinâmico, que não busca a invariância nem a volta a estados anteriores de não perturbação, mas níveis ou estados mais avançados de equilíbrio, não seria, portanto, um produto almejado, mas um processo contínuo. O equilí- brio se daria por um processo de assimilação do objeto pelo sujeito, que levaria à adaptação. Para isso, é essencial compreender alguns conceitos importantes descritos por Piaget. O autor apresenta o conceito de esquema como “[...]estruturas mentais ou cognitivas pelas quais os indivíduos intelectualmente se adaptam e organizam o meio” (WADSWORTH, 1997, p. 16). A assimilação, para ele, refere-se ao “[...] 59 Diferentes Abordagens Teóricas do Processo de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . processo cognitivo pelo qual uma pessoa integra um novo dado perceptual, motor ou conceitual nos esquemas ou padrões de comportamento já existen- tes” (WADSWORTH, 1997, p. 19). Logo, podemos dizer que assimilar consiste em transformar o outro – pessoa, objeto, ideia – em patrimônio próprio, incor- porar às próprias estruturas. Às vezes a assimilação se dá pela incorporação do outro a estruturas de conhecimento já existentes no indivíduo. Outras vezes, o novo estímulo exige mudanças estruturais no indivíduo para ser então incorpo- rado – acontece, então, o mecanismo de acomodação, que consiste na criação de novos esquemas ou a modificação de velhos esquemas. Podemos dizer que essas ações resultam em mudanças na estrutura cognitiva. Os dois mecanis- mos de adaptação, a assimilação e a acomodação, são complementares e não momentos isolados do ato de conhecer, portanto, nenhum comportamento é só assimilação ou acomodação, pois ambos os processos são refletidos no compor- tamento (WADSWORTH, 1997). A resposta do indivíduo ao novo, ao desafio ou desequilíbrio do ambiente – o outro a ser assimilado, está intrinsecamente ligada às estruturas do indivíduo, isto é, um estímulo só passa a ser um estímulo, só passa a ter existência para o indivíduo, quando o seu organismo tem informações específicas em sua estrutura gené- tica para responder a ele. Assimilação, portanto, implica em o indivíduo estabelecer com o ‘outro’ uma relação de reciprocidade de acordo com as capacidades disponíveis no período de desenvol- vimento em que se encontra. Em sua teoria dos estágios de desenvolvimento (que estudaremos na próxima unidade), Piaget descreve os proces- sos específicos de atuação em cada etapa que possibilite a assimilação. Concluindo essa breve apresentação da teoria proposta por Piaget, pode- mos denominar aprendizagem como assimilação e acrescentar que maturidade intelectual significa uma estabilidade e complexidade cada vez maior dos esque- mas, quão maior seja o grau operativo do sujeito, determinado por sua evolução genética e por sua interação com o meio. TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL: VYGOTSKY A abordagem histórico-cultural tem como interesse compreender e explicar a formação humana no decorrer da história e seu desenvolvimento psíquico. Tal abordagem se desenvolveu com base nos trabalhos do psicólogo russo, L. S. Vygotsky (1896-1934) e de seus principais colaboradores, A. R. Luria e A. N. Leontiev. A perspectiva entende que tudo o que é especificamente humano e dis- tingue o homem de outros animais originou-se de sua vida em sociedade, seu desenvolvimento psíquico se constitui por meio de suas relações sociais. Dessa forma, é possível afirmar que a abordagem histórico-cultural enfatiza o papel dominante da experiência social no desenvolvimento das formas de compor- tamento tipicamente humano, os chamados processos psicológicos superiores, também chamados de funções psicológicas superiores. Vygotsky não enfatiza o papel biológico no desenvolvimento, para ele, matu- ração, por si só, é um fator secundário no desenvolvimento que se caracteriza por transformações complexas, qualitativas, de uma forma de comportamento em outro, determinadas pelas condições sociais dentro e através das quais a ati- vidade humana ocorre. Essas condições não se resumem à situação concreta que circunda o indivíduo, mas são produto da interação entre as características par- ticulares do organismo e as oportunidades e experiências oferecidas pelo meio (VYGOTSKY, 1987). Vygotsky tem uma visão dialética da interação, em que o indivíduo não é um elemento passivo à ação do ambiente, mas interage, atua sobre ele, transforman- do-o e dando origem a condições únicas, de caráter essencialmente histórico e cultural (BROTHERHOOD, 1994). Outra formulação teórica de Vygotsky que também ressalta a importância do social para o desenvolvimento cognitivo é a ideia de que toda função psico- lógica aparece em dois níveis ao longo do desenvolvimento da criança: primeiro entre pessoas, como categoria interpsicológica, depois, dentro da criança, como categoria intrapsicológica. Segundo Fontana e Cruz (1997), a criança, a partir do momento em que nasce, vive constantemente eminteração com o mundo adulto, compartilhando o modo de fazer as coisas, de pensar, de se expressar, dando significados que 61 Diferentes Abordagens Teóricas do Processo de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . foram produzidos no decorrer da história, sendo transmitidos de geração em geração. Dessa forma, suas atividades, quando interpretadas pelo mundo adulto, adquirem significado no grupo em que estão inseridas. Essa interação entre os processos biológicos e os processos culturais vão transformando-se em modos de ação de relação e de representação, características exclusivas do ser humano. O homem em sua existência cria instrumentos, que são tudo aquilo que se interpõe entre o homem e o ambiente, ampliando e modificando suas formas de ação. Já o uso de signos, outro conceito importante, é definido como tudo o que é utilizado para representar, evocar, tornar presente, por exemplo, a palavra, o desenho, os símbolos (FONTANA; CRUZ, 1997). Se pensarmos nesse meca- nismo em relação, por exemplo, à linguagem, podemos afirmar que esta é um sistema de signos mais importante para o homem e para seu desenvolvimento. Quanto à percepção, à atenção, podemos exemplificar dizendo, inicialmente, que para a criança fixar sua atenção, ou perceber um objeto, ou o nomear, ela precisa ser ‘ajudada’ (intermediada) por outro indivíduo mais desenvolvido, e só posteriormente ela será capaz de controlar internamente tais processos. Para o autor, as relações reais entre os indivíduos estão na base de todas as funções mentais superiores. Vygotsky destaca a importância da linguagem, pois possibilita a interação do indivíduo com o ambiente e, consequentemente, o desenvolvimento de seus processos mentais superiores. A partir da linguagem, o homem tem a capacidade de dominar a si mesmo e aos outros, necessitando, para isso, da comunicação. Por meio da linguagem e de seus conceitos generalizados, o homem expande a sua capacidade, apresen- tando condições para realizar movimentos de reflexão entre o passado e avançar para o futuro (VYGOTSKY, 2006). Dessa forma, Leontiev (1978) afirma que, a partir dos instrumentos e da for- mação de novas funções psíquicas, o homem vai evoluindo socialmente. Ele se apropria do conhecimento, por meio das atividades desenvolvidas e necessita das relações humanas para o desenvolvimento social, as quais vão ser favore- cidas por meio da linguagem, da imitação e das trocas. Vale lembrar que esse desenvolvimento se dá pela educação. Outro aspecto importante na interação social para o desenvolvimento TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II cognitivo é a função da atividade da criança. De acordo com Facci (2004), o psiquismo humano se desenvolve a partir da atividade social, da mediação, dos instrumentos e dos sistemas de signos pelos quais o homem tem condições de transmitir suas atividades ao longo da história. Logo, as funções elemen- tares do ser humano, a partir da interação dele com o mundo e de suas relações, vão se constituir em formas superiores de com- portamento e depois em funções psíquicas complexas. Segundo Carvalho (2007, p. 52), as relações humanas estabelecidas a partir das atividades e das mediações promovem a construção do homem além do aspecto biológico, ou seja, a construção em um ser cultural, contudo, como aponta a autora: Conceber o psiquismo humano como tendo uma gênese social não sig- nifica negar seu substrato biológico, nem atribuir poder incondicional ao social, mas entender que é no processo de interação com o mundo que esse substrato se desenvolve, e os processos psíquicos elementares, de origem natural, se transformam em superiores, de origem cultural. Dessa forma, entendemos que o homem se desenvolve pela cultura, pela atividade e relações, ampliando seu conhecimento para que possa interferir no mundo, a partir disso. Luria (1986) complementa expondo que, para entender o psiquismo humano, precisamos sair do plano biológico e buscar a complexidade da vida consciente do homem nas relações externas, na vida social, nas formas históri- co-sociais de sua existência. Nesse sentido, Rossato (2010, p. 64) salienta que “[...]o fundamento principal da atividade humana é seu caráter mediatizado pelo instrumento que permeia o sujeito e o objeto da atividade”. O homem transforma seu psiquismo por meio das mudanças ocorridas externamente que vão agir em seu interior, isto é, são as mudanças históricas sociais que vão transformar a consciência humana. 63 Diferentes Abordagens Teóricas do Processo de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Portanto, a humanização do homem é promovida pela mediação e por instru- mentos e ocorre pela herança cultural passada entre as gerações. Assim, podemos dizer que o desenvolvimento humano é provocado pela qualidade das mediações entre a criança e o adulto, numa relação dialética, favorecendo as trocas entre os objetos do mundo circundante e as pessoas de seu convívio, transformando suas estruturas primárias em funções psicológicas superiores, o que ocorre por meio dos signos (SHUARE, 1990). Dentre as atividades infantis, como escola, jogos, trabalho, algumas assumem importância porque nelas os processos psicológicos particulares tomam forma e são reorganizados. Por exemplo, dentro de atividades como brincar (jogos), estão contidos processos de instrução, regras de grupo, classificação, generalização, abstração etc. Nas atividades domésticas e ainda no brinquedo estão também contidos processos importantes como aquisição de papéis. O enfoque histórico-cultural ressalta a relação desenvolvimento-aprendiza- gem (formal e informal) e mostra a importância das relações interindividuais. Por serem esses dois processos inter-relacionados, o desenvolvimento prepara e possibilita determinado processo de aprendizagem, enquanto a aprendizagem estimula o desenvolvimento, faz que ele avance até certo grau. Vygotsky (1987) ressalta, também, que é necessário distinguir dois níveis de desenvolvimento. O primeiro é o nível de desenvolvimento real, aquele já plenamente atingido pela criança, que se identifica pelo desempenho em tarefas que ela pode realizar sem a ajuda de outras pessoas, independente da imitação. É o limite de sua capacidade atual, o desenvolvimento psicointelectual já realizado. O segundo, nível de desenvolvimento potencial, traduz o que a criança é capaz de fazer com o auxílio de um adulto ou de outra criança mais desenvol- vida, que a oriente por meio de exemplos e demonstrações. Se a orientação estiver de acordo com o nível de desenvolvimento da criança, que vai além de seu nível de atuação, ela será capaz de um desempenho superior àquele do nível efetivo. TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Vygotsky (1987) demonstra, por meio de experimentos, que duas crianças com o mesmo nível de desenvolvimento efetivo podem ter níveis de desenvolvi- mento potenciais muito diferentes. Isso denota a importância de se determinar a distância entre os dois níveis, a qual é denominada por ele de zona de desenvol- vimento proximal. Portanto, para contribuir com o desenvolvimento da criança ,é necessário trabalhar a zona de desenvolvimento proximal, com a qual, a par- tir das mediações e dos instrumentos adequados para os alunos, estes poderão avançar de forma qualitativa no que tange ao desenvolvimento. A aprendizagem formal assume importância, pois, se conduzida adequa- damente, possibilita a manifestação da zona de desenvolvimento proximal e a efetivação de novos comportamentos mais complexos. De acordo com seus pressupostosteóricos, Vygotsky (1987) propõe uma Teoria da Mediação como teoria de ensino-aprendizagem, uma vez que o desen- volvimento das funções mentais superiores exige a internalização de instrumentos e signos em um ambiente de interação. Nesse sentido, Vygotsky (1997) aponta que a escola deve buscar superar as dificuldades do aluno de todas as formas possíveis, para que ele consiga ir além dos conhecimentos do cotidiano. Ademais, é a escola que, por meio do seu trabalho e mediação, propicia ao aluno desenvolver o seu pensamento e uma concepção científica de mundo. Concluindo essa breve apresentação da abordagem de Vygotsky (1987), vale destacar que o ensino formal desempenha um importante papel no desenvolvi- mento cognitivo: promover o atingimento da zona de desenvolvimento proximal. Tal função seria o meio mais efetivo de desenvolvimento das funções mentais superiores. Na unidade V, retomaremos os fundamentos da teoria histórico-cul- tural, na perspectiva da prática. 65 HUMANISMO Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . HUMANISMO Segundo Schultz e Schultz (1999), a Psicologia Humanista surgiu no início dos anos 1960 e visava substituir o comportamentalismo e a psicanálise, as duas principais forças da psicologia. O principal representante desta linha de pensamento foi Carl Rogers (1902-1987), e os temas básicos tinham como pontos essenciais: (1) uma ênfase na experiência consciente, (2) uma crença na integra- lidade da natureza e da conduta do ser humano, (3) a concentração no livre arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do indivíduo, (4) o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição humana (SCHULTZ; SCHULTZ, 1999, p. 392). Nesta perspectiva, todas as experiências humanas são levadas em consi- deração, como o amor, ódio, medo, esperança, felicidade, bom humor, afeição, responsabilidade e sentido da vida. A psicologia humanista centra seus estudos em pessoas psicologicamente saudáveis e trata-se de um sério estudo da natu- reza e conduta humana (SCHULTZ; SCHULTZ, 1999). De acordo com Glassman (2008), na perspectiva humanista, no processo terapêutico clínico era a pessoa que buscava e não era o terapeuta quem deveria direcionar o processo de terapia; por isso, nesta perspectiva, a pessoa era chamada de cliente e não de paciente, como na psicanálise. Essa visão fez que se criasse a Terapia Centrada no Cliente, mais tarde chamada de Terapia Centrada na Pessoa, isso influenciou a forma de entender o homem em outras esferas da sociedade. No processo de aprendizagem, na perspectiva humanista, o aprendiz é visto Vygotsky (1996) defende a importância de estudar intelecto e afetividade como unidade no processo do desenvolvimento psicológico, pois estão vin- culados e colaboram de maneira recíproca. Fonte: VYGOTSKI, L. S. Psicologia infantil. Em Obras Escogidas (Tomo IV). Madrid: Visor Dis, 1996. TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II primordialmente como uma pessoa. O importante é sua autorrealização, seu crescimento pessoal. A ênfase não é colocada apenas no intelecto, mas ele é visto como um todo que engloba pensamento, sentimento e ação. Neste enfoque, a aprendizagem não se limita a um aumento de conhecimen- tos, mas faz parte do todo do indivíduo, influi em suas escolhas e atitudes. Não tem sentido falar de comportamento ou de cognição sem considerar o domínio afetivo, os sentimentos do aprendiz. Ele é uma pessoa e as pessoas pensam, sen- tem e fazem coisas integradamente (MOREIRA, 1997). Segundo Glassman (2008), na perspectiva Rogeriana, a sociedade atual, pela sua dinamicidade e rapidez de mudança, exige que o indivíduo seja capaz de adaptar-se. O conhecimento evolui tão rapidamente que aquilo que a escola pode ensinar logo se torna obsoleto, e o aluno bem formado é aquele capaz de adaptar-se rapidamente às mudanças, e que sabe que só o processo de busca do conhecimento dá uma base segura para o seu progresso. Portanto, a escola deve deixar de lado a rigidez e tradição dos currículos e conteúdos e preocupar-se com o desenvolvimento da capacidade do aprendiz de ‘aprender a aprender’. O ensino deixa de lado as capacidades do líder (professor), sua erudi- ção, o planejamento curricular e outras dimensões tradicionais, e dá enfoque à facilitação do desenvolvimento de capacidades atitudinais, possibilitada nas relações interpessoais significativas entre facilitador (professor) e aprendiz (aluno) (ROGERS, 1969 apud MOREIRA, 1999, p. 146). Os princípios fundamentais indicados para uma aprendizagem significativa são: ■ O ser humano tem uma potencialidade natural para aprender. ■ O aluno deve perceber a matéria de ensino como relevante para seus objetivos. ■ O aluno tende a reagir a aprendizagens que possam significar mudanças na percepção de si mesmo, por serem intimidadoras; as ameaças devem ser reduzidas ao mínimo para que a aprendizagem possa prosseguir. ■ Grande parte das aprendizagens significativas é adquirida por meio de atos. ■ A aprendizagem é facilitada quando o aluno participa do processo de aprender. 67 HUMANISMO Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ■ A aprendizagem autoiniciada, que envolve o aprendiz como um todo – sentimento e intelecto – é mais duradoura e abrangente. ■ A avaliação feita por outros é de importância secundária nesta perspec- tiva, e a autocrítica e a autoavaliação levam à independência, à criatividade e à autoconfiança. ■ A aprendizagem socialmente mais útil é aquela que leva ao próprio pro- cesso de aprender, que possibilita a adaptação do aluno às mudanças do mundo moderno. Dada a dimensão da mudança que a adoção de uma abordagem Rogeriana tra- ria para a escola, e a ameaça que poderia representar para professores e também para os alunos em algumas situações, sua viabilidade não se confirmou, embora tenham sido feitas algumas tentativas, nos Estados Unidos, entre os anos 1970 e 1980. No entanto, como sugere Moreira (1999), fundamentado em ideias do próprio Rogers para adequar sua proposta à realidade, trata-se de considerar a extensão em que os princípios Rogerianos podem ser usados em sala de aula sem causar ameaças e desconforto a professores e alunos, a fim de facilitar uma aprendizagem significante. O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender: que aprendeu como se adaptar e mudar; que se capacitou de que ne- nhum conhecimento é seguro, que nenhum processo de buscar conhe- cimento oferece uma base de segurança (CARL ROGERS). Como vimos, temos alguns nomes de grande representação que trouxeram contribuições no campo do ensino. Cabe reforçarmos por meio deste esquema desenvolvido por Moreira (1999), apresentado a seguir, os principais enfoques teóricos à aprendizagem e ao ensino. TEORIAS DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Figura 1: Enfoques teóricos à aprendizagem e ao ensino Fonte: Moreira (1999, p. 18). ENFOQUES TEÓRICOS À APRENDIZAGEM E AO ENSINO COMPORTAMENTALISMO COGNITIVISMO ênfase em comportamentos observáveis alguns conceitos básicos ênfase na pessoa ênfase na cognição HUMANISMO alguns conceitos básicos algumas ideias básicas PAVLOV WATSON GUTHRIE PIAGET BRUNER KELLY ROGERSNOWAK GOWIN JOHNSON- LAIRD THORNDIKE SKINNER VYGOTSKY AUSUBEL HULL HEBB TOLMAN GESTALT GAGNÉ Ideia-chave: o comportamento é controlado por suas consequências alguns autores comportamentalistas Ideia-chave: construtivismo, o conhecimento é construído alguns autores cognitivistas Ideia-chave: pensamentos, sentimentos e ações estão integrados o mais conhecido autor humanista Es tím ul o Es qu em a Si gn o Su bs un çor Co ns tr ut o pe ss oa l A pr en de r a ap re nd er Cr es ci m en to pe ss oa l Li be rd ad e pa ra a pr en de r En si no c en tr ad o no a lu no M od el o M en ta l O bj et iv o Co m po rt am en ta l Re fo rç o Co nd ic io na m en to Re sp os ta (c om po rt am en to ) Entre as abordagens, a humanista é a única a enfatizar questões como o papel do significado da espiritualidade na vida humana. Fonte: Glassman; Hadad (2008). 69 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, apresentamos, além de alguns conceitos básicos fundamentais para a compreensão da abordagem construtivista, adotada em nosso curso, para compreender o processo de aprendizagem, alguns dos principais enfoques teóricos à aprendizagem e ao ensino prevalecentes no século XX. Trouxemos as aborda- gens pedagógicas representativas dos princípios de cada um desses enfoques. É fato que os temas discutidos, por serem teorias sólidas enquanto ciên- cia, contêm muitos aspectos importantes que merecem aprofundamento e não foram abordados neste estudo, todavia, apresentamos conceitos importantes que revelam os aspectos teóricos pertencentes aos grandes nomes que buscam com- preender o homem em sua totalidade. Visto isso, é essencial que, a partir dos estudos da disciplina, você bus- que aprofundamentos que possam auxiliar em sua vida profissional, já que as teorias são a base para o entendimento do homem em todo o seu processo de desenvolvimento. Esperamos que você analise criticamente cada uma das abordagens, procure exemplos práticos em suas vivências para que possa aproximar-se das ideias apre- sentadas, tentando identificar os pressupostos implícitos nesses exemplos. Esta proposta de análise crítica da prática pode levá-lo(a) a desenvolver uma capaci- dade cientificamente fundamentada de escolher e definir a sua própria prática pedagógica, que é de fundamental importância para o aprendizado e desenvol- vimento do aluno. Sabemos que, no contexto escolar, para uma atuação prática mais eficiente, é necessário ter conhecimentos teóricos nas mais diversas abordagens que oportu- nizem uma base sólida, preparando você para a prática docente e para os desafios do ensinar. Ouvimos muitas vezes que precisamos de ‘prática’, entretanto, pode- mos afirmar que sem teoria não construímos uma prática que possa nos auxiliar no processo de ensino-aprendizagem, haja vista que é de fundamental impor- tância o conhecimento e a compreensão das teorias explicativas. 1. O processo de aprendizagem pode ser explicado por diferentes linhas de pensa- mentos dentro da Psicologia Escolar. Refletindo sobre o comportamentalismo, assinale a alternativa correta: I - O BEHAVIORISMO coloca ênfase nos comportamentos observáveis e mensu- ráveis. II - A base dessa abordagem diz respeito ao que ocorre na mente do indivíduo em seu processo de aprender. III - Na concepção de B. F. Skinner, no comportamento operante, o indivíduo age para obter o reforço. É o reforço que aumenta a probabilidade de manifestação do comportamento. IV - Os comportamentos condicionados podem ser extintos ou esquecidos pela eliminação do reforço. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. 2. A Teoria Histórico-Cultural tem como seu principal representante L. S.Vygotsky. Esse teórico enfatiza o papel dominante da experiência social no desenvolvi- mento humano, o qual chamamos de Funções Psicológicas Superiores. Em rela- ção à perspectiva teórica apresentada e suas contribuições para o processo de aprendizagem, leia as assertivas e assinale a alternativa correta: I - A linguagem possibilita a interação do indivíduo com o ambiente e, conse- quentemente, o desenvolvimento dos processos mentais superiores. II - Vygotsky tem uma visão dialética da interação, ou seja, o indivíduo não é um elemento passivo à ação do ambiente, mas interage e atua sobre ele, transfor- mando-o. III - Vygotsky não enfatiza o papel biológico no desenvolvimento, para ele, matu- ração, por si só, é um fator secundário no desenvolvimento. IV - O psiquismo humano se desenvolve a partir da atividade social, da media- 71 ção, dos instrumentos e dos sistemas de signos, pelos quais o homem tem condições de transmitir suas atividades ao longo da história. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. 3. A teoria Piagetiana se ocupa dos processos mentais que ocorrem entre a estimula- ção do meio e a resposta do indivíduo (ação). Tal perspectiva apresenta como princi- pal pressuposto filosófico que a aprendizagem se dá por construção. Sobre a teoria descrita, leia as afirmações e assinale a alternativa correta: I - Na teoria Piagetiana, a equilibração é a ideia central, é a matriz de funcionamento que permite a compreensão do sistema cognitivo. II - Nenhum comportamento é só assimilação ou acomodação, ambos os processos são refletidos no comportamento. III - O equilíbrio se daria por um processo de assimilação do objeto pelo sujeito, que levaria à adaptação. IV - O conceito de esquema é entendido como estruturas mentais ou cognitivas pe- las quais os indivíduos intelectualmente se adaptam e organizam o meio. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Ssomente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. Propomos a leitura complementar da obra Piagetiana que discute um dos períodos de desenvolvimento descritos pelo autor trazendo características importantes dele. A obra do autor é de grande relevância ainda na atualidade, sendo essencial um maior apro- fundamento teórico. A INFÂNCIA DE SETE A DOZE ANOS A idade de sete anos, que coincide com o princípio da escolaridade propriamente dita, marca um marco decisivo no desenvolvimento mental. Em cada um dos aspectos com- plexos da vida psíquica, quer se trate da inteligência ou da vida afetiva, das relações sociais ou de atividade propriamente individual, observa-se o aparecimento de formas de organizações novas, que completam as construções esboçadas no decorrer do perío- do precedente, assegurando-lhes um equilíbrio mais estável, ao mesmo tempo em que inauguram uma série ininterrupta de construções novas. Seguiremos, para nos guiar neste labirinto, a mesma marcha que anteriormente, par- tindo da ação global tanto individual como social, analisando em seguida, os aspectos intelectuais e depois os afetivos deste desenvolvimento. A. Os progressos da conduta e da socialização. Quando se visitam as diversas classes em um colégio ‘ativo’ onde é dado às crianças a liberdade de trabalhar tanto em grupos como isoladamente e de falar durante o traba- lho, fica-se surpreso com a diferença entre os meios escolares superiores a sete anos e as classes inferiores. Nos pequenos, não se consegue distinguir com nitidez a atividade privada da feita em colaboração. As crianças falam, mas não podem saber se se escutam. Acontece que vários se dedicam ao mesmo trabalho, mas não sabemos se realmente existe ajuda mútua. Observando as maiores, em seguida, fica-se surpreendido por um duplo progresso: concentração individual, quando o sujeito trabalha sozinho, e colabo- ração efetiva, quando há vida comum. 73 Ora, estes dois aspectos da atividade que se inicia por volta dos sete anos são, na ver- dade, complementares e se devem às mesmas causas. São inclusive tão solidários que a primeira vista é difícil dizer se é que a criança adquiriu certa capacidade de reflexão que consegue coordenar suas ações com asde outros, ou se é que existe um progresso de socialização que faz com que o pensamento seja reforçado por interiorização. Do ponto de vista das relações interindividuais, a criança, depois dos sete anos, torna-se capaz de cooperar, porque não confunde mais seu próprio ponto de vista com o dos outros, dissociando-os mesmo para coordená-los. Isto é visível na linguagem das crian- ças. As discussões se fazem possíveis, porque comportam compreensão a respeito dos pontos de vista do adversário e procura de justificações ou provas para a afirmação pró- pria. As explicações mútuas entre crianças se desenvolvem no plano do pensamento, e não só no da ação material. A linguagem ‘egocêntrica’ desaparece quase por inteiro e os discursos espontâneos da criança testemunham por sua mesma estrutura gramatical a necessidade de conexão entre as idéias e de justificação lógica. Fonte: PIAGET, Jean. Seis Estudos de Psicologia. Tradução Maria Alice Magalhães D’Amorin e Paulo Sérgio Lima Silva. 24. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. MATERIAL COMPLEMENTAR No texto denominado “O rei vai nu, dizem eles”, Ana Cristina Leonardo apresenta uma crítica contundente às ideias de Freud, citando vários autores que se posicionam sobre as polêmicas em torno da ênfase na sexualidade na teoria do autor, dentre outros pontos discutidos que questionam a importância de Freud para a compreensão do psiquismo humano. Para a leitura do texto, acesse o link: <http://criticanarede.com/freud.html>. Aqui, Alexandre Pedrassoli apresenta uma biografi a de Carl Rogers, traçando uma linha do tempo de sua trajetória e indicando suas principais obras, contribuindo assim para uma melhor compreensão da obra desse autor. <http://www.centrorefeducacional.com.br/carl.html>. Inteligência e Afetividade da Criança na Teoria de Piaget Barry J. Wadsworth Editora: Pioneira Sinopse: A obra descreve os estudos de Piaget, tratando do desenvolvimento afetivo, cognitivo, sendo analisado e avaliado por psicólogos e educadores, trazendo importantes contribuições sobre a concepção teórica do autor. O livro busca analisar e compreender o comportamento infantil e a forma de melhorar o ensino. U N ID A D E III Professora Dra. Rachel de Maya Brotherhood Professora Me. Waléria Henrique dos Santos Leonel DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Objetivos de Aprendizagem ■ Dominar os principais conceitos da teoria de desenvolvimento de Piaget. ■ Analisar o desenvolvimento moral na infância. ■ Pensar a prática pedagógica considerando as implicações das teorias estudadas para a aprendizagem e o desenvolvimento. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O Desenvolvimento segundo Jean Piaget ■ Desenvolvimento Moral ■ Prática pedagógica relacionada à aprendizagem e desenvolvimento INTRODUÇÃO Atualmente, a Psicologia da Educação está ‘impregnada’ dos conceitos e da visão construtivista de desenvolvimento e aprendizagem (COLL, 2004, p. 107). A ideia central do construtivismo, de que o conhecimento e a aprendizagem são resul- tado de uma dinâmica em que a ação do sujeito é o fator decisivo, encontra-se nos trabalhos desenvolvidos por Jean Piaget, a partir da década de 1940, e vem sendo enriquecida e ampliada, sobretudo, a partir da década de 1960, dando origem a novas teorias. No entanto, permanecem nessas novas abordagens as linhas mestras do construtivismo Piagetiano. Portanto, é importante compre- ender alguns princípios básicos dessa orientação dominante na psicologia atual. Assim, considerando a perspectiva construtivista de Jean Piaget, nesta uni- dade, apresentaremos sua abordagem da dinâmica do desenvolvimento do processo de construção do conhecimento. Discutiremos alguns conceitos de sua teoria do desenvolvimento moral como forma de subsidiar a análise das condi- ções de ensino em nossas escolas, considerando sua função no desenvolvimento cognitivo e social dos alunos, com um enfoque construtivista. É importante destacarmos que, para a compreensão do desenvolvimento humano proposto pelo autor, podemos defini-lo como uma organização progressiva, dessa forma, precisamos compreender cada fase ou estágio de desenvolvimento descrito pelo autor, no qual, novas estruturas se formam dife- renciando-as das demais. A compreensão dessa teoria e de sua importância deve ser de grande relevância no ambiente escolar, devido às grandes implicações da teoria para a educação. Convidamos você para um aprofundamento maior na compreensão teórica descrita por Piaget, visando ao entendimento do processo de desenvolvimento humano e seus reflexos para a aprendizagem. Conforme a extensa obra deixada pelo autor, focamos em apresentar as suas concepções básicas para a compre- ensão dos estágios de desenvolvimento, contudo, esperamos que, a partir dos estudos aqui discutidos, você reflita diante do material e busque maior aprofun- damento teórico para a compreensão do homem e de seu aprendizado. 77 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III O DESENVOLVIMENTO SEGUNDO JEAN PIAGET Jean Piaget, na busca pela gênese do desenvolvimento intelectual, desenvolveu, a partir da observação e da experimentação com crianças, um modelo biológico de desenvolvimento, isto é, uma teoria do desenvolvimento da inteligência. Segundo Piletti, Rossato e Rossato (2014), Piaget, no início de seus estudos, não teve como interesse compreender a evolução da inteligência, mas buscou aprender como se organiza o conhecimento do mundo real. Ainda os mesmos autores apresentam que Piaget compreende o desenvol- vimento cognitivo como algo dinâmico, “[...]posto que a inteligência existe na ação, modificando-se numa sucessão de estágios que compreendem: uma gênese, uma estrutura e a mudança das mesmas” (PILETTI; ROSSATO; ROSSATO, 2014, p. 43). De acordo com os autores supracitados, a gênese parte de uma estrutura e chega à outra, a qual é preparada por estruturas mais elementares, mas que se sinte- tizarão em uma estrutura final. As primeiras estruturas surgem com o nascimento, estágio sensório motor, no qual predomina o biológico no desenvolvimento. Para Piaget, em relação às estruturas e pensando nos aspectos intelectuais, no que se refere ao desenvolvimento mental, há três fatores que formam esses pro- cessos: o maturacional; a experiência ativa dos sujeitos sobre os objetos; e o fator interacional ou transmissões sociais (PILETTI; ROSSATO; ROSSATO, 2014). Na perspectiva de Piaget, deve-se considerar estrutura como uma unidade abstrata, suscetível de crescimento autônomo, dotada de reações específicas às solicitações do meio. O indivíduo nasce com algumas estruturas (reflexos) que progressivamente, em decorrência da ação do meio e da ação da criança sobre o meio, se desenvolvem, tor- nando-se cada vez mais complexas e dando origem a novas estruturas, que, por sua vez, irão se desenvolver pelo mesmo processo ori- ginando outras. 79 O Desenvolvimento Segundo Jean Piaget Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O processo de ‘crescimento’ das estruturas se efetiva por meio de equili- brações sucessivas, considerando-se o conceito de equilibração da forma que foi descrita na unidade II, em que o indivíduo, ao se deparar com um objeto ou situação nova, assimila tal objeto em alguma estrutura pré-existente ou promove ajustes nesse ou em suas estruturas mentais para assimilá-lo, em um processo de acomodação, voltando ao equilíbrio. Esse processo de equilibração visa à adap- tação cada vez maior do indivíduo às perturbações do meio. Do processo de adaptação, ocorrido emcada momento do desenvolvimento, resultam esquemas de assimilação. Pode-se definir esquema como aquilo que é generalizável em uma determinada ação. Por exemplo, o esquema de sugar, que a criança traz ao nascer, corresponde ao fato de ela saber sugar, indepen- dentemente do que é sugado. Ao desenvolver o esquema de olhar e pegar, a criança tentará pegar tudo o que olha e olhar tudo o que pega. Os novos esquemas resultam sempre dos anterio- res e de coordenações deles. Assim, ‘saber puxar’ depende do ‘saber pegar’ e do ‘saber olhar’, da mesma forma que os primeiros esquemas, como o de sugar, olhar etc., depen- dem de estruturas motoras hereditárias. O esquema funciona como um conceito prático, ou seja, em presença de um objeto novo a criança tenta assimilá-lo aplicando-lhe todos os esquemas de que dispõe. Para Piaget (1978), a inteligência se desenvolve por etapas, a partir da vida orgânica (reflexos, coordenações sensoriais e motoras) até chegar ao conheci- mento lógico-matemático. Em cada uma das etapas do desenvolvimento, existem condutas novas, novas formas de ação sobre os objetos que se agrupam em sis- temas, sempre em estado de elaboração. DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Diante do exposto, Piletti, Rossato e Rossato (2014, p. 44) afirmam que em relação ao desenvolvimento cognitivo descrito por Piaget, o sujeito em desenvolvimento se estrutura por meio de mecanismos próprios, que não dependem diretamente de fatores sociais, haja vista que são determinados pela busca do equilíbrio, que dependerá de uma maturação biológica para que ocorra. Busca essa provocada por um desequilíbrio nas estruturas cognitivas, uma perturbação decorrente da interação do indivíduo com o objeto a ser conhecido, que demanda um processo de organização e reorganização das estruturas cognitivas sobre os objetos da realidade e de sua adaptação às necessidades do próprio indivíduo. Com isso, há indicação de que o sujeito adquire de- terminados conhecimentos à medida que houver maturação biológica para tal. As etapas do desenvolvimento mental são descritas por Piaget (1978) em está- gios, que se caracterizam pela aparição de estruturas originais cuja construção o distingue dos estágios anteriores. Para Piletti, Rossato e Rossato (2014), o desen- volvimento explicado em estágios vem na tentativa de estudar e compreender o desenvolvimento qualitativo das estruturas psicológicas em relação à efetivação do pensamento. Por isso, cabe destacarmos os estágios de desenvolvimento pro- postos por Piaget na compreensão do cognitivo humano. Vejamos esses estágios. a. Período Sensório-Motor Período que vai do nascimento até os dois anos, aproximadamente. A criança passa do nível neonatal, o qual é marcado pelos reflexos inatos, para o nível no qual é capaz de realizar uma organização perceptiva e motora do meio (FONTANA; CRUZ, 1997). A criança nesse período reflete o mundo e não consegue se diferenciar dele, ela age sobre ele, assim ela vai conhecendo o mundo, a partir dos reflexos ina- tos, vai assimilando novos elementos do meio. Com isso, vai sendo transformada por esses elementos, isto é, vai acomodando os novos estímulos (FONTANA; CRUZ, 1997). Logo, podemos pensar que a criança, inicialmente, assimila os dados do meio exterior aos esquemas reflexos hereditários (sucção, preensão, choro e ati- vidade corporal indiscriminada). Nesta fase, a criança é totalmente egocêntrica, seu próprio corpo é a única referência comum e constante. Progressivamente, 81 O Desenvolvimento Segundo Jean Piaget Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . por meio do funcionamento, os reflexos tendem a se consolidar, se coordenar e se organizar, dando origem a hábitos. É um período de transição entre o orgâ- nico e o intelectual, no qual não se pode ainda falar em inteligência, devido à falta de intencionalidade e diferenciação entre meios e fins. Aos poucos, suas ações começam a ganhar intencionalidade, levando a criança a repetir os movimentos, como agarrar um brinquedo que faz barulho, já que ela age dessa forma para atingir um propósito. A criança não possui ainda imagens mentais dos objetos, portanto não há a ‘permanência’ do objeto na mente. O reconheci- mento refere-se mais à própria ação do que aos objetos; é uma fase de imitação. Os progressos do período sensório-motor resultam na passagem da ação à representação, ou seja, a inteligência sensório-motora refere-se à adaptação do indivíduo ao mundo dos objetos, não envolve socialização no sentido de obedi- ência a regras comuns, nem conceitualização, mas apenas realizações práticas. Este é o período da construção intelectual do objeto, da elaboração de um uni- verso exterior – os objetos passam, ao final do período, a serem concebidos como exteriores ao ‘eu’ (interior) e independentes dele. As ações da criança começam a ser descentralizadas em relação ao próprio corpo que passa a ser considerado como um objeto entre os demais. b. Período Pré-Operacional Neste período que vai de dois a sete anos, as ações sensoriais-motoras começam a implicar representação, e a criança passa a represen- tar mentalmente o mundo externo, e suas próprias ações a criança as interioriza. Essa capacidade de representação oportuniza condições para a aquisição da linguagem. A criança começa a elaborar a diferenciação entre o ‘eu’ e o mundo (FONTANA; CRUZ, 1997). O período marca o desenvolvimento do pensamento intuitivo. Considerada um pro- gresso no desenvolvimento, a aquisição da linguagem, o brinquedo simbólico DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III e a imitação diferenciada (aquela que se produz na ausência do modelo cor- respondente) surgem ao mesmo tempo e implicam a existência de uma função simbólica. O autor define função simbólica como a capacidade de distinguir os significantes (símbolos individuais e coletivos) dos significados (objetos ou fatos) e de evocar, graças a esses significantes, os significados não percebidos na oca- sião. Por meio da função simbólica, a criança será capaz de representar suas ações ou objetos que estão fora de sua percepção atual. Portanto, para Piaget (1978), a função simbólica é mais ampla do que a linguagem, ou seja, a linguagem é uma forma particular de função simbólica, o que indica que o pensamento precede à linguagem e esta se limita a transformá-lo, ajudando a alcançar formas de abs- tração mais móveis do pensamento. Neste período, a criança ainda não é capaz de se colocar no lugar do outro, nem de avaliar seu próprio pensamento. De acordo com Fontana e Cruz (1997), os pro- cessos de raciocínio lógico e os conceitos demoram também um longo tempo para se desenvolver. Outro progresso decorrente da função simbólica neste período é a interiorização dos esquemas de ação, o que quer dizer represen- tação desses esquemas. Essa interiorização é a condição para que as crianças de dois a sete anos possam emitir certos comporta- mentos, como o jogo simbólico, a imitação, as previsões etc. Porém, o pensamento da criança no período pré-operacional é pré-lógico, domi- nado pelo mecanismo da intuição, segundo o qual, diante de um problema prático, em um brinquedo ou em um jogo, suas respostas se baseiam em configurações perceptivas ou em atuações de ensaio e erro (baseadas nas apa- rências do fenômeno ou do problema). 83 O Desenvolvimento Segundo Jean Piaget Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A criança continua egocêntrica, percebendo, principalmente, como a reali- dade a afeta. Ela não consegue ver mais de um problema ao mesmotempo, pois fixa-se sempre em um de cada vez, é incapaz de raciocinar levando em conta as relações entre as várias dimensões envolvidas. O tipo de percepção que tem dos objetos determina o tipo de raciocínio que faz sobre eles (FONTANA; CRUZ, 1997). Podemos dizer que é a fase – quatro, cinco anos – em que a criança avalia a quantidade só pelo espaço ocupado, sem nenhuma análise de relações, a criança classifica e faz seriação também empiricamente, isto é, a partir de suas observações. Os exemplos clássicos dessa forma de ação são os experimentos em que, ao verter o líquido de um copo mais alto em outro de maior diâmetro, a criança acha que a quantidade de líquido muda. Outro exemplo ocorre quando, ao se apresentar à criança um conjunto de peças de madeira ordenadas e em seguida afastar mais as peças, ela acredita que no segundo momento o conjunto é maior; ou ainda, ao transformar uma bolinha de massa em uma salsicha, mudando a forma, a criança diz que há mais massa na segunda, porque é maior. No final do período já há articulações de dimensões diversas, antecipações dos próximos passos de uma ação e reconstituições de estados anteriores, que indicam que a criança evolui em direção à reversibilidade e à noção de conser- vação. Neste período, não há ainda um comportamento operatório ou lógico, mas uma preparação para ele. c. Período das Operações Concretas Esse acontece apenas no final do período pré-operatório, após realizar muitas equilibrações, o pensamento da criança assume a forma de operações intelec- tuais (FONTANA; CRUZ, 1997). Vai dos sete aos doze anos, no qual se alcança uma determinada reversibilidade e comporta um aspecto lógico: uma operação reversível é uma operação que admite a possibilidade de sua inversão. Para Piaget, uma operação é uma ação interiorizada, reversível e coorde- nada em uma estrutura total, uma ação executada em pensamento sobre objetos simbólicos que admite a possibilidade de uma inversa. No período operacional concreto, essa ação se efetiva sempre a partir da realidade concreta, de uma ação concreta, e evolui para um estágio de ações proposicionais, abstratas. DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Haverá operação quando houver noção de conservação de um todo, inde- pendentemente do arranjo de suas partes, o que não havia no período anterior. A noção de conservação apresenta três resultados possíveis, que demonstram a evolução mental da criança: nenhuma conservação, conservação suposta sem certeza e conservação afirmada como evidente. Piaget (1978) constatou, por meio de experimentos, que a conservação da substância aparece por volta dos sete, oito anos; a conservação de peso por volta dos nove, dez; a de volume por volta dos onze, doze anos. Ressalta-se que a lógica conquistada neste período está vinculada a proces- sos temporais inerentes à manipulação (concreto) sendo, portanto, ainda uma lógica elementar. Neste período, a criança passa a compreender o ponto de vista de outras pessoas, então são estabelecidas as bases para o pensamento lógico, que é pró- prio do período final do desenvolvimento cognitivo (FONTANA; CRUZ, 1997). Segundo Fontana e Cruz (1997, p. 52), por meio das “[...]operações − inicialmente só aplicáveis a objetos concretos e presentes no ambiente − os conhecimentos construídos anteriormente pela criança vão se transformando em conceitos”. d. Período das Operações Formais ou Proposicionais Ocorre a partir dos doze anos e se caracteriza pelo atingimento de uma reversi- bilidade completa. Somente na adolescência a pessoa torna-se capaz de pensar de forma abstrata, uma vez que passa a levantar hipóteses, ou seja, começa a admitir como verdadeiras as propo- sições possíveis, mas ainda não realizadas, tirando consequências dessas hipóteses, o que caracteriza o pen- samento hipotético-dedutivo ou formal. Neste período, o pensamento sobre 85 O Desenvolvimento Segundo Jean Piaget Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . possibilidades, acontecimentos futuros, conceitos abstratos, é cada vez mais arti- culado. O adolescente agora é capaz de pensar sobre seu próprio pensamento, estando consciente das operações mentais que realiza (FONTANA; CRUZ, 1997). Segundo Wadsworth (1997), na teoria Piagetiana, o adolescente, com as opera- ções formais desenvolvidas, pode lidar com as mais variadas classes de problemas, raciocinando de forma efetiva sobre o presente, passado, futuro e também sobre problemas proposicionais verbais e problemas hipotéticos (WADSWORTH, 1997). As classificações e relações aqui são livres de seus aspectos concretos ou intuitivos, o que implica, por sua vez, a liberação do pensamento em relação aos objetos. De acordo com Piletti, Rossato, Rossato (2014, p. 181), Piaget, em relação à adolescência, esclarece que, O desenvolvimento na adolescência é um marco que se estende até a idade adulta, haja vista que, atingido o grau de maturidade mental re- presentado pela oportunidade de realizar operações mentais formais, essa será a forma predominante de raciocínio utilizada pelo adulto. Isso não significa que o indivíduo para de desenvolver-se, mas que ocorrerá uma ampliação de conhecimentos tanto em extensão como em profun- didade e que não haverá, por outro lado, a aquisição de novos modos de funcionamento metal. Gostaríamos de concluir esta breve explanação da teoria de Piaget sobre o desen- volvimento mental na infância e adolescência por meio de estágios, citando o próprio autor em relação a alguns conceitos gerais acerca desse tipo de desenvol- vimento. Em relação às necessidades e interesses, de acordo com esse enfoque, as necessidades e interesses têm características comuns em todas as idades, pois, Toda necessidade busca incorporar as coisas e pessoas à atividade pró- pria do sujeito, ou seja, assimilar o mundo exterior às estruturas já construídas. Toda atividade tende a reajustar as estruturas em função das transfor- mações ocorridas, ou seja, acomodá-las aos objetos externos. Ao equilíbrio destes processos de assimilação e acomodação denomi- na-se adaptação (PIAGET, 1971, p. 15, grifo nosso). Acerca da percepção e movimentos elementares (preensão etc.), dizemos que esses se referem, primeiramente, aos objetos próximos, já que a memória e a DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III inteligência prática permitem, ao mesmo tempo, reconstruir o estado imediata- mente e antecipar as transformações próximas. O pensamento intuitivo reforça essas duas capacidades. Essa evolução culmina com a inteligência lógica, sob a forma de operações concretas e, finalmente, de deduções abstratas, tornando o sujeito senhor de acontecimentos mais longínquos no espaço e no tempo. Uma das principais implicações dos princípios apresentados é que o desenvol- vimento mental é uma organização progressiva, resultante da ação do indivíduo sobre o meio, ação concreta inicialmente e formal ao final do processo de desen- volvimento. O indivíduo transforma o ambiente à medida que sua ação promove transformações nele próprio. Para Piaget (1978), só há aprendizagem quando há acomodação, ou seja, uma reestruturação da estrutura cognitiva (esquema de assimilação existente) do indivíduo, que resulta em novos esquemas de assimilação. A mente, sendo uma estrutura (cognitiva), tende a funcionar em equilíbrio, aumentando perma- nentemente seu grau de organização interna e de adaptação ao meio. Quando o equilíbrio da mente é rompido por experiências não assimiláveis (que não se enquadram nas estruturas existentes), a mente se reestrutura (acomodação) a fim de construir novos esquemas de assimilação e atingir novo equilíbrio. Piaget (1978) defineesse processo de reequilibração como equilibração majorante e destaca que ele é um fator preponderante no desenvolvimento mental e na apren- dizagem do indivíduo. Logo, a equilibração é a grande força impulsionadora do desenvolvimento intelectual. Essa afirmação tem grandes implicações para a educação de modo geral e para o ensino formal; no enfoque Piagetiano, ensinar significa provocar desequilíbrios no organismo (mente) do aluno para que ele, procurando o reequilíbrio (equilibração majorante), se reestruture cognitivamente e aprenda. A capacidade de se reestruturar mentalmente é o mecanismo 87 O Desenvolvimento Segundo Jean Piaget Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . de aprender do indivíduo – buscando um novo equilíbrio ou novos esquemas de assimilação para adaptar-se à nova situação. O ensino deve, portanto, ativar tal mecanismo (MOREIRA, 1999). Segundo Moreira (1997), é importante destacar a necessidade de adaptar essa ativação ao nível de desenvolvimento do aluno, respeitando o período de desenvolvimento mental em que ele está. É comum que a escola proponha para crianças situações que envolvem conservação e reversibilidade, quando elas não dominam ainda essas noções, ou mesmo no ensino secundário e na universi- dade, se desenvolve um ensino puramente formal, quando muitos jovens não atingiram esse nível e ainda estão em uma fase de raciocínio operacional con- creto (MOREIRA, 1997). Piaget (1971) argumenta que as supostas aptidões dos ‘bons alunos’ em matemá- tica ou física, por exemplo, na verdade decorrem de sua capacidade de adaptação ao tipo de ensino que lhe é for- necido, e que os insucessos dos “maus alunos” decorrem de sua não compreensão das lições que lhe são oferecidas. Adequar o ensino ao nível de desenvolvimento do aluno é a forma de a escola evitar o insucesso e promover seu avanço por meio de níveis progressivos de equilibração (equilibração majorante). Concluindo este tópico, gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que Piaget não construiu uma teoria da aprendizagem, mas uma teoria do desen- volvimento mental. A teoria, tanto em termos conceituais como em relação aos estágios do desenvolvimento, é muito mais rica do que demonstramos neste espaço. Sugerimos, portanto, uma leitura da bibliografia indicada para a com- plementação e aprofundamento do tema. DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III O DESENVOLVIMENTO MORAL Piaget realizou estudos e pesquisas acerca do desenvolvimento moral e cons- truiu uma teoria que é a base da maioria dos estudos sobre o tema na atualidade, como a teoria de Lawrence Kolhberg, por exemplo (MENIN; TREVISOL, 2011). Segundo Wadsworth (1997), o desenvolvimento do raciocínio moral ini- cia-se no período sensório-motor e podemos dizer que está em seu maior nível quando o desenvolvimento das operações formais e o desenvolvimento afetivo estão solidificados. De acordo com Piaget, nem todos os adolescentes e adultos desenvolvem as operações formais completamente, no entanto, todas as pessoas com de- senvolvimento normal têm potencial para desenvolvê-las. Fonte: Piaget (2006). As capacidades cognitivas do adolescente com as operações formais já con- solidadas são qualitativamente iguais àquelas do adulto. Os adolescentes podem raciocinar de forma tão lógica quanto podem os adultos com as operações formais, embora os adultos, em virtude de sua maior experiên- cia, possam ser hábeis em raciocinar sobre mais coisas do que podem os adolescentes. Fonte: WADSWORTH, Barry J. Inteligência e afetividade da criança na teo- ria de Piaget. São Paulo: Pioneira, 1997, p. 153. 