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O A D V E N T O 
 
 
 
POR 
 
LOTUS HEART 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Primeira edição em inglês 1979 
Primeira edição em francês 1985 
Segunda edição em francês 1989 
Primeira edição em espanhol 1994 
Primeira edição em português 1995 
 
 
 
Proibida a reprodução total ou parcial deste livro, por qualquer 
meio, sem autorização do editor. 
Copyright 1995 Instituto Sahaja Yoga do Brasil 
 
 
ÍNDICE 
 
Prefácio à edição em português..............................................5 
Prefácio do autor à edição em espanhol.................................7 
 
Livro I - DIAS DE OUTRORA............................................15 
 
Livro II - A DESCOBERTA ÚNICA DA SAHAJA YOGA 
 Capítulo I Entre nós..............................................29 
 Capítulo II Encontro com a Sahaja Yoga................41 
 
Livro III - REVELAÇÃO 
Capítulo III A Revelação do Cosmo no 
 Microcosmo Humano...........................91 
 Capítulo IV A Harpa Sagrada................................117 
 
Livro IV - ABRINDO A JANELA 
 Capítulo V Os Méritos da Virtude........................185 
 Capítulo VI Do Outro Lado do Limite...................231 
 Capítulo VII A Dança de Satã.................................275 
 
Livro V - O GRANDE JOGO 
 Capítulo VIII A Mãe e os Filhos..............................303 
 Capítulo IX O Movimento Elíptico........................317 
 
Livro VI - O MISTÉRIO SEM PORTAS 
 Capítulo X Compaixão.. .......................................345 
 Capítulo XI Nirmala...............................................353 
 
Alguns Conselhos para a Meditação..................................369 
Glossário. ......... .................. .................................................373 
Como encontrar a Sahaja Yoga no Brasil..........................379 
 
 
 
ÍNDICE DAS FIGURAS 
 
 
Nº Figuras Pág. 
1. O Presente 34 
2. O cérebro humano antes da Auto-realização 38 
3. O cérebro humano após a Auto-realização 39 
4. O microcosmo humano 65 
5. Terminações nervosas dos chacras nas mãos 70 
6. A estrutura cósmica do Virata 102 
7. O movimento da atenção 131 
8. O consciente e o inconsciente antes da Auto-
realização 
172 
9. O consciente após a Auto-realização 173 
10. A elipse 320 
Nº Quadros 
1 Chakras – localização e manifestação no plano 
físico 
66 
2 Chakras do Ser Cósmico (Virata) - divindades 103 
 
 
 
PREFÁCIO 
à edição em português 
 
Este livro é imperdível para os buscadores da Verdade. 
As grandes questões espirituais – quem somos, de onde 
viemos, e para onde vamos? O mal existe, sob que disfarce ele 
atua? Como viver em conexão com Deus? – recebem aqui 
análise inteligente e respostas absolutamente objetivas à luz dos 
ensinamentos de Sua Santidade Shri Mataji Nirmala Devi, a 
fundadora da Sahaja Yoga. 
O autor não duvida de ter encontrado uma encarnação 
divina em plena atuação na Terra, fazendo palestras e 
oferecendo concretamente a possibilidade de Realização do Self 
(o Si, o Ser, o espírito) a todos aqueles que o desejarem. 
Eu o compreendo. Tive a ventura de conhecer Shri 
Mataji Nirmala Devi numa audiência com o presidente do 
Senado, em Brasília, em outubro de 1992. Senti, de imediato, 
intensa vibração ao longo de minha coluna e comentei com a 
jornalista que me acompanhava: “Essa mulher é muito 
poderosa!” 
Com o mesmo jeito de mãe que eu havia percebido na 
fotografia dos cartazes que convidavam para sua palestra, Shri 
Mataji me disse: “Não é por coincidência que você está aqui”. 
Aparentemente, era, pois eu entrevistava Shri Mataji porque o 
colega que cobria a Presidência do Senado não pudera trabalhar 
naquele dia. 
Dois meses depois, no ashram da Sahaja Yoga em 
Bombaim, onde se hospedavam centenas de iogues do mundo 
todo, o autor deste livro, vindo de madrugada da Europa, 
colocou seu sleeping bag exatamente ao lado do meu. Poucos 
dias depois, viajávamos no mesmo carro para Ganapatipule, um 
 
 
vilarejo no Mar da Arábia onde prosseguiria o seminário da 
Sahaja Yoga. Aproveitei as dez horas que o carro levou no 
percurso de pouco mais de 300 quilômetros de estradas sinuosas 
nas montanhas para fazer toda sorte de perguntas – às vezes 
inadequadas – sobre ioga e assuntos afins. Com grande 
paciência, Lotus Heart a tudo respondeu, só deixando de ser 
explícito sobre questões que poderiam me constranger. Por 
acaso(?), O Advento, que já estava escrito há vários anos, 
oferece respostas a todas aquelas dúvidas. Por coincidência(?), 
O Advento é lançado no Brasil neste mês de agosto, exatamente 
20 anos depois do encontro do autor com Shri Mataji Nirmala 
Devi em Londres, um ano após a edição em espanhol e no 
momento da quarta visita de Sua Santidade ao Brasil. 
Shri Mataji tem dedicado especial atenção a nosso país. 
Disse que Brasília “poderá ser” a capital espiritual do mundo no 
terceiro milênio. Suas palestras no Brasil atraem milhares de 
pessoas. Manteve contatos com autoridades de mais alto nível, 
como os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados e 
Ministros de Estado. Foi homenageada pela Administração 
Regional de Brasília, em 1992, quando o Administrador foi ao 
aeroporto para entregar-lhe as chaves da cidade, fazendo coro 
ao tributo prestado à Sua Santidade em todo o mundo. 
Muitas pessoas (entre as quais peço permissão para me 
incluir) em uma centena de nações já foram enormemente 
beneficiadas com a prática da Sahaja Yoga, tornando-se muito 
mais sadias, equilibradas, amorosas, pacíficas e felizes. 
Este livro é imperdível para os buscadores da Verdade 
porque abre portas e janelas para a maior das revoluções: a da 
consciência, aquela que o indivíduo promove dentro de si 
mesmo e que (só ela) poderá construir um mundo melhor. 
Brasília, agosto de 1995. 
Edson de Almeida, jornalista. 
 
PREFÁCIO 
do autor à edição em espanhol 
Comecei a escrever O Advento no inverno de 1976, em 
Katmandu, Nepal. Empreender essa tarefa foi um grande tributo 
à minha ingenuidade. Tinha 26 anos e me movia um sentimento 
de urgência. Em sua tranqüila residência de Hurst Green, perto 
de Londres, Shri Mataji me havia permitido, uns meses antes, ler 
alguns capítulos verdadeiramente extraordinários do livro que 
ela estava escrevendo, o qual, certamente, até hoje não foi ainda 
publicado. Ingenuamente, eu havia pretendido escrever uma 
introdução para esse livro magistral. Ficou claro para mim, 
desde meu primeiro encontro com Shri Mataji, que ela tinha 
aquilo de que necessitávamos, vale dizer, o poder de conceder, 
coletivamente, a Realização do Si (Self, Ser ou espírito). Ela era, 
na verdade, o avatar desse nosso tempo. Em verdade, 
precisávamos, desesperadamente, dela. 
Hoje, já se passaram quase 20 anos e ainda me sinto da 
mesma maneira. Shri Mataji diz que a resposta à Sua mensagem 
a motivou extremamente. Ela se sente gratificada, porque, em 
suas próprias palavras, “existem tantos genuínos buscadores da 
verdade nascidos nesses tempos modernos”, que estão 
dispostos e são capazes de receber a experiência da Auto-
realização, e com os quais pode comunicar-se, acerca dos 
pontos mais sutis do conhecimento espiritual. 
Em verdade, fui testemunha de muitas cenas incríveis de 
primeiros encontros, de um novo tipo. No estádio de esportes de 
São Petersburgo, em julho de 1990, mais de 20 mil pessoas 
elevaram suas mãos até o céu confirmando ter sentido a brisa 
fresca do Espírito Santo ao final do programa público de Shri 
Mataji. Multidões enormes em Moscou, Kiev, Nova Delhi e 
Bombaim experimentaram a mesma coisa. Aqueles que estão 
doentes são curados, os aflitos são reconfortados, os confusos 
 
 
recebem conselhos e os que estão perdidos são redimidos. No 
Royal Albert Hall de Londres, milhares de pessoas elevaram 
suas mãos quando lhes foi perguntado se estavam sentindo a 
brisa fresca do Espírito Santo. O mesmo ocorreu em Sydney, 
Tóquio,Nova York, Brasília e Los Angeles. As pessoas que 
vêm a seus programas podem realmente sentir a energia, o 
florescer de sua transformação interior. 
A irmandade coletiva jamais chegou a ser uma realidade, 
ainda que fosse um dos fundamentos da Carta das ‘Nações des-
Unidas’. Apesar disso, é evocada nos discursos e sermões dos 
sacerdotes e políticos. Agora queremos SENTI-LA. Cheia de 
paz, dinâmica, majestosa e compassiva, e sempre cheia de 
humor, viajando pelo mundo todo, Shri Mataji criou um novo 
mapa geográfico, constituído por uma rede global de almas 
realizadas. Além do ódio, do racismo e da exploração 
econômica, no planeta Terra dos foguetes espaciais, a realidade 
de nossa solidariedade começou a reafirmar-se. 
De forma clara, estamos presenciando um poderoso 
movimento de transformação espiritual. Aqui e ali importantes 
personalidades, o diretor de uma prestigiada academia científica, 
um líder religioso mundial, um músico mundialmente famoso ou 
um chefe de um Estado Maior começaram a unir-se à Sahaja 
Yoga, a Yoga da união espontânea com o Si, transportados por 
um movimento reconhecido mundialmente. 
Mas ainda me sinto como me senti ao conhecê-la no 
primeiro dia: entusiasmado de compartilhar a boa nova, o 
Advento da era espiritual, a notícia de que podemos progredir 
até alcançar uma consciência mais elevada. Há uma multidão de 
buscadores nos cinco continentes que estão exatamente 
procurando isso. Desesperadamente. O Advento não expressa os 
desvarios de um doce idealista utópico, mas é fruto de uma 
experiência interior, que é compartilhada, hoje, por centenas de 
milhares de pessoas. Éramos muito poucos, na época em que 
esse livro foi escrito. 
 
 
Em resposta a muitos pedidos, publicou-se a versão em 
espanhol, com base numa posterior edição francesa. O texto foi 
revisto a fim de torná-lo mais acessível ao público em geral. 
Verdadeiramente, a primeira, limitada edição inglesa, publicada 
em Nova Delhi em 1979, havia sido escrita, principalmente, para 
aqueles que já haviam recebido a experiência da Realização do 
Si. 
No entanto, hoje haveria motivação e material para um 
novo livro totalmente diferente. Porém, não o estou escrevendo. 
Ainda não. Não sou senão um menino no grande jardim, um 
estudante do livro da vida, mas ainda me faltam inúmeras 
páginas para ler, agora que conheço o código para decifrar o 
texto. 
Tem valia, em minha opinião, prover o leitor da língua 
espanhola da percepção do início, quando a Sahaja Yoga 
começou a expandir-se fora da Índia; a análise que se fez das 
desgraças das sociedades ocidentais ainda é válida. Os sintomas 
atuais de uma bancarrota ética, o surgimento de terras 
ecologicamente doentes, o incremento do fanatismo religioso ou 
a intolerância do ‘fundamentalismo’, todas essas características 
de nosso mundo moderno, que são discutidas no livro, 
certamente cresceram de uma forma ainda mais desagradável. 
Sem uma autêntica revolução espiritual, as coisas não 
podem ser de outra maneira. 
Shri Mataji sempre começa seus discursos públicos com 
essas palavras: “Inclino-me diante de todos os buscadores da 
verdade”. Que todos os Sahaja Yogis que estão atrás dela 
possam transmitir ao leitor esse sentimento de compreensão e 
respeito. Sinto-me extremamente agradecido aos meus irmãos 
de Madri e Bogotá, os quais, por meio de um grande entusiasmo 
e uma tarefa árdua, tornaram possível produzir esta versão 
espanhola do livro. 
 
Genebra, Suíça, 25 de agosto de 1994 
 
 
 
 
DEDICADO 
ÀQUELA 
QUE 
conhece 
as 
COISAS 
 
LIVRO I 
 
DIAS DE OUTRORA 
 
 
 
 
Deus é artificioso. Ele brinca de esconder coisas e as 
procura conosco. Brinca com muitos outros jogos, mas à 
proporção que o tempo passa, não apreendemos o jogo nem 
suas regras. Ao longo do tempo, agimos infantilmente. Não 
conseguimos compreender Deus. Muitas vezes, O ignoramos 
totalmente, ou quando Dele nos lembramos, O culpamos por 
nossas bombas, nossas desgraças, nossos papas e nossos 
aiatolás. Muitos vertem lágrimas, no afã de se encontrar com 
Deus. Entretanto, nosso erro mais freqüente é censurar Deus 
por causa de nossas travessuras. Isso porque, nosso truque 
favorito é parodiar o jogo divino. Para retornarmos a Ele, 
pensamos, erroneamente, que temos de nos vestir de preto como 
os padres católicos (ou de amarelo como os monges budistas), 
ou deixar que nossos cabelos cresçam como fazem os Sikhs, ou 
raspar a cabeça como os lamas tibetanos. Pensamos, 
equivocadamente, que precisamos ir à Índia (e contrair hepatite), 
ou ser batizados por imersão total num poço para que possamos 
nascer novamente. Nosso conhecimento de Deus vem de 
especialistas que costumam escrever teorias sobre Ele. Num 
determinado momento, Ele está aqui e no próximo já se foi. 
Alguns acreditam em Karl Marx, se bem que são raros hoje em 
dia. Outros não acreditam em coisa alguma. Quanto a mim, não 
tinha muitas certezas. Houve momentos em que tinha algumas 
alegrias e premonições. 
Um buscador da verdade pode, episodicamente, tomar a 
liberdade de ser fútil, a fim de melhor ziguezaguear por um 
mundo em que impera a falsidade. Gurdieff, que era uma pessoa 
DIAS DE OUTRORA 
 
13 
muito inteligente, nos deu numerosos exemplos dessa arte. 
Quando ele estava em Samarcanda, com pouco dinheiro, pintou 
alguns pardais com anilina e os vendeu como ‘canários 
americanos’, por dois rublos cada. Ainda que não tenha 
identificado em mim esse nível de engenhosidade, compreendi 
que deveria desenvolver um sistema de truques e de 
subterfúgios, a fim de sobreviver, e se possível, prosperar com 
sucesso. No entanto, finalmente, descobri que minhas 
pantomimas eram cansativas e deixei a máscara cair. 
Quando mergulho em minha memória, descubro uma 
fome muito primordial que me consumia. É a coisa mais sólida 
que em mim existe. Sempre soube que expressamos apenas uma 
ínfima fração de nós mesmos. Pretendia viver num nível de 
intensidade de cem por cento. Tomei essa decisão quando tinha 
catorze anos, entretanto, não sabia bem o que fazer para que 
isso acontecesse. Os subseqüentes ensaios e erros marcaram 
minha entrada na vida adulta. Essa é uma longa história. 
Tive sorte, pois minha família não era pobre. Na 
Universidade de Genebra, vivia sem nenhum constrangimento e 
me esforçava para conjugar o verbo divertir no presente do 
indicativo. Meu coração - será que era ele mesmo? - 
apaixonava-se rápida e constantemente. Caí de amores pela 
Vênus de Botticelli, pela Helena de Boucher e, em seguida, 
pelas mulheres de carne e osso, que eu encontrava nos cenários 
de minhas escapadas pelas ilhas gregas, pelo sul da França e por 
outros lugares propícios. 
Formei-me em direito, mas isso não é relevante. O 
essencial para mim era vivenciar, com grande intensidade, os 
sabores, os prazeres e as alegrias da vida, quando as 
oportunidades para isso se apresentavam. Dancei quadrilhas sob 
as abóbadas douradas dos palácios. Esquiei sob o céu violeta das 
altas montanhas. Esbarrei, de passagem, em belos perfis pelas 
ruas, porém todos eles se me escaparam. 
O ADVENTO 
 
14 
Tentei também fazer de minha vida um poema. Não 
obstante, usei para isso uma sintaxe inadequada, pois o mundo 
de prazeres e de formas é também o mundo das frustrações. A 
beleza passa, o prazer freme e desaparece. Queria degustar 
todos os frutos e pretendia conservar seu sabor em minha boca. 
Sem dúvida alguma, fracassei. 
Na beleza de uma mulher, de uma idéia ou de uma 
estátua, via a mesma beleza universal, sempre longe de meu 
alcance. Procurava o modelo, mas me perdia nos esboços. O 
cúmulo da ironia era que me sentia como um esboço feito por 
um lápis muito apressado (e esse era meu suplício), cujo 
desenho final podia-se adivinhar qual seria. 
Paralelamente, aquilo que nos propõe a ‘espiritualidade 
oficial’ do Ocidente, provavelmente, não transmite mais coisa 
algumaa ninguém. As reminiscências do colégio me 
perseguiram durante certo tempo: um bispo que entoava cantos 
gregorianos sob seu solidéu ridículo (enquanto a confraria 
clerical gorjeava os responsos) e, sobretudo, um ‘diretor 
espiritual’, tão bem descrito por Montherlant. As gárgulas de 
pedra que sustentam os arcos da basílica próxima exultavam de 
prazer diante disso tudo. 
Desprezava aqueles que pensavam ter encontrado a 
verdade no carrossel dos ídolos de ouro: Deus, a Nação, a 
Tecnologia, a Revolução ou a Juventude. Todavia, não fazia 
parte da malta dos cínicos frívolos, acerca dos quais Nietzsche, 
irmão na visão perspicaz e na amargura, havia escrito (em seu 
livro “Assim falava Zaratustra”) que: “A crença fundamental da 
massa é pensar que ela vive para nada. Essa é sua 
vulgaridade”. Por que razão se deveria viver? Não descobria a 
resposta a essa questão, a não ser que, talvez, ela fosse a própria 
busca da resposta. Assim, tinha de encontrar as respostas para 
várias perguntas, que eram, simultaneamente, imensas e simples, 
as quais não conseguia tirar de minha cabeça. ‘Como ser feliz? O 
que fazer para que os outros fossem felizes? O que é a verdade?’ 
DIAS DE OUTRORA 
 
15 
Contudo, não possuía, como Pilatos, uma bacia para lavar 
minhas mãos. 
De vez em quando, tentava sistematizar minhas 
especulações: ‘Deus existe, ou não existe. Se Deus não existe 
podemos pôr fogo no circo, mas se Ele existe, a busca espiritual 
vale a pena’. Nessa época, eu era muito jovem! Tanto melhor, 
pois desejava que isso durasse muito tempo. As paredes de meu 
quarto não tinham nada a me propor, assim sendo, fui para 
longe. Uma amiga holandesa, que apreciava tulipas e haxixe, me 
iniciou neste último. Todos esses caminhos do escapismo, às 
vezes muito procurados, nos quais nos metemos, não nos 
ajudam muito. Não me atraía mais, realmente, o jogo que 
chamamos de ‘amor’, ou os gestos que denominamos de 
‘carícias’, com os quais tentamos exorcizar o fato inelutável de 
que o outro permanece sendo o outro. 
Seria eu mais lúcido que os outros? Se isso fosse 
verdadeiro, isso não me ajudava a rir. Podia sentir a pressão de 
uma sociedade sem alegria, aborrecida e cruel. Via, nitidamente, 
as pessoas ao meu redor tentando nadar num mar de fantasias, 
afundando-se naquilo que Pascal chama de ‘divertimento’, 
correndo atrás de credos políticos, do sucesso ou do amor, sem 
compreender os mecanismos que as faziam correr. Quando me 
observava com maior sagacidade, via a mim mesmo também 
correndo. Não podia me valer nem sequer da desculpa de não 
estar percebendo. 
Aprendi a rir de mim mesmo, a fim de conquistar o 
direito de rir dos outros. Celebrei assim os ritos sociais 
necessários para tranqüilizar os membros da tribo. Fiz coisas que 
as pessoas conservadoras consideram bastante respeitáveis, 
como receber uma educação clássica na Europa e nos Estados 
Unidos, e me tornei um funcionário internacional. Surpreendi as 
pessoas que não eram consideradas respeitáveis, ingerindo suas 
drogas, morando em suas comunidades hippies e visitando seitas 
apocalípticas. De uma forma geral, compreendi um pouco 
O ADVENTO 
 
16 
melhor quais eram as coisas que deviam ser feitas ou evitadas. 
Acredito que isso me fez ganhar tempo. Como um pequeno 
Fausto de palha, fiz meu pacto com Mefistófeles. Considerava-
me tão inocente quanto o diabo era astucioso e não tinha, por 
isso, muito medo. Deixei-me chamuscar, valentemente, por 
todos os fogos advindos de várias vivências. Após descobrir que 
a filosofia hindu havia progredido muito nas questões 
concernentes à origem do universo, à relação entre matéria e 
espírito e à busca do Si, orientei minhas buscas nessa direção. 
Dessa forma, observei de perto alguns ‘mestres’ importados do 
Oriente, a fim de descobrir uma fauna inquietante de charlatões 
corruptos e de profetas de feira, que despojavam seus discípulos 
de suas posses e de sua saúde espiritual e psíquica. Muitos 
discípulos inocentes foram ludibriados. Havia porém outros que 
receberam os ‘messias’ que mereciam, porque pensavam com 
arrogância que podiam se apropriar de Deus, ao investirem 
algum dinheiro em cursos de meditação e ao crerem no mito de 
que formariam uma nova raça eleita. Na verdade, dizia a mim 
mesmo, que a humildade é a única salvaguarda daqueles que 
tentam se aproximar de Deus. Tinha descoberto, sem o saber, 
uma das regras do jogo, ainda que, quase sempre, fracassava em 
colocá-la em prática. 
Em Bolonha, onde estudei durante um ano, perambulava 
com deleite pelas ruelas e praças que se transformaram em 
cenários de Shakespeare, porque a primeira crise do petróleo as 
esvaziava do tráfego dos automóveis, todos os domingos. A 
Itália, esse velho país, fervilhava de estetas e intelectuais que me 
ensinaram que a estética e o intelecto, por si sós, não levam à 
parte alguma. Na pobre Europa, o sabor da decadência excitava 
o paladar. Porém, onde iria florescer a próxima primavera? 
Um quebra-cabeça começou a tomar forma de um 
código de sinais em minha mente, como resultado de meus 
estudos e de minhas diferentes experiências. Tentei diversas 
vezes decifrar o código. Segui os passos dos buscadores do 
DIAS DE OUTRORA 
 
17 
passado: Arjuna, Akhenaton, Kant, Lenin. Marcuse diz que não 
existe síntese e propõe a grande recusa. Ele parecia ignorar que 
Patanjali e os mestres zen-budistas diziam que a síntese pode 
ser experimentada mediante a transformação da consciência do 
indivíduo. Mais uma vez, meu pequeno cérebro ficou febril, 
visto que comecei a distinguir o contorno do quebra-cabeça. 
Em 1974, quando morava na cidade de Washington, 
comecei a me dar conta de que somente um acontecimento 
histórico, sem precedente, poderia impedir a derrocada de 
nossos ecossistemas até a total destruição. Apenas um evento, 
realmente muito significativo, seria capaz de romper a 
engrenagem confusa e estressante que nos estava arrastando 
para um desequilíbrio crescente. Cheguei à conclusão, como 
tantos outros, que esse evento deveria se manifestar, não no 
campo das ações humanas, mas no âmbito da consciência, 
(entendida aqui como o termo inglês awareness, que é a 
consciência da percepção, e não apenas a ‘consciência’, isto é, a 
consciência mental). Ademais, os sinais dos tempos 
(compreendidas aí as posições zodiacais) apontavam para a 
iminência de um tal desdobramento. Não sabia onde, nem 
quando, nem como se produziria essa tomada de consciência. 
Será que ela já estaria ocorrendo? 
A questão pode ser colocada nos seguintes termos: como 
desenvolver uma nova faculdade de percepção (além do 
intelecto racional), que represente uma evolução na 
fenomenologia da consciência e não uma regressão? Retornar 
aos instintos não resolverá os problemas de nossa civilização, 
uma vez que os instintos e a civilização expressam apenas a 
grande contradição humana. Esta não pode ser resolvida pela 
oscilação constante desses dois pólos opostos. Ademais, o 
estado psíquico padrão de um ocidental representa uma 
conquista da lógica e da razão que não pode ser desprezada. 
Com relação a essa conquista, as tentativas instintivas de irmos 
além de nossas capacidades cognitivas podem ser consideradas 
O ADVENTO 
 
18 
como uma regressão. Hoje em dia, essas tentativas existem em 
quantidade: a droga, o sexo como uma concepção do mundo, 
Weltanschauung, isto é, como uma força libertadora, a adesão 
quase animista às seitas religiosas, espiritistas, parapsicológicas, 
etc. O circo atual de novas igrejas, de falsos gurus, de religiões 
calcadas em ficção científica, de aprendizes e de mestres 
feiticeiros, mostra claramente que a necessidade de uma nova 
percepção no campo da consciência está presente no ar. 
Efetivamente, da mesma forma que o século XIX foi marcado 
por uma mudança no plano material (a revolução industrial), por 
que é que a segunda metade do século XX nãopoderia fazer 
emergir uma nova percepção espiritual (uma revolução 
epistemológica)? Essa maneira um pouco hegeliana de ler um 
sentido da História pareceria menos artificial, caso quiséssemos 
nos dedicar a uma análise profunda religiosa, literária, artística e 
comportamental das sociedades mais avançadas. 
No momento em que escrevo essas linhas, centenas de 
autores e de cineastas de todos os tipos estão tentando dar os 
retoques finais no quadro dessa hipótese. Esse é um quadro 
esplendidamente vazio. Efetivamente, é o que eu dizia a mim 
mesmo há dez anos, a menos que a pessoa viva interiormente 
essa experiência imediata de transformação cognitiva ou todas 
essas considerações poderão ser tidas como cortinas de fumaça. 
Eu estava amargamente consciente disso. 
Sinceramente, é preciso reconhecer, meu barco começou 
a fazer água. Vivia rodeado de amigos que tinham seus espaços 
mentais ligados permanentemente em ‘sexo’. Perdi-me em meus 
jogos, por causa do objeto desejado - as garotas - ou sobretudo 
a alegria de estar junto de alguém escapava de mim totalmente. 
Pensávamos que o ‘amor livre’ oferecia a máxima oportunidade 
de prazer, felicidade e plenitude. Isso se transformou no credo 
de nosso estilo de vida. Todavia, quantos dentre nós foram 
capazes de aproveitar, autenticamente, de suas vidas afetivas? 
Por que motivo há tanta insegurança? Como era possível 
DIAS DE OUTRORA 
 
19 
entregar-se verdadeiramente a alguém que pode desaparecer 
amanhã com um(a) parceiro(a) que tenha um físico mais bonito 
ou que tenha um automóvel maior e melhor? Mesmo quando 
estava com minha namorada, minha atenção se concentrava em 
outras garotas. Essa instabilidade da atenção impedia que me 
deleitasse com aquilo que eu tinha. Queria me afastar desse 
comportamento oscilante e demente, a fim de poder conhecer a 
espontaneidade da amizade e do amor, sem aqueles pensamentos 
de sexualidade que assaltam nosso cérebro e absorvem 
totalmente nossa atenção. Não obstante, não sabia como fazer 
isso. 
Eu estava abarrotado dos produtos feitos pelas ‘fábricas’ 
universitárias, ou seja, de idéias. O papel de meus professores, 
em nome do pensamento analítico, foi o de dividir fios de cabelo 
em partes infinitesimais, às custas dos contribuintes. Não existia 
mais nada de universal no conhecimento ministrado pelas 
universidades. Tratava-se de um caos, mais ou menos 
organizado em compartimentos. Cada departamento acadêmico 
se limitava a cuidar de seu pequeno jardim, sem qualquer 
conexão com o todo. Não obstante, tirei partido dessa maneira 
como o mundo funcionava, porque consegui obter, facilmente, o 
título de Mestre em Ciência Política. Viajei, em seguida, num 
“Packard” 1954, para Nova Orléans e Los Angeles, nos Estados 
Unidos. Adorava viajar. A vida era novamente um divertimento. 
Ia ver o nascer do Sol nos picos do Monument Valley ou nadar 
nas águas frescas do Oceano Pacífico. 
Curiosamente, quando volto o filme dos eventos, durante 
essa viagem, as coisas, ao meu redor, me puxam para trás e para 
frente, como se estivessem me conduzindo a um encontro 
definitivo. Por exemplo, quando eu estava perambulando pelo 
deserto do Arizona, o planeta Vênus aparecia sempre, 
inexplicavelmente, no orifício de minha tenda, todas as vezes 
que a erguia. Quando cheguei ao Grand Canyon chovia 
torrencialmente. Desejei ter e obtive um esplêndido arco-íris, em 
O ADVENTO 
 
20 
cinco minutos! Assegurar a concretização de qualquer desejo 
meu, da maneira mais benevolente possível, parecia ser um 
prazer para algum deus invisível. Uma sucessão de coincidências 
e de símbolos, interligados por um grande senso de humor, me 
levou, finalmente, até Berkeley, à casa de um estudante de 
economia chamado Rajesh. Ele era um rapaz brilhante e muito 
sensível. Nossas longas conversas noturnas se prolongavam pela 
noite no observatório de onde se avista a Baía de São Francisco. 
Uma semana depois, com grande cautela e com uma timidez que 
tornava o evento quase solene, ele me mostrou a fotografia de 
uma senhora indiana dotada de um sorriso misterioso, sentada 
numa pose hierática de proteção. 
- “Ela mora na Inglaterra, perto de Londres - disse-me 
Rajesh - e sei que ela o espera. Ela se encarnou várias vezes no 
passado e as estátuas que a representam cobrem a face da 
Terra. Ela veio novamente, conforme foi previsto, e está aqui 
para nos emancipar. Você deve ir vê-la”. 
- “Mas Rajesh, como é possível que me diga coisas tão 
incríveis?” 
- “Você poderá sentir tudo isso por você mesmo. Poderá 
senti-lo verdadeiramente. Poderá sentir uma energia fantástica 
que emana do corpo dela sob a forma de vibrações frescas e 
você entrará num novo estado de consciência! Deve ir lá e 
verificar isso pessoalmente. Poucos, dentre nós, conseguiram 
isso. Não é nada parecido com as experiências pseudo-
espirituais que você vivenciou até agora”. 
Era difícil acreditar na manifestação de algo que eu havia 
buscado durante tanto tempo e crer numa novidade tão imensa. 
Era mais inacreditável ainda, que um Ser capaz de ajudar os 
outros a se libertarem, verdadeiramente, pudesse viver incógnita 
nesse mundo, comendo e dormindo como qualquer pessoa, 
trabalhando no sentido de produzir uma nova revolução 
espiritual. Por outro lado, Rajesh não era sonhador nem fanático 
nem imbecil. Os sinais dos tempos anunciavam transformações 
DIAS DE OUTRORA 
 
21 
iminentes; os falsos profetas do Apocalipse nos rodeavam, fiéis 
ao encontro, num cortejo de drogas e de seitas inquietantes, tais 
como os psiquismos desregrados, as aberrações sexuais 
ameaçando a coesão da célula familiar; nos países 
desenvolvidos, a tecnologia e o aparato produtivo estavam sem 
controle; nos países em desenvolvimento, a miséria mais gritante 
estava, mais do que nunca, fora de controle. O meio ambiente se 
deteriorava. A sobrevivência física da humanidade se 
transformava na temática de modelos matemáticos que 
desembocavam em previsões alarmantemente pessimistas. Se 
nunca um cenário igual a esse havia sido montado a fim de 
propiciar uma transformação monumental de rumos, muitos, 
dentre nós, pensavam vê-lo à nossa volta. 
Só havia um meio de averiguar isso. Fui para Chicago, e 
dois dias depois, imbuído de um senso de otimismo, embarquei 
num avião para Londres. 
Assim, essa é a pequena história de meus primeiros vinte 
e cinco anos. Devo admitir que tive muita sorte! Não fui 
oferecido aos leões nem pendurado numa cruz. Não me 
obrigaram a beber cicuta, contudo as drogas não foram capazes 
de me destruir. Não fui compelido a ir para um gulag siberiano. 
Finalmente, me senti reconfortado em descobrir quão pouco 
original havia sido minha busca. Segui a mesma trilha de 
questões debatidas por monges, loucos, poetas, reis, filósofos e 
santos. Elas são, em verdade, questões antigas que ainda hoje 
sobrevivem às suas respostas. Qual seria a resposta que obteria 
dessa figura enigmática em cuja direção os motores do avião 
ronronavam? Sabia apenas seu nome: Shri Mataji Nirmala 
Devi. 
 
