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O A D V E N T O POR LOTUS HEART Primeira edição em inglês 1979 Primeira edição em francês 1985 Segunda edição em francês 1989 Primeira edição em espanhol 1994 Primeira edição em português 1995 Proibida a reprodução total ou parcial deste livro, por qualquer meio, sem autorização do editor. Copyright 1995 Instituto Sahaja Yoga do Brasil ÍNDICE Prefácio à edição em português..............................................5 Prefácio do autor à edição em espanhol.................................7 Livro I - DIAS DE OUTRORA............................................15 Livro II - A DESCOBERTA ÚNICA DA SAHAJA YOGA Capítulo I Entre nós..............................................29 Capítulo II Encontro com a Sahaja Yoga................41 Livro III - REVELAÇÃO Capítulo III A Revelação do Cosmo no Microcosmo Humano...........................91 Capítulo IV A Harpa Sagrada................................117 Livro IV - ABRINDO A JANELA Capítulo V Os Méritos da Virtude........................185 Capítulo VI Do Outro Lado do Limite...................231 Capítulo VII A Dança de Satã.................................275 Livro V - O GRANDE JOGO Capítulo VIII A Mãe e os Filhos..............................303 Capítulo IX O Movimento Elíptico........................317 Livro VI - O MISTÉRIO SEM PORTAS Capítulo X Compaixão.. .......................................345 Capítulo XI Nirmala...............................................353 Alguns Conselhos para a Meditação..................................369 Glossário. ......... .................. .................................................373 Como encontrar a Sahaja Yoga no Brasil..........................379 ÍNDICE DAS FIGURAS Nº Figuras Pág. 1. O Presente 34 2. O cérebro humano antes da Auto-realização 38 3. O cérebro humano após a Auto-realização 39 4. O microcosmo humano 65 5. Terminações nervosas dos chacras nas mãos 70 6. A estrutura cósmica do Virata 102 7. O movimento da atenção 131 8. O consciente e o inconsciente antes da Auto- realização 172 9. O consciente após a Auto-realização 173 10. A elipse 320 Nº Quadros 1 Chakras – localização e manifestação no plano físico 66 2 Chakras do Ser Cósmico (Virata) - divindades 103 PREFÁCIO à edição em português Este livro é imperdível para os buscadores da Verdade. As grandes questões espirituais – quem somos, de onde viemos, e para onde vamos? O mal existe, sob que disfarce ele atua? Como viver em conexão com Deus? – recebem aqui análise inteligente e respostas absolutamente objetivas à luz dos ensinamentos de Sua Santidade Shri Mataji Nirmala Devi, a fundadora da Sahaja Yoga. O autor não duvida de ter encontrado uma encarnação divina em plena atuação na Terra, fazendo palestras e oferecendo concretamente a possibilidade de Realização do Self (o Si, o Ser, o espírito) a todos aqueles que o desejarem. Eu o compreendo. Tive a ventura de conhecer Shri Mataji Nirmala Devi numa audiência com o presidente do Senado, em Brasília, em outubro de 1992. Senti, de imediato, intensa vibração ao longo de minha coluna e comentei com a jornalista que me acompanhava: “Essa mulher é muito poderosa!” Com o mesmo jeito de mãe que eu havia percebido na fotografia dos cartazes que convidavam para sua palestra, Shri Mataji me disse: “Não é por coincidência que você está aqui”. Aparentemente, era, pois eu entrevistava Shri Mataji porque o colega que cobria a Presidência do Senado não pudera trabalhar naquele dia. Dois meses depois, no ashram da Sahaja Yoga em Bombaim, onde se hospedavam centenas de iogues do mundo todo, o autor deste livro, vindo de madrugada da Europa, colocou seu sleeping bag exatamente ao lado do meu. Poucos dias depois, viajávamos no mesmo carro para Ganapatipule, um vilarejo no Mar da Arábia onde prosseguiria o seminário da Sahaja Yoga. Aproveitei as dez horas que o carro levou no percurso de pouco mais de 300 quilômetros de estradas sinuosas nas montanhas para fazer toda sorte de perguntas – às vezes inadequadas – sobre ioga e assuntos afins. Com grande paciência, Lotus Heart a tudo respondeu, só deixando de ser explícito sobre questões que poderiam me constranger. Por acaso(?), O Advento, que já estava escrito há vários anos, oferece respostas a todas aquelas dúvidas. Por coincidência(?), O Advento é lançado no Brasil neste mês de agosto, exatamente 20 anos depois do encontro do autor com Shri Mataji Nirmala Devi em Londres, um ano após a edição em espanhol e no momento da quarta visita de Sua Santidade ao Brasil. Shri Mataji tem dedicado especial atenção a nosso país. Disse que Brasília “poderá ser” a capital espiritual do mundo no terceiro milênio. Suas palestras no Brasil atraem milhares de pessoas. Manteve contatos com autoridades de mais alto nível, como os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados e Ministros de Estado. Foi homenageada pela Administração Regional de Brasília, em 1992, quando o Administrador foi ao aeroporto para entregar-lhe as chaves da cidade, fazendo coro ao tributo prestado à Sua Santidade em todo o mundo. Muitas pessoas (entre as quais peço permissão para me incluir) em uma centena de nações já foram enormemente beneficiadas com a prática da Sahaja Yoga, tornando-se muito mais sadias, equilibradas, amorosas, pacíficas e felizes. Este livro é imperdível para os buscadores da Verdade porque abre portas e janelas para a maior das revoluções: a da consciência, aquela que o indivíduo promove dentro de si mesmo e que (só ela) poderá construir um mundo melhor. Brasília, agosto de 1995. Edson de Almeida, jornalista. PREFÁCIO do autor à edição em espanhol Comecei a escrever O Advento no inverno de 1976, em Katmandu, Nepal. Empreender essa tarefa foi um grande tributo à minha ingenuidade. Tinha 26 anos e me movia um sentimento de urgência. Em sua tranqüila residência de Hurst Green, perto de Londres, Shri Mataji me havia permitido, uns meses antes, ler alguns capítulos verdadeiramente extraordinários do livro que ela estava escrevendo, o qual, certamente, até hoje não foi ainda publicado. Ingenuamente, eu havia pretendido escrever uma introdução para esse livro magistral. Ficou claro para mim, desde meu primeiro encontro com Shri Mataji, que ela tinha aquilo de que necessitávamos, vale dizer, o poder de conceder, coletivamente, a Realização do Si (Self, Ser ou espírito). Ela era, na verdade, o avatar desse nosso tempo. Em verdade, precisávamos, desesperadamente, dela. Hoje, já se passaram quase 20 anos e ainda me sinto da mesma maneira. Shri Mataji diz que a resposta à Sua mensagem a motivou extremamente. Ela se sente gratificada, porque, em suas próprias palavras, “existem tantos genuínos buscadores da verdade nascidos nesses tempos modernos”, que estão dispostos e são capazes de receber a experiência da Auto- realização, e com os quais pode comunicar-se, acerca dos pontos mais sutis do conhecimento espiritual. Em verdade, fui testemunha de muitas cenas incríveis de primeiros encontros, de um novo tipo. No estádio de esportes de São Petersburgo, em julho de 1990, mais de 20 mil pessoas elevaram suas mãos até o céu confirmando ter sentido a brisa fresca do Espírito Santo ao final do programa público de Shri Mataji. Multidões enormes em Moscou, Kiev, Nova Delhi e Bombaim experimentaram a mesma coisa. Aqueles que estão doentes são curados, os aflitos são reconfortados, os confusos recebem conselhos e os que estão perdidos são redimidos. No Royal Albert Hall de Londres, milhares de pessoas elevaram suas mãos quando lhes foi perguntado se estavam sentindo a brisa fresca do Espírito Santo. O mesmo ocorreu em Sydney, Tóquio,Nova York, Brasília e Los Angeles. As pessoas que vêm a seus programas podem realmente sentir a energia, o florescer de sua transformação interior. A irmandade coletiva jamais chegou a ser uma realidade, ainda que fosse um dos fundamentos da Carta das ‘Nações des- Unidas’. Apesar disso, é evocada nos discursos e sermões dos sacerdotes e políticos. Agora queremos SENTI-LA. Cheia de paz, dinâmica, majestosa e compassiva, e sempre cheia de humor, viajando pelo mundo todo, Shri Mataji criou um novo mapa geográfico, constituído por uma rede global de almas realizadas. Além do ódio, do racismo e da exploração econômica, no planeta Terra dos foguetes espaciais, a realidade de nossa solidariedade começou a reafirmar-se. De forma clara, estamos presenciando um poderoso movimento de transformação espiritual. Aqui e ali importantes personalidades, o diretor de uma prestigiada academia científica, um líder religioso mundial, um músico mundialmente famoso ou um chefe de um Estado Maior começaram a unir-se à Sahaja Yoga, a Yoga da união espontânea com o Si, transportados por um movimento reconhecido mundialmente. Mas ainda me sinto como me senti ao conhecê-la no primeiro dia: entusiasmado de compartilhar a boa nova, o Advento da era espiritual, a notícia de que podemos progredir até alcançar uma consciência mais elevada. Há uma multidão de buscadores nos cinco continentes que estão exatamente procurando isso. Desesperadamente. O Advento não expressa os desvarios de um doce idealista utópico, mas é fruto de uma experiência interior, que é compartilhada, hoje, por centenas de milhares de pessoas. Éramos muito poucos, na época em que esse livro foi escrito. Em resposta a muitos pedidos, publicou-se a versão em espanhol, com base numa posterior edição francesa. O texto foi revisto a fim de torná-lo mais acessível ao público em geral. Verdadeiramente, a primeira, limitada edição inglesa, publicada em Nova Delhi em 1979, havia sido escrita, principalmente, para aqueles que já haviam recebido a experiência da Realização do Si. No entanto, hoje haveria motivação e material para um novo livro totalmente diferente. Porém, não o estou escrevendo. Ainda não. Não sou senão um menino no grande jardim, um estudante do livro da vida, mas ainda me faltam inúmeras páginas para ler, agora que conheço o código para decifrar o texto. Tem valia, em minha opinião, prover o leitor da língua espanhola da percepção do início, quando a Sahaja Yoga começou a expandir-se fora da Índia; a análise que se fez das desgraças das sociedades ocidentais ainda é válida. Os sintomas atuais de uma bancarrota ética, o surgimento de terras ecologicamente doentes, o incremento do fanatismo religioso ou a intolerância do ‘fundamentalismo’, todas essas características de nosso mundo moderno, que são discutidas no livro, certamente cresceram de uma forma ainda mais desagradável. Sem uma autêntica revolução espiritual, as coisas não podem ser de outra maneira. Shri Mataji sempre começa seus discursos públicos com essas palavras: “Inclino-me diante de todos os buscadores da verdade”. Que todos os Sahaja Yogis que estão atrás dela possam transmitir ao leitor esse sentimento de compreensão e respeito. Sinto-me extremamente agradecido aos meus irmãos de Madri e Bogotá, os quais, por meio de um grande entusiasmo e uma tarefa árdua, tornaram possível produzir esta versão espanhola do livro. Genebra, Suíça, 25 de agosto de 1994 DEDICADO ÀQUELA QUE conhece as COISAS LIVRO I DIAS DE OUTRORA Deus é artificioso. Ele brinca de esconder coisas e as procura conosco. Brinca com muitos outros jogos, mas à proporção que o tempo passa, não apreendemos o jogo nem suas regras. Ao longo do tempo, agimos infantilmente. Não conseguimos compreender Deus. Muitas vezes, O ignoramos totalmente, ou quando Dele nos lembramos, O culpamos por nossas bombas, nossas desgraças, nossos papas e nossos aiatolás. Muitos vertem lágrimas, no afã de se encontrar com Deus. Entretanto, nosso erro mais freqüente é censurar Deus por causa de nossas travessuras. Isso porque, nosso truque favorito é parodiar o jogo divino. Para retornarmos a Ele, pensamos, erroneamente, que temos de nos vestir de preto como os padres católicos (ou de amarelo como os monges budistas), ou deixar que nossos cabelos cresçam como fazem os Sikhs, ou raspar a cabeça como os lamas tibetanos. Pensamos, equivocadamente, que precisamos ir à Índia (e contrair hepatite), ou ser batizados por imersão total num poço para que possamos nascer novamente. Nosso conhecimento de Deus vem de especialistas que costumam escrever teorias sobre Ele. Num determinado momento, Ele está aqui e no próximo já se foi. Alguns acreditam em Karl Marx, se bem que são raros hoje em dia. Outros não acreditam em coisa alguma. Quanto a mim, não tinha muitas certezas. Houve momentos em que tinha algumas alegrias e premonições. Um buscador da verdade pode, episodicamente, tomar a liberdade de ser fútil, a fim de melhor ziguezaguear por um mundo em que impera a falsidade. Gurdieff, que era uma pessoa DIAS DE OUTRORA 13 muito inteligente, nos deu numerosos exemplos dessa arte. Quando ele estava em Samarcanda, com pouco dinheiro, pintou alguns pardais com anilina e os vendeu como ‘canários americanos’, por dois rublos cada. Ainda que não tenha identificado em mim esse nível de engenhosidade, compreendi que deveria desenvolver um sistema de truques e de subterfúgios, a fim de sobreviver, e se possível, prosperar com sucesso. No entanto, finalmente, descobri que minhas pantomimas eram cansativas e deixei a máscara cair. Quando mergulho em minha memória, descubro uma fome muito primordial que me consumia. É a coisa mais sólida que em mim existe. Sempre soube que expressamos apenas uma ínfima fração de nós mesmos. Pretendia viver num nível de intensidade de cem por cento. Tomei essa decisão quando tinha catorze anos, entretanto, não sabia bem o que fazer para que isso acontecesse. Os subseqüentes ensaios e erros marcaram minha entrada na vida adulta. Essa é uma longa história. Tive sorte, pois minha família não era pobre. Na Universidade de Genebra, vivia sem nenhum constrangimento e me esforçava para conjugar o verbo divertir no presente do indicativo. Meu coração - será que era ele mesmo? - apaixonava-se rápida e constantemente. Caí de amores pela Vênus de Botticelli, pela Helena de Boucher e, em seguida, pelas mulheres de carne e osso, que eu encontrava nos cenários de minhas escapadas pelas ilhas gregas, pelo sul da França e por outros lugares propícios. Formei-me em direito, mas isso não é relevante. O essencial para mim era vivenciar, com grande intensidade, os sabores, os prazeres e as alegrias da vida, quando as oportunidades para isso se apresentavam. Dancei quadrilhas sob as abóbadas douradas dos palácios. Esquiei sob o céu violeta das altas montanhas. Esbarrei, de passagem, em belos perfis pelas ruas, porém todos eles se me escaparam. O ADVENTO 14 Tentei também fazer de minha vida um poema. Não obstante, usei para isso uma sintaxe inadequada, pois o mundo de prazeres e de formas é também o mundo das frustrações. A beleza passa, o prazer freme e desaparece. Queria degustar todos os frutos e pretendia conservar seu sabor em minha boca. Sem dúvida alguma, fracassei. Na beleza de uma mulher, de uma idéia ou de uma estátua, via a mesma beleza universal, sempre longe de meu alcance. Procurava o modelo, mas me perdia nos esboços. O cúmulo da ironia era que me sentia como um esboço feito por um lápis muito apressado (e esse era meu suplício), cujo desenho final podia-se adivinhar qual seria. Paralelamente, aquilo que nos propõe a ‘espiritualidade oficial’ do Ocidente, provavelmente, não transmite mais coisa algumaa ninguém. As reminiscências do colégio me perseguiram durante certo tempo: um bispo que entoava cantos gregorianos sob seu solidéu ridículo (enquanto a confraria clerical gorjeava os responsos) e, sobretudo, um ‘diretor espiritual’, tão bem descrito por Montherlant. As gárgulas de pedra que sustentam os arcos da basílica próxima exultavam de prazer diante disso tudo. Desprezava aqueles que pensavam ter encontrado a verdade no carrossel dos ídolos de ouro: Deus, a Nação, a Tecnologia, a Revolução ou a Juventude. Todavia, não fazia parte da malta dos cínicos frívolos, acerca dos quais Nietzsche, irmão na visão perspicaz e na amargura, havia escrito (em seu livro “Assim falava Zaratustra”) que: “A crença fundamental da massa é pensar que ela vive para nada. Essa é sua vulgaridade”. Por que razão se deveria viver? Não descobria a resposta a essa questão, a não ser que, talvez, ela fosse a própria busca da resposta. Assim, tinha de encontrar as respostas para várias perguntas, que eram, simultaneamente, imensas e simples, as quais não conseguia tirar de minha cabeça. ‘Como ser feliz? O que fazer para que os outros fossem felizes? O que é a verdade?’ DIAS DE OUTRORA 15 Contudo, não possuía, como Pilatos, uma bacia para lavar minhas mãos. De vez em quando, tentava sistematizar minhas especulações: ‘Deus existe, ou não existe. Se Deus não existe podemos pôr fogo no circo, mas se Ele existe, a busca espiritual vale a pena’. Nessa época, eu era muito jovem! Tanto melhor, pois desejava que isso durasse muito tempo. As paredes de meu quarto não tinham nada a me propor, assim sendo, fui para longe. Uma amiga holandesa, que apreciava tulipas e haxixe, me iniciou neste último. Todos esses caminhos do escapismo, às vezes muito procurados, nos quais nos metemos, não nos ajudam muito. Não me atraía mais, realmente, o jogo que chamamos de ‘amor’, ou os gestos que denominamos de ‘carícias’, com os quais tentamos exorcizar o fato inelutável de que o outro permanece sendo o outro. Seria eu mais lúcido que os outros? Se isso fosse verdadeiro, isso não me ajudava a rir. Podia sentir a pressão de uma sociedade sem alegria, aborrecida e cruel. Via, nitidamente, as pessoas ao meu redor tentando nadar num mar de fantasias, afundando-se naquilo que Pascal chama de ‘divertimento’, correndo atrás de credos políticos, do sucesso ou do amor, sem compreender os mecanismos que as faziam correr. Quando me observava com maior sagacidade, via a mim mesmo também correndo. Não podia me valer nem sequer da desculpa de não estar percebendo. Aprendi a rir de mim mesmo, a fim de conquistar o direito de rir dos outros. Celebrei assim os ritos sociais necessários para tranqüilizar os membros da tribo. Fiz coisas que as pessoas conservadoras consideram bastante respeitáveis, como receber uma educação clássica na Europa e nos Estados Unidos, e me tornei um funcionário internacional. Surpreendi as pessoas que não eram consideradas respeitáveis, ingerindo suas drogas, morando em suas comunidades hippies e visitando seitas apocalípticas. De uma forma geral, compreendi um pouco O ADVENTO 16 melhor quais eram as coisas que deviam ser feitas ou evitadas. Acredito que isso me fez ganhar tempo. Como um pequeno Fausto de palha, fiz meu pacto com Mefistófeles. Considerava- me tão inocente quanto o diabo era astucioso e não tinha, por isso, muito medo. Deixei-me chamuscar, valentemente, por todos os fogos advindos de várias vivências. Após descobrir que a filosofia hindu havia progredido muito nas questões concernentes à origem do universo, à relação entre matéria e espírito e à busca do Si, orientei minhas buscas nessa direção. Dessa forma, observei de perto alguns ‘mestres’ importados do Oriente, a fim de descobrir uma fauna inquietante de charlatões corruptos e de profetas de feira, que despojavam seus discípulos de suas posses e de sua saúde espiritual e psíquica. Muitos discípulos inocentes foram ludibriados. Havia porém outros que receberam os ‘messias’ que mereciam, porque pensavam com arrogância que podiam se apropriar de Deus, ao investirem algum dinheiro em cursos de meditação e ao crerem no mito de que formariam uma nova raça eleita. Na verdade, dizia a mim mesmo, que a humildade é a única salvaguarda daqueles que tentam se aproximar de Deus. Tinha descoberto, sem o saber, uma das regras do jogo, ainda que, quase sempre, fracassava em colocá-la em prática. Em Bolonha, onde estudei durante um ano, perambulava com deleite pelas ruelas e praças que se transformaram em cenários de Shakespeare, porque a primeira crise do petróleo as esvaziava do tráfego dos automóveis, todos os domingos. A Itália, esse velho país, fervilhava de estetas e intelectuais que me ensinaram que a estética e o intelecto, por si sós, não levam à parte alguma. Na pobre Europa, o sabor da decadência excitava o paladar. Porém, onde iria florescer a próxima primavera? Um quebra-cabeça começou a tomar forma de um código de sinais em minha mente, como resultado de meus estudos e de minhas diferentes experiências. Tentei diversas vezes decifrar o código. Segui os passos dos buscadores do DIAS DE OUTRORA 17 passado: Arjuna, Akhenaton, Kant, Lenin. Marcuse diz que não existe síntese e propõe a grande recusa. Ele parecia ignorar que Patanjali e os mestres zen-budistas diziam que a síntese pode ser experimentada mediante a transformação da consciência do indivíduo. Mais uma vez, meu pequeno cérebro ficou febril, visto que comecei a distinguir o contorno do quebra-cabeça. Em 1974, quando morava na cidade de Washington, comecei a me dar conta de que somente um acontecimento histórico, sem precedente, poderia impedir a derrocada de nossos ecossistemas até a total destruição. Apenas um evento, realmente muito significativo, seria capaz de romper a engrenagem confusa e estressante que nos estava arrastando para um desequilíbrio crescente. Cheguei à conclusão, como tantos outros, que esse evento deveria se manifestar, não no campo das ações humanas, mas no âmbito da consciência, (entendida aqui como o termo inglês awareness, que é a consciência da percepção, e não apenas a ‘consciência’, isto é, a consciência mental). Ademais, os sinais dos tempos (compreendidas aí as posições zodiacais) apontavam para a iminência de um tal desdobramento. Não sabia onde, nem quando, nem como se produziria essa tomada de consciência. Será que ela já estaria ocorrendo? A questão pode ser colocada nos seguintes termos: como desenvolver uma nova faculdade de percepção (além do intelecto racional), que represente uma evolução na fenomenologia da consciência e não uma regressão? Retornar aos instintos não resolverá os problemas de nossa civilização, uma vez que os instintos e a civilização expressam apenas a grande contradição humana. Esta não pode ser resolvida pela oscilação constante desses dois pólos opostos. Ademais, o estado psíquico padrão de um ocidental representa uma conquista da lógica e da razão que não pode ser desprezada. Com relação a essa conquista, as tentativas instintivas de irmos além de nossas capacidades cognitivas podem ser consideradas O ADVENTO 18 como uma regressão. Hoje em dia, essas tentativas existem em quantidade: a droga, o sexo como uma concepção do mundo, Weltanschauung, isto é, como uma força libertadora, a adesão quase animista às seitas religiosas, espiritistas, parapsicológicas, etc. O circo atual de novas igrejas, de falsos gurus, de religiões calcadas em ficção científica, de aprendizes e de mestres feiticeiros, mostra claramente que a necessidade de uma nova percepção no campo da consciência está presente no ar. Efetivamente, da mesma forma que o século XIX foi marcado por uma mudança no plano material (a revolução industrial), por que é que a segunda metade do século XX nãopoderia fazer emergir uma nova percepção espiritual (uma revolução epistemológica)? Essa maneira um pouco hegeliana de ler um sentido da História pareceria menos artificial, caso quiséssemos nos dedicar a uma análise profunda religiosa, literária, artística e comportamental das sociedades mais avançadas. No momento em que escrevo essas linhas, centenas de autores e de cineastas de todos os tipos estão tentando dar os retoques finais no quadro dessa hipótese. Esse é um quadro esplendidamente vazio. Efetivamente, é o que eu dizia a mim mesmo há dez anos, a menos que a pessoa viva interiormente essa experiência imediata de transformação cognitiva ou todas essas considerações poderão ser tidas como cortinas de fumaça. Eu estava amargamente consciente disso. Sinceramente, é preciso reconhecer, meu barco começou a fazer água. Vivia rodeado de amigos que tinham seus espaços mentais ligados permanentemente em ‘sexo’. Perdi-me em meus jogos, por causa do objeto desejado - as garotas - ou sobretudo a alegria de estar junto de alguém escapava de mim totalmente. Pensávamos que o ‘amor livre’ oferecia a máxima oportunidade de prazer, felicidade e plenitude. Isso se transformou no credo de nosso estilo de vida. Todavia, quantos dentre nós foram capazes de aproveitar, autenticamente, de suas vidas afetivas? Por que motivo há tanta insegurança? Como era possível DIAS DE OUTRORA 19 entregar-se verdadeiramente a alguém que pode desaparecer amanhã com um(a) parceiro(a) que tenha um físico mais bonito ou que tenha um automóvel maior e melhor? Mesmo quando estava com minha namorada, minha atenção se concentrava em outras garotas. Essa instabilidade da atenção impedia que me deleitasse com aquilo que eu tinha. Queria me afastar desse comportamento oscilante e demente, a fim de poder conhecer a espontaneidade da amizade e do amor, sem aqueles pensamentos de sexualidade que assaltam nosso cérebro e absorvem totalmente nossa atenção. Não obstante, não sabia como fazer isso. Eu estava abarrotado dos produtos feitos pelas ‘fábricas’ universitárias, ou seja, de idéias. O papel de meus professores, em nome do pensamento analítico, foi o de dividir fios de cabelo em partes infinitesimais, às custas dos contribuintes. Não existia mais nada de universal no conhecimento ministrado pelas universidades. Tratava-se de um caos, mais ou menos organizado em compartimentos. Cada departamento acadêmico se limitava a cuidar de seu pequeno jardim, sem qualquer conexão com o todo. Não obstante, tirei partido dessa maneira como o mundo funcionava, porque consegui obter, facilmente, o título de Mestre em Ciência Política. Viajei, em seguida, num “Packard” 1954, para Nova Orléans e Los Angeles, nos Estados Unidos. Adorava viajar. A vida era novamente um divertimento. Ia ver o nascer do Sol nos picos do Monument Valley ou nadar nas águas frescas do Oceano Pacífico. Curiosamente, quando volto o filme dos eventos, durante essa viagem, as coisas, ao meu redor, me puxam para trás e para frente, como se estivessem me conduzindo a um encontro definitivo. Por exemplo, quando eu estava perambulando pelo deserto do Arizona, o planeta Vênus aparecia sempre, inexplicavelmente, no orifício de minha tenda, todas as vezes que a erguia. Quando cheguei ao Grand Canyon chovia torrencialmente. Desejei ter e obtive um esplêndido arco-íris, em O ADVENTO 20 cinco minutos! Assegurar a concretização de qualquer desejo meu, da maneira mais benevolente possível, parecia ser um prazer para algum deus invisível. Uma sucessão de coincidências e de símbolos, interligados por um grande senso de humor, me levou, finalmente, até Berkeley, à casa de um estudante de economia chamado Rajesh. Ele era um rapaz brilhante e muito sensível. Nossas longas conversas noturnas se prolongavam pela noite no observatório de onde se avista a Baía de São Francisco. Uma semana depois, com grande cautela e com uma timidez que tornava o evento quase solene, ele me mostrou a fotografia de uma senhora indiana dotada de um sorriso misterioso, sentada numa pose hierática de proteção. - “Ela mora na Inglaterra, perto de Londres - disse-me Rajesh - e sei que ela o espera. Ela se encarnou várias vezes no passado e as estátuas que a representam cobrem a face da Terra. Ela veio novamente, conforme foi previsto, e está aqui para nos emancipar. Você deve ir vê-la”. - “Mas Rajesh, como é possível que me diga coisas tão incríveis?” - “Você poderá sentir tudo isso por você mesmo. Poderá senti-lo verdadeiramente. Poderá sentir uma energia fantástica que emana do corpo dela sob a forma de vibrações frescas e você entrará num novo estado de consciência! Deve ir lá e verificar isso pessoalmente. Poucos, dentre nós, conseguiram isso. Não é nada parecido com as experiências pseudo- espirituais que você vivenciou até agora”. Era difícil acreditar na manifestação de algo que eu havia buscado durante tanto tempo e crer numa novidade tão imensa. Era mais inacreditável ainda, que um Ser capaz de ajudar os outros a se libertarem, verdadeiramente, pudesse viver incógnita nesse mundo, comendo e dormindo como qualquer pessoa, trabalhando no sentido de produzir uma nova revolução espiritual. Por outro lado, Rajesh não era sonhador nem fanático nem imbecil. Os sinais dos tempos anunciavam transformações DIAS DE OUTRORA 21 iminentes; os falsos profetas do Apocalipse nos rodeavam, fiéis ao encontro, num cortejo de drogas e de seitas inquietantes, tais como os psiquismos desregrados, as aberrações sexuais ameaçando a coesão da célula familiar; nos países desenvolvidos, a tecnologia e o aparato produtivo estavam sem controle; nos países em desenvolvimento, a miséria mais gritante estava, mais do que nunca, fora de controle. O meio ambiente se deteriorava. A sobrevivência física da humanidade se transformava na temática de modelos matemáticos que desembocavam em previsões alarmantemente pessimistas. Se nunca um cenário igual a esse havia sido montado a fim de propiciar uma transformação monumental de rumos, muitos, dentre nós, pensavam vê-lo à nossa volta. Só havia um meio de averiguar isso. Fui para Chicago, e dois dias depois, imbuído de um senso de otimismo, embarquei num avião para Londres. Assim, essa é a pequena história de meus primeiros vinte e cinco anos. Devo admitir que tive muita sorte! Não fui oferecido aos leões nem pendurado numa cruz. Não me obrigaram a beber cicuta, contudo as drogas não foram capazes de me destruir. Não fui compelido a ir para um gulag siberiano. Finalmente, me senti reconfortado em descobrir quão pouco original havia sido minha busca. Segui a mesma trilha de questões debatidas por monges, loucos, poetas, reis, filósofos e santos. Elas são, em verdade, questões antigas que ainda hoje sobrevivem às suas respostas. Qual seria a resposta que obteria dessa figura enigmática em cuja direção os motores do avião ronronavam? Sabia apenas seu nome: Shri Mataji Nirmala Devi. LIVRO II A DESCOBERTA ÚNICA DA SAHAJA YOGA “A nova revolução em sua consciência deve manifestar- se, sem o que todas as realizações humanas não terão nenhum sentido. Seria como montar todo o aparato elétrico para iluminar um casamento, sem que a corrente elétrica pudesse passar. Todavia, quando vier a luz, poderão ver o noivo e a noiva.” Shri Mataji Nirmala Devi ENTRE NÓS CAPÍTULO I É sempre de bom gosto usar uma terminologia moderada, e o autor do presente livro mostra uma coragem inusitada, ao empregar uma linguagem recheada de termos bem sonoros, tais como o cosmo, a evolução universal, o destino, a Realização do Si (Self), Deus e o diabo, os quais podem causar algum embaraço ao leitor. Como é que o autor ousa fazer isso? Ademais, o que essas páginas irão revelar sobre a Sahaja Yoga -sobre Shri Mataji e sobre a consciência coletiva - poderá parecer algo tão paradisíaco, que o leitor tenderá a considerar o autor como um tipo particularmente impertinente, pertencente a uma categoria de autores que se tornam impopulares com justa razão como os que publicam livros sem saber, realmente, coisa alguma acerca do que escrevem. Portanto, se o leitor aceitar a hipótese de que o autor conhece aquilo de que está falando, surge a seguinte questão: ‘quem está autorizado a falar sobre o reino de Deus e saber, efetivamente, do que está falando?’ Não evitarei palavras tais como ‘Deus’ e ‘destino’, porque esses símbolos poderosos de nossa linguagem cobrem precisamente a matéria dessa obra. Se tiverem dúvidas sobre a extensão real do meu conhecimento, permitam que eu mencione, nesse momento, uma parte do Kena Upanishad: “Não posso dizer que conheço perfeitamente o Absoluto, nem tampouco posso dizer que não O conheço. Aquele dentre nós que O compreende melhor é aquele que compreende o ENTRE NÓS 25 sentido das palavras: não estou seguro de que não O conheço.” Certamente, as palavras têm sido usadas, marteladas e distorcidas nas oficinas dos artífices da linguagem, e não sei o que fazer para que elas voltem a seu estado de pureza prístina, ou fazer com que tenham ‘um som mais puro’ (uma ambição insatisfeita de Mallarmé). Aqui me dirijo às pessoas que se sentiram fascinadas pelo Azul Paradisíaco, as quais se engajaram na mais antiga das buscas, e que, exauridas, decidiram que sua busca era um contra-senso e que o Santo Graal não existia. A alquimia da consciência e a transformação interior seriam apenas quimeras. Algo que fascina nosso inconsciente e que exacerba e pune, simultaneamente, nossa irrefreável nostalgia do Divino. Assim, sem nenhuma autoridade para fazê-lo, pego minha caneta. No entanto, vi aquele Oceano para o qual todos os rios convergem. Banhei-me nele, nele me dissolvi, nele me perdi e me reencontrei, e com toda a comprovação de meus sentidos e com todas as fibras de meu ser. Compreendi que essa experiência da ‘grande transformação’ está disponível para toda uma geração de buscadores, aqui e agora. Ainda que os falsos profetas de hoje coaxem em todas as encruzilhadas, prometendo o paraíso a um preço módico, devo dizer em respeito à verdade (gritarei se não me ouvirem) que todos podem, concretamente, entrar na Cidade da Alegria de Deus. Esse livro introdutório sobre a Sahaja Yoga de Shri Mataji Nirmala Devi mostrará o caminho e a porta para o reino de Deus. Antes de tudo porém, não nos esqueçamos de que o Oceano contém a gota d’água, e não o contrário, mesmo que essa gota tenha a forma de um cérebro humano abarrotado de conceitos e de um aparato analítico completo. Esse Oceano é constituído por um amor incomensurável, que vibra em cada galáxia e em cada partícula do átomo. Por isso, os conceitos e suas vestimentas de palavras devem ser deixados na praia. O ADVENTO 26 Entretanto, se lhes apresentasse um livro com todas as páginas em branco, não poderia lhes transmitir todas as informações que deveriam ter. Dessa maneira, imprimirei palavras em todas as páginas e comentarei o método. Refiro-me ao método de conhecimento, do qual Sócrates destilava os princípios filosóficos, quando perambulava de baixo para cima, na ágora de Atenas, e que lhe valeu uma recompensa típica do reconhecimento dos homens: uma taça de cicuta. Preliminarmente, qualquer que seja a Verdade, ela é, pela sua própria natureza, in se e per se (isto é, em si mesma e por si mesma), portanto independente de minha capacidade intelectual de apreendê-la. Se uma árvore e um rio existem, em algum lugar, essa árvore e esse rio existem, quer estejamos ou não conscientes da existência deles. Essa paisagem aprazível irá logo ressoar as discussões dos filósofos. De fato, pretende-se fazer com que isso aconteça, vale dizer, essa árvore e esse rio apesar de existirem, não os vejo; logo, não os conheço. Se não os conheço, apesar de existirem em si mesmos, não existem para mim, vale dizer, no que me tange, eles não existem. O erro que deve ser aqui evitado consiste em concluir que aquilo que não existe para mim não existe de maneira alguma. Todavia, ao criarem essas armadilhas verbais, os filósofos geram a possibilidade de debates muito agradáveis entre seus nobres colegas... Uma pessoa inteligente e dotada de um ótimo senso de discernimento diria que “não vejo o rio nem a árvore. Entretanto, isso não significa que não existam. Isso apenas quer dizer que não sei se existem ou não”. Suspendendo assim seu julgamento, a pessoa chega ao estado alcançado por Emmanuel Kant na “Crítica da razão pura”, ou seja, à mesma posição defendida por Sócrates, Buda e Lao Tse, posição que estabelece o fundamento para o método científico. “Saiba aquilo que conhece e aquilo que não conhece. Saiba que conhece aquilo que você, de fato, conhece. Saiba ENTRE NÓS 27 também que não conhece aquilo que não conhece”. Suponho que poderão aceitar, gentilmente, essa dose de bom senso, pois isso me permitirá apresentar-lhes uma proposição. Em verdade, quero lhes falar sobre um rio magnífico e de uma árvore com seus frutos inauditos. Quero lhes falar do rio de água da vida, que São João diz fluir no seio da nova Jerusalém, e da árvore da vida, cujos frutos curarão nações inteiras. Provavelmente, vocês não se aventuraram a explorar sua própria paisagem interior, na qual poderiam encontrá-los, e por isso talvez não queiram acreditar em mim. Vocês estão certos, mas, por favor, não rejeitem o que estou dizendo. Como é que poderiam fazê-lo? Já entraram nesse jardim secreto interno? Podem dizer, com total confiança, que o descobriram, e que ele corresponde a todas as gloriosas descrições que dele fizeram os grandes instrutores espirituais das diversas religiões do mundo? Atenção! Ao responderem a essa questão, é conveniente que não se deixem embriagar por tergiversações, perífrases e metáforas teológicas. Essa descoberta é uma experiência real, palpitante e intensa. Se conseguir motivá-los a sair de sua poltrona confortável e a caminhar na direção correta, a fim de verem por vocês mesmos tanto o rio, como a árvore, esse livro terá alcançado seu objetivo, vale dizer, o de motivá-los a passar pela experiência. A fé e a incredulidade são movimentos bruscos e sem sentido de uma psique que é incapaz de encarar a realidade e não pode mergulhar na silenciosa evidência do conhecimento. Apenas a extraordinária experiência de nosso segundo nascimento, de nosso verdadeiro batismo, também conhecido como a Auto-realização, pode nos dar essa consciência autenticamente iluminada que é o objetivo de nossa busca. Levaram-me a esse jardim. Já vivi nele. Disseram-me: “Esse lugar sagrado espera por todos os irmãos e irmãs que o procuram”. O ADVENTO 28 As regras do jogo da linguagem determinam que uma proposição verbal, lançada na arena pública, seja imediatamente transformada em objeto de controvérsia. Não me recuso a aceitar essa regra. Para evitar gastar muito tempo com esses jogos verbais, devo enfatizar que esse livro pretende apenas indicar alguns sinais de trânsito. Entretanto, não é apenas um sinal no caminho que diria: ‘leitor superficial, meu semelhante, meu irmão’. Será que esse leitor após ter passado, como eu, por muitas vidas inalando as flores do mal, optaria agora por não se interessar pela árvore da vida ou pela árvore do bem? Dessa forma, ao longo desse livro, uma outra pessoa que não eu, a quem me cabe lhes apresentar, os convidará a trilhar a senda interior da liberação. Essa senda, como foi preconizada por Buda, leva ao jardim mais secreto no interior das profundezas de cada um de nós, onde as flores e os frutos do amor divino realizam as promessas mais fantásticas de todosos santos do passado. Lá, tudo é beleza, pureza cristalina da inocência, frescor, alegria e amor. Lá é onde o rio corre e onde fica a árvore. De fato, esse paraíso inacessível está, como podem suspeitar, no âmago de nós mesmos. A Árvore Sagrada vem a ser o mecanismo sutil (Yantra, em sânscrito) que preside nossa ascensão espiritual, e mais diretamente, todos os nossos processos psicossomáticos. Não é uma grande compilação de obras esotéricas cheias de poeira que me autoriza a lhes dizer isso, mas o resultado prático de um fenômeno vivo, que chamarei, simplesmente, de experiência do presente, do aqui e agora. Tentem visualizar uma linha horizontal entre o passado (armazenado em nossa psique, sob a forma de condicionamentos, ou seja, o superego) e o futuro (com o qual, o outro componente de nossa psique está preocupado, ou seja, o ego). Em algum lugar dessa linha, encontra-se um ponto geométrico intangível, que se chama presente e que corta a linha ENTRE NÓS 29 entre seus segmentos do passado e do futuro (vide figura 1). O presente é um ponto invisível que não podemos quantificar em unidades de tempo. Daí surge o irritante paradoxo que se apresenta ao ser humano, vale dizer, existe apenas a inconsistência do presente, porquanto o passado já se foi, e o futuro ainda não ocorreu. A fim de lidar com esse momento presente e experimentar seu sabor, é imprescindível que adquiram a capacidade de entrar nesse ponto invisível no tempo, projetando sua atenção, a partir de um espaço psíquico que não seja o ego (ligado ao futuro) nem o superego (vinculado ao passado). Sua atenção deverá inflar o presente, tal como o ar é insuflado num balão. O passado e o futuro podem assim ser reduzidos. Vocês entram num espaço que fica além das dimensões tradicionais da experiência humana, ao penetrarem nesse ponto invisível da linha horizontal. Tendo transcendido o ego e o superego, poderão gozar a intensidade do presente contínuo, e se instalar no reino de Deus, o jardim mágico tão próximo e, no entanto, tão distante. Como entrar nele? FIGURA 1 - O PRESENTE O ADVENTO 30 Quanto a esse jardim mágico, La Bruyère, um observador sagaz, aponta, em seu livro “Caractères”, os prováveis ocupantes desse jardim, ou seja, “as crianças não têm passado nem futuro e se deleitam com o presente”. Os escritores místicos (um qualificativo que, sob minha ótica, não designa uma doce imbecilidade) tentaram descrever essa viagem além do tempo, que é “o paraíso que está em nosso interior”, dizem eles, “bem como a promessa da porta estreita, a sua chave e o seu caminho”. Antes porém, é preciso remover os espinhos. Agora é preciso que pare de importuná-los com metáforas (além do mais muito usadas, pois se originam de antigas escrituras) e lhes proponha, sob a forma de uma hipótese, a Auto-realização. Prometo que receberão, com aquele tempero de sabedoria socrática tão útil, esse conhecimento fantástico que é a dádiva de alguém que está além de mim. Esse conhecimento, outrora secreto, deve hoje ser divulgado. Isso porque é chegada a hora muito preciosa, a hora prometida, que é, simultaneamente, libertadora e fatídica. Leiam, sem rejeitar ou aceitar minha tese, e, como eu, testemunharão a aurora de uma nova esperança. Doravante, vamos utilizar expressões sânscritas para designar vários conceitos. A via secreta, o caminho do iniciado, é o canal sutil (Sushumna Nadi), no interior da coluna vertebral que forma o tronco da árvore da vida. A energia potencial do Espírito Santo no interior do ser humano (Kundalini) dorme no osso sacro, o osso triangular que fica na base da espinha. No momento de seu despertar, ela começa sua ascensão no âmago do Sushumna Nadi, que é formado por vários condutos concêntricos ao longo da medula espinhal. Todavia, esse canal é interrompido por um hiato que fica entre o plexo solar e o nervo vago (do sistema nervoso parassimpático). Ademais, como veremos mais tarde, com detalhes, esse canal pode ser danificado ou bloqueado, por exemplo, em conseqüência de nossas ações anteriores (Karma), ENTRE NÓS 31 doenças, perturbações nervosas, e outros distúrbios psíquicos. Devemos limpar esse caminho, o que não podemos fazer por nós mesmos, porque nossa atenção não pode penetrar no Sushumna Nadi. Por isso, pode-se compreender melhor o papel do verdadeiro mestre espiritual (Guru). Ele é aquele que pode despertar a Kundalini adormecida do discípulo, a semente da vida, inundando-a com um fluxo de vibrações energéticas divinas (a água da vida) que corre de seu ser como um rio. Quando essas vibrações envolvem o corpo do discípulo, elas preenchem o hiato em seu Sushumna Nadi. A Kundalini, convidada pelas vibrações de uma personalidade, cuja autoridade ela reconhece, ascenderá, cruzará o intervalo do vazio e penetrará os centros espirituais e psicossomáticos (Chakras) que ficam ao longo do Sushumna Nadi e representam os frutos da árvore da vida. O rio de água é, sobretudo, o fluxo de vibrações frescas emitidas pela Energia Primordial (Adi Shakti) de Deus. Sua manifestação foi identificada, por exemplo, como a brisa do Espírito Santo, como se pode ver na Bíblia, nos Atos dos Apóstolos, 2.1: “Tendo chegado o dia de Pentecostes, eles se encontravam reunidos num mesmo lugar, quando, de repente, veio do céu um estrondo, semelhante a um golpe de vento violento, que encheu toda a casa onde estavam. Eles viram aparecer línguas, chamadas de fogo, que pousaram, uma a uma, sobre cada um deles.” Essa manifestação divina é chamada em grego de noüs ou pneuma, isto é, ‘o sopro’ na terminologia gnóstica ou, ainda, é simbolizada pelo rio sagrado Ganges que emerge da cabeça de Shri Shiva. Efetivamente, no momento da Auto-realização, pode-se sentir a brisa fresca dessas vibrações ou, devido à sua força, pode ser um rio fresco que corre pelos dedos, pelas mãos, e eventualmente por todo o corpo. Num estado mais avançado, a água da vida - que doravante será chamada de néctar (Amrut) - O ADVENTO 32 é percebida como uma ducha que desce do topo da cabeça e enche o sistema nervoso central e o autônomo de uma bem- aventurança indescritível. A porta estreita é o sexto Chakra (Agnya Chakra) no caminho da Kundalini, localizado no centro da fronte. Ele é chamado algumas vezes de ‘terceiro olho’. Como verão e descobrirão mais adiante, existe uma relação muito íntima entre esse Chakra e o papel cósmico de Cristo. A chave que abre esse Chakra é nada mais que a total e espontânea entrega de uma criança, da qual já foi dito: “Em verdade, vos digo, se não vos tornardes como as pequenas crianças, não entrareis no reino de Deus.” Lucas, 18, 17 Faz-se alusão aqui ao Chakra ‘real’ que coroa o crânio (Sahasrara Chakra). Quando a Kundalini irrompe nele e o atravessa, esse centro se torna o templo da iluminação. É de lá que, para os seres realizados, se irradia, em todo o corpo, o êxtase espiritual sem par, mediante o qual cada célula do corpo físico fica igualmente plena de felicidade. Esse Chakra, cujo sistema de energia-consciência (Mandala) foi descrito por um grande reformista religioso, Shri Shankaracharya, torna-se, na terminologia do Senhor Buda, o ‘lótus de mil pétalas’, ou a ‘sarça ardente’ (de Moisés) ou as ‘línguas de fogo’ (do Pentecostes) dos clarividentes bíblicos. Tentemos mostrar num esquema o panorama de nossa Auto-realização (figura 2). ENTRE NÓS 33 FIGURA 2 – O Cérebro Humano antes da Realização do Si No nível do Agnya Chakra, a atenção fica presa no passado e no futuro. O presente está fora de seu alcance, devendo ficar, portanto, no nível do Sahasrara Chakra, como se pode ver na figura 3. O ADVENTO 34 FIGURA 3 – O Cérebro após a Realização do Si A Kundalini sobe pelo canal centrale faz com que a atenção se concentre no presente contínuo, muito além do movimento pendular do ego e do superego. Voltaremos, posteriormente, a falar sobre esse processo. Lembremos agora que esse livro não foi escrito para fazer com que vocês se tornassem crentes, mas para que a experiência fosse deflagrada em cada leitor; para que o reino de Deus viesse para todos. Isso porque a Era de Aquário, na qual entramos, é a era em que todas as pessoas, de modo coletivo, devem compreender o sentido da existência. Um santo que medite sob uma figueira propícia, ou numa cela trapista, ou num pico do Himalaia, longe da contaminação da vida das grandes cidades, é de pouca ajuda hoje em dia! Entretanto, são elevadas aquelas almas que voltaram a ter seu nascimento nesse mundo, com o propósito de participar, como instrumentos, dessa grande transformação que se tornou possível, aqui e agora, pela Sahaja Yoga! Leitor hesitante, você pode ser perfeitamente um desses seres... Devo fazer uma última advertência. Quando Percival, cavaleiro da Távola Redonda, penetrou por acaso no castelo do ENTRE NÓS 35 Rei Pescador e viu, finalmente, o Santo Graal, ele não soube reconhecer que sua busca havia terminado. Tendo se esquecido de fazer a pergunta fatídica, ele foi lançado a um novo ciclo de busca, por longos e dolorosos anos. A advertência dada por Christian de Troyes, em sua famosa lenda do Santo Graal, merece uma reflexão. Em nossa busca, às vezes, erramos o caminho. Todavia, podemos também, e isso é mais sério, chegar diante da porta certa e, sem percebê-la, passar por ela inadvertidamente, o que faz com que nos percamos, novamente, em nossa busca. ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA CAPÍTULO II “Conhecereis assim a verdade e essa verdade vos libertará.” João 8,32 “Quando as máscaras são removidas, emerge o autoconhecimento, que é o conhecimento de Deus. Conhecer o Si é ser o Si, porquanto não há dois Si. Logo, conhecer é ser. A consciência é a existência.” Shri Ramana Maharishi “Busque com sinceridade e persevere em sua busca. Finalmente, encontrará a Verdade.” Buda O processo de descoberta científica consiste, para a mente humana, em apreender (geralmente sob a forma de leis) os fenômenos do universo físico. Todavia, segundo o ponto de vista do observador, o mesmo fenômeno pode ser percebido de várias maneiras. Por exemplo, Newton e Einstein não encaram o universo do mesmo modo. As respostas da ciência não são definitivas, mas se inscrevem numa dinâmica de revalidação constante. A maneira pela qual o ser humano percebe sua relação com a ecologia cósmica global, que o envolve, evolui em função das descobertas que ele faz. O grande sábio de Genebra, Jean Piaget, observa, em seu livro “Epistemologia genética”: ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 37 “Depois que as sucessivas revoluções no plano físico alteraram algumas de nossas intuições fundamentais em benefício não de um relativismo cético, mas em prol de uma objetividade relacional cada vez mais eficaz, a tendência geral da ciência é a de se considerar como ‘aberta’, no sentido de uma revisão sempre possível de suas noções ou princípios e de seus próprios problemas. Nenhuma noção fundamental da ciência permaneceu idêntica a si mesma, no curso da História, e essas transformações conduziram a sucessivas remodelagens da lógica como tal. E indubitavelmente vão procurar traçar fronteiras imutáveis entre um dado grupo de noções, consideradas inteiramente científicas, e um outro grupo que seria chamado de filosófico.” É fácil conceber que, mesmo hoje, diversas leis que governam o funcionamento de nosso mundo, aparentemente real, têm de ser descobertas em vários níveis - físico, psíquico e espiritual. A evolução da consciência humana consiste portanto em efetivar esse conhecimento potencial, de forma que novas relações possam ser desenvolvidas entre o Homem e o universo e do Homem consigo mesmo. Conhecer significa transformar. Quando esse conhecimento diz respeito ao plano material, o ser humano pode transformá-lo, pela utilização dessas leis recém- descobertas, tais como a gravidade, a eletricidade, a energia atômica, etc. Quando se trata do plano espiritual, o próprio ato de conhecer produz uma transformação interior. É portanto crucial saber em que direção nossa busca deve ser orientada. Isso porque, as conseqüências dramáticas da fissão do átomo, por exemplo, ilustram um fato muito simples: a evolução de nossos conhecimentos forja, ao mesmo tempo, o futuro crescimento coletivo e o futuro crescimento do indivíduo ou do conhecedor. Aquele que conhece pode, em última análise, alcançar aquele estado de consciência a que se referiu Shri Krishna. O ADVENTO 38 “Por um único Sol O mundo inteiro é iluminado; Da mesma maneira, o Campo é iluminado Por aquele que o conhece.” Bhagavad Gita- 13,34 Para William Blake e muitos outros, conhecer o Divino é tornar-se Divino. O conhecimento absoluto ou, para fazer eco aos ensinamentos de Cristo, a adoção da verdade viva implica uma transformação absoluta ou o batismo pelo espírito. As mensagens das tradições milenares, que muitos hoje aceitam, nos dizem: “Conheçam o infinito e vocês se tornarão o infinito”. No entanto, as questões cruciais, com as quais continuamos a nos debater, são: ‘como obter o verdadeiro conhecimento? Como vivenciar a experiência da transformação? Será que ela leva um segundo ou um século? O que é que acontece? Ela pode ser partilhada com os outros ou não?’ Somente uma experiência concreta pode responder a essas questões. Todas as especulações sobre a alquimia interior da consciência foram desenvolvidas pelos buscadores do passado. Parece-me que os buscadores do presente se perdem, muitas vezes, em circunlóquios verbais. Se existir alguma verdade em minhas palavras, que ela se manifeste! Se a mutação for possível, que ela se faça ! Eu estava em Londres, em agosto de 1975. A cidade borbulhava nas noites quentes de verão. Meu coração batia mais rapidamente que o normal. Lá estava eu, num desses pequenos trens ingleses com as cores azul e amarelo, a caminho de Hurst Green, Surrey, onde Shri Mataji morava. Andei pela cidade, cujos jardins belos revelavam o encanto da zona rural inglesa. Parei diante da porta da casa dela e apertei a campainha. Fui introduzido num pequeno hall, onde esperei por alguns instantes. Uma porta se abriu e Shri Mataji apareceu. Ela estava vestida ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 39 com um sári branco. Presto minhas homenagens a ela com algumas flores que havia comprado na estação de Victoria. A partir daí, tudo se tornou estranhamente simples. Fomos para a sala de estar. Lancei um rápido olhar sobre a sala. As obras de arte indianas adicionavam uma certa exuberância oriental ao conforto inglês. Minha anfitriã me recebeu com a cortesia e a espontaneidade de uma grande dama, como se fôssemos velhos amigos. Sua tranqüilidade era contagiosa, pois minutos depois eu ficava completamente relaxado. Observava-a e, decididamente, não a imaginara tão alegre. Começamos a conversar sobre tudo e acerca de nada especificamente. Para meu espanto, me encontrava diante de alguém que parecia me conhecer bastante. É verdade que ela estava me analisando, mas o fazia com perfeita discrição, com muita bondade e calor humano. Na excitação interior provocada pelo encontro, não percebi que havia tomado posse da poltrona e da atenção de Shri Mataji, como se estivesse vivendo a parábola da volta do filho pródigo. Todavia, era a Mãe e não o Pai, que estava me recebendo. Senti, profundamente em meu íntimo, sua indescritível ternura maternal que me envolvia num manto protetor. Não me sentia muito culpado. Comecei a falar sobre todas as coisas que me eram caras de uma forma desorganizada. Shri Matajisorria enigmaticamente. Não a conhecia e, ao mesmo tempo, a conhecia. Sentia-me perfeitamente bem. Ela me perguntou várias coisas a respeito de minha família e de minha saúde. Indagou por que eu não usava uma camiseta a fim de evitar pegar um resfriado. Respondi às suas indagações. Disse-lhe que estava em busca de algo, da verdade talvez, porém, até aquela data, não a havia encontrado, e que já estava cansado. Ela me disse com um sorriso: “É preciso que eu o submeta a algumas provas”. Comecei a rir e disse-lhe: “Faça isso”. Curiosamente, não sentia medo algum da situação. As colheres de prata tilintavam nas xícaras de chá de porcelana; os O ADVENTO 40 raios de sol entravam através dos vitrais das janelas como grandes bolas douradas de poeira. O silêncio da casa pouco a pouco foi se instalando em mim. A chuva torrencial de meus pensamentos começou a parar. Descobri em mim uma paz que nunca havia experimentado. Ela começou a falar do verdadeiro objetivo de nossa busca: a Auto-realização. Puxa, isso era tudo que eu queria ouvir! Ela me disse que tornou isso possível para um grupo de jovens buscadores ingleses, que eu conheceria logo depois. Com aquela calma, meu passado me parecia ter sido um circo completamente frenético. Eu que era incapaz de parar a sarabanda de meus pensamentos e queria, desesperadamente, poder fazê-lo, eis que agora estava quase em repouso. Ela nem sequer havia levantado um só dedo para fazer com que isso acontecesse! É possível controlar a atividade mental com um simples olhar? Shri Mataji, quem és? As reminiscências daquelas horas preciosas se amplificam em minha memória. Devia ter mantido um diário, a fim de preservar, fielmente, a seqüência dos eventos ocorridos. Posso afirmar que, em tempo algum, as palavras foram substituídas pela experiência concreta. Para dizer a verdade, nada poderia ter me interessado mais que aquilo. Entretanto, quando chegou o grande momento, aquele que havia desejado tão ardentemente, me senti angustiado: ‘será que já estou muito estragado para isso? Será que isso produzirá resultados em mim?’ Durante alguns instantes, me vi pendurado por um fio entre a perdição e a salvação. Ainda uma vez mais, aquele inacreditável poder do amor maternal me ajudou a ganhar confiança em mim mesmo. Falando a respeito daqueles buscadores que estão desorientados e perdidos, Shri Mataji disse-me: “Vocês são como diamantes, verdadeiros diamantes, porém cobertos de lama. Quando estiverem limpos, resplandecerão com todo o seu brilho”. Quanto a mim, a lama era mais óbvia que o diamante, mas havia chegado o momento de testar a verdade de suas palavras. Essa hora teria sido muito penosa para mim, não fora a extrema ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 41 bondade de Shri Mataji. Não estava compreendendo nada, no entanto não me preocupava, pois estava fascinado pela beleza da cena. Eu percebia um ritmo perfeito em tudo aquilo que ela fazia. Seus movimentos eram, alternadamente, fluidos ou poderosos, sempre tremendamente precisos e (algo difícil de ser encontrado na maioria das pessoas) sua expressão facial irradiava, simultaneamente, majestade e humildade. Logo depois, entretanto, meus pensamentos foram desviados para o que ocorria em meu interior. Senti um formigamento em minhas mãos, o qual, gradativamente, tornou-se mais fresco. Apesar de minha incredulidade, vivenciei uma sensação inexplicável, a de uma brisa fresca que soprava sobre as palmas de minhas mãos. Procurei descobrir se havia alguma corrente de ar na sala, porém a porta e as janelas estavam fechadas. Não me veio à mente, naquele momento, que os gnósticos identificavam a manifestação do Espírito Santo com o termo grego pneuma, que significa sopro. Também não sabia que Tagore havia dito a seu criador: “As tuas dádivas infinitas chegam a mim somente nessas mãos muito pequenas. As eras passam, mas ainda há lugar para a Auto-realização”. Minha perplexidade era crescente e estimulava meu interesse. Algo estava para acontecer, algo que pairava além de mim. Comecei a experimentar sensações no interior de meu corpo como se, pela primeira vez, algumas dessas partes estivessem se manifestando para minha consciência. O que, realmente, me espantava era que Shri Mataji seguia esse meu processo passo a passo. “Esse é o Chakra do coração”. Senti na verdade uma leve dor no peito. Com seu braço apontado como uma lança para meu peito, Shri Mataji explicou que “esse é centro espiritual que nos dá confiança e segurança”. Pouco depois, a dor desapareceu... e ressurgiu na base da garganta. Shri Mataji levantou-se e apoiou seu dedo indicador na última vértebra cervical. Lágrimas começaram a correr de meus olhos e experimentei uma sensação de afogueamento em minha testa. Ela colocou um pouco de O ADVENTO 42 Kumkum (chamado também de Tika), pó vermelho com o qual as mulheres indianas enfeitam sua fronte, no lugar em que se diz estar o terceiro olho. Disse-me: “Essa Tika emite vibrações positivas que irão dissolver as vibrações negativas que estão bloqueando seu Agnya Chakra. Pense em Cristo que verteu seu sangue em prol da redenção do mundo”. Lentamente, a tensão em minha cabeça se dissipou e cedeu lugar a um espaço de silêncio interior, cuja intensidade excluiu toda a agitação mental. Poderia comparar esse estado a um banho de frescor, de existência intensa, no qual me descobri perfeitamente relaxado e lúcido; de certa forma rejuvenescido. Havia fechado os olhos e quando os abri novamente, me parecia ter adquirido uma nova visão. O espaço, ao redor de Shri Mataji, começou a palpitar e notei faíscas brancas no ar, como se fossem descargas elétricas. Elas se projetavam em todas as direções, como se o ar estivesse se desintegrando em radiações de energia, perceptíveis a olho nu. A aura de Shri Mataji fundiu-se numa reverberação dourada, que envolveu todo o seu corpo. Não sei como descrever a sucessão de personificações múltiplas mostradas por ela, enquanto continuava a falar comigo. Em primeiro lugar, ela era uma Madona, cujos olhos expressavam uma grande profundidade de conhecimento, um amor imenso, que gostaria de ter podido registrar, definitivamente, em minha memória essa viva imagem da compaixão. Vi também uma jovem senhora muito bonita, alegre e borbulhante de felicidade, que ria como se fosse uma garota (ela ria com os olhos), porém em seu riso havia um poder enorme. Shri Mataji disse: “A Kundalini se eleva e seu sistema nervoso parassimpático é ativado. Você não precisa fazer nada, a não ser saborear a experiência sem despender nenhum esforço. O processo de seu segundo nascimento é Sahaja, espontâneo”. Ela se tornou pensativa e continuou: “Sua Kundalini é sua verdadeira mãe espiritual. Você é seu único filho. Ela o acompanhou em todas as suas ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 43 vidas passadas, registrando todas as suas ações, boas e más. As conseqüências de seus erros repercutem sobre seus Chakras, danificando-os. É preciso algum tempo para purificar seus Chakras”. Procurei não perder nenhuma fração do que via e ouvia. Eu não estava sob hipnose ou sob o efeito de sugestão, porque o sentimento de minha própria identidade era, simultaneamente, mais rico e mais intenso. A noção de que eu sou foi enriquecida por uma evidência irrefutável. Ademais, me sentia livre para sair do silêncio, por isso meu intelecto conservava toda a sua mobilidade: ‘é isso mesmo? Quem é ela? Como é que ela faz isso? Será que poderei me manter nesse estado?’ Mesmo porque, me dei conta de que havia penetrado num estado absolutamente diferente daquele no qual me encontrava antes de me defrontar com Shri Mataji, o qual agora parecia ter removido vários séculos no tempo. Essa energia, que sentia em minhas mãos sob a forma de frescor, me levou a um novo estado de percepção. Fisicamente,me sentia maravilhosamente bem. Em meu interior, havia sido aberta uma nova dimensão mais completa da consciência, uma profundidade de paz onde a atenção permanecia alerta. Era como se o simples fato de eu existir se tornasse uma irradiação de bem-estar físico e de alegria. Sem dor alguma, me encontrava do outro lado do rio que, em vão, tentara atravessar. Esse novo estado de consciência impunha-se aos meus sentidos e ao meu espírito com uma evidência imediata. Tratava-se de uma experiência tão integrada, que eu não podia dizer se a alegria era sentida fisicamente e o bem-estar era percebido psiquicamente, ou o contrário, pois meu ser estava unificado com aquilo que os velhos livros chamavam de bem-aventurança. “It is done...” ou “está feito...”, disse Shri Mataji com um riso estrepitoso e feliz, enquanto fazia uma série de gestos a fim de levantar, novamente, minha Kundalini, amarrando-a no topo de minha cabeça. Toda a sala vibrava com uma energia pura que me encheu de um grande sentimento pelo sagrado. “Isa Vasiam Sarvam...” ou “tudo se O ADVENTO 44 reveste de Deus...”, afirma o primeiro verso do Isha Upanishad. Seus braceletes de vidro tilintavam e o som que chegava aos meus ouvidos parecia de um carrilhão da Páscoa. Novamente, olhei para ela, ao mesmo tempo, tão próxima e tão distante, uma combinação desconhecida do poder com a doçura. Ela parecia estar muito feliz e disse: “Vamos comer, porque já é tarde”. Certamente, havia perdido toda a noção de tempo. A qualidade do jantar sugeria que Shri Mataji prodigalizava ‘os alimentos celestes’ e os alimentos terrestres com a mesma generosidade. Durante os dias seguintes, em Surrey, compreendi que havia saído daquele estado maravilhoso e que era incapaz de mantê-lo, permanentemente. Um mundo de opacidade, sensação de calor e de agitação substituiu aquele mundo de transparência e de tranqüilo frescor que eu havia conhecido. As antigas dúvidas e os velhos medos se apossaram de mim novamente. Senti várias dores físicas e leves sensações de calor, as quais vinham, muitas vezes, com pensamentos ou com a proximidade de alguém. Pela graça do acaso, o deus caprichoso que Shri Mataji parecia conhecer e controlar como um animal doméstico, tive a oportunidade de passar uma semana em sua companhia. Era uma oportunidade da qual realmente eu necessitava. Os excessos de meu estilo de vida haviam me prejudicado física e mentalmente. Havia deixado que minha atenção se perdesse em recantos e antros sujos. Não sabia como me limpar. Muitas questões pululavam em minha cabeça: ‘serei capaz de levar isso adiante? Quem é exatamente Shri Mataji?’ A resposta à segunda pergunta seria a chave para a primeira, porque eu sabia, perfeitamente, que uma pessoa comum não seria capaz de me transformar e me salvar. Certa vez, durante uma viagem de trem entre Hurst Green e Londres, perguntei-lhe: “Shri Mataji, quem é a senhora realmente?” Com um êxtase infinito, ela fechou seus olhos. Mais uma vez, um silêncio profundo e completo caiu sobre mim. Minhas pálpebras fecharam-se por si mesmas. Deixei-me absorver pela intensidade da existência, evidenciando- ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 45 se, assim, minha própria divindade. Apenas os solavancos do trem faziam com que me sentisse revestido por um invólucro físico. Mais tarde, reabri meus olhos. Shri Mataji olhava para mim. Aprendi a afagar a ternura que emanava de seus olhos. “Essa é a resposta: sou o silêncio”. Mantive-me calado até a estação Victoria. Na estação, a multidão apressada, que andava em círculos, me pareceu separada de mim apenas por uma membrana invisível. Parecia que caminhava a alguns centímetros acima do solo. Entretanto, ninguém prestava atenção em mim, minha aparência estava provavelmente normal, vale dizer, tinha a aparência de um ser humano comum. Sentia um grande amor por todas essas pessoas. O que é que lhes acontecerá? Será que elas também sentirão o segredo de sua própria profundidade? Ao ler essas linhas, poderia crer que isso indicaria: ‘aqui cheguei e aqui permanecerei’. O que significaria que havia alcançado meu objetivo e que poderia me deleitar com seus benefícios. No entanto, não era essa minha situação, porque, provavelmente, fui um dos casos mais difíceis apresentados à Shri Mataji. Isso porque, infalivelmente, meu circo mental recomeçava sempre a me atormentar. O paraíso perdido, reencontrado e perdido novamente. Quando o reencontrava, me sentia estranho e dizia para mim mesmo: ‘como é que pode ser tão simples?’ Todavia, por causa de uma indagação ou de uma dúvida, voltava a perdê-lo. Shri Mataji sabia disso e me disse: “Você é como uma pessoa num barco, num mar encapelado, que se agita em cada momento em que o barco ameaça virar. É preciso que me ajude. É necessário que seja mais estável”. Pretendia, com toda a certeza, contribuir ao máximo, pois compreendi que Shri Mataji estava tentando me libertar dos liames invisíveis que me mantinham prisioneiro. Depois que minha Kundalini se elevou pela primeira vez, ela decuplicou minha capacidade de pôr a atenção em meu interior. No entanto, resistia a fazer isso, porque pressentia as zonas obscuras existentes em mim cobertas de coisas malignas que me O ADVENTO 46 aterrorizavam. Sempre que tentava fazer com que essas imagens negativas emergissem, elas saltavam em minha mente, como gatos selvagens, com o pêlo eriçado, prontos para pularem em meu rosto. Assim sendo, comecei a ver imagens obscuras e sangrentas, a face de um falso guru e todas as lembranças de minhas leituras e de meu passado vieram à tona. Idéias absurdas passavam por minha mente, idéias de morte e de suicídio, dúvidas e medos que tentavam apossar-se de mim: ‘é muita presunção sua querer a Auto-realização’ ou ‘desconfie de Shri Mataji’. Apesar disso, não me entreguei ao desânimo. Mantendo minha mente lúcida, sabia que, nesses momentos de agitação e de mal-estar, não era inteiramente eu. Sentia-me atormentado por algo sujo, algo que queria minha perdição e que contrastava - como a luz se contrapõe à sombra - com a consciência serena e alegre de minha identidade transfigurada quando minha Kundalini ascendia. Era realmente, nesses momentos, que minha verdadeira identidade e minha verdade autêntica emergiam, adornadas com as qualidades da bondade. Não podia me identificar com essas sombras escuras existentes em mim, essas coisas turbulentas e maléficas que não sabia de onde surgiam, que se pavoneavam como ceifeiros inflexíveis, que me aterrorizavam, me atacavam e transformavam minha psique num campo de batalha. Quando tomava pé novamente, auxiliado por um pouco de senso de humor (encorajado nisso, constantemente, por Shri Mataji, pela sua ajuda e sua bondade) me via um pouco como numa cena de um desses grandes torneios da Idade Média, ladeado pelas portas do céu e do inferno. Eu era, simultaneamente, o próprio drama, o cenário e o ator que andava de um lado para outro. Felizmente, comecei a compreender o papel que estava representando. Com minha entrada na consciência total, vi, em mim mesmo, tudo aquilo que havia para ser descoberto ali : o céu e o ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 47 inferno. Minha primeira vitória, nesse campo de batalha, foi a de compreender que bastava identificar, resolutamente, minha atenção (de início, completamente fragmentada) com a bondade irradiante do Si. Quando fazia isso, conseguia ser vitorioso. No que se refere a isso, Shankaracharya esclarece, conforme consta do livro Hymnes et Chants Védantiques (ed. Michel Allard): “O Si é uma realidade constantemente presente, mas a ignorância o transforma num objetivo a ser alcançado... Quando a ignorância é destruída, o Si aparece como se nunca tivesse estado ausente, tal como um colar que está em nosso pescoço e que julgávamos ter perdido.” Medianteminha Auto-realização, vivenciei a santidade, a plenitude e, sobretudo, a realidade. Sim, é isso que sou verdadeiramente. “Vejo em você o diamante”, foi um encorajamento premonitório de Shri Mataji. Eu não era essa sombra funesta que havia conseguido parasitar meu psiquismo e que queria fazer com que me chafurdasse em seu lamaçal. Eu também não era aquele lamaçal. Shri Mataji acompanhou, passo a passo, essa minha batalha interior. Explicou-me como era o campo de batalha e definiu a estratégia a ser seguida: “Obter a Auto-realização é como acender a luz num quarto escuro. Logo após a luz ter sido acesa, fica muito mais fácil ver em que estado está, bem como arrumá-lo e limpá- lo. Quando você se identifica com o Si, é fácil verificar o que não está funcionando bem em você e corrigir isso, sem se culpar de nada, porque não mais se identifica com suas fraquezas ou com seus acidentes de percurso. Quando uma vestimenta está maculada por manchas, você a tira e a limpa. Hoje, pode fazer a mesma coisa com sua vida psíquica. Não há necessidade nenhuma de chorar ou de se lamentar por causa disso!” O ADVENTO 48 A água que lava tudo é a Kundalini, ou ainda, as vibrações, cujo frescor vivificante purifica. Shri Mataji me submeteu a várias sessões de ‘terapia vibratória’ e direcionava a energia para meus centros mais necessitados, isto é, ao fígado, ao estômago e à garganta. Um dos momentos mais terríveis durante o processo de redenção, do qual me lembro, aconteceu no pequeno templo na casa de Shri Mataji. Não conseguia sentir as vibrações e me senti verdadeiramente desesperado, moído, refém das garras de demônios infernais. Shri Mataji me disse: “Peça perdão a Shri Ganesha”. Isso porque, na tradição da Índia, Shri Ganesha, o Deus de cabeça de elefante, simboliza o aspecto de Deus que incorpora a pureza e a inocência. Estendi-me no chão, com o ventre para baixo, diante de uma estátua de madeira de Shri Ganesha, pertencente a Shri Mataji. Estendi meus braços, abri minhas mãos e pedi perdão. Finalmente, entendi que, por não ter respeitado minha castidade e a dos outros, chegara ao estado lastimável em que me encontrava. Foi um momento em que, suspenso entre a perdição e a salvação, senti, fortemente, todo o peso do meu destino na balança. Paulatinamente, as vibrações frescas começaram a jorrar da estátua. Eu havia sido perdoado! Muitas vezes, mesmo agora, me sentia como uma taça quebrada incapaz de reter a água da vida que banhava a atmosfera em torno de Shri Mataji. Porém, desde aquele dia, cada vez em maior medida, recuperei a confiança em mim mesmo. Dei-me conta de que as forças invisíveis do mal existem, e descobri também que, no mundo invisível, movimentam-se forças protetoras que auxiliam nossa ascensão. Uma bela manhã, Shri Mataji resolveu me mostrar seus sáris. É uma das características de seu estilo inimitável alternar, com uma total desenvoltura, a coisa fútil e a coisa séria, ou pelo menos aquilo que nos parece dessa forma. Ela abriu seu armário e, com um gesto amplo, colocou seus sáris sobre sua cama. Eram de algodão, batiques, de sedas chamejantes, avermelhados ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 49 ou castanho-dourados, estampados com mil motivos que ilustravam a imaginação e a delicadeza de seus criadores, humildes artesãos dos vilarejos da Índia. Havia sáris vermelhos mesclados de fios de ouro (apanágio de uma mulher casada) e também, brancos bordados de vermelho, com os quais Shri Mataji se veste durante suas meditações. Havia sáris verdes mutáveis como o mar e da cor turquesa; aqueles que uniam o violeta profundo ao amarelo-ouro, ou associavam o salmão à prata. Havia todas as combinações de tecidos, de desenhos e de cores que alguém poderia imaginar. Enlevado por um deleite, que julguei ser puramente estético, percebi que cada sári, que ela me mostrava, me envolvia numa onda de vibrações. Saí do quarto completamente aturdido, quase inebriado. Se aquilo que se poderia chamar de meu segundo nascimento abrangia uma formidável batalha, eu não tinha consciência desse seu rigor. Certos episódios foram até muito divertidos. Freqüentemente, era alçado para cima da refrega, como uma testemunha desapegada e, por assim dizer, eterna, imersa na consciência-silêncio. Nesse estado de testemunha, no qual a lucidez clarificava todos os aspectos de meu teatro interior, fiz uma grande descoberta. Percebi que, ao longo de minha vida, e mesmo depois de minha Auto-realização, havia depositado uma total confiança naquele que julgava ser meu melhor amigo. Porém, com base numa análise mais acurada, ficou claro para mim que esse indivíduo trava a sua própria luta e não a minha. Ao fazer isso, o seu objetivo é, simplesmente, o de ocupar meu lugar. Trata-se de um jogo muito sutil, dissimulado por um senso magistral de camuflagem, pelo qual esse malandro me fazia quase acreditar que seus objetivos eram os meus. Talvez já adivinharam que desmascarei meu próprio ego. Aquele que me fazia correr, que me tornava agressivo ou dominador, que preferia ficar totalmente perdido a aceitar auxílio de quem quer que fosse. Isso porque o senhor ego percebe a graça divina como ‘o O ADVENTO 50 outro’, como algo estranho a ele. A coisa mais importante para ele é um ‘eu’ impecável. O ego é seu próprio deus. ‘É verdadeiramente colossal, Mãe,’ disse à Shri Mataji. Fiquei realmente perplexo com tudo isso. Shri Mataji riu e me disse: “Enquanto você o encarar pelo que ele é, ele não poderá feri- lo. Ria gentilmente de seu ego e ele se esvaziará. Não lute nunca contra seu ego”. Essa descoberta me ajudou muito a entender minhas reações e as de tantos intelectuais de minha geração em relação à Sahaja Yoga. A preponderância do ego é confirmada pelo método que utilizamos para examinar tudo e para duvidar de todas as coisas. É o ego que direciona a análise e tira as conclusões, supervisionando, firmemente, nosso intelecto. Porém, ao ser confrontado com uma experiência igual à Auto- realização, o ego fica perplexo. É ao Si que pertencem os refletores da cena e é graças à Shri Mataji (e não ao ego) que acontece a experiência da Auto-realização. Depois disso, o ego tenta voltar ao assento do dirigente, rejeitando os fatos, evitando a experiência e negando o papel de Shri Mataji. Pela tradição de minha família, por causa de meu temperamento e devido à minha educação, pertenço àquela categoria de pessoas fortemente identificadas com seu ego, daquelas pessoas que dizem: ‘eu, eu mesmo, por mim mesmo’. Por um longo tempo, meu ego tentou suprimir minha nova percepção espiritual sobre a qual ele não tinha nenhum controle, e flutuava, questionando e duvidando, como uma cortina de murmúrios, entre a minha atenção e o Si. Novamente, as nuvens começaram a esconder o Azul Paradisíaco. Foi, sem dúvida, essa a razão pela qual fui tão lento na estabilização de minha Auto-realização. Meu progresso na Sahaja Yoga (o que resta para lhes contar) seguiu um ritmo um pouco titubeante, ou seja, eu dava quatro passos para frente, dois para trás, três para frente, quatro para trás... Quando era incapaz de voltar ao estado realizado, começava a fazer indagações. Progressivamente, Shri Mataji ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 51 ganhou minha admiração pela amplitude de seu conhecimento. Ela sabia tudo sobre minhas dificuldades pessoais e também estava a par de todos os problemas da sociedade moderna. Ao seu conhecimento acerca do espírito e do cosmo, cujos limites ignoro, soma-se um saber completo e detalhado do ser humano em sua vida cotidiana, com sua série de desafios concretos e pequenas preocupações. Ela explica a importância única do momento histórico em que estamos vivendo: “Chegou o tempo certo”, para que muitos seres humanos saltem para uma nova dimensão. ‘Mas Shri Mataji, como é que é possívelque isso seja tão simples?’ “Tudo aquilo que se manifesta na natureza é simples. Como os brotos que saem do solo na primavera, como as flores da árvore se transformam em frutos. De uma simples semente crescerá uma árvore, isso é um milagre fantástico! Já refletiram sobre isso? O processo da vida é Sahaja, espontâneo. Se tivessem sido obrigados a ir à escola para aprender a respirar, poucos, dentre vocês, teriam sobrevivido. Se as aves tivessem que consultar os tratados dos sábios para aprender a voar, não teriam jamais aberto suas asas. O mesmo ocorre com seu segundo nascimento. Chegou o momento do segundo nascimento, o tempo em que devem receber sua Auto-realização. Essa etapa da evolução foi profetizada por todas as encarnações e pelos grandes sábios. Quando o pintainho se agita dentro da casca do ovo, pronto para quebrá-la, a galinha o ajuda com seu próprio bico. Eu não faço nada além disso. Aceitem sua Auto-realização... e voem!” Shri Mataji chamou a atenção para o simbolismo da festa da Páscoa, em que as pessoas quebram os ovos a fim de celebrar a ressurreição. “Mas, Shri Mataji, a senhora fala do poder da Natureza. É esse o mesmo poder que a senhora manifesta com essas vibrações?” “Formule a pergunta,” disse-me ela. O ADVENTO 52 Estendi minhas mãos em direção a ela e fiz a pergunta: ‘Shri Mataji, a senhora está em harmonia com a natureza?’ Senti uma brisa fresca em minhas mãos. Fiz muitas perguntas cuja amplitude poderia sugerir que ficassem sem respostas. A resposta ‘sim’ era sinalizada por uma brisa fresca. A honestidade intelectual me obrigava a registrar essas experiências, apesar de minhas dúvidas. Era como um terminal de computador conectado a um outro computador central, ou melhor, como disse Shri Mataji, eu mesmo era o computador conectado à fonte de energia que começava a funcionar. As informações se precipitavam dele. Tudo que tinha de fazer era manter minha cabeça fria e decodificar a informação. Se minha cabeça, algumas vezes, ficava quente, meu coração estava ainda muito entorpecido. Isso era lastimável, porque o reconhecimento (do Divino) só pode ocorrer por intermédio do coração. A propósito da decodificação, durante minhas viagens para Londres, me dei conta de que meu sistema nervoso começava a registrar, sob a forma de sensações, as mensagens ou vibrações que provinham de outras pessoas. São particularmente sensíveis os sete Chakras e as partes da mão correspondentes a eles. Na presença de uma pessoa embriagada, sentia uma dor no Manipura (ou Nabhi) Chakra, que fica na altura do umbigo. Um intelectual com a cabeça um pouco febril de pensamentos me transmitia uma forte pressão na fronte, no nível do Agnya Chakra. Levava horas para me recuperar dessas dores absorvidas de outras pessoas, e por isso não podia ser muito grato a elas. Reciprocamente, um outro Sahaja Yogi podia fixar sua atenção em mim, sentir em que ponto a energia estava bloqueada em minha coluna vertebral, e detectar quais eram os Chakras afetados. Em outras palavras, essa nova “consciência perceptiva vibratória” me informava a respeito de mim mesmo e dos outros. Shri Mataji disse: “Você está começando a entrar na consciência coletiva. Terá consciência não só de seus próprios Chakras, mas também dos Chakras dos ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 53 outros”. Era como se minha consciência não estivesse mais restrita aos limites da individualidade, e pudesse voar livremente pelo universo. Com base nas vibrações, descobria meu estado psicossomático e o dos outros. Por exemplo, na casa de Gavin Brown, um dos primeiros Sahaja Yogis ingleses, na companhia de alguns amigos tentamos elevar a Kundalini de um médico. Tive uma sensação de calor no dedo anular da mão esquerda que corresponde ao Agnya Chakra. Esse centro controla, dentre outras coisas, os olhos. Comuniquei isso ao médico e ele me olhou atônito.“Você está certo. Tenho um problema de visão em meu olho esquerdo”. Uma outra vez, pensei numa criança, acerca da qual Shri Mataji havia dito que era realizada e minha cabeça se encheu de uma sensação borbulhante de bem-estar. Dessa forma, essa nova dimensão de consciência não só me levou até o âmago de meu ser, mas também se estendeu para fora de mim, captando, com a mesma qualidade, a profundidade dos seres, dos lugares e das coisas. E agora que estou conectado com esse mundo vibratório, meu corpo age como um agente catalisador dessa energia. Aprendi, efetivamente, sempre pela experiência, que meus gestos emitiam vibrações e que eu também podia, com algumas exceções, levantar a Kundalini dos outros, por meio de gestos extremamente simples. Isso era espantoso! Havia recebido duas dádivas, num único presente, não só minha Auto-realização, mas também o poder de transmiti-la aos outros. A realidade é sempre mais surpreendente que a ficção dos escritores esotéricos, parapsicólogos, milenaristas, ufologistas e todos aqueles que se extraviaram do caminho e que esperam confusamente, sem nenhuma orientação, o final dessa era e o início de uma nova Idade de Ouro. Sentia- me como um garoto que engatinhava no grande laboratório da vida, o qual manipulava com precaução esses raios de energia recém-descobertos e que, de tempos em tempos, olhava para sua mãe, a fim de se certificar de que não estava cometendo erro algum. O ADVENTO 54 Shri Mataji fez com que vivenciasse experiências muito preciosas, verdadeiras pérolas que conferiram à minha Auto- realização uma consistência deveras indubitável, apesar de meus altos e baixos, em meio aos meus momentos de estabilidade e de meus mergulhos. Narrarei aqui apenas a mais emocionante delas. Tinha de deixar Shri Mataji a fim de retornar à Suíça. Isso me fez compreender que ela havia se tornado muito relevante para mim. Não como um psiquiatra deve ser para seu paciente, mas como alguém que irradiava verdadeiramente um amor imenso. Senti que a tristeza da separação estava se apossando de mim. Ainda não acreditava em minha capacidade de manter sozinho minha realização, num meio ambiente que ignorava minha busca e que faria chacota da experiência que eu havia vivido com tanta intensidade. Shri Mataji estava sentada num sofá, a alguns centímetros de minha cadeira. Disse-me: “Não fique triste”, e fez um gesto com a mão. Nesse exato momento, algo como um jorro de graça ou uma enxurrada de indescritível felicidade ou uma energia borbulhante começou a fluir do alto de minha cabeça e irrigou todo meu sistema nervoso atingindo as mais distantes terminações nervosas. Era algo como a ambrosia, ou o néctar, ou Amrut, a respeito do qual havia lido em textos sagrados. Por exemplo, do Chandogya Upanishad consta que: “No mundo de Brahman (ou o Absoluto), existe um lago cujas águas são como o néctar e todo aquele que dessas águas beber ficará, imediatamente, inebriado de alegria. Nas praias desse lago, poderá ser encontrada uma árvore que produz o elixir da imortalidade.” A respeito desse néctar, Kabir escreveu vários versos: ”Bebi da taça do infinito, encontrei a chave do mistério, toquei as raízes da União...” “Nessas margens,existe uma cidade onde nunca cessa de chover néctar...” ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 55 “Experimentei a doçura do néctar e, sem que bebesse água, minha sede foi satisfeita.” Fui pego de surpresa por essa súbita irrupção de energia. Desfrutei, com cada fibra de meu ser, do êxtase em todas as minhas células. Tratava-se de um êxtase de tal intensidade que não podia ser comparado, nem sequer, ao maior prazer físico sentido num intercurso sexual. Num estado de veneração, me sentia como uma criança palpitante de inocência sagrada. Ó, rei Davi, eu cantava na presença dos anjos, me prosternava no templo do Senhor. Santo é Seu nome! Grande é a glória do Eterno! Ele ungiu minha cabeça. Minha taçatransbordava. Sublime era a alegria em que Tu me banhavas! Será que parei de respirar? Eu não sabia. Shri Mataji disse: “Meu filho, não é preciso ter medo”. Ela fez um outro gesto com a mão e o fluxo de ambrosia parou de jorrar. Essa experiência me tirou o fôlego. Shri Mataji me havia dado provas de seu absoluto controle sobre a manifestação da verdade espiritual mais sacrossanta. Sem desprezar a fatal incredulidade do leitor, posso afirmar que um tal poder não pode ser próprio de um ser humano comum. A partir daquele momento, passei a ter Shri Mataji na mais alta conta, e com uma espécie de temor reverencial que envolve Deus, às vezes terrível, do Antigo Testamento. Isso porque, nessa semana inesquecível, tive uma visão de uma das formas de Shri Mataji, que me fez sentir um misto de terror e deslumbramento (essa será a última menção que farei sobre esse período). Tive várias visões celestiais e muitos sonhos. Por exemplo, ouvi um coral de anjos celestiais cantando em meu Sahasrara Chakra. Em outra ocasião, desci, sem muito desconforto, aos infernos, por intermédio do subconsciente. Para que este livro não se torne muito volumoso, abandonarei aqui sua forma autobiográfica e tentarei explicar, um pouco melhor, a natureza da experiência por mim vivida e O ADVENTO 56 extrair a essência de tudo que pude apreender durante os anos que se seguiram. Primeiramente, importa compreender que a Auto- realização, na Sahaja Yoga, representa uma etapa decisiva no desenvolvimento espiritual do ser humano. Esclareça-se que, nesse livro, a expressão ‘Auto-realização’ (ou Realização do Si) corresponde à etapa espiritual de abertura do Brahmarandhra, no topo do Sahasrara Chakra. Os exemplos de Auto-realização (Moksha, Samadhi) mencionados pelas antigas tradições diziam respeito a indivíduos raros, santos da mais alta qualidade que, após um intenso trabalho de purificação dos Chakras, durante várias vidas sucessivas, atingiram o ponto de abertura do Sahasrara Chakra. Logo, a purificação vinha antes e a Auto-realização em seguida. Esse era o único método conhecido e ele, geralmente, implicava uma ascese ou um isolamento daquilo que o Eclesiastes chama de mundo. Na Sahaja Yoga, acontece o inverso, isto é, a Auto- realização acontece antes e a purificação vem depois. Somente essa fórmula torna possível a Auto-realização para os habitantes das cidades modernas. Shri Mataji tornou isso viável, porque como ela disse: “Na árvore da vida, chegou o tempo da floração,” ou ainda, em termos mais próximos da terminologia do Apocalipse: “vivemos num tempo de extrema premência. É importante, para todos aqueles que buscam a Auto-realização, obtê-la sem mais tardar”. É evidente que, para um grande número de pessoas, a percepção da experiência não será a mesma sentida por Buda, por exemplo, que se purificou totalmente e imergiu, definitivamente, na bem-aventurança do verdadeiro Si. Precisamos de tempo para que possamos reconhecer a amplitude daquilo que nos aconteceu e para nos libertar de nossos condicionamentos acumulados. Ademais, os problemas criados por um estilo de vida imoral, pelas drogas, pelas doenças, etc., retardam o progresso da nova consciência. Posso testemunhar ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 57 tudo isso com base em meu próprio desenvolvimento. Todavia, com paciência e determinação, poderemos usar as várias técnicas da Sahaja Yoga para nos auxiliar nesse processo. Foi o que fiz...e funcionou. Efetivamente, devem apenas colocar-se nas melhores condições, a fim de permitir que o despertar da Kundalini manifeste seus efeitos regeneradores. A Kundalini desempenhará seu papel regenerador com a espontaneidade de uma força viva com uma grande ternura. Shri Mataji explica: “Sua Kundalini nada mais é que sua Mãe espiritual. Cada ser humano é seu único filho. Ela esperou pacientemente, ao longo de todas as suas vidas, o momento de sua manifestação, o momento em que ela pudesse introduzi-los na alegria do Divino. Ela não poderá feri-los nem prejudicá-los, mas se dedicará, gradualmente, a curar seus corpos físicos e a purificar seus Chakras”. Shri Mataji coloca sempre a seguinte questão, quando fala a respeito da Kundalini: “Podem conceber uma energia que pensa, organiza, ama e compreende?” A resposta é provavelmente não, contudo podemos compreender que nosso papel é, com absoluta liberdade, permitir que a Kundalini possa agir. É claro que a melhoria de nosso poder de discernimento e de nossa consciência perceptiva vibratória nos ajuda grandemente a pensar e a agir, em consonância com a linha de nosso desenvolvimento espiritual, todavia permanecemos completamente livres. Livres para tornar estável nossa Auto- realização e para evoluir. Livres para regredir e perder nossa Auto-realização. Os casos de regressão são raros, mas existem. Em outros termos, nossa Auto-realização e a atividade subseqüente da Kundalini se manifestam espontaneamente, vale dizer, pela atuação da graça divina. Entretanto, após essa etapa inicial do primeiro despertar, compete a nós tornar possível a continuidade dessa manifestação. Shri Mataji jamais se cansa de repetir que: “A Sahaja Yoga pode ligar o motor de seu carro. Pode até mesmo repará-lo, se isso for necessário. No entanto, O ADVENTO 58 cabe a você dirigir o carro, usar o freio e o acelerador. Isso é o que deve aprender a fazer”. Para todo aquele que se engaja em exercícios espirituais, sem antes ter obtido sua Auto-realização, Shri Mataji diz, simplesmente: “De que lhe serve dirigir um carro parado? É preciso primeiro dar a partida no carro e essa partida se produz sem nenhum esforço”. Subjacente à simplicidade dessa partida, tão singela porém tão necessária (se a respiração fosse algo complicado, não estaríamos aqui), existe um mecanismo (Yantra) de extrema complexidade. As características principais do microcosmo humano são reproduzidas na figura 4. As manifestações físicas e localizações dos Chakras estão contidas no quadro 1. A árvore da vida da qual comerão os vitoriosos (Apocalipse, 2.7), cujas folhas curarão as nações (Apocalipse, 22.2), compõe-se de um tronco formado por três canais de energia, ou seja, o Sushumna Nadi em seu centro, ladeado à direita pelo Pingala Nadi e à esquerda pelo Ida Nadi. Os Chakras, que são centros de energia, são os frutos dessa árvore. Falando de forma ampla, os três Nadis e os sete Chakras principais se manifestam sobre o plano psicológico por intermédio do sistema nervoso. A zona descrita como o Void (vazio) não deve ser confundida com o vazio dos zen-budistas, o qual no caso deles se refere, de fato, ao estado de consciência-silêncio. O Void, na Sahaja Yoga, corresponde ao estado de confusão habitual do ser humano (oceano de ilusão, Bhava Ságara), que só poderá ser purificado pela passagem ascensional da Kundalini, através dessa parte do corpo. A Kundalini, alojada no osso triangular do plexo pélvico, ali aguarda o momento sacrossanto de seu despertar. O Atman (o Si, o espírito) espera que a Kundalini venha a se unir a ele, trazendo com ela nossa consciência. A essa união redentora corresponde a identificação de nossa atenção com aquilo que é divino em nós. Shri Shankaracharya (em seu texto Vivekachundamani) foi o intérprete dessa canção: ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 59 “O Si supremo é sempre da mesma natureza do conhecimento eterno, indivisível, o Um sem um segundo número, a testemunha do intelecto e do resto, distinto do grosseiro e do sutil, o significado subjacente ao termo e à idéia do ‘Eu’, a essência da bem-aventurança interior, eterna.” O momento da Auto-realização compreende a ascensão da Kundalini no interior do Sushumna, que atravessa a região do Void (vazio), para, finalmente, penetrar o topo do crânio (Brahmarandhra), e a conexão se faz com a energiadivina onipresente. O ADVENTO 60 FIGURA 4. O MICROCOSMO HUMANO CHAKRAS e Osso Sacro LOCAL NO CORPO MANIFESTAÇÃO NO NÍVEL FÍSICO (DESCRIÇÃO GERAL) 7. SAHASRARA CHAKRA (1.000 PÉTALAS) ÁREA LÍMBICA DO CÉREBRO VIBRAÇÕES 6. AGNYA CHAKRA (2 PÉTALAS) CRUZAMENTO DO QUIASMA ÓTICO GLÂNDULAS PINEAL E PITUITÁRIA 5. VISHUDDHI CHAKRA (16 PÉTALAS) PLEXO CERVICAL PESCOÇO, BRAÇOS, BOCA, NARIZ, OLHOS OUVIDOS 4. ANAHATA OU RIDDHAYA (12 PÉTALAS) PLEXO CARDÍACO CORAÇÃO, PULMÕES 3. NABHI OU MANIPURA CHAKRA (10 PÉTALAS) PLEXO SOLAR FÍGADO (PARTE), ESTÔMAGO 2. SWADISHTHANA CHAKRA (6 PÉTALAS) PLEXO AÓRTICO SEXO (PARTE), RINS, ELIMINAÇÃO, PARTE DO FÍGADO, BAÇO, PÂNCREAS, PARTE INFERIOR DO ABDOME 1. MULADHARA CHAKRA (4 PÉTALAS) PLEXO PÉLVICO SEXO, ELIMINAÇÃO MULADHAR (OSSO SACRO - CÓCCIX) SISTEMA NERVOSO PARASSIMPÁTICO (ADORMECIDO) Shri Mataji comenta: “A partir do momento da Auto- realização, nos tornamos integrados. Deus é integração. Ele os integrará de tal maneira, que vocês não mais poderão se desintegrar correndo atrás de prazeres fúteis, com o coração de um lado, e o cérebro de outro”. Tornamo-nos unificados com a energia cósmica divina, a qual podemos perceber agora em nosso sistema nervoso, por intermédio das vibrações frescas. Estamos agora integrados com nosso interior e dali podemos sentir todos os Chakras. Repetidas vezes, eu mesmo percebi o O ADVENTO 62 despertar de minha Kundalini, como um frescor prazeroso, na base de minha coluna vertebral. Outros Sahaja Yogis tiveram experiências completamente diferentes. O doutor Chavan, professor da Faculdade de Agricultura de Rahuri, ouviu o som da Kundalini perfurando a membrana da fontanela. Um outro se recorda de uma sensação de frescor no alto de seu crânio, inundando de felicidade toda a extensão de sua coluna vertebral. Um outro ainda, tendo fechado seus olhos, viu movimentos elípticos de luz partirem de seu Agnya Chakra, que conferiram uma claridade e uma leveza extremas ao interior de sua cabeça. Todos esses eventos diferentes fazem parte de uma só história descrita por Juan Mascaro, na ‘Introdução’ de seu livro “The Bhagavad Gita” (ed. Penguin,1978): “Se lermos as escrituras e os livros de sabedoria do mundo, se considerarmos as inúmeras experiências espirituais consignadas nos textos antigos, encontraremos uma única fé espiritual, e essa fé se baseia numa visão da Verdade. Certamente, não é a verdade das leis da natureza gradualmente descobertas pelo espírito humano, porém a Verdade de nosso Ser.” Muitos Sahaja Yogis guardam uma lembrança precisa do momento em que foram apresentados a si mesmos. Eleanore, uma jovem senhora diplomata, sentiu sua Kundalini dançar de alegria, em sua coluna vertebral, ao esperar Shri Mataji no aeroporto. Christine, estudante americana que vive em Londres, relata: “Comecei a me sentir cheia de alegria alguns dias antes de encontrar Shri Mataji. Eu estava - não sei como dizê-lo - muito feliz simplesmente pelo fato de existir. Eu a vi, pela primeira vez, num apartamento de uma amiga. Quando ela entrou, senti um formigamento nas palmas de minhas mãos e depois uma brisa fresca. Senti em paz completa comigo mesma, completamente presente. Foi um segundo nascimento. Tudo era novo.” ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 63 Rajbai J. Modi, um dos primeiros Sahaja Yogis, narra sua vivência: “Minha experiência pessoal do despertar da Kundalini aconteceu na primeira semana de janeiro de 1972. Shri Mataji, durante alguns segundos, tocou meus seis plexos, e uma força poderosa começou a saltar de plexo em plexo, para finalmente atingir o cérebro. Durante esse período de tempo, entrei cada vez mais profundamente em Dhyana (meditação, contemplação) e experimentava sensações agradáveis em meu corpo inteiro. Não podia abrir meus olhos. Meu corpo estava mais quente. Parecia que eu estava, ao mesmo tempo, anestesiado e completamente consciente. A meditação se prolongava. Mais tarde, tive uma outra experiência de Dhyana ainda mais interessante e mais profunda. No dia 27 de janeiro de 1972, em Bordi, um grupo permaneceu com Shri Mataji após o programa público. Ela me disse para fechar os olhos e tocou meu Sahasrara. Após alguns segundos, exclamou: “Realizado!” Ela me pediu que começasse a pensar, coisa que não pude fazer nem por um breve instante. Depois, fui dormir. Na manhã seguinte, um velho estava com uma leve dor no coração e tentei lhe dar algumas vibrações. Para minha grande surpresa, ele observou: ‘sinto-me bem melhor’. Foi assim que tudo começou e isso continuou desde então. Logo após minha Auto-realização, experimentei a sensação de um fluxo de energia. Shri Mataji pediu-me que desse vibrações a uma pessoa que havia vindo para receber sua Auto-realização. As vibrações que recebi dessa pessoa eram quentes. Shri Mataji disse-nos que havia uma fraca resistência para o despertar de sua Kundalini; as vibrações tornaram-se frias. Shri Mataji comentou que o poder corria agora pelo sistema nervoso simpático (Ida e Pingala Nadis) e o refrescava. Subitamente, sinto apenas as vibrações em uma das mãos. Shri Mataji fecha seus olhos, e, com seu poder de determinação (Sankalpa), equilibra o O ADVENTO 64 fluxo de vibrações. Abriu os olhos e indagou se eu estava sentindo o fluxo de vibrações em ambas as mãos. No momento em que disse ‘sim’, perguntou à outra pessoa se ela estava sem pensamentos. Esta concordou com um sinal de cabeça e disse que não podia abrir os olhos. Shri Mataji pediu-lhe que esperasse um pouco. Depois de dois minutos essa pessoa abriu os olhos. Seus olhos brilhavam com um fulgor diferente. Ela me disse que havia sentido um perfume muito forte de rosas e que havia visto uma luz muito forte. Quando lhe perguntei se estava sentindo as vibrações,disse que sim. Posso me lembrar de muitos outros casos semelhantes a esse.” A consciência coletiva é indissociável da consciência perceptiva vibratória. Em minha casa em Katmandu, Nepal, onde trabalhei para as Nações Unidas, podia, durante a meditação, saber o estado dos Chakras de qualquer conhecido meu em Genebra. A comunhão dos santos, o Sangha (comunidade) dos budistas se materializou numa experiência viva, pois, quando muitos seres realizados se juntam, a meditação de cada um se aprofunda, a consciência se intensifica e a energia circula com mais potência. Cristo não disse que estaria presente entre as pessoas que se reunissem em Seu nome? E Fausto de Goethe exclama: “Como tudo se agrega para formar um todo, como cada elemento age e vive no outro!” Quando vivemos a experiência da consciência coletiva, damo-nos conta de que o Ser reveste-se de uma extensão que ultrapassa os limites de nossa individualidade. Isso porque, no momento em que realizamos a experiência do Si, vivenciamos a experiência de sua ubiqüidade. Por exemplo, todo Sahaja Yogi dispõe de um poder de emitir a força vibratória divina (Chaitanya), por meio de seu corpo e de suas mãos. Ele dá, recebe e propaga as vibrações, pelo simples fato de manter sua atenção centrada em seu Sushumna Nadi. Sua dimensão ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 65 espiritual fica ligada, automaticamente, ao meio ambiente. Ademais, ele pode fazer um uso consciente de suas mãos para transmitir as vibrações aos outros e para fazer fluir a energia do Si, de maneira a desbloquear os Chakras de alguém que deseje isso, bem como despertar sua Kundalini. A figura cinco descreve em detalhes como nossa mão é conectada a nosso sistema psicossomático. FIGURA 5. AS TERMINAÇÕES NERVOSAS DOS CHAKRAS NAS MÃOS Dessa forma, cada um dos dedos ou cada parte da mão emite e recebe a vibração diferenciada do Chakracorrespondente. Esse procedimento somente é ativado após a Auto-realização e é percebido como sensações físicas no sistema nervoso. Em outras palavras, se algo não está bem física, moral ou espiritualmente, a pessoa torna-se imediatamente consciente, O ADVENTO 66 no plano físico. Por exemplo, ao perceber uma sensação de queimação no polegar esquerdo (correspondente ao Swadishthana Chakra esquerdo) ou uma leve pressão na garganta (correspondente ao Vishuddhi Chakra). A ciência da Sahaja Yoga existe para decodificar essas mensagens. Todavia, é suficiente indicar aqui os desdobramentos fantásticos de tudo isso. Temos a capacidade de discernir, espontaneamente, o bem do mal, em nosso sistema nervoso central. Os filósofos gregos afirmavam e os tomistas confirmaram que a equação da realidade deveria ser lida assim: SER = UM = BONDADE = BELEZA = VERDADE. Podemos dizer que o Si é o modo pelo qual o Ser se estabelece em cada um de nós. Após a Realização do Si (Atman), passamos a conhecer o Ser Cósmico (Paramatman). Com base nas vibrações, podemos ver que aquilo que vem de Deus tem vibrações frescas (positivas). Essas vibrações nos permitem vivenciar as qualidades do Divino, o que quer dizer que podemos senti-las e usufruir delas. Inversamente, as vibrações nas quais inexiste essa qualidade de frescor e que são registradas sob a forma de calor ou de peso nas mãos (portanto vibrações ‘negativas’, segundo a terminologia da Sahaja Yoga) não contribuem para a manifestação do Divino e até se opõem a ele. Podemos assim evitar essas vibrações negativas. Shri Mataji explicava-nos sempre, detalhadamente, o que acontecia: quando coloco um dedo no fogo, meu sistema nervoso me diz que a sensação que sinto é muito desagradável, e puxo meu dedo para fora, sem que haja necessidade de nenhuma teoria sofisticada para provar que o fogo queima. Os Sahaja Yogis desenvolvem esse tipo de ação espontânea reflexa, em relação a todas as espécies de ocorrências ao redor deles (emocionais, mentais ou espirituais), porque seu sistema nervoso autônomo (simpático e parassimpático) e seu sistema nervoso central foram integrados pelo despertar da Kundalini com a ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 67 consciência espiritual do Si, a qual conhece a bondade e a verdade de todas as coisas. “Aquele que conhece, medita e compreende essa verdade do Si, descobre que tudo que existe - a energia primordial, o éter, o fogo, a água e todos os outros elementos, o espírito, a vontade, a linguagem, os hinos sagrados e as escrituras - de fato, o universo inteiro, flui dele.” Chandogya Upanishad A experiência do Si é a experiência do Todo - essas palavras de ouro teriam agradado a Spinoza! Elas corroboram a dimensão das informações sensoriais sentidas pelos Sahaja Yogis, os quais estão conectados na consciência perceptiva vibratória do Si realizado. Assim sendo, os Sahaja Yogis têm à sua disposição a chave da consciência, pressentida por muitos filósofos, que está no âmago da realidade espiritual: “E assim, reconheço muito claramente que a certeza e a verdade de toda a ciência dependem apenas do conhecimento do verdadeiro Deus; de modo que antes de conhecê-Lo, não podia conhecer nada de modo perfeito.” Essa frase de Descartes, constante de seu livro “Meditações metafísicas”, um pouco abstrata, encontra sua concretude, sua justificativa e todo o seu sentido, na abertura do Sahasrara, a qual nos revela um novo mundo cognitivo. O Atman (o Si) se funde no Paramatman (Deus) que, por sua vez, banha com sua luz o universo inteiro. Como é profundamente estranho encontrar, numa forma viva e tangível, as palavras lidas em outros tempos, as projeções de nossas esperanças mais insensatas. Descobrir até que ponto nossos sonhos eram premonitórios, apalpar suas faces à medida que nascem para a realidade. Como, por exemplo, numa outra leitura que fiz do “Siddharta” de Herman Hesse: “Pouco a pouco, desenvolvia-se e crescia em Siddharta a noção exata do que é a Sabedoria propriamente dita, que O ADVENTO 68 havia sido o objetivo de suas longas buscas.Era nada mais, nada menos que uma predisposição da alma, uma capacidade, uma arte misteriosa que consistia em se identificar, em cada instante de sua vida, com a idéia da Unidade, em sentir essa Unidade em todos os lugares, de penetrar nela como o ar que se respira penetra nos pulmões.” Passei a ter as mais diferentes vivências. Sentei-me no alto de uma montanha, no Nepal, defronte ao Evereste, recitando a “Celebração da grande deusa” (Devi Mahatmyam); andei de cima para baixo na estação de metrô do Saint James’ Park, após um programa público da Sahaja Yoga no Caxton Hall, em Londres; brinquei no chão com uma criança realizada; é a mesma transparência do Si que me visita, a sensação de mergulhar o alto de meu crânio numa palpitação de energia benéfica. É assim que, gradativa e suavemente, absorvemos a Unidade e não, como muitos haviam pensado, pelas alucinações psicodélicas que mostravam um caleidoscópio de imagens do presente e do passado da raça humana diante de nosso terceiro olho. Para dizer a verdade, as visões e aparições, especificamente ligadas ao uso de drogas, correspondem a uma disfunção do Agnya Chakra. É preciso ressaltar aqui que a consciência coletiva não se revela, exclusivamente, por intermédio das informações sensoriais da consciência perceptiva vibratória, mas por um aumento gradual do nível da própria consciência. No que concerne à nossa afetividade, ela se exprime no amor. Um dos sonhos mais freqüentes dos seres humanos consiste em descobrir, novamente, o fio comum de sua unicidade, uma unidade que nunca foram capazes de esquecer, seja qual for a argúcia que usem para dividi-la em partes e subdividi-la em grupos. Pode-se ler claramente a respeito dessa aspiração, nas ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 69 belas palavras escritas por C. F. Ramuz sobre Igor Stravinski, em seu livro “Souvenirs sur I. Stravinski” (ed. Mermod, 1954): “Quando você falava sobre seu país, e eu falava acerca do meu, vagávamos em pensamento através do seu, ou perambulávamos fisicamente através do meu; que eu possa chegar a dizer que, muitas vezes, me parecia que esse vazio não mais existia e não éramos mais duas pessoas, e também não havia dois países. Subjacente aos dois países, subjacente a nós dois, talvez exista um Único País (o qual perdemos, encontramos novamente, perdemos outra vez, depois o descobrimos de novo num breve instante), onde temos um só Pai e uma só Mãe. Onde, por um momento, vislumbramos uma grande Fraternidade de todos os homens. Não servem para isso todas as formas de arte, ou seja, tentativas de recuperar isso novamente e para nada mais? Não é esse o objetivo de todas as palavras que escrevemos, as telas que pintamos, as estátuas que esculpimos em pedra ou em bronze - para isso e nada mais? Alcançamos o homem antes de sua maldição, antes da grande bifurcação na qual cada desdobramento implicava uma nova bifurcação, e esta uma outra, e assim até o infinito, de modo que para chegar ao fim, cada um de nós está completamente só em seu pequeno trecho do caminho, onde cada um sente que nada tem sucesso, nada gera frutos, nada é completo, nenhuma música é perfeita, nenhuma pintura é perfeita...até que nesses breves e raros momentos, numa espécie de reversão, a bendição intervém, e há assim colaboração com Alguém, a chance de retornar, essa redescoberta do Si...!!!” Aqueles que trilharam o caminho da solidão, aqueles que andaram às cegas em busca da restauração da Unidade, aqueles que não desistiram desse sonho maravilhoso, descobrem hoje, na Sahaja Yoga, que o fio que religa todas as pérolas do universo passa também por eles. E que ao retomarem esse fio, eles poderão viajar pelo interior de todas as coisas. O Si é o O ADVENTO70 fundamento da verdadeira fraternidade humana, porque é apenas no Si que os seres humanos são iguais. Quando as vibrações são percebidas pelo Chakra do Coração (Anahata Chakra), essa fraternidade (fraternidade de buscadores, dos Sahaja Yogis) é vivenciada numa maravilhosa espontaneidade. Depois de me conectar novamente a esse fio, participei de reuniões maravilhosas. Indubitavelmente, as conseqüências da descoberta da Sahaja Yoga são vertiginosas, e levei alguns anos para avaliar sua amplitude. No entanto, por causa da repetição das experiências, os Sahaja Yogis desenvolveram, rapidamente, sua confiança nessa nova ferramenta cognitiva. Eles se convenceram de que podiam confiar nas informações vibratórias. Os comportamentos artificiais são percebidos e as máscaras sociais caem. Todas as espécies de falsidade são detectadas por sensações imediatas. Daí em diante, todos tendem a ter uma atitude muito mais natural e espontânea. Efetivamente, tudo tem um determinado coeficiente vibratório, não só as pessoas, mas também os lugares, os objetos e as matérias orgânica e inorgânica. Por exemplo, existem montanhas realmente sagradas. A famosa Matterhorn, na Suíça, tem um alto coeficiente vibratório. O mesmo acontece com o Ayer’s Rock, no centro da Austrália, onde os Sahaja Yogis realizaram um grande festival em 1988. A face oculta do universo, sua densidade espiritual, se abre para nós e é fantasticamente simples como um jogo infantil. O menino Tony, um Sahaja Yogi que reside em Londres, meditava em seu quarto diante de uma foto de Shri Mataji. Outras crianças que o estavam visitando entraram em seu quarto e lhe perguntaram o que é que fazia. Respondeu: “Estou absorvendo o poder dessa senhora. Querem experimentar?” O pequeno grupo sentou-se e começou a imitá-lo, com as mãos estendidas para a foto. Um pouco depois, uma menina disse: “Meu Deus, há muito vento aqui!” Após alguns instantes de ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 71 reflexão, disse: “O que é que você faz para parar a corrente de ar?” As crianças têm a oportunidade de sentir, antes de tentar julgar ou analisar. Essa oportunidade feliz é que permitiu ao Pequeno Príncipe conhecer sua rosa e é ela que nos ajuda a promover a união entre nós e o Si. Shri Mataji jamais se cansa de enfatizar: “Terei de escrever isso com letras de ouro? Com base no pensamento, vocês não poderão corrigir seus Chakras. Pelo pensamento não poderão saber como é que isso funciona. Por meio do pensamento, não poderão alcançar seu coração. Vocês pensam muito e falam muito, porque estão nas garras do senhor ego. Pensam por intermédio de seu ego. Contudo, quando fazem isso, perdem seu autodomínio. Existe uma barreira entre o Si e vocês. Quando o Si não pode manifestar-se, sua espontaneidade fica reprimida e sua criatividade se deteriora.” Flávia, uma jovem de Roma, recebeu sua Auto- realização, em 21 de novembro de 1981, numa pequena livraria no centro de Roma, onde Shri Mataji estava dando a Realização para centenas de pessoas. Alguns dias depois, quando andava pela área da Basílica de Santa Maria Maior, ela sentiu sua Kundalini ascender em sua espinha, e todo o seu corpo foi inundado por uma sensação de bem-estar. Intrigada, estendeu suas mãos em direção à grande igreja e sentiu um jorro de vibrações. Ela entrou na Basílica, e seguindo o fluxo de vibrações andou até a nave num lugar muito específico, diante de um oratório reservado à direita. Nesse oratório, as vibrações estavam muito fortes. Um pouco confusa, porém contente, Flávia permaneceu ali durante algum tempo, sem se mover, absorvida na graça de Chaitanya. Um mês depois, disse a ela que, um dia antes de sua experiência incomum, Shri Mataji havia visitado a Basílica, com um pequeno grupo de Sahaja Yogis, e O ADVENTO 72 havia parado exatamente naquele oratório, permanecendo ali por um longo tempo. Não é fácil descrever como é a vida depois do segundo nascimento. Trata-se, simplesmente, de um mundo mais real que aquele tido como ‘real’ pelas pessoas, um mundo no qual não nos satisfazemos em viver com 20% a 30% de nosso potencial, e que se impõe com um poder de evidência indiscutível. Os sentimentos de frustração, de desespero, de aborrecimentos, fundiram-se com nossa velha pele. As circunstâncias externas não se modificaram, porém, em vez de sofrermos com as tensões, passamos a sentir mais alegria, uma alegria sem motivo, sem pretexto, uma alegria que é um estado de consciência. Esse estado não é um pensamento, uma emoção, ou uma sensação, porém uma combinação de tudo isso e, simultaneamente, uma abertura para algo mais que é o silêncio. Tudo isso se passa interiormente. Esse mundo novo, talvez o mais antigo, exprime uma qualidade de transparência e de frescor, de pureza e de inocência, de espontaneidade e de amor. São esses os frutos da árvore da vida que passamos a degustar em nós mesmos? De onde vêm esses movimentos do sagrado, essa dimensão de beleza e de excelência que se afirmam como nossa verdade e como nossa própria existência? Esse mundo, eu o havia perdido. Sei disso. Eis agora que o recupero, novamente, e reconheço as evidências dele nas profundezas que eram incompreensíveis para mim. Platão disse: “Só nos lembramos daquilo que conhecemos”. Com minha consciência iluminada pela graça de Shri Mataji, o Si lembrou-se de sua própria divindade. Aprendi, espontaneamente, o nome de Shri Mataji, que é MOTHER, MÃE. Talvez me perguntem: ‘você ainda vive nesse estado?’ Não vivo mais nele, porém ele está aberto para mim, posso me unir a ele todas as vezes que minha Kundalini ascende até o Sahasrara. Falando desse lado do estado iluminado de consciência após a Auto-realização, notei vários domínios ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 73 cósmicos com base em experimentos ‘parapsicológicos’, nos quais pude visualizar diferentes formas de entidades, e até mesmo de demônios que atacam nossa consciência e nossos Chakras. Não me prendo a esse ponto, porque o essencial é a identificação com o Si. Diz Shri Mataji que “é preciso que se tornem unificados com o Si. Sem conhecer o Si, não poderão obter o conhecimento de Deus”. Sem que a Kundalini chegue ao Sahasrara, o Si não pode ser conhecido e sem ser convidada a se elevar pelas vibrações, a Kundalini permanece adormecida. Li com novos olhos essas linhas que brilham hoje para mim com total clareza: “Jesus respondeu-lhe: em verdade, em verdade, te digo, que não pode ver o reino de Deus, senão aquele que nascer novamente. Nicodemo lhe perguntou: como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer outra vez? Jesus respondeu-lhe: em verdade, em verdade te digo, que quem não renascer da água, e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do espírito, é espírito. Não te maravilhes se te dizer que é preciso que nasças outra vez do alto. O vento sopra onde ele quer, e ouves sua voz, mas não sabes de onde ele vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do espírito. Nicodemo perguntou: como é que se pode fazer isso?“ João, 3, 3 Como é que se pode fazer isso? Não sabia nada a respeito disso antes de sentir a brisa fresca das vibrações, antes de sentir a Kundalini subir à minha cabeça. E não coloquem suas questões para os sacerdotes que, durante quase dois mil anos, esconderam, sua total ignorância sobre esses temas, atrás de suas tautologias teológicas. A Sahaja Yoga, a Yoga da espontaneidade, abre uma nova dimensão à consciência humana, que abarca o reino de Deus, a Auto-realização proclamada nas escrituras, o Juízo Final O ADVENTO 74 e a Revelação. Torna-se agora possível concretizar os ensinamentos dos avatares (encarnações divinas), com base na pura realidade da experiência:“Interrogado pelos Fariseus sobre o momento em que chegaria o reino de Deus, lhes respondeu: a vinda do reino de Deus não virá com sinal algum exterior nem dirão: ei-lo aqui, ou ei-lo acolá. Porque saibam disso, o reino de Deus está dentro de vocês.” Lucas 17.20 Quais as questões que serão colocadas dessa vez pelos fariseus (turba tenaz, raça sempre renovada), assim como pelos padres e aiatolás? A mesa está posta para vocês e a festa os espera. Venham e regalem-se, pois a ceia está pronta. Não recusem o convite dessa vez. Não discutam o cardápio. Sentem- se à mesa e comam. Vocês se tornarão os filhos do Altíssimo, a não ser que sua fome os traia. Ó, mestres e professores que explicaram tão pedantemente por que estamos loucos por buscar o reino de Deus. Quantos de vocês têm fome? Quantos estão tão sobrecarregados de conceitos que sopitam como a fumaça das chaminés? Quantos vão dormir acalentados por teorias e definições? Pode-se imaginar a reação dos altos sacerdotes, protestando: “Mas afinal quem é essa Mataji?”, fazendo pose, prontos para rasgarem suas vestes e denunciar a blasfêmia. No entanto, Jesus disse a Verdade, enquanto Caifás proferiu apenas blasfêmias. Não é por acaso que a expressão sânscrita para a Idade de Ouro é Satya Yuga, a Era da Verdade ou da Revelação. Joachim de Flore (1145-1202), um monge cisterciense e de algum modo profeta, predisse que, após a Era do Pai (Jeová - Krishna) e a Era do Filho (Jesus Cristo), viria a terceira Era do conhecimento e da integração, a Era do Espírito Santo, a Era da Mãe. O ano de 1260 seria o ano do início dessa Nova Era e a manifestação do reino de Deus sobre a Terra. Ele parece ter tido alguns problemas na interpretação do calendário divino, contudo ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 75 a marca da mudança de Peixes para Aquário, retomada pelos grandes astrólogos, merece ser examinada. Em 1970, na Índia, Shri Mataji Nirmala Devi descobriu como fazer do despertar da Kundalini um fenômeno de massa. Ela oferece assim à raça humana a possibilidade de desenvolver essa nova categoria de percepção que permite cruzar o limite entre o finito e o infinito. É, efetivamente, a Idade de Ouro que se abre para nós, quando nosso mundo é ameaçado de sucumbir em fragmentos no caos já anunciado pela sociedade contemporânea. As peças do grande quebra-cabeça estão se colocando em seus lugares, as escrituras estão sendo cumpridas, a busca é coroada com a graça daquela figura solitária com poderes ilimitados. Antes de conhecer Shri Mataji, tinha todas as espécies de idéias preconcebidas a respeito da maneira pela qual uma encarnação divina deveria se manifestar. Dos mórmons aos rosa- cruzes, cada grupo desenvolveu sua própria lista de requisitos e um manual de como as coisas devem ocorrer. Porém todo esse arcabouço desmoronou diante da rara inocência de Shri Mataji e a simplicidade de sua natureza, diante da maneira direta e da bondade maternal com as quais ela me recebeu. Mesmo após alguns anos, o ambiente que a circundava era tão tranqüilo, que eu, constantemente, me esquecia que era venerada, na Índia, como uma encarnação divina e que, na verdade, essa é a percepção que estabelece a mais autêntica ligação entre ela e nós. Não obstante, a genuína natureza de minhas próprias experiências reunidas me lembrava disso. Existem milhares de pessoas que têm reunido provas incontestáveis da autenticidade de sua dimensão espiritual. Não apenas temos sido capazes de realizar a nova dimensão de consciência em nós mesmos, apreendendo todos os conhecimentos e as técnicas. Recebemos, ainda, por acréscimo, o poder de transmitir tudo isso aos outros. Um Sahaja Yogi tem o poder de despertar a Kundalini em outras pessoas! Somente aqueles que possuem e dominam O ADVENTO 76 perfeitamente esses poderes podem passá-los, com muita facilidade, e as escrituras antigas tal como o Devi Bhagavat Purana descreve com clareza o tipo de pessoa que é capaz de despertar a Kundalini por meio de um simples olhar. Quanto a nós, com base naquilo que vivemos e verificamos e tendo saltado para fora da caverna de nossas opiniões, temos o claro conhecimento e a prova de que Shri Mataji Nirmala Devi tem a capacidade de despertar nosso próprio poder espiritual. Com efeito, pela leitura dos próximos capítulos que irão introduzi-los numa síntese da Sahaja Yoga, começarão a indagar sobre a natureza daquela que, no limiar dos dois mundos, assegura uma nova dimensão de consciência para toda a humanidade. Isso porque o despertar da Kundalini expressa o desdobramento de um novo plano evolutivo, há muito esperado por nós. LIVRO III REVELAÇÃO “A fonte secreta de tua alma deve jorrar e correr murmurando para o mar; E o tesouro de tuas profundezas infinitas quer ser revelado a teus olhos. Mas que não haja nenhuma balança para pesar o teu tesouro desconhecido! E não busques as profundezas de teu conhecimento com nenhuma vara ou sonda.” “Se pudesses apenas vislumbrar as marés de teu alento, Não quererias ver nada mais. E se pudesses ouvir o sussurro de teu sonho, Não quererias ouvir nenhum outro som. Porém, não podes ver nem podes ouvir, E tudo fica bem. O véu que cobre os teus olhos será levantado, Pelas mesmas mãos que o teceram.” Trechos de “O profeta” de Khalil Gibran “Naquele dia (do Juízo Final), colocaremos Um selo em suas bocas. Mas suas mãos falarão.” ALCORÃO É Sahaja (espontâneo) aquilo que transforma a semente em árvore, a flor em fruto, bem como aquilo que faz o vento soprar e os pássaros voarem. Aquilo que ilumina o sorriso da mãe e a resposta da criança, isso é Sahaja. Sua curiosidade que REVELAÇÃO 79 desperta também é Sahaja. A manifestação espontânea da grande força de vida primordial (Prakriti) é também Sahaja. ‘SAHA’ significa com, ‘JA’ quer dizer nascido e Yoga significa união. A Sahaja Yoga admite que cada indivíduo nasceu com o potencial de se unificar ao Divino (ao Infinito, à realidade pura) e que esse potencial é efetivado pela Sahaja Yoga, uma técnica de redenção espontânea e sem esforço. A palavra Yoga também significa técnica ou habilidade. A contradição entre a espontaneidade e a técnica é apenas aparente. Como já dissemos anteriormente, a transformação acontece, espontaneamente, na presença da encarnação ou de alguém que tenha algum vínculo com ela, e a técnica permite estabilizar seus efeitos. Shri Mataji emite as vibrações de Chaitanya (força vital divina) as quais, captadas pelas antenas de nossos dedos, penetram nos canais sutis, a fim de transmitir à Kundalini o convite para seu despertar. A Kundalini ascende quando todas as condições para seu despertar são satisfeitas. Ela sobe pela coluna vertebral, alcança o terceiro olho (Agnya Chakra) sem provocar a menor dor; a pessoa se sente completamente calma, silenciosa e consciente. Quando ela alcança o último centro (Sahasrara) e atravessa a membrana da fontanela, a pessoa começa a sentir a brisa fresca das vibrações. Os fatos são esses. É preciso colocá-los em sua perspectiva histórica. Shri Mataji fala a respeito disso: “Essas vibrações do amor divino, com as quais rego a semente que é sua Kundalini constituem um direito inalienável seu, porque elas tornam possível o ponto culminante da evolução humana, conforme foi prometido pelas Escrituras”. As etapas anteriores da evolução, do carbono tetravalente ao homo sapiens, ocorreram sem que os átomos, os organismos primitivos ou os mamíferos que se desenvolviam, estivessem conscientes disso. Todavia, “a partir do homo sapiens”, diz Shri Mataji, “a evolução se deu de um modo humano, isto é, com consciência. Vocês serão conscientes da manifestação do processo evolutivo. O ADVENTO 80 O ovo não sabe como é que ele se transforma em pássaro, porém os sereshumanos serão capazes de sentir e de compreender sua evolução como Sahaja Yogis.” A fim de compreender o modo pelo qual os seres humanos funcionam, vejamos isso no domínio da investigação científica. Toda grande descoberta começa com uma comunicação vinda do Inconsciente para um determinado pesquisador, o qual, a partir daquele momento, se dedica à sua articulação. Para que uma hipótese seja considerada científica, ela precisa ser testada. Os diferentes testes feitos para validar, cientificamente, a hipótese precisam apresentar resultados consistentes. A descoberta é publicada a fim de beneficiar toda a humanidade. Eventualmente, a descoberta pode ser desenvolvida tecnologicamente e posta em uso. A Sahaja Yoga atua, exatamente, da mesma forma. É verdade, como o filósofo Karl Jaspers (em seu livro “Iniciação ao método filosófico”) observou, que a experiência da união mística não pode ser compartilhada. “Não são contestáveis as experiências de uma união mística com o Espírito (unio mystica). Todavia, essas experiências não podem ser comunicadas por aqueles que retornam ao mundo banal. A interpretação delas é variada e necessita de precaução. Isso porque aqueles que viveram essas experiências utilizam, para falar delas, um fluxo de imagens que somente eles podem compreender”. A experiência no domínio espiritual se torna comunicável através da manifestação da Sahaja Yoga. De fato, um Sahaja Yogi pode despertar a Kundalini de outrem. A intensidade da experiência vivida por um Sahaja Yogi não é mais um fator de isolamento social. C.G. Jung (em seu livro “A alma e a vida”) afirma que: “De fato, a experiência religiosa é absoluta. Ela é no sentido próprio indiscutível. Pode-se somente dizer que não se teve uma experiência desse tipo e o interlocutor responderá: ‘sinto muito, porém a tive.’ E assim terminará a discussão”. REVELAÇÃO 81 É na Sahaja Yoga que a discussão começa, prelúdio, tão breve quanto possível, que antecede a comunicação da descoberta: “É imprescindível que cada pessoa tenha a experiência,” diz Shri Mataji. Lembremo-nos de que cada descoberta é preparada por uma sucessão de etapas e por um aprofundamento do conhecimento. Da mesma maneira, a efetiva entrada na consciência coletiva, que é o ápice na Sahaja Yoga, foi preparada pela atuação de forças divinas, pelas vidas e obras de grandes encarnações do passado, como, por exemplo, Krishna, Cristo e Maomé. À proporção que entramos na nova consciência e aplicamos as propriedades, bem como as leis recém-descobertas da energia espiritual, podemos, por exemplo, entrar em contato com seres excepcionais. Percebemos que essas personalidades divinas controlam os diversos Chakras, por intermédio dos quais orquestram as estruturas da matéria viva, os mecanismos hormonais e os desenvolvimentos psíquicos que constituem um ser humano funcional. Os seres divinos emitem freqüências vibratórias. A arte da Sahaja Yoga consiste em saber como receber essas vibrações. Por exemplo, quando o Chakra do umbigo (Manipura ou Nabhi), na coluna vertebral, está contraído, a Kundalini fica bloqueada em sua ascensão e, muitas vezes, pode-se ver a olho nu uma pulsação nas costas da pessoa, na altura correspondente a esse Chakra. Pode-se por meio de uma invocação vibratória (mantra), entrar em comunicação com a divindade específica que controla esse Chakra, ou seja, Shri Vishnu e sua esposa Shri Lakshmi. As vibrações indicam uma reação na altura do Chakra sobre o qual trabalhamos. Percebemos, por intermédio da consciência coletiva, a pressão do estômago diminuir; o obstáculo é removido porque Shri Vishnu, que controla o plexo solar, limpou a passagem da Kundalini. Dessa forma, a realidade de sua existência é comprovada. O ADVENTO 82 Essa consciência perceptiva vibratória nos foi dada pelo Inconsciente Universal. É chegada a hora de divulgar essa nova consciência, porque a beleza da Sahaja Yoga floresce apenas na Realização coletiva. Essa nova consciência explica, integra e completa as revelações dos grandes santos, mestres espirituais, profetas e encarnações do passado. É na verdade a consubstanciação do contrato espiritual entre Deus e sua criação, o Homem. Há vinte anos, Mircéa Eliade (em seu livro “Ioga, imortalidade e verdade”, 1969) escreveu: “É na identidade do júbilo, na experiência inefável da unidade, que se atinge o estado de SAHAJA, da existência não-condicionada, de pura espontaneidade. Todos esses termos, evidentemente, são de difícil tradução. Cada um deles tenta exprimir o estado paradoxal de não-dualidade absoluta (Advaya) que conduz ao Mahasukha, a Grande Beatitude.” Hoje, esse estado está acessível a toda a humanidade. A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO CAPÍTULO III “Arjuna, sou o cosmo revelado e seu germe ocultado.” Shri Krishna “Nosso corpo é um palácio e é a Casa de Deus. Nela, Deus guarda a chama infinita.” Guru Nanak “Ver o Mundo num grão de areia, E um Céu em ramo que enflora, É ter o infinito na palma de tua mão E a eternidade numa hora.” Extraído dos “Augúrios da inocência” de William Blake “O homem, outrora, encerrava em seus membros poderosos todas as coisas do Céu e da Terra.” William Blake “Não vás ao jardim das flores! Ó amigo! Não vás lá! O jardim de flores está em teu corpo. Senta-te nas mil pétalas do lótus, e lá mira a beleza infinita.” Kabir Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gênese, 1.26). Sócrates foi verificar o que o Oráculo de Delfos sabia, exatamente, a respeito desse tema e o O ADVENTO 84 rei prussiano Frederico II, precursor do intelectual moderno, observava que “isso é realmente péssimo para Deus”. Cabe agora ao Sahaja Yogi, por sua vez, verificar, com um deslumbramento crescente, a correção e a precisão dessa famosa frase bíblica. A Auto-realização assinala a entrada num reino, cujas vastas províncias temos ainda de explorar. Shri Mataji, mediante inúmeras conversações, entrevistas e palestras, esboçou para nós os contornos desse reino e nos explicou as leis que o regem. Cada frase dita por ela, a respeito disso, foi confirmada por nossa consciência perceptiva vibratória, e por isso, não podemos mais duvidar de nossa boa sorte. Penetramos na fonte primordial e autêntica do conhecimento, quando ouvimos Shri Mataji falar. Todas as suas revelações podem ser confirmadas pelas vibrações. Aristóteles disse certa vez: “Aprendi tudo, interrogando a natureza, porquanto a natureza não sabe mentir”, e agora, na aurora da Era de Aquário, podemos substituir a palavra ‘natureza’ (usada por Aristóteles) pela palavra ‘vibrações’. O instrumento psicossomático e espiritual (Yantra), mediante o qual vivenciamos um segundo nascimento, e cujas técnicas (Tantra) aprendemos, gradativamente, não é uma estrutura aleatória e arbitrária, mas sim uma réplica, perfeitamente miniaturizada, do arquétipo primordial venerado de diferentes maneiras pela humanidade. Daí a expressão árabe: ALLAHU AKBAR = DEUS É O MAIOR! Deus é Uno, afirmam as grandes religiões, e o aspecto monolítico dessa unidade é simbolizado pelo Lingam de Shri Shiva ou pela pedra negra da Caaba de Meca. Não obstante, vista num microscópio, uma pedra fervilha com a atividade de trilhões de átomos. Quando dizemos que ‘Deus é energia’, devemos nos lembrar que a energia é conversível e suscetível de ser usada de múltiplas maneiras. A unidade não exclui a pluralidade. Um simples corpo humano contém trilhões de células, organizadas em inúmeros A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 85 órgãos destinados a desempenhar numerosas e diferentes funções. O ser humano que habita o corpo físico é ainda mais complexo. Por exemplo, ele estabelece vários tipos de relacionamentos que podem ser, às vezes, com um amigo,com um pai, com um cônjuge. Da mesma maneira, a idéia da Unidade de Deus não significa que haja apenas um aspecto ou uma função. Shri Mataji enfatiza que: “Aquele que é Onipresente e Onisciente, que controla todas as coisas, que é, simultaneamente, mais ínfimo que o átomo e mais vasto que o cosmo, será, infinitamente, muito mais complexo que o homem em suas manifestações e, todavia, Ele permanece perfeitamente integrado... Quando o Um começa a manifestar seus múltiplos aspectos, a Criação é posta em movimento... O universo material, tal como o conhecemos, não é senão um momento dessa manifestação.” Poderíamos simbolizar isso pela trajetória de uma elipse, que se distancia de seu ponto inicial para ali retornar. Efetivamente, se mediante a criação, Deus se move do infinito (que é Ele próprio), em direção ao finito (que é sua criação), poder-se-ia conceber um movimento contrário, pelo qual o finito se moveria em direção ao infinito e o alcançaria. É isso que todas as religiões do mundo tentaram mostrar, visto que seus fundadores quiseram preparar o homem, a fim de que este participasse desse movimento e recebesse sua Auto-realização. Num determinado estágio da evolução, a criatura, tendo-se tornado consciente, proclama sua aspiração ao ‘grande retorno’. “Nosso coração está sem repouso porque não encontrou em vós, ó meu Deus, seu repouso”. Santo Agostinho, que acompanhou a longa caravana dos buscadores, fez eco com o Aranyaka Upanishad que diz: “Enviai-me ao mundo que desejo. Enviai-me àquele mundo. Enviai-me ao Todo”. Voltemos ao início. Deus é, naturalmente, perfeição de existência e de essência, além de outros atributos. Precisamos usar metáforas para mascarar nossa incapacidade de conceber a O ADVENTO 86 transição do indeterminado para o determinado, do não- manifestado para o manifestado. Digamos que a realidade última (Deus, Parabrahma) passa pelas alternâncias de manifestação e de não-manifestação. A não-manifestação seguida de sua manifestação constitui um ciclo cósmico (Kalpa). Podemos dizer que Deus respira. Ele expira e, em conseqüência disso, o universo emerge Dele e surge assim a evolução. Ele inspira e o universo retorna a Ele e surge assim a involução. Assim sendo, inúmeros ciclos cósmicos precederam o atual ciclo em que nos encontramos. Mas, qual é a finalidade da criação? Podemos dizer que Deus, sob o aspecto de Testemunha Primordial do universo (Sadashiva), deseja deleitar-se com uma projeção, com um reflexo cada vez mais fiel a Si Mesmo em Sua criação. Hegel, em sua obra “A filosofia da história”, argumentava: “A História do mundo é exclusivamente preocupada em mostrar como o espírito chega ao reconhecimento e à adoção da Verdade; a aurora do conhecimento surge. O espírito começa a descobrir os princípios basilares, e, finalmente, ele chega à consciência plena”. Tendo em vista o objetivo divino de se projetar cada vez mais em sua Criação, Deus, sob o aspecto de Ator (Adi Shakti, a Mãe divina ou, em termos gnósticos, o Espírito Santo), dá início ao processo de criação. As inúmeras combinações e permutações dessa energia divina engendram as projeções originais dos diversos aspectos do Deus único que a humanidade tem venerado, mais especificamente na tradição religiosa mais antiga, que se expressa, por exemplo, nos livros sagrados (Vedas) dos arianos na Índia. Assim, após a inicial separação da Adi Shakti de Sadashiva, a própria Adi Shakti diferencia-se a si mesma em três formas principais de energia, personificadas pelas três grandes deusas Mães: Mahakali, Mahasaraswati e A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 87 Mahalakshmi. É por intermédio dessa trindade que a Adi Shakti dá nascimento aos demais aspectos de Deus (divindades, Devatas), que conduzirão as etapas posteriores da Criação. Em outras palavras, a estruturação do cosmo e o desdobramento de sua evolução dependem das interações entre essas diferentes formas de energia divina. Quando consideramos todas essas divindades à luz de sua unidade essencial, as percebemos como aspectos complementares do Grande Ser Primordial, acerca do qual fala o Svetasvara Upanishad : “O absoluto Uno, a existência impessoal, em união com seu poder de ilusão (Maya), apareceu como o Senhor Divino, o Deus pessoal adornado com milhares de glórias. Alicerçado em Seu Divino Poder, Ele controla todos os mundos. Por ocasião da criação e da dissolução do universo, somente Ele existe. Aqueles que O realizam tornam-se imortais. O Senhor é Um sem um segundo. Habita no homem e nas outras criaturas. Projeta o universo, o mantém e o reabsorve em Si Mesmo. Seus olhos estão em todos os lugares; Sua face, Seus braços e Seus pés estão em cada um dos lugares. Ele extraiu de Si Mesmo o Céu e a Terra e, com Seus braços e Suas asas, os mantém coesos. Ele é a origem e o suporte dos deuses. É o Senhor de todos. Concede sabedoria e felicidade aos que O adoram. Destrói seus pecados e suas preocupações. Pune aqueles que transgridem Suas leis. Vê tudo e sabe tudo. Que Ele nos abençoe com uma mente que conheça a Verdade.” O ADVENTO 88 O sábio Svetasvatara descreve Deus supremo, o único mestre do universo, como “aquele que assumiu a forma de todas as criaturas e permaneceu oculto”. Trata-se de Deus-Pai, consubstanciado aqui na extensão de suas manifestações. O Bhagavad Gita, parte integrante do Mahabharata, a epopéia eterna do hinduísmo, narra como Shri Krishna permite a Arjuna, príncipe guerreiro e discípulo, contemplar a visão esplêndida e terrificante desse Ser Primordial que, em sânscrito, se chama VIRATA. “Ó meu Deus, vejo todos os deuses em teu corpo, E a multidão das criaturas, cada uma em seu lugar. Vejo o Senhor Brahma, assentado sobre o lótus. Vejo todos os sábios e as serpentes sagradas. Forma universal, te vejo sem limites. Braços, olhos, bocas e ventres infinitamente multiplicados. Olho, e não encontro fim, nem meio nem início.” Bhagavad Gita, 11 Shri Krishna era, efetivamente, o Virata encarnado. Ele falou: “Impregno todo o universo com Minha forma eterna, que não se manifesta para os sentidos. Ainda que nenhuma criatura Me contenha, contenho todas elas. Todavia, elas não existem em meu corpo físico. É o divino mistério de Minha natureza que é preciso que tu compreendas. Meu Ser sustenta todas as criaturas e lhes dá vida, mas ele não tem nenhum contato físico com elas.” Bhagavad Gita, 9 Só posso remeter o leitor novamente a esse texto impressionante. Sei que Shri Mataji escreveu vários capítulos, nos quais explica a origem do Virata e do cosmo, contudo seus escritos não foram ainda publicados. Entretanto, tive a felicidade de poder lê-los, e me ajudaram enormemente a conceber o A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 89 inconcebível, vale dizer, se ouso dizer, a me dar uma idéia acerca da natureza do Virata. Em suma, a estrutura do Virata pode ser comparada a um prisma que absorve a luz do Espírito Santo (Sua energia) e a refrata nas diversas cores do arco-íris, a refulgência da criação. No Virata, poderão ser encontrados os diferentes domínios da consciência cósmica com seus céus e seus infernos e, enfim, nosso universo material iluminado por uma miríade de luminárias galácticas. Uma dessas luminárias é nosso sistema solar, onde permanecemos deslumbrados. Encontramo-nos assim diante do arquétipo primordial, que irá reverberar, infinitamente, suas próprias estruturas nos diferentes teatros da criação, e isso chega ao nosso universo material. Vejamos, com um pouco mais de profundidade, os detalhes desse quadro, os quais devemos tentar compreender, mediante a utilização de uma imagem. Da mesma maneira que o ar toca os orifícios de uma flauta, a fim de se transformar em música, assim também o Espírito Santo (Adi Shakti)manifesta Deus, por meio de sete de Seus principais aspectos, os quais estão relacionados com as diferentes religiões do mundo. Existem sete orifícios em sua flauta, porém existe apenas um sopro que produz a melodia. Igualmente, há sete Adi Chakras (centros primordiais de energia) no corpo cósmico do Virata, porém há apenas uma Adi Kundalini. O próprio Virata é Uno, consubstanciando a unidade entre a Testemunha Primordial e o Ator Primordial, expressando a manifestação integrada de Deus projetado pelo Espírito Santo. Nunca dantes foi conhecido pelo homem o mecanismo dessa perfeita articulação do Ser uno (Shiva) com o Ser coletivo (Virata). O Virata abarca tudo aquilo que existe. Por exemplo, esses seres super-humanos que controlam as forças da natureza, que compuseram os diversos panteões (grego, germânico ou asteca), ocupam uma das províncias cósmicas do ego do Virata (o supraconsciente coletivo). O inferno, com seus múltiplos O ADVENTO 90 círculos, localiza-se no superego do Virata (o subconsciente coletivo). Os seres angelicais, serafins, querubins e Chiranjivas vivem na Superconsciência divina. É impressionante, por exemplo, que o profeta bíblico Ezequiel e São João Evangelista os descobriram nos símbolos de animais que podem ser encontrados na tradição hindu, isto é, o touro é Nandi, a montaria de Shri Shiva; a águia é Garuda, a montaria de Shri Vishnu; o leão é Hanumana, um dos veículos da deusa Durga. Eles aparecem com seus Chakras e com o ‘ruído das grandes águas’ e ‘o ruído da tempestade’ que evocam o sopro poderoso das vibrações. O profeta Ezequiel (1.15.24) diz: “E ao tempo em que estava olhando para estes animais, apareceu ao pé dos tais animais uma roda sobre a Terra, a qual tinha quatro faces. E o aspecto das rodas, e a obra delas era como a vista do mar; e uma só a semelhança das quatro; e o aspecto delas e as obras eram como se estivesse uma roda em meio a outra roda... E quando os animais andavam, andavam também ao passo as rodas ao pé deles; e quando os animais se elevavam do solo, também as rodas juntamente se elevavam. Para qualquer parte que o espírito ia, indo para lá o espírito, as rodas, seguindo-o, também igualmente se elevavam. Porque o espírito de vida estava nas rodas.” Ademais, esses seres dispõem de poderes excepcionais. O Arcanjo Gabriel (Hanumana) e o Arcanjo Miguel (Bhairava) patrulham, respectivamente, o supraconsciente e o subconsciente coletivos. Os grandes anjos, que cuidam das províncias cósmicas, respondem ao chamado de um Sahaja Yogi, quando este os invoca com a utilização de um mantra autorizado. Shri Mataji comenta: “É algo muito fantástico e difícil de se acreditar. No entanto, isso é verdadeiro”. Repetidas vezes, pudemos, efetivamente, limpar os canais ou A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 91 Nadis de nosso próprio sistema, por meio da invocação das divindades ou forças divinas que garantem a segurança dos domínios correspondentes no macrossistema do Virata. Tive plena consciência de que, sem a consciência perceptiva vibratória, a existência, e sobretudo, a preexistência do Virata, pareceriam tão irreais quanto às formas platônicas, que foram consideradas, com justa razão, incognoscíveis por várias gerações de filósofos. Portanto, um dos objetivos de Sócrates foi, sem dúvida, o de preparar nossas estruturas mentais para que pudéssemos reconhecer o modelo primordial. De um modo geral, os antigos consideram o Virata apenas pela sua intervenção na História, isto é, o destino todo-poderoso que abala o orgulho humano (em grego, o hybris, que nas peças de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles, era o grande pecado do orgulho ou da soberba). Os psicólogos modernos parecem concebê-lo como o inconsciente coletivo ou universal. Foi desse Inconsciente, observa C.G. Jung, que a humanidade extraiu seus deuses e seus demônios, as grandes intuições dos filósofos e dos sábios, e “todos esses pensamentos superlativamente poderosos sem os quais o homem cessaria de ser um homem”. É dele que se originam as imagens primordiais que constituem a base de nossos sistemas conceituais, a inspiração criadora, o deslumbramento que sentimos diante do já conhecido, quando, por um breve instante, a verdade se revela para nós. Quase sempre as mensagens do Virata nos são comunicadas nos sonhos ou mediante o encaminhamento de eventos sugestivos. Todavia, como Eric Fromm observa, o homem moderno está deixando escapar, facilmente, esse imperceptível fio de Ariadne, porque ao reprimir sua voz interior, está perdendo a capacidade de discernir o bem do mal e o verdadeiro do falso. Está perdendo o contato com o Virata, que é a atenção onipresente, a consciência onisciente, o conhecedor e criador da Verdade; porque ocorrerá aquilo em que pensar. “Disse Deus: faça-se a luz; e fez-se a luz.” (Gênese, 1.3). O ADVENTO 92 Toda a estrutura do Virata se ordena em torno de seu principal canal de energia, o Adi Sushumna, que representa a senda do ‘vir a ser’ da criação, o caminho da evolução. Quando a Kundalini primordial, isto é, a energia residual do Espírito Santo, avança ao longo desse caminho, cruza um dos Adi Chakras, ativando, assim, a divindade desse Chakra e deflagrando uma nova etapa evolutiva. Por exemplo, entre a abertura do Adi Vishuddhi Chakra e do Adi Agnya Chakra, é preciso computar o período que separa as encarnações de Shri Krishna e a de Cristo, ou seja, algo em torno de 4.000 anos. A relação entre o Virata e a evolução das espécies desenvolve-se de duas maneiras principais. Preliminarmente, certas divindades podem decidir ter um nascimento humano (encarnação Divina ou avatar), a fim de guiar ativamente a humanidade. Em conseqüência, a estrutura cósmica original do Virata é inteiramente representada no nível microcósmico, vale dizer, em cada um de nós, como o instrumento interior de nossa perfectibilidade. Em outras palavras, a Auto-realização representa o despertar do Virata em nós. No corpo de um ser realizado, os Chakras representam as projeções dos centros primordiais do Virata. As divindades controlam esses Adi Chakras e irradiam a energia divina. Shri Mataji observa que, após a Auto-realização, o computador microcósmico humano fica conectado com a programação cósmica, e os dados começam a fluir em nosso sistema nervoso, a fim de ser percebidos sob a forma de vibrações. De fato, o temperamento, a saúde, a estrutura da personalidade e o destino de cada ser humano dependem do tipo de relacionamento que existe entre seu instrumento espiritual e o arquétipo cósmico. Todavia, antes de nossa Auto-realização, não percebemos isso e passamos, simplesmente, por diferentes estados mentais e achaques nervosos, sem sequer compreender como e por que razão eles acontecem. A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 93 É precisamente porque o impacto dessa estrutura cósmica sobre nossa vida cotidiana é tão importante, que tentaremos representá-la aqui. O gráfico da figura 6 é uma projeção antropomórfica. É evidente que o Virata transcende nossas dimensões, porquanto ele existe num estado de energia- consciência que não podemos conceber. Não obstante, a consciência faz experimentos e, certamente, o objetivo do Virata é conduzir-nos ao caminho da consciência. Na época em que Shri Krishna se mostrou como Virata a Arjuna, as encarnações do sexto e sétimo Chakras, Cristo e Shri Kalki, não haviam ainda se manifestado como encarnações divinas, com uma expressão personificada. Até o momento presente, Shri Kalki ainda não se manifestou. A unidade e a continuidade do cosmo, intuídas por Bergson, são ratificadas pelas sucessivas fases de manifestação do Virata. Em suma, antes de criar o universo material no qual vivemos, a energia divina primordial criou o corpo cósmico do Virata, que integra e manifestaos diversos aspectos do Altíssimo. Esse arquétipo dirige, no plano cósmico, a evolução universal e controla, no plano microcósmico do ser humano, nosso desenvolvimento interior. As mitologias, as religiões, a filosofia, a psicologia e mesmo as ciências exatas são as diversas avenidas, através das quais o buscador humano estuda os diferentes níveis de manifestações do Virata, com o objetivo de compor um panorama global, tão completo quanto possível. Todavia, no passado, cada civilização ou cultura tendia a concentrar sua atenção e sua devoção numa característica específica do Virata, negligenciando os demais aspectos. Apenas agora, nesse momento histórico que temos o privilégio de vivenciar, tornou- se possível para a humanidade ter acesso à completa morfologia do Ser divino primordial, com o quadro completo do Senhor Supremo da Revelação, o Virata. Um resumo dos Chakras, suas divindades e atributos do Virata são apresentados no quadro 2. O ADVENTO 94 FIGURA 6 : A ESTRUTURA CÓSMICA DO VIRATA NOTA: o vazio do Bhava Ságara é o oceano de ilusão. É o estado de consciência da raça humana que não é, espontaneamente, aberto ao Divino. Estamos, assim, alojados no estômago do VIRATA, nesse órgão que seleciona aquilo que deve ser assimilado para a manutenção do organismo cósmico, bem como aquilo que deve ser alijado para as regiões infernais. A divindade que controla esse espaço é Shri Adi Guru Dattatreya, o mestre primordial instrutor do darma. A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 95 Chakras do VIRATA e o osso sacro Divindades organizadoras da energia divina Atributos de DEUS 7. Sahasrara Chakra Espírito Santo e Shri Kalki Auto-realização, integração, liberação 6. Agnya Chakra Centro Senhor Jesus Cristo e Virgem Maria Ressurreição, perdão indestrutibilidade do espírito, luz da verdade Esquerdo Shri Mahavira Não violência em relação a si mesmo. Direito Shri Buda Não violência em relação aos outros 5. Vishuddhi Chakra Shri Krishna e Shri Radha Grandeza de Deus, coletividade, jogo divino, diplomacia, consciência que testemunha tudo 4. Anahata Chakra Centro Shri Durga (Jagadamba) Proteção maternal, confiança, senso de segurança Esquerdo Shri Shiva e Shri Parvati Existência, alegria, destruição Direito Shri Rama e Shri Sita Comportamento humano ideal, proteção paternal 3. Manipura ou Nabhi Chakra Shri Vishnu e Shri Lakshmi Evolução, darma, bem- estar 2. Swadishthan Chakra Shri Brahmadeva e Shri Saraswati Criatividade, estética 1. Muladhara Chakra Shri Ganesha Inocência, infância, sabedoria, intolerância com o mal Muladhar (osso sacro, cóccix) Shri Gauri Kundalini, Pureza virginal O ADVENTO 96 OS CANAIS Os canais de energia Ida, Pingala e Sushumna representam no corpo do Virata os modos principais de atuação da Mãe divina (Adi Shakti). Eles correspondem aos modos ou humores do Virata, aos quais a cosmologia hindu se refere como sendo as três Gunas ou qualidades. 