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Prévia do material em texto

HISTÓRIA DAS 
RELIGIÕES
Professor Dr. Fábio Augusto Darius
Professor Me. Augusto João Moretti Junior
Professora Me. Veroni Friedrich
GRADUAÇÃO
Unicesumar
Acesse o seu livro também disponível na versão digital.
https://appgame.unicesumar.edu.br/API/public/getlinkidapp/3/141
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação 
a Distância; DARIUS, Fábio Augusto; JUNIOR, Augusto João 
Moretti; FRIEDRICH, Veroni. 
 
 História das Religiões. Fábio Augusto Darius; Augusto João 
Moretti Junior; Veroni Friedrich.
 Reimpressão
 Maringá-Pr.: Unicesumar, 2019. 
 248 p.
“Graduação - EaD”.
 
 1. História. 2. Religião. 3. EaD. I. Título.
ISBN 978-85-459-1709-0
CDD - 22 ed. 201.9
CIP - NBR 12899 - AACR/2
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário 
João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828
Impresso por:
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor Executivo de EAD
William Victor Kendrick de Matos Silva
Pró-Reitor de Ensino de EAD
Janes Fidélis Tomelin
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi
NEAD - Núcleo de Educação a Distância
Diretoria Executiva
Chrystiano Minco�
James Prestes
Tiago Stachon 
Diretoria de Graduação e Pós-graduação 
Kátia Coelho
Diretoria de Permanência 
Leonardo Spaine
Diretoria de Design Educacional
Débora Leite
Head de Produção de Conteúdos
Celso Luiz Braga de Souza Filho
Head de Curadoria e Inovação
Tania Cristiane Yoshie Fukushima
Gerência de Produção de Conteúdo
Diogo Ribeiro Garcia
Gerência de Projetos Especiais
Daniel Fuverki Hey
Gerência de Processos Acadêmicos
Taessa Penha Shiraishi Vieira
Gerência de Curadoria
Carolina Abdalla Normann de Freitas
Supervisão de Produção de Conteúdo
Nádila Toledo
Coordenador de Conteúdo
Priscilla Campiolo Manesco Paixão
Designer Educacional
Hellyery Agda Gonçalves da Silva
Lilian Vespa da Silva
Projeto Gráfico
Jaime de Marchi Junior
José Jhonny Coelho
Arte Capa
Arthur Cantareli Silva
Ilustração Capa
Bruno Pardinho
Editoração
Victor Augusto Thomazini
Qualidade Textual
Silvia Caroline Gonçalves
Ilustração
Bruno Pardinho
Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos 
com princípios éticos e profissionalismo, não so-
mente para oferecer uma educação de qualidade, 
mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in-
tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos 
em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e 
espiritual.
Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos 
de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 
100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: 
nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, 
Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos 
EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e 
pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros 
e distribuímos mais de 500 mil exemplares por 
ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma 
instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos 
consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos 
educacionais do Brasil.
A rapidez do mundo moderno exige dos educa-
dores soluções inteligentes para as necessidades 
de todos. Para continuar relevante, a instituição 
de educação precisa ter pelo menos três virtudes: 
inovação, coragem e compromisso com a quali-
dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de 
Engenharia, metodologias ativas, as quais visam 
reunir o melhor do ensino presencial e a distância.
Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é 
promover a educação de qualidade nas diferentes 
áreas do conhecimento, formando profissionais 
cidadãos que contribuam para o desenvolvimento 
de uma sociedade justa e solidária.
Vamos juntos!
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está 
iniciando um processo de transformação, pois quando 
investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou 
profissional, nos transformamos e, consequentemente, 
transformamos também a sociedade na qual estamos 
inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu-
nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de 
alcançar um nível de desenvolvimento compatível com 
os desafios que surgem no mundo contemporâneo. 
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de 
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo 
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens 
se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica 
e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con-
tribuindo no processo educacional, complementando 
sua formação profissional, desenvolvendo competên-
cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em 
situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado 
de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal 
objetivo “provocar uma aproximação entre você e o 
conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento 
da autonomia em busca dos conhecimentos necessá-
rios para a sua formação pessoal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de cresci-
mento e construção do conhecimento deve ser apenas 
geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos 
que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. 
Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu 
Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns 
e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis-
cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe 
de professores e tutores que se encontra disponível para 
sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de 
aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui-
lidade e segurança sua trajetória acadêmica.
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Professor Dr. Fábio Augusto Darius
Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo, na 
área “Teologia e História” (2014/1) e pesquisador de História da Igreja. Possui 
mestrado nessa mesma instituição (2010/1) e graduação em História pela 
Fundação Universidade Regional de Blumenau FURB (2006/2). Docente no 
Centro Universitário Adventista de São Paulo, campus Engenheiro Coelho, no 
Mestrado Profissional em Educação, Faculdade Adventista de Teologia (FAT) 
e Licenciatura em História.
Link: <http://lattes.cnpq.br/6296009029079452>
Professor Me. Augusto João Moretti Junior
Doutorando em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre 
em História das Ideias e das Instituições (2015) pela Universidade Estadual 
de Maringá (UEM). Possui graduação em História pela mesma universidade. 
Membro do Laboratório de Estudos Medievais (LEM). Professor de História do 
Colégio Santa Cruz, professor de História na Faculdade Santa Maria da Glória 
e do curso de História no Ensino a Distância na Unicesumar.
Link: <http://lattes.cnpq.br/1242626722779768>
Professora Me. Veroni Friedrich
Mestre em História com concentração no tema “Patrimônio Cultural”. 
Graduada em História pela Universidade Estadual de Maringá. Especialista 
em História e Ensino das Religiões e Religiosidades. Docente da Educação 
Básica do Estado do Paraná e da Instituição Unicesumar (Maringá-PR). Estuda 
os temas: Patrimônio Cultural, Ensino de História e Religiões. É membro do 
grupo de pesquisa “Grupo de apoio à docência e pesquisa em História”. 
Link: <http://lattes.cnpq.br/9372802268982053>
SEJA BEM-VINDO(A)!
Olá, caro(a) acadêmico(a) de História. É com muita satisfação e alegria que apresento a 
vocês o livro de História das Religiões da Unicesumar. Antes de mais nada, gostaria de 
lembrar que esse livro foi escrito por três professores, na busca constante por apresen-
tar-lhes o melhor material possível, capaz de ajudá-lo nessa desafiadora jornada que é 
a graduação em História. O nosso livro é dividido em cinco unidades e cada uma delas 
busca uma abordagem de religiões distintas, importantes para a sua formação enquan-
to Historiador. Sendo assim, nossa Unidade I é de extrema importância, pois fornecerá 
as bases teóricas e metodológicas, analisaremos o que realmente é a História das Religi-
ões e quais são as possíveis formas científicas de analisá-la. 
Feita esta contextualização teórica, a Unidade II é encarregada de explicar a você o sur-
gimento das grandes tradições religiosas mundiais,a saber o hinduísmo, o budismo, o 
judaísmo e, por fim, islamismo. Devido ao caráter protagonista que o cristianismo exer-
ceu em todo o ocidente a partir da crise do Império Romano do Ocidente, achamos 
melhor o desenvolvimento de uma unidade inteira acerca dessa religião, a Unidade III, 
contemplando o seu surgimento, desenvolvimento ao longo de toda Idade Média, pas-
sando pela Reforma Protestante até as características dela no período contemporâneo. 
Feito a abordagem desses sistemas religiosos, preparamos para você uma unidade es-
pecífica acerca das religiões brasileiras, como as tradições indígenas, as religiões de raiz 
africana, como o Candomblé e Umbanda, bem como o surgimento e desenvolvimento 
do espiritismo moderno. Essa unidade tem o objetivo de desmistificar uma série de pre-
conceitos existentes.
Por fim, preparamos para você uma unidade sobre o Ensino Religioso, na qual são apre-
sentadas e analisadas todas as informações necessárias para que você possua as condi-
ções necessárias de ocupar o cargo de professor(a) de Ensino Religioso em sua escola. 
Dito isso, convido você para iniciarmos os nossos estudos acerca desse tema tão impor-
tante e fascinante.
Forte abraço e bons estudos!
APRESENTAÇÃO
HISTÓRIA DAS RELIGIÕES
SUMÁRIO
09
UNIDADE I
HISTÓRIA DAS RELIGIÕES: TEORIA E METODOLOGIA
15 Introdução
16 História da Religião: Um Domínio da Ciência Humana 
19 Religião Como Instituição 
21 Origens e Desenvolvimento da História das Religiões 
31 A Fenomenologia e a História das Religiões 
37 A Escola Italiana de História das Religiões 
41 História da Religião e a Filosofia Existencialista 
53 Considerações Finais 
61 Referências 
63 Gabarito 
UNIDADE II
NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DE GRANDES TRADIÇÕES 
RELIGIOSAS: HINDUÍSMO, BUDISMO, JUDAÍSMO E ISLAMISMO 
67 Introdução
68 O Hinduísmo e a Busca por Elevação Pessoal 
76 O Budismo: A Busca e o Encontro do “Caminho do Meio” 
82 A História do Judaísmo 
90 Maomé e a Impossibilidade de Compreensão de Deus 
96 Considerações Finais 
105 Referências 
106 Gabarito 
SUMÁRIO
10
UNIDADE III
BREVE HISTÓRIA DO CRISTIANISMO: NASCIMENTO, 
DESENVOLVIMENTO E TRANSFORMAÇÕES
109 Introdução
110 Nascimento do Cristianismo Enquanto Religião Institucionalizada 
118 A Igreja Católica na Idade Média; a Patrística e a Escolástica: o 
Desenvolvimento da Filosofia Cristã Medieval
131 Reforma Protestante: Nascimento e Consolidação de Novas Vertentes 
Cristãs; os Pré-Reformistas e Martinho Lutero
143 A Igreja Católica Frente à Modernidade e à Contemporaneidade 
148 Considerações Finais 
159 Referências 
160 Gabarito 
SUMÁRIO
11
UNIDADE IV
RELIGIÕES INDÍGENAS, AFRO-BRASILEIRAS E O ESPIRITISMO
163 Introdução
164 A Religião e os Povos Indígenas Brasileiros 
171 Antecedentes Africanos da Religiosidade Brasileira 
175 Religiões Afro-Brasileiras: Candomblé e Umbanda 
181 Os Espíritos do Espiritismo e o Nascimento da “Religião da Razão” 
189 Considerações Finais 
200 Referências 
202 Gabarito 
SUMÁRIO
12
UNIDADE V
O SAGRADO EM SALA DE AULA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A 
DISCIPLINA ENSINO RELIGIOSO
205 Introdução
206 Ensino Religioso: O que é, Aspectos Organizacionais, Fundamentos e 
Alguns Desafios Desta Disciplina
218 A Disciplina Ensino Religioso: Um Caminho Para a Promoção da 
Alteridade 
227 Metodologias e Recursos Pedagógicos à Docência em Ensino Religioso 
238 Considerações Finais 
244 Referências 
247 Gabarito 
248 CONCLUSÃO
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Professor Dr. Fábio Augusto Darius
Professor Me. Augusto João Moretti Junior
HISTÓRIA DAS RELIGIÕES: 
TEORIA E METODOLOGIA
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Compreender a História das Religiões como uma ciência humana.
 ■ Analisar a origem e o desenvolvimento da disciplina de História das 
Religiões no séculos XIX e XX.
 ■ Identificar e compreender a diversidade de interpretações, de 
abordagens e de escolhas teórico-metodológicas na produção de 
conhecimento em História.
 ■ Definir e analisar a vertente fenomenológica e sua importância para o 
estudo da História das Religiões.
 ■ Compreender a visão histórica da Escola Italiana de História das 
Religiões
 ■ Analisar a relação entre a necessidade de se estudar a História da 
Religião para compreender a crise existencialista humana.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ História da Religião: um domínio da ciência humana
 ■ Religião como Instituição
 ■ Origens e desenvolvimento da História das Religiões
 ■ A Fenomenologia e a História das Religiões 
 ■ A Escola Italiana de História das Religiões
 ■ História da Religião e a Filosofia Existencialista
INTRODUÇÃO
Olá, querido(a) aluno(a). Seja bem-vindo(a) à primeira unidade de nosso 
livro de História das Religiões. Nesta unidade, estudaremos um assunto que 
é de fundamental importância para qualquer estudante de História: Teoria 
e Metodologia. Perceberemos, ao longo dessa unidade, que a disciplina de 
História das Religiões difere-se em alguns elementos das outras disciplinas 
estudadas no curso de História. Ao contrário de áreas como História Antiga, 
Medieval ou Contemporânea, que situam o estudo da História em um espa-
ço-tempo, a disciplina de História das Religiões, na verdade, é um domínio 
específico da História. Sendo assim, caro(a) aluno(a), é necessário que se faça 
nessa Unidade I uma contextualização teórica e metodológica desse domínio 
para que, assim, sejamos capazes de compreender as diversas particularidades 
que fazem essa disciplina única. 
Por motivos didáticos, decidimos dividir essa unidade em seis tópicos. 
Inicialmente, discutiremos a importância de compreender a História como 
uma ciência, em suas variadas metodologias e teorias, que fazem dessa ciência 
(História) uma das mais complexas e, ao mesmo tempo, interessante e aberta 
área do conhecimento humano. Busca-se nesse início compreender por que a 
História das Religiões configura-se como um domínio específico da História. 
No segundo momento, de forma sucinta, explicaremos como é possível a aná-
lise de uma religião por meio de uma abordagem institucionalista, ao mesmo 
tempo em que diferenciamos os conceitos de religião e de seita. 
No terceiro momento analisamos todo o percurso científico iniciado no 
século XIX, que propiciou a criação da Ciência das Religiões e da História das 
Religiões. A partir dessa busca pelas suas origens, abordaremos no quarto e 
quinto tópico metodologias e teorias científicas específicas para o estudo das reli-
giões. Por fim, fechamos o nosso texto, contemplando a relação entre a religião 
e a filosofia existencialista que tenta atenuar as angústias do homem moderno. 
Acompanhe-nos nessa busca pelo conhecimento! Sapere Aude! 
Introdução
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HISTÓRIA DAS RELIGIÕES: TEORIA E METODOLOGIA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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HISTÓRIA DA RELIGIÃO: UM DOMÍNIO DA CIÊNCIA 
HUMANA
Caro(a) aluno(a), iniciamos nossa unidade com uma ideia fundamental para as nos-
sas discussões e, em consequência, para a sua formação enquanto historiador: “Não 
se pode improvisar historiadores!” Essa frase tem como intuito alertar aos estudan-
tes de História sobre a importância das considerações teóricas e metodológicas que 
comprovam o caráter científico da disciplina. Se quisermos realmente fazer e compre-
ender o conhecimento histórico é necessário estudá-la enquanto uma ciência que é.
Você provavelmente está se perguntando como é possível realizar tal feito. 
Nesse quesito, caro(a) aluno(a), posso lhe afirmar com a mais absoluta certeza 
de que não existe outro caminho a não ser o conhecimento adequado acerca das 
metodologias e teorias históricas. A partir da fundamentação teórica você será 
capaz de entender e, até mesmo, aplicar essa cientificidadeà disciplina. 
Sabe-se que o caráter teórico das disciplinas de História é a parte mais com-
plexa de ser compreendida. Todavia, peço a você que se dedique intensamente 
nessa unidade, pois trataremos dessas questões da forma mais didática possível. 
Volto a afirmar: não se pode apreender ou escrever História sem os aportes teóri-
cos e metodológicos corretos e necessários. Afinal, são esses suportes estruturais 
que diferenciam a História da estória, ou ainda o que os ingleses sabiamente dife-
renciam em sua língua, history e story. 
História da Religião: Um Domínio da Ciência Humana
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De acordo com Paul Veyne (1983), a narração e a compreensão não bastam 
para o historiador, é necessário a criação de uma inteligibilidade científica. Na 
História, é preciso determinar as constantes para poder explicá-la “cientificamente 
ao invés de restringir-se a narrá-la superficial e ilusoriamente” (1983, p. 20). As 
constantes teóricas permitem escrever a História à luz das ciências dos homens.
Nesse momento, você pode estar se perguntando por que teremos uma uni-
dade relativa à teoria no livro de História das Religiões. Uma dúvida plausível, 
todavia, a explicação é bastante simples. Quando estudamos as disciplinas de 
História Antiga, História Medieval, História Moderna, História Contemporânea, 
etc., nós analisamos um período específico e dentro deles é possível estudar os 
mais diversos domínios da História. Entre esses domínios da História podemos 
citar a História Econômica, História Social, História das Ideias, História Cultural, 
História das Religiões e das Religiosidades etc. 
Perceba, caro(a) aluno(a), que essa disciplina trabalha um domínio da 
História específico ao longo dos séculos e, como um domínio, ela possui seus 
próprios modelos teórico-metodológicos específicos para ser analisada; entre eles, 
podemos elencar a Fenomenologia, a Escola Italiana de História das Religiões e o 
método comparativo, a História das ideias ou, ainda, a História das instituições. 
Por conseguinte, essa unidade teórica é fundamental para o desenvolvimento e 
compreensão da disciplina de História das Religiões. 
Durante o século XX, a História, enquanto ciência, passou por uma crise dos 
seus paradigmas e seu caráter científico foi questionado em relação à sua 
capacidade de atingir a realidade. Questionou-se a diferença da História e 
das narrativas literárias. Procuramos responder a essa pergunta da forma 
mais simples possível. De acordo com Paul Ricouer (2007), um primeiro ele-
mento que diferencia a História da ficção é o “pacto” implícito realizado en-
tre escritor e leitor – diferente da narrativa de ficção, o leitor de uma obra 
histórica espera um discurso plausível, honesto e verídico. Um segundo ele-
mento, apontado por Roger Chartier (2002), é a dependência do Historiador 
com os arquivos, os documentos, os critérios da cientificidade e operações 
técnicas – teoria e metodologia – que são próprias do ofício do historiador.
Fonte: os autores.
HISTÓRIA DAS RELIGIÕES: TEORIA E METODOLOGIA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Antes de adentrarmos nessa discussão teórica a respeito da disciplina de 
História das Religiões, é importante que façamos a seguinte pergunta: o que sig-
nifica o termo/conceito religião? 
De acordo com Jacques Derrida (2000), definir a palavra religião etimologi-
camente não é uma tarefa fácil, pois, nem sempre houve, e ainda nos dias atuais 
também não há: “algo, uma coisa una e identificável, idêntica a si mesma que leve 
religiosos e/ou irreligiosos a ficar de acordo para lhe atribuir o nome de ‘religião’” 
(DERRIDA; VATTIMO, 2000, p. 52). O autor explica que nos povos indo-eu-
ropeus não há um termo comum para o que atualmente chamamos de religião. 
Isso ocorre porque os povos indo-europeus não concebiam a “religião” como 
uma instituição à parte, ela seria algo presente em toda vida, logo, não poderia 
ser designada por um termo específico. 
Todavia, o termo atual foi formulado a partir da língua latina e dois termos 
teriam dado origem à palavra religião com o sentido que temos hoje. O primeiro 
seria o conceito de Cícero relegere, e o segundo de Lactâncio e Tertuliano, religare. 
De acordo com Jacques Derrida, são conceitos de etimologia “inventada pelos 
cristãos”, e que liga a religião precisamente ao ligamento do “dever e obrigação 
dos homens entre si ou entre estes e Deus” (DERRIDA, VATTIMO, 2000, p. 53). 
Se tivéssemos que definir religião de uma forma mais clara e objetiva, tería-
mos que dividir essa compreensão em duas partes, uma em sentido real objetivo 
e outra de sentido real subjetivo. De acordo com Irineu Wilges (1994, p.15):
Em sentido real objetivo, religião é o conjunto de crenças, leis e ritos 
que visam um poder que o homem, atualmente, considera supremo, 
do qual se julga dependente, com o qual pode entrar em relação pes-
soal e do qual pode obter favores. Em sentido real subjetivo, religião é 
o reconhecimento pelo homem de sua dependência de um ser supre-
mo pessoal, pela aceitação de várias crenças e observância de várias 
leis e ritos atinentes a esse ser.
De acordo com Waldomiro Piazza (1983), não se pode falar de religião como 
se houvesse apenas uma, de sentido universal e que evoluiu desde o início da 
humanidade até os nossos dias. O correto é falar em religiões no plural, que 
desempenharam ou desempenham um papel marcante na humanidade. Todavia, 
não podemos negar que as religiões, por mais diferentes que sejam, possuem ele-
mentos em comuns bem definidos.
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RELIGIÃO COMO INSTITUIÇÃO
Propomos nessa unidade uma análise da 
História das Religiões enquanto uma ciência 
histórica. Todavia, antes de adentrarmos à aná-
lise sobre a formação desse domínio da História, 
gostaríamos de explicar a nossa concepção das 
religiões enquanto uma instituição. Concepção 
essa utilizada em nossas aulas como forma de 
compreender a História. 
A pesquisa histórica a partir do estudo das 
instituições se justifica, porque estas repre-
sentam as mais variadas relações com os contextos históricos em que foram 
produzidas. Entendidas como órgãos ou práticas sociais, as instituições oferecem 
uma gama muito variada de pesquisa. Nesse sentido, a História das instituições 
possibilita não só o entendimento de estruturas políticas ou religiosas, mas tam-
bém de conjuntos de pensamentos, que agem na História em períodos de curta, 
média ou longa duração, atuando em processos de mudanças ou permanências.
Você sabe o que significa uma História de curta, média ou longa duração? Tenta-
mos, rapidamente, explicar-lhe. Esse tema foi debatido pelo importante Historia-
dor Fernand Braudel, que explicava que um fato não poderia ser compreendido 
de forma isolada, mas sim de forma múltipla e simultânea, ou seja, levando o his-
toriador a se voltar para todo contexto em torno do fato. Para explicar sua teoria, 
Braudel formulou os conceitos de curta, média e longa duração. A curta duração 
seria o fato em si, ou tempo que este fato durou. No caso de uma guerra, por 
exemplo, seria o tempo de sua duração. A média duração seria o contexto que 
envolveu esse fato, as últimas décadas chegando a mais ou menos meio século 
antes do fato em si. Quanto à longa duração, a análise se voltaria a tempos mais 
longínquos, buscando compreender assuntos que ultrapassam a guerra, mas 
que a influenciaram de forma indireta por meio da cultura daquela sociedade.
Fonte: os autores.
HISTÓRIA DAS RELIGIÕES: TEORIA E METODOLOGIA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Figura 1 - Basílica de São Pedro - Vaticano, Roma
Fonte:arquivo pessoal. 
Não consideramos as instituições apenas como algo burocrático e físico, como 
os templos religiosos, mas sim toda forma organizada e coerente de pensa-
mento, mesmo sem ser formalizada burocraticamente e sem possuir estruturas 
materiais fixas. Assim, compreendemos as religiões como instituições, pois são 
formas organizadas de pensamento, ritos e ideias que se propagam ao longo 
dos séculos, sofrendo alterações maiores ou menores dependendo do contexto 
no qual estão inseridas. 
Você sabe a diferença entre os conceitos de religião e seita? De acordo com 
o Léxico das Religiões de Franz König e Hans Waldenfels, o termo seita vem 
do latim secta, de seguir. De acordo com os autores, “ele espelha o confron-
to de igrejas e religiões como minorias dissidentes, que são julgadas como 
heréticas e ilegítimas e, por sua vez frequentemente negam legitimidade às 
organizações mães”. 
Fonte: Wandenfels (1995).
Origens e Desenvolvimento da História das Religiões 
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ORIGENS E DESENVOLVIMENTO DA HISTÓRIA DAS 
RELIGIÕES 
Caro(a) aluno(a), como foi indicado anteriormente, a História das Religiões e 
Religiosidades constitui-se como um domínio específico da História. Todavia, nós, 
enquanto historiadores, precisamos estar cientes de que nem sempre foi assim. 
Esse campo teórico-metodológico é relativamente recente, sendo que os esfor-
ços para tornar os estudos acerca da religião uma ciência iniciaram-se apenas 
no século XIX, com outras disciplinas que não eram necessariamente a História. 
Nesse momento, é importante compreendermos a trajetória realizada pela nossa 
disciplina na formação de seus objetos e metodologias próprios. Inicialmente, 
faremos uma análise dos primeiros esforços, passando pelas suas fases iniciais e 
as contribuições de outras áreas, como a sociologia. Como explica José Severino 
Croatto (2001), o fato religioso pode ser estudado por todas as ciências humanas 
ou sociais, sendo que cada uma delas possui um olhar particular.
Sabe-se que desde o fim da Idade Média, no século XV, a intelectuali-
dade europeia iniciou um processo de racionalização da compreensão da 
sociedade e, de forma mais abrangente, do mundo como um todo. Com o 
passar dos séculos e o fortalecimento do movimento Iluminista no século 
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XVIII, cada vez mais a razão ganhou destaque para explicar os fenômenos 
naturais e sociais que estavam e até hoje estão presentes no nosso dia a dia. 
A formação da disciplina de História das Religiões foi resultado desse con-
texto do século XIX, período no qual a sociedade europeia vivia um processo 
de dessacralização e racionalização. 
De acordo com Giovanni Filoramo e Carlo Prandi (1999), as ciências vol-
tadas para o estudo da religião tiveram início no século XIX, período no qual 
tanto as ciências humanas quanto as ciências naturais passavam por um pro-
cesso de ramificação, uma consequência direta das transformações pelas quais 
o ocidente europeu passava, das quais podemos citar: a Revolução Industrial e 
o Imperialismo. Somadas, essas mudanças proporcionaram ao europeu o con-
tato com diversas culturas diferentes ao redor de todo mundo, exigindo assim, 
novas ferramentas de análises socioculturais para compreender por exemplo, as 
diferentes religiões das quais estavam entrando em contato naquele momento.
Somava-se à dessacralização da sociedade europeia o declínio da hege-
monia cristã, o contato com as novas religiões e a ânsia de compreendê-las. 
O homem do século XIX buscava compreender não somente uma religião 
específica, mas também a religiosidade do homem e o fenômeno religioso 
em si. Esses diversos elementos contribuíram para o advento no século XIX 
de uma nova disciplina, a História das Religiões que inicialmente fazia parte 
ainda, da(s) Ciência(s) da Religião. 
Caro(a) aluno(a), antes de adentrarmos especificamente na formação da dis-
ciplina de História das Religiões, é de extrema importância compreendermos 
o papel que outras disciplinas tiveram na formação das ciência das religiões e, 
consequentemente, no domínio histórico trabalhado nesse livro. A historiogra-
fia, que realiza um resgate da origem da História das Religiões ou da Ciência 
da Religião, em algum momento apresenta a importância da Sociologia para os 
estudos iniciais desse nosso campo de estudo. Sendo assim, acreditamos que seja 
fundamental para a sua formação um breve conhecimento acerca dos estudos 
sociológicos, que foram pioneiros nos estudos da religião enquanto uma ciência. 
No século XIX, boa parte dos sociólogos foram influenciados pelo positivismo 
e evolucionismo. Por meio dessas teorias, buscavam compreender o desenvolvi-
mento ou mesmo a “evolução” religiosa da humanidade. Ou seja, inicialmente os 
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estudos sociológicos da religião foram realizados com o objetivo de demonstrar 
a evolução das religiões e a sua ligação com as estruturas sociais, buscava-se nas 
religiões ditas mais “primitivas” os elementos iniciais das sociedades religiosas. 
Pois, compreendendo as características iniciais entenderia-se o desenvolvimento 
necessário para alcançar o que eles denominavam de uma religião mais desen-
volvida, como o caso apontado por Max Weber do protestantismo.
Para a sua melhor compreensão do tema, façamos uma breve recuperação 
acerca dessas análises que privilegiavam o papel social da religião e ajudaram 
a consolidar um novo campo do conhecimento, que se estrutura no século 
XIX e início do XX: a Sociologia. Como apresentado anteriormente, durante 
o século XIX, devido ao Imperialismo, os europeus entraram em contato com 
outras culturas e povos de uma forma mais frequente e ativa. Esse contato fez 
com que diversas teorias criassem uma hierarquia política e cultural entre 
os povos; entre essas teorias devemos dar destaque ao discurso positivista 
e evolucionista, que analisou os diferentes sistemas religiosos encontrados 
naquele século.
O positivismo foi baseado nas ideias de Auguste Comte (1798-1857) e sua 
teoria dos três Estados, que, segundo Jacqueline Hermann (1997), era consti-
tuída por três fases, estados ou atitudes mentais: o teológico, o metafísico e o 
positivo – uma fase final que superaria as hipóteses religiosas e metafísicas, e as 
substituiria pelas explicações científicas. Logo, caro(a) aluno(a), como podemos 
perceber, a teoria positivista pregava por um contínuo progresso da sociedade, 
fosse ele político, tecnológico, cultural e, também, religioso.
A teoria sociológica positivista de Comte, aliada à teoria evolucionista de 
H. Spencer (1820-1903), também do século XIX, influenciou os estudiosos das 
ciências das religiões daquele período. Entre eles, podemos citar Edward Burnett. 
B. Tylor (1832-1917), que, acreditando nesse progresso das religiões, desenvol-
veu teorias a respeito das culturas e religiões primitivas em sua obra Primitive 
Culture (1871). De acordo com Mircea Eliade:
O livro de E.B. Tylor, Primitive Culture, que fez época ao lançar uma 
nova moda, a do animismo: para o homem primitivo, tudo é dotado de 
uma alma, e essa crença, fundamental e universal não só explicaria o 
culto dos mortos e dos antepassados, mas também o nascimento dos 
deuses (ELIADE, 1992, p. 11). 
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Desta forma, o animismo para Tylor era a característica original da criação reli-
giosa, a qual, por meio de um processo evolutivo, chegaria ao politeísmo e, em 
seguida, ao monoteísmo. Outropensador que propagou esses mesmos ideais 
evolucionistas da religião foi Sir James George Frazer (1854-1941), na obra The 
Golden Bough (O Ramo de Ouro), de 1890. De acordo com Filoramo e Prandi 
(1999, p. 28), os trabalhos de E. B. Tylor e James Frazer:
Propunha-se evidenciar os tipos recorrentes de crenças e rituais reli-
giosos, estabelecer sua ordem evolutiva, de modo que permite que se 
respondesse à pergunta fundamental que dominava todas as pesquisas 
da época: qual a origem da religião?
É importante lembrarmos que os povos de religião animista analisados por Tylor 
e Frazer eram tribos da Austrália, da Malásia, entre outras. No animismo dessas 
populações, as práticas religiosas são atreladas à necessidade de superação de 
suas dificuldades materiais imediatas; assim, a religião possuía para esses povos 
um sentido pragmático.
O professor de História das Religiões da Universidade de São Paulo (USP), 
Adone Agnolin, realiza uma advertência acerca do sistema desenvolvido por E. 
Tylor e J. Frazer. De acordo com Agnolin (2008), na teoria animista, as religiões 
não eram analisadas de acordo com suas dimensões históricas, sendo resumi-
das a mero sistema classificatório, não analisando de fato aquela religião e suas 
particularidades.
De acordo com Eliade (1992), outros movimentos surgiram durante o século 
XIX que, assim como Tylor e Frazer, buscavam explicar as origens das religiões. 
Entre eles Émile Durkheim (1858-1917) que, a partir da análise da vida religiosa 
dos aborígenes australianos, afirmou ser o totemismo a explicação sociológica da 
religião, podendo ser considerada a primeira forma religiosa e não o animismo 
apontado por Tylor (ELIADE, 1992).
Acerca das ideias religiosas de Émile Durkheim, em sua obra As formas 
elementares da vida religiosa (1912), o sociólogo estabeleceu a religião como 
uma forma de coesão social. Durkheim estruturava a sociologia como uma 
disciplina positiva e objetiva, absorvendo a base evolucionista comteana. 
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Tentou desenvolver um sistema metodológico que fosse capaz de identificar 
as leis de funcionamento das sociedades e dos diferentes grupos que a com-
põe. Jacqueline Hermann explica que Durkheim analisava os casos religiosos 
mais simples, totemismo, e ia para os mais complexos, que seria a sociedade 
européia de seu tempo. O sociólogo buscava compreender a leis que regiam 
o funcionamento das sociedades (HERMANN, 1997).
Todavia o já citado Frazer demonstrou em seus trabalhos que o totemismo 
não se difundiu por todo mundo, desta forma não poderia ser considerado a 
forma de religião mais antiga. Caro(a) aluno(a), não se esqueça que a sociologia 
buscava estruturas sociais que pudessem explicar o processo de desenvolvimento, 
ou mesmo, de evolução das religiões. Por isso, essa busca pelas características 
que seriam a origem das religiões, como vimos o animismo, de E. Tylor, e o tote-
mismo, de E. Durkheim, foram ideias que justificavam os europeus enquanto 
sociedades superiores, já que em suas teorias, o cristianismo que eles viviam 
era a religião mais desenvolvida, que significava o ápice do desenvolvimento 
religioso de uma sociedade. 
Como explica Adone Agnolin (2008, p. 17): 
Durkheim realmente tenta fundar a sua análise sobre dados históricos. 
O problema, todavia, permanece na medida em que esse resultado é al-
cançado com a redução do conceito de religião a uma “lei” sociológica 
que, de fato e mais uma vez, a des-historifica, da mesma forma em que 
a atenta análise do “totem” na sociedade australiana é des-historificada 
quando se torna o signo distintivo da sacralidade do social nas socieda-
des “simples” consideradas em seu conjunto. 
Ou seja, quando Durkheim adotou os preceitos evolucionistas do positivismo, 
reforçou, segundo Hermann (1997), o etnocentrismo das observações europeias 
sobre as sociedades primitivas. De acordo com a autora, o maior entrave do tra-
balho de Durkheim para a 
[...] elaboração de uma história das religiões seja o fato do autor traba-
lhar com a idéia de uma sociedade modelo e imutável, organizada por 
leis rígidas e imunes às transformações da vida em sociedade, imunes 
portanto ao tempo e à história (HERMANN, 1997, p. 333).
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Por fim, chegamos a outro importante sociólogo, que teve um papel fundamental 
no desenvolvimento das ciências das religiões e, consequentemente, na História 
das Religiões: Max Weber. De acordo com Jacqueline Hermann (1997), Max 
Weber foi o sociólogo responsável por consolidar a relação entre a sociologia do 
conhecimento e a sociologia da religião. A partir de sua obra é possível diferen-
ciar a sociologia da História. De acordo com Hermann, a sociologia weberiana
[...] teria por objetivo a construção de “conceitos-tipos”, propondo-se 
a encontrar as regras gerais dos fenômenos sociais, ao contrário da se-
gunda (história), cuja preocupação seria a análise e a explicação causal 
de estruturas e ações individuais, consideradas culturalmente impor-
tantes (HERMANN, 1997, p. 333).
Um dos principais avanços realizados por Max Weber foi compreender que as 
ações realizadas por motivos religiosos ou mágicos são ações racionais. Outro 
foi a sua capacidade de sistematizar conceitos que foram fundamentais para o 
posterior estudo da História das Religiões. Todavia, assim como explicamos 
Animismo: E. B. Tylor o usou para dar um nome a sua teoria da origem da 
religião: “[...] era a crença de que a cultura humana teria se desenvolvido 
de modo retilíneo da idade da pedra até a era moderna, se bem que com 
velocidade diferente em raças diferentes. Ao mesmo tempo, [...] trata-se da 
crença em seres espirituais, que teria desenvolvido desde almas de pessoas 
falecidas, passando por outros espíritos [...]. Daí os primitivos teriam depre-
endido a ideia de uma alma (anima) desligada do corpo. Eles teriam expli-
cado para si seu ambiente com a ajuda dessa ideia. Teriam ‘animado’ monta-
nhas, plantas, rios, animais e objetos” (WALDENFELS, 1995, p. 36).
Totem/Totemismo: sistema religioso baseado no culto a um animal, vege-
tal ou qualquer outro objeto que possa ser considerado como ancestral ou 
símbolo de uma coletividade (tribo, clã). Ao consagrar o totem no sacrifício, 
os homens entravam em contato vital com ele, robustecendo o parentesco 
a fim de por meio dele participar da vida divina. Durkheim acreditava não 
só estar diante da forma mais elementar de crença religiosa, como ter en-
contrado a explicação sociológica da religião (SCHLESINGER, 1995, p. 2536).
Fonte: Waldenfels (1995, p. 36) e Schlesinger (1995, p. 2536).
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anteriormente em relação ao pensamento de Émile Durkheim, a obra de Max 
Weber também buscou formular regras gerais que orientassem as religiões, seu 
trabalho também hierarquizava as religiões de acordo com a sua capacidade de 
se tornarem universais, como ocorreu com o islamismo e o cristianismo. Uma 
vez mais nos utilizamos das palavras de Jacqueline Hermann para compreender 
essa hierarquização weberiana das religiões:
Para ilustrar a lógica do pensamento weberiano, basta lembrar a relação 
que o autor faz entre a reforma protestante e o “espírito do capitalismo”, 
procurando demonstrar como a religião considerada mais racionaliza-
da atuou na criação de uma sociedade mais avançada política e econo-
micamente [...] Weber manteve uma leitura etnocentrista, evolucionis-
ta e mesmo idealista da história das religiões, contribuiu imensamente 
para lançar a temática das religiões no campo das reflexõesconceituais, 
indispensáveis para sua estruturação e sistematização como disciplina 
(HERMANN, 1997, p. 334-335). 
De maneira concomitante a esse desenvolvimento de uma sociologia religiosa, de 
autores como Tylor, Frazer, Durkheim e Weber, desenvolvia-se um novo campo 
do conhecimento, que tinha como objetivo fazer um estudo comparado das dife-
rentes tradições religiosas conhecidas até então (devido ao Imperialismo) para 
assim, reconstruir a História da religião. De acordo com Mircea Eliade (1992), 
o primeiro autor a utilizar a expressão “ciência das religiões” ou ciência compa-
rada das religiões” foi Max Müller, em 1867. Pouco a pouco, a História ou ciência 
das religiões foi tornando-se presente no campo acadêmico, tendo obtido a pri-
meira cátedra universitária em 1873 na Universidade de Genebra, seguida em 
1876 por mais quatro cátedras na Holanda. De acordo com Eliade, em 1879, o 
Collége de France, em Paris, também criou uma cátedra para a disciplina, e assim 
também o fez a École des Hautes Études da Sorbonne em 1885 (ELIADE, 1992). 
Por conseguinte, na segunda metade do século XIX, desenvolveu-se a ciência 
das religiões no campo acadêmico. De acordo com Jacqueline Hermann (1997), 
essa nova área do conhecimento possuía como objeto a “análise dos elementos 
comuns às diversas religiões, suas leis evolutivas e a forma primeira da religião” 
(HERMANN, 1997, p. 335). Nesse período, ainda era comum uma confusão entre 
os termos ciência das religiões e História das religiões, já que nesse momento 
ocorria uma separação lógica entre os estudos científicos da religião da teologia. 
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A autora explica que a ciência das religiões ou a História das religiões possuía um 
foco específico, que era a “origem das religiões, de um lado, e a essência da vida 
e do homem religioso, do outro” (HERMANN, 1997, p. 335). 
Tanto a filosofia quanto a teologia foram retiradas do Congrès d’Histoire des 
Religions que ocorreu em Paris em 1890, o que quer dizer que foi retirada dos 
estudos ditos “científicos” da religião. A busca por essa cientificidade no estudo 
das religiões e religiosidades fez com que os pesquisadores abandonassem a filo-
sofia e a teologia, para utilizarem-se de disciplinas como a História, sociologia, 
antropologia, linguística e psicologia.
A utilização de diversos campos do conhecimento para analisar as religi-
ões, como citado no parágrafo anterior, nos leva uma reflexão acerca de seu 
campo disciplinar. De acordo com Filoramo e Prandi (1999), as pessoas ten-
dem a analisar a ciência da religião como uma disciplina que possui um único 
método científico assim como, apenas um objeto unitário. Todavia, de acordo 
com os autores, seria correto falar em ciência(s) das religiões, já que é uma área 
do conhecimento que possui um pluralismo metodológico, assim como um plu-
ralismo de objetos. De acordo com os autores:
As ciências das religiões não constituem uma disciplina à parte, fundada, 
como gostaria a tradição hermenêutica orientada, na unidade do objeto 
e a unidade do método. Antes, ela é um campo disciplinar e, como tal, 
uma estrutura aberta e dinâmica (FILORAMO; PRANDI, 1999, p. 13). 
Sendo uma estrutura aberta e dinâmica, cabe a nós que estudamos História das 
religiões delimitar os nossos objetos e metodologias dentro das ciências das reli-
giões de forma histórica. 
Todavia realizar essa análise histórica aberta e dinâmica possui uma série de 
dificuldades, entre elas o fato de que a História e as religiões estão sempre em 
transformação. Filoramo e Prandi (1999) explicam que o historiador das religiões 
deve estar atento não apenas ao momento diacrônico do acontecimento religioso, 
mas também o sincrônico, principalmente na História comparada das religiões, ou 
nos estudos dos fenômenos religiosos. Deve-se estar atento não somente à gênese, 
desenvolvimento e fim da religião ou de um fenômeno religioso, mas também aos 
elementos relativos à duração, aos modelos e às estruturas (FILORAMO; PRANDI, 
1999). Essas dificuldades geraram uma série de críticas à História da Religião.
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Em 1970, Angelo Brelich publicou um artigo na Revista de História das 
Religiões: as religiões antigas I - utilizamos aqui uma tradução do texto para o 
espanhol publicada em 1979 - intitulado “Prolégomènes à une histoire des reli-
gions”, que foi capaz de rebater uma série dessas críticas que foram realizadas 
contra a disciplina de História das Religiões enquanto uma ciência. 
Analisamos alguns pontos importantes estudados por Brelich (1970), e 
uma das críticas realizadas no período afirmava que não podia existir uma 
História das religiões devido à grande quantidade de religiões existentes e do 
longo período que já existem. Logo, seria impossível ao historiador ter conhe-
cimento sobre elas para poder analisar a religião como um todo. Todavia, 
Brelich explica que a disciplina de História das Religiões não se diferencia 
das outras disciplinas da área como História da Arte. Também é impossível 
que um historiador conheça a fundo as artes de todas as épocas e de todos 
os povos. Sendo assim, pouco importa se os historiadores e investigadores 
dominam a totalidade da história humana. Na verdade, é importante que o 
historiador limite seus estudos a setores restritos, pois, segundo o autor, o 
que é realmente importante para a constituição da História é a utilização do 
método que a disciplina exige, a História depende da metodologia particular 
de cada disciplina (BRELICH, 1979).
Neste momento, caro(a) aluno(a), após essa fala de Brelich acerca da 
importância da metodologia, você deve estar se perguntando: que meto-
dologia é essa? Felizmente, essa não é uma pergunta com resposta simples. 
Talvez, a melhor resposta seria: Depende. Isso mesmo, como você pôde 
aprender na disciplina de Teorias da História existem n tipos de metodolo-
gias passíveis de serem utilizadas na pesquisa histórica. Para amenizar um 
pouco a sua dúvida, apresentamos a metodologia que Angelo Brelich afirma 
ser a melhor para o estudo histórico das religiões. Contudo, nos subitens 
seguintes deste capítulo, apresentaremos outras metodologias e teorias que 
podem ser utilizadas na História das Religiões.
Agora vamos analisar a proposta metodológica de Angelo Brelich. De 
acordo com o historiador das religiões, o “método comparativo é o único que 
pode iluminar a História das Religiões” (BRELICH, 1979, p. 95). A compara-
ção histórica proposta aqui é diferente da comparação fenomenológica e da 
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evolucionista de Tylor e Frazer, que tinham como objetivo compreender a ori-
ginalidade de cada religião. Por meio da comparação histórica, Brelich afirma 
ser possível ao historiador descobrir a essência das religiões e entender as for-
mas a partir das quais o homem manifesta seu modo de ser, que consiste em 
criar, em viver historicamente. 
A seguir, apresentamos um excerto do autor que resume bem a sua ideia 
acerca da História das Religiões e sua metodologia:
O que sim é importante é que estude dita religião no marco da História 
das Religiões e não no da história de tal civilização; que sua problemá-
tica e seu método sejam o da história das religiões; método que como já 
vimos, é essencialmente comparativo, ainda que a comparação de cada 
estudioso deva remeter-se as investigações de seus colegas especializa-
dos em outros setores históricos e filológicos [...] (BRELICH, 1979, p. 
97, tradução nossa). 
Ainda que seu trabalho tenha sido de grande importância para o desenvolvi-
mento da História das Religiões como disciplinacientífica, Jacqueline Hermann 
(1997) apresenta alguns elementos que devem ser levados em consideração ao 
analisarmos a obra de Brelich. De acordo com a autora, a proposta de Angelo 
Brelich acrescenta pouco à História comparada formulada por Müller, pois ela 
ainda teria a função de descobrir a religião “primordial”, que, segundo a autora, 
é historicamente impossível de ser alcançada.
O fato que devemos estar atentos é que a disciplina de História das religiões 
se consolidou como uma disciplina ou domínio, específico da História, e possuí 
em seu seio diversas possibilidades teórico-metodológicas. Os temas tam-
bém são variados, os quais Hermann aponta: História das Doutrinas; História 
Eclesiástica; História das Crenças: mentalidades e História das crenças: circula-
ridades e hibridismos culturais. 
Para José Severino Croatto (2001), a História das religiões tem como objeto 
material os fatos religiosos em si mesmo, uma análise isolada, ou de forma 
comparada com outras religiões. Por isso, o método utilizado na História 
das religiões pode ser: “descritivo, analítico ou comparativo” (CROATTO, 
2001, p. 18). Nesse capítulo introdutório acerca de teorias da História das 
Religiões, privilegiamos duas linhas específicas de pesquisa: a fenomenolo-
gia e a Escola Italiana de História das Religiões. De acordo com Mircea Eliade 
A Fenomenologia e a História das Religiões
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(1992), os historiadores da religião estariam divididos entre essas duas orien-
tações metodológicas, as quais, apesar de divergentes, complementam-se. A 
Fenomenologia, segundo o autor, concentra seus esforços para compreender 
as estruturas específicas dos fenômenos religiosos, enquanto a outra dá prefe-
rência ao contexto histórico desses fenômenos: “os primeiros esforçam-se por 
compreender a essência da religião, os outros trabalham por decifrar e apre-
sentar sua História” (ELIADE, 1992, p. 11). Analisamos a seguir essas duas 
orientações teórico-metodológicas da História das Religiões. 
A FENOMENOLOGIA E A HISTÓRIA DAS RELIGIÕES
Caro(a) aluno(a), neste item temos como intenção explicar e definir, da forma 
mais simples possível, o que é o estudo fenomenológico da religião, o seu desen-
volvimento, suas principais ideias e representantes.
FENOMENOLOGIA: DEFINIÇÃO
Existem várias definições para fenomenologia religiosa; para José Croatto (2001), 
é uma ciência que estuda os fenômenos religiosos a partir das suas expressões e 
busca a intenção e origem des-
ses fenômenos. É uma análise 
que vai dos testemunhos (os 
fenômenos religiosos) até a sua 
fonte geradora (CROATTO, 
2001). A fenomenologia não 
estuda os fatos religiosos em 
si mesmo, mas a sua intencio-
nalidade, essência e estruturas.
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Para Angelo Brelich, um dos integrantes da Escola Italiana de História 
das Religiões – Escola teórico-metodológica que analisaremos no item poste-
rior – , a fenomenologia se apresenta como uma alternativa metodológica ao 
método histórico. De acordo com Brelich (1979), a utilidade da fenomenolo-
gia consiste em:
fazer compreender aos especialistas de cada civilização que todo fenô-
meno religioso transcende seu setor de especialização e em mostrar, 
apresentando a ampla gama de variabilidade de cada fenômeno, que 
qualquer feito religioso de uma civilização não é mais que a manifes-
tação específica de algo muito mais geral e muito mais vasto. [...] um 
fenômeno religioso - como por exemplo uma forma de oração, um tipo 
de mito, a veneração de uma categoria de seres sobre-humanos, certo 
gêneros de proibições religiosas, etc. - se manifesta em numerosas re-
ligiões ainda que de formas muito variadas (BRELICH, 1979, p. 75).