89 O Desenvolvimento Moral Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O desenvolvimento moral vai evoluindo com o avanço e a faixa etária da criança; na adolescência, já apresenta uma compreensão sobre a codificação de regras, na qual reconhece que as regras são necessárias para a cooperação e participação em jogos. Em relação ao ato de mentir, outro ponto discutido por Piaget, ocorre um amadurecimento sobre esses atos com a chegada da adoles- cência, sendo ‘as intenções’ o principal critério de avaliação da mentira. No que diz respeito ao conceito de justiça, o adolescente começa a apresentar um declí- nio do egocentrismo intelectual e surge a preocupação em respeitar o ponto de vista dos outros (WADSWORTH, 1997). Dessa forma, podemos dizer que, para Piaget (1971), o desenvolvimento moral ocorre paralelamente ao desenvolvimento intelectual e está condicio- nado às possibilidades de cada estágio. O autor relata a existência de três fases no desenvolvimento moral: a anomia, que vai até os 5 anos, na qual a criança segue as regras, mas não a compreende enquanto moral; a heteronomia, que ocorre em crianças até 9, 10 anos de idade, na qual a moral é vista como autoridade; a autonomia, período em que a criança já compreende as regras, é considerada o último estágio do desenvolvimento. Piaget (1971) complementa que, no desenvolvimento moral, a heteronomia e a autonomia são tendências antagônicas; inicialmente, a criança apresenta uma tendência à heteronomia ou moral da obediência. Esse sentimento tem origem no respeito unilateral da criança em relação a seus pais e outros adultos e resulta da construção de uma percepção de que os adultos são superiores a ela. A hete- ronomia seria, portanto, a obediência às determinações desses adultos, em um processo de submissão, e seria característica do período pré-operacional. Assim, seus sentimentos morais iniciais são intuitivos e não racionais1. A moral da primeira infância fica, com efeito, essencialmente heterônoma, isto é, dependente de uma vontade exterior, que é a dos seres respeitados ou dos pais. 1 Exemplificando esse processo, apresentamos ao final da unidade o texto de Piaget (2006, p. 39-40). DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III MORAL DA OBEDIÊNCIA E MORAL DE COOPERAÇÃO Progressivamente surge um novo sentimento decorrente de novas formas de vida social. Interagindo com o grupo de iguais, com outros grupos sociais, nas condutas relacionais, a criança constrói princípios de autorreconhecimento e autovalorização, movida por ideias de reciprocidade e justiça. A partir dos sete anos, já distingue o seu próprio ponto de vista do ponto de vista do outro, para coordená-los, é capaz de cooperar, a brincadeira coletiva, os jogos de regras, ter- minam levando à necessidade de justificações lógicas e favorecem a superação do egocentrismo resultando em uma moral de cooperação e de autonomia – a moral do bem, da autoconsciência. Como se pode perceber, o atingimento desse novo patamar pressupõe interação. Estando o desenvolvimento, na perspectiva de Piaget, atrelado às relações sociais, como promovê-lo? As relações entre família, escola e comunidade são essenciais nessa busca, assim, abordaremos na unidade V as possibilidades de desenvolvimento da educação moral na escola. Apresentamos ao final da unidade um pequeno artigo de Rosely Sayão que retrata a forma como, na sociedade atual, algumas ‘aprendizagens’ iniciais podem deturpar os padrões da moral heterônoma. Em relação à importância das trocas sociais na perspectiva Piagetiana, gos- taríamos de ressaltar, caro(a) aluno(a), que suas obras sofreram muitas críticas, as quais apontam a pouca ênfase colocada pelo autor sobre essa temática. A afir- mação de que ele desconsiderou ou negou a importância das trocas sociais para o desenvolvimento cognitivo é um ponto de vista é no mínimo equivocado. Costa (2003), em seu trabalho “A teoria piagetiana das trocassociais e sua aplicação aos ambientes de ensino-aprendizagem”, demonstra, identificando vários pon- tos da obra do autor onde o tema é abordado, sua preocupação com a interação social. Dessas falas de Piaget (1973 apud COSTA, 2003), citamos: 91 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A construção progressiva das operações intelectuais supõe uma inter- dependência crescente entre os fatores mentais e as interações inte- rindividuais [...]. Uma vez as operações constituídas em equilíbrio se estabelecem entre o mental e o social, no sentido de que o indivíduo tornado membro adulto da sociedade não poderia mais pensar fora desta socialização acabada. Estando o desenvolvimento, na perspectiva de Piaget, atrelado às relações sociais, como promovê-lo? As relações entre família, escola e comunidade são essenciais nessa busca, assim, abordaremos na unidade V as possibilidades de desenvolvi- mento da educação moral na escola. CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta unidade teve como foco discutir os estágios de desenvolvimento na pers- pectiva de Piaget, também contou com outro ponto importante na discussão, abordando o desenvolvimento moral, tão amplamente discutido pelo autor em suas obras. Pautados nesse referencial teórico, podemos compreender, sob a ótica de Piaget, como as crianças e adolescentes, em diferentes momentos de seu desenvolvimento, constroem e adquirem conhecimentos cognitivos, assim, buscamos a compreensão sobre o comportamento deles. Nossa prática pedagógica é construída a partir de pressupostos teóricos que embasam nosso cotidiano, dessa forma, podemos dizer que o conhecimento cien- tífico construído por Piaget e seus colaboradores, apresentado em linhas gerais nesta unidade, nos permite uma melhor compreensão da criança e do jovem e, consequentemente, poderá subsidiar nossas decisões sobre a prática escolar. Diante do nosso material de estudo, compreendemos que o pensamento de Piaget, na visão construtivista, está muito presente no trabalho pedagógico na atualidade, logo, é essencial que busquemos sempre maior aprofundamento DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III teórico, pois este certamente irá refletir em nossa prática pedagógica e, con- sequentemente, no desenvolvimento do aluno, quer no aluno que vivencia o período sensório-motor (está fazendo parte do contexto escolar cada vez mais cedo), quer do aluno que vivencia as operações formais. É preciso apontar que conhecer as características descritas por Piaget, em relação ao desenvolvimento humano, favorecerá uma maior compreensão desse indivíduo em todas as suas etapas da vida, contribuindo para uma maior efeti- vação da prática pedagógica. Com certeza, o nosso material não esgota todo o conhecimento e as muitas pesquisas e estudos desenvolvidos por Piaget, porém, acreditamos que, a partir das leituras aqui apresentadas, despertaremos em você um interesse maior na busca de novas leituras nesta área. 93 1. Jean Piaget, a partir de suas pesquisas e estudos, criou uma Teoria do Desenvol- vimento da Inteligência, propôs um modelo de estruturas mentais e dividiu o desenvolvimento em estágios. A partir da leitura do material de estudo, reflita sobre a teoria proposta, leia as assertivas e assinale a alternativa correta. I - Toda necessidade busca incorporar as coisas e pessoas à atividade própria do sujeito, ou seja, assimilar o mundo exterior às estruturas já construídas. II - Toda atividade tende a reajustar as estruturas em função das transformações ocorridas, ou seja, acomodá-las aos objetos externos. III - O equilíbrio dos processos de assimilação e acomodação denomina-se adapta- ção. IV - O indivíduo transforma o ambiente à medida que sua ação promove transfor- mações nele próprio. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. 2. Segundo o pensamento de Piaget, a aprendizagem acontece quando há acomo- dação, isto é, ocorre uma reestruturação da estrutura cognitiva do indivíduo, que resulta em novos esquemas de assimilação. Reflita sobre a temática proposta, leia as afirmações e assinale a alternativa correta: I - A reequilibração é definida por Piaget como equilibração majorante. II - A teoria de Piaget não considera importante respeitar o período de desenvolvi- mento mental em que a criança está, não sendo necessário adaptar a ativação do mecanismo de aprender do aluno. III - A equilibração é a grande força impulsionadora do desenvolvimento intelectual. IV - Para Piaget, ensinar significa provocar desequilíbrios no organismo do aluno. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. 3. Jean Piaget aponta que o desenvolvimento cognitivo humano avança em es- tágios, nos quais, em cada etapa do desenvolvimento existem condutas novas, novas formas de ação sobre os objetos que se agrupam em sistemas, sempre em estado de elaboração. Sobre o exposto e pautado na leitura do texto de estudo, apresente os estágios de desenvolvimento proposto pelo autor. 95 Como descrito na unidade, apresentamos um recorte do texto de Rosely Sayão (2009), discutindo o papel da família da educação e formação dos filhos. Vamos à leitura. PEDIR OU MANDAR Recentemente, em uma reunião de pais, uma mãe fez uma intervenção bem-humorada, mas igualmente desanimada. Seus dois filhos – um de cinco anos e o outro de nove – não atendiam às suas ordens de jeito nenhum. Ela contou que precisava repetir a mes- ma coisa muitas vezes, subir o tom de voz, às vezes até gritar, parar de fazer o que estava fazendo, colocá-los de castigo e discutir com eles até que eles fizessem o que precisa- vam. E eles ainda respondiam de modo pouco respeitoso ou fugiam dela. Para essa mãe, fazer os filhos obedecerem era uma mágica que ela não conhecia e, por isso, assistia a programas de televisão2 para tentar apreender os segredos ali apresenta- dos, mas, até então, não tivera êxito. Essa mãe representou um bom número de pessoas que agem como ela com os filhos e sentem a mesma impotência perante a falta de resultados. Por isso, vamos conversar sobre obediência. Os pais, em geral, colocam na criança a responsabilidade pela desobediência, mas é quase sempre neles que está a questão. Para ilustrar essa tese, uma história que um pai me contou. Ele instituíra com sua filha de seis anos um ritual para dormir que terminava com uma história. O problema é que a menina nunca ficava satisfeita com uma só história: pedia outra e mais outra. O pai atendia aos pedidos da garota até o limite de perder a paciência e, então, dizia bravo: ‘Agora chega!’. Só aí a filha se aquietava e se despedia para dormir. Aí está: os filhos logo aprendem quando precisam obedecer aos pais e quando há es- paço para jogar. Quando uma criança ouve sua mãe pedir que é hora do banho, ela dis- tingue pelo tom de voz, pelas palavras, pelo olhar ou por outro sinal qualquer se é uma ordem ou apenas um pedido. Ela sabe que um pedido pode ser negado e uma ordem deve ser obedecida. Os pais desenvolvem com cada um dos filhos as pistas para a obediência, já que as crian- ças são diferentes umas das outras e se relacionam diferentemente com seus pais tam- bém. E elas aprendem rapidamente a distinguir o modo como cada um de seus pais dá as pistas. Mas, para que a criança aprenda a entender e a acatar a pista, é preciso que seus pais lhe ensinem desde cedo o princípio da obediência – e, para tanto, é preciso mandar. Sim, senhores pais: os filhos não obedecerão nunca se os pais não mandarem, e hojemuitos pais querem que seus filhos obedeçam sem terem de impor. Impossível. 2 Adaptado pela autora Aprender a obedecer é pura prática, por isso é desde cedo que os pais precisam dar oportunidades para que seus filhos aprendam. Nos primeiros anos de vida, a tarefa é simples, mas árdua: os pais precisam dar a ordem e fazer com que os filhos a atendam. Isso significa saber a hora de agir. Ao dizer ao filho “não faça isso”, por exemplo, é preciso impedir que a criança faça porque é dessa maneira que ela aprenderá o sentido do im- pedimento e da obediência. Criança que sabe a quem e quando obedecer é mais tranquila, estabelece boa convivên- cia e, por isso, cresce melhor, mas depende totalmente dos pais para esse aprendizado. Fonte: SAYÃO, Rosely. Pedir ou Mandar. Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 nov. 2009. Folha Equilíbrio. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Acesse o link e conheça mais sobre o Desenvolvimento Cognitivo na perspectiva de Jean Piaget. <http://www.nutes.ufrj.br/abrapec/viiienpec/resumos/R1092-2.pdf>. U N ID A D E IV Professora Dra. Rachel de Maya Brotherhood Professora Me. Waléria Henrique dos Santos Leonel O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Objetivos de Aprendizagem ■ Estudar a constituição e desenvolvimento da personalidade. ■ Abordar a Teoria Psicanalítica desenvolvida por Sigmund Freud. ■ Tratar das características básicas das Fases do Desenvolvimento. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Desenvolvimento da personalidade ■ A Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud ■ Fases de Desenvolvimento psicossexual INTRODUÇÃO O ser humano é uma estrutura indivisível, em que elementos cognitivos, afetivos e motivacionais interagem, determinando seus ajustamentos ao mundo que o cerca. A Teoria de Piaget, estudada no item anterior, coloca sua ênfase na dimen- são intelectual, cognitiva, e no desenvolvimento do indivíduo, aspecto muito importante quando pensamos em educação formal, escolaridade e aprendiza- gem. Também é fundamental a compreensão da estrutura da personalidade, já que essa é uma dimensão essencial e intimamente relacionada às motivações e aos aspectos da aquisição do conhecimento. Nesta unidade, vamos abordar alguns aspectos da constituição e desenvol- vimento da personalidade, na perspectiva da teoria freudiana. Sabemos que o homem é um ser em desenvolvimento que trará certamente para o contexto escolar as características de sua personalidade, que influenciará seu comporta- mento, suas relações com o outro e também refletirá no seu aprendizado. Dessa forma, é essencial que os profissionais da educação tenham compreensão de como ocorre esse processo de constituição e desenvolvimento da personali- dade da criança e do adolescente, promovendo em você, futuro(a) profissional da área, um entendimento do aluno em sua totalidade. Isso certamente irá con- tribuir para a sua atuação prática e, consequentemente, para o aprendizado do aluno em suas fases de desenvolvimento. Assim, podemos dizer que a compreensão da personalidade vem para agre- gar competências à prática do professor, por isso, vamos caminhar na busca de entender os conceitos básicos essenciais da teoria para o entendimento do homem em desenvolvimento. 101 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Sabe-se que a personalidade surge da interação entre o homem e o mundo, pessoa e grupo, sujeito e objeto, eu e não eu (TELES, 2001). A hereditariedade fornece ao indivíduo um potencial para a realização de uma individualização, algumas capacidades básicas para o atendimento das múltiplas necessidades fisiológicas do recém-nato e algumas carências psicológicas. É inerente também ao indivíduo uma tendência à realização do potencial contido em seus genes, uma disposi- ção para realizar suas potencialidades, um movimento para o crescimento. Em seu contato com o mundo, o indivíduo, pouco a pouco, vai aprendendo a satis- fazer essas necessidades e vai desenvolvendo maneiras próprias de ajustamento ao meio e de domínio do meio, constituindo assim a sua personalidade. Um forte determinante da personalidade, além da hereditariedade e da ten- dência para a realização de seu potencial, é o ambiente físico e social, constituído pelas instituições societárias e culturais às quais esse ambiente pertence (famí- lia, comunidade, escola etc.). Tal ambiente ocupa uma posição, desempenha um papel em todas essas estruturas, é uma pessoa social. Portanto, há determinan- tes situacionais na personalidade. Esses grupos fornecem os valores, os padrões do ‘deve’ e do ‘precisa’ que influenciam a estrutura de sua personalidade e a sua ação no mundo. 103 Desenvolvimento da Personalidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Além dos determinantes biológicos e sociais, cada indivíduo vive situações específicas, coisas que acontecem apenas a ele, acontecimentos particulares que também influenciam no desenvolvimento da personalidade, como a perda de entes significativos, o fato de ter nascido em uma família específica, o fato de ter migrado, por exemplo. Algumas das principais características da personalidade, resultantes dessas diferentes influências, são a sua consistência e estabilidade, as quais nos permitem reconhecer o indivíduo, a sua plasticidade e dinamismo, isto é, a potencialidade de mudança no decorrer de toda a vida. Destacamos que a infância é um período primordial na constituição da per- sonalidade, pois nesse período os alicerces da personalidade são formados e muitas configurações e valores são fixados. Por isso, a importância do contexto familiar é primordial, entretanto, hoje, quando a educação infantil atende crian- ças bem pequenas, a ação da escola não é menos significativa. Por outro lado, na adolescência e no início da idade adulta, ocorrem gran- des mudanças na personalidade, porque, por suas capacidades intelectuais e por sua evolução afetiva, o jovem revê os seus valores e ressignifica os seus compor- tamentos, porém, sempre a partir das experiências da infância e da estrutura do caráter ali construída. Uma das características da personalidade é a plasticidade, sendo assim, ela não deixa de se desenvolver durante toda a vida. O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Pode-se dizer que o desenvolvimento da personalidade é um processo influen- ciado por muitos fatores que tem início desde o nascimento e prossegue por toda a vida. Tal processo busca a habilidade de se adaptar ao meio através da capacidade de inibir ou moderar a manifestação de necessidades inaceitáveis socialmente, de usar modelos de ação aprovados (maneiras, atitudes), enfim, de se adaptar às condições sociais convencionais. Existem muitos estudos que buscam compreender o sentido e a estrutura da personalidade. Esses são esforços para compreender e tratar pessoas perturbadas em ambientes clínicos, ou tentativas de ajudar o indivíduo a vencer os proble- mas e conseguir ajustamentos satisfatórios à vida. Uma das principais linhas de estudo da personalidade, a das Teorias Psicodinâmicas, tem origem nos estudos de Sigmund Freud (1856-1939). Dentre os principais proponentes das Teorias Psicodinâmicas podemos citar Carl Jung, Alfred Adler, Karen Horney, Harry Stack Sullivan e Erik Erikson. No contexto de nosso curso, pela impossibilidade de abordar outras teorias, optamos por enfocar os princípios básicos da Teoria Psicanalítica de Freud, por acreditarmos que eles são fundantes na compreen- são dos demais enfoques. Plasticidade em Psicologiaé a capacidade que o indivíduo apresenta para adaptar-se às condições ambientais nas quais esteja inserido, causando mu- danças em seu desenvolvimento. Na atualidade, muito vem sendo discutido sobre a plasticidade cerebral, processo no qual o cérebro sofre interferên- cias do meio ambiente e essas influências provocam mudanças anatômicas e funcionais. Para saber mais a respeito do assunto, acesse o link: Fonte: SALLA, Fernanda. Toda a atenção para a Neurociência. Nova Escola, São Paulo, n. 253, jun./jul. 2012. Disponível em: <http://revistaescola.abril. com.br/formacao/neurociencia-como-ela-ajuda-entender-aprendiza- gem-691867.shtml?page=4>. Acesso em: 08 jun. 2015. 105 A Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A TEORIA PSICANALÍTICA DE SIGMUND FREUD SIGMUND FREUD Sigmund Freud (1856-1939) nasceu em Freiberg, República Tcheca, todavia, viveu em Viena, na Áustria. Era médico, ficou conhecido como o fundador da Psicanálise, focou seus estu- dos na psiquiatria e buscou explicar a personalidade normal e anormal a partir da sua teoria psicanalítica. Autores apontam que a teoria freudiana foi desenvolvida a partir da observa- ção e investigação dos processos psíquicos dos pacientes com quadros de histeria. Por meio de técnicas, como a hip- nose, ele buscou explicar e eliminar os sintomas apresentados (PILETTI; ROSSATO; ROSSATO, 2014). Consoante Glassman e Hadad (2008), Freud apresentou como um dos pressupostos mais fundamentais de sua obra o Determinismo Psíquico, no qual revela que todo o com- portamento tem uma causa, ou seja, é determinado, e sua causa está na mente. Continuando suas pesquisas, Freud passou a usar a técnica de associação livre, na qual o paciente falava livremente sobre seus pensamentos; fez uso do divã como um recurso que auxiliava nas associações. Segundo Piletti e Rossato e Rossato (2014), Freud tinha como seu objeto de interesse a compreensão do inconsciente, em que defendia que os processos mentais motivavam o comportamento humano. Para o teórico, as pulsões ina- tas e as pulsões sexuais são responsáveis pela motivação humana e são de base biológica. Dito isso, podemos pensar que Freud centrou suas pesquisas em pro- cessos não observáveis, ou seja, a dinâmica da mente. Para Cloninger (1999, p. 38), a teoria freudiana causou grande impacto na sociedade da época, convencendo a maioria das pessoas do século XX de que “muitas das motivações humanas são determinadas por forças inconscientes, irracionais”. O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV A teoria psicanalítica freudiana postula três níveis de consciência compara a consciência a um iceberg flutuando. Como um iceberg apenas uma pequena parte da mente é visível: a mente consciente. Sob a superfície da água, às vezes visível e às vezes submersa, está a mente pré-consciente. Como um iceberg, grandes pe- rigos se escondem na parte não visível. Por fim há uma grande massa, equivalente à maior parte da mente, que está oculta, como o bloco do iceberg submerso na água: a mente inconsciente (CLONINGER, 1999, p. 40). Freud acreditava que as pessoas estão conscientes de apenas um pequeno número de pensamentos, memórias, sentimentos e desejos. Outros são pré-conscientes, enterrados logo abaixo da percepção, de onde são fáceis de recuperar. A grande maioria é inconsciente. Para ele, o vasto material inconsciente entra na consci- ência de forma disfarçada: aparece em sonhos, lapsos de linguagem, enganos, acidentes e livres associações. Para compreender o inconsciente é preciso analisar o comportamento do indivíduo, suas memórias, sonhos, atos falhos e associa- ções durante um longo período. Sua teoria enfoca principalmente esses aspectos inconscientes da personalidade. Para ele, as pulsões e as lembranças das expe- riências do início da infância e dolorosos conflitos psicológicos tendem a ser inconscientes. De acordo com Cloninger (1999, p. 40), O nível consciente refere-se às experiências que a pessoa percebe, in- cluindo lembranças e ações intencionais. A consciência funciona de modo realista, de acordo com as regras do tempo e do espaço. Percebe- mos a consciência e a aceitamos como nossa; identificamo-nos com ela. Já em relação ao nível pré-consciente, podemos dizer que este é o material que pode ser trazido à consciência, em um dado momento. Inclui informações em que não se está pensando, mas que podem ser facilmente recordadas em caso de necessidade, como por exemplo, o segundo nome de sua mãe. O conteúdo do pré-consciente não difere fundamentalmente do da consciência. Os pensamentos transitam rapi- damente entre os dois níveis (CLONINGER, 1999, p. 41). O nível inconsciente possui conteúdos que não emergem prontamente na cons- ciência, sendo ele diferente dos demais. 