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CAPOEIRA PROFESSORES Me. Reginaldo Calado de Lima Quando identificar o ícone QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar Experience para ter acesso aos conteúdos online. O download do aplicativo está disponível nas plataformas: Acesse o seu livro também disponível na versão digital. Google Play App Store https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/420 2 CAPOEIRA NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jd. Aclimação Cep 87050-900 - Maringá - Paraná - Brasil www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; LIMA, Reginaldo Calado de. Capoeira. Reginaldo Calado de Lima Maringá - PR.:Unicesumar, 2019. 205 p. “Graduação em Educação Física - EaD”. 1. Capoeira . 2. Cantigas . 3. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-1836-3 CDD - 22ª Ed. 796.81 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha Catalográfica Elaborada pelo Bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Minco�, James Prestes, Tiago Stachon, Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho, Diretoria de Permanência Leonardo Spaine, Diretoria de Design Educacional Débora Leite, Head de Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza Filho, Head de Curadoria e Inovação Tania Cristiane Yoshie Fukushima, Gerência de Produção de Conteúdo Diogo Ribeiro Garcia, Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey, Gerência de Processos Acadêmicos Taessa Penha Shiraishi Vieira, Gerência de Curadoria Carolina Abdalla Normann de Freitas, Supervisão de Produção de Conteúdo Nádila Toledo. Coordenador(a) de Conteúdo Mara C R Lopes, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho, Editoração Humberto Garcia da Silva, Designer Educacional Ana Claudia Salvadego, Revisão Textual Ariane Andrade Fabreti, Ilustração Ilustrador, Fotos Shutterstock. Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo- nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educadores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a qualidade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Wilson Matos da Silva Reitor da Unicesumar boas-vindas Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Comunidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâmico, renovável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets aceleraram a informação e a produção do conhecimento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Então, priorizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Willian V. K. de Matos Silva Pró-Reitor da Unicesumar EaD Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. boas-vindas Débora do Nascimento Leite Diretoria de Design Educacional Janes Fidélis Tomelin Pró-Reitor de Ensino de EAD Kátia Solange Coelho Diretoria de Graduação e Pós-graduação Leonardo Spaine Diretoria de Permanência autor Professor Me. Reginaldo Calado de Lima Doutorando em Educação Física pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Física Associado UEM/UEL. Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Gradua- ção em Educação da Universidade Estadual de Maringá - PPE/UEM. Graduaçãoem Educação Física - Licenciatura/Bacharelado pelo Centro Universitário de Maringá - Unicesumar. Professor assistente do Departamento de Educação Física - DEF da Universidade Estadual de Maringá - UEM. Pesquisador integrante do Grupo de Pesquisa Corpo, Cultura e Ludicidade GPCCL/CNPQ. Desenvolve pesquisa acerca da relação entre capoeira e Educação Física, sobretudo no que tange o desenvolvimento e a abordagem desta manifestação cultural no contexto escolar. <http://lattes.cnpq.br/3396790957668600> apresentação do material CAPOEIRA Reginaldo Calado de Lima Olá, caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a)! Iniciaremos os nossos estudos acerca da capoeira, manifestação possuidora de uma racionalidade bastante distinta de outras práticas corporais. Neste sentido, este material que você tem em mãos não foi preparado com o intuito de lhe ensinar a jogar capoeira, ou seja, não temos a intenção de formar capoeiristas, mas sim, lhe apresentar a estrutura da capoeira por meio de seus elementos constitutivos. Desta forma, esperamos que você, prezado(a) aluno(a), uma vez formado(a), ao se deparar com a necessidade da abordagem da capoeira, seja na escola, durante as aulas de Educação Física, ou em outros espaços, sinta-se à vontade, mas, so- bretudo, sinta-se capacitado(a) para tal abordagem. Para que atinjamos os nossos objetivos, estruturamos este livro em cinco unidades. Na Unidade 1, discutiremos o desenvolvimento histórico da capoeira, refleti- remos acerca da percepção que temos dessa manifestação, analisaremos algumas teorias quanto às suas origens, transitaremos por períodos distintos, desde o que promoveu o processo de criminalização da capoeira até as iniciativas para a sua ascensão social. Nossa atenção, na Unidade 2, será direcionada às vertentes e aos estilos de capoeira, ou seja, as diferentes formas pelas quais essa prática corporal tem sido organizada e representada. Assim, conheceremos a capoeira Angola de mestre Pasti- nha e a capoeira Regional de mestre Bimba, dois estilos consolidados, mas também conheceremos o que se tem convencionado chamar de capoeira Contemporânea. O repertório gestual da capoeira será o nosso objeto de análise na Unidade 3, na qual conheceremos alguns dos gestos técnicos característicos da capoeira. Na Unidade 4, serão apresentados elementos referentes aos instrumentos, às cantigas e à roda de capoeira. Conheceremos os instrumentos presentes na capoeira, as suas funções e como são organizados. Quanto às cantigas, nos ocuparemos de conhecer os diferentes tipos e as suas respectivas estruturas. Na quinta e última unidade, apresentaremos algumas experiências quanto à possibilidade de abordagem prática e pedagógica dos elementos constitutivos da capoeira. Esperamos, com a elaboração deste material, que este venha a contribuir para que você, caro(a) aluno(a), aproprie-se de saberes básicos acerca dessa prática corporal, contribuindo, desta forma, com a sua formação profissional. Desejo-lhe, desde já, ótimos estudos! sumário UNIDADE I DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA CAPOEIRA 14 Luta, Jogo, Dança, Esporte... Afinal, o Que é a Capoeira? 20 As Origens da Capoeira 26 Capoeira, uma Atividade Criminosa 30 Ascensão Social da Capoeira 35 Considerações finais 40 Referências 42 Gabarito UNIDADE II VERTENTES E ESTILOS DE CAPOEIRA 48 A Capoeira Angola de Mestre Pastinha 52 A Capoeira Regional de Mestre Bimba 64 Capoeira Contemporânea: uma Tendência Atual 70 Considerações finais 75 Referências 76 Gabarito UNIDADE III OS GESTOS TÉCNICOS CARACTERÍSTICOS DA CAPOEIRA 82 Distribuição Didático-Pedagógica dos Gestos Técnicos 86 Ginga, o Gesto Fundamental 92 Gestos Técnicos Ofensivos, o Ataque do Capoeira 112 Gestos Técnicos Defensivos 122 Gestos Técnicos Acrobáticos, Desafiando os Limites do Corpo 133 Considerações finais 138 Referências 139 Gabarito UNIDADE IV OS INSTRUMENTOS, AS CANTIGAS E A RODA DE CAPOEIRA 144 Os Instrumentos Característicos da Capoeira 152 Bateria: o Conjunto de Instrumentos da Ca- poeira 156 As Cantigas de Capoeira e a sua Estrutura 162 A Roda, o Momento de Expressão da Capoeira 165 Considerações finais 171 Referências 173 Gabarito UNIDADE V ABORDAGEM PEDAGÓGICA DOS ELEMENTOS CONSTI- TUTIVOS DA CAPOEIRA 178 Fuga Para o Quilombo, uma Forma de Re- sistência 182 Pega e Salva o Capoeira 186 Berimbau de PVC: uma Alternativa à Falta de Instrumentos 194 Na Roda, o Jogo de Compra é “Nunca Três” 197 Considerações finais 203 Referências 203 Gabarito 204 CONCLUSÃO GERAL Professor Me. Reginaldo Calado de Lima Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Luta, jogo, dança, esporte... Afinal, o que é a capoeira? • As origens da capoeira • Capoeira, uma atividade criminosa • Ascensão social da capoeira Objetivos de Aprendizagem • Identificar os diferentes sentidos atribuídos à capoeira. • Apresentar as teorias que discutem a origem da capoeira. • Entender o processo de criminalização da capoeira. • Descrever o processo de reestruturação da capoeira. DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA CAPOEIRA unidade I INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a), seja bem-vindo (a)! Iniciamos as nossas discussões sobre a capoeira, valendo-nos de al- guns pontos de referência, na forma de questionamentos sobre esta prá- tica corporal. Para começar, você já se perguntou: o que é a capoeira? Por vezes, ela é representada como luta, em outros momentos, como dança, têm aqueles que a classificam como esporte e até como filosofia de vida. Você já refletiu como essa prática corporal surgiu? Ou ainda, se a capoeira que nós conhecemos, atualmente, sempre apresentou esta con- figuração? E por que algumas pessoas “torcem o nariz” quando falamos de capoeira? Estas questões nos auxiliarão a compreender, dentro de nossas limitações, obviamente, essa manifestação da cultura corporal que é a capoeira. Nesse sentido, organizamos a unidade em quatro tópicos. No primei- ro, abordaremos os diferentes sentidos e percepções existentes acerca da capoeira. No segundo tópico, já com alguma noção do que estamos tra- tando, enveredaremos pelas teorias que discutem as origens da capoeira. No terceiro tópico, atentar-nos-emos ao seu processo de criminalização, buscando entender o contexto em que tal prática foi considerada uma prática criminosa, a ponto de figurar no código penal brasileiro. No quar- to tópico, poderemos perceber como é complexa e cheia de contradições a dinâmica social, visto que, mesmo sendo considerada uma prática cri- minosa, havia aqueles que viam a capoeira uma prática virtuosa e que, com o passar do tempo, para atender aos anseios sociais, foi reestrutura- da aos moldes desportivos da época. Espero que as discussões vindouras lhe permita, como futuro(a) pro- fissional de Educação Física, de um ponto de vista específico, refletir so- bre como a história da capoeira pode ser abordada nos mais diferentes espaços e, de um ponto de vista mais amplo, refletir sobre o percurso his- tórico das mais diversas práticas corporais, reconhecendo-as, desta for- ma, como uma forma de conhecimento situado histórica e socialmente. 14 CAPOEIRA Caro(a) aluno(a), quando as práticas corporais são abordadas nas aulas de Educação Física em diferen- tes níveis escolares, via de regra, uma das primeiras estratégias adotadas pelo(a) professor(a) é a apre- sentação de uma definição clara e objetiva da prática em questão. Esta é uma estratégia compreensível a qualquer um de nós e, até desejada, afinal de contas, ao nos depararmos com determinado objeto, é im- portante sabermos do que se trata. Entretanto, você vai perceber que, no que se refere à capoeira, essa estratégia de definição não é uma tarefa das mais fá- ceis. Aliás, como muitos outros aspectos ligados à capoeira. Você já se perguntou em qual, ou mesmo, em quais categorias dos conteúdos da Educação Física escolar podemos enquadrar a capoeira? Ou seja, ela será abordada quando tratarmos, nas aulas de Educação Física,de esportes, quando tratarmos das ginásticas, das danças, dos jogos ou das lutas? A questão pode parecer insignificante à primeira vista, contudo, basta uma pequena dose de cautela e perce- beremos as possíveis implicações à nossa futura atu- ação profissional. O que queremos dizer de fato é que fará diferença se você, caro(a) aluno(a), ao abordar a capoeira no contexto escolar, conhecer os diferentes sentidos atribuídos a tal manifestação corporal. Luta, Jogo, Dança, Esporte... Afinal, o Que é a Capoeira? EDUCAÇÃO FÍSICA 15 É a partir destas reflexões que podemos nos per- guntar: mas, afinal, o que é a capoeira? Esta questão norteará as discussões empreendidas neste tópico. Perceba que ela não é uma exclusividade do contexto escolar, mas se apresenta também no contexto cultu- ral da própria capoeira. É bastante comum sermos questionados, enquanto praticantes de capoeira, se nós a dançamos, a lutamos ou a jogamos. Uma possibilidade para entendermos os senti- dos atribuídos à capoeira passa pelo esforço de ana- lisar o seu percurso histórico. Porém deixemos essa empreitada para um próximo tópico. Por agora, nos deteremos às impressões de autores do calibre de Luís da Câmara Cascudo que, ao estudar a capoeira por um viés folclórico, a definiu como um “jogo atlé- tico de origem negra, ou introduzido no Brasil pelos escravos bantos de Angola, defensivo e ofensivo, es- palhado pelo território [brasileiro] e tradicional no Recife, cidade de Salvador e Rio de Janeiro” (CAS- CUDO, 1959, p. 371). Do excerto apresentado, é possível extrairmos, além do sentido, elementos referentes à capoeira, tais como origem, características e locais de inci- dência, contudo, mantendo o nosso foco no senti- do, destacamos a ideia apresentada pelo autor, da capoeira ser um jogo atlético defensivo e ofensivo. Esta definição evoca, em certa medida, um senti- do esportivo, ao tratar a capoeira como jogo atléti- co, mas também com um caráter combativo, uma vez que a descrição apresenta a natureza defensiva e ofensiva. O caráter bélico da capoeira, ou seja, a sua representação como forma de luta, parece privi- legiado também em outras exposições que desta- cam a predominância do confronto, do combate corporal. É o que podemos verificar nos argumen- tos de Lamartine Pereira da Costa que, ao redigir uma espécie de manual didático com o sugestivo título “Capoeira sem Mestre”, define tal manifes- tação como uma “luta em que os executantes se valem dos pés, das mãos e da cabeça para bater nos adversários ou derrubá-los [...] É uma luta es- sencialmente agressiva: o capoeira se defende ata- cando” (COSTA, s. d., p. 17). Nunca é demais termos em mente em que am- biente e, principalmente, em que momento esta- mos pensando sobre a capoeira. Estamos agora imersos em um processo de formação profissional, o qual, em tese, permitir-nos-á agir com expertise sobre determinadas realidades por meio de deter- minados conteúdos. Diante de tal assertiva, é im- perativo que reflitamos acerca das possibilidades de abordagem de tais conteúdos e, em nosso caso específico, estamos refletindo sobre uma manifes- tação corporal que, aparentemente, ao ser definida como luta, apresenta uma característica agressiva. Quais são as implicações que isto demanda para o ambiente escolar? Ao abordarmos uma prática corporal com as características da capoeira, estaremos ali- mentando a agressividade entre os alunos? Será que o nosso trabalho desencadeará uma onda violência na escola? REFLITA 16 CAPOEIRA Estudos como o de Oliveira e Santos (2006) nos aju- dam a refletir acerca dessa temática ao destacarem a existência de um discurso no imaginário popular que gera, por sua vez, certa resistência e mesmo re- jeição no trato com as lutas de forma geral, no con- texto escolar. Para os autores, é bastante comum que, “quando pensamos na palavra luta, primeira- mente, associamos a contato corporal, chutes, socos, quedas, disputa e atitudes agressivas” (OLIVEIRA; SANTOS, 2006, p. 5). Invariavelmente, estes aspec- tos nos levam a uma associação entre a deflagração de golpes e o inevitável confronto corporal. Essas questões que, à primeira vista, mostram-se desencorajadoras para a abordagem da capoeira, ao menos por sua vertente bélica, são, na verdade, uma oportunidade para reflexão. Rufino e Darido (2015, p. 22), ao pensarem a relação entre o conteúdo “lu- tas” e a cultura corporal, defendem a necessidade da promoção de situações que permitam aos alunos “contato e vivências significativas com essas práticas e sobre o mundo em que vivem”. Retomemos o foco de nossa discussão, que é o sentido atribuído à capoeira. Até aqui, identificamos uma característica combativa que conferiu a ela ares de luta. De fato, Campos (2003), ao elaborar uma proposta de abordagem da prática na escola, o faz a partir de algumas concepções, dentre as quais, a “capoeira luta”. O autor argumenta em favor de tal concepção, entendendo-a como a forma que repre- senta a capoeira em sua origem. Neste sentido, ex- por a capoeira no contexto escolar como uma luta é garantir a sua representação original e, sobretudo garantir sua preservação “através dos tempos na sua forma natural como instrumento de defesa pessoal genuinamente brasileira” (CAMPOS, 2003, p. 23). Se por um lado, não é difícil reconhecer a capo- eira como uma luta, especialmente, quando conside- ramos o seu contexto de gênese, por outro, os demais argumentos abalam as nossas convicções. Barbieri (2003) afirma ser impossível estabelecer limites para as perspectivas da capoeira. Você notou o uso do plu- ral? Pois é! Para o autor, não é possível uma definição que supere a polissemia de sentidos da manifestação. Isso significa que a característica predominante da capoeira é a ambiguidade. Você lembra que Cas- cudo (1959), quando nos apresentou a capoeira, de- finiu-a como jogo atlético defensivo e ofensivo. Bas- tam esses termos para evidenciarmos os múltiplos sentidos dessa prática. A ideia de jogo nos remete à ludicidade, enquanto que o termo atlético nos lem- bra um caráter esportivo, já os termos defensivo e ofensivo denotam a noção de combate, de luta. Per- ceba que definir a capoeira não é uma tarefa tão sim- ples quanto parece. Há, no entanto, atualmente, certa aceitação no entendimento da capoeira como “uma manifestação cultural afro-brasileira que se expressa pela combina- ção de jogo, luta e dança praticada ao som de instru- mentos musicais” (FALCÃO, 2010, p. 56). A coexis- tência dos diferentes sentidos atribuídos à capoeira pode não fazer muito sentido, mas lembre-se que estamos falando de uma manifestação cuja origem se deu a partir de outra lógica cultural que não a nossa. Neste sentido, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan (2007, p. 11) nos apresen- ta a capoeira como “uma manifestação cultural que se caracteriza por sua multidimensionalidade – é, ao mesmo tempo, dança, luta e jogo”. A sua ligação com práticas de sociedade tradicionais, onde a separação de habilidades não é um aspecto comum, como ocor- re na sociedade ocidental moderna, é o que confere à capoeira a possibilidade multidimensional. Ou seja, a coexistência de múltiplas dimensões e sentidos sem que estes se anulem ou se confrontem. EDUCAÇÃO FÍSICA 17 E, ao contrário do que possa parecer, isso não re- presenta um problema. Essa ambiguidade é, inclusi- ve, enaltecida por Reis (2000, p. 177) como caracte- rística de todos os elementos do sistema cultural da capoeira, o que impossibilita o seu enquadramento, permitindo que ela “deslize entre as categorias: não é esporte mas é, não é uma dança, mas é, e não é uma luta, mas é”. Uma das estratégias que podemos adotar para compreendermos essa multiplicidade dos sentidos da capoeira, talvez, seja lançarmos um olhar mais atento aos seus primórdios. Entretanto, você vai perceber que, quando falamos de capoeira, há pou- ca unanimidade. Esta situação se agrava conformeregredimos historicamente, muito em função da es- cassez de registros. Arriscamos dizer que a capoeira, como prática marginal que foi por muito tempo, não era digna de registros. Uma das exceções, no entanto, são os registros iconográficos creditados ao pintor Johann Moritz Rugendas (1802-1858) que retratou, no século XIX, muitos aspectos naturais e sociais do Brasil à épo- ca. Em sua obra Viagem Pitoresca através do Brasil, publicada pela primeira vez em edição bilíngue, em 1827, o pintor retrata a paisagem, os tipos e os hábi- tos, tanto dos índios e negros quantos dos europeus que por aqui viviam. Na descrição de “jogo da ca- poeira”, Rugendas (s. d.) o expõe como um folgue- do guerreiro muito violento. Perceba, novamente, a ambivalência de sentidos atribuídos à capoeira. O termo folguedo denota brincadeira, festa, festejo, enquanto “guerreiro” nos remete ao combate. As- sim, fica evidente que o cariz polissêmico da capo- eira a acompanha já há bastante tempo. Rugendas (s. d.) destaca ainda a violência com que os negros a praticam, e assim descreve o andamento de tal fol- guedo guerreiro. [...] dois campeões se precipitam um contra o outro, procurando dar com a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar. Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmen- te hábeis; mas, lançando-se um contra o ou- tro, mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem-se fortemente cabeça contra cabeça, o faz com que a brincadeira não raro degenere em briga e que as facas entrem em jogo, ensan- guentando-as (RUGENDAS, s. d., p. 252). Ainda tratando da contribuição de Rugendas por meio de seus registros à história da capoeira, além da descrição, as gravuras deixadas pelo artista ale- mão nos permitem analisar outros elementos carac- terísticos que compunham a manifestação naquele período. Figura 1 - Jogar capoeira Fonte: Wikipédia ([2019], on-line)1. A partir da análise da gravura “jogo da capoeira”, é possível que identifiquemos elementos característi- cos da atualidade, e outros que, ao que parece, so- freram transformações drásticas. É possível notar que a disposição das pessoas, tanto dos jogadores quanto daqueles que assistem, é muito semelhante à disposição em roda que temos hoje. A presença de 18 CAPOEIRA um instrumento que, na gravura, está representada por uma espécie de tambor, é outro elemento que caracteriza a capoeira. A este respeito, é interessante notar que o instrumento que, atualmente, caracte- riza a capoeira não aparece registrado na gravura. A ausência do berimbau sugere que este não estava incorporado aos códigos da manifestação no perío- do retratado. Retomando a nossa empreitada de discutir o sentido da capoeira, Conduru (2008) faz algumas inferências a partir da análise da gravura “jogo da capoeira”. Para o autor, é possível atribuir um caráter bélico ao que se retrata. Tal inferência se dá muito em função da descrição, mas também na medida em que o autor verifica os punhos cerrados dos conten- dores que ocupam o centro da roda. Pois bem, poderíamos concluir que: se, atual- mente, a capoeira é caracterizada como uma prática corporal polissêmica, multidimensional, onde co- existem múltiplos sentidos sem que haja exclusão, na sua origem, o sentido bélico foi predominante. Na verdade, não. Vimos que, na própria descrição de Rugendas (s. d.), ela aparece com um sentido dúbio. E, para fecharmos esta inconclusa discussão, recorramos a autores que se dedicaram a estudar a capoeira e que discutem, entre outras questões, a sua origem e os seus sentidos. Neste sentido, Rego (1968, p. 35) defende a tese de que a capoeira surgiu, inicialmente, como diver- timento, “mas, na realidade, funcionava como uma faca de dois gumes. Ao lado do normal e do quoti- diano, que era divertir, era luta também no momen- to oportuno”. Contrariamente, temos a exposição de Araújo (1997, p. 106) para quem “a utilização da ca- poeira como instrumento de guerra, logo, arte mar- cial, foi a primeira expressão desta prática plural”. Na opinião do autor, o contexto sociocultural teria sido responsável por, posteriormente, agregar na es- trutura da manifestação o caráter lúdico. Carneiro (1957, p. 199), analisando a capoeira por um viés folclórico, a identifica como uma manifestação de caráter lúdico, afirmando que “os capoeiras da Bahia denominam seu jogo de vadiação – e não passa disto a capoeira, [...]. Nem sempre terá sido assim”. Façamos, prezado(a) aluno(a), uma síntese acer- ca da questão deste tópico. Afinal, o que é a capoei- ra? Essa manifestação carrega, em seu cerne, múlti- plas possibilidades de expressão e, como nos disse Barbieri (2003), é impossível separá-las. Em dado momento, ela se apresenta como luta, em outros, como dança, ou ainda, como jogo. Reconhecermos tais possibilidades é imprescindível para aqueles(as) profissionais que as abordarão. Mesmo para aque- les(as) que não têm a intenção de abordá-las, tais questões nos permitirão repensar a forma como vemos tantas outras práticas corporais. Essa lógica multidimensional foi consolidada ao longo do tem- po, ou seja, em diferentes contextos, a capoeira se adequou à estrutura social vigente, agregando à sua própria estrutura uma nova forma de representação. E se falaremos do percurso social da capoeira, co- mecemos do princípio e discutamos as questões ati- nentes às suas origens. EDUCAÇÃO FÍSICA 19 20 CAPOEIRA Prezado(a) aluno(a), no tópico anterior, as nossas discussões buscaram identificar o sentido atribuído à capoeira e buscamos entender o que é a capoeira, se uma luta, uma dança, um jogo etc. Chegamos à conclusão que a característica primeira dessa ma- nifestação corporal é, justamente, a sua polissemia de sentidos. Ou seja, a capoeira é tanto luta quanto dança, quanto jogo. Um dos argumentos apresenta- dos foi que a sua multidimensionalidade se deve à sua ligação com a lógica tradicional, cuja coexistên- cia de diversos sentido é bastante comum. Então, caro(a) aluno(a), eu lhe convido a me acompanhar na leitura de hipóteses que tratam das origens da capoeira. E quem sabe encontrarmos, aí, indícios que nos permitam entender melhor a lógica dessa prática corporal. Iniciaremos a nossa reflexão com algumas ques- tões. Esta postura nos ajudará a manter uma direção precisa, ou, pelo menos, evitará que nos peguemos sem direção. Uma primeira questão referente à ori- gem da capoeira, tanto no meio acadêmico quanto no universo cultural da própria prática corporal e que, por vezes, culmina em discussões acaloradas, é se a capoeira é africana ou brasileira. É recorren- te o discurso que apresenta a capoeira como uma manifestação, genuinamente, brasileira. E você, o que acha? Não responda ainda! Pois outras tantas questões serão postas, dentre elas: se a capoeira é Capoeira EDUCAÇÃO FÍSICA 21 africana, por que em locais onde africanos foram traficados e escravizados não há registros da sua presença? E por que na própria África não há regis- tro da capoeira? Se ela é brasileira, onde foi criada? Com que finalidade? Veja que são muitas questões. Quando falamos de capoeira, a unanimidade de opiniões só ocorre quanto à imprecisão e às con- trovérsias, sobretudo se o tema tratado é o da sua origem. Entretanto, de maneira geral, as discussões referentes às origens da capoeira têm orbitado em torno de três hipóteses, ou três “mitos fundadores”, como nos apresenta o Iphan (2007, p. 11): 1. A capoeira nasceu na África central e foi trazida intacta por africanos escravizados. 2. A capoeira é uma criação de escravos qui- lombolas no Brasil. 3. A capoeira é criação dos índios, daí a ori- gem do vocábulo que nomeia o jogo. Preservadas as devidas especificidades argumentati- vas, Abreu (s. d.) já refletia acerca da origem da ca- poeira em seu clássico romance do final do século XIX, Os Capoeiras, ao afirmar que: Uns atribuem-na aos pretos africanos, o que julgo um erro pelo facto de que na África não é conhecidaa nossa capoeiragem, e sim, algumas sortes de cabeças. Aos nossos índios também não se pode atribuir, porque apesar de possuí- rem a ligeireza que caracteriza os capoeras, con- tudo, não conhecem os meios que estes empre- gam para o ataque ou defesa. O mais racional é que a capoeragem creou-se, desenvolveu-se e aperfeiçoou-se entre nós (ABREU, s. d., p. 1). Basta que ignoremos a ordem dos argumentos ex- postos nas duas citações e constataremos que, tanto em uma quanto em outra, a questão da origem da capoeira é concebida a partir de uma matriz africana nata, por uma matriz indígena ou por uma matriz que comporta elementos africanos e cujo desenvol- vimento se deu em território brasileiro. Pensemos, então, a origem da capoeira a partir de cada uma dessas matrizes. Dentre elas, talvez a concepção indígena seja a que careça de mais es- tudos, uma vez que os argumentos em sua defesa estão fundamentados, basicamente, na questão ter- minológica. No entendimento de Abreu (s. d.), a principal justificativa que impossibilitaria a criação da capoeira por grupos indígenas repousa no des- conhecimento, por parte desses grupos, das técni- cas corporais, especialmente as de ataque e defesa, características da capoeira. O Iphan (2007) reforça a impossibilidade de sustentação da tese da origem indígena, argumentando a inexistência de docu- mentação, ou mesmo de relatos que reivindicam a paternidade da capoeira. De fato, Lussac (2015), ao analisar as possibilida- des das origens indígenas da capoeira e as possíveis contribuições dos índios brasileiros no desenvolvi- mento do jogo-luta, conclui que, apesar das possibi- lidades de interação entre negros e índios em trocas culturais, ainda não é possível afirmar que existiram contribuições, diretamente, ligadas a grupos indíge- nas brasileiros. Por qual motivo, então, cogita-se a possibilidade de a capoeira ser brasileira e criada por índios bra- sileiros? O elo entre estas culturas (e que serve de argumento) parece ser o vocábulo que nomeia a ma- nifestação. Uma vez que o termo capoeira “faz parte da língua tupi e significa ‘mato ralo’, o que remete a uma das explicações sobre sua origem. Diz respeito ao mito do escravo fugitivo que surpreenderia seus algozes na capoeira, local da cilada” (IPHAN, 2007, p. 12). Entretanto, há divergências mesmo quanto 22 CAPOEIRA à terminologia. Rego (1968) demonstra, fortemen- te, inclinado a aceitar outra acepção etimológica do termo capoeira, uma que defende a origem do vocá- bulo a partir do termo “capão”. Tendo como base capão, do qual Adolfo Coelho tirou o étimo de capoeira para o português, Be- aurepaire Rohan faz o mesmo para o vocábulo capoeira na acepção brasileira, apresentando, em defesa de sua opinião, a seguinte explicação: - Como o exercício da capoeira, entre dois in- divíduos que se batem por mero divertimento, se parece um tanto com a briga de galos, não duvido que este vocábulo tenha sua origem em Capão, do mesmo modo que damos em portu- guês o nome da capoeira a qualquer espécie de cesto em que se metem galinhas (REGO, 1968, p. 24). Outro estudioso que tem se destacado no debate acerca da origem da capoeira é Matthias Rohring Assunção (2012). Este autor nos apresenta uma perspectiva que considera duas “narrativas-mes- tres”; uma versão nacionalista e uma versão afro- cêntrica. A primeira “enfatiza tudo que a capoeira tem de novo, para ressaltar a sua originalidade e, portanto, a originalidade da cultura brasileira”, en- quanto que a versão afrocêntrica “ressalta apenas aspectos ‘derivados da África’ para demonstrar que a capoeira é, antes de tudo, africana” (ASSUNÇÃO, 2012, p. 1). Você, obviamente, se atentou ao fato de a hipó- tese indígena não compor os argumentos desse au- tor, não é? De fato, no universo cultural da capoeira, as discussões em torno de sua origem podem ser entendidas, de forma bastante simplificada, como polarizadas entre África e Brasil. Discutamos, do- ravante, os argumentos que consideram a capoeira uma manifestação africana. De acordo com Rego (1968), o fato de histo- riadores e africanistas apresentarem certa tendên- cia de apontarem Angola como o ponto de partida dos primeiros negros trazidos como escravos para o Brasil gerou forte aceitação e perpetuação, sobre- tudo entre os capoeiras, à ideia desta manifestação corporal ter vindo da África. Vicente Ferreira Pas- tinha (1988), um dos mestres mais expressivos da capoeira Angola, senão o mais, afirma que “não há dúvida que a capoeira veio para o Brasil com os es- cravos africanos” (PASTINHA, 1988, p. 26). O mes- tre afirma também que o próprio nome “capoeira Angola” se deve ao fato de os negros angolas terem se sobressaído na prática da capoeiragem, ao menos no contexto baiano. Entretanto, Gerhard Kubik, ci- tado por Jardim (1976), não encontra qualquer co- notação cultural com a África na expressão capo- eira Angola, afirmando ser uma criação brasileira. A expressão é utilizada para designar um estilo de capoeira o qual abordaremos mais adiante, em um momento mais oportuno. Por ora, nos detenhamos à questão da origem. Estamos discutindo a vertente que considera a capoeira africana, e vimos que esta hipótese encon- trou bastante aceitação entre os capoeiras. É impor- tante ter em mente que estamos abordando, em um ambiente acadêmico em que se privilegia a visão científica do mundo, uma manifestação cuja pro- dução de conhecimento, bem como a difusão des- se conhecimento, apresenta uma dinâmica bastante distinta do mundo acadêmico científico. A lógica da capoeira, bem como da maioria das manifestações oriundas do universo da cultura popular, privilegia a figura do mestre como um guardião do saber e, por- tanto, responsável pela transmissão desse saber. Este processo de transmissão se dá, predominantemente, de maneira informal, sobretudo por meio da orali- EDUCAÇÃO FÍSICA 23 dade. Neste sentido, a figura do mestre está envolta em uma espécie de aura que finda por legitimar os seus discursos. Não foi somente entre os capoeiras que foi aceita e difundida a hipótese dessa manifestação corporal ter a sua origem na África. Edison Carneiro (1957;1977) foi um dos intelectuais que defenderam a ancestrali- dade africana da capoeira, ao expor esta como um “jogo de destreza que tem suas origens remotas em Angola” (CARNEIRO, 1977, p. 3). Outro intelectu- al com contribuição significativa para a difusão e a aceitação da origem africana da capoeira foi Luís da Câmara Cascudo (1959; 1967). Em sua obra Folclo- re do Brasil: pesquisas e notas, o autor afirma que “a unanimidade das fontes brasileiras indica a capoeira como tendo vindo de Angola” (CASCUDO, 1967, p. 181). O autor que, na época da referida publicação, era presidente da comissão brasileira de folclore, de- fende de forma contundente a teoria da capoeira ter como elemento ancestral o N’golo. Da perspectiva de Cascudo (1967), a capoeira seria o desdobramento de técnicas que compunham, na África, tanto lutas quanto ritos cerimoniais. A capoeira seria, desta for- ma, uma versão brasileira do n’golo. O n’golo, ou dança da zebra, como também é conhecido, é uma dança em forma de comba- te típico de povos do sul de Angola, que ocorre durante a enfudula. Neste rito de passagem, o vencedor do n’golo tem o direito de escolher a esposa sem ter de pagar o dote esponsalício. Fonte: Cascudo (1967). SAIBA MAIS Figura 2 - “N’golo”. Aquarela de Albano Neves e Sousa, 1955-1956. Fonte: Assunção (2012, p. 3). 