LIVRO II 
 
A DESCOBERTA ÚNICA DA SAHAJA 
YOGA 
 
 
 
 
 
“A nova revolução em sua consciência deve manifestar-
se, sem o que todas as realizações humanas não terão nenhum 
sentido. Seria como montar todo o aparato elétrico para 
iluminar um casamento, sem que a corrente elétrica pudesse 
passar. Todavia, quando vier a luz, poderão ver o noivo e a 
noiva.” 
 
Shri Mataji Nirmala Devi 
 
ENTRE NÓS 
 
 
CAPÍTULO I 
 
 
 
É sempre de bom gosto usar uma terminologia 
moderada, e o autor do presente livro mostra uma coragem 
inusitada, ao empregar uma linguagem recheada de termos bem 
sonoros, tais como o cosmo, a evolução universal, o destino, a 
Realização do Si (Self), Deus e o diabo, os quais podem causar 
algum embaraço ao leitor. Como é que o autor ousa fazer isso? 
Ademais, o que essas páginas irão revelar sobre a Sahaja Yoga -sobre Shri Mataji e sobre a consciência coletiva - poderá 
parecer algo tão paradisíaco, que o leitor tenderá a considerar o 
autor como um tipo particularmente impertinente, pertencente a 
uma categoria de autores que se tornam impopulares com justa 
razão como os que publicam livros sem saber, realmente, coisa 
alguma acerca do que escrevem. Portanto, se o leitor aceitar a 
hipótese de que o autor conhece aquilo de que está falando, 
surge a seguinte questão: ‘quem está autorizado a falar sobre o 
reino de Deus e saber, efetivamente, do que está falando?’ 
Não evitarei palavras tais como ‘Deus’ e ‘destino’, 
porque esses símbolos poderosos de nossa linguagem cobrem 
precisamente a matéria dessa obra. Se tiverem dúvidas sobre a 
extensão real do meu conhecimento, permitam que eu mencione, 
nesse momento, uma parte do Kena Upanishad: 
“Não posso dizer que conheço perfeitamente o Absoluto, nem 
tampouco posso dizer que não O conheço. Aquele dentre 
nós que O compreende melhor é aquele que compreende o 
ENTRE NÓS 
 
25 
sentido das palavras: não estou seguro de que não O 
conheço.” 
 
Certamente, as palavras têm sido usadas, marteladas e 
distorcidas nas oficinas dos artífices da linguagem, e não sei o 
que fazer para que elas voltem a seu estado de pureza prístina, 
ou fazer com que tenham ‘um som mais puro’ (uma ambição 
insatisfeita de Mallarmé). Aqui me dirijo às pessoas que se 
sentiram fascinadas pelo Azul Paradisíaco, as quais se engajaram 
na mais antiga das buscas, e que, exauridas, decidiram que sua 
busca era um contra-senso e que o Santo Graal não existia. A 
alquimia da consciência e a transformação interior seriam apenas 
quimeras. Algo que fascina nosso inconsciente e que exacerba e 
pune, simultaneamente, nossa irrefreável nostalgia do Divino. 
Assim, sem nenhuma autoridade para fazê-lo, pego 
minha caneta. No entanto, vi aquele Oceano para o qual todos 
os rios convergem. Banhei-me nele, nele me dissolvi, nele me 
perdi e me reencontrei, e com toda a comprovação de meus 
sentidos e com todas as fibras de meu ser. Compreendi que essa 
experiência da ‘grande transformação’ está disponível para toda 
uma geração de buscadores, aqui e agora. Ainda que os falsos 
profetas de hoje coaxem em todas as encruzilhadas, prometendo 
o paraíso a um preço módico, devo dizer em respeito à verdade 
(gritarei se não me ouvirem) que todos podem, concretamente, 
entrar na Cidade da Alegria de Deus. Esse livro introdutório 
sobre a Sahaja Yoga de Shri Mataji Nirmala Devi mostrará o 
caminho e a porta para o reino de Deus. 
Antes de tudo porém, não nos esqueçamos de que o 
Oceano contém a gota d’água, e não o contrário, mesmo que 
essa gota tenha a forma de um cérebro humano abarrotado de 
conceitos e de um aparato analítico completo. Esse Oceano é 
constituído por um amor incomensurável, que vibra em cada 
galáxia e em cada partícula do átomo. Por isso, os conceitos e 
suas vestimentas de palavras devem ser deixados na praia. 
O ADVENTO 
 
26 
Entretanto, se lhes apresentasse um livro com todas as 
páginas em branco, não poderia lhes transmitir todas as 
informações que deveriam ter. Dessa maneira, imprimirei 
palavras em todas as páginas e comentarei o método. 
Refiro-me ao método de conhecimento, do qual Sócrates 
destilava os princípios filosóficos, quando perambulava de baixo 
para cima, na ágora de Atenas, e que lhe valeu uma recompensa 
típica do reconhecimento dos homens: uma taça de cicuta. 
Preliminarmente, qualquer que seja a Verdade, ela é, pela 
sua própria natureza, in se e per se (isto é, em si mesma e por si 
mesma), portanto independente de minha capacidade intelectual 
de apreendê-la. Se uma árvore e um rio existem, em algum 
lugar, essa árvore e esse rio existem, quer estejamos ou não 
conscientes da existência deles. Essa paisagem aprazível irá logo 
ressoar as discussões dos filósofos. De fato, pretende-se fazer 
com que isso aconteça, vale dizer, essa árvore e esse rio apesar 
de existirem, não os vejo; logo, não os conheço. Se não os 
conheço, apesar de existirem em si mesmos, não existem para 
mim, vale dizer, no que me tange, eles não existem. O erro que 
deve ser aqui evitado consiste em concluir que aquilo que não 
existe para mim não existe de maneira alguma. Todavia, ao 
criarem essas armadilhas verbais, os filósofos geram a 
possibilidade de debates muito agradáveis entre seus nobres 
colegas... 
Uma pessoa inteligente e dotada de um ótimo senso de 
discernimento diria que “não vejo o rio nem a árvore. 
Entretanto, isso não significa que não existam. Isso apenas 
quer dizer que não sei se existem ou não”. Suspendendo assim 
seu julgamento, a pessoa chega ao estado alcançado por 
Emmanuel Kant na “Crítica da razão pura”, ou seja, à mesma 
posição defendida por Sócrates, Buda e Lao Tse, posição que 
estabelece o fundamento para o método científico. 
“Saiba aquilo que conhece e aquilo que não conhece. 
Saiba que conhece aquilo que você, de fato, conhece. Saiba 
ENTRE NÓS 
 
27 
também que não conhece aquilo que não conhece”. Suponho 
que poderão aceitar, gentilmente, essa dose de bom senso, pois 
isso me permitirá apresentar-lhes uma proposição. 
Em verdade, quero lhes falar sobre um rio magnífico e de 
uma árvore com seus frutos inauditos. Quero lhes falar do rio de 
água da vida, que São João diz fluir no seio da nova Jerusalém, 
e da árvore da vida, cujos frutos curarão nações inteiras. 
Provavelmente, vocês não se aventuraram a explorar sua própria 
paisagem interior, na qual poderiam encontrá-los, e por isso 
talvez não queiram acreditar em mim. Vocês estão certos, mas, 
por favor, não rejeitem o que estou dizendo. Como é que 
poderiam fazê-lo? Já entraram nesse jardim secreto interno? 
Podem dizer, com total confiança, que o descobriram, e que ele 
corresponde a todas as gloriosas descrições que dele fizeram os 
grandes instrutores espirituais das diversas religiões do mundo? 
Atenção! Ao responderem a essa questão, é conveniente que 
não se deixem embriagar por tergiversações, perífrases e 
metáforas teológicas. Essa descoberta é uma experiência real, 
palpitante e intensa. 
Se conseguir motivá-los a sair de sua poltrona 
confortável e a caminhar na direção correta, a fim de verem por 
vocês mesmos tanto o rio, como a árvore, esse livro terá 
alcançado seu objetivo, vale dizer, o de motivá-los a passar pela 
experiência. A fé e a incredulidade são movimentos bruscos e 
sem sentido de uma psique que é incapaz de encarar a realidade 
e não pode mergulhar na silenciosa evidência do conhecimento. 
Apenas a extraordinária experiência de nosso segundo 
nascimento, de nosso verdadeiro batismo, também conhecido 
como a Auto-realização, pode nos dar essa consciência 
autenticamente iluminada que é o objetivo de nossa busca. 
Levaram-me a esse jardim. Já vivi nele. Disseram-me: “Esse 
lugar sagrado espera por todos os irmãos e irmãs que o 
procuram”. 
O ADVENTO 
 
28 
As regras do jogo da linguagem determinam que uma 
proposição verbal, lançada na arena pública, seja imediatamente 
transformada em objeto de controvérsia. Não me recuso a 
aceitar essa regra. Para evitar gastar muito tempo com esses 
jogos verbais, devo enfatizar que esse livro pretende apenas 
indicar alguns sinais de trânsito. Entretanto, não é apenas um 
sinal no caminho que diria: ‘leitor superficial, meu semelhante, 
meu irmão’. Será que esse leitor após ter passado, como eu, por 
muitas vidas inalando as flores do mal, optaria agora por não se 
interessar pela árvore da vida ou pela árvore do bem? 
Dessa forma, ao longo desse livro, uma outra pessoa que 
não eu, a quem me cabe lhes apresentar, os convidará a trilhar a 
senda interior da liberação. Essa senda, como foi preconizada 
por Buda, leva ao jardim mais secreto no interior das 
profundezas de cada um de nós, onde as flores e os frutos do 
amor divino realizam as promessas mais fantásticas de todosos 
santos do passado. Lá, tudo é beleza, pureza cristalina da 
inocência, frescor, alegria e amor. Lá é onde o rio corre e onde 
fica a árvore. 
De fato, esse paraíso inacessível está, como podem 
suspeitar, no âmago de nós mesmos. A Árvore Sagrada vem a 
ser o mecanismo sutil (Yantra, em sânscrito) que preside nossa 
ascensão espiritual, e mais diretamente, todos os nossos 
processos psicossomáticos. Não é uma grande compilação de 
obras esotéricas cheias de poeira que me autoriza a lhes dizer 
isso, mas o resultado prático de um fenômeno vivo, que 
chamarei, simplesmente, de experiência do presente, do aqui e 
agora. 
Tentem visualizar uma linha horizontal entre o passado 
(armazenado em nossa psique, sob a forma de 
condicionamentos, ou seja, o superego) e o futuro (com o qual, 
o outro componente de nossa psique está preocupado, ou seja, o 
ego). Em algum lugar dessa linha, encontra-se um ponto 
geométrico intangível, que se chama presente e que corta a linha 
ENTRE NÓS 
 
29 
entre seus segmentos do passado e do futuro (vide figura 1). O 
presente é um ponto invisível que não podemos quantificar em 
unidades de tempo. Daí surge o irritante paradoxo que se 
apresenta ao ser humano, vale dizer, existe apenas a 
inconsistência do presente, porquanto o passado já se foi, e o 
futuro ainda não ocorreu. 
A fim de lidar com esse momento presente e 
experimentar seu sabor, é imprescindível que adquiram a 
capacidade de entrar nesse ponto invisível no tempo, projetando 
sua atenção, a partir de um espaço psíquico que não seja o ego 
(ligado ao futuro) nem o superego (vinculado ao passado). Sua 
atenção deverá inflar o presente, tal como o ar é insuflado num 
balão. O passado e o futuro podem assim ser reduzidos. Vocês 
entram num espaço que fica além das dimensões tradicionais da 
experiência humana, ao penetrarem nesse ponto invisível da 
linha horizontal. Tendo transcendido o ego e o superego, 
poderão gozar a intensidade do presente contínuo, e se instalar 
no reino de Deus, o jardim mágico tão próximo e, no entanto, 
tão distante. Como entrar nele? 
 
 
 
FIGURA 1 - O PRESENTE 
 
O ADVENTO 
 
30 
Quanto a esse jardim mágico, La Bruyère, um 
observador sagaz, aponta, em seu livro “Caractères”, os 
prováveis ocupantes desse jardim, ou seja, “as crianças não têm 
passado nem futuro e se deleitam com o presente”. 
Os escritores místicos (um qualificativo que, sob minha 
ótica, não designa uma doce imbecilidade) tentaram descrever 
essa viagem além do tempo, que é “o paraíso que está em nosso 
interior”, dizem eles, “bem como a promessa da porta estreita, 
a sua chave e o seu caminho”. Antes porém, é preciso remover 
os espinhos. 
Agora é preciso que pare de importuná-los com 
metáforas (além do mais muito usadas, pois se originam de 
antigas escrituras) e lhes proponha, sob a forma de uma 
hipótese, a Auto-realização. Prometo que receberão, com aquele 
tempero de sabedoria socrática tão útil, esse conhecimento 
fantástico que é a dádiva de alguém que está além de mim. Esse 
conhecimento, outrora secreto, deve hoje ser divulgado. Isso 
porque é chegada a hora muito preciosa, a hora prometida, que 
é, simultaneamente, libertadora e fatídica. Leiam, sem rejeitar ou 
aceitar minha tese, e, como eu, testemunharão a aurora de uma 
nova esperança. Doravante, vamos utilizar expressões sânscritas 
para designar vários conceitos. 
A via secreta, o caminho do iniciado, é o canal sutil 
(Sushumna Nadi), no interior da coluna vertebral que forma o 
tronco da árvore da vida. A energia potencial do Espírito Santo 
no interior do ser humano (Kundalini) dorme no osso sacro, o 
osso triangular que fica na base da espinha. No momento de seu 
despertar, ela começa sua ascensão no âmago do Sushumna 
Nadi, que é formado por vários condutos concêntricos ao longo 
da medula espinhal. Todavia, esse canal é interrompido por um 
hiato que fica entre o plexo solar e o nervo vago (do sistema 
nervoso parassimpático). Ademais, como veremos mais tarde, 
com detalhes, esse canal pode ser danificado ou bloqueado, por 
exemplo, em conseqüência de nossas ações anteriores (Karma), 
ENTRE NÓS 
 
31 
doenças, perturbações nervosas, e outros distúrbios psíquicos. 
Devemos limpar esse caminho, o que não podemos fazer por nós 
mesmos, porque nossa atenção não pode penetrar no Sushumna 
Nadi. Por isso, pode-se compreender melhor o papel do 
verdadeiro mestre espiritual (Guru). Ele é aquele que pode 
despertar a Kundalini adormecida do discípulo, a semente da 
vida, inundando-a com um fluxo de vibrações energéticas 
divinas (a água da vida) que corre de seu ser como um rio. 
Quando essas vibrações envolvem o corpo do discípulo, elas 
preenchem o hiato em seu Sushumna Nadi. A Kundalini, 
convidada pelas vibrações de uma personalidade, cuja 
autoridade ela reconhece, ascenderá, cruzará o intervalo do 
vazio e penetrará os centros espirituais e psicossomáticos 
(Chakras) que ficam ao longo do Sushumna Nadi e representam 
os frutos da árvore da vida. 
O rio de água é, sobretudo, o fluxo de vibrações frescas 
emitidas pela Energia Primordial (Adi Shakti) de Deus. Sua 
manifestação foi identificada, por exemplo, como a brisa do 
Espírito Santo, como se pode ver na Bíblia, nos Atos dos 
Apóstolos, 2.1: 
“Tendo chegado o dia de Pentecostes, eles se encontravam 
reunidos num mesmo lugar, quando, de repente, veio do céu um 
estrondo, semelhante a um golpe de vento violento, que encheu toda 
a casa onde estavam. Eles viram aparecer línguas, chamadas de 
fogo, que pousaram, uma a uma, sobre cada um deles.” 
 
Essa manifestação divina é chamada em grego de noüs 
ou pneuma, isto é, ‘o sopro’ na terminologia gnóstica ou, ainda, 
é simbolizada pelo rio sagrado Ganges que emerge da cabeça de 
Shri Shiva. Efetivamente, no momento da Auto-realização, 
pode-se sentir a brisa fresca dessas vibrações ou, devido à sua 
força, pode ser um rio fresco que corre pelos dedos, pelas mãos, 
e eventualmente por todo o corpo. Num estado mais avançado, 
a água da vida - que doravante será chamada de néctar (Amrut) - 
O ADVENTO 
 
32 
é percebida como uma ducha que desce do topo da cabeça e 
enche o sistema nervoso central e o autônomo de uma bem-
aventurança indescritível. 
A porta estreita é o sexto Chakra (Agnya Chakra) no 
caminho da Kundalini, localizado no centro da fronte. Ele é 
chamado algumas vezes de ‘terceiro olho’. Como verão e 
descobrirão mais adiante, existe uma relação muito íntima entre 
esse Chakra e o papel cósmico de Cristo. A chave que abre esse 
Chakra é nada mais que a total e espontânea entrega de uma 
criança, da qual já foi dito: 
“Em verdade, vos digo, se não vos tornardes como as 
pequenas crianças, não entrareis no reino de Deus.” 
Lucas, 18, 17 
 
Faz-se alusão aqui ao Chakra ‘real’ que coroa o crânio 
(Sahasrara Chakra). Quando a Kundalini irrompe nele e o 
atravessa, esse centro se torna o templo da iluminação. É de lá 
que, para os seres realizados, se irradia, em todo o corpo, o 
êxtase espiritual sem par, mediante o qual cada célula do corpo 
físico fica igualmente plena de felicidade. Esse Chakra, cujo 
sistema de energia-consciência (Mandala) foi descrito por um 
grande reformista religioso, Shri Shankaracharya, torna-se, na 
terminologia do Senhor Buda, o ‘lótus de mil pétalas’, ou a 
‘sarça ardente’ (de Moisés) ou as ‘línguas de fogo’ (do 
Pentecostes) dos clarividentes bíblicos. 
Tentemos mostrar num esquema o panorama de nossa 
Auto-realização (figura 2). 
 
 
ENTRE NÓS 
 
33 
 
 
FIGURA 2 – O Cérebro Humano antes da Realização do Si 
 
No nível do Agnya Chakra, a atenção fica presa no 
passado e no futuro. O presente está fora de seu alcance, 
devendo ficar, portanto, no nível do Sahasrara Chakra, como se 
pode ver na figura 3. 
 
 
 
 
 
O ADVENTO 
 
34 
 
 
FIGURA 3 – O Cérebro após a Realização do Si 
 
A Kundalini sobe pelo canal centrale faz com que a 
atenção se concentre no presente contínuo, muito além do 
movimento pendular do ego e do superego. Voltaremos, 
posteriormente, a falar sobre esse processo. 
Lembremos agora que esse livro não foi escrito para 
fazer com que vocês se tornassem crentes, mas para que a 
experiência fosse deflagrada em cada leitor; para que o reino de 
Deus viesse para todos. Isso porque a Era de Aquário, na qual 
entramos, é a era em que todas as pessoas, de modo coletivo, 
devem compreender o sentido da existência. Um santo que 
medite sob uma figueira propícia, ou numa cela trapista, ou num 
pico do Himalaia, longe da contaminação da vida das grandes 
cidades, é de pouca ajuda hoje em dia! Entretanto, são elevadas 
aquelas almas que voltaram a ter seu nascimento nesse mundo, 
com o propósito de participar, como instrumentos, dessa grande 
transformação que se tornou possível, aqui e agora, pela Sahaja 
Yoga! Leitor hesitante, você pode ser perfeitamente um desses 
seres... 
Devo fazer uma última advertência. Quando Percival, 
cavaleiro da Távola Redonda, penetrou por acaso no castelo do 
ENTRE NÓS 
 
35 
Rei Pescador e viu, finalmente, o Santo Graal, ele não soube 
reconhecer que sua busca havia terminado. Tendo se esquecido 
de fazer a pergunta fatídica, ele foi lançado a um novo ciclo de 
busca, por longos e dolorosos anos. A advertência dada por 
Christian de Troyes, em sua famosa lenda do Santo Graal, 
merece uma reflexão. Em nossa busca, às vezes, erramos o 
caminho. Todavia, podemos também, e isso é mais sério, chegar 
diante da porta certa e, sem percebê-la, passar por ela 
inadvertidamente, o que faz com que nos percamos, novamente, 
em nossa busca. 
 
 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
 
CAPÍTULO II 
 
 
 
“Conhecereis assim a verdade e essa verdade vos libertará.” 
João 8,32 
 
“Quando as máscaras são removidas, emerge o 
autoconhecimento, que é o conhecimento de Deus. Conhecer o Si é 
ser o Si, porquanto não há dois Si. Logo, conhecer é ser. A 
consciência é a existência.” 
Shri Ramana Maharishi 
 
“Busque com sinceridade e persevere em sua busca. 
Finalmente, encontrará a Verdade.” 
Buda 
 
O processo de descoberta científica consiste, para a 
mente humana, em apreender (geralmente sob a forma de leis) 
os fenômenos do universo físico. Todavia, segundo o ponto de 
vista do observador, o mesmo fenômeno pode ser percebido de 
várias maneiras. Por exemplo, Newton e Einstein não encaram o 
universo do mesmo modo. As respostas da ciência não são 
definitivas, mas se inscrevem numa dinâmica de revalidação 
constante. A maneira pela qual o ser humano percebe sua 
relação com a ecologia cósmica global, que o envolve, evolui em 
função das descobertas que ele faz. 
O grande sábio de Genebra, Jean Piaget, observa, em seu 
livro “Epistemologia genética”: 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
37 
“Depois que as sucessivas revoluções no plano físico 
alteraram algumas de nossas intuições fundamentais em 
benefício não de um relativismo cético, mas em prol de uma 
objetividade relacional cada vez mais eficaz, a tendência 
geral da ciência é a de se considerar como ‘aberta’, no 
sentido de uma revisão sempre possível de suas noções ou 
princípios e de seus próprios problemas. Nenhuma noção 
fundamental da ciência permaneceu idêntica a si mesma, 
no curso da História, e essas transformações conduziram a 
sucessivas remodelagens da lógica como tal. E 
indubitavelmente vão procurar traçar fronteiras imutáveis 
entre um dado grupo de noções, consideradas inteiramente 
científicas, e um outro grupo que seria chamado de 
filosófico.” 
 
É fácil conceber que, mesmo hoje, diversas leis que 
governam o funcionamento de nosso mundo, aparentemente 
real, têm de ser descobertas em vários níveis - físico, psíquico e 
espiritual. A evolução da consciência humana consiste portanto 
em efetivar esse conhecimento potencial, de forma que novas 
relações possam ser desenvolvidas entre o Homem e o universo 
e do Homem consigo mesmo. Conhecer significa transformar. 
Quando esse conhecimento diz respeito ao plano material, o ser 
humano pode transformá-lo, pela utilização dessas leis recém-
descobertas, tais como a gravidade, a eletricidade, a energia 
atômica, etc. Quando se trata do plano espiritual, o próprio ato 
de conhecer produz uma transformação interior. É portanto 
crucial saber em que direção nossa busca deve ser orientada. 
Isso porque, as conseqüências dramáticas da fissão do átomo, 
por exemplo, ilustram um fato muito simples: a evolução de 
nossos conhecimentos forja, ao mesmo tempo, o futuro 
crescimento coletivo e o futuro crescimento do indivíduo ou do 
conhecedor. Aquele que conhece pode, em última análise, 
alcançar aquele estado de consciência a que se referiu Shri 
Krishna. 
O ADVENTO 
 
38 
 
“Por um único Sol 
O mundo inteiro é iluminado; 
Da mesma maneira, o Campo é iluminado 
Por aquele que o conhece.” 
Bhagavad Gita- 13,34 
 
Para William Blake e muitos outros, conhecer o Divino é 
tornar-se Divino. O conhecimento absoluto ou, para fazer eco 
aos ensinamentos de Cristo, a adoção da verdade viva implica 
uma transformação absoluta ou o batismo pelo espírito. As 
mensagens das tradições milenares, que muitos hoje aceitam, nos 
dizem: “Conheçam o infinito e vocês se tornarão o infinito”. 
No entanto, as questões cruciais, com as quais continuamos a 
nos debater, são: ‘como obter o verdadeiro conhecimento? 
Como vivenciar a experiência da transformação? Será que ela 
leva um segundo ou um século? O que é que acontece? Ela pode 
ser partilhada com os outros ou não?’ 
Somente uma experiência concreta pode responder a 
essas questões. Todas as especulações sobre a alquimia interior 
da consciência foram desenvolvidas pelos buscadores do 
passado. Parece-me que os buscadores do presente se perdem, 
muitas vezes, em circunlóquios verbais. Se existir alguma 
verdade em minhas palavras, que ela se manifeste! Se a mutação 
for possível, que ela se faça ! 
Eu estava em Londres, em agosto de 1975. A cidade 
borbulhava nas noites quentes de verão. Meu coração batia mais 
rapidamente que o normal. Lá estava eu, num desses pequenos 
trens ingleses com as cores azul e amarelo, a caminho de Hurst 
Green, Surrey, onde Shri Mataji morava. Andei pela cidade, 
cujos jardins belos revelavam o encanto da zona rural inglesa. 
Parei diante da porta da casa dela e apertei a campainha. Fui 
introduzido num pequeno hall, onde esperei por alguns instantes. 
Uma porta se abriu e Shri Mataji apareceu. Ela estava vestida 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
39 
com um sári branco. Presto minhas homenagens a ela com 
algumas flores que havia comprado na estação de Victoria. A 
partir daí, tudo se tornou estranhamente simples. 
Fomos para a sala de estar. Lancei um rápido olhar sobre 
a sala. As obras de arte indianas adicionavam uma certa 
exuberância oriental ao conforto inglês. Minha anfitriã me 
recebeu com a cortesia e a espontaneidade de uma grande dama, 
como se fôssemos velhos amigos. Sua tranqüilidade era 
contagiosa, pois minutos depois eu ficava completamente 
relaxado. Observava-a e, decididamente, não a imaginara tão 
alegre. Começamos a conversar sobre tudo e acerca de nada 
especificamente. Para meu espanto, me encontrava diante de 
alguém que parecia me conhecer bastante. É verdade que ela 
estava me analisando, mas o fazia com perfeita discrição, com 
muita bondade e calor humano. Na excitação interior provocada 
pelo encontro, não percebi que havia tomado posse da poltrona 
e da atenção de Shri Mataji, como se estivesse vivendo a 
parábola da volta do filho pródigo. Todavia, era a Mãe e não o 
Pai, que estava me recebendo. Senti, profundamente em meu 
íntimo, sua indescritível ternura maternal que me envolvia num 
manto protetor. Não me sentia muito culpado. Comecei a falar 
sobre todas as coisas que me eram caras de uma forma 
desorganizada. Shri Matajisorria enigmaticamente. Não a 
conhecia e, ao mesmo tempo, a conhecia. Sentia-me 
perfeitamente bem. 
Ela me perguntou várias coisas a respeito de minha 
família e de minha saúde. Indagou por que eu não usava uma 
camiseta a fim de evitar pegar um resfriado. Respondi às suas 
indagações. Disse-lhe que estava em busca de algo, da verdade 
talvez, porém, até aquela data, não a havia encontrado, e que já 
estava cansado. Ela me disse com um sorriso: “É preciso que eu 
o submeta a algumas provas”. Comecei a rir e disse-lhe: “Faça 
isso”. Curiosamente, não sentia medo algum da situação. As 
colheres de prata tilintavam nas xícaras de chá de porcelana; os 
O ADVENTO 
 
40 
raios de sol entravam através dos vitrais das janelas como 
grandes bolas douradas de poeira. O silêncio da casa pouco a 
pouco foi se instalando em mim. A chuva torrencial de meus 
pensamentos começou a parar. Descobri em mim uma paz que 
nunca havia experimentado. Ela começou a falar do verdadeiro 
objetivo de nossa busca: a Auto-realização. 
Puxa, isso era tudo que eu queria ouvir! Ela me disse que 
tornou isso possível para um grupo de jovens buscadores 
ingleses, que eu conheceria logo depois. Com aquela calma, meu 
passado me parecia ter sido um circo completamente frenético. 
Eu que era incapaz de parar a sarabanda de meus pensamentos e 
queria, desesperadamente, poder fazê-lo, eis que agora estava 
quase em repouso. Ela nem sequer havia levantado um só dedo 
para fazer com que isso acontecesse! É possível controlar a 
atividade mental com um simples olhar? Shri Mataji, quem és? 
As reminiscências daquelas horas preciosas se amplificam 
em minha memória. Devia ter mantido um diário, a fim de 
preservar, fielmente, a seqüência dos eventos ocorridos. Posso 
afirmar que, em tempo algum, as palavras foram substituídas 
pela experiência concreta. Para dizer a verdade, nada poderia ter 
me interessado mais que aquilo. Entretanto, quando chegou o 
grande momento, aquele que havia desejado tão ardentemente, 
me senti angustiado: ‘será que já estou muito estragado para 
isso? Será que isso produzirá resultados em mim?’ Durante 
alguns instantes, me vi pendurado por um fio entre a perdição e 
a salvação. Ainda uma vez mais, aquele inacreditável poder do 
amor maternal me ajudou a ganhar confiança em mim mesmo. 
Falando a respeito daqueles buscadores que estão desorientados 
e perdidos, Shri Mataji disse-me: “Vocês são como diamantes, 
verdadeiros diamantes, porém cobertos de lama. Quando 
estiverem limpos, resplandecerão com todo o seu brilho”. 
Quanto a mim, a lama era mais óbvia que o diamante, mas havia 
chegado o momento de testar a verdade de suas palavras. Essa 
hora teria sido muito penosa para mim, não fora a extrema 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
41 
bondade de Shri Mataji. Não estava compreendendo nada, no 
entanto não me preocupava, pois estava fascinado pela beleza da 
cena. Eu percebia um ritmo perfeito em tudo aquilo que ela 
fazia. Seus movimentos eram, alternadamente, fluidos ou 
poderosos, sempre tremendamente precisos e (algo difícil de ser 
encontrado na maioria das pessoas) sua expressão facial 
irradiava, simultaneamente, majestade e humildade. Logo 
depois, entretanto, meus pensamentos foram desviados para o 
que ocorria em meu interior. Senti um formigamento em minhas 
mãos, o qual, gradativamente, tornou-se mais fresco. Apesar de 
minha incredulidade, vivenciei uma sensação inexplicável, a de 
uma brisa fresca que soprava sobre as palmas de minhas mãos. 
Procurei descobrir se havia alguma corrente de ar na sala, porém 
a porta e as janelas estavam fechadas. Não me veio à mente, 
naquele momento, que os gnósticos identificavam a 
manifestação do Espírito Santo com o termo grego pneuma, que 
significa sopro. Também não sabia que Tagore havia dito a seu 
criador: “As tuas dádivas infinitas chegam a mim somente 
nessas mãos muito pequenas. As eras passam, mas ainda há 
lugar para a Auto-realização”. Minha perplexidade era 
crescente e estimulava meu interesse. Algo estava para 
acontecer, algo que pairava além de mim. Comecei a 
experimentar sensações no interior de meu corpo como se, pela 
primeira vez, algumas dessas partes estivessem se manifestando 
para minha consciência. O que, realmente, me espantava era que 
Shri Mataji seguia esse meu processo passo a passo. “Esse é o 
Chakra do coração”. Senti na verdade uma leve dor no peito. 
Com seu braço apontado como uma lança para meu peito, Shri 
Mataji explicou que “esse é centro espiritual que nos dá 
confiança e segurança”. Pouco depois, a dor desapareceu... e 
ressurgiu na base da garganta. Shri Mataji levantou-se e apoiou 
seu dedo indicador na última vértebra cervical. Lágrimas 
começaram a correr de meus olhos e experimentei uma sensação 
de afogueamento em minha testa. Ela colocou um pouco de 
O ADVENTO 
 