107 A Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O inconsciente refere-se a processos mentais de que a pessoa não está cônscia. Esses materiais permanecem no inconsciente porque torná-los conscientes produziria demasiada angústia. Diz-se que esse material está reprimido, ou seja, resiste a tornar-se consciente. Entre os conte- údos do inconsciente estão as lembranças traumáticas esquecidas e os desejos não-satisfeitos (CLONINGER, 1999, p. 41). No desenvolvimento de sua teoria, Freud introduziu conceitos importantes para a compreensão da personalidade. Neste aspecto, podemos dizer que os impul- sos sexuais descritos pelo autor desempenham um papel importante em suas formulações. Ele usava o termo ‘sexual’ para todas as ações e pensamentos pra- zerosos; entre os impulsos, incluía a agressão. As pulsões, segundo Freud, geram uma quantidade de energia psíquica denominada libido, que é considerada uma energia sexual, mobiliza comporta- mentos e habilidades mentais. É uma energia paralela, mas diferente da energia física. Se as pulsões não forem satisfeitas, a energia psíquica se acumula sob a forma de pressão, como a água em um cano sem uma válvula aberta. Os con- flitos podem aumentar a tensão e, para o indivíduo funcionar normalmente, a pressão precisa ser reduzida, a válvula precisa ser aberta, ou a “tubulação” arre- bentará e o indivíduo apresentará comportamento anormal. Na Psicanálise clássica, o paciente reclina-se sobre o divã, enquanto o analis- ta senta atrás dele, fora do campo de visão. Freud adotou esse método para não influenciar o fluxo de associações do paciente com as suas expressões faciais. Além disso, também tinha um motivo pessoal: ‘não aguento que me olhem oito horas por dia’. Fonte: GLEITMAN, H.; REISBERG, H.; GROSS, J. Psicologia. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009, p. 606. O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Segundo Cloninger (1999, p. 47), Todo tipo de motivação deriva da personalidade que deriva da libido, que pode ter sua forma instintiva original transformada por intermé- dio da socialização. Toda a energia usada para as realizações culturais − para obras de arte, para a política, para a educação − é energia sexual transformada. Em contrapartida, a repressão represa a energia, tornan- do-a indisponível para realizações mais sublimes. O conceito de personalidade de Freud é dinâ- mico, os motivos das nossas atitudes e da nossa conduta devem ser buscados em for- ças emotivas, instintivas. O instinto é a fonte de energia vital. Essas forças, quando con- troladas e utilizadas adequadamente, podem fortalecer e enriquecer capacidades, como pensar, amar, compreender, pois promovem o desenvolvimento das potencialidades sen- soriais, emocionais e mentais. Freud, visando formular a compreen- são da tensãoentre o inconsciente e a consciência que tenta controlar as forças inconscientes, criou um modelo de estrutura de personalidade. Com base na teoria freudiana, em termos de estrutura, a personalidade é composta por três grandes sistemas: o Id, o Ego e o Superego. O id é primitivo, fonte dos impulsos biológicos. Ele é inconsciente. O ego é parte racional da personalidade que lida com o mundo real. É a estrutura mais consciente da personalidade (embora não totalmente consciente). O superego consiste nas regras e ideias da sociedade que foram interiorizados pelo indivíduo. Parte do superego é consciente, mas uma grande parcela dele permanece inconsciente (CLONINGER, 1999, p. 46). Cloninger (1999) afirma que, segundo o pensamento freudiano, o Id, no qual os impulsos biológicos estão presentes, é a única estrutura da personalidade pre- sente desde o nascimento. O id atua no princípio do prazer, isto é, busca sempre satisfazer as suas necessidades, reduzindo a tensão e proporcionando prazer. O Ego emerge nas crianças em desenvolvimento, à medida que elas aprendem que há uma realidade a parte de suas próprias necessidades e desejos. 109 A Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O Ego é responsável pela unidade da personalidade e está em contato com o mundo real. Podemos dizer que é uma parte do Id que foi modificada por sua proximidade com o mundo externo e tem como tarefa localizar objetos reais para satisfazer as necessidades do Id. Diferentemente do Id, o Ego é contro- lado, realístico e lógico; ele atua no princípio da realidade, ou seja, compreende a realidade e adapta-se à realidade do mundo real. O Ego adia a gratificação dos desejos do Id até que seja encontrada uma situação ou objeto apropriado, por exemplo, se você está com fome, o Ego pode formular a ideia de ir a uma chur- rascaria. Raramente ele permite que você confunda fantasia com realidade. O Ego é como um executivo crítico, organizado, solucionador de problemas, é a sede de todo processo intelectual. Para um desenvolvimento saudável, é necessá- rio um ego fortalecido, que proteja o sujeito das angústias, mas que dê condições de vivenciar o mundo externo com prazer (CLONINGER, 1999). O Superego é o representante interno das regras e restrições familiares e sociais, ele emerge do Ego e podemos pensar que resulta da internalização que a criança faz dos valores, costumes e restri- ções de seus pais. Embora resulte do Ego, funciona totalmente independente dele. É essencialmente uma consciência, luta por perfeição, idealismo, autossacrifício e hero- ísmo. O Superego recompensa o Ego por comportamentos aceitáveis e o pune com sentimentos de culpa quando as ações ou pensamentos se colocam contra seus prin- cípios morais. Conforme Cloninger (1999), o Superego nos fornece um ideal do Ego, isto é, nos for- nece imagens do que gostaríamos de ser, nossos modelos internos. Ele é em grande parte inconsciente e muitas vezes os sen- timentos de culpa que temos resultam de uma compreensão imatura de uma criança pequena. O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Freud acreditava que o Id todo e partes do Ego e do Superego são inconscien- tes. O médico ressaltava a importância da dinâmica dos processos inconscientes, pré-conscientes e conscientes, e defendia a existência de um mundo interno orga- nizado em termos de conflitos entre instâncias: a sexualidade e a agressividade, impulsos contidos no Id, demandam por expressão e descarga que, no entanto, estão submetidas às determinações morais do Superego, decorrentes do ambiente social. Esse conflito gera ansiedade e leva o Ego a desenvolver mecanismos defen- sivos que evitam o perigo da invasão de impulsos e conteúdos inconscientes. O modo como o aparelho psíquico organizará a experiência pessoal, lidando com as necessidades pulsionais, fundamenta a compreensão da personalidade e da formação dos traços de caráter. A teoria de Freud discute o desenvolvimento da personalidade, chamado pelo autor de fases de desenvolvimento psicossexual. Para Freud, em cada estágio de desenvolvimento, existe uma forma própria de lidar com as necessidades desse estágio. Ele divide o desenvolvimento a partir de um esquema de zonas erógenas. As crianças passam por uma sequência de zonas erógenas, quando a libido (energia sexual) se concentra em diferentes regiões do corpo, à medida que pros- segue o desenvolvimento psicológico, caracterizando as fases psicossexuais. Freud descreve cinco fases psicossexuais de desenvolvimento, quais sejam: Fase Oral; Fase Anal; Fase Fálica; Fase de Latência e Fase Genital, como veremos a seguir. FASES DE DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL ■ Fase Oral: ocorre no primeiro ano de vida, quando os bebês sentem prazer principalmente em suas bocas, visto que as atividades prazerosas concen- tram-se em torno da alimentação, comendo, sugando. Há um segundo momento, marcado pelo morder frequente, o qual é chamado de sadismo oral. A libido centra-se em prazeres orais. O desmame é o principal con- flito da fase oral, por causa do excesso de gratificação ou privação extrema. Se parte da libido permanece instalada neste nível de desenvolvimento, os adultos podem exibir traços orais, como: dependência, passividade 111 Fases de Desenvolvimento Psicossexual Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . e gula, e preocupações orais, como: comer, mastigar goma, falar excessi- vamente e fumar. Pode ocorrer ainda uma preponderância de característi- cas contrárias na fixação da fase, por exemplo, o pessimismo. ■ Fase Anal: Freud acreditava que, durante o segundo e o terceiro ano de vida, o prazer está orientado principalmente na região anal, inicial- mente por expelir as fezes e posteriormente por retê-las. As crianças são solicitadas a controlar os impulsos naturais, face às restrições da socie- dade, somente pelo medo da perda do amor dos pais – que expressam a sua desaprovação quando a criança não utiliza o toalete adequadamente, então a criança abre mão desse prazer de controlar livremente seu esfínc- ter face às restrições da sociedade. Podemos entender o controle livre quando a criança realiza o expelir ou a retenção de seu esfíncter, por sua vontade, sem a interferência e controle social dos pais ou cuidadores. Pautados na teoria, entendemos que o treinamento de toalete é o conflito central da fase anal, se o treinamento da toalete for severo ou excessiva- mente indulgente, uma parte significativa da libido pode fixar-se neste estágio. Consoante Clonninger (1999), o caráter anal apresenta três tra- ços característicos: ordem, parcimônia e teimosia. ■ Fase Fálica: entre três e cinco anos, a criança descobre os órgãos geni- tais e descobre que eles proporcionam prazer, por meio da masturbação (autoerotismo), acompanhada de fantasias. Nesta fase, homens e mulhe- res seguem diferentes cursos em seu desenvolvimento; o desenvolvimento masculino é marcado pelo Complexo de Édipo e o feminino, o Complexo de Electra. A criança ama excessivamente o pai ou a mãe, sempre a pes- soa de sexo oposto ao seu, e rivaliza com um dos pais, sendo aquele que possui o mesmo sexo que o seu. Neste processo, a criança visa agradar um dos pais (aquele de sexo oposto ao seu) e, ao mesmo tempo, identifica-se com o comportamento do pai ou da mãe (aquele que é do mesmo sexo que o seu). O filho ama a mãe e tece fantasias sexuais com ela, odeia o pai e deseja que ele morra para substituí-lo, entretanto, ele teme o pai, que é forte e pode retaliar e acaba por reprimir seu amor pela mãe e se identifi- car com o pai, esforçando-se para ser como ele (Complexo de Édipo). Essa identificação com o pai tem consequências de longoalcance e permite que O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV o menino adote as características típicas do sexo masculino e o Superego do pai. No caso da menina, o conflito é conhecido como Complexo de Electra (nomes provenientes de personagens lendárias gregas). A filha ama a mãe, que tem satisfeitas suas necessidades básicas, porém descobre nesta fase que possui uma cavidade no lugar do pênis e supõe que tenha sido castrada, logo, culpa a mãe por tal infortúnio e transfere tempora- riamente seu amor para o pai. Para Freud, o amor pelo pai e a rivalidade com a mãe se dissipam lentamente e a menina pode assumir as caracte- rísticas femininas e o Superego da mãe. ■ Fase de Latência: após a fase fálica, surge um período de latência, enten- dido como um declínio da sexualidade. Nessa fase, as pulsões ficam escondidas, é um momento em que os instintos sexuais estão adormeci- dos antes da entrada na próxima fase de importância ao desenvolvimento, este é um período no qual a criança efetua sua adaptação real ao mundo exterior (CASTRO; DUARTE, 1989). O período de latência compreende a faixa etária dos cinco aos doze anos, é a etapa do desenvolvimento psicos- sexual marcado pela dessexualização das pulsões. Freud acreditava que ao final da fase fálica, aos cinco anos, a personalidade está formada e nos sete anos seguintes, aproximadamente, as necessidades sexuais permanecem adormecidas, não ocorrem mudan- ças importantes ou conflitos neste período. ■ Fase Genital: inicia-se com a puber- dade, os interesses sexuais são novamente despertados, compreende a fase da adolescência e idade adulta, até a senilidade. As pessoas, até então voltadas para si próprias e seus corpos, se orientam para as outras e necessi- tam formar relacionamentos sexuais satisfatórios. Freud acreditava que um laço heterossexual maduro é a marca registrada da maturidade. Esse desafio não poderá ser enfrentado adequadamente, se a energia da libido estiver demasiadamente fixada em alguma fase anterior. 113 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CONSIDERAÇÕES FINAIS A compreensão da teoria freudiana do desenvolvimento como elemento facili- tador da ação da escola está relacionada à contribuição que ela pode trazer para a ampliação do campo de compreensão dos problemas afetivos, interativos e de aprendizagem dos alunos, a partir do entendimento do funcionamento do psi- quismo humano. Deve-se destacar que a teoria de Freud teve ampla aceitação na sociedade, que incorporou expressões como frustração, impulsos inconscientes, complexo de Édipo, e teve também influência significativa em todo o desenvolvimento da Psicologia em geral e da Psicologia Escolar em particular. Hoje, a maioria dos cientistas da área concorda que as experiências iniciais são importantes para o desenvolvimento da personalidade e que as pessoas são frequentemente influen- ciadas por motivos e sentimentos dos quais não estão conscientes. No entanto, muitas formulações do autor são debatidas, sobretudo, pela impossibilidade de se avaliar alguns conceitos, como o conceito de Id. Ao mesmo tempo, mui- tos discípulos de Freud têm feito revisões e modificações na teoria psicanalítica básica. Não se pode, porém, negar a importância de seu insight para a compre- ensão do desenvolvimento e da personalidade, visto que Freud é considerado ainda hoje como um “[...]gigante intelectual na história do pensamento moderno” (DAVIDOFF, 1983, p. 520). Concluindo esta unidade, destacamos como ponto central da teoria freu- diana, para a compreensão do desenvolvimento em sua relação com a escola, a ênfase colocada pelo autor nas experiências iniciais da criança na formação de sua personalidade, logo, podemos dizer que tanto a família quanto a escola têm grande compromisso e responsabilidade para com as crianças. Outros psicanalistas, posteriores às ideias de Freud, entendem a psique hu- mana, além dessa voltada para a função sexual e o Complexo de Édipo. Para exemplificar, citamos Donald Woods Winnicott (1896-1971), que leva em consideração, em suas discussões, os determinantes culturais na formação do psiquismo. Fonte: Piletti, Rossato e Rossato (2014). O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Dessa maneira, diante do exposto na unidade, devemos refletir acerca da abordagem apresentada e da compreensão da personalidade da criança e do ado- lescente, entendendo que não é proposto fazer uma educação profilática para se evitar formação de personalidades neuróticas, mas sim primar pela compreen- são do indivíduo em sua totalidade e instigar aos educadores a lidarem com seus alunos de forma mais empática, por entenderem as angústias vividas por eles. 115 1. Freud em sua teoria descreve o desenvolvimento a partir de um esquema de zonas erógenas. Em relação às fases psicossexuais, leia as assertivas e assinale a alternativa correta: I - Fase oral, anal, fálica, fase de latência, genital. II - Fase de latência, homens e mulheres seguem diferentes cursos em seu de- senvolvimento. III - Fase pulsional, fase oral. IV - Pulsão, libido. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. 2. De acordo com a teoria psicanalítica de Freud, as pessoas estão conscientes de apenas um pequeno número de pensamentos, memórias, sentimentos e dese- jos; para o teórico, os aspectos inconscientes vão influenciar na personalidade. Leia as afirmações e assinale a alternativa correta: I - Para Freud, as pulsões e as lembranças das experiências do início da infância e dolorosos conflitos psicológicos tendem a ser inconscientes. II - As forças instintivas, quando controladas e utilizadas adequadamente, po- dem fortalecer e enriquecer capacidades como: pensar, amar, compreender. III - Freud usava o termo “sexual” para todas as ações e pensamentos prazerosos. IV - Os motivos das nossas atitudes e da nossa conduta devem ser buscados em forças emotivas, instintivas. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) todas estão corretas. 3. A Teoria Psicanalítica apresenta três sistemas importantes para a compreensão da personalidade. Sobre tais sistemas, leia as afirmações e assinale a alternativa correta: I - O Ego atua no princípio da realidade, ou seja, compreende a realidade e adap- ta-se à realidade do mundo real. II - O Id, que contém os impulsos biológicos, é a única estrutura da personalidade presente desde o nascimento. III - Ego é o órgão executivo, responsável pelo controle da percepção e contato com a realidade, bem como pelo adiamento e modulação na expressão dos im- pulsos. IV - Os sistemas são Id, Ego e Superego. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. 117 Atualmente, uma grande polêmica tem dividido opiniões no Brasil. Trata-se da criação, pelo Congresso Nacional, de uma lei que proíbe a palmada. Como Freud destaca a im- portância das experiências iniciais na formação da personalidade, as formas de con- trole na infância são fundamentais para que se compreenda este processo. O que você pensa sobre a palmada? Leia mais sobre o assunto: A POLÊMICA DA PALMADA A polêmica da palmada educativa O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já defendeu a teoria de que vale “até dar uns ta- pinhas no bumbum dos meninos” para impor limites aos filhos. Sete anos depois da declaração,o presidente disse, ontem, que “conversar é melhor do que bater”, ao assinar o documento que encaminha ao Congresso Nacional um projeto de lei para proibir a prática de castigos físicos em crianças e adolescentes. A proposta é de que a nova lei seja incorporada ao Estatuto da Criança e do Adoles- cente (ECA) e que pais, professores e babás que fizerem uso de beliscões, empurrões ou puxões de cabelo em crianças sejam penalizados. O maior rigor da lei para a famosa palmadinha é motivo de discordância entre especialistas em educação. Mesmo contrá- ria à palmada, a filósofa, mestre em educação e autora de 19 livros – entre eles, Limites sem Traumas – Tania Zagury, classificou como ingerência excessiva do Estado, a medida. Ela acredita que a origem do projeto é boa, no sentido de evitar o espancamento, mas que a proposta é controversa: “Fico temerosa. Acho que essa lei não terá condições de ser cumprida. Não temos Poder Judiciário para resolver casos seríssimos, como os de as- sassinatos, como poderemos ter para casos como esses? Além disso, não precisamos de uma lei como essa, já temos uma legislação que trata do agressor físico, seja pai ou não”. A gaúcha Carmen Oliveira está em Brasília, à frente da Secretaria de Promoção dos Di- reitos da Criança e do Adolescente, e é coautora do projeto. Ela garante que as novas medidas terão função mais de educar do que de proibir beliscões. “Somente em um caso reiterado de palmadas é que caberia a autoridade judiciária apli- car o afastamento do agressor do convívio do menor de idade”, afirma Carmem. Foi enxergando as mudanças por este viés é que a psiquiatra, psicanalista e professora da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), Nina Furtado, recebeu como positiva a notícia de possíveis alterações no ECA. Para Nina, a medida pode fazer com que pais mais radicais, que costumam abusar com mais severidade dos filhos, possam ser alertados. “Para aqueles pais agressivos por fatores como alcoolismo, drogas ou que tenham sido maltratados não vai ter muita mudança comportamental”. A maior preocupação, para Tania, diz respeito à relação entre pais e filhos. Ela acredita que a medida possa gerar uma sensação de impunidade nas crianças e nos adolescen- tes e que muitas denúncias infundadas sejam levantadas, cometendo algumas injusti- ças e má interpretação da lei. “O que o Estado pode fazer por essa criança, caso ela perca o direito de ter os pais por perto?” ENTENDA A PROPOSTA Atualmente, a lei que institui o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) condena maus-tratos contra a criança e o adolescente, mas não define se os maus-tratos seriam físicos ou morais. Com o projeto, “castigo corporal” passa a ser definido como “ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso da força física que resulte em dor ou lesão à criança ou adoles- cente”. Para os infratores, as penas são advertência, encaminhamento a programas de proteção à família e orientação psicológica. ALTERNATIVAS ÀS PALMADAS Exemplo dos pais Uma das melhores formas de educar, segundo especialistas, é dando bons exemplos aos filhos. Por exemplo, pais devem ter atitudes adequadas no trato com outras pessoas, nas relações familiares, no trânsito, no supermercado, ao telefone. O comportamento dos filhos reflete em parte o que os pais fazem. Perdas Quando a criança se comporta mal, deve ser proibida de fazer algo que gosta, perder al- gum privilégio. Por exemplo, se machucou o irmão menor, pode ser obrigada pelos pais a ficar sem ver TV durante uma tarde. Se for um adolescente, pode ter a mesada cortada ou adiada em alguns dias. Diálogo Explicar por que determinada atitude foi inadequada faz a criança entender o que é certo ou errado. Dependendo da idade, a criança que recebe uma palmada pode não re- lacionar o castigo físico com o que fez de errado. Mostrar à criança por que determinada atitude não foi boa, colocando-se no lugar da pessoa prejudicada, é o indicado. 119 Pacto Sem se tornar um hábito frequente, pais podem fazer acertos com os filhos. Por exem- plo, se a criança passar o fim de semana estudando para uma prova difícil, pode viajar na semana seguinte com a avó. Esse tipo de compensação não deve ser frequente, sob o risco de levar a criança a só fazer tarefas mediante o recebimento de algo em troca. Pensar Em casos que devem ser analisados pelos pais, crianças que se comportam mal podem ser levadas para um local da casa onde devem ficar sentadas por determinado tempo. É como se usassem esse tempo para pensar no que fizeram de errado (isso deve ser ex- plicado). Uma dica é que o tempo seja calculado de acordo com a idade da criança. Por exemplo, se tem três anos, fica três minutos. A criança, porém, não deve ser isolada do convívio das demais pessoas nem ficar imóvel em uma cadeirinha. Fonte: COSTA, A. C. G. C. A polêmica da palmada educativa. Comunicação Portal Social, 2010. Disponível em: <http://momentodeeducar.blogspot.com.br/2010/07/polemica-da-palmada-e- ducativa_27.html>. Acesso em: 22 maio 2015. MATERIAL COMPLEMENTAR A Dangerous Method - Um método perigoso Sinopse: Baseado no livro homônimo de John Kerr, Um Método Perigoso leva às telonas um episódio pouco conhecido – mas muito signifi cativo − na vida dos dois mais importantes psicólogos de todos os tempos, Freud e Carl Jung. Na narrativa assinada pelo diretor David Cronenberg, de Senhores do Crime, o jovem psicanalista Carl Jung (Michael Fassbender) é orientado por seu mestre Sigmund Freud (Viggo Mortensen) no tratamento inovador que realiza em Sabina Spielrein (Keira Knigthley). No entanto, disposto a penetrar mais afundo nos mistérios da mente humana, Jung verá suas ideias confl itarem com as teorias de Freud, ao mesmo tempo em que se entrega a um romance alucinante e perigoso com a bela Sabina. Comentário: Este é um belo fi lme sobre a vida de um dos discípulos de Freud, Carl Gustav Jung, e sua relação com Sigmund Freud, que mostra como a teoria psicanalítica foi construída e em que contexto. Assista! Acesse o link a seguir e conheça mais sobre conceitos importantes da teoria freudiana: <http://www.redepsi.com.br/2007/10/11/a-agressividade-puls-o-de-morte-e-suas-correla-es- com-ato-de-viver/>. U N ID A D E V Professora Dra. Rachel de Maya Brotherhood Professora Me. Waléria Henrique dos Santos Leonel TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar a função social da escola no mundo contemporâneo. ■ Relacionar violência na escola, educação moral e socialização. ■ Apresentar uma proposta de constituição de uma escola emancipadora. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Socialização: emancipação ou normatização? ■ Violência e Indisciplina ■ Violência na Escola – o Bullying ■ Educação Moral ■ Atuando na formação intelectual e social: ensino para a compreensão ■ Atuando na área da interação social: uma proposta teórica ■ Atuando na formação moral do indivíduo INTRODUÇÃO A educação se reveste na sociedade moderna de grande importância, não somente por ser ela responsável pelo processo formal de aprendizagem de conteúdos e habilidades intelectuais e técnicas, mas também porque vem assumindo um papel de destaque no processo de socialização de crianças e jovens: é a busca do atin- gimento das funções sociais da escola, que prevê a transmissão de valores e o desenvolvimento de comportamentos que venham habilitar o educando para sua inserção no mundo cultural e político, e não somente de produção econômica. Para enfrentar esse desafio, faz-se necessário conhecer alguns problemas que se tornam agudos nos dias atuais e buscar formas de abordar esses proble- mas, visando à consecução dos objetivos maiores da escola contemporânea, já expostos anteriormente. Tal mudança de foco dos processos escolares, não significando a eliminação da busca da aprendizagem de conteúdos e técnicas, indica que a socialização, antes responsabilidademaior da família, atualmente é atribuída à escola. Dentre os principais problemas identificados tanto na literatura especiali- zada como na prática escolar, que podem ter reflexos na responsabilidade social da escola, destacamos nesta unidade a violência e a educação moral para uma análise mais detalhada, embora essa escolha não signifique que tais temas sejam únicos ou os mais importantes, mas que estão intensamente presentes em nossa realidade. Discutir os temas é uma forma de conhecer como os teóricos os estão abordando e quais encaminhamentos estão sendo dados, na busca de resposta para as seguintes questões: Qual o lugar da educação moral na escola? Como ela pode contribuir para a diminuição da violência? Quais as possibilidades de promovê-la? Assim, nesta unidade, buscamos apresentar temas relevantes na expectativa de propormos reflexões e discussões pertinentes que venham contribuir para a superação das dificuldades vivenciadas pelas escolas na atualidade, contribuindo, dessa forma, para o trabalho do futuro profissional da área. 123 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V SOCIALIZAÇÃO: EMANCIPAÇÃO OU NORMATIZAÇÃO? Como colocado na introdução, a socialização das crianças é hoje uma das res- ponsabilidades atribuídas à escola, responsabilidade esta que reveste a sua ação de grande importância, pois, para além do desenvolvimento escolar, a leva a assumir essa função de destaque no desenvolvimento da própria sociedade, res- saltando a característica de ‘organismo social’ da escola e exigindo uma postura mais política desta. Atualmente, as diversas formas de violência que assolam a sociedade atingem os espaços privados e os públicos. Dentre os contextos institucionais, nos quais a violência se manifesta, tem destaque a escola, onde crianças e jovens cometem delitos que vão da agressão e porte de armas ao descumprimento das normas escolares, caracterizando a indisciplina, o que reflete no processo de aprendiza- gem e formação dos alunos. Em um mundo onde as relações interpessoais e intrafamiliares estão em um processo tão rápido de transformação (ou de deterioração), no qual os modelos vigentes colocam pais e filhos, adultos e crianças em um mesmo patamar hie- rárquico, em que não existe respeito aos mais velhos ou às tradições e valores das gerações passadas, em função de novos parâmetros construídos e divulga- dos, sobretudo, pela mídia e que são incorporados de forma não reflexiva pela maioria, desconsiderando os resultados psicológicos sobre o desenvolvimento, a adequação, o contexto e as consequências em longo prazo, o que se pode con- siderar violência? O que se pode definir como indisciplina? 125 Socialização: Emancipação ou Normatização? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Para abordar a questão proposta para este item, inicialmente vamos concei- tuar indisciplina escolar e relacioná-la à violência e, em seguida, determinar as possíveis formas de atuação da escola, com suas determinações políticas, para enfrentar e superar o problema proposto. OS CONCEITOS ENVOLVIDOS Gostaríamos de iniciar este tópico apresentando um exemplo de violência e indisciplina que pode representar a realidade de muitos jovens no mundo de hoje. A apresentação desse exemplo objetiva fazer com que você, leitor(a), ana- lise os conceitos e propostas a seguir tendo em mente algumas questões acerca de educação, contexto familiar e influência social entre pares que resultam em problemas sociais significativos, no âmbito da escola e fora dela. VIOLÊNCIA E INDISCIPLINA Há duas formas de ver a violência. Inicialmente, de uma maneira mais tradi- cional, como danos físicos e materiais, ou de uma forma mais abrangente, que extrapola o cumprimento de regras e considera os determinantes sócio-históricos e os condicionantes culturais. Chauí define violência nessa segunda perspectiva: Entendemos por violência uma realização determinada das relações de forças, tanto em termo de classes sociais como em termos interpessoais. Em lugar de tomarmos violência como violação e transgressão de nor- mas, regras e leis, preferimos considerá-la sob dois outros ângulos. Em primeiro lugar como conversão de uma diferença, de uma assimetria numa relação hierárquica de desigualdade, com fins de dominação, de exploração e opressão. Isto é, a conversão dos diferentes em desiguais e a desigualdade em relação entre superior e inferior. Em segundo lugar, como a ação que trata um ser humano não como sujeito, mas como coisa. Essa se caracteriza pela inércia, pela passividade e pelo silêncio de modo que, quando a atividade e a fala de outrem são impedidas ou anuladas, há violência (CHAUÍ, 1985, p. 35 apud NEGRÃO; GUIMA- RÃES, 2004, p. 403). TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Tal percepção, que parte da visão de escola enquanto aparato reprodutor das relações sociais mais amplas e atribui a ela a disseminação da ideologia domi- nante por meio de suas práticas, se estenderia, segundo Aquino (1996, p. 13), “desde a submissão tácita às regras da hierarquização escolar até a introjeção de conteúdos falseadores da realidade e assumidos como naturais e acríticos”, o que caracteriza a violência simbólica. Para esse autor, portanto, a indisciplina e a violência nas duas acepções, antes apresentadas separadamente, estariam reu- nidas nessa visão mais crítica dos processos educacionais. O autor discute, na obra citada, as relações sociais específicas que constituem o funcionamento da instituição escola e os conflitos que as caracterizam, mostrando as possibilidades de tais relações concretas e de uma ação institucional mais positiva, no sentido de superação da violência na escola e na própria sociedade. Nessa perspectiva, a indisciplina pode ser vista como a violação das leis ou regras postas pela própria instituição, no caso, a instituição escolar, e pode-se considerar esse desrespeito como sinônimo de violência. Castro (2010, p. 1) res- salta que “a indisciplina pode implicar violência, mas não é necessário que esta ocorra”. A autora então faz uma distinção entre perturbação, conflitos e vanda- lismo, mostrando que as perturbações podem afetar o andamento das aulas e da escola, os conflitos podem afetar as relações formais e informais entre alu- nos e entre professores e alunos, podendo envolver agressividade e violência e se caracterizar como extorsão, roubo, violência física ou verbal, e o vandalismo que ocorre contra a instituição escolar e tudo o que ela representa. Negrão e Guimarães (2004, p. 404) trazem também uma classificação em níveis da violência escolar elaborada por Charlot, que parece assimilar as duas formas citadas, assim distribuídas: Violência propriamente dita – golpes, ferimentos, violência sexual, roubos, crimes, vandalismo etc. Incivilidades – humilhações, palavras grosseiras, falta de respeito etc. Violência Simbólica ou Institucional – falta de sentido de permanecer na escola, ensino com desprazer, conteúdos sem interesse para os alu- nos, violência nas relações entre professores e alunos, negação da iden- tidade dos professores e absenteísmo e indiferença dos alunos. 127 Socialização: Emancipação ou Normatização? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Já em relação às causas da violência, existe maior consenso na literatura, conforme destacam Negrão e Guimarães (2004). Para esses autores, existe um verdadeiro ‘sincretismo causal’, resultante da complexidade do fenômeno da violênciae indisciplina escolar. Fatores múltiplos estariam entre suas causas, o que exige uma abordagem interdisciplinar do fenômeno, tratando-o a partir de seus con- dicionantes culturais, em uma perspectiva sócio-histórica, como sugere Aquino (1996). O autor apresenta uma descrição de diferentes abordagens psicológicas que focam as relações professor-aluno, colocando tais abordagens como maneiras de ver a constituição da escola e das relações escolares na sociedade contemporânea. Por um lado, há teorias que colocam como principal causa da violência a pró- pria natureza do indivíduo. As teorias psicanalíticas, por exemplo, têm diferentes vertentes explicativas da violência; a vertente mais naturalista (Freud, Melanie Klein) vê a violência como resultante da agressividade inata do ser humano, que se manifesta em comportamentos destrutivos ou autodestrutivos, e as perspec- tivas de Winnicot e Lacan, que a veem como decorrente de fatores sociais que afetam esse indivíduo, como as frustrações ou a destruição da imagem que ele faz de si, e da necessidade de restaurar essa imagem destruída pela sociedade (NEGRÃO; GUIMARÃES, 2004). As causas da violência, portanto, estariam em estruturas de personalidade que predispõem o sujeito a agir de forma agressiva, a fim de contrariar as normas. Os alunos seriam, pois, indisciplinados por natureza. Outra corrente, fundada na ideia originária da filosofia Sofista de que a natureza humana é uma espécie de recipiente vazio, que será preenchido pelos estímulos do ambiente, defende que a violência é causada pela sociedade e que o indivíduo “[...]pode ser moldado, preenchido” (CASTRO, 2010). Entre as duas correntes existe uma multiplicidade de explicações e atualmente vê-se uma predominância da explicação que coloca no estado, na educação e na cultura as suas causas. Portanto, a ênfase explicativa oscila entre o inato e o adquirido, o social e o biológico. Paralelamente a essa oscilação, parece haver na literatura um con- senso de que a violência é um problema real nos ambientes escolares que deve ser circunstanciado e sua solução planejada de forma concreta e teoricamente fundamentada. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V VIOLÊNCIA NA ESCOLA – O BULLYING Como mencionado anteriormente, nosso estudo dará ênfase ao bullying, temá- tica de grande impacto no contexto escolar e no desenvolvimento do aluno. Bullying é uma palavra de origem inglesa adotada em muitos países para definir o desejo consciente e deliberado de expor outra pessoa e colocá-la sob tensão (SILVA, 2010). Alguns autores traduzem essa palavra como agressividade ou violência, contudo, na maioria dos países onde esse fenômeno é estudado, emprega-se o termo em inglês (que significa valentão, tirano). Ainda existem países que utilizam outros termos de sua língua, sem que se perca o significado. Zawadski e Middelton-Moz (2007, p. 21) assim conceituam bullying: O bullying envolve atos, palavras e comportamentos prejudiciais e in- tencionais repetidos e não se limita ao ambiente escolar. Os comporta- mentos incluídos no bullying são variados: palavras ofensivas, humilha- ções, difusão de boatos, fofocas, exposição ao ridículo, transformação em bode expiatório e acusações, isolamento [...] socos, agressões, chu- tes, ameaças, insultos, ostracismo, sexualidade, ofensas raciais, étnicas, ou de gêneros. Não se trata de um ato de violência pontual, de troca de ofensas, de uma dis- cussão, mas sim de atitudes hostis, que violam o direito à integridade física e psicológica e à dignidade humana, ameaça o direito à educação e o desenvolvi- mento de muitas pessoas (SANTOS JUNIOR, 2010). O bullying interfere no processo de aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo, sensorial e emocional. Favorece um clima escolar de medo e insegu- rança tanto para aqueles que são alvos como para os que assistem calados as mais variadas formas de ataque (BORTONCELLO, 2014). O comportamento não ocorre em ocasiões específicas ou isoladas, mas tende a ser uma prática crônica e regular. Um desequilíbrio de poder é encontrado no centro da dinâmica do bullying, em que normalmente os agres- sores veem suas vítimas como alvos fáceis (BORTONCELLO, 2014). 129 Violência na Escola – O Bullying Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O primeiro a fazer relações entre o fenômeno bullying e o comportamento escolar foi Dan Olweus, professor da Universidade de Noruega. Ao pesquisar sobre as tendências suicidas entre adolescentes, ele descobriu que a maioria deles tinha sofrido algum tipo de ameaça (FERNANDES, 2010). Enquanto em outros países esse tipo de violência acontece no horário do intervalo ou na saída da escola, aqui no Brasil a grande surpresa foi o fato de que os estudantes identificam a sala de aula como o local de maior incidência. As causas de uma pessoa iniciar a prática bullying são inúmeras e variadas, podendo ser as ausências de limites e/ou da autoridade dos pais ou responsá- veis sobre seus filhos, a falta de carinho, que também pode ser um deflagrador para essa prática, ou as brigas, discussões e maus tratos no cotidiano familiar, que podem gerar matrizes de comportamentos violentos. De acordo com Racy (2010, p. 115), Quando os grupos são ‘saudáveis’, as desigualdades são administradas e se leva em conta as demais características dos indivíduos, o que permi- te ao grupo conviver pacificamente. Se, entretanto, os grupos são cons- tituídos por elementos que exercem autoridade e por outros que, para serem aceitos, sujeitam-se aos líderes e não têm valores positivos nem próprios, formam-se grupos que, geralmente, apresentam comporta- mentos inadequados tanto na escola quanto em casa e na sociedade de maneira geral. Dessa forma, muitos problemas, como o bullying, são vivenciados nessa fase da busca de afirmação e segurança em determinados grupos, como os casos de bullying. Sentimentos de insegurança, nessas situações, impedem os jovens de solicitar ajuda, pois são pessoas que não têm esperança quanto às possibilida- des de se adequarem ao grupo, fortalecendo cada vez mais os comportamentos violentos no contexto escolar. Podemos considerar que a indiferença dos adultos em relação a essas agressões contribui para a baixa da autoestima dos agredidos, alguns chegam a acreditar que são merecedores do que lhes é imposto, passam a ter poucos amigos e a se manterem isolados. Muitos passam a ter um baixo desempenho escolar, ou ao contrário, são alunos com alto desempenho escolar, chegando a simular doen- ças, trocam de colégio ou abandonam os estudos e evitam falar sobre o problema. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Alguns jovens acabam cometendo suicídio ou matando outras pessoas que podem ou não estar relacionadas com os seus problemas1. Apesar de suficientemente discutido, falta, por parte dos profissionais da educação, aprofundamento nesse assunto, pois o bullying existe desde que a escola existe. “Porém somente há pouco mais de três décadas é que se tornou um assunto estudado, com parâmetros científicos” (FANTE; PEDRA, 2008, p. 52). Nagel (2008) ressalta que a expansão da oferta de conhecimentos sobre o tema bullying não vem sendo assumida na área da educação escolar e denomina essa indisponibilidade ou falta de interesse do sistema escolar como uma fuga da sua responsabilidade com o desenvolvimento nos homens de sentimentos de coletividade, solidariedade ou civilidade. Segundo a autora, faz-se necessário que a escola assuma como condição de trabalho a responsabilidade com o cres- cimento da violência no seu interior, realizando a tarefa de observar, registrar, descrever e questionar o aumento da violência, divulgando o fato e sugerindo medidas para reduzi-la.Os professores precisam desenvolver estratégias, juntamente com o corpo pedagógico, para que juntos possam intervir de maneira adequada em tais cir- cunstâncias, contudo, muitos não procuram informações sobre o tema, e cabe lembrar que a maioria das escolas não está preparada para discutir a questão. É fundamental a instituição reconhecer que a violência é um problema social e nesse sentido seu papel se torna indispensável para a redução das agressões trazidas pelo bullying. Por meio de programas preventivos, a escola deve estabelecer uma parce- ria com as famílias, os alunos e todos os outros envolvidos para garantir sua eficácia. Assim sendo, cada escola pode organizar uma equipe para articular políticas de prevenção e capacitação de seus profissionais para atuar de forma correta e procurar propiciar um ambiente mais seguro, “[...]pois, quando há um clima de segurança, o medo gerado pelo bullying é minimizado” (ZAWADSKI; MIDDELTON–MOZ, 2007, p. 90). A escola é vista como um local de ensino e aprendizagem, entretanto, essa 1 Apresentamos neste item alguns relatos de casos de bullying, trazidos por Silva (2010), para ilustrar como ocorre e qual a reação frequente dos alunos. 131 Violência na Escola – O Bullying Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . visão em dias atuais não é limitada à denominação de ensinar e aprender. Portanto, o ambiente escolar está se transformando em um local onde ocorrem frequente- mente brigas, discussões e violência, e os profissionais da educação não conseguem manter o controle. O ambiente escolar, consequentemente, transmite medo e insegurança, fazendo com que muitos alunos percam a vontade de aprender e tenham um sentimento de frustração ao pensar em ir para a escola, por terem medo do que os colegas possam fazer com eles. Além de interferir no processo da aprendizagem, o bullying se reflete no cotidiano do aluno. Diante de fatos como esses, os professores precisam estar atentos de forma a obterem informações a respeito do assunto, para que saibam trabalhar com alu- nos que venham a apresentar comportamentos de bullying e possam orientá-los. Por outro lado, a violência escolar também se reflete no comportamento docente agravando a atual situação do profissional da educação. Segundo Zagury (1999 apud NAGEL, 2008), este está à mercê de represálias oriundas dos alunos, dos pais, ou de membros da comunidade que vêm acelerando, inclusive, medi- das jurídicas contra docentes. A autora, defendendo uma parceria entre pais e professores, sinaliza para as consequências negativas da debilidade das relações entre família e escola. Dentre essas consequências têm-se identificado índices elevados de uma enfermidade denominada síndrome de burnout, enfermidade típica dos profis- sionais que mantêm um contato direito com outras pessoas (professores, médicos, taxistas). Essa enfermidade é conhecida como resultante do estresse profissional que se expõe como exaustão física e tensão emocional crônica, apresentando-se nos indivíduos como avaliação negativa de si mesmo, apatia, desinteresse por suas atividades e insensibilidade pelas relações que o cercam. Nagel (2008) informa que, em consequência desse estresse, podem ocorrer resultados comprometedores no sistema educacional, em função do prejuízo que podem acarretar à saúde mental dos profissionais. Para a autora, no entanto, essas constatações ainda não conseguiram levar os responsáveis pela escola a exami- narem mais atentamente as condições de trabalho dos professores que muitas vezes resultam em desgastes emocionais e psicológicos. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Voltando às possibilidades de combate à violência na escola, podemos citar um documento oficial, intitulado por Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs): Apresentação dos Temas Transversais e Ética (BRASIL, 1998). Ele pode ser uti- lizado de maneira positiva pelos professores, no que diz respeito à prevenção. O documento traz questões relevantes que, se o professor souber aplicar em seu cotidiano pedagógico, estarão contribuindo para o ambiente escolar ser um ambiente favorável à aprendizagem de todos os alunos. De acordo com o PCN (BRASIL, 1998 apud SANTOS, 2009), o professor deverá trabalhar em seu cotidiano pedagógico os conteúdos de ética, nos quais o convívio escolar é priorizado. Os conteúdos foram divididos por blocos, men- cionados a seguir, sob a forma de tópicos. ■ Respeito Mútuo. ■ Justiça. ■ Diálogo. ■ Solidariedade. Com isso, o professor tem o dever de passar para os alunos a importância do respeito mútuo, do diálogo, da justiça, da solidariedade, assim como trabalhar as diferenças e os direitos das crianças em sala de aula2. Santos (2009), em seu projeto de pesquisa utilizando o PCN, faz uma reflexão sobre o papel do profes- sor diante de casos de bullying. [...] deve ser feito um destaque para preconceitos e desrespeito frequen- te entre os alunos: aqueles que estigmatizam deficientes físicos ou sim- plesmente os gordos, os feios, os baixinhos etc., em geral traduzidos por apelidos pejorativos. Nesses casos o professor não deve admitir tais atitudes [...] (BRASIL, 1998, p. 24). Segue afirmando qual deve ser a atitude docente: [...] não se trata de punir os alunos, trata-se de explicar-lhes com clare- za o que significa dignidade do ser humano, demonstrar a total impos- sibilidade de se deduzir que alguma raça é melhor que a outra, trata-se de fazer os alunos pensarem e refletirem a respeito de suas atitudes [...] (BRASIL, 1998, p. 24). 2 Vídeo indicado para acesso: <http://www.youtube.com/watch?v=OSt2PITwN-w>. 133 Violência na Escola – O Bullying Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O discurso docente tem de ser coerente com a sua prática pedagógica, pois de nada adianta passar um ensinamento ético para seus alunos e agir de forma con- trária a esses ensinamentos. Mesmo havendo diferenças, sejam elas físicas, psicológicas, ou sociais, todos podem ter um bom convívio. O medo, a insensibilidade, a dificuldade de com- preender e se colocar no lugar do outro e a intolerância às diferenças individuais prejudicam o ensino, a aprendizagem e as relações sociais. É necessário ensinar sobre a importante participação social de cada um, criando um método que seja adequado a todos os alunos. “Dessa forma os alunos aprendem que as diferenças sempre existirão, mas são os diferentes que fazem a diferença” (FANTE; PEDRA, 2008, p. 320). Reforçando, precisamos mencionar também o papel da família na formação e educação dos jovens, interferindo de forma positiva na formação do caráter dos filhos, entretanto, estes apresentam muitas dificul- dades nessa ação e isso acaba por refletir nos comportamentos violentos que encontramos na atualidade, no ambiente escolar. Entre as muitas dificuldades vivenciadas pelas famílias, Racy (2010, p. 116) destaca: O desconhecimento da realidade psíquica de seus filhos; o fato de não acreditarem que seus filhos sejam capazes de comportamentos inade- quados; a crença de que as intenções de seus filhos nunca sejam ruins; a expectativa de que a escola resolva dialogar com os filhos; a ausên- cia de respeito mútuo; a presença constante de problemas pessoais e profissionais na vida dos pais; a falta de tempo para os filhos e a total rejeição por parte dos pais a respeito de uma avaliação de seus próprios comportamentos. Em vista disso, família e escola devem trabalhar em prol do enfrentamento das questões que levam muitas vezes a reforçar um comportamento violento por parte dos jovens para com os demais. Assim, podemos refletir sobre alguns tipos de ações que poderiam ser desenvolvidas nas escolas, a partir de uma concep- çãode educação moral. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V EDUCAÇÃO MORAL Iniciando nossa discussão, segundo os escritos de Piaget, precisamos compre- ender que o raciocínio moral precisa ser desenvolvido, visto que se inicia no período sensório-motor e alcança seu ápice no período das operações formais. O raciocínio moral vem como consequência do desenvolvimento cognitivo e afetivo (WADSWORTH, 1997). Com o desenvolvimento, o adolescente passa a conseguir realizar o que Piaget chamou de codificação de regras, uma vez que já as reconhece e sabe que são necessárias. O autor aponta o ato de mentir; nesse período já reconhece as intenções da mentira e no que constitui uma mentira, e ainda compreende a importância do não mentir. Sobre os conceitos de justiça, o autor revela que a compreensão de punição justa só ocorre a partir do momento que emerge a compreensão de regras (WADSWORTH, 1997). A educação moral deve ser ofertada à criança em todo o seu processo de desenvolvimento, portanto, tem como objetivo auxiliar esse processo de com- preender e se relacionar com os outros de forma ética, com respeito e sabedoria. A educação moral pode ser definida como: [...] aquela que almeja a formação de pessoas que pensam, atuam e se relacionam de acordo com os valores da justiça, da bondade, da solida- riedade, do respeito, e tantos outros que nos tornam mais humanos, se não virtuosos e capazes de uma convivência harmônica com os demais (ARISTÓTELES, 2000 apud D’AUREA-TARDELI; DE PAULA, 2001, p. 60). A educação moral é também denominada educação em valores e visa, segundo D’Aurea-Tardeli e de Paula (2001), a construção, transmissão ou adesão de valo- res considerados importantes em determinadas culturas e em determinados momentos históricos que orientam o indivíduo em como agir consigo mesmo e com os outros. As autoras ressaltam que se trata de valores morais e não técni- cos ou utilitários ou estéticos, e que esses valores nos indicam como podemos ser justos e corretos, dentro de referenciais sociais aceitos pelo grupo, pela cultura. Diante desta conclusão, apresentamos a seguir duas possibilidades de atu- ação da escola nessa área, a normatização e a emancipação. A primeira talvez ainda retrate a realidade da maior parte das nossas instituições escolares, a outra 135 Educação Moral Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . pode trazer uma perspectiva de superação e enfrentamento dos problemas da violência, por meio da educação moral. Inicialmente, abordaremos a interpretação de educação moral predomi- nante em muitas realidades sociais e escolares, a normatização, muitas vezes vista como sinônimo de socialização. Quando se postula que a educação tem uma função socializadora, na ver- dade o que se afirma é que a educação “produz regimes de representação do mundo que visam obter consenso em torno dos interesses sociais hegemôni- cos de uma dada sociedade” (COSTA, 1986, p. 72). Essa tem sido a finalidade da educação na sociedade burguesa e predomina ainda em nossos dias: adaptar as novas gerações a um modelo de sociedade, formar o homem para viver em uma sociedade dada (GADOTTI, 1988). O modelo de sociedade adotado pela escola é o modelo da classe dominante, por isso a escola não cria uma ideolo- gia, ela apenas elabora e inculca a ideologia dominante. Esse processo ideológico acontece na escola de duas formas distintas. A primeira é explícita e resulta da crença (consciente ou não) dos profissionais de ensino nos valores da sociedade estabelecida, bem como de sua relação com o sistema social mais amplo no qual a escola está inserida e do qual depende (o estado, a sociedade de classes). Resulta do fato da educação, sendo um “ato político”, não poder manter-se neutra sob as forças que a sustentam e dirigem. Nessa primeira forma, a ideologia é transmitida por meio de mecanismos de normatização das condutas e sentimentos de crianças e jovens. Na verdade, a ação dos profissionais de ensino nessa instância se dá não porque eles visam adaptar as crianças e jovens, explicitamente, aos valores políticos e ideológicos dominantes, mas porque os adaptam de uma forma física, psíquica e intelectual típica e exclusiva do universo burguês, norma essa que a escola e eles próprios já incorporaram como ideal. A segunda forma de transmissão da ideologia da classe dominante é mais sutil e sublinear e resulta da vivência das experiências sociais primordiais: a criança e o jovem tendem a formar uma visão de sociedade a partir de suas pró- prias experiências escolares. Essas experiências, vividas em um espaço-tempo significativo para a formação da personalidade, influenciam o modo como o educando chega a pensar sobre si mesmo em relação ao mundo mais amplo. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V São, portanto, decisivas em relação à formação da visão que a criança e o jovem terão de si mesmos em relação à sociedade e da própria sociedade. A maneira como a experiência social é vivida na escola influenciará de forma determinante o modo como a criança perceberá o mundo em geral, as relações sociais e a si mesma como pessoa (somando-se, evidentemente, a outras experiências signi- ficativas fora da escola). Sendo a escola uma instância que reproduz as relações autoritárias, coerci- tivas e hierárquicas da sociedade de classes, são essas relações e os processos de dominação e submissão delas decorrentes que são sublinearmente assimilados pelos educandos na escola e transferidos depois para a vida. Assim, a nossa escola visa à norma, busca a adequação, a adaptação, a integração, tende às estruturas generalizantes e repetitivas dos comportamentos conformistas. Essa dinâmica da educação psicológica por meio da normatização e da vivên- cia social na escola desconsidera a realidade interna do educando, seu mundo subjetivo, bem como as experiências e vivências em outras instâncias sociais, sobretudo na família, na qual os padrões e as normas nem sempre coincidem com os da classe dominante. Desconsidera, portanto, a experiência cultural indi- vidual do aluno, que contém o princípio da diferença, da variabilidade, e leva à singularização do indivíduo. A não consideração desses aspectos pela escola faz com que a criança viva um confronto penoso e permanente entre as suas diversas realidades – a inte- rior, a familiar, a escolar – a teórica e prática de sua vida. Ao desconsiderar a realidade subjetiva e a experiência cultural do aluno ao priorizar a normatização, impondo a cultura dominante, a escola impossibilita a emergência de um sujeito psíquico, mais do que orgânico ou social, capaz de realizar experiências no domínio cultural, transformador, criativo. A educação assim feita é uma educação que pensa em desenvolvimento como sinônimo de adaptação, de submissão. Quando, face aos confrontos entre a rea- lidade priorizada pela escola (da classe dominante) e a realidade do educando e o seu mundo subjetivo não considerado, surgem conflitos e incapacidades adap- tativas, advém o fracasso, a evasão, a repetência, a não aprendizagem. A criança se desvia da norma, do ‘padrão ideal’. 137 Educação Moral Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A responsabilização pelo desvio da norma também é atribuída não à escola e ao seu sistema de padronização e dominação, mas à condição social da criança e da sua família. A escola alija a criança porque ela é a expressão viva das con- tradições sociais (PATTO, 1981). Diante dessas constatações, como transformar o conjunto da organiza- ção escolar para permitir a superação de tal realidade? Vamos estudar sobre a emancipação,que pode contribuir para a busca da resposta a essa questão. Contrapondo-se ao conceito de normatização que, como vimos anteriormente, não atende à realidade contemporânea, apresentamos uma visão de educação moral voltada para a emancipação do indivíduo. O que poderia ser feito para ajudar a escola a superar a dependência da estrutura social na qual está inserida, tornando-a, assim, capaz de promover uma educação que possibilite o desenvolvimento de indivíduos críticos, trans- formadores e criativos? Evidentemente tal transformação pode ser pensada de vários ângulos, como: ■ As relações hierárquicas dentro da sua estrutura. ■ A formação de seus profissionais. ■ Os conteúdos de ensino abordados e as metodologias para a sua aquisição. ■ As condições ambientais e materiais que a determinam entre muitos outros. No entanto, pela natureza desse trabalho, nos restringimos à análise de alguns pontos relativos à socialização das crianças e jovens na escola. Como ficou evi- dente no item anterior, a socialização atualmente é vista como adaptação à norma, com vistas à manutenção da situação social estabelecida, desconsiderando a rea- lidade cultural e as razões subjetivas do educando. A socialização teria então como objetivo o controle social. Essa visão precisa ser superada para dar lugar a uma nova visão que alie o desenvolvimento natural do educando à eficiência social, mas esta, vista como desenvolvimento de comportamentos socializantes integrativos, que sejam significativos para o indivíduo e resultem em uma cooperação social voluntária. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Para promover o desenvolvimento desses comportamentos socialmente integrativos, faz-se necessário pensar aspectos puramente psicológicos do desenvolvimento e aspectos intelectuais. Outros aspectos, como os materiais, sociais, grupais, poderiam ser abordados, porém nos limitaremos aos dois supramencionados. a) Aspectos psicológicos do desenvolvimento socialmente integrativo Do ponto de vista psicológico, retomaremos a questão do confronto entre os valores veiculados pela escola, a realidade familiar e as experiências subjetivas do educando. Ao se desenvolver psicologicamente, o indivíduo vivencia sua emergência enquanto sujeito, constituído pela sua realidade interna, que deve se integrar à realidade externa, objeto da cultura compartilhável. Existe uma zona psicológica em que essas duas dimensões se atualizam, se compatibilizam e são expressas e simbolizadas por meio da linguagem. Compartilhar as experiências culturais é fundamental para que esse processo se realize e seja percebido objetivamente. O espaço escolar, ao não possibilitar experiências (jogos, por exemplo) no campo da cultura e ao não dar voz ao educando para que ele simbolize essas experiências, pode constituir uma ameaça de aniquilamento da participação e da criação cultural desses educandos. A criança necessita de um ambiente confiável, em que ela possa realizar expe- riências entre o que é subjetivamente concebido e o que é percebido objetivamente. Esse ambiente pode se materializar no ambiente escolar. Lá, pode-se possibi- litar à criança desenvolver sua crença na realidade do mundo e em si mesma, por meio de experiências de confiabilidade e de continuidade espaço-temporal. Para que a escola ofereça esse espaço, faz-se necessário que a escola e os pro- fissionais que a constituem entendam o movimento entre o objeto da cultura, o sonho e a fantasia, isto é, o confronto entre o que é meramente percebido e o que é concebido efetivamente, para então possibilitar sua realização no espaço da escola. O professor teria, portanto, a função de refletir a respeito do que se passa no campo experiencial da criança para que ela pudesse buscar no momento de 139 Educação Moral Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . reflexão melhor compreensão do próprio processo em que vive. Para a criança, caberia optar entre comunicar (verbalizar) não comunicar, aproximar e distan- ciar do mundo objetivo, com isso, ela construiria o seu mundo. Essa visão, de uma realidade cultural construída psicologicamente pela pró- pria criança, por meio de um processo de criação resultante do movimento entre objetividade e subjetividade, que implica também uma capacidade de comunicar o mundo construído por meio de signos (linguagem oral e escrita), capacidade que emerge da matriz do jogo sem regras, nos leva ao aspecto intelectual do desen- volvimento de comportamentos socialmente integrativos, que veremos a seguir. B) Aspectos Intelectuais do Desenvolvimento de Comportamentos Socialmente Integrativos Partindo da ideia de que o desenvolvimento psicológico do indivíduo, possi- bilitado pelo movimento de confronto entre a realidade subjetiva e a realidade objetiva, leva, por meio do paradoxo vivido, à criação cultural, vejamos que habi- lidades intelectuais favorecem e/ou possibilitam esta construção social. Gadotti (1988) nos fornece uma matriz para a construção intelectual da realidade exterior e da realidade interior. Tal matriz nos ensina a proceder na construção intelectual por análises e sínteses provisórias, por unidades de opo- sição e contrárias (subjetivo-objetivo, percebido-sentido). Assim, a realidade nunca seria uma construção acabada, dada, mas uma construção constante do homem. Essa construção contínua deixaria aberta a possibilidade de transfor- mação da realidade. Se a realidade é uma construção do homem e não algo acabado ao que ele deve se adaptar para sobreviver, à educação cabe preparar o homem para cons- truir a sua realidade. A educação precisa ser emancipadora e não normatizadora, adaptativa. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Em termos intelectuais, isso exigiria uma atitude intelectual crítica do edu- cando. O desenvolvimento de sua capacidade crítica ou o exercício da crítica permitiria desvelar o papel ideologizante da escola engajada no processo de colaboração com a manutenção do sistema social na qual se insere. Possibilitaria evidenciar os vínculos entre os sistemas simbólicos da escola e a estrutura social na qual ela se insere, questionar a sociedade de classes, os interesses dos gru- pos que monopolizam o poder econômico, político, cultural etc. O exercício da crítica possibilitaria, finalmente, a passagem do fato social enquanto fenômeno objetivo para a sua apreensão pelo subjetivo ou para a sua incidência na consci- ência individual – interiorização da exterioridade. Esse exercício de crítica seria possibilitado ao educando pela aquisição das habilidades básicas de leitura e escrita (do mundo, no mundo) e ao saber já pro- duzido e veiculado pela escola, não como simples absorção de informações. A escola levaria o educando à (re)construção do saber, o saber deixaria de ser o saber do outro. O resultado seria uma educação, como defendida por Paulo Freire (1996), que não se reduz a um puro ensinar, em que o aprendiz pacientemente aprende do ensinante, mas a um ato de conhecimento de que tanto é sujeito o que ensina como o que aprende. ATUANDO NA FORMAÇÃO INTELECTUAL E SOCIAL: ENSINO PARA A COMPREENSÃO Propusemos em nossa introdução apresentar uma proposta de educação escolar que, voltada para o desenvolvimento e a aprendizagem, busque a efe- tivação e ampliação dos processos mentais superiores do ser humano como forma de habilitá-lo para uma atuação crítica, autônoma e transformadora no mundo contemporâneo. Desenvolver um ensino voltado para a capacidade crítica envolve, portanto, o desenvolvimento das funções mentais superiores. Atualmente, existe uma forte corrente que defende a importância da compreensão da dimensão central e uni- ficadora de tais funções mentais. Wiske etal. (2007, p. 12), precursores nesta 141 Atuando na Formação Intelectual e Social: Ensino para a Compreensão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . área de estudo, propõem que a superação do ensino tradicional, fundamentado na transmissão, pode ser conseguida por meio de um trabalho escolar “[...] que focalize o desenvolvimento conceitual, o pensamento criativo, a resolução de pro- blemas, assim como a formulação e a comunicação de argumentos convincentes”. A obra dos autores apresenta uma proposta de planejamento, implementação e avaliação da prática pedagógica focalizada no desenvolvimento da compreensão dos alunos como forma de levar, não apenas os alunos, mas também os profes- sores, ao desenvolvimento de sua capacidade reflexiva. Pode-se conceituar compreensão como “[...] um desempenho, uma capaci- dade de pensar e agir de modo flexível com aquilo que se sabe” (WISKE et al., 2006, p. 14). Os autores defendem que o ensino para compreensão deve emergir de uma relação entre as formulações teóricas e as práticas dos professores. Tal afirmação exige, portanto, não somente o domínio das teorias sobre o ensino e aprendizagem, o desenvolvimento, a formação da personalidade dos alunos e as características da escola atual, como apresentado neste material, mas um esforço e envolvimento de cada docente na busca dessa integração teoria-prá- tica que podemos definir como práxis, o que exigiria também a articulação da ação pedagógica com as bases materiais da sociedade capitalista (RIOS, 2006). Pode-se assim afirmar que “[...] se o ensino é uma prática social viva, é impor- tante compreender a atividade docente em seus vínculos com a prática social na sua historicidade” (PIMENTA, 1999 apud RIOS, 2006, p. 22). Concluindo esse raciocínio da relação teoria-prática, podemos afirmar que é preciso saber fazer bem o que é necessário e desejável no espaço da profissão e isso exige a articulação das dimensões técnica e política, mediadas pela ética e considerando a perspectiva estética (sensibilidade). Essa dimensão estética envolve: ■ A importância da emoção e do afeto como elementos intervenientes na relação pedagógica. ■ A superação da racionalidade instrumental e esforço para ampliar o con- ceito de inteligência. ■ A valorização da experiência do professor e do esforço criativo. Ressaltando a dimensão afetiva, citamos Piaget (2006, p. 36): TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V [...] desde o período pré-verbal existe um estreito paralelismo entre o desenvolvimento da afetividade e o das funções intelectuais, já que es- tes são dois aspectos indissociáveis de cada ação. Em toda conduta as motivações e o dinamismo energético provêm da afetividade, enquan- to que as técnicas e o ajustamento dos meios empregados constituem o aspecto cognitivo (senso-motor ou racional). Nunca há ação pura- mente intelectual (sentimentos múltiplos intervêm, por exemplo: na solução de um problema matemático, interesses, valores, impressão de harmonia etc.), assim como também não há atos que sejam puramente afetivos (o amor supõe a compreensão). [...] Nas condutas relacionadas tanto a objetos como a pessoas os dois elementos intervêm, porque se implicam um ao outro. Por outro lado, Rios (2006) defende que o mundo é do tamanho do conheci- mento que temos dele, o que nos leva a não esquecer a dimensão do domínio dos conhecimentos científicos construídos pela humanidade no correr dos sécu- los, o que é ainda responsabilidade da escola. Tais afirmações nos levam a refletir, com a autora, que o ensino envolve relações com o ser e o sentir, relações com o saber e relações com o fazer, e que os limites entre essas relações nem sempre são explícitos, exigem análise e reflexão por parte do professor para sua identifi- cação e execução. Sabe-se, entretanto, que muitas vezes há ausência de condições concretas efetivas na escola para a realização de tais propósitos. Podemos até pensar, diante da frustração tantas vezes presente em nossa ação docente, em face da falta de condições necessárias para esse ensino preco- nizado, que a busca por um ensino crítico e reflexivo é apenas uma idealização, uma teorização não realizável. Cabe a nós, profissionais da educação, buscar e construir tais condições participando da definição ou, muitas vezes, apenas conhecendo e exigindo a execução dos propósitos dos documentos oficiais (Parâmetros Curriculares, Projetos Políticos-Pedagógicos etc.) da escola e da própria sociedade organizada acerca dos objetivos da ação educativa escolar, que sempre retratam a realidade desejável. Formar cidadãos com possibilidade concreta de participação eficiente e criativa na construção da cultura e da história resulta de uma ação conjunta da família, da sociedade e, mais especificamente, da escola, e pressupõe o ensino como instância de comunicação entre os diversos segmentos que constituem seu campo de atuação. 143 Ambiente Familiar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . AMBIENTE FAMILIAR Refletindo sobre o desenvolvimento da criança e do adolescente, não podemos deixar de mencionar a importância da família nos aspectos de formação e edu- cação. Racy (2010) revela que a família é a primeira fonte de amor e também de socialização do homem, assim destacamos os reflexos da família na forma- ção do indivíduo. A mesma autora aponta que desde sociedades primitivas, as famílias vivenciam transformações significativas motivadas pela evolução e estão relacionadas com fatores como, produção, riqueza, atribuições de tarefas, entre outros. Pensando na sociedade brasileira, essa trouxe reflexos para atualidade de um modelo de família patriarcal conservadora (RACY, 2010). Novos arranjos, novos valores, novas estruturas constituem a família no mundo contemporâneo. Para abordar esse tema, gostaríamos de contextualizar tal ideia apresentando uma visão do mundo dominante na passagem do mundo moderno para o pós-moderno, como explica Zigmunt Bauman. Os trabalhos desse autor e sociólogo que discute a globalização e suas consequências “[...] contribu- íram para a edificação de um complexo e completo instrumental conceitual em torno da sociedade moderna” (PORCHEDDU, 2009, p. 661). O autor argumenta que não existe uma separação dicotômica entre modernidade e pós-modernidade e que essas configurações coexistem. Para explicar tal fenômeno, cunhou as expres- sões ‘modernidade sólida’ e ‘modernidade líquida’. Na apresentação a seguir, de um trecho de uma entre- vista concedida a Alba Porcheddu (2009), perce- bemos a visão de Bauman sobre a atualidade. A entre- vista busca estabelecer uma relação da pedagogia com a sociologia, possibilitando uma reflexão sobre educação. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Pergunta: A educação foi concebida desde o Iluminismo como um sistema fortemente estruturado; em tempos mais recentes a Bildung tem sido interpretada primeiro como um processo, depois até como um ‘produto’ para transmitir e conservar o conhecimento. No mutável mundo de hoje, onde ‘correr é melhor do que caminhar’, onde triun- fam entre os jovens a obviedade e as ideologias, o senhor considera ainda plausível uma educação voltada para ‘fixar em uma forma’ a personalidade dos jovens através de um percurso formativo determinado? Resposta: A história da Pedagogia esteve repleta de períodos cruciais em que ficou evidente que os pressupostos e as estratégias experimentadas e aparentemente confiá- veis estavam perdendo terreno em relação à realidade e precisavam, pois, ser revistos ou reformados. Todavia, parece que a crise atual é diversa daquelas do passado.Os desafios do nosso tempo infligem um duro golpe à verdadeira essência da ideia de Pedagogia, formada nos albores da longa história da civilização: problematizam-se as ‘invariantes’ da ideia, as características constitutivas da própria Pedagogia (que incólumes, resistiram às mudanças do passado); convicções nunca antes criticadas são agora consideradas cul- padas de ter seguido o seu curso e, portanto, precisam ser substituídas. No mundo líquido moderno, de fato, a solidez das coisas, tanto quanto a solidez das relações humanas, vem sendo interpretada como uma ameaça: qualquer juramento de fidelidade, compromisso a longo prazo, prenunciam um futuro sobrecarregado de vín- culos que limitam a liberdade de movimento e reduzem a capacidade de agarrar no voo as novas e ainda desconhecidas oportunidades. A perspectiva de assumir uma coisa pelo resto da vida é absolutamente repugnante e assustadora. É dado que inclusive as coisas mais desejadas envelhecem rapidamente, não é de espantar que elas logo perdem o bri- lho e se transformam, em pouco tempo, de distintivo de honra em marca de vergonha. Os editores de revistas de amenidades [a mídia] percebem o impulso do tempo: informam regularmente aos leitores sobre coisas ‘para fazer’ e ‘ter’ a todo custo, dão-lhes conselhos sobre aquilo que é out e, portanto, descartável. O nosso mundo lembra cada vez mais a ‘cidade invisível’ de Leônia, descrita por Ítalo Calvino (1990), onde “[...] mais do que as coisas que a cada dia são fabricadas, vendidas, compradas, a opulência de Leônia se mede pelas coisas que a cada dia são jogadas fora para dar lugar às novas”. A alegria de livrar-se das coisas, de descartar e eliminar é a verdadeira paixão do nosso mundo. Apresentamos esse excerto da entrevista de Zigmunt Bauman com o intuito de demonstrar que as novas configurações familiares características da sociedade 145 Ambiente Familiar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . contemporânea não se dão isoladamente, mas fazem parte de uma mudança de paradigma que hoje se evidencia em todos os campos da atuação humana3. Vejamos agora algumas ideias sobre a família contemporânea. A família pode ser definida como: uma unidade grupal na qual se desenvolvem três tipos de relações pessoais – aliança (casal), filiação (pais/filhos) e consanguinidade (irmãos). A partir dos objetivos genéricos de preservar a espécie, nutrir e prote- ger a descendência e fornecer-lhe condições para a aquisição de suas identidades pessoais, essa desenvolveu, através dos tempos, funções diversificadas de trans- missão de valores éticos, estéticos, religiosos e culturais (OSÓRIO, 2002 apud FURTADO et al., 2009). Já Oliveira et al. (2008, p. 87) conceituam família de acordo com Winnicott, afirmando que ela se constitui [...] em um centro formador da sociedade bem como do desenvolvi- mento individual e de maturidade emocional, ressaltando que ela é o principal agente de socialização da criança, que influencia na aquisição de suas habilidades, comportamentos e valores apropriados para cada cultura, constituindo-se em uma dimensão essencial na vida dos indi- víduos (grifo nosso). As autoras ressaltam como funções básicas da família: a construção da saúde emocional, a proteção e o bem-estar de seus membros. Esse conceito, amplo e abrangente, já remete à característica histórica, cultural, da constituição familiar, demonstrando que as mudanças na família vêm ocorrendo através dos tempos e são resultados de transições significativas na sociedade. Para Furtado et al. (2009, p. 17), a família é um sistema em transformação e envolve três componentes básicos: “[...] o sistema sociocultural em que está inserida, (meio sociocultural), o ciclo vital da família, que passa por diversos estágios, exigindo uma reestruturação constante (momento da família) e o cres- cimento e o desenvolvimento biopsicossocial de seus membros”. 3 Leia na íntegra a resposta de Bauman à questão proposta, em que o autor apresenta a relação entre essa necessidade de descartar as coisas e a educação escolar, em uma interpretação criativa e real da situação que vivenciamos na sociedade atual. Fonte: PORCHEDDU, Alba. Zygmunt Bauman: entrevista sobre a educação. Desafios pedagógicos e modernidade líquida. Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, maio/ago. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/v39n137/ v39n137a16>. Acesso em: 19 fev. 2015. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Vale retomarmos aqui os conceitos de família nuclear e família extensa, apre- sentados por Papalia, Olds e Feldman (2009): ■ Família nuclear: unidade econômica e doméstica que compreende laços de parentesco envolvendo duas gerações e que consiste em um ou dois genitores e seus filhos biológicos, adotados ou enteados. ■ Família extensa: rede de parentesco envolvendo muitas gerações formadas pelos pais, filhos e outros parentes, às vezes vivendo juntos no mesmo lar. Podemos dizer que na família contemporânea existem as novas composições familiares, como estrutura familiar formada por mães e filhos, casais separados que se organizam em outros núcleos familiares, famílias formadas por casais homossexuais, irmãos fruto de casamentos posteriores, entre muitas outras formas de família. As transformações atuais no sistema família têm provocado mudanças no comportamento, particularmente, no comportamento mascu- lino, no qual o homem passa a assumir várias atribuições até então destinadas à mulher (RACY, 2010). Racy (2010) reforça dizendo que, mesmo com tantas mudanças em nossa sociedade atual, o modelo de família nuclear composta por pais e filhos ainda impera. Bauman (1989 apud PORCHEDDU, 2009) aponta que os meios de comunica- ção e outros fatores relacionados ao mundo globalizado influenciam fortemente as transformações vivenciadas na atualidade nos contextos familiares. As mudanças decorrentes desses fatores vêm gerando crises de identidade da própria família, bem como de seus membros, e trazendo problemas de adaptação a esses novos padrões. Furtado et al. (2009, p. 21-23) trazem uma série de situações e propos- tas de encaminhamento para situações-problema como forma de demonstrar as situações atuais vivenciadas pela família contemporânea. 