Em síntese, a fenomenologia das religiões analisa os fenômenos religiosos con-
cretos como variantes de supostos fenômenos ditos fundamentais e que podem 
ser encontrados em diversas religiões. Como explica Prado e Silva Júnior (2014), 
a vertente fenomenológica, também chamada de essencialista, está “mais com-
prometida com o passado originário comum e com a transcendentalidade 
fundamental das manifestações religiosas” (PRADO; SILVA JÚNIOR, 2014, p. 
14). Assim, a fenomenologia estuda:
1- O sentido das expressões religiosas no seu contexto específico; 2- 
Sua estrutura e coerência (morfologia); 3- Sua dinâmica (desenvolvi-
mento, afirmações, divisões etc.) (CROATTO, 2011, p. 27).
Podemos utilizar como uma última definição o trabalho de Waldomiro Piazza 
(1983). Para o autor, a fenomenologia religiosa surgiu com o objetivo de cap-
tar o elemento transcendente da experiência religiosa, elementos que as outras 
ciências da religião – História, psicologia, sociologia, teologia e antropolo-
gia – não conseguiam analisar. Busca-se estudar a religião de forma objetiva 
e científica, analisando seu significado próprio, nas formas como se mani-
festa no comportamento humano. Certamente que essa análise se apoia nas 
outras ciências das religião já citadas, todavia, ela possui uma perspectiva 
de análise diferenciada. A fenomenologia religiosa surge como uma “ciência 
do significado do fenômeno religioso”, ela seria o estudo sistemático do fato 
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religioso nas suas manifestações e expressões sensíveis (PIAZZA, 1983). A 
Fenomenologia estuda o significado dos fenômenos religiosos como expres-
sões do pensamento e sentimento humano:
A Fenomenologia Religiosa supõe a pesquisa histórica dos fatos reli-
giosos e emprega o método comparativo na classificação dos mesmos, 
mas vai mais a fundo, pois estuda o significado destes fenômenos como 
expressão do pensamento e do sentimento do homem com respeito a 
Deus. No entanto, ela não supõe a existência de Deus, como a teologia, 
nem emite um juízo de valor sobre os sistemas religiosos, como a filo-
sofia. Ela é uma ciência profundamente humana (BRANDON, 1975 
apud PIAZZA, 2001, p. 19). 
FENOMENOLOGIA: ORIGENS E DESENVOLVIMENTO
Definido quais são os objetos e objetivos da Fenomenologia, analisamos agora 
as suas origens e desenvolvimento. De acordo com Filoramo e Prandi (1999), a 
expressão “fenomenologia religiosa” (FR) foi desenvolvida pelo holandês P.D. 
Chantepie de la Saussaye, professor de História das Religiões da Universidade de 
Amsterdã, a partir de 1878. Foi utilizada inicialmente para indicar o momento 
sistemático da disciplina, além de investigar historicamente as religiões devia-se 
também evidenciar os aspectos permanentes da religião. Para o cumprimento 
desse segundo objetivo recorreu ao já existente (e já trabalhado nesse capítulo) 
método comparativo, que permitiria identificar e classificar os grupos de mani-
festação religiosa (FILORAMO; PRANDI, 1999).
Sendo assim, Chantepie, apesar de criar essa nova expressão, não foi respon-
sável por criar um novo método, somente propôs uma nova palavra de ordem 
para esse tipo de pesquisa sistemática no mundo das religiões. Entretanto, caro(a) 
aluno(a), apesar de Chantepie não ter criado um novo método, suas ideias foram 
um ponto de partida que levaria à “verdadeira” fenomenologia da religião cin-
quenta anos depois – uma fenomenologia da religião criada por outro holandês, 
Gerardus van der Leeuw. Enquanto a fenomenologia de Chantepie estava presa 
ao positivismo evolucionista do século XIX, a de van der Leeuw foi uma reação 
à teoria positivista (FILORAMO; PRANDI, 1999).
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Antes de adentrarmos à obra de van der Leeuw, é preciso que façamos uma 
rápida recuperaçãoa respeito de outro importante nome para a fenomenolo-
gia: Rudolf Otto. De acordo com Agnolin, a obra Das Heilige (O Sagrado, 1917) 
é um marco inicial da fenomenologia essencialista. Em Otto, os fenômenos e 
experiências religiosas não podem ser observados em si mesmas, pois as carac-
terísticas do Sagrado só podem ser observadas no “sentimento que o sagrado 
inspira no homem religioso: é esse sentimento que permite analisar o religioso 
numa perspectiva declaradamente teológica” (AGNOLIN, 2008, p. 18). Devido 
a essa busca pelo sentimento inspirado no homem religioso, o método psico-
lógico possui uma centralidade em suas obras (FILORAMO; PRANDI, 1999). 
Voltando a Gerardus van der Leeuw (1890-1950), esse foi professor de História 
das Religiões da Universidade de Groningen e se propôs a construir uma feno-
menologia religiosa. Sua obra clássica é a Phänomenologie der Religion (1933) 
(Fenomenologia da Religião). Segundo Croatto (2001), Leeuw:
entende a experiência religiosa como uma experiência do poder trans-
cendente que busca sua realização. O ser humano encontra-se diante de 
um ser ou objeto extraordinário, revestido de poder. Ao descobrir esse 
poder em alguns objetos ou personagens, o ser humano considera-os 
sagrados: desde uma pedra até um sacerdote. O ser humano religioso é 
aquele que, em sua atitude e no seu comportamento, vive a ação daqui 
força transcendente, manifestada nas coisas ou em determinados seres 
(CROATTO, 2001, p. 53). 
Acompanhe comigo o excerto a seguir, em que o próprio Leeuw explica o seu 
método:
Não consistia simplesmente em fazer um inventário e uma classificação 
dos fenômenos tais como aparecem na história, e sim uma descrição 
psicológica, que exigia não apenas a observação meticulosa da realida-
de religiosa, mas também uma introspecção sistemática; não somente 
a descrição daquilo que é visível de fora, mas, sobretudo a experiência 
vivida daquilo que somente pode se tornar realidade depois de ter sido 
incorporado à vida do próprio observador (VAN DER LEEUW apud 
FILORAMO; PRANDI, 1999, p. 33). 
Sendo assim, van der Leeuw instaura uma fenomenologia que procura não ape-
nas uma descrição, como analisamos em Chantepie de la Saussaye, mas também 
uma interpretação e uma compreensão dos fenômenos religiosos. Por isso, a 
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sua obra passou a ser considerada um manifesto da corrente compreensiva. De 
acordo com Adone Agnolin (2008), trata-se de um primeiro esboço de uma her-
menêutica da religião que servirá de base para os sucessivos desenvolvimentos 
da fenomenologia religiosa (AGNOLIN, 2008). 
O fato de van der Leeuw ter como pressuposto a autonomia absoluta da reli-
gião, sua fenomenologia estava atrelada a uma particular filosofia da religião 
como ponto de partida, sendo que seu ponto de chegada seria uma teologia da 
religião. Devido à ligação a essas áreas, a obra desse autor foi criticada por ser 
idealista e a-histórica. A diferença de Leeuw em relação a Otto está no fato de 
suas análises serem mais científicas (as de Otto teológicas), por preferir estudar 
o comportamento (e não o sentimento) dos sujeitos religiosos. As análises de 
Leeuw são orientadas para uma objetivação(vidade) das experiências religiosas 
(PRADO; SILVA JÚNIOR, 2014).
Um dos principais estudiosos das religiões do século XX e da fenomeno-
logia foi o cientista da religião romeno Mircea Eliade (1907-1986). Este foi 
importante para a valorização da dimensão histórica das religiões. Em seu tra-
balho encontra-se uma busca pela essencialidade da vida religiosa, uma busca 
para compreender o sagrado. Em sua obra o Sagrado e o Profano, o autor explica 
que o mundo natural apresenta-se como o melhor local para a manifestação do 
sagrado (PRADO; SILVA JÚNIOR, 2014, p. 14). 
De acordo com Eliade (1992, p.13) os fatos sagrados, ou fenômenos, pode 
se manifestar num objeto qualquer como uma pedra ou uma árvore, todavia, 
não se venera a pedra como pedra, ou a árvore pela árvore, mas sim por que são 
hierofanias que revelam algo que é sagrado. 
De acordo com Jacqueline Hermann (1997) Eliade preocupou-se em suas 
mais diversas obras em compreender a essência das religiões, dando prioridade 
para a compreensão das estruturas do fenômeno religioso. Busca-se nas sua 
obras a compreensão da essência dos fenômenos religiosos e não decifrar a sua 
história. O autor faz uma oposição entre o sagrado e o profano e localiza nas socie-
dades tradicionais a existência do homo religious, que, de acordo com Hermann, 
seria aquele que possui todos os atributos necessários para entender a impor-
tância e o sentido do sagrado na sua vida social. Na busca por compreender as 
estruturas das religiões, Eliade (1997) enumera as semelhanças existentes entre 
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os diferentes tipos de religiões existentes no mundo, e é essa busca e sistematiza-
ção dos fenômenos religiosos que confere a sua obra um caráter fenomenológico. 
Como explica Eliane Moura da Silva (201, p. 13), a abordagem fenomenológica 
de Eliade busca identificar “elementos comuns que as diferentes experiências 
religiosas ressignificam e reinterpretam, ininterruptamente”. 
Devido a esses objetivos, Eliade ficou conhecido como um autor que compôs 
uma morfologia da religião. Filoramo e Prandi (1999) nos ajudam a compreender 
a relação entre a morfologia elidiana e a busca pela compreensão das estruturas 
citadas anteriormente. Os autores explicam que a morfologia criada pelo cien-
tista romeno colaborou na forma como metodologia fenomenológica aborda o 
mundo dos fenômenos religiosos. Sendo assim, por meio da morfologia, Mircea 
Eliade procurou:
separar aqueles fenômenos que revelam semelhanças estruturais da-
queles que não as manifestam. Os primeiros se tornarão, por sua vez, 
objetos de uma análise mais tipicamente fenomenológica, que tem 
como objetivo evidenciar seus significado religioso (FILORAMO; 
PRANDI, 1999, p. 56). 
O representante da Escola Italiana de História das Religiões, Adone Agnolin, reco-
nhece em sua obra (2013) a importância de Mircea Eliade para a fenomenologia. 
De acordo com Agnolin, Eliade foi responsável por sintetizar os pressupostos, 
perspectivas e os percursos já existentes da fenomenologia e isso pode levar a 
uma grande divulgação dessa ciência. No Brasil, por exemplo, as obras de Mircea 
Eliade são amplamente utilizadas no campo de estudos religiosos, inclusive no 
campo historiográfico de uma forma muito intensa (AGNOLIN, 2013). 
Nesse momento, creio que você, caro(a) aluno(a), já percebeu que as defi-
nições e as abordagens fenomenológicas são variadas, sendo assim, impossível 
apresentar todas elas. Apesar da complexidade do assunto, é preciso termos em 
mente que essa corrente metodológica surgiu dentro das ciências das religiões 
com o objetivo de analisar os fenômenos religiosos a partir de uma perspectiva 
diferenciada daquela utilizada pelas outras ciências como a História, a sociolo-
gia e a psicologia. Nessa disciplina de História das Religiões, é importante essa 
formação a respeito dessa campo teórico (fenomenológico) que tanto fez pelo 
desenvolvimento da cientificidade das religiões. 
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A ESCOLA ITALIANA DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES
Caro(a) aluno(a), a partir deste subitem vamos analisar outra corrente teórico-
-metodológica ligada à História das Religiões: a Escola Italiana de História das 
Religiões. 
De acordo com Adone Agnolin (2008), essa nova escola historiográfica sur-
giu em 1925 com a Revista “Studi e Materiali di Storia delle Religioniï” pelaobra 
de Raffaelle Pettazzoni. O objetivo dessa nova escola é ressaltar a historicidade 
dos fatos religiosos. Sendo assim, ao contrário da linha fenomenológica que aca-
bamos de estudar, essa nova metodologia acredita que cada phainomenon é um 
genomenon, isso quer dizer que, contrariando a linha fenomenológica, em cada 
fenômeno religioso é possível recuperar o momento de sua formação histórica. 
Dessa forma, opunha-se às indagações fenomenológicas as necessidades de uma 
interpretação histórica (AGNOLIN, 2008, p. 21). 
Na metodologia dessa escola Italiana, a compreensão de um fato cultural, 
como o religioso, só pode ser compreendido a partir da reconstrução da sua 
gênese. Raffaelle Pettazzoni reivindicava uma laicidade da pesquisa e introdu-
ziu a metodologia comparativa nos estudos de História das Religiões nessa busca 
pela gênese das religiões. Essa perspectiva histórico-religiosa comparativa ita-
liana criou em um percurso histórico específico, desenvolvendo e melhorando 
metodologias de análise da religião. Entre os principais nomes dessa escola his-
toriográfica citamos: Raffaele Pettazzoni, Ernesto de Martino, Angelo Brelich, 
Vittorio Lanternari e, no Brasil, Adone Agnolin. 
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De acordo com Adone Agnolin (2008), os estudos históricos religiosos desen-
volvidos por esses autores possuíam o objetivo de 
orientar os estudos histórico-religiosos, partindo da necessidade de 
ressaltar, antes de tudo, a historicidade dos fatos religiosos enquan- to 
produtos culturais, redutíveis em sua totalidade à razão histórica. [...] 
para fazer isso, encontrou-se na necessidade de ter que recolocar (con-
textualizar historicamente) a própria ferramenta categorial da análise 
nos contextos histórico-culturais em que essa foi sendo forjada. Neste 
sentido, desde seu nascimento a “Escola Italiana de História das Reli-
giões” encontrou-se instalada, epistemológica e historicamente, no en-
trelaçamento entre as disciplinas da Antropologia e da História, tendo 
que encarar, conseqüentemente, a polêmica aberta e crítica com a Fi-
lologia, com a Fenomenologia e com todas as outras escolas de pensa-
mento que, de fato, privilegiavam abordagens não-históricas ou, quan-
do pior, des-historicizantes (AGNOLIN, 2008, p. 22).
Nessa busca de contextualizar historicamente e de compreender a cultura 
religiosa dentro de seu contexto histórico, a Escola Italiana de História das 
Religiões privilegia o método comparativo. Todavia a comparação utilizada 
por eles não tem como objetivo uma comparação estéril dos fenômenos 
culturais, que busca nivelar e classificar. Na realidade, é realizada uma com-
paração dos processos históricos que seja capaz de diferenciar e determinar 
as particularidades de cada religião e cultura. Por meio dessa metodologia, 
torna-se possível compreender as estruturas comuns das religiões, assim 
como as “não repetíveis soluções criativas concretas, historicamente realiza-
das” (AGNOLIN, 2008, p. 24 - 25). 
Neste momento, caro(a) aluno(a), você deve ter percebido que a Escola Italiana 
em diversos momentos se coloca de forma oposta à Escola Fenomenológica. Como 
explica Prado e Silva Júnior (2014), a Escola Italiana de História das Religiões 
surgiu com o intuito de rebater as principais escolas teorico-metodologicas que 
estudavam religião no início do século XX, especialmente a linha estrutural e 
fenomenológica, já que a Escola privilegia a historicidade dos fatos. 
A contraposição entre o método fenomenológico e aquele histórico da Escola 
Italiana consiste, justamente, no fato que o primeiro descuida da relação entre 
religião e cultura, enquanto, para a Escola Italiana, a cultura é um dos principais 
fatores a serem analisados para compreender a religião.
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Adone Agnolin, em sua obra História das religiões: perspectiva histórico-compara-
tiva (2013), faz uma série de críticas ao método fenomenológico e compara ao método 
histórico comparativo italiano. Por motivos didáticos, anexamos a seguir os quadros 
realizados pelo autor que facilitam a sua compreensão acerca das diferenças teórico-
-metodológicas entre a Fenomenologia e a Escola Italiana de História das Religiões. 
Quadro 1 - Contraposições entre a Fenomenologia x Escola Italiana de História das Religiões 
CIÊNCIA (FENOMENOLOGIA) DA RELIGIÃO HISTÓRIA DAS RELIGIÕES
Considera que uma única religião 
estaria na origem de todas as religiões 
históricas.
Empreende a “desobjetivação” da “reli-
gião” enquanto categoria.
Considera que a religião é consubstan-
cial ao homem.
Considera que a religião não é con-
substancial ao homem.
Procura as estruturas comuns nas varie-
dades dos fenômenos religiosos.
Procura a constituição histórica (genô-
menon) das religiões em sua diversida-
de, historicamente fundada.
Nega ou desvaloriza a relação entre 
religião e cultura.
Considera que a religião como objeto 
de pesquisa histórica deve ser aborda-
da em função de uma cultura.
Estabelece uma relação analógica e ape-
nas formal dos fenômenos religiosos.
Estabelece uma comparação de proces-
sos históricos de formações religiosas.
Descontextualiza, isto é, opera contra e 
apesar da história.
Contextualiza, isto é, faz propriamente 
história.
Transcende a história. É imanente à história.
Objetiviza o “religioso” desistoricizan-
do-o.
Problematiza (i.e, historiciza) a catego-
ria do “religioso”.
Fala em religião (descontextualizada) 
no singular.
Pluraliza as religiões (contextualizan-
do-as).
É uma Ciência da Religião enquanto 
pressupõe uma objetivação do religio-
so (quase um objeto natural) = preexis-
tindo à história, mantém o pressuposto 
de uma unidade do religioso.
É propriamente uma História das Reli-
giões enquanto parte da problemática 
histórica das diferenças religiosas = 
indicação de diferentes processos de 
formação histórica.
Chega a um “objetivismo ontológico” 
da sacralidade: historicamente não 
falsificável.
Consiste em uma história das relações 
entre civilizações; é, portanto,cultu-
ralmente subjetiva e fundada em um 
etnocentrismo crítico.
Fonte: Adone Agnolin (2013, p. 181).
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Para compreender melhor essa diferenciação metodológica realizada por 
Agnolin, acesse o link a seguir e assista o vídeo que explica essa diferença:
<https://vimeo.com/299467665/0366ff72b6>.
Quadro 2 - Instrumentos Operativos e Metodológicos
CIÊNCIA (FENOMENOLOGIA) DA RELIGIÃO HISTÓRIA DAS RELIGIÕES
Concebe a “religião” como um dado 
transcendente.
Parte da consideração da “religião” 
enquanto fato histórico.
Portanto, é-lhe impossível pensar 
numa historicização do conceito de 
“religião”.
O primeiro pressuposto lhe permite 
uma historicização do conceito de 
“religião”.
Consequentemente, é impossível para 
si historicizar seus instrumentos de 
análise.
Consequentemente pode historicizar 
os próprios instrumentos da análise 
(historiográfica).
A comparação é apenas uma compara-
ção analógica.
Fundamenta-se em uma comparação 
histórica sistemática.
A partir da analogia universalista e 
totalizante, pretende alcançar uma 
essência religiosa já pressuposta no 
início da análise.
A comparação (de contextos históri-
cos-religiosos e culturais) fundamenta 
uma análise de processos de formação 
(particularidade histórica).
Seu “objetivismo ontológico” da sacrali-
dade é historicamente não falsificável.
Seu subjetivismo histórico leva à 
necessária falsificabilidade dos pressu-
postos da análise.
Sobre o perigo de confrontar-se com 
uma historicização de seus próprios 
instrumentos de análise.
Encontra-se na necessidade de histori-cizar suas próprias categorias e instru-
mentos operativos de análise.
Trata-se de uma teleologia, pressupos-
tamente científica (no final reencontra 
seus pressupostos iniciais).
Trata-se de uma ciência histórica (com 
as incertezas próprias das Ciências 
Humanas).
É caracterizada por uma perspectiva 
objetiva e totalitária.
Torna-se culturalmente subjetiva (a 
partir do etnocentrismo crítico).
Reduz os vários fenômenos religiosos 
ao modelo (único) de religião pré-con-
cebida.
Multiplica, necessariamente, as 
religiões (com base na comparação 
histórica).
Fonte: Adone Agnolin (2013, p. 182).
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Apesar dessas grandes diferenças entre a fenomenologia e a História Italiana das 
Religiões, houve por parte do próprio Raffaele Pettazzoni uma tentativa de con-
ciliar a metodologia fenomenológica com a comparada da História das Religiões. 
Em sua obra O método comparativo, o italiano deixou claro que pretendia superar 
as “posições unilaterais” da fenomenologia e do historicismo, buscando integrar 
essas metodologias. Essa integração potencializaria a capacidade de compreen-
são dos dois métodos. O historicismo ganharia com a ideia de autonomia da 
religião, a compreensão das estruturas, dos sentimentos humanos, todos esses 
elementos auxiliam nas novas problemáticas epistemológicas das pesquisas his-
tórico-religiosas contemporâneas. 
Todavia essa proposta conciliatória parece ter sido esquecida pelos seguidores 
da escola italiana. Assim, os autores já citados aqui – como Ernesto de Martino, 
Angelo Brelich e, como analisado, Adone Agnolin – mantiveram um posiciona-
mento de luta contra o, suposto, irracionalismo fenomenológico. 
Por fim, iniciamos a partir de agora o último tópico de nossa unidade. Nesse 
momento faremos uma análise acerca da Filosofia existencialista e a importância 
de se estudar as religiões para melhor compreender o homem e as suas angús-
tias modernas.
HISTÓRIA DA RELIGIÃO E A FILOSOFIA 
EXISTENCIALISTA
“Gott ist tot” (NIETZSCHE, 2001, p. 148). Eis, diante do mundo contemporâneo, 
o nosso mundo de incansáveis lidas, o eco daquele grito vociferado por Friedrich 
Nietzsche, que com sua vigorosa marreta tentou e conseguiu, com relativo sucesso, 
desconstruir os fundamentos da sociedade ocidental. Entretanto quando Nietzsche 
gritou afirmativamente constatando (no tempo presente) que “Deus está morto”, 
seu clamor não era o de alguém que havia encontrado um cadáver sem querer, no 
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meio de uma construção ou terreno baldio, tampouco era o de um assassino que 
acabara de cometer um crime passional. Ele confessa, sem a angústia de Rodion 
Românovitch Raskólnikov, o miserável protagonista de “Crime e Castigo”, de 
Fiódor Dostoiévski – em busca da salvação de sua alma por meio do martírio 
dos campos siberianos – que não apenas ele, mas você e eu matamos Deus. Seu 
corpo hoje se encontra perenemente sepultado nas igrejas frias e vazias.
O fato de Nietzsche, nascido em 1844, encontrar a morte precisamente em 1900, ou 
seja, faltando um ano para o início daquele período que Allan Kardec havia chamado 
de “plenitude dos tempos” é emblemático. Arriscamos dizer que quase intangível foi 
a decepção dos entusiastas do novo mundo no que diz respeito ao engrandecimento 
moral dos seres humanos, principalmente pelo o que viria a seguir. O século XX, o 
qual, conforme o historiador Eric Hobsbawm, começou muito tardiamente, apenas 
em 1914, foi testemunha de um movimento indelével e extremamente significativo 
na História da civilização ocidental: depois de uma guerra de alcance mundial, que 
durou quatro anos e ceifou a vida de milhões de pessoas, incluindo, em sua maioria, 
Friedrich Nietzsche nasceu em um vilarejo chamado Röcken, na Prússia – 
uma parte da Alemanha antes de sua unificação, ocorrida nos anos 70 do 
século XIX – no dia 15 de outubro de 1844. Seu pai, Karl Ludwig, era pas-
tor protestante luterano e sua mãe também era oriunda de uma família de 
pastores, sendo desejo da família que o jovem Friedrich seguisse os passos 
paternos. Nietzsche, ao terminar seus estudos secundários, inscreve-se na 
Universidade de Leipzig (onde o grande Johann Sebastian Bach, também 
protestante luterano, sendo a religião absolutamente importante em sua 
vida e obra, passou parte da vida, mais de um século antes) para cursar te-
ologia. Foi grandemente influenciado por dois grandes expoentes de sua 
época: Arthur Schopenhauer, filósofo, e Richard Wagner, um grande com-
positor, posteriormente um dos preferidos de Adolf Hitler. É um dos precur-
sores do niilismo, baseado na descrença absoluta de tudo e todos, represen-
tando muito bem o zeitgeist, ou espírito de sua época. 
Fonte: os autores.
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civis inocentes, muitos passaram a questionar, de forma séria, a amplitude e signifi-
cado de algumas palavras que desde a mais tenra infância sabiam de cor... “O Senhor 
é o meu Pastor e nada me faltará”. Ora! Faltou o pão. Faltou o açúcar. Cortaram a água 
quente e, finalmente, não havia sequer uma gota de água para milhões de moribun-
dos. Bombardearam cidades e acabaram com o emprego. Quantos jamais deram o 
derradeiro beijo em suas famílias. Deus só podia estar mesmo morto.
Tão grande foi essa sensação de abandono e vazio existencial que até mesmo 
sacerdotes (padres e pastores) trocaram a Bíblia pelo relativismo inaugurado por 
Nietzsche. Assim fez Paul Tillich (1959, p. 47-50), um grande teólogo e profes-
sor em Princeton, ao escrever que:
Lembro-me que sentava entre as árvores das florestas francesas e lia 
“Assim Falou Zaratustra”, de Nietzsche, como faziam muitos outros sol-
dados alemães, em contínuo estado de exaltação. Tratava-se da libera-
ção definitiva da heteronomia. O niilismo europeu desfraldava o dito 
profético de Nietzsche, ‘Deus está morto’. Pois bem, o conceito tradicio-
nal de Deus estava morto mesmo. 
Embora essa suposta morte de Deus possa vir a ser “o diagnóstico da ausên-
cia explícita de Deus no pensamento e nas práticas do ocidente moderno” 
(MACHADO, 1994, p. 22), essa explicação não parece ser suficiente àque-
las pessoas que tentam dar sentido à vida. Assim, a busca de sentido, para 
muitas pessoas, oscila entre a busca da religiosidade explícita ou a tentativa 
O “breve século XX” foi, para este mesmo historiador, um dos mais tristes e 
sangrentos de toda a História da civilização, tendo se iniciado com a Primei-
ra Guerra Mundial e terminado com a queda da União Soviética. Para muito 
melhor contextualização e como aconselhamento bibliográfico básico para 
qualquer futuro historiador, recomendamos a leitura do texto completo, 
conforme referência a seguir: HOBSBAWM, Eric John. Era dos extremos: o 
breve século XX 1914-1991. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
Fonte: os autores
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de respostas sob o âmbito estritamente filosófico. Experimente observar nas 
livrarias a seção de Espiritualidade e Autoajuda. Provavelmente você não con-
seguirá acompanhar a quantidade muitíssimo grande de novos títulos que 
chegam praticamente a cada semana. É disso que estamos falando aqui: de 
um lenitivo, seja ela qual for, para superação das questões que materialmente 
se mostram insuperáveis. 
Sobre a crise existencialista humana, Mircea Eliade explica a importância 
do estudo da História das Religiões:
A história das religiões toca ao que é essencialmente humano: a rela-ção do homem com o sagrado. A história das religiões pode desem-
penhar um papel importante na crise que conhecemos. As crises do 
homem moderno são em grande parte religiosas devido à tomada 
de consciência da ausência de um sentido [...]. Nesta crise, nesta de-
sorientação, a história das religiões é pelo menos como a Arca de 
Nóe das tradições míticas e religiosas. É por isso que penso que esta 
disciplina total pode ter uma função real (ELIADE, 1987, p. 110 apud 
SILVA, 2011, p. 14). 
Como rápido aporte filosófico e como tentativa de mais uma vez justificar a 
grande importância da História da religião, principalmente para a contempo-
raneidade, citamos o existencialista Albert Camus (1913-1960) e sua tentativa 
de encontrar um sentido para a vida – o que, a rigor, é uma das atribuições 
básicas da fé, seja ela institucionalizada sob a potência de uma grande denomi-
nação religiosa ou não. 
Segundo Camus (1961), o ser humano está condenado a morrer. Contudo, 
ele vê como um absurdo o fato de que um dia, querendo ou não, o ser humano 
vai morrer. Há grande absurdidade na morte em si, portanto. Para ele, diante 
disso, o único objetivo da vida deve ser o de buscar a felicidade, seja qual for 
essa felicidade. Aqui vale um parêntese importante: desde tempos quase ime-
moriais, todas as civilizações, sem exceção, tinham seus mais diversos cultos 
religiosos, sendo um dos objetivos principais alcançar iluminação que favo-
recesse o acesso ao transcendente e respondesse à pergunta pelo sentido da 
vida, bem como o ultrapassar da morte fosse atingido. Os baigas, por exem-
plo, tribo indígena da Índia Central, que surgiu pelo menos há uns 3.000 anos 
antes de Cristo, “se consideram filhos de Dharti Mata, a Mãe Terra, acreditam 
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que foram criados para serem os guardiões da floresta – uma missão que exe-
cutam desde o início dos tempos” (AMBALU et al., 2014, p. 32). Uma nobre 
tarefa, sem dúvida, que os motivava a continuar.
Por sua vez, o grande Aristóteles, em sua obra Ética a Nicômaco, escreveu 
que uma vida justa leva à felicidade – estado de espírito que a religião geralmente 
promete de forma irrestrita àqueles zelosos que seguirem os ditames divinos. 
Para Camus, voltando à nossa linha de pensamento, tragédia total é morrer e 
não alcançar a dita felicidade, que, como acabamos de ver, é perseguida, a seu 
modo, desde que o ser humano existe. Diante dessa busca, há sempre o fator 
“esperança”, porque você sabe muito bem que a vida é quase sempre grande-
mente menos suave do que gostaríamos que ela fosse. Para exemplificar de forma 
palatável esta possibilidade de esperança, Camus (1961) retoma aos mitos gre-
gos e desenterra Sísifo, que, por algum motivo bastante grave, provocou a ira 
dos deuses, recebendo como castigo uma grande pedra que deveria ser sempre, 
infinitamente, rolada morro acima. Contudo, assim que a pedra chega ao ápice 
do morro, ela rola para baixo e a tarefa recomeça. Deve-se perguntar o porquê 
de Sísifo não abandonar a exaustiva tarefa. A resposta não parece ser das mais 
complicadas: Sísifo, agarrado à sua vida, tem esperança de que um dia sua tarefa 
findará e assim ele encontrará grande gozo e felicidade.
Se, porventura, você ficou curioso(a) sobre Sísifo, saiba que ele foi um dos 
maiores ofensores dos deuses gregos. Ele tentou matar seu irmão, enga-
nou Hades, o deus do mundo subterrâneo, duas vezes, enfureceu Zeus e, 
ao morrer de velho, o pai dos deuses enviou seu mensageiro Hermes para 
levá-lo ao tártaro, o mundo dos mortos. Lá recebeu a tarefa que Camus tão 
bem explicou em seu texto, querendo dizer que os mortais simplesmente 
não podem ter e nunca terão a total liberdade de um deus. Assim, quando 
há um trabalho chatíssimo, longo e fadado inexoravelmente ao fracasso, 
este é um “trabalho de Sísifo”! 
Fonte: os autores.
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Ainda outro filósofo existencialista, Jean-Paul Sartre, tentou dar sentido à vida 
sem elencar a presença de Deus. Retomou ao já citado Dostoiévski ao escrever 
que “se Deus está morto, então tudo é permitido” (DOSTOIÉVSKI, 2008, p. 108-
109). Dessa forma, a existência torna-se um grande dilema visto que, em sua 
concepção, o ser humano é condenado a ser livre e definir por si mesmo o sen-
tido de seu ser. A religião equilibrada, que a História mostrou e tem mostrado 
não ser sempre o caso, sem plenamente cercear do ser humano a possibilidade 
de escolha entre o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto, ao contrá-
rio, permite que se escolha autonomamente.
Contudo, sob o prisma religioso, o fim não se encontra na vida cotidiana, que 
se mostra processual para obtenção futura da salvação – aí sim, eterna, imutável em 
seu estado glorioso e gozosa por definição. Eis assim citada a promessa desde os 
tempos bíblicos e válida ainda hoje para todos os crentes do mundo. Essa perspec-
tiva de uma vida com propósitos, assim, genericamente exposta, pode ser chamada 
de teleológica, conceito muito importante tanto para a Filosofia quanto para a 
Teologia, disciplinas irmãs da História – principalmente a História das Religiões.
A verdade é que muitos parecem conseguir encontrar a felicidade sem a invo-
cação de um deus e são felizes vivendo da forma como vivem. Contudo, ainda 
que assim o façam, é preciso levar em conta que imiscuída em nossa sociedade 
de consumo aparentemente basilada pelo ter reside, embora muitos neguem, 
uma ética fortemente baseada no cristianismo e quase que invariavelmente este 
cristianismo sob as mais variadas formas é utilizado para subsidiar, às vezes de 
forma indireta, nossos anseios pela busca de significado da vida. Em outras pala-
vras, a busca pelo Transcendente via religião parece ser para muitos o caminho 
mais fácil de obtenção de sentido em uma vida aparentemente sem nenhum.
Nenhuma Providência, nenhum Deus dirige o universo; todos os fenômenos 
não passam de aspectos de uma cega vontade de viver; essa vontade de vi-
ver absurda, sem razão ou finalidade, revela-se como a essência do mundo; 
a dor que dela nasce constitui a única realidade [...]. 
(Arthur Schopenhauer)
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Talvez seja por isso que em nossos dias tantas igrejas “pululem” em cada 
esquina. Há uma percepção de “desencantamento com o mundo” (THIRY-
CHERQUES, 2009), que o sociólogo Max Weber tratou tão bem ao longo de sua 
obra. Por desencantamento, uma das traduções mais adequadas talvez seja aquela 
que fala em “desmagicização” do mundo, ou seja, pela falta de encanto mágico 
pela vida, em virtude do descobrimento do funcionamento de quase tudo o que 
nos rodeia. É quase como uma volta àquela reflexão introdutória proposta por 
Chardin, mas talvez aqui em um outro nível, que diz respeito à necessidade de 
busca do intangível para que a existência tenha sentido. Assim, muitas pessoas 
olham para o céu e para dentro delas mesmas esperando por essas respostas.
Outras assumem posição diferente e, em vez de olharem para e apenas a “parte de 
cima”, resolvem simplesmente mudar o lugar social recuperando “a sua consciência e 
a sua dignidade de que são sujeitos da História” (BLANK, 2008, p. 81). Dessa forma,
as pessoas começam a se compreender não mais como objetos de forças 
anônimas e incontroláveis, mas como sujeitos e protagonistas do agir 
histórico. A base para esse agir, porém, não é encontrada em alguma 
ideologia política ou social. Ela muito mais se fundamenta naquilo que 
é a grande característica dos povos latino-americanos: sua fé. Com base 
nela e partindo de suas novas experiênciasem nível econômico, políti-
co e social, forma-se em muitos homens e mulheres uma nova consci-
ência (BLANK, 2008, p. 82).
Não poderíamos deixar de concluir esta primeira e praticamente introdutória 
parte sem citarmos outro filósofo que muito pode contribuir para uma reflexão 
mais profunda e direta acerca do sentido da vida, com ou sem o viés das religi-
ões: trata-se do filósofo alemão Martin Heidegger. 
Heidegger, outro autor que deve ser estudado com afinco por historiadores 
que buscam muito mais do que apenas o já grandemente ultrapassado método de 
buscar meramente informações históricas. Um professor de História que assim 
procede dificilmente faz com que seus alunos gostem de sua disciplina. Além 
disso, sabemos que quando o aluno(a), por qualquer motivo, deixa de gostar de 
determinada disciplina, ele acaba quase sempre transferindo sua indisposição 
para o professor. Dessa forma, podemos afirmar que, se a História não servir 
para nossa vida hoje – visando ou não o passado com vistas ao futuro –, então 
ela não serve e dificilmente servirá para coisa alguma. 
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Pois bem: como dizia antes, Heidegger é um daqueles filósofos e escritores 
que não podem ser deixados de lado por quem almeja entender a história do 
século XX de forma mais completa. Ele nasceu em 1889 e morreu em 1976 e, 
dentre vários alunos famosos, foi professor do já citado Jean-Paul Sartre.
Para resumirmos bem seu trabalho, podemos afirmar que, para ele, o ser 
humano, para viver adequadamente, deve ter um projeto de vida. Ora, projeto é 
algo que, como diz o próprio termo, do latim projectare, é lançado sempre para 
frente, como um projétil de uma arma, por exemplo. Ou, para ser menos beli-
coso, outro exemplo pode ser um projeto de pesquisa, em que você escreve o 
que pretende fazer academicamente nos próximos dois ou quatro anos. Sem um 
projeto, a vida tende a ser sem sentido. Olhemos para o caso da maioria dos alu-
nos de História, por exemplo: posso imaginar otimistamente que quase todos 
almejam terminar a graduação em História e receber o canudo que comprovará 
que estão aptos para lecionar a disciplina. Isso é, desde agora, uma tarefa gran-
demente desejável e absolutamente necessária.
Partindo desta linha de raciocínio, podemos continuar imaginando que o 
sonho de parte dos alunos de História inclui acordar todos os dias e lecionar a 
disciplina que escolheu aperfeiçoar ao longo de anos durante os próximos anos. 
Aliás, ousamos dizer que antes disso, ou seja, de você tomar a decisão de come-
çar uma graduação em História, você refletiu muito sobre isso e quem sabe até 
mesmo conversou um bocado com a sua família e amigos sobre aquela que ainda 
seria uma decisão futura. Provavelmente alguns até mesmo fizeram uma ora-
ção nesse sentido.
O que estou querendo dizer aqui é que um projeto de vida, especial e, prin-
cipalmente, aqueles projetos que incluam em sua execução o melhoramento da 
vida de outras pessoas, serve como uma espécie de antídoto contra um dos gran-
des males civilizacionais contemporâneos, que basicamente é viver uma vida 
inautêntica. Ora, vida inautêntica é simplesmente uma vida vivida sem ques-
tionamentos e mudanças. Em outras palavras, vida inautêntica é uma vida sem 
propósitos. É simplesmente aceitar as coisas tais como elas são e finalmente ser 
vencido pela massificação propiciada por nossa sociedade de consumo que ape-
nas e tão somente leva em conta os consumidores, como se os “outros” sequer 
fossem considerados cidadãos. É a vida daquele pobre homem profundamente 
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pessimista, que aos 45 anos de idade sabe que já não é mais tão jovem para 
recomeçar – embora sempre seja tempo – e ao mesmo tempo, percebe que natu-
ralmente ainda terá que trabalhar muito naquilo que não lhe agrada, mal ajuda 
as outras pessoas e é mal remunerado.
Diante desta grande desilusão e terrível perspectiva de vida, ele se convence 
de que os grandes prazeres da vida podem ser resumidos em poucas coisas: uma 
grande televisão com muitos canais, um sofá confortável e boa comida, não neces-
sariamente saudável – porque geralmente alguém nesse estado se autossabota. 
Com o passar do tempo, se esse triste homem acima genericamente exemplificado 
não mudar drasticamente suas atitudes com relação a ele mesmo, inevitavel-
mente vai morrer sem ter feito coisa alguma que valha a pena elencar, sob sua 
própria ótica. Isso é uma grande tragédia, com toda certeza, muito maior do 
que a perda da vida de alguém que viveu com propósitos. Até porque, como já 
escreveu Viktor Frankl, um renomado psicólogo que sobreviveu ao inferno da 
vida em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, “quanto 
mais o homem busca unicamente o prazer, tanto mais ele vai perder esse prazer 
e começar a viver progressivamente dentro de um vácuo existencial” (FRANKL, 
1979, p. 101), o que provoca grandes temores em nosso mundo, exceto para quem 
voluntariamente desiste da busca.
É óbvio que, mesmo para aqueles que têm múltiplos projetos de vida, existe 
sempre a tenebrosa chance de fracassar. Arriscamos dizer que poucos podem 
afirmar com certeza que escaparão para sempre (enquanto a vida durar), daquilo 
que nosso citado autor chamou de “angústia existencial”. Essa angústia se dá pelo 
fato de que todos aqui, sabendo que um dia iremos parecer, finalmente, ante 
nossos projetos, fracassaremos. Afinal, não podem existir projetos para aqueles 
que morrem. Em nosso mundo fugaz, falso e artificial, as pessoas têm buscado 
de muitas formas, no mínimo, estender a vida ou, ao menos, dar a impressão de 
fazê-lo, exteriormente que seja.
Diante dessa reflexão, pode-se imaginar sem ressalvas o papel da religião 
cotidiana: a perspectiva de vida depois da vida permite dar esperança de con-
tinuidade de realizações e novos projetos. Sabe-se, principalmente pelo grande 
número de conversões, principalmente pelo reporte fornecido pelas igrejas evan-
gélicas de caráter neopentecostal, por exemplo, que milhares de projetos de vida 
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são restabelecidos sob a égide de Cristo. Precisamente nesse ponto, cabe aqui 
perguntar: por que tantas igrejas surgem em nosso tempo tão tecnológico e supos-
tamente avançado? Não seria, novamente, pela tentativa de busca de sentido que 
as realizações materiais não proporcionam, em um mundo cheio de tristeza e 
opressão? Visto dessa forma, religião pode ser conceituada facilmente (como 
um excelente professor certa vez falou): “é o exercício humano de transcender e 
transpor os limites do tempo e do espaço, através da imaginação, indo na busca 
de sentido, de valor, de contato, de esperança, para que a vida seja suportável e 
viável” (ADAM, 2012, p. 300).
Nessa busca por trás dos limites do tempo e do espaço, o ser humano se 
encontra com Deus. Assim, é muito mais fácil para a maioria das pessoas pensar 
a própria vida concatenada com Ele e com a própria História da humanidade. 
Conforme outro grande mestre que tive o privilégio de conhecer, o qual escre-
veu as alentadoras palavras a seguir dispostas:
Deus não “silencia” diante do sofrimento humano, tampouco se ausen-
ta. Ele está, sempre, no meio de nós. Também na dor, também no so-
frimento, também na cruz. Ele estava nas câmaras de gás do holocaus-
to, Ele estava em meio aos povos indígenas brutalmente assassinados 
pelos conquistadores, e ainda está no meio deles. Ele está em meio aos 
pobres do mundo inteiro. Ele estava nos porões da tortura. Afinal, Ele 
mesmo foi brutalmente torturado na Cruz. Como não estaria conosco 
sempre? (DREHER, 2014, p. 2).Dessa forma, ou seja, aproximando Deus das questões cotidianas, Ele se torna 
parte da História e assim, por este “novo” enfoque, estudar História das religi-
ões não deixa também de ser um estudo da História da própria civilização sob 
o prisma religioso e suas diversas bifurcações. Para fundamentar este enfoque, 
bem como a nossa busca de fundamentos teórico-práticos para a tentativa de 
entendimento reflexivo acerca do sentido da vida e das possibilidades múltiplas 
que o estudo da História das religiões permite, surge outro grande teólogo, tam-
bém alemão, que não deve ser deixado de lado quando se pretende estudar tanto 
História das religiões quanto teologia pura e simplesmente.
Trata-se de um simpático senhor chamado Wolfhart Pannenberg. Não se 
engane se, ao encontrar espessos volumes de sua Teologia Sistemática, você pas-
sar a imaginá-lo como um intelectual fechado para o mundo. De acordo com 
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suas teorias, “Deus se revela indiretamente mediante a proeza que ele realiza 
na História: revelação como auto-revelação histórica indireta; revelação como 
História” (GIBELLINI , 2002, p. 271). Assim, resumindo muito, diz nosso autor 
algo, no mínimo, interessante sob nossas perspectivas de estudo:
[...] não se pode falar de revelação como palavra, e sim de revelação 
como história; Deus não se auto-revela diretamente por sua palavra 
endereçada ao homem, e sim indiretamente, na língua dos fatos, isto 
é, por meio de suas intervenções na história, entre as quais a ressur-
reição de Cristo – vista em suas ligações com o passado da história de 
Israel e em seu caráter proléptico do fim e da consumação da história 
em dimensão cósmica – constitui fato histórico revelador, decisivo e 
definitivo, da história universal e do destino do homem (GIBELLINI, 
2002, p. 271).
Creio não poder encontrar definição melhor como a anterior para descrever 
o papel revelador de Deus na História, levando em conta um fato cósmico 
fundante e intimamente pessoal e espiritual como a ressurreição de Cristo em 
linha com os acontecimentos futuros. Cabe também à religião o papel de dar 
sentido à própria História que, para os judeus (os de ontem e os de hoje), é 
sempre uma História de progresso, visto que é História linear. Assim, saímos 
de um ponto específico no tempo e no espaço em direção a outro, naquele 
dia vindouro da irrupção messiânica que dará fim aos clamores com a der-
rota da morte. Só para levarmos em comparação, entre os gregos, a percepção 
de História era bem diferente, não sendo linear, mas cíclica. Talvez por isso, 
muito dificilmente algum ateniense se ateria aos questionamentos sobre o sen-
tido da vida. Ora, se a vida é cíclica, o que você faz serve precisamente para 
o que tem que servir e se você assim não fizer, dentro da cósmica, uma peça 
estará mal encaixada, por assim dizer.
Filosofia, teologia, religiosidade tradicional (sem esquecer a popular) ou sob 
as mais diversas formas. Em nosso mundo plural, onde as pessoas têm buscado 
desesperadamente um sentido, estudar a História das religiões e sua importân-
cia nos mais diversos momentos da civilização faz-se ainda mais necessário 
hoje do que em qualquer outra época. Essa tentativa de autocompreensão é 
libertária ao reafirmar o ser humano e sua trajetória, sempre traçada por ele. A 
partir desse primeiro tópico, ao mesmo tempo histórico e filosófico, estudar a 
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civilização antiga sob o viés da religião parece fazer todo sentido, discordando 
das palavras de Nietzsche que abriram este tópico, o qual afirmou que Deus está 
morto. Embora ao longo da história os seres humanos tenham, nas mais diver-
sas vezes, tentado matá-Lo, Ele se faz mais do que nunca percebido, como nos 
mostram as religiões de ontem e hoje.
Em que sentido podemos afirmar sem embargo que Deus não está morto? 
E em que sentido, é possível dizer que Ele está?
A ideia da morte de Deus ou dos deuses, que Nietzsche (sic) retoma [como 
visto na sequência], de modo certamente novo, tem uma longa e multi-
forme tradição: 1) o espantoso “crepúsculo dos deuses” (ragnarok), descrito 
pelas mitologias germânica e escandinava; 2) o grito “o grande Pã morreu!” 
que, segundo Pausânias, foi ouvido pelos marinheiros helênicos do barco 
de Tamos, na altura do nascimento de Cristo; 3) o “Deus morreu” de Hegel 
da “sexta-feira especulativa”, em que morre o Deus abstrato” para ressusci-
tar o “Deus concreto”; 4) o “Discurso do Cristo morto” (1796) do poeta ale-
mão Jean Paul Richter, descrevendo um pesadelo no qual vê Cristo, no topo 
do mundo, declarar que não há Deus; 5) a “morte do velho Jahvé”, celebrada 
por H. Heine no poema Germânia; 6) o corpo morto e malcheiroso do “Ser 
primitivo eterno” e de que fala Schopenhauer (+1852); 7) o provocador “ma-
tar Deus” de Max Stirner; 8) o “Deus morreu” de Gérard de Nerval em seu 
poema “Amélia”. 
Fonte: Boff (2014, p. 274).
Considerações Finais
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a) aluno(a), fechamos a primeira Unidade do livro de História das Religiões. 
Nela pudemos compreender as especificidades da disciplina. Vimos que ela 
diferencia-se de muitas outras por ser um domínio específico da História e, con-
sequentemente, possui seus próprios objetos, metodologias e teorias. 