42 
Kumkum (chamado também de Tika), pó vermelho com o qual 
as mulheres indianas enfeitam sua fronte, no lugar em que se diz 
estar o terceiro olho. Disse-me: “Essa Tika emite vibrações 
positivas que irão dissolver as vibrações negativas que estão 
bloqueando seu Agnya Chakra. Pense em Cristo que verteu seu 
sangue em prol da redenção do mundo”. Lentamente, a tensão 
em minha cabeça se dissipou e cedeu lugar a um espaço de 
silêncio interior, cuja intensidade excluiu toda a agitação mental. 
Poderia comparar esse estado a um banho de frescor, de 
existência intensa, no qual me descobri perfeitamente relaxado e 
lúcido; de certa forma rejuvenescido. Havia fechado os olhos e 
quando os abri novamente, me parecia ter adquirido uma nova 
visão. O espaço, ao redor de Shri Mataji, começou a palpitar e 
notei faíscas brancas no ar, como se fossem descargas elétricas. 
Elas se projetavam em todas as direções, como se o ar estivesse 
se desintegrando em radiações de energia, perceptíveis a olho 
nu. 
A aura de Shri Mataji fundiu-se numa reverberação 
dourada, que envolveu todo o seu corpo. Não sei como 
descrever a sucessão de personificações múltiplas mostradas por 
ela, enquanto continuava a falar comigo. Em primeiro lugar, ela 
era uma Madona, cujos olhos expressavam uma grande 
profundidade de conhecimento, um amor imenso, que gostaria 
de ter podido registrar, definitivamente, em minha memória essa 
viva imagem da compaixão. Vi também uma jovem senhora 
muito bonita, alegre e borbulhante de felicidade, que ria como se 
fosse uma garota (ela ria com os olhos), porém em seu riso 
havia um poder enorme. Shri Mataji disse: “A Kundalini se 
eleva e seu sistema nervoso parassimpático é ativado. Você não 
precisa fazer nada, a não ser saborear a experiência sem 
despender nenhum esforço. O processo de seu segundo 
nascimento é Sahaja, espontâneo”. Ela se tornou pensativa e 
continuou: “Sua Kundalini é sua verdadeira mãe espiritual. 
Você é seu único filho. Ela o acompanhou em todas as suas 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
43 
vidas passadas, registrando todas as suas ações, boas e más. As 
conseqüências de seus erros repercutem sobre seus Chakras, 
danificando-os. É preciso algum tempo para purificar seus 
Chakras”. Procurei não perder nenhuma fração do que via e 
ouvia. Eu não estava sob hipnose ou sob o efeito de sugestão, 
porque o sentimento de minha própria identidade era, 
simultaneamente, mais rico e mais intenso. A noção de que eu 
sou foi enriquecida por uma evidência irrefutável. Ademais, me 
sentia livre para sair do silêncio, por isso meu intelecto 
conservava toda a sua mobilidade: ‘é isso mesmo? Quem é ela? 
Como é que ela faz isso? Será que poderei me manter nesse 
estado?’ Mesmo porque, me dei conta de que havia penetrado 
num estado absolutamente diferente daquele no qual me 
encontrava antes de me defrontar com Shri Mataji, o qual agora 
parecia ter removido vários séculos no tempo. 
Essa energia, que sentia em minhas mãos sob a forma de 
frescor, me levou a um novo estado de percepção. Fisicamente,me sentia maravilhosamente bem. Em meu interior, havia sido 
aberta uma nova dimensão mais completa da consciência, uma 
profundidade de paz onde a atenção permanecia alerta. Era 
como se o simples fato de eu existir se tornasse uma irradiação 
de bem-estar físico e de alegria. Sem dor alguma, me encontrava 
do outro lado do rio que, em vão, tentara atravessar. Esse novo 
estado de consciência impunha-se aos meus sentidos e ao meu 
espírito com uma evidência imediata. Tratava-se de uma 
experiência tão integrada, que eu não podia dizer se a alegria era 
sentida fisicamente e o bem-estar era percebido psiquicamente, 
ou o contrário, pois meu ser estava unificado com aquilo que os 
velhos livros chamavam de bem-aventurança. “It is done...” ou 
“está feito...”, disse Shri Mataji com um riso estrepitoso e feliz, 
enquanto fazia uma série de gestos a fim de levantar, novamente, 
minha Kundalini, amarrando-a no topo de minha cabeça. Toda a 
sala vibrava com uma energia pura que me encheu de um grande 
sentimento pelo sagrado. “Isa Vasiam Sarvam...” ou “tudo se 
O ADVENTO 
 
44 
reveste de Deus...”, afirma o primeiro verso do Isha Upanishad. 
Seus braceletes de vidro tilintavam e o som que chegava aos 
meus ouvidos parecia de um carrilhão da Páscoa. Novamente, 
olhei para ela, ao mesmo tempo, tão próxima e tão distante, uma 
combinação desconhecida do poder com a doçura. Ela parecia 
estar muito feliz e disse: “Vamos comer, porque já é tarde”. 
Certamente, havia perdido toda a noção de tempo. A qualidade 
do jantar sugeria que Shri Mataji prodigalizava ‘os alimentos 
celestes’ e os alimentos terrestres com a mesma generosidade. 
Durante os dias seguintes, em Surrey, compreendi que 
havia saído daquele estado maravilhoso e que era incapaz de 
mantê-lo, permanentemente. Um mundo de opacidade, sensação 
de calor e de agitação substituiu aquele mundo de transparência 
e de tranqüilo frescor que eu havia conhecido. As antigas 
dúvidas e os velhos medos se apossaram de mim novamente. 
Senti várias dores físicas e leves sensações de calor, as quais 
vinham, muitas vezes, com pensamentos ou com a proximidade 
de alguém. Pela graça do acaso, o deus caprichoso que Shri 
Mataji parecia conhecer e controlar como um animal doméstico, 
tive a oportunidade de passar uma semana em sua companhia. 
Era uma oportunidade da qual realmente eu necessitava. Os 
excessos de meu estilo de vida haviam me prejudicado física e 
mentalmente. Havia deixado que minha atenção se perdesse em 
recantos e antros sujos. Não sabia como me limpar. Muitas 
questões pululavam em minha cabeça: ‘serei capaz de levar isso 
adiante? Quem é exatamente Shri Mataji?’ A resposta à 
segunda pergunta seria a chave para a primeira, porque eu sabia, 
perfeitamente, que uma pessoa comum não seria capaz de me 
transformar e me salvar. Certa vez, durante uma viagem de trem 
entre Hurst Green e Londres, perguntei-lhe: “Shri Mataji, quem 
é a senhora realmente?” Com um êxtase infinito, ela fechou 
seus olhos. Mais uma vez, um silêncio profundo e completo caiu 
sobre mim. Minhas pálpebras fecharam-se por si mesmas. 
Deixei-me absorver pela intensidade da existência, evidenciando-
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
45 
se, assim, minha própria divindade. Apenas os solavancos do 
trem faziam com que me sentisse revestido por um invólucro 
físico. Mais tarde, reabri meus olhos. Shri Mataji olhava para 
mim. Aprendi a afagar a ternura que emanava de seus olhos. 
“Essa é a resposta: sou o silêncio”. Mantive-me calado até a 
estação Victoria. Na estação, a multidão apressada, que andava 
em círculos, me pareceu separada de mim apenas por uma 
membrana invisível. Parecia que caminhava a alguns centímetros 
acima do solo. Entretanto, ninguém prestava atenção em mim, 
minha aparência estava provavelmente normal, vale dizer, tinha a 
aparência de um ser humano comum. Sentia um grande amor 
por todas essas pessoas. O que é que lhes acontecerá? Será que 
elas também sentirão o segredo de sua própria profundidade? 
Ao ler essas linhas, poderia crer que isso indicaria: ‘aqui 
cheguei e aqui permanecerei’. O que significaria que havia 
alcançado meu objetivo e que poderia me deleitar com seus 
benefícios. No entanto, não era essa minha situação, porque, 
provavelmente, fui um dos casos mais difíceis apresentados à 
Shri Mataji. Isso porque, infalivelmente, meu circo mental 
recomeçava sempre a me atormentar. O paraíso perdido, 
reencontrado e perdido novamente. Quando o reencontrava, me 
sentia estranho e dizia para mim mesmo: ‘como é que pode ser 
tão simples?’ Todavia, por causa de uma indagação ou de uma 
dúvida, voltava a perdê-lo. Shri Mataji sabia disso e me disse: 
“Você é como uma pessoa num barco, num mar encapelado, 
que se agita em cada momento em que o barco ameaça virar. É 
preciso que me ajude. É necessário que seja mais estável”. 
Pretendia, com toda a certeza, contribuir ao máximo, pois 
compreendi que Shri Mataji estava tentando me libertar dos 
liames invisíveis que me mantinham prisioneiro. Depois que 
minha Kundalini se elevou pela primeira vez, ela decuplicou 
minha capacidade de pôr a atenção em meu interior. No entanto, 
resistia a fazer isso, porque pressentia as zonas obscuras 
existentes em mim cobertas de coisas malignas que me 
O ADVENTO 
 
46 
aterrorizavam. Sempre que tentava fazer com que essas imagens 
negativas emergissem, elas saltavam em minha mente, como 
gatos selvagens, com o pêlo eriçado, prontos para pularem em 
meu rosto. 
Assim sendo, comecei a ver imagens obscuras e 
sangrentas, a face de um falso guru e todas as lembranças de 
minhas leituras e de meu passado vieram à tona. Idéias absurdas 
passavam por minha mente, idéias de morte e de suicídio, 
dúvidas e medos que tentavam apossar-se de mim: ‘é muita 
presunção sua querer a Auto-realização’ ou ‘desconfie de Shri 
Mataji’. Apesar disso, não me entreguei ao desânimo. Mantendo 
minha mente lúcida, sabia que, nesses momentos de agitação e 
de mal-estar, não era inteiramente eu. Sentia-me atormentado 
por algo sujo, algo que queria minha perdição e que contrastava 
- como a luz se contrapõe à sombra - com a consciência serena e 
alegre de minha identidade transfigurada quando minha 
Kundalini ascendia. Era realmente, nesses momentos, que minha 
verdadeira identidade e minha verdade autêntica emergiam, 
adornadas com as qualidades da bondade. Não podia me 
identificar com essas sombras escuras existentes em mim, essas 
coisas turbulentas e maléficas que não sabia de onde surgiam, 
que se pavoneavam como ceifeiros inflexíveis, que me 
aterrorizavam, me atacavam e transformavam minha psique num 
campo de batalha. 
Quando tomava pé novamente, auxiliado por um pouco 
de senso de humor (encorajado nisso, constantemente, por Shri 
Mataji, pela sua ajuda e sua bondade) me via um pouco como 
numa cena de um desses grandes torneios da Idade Média, 
ladeado pelas portas do céu e do inferno. Eu era, 
simultaneamente, o próprio drama, o cenário e o ator que 
andava de um lado para outro. Felizmente, comecei a 
compreender o papel que estava representando. 
Com minha entrada na consciência total, vi, em mim 
mesmo, tudo aquilo que havia para ser descoberto ali : o céu e o 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
47 
inferno. Minha primeira vitória, nesse campo de batalha, foi a de 
compreender que bastava identificar, resolutamente, minha 
atenção (de início, completamente fragmentada) com a bondade 
irradiante do Si. Quando fazia isso, conseguia ser vitorioso. No 
que se refere a isso, Shankaracharya esclarece, conforme consta 
do livro Hymnes et Chants Védantiques (ed. Michel Allard): 
“O Si é uma realidade constantemente presente, mas a 
ignorância o transforma num objetivo a ser alcançado... 
Quando a ignorância é destruída, o Si aparece como se 
nunca tivesse estado ausente, tal como um colar que está 
em nosso pescoço e que julgávamos ter perdido.” 
 
Medianteminha Auto-realização, vivenciei a santidade, a 
plenitude e, sobretudo, a realidade. Sim, é isso que sou 
verdadeiramente. “Vejo em você o diamante”, foi um 
encorajamento premonitório de Shri Mataji. Eu não era essa 
sombra funesta que havia conseguido parasitar meu psiquismo e 
que queria fazer com que me chafurdasse em seu lamaçal. Eu 
também não era aquele lamaçal. 
Shri Mataji acompanhou, passo a passo, essa minha 
batalha interior. Explicou-me como era o campo de batalha e 
definiu a estratégia a ser seguida: 
“Obter a Auto-realização é como acender a luz num quarto 
escuro. Logo após a luz ter sido acesa, fica muito mais 
fácil ver em que estado está, bem como arrumá-lo e limpá-
lo. Quando você se identifica com o Si, é fácil verificar o 
que não está funcionando bem em você e corrigir isso, sem 
se culpar de nada, porque não mais se identifica com suas 
fraquezas ou com seus acidentes de percurso. Quando uma 
vestimenta está maculada por manchas, você a tira e a 
limpa. Hoje, pode fazer a mesma coisa com sua vida 
psíquica. Não há necessidade nenhuma de chorar ou de se 
lamentar por causa disso!” 
 
O ADVENTO 
 
48 
A água que lava tudo é a Kundalini, ou ainda, as 
vibrações, cujo frescor vivificante purifica. Shri Mataji me 
submeteu a várias sessões de ‘terapia vibratória’ e direcionava a 
energia para meus centros mais necessitados, isto é, ao fígado, 
ao estômago e à garganta. 
Um dos momentos mais terríveis durante o processo de 
redenção, do qual me lembro, aconteceu no pequeno templo na 
casa de Shri Mataji. Não conseguia sentir as vibrações e me senti 
verdadeiramente desesperado, moído, refém das garras de 
demônios infernais. Shri Mataji me disse: “Peça perdão a Shri 
Ganesha”. Isso porque, na tradição da Índia, Shri Ganesha, o 
Deus de cabeça de elefante, simboliza o aspecto de Deus que 
incorpora a pureza e a inocência. Estendi-me no chão, com o 
ventre para baixo, diante de uma estátua de madeira de Shri 
Ganesha, pertencente a Shri Mataji. Estendi meus braços, abri 
minhas mãos e pedi perdão. Finalmente, entendi que, por não ter 
respeitado minha castidade e a dos outros, chegara ao estado 
lastimável em que me encontrava. Foi um momento em que, 
suspenso entre a perdição e a salvação, senti, fortemente, todo o 
peso do meu destino na balança. Paulatinamente, as vibrações 
frescas começaram a jorrar da estátua. Eu havia sido perdoado! 
Muitas vezes, mesmo agora, me sentia como uma taça 
quebrada incapaz de reter a água da vida que banhava a 
atmosfera em torno de Shri Mataji. Porém, desde aquele dia, 
cada vez em maior medida, recuperei a confiança em mim 
mesmo. Dei-me conta de que as forças invisíveis do mal existem, 
e descobri também que, no mundo invisível, movimentam-se 
forças protetoras que auxiliam nossa ascensão. 
Uma bela manhã, Shri Mataji resolveu me mostrar seus 
sáris. É uma das características de seu estilo inimitável alternar, 
com uma total desenvoltura, a coisa fútil e a coisa séria, ou pelo 
menos aquilo que nos parece dessa forma. Ela abriu seu armário 
e, com um gesto amplo, colocou seus sáris sobre sua cama. 
Eram de algodão, batiques, de sedas chamejantes, avermelhados 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
49 
ou castanho-dourados, estampados com mil motivos que 
ilustravam a imaginação e a delicadeza de seus criadores, 
humildes artesãos dos vilarejos da Índia. Havia sáris vermelhos 
mesclados de fios de ouro (apanágio de uma mulher casada) e 
também, brancos bordados de vermelho, com os quais Shri 
Mataji se veste durante suas meditações. Havia sáris verdes 
mutáveis como o mar e da cor turquesa; aqueles que uniam o 
violeta profundo ao amarelo-ouro, ou associavam o salmão à 
prata. Havia todas as combinações de tecidos, de desenhos e de 
cores que alguém poderia imaginar. Enlevado por um deleite, 
que julguei ser puramente estético, percebi que cada sári, que ela 
me mostrava, me envolvia numa onda de vibrações. Saí do 
quarto completamente aturdido, quase inebriado. 
Se aquilo que se poderia chamar de meu segundo 
nascimento abrangia uma formidável batalha, eu não tinha 
consciência desse seu rigor. Certos episódios foram até muito 
divertidos. Freqüentemente, era alçado para cima da refrega, 
como uma testemunha desapegada e, por assim dizer, eterna, 
imersa na consciência-silêncio. Nesse estado de testemunha, no 
qual a lucidez clarificava todos os aspectos de meu teatro 
interior, fiz uma grande descoberta. 
Percebi que, ao longo de minha vida, e mesmo depois de 
minha Auto-realização, havia depositado uma total confiança 
naquele que julgava ser meu melhor amigo. Porém, com base 
numa análise mais acurada, ficou claro para mim que esse 
indivíduo trava a sua própria luta e não a minha. Ao fazer isso, o 
seu objetivo é, simplesmente, o de ocupar meu lugar. Trata-se 
de um jogo muito sutil, dissimulado por um senso magistral de 
camuflagem, pelo qual esse malandro me fazia quase acreditar 
que seus objetivos eram os meus. Talvez já adivinharam que 
desmascarei meu próprio ego. Aquele que me fazia correr, que 
me tornava agressivo ou dominador, que preferia ficar 
totalmente perdido a aceitar auxílio de quem quer que fosse. 
Isso porque o senhor ego percebe a graça divina como ‘o 
O ADVENTO 
 
50 
outro’, como algo estranho a ele. A coisa mais importante para 
ele é um ‘eu’ impecável. O ego é seu próprio deus. ‘É 
verdadeiramente colossal, Mãe,’ disse à Shri Mataji. Fiquei 
realmente perplexo com tudo isso. Shri Mataji riu e me disse: 
“Enquanto você o encarar pelo que ele é, ele não poderá feri-
lo. Ria gentilmente de seu ego e ele se esvaziará. Não lute 
nunca contra seu ego”. 
Essa descoberta me ajudou muito a entender minhas 
reações e as de tantos intelectuais de minha geração em relação 
à Sahaja Yoga. A preponderância do ego é confirmada pelo 
método que utilizamos para examinar tudo e para duvidar de 
todas as coisas. É o ego que direciona a análise e tira as 
conclusões, supervisionando, firmemente, nosso intelecto. 
Porém, ao ser confrontado com uma experiência igual à Auto-
realização, o ego fica perplexo. É ao Si que pertencem os 
refletores da cena e é graças à Shri Mataji (e não ao ego) que 
acontece a experiência da Auto-realização. Depois disso, o ego 
tenta voltar ao assento do dirigente, rejeitando os fatos, evitando 
a experiência e negando o papel de Shri Mataji. Pela tradição de 
minha família, por causa de meu temperamento e devido à minha 
educação, pertenço àquela categoria de pessoas fortemente 
identificadas com seu ego, daquelas pessoas que dizem: ‘eu, eu 
mesmo, por mim mesmo’. Por um longo tempo, meu ego tentou 
suprimir minha nova percepção espiritual sobre a qual ele não 
tinha nenhum controle, e flutuava, questionando e duvidando, 
como uma cortina de murmúrios, entre a minha atenção e o Si. 
Novamente, as nuvens começaram a esconder o Azul 
Paradisíaco. Foi, sem dúvida, essa a razão pela qual fui tão lento 
na estabilização de minha Auto-realização. Meu progresso na 
Sahaja Yoga (o que resta para lhes contar) seguiu um ritmo um 
pouco titubeante, ou seja, eu dava quatro passos para frente, 
dois para trás, três para frente, quatro para trás... 
Quando era incapaz de voltar ao estado realizado, 
começava a fazer indagações. Progressivamente, Shri Mataji 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
51 
ganhou minha admiração pela amplitude de seu conhecimento. 
Ela sabia tudo sobre minhas dificuldades pessoais e também 
estava a par de todos os problemas da sociedade moderna. Ao 
seu conhecimento acerca do espírito e do cosmo, cujos limites 
ignoro, soma-se um saber completo e detalhado do ser humano 
em sua vida cotidiana, com sua série de desafios concretos e 
pequenas preocupações. Ela explica a importância única do 
momento histórico em que estamos vivendo: “Chegou o tempo 
certo”, para que muitos seres humanos saltem para uma nova 
dimensão. ‘Mas Shri Mataji, como é que é possívelque isso seja 
tão simples?’ 
“Tudo aquilo que se manifesta na natureza é simples. Como 
os brotos que saem do solo na primavera, como as flores 
da árvore se transformam em frutos. De uma simples 
semente crescerá uma árvore, isso é um milagre fantástico! 
Já refletiram sobre isso? O processo da vida é Sahaja, 
espontâneo. Se tivessem sido obrigados a ir à escola para 
aprender a respirar, poucos, dentre vocês, teriam 
sobrevivido. Se as aves tivessem que consultar os tratados 
dos sábios para aprender a voar, não teriam jamais aberto 
suas asas. O mesmo ocorre com seu segundo nascimento. 
Chegou o momento do segundo nascimento, o tempo em 
que devem receber sua Auto-realização. Essa etapa da 
evolução foi profetizada por todas as encarnações e pelos 
grandes sábios. Quando o pintainho se agita dentro da 
casca do ovo, pronto para quebrá-la, a galinha o ajuda 
com seu próprio bico. Eu não faço nada além disso. 
Aceitem sua Auto-realização... e voem!” 
Shri Mataji chamou a atenção para o simbolismo da festa 
da Páscoa, em que as pessoas quebram os ovos a fim de celebrar 
a ressurreição. 
“Mas, Shri Mataji, a senhora fala do poder da Natureza. 
É esse o mesmo poder que a senhora manifesta com essas 
vibrações?” 
“Formule a pergunta,” disse-me ela. 
O ADVENTO 
 
52 
Estendi minhas mãos em direção a ela e fiz a pergunta: 
‘Shri Mataji, a senhora está em harmonia com a natureza?’ 
Senti uma brisa fresca em minhas mãos. Fiz muitas 
perguntas cuja amplitude poderia sugerir que ficassem sem 
respostas. A resposta ‘sim’ era sinalizada por uma brisa fresca. 
A honestidade intelectual me obrigava a registrar essas 
experiências, apesar de minhas dúvidas. Era como um terminal 
de computador conectado a um outro computador central, ou 
melhor, como disse Shri Mataji, eu mesmo era o computador 
conectado à fonte de energia que começava a funcionar. As 
informações se precipitavam dele. Tudo que tinha de fazer era 
manter minha cabeça fria e decodificar a informação. Se minha 
cabeça, algumas vezes, ficava quente, meu coração estava ainda 
muito entorpecido. Isso era lastimável, porque o reconhecimento 
(do Divino) só pode ocorrer por intermédio do coração. 
A propósito da decodificação, durante minhas viagens 
para Londres, me dei conta de que meu sistema nervoso 
começava a registrar, sob a forma de sensações, as mensagens 
ou vibrações que provinham de outras pessoas. São 
particularmente sensíveis os sete Chakras e as partes da mão 
correspondentes a eles. Na presença de uma pessoa embriagada, 
sentia uma dor no Manipura (ou Nabhi) Chakra, que fica na 
altura do umbigo. Um intelectual com a cabeça um pouco febril 
de pensamentos me transmitia uma forte pressão na fronte, no 
nível do Agnya Chakra. Levava horas para me recuperar dessas 
dores absorvidas de outras pessoas, e por isso não podia ser 
muito grato a elas. Reciprocamente, um outro Sahaja Yogi 
podia fixar sua atenção em mim, sentir em que ponto a energia 
estava bloqueada em minha coluna vertebral, e detectar quais 
eram os Chakras afetados. Em outras palavras, essa nova 
“consciência perceptiva vibratória” me informava a respeito de 
mim mesmo e dos outros. Shri Mataji disse: “Você está 
começando a entrar na consciência coletiva. Terá consciência 
não só de seus próprios Chakras, mas também dos Chakras dos 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
53 
outros”. Era como se minha consciência não estivesse mais 
restrita aos limites da individualidade, e pudesse voar livremente 
pelo universo. Com base nas vibrações, descobria meu estado 
psicossomático e o dos outros. Por exemplo, na casa de Gavin 
Brown, um dos primeiros Sahaja Yogis ingleses, na companhia 
de alguns amigos tentamos elevar a Kundalini de um médico. 
Tive uma sensação de calor no dedo anular da mão esquerda 
que corresponde ao Agnya Chakra. Esse centro controla, dentre 
outras coisas, os olhos. Comuniquei isso ao médico e ele me 
olhou atônito.“Você está certo. Tenho um problema de visão 
em meu olho esquerdo”. Uma outra vez, pensei numa criança, 
acerca da qual Shri Mataji havia dito que era realizada e minha 
cabeça se encheu de uma sensação borbulhante de bem-estar. 
Dessa forma, essa nova dimensão de consciência não só 
me levou até o âmago de meu ser, mas também se estendeu para 
fora de mim, captando, com a mesma qualidade, a profundidade 
dos seres, dos lugares e das coisas. E agora que estou conectado 
com esse mundo vibratório, meu corpo age como um agente 
catalisador dessa energia. Aprendi, efetivamente, sempre pela 
experiência, que meus gestos emitiam vibrações e que eu 
também podia, com algumas exceções, levantar a Kundalini dos 
outros, por meio de gestos extremamente simples. Isso era 
espantoso! Havia recebido duas dádivas, num único presente, 
não só minha Auto-realização, mas também o poder de 
transmiti-la aos outros. A realidade é sempre mais surpreendente 
que a ficção dos escritores esotéricos, parapsicólogos, 
milenaristas, ufologistas e todos aqueles que se extraviaram do 
caminho e que esperam confusamente, sem nenhuma orientação, 
o final dessa era e o início de uma nova Idade de Ouro. Sentia-
me como um garoto que engatinhava no grande laboratório da 
vida, o qual manipulava com precaução esses raios de energia 
recém-descobertos e que, de tempos em tempos, olhava para sua 
mãe, a fim de se certificar de que não estava cometendo erro 
algum. 
O ADVENTO 
 
54 
Shri Mataji fez com que vivenciasse experiências muito 
preciosas, verdadeiras pérolas que conferiram à minha Auto-
realização uma consistência deveras indubitável, apesar de meus 
altos e baixos, em meio aos meus momentos de estabilidade e de 
meus mergulhos. Narrarei aqui apenas a mais emocionante delas. 
Tinha de deixar Shri Mataji a fim de retornar à Suíça. 
Isso me fez compreender que ela havia se tornado muito 
relevante para mim. Não como um psiquiatra deve ser para seu 
paciente, mas como alguém que irradiava verdadeiramente um 
amor imenso. Senti que a tristeza da separação estava se 
apossando de mim. Ainda não acreditava em minha capacidade 
de manter sozinho minha realização, num meio ambiente que 
ignorava minha busca e que faria chacota da experiência que eu 
havia vivido com tanta intensidade. 
Shri Mataji estava sentada num sofá, a alguns 
centímetros de minha cadeira. Disse-me: “Não fique triste”, e 
fez um gesto com a mão. Nesse exato momento, algo como um 
jorro de graça ou uma enxurrada de indescritível felicidade ou 
uma energia borbulhante começou a fluir do alto de minha 
cabeça e irrigou todo meu sistema nervoso atingindo as mais 
distantes terminações nervosas. Era algo como a ambrosia, ou o 
néctar, ou Amrut, a respeito do qual havia lido em textos 
sagrados. Por exemplo, do Chandogya Upanishad consta que: 
“No mundo de Brahman (ou o Absoluto), existe um lago 
cujas águas são como o néctar e todo aquele que dessas águas beber 
ficará, imediatamente, inebriado de alegria. Nas praias desse lago, 
poderá ser encontrada uma árvore que produz o elixir da 
imortalidade.” 
 
A respeito desse néctar, Kabir escreveu vários versos: 
”Bebi da taça do infinito, encontrei a chave do mistério, 
toquei as raízes da União...” 
“Nessas margens,existe uma cidade onde nunca cessa de 
chover néctar...” 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
55 
“Experimentei a doçura do néctar e, sem que bebesse água, 
minha sede foi satisfeita.” 
 
