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Doença crônica das vias aéreas inferiores, etiologia desconhecida, e com presença de várias células e elementos celulares. Caracterizada pela inflamação crônica e hiperreatividade brônquica, além de episódios recorrentes de obstrução generalizada das vias aéreas – que se reverte espontaneamente ou com tratamento. A hiper-reatividade brônquica se expressa como uma resposta broncoconstritora exagerada a estímulos que, em situações normais, não causariam qualquer sintoma em indivíduos normais. O quadro clínico clássico da asma inclui tosse, dispneia, sibilância e opressão torácica, especialmente à noite e no início da manhã. Entretanto, outros sinais e sintomas menos clássicos podem estar frequentes Epidemiologia É um distúrbio extremamente comum. Atinge cerca de 300 milhões de pessoas ao redor do mundo, tendo a maioria dos casos início antes dos 25 anos de idade – embora possa acometer qualquer faixa etária. O Brasil ocupa a 8a posição em prevalência de asma. A prevalência varia de 4,7% a 30,5% - com média de 20% da população, segundo o estudo multicêntrico ISAAC, envolvendo 56 países. Além disso, segundo o Data-SUS, o Brasil teve 160 mil internações por asma em 2011, colocando a asma como quarta causa de internações. Os meses de outono e inverno possuem taxas maiores de internação, o que destaca o caráter sazonal da doença. Fisiopatologia e etiologias Ainda não se sabe exatamente o que causa a asma, mas sabe-se que existem diversos fatores envolvidos na fisiopatologia da doença, como a hereditariedade – diversos genes são envolvidos na sua patogênese, embora não se tenha encontrado um que isoladamente precipite a doença – fatores ambientais e a obesidade. A principal característica da asma é a inflamação dos brônquios, presente mesmo naqueles oligossintomáticos ou assintomáticos. A mucosa brônquica inflamada gera hiper-reatividade a diversos estímulos, que podem variar entre cada indivíduo. A atopia é o fator predisponente identificável mais forte para a asma. Em mais de 90% das crianças e 60% dos adultos, a asma tem origem alérgica e seu mecanismo envolve a produção de imunoglobulinas IgE. Nela, temos a reação imediata e a reação tardia, constituindo a inflamação crônica que caracteriza a doença. Essa inflamação irá gerar diminuição do calibre das vias aéreas – pelo edema e pela hipersecreção de muco – bem como hipersensibilidade a estímulos, que contrai a musculatura brônquica exageradamente. Do ponto de vista imunológico... E como tem início todo esse processo? Primeiramente, temos um processo de sensibilização: alérgenos são inalados e têm contato com células dendríticas do epitélio brônquico. Estas reconhecem, processam e apresentam fragmentos dos alérgenos aos linfócitos T auxiliares. Estes, passam a produzir citocinas em resposta, causando proliferação de linfócitos T helper 2 – os famosos Th2. Back to basics Vamos lá: temos as vias Th1, Th2 e Th17. O que decide que uma via vai ser produzida, em detrimento da outra? Os estímulos! As citocinas produzidas lá no início da resposta imune estimularão a produção de linfócitos T CD4 específicos de uma ou outra via. A via do Th1 produz a gamainterferona e IL-12; a do Th2 produzem a IL-4 e a via do Th17 produz citocinas pró-inflamatórias. A produção de IL- 4 e outras citocinas mais específicas estimulará ainda mais a diferenciação dos linfócitos em Th2, bem como irá inibir o desenvolvimento de outras vias. Logo, um desequilíbrio desse mecanismo, favorecendo a produção de Th2, é fundamental na patogênese da asma alérgica. E o que é tão importante de saber sobre o papel da Th2 nesse caso? É que condições mediadas pela via do Th2 geralmente respondem muito bem aos corticoides! Por outro lado, veremos mais à frente que existem fenótipos de asma cuja patogênese não necessariamente segue a via do Th2. Vamos ver também que esses fenótipos geralmente não respondem bem aos corticoides, e é por isso que vamos considerá-los quando o paciente for refratário à terapia com essa classe de medicamentos. Asma Asma De volta à patogênese, os linfócitos T aos quais foram apresentados os antígenos produzem, então, citocinas. Essas citocinas estimulam a produção de IgE, pelos linfócitos B – além de estimular produção de mastócitos e aumentar meia-vida de eosinófilos. Os anticorpos produzidos alcançam a circulação e se ligam aos receptores de alta afinidade nos mastócitos. Pronto, isso tudo foi o processo de sensibilização. A partir daí, o que acontece? Sempre que o indivíduo entrar em contato com o alérgeno que estimulou esse processo, este alérgeno irá se ligar aos IgE nos mastócitos. Os mastócitos, então, vão liberar mediadores e abrir a junção entre as células do epitélio, promovendo a entrada do alérgeno na mucosa e a produção de mais mastócitos e eosinófilos, que também liberarão mediadores nesse momento. Esses mediadores promovem o broncoespasmo, aumento da permeabilidade vascular, produção de muco e recrutamento de células do sangue: isso por via direta e por