Aprendemos que o conceito de religião é complexo, e que foi criado pelo 
ocidente com o objetivo de denominar instituições capazes de legitimar e fazer 
a ligação dos homens com o divino, do sagrado com o profano. Após a concei-
tuação demos atenção ao percurso realizado pela nossa disciplina a partir do 
século XIX, como resposta aos movimentos políticos e sociais que se realiza-
vam naquele determinado momento. Analisamos a sua estreita relação com as 
ciências da religião e toda a influência e importância que a sociologia da religião 
exerceu sobre os estudos da Religião. 
Vimos que a História das Religiões desenvolveu-se como uma disciplina aca-
dêmica e que enquanto uma ciência buscou desenvolver metodologias e teorias 
que fossem capazes de respaldar as análises históricas da religião. São justamente 
essas metodologias que tentamos apresentar ao trabalharmos a Fenomenologia 
e a História Italiana das Religiões. E é justamente essa parte que gostar[iamos 
de fazer um rápido esclarecimento.
A Fenomenologia é o estudos dos fenômenos religiosos a partir das suas 
expressões, sejam elas os mitos, ritos, etc. Essa ciência busca compreender os 
fenômenos que transcendem a História e o próprio homem, em suas análises bus-
ca-se as estruturas e essências da religião para, assim, compreender os elementos 
fundamentais em comum que compõem diversas religiões. Em contraponto à 
fenomenologia, analisamos a História Italiana de História das religiões; é impor-
tante lembrarmos que essa metodologia preza pela historicidade das religiões e 
que, diferentemente da fenomenologia – que busca elementos que transcendem 
a História –, a Escola Romana busca a todo instante compreender o momento 
histórico que proporcionou a formação histórica da Religião.
54 
1. Acerca do surgimento da disciplina de História das Religiões e das Ciências das 
religiões, analise o excerto a seguir: 
“O longo processo que envolveu a configuração de uma História das religiões 
como disciplina específica, dotada de objeto e metodologia próprios, pode ser 
analisado a partir das discussões que, ao longo do século XIX e início do XX, 
aprofundaram as relações entre a defesa do caráter racionalista do homem oci-
dental e a persistência de formas de expressão ainda classificadas de religiosas. 
Resultadode um contexto de progressiva dessacralização, iniciado no século 
XVI com a definitiva ruptura da unidade cristã na Europa Moderna, este per-
curso conheceria ainda, nos séculos XVII e XVIII, uma poderosa resistência por 
parte da Igreja Católica que, reatualizando a oposição entre religião e magia, 
instaurava uma polarização da qual seriam herdeiros os pensadores que, no 
século seguinte, se debruçariam sobre o fenômeno religioso” (HERMANN, Ja-
cqueline. História das Religiões e Religiosidades. In: CARDOSO, C. F.; VAINFAS, 
R.(Orgs.). Domínios da História. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1997). 
De acordo com o texto acima e os conhecimentos obtidos nesta unidade, ana-
lise as afirmações e, em seguida, assinale a alternativa que contenha todas as 
afirmações corretas: 
I. As ciências da religiões desenvolveram-se no século XIX com o objetivo de 
retomar a sacralização da sociedade europeia que se racionalizava cada vez 
mais desde o movimento iluminista no século XVIIII. 
II. As transformações e mudanças realizadas pela Revolução Industrial e o Im-
perialismo estão diretamente ligadas ao desenvolvimento das Ciências das 
Religiões no século XIX. 
III. O homem do século XIX buscava compreender não somente as novas re-
ligiões, mas também a religiosidade do homem e o fenômeno religioso 
em si. 
IV. O desenvolvimento da disciplina de História das Religiões é fruto do século 
XIX, período em que a sociedade europeia vivia um processo de dessacra-
lização e racionalização. 
a) II e IV somente.
b) I, II e III somente. 
c) I, III e IV somente. 
d) II, III e IV somente.
e) I, II, III e IV. 
55 
2. Nesta unidade, aprendemos que a História das Religiões faz parte do grupo das 
Ciências das Religiões que, por sua vez, é composta por diversas disciplinas, 
como a psicologia e sociologia. Sobre o desenvolvimento da sociologia da reli-
gião estudado nesta unidade, analise as afirmações e, em seguida, considere a 
única alternativa que apresenta a sequência correta. 
( ) O positivismo e o evolucionismo foram teorias que influenciaram a socio-
logia religiosa do século XIX, em autores como Edward Burnett B. Tylor. 
( ) O totemismo desenvolvido por Max Weber ajudou a consolidar a ideia de 
que todas as religiões primitivas utilizavam-se dos totens para expressar 
a sua relação com o sagrado. 
( ) Para E. B. Tylor, as sociedades religiosas primitivas eram animistas, sendo 
que o autor classificava o animismo como a primeira fase de um processo 
evolutivo da religião. 
( ) As ideias de Tylor e Durkheim, influenciadas pelo positivismo, foram uti-
lizadas para justificar a sociedade e a religião europeia como fases supe-
riores de civilização. 
a) V-F-V-V.
b) V-V-V-V.
c) V-F-V-F.
d) F-V-V-F.
e) V-F-F-V.
3. A busca pela cientificidade no estudo das religiões e religiosidade fez com que 
os pesquisadores abandonassem a filosofia e a teologia para utilizarem-se de 
disciplinas como a História, sociologia, antropologia, linguística e psicologia. 
Dentro da História, vimos duas possibilidades de análise: a fenomenologia e a 
Escola Italiana de História das Religiões. Sobre a metodologia das Escola “Ro-
mana”, é correto afirmar que ela se baseia:
a) Na teoria animista.
b) Na totemismo.
c) Na análise dos fenômenos religiosos que transcende o homem.
d) Na análise do comportamento e sentimento humano em relação aos fenô-
menos religiosos. 
e) Na comparação histórica sistemática que analisa os processos históricos de 
formação das religiões. 
56 
4. Vimos nessa unidade que a Fenomenologia e a Escola Italiana de História das 
Religiões possuem uma série de diferenças na forma de analisar as religiões. 
Faça um pequeno texto apresentando 3 (três) diferenças entre esses dois mé-
todos teóricos. 
5. Leia o excerto a seguir: 
[...] que o homem, sem apoio e sem ajuda, está condenado a inventar o homem 
a cada instante. Ponge escreveu, num belíssimo artigo: “O homem é o futuro do 
homem”. É exatamente isso. Apenas, se por essas palavras se entender que o 
futuro está inscrito no céu, que Deus pode vê-lo, então a afirmação está errada, 
já que, assim, nem sequer seria um futuro. Se se entender que, qualquer que 
seja o homem que surja no mundo, ele tem um futuro a construir, um futuro vir-
gem que o espera, então a expressão está correta [...]. SARTRE, Jean-Paul. O Exis-
tencialismo é um humanismo. Tradução de Rita Correia Guedes. Disponível em: 
<http://stoa.usp.br/alexccarneiro/files/-1/4529/sartre_exitencialismo_huma-
nismo.pdf>. Acesso em: 01 nov. 2018. 
A partir dos conhecimentos dessa unidade, interprete o texto acima e assinale 
a alternativa que melhor corresponde com a ideia do texto e da unidade. 
a) Jean-Paul Sartre tentou dar sentido à vida sem elencar a presença de Deus, 
e que ele está condenado a definir a sua existência por si só. 
b) Jean-Paul Sartre, assim como Albert Camus, buscava na religião uma expli-
cação para a existência humana. 
c) Jean-Paul Sartre e Albert Camus são exemplos de cientistas da religião que 
deram novos significados a sociedade religiosa do século XX.
d) A busca pelo transcendente religioso é uma das alternativas menos procu-
rada pela sociedade contemporânea para dar sentido a sua existência. 
e) As ideias racionalistas Iluministas dificultaram o desenvolvimento da filoso-
fia existencialista, já que retirava do homem a responsabilidade pelos seus 
atos.
57 
História das Religiões: breve panorama histórico e situação atual no Brasil
O termo “História das Religiões” teria sido empregado pela primeira vez em 1867 na Ale-
manha pelo orientalista Max Müller, no âmbito da Religionswissenschaft, para denomi-
nar uma nova disciplina que estava em fase de construção. Seu surgimento, na transição 
do século XIX para o XX, se dá no contexto da formulação de uma série de novas disci-
plinas dentro das Ciências Sociais, tais como a Sociologia, a Psicologia e a Antropologia, 
dentre outras. Entender a disciplina que estava sendo modelada não apenas interessa 
na perspectiva da História das Ciências Humanas, mas é de importância para acompa-
nhar a sua evolução, alcance e limitações. 
O núcleo da nova disciplina, tal como colocado Max Müller, são as religiões. A expansão 
colonial da segunda metade do século XIX, que fez com que as potências europeias 
disputassem espaço na África e Ásia, teria feito emergir um forte interesse pelo Oriente. 
Dentre outros aspectos, esta curiosidade se desdobrava no interesse pelas religiões “dos 
outros”, tanto nos meios cultos como nas academias, na perspectiva da tradição ilumi-
nista e do romantismo e dentro do desenvolvimento do pensamento social, do apareci-
mento da Arqueologia e do desenvolvimento dos estudos filológicos.
Embora o foco da disciplina tenha sido a religião desde o início, havia necessidade de es-
pecificar a aproximação que se propunha em relação a este objeto, principalmente para 
diferenciar esta abordagem de uma aproximação confessional. Assim, na conjunção de 
termos (História e religiões) a denominar a nova área de estudo, embora o peso recaísse 
sobre o segundo termo, o primeiro define a modalidade de abordagem. Porém, e pelo 
fato de o objeto de estudo serem as religiões, a disciplina acabou apresentando uma 
série de particularidades e especificidades que não se observam em outras áreas da 
História, mesmo que de interseção. Um dos motivos que dá a esta área tal especificida-
de decorre do fato de muitas vezes ter-se lançado mão de instrumentos analíticos para 
abordar o objeto “religião” fortemente modelados pelas características do objeto em si 
e não pela tradição da disciplina História ou do saber histórico. Acompanhar a forma 
em que se configurou a disciplina à luz dos significados que estavam sendo elaborados 
ajudará na compreensão de um fenômeno a atrair tanto interesse. 
No Congresso de História das Religiões de 1900, no qual foram lançadas muitas das 
premissas da nova disciplina, definiu-se um campo de estudo que buscava avaliar as 
origens das religiões eas suas evoluções através de uma análise comparativa dos seus 
elementos. Não é coincidência que uma abordagem analítica desta ordem tenha emer-
gido apresentando como foco as religiões da Ásia (Oriente Médio, Índia e China), que 
em muito se ajustavam à ideia consagrada no Ocidente daquilo que se entendia por 
religião, conceito regido pelo modelo judaico cristão. Assim, pelo fato de haver fortes 
analogias em estrutura e conteúdo entre as religiões do Oriente e a “religião modelo 
ocidental”, a análise comparativa de elementos surgia quase como uma abordagem ob-
jetiva. A ênfase neste tipo de abordagem fez com que, paradoxalmente, a disciplina, que 
no século XIX ficou consagrada como História das Religiões, mais do que fazer a História 
das religiões, praticasse um estudo analítico-comparativo em que se estudavam mitos e 
ritos das religiões, tendo como modelo estruturante a religião cristã.
58 
O modelo que se impunha entre os estudiosos que se afiliavam a esta disciplina era o 
de uma abordagem científica das diferentes religiões partindo do estudo filológico dos 
textos religiosos através de uma análise comparada. Foi daí que surgiu a formulação de 
História Comparada das Religiões que inspiraria inúmeros trabalhos na primeira metade 
do século XX. No projeto de realizar a comparação entre as religiões, foi-se delineando 
um roteiro que incluía o estudo dos textos escritos ou tradições orais fundadoras das re-
ligiões, examinando sua composição e temática; a compilação das versões dos diversos 
mitos; a sistematização das concepções e manifestações da divindade e a confecção de 
inventários com as descrições das práticas ritualísticas, entre alguns dos aspectos mais 
importantes. A comparação operava mediante a identificação de analogias e o confron-
to de diferenças nos mais variados aspectos e levando às mais variadas induções. Em 
vários destes trabalhos a comparação culminava em formulações que apontavam para 
aquilo que seria a “essência da religião entre povos da Austrália, Polinésia, Melanésia 
e África”. Assim, a produção da História das Religiões desse período, além de gerar vo-
lumosas informações sobre as noções e práticas religiosas dos “povos primitivos” e da 
“antiguidade”, permitiu constituir um repertório próprio no qual a História religiosa se 
confundia com a História das Civilizações e da própria condição humana. Tal produção, 
assim como os avanços das Ciências Sociais da época com suas novas indagações, le-
varam alguns autores a se aproximarem dos estudos fenomenológicos. Na Alemanha, 
seguindo as formulações de Joachim Wach de 1924, a História da Religião ou Ciência 
da Religião Histórica seria uma das duas colunas da Ciência da Religião, sendo a outra a 
Ciência da Religião Sistemática.
[...] Foi publicada em 1970 pela editora Gallimard, com a introdução elaborada por An-
gelo Brelich, chamada Prolégomèns à une Histoire des Religions. Na Itália, merecem desta-
que as obras de Pettazzoni, De Martino, Brelich, Sabatucci, Bianchi. 
Em paralelo a estas obras enciclopédicas, surgem outros tipos de estudos, como um 
de ampla divulgação durante o século XX: o Manual de História das Religiões, de Mir-
cea Eliade. O exame da organização do texto revela um novo entendimento a respeito 
do que seria o objeto de estudo da História das Religiões. O autor não apresenta como 
objeto de análise as religiões; antes começa por formular uma morfologia do sagrado 
e passa a postular grandes temas como os cultos ao sol e à lua, à água e à terra, para 
passar a examinar o que postula como sendo os espaços sagrados e centros do mundo 
para diversas culturas.
Fonte: Torres-Londoño (2014, p. 124 - 126).
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
História das religiões: perspectiva histórico-comparativa
Adone Agnolin
Editora: Paulinas
Sinopse: História das Religiões é uma síntese abrangente e inédita para o 
público brasileiro da perspectiva histórico-religiosa realizada pela Escola Italiana 
de História das Religiões. Na primeira parte, são oferecidos os fundamentos 
básicos dessa disciplina e metodologia de estudos extremamente profícua e 
urgente, não somente para o estudante do curso de História, mas geralmente 
para o de Ciências Sociais: tendo em vista a urgência do restabelecimento de 
um diálogo entre várias disciplinas e vertentes. A obra utiliza, entre outros 
recursos analíticos, a tradução de alguns textos basilares, fundadores e 
exemplares desse percurso metodológico da escola Histórico-Religiosa.
O Sagrado e o Profano
Mircea Eliade
Editora: WMF Martins Fontes
Sinopse: esta obra de Mircea Eliade foi escrita para o grande público com o 
objetivo de realizar uma introdução acerca dos estudos fenomenológicos e 
históricos da religião. A obra pode ser considerada uma introdução à História 
das Religiões.
O livro das religiões
Shulamit Ambalu; Michael Coogan; Eve Levavi Feinstein et al.
Editora: Globo Livros
Sinopse: trata-se de um livro fisicamente muito bonito e com riquíssimo 
conteúdo elaborado por uma série de pesquisadores, alguns de Harvard, 
sobre as grandes religiões do mundo, cronologicamente. Indispensável como 
consulta rápida.
MATERIAL COMPLEMENTAR
Apresentação: Você sabe com quem está falando? Neste vídeo, o filósofo brasileiro Mário Sérgio 
Cortella, de forma simples e brilhante, descreve “sucintamente” quem você é. Vale a pena assistir.
Web: <https://www.youtube.com/watch?v=kEOcMfukTm8>.
História das Religiões
Ano: 1999
Sinopse: a religião, filosofia, pragmatismo e ceticismo são temas que provocam a 
reflexão sobre a existência humana: de onde viemos, para onde vamos e porque 
estamos aqui. Povos de diversas partes do mundo, em épocas diferentes, cada 
um à sua maneira procuraram e ainda procuram respondê-las. Nesta série de 
documentários, encontram-se algumas respostas, vistas a partir da ótica espiritual 
ou racional de africanos, ameríndios, budistas, católicos, ceticistas, confucionistas, 
egípcios, gregos, judeus, romanos, taoístas e xintoístas.Neles, a viagem espiritual 
passa pela geografia e pela História. As imagens são deslumbrantes e as 
informações nelas impressas são certamente uma aula. A chance de se aprofundar 
em temas complexos são vitais à nossa compreensão da vida.
REFERÊNCIAS
61
REFERÊNCIAS
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WILGES, I. Cultura Religiosa: as religiões do mundo. Petrópolis: Vozes, 1994.
GABARITO
63
GABARITO
1. D.
2. A.
3. E.
4. A fenomenologia e a Escola Italiana de História das Religiões são, apenas, dois 
dos diversos métodos existentes para o estudo da História das Religiões. E como 
métodos distintos, possuem formas diferentes de analisar as religiões. Um dos 
principais elementos que as diferenciam é que, na fenomenologia, a religião é 
vista como algo transcendente ao homem, enquanto a Escola Italiana analisa a 
religião como algo imanente da História, fruto de seu contexto histórico e da cul-
tura daquela sociedade que a criou. Enquanto a fenomenologia analisa a religião 
como algo consubstancial ao homem, a Escola Italiana analisa como algo cria-
do pela cultura humana. Por fim, enquanto a fenomenologia analisa as religiões 
para encontrar as estruturas comuns entre os variados fenômenos religiosos, a 
Escola Italiana analisa a constituição histórica das religiões em sua diversidade, 
compreender como elas foram historicamente fundadas.
5. A.
U
N
ID
A
D
E II
Professor Dr. Fábio Augusto Darius
Professor Me. Augusto João Moretti Junior
NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO 
DE GRANDES TRADIÇÕES 
RELIGIOSAS: HINDUÍSMO, BUDISMO, 
JUDAÍSMO E ISLAMISMO 
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Compreender a história e alguns elementos considerados 
fundamentais sobre o hinduísmo.
 ■ Compreender a história e alguns elementos considerados 
fundamentais sobre o budismo.
 ■ Destacar a irrefutável relevância do judaísmo ontem e hoje, 
percebendo sua contribuição para nossa formação cultural e 
espiritual.
 ■ Entender o contexto sócio-histórico do islamismo, bem como a 
passagem de alguns textos de seu livro sagrado.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ O Hinduísmo e a busca por elevação pessoal
 ■ O Budismo: a busca e o encontro do “caminho do meio”
 ■ A História do Judaísmo
 ■ Maomé e a impossibilidade de compreensão de Deus
Introdução
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INTRODUÇÃO
Prezado(a) aluno(a)! Na unidade anterior, apresentamos um tema importantís-
simo para você, futuro(a) professor(a) de História e, por que não, historiador(a). 
Tal tema é a teoria da História das Religiões. Realizamos todo o percurso his-
tórico do desenvolvimento dessa disciplina. Desde o surgimento das ciência(s) 
da Religião, passando pela sociologia religiosa e de teorias específicas como a 
Fenomenologia e a escola Italiana de História das Religiões. Por fim, vimos a 
importância da História das Religiões para a filosofia existencialista, assim como 
o papel da História das Religiões para acalmar a angústia que caí sobre o homem 
pós-moderno. 
Agora, dando prosseguimento a esta irrecusável viagem que aqui fazemos por 
gosto e paixão, vamos imergir no mundo das, assim chamadas, grandes religiões. 
Não que sejam melhores do que muitas outras que aqui não serão contempla-
das. Chamamos de grandes religiões visto que deixaram grandes ensinamentos 
que ainda hoje influenciam a vida de, literalmente, bilhões de seres humanos. 
Grandes porque sem elas simplesmente não conseguimos enxergar, sob prati-
camente nenhum aspecto, tanto a história do Oriente quanto a do Ocidente. 
Vamos além: como pensar o seu mundo contemporâneo, incluindo grande 
parte do nosso sistema de pensamento e tantos ideários populares, ou nem tanto, 
sem levar em conta o judaísmo como religião que fundou o monoteísmo e, assim 
sendo, a religião que hoje muitos professam? Será que os grandes gurus e rabi-
nos do passado e do presente ainda têm algo a nos dizer hoje?
O que proponho nas páginas desta segunda unidade é um passeio por algu-
mas concepções do hinduísmo, budismo, judaísmo e islamismo, de tal sorte que 
nossa visão de mundo possa se manter aberta e equilibrada, percebendo que, 
apesar da multiplicidade de etnias e crenças, o ser humano sempre esteve unido 
entre si pela busca comum de algo que transcenda à sua própria existência. 
NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DE GRANDES TRADIÇÕES 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E68
O HINDUÍSMO E A BUSCA POR ELEVAÇÃO PESSOAL
Em nossa busca pelos rastros históricos da transcendência, finalmente chegamos 
ao estudo das, assim chamadas, grandes religiões do oriente. Contudo, precisamos 
refletir sobre o que para nós, genericamente falando, é ou significa o oriente. Em 
outras palavras: o que nos vem à mente quando pensamos no oriente? Não seria 
uma invenção nossa, ou seja, algo criado a partir de nossa concepção de vida oci-
dental? Um dos maiores estudiosos sobre o Oriente, Edward W. Said, escreveu: 
Comecei com a suposição de que o Oriente não é um fato inerte da 
natureza. Ele não está meramente ali, assim como o próprio Ociden-
te tampouco está apenas ali. Devemos levar a sério a grande observa-
ção de Vico de que os homens fazem a sua história, de que só podem 
conhecer o que eles mesmos fizeram, e estendê-la à geografia: como 
entidades geográficas e culturais – para não falar de entidades históri-
cas –, tais lugares, regiões, setores geográficos, como o “Oriente” e 
“Ocidente”, são criados pelo homem. Assim, tanto quanto o próprio 
Ocidente,o Oriente é uma idéia que tem uma história e uma tradição 
de pensamento, um imaginário e um vocabulário que lhe deram reali-
dade e presença no e para o Ocidente. As duas entidades geográficas, 
portanto, sustentam e, em certa medida, refletem uma à outra (SAID, 
2007, p. 31, grifo nosso).
Cientes dessa definição de Oriente, damos início à análise das religiões ditas 
orientais. Iniciamos nossa análise com o Hinduísmo. A princípio, realizamos 
uma observação importante: o Hinduísmo não pode, a rigor, ser percebido como 
O Hinduísmo e a Busca por Elevação Pessoal
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uma religião que em si carrega todas as suas características práticas e/ou con-
ceituais. Pensar assim seria simplesmente generalizar toda a sorte de diferença 
entre aqueles que a praticam, mas que não se reconhecem como iguais. Seria 
a mesma coisa que afirmar que o Cristianismo é uma religião unitária e totali-
zante e quem o pratica é chamado cristão, deixando de lado todas as milhares de 
divergências teológicas e práticas que as diversas denominações cristãs no oci-
dente e no oriente carregam. 
Atentando-se a esta diferenciação, perceba que o hinduísmo está inserido 
(como o cristianismo) enquanto tradição religiosa, ou seja, matriz religiosa 
que dá origem a religiões, grupos religiosos ou indivíduos que partilham dessa 
doutrina ou prática. Outra importante diferença que vale a pena notar é que o 
hinduísmo pode se referir a absolutamente qualquer religião nativa constituída 
na Índia, independentemente de existir ou não grandes paralelos com outras 
expressões religiosas daquele país.
A verdade que, muitas vezes, nos incomoda (ou nos proporciona segurança), 
mesmo aqui no ocidente, é que a religião, qualquer uma, acredita ter (e mui-
tas vezes, em diversas culturas, realmente tem!) a palavra final sobre muitos e 
importantes elementos constituintes de certas culturas. O sistema de castas, por 
exemplo, que impossibilita totalmente que alguém transcenda sua classe social 
originária ou mesmo se relacione com alguém de outra classe, muito provavel-
mente tem a sua origem na religião hindu ou em uma de suas divisões chamada 
de hinduísmo dérmico (lembrando que darma ou dharma tem relação com a 
lei e, neste caso, com a moral comunitária). 
Partindo deste princípio, não é difícil imaginar que também os casamen-
tos – que muitas vezes são arranjados pelos pais ainda enquanto seus filhos são 
crianças – respeitem determinadas normas religiosas. Ou seja, na religião hindu, 
assim como na maioria das religiões orientais, a religião está estritamente ligada 
ao social e político. Lembre-se de que vimos no primeiro capítulo deste livro o 
conceito de religião fora criado pelo cristianismo e foi a partir da criação desse 
conceito que separou-se a ideia de religião, religiosidades e a vida comum, o 
dia a dia das sociedades. Está vendo o quão difícil é separar, principalmente no 
que diz respeito às religiões, uma opinião pessoal que nem sempre é necessa-
riamente positiva?
NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DE GRANDES TRADIÇÕES 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E70
Esta grande matriz religiosa nomeada hinduísmo nasceu no subcontinente 
indiano há, pelo menos, uns 1700 anos antes de Cristo e muitos de seus prati-
cantes a chamam por outro nome, Sanātana Dharma, que significa, em língua 
sânscrita, algo como “a eterna lei”. Como a Índia é extremamente povoada 
e a religião hindu está intrinsecamente relacionada àquele povo, é fácil per-
ceber que o hinduísmo, em suas múltiplas vertentes, seja praticado por uma 
infinidade de pessoas. 
O centro de pesquisa Pew Research Center (2015) afirma um número de 
1,1 bilhões de hindus em todo o globo. Isso a coloca entre as três religiões 
mais praticadas do planeta, atrás do cristianismo e do islamismo, embora não 
seja tão simples precisar qual dentre as duas últimas possui mais membros. 
Contudo, em outros países, inclusive fora do contexto geográfico asiático, 
ela é praticada, como nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra – em grande 
medida também por causa das migrações em busca de melhores oportuni-
dades de vida.
Como no cristianismo majoritário, o hindu, sempre genericamente falando, 
crê na trindade, mas uma trindade com um caráter distinto da trindade cristã 
– para os ocidentais, Pai, Filho e Espírito Santo. A trindade hindu é composta 
por Brahma (ou Brama, ou ainda Bramá, porque a nomenclatura oriental 
é bastante complexa em sua tradução), considerado algo como uma força 
criadora e ainda ativa no universo. O Deus cristão é, sem embargo, também 
considerado criador, mas o fato Dele estar ou não ativo varia entre as mais 
diversas denominações que, em alguns casos, consideram o Espírito Santo 
O sânscrito pode ser considerado uma língua clássica da Índia que, direta 
ou indiretamente, influenciou os idiomas ocidentais. Sânscrito significa “a 
escrita da cidade dos deuses” e há mais documentos antigos preservados 
nesta língua do que em latim ou grego.
Fonte: os autores.
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como uma força ativa. Shiva (representada sempre com muitos braços e per-
nas) e Vishnu são os outros deuses que compõem esta trindade. De acordo 
com Ireneu Wilges (1994, p. 28):
O hinduísmo acredita em muitos deuses menores. Existem 33 milhões 
de deuses. Os sacerdotes hindus afirmam que são apenas representações 
de diferentes atributos de Brama ou nomes do mesmo deus. Aqui temos 
uma semelhança com Deus Uno e Trino dos cristãos: Pai, Filho e Espí-
rito Santo. Alguns autores chegam a afirmar que a doutrina trinitária 
cristã provém do hinduísmo. Mas a semelhança é apenas aparente, por-
que o hinduísmo temos um deus, mas com três nomes diferentes. É o 
mesmo Uno que uma vez é chamado Brahma, outra vez Vishnu e outras 
vezes Shiva. Segundo as regiões da Índia,o mesmo Uno tem nomes di-
ferentes; enquanto que no cristianismo há um só Deus, mas o Pai não é 
o filho nem o Espírito Santo; e o Filho não é o Pai nem o Espírito Santo; 
e o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho, mas cada um é ele mesmo.
Saíndo da discussão acerca da Trindade, retornamos à história hindu. Shiva 
foi a responsável pela destruição do universo, enquanto Vishnu, ao mesmo 
tempo, simplesmente encontrava-se dormindo sobre o oceano. De uma flor de 
lótus brotada do umbigo de Vishnu surgiu Brahma, recriando-o. Desta forma, 
pode-se afirmar que Brahma representa, para os hindus, o que Deus representa 
para os cristãos, embora as figuras do Filho e do Espírito Santo não possam ser 
precisamente delimitadas por aquela mitologia, embora seja perceptível, no 
relato bíblico da criação do mundo, a imagem do Espírito de Deus pairando 
sobre a água, quase como Vishnu.
A mitologia hindu, extremamente rica, para muitos de seus praticantes não 
é considerada mitológica, mas real, assim como muitos cristãos não veem como 
mitológica a criação do mundo e o dilúvio, tal como a Bíblia apregoa. Partindo 
deste olhar, em grande parte, a mitologia hindu é relembrada ou balizada por 
seu calendário, que faz relação com as estações do ano. 
Caro aluno, você sabe o real significado do conceito de mito? Sabe o seu signi-
ficado para o historiador? Abaixo você encontra um vídeo no qual explicamos, 
brevemente, o significado desse tão importante conceito para a História das 
Religiões.
<https://vimeo.com/299468054/d64ed8ea63>.
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No entanto, para além dos mitos, é muito importante levar em conta que as cren-
ças hindus são baseadas na adoração de um espírito supremo, que é cósmico (e, 
portanto,imaterial), mas que pode ser representado por diversas divindades, 
individualmente. Assim, a religião hindu busca levar à experimentação indivi-
dual das divindades. Esse processo está dividido basicamente em quatro estágios 
da existência humana: o aprendizado, a vivência, retirada e isolamento. O apren-
dizado é o conhecimento de certos trechos de seus livros sagrados, sob a estrita 
orientação de um guru que, para o hinduísmo, sikismo e budismo, é considerado 
um professor profundamente conhecedor de certa linha filosófica. Esse estágio 
é tido como obrigatório e inalienável.
O segundo estágio diz respeito à vivência, ao ser humano e sua vida. Inclui 
a escolha de um trabalho, de uma esposa e, dessa relação, a concepção de filhos. 
Isso geralmente se dá na fase adulta, que por lá pode começar um pouco mais 
cedo do que no Brasil, onde é cada vez mais comum que os filhos fiquem até 
mais tarde, até a faixa dos quase 30 anos, na casa dos pais. Depois de uma vida 
inteira dedicada aos estudos, trabalho e relações familiares, com a chegada dos 
netos, é comum que alguns homens abandonem suas vidas cotidianas e busquem 
o terceiro estágio, o retiro, aconselhando os mais novos acerca das agruras e sor-
tes da vida. Em raríssimos casos, acontece o último estágio, que é o isolamento, 
em que o homem vira um ascético sem rumo, ou seja, renúncia a qualquer pra-
zer da vida, esperando em breve morrer. Dessa forma, a partir desses estágios, o 
homem (falo aqui apenas e tão-somente do homem e não da mulher) vive uma 
vida de devoção. Em virtude de complicada vida contemporânea, é cada vez mais 
comum que os homens continuem por quase todo o transcurso de suas vidas 
chefes de família, no segundo estágio. 
Falando em devoção, é extremamente comum entre ocidentais e orientais a 
chamada yoga, prática que visa alcançar, simultaneamente, um melhoramento 
das percepções espirituais bem como superar algumas limitações do corpo físico, 
visto que para os hindus, corpo e mente, a todo o momento se influenciam. Se 
nós, ocidentais, pensamos de forma mais compartimentada, ou seja, ainda ten-
demos a separar corpo de espírito, isso em muito se deve a Platão ou ao dualismo 
neoplatônico e mostra a influência grega ainda hoje sobre nós. De acordo com 
Ambalu, Coogan, Feinstein (2014, p. 113): 
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Para praticar ioga não é necessário crer em nenhuma divindade exter-
na, mas a prática desfaz os emaranhados da experiência física, libertan-
do o verdadeiro ser para a união de sua identidade com o absoluto. Isso 
só faz sentido, porém, no contexto da filosofia na qual ela se baseia – o 
Samkhya. Uma das escolas mais antigas da filosofia indiana, o Samkhya 
defende o dualismo absoluto de prakriti (matéria) e purusha (consciên-
cia pura). Algumas filosofias contrastam o físico com o mental, mas o 
Samkhya considera a mente uma forma aperfeiçoada da matéria.
Não podemos deixar de falar ainda dos Vedas ou conjunto de livros sagrados 
dos hindus – quatro, na verdade. É ali que se encontram os fundamentos éticos 
da religião, norteando a vida e, 
obviamente, a história dos hin-
dus. Sem eles, certamente nossa 
própria concepção de oriente, 
ainda que torpe, não poderia 
sequer ser assim visualizada. 
Nos vedas encontramos os 
mantras, que podem ser desde 
orações, quase como as que 
encontramos nos salmos da 
Bíblia, até fórmulas rituais. Aí 
você pode perguntar: quando esses livros foram criados, e até que ponto eles 
podem ser lidos? A resposta é, ao mesmo tempo, simples e complexa. Segundo 
os crentes, estes livros foram incriados, são eternos e entendidos apenas pelos 
sábios. Tem esse nome, pois um desses sábios, Veda Vyasa, em um ponto desco-
nhecido da história, foi o compilador dessas palavras de sabedoria. Aliás, “veda” 
significa compilador ou compilação. Vale a pena, mesmo a título de curiosidade, 
eventualmente você dar uma olhada em alguns desses textos.
O Brahma é real, o mundo é ilusório. A chamada alma é o próprio Brahma.
(Adi Shankara)
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Poderíamos discutir ainda um pouco mais acerca das questões que permeiam a 
mitologia ou, grosso modo, a “teologia” multifacetada do hinduísmo. Contudo, 
deve-se aqui fazer presente, de forma mais vivaz, a própria história contextual 
do Hinduísmo, o que faremos a seguir. Mas pense conosco! Muito do que você 
leu acima “combina” com a nossa visão acerca dos hindus como pessoas mais 
voltadas a si mesmas, no sentido religioso, do que nós, não é mesmo?
Por onde começar a contar, muito resumidamente, uma história que supos-
tamente tem início há uns 3000 antes de Cristo? Tudo o que se sabe, com alguma 
certeza, sobre o início da civilização hindu é que eles originalmente habitavam um 
território que hoje é parte do Paquistão. Assim, eles passaram um milênio até que 
em, aproximadamente, 2000 a.C., por algum motivo, essa civilização começou a 
perder poder e foi gradualmente se desintegrando. Ao mesmo tempo (e/ou talvez 
justamente por este motivo) um povo passou a dominar aquela região, ora pacífica, 
ora belicosamente. Tratam-se dos ários. Pelo próximo milênio, os ários desenvol-
verem os vedas, em um período chamado de Período Védico, ou seja, os inícios 
da religião hindu se deram a partir daqueles que, de certa forma, os dominaram.
Os ários realizavam sacrifícios aos deuses, característica comum entre as 
antigas civilizações. Nos séculos seguintes, a religião passou a ser pouco a pouco 
reformulada, com a gradual diminuição dos sacrifícios e a substituição de certos 
deuses antigos dos ários por outros, mais novos, dos hindus, de tal sorte que já 
naquele momento a religião hindu foi descontextualizada da religião dos ários. 
Dentre os citados reformadores, um deles nos chama a atenção, Sidarta Gautama, 
que criou o budismo. Entretanto como você deve imaginar, embora o budismo 
tenha surgido do hinduísmo, há substanciais diferenças entre as duas religiões. 
Sobre ela, falaremos no próximo tópico. O fato é que houve um conquistador na 
história, Alexandre, que dominou praticamente todo o mundo conhecido, e no 
quarto século antes de Cristo chegou às imediações da Índia. E é aqui que mais 
precisamente você perceberá que a religião hindu se forma, a partir de múltiplos 
processos de dominação.
O Império Mauria, por exemplo, o primeiro da Índia, foi o palco de certo 
Ioga Sutra, cuja prática tratamos acima. E foi preciso realmente muita meditação 
para suportar o que veria a seguir. Porque, como você imagina, o dito império 
não durou para sempre.
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Surgia, então, um novo e vigoroso império, o Gupta. Ao longo desse império, 
um livro muito interessante surgiu: o Kama Sutra, que, embora alguns desavi-
sados pensem que é apenas um livro de cunho sexual, representa uma das bases 
da religião hindu, que é o amor e o prazer, inclusive o erótico. Eis o que significa 
o termo Kama, que nada tem a ver com leito nupcial ou sexual pura e simples-
mente. No Império Gupta, também chamado de Era de Ouro, foram implantados 
os pilares da cultura hindu, entre 350 e 550 de nosso tempo. Durante esse perí-
odo, simultaneamente, o hinduísmo e o budismo foram considerados religiões 
oficiais. Também o Império Mongol por lá aportou e novamente efetuou trans-
formações regionais, assim como os califados islâmicos alcançaram a região e 
realizaram alterações, levaram a formação do sikhismo, uma religião sincrética 
dos elementos hindus, islâmicos e sufistas. 
Então, depois dos ários, hunos e mongóis, já no contexto da Idade Moderna, 
foi a vez dos britânicos,que, aliás, sem ser exagerado, dominaram quase todo o 
mundo conhecido. E assim foi até o século XX. No contexto das independên-
cias, incluindo as dos países sob o jugo britânico em virtude da Segunda Guerra 
Mundial, a Índia descobriu seu grande líder, Mahatma Gandhi, decidido a lutar, 
embora pacificamente, por meio de marchas, protestos e boicotes.
De uma forma ou de outra, as lutas de Gandhi deram certo, e a Índia foi 
finalmente reconhecida como independente em 1947, um ano antes da criação 
do Estado de Israel ser assim proclamado, a partir de uma resolução da ONU. 
Infelizmente, Gandhi não viveria tempo suficiente para ver seu país se desenvol-
ver longe da dominação de quem quer que fosse. Em 1948, ele foi assassinado 
por um hindu. Em 1984, Indira Gandhi, que não tinha nenhum parentesco com 
Mahatma, visto que seu marido adotou o sobrenome famoso por razões políti-
cas, foi assassinada por um sique depois que ela mandou fechar um santuário, 
provocando muitas mortes, tanto do lado do exército, quando do lado popular.
Nessas poucas linhas, tentamos traçar um pequeno histórico da Índia sob o 
viés da religião. Sem dúvida, ao deixar de lado outras importantes características, o 
texto não se encontra completo. Gostaria que você, caso tenha se interessado pelo 
assunto, continue sua pesquisa. Afinal, você não é um(a) aluno(a), ou seja, alguém que 
depende da “luz” do professor para manter a sua acesa, mas um(a) estudante, alguém 
que efetivamente estuda. Conto com você para o preenchimento dessas lacunas!
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O BUDISMO: A BUSCA E O ENCONTRO DO 
“CAMINHO DO MEIO”
Imagino que você tenha percebido que as histórias do hinduísmo e do budismo 
em algum momento se cruzaram. Todavia o budismo é a religião do Buda que, 
ao contrário do que muitos pensam, não foi ou é uma pessoa em si, assim cha-
mada. Buda está mais para um título, e de fato o é, para aqueles pouquíssimos 
dentre muitos que finalmente se “despertam” para a verdadeira natureza, con-
forme os ditames de sua religião, passando a vida a divulgá-los.
Contudo, houve uma vez na história aquele que foi considerado o pri-
meiro Buda. Trata-se de certo Sidarta Gautama. Sendo filho de um rajá, 
Sidarta era filho de um rei. Você pode imaginar como vivia um rei ou gover-
nador naqueles tempos, ou seja, uns 500 anos a.C., mais ou menos no período 
em que na Grécia viveu Sócrates? Bem, havia muito, muito ouro, festas dura-
douras, comida à vontade e mulheres. Na verdade, um harém, onde viviam 
muitas mulheres que estavam “disponíveis” para o seu senhor. Pois bem, neste 
antro de ociosidade, luxo, luxúria e toda a sorte de prazeres carnais viveu o 
pequeno futuro Buda. 
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Figura 1 - A bandeira do budismo
Legenda: o azul representa bondade; o amarelo, o caminho do meio; o vermelho, as bênçãos; o branco, a pureza, e a 
cor laranja, os ensinos do Buda. Foi concebida em 1880 e hasteada pela primeira vez no Sri Lanka oito anos depois.
Fonte: Freestock ([2018], on-line)1.
Essa vida de devassidão se deu basicamente por um motivo: seu pai ouvira uma pro-
fecia – que não se sabe muito bem como se deu, e já afirmamos agora que muitas 
histórias ligadas a Buda não podem ser necessariamente comprovadas historica-
mente – que das duas opções, uma se comprovaria: seu filho seria um grande e 
próspero governante, seu sucessor, ou seguiria outro caminho, precisamente o oposto 
da primeira opção. Se optasse por esta, Sidarta seria um arauto da justiça, denun-
ciando as mazelas do mundo e se fazendo pobre. Existe uma pequena semelhança 
entre alguns desses detalhes até aqui descritos e a vida de São Francisco, que em 
sua juventude desfrutou de uma vida fácil e mundana para depois fazer um voto de 
pobreza e passar o resto dos seus dias com os mais miseráveis dentre os miseráveis.
Voltando ao nosso protagonista, seu pai, o rajá, temendo que seu filho por 
ventura se voltasse para uma vida humanitária cerceou sua liberdade. Assim, 
ele não pode sair dos muros do palácio. Chegando, ainda aos dezesseis anos 
de idade, a se casar com sua prima, tendo inclusive gerado um filho, ao mesmo 
tempo em que tinha à sua disposição um sem-número de mulheres para satis-
fação de seus desejos sexuais e toda sorte de libertinagens.
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IIU N I D A D E78
Em algum momento antes dos seus trinta anos, sabe-se lá se por descuido 
dos guardas de seu pai ou qualquer coisa do tipo, o já não mais tão jovem Sidarta 
– imaginando que a vida devassa realmente consome com mais intensidade a 
beleza da juventude – conseguiu transpor os muros de seu local de habitação. 
A primeira coisa que viu foi um velho destroçado por uma vida opressora, com 
olhos quase sem vida, praticamente pele e ossos. Logo em seguida viu, para sua 
total consternação, um cadáver putrefato em todo o seu horror. Um morto que 
sequer teve um sepultamento. Imagine a cena: um homem rico, vivendo exces-
sivamente, se deparando pela primeira vez com a pobreza e com a morte, ainda 
que podendo escolher a vida garantida proporcionada pelos privilégios do rajá.
Pela terceira vez, olhou para fora de seus próprios domínios protegidos e viu 
um asceta errante, ou seja, uma pessoa que vive uma vida extremamente aus-
tera, não se preocupando com a matéria como um todo. Mas algo lhe chamou a 
atenção: esse asceta estava feliz! Vivia com muito pouco, quase nada e isso pare-
cia não importar. Ao mesmo tempo ele, Sidarta, tinha tudo o que um homem 
poderia desejar, mas algo lhe faltava. A visão daquele errante era o que ele pre-
cisava para fazer a sua escolha. Logo percebeu, refletiu e encontrou o que hoje 
conhecemos como o “caminho do meio”.
O que isso quer dizer, sem parecer demasiadamente simples? Que o conforto 
material, ou seja, coisas que o dinheiro pode comprar, não nos torna imunes ao 
sofrimento ou mesmo ao vazio. Ao mesmo tempo, pensar que viver sem dinheiro 
vai nos livrar dessas dores e sentimentos fugidios e tristes não é correto. Assim, 
de forma individual, cada pessoa deve buscar seu próprio caminho, mantendo 
um equilíbrio entre sua vida física e espiritual. Mas é mais do que isso, caro(a) 
aluno(a). Encontrar o caminho do meio também pode significar a negação da 
vida eterna da alma ao mesmo tempo em que também existe a negação do sen-
tido de todas as outras – dois opostos, portanto.
O grande problema (ou não) é que, pensando assim, Sidarta estava cons-
cientemente rompendo com alguns preceitos da antiga religião hindu. Por isso, 
você pode estar pensando: se ele escolheu o ascetismo em virtude daquela visão 
de felicidade nos olhos do asceta, ele não optou por negar toda a vida material? 
Não exatamente, pois considerava a vida asceta um tanto incompleta também. 
A conexão ou interconexão é a palavra que talvez melhor traduz esse caminho 
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do meio, que deve ser bem prática: a vida monástica não é um voto vitalício e 
depois de alguns meses ou anos, a pessoa que optou por abandonar o “mundo” 
pode voltar para o seio de sua família. Optando por absolutamente não causar 
nenhum mal, a homens ou animais, o vegetarianismo é quase sempre a opção 
do budista. Sobre questões centrais ligadas tanto à religião hinduísta quanto à 
budista, ou seja, sobre os deuses, Sidarta nunca disse uma palavra, considerando 
algo desnecessário para se pensar ou debater.
A lenda diz que ele, ao abandonar sua vida pregressa, passoua comer cada 
vez menos até que finalmente um único e simples grão de arroz lhe saciava. Ao 
longo de sete dias e sete noites, na mais profunda meditação, Sidarta atingiu a 
iluminação e, aí sim, passou a ser o Buda, visto que alcançou o nirvana, estado 
de total libertação dos sofrimentos via espiritualidade.
Agora que você já sabe em linhas gerais sobre o que trata o budismo, enquanto 
proposta de busca de sentido para a vida, creio que será mais fácil estudar um 
pouco de sua história.
Buda, que morreu aos 80 anos, não deixou um sucessor. Assim, surgiram 
vários movimentos posteriores à sua morte. Aliás, o budismo primitivo, ou seja, 
aquele de Sidarta, pode ser considerado marginal. Contudo, vários concílios foram 
realizados após sua morte, em que se estipularam meios e formas de divulgar e 
expandir o movimento. O primeiro deles, ocorrido pouco depois de sua morte, 
ocorreu na Índia e teve o objetivo de registrar o que Buda falou. Essa preocupação 
se mostrou necessária para que não surgissem grupos que falassem supostamente 
em seu nome palavras que não saíram de sua boca e ensinos deturpados. 
O budismo apresenta cinco regras de conduta: não fazer mal a nenhuma 
criatura viva; não tomar aquilo que não lhe foi dado (não roubar); não se 
comportar de modo irresponsável nos prazeres sensuais; não falar falsida-
des; não se entorpecer com álcool ou drogas.
Fonte: Hellern, Notaker e Gaarder (2000, p. 60-61).
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O segundo concílio foi palco de uma queda de braço entre liberais e conser-
vadores, ou seja, entre grupos que estavam precisamente fazendo o contrário da 
proposta do primeiro concílio contra os seguidores dos ditos de Buda. Entretanto 
a história do Budismo ganha realmente força a partir de certo rei Asoka, que se 
arrependeu amargamente dos métodos que empreendeu ao dominar certa região 
da Índia. Convertendo-se ao budismo, erigiu pilares contendo ensinamentos 
de Buda, na verdade 33, entre 269 e 231 antes de Cristo. Alguns desses pilares 
ainda existem e representam um dos primeiros elementos materiais da religião.
A partir daí, houve uma tentativa de levar os ensinamentos de Buda para o 
mundo helênico. Não se sabe ao certo sobre o êxito ou fracasso dessa emprei-
tada, mas há ao menos um registro de uma comunidade budista em Alexandria, 
precisamente por essa data.
O povo Mons, que em 200 a.C. estava situado no atual Myanmar, parece ter 
se convertido ao budismo durante esta época; também, nesse período, parece ter 
chegado ao Sri Lanka. Em 185 a.C., e mais ou menos uns cinquenta anos depois da 
morte de Asoka, a dinastia Sunga conquistou seus territórios. Visto que Sunga era 
um brâmane, ou seja, um hinduísta que não tolerava os budistas, provavelmente 
pela primeira vez na história houve perseguição e depredação de centros budistas.
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Após esse embate, há relatos um tanto quanto nebulosos sobre a expansão 
budista pelo mundo, mas, sobretudo, na Ásia. A relação mais interessante entre 
budismo e cristianismo na Idade Média se dá na tradução por João Damasceno, 
um santo católico, de uma biografia de Buda, contada como sendo a história de 
certo Josafat e Baarlam. A verdade é que Josafat foi, posteriormente, por causa 
da descrição de sua vida no livro, declarado santo. Assim, Buda foi, por engano, 
considerado um santo católico, aliás, na Idade Média, eventualmente, católicos 
consideravam os geograficamente distantes budistas como cristãos perdidos, 
de tal sorte que não é exagero dizer que, sob alguns aspectos, há relação, sim, 
entre uma e outra religião. 