147 Ambiente Familiar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . SITUAÇÃO-PROBLEMA PROPOSTAS DE ENCAMINHAMENTO 1. Mãe ou pai que educam fi- lhos sozinhos têm boas razões para se sentirem enfraquecidos e dificuldades para estabelecer limites na família. 1. Pais que assumem seus filhos sozinhos sen- tem-se fragilizados e cansados, necessitando buscar apoio na rede familiar e/ou social para ficarem fortalecidos na sua função de pais. Para romper com esta situação, deve-se buscar ajuda de parentes e amigos e de projetos que a co- munidade ofereça. O terapeuta deve funcionar como um mobilizador dos parentes e amigos para fortalecer os pais solitários. Na medida em que o pai e/ou a mãe se sente mais seguro com suas potencialidades individuais, inicia-se o pro- cesso de resgate da autoridade e da capacidade de estabelecimento de limites junto aos filhos. 2. Pais que não conseguem es- tabelecer um diálogo (brigas, violência) têm dificuldade de construir normas comuns na educação dos filhos. 2. A divergência entre os pais sempre traz pre- juízo no manejo com os filhos. Não havendo uma unidade de ação, os filhos ficam “perdidos”, sentindo-se desamparados e abandonados pela presença parental. Os pais devem pensar no bem-estar dos filhos e não em suas neces- sidades do momento de crise. Essa postura ga- rante a possibilidade de construção de normas comuns, que vão garantir a colocação de limi- tes firmes e claros, propiciando segurançaaos filhos. 3. Pais que se sentem culpados e inseguros em relação aos fi- lhos têm dificuldade de exercer sua autoridade. 3. Quando os pais sentem-se culpados e insegu- ros, deixando de ter voz ativa junto aos filhos, dizemos que a criança fica privada da presença parental, ou seja, é deixada em um vazio. Os me- dos fazem com que os pais sintam-se paralisa- dos. A preocupação de causar algum dano aos filhos ou de que estes venham a agredi-los pode enfraquecer o papel parental. Para fazer com que os pais saiam dessa paralisia é importante que eles tenham oportunidade de expressar seus medos e acreditar que permanecer presen- tes de corpo e alma é o mais importante nessa situação. Para crescer e sentir-se segura, a crian- ça precisa da presença de um adulto que possa lhe servir de referência e segurança dentro do seu contexto familiar. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V 4. O excesso de presença pa- rental atrapalha a dinâmica fa- miliar. 4. Quando falamos em excesso de presença parental, estamos nos referindo aos pais su- perprotetores, que vivem somente em função dos filhos, perdendo sua individualidade. Ao tornarem-se meros executores das vontades dos filhos, eles não oportunizam a estes o de- senvolvimento da sua autonomia, enfraquecen- do sua capacidade de enfrentar frustrações. Os filhos ficam infantilizados, com dificuldades de assumir responsabilidades em casa e na esco- la. A superproteção por parte dos pais fragiliza a criança, passando-lhe uma mensagem de in- competência. 5. As mudanças e o ritmo da vida contemporânea dificul- tam o exercício de continência da família. 5. Os pais necessitam de tempo e de energia para argumentar o “não” aos filhos, esclarecer dúvidas, acolher angústias, decodificar o signi- ficado de sentimentos estressantes e devolver respostas apropriadas e compreensíveis às con- dições dos filhos. A família se constitui como continente quando há combinação e aceitação de regras de convivência, definição de horários das tarefas, cumprimento de direitos e deveres e estabelecimento de limites. Quando a família funciona como continente, seus membros con- quistam um sentimento de pertencimento, de que são aceitos, apoiados e reconhecidos pelo grupo familiar. 149 Ambiente Familiar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 6. Gerações que moram na mesma casa enfrentam dificul- dades na definição dos papéis de cada um (avós, pais e filhos), gerando conflitos na convivên- cia familiar. 6. Em cada ciclo de vid, há necessidades e inte- resses específicos. Na convivência intergeracio- nal, são fundamentais o reconhecimento das di- ferenças e limitações, a capacidade de empatia, ou seja, de conseguir se colocar no lugar do ou- tro, a delimitação de lugares e papéis e a cons- trução coletiva de regras. Em uma família na qual membros de diferentes gerações convivem diariamente, os pais ficam em uma situação a que chamamos “sanduíche”, pois sentem-se res- ponsáveis pelo bem-estar dos avós e, ao mesmo tempo, dos filhos. Nessa situação, é necessário o exercício de uma comunicação permanente e adequada a cada faixa etária. É importante também não infantilizar os idosos e não exigir das crianças uma compreensão acima das suas condições cognitivas. Quando avós e netos são flexíveis nas suas atitudes e apresentam capa- cidade de empatia, conseguem compreender as necessidades de cada um e se sentem privi- legiados por construir uma relação repleta de aprendizagem mútua. Tabela 2: Situações atuais vivenciadas pela família contemporânea Fonte: Furtado et al. (2009, p. 21-23). Oliveira et al. (2008, p. 26), sob outra ótica, abordam o lado positivo das novas configurações familiares e afirmam que a família atual que, superando os laços de consanguinidade, se caracteriza por uma redefinição de papéis, hierarquia e sociabilidade centrados na “[...] valorização da solidariedade, da fraternidade, da ajuda mútua, dos laços de afeto e de amor”, tem se ampliado e procura incluir e compreender as relações entre os seus membros. Como vemos e como destacam Oliveira et al. (2008), apresentando estudos de vários autores, ainda não são conclusivas as pesquisas sobre a influência das novas configurações familiares no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Alguns autores apontam prejuízo e sofrimento, sobretudo em decorrência das separações e divórcios, que podem desencadear problemas de ajuste psicoló- gico e social. Outros destacam as possibilidades das reorganizações familiares nos aspectos emocionais e afetivos, que podem favorecer o amadurecimento precoce dos filhos. A diferença entre tais resultados estaria relacionada, dentre TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V outros fatores, ao nível de conflito do ambiente familiar e ao desenvolvimento cognitivo das estruturas do pensamento da criança, que possibilitaria diferen- tes formas de compreensão das novas situações. O tema família e sua influência no desenvolvimento de seus membros é amplo, e os estudos nessa área, com enfoques psicológicos, sociológicos ou peda- gógicos, têm se tornado mais frequentes nos últimos anos, mostrando que, por meio dos valores e sistemas de crenças dos pai, de seus padrões de comporta- mento, de suas expectativas e do ‘clima’ instalado no lar, se produzem, às vezes, contextos adversos, inadequados a um desenvolvimento saudável, que podem levar a comportamentos indesejáveis em seus filhos (LOOS; CASSEMIRO, 2012). Os autores ressaltam que, por outro lado, expectativas e práticas positivas dos pais em relação a seus filhos podem estar associadas a um desenvolvimento sócioemocional adequado. É na família que a criança aprende desde o nascimento o que é o amor, a empatia, o carinho, o respeito, e também a cumprir as leis, a torcer por um time de futebol, a adotar uma religião. O primeiro contato com o mundo se dá no ambiente familiar. Através dos pais, o bebê interna- liza o mundo. Tudo o que se aprende na família reflete o que vivencia- mos na sociedade (RACY, 2010, p. 106). 151 Ambiente Familiar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Reforçando o pensamento da autora citada, destacamos mais uma vez a impor- tância do contexto familiar na formação dos indivíduos, pois “[...] é na família, em primeiro lugar, que encontramos nossos modelos a serem imitados, reco- nhecendo e desejando a existência de um elemento comum entre nós próprios e o modelo de identificação” (CELIDÔNIO, 1998, p. 42). Para a autora, este sis- tema, denominado família, em interação com o sistema social e escolar, marca o desenvolvimento de crianças e adolescentes. As famílias têm grande papel frente aos filhos, diante disso, precisam estar atentas no decorrer do desenvolvimento da criança, pois, uma série de aconteci- mentos pode influenciar a relação familiar, desequilibrando a harmonia do lar e o emocional da criança, como o caso dos divórcios (RACY, 2010). A criança pre- cisa de segurança e deve encontrá-la no ambiente familiar, para que se sinta feliz. O que notamos, na atualidade, é que frente aos desafios do “educar uma criança”, essa função familiar vem sendo transferida para a escola, por uma série de fatores. Logo, quando a criança chega à escola, primeiro universo social mais amplo do qual participa, traz consigo os reflexos familiares, portanto, as relações fami- liares estabelecidas são essenciais para o desenvolvimento da criança. Nesse novo ambiente escolar, “[...] as tensões acumuladas na dinâmica das relações familia- res fatalmente irão emergir sob a forma de um problema de adaptação e/ou de aprendizagem na vida escolar” (CELIDÔNIO,1998, p. 39). Segundo Racy (2010), a escola tem como função mediar o conhecimento com recursos e métodos adequados, também tem a função social, oportunizando um ambiente de interação social, no qual, promova o desenvolvimento. Então podemos dizer que o processo de socialização que se inicia na família tem sua continuidade na escola. Apesar da importância atribuída ao contexto familiar, explicitada neste item por tantos autores, concluímos o tópico fazendo duas ressalvas: a primeira diz respeito à amplitude de abordagens teóricas sobre a família e, em decorrência, ao fato da presente apresentação ser apenas um recorte, que não esgota o tema; a segunda ressalva refere-se ao fato de que não se pode compreender a forma- ção do indivíduo, sua adaptação ou desadaptação, em um vazio, uma vez que ela ocorre em decorrência das interações do sistema social, escolar e familiar que marcam o seu desenvolvimento. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V ATUANDO NA ÁREA DA INTERAÇÃO SOCIAL: UMA PROPOSTA TEÓRICA Como pudemos observar nas unidades anteriores, nos estudos sobre o processo de desenvolvimento do ser humano, os paradigmas se sucedem e novas expli- cações substituem as antigas, sempre na busca de uma abordagem que favoreça não apenas a compreensão, mas também a intervenção nesse processo. Os teó- ricos da prática escolar se apropriam desses paradigmas e tentam desenvolver estratégias de ação neles fundadas que possibilitem à escola instância formal deci- siva para o desenvolvimento de crianças e jovens, intervenções efetivas como forma de melhorar a aprendizagem dos alunos e, consequentemente, favorecer seu desenvolvimento. Muitas vezes, tais estratégias não levam para o professor o fundamento teórico que as orientam, o que faz com que a prática pedagógica não se dê acompanhada de um desenvolvimento do domínio completo, pelos docentes, sobre os processos buscados pelas estratégias propostas e em uma visão mais ampla do desenvolvimento humano, finalidade da sua ação pedagógica. Levar aos professores essa base científica exige, inicialmente, a valorização da práxis para que, a partir do seu processo de formação inicial e continuada, busquem pôr em prática uma ação pedagógica consciente e cientificamente fun- damentada. Essa valorização pressupõe estudo e diálogo acadêmico. Diante desse desafio, o presente item pretende retomar uma análise dos con- ceitos fundamentais da teoria histórico-cultural do desenvolvimento das funções mentais do ser humano, objetivando realizar, junto com você, futuro(a) profes- sor(a), uma reflexão sobre os mecanismos possibilitadores da interação social, A vida na sociedade moderna leva as crianças cada vez mais cedo para o ambiente escolar. Esse contato, fora do contexto familiar, amplia o universo social da criança, expandindo seu conhecimento, seus valores, costumes e as mais diversas áreas do seu desenvolvimento. Portanto, a escola é de fun- damental importância para a socialização e desenvolvimento da criança. Fonte: PILETTI, N.; ROSSATO, G.; ROSSATO, S. M. Psicologia do desenvolvimento. São Paulo: Contexto, 2014. 153 Atuando na Área da Interação Social: uma Proposta Teórica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . canal de desenvolvimento das formas superiores do comportamento humano, e uma compreensão, fundada cientificamente, das estratégias pedagógicas que a escola põe ou pode pôr em prática. Segundo Facci (2003), na perspectiva vigotskiana, o desenvolvimento humano e a educação são dois fenômenos que caminham juntos, que não podem ser separados. A autora ainda revela que nesta perspectiva a educação é destacada, pois tem como pressuposto que a apropriação da cultura leva o homem a se desenvolver e com isso o desenvolvimento da sociedade como um todo, sendo importante a transmissão dos conhecimentos da humanidade para as futuras gerações (FACCI, 2003). A escolha da teoria histórico-cultural como aporte teórico dessa reflexão deve- -se ao fato de ela enfatizar a experiência social e escolar no desenvolvimento das formas de comportamento tipicamente humanas, dos chamados processos psi- cológicos superiores. Os teóricos desse enfoque apontam que “o estudo dos [...] spectos evolutivos do pensamento, a linguagem, a personalidade da criança, as características dos processos de domínio da leitura e escrita, estão intimamente ligados com os problemas referidos à educação e ao ensino” (ELKONIN, 1972 apud SHUARE, 1990, p. 178). Assim, pensando no desenvolvimento psicológico, Luria e Vygotsky (1996, p. 53) demonstram em seus estudos que o desenvolvimento psicológico está “[...] solidamente introduzido no contexto de todo o desenvolvimento social e reve- la-se em seu elemento constituinte orgânico”. Diante disso, entendemos, pautados nessa perspectiva teórica, que o homem é compreendido em sua totalidade como ser biológico e social, fazendo parte de um contexto histórico em que a cultura possui um grande papel em seu desen- volvimento psíquico. Nesse contexto, a escola exerce papel preponderante no desenvolvimento humano, por meio das relações estabelecidas e dos conheci- mentos ofertados que se foram acumulando historicamente. Segundo Carvalho (2007, p. 50): Para ser um indivíduo, isto é, um membro da sociedade, precisa intera- gir com os outros, com a cultura e com a sociedade, pois é a interação social que, por modos complexos e dinâmicos, possibilitará ao indiví- duo interiorizar o mundo e definir todo o seu processo de desenvolvi- mento ontogênico, construindo, assim, seu psiquismo. TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V De acordo com Leonel (2014), a inteligência humana se constitui por meio dos instrumentos e signos, como a linguagem, os quais são elaborados historica- mente e transmitidos entre as gerações, promovendo a diferença do homem e dos animais num processo ontogenético. É possível dizer que o desenvolvi- mento do homem e também o seu comportamento não são regidos apenas pelo biológico, mas sim por um processo histórico-social. Portanto, a escola tem o compromisso de buscar desenvolver esses sistemas e a forma de utilizá-los com competência em diferentes contextos. Vygotsky (1988) observa que o uso dos signos serve de base a todos os pro- cessos mentais superiores. Quando se tenta apreender de que forma o signo participa da atividade cognitiva, percebe-se que nas crianças pequenas a aborda- gem é natural, há uma relação direta entre signo e objeto, o signo é um elemento externo e utilizado externamente, e progressivamente a criança passa a interna- lizar o uso do signo. Vygotsky (1988, p. 63) define internalizar como “[...] reconstruir interna- mente uma operação externa”, até que se torne um processo puramente interno. A inteligência prática e o uso de signos, embora possam operar independen- temente em crianças pequenas, evolui para uma unidade dialética no adulto humano quando a atividade simbólica atinge sua função organizadora, dando origem a formas superiores de comportamento. De acordo com Facci (2004), o psiquismo humano se desenvolve a partir da atividade social, da mediação, dos instrumentos e dos sistemas de signos, pelos quais o homem tem condições de transmitir suas atividades ao longo da histó- ria. Assim, a partir da interação do homem com o mundo e das relações entre os homens, o psiquismo humano avança em suas funções elementares constituindo formas superiores de comportamento e depois em funções psíquicas superiores. Dentre as atividades simbólicas, a fala é das mais significativas, pois possi- bilita que a criança domine a si mesma e as suas ações. A fala tem uma função interpessoal, pois permite que a criança se comunique com o seu ambiente social, e uma funçãointrapessoal. Por meio dela, a criança nomeia, planeja suas ações, se desloca no tempo, reflete o mundo exterior, expressa os seus desejos. Luria e Vygotsky (1996, p. 52) ressaltam a importância do desenvolvimento histórico e a evolução dialética desse processo de desenvolvimento da criança, 155 Atuando na Área da Interação Social: uma Proposta Teórica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . no qual percebemos o papel da fala: O uso e a “invenção” de ferramentas pelos macacos antropoides é o fim da etapa orgânica de desenvolvimento comportamental na sequência evolutiva e prepara o caminho para uma transição de todo o desen- volvimento para um novo caminho, criando assim o principal pré-re- quisito psicológico do desenvolvimento histórico do comportamento. O trabalho e, ligado a ele, o desenvolvimento da fala humana e outros signos psicológicos utilizados pelo homem primitivo para obter o con- trole sobre o comportamento significam o começo do comportamen- to cultural ou histórico no sentido próprio da palavra. Finalmente, no desenvolvimento da criança, vemos claramente uma segunda linha de desenvolvimento, que acompanha os processos de crescimento e matu- ração orgânica, ou seja, vemos o desenvolvimento cultural do compor- tamento baseado na aquisição de habilidades e em modos de compor- tamento e pensamento culturais. Diante do esclarecimento de Vygotski (1989) entendemos que, a partir da fala da criança, ela controla o ambiente, produzindo novas relações, e organiza novos comportamentos, originando o intelecto. Com o avanço do seu desenvolvimento, a criança evolui da fala egocêntrica para fazer uso da fala social na solução de problemas. A partir desse momento, podemos dizer que ser capaz de fazer uso da linguagem como um instrumento revela que a fala socializada foi internali- zada, apontando um salto no desenvolvimento psíquico da criança. Vygotsky ressalta que a fala não só acompanha a atividade prática, mas tem um papel específico na sua realização. Por intermédio de seus experimentos, ele mostrou que: 1 – a fala da criança é tão importante quanto a ação para atingir um obje- tivo. As crianças não ficam simplesmente falando o que elas estão fazendo; sua fala e ação fazem parte de uma mesma função psicológica complexa, dirigida para a solução do problema em questão. 2 – quanto mais complexa a ação exigida pela situação e menos direta a solução, maior a importância que a fala adquire na operação como um todo (VYGOTSKY, 1988, p. 28). O processo de internalização da fala pode ser estudado em sua evolução em relação à ação. Inicialmente, a fala acompanha as ações das crianças e progressi- vamente se desloca para o início do processo de atuação da criança até preceder a ação, atingindo sua função planejadora. Pode-se observar esse processo na TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V criança pequena que, ao brincar, verbaliza as suas ações, diz o que está fazendo, e progressivamente substitui a verbalização pelo pensamento e não mais fala sobre o que está fazendo. Isso equivale a dizer, segundo Vygotsky (1988, p. 30), que “a história do processo de internalização da fala social é também a história da socialização do intelecto prático das crianças”. Os sistemas de signos, histórica e culturalmente criados, ao serem interna- lizados pelo homem modificam o seu comportamento e estabelecem elos entre as formas iniciais e tardias de desenvolvimento individual, mas também sofrem a ação do homem, sendo por ele modificados. Nesse sentido, e considerando o desafio de formar jovens para o mundo contem- porâneo de múltiplas linguagens, citamos Passarelli, que se refere às transformações do mundo atual e sugere a necessidade de se “[...] aprimorar a competência lin- guística” do aluno, o que significa formá-lo para que saiba optar pelo registro mais adequado em cada contexto que atua (EDUCATRIX, 2011, p. 34). Afinal, quais seriam esses registros? A linguagem formal, acadêmica, a lingua- gem da mídia, a linguagem da internet, dos jovens e tantas outras. Apresentamos ao final desta unidade, como “Material Complementar - na Web”, um link no qual você terá oportunidade de conhecer mais sobre as diferentes linguagens das disciplinas escolares, como a linguagem do campo da Arte, das Ciências, da Matemática, dentre outras. Retomando nossa discussão, outro aspecto importante da interação social para o desenvolvimento cognitivo é a função da atividade da criança. A teoria da atividade foi desenvolvida inicialmente por Leontiev e Luria, com base nos estudos de Vygotsky, que partem da ideia marxista do trabalho (atividade labo- ral, prática) como expressão maior da atividade do homem e se ampliam para a atividade psíquica como forma peculiar de atividade (LEONTIEV, 1998 apud LIBÂNEO, 2004). Depois de receber contribuições de vários autores, não apenas na Rússia, mas em vários outros países do norte da Europa, Estados Unidos e América Latina, a Teoria da atividade da criança é mais recentemente ampliada por Davidov (2002 apud LIBÂNEO, 2004). Para esse autor, “[...] a atividade humana tem uma estru- tura complexa que inclui componentes como: necessidades percebidas, capacidades, objetivos, tarefas, ações e operações que estão em permanente estado de interligação 157 Atuando na Área da Interação Social: uma Proposta Teórica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . e de transformação” (DAVIDOV, 2002 apud LIBÂNEO, 2004). Davidov (2002 apud LIBÂNEO, 2004), ao incluir o desejo e a necessidade como componentes da atividade, dá relevo à relação entre afetividade e cognição. Destaca ainda a importância das relações objetais ressaltando que a formação mental começa com ações sobre objetos ou sobre suas representações, ações que ocorrem, portanto, no plano físico e/ou no plano mental. Para Manacorda (1989, p. 324-325), o desenvolvimento psicológico: [...] é parte e resultado da evolução geral da humanidade: esse de- senvolvimento não é concebível isoladamente, mas pressupõe diacro- nicamente todo o caminho precedente da história humana e, sincro- nicamente, a participação do indivíduo na vida da sociedade de seus contemporâneos. A atividade humana, de fato, se caracteriza para ele como atividade mediada por instrumentos que são o resultado da his- tória da humanidade e do desenvolvimento do indivíduo. Vale ressaltar que como no caso da linguagem, abordado anteriormente, a ati- vidade também acontece inicialmente a nível externo, na criança pequena, e progressivamente é internalizada e assimilada; nesse processo há a mediação da linguagem. As atividades, historicamente construídas, são transmitidas e apropriadas pelas novas gerações por meio da mediação e da linguagem. Nas formulações teóricas apresentadas, as raízes do desenvolvimento da criança se encontram nas ligações entre história individual e social. Leontiev (2004), referindo-se ao tema da atividade, revela que ela apresenta como os processos são psicologicamente determinados por um motivo, enten- dendo-a como uma força motivadora no desenvolvimento do psiquismo infantil. O autor estabelece relação entre a atividade e o lugar que a criança ocupa no sis- tema de relações humanas, qual se altera em função de circunstâncias concretas e determina as atividades que a criança desenvolve. A maneira como a criança incorpora, por intermédio da atividade, os processos psicológicos particulares tem relação com a importância da atividade na família e no grupo social que ela compõe. Assim, em determinados momentos, certas atividades assumem impor- tância em face de sua relação com o grupo social e familiar4. 