1. O Ida Nadi do Virata (Tamo Guna, modo passivo) é controlado pelo aspecto Mahakali da Mãe divina, que é o poder de existência. 2. O Pingala Nadi do Virata (Rajo Guna, modo ativo) é controlado pelo aspecto Mahasaraswati da Mãe divina, que é o poder criativo. 3. O Sushumna Nadi do Virata (Sattwa Guna, a revelação pela evolução) é controlado por esse aspecto da Mãe divina que é Mahalakshmi, o poder evolutivo. Sob a ótica do entendimento humano, pode-se, muito superficialmente, identificar as três Gunas da forma que se verá abaixo. Contudo, se alguém quiser aprofundar seu conhecimento a respeito das Gunas, deve consultar os vários Upanishads, bem como o Bhagavad Gita, capítulos 13, 14, 17 e 18. - O campo de Mahakali, Tamo Guna, representa o poder de existência que impregna o cosmo inteiro, no núcleo de cada átomo, as vibrações eletromagnéticas na matéria, a força vital nas plantas, animais e também no homem; neste último, ela controla, particularmente, o ser emocional e determina a força de seus desejos. Ela pode ser identificada com a tese da dialética hegeliana, com o Yin dos taoístas, com a natureza que se opõe à cultura, etc. A Tamo Guna está subjacente na arquitetura barroca, na literatura romântica, na poesia e na música. Os temperamentos que se encaminham para Deus, mediante a sublimação desse campo, são considerados como seguidores da Bhakti Yoga, a Yoga da devoção. O aspecto ‘negativo’ da Tamo Guna é a força da inércia. A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 97 - O campo de Mahasaraswati, Rajo Guna, representa o modo ou humor do Virata que engendra as essências causais, os elementos, as massas de matéria, as constelações e, finalmente, nosso sistema solar. Esse campo foi concebido como o Yang taoísta, a antítese da dialética hegeliana, e se expressa como cultura e civilização em contraposição à natureza bruta. O aspecto ‘clássico’, ordenado e cerebral da sensibilidade estética ocidental está ligado a ela. O homem maximizou esse campo pela sua racionalidade, o direito, a organização social, a filosofia, a ciência e a tecnologia. Os temperamentos que tentam alcançar Deus pela sublimação desse campo são tidos como seguidores da Karma Yoga, a Yoga da ação. O aspecto “negativo” da Rajo Guna está na agitação desordenada e na agressividade. - O campo de Mahalakshmi, Sattwa Guna, é a dimensão na qual o Virata fixou o objetivo de se revelar, paulatinamente, ao cosmo, determinando a evolução universal e enviando as encarnações para orientá-la pelo caminho do meio. É, portanto, o modo do equilíbrio, da integração e da revelação, acima das oscilações entre a Rajo e a Tamo Gunas. O homem percebeu esse terceiro tempo, na harmonia ternária, na síntese da dialética hegeliana, e a expressou nas obras primas rítmicas, que são, por exemplo, a pirâmide de Quéops, o Partenon ou o Taj Mahal. Cada manifestação de perfeição nas artes, na filosofia, etc., se vincula à Sattwa Guna. A Jnana Yoga, a ioga da consciência, leva nossa atenção para o Sushumna Nadi, o qual expressa a dimensão da Sattwa Guna em cada um de nós. A Sahaja Yoga é a suprema ioga da integração (Maha Yoga), que engloba os diferentes caminhos de busca da união com Deus (ioga), uma vez que desperta o poder da energia residual divina (Kundalini) no homem. É claro que a Tamo Guna e a Rajo Guna subentendem uma infinidade de binômios, como o frio e o calor, o sombrio e o claro, o feminino e o masculino, a emoção e o pensamento, o O ADVENTO 98 coração e o cérebro. Todavia, o frio pode tornar-se quente, o quente pode ser esfriado, o dia sucede à noite. Os opostos dançam, se juntam e se separam. Equilibram-se, muitas vezes, numa efêmera unidade. O jogo dos opostos, dos contrários, sempre foi objeto da curiosidade humana. Ele foi imobilizado na estátua de pedra de Shiva andrógino no templo da Ilha de Elefanta (Bombaim), construído no oitavo século d. C.. Ele impregnou os grandes textos da sabedoria chinesa (Tao Te King, Kunag Tzu, I Ching) e condicionou o surgimento das seitas budistas: Mahayana e Zen. Nesse século, seus traços podem ser vistos na complementaridade entre as descrições da matéria em termos de ondas e partículas, que foi revelada pelas pesquisas de W. Heisenberg, Niels Bohr e na relação entre matéria e energia na teoria da relatividade de Albert Einstein. De fato, o mundo tal como é retratado pela física moderna se assemelha, cada vez mais, ao mundo retratado pela cosmologia oriental das Gunas. O livro “O tao da física” de F. Capra mostra essas analogias, sendo que o subtítulo desse livro pode ser traduzido como “uma exploração do paralelismo entre a física moderna e o misticismo oriental”. Mesmo porque, a exploração dos mundos atômico e subatômico expõe,além das três dimensões, “o fluxo constante da transformação e da mudança” tão estimado por Heráclito. Nossos pensadores procuraram isolar os momentos desse vir a ser eterno que refletem a circulação da energia entre os três canais principais do Virata. Porque é ele, e somente ele, que traz o movimento para as coisas. Por meio do Adi Ida Nadi, onde reina Shri Shiva, ele deseja. Pelo Adi Pingala Nadi, o reino de Shri Brahma, ele cria. Por intermédio do Adi Sushumna Nadi, onde Shri Vishnu reina, ele promove a evolução. Com base nos hinos mitológicos dos Vedas até o ‘par de opostos’ desenvolvido pela filosofia da História de Spengler, quase todas as civilizações tenderam a identificar os extremos da bipolaridade cósmica, isto é, Adi Ida Nadi e Adi Pingala Nadi. A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 99 Nesse sentido, deve-se ver, por exemplo, O. Spengler, Der Utergang des Abendlandes. Os historiadores, tais como Spengler, Burckhardt e Toynbee, estudaram a História da cultura e dos ciclos das civilizações, a fim de descobrir uma estrutura inteligível que, em última análise, refletiria a atuação das três Gunas. Quando, por exemplo, Burkhardt se espantou ao indagar: “Quem meditou sobre o desaparecimento da melodia em nossa música ocidental?”, ele constatou o deslocamento de nossa sensibilidade coletiva para a racionalidade crescente da Rajo Guna. Spengler identificou nos dogmas e na arquitetura do Islã as expressões simbólicas da Tamo Guna. Numerosos pensadores tentaram elucidar, intuitivamente, essas misteriosas relações entre o cosmo, a História, a arte e o psiquismo. A bipolaridade cósmica assumiu nomes diversos, tais como, Yin e Yang, o dionisíaco e o apolíneo etc. Naturalmente, ao mesmo tempo, mediante a intuição das interações e tensões entre esses dois pólos, diversos modelos conceituais (Weltanschauungen) foram concebidos, tais como, a impermanência dos fenômenos no mundo budista, ou, mais familiar a nós, a dialética hegeliana\marxista com seu jogo de contradições e de identidade. A seqüência é, mais ou menos, a seguinte: a alternância dos opostos (Ida e Pingala) chega a um ponto de equilíbrio (Sushumna), que representa uma síntese sutil e mais elevada ou a base para o próximo estágio evolutivo. Entretanto, para o homem, é mais difícil perceber este último que o processo de contradições. Existem contradições, efetivamente, no plano cósmico do Virata, entre a Tamo e a Rajo Gunas (sendo essa a razão por que a mitologia hindu contém histórias de rivalidade simbólica entre Shiva e Brahma). Essas contradições descobertas pela ciência também existem no mundo material, assim como no nível microcósmico do ser humano, entre os dois canais, Ida e Pingala. Nossas teorias econômicas refletem nossa percepção O ADVENTO 100 da lei de contradição e de seu mecanismo regulador em nosso meio ambiente. É a mão invisível da qual fala Adam Smith. Nossas teorias psicológicas evoluem a partir da percepção da lei de contradição em nossa psique. Voltaremos a isso mais tarde. Assim sendo, a estrutura e os mecanismos do Virata se encontram refletidos, repercutidos no homem. Cada Chakra, no microcosmo humano, corresponde a: - um aspecto específico de Deus; - uma função determinada na evolução física, psíquica e espiritual do sujeito; - um grau específico de execução do programa evolutivo do Virata. Por outro lado, a tríplice divisão da energia primordial que regula os três modos de atuação do Virata controla também, no plano mais grosseiro, as partes de nosso sistema nervoso autônomo. O sistema nervoso simpático esquerdo é regulado pelo poder de existência (Tamo Guna). O sistema nervoso simpático direito é gerido pela atividade do Criador (Rajo Guna) e o sistema nervoso parassimpático pelo poder evolutivo (Sattwa Guna). Dessa forma, o conjunto da estrutura cósmica primordial está projetado em nós, que somos o microcosmo, à espera de sua Auto-realização. As divindades estão assentadas nos Adi Chakras do Virata, de onde administram o cosmo. Os Chakras, no corpo humano, são os receptores das diversas freqüências de energia divina emitidas por esses ‘organizadores’ das vibrações divinas. Todavia, antes de nossa Auto-realização, os reflexos das divindades em nossos Chakras não aparecem. Os Chakras receptores não captam as vibrações que lhes são destinadas e o microcosmo se sente como uma entidade separada do resto do cosmo. Podemos afirmar que nossas divindades permanecem adormecidas, até o momento em que a ascensão da Kundalini as desperta. Portanto, os Chakras desempenham um papel muito A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 101 importante. Eles contêm o código do programa da evolução do organismo e encaminham as instruções por intermédio do sistema nervoso. Lyall Watson, em seu livro The Romeo error, observa: “As células da região orbital de um embrião de rã podiam ser transferidas para qualquer parte da região do estômago, porém ali, elas se punham a produzir um novo tipo de tecido intestinal e não mais o dos olhos internos. Existe um sistema coordenador que quer que as células tenham um papel específico, numa região particular, se bem que cada uma delas é capaz de fazer não importa o quê, e fazem aquilo que se espera delas.” Após a Auto-realização, as divindades são despertadas, a energia passa de um Chakra a outro, e o conjunto de nosso sistema de consciência (biológico, endocrinológico, psicológico, espiritual) é integrado. Simultaneamente a essa integração interior, a consciência de nossa integração no cosmo permite que nos situemos em relação ao Virata. Somos células em seu organismo e cada célula contém o código do organismo inteiro. Assim, os Chakras e os Nadis são os instrumentos espirituais (Yantras) que, despertados e controlados por uma técnica autorizada (Tantra), isolam seu próprio reservatório de energia- consciência (Mandala) que tece a fibra da atenção realizada (Boddhi Chitta). Por meio desse quadro, nos é possível tomar consciência da ubiqüidade do espírito (Paramatman, Brahman) irradiado pelo coração do Virata e cuja indestrutibilidade Cristo provou, mediante sua ressurreição e de sua ascensão. Da mesma forma, compreendemos que somos uma parte integrante do Todo. “Brahman é realidade, consciência, infinitude. Aquele que sabe que Ele está escondido no coração e no firmamento supremo, realiza todos os desejos na sabedoria de Brahman.” Tattirya Upanishad O ADVENTO 102 É, verdadeiramente, essa realidade, repetiam os santos do passado, que deve ser apreendida para que se possa escapar da aparência da realidade do mundo fenomênico, a qual os seres não-realizados tomam por verdadeira. Shankaracharya, em seu texto ‘Aparokshanubhuti or Self-Realization’, afirma que “da mesma maneira que a aparição de um fantasma num espaço vazio, ou um castelo suspenso no ar, ou uma segunda Lua aparecendo no céu são ilusórios, também é ilusória a aparência do universo dentro de Brahman”. Quando percebemos o corpo vibratório de Brahman, os nós górdios da consciência são cortados. Todos os fragmentos do universo ocupam seus lugares; o quebra-cabeça toma forma. O mundo material e o universo psíquico, bem como suas relações com as diversas províncias espirituais do cosmo, formam os liames de uma mesma trama e se manifestam numa realidade única. O mundo é integrado na consciência daqueles que nasceram novamente e a imagem do eidon (essência) do Virata se revela. As frases são complexas, porém a experiência é simples. O homem moderno arvorou-se em juiz severo da criação, apesar de ignorar as correspondências secretas entre Deus e sua criação, que inscrevem, como numa filigrana, o desenho de sua semelhança. Van Gogh nos diz que “esse mundo é um projeto de Deus que não deu certo. Um mundo onde a esperança bate contrao teto como um morcego”, conforme descreve Baudelaire, em seu poema que tem um título sugestivo: ‘Spleen’ (que significa ‘baço’ e também ‘mau humor’). Ele não sabia que os morcegos dispõem de uma espécie de radar, e que a esperança de uma Nova Consciência permaneceu viva desde Sócrates, por várias gerações de buscadores. Shri Mataji diz: “O homem está sufocado dentro de um casulo conceitual que ele mesmo criou”. A. Camus, em seu livro “O homem revoltado”, registra que “o homem não percebe as questões reais e pensa A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 103 encontrar-se na revolta”. Com um orgulho vazio, ele se prende nesse absurdo de sua própria lavra, que acredita ser a natureza essencial da existência. J. Monod, em ensaio sobre a biologia moderna que se chama “O acaso e a necessidade”, observa: “É preciso que o homem acorde finalmente de seu sonho milenar fim de descobrir sua total solidão, sua alienação radical. Ele sabe agora que, como um cigano, está à margem do universo onde deve viver. Um universo surdo à sua música, indiferente às suas esperanças, bem como aos seus sofrimentos ou aos seus crimes.” Após a Auto-realização, os reflexos das divindades primordiais aparecem em nossos Chakras. A Kundalini trabalha para aperfeiçoar a fidelidade dessas imagens, ou mais abstratamente, ela atua no sentido de aumentar a ressonância vibratória entre os Adi Chakras do Virata cósmico e os respectivos Chakras de nosso corpo. A hipótese da relação entre o sistema nervoso do indivíduo e a estrutura cósmica do Virata encontra sua confirmação somente após a Auto-realização. Assim, podemos perceber, por exemplo, que os diferentes Chakras reagem à recitação dos mantras de suas divindades controladoras. Um hindu fanático que rejeita o Profeta Maomé terá sua Kundalini bloqueada na altura do Void, que é controlado pelo mestre primordial do qual o Profeta Maomé foi uma das encarnações. Pronunciando-se o mantra adequado que proclama a identidade entre o mestre primordial Maomé e a energia primordial divina, o obstáculo se desmantela e a Kundalini prossegue em sua ascensão. Assim, o despertar da Kundalini prova que o homem, longe de estar à margem ou solitário está, na verdade, conectado às grandes fontes da energia divina e com os diferentes aspectos de Deus Todo-poderoso. Isso prova também a unidade absoluta O ADVENTO 104 das grandes religiões do mundo. Por exemplo, um cristão terá que reconhecer Shri Krishna, para que sua Kundalini possa passar além de seu Vishuddhi Chakra. A Kundalini de um hindu ortodoxo que rejeitar Jesus Cristo se recusará a cruzar seu Agnya Chakra. Lembro-me de um caso semelhante a esse ocorrido num subúrbio de Madras (hoje, Chennai), Índia, onde um hindu muito erudito estava prostrado diante de Shri Mataji. Sua Kundalini estava bloqueada em seu Agnya Chakra, malgrado as vibrações muito intensas que eram irradiadas por Shri Mataji. Disse-lhe: “Você deve reconhecer a divindade de Cristo”. Respondeu: “Reconheço Cristo como um grande santo”. Contudo, isso não foi suficiente: pelo fato de se recusar a reconhecer Cristo como uma encarnação divina, sua Kundalini se negava a ultrapassar seu Agnya Chakra. Shri Mataji aconselhou-o a ler a Bíblia e a se preparar, para voltar novamente com uma nova atitude. A ascensão da Kundalini de uma pessoa pode ser acompanhada por outros Sahaja Yogis que estejam presentes, desde que estes estejam em ‘estado de consciência coletiva’ e sejam capazes de identificar aquilo que está ocorrendo no interior da pessoa, na qual concentram sua atenção. Graças à consciência perceptiva vibratória, todos podem sentir, por intermédio de suas mãos ou de seu corpo, qual o Chakra que está bloqueado, mediante uma sensação de calor, uma pressão localizada, ou uma dor ligeira. Se, por exemplo, o Vishuddhi Chakra do aspirante estiver bloqueado e se todos canalizarem sua energia para esse Chakra, quase sempre, poderão limpá-lo. Isso pode ser feito, por exemplo, pela veneração da divindade correspondente a esse Chakra. Em Nova Delhi, nosso pequeno grupo trabalhava num homem idoso, cujo Agnya estava bloqueado. Estávamos sentindo uma grande tensão em nossas frontes. Shri Mataji me pediu que rezasse o pai-nosso, algo que fiz com grande emoção. Imediatamente, a tensão em nossas frontes se dissolveu, e logo em seguida, senti as vibrações A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 105 frescas virem do homem. Isso prova que sua Kundalini havia alcançado o Sahasrara Chakra. No mesmo instante, o homem idoso começou a sentir a Graça fluir nele. Shri Mataji comentou: “O pai-nosso é, por excelência, o mantra do Agnya Chakra e somente após a Auto-realização é que ele se torna tão eficaz”. Jamais havia me sentido tão ‘cristão’ como naquela noite. As mornas missas de minha infância me pareceram uma aberração, ou seja, a negação daquilo que pretendiam celebrar. Hoje em dia, é verdade, tentam animar as missas com guitarras elétricas ou com pantomimas ditas carismáticas. As religiões mundiais são canais de comunicação por meio dos quais as divindades (que estão nos Chakras do Virata) podem transmitir suas instruções para a humanidade. A unicidade dessas divindades é total e se expressa na forma cósmica do Virata. As mensagens das divindades formam as partes de um arcabouço místico de conhecimento espiritual, reveladas por Deus com o passar das eras, a fim de guiar a humanidade em sua grande peregrinação. No entanto, hoje em dia, ainda que o tempo da integração tenha chegado, esse corpo espiritual tem sido desmembrado pelo fanatismo. Repetidas vezes, como abutres, os aiatolás, bonzos, lamas, papas e brâmanes lutam pelos restos mortais, pelas religiões esparsas, cada uma delas reivindicando o corpo inteiro. O fanatismo cristão nasceu com Paulo, que estava muito mais preocupado em combater o Império Romano, que nascer novamente do espírito. Fora da Igreja, não há salvação! O Islã é o único caminho! Maomé e Cristo voltam-se contra o fanatismo daqueles que pretendem segui-los. “Vós me chamareis Cristo, Cristo, e não vos reconhecerei”. Essas palavras foram terrivelmente proféticas porque o Agnya Chakra, presidido por Cristo, se fecha, irremediavelmente, para aquele que usa Cristo como pretexto, a fim de não reconhecer Shri Mataji. Serão essas as mesmas pessoas que invocavam Abraão e Moisés para não O ADVENTO 106 aceitarem Cristo? Da mesma forma, Shri Vishnu impedirá a passagem da Kundalini, pelo Nabhi Chakra, de um hindu ortodoxo que não o reconhecer. Os budistas e os jainistas, perdidos em seus rituais, desenvolverão perturbações em seus egos e superegos. As contradições e as posições dogmáticas geradas pelas deturpações dos textos sagrados chocam-se com o princípio da universalidade. Não obstante, antes da experiência com a brisa fresca do Espírito Santo, quem é que pode distinguir o falso do verdadeiro? Não podíamos sentir nem sequer a presença de Deus! Somente a manifestação da Kundalini revela - ao verdadeiro coração de nosso sistema - que todas as encarnações divinas são diferentes aspectos de um único Ser. A negação, por parte do aspirante, de qualquer um desses aspectos desse Ser uno, cria dificuldades para a integração de seu sistema interior. Isso porque, o Chakra correspondente à divindade que ele rejeita não se abre (nem o Chakra relativo a qualquer divindade que ele venera com exclusão das demais). As pessoas realizadas já acumularam uma vasta experiência em situações desse tipo. Já se observou que a Kundalini não cruza o espaço vazio (Void) que fica entre o nervo vago do sistema nervoso parassimpático e o plexo solar, se o mestre primordial (Shri Adi Guru Dattatreya) não for aceito em qualquer uma de suas encarnações (Raja Janaka, Abraão, Moisés, Zoroastro, Lao Tse, Confúcio, Sócrates,Maomé, Guru Nanak e Sai Baba de Shirdi). Quando nos vinculamos ao programa cósmico por intermédio da consciência perceptiva vibratória (Chaitanya), começamos a descobrir e a testar a comunhão viva que existe entre nós e o Virata. Por exemplo, Shri Ganesha simboliza a pureza transcendental da divina inocência. Shri Shiva é o Si, a bênção da existência absoluta. Cristo é a luz cristalina da Verdade divina. Para o Sahaja Yogi, cada uma dessas A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 107 expressões representa uma qualidade específica da consciência divina, cujas graças e bênçãos começamos a sentir, a partir da abertura do Chakra correspondente. Um poeta escreveu a Shri Mataji, logo depois de ter obtido sua Auto-realização: “A partir de agora, o sândalo poderá se deliciar com sua própria fragrância”. Quando Sócrates leu a sentença gnothi seauton - ‘conhece-te a ti mesmo’ - na porta do Templo de Apolo, na Ilha de Delfos, ele se deu conta de que o conhecimento do Si é a chave para o conhecimento de todo o universo. Trazemos em nós mesmos a imagem do cosmo, a gestalt (forma) miniaturizada do Virata, o instrumento interior da mutação de nossa consciência perceptiva vibratória, verdade essa anunciada por várias correntes filosóficas. Alcançamos aquele estado evolutivo, com o qual nos tornamos capazes de desenvolver essa nova categoria de percepção vibratória que nos conduz ao reino de Deus. Seria muito lastimável que os Fredericos e os Voltaires modernos, bem como os positivistas e aqueles que usam as descobertas científicas para justificarem suas crenças, continuassem ignorando esse novo tipo de consciência. A consciência perceptiva vibratória abre um novo campo para as investigações empíricas, porém para se extrair o máximo dela é preciso que desenvolvamos um novo método e uma nova atitude. Marx afirmou que tudo que havia precedido a revolução constituía a pré-história, o que não é inteiramente falso. Todavia, a verdadeira revolução é aquela em que a atenção se volta para o interior, em busca de nossa identificação com o Si. A HARPA SAGRADA CAPÍTULO IV “Ó amigo! Teu corpo é a tua lira.” Kabir “Toca o teu alaúde sem cordas.” Koan zen-budista “Para sermos felizes, necessitamos apenas da alma e de Deus”, afirma o moralista francês Joubert. O problema é que um não pode ser alcançado sem o outro. Dessa forma, é preciso que se descubra um mecanismo que conduza nossa atenção até a alma divina que habita em nós, de modo que essa alma possa nos levar a Deus. Hoje em dia, os Sahaja Yogis sabem que esse arcabouço de conhecimentos está vivo dentro de cada um de nós. Voltemos nossa atenção para o microcosmo humano e recordemos o que os sábios do passado diziam: “Esse corpo é uma cidade que não pode ser conquistada. Há nove portas e há, em todas as partes, Nadis (canais), através dos quais a energia vital (Prana) age. Porém, o canal mais importante é o Sushumna que passa pela coluna vertebral em direção ao cérebro. No sistema nervoso, encontram-se os plexos que controlam as diversas partes do corpo, e que são denominados Chakras... Lembrem-se de que eles se situam, de fato, na coluna vertebral e na parte superior do cérebro.” (Comentário do primeiro mantra do Purush Sukta por Shampuraanand) Rig Vediya Purush Sukta A HARPA SAGRADA 109 No mesmo sentido, registra-se que o Guru Vashista teria dito a Shri Rama: “Existem dois canais muito sutis chamados Ida e Pingala. Nesse corpo físico, estão colocados à esquerda e à direita, e a pessoa não tem consciência de sua existência. Esse mecanismo contém também três pares de lótus (Chakras) que estão superpostos num fio. O Prana opera por meio de todos eles.” Cerca de oito mil anos depois dessa discussão, numa segunda-feira como outra qualquer, no Caxton Hall, Londres, Shri Mataji entrou com seu passo poderoso na sala, onde a platéia a esperava numa atmosfera de recolhimento. Havia um grande diagrama pendurado no palco, que mostrava os Nadis e os Chakras de um ser humano em meditação. Ela começou a falar: “Boa-noite. Espero que saibam por que estão aqui. Espero que saibam o que é que estão buscando, porque nessa noite, muitos, dentre vocês, irão receber sua Auto-realização. As encarnações que vieram antes de mim nunca tiveram tamanha sorte em encontrar tantos buscadores do Si, porém agora o tempo é chegado. Agora tudo está pronto em seu interior. Verão nesse diagrama três canais, que se chamam Ida, Pingala e Sushumna”. Mais uma vez, esse grande milagre da Realização coletiva irá se produzir sob nossos olhos, provando-se a verdade das descrições feitas sobre nosso sistema interior de energia- consciência, em tempos remotos, pelos mestres espirituais. Olhemos mais de perto esse sistema sutil. No interior do corpo físico humano encontra-se embutido um corpo sutil de energia espiritual irrigado por três canais principais. O Sushumna Nadi, canal central, corresponde ao sistema nervoso parassimpático (SNP). O Pingala Nadi, canal solar, corresponde ao sistema nervoso simpático direito O ADVENTO 110 (SNSD) e termina no ego, o qual recobre o hemisfério esquerdo do cérebro. O canal esquerdo (Ida Nadi), ou canal lunar, corresponde ao sistema nervoso simpático esquerdo (SNSE) e termina no superego, que recobre o hemisfério direito do cérebro. O doutor Robert Sperry, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, recebeu, em 1981, o prêmio Nobel de medicina por ter demonstrado as diferentes funções dos hemisférios do cérebro. O hemisfério esquerdo é mais ativo e o hemisfério direito é mais silencioso, embora este último seja mais efetivo de forma diferente. Essa descoberta apenas confirma os ensinamentos de Shri Mataji. Os Chakras são as fontes de energia dentro da coluna espinhal e dentro do cérebro humano. Manifestam-se, fisicamente, como plexos nervosos e controlam os órgãos do corpo, por intermédio do sistema neuro-endocrinológico correspondente à sua localização no corpo. Eles determinam o código genético. Controlam, no nível psíquico, os processos mentais e emocionais. No plano espiritual, controlam os diferentes aspectos de nossa natureza divina. O primeiro Chakra (Muladhara) está situado na base da coluna vertebral. Os plexos e subplexos de nosso corpo físico são em igual número dos Chakras e pétalas dos Chakras do corpo sutil. O último Chakra (Sahasrara) é descrito, na poesia tradicional, como sendo similar às flores de lótus. Existem ainda muitos outros Chakras, além dos sete principais, os quais não mencionaremos nessa introdução sumária, assim como inúmeros outros Nadis que inervam nosso corpo inteiro. Esse instrumental psicossomático e espiritual, que o Yogi pode discernir por meio da consciência perceptiva vibratória, não pode ser percebido pelo bisturi do cirurgião. Sua manifestação física dá-se por intermédio do sistema nervoso autônomo, cuja descrição pode ser encontrada em qualquer livro de fisiologia. Limitar-nos-emos aqui a dizer apenas que ele se A HARPA SAGRADA 111 divide em duas partes, o sistema nervoso autônomo parassimpático (SNP), cuja atividade visa a conservar, a restaurar e a equilibrar a energia e o sistema nervoso simpático (SNS) cuja atividade é responsável por nossas ações e pelo dispêndio de nossa energia, sendo particularmente ativo em situações de emergência. A porção simpática de nosso sistema nervoso autônomo (SNA) localiza-se na região torácico-lombar do corpo, enquanto que a porção parassimpática está eminentemente associada ao eixo sacro-craniano do corpo humano. A neuro-endocrinologia do cérebro pode ser usada para interpretar, até certo ponto, a relação existente entre esse sistema e a atividade da psique. A posição dos Chakras, no corpo sutil, corresponde à localização, no corpo físico, de importantesprodutores de hormônios (a hipófise, a tireóide, o timo, as glândulas supra- renais, os ovários, os testículos, etc.). A medicina ocidental nega qualquer função fisiológica aos Chakras, porque, até hoje, não conseguiu identificar nenhum sistema circulatório, nervoso ou linfático que reunisse esses pontos entre si. No entanto, a Sahaja Yoga nos ensina que os canais Ida, Pingala e Sushumna interligam, de fato, esses centros e que cada canal é composto por tantos ‘tubos’ concêntricos (embutidos uns nos outros), quantos são os Chakras. Cada Chakra dispõe de seu tubo específico no Nadi (canal). As técnicas de cura da Sahaja Yoga agem por meio desses circuitos integrados, e elas exercem um impacto regulador sobre o sistema endócrino, bem como sobre o processo que ele controla. De fato, tudo isso não é novidade. A medicina indiana chamada Ayurvédica (essa denominação deriva do fato de ela ter sido compilada nos Vedas, em torno de 1.500 a. C.) era exercida com base nesse sistema. O organismo humano tem a mesma estrutura básica do macrocosmo. Ele é constituído pelos mesmos elementos: terra (Muladhara), fogo (Swadishthana), a água (Manipura), ar (Anahata) e éter (Vishuddhi), os quais a O ADVENTO 112 Sahaja Yoga identificou como tendo correspondência com os Chakras indicados entre parênteses. No corpo humano, o esqueleto, os músculos e todas as partes relativamente duras originam-se do elemento terra. Todos os líquidos que circulam nele se originam do elemento água. O calor do corpo, a capacidade de digerir os alimentos e a bílis vêm do fogo. Todos os processos e movimentos do corpo são estimulados pela força vital derivada do elemento ar. Há vários órgãos, como aqueles vinculados à percepção, que correspondem ao elemento éter. A boa saúde decorre de um bom equilíbrio entre esses elementos e, particularmente, entre os gases (ar), a bílis (fogo) e os humores (água). Um sistema de diagnóstico empírico, que examinasse as condições gerais de saúde de um paciente, poderia ser desenvolvido com base no conhecimento das correspondências entre Chakras, elementos, planetas e propriedades específicas. Entretanto, Hipócrates nem o pajé da tribo dos índios Comanches e nem sequer o médico-psicólogo Ayurvédico puderam captar, claramente, em seu conjunto, o que foi revelado pela ciência da Kundalini, a Kundalini Shastra. Hoje, os laboratórios farmacêuticos mais avançados estudam modelos químicos muito complexos de plantas medicinais, cujos efeitos foram conhecidos pela tradição, na esperança de desenvolver novos medicamentos sem os indesejáveis efeitos colaterais. Essas pesquisas são bem-vindas, porém se inscrevem ainda e sempre na periferia do conjunto de conhecimentos novos que se abrem para nós pela revelação da Sahaja Yoga. Com efeito, as relações com o vir a ser espiritual das pessoas não são percebidas pela ciência contemporânea, apesar de os Nadis e os Chakras serem a base energética de nossa evolução, da qual, mais especificamente, o Sushumna é o caminho. A ciência não poderá confirmar nem refutar essas proposições, porque, infelizmente, para nossos sábios cientistas, o Divino não pode ser confinado dentro de tubos de ensaio. É A HARPA SAGRADA 113 praticamente impossível realizar um experimento cientificamente controlado sobre os Chakras, uma vez que estes só reagirão, adequadamente, caso o protocolo das divindades e o da Kundalini seja respeitado. Assim sendo, a única maneira de uma pessoa testar nossa hipótese, acerca dos sistemas nervosos simpático e parassimpático, é começar a perguntar pela Auto- realização, e se quiser, recebê-la, posteriormente. Comentando os trabalhos da medicina psicossomática nos EUA, Jean Starobinsky, em seu livro “A relação crítica”, afirma que: “A afirmação fundamental é a necessidade de se praticar uma medicina ‘holística’ atenta à totalidade dos fenômenos. É preciso, assim, coordenar os diversos métodos de diagnóstico e tratamento, situar o fator psicológico em suas relações com os fatores somáticos, renunciar a procurar uma causa única para cada afecção”. Todavia, a chave da medicina holística (a medicina que trata do corpo e da mente, como um todo) não pode ser uma síntese dos métodos ou de linguagens. Ela se encontra apenas quando temos acesso ao instrumento que exerce, em nós, essa função holística. Os Chakras e os Nadis mantêm a coesão dos sessenta e quatro revestimentos ou corpos sutis que compõem a totalidade do ser humano. Quem encontrar a harpa compreenderá sua música. Shri Mataji Nirmala Devi explica: “O amor divino onipresente emite um feixe de raios de consciência que atravessa e ilumina o cérebro. Isso ocorre quando o feto humano atinge o período de dois ou três meses, no útero de sua mãe. Tendo o cérebro uma forma de prisma, esse feixe sofre uma refração e se divide em quatro canais diferentes, que correspondem aos quatro aspectos do sistema nervoso. 1. O sistema nervoso parassimpático; 2. O sistema nervoso simpático direito; 3. O sistema nervoso simpático esquerdo; O ADVENTO 114 4. O sistema nervoso central (nossa ligação cognitiva com o mundo objetivo, da qual não falaremos aqui). O conjunto de raios divinos que desce sobre a fontanela (o topo da cabeça, chamado de moleira) penetra no centro e passa diretamente para a medula espinhal, através de um canal que se chama Sushumna. Essa energia, após deixar um traço muito fino e filiforme no bulbo raquidiano, vai se fixar, enrolada sobre si mesma, com, exatamente, três voltas e meia, no osso triangular que se situa na base da medula espinhal (Muladhar). Essa energia é chamada de Kundalini... O sistema nervoso parassimpático é o meio pelo qual absorvemos a energia. Tão logo a criança nasce e seu cordão umbilical é cortado, abre-se uma brecha no Sushumna Nadi, entre o plexo solar e o nervo vago, do sistema nervoso parassimpático. No pensamento hindu, esse espaço é chamado de Maya ou Bhava Ságara (oceano de ilusão) e de Void (vazio) na terminologia zen-budista. Mais tarde, quando o ego e o superego inflam como balões e recobrem o cérebro, no ápice do sistema nervoso simpático direito e esquerdo, a fontanela se calcifica e nos separamos da força vital do amor divino onipresente... Então o ser humano se percebe como um ser separado e é governado pela consciência do ego, do ‘eu’ (Aham). É por isso que o ser humano não conhece seu Inconsciente universal, porquanto este foi cortado pelo seu ego.” No Aitareya Upanishad, o mestre Shankaracharya observa que “a consciência de Deus penetra no corpo através da ‘coroa da cabeça’, onde os cabelos são divididos ao meio, pelo partido”. Até hoje, as mulheres hindus enfeitam sem saber por que razão, esse lugar da cabeça, com um pó vermelho. A HARPA SAGRADA 115 O SISTEMA NERVOSO SIMPÁTICO (SNS) “Tudo que é humano é relativo, desde que se repouse sobre os contrastes interiores; porque todos os fenômenos são de natureza energética.” Carl Gustav Jung “Psicologia do inconsciente” O SNS é o meio pelo qual os homens ainda não- realizados se programam ou são programados em sua vida diária, assim como no ciclo transmigratório de seus renascimentos. É, com efeito, grandemente em função do estado do SNS que nosso destino é articulado. O canal esquerdo (Ida Nadi) mobiliza a energia do desejo. O canal direito (Pingala Nadi) é responsável pela energia da ação (física e mental). Esse sistema bipolar, que funciona por ação e reação, só pode dar origem às sínteses relativas, que iniciam os processos de feedback com suas interações contraditórias, porém auto- reguladoras. Jean Piaget assevera, em sua obra “Epistemologia genética”, que: “A auto-regulação parece constituir, ao mesmo tempo, uma das características mais universais da vida e o mecanismo mais geral que é comum às reaçõesorgânicas e cognitivas”. A observação de Piaget confirma a assertiva de Jung: “A psique é um sistema que se regula autonomamente, e não haveria equilíbrio nem um sistema auto-regulador, caso não houvesse forças contrárias capazes de contrabalançá-los”. Essa menção ao equilíbrio me leva a sugerir que, quando os movimentos psíquicos que surgem dos dois canais se equilibram, a pessoa desenvolve uma personalidade equilibrada, propícia ao despertar do terceiro canal, o canal central (Sushumna Nadi) – também denominado de caminho do meio - como prelúdio da Auto-realização. O SNS esquerdo utiliza a energia do Ida Nadi, o canal lunar, à esquerda do Sushumna. A rede irrigada por esse canal controla a vida subconsciente da psique e desemboca no O ADVENTO 116 superego. Todas as nossas experiências passadas se acumulam no superego. Quando nossa atenção se liga ao lado esquerdo, imergimos nas emoções, no passado, na nostalgia e outros estados afetivos. As perturbações desse canal dão origem a distúrbios psíquicos e a tensões sobre o superego, as quais abrem nossa psique a todas as espécies de interferências, desde os casos psicológicos benignos até aqueles casos extremos de possessão por espíritos. Os seres com temperamentos arraigados na Tamo Guna tendem a criar hábitos, a se submeter aos outros e a se lamentar. São muito condicionados e canalizam sua agressividade contra si mesmos, submetem-se aos outros e se conformam com as agressões que lhes são infligidas. Após a morte, os casos mais demoníacos passam a vagar pelos sete círculos do inferno que sintetizam o subconsciente coletivo. Essas almas (Bhuts) depravadas (os budistas as chamam de preta) podem ali errar, durante algum tempo, contudo sempre tentam escapar dessas regiões infernais, parasitando a mente de um ser humano vivo. A confusão entre o sexo e a Auto- realização, retomada na década de 60, nos deixa particularmente vulneráveis às armadilhas do subconsciente. Freud devotou, com exclusividade, sua atenção a essa parte de nossa vida psíquica, a qual ele expôs nos conceitos de libido, eros (instinto de vida) e thanatos (instinto de morte). O SNS direito utiliza a energia do Pingala Nadi, o canal solar, à direita do Sushumna. Ele nutre a consciência ativa e desemboca no ego. Quando nossa atenção se volta para o lado direito, mergulhamos na atividade mental, no planejamento, na organização e em todas as províncias das atividades mentais orientadas para o futuro, que constituem o supraconsciente. No caso de uso excessivo da energia do Pingala Nadi, ocorre uma sobrecarga na rede, o que explica os sintomas de agitação mental e esgotamento nervoso que podem perturbar os intelectuais, os burocratas, tecnocratas e todos aqueles que se deixam levar pelo fascínio de Kratos, o Poder. Certamente, com A HARPA SAGRADA 117 isso, o ego se infla e se torna intumescido. Após a morte, os seres com temperamentos enraizados no Pingala Nadi são remetidos para as províncias do supraconsciente coletivo. Os melhores casos, após a morte, podem ir para aqueles lugares que foram descritos como as regiões celestiais (que são sete ao todo, conforme Shri Mataji). Todavia, ocorre um impasse. Precisam ter um nascimento humano para que obtenham a Auto- realização. Nos casos piores, os temperamentos rajásicos se tornam personalidades do tipo ‘Gêngis Khan’, ‘Tamerlão’, ou ‘Hitler’, que tentam dominar os outros com os poderes que adquiriram. Podem ainda, nos casos menos espetaculares, se tornar ascetas, sacerdotes sexualmente reprimidos ou Hatha Yogis que galvanizam, à plena carga, todas as suas energias do lado direito, a fim de assegurar uma espécie de dominação psíquica em relação aos outros. Evidentemente, o ego é característico a todas as pessoas e ele nos cria muitos problemas, mesmo que não tenhamos plena consciência deles. A psique dominada pelo ego exibe uma forte tendência a passar dos julgamentos - quase sempre limitados - à construção de castelos no ar e a direcionar sua agressividade contra os outros. Adler resumiu, em sua teoria sobre a busca do poder, os resultados de suas pesquisas sobre essa parte de nossa psique. Ademais, Adler e Freud estudaram, cada um a seu modo, o par de opostos, isto é, os Nadis, detendo-se Adler, predominantemente, no lado direito (Pingala Nadi) e Freud, principalmente, no lado esquerdo (Ida Nadi), conforme analisa Jung, em sua obra supracitada, “Psicologia do inconsciente”: “Em Adler, a ênfase recai sobre um sujeito que busca colocar- se em segurança e a dominar os objetos e as coisas, quaisquer que sejam; em Freud, ao contrário, a ênfase recai, inteiramente, sobre os objetos que, por causa de suas propriedades específicas e precisas, são favoráveis ou desfavoráveis às aspirações hedonísticas do sujeito”. O ADVENTO 118 A fim de ilustrar as interações dos Nadis Ida e Pingala, consideremos a seguinte seqüência de eventos. Quando o recém- nascido é separado de sua mãe, ele vive o trauma da separação, que fica gravado em seu subconsciente (Ida Nadi). Seu ruidoso protesto o confirma, nessa nova existência, e proclama seu ego individual (Pingala Nadi). Tal como um banco de gravações magnéticas, o subconsciente da criança registra todas as reações às situações novas e, alimentado pelas informações desse banco, o ego se afirma cada vez mais. Com o desenvolvimento de suas atividades, o ego e o superego começam a se inflar, como balões, nos dois hemisférios do cérebro e a recobrir, completamente, a membrana da moleira que se calcifica. Essa calcificação marca a ruptura da conexão com o Inconsciente universal. Nasce, assim, um novo microcosmo. Assim, o ser humano, apartado da energia divina sutil, que absorvia pelo topo do crânio, identifica-se como uma individualidade, um ser separado do Todo, e sua psique torna-se um campo de tensão entre o ego e o superego. Os canais Ida e Pingala podem ser imaginados como sendo fábricas de operações físicas e psíquicas. A energia usada que, numa fábrica, é expelida pela chaminé, fica retida no ego e no superego, os quais, em virtude disso se avolumam. A abertura do Sahasrara, o batismo, permitirá a evacuação desses dejetos energéticos. Com o crescimento do indivíduo, o desenvolvimento de suas faculdades mentais e criativas infla o ego, enquanto que o superego acumula o estoque dos condicionamentos cotidianos. O ego e superego criam uma espécie de filme de ilusão que impede que nossa atenção se concentre sobre a verdadeira realidade do Sahasrara Chakra. Apenas a Kundalini é capaz de perfurar esse casulo de consciência ilusória. Todavia, enquanto estiver fechado o canal central, Sushumna, a energia do SNS não pode penetrar no ponto de equilíbrio do Agnya Chakra. A energia oscila da esquerda para a direita, da direita para a A HARPA SAGRADA 119 esquerda, num movimento elíptico constante. Vale citar novamente Jung que, em sua obra “Metamorfoses da alma e seus símbolos”, esclarece que “todo extremo psicológico contém secretamente seu contrário e mantém, de certa forma, uma relação próxima e essencial com ele”. A energia vai e vem entre os dois pólos, estabilizando-se, de tempos em tempos, perto do ponto de equilíbrio do Sushumna. A estabilidade e a maturidade de uma pessoa são inversamente proporcionais à amplitude dessas oscilações. Quanto mais se equilibram, mais a personalidade se integra. Esses movimentos de energia entre os Nadis contrários exercem uma influência determinante sobre nosso comportamento e nossa evolução interior. Mui freqüentemente, nos desequilibram e nos transformam em reféns das Gunas. É por isso que o tocador de alaúde disse para Siddharta Gautama que somente se pode encontrar o tom correto quando as cordas do instrumento não estiverem muito esticadas nem muito frouxas, conselho esse que ajudou Siddhartaa