Caro(a) aluno(a), a seguir veja a entrevista realizada com o monge budista 
Eduardo.
Link do vídeo: <https://vimeo.com/298075667/9a327a54ea>.
Por incrível que pareça, o budismo hoje está mais forte do que nunca, em grande 
medida por propagar essa busca individual pela iluminação. Como você deve 
se lembrar, nosso mundo atual é individualista e os grandes projetos políticos 
e ideológicos enfrentam vários problemas precisamente pelo desinteresse geral 
das pessoas por essas questões, ao contrário de décadas atrás.
O budismo tibetano é um movimento que nasceu das ideias do budismo tra-
dicional e tem na figura do Dalai Lama sua principal representação. “Lama” 
significa mestre e, por isso, a religião também é conhecida como lamismo.
Fonte: os autores.
https://vimeo.com/298075667/9a327a54ea
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A HISTÓRIA DO JUDAÍSMO
Caro(a) aluno(a), até aqui realizamos um rápido passeio pelas chamadas reli-
giões do antigo oriente ou do “oriente profundo”. Espero que você, nesta breve 
imersão, tenha sentido um pouco do frescor oriundo da meditação e busca de 
sentido da vida pelo viés do hinduísmo e do budismo.
Dito isso, creio que chegou a hora de darmos mais um passo em nosso estudo 
histórico ao abordarmos outra religião oriental, que fundamentou em grande 
medida a história e o pensamento do ocidente, por ser essa religião a base do 
cristianismo: trata-se do judaísmo.
O judaísmo, em linhas gerais, é uma das mais antigas religiões do mundo e 
considerada a primeira monoteísta do mundo. O monoteísmo, em sua concep-
ção, foi um marco bem importante no mundo antigo. Por quê? Ora, você sabe 
que a diferença básica entre o monoteísmo e o politeísmo é a crença em um só 
deus ou divindade ao invés da pluralidade destes, como foi o caso das antigas 
religiões, por exemplo, da religião hindu, que acabamos de ver. 
Para os religiosos, os judeus e os cristãos creem em um único Deus, porque 
Ele é o criador incriado de tudo o que existe nos céus e na Terra, inclusive o cria-
dor dos seres humanos, e seu livro sagrado é mais do que regra de fé, é modelo 
de vida e explicação de muitas questões antigas e modernas. Para os pesquisa-
dores seculares, ou seja, aqueles que fazem questão de não ter relações com a 
igreja, o monoteísmo dos judeus se dá por outra razão, de ordem mais prática: 
A História do Judaísmo
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como eles eram nômades – viviam vagando pelo deserto –, era natural o culto 
de um único Deus, ao invés de ficar erigindo múltiplos altares para toda a sorte 
deles, o culto de um único Deus tornava a tarefa mais pragmática.
Todavia a questão não para por aí: enquanto todos os deuses antigos possuíam 
cores, formas e atributos dos mais variados, o Deus dos judeus e dos cristãos não 
tem forma, cor e tamanho, além de ser onipresente – estar em todos os lugares 
–, onisciente – saber de todas as coisas –, e ser onipotente – um ser tão superior 
que é capaz de fazer absolutamente tudo. Não possuindo uma representação de 
barro, madeira ou ouro, o Deus judaico e cristão pôde, desde milênios atrás até 
hoje, ser adorado independentemente do lugar e acessado pessoalmente, sem a 
intermediação de uma profetisa ou sacerdote, seja onde for.
A história do judaísmo, ao longo de toda a antiguidade, encontra-se nas 
palavras de seu livro sagrado, o Tanakh. Esse livro é a união ou junção de mui-
tos livros. Popularmente chamada de Bíblia Hebraica. 
Levando em conta esses fatos, a Bíblia deixa imediatamente de ter uma conotação 
apenas religiosa ou teológica. Nela é possível encontrar fragmentos da história 
de muitos povos da antiguidade como os antigos egípcios, fenícios, babilônicos, 
assírios, etc. Pois bem: como a história do judaísmo está retratada na Bíblia? Há 
certas controvérsias em relação a datas e importância dos acontecimentos, mas 
histórica e arqueologicamente,certos eventos podem ser assim postos, resumi-
damente – para facilitar os seus estudos, apresentamos o esquema a seguir, com 
o auxílio de Miller e Huber (2006, p. 8-9):
Tanakh é um acrônimo, ou seja, uma palavra formada pelas letras ou sílabas 
iniciais de outras palavras. Nesse caso, os principais livros do judaísmo são a 
Torá ou os cinco primeiros livros, incluindo o de Gênesis ou a descrição do 
início do mundo, escritos por Moisés, o Nevi’im ou uma série de oito livros 
escritos por profetas, e o chamado Kethuvim, contendo onze livros ou escri-
tos diversos, incluindo os livros dos Salmos e Provérbios.
Fonte: os autores.
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Contudo, entre o Antigo e o Novo Testamento, existe uma pausa de mais ou 
menos 400 anos. Neste período, aconteceu parte importantíssima da história 
dos judeus, que é justamente sua luta contra os selêucidas, ou seja, um Estado 
helenista que foi constituído após a morte de Alexandre, o Grande. Em 200 
a.C., eles conquistaram a Palestina, e em 167 a.C., Judas Macabeus instaurou, 
entre os judeus, uma resistência ou revolta contra eles. Em 164 a.C., o templo 
foi re-consagrado.
O fato é que a Bíblia inteira foi escrita ao longo de mais de um milênio e 
meio, por mais de quarenta diferentes autores, homens e mulheres. Este livro 
sagrado, além de constituir a base ética e moral para a maioria dos povos do 
ocidente, contém trechos – comprovadamente históricos ou não – que hoje 
povoam o imaginário popular mesmo por aqueles que não costumam ir à igreja 
ou eventualmente procurar por estes textos de fé. 
A partir da história dos judeus – e aqui você percebeu que não estamos 
seguindo uma cronologia específica, exceto por aquele infográfico que pruden-
temente pensamos em fazer logo antes dessa incursão relacional entre a história 
judaica e cultura popular – verificamos que é nela, ou seja, em seu Livro, que 
encontramos o relato da criação que até hoje, nós, ocidentais, seja para seguir 
ou criticar, tomamos como base. O relato bíblico da criação abre o texto sagrado 
dos judeus e dos cristãos e mostra, sempre e de novo, que as religiões podem dar 
sentido à vida ao demonstrar que não surgimos por algum acaso e nem vamos 
aleatoriamente para algum lugar, visto que fomos feitos por um ser inteligente 
e, assim, por analogia, só podemos ser inteligentes também. Essa linha de pen-
samento remonta ao velho Sócrates.
Pois bem: o texto diz que “No princípio criou Deus o céu e a terra” (Gênesis 
1:1), e que, logo depois, houve luz (em latim, “Fiat Lux”!). A partir daí, sem citar 
texto por texto, por questões de espaço, Deus criou, nesta ordem de coisas: os 
minerais, depois os vegetais, então os animais e, finalmente, de propósito, o 
homem – e a partir de sua costela, a mulher. Okay! O que isso pode nos ensi-
nar, fazendo relações com o mais moderno da biologia atual? Ensina-nos que 
mesmo levando em conta o relato da criação como mitológico, há uma ordem 
no surgimento. Veja: animais comem vegetais (no relato bíblico, havia paz e har-
monia entre eles e um não se alimentava do outro), e vegetais se “alimentam” 
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também de minerais. A água, antes desse registro, já estava lá. Por último, surgiu 
a raça humana, que embora tenha certos instintos animais, é dotada de cons-
ciência. Do mais simples para o mais complexo, como advoga a ciência hoje, 
é que o relato da criação foi descrito. Há, sim, relações, portanto, entre ciên-
cia e religião, desde os inícios mais remotos da escrita bíblica. Seja como for e 
qual for a sua opinião a este respeito, fica bem difícil negar que existe alguma 
relação aí, não é mesmo?
Continuemos nossa pequena viagem, que aqui, espero, estejamos fazendo 
por gosto. O que, segundo o relato bíblico, acontece quando se dá a criação do 
homem? Creio que você saiba por uma fonte ou outra: Deus cria um boneco de 
barro, deixa secar e soprou em suas narinas. O que é barro senão água e terra? 
O que significa deixar secar senão mantê-lo ao Sol? O que significa soprar em 
suas narinas senão “inflá-lo” com ar? Note que neste pequeno relato os quatro 
elementos da natureza aparecem juntos como absolutamente necessários para a 
criação do homem. Os primeiros filósofos da antiga Grécia quebraram a cabeça 
por décadas ao tentar encontrar uma relação entre esses elementos e tudo o que 
existe hoje. Na Bíblia, embora o relato não possa ser considerado científico, há, 
sim, novamente, relação entre ciência e religião. 
Acho que você já percebeu que gostamos de falar sobre isso, e de fato pode-
ríamos aqui falar sobre outras interações entre textos judaicos e cultura popular 
ou sobre as relações entre o texto e elementos de ciência e religião de forma har-
mônica ou não. Contudo, voltamos para a história do judaísmo. De acordo com 
Hellern, Notaker e Gaarder (2009, p. 99):
A fase histórica […] teve início quando Abraão saiu da cidade de Ur, 
localizada no Sul do Iraque, por volta de 1800 a.C. […] A história de 
José, um dos filhos de Jacó, narra como os israelitas foram parar no Egi-
to, onde foram escravizados pelos faraós. A Bíblia conta de que maneira 
Moisés os tirou dali e, depois de quarenta anos errando pelo deserto, 
levou-os a Canaã, a Terra prometida. Durante a travessia do deserto, 
Deus – Javé – deu a Moisés, no monte Sinai, as duas tábuas da Lei com 
os dez mandamentos e que os israelitas deveriam obedecer. Dessa for-
ma, fez-se um pacto segundo o qual os israelitas deveriam reconhecer a 
existência de um só Deus, e em troca se tornariam o povo escolhido de 
Deus. Receberiam sua ajuda e seu apoio, desde que cumprissem o que 
lhes cabia no acordo e obedecessem às leis de Deus.
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Figura 2 - O menorá, candelabro de sete braços, pode simbolizar o arbusto em chamas ou a sarça ardente que 
Moisés viu no monte Sinai.
Chegando à Canaã, ou à Terra Prometida – lembrando que durante os quarenta 
anos de peregrinação pelo deserto foi preciso que todos os remanescentes do 
período de escravidão no Egito morressem no caminho, incluindo o próprio 
Moisés, que apenas a divisou com seus olhos obliterados pela velhice do alto de 
um monte Canaã – os judeus foram dirigidos pelos chamados juízes, homens e 
mulheres, em uma fase em que lidavam com muitos outros que não faziam parte 
do povo. Foi ali que entraram em conflito com os filisteus.
Antes da proclamação de Davi como rei de Israel, houve um anterior, Saul. 
Entretanto, foi com Davi que a monarquia deslanchou e com Salomão que atin-
giu maior riqueza e esplendor. Na verdade, os judeus, naquele período, gozavam 
de boa vida e, como se mantinham atentos às leis de Deus, proteção divina. 
Contudo, diante de tais facilidades, passaram a deixar suas obrigações religio-
sas para um incômodo segundo plano e foram, assim, construindo sua própria 
ruína, visto que os próprios ritos religiosos foram pouco a pouco se tornando 
mecânicos e, assim, destituídos de sentido. Surgiu Amós, um profeta “inconve-
niente”, abordando as terríveis mazelas sociais do povo.
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Visto que os judeus não ouviram as vozes dos profetas, que falavam sob o dire-
cionamento de Deus, foram exilados pelos babilônios dois séculos depois da 
divisão de Israel em dois reinos, não sem antes os temíveis assírios tomarem 
conta doreino do Norte, em 722 a.C.
Figura 3 - Sinagoga Princes Road na cidade de Liverpool/Inglaterra
Fonte: Pixabay ([2018], on-line)2.
Para o senso comum, a palavra “filisteu” designa um indivíduo inculto e ca-
rente de inteligência, com interesses vulgares e puramente materiais. […] De 
Josué a Jeremias, o Antigo Testamento sistematicamente descreve os filisteus 
como inimigos mortais dos hebreus. São apresentados como guerreiros in-
cansáveis, que combatem e humilham cruelmente os israelitas, oferecendo 
ao deus Dagan todos os bens alheios saqueados. Em uma das inúmeras guer-
ras travadas entre os dois povos, os cadáveres degolados do rei Saul e de seus 
filhos ficaram friamente expostos diante das muralhas da cidade de Beth She-
an. Porém, a vingança dos israelitas, ou melhor, de seu deus Jeová, não foi 
menos atroz: segundo a narrativa bíblica, o povo inimigo sofreu moléstias, 
ulcerações e chagas. Davi, por ocasião de seu casamento com Michal, filha de 
Saul, presenteou sua noiva com o prepúcio de 200 filisteus mortos. […] No 
entanto, os achados arqueológicos trazem à luz a avançada cultura filistina e 
comprovam que a tribo sabia perfeitamente se portar como povo civilizado.
Fonte: Yehuda (2014).
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Foi apenas e tão somente depois de toda essa longuíssima história, ou seja, depois 
do exílio babilônio, que timidamente o judaísmo é formado, certamente como 
uma forma de autoproteção e nacionalismo. Nesse momento, nasceram as sina-
gogas – ou muitíssimo genericamente falando, as “igrejas dos judeus” – embora 
bem antes já existisse o grande Templo de Salomão. 
Em resumo, sempre que os judeus deixaram de lado os ditames divinos, eram 
exilados. Ainda conforme Hellern, Notaker e Gaarder (2000, p. 102):
Nessa época, os judeus caíram seguidas vezes sob o domínio políti-
co estrangeiro. No ano 70 d.C., uma revolta contra os romanos levou 
ao saque de Jerusalém. O Templo, que recentemente fora ampliado e 
transformado num esplêndido edifício pelo rei Herodes, foi outra vez 
arrasado; isso selou o fim do papel desempenhado pelos antigos sacer-
dotes. Dessa época em diante, foi o novo formato de judaísmo, centrado 
nas sinagogas, que passou a predominar. Muitos judeus estavam agora 
dispersos pelas terras do Mediterrâneo ou ainda mais longe. Eram cha-
mados de judeus da Diáspora, palavra grega que quer dizer dispersão.
Muito mais poderia se falar aqui sobre a religião dos judeus e sua história. 
Contudo, não fique muito preocupado(a)! Ao abordarmos, na unidade seguinte, 
sobre as origens do cristianismo e do catolicismo romano, voltaremos aos judeus 
e sua história mais detidamente a partir do Novo Testamento, ou seja, do início 
da Era Cristã e suas implicações sociais e políticas, incluindo o império romano 
e o judaísmo durante aquele período. 
Na Espanha, onde os judeus já viviam desde o século III (d.C.), a popula-
ção judaica aumentou notavelmente depois da batalha de Guadelete (711) 
como consequência da invasão dos árabes, provavelmente por terem ficado 
ali grande número de judeus que faziam parte dos exércitos muçulmanos. 
A situação dos judeus melhorou, eles prosperaram, e houve reis que tive-
ram médicos, astrônomos e músicos judeus. Estes possuíam terras, tinham 
indústrias, faziam serviço militar sem qualquer restrição, iguais aos outros ci-
dadãos e em certas jurisdições estavam no mesmo pé de igualdade com os 
fidalgos. Neste ambiente, os judeus começaram a desenvolver na Espanha 
uma atividade cultural que é tida como a “Idade de Ouro” da história judaica.
Fonte: Algazi ([2018], on-line)3.
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MAOMÉ E A IMPOSSIBILIDADE DE COMPREENSÃO 
DE DEUS
O Islamismo é a religião que mais cresce no mundo hoje de acordo com o centro 
de pesquisa Pew Research Center (2015). Também é uma das mais polêmicas. 
Isso se dá pelas generalizações que em grande parte os ocidentais fazem ao se 
referir, seja a eles ou a qualquer grupo que pareça desconhecido ou potencial-
mente perigoso. Por isso, é bem importante que você esteja atento(a) às palavras 
iniciais deste tópico, quando tratamos acerca da questão do oriente como criação 
do ocidente, evitando erros que historiadores simplesmente não devem cometer.
É muito triste e preocupante notar que devido a essas generalizações, muitos 
praticantes desta religião são vistos como terroristas porque, infelizmente, um 
grupo islâmico radical colocou em prática um terrível plano que ceifou a vida 
de quase 3.000 pessoas quando as Torres Gêmeas, em Manhattan, Nova Iorque, 
Estados Unidos, vieram abaixo – bem como uma tentativa de atingir com aviões 
repletos de pessoas o Capitólio e o Pentágono. Contudo, é muito bom sempre 
lembrar que existe uma diferença fundamental entre o ser fanático e o radical. 
O fanático é um desequilibrado potencialmente perigoso, disposto a matar e a 
morrer em nome de sua fé ou ideologia política. Há fanáticos no oriente e no 
ocidente, escondidos sob o véu das grandes religiões. Felizmente, embora baru-
lhentos, representam a ínfima minoria, mas que majoritariamente aparecem na 
televisão, que tende a mostrar muito mais desgraças do que bons atos em prol 
da humanidade. 
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Já o radical, que tantas e tantas vezes são confundidos com o fanático, pode 
ser simplesmente alguém que, como a própria etimologia da palavra sugere, 
busca a raiz ou os fundamentos de sua fé. 
Existem diversas variações da fé islâmica, mas todas têm o Alcorão 
como base comum. Hoje o Islã concentra-se nas regiões mais pobres 
do planeta e é abalado pelos efeitos do preconceito ocidental. A partir 
do atentado terrorista contra os Estados Unidos atribuído a terroristas, 
em 2001, aumentou o preconceito contra a religião no Ocidente. É daí 
que o fundamentalismo extrai sua força e ganha adeptos entre os segui-
dores de uma doutrina que prega a tolerância: a raiz do termo islam é 
salam, que significa “paz” (BRAICK, MOTA, 2007, p. 120).
Na verdade, o termo árabe islã pode significar submissão – no caso, a Deus, cha-
mado Allah, Senhor do Universo. A palavra muslim de onde deriva a palavra 
castelhana “muçulmano” significa “(aquele) que se submete (a Deus)”. Por isso, 
há muitas pessoas que pouco entendem o significado de outra palavra muito 
comum, mas geralmente mal interpretada, inclusive por próprios grupos fun-
damentalistas islâmicos, que é o termo Jihad, ou guerra santa. 
Bem, positivamente falando, atualmente a Jihad seria uma guerra santa de 
você contra você mesmo, em suas particularidades, que sabe que não são boas 
e precisa mudar. Nesse caso, há sempre uma guerra em curso – mas há também 
um alvo muito interessante a ser buscado, o próprio paraíso, conforme as pecu-
liaridades da religião. Por outro lado, fanáticos pensam na Jihad, nos mesmos 
padrões da Idade Média e a entendem como, literalmente, uma guerra dos justos 
contra os infiéis, ou seja, todos aqueles que simplesmente não são muçulmanos. 
Meca, cidade de Maomé, o profeta da religião islâmica, era um importante 
centro religioso durante o período anterior à instauração daquela religião. Como 
você pode imaginar, os árabes antes de Maomé eram politeístas, adorando e, inclu-
sive, sacrificando animais. Adoravam certas pedras (que os geólogos e geógrafos 
sempre dizem que se chamam rochas), e uma delas chamava a atenção por sua cor 
escura: a “Pedra Negra”, provavelmente tem essa cor por ser um meteorito. Em Meca 
ficava a Caaba, ou casa de Deus, onde todos os ídolos tinham um espaço destinado.
Acontece que o jovem Maomé, desde o início de sua vida religiosa,não teve 
vida fácil. Com aproximadamente 40 anos, foi “visitado” pelo anjo Gabriel, o 
mesmo que segundo o texto bíblico apareceu para Maria, mãe de Jesus, anunciando 
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o seu nascimento. Ao longo dessas mais de duas décadas, que segundo a tradição 
se iniciou em 610 de nossa era, surgiu o livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão 
ou simplesmente o Corão. Contudo, não fique achando estranho se porventura 
você ouviu outra história a esse respeito. Com relação aos inícios das religiões 
fundantes, é tudo bastante movediço, historicamente falando. A própria vida e, 
principalmente, a narrativa da morte de Maomé é totalmente diferente quando 
contada por sunitas e xiitas.
Pois bem, o islamismo é uma religião que, assim como o judaísmo e o cristianismo, 
crê em apenas um único Deus. Dessa forma, Maomé negou categoricamente a 
religião até então praticada em sua região, que era basicamente politeísta. Isso nos 
lembra de que o cristianismo não “acabou” com as crenças em múltiplos deuses, 
já que ainda no início da Idade Média, pelo nosso calendário, estava absoluta-
mente difundido o politeísmo em porções bem grandes da Arábia.
Acho que você já deve saber o que veio em seguida. Meca era um grande cen-
tro comercial e de adoração, como vimos acima, e precisamente ali vivia alguém 
que estava disposto a acabar com isso. O “pior” é que o movimento crescia expo-
nencialmente e logo perseguições ocorreram, levando Maomé e todos os que o 
seguiam a deixar a cidade em direção a Yatreb, que hoje se chama Medina. Yatreb 
era uma comunidade judaica que foi convertida ao islamismo. Hégira é o nome 
deste movimento que saiu de Meca para Medina e que marcou o Islamismo. O 
movimento foi elencando como o primeiro ano do calendário muçulmano. Isso 
Os xiitas consideram que, após a morte de Maomé, Ali, seu genro e primo, 
foi o legítimo descendente espiritual do primeiro líder islâmico, não reco-
nhecendo o regime de três califas de outra descendência, a sunita. Aliás, os 
sunitas são a imensa maioria dos muçulmanos, contando com quase 85% 
do total de muçulmanos no mundo, e seu nome advém da palavra “suna” ou 
ensinos sobre a vida de Maomé. O fato é que hoje, grande parte dos confli-
tos internos entre os muçulmanos diz respeito à rixa entre sunitas e xiitas.
Fonte: os autores.
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se deu em 622 no calendário cristão – você pode pensar que um cálculo simples 
como subtrair o ano atual por 622 e estaríamos no ano muçulmano. Errado. O 
calendário muçulmano é lunar, assim eles estão no ano de 1439 (21 de setem-
bro de 2017 a 10 de setembro de 2018). 
Quando se dá a morte de Maomé, começam as verdadeiras lutas entre dife-
rentes vertentes do pensamento do profeta, como já antecipamos no elemento 
Saiba Mais sobre os xiitas e sunitas. Alguns queriam que seu sucessor fosse da 
mesma tribo de seu nascimento, enquanto outros atribuíam a Ali essa honra e 
grande tarefa. Contudo, Ali resolveu abdicar de sua função e certo Abu-Béquer 
tornou-se o primeiro califa, ou seja, “sucessor do Profeta de Deus”. Seja como 
for, nesse primeiro período, aconteceram grandes vitórias dos muçulmanos, 
que eram muito amistosos com judeus e cristãos, em grande medida em virtude 
do fato de as três religiões terem muitas características comuns. Na verdade, os 
muçulmanos, mais do que herdeiros espirituais dos cristãos, se consideravam 
(ou se consideram) aperfeiçoados, visto que para eles Maomé foi basicamente o 
último dos profetas desta religião, sendo Cristo apenas mais um deles.
A seguir apresentamos um quadro comparativo a respeito das três grandes 
religiões monoteístas:
Quadro 1 - Características das religiões monoteístas
RELIGIÕES 
MONOTEÍSTAS
CARACTERÍSTICAS
Islamismo Judaísmo Cristianismo
LIVRO SAGRADO Corão (Qurʾān) Tanakh (Torá; Neviìm; Ketuvim)
Bíblia (Antigo e 
Novo Testamento)
FUNDAÇÃO Maomé Abraão / Moisés Jesus Cristo
DATA DE ORIGEM 622 +-Séc. XVIII a.C. +-30 d.C
LOCAL DE ORIGEM
Península Arábica 
- Meca Palestina (Israel) Palestina
NATUREZA DE 
DEUS
Um Deus (Allah) 
que não é 
trindade.
Um Deus 
(Yahweh)
Um Deus que existe 
em três pessoas dis-
tintas (a Trindade)
PRINCIPAIS 
DIVISÕES
Sunita e Xiita
Ortodoxos; 
Reformistas; 
Conservadores.
Católicos Romanos; 
Ortodoxos Gregos; 
Protestantes.
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RELIGIÕES 
MONOTEÍSTAS
CARACTERÍSTICAS
Islamismo Judaísmo Cristianismo
PRINCIPAIS 
FESTIVIDADES
Ramadã (Nono 
mês do calendário 
muçulmano: jejum); 
Hégira (12° mês do 
calendário islâmico: 
peregrinação à 
Meca.
Sabbat (sábado);
Páscoa Judaica;
Yom Kipur
Natal (nascimento 
de Jesus Cristo);
Páscoa 
(Ressurreição de 
Jesus Cristo).
CÓDIGO DE VIDA
Shari‘ah 
(Lei islâmica 
baseada no Corão)
10 Mandamentos;
Talmude
10 Mandamentos;
Evangelhos;
Catecismo.
ANO RELIGIOSO 
ATUAL
1439 (21 de 
setembro de 2017 
a 10 de setembro 
de 2018)
5778 (21 de 
setembro de 2017 
até 9 de setembro 
de 2018
2018
NÚMERO DE FIÉIS 
(MUNDIAL) - 
DADOS DE CENTRO 
DE PESQUISA PEW 
(2015)
1.6 bilhões 14 milhões 2.2 bilhões
Fonte: os autores. 
É claro que quando falamos de disputas religiosas e guerras, sob motivações espi-
rituais ou não, você pode contar que as coisas podem ficar bem quentes. Com a 
morte de Omar e Otman, dois califas, finamente Ali assumiu o poder, tão somente 
para ser derrubado pouco depois por árabes sírios conhecidos como omíadas, 
e foi a partir disso, basicamente, que surgiram sunitas e xiitas. De acordo com 
Braick e Mota (2007, p. 123),
Os califas omíadas permaneceram no poder entre 661 e 750. Eles esta-
beleceram sua capital em Damasco, na Síria, onde ergueram construções 
magníficas, como a Grande Mesquita. Para leste, seus exércitos seguiram 
rumo à Ásia central, ocupando as terras dos atuais Afeganistão, Turques-
tão e vale do Rio Indo. Para oeste, incorporaram a África do Norte ao 
Islã. De início, os berberes, que habitavam a região, resistiram ao invasor, 
mas depois de convertidos ao islamismo participaram ao lado os árabes 
da conquista da Península Ibérica em 711. Em 732, porém, os exércitos 
francos barraram a expansão muçulmana na Europa Ocidental.
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Foi com os abássidas – povo de origem persa – que a capital passou de Damasco 
para Bagdá, acontecendo o período mais próspero dos muçulmanos, a chamada 
“Era de Ouro”, que durou mais ou menos dois séculos e foi para os árabes o que 
foi para os gregos o “século de Péricles”, em que as artes desabrocharam, bem 
como a astronomia, arquitetura, medicina, matemática e outras tantas ciências.
Nesse período, os europeus receberam o conceito do “zero” (que os romanos sim-
plesmente não conheciam e que tanto dificultava a vida) e instauraram os números 
arábicos. Também traduziram obras filosóficas, como muitos escritos de Aristóteles, 
que só chegaram ao ocidente via contribuição islâmica. Averróis e Avicena são 
dois nomes gigantescos do pensamento árabe daquele período. Em 1543, o impé-
rio chega ao fim, embora ele, pouco a pouco, já tivesse perdido grande parte de sua 
força e esplendor, quando o último dinasta foi levado preso para Constantinopla.
Em 1492, que é um ano extremamente importante para a história da América, 
visto que nesse ano Cristóvão Colombo chega às Antilhas e começa ao que alguns 
chamam de invasão e outros de descobrimento, o último bastião, em Granada, na 
Espanha, mouro ou muçulmano foi tomadopelos cristãos na guerra de Reconquista. 
É muito importante lembrar-se de que as Cruzadas, aquele movimento cristão que 
teve como objetivo principal tomar Jerusalém dos árabes, foi importante no sen-
tido de criar certas relações econômicas entre cristãos e muçulmanos.
O Islamismo apresenta 5 “pilares” aos seus seguidores: 1 – A Declaração de Fé 
- Chaháda - “não há outra divindade além de Allah, e Mohammad é o Mensa-
geiro de Allah”. 2 - A Oração - Salat - Orar cinco vezes por dia, mantendo-se no 
caminho do bem e purificando-nos dos nossos pecados. 3 - A caridade obri-
gatória - Zakat - Difere da caridade comum e não é opcional. O crente ajuda 
os outros dando uma parcela anual de sua riqueza para os menos afortunados, 
estima-se em 2,5% da riqueza do indivíduo. 4 - Jejum - Saum - Todos os anos 
durante o mês do Ramadan, todos os muçulmanos jejuam do amanhecer ao 
anoitecer, abstendo-se de comida, bebida e relações conjugais com a intenção 
de satisfazer a Deus. 5 - A Peregrinação - Hajj - Allah tornou a peregrinação 
obrigatória, uma vez na vida, para os muçulmanos que podem empreender 
este esforço, que estão bem de saúde e não têm dívidas sobre os ombros. 
Fonte: Instituto Latino-americano de Estudos Islâmicos ([s.d], p. 12 -14). 
NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DE GRANDES TRADIÇÕES 
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E96
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo desta unidade você pôde observar, ainda que de forma muito resumida, 
um pouco daquilo que parece ser o fundamental das religiões que resolvemos 
abordar. Certamente há muito mais sobre cada uma delas e cabe a você, enquanto 
futuro(a) historiador(a), compreendê-las para que melhor possa entender o 
mundo à sua volta, tanto sob o ponto de vista histórico quanto atual.
Certamente você observou também que fizemos a mais absoluta questão de 
trazer, junto à história das religiões em si, por vezes um trabalho historiográ-
fico muito difícil pelo tempo em que transcorreu, as suas doutrinas ou práticas 
principais. Isso se dá por uma razão muito simples e pertinente: não vemos o 
menor sentido em estudar a história, principalmente a história “antiga” das reli-
giões sem perceber o quanto elas são importantes no sentido de dar perspectivas 
e sentido à vida hoje.
Em poucas palavras, conhecer as origens do hinduísmo, budismo, juda-
ísmo e islamismo é perceber o que moveu e move milhões de pessoas, agentes 
históricas individuais, em suas peregrinações internas e externas, na busca por 
um mundo melhor, mais justo e íntegro, ainda que não entendamos assim sob 
a nossa própria ótica.
Esperamos que esta unidade tenha provocado, ao menos um pouco, a sua 
percepção nessa busca e o(a) levado a uma viagem para fora dos nossos pró-
prios domínios, ou seja, de nossa origem ocidental e, na maioria das vezes, cristã. 
Se absolutamente evitamos falar um pouco mais profundamente sobre alguns 
conflitos épicos entre cristãos e muçulmanos ou entre muçulmanos e judeus foi 
justamente para tentar manter a essência pacífica percebida em suas origens. 
Quando você ler sobre esses conflitos, lembre-se que isso, ainda que a mídia diga 
o contrário, é exceção e coisa de fanáticos que certamente não compreendem 
as suas próprias origens, e a partir de suas próprias frustrações empreendem os 
mais terríveis atos supostamente em nome de Deus.
97 
1. Atualmente o Hinduísmo possui mais de 1 bilhão de fiéis e está entre as re-
ligiões com maior número de seguidores do mundo. Contudo, apesar dessa 
enorme proporção de fiéis, e de estar presente em países foram da Índia, como 
os Estados Unidos e Canadá, ainda se sabe muito pouco sobre essa religião no 
Ocidente. No Brasil, o desconhecimento acerca dessa religião ainda é muito 
grande. Você, como professor(a) de História, deve estar por dentro da história 
e das principais características dessa religião. Sendo assim, após a leitura desta 
unidade, assinale a alternativa correta sobre o hinduísmo e toda a sua infinita 
riqueza cultural e histórica.
a) São politeístas e, por isso, historicamente um tanto atrasados, o que explica 
em grande medida a pobreza indiana.
b) Vishnu, a deusa-elefante, também conhecida como Ganesh, traz sorte e 
prosperidade, de acordo com as crenças hindus e budistas.
c) Mahatma Gandhi, com sua política de não violência, fez com que os britâni-
cos proclamassem a independência da Índia ao vê-lo como uma espécie de 
“profeta moderno”.
d) O hinduísmo é uma única grande religião que, ao mesmo tempo, expressa a 
multicolorida cultura indiana.
e) As origens mais primitivas do hinduísmo nasceram com os inimigos do 
povo hindu, os ários. Responsáveis por desenvolver os Vedas. 
2. O Budismo, a religião do Buda, e suas múltiplas vertentes são hoje bastante 
praticadoas no ocidente. O Buda está mais para um título, e de fato o é, para 
aqueles pouquíssimos dentre muitos que finalmente se “despertam” para a 
verdadeira natureza, conforme os ditames de sua religião, passando a vida a 
divulgá-los. Sobre o budismo e suas principais características, reflita e assinale 
a resposta correta.
a) É, assim como o sikismo, uma vertente do islamismo, o que explica as suas 
origens no extremo oriente.
b) Foi fundado por Sidarta Gautama, o primeiro Buda, que depois de muito re-
fletir atingiu o Nirvana e, assim, se libertou das pressões físicas e espirituais 
que o afligiam.
c) Segue uma rígida doutrina e promove rituais autocentrados a partir dos 
muitos livros escritos pelo próprio Buda. A prática de sacrifício animal é uma 
premissa dessa religião. 
d) Está muito mais preocupado com as questões espirituais do que com as ma-
teriais – por isso é tão popular entre os artistas de Hollywood.
e) Busca, no “caminho do meio”, uma preparação do corpo e do espírito para o 
céu, visto que são eternalistas.
98 
3. O Judaísmo é, sem dúvida, parte integrante de nossa cultura, visto que en-
quanto cristãos, praticantes ou não, sendo ocidentais, devemos àquela tra-
dição parte considerável de nossa essência espiritual e inclusive da nossa 
tradição e moral. Com relação aos judeus e sua complexa história, assinale a 
alternativa correta.
a) Abraão pode ser considerado “o pai da fé” para o judaísmo, assim como, para 
o islamismo e o cristianismo, as três maiores religiões monoteístas do mundo.
b) Costumam, todos os sábados, encontrar-se na mesquita para seus cultos e 
orações com base no Corão e na Suna.
c) A Diáspora judaica começou em 587 a.C., quando os persas expulsaram os 
judeus de seu território, e terminou em 1948, quando a ONU implantou o 
próprio Estado Judeu, Israel.
d) Entre árabes e judeus nunca houve paz, como nos mostra a história antiga e 
recente das duas religiões.
e) No ano de 70 d.C., os Judeus se revoltaram contra os Romanos e foram capa-
zes, por meio das armas, de expulsar os romanos de toda a região da Pales-
tina. Acontecimento que facilitaria a anexação dessa região pelo islamismo 
séculos depois. 
4. O Islamismo é a religião que mais cresce no mundo hoje. Também é uma das 
mais polêmicas. Isso se dá pelas generalizações que em grande parte os oci-
dentais fazem ao se referir a ele ou a qualquer grupo que pareça desconheci-
do ou potencialmente perigoso. Por isso, é bem importante que você esteja 
atento(a) à esta unidade, quando tratamos acerca da questão do oriente como 
criação do ocidente, evitando erros que historiadores simplesmente não de-
vem cometer. Acerca das características e história do Islamismo, assinale a al-
ternativa correta. 
a) Hégira é o nome dado a expansão do islã realizada pelo califado ortodoxo. 
Composta pelos quatro primeiros califas da história dos islamismo. 
b) O termo Jihad em qualquer situação em que for utilizado designa guerra 
mortal contra os infiéis, como é comum vermos e ouvirmos nos noticiários.
c) No Ramadã, ou mês sagrado dos árabes, é proibido totalmente o consumo 
de alimentos, exceto água e o álcool. 
d) Selêucidas, abássidas, mongóis e francos dizem respeito a califadosárabes 
instituídos após a morte de Maomé.
e) Pode-se dizer que xiitas e sunitas são dois distintos grupos islâmicos que 
discordam entre si desde praticamente a morte de Maomé por questões de 
liderança do movimento.
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5. Quando estudamos a história inicial do Cristianismo, é nítida a influência das 
tradições judaicas para essa religião, dado o fato de que o próprio Cristo nasceu 
em meio ao povo Judeu. Assim como o cristianismo possui influências judaicas, 
o islamismo surgiu como uma miscelânea da cultura e tradição judaico-cristã 
e da cultura árabe. Devido a esse fato, as três maiores religiões monoteístas 
do mundo possuem muitas características em comum. Leia atentamente as 
afirmativas a seguir que comparam essas três religiões. Em seguida, assinale a 
alternativa que contém todas as afirmativas corretas.
I. Os textos do Antigo Testamento estão presentes tanto no Tanakh, na Bíblia 
e no Corão. 
II. O Judaísmo e o Islamismo tiveram origem no Oriente Médio, enquanto o 
Cristianismo teve origem em Roma a partir das pregações do apóstolo Paulo. 
III. As principais divisões do judaísmo são xiitas e sunitas, enquanto o Islã pos-
sui três principais, os Ortodoxos, os Reformistas e os Conservadores. 
IV. Devido à presença do Antigo Testamento nas três religiões e terem em 
Abraão a figura fundadora de suas religiões, as três religiões monoteístas 
possuem o mesmo calendário religioso como uma datação de 5778. 
a) I, apenas.
b) I e II, apenas.
c) I e III, apenas.
d) I, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
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Trecho do 28 Capítulo do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa
Naquela época, o Bodisatva SAMANTABADRA DA VIRTUDE UNIVERSAL, com poderes so-
brenaturais, soberanos, majestade e fama, surgiu acompanhado por grandes, ilimitados, 
infinitos e incalculáveis Bodisatvas que vieram das terras do leste.
As terras pelas quais ele passou, tremeram, e jóias de flor de lótus choveram, incontáveis 
centenas de milhares de kotis de tipos de músicas foram ouvidas. Rodeado também de 
uma grande multidão de incontáveis Deidades, Dragões, Yakshas, Gandharvas, Asuras, 
Garudas, Kinnaras, Mahoragas seres humanos e não-humanos e outros. Todos demons-
trando seus poderes majestosos e sobrenaturais.
Ele chegou ao Monte Grdhrakuta no Mundo Saha. Tendo se prostrado em frente a Xa-
quiamuni BUDA, ele fez uma procissão em Sua volta, pelo lado direito, sete vezes, e se 
dirigiu a BUDA dizendo:
“Mais Honrado do Mundo, eu, no domínio do Buda Rei Superior da Jóia Majestosa, ou-
vindo de longe que o Sutra da Flor de Lótus estava sendo pregado neste Mundo Saha, 
vim com esta multidão de incontáveis, infinitos, centenas de milhares de miríades de ko-
tis de Bodisatvas para ouvi-lo e recebê-lo. Alegre-se mais Honrado do Mundo e pregue 
para nós. (E diga)Como bons filhos e boas filhas são capazes de obter o Sutra da Flor de 
Lótus após a extinção do Tathagata”.
Buda então respondeu ao Bodisatva da Virtude Universal, Samantabadra:
“Qualquer bom filho ou boa filha que adquirir os quatro requisitos, serão capazes de 
obter o Sutra da Flor de Lótus depois da extinção do Tathagata.
Primeiro: Estar sob a guarda de um Buda.
Segundo: Plantar raízes de Virtude
Terceiro: Entrar para a congregação correta
Quarto: Aspirar pela salvação de todos os seres.
Um bom filho ou boa filha que adquirir esses quatro requisitos certamente obterá este 
Sutra, depois da extinção do Tathagata”.
O Bodisatva da Virtude Universal disse a Buda:
“Mais honrado do Mundo, nos últimos 500 anos da era corrupta e má, quem receber e 
manter este Sutra, eu o guardarei e o protegerei, eliminarei a ansiedade de se perder e 
dar-lhe-ei tranquilidade mental, de maneira que nenhum espião possa encontrar oca-
sião, nem Mara, nem os filhos e nem as filhas de Mara, nem as pessoas de Mara, nem os 
101 
que estão cerca de Mara, Yaksha, Rakshanas, nem Kumbhandas, nem Pikasacaras, Kritya, 
Putantas, Vetanas, nem outros que afligem os seres humanos, nenhum deles, encontrará 
ocasião. Sempre que tal pessoa caminhar ou ficar de pé, ler e recitar este Sutra, eu ime-
diatamente estarei montado num elefante branco de seis dentes e com uma multidão 
de grandes Bodisatvas vou a esse lugar, e me mostro. Eu servirei e protegerei e confor-
tarei sua mente, e assim estarei servindo ao Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa”.
Caso tal pessoa se assente e leia este Sutra, eu, de uma só vez, estarei montado num 
elefante branco e mostrarei a mim mesmo a essa pessoa, e se essa pessoa esquecer uma 
única palavra ou verso do Sutra da Flor de Lótus, eu ensinarei a ela, eu lerei e recitarei 
com ela e novamente a farei ter maestria do Sutra.
Assim sendo, aquele ou aquela que recebe e mantém, lê e recita o Sutra da Flor de Lótus, 
ao me ver, terá grande alegria e renovará seu cuidado. Ao me ver, obterá a contemplação 
dos Dharanis, chamados de Dharanis da Revolução, o Dharani das centenas de milhares 
de miríades de Kotis de revoluções, [nota: isso significa todos os seres como coisas exis-
tentes, a contemplação da existência], o Dharani dos meios hábeis dos sons do Darma 
[Nota: a contemplação do caminho do meio, que não é nem o vazio nem o existindo, unifi-
cando as duas contemplações, que são convencionais,) Tais Dharanis, estes serão obtidos.
Mais Honrado do Mundo, se na época futura, nos últimos 500 anos da era corrupta e 
má, os Bhikshus e Bhikshunis (monges e as monjas) Upassakas ou Upassikas, (leigos e 
leigas praticantes), aqueles que procuram recebem e mantém, leem e recitam, copiam 
e desejam colocar em prática este Sutra da Flor de Lótus, eles precisam, com a mente 
devotada, por três vezes sete dias manter-se na devoção.
E depois de três vezes sete dias, eu montarei o elefante branco de seis dentes e junto 
com incontáveis Bodisatvas à minha volta aparecerei em frente a tais pessoas na forma 
que que todos os seres vivos alegrem-se em ver, e pregarei a eles, revelando, instruindo, 
beneficiando e os alegrando. Mais ainda, eu darei a eles esses Dharanis e eles obterão 
esses Dharanis e nenhum ser poderá causar nenhuma injúria, nenhuma pessoa pode-
rá enganá-los, e eu mesmo estarei sempre os protegendo. Alegre-se, Mais Honrado do 
Mundo, ao me permitir anunciar estes dharanis.
[...]
Fonte: Monja Shingetsu Coen Roshi (2016, on-line)4.
Nota explicativa: a formatação e pontuação do presente texto foram mantidas conforme a fonte 
consultada.
MATERIAL COMPLEMENTAR
Uma história dos povos árabes
Albert Hourani
Editora: Cia das Letras
Sinopse: com a explosiva situação do Oriente Médio, os intermináveis conflitos 
entre israelenses, palestinos e seus vizinhos, a guerra Irã-Iraque, a guerra do 
Golfo, o fortalecimento do fundamentalismo islâmico, desde a Segunda Guerra, 
os árabes estão no centro das questões mais turbulentas de nossa época. No 
entanto, deles e de sua história sabemos muito pouco. É esta lacuna grave e 
lamentável que “Uma história dos povos árabes” vem sanar. Com erudição, 
sensibilidade histórica e um estilo de exemplar clareza, Albert Hourani, durante 
décadas professor em Oxford, escreveu um livro obrigatório não apenas para os 
interessados nas raízes da atual crise internacional, mas para todos aqueles que têm curiosidade por 
uma cultura de extraordinária riqueza, cuja importância em termos mundiais só tende a aumentar.
Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente
Edward W. SAID
Editora: Cia das Letras
Sinopse: neste livro de 1978, um clássico dos estudos culturais, Edward W. Said 
mostra que o “Oriente” não é um nome geográfico entre outros, mas uma invenção 
cultural e política do “Ocidente” que reúne as várias civilizações a leste da Europa 
sob o mesmo signo do exotismo e da inferioridade. Recorrendo a fontes e textos 
diversos – descrições de viagens, tratados filológicos, poemas e peças, teses e 
gramáticas –, Said mostra os vínculos estreitos que uniram a construção dos 
impérios e a acumulação de um fantástico e problemático acervo de saberes e 
certezas européias. A investigação da origem e dos caminhosdo Orientalismo como 
disciplina acadêmica, gosto literário e mentalidade dominadora,vai e volta do século XVIII aos dias de hoje, 
das traduções das Mil e uma noites à construção do canal de Suez, das viagens de Flaubert e “Lawrence da 
Arábia” às aventuras guerreiras de Napoleão no Egito ou dos Estados Unidos no golfo Pérsico.
Comentário: o livro busca, de forma bastante acadêmica, questionar aquilo que sucintamente vimos 
nas primeiras páginas desta unidade, ou seja, justamente as nossas concepções sobre o oriente.
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
Conhecendo o Hinduísmo: Origens, Crenças, Práticas, Textos 
Sagrados, Lugares Sagrados
Narayanan Vasudha
Editora: Vozes
Sinopse: é uma acessível introdução aos temas essenciais do hinduísmo, desde 
sua antiga cosmologia, filosofia e arquitetura sagrada até seus milhares de 
deuses e deusas. A literatura do hinduísmo – uma das mais antigas do mundo 
– é descrita e explicada, desde os textos sagrados como os Vedas e Upanixades 
até as sempre populares epopéias do Ramayana e do Mahabharata. Além disso, 
realça-se de modo especial a celebração do ciclo vital no hinduísmo, passando 
em revista a diversidade de seus rituais e cerimônias. 
Comentário: outro daqueles livros didáticos indispensáveis para conhecer o hinduísmo através da 
pena de um hindu.
Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no 
cristianismo e no islamismo
Karen Armstrong
Editora: Cia das Letras
Sinopse: Karen Armstrong, uma das principais autoridades em história 
das religiões, analisa nesta obra terrivelmente atual os movimentos 
fundamentalistas que se desenvolveram nas três religiões monoteístas: 
judaísmo, cristianismo e islamismo. Seu ponto de partida é o ano de 1492, data 
em que ocorreram episódios históricos decisivos para cristãos, muçulmanos 
e judeus: a descoberta da América, a conquista de Granada e a expulsão dos 
judeus da Espanha. Discorrendo em estilo claro e ágil, apoiando-se numa 
documentação excepcional e em ampla bibliografia, Armstrong constrói uma obra indispensável 
aos que desejam compreender o impacto do fundamentalismo sobre a economia, a política e a 
sociedade em geral. 
Comentário: o livro se propõe a ir muito mais profundamente quando se trata de fundamentalismo, 
mesmo nos dias atuais. Leitura recomendada para quem quer sair do lugar-comum.
MATERIAL COMPLEMENTAR
A Ciência e o Islã - Documentário BBC
Ano: 2009
Sinopse: o físico Jim Al-Khalili viaja pela Síria, Irã, Tunísia e Espanha para 
contar a história do grande avanço científico no conhecimento que ocorreu 
no mundo islâmico entre os séculos VIII e XIV.
Site brasileiro sobre a religião budista, desde sua história até curiosidades. Acesse e emita 
sua própria opinião. Será que o espaço “torne-se um budista”, faz sentido dentro daquilo que 
estudamos?