Fui pego de surpresa por essa súbita irrupção de energia. 
Desfrutei, com cada fibra de meu ser, do êxtase em todas as 
minhas células. Tratava-se de um êxtase de tal intensidade que 
não podia ser comparado, nem sequer, ao maior prazer físico 
sentido num intercurso sexual. Num estado de veneração, me 
sentia como uma criança palpitante de inocência sagrada. Ó, rei 
Davi, eu cantava na presença dos anjos, me prosternava no 
templo do Senhor. Santo é Seu nome! Grande é a glória do 
Eterno! Ele ungiu minha cabeça. Minha taçatransbordava. 
Sublime era a alegria em que Tu me banhavas! Será que parei de 
respirar? Eu não sabia. Shri Mataji disse: “Meu filho, não é 
preciso ter medo”. Ela fez um outro gesto com a mão e o fluxo 
de ambrosia parou de jorrar. 
Essa experiência me tirou o fôlego. Shri Mataji me havia 
dado provas de seu absoluto controle sobre a manifestação da 
verdade espiritual mais sacrossanta. Sem desprezar a fatal 
incredulidade do leitor, posso afirmar que um tal poder não pode 
ser próprio de um ser humano comum. A partir daquele 
momento, passei a ter Shri Mataji na mais alta conta, e com uma 
espécie de temor reverencial que envolve Deus, às vezes terrível, 
do Antigo Testamento. Isso porque, nessa semana inesquecível, 
tive uma visão de uma das formas de Shri Mataji, que me fez 
sentir um misto de terror e deslumbramento (essa será a última 
menção que farei sobre esse período). Tive várias visões 
celestiais e muitos sonhos. Por exemplo, ouvi um coral de anjos 
celestiais cantando em meu Sahasrara Chakra. Em outra 
ocasião, desci, sem muito desconforto, aos infernos, por 
intermédio do subconsciente. 
Para que este livro não se torne muito volumoso, 
abandonarei aqui sua forma autobiográfica e tentarei explicar, 
um pouco melhor, a natureza da experiência por mim vivida e 
O ADVENTO 
 
56 
extrair a essência de tudo que pude apreender durante os anos 
que se seguiram. 
Primeiramente, importa compreender que a Auto-
realização, na Sahaja Yoga, representa uma etapa decisiva no 
desenvolvimento espiritual do ser humano. Esclareça-se que, 
nesse livro, a expressão ‘Auto-realização’ (ou Realização do Si) 
corresponde à etapa espiritual de abertura do Brahmarandhra, 
no topo do Sahasrara Chakra. 
Os exemplos de Auto-realização (Moksha, Samadhi) 
mencionados pelas antigas tradições diziam respeito a indivíduos 
raros, santos da mais alta qualidade que, após um intenso 
trabalho de purificação dos Chakras, durante várias vidas 
sucessivas, atingiram o ponto de abertura do Sahasrara Chakra. 
Logo, a purificação vinha antes e a Auto-realização em seguida. 
Esse era o único método conhecido e ele, geralmente, implicava 
uma ascese ou um isolamento daquilo que o Eclesiastes chama 
de mundo. Na Sahaja Yoga, acontece o inverso, isto é, a Auto-
realização acontece antes e a purificação vem depois. Somente 
essa fórmula torna possível a Auto-realização para os habitantes 
das cidades modernas. Shri Mataji tornou isso viável, porque 
como ela disse: “Na árvore da vida, chegou o tempo da 
floração,” ou ainda, em termos mais próximos da terminologia 
do Apocalipse: “vivemos num tempo de extrema premência. É 
importante, para todos aqueles que buscam a Auto-realização, 
obtê-la sem mais tardar”. 
É evidente que, para um grande número de pessoas, a 
percepção da experiência não será a mesma sentida por Buda, 
por exemplo, que se purificou totalmente e imergiu, 
definitivamente, na bem-aventurança do verdadeiro Si. 
Precisamos de tempo para que possamos reconhecer a amplitude 
daquilo que nos aconteceu e para nos libertar de nossos 
condicionamentos acumulados. Ademais, os problemas criados 
por um estilo de vida imoral, pelas drogas, pelas doenças, etc., 
retardam o progresso da nova consciência. Posso testemunhar 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
57 
tudo isso com base em meu próprio desenvolvimento. Todavia, 
com paciência e determinação, poderemos usar as várias 
técnicas da Sahaja Yoga para nos auxiliar nesse processo. Foi o 
que fiz...e funcionou. Efetivamente, devem apenas colocar-se 
nas melhores condições, a fim de permitir que o despertar da 
Kundalini manifeste seus efeitos regeneradores. A Kundalini 
desempenhará seu papel regenerador com a espontaneidade de 
uma força viva com uma grande ternura. Shri Mataji explica: 
“Sua Kundalini nada mais é que sua Mãe espiritual. Cada ser 
humano é seu único filho. Ela esperou pacientemente, ao longo 
de todas as suas vidas, o momento de sua manifestação, o 
momento em que ela pudesse introduzi-los na alegria do 
Divino. Ela não poderá feri-los nem prejudicá-los, mas se 
dedicará, gradualmente, a curar seus corpos físicos e a 
purificar seus Chakras”. 
Shri Mataji coloca sempre a seguinte questão, quando 
fala a respeito da Kundalini: “Podem conceber uma energia que 
pensa, organiza, ama e compreende?” A resposta é 
provavelmente não, contudo podemos compreender que nosso 
papel é, com absoluta liberdade, permitir que a Kundalini possa 
agir. É claro que a melhoria de nosso poder de discernimento e 
de nossa consciência perceptiva vibratória nos ajuda 
grandemente a pensar e a agir, em consonância com a linha de 
nosso desenvolvimento espiritual, todavia permanecemos 
completamente livres. Livres para tornar estável nossa Auto-
realização e para evoluir. Livres para regredir e perder nossa 
Auto-realização. Os casos de regressão são raros, mas existem. 
Em outros termos, nossa Auto-realização e a atividade 
subseqüente da Kundalini se manifestam espontaneamente, vale 
dizer, pela atuação da graça divina. Entretanto, após essa etapa 
inicial do primeiro despertar, compete a nós tornar possível a 
continuidade dessa manifestação. Shri Mataji jamais se cansa de 
repetir que: “A Sahaja Yoga pode ligar o motor de seu carro. 
Pode até mesmo repará-lo, se isso for necessário. No entanto, 
O ADVENTO 
 
58 
cabe a você dirigir o carro, usar o freio e o acelerador. Isso é o 
que deve aprender a fazer”. Para todo aquele que se engaja em 
exercícios espirituais, sem antes ter obtido sua Auto-realização, 
Shri Mataji diz, simplesmente: “De que lhe serve dirigir um 
carro parado? É preciso primeiro dar a partida no carro e essa 
partida se produz sem nenhum esforço”. 
Subjacente à simplicidade dessa partida, tão singela 
porém tão necessária (se a respiração fosse algo complicado, 
não estaríamos aqui), existe um mecanismo (Yantra) de extrema 
complexidade. As características principais do microcosmo 
humano são reproduzidas na figura 4. As manifestações físicas e 
localizações dos Chakras estão contidas no quadro 1. 
A árvore da vida da qual comerão os vitoriosos 
(Apocalipse, 2.7), cujas folhas curarão as nações (Apocalipse, 
22.2), compõe-se de um tronco formado por três canais de 
energia, ou seja, o Sushumna Nadi em seu centro, ladeado à 
direita pelo Pingala Nadi e à esquerda pelo Ida Nadi. Os 
Chakras, que são centros de energia, são os frutos dessa árvore. 
Falando de forma ampla, os três Nadis e os sete Chakras 
principais se manifestam sobre o plano psicológico por 
intermédio do sistema nervoso. 
A zona descrita como o Void (vazio) não deve ser 
confundida com o vazio dos zen-budistas, o qual no caso deles 
se refere, de fato, ao estado de consciência-silêncio. O Void, na 
Sahaja Yoga, corresponde ao estado de confusão habitual do ser 
humano (oceano de ilusão, Bhava Ságara), que só poderá ser 
purificado pela passagem ascensional da Kundalini, através 
dessa parte do corpo. A Kundalini, alojada no osso triangular 
do plexo pélvico, ali aguarda o momento sacrossanto de seu 
despertar. O Atman (o Si, o espírito) espera que a Kundalini 
venha a se unir a ele, trazendo com ela nossa consciência. A essa 
união redentora corresponde a identificação de nossa atenção 
com aquilo que é divino em nós. Shri Shankaracharya (em seu 
texto Vivekachundamani) foi o intérprete dessa canção: 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
59 
“O Si supremo é sempre da mesma natureza do 
conhecimento eterno, indivisível, o Um sem um segundo 
número, a testemunha do intelecto e do resto, distinto do 
grosseiro e do sutil, o significado subjacente ao termo e à 
idéia do ‘Eu’, a essência da bem-aventurança interior, 
eterna.” 
 
O momento da Auto-realização compreende a ascensão 
da Kundalini no interior do Sushumna, que atravessa a região 
do Void (vazio), para, finalmente, penetrar o topo do crânio 
(Brahmarandhra), e a conexão se faz com a energiadivina 
onipresente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O ADVENTO 
 
60 
 
 
FIGURA 4. O MICROCOSMO HUMANO 
 
CHAKRAS e Osso 
Sacro 
LOCAL NO CORPO MANIFESTAÇÃO NO 
NÍVEL FÍSICO 
(DESCRIÇÃO 
GERAL) 
7. SAHASRARA 
CHAKRA 
 (1.000 PÉTALAS) 
ÁREA LÍMBICA DO 
CÉREBRO 
VIBRAÇÕES 
 
6. AGNYA CHAKRA 
 (2 PÉTALAS) 
CRUZAMENTO DO 
QUIASMA ÓTICO 
GLÂNDULAS PINEAL 
E PITUITÁRIA 
5. VISHUDDHI 
CHAKRA 
 (16 PÉTALAS) 
PLEXO CERVICAL PESCOÇO, BRAÇOS, 
BOCA, NARIZ, OLHOS 
OUVIDOS 
4. ANAHATA OU 
 RIDDHAYA 
 (12 PÉTALAS) 
PLEXO CARDÍACO CORAÇÃO, PULMÕES 
3. NABHI OU 
 MANIPURA CHAKRA 
 (10 PÉTALAS) 
PLEXO SOLAR FÍGADO (PARTE), 
ESTÔMAGO 
 
2. SWADISHTHANA 
CHAKRA 
 (6 PÉTALAS) 
PLEXO AÓRTICO SEXO (PARTE), RINS, 
ELIMINAÇÃO, PARTE 
DO FÍGADO, BAÇO, 
PÂNCREAS, PARTE 
INFERIOR DO 
ABDOME 
1. MULADHARA 
CHAKRA 
 (4 PÉTALAS) 
PLEXO PÉLVICO SEXO, ELIMINAÇÃO 
MULADHAR (OSSO SACRO - 
CÓCCIX) 
SISTEMA NERVOSO 
PARASSIMPÁTICO 
(ADORMECIDO) 
 
Shri Mataji comenta: “A partir do momento da Auto-
realização, nos tornamos integrados. Deus é integração. Ele os 
integrará de tal maneira, que vocês não mais poderão se 
desintegrar correndo atrás de prazeres fúteis, com o coração de 
um lado, e o cérebro de outro”. Tornamo-nos unificados com a 
energia cósmica divina, a qual podemos perceber agora em 
nosso sistema nervoso, por intermédio das vibrações frescas. 
Estamos agora integrados com nosso interior e dali podemos 
sentir todos os Chakras. Repetidas vezes, eu mesmo percebi o 
O ADVENTO 
 
62 
despertar de minha Kundalini, como um frescor prazeroso, na 
base de minha coluna vertebral. Outros Sahaja Yogis tiveram 
experiências completamente diferentes. O doutor Chavan, 
professor da Faculdade de Agricultura de Rahuri, ouviu o som 
da Kundalini perfurando a membrana da fontanela. Um outro se 
recorda de uma sensação de frescor no alto de seu crânio, 
inundando de felicidade toda a extensão de sua coluna vertebral. 
Um outro ainda, tendo fechado seus olhos, viu movimentos 
elípticos de luz partirem de seu Agnya Chakra, que conferiram 
uma claridade e uma leveza extremas ao interior de sua cabeça. 
Todos esses eventos diferentes fazem parte de uma só história 
descrita por Juan Mascaro, na ‘Introdução’ de seu livro “The 
Bhagavad Gita” (ed. Penguin,1978): 
“Se lermos as escrituras e os livros de sabedoria do mundo, 
se considerarmos as inúmeras experiências espirituais 
consignadas nos textos antigos, encontraremos uma única 
fé espiritual, e essa fé se baseia numa visão da Verdade. 
Certamente, não é a verdade das leis da natureza 
gradualmente descobertas pelo espírito humano, porém a 
Verdade de nosso Ser.” 
 
Muitos Sahaja Yogis guardam uma lembrança precisa do 
momento em que foram apresentados a si mesmos. Eleanore, 
uma jovem senhora diplomata, sentiu sua Kundalini dançar de 
alegria, em sua coluna vertebral, ao esperar Shri Mataji no 
aeroporto. Christine, estudante americana que vive em Londres, 
relata: 
“Comecei a me sentir cheia de alegria alguns dias antes de 
encontrar Shri Mataji. Eu estava - não sei como dizê-lo - 
muito feliz simplesmente pelo fato de existir. Eu a vi, pela 
primeira vez, num apartamento de uma amiga. Quando ela 
entrou, senti um formigamento nas palmas de minhas mãos 
e depois uma brisa fresca. Senti em paz completa comigo 
mesma, completamente presente. Foi um segundo 
nascimento. Tudo era novo.” 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
63 
Rajbai J. Modi, um dos primeiros Sahaja Yogis, narra 
sua vivência: 
“Minha experiência pessoal do despertar da Kundalini 
aconteceu na primeira semana de janeiro de 1972. Shri 
Mataji, durante alguns segundos, tocou meus seis plexos, e 
uma força poderosa começou a saltar de plexo em plexo, 
para finalmente atingir o cérebro. Durante esse período de 
tempo, entrei cada vez mais profundamente em Dhyana 
(meditação, contemplação) e experimentava sensações 
agradáveis em meu corpo inteiro. Não podia abrir meus 
olhos. Meu corpo estava mais quente. Parecia que eu 
estava, ao mesmo tempo, anestesiado e completamente 
consciente. A meditação se prolongava. Mais tarde, tive 
uma outra experiência de Dhyana ainda mais interessante e 
mais profunda. No dia 27 de janeiro de 1972, em Bordi, um 
grupo permaneceu com Shri Mataji após o programa 
público. Ela me disse para fechar os olhos e tocou meu 
Sahasrara. Após alguns segundos, exclamou: “Realizado!” 
Ela me pediu que começasse a pensar, coisa que não pude 
fazer nem por um breve instante. Depois, fui dormir. Na 
manhã seguinte, um velho estava com uma leve dor no 
coração e tentei lhe dar algumas vibrações. Para minha 
grande surpresa, ele observou: ‘sinto-me bem melhor’. Foi 
assim que tudo começou e isso continuou desde então. 
 
 Logo após minha Auto-realização, experimentei a sensação 
de um fluxo de energia. Shri Mataji pediu-me que desse 
vibrações a uma pessoa que havia vindo para receber sua 
Auto-realização. As vibrações que recebi dessa pessoa 
eram quentes. Shri Mataji disse-nos que havia uma fraca 
resistência para o despertar de sua Kundalini; as vibrações 
tornaram-se frias. Shri Mataji comentou que o poder corria 
agora pelo sistema nervoso simpático (Ida e Pingala 
Nadis) e o refrescava. Subitamente, sinto apenas as 
vibrações em uma das mãos. Shri Mataji fecha seus olhos, 
e, com seu poder de determinação (Sankalpa), equilibra o 
O ADVENTO 
 
64 
fluxo de vibrações. Abriu os olhos e indagou se eu estava 
sentindo o fluxo de vibrações em ambas as mãos. No 
momento em que disse ‘sim’, perguntou à outra pessoa se 
ela estava sem pensamentos. Esta concordou com um sinal 
de cabeça e disse que não podia abrir os olhos. Shri Mataji 
pediu-lhe que esperasse um pouco. Depois de dois minutos 
essa pessoa abriu os olhos. Seus olhos brilhavam com um 
fulgor diferente. Ela me disse que havia sentido um 
perfume muito forte de rosas e que havia visto uma luz 
muito forte. Quando lhe perguntei se estava sentindo as 
vibrações,disse que sim. Posso me lembrar de muitos 
outros casos semelhantes a esse.” 
 
A consciência coletiva é indissociável da consciência 
perceptiva vibratória. Em minha casa em Katmandu, Nepal, 
onde trabalhei para as Nações Unidas, podia, durante a 
meditação, saber o estado dos Chakras de qualquer conhecido 
meu em Genebra. A comunhão dos santos, o Sangha 
(comunidade) dos budistas se materializou numa experiência 
viva, pois, quando muitos seres realizados se juntam, a 
meditação de cada um se aprofunda, a consciência se intensifica 
e a energia circula com mais potência. Cristo não disse que 
estaria presente entre as pessoas que se reunissem em Seu 
nome? E Fausto de Goethe exclama: “Como tudo se agrega 
para formar um todo, como cada elemento age e vive no 
outro!” 
Quando vivemos a experiência da consciência coletiva, 
damo-nos conta de que o Ser reveste-se de uma extensão que 
ultrapassa os limites de nossa individualidade. Isso porque, no 
momento em que realizamos a experiência do Si, vivenciamos a 
experiência de sua ubiqüidade. Por exemplo, todo Sahaja Yogi 
dispõe de um poder de emitir a força vibratória divina 
(Chaitanya), por meio de seu corpo e de suas mãos. Ele dá, 
recebe e propaga as vibrações, pelo simples fato de manter sua 
atenção centrada em seu Sushumna Nadi. Sua dimensão 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
65 
espiritual fica ligada, automaticamente, ao meio ambiente. 
Ademais, ele pode fazer um uso consciente de suas mãos para 
transmitir as vibrações aos outros e para fazer fluir a energia do 
Si, de maneira a desbloquear os Chakras de alguém que deseje 
isso, bem como despertar sua Kundalini. A figura cinco 
descreve em detalhes como nossa mão é conectada a nosso 
sistema psicossomático. 
 
 
 
FIGURA 5. AS TERMINAÇÕES NERVOSAS DOS 
CHAKRAS NAS MÃOS 
 
Dessa forma, cada um dos dedos ou cada parte da mão 
emite e recebe a vibração diferenciada do Chakracorrespondente. Esse procedimento somente é ativado após a 
Auto-realização e é percebido como sensações físicas no sistema 
nervoso. Em outras palavras, se algo não está bem física, moral 
ou espiritualmente, a pessoa torna-se imediatamente consciente, 
O ADVENTO 
 
66 
no plano físico. Por exemplo, ao perceber uma sensação de 
queimação no polegar esquerdo (correspondente ao 
Swadishthana Chakra esquerdo) ou uma leve pressão na 
garganta (correspondente ao Vishuddhi Chakra). A ciência da 
Sahaja Yoga existe para decodificar essas mensagens. Todavia, 
é suficiente indicar aqui os desdobramentos fantásticos de tudo 
isso. Temos a capacidade de discernir, espontaneamente, o bem 
do mal, em nosso sistema nervoso central. 
Os filósofos gregos afirmavam e os tomistas 
confirmaram que a equação da realidade deveria ser lida assim: 
SER = UM = BONDADE = BELEZA = VERDADE. Podemos 
dizer que o Si é o modo pelo qual o Ser se estabelece em cada 
um de nós. Após a Realização do Si (Atman), passamos a 
conhecer o Ser Cósmico (Paramatman). Com base nas 
vibrações, podemos ver que aquilo que vem de Deus tem 
vibrações frescas (positivas). Essas vibrações nos permitem 
vivenciar as qualidades do Divino, o que quer dizer que 
podemos senti-las e usufruir delas. Inversamente, as vibrações 
nas quais inexiste essa qualidade de frescor e que são registradas 
sob a forma de calor ou de peso nas mãos (portanto vibrações 
‘negativas’, segundo a terminologia da Sahaja Yoga) não 
contribuem para a manifestação do Divino e até se opõem a ele. 
Podemos assim evitar essas vibrações negativas. 
Shri Mataji explicava-nos sempre, detalhadamente, o que 
acontecia: quando coloco um dedo no fogo, meu sistema 
nervoso me diz que a sensação que sinto é muito desagradável, e 
puxo meu dedo para fora, sem que haja necessidade de nenhuma 
teoria sofisticada para provar que o fogo queima. Os Sahaja 
Yogis desenvolvem esse tipo de ação espontânea reflexa, em 
relação a todas as espécies de ocorrências ao redor deles 
(emocionais, mentais ou espirituais), porque seu sistema nervoso 
autônomo (simpático e parassimpático) e seu sistema nervoso 
central foram integrados pelo despertar da Kundalini com a 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
67 
consciência espiritual do Si, a qual conhece a bondade e a 
verdade de todas as coisas. 
“Aquele que conhece, medita e compreende essa verdade do 
Si, descobre que tudo que existe - a energia primordial, o éter, o 
fogo, a água e todos os outros elementos, o espírito, a vontade, a 
linguagem, os hinos sagrados e as escrituras - de fato, o universo 
inteiro, flui dele.” 
Chandogya Upanishad 
 
A experiência do Si é a experiência do Todo - essas 
palavras de ouro teriam agradado a Spinoza! Elas corroboram a 
dimensão das informações sensoriais sentidas pelos Sahaja 
Yogis, os quais estão conectados na consciência perceptiva 
vibratória do Si realizado. Assim sendo, os Sahaja Yogis têm à 
sua disposição a chave da consciência, pressentida por muitos 
filósofos, que está no âmago da realidade espiritual: 
“E assim, reconheço muito claramente que a certeza e a 
verdade de toda a ciência dependem apenas do 
conhecimento do verdadeiro Deus; de modo que antes de 
conhecê-Lo, não podia conhecer nada de modo perfeito.” 
 
Essa frase de Descartes, constante de seu livro 
“Meditações metafísicas”, um pouco abstrata, encontra sua 
concretude, sua justificativa e todo o seu sentido, na abertura do 
Sahasrara, a qual nos revela um novo mundo cognitivo. O 
Atman (o Si) se funde no Paramatman (Deus) que, por sua vez, 
banha com sua luz o universo inteiro. 
Como é profundamente estranho encontrar, numa forma 
viva e tangível, as palavras lidas em outros tempos, as projeções 
de nossas esperanças mais insensatas. Descobrir até que ponto 
nossos sonhos eram premonitórios, apalpar suas faces à medida 
que nascem para a realidade. Como, por exemplo, numa outra 
leitura que fiz do “Siddharta” de Herman Hesse: 
“Pouco a pouco, desenvolvia-se e crescia em Siddharta a 
noção exata do que é a Sabedoria propriamente dita, que 
O ADVENTO 
 
68 
havia sido o objetivo de suas longas buscas.Era nada mais, 
nada menos que uma predisposição da alma, uma 
capacidade, uma arte misteriosa que consistia em se 
identificar, em cada instante de sua vida, com a idéia da 
Unidade, em sentir essa Unidade em todos os lugares, de 
penetrar nela como o ar que se respira penetra nos 
pulmões.” 
 
Passei a ter as mais diferentes vivências. Sentei-me no 
alto de uma montanha, no Nepal, defronte ao Evereste, 
recitando a “Celebração da grande deusa” (Devi Mahatmyam); 
andei de cima para baixo na estação de metrô do Saint James’ 
Park, após um programa público da Sahaja Yoga no Caxton 
Hall, em Londres; brinquei no chão com uma criança realizada; é 
a mesma transparência do Si que me visita, a sensação de 
mergulhar o alto de meu crânio numa palpitação de energia 
benéfica. É assim que, gradativa e suavemente, absorvemos a 
Unidade e não, como muitos haviam pensado, pelas alucinações 
psicodélicas que mostravam um caleidoscópio de imagens do 
presente e do passado da raça humana diante de nosso terceiro 
olho. Para dizer a verdade, as visões e aparições, 
especificamente ligadas ao uso de drogas, correspondem a uma 
disfunção do Agnya Chakra. 
É preciso ressaltar aqui que a consciência coletiva não se 
revela, exclusivamente, por intermédio das informações 
sensoriais da consciência perceptiva vibratória, mas por um 
aumento gradual do nível da própria consciência. No que 
concerne à nossa afetividade, ela se exprime no amor. Um dos 
sonhos mais freqüentes dos seres humanos consiste em 
descobrir, novamente, o fio comum de sua unicidade, uma 
unidade que nunca foram capazes de esquecer, seja qual for a 
argúcia que usem para dividi-la em partes e subdividi-la em 
grupos. Pode-se ler claramente a respeito dessa aspiração, nas 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
69 
belas palavras escritas por C. F. Ramuz sobre Igor Stravinski, 
em seu livro “Souvenirs sur I. Stravinski” (ed. Mermod, 1954): 
“Quando você falava sobre seu país, e eu falava acerca do 
meu, vagávamos em pensamento através do seu, ou 
perambulávamos fisicamente através do meu; que eu possa 
chegar a dizer que, muitas vezes, me parecia que esse vazio 
não mais existia e não éramos mais duas pessoas, e 
também não havia dois países. Subjacente aos dois países, 
subjacente a nós dois, talvez exista um Único País (o qual 
perdemos, encontramos novamente, perdemos outra vez, 
depois o descobrimos de novo num breve instante), onde 
temos um só Pai e uma só Mãe. Onde, por um momento, 
vislumbramos uma grande Fraternidade de todos os 
homens. Não servem para isso todas as formas de arte, ou 
seja, tentativas de recuperar isso novamente e para nada 
mais? Não é esse o objetivo de todas as palavras que 
escrevemos, as telas que pintamos, as estátuas que 
esculpimos em pedra ou em bronze - para isso e nada 
mais? Alcançamos o homem antes de sua maldição, antes 
da grande bifurcação na qual cada desdobramento 
implicava uma nova bifurcação, e esta uma outra, e assim 
até o infinito, de modo que para chegar ao fim, cada um de 
nós está completamente só em seu pequeno trecho do 
caminho, onde cada um sente que nada tem sucesso, nada 
gera frutos, nada é completo, nenhuma música é perfeita, 
nenhuma pintura é perfeita...até que nesses breves e raros 
momentos, numa espécie de reversão, a bendição intervém, 
e há assim colaboração com Alguém, a chance de retornar, 
essa redescoberta do Si...!!!” 
 
Aqueles que trilharam o caminho da solidão, aqueles que 
andaram às cegas em busca da restauração da Unidade, aqueles 
que não desistiram desse sonho maravilhoso, descobrem hoje, na 
Sahaja Yoga, que o fio que religa todas as pérolas do universo 
passa também por eles. E que ao retomarem esse fio, eles 
poderão viajar pelo interior de todas as coisas. O Si é o 
O ADVENTO70 
fundamento da verdadeira fraternidade humana, porque é apenas 
no Si que os seres humanos são iguais. Quando as vibrações são 
percebidas pelo Chakra do Coração (Anahata Chakra), essa 
fraternidade (fraternidade de buscadores, dos Sahaja Yogis) é 
vivenciada numa maravilhosa espontaneidade. Depois de me 
conectar novamente a esse fio, participei de reuniões 
maravilhosas. 
Indubitavelmente, as conseqüências da descoberta da 
Sahaja Yoga são vertiginosas, e levei alguns anos para avaliar 
sua amplitude. No entanto, por causa da repetição das 
experiências, os Sahaja Yogis desenvolveram, rapidamente, sua 
confiança nessa nova ferramenta cognitiva. Eles se convenceram 
de que podiam confiar nas informações vibratórias. Os 
comportamentos artificiais são percebidos e as máscaras sociais 
caem. Todas as espécies de falsidade são detectadas por 
sensações imediatas. Daí em diante, todos tendem a ter uma 
atitude muito mais natural e espontânea. Efetivamente, tudo tem 
um determinado coeficiente vibratório, não só as pessoas, mas 
também os lugares, os objetos e as matérias orgânica e 
inorgânica. Por exemplo, existem montanhas realmente 
sagradas. A famosa Matterhorn, na Suíça, tem um alto 
coeficiente vibratório. O mesmo acontece com o Ayer’s Rock, 
no centro da Austrália, onde os Sahaja Yogis realizaram um 
grande festival em 1988. 
A face oculta do universo, sua densidade espiritual, se 
abre para nós e é fantasticamente simples como um jogo infantil. 
O menino Tony, um Sahaja Yogi que reside em Londres, 
meditava em seu quarto diante de uma foto de Shri Mataji. 
Outras crianças que o estavam visitando entraram em seu quarto 
e lhe perguntaram o que é que fazia. Respondeu: “Estou 
absorvendo o poder dessa senhora. Querem experimentar?” O 
pequeno grupo sentou-se e começou a imitá-lo, com as mãos 
estendidas para a foto. Um pouco depois, uma menina disse: 
“Meu Deus, há muito vento aqui!” Após alguns instantes de 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
71 
reflexão, disse: “O que é que você faz para parar a corrente de 
ar?” As crianças têm a oportunidade de sentir, antes de tentar 
julgar ou analisar. Essa oportunidade feliz é que permitiu ao 
Pequeno Príncipe conhecer sua rosa e é ela que nos ajuda a 
promover a união entre nós e o Si. Shri Mataji jamais se cansa 
de enfatizar: 
“Terei de escrever isso com letras de ouro? Com base no 
pensamento, vocês não poderão corrigir seus Chakras. 
Pelo pensamento não poderão saber como é que isso 
funciona. Por meio do pensamento, não poderão alcançar 
seu coração. Vocês pensam muito e falam muito, porque 
estão nas garras do senhor ego. Pensam por intermédio de 
seu ego. Contudo, quando fazem isso, perdem seu 
autodomínio. Existe uma barreira entre o Si e vocês. 
Quando o Si não pode manifestar-se, sua espontaneidade 
fica reprimida e sua criatividade se deteriora.” 
 
Flávia, uma jovem de Roma, recebeu sua Auto-
realização, em 21 de novembro de 1981, numa pequena livraria 
no centro de Roma, onde Shri Mataji estava dando a Realização 
para centenas de pessoas. Alguns dias depois, quando andava 
pela área da Basílica de Santa Maria Maior, ela sentiu sua 
Kundalini ascender em sua espinha, e todo o seu corpo foi 
inundado por uma sensação de bem-estar. Intrigada, estendeu 
suas mãos em direção à grande igreja e sentiu um jorro de 
vibrações. Ela entrou na Basílica, e seguindo o fluxo de 
vibrações andou até a nave num lugar muito específico, diante 
de um oratório reservado à direita. Nesse oratório, as vibrações 
estavam muito fortes. Um pouco confusa, porém contente, 
Flávia permaneceu ali durante algum tempo, sem se mover, 
absorvida na graça de Chaitanya. Um mês depois, disse a ela 
que, um dia antes de sua experiência incomum, Shri Mataji havia 
visitado a Basílica, com um pequeno grupo de Sahaja Yogis, e 
O ADVENTO 
 
72 
havia parado exatamente naquele oratório, permanecendo ali por 
um longo tempo. 
Não é fácil descrever como é a vida depois do segundo 
nascimento. Trata-se, simplesmente, de um mundo mais real que 
aquele tido como ‘real’ pelas pessoas, um mundo no qual não 
nos satisfazemos em viver com 20% a 30% de nosso potencial, e 
que se impõe com um poder de evidência indiscutível. Os 
sentimentos de frustração, de desespero, de aborrecimentos, 
fundiram-se com nossa velha pele. As circunstâncias externas 
não se modificaram, porém, em vez de sofrermos com as 
tensões, passamos a sentir mais alegria, uma alegria sem motivo, 
sem pretexto, uma alegria que é um estado de consciência. Esse 
estado não é um pensamento, uma emoção, ou uma sensação, 
porém uma combinação de tudo isso e, simultaneamente, uma 
abertura para algo mais que é o silêncio. Tudo isso se passa 
interiormente. Esse mundo novo, talvez o mais antigo, exprime 
uma qualidade de transparência e de frescor, de pureza e de 
inocência, de espontaneidade e de amor. São esses os frutos da 
árvore da vida que passamos a degustar em nós mesmos? De 
onde vêm esses movimentos do sagrado, essa dimensão de 
beleza e de excelência que se afirmam como nossa verdade e 
como nossa própria existência? Esse mundo, eu o havia perdido. 
Sei disso. Eis agora que o recupero, novamente, e reconheço as 
evidências dele nas profundezas que eram incompreensíveis para 
mim. Platão disse: “Só nos lembramos daquilo que 
conhecemos”. Com minha consciência iluminada pela graça de 
Shri Mataji, o Si lembrou-se de sua própria divindade. Aprendi, 
espontaneamente, o nome de Shri Mataji, que é MOTHER, 
MÃE. 
Talvez me perguntem: ‘você ainda vive nesse estado?’ 
Não vivo mais nele, porém ele está aberto para mim, posso me 
unir a ele todas as vezes que minha Kundalini ascende até o 
Sahasrara. Falando desse lado do estado iluminado de 
consciência após a Auto-realização, notei vários domínios 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
73 
cósmicos com base em experimentos ‘parapsicológicos’, nos 
quais pude visualizar diferentes formas de entidades, e até 
mesmo de demônios que atacam nossa consciência e nossos 
Chakras. Não me prendo a esse ponto, porque o essencial é a 
identificação com o Si. Diz Shri Mataji que “é preciso que se 
tornem unificados com o Si. Sem conhecer o Si, não poderão 
obter o conhecimento de Deus”. Sem que a Kundalini chegue 
ao Sahasrara, o Si não pode ser conhecido e sem ser convidada 
a se elevar pelas vibrações, a Kundalini permanece adormecida. 
Li com novos olhos essas linhas que brilham hoje para 
mim com total clareza: 
“Jesus respondeu-lhe: em verdade, em verdade, te digo, que 
não pode ver o reino de Deus, senão aquele que nascer novamente. 
Nicodemo lhe perguntou: como pode um homem nascer, sendo 
velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e 
nascer outra vez? Jesus respondeu-lhe: em verdade, em verdade te 
digo, que quem não renascer da água, e do Espírito Santo, não pode 
entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; e o que 
é nascido do espírito, é espírito. Não te maravilhes se te dizer que é 
preciso que nasças outra vez do alto. O vento sopra onde ele quer, e 
ouves sua voz, mas não sabes de onde ele vem nem para onde vai. 
Assim é todo aquele que é nascido do espírito. Nicodemo perguntou: 
como é que se pode fazer isso?“ 
João, 3, 3 
 
Como é que se pode fazer isso? Não sabia nada a 
respeito disso antes de sentir a brisa fresca das vibrações, antes 
de sentir a Kundalini subir à minha cabeça. E não coloquem 
suas questões para os sacerdotes que, durante quase dois mil 
anos, esconderam, sua total ignorância sobre esses temas, atrás 
de suas tautologias teológicas. 
A Sahaja Yoga, a Yoga da espontaneidade, abre uma 
nova dimensão à consciência humana, que abarca o reino de 
Deus, a Auto-realização proclamada nas escrituras, o Juízo Final 
O ADVENTO 
 