4 Podemos relacionar essas afirmativas ao próprio domínio da linguagem. TEMASEMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Segundo Facci (2004, p. 204), “[...] a apropriação da cultura humana dá ori- gem a formas especiais de conduta, modifica a atividade das funções psíquicas e cria novos níveis no desenvolvimento humano”. É a partir das atividades que se desenvolverão as funções psicológicas superiores, contribuindo para o avanço cognitivo do aluno. Para melhor compreensão, o conceito de atividade é definido por Leontiev (2006, p. 68) como: “Por atividade, designamos os processos psicologicamente caracterizados por aquilo a que o processo, como um todo, se dirige (seu objeto), coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar esta ativi- dade, isto é, o motivo”. Pode-se, portanto, dizer que dentre as atividades infantis (escola, jogos, trabalho) algumas assumem importância, porque nelas os pro- cessos psicológicos particulares tomam forma e são reorganizados, o que leva os autores susoditos a definirem a atividade principal ou dominante. Facci (2004) explica que todas as atividades dominantes aparecem como elementos da cultura humana, sendo a sociedade na qual está inserida e tam- bém sua cultura o que determinam o conteúdo e a motivação na vida da criança. Por exemplo, dentro de atividades como brincar (jogos), estão contidos pro- cessos de instrução, regras de grupo, classificação, generalização, abstração etc. Nas atividades domésticas e também nos brinquedos, estão contidos processos importantes como aquisição de papéis. Portanto, por meio da atividade princi- pal, o homem estabelece relações com o mundo, com outras pessoas e elabora necessidades específicas. Nas formulações teóricas apresentadas, as raízes do desenvolvimento da criança se encontram nas ligações entre história individual e social. Esse enfoque sociocultural ressalta a relação entre desenvolvimento e aprendizagem (formal e informal). Vygotsky (1988, p. 102) mostra a natureza e a singularidade dessa rela- ção ao afirmar que “[...] existem relações dinâmicas altamente complexas entre processos de desenvolvimento e aprendizado, as quais não podem ser engloba- das por uma formulação hipotética imutável”. Nessa linha de pensamento, desenvolvimento e aprendizagem são dois pro- cessos inter-relacionados – o desenvolvimento prepara e possibilita determinado processo de aprendizagem, enquanto a aprendizagem estimula o desenvolvi- mento, faz avançar até certo grau. Assim, o papel da aprendizagem é ampliado; 159 Atuando na Área da Interação Social: uma Proposta Teórica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ela não vem a reboque do desenvolvimento nem se restringe a formar hábitos, mas compreende uma ação de natureza intelectual que permite, a partir da ativi- dade do sujeito, transformar os conteúdos externos em conteúdos da consciência. O conhecimento é uma produção social que emerge da atividade humana, atividade essa que é planejada, organizada em ações e operações e socializada, é também subordinada à criação de meios técnicos e semióticos. Vygotsky ressalta a importância dos meios semióticos no processo de conhecer, o qual é histórico e social e não individual e natural (CAVALCANTI, 2005). Considerando a perspectiva histórico-cultural, a busca de uma educação científica exige a compreensão do processo de desenvolvimento do organismo a ser educado e a interação efetiva entre ele o meio que o educa (VYGOTSKY, 2004). Tal afirmação exige um esclarecimento sobre as leis a que está sujeito o próprio desenvolvimento do organismo sobre o qual a educação pretende agir, e também as dimensões desse desenvolvimento que devem ser priorizadas na educação formal. Ouve-se com certa frequência que a escola deve promover, além da aqui- sição dos conceitos científicos, o desenvolvimento das capacidades cognitivas operativas dos alunos, pois para se inserir em uma sociedade em que o conhe- cimento se renova rapidamente, os indivíduos devem ser capazes de buscar de forma autônoma esse conhecimento, mesmo depois de saírem da escola, como em um processo de ‘aprender a aprender’. No entanto, a explicitação dessas capa- cidades cognitivas manteve-se, em muitas teorias psicológicas, voltada mais para as tarefas ou ações que levam à aquisição dos conceitos científicos do que para a compreensão dos processos que dão orientação a essas tarefas. A teoria histórico-cultural põe em relevo, em relação à educação formal, as ações mentais do indivíduo, sua atividade cognitiva, que por sua vez tem uma relação direta com a dimensão afetiva (necessidades, desejos, subjetividade) e com a internalização da cultura historicamente construída por meio da media- ção intencional do professor. Crianças e jovens iriam à escola para “[...] aprender cultura e internalizar os meios cognitivos de compreender e transformar o mundo” (LIBÂNEO, 2004, p. 5). Seria, portanto, uma cultura escolar voltada para o desenvolvimento do pensamento, e para promover essa cultura faz-se neces- sário compreender o processo de pensar e os mecanismos de desenvolvimento TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V das habilidades cognitivas. A abordagem histórico-cultural também enfatiza a experiência social no desenvolvimento das formas de comportamento tipicamente humanas, os chama- dos processos psicológicos superiores. A maturação, per se, é um fator secundário no desenvolvimento, que se caracteriza por transformações complexas, qualitati- vas, de uma forma de comportamento em outras (construtivismo), transformações essas determinadas pelas condições sociais dentro e através das quais a atividade humana ocorre. Essas condições não se resumem à situação concreta que circunda o indivíduo, mas são produtos de uma interação entre “[...] características parti- culares do organismo e quaisquer oportunidades de experiência oferecidas pela situação objetiva na qual o organismo se encontra” (VYGOTSKY, 1988, p. 141). Vygotsky (1988) tem uma visão dialética da interação, na qual o indivíduo não é um elemento passivo à ação do ambiente, mas interage, atua sobre ele, transformando-o e dando origem a condições únicas de caráter essencialmente histórico e cultural. Vygotsky (1988) e seus colaboradores e seguidores também ressaltam a importância da educação formal para o processo de desenvolvimento. Eles não descartam o pressuposto de que a aprendizagem da criança começa muito antes da aprendizagem escolar, e que a aprendizagem informal no período pré-escolar é fundamental para a aprendizagem formal. Salientam, contudo, que não existe continuidade entre os dois tipos de aprendizagem. O autor faz a distinção qualitativa entre educação escolar e educação no sentido amplo, mostrando que, na escola, a criança − partindo de seus próprios significados adquiridos na fase pré-escolar, tais como: noções de linguagem, hábi- tos, informações, rudimentos de aritmética e até de linguagem escrita − entra, orientada pelo professor, no caminho da análise intelectual e do pensamento científico, estabelecendo novas relações cognitivas com o mundo. Conclui-se que a aprendizagem escolar não é diferente da informal ape- nas por ser sistemática, mas por ter uma natureza diferente, de orientação mais acadêmica. 161 Atuando na Formação Moral do Indivíduo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ATUANDO NA FORMAÇÃO MORAL DO INDIVÍDUO Retomando as ideias de Piaget sobre a moral heterônoma e autônoma, apre- sentadas na unidade II, ressaltamos que o autor dá continuidade à explanação do tema do respeito unilateral da moral heterônoma comparando-a às práticas sociais coercitivas, unilaterais, oriundas de relações sociais assimétricas.O autor chamou de coação social toda relação entre indivíduos na qual inter- vém um elemento de autoridade ou prestígio (FREITAS, 1997). Ainda intitulou realismo moral essa incapacidade de o indivíduo superar o período da moral heterônoma, o que a levaria a uma postura distorcida na vida adulta em relação à moral e uma tendência à submissão. Por outro lado, poderíamos dizer que, na ausência de uma autoridade adequada para a definição da moral, esses adultos/ crianças estariam sujeitos à adoção de valores morais inadequados. Afinal, como levar as crianças e jovens a superarem o estágio da moral heterô- noma para poderem reagir a esse tipo de coação? A educação moral desenvolvida na escola poderia ser um dos mecanismos para tal superação. Justifica-se a inclusão deste item – educação moral – em nosso curso, em função do grande avanço da preocupação com os valores éticos e com as difi- culdades de natureza teórica, identificada por Goergen (2001), em relação à educação moral no contexto escolar, que tem como resultado ser o tema central da reflexão pedagógica na atualidade. Menin e Trevisol (2011) discutem e buscam definir educação moral, apresen- tando sua sinonímia (educação em valores, direitos humanos, ética e cidadania) e identificando, por meio de uma significativa pesquisa, o que as escolas brasileiras têm feito nesse sentido. Apresentamos, no final desta unidade, uma experiên- cia que descrevemos como forma de ilustrar as possibilidades de trabalho com a educação moral na escola. Iniciando esta reflexão sobre a possibilidade de atuação na formação moral, no ambiente escolar, abordamos o significado de moral e a sua relação com a ética. D’Aurea-Tardeli (2008, p. 289) define sujeito moral como aquele que “[...] por meio da razão conhece a diferença entre o bem e o mal, a consequência de seus atos e como esses atos afetam as outras pessoas”. É uma definição de TEMAS EMERGENTES NA ESCOLA CONTEMPORÂNEA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V natureza psicológica que foca a relação entre moral e ética. Acerca da ética, a autora explicita: Reflexão sobre a moral, tal como os povos a desenvolvem. Conjunto de ideias que estão associadas a uma vida bem-sucedida, à realização de projetos. Valores que orientam a busca da felicidade. Expressa a arte de viver (D’AUREA-TARDELI, 2008, p. 289). Sendo a pergunta que orienta como viver, o plano ético, segundo a autora, é aquele que busca o que traz sentido à vida. Nesse contexto, gostaríamos de citar Cortella e LaTaille (1989 apud D’AUREA-TARDELI, 2008, p. 290): A perspectiva ética é a perspectiva de uma vida boa, para e com ou- trem, em instituições justas. Veja que ‘programa’ completo: a perspec- tiva de uma vida boa em que o outro comparece de duas formas – com o outro – seria a ideia de grupo, da cooperação – mas também para o outro – que é a ideia da benevolência, da generosidade. E essa definição não esquece a dimensão política: em instituições justas. Acreditamos ser essa uma definição adequada para nortear a ação da escola acerca da educação moral. Segundo pesquisas de Kolberg, foi descoberto que tanto “a experiência de ajudar outras pessoas quanto a instrução formal em questões de moralida- de aprimoram o desenvolvimento moral”. Fonte: Colee Cole (2003, p. 679). 163 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CONSIDERAÇÕES FINAIS Para concluir esta unidade, gostaríamos de destacar que o grande foco das escolas brasileiras, no momento atual, é formar alunos aptos a ler, interpretar e argumentar com fluência, com a finalidade que eles atuem no mundo como cidadãos críticos e transformadores. Esse é o discurso de especialistas e pesqui- sadores e sobretudo dos documentos oficiais, porém isso ainda não acontece na prática. Faz-se necessária uma mudança nos rumos da educação para que pos- samos buscar tal objetivo. Uma visão diferente das relações entre a sociedade, a família e a escola, uma formação profissional inicial e continuada dentro dos parâmetros preconizados pela academia, maior valorização dos profissionais da educação e a superação da violência escolar são algumas atitudes necessárias na luta da escola para ocupar com competência o lugar que lhe cabe. Com isso, estaremos formando gerações que possam levar à superação do atual paradigma social, retrato de desagregação e também de desesperança, e que parece ver a escola como um local de conflitos, omissões e despreparo. Para tanto, é necessário o domínio das teorias pedagó- gicas e psicológicas que fundamentam a práxis do professor e um envolvimento afetivo e consciente dos profissionais da educação com essa ação. Concluindo esta reflexão, propomos que você busque o conhecimento que fundamenta uma prática ajustada aos objetivos do desenvolvimento integral do educando, para uma atuação autônoma na sociedade. Sabemos que o cotidiano escolar apresenta inúmeras dificuldades, entre- tanto, é essencial que a escola e seus profissionais assumam uma postura decisiva para efetuar um ensino que promova de fato o aprendizado e desenvolvimento do aluno. Assim sendo, certamente poderemos apontar que o investimento em formação, pesquisa e estudo trará contribuições importantes para a prática do profissional, refletindo na aprendizagem do aluno. 1. As famílias vivenciaram transformações no decorrer da história. Na atualidade, apresentam novas configurações, constituindo a família no mundo contemporâ- neo. Em relação à família, leia as afirmações e assinale a alternativa correta: I - Entre as funções básicas das famílias, encontram-se a construção da saúde emocional, a proteção e o bem-estar de seus membros. II - As famílias desenvolveram no decorrer dos tempos funções diversificadas de transmissão de valores éticos, estéticos, religiosos e culturais. III - As relações familiares estabelecidas são essenciais para o desenvolvimento da criança. IV - As transformações atuais têm provocado mudanças no comportamento, par- ticularmente, no comportamento masculino. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. 2. Na perspectiva da Teoria Histórico-Cultural, a ênfase é dada à experiência social, bem como o acesso aos bens culturais produzidos pela humanidade no desen- volvimento das Funções Psicológicas Superiores. Sobre essa abordagem teórica, leia as afirmativas e assinale a alternativa correta: I - O uso dos signos não serve de base a todos os processos mentais superiores. II - A interação do homem com o seu ambiente acontece por meio dos sistemas de signos (linguagem escrita e falada, sistemas numéricos) e dos instrumentos, da técnica. III - Dentre as atividades simbólicas, a fala é das mais significativas. IV - A criança não passa a internalizar o uso do signo. a. ( ) Somente I e II estão corretas. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. 165 3. Vygotsky pauta seus estudos no método do materialismo dialético, no qual par- te da ideia marxista do trabalho como expressão maior da atividade do homem, logo, o autor aponta que a atividade é fundamental para o desenvolvimento psí- quico da criança. Sobre essa questão, leia as afirmações e assinale a alternativa correta: I - Os jogos e a escola são atividades definidas para a criança como atividades principais porque nelas processos psicológicos particulares tomam forma e são reorganizados. II - As raízes do desenvolvimento da criança se encontram nas ligações entre his- tória individual e social. III - O que se configura como relevante para o desenvolvimento psíquico infan- til é apenas a linguagem, não sendo importantedestacar o papel da atividade nesse processo. IV - Por meio da atividade principal, o homem estabelece relações com o mundo, com outras pessoas e elabora necessidades específicas. a. ( ) Somente I e II estão correta. b. ( ) Somente II e III estão corretas. c. ( ) Somente I, II e IV estão corretas. d. ( ) Somente I, III e IV estão corretas. e. ( ) Todas estão corretas. O texto que segue faz parte do livro: O COTIDIANO DA ESCOLA: As novas demandas educacionais. Vale a pena você ler! Projeto “Escolas de Paz” Embora a escola Maria Nazareth Santos Silva tenha realizado outros projetos como o “Horta Comunitária” e o “Bairro limpo”, constatamos em nossa visita que o trabalho de maior destaque, que produz efeitos mais marcantes e que continua acontecendo ano a ano, é o projeto “Escolas da Paz”. Segundo o relato de Maria Emília, o que levou a escola a aceitar o projeto “Escolas de Paz”, proposto pelo governo estadual da época (2001 e 2002), foi a análise dela, como coordenadora na época, da direto- ria da escola e de outros professores, de que estavam caminhando a passos largos para uma situação de grande violência na escola e em suas proximidades. Outras medidas haviam sido buscadas anteriormente, como uma parceria com a Polícia Militar para ter policiamento 24 horas dentro da escola e rondas periódicas no entorno da mesma. Diz Emília: “era pre- ciso fazer alguma coisa, pois entendemos ser a escola fundamental num processo de mudança”. O projeto “Escolas de Paz” tem como princi- pal estratégia abrir a escola para alunos (até 14 anos) e comunidade (jovens até 18 anos) oferecendo oficinas de dança, artesanato, vídeos, pintura e esportes. Complemen- tando tudo isso, o programa ainda oferece alimentação (lanche e almoço). Como a instituição é localizada na perife- ria urbana, para a realização do projeto, a escola trabalha em parceria com duas gran- des escolas centrais (Barão do Rio Bonito e Joaquim de Macedo). Em nossa visita à escola, em outubro de 2010, Emília nos disse que o programa não acontece mais com o nome original “Escolas da Paz” e nem como parceria ou iniciativa da Secretaria da Educação, mas permanece agora como hábito da escola: “[...] uma vez abertas as portas da escola, não foi mais necessário fechá-las. Como se pode ver, o programa não continua com o mesmo nome, mas a escola incorporou ao seu calendário atividades que antes eram comuns apenas ao programa”. Atualmente, a escola cede espaço para dife- rentes iniciativas, em parceria com outras instituições que oferecem atividades dife- rentes para escola e comunidade, todas gratuitas. As atividades são as seguintes: Aulas de Karatê – duas vezes por semana, sendo o professor um ex oficineiro do pro- grama “Escolas de Paz”; Aulas de Capoeira – duas vezes por semana; Atividade – duas vezes por semana, em parceria com a prefeitura local atende a população da 3ª idade; 167 Futsal – nos finais de semana eventu- almente a escola cede o espaço para a comunidade; Festival de Cinema – em parceria com a prefeitura local, um grupo de alunos parti- cipou de uma formação que durou 6 meses (em 2009) e que culminou na produção de um filme para o I Festival Estudantil de Cinema local; Artes – em 2010, em parceria com uma universidade local, um grupo de alunos participa durante todo o ano letivo de uma formação específica em artes plásticas. Para o 2º semestre de 2010, Emília nos relata que estão previstas as seguintes atividades: Projeto SUDERJ 2010 – proposto pela Câmara dos deputados e no qual profes- sores de educação física atenderão alunos e comunidade quatro vezes por semana, com atividades esportivas para crianças, jovens e 3ª idade; Mais Educação (MEC) – que deverá ampliar em três horas a carga horária dos alunos do 6º ao 9º ano de escolaridade, oferecendo alimentação e atividades de: teatro, dança, esportes, produção de texto e elaboração de vídeos (laboratório de informática); Festival de Cinema – nova formação visando participação no II Festival Estu- dantil de Cinema local. Poderão ocorrer, ainda, outras atividades complementares; como a realização, duas vezes por ano, de Ações Sociais de Saúde, Educação e Cultura em benefício da comu- nidade (parceria com o Clube Rotary local, posto de saúde da família, igrejas, comuni- dade e universidades locais). É importante destacarmos, como faz Emília, que essas atividades envolvem tanto alunos da escola, como seus familiares e outras pessoas da comunidade. Fonte: MENIN, Maria Suzana S.; TREVISOL, Maria Teresa Ceron. Educação Moral: o que tem acon- tecido nas escolas públicas brasileiras? In: D’AUREA-TARDELI, Denise; DE PAULA, Fraulein Vidigal (Org.). O cotidiano da escola: as novas demandas educacionais. São Paulo: Cengage Learning, 2001. p. 59-92. MATERIAL COMPLEMENTAR The Great Debatears - O Grande Desafi o Ano: 2010 Sinopse: “O Grande Desafi o” foi baseado na história real de Melvin B. Tolson (Denzel Washington), professor de uma pequena universidade voltada para negros, no Texas, no ano de 1935. O personagem de Denzel Washington é um professor que vive no Texas na década de 1930 e monta um grupo de debate com seus alunos universitários. Tolson conseguiu formar um time de debate, e com muito esforço e enfrentando o racismo, os alunos foram capazes de superar os garotos da renomada Harvard, em uma competição nacional. Comentário do professor: No fi lme, você pode observar uma série de situações desafi adoras ao trabalho do professor, as quais levam a refl exões relevantes sobre a importância da fi gura do professor e de um trabalho efetivo na formação do indivíduo. Les Choristes - A voz do Coração Ano: 2004 Sinopse: “Um professor de música vai trabalhar numa rígida instituição de reeducação de jovens meninos. Com paciência, ele tenta melhorar suas vidas através da música. No entanto, ele terá que lutar para manter o coral dos meninos na ativa. Comentário do professor: Caro(a) aluno(a), mais uma vez apontamos que a escola faz grande diferença no desenvolvimento da criança e adolescente. Assista ao fi lme com um olhar voltado à postura do professor e seus refl exos no cotidiano escolar e na vida de seus alunos. Limites: Entre o Prazer de Dizer Sim e o Dever de dizer Não Nina Rosa Furtado Editora: Artmed Sinopse: Este livro contém múltiplos olhares sobre o estabelecimento de limites, atentando para a diversidade de visões e conceitos sobre o tema, o que assegura ao leitor uma leitura comprometida com o estágio do conhecimento em constante questionamento. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Para saber mais a respeito de alguns dos temas tratados nesta unidade, acesse os links a seguir. Violência na escola: os sinais de bullying e o olhar necessário aos Sentimentos <http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/Educacao/Doutrina/Bullying%20e%20o%20 olhar%20necess%C3%A1rio%20aos%20sentimentos.pdf>. Educatrix: a Revista que pensa a Educação <http://issuu.com/ed_moderna/docs/educatrix_edicao_01>. CONCLUSÃO 171 Concluímos o nosso livro sugerindo que você busque introduzir em sua prática, a partir dos conhecimentos teóricos e por meio deles, o debate ético-político, com o objetivo de fomentar, por meio de procedimentos argumentativos e dialógicos ade- quados à faixa etária de seus alunos, a sensibilidade e a participação na construção de uma sociedade mais humana. Vimos nesta disciplina conceitos básicos sobre aprendizagem e ensino, consideran- do fatores e questões ligadas à atividade escolar, e alguns aspectos do desenvolvi- mento de crianças e adolescentes com ênfase na dimensão cognitiva e na constitui- ção da personalidade. A escolha dessas dimensões deveu-se à necessidade de uma compreensão do pro- cesso de desenvolvimento e de aprendizagem do aluno, uma vez que a disciplina Psicologia Escolar compõe o currículo, sendo esta essencial para a formação do alu- no e futuro profissional, logo, o que se pretende com os conhecimentos psicológi- cosé fundamentar cientificamente a prática pedagógica. Sabemos da complexidade dos temas e da amplitude das teorias abordadas, das quais apresentamos apenas recortes, correndo o risco de simplificação e superficia- lidade, face à natureza do material. Enfatizamos, portanto, a necessidade de consul- ta às fontes indicadas, de leituras complementares e de pesquisa como formas de complementar os conhecimentos transmitidos. Esperamos ter plantado a semente da compreensão da necessidade de um olhar atento para as questões psicológicas envolvidas na prática pedagógica e da respon- sabilidade da escola com a criança e o adolescente, como seres em desenvolvimen- to e como seres multidimensionais. Destacamos a importância de conciliar estratégias pedagógicas com capacidades, necessidades e interesses dos alunos em buscar a cientificidade no desenvolvimen- to dos processos educacionais e de fazer da observação atenta do aluno e da aplica- ção do saber científico o ponto de partida de toda a prática, promovendo a práxis e favorecendo o desenvolvimento integral do ser humano. Esperamos que você, aluno(a) envolvido(a) neste curso, prossiga seus estudos bus- cando sempre preencher as lacunas no seu conhecimento e ampliando suas habili- dades e competências de forma autônoma e responsável. REFERÊNCIAS 173 AQUINO, Júlio Groppa. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996. 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GABARITO 181 UNIDADE I QUESTÃO 1 - Nesta questão, você deverá apontar quais os fatores situacionais e in- terpessoais que interferem no desenvolvimento e na aprendizagem: FATORES INTRAPESSOAIS – são fatores internos e individuais, que resultam de capa- cidades genéticas, história de vida, situações informais e formais de aprendizagem, entre outros; aqui podemos citar: idade mental, nível de inteligência, maturidade emocional, prontidão, comportamentos sociais, padrões familiares, motivação. Também podemos falar de temperamento, personalidade, nível de inteligência e autoeficácia. FATORES SITUACIONAIS – interpessoais são fatores do contexto social. O contexto escolar possibilita interação com os pares, interação professor-aluno, socialização. Esses aspectos contextuais possibilitam o atendimento da necessidade do indiví- duo de pertencer e estabelecer vínculos essenciais na construção da identidade, e que têm reflexos importantes na aprendizagem e no desenvolvimento humano. Destacamos que comportamentos desadaptados, disfuncionais ou patologias mais severas na adolescência e na vida adulta podem ser resultantes ou agravadas por vivências escolares. QUESTÃO 2 - Você deverá apresentar os oito períodos de desenvolvimento, de acor- do com a faixa etária (período pré-natal; primeira infância; segunda infância, terceira infância, adolescência, início da vida adulta, vida adulta intermediária, vida adulta tardia). Em seguida, irá apresentar as características do desenvolvimento psicosso- cial na vida adulta tardia. QUESTÃO 3 - O homem é compreendido como um ser construído sócio-historica- mente, dessa forma, é preciso compreender o homem e a sociedade na qual está inserido, pois este é construído mediado pelas relações sociais estabelecidas histo- ricamente. Logo, entendemos que o homem vai construindo seu mundo transfor- mando a sociedade e sendo transformado por ela. GABARITO UNIDADE II QUESTÃO 1 - Alternativa correta: letra D. QUESTÃO 2 - Alternativa correta: letra E. QUESTÃO 3 - Alternativa correta: letra E. UNIDADE II QUESTÃO 1 - Alternativa correta: letra E. QUESTÃO 2 - Alternativa correta: letra D. QUESTÃO 3 - Os estágios de desenvolvimento propostos, ou também chamados de Períodos descritos por Piaget, são: O período sensório-motor; Período Pré-Opera- cional; Período das Operações Concretas; Período das Operações Formais ou Pro- posicionais. UNIDADE IV QUESTÃO 1 - Alternativa correta: letra A. QUESTÃO 2 - Alternativa correta: letra E. QUESTÃO 3 - Alternativa correta: letra E. UNIDADE V QUESTÃO 1 - Alternativa correta: letra E. QUESTÃO 2 - Alternativa correta: letra B. QUESTÃO 3 - Alternativa correta: letra C.