24 CAPOEIRA O próprio Cascudo (1967, p. 185) afirma: “o n’golo é a capoeira”. As conclusões do autor estão embasadas na descrição de Albano Neves e Souza, um poeta, pintor e etnógrafo a quem Cascudo atribuiu o mé- rito do desvelamento da ancestralidade da capoeira. Em linhas gerais, Neves e Souza descreveu, por meio de cartas, o andamento do n’golo, e é a partir de tal descrição que Cascudo concluiu ser o n’golo o cerne da capoeira. Na transcrição que segue, poderemosacompanhar o raciocínio de Albano Neves e Souza e o seu entendimento de como algumas práticas cor- porais, entre elas o n’golo, chegaram ao Brasil. Os escravos das tribos do sul que foram para aí através do entreposto de Benguela levaram a tradição da luta de pés. Com o tempo, o que era, em princípio, uma tradição tribal, foi-se transformando numa arma de ataque e defe- sa que os ajudou a subsistir e a impor-se num meio hostil. Razão da sua permanência nos meio urbanos. O pastor sem rebanho torna-se um marginal. Os piores bandidos de Benguela em geral são Muxilengues que na cidade usam os passos do N’golo como arma. Em Luanda, esses passos, possivelmente trazidos do sul, chamam-se Bassula. Até no nome há qualquer que sugere a origem da luta nos povos pasto- ris do sul. Ba-ssula, os do sul. Em Luanda, os técnicos desse tipo de luta são os pescadores da ilha que se engajam como marinheiros dos palhabotes, que fazem viagens pela costa até Mossâmedes. Outra das razões que me levam a atribuir a origem da Capoeira ao N’golo é que, no Brasil, é costume dos malandros tocarem um instrumento aí chamado de Berimbau e que nós chamamos hungu, ou m’bolumbumba, conforme os lugares e que é tipicamente pasto- ril, instrumento esse que segue os povos pasto- ris até a Swazilândia, costa oriental de África (CASCUDO, 1967, p. 186). A citação é bastante extensa, porém necessária. Ob- serve a quantidade de detalhes apresentada pelo au- tor. Quero lhes chamar a atenção para duas práticas corporais citadas, o n’golo e a bassula. Figura 3 - Ilustração de movimentos da Bassula Fonte: Cultura (2012). EDUCAÇÃO FÍSICA 25 Há, todavia, alguns pontos na ideia do n’golo ou de outras práticas corporais específicas como ancestrais diretas da capoeira que são questionados por Assun- ção e Peçanha (2008), por exemplo, o fato da não transmissão da capoeira pelos “mestres africanos”. A presença do berimbau foi outro argumento apresen- tado por Cascudo (1967) para sustentar a sua teoria, sem, contudo, nos trazer maiores detalhes da relação de tal instrumento com o n’golo. O autor limitou-se apenas a registrar a popularidade do instrumento em terras africanas. A este respeito, Assunção (2012, p. 12) nos esclarece que “na África, os arcos musicais não acompanham jogos de combate” como o n’golo, por exemplo. Há de se destacar que, na imagem analisada, no tópico anterior, “o jogo da capoeira” de Rugendas (s. d.), o berimbau não apareceu como componente da luta. Apesar do berimbau ter sido registrado pelo pintor alemão, no Brasil, no mesmo período, ao que tudo indica, o referido instrumento estava relacio- nado a outras atividades, e não à manifestação da capoeira. Assunção (2012) entende que a capoeira não pode ser tomada como simples desdobramento do n’golo no Brasil. Contudo, reconhece a inegável pre- sença na capoeira de elementos que remetem tanto ao n’golo quanto a outros jogos de combate africa- nos. Metaforicamente, nos diz o autor, que o n’golo é um primo distante da capoeira. A partir dos argumentos expostos, inferimos não haver consenso quanto à aceitação da tese que trata a origem da capoeira por sua vertente africa- na. A terceira tese exposta no início deste tópico defende a sua origem brasileira. Rego (1968, p. 31) é um dos autores que defendem tal hipótese e con- clui que “no caso da capoeira, tudo leva a crer que seja uma invenção dos africanos no Brasil, desen- volvida por seus descendentes afro-brasileiros”. Por esse viés, a capoeira é vista não como uma criação brasileira, mas sim, afro-brasileira, uma manifesta- ção criada a partir de elementos culturais africanos em nossas terras. Em convergência com Rego (1968), Soares (1999) enfatiza a teoria de a capoeira ser uma inven- ção dos escravos no Brasil, isto é, negros de diversas etnias africanas, submetidos ao contexto da escra- vidão, mesclaram diversos traços culturais, dando origem a uma gama infinda de manifestações, en- tre elas, a capoeira. Soares (1999, p. 26) a entende como uma espécie de “síntese de uma disparidade de ritos, rituais e danças, cerimoniais e guerreiras, ela representou a forma cultural possível que jovens africanos encontraram de responder às violências e demandas de uma sociedade urbana hostil”. Então, podemos encerrar o debate em torno das origens da capoeira? Não, claro que não! Muitas ou- tras questões têm sido levantadas. A maioria delas giram em torno de especificidades, como o local de origem, o ambiente, se urbano ou se rural, se nos quilombos ou em um quilombo em específico, como o de Palmares, e por aí vai... Por agora, precisamos reconhecer que este é um momento de introdução a tal temática e, nesse sentido, tivemos contato com uma quantidade significativa de argumentos. Para continuarmos a nossa incursão ao universo cultural da capoeira, analisaremos como esta manifestação cultural foi tratada ao longo de seu desenvolvimen- to. Espero contar com a sua estimada companhia no tópico seguinte. Até lá! 26 CAPOEIRA Olá, prezado(a) aluno(a). Neste tópico, trataremos de um tema, no mínimo, curioso. Tentaremos en- tender como se deu o processo de criminalização da capoeira. Isto mesmo, essa mesma capoeira que, hoje, transita livremente por diferentes níveis edu- cacionais, desde o ensino infantil, passando pelo fundamental e médio e que compõe o currículo de renomadas universidades, já foi considerada uma prática criminosa. Reflitamos um instante sobre isso. Neste momento, estamos inseridos em um cur- so universitário de formação profissional, e não de qualquer profissão, mas sim, de uma área que, por meio da abordagem de práticas corporais, se pro- põe a contribuir com a educação das gerações mais novas de nossa sociedade. E é, nesse contexto, que a capoeira se insere como uma dessas práticas cor- porais que podem auxiliar no processo educativo. A questão é, se, atualmente, consideramos a capoeira uma prática virtuosa, o que a fez ser tratada como criminosa? Primeiramente, pensamos que seja muito útil considerarmos a dinamicidade histórica, ou seja, olharmos, historicamente, um dado contexto com to- dos os seus elementos e reconhecer que tal contexto não é estanque. Pois bem, será com esse olhar, histori- camente situado, que nos debruçaremos no texto a se- guir, no qual procuraremos entender como a capoeira que, hoje, transita livremente por toda sociedade foi, em dado momento, considerada uma prática ilegal. CAPOEIRA, uma Atividade Criminosa EDUCAÇÃO FÍSICA 27 Uma informação que vale a pena retomarmos se refere às suas origens, mais precisamente aos seus criadores. No tópico anterior, nós vimos que, a res- peito de sua origem ser africana ou brasileira, são aos negros escravizados, aqui, no Brasil, a quem se atribui a criação da capoeira, tal criação sendo rea- lizada por meio de um processo de convergências culturais. E este é um aspecto importante para a nos- sa discussão, visto que, por muito tempo, a capoeira esteve restrita ao universo escravo, sendo uma prá- tica escrava. E que, posteriormente, esse escravo, ao abandonar tal condição, não encontrou uma estru- tura social que o considerasse e o tratasse como um cidadão de direitos, restando-lhe viver à margem da sociedade. Em condição marginal, viveu não apenas o ne- gro, mas também boa parcela dos imigrantes que vieram para o Brasil, após a abolição da escravatura. Esse cenário nos ajuda a entender como esta popu- lação entregue à própria sorte, por vezes, fez uso de práticas, como a capoeira, para, em busca da garantia da sobrevivência, cometer delitos. Desta forma, um dos muitos sentidos atribuídos à capoeira ao longo de sua história e, consequentemente ao seu prati- cante, foi o de uma atividade marginal. Uma práti- ca que representa demérito social, como nos afirma Cascudo (1967, p. 188): “a capoeira é sempre uma atividade de vadios urbanos”. Ao que Rego (1968, p. 291) endossa: “o capoeira desde seu aparecimento foi considerado umamarginal, um delinquente, em que a sociedade deveria vigiá-lo, e as leis penais, en- quadrá-lo e puni-lo”. E assim se fez, pois o código criminal de 1830 do Império do Brasil, mesmo sem fazer nenhuma menção explícita ao capoeira, enquadrava-o indi- retamente. Isso porque o capoeira era reconhecido socialmente, naquele período, como desocupado, um sujeito sem profissão, logo, se enquadrava no Capítulo IV, Art. 295, que trata dos “vadios e mendi- gos”. Naquele momento, a capoeira era considerada uma forma de contravenção, o que já era suficiente para que cerca de 9% das prisões efetuadas entre os anos de 1819 e 1821, na cidade do Rio de Janeiro, apresentassem, como motivo registrado, “capoei- ra”. Isto significa que, das 4.853 prisões realizadas, 438 ocorreram pela acusação de prática da capoeira (ALGRANTI, 1988). Pensando em localidades específicas como a ci- dade do Rio de Janeiro, a capoeira esteve associa- da às ações de grupos bem organizados, chamados de maltas, que representaram momentos de terror aos citadinos. Luiz Sergio Dias, em sua obra de títu- lo sugestivo, Quem Tem Medo da Capoeira? (2001), analisou a capoeiragem, no Rio de Janeiro, no sé- culo XIX, e identificou em tal prática a conjunção da agilidade, ousadia e organização, mas, sobretudo uma incrível capacidade de incutir temor em grande parcela da população. Deste modo, a capoeira, ou capoeiragem, como a prática era denominada na época, representava um problema de segurança pública. E logo foi en- quadrada como crime no código penal da República dos Estados Unidos do Brasil. A capoeiragem e os capoeiras, os seus praticantes, receberam tratamen- to específico no código de 11 de outubro de 1890, em seu Capítulo XIII, que trata “Dos vadios e capo- eiras” onde fica estabelecido que: Art. 402 – Fazer nas ruas e praças públicas exer- cício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação capoeiragem: andar em cor- rerias, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou in- certa, ou incutindo temor de algum mal: 28 CAPOEIRA Pena – prisão celular por dois a seis meses. Parágrafo único – É considerada circunstância agravante pertencer o capoeira a algum bando ou malta. Aos chefes ou cabeças se imporá a pena em dobro. Art. 403 – No caso de reincidência será apli- cada ao capoeira, no grau máximo a pena do art. 400 [Pena de um a três anos em colônias penais que se fundarem em ilhas marítimas, ou nas fronteiras do território nacional, podendo para esse fim serem aproveitados os presídio militares existentes]. Parágrafo único – Se for estrangeiro será de- portado depois de cumprir a pena. Art. 404 – Se nesses exercícios de capoeiragem perpetrar homicídios, praticar lesão corporal, ultrajar o pudor público e particular, e pertur- bar a ordem, a tranqüilidade e a segurança pú- blica ou for encontrado com armas, incorrerá cumulativamente nas penas cominadas para tais crimes (SOARES, 1999, p. 338). No entendimento de Reis (2000), a oficial crimina- lização da capoeira foi fruto da idealização de um projeto modernizador do país concebido para a re- cém-proclamada República. Neste sentido, o negro, ainda, em maior número, enquanto praticante da capoeira, era tido como representante de um perí- odo que se deseja superar, a monarquia, mas que, acima de tudo, representa, de acordo com as teorias de evolução social que vigoravam na época, atraso e inferioridade. O projeto de um Brasil moderno e ci- vilizado implicava, naquele momento, em suprimir a herança africana. Portanto, não é só por uma ques- tão de ordem ou desordem, mas também por uma questão de eugenia. De acordo com Soares (1999), a empreitada con- tra os capoeiras teve na figura de João Batista Sam- paio Ferraz o seu maior representante. Ocupando o cargo de primeiro chefe de polícia do regime repu- blicano, Sampaio Ferraz, que ficou conhecido pela alcunha de “cavanhaque de aço”, foi retratado pela crônica literária da época como um herói que, ao desarticular as maltas de capoeira, “livrou a cidade e seus habitantes de um flagelo que a dominava há mais de cem anos” (SOARES, 1999, p. 329). Há outra questão acerca do processo de crimina- lização da capoeira e destacada por Araújo (2005), que consideramos importante para as nossas discus- sões. Para o autor, houve uma generalização na cri- minalização da prática da capoeira, sobretudo, pela ausência da conceituação precisa de quem eram os seus praticantes. Araújo (2005, p. 25), após realizar os devidos enquadramentos temporais e espaciais, conceitua os capoeiras como: “indivíduo(s) que pro- moviam ações criminosas, que atentam contra a in- tegridade física e patrimonial dos cidadãos, nos es- paços circunscritos dos centros urbanos ou áreas de entorno”. A confusão conceitual se dá na medida em que o praticante da capoeiragem também foi defini- do como um capoeira, o que o levou a ser confun- dido com todo o tipo de malfeitores. Logo, conclui o autor (2005, p. 26), “grande parte dos praticantes da luta/jogo conhecida por capoeira seriam efetivos capoeiras, entretanto, nem todos os capoeiras po- deriam ser considerados efetivos praticantes desta manifestação”. Isso significa que todo o indivíduo socialmente desajustado era tratado como capoeira, sem que fosse necessariamente um praticante da ca- poeiragem. Tal fato trouxe implicações aos pratican- tes, os quais, mesmo não sendo desordeiros, passa- ram a ser considerados e tratados como tal. EDUCAÇÃO FÍSICA 29 É incontestável que, de sobremaneira, no espa- ço urbano, malfeitores e arruaceiros fizeram uso de suas habilidades corporais, ocasionando temor à po- pulação. Por agora, é importante que nós reflitamos acerca do contexto social, no qual a capoeira figurou para que possamos entender a suas características e, sobretudo, a sua dinâmica. Se, no tópico que esta- mos prestes a encerrar, discutimos o contexto que levou a capoeira a ser considerada uma prática cri- minosa, não nos esqueçamos que as ações sociais, a grosso modo, não se dão de forma unânime. Con- vido-lhe, prezado(a) aluno(a), à leitura do tópico seguinte, onde buscaremos demonstrar que havia aqueles que defendiam e enalteciam as qualidades da capoeira como prática corporal. 30 CAPOEIRA Olá, prezado(a) aluno(a). Iniciaremos o nosso quar- to tópico de discussões sobre o desenvolvimento histórico da capoeira, fazendo uma breve reflexão daquilo que já discutimos até aqui! Em um primeiro momento, procuramos identificar os diferentes sen- tidos atribuídos à capoeira, discutimos, naquele mo- mento, se ela é luta, jogo ou dança. Em seguida, nos foram apresentadas algumas teorias que discutem a sua origem, e percebemos que, desde as primeiras descrições dessa manifestação, já havia um sentido dúbio! E com o intuito de entender o processo de criminalização da capoeira, transitamos pela leitura de autores que demonstraram como a prática cor- poral capoeira, sendo utilizada como instrumento de delito por uma parcela de seus praticantes, teve o seu sentido generalizado a todos os praticantes. Para o tópico que segue, caro(a) aluno(a), pretendemos descrever o processo de reestruturação da capoeira que a levou a ser socialmente aceita. Comecemos a nossa conversa com uma imagem. Talvez, na fotografia a seguir (Figura 4), reconhe- çamos com alguma facilidade pelo menos um dos rostos retratados, o do, então, presidente da Repú- blica, Getúlio Vargas. O que há de especial para nós nessa imagem? É que ela registra o presidente, cum- primentando Manuel dos Reis Machado, o mestre Bimba após uma apresentação de capoeira realizada pelo mestre e os seus discípulos em 1953. Na oca- sião, Getúlio Vargas, impressionado pelo que viu, te- ria se referido à capoeira como “a única colaboração autenticamente brasileira à educação física, devendo ser considerada a nossa luta nacional”. Ascensão Social da Capoeira EDUCAÇÃO FÍSICA 31 Este foium momento decisivo para a história da capoeira. Você deve lembrar que, a poucas páginas atrás, discutíamos o seu status de prática criminosa e, agora, visualizamos um presidente da República, cumprimentando um mestre representante dessa manifestação e a reconhecendo como contribuição à Educação Física. Retomaremos, então, alguns pon- tos para entendermos o percurso que levou a capo- eira à legalidade. Se a partir da proclamação da República, na úl- tima década do século XIX, houve a intensificação da repressão policial aos capoeiras e à capoeiragem como um todo, havia, no mesmo período, um mo- vimento de reabilitação da capoeira encabeçado por alguns intelectuais, políticos e militares (PIRES, 2010). Esse movimento é descrito por Pires (2010, p. 138) como um “processo histórico que se propagou por todo o Brasil e influenciou uma nova invenção para a prática da capoeira”. Este processo contou com iniciativas mais contundentes no Rio de Janeiro e na Bahia. Em ambos os casos, ficava evidente o de- sejo do distanciamento da criminalidade que outro- ra caracterizou a manifestação, o que somente seria possível, atribuindo-lhe um caráter desportivo. É possível verificarmos que, na ânsia de revita- lização da capoeira, alguns autores, a exemplo de Alexandre José de Mello Moraes Filho (1816-1882), questionam a própria origem da manifestação. Para este autor (1979, p. 261), a forma como a capoeira se apresentava, lamentavelmente, ligada à margina- lidade, se dera pelos “excessos cometidos pelo povo baixo, que a afogou nas desordens”. Segundo a pers- pectiva do autor, o passado da capoeira era nobre e glorioso, mas foi depreciado a partir do momento que a sua prática tornou-se majoritariamente negra. Reis (2000, p. 62) entende o discurso apresentado por Moraes Filho como uma forma de apropriação simbólica da capoeira, entendendo que ele procurou “afastar dela [a capoeira], ou pelo menos minimizar a sua herança étnica africana, a fim de que lhe fosse possível, através de seu embranquecimento, civilizar- -se, tornando-a um símbolo de distinção nacional”. Figura 4 - Mestre Bimba sendo cumprimentado pelo presidente Getúlio Vargas, Salvador, 1953 Fonte: Campos (2009). 32 CAPOEIRA Seguindo esta linha de reestruturação da ca- poeira, atribuindo-lhe um caráter esportivo, por- tanto, socialmente aceito e valorizado, é que, em 1907, foi editado o opúsculo Guia do Capoeira ou Ginástica Brasileira como a primeira tentativa de criar um método para o ensino dessa manifesta- ção. O autor desse opúsculo apresenta-se com o pseudônimo de O.D.C. e é descrito como um “dis- tinto oficial do exército brasileiro, mestre em to- das as armas, professor de militares e habilíssimo na ginástica defensiva ou a verdadeira capoeira” (O.D.C., 1907, p. 1). Talvez você esteja se perguntando: como um ofi- cial do exército seria um habilidoso capoeira, já que estamos falando de uma prática criminosa? Lembre- -se dos argumentos apresentados por Araújo (2005) quanto à generalização do termo capoeira. Este foi utilizado para designar toda a sorte de malfeitores, e também os praticantes da capoeiragem, no entan- to, nem todo malfeitor era praticante e nem todo praticante era malfeitor. No início do século, eram chamados de cultores aqueles sujeitos da elite adep- tos da prática da capoeiragem. Parte desse cultores entendia a iniciativa de esportivização da capoeira- gem como a única forma de redenção. São muitos os defensores desta proposta, nomes de peso da épo- ca, como o deputado Coelho Neto, “Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco (Parlamentar), Lite Ribeiro (Parlamentar) Luiz Murat (Jornalista e Parlamentar) Castro Soromento (Parlamentar) e outros” (PIRES, 2010, p. 139). Em 1909, outro fato trouxe notoriedade à ca- poeira. Naquele ano, o estivador Ciríaco Francisco da Silva, de 38 anos, derrotou o lutador de jiu-jitsu Sada Miako. De acordo com Moura (2009, p. 127), a vitória de Ciríaco sobre Miako “contribuiu deci- sivamente para a credibilidade, a difusão, o renas- cimento da capoeiragem, que atravessava uma fase de declínio, de ostracismo”, a qual enfrentava des- de o processo de repressão policial deflagrado por Sampaio Ferraz. Figura 5 - Reportagem de “A Careta” de 29 de maio de 1909 Fonte: A Careta (1909, on-line)2. Apesar da pugna entre Ciríaco e Miako trazer vi- sibilidade à capoeira, em especial, no rol das artes marciais, o processo de sistematização demoraria, aproximadamente, mais duas décadas, quando, em 1928, a obra Gynastica Nacional (capoeiragem) Me- thodizada e Regrada, escrita por Annibal Burlama- qui, propõe uma metodologia não só de ensino, mas também de estruturação da capoeira com caráter desportivo, com regras bem definidas para o com- bate. A obra é tida como um ponto de ruptura com uma tradição social predominante, durante todo o EDUCAÇÃO FÍSICA 33 século XIX, que vinculava o capoeira ao estereóti- po do malandro e do vadio. Opondo-se diametral- mente a essa tradição social, Burlamaqui desponta como “sportman”, como um capoeira desportista (PIRES, 2010). Neste mesmo sentido de ruptura, Araújo (1997) analisa a obra de Burlamaqui (1928) como um marco fundamental da transformação da capoeira em prática desportiva ao evidenciar os as- pectos positivos dessa manifestação até, então, mar- ginalizada. Desta perspectiva, a capoeira se igualaria a outros métodos gímnicos, lutas e desportos, mas, sobretudo, ficava evidente “os benefícios de ordem física e moral advindos do desenvolvimento desta manifestação corporal, sem, contudo, desconsiderar a sua essência como uma prática de defesa pessoal” (ARAÚJO, 1997, p. 208). O discurso de Burlamaqui (1928) apresenta a pretensão de elevar a capoeira ao consagrado mun- do dos esportes atribuindo-lhe, então, regras bem definidas. Entretanto, a despeito dessas iniciativas de legitimação serem advindas do cenário carioca, ainda nas duas primeiras décadas do século XIX, foi a partir do advento da capoeira regional que se deu a inserção da prática no rol das modalidades des- portivas brasileiras (VIEIRA, 1998). Nós teremos a oportunidade de entendermos a capoeira regional, quando falarmos dos estilos de capoeira, os quais se- rão apresentados na unidade seguinte. Por ora, bas- ta saber que o contexto baiano passou, a partir da década de 30, a irradiar hegemonicamente os pre- ceitos de uma capoeira esporte, mas carregada de tradicionalidade. Destacaram-se, neste processo, os mestres Bimba e Pastinha, respectivamente, o cria- dor da capoeira regional e o maior expoente da ca- poeira angola. O discurso desses mestres, guardadas as devidas proporções, refletia a preocupação com a legitimação social da capoeira. Para que os anseios de ambos os mestres fossem efetivados, Reis (2000, p. 96) ressalta que: A capoeira teria que sair das ruas e limitar-se ao espaço fechado das academias. Através da cria- ção de uma pedagogia para ensino da capoeira, os dois mestres (principalmente Bimba) envi- daram esforços para ampliar o espectro social e étnico dos praticantes de capoeira, buscando a adesão das classes médias e brancas da cidade de Salvador. Por meio do processo de retirada da capoeira das ruas e dos terreiros, onde era praticada às escondi- das, operou-se uma mudança na lógica da própria manifestação. A capoeira passou a ser vista não mais como uma prática violenta, marginal e indisciplina- da. Foi, nesse contexto, que ela se consolidou como uma prática corporal utilitária, destinada “para fins pacíficos, voltados apenas para preservação da in- tegridade física de seus iniciados, como também para o ensino da educação física de caráter técnico e profissional” (ARAÚJO, 1997, p. 218). Aliás, me- rece destaque o fato de que, quando o mestre Bim- ba conseguiu o certificado de registro oficial para o funcionamento do Centro de Cultura Física e Ca- poeira Regional, expedido em 1937, tal documento lhe foi conferido pela Secretária de Educação, Saúde e Assistência Pública da Bahia.Tal órgão qualificou o “ensino de sua capoeira como ensino de Educação Física” (REGO, 1968, p. 282). O reconhecimento e o prestígio alcançados pelo mestre Bimba levaram-no a demonstrar a sua capoeira regional ao dirigente máximo da nação, naquela apresentação, em 1953, que Araújo (1997) considerou como um momento expressivo no que se refere ao reconhecimento e à afirmação social da capoeira como prática desporti- va e como luta. 34 CAPOEIRA A sua oficialização como manifestação despor- tiva, no entanto, tramitaria entre as décadas de 60 e 70. Dois congressos nacionais de capoeira foram patrocinados e organizados pela Comissão de Des- portos do Ministério da Aeronáutica, nos anos de 1968 e 1969, ambos na cidade do Rio de Janeiro. O objetivo desses congressos era discutir a institucio- nalização dessa prática (FRIGERIO, 1989; ARAÚJO, 1997; REIS, 2000). Para Lyra Filho (1973), somente por meio de sua institucionalização a capoeira teria concretamente reconhecimento social. O Conselho Diretor da Confederação Brasileira de Pugilismo, por meio de uma comissão de mestres e estudiosos da capoeira, ficou responsável por ela- borar um regulamento técnico que permitisse enquadrar a capoeira nos parâmetros competitivos. Em 26 de de- zembro de 1972, foram homologadas as con- clusões apresentadas pelo relator da comissão, o general Jair Jordão Ramos (ARAÚJO, 1997), as quais passaram a vigorar em 1º de janeiro de 1973 (CAMPOS, 2001). Para Frigerio (1989), o desenvol- vimento da capoeira como prática des- portiva ocasionou diversas implicações tanto para a prática quanto para a concepção da própria manifestação. Sem a intenção de discutir profun- damente tais transformações, basta que nos lem- bremos do primeiro tópico desta unidade, no qual discutimos as concepções de capoeira e vimos que já são muitas: luta, jogo, dança... Pois é! Por conta do processo de reestruturação, visando a sua re- denção social, mais um foi incorporado. Pensa- mos que seja pertinente à retomada de uma breve reflexão. A ascensão social da capoeira se deu de forma tão efetiva que hoje é ensinada nas escolas e universidades, mas com que sentido? Quando abordada nas aulas de Educação Física, a capoeira é apresentada como esporte? E o que significa esta classificação? 35 considerações finais Caro(a) aluno(a), chegamos ao final da primeira unidade, na qual discutimos, so- bretudo, questões relacionadas ao desenvolvimento histórico da capoeira. Nesta unidade, nós tivemos a oportunidade de refletir a abordagem da capoeira, quan- do nos questionamos a sua definição. Nós podemos perceber que se trata de uma manifestação da cultura corporal, cujos sentidos e significados coexistem. Neste contexto, a capoeira é uma luta, um jogo, uma dança, um esporte... Tudo ao mes- mo tempo. A fim de entendermos como a capoeira surgiu, deparamo-nos com argu- mentos que vislumbram tal manifestação como de origem africana, outros que a percebem como uma criação de africanos escravizados no Brasil, portanto, afro-brasileira, e há aqueles que argumentam uma origem indígena. Dentre tais hipóteses, a mais aceita, atualmente, é aquela que concebe a capoeira como um processo de encontro de culturas africanas em terras brasileiras. Além disso, vimos como a figura do capoeira e da própria manifestação foi enquadrada no código penal, inicialmente, como contravenção, e a partir de 1890, como crime. Isto porque a capoeira foi utilizada como instrumento para promover desordem e tumultos pelas maltas, especialmente, na cidade do Rio de Janeiro, desde os tempos do Império, o que desencadeou um processo de perse- guição e extermínio de tais grupos. Se por um lado, havia quem desejasse o fim da capoeira, por considerá-la um flagelo social, por outro, havia quem defendesse as suas qualidades atléticas e a sua representatividade nacional. Foi com o intuito de elevar a capoeira ao panteão desportivo que alguns entusiastas apresentaram propostas de reestrutu- ração, apresentando-a como um desporto, genuinamente, brasileiro. Pensamos, prezado(a) aluno(a), que a leitura desta unidade nos permitiu vi- sualizar alguns detalhes dessa prática corporal que, apesar de ser bastante conhe- cida, ainda, carece de esclarecimentos e desmistificações sobre certos aspectos. 36 atividades de estudo 1. Ao longo desta unidade, nós tivemos a oportuni- dade de refletir acerca da abordagem da capo- eira. Para tanto, questionamos-nos sobre a sua definição. Nesse sentido, como podemos definir a capoeira? 2. Disserte sobre as origens da capoeira. 3. No que se refere às discussões em torno das ori- gens da capoeira, assinale a alternativa correta: a) A hipótese mais aceita, atualmente, é aquela que concebe a capoeira como uma manifestação criada na África e trazida in- tacta para o Brasil. b) A hipótese mais aceita, atualmente, é aquela que concebe a capoeira como um processo de encontro de culturas africa- nas em terras brasileiras. c) A hipótese mais aceita, atualmente, é aquela que concebe a capoeira como uma criação indígena que fora assimilada pelos negros africanos. d) A hipótese mais aceita, atualmente, é aquela que concebe a capoeira como des- dobramento do n’golo, uma dança dos ín- dios brasileiros. e) A hipótese mais aceita, atualmente, é aquela que concebe a capoeira como des- dobramento de lutas trazidas pelos imi- grantes europeus. 4. Quanto ao processo de criminalização da capo- eira e dos seus praticantes, leia as afirmativas a seguir. I - Grande parte dos praticantes seriam efe- tivos capoeiras, deste modo, todos os ca- poeiras eram efetivos praticantes desta manifestação. II - São designados “capoeiras” indivíduos que promoviam ações criminosas que atenta- vam contra a integridade física e patrimo- nial dos cidadãos dos centros urbanos e das áreas de entorno. III - A oficial criminalização da capoeira, a par- tir de 1890, foi fruto da idealização de um projeto modernizador do país para a re- cém-proclamada República. IV - Grande parte dos seus praticantes seriam efetivos capoeiras, entretanto, nem todos os capoeiras podiam ser considerados efetivos praticantes dessa manifestação. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III, IV. EDUCAÇÃO FÍSICA 37 5. Assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F) quanto às in- formações referentes ao processo de ascensão social da capoeira. ( ) No século XIX, houve a intensificação da repressão policial aos capoeiras e à capoeira- gem como um todo, mas havia, no mesmo perí- odo, um movimento de reabilitação da capoei- ra encabeçado por alguns intelectuais, políticos e militares. ( ) No século XIX, houve a intensificação da re- pressão policial aos capoeiras e à capoeiragem como um todo, sem que houvesse nenhum tipo de movimento de reabilitação. ( ) Uma das estratégias empregadas para a reabilitação social da capoeira foi a de lhe confe- rir um caráter desportivo e, neste contexto, uma das primeiras iniciativas registradas foi a edição do Guia do Capoeira ou Ginástica Brasileira como a primeira tentativa de criar um método para o seu ensino. ( ) Em 1909, o lutador japonês de jiu-jitsu Sada Miako derrotou o capoeira Ciríaco Francisco da Silva, fato que trouxe descrédito para a capoei- ra, uma vez que esta não se mostrava eficiente como luta. ( ) A despeito dessas iniciativas de legitima- ção da capoeira como desporto nacional serem advindas do cenário carioca, ainda, nas duas primeiras décadas do século XIX, foi a partir do advento da capoeira regional que se deu a sua inserção no rol das modalidades desportivas brasileiras. A sequência correta para a resposta da questão é: a) V, F, F, F, V. b) F, V, V, V, F. c) F, V, F, F, F. d) V, F, V, F, V. e) V, V, F, F, F. 38 LEITURA COMPLEMENTAR O excerto que segue foi retirado de uma pesquisa que teve por objetivo investigar as representações sociais da capoeira por parte de professores(as)de educação física e estudantes do ensino fundamental e médio. Peço que leiam esse texto tendo em mente as discussões que ti- vemos durante essa unidade. Mas, principalmente, pen- sem como a capoeira tem sido abordada e representada no contexto escolar e como vocês futuros profissionais de educação física irão lidar com tal cenário. Boa leitura. [...] As experiências analisadas evidenciaram alguns mo- tivos para a abordagem da manifestação no ambiente escolar, dentre eles destacamos; imposição oficial via planejamento curricular; datas comemorativas especi- ficamente relacionadas à cultura negra; quando se faz necessária a preparação dos estudantes para algum pro- cesso avaliativo que a envolva de alguma forma. Nossa hipótese não foi confirmada, pois as representa- ções de Capoeira objetivadas pelos sujeitos participantes dessa pesquisa apresentam polifasia cognitiva. A mani- festação em questão, na perspectiva dos (as) professores (as), é objetivada, predominantemente, enquanto luta, na perspectiva das crianças não praticantes a objetiva- ção que predomina é da representação da Capoeira, en- quanto um esporte, enquanto que as crianças pratican- tes objetivam-na como um jogo. O que constatamos na fala dos participantes foi o emprego de diversas repre- sentações, concomitantemente, na tentativa de definir a Capoeira, caracterizando-se num estado de polifasia cognitiva. A análise das representações do cotidiano das aulas por parte dos participantes permitiu verificar que a aborda- gem da Capoeira ocorre com ênfase teórica em seus as- pectos históricos, sobremaneira ao período da escrava- tura. Existe uma defasagem quanto à abordagem prática do fenômeno que se reflete tanto nos gestos técnicos, quanto nos demais elementos constitutivos. Estes elementos nem sempre são expostos, e quando o são, o são de forma limitada. A música, que no univer- so da manifestação representa uma forma de comuni- cação, transmitindo a história, os valores e as normas simbólicas da Capoeira, na escola quando é abordada é de forma limitada, visto que cumpre apenas a função de embalar o jogo. Além do que os estudantes não acessam propriamente dito as cantigas, pois seu contato é media- do por equipamentos eletrônicos. A realização da roda de Capoeira é entendida pelos professores como a reunião dos alunos em círculo e a realização dos gestos técnicos por alguns deles. Não consideram a execução dos toques pelos instrumentos característicos, tampouco o entoar das cantigas. Nesse sentido, não há a realização da roda de Capoeira nas au- las de Educação Física. Levando-se em conta o que foi observado, concluímos que a abordagem da Capoeira no contexto formal é in- consistente. Aspecto que se confirma no reconhecimen- to por parte dos sujeitos das dificuldades enfrentadas por esses agentes ao tratarem da Capoeira nas aulas de Educação Física. Dentre as principais dificuldades destacamos àquela li- gada diretamente ao domínio da manifestação, o domí- nio das especificidades da Capoeira é de ordem prática para todos os elementos constitutivos. Os responsáveis pelas aulas não dominam os gestos técnicos próprios do fenômeno. Não dominam a manipulação dos objetos, neste caso, os instrumentos característicos. Não domi- nam a linguagem própria da Capoeira como o andamen- to dos jogos ou da própria roda. [...] Fonte: Lima (2014). 39 material complementar O que é Capoeira Anande das Areias Editora: da Tribo Sinopse: capoeira é uma luta? Ou é uma dança? Quem sabe é briga, defesa pes- soal, esporte, cultura, arte, folclore...? Capoeira é tudo isso e muito mais. Porém, para compreendê-la e aceitá-la em seu todo e em sua diversidade como criação do ser humano, é preciso que, livres de preconceitos e imagens preconcebidas, conheçamos um pouco mais de sua história e de seu desenvolvimento. Indicação para Ler Jogo de Corpo: Capoeira e Ancestralidade Ano: 2013 Sinopse: este documentário leva o mestre brasileiro de capoeira do gênero an- golano, Cinézio Peçanha, mais conhecido como Mestre Cobra Mansa, até An- gola. Vivendo a ancestralidade do povo e da capoeira que o mestre ensina, as conexões, desde a escravidão entre Brasil e África, são reforçadas pela dança, pela música e pelo conhecimento. Indicação para Assistir 40 referências ABREU, P. D. Os capoeiras. Rio de Janeiro: Seraphin Alves de Brito, [s. d.]. ALGRANTI, L. M. O feitor ausente. Estudos sobre escravidão urbana no Rio de Janeiro – 1808-1822. Petrópolis: Vozes, 1988. ARAÚJO, P. C. D. Abordagens sócio-antropológicas da luta/jogo da capoeira. Maia: Publismai, 1997. ______. 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Há, atualmente, certa aceitação da definição da capoeira como uma mani- festação cultural que combina jogo, luta e dança, ou seja, o que caracteriza a capoeira é a sua polissemia de sentidos, a sua multidimensionalidade, sen- do, ao mesmo tempo, dança, luta e jogo. 2. Apesar de não haver consenso quanto às origens da capoeira, atualmente, é possível constatarmos que tal problemática orbita em torno de três hipóte- ses básicas ou três mitos fundadores. Tais mitos concebem a capoeira: por uma matriz africana nata; por uma matriz indígena; e por uma matriz que comporta elementos africanos, cujo desenvolvimento se deu em território brasileiro. 3. B. 4. D. 5. D. UNIDADE II Professor Me. Reginaldo Calado de Lima Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • A capoeira Angola de mestre Pastinha • A capoeira Regional de mestre Bimba • Capoeira Contemporânea: uma tendência atual Objetivos de Aprendizagem • Apresentar as características básicas da capoeira Angola. • Entender a estrutura da capoeira Regional. • Identificar as características da capoeira Contemporânea. VERTENTES E ESTILOS DE CAPOEIRA unidade II INTRODUÇÃO O lá, prezado(a) aluno(a). Nós analisamos, na unidade anterior, alguns aspectos referentes ao desenvolvimento histórico da capoeira. Nesta segunda unidade, a nossa proposta é de um reconhecimento desta prática corporal, a partir de suas for- mas mais comuns de expressão. Assim, tomaremos conhecimento das vertentes ou dos estilos que, atualmente, a têm caracterizado. A capoeira é uma prática corporal cuja característica é a sua heteroge- neidade, essa característica pode ser verificada não somente em seus esti- los, mas, mesmo dentro de um mesmo estilo, há diferenças significativas. Assim sendo, o universo dessa manifestação tem sido caracterizado ou representado por diferentes formas de jogar, as quais se convencionou chamar de estilos ou vertentes. O campo de debates acerca dos estilos de capoeira é um espaço tenso, de certa forma, visto que alguns autores reconhecem como estilo apenas dois, outros não acreditam ser possível separar a capoeira em estilos, consi- derando-a como uma só manifestação. O fato é que algumas formas ganha- ram notoriedade e passaram a ser consideradas como estilos ou vertentes. Trataremos, nesta unidade, dos estilos de capoeira Angola, tido por alguns autores como o estilo mais tradicional; a capoeira Regional, criada nas primeiras décadas do século XX e, por fim, a capoeira Contemporânea, expressão utilizada em referência à sua configuração atual. Ao abordamos tais estilos, o faremos apresentando, dentro de nossas limitações, a sua his- tória e a sua estrutura característica, bem como os seus representantes. Uma questão que pensamos importante para a nossa reflexão é: quando abordarmos a capoeira nas aulas de Educação Física no contexto escolar ou em outros espaços, o quanto conhecimento ou o desconheci- mento da existência de diferentes formas de jogar a capoeira impactará a vivência dos(as) nossos(as) aluno(as)? Ou seja, é importante ou não faz diferença alguma para eles saberem que existem diferentes formas e possibilidades de jogar capoeira? 