74 
e a Revelação. Torna-se agora possível concretizar os 
ensinamentos dos avatares (encarnações divinas), com base na 
pura realidade da experiência:“Interrogado pelos Fariseus sobre o momento em que 
chegaria o reino de Deus, lhes respondeu: a vinda do reino de Deus 
não virá com sinal algum exterior nem dirão: ei-lo aqui, ou ei-lo 
acolá. Porque saibam disso, o reino de Deus está dentro de vocês.” 
Lucas 17.20 
 
Quais as questões que serão colocadas dessa vez pelos 
fariseus (turba tenaz, raça sempre renovada), assim como pelos 
padres e aiatolás? A mesa está posta para vocês e a festa os 
espera. Venham e regalem-se, pois a ceia está pronta. Não 
recusem o convite dessa vez. Não discutam o cardápio. Sentem-
se à mesa e comam. Vocês se tornarão os filhos do Altíssimo, a 
não ser que sua fome os traia. Ó, mestres e professores que 
explicaram tão pedantemente por que estamos loucos por buscar 
o reino de Deus. Quantos de vocês têm fome? Quantos estão tão 
sobrecarregados de conceitos que sopitam como a fumaça das 
chaminés? Quantos vão dormir acalentados por teorias e 
definições? Pode-se imaginar a reação dos altos sacerdotes, 
protestando: “Mas afinal quem é essa Mataji?”, fazendo pose, 
prontos para rasgarem suas vestes e denunciar a blasfêmia. No 
entanto, Jesus disse a Verdade, enquanto Caifás proferiu apenas 
blasfêmias. 
Não é por acaso que a expressão sânscrita para a Idade 
de Ouro é Satya Yuga, a Era da Verdade ou da Revelação. 
Joachim de Flore (1145-1202), um monge cisterciense e de 
algum modo profeta, predisse que, após a Era do Pai (Jeová - 
Krishna) e a Era do Filho (Jesus Cristo), viria a terceira Era do 
conhecimento e da integração, a Era do Espírito Santo, a Era da 
Mãe. O ano de 1260 seria o ano do início dessa Nova Era e a 
manifestação do reino de Deus sobre a Terra. Ele parece ter tido 
alguns problemas na interpretação do calendário divino, contudo 
ENCONTRO COM A SAHAJA YOGA 
 
75 
a marca da mudança de Peixes para Aquário, retomada pelos 
grandes astrólogos, merece ser examinada. 
Em 1970, na Índia, Shri Mataji Nirmala Devi descobriu 
como fazer do despertar da Kundalini um fenômeno de massa. 
Ela oferece assim à raça humana a possibilidade de desenvolver 
essa nova categoria de percepção que permite cruzar o limite 
entre o finito e o infinito. É, efetivamente, a Idade de Ouro que 
se abre para nós, quando nosso mundo é ameaçado de sucumbir 
em fragmentos no caos já anunciado pela sociedade 
contemporânea. As peças do grande quebra-cabeça estão se 
colocando em seus lugares, as escrituras estão sendo cumpridas, 
a busca é coroada com a graça daquela figura solitária com 
poderes ilimitados. 
Antes de conhecer Shri Mataji, tinha todas as espécies de 
idéias preconcebidas a respeito da maneira pela qual uma 
encarnação divina deveria se manifestar. Dos mórmons aos rosa-
cruzes, cada grupo desenvolveu sua própria lista de requisitos e 
um manual de como as coisas devem ocorrer. Porém todo esse 
arcabouço desmoronou diante da rara inocência de Shri Mataji e 
a simplicidade de sua natureza, diante da maneira direta e da 
bondade maternal com as quais ela me recebeu. Mesmo após 
alguns anos, o ambiente que a circundava era tão tranqüilo, que 
eu, constantemente, me esquecia que era venerada, na Índia, 
como uma encarnação divina e que, na verdade, essa é a 
percepção que estabelece a mais autêntica ligação entre ela e 
nós. Não obstante, a genuína natureza de minhas próprias 
experiências reunidas me lembrava disso. Existem milhares de 
pessoas que têm reunido provas incontestáveis da autenticidade 
de sua dimensão espiritual. Não apenas temos sido capazes de 
realizar a nova dimensão de consciência em nós mesmos, 
apreendendo todos os conhecimentos e as técnicas. Recebemos, 
ainda, por acréscimo, o poder de transmitir tudo isso aos outros. 
Um Sahaja Yogi tem o poder de despertar a Kundalini em 
outras pessoas! Somente aqueles que possuem e dominam 
O ADVENTO 
 
76 
perfeitamente esses poderes podem passá-los, com muita 
facilidade, e as escrituras antigas tal como o Devi Bhagavat 
Purana descreve com clareza o tipo de pessoa que é capaz de 
despertar a Kundalini por meio de um simples olhar. Quanto a 
nós, com base naquilo que vivemos e verificamos e tendo 
saltado para fora da caverna de nossas opiniões, temos o claro 
conhecimento e a prova de que Shri Mataji Nirmala Devi tem a 
capacidade de despertar nosso próprio poder espiritual. Com 
efeito, pela leitura dos próximos capítulos que irão introduzi-los 
numa síntese da Sahaja Yoga, começarão a indagar sobre a 
natureza daquela que, no limiar dos dois mundos, assegura uma 
nova dimensão de consciência para toda a humanidade. Isso 
porque o despertar da Kundalini expressa o desdobramento de 
um novo plano evolutivo, há muito esperado por nós. 
 
 
 
LIVRO III 
 
REVELAÇÃO 
 
 
 
 
 
“A fonte secreta de tua alma deve jorrar e 
correr murmurando para o mar; 
E o tesouro de tuas profundezas infinitas 
quer ser revelado a teus olhos. 
Mas que não haja nenhuma balança 
para pesar o teu tesouro desconhecido! 
E não busques as profundezas 
de teu conhecimento com nenhuma vara ou sonda.” 
 
“Se pudesses apenas vislumbrar as marés de teu alento, 
Não quererias ver nada mais. 
E se pudesses ouvir o sussurro de teu sonho, 
Não quererias ouvir nenhum outro som. 
Porém, não podes ver nem podes ouvir, 
E tudo fica bem. 
O véu que cobre os teus olhos será levantado, 
Pelas mesmas mãos que o teceram.” 
Trechos de “O profeta” de Khalil Gibran 
 
“Naquele dia (do Juízo Final), colocaremos 
Um selo em suas bocas. 
Mas suas mãos falarão.” 
ALCORÃO 
 
É Sahaja (espontâneo) aquilo que transforma a semente 
em árvore, a flor em fruto, bem como aquilo que faz o vento 
soprar e os pássaros voarem. Aquilo que ilumina o sorriso da 
mãe e a resposta da criança, isso é Sahaja. Sua curiosidade que 
REVELAÇÃO 
 
79 
desperta também é Sahaja. A manifestação espontânea da 
grande força de vida primordial (Prakriti) é também Sahaja. 
‘SAHA’ significa com, ‘JA’ quer dizer nascido e Yoga 
significa união. A Sahaja Yoga admite que cada indivíduo 
nasceu com o potencial de se unificar ao Divino (ao Infinito, à 
realidade pura) e que esse potencial é efetivado pela Sahaja 
Yoga, uma técnica de redenção espontânea e sem esforço. A 
palavra Yoga também significa técnica ou habilidade. 
A contradição entre a espontaneidade e a técnica é 
apenas aparente. Como já dissemos anteriormente, a 
transformação acontece, espontaneamente, na presença da 
encarnação ou de alguém que tenha algum vínculo com ela, e a 
técnica permite estabilizar seus efeitos. Shri Mataji emite as 
vibrações de Chaitanya (força vital divina) as quais, captadas 
pelas antenas de nossos dedos, penetram nos canais sutis, a fim 
de transmitir à Kundalini o convite para seu despertar. A 
Kundalini ascende quando todas as condições para seu 
despertar são satisfeitas. Ela sobe pela coluna vertebral, alcança 
o terceiro olho (Agnya Chakra) sem provocar a menor dor; a 
pessoa se sente completamente calma, silenciosa e consciente. 
Quando ela alcança o último centro (Sahasrara) e atravessa a 
membrana da fontanela, a pessoa começa a sentir a brisa fresca 
das vibrações. Os fatos são esses. É preciso colocá-los em sua 
perspectiva histórica. Shri Mataji fala a respeito disso: “Essas 
vibrações do amor divino, com as quais rego a semente que é 
sua Kundalini constituem um direito inalienável seu, porque 
elas tornam possível o ponto culminante da evolução humana, 
conforme foi prometido pelas Escrituras”. As etapas anteriores 
da evolução, do carbono tetravalente ao homo sapiens, 
ocorreram sem que os átomos, os organismos primitivos ou os 
mamíferos que se desenvolviam, estivessem conscientes disso. 
Todavia, “a partir do homo sapiens”, diz Shri Mataji, “a 
evolução se deu de um modo humano, isto é, com consciência. 
Vocês serão conscientes da manifestação do processo evolutivo. 
O ADVENTO 
 
80 
O ovo não sabe como é que ele se transforma em pássaro, 
porém os sereshumanos serão capazes de sentir e de 
compreender sua evolução como Sahaja Yogis.” 
A fim de compreender o modo pelo qual os seres 
humanos funcionam, vejamos isso no domínio da investigação 
científica. Toda grande descoberta começa com uma 
comunicação vinda do Inconsciente para um determinado 
pesquisador, o qual, a partir daquele momento, se dedica à sua 
articulação. Para que uma hipótese seja considerada científica, 
ela precisa ser testada. Os diferentes testes feitos para validar, 
cientificamente, a hipótese precisam apresentar resultados 
consistentes. A descoberta é publicada a fim de beneficiar toda a 
humanidade. Eventualmente, a descoberta pode ser desenvolvida 
tecnologicamente e posta em uso. A Sahaja Yoga atua, 
exatamente, da mesma forma. 
É verdade, como o filósofo Karl Jaspers (em seu livro 
“Iniciação ao método filosófico”) observou, que a experiência da 
união mística não pode ser compartilhada. “Não são 
contestáveis as experiências de uma união mística com o 
Espírito (unio mystica). Todavia, essas experiências não podem 
ser comunicadas por aqueles que retornam ao mundo banal. A 
interpretação delas é variada e necessita de precaução. Isso 
porque aqueles que viveram essas experiências utilizam, para 
falar delas, um fluxo de imagens que somente eles podem 
compreender”. 
A experiência no domínio espiritual se torna comunicável 
através da manifestação da Sahaja Yoga. De fato, um Sahaja 
Yogi pode despertar a Kundalini de outrem. A intensidade da 
experiência vivida por um Sahaja Yogi não é mais um fator de 
isolamento social. C.G. Jung (em seu livro “A alma e a vida”) 
afirma que: “De fato, a experiência religiosa é absoluta. Ela é 
no sentido próprio indiscutível. Pode-se somente dizer que não 
se teve uma experiência desse tipo e o interlocutor responderá: 
‘sinto muito, porém a tive.’ E assim terminará a discussão”. 
REVELAÇÃO 
 
81 
É na Sahaja Yoga que a discussão começa, prelúdio, tão 
breve quanto possível, que antecede a comunicação da 
descoberta: “É imprescindível que cada pessoa tenha a 
experiência,” diz Shri Mataji. 
Lembremo-nos de que cada descoberta é preparada por 
uma sucessão de etapas e por um aprofundamento do 
conhecimento. Da mesma maneira, a efetiva entrada na 
consciência coletiva, que é o ápice na Sahaja Yoga, foi 
preparada pela atuação de forças divinas, pelas vidas e obras de 
grandes encarnações do passado, como, por exemplo, Krishna, 
Cristo e Maomé. 
À proporção que entramos na nova consciência e 
aplicamos as propriedades, bem como as leis recém-descobertas 
da energia espiritual, podemos, por exemplo, entrar em contato 
com seres excepcionais. Percebemos que essas personalidades 
divinas controlam os diversos Chakras, por intermédio dos quais 
orquestram as estruturas da matéria viva, os mecanismos 
hormonais e os desenvolvimentos psíquicos que constituem um 
ser humano funcional. Os seres divinos emitem freqüências 
vibratórias. A arte da Sahaja Yoga consiste em saber como 
receber essas vibrações. 
Por exemplo, quando o Chakra do umbigo (Manipura 
ou Nabhi), na coluna vertebral, está contraído, a Kundalini fica 
bloqueada em sua ascensão e, muitas vezes, pode-se ver a olho 
nu uma pulsação nas costas da pessoa, na altura correspondente 
a esse Chakra. Pode-se por meio de uma invocação vibratória 
(mantra), entrar em comunicação com a divindade específica que 
controla esse Chakra, ou seja, Shri Vishnu e sua esposa Shri 
Lakshmi. As vibrações indicam uma reação na altura do Chakra 
sobre o qual trabalhamos. Percebemos, por intermédio da 
consciência coletiva, a pressão do estômago diminuir; o 
obstáculo é removido porque Shri Vishnu, que controla o plexo 
solar, limpou a passagem da Kundalini. Dessa forma, a realidade 
de sua existência é comprovada. 
O ADVENTO 
 
82 
Essa consciência perceptiva vibratória nos foi dada pelo 
Inconsciente Universal. É chegada a hora de divulgar essa nova 
consciência, porque a beleza da Sahaja Yoga floresce apenas na 
Realização coletiva. Essa nova consciência explica, integra e 
completa as revelações dos grandes santos, mestres espirituais, 
profetas e encarnações do passado. É na verdade a 
consubstanciação do contrato espiritual entre Deus e sua 
criação, o Homem. 
Há vinte anos, Mircéa Eliade (em seu livro “Ioga, 
imortalidade e verdade”, 1969) escreveu: 
“É na identidade do júbilo, na experiência inefável da 
unidade, que se atinge o estado de SAHAJA, da existência 
não-condicionada, de pura espontaneidade. Todos esses 
termos, evidentemente, são de difícil tradução. Cada um 
deles tenta exprimir o estado paradoxal de não-dualidade 
absoluta (Advaya) que conduz ao Mahasukha, a Grande 
Beatitude.” 
 
Hoje, esse estado está acessível a toda a humanidade. 
 
 
 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO 
MICROCOSMO HUMANO 
 
 
CAPÍTULO III 
 
“Arjuna, sou o cosmo revelado e seu germe ocultado.” 
Shri Krishna 
 
“Nosso corpo é um palácio e é a Casa de Deus. Nela, Deus 
guarda a chama infinita.” 
Guru Nanak 
 
“Ver o Mundo num grão de areia, 
E um Céu em ramo que enflora, 
É ter o infinito na palma de tua mão 
E a eternidade numa hora.” 
Extraído dos “Augúrios da inocência” de William Blake 
 
“O homem, outrora, encerrava em seus membros poderosos 
todas as coisas do Céu e da Terra.” 
William Blake 
 
“Não vás ao jardim das flores! 
Ó amigo! Não vás lá! 
O jardim de flores está em teu corpo. 
Senta-te nas mil pétalas do lótus, 
e lá mira a beleza infinita.” 
Kabir 
 
Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e 
semelhança” (Gênese, 1.26). Sócrates foi verificar o que o 
Oráculo de Delfos sabia, exatamente, a respeito desse tema e o 
O ADVENTO 
 
84 
rei prussiano Frederico II, precursor do intelectual moderno, 
observava que “isso é realmente péssimo para Deus”. Cabe 
agora ao Sahaja Yogi, por sua vez, verificar, com um 
deslumbramento crescente, a correção e a precisão dessa famosa 
frase bíblica. 
A Auto-realização assinala a entrada num reino, cujas 
vastas províncias temos ainda de explorar. Shri Mataji, mediante 
inúmeras conversações, entrevistas e palestras, esboçou para nós 
os contornos desse reino e nos explicou as leis que o regem. 
Cada frase dita por ela, a respeito disso, foi confirmada por 
nossa consciência perceptiva vibratória, e por isso, não podemos 
mais duvidar de nossa boa sorte. Penetramos na fonte primordial 
e autêntica do conhecimento, quando ouvimos Shri Mataji falar. 
Todas as suas revelações podem ser confirmadas pelas 
vibrações. Aristóteles disse certa vez: “Aprendi tudo, 
interrogando a natureza, porquanto a natureza não sabe 
mentir”, e agora, na aurora da Era de Aquário, podemos 
substituir a palavra ‘natureza’ (usada por Aristóteles) pela 
palavra ‘vibrações’. 
O instrumento psicossomático e espiritual (Yantra), 
mediante o qual vivenciamos um segundo nascimento, e cujas 
técnicas (Tantra) aprendemos, gradativamente, não é uma 
estrutura aleatória e arbitrária, mas sim uma réplica, 
perfeitamente miniaturizada, do arquétipo primordial venerado 
de diferentes maneiras pela humanidade. Daí a expressão árabe: 
ALLAHU AKBAR = DEUS É O MAIOR! Deus é Uno, afirmam 
as grandes religiões, e o aspecto monolítico dessa unidade é 
simbolizado pelo Lingam de Shri Shiva ou pela pedra negra da 
Caaba de Meca. Não obstante, vista num microscópio, uma 
pedra fervilha com a atividade de trilhões de átomos. Quando 
dizemos que ‘Deus é energia’, devemos nos lembrar que a 
energia é conversível e suscetível de ser usada de múltiplas 
maneiras. A unidade não exclui a pluralidade. Um simples corpo 
humano contém trilhões de células, organizadas em inúmeros 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
85 
órgãos destinados a desempenhar numerosas e diferentes 
funções. O ser humano que habita o corpo físico é ainda mais 
complexo. Por exemplo, ele estabelece vários tipos de 
relacionamentos que podem ser, às vezes, com um amigo,com 
um pai, com um cônjuge. Da mesma maneira, a idéia da Unidade 
de Deus não significa que haja apenas um aspecto ou uma 
função. Shri Mataji enfatiza que: “Aquele que é Onipresente e 
Onisciente, que controla todas as coisas, que é, 
simultaneamente, mais ínfimo que o átomo e mais vasto que o 
cosmo, será, infinitamente, muito mais complexo que o homem 
em suas manifestações e, todavia, Ele permanece perfeitamente 
integrado... Quando o Um começa a manifestar seus múltiplos 
aspectos, a Criação é posta em movimento... O universo 
material, tal como o conhecemos, não é senão um momento 
dessa manifestação.” 
Poderíamos simbolizar isso pela trajetória de uma elipse, 
que se distancia de seu ponto inicial para ali retornar. 
Efetivamente, se mediante a criação, Deus se move do infinito 
(que é Ele próprio), em direção ao finito (que é sua criação), 
poder-se-ia conceber um movimento contrário, pelo qual o finito 
se moveria em direção ao infinito e o alcançaria. É isso que 
todas as religiões do mundo tentaram mostrar, visto que seus 
fundadores quiseram preparar o homem, a fim de que este 
participasse desse movimento e recebesse sua Auto-realização. 
Num determinado estágio da evolução, a criatura, tendo-se 
tornado consciente, proclama sua aspiração ao ‘grande retorno’. 
“Nosso coração está sem repouso porque não encontrou em 
vós, ó meu Deus, seu repouso”. Santo Agostinho, que 
acompanhou a longa caravana dos buscadores, fez eco com o 
Aranyaka Upanishad que diz: “Enviai-me ao mundo que 
desejo. Enviai-me àquele mundo. Enviai-me ao Todo”. 
Voltemos ao início. Deus é, naturalmente, perfeição de 
existência e de essência, além de outros atributos. Precisamos 
usar metáforas para mascarar nossa incapacidade de conceber a 
O ADVENTO 
 
86 
transição do indeterminado para o determinado, do não-
manifestado para o manifestado. Digamos que a realidade última 
(Deus, Parabrahma) passa pelas alternâncias de manifestação e 
de não-manifestação. A não-manifestação seguida de sua 
manifestação constitui um ciclo cósmico (Kalpa). Podemos 
dizer que Deus respira. Ele expira e, em conseqüência disso, o 
universo emerge Dele e surge assim a evolução. Ele inspira e o 
universo retorna a Ele e surge assim a involução. Assim sendo, 
inúmeros ciclos cósmicos precederam o atual ciclo em que nos 
encontramos. 
Mas, qual é a finalidade da criação? 
Podemos dizer que Deus, sob o aspecto de Testemunha 
Primordial do universo (Sadashiva), deseja deleitar-se com uma 
projeção, com um reflexo cada vez mais fiel a Si Mesmo em Sua 
criação. 
Hegel, em sua obra “A filosofia da história”, 
argumentava: “A História do mundo é exclusivamente 
preocupada em mostrar como o espírito chega ao 
reconhecimento e à adoção da Verdade; a aurora do 
conhecimento surge. O espírito começa a descobrir os 
princípios basilares, e, finalmente, ele chega à consciência 
plena”. 
Tendo em vista o objetivo divino de se projetar cada vez 
mais em sua Criação, Deus, sob o aspecto de Ator (Adi Shakti, 
a Mãe divina ou, em termos gnósticos, o Espírito Santo), dá 
início ao processo de criação. As inúmeras combinações e 
permutações dessa energia divina engendram as projeções 
originais dos diversos aspectos do Deus único que a humanidade 
tem venerado, mais especificamente na tradição religiosa mais 
antiga, que se expressa, por exemplo, nos livros sagrados 
(Vedas) dos arianos na Índia. Assim, após a inicial separação da 
Adi Shakti de Sadashiva, a própria Adi Shakti diferencia-se a si 
mesma em três formas principais de energia, personificadas pelas 
três grandes deusas Mães: Mahakali, Mahasaraswati e 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
87 
Mahalakshmi. É por intermédio dessa trindade que a Adi Shakti 
dá nascimento aos demais aspectos de Deus (divindades, 
Devatas), que conduzirão as etapas posteriores da Criação. Em 
outras palavras, a estruturação do cosmo e o desdobramento de 
sua evolução dependem das interações entre essas diferentes 
formas de energia divina. Quando consideramos todas essas 
divindades à luz de sua unidade essencial, as percebemos como 
aspectos complementares do Grande Ser Primordial, acerca do 
qual fala o Svetasvara Upanishad : 
 
“O absoluto Uno, a existência impessoal, em união com seu 
poder de ilusão (Maya), apareceu como o Senhor Divino, o 
Deus pessoal adornado com milhares de glórias. 
Alicerçado em Seu Divino Poder, Ele controla todos os 
mundos. Por ocasião da criação e da dissolução do 
universo, somente Ele existe. Aqueles que O realizam 
tornam-se imortais. 
 
O Senhor é Um sem um segundo. Habita no homem e nas 
outras criaturas. Projeta o universo, o mantém e o 
reabsorve em Si Mesmo. 
 
Seus olhos estão em todos os lugares; Sua face, Seus 
braços e Seus pés estão em cada um dos lugares. Ele 
extraiu de Si Mesmo o Céu e a Terra e, com Seus braços e 
Suas asas, os mantém coesos. 
 
Ele é a origem e o suporte dos deuses. É o Senhor de todos. 
Concede sabedoria e felicidade aos que O adoram. Destrói 
seus pecados e suas preocupações. 
 
Pune aqueles que transgridem Suas leis. Vê tudo e sabe 
tudo. Que Ele nos abençoe com uma mente que conheça a 
Verdade.” 
 
O ADVENTO 
 
88 
O sábio Svetasvatara descreve Deus supremo, o único 
mestre do universo, como “aquele que assumiu a forma de 
todas as criaturas e permaneceu oculto”. Trata-se de Deus-Pai, 
consubstanciado aqui na extensão de suas manifestações. 
O Bhagavad Gita, parte integrante do Mahabharata, a 
epopéia eterna do hinduísmo, narra como Shri Krishna permite 
a Arjuna, príncipe guerreiro e discípulo, contemplar a visão 
esplêndida e terrificante desse Ser Primordial que, em sânscrito, 
se chama VIRATA. 
“Ó meu Deus, vejo todos os deuses em teu corpo, 
E a multidão das criaturas, cada uma em seu lugar. 
Vejo o Senhor Brahma, assentado sobre o lótus. 
Vejo todos os sábios e as serpentes sagradas. 
Forma universal, te vejo sem limites. 
Braços, olhos, bocas e ventres infinitamente multiplicados. 
Olho, e não encontro fim, nem meio nem início.” 
Bhagavad Gita, 11 
 
Shri Krishna era, efetivamente, o Virata encarnado. Ele 
falou: 
“Impregno todo o universo com Minha forma eterna, 
que não se manifesta para os sentidos. Ainda que 
nenhuma criatura Me contenha, contenho todas elas. 
Todavia, elas não existem em meu corpo 
físico. É o divino mistério de Minha natureza que é preciso 
que tu compreendas. Meu Ser sustenta todas as 
criaturas e lhes dá vida, mas ele não tem nenhum contato 
físico com elas.” 
Bhagavad Gita, 9 
 
Só posso remeter o leitor novamente a esse texto 
impressionante. Sei que Shri Mataji escreveu vários capítulos, 
nos quais explica a origem do Virata e do cosmo, contudo seus 
escritos não foram ainda publicados. Entretanto, tive a felicidade 
de poder lê-los, e me ajudaram enormemente a conceber o 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
89 
inconcebível, vale dizer, se ouso dizer, a me dar uma idéia 
acerca da natureza do Virata. 
Em suma, a estrutura do Virata pode ser comparada a 
um prisma que absorve a luz do Espírito Santo (Sua energia) e a 
refrata nas diversas cores do arco-íris, a refulgência da criação. 
No Virata, poderão ser encontrados os diferentes domínios da 
consciência cósmica com seus céus e seus infernos e, enfim, 
nosso universo material iluminado por uma miríade de 
luminárias galácticas. Uma dessas luminárias é nosso sistema 
solar, onde permanecemos deslumbrados. 
Encontramo-nos assim diante do arquétipo primordial, 
que irá reverberar, infinitamente, suas próprias estruturas nos 
diferentes teatros da criação, e isso chega ao nosso universo 
material. Vejamos, com um pouco mais de profundidade, os 
detalhes desse quadro, os quais devemos tentar compreender, 
mediante a utilização de uma imagem. Da mesma maneira que o 
ar toca os orifícios de uma flauta, a fim de se transformar em 
música, assim também o Espírito Santo (Adi Shakti)manifesta 
Deus, por meio de sete de Seus principais aspectos, os quais 
estão relacionados com as diferentes religiões do mundo. 
Existem sete orifícios em sua flauta, porém existe apenas um 
sopro que produz a melodia. Igualmente, há sete Adi Chakras 
(centros primordiais de energia) no corpo cósmico do Virata, 
porém há apenas uma Adi Kundalini. O próprio Virata é Uno, 
consubstanciando a unidade entre a Testemunha Primordial e o 
Ator Primordial, expressando a manifestação integrada de Deus 
projetado pelo Espírito Santo. Nunca dantes foi conhecido pelo 
homem o mecanismo dessa perfeita articulação do Ser uno 
(Shiva) com o Ser coletivo (Virata). 
O Virata abarca tudo aquilo que existe. Por exemplo, 
esses seres super-humanos que controlam as forças da natureza, 
que compuseram os diversos panteões (grego, germânico ou 
asteca), ocupam uma das províncias cósmicas do ego do Virata 
(o supraconsciente coletivo). O inferno, com seus múltiplos 
O ADVENTO 
 
90 
círculos, localiza-se no superego do Virata (o subconsciente 
coletivo). Os seres angelicais, serafins, querubins e Chiranjivas 
vivem na Superconsciência divina. É impressionante, por 
exemplo, que o profeta bíblico Ezequiel e São João Evangelista 
os descobriram nos símbolos de animais que podem ser 
encontrados na tradição hindu, isto é, o touro é Nandi, a 
montaria de Shri Shiva; a águia é Garuda, a montaria de Shri 
Vishnu; o leão é Hanumana, um dos veículos da deusa Durga. 
Eles aparecem com seus Chakras e com o ‘ruído das grandes 
águas’ e ‘o ruído da tempestade’ que evocam o sopro poderoso 
das vibrações. 
O profeta Ezequiel (1.15.24) diz: 
“E ao tempo em que estava olhando para estes animais, 
apareceu ao pé dos tais animais uma roda sobre a Terra, a 
qual tinha quatro faces. E o aspecto das rodas, e a obra 
delas era como a vista do mar; e uma só a semelhança das 
quatro; e o aspecto delas e as obras eram como se estivesse 
uma roda em meio a outra roda... E quando os animais 
andavam, andavam também ao passo as rodas ao pé deles; 
e quando os animais se elevavam do solo, também as rodas 
juntamente se elevavam. Para qualquer parte que o espírito 
ia, indo para lá o espírito, as rodas, seguindo-o, também 
igualmente se elevavam. Porque o espírito de vida estava 
nas rodas.” 
 