reflexos neuronais – pois a lesão epitelial causa desnudamento do epitélio, expondo nervos sensoriais aferentes. Essa reação se denomina reação imediata, caracterizada pela obstrução de vias aéreas, principalmente pela contração da musculatura lisa. Fisiopatologia A asma tem forte relação com a atopia, no entanto, ainda não se sabe os mecanismos pelos quais a atopia é manifestada em asma e como a asma ocorre sem a atopia. A ativação dos mastócitos, mediadas por uma variedade de células, citocinas e outros mediadores, é essencial para o desenvolvimento da doença. Imunoglobulinas E (IgE) são produzidas após uma exposição inicial a um alérgeno. Sua está relacionada ao aumento da resposta de linfócitos T do tipo Th2 sendo essa maior do que o tipo Th1. Acredita-se que isso ocorre por combinações de fatores ambientais e genéticos. Com a produção e a síntese de IgE, ocorre sua ligação de alta afinidade com os mastócitos presentes nos pulmões. Dessa maneira, quando um alérgeno é novamente inalado, ele é ligado pelos IgE presentes na superfície dos mastócitos ocorrendo uma rápida degranulação e liberação de mediadores. Isso é conhecido como reação de fase inicial ou imediata. Esses mediadores, incluindo histamina, prostaglandina D2 e cisteinil leucotrienos (LTC4, D4 e E4), contraem diretamente o músculo liso das vias aéreas e também podem estimular as vias neurais reflexas. Após a fase inicial, pode ocorrer uma tardia broncoconstrição várias horas depois. A resposta da fase tardia é caracterizada pelo recrutamento de células inflamatórias e imunológicas, particularmente as células T de memória, eosinófilos, basófilos, neutrófilos e auxiliares, para locais de exposição a alérgenos. As citocinas produzidas pelos linfócitos Th2 desempenham papéis críticos na asma e nas respostas alérgicas, destacam-se: IL-3 que é um fator de sobrevivência para eosinófilos e basófilos; a IL-5, principal citocina hematopoiética que regula a produção e sobrevivência de eosinófilos; a IL-13, a qual contribui para a eosinofilia das vias aéreas, hiperplasia das glândulas mucosas, fibrose das vias aéreas e remodelação. Os eosinófilos são as células mais características que se acumulam na asma e na inflamação alérgica; sua presença está frequentemente relacionada à gravidade da doença. Os eosinófilos ativados produzem mediadores lipídicos, como leucotrienos e fator de ativação plaquetária, que mediam a contração do músculo liso; produtos granulados tóxicos que podem danificar o epitélio e os nervos das vias aéreas; e citocinas, como fator estimulador de colônias de granulócitos e macrófagos (GM- CSF), fatores de crescimento transformador (TGF) alfa e beta e interleucinas que podem estar envolvidas no remodelamento das vias aéreas e fibrose. Quadro clinicoAs quatro manifestações clínicas mais importantes da asma são os sibilos, dispneia, a tosse (especialmente em crianças) e a sensação de opressão torácica. A asma é a causa mais comum de episódios recorrentes de tosse e sibilos em adultos e crianças, embora nem tudo que sibile seja asma. Várias doenças podem causar sibilos como a insuficiência ventricular esquerda, a doença pulmonar obstrutiva crônica, a disfunção das cordas vocais ou as obstruções brônquicas localizadas. Nas crianças, fibrose cística, bronquiolite aguda viral, bronquiomalácia, estenoses brônquicas ou traqueais, anéis vasculares e aspiração de corpo estranho podem cursar com sibilos. Sibilância é o sintoma chave, e o pediatra deve estar atento que frequentemente os pais e até mesmo os profissionais de saúde, confundem o sintoma com roncos e estridor. Os sibilos podem ser apenas expiratórios e geralmente são difusos. Quando a obstrução brônquica é mais intensa, auscultam-se sibilos também na fase inspiratória. A obstrução é mais grave, quando da associação de sibilos inspiratórios e expiratórios. A ausência de sibilos em um paciente asmático, chamado de tórax silencioso, sinaliza como uma advertência de muita gravidade, sugerindo que os fluxos aéreos são tão baixos que não geram oscilações de parede brônquica, não determinando, portanto, manifestação acústica. Neste caso, há uma redução generalizada do murmúrio vesicular associada a importante esforço ventilatório. Roncos também podem serauscultados, especialmente quando as vias aéreas estão cheias de muco. A tosse (geralmente não produtiva) é quase que constante na asma, podendo por vezes ser sua única manifestação. Geralmente é pior à noite e após grandes esforços. A sensação de opressão torácica, ou constrição, provém da estimulação de receptores vagais nas vias aéreas. Também ao exame físico detectamos à inspeção e à palpação: • Taquipneia; • Tiragem intercostal – retração inspiratória dos espaços intercostais, fossa supra-esternal, regiões supraclaviculares e subcostais devido a obstrução; • Utilização da musculatura acessória, principalmente nas grandes dispneias, mobilizando os músculos inspiratórios auxiliares como os esternocleidomastóideos e escalenos; • Tempo expiratório forçado, prolongando a expiração ao