se iluminar, pois se transformou em Buda. Quando as cordas da harpa se tornam soltas ou relaxadas (hiperatividade do SNS esquerdo), procuro contrabalançar esse relaxamento, retesando-as (pela ativação do SNS direito). Esse processo regula não só o progresso de nossa vida diária, mas também o ciclo de renascimentos, o que levou Jung a concluir que a vida psíquica é controlada pela ‘função reguladora dos contrários’, que Heráclito chamava de sistema enantiomorfo, tal como uma imagem refletida num espelho. Tudo isso nos remete de volta às considerações preliminares a respeito da ecologia cósmica das Gunas, o Yin e o Yang de Lao Tse, a migração dos elétrons no banho eletrolítico, e à dialética. Lenin observa, em relação à obra “Conspectus of Hegel’s - The science of logic”: “A dialética é a disciplina que mostra como os contrários podem ser, em que condições eles se tornam idênticos, e O ADVENTO 120 como se transformam um no outro - porque o espírito humano não deve compreender esses contrários como imutáveis e rígidos, porém muito mais como vivos, condicionais e mutáveis que se transformam um no outro.” Por outro lado, Mão Tse Tung (um taoísta que não sabia que o era), em seu livro intitulado “Sobre as contradições”, assevera que “constitui um fato verdadeiro que a unidade ou identidade dos contrários nos objetos não está morta ou rígida, mas está viva, condicional, móvel, temporária e relativa. Em dadas condições, cada aspecto contraditório se transforma em seu contrário”. O jogo arquetípico entre os Nadis do Virata reverbera, ao infinito, na matéria, nos modelos conceituais abstratos, bem como em nosso sistema nervoso. Como funciona essa auto-regulação no corpo humano? Quando um dos lados do sistema nervoso simpático for muito solicitado, em seguida, é seu contrário que será afetado. Sobre o plano físico, para dar o exemplo de um caso extremo, digamos que um temperamento dominador muito influenciado pela Rajo Guna (rajásico), que, de uma maneira geral, tem uma hiperatividade do Pingala Nadi, será facilmente vítima de uma crise cardíaca (o coração é controlado pelo Ida Nadi - canal esquerdo). Enquanto que uma pessoa muito perturbada pela pressão da Tamo Guna (tamásico) sobre seu canal esquerdo (Ida Nadi) torna-se oprimida, autodestrutiva e desenvolverá perturbações mentais (porque a atenção é controlada pelo Pingala Nadi ou canal direito). Mas, muito antes de chegar a um estado patológico, o organismo de uma pessoa saudável terá apresentado sinais de perigo, quando percebe que o movimento da energia está na iminência de perder o equilíbrio, isto é, de que o equilíbrio entre os Nadis não está sendo mantido. Quais são os sintomas disso? A HARPA SAGRADA 121 Numa pessoa com predominância do lado direito (right-sided person), os sintomas são, por exemplo, a atividade mental excessiva, a agitação, a insônia e/ou a náusea. Numa pessoa orientada pelo lado esquerdo (left-sided person), os sintomas mais freqüentes são a apatia, o enfado, a ansiedade e/ou a depressão. Infelizmente, não sabemos decodificar esses sinais, nem restabelecer o equilíbrio, vale dizer, o ritmo certo do circuito Ida-Pingala. Com o passar dos anos, pode ser que a auto-regulação não consiga mais manter a coesão do sistema, o que pode levar a pessoa a ter problemas com sua saúde física e/ou psíquica. Quando a energia psíquica, sob o aspecto de atenção (Chitta), oscila do extremo do ego ao extremo do superego, o indivíduo terá de suportar as tensões que resultam dessa oscilação. Essas tensões podem atingir o ponto de ruptura (neuroses, psicoses ou depressões) e abrir o sistema para as entidades perniciosas que estão fora dele. Nos piores casos, se a energia-consciência estiver muito identificada com um dos dois canais, o comportamento se tornará exagerado e patológico. Um indivíduo assim poderá atrair um outro afligido por algo que é oposto ao que ele sente, ou seja, pelo sadomasoquismo. A arte da Sattwa Guna é manter, mediante a retidão moral (darma), o equilíbrio dos movimentos laterais dos Nadis Ida e Pingala, de tal maneira que a atenção se concentra no ponto onde as elipses se encontram, como na figura 7 (que pode ser comparada ao símbolo tibetano do Vajra). Isso porque, é nessa junção que o Sushumna nos oferece uma alternativa para o movimento horizontal entre os dois canais (Ida e Pingala), abrindo a dimensão vertical evolutiva da Sattwa Guna, mediante a qual a atenção se aprimora e se torna mais refinada. Essa mestria, buscada pelos sábios de outrora, é extremamente difícil de ser conquistada. Contudo, ela reúne, evidentemente, as condições ótimas para o despertar da Kundalini. Muitos de nossos irmãos mais velhos já tentaram conquistar isso! O ADVENTO 122 FIGURA 7: O MOVIMENTO DA ATENÇÃO Gostaria de citar aqui Montaigne (em seu livro “Ensaios”), que desafiava o ego raciocinador (“estranhamente pagamos muito caro por esse belo discurso do qual nos glorificamos”), e zombava do verniz de superficialidade que envolve o homem (“vai-se mais facilmente atrás da arte, do que da natureza”). Montaigne nos deixou algumas frases que resumem, perfeitamente, o temperamento sáttwico: “Não há nada tão belo e tão legítimo que fazer o bem ao homem de forma devida”, ou ainda: “É uma perfeição absoluta e de qualidade divina saber deleitar-se lealmente com seu próprio Ser”. Quando a energia não se desvia desse ponto de equilíbrio, os Chakras não ficam sob estresse. Assim, as pessoas sáttwicas (que são orientadas pelo canal central, Sushumna, e portanto pela Sattwa Guna) manifestam em suas vidas um aspecto de serenidade, de equilíbrio e de harmonia. Nessa condição, as pessoas simples vivem contentes. Os filósofos e os buscadores de conhecimento terão uma propensão a receber intuições oriundas do Inconsciente coletivo, que os conduzirão a resultados frutíferos em seus campos de pesquisa. Os artistas passam a expressar em seus trabalhos a estética da Verdade. As A HARPA SAGRADA 123 vibrações de tais pessoas são frescas e elas recebem a Auto- realização sem dificuldade, porque o Sushumna oferece uma passagem livre para a ascensão da Kundalini. As crianças inocentes e os jovens que gozaram de uma vida familiar feliz pertencem a essa categoria de pessoas. O parassimpático delas mantém os dois canais (Ida e Pingala) em equilíbrio. Centradas no Sushumna, as pessoas sáttwicas demonstram uma maturidade psíquica, sem que se percam nos circunlóquios cerebrais ou em paixões melodramáticas que tendem a ser normais hoje. Elas não se envolvem em jogos mentais ou emocionais, que tecem, de forma cada vez mais espessa, o véu da ilusão (Maya). A alma realizada se torna, gradualmente, livre da influência das três Gunas (inclusive da Sattwa Guna que almeja a busca do equilíbrio, da felicidade e da sabedoria), porque a Kundalini integra e transcende as Gunas, quando passa de seu estado adormecido para seu estado desperto. Shri Krishna disse: “Quão difícil é penetrar através de minha Maya, tecida pelas Gunas!” Certamente o que diz é verdade. É incrivelmente difícil, a não ser que o mestre do jogo decida intervir e sopre a brisa do Espírito Santo. Estamos todos de acordo sobre a existência de contradições nas Gunas Tamas e Rajas do Virata, assim como, no plano microcósmico, em nosso sistema nervoso simpático esquerdo e direito. É bom que tenhamos consciência disso. Contudo, melhor ainda seria que superássemos tudo isso. Será que as cordas de nossas harpas estão excessivamente esticadas? Devemos evitar, também, que elas fiquem muito frouxas. Todavia, o que devemos fazer para afinar, adequadamente, as cordas? Na linguagem da Sahaja Yoga, a questão pode ser traduzida da forma seguinte: ‘como estabilizar a oscilação perpétua da energia entre o SNS esquerdo edireito?’ Ou ainda: ‘como superar o processo de ação-reação que balança nossa psique entre o ego e o superego, de tal maneira que nossa atenção possa conectar-se com o Si, com o espírito?’ O ADVENTO 124 A resposta a essa questão não pode ser teológica nem intelectual, porque ela pressupõe o despertar da energia potencial do sistema nervoso parassimpático, a Kundalini. A pessoa não pode despertá-la pelo pensamento nem pela discussão ou argumentação, ou pelo fato de aderir a um movimento espiritual. Shri Mataji observa que “ninguém se transforma num Sahaja Yogi por ter pagado uma subscrição. Isso é decidido por Deus”. O que devemos fazer? Sem descobrir o ritmo espontâneo da harmonia em nosso interior, não poderemos realizar isso dentro da sociedade. Isso é verdadeiramente o enigma, o antigo dilema que suscitou tantas dificuldades na busca da realidade pelo homem, ou seja, o limite além do qual não podemos passar. Dentro desse limite, somos como peixes, que nadam dentro de um pequeno aquário de vidro, imerso no meio do oceano, e, sem cessar, esses peixes lançam-se contra as paredes do aquário, no afã de penetrar as profundezas verdes do mar. A consciência do homo sapiens está tão engaiolada pelo ego e pelo superego, que dá ao ser humano a ilusão de dispor de um aquário individual. Vejamos mais de perto o que é que acontece no estado psíquico padrão de uma pessoa normal. A analogia do aquário é, de certa forma, decepcionante, porque nossa psique não é um sistema fechado. É verdade que não estamos conectados com o oceano do Inconsciente Universal. Todavia, o ego e o superego estão conectados a outros domínios cósmicos, desconhecidos pela ciência contemporânea. Os psicólogos usam a palavra ‘inconsciente’, como um termo genérico para designar tudo que é desconhecido pela mente consciente. Contrastando com isso, a consciência perceptiva vibratória da Sahaja Yoga nos permite distinguir as seguintes áreas nesse domínio: A HARPA SAGRADA 125 a) O Inconsciente Universal (Paramatma), que pode ser descrito como o cérebro do Virata e do qual só se pode aproximar na pureza e no silêncio da meditação; b) O subconsciente coletivo que surge da Tamo Guna do Virata e influencia o superego do homem; c) O supraconsciente coletivo que emerge da Rajo Guna do Virata, e influencia o ego humano. Uma vez que tenhamos reconhecido o cenário, descobrimos os atores e seus animadores, qual a peça que está sendo representada e como podemos fazer sucesso com nossos papéis. Especifiquei, deliberadamente, os animadores, porque é muito comum ver atores totalmente dominados pelas sombras sussurrantes de outras entidades. Sob a ilusão de ser uma entidade separada do todo, o indivíduo identifica-se com todos os fenômenos físicos e psíquicos os quais, em verdade, constituem apenas uma representação teatral. Ele supõe que tudo que acontece no interior de seu corpo, quer no nível físico, quer no psíquico, é uma emanação de seu Ser real, uma expressão autêntica de si mesmo. A psicologia moderna, ao desenvolver a noção de condicionamento, tentou destruir esse mito. Ao fazer isso, caiu no extremo oposto e tem, freqüentemente, descrito o homem em termos de uma soma global de seus condicionamentos genéticos, psicológicos, socioculturais e outros. Evitando os dois extremos de condicionamento e de liberdade psicológica, o buscador que coloca a questão ‘quem sou eu?’ desembaraça-se, gradualmente, das falsas identificações: ‘nem isso, nem aquilo’, para chegar finalmente (é possível ter essa esperança) à resposta: ‘sou Aquilo (ou o Absoluto)’. Patanjali nos diz em seus “Aforismos” (11.26) que “A incessante distinção entre o Si e o não-Si destrói a ignorância”. Por sua vez, o Brihadaranyaka O ADVENTO 126 Upanishad esclarece que “o Si é descrito como não sendo isso nem aquilo, ele é incognoscível, uma vez que não pode ser compreendido”. Portanto, a questão que permanece é: o que é esse ‘isso’ ou esse ‘aquilo’ que mantemos em nossa mente, mas que não constituem, em verdade, nós mesmos. Será que podemos nos desembaraçar disso sem perder nossa integridade? As vidas das pessoas podem ser influenciadas, seriamente, por movimentos internos de suas psiques, tais como tensões nervosas, sensação de desconforto no relacionamento com os outros, frustrações, aborrecimentos, inseguranças, fobias, etc. De onde vem tudo isso? Qual é a fonte desses sentimentos, pensamentos e imagens mentais, que, de tempos em tempos, podem aparecer de forma indesejável, os quais consideramos como estranhos e passíveis de rejeição por nossa consciência mais profunda? Arjuna fez a mesma pergunta: “Por que faço o mal que não quero fazer e não faço o bem que gostaria de fazer?” Tudo isso não pode ser explicado pelo efeito dos cromossomos ou pelas relações de produção. São Francisco de Sales afirmou: “Freqüentemente, pensamos que nos livramos de nossos antigos inimigos em relação aos quais celebramos nosso triunfo, e os vemos retornar novamente de um outro ponto, de onde menos esperávamos que reaparecessem”. Assim sendo, algumas vezes, outras entidades coabitam em nosso interior. Nossa calota craniana e a carapaça de carne que nos revestem exprimem os limites de nosso ser físico. Se um objeto físico estranho o penetra, morremos ou nos ferimos. Porém, nosso invólucro de osso e de carne não tem a capacidade de rechaçar a intrusão de entidades muito mais sutis que a matéria. Essas entidades podem entrar, em nosso cérebro, ou em qualquer outra parte de nosso corpo, sem que tenhamos consciência disso, porque, antes da Auto-realização, ainda não temos um poder de atenção, suficientemente agudo, a fim de isolar, imediatamente, a interferência. A HARPA SAGRADA 127 Conforme observa Lyall Watson (em seu livro “The Romeo error”): “As características de um ser desencarnado são tão diferentes das de um ser vivo que não será possível, sem dúvida, para este último reconhecê-las”. Para nossos ancestrais, a morte era simplesmente uma mudança de estado, como se pode ler em Fustel de Coulanges, em seu famoso livro “A cidade antiga, estudo sobre o culto, o direito, as instituições da Grécia e de Roma”: “Quanto mais longe se recuar na História da raça indo- européia, da qual as populações gregas e italianas são ramos, descobre-se que essa raça jamais pensou que, após essa curta vida, tudo acabaria para o homem. As gerações mais antigas, muito antes do surgimento dos filósofos, acreditavam numa segunda existência que vinha depois dessa.” A morte cria relações específicas entre o desaparecido e o mundo dos vivos. Das Antilhas ao Tibete, as descobertas dos antropólogos confirmaram que a imensa maioria das sociedades humanas acreditou na possibilidade de que os seres imateriais pudessem interferir no comportamento e negócios humanos. A arte de pacificar o espírito dos mortos é o fundamento da maior parte dos ritos arianos. No entanto, esses seres desencarnados podem mostrar-se perigosos para a raça humana (Mateus 12.43). Quaisquer nomes que sejam dados para essas entidades de interferência psíquica, sejam gênios, fantasmas, espíritos, almas penadas, espectros, pretas (para os budistas), Bhuts (em sânscrito), a existência delas, assegurada por todas as nossas tradições históricas, é confirmada pelas descobertas feitas pela consciência perceptiva vibratória. Não descreveremos suas categorias, que vão desde os casos benignos até os demoníacos. A possessão por espíritos demoníacos foi verificada em todas as O ADVENTO 128 sociedades antigas. Nossos ancestrais tentaram mil maneiras de conjurar os espíritos maléficos. Entretanto, a grande dificuldade para o homo sapiens moderno é demonstrar, cientificamente, a existência e a atuação desses Bhuts. Sem reconhecer a ocorrência de seu parasitismo ede seu modo de operar, é fácil para o ser humano identificar-se com as sugestões dessas entidades, ou, se resistir a elas, poderá ficar mentalmente confuso. Antes da Auto-realização, não podemos nos tornar conscientes de nossos condicionamentos, porque os condicionamentos trabalham no subconsciente, vale dizer, numa parte de nossa psique que fica fora do âmbito da mente consciente. Se a intrusão se der na mente consciente, sob a forma de uma cadeia de maus pensamentos, o ego camuflará a presença do intruso e se gabará de que os pensamentos lhe pertencem. Foi assim que, em agosto de 1975, todo esse domínio emergiu do reino da ficção, e compreendo a dificuldade do leitor de aceitar os fatos que estou narrando. De fato, antes do despertar de minha consciência perceptiva vibratória interna, nunca havia percebido a interferência de Bhuts (doravante usarei essa expressão em sânscrito que significa ‘espíritos de pessoas mortas’). Não podia me proteger deles e me contentava em registrar, passivamente, em minha mente, os traços de sua presença, vale dizer, me sentia muito mal, com facilidade, perto de certas pessoas, sem saber a razão disso; atravessava períodos de intensa depressão ou de agitação febricitante e, às vezes, era agressivo sem motivo. Sofria muito mais desses humores mutáveis do que era capaz de compreender o que significavam. Devemos entender que uma certa categoria de seres humanos desencarnados, os ‘mortos’ (eles estão no Bardo, dizem os tibetanos) são, no sentido etimológico, desviados, uma vez que tentam evitar as áreas do cosmo para a qual estão destinados a ir. Essas áreas podem ser, com efeito, os sete A HARPA SAGRADA 129 círculos do inferno. Apegados ao mundo dos vivos devido a uma trama de desejos insatisfeitos, tentam penetrar no campo da consciência humana. Pretendem vivenciar, parasiticamente, por intermédio do sistema nervoso de uma vítima humana, aquelas sensações das quais foram privados, por causa de seu estado de simples consciência desprovido de um corpo físico. Tornam-se parasitas de nossa energia psíquica, da mesma maneira que os vírus se tornam parasitas de nossa energia física. Menos destrutivas, outras influências podem vir, simplesmente, de parentes falecidos que tentam guiar aqueles que eram queridos por eles, tais como seus filhos menores, que tiveram de abandonar de forma abrupta. Todavia, quaisquer que sejam suas intenções, o Bhut acaba por exercer uma ação negativa sobre a pessoa que ele parasita. A vítima do parasitismo dos Bhuts, apesar de ter apenas um sistema nervoso, tem de suportar dois, ou mesmo mais sistemas de consciência. Isso pode provocar o fenômeno do ‘superaquecimento’ nervoso que leva ao esgotamento, à depressão, à neurose, à histeria, à epilepsia, ou mesmo ao câncer. Entre os casos sem gravidade e aqueles que envolvem possessão, com espuma na boca, apresenta-se toda uma gama de perturbações mentais. Por isso, Cristo, Buda, Guru Nanak e muitos outros advertiram, firmemente, a humanidade sobre os perigos de se deixar envolver pelos espíritos. Hoje, alguns institutos de pesquisa com fins militares estão explorando o domínio da percepção extra-sensorial, na esperança de encontrar novas fontes de poder. Ao fazerem isso, estão forçando o sistema nervoso simpático a atingir seu ponto de ruptura. Isso não é nada sábio. Por essa razão, alguns Sahaja Yogis enviaram uma carta de advertência ao Embaixador dos EUA em Londres, sobre alguns aspectos das pesquisas em parapsicologia, telepatia, hipnose, e outras formas de percepção extra-sensorial, feitas por vários departamentos da administração pública ianque. Citarei um trecho dessa carta. “Estamos cientes de O ADVENTO 130 que o interesse na Percepção Extra-Sensorial (PES) pelo Governo dos EUA é estimulado pelos progressos relatados na pesquisa parapsicológica empreendida na União Soviética. Todavia, deve-se enfatizar que esse tipo de pesquisa inevitável e invariavelmente, de uma forma ou de outra, volta- se contra seu autor ou contra a pessoa na qual ela é aplicada. O resultado final é claramente negativo.” Na verdade, os domínios do supraconsciente coletivo e do subconsciente coletivo não podem ser conquistados pelo ser humano. Muito pelo contrário, o reverso é que é verdadeiro, o ser humano pode ser destruído (mental e fisicamente) pelas forças que ele tenta controlar nesses domínios. O ataque coletivo oriundo dos mortos dessas regiões assinala a usurpação da Terra pelo inferno. As populações infelizes, onde são praticados o vodu, a magia negra e a feitiçaria, sabem disso perfeitamente. Desde a magia negra até a parapsicologia, passando por vários cultos modernos que também estão nesse caminho, conscientemente ou não, encontramos milhares de maneiras de enviar convites para o reino dos mortos. Gostaria de continuar a falar sobre esse tema de uma outra maneira. O estado psíquico normal (EPN) do homo sapiens é apenas um dos estados de consciência abertos ao ser humano. Há certamente outros, que podem ser atestados, tanto pelos sábios, quanto pelos usuários de LSD. Não podemos aplicar o princípio lógico da não-contradição à nossa psicologia. Não podemos afirmar que se o homem está no estado psicológico A, logo não pode estar no estado psicológico B, porquanto a psique humana evolui numa geometria multidimensional do consciente, do subconsciente e do supraconsciente, na qual o homem pode, ao mesmo tempo, estar e não estar. Essa topografia psíquica (o domínio das formas emocionais e mentais) é definida pela atividade do sistema nervoso simpático. O homem é, ou não é, segundo o grau de controle que ele pode exercer sobre essas formas. Ele é, quando a coesão de sua atenção é mantida no presente, ao longo do A HARPA SAGRADA 131 canal central, Sushumna. Ele não é, quando sua atenção é dividida entre o ego e o superego, por causa de uma atividade exagerada do Ida (canal esquerdo, superego) e do Pingala (canal direito, ego). Mesmo porque, no limite de sua tendência, os Bhuts podem se infiltrar através das fissuras de uma consciência desintegrada. Somente entrando na consciência- silêncio do Sahasrara Chakra é que, com toda agitação pacificada e com todas as formas abolidas, entro na identidade do real, a consciência do Si. Consideremos agora nossa dependência do sistema nervoso simpático (SNS). No superego, posso ficar perturbado pelo condicionamento externo, e, portanto, me tornar alienado de minha real identidade, do Si, da minha Alegria, da Consciência e da Bem-aventurança. O estado psíquico normal (EPN) é assim um estado de alienação. Os existencialistas definem a condição humana, em termos de tal alienação, porque o homo sapiens não pode evitar agir, principalmente, por meio do SNS. Isso equivale a dizer que, por intermédio desse sistema, ninguém pode ser vacinado contra os Bhuts nem pode alcançar a plenitude do Si. O homo sapiens passa, dessa forma, a maior parte de seu tempo no estado de alienação, do qual não é consciente, porque, geralmente, não tem a capacidade sáttwica de discernimento, que lhe permitiria identificar seus condicionamentos e destruir as identidades ou identificações artificiais. As falsas identificações se revelam de muitas maneiras ao homem: ‘sou um grande músico, um especialista, um punk, uma vítima do capitalismo, um Membro da Sociedade Real, um bispo, etc.’ Ele não tem a capacidade de perceber e romper uma identidade (ou identificação) que pode estar acompanhada por um Bhut. Se considerarmos como anormal o fato de que o homem seja programado pelos fenômenos e mecanismos que não consegue compreender nem controlar, poderíamos dizer que o EPN (estado psíquico considerado normal) é, de fato, O ADVENTO 132 anormal. As causas de todos os sofrimentos humanos devem ser procuradas nessa anomalia.A psicanálise moderna se baseia no estudo da psique do homem moderno, ameaçado como ele é pela hiperatividade do SNS. Ela tentou identificar seus conteúdos psíquicos, mas confundiu o subconsciente coletivo com o subconsciente individual e permitiu que o subconsciente coletivo entrasse no subconsciente individual. De lá esses conteúdos guiam, condicionam e perturbam nossa atenção, e podem nos levar à neurose, podem provocar, em nós, uma divisão esquizofrênica ou nos superexcitar de forma paranóica. Entretanto, a psicanálise não pode ir além da identificação dos sintomas. Ela não possui meios para identificar o Bhut como o principal fator patogênico. A psicoterapia clássica apenas mobiliza a parte consciente da psique, a fim de identificar - e assim exorcizar - as sombras inquietantes do subconsciente, as imagens e os sentimentos reprimidos. Ela usa as técnicas da diagnostische Assoziationstudien, o estudo diagnóstico das associações mentais e a análise dos sonhos que tendem a descarregar o estado perturbado pela verbalização (speech analysis). O sujeito tem assim a possibilidade de se desvencilhar de uma identificação anterior com o Bhut. Ele se libera pela ação discriminadora de sua psique consciente. Esse procedimento é, em princípio, correto, todavia, não pode nos levar muito longe. Mesmo que o sujeito consiga se livrar de uma falsa identificação, o que é que o impedirá de cair numa outra identificação errada, que pode ser ainda mais perniciosa que a primeira? Como é que se fecha a porta através da qual os Bhuts entram na psique humana? - As sensações angustiantes e os transbordamentos da psique não podem ser reduzidos ao foco que os irradia, ou seja, o Bhut, pois este não é reconhecido como tal. Ele é uma entidade estranha ao sujeito ou um parasita vulgar que não deve ser temido, mas expulso. A HARPA SAGRADA 133 - Pela ativação excessiva do lado direito (consciente), a psicoterapia, invariavelmente, desenvolve o ego. Por isso, os psicólogos têm prejudicado seus próprios Agnya Chakras. - Finalmente e acima de tudo, sem a consciência perceptiva vibratória, o Bhut não pode ser identificado no momento de sua invasão. A ciência médica intervém muito tarde, quando o Bhut já se incrustou, solidamente, na psique e já causou todas as espécies de perturbações. A psiquiatria é alertada somente pelos sintomas. Para que o sofrimento fosse evitado, teria sido preciso uma ação preventiva, ou pelo menos uma imediata reação à invasão psíquica. Esse é o caso para um ser realizado. Antes de tudo, um Bhut terá um problema enorme ao tentar entrar no campo energético (aura) de uma pessoa realizada. Se, por acaso, ele conseguir entrar, sua presença será imediatamente detectada por meio de uma sensação física que segue a trilha de sua passagem e indica o lugar exato no corpo onde ele se alojou, como, por exemplo, no fígado, na genitália, numa das têmporas, etc. O sistema de um Sahaja Yogi se mobiliza, espontaneamente, para expulsar o intruso. Se isso não for suficiente, ele dispõe de um grande arsenal de técnicas... É claro que, sem a abertura dos Chakras ao longo do Sushumna, e também do espaço psíquico da consciência silenciosa (Vilamba), falta-nos o terreno firme sobre o qual poderemos projetar nossa atenção interior, tal como um raio laser, a fim de desalojar o Bhut. Ao contrário, quando um Bhut entra no sistema, a atenção da vítima se distancia cada vez mais do Sushumna, e ela pode realmente sentir uma maior intensidade das sensações físicas e psíquicas, por intermédio das sensações do Bhut. É assim que, finalmente, certas pessoas se tornam brutais, bestiais e até homicidas. Emile Zola, em seu livro “O animal humano”, relata: “Desde que deixou o quarto com sua faca, não era mais ele que agia, mas uma outra pessoa, aquela que ele sentia sempre agitar as profundezas de O ADVENTO 134 seu ser; esse desconhecido veio de longe, queimando com a sede hereditária de matar. Ele já havia matado, porém ainda queria matar”. A confusão entre o parasita e sua vítima é impossível de ser dissipada, porquanto os dois sistemas estão muito interligados. Auguste Comte não sabia que estava tão certo, quando comentou: “Os vivos serão cada vez mais governados pelos mortos”. Essa é uma das características da Kali Yuga. Resumamos essa digressão da relação entre os mortos e o SNS com uma imagem. Nossos corpos (físico, emocional e mental) são os teatros de uma peça onde atores não autorizados tentam desempenhar os melhores papéis no palco. Chegam ao palco por meio da força de minha atenção que eles conseguiram capturar. Quando afasto a atenção deles, corto o poder que exercem sobre mim. Assim, eles desaparecem e as falsas identificações se dissolvem. Para ser rei em meu reino, para ser o ator principal no teatro de minha vida, tenho de perceber as coisas sob a ótica do Si. Para superar os Bhuts, é preciso que os confronte em meu próprio terreno e não os seguir até o deles. Meu terreno se situa no Si. Mediante a atuação do parassimpático sobre a atenção, esta pode ampliar-se cada vez mais. Por via de conseqüência, minha mestria cresce. Quando a atenção elege como seu objeto o próprio Si, começo a reconhecer a verdadeira realidade, ou melhor, a realidade reconhece-se a si mesma. Esse é o reino de Deus. Todavia, somente a mobilização do poder divino e a abertura do caminho da liberação do Sushumna podem tornar o indivíduo capaz de ultrapassar suas próprias fraquezas, de restaurar a integridade de sua psique e de se tornar unificado a si mesmo. Shri Mataji diz: “Não devem brigar com os outros, mas com as falsas identificações que existem em seu interior”. Quando essas identificações espúrias são abandonadas, os Bhuts não têm mais espaço psíquico no qual possam sobreviver. São, automaticamente, expelidos e nunca mais retornam. A HARPA SAGRADA 135 A maioria dos Bhuts se instala no superego. Todavia, o ego oferece uma segunda possibilidade para eles se alojem e desenvolvam tendências demoníacas. O ego resulta da atividade do Pingala Nadi. Quando essa atividade redunda em sucesso, o ego intumesce. De certa forma, podemos dizer que ele se deixa possuir por si mesmo. Nesse estado, a psique não fica em risco em relação às intrusões do exterior, porém sofre muito mais pelas distorções das percepções controladas pelo ego. O ego tem uma espécie de concepção ptolomaica da galáxia psíquica, e se imagina como o centro do universo. “O papel do ego”, diz Shri Mataji, “é o de mantê-los fora da realidade”. Já é tempo de terem isso em mente no Ocidente, porque esse fato tem, de uma forma geral, escapado da atenção dos psicólogos, que dele fazem uso. Ademais, vários critérios de comportamento desenvolvidos em nossa civilização têm como base o ego. O ‘egotipo’ (neologismo adequado para explicar o tipo de pessoa dominada pelo ego), usualmente chamado de egoísta, ególatra, egocêntrico ou egotista, não pode ver as coisas em sua realidade (das Ding an sich, diria Kant). Isso porque sua capacidade intelectual, quase sempre notável, não é guiada pela sabedoria equilibrada da Sattwa Guna. Esse tipo elabora novas teorias para justificar seus fins. Isso nos leva à origem da ortodoxia, do fanatismo, do racismo, etc. O ‘egotipo’ não se interessa pela verdade, se ela não tiver sido criada por ele, vale dizer, se não for um instrumento útil para atingir seus objetivos. Assim é que ele distorceu todas as tradições espirituais, religiosas e morais. Sem verdade, não pode haver retidão (darma), e é assim que o ego cegante elimina, sem dor, as regras fundamentais do comportamento moral. É sem nenhum escrúpulo nem remorso algum, que ele pode tornar-se adúltero ou cruel. ‘Por que não?’, diz o ego, ‘gosto disso!’ Os ególatras oprimem seu cônjuge e destroem, assim, a harmonia do lar que é a fonteda felicidade. Competitivos, cortejam o sucesso, e são, muitas vezes, os mestres da superficialidade e da camuflagem. O ADVENTO 136 Ao se mostrarem charmosos ou astutos, ludibriam os outros e enganam a si mesmos justificando, racionalmente, seus menores caprichos. A mente superdesenvolvida controlada pelo ego fica contente em racionalizar tudo aquilo que acontece. Qualquer dogma, qualquer comportamento, por mais depravado que ele seja, pode ser assim legitimado por uma análise impecável. Quando se chega a esse ponto, a extremidade do ego se junta à extremidade do superego a fim de produzir o tipo mais destrutivo de personalidade. Glorificando sua degeneração, o ‘egotipo’ agride e destrói os outros. Ele trilha também o caminho da autodestruição. Os indivíduos com seus egos inflados podem ser, freqüentemente, encontrados no comando dos negócios, da política, da economia, ou da administração. Com uma arte perfeita, fingem que aquilo que o ego deles deseja é determinado pelas exigências do bem comum e zombam deste bem comum do qual são apenas guardiões. Como utilizam os recursos do canal solar (lado mental), eles se mostram extremamente astuciosos e prudentes, cheios de tato, algumas vezes solenes, e enfeitam sua fachada social, a fim de impressionar, de modo melhor, aqueles dos quais abusam. Deleitam-se, particularmente, como fariseus e pontífices eternos, em aparecer como fiadores dos princípios que eles mesmos traem. Aos olhos de uma personalidade sáttwica, a inflação do ego aparece com suas cores verdadeiras como um castelo de areia, um balão de vaidade. Vale citar La Bruyère (“Caractères”): “Estimo que para se dar uma idéia mais precisa da ostentação, deve-se dizer que existe, no homem, uma paixão por mostrar um bem ou vantagens que ele não possui. Mostrar-se enfatuado de si, ou ficar, firmemente, convencido de que se é dotado de muito talento é um acidente que acontece somente para aquele que não tem nenhum, ou pouco espírito.” A HARPA SAGRADA 137 La Rochefoucauld, em “As Máximas” e em “Anedotas e retratos”, afirma que “a fim de se estabelecer no mundo, faz-se tudo que é possível para se parecer bem-sucedido. Há imbecilidades bem- vestidas, assim como idiotas bem trajados”. Não obstante, o ego de uma pessoa rajásica (na qual prepondera a Guna Rajas), quando é muito sutil, pode ser tão invisível quanto eficaz. No plano vibratório, chega a emitir microondas que captam a atenção das pessoas Tamo Gunis ou tamásicas (nas quais predomina a Guna Tamas) identificadas com o pólo oposto, que é o extremo superego. Um clube de sadomasoquistas forma-se dessa maneira nas cervejarias bávaras e culmina no aparato nazista. A combinação dos tipos extremos de ego e de superego pode formar um monstro coletivo. No entanto, não é preciso ir tão longe a fim de criticar a coletividade humana. O ‘egotipo’ moderno é capaz de destruir, facilmente, as leis que mantêm a integridade da família e a coesão social. Ele planeja e discursa, escreve livros e, sobretudo, faz filmes que zombam de tudo que é decente, santo e sagrado. A multidão de superegos acompanha esse movimento degenerado. A atenção das massas é assim levada mais e mais para longe do caminho central da evolução. Aquele cuja atenção se volta, demasiadamente, para o Pingala Nadi entra no domínio do supraconsciente coletivo. Pode ser possuído por um Bhut dos assim denominados ‘mestres invisíveis’, que tentam, por intermédio dele, influenciar o curso das questões humanas. Isso porque a grande tentação do supraconsciente é a busca do poder em quaisquer de suas formas. Ao combinarem seus esforços, o parasita e sua vítima acabam obtendo algum poder. Quando Maquiavel liberou seu Príncipe da moralidade, para que pudesse fazer uma política melhor, ele propôs que o Príncipe se deixasse guiar pelo senso da virtude. Quando o ego assume o comando, ele não reconhece limite algum. Os imperialistas, os exploradores, os colonialistas e os ditadores de O ADVENTO 138 todos as nuanças sulcaram os caminhos da História como condutores em estado de embriaguez, tendo tido o cuidado de manter, no banco de trás, vários volumes de textos que justificavam suas ações insensatas. Estimulado pelo sucesso que conseguiu no mundo, o ‘egotipo’ explora e domina os outros, até que talvez um outro ‘egotipo’ o detenha. Shri Mataji afirma que “de fato, o ego pode nos desencaminhar de uma maneira bem mais radical que o superego, cujos excessos nos fazem sofrer”. O ego apenas faz com que os outros sofram, pois ele não se importa com os outros. O diabo, como ego, tem uma latitude total para agir, pois, nesse caso, ele não cria neuroses e, além disso, conta com as bênçãos dos psicólogos. Os psicólogos, tendo descoberto que os sistemas de controle e de tabus sociais criam os condicionamentos, sugeriram que estes fossem desmantelados. Ninguém se dá conta de que a inexistência de controles ajuda a criar os monstros egocêntricos. Quando os cegos conduzem a sociedade, esta acaba caindo num buraco, como os cegos de Breughel. Essa proposição milenar encontra hoje sua expressão mais dramática, porque a tecnologia centuplicou o poder da ação não iluminada do ‘egotipo’. As forças maléficas têm assim um poder de interferência nos assuntos humanos sem precedentes na História. Esse poder embala a si mesmo. Será isso a grande renovação ou o crepúsculo? Nas palavras de A. Toynbee, em seu livro “A humanidade e a Mãe Terra”, o momento atual se revela como sendo o ato final que se encaminha para o clímax: “O clímax pode ser a aniquilação da vida pela pilhagem da biosfera à qual se entregam a perversidade e a demência humanas. Isso é possível hoje, porque o demônio encarnado no homem está armado com suficiente poder tecnológico. Alternativamente, o clímax poderia se transformar na transição de uma primeira era da História humana para uma segunda ou, mais provavelmente, para uma longa série de eras futuras... Não podemos prever o futuro, porém podemos perceber que estamos nos aproximando de uma bifurcação ética, que será decisiva como A HARPA SAGRADA 139 o foi a bifurcação biológica que aconteceu há vinte ou vinte e cinco milhões de anos atrás.” A bifurcação ética que o historiador inglês apresenta como uma necessidade evolutiva corresponde muito precisamente à possibilidade para o homem de mobilizar a energia parassimpática do canal central, o Sushumna Nadi. Essa é, com efeito, a única possibilidade de superar as imperfeições de nossa percepção e de nosso modo de atuar, que dependem somente das atividades dos canais lunar e solar. Essa é a única abertura para o outro lado do limite. Gradualmente, faz-se sentir o impacto integrado do parassimpático sobre as Gunas. O sistema nervoso simpático esquerdo deixa de ser uma fonte de risco, como ponte entre o subconsciente coletivo e energia psíquica individual (libido). Esse canal lunar começa a expressar as qualidades de Mahakali, que é a divindade que controla o Ida Nadi. A pessoa se conecta com o amor vivo da interdependência cósmica divina. Por outro lado, o sistema nervoso simpático direito passa a expressar as qualidades de Mahasaraswati, a divindade que reina sobre o Pingala Nadi, e com criatividade, a pessoa começa a afirmar sua identidade divina. O SISTEMA NERVOSO PARASSIMPÁTICO (SNP) “É uma árvore estranha que se ergue sem raízes e que produz seus frutos sem florescer; não tendo ramos nem folhas, ela é coberta de flores de lótus.” Kabir O Sushumna e os Chakras (temas tradicionais da sabedoria esotérica) são as moradas sutis da energia que controlam o funcionamento do parassimpático. Este é, de fato, o ‘terminal’, por meio do qual nos comunicamos com o computador central cósmico, nossa janela para o infinito. O parassimpático bombeia a energia vital queo sistema nervoso simpático consome. O parassimpático dilata os Chakras e o O ADVENTO 140 simpático faz com que os Chakras se contraiam. Quando o Sushumna se abre diante da ascensão da Kundalini, o SNP põe- se a captar energia vital (Pranava) com a qual ele recarrega os Chakras. A partir desse instante, as qualidades sáttwicas da harmonia começam a manifestar-se. Um ótimo ajustamento é feito, espontaneamente, em nossa rede energética, nossa saúde melhora, nossas diversas faculdades (clareza de julgamento, concentração, descontração, etc.) se aprimoram. Os seres realizados, nas palavras do mestre taoísta Kuang Tzu, “tornam- se sábios em sua placidez e reis em suas atividades”. Todavia, os frutos da árvore da vida somente podem ser degustados por aquele cuja Kundalini foi despertada por uma personalidade conhecedora de seu protocolo sagrado. Em sentido contrário, as tentativas de despertar a Kundalini feitas por Yogis amadores ou por falsos profetas, sejam elas tentadas por ignorância ou por perversidade, mostram-se igualmente perigosas, quer no plano físico, quer no plano espiritual. Durante sua majestosa ascensão, a Kundalini desperta as divindades dos Chakras que atravessa e atinge o reino do Sahasrara, no ápice do crânio. Esse movimento pode acontecer numa fração de segundo. Não obstante, milhares de Sahaja Yogis, dos cinco continentes, puderam acompanhar sua progressão. Pode-se ouvi-la com um estetoscópio. Se a força da Kundalini não for suficiente para abrir um Chakra que está bloqueado, pode-se ver sua pulsação a olho nu, no local do obstáculo, nas costas do aspirante (Sadhaka) prosternado diante de Shri Mataji. “Por que prosternado?”, alguém poderá perguntar. Porque o fluxo de Chaitanya (vibrações divinas), que desperta a Kundalini e ativa o sistema nervoso parassimpático, corre, generosamente, dos pés de Shri Mataji. Essa é a razão secreta pela qual ‘os pés de lótus’ das encarnações divinas têm sido objeto de adoração dos hinos antigos... e do sarcasmo de alguns leitores ocidentais que não compreenderam muitas coisas. A HARPA SAGRADA 141 A respeito da veneração dos pés de lótus, pode-se ler em Shankaracharya, em seu louvor à deusa, constante do Saundarya Lahari : “Ó Mãe! suplico-Te que coloques Teus Pés, na plenitude de Tua Graça, sobre minha cabeça. As partes principais dos Vedas usaram Teus Pés como uma coroa. A água que os lava forma o rio Ganges que flui do coque do cabelo de Pashupati (Shiva), desembocando num belo lago que é a refulgência da jóia vermelha da coroa de Hari (Vishnu)”. Guardando a cidade santa do Sahasrara, erige-se uma porta que não pode ser forçada, que é o Agnya Chakra, controlado por Cristo. Ele foi pintado por Miguel Ângelo com um grande esplendor no Juízo Final da Capela Sistina. Aqueles que tentam ali chegar, por meio de outro caminho, que não seja aquele que passa pelo despertar da Kundalini, são projetados para fora, ou seja, para ‘onde há lamentações e o rangido de dentes’. A abertura do terceiro olho não pode ser forçada. “Esforçai-vos para entrar pela porta estreita, porque, vos digo, que muitos procurarão entrar e não conseguirão.” Lucas, 13-24 “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ela. Quão estreita é a porta, e quão apertado o caminho que leva à vida! E que poucos são os que trilham o caminho que leva à vida!” Mateus, 7-13,14 Cristo nos coloca aqui em estado de alerta contra a entrada de nossa atenção nos canais Ida e Pingala que se cruzam na altura do Agnya Chakra. A abertura do Agnya corresponde à purificação da atenção. Quando as folhas da porta se abrem, para usar uma analogia, elas rechaçam de nosso campo de consciência os ruídos do ego e do superego. O espaço que se abre assim, entre duas ondas de pensamento, é o da consciência silenciosa (Nirvichara Samadhi), a qual, em inglês, Shri Mataji chama de Thoughtless Awareness (consciência sem pensamentos). Quando O ADVENTO 142 se penetra mais à frente, mais profundamente no silêncio, descobre-se a intensidade do reino. Todavia, esse processo de purificação pode levar anos. Aqueles cuja atividade mental é incessante ou cuja emotividade é desregrada deverão passar por uma prova de paciência. Da mesma forma que Cristo nasceu na manjedoura de um estábulo, assim também Ele se mantém em nossos pensamentos, em meio àquilo que parece ser, algumas vezes, uma bela cavalariça! Quantos dentre nós conseguiram conservar intacta a pureza de sua atenção, nessa época de meios de comunicação prostituídos, de imagens violentas ou obscenas, de livros ruins e de flertes de rua? Quantos dentre nós têm ainda os olhos limpos e puros? Graças aos céus, a Kundalini nos regenera com uma grande doçura e é, gradativamente, que limpa as cavernas subconscientes de nosso cérebro, que desmantela a superestrutura supraconsciente e que, finalmente, restaura para nós o paraíso de nossa inocência. Isso porque, essa é a qualidade adorável do Menino-Deus que, sob o aspecto de Shri Ganesha, protege a castidade da Kundalini adormecida no Muladhar, e sob o aspecto de Cristo, cuida do protocolo da Kundalini manifestada no Sahasrara. A Auto-realização ocorre, exatamente, no momento em que a Kundalini transpassa a membrana da fontanela no topo da cabeça. Shri Mataji chama isso de “o batismo pela autoridade de Deus”. Alguns Sahaja Yogis sentem nascer ondas de graça no Sahasrara, as quais, em seguida, começam a fluir pelos canais Ida e Pingala. Outros, simplesmente, vivem a consciência silenciosa e a percepção física das vibrações que marcam a integração entre o sistema nervoso central e a consciência espiritual. O batismo pela autoridade dos homens, quando um padre molha a cabeça da criança, é um simulacro, ou melhor uma prefiguração simbólica desse grande evento. Se o padre for altamente realizado, o recém-nascido pode receber sua Auto- realização, e o verdadeiro batismo acontece. Porém, quantos são os padres realizados? A HARPA SAGRADA 143 A Sahaja Yoga restaura a essência de uma porção de rituais de diversas religiões, porque ela estabelece uma conexão entre eles e os fenômenos energéticos que sustentam. O verdadeiro batismo cristão é nada mais que a intensa experiência de um segundo nascimento. É também a experiência do Satori dos mestres zen-budistas. É claro que isso não é aceito por um clérigo não-realizado que, controlando um ritual desprovido de sentido, acha que comanda o progresso das almas em direção à salvação. As sentinelas da fronteira - entre a cidade dos homens e a cidade de Deus - consolidaram seu comércio com as massas e coletaram dízimos e pedágios daqueles que passavam. As idéias dos teólogos tenderam, não sem sucesso, a recuperar as palavras de Cristo, a fim de assegurar melhor esse controle. Pela teoria dos sacramentos, substituiu-se a realidade do batismo, por um arcabouço conceitual que visava a sacralizar o rito e pela confirmação da autoridade do clérigo sobre os espíritos muito ingênuos e crédulos. Aqueles que eram menos crédulos e submissos foram queimados na fogueira pela inquisição católica. Felizmente, para nós, pobres buscadores da Verdade, essa possibilidade foi abolida pela História. Muito além das sugestões, suposições e crenças desordenadas que se basearam nas interpretações dos zelotes desviados, a ativação do parassimpático permite-nos entrar na cidade de Deus, sem necessidade de nenhuma inscrição prévia ou pagamentos, e também sem freqüentar qualquer curso de meditação. Shri Mataji, nesse ponto, é categórica: “Ninguém se torna Sahaja Yogi por meio do pagamento de uma quantia em dinheiro. Essa é uma decisão que compete a Deus”. O Sahasrara, o Chakra real, cidadela de um silêncio que os budistas chamaram de ‘o Vazio’ (Shunya),é o teatro da união entre a consciência individual e o Inconsciente Universal que é a consciência do Virata. O silêncio, o vazio, o inconsciente são os temas ancestrais da espiritualidade oriental. O ADVENTO 144 Bodhidharma, o pai do zen-budismo da China, diz acerca do inconsciente, conforme D. T. Suzuki, em seu livro “Ensaios sobre o zen-budismo”: “É como um tambor celestial que, permanecendo imóvel, produz espontaneamente e sem esforços conscientes toda uma variedade de sons destinados a ensinar e a disciplinar todos os seres. Ou ainda, é como a pedra filosofal que realiza todos os desejos e que, sem esforço consciente de sua parte, cria, espontaneamente, uma grande variedade de formas. Da mesma maneira, o inconsciente atua por meio da consciência individual e a faz compreender a verdadeira natureza do real; ele é a própria sabedoria, o mestre de corpo triplo, que funciona com absoluta liberdade... O inconsciente é a verdadeira consciência e a verdadeira consciência é o inconsciente. Despertemo-nos, finalmente, para o Inconsciente, em todas as coisas e em todos os nossos atos – pois ele é o caminho da disciplina, não há outros caminhos. Damo-nos conta assim de que, quando o Inconsciente é realizado, nada mais pode nos perturbar.” Os sons do tambor são as ondas de vibrações. Percebidas pela psique, algumas dessas vibrações formam imagens primordiais das quais falam Platão e Hegel. Segundo Jung, elas povoam o inconsciente coletivo e guiam o destino da humanidade. Jung tentou, por intermédio de seu método sintético, seguir os preceitos do mestre chinês. Em seu livro a “Psicologia do inconsciente”, o psiquiatra suíço afirma que “o discurso natural que, espontaneamente, concilia os contrários foi para mim o modelo e a fundamentação de um método que, em essência, visa a suscitar intencionalmente aquilo que, pela natureza, se produz de maneira espontânea e inconsciente, e a integrá-la à consciência”. Entretanto, todas as tentativas feitas por nosso