Ademais, esses seres dispõem de poderes excepcionais. 
O Arcanjo Gabriel (Hanumana) e o Arcanjo Miguel (Bhairava) 
patrulham, respectivamente, o supraconsciente e o 
subconsciente coletivos. Os grandes anjos, que cuidam das 
províncias cósmicas, respondem ao chamado de um Sahaja 
Yogi, quando este os invoca com a utilização de um mantra 
autorizado. Shri Mataji comenta: “É algo muito fantástico e 
difícil de se acreditar. No entanto, isso é verdadeiro”. 
Repetidas vezes, pudemos, efetivamente, limpar os canais ou 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
91 
Nadis de nosso próprio sistema, por meio da invocação das 
divindades ou forças divinas que garantem a segurança dos 
domínios correspondentes no macrossistema do Virata. 
Tive plena consciência de que, sem a consciência 
perceptiva vibratória, a existência, e sobretudo, a preexistência 
do Virata, pareceriam tão irreais quanto às formas platônicas, 
que foram consideradas, com justa razão, incognoscíveis por 
várias gerações de filósofos. Portanto, um dos objetivos de 
Sócrates foi, sem dúvida, o de preparar nossas estruturas 
mentais para que pudéssemos reconhecer o modelo primordial. 
De um modo geral, os antigos consideram o Virata apenas pela 
sua intervenção na História, isto é, o destino todo-poderoso que 
abala o orgulho humano (em grego, o hybris, que nas peças de 
Ésquilo, Eurípedes e Sófocles, era o grande pecado do orgulho 
ou da soberba). Os psicólogos modernos parecem concebê-lo 
como o inconsciente coletivo ou universal. Foi desse 
Inconsciente, observa C.G. Jung, que a humanidade extraiu seus 
deuses e seus demônios, as grandes intuições dos filósofos e dos 
sábios, e “todos esses pensamentos superlativamente poderosos 
sem os quais o homem cessaria de ser um homem”. É dele que 
se originam as imagens primordiais que constituem a base de 
nossos sistemas conceituais, a inspiração criadora, o 
deslumbramento que sentimos diante do já conhecido, quando, 
por um breve instante, a verdade se revela para nós. Quase 
sempre as mensagens do Virata nos são comunicadas nos 
sonhos ou mediante o encaminhamento de eventos sugestivos. 
Todavia, como Eric Fromm observa, o homem moderno está 
deixando escapar, facilmente, esse imperceptível fio de Ariadne, 
porque ao reprimir sua voz interior, está perdendo a capacidade 
de discernir o bem do mal e o verdadeiro do falso. Está 
perdendo o contato com o Virata, que é a atenção onipresente, a 
consciência onisciente, o conhecedor e criador da Verdade; 
porque ocorrerá aquilo em que pensar. “Disse Deus: faça-se a 
luz; e fez-se a luz.” (Gênese, 1.3). 
O ADVENTO 
 
92 
Toda a estrutura do Virata se ordena em torno de seu 
principal canal de energia, o Adi Sushumna, que representa a 
senda do ‘vir a ser’ da criação, o caminho da evolução. Quando 
a Kundalini primordial, isto é, a energia residual do Espírito 
Santo, avança ao longo desse caminho, cruza um dos Adi 
Chakras, ativando, assim, a divindade desse Chakra e 
deflagrando uma nova etapa evolutiva. Por exemplo, entre a 
abertura do Adi Vishuddhi Chakra e do Adi Agnya Chakra, é 
preciso computar o período que separa as encarnações de Shri 
Krishna e a de Cristo, ou seja, algo em torno de 4.000 anos. 
A relação entre o Virata e a evolução das espécies 
desenvolve-se de duas maneiras principais. Preliminarmente, 
certas divindades podem decidir ter um nascimento humano 
(encarnação Divina ou avatar), a fim de guiar ativamente a 
humanidade. Em conseqüência, a estrutura cósmica original do 
Virata é inteiramente representada no nível microcósmico, vale 
dizer, em cada um de nós, como o instrumento interior de nossa 
perfectibilidade. Em outras palavras, a Auto-realização 
representa o despertar do Virata em nós. No corpo de um ser 
realizado, os Chakras representam as projeções dos centros 
primordiais do Virata. As divindades controlam esses Adi 
Chakras e irradiam a energia divina. Shri Mataji observa que, 
após a Auto-realização, o computador microcósmico humano 
fica conectado com a programação cósmica, e os dados 
começam a fluir em nosso sistema nervoso, a fim de ser 
percebidos sob a forma de vibrações. De fato, o temperamento, 
a saúde, a estrutura da personalidade e o destino de cada ser 
humano dependem do tipo de relacionamento que existe entre 
seu instrumento espiritual e o arquétipo cósmico. Todavia, antes 
de nossa Auto-realização, não percebemos isso e passamos, 
simplesmente, por diferentes estados mentais e achaques 
nervosos, sem sequer compreender como e por que razão eles 
acontecem. 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
93 
É precisamente porque o impacto dessa estrutura 
cósmica sobre nossa vida cotidiana é tão importante, que 
tentaremos representá-la aqui. O gráfico da figura 6 é uma 
projeção antropomórfica. É evidente que o Virata transcende 
nossas dimensões, porquanto ele existe num estado de energia-
consciência que não podemos conceber. Não obstante, a 
consciência faz experimentos e, certamente, o objetivo do Virata 
é conduzir-nos ao caminho da consciência. Na época em que 
Shri Krishna se mostrou como Virata a Arjuna, as encarnações 
do sexto e sétimo Chakras, Cristo e Shri Kalki, não haviam 
ainda se manifestado como encarnações divinas, com uma 
expressão personificada. Até o momento presente, Shri Kalki 
ainda não se manifestou. A unidade e a continuidade do cosmo, 
intuídas por Bergson, são ratificadas pelas sucessivas fases de 
manifestação do Virata. 
Em suma, antes de criar o universo material no qual 
vivemos, a energia divina primordial criou o corpo cósmico do 
Virata, que integra e manifestaos diversos aspectos do 
Altíssimo. Esse arquétipo dirige, no plano cósmico, a evolução 
universal e controla, no plano microcósmico do ser humano, 
nosso desenvolvimento interior. 
As mitologias, as religiões, a filosofia, a psicologia e 
mesmo as ciências exatas são as diversas avenidas, através das 
quais o buscador humano estuda os diferentes níveis de 
manifestações do Virata, com o objetivo de compor um 
panorama global, tão completo quanto possível. Todavia, no 
passado, cada civilização ou cultura tendia a concentrar sua 
atenção e sua devoção numa característica específica do Virata, 
negligenciando os demais aspectos. Apenas agora, nesse 
momento histórico que temos o privilégio de vivenciar, tornou-
se possível para a humanidade ter acesso à completa morfologia 
do Ser divino primordial, com o quadro completo do Senhor 
Supremo da Revelação, o Virata. Um resumo dos Chakras, suas 
divindades e atributos do Virata são apresentados no quadro 2. 
O ADVENTO 
 
94 
 
 
 
FIGURA 6 : A ESTRUTURA CÓSMICA DO VIRATA 
 
 
 
 
 
NOTA: o vazio do Bhava Ságara é o oceano de ilusão. 
É o estado de consciência da raça humana que não é, 
espontaneamente, aberto ao Divino. Estamos, assim, alojados no 
estômago do VIRATA, nesse órgão que seleciona aquilo que 
deve ser assimilado para a manutenção do organismo cósmico, 
bem como aquilo que deve ser alijado para as regiões infernais. 
A divindade que controla esse espaço é Shri Adi Guru 
Dattatreya, o mestre primordial instrutor do darma. 
 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
95 
Chakras do 
VIRATA e o 
osso sacro 
Divindades 
organizadoras da 
energia divina 
Atributos de DEUS 
7. Sahasrara 
Chakra 
Espírito Santo e 
Shri Kalki 
Auto-realização, 
integração, liberação 
6. Agnya Chakra 
Centro Senhor Jesus Cristo e 
Virgem Maria 
Ressurreição, perdão 
indestrutibilidade do 
espírito, luz da verdade 
Esquerdo Shri Mahavira Não violência em relação 
a si mesmo. 
Direito Shri Buda Não violência em relação 
aos outros 
5. Vishuddhi 
Chakra 
Shri Krishna e 
Shri Radha 
Grandeza de Deus, 
coletividade, jogo divino, 
diplomacia, consciência 
que testemunha tudo 
4. Anahata 
Chakra 
 
Centro Shri Durga (Jagadamba) Proteção maternal, 
confiança, senso de 
segurança 
Esquerdo Shri Shiva e 
Shri Parvati 
Existência, alegria, 
destruição 
Direito Shri Rama e Shri Sita Comportamento humano 
ideal, proteção paternal 
3. Manipura ou 
Nabhi Chakra 
Shri Vishnu e 
Shri Lakshmi 
Evolução, darma, bem-
estar 
2. Swadishthan 
Chakra 
Shri Brahmadeva e 
Shri Saraswati 
Criatividade, estética 
1. Muladhara 
Chakra 
Shri Ganesha Inocência, infância, 
sabedoria, intolerância 
com o mal 
Muladhar (osso 
sacro, cóccix) 
Shri Gauri Kundalini, 
Pureza virginal 
 
 
 
O ADVENTO 
 
96 
OS CANAIS 
 
Os canais de energia Ida, Pingala e Sushumna 
representam no corpo do Virata os modos principais de atuação 
da Mãe divina (Adi Shakti). Eles correspondem aos modos ou 
humores do Virata, aos quais a cosmologia hindu se refere como 
sendo as três Gunas ou qualidades. 
1. O Ida Nadi do Virata (Tamo Guna, modo passivo) é 
controlado pelo aspecto Mahakali da Mãe divina, que é o poder 
de existência. 
2. O Pingala Nadi do Virata (Rajo Guna, modo ativo) é 
controlado pelo aspecto Mahasaraswati da Mãe divina, que é o 
poder criativo. 
3. O Sushumna Nadi do Virata (Sattwa Guna, a 
revelação pela evolução) é controlado por esse aspecto da Mãe 
divina que é Mahalakshmi, o poder evolutivo. 
Sob a ótica do entendimento humano, pode-se, muito 
superficialmente, identificar as três Gunas da forma que se verá 
abaixo. Contudo, se alguém quiser aprofundar seu conhecimento 
a respeito das Gunas, deve consultar os vários Upanishads, bem 
como o Bhagavad Gita, capítulos 13, 14, 17 e 18. 
- O campo de Mahakali, Tamo Guna, representa o 
poder de existência que impregna o cosmo inteiro, no núcleo de 
cada átomo, as vibrações eletromagnéticas na matéria, a força 
vital nas plantas, animais e também no homem; neste último, ela 
controla, particularmente, o ser emocional e determina a força 
de seus desejos. Ela pode ser identificada com a tese da dialética 
hegeliana, com o Yin dos taoístas, com a natureza que se opõe à 
cultura, etc. A Tamo Guna está subjacente na arquitetura 
barroca, na literatura romântica, na poesia e na música. Os 
temperamentos que se encaminham para Deus, mediante a 
sublimação desse campo, são considerados como seguidores da 
Bhakti Yoga, a Yoga da devoção. O aspecto ‘negativo’ da Tamo 
Guna é a força da inércia. 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
97 
- O campo de Mahasaraswati, Rajo Guna, representa 
o modo ou humor do Virata que engendra as essências causais, 
os elementos, as massas de matéria, as constelações e, 
finalmente, nosso sistema solar. Esse campo foi concebido como 
o Yang taoísta, a antítese da dialética hegeliana, e se expressa 
como cultura e civilização em contraposição à natureza bruta. O 
aspecto ‘clássico’, ordenado e cerebral da sensibilidade estética 
ocidental está ligado a ela. O homem maximizou esse campo 
pela sua racionalidade, o direito, a organização social, a 
filosofia, a ciência e a tecnologia. Os temperamentos que tentam 
alcançar Deus pela sublimação desse campo são tidos como 
seguidores da Karma Yoga, a Yoga da ação. O aspecto 
“negativo” da Rajo Guna está na agitação desordenada e na 
agressividade. 
- O campo de Mahalakshmi, Sattwa Guna, é a 
dimensão na qual o Virata fixou o objetivo de se revelar, 
paulatinamente, ao cosmo, determinando a evolução universal e 
enviando as encarnações para orientá-la pelo caminho do meio. 
É, portanto, o modo do equilíbrio, da integração e da revelação, 
acima das oscilações entre a Rajo e a Tamo Gunas. O homem 
percebeu esse terceiro tempo, na harmonia ternária, na síntese 
da dialética hegeliana, e a expressou nas obras primas rítmicas, 
que são, por exemplo, a pirâmide de Quéops, o Partenon ou o 
Taj Mahal. Cada manifestação de perfeição nas artes, na 
filosofia, etc., se vincula à Sattwa Guna. A Jnana Yoga, a ioga 
da consciência, leva nossa atenção para o Sushumna Nadi, o 
qual expressa a dimensão da Sattwa Guna em cada um de nós. 
A Sahaja Yoga é a suprema ioga da integração (Maha 
Yoga), que engloba os diferentes caminhos de busca da união 
com Deus (ioga), uma vez que desperta o poder da energia 
residual divina (Kundalini) no homem. 
É claro que a Tamo Guna e a Rajo Guna subentendem 
uma infinidade de binômios, como o frio e o calor, o sombrio e o 
claro, o feminino e o masculino, a emoção e o pensamento, o 
O ADVENTO 
 
98 
coração e o cérebro. Todavia, o frio pode tornar-se quente, o 
quente pode ser esfriado, o dia sucede à noite. Os opostos 
dançam, se juntam e se separam. Equilibram-se, muitas vezes, 
numa efêmera unidade. O jogo dos opostos, dos contrários, 
sempre foi objeto da curiosidade humana. Ele foi imobilizado na 
estátua de pedra de Shiva andrógino no templo da Ilha de 
Elefanta (Bombaim), construído no oitavo século d. C.. Ele 
impregnou os grandes textos da sabedoria chinesa (Tao Te King, 
Kunag Tzu, I Ching) e condicionou o surgimento das seitas 
budistas: Mahayana e Zen. Nesse século, seus traços podem ser 
vistos na complementaridade entre as descrições da matéria em 
termos de ondas e partículas, que foi revelada pelas pesquisas de 
W. Heisenberg, Niels Bohr e na relação entre matéria e energia 
na teoria da relatividade de Albert Einstein. De fato, o mundo tal 
como é retratado pela física moderna se assemelha, cada vez 
mais, ao mundo retratado pela cosmologia oriental das Gunas. 
O livro “O tao da física” de F. Capra mostra essas analogias, 
sendo que o subtítulo desse livro pode ser traduzido como “uma 
exploração do paralelismo entre a física moderna e o 
misticismo oriental”. Mesmo porque, a exploração dos mundos 
atômico e subatômico expõe,além das três dimensões, “o fluxo 
constante da transformação e da mudança” tão estimado por 
Heráclito. 
Nossos pensadores procuraram isolar os momentos desse 
vir a ser eterno que refletem a circulação da energia entre os três 
canais principais do Virata. Porque é ele, e somente ele, que traz 
o movimento para as coisas. Por meio do Adi Ida Nadi, onde 
reina Shri Shiva, ele deseja. Pelo Adi Pingala Nadi, o reino de 
Shri Brahma, ele cria. Por intermédio do Adi Sushumna Nadi, 
onde Shri Vishnu reina, ele promove a evolução. Com base nos 
hinos mitológicos dos Vedas até o ‘par de opostos’ 
desenvolvido pela filosofia da História de Spengler, quase todas 
as civilizações tenderam a identificar os extremos da 
bipolaridade cósmica, isto é, Adi Ida Nadi e Adi Pingala Nadi. 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
99 
Nesse sentido, deve-se ver, por exemplo, O. Spengler, 
Der Utergang des Abendlandes. Os historiadores, tais como 
Spengler, Burckhardt e Toynbee, estudaram a História da 
cultura e dos ciclos das civilizações, a fim de descobrir uma 
estrutura inteligível que, em última análise, refletiria a atuação 
das três Gunas. Quando, por exemplo, Burkhardt se espantou 
ao indagar: “Quem meditou sobre o desaparecimento da 
melodia em nossa música ocidental?”, ele constatou o 
deslocamento de nossa sensibilidade coletiva para a 
racionalidade crescente da Rajo Guna. Spengler identificou nos 
dogmas e na arquitetura do Islã as expressões simbólicas da 
Tamo Guna. Numerosos pensadores tentaram elucidar, 
intuitivamente, essas misteriosas relações entre o cosmo, a 
História, a arte e o psiquismo. 
A bipolaridade cósmica assumiu nomes diversos, tais 
como, Yin e Yang, o dionisíaco e o apolíneo etc. Naturalmente, 
ao mesmo tempo, mediante a intuição das interações e tensões 
entre esses dois pólos, diversos modelos conceituais 
(Weltanschauungen) foram concebidos, tais como, a 
impermanência dos fenômenos no mundo budista, ou, mais 
familiar a nós, a dialética hegeliana\marxista com seu jogo de 
contradições e de identidade. A seqüência é, mais ou menos, a 
seguinte: a alternância dos opostos (Ida e Pingala) chega a um 
ponto de equilíbrio (Sushumna), que representa uma síntese sutil 
e mais elevada ou a base para o próximo estágio evolutivo. 
Entretanto, para o homem, é mais difícil perceber este último 
que o processo de contradições. 
Existem contradições, efetivamente, no plano cósmico 
do Virata, entre a Tamo e a Rajo Gunas (sendo essa a razão por 
que a mitologia hindu contém histórias de rivalidade simbólica 
entre Shiva e Brahma). Essas contradições descobertas pela 
ciência também existem no mundo material, assim como no nível 
microcósmico do ser humano, entre os dois canais, Ida e 
Pingala. Nossas teorias econômicas refletem nossa percepção 
O ADVENTO 
 
100 
da lei de contradição e de seu mecanismo regulador em nosso 
meio ambiente. É a mão invisível da qual fala Adam Smith. 
Nossas teorias psicológicas evoluem a partir da percepção da lei 
de contradição em nossa psique. Voltaremos a isso mais tarde. 
Assim sendo, a estrutura e os mecanismos do Virata se 
encontram refletidos, repercutidos no homem. Cada Chakra, no 
microcosmo humano, corresponde a: 
- um aspecto específico de Deus; 
- uma função determinada na evolução física, psíquica e 
espiritual do sujeito; 
- um grau específico de execução do programa evolutivo 
do Virata. 
 
Por outro lado, a tríplice divisão da energia primordial 
que regula os três modos de atuação do Virata controla 
também, no plano mais grosseiro, as partes de nosso sistema 
nervoso autônomo. O sistema nervoso simpático esquerdo é 
regulado pelo poder de existência (Tamo Guna). O sistema 
nervoso simpático direito é gerido pela atividade do Criador 
(Rajo Guna) e o sistema nervoso parassimpático pelo poder 
evolutivo (Sattwa Guna). Dessa forma, o conjunto da estrutura 
cósmica primordial está projetado em nós, que somos o 
microcosmo, à espera de sua Auto-realização. 
As divindades estão assentadas nos Adi Chakras do 
Virata, de onde administram o cosmo. Os Chakras, no corpo 
humano, são os receptores das diversas freqüências de energia 
divina emitidas por esses ‘organizadores’ das vibrações divinas. 
Todavia, antes de nossa Auto-realização, os reflexos das 
divindades em nossos Chakras não aparecem. Os Chakras 
receptores não captam as vibrações que lhes são destinadas e o 
microcosmo se sente como uma entidade separada do resto do 
cosmo. Podemos afirmar que nossas divindades permanecem 
adormecidas, até o momento em que a ascensão da Kundalini as 
desperta. Portanto, os Chakras desempenham um papel muito 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
101 
importante. Eles contêm o código do programa da evolução do 
organismo e encaminham as instruções por intermédio do 
sistema nervoso. 
Lyall Watson, em seu livro The Romeo error, observa: 
“As células da região orbital de um embrião de rã podiam 
ser transferidas para qualquer parte da região do 
estômago, porém ali, elas se punham a produzir um novo 
tipo de tecido intestinal e não mais o dos olhos internos. 
Existe um sistema coordenador que quer que as células 
tenham um papel específico, numa região particular, se 
bem que cada uma delas é capaz de fazer não importa o 
quê, e fazem aquilo que se espera delas.” 
 
Após a Auto-realização, as divindades são despertadas, a 
energia passa de um Chakra a outro, e o conjunto de nosso 
sistema de consciência (biológico, endocrinológico, psicológico, 
espiritual) é integrado. Simultaneamente a essa integração 
interior, a consciência de nossa integração no cosmo permite 
que nos situemos em relação ao Virata. Somos células em seu 
organismo e cada célula contém o código do organismo inteiro. 
Assim, os Chakras e os Nadis são os instrumentos espirituais 
(Yantras) que, despertados e controlados por uma técnica 
autorizada (Tantra), isolam seu próprio reservatório de energia-
consciência (Mandala) que tece a fibra da atenção realizada 
(Boddhi Chitta). Por meio desse quadro, nos é possível tomar 
consciência da ubiqüidade do espírito (Paramatman, Brahman) 
irradiado pelo coração do Virata e cuja indestrutibilidade Cristo 
provou, mediante sua ressurreição e de sua ascensão. Da mesma 
forma, compreendemos que somos uma parte integrante do 
Todo. 
“Brahman é realidade, consciência, infinitude. Aquele que 
sabe que Ele está escondido no coração e no firmamento supremo, 
realiza todos os desejos na sabedoria de Brahman.” 
Tattirya Upanishad 
O ADVENTO 
 
102 
 
É, verdadeiramente, essa realidade, repetiam os santos 
do passado, que deve ser apreendida para que se possa escapar 
da aparência da realidade do mundo fenomênico, a qual os seres 
não-realizados tomam por verdadeira. Shankaracharya, em seu 
texto ‘Aparokshanubhuti or Self-Realization’, afirma que “da 
mesma maneira que a aparição de um fantasma num espaço 
vazio, ou um castelo suspenso no ar, ou uma segunda Lua 
aparecendo no céu são ilusórios, também é ilusória a 
aparência do universo dentro de Brahman”. Quando 
percebemos o corpo vibratório de Brahman, os nós górdios da 
consciência são cortados. Todos os fragmentos do universo 
ocupam seus lugares; o quebra-cabeça toma forma. O mundo 
material e o universo psíquico, bem como suas relações com as 
diversas províncias espirituais do cosmo, formam os liames de 
uma mesma trama e se manifestam numa realidade única. O 
mundo é integrado na consciência daqueles que nasceram 
novamente e a imagem do eidon (essência) do Virata se revela. 
As frases são complexas, porém a experiência é simples. 
O homem moderno arvorou-se em juiz severo da 
criação, apesar de ignorar as correspondências secretas entre 
Deus e sua criação, que inscrevem, como numa filigrana, o 
desenho de sua semelhança. Van Gogh nos diz que “esse mundo 
é um projeto de Deus que não deu certo. Um mundo onde a 
esperança bate contrao teto como um morcego”, conforme 
descreve Baudelaire, em seu poema que tem um título sugestivo: 
‘Spleen’ (que significa ‘baço’ e também ‘mau humor’). Ele não 
sabia que os morcegos dispõem de uma espécie de radar, e que a 
esperança de uma Nova Consciência permaneceu viva desde 
Sócrates, por várias gerações de buscadores. Shri Mataji diz: “O 
homem está sufocado dentro de um casulo conceitual que ele 
mesmo criou”. 
A. Camus, em seu livro “O homem revoltado”, registra 
que “o homem não percebe as questões reais e pensa 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
103 
encontrar-se na revolta”. Com um orgulho vazio, ele se prende 
nesse absurdo de sua própria lavra, que acredita ser a natureza 
essencial da existência. 
J. Monod, em ensaio sobre a biologia moderna que se 
chama “O acaso e a necessidade”, observa: 
“É preciso que o homem acorde finalmente de seu sonho 
milenar fim de descobrir sua total solidão, sua alienação 
radical. Ele sabe agora que, como um cigano, está à 
margem do universo onde deve viver. Um universo surdo à 
sua música, indiferente às suas esperanças, bem como aos 
seus sofrimentos ou aos seus crimes.” 
 
Após a Auto-realização, os reflexos das divindades 
primordiais aparecem em nossos Chakras. A Kundalini trabalha 
para aperfeiçoar a fidelidade dessas imagens, ou mais 
abstratamente, ela atua no sentido de aumentar a ressonância 
vibratória entre os Adi Chakras do Virata cósmico e os 
respectivos Chakras de nosso corpo. 
A hipótese da relação entre o sistema nervoso do 
indivíduo e a estrutura cósmica do Virata encontra sua 
confirmação somente após a Auto-realização. Assim, podemos 
perceber, por exemplo, que os diferentes Chakras reagem à 
recitação dos mantras de suas divindades controladoras. Um 
hindu fanático que rejeita o Profeta Maomé terá sua Kundalini 
bloqueada na altura do Void, que é controlado pelo mestre 
primordial do qual o Profeta Maomé foi uma das encarnações. 
Pronunciando-se o mantra adequado que proclama a identidade 
entre o mestre primordial Maomé e a energia primordial divina, 
o obstáculo se desmantela e a Kundalini prossegue em sua 
ascensão. 
Assim, o despertar da Kundalini prova que o homem, 
longe de estar à margem ou solitário está, na verdade, conectado 
às grandes fontes da energia divina e com os diferentes aspectos 
de Deus Todo-poderoso. Isso prova também a unidade absoluta 
O ADVENTO 
 
104 
das grandes religiões do mundo. Por exemplo, um cristão terá 
que reconhecer Shri Krishna, para que sua Kundalini possa 
passar além de seu Vishuddhi Chakra. A Kundalini de um hindu 
ortodoxo que rejeitar Jesus Cristo se recusará a cruzar seu 
Agnya Chakra. Lembro-me de um caso semelhante a esse 
ocorrido num subúrbio de Madras (hoje, Chennai), Índia, onde 
um hindu muito erudito estava prostrado diante de Shri Mataji. 
Sua Kundalini estava bloqueada em seu Agnya Chakra, 
malgrado as vibrações muito intensas que eram irradiadas por 
Shri Mataji. Disse-lhe: “Você deve reconhecer a divindade de 
Cristo”. Respondeu: “Reconheço Cristo como um grande 
santo”. Contudo, isso não foi suficiente: pelo fato de se recusar 
a reconhecer Cristo como uma encarnação divina, sua Kundalini 
se negava a ultrapassar seu Agnya Chakra. Shri Mataji 
aconselhou-o a ler a Bíblia e a se preparar, para voltar 
novamente com uma nova atitude. 
A ascensão da Kundalini de uma pessoa pode ser 
acompanhada por outros Sahaja Yogis que estejam presentes, 
desde que estes estejam em ‘estado de consciência coletiva’ e 
sejam capazes de identificar aquilo que está ocorrendo no 
interior da pessoa, na qual concentram sua atenção. Graças à 
consciência perceptiva vibratória, todos podem sentir, por 
intermédio de suas mãos ou de seu corpo, qual o Chakra que 
está bloqueado, mediante uma sensação de calor, uma pressão 
localizada, ou uma dor ligeira. Se, por exemplo, o Vishuddhi 
Chakra do aspirante estiver bloqueado e se todos canalizarem 
sua energia para esse Chakra, quase sempre, poderão limpá-lo. 
Isso pode ser feito, por exemplo, pela veneração da divindade 
correspondente a esse Chakra. Em Nova Delhi, nosso pequeno 
grupo trabalhava num homem idoso, cujo Agnya estava 
bloqueado. Estávamos sentindo uma grande tensão em nossas 
frontes. Shri Mataji me pediu que rezasse o pai-nosso, algo que 
fiz com grande emoção. Imediatamente, a tensão em nossas 
frontes se dissolveu, e logo em seguida, senti as vibrações 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
105 
frescas virem do homem. Isso prova que sua Kundalini havia 
alcançado o Sahasrara Chakra. No mesmo instante, o homem 
idoso começou a sentir a Graça fluir nele. Shri Mataji comentou: 
“O pai-nosso é, por excelência, o mantra do Agnya Chakra e 
somente após a Auto-realização é que ele se torna tão eficaz”. 
Jamais havia me sentido tão ‘cristão’ como naquela noite. As 
mornas missas de minha infância me pareceram uma aberração, 
ou seja, a negação daquilo que pretendiam celebrar. Hoje em 
dia, é verdade, tentam animar as missas com guitarras elétricas 
ou com pantomimas ditas carismáticas. 
As religiões mundiais são canais de comunicação por 
meio dos quais as divindades (que estão nos Chakras do Virata) 
podem transmitir suas instruções para a humanidade. A 
unicidade dessas divindades é total e se expressa na forma 
cósmica do Virata. As mensagens das divindades formam as 
partes de um arcabouço místico de conhecimento espiritual, 
reveladas por Deus com o passar das eras, a fim de guiar a 
humanidade em sua grande peregrinação. 
No entanto, hoje em dia, ainda que o tempo da 
integração tenha chegado, esse corpo espiritual tem sido 
desmembrado pelo fanatismo. Repetidas vezes, como abutres, os 
aiatolás, bonzos, lamas, papas e brâmanes lutam pelos restos 
mortais, pelas religiões esparsas, cada uma delas reivindicando o 
corpo inteiro. O fanatismo cristão nasceu com Paulo, que estava 
muito mais preocupado em combater o Império Romano, que 
nascer novamente do espírito. 
Fora da Igreja, não há salvação! O Islã é o único 
caminho! Maomé e Cristo voltam-se contra o fanatismo 
daqueles que pretendem segui-los. “Vós me chamareis Cristo, 
Cristo, e não vos reconhecerei”. Essas palavras foram 
terrivelmente proféticas porque o Agnya Chakra, presidido por 
Cristo, se fecha, irremediavelmente, para aquele que usa Cristo 
como pretexto, a fim de não reconhecer Shri Mataji. Serão essas 
as mesmas pessoas que invocavam Abraão e Moisés para não 
O ADVENTO 
 
106 
aceitarem Cristo? Da mesma forma, Shri Vishnu impedirá a 
passagem da Kundalini, pelo Nabhi Chakra, de um hindu 
ortodoxo que não o reconhecer. Os budistas e os jainistas, 
perdidos em seus rituais, desenvolverão perturbações em seus 
egos e superegos. 
As contradições e as posições dogmáticas geradas pelas 
deturpações dos textos sagrados chocam-se com o princípio da 
universalidade. Não obstante, antes da experiência com a brisa 
fresca do Espírito Santo, quem é que pode distinguir o falso do 
verdadeiro? Não podíamos sentir nem sequer a presença de 
Deus! Somente a manifestação da Kundalini revela - ao 
verdadeiro coração de nosso sistema - que todas as encarnações 
divinas são diferentes aspectos de um único Ser. 
A negação, por parte do aspirante, de qualquer um 
desses aspectos desse Ser uno, cria dificuldades para a 
integração de seu sistema interior. Isso porque, o Chakra 
correspondente à divindade que ele rejeita não se abre (nem o 
Chakra relativo a qualquer divindade que ele venera com 
exclusão das demais). As pessoas realizadas já acumularam uma 
vasta experiência em situações desse tipo. 
Já se observou que a Kundalini não cruza o espaço vazio 
(Void) que fica entre o nervo vago do sistema nervoso 
parassimpático e o plexo solar, se o mestre primordial (Shri Adi 
Guru Dattatreya) não for aceito em qualquer uma de suas 
encarnações (Raja Janaka, Abraão, Moisés, Zoroastro, Lao 
Tse, Confúcio, Sócrates,Maomé, Guru Nanak e Sai Baba de 
Shirdi). 
Quando nos vinculamos ao programa cósmico por 
intermédio da consciência perceptiva vibratória (Chaitanya), 
começamos a descobrir e a testar a comunhão viva que existe 
entre nós e o Virata. Por exemplo, Shri Ganesha simboliza a 
pureza transcendental da divina inocência. Shri Shiva é o Si, a 
bênção da existência absoluta. Cristo é a luz cristalina da 
Verdade divina. Para o Sahaja Yogi, cada uma dessas 
A REVELAÇÃO DO COSMO NO MICROCOSMO HUMANO 
 
107 
expressões representa uma qualidade específica da consciência 
divina, cujas graças e bênçãos começamos a sentir, a partir da 
abertura do Chakra correspondente. 
Um poeta escreveu a Shri Mataji, logo depois de ter 
obtido sua Auto-realização: “A partir de agora, o sândalo 
poderá se deliciar com sua própria fragrância”. Quando 
Sócrates leu a sentença gnothi seauton - ‘conhece-te a ti 
mesmo’ - na porta do Templo de Apolo, na Ilha de Delfos, ele 
se deu conta de que o conhecimento do Si é a chave para o 
conhecimento de todo o universo. 
Trazemos em nós mesmos a imagem do cosmo, a gestalt 
(forma) miniaturizada do Virata, o instrumento interior da 
mutação de nossa consciência perceptiva vibratória, verdade 
essa anunciada por várias correntes filosóficas. Alcançamos 
aquele estado evolutivo, com o qual nos tornamos capazes de 
desenvolver essa nova categoria de percepção vibratória que nos 
conduz ao reino de Deus. 
Seria muito lastimável que os Fredericos e os Voltaires 
modernos, bem como os positivistas e aqueles que usam as 
descobertas científicas para justificarem suas crenças, 
continuassem ignorando esse novo tipo de consciência. 
A consciência perceptiva vibratória abre um novo campo 
para as investigações empíricas, porém para se extrair o máximo 
dela é preciso que desenvolvamos um novo método e uma nova 
atitude. Marx afirmou que tudo que havia precedido a revolução 
constituía a pré-história, o que não é inteiramente falso. 
Todavia, a verdadeira revolução é aquela em que a atenção se 
volta para o interior, em busca de nossa identificação com o Si. 
 
 
 
A HARPA SAGRADA 
 
 
CAPÍTULO IV 
 
 
 
 “Ó amigo! Teu corpo é a tua lira.” 
Kabir 
 
“Toca o teu alaúde sem cordas.” 
Koan zen-budista 
 
“Para sermos felizes, necessitamos apenas da alma e de 
Deus”, afirma o moralista francês Joubert. O problema é que um 
não pode ser alcançado sem o outro. Dessa forma, é preciso que 
se descubra um mecanismo que conduza nossa atenção até a 
alma divina que habita em nós, de modo que essa alma possa nos 
levar a Deus. Hoje em dia, os Sahaja Yogis sabem que esse 
arcabouço de conhecimentos está vivo dentro de cada um de 
nós. Voltemos nossa atenção para o microcosmo humano e 
recordemos o que os sábios do passado diziam: 
“Esse corpo é uma cidade que não pode ser conquistada. Há 
nove portas e há, em todas as partes, Nadis (canais), 
através dos quais a energia vital (Prana) age. Porém, o 
canal mais importante é o Sushumna que passa pela coluna 
vertebral em direção ao cérebro. No sistema nervoso, 
encontram-se os plexos que controlam as diversas partes 
do corpo, e que são denominados Chakras... Lembrem-se 
de que eles se situam, de fato, na coluna vertebral e na 
parte superior do cérebro.” (Comentário do primeiro 
mantra do Purush Sukta por Shampuraanand) 
Rig Vediya Purush Sukta 
A HARPA SAGRADA 
 
109 
 
No mesmo sentido, registra-se que o Guru Vashista teria 
dito a Shri Rama: 
“Existem dois canais muito sutis chamados Ida e Pingala. 
Nesse corpo físico, estão colocados à esquerda e à direita, 
e a pessoa não tem consciência de sua existência. Esse 
mecanismo contém também três pares de lótus (Chakras) 
que estão superpostos num fio. O Prana opera por meio de 
todos eles.” 
 