mesmo tempo em que aperta os lábios, deixando apenas uma pequena fenda central na comissura labial (posição de “assovio”); • Taquicardia; • Pulso paradoxal (PP) – consiste na diminuição acentuada da amplitude do pulso e até mesmo o seu desaparecimento, associado a uma diferença de pressão sistólica entre a inspiração e a expiração. São desencadeantes de crises de asma: exposição ou contato com alérgenos (partículas que causam alergia) como a poeira, mofo e pelo de animais, assim como, irritantes (odores fortes de perfumes, materiais de limpeza, etc.) e poluentes intradomiciliares (cigarro, fumaça de fogão, etc.) e de fora da casa (resíduos industriais e de queima de combustível), infecções (resfriados), exercícios, mudanças de clima, etc. Diagnostico O diagnóstico se dá mediante a presença de critérios clínicos e funcionais, obtidos através da anamnese, exame físico e exames de função pulmonar (espirometria). Em crianças de até cinco anos, o diagnóstico é eminentemente clínico, já que a realização das provas funcionais é muito difícil nesses pacientes. • Anamnese: sibilância recorrente, tosse, dispneia, aperto no peito que ocorrem/pioram à noite ou ao despertar ou são desencadeados por irritantes específicos (fumaças, odores fortes...) ou aeroalérgenos (ácaros ou fungos); investigar história parenteral, presença de atopia. • Exame físico: geralmente é inespecífico nos pacientes asmáticos; a presença de sibilos é indicativa obstrução ao fluxo aéreo, porém pode não estar presente em todos os pacientes; durante crises asmáticas sinais de esforço respiratório podem estar presentes. • Espirometria: importante para estabelecer o diagnóstico, documentar a gravidade da obstrução ao fluxo aéreo e monitorar o curso da doença e as modificações decorrentes do tratamento. • Teste de broncoprovocação: mede a hiperresponsividade das vias aéreas através da inalação de substâncias bronconstritoras ou exercício físico; é útil para casos em que a espirometria está normal. • Medidas seriadas de Pico de Fluxo Expiatório (PFE): forma mais simples, mas menos acurada de diagnosticar a limitação ao fluxo aéreo na asma; medidas matutinas e vespertinas do PFE devem ser obtidas durante duas semanas; a diferença entre os valores matinais e vespertinos é divididade pelo maior valor e expressa em percentual; variações diurnas>20% são consideradas positivas para asma. Tratamento Não-farmacológico: redução da exposição a fatores desencadeantes, treinamento de técnica inalatória e explicação dos sinais de alerta (piora dos sintomas e/ou aumento do uso de B2CA). • Farmacológico Beta-2-agonistas de curta ação (B2CA): fármacos de escolha para a reversão do broncoespasmo em crises asmáticas; estimulam a musculatura lisa brônquica promovendo a broncodilatação de início imediato. Volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1): está reduzido na crise asmática e pode estar reduzido também no período intercrítico; seu aumento após a prova broncodilatadora é critério diagnóstico. Capacidade vital forçada (CVF): pode encontrar-se diminuída. Pico de Fluxo Expiratório (PEF) ou Peak Flow: maior fluxo gerado por esforço expiratório após inspiração máxima. Índice de Tiffenau (VEF1/CVF): é um parâmetro que define doença obstrutiva e está reduzido na asma. Fluxo expiratório forçado entre 25% e 75% do ar expirado (FEF25-75%): encontra-se bastante reduzido na asma e é o exame funcional com maior sensibilidade para o diagnóstico de asma e DPOC. Beta-2-agonistas de longa ação (B2LA): agonistas dos receptores beta-2 adrenérgicos, cujo efeito broncodilatador persiste por até 12 horas; deve ser prescrito com cuidado, pois alguns estudos demonstraram riscos de aumento de gravidade das crises em pacientes tratados B2LA, especialmente aqueles sem corticoterapia inalatória associada. Corticosteroides inalatórios (CI): anti-inflamatórios mais eficazes para o tratamento da asma crônica sintomática. Corticosteroides sistêmicos: frequentemente necessários em pacientes com asma grave. Mais utilizados são a prednisona e a prednisolona. • Conduta inicial: varia de acordo com a gravidade da asma. • Exacerbação (crises): oxigenoterapia (se necessário, meta Sat02≥93%) + corticoterapia oral + broncodilatador de curta ação. • Doses Beclometasona (CI): Dose média: 500-1000mcg/dia Dose alta: 1000-2000mcg/dia Prednisona (para adultos): 40-60mg/dia, via oral, 5-7dias. Prednisolona (para crianças): 1-2mg/kg/dia, via oral. Salbutamol (B2CA): 100-9600mcg/dia, via inalatória. Intermitente: medidas não-farmacológicas gerais + B2CA para alívio (conforme necessidade) Persistente leve: medidas não-farmacológicas gerais + CI dose média diário + B2CA para alívio (conforme necessidade) Persistente moderada: medidas não-farmacológicas gerais + CI dose média a alta diário + B2CA para alívio (conforme necessidade) + acompanhamento com pneumologista Persistente grave: medidas não-farmacológicas gerais + CI dose alta diário + B2CA para alívio (conforme necessidade) + B2LA 1- 2x/dia quando estável + acompanhamento com pneumologista