48 CAPOEIRA Olá, caro(a) aluno(a). Ao iniciar as nossas discus- sões sobre as diferentes formas de jogar capoeira, aqui abordadas como estilos, você perceberá que determinamos um tópico para cada estilo que nos propomos a apresentar. Entretanto, esta separação se deu apenas como estratégia pedagógica, no uni- verso da capoeira, esses estilos têm as suas histórias e o seu desenvolvimento intimamente relaciona- dos, de modo que, ao tratarmos de um, será prati- camente impossível não mencionarmos os demais. Comecemos a nossa conversa, falando sobre a ca- poeira Angola. A capoeira Angola é comumente apresentada como a capoeira “mãe”, “tradicional”, descendente direta da herança africana. Tais adjetivos são em- pregados sobretudo para diferenciá-la dos demais estilos, especialmente, da capoeira Regional. É com este intuito que José Luiz de Oliveira Cruz, o mestre Bola Sete, em seu livro Capoeira Angola na Bahia (1997), ao se referir à capoeira Regional, afirma que “tudo foi criado a partir do estilo original de Ango- la” (CRUZ, 1997, p. 20). A Capoeira Angola de Mestre Pastinha EDUCAÇÃO FÍSICA 49 Nascido em 5 de abril de 1889, Vicente Ferreira Pas- tinha foi iniciado na capoeira aos dez anos de ida- de por um mestre africano cujo nome era Benedito. Após, aproximadamente, dois anos de aprendiza- do, Pastinha já ensinava capoeira aos seus colegas da Escola de Aprendizes da Marinha. Quando deu baixa, já aos 20 anos de idade, abriu a sua primeira escola de capoeira. Em 1922, mudou a sua academia para um local rodeado de repúblicas estudantis, o que proporcionou o aumento significativo de alunos (FREIRE; ZINGG, 1967; PASTINHA, 1988; REIS, 2000; PIRES, 2002). De acordo com Pires (2002), o mestre Pastinha foi um dos personagens responsáveis pelo processo de transformação social pelo qual passou a capoeira na Bahia, a partir da década de 20. Esta informa- ção nos é importante, pois nos permite repensar a própria concepção de capoeira praticada e difundi- da pelo mestre. Aliás, você notou que, quando nos referimos à capoeira do período em que mestre Pas- tinha aprendeu, não utilizamos a designação “Ango- la”? Isto se deve ao fato de este termo ser utilizado somente após o advento da capoeira Regional. An- tes, apesar de variações na forma de jogar, o termo utilizado era tão somente capoeira ou capoeiragem. Como já vimos, na unidade anterior, a aceitação social da capoeira esteve necessariamente ligada à capacidade de seus agentes culturais, entre os quais, mestre Pastinha, em lhe conferirem roupagem mais aproximada ao campo desportivo. Tal objetivo tam- bém fez parte da estratégia de mestre Pastinha. Entretanto, ele procurou conservar a sua capoeira “pura”, repudiando desta forma, a “mestiçagem” da luta inventada pelo mestre Bimba (REIS, 2000). O mestre Pastinha passou a representar uma espécie de guardião da tradição da capoeira, assu- mindo, desta forma, a responsabilidade de sua con- servação. A figura de Pastinha logo ganhou a sim- patia de grande parte da intelectualidade baiana, a qual estava, naquele momento, comprometida com a afirmação da africanidade da cultura brasileira e, particularmente, da baiana. Fred Abreu (2013) nos explica que o prestígio do mestre entre os intelectuais se dava, basicamente, pelo fato de a sua capoeira e de suas ações serem tratadas como sinônimo de tradição. Uma mostra de talprestígio fica evidente nos comentários de Abreu (2013, p. 23). Naquele tempo! (Ah naquele tempo!), o cartaz de Pastinha estava em alta, se expandia para além das fronteiras baianas. Artistas e intelec- tuais, entremeados na cultura popular, desta- cavam a personalidade do Mestre, enalteciam seu jogo, engrandeciam sua amorosa dedicação e zelo na arte da preservação e transmissão da capoeira. Da Capoeira de Angola, como ele bem disse. É indispensável, ao tratarmos da capoeira Angola, fazer menção ao nome de Vicente Ferreira Pastinha, o mestre Pastinha. Figura 1 - Vicente Ferreira Pastinha Fonte: Educando com Ginga ([2019], on-line)1. 50 CAPOEIRA Bem, caro(a) aluno(a), pensamos que já ficou evi- dente a importância do mestre Pastinha para a ca- poeira e, especialmente, para a capoeira Angola. Doravante, após nos familiarizarmos com a figura do mestre, conheceremos um pouco de suas contri- buições para a capoeira, ou seja, conheceremos um pouco da capoeira Angola de Pastinha. Em relação à utilização deste termo, por mais que seja atribuída à capoeira Angola o título de “capoeira mãe”, “a ca- poeira Angola, assim como a [...] Regional, também surgiu de um movimento de ruptura entre pratican- tes na cidade de São Salvador” (PIRES, 2002, p. 62). Assim, naquele período, preocupados sobrema- neira com as questões ligadas à aceitação social da capoeira, alguns mestres da época implementaram as suas concepções. Também é importante dizer que os praticantes não estavam organizados em um grupo coeso, e mesmo dentro daquilo que se convencionou chamar de capoeira Angola, havia várias tendências, visto a própria liberdade de criação dentro do univer- so da manifestação. Isto não significa que existiam vá- rias capoeiras, apenas formas particulares de jogá-la. Assim, sigamos com a capoeira Angola de Pas- tinha. Uma das suas características fundamentais é a malícia. Mas, o que é essa tal malícia? De acor- do com o próprio Pastinha (1988), é a conduta do capoeirista que, dentro do jogo, faz uso de diversos artifícios para enganar e distrair o outro jogador. Para tanto, “pula para um lado e para outro. Deita- -se e levanta-se. Avança e recua. Finge que não está vendo o adversário para atraí-lo. Gira para todos os lados e se contorce numa ‘ginga’ maliciosa e descon- certante” (PASTINHA, 1988, p. 27). O jogo, então, transcorre sem pressa, os jogadores vão criando as possibilidades de aplicação efetiva de seus golpes. Quanto aos golpes da capoeira Angola, o mestre explica que eles são em número relativamente pe- queno quando comparados a outras modalidades de luta, o que não a torna menos agressiva. Os princi- pais golpes da capoeira Angola são, de acordo com Pastinha (1988): cabeçada, rasteira, rabo de arraia, chapa de frente, chapa de costas, meia lua e cutilada de mão. Mestre Bola Sete, a partir da observação dos movimentos utilizados em escolas de capoeira An- gola, destacou alguns movimentos básicos. Assim os classifica pois considera que, a partir desses, outros são derivados, gerando um sem número de golpes de capoeira. Não se preocupe com a quantidade dos golpes, pois, em um jogo, é bastante comum que os joga- dores se valham da liberdade de criação e, sem des- respeitarem as regras e limitações, criem “golpes de ataque e de defesa conforme seja o caso, que nunca foram previstos e sem nome específico, e que após o jogo ele próprio não se lembra mais o tipo de expe- diente que improvisou” (REGO, 1968, p. 34). Esta é uma constatação que podemos aproveitar para refle- tirmos sobre a nossa futura prática profissional. Vimos que o capoeira é livre para improvisar os seus movimentos durante um jogo, neste sentido, como podemos estimular nossos(as) alunos(as) a explorarem essa liberdade du- rante a abordagem da capoeira? REFLITA EDUCAÇÃO FÍSICA 51 Quando abordarmos a capoeira nas aulas de Edu- cação Física ou em qualquer outro espaço, podemos fazê-lo a partir de, pelo menos, duas perspectivas: uma nos moldes convencionais, cujo(a) professor(a) demonstra e os(as) aluno(as) copiam, reproduzin- do aquilo que lhes foi demonstrado; ou podemos, a partir do reconhecimento da liberdade de expressão corporal como uma das características da capoeira, permitir que nossos(as) alunos(as) criem e movi- mentem-se livremente. Esta espontaneidade na criação de movimento está intimamente ligada à composição do “conjun- to musical ou ritmos da capoeira”, o qual propor- ciona ao jogo “graça, ternura, encanto e misticismo que bole com a alma dos capoeiristas” (PASTINHA, 1988, p. 29). O conjunto musical que, atualmente, é conhecido como “bateria” ou mesmo “orquestra”, tem a finalidade de determinar o andamento do ritmo do jogo. Os instrumentos apresentados por Pastinha como componentes de seu conjunto são: berimbaus, pandeiros, reco-reco, agogô, atabaque e chocalho. As cantigas representam outro elemento caracte- rístico da capoeira Angola. Para Pastinha (1988, p. 31), estas são demonstrações genuinamente popula- res que traduzem “em seus versos os sentidos da alma dos capoeiristas e do povo”. Via de regra, a roda de capoeira Angola se inicia com uma ladainha, seguida por uma chula ou louvação e, na sequência, iniciam- -se os corridos. Não se preocupe, por ora, com estas denominações, pois, na Unidade 4, onde trataremos dos instrumentos e das cantigas, nós discutiremos detalhadamente a definição e a estrutura desses tipos de cantigas característicos da capoeira Angola. Seguindo para os encaminhamentos finais des- se tópico, pensamos que seja válida uma síntese das análises realizadas por Reis (2000). A autora consi- dera que a capoeira Angola pode ser caracterizada, pelo menos no que se refere aos movimentos cor- porais, como um estilo cujo jogo é mais lento e se dá mais próximo ao chão, com uma ginga baixa e dançada, com uma postura mais defensiva, pouco ou quase nenhum contato corporal e predomínio do elemento lúdico, assim como certo aspecto de tea- tralidade. É preciso que lembremos que as considerações apresentadas, aqui, referem-se a uma concepção específica de capoeira Angola, ou seja, aquela es- truturada por mestre Pastinha. No entanto, mui- tos outros mestres, contemporâneos de Pastinha, assim como ele, também empreenderam trans- formações à capoeira da época. O que findou por conferir certa distinção a tal manifestação. Mestres como Waldemar, Canjiquinha, Caiçara, Cobrinha verde e tantos outros jogaram e ensinaram uma capoeira que, apesar de ser denominada “Ango- la”, apresentava características ímpares. Mas esta é uma questão, caro(a) aluno(a), para uma conver- sa demasiadamente longa, da qual teríamos muito prazer em participar, mas que devemos deixar para outra ocasião. Tendo abordado, neste tópico, questões referen- tes à capoeira Angola, preparemo-nos para o próxi- mo, no qual discutiremos a capoeira Regional. Espe- ro contar com sua companhia. Até lá! 52 CAPOEIRA Olá, caro(a) aluno(a). Nós estamos, nesta Unidade 2, tratando dos estilos de capoeira ou do conjunto de elementos e princípios que norteiam a forma de expressar e jogar capoeira. No universo cultural da capoeira, usualmente, falamos de dois estilos bem consolidados, a Angola, que tratamos no tópico an- terior, e a Regional, que abordaremos neste tópico, além de um terceiro que ora é tratado como estilo, ora não, mas que é inegável não ser nem Angola e nem Regional. No tópico anterior, nós fizemos con- tato com as características básicas da capoeira Ango- la. Ao longo da leitura, nos deparamos com a figura do mestre Pastinha, apontado como grande expoen- te do estilo por alguns e como criador por outros. O argumento que considera o mestre Pastinha como criador daquilo que hoje predomina como capoeira Angola se deu a partir da contextualização do perí- odo em que viveram o mestre e os seus contempo- râneos. Um período em que a capoeira lutava para se afirmar socialmente por meio das ações de seus agentes culturais, dentre os quais,o mestre Pastinha. Pois bem, continuaremos, considerando o con- texto de transformações às quais a capoeira foi submetida, para, depois, entendermos a estrutura da capoeira Regional, um estilo criado pelo Mes- tre Bimba. Comecemos, então, com uma definição A Capoeira Regional de Mestre Bimba EDUCAÇÃO FÍSICA 53 apresentada no Dicionário de Capoeira (2005). No verbete capoeira Regional, Lima (2005, p. 72) nos explica que é um “estilo de capoeira sistematizado pelo mestre baiano Manoel dos Reis Machado, onde os movimentos são mais rápidos com a introdução de golpes de outras lutas”. O nome de Manoel dos Reis Machado não nos é estranho, já tomamos co- nhecimento dele quando tratamos, no tópico 4 da Unidade 1, da ascensão social da capoeira. Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, nas- ceu em 23 de novembro de 1900 (SANTOS, 1996; ALMEIDA, 2005; CAMPOS, 2009). Há, entretanto, outros autores que divergem quanto ao ano de nas- cimento, que seria 1899 (PIRES, 2002; ABIB, 2013; MOURA, 2017). Filho de Luís Cândido Machado, um afamado campeão de batuque, e de Maria Mar- tinha do Bonfim. O seu nascimento se deu no bairro do Engenho Velho de Brotas, antiga freguesia de Bro- tas, na cidade de Salvador, Bahia (CAMPOS, 2009). No que se refere à vida e à obra de mestre Bimba, no universo da capoeira, podemos encontrar uma síntese na obra Mestre Bimba: uma crônica da capo- eiragem (1991), cujo autor foi um de seus discípulos, Jair Moura. No trecho que segue, o mestre relata, entre outros fatos, com quem aprendeu a capoeira. Desde 1918, que ensino capoeiragem. Adaptei vários golpes à “capoeira” praticada por um descendente da raça africana, de nome Nozi- nho Bento, mais conhecido por Bentinho, que muito se destacou neste setor, pela sua extra- ordinária habilidade e cujas demonstrações foram por mim observadas atentamente. Assi- milei e difundi os seus proveitos ensinamentos, adotando, em parte, a sua orientação (MOU- RA, 1991, p. 23). Note que a narrativa do mestre Bimba registrada por Moura (1991) indica as transformações empre- endidas por ele. Transformações essas que se deram, basicamente, a partir da necessidade de afirmação da capoeira como uma luta, e uma luta eficiente. De acordo com Campos (2009), o que teria motivado a criação da Regional teria sido o descontentamento do mestre Bimba com a forma folclorizada de capo- eira que era praticada à época. Mestre Atenilo, outro discípulo de Bimba, afir- mou, em entrevista concedida à Almeida (1991), que mestre Bimba procurou o apoio de seus colegas capoeiras para reverter a situação na qual se encon- trava a capoeira e, em certa ocasião, chegou a reu- nir-se com alguns capoeiras em uma de suas casas, onde teria dito: Olha, nós temos lutador de judô, boxeur, luta- dor de karatê, jiujitsu, lutador de luta livre, se nós ficar com essa capoeira angola quando pas- sar na rua vão dizer: olhe, discípulo de fulano tomou tapa na rua, é discípulo de beltrano pi- sado (sic) (ALMEIDA, 1991, p. 20). Se por um lado, o mestre Bimba operou transfor- mações na capoeira da época, atribuindo-lhe carac- terísticas mais belicosas, por outro, operou trans- formações quanto ao tipo social do praticante de capoeira. No período em que o mestre viveu, a ca- poeira ainda era alvo de perseguição e, sobretudo, de discriminação por resquícios herdados do século XIX, quando seus praticantes eram tidos como mar- ginais. Para Pires (2002), mestre Bimba representou um elo entre o passado e o presente, entre as gera- ções de capoeira na passagem do século XIX para o XX, mas, sobretudo, como um elo entre classes. Basta que observemos que grande parte dos alunos da capoeira criada por ele era oriunda da classe mais abastada economicamente. 54 CAPOEIRA Vieira (1998, p. 130) reforça esta percepção ao afir- mar que “Bimba operou o início do contato da capo- eira com outras esferas sociais, além da periferia das grandes cidades, recodificando os rituais nos moldes do ambiente político e cultural da década de trin- ta”. Moura (1991), como testemunha desse proces- so, uma vez que foi discípulo de Bimba, certifica-o ao postular que as ações do antigo mestre, ao ima- narem a capoeira que já praticava ao batuque, tor- navam a capoeira mais eficaz, revitalizando-a, sem que, contudo, perdesse o seu arcabouço nacional e tradicional. Conquistando, desta forma, adeptos de todas as classes sociais. A moçada da nossa melhor sociedade exercita- va a Capoeiragem Regional como esporte pro- veitoso e excitante. Foram seus cultores o ex-go- vernador do Guaporé, dr. Joaquim de Araujo Lima, o desembargador Décio dos Santos Se- abra, dr. Asclépios Ferrer, escritor primoroso, para enumerar somente alguns que acabaram com o preconceito que a luta infamava, deson- rava quem a praticava (MOURA, 1991, p. 26). As ações de mestre Bimba romperam com a tradição de marginalização da capoeira e de seus praticantes, pois, ao promover este fluxo da classe média alta para a prática, possibilitou o desenvolvimento de grupos com praticantes de melhor status na hierar- quia social. De certa forma, isto forçou uma espécie de seleção, uma vez que, de acordo com Pires (2002), o mestre passou a exigir que os frequentadores de sua academia fossem estudantes e/ou trabalhadores. Antes de seguirmos com a estrutura propria- mente dita da capoeira Regional, gostaria de lhe pro- vocar uma reflexão. Você certamente já percebeu, caro(a) aluno(a), que as transformações operadas pelo mestre Bimba não se deram somente na ordem estrutural, mas, em grande medida, na ordem social. Ou seja, ao criar a capoeira Regional, o mestre alte- rou a própria percepção que a sociedade tinha dessa prática na época. Nesse sentido, gostaria que você pensasse um pouco sobre quais foram as reações dos contemporâneos do mestre Bimba. Figura 7 - Mestre Bimba (com o berimbau) e os seus discípulos Fonte: Moura (2017, p. 44). O mestre Bimba, ao criar a capoeira Regional, alterou a forma como a sociedade se relacio- nava com a capoeira. Como você acha que os demais mestres dessa prática, na época, reagiram às ações de Bimba? REFLITA EDUCAÇÃO FÍSICA 55 Bem, vejamos como a postura do mestre Bimba e a expansão da sua capoeira Regional pela classe média soteropolitana foram percebidas pelos demais mes- tres de capoeira. O mestre Noronha, um dos grandes nomes da capoeira, no que se refere à preservação da sua memória, na Bahia, e tido como “[...] severo crítico dos capoeiras que não se dedicavam a conhe- cer melhor sua arte” (ABIB, 2013, p. 117), foi um desses contemporâneos de mestre Bimba. O mestre Noronha registrou em seu ABC da Capoeira Ango- la: os manuscritos do mestre Noronha, o seu contato com Bimba, com quem jogava quando este ainda residia no morro do Bogum. Afirma, ainda, conhe- cê-lo desde o tempo em que Bimba trabalhava como operador de carretão. Entretanto, após a criação da Regional, a situação entre eles parece ter mudado. Só depos [Bimba] mudou-se para outro lugar que formou uma roda de capoeira Regional na Pedra da marqua AV Vasco da Goma e nos desprezor. nos fomo que disprezor ele. Porque noso conjunto é conhecido. Porque o meios que ele estava hera meio de rico i depois ficou pobre (sic) (COUTINHO, 1993, p. 52). A eficiência, enquanto luta, e as características atlé- ticas da capoeira Regional foram amplamente di- vulgadas, por meio das apresentações artísticas e da participação em lutas de ringue (ABREU, 1999). Esta estratégia vigorou até a década de 40, quando foi abandonada. Ao final daquela década, Bimba já havia liderado um movimento de “academização da capoeira” (PIRES, 2002). O processo desenvolvido pelo mestre Bimba, na concepção da capoeira Regional, resultou em uma estrutura organizacional muito distinta da capoeira de seu tempo, e é composta por “exame de admissão, sequência de ensino de Mestre Bimba, sequência da cintura desprezada, batizado, roda, esquenta-banho, formatura, jogo de iúna, curso de especializaçãoe to- ques de berimbau” (CAMPOS, 2009, p. 54). Dentre estes elementos, talvez a sequência de ensino tenha sido o elemento que mais revolucionou a capoeira por modificar radicalmente a forma de docência. O que se sabe sobre o processo de ensino-aprendiza- gem da capoeira dos antigos mestres é que se dava de forma assistemática, ou seja, sem uma sequência lógica ou progressiva. Os velhos mestres como Wal- demar, Canjiquinha e o próprio Bimba denomina- vam essa forma de ensino-aprendizagem de “oitiva” (ABREU, 2003). Para entendermos melhor a relevância da cria- ção de mestre Bimba, enquanto um método didati- camente articulado, acompanhemos o depoimento de Waldemar Rodrigues da Paixão sobre como se deu o seu aprendizado na capoeira. Eles [os mestres] vinham para Periperi, aquela roda danada. Foi quando eu peguei a apren- der com eles. Eu era rapazinho. Comprava du- zentos réis de vinho tinto, aquele copo branco de alça, ele tomava e dizia: ‘pegue na boca da minha calça!’ Eu levava pra pegar na boca da calça dele e ele virava aquela cambalhota des- graçada e já cobria [com] o rabo de arraia. Quando eu ia levantando ele dizia: ‘não levante não, vai outro!’ Os alunos deles jogavam com a gente como que [se] a gente já era [fosse] bom (ABREU, 2003, p. 16). O próprio mestre Waldemar conservou o seu en- sino de forma muito próxima ao seu aprendizado, com poucas variações, uma vez que “ensinava na roda, mas tinha os dias de treino. Eles estavam jo- gando e eu fazia sinal pra fazer tesoura, fazia si- nal pra chibatear, fazia sinal pro outro abaixar” (ABREU, 2003, p. 20). 56 CAPOEIRA O mestre Bimba é celebrado por ter criado “o pri- meiro método de ensino da capoeira, que consta de uma sequência lógica de movimentos de ataque, de defesa e contra-ataque” (CAMPOS, 2009, p. 55). O que diferen- cia o método de Bimba é o processo progressivo, que considera a possibilidade de ensino aos praticantes que se encontram em diferentes estágios de conhecimento da capoeira. A sequência é composta por oito partes, que englobam os movimentos fundamentais da capo- eira Regional, os quais são combinados em situações que simulam o jogo propriamente dito. Nessa situação, o aluno aprende de forma segura e, após se apropriar de algum conhecimento, realiza um jogo. Situação bem diferente daquela narrada pelo mestre Waldemar. A progressão pedagógica fica evidente na sequ- ência de ensino do mestre Bimba, uma vez que parte de situações de jogos simulados, desde as mais sim- ples até as mais complexas. Nos dizeres de Almeida (1994), mestre Bimba em sua genialidade, concebeu um método capaz de proporcionar aos alunos uma consciência da imprescindível necessidade de jogar com os elementos essenciais da capoeira, quais se- jam: os golpes, as defesas e contragolpes. Campos (2009) nos explica que a sequência de ensino do mestre Bimba, na prática cotidiana do Cen- tro de Cultura Física Regional, era aplicada em uma versão simplificada, indicada para aqueles alunos iniciantes, e uma versão completa, executada pelos alunos formados. Via de regra, a versão completa era mais utilizada no curso de especialização, em função da demanda técnica e física. Acompanhemos, a seguir, a sequência de ensino simplificada do mestre Bimba. Quadro 1 - Primeira sequência: meia-lua de frente com armada 1ª SEQUÊNCIA – MEIA-LUA DE FRENTE COM ARMADA MOVIMENTOS ALUNO A ALUNO B Meia-lua de frente, perna direita. Defende com cocorinha. Meia-lua de frente, perna esquerda. Defende com cocorinha. Armada, perna direita. Defende com negativa, perna esquerda. Sai de aú. Fonte: Adaptado de Campos (2003). Figura 8 - Primeira sequência Fonte: Campos (2003, p. 67). EDUCAÇÃO FÍSICA 57 Quadro 2 - Segunda sequência: queixada 2ª SEQUÊNCIA – QUEIXADA MOVIMENTOS ALUNO A ALUNO B Queixada, perna direita. Defende com cocorinha. Queixada, perna esquerda. Defende com cocorinha, contra-ataca com armada, perna direita. Defende com cocorinha e contra-ataca com bênção, perna direita. Defende com negativa, perna direita. Sai de aú. Aplica a cabeçada. Defende com rolê. Fonte: Adaptado de Campos (2003). Figura 9 – Segunda sequência Fonte: Campos (2003, p. 68-69). 58 CAPOEIRA Quadro 3 - Terceira sequência: martelo 3ª SEQUÊNCIA – MARTELO MOVIMENTOS ALUNO A ALUNO B Martelo, perna direita. Defende com esquiva e palma. Martelo, perna esquerda. Contra-ataca com armada, perna direita. Defende com cocorinha e contra-ataca com bênção. Defende com negativa. Sai de aú. Aplica a cabeçada. Defende com rolê. Fonte: adaptado de Campos (2003). Figura 10 - Terceira sequência Fonte: Campos (2003, p. 70-71). EDUCAÇÃO FÍSICA 59 Quadro 4 - Quarta sequência: galopante e arrastão 4ª SEQUÊNCIA – GALOPANTE E ARRASTÃO MOVIMENTOS ALUNO A ALUNO B Godeme, direito. Defende com palma direita. Godeme, esquerdo. Defende com palma esquerda. Contra-ataca com galo- pante com a mão direita. Arrastão. Defende com negativa. Sai de aú. Cabeçada. Defende com rolê. Fonte: adaptado de Campos (2003). Figura 11 – Quarta sequência Fonte: Campos (2003, p. 72-73). 60 CAPOEIRA Quadro 5 - Quinta sequência: arpão de cabeça 5ª SEQUÊNCIA – ARPÃO DE CABEÇA MOVIMENTOS ALUNO A ALUNO B Giro. Cabeçada no abdômen. Contra-ataca com joelhada. Defende com negativa. Sai de aú. Aplica a cabeçada. Defende com rolê. Fonte: adaptado de Campos (2003). Figura 12 – Quinta sequência Fonte: Campos (2003, p. 74-75). EDUCAÇÃO FÍSICA 61 Quadro 6 - Sexta sequência: meia-lua de compasso 6ª SEQUÊNCIA – MEIA-LUA DE COMPASSO MOVIMENTOS ALUNO A ALUNO B Meia-lua de compasso, perna direita. Defende com cocorinha e contra-ataca com meia-lua de compasso, perna direita. Defende com cocorinha. Joelhada, perna esquerda. Meia-lua de compasso, perna esquerda. Defende com cocorinha e contra-ataca com meia-lua de compasso, perna esquerda. Defende com cocorinha. Joelhada, perna direita. Defende com negativa. Sai de aú. Aplica a cabeçada. Defende com rolê. Fonte: adaptado de Campos (2003). Quadro 7 - Sétima sequência: armada 7ª SEQUÊNCIA – ARMADA MOVIMENTOS ALUNO A ALUNO B Armada, perna direita. Defende com cocorinha. Contra-ataca com armada, perna direita. Defende com cocorinha. Contra-ataca com benção, perna direita. Defende com negativa, perna direita. Sai de aú. Aplica a cabeçada. Defende com rolê. Fonte: adaptado de Campos (2003). Figura 13 – Sexta sequência Fonte: Campos (2003, p. 76). 62 CAPOEIRA Quadro 8 - Oitava sequência: benção, cabeçada e rolê 8ª SEQUÊNCIA – BENÇÃO, CABEÇADA E ROLÊ MOVIMENTOS ALUNO A ALUNO B Benção, perna direita. Defende com negativa, perna direita. Sai de aú. Aplica a cabeçada. Defende com rolê. Defende com negativa. Fonte: adaptado de Campos (2003). Figura 14 – Sétima sequência Fonte: Campos (2003, p. 77-78). Figura 15 – Oitava sequência Fonte: Campos (2003, p. 79). EDUCAÇÃO FÍSICA 63 Se a capoeira Angola tem seu jogo caracterizado pela malícia, como vimos no tópico anterior, a capoeira Regional tem o seu jogo caracterizado por uma plas- ticidade corporal muito própria. Os golpes são bem definidos tecnicamente, executados, via de regra, com as pernas estendidas, que projetam movimen- tos mais amplos. Predomina, na capoeira Regional, o jogo alto, rápido e objetivo (CAMPOS, 2009). Quanto aos golpes que compõem o repertório geral da capoeira Regional, é preciso que nos lem- bremos do caráter dinâmico da capoeira, no que se refere aos seus movimentos, como já abordamos em tópico anterior. Santos (1996) nos auxilia nessa questão ao afirmar que, entre os anos de 1946 e 1949, período em que conviveu, diariamente, com o mestre Bimba como seu discípulo, o repertório da capoeira Regional contava com 45 golpes. Em 1966, o autor afirma ter tomado conhecimento de 52 golpes. Cam- pos (2009), apesar de não nos apresentar números, demonstra classificação e nomenclatura próprias da Regional. Explica-nos o autor que os movimentos ca- racterísticosdessa capoeira são divididos em: “fun- damentais, básicos, traumatizantes, desequilibrantes, de projeção e ligados” (CAMPOS, 2009, p. 63). Como elemento característico da capoeira, a mu- sicalidade também se faz presente no estilo Regional. Compõe o seu repertório musical as quadras, a lou- vação e os corridos (CAMPOS, 2009). Assim como nos demais estilos, as cantigas na capoeira Regional extrapolam a função de animar a roda. Elas assumem o papel de registrar e preservar os fatos cotidianos que envolvem e envolveram a capoeira e os seus pra- ticantes ao longo de sua história, registrando e enal- tecendo as suas façanhas, bravuras e desventuras em períodos e contextos percebidos de forma ímpar, muito particular, por aqueles que os vivenciaram. Finalizamos este tópico, reconhecendo o mérito de mestre Bimba que, com pouca instrução formal, foi capaz de fazer uma leitura do seu tempo, de uma sociedade em transição e operar modificações em sua arte, até então marginalizada. Reconheçamos o cará- ter revolucionário de mestre Bimba e os impactos de suas ações. Conhecer a história e, principalmente, a obra, tanto do mestre Bimba quanto do mestre Pas- tinha, enquanto expoentes da capoeira, auxiliar-nos- -á a compreender melhor a prática que se apresenta atualmente. Convido-lhe, caro(a) aluno(a), à leitura do próximo tópico, no qual discorreremos acerca da capoeira Contemporânea. Até breve! 64 CAPOEIRA Olá, caro(a) aluno(a). Com o intuito de conhecermos as diferentes formas de organizar e mesmo de jogar a capoeira, apresentamos, nesta unidade, os estilos ou vertentes de capoeira. Tradicionalmente, essa mani- festação tem sido polarizada entre os estilos Angola e Regional. O primeiro estilo tem como seu grande guardião e representante Vicente Ferreira Pastinha, o mestre Pastinha. Tomamos conhecimento, no pri- meiro tópico, de argumentos que asseveram que a capoeira Angola praticada atualmente é descendente das formulações empregadas por esse mestre. No se- gundo tópico, nos deparamos com a capoeira Regio- nal, fruto das ações de Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, que, nas primeiras décadas do século XX, descontente com a forma folclorizada apresenta- da pela capoeira à época, criou uma nova estrutura. Ambos os estilos apresentados refletiram as demandas sociais de um período, cuja resposta da capoeira, por intermédio, sobretudo, de Bimba e Pastinha, foi as transformações nos seus códigos, tanto estruturais quanto sociais. Tais transforma- ções aproximaram a capoeira da estrutura esportiva, tornando-a, assim, mais palatável para a sociedade daquela época. Capoeira Contemporânea: uma Tendência Atual EDUCAÇÃO FÍSICA 65 Esta retomada de ideias servirá para que nos lembremos de que a capoeira, como uma constru- ção humana, portanto, social, cultural e histórica, é dinâmica. Ou seja, é imperativo saber que a capoei- ra jogada atualmente nem sempre apresentou essa estrutura, esta codificação. Tal dinamicidade, em termos pedagógicos, gera um problema, pois não temos como apresentar definições e tampouco con- ceitos precisos, inequívocos. Trataremos, então, de apresentar termos, expressões e estruturas mais usu- ais, atualmente, no universo cultural da capoeira. Comecemos pela terminologia capoeira Contem- porânea que, mesmo não sendo uma expressão consensual, tem predominado, atualmente, no universo cultural da capoeira. Grosso modo, este termo tem sido utilizado para designar uma forma de jogar que não pode ser identificada nem como Angola e nem como Regional, mas que, ao mesmo tempo, apresenta características tanto da capoeira Angola quanto da capoeira Regional. Parece confu- so? Não se preocupe, pois essa é uma questão que tem sido amplamente debatida entre os pratican- tes. Questiona-se, por exemplo, se a forma como a capoeira se apresenta pode ser considerada um estilo. Os posicionamentos são diversificados, uns defendem ser Contemporânea um estilo, uma for- ma de evolução quase natural da própria manifes- tação, que atende às demandas atuais, outros, mais ortodoxos, concebem a existência de apenas dois estilos, Angola e Regional. Para ilustrar como o debate tem ocorrido a esse respeito, citamos a primeira Jornada Cultural de Ca- poeira, realizada em 1987, na cidade de Ouro Pre- to-MG. Este evento reuniu muitos mestres de capo- eira de diferentes gerações e estilos. Um dos temas debatidos foi justamente os estilos. Vejamos como Ezequiel Martins Marinho, o mestre Ezequiel, re- presentante da capoeira Regional, se expressou, por meio de uma cantiga que, na ocasião, ele intitulou “Protesto”, quanto à forma como a capoeira estava sendo jogada. Além dos estilos apresentados nesta unida- de, tem se verificado a ocorrência de outras derivações de capoeira. Entre elas, podemos citar: capojitsu, aerocapoeira, hidrocapoeira, capoeira-barravento, soma-capoeira, capoeira de Cristo, zen-capoeira, capoeira-miudinha, capoeira-dancing, capoeira-gospel, capoeira arte-luta, capoeira evangélica, capoterapia, capoeira workout e etc. Fonte: Falcão (2010) e Lima (2005). SAIBA MAIS 66 CAPOEIRA PROTESTO (ELE É CARA-DE-PAU) Mestre Ezequiel Mestre Bimba e Mestre Pastinha Foram responsáveis por uma legião Sua memória merece respeito Merece carinho, merece atenção Estão inventando muita capoeira Isso é loucura, isso é besteira Eles ficam em cima do muro Não pula pra frente nem pula pra trás Quando a gente pergunta o que joga Você sai dizendo na cara-de-pau Eu jogo uma capoeira Que não é Angola nem Regional Ele é cara-de-pau, ele é cara-de-pau Capoeira é Angola ou Regional. É importante que se diga que, tanto a passagem descrita por Dias (1995) quanto o protesto de mestre Ezequiel, durante a Jornada Cultural, re- fletem o seu tempo, um período em que a polari- zação Angola/Regional predominava. Pelo menos no contexto baiano. Em outros contextos, essa polarização estava passando por um processo de amenização, muito em função das condições as quais estavam sendo submetidos os próprios capoeiras. Vejamos, por exemplo, a situação no contexto paulistano, nas décadas de 60 e 70. Levados pelo fluxo migratório norte-sul, muitos capoeiras baianos, adeptos tanto da Angola como da Regional, conviviam sem que as dissidências entre os dois estilos se manifestassem acentuadamente, como ocorria no contexto baiano. O contexto paulistano, por exemplo, possibilitou que a capoeira fosse recriada, “surgindo uma forma de jogar que refará a dicotomia baiana, a qual talvez possamos chamar de ‘Regional Angolizada’” (REIS, 2000, p. 127). Perceba, prezado(a) aluno(a), que a rivalida- de existente, no contexto baiano, entre os estilos de capoeira foi, naquele momento, superada pelas dificuldades comuns as quais foram submetidos os agentes migrantes. Retomemos, aqui, o dilema de Dias (1995), exposto há poucas linhas atrás, que, ao se deparar com jogos executados por autênticos representantes tanto da capoeira Angola quanto da Regional, questionou-se sobre a forma como ele mesmo praticava a sua capoeira. Qual foi a solução encontrada pelo autor? Deixemos que ele mesmo nos diga. Esta problemática fica, igualmente, evidente no arti- go publicado, em 1995, no boletim da Ginga Asso- ciação de Capoeira, escrito por Ricardo Dias. No ar- tigo, cujo sugestivo título é “Angoleiro ou Regional: eis a questão?” o autor compartilha a sua experiên- cia de vida na prática, especificamente, o momento em que as suas concepções de capoeira são postas à prova. Em 1987, tive a sorte de participar dos JEB’s e encontrei explícita e autêntica essas duas formas de capoeira (Angola e Regional) pelas mãos de alguns de seus filhos mais ilustres. Pronto! Essa foi a maior e mais importante rasteira que já le- vei até hoje na minha vida capoeirística (DIAS, 1995, p. 45). EDUCAÇÃO FÍSICA 67 Nas minhas reflexões, consegui enxergar dois caminhos: um era de fazer uma opção entre a capoeira Angola e a Regional; o outro era decontinuar praticando as duas. Optei pelo se- gundo caminho, mas procurei pesquisar bas- tante para entender ao máximo e de forma inteira e consciente as duas linhas de capoeira (DIAS, 1995, p. 46). Este processo de miscigenação da capoeira, ou seja, uma forma híbrida de jogar se valendo dos dois es- tilos já consagrados se deu entre duas e três décadas antes do período ao qual Dias (1995) se refere, mas o seu depoimento revela uma situação pela qual mui- tos capoeiras passaram. Angola e da Regional. Tal fato demonstra como os estilos se articularam. Em matéria intitulada “São Paulo: meio século de capoeira”, veiculada na Revista Capoeira, Antô- nio Cardoso Andrade, o mestre Brasília, ao se referir àquele período, relembra que, individualmente, os estilos consagrados “não vingaram, nem a Angola nem a Regional. Alguns mestres jogavam a Angola (Limão, Silvestre e eu) e outros a Regional (Ayrton, Suassuna e Paulo Gomes). Daí saiu uma capoeira que não é uma coisa nem outra. Ficou diferente” (FERREIRA, 1999, p. 27). Para Reis (2000, p. 132), “com a abertura da Cordão de Ouro em terras pau- listanas, assistimos ao impensável na Bahia: dois mestres, um formado na Angola e outro na Regio- nal, abrirem juntos uma academia que se tornaria um lugar de comunhão da capoeira”. Esta confluência entre os estilos parece ter sido uma tendência da capoeira a partir de então. No mesmo período, porém, no contexto carioca, ini- ciou-se um movimento parecido, desencadeado por outras vias, é bem verdade. Um grupo de jovens oriundos da classe média alta se juntou para treinar a capoeira. Gil Clementino Cavalcanti de Albuquer- que Filho, o mestre Gil Velho, um dos membros da- quele grupo de jovens, que viria a se tornar um dos grupos mais conhecidos e influentes, revela a Nestor Capoeira (1992) detalhes daquele período. “Nessa época [1964], havia uns dez adolescentes treinando no terraço do Rafa [Mestre Rafael Flores]. Não ha- via professor, o aprendizado era orgânico e intuitivo: uns iam aprendendo o pouco que os outros sabiam” (CAPOEIRA, 1992, p. 94). O grupo de rapazes apre- sentou-se pela primeira vez, em 1966, com a desig- nação de grupo Senzala. A menção ao grupo é re- levante, pois os seus integrantes à época, conforme o trabalho foi desenvolvido, seguiam a linha da ca- Retomemos as características do contexto paulis- tano, no qual muitos capoeiras baianos foram sub- metidos a dificuldades nas décadas de 60 e 70. Tal contexto parece ter possibilitado o convívio até certo ponto harmonioso entre praticantes da Angola e da Regional. Podemos verificar tal situação representa- da na abertura, por volta de 1967, da academia Cor- dão de Ouro. O que há de importante na abertura da referida academia é o fato dos mestres Brasília e Suassuna serem, respectivamente, representantes da 68 CAPOEIRA poeira Regional. Entretanto, como lembra Fernando Clementino Cavalcanti de Albuquerque, o mestre Gato, em função das experiências do grupo, tanto os conhecimentos da Regional quanto os da Angola eram vivenciados pelos integrantes do grupo. Sentindo falta do conhecimento dos funda- mentos, procuramos (na década