<http://budismo.com.br/>
Site brasileiro do O Instituto Latino-Americano de Estudos Islâmicos - ILAEI, oferece cursos de 
idioma árabe e estudos islâmicos com a finalidade de apresentar o Islã aos não-muçulmanos e 
preparar muçulmanos para atuar na área de divulgação.
<https://www.academiaislamica.com/lms/>
Site da CONIB - Confederação Israelita do Brasil. Fundada em 1948, a Conib – Confederação 
Israelita do Brasil – é o órgão de representação e coordenação política da comunidade judaica 
brasileira, cuja população é estimada em 120 mil pessoas. São filiadas à instituição comunidades 
organizadas em catorze unidades da federação.
<http://www.conib.org.br/aconib>
REFERÊNCIAS
AMBALU, S.; COOGAN, M.; FEINSTEIN, E. L. (Org.). O livro das religiões. São Paulo: 
Globo Livros, 2014.
BRAICK, P. R.; MOTA, M. B. História: das cavernas ao terceiro milênio. São Paulo: Mo-
derna, 2007.
BRASIL. Lei n. 
HACKETT, C; MCCLENDO, D. Christians remain world’s largest religious group, but 
they are declining in Europe. Pew Research Center. 5 apr. 2017. Disponível em: 
<http://www.pewresearch.org/fact-tank/2017/04/05/christians-remain-worlds-lar-
gest-religious-group-but-they-are-declining-in-europe/>. Acesso em: 05 nov. 2018
HELLERN, V.; NOTAKER, H.; GAARDER, J. O Livro das Religiões. São Paulo: Cia. das 
Letras, 2000.
INSTITUTO LATINO-AMERICANO DE ESTUDOS ISLÂMICOS. Compreendendo o Islã. 
Maringá: Academia Islâmica, [s.d]. 
MILLER, S.; HUBER, R. V. A Bíblia e sua história: o surgimento e o impacto da Bíblia. 
Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.
PEW RESEARCH. The Changing Global Religious Landscape. 2015. <http://www.
pewforum.org/2017/04/05/the-changing-global-religious-landscape/>. Acesso em: 
05 nov. 2018
SAID, E. W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Cia. de 
Bolso, 2007.
WILGES, I. Cultura Religiosa: as religiões do mundo. Petrópolis: Vozes, 1994.
YEHUDA, E. Os cultos e refinados filisteus. Revista História Viva. Disponível em: 
<http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/os_cultos_e_refinados_filis-
teus.html>. Acesso em: 11 nov. 2014.
REFERÊNCIAS ON-LINE
1Em: <http://freestock.ca/flags_maps_g80-buddhism_grunge_flag_p1210.html>.
2 Em: <https://pixabay.com/pt/pr%C3%ADncipes-estrada-sinagoga-pr%C3%ADnci-
pes-3510503/>. 
3Em: <http://www.tryte.com.br/colecaojudaismo/livro2/sintese.htm>. 
4Em:<http://www.monjacoen.com.br/~monja/images/stories/downloads/Sutra_
da_Meditação_Fugem_Bosatsu.pdf>.
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GABARITO
1. E.
2. B.
3. A.
4. E.
5. A.
GABARITO
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N
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E III
Professor Dr. Fábio Augusto Darius
BREVE HISTÓRIA DO 
CRISTIANISMO: NASCIMENTO, 
DESENVOLVIMENTO E 
TRANSFORMAÇÕES
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Visualizar contextualmente a Igreja Católica durante a Antiguidade, 
com aportes à antiga religião romana.
 ■ Perceber o grande papel da Igreja Católica na Idade Média, a partir 
de tópicos da Filosofia Católica para melhor entendermos alguns 
fundamentos da própria religião.
 ■ Compreender os elementos que levaram ao movimento da Reforma 
Protestante, assim como os principais reformistas. 
 ■ Entender os desafios da Igreja Católica ao longo da Modernidade e 
dias atuais.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ Nascimento do Cristianismo enquanto religião institucionalizada.
 ■ A Igreja Católica na Idade Média; A Patrística e a Escolástica: o 
desenvolvimento da Filosofia Cristã Medieval.
 ■ Reforma Protestante: nascimento e consolidação de novas vertentes 
cristãs; os pré-reformistas e Martinho Lutero.
 ■ A Igreja Católica frente à Modernidade e à Contemporaneidade.
INTRODUÇÃO
Prezado(a) aluno(a)! Chegamos à terceira unidade do nosso livro. Chegamos a 
um momento crucial de nossa jornada. Aliás, literalmente crucial, já que a pala-
vra, segundo a sua origem, tem a ver com a palavra cruz, não a cruz de Cristo, 
mas a um certo cruzamento.
O que é o cristianismo senão também uma religião que cruzou o oriente e 
moldou de forma absoluta e definitiva o ocidente? Saber um pouco sobre suas 
origens se mostra muito importante para o nosso estudo acerca da história das 
religiões. Para tanto, a partir de agora, estudaremos sobre a denominação cristã 
majoritária: a Igreja Católica Apostólica Romana.
Por que escolhi discutir sobre ela e não sobre qualquer uma das milhares 
de outras denominações cristãs existentes hoje em praticamente todas as partes 
do mundo? Os motivos são os mais diversos e creio que você tem uma exce-
lente ideia sobre eles. Para início de conversa, falar sobre o cristianismo a partir 
do catolicismo apostólico romano é, em poucas palavras, abrir espaço privile-
giado para falar também sobre a antiga religião do Império Romano que acabou 
entrando em contato com uma seita judaica conhecida como “cristianismo” ou 
“os do Caminho”.
A partir daí, retratar o desenvolvimento e crescimento do catolicismo na 
própria História Antiga e, ainda de forma mais forte, na Idade Média, é falar 
basicamente sobre a própria riquíssima história da Idade Média, sem deixar de 
mencionar privilegiadamente também alguns de seus aportes filosóficos como 
a patrística e a escolástica. 
Faremos algumas considerações acercado movimento reformista do séculos 
XV e XVI dando realce para os pré-reformistas e o grande reformista Martinho 
Lutero. E, por fim, faremos uma rápida retomada acerca dos principais acon-
tecimentos da Igreja Católica durante o período contemporâneo, como a bula 
Rerum Novarum, o Tratado de Latrão e os Concílios do Vaticano.
Forte abraço e mãos à obra!
Introdução
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BREVE HISTÓRIA DO CRISTIANISMO: NASCIMENTO, DESENVOLVIMENTO E TRANSFORMAÇÕES
Reprodução proibida. A
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IIIU N I D A D E110
NASCIMENTO DO CRISTIANISMO ENQUANTO 
RELIGIÃO INSTITUCIONALIZADA
Impossível contar a história do cristianismo sem citar Jesus Cristo. Além disso, 
ao comentar sobre o budismo, o judaísmo e o islamismo, para início de conversa, 
citamos suas maiores personalidades. Por que faríamos diferente agora, não acha?
Jesus Cristo, transliterado para nossa língua, ou seja, representando em 
nossa língua os caracteres de outra, significa Yeshua. Contudo, a Bíblia o apre-
senta com quase vinte outras denominações e títulos, tais como Emanuel (Deus 
conosco), Príncipe da Paz, Filho de Deus, Filho do Homem, Cristo, Cordeiro, 
Rei dos reis etc. Esses nomes e títulos certamente fazem com que Jesus Cristo 
ou Jesus, o Cristo (visto que Cristo significa “Ungido”), tenha grande relevância 
na história do cristianismo, não apenas o primitivo, mas também atualmente. 
Qual a situação histórica relativa a seu nascimento?
Jesus nasceu, conforme nos conta a história bíblica, na Galileia, no norte 
de Israel. Mas foi na cidade de Belém ou em Nazaré? Os evangelistas Mateus e 
Lucas são bem claros ao afirmarem que foi em Belém. Na verdade, não poderia 
ser outra cidade visto que há claras afirmações ditas por profetas ainda do Antigo 
Testamento de que o descendente do Rei Davi deveria nascer em Belém. Assim, 
logo de cara, temos uma relação direta entre o judaísmo, por meio de seus textos 
antigos, e o Fundador do cristianismo, que ao longo de Sua vida faria oposição 
a muitas das práticas da religião dos judeus.
Nascimento do Cristianismo Enquanto Religião Institucionalizada
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Contudo, o nascimento de Cristo e, por tabela, do cristianismo, deu-se de 
forma extremamente atribulada. José era um carpinteiro, provavelmente mais 
velho do que sua noiva, Maria. Um carpinteiro daquela época era muito mais do 
que um carpinteiro hoje, visto que podia exercer uma série de outras funções, 
como a de construtor civil, no caso, erigindo casas. Sabe-se que precisamente 
na época de José e seu filho Jesus, dez cidades foram erguidas na fronteira do 
Império Romano, na região da Judeia. Essas cidades foram genericamente cha-
madas de Decápolis e pode-se pensar que é bem possível que o próprio Jesus 
tenha ajudado a erguer essas cidades, visto que nada sabemos sobre sua vida 
entre seus 12 e 30 anos de idade.
Na época de seu nascimento, os romanos já dominavam aquela região. Aliás, 
ao falarmos de Império Romano neste contexto, falamos de um império ainda 
muito jovem, que sequer tinha atingido os seus trinta anos de idade. Contudo, 
falamos aqui do período que denota o apogeu de Roma – muito embora a Judéia 
fosse extremamente complicada de ser governada por eles, visto que, vez por 
outra, muitos conflitos ocorriam por lá. Entre 7 e 2 a.C., devido a questões de 
calendário, nasceu Jesus no contexto de um censo (bem parecido com os que o 
IBGE faz ainda hoje, embora sob outras formas menos logisticamente compli-
cadas). Sabe-se que este censo foi proposto por Otávio Augusto, o Imperador 
de Roma naqueles tempos.
Resumindo um tanto a história, porque, afinal, temos alguns séculos pela 
frente em poucas páginas, Herodes Arquelau (filho de Herodes, o Grande, 
mas que ficaria apenas um pouquinho de tempo no trono, visto que César 
Augusto o considerou extremamente incompetente em suas funções, nome-
ando Herodes Antipas, que governaria até depois da crucificação de Cristo) 
resolveu perseguir e matar todos os recém-nascidos judeus, obrigando a fuga 
da família de José para o Egito. Não se sabe precisamente quanto tempo eles 
ficaram por lá, visto que não se sabe quanto tempo Arquelau ficou efetiva-
mente no poder.O que está claro é que, assim que o governante morreu, eles 
voltaram e a partir daí pouquíssimo se sabe sobre a vida de Cristo, até seu 
batismo por João Batista nas águas do rio Jordão, exceto sobre uma impor-
tante cerimônia, a Páscoa, a qual Cristo participou quando tinha 12 anos de 
idade. Certamente, para os judeus, a Páscoa tem um significado diferente em 
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relação àquele dos cristãos. Para eles, a comemoração lembra a fuga dos judeus 
do Egito, mostrando a nós, hoje, o quão importante é a história de Moisés não 
apenas para a religião, mas para a história dos judeus. É só a partir daqui, ou 
seja, do batismo de Jesus e do início de Seu ministério que Seu nome efeti-
vamente seria elencado como desde um rabino ou profeta até o Salvador do 
mundo, mas não sem lutas e dores.
Para a Igreja Católica Apostólica Romana e os seus bilhões de seguido-
res, o nascimento desta denominação se dá ao final do ministério de Jesus em 
um diálogo muitíssimo interessante com o apóstolo Pedro. Basicamente acon-
teceu o seguinte: Jesus perguntou a alguns de seus discípulos “Quem dizem os 
homens ser o Filho do homem? (Mateus 16:13) Várias respostas foram dadas 
pelos discípulos acerca de quem as pessoas diziam ser Ele. Finalmente Cristo 
pergunta quem eles, especificamente, achavam que Ele era. Ao que Pedro res-
ponde dizendo que Ele é não outro senão o “Filho do Deus vivo” (Mateus 16:16). 
Essa resposta pareceu alegrar muito Jesus, que abençoou a Pedro. Na verdade, 
naquele contexto, Cristo afirmava novamente aos seus ouvintes sobre seu sofri-
mento vindouro em favor da própria humanidade.
Naquele momento, disse a Pedro as palavras: “tu és Pedro, e sobre esta pedra 
edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” 
(Mateus 16:18). Assim, temos uma questão sumamente importante a ser refletida, 
seja sob o aspecto religioso, seja sob o aspecto histórico: esta passagem bíblica dá 
margem para que pensemos que a Igreja Católica Apostólica Romana, hipotetica-
mente fundada por Jesus Cristo, teve em Pedro, o Apóstolo, seu primeiro Papa? 
Assim, temos que para os católicos, sua história denominacional efetiva-
mente se dá a partir da fala de Cristo a Pedro, visto que a sucessão de Pedro se 
deu com o Papa Lino, em 67 d.C., e até hoje se mantém ininterrupta. 
Acerca da propagação do cristianismo, há diferentes pontos de vista entre 
os apóstolos Pedro e Paulo de Tarso (ambos são considerados fundadores da 
igreja), no tocante à propagação do cristianismo para além do território dos 
judeus – embate este vencido por Paulo –, fizeram com que o Cristianismo che-
gasse efetivamente ao coração do Império Romano, fazendo com que a história 
da igreja cristã primitiva se fundisse com a história do Império Romano, com 
influências que até hoje balizam a religião católica. 
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Para melhor contextualizarmos a inserção do cristianismo primitivo em 
Roma, é preciso que conheçamos alguns aspectos da religião romana. Como 
você já sabe, durante o Império Romano, antes da instauração do Cristianismo, 
os romanos possuíam como religião oficial o politeísmo. Todavia apesar da 
grandeviolência dos romanos em relação à conquista dos povos dominados, 
eles eram extremamente prudentes no convívio com eles, depois de sua con-
quista. Prudentes e inteligentes. Tanto é verdade que não interferiam no culto 
desses povos. Faziam bem mais do que isso: eles incorporaram aqueles deuses 
a seus próprios e, assim, a religião romana tinha elementos da religião grega, 
persa, egípcia, etrusca, entre outros. Para eles, era absolutamente óbvio, como 
entre os gregos, a noção elementar da existência dos deuses e do fato de pre-
cisar sempre agradá-los para que houvesse equilíbrio entre os mais diferentes 
setores do império. Contudo, poderia existir outro motivo para que os roma-
nos incorporassem deuses estrangeiros aos seus:
A identificação dos deuses nativos com equivalentes romanos, seja pela 
associação do nome do deus nativo à divindade romana, seja pela la-
tinização pura e simples do nome da divindade indígena, [...] nos faz 
acreditar, por exemplo, que divindades como Júpiter e Zeus eram a 
mesma. Porém elas foram interpretadas a partir de semelhanças e re-
tratadas como uma só, por fins, normalmente, políticos. Somando-se 
a isso, percebe-se [...] que a integração de novas divindades, cultos e 
festivais não se fundamentava na benevolência, mas no temor e na pre-
caução em não desafiar os deuses dos ‘outros’, os quais poderiam ser 
úteis aos romanos (MENDES; OTERO, 2005, p. 22).
Com isso, aprendemos que está errado pensar que muitos de seus deuses eram 
basicamente os mesmos dos romanos, apenas mudando o nome. Ainda assim, 
grande parte da mitologia greco-romana ainda hoje se faz presente em nosso 
cotidiano, o que demonstra a intrínseca ligação entre nós hoje e eles no pas-
sado, mais uma vez demonstrando a importância de se estudar esta disciplina.
É importante citarmos aqui que em grande medida a religião romana, em sua 
esfera doméstica, era baseada no culto aos antepassados. Em poucas palavras, dos 
antepassados mortos era feito um pequeno busto que era sempre reverenciado 
pelos descendentes. Era comum também muitos e variados feriados religiosos e, 
dentre tantos deles, um realmente vale a pena ser lembrado: aquele feito em honra 
a Mitra, para alguns chamado deus-Sol. Na verdade, o mitraísmo remonta aos 
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persas, chegando aos romanos aproximadamente uns dois séculos antes de Cristo. O 
feriado em honra a Mitra acontecia todos os anos precisamente em 25 de dezembro, 
comemorando o nascimento do Sol. Será que é coincidência hoje que o “aniver-
sário” de Cristo, para muitos o “Sol da Justiça”, seja comemorado neste mesmo 
dia? Seja como for, precisamente por influência do cristianismo sobre o Império, 
o Imperador Teodósio se converteu, aboliu as práticas consideradas pagãs, e tor-
nou o cristianismo a religião oficial do Império com o Édito de Tessalônica (380).
Feita esta mínima contextualização acerca do Império Romano, podemos 
agora apresentar os primórdios do cristianismo dentro daquele Império. Iniciamos 
com uma disputa teológica entre Pedro e Paulo.
Pedro achava que um pré-requisito para se tornar cristão era ser um judeu. 
Isso quer dizer que todo homem cristão deveria ser circuncidado, ou seja, ao 
nascer teria que ter o seu prepúcio, uma pele na ponta do pênis, cortado por 
um cutelo, no oitavo dia de nascimento, que além de ser um claro sinal entre 
Deus e Seu povo, ainda nos tempos de Moisés os livrou de muitas doenças e 
infecções no deserto, mostrando-se, mais do que uma imposição divina, uma 
disposição prática.
Paulo, mais pragmático, diria que essa circuncisão deveria ser no coração, 
ou seja, seria algo metafórico e que todo aquele que se convertesse a Deus seria 
por Ele aceito em seu Reino, independentemente de onde tivesse nascido e de 
qual língua falasse. Como mostra a passagem a seguir: 
Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de 
nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa 
circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de 
Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído. Porque 
nós pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça. Porque em 
Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; 
mas sim a fé que opera pelo amor (Gálatas, 5:2-6).
Pensando assim, Paulo tornou o cristianismo universal e acessível a todos, empreen-
deu várias viagens missionárias passando pelos mais diversos lugares e enfrentando 
as mais difíceis questões – isso inclui pelo menos um naufrágio, uma picada por 
cobra, aprisionamentos e tortura. Finalmente, o apóstolo Paulo chegou a Roma, o 
coração do Império. É como se você fosse a Paris em pleno século XIX ou a Nova 
Iorque ao longo de quase todo o século XX. Era em Roma que tudo acontecia.
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O cristianismo em Roma, em seus primeiros momentos, foi visto como 
ilegal, e seus membros eram violentamente perseguidos. Na verdade, sequer 
era visto como uma religião, mas como uma espécie de seita dos judeus. Em 
seus primeiros momentos, era praticado por pessoas marginalizadas, pobres 
e pouco consideradas pelos romanos, visto que a religião do Império, polite-
ísta, era tida como oficial, e para exercer um cargo público, por exemplo, era 
obrigatório segui-la.
O cristianismo em Roma, pouco a pouco, foi o responsável por “atuali-
zar” certas atitudes altamente condenáveis dos romanos. Como exemplo, cito 
o ato de abandonar crianças não desejadas, bem como minar os fundamentos 
do Império, como a escravidão e a violência, instrumentos sem os quais seria 
impossível mantê-lo. Até isso acontecer, os cristãos eram torturados em praça 
pública, seus bens eram confiscados e, como se conhece melhor, eram atirados 
nos anfiteatros para serem devorados por animais selvagens.
Depois de séculos de perseguição aos cristãos, Constantino, Imperador 
Romano, resolveu, em 313, com o Edito de Milão, parar a perseguição aos cris-
tãos. Isso simplesmente fazia com que os cristãos fossem tolerados no Império, 
sem que sua religião fosse tida como prioritária. Parece excelente, não é mesmo? 
Sem dúvida seria, se você morasse em Roma e sofresse terríveis perseguições, 
precisando viver na ilegalidade. Contudo, em 7 de março de 321, ele promul-
gou o primeiro decreto dominical.
Em decorrência disso, aconteceu algo muito importante na história da 
Igreja Católica, que até hoje se mantém e é uma de suas características bási-
cas, bem como de muitas outras igrejas protestantes. Ao assinar este decreto, 
ele afirmou que, a partir daquele dia, o domingo deveria ser guardado, junta-
mente com o sábado, como faziam e ainda hoje fazem os judeus e certas igrejas 
cristãs. Pode parecer uma pequena mudança, mas, na verdade, com isso, ele 
mudou um trecho da Bíblia dos mais importantes: a parte dos mandamen-
tos, disposta no livro de Êxodo, em que o próprio Deus entregou a Moisés as 
tábuas da Lei, como acreditam muitos judeus e cristãos. Posteriormente, nin-
guém mais poderia guardar o Sábado como dia de descanso, exceto os judeus 
e muitos cristãos que se mantiveram firmes ao Livro Sagrado, o que provoca-
ria mais perseguições.
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Creio ser muito importante que isso se diga porque, assim, a Igreja Católica 
Apostólica Romana, ainda nos tempos do Império Romano, passou a ser mol-
dada. Como outros exemplos, em 364, no Concílio de Laodiceia, fica obrigado 
aos cristãos guardarem o domingo; em 370, santos passam a ser venerados, bem 
como suas imagens;em 431, Maria passa a ser exaltada, no Concílio de Éfeso; em 
526, a prática a extrema-unção tem início; em 593, passa a ser ensinada a dou-
trina do purgatório, e poderíamos continuar a lista, que é bem grande.
Em 27 de fevereiro de 380, o Imperador Teodósio I, com o Édito de 
Tessalônica, transformou o cristianismo na religião oficial do Império, entre-
tanto, como vimos anteriormente, com várias modificações. Assim, podemos 
dizer que a Igreja Católica Apostólica Romana (e aqui posso falar bem tran-
quilamente que católica significa universal, no contexto do Império, apostólica 
pela tradição iniciada com os apóstolos, e romana, claro, porque é de Roma) 
não é, necessariamente, a igreja cristã primitiva descrita no livro de Atos dos 
Apóstolos, que serve como referência histórica dos primeiros tempos da igreja, 
imediatamente após a Ascensão de Cristo.
Há certamente vários símbolos cristãos que remontam a Antiguidade e que 
ainda hoje fazem parte de nosso cotidiano. Como exemplo mais óbvio, cito a 
cruz. Você lembra da inscrição colocada acima dela, sob a cabeça de Cristo? 
Lia-se ali o termo INRI, uma expressão latina que traduzida, significa “Jesus de 
Nazaré, Rei dos Judeus. Outra expressão bem comum é a abreviatura SPQR, 
que aparecia em alguns estandartes de guerra do Império Romano. Pois 
bem: a sigla significava “o Senado e o povo romano”. Finalmente, a figura do 
peixe, que também representa o cristianismo, basicamente é um acrônimo 
da palavra peixe em grego, que significa “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”.
Fonte: o autor.
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É preciso, aqui, antes de terminar este bloco fundamental para entendimento 
da instauração da Igreja Católica Apostólica Romana, levar em conta ao menos 
uma grande crise teológica fundamental nesse período, visto que ela tem rela-
ção intrínseca entre a própria igreja e o Estado, e que o Imperador era também 
o chefe da igreja. Essa “dupla chefia”, conhecida como cesaropapismo, em que 
literalmente o César era o Papa, só aconteceu na história do cristianismo, prin-
cipalmente no Império Bizantino. Seja como for, essa crise se deu contra um 
presbítero de Alexandria chamado Ário, que negava a divindade de Jesus bem 
como a do Espírito Santo. Essa questão foi central para a igreja por mais de meio 
século, mas foi importante para a igreja, visto que no Concílio de Constantino-
pla de 381, foi instituído o Credo, ou seja, a crença no Pai, no Filho e no Espírito 
Santo, o que é sempre, ainda hoje, evocado quando os católicos fazem o conhe-
cidíssimo sinal da cruz. Esse fato também é historicamente relevante, visto que
De maneira geral, o Concílio de Constantinopla de 381, o segundo ecu-
mênico, visto sempre como conclusão da controvérsia ariana, e a con-
fissão de fé utilizada nas negociações conciliares, são entendidos como 
expressão da unidade dogmática atingida. Uma vez que isso em linhas 
gerais de fato está correto, e já que o credo (niceno-) constaninopoli-
tano é o único tripartido que a Igreja do Ocidente e a do Oriente têm 
em comum, deve-se aqui repetir na íntegra o texto em seu valor ecu-
mênico: Nós cremos no único Deus, o Pai, todo-poderoso, que tudo 
criou, céu e terra, o mundo visível e o invisível. E no único Senhor Jesus 
Cristo, filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todo tempo: 
Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, 
não criado, consubstancial (homousios) ao Pai; Por meio dele tudo foi 
criado [...] (KAUFMANN; KOTTJE; MOELLER et al., 2012, p. 138).
Certamente, ainda há muito que deve ser falado sobre a Igreja Católica neste 
período. O fato é que, com o passar dos anos, ela foi mudando, ao mesmo tempo 
em que ela própria moldou o modo de pensar de toda uma era. Ao falarmos 
sobre ela no contexto medieval, voltaremos a certas questões ali relacionadas. 
Vamos continuar?
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A IGREJA CATÓLICA NA IDADE MÉDIA; A PATRÍSTICA 
E A ESCOLÁSTICA: O DESENVOLVIMENTO DA 
FILOSOFIA CRISTÃ MEDIEVAL
Sabemos que o catolicismo romano tem duas fontes principais: as Escrituras 
Sagradas e a tradição. Simplesmente os católicos não deixam de lado a sua pró-
pria história construída ao longo de dois milênios. Isso pode ser um problema 
para aqueles que apenas levam em conta a autoridade das Escrituras, negando 
qualquer outro argumento. O fato é que se não levarmos profundamente em 
conta a historicidade da igreja católica, nunca teremos condições de compre-
endê-la. Tudo bem, eu sei que para se compreender qualquer denominação é 
necessário compreender sua história, mas como eu acabei de escrever, nenhuma 
outra tem uma história tão longa e complexa, incluindo sua relevância quase que 
absoluta na Idade Média.
Por volta do século III, o Império Romano entrou em uma crise, principal-
mente pela escassez de mão de obra escrava. No século IV, para complicar ainda 
mais a vida dos romanos, os povos germânicos foram cada vez mais se aproxi-
mando das fronteiras e, finalmente, tomando territórios romanos. Precisamente 
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durante esse período, como acabamos de ver, inclusive para resolver essas deman-
das, o cristianismo é oficializado como a única religião permitida do Estado, no 
já estudado Édito de Tessalônica (380).
A partir desse ponto, os eventos se deram bem rapidamente: francos, burgún-
dios, alamanos, anglos, jutos, saxões e outros povos foram tomando o Império. 
Os hunos, liderados por Átila, aterrorizaram, e os romanos só tiveram paz com 
a morte deste, em 453. Entretanto, a esta altura, o Império Romano já estava tão 
retalhado que nunca mais voltaria ao seu esplendor de outrora.
Seguindo a corrente, lá pelo final do século V, Rômulo Augusto assume como 
último imperador no ocidente, sendo deposto em 476. Esse ano acabou entrando 
para a história, porque marcou o fim do Império Romano do Ocidente. É claro 
que o Oriente tentou fazer algo a respeito, prometendo impedir que qualquer 
bárbaro tomasse o poder, mas, você sabe, isso foi em vão.
É certo pensarmos que essa data, 476, só faz sentido para nós hoje, que 
olhamos para o passado confortáveis em nosso mundo contemporâneo (ou 
não tão confortáveis assim, visto todas as questões existenciais trabalhadas no 
início da primeira unidade). A mentalidade medieval, ou seja, a fragmentada 
com os “bárbaros”, foi sendo construída ao longo de muitas e muitas gerações. 
Afinal, ninguém vai dormir na Antiguidade e acorda na Idade Média, ima-
ginando que o mundo está totalmente diferente de ontem. Nesse contexto, 
os “bárbaros” foram formando seus reinos e o feudalismo, sistema baseado 
em relações servis, foi pouco a pouco sendo implementado ao longo de toda 
Alta Idade Média.
Nesse sistema, feudalismo, praticamente não havia a circulação de dinheiro 
e a Europa foi ruralizada e fragmentada. A sociedade de então, estamental, ou 
seja, sem mobilidade social, foi dividida em praticamente três grupos carac-
terísticos: os que rezavam (oratores), os que lutavam (bellatores) e os que 
trabalhavam (laboratores). Nesse contexto, o teocentrismo, ou seja, a doutrina 
de Deus como o centro da vida, ganhou força bem como, você sabe, a pró-
pria igreja católica. Em 1054, ocorreu uma ruptura da Igreja com o Grande 
Cisma de 1054. A partir desse momento, a Igreja Cristã se dividiu em duas 
correntes oficiais principais: A Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja 
Ortodoxa Grega. 
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Caro(a) aluno(a), como disciplina de História das Religiões, devemos nos 
perguntar: por que a Igreja Católica foi tão importante nesse período medieval? 
Aí vai uma tentativa de resposta.
Uma parte considerável das igrejas cristãs, hoje em dia, é chamada de “igreja 
de missão”. Essas igrejas têm a missão de fazer novos discípulos. Aliás, este foi 
um dos pedidos de Jesus Cristo. Durante a crise do Império Romano com os 
“bárbaros” chegando por todos os lados, missionários cristãos oriundos das mais 
diversas regiões do Império Romano começaram a fazer contato com esses povos. 
Assim, a igreja foi se expandindo, sendo conhecida por eles e ampliando seu 
poder. Precisamente este entrelaçamento cultural fez a Idade Média ser o que foi. 
As sociedades desenvolvidas no ocidente medieval formam frutos dessa fusão da 
cultura e tradição romana com a tradição e cultura germânica (BASCHET, 2006). 
Dessa forma, ver uma ruptura entre a Idade Antiga e Medieval é ser histo-
ricamente míope já que:
Considerando-se a Idade Média determinada, sobretudo, por uma es-
treita e singular relação entre tradições cristãs, antigas, germânicas e 
orientais diversas, tendo por base a única fé cristã e a única cultura e 
língua oficial latina, e observando como especiais sinais distintivos da 
Igreja medieval sua restrição ao território da Europa, a autoridade ecle-
siástica e política do papa independente do imperador bizantino, a inte-
gração dos ministros eclesiásticos e das instituições eclesiásticas na or-
dem política e social [...] a acentuada diferença entre um clero projetado 
mediante educação e privilégio e uma significativa influência eclesiásti-
ca, política e econômica do monasticismo, pode-se, em sã consciência, 
citar o papa Gregório I como marco divisório entre a Antiguidade e a 
Idade Média (KAUFMANN; KOTTJE; MOELLER, 2012, p. 182).
O que podemos entender da grande frase (literalmente) supracitada? Entendemos 
que ainda que Roma estivesse vivendo o caos dos seus últimos dias e popula-
ções quase que inteiras estivessem morrendo de fome devido a péssimas políticas 
sociais dos últimos imperadores (e se não morriam de fome, morriam pela espada 
dos germânicos), a Igreja Católica, a partir da sua relação com esses povos, con-
seguiu manter as tradições romanas, assim como a unidade de fé e de cultura em 
toda a Europa. Diria até mais: a acossada população romana, totalmente des-
provida de segurança jurídica ou assistencial do Estado, acabou por se fiar mais 
e mais na igreja, que atravessou firme este período da História.
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Uma frase extremamente popular na Idade Média, que sobreviveu por séculos, 
chegando ao século XX, dizia que “fora da Igreja Católica não há salvação”. Você 
sabe o que ela significa ou pode significar? Eu estou certo de que compreendê-la 
ajudará a perceber a influência da igreja no período, que transcende inclusive 
o campo espiritual.
A vida religiosa era central e isso incluía a cultura. Isso quer dizer que: 1) 
literalmente, a cultura toda da Idade Média estava subordinada à Igreja e não 
havia muito o que fazer, não sem correr perigo contra isso; 2) que se você fosse 
um medieval e discordasse dos pensamentos da Igreja, poderia correr o risco 
de ir para o inferno.
Acerca da teologia católica medieval, ficou devidamente cristalizada naquele 
período a noção de céu e de inferno. O céu era um lugar eterno onde você estaria 
em um lugar agradabilíssimo com seus entes queridos e toda a sorte de santos. O 
inferno, também eterno, seria um lugar de danação, em que você seria torturado 
sem qualquer tipo de lenitivo. E o purgatório era uma espécie “intermediária” 
entre o céu e o inferno, onde iam aqueles que não eram considerados bons o sufi-
ciente para entrar no céu, mas não eram tão ímpios para irem para o inferno. Lá 
ficavam até que um número de missas, estipulado pelo sacerdote, fosse oferecido 
em prol do falecido. Ah! Havia também a contribuição em dinheiro!
Eis aqui: o dinheiro e o poder, um dos grandes problemas da igreja medie-
val. Uma das piores consequências do fim do Império Romano foi que, entre 
os medievais, pouquíssimos sabiam ler e escrever. Assim sendo, pouquíssimos 
Imagino que, ao menos uma vez em sua vida, você já tenha ouvido falar 
ou mesmo ouvido um canto gregoriano. É um gênero musical belíssimo e 
meditativo só com uma melodia e sem acompanhamento instrumental. O 
canto foi baseado nos salmos e era o único gênero permitido, cantado nas 
missas. Ao final da Idade Média, mas muito gradativamente, foi surgindo 
o chamado canto polifônico ou polifonia, que contém mais de uma linha 
melódica. Vale a pena ouvir!
Fonte: o autor.
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tinham acesso à Bíblia e os que tinham precisavam ter muito dinheiro para adqui-
rir um exemplar, que nunca vinha por completo. A Igreja Medieval lia certos 
trechos ou omitia outros a seu bel prazer e, assim, surgiu a prática das indulgên-
cias. Indulgências eram pagamentos em dinheiro para que o céu fosse alcançado 
com a expiação dos pecados. Servia também para aliviar a alma do pobre sofre-
dor no purgatório, para que ele atingisse o céu. Tão acintosa foi essa prática, que 
Lutero, como veremos no próximo tópico, iniciou a Reforma Protestante basica-
mente a partir dessa problemática. Muitas relíquias que pretensamente haviam 
sido de santos, incluindo seus ossos ou mesmo um prepúcio, eram vistas como 
miraculosas por grande parte do povo ignorante.
Por favor, querido(a) aluno(a), nunca, sob hipótese alguma, leve as informa-
ções acima como argumentos contra a Igreja Católica! Lembre-se de que estamos 
falando de um período longínquo e já superado em grande medida. Lembre-se 
ainda de que muitas pessoas sinceras, do povo e do clero, fizeram o melhor pos-
sível com as poucas informações que tinham e, como em todas as épocas e em 
todas as igrejas, muitos pseudo-sacerdotes se apropriam do povo e lucram com 
sua ignorância. Creio que com todo esse cuidado, podemos estudar um pou-
quinho as Cruzadas, um movimento importantíssimo que aconteceu na Idade 
Média e que é vital na história da igreja.
Em 1054, em Constantinopla, ocorreu o chamado Grande Cisma do Orien-
te. Ele se deu basicamente por discordâncias teológicas e eclesiásticas, das 
quais aqui está apenas uma. Quando em 1053 Miguel Cerulário assumiu o 
posto de Patriarca de Constantinopla e fechou igrejas latinas por discordar 
de questões envolvendo a natureza do Espírito Santo, ele acabou amargan-
do ainda mais as relações entre as igrejas do ocidente e oriente. Até então, 
Constantinopla, a capital do Império Romano do Oriente, aceitava a lide-
rança de Roma, mas às vezes não concordava com algumas de suas ideias. 
Somente no século XXI conversações foram retomadas entre as duas igrejas.
Fonte: o autor.
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As Cruzadas foram movimentos cristãos militares que tinham o objetivo de con-
quistar e manter sob domínio cristão a Terra Santa, que naquela época estava sob 
o domínio dos muçulmanos. Isso aconteceu sob o papado de Urbano II, a partir 
de 1095. Tentando entender a situação a partir do espírito da época, temos que:
Urbano sinceramente acreditava na eficácia espiritual de uma expedi-
ção para defender a cristandade e recuperar as terras perdidas para os 
infiéis. Havia também vantagens práticas, ou seja, a Cruzada era uma 
forma de conduzir líderes dos exércitospara fora das terras da Euro-
pa, pois, nesta região, seu poder podia causar grandes danos ao cris-
tianismo e interferir seriamente no bem-estar da Igreja (BARTLETT, 
2002, p. 59).
Fazendo uma rápida retrospectiva, 
no decorrer desta unidade, fize-
mos uma viagem de vários séculos. 
Iniciamos com a visualização do 
contexto histórico do nascimento de 
Jesus Cristo, o nascimento e desen-
volvimento do cristianismo no seio 
do Império Romano, e pudemos, 
juntos, concluir que é virtualmente 
impossível falar em história da igreja 
cristã desde seu início sem conhecer 
um pouco sobre o esplendor e declí-
nio de Roma. Todavia ainda fomos 
mais além, visto que continuamos 
a viagem passando pelos atribula-
díssimos dias finais do Império, em 
476, até chegar no ápice do poder 
temporal da Igreja, com a procla-
mação das Cruzadas. 
Percebemos que a Idade Média foi, quase que inteiramente, dominada pela 
Igreja Católica Apostólica Romana, seja no modo de agir socialmente ou em 
particular, seja no modo de pensar, com consequências eternas, literalmente.
Figura 1 - Representação de Santo Agostinho por Peter Paul 
Rubens, século XVII
Fonte: Wikimedia Commons ([2018], on-line)1.
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Contudo, é absolutamente impossível conhecermos o pensamento católico 
medieval sem adentrarmos um pouco no campo da educação e da filosofia. É só 
a partir de então que o quadro geral fica mais completo, sendo possível a percep-
ção dos múltiplos fatores que contribuíram para que o povo pensasse daquela 
forma, sempre lembrando que mesmo ali existiam muitas pessoas que pensa-
vam diferente, sob o ponto de vista teológico ou não.
Quando se trata da filosofia medieval, dentro de todo esse contexto que você 
já estudou, há, sem dúvida nenhuma, um encontro da filosofia com a religião. 
Como aqui estamos estudando história das religiões, estudar certos aspectos da 
filosofia medieval é entender um pouco do modo de pensar da religião católica 
e certos fundamentos do cristianismo em si. Entretanto você provavelmente está 
certo(a) em abordar a diferença entre a religião e a filosofia. Sobre isso, certa vez 
escreveu um grande filósofo e historiador francês, Etienne Gilson (1995, XV):
O cristianismo se dirige ao homem para aliviá-lo da sua miséria, mos-
trando-lhe qual é a sua causa e oferecendo-lhe remédio para ela. É uma 
doutrina da salvação, e é por isso que é uma religião. A filosofia é um 
saber que se dirige à inteligência e lhe diz o que são as coisas; a religião 
se dirige ao homem e lhe fala de seu destino.
Dou uma dica: se você quer estudar a Idade Média em profundidade, aconselho 
que leia obras de Etienne Gilson. Se você realmente gosta de teologia e história, 
recomendo outro grande pensador do século XX, chamado Paul Tillich, que, 
certa vez, sobre este assunto, escreveu:
Ao falar do cristianismo, dizia: Esta é a única filosofia certa e adequada 
que encontrei [...] quando Justino dizia que o cristianismo era uma fi-
losofia, precisamos entender o que entendia por filosofia. Nessa época 
o termo filosofia se referia ao movimento de caráter espiritual oposto 
à magia e à superstição. Era, pois, natural que Justino se referisse ao 
cristianismo como a única filosofia certa e adequada, por que não era 
mágico nem supersticioso (TILLICH, 2007, p. 47).
Justino, que Tillich cita em seu texto, foi um grande teólogo do século II, o qual 
conheceu a fé cristã em uma discussão filosófica, em que seu interlocutor falou 
de Cristo. Está vendo? Justino foi um teólogo que conheceu o cristianismo pelo 
viés da filosofia, como acontece com muitos ainda hoje. Foi um cristão tão impor-
tante neste primeiro período da história da igreja que, em 165, foi decapitado. 
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Confere-se a Justino o título de fundador da Patrística. Você sabe que nos pri-
mórdios da religião cristã, ela foi terrivelmente perseguida, principalmente pelos 
romanos, ao mesmo tempo em que, internamente, teve que buscar uma espécie 
de união entre as mais diferentes formas de pensamentos. Justamente todo esse 
esforço colossal de ao mesmo tempo defender a fé cristã dos “pagãos” e formular 
doutrinariamente o cristianismo foi chamado de Patrística. Segundo os histo-
riadores da Filosofia, a Patrística, enquanto movimento, iniciou-se no século I e 
encontrou seu ocaso no século IX. Assim, a rigor, a Patrística foi iniciada ainda 
na Idade Antiga, mas foi na Idade Média que ela encontrou o seu apogeu e glória.
O que se deu foi que os padres-filósofos deste período, em grande medida, 
utilizavam-se de argumentos e concepções filosóficas como justificativa de afir-
mação do cristianismo. Assim, era como se os antigos filósofos gregos fossem 
“batizados” e “falassem” a partir da doutrina católica. E aqui temos uma outra 
questão bem interessante que pode ser vista quase sempre como crítica: se, em 
alguma medida, a Filosofia tenta encontrar a verdade, como é novamente o caso 
da filosofia socrática, para o cristianismo, a verdade desde sempre já se encontra 
dada. Há um texto conhecidíssimo na Bíblia em que o próprio Cristo fala que 
Ele é o “caminho, a verdade e a vida” (João 14.6).
A diferença entre diatribe e diálogo consiste no fato de o diálogo pertencer 
aos gêneros epidícticos [“discurso pomposo”]: relata-se. A diatribe/dialéxis, 
porém, pressupõe a identidade entre o autor e quem dirige a conversa. A 
essa forte acentuação do “eu” do autor já conhece de antemão as objeções. 
Isso supõe que o autor se vê como um guia espiritual e na sua superioridade 
de guia espiritual ele já sabe de antemão como “o outro” há de reagir. Como 
o outro nem precisa estar realmente presente, este gênero se presta particu-
larmente para ser usado em forma de carta. Que tenha nascido do diálogo é 
totalmente inverossímil trata-se de um gênero independente. Sua situação 
é a resposta a problemas da vida, no sentido de uma direção espiritual dada 
por um mestre autorizado. 
Fonte: Berger (1998, p. 104).
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Na verdade, vários comentadores cristãos dizem que essa frase representa 
uma diatribe ao dizer que o caminho é a verdade e a vida, a verdade é o cami-
nho e a vida e a vida é o caminho e a verdade. Assim sendo, ou seja, sendo uma 
frase cíclica, está posta de antemão a busca pela verdade. 
Portanto, para a filosofia cristã, patrística ou não, a racionalidade da filoso-
fia se dava sempre no contexto do que é, para a Bíblia, verdade. Generalizando 
um pouco, pode-se dizer que sobre o encontro entre a fé e a razão na Bíblia, de 
acordo com Reale e Antiseri (2007, p. 402):
O texto básico para a mediação racional e a sistematização da doutri-
na e da filosofia cristãs foi o prólogo do Evangelho de João (além das 
Epístolas de Paulo), que fala do “Verbo” ou “Logos” divino, falando de 
Cristo precisamente em termos de Logos: “No princípio era o Verbo 
(Logos) e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio 
ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi 
feito de tudo o que existe. Nele estava a vida e a vida era a luz dos ho-
mens e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam. […] 
Ele estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo 
não o conheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam. 
Mas aos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus os 
que creem em seu nome, que não nasceram do sangue, nem da vontade 
da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. […] Esse texto 
se apresentou como o mapa fundamental dosproblemas essenciais. E 
o conceito de Logos permitiu utilizar de modo fecundo uma série de 
elementos do pensamento helênico. 
Em resumo, conforme nos aponta Ricardo Melani (2013, p. 79), a patrística, ou a 
filosofia cristã, nasceu com a necessidade de “defender, formular uma doutrina e 
expandir o cristianismo”. Isso se deu quando padres católicos utilizaram elementos 
da filosofia grega para interpretar as Escrituras Sagradas. Esta tarefa foi facilitada 
visto que várias escolas filosóficas já tentavam fazer esta ponte entre o racional e 
o místico. Nesse período, foram elaborados muitos documentos que até hoje são 
referências para a Igreja Católica, o que justifica o seu estudo no âmbito da his-
tória das religiões. Finalmente, como você já sabe, a filosofia estava totalmente 
subordinada à igreja e sua doutrina. Visto isso, estudaremos agora um dos mais 
relevantes filósofos do período, chamado de Agostinho, ou Santo Agostinho, um 
dos mais importantes teólogos e filósofos de todos os tempos. Na verdade, quando 
digo que ele foi um dos mais importantes dos filósofos, não exagero em dizer que 
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sua grandeza é tamanha que ele escapa 
do âmbito da igreja, como se isto fosse 
pouco. É impossível estudar história e, 
obviamente, filosofia, sem passar por 
ele. Por toda a sua contribuição, ele foi 
canonizado e hoje é um santo católico, 
sendo que seu dia é 28 de agosto.
Agostinho, e isso poucos sabem, 
nasceu na cidade de Tagaste, na atual 
Argélia. Foi testemunha ocular das inva-
sões bárbaras, visto que Hipona, cidade 
onde ele morreu aos 75 anos, foi alvo 
desses povos germânicos. Pode-se dizer 
que Agostinho foi um dos últimos roma-
nos, sem que isso pareça exagero.
Para Agostinho, simplesmente não há porque afirmar que a fé e a razão sejam 
opostas. Diz ainda que a ânsia de todo o ser humano pela busca de Deus sempre 
existiu, mesmo entre os antigos gregos, embora eles nunca O tivessem encon-
trado, embora Deus fosse eterno, imutável e criador de tudo o que existe, o ser 
e o bem supremos e o logos encarnado. Entretanto é quando pensamos no livre-
-arbítrio que a filosofia de Santo Agostinho se mostra ainda mais procurada. Na 
verdade, muitos e muitos livros e artigos foram escritos sobre a questão, baseados 
nos escritos de Santo Agostinho. Novamente Gilson (1995, p. 18-19) escreveu 
maravilhosamente sobre a questão, de forma bastante acessível, em sua equili-
brada visão teológica e filosófica, ao dizer que:
Duas condições são exigidas para fazer o bem: um dom de Deus que é 
a graça e o livre-arbítrio. Sem o livre-arbítrio não haveria problemas; 
sem a graça, o livre arbítrio (após o pecado original) não quereria o 
bem ou, se o quisesse, não conseguiria realizá-lo. A graça, portanto, 
não tem o efeito de suprimir a vontade, mas sim de torná-la boa, pois 
ela se transformara em má. Esse poder de usar bem o livre-arbítrio é 
precisamente a liberdade. A possibilidade de fazer o mal é inseparável 
do livre-arbítrio, mas o poder de não fazê-lo é a marca da liberdade. E o 
fato de alguém se encontrar confirmado na graça, a ponto de não poder 
mais fazer o mal, é o grau supremo da liberdade.
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Agostinho dizia que o livre-arbítrio, como bem sabemos, é a escolha autônoma 
que todos podemos fazer entre o bem e o mal. Entretanto esclarece ao dizer que 
só somos realmente livres quando fizermos um bom uso do livre-arbítrio, ou 
seja, escolhermos por nós mesmos fazer o bem ainda que possamos fazer o mal. 
Isso somente é possível pela graça de Deus. Assim, você tem mais uma impor-
tante relação aqui entre a filosofia e a teologia.
Ao final de sua vida escreve um livro muito interessante, chamado “A Cidade 
de Deus”. Para entendê-lo, porém, você precisa voltar ao contexto que comenta-
mos alguns parágrafos acima, quando rapidamente escrevi sobre sua biografia. 
Ora, se você vive refém da violência, da maledicência e de toda a sorte de peri-
gos, não parece boa ideia que você ainda continue apostando em suas próprias 
riquezas terrenas. Se você assim pensa, a sua verdadeira cidade e local de habi-
tação eterna não será na cidade dos homens, mas na cidade de Deus. Ora, na 
cidade de Deus, as ruas e tudo o mais será protegido pelo Próprio e para lá che-
gar, você precisa tão somente viver em conformidade com Sua Palavra. Pois 
bem, nesta obra, Agostinho fala sobre a origem do mal, do tempo, da eterni-
dade, das ações humanas e outros temas bem interessantes. Provavelmente, 
segundo consta, foi uma das obras preferidas de Carlos Magno, uma das figu-
ras mais relevantes e conhecidas da Idade Média, visto que foi rei dos francos 
e imperador do Ocidente.