Cerca de oito mil anos depois dessa discussão, numa 
segunda-feira como outra qualquer, no Caxton Hall, Londres, 
Shri Mataji entrou com seu passo poderoso na sala, onde a 
platéia a esperava numa atmosfera de recolhimento. Havia um 
grande diagrama pendurado no palco, que mostrava os Nadis e 
os Chakras de um ser humano em meditação. Ela começou a 
falar: “Boa-noite. Espero que saibam por que estão aqui. 
Espero que saibam o que é que estão buscando, porque nessa 
noite, muitos, dentre vocês, irão receber sua Auto-realização. 
As encarnações que vieram antes de mim nunca tiveram 
tamanha sorte em encontrar tantos buscadores do Si, porém 
agora o tempo é chegado. Agora tudo está pronto em seu 
interior. Verão nesse diagrama três canais, que se chamam Ida, 
Pingala e Sushumna”. 
Mais uma vez, esse grande milagre da Realização 
coletiva irá se produzir sob nossos olhos, provando-se a verdade 
das descrições feitas sobre nosso sistema interior de energia-
consciência, em tempos remotos, pelos mestres espirituais. 
Olhemos mais de perto esse sistema sutil. 
No interior do corpo físico humano encontra-se 
embutido um corpo sutil de energia espiritual irrigado por três 
canais principais. O Sushumna Nadi, canal central, corresponde 
ao sistema nervoso parassimpático (SNP). O Pingala Nadi, 
canal solar, corresponde ao sistema nervoso simpático direito 
O ADVENTO 
 
110 
(SNSD) e termina no ego, o qual recobre o hemisfério esquerdo 
do cérebro. O canal esquerdo (Ida Nadi), ou canal lunar, 
corresponde ao sistema nervoso simpático esquerdo (SNSE) e 
termina no superego, que recobre o hemisfério direito do 
cérebro. 
O doutor Robert Sperry, do Instituto de Tecnologia da 
Califórnia, recebeu, em 1981, o prêmio Nobel de medicina por 
ter demonstrado as diferentes funções dos hemisférios do 
cérebro. O hemisfério esquerdo é mais ativo e o hemisfério 
direito é mais silencioso, embora este último seja mais efetivo de 
forma diferente. Essa descoberta apenas confirma os 
ensinamentos de Shri Mataji. 
Os Chakras são as fontes de energia dentro da coluna 
espinhal e dentro do cérebro humano. Manifestam-se, 
fisicamente, como plexos nervosos e controlam os órgãos do 
corpo, por intermédio do sistema neuro-endocrinológico 
correspondente à sua localização no corpo. Eles determinam o 
código genético. Controlam, no nível psíquico, os processos 
mentais e emocionais. No plano espiritual, controlam os 
diferentes aspectos de nossa natureza divina. O primeiro Chakra 
(Muladhara) está situado na base da coluna vertebral. 
Os plexos e subplexos de nosso corpo físico são em igual 
número dos Chakras e pétalas dos Chakras do corpo sutil. O 
último Chakra (Sahasrara) é descrito, na poesia tradicional, 
como sendo similar às flores de lótus. Existem ainda muitos 
outros Chakras, além dos sete principais, os quais não 
mencionaremos nessa introdução sumária, assim como inúmeros 
outros Nadis que inervam nosso corpo inteiro. 
Esse instrumental psicossomático e espiritual, que o Yogi 
pode discernir por meio da consciência perceptiva vibratória, 
não pode ser percebido pelo bisturi do cirurgião. Sua 
manifestação física dá-se por intermédio do sistema nervoso 
autônomo, cuja descrição pode ser encontrada em qualquer livro 
de fisiologia. Limitar-nos-emos aqui a dizer apenas que ele se 
A HARPA SAGRADA 
 
111 
divide em duas partes, o sistema nervoso autônomo 
parassimpático (SNP), cuja atividade visa a conservar, a 
restaurar e a equilibrar a energia e o sistema nervoso simpático 
(SNS) cuja atividade é responsável por nossas ações e pelo 
dispêndio de nossa energia, sendo particularmente ativo em 
situações de emergência. A porção simpática de nosso sistema 
nervoso autônomo (SNA) localiza-se na região torácico-lombar 
do corpo, enquanto que a porção parassimpática está 
eminentemente associada ao eixo sacro-craniano do corpo 
humano. A neuro-endocrinologia do cérebro pode ser usada 
para interpretar, até certo ponto, a relação existente entre esse 
sistema e a atividade da psique. 
A posição dos Chakras, no corpo sutil, corresponde à 
localização, no corpo físico, de importantesprodutores de 
hormônios (a hipófise, a tireóide, o timo, as glândulas supra-
renais, os ovários, os testículos, etc.). A medicina ocidental nega 
qualquer função fisiológica aos Chakras, porque, até hoje, não 
conseguiu identificar nenhum sistema circulatório, nervoso ou 
linfático que reunisse esses pontos entre si. 
No entanto, a Sahaja Yoga nos ensina que os canais Ida, 
Pingala e Sushumna interligam, de fato, esses centros e que 
cada canal é composto por tantos ‘tubos’ concêntricos 
(embutidos uns nos outros), quantos são os Chakras. Cada 
Chakra dispõe de seu tubo específico no Nadi (canal). As 
técnicas de cura da Sahaja Yoga agem por meio desses circuitos 
integrados, e elas exercem um impacto regulador sobre o 
sistema endócrino, bem como sobre o processo que ele controla. 
De fato, tudo isso não é novidade. A medicina indiana 
chamada Ayurvédica (essa denominação deriva do fato de ela ter 
sido compilada nos Vedas, em torno de 1.500 a. C.) era exercida 
com base nesse sistema. O organismo humano tem a mesma 
estrutura básica do macrocosmo. Ele é constituído pelos 
mesmos elementos: terra (Muladhara), fogo (Swadishthana), a 
água (Manipura), ar (Anahata) e éter (Vishuddhi), os quais a 
O ADVENTO 
 
112 
Sahaja Yoga identificou como tendo correspondência com os 
Chakras indicados entre parênteses. No corpo humano, o 
esqueleto, os músculos e todas as partes relativamente duras 
originam-se do elemento terra. Todos os líquidos que circulam 
nele se originam do elemento água. O calor do corpo, a 
capacidade de digerir os alimentos e a bílis vêm do fogo. Todos 
os processos e movimentos do corpo são estimulados pela força 
vital derivada do elemento ar. Há vários órgãos, como aqueles 
vinculados à percepção, que correspondem ao elemento éter. 
A boa saúde decorre de um bom equilíbrio entre esses 
elementos e, particularmente, entre os gases (ar), a bílis (fogo) e 
os humores (água). Um sistema de diagnóstico empírico, que 
examinasse as condições gerais de saúde de um paciente, 
poderia ser desenvolvido com base no conhecimento das 
correspondências entre Chakras, elementos, planetas e 
propriedades específicas. Entretanto, Hipócrates nem o pajé da 
tribo dos índios Comanches e nem sequer o médico-psicólogo 
Ayurvédico puderam captar, claramente, em seu conjunto, o que 
foi revelado pela ciência da Kundalini, a Kundalini Shastra. 
Hoje, os laboratórios farmacêuticos mais avançados 
estudam modelos químicos muito complexos de plantas 
medicinais, cujos efeitos foram conhecidos pela tradição, na 
esperança de desenvolver novos medicamentos sem os 
indesejáveis efeitos colaterais. Essas pesquisas são bem-vindas, 
porém se inscrevem ainda e sempre na periferia do conjunto de 
conhecimentos novos que se abrem para nós pela revelação da 
Sahaja Yoga. 
Com efeito, as relações com o vir a ser espiritual das 
pessoas não são percebidas pela ciência contemporânea, apesar 
de os Nadis e os Chakras serem a base energética de nossa 
evolução, da qual, mais especificamente, o Sushumna é o 
caminho. A ciência não poderá confirmar nem refutar essas 
proposições, porque, infelizmente, para nossos sábios cientistas, 
o Divino não pode ser confinado dentro de tubos de ensaio. É 
A HARPA SAGRADA 
 
113 
praticamente impossível realizar um experimento cientificamente 
controlado sobre os Chakras, uma vez que estes só reagirão, 
adequadamente, caso o protocolo das divindades e o da 
Kundalini seja respeitado. Assim sendo, a única maneira de uma 
pessoa testar nossa hipótese, acerca dos sistemas nervosos 
simpático e parassimpático, é começar a perguntar pela Auto-
realização, e se quiser, recebê-la, posteriormente. 
Comentando os trabalhos da medicina psicossomática 
nos EUA, Jean Starobinsky, em seu livro “A relação crítica”, 
afirma que: “A afirmação fundamental é a necessidade de se 
praticar uma medicina ‘holística’ atenta à totalidade dos 
fenômenos. É preciso, assim, coordenar os diversos métodos de 
diagnóstico e tratamento, situar o fator psicológico em suas 
relações com os fatores somáticos, renunciar a procurar uma 
causa única para cada afecção”. Todavia, a chave da medicina 
holística (a medicina que trata do corpo e da mente, como um 
todo) não pode ser uma síntese dos métodos ou de linguagens. 
Ela se encontra apenas quando temos acesso ao instrumento que 
exerce, em nós, essa função holística. Os Chakras e os Nadis 
mantêm a coesão dos sessenta e quatro revestimentos ou corpos 
sutis que compõem a totalidade do ser humano. Quem encontrar 
a harpa compreenderá sua música. 
Shri Mataji Nirmala Devi explica: 
“O amor divino onipresente emite um feixe de raios de 
consciência que atravessa e ilumina o cérebro. Isso ocorre 
quando o feto humano atinge o período de dois ou três 
meses, no útero de sua mãe. Tendo o cérebro uma forma de 
prisma, esse feixe sofre uma refração e se divide em quatro 
canais diferentes, que correspondem aos quatro aspectos 
do sistema nervoso. 
1. O sistema nervoso parassimpático; 
2. O sistema nervoso simpático direito; 
3. O sistema nervoso simpático esquerdo; 
O ADVENTO 
 
114 
4. O sistema nervoso central (nossa ligação 
cognitiva com o mundo objetivo, da qual não 
falaremos aqui). 
 
 O conjunto de raios divinos que desce sobre a fontanela (o 
topo da cabeça, chamado de moleira) penetra no centro e 
passa diretamente para a medula espinhal, através de um 
canal que se chama Sushumna. Essa energia, após deixar 
um traço muito fino e filiforme no bulbo raquidiano, vai se 
fixar, enrolada sobre si mesma, com, exatamente, três 
voltas e meia, no osso triangular que se situa na base da 
medula espinhal (Muladhar). Essa energia é chamada de 
Kundalini... O sistema nervoso parassimpático é o meio 
pelo qual absorvemos a energia. 
 Tão logo a criança nasce e seu cordão umbilical é cortado, 
abre-se uma brecha no Sushumna Nadi, entre o plexo solar 
e o nervo vago, do sistema nervoso parassimpático. No 
pensamento hindu, esse espaço é chamado de Maya ou 
Bhava Ságara (oceano de ilusão) e de Void (vazio) na 
terminologia zen-budista. Mais tarde, quando o ego e o 
superego inflam como balões e recobrem o cérebro, no 
ápice do sistema nervoso simpático direito e esquerdo, a 
fontanela se calcifica e nos separamos da força vital do 
amor divino onipresente... Então o ser humano se percebe 
como um ser separado e é governado pela consciência do 
ego, do ‘eu’ (Aham). É por isso que o ser humano não 
conhece seu Inconsciente universal, porquanto este foi 
cortado pelo seu ego.” 
 
No Aitareya Upanishad, o mestre Shankaracharya 
observa que “a consciência de Deus penetra no corpo através 
da ‘coroa da cabeça’, onde os cabelos são divididos ao meio, 
pelo partido”. Até hoje, as mulheres hindus enfeitam sem saber 
por que razão, esse lugar da cabeça, com um pó vermelho. 
A HARPA SAGRADA 
 
115 
O SISTEMA NERVOSO SIMPÁTICO (SNS) 
“Tudo que é humano é relativo, desde que se repouse sobre 
os contrastes interiores; porque todos os fenômenos são de natureza 
energética.” 
Carl Gustav Jung 
“Psicologia do inconsciente” 
 
O SNS é o meio pelo qual os homens ainda não-
realizados se programam ou são programados em sua vida 
diária, assim como no ciclo transmigratório de seus 
renascimentos. É, com efeito, grandemente em função do estado 
do SNS que nosso destino é articulado. O canal esquerdo (Ida 
Nadi) mobiliza a energia do desejo. O canal direito (Pingala 
Nadi) é responsável pela energia da ação (física e mental). Esse 
sistema bipolar, que funciona por ação e reação, só pode dar 
origem às sínteses relativas, que iniciam os processos de 
feedback com suas interações contraditórias, porém auto-
reguladoras. Jean Piaget assevera, em sua obra “Epistemologia 
genética”, que: “A auto-regulação parece constituir, ao mesmo 
tempo, uma das características mais universais da vida e o 
mecanismo mais geral que é comum às reaçõesorgânicas e 
cognitivas”. A observação de Piaget confirma a assertiva de 
Jung: “A psique é um sistema que se regula autonomamente, e 
não haveria equilíbrio nem um sistema auto-regulador, caso 
não houvesse forças contrárias capazes de contrabalançá-los”. 
Essa menção ao equilíbrio me leva a sugerir que, quando 
os movimentos psíquicos que surgem dos dois canais se 
equilibram, a pessoa desenvolve uma personalidade equilibrada, 
propícia ao despertar do terceiro canal, o canal central 
(Sushumna Nadi) – também denominado de caminho do meio - 
como prelúdio da Auto-realização. 
O SNS esquerdo utiliza a energia do Ida Nadi, o canal 
lunar, à esquerda do Sushumna. A rede irrigada por esse canal 
controla a vida subconsciente da psique e desemboca no 
O ADVENTO 
 
116 
superego. Todas as nossas experiências passadas se acumulam 
no superego. Quando nossa atenção se liga ao lado esquerdo, 
imergimos nas emoções, no passado, na nostalgia e outros 
estados afetivos. As perturbações desse canal dão origem a 
distúrbios psíquicos e a tensões sobre o superego, as quais 
abrem nossa psique a todas as espécies de interferências, desde 
os casos psicológicos benignos até aqueles casos extremos de 
possessão por espíritos. Os seres com temperamentos arraigados 
na Tamo Guna tendem a criar hábitos, a se submeter aos outros 
e a se lamentar. São muito condicionados e canalizam sua 
agressividade contra si mesmos, submetem-se aos outros e se 
conformam com as agressões que lhes são infligidas. Após a 
morte, os casos mais demoníacos passam a vagar pelos sete 
círculos do inferno que sintetizam o subconsciente coletivo. 
Essas almas (Bhuts) depravadas (os budistas as chamam de 
preta) podem ali errar, durante algum tempo, contudo sempre 
tentam escapar dessas regiões infernais, parasitando a mente de 
um ser humano vivo. A confusão entre o sexo e a Auto-
realização, retomada na década de 60, nos deixa particularmente 
vulneráveis às armadilhas do subconsciente. Freud devotou, com 
exclusividade, sua atenção a essa parte de nossa vida psíquica, a 
qual ele expôs nos conceitos de libido, eros (instinto de vida) e 
thanatos (instinto de morte). 
O SNS direito utiliza a energia do Pingala Nadi, o canal 
solar, à direita do Sushumna. Ele nutre a consciência ativa e 
desemboca no ego. Quando nossa atenção se volta para o lado 
direito, mergulhamos na atividade mental, no planejamento, na 
organização e em todas as províncias das atividades mentais 
orientadas para o futuro, que constituem o supraconsciente. No 
caso de uso excessivo da energia do Pingala Nadi, ocorre uma 
sobrecarga na rede, o que explica os sintomas de agitação 
mental e esgotamento nervoso que podem perturbar os 
intelectuais, os burocratas, tecnocratas e todos aqueles que se 
deixam levar pelo fascínio de Kratos, o Poder. Certamente, com 
A HARPA SAGRADA 
 
117 
isso, o ego se infla e se torna intumescido. Após a morte, os 
seres com temperamentos enraizados no Pingala Nadi são 
remetidos para as províncias do supraconsciente coletivo. Os 
melhores casos, após a morte, podem ir para aqueles lugares que 
foram descritos como as regiões celestiais (que são sete ao todo, 
conforme Shri Mataji). Todavia, ocorre um impasse. Precisam 
ter um nascimento humano para que obtenham a Auto-
realização. Nos casos piores, os temperamentos rajásicos se 
tornam personalidades do tipo ‘Gêngis Khan’, ‘Tamerlão’, ou 
‘Hitler’, que tentam dominar os outros com os poderes que 
adquiriram. Podem ainda, nos casos menos espetaculares, se 
tornar ascetas, sacerdotes sexualmente reprimidos ou Hatha 
Yogis que galvanizam, à plena carga, todas as suas energias do 
lado direito, a fim de assegurar uma espécie de dominação 
psíquica em relação aos outros. 
Evidentemente, o ego é característico a todas as pessoas 
e ele nos cria muitos problemas, mesmo que não tenhamos plena 
consciência deles. A psique dominada pelo ego exibe uma forte 
tendência a passar dos julgamentos - quase sempre limitados - à 
construção de castelos no ar e a direcionar sua agressividade 
contra os outros. 
Adler resumiu, em sua teoria sobre a busca do poder, os 
resultados de suas pesquisas sobre essa parte de nossa psique. 
Ademais, Adler e Freud estudaram, cada um a seu modo, o par 
de opostos, isto é, os Nadis, detendo-se Adler, 
predominantemente, no lado direito (Pingala Nadi) e Freud, 
principalmente, no lado esquerdo (Ida Nadi), conforme analisa 
Jung, em sua obra supracitada, “Psicologia do inconsciente”: 
“Em Adler, a ênfase recai sobre um sujeito que busca colocar-
se em segurança e a dominar os objetos e as coisas, quaisquer 
que sejam; em Freud, ao contrário, a ênfase recai, 
inteiramente, sobre os objetos que, por causa de suas 
propriedades específicas e precisas, são favoráveis ou 
desfavoráveis às aspirações hedonísticas do sujeito”. 
O ADVENTO 
 
118 
A fim de ilustrar as interações dos Nadis Ida e Pingala, 
consideremos a seguinte seqüência de eventos. Quando o recém-
nascido é separado de sua mãe, ele vive o trauma da separação, 
que fica gravado em seu subconsciente (Ida Nadi). Seu ruidoso 
protesto o confirma, nessa nova existência, e proclama seu ego 
individual (Pingala Nadi). Tal como um banco de gravações 
magnéticas, o subconsciente da criança registra todas as reações 
às situações novas e, alimentado pelas informações desse banco, 
o ego se afirma cada vez mais. Com o desenvolvimento de suas 
atividades, o ego e o superego começam a se inflar, como 
balões, nos dois hemisférios do cérebro e a recobrir, 
completamente, a membrana da moleira que se calcifica. Essa 
calcificação marca a ruptura da conexão com o Inconsciente 
universal. Nasce, assim, um novo microcosmo. Assim, o ser 
humano, apartado da energia divina sutil, que absorvia pelo topo 
do crânio, identifica-se como uma individualidade, um ser 
separado do Todo, e sua psique torna-se um campo de tensão 
entre o ego e o superego. 
Os canais Ida e Pingala podem ser imaginados como 
sendo fábricas de operações físicas e psíquicas. A energia usada 
que, numa fábrica, é expelida pela chaminé, fica retida no ego e 
no superego, os quais, em virtude disso se avolumam. A 
abertura do Sahasrara, o batismo, permitirá a evacuação desses 
dejetos energéticos. 
Com o crescimento do indivíduo, o desenvolvimento de 
suas faculdades mentais e criativas infla o ego, enquanto que o 
superego acumula o estoque dos condicionamentos cotidianos. 
O ego e superego criam uma espécie de filme de ilusão que 
impede que nossa atenção se concentre sobre a verdadeira 
realidade do Sahasrara Chakra. Apenas a Kundalini é capaz de 
perfurar esse casulo de consciência ilusória. Todavia, enquanto 
estiver fechado o canal central, Sushumna, a energia do SNS 
não pode penetrar no ponto de equilíbrio do Agnya Chakra. A 
energia oscila da esquerda para a direita, da direita para a 
A HARPA SAGRADA 
 
119 
esquerda, num movimento elíptico constante. Vale citar 
novamente Jung que, em sua obra “Metamorfoses da alma e 
seus símbolos”, esclarece que “todo extremo psicológico 
contém secretamente seu contrário e mantém, de certa forma, 
uma relação próxima e essencial com ele”. 
A energia vai e vem entre os dois pólos, estabilizando-se, 
de tempos em tempos, perto do ponto de equilíbrio do 
Sushumna. A estabilidade e a maturidade de uma pessoa são 
inversamente proporcionais à amplitude dessas oscilações. 
Quanto mais se equilibram, mais a personalidade se integra. 
Esses movimentos de energia entre os Nadis contrários exercem 
uma influência determinante sobre nosso comportamento e 
nossa evolução interior. Mui freqüentemente, nos desequilibram 
e nos transformam em reféns das Gunas. É por isso que o 
tocador de alaúde disse para Siddharta Gautama que somente 
se pode encontrar o tom correto quando as cordas do 
instrumento não estiverem muito esticadas nem muito frouxas, 
conselho esse que ajudou Siddhartaa se iluminar, pois se 
transformou em Buda. Quando as cordas da harpa se tornam 
soltas ou relaxadas (hiperatividade do SNS esquerdo), procuro 
contrabalançar esse relaxamento, retesando-as (pela ativação do 
SNS direito). Esse processo regula não só o progresso de nossa 
vida diária, mas também o ciclo de renascimentos, o que levou 
Jung a concluir que a vida psíquica é controlada pela ‘função 
reguladora dos contrários’, que Heráclito chamava de sistema 
enantiomorfo, tal como uma imagem refletida num espelho. 
Tudo isso nos remete de volta às considerações 
preliminares a respeito da ecologia cósmica das Gunas, o Yin e o 
Yang de Lao Tse, a migração dos elétrons no banho eletrolítico, 
e à dialética. 
Lenin observa, em relação à obra “Conspectus of Hegel’s 
- The science of logic”: 
“A dialética é a disciplina que mostra como os contrários 
podem ser, em que condições eles se tornam idênticos, e 
O ADVENTO 
 
120 
como se transformam um no outro - porque o espírito 
humano não deve compreender esses contrários como 
imutáveis e rígidos, porém muito mais como vivos, 
condicionais e mutáveis que se transformam um no outro.” 
 
Por outro lado, Mão Tse Tung (um taoísta que não sabia 
que o era), em seu livro intitulado “Sobre as contradições”, 
assevera que “constitui um fato verdadeiro que a unidade ou 
identidade dos contrários nos objetos não está morta ou rígida, 
mas está viva, condicional, móvel, temporária e relativa. Em 
dadas condições, cada aspecto contraditório se transforma em 
seu contrário”. 
 
O jogo arquetípico entre os Nadis do Virata reverbera, 
ao infinito, na matéria, nos modelos conceituais abstratos, bem 
como em nosso sistema nervoso. 
Como funciona essa auto-regulação no corpo humano? 
Quando um dos lados do sistema nervoso simpático for 
muito solicitado, em seguida, é seu contrário que será afetado. 
Sobre o plano físico, para dar o exemplo de um caso extremo, 
digamos que um temperamento dominador muito influenciado 
pela Rajo Guna (rajásico), que, de uma maneira geral, tem uma 
hiperatividade do Pingala Nadi, será facilmente vítima de uma 
crise cardíaca (o coração é controlado pelo Ida Nadi - canal 
esquerdo). Enquanto que uma pessoa muito perturbada pela 
pressão da Tamo Guna (tamásico) sobre seu canal esquerdo 
(Ida Nadi) torna-se oprimida, autodestrutiva e desenvolverá 
perturbações mentais (porque a atenção é controlada pelo 
Pingala Nadi ou canal direito). 
Mas, muito antes de chegar a um estado patológico, o 
organismo de uma pessoa saudável terá apresentado sinais de 
perigo, quando percebe que o movimento da energia está na 
iminência de perder o equilíbrio, isto é, de que o equilíbrio entre 
os Nadis não está sendo mantido. Quais são os sintomas disso? 
A HARPA SAGRADA 
 
121 
Numa pessoa com predominância do lado direito (right-sided 
person), os sintomas são, por exemplo, a atividade mental 
excessiva, a agitação, a insônia e/ou a náusea. Numa pessoa 
orientada pelo lado esquerdo (left-sided person), os sintomas 
mais freqüentes são a apatia, o enfado, a ansiedade e/ou a 
depressão. Infelizmente, não sabemos decodificar esses sinais, 
nem restabelecer o equilíbrio, vale dizer, o ritmo certo do 
circuito Ida-Pingala. Com o passar dos anos, pode ser que a 
auto-regulação não consiga mais manter a coesão do sistema, o 
que pode levar a pessoa a ter problemas com sua saúde física 
e/ou psíquica. 
Quando a energia psíquica, sob o aspecto de atenção 
(Chitta), oscila do extremo do ego ao extremo do superego, o 
indivíduo terá de suportar as tensões que resultam dessa 
oscilação. Essas tensões podem atingir o ponto de ruptura 
(neuroses, psicoses ou depressões) e abrir o sistema para as 
entidades perniciosas que estão fora dele. Nos piores casos, se a 
energia-consciência estiver muito identificada com um dos dois 
canais, o comportamento se tornará exagerado e patológico. Um 
indivíduo assim poderá atrair um outro afligido por algo que é 
oposto ao que ele sente, ou seja, pelo sadomasoquismo. 
A arte da Sattwa Guna é manter, mediante a retidão 
moral (darma), o equilíbrio dos movimentos laterais dos Nadis 
Ida e Pingala, de tal maneira que a atenção se concentra no 
ponto onde as elipses se encontram, como na figura 7 (que pode 
ser comparada ao símbolo tibetano do Vajra). Isso porque, é 
nessa junção que o Sushumna nos oferece uma alternativa para o 
movimento horizontal entre os dois canais (Ida e Pingala), 
abrindo a dimensão vertical evolutiva da Sattwa Guna, mediante 
a qual a atenção se aprimora e se torna mais refinada. Essa 
mestria, buscada pelos sábios de outrora, é extremamente difícil 
de ser conquistada. Contudo, ela reúne, evidentemente, as 
condições ótimas para o despertar da Kundalini. Muitos de 
nossos irmãos mais velhos já tentaram conquistar isso! 
O ADVENTO 
 
122 
 
 
FIGURA 7: O MOVIMENTO DA ATENÇÃO 
 
Gostaria de citar aqui Montaigne (em seu livro 
“Ensaios”), que desafiava o ego raciocinador (“estranhamente 
pagamos muito caro por esse belo discurso do qual nos 
glorificamos”), e zombava do verniz de superficialidade que 
envolve o homem (“vai-se mais facilmente atrás da arte, do 
que da natureza”). Montaigne nos deixou algumas frases que 
resumem, perfeitamente, o temperamento sáttwico: “Não há 
nada tão belo e tão legítimo que fazer o bem ao homem de 
forma devida”, ou ainda: “É uma perfeição absoluta e de 
qualidade divina saber deleitar-se lealmente com seu próprio 
Ser”. 
Quando a energia não se desvia desse ponto de 
equilíbrio, os Chakras não ficam sob estresse. Assim, as pessoas 
sáttwicas (que são orientadas pelo canal central, Sushumna, e 
portanto pela Sattwa Guna) manifestam em suas vidas um 
aspecto de serenidade, de equilíbrio e de harmonia. Nessa 
condição, as pessoas simples vivem contentes. Os filósofos e os 
buscadores de conhecimento terão uma propensão a receber 
intuições oriundas do Inconsciente coletivo, que os conduzirão a 
resultados frutíferos em seus campos de pesquisa. Os artistas 
passam a expressar em seus trabalhos a estética da Verdade. As 
A HARPA SAGRADA 
 
123 
vibrações de tais pessoas são frescas e elas recebem a Auto-
realização sem dificuldade, porque o Sushumna oferece uma 
passagem livre para a ascensão da Kundalini. As crianças 
inocentes e os jovens que gozaram de uma vida familiar feliz 
pertencem a essa categoria de pessoas. O parassimpático delas 
mantém os dois canais (Ida e Pingala) em equilíbrio. Centradas 
no Sushumna, as pessoas sáttwicas demonstram uma maturidade 
psíquica, sem que se percam nos circunlóquios cerebrais ou em 
paixões melodramáticas que tendem a ser normais hoje. Elas não 
se envolvem em jogos mentais ou emocionais, que tecem, de 
forma cada vez mais espessa, o véu da ilusão (Maya). 
A alma realizada se torna, gradualmente, livre da 
influência das três Gunas (inclusive da Sattwa Guna que almeja 
a busca do equilíbrio, da felicidade e da sabedoria), porque a 
Kundalini integra e transcende as Gunas, quando passa de seu 
estado adormecido para seu estado desperto. 
Shri Krishna disse: “Quão difícil é penetrar através de 
minha Maya, tecida pelas Gunas!” Certamente o que diz é 
verdade. É incrivelmente difícil, a não ser que o mestre do jogo 
decida intervir e sopre a brisa do Espírito Santo. 
Estamos todos de acordo sobre a existência de 
contradições nas Gunas Tamas e Rajas do Virata, assim como, 
no plano microcósmico, em nosso sistema nervoso simpático 
esquerdo e direito. É bom que tenhamos consciência disso. 
Contudo, melhor ainda seria que superássemos tudo isso. Será 
que as cordas de nossas harpas estão excessivamente esticadas? 
Devemos evitar, também, que elas fiquem muito frouxas. 
Todavia, o que devemos fazer para afinar, adequadamente, as 
cordas? Na linguagem da Sahaja Yoga, a questão pode ser 
traduzida da forma seguinte: ‘como estabilizar a oscilação 
perpétua da energia entre o SNS esquerdo edireito?’ Ou ainda: 
‘como superar o processo de ação-reação que balança nossa 
psique entre o ego e o superego, de tal maneira que nossa 
atenção possa conectar-se com o Si, com o espírito?’ 
O ADVENTO 
 
124 
A resposta a essa questão não pode ser teológica nem 
intelectual, porque ela pressupõe o despertar da energia 
potencial do sistema nervoso parassimpático, a Kundalini. A 
pessoa não pode despertá-la pelo pensamento nem pela 
discussão ou argumentação, ou pelo fato de aderir a um 
movimento espiritual. Shri Mataji observa que “ninguém se 
transforma num Sahaja Yogi por ter pagado uma subscrição. 
Isso é decidido por Deus”. O que devemos fazer? Sem 
descobrir o ritmo espontâneo da harmonia em nosso interior, 
não poderemos realizar isso dentro da sociedade. Isso é 
verdadeiramente o enigma, o antigo dilema que suscitou tantas 
dificuldades na busca da realidade pelo homem, ou seja, o limite 
além do qual não podemos passar. 
Dentro desse limite, somos como peixes, que nadam 
dentro de um pequeno aquário de vidro, imerso no meio do 
oceano, e, sem cessar, esses peixes lançam-se contra as paredes 
do aquário, no afã de penetrar as profundezas verdes do mar. A 
consciência do homo sapiens está tão engaiolada pelo ego e pelo 
superego, que dá ao ser humano a ilusão de dispor de um 
aquário individual. 
Vejamos mais de perto o que é que acontece no estado 
psíquico padrão de uma pessoa normal. A analogia do aquário é, 
de certa forma, decepcionante, porque nossa psique não é um 
sistema fechado. É verdade que não estamos conectados com o 
oceano do Inconsciente Universal. Todavia, o ego e o superego 
estão conectados a outros domínios cósmicos, desconhecidos 
pela ciência contemporânea. Os psicólogos usam a palavra 
‘inconsciente’, como um termo genérico para designar tudo que 
é desconhecido pela mente consciente. Contrastando com isso, a 
consciência perceptiva vibratória da Sahaja Yoga nos permite 
distinguir as seguintes áreas nesse domínio: 
A HARPA SAGRADA 
 
125 
a) O Inconsciente Universal (Paramatma), que pode ser 
descrito como o cérebro do Virata e do qual só se 
pode aproximar na pureza e no silêncio da meditação; 
b) O subconsciente coletivo que surge da Tamo Guna do 
Virata e influencia o superego do homem; 
c) O supraconsciente coletivo que emerge da Rajo Guna 
do Virata, e influencia o ego humano. 
 