de 60) contato com as raízes na Bahia durante as férias, parti- cipando de rodas tradicionais como a do finado Valdemar da Liberdade, mestre Bimba, mestre Pastinha, mestre Popó de Santo Amaro. De vol- ta ao Rio de Janeiro, procuramos discutir expe- riências, os conhecimentos adquiridos e tenta- mos implementar aquelas vivências na roda do grupo Senzala (CAPOEIRA, 1992, p. 47). O que eu gostaria que você percebesse, prezado(a) aluno(a), é que a partir das décadas de 60 e 70, por diversos motivos, a polarização entre Angola e Re- gional, característica no contexto baiano, perdeu força em outros contextos. O que se viu foi um pro- cesso de miscigenação da capoeira, em que ambos os estilos passaram a ser praticados em ambientes comuns, por frequentadores de uma mesma acade- mia, por integrantes de um mesmo grupo. Entretan- to, não devemos concluir, com isso, que os capoeiras contemporâneos jogam Angola exatamente como jogam os angoleiros, tampouco jogam Regional exatamente como jogam os praticantes da Regional. Entre outros fatores, é por isso que é difícil definir a capoeira Contemporânea, pois, ao mesmo tempo em que ela joga Angola e Regional, não é nem uma e nem outra. Relembremos a Primeira Jornada Cultural de Capoeira, ocasião em que mestre Ezequiel protes- tou por meio de uma cantiga, cujo conteúdo ver- sava sobre a impossibilidade, do ponto de vista do mestre, da existência de uma capoeira que não fosse Angola ou Regional. Logo ao final da fala do mes- tre Ezequiel, José Tadeu Carneiro Cardoso, o mestre Camisa, pediu a palavra e passou a argumentar, por se sentir representante deste novo modo de jogar capoeira. Em seus argumentos, o mestre Camisa utilizou a expressão capoeira Contemporânea para referir-se à concepção de prática que defendia, pra- ticava e ensinava. Ao explicar para os presentes o trabalho que desenvolvia e, registre-se, que ainda desenvolve, o mestre afirmou: “eu não ensino ca- poeira Angola e nem ensino capoeira Regional [...] muitos dizem que eu jogo as duas. Eu jogo capoeira”. Este parece ser o argumento predominante, a ideia de que apesar de existirem diferentes formas de jo- gar, a capoeira é uma só. Ou seja, uma manifestação que pode ser jogada de várias maneiras, mas a sua essência é uma só. Será que a existência de diferentes estilos, vertentes, escolas ou grupos, enfim, de dife- rentes formas de jogar capoeira, pode gerar algum tipo de disputa entre os seus pratican- tes? Como podemos lidar com essas questões, no ambiente escolar, ou em outros espaços, onde a capoeira é ensinada? REFLITA O fato é que a capoeira como se apresenta atual- mente é diferente da Angola de mestre Pastinha e da Regional de mestre Bimba, mesmo que os mestres da capoeira Contemporânea busquem os seus fun- damentos nesses dois estilos. Passemos, então, à caracterização da capoeira Contemporânea. Uma vez que comungam os dois estilos, a Contemporânea finda por tornar evidente EDUCAÇÃO FÍSICA 69 os elementos de ambos em sua estrutura. A gestua- lidade que predomina nesse estilo parece desenvol- vida a partir da capoeira Regional. Os movimentos são vigorosos, atléticos, bem definidos, executados a partir de uma técnica bastante apurada, obtida à custa de muito treino. Registra-se a presença signi- ficativa dos movimentos acrobáticos, dos floreios. Tais movimentos talvez sejam resquícios dos gru- pos folclóricos que, nas décadas de 1960 e 1970, eram compostos, em sua maioria, por capoeiras, o que tornava a prática o elemento central nos shows. Campos (1995), que compôs um grupo folclórico naquele período, relembra: Entendíamos que para o espetáculo ficar mais emocionante, necessitávamos de algo que pro- duzisse uma sensação de estranheza e coreo- graficamente fosse belo, desta forma, impres- sionando os espectadores. Por esse motivo, lançávamos mão de movimentos plásticos e de coreografias de maior efeito para o público [...] (CAMPOS, 1995, p. 60). Quanto à roda de capoeira Contemporânea, acredi- tamos que seja o momento onde se torne mais nítida a influência dos estilos, visto que, a roda é inicia- da com os toques provenientes da capoeira Ango- la, consequentemente, os jogos também seguem os fundamentos desse estilo. Neste momento, há a tentativa de se manter o mais próximo possível das tradições da Angola, assim as cantigas são aquelas características do estilo, bem como o gestual. Con- forme se dá o adiantar da roda, passa-se a utilizar os preceitos da Regional, mas sem que se modifique, por exemplo, a bateria, o que não corresponde àque- la utilizada na Regional. Por ora, prezado(a) aluno(a), não nos deteremos nas cantigas ou mesmo nos instrumentos, pois estes serão expostos detalhadamente na Unidade 4 deste livro, de modo que fique claro quais são os princi- pais instrumentos e cantigas de cadaestilo. Para finalizarmos este tópico referente à capoei- ra Contemporânea, pensamos ser importante uma ponderação sobre a estrutura organizacional da ca- poeira atual. Nós vimos que, a partir das décadas de 60 e 70, grupos de praticantes de capoeira come- çaram a se organizar. Este processo se intensificou a partir da década de 80, quando houve um movi- mento em nível nacional de expansão dos grandes grupos de capoeira. Este processo alterou significa- tivamente a relação mestre-aluno. O aluno, que ou- trora se identificava diretamente com o seu mestre e era reconhecido com tal, atualmente identifica-se e é mais facilmente reconhecido pelo grupo do qual é integrante (LUNA; MARQUES; VIEIRA, 2015). Isso não significa, entretanto, que o mestre tenha perdido espaço ou valorização, afinal, os grupos, via de regra, representam justamente a perspectiva que o(s) seu(s) mestre(s) fundador(es) têm de capoeira. Nesse sentido, temos grande diversidade de elemen- tos organizacionais. Por exemplo, é muito difícil apresentar nomes de movimentos, visto que o mesmo movimento pode ter nome diferente em diferentes grupos (e normal- mente tem). Situação similar ocorre com o sistema de graduação, que varia de grupo para grupo. Apesar da existência de iniciativas de unificação, o cenário di- versificado é o predominante. O que podemos pensar disso? É bom? É ruim? Quais as consequências para a capoeira? Quais as potencialidades? Bem, estas são questões que lhes deixo como provocações. Até breve! 70 considerações finais Olá, prezado(a) aluno(a), nesta unidade, nos propomos a identificar e a reconhe- cer os estilos ou as vertentes de capoeira e tomamos conhecimento da polariza- ção entre os estilos Angola e Regional, bem como da Contemporânea. Vimos que, a partir da década de 30, mestres como Bimba e Pastinha opera- ram transformações na estrutura da capoeira a fim de torná-la socialmente aceita. Foi nesse contexto que o mestre Bimba criou a capoeira Regional, um estilo mais atlético e, segundo o mestre, mais eficiente como luta. Criou ainda uma “sequên- cia de ensino” que alterou radicalmente a forma como os conhecimentos dessa manifestação eram transmitidos. Com o advento da Regional, a capoeira passou a ser praticada por integrantes de um estrato social economicamente privilegia- do. No mesmo período, o mestre Pastinha implementou algumas transformações naquela capoeira que se jogava antes da Regional e que se convencionou denomi- nar, a partir daquele momento, de capoeira Angola. As ações do mestre Pastinha foram em direção à preservação dos aspectos mais tradicionais da prática. Para além do cenário baiano ocorreu, a partir das décadas de 60 e 70, um processo aproximação dos dois estilos de capoeira, o qual deu origem a uma es- pécie de miscigenação, uma forma híbrida de capoeira. Por ser uma questão atu- al, ainda é bastante debatida, porém, temos registrado, com muita frequência, a utilização da expressão “contemporânea” em referência à capoeira que se pratica atualmente. Esta, nem Angola e nem Regional, congrega elementos destes dois estilos. Lembre-se, prezado(a) aluno(a), que tratamos aqui de uma construção hu- mana e, como tal, ela reflete as necessidades de seu tempo. Logo, reconhecer a dinamicidade da capoeira nos auxilia na compreensão dos dilemas que se expres- sam em seu desenvolvimento. Preparemo-nos para as próximas unidades, nas quais abordaremos os elementos constitutivos da capoeira. Forte abraço e até breve! 71 atividades de estudo 1. Com base no conteúdo estudado nesta unidade, relacione as características gestuais elencadas a seguir aos respectivos estilos ou vertentes de capoeira. 1 - Capoeira Angola 2 - Capoeira Regional 3 - Capoeira Contemporânea ( ) Caracterizada por movimentos vigorosos, atléticos, bem definidos e executados a partir de uma técnica bastante apurada, obtida à custa de muito treino. ( ) Caracterizada por um jogo que transcorre sem pressa, onde predomina a malícia. Jogo re- alizado mais próximo ao chão, com presença do elemento lúdico e de certa teatralidade. ( ) Caracterizada por uma plasticidade cor- poral muito própria, com golpes bem definidos tecnicamente e executados, via de regra, com as pernas estendidas, projetando movimentos mais amplos. A sequência correta para a resposta da questão é: a) 1, 2 e 3. b) 2, 3 e 1. c) 3, 1 e 2. d) 3, 2 e 1. e) 1, 3 e 2. 2. A capoeira Angola é comumente apresentada como a capoeira “mãe”, “tradicional”, descenden- te direta da herança africana. Quanto à capoeira Angola, analise as afirmações a seguir. I - É um estilo sistematizado por Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, cujos mo- vimentos são mais rápidos e com a intro- dução de golpes de outras lutas. II - A capoeira Angola desenvolvida pelo mes- tre Pastinha ganhou prestígio entre os in- telectuais baianos pelo fato de ser consi- derada sinônimo de tradição. III - A malícia, característica do jogo da capoei- ra Angola, é a conduta do capoeira que faz uso de diversos artifícios para enganar e distrair o outro jogador. IV - Um dos maiores expoentes desse estilo foi Vicente Ferreira Pastinha. Ele foi um dos responsáveis pelo processo de trans- formação social da capoeira na Bahia, a partir da década de 20. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) III e IV, apenas. e) II, III e IV, apenas. 3. Filho de Luís Candido Machado e Maria Martinha do Bonfim, Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, adaptou golpes de outras lutas à capoeira que ele já praticava, criando, desta forma, a ca- poeira Regional. Quanto a este estilo, analise as afirmativas a seguir. I - É um estilo cujos movimentos são mais rápidos e com a introdução de golpes de outras lutas. II - É um estilo sistematizado por Vicente Fer- reira Pastinha, o mestre Pastinha, que in- seriu movimentos de outras lutas, como o batuque, conferindo, assim, uma tradição africana. 72 atividades de estudo III - Mestre Bimba criou a Regional, dentre outros motivos, por conta do seu descon- tentamento com a forma folclorizada ado- tada e apresentada pela capoeira em seu tempo. IV - Mestre Bimba achava que a capoeira pra- ticada à sua época apresentava um cará- ter belicoso e, por isto, criou a Regional, uma forma mais teatral e folclorizada. É correto o que se afirma em: a) II, apenas. b) I e II, apenas. c) I e III, apenas. d) III e IV, apenas. e) II, III e IV, apenas. 4. Mesmo sem consenso quanto à sua utilização, a expressão capoeira Contemporânea tem predo- minado para designar uma forma atual de jogar que não é nem Angola e nem Regional. Quanto à capoeira Contemporânea, analise as afirmativas a seguir. I - Caracterizada como uma forma de jogar que não pode ser identificada nem como Angola e nem como Regional, mas que, ao mesmo tempo, apresenta características de ambas. II - Foi sistematizada a partir de um acordo entre Vicente Ferreira Pastinha e Manoel dos Reis Machado para difundirem a ca- poeira mundialmente. III - Fora do contexto baiano, a polarização Angola/Regional era amenizada pelas con- dições as quais estavam submetidos os capoeiras, possibilitando uma forma mis- cigenada de jogar. IV - Na capoeira Contemporânea, a gestuali- dade predominante é herdeira da Regio- nal, logo, não há nenhum aspecto que relacione a Contemporânea com a Angola. É correto o que se afirma em: a) II, apenas. b) I e III, apenas. c) I e II, apenas. d) I, III e IV, apenas. e) II, III e IV, apenas. 5. Dentre os elementos que compõem a estrutura da capoeira Regional criada pelo mestre Bimba, talvez a sequência de ensino tenha sido o que mais revolucionou a capoeira. Nesse sentido, disserte sobre a sequência de ensino do mestre Bimba. 73 LEITURA COMPLEMENTAR A formação do cenário contemporâneo da capoeira Voltemos um pouco no tempo para explicar melhor a emergência da capoeira contemporânea. Nos início dos anos 70, os capoeiristas ainda tinham algo de exótico.A própria capoeira era vista como uma manifestação cultural que buscava se afirmar como esporte, cujo lugar “natural” seriam as comunidades mais pobres e periféricas, de po- pulação predominantemente afrodescendente. A prática da capoeira em instituições mais elitizadas ainda causava estranheza e, de fato, muitas delas fechavam suas portas para ela. Era necessário, portanto, um grande esforço de “organização” da capoeira, dando continuidade à trajetória iniciada pelos praticantes da primeira metade do século XX. Assim, as décadas de 1970 e 1980 se caracterizam como a época dos grandes projetos relacionados com a capo- eira. A maioria deles com algum de pioneirismo (embora houvesse muitas e importantes iniciativas isoladas ante- riores): capoeira na escola, na universidade, para porta- dores de necessidades especiais, nos curso de licencia- tura em Educação Física, em institutos de reeducação de menores infratores, como terapia, como “ginástica brasi- leira” e como objeto de dissertações e teses acadêmicas. Há, na literatura sobre a capoeira, inúmeros registros de trabalhos relevantes, em todas essas áreas e em algu- mas outras e não é nossa proposta aqui enumerá-los. O importante é destacar esse momento de mudança na história contemporânea da capoeira. Foi nas décadas de 1970 e 1980, também, que a capo- eira conquistou seu lugar no cenário esportivo nacional, ainda sob a égide da Confederação Brasileira de Pugilis- mo, e obteve reconhecimento de vários órgãos governa- mentais ligados ao esporte e à educação. No início, as competições de capoeira assemelhavam-se às de outras modalidades de luta, não considerando toda a riqueza da arte, reduzindo-a a um simples esporte de combate. Aos poucos, foi-se chegando a formas mais elaboradas e completas de avaliação dos capoeiristas e as competições ficaram muito parecidas com as próprias rodas de capo- eira. Convém lembrar o papel de laboratório da capoeira nos Jogos Escolares Brasileiros (JEBs), que contribuiu para construção de uma visão mais global dessa arte-lutada. É importante destacar que os 80 foram também a déca- da da expansão nacional dos grandes grupos de capoei- ra. Firmou-se esse modelo na organização da nossa arte, apesar dos esforços de alguns pela adoção do modelo tradicional das federações. Este, sem dúvida foi o passo que mais se destacou na história contemporânea da ca- poeira: a consolidação da lógica da organização na forma de grupos, em que o professor, ou o mestre que se for- ma e organiza sua escola, procura vincular-se a uma ins- tituição já reconhecida no mercado. Podemos, inclusive, discutir em que medida essa forma de organização con- tribui para preservar a diversidade e a riqueza cultural da capoeira e para promover o fortalecimento coletivo da arte como forma de resistência cultural. Outra tendência importante a partir do início dos anos 80 foi a revalorização das tradições e dos “velhos mes- tre”, juntamente com o fortalecimento dos grupos de capoeira angola, que ganharam muito espaço à medida que a comunidade da capoeira começava a questionar os caminhos da desportivização. [...] Fonte: Luna, Marques e Vieira (2015, p. 102). 74 material complementar O barracão do Mestre Waldemar Frederico José de Abreu Editora: Zarabatana Sinopse: o livro narra de forma peculiar uma série de aspectos tradicionais da capoeira Angola, tendo como elemento central a vida de mestre Waldemar. A sua vida, inseparável da capoeira, retrata um tempo em que o ato de ensinar capoeira acontecia de forma bem diferente da atual: os espaços onde se praticava a capo- eira eram outros, via de regra, em bares, vendas e feiras, muitas vezes, em troca de uma aguardente, bem diferente do contexto das academias. Indicação para Ler Pastinha! Uma Vida pela Capoeira Ano: 1998 Sinopse: Neste documentário, filmado no Rio de Janeiro, em Salvador e em Nova York e ilustrado por fotos de David Zingg e Pierre Verger e com desenhos do próprio Mestre Pastinha, o realizador Antônio Carlos Muricy narra a trajetória de um dos mais importantes capoeiristas brasileiros. Resultado de cinco anos de trabalho, este filme constitui uma oportunidade rara de conhecer os fundamen- tos e a história da legendária capoeira de Angola e o seu mestre. Indicação para Assistir Mestre Bimba: A Capoeira Iluminada Ano: 2007 Sinopse: a vida e a história de Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, um homem de origem humilde que se tornou um grande jogador e educador da capoeira, contada por meio de depoimentos de amigos próximos e de imagens de arquivo. Bimba é responsável pela criação da chamada “capoeira Regional”, que se contrapõe à “capoeira de Angola”, a modalidade mais original desta arte marcial. Indicação para Assistir 75 referências ABIB, P. R. J. Mestres e capoeira famosos da Bahia. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2013. ABREU, F. J. “Bimba é bamba”: a capoeira no rin- gue. Salvador: Instituto Jair Moura - Núcleo de Do- cumentação e Pesquisa da Capoeira, 1999. ______. O barracão do mestre Waldemar: textos e depoimentos, ilustrações e fotografia. 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De acordo com depoimentos dos velhos mestres, eles aprendiam de “oitiva”. A sequência de ensino do mestre Bimba é composta por oito partes articuladas em uma sequência progressiva de movimentos de ataque, defe- sa e contra-ataques que possibilitam a apropriação, pelos(as) alunos(as), de forma segura dos movimentos fundamentais da capoeira Regional. UNIDADEIII Professor Me. Reginaldo Calado de Lima Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Distribuição didático-pedagógica dos gestos técnicos • Ginga, o gesto fundamental • Gestos técnicos ofensivos, o ataque do capoeira • Gestos técnicos defensivos • Gestos técnicos acrobáticos: desafiando os limites do corpo Objetivos de Aprendizagem • Apresentar uma distribuição didático-pedagógica dos gestos técnicos característicos da capoeira. • Reconhecer a ginga como o movimento fundamental da capoeira. • Conhecer os gestos técnicos ofensivos que caracterizam a capoeira. • Compreender a dinâmica dos gestos técnicos defensivos da capoeira. • Identificar as características básicas dos gestos técnicos acrobáticos/floreio da capoeira. OS GESTOS TÉCNICOS CARACTERÍSTICOS DA CAPOEIRA unidade III INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a)! Nas unidades anteriores, nós abordamos os elementos referentes ao desenvolvimento histórico da capoeira e, para tanto, questionamos a sua própria concepção. Vimos que a forma como a sociedade a percebeu transitou desde a uma prática criminosa até a sinônimo de nacionalida- de. Nós também vimos que, durante o seu decurso histórico, a capoei- ra passou por transformações, almejando, sobretudo, a ascensão social. Algumas foram tão radicais que, independentemente de ser a mesma manifestação, houve a necessidade de distingui-la em estilos. Essa traje- tória histórica está inscrita corporalmente nos capoeiras, no repertório gestual que caracteriza a manifestação. Nesse sentido, propomos, como tema central desta unidade, a exposição de outro elemento constitutivo da capoeira: os gestos técnicos. Inicialmente, no primeiro tópico, lhes apresentaremos uma forma bastante simplificada de distribuição dos gestos técnicos característicos da capoeira. Tal distribuição é arbitrária e decorre, basicamente, da ne- cessidade de organização didático-pedagógica, que é a abordagem que qualquer prática corporal exige, enquanto conteúdo. A partir do segundo tópico, apresentaremos os gestos técnicos pro- priamente ditos, começando pela ginga, considerado o gesto fundamen- tal da capoeira, ou seja, é o movimento que serve como base para a exe- cução dos demais gestos. No terceiro tópico, serão apresentados alguns dos gestos técnicos ofensivos característicos da prática. Já os gestos técnicos defensivos se- rão expostos no quarto tópico, a partir do qual esperamos possibilitar a compreensão da dinâmica de tais gestos, a qual é indispensável para entendermos a dinâmica do próprio jogo de capoeira. No quinto e último tópico, procuraremos identificar as características básicas dos gestos técnicos acrobáticos, ou os floreios, como também são conhecidos os tais movimentos. 82 CAPOEIRA Distribuição Didático-Pedagógica dos Gestos Técnicos EDUCAÇÃO FÍSICA 83 Olá, caro(a) aluno(a). Ao iniciarmos as nossas dis- cussões acerca dos gestos técnicos, estas serão guia- das por alguns princípios. Primeiramente, é preciso dizer: o que estamos aqui a denominar por gestos técnicos são aqueles movimentos característicos da capoeira que a caracterizam como uma prática corporal. Há, nesse sentido, um repertório gestual extremamente dinâmico no universo desta prática. Tais gestos mudam em tal medida que, em dados momentos históricos, operou-se uma verdadeira ruptura na manifestação. Você, prezado(a) aluno(a), há de se lembrar dos estilos de capoeira que foram abordados na unidade anterior. A gestualidade é um dos aspectos distintivos entre eles, ou seja, somos capazes de identificar um angoleiro pelo seu gestual, da mesma forma que conseguimos identificar um praticante da capoeira Regional. Nesse sentido, questionamos: a gestualidade atu- al da capoeira, ou seja, os seus movimentos, são exe- cutados da mesma forma que eram executados em outros períodos? Em nossa opinião, não. Entretanto, mesmo reconhecendo as mudanças no que se refe- re à execução dos movimentos corporais relativos à capoeira, é possível identificarmos um conjunto de movimentos e de gestos que a caracterizam com tal, ou seja, somos capazes de olhar para imagens histó- ricas da capoeira e reconhecermos um grande nú- mero de movimentos. Antes de iniciarmos nosso contato com o re- pertório de gestos da capoeira, devemos esclarecer alguns aspectos importantes. Em primeiro lugar, a proposta que ora apresentamos foi organizada a partir de um olhar didático-pedagógico. Ou seja, nos propomos a apresentar uma classificação, na qual estão agrupados os principais movimentos da capoeira e que atendam aos anseios deste material, qual seja: a abordagem da prática corporal capoeira como componente curricular de um curso de gra- duação em Educação Física. Logo, tal abordagem precisa oferecer, mesmo que minimamente, subsí- dios teóricos e práticos para que os futuros profis- sionais da disciplina tenham condições de, por sua vez, abordar a capoeira nos mais distintos espaços. Nesse sentido, apresentamos uma classificação que considera os principais gestos técnicos dessa mani- festação de uma maneira mais geral, sem que nos aprofundemos nas características e especificidades dos estilos, tampouco nos desdobramentos decor- rentes da combinação entre os movimentos. Neste momento, nos ateremos ao contato ini- cial com os gestos técnicos característicos da capo- eira. Isto significa que essa classificação é arbitrária, o critério por nós utilizado para a sua elaboração foi a necessidade de uma organização didático- pedagógica. Todavia você se deparará com outras possibilidades de classificação e distribuição dos gestos que levam em consideração outros aspectos, como a execução do golpe. É o caso daqueles que classificam os gestos em giratórios, desequilibran- tes, traumatizantes, dentre outros. Eu sugiro que você, como futuro(a) profissional da Educação, que lidará com a abordagem de inúmeras práticas cor- porais, exercite a sua capacidade de compreensão e a posterior organização de conteúdo. O segundo aspecto, que merece explicação, é o fato de que os gestos técnicos característicos da ca- poeira extrapolam uma classificação, visto que tais movimentos podem transitar livremente pelas cate- gorias que aqui propomos. Na prática, o que ocorre é que um movimento categorizado como acrobáti- co/floreio pode ser empregado como gesto técnico defensivo, mas, dependendo da intencionalidade do capoeira, torna-se ofensivo. Esta é uma característi- 84 CAPOEIRA ca própria da prática e que só podemos compreen- der quando reconhecemos que a racionalidade e os valores culturais, que fundamentaram o surgimento dessa manifestação, não se assentam na racionalida- de cartesiana, a qual é predominante em nossa rea- lidade. A própria concepção de capoeira escapa às categorias que a tentam definir, ora como luta, ora como dança, ora como jogo e daí por diante. Dito isto, observem o organograma representa- do na Figura 1, no qual retratamos uma proposta inicial de classificação dos principais gestos técnicos da capoeira. O esquema não apresenta desdobramentos, ou seja, na categoria gestos técnicos ofensivos, nós podería- mos os desdobrar em traumatizantes, desequilibran- tes e etc., entretanto, estamos assumindo que, para este momento, tal desdobramento tornaria a abor- dagem demasiadamente técnica. Da mesma forma, optamos por não apresentar aqueles “gestos simbóli- cos” que fazem parte da configuração da roda. Para finalizarmos este tópico, é imperativo saber que esses gestos apresentados, anteriormente, não esgotem orepertório gestual da capoeira. Eles foram selecionados para exposição por serem os mais co- mumente executados nas rodas de jogo. Em tempo, gostaríamos de fazer um apelo a você, que é, ou já foi praticante de capoeira: compartilhe conosco e com seus colegas de turma a sua experiência e nos ajude a perceber que a nomenclatura desses gestos é bas- tante diversificada. Os movimentos da capoeira foram criados tendo como fonte de inspiração a “mãe natu- reza”. Assim, tais movimentos teriam surgido da observação das brigas dos animais, dos coices deflagrados, dos saltos dos bodes, da imitação dos macacos, dos cavalos, das aves, dentre outros animais os quais os escravos puderam observar no contexto da escravidão brasileira. Fonte: adaptado de Areias (1998). SAIBA MAIS Figura 1 - Distribuição dos gestos técnicos iniciais Fonte: o autor. GINGA Bases Balanços Descola- mentos OFENSIVOS DEFENSIVOS FLOREIOS Meia-lua de frente Queixada Armada Cocorinha Esquiva de frente Esquiva de costa Aú e suas variações Parada de mão e suas variações Queda de rins Meia-lua de Compasso Esquiva lateral Macaco Martelo Negativas Chapa Pêndulos Benção Ponteira EDUCAÇÃO FÍSICA 85 86 CAPOEIRA Ao passo que trataremos, nesta unidade, dos gestos técnicos da capoeira, iniciaremos nosso estudo, dis- cutido um gesto característico dessa prática corpo- ral. Abriremos, portanto, este tópico, falando sobre a ginga. A ginga, além de caracterizar a manifestação, ou seja, de nos permitir reconhecer que se trata de ca- poeira, no exato momento, em que nos deparamos com alguém gingando, tem um papel determinante no andamento prático do jogo. Isto porque os de- mais movimentos derivam diretamente da ginga. Logo, sem ela, possivelmente, teríamos outra dinâ- mica predominante na capoeira. Pretendemos, nesta unidade, abordar os gestos técnicos em suas generalidades, sem que nos dete- nhamos aos detalhes extremamente técnicos. Estes são importantes, mas apenas lembrem-se que, neste momento, temos a oportunidade de um contato ini- cial com a capoeira. Ginga, o Gesto Fundamental EDUCAÇÃO FÍSICA 87 Vale destacar, porém, que a gestualidade expres- sa na capoeira apresenta nuances e particularidades que dependem tanto dos estilos quanto dos diferen- tes jogos executados em um mesmo estilo. Sendo a ginga o gesto fundamental, ela nos permite identifi- car estas diferenças, essas particularidades, mesmo que não sejamos exímios capoeiras (LOPES, 1979). Quando dizemos que a ginga expressa as particu- laridades dos jogos e dos estilos, e o faz até mesmo em relação ao jogador, nos referimos à mudança de gestualidade. Entretanto, a dinâmica do movimento da ginga não é alterada. Recordemos da gravura de Rugendas (s. d.) ex- posta na Unidade 1. A partir dela, podemos perce- ber uma postura corporal dos capoeiras que nela fo- ram retratados e que nos remete à ginga. Tal fato nos leva a inferir que ela acompanha a capoeira desde os seus primórdios. Obviamente, é prudente que con- sideremos as transformações estéticas e o aprimo- ramento técnico, elementos aos quais a ginga tenha sido, possivelmente, submetida ao longo da história da capoeira. De acordo com Cruz (1997, p. 48), a ginga per- mite ao capoeira “defender-se com o auxílio das mãos e dos braços, negaciando em várias posições, deslocar-se para qualquer direção, permitindo-lhe uma melhor posição para defesa, o ataque e o con- tra-ataque (sic)”. Observaram o termo “negaciando” exposto? A negaça é uma expressão que fora mui- to utilizada. Moura (1991) nos explica que ela era a base da luta. Então, a base não é a ginga? Calma! Esta é o movimento fundamental da capoeira, e negacear significa movimentar-se a partir da ginga, variando- -a, visando, com isto, a desnortear o outro jogador. Nos dizeres de Lima (2005, p. 103), negacear duran- te um jogo de capoeira é o “ato de negar o corpo, bambolear pra lá e pra cá, ameaçar o movimento e negá-lo”. Atualmente, é mais comum que utilizemos o termo balanço para nos referirmos a tais alternân- cias. Mas, antes de vivenciarmos os balanços e des- locamentos, aprendamos a ginga. A dinâmica da ginga é bastante simples, vis- to que obedece a mesma dinâmica do ato de ca- minhar. Observem que, quando caminhamos, os nossos braços e as nossas pernas movimentam- -se alternadamente. Assim, quando o nosso pé de apoio, que está à frente, é o pé esquerdo, o nosso braço direito é que estará adiantado em relação ao esquerdo. Pois bem, visualizem mentalmente esta descrição; ampliem a distância entre os pés; eleve o braço que está à frente até a altura da boca e vocês terão a imagem da base da ginga. 88 CAPOEIRA Veja o vídeo que mostra, com detalhes, as posições básicas da ginga. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/339 EDUCAÇÃO FÍSICA 89 Como uma estratégia didático-pedagógica, dividiremos a ginga em etapas as quais serão descritas e executadas esta- ticamente, mas lembre-se, caro(a) aluno(a) que, durante o jogo, a ginga se dá como uma movimentação constante, sem que haja esta fragmentação aqui apresentada. Os itens 1, 3, 5 e 7 da figura representam a mesma po- sição, a que chamamos de base da ginga, mas apenas foram retratadas de ângulos diferentes. Assim, a partir da obser- vação das imagens 1 e 5 da Figura 2, podemos compreen- der a descrição da base da ginga. Nelas (1 e 5), o capoeira mantém as suas pernas em posição anteroposterior, ou seja, mais ou menos alinhadas uma à frente da outra. No caso das imagens 1 e 5, temos a perna direita po- siciona atrás, e a esquerda, à frente. A perna da fren- te deve ser mantida semiflexionada, enquanto que a de trás permanece semiestendida. O peso do corpo, nessa posição, repousa mais sobre a perna da frente. O apoio da perna de trás se dá no terço anterior do pé, e o da frente, neste caso, o esquerdo, com o pé inteiro apoia- do no chão. O tronco permanece levemente inclinado à frente. Os braços desempenham um papel de proteção e são alternados em tal função. Assim, quando a perna esquerda está à frente, como nas imagens 1 e 5, o braço direito estará à frente, flexionado na altura da boca. Nas imagens 3 e 6, temos a mesma base da ginga, apenas representada com a perna esquerda atrás e a direita à frente. Logo, com o braço esquerdo à frente. As imagens 2, 4, e 6 representam uma posição, cuja nomenclatura pode variar de grupo para grupo e de re- gião para região, mas que comumente é chamada de pa- ralela, cadeira, cadeirinha ou mesmo cavalo. Essa é a posi- ção em que o capoeira está mudando a sua base de ginga. O peso do corpo fica distribuído igualmente sobre as duas pernas, que se encontram semiflexionadas. O mesmo bra- ço que protegia o rosto da base permanece nesta posição e será trocado quando ocorrer à troca da perna. 90 CAPOEIRA Quando você, caro(a) aluno(a), abordar os gestos técnicos e, em especial, a ginga, sobretudo, se tal ex- posição for para crianças, é, sempre, importante que se respeite a individualidade e espontaneidade. Ou seja, é claro que há uma técnica de execução da gin- ga, mas desde que se entenda a dinâmica do gesto, permita que cada um(a) faça ao seu modo. Em outras palavras, ensine as crianças a ginga- rem, mas deixem que elas vivenciem tal movimento e explorem as suas possibilidades de execução. Justa- mente a partir do desenvolvimento e da exploração da ginga é que temos os deslocamentos, os balanços, ou as negaças. Estes são movimentos que exigem mais tempo do capoeira e lhe permite um nível de jogo que, mesmo sem desferir nenhum gesto ofen- sivo, é capaz de colocar o seu companheiro em apu- ros. Como já salientamos, não nos aprofundaremos nessas questões, entretanto, vocês poderão acompa- nhar, neste material, exemplos de deslocamentos e balanços e quem sabe, até se arriscar na criação de uma forma de se deslocar a partir da ginga. Então, vamos lá. Agora que já nos apropria- mos da descriçãode cada posição e já conhecemos a direção do movimento, é hora de arriscar a sua execução. E lembrem-se de respeitar os seus limites e as suas particularidades, ou seja, apesar de tentar seguir as fases descritas, façam do seu jeito. Não se esqueçam de compartilhar conosco os seus avanços. Boa vivência e até breve! Como já dissemos, a ginga não ocorre de maneira estática, mas sim, dinâmica, deste modo, elabora- mos a Figura 3, na qual procuramos ilustrar o deslo- camento dos pés a fim de facilitar a compreensão do movimento como um todo. BASE DA GINGA 1 e 5 CADEIRA/ PARALELA 2, 4 e 6 BASE DA GINGA 3 e 6 Esq Esq Esq Esq Esq Dir Dir Dir Dir Figura 3 - Dinâmica da ginga Fonte: O autor. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da ginga. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Ao longo desta unidade, nos foi descrita a execução de alguns gestos técnicos caracterís- ticos da capoeira. Nesse sentido, até que pon- to devemos seguir tal execução sem tornar a nossa abordagem demasiadamente técnica? REFLITA https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/340 EDUCAÇÃO FÍSICA 91 92 CAPOEIRA Gestos Técnicos Ofensivos, o Ataque do Capoeira EDUCAÇÃO FÍSICA 93 Olá, prezado(a) aluno(a). Nesta unidade, estamos tratando dos gestos técnicos da capoeira, aqueles elementos corporais que são próprios dessa mani- festação e que assim a caracterizam. No tópico anterior, tratamos da ginga, o gesto fundamental a partir do qual todos os demais são derivados. Para este tópico, propomos contato com os gestos técnicos ofensivos. Utilizamos o termo “ofensivo”, como elemento próprio do ataque. São esses gestos que evidenciam o aspecto “luta” da ca- poeira. Logo, é indispensável que reflitamos: quais gestos técnicos ofensivos devemos privilegiar na abordagem da capoeira? Esta é uma questão para a qual não há uma resposta pronta e acabada. Pensamos que a seleção de um ou outro golpe dependerá do contexto, bem como da população para a qual a capoeira está sendo exposta. Mas, principalmente, é importante que conheçamos o po- tencial de belicosidade do movimento. Alguns gol- pes são altamente traumáticos, ou seja, machucam mesmo que não seja empregada muita potência, é o caso da ponteira, por exemplo. Assim, sugerimos que este movimento não seja ensinado nas primeiras aulas. Reserve-o para aquele momento em que vocês percebam que os alunos já têm algum controle nos movimentos executados. Costumamos utilizar, no universo da capoeira, a metáfora do diálogo, quando fazemos referência à relação corporal durante o jogo. Dizemos, desta forma, que quando o capoeira joga com outro, eles estão promovendo um diálogo corporal, um jogo de perguntas e respostas (FALCÃO, 2006). Nesse senti- do, os gestos técnicos ofensivos são as perguntas que um capoeira faz ao outro. Os gestos selecionados para compor este mate- rial não encerram o repertório gestual da capoeira, apenas foram selecionados porque são comumente empregados na manifestação independentemente do estilo. Entretanto, vale lembrar ainda que os nomes e a descrição que ora se apresentam não são a única forma de identificação, tampouco de execução. Pos- sivelmente, você mesmo(a), aluno(a), reconhecerá esses gestos por outros nomes e por outra maneira de executá-los. Isto não é um problema, muito pelo contrário, enriquece a nossa aprendizagem. Suge- rimos que, se vocês se sentirem à vontade para tal, mandem para as(os) nossas(os) mediadoras(es), durante as nossas aulas, os nomes pelos quais vocês conhecem os gestos que apresentaremos. Sem mais delongas, vejamos, a seguir, alguns exemplos de ges- tos técnicos ofensivos. 