Embora ainda se tenha muito para ver sobre a Patrística e seus mais variados 
autores, eu simplesmente não poderia não citar este período como fundamen-
tal na Idade Média, bem como Agostinho e sua relevância para a filosofia e 
O que você especificamente pensa a esse respeito? Será que de fato so-
mos livres em nossos tempos pós-modernos, em que geralmente traba-
lhamos tanto e percebemos de forma absurda as terríveis diferenças en-
tre ricos e pobres?
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para a cultura ocidental. É preciso continuar nossas andanças pelo mundo 
católico, no caso, o medieval, o que nos leva a um período bem interessante 
chamado de Escolástica.
A Escolástica, assim como a Patrística, tem como objetivo, que já vimos ante-
riormente, propiciar um encontro entre a fé e a razão. Mas então, basicamente, 
qual é a diferença entre um e outro? A Patrística refere-se ao primeiro período, 
até mais ou menos o ano 1000, e a Escolástica vai até aproximadamente 1500 
e o surgimento da Idade Moderna. Aqui, porém, devo dizer que alguns pensa-
dores costumam escrever que, enquanto a patrística foi baseada na elaboração 
sistematizada de uma teologia, obviamente a católica, a escolástica tem interesses 
mais especulativos, visando especificamente a uma filosofia cristã. Na escolás-
tica, aconteceu em grande medida a divulgação das doutrinas cristãs, de forma 
decisiva, ajudando muito na formação de novos sacerdotes.
Um dos primeiros escolásticos foi Severino Boécio. Por que você deve conhe-
cer um pouco melhor sobre ele? Reale e Antiseri (2007, p. 464) explicam:
na realidade, a tarefa que Boécio se impôs conscientemente foi a de dar 
a conhecer aos latinos a cultura grega. E é a ele que “se deve o quadro 
tradicional em que (...) se organizaram durante grande parte da Idade 
Média a transmissão e a continuidade da vida intelectual”. 
Neste período da história, simplesmente os latinos estavam desaprendendo o 
grego, que, na verdade, desde o Império Romano, poucos falavam, exceto alguns 
estudantes e grandes intelectuais. Assim, sua tarefa foi absurdamente importante, 
pois ele “ressuscitou” vários dos antigos gregos à cultura de então.
Foi no período escolástico que surgiram as primeiras universidades (essa 
informação é para você que ainda nutre preconceitos contra a Idade Média 
e sua suposta ignorância). Tudo bem, elas surgiram primeiramente visando 
ao ensino eclesiástico (o ensino da igreja), mas ainda assim foram grandes 
centros de ensino e estudo, nas mais diferentes áreas, lembrando aqui as 
palavras de um dos maiores representantes da escolástica e dos filósofos do 
período, São Tomás de Aquino, que dizia mais ou menos assim: devemos 
crer para compreender e compreender para crer. Em suma, todo o conhe-
cimento humano deveria ser utilizado para a honra e glóriade Deus. Sobre 
elas, foi escrito que:
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As instituições que a Idade Média nos legou são de um valor maior e 
mais imperecível do que suas catedrais. E a universidade é nitidamente 
uma instituição medieval – tanto quanto a monarquia constitucional, 
ou os parlamentos, ou o julgamento por meio do júri. As universida-
des e os produtos imediatos das suas atividades, pode ser afirmado, 
constituem a grande realização da Idade Média na esfera intelectual. 
Sua organização, suas tradições, seus estudos e seus exercícios influen-
ciaram o progresso e o desenvolvimento intelectual da Europa mais 
poderosamente, ou (talvez deveria ser dito) mais exclusivamente, do 
que qualquer escola, com toda a probabilidade, jamais fará novamente 
(RASHDALL apud OLIVEIRA, 2007, p. 117).
Falemos um pouquinho agora sobre o já citado São Tomás de Aquino, ou sim-
plesmente Aquino, sua vastíssima obra e importância para além do mundo 
católico, como Agostinho. Lembre-se de que ele, assim como muitos escolásti-
cos, trouxe à tona a filosofia de Aristóteles, que só foi redescoberta nesse período 
graça às traduções dos filósofos gregos, realizadas, por sua vez, por filósofos ára-
bes, como Averróis.
Aquino tinha tamanho respeito por Aristóteles e sua obra que simplesmente 
costumava chamá-lo de “o Filósofo”. Escreveu uma grande obra, literalmente, 
chamada de Suma Teológica, que muitos consideram ainda hoje a obra máxima 
da Igreja Católica, na qual abordou questões sobre as bem-aventuranças, “pai-
xões da alma”, hábitos e ética, dentre muitos temas. Contudo, ele simplesmente 
não aceita ser chamado de filósofo. Para ele, os filósofos eram pagãos por estarem 
sempre abaixo da verdade. Essa ideia nos abre margem para que resumidamente 
falemos sobre algumas características da Filosofia Medieval, aqui colocadas sem 
respeitar uma ordem de importância: 
1) Virtude não é nada senão amor perfeito a Deus; 2) A fortaleza é o amor 
disponível a todas as coisas com vistas ao objeto amado; 3) A justiça é amor 
servindo somente o objeto amado; 4) A prudência é o amor sábio, escolhendo 
aquilo que favorece e rejeitando o contrário. O objeto não é nada além do Deus 
Supremo, perfeita harmonia. Em suma, as virtudes gregas são reinterpretadas 
à fé judaico-cristã.
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REFORMA PROTESTANTE: NASCIMENTO E 
CONSOLIDAÇÃO DE NOVAS VERTENTES CRISTÃS; 
OS PRÉ-REFORMISTAS E MARTINHO LUTERO
Um dos principais movimentos que marcou e alterou completamente a história 
do cristianismo foi a Reforma Protestante do século XVI. Será que é possível afir-
mar precisamente e sem medo de errar quando exatamente a Reforma Protestante 
começou e qual era seu objetivo? Em primeiro lugar, gostaria de dizer, generi-
camente falando, que fazemos certas reformas quando algo não está mais como 
deveria estar, seja em que aspecto for. Concorda comigo? O mesmo pode ser 
dito sob o aspecto religioso ou espiritual, embora os termos não sejam necessa-
riamente sinônimos. As reformas também acontecem no âmbito institucional, 
porque as pessoas mudam, e ao mudarem, mudam suas próprias instituições. 
É precisamente disso que estamos retratando ao falarmos da Reforma 
Protestante. Em primeiro lugar, acredite, não foi uma reforma de fora para den-
tro ou de dentro para fora. Não foi também iniciado e terminado por uma única 
pessoa ao longo de certo tempo, e muitos afirmam que ainda hoje ela continua 
e que Lutero foi apenas um dos iniciadores. A Igreja Católica medieval é obvia-
mente diferente da Igreja Católica contemporânea, como vimos anteriormente, 
principalmente se observarmos os aspectos do Vaticano II, em vigor até hoje. 
Isso também se dá com o protestantismo e com a vida humana, de uma forma 
geral. Por isso, vale a pena analisar alguns dos precursores da Reforma.
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Comecemos por John Wycliffe, um dos precursores da Reforma Protestante, 
ainda no século XIV. Falaremos aqui, seja sobre ele ou outros, apenas de alguns 
aspectos biográficos e teológicos sem muito aprofundamento. O que de fato quere-
mos é um contexto para colocarmos esses grandes homens devidamente inseridos 
na história. Cada um deles, além dos próprios livros que escreveram, foi prota-
gonista de centenas de outros tantos escritos ao longo dos séculos e mesmo hoje.
Pois bem, John Wycliffe foi, antes de tudo, um grande pesquisador e pro-
fessor. Se você pensa que os protestantes ou os cristãos de um modo geral são 
pessoas que pouco estudam lembre-se destas biografias que estamos agora estu-
dando e perceba como é importante uma formação completa e grande disposição 
para aprender, principalmente face a um tema que exige que se perceba muitas 
questões tão somente pela fé, como é o caso da Bíblia e de outros livros consi-
derados sagrados, como o Alcorão.
Wycliffe nasceu em Hipswell, na Inglaterra, viveu e morreu na Idade Média 
(1328-1384). E como veremos a seguir, isso não quer dizer que seu pensamento fosse 
de fato medieval da forma como se imagina genericamente, ou seja, de forma pejo-
rativa. Isso pode servir para nós hoje, 
e creio que é para isso que também 
devemos estudar as biografias, para 
percebermos como grandes homens 
e mulheres do passado ultrapassaram 
de alguma forma seus próprios tem-
pos. Contudo não podemos nunca 
nos esquecer de que, embora eles e 
nós sejamos filhos de nossos próprios 
tempos e não simplesmente de nossos 
pais, podemos nos indispor contra 
algumas das absurdidades que per-
cebemos ou encontramos em nossos 
dias. O estudo da história nos per-
mite desvelar e entender de forma 
um pouco mais profunda muitas des-
sas questões. Figura 2 - Retrato de John Wycliffe (1328-1384)
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Ao estudar na Universidade de Oxford, Wycliffe pesquisou sobre três dis-
tintos (mas nem tanto) temas: teologia, filosofia e legislação canônica, as leis da 
Igreja. Obviamente, quando falamos em igreja, aqui neste contexto medieval e 
europeu, só podemos falar sobre a Igreja Católica Apostólica Romana. Assim, 
Wycliffe estudou teologia católica, filosofia nos moldes do que vimos anterior-
mente ao estudarmos a filosofia na Idade Média, com todo aquele aporte de Santo 
Agostinho e São Tomás de Aquino, dentre vários outros, e as leis dessa igreja. Em 
suma, ele foi preparado para ser um homem da igreja, um sacerdote. Ele foi tão 
bem em sua árdua tarefa que, ao mesmo tempo em que trabalhava em sua tese 
doutoral, chegou a ser capelão do rei. Imagine a honra! Era John Wycliffe quem 
ensinava as Escrituras e ouvia os anseios do homem mais poderoso da Inglaterra.
John Wycliffe não parou com seus estudos na graduação, e isso você já per-
cebeu no parágrafo acima, embora a vida – seja na academia, seja fora dela – seja 
um eterno aprendizado. Wycliffe deu continuidade a sua, quase sempre solitária, 
vida entre os livros, e em 1372, recebeu seu título de doutor em Teologia. Poucos 
anos antes, em 1365, recebeu seu título de bacharel, também em Teologia. E aí 
você pode pensar: o que faz um bacharel e doutor em Teologia? Vai servir em 
uma igreja e ajudar determinada comunidade, a partir daquilo que aprendeu e 
vivenciou, é claro!
Contudo, John Wycliffe simplesmente não se comportava como um sacer-
dote que apenas se dispunha a cumprir seu dever e nada questionar as açõesda 
Igreja Católica. Era bastante cortante, irônico e, muitas vezes, violento e inju-
riante (é isso que significa a palavra “invectiva”). O público ficava absolutamente 
eletrizado e absorto, pois, ao contrário de muitos outros oradores, eles conse-
guiam entender o que ele dizia. Saiam da igreja, iam para casa e já no caminho 
certamente discutiam e davam vazões às novas ideias.
Que ideias eram essas? Certamente eram pensamentos verbalizados que logo 
poderiam colocar a vida em risco, mas que ainda hoje são extremamente per-
tinentes – eu até aposto que você mesmo já pensou sobre eles a sério. Será que 
o que a igreja é e representa hoje, qualquer uma delas, é o que ela deve efetiva-
mente ser? Basicamente este era o questionamento principal de Wycliffe. Mas, 
claro, ele não parou por aí, e a partir deste pensamento básico foi para as “minú-
cias”, mexendo e remexendo em algumas das práticas da igreja romana de então.
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Estou precisamente falando que Wycliffe era um patriota e defendia de forma 
simples e objetiva os interesses de sua própria nação em relação ao que dizia o 
papado, também no tocante às terras da igreja. Sempre ele questionava se o que 
a igreja dizia e fazia era o que o próprio Cristo dizia e faria. Como a resposta 
invariavelmente era não, ele percebeu que não deveria ficar calado. Wycliffe era 
radical e defendia que a igreja deveria, como nos tempos de Jesus, voltar ao estado 
de pobreza material. Ele não compreendia como as pessoas pobres e miseráveis 
morriam de fome e sem esperança enquanto grandes catedrais a custos astro-
nômicos eram construídas. 
Como Wycliffe imaginava ser possível efetuar essa drástica mudança, ou 
seja, fazer com que a igreja perdesse o seu poder temporal e se voltasse de forma 
dinâmica às questões espirituais? Radicalmente! O Estado deveria ser o respon-
sável, ou melhor, tomar posse, pura e simplesmente, das terras da igreja. Ele, o 
Estado, deveria se responsabilizar pelo sustento dos padres e de todo o clero. 
Ele foi mais longe, muito mais! Em sua opinião bem fundamentada, para 
tudo aquilo que diz respeito às coisas materiais, nem o papa ou a igreja podem 
se responsabilizar, mas apenas o Estado, na figura do rei. Assim, para ele, o rei, 
nessas questões, está simplesmente acima do papa e todo poder temporal deve 
ser renunciado pela igreja. Todavia nunca se esqueça de que estamos falando da 
Idade Média! Levantar esse tipo de assunto não costumava ser prudente àqueles 
que almejavam chegar até a velhice. O velho adágio que diz que “fora da Igreja 
não há salvação” pressupunha não fazer esse tipo de questionamento, visto que, 
se o papa era (ou é) o Vigário de Cristo, então tudo o que ele se propõe a fazer 
ou decidir não poder estar errado a ponto de um pregador sugerir que o Estado 
deveria acabar com suas posses. Definitivamente estamos aqui tratando de uma 
questão bem complicada, no mínimo.
John Wycliffe ainda atacou violentamente a venda de indulgências, ou seja, 
uma carta assinada por um sacerdote que garantia ao comprador um lugar ao 
Céu, independentemente de sua vida por aqui ser justa e irretocável ou não. 
Desde que você pagasse, sua salvação estaria garantida. Também escancarou 
algumas verdades fantásticas. Por que, perguntava ele, o povo pobre deveria sus-
tentar uma vida de luxos e excessos dos sacerdotes? Sem dúvida, essas questões 
suscitaram outras, não ditas assim escancaradamente: será que realmente esses 
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sacerdotes, que de forma tão absurda abusavam da boa vontade do povo até as 
últimas consequências, eram de fato servos de Deus na Terra? Por que você deve 
pagar além, às vezes muito além, do que as próprias Escrituras estipulam para a 
vida prazerosa desses professos homens de Deus?
Não se esqueça, contudo, de que esses homens e mulheres que piedosamente 
iam à igreja quase nunca tinham uma Bíblia para consultar e, ainda que tives-
sem, poucos conseguiriam lê-la, porque não sabiam ler e, acredite, porque não 
existia uma Bíblia escrita em língua materna, no caso, em inglês. Acerca dessa 
questão, Foxe (2014), autor do famoso livro “O Livro dos Mártires”, escreveu que:
Tão escasso era o suprimento de Bíblias, nesses tempos, que apenas 
uns poucos entre aqueles que suspiravam pelo seu ensino podiam ter 
a esperança de possuir o volume sacro. Mas essa escassez decorria par-
cialmente da firmeza daqueles, cujo interesse fora despertado pela Bí-
blia. Se apenas uma simples cópia era possuída na vizinhança, esses 
denodados trabalhadores e artesãos seriam encontrados juntos, após 
um exaustivo dia de trabalho, lendo em turnos e escutando as palavras 
da vida; e tão doce era o frescor dos seus espíritos, que algumas vezes o 
romper da manhã os surpreendia com a chamada para um novo dia de 
trabalho, sem que tivessem pensado em dormir.
Não demorou e o Bispo de Londres logo o chamou para dar explicações. Ele 
estava agindo como um verdadeiro herege e precisava ser censurado ou de 
alguma forma calado. Entretanto muitos do parlamento inglês o apoiavam, tal-
vez pela interessante ideia das terras da igreja pertencerem ao país. Todavia, 
por incrível que pareça, ele escapou da fogueira e morreu no último dia do ano 
de 1384. Entretanto, depois de morto, a fogueira o alcançou, porque foi consi-
derado herege e seus livros foram queimados, bem como seus ossos, em 1415. 
Há muito para dizer sobre ele, e o(a) convido a continuar a pesquisa. Contudo, 
deixei o melhor para o final! Lembra-se de quando falamos que a Bíblia não exis-
tia em inglês, mas apenas em latim? Pois bem, Wycliffe traduziu a Bíblia para sua 
língua materna. Mesmo que as bíblias fossem extremamente caras, pois eram 
raras e feitas à mão (a imprensa de Gutenberg ainda não havia sido criada), e 
embora grande parte do povo fosse pobre e analfabeto, ele se dedicou ao trabalho, 
levando a luz do conhecimento de forma mais fácil ao povo, ainda que o acu-
sassem de sua tradução ter mais um fim patriótico do que religioso. Seja como 
for, ele foi, sem dúvida, um dos precursores da reforma. Vamos ao próximo?
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Jan Huss foi um continuador das ideias de 
Wycliffe. Sim, podemos falar sobre o mesmo em 
uma única frase e você terá uma excelente ideia 
do que ele viveu e enfrentou. Nasceu em 1369, 
na Boêmia, e morreu em 1415, em Constança. 
Ao contrário de Wycliffe, que foi queimado em 
morte, Huss foi queimado em vida.
Huss cursou Letras e Teologia, chegando 
a obter o título de mestre nesta última. Entrou 
em contato com as obras de Wycliffe e, embora 
teologicamente eles tivessem algumas distin-
ções, a ponto de ele não se considerar um 
discípulo do anterior reformador, vários pontos 
comuns os atraíam, como a questão da autori-
dade temporal da igreja e de seus abusos. Ele o conheceu quando um certo Jerônimo 
de Praga, grande estudante de Oxford, trouxe para a Boêmia escritos de Wycliffe.
Contudo, e isso não é estranho, a instituição de Huss se colocou contra os 
escritos de Wycliffe. Na verdade, foi tão importante a influência dos escritos de 
Wycliffe na vida de Huss que isso literalmente mudou a sua vida. Se antes deles, 
Huss possuía ainda boa reputação, depois não pôde mais ser defendido pelo 
bispo. Mas podemos entendê-lo, não é mesmo? Como um bispo poderia defender 
alguém que se coloca frontalmente contra o poder e majestade da Igreja Católica?
É preciso notar que nem todos os sacerdotes católicos que não romperam 
ou questionaram sua Igreja naquele contextoeram de fato pessoas arrogantes ou 
presunçosas, mas havia muito em jogo e simplesmente faltaram a muitos deles 
coragem para abandonar algumas de suas antigas práticas. 
Huss acreditava na chamada “predestinação”, doutrina não majoritariamente 
aceita que diz que alguns seres humanos estão predestinados para o céu enquanto 
outros simplesmente não estão. Acreditava que a Bíblia era a única autoridade 
religiosa, com isso, ele dizia que a tradição da Igreja, por mais supostamente rica 
que seja, não pode se contrapor a ela sob nenhuma hipótese. Dizia mais, ao afir-
mar que o único e verdadeiro chefe da igreja era e é Cristo, diminuindo, claro, a 
autoridade papal. Você pode entender por que ele foi queimado? 
Figura 3 - Estátua de Jan Huss (1369-1415) no 
momento em homenagem a Martinho Lutero na 
cidade de Worms, Alemanha.
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Passemos agora ao mártir inglês William Tyndale. Sobre ele, que fez um 
trabalho absolutamente ardoroso de traduzir a Bíblia de tal modo que qualquer 
criança conseguisse ler e entender mais e melhor do que qualquer membro do 
clero, uma citação esclarecedora parece nos abrir a mente. Diz Ellen White (2004, 
p. 245) o seguinte em seu livro
Enquanto Lutero abria ao povo da Alemanha a Bíblia, que até então esti-
vera fechada, Tyndale era impelido pelo Espírito de Deus a fazer o mes-
mo pela Inglaterra. A Bíblia de Wycliffe fora traduzida do texto latino, 
que continha muitos erros. Nunca havia sido impressa, e tão elevado era 
o custo dos exemplares manuscritos, que, a não ser homens abastados ou 
nobres, poucos poderiam adquiri-los; demais, sendo estritamente pros-
crita pela igreja, tivera divulgação relativamente acanhada. Em 1516, um 
ano antes do aparecimento das teses de Lutero, Erasmo publicara sua 
versão grega e latina do Novo Testamento. Agora, pela primeira vez, a 
Palavra de Deus era impressa na língua original. Nesta obra muitos er-
ros das versões anteriores foram corrigidos, dando-se mais clareza ao 
sentido. Levou muitos dentre as classes cultas a melhor conhecimento 
da verdade, e deu novo impulso à obra da Reforma. Mas o povo comum 
ainda estava, em grande parte, privado da Palavra de Deus. Tyndale de-
veria completar a obra de Wycliffe, dando a Bíblia a seus compatriotas.
Perceba que interessante a sequência: Wycliffe deu início a um bonito processo de 
tradução de Bíblia que, embora diante de uma série de problemas, prosseguiu com 
vigor; Huss levou a sua mensagem de oposição à Igreja e deu sua vida por isso; 
Tyndale levou a Palavra de Deus ao povo comum. É por isso que quando falamos 
na Reforma Protestante antes de Lutero, simplesmente, não podemos deixar de 
lado esses grandes homens. Se hoje há inúmeras versões de Bíblia para todo e mais 
variado tipo de público, naquela época, uma versão que chegava para atender aos 
anseios do povo era comemorada com ardor, porque significava abrir a mente ao 
conhecimento. Isso era problemático, porque a igreja institucionalizada de então 
era extremamente rigorosa e dificilmente perdoaria aquele que ia contra ela. Então, 
aos homens e mulheres de outrora, que expuseram suas vidas para que pudes-
sem entender melhor os ditames divinos, a contemporaneidade deve muitíssimo.
Tyndale foi executado durante o reinado de Henrique VIII, o famoso rei inglês 
que quis se separar de sua esposa e, ao receber a negativa do papa, fundou o anglica-
nismo. Assim, Tyndale foi condenado por ser um herege aos olhos da igreja romana 
e da igreja anglicana também. É considerado sem embargo o pai da bíblia inglesa.
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John Foxe (2005, p. 136), um grande escritor protestante que foi testemunha 
ocular de muitos dos massacres proferidos contra tantos cristãos que discorda-
ram das ideias majoritárias da igreja romana, em um belo livro, o “Livro dos 
Mártires” (cuja leitura recomendo) escreveu o seguinte sobre os últimos momen-
tos de Tyndale: 
No fim, depois de muitos arrazoados, quando razão alguma já não 
servia para nada, embora sem merecer a morte, ele foi condenado em 
virtude de um decreto do imperador publicado na assembleia de Au-
gsburgo. Trazido para o local da execução, foi amarrado à estaca, es-
trangulado pelo carrasco e em seguida consumido pelo fogo, na cidade 
de Filford, em 1536, gritando na fogueira com fervoroso zelo, alto e 
bom som: - Senhor! Abre os olhos do Rei da Inglaterra. Tal foi o poder 
de sua doutrina e sinceridade de sua vida que durante o tempo de seu 
encarceramento (que durou um ano e meio) ele converteu, segundo 
dizem, seu guarda, a filha do guarda e outros da mesma família.
O que até aqui foi escrito acerca dos reformadores protestantes basicamente 
pode se chamar de pré-reforma. Afinal, eles prepararam o solo para que, poste-
riormente, surgissem outros, tal qual Martinho Lutero, e a igreja romana fosse 
poderosamente desafiada para que, enfim, dela outras surgissem. Contudo, 
devemos rapidamente afirmar que o contexto histórico imediato da Reforma 
Protestante no século XVI é a Modernidade. 
Chegamos, talvez, ao ápice da Reforma, 
com Martim Lutero, nascido em 10 de novem-
bro de 1482, 1483 ou ainda, 1484. De origem 
camponesa, aos poucos sua família, original-
mente pobre, foi atingindo algum bem-estar 
quando seu pai começou a trabalhar nas 
minas. Pelo que sabemos, seus familiares não 
eram muito religiosos e entre seus descenden-
tes não havia nenhum monge ou sacerdote.
Como quase toda criança, foi para a 
escola, já atingida pelo humanismo no seio da 
modernidade, como vimos no tópico anterior. 
Terminados seus estudos básicos, entrou para a 
Faculdade de Direito, mas, como era costume, 
Figura 4 - Retrato de Martinho Lutero (1483-1546), 
feito por Lucas Cranach (1529)
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cursou Artes em seu início. Formado, deu aulas para os principiantes e, finalmente, 
foi para o convento. E aqui você pode se perguntar: o que Lutero foi fazer em um 
convento, já formado e mestre em Artes e estudante de Direito? Naqueles anos, 
depois do mestrado em Artes, o aluno ainda deveria prosseguir por mais dois ou 
três anos nos cursos de Teologia, Medicina ou Direito, que Lutero cursou por influ-
ência de seu pai.
Acontece que Lutero era uma pessoa como eu e você: cheia de medos, receios, 
dúvidas e tentações, ou seja, inclinações para fazer aquilo que sabidamente não 
se deve. E, temendo por sua vida, ele procurou uma existência mais retirada, 
quando em um evento peculiar 
[...] aterrorizado por um raio que quase o fulminara, o jovem homem 
exclamara: “ajuda-me, Santa Ana, que me tornarei monge”. De volta a Er-
furt, o estudante despediu-se de seus amigos e submergiu, a 17 de julho de 
1505, no convento dos agostinianos da cidade (LIENHARD, 1998, p. 34).
Ou seja, é muito provável que o jovem Lutero simplesmente entrou para o con-
vento porque ele fez uma promessa a Santa Ana. Mas há muito mais por trás 
disso: ele temia por sua vida e, pior ainda, não encontrava sentido para ela. 
Portanto, se você ainda está pensando acerca do tópico anterior e dos pré-refor-
madores, de suas brigas com o papado e mortes na fogueira, lembre-se de que o 
resumo de tudo isso é que eles queriam que suas vidas, entendidas no contexto 
da igreja, fizessem sentido e não fossem em vão. E aí, no calor de seus pensa-
mentos, percepções e ações, começaram a questionar certas práticas e valores 
da igreja estabelecida.
Com Lutero não foi diferente. Note que ele estudou e não encontrou um 
grandesentido ou paz para sua existência. Então, inocentemente imaginou que 
a encontraria em meio a possível paz do convento. Não foi isso que ele encon-
trou, pois a imagem que ele fazia de Deus era muito severa. Você sabia que vários 
estudos, muitos psicanalíticos, dizem que nós costumamos ver a Deus como 
vemos nosso pai? Assim, se você teve ou tem um pai dócil e amoroso, provavel-
mente você verá a Deus dessa forma. O contrário é verdadeiro. É bem provável 
que Lutero enfrentasse um grande rigor por parte de seu pai. E ainda mais: pode-
mos atestar com essas crises que Lutero era um homem de seu tempo, ou seja, o 
medieval às portas da modernidade, com toda a sorte de lutas internas. Dizia ele:
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Eu me martirizava com a oração, o jejum, as vigílias, o frio [...] Que 
procurava com isso, senão a Deus? Ele sabe com quanto zelo observei 
minha regra [monástica] e que vida severa eu levava. [...] Pois eu não 
confiava em Cristo, antes tomava-o por nada além de um juiz severo e 
terrível, tal como se costuma pintá-lo assentado sobre o arco-íris (LIE-
NHARD, 1998, p. 38).
Mas como você viu ao longo desta unidade e da anterior, a religião era também 
um tanto rigorosa, e ele buscava com todas as suas forças viver uma vida pró-
xima de Cristo com a certeza da purificação de sua alma.
Eu não quero aqui ser um tanto reducionista, porque há muitos livros e deta-
lhes sobre a vida de Lutero, a qual, em apenas algumas poucas páginas, nós não 
conseguiríamos escrever, sequer em tópicos. Resumindo bastante, um dia, ele, estu-
dando a Bíblia, deparou-se com um texto fantástico, que o impressionou e ainda 
impressiona milhões: “O justo viverá pela fé”, dizia o texto, que pode ser encontrado 
no livro de Habacuque, no Antigo Testamento, capítulo 2, verso 4, e também no 
Novo Testamento, no livro de Romanos, capítulo 1, verso 17. Em poucas palavras: 
para que viver sob todo aquele estigma da igreja romana, pagando altos impostos, 
taxas para entrar no céu, vivendo sempre sob o peso do pecado e com a ideia do 
inferno a todo momento? O justo viverá por sua fé. Isso é de graça! Parece simples, 
e de fato é, mas foi precisamente isso que iniciou em Lutero a obra da Reforma, 
iniciada por Wycliffe e outros anteriores e posteriores, e que ainda continua. 
Não pense você, aluno(a), contudo, que foi simplesmente abrir a Bíblia, encontrar 
o texto, sentir-se em paz e fazer a reforma na igreja. Lutero não tinha absolutamente 
nenhum interesse em provocar dissidências, muito pelo contrário, ele era um filho 
fiel e obediente da igreja e desejava tão somente fazer o seu papel. Logo, ele teve 
sucesso, pois estudou com diligência o grego e o hebraico, as línguas da Bíblia.
Em 1507, foi ordenado sacerdote e, em 1508, mesmo ano em que obteve 
seu bacharelado em Teologia, começou a lecionar na novíssima Universidade 
de Wittemberg. Dizem que suas aulas eram pujantes, mas que nem sempre ele 
falava aquilo que as pessoas desejavam ouvir. Muitas discussões e embates se 
davam tanto em sala de aula quanto na igreja onde ele pregava, na mesma cidade.
As dúvidas de Lutero, portanto, continuavam, e ele, em 1510, foi até Roma. 
De lá voltou terrivelmente decepcionado, ao ver que nem sequer no centro da 
Igreja as coisas estavam bem. Viu sacerdotes frequentando prostíbulos, padres 
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vendendo indulgências, o povo sendo humilhado. Aquilo foi demais para ele. 
No entanto, precisariam outros sete anos para que, finalmente, Lutero, em 31 de 
outubro, escrevesse as famosas 95 teses, que de forma efetiva iniciaram a Reforma. 
Essas teses, em sua maioria, colocavam-se contra os abusos que ele percebera ao 
longo dos anos. Mais do que isso: a Basílica de São Pedro, no Vaticano, estava 
naquele período sendo construída a um grande custo, diante de um povo escor-
raçado. Portanto, pode-se dizer que a Reforma foi a gota d’água ante os excessos 
grandiosos da igreja.
Ainda assim, lembre-se de que Lutero não queria se desvencilhar de sua 
velha igreja. O que ele escreveu foi com o intuito de mostrar aos seus superio-
res algumas questões urgentes que deveriam ser mudadas. É óbvio que as coisas 
não foram pacíficas. Logo, ele precisou se retratar publicamente, dizendo que 
não estava certo em afirmar o que afirmou, mas ele não o fez. Então, recebeu 
uma terrível carta, a carta de excomunhão.
Naquele momento da história, quem fosse excomungado não poderia mais 
receber os sacramentos da igreja, nem frequentá-la, nem falar com qualquer pes-
soa e, pior, quando morresse, seria recebido no Inferno onde queimaria para todo 
o sempre. Para praticamente qualquer pessoa naquela época uma carta assim 
poderia, desde aquele momento, significar o fim da vida. Não para Lutero, cuja 
vida de fé estava apenas começando. Destemidamente, ele pegou aquela carta e 
a queimou, não no Inferno, mas em praça pública. Ele estava devidamente con-
vencido de que a salvação se dá pela graça mediante a fé e não seria um sacerdote, 
ou seja, uma pessoa cheia de pecados como eu e você que diria que ele estava 
condenado ao fogo.
Aqui temos uma grandiosa lição a aprender com Lutero: você pode ter várias 
Bíblias em sua casa, frequentar a igreja ou não, conhecer filosofias de vida e estar 
sempre lendo e se informando sobre um milhão de coisas. Isso não basta, sim-
plesmente. Se você não acreditar em algo, se você não viver por algo, se você não 
tiver perspectivas e inclusive fé, pouco adiantará seu título acadêmico ou o que 
quer que você tenha. Lutero simplesmente acreditava com todas as suas forças 
na Palavra de Deus, porque sua vida havia sido modificada por ela. Por isso, ele 
não teve medo quando foi ameaçado de morte. Não interessava: a vida não vale 
tanto quanto a causa! Temos perdido essa noção hoje em dia.
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Juntamente com suas teses, ele convidou abertamente a quem quer que fosse 
a uma disputa sobre aquele assunto, ou seja, ele estava disposto não somente a 
escrever sobre, tanto é que já tinha escrito, mas a dialogar com qualquer que se 
colocasse contra. E aqui precisamos falar que, se não fosse a imprensa, a Reforma 
talvez não tivesse chegado onde chegou. Em poucas semanas, cópias e cópias 
de suas teses estavam circulando por toda a Alemanha e, em poucos meses, em 
várias partes da Europa. Em vários países, a chama da mudança havia finalmente 
chegado, já tendo sido implantada por tantos reformadores anteriores.
É desnecessário dizer que, dali para frente, Lutero não teve vida fácil. No 
ano seguinte, 1518, o Papa Leão XV, depois de se convencer de que aquele pro-
blema estava se aprofundando, chamou um de seus professores de Teologia 
para saber mais a fundo o que esse alemão queria. Aí, mais uma vez, agora aca-
demicamente, ficou comprovado que Lutero era um herege e um apóstata, ou 
seja, alguém que estava contra a igreja. Assim, o jovem Lutero, que sob hipó-
tese nenhuma pretendia abrir mão de sua querida, mas imperfeita igreja, agora 
questionava abertamente a autoridade do papa e conclamava por um concílio, 
ou seja, uma reunião, para que certas práticas fossem mudadas. Em suma, ele 
esperava convencer outros tantos padres da urgência da mudança.
Nisso continuou questionando a igreja, inclusive afirmando com categoria 
que havia, sim, claro, salvação fora da Igreja Católica. Se ele ainda estava vivo é 
porque tinha amigos poderosos, como Frederico, o Sábio, príncipe da Saxônia, 
que embora tenha permanecido católico, simpatizava com muitas das ideias doReformador.
Resumidamente, Lutero questionava e pedia uma diminuição do número de 
cardeais, a renúncia do papa para os assuntos temporais, a eliminação de vários 
dos dias santos, o fim do celibato no clero, o fim das peregrinações desprovidas 
de religiosidade, dentre muitas outras questões. Na chamada Dieta de Worms, 
Lutero não voltou um palmo atrás em suas ideias e precisou de um salvo-con-
duto para não ser morto pelo caminho. É importantíssimo dizer que Lutero, 
enquanto ficou exilado, lançou-se ao trabalho de traduzir a Bíblia para o alemão. 
Por fim, teve uma morte natural, embora os médicos que o atenderam não sou-
beram precisar o que o levou.
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A IGREJA CATÓLICA FRENTE À MODERNIDADE E À 
CONTEMPORANEIDADE
A Idade Moderna, de acordo com a maioria dos historiadores, foi iniciada em 29 
de maio de 1453, quando a cidade de Constantinopla tombou diante dos turcos 
otomanos. Embora tenhamos essa data como demarcatória para indicar o fim da 
Idade Média, visto que caiu a última parte do Império Romano, há várias outras 
datas importantes que simbolizam o fim da Idade Média. Quando falamos no fim 
do período medieval, o que quero dizer é que ocorreu uma mudança de pensa-
mento. Assim, é possível pensar que a Igreja Católica também participou ou foi 
inserida nesta mudança. Pouco a pouco ela deixou de agir como caracteristica-
mente agiu na Idade Média para ser ressignificada na Modernidade.
A Igreja Católica na Modernidade é a Igreja da contra-reforma, ou seja, das 
disposições que tomou precisamente a partir da reforma iniciada por Lutero. 
O que creio que deve ficar bem claro aqui é que a Igreja Católica durante a 
Modernidade foi perdendo sua força indiscutível, que perdurou quase mil anos 
ao longo de toda a Idade Média. Aliás, podemos dizer com certeza que por mais 
de um milênio durou o seu poder “total”, visto que este se inicia bem antes da 
queda de Roma pelos “bárbaros”. E um dos motivos que podemos alegar para 
esta perda de força da Igreja Católica, além da própria Reforma Protestante, é 
um acontecimento grandioso que influenciou de forma muito positiva a própria 
reforma em si: trata-se do Renascimento.
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O Renascimento foi um grande movimento inspirado nos ideais greco-ro-
manos no final da Idade Média. Os ideais greco-romanos eram precisamente 
aqueles contrários ao pensamento majoritário da Igreja. Ora, Grécia e Roma 
(no caso, a Roma antes do advento do cristianismo) valorizavam o ser humano 
em si, ou seja, também a sua constituição física e intelectual autônoma.
Outra grande característica do período é que os castelos, que basicamente 
assim como as catedrais dominavam a paisagem, foram gradativamente subs-
tituídos pelas cidades, os chamados burgos. Os burgueses, ou seja, classe nova 
que surgiu a partir da Idade Média Central, eram compostos por banqueiros e 
comerciantes, já que as atividades comerciais envolvendo o dinheiro voltaram a 
existir principalmente depois da Peste Negra. Por volta de 1450, um alemão de 
sobrenome Gutemberg criou o que pode ser considerado a imprensa moderna. 
O primeiro livro que ele publicou foi a Bíblia Sagrada. E aí certamente você 
se lembrará de que já comentamos em algum momento desta unidade: difi-
cilmente as pessoas sabiam ler; as poucas que sabiam, mal tinham acesso aos 
livros, em virtude inclusive de seu preço proibitivo.
Pois bem, o que você acha que pouco a pouco começou a acontecer quando 
Gutemberg começou a publicar seus livros? Publicações religiosas e científi-
cas foram produzidas, não mais apenas por ele, e o conhecimento foi sendo 
levado a toda Europa. Não preciso dizer que, ao longo desse processo, as pes-
soas foram, sempre gradativamente e em números ainda pouco expressivos, 
alfabetizando-se e tendo acesso a essas literaturas. A Bíblia em si acabou tor-
nando-se, por excelência, o livro didático e já não havia mais a Igreja Católica 
exercendo o soberano papel de ditar a palavra final sobre todas as coisas.
Com isso, creio eu, você pode ter mais um argumento para convencer 
a outros sobre a importância valiosíssima da educação em todos os aspec-
tos da vida. Só podemos mudar nossos pensamentos e a vida em si a partir 
da educação como pressuposto inicial. O que obviamente não quer dizer 
que a Igreja Católica medieval representava o atraso, o que fica muito mais 
claro quando entramos no conceito de Iluminismo, que foi uma das grandes 
“revoluções” da Idade Moderna. Sobre o Iluminismo, há um texto exempli-
ficar, escrito por um dos grandes filósofos da Modernidade, Immanuel Kant. 
Segundo Kant (1985, p. 100),
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Esclarecimento (Aufklärung) significa a saída do homem de sua mi-
noridade, pela qual ele próprio é responsável. A minoridade é a inca-
pacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela de um 
outro. É a si próprio que se deve atribuir essa minoridade, uma vez que 
ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta de resolução e 
de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a tutela de 
outro. Sapere aude! Tenha a coragem de te servir de teu próprio enten-
dimento, tal é portanto a divisa do Esclarecimento.
Assim, em termos gerais, quando afirmamos que a civilização ocidental atingiu 
a sua própria maioridade, dizemos que ela alcançou a iluminação ou o esclare-
cimento. Contudo, quanto mais liberdade, mais responsabilidade, não é mesmo? 
É como se afirmássemos que o mundo atingiu os seus 18 anos e agora está muito 
mais livre, mas muito mais responsável para atuar. Esse processo começou preci-
samente no início da Idade Moderna que, finalmente, com os filósofos iluministas, 
pôde ser caracterizado pela universalidade, individualidade e autonomia. 
Em poucas palavras, o ser humano foi conseguindo esta liberdade ao mesmo 
tempo em que viu a Igreja Católica Apostólica Romana perder em grande medida 
o seu anterior poder. Isso não quer dizer que por ela hoje não ter a hegemonia 
de outrora esteja menor, ao menos não nesse sentido. Há muito mais a ser dito 
sobre a Modernidade e a Igreja Católica, mas creio que você já entendeu o “espí-
rito”, não é mesmo? Por isso, vamos passar agora a falar sobre a Igreja Católica 
na Contemporaneidade e alguns de seus desafios para os nossos dias.
Durante o período compreendido entre a Revolução Francesa, que durou 
10 anos, entre 1789 e 1799, houve uma transformação tão grande no mundo, 
que, posteriormente, alguns historiadores afirmaram que as rupturas que ela 
ocasionou foram suficientemente fortes para que uma nova Era fosse iniciada. 
Portanto, podemos entender que a Idade Contemporânea, a nossa idade, come-
çou por causa daqueles conflitos. Mas por que aquele conflito começou e qual o 
papel da igreja nele e a partir dele? Podemos dizer bem rapidamente que o con-
flito foi diretamente influenciado pelos pensadores iluministas que, com suas 
ideias, acabaram por questionar de forma cada vez mais franca e direta o poder 
do rei e o da monarquia como um todo. Falavam também, nesse mesmo sen-
tido, sobre as ideias republicanas, sendo que o lema dos revolucionários franceses 
era “liberdade, igualdade e fraternidade”. Mas o motivo absolutamente ime-
diato para o início dos conflitos foi bem mais imediatamente grave, visto que 
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era subsistencial:falamos aqui do aumento do preço do trigo. Sim, isso mesmo! 
Os anos anteriores à revolução foram marcados por uma grande seca em prati-
camente toda a França.
Com isso, o trigo, que era o alimento básico para as famílias mais pobres, 
começou a escassear e, certamente, seu preço foi às alturas para aqueles que 
ganhavam muito pouco, quase nada. E, então, você deve estar pensando: ainda 
bem que existia a igreja para tentar equalizar essa questão social. Contudo, ela 
pouco fez imediatamente no início dos conflitos, embora tenha se mostrado 
duas diferentes igrejas em uma só. Explico melhor: com as diferenças abissais 
entre ricos e pobres, uma parte do clero resolveu apoiar o povo e passar a viver 
como eles, ou seja, quase que na mais absoluta miséria. Outra parte da igreja 
resolveu apoiar o rei e, consequentemente, viver no luxo e opulência. Esse fato 
sempre e de novo nos mostra que as denominações, em seu interior, não são 
homogêneas e, por isso, não podem ser genericamente tomadas como se fos-
sem um único bloco.
Durante este período, na França, principalmente durante a fase conhecida 
como Terror, os cristãos que fossem abordados e possuíssem uma Bíblia, seja 
inteira ou fragmentada, seriam sumariamente julgados, podendo enfrentar a ter-
rível guilhotina. Curiosamente, onde ontem matavam-se cristãos, hoje existe a 
sede da Sociedade Bíblica da França, independentemente de ela ser diretamente 
ligada aos interesses da Igreja Católica ou não.
Em 1796, um dos generais de Napoleão, Berthier, invadiu Roma, o Vaticano, 
e levou preso o Papa Pio VI, que morreu no exílio. Muitos imaginaram que com 
esse fato terrível a Igreja Católica finalmente fosse perder a pequena relevân-
cia que tinha e desaparecer, já que não havia nenhuma grande possibilidade de 
mudança com o avanço de Napoleão. Mas não foi exatamente isso que aconte-
ceu – em suma, pode-se dizer que o nacionalismo acabou tomando o lugar da 
igreja, mas não exatamente. Conforme Haupt (2008, p. 77),
O desmoronamento da religião durante o processo de secularização foi 
uma das condições do sucesso do nacionalismo desde o fim do século 
XVIII na Europa. Essa, pelo menos, é a opinião de Hans-Ulrich Wehler 
(2003), historiador alemão, em seu livro recente sobre o nacionalismo. 
Em sua óptica, a crítica da religião durante o século das Luzes, a sepa-
ração entre a Igreja e o Estado como se manifesta na constituição civil 
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do clero durante a Revolução Francesa e a perda de uma orientação re-
ligiosa por amplas camadas da população teriam criado um “vazio” em 
que o nacionalismo poderia ter sido inserido e em que teria tomado o 
lugar da religião como sistema de fé e orientação […] Em uma perspec-
tiva histórica, essa abordagem suscita, porém, algumas críticas. A idéia 
de um vazio, um vacuum, sublinha metaforicamente a profundidade 
de uma mudança ocorrida, mas não revela a complexidade das cons-
telações e das evoluções históricas que se caracterizam por sobreposi-
ções de tendências, relações entre essas, fusão ou repulsão parcial. A 
“semelhança do não-contemporâneo” – essa fórmula do filósofo Ernst 
Bloch (1935) que põe o acento na co-existência de diferentes sistemas 
de fé e explicação do mundo no interior de uma dada sociedade, que 
possuem, além do mais, uma longevidade e temporalidade diferentes – 
parece mais adequada para caracterizar e interpretar situações históri-
cas complexas e momentos de mudança histórica. A discussão recente 
sobre o nacionalismo também tomará distância dessa afirmação.
A Igreja Católica, mesmo combalida, ainda se manteve tão firme quanto pôde. 
Podemos destacar alguns papas do período: Giovanni Mastai-Ferreti, entre 
1846 e 1878, foi considerado um papa conservador e estranho às reformas e aos 
progressos do novo século. Muito mais conhecido do que ele é Pio IX, que pro-
mulgou um importantíssimo documento conhecido como Syllabus Errorum, no 
qual apontou oitenta problemas ou erros do século XIX.
Quando Pio IX ainda era o papa, aconteceu algo extremamente importante 
na história da Itália e da Igreja Católica: a unificação do país, sob a liderança de 
Vittorio Emanuele. Com isso, a Igreja perdeu muito de seus territórios na Itália, 
exceto os palácios papais na própria cidade de Roma. Ele ainda conclamou uma 
importante reunião da Igreja, o Concílio Vaticano I, condenando o materia-
lismo, o ateísmo e, novamente, o racionalismo. Em 1891, o Papa Leão XIII publica 
uma carta importantíssima sobre a condição dos operários, a Rerum Novarum, 
um documento que pela primeira vez sistematiza a doutrina social da igreja ao 
reconhecer a paupérrima condição destes.
Em 1929, sob a Itália do fascista Benito Mussolini, a Igreja reconhece a sobe-
rania da Santa Sé no Estado do Vaticano, o que em outras palavras faz com que 
a Itália reconheça o Vaticano como um Estado. Além disso, a Itália permite que 
o catolicismo seja livremente praticado ali e paga pelas perdas territoriais da 
igreja por ocasião da unificação da Itália. Eis, em resumo, o Tratado de Latrão.
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No século XX, com o Concílio Vaticano II, a Igreja tentou e conseguiu se 
aproximar muito mais do povo, investiu em rádios e televisão, e presenciou, 
mesmo oficialmente não sendo sempre favorável, o florescimento da Teologia 
da Libertação, com a opção preferencial pelos pobres. Com isso, ela voltou à sua 
vocação e às práticas de São Pedro e Gregório I, ao mesmo tempo em que reen-
controu a sua vocação.
Atualmente, está inserida em 
praticamente todo o mundo a figura 
do papa, que é grandemente res-
peitada como um poder ao mesmo 
tempo político e religioso. Assim, 
ela volta a seduzir muitos daque-
les que outrora foram buscar em 
outras religiões ou filosofias de vida 
não religiosas uma proposta inte-
ressante para dar sentido à vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Provavelmente, esta unidade se mostrou algo complicado, por envolver, ao mesmo 
tempo, filosofia, teologia e história. Acho que, em nosso caminhar, você já deve 
ter percebido que essas três disciplinas andam intrinsecamente juntas, e como 
dica para você, futuro(a) professor(a) de História, aconselho que desde agora 
preste atenção nelas como complemento aos seus estudos.