inconsciente, a fim de se tornar consciente, exigem esforços conscientes que mobilizam, evidentemente, a energia de nosso sistema nervoso simpático e assim, ficamos escorregando, perpetuamente, para fora do estado que pretendemos atingir. Não! A fim de nos tornarmos conscientes do Inconsciente A HARPA SAGRADA 145 Universal, é, logicamente, necessário, que nos tornemos conscientes, em primeiro lugar, de nosso inconsciente individual que, representado pela Kundalini adormecida, é simplesmente uma parte do Inconsciente Universal. Assim sendo, a mobilização do parassimpático, mediante a ascensão da Kundalini, permite que nossa atenção consciente mergulhe em nosso inconsciente individual e, em seguida, se una ao Inconsciente Universal. Daí em diante, tendo penetrado na verdadeira trama do real, poderemos reconhecê-lo. Entramos assim em contato com a coisa em si (das Ding an sich, que Kant, em sua “Crítica da razão pura”, declarou que era inacessível). Passamos a reconhecer a realidade por uma percepção direta, e não mais por intermédio de opiniões, reconstruções ou decalcomanias de nossa atividade mental. Em outras palavras, a elevação da Kundalini nos faz ultrapassar os limites que determinam o campo de consciência do homem racional. Shri Mataji esclarece: “A entrada no Inconsciente remove a barreira entre a limitada consciência humana e a realidade”. A consciência sem pensamentos, Nirvichara Samadhi ou a consciência-silêncio, é a primeira etapa da trajetória em direção à união com o Inconsciente. A partir daí, o Sadhaka (devoto) penetrará mais profundamente e atingirá um estado que chamaremos de ‘consciência da evidência’ e ao qual Shri Mataji denomina, em inglês, Doubtless Awareness, a ‘consciência sem dúvidas’ (que, em sânscrito, é o Nirvikalpa Samadhi). Nesse estado, a realidade se torna evidente e fica além de quaisquer dúvidas. Seguem-se outros estágios ainda mais intensos e profundos de energia-consciência que não posso descrever aqui com detalhes. Entretanto, apresentam-se, sucintamente, os seguintes estados de consciência: 1- No momento da Auto-realização: Nirvichara Samadhi, consciência-silêncio, consciência coletiva; O ADVENTO 146 2 - Estágio seguinte: Nirvikalpa Samadhi, consciência da evidência, ‘consciência sem dúvidas’, comunhão com a consciência coletiva; 3 - Estágio ulterior: a Auto-realização total - domínio sobre os elementos; 4 - Estágio supremo: a Realização de Deus (atingido por Buda e Mahavira). A fusão do ser humano com o Divino ocorre instantaneamente. A partir do instante da Auto-realização, o sistema nervoso central torna-se consciente do sistema nervoso autônomo. O prefixo ‘auto’ (contido na palavra autônomo), no sentido que lhe dá Shri Mataji, significa o espírito ou o Si (Self, em inglês e Atman, em sânscrito). O Si ou espírito é uma centelha do Si ou Espírito de Deus (Paramatma). De forma direta, a nova sensibilidade espiritual manifesta-se no plano físico. A brisa fresca do Espírito Santo veicula as mensagens do Inconsciente. As sensações de leve queimação e/ou de dormência nas pontas dos dedos começam a se manifestar. O que é que elas significam? “Alguém que conhece o código tem de dar a sua chave”, diz Shri Mataji, que declarou ao professor G. Adler, presidente da Associação dos Psicólogos Junguianos: “Vim para dar voz ao inconsciente”. As terapias que tentam mobilizar diferentes fenômenos energéticos aproximaram-se de um ou de outro aspecto do sistema. Por exemplo, a acupuntura e a reflexologia identificaram a rede de Nadis que distribuem a energia do sistema nervoso simpático (SNS) e operam sobre essa base limitada. Essas práticas não podem atingir o parassimpático (SNP), coração do sistema e receptor da energia vital. Contrapondo-se a isso, a Sahaja Yoga atinge diretamente o parassimpático, e, por isso, pode curar até mesmo os casos de câncer, como Shri Mataji proclamou, várias vezes, em público. O que é exatamente o câncer? A hiperatividade do SNS (simpático) consegue deslocar um Chakra de seu lugar original, A HARPA SAGRADA 147 na linha do Sushumna, cortando dessa forma sua conexão com o SNP (parassimpático). Em conseqüência disso, os Chakras não podem mais transmitir, por intermédio da rede de Nadis, o código evolutivo do organismo que mantém a coesão das células. As células, por sua vez, ficam incapacitadas para decodificar as instruções que os organizadores da vida (as divindades) lhes enviam por meio dos Chakras. Apesar disso, os Chakras continuam a emitir energia. No entanto, com a inexistência da atividade reguladora do parassimpático (SNP), a energia se torna destrutiva. Essa energia destrutiva começa a formar as células cancerosas e a disseminá-las. A ciência dos Chakras pode extirpar a causa básica do câncer, mediante a restauração da conexão do Chakra danificado com o Sushumna. Assim, o impacto da Kundalini sobre o parassimpático (SNP) permite a nosso sistema vibratório absorver as novas freqüências do corpo vibratório do Inconsciente, e mesmo utilizar essas vibrações para fins diversos. Essa capacidade de operacionalizar os poderes divinos é um dos mais antigos sonhos da humanidade. Todavia, no passado, o homem, incapaz de conhecer sua realidade vibratória, tentou se apresentar como instrumento do Inconsciente, mediante vários mitos políticos. Aquilo que o Inconsciente deseja passa a ser uma necessidade! Os mitólogos gregos chamavam-no de Destino implacável; Santo Agostinho invocava-o como Providência Divina; querendo obedecer a ele, Godefroy de Bouillon entrou em Jerusalém e Lenin deflagrou a insurreição de São Petersburgo. Devemos nos lembrar aqui da concepção hegeliana do herói (constante de livro do próprio Hegel, “A filosofia da história”). “Assim se apresentam todos os homens históricos: seus objetivospeculiares realizam os grandes desígnios que são da vontade do espírito do Mundo (Weltgeist)”. No entanto, será que o homem é capaz de discernir os grandes desígnios? Claude Lévi-Strauss, em seu texto “Introdução à obra de M. Mauss”, assevera que “o inconsciente é uma forma vazia, mas suas leis O ADVENTO 148 explicam as possibilidades de fazer com que as coisas se tornem significativas, ao reduzi-las à sua natureza de sistema simbólico”. Vale comentar o jargão dos estruturalistas, ou seja, na comunicação de um sinal (feito da união de um significante e de um significado) elaboram-se cadeias simbólicas que estabelecem a ordem social. Todavia, o problema da adequação entre o significante e o significado, e portanto o problema da leitura do sistema simbólico, permanece inteiro. Os sinais e mensagens do inconsciente são misturados pelos parasitismos que o ego e o superego criam no receptor. Antes da Auto-realização, não podemos apreender com segurança a estrutura inconsciente subjacente às instituições, costumes ou movimentos da História. É imprescindível dizer que o Inconsciente trabalha de uma maneira muito diferente no Sahaja Yogi. Não atua, necessariamente, por intermédio de uma decodificação mental, sempre suscetível de ser influenciada pelo ego, mas por meio da ativação espontânea, desprovida de esforço, do potencial vibratório do Sahaja Yogi, ainda que, de certo modo, obedeça à determinada cadência rítmica. O Sahaja Yogi deixa de ser apenas um receptor do Inconsciente e se torna também emissor. Ele é capaz de fertilizar uma plantação, curar um paciente de sua doença ou mesmo despertar a Kundalini de outrem. Um cientista austríaco, H. Mylany desenvolveu, perto de Viena, um projeto agrícola baseado na Sahaja Yoga. As colheitas obtidas nos campos irrigados com água ‘vibrada’ foram, consideravelmente, maiores que as colheitas dos campos vizinhos irrigados com água normal. O doutor Mylany está agora trabalhando num projeto de conservação de uma floresta na Bavária, utilizando os métodos da Sahaja Yoga. Shri Mataji explica que “nosso poder vibratório é, de fato, o poder das divindades que existem em nosso interior. Foi por meio do poder delas que os grandes santos do passado operaram tantos milagres. A fim de mobilizar esses poderes, a pessoa deve A HARPA SAGRADA 149 conhecer os protocolos dessas divindades, e usá-los com dignidade”. Quanto mais o Sahaja Yogi progredir em sua dimensão do Sushumna (o caminho do meio da evolução espiritual), mais ele afirmará a espontaneidade com a qual irradiará as vibrações de Chaitanya. Mesmo sem praticar nenhuma ação visível, ele atuará sobre o meio ambiente. Shri Mataji enfatiza que “temos de crescer e fazer com que os outros cresçam com nosso crescimento”. A fim de fazer isso, devemos permanecer em estado de alerta relativamente às incursões do SNS (simpático) em nossa atenção, porque o ego tenta, ardorosamente, reassumir o controle do qual ele foi destituído. A fundadora da Sahaja Yoga, Shri Mataji, nos coloca de sobreaviso de forma clara. “Se tentarem ser excepcionais, se acharem que são superiores na Sahaja Yoga, vocês serão tomados por uma força centrífuga, que os alijará para fora. Para permanecerem, no centro da Sahaja Yoga, com a força centrípeta, mantenham-se conscientes de que fazem parte integrante de um Todo, e que trabalham em plena harmonia com os outros”. A ioga atual demanda, evidentemente, uma emancipação coletiva (de certo modo ‘social’) e não uma ascensão individualizada para um sétimo céu habitado apenas por grandes estrelas, como muitos exibicionistas e outros falsos iogues, em seus Ashrams luxuosos, querem nos fazer crer. É preciso sublinhar aqui um elemento muito importante. O homem não pode usar esses fenômenos energéticos para fins maléficos. Com efeito, a Auto-realização acontece, espontaneamente, pelo despertar da Kundalini. Essa mobilização somente é possível quando a pessoa tem uma propensão a praticar o bem, que mantém o equilíbrio de sua energia em torno do Sushumna. Um ser humano perverso ou tirânico é ‘tecnicamente’ incapaz de receber sua Auto- realização, porque seu sistema interior já está inativo. Além disso, uma vez que estamos falando do parassimpático (SNP), qualquer tentativa voluntária ou deliberada de provocar a Auto- O ADVENTO 150 realização começará necessariamente no simpático (SNS) e lá permanecerá, forçosamente, de maneira artificial e perigosa. O segundo nascimento, como o primeiro, pressupõe a dádiva de vida que vem da mãe. Não viemos ao mundo por causa de nossas próprias ações. Uma outra criatura nos trouxe. É por isso que todas as tradições religiosas contêm essas noções de dádiva da graça divina, a necessidade de se entregar a ela, a disponibilidade perante o Divino e a capacidade de fazer com que as coisas aconteçam sem interferência. Shri Mataji comenta que “é uma grande façanha compreender que o espírito humano não pode, por si mesmo, encontrar-se no Real, mas que cabe ao Real mergulhá-lo em seu oceano de amor”. Essas palavras da Mãe ressoam aquilo que foi dito por místicos, sábios e clarividentes de todos os tempos. Kabir, São João da Cruz, Al Ghazzali, Meister Eckhardt, Gyaneshwara, todos eles proclamaram a vaidade e a pretensão de se conseguir isso por intermédio do esforço. Vale registrar a reflexão de Kierkegaard: “É precisamente quando o mar combina seus esforços com sua força, é que ele não consegue refletir a imagem do céu. Porém, quando o mar permanece tranqüilo, profundo e calmo, a imagem do céu se funde em seu vazio”. Quando o mar se faz profundo e calmo, a pessoa se banha no vazio da consciência-silêncio que é a maneira pela qual o Si percebe-se a si mesmo. Contudo, essa Contemplatio Mystica (do latim, contemplação mística), que pode se abrir até alcançar o êxtase, exige que a atenção-energia repouse no Sushumna, sem se deixar levar pelas solicitações do SNS (simpático). Manter-se nessa condição é uma das conquistas mais difíceis. O grande mestre zen-budista, Ringai Gigen, que morreu em 867, citado no livro “Zen-budismo e psicanálise” de Erich Fromm, Suzuki e Martino, tornou isso bastante claro: “Veneráveis senhores, é nesse ponto que os aspirantes devem concentrar-se com todo o seu coração, porque aqui um A HARPA SAGRADA 151 sopro de ar não passará. É como uma centelha de luz, ou como a faísca produzida pelo martelo quando este bate no aço. Com um piscar de olhos, todo o fenômeno é perdido. Se o aspirante tiver um olhar ausente, tudo estará perdido. Tão logo o espírito nele se concentra, ele escapa entre os dedos; logo que um pensamento surge, ele lhe volta suas costas.” Estou sempre me lembrando da frase extraordinária e inexplicável de Shri Mataji, a qual no entanto foi, uma centena de vezes, confirmada pela experiência. “Se quiserem aprender como se tornar o Si, reduzam sua atividade mental. Se conseguirem fazer isso, a inspiração virá até vocês. Observem, simplesmente, a minha face e ela os conduzirá ao silêncio”. No passado, antes que as graças muito especiais de Shri Mataji Nirmala Devi se materializassem na Sahaja Yoga, apenas alguns indivíduos alcançaram a Auto-realização. Aqueles que o fizeram, como os vinte e seis mestres zen-budistas, eram seres humanos extremamente evoluídos que se impulsionaram a si mesmos para cima, entre os dois canais, Ida e Pingala, como alpinistas que se apóiam nas duas paredes de uma chaminé a fim de subir até o topo. Tendo assim ultrapassado o Agnya Chakra, a graça da Adi Shakti os acolheu no Sahasrara. Será que os mortais comuns teriam podido segui-los? Será que somos indiferentes à nossa própria verdade? Porventura, não estamos buscando a genuína plenitude da sabedoria, da alegria e da paz? É lamentável que não se possa, em sã consciência, forçar ninguéma ter paz. Assim o ser humano, no final de seus dias, não poderá se unir ao infinito, algo a que sempre aspirou. Porém, hoje em dia, estamos na posição de afirmar que essa contradição pode ser superada. Nossas observações, nossas experiências e seus resultados confirmados, repetidas vezes, demonstraram três fatos principais: O ADVENTO 152 1. O sistema nervoso parassimpático (SNP) tem o potencial para ser o agente de transformação da consciência; 2. Esse potencial é concretizado mediante o despertar da Kundalini que acontece quando o sujeito é bombardeado pelas vibrações de Chaitanya ; 3. Essas vibrações são emitidas pela presença física (Darshan) de Shri Mataji ou mesmo na presença de sua fotografia, a qual, captando o coeficiente de sua imagem, demonstrou suas inacreditáveis propriedades. Em outras palavras, ainda que isso possa ser inaceitável para aqueles que gostariam de acreditar que nasceram por si mesmos e não pela intermediação de uma mãe, Shri Mataji cria a ambiência vibratória propícia para que possamos nascer no espírito. Ela derrama a água da vida acerca da qual Cristo falou a Nicodemo. Representa o fator catalisador indispensável à manifestação de nosso próprio poder espiritual, porque o ser iluminado é também aquele que ilumina. Quando uma vela queima, não queima com sua própria chama? Entretanto, é necessário que uma outra vela, já acesa, a acenda. Shri Mataji sugeriu, muito graciosamente, essa imagem para aqueles cujos egos gostariam de pensar que o Si manifestou-se por obra e graça apenas de seus egos! Falei sobre a vaidade do esforço. Agora, é preciso invocar a eficácia do desejo. O desejo precede todas as coisas. Ele nos lança sobre a trajetória que desejamos seguir. O desejo é o campo de ação de Mahakali. É em resposta ao desejo que Mahasaraswati cria e Mahalakshmi faz evoluir. O desejo que Shiva tem de se fazer conhecer permite que Vishnu oriente a criação de Brahma para a Auto-realização. Da mesma forma, é imprescindível que canalizemos nosso desejo para a Auto- realização e paremos de canalizá-lo para coisas fúteis. Isso é importante, pois a Kundalini vem, em última análise, de Shri A HARPA SAGRADA 153 Mahakali e a força de sua ascensão depende da intensidade do desejo de nos transformar no Si. Estamos vivendo um momento tão privilegiado da história, que muitos leitores estarão, brevemente, na posição de verificar a verdade de minhas proposições. A KUNDALINI (A ENERGIA POTENCIAL DO ESPÍRITO SANTO) “Adoro, em meu coração, a deusa Kundalini Quando ela emerge do Muladhar, sua morada, Para se elevar até o trono do Sahasrara, Abrindo um a um os lótus do caminho real do Sushumna. Sua beleza reveste-se da fulgurância do relâmpago E de seu corpo flui a ambrosia da Yoga.” Hino a Bhairawi “A Kundalini é sua Mãe, aprenda sempre a ficar sob os seus cuidados. Seja um bom filho e ela zelará por você até o fim.” Shri Mataji Nirmala Devi Ao começar esse parágrafo, me senti tomado de uma grande timidez. Senti-me paralisado. Foram necessários vários dias, para que decidisse continuar a escrever. A Sahaja Yoga integra e transcende todas as formas de meditação, de oração e de outras Yogas, porque ela é a Yoga da concretização do potencial de energia divina, a Yoga do despertar da Kundalini. Como falar disso? A força divina do Espírito Santo, que reside em nosso interior, é a pureza virginal, consciência vibrante do sagrado, desejo do Integral e do Absoluto; apenas a isso, o Si aceitará unir-se. Fui tomado de uma espécie de vertigem, porque me dei conta, mais uma vez, de que as coisas que estou escrevendo são completa e incrivelmente verdadeiras. O momento da História O ADVENTO 154 que está na iminência de surgir... e de se decompor é algo tão inacreditável que, às vezes, receio, poucas pessoas razoáveis seriam capazes de vivenciá-lo. Que esse livro possa prepará-las e ajudá-las a abrir-se para esse momento. Os cientistas que trabalham na fronteira do que é infinitamente grande (quasares, buracos negros, etc.) e aqueles que pesquisam no limiar do infinitesimalmente pequeno (partículas elementares do átomo) sabem que o paradigma epistemológico, o fundamento do conhecimento sobre o qual erigiu-se nossa civilização está na iminência de ser posto de cabeça para baixo. O desenvolvimento de novas máquinas que empurram para trás as fronteiras da memória, do cálculo, da imagem, indica, dizem os doutos, o advento de uma nova era no mundo do pensamento. A revolução epistemológica é um dos temas centrais da ficção científica norte-americana. Quando era menino, brincava, com minha tia, de procurar um objeto escondido. Ela me dizia ‘frio’ ou ‘quente’, conforme me aproximasse ou me afastasse do objeto (frio, morno, quente, muito quente!). Na maioria dos jogos de esconde-esconde, as pessoas ficam na situação ‘morna’, sem que achem o tesouro escondido. De fato, não sabemos que o jogo de tudo se desenrola no âmago do eixo sacro-craniano, na coluna vertebral. Quantos artistas, sábios e buscadores sentem um novo mundo em gestação, a iminência de uma nova ruptura evolutiva! Todavia essa ruptura é, exatamente, o que acontece quando a Kundalini, convidada pelas vibrações de Chaitanya, surge do osso sacro a fim de iluminar o Sahasrara Chakra. Ao se desenrolar, a Kundalini também projeta, em alguns microssegundos, o filme da revolução mais radical e fundamental que jamais poderia acontecer, vale dizer, a revolução de nossa consciência. A Kundalini foi protegida, durante séculos, da curiosidade das massas por um esoterismo estrito. Todavia, seriam necessários milhares de livros como este a fim de citar os A HARPA SAGRADA 155 textos esotéricos que a glorificaram, bem como para apresentar os símbolos mediante os quais ela aparece na arte e na arquitetura. Por exemplo, em seu livro “Os fundamentos do misticismo tibetano”, o lama Anagarika Govinda revela a relação entre o mantra OM MANI PADME HUM e a Kundalini Yoga. O formato das stupas budistas representa a sobreposição dos Chakras. A estrutura bulbar de certas mesquitas iranianas, da mesma forma que as cúpulas alongadas dos templos tailandeses, simbolizam o Sahasrara, e a árvore de Jessé, nos vitrais de Chartres, descreve os sete Chakras. Muitos artistas foram assim inspirados pelo Inconsciente. O simbolismo da Kundalini se vale de vários temas, tais como a sarça ardente de Moisés, as línguas de fogo do Pentecostes... Alguns magos do Egito e da América do Sul tiveram acesso, provavelmente, a um ou outro aspecto do Tantra (técnica) da Kundalini, e assim adquiriram vários poderes mágicos (Siddhis). Tudo indica que não se aproximaram muito da Kundalini propriamente dita. Símbolos da Kundalini podem ser encontrados em diversas culturas. Citemos o exemplo da serpente de Mercúrio, Agathodaimon, símbolo alquímico do processo de metamorfose psíquica, que representa, segundo os gnósticos, a medula espinhal e o bulbo raquidiano. Os grandes mestres da Ásia consideravam a existência da Energia e de seu caminho interior, como sendo o segredo mais temível, que somente transmitiriam para alguns discípulos que merecessem, de fato, conhecer esse segredo. Todavia, ao longo dos séculos, mesmo alguns seres não-realizados espalharam o segredo aos quatro ventos. O ‘tantrismo’ e algumas seitas tibetanas deturparam a tradição e perverteram o culto. Hoje, as cartas estão completamente embaralhadas pelos iogues falsos que ficaram enfatuados com o sucesso de seus livros, nos quais descrevem, com a denominação de ‘Kundalini Yoga’, exatamente aquilo que não deve ser feito se alguém quiser preservar sua única chance de alcançar a Auto-realização. O ADVENTO 156 No afã de tentar explicar Shri Kundalini, poderia iniciar com uma reflexão do mestre espiritual muçulmano AlGhazzali, contemplando o Virata da forma como Ele é invocado na expressão Allahu Akbar - Deus é o Maior: “Essa expressão significa... que Ele é tão magnífico para que um outro, que não Ele, pudesse compreender perfeitamente o mistério de Sua Grandiosidade, seja um profeta ou um anjo! O que é que estou dizendo? Somente Deus conhece Deus!” Quem é o Conhecedor (aquele que conhece) e quem é o Conhecido (aquilo que é o objeto do conhecimento)? É no início de um ciclo de criação que a separação inicial entre a energia divina primordial (Mãe divina, Adi Shakti, Espírito Santo) e o Ser primordial (Sadashiva, o Pai) vai criar a possibilidade para Deus de se separar em Conhecido e Conhecedor, porque a Adi Shakti traça um espaço no qual aquele que quer conhecer distancia-se, primeiramente, daquilo que deseja ser conhecido, e em seguida aproxima-se novamente. Esse espaço é a própria Criação, o teatro cósmico do jogo amoroso do reconhecimento. Esse jogo progride até que o potencial divino da Criação seja realizado, e assim, conseqüentemente, é despertada a capacidade da Criação de reconhecer o Divino. “Foi assim que as coisas ocorreram”, diz Shri Mataji. Uma parte da energia do Espírito Santo (ou Adi Shakti) não se manifesta no momento da Criação, mas permanece latente no Virata. Essa energia divina ‘adormecida’ é a Adi Kundalini, a Kundalini Primordial do Virata. É ela que tem o potencial de santificar o universo. É personificada, na mitologia hindu, pela deusa Gauri, a mãe do Menino-Deus, Shri Ganesha, e representa a inocência imaculada da Virgem divina. Presidindo a espiritualização do mundo fenomênico, a Adi Kundalini se põe a promover o progresso de cada um dos A HARPA SAGRADA 157 Chakras. Assim sendo, quando aparece num dos Adi Chakras (os Chakras do Virata), a divindade residente nesse Chakra é plenamente despertada, e um avanço fundamental da evolução do mundo fenomênico é posto em movimento. Assim é que o surgimento de Shri Ganesha correspondeu, por exemplo, ao aparecimento do carbono tetravalente, a base da vida no universo. Shri Mataji diz: “O poder da Kundalini abrange o poder do desejo da Bhagawati, a Mãe divina. Ela é despertada pelo seu desejo”. Na esfera da existência desse mundo material, a Kundalini está escondida no interior do microcosmo humano, em cada de nós. Pelo fato de já estar lá é que Shri Mataji pode afirmar que “está tudo pronto para sua Auto-realização, falta apenas ligar a corrente elétrica”. Todavia, essa força pode se mostrar tímida, como já presenciamos em muitos encontros públicos, e qualquer incidente, por menor que seja, pode bloquear sua ascensão. Por essa razão é necessário manter uma atitude humilde e receptiva, tanto quanto possível, no momento abençoado em que a Kundalini é despertada. A Kundalini poderia ser comparada a um cabo elétrico enrolado sobre si mesmo, trançado por numerosos fios que se entrelaçam. Ela se eleva, e desenrolando seus anéis, penetra no centro de cada Chakra. A espessura da Kundalini, isto é, o número de seus fios diminui, se os Chakras que ela atravessa estiverem contraídos e não se abrirem de modo perfeito. Sua força é reduzida proporcionalmente aos congestionamentos que encontra em sua ascensão. Se os Chakras inferiores se dilatam adequadamente, a Kundalini progride. Se os Chakras superiores estiverem bloqueados, somente um pequeno número de suas fibras alcançará o Sahasrara. A Kundalini não força o caminho por si mesma. Primeiramente, regenera os Chakras danificados, despertando suas divindades, e retifica os defeitos existentes nas várias dimensões de nosso ser. É claro que se os Chakras inferiores O ADVENTO 158 estiverem bloqueados, a Kundalini não poderá ascender de maneira alguma. Voltaremos a esse tópico, quando falarmos sobre os perigos do uso irresponsável da sexualidade, no capítulo dedicado ao ‘tantrismo’. Vamos seguir agora, em câmara lenta, o filme da ascensão da Kundalini (num ser humano espiritualmente muito evoluído, a Auto-realização manifesta-se, numa fração de segundo, e mantém-se de forma definitiva). Quando sua ascensão acontece, sem problemas, através dos cinco primeiros Chakras, a Kundalini atinge o Agnya e se difunde na parte inferior do cérebro, como uma espécie de nuvem que traz consigo uma leve sensação formigante de doçura e de sono. Podemos dizer, assim, que a Mãe de nosso segundo nascimento canta para nós um acalanto, a fim de nos relaxar completamente. Depois, mantidas sempre as condições ótimas, sente-se a força vital da Kundalini fundir-se, ao descer pelo Ida e Pingala, como se uma nuvem de energia se espraiasse numa chuva de bem- estar. Os dois canais conduzem essa onda de bem-estar até o Nabhi Chakra, onde um novo impulso da Kundalini se une a essa onda. (Nesse meio tempo, a cabeça se torna mais leve, como se tivesse se desembaraçado de antigas cargas). Em seguida, a tríplice força (Mahalakshmi, Mahasaraswati e Mahakali) se eleva com uma velocidade ascensional enorme no Sushumna e abre o Agnya. As pupilas dos olhos começam a se dilatar. A leveza da cabeça se transforma numa sensação de percepção refinada, de plena lucidez. Alguns discípulos avançados viram nesse ponto o Omkara, a luz de Cristo. A pessoa começa a sentir o silêncio do Sahasrara. A pressão da força acumulada da Kundalini cresce, progressivamente, com a abertura do Brahmarandhra. Nesse momento culminante do batismo, a pessoa sente a brisa fresca das vibrações divinas que a penetram e a pessoa se torna ‘realizada’. A HARPA SAGRADA 159 Se a Kundalini não for além do Agnya, a pessoa estará apenas ‘despertada’ (Jagruti). Nesse último caso, poderá adquirir alguns poderes curativos, mas será incapaz de se manter no estado de consciência-silêncio (Nirvichara Samadhi). Não obstante, depois de algum tempo, a atividade regeneradora da Kundalini, desde logo ativada, começará a produzir seus frutos. Finalmente, aqueles que ‘nasceram novamente’ poderão atingir o estágio de consciência mais profundo denominado Nirvikalpa Samadhi que é a Consciência da Evidência, na qual não restará mais qualquer dúvida, quanto à verdadeira natureza de Deus, do Si ou espírito. Os seres muito evoluídos encontraram na Sahaja Yoga uma experiência, simultaneamente, imediata e definitiva. Alguns sentiram bolas de neve nas palmas de suas mãos, que pareciam fundir-se em seus antebraços e em todo o seu ser. Outros sentiram um vento poderoso soprando em seus corpos ou um rio de energia fluindo em seus sistemas nervosos, vale dizer, o frescor da Auto-realização. Se o Vishuddhi Chakra estiver bloqueado ou, de alguma forma, danificado, a pessoa não sentirá as vibrações frescas, apesar da Kundalini ter-se elevado até o Sahasrara e de ter havido a abertura do Brahmarandhra. Entretanto, com o desenvolvimento crescente da consciência silenciosa, o indivíduo será banhado por um lago de paz interior. Num programa público, quando Shri Mataji desperta a Kundalini de centenas ou até de milhares de pessoas, segue, passo a passo, a progressão de Chakra a Chakra, percebendo, assim, os pontos de bloqueio, que são, em sua maioria, de origem psíquica. O tempo todo, procura conduzir esses reservatórios de energia em direção à sua catarse redentora, dando todas as instruções de viva voz. Eis aqui a transcrição de uma fita gravada durante um de seus programas públicos: “O sentimento de culpabilidade que vocês têm é o resultado dos condicionamentos acumulados no superego e no ego. Digam a vocês mesmos que quem cometeu o erro foi seu O ADVENTO 160 ego e não vocês. Cada um deve afirmar: ‘não sou culpado de coisa alguma’. Não importa o que tenham feito ou quais os Chakras que estão bloqueados. Devem corrigi-los simplesmente. Não se condenem. Sejam o Si. Para fazerem isso, a melhor coisa é perdoar. Issoabrirá seu Agnya Chakra. Supliquem a Deus para lhes perdoar; isso fará com que sua atenção se volte para o coração... A dignidade e a serenidade emergirão em seu interior, quando compreenderem que vocês são o espírito.” Vamos tentar agora relacionar o despertar da Kundalini com o desenvolvimento de nossas faculdades cognitivas. Enquanto os animais são espontâneos, porém não têm consciência da força que seus instintos lhes dão, o homo sapiens sabe que é um ser racional e consciente, mas não é espontâneo. Ele se programa, efetivamente, pelo uso da razão, pela atividade da Rajo Guna, enquanto que os animais são limitados pela Tamo Guna. Em seu estado normal de consciência, o homem percebe a si mesmo como um indivíduo irredutível e diferente, vale dizer, um ser peculiar. Essa etapa lhe permite desenvolver seu ego e é necessária a fim de propiciar a superação dos condicionamentos tutelares do superego. O ‘homem-ovo’ (ou o ‘egotipo’) é um mito, porém indispensável, porque permite preparar o desenvolvimento do instrumento de percepção, pelo qual é gerada nossa identidade. A partir disso, é que se torna possível perceber nossa genuína identidade (do Si ou do espírito). Nesse meio tempo, certamente, o homem acredita ser o mestre de si mesmo e da matéria, ele interfere na História, manipula a criação e a destruição e se torna o regente do planeta. O homem-ovo é o estado no qual a Kundalini está adormecida e encerrada no osso triangular sacro. A vida psíquica do homem e suas faculdades cognitivas dependem das interações do sistema nervoso simpático e da possibilidade de se aproximar do ponto de equilíbrio. Trata-se de uma identidade A HARPA SAGRADA 161 separada, que é também uma identidade dividida, a consciência infeliz (das unglückliche Bewusstsein), descrita por Hegel em sua fenomenologia do espírito. O homem-ovo frui, inicialmente, a liberdade dada por sua autonomia; ele se sente, dentro de sua casca, como o único mestre. Contudo, essa situação é cercada por limites, os quais ele acaba percebendo, à proporção que sua consciência se aguça. Ciente de que é um ser finito, não pode ignorar totalmente a dimensão infinita que existe dentro e fora dele. “O homem não sabe como se libertar desse (desejo de tornar-se alguém) ‘ou de ser algo mais’, que o impede de ser apenas um animal caçador e às vezes amoroso”, observa Paul Valéry. Ele não pode desconhecer o fato de que está condenado a almejar o Si, sem ser capaz de atingi-lo. Foi nesses termos que Sartre encheu as páginas de seu livro “O ser e o nada”. Desse mesmo modo, as duas almas discordantes discutem no peito do doutor Fausto, de Goethe. O homem não sabe como reconciliar o finito e o infinito. Infelizmente, para aumentar seu desconforto, a fronteira entre os dois mundos passa, exatamente, no meio de si mesmo. É precisamente essa a questão crucial que é discutida pelos filósofos. Ademais, a liberdade concedida ao homem-ovo é apenas a de escolher entre isso e aquilo, entre o bem e o mal. Essa liberdade, exercida com ignorância, provoca erros, sofrimentos e crimes. Encontramo-nos, assim, no meio daquilo que meus professores de religião chamavam, pudicamente, de ‘o problema dos males do mundo’. Ao longo dos milênios de evolução e de refinamento, a consciência humana sempre desejou ter a harmonia espontânea, além da oscilação das Gunas, além das contradições existenciais e das investidas contra a ética. O ser humano evoluído quer se livrar do mito do ego, da solidão e da ignorância que advêm dele. Encapsulado na casca de seu ego e de seu superego, o homem-ovo não é integrado consigo mesmo nem com o cosmo. Ele tem pouca ou nenhuma O ADVENTO 162 conexão com o Inconsciente Universal e todas as ações que concebe, nessas condições, provocam agressão, injustiça social e outros males. Contudo, para que haja alguma mudança no modo de agir é preciso transformar o sujeito da ação. A revolução precisa ocorrer no nível primordial do ator social, dentro de cada indivíduo. É impossível promover uma mudança radical numa classe social composta de indivíduos, se esses não se transformarem. Após a subversão da década de 60, talvez uma geração inteira tenha entendido isso. Essa evolução da consciência, sustentada por diversas encarnações divinas, cavalgou os milênios para, finalmente, concitar esse momento fantástico da transformação que, agora, passaremos a viver juntos. Com efeito, a abertura da membrana da fontanela no topo do crânio, pela Kundalini despertada, representa a ruptura da casca do ovo. O pintainho pode agora aprender a voar. É por isso que, em sânscrito, o termo Dvijaha significa, ao mesmo tempo, pássaro e nascido duas vezes. E inspirados pelo inconsciente, os cristãos, na Páscoa, rompem a casca de seus ovos. O novo Adão nasceu. A experiência imediata da Kundalini abre uma nova era para a humanidade buscadora. Esta proposição se baseia naquilo que foi vivenciado por muitas pessoas. Os falsos profetas, anunciados no Apocalipse de São João, tentaram deturpar a grande Yoga (Maha Yoga) de Shri Mataji. Isso prova, simplesmente, que chegou a hora do encontro, que São João fixou para nós de sua Ilha de Patmos. Voltaremos a esse tema ulteriormente. Poderia ser útil resumir esse capítulo sobre o instrumental da consciência por meio das representações gráficas das figuras 8 e 9. A HARPA SAGRADA 163 FIGURA 8 - ANTES DA AUTO-REALIZAÇÃO I - Antes da Auto-realização, o domínio do consciente (que se deleita com o presente) é um fio de consciência imperceptível, representado aqui pelo Sushumna por uma linha pontilhada. A atenção da pessoa é impregnada pelos pensamentos, que vêm do mental e que engendram o ego, e pelos humores do domínio subconsciente que forjam o superego. II - Não há conexão direta entre a consciência e o Inconsciente Universal. A Kundalini está adormecida. III – As divindades dos Chakras não são plenamente operacionais. Sem conexões entre a consciência e os Chakras, os diversos aspectos da personalidade não estão integrados. IV - A consciência está aprisionada no ovo do cérebro (ego e superego). O ADVENTO 164 FIGURA 9 - DEPOIS DA AUTO-REALIZAÇÃO I - O espaço do domínio consciente é alargado. O ego e o superego se desincham. II - A Kundalini, agora no Sahasrara, estabelece uma conexão direta com o Inconsciente Universal. Este último se manifesta sob a forma de vibrações frescas. III – As divindades dos Chakras foram despertadas pela Kundalini ascendente. As divindades aqui representam os refletores das divindades primordiais dos Adi Chakras do Virata, e elas ‘organizam’, conseqüentemente, nossa energia-consciência. Como são colocadas em contato uma com a outra pela Kundalini, a integração da personalidade ocorre. Elas decodificam as mensagens do Espírito Santo e respondem a essas mensagens e passam a dirigir nossa evolução espiritual. A HARPA SAGRADA 165 IV - A atenção é atraída, para o interior, pelo advento do despertar da Kundalini. Ao mesmo tempo, pode-se perceber a Kundalini de outra pessoa. Nossos Chakras fazem uma ‘leitura’ dos outros seres humanos como se fossem sistemas de consciência. A consciência coletiva se estabelece. V - Num ser realizado que atinge sua plena maturidade, as divindades deixam seu lugar de trabalho nos Chakras para eleger seu domicílio no Sahasrara e sentar-se nos tronos que ali lhes estão reservados. Esse é o estado de completa integração com o Divino. Cada Chakra corresponde a um planeta do sistema solar, a uma vogal do alfabeto sânscrito, a uma nota musical, a uma cor, etc. Ao iluminar cada Chakra, a Kundalini desperta em nós uma porção de poderes e de correspondências cósmicas. Sou ainda muito novato, nessa arte, para poder descrevê-los aqui, porém o princípio é o seguinte: por intermédio de nossaKundalini, entramos em contacto com o Inconsciente Universal, que se põe a reagir. Ele ouve nossas preces e, com isso, nos tornamos intercessores da espécie humana. Finalmente, com total pureza nessa relação, o Inconsciente obedece a nossos desejos, porque estes se originam diretamente do Atman (Si). O desejo do Atman consiste em que outros Atmans se manifestem e que mais e mais seres humanos possam vivenciar a alegria da Auto-realização. Assim sendo, por intermédio da Graça da Kundalini, nos tornamos redentores. A Kundalini torna factível a divinização do ser humano, porquanto é dotada da propriedade de consumir e queimar todas as impurezas. Quando essas impurezas são queimadas, sejam provenientes de nossas fraquezas ou referentes à ‘coletividade’ (de Bhuts) que invadiu nosso sistema, os seres realizados sentem calor no sistema nervoso simpático (SNS), o que faz com que as vibrações se tornem quentes. Quando a Kundalini regenera e cura, as vibrações se tornam frias. A Kundalini é um fogo, porém um fogo de neve, cujas chamas queimam com frescor! Todavia, para que a Kundalini possa fazer seu trabalho de purificação, por meio da queima das impurezas, estas devem ser O ADVENTO 166 reveladas a ela, o que significa que temos de encarar nossos problemas e nossas fraquezas, e não permitir que se acumulem no lado esquerdo do Vishuddhi Chakra, sob a forma de sentimentos de culpa. Fazendo isso, nos limitamos a oferecer às negatividades a chance de se afastarem do fogo da Kundalini. Isso nos foi explicado por Shri Mataji, durante uma de suas magistrais palestras, em Londres, no dia 17.05.81. No momento da Auto-realização, estamos longe de perceber o extraordinário elenco de poderes que recebemos como um prêmio. O poder da consciência coletiva, o poder de controlar a atenção, de mobilizar o Inconsciente, de nos proteger, de dar proteção aos outros, de expulsar os Bhuts e até mesmo de destruí-los. Todavia, o maior de todos os poderes (o qual recebemos, automaticamente) é o de despertar a Kundalini de outras pessoas, que é a prova, por excelência, de que os poderes divinos começaram a se manifestar em nosso interior. Já existem milhares de almas realizadas no mundo todo (uma quantidade impressionante!), embora o processo de emancipação coletiva tenha tido início há tão pouco tempo. Isso pode ser explicado pelas propriedades da consciência coletiva e pelo poder dos Sahaja Yogis de despertar a Kundalini. Assim, ainda que as atmosferas das sociedades em que vivemos estejam saturadas de todas as espécies de vibrações, cujas freqüências se contrapõem às freqüências divinas, a esperança de uma transformação coletiva que tenha um impacto social deixa de ser uma utopia. É claro que os poderosos desse mundo gostariam que essa esperança se circunscrevesse ao terreno da utopia. Essa esperança não pode mais ser diluída no jargão teológico das igrejas institucionalizadas que se dizem guardiãs dela, mas que adiariam sua concretização indefinidamente para o futuro. A esperança está tomando forma no presente, sendo efetivada na experiência cotidiana, e sua efetivação está tomando o lugar que lhe foi reservado pela História. Porquanto, essa transformação coletiva envolve, também, a íntima ligação entre o conjunto de A HARPA SAGRADA 167 almas realizadas e o Virata, algo que foi prometido por Cristo: “Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e estou em vós”. João, 14, 20. Certamente, a Igreja Católica pretendeu representar o corpo místico dessa consciência coletiva. Contudo, em termos políticos, econômicos e culturais, o sucesso que assegurou a sobrevivência dessa instituição, não se situou numa outra dimensão diferente daquela relativa ao advento experimentado por uma nova consciência? Se se levar em consideração a realidade dos fatos da consciência (e não a interpretação muito elástica que o clero católico fez dos textos deturpados quando afirma que ‘fora da Igreja, não há salvação’), ficará evidente que muitos crentes, ao longo do tempo, foram vítimas de uma gigantesca impostura. Deus não precisa da intermediação dos cardeais vestidos de púrpura para dar a Auto-realização a seus filhos. No entanto, é de mau gosto ressaltar esse ponto, porque essa organização, de dimensão planetária, vive da credulidade de seus fiéis, algo que foi condicionado por ela por meio de uma arte secular. Estamos falando aqui, efetivamente, do advento do reino de Deus e não apenas de sua probabilidade, e nem sequer de sua mera iminência. Falamos do fato de que, no momento em que redijo essas linhas, milhares de pessoas experimentam um segundo nascimento. Lembremo-nos, novamente, de que é impossível atingir a realidade dessa transformação sagrada, quer pela mera curiosidade intelectual, quer mediante quaisquer esforços. Isso se deve à natureza da Kundalini, pois ela não pode ser domesticada. Não se pode fazer nada além de se entregar a ela, como a criança divina, Shri Ganesha, entregou-se à sua Mãe imaculada. A Kundalini transcende as Gunas, o sistema nervoso simpático (SNS) e todas as nossas manipulações. É, também, por causa disso que a Sahaja Yoga se distingue das demais formas de Yoga e das outras disciplinas religiosas que têm por O ADVENTO 168 meta a destruição do ego. A Sahaja Yoga não destrói coisa alguma, porém integra e transcende... É bom que compreendamos isso, de forma plena. Mukti (liberação) não é só a liberação do ego, mas também do superego. De fato, se desmantelarmos a proteção que o ego oferece à nossa psique, sem nos libertar, ao mesmo tempo, das influências e interferências que emergem do superego, nos exporemos ao risco de ficar sob o domínio das forças que surgem do subconsciente coletivo e de outras entidades. Os falsos Gurus de hoje estão desenvolvendo todos os tipos de meditações, e também as chamadas técnicas transcendentais, que garantem a eles, por meio da manipulação de Bhuts, manter sua influência sobre o subconsciente de seus discípulos. Os últimos são exortados a aniquilar seus egos, pois um ego forte e sadio se oporá, naturalmente, às manipulações doentias. É imprescindível que a pessoa se liberte das Gunas, do ego e do superego. Isso somente é possível pela atuação da Kundalini na passagem secreta do Sushumna. Se isso não ocorrer, quaisquer esforços de renovação espiritual correm o risco de ficar perdidos na influência absurda dos falsos Gurus, no fanatismo dos muçulmanos fundamentalistas, ou nos movimentos carismáticos superficiais, mediante os quais as igrejas desacreditadas procuram apresentar uma nova fachada ao mundo, sem que ofereçam nada, de realmente novo, para resolver o problema de dar aos fiéis um segundo nascimento. Dessa forma, e isso deverá ser repetido à saciedade, a verdade de nossa transformação depende de nosso instrumental interior de consciência, cuja realidade e modo de operação não dependem de quaisquer interpretações que possamos fazer, ou de quaisquer crenças ou inibições que tenham sido levantadas ao nosso redor, pelas grandes, assim denominadas, instituições religiosas. A HARPA SAGRADA 169 A semente, a flor e a árvore cresceram durante milênios, em consonância com certas leis, que não dependem das teorias dos botânicos. A mesma coisa vale para a Kundalini. Dado que a estrutura do microcosmo reflete o modelo primordial do Virata, a Kundalini aciona, em nosso interior, os três aspectos primordiais de Deus, que chamamos de Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e a Mãe (o Espírito Santo), os três aspectos do Divino que têm reinado sobre o cosmo por toda a eternidade. A Adi Shakti (o Poder Primordial, a Mãe ou a Energia Primordial) manifesta-se quando a Kundalini ascende da base da coluna espinhal e eclode no Sahasrara. A passagem de algo potencial para algo efetivamente atual(para usar a terminologia aristotélica) corresponde à manifestação do Espírito Santo no Sahasrara. O Menino-Deus é também representado no Yantra dentro de nós. Assentado, como Shri Ganesha, no Muladhara Chakra, Ele controla o protocolo da Kundalini. Em sua forma evoluída, como Jesus Cristo, Ele vigia a porta (Agnya Chakra) da cidade do Espírito Santo, o Sahasrara. Ele se manifesta quando abre a passagem estreita do Agnya para a Kundalini, purificando, dessa forma, o ego e o superego. O Pai, a testemunha imemorial, o Altíssimo, o Todo- poderoso, é manifestado no ser humano como o Si, quando o Si se une à Shakti, no Sahasrara. Shri Shankaracharya explicita esse encontro no “Saundarya Lahari”: “Em segredo, tu te divertes com Teu Senhor, no lótus de mil pétalas, tendo atravessado a terra situada no Muladhara Chakra, o fogo no Swadishthana, a água no Manipura, o ar no Anahata (coração), o éter, mais acima, no Vishuddhi, e Manas entre as sobrancelhas (Agnya), e tendo assim percorrido o caminho inteiro de Kula.” O Katha Upanishad dá mais detalhes sobre essa união: O ADVENTO 170 “Há cento e um nervos que são irradiados pelo lótus do coração. Um deles sobe em direção ao lótus de mil pétalas no cérebro. Se, quando um homem morrer, sua força vital elevar-se através desse nervo, ele se tornará imortal.” Shri Mataji compara o Si com a chama, e a Kundalini com a energia do gás que queima. Quando um entra em contato com o outro, a ignição ocorre. Isso é a ‘iluminação’. O Si nada mais é que o espírito, ou a alma, ou o Atman, personificado por Shri Shiva, que reside no coração humano, do lado esquerdo do Anahata Chakra, ou Chakra do Coração. Podemos dizer que a região límbica do cérebro é, de uma certa forma, o espaço celestial onde a pessoa repousa antes de aparecer na presença sacrossanta de Deus Todo-poderoso (Sadashiva). Ele reside acima do Sahasrara e pode ser alcançado através da abertura imperceptível da membrana da fontanela (batismo). Quando a atenção humana, transportada pela Kundalini, perfura a membrana da fontanela, entra na presença de Deus, e o Si, que é o reflexo de Deus no coração, é iluminado e começa a emitir vibrações frescas. Assim a Testemunha e Sua Energia ultimam, no Sahasrara do iluminado, seu jogo cósmico, cujo início marcou o nascimento do universo. O jogo é aquele jogo de Deus, no qual, em Sua Criação, Ele Se procura e Se acha. Deus nos convida para Sua dança, nos conclama a nos reunirmos a Ele, a nos tornar os espelhos de Sua revelação. LIVRO IV ABRINDO A JANELA “A liberdade, em sua forma mais sutil, é o altruísmo pleno, sem arestas, o vácuo completo tal como a flauta, para que a melodia de Deus possa ser bem tocada. Essa é a completa liberdade. A liberdade surge quando vocês são capazes de exercer seus próprios poderes interiores. Em seu sistema nervoso central, com toda a sua mente consciente, vocês devem sentir a existência do espírito.” SHRI MATAJI NIRMALA DEVI OS MÉRITOS DA VIRTUDE CAPÍTULO V “O bem é aquilo que provoca o impulso da alma em sua própria direção, em consonância com a natureza, e algo que deve ser buscado segundo a própria natureza.” SÊNECA “Porque meu povo perpetrou dois males. Deixou-me a mim, fonte de água viva, e cavou para ele cisternas, cisternas rotas, que não podem reter as águas.” JEREMIAS, 2.13 Estamos em 1976, num vilarejo da Índia. É a hora deliciosa, simultaneamente fresca e tranqüila, do crepúsculo. No pátio, algumas vacas ruminam, indolentemente, voltadas para a sala onde nos encontramos. Camponeses, Sahaja Yogis e peregrinos do Ocidente estão reunidos em torno de Shri Mataji. As lamparinas a óleo dão vida às paredes rebocadas de branco. Maureen, uma moça inglesa, comenta: “isso parece uma cena bíblica”. Um alto funcionário veio ver Shri Mataji e pediu que lhe desse a Auto-realização. A Mãe e vários Sahaja Yogis trabalharam nele. Ao fazerem isso, todos se esforçaram muito. Todavia, não havia nada a fazer. A Kundalini dele não conseguiu ultrapassar o Nabhi Chakra. Desapontado, o homem foi embora. Algumas horas depois, soubemos, por um de seus colegas, que o sujeito em questão, administrador corrupto, se apropriou, indevidamente, de fundos públicos que lhe foram confiados. O Nabhi Chakra é presidido por Shri Vishnu e sua Shakti (o poder, a energia do Deus masculino e dele O ADVENTO 174 inseparável), Shri Lakshmi, que controlam nosso darma, e essas divindades se recusaram a conceder suas bênçãos a uma pessoa que havia zombado delas, por meio da prática de atos corruptos. O que é o darma? Por que é tão importante conhecê-lo e compreendê-lo? A palavra sânscrita não pode ser traduzida fielmente por uma palavra portuguesa, mas sim por um amálgama de noções como a virtude, a retidão, a moralidade, a justiça, a lisura, a moral, a ética, a integridade, etc. O darma evoca alguns critérios éticos que nos permitem fazer certas coisas e nos proíbem de praticar outras. Todavia, qual é a realidade que está por trás dessas palavras e princípios? Nossos educadores, os guardiões das regras de moralidade, aplicam, freqüentemente, suas proibições sem inteligência e sem discernimento, ou até mesmo sem qualquer convicção. Todos os adolescentes irreverentes se rebelavam contra as advertências de ‘não façam isso, não façam aquilo’, com a pergunta ‘por que não?’ Como ninguém me deu uma resposta satisfatória, tentei descobrir por mim mesmo, isto é, comecei a praticar aquelas coisas que eram proibidas, a fim de descobrir o porquê disso. Furtei, menti e me lancei nessas aventuras chamadas românticas (as quais, depois de algum tempo, tornaram-se mais que permitidas). Entretanto, a imersão no vício, com o propósito de descobrir um sentido para a virtude, pode ser uma conduta duvidosa. Somente após a Auto-realização, foi que comecei a entender o que estava acontecendo, e foi assim que me convenci de que valia a pena ser dhármico. Ser dhármico é sentir, pensar e agir corretamente, de um modo justo. Ser justo - eis o princípio fundamental - é aquilo que reforça e sustenta nossa capacidade de evoluir espiritualmente. Ser dhármico é comportar-se de uma maneira tal que agrade as divindades de nossos Chakras. Agindo dentro dos limites do darma, nossa rede sutil interior de energia- consciência será protegida por essas divindades das interferências externas. Com isso, essas divindades poderão, OS MÉRITOS DA VIRTUDE 175 finalmente, sustentar o pleno florescimento de nosso verdadeiro ser. Como saber se dado comportamento é dhármico? Para uma alma realizada, essa é uma questão simples. O Sushumna é o canal de Shri Mahalakshmi (que é o poder da evolução da Adi Shakti). As encarnações de Shri Vishnu balizam esse caminho. Com efeito, Shri Vishnu é o aspecto de Deus que preserva, faz com que sua criação evolua e é a própria personificação do darma. A abertura do Sushumna implica, assim, uma conscientização espontânea do darma. Dessa forma, como já foi dito, o Sahaja Yogi cujo sistema nervoso já foi despertado pela consciência perceptiva vibratória perceberá, fisicamente, o darma. Esse Sahaja Yogi sentirá as más vibrações de uma pessoa adhármica. Por exemplo, uma bela estátua emitia vibrações péssimas no lado direito do Chakra do coração. Sentimos uma dor do lado direito do peito, exatamente no lugar presidido por Shri Rama, que rege nossas relações de paternidade. Descobrimos, mais tarde, que o artista havia matado seu pai. Certa vez, um homem que enganava, secretamente, sua esposa nos enviava vibrações queimantes e que eram captadas no lado esquerdo do Nabhi Chakra, governado pelo aspecto Gruha Lakshmi, a deusa do lar. Shri Mataji esclarece que “um animal pode perambular em meio ao mau cheiro de um ambiente pestilento, sem sesentir mal. No entanto, um ser humano não suportará isso. Da mesma forma, após a Auto- realização, o pecado se torna repulsivo para a consciência despertada. Vocês sentem o mau odor dele. É seu corpo que reage”. Para um ser não-realizado, vale dizer, para a vasta maioria dos seres humanos, o sistema nervoso central ainda não está conectado com a consciência perceptiva vibratória do darma. Isso significa que a maioria pode queimar seus dedos nas chamas do pecado, sem que seu sistema nervoso central envie sinais de dor de volta para o cérebro e deflagre o reflexo de recuar os dedos, a fim de evitar que se queimem. Para nos guiar O ADVENTO 176 no caminho do comportamento correto, Shri Vishnu e o mestre primordial (Adi Guru Dattatreya) se encarnaram em numerosas ocasiões, tendo sido ajudados em sua missão de iluminação pelos grandes profetas e santos. De fato, é muito simples, pois o que aprimora o darma é aquilo que faz desabrochar, plenamente, nossas qualidades físicas, intelectuais e emocionais, trazendo harmonia e concórdia às nossas vidas. Esse era o objetivo das leis de Manu e de Moisés, e os valores dos estóicos e dos cristãos, o caminho do equilíbrio ou Tao, o caminho do meio de Buda. Todos esses conceitos implicam a aceitação de um ideal e de uma conduta correta. Também, é essencial um estilo de vida que mantenha, em equilíbrio, os movimentos de energia em torno do Sushumna. Quando os Chakras não estão sob o domínio das tensões laterais do Ida e do Pingala Nadis, a dimensão sáttwica (equilibrada) se expressa. Esse é o momento oportuno em que os lótus (ou Chakras) se abrem, quando a Kundalini ascendente os atravessa. A partir daí, devem ser evitados todos os comportamentos extremos que desestabilizem nossa atenção, projetando-a sobre o sistema nervoso simpático (SNS), esquerdo ou direito. Outra não era a mensagem da Grécia antiga, na qual a proporção e a medida eram cultivadas. É preciso, diz-nos Confúcio, que nos adaptemos às leis do Céu. Essas admoestações tinham por objetivo manter livre e desembaraçado nosso instrumental parassimpático, para a ascensão da Kundalini. Muito próximo de nós, na Europa, o código de honra da cavalaria medieval quis reafirmar a primazia da ética. Antes da abertura do Sushumna, é portanto muito relevante levarmos uma vida dhármica, moral, equilibrada, de tal maneira que nossa atenção não se envolva, excessivamente, com os dois canais (Ida e Pingala). O perigo de nos aventurarmos em demasia nesses canais é que, ao contrário do Sushumna, eles não representam o caminho evolutivo para nosso aperfeiçoamento. Os canais Sushumna, Ida e Pingala, que OS MÉRITOS DA VIRTUDE 177 constituem as três principais artérias de energia no microcosmo humano, estão vinculados a domínios cósmicos diferentes. As pessoas muito ligadas ao Pingala Nadi vão, depois da morte, para o supraconsciente coletivo. Por sua vez, o canal esquerdo (Ida Nadi) conduz as pessoas ao subconsciente coletivo. Para os seres humanos, esses domínios cósmicos são aliados cegos que os podem levar a renascimentos infelizes. Por outro lado, se a pessoa permanecer parada nas províncias mais inferiores desses domínios, ela poderá cair no inferno ou voltar para a Terra na forma de um espírito, um Bhut, conforme se discutiu anteriormente. Apenas o Sushumna é capaz de nos levar para o reino de Deus. Como já dissemos, com a exacerbação do Ida Nadi, as pessoas se tornam completamente possuídas e perturbadas. Se isso ocorrer em relação ao Pingala Nadi, poderemos encontrar monstros egocêntricos, opressores. Certamente, os opostos se encontrarão. Shri Mataji enfatiza, constantemente, que a moderação nos mantém próximos do canal central. Aquele que conseguir concentrar sua atenção preservará, também, sua inocência e sua espontaneidade. Shri Ganesha, Deus da inocência é, também, o Senhor da sabedoria. “Guiando os homens e servindo o Céu, o sábio usa apenas de moderação. Pela moderação somente, ele é capaz de se ajustar rapidamente ao Tao”. Lao Tse continua nos dizendo (no livro, “Tao te king”) que o Tao, significando aqui o darma, é o melhor remédio para imunizar o ser humano contra os Bhuts: “Quando o Tao reinar no mundo, nenhum espírito mostrará seus poderes fantasmagóricos. Não é que os espíritos terão perdido seus poderes, mas seus poderes não poderão mais prejudicar os homens”. O Adharma (a negação do darma) nos torna vulneráveis diante dos inimigos de Shri Vishnu, vale dizer, das forças que trabalham contra nossa evolução. Ignorar o mundo das entidades não faz com que elas desapareçam. Aqueles que não compreendem sua origem, talvez ignorem a lei segundo a qual o resultado de nossas ações (Karma) nos acompanha, após a O ADVENTO 178 morte, e influencia bastante as etapas seguintes de nosso destino. Vamos comentar brevemente esse assunto. Quando o coração cessa de bater, sabemos que o Atman (espírito) deixa o aparato material que usou, no afã de vivenciar a curta duração de uma existência humana. A consciência individual se retira dos órgãos físicos que haviam sido sua sustentação. O conteúdo da consciência se concentra na Kundalini, que começa a reduzir seu porte, até atingir um ou dois centímetros. Por solicitação da vontade do Atman, a Kundalini abandona o corpo morto, carregando consigo os Chakras. Estes, por sua vez, encapsularam, dentro de si mesmos, o conteúdo da consciência (todo o Karma) que resultou dessa vida, que é adicionado aos conteúdos resultantes de vidas anteriores, vale dizer, a memória total. Observe-se que alguns drogados conseguem alcançar, algumas vezes, de forma episódica, essa memória total de todo o ciclo de suas reencarnações. Essa memória pode também ser vivenciada, de modo imperfeito, nos sonhos muito profundos ou sob a influência da hipnose. No caso da hipnose, uma entidade do subconsciente faz com que nossa atenção se volte para o passado, no subconsciente coletivo. Primeiramente, a Kundalini vela sobre seu cadáver durante, aproximadamente, 13 dias. Isso explica a relevância dos ritos funerários, que são feitos no afã de apaziguar o espírito do morto; e explica, também, certas técnicas de magia negra que os feiticeiros utilizam, num cemitério, a fim de capturar esses espíritos. Em seguida, conforme o conteúdo dos Chakras e o estado da Kundalini, o morto se sente atraído pela força gravitacional dos campos energéticos que correspondem às suas condições. Por isso, se move em direção a uma província cósmica apropriada a ele. Os tipos rajásicos (orientados pelo lado direito) se dirigem para as províncias do supraconsciente coletivo, enquanto que os tipos tamásicos (orientados pelo lado esquerdo) se encaminham para o subconsciente coletivo, e, OS MÉRITOS DA VIRTUDE 179 finalmente, os tipos sáttwicos (orientados pelo canal central) se movem em direção à superconsciência do Virata. O Bardo Todol, o “Livro Tibetano dos Mortos”, relata essas passagens. Os cristãos falam em limbo e purgatório, porém sem ter uma noção muito clara a respeito deles. No Virata, o Preta Loka (domínio dos espíritos) tem diversas subdivisões que são descritas por alguns textos muito antigos. Shri Mahavira, o reformador do Jainismo, descreveu os diversos círculos do inferno, com detalhes que teriam agradado a Dante Alighieri. As interações desses locais assinalados e a consciência individual determinam a próxima encarnação. Os seres muito evoluídos ou realizados escolhem seus pais e, através destes, o meio ambiente em que pretendem viver sobre a Terra. Todavia, todos os outros têm a oportunidade também de renascer, sendo, por assim dizer, projetados numa matriz. No momento da concepção, o Atman encarna-se novamente e a Kundalini une-se a ele três meses depois. Se, por uma ou outra razão, um indivíduo, em seu estado após a morte (o Bardo,segundo os tibetanos), escapar do mecanismo normal desse ciclo, pode se aproximar do consciente coletivo, isto é, da raça humana. As almas frustradas ou torturadas (fantasmas, Pretas, Bhuts, etc.) ficam vagando nas proximidades das províncias conscientes do Virata, prontas para se manifestar, quer sob a forma de Bhuts, quer sob a forma de espectros. Um Sahaja Yogi pode percebê-los, a olho nu, vagando no espaço. Essas entidades nocivas se apresentam como pequenos pontos negros. Às vezes, podem ser vistos sob a forma de uma Kundalini desfigurada, acompanhada de Chakras opacos e deformados. As malformações que podem ser, assim, observadas fisicamente, numa forma de alguns centímetros, representam os estigmas dos pecados que pesam sobre a consciência do Bhut. Trata-se de um espetáculo que sugere que devemos evitar quaisquer transgressões, enquanto temos ainda uma forma humana. O ADVENTO 180 Certas pessoas, muitas vezes propelidas por demônios, que esperam recrutá-las, escolhem o suicídio como solução para seus problemas. Isso é um engano! Ninguém morre. Ninguém pode matar a si mesmo. Apenas os compostos materiais derivados dos elementos terra e água nos deixam no momento de nossa chamada morte. Todo o resto permanece. É bem pior sofrer na condição de desencarnado que na situação humana. Enquanto se tem ainda um corpo físico, pode-se ajudar a si mesmo e se corrigir. Todavia, sem o corpo físico, o sofrimento é um inferno. Ademais, na condição de Bardo, não é possível melhorar as oportunidades de evolução, objetivo da encarnação humana, mas pode-se sempre ficar exposto a um pecado ulterior, tornando-se assim um Bhut. Vejamos agora o que é o pecado. Os padres fizeram um uso deturpado da palavra ‘pecado’, o que gerou muita culpa nos fiéis. Devemos tentar restaurar a essência de todos os grandes preceitos morais, colocando-os no contexto de suas relações com as propriedades dos Chakras, à luz da experiência vivida no ato de despertar a Kundalini das pessoas. Todos nós, Sahaja Yogis, nos inclinamos diante dos ensinamentos dos verdadeiros Gurus e profetas, porque compreendemos, agora, como estes se esforçaram para nos proteger, mostrando-nos as coisas que podiam ser feitas e aquelas que deviam ser evitadas. Descobrimos como os diferentes Chakras podem ser afetados por pecados específicos. O MULADHARA CHAKRA Se o Ocidente não quiser compreender, rapidamente, as leis sutis que regem a sexualidade normal, esse Chakra continuará a ser perturbado, como ocorre com vários indivíduos pseudoliberados. Por causa dos excessos sexuais, a consciência- energia torna-se debilitada. A reeducação da atenção a esse respeito, no Ocidente, será um exercício longo, porém OS MÉRITOS DA VIRTUDE 181 proveitoso. No pólo oposto, o lado direito desse Chakra fica bloqueado pela constipação ou pela repressão sexual, o puritanismo. Por exemplo, um dia, perdido em meus pensamentos, estava cruzando a praça, diante da Catedral de Westminster, em Londres, quando uma dor aguda e súbita, nessa parte de meu corpo, me desviou de minhas reflexões. Olhei ao redor, e explodi numa gargalhada, por ter constatado que a praça tinha ficado escura, com tantas freiras, que me rodearam de todos os lados, ao saírem de seus carros em direção à igreja. Meu Muladhara, por intermédio de meu estado de consciência coletiva, captou a distorção causada pela sexualidade reprimida nos Muladharas Chakras dessas freiras. O SWADISHTHANA CHAKRA Muito freqüentemente, esse Chakra fica sob pressão quando nossas atividades são muito dominadas pelo ego, ou, simplesmente, quando o ritmo de nosso trabalho é muito estressante. O lado esquerdo é perturbado pelas práticas psíquicas e espirituais não autorizadas (Anadhikar) pelo Divino. Os psiquiatras, os dignitários eclesiásticos, os pseudomestres espirituais e os adeptos de seitas esotéricas ficam, freqüentemente, com o Swadishthana esquerdo bloqueado. Essa forte perturbação ou bloqueio revela o parasitismo dos Bhuts no subconsciente, quando ocorre também um bloqueio no Agnya esquerdo. Certas perversões sexuais deformam completamente o Swadishthana. O lado direito desse Chakra fica bloqueado pelo excesso de atividades e pelo excesso de planejamento. A diabete tem sua origem na perda do equilíbrio provocada por um excesso de atividade mental. Os artistas e outras pessoas muito criativas geralmente têm problemas com o Swadishthana, cuja energia criativa gastam exageradamente e, assim, a exaurem. O NABHI (ou MANIPURA) CHAKRA e o VOID O ADVENTO 182 Esse Chakra pode ser perturbado e descontrolado pelo consumo de certas carnes, bebidas fermentadas e drogas. Ele também pode ser prejudicado por atividades adhármicas relativas ao dinheiro, ao meio ambiente material, aos problemas familiares, ou a outros erros fundamentais em nosso estilo de vida. Os problemas hepáticos resultam de uma exagerada tensão no Nabhi direito e no Swadishthana direito. Nesse caso, a atenção se torna dispersiva e frenética como um peixe fora d’água. Como Buda disse: “A tranqüilidade mental e a faculdade da concentração desaparecem”. A região que fica em torno do Nabhi (o Oceano de Ilusão ou Bhava Ságara, ou o Void) é prejudicada pelo culto prestado a um falso guru ou pelo fanatismo. Os fundamentalistas cristãos, judeus, muçulmanos ou de quaisquer outras religiões ficam com essa parte do corpo completamente bloqueada. O ANAHATA (ou CORAÇÃO) CHAKRA Esse Chakra dá ou tira o sentimento de segurança. As tensões que podem causar a perda do sentimento de segurança geralmente dizem respeito ao relacionamento com o pai ou com o marido (lado direito), com a mãe ou com a esposa (lado esquerdo), ou conflitos entre os próprios pais da pessoa (Coração central). Também pode ser afetado por nossos romances juvenis. Quando esse Chakra está bloqueado, a pessoa vive com um sentimento de insegurança. Quando ele se fecha, o amor não é sentido nem dado pela pessoa. O lado esquerdo fica bloqueado: a) por uma atividade física muito intensa; b) pela moderna Hatha Yoga em sua forma incompleta (feita apenas como uma ginástica); c) pela insuficiente atenção que prestamos ao espírito que reside dentro de nós; e d) por ações prejudiciais a nosso espírito, motivadas por nossas insensibilidades, grosserias ou indiferenças. O lado direito pode ser prejudicado quando não são seguidos vários tipos ideais de comportamento OS MÉRITOS DA VIRTUDE 183 social. Por exemplo, o bom relacionamento entre os cônjuges, ou as boas relações entre o pai e os filhos (ou vice-versa), as relações cívicas adequadas da pessoa com a comunidade. Um bloqueio sério desse lado direito pode levar ao câncer do peito ou, se for do lado esquerdo, a um ataque cardíaco. O VISHUDDHI CHAKRA Esse Chakra de 16 pétalas controla nosso complexo otorrinolaringológico, pelo qual nos comunicamos com o mundo. Ele assinala também o início da formação do ego e do superego. É o Chakra da coletividade, da arte da pessoa conhecer seu próprio lugar, sem agredir os outros e sem se autodepreciar. Ele pode ser danificado por nossa ânsia de aparecer e por jogos emocionais e mentais. Também pode ser prejudicado pelo ato de fumar, pelo uso de linguagem chula ou inconveniente, ou, simplesmente, por resfriados. Se uma pessoa, antes de sua Auto-realização, cantar mantras, poderá ofender a divindade do Vishuddhi e também aquela que estiver sendo invocada. Por exemplo, Aradhana, uma menina realizada, estava tentando dormir perto de um templo, no qual os devotos entoavam incessantemente, o mantra “Hare Rama, Hare Krishna”. Após algum tempo, ela se levantou, enrolou seu cobertor e disse para sua surpresa babá: “Deus ficou tão saturado com esse cântico, que Ele já se retirou há muito tempo. Agora, também vou me retirar daqui”. Adeptos dessaspráticas sofrerão problemas de garganta, de nariz, e de ouvidos. O câncer pode se espalhar pelos setores do corpo controlados pelos dezesseis subplexos. O lado esquerdo é afetado quando a pessoa se sente culpada (por exemplo, por meio do condicionamento da confissão no catolicismo) ou quando alguma entidade ou Bhut toma conta do Vishuddhi Chakra, falando por intermédio do indivíduo ou encerrando-o num silêncio glacial. O ADVENTO 184 O AGNYA CHAKRA Esse centro, extremamente sensível, não permite que nenhuma impureza atinja o Sahasrara. O Agnya é bloqueado pela hipocrisia intelectual, por ondas de pensamento errático, por leitura excessiva, por intelectualismo exagerado, pela incapacidade de perdoar, ou de pedir perdão (o antídoto para isso é o ‘pai-nosso’). É afetado, ainda, pelo toque de um guru falso durante uma pseudo-iniciação; pelo condicionamento pseudocristão que mantém muito mais uma tradição religiosa institucionalizada que a realidade viva do Cristo. Fica também bloqueado pela aceitação da ortodoxia judaica que nega a divindade de Cristo; pelo uso errôneo de nossos olhos; pelo fato de assistirmos, demasiadamente, a programas de televisão, assim como pela atração que podemos ter por imagens vulgares, violentas ou obscenas e pelos flertes contínuos em cada esquina. Como o Agnya rege os nervos óticos, bem como as glândulas pineal e pituitária, o estado puro e limpo do Agnya é uma condição indispensável para o domínio do intelecto e da atenção. O processo de purificação pode levar alguns anos, e merece que nos consagremos a ele com paciência e disciplina, particularmente porque todo o meio ambiente ocidental faz com que isso seja muito difícil! Os problemas do Agnya Chakra podem se manifestar como queimações na testa, dor nos olhos e dores de cabeça. Um Bhut no Agnya pode levar ao surgimento de alucinações, as quais a pessoa pode confundir com progresso espiritual, e até mesmo à cegueira. Bohdan Shehovych, um médico russo, que é Sahaja Yogi, pôde ver seu Agnya sendo atacado por Bhuts e nos dá o seguinte depoimento: “Vi meu Agnya no interior de minha cabeça. Ele apareceu como uma espécie de ovo, brilhante como o Sol. Também pude ver pontos negros que pareciam mover-se em torno dele”. O lado direito do Agnya pode ficar bloqueado por manifestações exageradas do ego (o hemisfério esquerdo do OS MÉRITOS DA VIRTUDE 185 cérebro), e o lado esquerdo por entidades do superego, que podem causar sensações desagradáveis na parte posterior da cabeça ou na têmpora direita. O SAHASRARA CHAKRA O lótus de 1.000 pétalas contém, sob uma forma sutil, todos os outros Chakras. É assim o Chakra da integração. As pessoas dogmáticas, da mesma forma que os militantes ateístas, ficam com seus Sahasraras bloqueados. O bloqueio também ocorre com as pessoas que se apegam às suas opiniões e aos seus conceitos a respeito de Deus. Isso pode se tornar algo doloroso, se a pessoa se recusar a reconhecer a verdade, mesmo após ter testemunhado sua manifestação. Por exemplo, se ela se recusar a reconhecer o fato de que Shri Mataji despertou sua Kundalini, a despeito de ter sentido as vibrações se originarem dela. Não se trata de desenvolver, nesse livro, as inumeráveis permutações e combinações que podem ser formadas pelos sete Chakras básicos. A música divina elabora, infinitamente, a combinação das sete notas da escala. Alicerçado em dados e fontes vibratórias diferentes, o homem se torna, instintivamente, (aliás espontaneamente), consciente da verdade e da falsidade. Ele tornou-se capaz de saborear o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. “O único conhecimento válido é aquele que é verificável”, diz-nos Piaget em sua “Sabedoria e as ilusões da filosofia”. É essa espécie de validação que a Sahaja Yoga confere no campo da ética. Nossas experiências nos ensinaram algumas regras simples de conduta correta. - As pessoas que trabalham muito ou que são muito preguiçosas devem mudar seus comportamentos, a fim de voltar para o centro, evitando os comportamentos extremos. - Os indivíduos que se preocupam, excessivamente, com dinheiro ou posses materiais nunca terão paz e contentamento. O ADVENTO 186 - Aqueles que conferem muita importância à aparência, ao sucesso, à reputação tornam-se artificiais e desprovidos de profundidade e sabedoria. - As criaturas que pensam ou planejam, demasiadamente, tornam-se hiperativas e serão incapazes de entrar em sintonia com as ‘ondas’ divinas. - As pessoas que levam uma vida licenciosa têm a probabilidade de perder toda a consciência das qualidades divinas. A fim de manter sua inocência e espontaneidade, os homens devem ser capazes de olhar para as mulheres com olhos puros e vice-versa. - Aqueles que têm uma visão religiosa muito estreita deverão abrir seus Sahasraras, para que se tornem capazes de reconhecer todas as grandes religiões e todas as grandes encarnações. O darma faz com que algo se revele, de fato, como é. Na matéria, é a valência do átomo que determina a qualidade de um elemento. Trata-se, segundo Aristóteles, da essência da coisa. O darma de um ser é aquilo que sustenta esse ser na existência, o que lhe dá a forma específica. Será que constitui um grande milagre o fato de a macieira produzir maçãs, em vez de ameixas? Ou de que as formigas sejam capazes de construir seus formigueiros sem nunca ter freqüentado a escola? Ou ainda, que o tigre não tenha os mesmos instintos que tem o carneiro? Esses milagres acontecem devido ao poder de Shri Vishnu, a personificação do darma, que mantém todas as coisas dentro de limites adequados. Na natureza, a perversão não existe. A macieira não pode produzir ameixas, o fogo não pode molhar, e a platina não se oxida. Todavia, um homem pode se transformar numa mulher, porque ele pode usar sua liberdade para esse fim, e é assim que as coisas se desviam de seu caminho correto. O estado natural que precede o homem não é bom nem mau (“O homem nasce bom, porém a sociedade o corrompe”, diz Rousseau e Hobbes assevera que: “O homem é o lobo do homem”), porque essas distinções somente fazem sentido na consciência de alguém dotado de discernimento ético. Isso é o que distingue o homem das outras espécies vivas. Trata-se de OS MÉRITOS DA VIRTUDE 187 sua condição de ter de escolher entre o bem e o mal. Essa é uma escolha que os animais e os anjos não precisam fazer. Para o estoicismo, a liberdade é a grandeza do homem. Já o existencialismo vê, na liberdade, a maldição humana. Ambos estão certos. Os que erram são os libertinos que confundem a liberdade com a licenciosidade. O paradoxo do homem é que ele segue apenas um caminho, que é a senda da liberdade e que pode conduzi-lo tanto para sua salvação, quanto para sua perdição. Precisamos saber o que é que podemos fazer nesse caminho. O darma do homem é o de respeitar livremente as regras da conduta correta que garantam uma ótima interação com seu meio ambiente. Essa interação é também assegurada aos outros níveis de vida, em função das leis da biologia e dos instintos. Os esforços humanos (feitos no sentido de estabelecer essas regras) dão nascimento ao que se chama de moralidade. As novas gerações caracterizaram-se pelos movimentos laterais de energia e por uma oscilação entre os pólos contrários do sistema nervoso simpático (SNS), que bloqueiam os Chakras no caminho central, no afã de se descartar do darma e por conta de sua rejeição das regras morais já desacreditas pela hipocrisia dos eclesiásticos que as pregavam. Somente a sinceridade de nossa busca manteve a possibilidade da Auto-realização. Todavia, se não houver busca, quando o movimento do pêndulo se torna muito violento, as pessoas poderão dissipar suas energias vitais em processos psíquicos antagônicos, contraditórios e incontroláveis (alternânciasde depressão e exaltação, de desespero e orgulho, de culpabilidade e arrogância, etc.). A personalidade dhármica, dotada de equilíbrio e autocontrole, preserva sua vida interior e a beleza do lótus de sua consciência interna, porque não é dominada nem dominadora. Assim, ela se mostra pronta para a grande transformação. Nas palavras de meu amigo Gavin Brown: “Quando você se identifica com o darma, coloca-se no caminho que liga O ADVENTO 188 todas as existências. Passa a fazer aquilo que é necessário e se abre para a vida e para o amor, e fica contente com você mesmo e com Deus, fechando-se assim o círculo”. Compreenderemos melhor, agora, os erros que as velhas regras de moral queriam que evitássemos. Ir contra o darma, ou em outros termos, cometer um pecado, é ir contra a possibilidade de um 'vir a ser' superior. Portanto, o pecado é um desvio, mais ou menos sério, do caminho central da evolução de nossa consciência. É uma agressão contra aquilo que é mais bonito em nosso interior. O problema é que, antes da Auto- realização, não sabemos disso. A asfixia do darma ocorre de modo discreto e progressivo. Segundo E. A. Burt, em seu livro “Os ensinamentos do Buda compassivo”, Buda teria dito que “pela queda de apenas uma gota, o pote se enche d’água. A tigela fica cheia do mal, ainda que ele se acumule nela pouco a pouco”. No que tange a isso, Shri Mataji explica como o pecado nos anestesia: “A sensibilidade dos Chakras torna-se embotada, após os primeiros choques infligidos neles. O ser humano se acostuma muito facilmente com todos esses hábitos chocantes. Ele existe, porém de maneira muito superficial, dado que não quer descer até as profundezas de seu ser, porquanto nesse movimento, terá de encarar as atitudes chocantes acumuladas dentro de si mesmo. Tenta esquecer esses comportamentos porque isso o ajuda a sobreviver. No entanto, a mera existência não é suficiente. É algo frustrante, degenerescente e insultuoso. Muitas pessoas corajosas quererão, realmente, encarar a si mesmas. São essas que a Sahaja Yoga poderá ajudar.” O processo de purificação exige de nós muita perseverança e colaboração. Mesmo com o instrumento danificado (ou seja, com os Chakras bloqueados) pode-se receber a Auto-realização. O maior trunfo de um buscador, em meio a todos os seus erros e dificuldades, é o de ter estado sempre buscando a Verdade, resoluta e sinceramente. OS MÉRITOS DA VIRTUDE 189 A busca apaixonada da Verdade é o aspecto vital do Bodhichitta (o desejo de iluminação suprema), que é descrito nos textos do budismo Mahayana, como sendo a chave para se atingir o estado de Bodhisattwa. Nesse sentido, devem ser consultadas as instruções de Maitreya ao jovem peregrino Sudhana nos Gandvyuha Sutras. Quando os Chakras e os Nadis são prejudicados pelo Adharma, ficamos na situação de uma cisterna que deixa escorrer a água ou de uma taça que não a retém. Talvez, possamos compreender melhor a relação existente entre o darma, nosso instrumento psicossomático e a Auto-realização, escutando a descrição que Shri Mataji faz do Samadhi de Shri Buda: “Buda tinha darma. Seu corpo era limpo. Seu espírito e sua atenção não encontravam alegria nos apetites do mundo. Sua taça estava pronta e se esvaziou de todo o seu conteúdo, quando abandonou seus esforços e entregou-se completamente. Esse foi o momento em que as vibrações divinas precipitaram-se sobre ele como uma chuva torrencial; a Shakti encheu sua taça e fez dele um Shakta, o iluminado. Assim, quando lhes é dito que respeitem sua virtude, vocês estão sendo advertidos para que mantenham sua taça intacta e limpa.” Pela graça de Deus, a água de seu amor tem, igualmente, a faculdade de reparar lentamente a taça da qual escoa. Contudo, se a taça estiver completamente desintegrada, é lógico que não haverá nenhuma esperança. Por isso, é conveniente que não exploremos o domínio do Adharma, até o ponto de ruptura entre a fenda e a fratura. Os comportamentos a ser evitados foram descritos de forma consistente pelas diferentes tradições. Os padres escolásticos da Idade Média diziam: “Cupiditas radix omnium malorum est” - “a cobiça é a raiz de todos os males” - os O ADVENTO 190 bonzos budistas falam da luxúria, da cólera e da ganância. Um provérbio persa corrobora a advertência budista: “Você sabe o que é que jamais pode ser satisfeito? É o olho da ganância. Todos os bens do mundo não podem encher o abismo de seus desejos”. Os vícios tendem a nos deixar perpetuamente frustrados e são incapazes de nos satisfazer plenamente. “Lassata necdum satiata” – ‘cansada, porém jamais satisfeita’ - dizia Juvenal a respeito de Messalina. Ademais, os animadores de Woodstock, os bardos de Plutão que são os Rolling Stones não têm nenhuma dúvida a respeito disso: ‘I can get no satisfaction..’ – ‘não posso obter satisfação alguma’. Nos textos sânscritos clássicos, os sábios identificaram seis inimigos internos que atuam contra os Chakras: 1. Kama (luxúria e cupidez), contra o Muladhara Chakra; 2. Krodha (cólera, agressão e violência), contra o Swadishthana; 3. Lobha (inveja), contra o Nabhi; 4. Moha (apego à família e à comunidade), contra o Anahata; 5. Machara (ciúme), contra o Vishuddhi; 6. Mada (vaidade e orgulho), contra o Agnya Chakra. Mas, hoje em dia, as racionalizações capitalistas endeusam a ganância, a luxúria (a mais desenfreada, como equivalente à palavra gloriosa ‘liberação’) e a violência (que é exercida sob a chancela oficial da polícia em regimes totalitários e em sociedades injustas). Infelizmente, não é possível citar aqui todas as escrituras que nos preveniram contra as conseqüências do pecado, mas gostaria de estabelecer, simplesmente, a ligação entre certas perturbações de nossa vida psíquica e os dois pecados fundamentais que podemos cometer, vale dizer, o pecado contra o Pai e o pecado contra a Mãe. OS MÉRITOS DA VIRTUDE 191 - Todo homem é, potencialmente, aquele que dá à sua criança a segurança absoluta em relação à vida. Ele encarna, de alguma maneira, o aspecto tutelar de Deus, o Pai. Guia, protege e provê nossas necessidades. Cristo disse que “vosso Pai sabe do que é que precisais, mesmo antes de pedirdes a Ele”. O pecado contra o Pai é a falta de confiança na providência divina. Nosso cérebro quer compreender e controlar todas as coisas, ser o tutor de nosso destino e o contabilista de todas as seguranças artificiais que engendra para nos proteger. Todos esses esforços se transformam, por fim, numa patologia de um espírito constantemente inquieto, uma fantasmagoria sempre renovada de falsas identificações e de seguranças ilusórias. A fama, o poder e a acumulação material são alguns nomes dados a esse jogo de pessoas enganadas. A avareza e todas as práticas imorais associadas com os bens materiais, tais como: fraudes, corrupções, explorações, apropriações indébitas, extorsões, furtos e roubos são formas de pecados contra o Pai. Os movimentos da atenção se voltam para o exterior, agindo como os tentáculos de um polvo, a fim de capturar e acumular objetos materiais. Todavia, os seres realizados (aqueles que nasceram duas vezes) têm sua atenção interiorizada e a rara capacidade de se deleitar com aquilo que possuem. Saboreiam suas próprias virtudes. Estão satisfeitos materialmente e não gastam suas energias, no afã de acumular coisas supérfluas. São generosos sem ostentação e compartilham, com os outros, as coisas que possuem. Certa vez, Shri Mataji disse: “Um ser realizado é como um imperador. Como Sai Baba de Shirdi, ele pode dormir sobre uma pedra e mesmo assim sentir o conforto bem-aventurado de um bebê nos braços de sua mãe”. É preciso compreender que a capacidade de conhecer a satisfação depende de um estado interior e não das circunstâncias externas. Dependedo SER e não do TER. Uma pessoa pode sentir-se lesada, seja qual for seu nível de vida ou sua posição social. O ADVENTO 192 Haverá, sempre, em Saint Tropez, ou em qualquer outro porto, um iate maior e mais bonito que o seu, e se, por acaso, você já possuir o iate mais bonito e maior, você quererá, em seguida, a moça maravilhosa que está no terraço do bar e depois outras coisas mais. - Toda mulher representa, potencialmente, para sua criança, o supremo recurso ao amor, encarnando aquele aspecto do Divino que, desse modo, nutre o universo. Além disso, sua inocência e sua pureza manifestam-se por intermédio de sua castidade, a qual representa outro aspecto fundamental da energia divina. O pecado contra a Mãe é o ataque a essa dignidade, quando a psique ‘sexualizada’ vê na mulher apenas um objeto de consumo, o pretexto para divertimentos carnais. Cristo recomendou que não tivéssemos olhos adúlteros. Trazer o sexo no olhar, em lugar de usufruir dele numa relação sadia com sua esposa é um desperdício de energia. Esses olhares sujos ofendem a maternidade das mulheres para as quais são dirigidos e obstruem o Agnya Chakra. Surpreendentemente, nos países considerados cristãos, foi que esse flerte tornou-se um passatempo quase nacional. Por causa dessa degradação da mulher, toda a concepção do universo é degradada. O frescor da inocência é substituído pela sujeira. A mente viciada projeta sua visão sobre o mundo e faz dele um vasto esgoto. Certos filmes premiados no festival de Cannes são exemplos patentes, entre tantos outros dessa essa visão poluída. As conseqüências dessa perversão podem ser constatadas na patologia dos psiquismos extremamente condicionados. O leitor talvez já tenha feito um certo paralelismo entre esses dois pecados e nossa estrutura psicossomática. O pecado contra o Pai é cometido por intermédio do Pingala Nadi e o ego, enquanto que o pecado contra a Mãe é cometido pelo Ida Nadi e o superego. Se alguém estiver muito estressado, num dos pólos, tenderá a cometer os pecados do pólo oposto, conforme o movimento perpétuo de ação e reação entre os Nadis. Esse OS MÉRITOS DA VIRTUDE 193 processo se verifica não só para o indivíduo, mas também para toda a sociedade. Por exemplo, o Ocidente se desenvolveu, predominantemente, por meio do canal solar, Pingala Nadi. Nos países ocidentais, o pecado contra a Mãe é transmitido pelos costumes. Existe pouco do verdadeiro respeito pela mulher e pela maternidade. Na maioria dos países tropicais que se desenvolveram, predominantemente, por meio do canal lunar, Ida Nadi, o pecado contra o Pai fez florescer os regimes corruptos e o conceito de ética profissional é quase desconhecido. Nesse contexto, é claro que esses dois pecados se opõem ao darma. Entretanto, no que diz respeito à Auto-realização, o pior dos dois parece ser o pecado contra a Mãe. A explicação psicossomática que precisa ser compreendida, perfeitamente, é a de que enquanto o pecado contra o pai prejudica alguns Chakras (Nabhi, Vishuddhi), o pecado contra a Mãe ataca, diretamente, o Muladhara Chakra, que é o alicerce que sustenta toda a estrutura. Os adeptos da liberação sexual acham difícil compreender o estado ao qual foram reduzidos. Na Inglaterra, na França e na Austrália, demos a Realização do Si a um grande número deles. No caso deles, de uma forma geral, a Kundalini se elevava, muito rapidamente, sugerindo que as pessoas deveriam ser personalidades muito evoluídas espiritualmente, e que estiveram, durante suas vidas passadas, em busca de Deus. Todavia, para nossa grande surpresa, após alguns minutos ou mesmo após alguns segundos, a Kundalini se recolhia, novamente, ao osso sacro. Isso era um indicador de que o Muladhara Chakra estava muito debilitado para manter a ascensão da Kundalini. Tínhamos de explicar, tão diplomaticamente quanto possível, a essas pessoas que a ‘revolução sexual’ não conduz ao crescimento espiritual. Algumas delas já haviam entendido isso. Outras nos consideraram hipócritas ou vitorianos anacrônicos e se sentiram O ADVENTO 194 muito ofendidas. Não compreendem que os juízes dessa situação não são elas (nem nós). Os magistrados do Juízo Final já estão sentados em seus tronos e são as divindades de nossos Chakras. O juiz responsável pelo Muladhara Chakra, Shri Ganesha, jamais transige. Nascido da virgem imaculada Shri Gauri, o papel cósmico de Shri Ganesha é o de proteger a pureza da criação inteira. A fim de obtermos suas bênçãos, tais como a inocência, a sabedoria que surge da inocência, e o contentamento que emerge da sabedoria, temos de respeitar sua pureza em nós mesmos e nos outros. O hino magnífico dedicado à Grande Deusa, o Devi Mahatmyam, proclama que “todas as mulheres, do jeito que são, têm as tuas formas, ó Deusa”. Todas as mulheres são a imagem da Mãe de Shri Ganesha, Shri Gauri, que é a Kundalini do universo. Precisamos saber como respeitá- las, pois com exceção de minha esposa, todas as mulheres do mundo devem ser consideradas mães ou irmãs. Infelizmente, uma cultura decadente condicionou nossa percepção da mulher e colocou em moda essas formas de relacionamento que conflitam não só com o verdadeiro júbilo, mas também destroem nossa evolução. Por exemplo, a tradição do teatro francês de bulevar que celebra o adultério, ou as elucubrações dos freudianos que denunciam, como moral burguesa e tabus culturais, alguns resquícios do darma que ainda nos restaram. Esse tema da liberação sexual foi tão mexido que devemos aprofundá-lo um pouco mais. Em primeiro lugar, é preciso denunciar o absurdo de certas escolas eclesiásticas, as quais, ao longo dos tempos, desenvolveram a teoria de que existe uma espécie de incompatibilidade entre o sexo e o progresso espiritual. Com efeito, todos os Rishis (sábios ou clarividentes) da era védica eram casados. Seus sucessores, menos evoluídos espiritualmente, acreditavam que era preciso levar uma vida de celibato. Há de fato uma razão simples para isso. Ao reprimirem sua sexualidade (Ida Nadi, canal lunar, OS MÉRITOS DA VIRTUDE 195 esquerdo), esses brâmanes, monges, jesuítas e assemelhados podiam galvanizar melhor a energia do Pingala Nadi (canal solar, direito) e assim explorar as várias avenidas do poder psíquico ou político, porque um sempre conduz ao outro. Paulo de Tarso era um exemplo típico de celibatário reprimido, que levou a jovem igreja cristã a se desviar para um excessivo proselitismo e um ativismo institucional, com o objetivo de conquistar Roma. Assim sendo, é preciso denunciar a falácia igualmente absurda, e mesmo mais perigosa, conhecida como ‘tantrismo’, de que a sexualidade é o caminho para a Auto- realização, ou ainda, em termos mais seculares, para a realização pessoal (como Reich e os neofreudianos diriam). Essas duas tendências representam investidas contra o Muladhara Chakra, de ambos os lados direito e esquerdo, respectivamente. Uma tendência pode, de fato, se transformar em seu oposto, vale dizer, um monge, que foi puritano durante uma determinada encarnação, pode renascer como um libertino em outra e vice- versa. Carl Gustav Jung, em seu livro “A Psicologia do inconsciente”, nos diz que “a vida erótica somente desabrocha quando o espírito e os instintos chegam a um acordo feliz”. Esse acordo, ou essa concordância, não é obra do acaso, mas do respeito às regras de comportamento que alicerçam o meio ao qual damos o nome de ‘família’. Dois anos vividos no Nepal e cinco invernos consecutivos na Índia, longe das cidades e das armadilhas para os turistas, me ajudaram a entender melhor o lugar da família numa cultura alicerçada no darma. Conforme observou a Unicef, a criança, na Índia, é tratada como um rei. Os comportamentos dos membros da família são definidos pela consciência de sua responsabilidade emrelação à criança. Assim, a sociedade não tolera as atitudes arbitrárias que colocam em perigo seu meio ambiente emocional. O adultério do pai, por exemplo, seria objeto de opróbrio e de uma condenação sem apelação. O ADVENTO 196 Desde uma idade muito tenra, a criança se vincula à rede complexa das relações interpessoais, que lhe permite desenvolver, simultaneamente, seu equilíbrio psíquico e sua segurança emocional. Relações particulares são desenvolvidas com o pai, com a mãe, com os irmãos e irmãs mais velhos e mais moços, com os avós, com os tios e tias, amigos, vizinhos, e assim por diante. Cada um desses relacionamentos tem uma peculiaridade emocional que lhe é própria, dando origem a um clima afetivo específico. A criança é assim rodeada por uma gama muito rica de expressões de amor. Através de um prisma sutil dessa estrutura ela dá e recebe amor. Conhece todas as delicadas sutilezas e nuanças que convergem para ela e satisfazem suas necessidades afetivas. Guiada e instruída por seus pais, acicatada por seus irmãos e irmãs, amada por seus avós, mimada por seus tios e tias, a criança constrói na família ideal não só o castelo de felicidade, mas também os critérios de referência e a moldura emocional de maturidade, os quais irão equipá-la para enfrentar o resto de sua vida. O indiano não considera as mulheres como suas prováveis futuras parceiras, porém como irmãs e mães, conforme a idade. Sua atitude em relação às mulheres foi modelada durante sua infância e adolescência. Finalmente, quando se aproxima a época do casamento, a noiva é escolhida por meio de uma decisão coletiva da família, depois de consultados os horóscopos dos noivos, e, naturalmente, com o consentimento de ambas as partes para a futura união. Essa coletividade reafirma a dimensão social do casamento e contribui para a integração do casal recém-formado na estrutura social existente. Somente depois disso, o casal recém-unido pelo matrimônio descobre um novo tipo de relacionamento, isto é, o amor entre cônjuges, que se expressa na relação física. Quando a união sexual é descoberta em todo o seu frescor, na intimidade terna de um encontro particular e muito reservado, o casamento tende a se transformar num OS MÉRITOS DA VIRTUDE 197 grande sucesso. A exclusividade do vínculo entre o marido e a esposa torna o casamento precioso e sagrado. Ela dá a moldura na qual, sem remorso ou desilusão, uma grande intensidade pode desenvolver e florescer. Essa exclusividade dá origem à instituição do casamento na sua forma histórica mais desenvolvida (a poliandria e a poligamia são peculiares às sociedades mais primitivas) que permite o ajustamento ótimo do instrumental neuropsíquico dos dois parceiros. Shri Mataji afirma a respeito desse padrão monogâmico que “milhares de anos atrás, os grandes sábios já haviam previsto que o relacionamento mais satisfatório e prático entre um homem e uma mulher seria monogâmico”. A plenitude do amor físico é alicerçada na especificidade da linguagem sexual que tem de ser respeitada. Essa linguagem pertence somente a uma determinada expressão de amor, no relacionamento entre cônjuges. O convívio conjugal, por mais belo que seja, é somente um dos diversos tipos de relacionamentos interpessoais. Se essa linguagem for usada de maneira incorreta ou pervertida, de maneira a deslocar a sexualidade de seu contexto adequado, as regras do jogo seriam destruídas. Por exemplo, ao introduzirem a sexualidade na relação fraternal entre os homens, os homossexuais se encerraram num gueto de valores equivocados, os quais, em vão, tentam legitimar mediante uma subcultura paralela. A consciência perceptiva vibratória comprova que a sexualidade sem intimidade e respeito torna-se vulgar e barata, e é danosa para as dimensões mais profundas da consciência humana, vale dizer, para os Chakras. Os pequenos gozos, os prazeres de equilibrista que são obtidos aqui e ali, afastam-nos mais e mais da verdadeira plenitude, serena e intensa, emocional e física, de uma relação bem-sucedida. Em suma, a instituição do casamento, em seu contexto mais amplo da família, tem como um de seus escopos a criação de uma moldura na qual a sexualidade humana pode encontrar sua realização. O ADVENTO 198 A sutil arte de viver, que consiste em manter cada relacionamento dentro de determinado limite de comportamento e atividade corretos, está severamente ameaçada no Ocidente. Por razões históricas (o modo capitalista de produção, as guerras mundiais, o entorpecimento da sensibilidade religiosa pelas igrejas), a unidade familiar foi muito enfraquecida, tendo os ataques mais cruéis sido desfechados por movimentos de ‘liberação’, que devem ser considerados como um afastamento do darma. Nesse tipo de ambiente, a criança é submetida a todos os tipos de ataques. O Chakra do Coração não é mais alimentado pelas vibrações do amor, e a criança se torna frustrada sem conhecê-lo. Muito freqüentemente, os avós estão ausentes e os pais muito ocupados para cuidarem de sua criança, a qual desenvolve uma forte tendência subconsciente a procurar uma compensação emocional em outro lugar. Na escola, o adolescente descobre a resposta mágica. Colegas de escola, programas de educação sexual, e outras pressões ambientais concentram a atenção da criança no paraíso da promiscuidade sexual. É realmente muito difícil para uma criança resistir ao incrível condicionamento cultural da sociedade ocidental que apresenta o sexo como sendo a única fonte de intensidade de sentimento e sensação, à parte a violência e a dor. Esse é efetivamente o leitmotiv, o motivo principal, que inspira tantos exemplos de publicidade, arte gráfica em geral, filmes, revistas, e outros veículos de comunicação. As estratégias de marketing apresentam a mulher como um objeto de prazer e como o produto máximo de consumo. O sexo se torna um fim em si mesmo. Em torno desse fascínio