94 CAPOEIRA MEIA-LUA DE FRENTE A meia-lua de frente é um movimento bastante sim- ples em sua execução e descrito por Lima (2005, p. 100) como um movimento cujo capoeira o faz “des- crevendo um semicírculo de fora para dentro no ar, retornando à posição inicial”. É possível executar a meia-lua de frente de formas diversas, ora iniciando o movimento com a perna que está atrás, ora com a perna que está à frente. Neste momento, descrevere- mos apenas uma. Partindo da base da ginga, em que a perna es- querda esteja atrás, esta deve seguir o movimento natural da ginga e entra na paralela; a perna direita inicia um movimento de ataque que executa uma trajetória semicircular, desenhando uma meia-lua no ar; a perna direita retorna ao ponto inicial, ou seja à paralela, sem tocar o chão em outro ponto; a perna que executa a meia-lua de frente deve manter- -se estendida. EDUCAÇÃO FÍSICA 95 Por ser um gesto de simples execução e que permi- te um bom nível de controle, durante o movimento, por parte de quem o executa, é a nossa sugestão de abordagem nas primeiras experiências com os ges- tos técnicos, mas após a ginga, obviamente. Figura 4 - Dinâmica da execução da meia-lua de frente Fonte: Unicesumar. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da meia-lua de frente. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/341 96 CAPOEIRA QUEIXADA O movimento que apresentamos neste material como queixada pode ser identificado, na capoeira Angola, como meia-lua de lado (CRUZ, 1997). Se comparada com a meia-lua de frente, a queixada segue uma trajetória oposta, ou seja, enquanto na meia-lua de frente realiza-se o movimento de adu- ção, na queixada, quando executada com a mesma perna, teremos o movimento de abdução. Para fins pedagógicos, tal comparação pode ser interessante, desde que se adeque a terminologia à faixa etária. EDUCAÇÃO FÍSICA 97 Partindo da base da ginga com a perna direita atrás, gira-se o tronco para direita, posicionando-se late- ralmente em relação ao outro jogador, sem que haja troca na posição das pernas; a perna direita que esta- va atrás avança por trás da esquerda; o tronco deve fi- car de frente com o outro jogador. Esta posição é um pouco desconfortável, principalmente, nas primeiras execuções, mas é a partir dela que teremos impulso para a queixada propriamente dita; a perna esquerda executa um movimento semicircular da direita para esquerda e finaliza na base da ginga oposta daquela que iniciou o movimento. Ou seja, quando iniciamos a queixada, a perna direita estava atrás, e quando fi- nalizarmos, será a perna esquerda que estará atrás. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da queixada. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Figura 5 – Dinâmica da execução da queixada Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/342 98 CAPOEIRA ARMADA A armada é um gesto técnico ofensivo giratório, ou seja, o jogador, para executá-la, realiza um giro completo sobre o próprio eixo. Lima (2005, p. 55) descreve tal gesto como um “movimento giratório por meio do qual o capoeirista sai da posição ini- cial e faz um giro de 360 graus, objetivando atingir o rosto, a cintura ou o ombro do adversário”. É um gesto um pouco mais complexo que os descritores anteriormente. EDUCAÇÃO FÍSICA 99 Para realizar uma armada com a perna esquerda, ini- cia-se o movimento a partir da base da ginga com a perna esquerda atrás; a perna esquerda segue a se- quência natural da ginga e entra na paralela; a per- na direita avança de modo que o jogador fique posi- cionado, lateralmente, em relação ao outro jogador; inicia-se a rotação do tronco, neste caso, no sentido anti-horário. A mesma rotação é acompanhada pela cabeça e finaliza quando o executante visualizar, so- bre o ombro, o outro jogador; neste momento, a perna esquerda disfere a armada propriamente dita. A per- na percorre a trajetória de um círculo praticamente completo em torno do próprio jogador; a finalização do movimento se dará na mesma base em que o golpe foi iniciado, ou seja, com a perna esquerda atrás. Figura 6 - Dinâmica da execução da armada Fonte: Unicesumar. Veja o vídeo que mostra com detalhes, a dinâmica da execuçãoda armada. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/343 100 CAPOEIRA MEIA-LUA DE COMPASSO A meia-lua de compasso é um gesto técnico ofensivo giratório, com execução similar à armada. Logo, su- gerimos que ambos os gestos sejam abordados com alguma proximidade, não necessariamente na mes- ma aula, mas em aulas próximas. De acordo com Castilha (2012), este é um movimento exclusivo da capoeira, cuja execução não se verifica outras for- mas de luta, nem mesmo de maneira similar. EDUCAÇÃO FÍSICA 101 Para a execução da meia-lua de compasso com a per- na esquerda, o capoeira posiciona-se na base da ginga com a perna esquerda atrás; esta segue a sequência natural da ginga e entra na paralela; a perna direita avança de modo que o capoeira fique posicionado la- teralmente em relação ao outro jogador; flexiona-se o tronco e ambas as mãos são apoiadas no chão. Nesta fase do movimento, quem está executando o gesto olha para o outro jogador pelo espaço entre a perna direita, a qual estará à frente, e o braço direito; a perna direita é mantida flexionada, e a esquerda, estendida; a esquerda disfere a meia-lua de compasso propria- mente dita, ao percorrer a trajetória de um círculo, praticamente completo em torno do próprio jogador e finaliza na mesma base da ginga que iniciou o movi- mento, ou seja, com a perna esquerda atrás. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da meia-lua de compasso. Para aces- sar, use o seu leitor de QR Code. Figura 7 - Dinâmica da execução da meia-lua de compasso Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/344 102 CAPOEIRA MARTELO O martelo é um gesto técnico ofensivo traumatizan- te (CAMPOS, 2009), ou seja, o potencial deste mo- vimento de causar algum trauma físico é alto, pois é um gesto caracterizado por sua execução rápida e explosiva (LOPES, 1979). EDUCAÇÃO FÍSICA 103 Para a execução do martelo com a perna esquerda, o capoeira deve posicionar-se na base da ginga com a perna esquerda atrás; eleva-se esta, lateralmente, fle- xionando-a; ao mesmo tempo, o pé de apoio, neste caso, o direito, executa um leve giro a fim de permi- tir que o corpo do capoeira esteja posicionado la- teralmente em relação ao outro jogador; executa-se de forma explosiva a extensão da perna esquerda; o pé esquerdo atinge a área de contato desejada em flexão plantar. Após esta sequência de movimentos, retorna-se para a mesma base da ginga inicial, com a perna esquerda atrás. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução do martelo. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Figura 8 - Dinâmica da execução do martelo Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/345 104 CAPOEIRA CHAPA A chapa é um gesto técnico ofensivo cuja execução se dá com a “coxa erguida desferido com a ‘planta do pé’” (CRUZ, 1997, p. 51). A chapa emprega, comu- mente, um empurrão contra o outro jogador. A sua execução segue, basicamente, a mesma dinâmica inicial do martelo. EDUCAÇÃO FÍSICA 105 Para a execução da chapa com a perna esquerda, o capoeira deve posicionar-se na base da ginga com a perna esquerda atrás; eleva-se a perna esquerda, la- teralmente, de modo que a coxa permaneça alinha- da paralelamente ao solo; o pé de apoio, neste caso, o direito, executa um leve movimento de rotação a fim de permitir que o corpo do capoeira esteja posi- cionado, lateralmente, em relação ao outro jogador; executa-se, em seguida, a extensão da perna esquer- da, mantendo o pé dorsifletido; após a extensão da perna esquerda ter proporcionado o contato com o outro jogador, retornará para a mesma base da gin- ga, neste caso, com a perna esquerda atrás. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da chapa. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Figura 9 - Dinâmica da execução da chapa Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/346 106 CAPOEIRA BENÇÃO A benção é um gesto técnico ofensivo cuja execução se dá de forma direta ou frontal, sem que haja a ne- cessidade de giros. Para Capoeira (1992, p. 151), este gesto técnico “não é um chute, nem um pontapé, é como se fosse um empurrão”. EDUCAÇÃO FÍSICA 107 Para execução da benção com a perna esquerda, deve-se iniciar o movimento, partindo da base da ginga com a perna esquerda atrás; eleva-se a perna esquerda flexionada de modo que o joelho esteja um pouco acima da linha da cintura; executa-se, vigo- rosamente, um movimento de extensão da perna esquerda; o pé esquerdo deve ser mantido em dor- siflexão, almejando atingir a área de contato com a região plantar do pé; braços e pernas são alternados durante a execução da benção, assim, se o gesto foi desferido com a perna esquerda, o braço direito es- tará flexionado à frente do rosto. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da benção. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Figura 10 - Dinâmica da execução da benção Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/347 108 CAPOEIRA PONTEIRA A ponteira é um gesto técnico ofensivo de execução direta ou frontal. Esse gesto tem um alto potencial traumático e, como você deve recordar, já fizemos algumas recomendações sobre a sua abordagem. Concordamos com Castilha (2012, p. 45), que ad- verte, quanto ao perigo da ponteira, por se tratar de um movimento desferido de forma explosiva, o que pode gerar danos aos “órgãos internos do oponente, por isso, a sua utilização é pouco recomendada nos dias de hoje, principalmente, para crianças e adultos iniciantes”. Se há estas ressalvas quanto à exposição da pon- teira, por que estamos apresentando-a neste mate- rial? Justamente pelo perigo que ela representa aos iniciantes, agravado pelo fato de se tratar de um gesto de fácil execução. Neste sentido, entendemos que seja importante a sua exposição para que todos conheçam o seu potencial traumático e, principal- mente, tomem as devidas precauções. EDUCAÇÃO FÍSICA 109 A execução da ponteira é similar à da benção, as prin- cipais diferenças estão na posição do pé que desfere o golpe e na região que se pretende atingir. Para a execução da ponteira com a perna esquerda, deve-se iniciar o movimento na base da ginga com a perna esquerda atrás; eleva-se esta flexionada de modo que o joelho esteja um pouco acima da linha da cintura; executa-se, vigorosamente, um movimento de ex- tensão da perna esquerda; o pé esquerdo é mantido em flexão plantar, e os dedos devem realizar o movi- mento de extensão a fim de atingir a área de contato com o terço anterior do pé e não com os dedos. Bra- ços e pernas são alternados durante a execução da ponteira, assim, se o gesto foi desferido com a perna esquerda, o braço direito estará flexionado à frente do rosto. Finaliza-se a ponteira retornando a perna esquerda à base inicial da ginga. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da ponteira. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Figura 11 - Dinâmica da execução da ponteira Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/348 110 CAPOEIRA EDUCAÇÃO FÍSICA 111 Para finalizarmos este tópico, cujo objetivo foi o de conhecer os gestos técnicos ofensivos que caracte- rizam a capoeira, gostaríamos de lembrar que tais gestos representam a forma de ataque do jogo e, como tal, são desferidos de forma objetiva, com o intuito de atingir o outro jogador. Por este motivo, é imprescindível cautela em sua abordagem, especial- mente com as crianças. Observe, igualmente, a necessidade de respeitar as particularidades de cada um, ou seja, respeite os limites de cada aluno(a) durante a execução dos ges- tos aqui expostos. No tópico seguinte, trataremos dos gestos técni- cos defensivos, os quais representam a forma básica de defesa do jogador de capoeira. Até breve! 112 CAPOEIRA Olá,caro(a) aluno(a). O tópico que se inicia é o quarto de uma unidade na qual nos propomos apresentar os gestos técnicos característicos da capoeira. Deparamo-nos com uma proposta de organização didático-pedagógica dos gestos no primeiro tópico; com a ginga no segundo, no qual compreendemos que esse gesto é o movimento fundamental, pois é a partir dele que todos os de- mais são desferidos. É ainda a ginga que caracteriza a própria manifestação. Ou seja, reconhecemos a ca- poeira pelo movimento da ginga. No terceiro tópico fomos apresentados aos gestos técnicos ofensivos, Gestos Técnicos Defensivos EDUCAÇÃO FÍSICA 113 aqueles movimentos cuja intencionalidade de quem os executa é de atacar, contundentemente, o outro jogador. Já para o tópico que se inicia, propomos apresentar os gestos técnicos defensivos a fim de que conheçamos a sua dinâmica. Os gestos técnicos defensivos podem ser descri- tos como os movimentos que o capoeira emprega para se evadir, para se defender, ou seja, são os ges- tos empregados em resposta a um ataque. Lembra- -se quando, no tópico anterior, falamos da metáfora do diálogo corporal? Dissemos que, quando dois capoeiras jogam, eles estão promovendo esse diálo- go, um jogo de perguntas e respostas. Nesse sentido, as perguntas são os gestos técnicos ofensivos ou os ataques, e as respostas a tais perguntas são os gestos técnicos defensivos. Costumamos dizer, no universo da capoeira que, um jogador ganha do outro quando este não tem resposta à pergunta daquele. Apresentaremos, assim como fizemos nos tópi- cos anteriores, a ilustração de gestos técnicos de- fensivos, bem como a descrição de sua execução. Mas gostaríamos de chamar a atenção para a dinâ- mica deles e para a estrutura que se desenvolve a partir do embate entre os gestos técnicos defensi- vos e ofensivos. Gostaríamos que você percebesse, estimado(a) aluno(a) que, partir do emprego desses dois tipos de gestos, temos o jogo de capoeira. Este desenrola-se por uma sequência de ataques e defesas, sendo os ataques os gestos técnicos ofensivos, e a defesa, os gestos defensivos. Um dos obstáculos na elaboração de uma clas- sificação dos gestos característicos da capoeira é o caráter polissêmico desses. Ou seja, cada um dos gestos transita entre as categorias aqui expostas. Isto não é, necessariamente, um problema, se levarmos em consideração que a própria capoeira é polissêmi- ca. Assim, exporemos aqueles gestos técnicos, cuja característica predominante é a defensiva. No jogo da capoeira, não é comum o uso de blo- queios como estratégias de defesa, isto não significa que não existam, apenas não é a forma característica de defesa. Os capoeiras se valem, em sua maioria, de movimentos denominados esquivas, cuja finalidade é a de “retirar o corpo ou parte do mesmo da dire- ção em que o golpe foi desferido” (SANTOS, 2010, p. 124). Esta estratégia de não enfrentamento direto do golpe acompanha a dinâmica da capoeira já em longa data. Moura (1991, p. 67), ao discorrer sobre a capoeiragem, nas primeiras décadas do século XX, nos explica que “os movimentos defensivos simples constavam de desvio de corpo, para evitar o alcance do golpe”. Essa dinâmica aparece em outros movi- mentos para além das esquivas, dentre eles, as ne- gativas e os pêndulos. Vejamos alguns exemplos de gestos técnicos defensivos. 114 CAPOEIRA COCORINHA A cocorinha é um movimento defensivo caracterís- tico da capoeira Regional. Ele tem sido empregado frequentemente como gesto técnico defensivo de iniciação à dinâmica da defesa do capoeira. Isto se deve ao fato da baixa complexidade de execução do movimento. Campos (2009) enfatiza a dupla fun- ção da cocorinha, uma vez que ela serve tanto como defesa quanto de preparação para o ataque. Lima (2005, p. 77) descreve a cocorinha como um movi- mento de defesa básico, “através do qual o capoeiris- ta se abaixa, de cócoras, apoiando uma das mãos no solo, enquanto a outra protege o rosto do ataque do adversário”. EDUCAÇÃO FÍSICA 115 Assim como os demais gestos técnicos da capoeira, os defensivos, via de regra, partem da ginga. Deste modo, inicia-se a cocorinha a partir da base da gin- ga, a perna que estiver atrás segue a sequência natu- ral da ginga e entra na paralela; flexionam-se ambos os joelhos a fim de assumir a posição de cócoras; um dos braços protegerá o rosto; a outra mão será apoiada no solo; finaliza-se o movimento levantan- do-se e retornando à base da ginga inicial. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da cocorinha. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Figura 12 - Dinâmica da execução da cocorinha Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/349 116 CAPOEIRA A execução da esquiva de frente consiste, basica- mente, na flexão da perna que estiver à frente na base da ginga, e a flexão do tronco de modo que este repouse sobre ela. Para executar a esquiva de frente, o capoeira parte da base da ginga. Supondo que a perna esquerda esteja posicionada atrás na base, deve-se flexionar a perna direita e o tronco, apoiando-o sobre a perna direita; o braço esquer- do, que protegia o rosto na base da ginga, é manti- do em tal função; ao mesmo tempo, apoia-se a mão direita no chão. ESQUIVA DE FRENTE Figura 13 - Dinâmica da execução da esquiva de frente Fonte: Unicesumar. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da esquiva de frente. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/350 EDUCAÇÃO FÍSICA 117 ESQUIVA LATERAL Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da esquiva lateral. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Para executar a esquiva lateral, o capoeira parte da base da ginga. Supondo que a perna direita esteja atrás, esta segue a sequência natural da ginga e entra na paralela, onde ambas as pernas serão flexionadas; flexiona-se o tronco de modo a apoiá-lo sobre a per- na direita; o braço esquerdo deve permanecer flexio- nado à frente, protegendo, principalmente, o rosto. Finaliza-se o movimento, elevando-se o tronco e re- tornando à base inicial da ginga, neste caso, com a perna direita atrás. Figura 14 - Dinâmica da execução da esquiva lateral Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/351 118 CAPOEIRA ESQUIVA DE COSTA Para executar a esquiva de costa para o lado direito, o capoeira parte da base da ginga, neste caso, com a perna direita atrás. Sem que haja troca da base, o ca- poeira posiciona-se lateralmente ao outro jogador; ambas as pernas serão flexionadas de forma similar à posição da paralela; flexiona-se o tronco à frente sem, contudo, apoiá-lo em nenhuma das pernas; o braço esquerdo mantido flexionado será responsável pela proteção do rosto. Figura 15 - Dinâmica da execução da esquiva de costa Fonte: Unicesumar. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da esquiva de costa. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/352 EDUCAÇÃO FÍSICA 119 120 CAPOEIRA NEGATIVA As negativas são movimentos que apresentam carac- terísticas defensivas e que são empregadas ampla- mente nos jogos de capoeira, independentemente, dos estilos. Para Castilha (2012), o próprio nome do movimento sugere a sua função, qual seja, a de ne- gar o corpo ao ataque desferido por outro jogador. A negativa apresenta características gestuais di- ferentes, próprias de cada estilo e, assim, mesmo se tratando da negativa, esta é executada de uma for- ma e com uma função na capoeira de Angola, bem como apresenta formas e aplicações distintas na ca- poeira Regional e na Contemporânea. No caso da capoeira Angola, “é chamado de negativa todo movimento defensivo executado como auxílio das mãos e dos pés no solo” (CRUZ, 1997, p. 50). Também presente na capoeira Regional, a negativa é considerada um dos movimentos básicos. Nosdizeres de Campos (2009, p. 65), “o aprendiza- do da negativa é obrigatório desde as primeiras aulas [...]. Mestre Bimba, durante suas aulas, enfatizava a importância dessa defesa e de muitas possibilidades a partir dela”. EDUCAÇÃO FÍSICA 121 Executa-se a negativa a partir de várias situações. Uma das possibilidades se dá, partindo da base da ginga com a perna direita atrás. Neste caso, avança- -se a perna direita de modo que, ao final do movi- mento, ela esteja praticamente estendida; ao mes- mo tempo, flexiona-se a perna esquerda e o quadril de modo a tocar o calcanhar esquerdo no glúteo; a mão direita deverá ser apoiada no chão ao lado da perna direita; enquanto que o braço esquerdo pro- tege o rosto; normalmente, neste tipo de negativa, característica da capoeira Contemporânea, não se retorna à base inicial, é mais comum que outro mo- vimento, como o rolê, por exemplo, seja desenvol- vido na sequência. Ao nos encaminharmos à finalização deste tó- pico, quero lembrar-lhe que a forma como os gestos técnicos defensivos foram aqui expostos e descritos representa apenas uma possibilidade de execução. O mesmo se aplica à nomenclatura, esses gestos po- dem ser conhecidos por você, caro(a) aluno(a), por outros nomes e com alguma variação na execução. Reiteramos que isto não representa um problema, pelo contrário, acreditamos que seja uma oportuni- dade de explorarmos as nuances de criatividade es- palhadas pelo universo da capoeira. Assim, procure aproveitar esta riqueza gestual ao abordar a capoeira nos mais distintos espaços. Figura 16 - Dinâmica da execução da negativa Fonte: Unicesumar. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da negativa. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/353 122 CAPOEIRA Gestos Técnicos Acrobáticos, Desafiando os Limites do Corpo EDUCAÇÃO FÍSICA 123 Conheceremos, neste tópico, os gestos técnicos acrobáticos, ou como mais comumente são denomi- nados pelos capoeiras, os floreios. Nós já enfatiza- mos, nos tópicos anteriores, que os movimentos rea- lizados na capoeira podem ter várias funções dentro de um jogo. Também destacamos que a estrutura da classificação que ora apresentamos é arbitrária e, assim, intentamos apresentar uma forma de or- ganização didático-pedagógica dos gestos técnicos característicos da capoeira. Assim, elaboramos o organograma exposto no primeiro tópico desta unidade, no qual agrupamos tais movimentos corporais a partir da caracterís- tica predominante desses gestos. Isto não significa que um gesto que compõe a categoria “gesto técnico ofensivo” tenha esta como característica exclusiva. Apenas que o seu aspecto de ataque é predominante ou mais evidente que os demais aspectos. Neste tópico, no qual abordaremos os gestos técnicos acrobáticos/floreios, tomaremos conheci- mento, por exemplo, do aú, um dos gestos que re- presentam bem esta polissemia de funções dos mo- vimentos da capoeira. Iniciemos a nossa conversa pela definição des- sa categoria de movimentos. Estamos considerando como gestos técnicos acrobáticos/floreios aqueles mo- vimentos cuja plasticidade, flexibilidade e beleza do movimento são os aspectos predominantes. A exe- cução de certos movimentos dessa categoria parece mesmo desafiar os limites do corpo. E talvez seja, justamente, esse o elemento que desperte tanto a atenção de quem o presencia em uma roda de capo- eira. Santos (2010) nos explica que esses movimen- tos são executados pelos capoeiras mais habilidosos e servem para exibicionismo. É importante dizer que, talvez, seja essa cate- goria de gestos a que mais privilegie a capacidade criativa do capoeira. Isto porque os floreios são cria- ções, adaptações muito particulares de cada jogador. Este explora a possibilidade de combinação entre os gestos, ou adapta movimentos ou técnicas de outras práticas corporais, como as ginásticas, por exemplo, ao contexto da capoeira. Pensamos que o exemplo mais popular de gestos técnicos acrobáticos/floreios seja o salto mortal, ou os saltos, visto a infinda variedade destes. Não é raro que sejamos questionados, especialmente, durante apresentações, se sabemos “dar mortal”. No imaginá- rio popular, um bom capoeira é aquele que executa o salto mortal. Já no universo cultural da capoeira, é tido como um bom jogador aquele que se apropria de todos os elementos constitutivos da manifesta- ção. Assim, espera-se que ele(a) conheça a história, os gestos técnicos, os instrumentos, a musicalidade e os procedimentos de uma roda. Obviamente, cada um se destacará mais em alguns elementos que em outros. Não se assuste, nós não lhe proporemos a execu- ção de um salto mortal. O fato dele ser popular não significa que seja o único. Os gestos técnicos acrobá- ticos/floreios que propomos expor neste tópico são os de execução bem mais simples e nos permitirão identificar as características desse tipo de gestos. Co- mecemos, então, pelo aú. 124 CAPOEIRA AÚ O aú é um gesto bastante popularizado não só na prática da capoeira, mesmo assim, talvez você ex- clame: “eu não conheço nenhum movimento cha- mado aú!” E a estrelinha, você conhece? Ou a roda, se lembra deste movimento das aulas de ginástica? Pois bem! O aú tem, basicamente, a mesma dinâ- mica desses movimentos. Mas não tire conclusões precipitadas, pois apesar de serem parecidos na execução, precisamos reconhecer as suas especifi- cidades, decorrentes do contexto, no qual se apre- sentam. O aú, como um gesto técnico da capoeira, apesar de ser exposto aqui como acrobático/floreio, pode ser igualmente empregado como uma defesa, como uma forma de fuga ao promover o afasta- mento do atacante (CRUZ, 1997). Há ainda a pos- sibilidade de empregar o aú como forma de pre- paração para o ataque ou de ataque propriamente dito. No primeiro caso, “quando proporciona a aproximação ao opositor”, e no segundo, quando “tem a função de golpear, a exemplo do aú batido” (CAMPOS, 2009, p. 64). EDUCAÇÃO FÍSICA 125 Na execução do aú para o lado direito, o capoeira parte da base da ginga com a perna direita atrás; esta segue a sequência natural da ginga e entra na parale- la, inclinando, lateralmente, o tronco para a direita e apoia as mãos no chão, ao mesmo tempo em que re- tira a perna esquerda; em seguida, à direita do solo, enquanto as mãos apoiam o peso do corpo, as per- nas realizam um giro transversal; a perna esquerda toca o solo após tal giro e, depois, à direita. As mãos deixam o solo e o capoeira retorna a paralela; recua- se a perna esquerda e assume-se a base da ginga. A partir desse movimento, podemos incentivar a execução de algumas variações, como a realização do aú, apoiando apenas uma das mãos, ou mesmo sem o apoio das mãos, ou ainda, com o apoio da ca- beça, juntamente, com as mãos. Figura 17 - Dinâmica da execução do aú Fonte: Unicesumar. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução do aú. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/354 126 CAPOEIRA PARADA DE MÃOS A parada de mãos é um movimento em que o ca- poeira inverte a sua base de apoio. Ao invés de se apoiar sobre as pernas, ele(a) fica apoiado sobre os braços. Nós já vimos esta inversão quando nos de- paramos com o aú, entretanto, no caso da parada de mãos, há a estabilização, enquanto no aú ocorre um giro transversal. Neste movimento, o praticante de capoeira equilibra-se estaticamente sobre os braços. EDUCAÇÃO FÍSICA 127 A execução da parada de mãos pode se iniciar de várias formas, então, propomos uma execução razoavelmen- te simples. O capoeira posiciona-se na base da ginga com a perna direita atrás; realiza meio giro no sentido horário, sem trocar as pernas da base, de modo que fi- que momentaneamente de costas para o outro jogador; apoia ambas as mãos no chão, impulsiona a perna es- querda para cima, a qual é seguida pela direita; procura estabilizaro corpo e executar a parada propriamente dita, ficando novamente de frente para o outro jogador. Como estratégia pedagógica, é aconselhável utilizar, nas primeiras tentativas, algum tipo de apoio. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da parada de mãos. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. Figura 18 - Dinâmica da execução da parada de mãos Fonte: Unicesumar. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/355 128 CAPOEIRA PARADA DE CABEÇA A parada de cabeça tem, basicamente, a mesma di- nâmica de execução da parada de mãos, contudo há um terceiro apoio, a cabeça. Assim, para executar- mos este movimento, seguiremos a mesma sequên- cia da parada de mãos. EDUCAÇÃO FÍSICA 129 O capoeira posiciona-se na base da ginga com a per- na direita atrás; realiza meio giro, no sentido horá- rio, sem trocar as pernas da base, de modo que fique, momentaneamente, de costas para o outro jogador; apoia ambas as mãos no chão e em seguida a cabe- ça; para ajudar na estabilização procure distribuir os três pontos de apoio igualmente, formando um triângulo no solo. Figura 19 - Dinâmica da execução da parada de cabeça Fonte: Unicesumar. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução da parada de cabeça. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/356 130 CAPOEIRA MACACO À primeira vista, o macaco até pode ser confundi- do com um aú e, de fato, se parecem. Entretanto, o macaco é um movimento um tanto complexo, visto que parte da posição de cócoras, a partir da qual o praticante de capoeira projeta o seu corpo a fim de realizar um giro apoiado pelas mãos. Assim como nos demais movimentos expostos neste material, há várias possibilidades de execução no que se refere ao início. A exemplo de como temos uma ampla gama de variações do mesmo movimento. O que lhe pro- pomos é uma dessas possibilidades. EDUCAÇÃO FÍSICA 131 Figura 20 - Dinâmica da execução do macaco Fonte: Unicesumar. Veja o vídeo que mostra, com detalhes, a dinâmica da execução do macaco. Para acessar, use o seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/357 132 CAPOEIRA Para a execução do macaco, o praticante de capoeira parte da base da ginga com a perna esquerda atrás, esta segue a sequência natural da ginga e entra na paralela; uma vez na paralela, agacha-se na posição de cócoras lateralmente em relação ao outro joga- dor; apoia a sua mão direita no solo atrás do seu cor- po; a mão esquerda percorre a trajetória de um arco sobre a cabeça ao ser apoiada no solo em uma linha mais ou menos paralela em relação à mão direita; ao mesmo tempo, as pernas dão impulso, projetando o corpo que realizará um giro transversal apoiado sobre ambas as mãos; finaliza-se o movimento com ambos os pés na paralela e, em seguida, retorna-se à base da ginga. Vamos nos encaminhando para a finalização desse tópico, no qual abordamos os gestos técnicos acrobáticos/floreios característicos da capoeira. Um pouco antes de iniciarmos as descrições dos gestos técnicos deste tópico, lhe dissemos, prezado(a) alu- no(a), que apresentaríamos a execução de alguns gestos técnicos bem simples. E qual foi a sua impres- são? Tais gestos são bem fáceis, não são? Você con- seguirá executá-los? Algum dentre os gestos aqui propostos representou um desafio para você? Qual deles foi o mais desafiador? Já podemos pensar em outro, um pouquinho mais complicado? Perceba que, por mais simples que esses gestos sejam, imagino que, para alguns, eles representem um desafio por proporem situações corporais que não fazem parte do nosso cotidiano. Afinal, não andamos por aí de pernas para o ar com muita fre- quência, não é mesmo? Qual será a percepção das crianças, dos jovens e adultos ao vivenciarem esse tipo de movimento? Só vejo uma forma de saber: oportunizando a estas pessoas tal experiência. Por agora, finalizaremos a nossa conversa, mas lembre- -se que não esgotamos o repertório desses gestos. Até breve! 133 considerações finais Olá, prezado(a) aluno(a). Nesta unidade, tivemos contato com os gestos técnicos característicos da capoeira, ou seja, tomamos conhecimento do repertório gestu- al próprio dessa manifestação. Esses gestos corporais apresentam características e funções que só fazem sentido quando concebidos dentro da dinâmica do uni- verso cultural da capoeira. Nesse sentido, tais movimentos são empregados na promoção de um verdadeiro diálogo corporal, um jogo de perguntas e respostas projetadas por intermédio dos corpos dos(as) jogadores(as) de capoeira. Desse repertório gestual, destaca-se a ginga como o gesto fundamental. Aquele a par- tir do qual todos os demais são desferidos. Portanto, é a ginga que caracteriza a própria capoeira. Além disso, foram apresentados àqueles movimentos que caracterizam a ca- poeira como luta. Esses são os gestos técnicos ofensivos, movimentos cuja fina- lidade é o ataque. Metaforicamente, eles são as perguntas proferidas no diálo- go corporal. Mas também vimos as possibilidades de respostas a tais perguntas quando tivemos contato com os gestos técnicos defensivos, movimentos que apresentam uma dinâmica própria na forma de defesa, empregada durante o jogo de capoeira. Dentre esses movimentos, destacam-se as esquivas, estas utilizadas para desviar o corpo da trajetória dos movimentos de ataque. Vimos que a de- fesa do capoeira baseia-se no ato de se evadir do ataque, não sendo comum o bloqueio. Por fim, porém não menos importante, nos deparamos com os gestos téc- nicos acrobáticos ou floreios. É bem verdade que os gestos apresentados desta categoria são relativamente simples, mas nem por isso deixamos de entender a sua dinâmica criativa e desafiadora, a sua capacidade de provocar a superação de nossos limites. Ao finalizar esta unidade, esperamos termos sido capazes de lhe provocar a curiosidade e o desejo de conhecer um pouco mais o repertório gestual dessa ma- nifestação corporal ímpar, a capoeira. Mas, sobretudo, que tenhamos provocado a reflexão sobre as possibilidades de execução e criação de gestos corporais. 134 atividades de estudo 1. Quanto aos gestos técnicos característicos da ca- poeira, é correto afirmar que: a) Os gestos técnicos, para serem caracte- rizados como tal, devem ser ensinados e, portanto, executados, seguindo minucio- samente a sua descrição. b) Os gestos técnicos ofensivos são aqueles cuja intencionalidade de quem os executa é a de embelezar o jogo com movimentos que desafiam os próprios limites do corpo. c) Os gestos considerados fundamentais na capoeira são os gestos técnicos acrobáti- cos/floreios, especialmente, o salto mortal. d) O gesto considerado fundamental na ca- poeira é a ginga, visto que derivam dela todos os demais movimentos corporais empregados na execução do jogo. e) Quando os gestos técnicos característicos da capoeira forem abordados na escola ou em outro espaço qualquer, é indispensável que os alunos saibam que eles não podem modificar e tampouco inventar novos mo- vimentos. 2. Quanto ao repertório gestual da capoeira, leia as afirmativas a seguir. I - Os gestos técnicos acrobáticos/floreios li- mitam-se aos saltos, especialmente, o sal- to mortal. II - Os gestos técnicos característicos da ca- poeira devem ser didaticamente categori- zados como: ginga; gestos técnicos ofen- sivos; gestos técnicos defensivos; gestos técnicos acrobáticos/floreios. III - A ginga é o gesto fundamental da capoei- ra, uma vez que é a partir dela que todos os demais são desferidos. Logo, a ginga é o gesto que caracteriza a própria capoeira. IV - Os gestos técnicos defensivos apresen- tam uma dinâmica onde o capoeira desvia o corpo da trajetória de ataque do outro jogador e, neste caso, os bloqueios não são comumente utilizados. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 3.Assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F) no que se refe- re ao repertório gestual característico da capoeira, ( ) O aú é o gesto técnico característico da ca- poeira que pode ser categorizado única e exclu- sivamente na categoria dos gestos técnicos acro- báticos/floreio. ( ) Os gestos técnicos característicos da capo- eira, apesar de serem apresentados de forma categorizada, transitam livremente entre as cate- gorias aqui expostas. ( ) A ginga é um gesto técnico eminentemente acrobático, visto que ela nos serve apenas para embelezar e disfarçar a capoeira como dança. 135 atividades de estudo A sequência correta para a resposta da questão é: a) F, F, V. b) V, V, F. c) F, V, F. d) F, V, V. e) V, F, V. 4. Sobre os gestos técnicos da capoeira, relacio- ne as colunas a seguir com os seus respectivos conceitos. 1 - Ginga 2 - Gestos técnicos ofensivos 3 - Gestos técnicos defensivos 4 - Gestos técnicos acrobáticos/floreios ( ) Movimentos com alto grau de plasticidade que embelezam o jogo, normalmente executa- dos por capoeira mais experientes. ( ) Gesto técnico fundamental da capoeira, é a base para a execução de todo o repertório gestu- al desta manifestação. ( ) Gestos empregados como forma de defesa durante o jogo da capoeira, a sua dinâmica pre- dominante consiste em desviar o corpo da traje- tória do ataque de outro jogador. ( ) Gestos que caracterizam a capoeira como uma luta, uma vez que são empregados no ata- que a outro jogador. A sequência correta para a resposta da questão é: a) 1, 4, 2 e 3. b) 4, 1, 3 e 2. c) 4, 1, 2 e 3. d) 3, 2, 4 e 1. e) 4, 3, 1 e 2. 5. Apesar do repertório gestual da capoeira escapar a uma classificação definitiva, podemos, mesmo que pedagogicamente, pensar numa estrutura que organize tal repertório. Dito isto, elabore um organograma que represente a distribuição dos gestos técnicos da capoeira. 