Ao falarmos, resumidamente aqui, desde o Império Romano até o Tratado 
de Latrão de 1929, sob o governo fascista de Mussolini, passando pelo Concílio 
Vaticano I e II, muitos detalhes, por questão de espaço, precisaram ser omitidos. 
Digo novamente que se trata de “abrir os olhos” para a suprema importância his-
tórica do estudo das religiões.
Considerações Finais
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O catolicismo, tão amado e combatido, às vezes simultaneamente, no Brasil 
e no mundo, tem uma história absolutamente vigorosa e rica. Isso deve ser facil-
mente confirmado até mesmo por aqueles que não têm muito interesse espiritual 
na igreja romana. Dizer que ela nada ou pouco mudou ao longo de sua gran-
diosa história, cronologicamente falando, inclusive, é não perceber a própria 
história da humanidade, ao menos sob o viés ocidental. Essa unidade nos ajuda 
a compreender como as instituições estão em contínuas transformações como 
um espelho dos homens, que continuamente se transformam.
Wycliffe, Huss, Tyndale, Lutero e tantos outros pré-reformadores, reforma-
dores e “pós-reformadores”, no passado, presente e futuro, continuarão lutando 
para que nossa consciência não precise necessariamente estar presa aos muros 
de determinadas instituições. Quer você concorde com isso, quer discorde.
Espero que esse ímpetodos reformadores, muitos dos quais deram a vida 
pela causa, anime você em suas lutas e questionamentos. Será que realmente a 
vida vale mais do que a causa pela qual nós vivemos? Ou essas grandes ideolo-
gias morreram na modernidade e hoje está tudo “liquidificado” e o que importa 
é sobreviver? As perguntas não terminam, porque a pós-modernidade, tempo 
em que hoje vivemos, é filha rebelde da modernidade, inclusive iniciada pelos 
reformadores. Graças também a eles, podemos dizer que a Bíblia tem essa e 
outras respostas, ou não.
Quero deixar claro como fechamento desta unidade: a Igreja Católica 
Apostólica Romana não é, nunca foi e, a história nos diz hoje, nunca será monolí-
tica. Isso quer dizer que dentro dela pulsam “várias outras”, embora não devemos 
perder de vista a alegada “unidade na diversidade”. Assim, é possível, em virtude 
de seu grandioso tamanho, que vários pensamentos díspares subsistam dentro 
de um mesmo escopo.
Se hoje há uma separação mais ou menos nítida entre Igreja e Estado, embora 
em alguns países isso fique melhor apregoado do que em outros, em um momento 
da história, existiu o cesaropapismo. Se, na história, Constantino tinha poder 
sobre a vida e a morte, inclusive alterando textos bíblicos ditos sagrados, isso 
dificilmente pode acontecer hoje, com tantas e variadas bíblias para os mais 
variados públicos sendo distribuídas. A Igreja do século XXI é certamente outra, 
mas, para aquele que crê, ela mantém o mesmo espírito. Isso não deve mudar.
150 
1. Em nossos estudos sobre a Igreja Católica ao longo do período antigo e medie-
val, você certamente percebeu que a igreja pode até ser uma instituição divina, 
mas certamente é também histórica e, portanto, cheia de acertos e erros. Sobre 
a Igreja Cristã ao longo do Império Romano e do Imperador Constantino:
a) Historiograficamente falando, foi um dos primeiros papas, totalmente liga-
do à Igreja, entendendo-a como uma continuação do seu poder temporal. 
Graças a ele, as tradições da igreja foram mantidas, bem como por ele os 
cristãos deixaram de ser perseguidos.
b) Em 321, promulgou um decreto dominical que progressivamente faria com 
que os cristãos pelos séculos vindouros, em sua maioria, passassem a obser-
var o domingo ao invés do sábado, em uma decisão também política.
c) Instituiu o canto gregoriano e a adoração à Virgem Maria graças à sua con-
versão.
d) Desde criança nunca levou realmente a sério o politeísmo, sendo sua con-
versão já esperada dentro dos círculos romanos.
e) Foi sucessor de Teodósio, que tinha grandes rixas com os cristãos. 
2. Analisamos nesta unidade os mais diversos períodos históricos e a participa-
ção da Igreja Cristã em cada um deles. Fica nítido que o período de seu maior 
poder foi durante a Idade Média, quando se tornou a instituição mais rica e in-
fluente da Europa Ocidental. Parte de todo esse poder e influência resultou da 
complexa filosofia cristã desenvolvida nesse período com movimentos como 
a Patrística e a escolástica. Sendo assim, tratando-se da Filosofia Cristã, a única 
opção correta é:
a) Teve na Bíblia e nos ensinamentos da Igreja Católica sua base firme e segura, 
sendo que a fé vinha em primeiro lugar e, a partir dela, chegava-se à razão.
b) Ignorou os filósofos gregos, considerados pagãos.
c) A prudência é o amor sábio, escolhendo aquilo que favorece e rejeitando 
o contrário, conforme os filósofos gregos, egípcios e romanos já escreviam.
d) Santo Agostinho escreveu sobre o livre-arbítrio afirmando que, no fundo, 
não somos livres para escolher entre o bem e o mal.
e) São Tomás de Aquino gostava de ser considerado um filósofo, já que para 
ele isso era uma grande bênção reconhecida pelas pessoas, ao ser um gran-
de pensador e, ao mesmo tempo, um grande cristão.
151 
3. A Igreja Moderna e Contemporânea mostrou que venceu as disputas políticas 
e bélicas, reerguendo-se, e hoje novamente ocupando a liderança nas ques-
tões éticas e morais, ao menos em algumas sociedades. Afinal, ninguém pode 
afirmar que as decisões do Vaticano não influenciam na política mundial. Sobre 
a Igreja Católica na modernidade e contemporaneidade, pode-se afirmar que:
a) A unificação da Itália no final do século XIX foi um importante passo para a 
Igreja Católica também recuperar sua influência.
b) O fascista Benito Mussolini reconheceu o Estado do Vaticano em 1929, em 
um documento conhecido como Tratado de Latrão.
c) A Teologia da Libertação, conhecida pela influência e militância de Leonardo 
Boff, dentre outros, sempre encontrou na Igreja Católica, apoio e simpatia.
d) O nacionalismo do século XIX pouco alterou o poder católico: ao contrário, com 
o fortalecimento dos estados nacionais a Igreja encontrou ainda mais apoio.
e) A França, exemplificada por sua Catedral de Notre Dame, é um dos países 
católicos mais influentes do mundo, graças a Revolução Francesa e as ideias 
iluministas. 
4. As instituições estão em contínua transformação, pois os homens assim tam-
bém estão. Contudo, em alguns contextos históricos, as sociedades não estão 
preparadas para algumas mudanças propostas por determinados indivíduos. 
Por isso, muitas vezes, são perseguidos e não conseguem colocar em prática as 
suas idéias. Assim foram os pré-reformistas. 
Acerca desses homens que anteviram a grande Reforma Protestante, reflita e 
assinale a única opção correta conforme seus conhecimentos.
a) Wycliffe, Huss e Tyndale tinham precisamente as mesmas ideias acerca da 
Bíblia e de teologia. O fato de terem nascido em países diferentes apenas 
disseminou essas ideias monolíticas.
b) Os mesmos Wycliffe, Huss e Tyndale foram miseravelmente mortos na fo-
gueira da Inquisição, apesar de seus cargos e posições, mesmo gozando de 
certo prestígio entre o povo.
c) Wycliffe e Tyndale, embora não necessariamente contemporâneos, assim 
como Lutero, sob grandes esforços, traduziram a Bíblia do latim para a lín-
gua materna.
d) Jan Huss acreditava na reencarnação e se dizia antecessor de outros grandes 
nomes que deixariam suas marcas na História, seja no campo da Teologia, 
seja no campo da Pedagogia.
e) John Wycliffe entrou em contato e aperfeiçoou as ideias de Jan Huss acerca 
da teoria da Predestinação. 
152 
5. Martinho Lutero, o Reformador, em 1517, precisamente no dia 31 de outubro, 
que coincidentemente é o Dia das Bruxas em várias partes do mundo, publicou 
suas 95 ou 96 teses na cidade alemã de Wittenberg. Assim começou a Reforma, 
levando em conta o trabalho e o sangue derramado dos pré-reformadores. 
Sobre o reformista Martinho Lutero é correto afirmar:
a) Desde muito cedo, em sua biografia, percebendo os desvios da igreja roma-
na, ele almejou dar início a uma reforma. Por isso entrou para o convento e 
virou monge.
b) Não tinha a intenção de se separar da igreja romana, desejando precisamen-
te reformar alguns graves aspectos da mesma, como a questão das indul-
gências, dentre outros pontos.
c) Lutero e Melanchton, seu colega dos tempos de Wittenberg – ambos lecio-
naram na universidade daquela cidade – romperam durante as persegui-
ções, visto que Lutero era muito radical, enquanto Melanchton, teórico, não 
desejava ir tão longe.
d) Quando esteve em Roma, em 1516, véspera das Teses, percebeu que a Igreja 
ainda mantinha os preceitos cristãos e que o problema estava na Igreja de 
sua cidade natal.
e) Em virtude de sua grande piedade pessoal, ao receber sua excomunhão, 
para não morrer, buscou a proteção de Frederico, o Sábio, pedindo para que 
o ajudasse a conseguir o perdão do papa. 
153 
Caro(a) aluno(a), um dos assuntos mais polêmicos acerca da história do cristianismo está 
ligado às Cruzadas realizadas contra os muçulmanos na Palestina, a partir do século XI. 
Você já se perguntou quais eram as justificações ideológicas para a realização dessas 
atividades militares por parte dos cristãos. O Professor Me. Augusto Moretti explica esse 
desenvolvimento em sua dissertação de mestrado, da qual apresentamos para vocês 
um excerto. Muitos trechos relacionados às fontesmedievais e à historiografia foram re-
tiradas. Para ler o texto na íntegra, acesse a dissertação por meio do link disponibilizado 
ao fim desse texto. 
A formação dos conceitos de guerra justa e guerra santa
O pensamento cristão primitivo manifestava uma visão pacifista relativa à violência e à 
guerra. Tal ideologia advinha, principalmente, das interpretações do Novo Testamento, 
como nas passagens do Evangelho de São Mateus:
Ouvistes que foi dito: olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo: não 
resistais ao homem mau; antes, àquele que te fere na face direita, ofereça-lhe 
também a esquerda![...] Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás 
o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos 
perseguem (MATEUS, 5:38-39, 43-44). 
Ou ainda: “Bem aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filho de 
Deus” (MATEUS, 5:9). Desta forma, em um primeiro momento, o cristianismo se apresen-
tou como uma religião pacifista, em que os cristãos, ao serem perseguidos, se entrega-
vam ao martírio sem reação, como uma forma de se chegar ao reino dos céus. [...]
A ideia de retribuir a violência romana com violência era descartada. O pacifismo era, 
portanto, apresentado como uma norma ou doutrina do cristianismo primitivo dos dois 
primeiros séculos. A partir da interpretação dos textos bíblicos, os Pais da Igreja traça-
ram seu ideal para a igreja cristã primitiva.
Deste modo, os cristãos, pelo menos em sua maioria, permaneceram afastados dos 
exércitos romanos e consequentemente da “arte da guerra” por dois principais motivos. 
Primeiro, o referido pacifismo diante das agressões sofridas. Segundo porque, ainda que 
cidadãos romanos, se negavam a participar de um exército que considerava o próprio 
imperador como um deus.
Todavia, tal quadro começou a modificar-se a partir do momento que o cristianismo 
passou a ser aceito pelas autoridades e pela sociedade romana. Com a conversão de 
Constantino em 312, a Igreja cristã iniciou uma nova etapa em sua história. A mudança 
da Constituição Imperial De Confessoribus qui mi litaverant modificou o juramento de 
fidelidade realizado pelos soldados, tornando-o compatível com o culto de um deus 
único (MATTOS, 1964, p. 55). 
154 
Com a adoção do cristianismo como religião oficial do Império em 380, os homens da 
Igreja não podiam mais deixar de lado as questões militares, pois cada vez mais os as-
suntos do Estado se entrelaçavam com os interesses da Igreja e vice e versa. Assim, sur-
gia a necessidade dos cristãos lutarem pelo Império e, em consequência, a necessidade 
de uma justificação plausível para a ação bélica. Afinal, Roma precisava manter suas es-
truturas frente aos povos germânicos e a Igreja a fé diante do paganismo (GARCÍA FITZ, 
2003, p. 103).
[...] Iniciou-se, assim, um processo de justificação da guerra por parte do cristianismo. 
Seus interesses precisavam ser defendidos. De acordo com Mattos (1964), foi justa-
mente a cristianização gradual da população e do Estado romano que proporcionou 
o surgimento de uma teoria completa da guerra justa. Para este autor, era necessário o 
predomínio de uma crença que alocasse quatro “fermentos” ao Império Romano e que 
possibilitasse uma “revolução espiritual” aos homens da época. [...]
Tanto o início quanto o desenvolvimento de tal processo de justificação tornou-se possí-
vel devido à ambiguidade apresentada pelas Sagradas Escrituras. Conforme mostramos, 
algumas passagens bíblicas pregam a ideia de pacifismo no pensamento teológico cris-
tão. Destarte, outras são passíveis de interpretação e levam a uma concepção diferente 
acerca da guerra. 
O Velho Testamento é, em geral, o que possibilita maior margem de interpretação a fa-
vor de uma guerra dirigida por Deus:
Quando Iahweh teu Deus te houver introduzido na terra a que vais a fim de pos-
suí-la, e tiver lançado fora de diante de ti muitas nações, a saber, os heteus, os 
gergeseus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus, sete 
nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e quando Iahweh teu Deus 
entregá-las a ti, tu as derrotará e as sacrifarás como anátema. Não farás aliança 
com elas e não as tratará com piedade (DEUTERONÔMIO, 7:1-12).
Em geral, a ambiguidade ocorre entre Novo e Velho Testamento. Os primeiros livros ca-
racterizam um Deus mais belicoso, enquanto que no Novo Testamento cria-se a imagem 
de um Deus de amor e paz. Porém, ainda que de forma mais branda, no Novo Testamen-
to também é possível encontrar passagens que possibilitam uma interpretação favorá-
vel à violência, desde que a causa seja justa do ponto de vista cristão. 
Uma das mais conhecidas é a passagem em que Jesus expulsa os mercadores do Templo 
[...] Ou mesmo um trecho do Evangelho de Mateus em que se diz: “Não penseis que vim 
trazer paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada” (MATEUS, 10: 34).
Assim, há nos textos bíblicos razões suficientes para suscitar diferentes interpretações 
sobre a guerra. O primeiro grande teólogo cristão que procurou defender a necessidade 
da guerra, abandonando o total pacifismo defendido por escritores como Eusébio de 
Cesaréia e Justino Martir, foi Santo Agostinho. Diante das novas situações impostas à 
Igreja Cristã, Santo Agostinho utilizou-se de seus conhecimentos acerca da filosofia an-
tiga e das Sagradas Escrituras para fundamentar um conceito de guerra justa. 
155 
Primeiramente, a guerra é vista por Santo Agostinho como um instrumento em busca 
da Paz; este autor entendia a guerra como um instrumento para estabelecer a ordem na 
sociedade. Em sua visão, todos procuram a paz, mesmo ao fazer a guerra. [...]
Santo Agostinho encontra tal justificação na natureza humana e na vulnerabilidade do 
homem frente ao mal. Sendo o homem fruto do pecado original e, portanto, imperfeito, 
a guerra passa a ser algo consubstancial à sua própria natureza. Assim, a guerra, fruto do 
pecado, torna-se a ferramenta para combater os vícios e estabelecer a ordem de volta 
à sociedade. 
[...]
A guerra, então, passa a ser um mal menor para evitar que ocorra a consumação da in-
justiça. Um mal que se deve diminuir, observando a justiça para com o inimigo e sempre 
com o objetivo de estabelecer a paz. Logo, percebemos que mesmo aceitando a guerra, 
Santo Agostinho delimita alguns critérios para que esta se torne justa. A guerra precisa-
ria estar sempre em busca da justiça e da paz, ser sempre realizada por ordem de Deus; 
sendo assim, devia ser declarada por uma autoridade que representasse o poder divino. 
Por fim, Agostinho definira a guerra justa como guerras que vingam injustiças, quando 
um povo ou um Estado, a quem a guerra deve ser feita, deixou de punir os erros dos seus 
ou de restituir aquilo que foi saqueado em meio a essas injustiças (GARCÍA FITZ, 2003, p. 
51; DEMURGER, 2002, p. 20). 
O primeiro passo havia sido dado. Santo Agostinho inaugurava uma nova forma de pen-
samento dentro da teologia cristã. O pacifismo deixa de ser considerado em sua totali-
dade, passando os cristãos a serem responsáveis por lutarem em certas guerras, quando 
declaradas justas. A instituição da guerra cristã começava a ganhar suas formas, passan-
do por sua primeira transformação ideológica, da defesa de um pacifismo incondicional 
para a aceitação de uma guerra justa.
Entretanto, é válido lembrar que se nesse primeiro momento a guerra ganha uma jus-
tificação, ela continua caracterizada como algo mal; ainda que seja um mal menor em 
busca de um bem maior. Aqueles que cometessem o homicídio, apesar de estarem jus-
tificados, ainda estavam sujeitos às penitências pelo derramamento de sangue dos ini-
migos. Tal ideia se inverterá posteriormente com a consolidação de um pensamento de 
guerra santa (DEMURGER, 2007, p. 41).[...]
Disponível em: <http://nou-rau.uem.br/nou-rau/document/?code=vtls000220458>. Aces-
so em: 07 nov. 2018.
MATERIAL COMPLEMENTAR
Introdução ao Cristianismo
Joseph Ratzinger
Editora: Loyola
Sinopse: trata-se de uma síntese do Credo.A partir de uma densa compreensão 
da fé, o leitor percorre artigo por artigo do Credo, adentrando-se, nas verdades 
do Símbolo Apostólico. A fé é um dom, mas é feita a um ser racional que 
pede um mínimo de inteligência de quem crê. Este texto abre caminho para a 
caminhada em meio às difíceis veredas da modernidade iluminista.
A Filosofia na Idade Média
Etinne Gilson
Editora: WMF Martins Fontes
Sinopse: nada mais legítimo, do ponto de vista da história geral da filosofia, do 
que indagar sobre o que aconteceu com os problemas filosóficos colocados 
pelos gregos durante os primeiros catorze séculos da era cristã. Por isso, se 
quisermos estudar e compreender a filosofia desta época, temos de procurá-
la onde ela se encontra, isto é, nos escritos dos homens que se declaravam 
abertamente teólogos ou que aspiravam a isso. A história da filosofia na 
Idade Média é uma abstração feita a partir dessa realidade, mais ampla e mais 
compreensiva, que foi a teologia católica na Idade Média.
História do pensamento cristão
Paul Tillich
Editora: ASTE
Sinopse: este livro apresenta aulas sobre a história do pensamento que 
evidenciam a maneira como Tillich utilizava a história. Para o autor, o passado 
carregava em si o presente, e seu estudo era como uma alameda aberta para 
o futuro. Só se pode viver no presente plenamente, aberto para o futuro, em 
diálogo com o passado, interpretando seus monumentos e compreendendo seus 
movimentos. Este livro demonstra o poder da história para um teólogo que jamais 
mergulhou no passado para escapar do presente. Há um olhar sobre a história do 
pensamento cristão na visão de um grande pensador protestante do século XX.
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
História da filosofia: Patrística e Escolástica
Giovanni Reale e Dario Antiseri
Editora: Paulus
Sinopse: “História da filosofia” é a história dos problemas filosóficos, das teorias 
filosóficas e das argumentações filosóficas. É sempre a história de novas 
tentativas de versar sobre questões inevitáveis, na esperança de conhecer 
sempre o melhor a nós mesmos e de encontrar orientações para nossa vida e 
motivações menos frágeis para nossas escolhas. A história da filosofia ocidental 
é a história das ideias que informaram, ou seja, que deram forma à história do 
Ocidente. É um patrimônio para não ser dissipado, uma riqueza que não se 
deve perder. 
Comentário: recomendo a coleção inteira, mas para ficarmos em nosso assunto, o volume 2 da 
coleção apresenta esmiuçadamente os filósofos patrísticos e escolásticos, de forma objetiva e 
histórica, apresentando muitos fragmentos do texto.
O Nome da Rosa
Ano: 1986
Sinopse: se você porventura não tem acesso ao livro de mesmo nome citado 
nas sugestões de leitura, atente para este filme, que trata sobre alguns aspectos 
da vida religiosa na Idade Média.
Lutero: Gênio, Rebelde, Liberador
Ano: 2003
Sinopse: é um filme muito interessante e indispensável para se entender 
o contexto e a biografia de Martinho Lutero e sua trajetória para que suas 
ideias sobrevivessem.
MATERIAL COMPLEMENTAR
No site da Santa Sé, em português, é possível encontrar documentos importantes da igreja, em nossa 
língua, bem como meditações e agenda.
<http://w2.vatican.va/content/vatican/pt.html>
O site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil apresenta muitas informações relevantes também 
sobre o catolicismo no Brasil.
<http://www.cnbb.org.br/>
A Rádio Vaticano apresenta notícias, em áudio e texto, sobre a Igreja Católica no Brasil e no mundo.
<http://pt.radiovaticana.va/bra/index_n.asp>
REFERÊNCIAS
159
BÍBLIA, Português. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1995.
BARTLETT, W. B. História Ilustrada das Cruzadas. São Paulo: Ediouro, 2002.
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Globo, 2006.
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efêmero. In: REIS, D. (Org). Restauração do papel da revelação cristã na pós-moder-
nidade: uma perspectiva adventista. Ivatuba: IAP, 2014.
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GILSON, E. A filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
HAUPT, H.G. Religião e nação na Europa no século XIX: algumas notas comparativas. 
Estudos Avançados, São Paulo, n. 22, v. 62, 2008.
KANT, I. Resposta à pergunta: Que é esclarecimento? In: KANT, Immanuel. Textos Se-
letos, livro 2. Rio de Janeiro: Petrópolis, 1985. 
KAUFMANN, T.; KOTTJE, R.; MOELLER, B. (Org.). História Ecumênica da Igreja: dos primór-
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LIENHARD, M. Lutero: tempo, vida e mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998.
LUTERO. A Justificação pela Fé. Projeto Spugeon. Disponível em: <http://www.pro-
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MELANI, R. Diálogo Primeiros Estudos de Filosofia. São Paulo: Moderna, 2013. 
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REFERÊNCIA ON-LINE
1Em: <https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=12409759>. Acesso em 
06 nov. 2018.
GABARITOGABARITO
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Professor Me. Augusto João Moretti Junior
RELIGIÕES INDÍGENAS, 
AFRO-BRASILEIRAS E O 
ESPIRITISMO
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Conhecer as principais características das religiões dos povos 
indígenas brasileiros.
 ■ Compreender o processo de chegada e desenvolvimento das 
religiões africanas no Brasil.
 ■ Analisar as principais características das Religiões Afro-Brasileiras: 
Candomblé e Umbanda.
 ■ Sintetizar as principais características do Espiritismo, sua formação e 
desenvolvimento no Brasil.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ A religião e os povos indígenas brasileiros
 ■ Antecedentes Africanos da Religiosidade Brasileira
 ■ Religiões Afro-Brasileiras: Candomblé e Umbanda
 ■ Os espíritos do espiritismo e o nascimento da “religião da razão”
INTRODUÇÃO
Olá caro(a) acadêmico(a), até o momento já realizamos uma longa jornada, não 
é mesmo? Vimos o que é História das Religiões, as teorias que contemplam essa 
disciplina e, em seguida, analisamos as grandes religiões passando pelo hindu-
ísmo, budismo, judaísmo e islamismo. Não poderíamos deixar de estudar também 
a história e desenvolvimento do cristianismo. 
Todas essas religiões são importantes para compreendermos o mundo em 
que vivemos, o contexto histórico e a cultura brasileira. Contudo, o que gosta-
ríamos de realizar nessa unidade é a construção de um conhecimento acerca 
das religiões características do Brasil, mas que ainda são cercadas de ignorância 
e preconceito. Nesse sentido nossos estudos se voltarão às religiões indígenas, 
afro-brasileiras e o espiritismo moderno.
Devemos nos lembrar que o Brasil é uma terra de sincretismos, onde as 
religiões se influenciam mutuamente, sendo comum encontrar brasileiros que 
frequentam e são adeptos de mais de uma religião. Isso não é uma característica 
de nossa atualidade. João do Rio no início do século XX já escrevia “o Rio (de 
Janeiro), como todas as cidades nestes tempos de irreverência, tem em cada rua 
um templo e em cada homem uma crença diversa” (JOÃO DO RIO, 2006, p. 15).
O Brasil tem em sua história essa multiplicidade de Religiões e Religiosidades.Acerca da compreensão da História das Religiões, você se lembra que quando 
discutimos teoria da História das Religiões na Unidade I, foi dito que para a sua 
melhor compreensão seria necessário o estudo de outras áreas do conhecimento, 
como Psicologia, Antropologia, Geografia, Sociologia et cetera? Nessa unidade, 
caro(a) aluno(a), essas ciências nos ajudaram muito, pois é praticamente impos-
sível estudar as religiões indígenas brasileiras sem a ajuda da antropologia, ou as 
religiões afro-brasileiras sem a ajuda da sociologia. Devido ao caráter interdis-
ciplinar, essa unidade é fundamental para concretização e desenvolvimento do 
seu conhecimento acerca da História das Religiões.
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A RELIGIÃO E OS POVOS INDÍGENAS BRASILEIROS
Caro(a) aluno(a), sabe-se que o desenvolvimento intelectual vem a partir dos 
questionamentos corretos, por isso, inicio essa unidade com uma pergunta: 
seriam as tribos indígenas povos sem religião? Ao longo desse texto, nos propo-
mos a apresentar para você, estimado(a) estudante, os argumentos e informações 
necessárias para responder essa pergunta da forma mais coerente possível. Vamos 
juntos nessa jornada? 
Primeiramente, pouco se sabe, nos ciclos comuns da sociedade brasileira, 
acerca dos povos ameríndios, muito menos sobre o seu caráter religioso. Em 
uma rápida pesquisa na internet é possível encontrar materiais valiosíssimos 
para o estudo desse tema, materiais esses que serão utilizados em nosso livro. 
Contudo, gostaríamos de ressaltar que se compararmos as pesquisas e notícias 
acerca das “religiões indígenas” brasileiras com outros conteúdos relacionados 
às religiões brasileiras, perceberemos que as pesquisas realizadas nesse campo 
ainda são pequenas. No entanto, trataremos da melhor forma possível alguns 
aspectos culturais/religiosos de alguns povos indígenas brasileiros. 
Primeiramente gostaríamos de lembrá-lo(a) acerca da Unidade 1, onde discu-
timos o conceito de religião. É preciso termos em mente que o conceito de religião, 
segundo Derrida (2000), em povos como os indo-europeus, não concebiam a reli-
gião como uma instituição a parte de sua vida comum, tal termo foi formulado 
a partir da língua latina. Trazemos essa ideia para os povos indígenas brasileiras. 
Os elementos, ditos, religiosos nos povos ameríndios eram parte integrada da sua 
vida, logo não poderiam ser separados como elementos fora de sua vida comum. 
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Devido à visão ocidental cristã do conceito de religião, os primeiros relatos mis-
sionários jesuítas e outros colonizadores do Brasil afirmavam que os índios eram 
“gente sem lei”. De acordo com Brandão (1990), os indígenas eram considerados 
povos que não possuíam a ideia de sagrado ou de um deus, muito menos rituais 
ou cultos religiosos. Eram chamados pelos missionários de “gente sem fé”, ape-
sar do espanto, o que consolava os jesuítas era o fato de que se eles não possuíam 
crenças, portanto, não seria necessário combater as “falsas crenças” (BRANDÃO, 
1990, p. 58). Para Barros e Zannoni (2008), a experiência religiosa indígena foi 
menosprezada, pois os europeus que aqui colonizaram procuravam padrões reli-
giosos presentes no cristianismo, como os templos, orações, imagens de ídolos etc.
Entretanto, com o passar dos séculos e o desenvolvimento dos estudos da 
Antropologia, Sociologia e História das Religiões, descobriu-se que os povos 
ameríndios possuíam sim suas religiões enquanto sistema de crenças. Para com-
preendermos melhor esses sistemas religiosos, é preciso lembrarmos que no atual 
território que compõe o Estado brasileiro existiram diversos povos indígenas 
e, consequentemente, havia, e ainda há, uma pluralidade de sistemas de cren-
ças. Alertamos, desde agora, a impossibilidade de fazermos um levantamento 
acerca das mais diversas religiões indígenas do Brasil. Nosso objetivo é apre-
sentar algumas características dos sistemas de crenças existentes nesses povos, 
principalmente nos povos Guarani.
Gostaríamos, neste momento, de recuperar o que estudamos na Unidade 1 sobre 
“as sociedades primitivas” com as ideias do sociólogo Émile Durkheim. Apontamos 
que o termo “primitivo” não é adequado para retratar culturas e religiões, já que 
elas são diferentes entre si, mas não podem ser ditas inferiores ou superiores às 
outras. Voltando a Durkheim, em sua obra As formas elementares da vida religiosa 
(1912), analisou as religiões mais antigas dos aborígenes australianos, e apresen-
tou o Totemismo como a primeira forma religiosa. Lembramos que o totemismo é:
[...] o sistema religiosos baseado no culto a um animal, vegetal ou qual-
quer outro objeto é considerado como ancestral ou símbolo de uma co-
letividade (tribo, clã). Ao consagrar o totem no sacrifício, os homens en-
travam em contato vital com ele, robustecendo o parentesco a fim de por 
meio dele participar da vida divina. — Durkheim acreditava não só estar 
diante da forma mais elementar de crença religiosa, como ter encontrado 
a explicação sociológica da religião (SCHLESINGER, 1995, p. 2536).
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Reprodução proibida. A
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De acordo com Roque de Barros Laraia (2005), no Brasil, o equivalente às reli-
giões totêmicas apontadas por Durkheim, seriam as religiões xamanísticas; as 
tribos que possuem um xamã, um homem médico, que é reconhecido pelos seus 
poderes mágicos e religiosos. De acordo com o autor: 
A palavra xamã é originária de um povo siberiano, os tungus. Eliade 
restringiu o uso do termo as especialistas do religioso que acreditam, 
através do estado de transe, entrar em contato com seres sobrenatu-
rais, sejam eles as almas dos seus antepassados ou diferentes tipos de 
espíritos. Este é o caso da maioria dos líderes espirituais indígenas. A 
palavra tupi-guarani que, entre nós, designa o xamã é pai é, grafada em 
português como pajé (LARAIA, 2005, p. 8).
A vida dos indígenas era e é profundamente espiritual. Os pajés ou xamãs, 
geralmente os líderes mais velhos de certas comunidades, são os que mais apro-
priadamente dão conselhos aos jovens, porque já viveram mais e sabem da vida 
como poucos. São eles que fazem a ponte entre o mundo material e espiritual, 
têm como principal função curar a partir do controle dos espíritos que provo-
cam a doença e a morte. 
Caro(a) aluno(a), acerca do totemismo e animismo nas tribos indígenas, 
apresentamos o excerto a seguir pertencente ao famoso sociólogo e historiador 
Gilberto Freyre, em sua obra Casa Grande & Senzala, na qual o autor explica 
as consequência do contato com o europeu e as heranças dessas crenças para a 
sociedade brasileira:
Aliás a vida selvagem toda, através de suas diversas fases, se achava 
impregnada de um animismo, de um totemismo, de uma magia sexual 
que forçosamente se comunicariam à cultura do invasor: esta só se fez 
deformar. Não os destruiu. 
Do indígena de cultura totêmica e animista, ficaria no brasileiro, es-
pecialmente quando menino uma atitude insensivelmente totêmica e 
animista em face das plantas e dos animais (ainda tão numerosos nes-
ta parte do mundo); tanto deles investidos pela imaginação da gente 
do povo [...] É o folclore, são os contos populares, as superstições, as 
tradições que indicam. São as muitas histórias, de sabor brasileiro, de 
casamento de gente com animais, de compadrismo ou amor entre ho-
mens e bichos, no gosto das que Hartland filia às culturas totêmicas 
(FREYRE, 2006, p. 211).A Religião e os Povos Indígenas Brasileiros
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Voltamos a apresentação das principais características das religiões indígenas 
brasileiras. Um dos problemas encontrados por Laraia (2005) para explicar o 
sistema religioso indígena está na noção de alma. A alma de um homem vivo 
pode ser chamada de owera, ao espírito dos mortos asonga e os karoara seriam 
espíritos independentes dos homens. Os historiadores e antropólogos não che-
garam a um consenso acerca do papel de cada um desses espíritos. Para Laraia 
(2005), os karoara seriam espíritos causadores de doenças e mortes, sendo fun-
ção do pajé retirá-los dos corpos doentes, podendo fazer o mesmo com os asonga 
(LARAIA, 2005, p. 10-11). 
Apresentamos, agora, outras características descritivas da religião Guarani, 
baseados no artigo de Brandão (1990). De acordo com o autor, as palavras ñandé 
rekó podem ser traduzidas como “nosso modo de ser”, expressão que pode ser 
designada, também, como religião. Pois o ñandé rekó seria o modo particular, a 
identidade das tribos guaranis, ainda que diversas. Um sistema de crenças ligadas 
aos antigos ancestrais destinado a conduzir a história daquele povo, bem como, 
oferecer um modelo de conduta para todos os subgrupos e tribos, mantendo entre 
eles, por meio dessas crenças, uma integração guarani (BRANDÃO, 1990, p. 59). 
Desta forma, caro(a) acadêmico(a), apesar de algumas diferenças, vários 
elementos podem ser estendidos a todos os grupos. Para melhor compreensão, 
acompanhe alguns conceitos importantes no quadro a seguir. 
Quadro 1 - Conceitos religiosos de algumas tribos guarani e sua equivalência no português
NOME INDÍGENA DO ELEMENTO 
RELIGIOSO GUARANI
SIGNIFICADO EM PORTUGUÊS
Yváraquy
Morada de inúmeros deuses e espíritos 
que habitam os seus vários sub-espaços 
superpostos. 
Yvy-Yvíkatú Superfície da Terra onde vivem os humanos.
Yvá, Yvága, Yvánga Algo equivalente ao firmamento.
Yváraguy
Lugar entre os dois extremos, onde estão 
os deuses e os espíritos que se comuni-
cam com os vivos e podem ser benéficos 
ou perigosos. 
RELIGIÕES INDÍGENAS, AFRO-BRASILEIRAS E O ESPIRITISMO
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NOME INDÍGENA DO ELEMENTO 
RELIGIOSO GUARANI
SIGNIFICADO EM PORTUGUÊS
Ñame Ramõi Papá
Para alguns subgrupos Guarani (Kayowá, 
Nandeva) seria um deus supremo, um 
criador do mundo terreno. Para outros 
como Kayowá dos Amababí seria uma 
divindade suprema, mas não um criador. 
Pai Kwara
O deus lunar, filho de Ñame Ramõi, é ele 
que se relaciona com os homens e dirige 
suas vidas terrenas. 
Aqwjdjé
Ideia de tornar-se próximo, purificar-se 
como o divino; no limite, chegar ao lugar 
do Paraíso, sem passar antes pela morte.
Fonte: adaptado de Brandão (1990, p. 53-90). 
Lembramos, nesse momento, que a falta de um templo para culto das divinda-
des fez com que os indígenas fossem considerados povos sem religião. Devido 
a isso, os colonizadores europeus: 
[...] resolveram adotar uma divindade para os indígenas. Esta, nas lín-
guas tupi, passou a se chamar Tupã, uma espécie de Deus do Céu, o 
Maioral. Essa idéia criou raízes na cultura nacional através de livros 
didáticos (BARROS; ZANNONI, 2008, p. 174). 
No entanto, essa ideia, para a surpresa de muitos, é equivocada. De acordo com 
Laraia (2005), Tupã é fruto de um equívoco histórico que teria iniciado com os 
jesuítas, no início da colonização do Brasil. A busca por encontrar uma “entidade 
que pudesse ser comparada com o Deus cristão” fez com que Nóbrega estabe-
lecesse o Tupane, o qual os índios teriam adorado como um senhor do trovão. 
Todavia, a adoção de Tupã como Deus foi um erro devido a uma dificuldade 
de encontrar outra entidade que pudesse ser associada ao Deus criador cristão. 
De acordo com o autor, hoje sabemos que Tupã poderia ser melhor associado 
como um demônio, já que os índios o temem devido ao seu poder de destrui-
ção e morte ao controlar os raios e trovões (LARAIA, 2005, p. 12). 
Existiria, então, alguma entidade que se aproximasse desta ideia de um deus 
criador? Para Barros e Zannoni (2008), nos indígenas brasileiros o que existe é a 
ideia de heróis culturais. Para Eliade e Couliano (1992), as divindades das selvas 
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tropicais da América do Sul, “ocupam uma posição intermediária entre um ser 
supremo e o herói cultural, sendo esta última função a que em geral está mais 
ressaltada” (ELIADE; COULIANO, 1992, p. 58). 
Roque de Laraia (2005), chama de herói mítico. De acordo com o antropólogo 
brasileiro, o principal seria o Mareimonan dos tupinambás, que mitologicamente 
falando, os teria ensinado a cultivar alimentos, utilizar o fogo, além de fornecer 
os padrões de comportamento social. E pode ser considerado “o grande ante-
passado tupi” (LARAIA, 2005, p. 12). 
Para os índios tupi da Amazônia, ele se chamaria Mahyra, Bahira, Maira ou 
Mair. Acompanhe o trecho a seguir que explica a história de Mahyra, que é ao 
mesmo tempo um mito cosmogônico dos tupis. 
Do ponto de vista antropológico ele pode ser definido como um he-
rói civilizador, desde que os tupis não têm a idéia de um ser supremo, 
eterno e criador de todas as coisas, como o Deus cristão. Na mitologia 
kaapor, Mahyra saiu de um pé de jatobá, em um mundo calcinado por 
um grande incêndio, plantando novamente tudo o que o fogo queimou. 
O seu grande feito foi a criação do povo tupi. Tudo começou quando, 
recém-saído do pé de jatobá, sentiu o desejo sexual. Encontrou, então, 
uma fruta que lhe lembrou o órgão sexual feminino. Transformou a 
fruta em uma mulher, com quem teve relações sexuais e gerou dois 
gêmeos: Kwarahi, o Sol, e Yahy, Lua (para os tupis, Sol e Lua são do 
gênero masculino). Mahyra, como vimos, não é eterno, mas imortal.
[...] Após ter criado a primeira mulher – nenhuma variação do mito 
faz menção ao seu nome – ele construiu uma casa e plantou toda uma 
roça de milho. No dia seguinte, ordenou que a mulher fosse colher o 
milho. Esta retrucou que não havia tempo suficiente para o milho ter 
crescido,o que não era verdade. O herói ficou furioso com o compor-
tamento de sua “Eva” e partiu para o outro mundo, deixando na terra 
a sua mulher, grávida dos seus dois filhos [...] Coube a Kwarahi e Yahi 
continuar a obra civilizadora de seu pai, transformando os homens de 
seres da natureza em seres culturais (LARAIA, 2005, p. 12).
Nas religiões indígenas não podemos procurar em sua mitologia cosmogônica 
uma lógica. Pois, os seus mitos não apresentam uma genealogia mítica que expli-
que a ligação e a descendência dos tupis com Mahyra. Muito menos se preocupam 
em explicar como os gêmeos, sol e lua, ambos masculinos, foram capazes de dar 
continuidade às gerações de Mahyra, essa informação não existe. Provavelmente, 
de acordo com Laraia (2005), eles acreditam que já existiam outras mulheres, 
RELIGIÕES INDÍGENAS, AFRO-BRASILEIRAS E O ESPIRITISMO
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já que, Mahyra foi responsável pela criação do povo Tupi, o mundo já existia 
antes. O que devemos entender é que essa é uma informação sem importância 
para aquela sociedade patrilinear, onde os filhos são descendentes apenas do pai 
(LARAIA, 2005, p. 13). 
Estimado(a) acadêmico(a), espero ter lhes ajudado a responder a pergunta 
realizada no início dessa unidade, a saber: seriam as tribos indígenas povos sem 
religião? O que podemos concluir é que os indígenas possuem sim seu sistema 
de crenças. Todavia, eles são diversos, e não podem, melhor ainda, não devem 
ser obrigados a se enquadrar nos padrões de religião que estamos acostumadosa 
estudar ou conviver. Eles possuíam seu próprio sistema de crenças e explicações 
para o sagrado, ainda que esse conceito não seja encontrado nessa sociedades. 
Cabe a nós, estudantes de História, compreendê-los como uma sociedade dis-
tinta com seus próprios valores e sistemas religiosos. 
O Nordeste foi berço também de outras modalidades religiosas mais pró-
ximas das religiões indígenas, que cedo ou tarde acabaram por incorporar 
muito das religiões afro-brasileiras ou as influenciar. Trata-se do catimbó, 
religião de espíritos aos quais se dá o nome de mestres e caboclos, que se 
incorporam no transe para aconselhar, receitar e curar. Esse tronco afro-a-
meríndio tem particularidades em diferentes lugares, sendo chamado de 
jurema, toré, pajelança, babaçuê, encantaria e cura.
Fonte: Prandi (1996, p. 66).
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ANTECEDENTES AFRICANOS DA RELIGIOSIDADE 
BRASILEIRA
Estimado(a) acadêmico(a) do curso de História, os estudos de um historiador 
devem estar relacionados a análise e compreensão de uma determinada manifes-
tação humana, não cabe a nós, ser juízes da história e de suas instituições. Pelo 
contrário, nosso dever é a informação e a reflexão a partir de critérios científi-
cos - lembra-se de nossa discussão sobre história e ciência na Unidade I? - para 
ajudar a formar um cidadão com pensamento crítico. Por conseguinte, os pre-
conceitos devem ficar bem distantes dos nossos estudos. 
O preconceito ainda está presente em nossa sociedade em muitos âmbi-
tos e um dos lugares, ou melhor dizendo, as instituições que sofrem com isso, 
são as religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda. Nossa fun-
ção nessa unidade é lhe fornecer alguns elementos históricos e características 
dessas religiões, para que você possa compreendê-las melhor, enquanto um(a) 
professor(a) de História. 
Para nos auxiliar nessas análises, utilizaremos muitas obras da sociologia, 
especialmente, as obras do professor Reginaldo Prandi da USP, referência nacio-
nal e internacional no estudo das religiões afro-brasileiras. Ao longo de nossos 
estudos, você perceberá que as suas obras são constantemente citadas. 
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Muito bem, o primeiro elemento que gostaríamos de deixar claro é que as reli-
giões brasileiras de descendência afro são variadas e dependendo da região do Brasil 
se formaram com diferentes nomes e ritos, entre elas podemos citar: “Candomblé 
na Bahia, xangô em Pernambuco e Alagoas, tambor de mina no Maranhão e Pará, 
batuque no Rio Grande do Sul, macumba no Rio de Janeiro” (PRANDI, 1996, p. 65). 
Acerca da formação dessas religiões, de acordo com Reginaldo Prandi, elas 
ocorreram de forma bastante tardia no Brasil, ainda que a escravidão africana tenha 
começado já no século XVI. A explicação está no fato de que apenas no século 
XIX, as últimas levas de africanos vindos para o Brasil teriam sido estabelecidos, 
em sua maioria, nas cidades e não nos campos. Consequentemente, conseguiram 
estabelecer um maior contato uns com os outros, sendo assim, condições favoráveis 
foram criadas para a manutenção “dos sistemas religiosos africanos, bem como a 
criação e desenvolvimento de cultos e grupos organizados” (PRANDI, 1997, p. 66).
Ao buscarmos suas origens na África, encontramos a participação de diversas 
nações que influenciaram os ritos que viriam a formular as religiões afro-brasi-
leiras. De acordo com Irineu Wilges: 
Os estudiosos costumam agrupar os escravos vindos da África em duas 
categorias: sudaneses e bantos. Os sudaneses vinham do daomé, da Ni-
géria e do Sudão. Pertencem, em sua maioria, às tribos nagô (ou yoru-
ba), gêge, fanti-ashanti (negros-mina) e haussás (de culto islamizado). 
[...] bantos. Estes vinham do Congo, de Angola, de Moçambique e Que-
limane. [...] Os sudaneses (yoruba) conhecem uma divindade suprema: 
Olorum, mas não é cultuada. Cultuam-se os orixás, que são interme-
diários e comandam os atos da vida humana (WILGES, 1994, p. 120). 
Como podemos perceber, são duas as principais matrizes africanas que colabo-
raram para a formação das religiões negras no Brasil: os sudaneses e os bantos. 
Para Reginaldo Prandi (1995), essas duas matrizes possuem suas particularidades, 
contudo, apresentam semelhanças como “o politeísmo e a concepção de que os 
deuses são privativos de indivíduos e grupos, os deuses são como mediação das 
forças da natureza, o contato com a divindade através do transe [...]” (PRANDI, 
1995, p. 117). A herança mais importante dos sudaneses veio da nação iorubá, 
cujas entidades, se chamam orixás e serão bastante referidos na cultura brasileira 
e nas religiões de origem africana. Além dos orixás, é do povo iorubá que serão 
retirados os mitos e rituais que darão bases para as religiões negras no Brasil. 
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A religião com base nos orixás iorubás, segundo Prandi (1995, p. 117), foi 
chamada inicialmente de “Candomblé na Bahia, xangô no Recife e Alagoas, 
tambor de mina nagô no Maranhão e Pará, batuque no Rio Grande do Sul. A 
partir dos ano 60, o termo Candomblé generalizou-se”. Quanto aos bantos, eles 
também trouxeram a sua religião, porém não ocorreu a manutenção de suas enti-
dades, na verdade o que ocorreu foi a formulação de um novo panteão a partir 
dos elementos presentes nas terras brasileiras, principalmente com os caboclos 
indígenas, no entanto, também incorporaram os orixás dos iorubás.
Acerca de sua origem, os primeiros terreiros brasileiro de Candomblé, sur-
giram na Bahia, os mais famosos são o da Casa Branca do Engenho Velho, o 
Candomblé de Alaketo, o Axé Opô Afonjá e Gantois. 
Acerca de seu processo de irradiação podemos afirmar, segundo Edison 
Carneiro (1978), que o Candomblé teve início na Bahia e teve a partir desse 
estado seus focos de irradiação, com uma participação menor em Pernambuco 
e Maranhão. De acordo com o autor:
De Pernambuco o modelos se difundiu por todo o Nordeste Orien-
tal, enquanto o Maranhão, outrora cabeça do Estado de Maranhão e 
Grão-Pará, assegurava o seu triunfo entre a pequena população negra 
da Amazônia. Quanto ao centro-sul, foi alcançado pela Bahia através 
das zonas de mineração. Tendo chegado tarde às catas, quando os inte-
resses da região já se orientavam para outras explorações econômicas, 
o modelo não pode impor-se com o mesmo vigor com que fizera no 
Norte: teve de aceitar, em Minas Gerais, no Estado do Rio e, posterior-
mente, São Paulo, onde a massa escrava das cidades era em maioria 
angolense, as formas de expressão semi-religiosa correntes havia mais 
de cem anos, na região. 
Já em pleno século XIX deu a Bahia o modelo aos cultos surgidos, 
mais tardiamente que os outros, no Rio Grande do Sul (CARNEIRO, 
1978, p. 19-20). 
Sabemos agora, que o Candomblé se iniciou na Bahia e se espalhou para vários 
estados brasileiros. Quando esta religião chegou às cidades, junto aos proces-
sos de industrialização do país no início do século XX, houve uma tentativa de 
reorganização dos cultos africanos, sobretudo quando ocorreu o contato dessas 
religiões afro com o espiritismo kardecista. Lembramos que o nosso próximo 
tópico será especificamente sobre o espiritismo. 