se desenrolam todas as liturgias de nossas Babilônias modernas. A mensagem é largamente aceita porque, no ambiente urbano alienante da sociedade industrial avançada (onde se aboliu a maior parte das relações sociais comunitárias) a cópula física parece ser a única escapatória para a gratificação emocional. E esse ambiente é, OS MÉRITOS DA VIRTUDE 199 por si mesmo, fruto da hiperatividade do Pingala Nadi. A fuga para o Ida Nadi, no afã de restaurar o equilíbrio, é inevitável. A própria sociedade encoraja a promiscuidade sexual, porque ela funciona como uma válvula de segurança para todas as energias e aspirações frustradas das pessoas que, assim, aceitarão mais os contra-sensos de seu sistema socioeconômico. As sociedades que, em nome do sucesso material, dilaceraram seu tecido social, ao estimular a irresponsabilidade familiar até seu último grau, consideram-se ‘desenvolvidas’ e propõem modelos de crescimento para os países pobres ‘em desenvolvimento’. “Existe um problema de superpopulação nos países em desenvolvimento?”, perguntava, com um ar paternalista, um alto funcionário anglo-saxão. “É verdade, senhor. No entanto, o que há com sua filha? Ela tem catorze anos, é viciada em heroína e não se lembra nem sequer dos nomes de seus namorados!” Quem escolheria uma mãe como essa? É por isso, sem dúvida, que os seres que se encarnam atualmente preferem os lares mais seguros dos países ‘em desenvolvimento’. Na Europa e nos Estados Unidos, as crianças são, freqüentemente, deixadas à própria sorte, sem critérios, guias ou modelos. Estão perdidas e não têm consciência disso. Meninos e meninas entram assim no ciclo de suas experiências sexuais e tentam a sorte. A história é apresentada em termos bastante açucarados de um romance juvenil. Porém, a realidade vivida é muito diferente. Muitos jovens confessaram o mesmo fracasso. Quando se reúnem, querem saborearapenas a alegria de estar juntos e a segurança do amor. Contudo, não conseguem alcançar isso. A espontaneidade do relacionamento entre um rapaz e uma moça ficará, quase sempre, comprometida, se existir, na mente do rapaz, a expectativa de ter uma relação sexual com a garota. Às vezes, a mesma coisa acontece na mente da garota, ainda que de forma mais ‘romântica’. Pode ser que resistam a essas tentações. Qualquer que seja a hipótese, a inocência do relacionamento se perdeu. A confusão que O ADVENTO 200 transparece em seus olhos atrapalha seu contato, porque, inconscientemente, eles a percebem. Talvez essas projeções mentais consigam enlevar o rapaz e a garota e, nesse caso, terão uma aventura. Todavia, nessa hipótese, o amor físico não será completamente bem-sucedido e satisfatório, porque os parceiros já entraram no relacionamento com seus instrumentos neuropsicológicos perturbados. Nesse caso, a satisfação surgida da relação diminui cada vez mais e ambos partem, novamente, à procura de novos parceiros. Esses jogos gratificam o ego, mas ferem o coração. São elaboradas grandes estratégias de sedução. Johannes, o Don Juan de Kierkegaard, comenta: “Sou ótimo, principalmente nas ações preliminares....” Os primeiros olhares e as primeiras carícias abrem as portas da armadilha. Ao mostrarem, dramaticamente, que a história de Don Juan termina com o fatídico encontro com a estátua do Comandante (ou seja, com a morte), Molière e Mozart, duas almas realizadas, tentaram nos advertir. As manobras da conquista e da sedução são muito antigas e foram descritas pela literatura. Havia os amantes byronianos, o médico curioso a respeito da mecânica dos corações, Lou Salomé e Madame Bovary. Todavia, isso jamais havia atingido uma amplitude estatística semelhante à atual. Graças à democracia permissiva (“Cuidem para que isso não se transforme numa demonocracia”, diz Shri Mataji), os vícios dos nobres, ricos e degenerados transformaram-se em hábitos das massas. Ao redor do monte do Adharma, estudantes de catorze anos e avós de sessenta anos perseguem-se uns aos outros. Adúlteros, pederastas e lésbicas conduzem a bandeira da ‘liberação’, desfraldando como estandartes suas roupas íntimas. Ao fazerem isso, estão destruindo a pureza de todas as diferentes formas de relações humanas, que, para a mulher, segundo sua idade, segue o modelo da mãe ou da irmã, tia e sobrinha, irmã e irmã. Em relação aos homens, o modelo ideal compõe-se de relações entre pai e filho, tio e sobrinho, irmão e OS MÉRITOS DA VIRTUDE 201 irmão, porque o amigo é também irmão! A liberdade sobre a qual os apóstolos do Adharma fixam sua visão é a liberdade de destruir a si mesmos e aos outros. Aqueles que, levianamente, com ou sem refinamento, se entregam ao jogo da sedução, acreditam que estão gozando a vida, mas Shri Mataji contesta isso, categoricamente. “Se estão realmente satisfeitos, por que é que sua atenção precisa passar de uma pessoa à outra durante o tempo todo?” Nesse processo, o equilíbrio psíquico é completamente perdido e o cérebro doente ‘sexualiza’ todas as coisas ao seu redor. A natureza, as férias, as reuniões e as viagens se tornam, simplesmente, oportunidades para encontros sexuais, e essa obsessão mata a espontaneidade do sexo e a alegria da vida. A Sahaja Yoga nos permite diagnosticar o dano sofrido por nosso instrumento sutil interno. Se o Muladhara Chakra estiver seriamente prejudicado, logo a própria sustentação da Kundalini estará em perigo. A conseqüência imediata será a perda do equilíbrio psíquico, que se expressa, normalmente, via inocência e espontaneidade. Sem esse equilíbrio, o darma não pode ser percebido intuitivamente. A pessoa pode perseverar no erro, cada vez mais profundamente, e até jactar-se de fazer isso. Isso é um indicador do fechamento do Nabhi Chakra. A atenção não é mais controlada, porque as divindades dos Chakras inferiores entram em recessão. A atenção ‘sexualizada’ toma conta do Ida Nadi e se torna o principal vetor de percepção, invadindo os olhos e os pensamentos. O Agnya Chakra, em conseqüência disso, fica perturbado. Isso significa que a erotização ou ‘sexualização’ da consciência passa do subconsciente para o consciente do sujeito, que fica privado de sua capacidade de discernimento e, por causa disso, ele se identifica com todos os absurdos que surgem em sua mente. Isso é terrível, porque até mesmo a consciência perceptiva é atacada, não sendo capaz de tomar ciência do O ADVENTO 202 ataque. Logo, as pessoas se identificam com seus erros e tratam como retrógrados aqueles que ousam criticá-los. Aquele cuja consciência perceptiva vibratória ainda não foi totalmente comprometida começa a compreender que as coisas não melhorarão, mas não sabe o que fazer para recuperar a inocência, a espontaneidade e a alegria perdidas. Com isso, essa pessoa sofre muito. Os relacionamentos humanos se tornam uma espécie de inferno. Quando a alegria se ausenta, o prazer físico não pode substitui-la de modo satisfatório. Os efeitos de um comportamento sexual adhármico fazem-se sentir inclusive no plano físico. Por isso, os médicos se preocupam cada vez mais com o crescente número de casos de frigidez feminina e de impotência masculina. Muitas mulheres ‘liberadas’ não sabem o que é ter um orgasmo. Por isso, a sinistra anedota da terapia sexual não muda coisa alguma. O sexo cerebral é o passaporte para a impotência, porque o erotismo desconecta a reação sexual física de seu ambiente emocional normal (como por exemplo, a intimidade do casamento). A atividade sexual torna- se cada vez menos espontânea (parassimpático) e cada vez mais artificial (simpático). Em outras palavras, responde cada vez menos aos seus estímulos normais e requer novas formas de excitação. No final do processo, sob a orientação invisível dos Bhuts, haverá um desvio para as perversões e para a violência. Esses temas estão sendo agora celebrados pelos meios de comunicação. A mídia se compraz, maldosamente, em chamar a atenção das massas para o grande show de nosso tempo, ou seja, para a pavana ou a dança de satã. É preciso que se diga que o mal existe. Nossos brilhantes intelectuais modernos, que declararam que o diabo não existia, esqueceram-se de que o grande truque armado por ele foi o de fazê-los acreditar que ele não existia. O príncipe dos sedutores conhece seu mundo e sabe como se tornar atraente. Identifiquemos um pouco melhor a existência de satã, porque o erro pior é ver sua cauda bifurcada onde não existe. OS MÉRITOS DA VIRTUDE 203 Com o devido respeito aos maniqueus e aos cátaros, a perfeição metafísica de Deus exclui a possibilidade de um princípio absoluto do mal que se oporia ao absoluto princípio do bem. O mal aparece somente na criação e sua gênese é descrita em várias mitologias, as quais não iremos citar aqui. Antes da aparição do homem, certas categorias de entidades começaram a se desviar do caminho central da evolução de Shri Vishnu e a acumular os poderes da Rajo Guna (os titãs para os gregos, os gênios para os árabes e os Asuras para os hindus), assim como os poderes da Tamo Guna (Rakshasas ou demônios). Graças a esses poderes, tentavam, de quando em quando, assumir o controle do processo evolutivo. Na época de Shri Rama, há cerca de 8.000 anos, eles ainda estavam presentes na Terra, enquanto que 2.000 anos mais tarde, no tempo de Shri Krishna, os protagonistas do drama perene do bem e do mal eram, de fato, seres humanos, reconhecidamente dotados de poderes super-humanos. O que o Ocidente chama de satã representa a coletividade do mal, ou poderíamos dizer, o elo que coordena as diferentes entidades diabólicas. Nos tempos modernos, os demônios, tendo perdido grande parte de seus antigos poderes, nasceram, de fato, na raça humana, ondejá apareceram com diferentes nomes e formas (por exemplo, Nero, Sade, Rasputin, Hitler). Eles também surgiram, conforme foi profetizado nas escrituras, como falsos profetas e falsos gurus. “Então se alguém vos disser: olhai, aqui está o Cristo, ou ei-lo acolá! Não lhe deis crédito. Porque se levantarão falsos Cristos e falsos profetas que farão prodígios, e maravilhas tais que (se isso fosse possível) até os escolhidos se enganariam”. Mateus, 24,23,24 Discutirei, mais tarde, a natureza das atividades desses homens diabólicos. Ao mesmo tempo, as forças satânicas tornaram-se muito mais poderosas em relação à humanidade, visto que descobriram um meio de invadir nossa psique, notadamente pela criação de formas de controle dos Bhuts, via O ADVENTO 204 magia negra. O plano diabólico é muito simples. Em primeiro lugar, o darma do homem tem de ser perturbado, para que se rompa sua ligação com o Inconsciente Universal. Nesse caso, o papel do Inconsciente passaria a ser desempenhado por atores infernais. Nesse ponto, entram em cena os Bhuts. Por intermédio do controle dos Bhuts é estabelecido o controle dos seres humanos e, particularmente, daqueles que são influenciáveis, a fim de se influenciar o curso do desenvolvimento da sociedade em direção à sua destruição, ou seja, distante do Sushumna. Por que é que tudo está ocorrendo? Porque (ainda que aqui eu vá tornar a explicação bastante esquemática) essas pessoas demoníacas opõem-se ao advento sáttwico de uma raça de seres humanos realizados, o que poderia significar o cancelamento definitivo de sua revolta. “Sou o espírito que nega tudo”, como Goethe faz Mefistófeles dizer, e o que satã nega, por excelência, é a perfectibilidade do homem, pois essa possibilidade mortifica seu ego luciferiano. Se falhar o plano de Deus consistente em abrir seu reino a seus filhos, os demônios sabem que Shri Shiva dançará Tandava, provocando a destruição de todo o universo. A aniquilação que resultaria disso teria o efeito de liberar aqueles que se recusaram a ter sua oportunidade de evolução. Ao corromperem a raça humana, eles obrigam Deus (Sadashiva) a repudiar Sua criação, da mesma forma que um artista desapontado rasga os esboços de uma obra de arte que deveria ter completado. Vamos resumir. O bem é aquilo que promove e consolida nossa evolução em direção ao reino de Deus. O mal é aquilo que se opõe à nossa evolução. A batalha cósmica, entre as forças que ajudam a evolução e aquelas que lutam contra ela, foi transposta do cenário macrocósmico (luta entre deuses e demônios) para o cenário microcósmico da psique humana. A regra que Deus deu ao jogo da evolução humana foi a salvaguarda da liberdade humana. Em face dos ataques dos OS MÉRITOS DA VIRTUDE 205 Bhuts, o ser humano não-realizado só pode se proteger pelos méritos de sua virtude. A fim de preservar esses méritos foi que, ao longo do tempo, se teceu a trama das relações entre o sentido de nossa evolução, a moralidade e as leis que formam o próprio tecido de todo o processo civilizador. Essa trama exerce uma espécie de função imunológica coletiva contra as influências do mal. Com efeito, o homem evolui num contexto social. Quando este último tolera e legitima as práticas que não estão harmonizadas com o darma, o nível de resistência das pessoas às interferências negativas é reduzido. Assim, as pessoas se tornam mais inclinadas a ter pensamentos, sentimentos e comportamentos negativos, aumentando a bola de neve que prejudica, por sua vez, seus vizinhos. Dessa forma, nossos valores morais, que se preocupam, essencialmente, com as relações do indivíduo com a comunidade, incorporam as leis do darma, num sentido social que assegura a coesão da família humana. A definição desses valores morais foi o objetivo da encarnação de Shri Vishnu, na pessoa de Shri Rama. Esses valores morais encontram expressão numa coleção de ritos, costumes e leis, que, convenientemente observados, erguem uma barricada contra as incursões de Bhuts e os decorrentes comportamentos destrutivos. Um sistema legal inspirado pelo darma tenderá a destruir o ambiente no qual os Bhuts possam prosperar. Esse é, na verdade, o imperativo psicossomático que está na base da verdadeira noção de lei. O Jus Quiritum dos primeiros romanos emergiu de uma liturgia de exorcismos e ritos religiosos que combinavam as energias psíquicas contra os Bhuts adhármicos. De fato, já é tempo de encontrarmos novamente nossa conexão com o darma. Para fazermos isso, é bom que não esperemos muito dos sistemas existentes, ética e legalmente. Isso porque, a História demonstrou, com grande riqueza de detalhes, que os melhores sistemas puderam ser manipulados pelos piores homens. O Estado idealizado por Hegel, por O ADVENTO 206 exemplo, que se supunha capaz de realizar o bem comum (o bonum commune de São Tomás de Aquino) tornou-se o instrumento do sadismo nazista, um século depois. Hoje em dia, no Ocidente, adjetivos tais como ‘bom’ e ‘mau’ são usados da mesma forma como os adjetivos ‘azul’ e ‘amarelo’. É ‘bom’ aquilo que me agrada; é ‘mau’, por exemplo, o estado da inflação ou a afluência de muita gente, no metrô, na hora do rush. Fizemos da tolerância um valor absoluto e nos esquecemos de que tolerar o mal é prejudicar o bem! E a liberdade da qual nos orgulhamos tanto consiste em nos colocar à mercê de forças ocultas. As pessoas bonitas (beautiful people) da década de 60 encheram os cofres dos falsos profetas, permitindo que estes criassem seus impérios abomináveis. Não nos esqueçamos de que, em última análise, a sobrevivência de uma civilização repousa na qualidade da estrutura psico- espiritual, moral e legal que a sociedade constrói, para se proteger das forças maléficas, seja qual for o modo pelo qual elas atuem. Quando essa barreira se desmantela, o fim está próximo. O fim se anuncia pela corrupção dos costumes e a dissolução social. Voltemos ao tema da família, célula básica do edifício social. A cerimônia do casamento representa a aceitação da união pela coletividade humana, que é o sentido da dimensão religiosa, e pelo grande ser primordial do Virata. Quando o novo lar está banhado de amor, consideração e ternura do casal, muitas bênçãos se materializam, inclusive a prosperidade material (por meio da graça de Shri Lakshmi como Gruha Lakshmi, a divindade do lar). Alguns versos do poeta Emile Verhaeren celebram essa felicidade do casal, em seu livro “As horas claras”: “Tenho as tuas mãos entre as minhas...E teus olhos confiantes que me retêm...Com seu fervor, tão docemente; E te sinto em paz com todas as coisas...Que nada, nem sequer uma fugitiva suspeita de temor...Perturbará, nem por um OS MÉRITOS DA VIRTUDE 207 momento, A confiança santa... Que dorme entre nós como uma criança que repousa.” A atenção correta, que o casal dá aos seus atos e relações, tece em torno dele o interesse já despertado das divindades. A conexão com o Inconsciente Universal é mantida, e a família permanece ligada à divina ecologia. Os dias, os encontros e eventos saboreados juntos são o penhor de uma sólida felicidade. Devido ao fato de ter me casado, cinco anos após a Auto-realização, vivenciei, pessoalmente, como o casamento ratificou e ampliou as conquistas da Auto-realização. A própria cerimônia fez com que minha esposa e eu mergulhássemos numa meditação muito profunda, cuja alegria e consciência coletivas nos vincularam aos outros participantes. Desde então, o ritmo das coisas construiu em torno de nós uma nova arte de viver, de compartilhar e de receber. Todo esse domínio de novas alegrias é, naturalmente, impensável na promiscuidade dos estilos de vida ‘liberados’, que os conduzem, de fato, para a impossibilidade de se obter o autoconhecimento. Shri Mataji expressou isso, num tom quase de desalento.“Se o amor não puder florescer nas condições ótimas do matrimônio, como é que poderá florescer fora dele? Como é que o mundo todo poderá conhecer o amor?” Shri Mataji comentou, de forma abrangente, o relacionamento entre o marido e a esposa: “Eles não são idênticos, mas ambos são semelhantes, não há dúvida! Um é a roda direita e o outro é a roda esquerda do carro. Se uma das rodas for maior do que a outra, o carro não poderá andar direito. Ambos devem ser respeitados. O relacionamento entre o marido e a esposa tem de ser absolutamente informal e espontâneo; toda artificialidade entre eles deve desaparecer. Eles devem se amar e, também, algumas vezes, podem discutir, a fim de demonstrar sua vinculação. Isso é um sinal de uma relação sadia. Todavia, uma mulher deve comportar-se como mulher e um homem deve ser como homem. A fidelidade espontânea, o amor e o compartilhar são as únicas maneiras de dar e receber as alegrias do casamento. O menor desvio da fidelidade conjugal deve ser absolutamente O ADVENTO 208 evitado, e, se cometido, deve ser confessado abertamente. Uma pessoa que não acredita no relacionamento do tipo ‘um homem e uma mulher’ não deve jamais contrair matrimônio; por que tornar uma outra pessoa infeliz? Os efeitos da infidelidade secreta são devastadores e podem arruinar toda a sociedade.” Por exemplo, pode acontecer de uma mulher desenvolver um câncer de mama devido à sua insegurança provocada pelo comportamento leviano de seu marido. Comprovou-se essa relação de causa e efeito em muitas sessões de terapia vibratória. A sagrada instituição da família está ameaçada pelas luzes da era pós-guerra. Entretanto, essas luzes são sinais que foram acesos pelos náufragos. Vejamos isso um pouco mais de perto. Sabemos que as células do organismo são, espontaneamente, arranjadas, conforme certos esquemas, e que a ruptura desses esquemas leva à morte da célula ou à sua mutação cancerosa que pode ameaçar os tecidos vizinhos. Do mesmo modo, cada indivíduo é parte de uma rede sutil de energias, que mantém o equilíbrio de sua personalidade. Essa rede essencial ou básica é chamada de família. A ruptura desse esquema ameaça a harmonia psíquica e emocional do indivíduo. Vimos, muitas vezes, como os Chakras das pessoas são danificados por problemas de seu ambiente familiar. Quando um membro da família se comporta de maneira arbitrária (o pai bebe, a mãe segue suas histórias românticas, o marido é um playboy, etc.), o senso de coletividade se perde. Aqueles que estão em torno dessa família destruída ficam desestabilizados, e sentem que seus valores e modelos de comportamento foram aviltados. Motivados por um espírito de vingança, podem adotar algum tipo de comportamento prejudicial à sociedade. Numa família em que a mãe não é respeitada, as filhas perdem seu senso de castidade. Isso foi demonstrado, em alguns estudos sociológicos, cujo tema era a motivação das prostitutas ‘profissionais’, por meio dos quais verificou-se que, OS MÉRITOS DA VIRTUDE 209 freqüentemente, os pais delas eram adúlteros, e assim elas procuravam vingar suas mães, punindo o sexo masculino ao desviar outros homens do bom caminho. Por causa dessa família desarmônica, a mutação cancerosa se espalha por toda a sociedade, sem que ninguém se dê conta disso. Uma pessoa que abandonou os valores da família emite pensamentos contrários à vida familiar, que subjugam, particularmente, os indivíduos mais fracos, que mudam seus valores e comportamentos. As células do organismo social começam a se degenerar umas após as outras. Shri Mataji fez a seguinte observação: “foi a introdução da moeda na economia que produziu os primeiros atentados contra o casal”. Isso porque, nas sociedades agrárias que precederam as sociedades que usam a moeda como meio de troca, os homens e as mulheres desempenhavam papéis que, apesar de diferentes, eram reconhecidos como tendo igual importância. Os egos de ambos os parceiros eram igualmente satisfeitos. Contudo, no momento em que o marido começou a ser aquele que trazia dinheiro para o lar, ele achou que tinha uma importância maior, seu ego inflou e ele começou a depreciar a posição de sua esposa. A mãe de família, apesar de desempenhar uma função vital, porém não remunerada na sociedade, não contava mais com a estima e a consideração da sociedade que lhe eram atribuídas até então. Ademais, as grandes somas de dinheiro trazidas para casa pelo marido, começaram a atrair a atenção voraz de outras mulheres. Mesmo hoje em dia, os homens flertam com secretárias e vendedoras e esperam que suas esposas passem as camisas que suas amantes desabotoarão. “Ótimo”, disseram as mulheres e assim abandonaram o papel adequado a elas, vale dizer, o de satisfazer as necessidades da sociedade em termos do canal lunar, e, soltando as rédeas de seus egos, passaram a se dedicar às tarefas próprias do canal solar. Esse movimento pode seguir vários caminhos. A mulher se torna carreirista, feminista, ou, de fato, faz com que os O ADVENTO 210 homens ‘caiam’, um após o outro, a fim de satisfazer seu ego. Muitos homens também agem de modo semelhante. As relações extraconjugais não são quase nunca o encontro verdadeiro de dois corações (não confundir com um melodrama emocional), mas quase sempre um encontro de dois egos. Citemos, novamente, esse observador tão perspicaz que era La Rochefoucauld: “A razão pela qual um homem e sua amante nunca se cansam um do outro é porque eles sempre falam de si mesmos”. A castidade de uma mulher é seu maior poder, pois por intermédio dele, ela mantém aquilo que ama, sob a atenção do Inconsciente, porque Shri Ganesha a abençoa. Todavia, quando abandona esse poder secreto e salta a barreira, ela pode, muito facilmente, conquistar tudo aquilo que produziu a aparente supremacia do macho e sobretudo o dinheiro. Poderá ganhar a nova guerra entre os sexos, porém destruirá, de passagem, o mundo todo e se transformará num monstro de dominação. A confusão emocional na sociedade torna-se assim mais profunda; a homossexualidade encontra aí sua raiz. Para Shri Mataji, “O homem e a mulher se completam e podem tornar sua vida tão bela e cheia de alegria. Quando é que o homem aprenderá a se deleitar com aquilo que é dele, sua própria esposa, ao invés de cobiçar a mulher do próximo?” O casamento do sexo e do dinheiro quebra essa confiança entre o homem e a mulher. Na Índia, durante a cerimônia de casamento, nove símbolos são apresentados à noiva, os quais representam os poderes de Shri Lakshmi. Isso ressalta que os poderes da mulher casada ligam seu lar (e as pessoas vinculadas a ela) ao esquema evolutivo do seu desenvolvimento espiritual. Ela é o poder, a força e o suporte do lar, mesmo em situações econômicas difíceis, ou ainda, em circunstâncias, algumas vezes, dramáticas. Tiremos as conclusões. Já é tempo de reconhecermos, sabiamente, que o darma deve ser respeitado e estabelecido com total liberdade. O darma desaparecerá se for imposto pelas restrições de um inquisidor ou chefe político.“O darma se OS MÉRITOS DA VIRTUDE 211 extingue quando aplicado por coerção externa, tal como as penas de um pavão que são atadas nas de um corvo”, segundo o comentário de Shri Mataji. Todavia, a liberdade não consiste em desmantelarmos nossas famílias, nem sequer em nos tornar escravos de nossas fraquezas. Todos os costumes e estilos de vida que encorajem nossa decadência, ou uma ‘abertura’ para o pecado, ou uma ‘tolerância’ em relação aos Bhuts devem ser combatidos de forma radical. Em verdade, se um homem e uma mulher se amam, logo, devem se casar. Se não se amam, é melhor que se separem. Esse é o modesto ponto de partida para quem deseja recuperar seu equilíbrio e se preparar para sua Auto-realização. Esqueçamos as teorias das igrejas que identificamo progresso espiritual com a repressão sexual, engendrando intermináveis gerações de sacerdotes frustrados. Rejeitemos, também, as teorias da psicologia moderna que justificam nossas fraquezas, bajulam nosso ego e projetam nos outros - nos pais, na infância, na sociedade - a responsabilidade por nossos pecados. Encaremos, corajosamente, o caos de nossas sociedades. Quantos, dentre nós, podem ler com equanimidade as seguintes linhas do evangelho: “Ouvistes aquilo que foi dito aos antigos que não cometereis adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher cobiçando-a, já em seu coração cometeu adultério com ela.” Mateus 5,27. Nesse caso específico mencionado por Cristo, os Bhuts depravados podem passar de uma pessoa para outra, mediante uma mera troca de olhares! Não obstante, uma profecia muito antiga vaticinou que os santos, que estivessem à procura de Deus, obteriam sua Auto-realização durante a pior escuridão da era das trevas (Kali Yuga). Por isso, devemos olhar para o futuro com confiança em nossas chances de evolução, sejam quais forem os erros cometidos e sejam quais forem as dificuldades dos tempos modernos. Diz-nos Shri Mataji que “Nirmala significa pura. As pessoas me perguntam, ‘o que é que acontece com nossos Karmas?’ Eu os O ADVENTO 212 absorvo e os aniquilo. Sua Kundalini é como um fogo que queima suas impurezas”. No entanto, para que a graça possa atuar, devemos abrir mão das atitudes que a insultam. Devemos desistir de todos os fatores que prejudicam nossa consciência, tais como as bebidas alcoólicas, as drogas e o fumo. Redescubramos a alegria do sexo dentro da santidade do casamento. Voltemos nossas costas para a violência e o deboche, bem como para todas as formas modernas e sutis que tentam legitimar esses vícios. Não nos vinculemos a esses falsos profetas que são apenas feiticeiros e necromantes. Caros leitores atentos, que me seguiram até aqui, vocês sabem, perfeitamente, que não lhes foi dito nada de novo, porque essas admoestações estão contidas nas estâncias do Bhagavad Gita, nos versículos da Bíblia, nas estrofes do Alcorão e nos ensinamentos do Guru Nanak. Temos simplesmente de afinar nossas harpas e preparar os alicerces de nossa era para a Realização do Si. Entretanto, se meu apelo não é novo, ele é urgentíssimo. Isso porque, expirará, em breve, o prazo dado para que nos corrijamos, tal como Cristo e o Profeta Maomé tornaram claro: “E o que sucedeu no tempo de Noé, do mesmo modo sucederá também quando vier o Filho do homem. Eles comiam e bebiam, casavam os homens com as mulheres, e as mulheres com os homens, até o dia em que Noé entrou na arca, e então veio o dilúvio e fez perecer a todos. E como sucedeu em tempo de Ló, estavam comendo e bebendo, faziam compras e vendas, plantavam e edificavam. Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que consumiu a todos. Assim mesmo será no dia em que se há de manifestar o Filho do homem”. Lucas 17, 26-30 “Quando o tempo chegar, ninguém saberá como negá-lo. Alguns serão rebaixados, outros serão exaltados. Obedeçam a Deus antes que chegue o dia, o dia em que Deus não recuará. Nesse dia, não encontrarão lugar para se esconder. Vocês não poderão negar suas obras.” Alcorão, 56.1 e 42,46 OS MÉRITOS DA VIRTUDE 213 O prazo fatal é verdadeiro. Falaremos sobre isso mais adiante. É claro que é quase impossível nos mantermos dhármicos numa sociedade adhármica. Todavia, fomos nossos próprios predecessores e em nossas encarnações precedentes, conduzimos nossa sociedade à sua presente situação caótica e suicida. Fomos também aqueles que, mediante os seus erros, procuraram a verdade. E é isso que conta! Possam todos os buscadores da Verdade ser despertados! Vamos pedir perdão. Vamos levantar nossas cabeças. No Ramayana, Shri Rama diz para Vibhishana, o demônio arrependido: “seja quem for que procurar refúgio em mim, eu não poderei rejeitá-lo”. Shri Krishna disse a Arjuna no Gita: “não tenha medo, livre-se de todas as dúvidas. Redimirei seus pecados”. E o Filho falou como o Pai, que se rejubilou com a descoberta da ovelha perdida. O verdadeiro significado da palavra islã é a ‘entrega’ a Deus ou a ‘submissão’ a Alá. Alá é misericordioso e compassivo. Tornando possível a incrível maturidade da Sahaja Yoga, Shri Mataji nos forneceu um instrumento para nossa salvação imediata. Ela veio para nos trazer a emancipação e para nos revelar aquele reino onde o darma é transcendido. Nesse reino não podemos ser condicionados nem tentados. Nele, não somos impelidos a agredir ou a oprimir os outros, porque nos tornamos testemunhas desapegadas da magnífica Obra de Deus. Isso porque, no final dessa Kali Yuga, a humanidade alcançará, inconscientemente, o maior ponto de inflexão da História. As alternativas são inexoráveis, vale dizer, a integração ou a desintegração. O campo em que se trava a batalha entre essas alternativas encontra-se em nosso interior. O darma é uma força centrípeta de suporte interior e coesão que coloca tudo em torno do Si. “É um ponto em que a força da gravidade de nossos pecados não pode agir”, como diz Shri Mataji. A Sahaja Yoga O ADVENTO 214 restaura em nós, espontaneamente, o darma, quaisquer que tenham sido os excessos praticados, por nós, no passado. Posso testemunhar tudo isso. É tão somente esse testemunho que me permitiu escrever esse livro. Antes de agosto de 1975, no qual encontrei Shri Mataji, sofri muito pelo fato de ter praticado todas as besteiras que as pessoas de minha geração praticavam. Exauri, com uma sucessão de namoradas complacentes, minha capacidade de sentir a felicidade de estar na companhia de alguém. Fumei haxixe em Genebra, cheirei cocaína em Nova York, tomei LSD na Califórnia, misturando assim uma exploração de geografia terrestre com uma topografia ainda mais incerta dos paraísos falsos. Tentei compreender o que acontecia comigo e o que ocorria ao meu redor. Entretanto, fiquei aturdido em meio a todos aqueles sujeitos desorientados. Eu não entendia muito bem, mas acho que estava totalmente perdido. Éramos como náufragos à deriva, tentando, mesmo assim, ajudar uns aos outros. Essa fraternidade certamente aqueceu meu coração, porém o que me manteve à tona, ao longo do tempo, foi o conselho de Sócrates ‘de não levar nada demasiadamente a sério’, para se evitar o risco de levar muito a sério algo que não valesse, realmente, a pena. É bom ressaltar que podemos aprender com as drogas que existem várias províncias cósmicas. Apenas isso. As drogas nos lançam no supraconsciente ou no subconsciente, onde ficamos sem defesas psíquicas. Os Bhuts sabem perfeitamente disso e é claro que tentam tirar proveito dessa situação. Nessa época, meu corpo tinha mais darma que eu, e protestava contra aquilo que meu ego o fazia sofrer. Ele me enviava vários sinais que eu não entendia. Dormia muito mal, sofria de problemas neurovegetativos, e tendia a me tornar cada vez mais instável em meus diferentes relacionamentos. Por ocasião de meu primeiro encontro com Shri Mataji, ela pediu licença, várias vezes, para ir ao banheiro. Eu a ouvi vomitar. Ela estava absorvendo as vibrações ruins acumuladas OS MÉRITOS DA VIRTUDE 215 em meus Chakras, e suas idas ao banheiro eram uma conseqüência direta disso. Não senti muito orgulho disso... No entanto, ao me tornar testemunha de minha própria salvação, finalmente, tive todo o tempo para constatar onde e como me havia desviado. Também pude ver o que deveria fazer para sair daquela situação desconfortável. Consideremos, por um momento, a percepção hindu acerca das leis cósmicas. Brahma e Saraswati manifestam a energia criativa de Deus, Shiva e Kali, a energia do desejo e da destruição, e Lakshmi e Vishnu, a energia de proteção, sustentação e evolução,cujo aspecto normativo é o darma. A qualidade dhármica desperta, em nós, a predisposição de fazer o bem, de ter virtude e de praticar a justiça. Fora de nós, essa qualidade dhármica trabalha nas modalidades de coesão e integração do cosmo. Assim, quer no microcosmo, quer no macrocosmo, o darma é, simplesmente, o princípio da ecologia divina. Sem darma não pode haver ecologia. Os delicados mecanismos de auto-regulação dos ciclos de energia ficariam desordenados. O drama de nosso tempo é que a tecnologia nos armou para que pudéssemos interferir na biosfera, enquanto que nosso senso de darma não evoluiu no mesmo ritmo. Nosso poder mecânico, nossa química e nossos computadores aumentam e espalham as conseqüências de todos os nossos inumeráveis erros. Em meio a tudo isso, a chamada ‘elite pensante’ não suspeita, nem por um momento, que possa existir uma aliança letal entre os Bhuts e as máquinas. Entronizadas por nossas proezas técnicas, as forças do mal (que não existem, segundo os ‘pensadores’ modernos) instalaram-se na mente da humanidade. Elas arruinaram a vida familiar e nossas cidades. Atacaram nosso sistema nervoso (o estresse moderno). Se não as combatermos, elas destruirão as condições de sobrevivência da vida na Terra. Estamos na iminência de descontrolar os ecossistemas de nossa Mãe Terra. Estocamos a energia de nosso pai, o Sol, nas bombas atômicas. Conquistamos a matéria. Isso O ADVENTO 216 foi algo sensato que fizemos, segundo o livro do Gênese. Nesse meio tempo, a matéria dominou nosso espírito, algo que jamais devíamos ter deixado acontecer. Os sábios, os estadistas e os pensadores estão começando a perceber, lentamente, que estamos na iminência de provocar nossa própria destruição e que a única saída seria a promoção de uma espécie de revolução espiritual. Ao mesmo tempo, os falsos profetas, fiéis ao seu propósito maléfico, estão medindo a distância até a brecha. Para que se possa acreditar na solução desse dilema, é preciso ser incorrigivelmente otimista ou ter encontrado, de fato, uma boa solução! Qual seria a solução? “Trata-se de uma utopia”, dirão os eruditos. Eles observam que, muito naturalmente, o incorrigível milenarismo cristão se reaquece com a virada do milênio. O alarme é tocado, o sinal é dado e o fim do mundo é esperado. Recentemente, as Testemunhas de Jeová fizeram suas rondas, pregando o iminente fim do mundo (ainda que este seja sempre adiado por causa de suas preces). Os astrólogos estão preocupados. Nostradamus é consultado. O que é que está acontecendo? O Apocalipse? Agora? Em breve? Nunca? Vamos primeiro dar uma olhada na parte da peça que vem em primeiro lugar, antes de evocar seu grande clímax. DO OUTRO LADO DO LIMITE CAPÍTULO VI Nada existe além do Si. Shankaracharya Em sua Crítica da Razão Pura, Emmanuel Kant anunciou, sobriamente, que a estranha razão humana era incapaz de ignorar algumas questões filosóficas, para as quais ele não possuía respostas convincentes. Com efeito, quando se consideram as diversas áreas da filosofia (epistemologia, ontologia, cosmologia, filosofia política, etc.), descobrimos que os pensadores se debruçaram apenas sobre uma questão tão irritante quanto fundamental. Se despojarmos essa questão das formas intelectuais que incorporou, ao longo das civilizações, vemos que ela aparece, em última análise, como um dilema que se duplica como um enigma. Por exemplo, na história das idéias européias, ela surge como vários binômios: identidade/mudança, matéria/espírito, acaso/necessidade, essência/existência, substância/acidente, etc. O grande dilema consiste no fato de que o limite entre o finito e o infinito passa pelo homem, o qual fica assim dividido, de certa forma, por essa contradição. Descartes, por exemplo, considerava que a glândula pineal era o ponto de encontro, quer do aspecto espiritual, quer do lado animal, do ser humano. ‘De que maneira ultrapassar esse limite?’ Este foi o enigma que assustou os alquimistas, os místicos e os santos. Para o intelecto humano, a contradição primordial reside no fato de que o infinito (que é absoluto, universal, necessário e O ADVENTO 218 ‘cósmico’) manifesta-se no homem por meio de sua dimensão finita (que é relativa, particular, livre e ‘microcósmica’). O infinito é, simultaneamente, revelado e oculto pela sua manifestação, o que é expresso pela noção hindu de Maya e a noção cristã de Mistério. “Que importância tem isso?”, indagarão, com soberba, as gerações daqueles que não quiseram se deixar envolver pelas questões da metafísica. Contudo, é impossível desconhecer essa contradição, porque a consciência humana participa do jogo cheio de artifícios, mediante o qual o infinito se revela no finito. O homem traz dentro de si mesmo algo de infinito, apesar de ser limitado pela individualidade de seu ego. Apesar de dividido, ele tem consciência de sua divisão. Não é “anjo nem demônio”, diz Blaise Pascal, para o desconforto de Sören Kierkegaard, porque este acha difícil que o homem aja, sinta e pense, sendo algo como ‘nem isso nem aquilo’. Segundo Paul Valéry, “o homem procura, há muito tempo, compreender de que lhe serve ter essa dose razoável de espírito que sente. Esse excesso que lhe diz que não é uma solução exata para o problema de viver, porque ele encontra sempre um pretexto para não se sentir satisfeito com o momento presente”. Todavia, J. P. Sartre, em seu livro “O ser e o nada”, expõe com uma amargura sarcástica que sermos ‘humanos’ é precisamente sofrer, sem esperança, o absurdo da contradição existencial. Somos duplamente condenados. Primeiro, por desejarmos a plenitude da existência, e em segundo lugar, por não conseguirmos alcançar esta plenitude. Sim, esse mundo considerado em sua gigantesca insignificância é, exatamente, aquele que ecoa o grito de Macbeth (5.5.24) : “Um conto narrado por um idiota, cheio de ruídos e de fúria, que não significa coisa alguma”. A alternativa seria a panacéia cristã proposta pelas igrejas, nas quais a salvação exige a abdicação da inteligência e da liberdade. Não! Que o homem preserve, pelo menos, a nobreza de sua revolta! Camus, um pouco mais afortunado que Sartre, morreu A DANÇA DE SATÃ 219 ao volante de seu carro, evitando assim cair numa má-fé marxista um pouco fácil. Nem todos têm a coragem altiva dos existencialistas, pois é difícil viver apenas pela força do desespero e sobreviver somente com a conclusão de que nossa existência não serve para coisa alguma. Outros pensadores ocuparam-se com a síntese, em vez da auto-hipnose induzida pela contradição (os existencialistas são os herdeiros da escola jônica, porque se colocam entre o Ser imutável de Parmênides e a perpétua mudança de Heráclito). Isso também trouxe uma consolação passageira. Aristóteles e São Tomás de Aquino criaram conceitos importantes que objetivavam a obtenção da síntese. Todavia, como a fênix renasce de suas cinzas, o debate se abria de novo após a elaboração de cada síntese. Em seu “Contrato social”, Rousseau (com sua afirmação de que “o homem nasce bom, a sociedade torna-o mau”) propôs uma solução que revolucionou a filosofia política. Por outro lado, Santo Agostinho fixou o limite que separa a Cidade de Deus do mundo dos homens, o que deu origem à delegação vertical de autoridade, sobre a qual se baseou o direito divino dos reis. Rousseau substituiu a imanência pela transcendência, e o poder que vinha de baixo pelo poder que se originava do alto. Para o pai da democracia moderna, o limite é ultrapassado mediante a inserção do indivíduo na universalidade do ser coletivo social, para o qual o indivíduo delega parte de seus direitos. O homem não fica mais isolado dentro de seus limites e se torna uma parte integrante do grande Todo. Essa intuição fundamental, essencialmentecorreta, buscou sua concretização num ambiente que não lhe convinha, ou seja, na esfera política. Pretendendo que sua cidade se tornasse semelhante à Cidade de Deus, os homens inventaram o estado totalitário. O deslocamento do limite entre o finito e o infinito criou a utopia. Todavia, a utopia gera quase sempre os O ADVENTO 220 assassinos. O lema ‘liberdade, igualdade e fraternidade’ conduziu-nos a Robespièrre e ao Terror. Tendo lustrado suas armas filosóficas em seu tratado de lógica, Hegel fez um último e formidável esforço no sentido de conciliar o finito e o infinito. Em seu livro “A fenomenologia do espírito” defende a tese de que a mediação da razão supera as contradições da consciência alienada (das Unglückliche Bewusstsein), porque a razão permite que a autoconsciência se dê conta de sua universalidade. O universal e o particular se reconciliam, porquanto “a razão é a certeza consciente de ser a realidade total”. O modelo hegeliano, malgrado algumas intuições engajadas, não pode funcionar por uma razão muito simples. A síntese mais elevada que consciência pode vivenciar apenas emerge quando é alçada para além do intelecto. Sem essa transcendência, a Razão (Vernunft) não pode se identificar com o espírito (Geist). Não havia mestres zen-budistas na Prússia dos Hohenzollern para dizer que o Satori era possível. A ambição de Hegel de abranger sua época pelo pensamento hegeliano não morreu com ele. Os hegelianos de direita e de esquerda tentaram fazer sua síntese num nível bastante inferior. Os hegelianos de direita exaltaram o Estado e prepararam o caminho para as teorias fascistas de Sorel e de Mussolini. Os hegelianos de esquerda se apropriaram da dialética do espírito para transformá-la na dialética da matéria. Marx, Engels e Lenin desenvolveram um modelo reducionista no qual o homem é manipulado pelo conflito entre as forças produtivas e os modos de produção. Esse modelo permitia a concretização do sonho comunitário de Rousseau. A dimensão do infinito ou do divino é negada ou ignorada. O marxismo baseou sua estrutura conceitual na rejeição da grande síntese. Em outras palavras, com Feuerbach e Marx, a filosofia continental européia ‘resolveu’ o dilema entre o finito e o infinito pela negação deste último. Desde então, não se levantou mais o problema de cruzar o limite. A DANÇA DE SATÃ 221 A outra grande corrente filosófica ocidental, a anglo- saxônia, não negou o infinito, mas simplesmente ignorou-o. Na pátria de Hobbes, Locke e Adam Smith, a grande preocupação era organizar o mundo em torno do indivíduo e controlar, de alguma maneira, o ambiente político-econômico do microcosmo. A dimensão cósmica era uma questão de relativa indiferença. Para David Hume, o único conhecimento aceitável era aquele que pudesse ser verificado. Como Kant já havia afirmado, o infinito não era verificável. A partir daí, a filosofia analítica e estruturalista do século XX concentrou-se sobre um mundo finito, feito de relações lógicas e lingüísticas. Isso explica a asfixia intelectual das universidades ocidentais, as quais levaram muitos estudantes para a rebelião marxista. Nem todo mundo podia efetuar jogos abstratos com uma linguagem binária ou com uma lógica ruim como Ayer e Wittgenstein. Vamos resumir o problema. Para existir, a criança tem de abandonar o éden intra-uterino e o estado de união cósmica que vivenciou no ventre de sua mãe. A necessidade de se separar para existir é a característica essencial do ser microcósmico. A separação traz como conseqüência, naturalmente, a limitação. Todavia, à medida que o homem evolui de uma encarnação para outra, ele acorda, paulatinamente, para a intuição de que existe uma parte de si mesmo que é ilimitada. Consciente ou inconscientemente, procura recuperar o estado original da união cósmica. Contudo, como é que ele poderia imergir numa dimensão infinita, se ainda se mantém individual e autônomo? Muitos pensadores tentaram alcançar essa universalidade por intermédio da razão, sem se dar conta de que o domínio mental engendra suas próprias formas e limitações. O século XVIII, apesar de ter glorificado a razão humana, viu Kant estabelecer, inexoravelmente, os limites da razão. Após várias gerações de pessoas pretensamente racionais terem perpetrado duas guerras, o Ocidente começou a perder sua fé nas virtudes da razão, e, adotando as prescrições de Freud, muitas pessoas tentaram O ADVENTO 222 recuperar a sensação da união cósmica por meio do sexo. No entanto, a união da carne não é a do espírito, e aqueles que buscam realizar o último mediante a primeira acabam incorrendo no equívoco das seitas partidárias do ‘tantrismo’. Assim, consciente ou inconscientemente, vamos caminhando. “Está faltando algo na natureza humana”, diz Shri Mataji. Falta-lhe o autoconhecimento. Todas as grandes escrituras de nossas civilizações nos convidaram a nos conhecer, utilizando-se de diferentes linguagens. Elas nos prometeram que a união com a verdadeira realidade era possível. A palavra religião vem do latim religare, que significa tornar a ligar (religar), unir, unificar. Longe de ser uma quimera irritante, essa ânsia pelo infinito que nos habita é o que nos aproxima do Real, o que nos faz avançar. A Mãe, Shri Mataji, afirma: “O desejo de conhecer o Além aparece na evolução da raça humana. Quando um pássaro está em sua gaiola, ele aspira ao espaço do céu. Semelhantemente, o homem ficou aprisionado na casca de seu ego e de seu superego para que esse desejo de conhecer o Além acelerasse o processo de evolução”. Nessa seqüência aparece a ordem lógica da vida: “Como a semente contém todas as partes da árvore, assim também, cada ser humano traz consigo todas as sementes de seu crescimento espiritual”. A oposição entre a matéria finita e o espírito infinito parecerá, em última análise, um falso problema, criado pela razão humana que analisa e separa, não obstante o homem se sentir rasgado pela coexistência estranha entre o finito e o infinito. Por outro lado, a ciência nos ensina que a matéria é nada mais que pura energia. A espiritualidade também nos diz que o espírito nada mais é que pura energia. Ora, a consciência humana é uma forma de energia que atua, simultaneamente, nos campos material e espiritual. A freqüência das vibrações, por assim dizer, é a única diferença entre a matéria e o espírito. O ser humano se defronta com a seguinte questão: ‘como A DANÇA DE SATÃ 223 sintonizar a freqüência das ondas do espírito infinito que habita em si mesmo?’ Nietzsche estava certo, pois o homem deve ser sobrepujado. Em vez de lutar contra a aparente oposição entre o espírito infinito e a matéria finita, o homem deveria dedicar-se à descoberta das condições para a mudança da consciência humana. Pensadores como Heidegger e Tomás de Aquino não foram inspirados por uma intuição metafísica do Ser? O que é que Cristo tentou dizer a Nicodemo? Qual foi a transformação que aconteceu com Buda? Qual foi a experiência que motivou Pascal a escrever sobre a “alegria, alegria, chorando pela alegria” em seu “Memorial”? As lições da História são claras nesse ponto. Quando posicionado em seu lado finito, o homo sapiens pode apenas formular perguntas. Entretanto, é incapaz de responder a elas, porque o domínio de sua atividade mental está limitado ao mundo finito. O infinito apenas pode ser conhecido por intermédio do infinito. Logicamente, o indivíduo cuja atenção foi conectada ao infinito é capaz de conhecer o infinito. Conseguimos assim isolar o paradoxo verdadeiro. Ele não reside mais entre o finito e o infinito, porém no fato de que a contradição existencial do homem deve ser sobrepujada, se bem que ele mesmo se mostre incapaz de se comprometer com essa transformação. Foi, exatamente, essa a conclusão a que chegaram