136 LEITURA COMPLEMENTAR [...] Outro fato importante é o resultado da enquete que fiz com vários capoeiras, antigos e modernos, e verifi- quei que quase todos eles possuem um ou mais gol- pes ou truques diferentes dos demais, inventados por eles próprios, ou então herdados de seus mestres ou de outros capoeiras de suas ligações, isso sem falar na interpretação pessoal, embora sutil, que são aos golpes e toque, de um modo geral, e o golpe pessoal que todo capoeira guarda consigo, para ser usado no momento necessário. O texto descritivo de capoeira mais antigo que se tem notícia é o que está nas Festas e Tradições Populares do Brasil de Melo Morais Filho. Pois bem, os golpes aí referidos, são, na sua quase totalidade, des- conhecidos dos capoeiras da Bahia, como é o caso do tronco, raiz, fedegoso, pé de panzina, caçador, passo a dois e outros, golpes esses e muitos que Melo Morais Filho não teve conhecimento, ou simplesmente não mencionou, mas que foram criações de capoeiras ou maltas do Rio de Janeiro de seu tempo, extraídos da imaginação e de elementos que lhe vinham à frente. Se- gundo fui informado, existiu no Rio de Janeiro um velho mestre de capoeira baiano, conhecido por Sinhôzinho (Agenor Sampaio), do qual ainda existem alunos, com academia de capoeira, utilizando-se de alguns dos gol- pes referidos por Melo Morais Filho. Em nossos dias, La- martine Pereira da Costa, oficial da Marinha e também professor de Educação Física da referida corporação, e Inezil Penna Marinho, publicando o primeiro Capoeira- gem / A defesa pessoal brasileira, reeditado em 1962 com o título de Capoeira sem mestre e o segundo Subsídios para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoie- ragem e mais adiante, Subsídios para a História da Capo- eiragem no Brasil, por sinal, os primeiros trabalhos que se publicam no gênero. Para confecção do trabalho que é de caráter puramente técnico, isto é, preocupando-se exclusivamente com o aprendizado dos golpes, Lamar- tine Pereira da Costa encontrou dificuldade no que se refere à bibliografia sobre o assunto. Então, segundo ele declara no prefácio, resolveu basear-se na tradição oral e no que pôde arrancar de velhos capoeiras do Rio de Janeiro e da Bahia e o resultado é que catalogou gol- pes, à exceção dos tradicionais, totalmente, desconhe- cidos dos mestres capoeiras da Bahia. Há, ainda, outra coisa importante no desenvolvimento da capoeira – é que dentro das limitações das regras de jogo, o capo- eira tem liberdade de criar, na hora, golpes de ataque e de defesa conforme seja o caso, que nunca foram previstos e sem nome específico e que após o jogo ele próprio não se lembra mais do tipo de expediente que improvisou. No jogo da capoeira vai muito do pessoal. Fonte: Rego (1968). 137 material complementar Capoeira - Um Instrumento Psicomotor para a Cidadania Gladson de Oliveira Silva e Vinicius Heine Editora: Phorte Sinopse: este livro surge da vivência prática e teórica da diversidade da capoeira. O seu objetivo principal é trazer contribuições para o fazer pedagógico dos pro- fissionais que a ela se dedicam, visto que, atualmente, a capoeira passa por um intenso processo de profissionalização. Portanto, é fundamental que o capoeirista trabalhe em prol do seu reconhecimento e da sua valorização. Capoeira: Um Ins- trumento Psicomotor para a Cidadania vem, exatamente, nesta direção, trazendo elementos teóricos e aplicados para o desenvolvimento da capoeira em seus as- pectos gerais e, mais especificamente, para os seus aspectos pedagógicos. Indicação para Ler 138 referências AREIAS, A. D. O que é capoeira. 4. ed. São Paulo: Da Tribo, 1998. CAMPOS, H. Capoeira Regional: a escola de mestre Bimba. Salvador: EDUFBA, 2009. CAPOEIRA, N. Capoeira: os fundamentos da malí- cia. Rio de Janeiro: Record, 1992. CASTILHA, F. A. Aspectos pedagógicos da capoei- ra. Passo Fundo: Méritos, 2012. CRUZ, J. L. D. O. A capoeira Angola na Bahia. 2. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 1997. FALCÃO, J. L. C. Unidade pedagógica 2: capoeira. In: KUNZ, E. Didática da Educação Física 1. 4. ed. Ijuí: Unijuí, 2006. Cap. 2. p. 55-94. LIMA, M. C. Dicionário de capoeira. Brasília: [s. n.], 2005. LOPES, A. J. F. Curso de capoeira em 145 figuras. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1979. MOURA, J. 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Reginaldo Calado de Lima Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Os instrumentos característicos da capoeira • Bateria: o conjunto de instrumentos da capoeira • As cantigas de capoeira e a sua estrutura • A roda, o momento de expressão da capoeira Objetivos de Aprendizagem • Identificar os instrumentos característicos da capoeira. • Diferenciar o conjunto de instrumentos de cada estilo de capoeira. • Entender a estrutura característica dos diferentes tipos de cantigas de capoeira. • Compreender a dinâmica geral de uma roda de capoeira. OS INSTRUMENTOS, AS CANTIGAS E A RODA DE CAPOEIRA unidade IV INTRODUÇÃO O lá, caro(a) aluno(a)! Agora que já conhecemos um pouco da história da capoeira, das teses que discutem as suas origens e o seu desenvolvimento histórico rumo à ascensão; que já conhecemos as formas mais tradicionais de jogar capoeira representadas pelos estilos ou vertentes; e que nosdeparamos com os gestos técnicos desta prática corporal, é hora de nos aventurarmos em conhecer outros elementos que consideramos indispensáveis na aborda- gem da capoeira em qualquer ambiente. Nos referimos à musicalidade da capoeira, elemento este caracterizado pelos instrumentos, pelas cantigas e também pela roda. O que pretendemos propor, nesta unidade, não é que você aprenda a cantar as cantigas de capoeira ou a tocar os instrumentos característicos dessa manifestação. Será ótimo se isto acontecer, entretanto, é preciso que fique claro que, mesmo entre nós, capoeiras, o domínio destes elementos demanda algum tempo. Tempo este do qual não dispomos no momento. No decorrer dos tópicos que se seguem, falaremos mais sobre isso. Ademais, o objetivo da unidade é lhe apresentar a estrutura dos tipos de cantigas características da capoeira. Pensamos que, desta forma, você será capaz de reconhecer uma cantiga e, principalmente, conhecer as suas funções. Será com essa mesma perspectiva que pretendemos apresentar- -lhe os instrumentos característicos da capoeira, alguns deles bastante conhecidos e intimamente relacionados à capoeira, como é o caso do be- rimbau. Outros talvez não tão conhecidos, como o reco-reco e o agogô. E, por fim, apresentaremos a roda de capoeira como um momento imprescindível para a compreensão dessa prática corporal. Ou seja, es- peramos que, ao final desta unidade, você, prezado(a) aluno(a), seja ca- paz de identificar tanto as cantigas quanto os instrumentos, bem como as suas respectivas funções na estrutura dessa prática corporal, além de compreender a dinâmica geral de uma roda de capoeira. Comecemos, então, com a apresentação dos instrumentos. 144 CAPOEIRA Os Instrumentos Característicos da Capoeira EDUCAÇÃO FÍSICA 145 Se você já participou ou tão somente assistiu a uma roda de capoeira, arriscamos dizer que você percebeu a presença de instrumentos os quais foram percuti- dos durante todo o andamento da roda. É fácil per- ceber a relevância dos instrumentos para a capoeira, mesmo para quem não está muito familiarizado com essa manifestação. Por este motivo é que a abordagem da capoeira, independentemente do contexto onde ela ocorra, não deve negligenciar a exposição dos ins- trumentos característicos que a acompanham. Entre- tanto, é importante dizer que, se na estrutura carac- terística atual da capoeira, os instrumentos se fazem presentes como um elemento indispensável, ao longo da história dessa manifestação, já foi registrada uma iniciativa, uma prática de capoeira em que não havia a presença de música e tampouco de instrumentos. Rudolf de Otero Hermanny, que foi discípulo, na década de 40, de Agenor Moreira Sampaio, o mestre Sinhozinho, relembra as particularidades da capoeira ensinada por seu mestre. De acordo com Hermanny, a capoeira ensinada por sinhozinho não tinha a mesma beleza estética da capoeira baiana, tampouco o acompanhamento musical (HERMAN- NY; LISBOA, 2003). O fato é que, a partir deste período, o modelo de capoeira predominante foi nos moldes daquela que se jogava na Bahia, o que se convencionou chamar de baianização da capoeira. Ou seja, uma espécie de padronização de alguns aspectos e, dentre eles, está, sem dúvida, a presença dos instrumentos. Desta for- ma, é quase inconcebível, atualmente, uma roda de capoeira sem a presença dos instrumentos, princi- palmente, do berimbau. Respeitando as variações de quantidade e de disposição decorrentes, tanto dos estilos quanto das escolas ou dos grupos de capoeira, grosso modo, po- demos dizer que estão presentes, no jogo, os seguin- tes instrumentos: berimbaus, pandeiros, atabaque, agogô e reco-reco. Há ainda o caxixi, o qual acom- panha a percussão do berimbau. A partir de agora, conheceremos um pouco das características desses instrumentos. O BERIMBAU O berimbau é composto por uma verga de madei- ra flexível e resistente. A biriba tem sido a preferida para a confecção dos berimbaus atualmente. Mas é bem verdade que há uma grande variedade de ma- deiras que atendem a tais exigências, dentre as quais, “matamatá branco, pau d’arco, pau pombo, açoita cavalo, itaúba preta, guaiúba, pitomba, tatajuba, ma- rupá, tauari e o morototó” (IPHAN, 2014, p. 124). A verga é tensionada por um fio de aço que, preso nas extremidades, a mantém arqueada. É esta tensão na madeira que concebe a afinação ao berimbau. A este conjunto, verga e arame, acrescenta-se uma cabaça, a qual funcionará como caixa de res- sonância, amplificando o som produzido pelo arco. Para que a cabaça possa ser utilizada no berimbau, esta, após seca, precisa ter a parte superior cortada; na parte inferior, são feitos dois orifícios, nos quais será feita uma alça de barbante que servirá de encai- xe para a cabaça na verga. 146 CAPOEIRA O arame do berimbau é percutido por uma baqueta de aproximadamente 30 cm, confecciona- da em madeira maciça ou bambu. Utiliza-se ainda na percussão, o dobrão, que pode ser uma pedra ou uma peça de metal. O caxixi é utilizado como acompanhamento pelo tocador de berimbau, o qual empunha-o com a mesma mão que empunha a ba- queta. Viu só? O berimbau é um instrumento de ca- racterísticas bastante simples, é composto, como diz a cantiga de domínio popular, de “uma cabaça, um arame é um pedaço de pau”. Quanto à origem do berimbau, Shaffer (1977) o reconhece como um arco musical, logo, um dos ins- trumentos mais primitivos e bastante difundidos em muitas culturas pelo mundo. Existem registros da utilização do arco musical desde cerca de 1.500 a. C. O berimbau, na forma como o conhecemos, é bastante popular na cultura africana, onde é uti- lizado nas atividades pastoris. Cascudo (1967, p. 186) nos fala de um instrumento que, no Brasil, é “chamado de Berimbau e que nós [na África] cha- mamos hungu, ou m’bolumbumba, conforme os lu- gares e que é, tipicamente, pastoril, instrumento esse que segue os povos pastoris até a Swazilândia, costa oriental de África”. A inserção desse instrumento em terras brasileiras, de acordo com Shaffer (1977), parece ter ocorrido por intermédio dos africanos que para cá foram tra- ficados como mão-de-obra escrava. Apesar de reco- nhecer a inexistência de evidências realmente con- clusivas, o autor pondera: [...] como não há evidência de qualquer arco musical indígena no Brasil; como os africanos têm estado no Brasil desde, ao menos, 1548; e como em todos os relatórios sobre o uso do instrumento no Brasil é evidente que tenha sido usado exclusivamente por negros escra- vos (africanos e descendentes de africanos), a conclusão mais lógica é que o berimbau é um instrumento de origem africana introduzido no Brasil como os escravos (SHAFFER, 1977, s. p.). No Brasil oitocentista, Henry Koster descreveu em sua obra Viagens ao Nordeste do Brasil (1956), alguns instrumentos musicais utilizados em dan- ças escravas. Um deles é “um grande arco, com uma corda tendo uma meia quenga de côco no meio, ou uma pequena cabaça, amarrada” (KOS- TER, 1956, p. 67). Tal descrição confere com a es- trutura atual do berimbau, até a forma de percus- são é parecida. Nos dizeres do autor, “colocam-na [a cabaça] contra o abdômen e tocam a corda com o dedo ou com um pedacinho de pau” (KOSTER, 1956, p. 67). Observe, caro(a) aluno(a), que ape- sar da utilização do instrumento ocorrer em fun- ção da execução de algumas danças, não há men- ção à capoeira. O berimbau também foi registrado nas pinturas de Jean Baptiste Debret (1768-1848) como “O Toca- dor de Urucungo”, obra de 1826. Você sabia que, na literatura, podemos en- contrar várias designações em referência ao berimbau? Veja algumas delas: humbo, ru- cumbo, hungo, m’bolumbumba, marimba, urucungo, gobo, bucumbunga, bucumbumba, uricungo, lucungo. Fonte: Shaffer (1977). SAIBA MAIS EDUCAÇÃO FÍSICA 147 Observe que, na gravura de Debret, o berimbau não está associado ao jogo da capoeira. Tal instrumento aparece associado à atividade dos negrosde ganho, aqueles(as) negros(as) forros ou escravos(as) vende- dores(as). O instrumento era então utilizado para chamar a atenção de possíveis compradores. Você deve se lembrar da gravura “Jogar Capo- eira” de Rugendas, com a qual tivemos contato na primeira unidade, nela foi registrada e descrita o que parece ser o jogo de capoeira, entretanto, não se registra a presença do berimbau. O instrumen- to musical que se verifica na pintura é um tambor. Além da gravura de Rugendas, podemos recor- rer à descrição de Charles Ribeyrolles, jornalista francês que, entre 1858 e 1860, registrou o coti- diano brasileiro. Ao se referir aos jogos e às dan- ças dos negros, Ribeyrolles (1980, p. 51) destaca a execução da “capoeira, espécie de dança pírrica, de evoluções atrevidas e combativas, ao som do tambor do Congo”. Note que mais uma vez não se registra a presença do berimbau durante a execu- ção da capoeira. O berimbau é, atualmente, o principal instru- mento de uma roda de capoeira. É ele quem deter- mina, por meio dos toques executados, o andamen- to da roda. Ou seja, ao executar determinado toque, determina-se qual deve ser a postura assumida tan- to pelos jogadores propriamente ditos quanto por aqueles que se encontram no interior da roda, bem como os demais integrantes dela. Se o berimbau é, atualmente, o símbolo maior da capoeira, a ponto de Silva (2003, p. 92) afirmar que “[...] hoje é quase impossível conceber uma roda de capoeira sem o uso ou toque dos berimbaus”, é importante saber que nem sempre foi assim. Shaffer (1977, s. p.) nos esclarece que a associação entre o berimbau e o jogo da capoeira, ao que tudo indica, ocorreu “somente no fim do século XIX”. Detivemo-nos um pouco mais nos detalhes refe- rentes ao berimbau porque, como já dissemos, este é o principal instrumento da capoeira na atualidade. Logo, é imperativo que conheçamos as suas carac- terísticas, o seu manuseio e as suas funções (estas últimas serão abordadas no próximo tópico). Além do berimbau, outros instrumentos, mesmo que não tenham a mesma representatividade, são caracterís- ticos da capoeira. Figura 2 – O tocador de Urucungo, de Jean Baptiste Debret Fonte: Wikipédia ([2019], on-line)1. 148 CAPOEIRA O CAXIXI O pandeiro é um instrumento de percussão, atu- almente confeccionado em diversos materiais, en- tretanto, os mais aceitos nas rodas de capoeira são aqueles cujo aro é confeccionado em madeira e re- coberto com pele animal. Fazem parte da estrutura do pandeiro conjuntos de peças metálicas, denomi- nadas platinelas, as quais são distribuídas pelo aro de madeira. Ao estudar a origem do pandeiro, Rego (1968, p. 98) destaca-o “como um dos antiquíssimos instru- mentos musicais da velha Índia. Os hindus dele fa- ziam bastante uso, sobretudo em cerimônias religio- sas”. O uso desse instrumento também foi bastante difundido na península ibérica durante a Idade Mé- dia em decorrência da invasão árabe. Assim como em outras culturas, o pandeiro fora amplamente empregado em cerimônias religiosas, a exemplo da procissão de Corpus Christi. Aliás, já em terras bra- sileiras, inserida por intermédio português, a pre- sença do pandeiro foi registrada na primeira procis- são de Corpus Christi, realizada na Bahia em 13 de junho de 1549 (REGO, 1968). O caxixi é um instrumento que, apesar de ser apre- sentado separadamente, não desempenha função isolada na roda de capoeira. Tal instrumento é utili- zado pelo tocador de berimbau, que o empunha com a mesma mão com a qual empunha a baqueta para percutir o berimbau. Rego (1968, p. 106) afirma que “nada de concreto se sabe a respeito da origem do nome, nem do instrumento” em si. O caxixi é um pequeno chocalho confeccionado, geralmente, com cipó trançado. A sua base é um pedaço de cabaça, cortada circularmente e, em seu interior, são inseri- das sementes secas. O PANDEIRO EDUCAÇÃO FÍSICA 149 O ATABAQUE estrutura ligeiramente cônica, ambos esculpidos em madeira, recebendo, na extremidade superior, uma cobertura de pele de animal. Atualmente, o atabaque utilizado nas rodas de capoeira, apesar de obedecer a mesma estrutura, não é esculpido. O seu bojo é montado a partir de lâminas de madeira cortada e mantidas no formato côncavo com o auxílio de aros de metal. A afinação, que consiste em estender a pele que recobre a par- te superior, se dá por meio do conjunto de cordas e cunhas. Quanto à sua origem, Rego (1968, p. 104) destaca que: O atabaque é um instrumento oriental mui- to antigo entre os persas e os árabes, porém divulgado na África. Embora os africanos já conhecessem o atabaque e até tenham vindo da África algumas espécies, creio que, ao che- garem ao Brasil, já o encontrassem trazido por mãos portuguesas, para ser usado em festas e procissões religiosas em circunstâncias idênticas ao pandeiro e o adufe. A associação do atabaque com a capoeira é an- terior ao berimbau. De fato, o tambor tornou-se um elemento característico, não só da capoeira na época do Brasil escravocrata, mas de toda a cultu- ra africana. Nos dizeres de Soares (1999, p. 31), “o tambor era um elemento comum da cultura africa- na construída pelos escravos no Brasil. Apropria- do pelas maltas, se tornou mais um dado carac- terístico da capoeiragem”. Atualmente, nas rodas de capoeira, o atabaque não ocupa mais o lugar central entre os instrumentos dessa manifestação como ocupava outrora. O atabaque é um instrumento de percussão gene- ricamente chamado de tambor. A sua constituição se dá, primitivamente, por um cilindro ou por uma 150 CAPOEIRA O AGOGÔ O RECO-RECO O agogô é um instrumento de percussão con- feccionado em diversos materiais, entretanto, é mais comumente fabricado em metal. De acordo com Rego (1968), o nome desse instrumento é de origem nagô e significa “sino”. É bastante utilizado em folguedos populares e em cerimônias religiosas afro-brasileiras. Ao que tudo indica, foi introduzido no contexto brasileiro pelos povos africanos. A presença do agogô nas rodas de capoeira va- ria, principalmente, em relação ao estilo de capoeira, sobretudo, associado ao conjunto de instrumentos da capoeira Angola. Outra variação ocorre em re- lação ao material. Atualmente, tem se adotado, nas rodas de capoeira, o agogô confeccionado de casta- nha do Pará. Fonte: Ponto Solidário ([2019, on-line)2. O reco-reco é um instrumento de percussão que pode ser confeccionado em madeira maciça, mas é caracteristicamente confeccionado em um gomo de bambu, no qual se entalham sulcos transversais. O seu som é obtido pela fricção de uma haste de metal ou de madeira sobre tais sulcos. Há ainda o reco- -reco industrializado, confeccionado em metal, do qual, de acordo com Brito (2004, p. 35), o “som não serve para a capoeira”. Normalmente, o reco-reco é utilizado nas rodas de capoeira Angola. Como você pode perceber, não são muitos os instrumentos característicos da capoeira, entre- tanto, é preciso destacar que há grande variação na presença desses instrumentos nas rodas mundo afora. Vejamos, no tópico a seguir, como os instru- mentos são organizados e que funções desempe- nham nas rodas de capoeira. Até breve! EDUCAÇÃO FÍSICA 151 152 CAPOEIRA Olá, caro(a) aluno(a)! No tópico anterior, tratamos dos instrumentos musicais característicos da capo- eira. Ao apresentá-los, o fizemos destacando a estru- tura características de cada um deles. Neste tópico que se inicia, continuaremos tratando dos instru- mentos, entretanto, nos atentaremos às funções desempenhadas por eles em uma roda de capoeira. Esperamos sermos capazes de lhe mostrar o porquê de insistirmos na indispensável necessi- dade de expor este elemento constitutivo, os ins- trumentos, na abordagem da capoeira. Para tanto, pretendemos lhe apresentar algumas das formas (pois são diversas) de organizar os instrumentos em uma roda. Bateria: o Conjunto de Instrumentos da Capoeira EDUCAÇÃO FÍSICA 153 A diversidade de formas de organizaçãodos ins- trumentos na capoeira depende de alguns fatores, dentre os quais destacamos o estilo ou a vertente de capoeira. Ou seja, os instrumentos que aparecem em uma roda de capoeira de um estilo não são os mesmos que aparecem na roda de outra vertente. Por exemplo, na roda de Angola, considera-se, atual- mente, tradicional a presença de três berimbaus, en- quanto que na capoeira Regional de Mestre Bimba, conta-se com a presença de apenas um berimbau. Mesmo dentro de um mesmo estilo é comum alguma variação, se não na presença de algum ins- trumento, na disposição deste na roda. Dito isto, prezado(a) aluno(a), é indispensável que você en- tenda que é impossível apresentar aqui uma forma definitiva ou correta de organização. Pensamos, en- tretanto, que a partir da exposição a seguir, você será capaz de compreender, grosso modo, a existência de formas diversas de organizar os instrumentos em uma roda de capoeira. A tabela a seguir representa uma síntese do tipo de instrumento, bem como a quantidade de cada um deles presentes em cada estilo de capoeira. Tabela 1 - Síntese da quantidade de instrumentos presentes em cada estilo de capoeira Instrumento estilo ANGOLA REGIONAL CONTEMPORÂNEA Berimbau 3 1 3 Pandeiro 2 2 2 Atabaque 1 ------- 1 Agogô 1 ------- 1 Reco-reco 1 ------- ------- Fonte: o autor. Você notou que o caxixi não foi listado nesta tabela? Não foi esquecimento, mas sim, o fato de o caxixi não desempenhar uma função isolada no conjunto de instrumentos característicos da capoeira. Este ins- trumento serve de acompanhamento à percussão do berimbau. Desta forma, entenda que o caxixi está pre- sente onde estiver o berimbau e na mesma quantidade. O conjunto de instrumentos em uma roda de ca- poeira já foi denominado conjunto musical ou rit- mo (PASTINHA, 1988). Atualmente, é mais comu- mente conhecido como bateria (CRUZ, 1997; 2003, SILVA; HEINE, 2008), orquestra (SILVA, 2003), ou ainda, charanga (COLUMÁ, 2012). Nas rodas de capoeira Angola, a bateria é com- posta por três berimbaus, o gunga, o médio e o vio- la. Cada um deles tem uma afinação e uma função. O gunga é o berimbau de som mais grave, visualmente, podemos reconhecê-lo pelo maior porte da cabaça. Por ter uma função determinante na roda, esse berim- bau é, geralmente, tocado pelo mestre ou por outro capoeira experiente capaz de conduzir a roda. A sua percussão deve ser bem definida, uma vez que o co- mando emitido pelo gunga, ou seja, o toque, precisa ser compreendido por todos os integrantes da roda. Esse instrumento costuma marcar o toque, sem exe- cutar variações. Por exemplo, se o toque executado for 154 CAPOEIRA angola, o gunga o marca repetidamente, sem executar muitos repiques, que são as variações dentro do toque. O berimbau viola, por outro lado, tem uma afi- nação que lhe garante um som agudo e, diferente- mente do gunga, improvisa livremente, sem, no en- tanto, sair do ritmo e do toque executado por este. Assim, se o gunga toca angola, o viola também o faz, mas o seu tocador é livre para explorar a criativi- dade. Visualmente, o berimbau viola pode ser reco- nhecido por ter a cabaça pequena, a menor dentre o trio de berimbaus. O médio é um berimbau intermediário entre o gunga e o viola, tanto no som que produz quanto no tamanho da cabaça. Há algumas rodas em que o mé- dio executa um toque diferente do executado pelo gunga, invertendo as batidas. Por exemplo, quando o gunga toca angola, o médio toca são bento peque- no de angola; já quando o gunga toca são bento pe- queno de angola, o médio toca angola dobrada. Uma ressalva se faz necessária, apesar de conside- rarmos esses exemplos especificidades contextuais, demasiadamente técnicos, ainda assim são necessá- rios, pois nos ajudam a compreender que o anda- mento da roda se dará de acordo com os preceitos considerados tradicionais por cada mestre, escola ou grupo de capoeira, evitando, neste sentido, julgar- mos certas ou erradas tanto as nossas experiências quanto as dos nossos pares. Após a definição do toque pelo gunga, o que, por sua vez, determinará o andamento dos jogos execu- tados na roda e o acompanhamento do médio e do viola, os demais instrumentos são, então, percuti- dos. Neste caso, em que estamos tratando da bateria da capoeira Angola, temos a presença de um ou dois pandeiros, um atabaque, um reco-reco e um agogô. A bateria da capoeira Regional é composta por um berimbau e dois pandeiros. O berimbau, apesar de ser solo, tem a mesma função: determinar o an- damento da roda. Sobre a composição da charanga, como é conhecida a bateria da capoeira Regional de mestre Bimba, Brito (2007, p. 50) nos esclarece que: Alguns de seus alunos disseram que ele não acrescentava mais berimbaus porque não tinha bons tocadores que executassem os toques da Regional como ele gostava. [...] Já outros afir- mam que ele não utilizava mais de um berim- bau, para não quebrar a “pulsação” forte de rit- mos da Regional. A formação da bateria da capoeira Contemporâ- nea está mais próxima da bateria da Angola. Estão presentes três berimbaus, gunga, médio e viola, os quais desempenham as mesmas funções já descritas. E mesmo quando executam toques provenientes da capoeira Regional, o trio de berimbaus na bateria da Contemporânea desempenha as funções que de- Figura 3 - Berimbau (viola, médio e gunga) Fonte: Wikipédia ([2019], on-line)3. gunga viola médio EDUCAÇÃO FÍSICA 155 sempenham na bateria da Angola. Ou seja, o gunga marca o toque, o qual é repetido pelo médio com al- gumas possibilidades de improviso e, na sequência, o viola executa o mesmo toque, mas com liberdade de improviso. Ainda estão presentes nessa bateria um ou dois pandeiros, mais comumente dois. Há a presença de um atabaque. Em algumas forma- ções, há a presença de um agogô. Não é comum a presença do reco-reco, mas há formações onde este instrumento é utilizado na execução dos toques da capoeira Angola. A ordem dos instrumentos é por demais variada para que arrisquemos alguma apresentação, mas, de maneira geral, o trio de berimbaus ocupa o centro da bateria, e os demais instrumentos são distribuí- dos. A bateria, mais especificamente a região à frente dos berimbaus, conhecida como “pé do berimbau,” é a “porta de entrada” da roda. Neste espaço, se co- locam acocorados os jogadores que iniciarão o jogo após o canto da ladainha, no caso da roda de capo- eira Angola. Também é dali que partirá para o jogo uma nova dupla, na roda da capoeira Regional. É também do pé do berimbau que os jogadores entra- rão na roda para efetuar a compra do jogo. Para finalizarmos este tópico, vale frisar a im- portância que, atualmente, é atribuída ao berimbau no andamento da roda de capoeira. Desta forma, é preciso que se entenda que os demais instrumen- tos são subordinados ao comando dos berimbaus, especificamente ao gunga. Logo, os demais instru- mentos não devem ser percutidos de modo que cubram o som dos berimbaus. Lembre-se que é a mensagem entoada pelo berimbau gunga que deter- minará o tipo de postura assumida na roda. A importância do berimbau e a sua associação atual com a capoeira, outrossim, são ratificadas no imaginário popular. Basta ouvirmos o soar do seu toque para imaginarmos a ocorrência de uma roda de capoeira. No próximo tópico, abordaremos as cantigas de capoeira, outro elemento constitutivo desta prática corporal. 156 CAPOEIRA Caro(a) aluno(a)! Nos detivemos, nos tópicos an- teriores, à apresentação dos instrumentos caracte- rísticos da capoeira. Identificamos ainda algumas formas de organização desses instrumentos, ou seja, conhecemos a bateria, o conjunto de instrumentos presentes na roda de capoeira. No tópico que segue, trataremos das cantigas de capoeira. Antes, porém, deixemos claro que o nosso objetivo não é lhe ensi- nar a cantar. Almejamos sim, que você compreenda a estrutura dos diferentes tipos de cantiga, sendo, desta forma, capaz de diferenciar um corrido de uma la- dainha;uma cantiga característica da Angola de uma cantiga característica da Regional; e que, de forma mais ampla, você reflita acerca do conteúdo delas. Comecemos as nossas discussões com uma in- dagação: Para você, prezado(a) aluno(a), qual é a As Cantigas de Capoeira e a sua Estrutura EDUCAÇÃO FÍSICA 157 função das cantigas na capoeira? Disfarçar a luta com dança, diriam alguns. Animar a roda, diriam outros. Estas não são percepções erradas, tampou- co devemos desconsiderá-las. Entretanto, a musica- lidade expressa na capoeira extrapola tais funções. As cantigas funcionam como forma de transmissão de saberes. No universo cultural da capoeira, as cantigas possuem, de acordo com Columá (2012), um va- lor simbólico e, não obstante, possuem também um valor prático. Lembre-se que a capoeira é uma ma- nifestação cujo desenvolvimento se deu no âmbito da cultura popular, onde a oralidade é uma das ca- racterísticas mais marcantes. Por meio da oralidade são transmitidos e revividos os saberes ancestrais (ABIB, 2005). No caso da capoeira, tais saberes e as suas histórias não são contados, mas cantados. So- bre este aspecto, Santos (2002) destaca que as canti- gas de capoeira podem revelar, por meio de seu con- teúdo, aspectos históricos por vezes negligenciados pela educação formal. Neste sentido, é importante que repensemos a forma como este elemento constitutivo vem sendo exposto durante a abordagem da capoeira nos mais distintos espaços. As cantigas são uma das formas de expressão que o capoeira tem à sua disposição. Vimos, na Unidade 3, que a gestualidade do jogo é espontânea, ou seja, dentro dos preceitos do toque, o capoeira é livre para criar os seus movimentos, é li- vre para se expressar corporalmente. Pois bem, com as cantigas a dinâmica é a mesma. Respeitando-se os preceitos do toque, que designará um tipo específico de cantiga a ser entoada, o capoeira é livre para en- toar a sua mensagem. Outrossim, é importante que se diga que as cantigas são compostas pelos próprios capoeiras. E por meio destas composições, eles registram as suas percepções de mundo, as suas aventuras e desventuras, os seus heróis, os seus fundamen- tos, enfim, a sua história e, consequentemente, a história da própria manifestação. Ao analisarmos o conteúdo de alguns exemplos de cantigas que apresentaremos mais adiante, você perceberá a presença destes temas. Assim como nos demais elementos constitutivos, os tipos de cantigas presentes em uma roda variam, principalmente, em função do estilo de capoeira. Entretanto, podemos dizer que, de maneira geral, as cantigas de capoeira são as ladainhas, as louvações, as chulas, os corridos e as quadras. A dinâmica das cantigas apresenta uma interação constante entre o cantador, aquele que as entoa, e o coro, os demais integrantes da roda de capoeira. As ladainhas são cantigas características da ca- poeira Angola, mais, especificamente, do toque de Angola, mas que são igualmente entoadas nas ro- das da capoeira Contemporânea, quando o toque de Angola é executado. Comumente, as rodas são iniciadas com uma ladainha, durante a qual não se joga. Isto mesmo, enquanto o cantador, neste caso, o mestre da roda, entoa uma ladainha, os jogadores aguardam acocorados ao pé do berimbau esperando a autorização para o início do jogo. Também não é comum a participação do coro nas ladainhas. Este tipo de cantiga é relativamente longo quando com- parado às demais cantigas de capoeira. As ladainhas sugerem reflexão, o seu conteúdo expressa os sentimentos dos capoeiras sobre as mais variadas temáticas, “podendo ser um aviso, uma reza, um lamento, um desabafo, um agrado, ou um desafio” (MATTOS; MATTOS, 1995, p. 12). Acom- panhem, a seguir, a letra de uma ladainha, composta por Antonio César de Vargas, o mestre Toni Vargas. Atentem-se para o conteúdo desta cantiga. 158 CAPOEIRA Iêêêêêê Dona Isabel que história é essa Dona Isabel que história é essa De ter feito abolição De ser princesa boazinha Que libertou a escravidão Tô cansado de conversa, Tô cansado de ilusão Abolição se fez com sangue Que inundava este país Que o negro transformou em luta, Cansado de ser infeliz Abolição se fez bem antes E ainda há por se fazer agora Com a verdade da favela, E não com a mentira da escola Dona Isabel chegou a hora De se acabar com essa maldade De se ensinar aos nossos filhos, O quanto custa à liberdade Viva Zumbi nosso rei negro, Que fez-se herói lá em Palmares Viva a cultura desse povo, A liberdade verdadeira Que já corria nos Quilombos, E já jogava capoeira Iêêê viva Zumbi... Columá (2012, p. 80), ao analisar essa cantiga, per- cebeu uma forma de questionamento à história ofi- cial, inclusive de combate à “normativa mítica que entronizava a princesa Isabel como salvadora dos escravos, enaltecendo e dando distinção ao mito de Zumbi, o rei negro de Palmares”. E você, prezado(a) aluno(a), que tipo de reflexão a letra dessa cantiga lhe provoca? Logo após o cantador entoar a ladainha, são exe- cutadas cantigas cuja interação com o coro se torna mais evidente. O nome desse tipo de cantiga varia bastante: são chamadas de saudação (COLUMÁ, 2012), chula (ESTEVES, 2003), canto de entrada (CRUZ, 1997) ou louvação (BRITO, 2007). Mas apesar de tantos nomes, é possível identificarmos uma estrutura característica de tais cantigas. Via de regra, são improvisadas pelo cantador, cujo conteú- do é de enaltecimento. Assim como ocorre na ladai- nha, normalmente, não se joga durante as chulas. Os versos desse tipo de cantiga são precedidos de “iêê” quando entoado pelo cantador. O coro, por sua vez, repete exatamente o que foi entoado, acrescido de “camará”. Acompanhem um exemplo de chula, que foi entoado na sequência da ladainha “dona Isabel” (VARGAS, 2007). Iêêê viva Zumbi (Cantador) Iêê Viva Zumbi Camará (Coro) Iêêê Rei de Palmares (Cantador) Iêê Rei de Palmares Camará (Coro) Iêê Libertador (Cantador) Iêê Libertador Camará (Coro) Iêêê Viva Meu Mestre (Cantador) Iêê Viva Meu Mestre Camará (Coro) Iêêê quem me ensinou (Cantador) Iêê quem me ensinou camará (Coro) Iêêê a Capoeira (Cantador) Iêê a Capoeira Camará (Coro) EDUCAÇÃO FÍSICA 159 Sem que haja pausa ou interrupção, o cantador passa da chula para os corridos. Os corridos são cantigas relativamente curtas, e a interação entre o cantador e o coro é mais efetiva e dinâmica. Quando dizemos que um corrido é curto, nos referimos à sua estru- tura, pois o tempo de execução de um corrido em uma roda de capoeira não é determinado. Aliás, esse tipo de cantiga permite que o cantador explore a sua capacidade criativa, uma vez que ele é livre para improvisar os versos. O coro do corrido, entretanto, não se improvisa. Os demais integrantes da roda que respondem o coro repetem sempre o mesmo verso. Observem o exemplo que segue de um corrido de domínio popular, muito conhecido não só nas rodas de capoeira. Vou dizer pra minha mulher, Paraná Capoeira me venceu, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). Ela que bateu o pé firme, Paraná Isso não acontecer, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). É de vera que o morro, Paraná Se mudou para a cidade, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). Tem batuque todo dia, Paraná Mulata de qualidade, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). Minha mãe é mulher velha, Paraná Fecha porta e dorme cedo, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). A mulher para ser bonita, Paraná Não precisa se pintar, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). A pintura é do diabo, Paraná A beleza é Deus quem dá, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). Vou m’embora, vou m’embora, Paraná. Como eu já disse que vou, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). Eu aqui não sou querido, Paraná Mas na minha terra eu sou, Paraná (cantador). Paraná ê, Paraná ê, Paraná (Coro). Entretanto, no Rio de Janeiro, de acordocom Lopes (1992) os corridos são conhecidos como chulas. Bri- to (2007, p. 54), por seu turno, nos apresenta outra estrutura para a chula. Para o autor, essas cantigas têm a mesma estrutura das ladainhas, mas sem a lou- vação. Acompanhem o exemplo que segue. A cantiga é intitulada “Moça chorando” e é interpretada por Reinaldo Ramos Suassuna, o mestre Suassuna. Lá em cima da janela Da janela do sobrado Tinha uma moça chorando Chorando pra se acabar Por causa do Cordão de Ouro Ai meu bem, que o ladrão tinha roubado Mas não chore, dona moça Que o ladrão já tá sendo procurado Quem pegar este ladrão Oi, ai, ai! Será bem recompensado Dou um berimbau maneiro Ai, Ai, Ai! Dou um gunga ritmado 160 CAPOEIRA Oi, Chiquinho ê ê ê! Oi, Chiquinho a a a! Oi, a menina de ouro mandou me chamar Oi, Chiquinho ê ê ê! Oi, Chiquinho a a a! (coro) Oi, na volta que o mundo deu E na volta que o mundo dá Oi, Chiquinho ê ê ê! Oi, Chiquinho a a a! (coro) Oi, a menina de ouro mandou me chamar Oi, Chiquinho ê ê ê! Oi, Chiquinho a a a! (coro) Esta sequência de cantigas que apresentamos, ladai- nha, louvação/chula, corrido é característica das ro- das e dos jogos da capoeira Angola. Já na capoeira Regional, a sequência é outra. As cantigas características da capoeira Regional são as quadras. Estas têm uma estrutura em forma de “versos curtos que apresentam normalmente em quatro linhas e servem para dar início a um evento ou abrir uma roda” da capoeira Regional (CAM- POS, 2009, p. 63). Para Brito (2007, p. 55), as qua- dras “parecem-se com ladainhas, mas são menores”. O autor (2007, p. 55) ainda acrescenta que “mestre Bimba cantava várias quadras durante a roda e os alunos jogavam normalmente sem interromper o jogo”. Este aspecto é bastante diferente da ladainha, durante a qual não há jogo. Acompanhe o exemplo de uma quadra da capoeira Regional. Iê tinha um vizinho Iê tinha um vizinho Pé de mim tinha um vizinho Enricou sem trabalhar Meu pai trabalhou tanto Mas nunca foi de enricar Num deitava uma noite Que deixasse de rezar Camará As demais cantigas de uma roda da capoeira Re- gional nós já conhecemos, são as louvações en- toadas após a quadra e, na sequência, os corridos (CAMPOS, 2009). No caso da capoeira Contemporânea, todos esses tipos de cantigas podem estar presentes, depende o toque que se executa. Você deve se lembrar que, nas rodas desse estilo de capoeira, são executados toques provenientes tanto da Angola quanto da Regional. Gostaríamos de finalizar este tópico lhe chaman- do a atenção para as possibilidades de abordagens da musicalidade na capoeira, a qual, via de regra, tem sido limitada à reprodução de algumas cantigas para que os alunos joguem (LIMA, 2014). Entretanto, es- pero que você tenha percebido que esse elemento é rico em conteúdo. Até breve! EDUCAÇÃO FÍSICA 161 162 CAPOEIRA No tópico que se inicia, nós abordaremos o último elemento constitutivo. Vale a pena relembrar que a elaboração do material que você tem nas mãos se deu a partir da percepção da capoeira como uma manifestação que pode ser abordada pedagogi- camente a partir de seus elementos constitutivos, aqueles aspectos que a caracterizam. Neste sentido, consideramos indispensável, ao se abordar a capoeira em qualquer contexto, que sejam expostos os aspectos referentes à historicidade desta prática, como as suas origens; o seu desenvolvimen- to histórico; as suas formas de representação; os seus agentes e etc. Da mesma forma que é indispensável a abordagem do repertório gestual que a caracteri- za como uma prática corporal. E particularmente, no caso da capoeira, os seus instrumentos e as suas cantigas, elementos que lhe conferem singularidade. Todos esses elementos já foram expostos ao longo dessas quatro unidades. Por fim, trataremos da roda de capoeira, a qual representa mais do que um espa- ço, representa também um momento onde todos os demais elementos convergem. A Roda, o Momento de Expressão da Capoeira EDUCAÇÃO FÍSICA 163 A roda “é um momento determinante da práti- ca da capoeira que não pode ser ignorado” (IPHAN, 2014, p. 116). De fato, ela representa a própria mani- festação, o ponto de, em 2008, a roda de capoeira ter sido registrada como “Patrimônio Cultural do Bra- sil” e, em 2014, esta mesma expressão fora contem- plada com o título de “Patrimônio da Humanidade” pela Organização das Nações Unidas para a Educa- ção, a Ciência e a Cultura - Unesco (IPHAN, 2017). Tal reconhecimento traz a valorização dos saberes e das práticas estabelecidas nas rodas, mas, princi- palmente, valoriza a roda de capoeira como símbolo identitário dessa manifestação. Entender a roda como um momento específico se faz importante para que não nos prendamos a descrições físicas dela. Apesar de encontrarmos tan- to na literatura quanto no cotidiano, especialmente, nos espaços físicos das academias, rodas descritas como “um círculo de 2,5 metros de raio, circulado por outro” (REIS, 2000, p. 165), a roda em si não depende de nenhum tipo de marcação. É nela que o jogador de capoeira evidencia as múltiplas dimen- sões dessa prática corporal, cada um fazendo valer o seu entendimento, a sua percepção de capoeira. Nos dizeres de Areias (1998, p. 96): A roda de capoeira é o palco de comunicação e expressão máxima do capoeirista. Nela ele se entretém, brinca, se defende, luta, dança, cria e celebra. Nela o capoeirista tem a oportunidade de vivenciar e compartilhar as diversas facetas da sua personalidade [...]