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Por hora, caro(a) aluno(a), basta-nos saber que o espiritismo de Allan Kardec, 
chegou no Brasil por volta de 1863, ele criou uma religião em que estava presente 
os ideias de karma do hinduísmo, com os preceitoscristãos, mais o racionalismo 
do século XIX. Logo, no Rio de Janeiro, por volta de 1920, os fiéis entraram em 
contato com o espiritismo kardecista e começaram a trazer para os ciclos espíri-
tas elementos do Candomblé, que entraram em disputas com o modelo europeu. 
Devido a essa disputa, a Umbanda seria uma dissidência do espiritismo e:
[...] o primeiro centro de umbanda teria sido fundado no Estado do 
Rio de Janeiro, em meados dos anos 1920, como dissidência de um 
kardecismo que rejeitava a presença de guias negros e caboclos, con-
siderados pelos espíritas mais ortodoxos como espíritos inferiores. 
Logo, seguiu-se a formação de muitos outros centros desse espiritis-
mo então chamado de espiritismo de umbanda. Do Rio de Janeiro, a 
umbanda instalou-se e se expandiu em São Paulo rapidamente, depois 
pelo País inteiro. Em 1941, realizou-se no Rio de Janeiro o Primeiro 
Congresso de Umbanda, congresso ao qual compareceram também 
umbandistas de São Paulo.
Com a umbanda iniciou-se vigoroso processo de valorização de ele-
mentos nacionais, como o caboclo e o preto velho, que são espíritos 
de índios e escravos. A umbanda nascente retrabalhou os elementos 
religiosos incorporados à cultura brasileira por um estamento negro 
que se diluía e se misturava aos brancos pobres na constituição das no-
vas classes sociais numa cidade, então a capital federal, que era bran-
ca, mesmo quando proletária, era culturalmente européia, valorizava 
a organização burocrática da qual vivia então boa parte da população 
residente, premiava o conhecimento pelo aprendizado escolar em de-
trimento da tradição oral, e já conhecia o kardecismo como religião 
(PRANDI, 1998, p. 156).
Prezado(a) estudante, a partir do excerto anterior de Prandi é possível notarmos 
que a Umbanda é o resultado das influências africanas do Candomblé, do espiri-
tismo kardecista, do catolicismo e dos resquícios das religiões indígenas. Outro 
elemento importante que temos que levar em consideração é que a Umbanda, em 
seu início, não foi uma religião criada especificamente e somente para o negros, 
na verdade, é uma religião para pobres e indivíduos de classes baixas, sejam eles 
brancos ou negros (PRANDI, 1995, p. 119). 
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RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS: CANDOMBLÉ E 
UMBANDA
Como podemos notar no tópico anterior, apesar da manutenção de muitas de 
suas tradições africanas, as religiões afro-brasileiras, foram influenciadas de forma 
muito forte pelo catolicismo existente. Dessa forma, a reprodução dos valores 
religiosos africanos ocorreu de forma parcial em nosso território nacional. Como 
apresentamos em nossa primeira unidade, as instituições sofrem alterações, elas 
se transformam, isso também ocorreu com as religiões africanas ao chegarem no 
Brasil. Em resumo, era impossível para as tradições religiosas africanas ficarem 
imunes a influência do catolicismo, das religiões indígenas e, posteriormente, 
do espiritismo. Lembramos que essa influência também ocorreu inversamente.
De acordo com José Magnani (1986, p. 13), a Umbanda é uma religião sin-
crética por conter elementos do catolicismo, das crenças trazidas da África, 
do espiritismo, assim como alguns elementos de inspiração divina. É devido a 
essa junção de crenças que o sociólogo Reginaldo Prandi considera a Umbanda 
“a religião brasileira por excelência”. Não porque possui o maior número de 
fiéis, mas sim por congregar em si os elementos das religiões mais praticadas 
em nosso país (PRANDI, 2004, p. 223). Além disso a Umbanda foi criada não 
somente para os grupos negros, mas como uma religião universal, feita para 
todos (PRANDI, 1996, p. 66). 
Apesar de todas essas influências externas, Magnani (1986, p. 13) explica 
que a “Umbanda não pode ser considerada uma degeneração dos cultos africa-
nos antigos”, ou ainda do espiritismo kardecista. Na verdade, ela é fruto de um 
processo de transformação e “reelaboração” a partir de um contexto histórico. 
RELIGIÕES INDÍGENAS, AFRO-BRASILEIRAS E O ESPIRITISMO
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Para Reginaldo Prandi (1998), a história das religiões afro-brasileiras podem 
ser classificadas em três fases distintas: 
[...] primeiro, o da sincretização com o catolicismo, durante a formação 
das modalidades tradicionais conhecidas como candomblé [...] segun-
do, o do branqueamento, na formação da umbanda nos anos 20 e 30; 
terceiro, da africanização, na transformação do candomblé em religião 
universal, aberta a todos, sem barreiras de cor ou origem racial, afri-
canização que implica negação do sincretismo, a partir dos anos 60 
(PRANDI, 1998, p. 151-152). 
Explicado esse processo sincrético de formação das religiões afro-brasileiras, 
apresentaremos agora, algumas das características dessas religiões, iniciamos 
pelo Candomblé.
CANDOMBLÉ
A primeira coisa que gostaríamos de fazer é acabar com a errônea ideia de que o 
Candomblé é politeísta, na verdade, é uma religião monoteísta. A princípio essa 
informação pode ser surpreendente se você desconhece essa religião. Contudo, de 
acordo com Carneiro (1978), os nagôs (iorubás) que deram origem ao Candomblé 
no Brasil, admitiam a existência de um senhor criador de tudo, Ôlôrún, para as afri-
canos de língua banto ele se chamaria Zâmbi ou Zâmbiampungo (Zania-Pombo). 
Teria criado o céu e a terra, mas após a criação teria se retirado e não interviu mais 
em nada. Lembramos, que esse deus único não atua na vida cotidiana dos crentes, 
por isso é pouco reverenciado. O filho desse deus é Ôxalá, que teria sido responsável 
pela criação da humanidade. De acordo com o autor, todas as outras divindades estão 
em uma posição hierárquica inferior e seriam agentes do deus supremo, esses são 
chamados de orixás (língua nagô) ou vôdúns (jêjes) (CARNEIRO, 1978, p. 22-24). 
Caro(a) aluno(a), você sabia que tanto o Candomblé quanto a Umbanda são 
religiões monoteístas?
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Você deve estar se perguntando que tipo de divindades são os orixás. Os ori-
xás seriam “forças elementares da natureza” (CARNEIRO, 1978, p. 65), e segundo 
Wilges (1994, p. 123) ”são mensageiros de deus encarregados por Ele de gover-
nar o mundo e de intervir a favor dos homens e puni-los quando necessário”. 
Um elemento interessante no Candomblé é a ausência de bem e mal. Segundo 
Reginaldo Prandi (1996, p. 79), “nenhum orixá é nem inteiramente bom, nem 
inteiramente mal. Noções ocidentais de bem e mal estão ausentes da religião 
dos orixás no Brasil”.
Em outro artigo de sua autoria, o autor complementa explicando a diferença 
do bem e do mal no Candomblé para a Umbanda: 
[...] para o Candomblé, que está mais perto do pensamento africano que 
a Umbanda, o bem e o mal não se separam, não são campos distintos. A 
umbanda, porém, quando se formou, se imaginou também como reli-
gião ética, capaz de fazer a distinção entre o bem e o mal, à moda ociden-
tal, cristã. Mas acabou criando para si uma armadilha. Separou o campo 
do bem do campo do mal. Povoou o primeiro com seus guias de carida-
de, os caboclos, pretos-velhos e outros espíritos bons, à moda kardecista. 
Para controlar o segundo, arregimentou um panteão de exus-espíritos 
e pombagiras, entidades que não se acanham em trabalhar para o mal 
quando o mal é considerado necessário (PRANDI, 2004, p. 228). 
Dessa forma, no Candomblé, os orixás não são bons nem maus, exigem apenas 
a obediência. De acordo com Wilges (1994), obediência levaria a produzir pro-
teção dos orixás, enquanto a desobediência leva a castigos. Para finalizar essa 
questão de bem e mal no Candomblé, gostaríamos de desmistificar outro erroexistente acerca dessa religião: a idéia de que Exu (Êlêgbára) é um orixá do mal. 
Essa frase apresenta dois erros. Primeiro, Exu não é um orixá, mas sim um mensa-
geiro deles, é um intermediário entre os homens e os orixás. Sendo o mensageiro 
dos homens, é necessário despachar Exu, pois assim, será possível realizar os seus 
desejos, ele fará o que se pede desde que lhe dê as coisas das quais gosta, como 
azeite de dendê, bode, água, cachaça ou fumo. Assim como os Orixás, o Exu, não 
é mau por essência, tudo depende daquele que pede por sua ajuda, sendo assim, 
o mensageiro para interceder junto aos orixás tanto para a realização do bem, 
quanto do mal (CARNEIRO, 1978, p. 68-69). De acordo com o mesmo autor, 
existem outras características do Candomblé que devem ser citadas: a) possessão 
pela divindade; b) o caráter pessoal da divindade; c) o oráculo e o mensageiro.
RELIGIÕES INDÍGENAS, AFRO-BRASILEIRAS E O ESPIRITISMO
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UMBANDA
Caro(a) aluno(a), desmistificados alguns elementos do Candomblé, iniciemos 
agora a apresentação das características acerca da Umbanda. Acredito que não 
há forma melhor de abordá-la do que a partir do conhecimento de quem a vive. 
Por isso, apresento aqui as palavras da Dirigente do Centro Espiritualista Caboclo 
Pery - Templo de Umbanda - Iassan Ayporê Pery: 
A Umbanda é um sistema religioso fundamentalmente naturista, isto é, 
se manifesta através das forças da natureza, assim como com espíritos 
contemporâneos, ou não, pesando expressivamente em seu exercício 
as vibrações das Almas. A Umbanda possui muitas co-irmãs e as pes-
soas muitas vezes confundem-na com outras religiões que possuem 
nomenclaturas semelhantes às utilizadas na Umbanda, no entanto, a 
semelhança é meramente aparente e termina aí. O fato da Umbanda ter 
como uma de suas raízes a forte influência africanista e cultuar Orixás, 
gera muita confusão e sobressai a necessidade de apontar limites bem 
claros (PERY, 2011, p. 13).
Para facilitar o entendimento, ela aponta cinco elementos importantes acerca da 
Umbanda, para acabar com preconceitos existentes contra a religião:
1. Trabalhamos exclusivamente visando o bem, a caridade e a evolução 
espiritual de todos. 2. Não temos “feituras de cabeça”, boris, raspagens, 
camarinhas, roncós, corpo fechado, ebós, orunkô, feitura de santo, bas-
cos, firmo de nação, etc.3. As sessões obedecem a horários pré-estabe-
lecidos. Não vemos nenhum sentido em sessões madrugadas adentro. 
Por que não? Simplesmente por ser contraproducente, ninguém con-
segue manter a “gira firmada” por tanto tempo, as pessoas trabalham, 
ficam cansadas, e a falta de concentração, ou nível energético dos mé-
diuns tende a cair drasticamente após 3 horas consecutivas de culto. 
Além do mais a própria assistência começa a ficar desacomodada, 
desconfortável, gerando vibrações de impaciência e falta de interesse. 
Tudo isso gera um desacordo energético que acaba por influenciar o 
bom andamento da gira. É claro que estamos nos referindo às giras 
ordinárias e não às festivas. 4. O abate de animais (sacrifício) não faz 
parte, em nenhum momento, de qualquer rito da Umbanda (aberto 
ou fechado). 5. No que diz respeito a oferendas aos Orixás, guias, ou 
entidades menores, ressalto que sou contra o uso excessivo desse recur-
so como elemento de religação. A oferenda tem sua função específica 
e determinada. A banalização da mesma influencia negativamente no 
desenvolvimento do médium e na evolução do espírito (guia ou prote-
tor) que a está recebendo (PERY, 2011, p. 13-14).
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De acordo com Magnani (1986), 
alguns elementos são importantes 
para compreendermos a Umbanda 
e a diferenciá-la das religiões que 
deram sua origem, o Candomblé, o 
cristianismo e o kardecismo. Uma 
característica que a diferencia é a 
Possessão, de acordo com o autor 
esse elemento possui um lugar de 
destaque nos ritos, pois é a comu-
nicação entre os homens aqui na 
terra e o mundo sobrenatural. 
Nessas possessões gostaríamos 
de especificar uma característica. 
Para o candomblé as entidades, os 
orixás, não são considerados “espí-
ritos mortos”, mas sim heróis com 
um certo grau de divindade, e representam: “a força da natureza [...], atividades 
humanas [...], virtudes ou paixões” (MAGNANI, 1986, p. 30). Por sua vez, para 
a Umbanda: “as entidades são espíritos de mortos que descem do astral onde 
habitam para o planeta Terra onde, através da ajuda dos mortais, ascendem em 
seu processo evolutivo em busca da perfeição” (MAGNANI, 1986, p. 30). No 
entanto, para a dirigente de terreiro Iassan Ayporê Pery (2011, p. 21) os Orixás
[...] não são divindades ou semideuses, mas sim complexos vibrató-
rios e energéticos, criados e emanados do Astral Superior, traduzidos 
aqui na Terra, como energias que emanam da natureza, as quais mani-
pulamos para nosso próprio equilíbrio, buscando evolução espiritual 
através da caridade direta. Por isso, na Umbanda não se incorpora os 
Orixás, mas sim seus enviados ou representantes (alguns chamados de 
falangeiros). 
É válido lembrar que, assim como o Candomblé, a Umbanda também é monoteísta.
Caro(a) acadêmico(a), acredito que ao longo desta unidade você tenha 
aprendido uma série de elementos novos e eliminado as ideias erradas sobre 
essa religiões. 
RELIGIÕES INDÍGENAS, AFRO-BRASILEIRAS E O ESPIRITISMO
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QUIMBANDA
Para encerrar esse tópico de religiões afro brasileiras, gostaria de falar sobre a quim-
banda. De acordo com Reginaldo Prandi (2001), a Umbanda afirma que trabalha 
exclusivamente visando o bem. Entretanto, desde seu início nas cidades brasilei-
ras, junto a Umbanda surgiu um movimento paralelo, no qual as práticas mágicas 
religiosas não sofrem limitações morais ou éticas, como ocorre na Umbanda. Esse 
território paralelo se chama quimbanda. De acordo com o autor na quimbanda:
[...] todos os pedidos, vontades e demandas de devotos e clientes po-
dem ser atendidos, sem exceção, conforme o ideal da magia. Inclusive 
aqueles ligados a aspectos mais rejeitados da moralidade social, como a 
transgressão sexual, o banditismo, a vingança, e diversificada gama de 
comportamentos ilícitos ou socialmente indesejáveis. Se é para o bem 
do cliente, não há limite, e a relação que se restabelece é entre o cliente 
e a entidade que o beneficia, num pacto que exclui pretensos interesses 
do grupo e da sociedade, modelo que se baseia nas antigas relações 
entre devoto e orixá, sem contar contudo, agora, com os outros meca-
nismos sociais de controle da moralidade que existiam na sociedade 
tradicional africana.
[...] para demarcar fronteiras que a ela interessava defender para 
manter sua imagem de religião do bem, passou a ser o domínio de 
Exu, agora sim definitivamente transfigurado no diabo, aquele que 
tudo pode, inclusive fazer o mal. [...] a quimbanda funciona como 
uma espécie de negação ética da umbanda, ambas resultantes de 
um mesmo processo histórico de cristianização da religião africana. 
Como quem esconde o diabo, a umbanda escondeu Exu na quim- 
banda,pelo menos durante seu primeiro meio século de existência, 
para assim, longe da curiosidade pública, poder com ele livremente 
operar (PRANDI, 2001, p. 53).
A quimbanda seria, então, uma ramificação da Umbanda que trabalharia sem 
moral alguma, utilizando-se do sistema mágico para obter qualquer favor, inclu-
sive aqueles considerados maus pela sociedade. Por isso, “não há limites para os 
guias da quimbanda, tudo lhes é possível” (PRANDI, 2001, p. 54). 
Agora que trabalhamos algumas das principais religiões brasileiras indíge-
nas e afrodescendentes, apresentaremos de forma, ainda que sucinta,o que é 
o espiritismo moderno, suas principais características e como se desenvolveu 
historicamente.
Os Espíritos do Espiritismo e o Nascimento da “Religião da Razão”
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OS ESPÍRITOS DO ESPIRITISMO E O NASCIMENTO 
DA “RELIGIÃO DA RAZÃO”
Por que espiritismo moderno e não simplesmente espiritismo? Na verdade, vários 
podem alegar que desde as primeiras páginas do livro sagrado dos judeus e cris-
tãos, há vestígios do espiritismo, baseado, dentre outras crenças, no contato dos 
mortos com os vivos.
Ora, quando Moisés, diante do Faraó, deu várias provas do poder de Deus, 
os sacerdotes egípcios fizeram a mesma coisa, invocando outros deuses. Alguns 
leem dessa forma, outros simplesmente não veem assim. O que mostro aqui são 
possíveis elementos para uma contextualização maior e, talvez, mais densa. Há 
ainda outra passagem bíblica, no Antigo Testamento, precisamente no livro de 
1 Samuel, capítulo 28 que, de forma muito específica, fala acerca do espiritismo. 
Conto rapidamente essas histórias para logo a seguir discorrer sobre o nasci-
mento moderno do espiritismo, nos Estados Unidos no século XIX.
Segundo a história, Israel tinha um rei, o seu primeiro, chamado Saul. Mas 
havia um problema com ele, Saul tinha se afastado de Deus e ele não o ouvia sob 
nenhuma hipótese. Então Saul orava e não recebia ou percebia nenhuma resposta. 
Saul consultou seus profetas e coisa alguma se mostrava. Então ele lembrou que 
havia uma médium em uma cidade próxima dos seus domínios, En-Dor era o 
nome da cidade. Contudo, havia mais um problema para Saul, ele mesmo havia 
mandado matar todas as médiuns, porque ele entendia que elas representavam 
o contrário do que Deus queria para o seu povo, mas ele estava desesperado e 
contra a sua própria consciência quis ver essa mulher (1 Samuel, 28: 7). 
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Em uma noite qualquer, juntamente com alguns guardas, foi Saul até ela. A 
médium, que estava morrendo de medo de perder a sua vida o recebeu. Entretanto, 
até aquele momento não havia o reconhecido. Assim que a mulher percebeu quem 
era o “visitante”, foi totalmente tomada de terror, entrou em pânico, porém este 
lhe confortou dizendo que nada lhe aconteceria. Essa médium tinha o poder de 
falar com aqueles que professamente estavam mortos. Saul pediu para que ela 
invocasse Samuel. Samuel era um grande profeta, um dos maiores até hoje para 
o povo judeu e havia recém falecido. 
Na verdade, o povo pediu a Samuel que ele ungisse um rei. Nesse contexto, 
Saul foi ungido rei de Israel. Você sabe o que aconteceu? Samuel apareceu diante 
deles e Saul caiu por terra, como que adorando-o. Samuel perguntou o que ele 
queria e, cheio de medo, o rei respondeu: Deus simplesmente não fala mais 
comigo e meus inimigos, os filisteus, estão para atacar meu povo com um gran-
dioso exército. Então, o falecido profeta, ali invocado pela profetisa de En-Dor, 
disse que iria morrer na batalha, bem como os seus filhos (1 Samuel, 28:15-19). 
Isso acontece, quando emboscado, Saul se suicida.
No entanto, há uma pergunta interessante sobre a profetisa: o que ela faz na 
Bíblia, visto que o livro sagrado, em muitos momentos, se coloca frontalmente 
contra? É certo que muitos espíritas vão se opor e dizer que há vários trechos 
bíblicos que dizem que o Livro diz respeito às manifestações espíritas de modo 
muito positivo. O que é certo é que vários cristãos se colocam contra, muitos 
sequer sabem se posicionar e outros são a favor. Alguns dizem, inclusive, que o 
espiritismo lida com demônios.
O que precisa ficar bem claro aqui, acadêmico(a), é que o espiritismo não 
é o cristianismo, embora muitos espíritas se considerem cristãos, mas quando 
eu escrevo que os espíritas não são cristãos, eu não estou dizendo que eles estão 
abaixo ou acima dos cristãos. 
Assim, clarificando, posso dizer sem problemas que os espíritas, embora 
“bebam” do cristianismo, não são cristãos pura e simplesmente porque não 
creem na Bíblia inteira e não creem na Bíblia como sendo a Palavra de Deus. 
Os cristãos leem a Bíblia das mais diferentes maneiras, mas geralmente a acei-
tam em sua integridade e como a Palavra de Deus. Os espíritas fazem certas 
seleções e explicam de forma diferente várias partes, normalmente aceitas 
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sem muito embargo por quase toda a sorte de cristãos. Não foi à toa que Allan 
Kardec escreveu um livro chamado “O Evangelho segundo o Espiritismo”. Ele 
tomou vários trechos da Bíblia e a explicou à luz da ciência, ou seja, a ciência 
do século XIX e que ainda “bebemos” hoje. Rejeitou a criação em seis dias lite-
rais e o descanso de Deus no sétimo dia, ao afirmar sob o Evolucionismo que 
as coisas simplesmente não foram assim. Com relação ao dilúvio, ele não cria 
em uma enchente universal que acabou com a Terra pecaminosa, tal como ela 
estava naquele contexto. Evocou uma grande enchente que não atingiu a tudo 
nem a todos, e por aí vai.
É importante que saibamos que o espiritismo tem outras fontes que remon-
tam aos gregos. São platônicos e, por isso, acreditam na reencarnação e na 
imortalidade da alma. Muitos cristãos também creem nisso porque aceitam que 
a Bíblia não seja a única fonte de autoridade. Os espíritas dão certo equilíbrio 
entre a fé e a razão. 
Como surgiu o espiritismo moderno? Acho que chegou a hora de falarmos 
historicamente sobre ele. Oficialmente, uma das primeiras manifestações espí-
ritas modernas dá-se na vila de Hydesville, uma pequena cidade no estado de 
Nova Iorque, perto da cidade de Rochester, em uma humilde casa de madeira 
habitada por família de sobrenome Fox, nada incomum nos Estados Unidos. 
Contudo, esses mesmos Fox já haviam sido apóstolos Quakers e, assim sendo, 
haviam frequentado os cultos de puritanos pioneiros nos Estados Unidos. 
É com as três filhas do casal, Margaret, Katherine e Leah (estava estudando 
música em Rochester, portanto, é apenas personagem secundária), que se dá 
o estranho fenômeno.
Certa noite, as irmãs passaram a ouvir estranhos sons produzidos na parede 
da velha casa de madeira. No início, aparentemente, não se intrigaram muito 
com o barulho, elas sabiam que velhas casas de madeira costumam ranger. 
Com o passar dos dias e o não cessar dos barulhos, mesmo sem qualquer tipo 
de vento ou outro tipo de atividade que pudesse provocá-los, as irmãs, dando 
mais atenção ao fenômeno que se começava a arvorar estranho, perceberam 
ser este de caráter sobrenatural. Mesmo com o comunicado delas aos pais e a 
tranquilizadora confirmação de que os sons obviamente se deviam ao estado da 
casa, elas continuaram a dar particular atenção ao som, chegando à conclusão 
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que as misteriosas batidas só poderiam ser brincadeira de mau gosto ou algo 
oriundo do além. Certificando-se de que ninguém de estranho circundava a 
casa e, assim mesmo, as batidas não cessavam, as irmãs, agora prestando aten-
ção à dinâmica dos sons, perceberam que elas significavam alguma forma de 
contato. Depois de acurada investigação infantil, perceberam sequências repe-
tidas de batidas que eram sistematicamente respondidas quando as meninas 
batiam com suas mãos na parede. Dessa forma, ainda que precariamente, foi 
estabelecida a primeira comunicação moderna dos vivos com os mortos.
Para configurar um toque de terror à história, conta-se que naquela casa, 
um tempo atrás, vivia certo viajor, que estranhamente desapareceu.Após várias 
semanas de intensas comunicações com a invisível mão, a qual proporcionava 
as batidas, as jovens concluíram resolutamente, pela sequência de toques - um 
toque seria equivalente à letra “a”; dois, “b”; e assim por diante - que o viajor 
encontrava-se enterrado no porão da casa. Investigaram as duas a tal ponto que 
apresentaram o nome do infeliz assassinado, bem como detalhes de sua vida que, 
sozinhas, não poderiam saber, como se dá nas sessões espíritas atuais.
Depois de várias tentativas de escavação, finalmente a ossada determi-
nada pelas irmãs foi encontrada no local indicado por elas. A partir de então, o 
Espiritismo foi tomando grandes proporções, deixando de ser apenas um fenô-
meno curioso proporcionado pelas chamadas “mesas girantes”, para se tornar 
uma religião ou estilo de vida de alcance mundial, cativando pessoas de todas 
as classes sociais.
Nos Estados Unidos há um museu onde é possível conhecer materialmente 
a história das irmãs Fox e mesmo ver os ossos do falecido que desenterra-
ram da casa delas.
Fonte: o autor.
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Hodiernamente, tanto a casa das irmãs Fox quanto o esqueleto, podem ser encon-
trados no museu onde há um obelisco erigido pelos “espiritualistas do mundo”. 
Confirma essa história Arthur Conan Doyle, o famoso criador de Sherlock Holmes e 
escritor de uma excelente obra sobre o Espiritismo em dois volumes, ao afirmar que:
[...] foi descoberta uma caixa de lata de mascate, bem como os ossos, 
e esta caixa é agora preservada em Lilydale, o ‘quartel-general dos es-
píritas’, para onde também a velha casa de Hydesville foi transportada 
(DOYLE, 1926, p. 70).
A partir de então houve um rápido crescimento do espiritismo nos Estados 
Unidos, a partir de Rochester. Esse fenômeno certamente mexeu com os brios de 
muitos ministros evangélicos e, mesmo na casa de alguns deles, se deram alguns 
dos fenômenos espíritas, conforme nos conta Doyle:
O resultado foi que os médiuns foram ouvidos em números cada vez 
maiores. Em abril de 1849, manifestações ocorreram na família do Rev. 
A. H. Jervis, ministro metodista de Rochester, na casa do Sr. Lyman 
Granger, também de Rochester, e na casa do Diácono Hale, na cidade 
vizinha de Grécia. Assim, também, seis famílias na cidade vizinha de 
Auburn começaram a desenvolver a mediunidade. Em nenhum destes 
casos as meninas Fox tinham qualquer ligação com o que ocorreu. En-
tão, esses líderes simplesmente abriram o caminho ao longo do qual os 
outros se seguiram (DOYLE, 1926, p. 124).
As próprias irmãs Fox, conforme o livro dos primeiros anos do século XX, foram 
grandes entusiastas do espiritismo, levando a nova crença aos maiores auditó-
rios dos Estados Unidos durante as duas décadas seguintes aos fenômenos em 
sua casa. Os eventos, grandemente alardeados e fartamente publicizados, atra-
íam grande público e algumas críticas. De acordo com Podmore (1904, p. 183), 
os primeiros anos das irmãs Fox, após as manifestações, foram muito agitados:
A família Fox e suas três filhas praticaram sem parcimônia seus dons 
espirituais. Ao longo dos anos 1849 e 1850, eles parecem ter dado de-
monstrações de seu poder em várias cidades grandes ante públicos 
consideráveis. Suas reivindicações de poder sobrenatural, é claro, não 
escapavam de desafios. Uma e outra vez comitês foram designados para 
examinar o assunto e tecer relatórios. 
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Falemos agora sobre o codificador do espiritismo, Leão Hipólito Denizard Rivail 
(1804-1869), mais conhecido pelo seu pseudônimo de Allan Kardec. Criador do 
kardecismo, o segmento que estuda sistematicamente as obras de Allan Kardec 
(XAVIER, 1993, p. 123). 
O espiritismo é um sistema filosófico religioso que baseia-se
1) na possibilidade de evocar espíritos; 2) na honestidade dos médiuns, 
de que eles de fatos nos transmitem as revelações do espírito e não seus 
próprios conhecimentos; 3) que as revelações transmitidas provêm só 
dos espíritos bons e não dos maus; 4) que o codificador é honesto e leal 
(WILGES, 1994, p. 116). 
É uma doutrina que não possui um sistema litúrgico, santos e dogmas, também 
não reconhece a existência de um Deus uno e trino, mas somente um Deus único. 
De acordo com Wilges (1994, p. 117), esses são os princípios fundamentais do 
espiritismo: “1) Deus; 2) evolução; 3) reencarnação; 4) sobrevivência da alma; 
5) comunicação entre os dois mundos (físico e espiritual); 6) lei de causa efeito; 
7) pluralidade dos mundos habitados”.
A história do moderno espiritismo, certamente possui outras nuances determi-
nantes, mas que não serão abordadas por questões de espaço. Você entendeu que 
quando falamos sobre a religião da razão, não pretendemos menosprezar nenhuma 
outra, mas simplesmente afirmar que o espiritismo se vale muito das ciências 
para fundamentar a fé? Deixando de lado esses embates e discussões, gostaría-
mos de terminar com palavras do próprio Kardec acerca do que é o espiritismo: 
Allan Kardec, antes de adotar este pseudônimo e escrever acerca do espiritis-
mo, já era considerado um grande pedagogo. Naquela época, um pedagogo, 
geralmente, era um homem conhecedor profundo de história e línguas em 
uma formação de vários anos. Será que essa imagem se parece com a maioria 
dos pedagogos formados hoje? Por que será que, de forma geral, ao menos 
no Brasil, as licenciaturas são tão pouco prestigiadas? Pense nisso!
Fonte: o autor.
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Ante a incerteza das revelações feitas pelos Espíritos, perguntarão: 
para que serve, então, o estudo do Espiritismo? Para provar material-
mente a existência do mundo espiritual. Sendo o mundo espiritual 
formado pelas almas daqueles que viveram, resulta de sua admissão à 
prova da existência da alma e sua sobrevivência ao corpo (KARDEC, 
2006, p. 206).
Provar materialmente! Está vendo por que utilizar o termo “religião da razão” 
no título não foi pejorativo? Entendeu um pouco melhor o porquê da briga entre 
adventistas, por exemplo, e espíritas? Os adventistas dizem que nós não temos 
uma alma, pois somos um, visto que ela é mortal, já que é composta por corpo 
e espírito; enquanto os espíritas dizem que a alma sobrevive ao corpo, o que é 
basicamente o contrário. Kardec (2005, p. 16) nos diz mais:
Ora, com o Espiritismo todas as filosofias materialistas ou panteístas 
caem por si mesmas; não é mais possível a dúvida no tocante à Divin-
dade, à existência da alma, sua individualidade, sua imortalidade. Seu 
futuro se nos apresenta como a luz do dia, e sabemos que esse futuro, 
que sempre deixa uma porta aberta à esperança, depende da nossa von-
tade e dos esforços que fazemos na direção do bem. 
A citação anterior retrata o otimismo com que se encarava os dias daquele século. 
Não haveria espaço para nenhuma dúvida. Tudo caminha inexoravelmente em 
direção ao bem. Esse otimismo pode ser encontrado nas mais diversas áreas do 
conhecimento, especialmente nas ciências, florescendo como nunca. Finalmente:
com a Doutrina Espírita tudo está definido, tudo está claro, tudo fala à 
razão; numa palavra, tudo se explica, e os que se aprofundaram em sua 
essência encontram nela uma satisfação interior, à qual não desejam 
renunciar (KARDEC, 2005, p. 17).
A Doutrina Espírita alia os mundos físico e espiritual em uma série de preceitos 
racionais, pondo fim às chamadas mitologias. Assim, cai por terra as chamadas 
“fantasias”, porque é importante sempre voltarmos à razão. A “briga” pode ir 
bem longe, mas quanto mais longe for, mais deliciosaficará. 
Acerca de sua presença no Brasil, acredita-se que em 1845 foi quando apa-
receu suas primeiras manifestações na Bahia, núcleo pioneiro. Se concretizou de 
forma oficial em nosso país a partir de 1884, com a criação da Federação Espírita 
Brasileira na cidade do Rio de Janeiro. 
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Caro(a) aluno(a), para encerrarmos essa unidade gostaria de apresentar-lhes 
uma tabela do último censo do IBGE, que demonstra o percentual da popula-
ção residente de cada região e suas religiões mais praticadas. 
Tabela 1 - População brasileira e suas religiões de acordo com cada região
GRUPOS DE RELIGIÃO
DISTRIBUIÇÃO PERCENTUAL DA POPULAÇÃO RESIDENTE (%)
BRASIL
GRANDES REGIÕES
Norte Nordeste Sudeste Sul Centro--Oeste
2010 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00
Católica Apostólica 
Romana 64,6 60,6 72,2 59,5 70,1 59,6
Evangélica 22,2 28,5 16,4 24,6 20,2 26,8
Evangélica da missão 4,0 4,8 3,4 3,9 5,0 4,1
Evangélicas de 
origem pentecostal 13,3 20,1 10,1 14,3 10,9 16,6
Evangélica 
não determinada 4,8 3,6 2,9 6,3 4,3 6,1
Espírita 2,0 0,5 0,8 3,1 2,0 2,3
Umbanda e 
Candomblé 0,3 0,1 0,2 0,4 0,6 0,1
Sem religião 8,0 7,7 8,3 9,0 4,8 8,4
Outras 
religiosidades 2,7 2,5 2,0 3,4 2,2 2,7
Não sabe / 
não declarou 0,1 0,1 0,1 0,1 0,1 0,1
Fonte: adaptado de IBGE (2010).
Com essa tabela encerramos o conteúdo dessa unidade. Nosso principal obje-
tivo foi demonstrar a riqueza das religiões e religiosidades que formaram o nosso 
Brasil e que estão presentes até os dias de hoje, tornando nossa sociedade extre-
mamente rica.
Considerações Finais
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a) acadêmico(a), chegamos ao fim de mais uma Unidade da disciplina. Nela 
pudemos aprender mais sobre algumas religiões brasileiras que, muitas vezes, 
são marginalizadas por nossa sociedade. Mais do que simplesmente aprender, 
tentamos elaborar um texto que mostrasse a importância e a riqueza de cada 
uma dessa religiões.
Ao estudarmos as tribos indígenas, percebemos que durante séculos sofre-
ram com a ideia de serem povos sem religião, acusação feita por ignorância e 
por comparações incorretas. As religiões indígenas possuem sua própria lógica, 
que não pode ser compreendida dentro dos parâmetros das tradições religiosas 
advindas da Europa e do Oriente Médio. Lembre-se, também, de nossa primeira 
unidade, na qual vimos que é errôneo classificar as religiões buscando superiori-
dade entre elas ou graus de evolução. O que os estudos históricos, antropológicos 
e sociológicos apontam é a existência de sistemas de crenças distintos, nem 
melhores nem piores, apenas diferentes, os quais devem ser respeitados dentro 
de suas especificidades.
O respeito também significa evitar os preconceitos, algo que no Brasil acon-
tece, principalmente voltado às religiões afro-brasileiras e espiritualistas. Tivemos 
a oportunidade de compreender melhor as religiões de matriz africanas presentes 
no Brasil, a forma como chegaram e se desenvolveram, bem como suas prin-
cipais características. Além disso, pudemos esclarecer algumas ideias errôneas 
acerca dessa religiões que, frequentemente, são divulgadas pela falta de infor-
mações corretas. 
Esperamos que esta unidade tenha contribuído para a sua formação enquanto 
um(a) professor(a) de História capaz de atuar efetivamente em sala de aula e pro-
duzir nos seus alunos o inquietamento necessário para o aprendizado.
190 
1. O excerto a seguir pertence a Carlos Rodrigues Brandão, analise-o com atenção:
“Gente sem fé”, teriam dito dos tupi-Guarani os primeiros missionários. “Teó-
logos da América do Sul”, escreve-se hoje, com alguma frequência, a respeito 
dos Guarani. 
De acordo com o excerto e os conhecimentos obtidos nesta unidade acerca 
das religiões indígenas, considere as afirmativas a seguir como Verdadeiras (V) 
ou Falsas (F).
( ) Os indígenas nos primeiros séculos da história do Brasil foram considera-
dos, pelos jesuítas, como povos sem religião.
( ) Os indígenas foram considerados “gente sem fé” devido a real ausência 
de uma espiritualidade em suas vidas.
( ) As religiões indígenas brasileiras xamanísticas, que possuem um xamã 
no Brasil, são equivalentes às religiões totêmicas apresentadas por Émile 
Durkheim.
( ) Na concepção de Gilberto Freyre os indígenas do Brasil não contribuíram 
para a formação da cultura brasileira, devido ao fato desses povos terem 
perdido sua essência religiosa frente a catequese cristã. 
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a) V, V, V, V.
b) V, F, V, V.
c) V, F, V, F.
d) V, F, F, F.
e) F, F, V, V.
191 
2. Durante muitos anos, devido à influência jesuíta, acreditou-se que Tupã seria 
uma divindade parecida com o Deus cristão. Isso ocorria, pois pouco se sabia 
acerca de sistemas religiosos e, durante muito tempo, acreditou-se que eram 
povos sem religião, devido à ausência de ritos, imagens e templos. Contudo, 
os estudos mais recentes dos antropólogos comprovam que essa divindade, 
Tupã, assemelha-se mais com um demônio do que com Deus, e que os indíge-
nas possuem seus próprios sistemas religiosos. Acerca desse tema complete a 
frase a seguir com a alternativa correta:
“Nas religiões indígenas e nos seus mitos cosmogônicos, não podemos procurar 
uma lógica, pois, _________________________________________”.
a) isso iria contra os princípios das religiões dominantes do país, causando o 
desrespeito a essas religiões. 
b) elas não possuem um sistema religioso organizado capaz de apontar ele-
mentos mitológicos de criação de seu povo. 
c) a catequização dos índios pelos jesuítas fez com que os registros cosmogô-
nicos indígenas não chegassem aos nossos dias atuais.
d) as tribos indígenas do Brasil desconheciam mitos cosmogônicos que expli-
quem a forma como sua sociedade foi criada, ou ainda, que forneçam mo-
delos de conduta, umas das principais características dos mitos. 
e) não se pode esperar uma estrutura religiosa que funcione dentro de uma 
lógica que pertence a outra categoria religiosa que é o cristianismo ou outra 
religião que veio da Europa ou do oriente. As diferenças entre as religiões 
devem ser respeitadas e entendidas como diferentes.
192 
3. Em seu texto “Brasil com Axé” Reginaldo Prandi (1994), autoridade nos estudos 
acerca das religiões afro-brasileiras, afirma que a religião brasileira por excelên-
cia seria a Umbanda. A esse respeito, analise as asserções a seguir:
A Umbanda é um sistema religiosos complexo e sincrético, devido a esses ele-
mentos é considerado a religião brasileira por excelência. 
PORQUE
A Umbanda foi a única religião capaz de absorver características de todos os 
principais sistemas religiosos que se encontram no Brasil, a saber as tradições 
indígenas, o cristianismo, elementos religiosos africanos e o espiritismo. 
Acerca dessas asserções, assinale a opção correta:
a) As duas asserções são proposições falsas.
b) As duas asserções são proposições verdadeiras, e a segunda não é uma jus-
tificativa correta da primeira.
c) A Primeira asserção é uma proposição falsa, e a segunda é uma proposição 
verdadeira.
d) As duas asserções são proposições verdadeiras, e a segunda é uma justifica-
tiva correta da primeira. 
e) As duas asserções são proposições verdadeiras, e a segunda não é uma jus-
tificativa correta da primeira.
193 
4. As religiões de origem africanas iniciaram sua propagação no Brasil a partir do 
século XIX na Bahia, mas se espalharam para todo o território brasileiro. Hoje 
encontra-se grandes centros dessas religiões, inclusive, em estados como o Rio 
Grande do Sul. Tais religiões mantiveram muitas de suas características raízes, 
porém, também sofreram processos sincréticos de transformações. Sobre as 
característicasdas religiões afro-brasileiras, analise as afirmativas a seguir:
I. São majoritariamente politeístas devido à presença dos Orixás e dos men-
sageiros. 
II. A Umbanda devido as suas raízes africanas não possui um sistema moral 
para definir o que é bom ou mau, ou seja, não possui limitações, sendo as-
sim, seus fiéis podem executar qualquer tipo de pedidos.
III. O Candomblé, ao contrário da Umbanda, possui limitações morais e éticas, 
devido ao seu sincretismo intenso com o cristianismo.
IV. Tanto o Candomblé, quanto a Umbanda podem ser caracterizados como 
monoteístas.
É correto o que se afirma em:
a) I, apenas.
b) IV, apenas.
c) I e II, apenas.
d) II e III, apenas.
e) III e IV, apenas. 
194 
5. Na conclusão desta Unidade, analisamos o surgimento e o desenvolvimento 
do espiritismo moderno. Analisamos sua história, o codificador, principais ca-
racterísticas, bem como, a sua chegada ao Brasil. Acerca desses elementos do 
espiritismo analise as afirmações a seguir. 
I. O espiritismo é uma religião que recebeu influências do cristianismo, da filo-
sofia grega e do racionalismo do século XIX.
II. O espiritismo é um sistema filosófico religioso que possui como alguns de 
seus princípios a evocação de espíritos, a existência de Deus e a lei de causa 
efeito.
III. O espiritismo chegou ao Brasil no século XIX, inicialmente na Bahia. Se con-
cretizou no país com a fundação da Federação Espírita Brasileira na cidade 
do Rio de Janeiro em 1884. 
É correto o que se afirma em:
a) I, apenas.
b) II, apenas.
c) I e II, apenas.
d) II e III, apenas.
e) I, II e III. 
195 
Caro(a) aluno(a), para complementar os nossos estudos, apresento a vocês um excerto 
do artigo “História das Religiões: breve panorama histórico e situação atual no Brasil”, de 
Fernando Torres-Londoño. Nele, o autor explica a situação atual do estudo da História 
das Religiões no Brasil.
História das Religiões no Brasil
A História das Religiões como formulação e como prática se configura no Brasil no fi-
nalda década de 1990, recolhendo os diversos percursos que cientistas sociais e histo-
riadores tinham trilhado desde a primeira metade do século XX. A disciplina carrega, 
pois, uma marca interdisciplinar. O amplo repertório dos estudos que se acolhem sob tal 
denominação mostra a importância que o pensamento brasileiro vem dando ao com-
ponente religioso na formação histórica do país. Por sua vez, esse componente religioso 
é considerado em um leque amplo de religiões e de religiosidades que vão além do Ca-
tolicismo. Ainda, esta produção de conhecimento sobre as religiões e as religiosidades 
tem se desenvolvido como uma atividade ligada àprodução da pós-graduação brasileira 
[...]
Foi o médico baiano Nina Rodrigues, no início do século XX, que introduziu as primei-
ras análises sistemáticas sobre o Candomblé, começando de fato os estudos sobre as 
religiões no Brasil. Nina Rodrigues, ao considerar o “fetichismo africano dominante na 
Bahia”, aponta também para a profunda devoção que se tinha pelos santos católicos. 
Depois dele, com Artur Ramos, também médico e também do Nordeste, nas décadas 
de 1930 e 1940, começa a seconfigurar uma etnografia religiosa dos descendentes de 
africanos. Autores como Waldemar Valente começam a tratar do sincretismo religioso 
presente no Brasil, e, entre as décadas de 1940 e 1950, Roger Bastide começa a apontar 
para a existência de várias religiões afro-brasileiras, nas quais participações, analogias e 
correspondências se fazem presentes.
Em 1961, Cândido Procópio Ferreira publica Kardecismo e Umbanda: uma interpretação 
sociológica, em que analisa o “continuum religioso mediúnico” que iria do Espiritismo 
kardecista à Umbanda. Em 1973, aparece, também de autoria de Ferreira, Católicos, pro-
testantes e espíritas, no qual, como no livro anterior, o autor aponta para a expansão de 
outras presenças religiosas em “contraface do declínio” do Catolicismo. Na década de 
1970, o leque do estudo do religioso se amplia consideravelmente nas Ciências Sociais, 
renovando-se também as abordagens a respeito dos “movimentos messiânicos” ou da 
religiosidade popular [...]
Ainda na década de 1970 e em paralelo com as preocupações sociais que levaram os 
teólogos e agentes de pastoral a aderir à nascente Teologia da Libertação, surgiram pro-
jetos como oda Cehila (Comissão para o Estudo da História da Igreja na América Latina), 
fundada em 1973pelo filósofo e historiador argentino Enrique Dussel, que foi congre-
gando uma série de professores de História da Igreja que queriam ensinar uma história 
não eclesiástica, não apologética, com rigor documental e que apresentasse problemas 
e indagações segundo a perspectiva dos pobres. [...]
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Na década de 1980, com o restabelecimento da democracia e junto com ela da neces-
sidadede reinterpretar a história do país à luz do presente, dos desafios do futuro e das 
novas cha-ves interpretativas, há um estímulo que resulta no crescimento da Historio-
grafia brasileira e que encontra na afirmação dos programas de pós-graduação terra 
firme para sua expansãoe renovação. Os temas se ampliam além da história econômica 
e política. A História Social —influenciada pelas traduções da Historiografia inglesa de 
autores como Eduard P. Thomson (A formação da classe operária inglesa) e da Historio-
grafia francesa reunida em torno do projeto História (Novos problemas; Novas aborda-
gens; Novos objetos) coordenado por Jacques Le Goff e Pierre Nora — vê multiplicar seu 
objetos, entre os quais o religioso. Assim, jovens historiadores se aproximam de sociólo-
gos e antropólogos no seu interesse pelo estudo da religião segundo uma perspectiva 
histórica. [...]
No período de 1984 a 1994, segundo um levantamento feito por José Oscar Beozzo, 
apartir de uma publicação da Associação Nacional de Professores Universitários de His-
tória(Anpuh), 17 cursos de pós-graduação em história produziram 38 doutorados e 127 
mestrados cuja principal temática era o religioso. [...]
Na década de 1990, consolidaram-se as linhas de pesquisa que relacionavam história, 
religiões e religiosidades, criaram-se disciplinas acadêmicas e ofereceram-se semi-
nários sobre a História das Religiões na PUC-SP, na USP, na Unesp e na UFF. A configu-
ração de uma área, mesmo que informal e difusa, permite que em 1997 se inclua na 
obra Domínios da História (um dos compêndios mais editados no Brasil sobre teoria e 
metodologia da história) o artigo “Históriadas Religiões e das Religiosidades”, de autoria 
da Jacqueline Herman (doutora na UFF em 1990 com uma tese sobre Canudos), no qual 
se apresentava a origem da disciplina, suas escolas e se pontuava o que estava sendo 
feito no Brasil.
Outras evidências de que a História das Religiões é uma área em crescimento e afir-
mação dentro da Historiografia foi dada pela criação em 2003 do Grupo de Trabalho 
de História das Religiões e das Religiosidades da Associação Nacional dos Professores 
Universitários de História que se reúne desde 2005, e que até 2012 já realizou quatro 
encontros nacionais. O GT (Grupo de Trabalho) também fundou a Revista Brasileira de 
História das Religiões, com catorze números publicados até setembro de 2012. [...]
Em 1999, por iniciativa dos professores da linha de pesquisa “Religiões e Visões do Mun-
do” do programa de Pós-graduação em História da Unesp de Assis e de professores de 
programas de pós-graduação em Ciência da Religião, Psicologia, Filosofia e Ciências So-
ciais, surge a Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). Desde o início, a 
ABHR promoveu através de seus eventos anuais e outras iniciativas o estudo científico 
da religião, de forma multidisciplinar além das fronteiras epistemológicos das discipli-
nas e com uma preocupação de acompanhar a pesquisa das mudanças no campo reli-
gioso. [...]
Fonte: Torres-Londoño (2014, p. 131-136).
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
Casa-Grande & Senzala
Gilberto Freyre
Editora: Global
Sinopse: quando teve sua primeira edição publicada,

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