. A roda é o momento em que, de fato, vemos a expres- são da capoeira por meio das atuações dos jogado- res, especialmente, pela possibilidade que estes têm de transitarem pelas diversas funções. Silva e Heine (2008) entendem a roda como a síntese da manifes- tação, mas, principalmente, entendem-na como um contexto onde os elementos educacionais impressos na capoeira devam ser explorados. Elementos como a cooperação e a alteridade estão presentes na estru- tura básica de uma roda, pois, para que ela aconteça, são necessárias a presença e a atuação de tocadores, cantadores e jogadores. Neste sentido, “é essencial a participação ativa de todos, visto que o resultado final depende do conjunto” (SILVA; HEINE, 2008, p. 61). Guardadas as devidas especificidades referentes aos seus estilos, uma roda de capoeira, grosso modo, é uma ocasião onde se agrupam pessoas a fim de manifestar a capoeira, não somente por meio dos gestos, ou do canto ou dos toques ou das palmas, mas todos dão vazão a tais elementos concomitan- temente. Como já conhecemos os demais elementos constitutivos dessa prática corporal, as suas particu- laridades e as suas funções, neste momento, ao tra- tarmos da roda, observaremos a relação entre tais elementos, a fim de compreender a dinâmica geral de uma roda de capoeira. Quais aspectos referentes tanto aos instru- mentos característicos quanto às cantigas de capoeira precisamos conhecer para que tais elementos sejam abordados nas escolas, nos projetos sociais ou em qualquer outro espaço? REFLITA Uma roda inicia-se, rotineiramente, pela formação da bateria. O berimbau gunga determina um toque, o qual depende do estilo de capoeira, e os demais instrumentos o acompanham. Em seguida, entoa-se uma cantiga, a qual pode ser uma ladainha para a Angola, ou uma quadra para a Regional. Ao início 164 CAPOEIRA da cantiga, dois capoeiras dirigem-se ao pé do be- rimbau e aguardam a autorização para iniciar o jogo. Esta autorização poderá ser dada por meio da pró- pria cantiga, ou por um simples gesto do mestre, mas é bastante comum que o berimbau gunga seja incli- nado para frente indicando, desta forma, que o jogo já pode começar. No caso de uma roda de capoeira Angola, esta forma de entrar na roda, ou seja, os dois capoeiras iniciando o seu jogo no pé do berimbau, se repeti- rá durante toda a roda. No caso da capoeira Regio- nal de mestre Bimba, o procedimento de entrada é basicamente o mesmo,dois jogadores aguardam o comando do berimbau para iniciarem o seu jogo, o que difere é o tempo de cada jogo. Os jogos de An- gola são bem mais extensos que os da Regional. Nas rodas da capoeira Contemporânea, este procedimento, de entrar uma dupla de cada vez, fica restrito ao toque de Angola. Com o desenrolar da roda, a forma de entrada mais comum adotada pelos jogadores tem sido o jogo de compra. Este é o ato de um capoeira interromper um jogo entre outros dois jogadores, posicionando-se de frente com o jogador com quem se deseja jogar, enquanto o outro retira- -se do centro da roda. Perceba, prezado(a) aluno(a) que, apesar da mudança na maneira como os joga- dores entram na roda, o ponto de entrada ainda é o mesmo para todos os estilos qual seja a bateria, mais precisamente, o pé do berimbau. A função de manter a roda é partilhada por to- dos os seus integrantes. Desta forma, todos que a compõem são potencialmente jogadores, tocadores e cantadores. Apesar de existir certa hierarquia nas rodas, estas funções não são preestabelecidas, o que predomina é a autonomia dos sujeitos. Outro aspecto característico da capoeira e que se torna bastante evidente na roda é a espontaneidade. Uma vez que o capoeira se põe a jogar, valendo-se de um repertório gestual conquistado em vivências e trei- nos, ele(a) tem a possibilidade de explorar livremente tal repertório. Ou seja, apesar de haver a determina- ção do tipo de jogo, por meio do toque de berimbau, o jogador, ao explorar o seu repertório, seleciona e exe- cuta os movimentos que julgar mais apropriados para as diversas situações impostas pelo diálogo corporal, que é o jogo de capoeira. E não é somente em relação ao jogo que a roda privilegia a espontaneidade, tam- bém durante os toques e as cantigas o capoeira pode expressar-se livremente. Lembre-se que, no caso das cantigas, são os próprios capoeiras que as compõem. Evidentemente que a descrição do andamento de uma roda de capoeira que lhes apresentamos é uma forma generalizada de fazê-lo. Muito provavelmente você, que já tenha assistido, que venha a assistir ou que até mesmo já tenha participado de uma roda de capo- eira, deparar-se-á com outros tantos detalhes e parti- cularidades de cada estilo, grupo ou mestre de capo- eira. Não obstante, tal fato não traz nenhum demérito aos nossos esforços de lhe apresentar a roda. Aliás, nem poderia ser diferente, lembre-se que a capoeira é polissêmica e, como tal, não se enquadra em uma única categoria. Como poderia, então, a roda ser igual em diferentes contextos? O fato é que pensamos em uma forma de abordar o elemento “roda” de maneira que você fosse capaz de compreender a dinâmica pela qual ela se expressa. Esperamos, nesse sentido, que, ao assistir uma roda, você seja capaz de identificar e en- tender o que está acontecendo. E, enquanto futuro(a) profissional de Educação Física, seja capaz de levar os(as) seus alunos(as) a tal entendimento. Pensando em uma forma de abordar a roda, bem como os demais elementos constitutivos da capoei- ra, compartilharemos algumas propostas e experi- ências na próxima unidade. Até breve! 165 considerações finais Olá, prezado(a) aluno(a)! Nesta unidade, tratamos dos aspectos referentes aos instrumentos, às cantigas e à roda de capoeira. Nos propomos a apresentar-lhe os instrumentos característicos do jogo, destacando-os em suas funções e formas de organização. No tocante às cantigas, propomo-nos a apresentar-lhe os tipos de cantigas presentes nas rodas de capoeira. Quanto a esta última, procuramos expor a sua dinâmica geral. Nesse sentido, verificamos que berimbaus, pandeiros, atabaque, agogô e re- co-reco são os instrumentos que compõem a bateria. A formação de uma bateria varia principalmente em função do estilo de capoeira. Assim, descobrimos que uma bateria de Angola é composta por três berimbaus, dois pandeiros, um ata- baque, um agogô e um reco-reco. Uma formação bem diferente da capoeira Re- gional, em que a charanga conta com um berimbau e dois pandeiros. No caso da Contemporânea, a bateria se aproxima da formação da Angola, mesmo quando são executados os toques da Regional. Os três berimbaus presentes na roda possuem afinações e funções distintas na bateria, dentre eles, o berimbau gunga é o que define o andamento. Apesar de, atualmente, ser considerado o símbolo da capoeira, o berimbau nem sempre esteve associado a ela. Antes de sua presença, era o atabaque que ritmava a roda. No que se refere às cantigas, identificamos as ladainhas, louvações ou chulas, as quadras e os corridos como os tipos de cantigas características de uma roda de capoeira. Compreendemos que cada estilo de capoeira tem as suas cantigas es- pecíficas. Mas, principalmente, refletimos acerca das funções e do conteúdo das cantigas. Entendemos que esse elemento não se limita a embalar as rodas e que, por meio das cantigas, a história da capoeira e dos jogadores é cantada. Compreendemos por meio da análise de sua dinâmica, que a roda não é ape- nas um espaço físico, mas é, antes de tudo, um momento específico de expressão da própria capoeira. Então, finalizamos esta unidade refletindo sobre a forma como esses elementos podem ser expostos nos mais diversos espaços. 166 atividades de estudo 1. Com base em nossos estudos, relacione os tipos de cantigas, a seguir, às suas respectivas descri- ções. 1 - Ladainha 2 - Quadra 3 - Corrido 4 - Louvação/Chula ( ) Cantiga característica do toque de Angola, relativamente longa em relação aos demais tipos de cantigas. ( ) Tipo de cantiga entoada após a ladainha, cuja característica é o improviso e o enaltecimen- to a Deus, aos mestres e à capoeira. ( ) Cantiga característica da capoeira Regional, com estrofes compostos em quatro versos. ( ) Tipo de cantiga entoada no decorrer da roda, onde a interação entre o cantador e o coro é mais dinâmica e efetiva. A sequência correta para a resposta da questão é: a) 1, 2, 4, 3. b) 4, 1, 3, 2. c) 1, 4, 2, 3. d) 2, 3, 1, 4. e) 3, 2, 4, 1. 2. O conjunto de instrumentos presentes em uma roda de capoeira é denominado de bateria. Quanto à composição da bateria, leia as afirma- tivas a seguir. I - A bateria característica da capoeira Ango- la é comumente composta por um berim- bau, dois pandeiros e um violão. II - A bateria característica da capoeira Ango- la é comumente composta por três berim- baus, dois pandeiros, um atabaque, um agogô e um reco-reco. III - A bateria característica da capoeira Regio- nal é denominada charanga, e é composta por um berimbau e dois pandeiros. IV - A bateria característica da capoeira Con- temporânea é normalmente composta por três berimbaus, dois pandeiros, um atabaque e, em alguns casos, um agogô. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) III e IV, apenas. e) II, III e IV, apenas. 3. Atualmente, o berimbau é o instrumento símbolo da capoeira. Em relação a este instrumento, leia as afirmativas a seguir. I - O berimbau é considerado o instrumento símbolo da capoeira porque foi o primeiro instrumento utilizado pelos negros escra- vizados nas rodas desta manifestação. II - A associação do berimbau só ocorreu no fim do século XIX, antes deste período, as descrições dão conta do berimbau asso- ciado à atividade dos negros de ganho, principalmente. III - As partes que compõem um berim- bau são, basicamente, uma verga de ma- deira flexível e resistente, a qual é tensio- nada por um arame de aço e uma cabaça, que funciona como caixa de ressonância. IV - O primeiro instrumento utilizado em uma roda de capoeira de que se tem registro foi o tambor, e é por este motivo que, atu- almente, o berimbau é subordinado ao atabaque. 167 atividades de estudo É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) I e IV, apenas. e) II, III e IV, apenas. 4. São vários os tipos de cantigas executadas em uma roda e dependem, basicamente,do estilo de capoeira que se pratica. Quanto às cantigas, leia as afirmativas a seguir. I - A ladainhas são cantigas característica da capoeira Angola, mais especificamente do toque de Angola. II - Os corridos são cantigas relativamente curtas e apresentam forte interação entre o cantador e o coro. III - As quadras são cantigas característica da capoeira Angola, mais especificamente do toque de Angola, utilizadas, geralmente, para iniciar a roda. IV - As chulas são características da capoeira Regional e, neste tipo de cantiga, as estro- fes estão organizadas em quatro versos. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) III e IV, apenas. e) II, III e IV, apenas. 5. Sobre o instrumento berimbau, analise as afir- mativas a seguir e assinale como Verdadeiro (V) ou Falso (F). ( ) O berimbau é, atualmente, o principal ins- trumento de uma roda de capoeira, é ele que determina o andamento da roda por meio dos toques. ( ) O atabaque é, atualmente, o principal ins- trumento de uma roda de capoeira, é ele que determina o andamento da roda por meio dos toques. ( ) O pandeiro é um instrumento de percus- são antiquíssimo, muito difundido na velha Índia e entre os hebreus. ( ) O pandeiro é, atualmente, o principal instru- mento de uma roda de capoeira, é ele que deter- mina o andamento da roda por meio dos toques. É correto o que se afirma em: a) F; V; F; V. b) V; F; V; F. c) V; F; V; V. d) V; V; V; V. e) F; F; F; F. 168 LEITURA COMPLEMENTAR Leia o excerto de Lima (2014) que trata da abordagem da capoeira, especificamente, nas aulas de Educação Fí- sica, no contexto escolar, e reflita sobre a forma como os elementos constitutivos da capoeira têm sido expostos quando à sua abordagem. Outra dificuldade de ordem prática constatada no contexto pesquisado se dá na exposição dos instrumentos caracte- rísticos da Capoeira. Este aspecto é representado principal- mente pelo berimbau, mas acompanhado por outros tais como o pandeiro e o atabaque. [...] Os instrumentos são, juntamente com a música que abordaremos adiante, um meio de linguagem próprio do universo da Capoeira. [...] Um(a) dos(as) professores(as) registrou que a aquisição de materiais específicos da Capoeira por parte da insti- tuição escolar, depende da iniciativa dos docentes, que de maneira geral os(as) professores(as) não têm material a sua disposição, portanto, via de regra, não trabalham os instrumentos em suas aulas. A exposição deste as- pecto da Capoeira fica restrita à abordagem teórica. O(a) único(a) professor(a) que afirmou expor os instrumentos de forma prática, informou que para tanto precisou ad- quirir o instrumento com recursos próprios. • Algumas escolas já têm o berimbau, tem atabaque que é fruto da iniciativa de algum professor ou ou- tro. Mas assim isso não é todos. Não é prática de to- das as escolas, então fica restrito a prática do pro- fessor, a escola ter aquele material. Então eu tenho alguns materiais, eu tenho o berimbau que eu levo, que eu consigo ilustrar eu tenho os vídeos (P3). Pesquisador – Esses materiais são particulares? • É. O berimbau é meu, eu que adquiri. E aí através dos alunos eu consigo que tragam berimbau. Atabaque eu não consegui ainda, mas da escola é difícil. Até porque é... Nós funcionamos como lotação. Eu não tenho lotação. Então se eu conseguir material pra essa escola, o ano que vem eu não tenho garantias que eu vou trabalhar aqui. Então o professor que vem, ele pode usar ou não. Então vai ficando. Não é um material que na hora de fazer a lista os diretores vão priorizar, eles vão questionar aos professores que estão “ah, que tipo de material você precisa?” Então fica muito atrelado a pessoa (P3). [...] Colige-se, a partir do exposto, que a abordagem aos instrumentos característicos à Capoeira raramente ocorre, visto que dentre os(as) professores(as) entre- vistados(as) somente um afirmou expor um dos ins- trumentos aos seus estudantes. Os(as) outros(as) qua- tro professores(as) afirmaram não trabalharem com a exposição dos instrumentos. Os motivos apontados foram, primeiramente, a indisponibilidade material. Ve- rificamos que o(a) único(a) professor (a) que apresen- tou um instrumento aos estudantes teve de adquiri-lo com recursos próprios. Sem o material os(as) profes- sores(as) recorrem ao empréstimo por parte de algum estudante que possua tal instrumento, ou a exposição virtual, por meio de imagens. O segundo motivo para não exposição é a falta de domínio técnico. Alguns pro- fessores afirmaram, que mesmo que tivessem o instru- mento a sua disposição não saberiam percuti-lo. Ambos 169 LEITURA COMPLEMENTAR os fatores levam a um estado de dependência, como aquele verificado, quando no trato prático dos gestos técnicos. Dependência tanto para o acesso ao instru- mento quanto para a manipulação deste. O que confir- ma nossa hipótese de que a representação dos(as) pro- fessores(as) sobre Capoeira é de que a Capoeira é uma atividade de pouca relevância, para qual não há neces- sidade de aquisição de materiais específicos tampouco de preparo técnico dos profissionais responsáveis pela manipulação de tais materiais. Os instrumentos são apontados pelos sujeitos pratican- tes como o diferencial da Capoeira praticada fora do con- texto escolar e aquela vivenciada nas aulas de Educação Física. Confirmam, dessa forma, o discurso dos(as) pro- fessores(as), quando registram que não tiveram acesso aos instrumentos característicos da Capoeira. É importante destacarmos para os estudiosos da Capoeira que os instrumentos, um dos aspectos constitutivos da Capoeira, não deveriam estar ausentes quando da abordagem da manifestação. Mesmo porque os instrumentos são fundamentais para a abordagem de outro aspecto da Capoeira, a música. [...] Tomando a música como elemento de tanto significado para a Capoeira, verificamos que este aspecto constitu- tivo da Capoeira tem sido pouco explorado nas escolas investigadas nesta pesquisa. Entre os(as) professores(as) dois(02) afirmaram não tra- balharem a música quando da abordagem da Capoeira. • Não. Não consegui trazer a música. Que nem eu te disse, eu queria ter feito mais aulas práticas mas, era muito corrido né! Foi atropelado, foi uma coisa assim pra cumprir um projeto na verdade, mas as- sim... Fiquei devendo a música, não trouxe nem pra eles terem uma noção (P1). Os demais professores que mencionaram a abordagem da música o fizeram por ocasião da roda. Ao que indica suas falas, a música, nesse contexto, limita-se ao embalo do jogo. • [...] Mas, enfim. Eu coloco a música, uso o pen drive, a gente tem a TV pen drive, tiro as carteiras da sala, ou coloco num cantinho da sala (P5). • A parte musical eu tenho trabalhado com som me- cânico. [...] então assim, eu ainda não consegui fa- zer o som só na roda né! Eu tenho que levar um instrumento mecânico (P3). Apesar de os(as) professores(as) não descreverem em detalhes a abordagem aos aspectos musicais, não nos parece que tenham servido para nenhum tipo de discus- são acerca do conteúdo destes. Fonte: Lima (2014). 170 material complementar Capoeira - Os Fundamentos da Malícia Nestor Capoeira e Tony Vargas Sinopse: o verdadeiro significado do jogo da capoeira, mais que dança, luta, jogo, mais que um patrimônio da cultura brasileira, é uma forma de ver e viver a vida, uma ótica específica do mundo e dos homens transmitida de mestre a aluno atra- vés das gerações, uma prática que transborda da roda para o dia a dia com muito suingue tropical e sabedoria ancestral, a nata da fina filosofia da malandragem que se materializa no jogo ao som do berimbau. Indicação para Ler Ritmos e Instrumentos do Brasil - O Berimbau Luiz Roberto Sampaio e Alexandre Damaria Editora: Bernúncia Sinopse: em O Berimbau - Ritmos e Instrumentos do Brasil, Luiz Roberto Sampaio e Alexandre Damaria acharam por bem privilegiaros exercícios, estudos e compo- sições, em vez de toques e ritmos executados pelo berimbau, tendo em vista que outros bons livros já editados traduzem com precisão todo o grande repertório da música tradicional da capoeira. Desta forma, os autores desejam cada vez mais aproximar o leitor desse instrumento habitualmente usado na percussão brasilei- ra, não apenas na roda de capoeira. O livro vem acompanhado de um DVD. Indicação para Ler 171 referências ABIB, P. R. J. Capoeira Angola: cultura popular e o jogo dos saberes na roda. Campinas: Unicamp- -CMU; Salvador: EDUFBA, 2005. AREIAS, A. D. O que é capoeira. 4. ed. São Paulo: Da Tribo, 1998. BRITO, E. P. Capoeira & Religião. Goiânia: Grafset, 2004. ______. No caminho da malícia. 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Acesso em: 22 fev. 2019. 3 Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hn_3berimbau.jpg>. Acesso em: 22 fev. 2019. 173 gabarito 1. C. 2. E. 3. C. 4. B. 5. B. Professor Me. Reginaldo Calado de Lima Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Fuga para o quilombo, uma forma de resistência • Pega e salva o capoeira • Berimbau de PVC, uma alternativa à falta de instrumentos • Na roda, o jogo de compra é “nunca três” Objetivos de Aprendizagem • Conhecer as condições de vida, no contexto da escravidão, e a fuga para os quilombos como uma forma de resistências a tais condições. • Aprender a dinâmica dos gestos técnicos característicos da capoeira. • Conhecer as possibilidades de confecção alternativa dos instrumentos. • Conhecer a dinâmica do jogo de compra. ABORDAGEM PEDAGÓGICA DOS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DA CAPOEIRA unidade V INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Até aqui, tratamos de diversos aspectos referentes à capoeira. A nossa intenção foi lhe apresentar a estrutura dessa manifes- tação, de modo que você, como futuro(a) profissional de Educação Física, tenha condições mínimas de abordá-la no decorrer de sua carreira. Ao elaborarmos este material, tomamos o cuidado para que, por um lado, a exposição dos elementos constitutivos da capoeira não fosse de- masiadamente técnica, mas que, por outro, não fosse superficial a ponto de dispensar a intervenção de um profissional capacitado. O que propo- mos para esta unidade é compartilhar com você algumas experiências de abordagem pedagógica dos elementos constitutivos da capoeira, ou seja, aqueles elementos que caracterizam uma prática corporal qualquer. Tal abordagem é, então, indispensável, mas precisa ser adaptada aos diferen- tes contextos onde ela ocorre. As experiências que ora compartilhamos foram idealizadas a partir da estrutura de jogos e brincadeiras amplamente conhecidos e a tais dinâ- micas foram acrescidos os aspectos e os conteúdos característicos de cada elemento constitutivo que, apesar de serem apresentados separadamente, na prática, não se separam, assim como não precisam ser separados du- rante a abordagem. Assim, podemos trazer elementos da historicidade ao abordarmos cantigas ou elementos dos instrumentos ao falarmos de gestos, e assim por diante. A partir desta perspectiva, iniciaremos a abordagem da historicida- de com a dinâmica “fuga para o quilombo”. Na sequência, abordaremos alguns gestos técnicos com a dinâmica “pega e salva o capoeira”. Para a abordagem dos instrumentos, propomos a confecção de um berimbau com material alternativo, bem como a iniciação aos toques de capoeira característicos desse instrumento. No último tópico, compartilharemos uma experiência de abordagem do jogo de compra, um dos aspectos es- pecíficos da roda. Entretanto, tomem estas atividades como sugestões e não como receitas. Bom aprendizado! 178 CAPOEIRA Olá, caro(a) aluno(a)! Quando pensamos na abor- dagem de aspectos históricos, grosso modo, nos vêm à mente as aulas teóricas. De fato, elas são estratégias indispensáveis, entretanto, propomos uma aborda- gem prática de alguns aspectos históricos referentes à capoeira. É preciso ter em mente que há ampla gama de temas referentes à história da capoeira. Lembre-se de quanta informação tomamos conhe- cimento na Unidade 1! A atividade que propomos a seguir abordará, es- pecificamente, o contexto brasileiro no período da escravidão, evidenciando as relações de poder do período; as condições, as quais eram submetidos os negros africanos; os papéis e as funções sociais e as formas de resistência àquele contexto. A atividade será iniciada sem que haja nenhuma introdução histórica, isto por que o contexto históri- co será revelado no decorrer da atividade. Desta for- ma, dentre os(as) alunos(as) serão selecionados(as) alguns(mas) pegadores(as). A quantidade de pega- dores(as) dependerá, basicamente, do tamanho da turma e do espaço disponível para a realização da atividade. O espaço deverá ser dividido em três cam- pos, como ilustrado na Figura 2. Fuga Para o Quilombo, uma Forma de Resistência Figura 1 - Representação de um quilombo Fonte: Wikipédia ([2019], on-line)1. EDUCAÇÃO FÍSICA 179 O objetivo da turma consiste em atravessar do cam- po 1 para o campo3 sem que sejam apanhados pe- los(as) pegadores(as). Os(as) alunos(as) que forem pegos deverão voltar ao campo 1 e tentarem passar novamente para o 3. Em uma segunda rodada da atividade, as crian- ças participantes já estarão familiarizadas com as regras, a partir daí, serão introduzidos os elementos históricos. O primeiro aspecto se refere aos espaços, assim, os campos serão nomeados. O campo 1 será a senzala, o campo 2, o engenho, e o campo 3, o quilombo. Com a nomeação dos espaços, também os(as) participantes poderão receber nova designa- ção, o que auxiliará na contextualização. Assim, a maior parte dos integrantes da turma serão escravos e ocuparão o espaço da senzala. Explique aos par- ticipantes a quais condições eram submetidos(as) os(as) negros(as) escravizados(as) e que, naquele contexto, muitas eram as tentativas de fuga. Outra personagem inserida, nesta fase da ativi- dade, é a figura do feitor, que ocupará o campo 2, o engenho. O feitor era o capataz, o responsável pelo engenho. Tal figura tinha como principais atribuições inspecionar o trabalho escravo e punir aqueles(as) que transgrediam a ordem. O campo 3 será o quilombo, que representará, genericamente, uma dentre as mui- tas formas de reação à escravidão (GUIMARÃES, 1988). Quilombo fora o termo adotado para designar os locais de refúgio, construídos, sobretudo, por es- cravos fugidos e os seus descendentes, mas habitados igualmente por índios e brancos marginalizados. Os habitantes dos quilombos são chamados de quilom- bolas. PE G A D O RE S( A S) PE G A D O RE S( A S) PE G A D O RE S( A S) A LU N O S( A S) 1 2 3 Figura 2 - Representação dos campos da dinâmica “fuga para o quilombo”. Fonte: o autor. EN G EN H O EN G EN H O FE IT O R FE IT O R EN G EN H O FE IT O R Q U IL O M BO Q U IL O M BO LA S SE N ZA LA ES CR AV O S( A S) 1 2 3 Figura 3 - Representação dos espaços e das funções sociais da dinâmica “fuga para o quilombo”. Fonte: o autor. Perceba, caro(a) aluno(a), que a dinâmica da ativida- de não foi alterada, as crianças continuam tentando passar do campo 1 para o campo 3 sem serem barra- das pelo pegador, contudo, por meio da dramatiza- ção, podemos contextualizar um período histórico. Desta forma, os(as) negros(as) africanos(as) escravi- zados(as) tentam escapar das senzalas, todavia, são vigiados pelo feitor, que não os deixam chegar aos quilombos, locais considerados como refúgio, onde os negros poderiam viver novamente em liberdade. A sensibilidade dos habitantes manifestava- -se, por certo, através de danças e cânticos, mas nenhum documento permite afirmar – embora a tradição seja forte, neste senti- do – que ali se lutou a capoeira, ou que esta forma de combate foi empregada com sentido ritual ou lúdico. Fonte: Alves Filho (1988, p. 15). SAIBA MAIS 180 CAPOEIRA Seguimos com nova fase da atividade, na qual po- demos explorar mais detalhes históricos referentes ao Brasil escravocrata. Sabemos que muitos negros conseguiram fugir dos feitores e construíram por toda a extensão do território brasileiro centenas de quilombos, porém o mais conhecido foi o quilombo de Palmares que, em seu apogeu, por volta de 1670, abrigou cerca de 20 mil habitantes (MOURA, 1986). Desta forma, após a fuga do engenho, o escravo continuava a ser perseguido. Inseriremos em nossa atividade uma nova função, o capitão-do-mato. Esta figura era responsável por caçar os negros fujões. Também será inserido um novo campo, onde ficará o capitão-do-mato. A dinâmica não foi alterada, apenas inserimos a figura do capitão-do-mato, um novo pegador. De- pendendo da turma com a qual estamos trabalhan- do, podemos explorar mais detalhes históricos. Podemos abordar as incursões quilombolas aos engenhos a fim de libertarem os escravos (ALVES FILHO, 1988). O objetivo ainda é o de chegar ao quilombo, mas com maior dificuldade. Assim, novas estratégias e novos espaços poderão ser incorporados. Primeira- mente, quem for pego tanto pelo(s) feitor(es) quan- to pelo capitão-do-mato deverá ficar imóvel no local onde foi pego(a), não voltará para senzala como nas fases anteriores. Mas aqueles que conseguirem che- gar ao quilombo, se tornarão quilombolas e poderão salvar os colegas capturados. A dinâmica termina quando todos forem capturados, permanecendo imóveis, ou quando todos forem quilombolas livres. Você poderia me perguntar, como essa atividade aborda aspectos históricos referentes à capoeira? Eu posso lhe dizer, com base em experiências práticas, que essa atividade gera muito interesse e debate en- tre os alunos ao discutirmos um contexto cujas con- dições sociais propiciaram muitas formas de resis- tência, dentre elas, a capoeira. EN G EN H O EN G EN H O FE IT O R FE IT O R EN G EN H O FE IT O R M AT A S M AT A S CA PI TÃ O -D O -M AT O CA PI TÃ O -D O -M AT O M AT A S CA PI TÃ O -D O -M AT O Q U IL O M BO Q U IL O M BO LA S SE N ZA LA ES CR AV O S( A S) Figura 4 - Representação dos espaços e das funções sociais da dinâmica “fuga para o quilombo”. Fonte: o autor. EDUCAÇÃO FÍSICA 181 182 CAPOEIRA Pega e Salva o Capoeira EDUCAÇÃO FÍSICA 183 Estamos tratando, nesta unidade, das possibilida- des da abordagem pedagógica de alguns elementos constitutivos da capoeira. Para este tópico, propo- mos compartilhar experiências referentes à aborda- gem de alguns dos gestos técnicos característicos da capoeira. Lembre-se que, a princípio, tal abordagem não tem por objetivo o treinamento, mas sim, uma apropriação da dinâmica, o reconhecimento de tais gestos característicos. A nossa primeira atividade parte da estrutura básica de um pega-pega “duro ou mole”. Tal brinca- deira consiste em um ou mais pegadores, tentando apanhar os demais participantes por meio de um to- que. Ao ser tocado(a), o(a) participante deve ficar imóvel no local, mas com a possibilidade de se mo- vimentar novamente. Basta, para isto, que outro(a) participante o(a) toque. dependendo do tamanho da turma e do espaço disponível. A dinâmica é a mesma do “duro ou mole”: o(a) pegador(a) tenta imobilizar todos os participantes, para tanto, basta tocá-los(as). Entre- tanto, no “pega e salva o capoeira”, ao ser tocada, a criança deve permanecer imóvel no local em uma posição específica, neste caso, peça que fique aco- corada com um das mãos no chão e a outra, prote- gendo a cabeça. E aí, reconheceu essa posição? É a cocorinha, um dos gestos técnicos defensivos com o qual tive- mos contato na Unidade 3. Sabemos que este tipo de gesto é utilizado para se esquivar durante um jogo de capoeira. Para que a criança imobilizada volte a correr, não utilizaremos somente um toque, como ocorre na brincadeira tradicional. Solicite às crianças que, tomando muito cuidado para que não atinjam os(as) colegas, passem uma das pernas sobre quem estiver pego, na posição da cocorinha. Não há, neste momento, a necessidade de que se apresente um gesto específico, deixe que as crian- ças brinquem, entendam a brincadeira e se sintam à vontade. Conforme a brincadeira for avançando em suas rodadas, vá acrescentando determinadas especificações. Por exemplo, solicite que, ao passar a perna sobre o colega, um deve estar de frente para o outro, caso contrário, a criança pega não será sal- va e continuará acocorada. Ou ainda, se for passar a perna direita, a trajetória do movimento deverá ser da direita para a esquerda. Você perceberá que essas especificações vão, a princípio, gerar alguma confu- são, mas ela logo será superada. Perceba que as espe- cificações nos remetem à meia-lua de frente, um dos gestos técnicos ofensivos característicos da capoeira e com o qual já tivemos contato. Inseriremos, nessa atividade, elementos que nos possibilitem a abordagem de alguns elementos dos gestos técnicos. Não da técnica em si, mas da dinâ- mica do movimento que desejamos abordar. Sen- do assim, selecione um(a) ou maispegadores(as), 184 CAPOEIRA Após a dinâmica do “pega e salva o capoeira”, explo- re mais os gestos em si. Distribua a turma em duplas ou em pequenos grupos e solicite que as crianças ex- plorem as possibilidades de execução desses movi- mentos que vivenciaram no pega-pega. Sempre que possível, demonstre a sua forma de execução. Mas lembre-se de priorizar as possibilidades e os limites individuais, não exija uma execução demasiada- mente técnica. Afinal, as nossas reflexões acerca dos gestos técnicos da capoeira nos levaram a perceber que a sua execução é muito pessoal. Deste modo, o quanto a sua abordagem deve ser técnica depende de algumas variáveis, tais como: o nível de apropriação e de desenvolvimento da turma; o contexto em que se insere a abordagem; e, principalmente, os objetivos propostos para tal abordagem. Grosso modo, a atividade que ora lhe apresentamos foi idealizada como uma dinâmi- ca para contatos iniciais com os gestos. Você pode variar os gestos abordados, apenas certifique-se de que a execução não oferece risco às crianças. Assim, evite gestos giratórios, lembre-se que as crianças es- tarão correndo. O repertório gestual da capoeira é imenso, sendo assim, quais princípios de seleção de- vemos adotar em relação aos gestos técnicos? Ou seja, quais gestos técnicos da capoeira deveremos abordar? REFLITA EDUCAÇÃO FÍSICA 185 Passemos para a outra atividade. Para aquelas tur- mas que têm alguma apropriação do repertório ges- tual da capoeira, propomos uma atividade que parte da dinâmica básica do “telefone sem fio”. Neste caso, os termos utilizados como mensagens serão nomes de gestos técnicos característicos da capoeira, os quais, nessa primeira fase da atividade, devem ser conhecidos pelas crianças. A dinâmica consiste na disposição da turma em círculo; uma das crianças inicia a atividade falando, no ouvido do(a) colega ao seu lado, o nome de um gesto técnico da capoeira, o(a) colega, da mesma forma, passará ao outro até que a mensagem chegue à última criança; esta, por sua vez, dirá o nome do gesto em voz alta para conferência; o gesto, então, será demonstrado por aquele(a) que o propôs, o qual será acompanhado(a) pelos demais participan- tes. É importante que, nesta primeira fase da ativi- dade, a escolha do nome e, consequentemente, do gesto, seja das próprias crianças, desta forma, o(a) professor(a) poderá diagnosticar o que foi já apro- priado pela turma. A partir do diagnóstico dos gestos que a turma já conhece, podemos variar a atividade e inserir no- vos gestos. Uma variação dessa dinâmica consiste na preparação de tiras de papel com o nome dos gestos técnicos que se deseja abordar. Escreva nas tiras o nome de gestos já conhecidos pela turma e alguns desconhecidos. A atividade se desenvolve da se- guinte forma: a turma será disposta em círculo; uma das crianças sorteia uma das tirinhas de papel onde estão escritos os nomes dos gestos que serão abor- dados; sem que ninguém saiba o que foi sorteado, nem mesmo o(a) professor(a), o(a) aluno(a) deverá passar a mensagem para a criança ao seu lado fa- lando, ao ouvido dela, o nome de um gesto técnico da capoeira; a criança que recebeu a mensagem, por sua vez, passará a outra até que a mensagem chegue à última criança; esta, então, dirá o nome do gesto em voz alta para conferência; caso o gesto já seja co- nhecido da turma, a criança que iniciou a atividade executa-o e será seguida pelos demais. Caso o gesto sorteado seja desconhecido pela turma, o(a) professor(a) inicia a sua abordagem. Essa variação é bem aceita pelas crianças, especial- mente quando o gesto sorteado é desconhecido, pois desperta a curiosidade em saber do que se trata, em saber como se faz aquele movimento. Já para os ges- tos conhecidos, essa atividade privilegia a associação do nome ao movimento corporal. 186 CAPOEIRA No tópico que se inicia, apresentaremos uma possi- bilidade de abordagem pedagógica do berimbau, um dos instrumentos característicos da capoeira. Com base naquilo que discutimos nas unidades anterio- res, sabemos que a abordagem dos instrumentos é indispensável, tendo em vista que estes, mais espe- cificamente o berimbau, determinam o andamento da roda. Logo, consideramos importante o contato dos(as) alunos(as) com tal elemento. Verificamos que, no contexto escolar, por exem- plo, a exposição desse elemento tem se dado de for- ma bastante precária. Um dos primeiros motivos é a indisponibilidade de material. Os(as) professo- res(as) de Educação Física não têm à sua disposição, nas escolas, os instrumentos de capoeira. Sendo que, quando propõem a exposição desses, o fazem por meio de figuras e/ou vídeos. Outro entrave se refere à formação necessá- ria para tal abordagem, ou melhor, a falta dela. Ou seja, mesmo que esses(as) professores(as) tivessem um berimbau à sua disposição, a manipulação desse instrumento exige um conhecimento específico do Berimbau de PVC: uma Alternativa à Falta de Instrumentos EDUCAÇÃO FÍSICA 187 qual tais agentes não dispõem (LIMA, 2014). Toda- via é preciso que reconheçamos que a apropriação desse tipo de conhecimento demanda algum tempo, já dissemos isto ao abordarmos os instrumentos na unidade anterior. Pretendemos, desta forma, lhe apresentar, pre- zado(a) aluno(a), algumas informações que lhe per- mitirão expor esse elemento, mesmo que não em sua plenitude, pois, para este momento, nos limitaremos à abordagem do berimbau. De maneira geral, a indisponibilidade de um be- rimbau é uma realidade, no contexto escolar, e, mes- mo quando há um desses disponível, é em número insuficiente para que todos(as) alunos(as) da turma tenham contato com o instrumento. Sendo assim, a proposta apresentada a seguir se refere à confecção de um berimbau com material alternativo. Obviamen- te, este tipo de instrumento alternativo não substitui o original, mas apresenta algumas vantagens, tais como: a acessibilidade, o envolvimento do aluno e a própria manipulação do instrumento, que se torna facilitada por conta do peso do material utilizado. Para a confecção do berimbau alternativo, você precisará de: • 1 m de cano PVC de 25 mm para água fria. O cano de PVC vai substituir a verga de madeira. • 1,20 m de arame galvanizado. Este tipo de arame é mais acessível que o de aço. • 2 pedaços de cabo de vassoura de, aproxima- damente, 8 cm cada. • 1 garrafa pet de 2 l. A garrafa será utilizada como caixa de ressonância no lugar da cabaça. • 1 pedra lisa. Ela a substituirá o dobrão de metal. • 1 baqueta. • Barbante de algodão. Você precisará também de algumas ferramentas: • Alicate. • Tesoura com ponta. • Serra para cano. • Faca. Comecemos com a confecção da cabaça. Com a te- soura, corte a garrafa pet a uma altura de, aproxima- damente, 15 cm; também com a tesoura faça dois fu- ros paralelos no fundo da garrafa; passe um pedaço de barbante pelos furos e amarre as duas pontas do barbante para formar uma alça; a medida da alça é de, aproximadamente, três dedos. A verga já está praticamente pronta, visto que é o cano de PVC. Mas precisaremos colocar o su- porte para o encaixe do arame. Para tanto, utilizare- mos os pedaços do cabo de vassoura. Primeiro, faça uma ponta em uma das extremidades de cada cabo para facilitar o encaixe nas extremidades do cano; talvez você precise aquecer as pontas do cano para não trincá-lo. Deixe uma ponta do cabo de madei- ra exposta em, aproximadamente, 1 cm em uma das extremidade e uns 3 cm em outra. Nesta última, en- talharemos um pivô, que servirá de encaixe do ara- me, assim como temos no berimbau original. Para entalhar o pivô, faça um sulco em toda a circunfe- rência do cabo com o auxílio da serra para cano. O próximo passo é mais delicado. Com a faca, lasque a extremidade a fim de esculpir o pivô; caso o encai- xe fique muito grosso, aprofunde o sulco e refaça o entalhe, mas com cautela. Se ficar muito fino que- brará, exigindo que você substitua a ponta decabo de vassoura. Com a verga pronta, já podemos preparar o arame. Você precisará do alicate, pois o arame que estamos utilizando é galvanizado, se for de aço como o que usamos no berimbau, o alicate pode ser dis- 188 CAPOEIRA pensado. Em uma das extremidades do arame, faça um laço com o diâmetro aproximado do pivô que você entalhou na verga; utilize o alicate para finali- zar o laço e não deixe nenhuma ponta do arame so- brando para que não provoque nenhum ferimento em quem for manusear o berimbau; faça na outra extremidade do arame outro laço, porém, menor, pois neste será amarrado um pedaço de barbante de cerca de 30 cm. Esse barbante será utilizado para fi- xar o arame na verga após esta ser arqueada. Como a verga que estamos utilizando é de PVC, um material liso, pode ser que seja necessário lixar a área onde fixará o barbante para que este não deslize. Feito isso, o berimbau em si está pronto. Agora é hora de montá-lo. Primeiro passo: encaixe o laço maior do arame no pivô, na parte inferior da verga; segure a extre- midade do arame com a mão direita e a ponta da verga com a esquerda; apoie o joelho esquerdo, com cuidado, no meio da verga a fim de arqueá-la; passe o arame sobre a ponta da madeira da verga e enrole o excedente de arame na própria verga; utilize o bar- bante para prender o arame na verga, mantendo-a arqueada. Próximo passo: encaixe a cabaça pet na parte inferior da verga. Uma vez que o berimbau está montado, precisare- mos, para tocá-lo, da pedra e da baqueta e de al- gumas informações adicionais, como a forma de empunhadura. Uma das vantagens que o berimbau de PVC oferece é o seu peso reduzido, o que facilita bastante no manuseio do instrumento. Figura 5 - Berimbau alternativo Fonte: o autor. Figura 6 – A empunhadura do berimbau e os seus acessórios Fonte: o autor. O berimbau é empunhado com uma das mãos, à es- querda para os destros. Apoie o dedo mínimo por baixo do barbante que une a cabaça ao arame e à verga; os dedos anelar e médio envolvem a verga, auxiliando no equilíbrio do instrumento; o polegar e o indicador seguram, por sua vez, a pedra. Na mão direita serão empunhados a baqueta e o caxixi. A forma de se empunhar a baqueta é muito par- ticular, cada um segura a baqueta da forma que se sente mais à vontade para tocar, logo, o que lhe apre- sentamos é uma dessas formas, mas sinta-se à von- tade para explorar as suas possibilidades. Segura-se a baqueta com o polegar e o indicador, mas com o apoio do dedo médio; segure a baqueta como se es- tivesse segurando uma caneta. Seguramos o caxixi encaixando os dedos médio e anelar na alça. Contu- do sugerimos que, nas primeiras experiências com o berimbau, seja evitado o uso do caxixi. EDUCAÇÃO FÍSICA 189 Agora que você já tem o seu berimbau confec- cionado e já sabe como empunhá-lo, é hora de se arriscar a tocá-lo, não acha? Mas, para tanto, esclare- ceremos que não faremos o uso de teorias musicais. Utilizaremos termos mais simples, os quais costu- mo utilizar no cotidiano da abordagem da capoei- ra. Tocamos o berimbau executando, basicamente, três batidas, as quais chamaremos de solta, presa e chiada. A combinação dessas batidas forma a base para os toques de berimbau utilizados nas rodas de capoeira. Para executar a batida solta, o dobrão não deve tocar no arame; a cabaça não deve ser apoiada no abdome; feito isso, é só percutir o arame com a ba- queta. Observe a figura que segue, isto deve lhe au- xiliar na execução. A percussão do berimbau não está limitada a essas três batidas, mas elas são básicas para os toques executados nas rodas de capoeira. Para saber mais sobre as possibilidades sono- ras do berimbau, acesse: <https://www.you- tube.com/watch?v=kiO5j4jNs6w>. ; <https:// www.youtube.com/watch?v=2sFkoXyNEY8>. Fonte: o autor. SAIBA MAIS Para facilitar a apreensão desse elemento, represen- taremos o som das batidas com onomatopeia, uma figura de linguagem que representa graficamente os sons. Desta forma, o som grave da batida solta será representado por “tom”, o som agudo da presa por “tim”, e o som da chiada como “tchi”. Usar palavras onomatopaicas nos auxiliará na memorização dos sons das batidas para depois executá-las no berimbau. Para executar as batidas, você deve atentar-se a três detalhes básicos. Primeiro, se o dobrão está ou não tocando no arame e com qual pressão; segundo, se a cabaça está ou não encostada no abdome do tocador; terceiro, se a baqueta percute o arame acima ou abaixo do dobrão. Vamos às batidas propriamente ditas. Figura 7 - Batida solta, vista externa Fonte: o autor. Figura 8 - Batida solta, vista interna Fonte: o autor. 190 CAPOEIRA Para executar a batida presa, o dobrão deve exercer pressão contra o arame; a cabaça não deve ser apoia- da no abdome; a baqueta deve percutir o arame aci- ma do dobrão. Para executar a batida chiada, o dobrão toca o ara- me, mas sem exercer a pressão, como foi feito na presa; a cabaça deve permanecer apoiada no abdo- me, o que vai provocar um abafamento do som; a baqueta percute o arame acima do dobrão. Figura 9 - Batida presa, vista externa. Fonte: o autor. Figura 10 - Vatida presa, vista interna Fonte: o autor. Figura 11 - Batida chiada, vista externa Fonte: o autor. Uma vez que já conhecemos as batidas do berim- bau, conheceremos agora alguns toques comumente executados nas rodas de capoeira. Alguns porque seria impossível catalogar todos os toques de berim- bau utilizados nesse contexto. De acordo com Rego (1968), alguns toques são amplamente conhecidos e executados entre os capoeiras, enquanto outros fi- cam restritos a determinadas academias ou grupos. Agora que você já conhece as batidas básicas do berimbau, explore as possibilidades de obtenção de outros sons diferentes dos que aqui foram expostos. REFLITA EDUCAÇÃO FÍSICA 191 Há no acompanhamento musical toques que se poderia chamar de gerais, porque são comuns a todos os capoeiras, os quais são executados ao lado de outros que são particulares de determi- nada academia ou mestre de capoeira. Também acontece, e não raro, um mesmo toque, apenas com denominação diferente entre os capoeiras (REGO, 1968, p. 76). Dito isto, nos aventuraremos na execução de alguns toques. Para o reconhecimento das batidas e o con- sequente aprendizado do toque, utilizaremos uma representação simbólica para que reconheçamos cada uma das batidas que aprendemos há pouco. Observe, na figura a seguir, que cada símbolo tem o nome de uma batida. Deste modo, quando você ver esse símbolo, deverá executar, em seu berimbau, a batida que ele representa. Os toques de berimbau executados nas rodas de capoeira são combinações sequenciais de batidas executadas repetidamente. A partir da observação das figuras que seguem, você, caro(a) aluno(a), será capaz de executar os toques de Angola, são bento pequeno, são bento grande de angola e são bento grande da Regional. Cada figura foi construída para representar a base do toque, sendo executado apenas uma vez. Logo, a figura a seguir está representando o mesmo toque, mas de forma onomatopaica. Então, empunhe o seu berimbau, recorde-se da execução de cada batida e bons estudos! Figura 12 - Representação gráfica das batidas Fonte: o autor. CHIADO CHIADO SOLTO ANGOLA PRESO Figura 13 - Representação simbólica do toque de Angola Fonte: o autor. CHIADO SOLTO PRESO 192 CAPOEIRA O toque de Angola é, normalmente, utilizado para iniciar a roda. É um toque cuja execução é bem ca- denciada. O jogo segue a cadência do toque e se de- senvolve de forma maliciosa, mandingueira. O toque de são bento pequeno é, geralmente, pre- cedido do toque de Angola, ou seja, é comum que as rodas sejam iniciadas com o toque de Angola e, após algum tempo de jogo, executa-se o são bento pequeno. Este é um toque também cadenciado, mas um pouco mais acelerado que o de Angola. O jogo torna-se mais fluído. Figura 14 - Representação simbólica do toque de sãobento pequeno Fonte: o autor. Figura 15 - Representação simbólica do toque de são bento grande de Angola Fonte: o autor. CHIADO CHIADO PRESO SÃO BENTO PEQUENO SOLTO CHIADO CHIADO PRESO SÃO BENTO GRANDE DE ANGOLA SOLTO SOLTO EDUCAÇÃO FÍSICA 193 O toque de são bento grande de Angola é executado após algum tempo de execução do são bento pe- queno. Neste toque, o andamento é mais acelerado, logo, os jogadores desenvolvem o seu jogo de modo que este fique “mais solto, mais alto e, evidentemen- te, mais rápido” (BRITO, 1997, p. 21). O toque de são bento grande da Regional é execu- tado nas rodas de capoeira Regional e na Contem- porânea. Este toque, de acordo com Campos (2009, p. 63), sugere um “ritmo agressivo, indica jogo alto, rápido, com golpes aprimorados e bem objetivos, um ‘jogo duro’”. CHIADO CHIADO SOLTO SÃO BENTO GRANDE DA REGIONAL SOLTO PRESO PRESOCHIADOCHIADOSOLTOCHIADOCHIADO Figura 16 - Representação simbólica do toque de são bento grande da Regional. Fonte: o autor. 194 CAPOEIRA Olá, caro(a) aluno(a)! Neste tópico, eu gostaria de compartilhar com você uma experiência de aborda- gem pedagógica de um dos aspectos da roda de ca- poeira. Selecionamos, para tanto, dentre as diversas situações possíveis, a forma de os jogadores entrarem na roda e iniciarem os seus jogos. Lembre-se que, ao analisarmos tais aspectos, na unidade anterior, cons- tatamos não existir uma única forma de entrar na roda, mas, por agora, exploraremos apenas uma. Para tanto, como fizemos nas demais atividades, partire- mos de um jogo ou de uma brincadeira que as crian- ças já conheçam. Para a abordagem pedagógica do elemento “roda”, selecionamos o pega-pega “nunca três”. Para começar o “nunca três”, divida a turma em duplas; uma das delas ficará separada, pois iniciará a atividade, uma das crianças será o(a) pegador(a) e a outra fugirá; as demais duplas ficarão espalhadas pelo espaço disponível e, neste primeiro momento, imóveis; as crianças de cada dupla deverão perma- necer de mãos dadas; ao tentar escapar do pegador, o fugitivo correrá entre as duplas e, quando julgar per- tinente, dará a mão para uma das crianças. Como a Na Roda, o Jogo de Compra é “Nunca Três” EDUCAÇÃO FÍSICA 195 estrutura da brincadeira não permite trios, somente duplas, o outro aluno da dupla passa a ser o fugitivo. Caso o fugitivo seja pego, ele se tornará o pegador. se tornará pegadora. E, aí, está à dinâmica do jogo de compra. As crianças já estão comprando o jogo umas das outras. Vamos avaliar a estratégia numa situação mais próxima da roda? Divida a turma em pequenos grupos, não mais que oito crianças em cada grupo para que tenham a oportunidade de vivenciar mais de uma vez a atividade; em cada grupo, uma dupla estará sem- pre gingando e os demais integrantes se revezarão comprando o jogo, a partir da mesma dinâmica que vivenciaram no “nunca três”. No entanto, há uma ordem a se respeitar: quando a criança for comprar o jogo, ela deverá retirar aquele colega que estiver gingando há mais tempo. Esta lógica não se aplica à primeira dupla, já que esta entrou junta, logo, qual- quer uma das duas crianças pode ser retirada. Mas, a partir daí, a dinâmica muda, por exemplo, entraram as crianças “A” e “B”, quando “C” comprar o jogo, poderá escolher comprar tanto com “A” quanto com “B”. Supondo que “C” deseje jogar com “B”, sem que o jogo pare, “C” se posiciona de forma que “B” o veja. Então, “A” sai do jogo e quando “D” comprar, deverá fazê-lo com “C”, que está há menos tempo jogando. E assim por diante. Observe, prezado(a) aluno(a), que o objetivo des- sa atividade é de as crianças conhecerem a dinâmica do jogo de compra, por isto, não restringimos o local de entrada para a compra. Mas você deve se lembrar de que, na roda, há um local específico para a entrada dos jogadores. Desta forma, formaremos uma roda composta por todos os integrantes da turma. Deixe um espaço reservado, representando a ba- teria. Se a turma já tiver os seus berimbaus de PVC confeccionados, utilize-os, mas, mesmo que você não tenha à sua disposição os instrumentos, é imperativo que haja a demarcação desse espaço. Como na ati- vidade anterior, uma dupla deverá gingar no centro Uma vez que as crianças se apropriaram da estrutu- ra da atividade, comecemos a inserção de elementos que remetem ao jogo de compra. Solicite que os in- tegrantes das duplas fiquem um de frente para o ou- tro, tocando as palmas das mãos acima da linha do ombro, mantendo-se, desta forma, unidas; quando o fugitivo desejar entrar em uma das duplas, deve- rá entrar por baixo dos braços e tocar a palma das mãos de apenas uma das crianças da dupla, a ou- tra criança se tornará pegadora. Esta estratégia for- ça que o fugitivo fique de frente com a criança com quem comporá a dupla. Perceba que esta é a mesma dinâmica do jogo de compra, onde o jogador se co- loca de frente com quem deseja jogar. Depois que a turma já tenha entendido a ativi- dade, podemos explorar mais possibilidades, por exemplo, inserir mais movimento. Ao invés de as duplas ficarem paradas, elas poderão gingar. O res- tante da atividade permanece sem maiores altera- ções, o fugitivo corre livremente e, quando quiser entra em uma das duplas, ficando de frente com a criança com quem comporá a dupla, a outra criança 196 CAPOEIRA da roda e as demais crianças continuam compran- do o jogo. No entanto, as crianças só poderão entrar na roda pelo espaço reservado aos instrumentos, ou seja, sairão para comprar o jogo do pé do berimbau. A este respeito, Silva e Heine (2008, p. 61) ponde- ram: É comum, muitas vezes, observarmos nas rodas de capoeira aqueles que querem jogar o tem- po todo, não dando chance para os demais. Na roda de capoeira, são chamados “fominhas”. Podem ser quatro ou cinco. Quando isso acon- tece, eles “monopolizam” a roda. Só eles jogam. Para que isso não aconteça, existe a necessidade de conscientização de que todos devem parti- cipar. Uma roda de qualidade é aquela em que todos jogam com todos. Esta é só uma das infindas situações com as quais você se deparará no decorrer de sua atuação profis- sional, cuja solução não é única nem padronizada e que, portanto, dependerá muito da capacidade do(a) professor(a) de mobilizar, para mediá-la, a vasta gama de conhecimentos, tanto acadêmico e teórico quanto profissional e pessoal. Pensamos, no entanto, que, em uma situação como esta, temos uma ótima oportunidade para refletirmos, com nossos(as) alu- nos(a), sobre o respeito ao próximo, a alteridade, a vida em comunidade. Enfim, esperamos que as atividades que com- partilhamos com você neste tópico, contribuam, de alguma forma, na sua formação, tanto no que se refere, especificamente, aos elementos da capoeira, quanto na sua formação mais geral. Até breve! Figura 17 - Representação da roda de capoeira Fonte: o autor. Lembre-se de que outras questões podem ser abor- dadas e discutidas por meio dessa atividade. Por exemplo, é muito comum que as crianças questio- nem de quem é a vez de entrar na roda e com quem entrar. Entretanto, não há uma regra para isso, os jo- gadores de capoeira são livres para escolher quando, com quem e quantas vezes entrar. Como podemos, por meio da abordagem dos elementos da capoeira e de intervenções pe- dagógicas, contribuir para o processo de uma formação cidadã? REFLITA 197 considerações finais Caro(a) aluno(a)! Nesta unidade, nos propomos a lhe apresentar algumas pos- sibilidades de abordagens práticas e pedagógicas dos elementos constitutivos da capoeira. As experiências expostas foram estruturadas em diferentes contextos para diferentes públicos, mas, com um princípio norteador: elas partiram dos elementos da cultura infantil, dos jogos e das brincadeiras sem que tivessem, con- tudo, esvaziado o conteúdo referente aos elementos constitutivos da capoeira. Por meio dessas experiências, conhecemos um pouco mais sobre as condi- ções de vida, no contextoda escravidão, e compreendemos as fugas e os próprios quilombos como uma dentre as várias formas de resistência dos(as) africanos(as) escravizados(as). O “pega e salva capoeira” nos demonstrou que a abordagem do repertório gestual não precisa ser uma sessão de treinamento, que, ao contrário, pode propor práticas que contemplem a dinâmica geral dos gestos, permitindo, assim, que as crianças descubra-os e execute-os mais espontaneamente. Ao abordarmos os instrumentos, nos deparamos com uma realidade desfavo- rável: a indisponibilidade de material. Não propomos a confecção do berimbau de PVC na expectativa de revertermos tal situação, temos consciência de que um instrumento destes não substitui o original. Mas esta estratégia aproxima e envol- ve as crianças em relação ao instrumento. Por fim, tivemos um aspecto referente à roda de capoeira, o jogo de compra. Sabemos que não se pode entrar na roda ou iniciar um jogo de qualquer jeito. Mas que também há mais de uma forma de fazê-lo e que o jogo de compra é uma delas. Por meio da adaptação do “nunca três,” compreendemos esta dinâmica. Compartilhamos essas experiências com você, caro(a) aluno(a), na expec- tativa de que sejam recebidas como indicativo de que é possível a abordagem de uma determinada prática corporal mesmo que não sejamos adeptos, desde que, obviamente, estejamos comprometidos com tal abordagem. 198 atividades de estudo 1. A partir das reflexões apresentadas quanto à elaboração e/ou às adaptações de práticas pe- dagógicas, quais princípios devem guiar a nossa atuação? 2. Como uma das estratégias possíveis para a abor- dagem dos instrumentos, propomos a confecção de um berimbau de PVC. A partir do que foi ex- posto naquele tópico, quais as possíveis vanta- gens de utilizar esta estratégia? 3. Quanto à abordagem pedagógica dos gestos téc- nicos, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F): ( ) O princípio é que tal prática reproduza os gestos tecnicamente, promovendo, desta forma, o treinamento deles. ( ) O princípio é que tal prática não tenha por objetivo o treinamento, mas sim, a apropriação da dinâmica, o reconhecimento de tais gestos. ( ) No decorrer das práticas pedagógicas com as quais abordamos os gestos técnicos, não há a necessidade de que todas as fases sejam relacio- nadas estritamente aos gestos, é importante que as crianças explorem as possibilidades gestuais. ( ) No decorrer das práticas pedagógicas com as quais abordamos os gestos técnicos, há a ne- cessidade de que todas as fases sejam relaciona- das estritamente a eles, caso contrário, tais ativi- dades serão apenas passatempo. A sequência para a resposta correta da questão é: a) F - V - V - F. b) V - F - F - V. c) F - V - V - V. d) V - V - V - V. e) F - F - F - F. 4. Quanto às experiências pedagógicas compartilha- das, nesta unidade, assinale a alternativa correta. a) As experiências pedagógicas compartilha- das foram idealizadas a partir da estrutu- ra de jogos e brincadeiras amplamente conhecidos a fim de entreter e divertir as crianças e, por isto, tais experiências não devem apresentar conteúdos referentes à capoeira, o que as tornariam maçantes. b) As experiências pedagógicas compartilha- das foram idealizadas a partir da estrutura de jogos e brincadeiras amplamente co- nhecidos pelas crianças, por isto, tais expe- riências se aplicam somente aos aspectos práticos da capoeira, deixando a aborda- gem de temas históricos exclusivamente para as aulas expositivas. c) As experiências pedagógicas compartilha- das foram idealizadas a partir da estrutura de jogos e brincadeiras amplamente co- nhecidos pelas crianças para abordar os elementos constitutivos da capoeira sepa- radamente, haja vista que, na prática coti- diana, são todos separados. d) As experiências pedagógicas compartilha- das foram idealizadas a partir da estrutura de jogos e brincadeiras amplamente co- nhecidos, e a tais dinâmicas foram acres- cidos os aspectos e conteúdos caracterís- ticos de cada elemento constitutivo que, apesar de serem apresentados separada- mente, na prática, eles não se separam, assim como não precisam ser isolados du- rante a abordagem. e) Nenhuma das alternativas anteriores estão corretas. 199 atividades de estudo 5. Ao abordarmos pedagogicamente os aspectos referentes à roda de capoeira, devemos tem em mente determinados aspectos. Em relação a este tema, leia as afirmativas a seguir. I - A roda de capoeira é tão somente um es- paço físico composto por um círculo de 2,5 metros de raio, onde as pessoas se juntam para jogar capoeira. II - A roda de capoeira é o palco de comuni- cação e expressão máxima do capoeirista. Nela ele se entretém, brinca, se defende, luta, dança, cria e celebra. III - É na roda que o jogador de capoeira evi- dencia as múltiplas dimensões dessa prá- tica corporal. IV - A função de manter a roda é partilhada por todos os seus integrantes. Desta for- ma, todos que a compõem são potencial- mente jogadores, tocadores e cantadores. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) II e IV, apenas. e) II, III e IV apenas. 200 LEITURA COMPLEMENTAR [...] O ensino e a aprendizagem da capoeira devem com todos contemplar todos os elementos que envolvem sua estrutura, de forma contextualizada e promovendo, assim, o diálogo e reflexão dos seus diversos aspectos com o cotidiano do núcleo e dos beneficiados. Mas como estes elementos poderiam ser contemplados na prática das aulas do programa propriamente ditas? Na prática concreta do desenvolvimento das aulas, pelos múltiplos enfoques que a capoeira apresenta e que o professor deverá ressaltar, o aluno, às vezes, gostará mais de brin- car com a capoeira, de maneira despretensiosa e lúdica, ou então se interessará mais pelos aspectos históricos e folclóricos. Encontraremos também aquela criança ou jovem que se identificará mais com os elementos musi- cais e instrumentos que a modalidade oferece, em que o professor possibilita, em sua prática pedagógica, que os alunos criem suas cantigas e até mesmo se interessem em construir o seu próprio instrumento, estimulando a criatividade e a sensibilidade artística. Encontraremos aqueles alunos que se identificarão mais com o aspec- to esportivo da capoeira, que ainda é meio tímido e não muito organizado, mas que tem presença no universo da modalidade. O importante é o responsável pelo ensino expressar em sua prática pedagógica o entendimento de que na roda de capoeira há lugar para todos, ou seja, para o joga- dor, o dançarino, o músico, o atleta, o lutador etc. Souza (2002) destaca que sua prática como atividade forma- tiva e informativa possibilita o desenvolvimento dos conteúdos elencados anteriormente nos fundamentos da modalidade, em suas dimensões conceituais, proce- dimentais e atitudinais como: historicidade, pleno exer- cício da cidadania, cooperação e participação social, disciplina, autoestima, autoconfiança, criatividade, a formação do esquema corporal, a aquisição de coorde- nação motora, equilíbrio, orientação espaço-temporal, ritmo, dentre outros. Um dos pontos que fundamenta a capoeira como um conteúdo a ser desenvolvido nos núcleos do Programa Segundo Tempo e que possibilita ser desenvolvido nas práticas pedagógicas é sua historicidade. A capoeira en- cerra em seus movimentos a luta da emancipação do negro no Brasil escravocrata. Em seu conjunto de ges- tos, a capoeira expressa, de forma explícita, a “voz” do oprimido na sua relação como o opressor (SOARES et. al., 1992). Sua origem é bastante diferente das diversas modalidades consolidadas no contexto educacional bra- sileiro. Neste momento, não temos a pretensão de nos aprofundarmos teoricamente sobre as origens da capo- eira, porém, entendemos a importância de elencarmos alguns aspectos importantes relacionados ao seu desen- volvimento. 201 LEITURA COMPLEMENTAR Souza e Oliveira (2001) destacam algunsaspectos que justificam a inclusão e sistematização da capoeira como um dos conteúdos da Educação Física Escolar e que, em nosso entendimento, justificam-na como conteúdo a ser oferecido nos núcleos do Programa Segundo Tem- po, pela própria aproximação histórica e cotidiana com os objetivos do programa e com o público-alvo atendi- do. São eles: a capoeira é de origem afro-brasileira, é oriunda de movimentos comunitários e lutas de classes, transgrediu por muitos anos os códigos das culturas dominantes e é rica em conteúdos significativos histó- ricos sociais. Salientamos que alguns elementos histó- ricos (senão todos) podem e devem ser desenvolvidos nas aulas práticas, principalmente, em jogos e ativida- des recreativas adaptadas à capoeira que transmitam elementos relacionados à historicidade da modalidade. [...] Diversas estratégias poderiam ser utilizadas nas dimensões conceitual, atitudinal e procedimental dos conteúdos, tais como: estimular os alunos a pesquisa- rem sobre o histórico da capoeira, sua relação com a es- cravidão, elementos da colonização portuguesa no Bra- sil, os mestres conhecidos da modalidade, os espaços que têm sua prática, sua organização, seu valor como luta de libertação, seu valor como instrumento contra a opressão, seu valor como profissão para muitos no Brasil e exterior, dentre outros. O importante é que o professor estimule os recortes históricos e os relacione com os aspectos culturais des- portivos e cotidianos dos beneficiados, salientando a modalidade como uma expressão corporal brasileira e instrumento de inclusão social. Promover a elaboração de cartazes sobre temas pesquisados (históricos, pre- conceito, cidadania, dentre outros). Debater os aspectos históricos com estratégias que envolvam as músicas de capoeira, pois estas em sua maioria tratam de aspectos históricos e cotidianos da expressão. Realizar uma expo- sição de fotos/imagens antigas e novas da modalidade. Apresentar filmes sobre o tema e promover posterior debate com os beneficiados, procurando relacionar com o cotidiano das crianças e jovens. Convidar um mestre de capoeira (de preferência da comunidade em que o núcleo está inserido) para falar um pouco sobre o his- tórico e evolução da modalidade. Dramatizações com as crianças sobre o tema pesquisado, ou algum recorte histórico da modalidade (estratégia que deve ser moni- torada e dirigida pelo professor responsável). Essas e ou- tras estratégias podem e devem ser desenvolvidas nas aulas práticas e cotidianas do núcleo, bem como podem ser desenvolvidas em ações específicas e pontuais como projetos participativos que envolvam todos os beneficia- dos do núcleo, comunidade, apresentações de capoeira dentre outros. Fonte: Souza e Oliveira (2011). 202 material complementar Capoeira e Psicomotricidade: Brincando e Aprendendo a Jogar Autores: Jorge Felipe Columá e Simone Freitas Chaves Editora: Vozes Sinopse: esta obra nasceu da necessidade de caminharmos na direção do ensino da capoeira, com seus pressupostos teórico-pedagógicos e a sua dimensão lú- dica, sobretudo, na aplicação com crianças, como também pela sua importância e representatividade em todo o mundo. As atividades propostas neste livro são úteis a capoeiristas, professores de Educação Física e educadores em geral que se apoiam no lúdico, no sensível e no movimento humano para a difusão desta arte brasileira. Indicação para Ler Quanto Vale ou é por Quilo? Ano: 2005 Sinopse: o filme traz a permanência na atualidade de nosso passado escravista, deixando clara a impossibilidade de olhar o presente sem levar esse passado em conta, assim como as persistentes desigualdades econômicas, sociais e de direitos no país. Faz uma analogia entre como eram os costumes e os métodos das classes dominantes no período colonial e a exploração das classes menos favorecidas da atualidade por meio de cenas que exibem os dois momentos de forma alternada e possibilitam uma comparação. O filme se vale do discurso jornalístico para apresentar os seus personagens e contar uma boa história so- bre as mazelas e contradições de um país em permanente crise de valores. Para cumprir esta função, a narrativa se vale dos dois recortes temporais previamen- te explicados: o século XVIII e os tempos atuais. Indicação para Assistir 203 referências gabarito ALVES FILHO, I. Memorial dos Palmares. Rio de Janeiro: Xenon, 1988. BRITO, E. P. Os fundamentos da capoeira. Goiânia: Secretaria de Educação do Estado de Goiás, 1997. CAMPOS, H. Capoeira Regional: a escola de mestre Bimba. Salvador: EDUFBA, 2009. GUIMARÃES, C. M. Uma negação da ordem escra- vista: quilombos em Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Ícone, 1988. LIMA, R. C. Representações da capoeira: o cená- rio em escolas de Maringá. 2014. 203 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Ciências Hu- manas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2014. MOURA, C. Os quilombos e a rebelião negra. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. REGO, W. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfi- co. Salvador: Itapuã, 1968. SILVA, G. O.; HEINE, V. Capoeira: um instrumen- to psicomotor para a cidadania. São Paulo: Phorte, 2008. SOUZA, S. A. R.; OLIVEIRA, A. A. B. Capoeira. In: OLIVEIRA, A. A. B. et al. Ensinando e aprendendo esportes no Programa Segundo Tempo. Maringá: Eduem, 2011. p. 211-248. Referência on-line 1Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Replica_da_sede_administrati- va_do_Quilombo.jpg>. Acesso em: 25 fev. 2019. 1. O princípio que guiou a elaboração das práticas pedagógicas comparti- lhadas neste material foi, de um lado, a partir da cultura infantil, ou seja, dos jogos e brincadeiras, contudo, sem esvaziar o conteúdo referente aos elementos constitutivos da capoeira. 2. A confecção de um berimbau de PVC, como uma das possíveis estratégias para a abordagem pedagógica dos instrumentos, traz como principais vantagens: a acessibilidade, o envolvimento do aluno e a própria manipu- lação do instrumento que, por sua vez, é facilitada por conta do peso do material utilizado. 3. A. 4. D. 5. E. conclusão geral Caro(a) aluno(a), estamos finalizando a nossa em- preitada, na qual nos aventuramos conhecer os me- andros de uma manifestação multidimensional, for- jada a partir da racionalidade africana submetida ao regime de escravidão no contexto brasileiro. Depois deste percurso, você já sabe que nos referimos à ca- poeira, não é mesmo? Esta prática corporal distin- gue-se da maioria daquelas que povoam a área da Educação Física. Na ocasião em que lhe apresentamos este mate- rial, salientamos que, ao redigir um livro que viria a servir como texto básico à disciplina de Capoeira em um curso de graduação em Educação Física, não al- mejávamos ensinar os(as) acadêmicos(as) deste cur- so a jogar capoeira. A intenção fora, desde o início, lhe apresentar a sua estrutura. Para tanto, insistimos em empregar o conceito de elementos constitutivos, aqueles elementos que caracterizam a capoeira como tal, quais sejam: a historicidade, a gestualidade, a musicalidade e a ritualística. Percebemos a forte conotação expressiva pre- sente nessa prática, visto que o capoeira expressa-se gestualmente, mas igualmente, costuma dar vazão à sua capacidade criativa ao percutir os instrumentos característicos, assim como exterioriza as suas mais íntimas percepções do mundo que o rodeia ao ento- ar as cantigas de capoeira. Tenha a certeza, prezado(a) aluno(a), que a reda- ção deste livro contou com os esforços de uma equipe compromissada em lhe oferecer formação acadêmica, mas comprometida, principalmente, com a formação de um agente que atuará profissionalmente na forma- ção humana das gerações mais novas de nossa socieda- de. Como um dos integrantes e porta-voz dessa equipe, agradeço a oportunidade com a qual você nos presen- teia de acompanhar a sua caminhada rumo à formação profissionalnesta área do conhecimento, que é a Educa- ção Física. De minha parte, agradeço, especialmente, a possibilidade de lhe falar de algo que é tão caro a mim, a capoeira. Despeço-me, por aqui, desejando-lhe sucesso. Marcador 1