Uma vez que tenhamos reconhecido o cenário, 
descobrimos os atores e seus animadores, qual a peça que está 
sendo representada e como podemos fazer sucesso com nossos 
papéis. Especifiquei, deliberadamente, os animadores, porque é 
muito comum ver atores totalmente dominados pelas sombras 
sussurrantes de outras entidades. 
Sob a ilusão de ser uma entidade separada do todo, o 
indivíduo identifica-se com todos os fenômenos físicos e 
psíquicos os quais, em verdade, constituem apenas uma 
representação teatral. Ele supõe que tudo que acontece no 
interior de seu corpo, quer no nível físico, quer no psíquico, é 
uma emanação de seu Ser real, uma expressão autêntica de si 
mesmo. A psicologia moderna, ao desenvolver a noção de 
condicionamento, tentou destruir esse mito. Ao fazer isso, caiu 
no extremo oposto e tem, freqüentemente, descrito o homem em 
termos de uma soma global de seus condicionamentos genéticos, 
psicológicos, socioculturais e outros. Evitando os dois extremos 
de condicionamento e de liberdade psicológica, o buscador que 
coloca a questão ‘quem sou eu?’ desembaraça-se, gradualmente, 
das falsas identificações: ‘nem isso, nem aquilo’, para chegar 
finalmente (é possível ter essa esperança) à resposta: ‘sou 
Aquilo (ou o Absoluto)’. Patanjali nos diz em seus “Aforismos” 
(11.26) que “A incessante distinção entre o Si e o não-Si 
destrói a ignorância”. Por sua vez, o Brihadaranyaka 
O ADVENTO 
 
126 
Upanishad esclarece que “o Si é descrito como não sendo isso 
nem aquilo, ele é incognoscível, uma vez que não pode ser 
compreendido”. 
Portanto, a questão que permanece é: o que é esse ‘isso’ 
ou esse ‘aquilo’ que mantemos em nossa mente, mas que não 
constituem, em verdade, nós mesmos. Será que podemos nos 
desembaraçar disso sem perder nossa integridade? As vidas das 
pessoas podem ser influenciadas, seriamente, por movimentos 
internos de suas psiques, tais como tensões nervosas, sensação 
de desconforto no relacionamento com os outros, frustrações, 
aborrecimentos, inseguranças, fobias, etc. De onde vem tudo 
isso? Qual é a fonte desses sentimentos, pensamentos e imagens 
mentais, que, de tempos em tempos, podem aparecer de forma 
indesejável, os quais consideramos como estranhos e passíveis 
de rejeição por nossa consciência mais profunda? Arjuna fez a 
mesma pergunta: “Por que faço o mal que não quero fazer e 
não faço o bem que gostaria de fazer?” Tudo isso não pode ser 
explicado pelo efeito dos cromossomos ou pelas relações de 
produção. São Francisco de Sales afirmou: “Freqüentemente, 
pensamos que nos livramos de nossos antigos inimigos em 
relação aos quais celebramos nosso triunfo, e os vemos 
retornar novamente de um outro ponto, de onde menos 
esperávamos que reaparecessem”. 
Assim sendo, algumas vezes, outras entidades coabitam 
em nosso interior. Nossa calota craniana e a carapaça de carne 
que nos revestem exprimem os limites de nosso ser físico. Se um 
objeto físico estranho o penetra, morremos ou nos ferimos. 
Porém, nosso invólucro de osso e de carne não tem a capacidade 
de rechaçar a intrusão de entidades muito mais sutis que a 
matéria. Essas entidades podem entrar, em nosso cérebro, ou em 
qualquer outra parte de nosso corpo, sem que tenhamos 
consciência disso, porque, antes da Auto-realização, ainda não 
temos um poder de atenção, suficientemente agudo, a fim de 
isolar, imediatamente, a interferência. 
A HARPA SAGRADA 
 
127 
Conforme observa Lyall Watson (em seu livro “The 
Romeo error”): “As características de um ser desencarnado são tão 
diferentes das de um ser vivo que não será possível, sem dúvida, 
para este último reconhecê-las”. 
 
Para nossos ancestrais, a morte era simplesmente uma 
mudança de estado, como se pode ler em Fustel de Coulanges, 
em seu famoso livro “A cidade antiga, estudo sobre o culto, o 
direito, as instituições da Grécia e de Roma”: 
“Quanto mais longe se recuar na História da raça indo-
européia, da qual as populações gregas e italianas são 
ramos, descobre-se que essa raça jamais pensou que, após 
essa curta vida, tudo acabaria para o homem. As gerações 
mais antigas, muito antes do surgimento dos filósofos, 
acreditavam numa segunda existência que vinha depois 
dessa.” 
 
A morte cria relações específicas entre o desaparecido e 
o mundo dos vivos. Das Antilhas ao Tibete, as descobertas dos 
antropólogos confirmaram que a imensa maioria das sociedades 
humanas acreditou na possibilidade de que os seres imateriais 
pudessem interferir no comportamento e negócios humanos. A 
arte de pacificar o espírito dos mortos é o fundamento da maior 
parte dos ritos arianos. No entanto, esses seres desencarnados 
podem mostrar-se perigosos para a raça humana (Mateus 
12.43). 
Quaisquer nomes que sejam dados para essas entidades 
de interferência psíquica, sejam gênios, fantasmas, espíritos, 
almas penadas, espectros, pretas (para os budistas), Bhuts (em 
sânscrito), a existência delas, assegurada por todas as nossas 
tradições históricas, é confirmada pelas descobertas feitas pela 
consciência perceptiva vibratória. Não descreveremos suas 
categorias, que vão desde os casos benignos até os demoníacos. 
A possessão por espíritos demoníacos foi verificada em todas as 
O ADVENTO 
 
128 
sociedades antigas. Nossos ancestrais tentaram mil maneiras de 
conjurar os espíritos maléficos. Entretanto, a grande dificuldade 
para o homo sapiens moderno é demonstrar, cientificamente, a 
existência e a atuação desses Bhuts. Sem reconhecer a 
ocorrência de seu parasitismo ede seu modo de operar, é fácil 
para o ser humano identificar-se com as sugestões dessas 
entidades, ou, se resistir a elas, poderá ficar mentalmente 
confuso. 
Antes da Auto-realização, não podemos nos tornar 
conscientes de nossos condicionamentos, porque os 
condicionamentos trabalham no subconsciente, vale dizer, numa 
parte de nossa psique que fica fora do âmbito da mente 
consciente. Se a intrusão se der na mente consciente, sob a 
forma de uma cadeia de maus pensamentos, o ego camuflará a 
presença do intruso e se gabará de que os pensamentos lhe 
pertencem. 
Foi assim que, em agosto de 1975, todo esse domínio 
emergiu do reino da ficção, e compreendo a dificuldade do leitor 
de aceitar os fatos que estou narrando. De fato, antes do 
despertar de minha consciência perceptiva vibratória interna, 
nunca havia percebido a interferência de Bhuts (doravante usarei 
essa expressão em sânscrito que significa ‘espíritos de pessoas 
mortas’). Não podia me proteger deles e me contentava em 
registrar, passivamente, em minha mente, os traços de sua 
presença, vale dizer, me sentia muito mal, com facilidade, perto 
de certas pessoas, sem saber a razão disso; atravessava períodos 
de intensa depressão ou de agitação febricitante e, às vezes, era 
agressivo sem motivo. Sofria muito mais desses humores 
mutáveis do que era capaz de compreender o que significavam. 
Devemos entender que uma certa categoria de seres 
humanos desencarnados, os ‘mortos’ (eles estão no Bardo, 
dizem os tibetanos) são, no sentido etimológico, desviados, uma 
vez que tentam evitar as áreas do cosmo para a qual estão 
destinados a ir. Essas áreas podem ser, com efeito, os sete 
A HARPA SAGRADA 
 
129 
círculos do inferno. Apegados ao mundo dos vivos devido a uma 
trama de desejos insatisfeitos, tentam penetrar no campo da 
consciência humana. Pretendem vivenciar, parasiticamente, por 
intermédio do sistema nervoso de uma vítima humana, aquelas 
sensações das quais foram privados, por causa de seu estado de 
simples consciência desprovido de um corpo físico. Tornam-se 
parasitas de nossa energia psíquica, da mesma maneira que os 
vírus se tornam parasitas de nossa energia física. Menos 
destrutivas, outras influências podem vir, simplesmente, de 
parentes falecidos que tentam guiar aqueles que eram queridos 
por eles, tais como seus filhos menores, que tiveram de 
abandonar de forma abrupta. Todavia, quaisquer que sejam suas 
intenções, o Bhut acaba por exercer uma ação negativa sobre a 
pessoa que ele parasita. A vítima do parasitismo dos Bhuts, 
apesar de ter apenas um sistema nervoso, tem de suportar dois, 
ou mesmo mais sistemas de consciência. Isso pode provocar o 
fenômeno do ‘superaquecimento’ nervoso que leva ao 
esgotamento, à depressão, à neurose, à histeria, à epilepsia, ou 
mesmo ao câncer. Entre os casos sem gravidade e aqueles que 
envolvem possessão, com espuma na boca, apresenta-se toda 
uma gama de perturbações mentais. Por isso, Cristo, Buda, 
Guru Nanak e muitos outros advertiram, firmemente, a 
humanidade sobre os perigos de se deixar envolver pelos 
espíritos. 
Hoje, alguns institutos de pesquisa com fins militares 
estão explorando o domínio da percepção extra-sensorial, na 
esperança de encontrar novas fontes de poder. Ao fazerem isso, 
estão forçando o sistema nervoso simpático a atingir seu ponto 
de ruptura. Isso não é nada sábio. Por essa razão, alguns Sahaja 
Yogis enviaram uma carta de advertência ao Embaixador dos 
EUA em Londres, sobre alguns aspectos das pesquisas em 
parapsicologia, telepatia, hipnose, e outras formas de percepção 
extra-sensorial, feitas por vários departamentos da administração 
pública ianque. Citarei um trecho dessa carta. “Estamos cientes de 
O ADVENTO 
 
130 
que o interesse na Percepção Extra-Sensorial (PES) pelo Governo dos 
EUA é estimulado pelos progressos relatados na pesquisa parapsicológica 
empreendida na União Soviética. Todavia, deve-se enfatizar que esse tipo 
de pesquisa inevitável e invariavelmente, de uma forma ou de outra, volta-
se contra seu autor ou contra a pessoa na qual ela é aplicada. O resultado 
final é claramente negativo.” 
 
Na verdade, os domínios do supraconsciente coletivo e 
do subconsciente coletivo não podem ser conquistados pelo ser 
humano. Muito pelo contrário, o reverso é que é verdadeiro, o 
ser humano pode ser destruído (mental e fisicamente) pelas 
forças que ele tenta controlar nesses domínios. O ataque 
coletivo oriundo dos mortos dessas regiões assinala a usurpação 
da Terra pelo inferno. As populações infelizes, onde são 
praticados o vodu, a magia negra e a feitiçaria, sabem disso 
perfeitamente. Desde a magia negra até a parapsicologia, 
passando por vários cultos modernos que também estão nesse 
caminho, conscientemente ou não, encontramos milhares de 
maneiras de enviar convites para o reino dos mortos. 
Gostaria de continuar a falar sobre esse tema de uma 
outra maneira. O estado psíquico normal (EPN) do homo 
sapiens é apenas um dos estados de consciência abertos ao ser 
humano. Há certamente outros, que podem ser atestados, tanto 
pelos sábios, quanto pelos usuários de LSD. Não podemos 
aplicar o princípio lógico da não-contradição à nossa psicologia. 
Não podemos afirmar que se o homem está no estado 
psicológico A, logo não pode estar no estado psicológico B, 
porquanto a psique humana evolui numa geometria 
multidimensional do consciente, do subconsciente e do 
supraconsciente, na qual o homem pode, ao mesmo tempo, estar 
e não estar. Essa topografia psíquica (o domínio das formas 
emocionais e mentais) é definida pela atividade do sistema 
nervoso simpático. O homem é, ou não é, segundo o grau de 
controle que ele pode exercer sobre essas formas. Ele é, quando 
a coesão de sua atenção é mantida no presente, ao longo do 
A HARPA SAGRADA 
 
131 
canal central, Sushumna. Ele não é, quando sua atenção é 
dividida entre o ego e o superego, por causa de uma atividade 
exagerada do Ida (canal esquerdo, superego) e do Pingala 
(canal direito, ego). Mesmo porque, no limite de sua tendência, 
os Bhuts podem se infiltrar através das fissuras de uma 
consciência desintegrada. Somente entrando na consciência-
silêncio do Sahasrara Chakra é que, com toda agitação 
pacificada e com todas as formas abolidas, entro na identidade 
do real, a consciência do Si. 
Consideremos agora nossa dependência do sistema 
nervoso simpático (SNS). No superego, posso ficar perturbado 
pelo condicionamento externo, e, portanto, me tornar alienado 
de minha real identidade, do Si, da minha Alegria, da 
Consciência e da Bem-aventurança. O estado psíquico normal 
(EPN) é assim um estado de alienação. Os existencialistas 
definem a condição humana, em termos de tal alienação, porque 
o homo sapiens não pode evitar agir, principalmente, por meio 
do SNS. Isso equivale a dizer que, por intermédio desse sistema, 
ninguém pode ser vacinado contra os Bhuts nem pode alcançar a 
plenitude do Si. O homo sapiens passa, dessa forma, a maior 
parte de seu tempo no estado de alienação, do qual não é 
consciente, porque, geralmente, não tem a capacidade sáttwica 
de discernimento, que lhe permitiria identificar seus 
condicionamentos e destruir as identidades ou identificações 
artificiais. 
As falsas identificações se revelam de muitas maneiras ao 
homem: ‘sou um grande músico, um especialista, um punk, uma 
vítima do capitalismo, um Membro da Sociedade Real, um 
bispo, etc.’ Ele não tem a capacidade de perceber e romper uma 
identidade (ou identificação) que pode estar acompanhada por 
um Bhut. Se considerarmos como anormal o fato de que o 
homem seja programado pelos fenômenos e mecanismos que 
não consegue compreender nem controlar, poderíamos dizer que 
o EPN (estado psíquico considerado normal) é, de fato, 
O ADVENTO 
 
132 
anormal. As causas de todos os sofrimentos humanos devem ser 
procuradas nessa anomalia.A psicanálise moderna se baseia no estudo da psique do 
homem moderno, ameaçado como ele é pela hiperatividade do 
SNS. Ela tentou identificar seus conteúdos psíquicos, mas 
confundiu o subconsciente coletivo com o subconsciente 
individual e permitiu que o subconsciente coletivo entrasse no 
subconsciente individual. De lá esses conteúdos guiam, 
condicionam e perturbam nossa atenção, e podem nos levar à 
neurose, podem provocar, em nós, uma divisão esquizofrênica 
ou nos superexcitar de forma paranóica. 
Entretanto, a psicanálise não pode ir além da 
identificação dos sintomas. Ela não possui meios para identificar 
o Bhut como o principal fator patogênico. A psicoterapia 
clássica apenas mobiliza a parte consciente da psique, a fim de 
identificar - e assim exorcizar - as sombras inquietantes do 
subconsciente, as imagens e os sentimentos reprimidos. Ela usa 
as técnicas da diagnostische Assoziationstudien, o estudo 
diagnóstico das associações mentais e a análise dos sonhos que 
tendem a descarregar o estado perturbado pela verbalização 
(speech analysis). O sujeito tem assim a possibilidade de se 
desvencilhar de uma identificação anterior com o Bhut. Ele se 
libera pela ação discriminadora de sua psique consciente. Esse 
procedimento é, em princípio, correto, todavia, não pode nos 
levar muito longe. Mesmo que o sujeito consiga se livrar de uma 
falsa identificação, o que é que o impedirá de cair numa outra 
identificação errada, que pode ser ainda mais perniciosa que a 
primeira? Como é que se fecha a porta através da qual os Bhuts 
entram na psique humana? 
- As sensações angustiantes e os transbordamentos da 
psique não podem ser reduzidos ao foco que os irradia, ou seja, 
o Bhut, pois este não é reconhecido como tal. Ele é uma 
entidade estranha ao sujeito ou um parasita vulgar que não deve 
ser temido, mas expulso. 
A HARPA SAGRADA 
 
133 
- Pela ativação excessiva do lado direito (consciente), a 
psicoterapia, invariavelmente, desenvolve o ego. Por isso, os 
psicólogos têm prejudicado seus próprios Agnya Chakras. 
- Finalmente e acima de tudo, sem a consciência 
perceptiva vibratória, o Bhut não pode ser identificado no 
momento de sua invasão. A ciência médica intervém muito 
tarde, quando o Bhut já se incrustou, solidamente, na psique e já 
causou todas as espécies de perturbações. A psiquiatria é 
alertada somente pelos sintomas. Para que o sofrimento fosse 
evitado, teria sido preciso uma ação preventiva, ou pelo menos 
uma imediata reação à invasão psíquica. Esse é o caso para um 
ser realizado. Antes de tudo, um Bhut terá um problema enorme 
ao tentar entrar no campo energético (aura) de uma pessoa 
realizada. Se, por acaso, ele conseguir entrar, sua presença será 
imediatamente detectada por meio de uma sensação física que 
segue a trilha de sua passagem e indica o lugar exato no corpo 
onde ele se alojou, como, por exemplo, no fígado, na genitália, 
numa das têmporas, etc. 
O sistema de um Sahaja Yogi se mobiliza, 
espontaneamente, para expulsar o intruso. Se isso não for 
suficiente, ele dispõe de um grande arsenal de técnicas... É claro 
que, sem a abertura dos Chakras ao longo do Sushumna, e 
também do espaço psíquico da consciência silenciosa (Vilamba), 
falta-nos o terreno firme sobre o qual poderemos projetar nossa 
atenção interior, tal como um raio laser, a fim de desalojar o 
Bhut. Ao contrário, quando um Bhut entra no sistema, a atenção 
da vítima se distancia cada vez mais do Sushumna, e ela pode 
realmente sentir uma maior intensidade das sensações físicas e 
psíquicas, por intermédio das sensações do Bhut. É assim que, 
finalmente, certas pessoas se tornam brutais, bestiais e até 
homicidas. 
Emile Zola, em seu livro “O animal humano”, relata: 
“Desde que deixou o quarto com sua faca, não era mais ele que agia, mas 
uma outra pessoa, aquela que ele sentia sempre agitar as profundezas de 
O ADVENTO 
 
134 
seu ser; esse desconhecido veio de longe, queimando com a sede 
hereditária de matar. Ele já havia matado, porém ainda queria matar”. 
 
A confusão entre o parasita e sua vítima é impossível de 
ser dissipada, porquanto os dois sistemas estão muito 
interligados. Auguste Comte não sabia que estava tão certo, 
quando comentou: “Os vivos serão cada vez mais governados 
pelos mortos”. Essa é uma das características da Kali Yuga. 
Resumamos essa digressão da relação entre os mortos e 
o SNS com uma imagem. Nossos corpos (físico, emocional e 
mental) são os teatros de uma peça onde atores não autorizados 
tentam desempenhar os melhores papéis no palco. Chegam ao 
palco por meio da força de minha atenção que eles conseguiram 
capturar. Quando afasto a atenção deles, corto o poder que 
exercem sobre mim. Assim, eles desaparecem e as falsas 
identificações se dissolvem. Para ser rei em meu reino, para ser o 
ator principal no teatro de minha vida, tenho de perceber as 
coisas sob a ótica do Si. Para superar os Bhuts, é preciso que os 
confronte em meu próprio terreno e não os seguir até o deles. 
Meu terreno se situa no Si. Mediante a atuação do 
parassimpático sobre a atenção, esta pode ampliar-se cada vez 
mais. Por via de conseqüência, minha mestria cresce. Quando a 
atenção elege como seu objeto o próprio Si, começo a 
reconhecer a verdadeira realidade, ou melhor, a realidade 
reconhece-se a si mesma. Esse é o reino de Deus. Todavia, 
somente a mobilização do poder divino e a abertura do caminho 
da liberação do Sushumna podem tornar o indivíduo capaz de 
ultrapassar suas próprias fraquezas, de restaurar a integridade de 
sua psique e de se tornar unificado a si mesmo. Shri Mataji diz: 
“Não devem brigar com os outros, mas com as falsas 
identificações que existem em seu interior”. Quando essas 
identificações espúrias são abandonadas, os Bhuts não têm mais 
espaço psíquico no qual possam sobreviver. São, 
automaticamente, expelidos e nunca mais retornam. 
A HARPA SAGRADA 
 
135 
A maioria dos Bhuts se instala no superego. Todavia, o 
ego oferece uma segunda possibilidade para eles se alojem e 
desenvolvam tendências demoníacas. O ego resulta da atividade 
do Pingala Nadi. Quando essa atividade redunda em sucesso, o 
ego intumesce. De certa forma, podemos dizer que ele se deixa 
possuir por si mesmo. Nesse estado, a psique não fica em risco 
em relação às intrusões do exterior, porém sofre muito mais 
pelas distorções das percepções controladas pelo ego. O ego 
tem uma espécie de concepção ptolomaica da galáxia psíquica, e 
se imagina como o centro do universo. “O papel do ego”, diz 
Shri Mataji, “é o de mantê-los fora da realidade”. Já é tempo 
de terem isso em mente no Ocidente, porque esse fato tem, de 
uma forma geral, escapado da atenção dos psicólogos, que dele 
fazem uso. Ademais, vários critérios de comportamento 
desenvolvidos em nossa civilização têm como base o ego. 
O ‘egotipo’ (neologismo adequado para explicar o tipo 
de pessoa dominada pelo ego), usualmente chamado de egoísta, 
ególatra, egocêntrico ou egotista, não pode ver as coisas em sua 
realidade (das Ding an sich, diria Kant). Isso porque sua 
capacidade intelectual, quase sempre notável, não é guiada pela 
sabedoria equilibrada da Sattwa Guna. Esse tipo elabora novas 
teorias para justificar seus fins. Isso nos leva à origem da 
ortodoxia, do fanatismo, do racismo, etc. O ‘egotipo’ não se 
interessa pela verdade, se ela não tiver sido criada por ele, vale 
dizer, se não for um instrumento útil para atingir seus objetivos. 
Assim é que ele distorceu todas as tradições espirituais, 
religiosas e morais. Sem verdade, não pode haver retidão 
(darma), e é assim que o ego cegante elimina, sem dor, as regras 
fundamentais do comportamento moral. É sem nenhum 
escrúpulo nem remorso algum, que ele pode tornar-se adúltero 
ou cruel. ‘Por que não?’, diz o ego, ‘gosto disso!’ Os ególatras 
oprimem seu cônjuge e destroem, assim, a harmonia do lar que é 
a fonteda felicidade. Competitivos, cortejam o sucesso, e são, 
muitas vezes, os mestres da superficialidade e da camuflagem. 
O ADVENTO 
 
136 
Ao se mostrarem charmosos ou astutos, ludibriam os outros e 
enganam a si mesmos justificando, racionalmente, seus menores 
caprichos. 
A mente superdesenvolvida controlada pelo ego fica 
contente em racionalizar tudo aquilo que acontece. Qualquer 
dogma, qualquer comportamento, por mais depravado que ele 
seja, pode ser assim legitimado por uma análise impecável. 
Quando se chega a esse ponto, a extremidade do ego se junta à 
extremidade do superego a fim de produzir o tipo mais 
destrutivo de personalidade. Glorificando sua degeneração, o 
‘egotipo’ agride e destrói os outros. Ele trilha também o 
caminho da autodestruição. 
Os indivíduos com seus egos inflados podem ser, 
freqüentemente, encontrados no comando dos negócios, da 
política, da economia, ou da administração. Com uma arte 
perfeita, fingem que aquilo que o ego deles deseja é determinado 
pelas exigências do bem comum e zombam deste bem comum 
do qual são apenas guardiões. Como utilizam os recursos do 
canal solar (lado mental), eles se mostram extremamente 
astuciosos e prudentes, cheios de tato, algumas vezes solenes, e 
enfeitam sua fachada social, a fim de impressionar, de modo 
melhor, aqueles dos quais abusam. Deleitam-se, particularmente, 
como fariseus e pontífices eternos, em aparecer como fiadores 
dos princípios que eles mesmos traem. 
Aos olhos de uma personalidade sáttwica, a inflação do 
ego aparece com suas cores verdadeiras como um castelo de 
areia, um balão de vaidade. Vale citar La Bruyère 
(“Caractères”): 
“Estimo que para se dar uma idéia mais precisa da ostentação, 
deve-se dizer que existe, no homem, uma paixão por mostrar um bem ou 
vantagens que ele não possui. Mostrar-se enfatuado de si, ou ficar, 
firmemente, convencido de que se é dotado de muito talento é um acidente 
que acontece somente para aquele que não tem nenhum, ou pouco 
espírito.” 
 
A HARPA SAGRADA 
 
137 
La Rochefoucauld, em “As Máximas” e em “Anedotas e 
retratos”, afirma que “a fim de se estabelecer no mundo, faz-se tudo 
que é possível para se parecer bem-sucedido. Há imbecilidades bem-
vestidas, assim como idiotas bem trajados”. 
Não obstante, o ego de uma pessoa rajásica (na qual 
prepondera a Guna Rajas), quando é muito sutil, pode ser tão 
invisível quanto eficaz. No plano vibratório, chega a emitir 
microondas que captam a atenção das pessoas Tamo Gunis ou 
tamásicas (nas quais predomina a Guna Tamas) identificadas 
com o pólo oposto, que é o extremo superego. Um clube de 
sadomasoquistas forma-se dessa maneira nas cervejarias bávaras 
e culmina no aparato nazista. A combinação dos tipos extremos 
de ego e de superego pode formar um monstro coletivo. No 
entanto, não é preciso ir tão longe a fim de criticar a coletividade 
humana. O ‘egotipo’ moderno é capaz de destruir, facilmente, as 
leis que mantêm a integridade da família e a coesão social. Ele 
planeja e discursa, escreve livros e, sobretudo, faz filmes que 
zombam de tudo que é decente, santo e sagrado. A multidão de 
superegos acompanha esse movimento degenerado. A atenção 
das massas é assim levada mais e mais para longe do caminho 
central da evolução. 
Aquele cuja atenção se volta, demasiadamente, para o 
Pingala Nadi entra no domínio do supraconsciente coletivo. 
Pode ser possuído por um Bhut dos assim denominados ‘mestres 
invisíveis’, que tentam, por intermédio dele, influenciar o curso 
das questões humanas. Isso porque a grande tentação do 
supraconsciente é a busca do poder em quaisquer de suas 
formas. Ao combinarem seus esforços, o parasita e sua vítima 
acabam obtendo algum poder. 
Quando Maquiavel liberou seu Príncipe da moralidade, 
para que pudesse fazer uma política melhor, ele propôs que o 
Príncipe se deixasse guiar pelo senso da virtude. Quando o ego 
assume o comando, ele não reconhece limite algum. Os 
imperialistas, os exploradores, os colonialistas e os ditadores de 
O ADVENTO 
 
138 
todos as nuanças sulcaram os caminhos da História como 
condutores em estado de embriaguez, tendo tido o cuidado de 
manter, no banco de trás, vários volumes de textos que 
justificavam suas ações insensatas. Estimulado pelo sucesso que 
conseguiu no mundo, o ‘egotipo’ explora e domina os outros, 
até que talvez um outro ‘egotipo’ o detenha. 
Shri Mataji afirma que “de fato, o ego pode nos 
desencaminhar de uma maneira bem mais radical que o 
superego, cujos excessos nos fazem sofrer”. O ego apenas faz 
com que os outros sofram, pois ele não se importa com os 
outros. O diabo, como ego, tem uma latitude total para agir, 
pois, nesse caso, ele não cria neuroses e, além disso, conta com 
as bênçãos dos psicólogos. Os psicólogos, tendo descoberto que 
os sistemas de controle e de tabus sociais criam os 
condicionamentos, sugeriram que estes fossem desmantelados. 
Ninguém se dá conta de que a inexistência de controles ajuda a 
criar os monstros egocêntricos. 
Quando os cegos conduzem a sociedade, esta acaba 
caindo num buraco, como os cegos de Breughel. Essa 
proposição milenar encontra hoje sua expressão mais dramática, 
porque a tecnologia centuplicou o poder da ação não iluminada 
do ‘egotipo’. As forças maléficas têm assim um poder de 
interferência nos assuntos humanos sem precedentes na História. 
Esse poder embala a si mesmo. Será isso a grande renovação ou 
o crepúsculo? Nas palavras de A. Toynbee, em seu livro “A 
humanidade e a Mãe Terra”, o momento atual se revela como 
sendo o ato final que se encaminha para o clímax: 
“O clímax pode ser a aniquilação da vida pela pilhagem da 
biosfera à qual se entregam a perversidade e a demência humanas. Isso é 
possível hoje, porque o demônio encarnado no homem está armado com 
suficiente poder tecnológico. Alternativamente, o clímax poderia se 
transformar na transição de uma primeira era da História humana para 
uma segunda ou, mais provavelmente, para uma longa série de eras 
futuras... Não podemos prever o futuro, porém podemos perceber que 
estamos nos aproximando de uma bifurcação ética, que será decisiva como 
A HARPA SAGRADA 
 
139 
o foi a bifurcação biológica que aconteceu há vinte ou vinte e cinco 
milhões de anos atrás.” 
 
A bifurcação ética que o historiador inglês apresenta 
como uma necessidade evolutiva corresponde muito 
precisamente à possibilidade para o homem de mobilizar a 
energia parassimpática do canal central, o Sushumna Nadi. Essa 
é, com efeito, a única possibilidade de superar as imperfeições 
de nossa percepção e de nosso modo de atuar, que dependem 
somente das atividades dos canais lunar e solar. Essa é a única 
abertura para o outro lado do limite. Gradualmente, faz-se sentir 
o impacto integrado do parassimpático sobre as Gunas. O 
sistema nervoso simpático esquerdo deixa de ser uma fonte de 
risco, como ponte entre o subconsciente coletivo e energia 
psíquica individual (libido). Esse canal lunar começa a expressar 
as qualidades de Mahakali, que é a divindade que controla o Ida 
Nadi. A pessoa se conecta com o amor vivo da interdependência 
cósmica divina. Por outro lado, o sistema nervoso simpático 
direito passa a expressar as qualidades de Mahasaraswati, a 
divindade que reina sobre o Pingala Nadi, e com criatividade, a 
pessoa começa a afirmar sua identidade divina. 
 
O SISTEMA NERVOSO PARASSIMPÁTICO (SNP) 
 
“É uma árvore estranha que se ergue sem raízes e que 
produz seus frutos sem florescer; não tendo ramos nem folhas, ela é 
coberta de flores de lótus.” 
Kabir 
 
O Sushumna e os Chakras (temas tradicionais da 
sabedoria esotérica) são as moradas sutis da energia que 
controlam o funcionamento do parassimpático. Este é, de fato, o 
‘terminal’, por meio do qual nos comunicamos com o 
computador central cósmico, nossa janela para o infinito. O 
parassimpático bombeia a energia vital queo sistema nervoso 
simpático consome. O parassimpático dilata os Chakras e o 
O ADVENTO 
 
140 
simpático faz com que os Chakras se contraiam. Quando o 
Sushumna se abre diante da ascensão da Kundalini, o SNP põe-
se a captar energia vital (Pranava) com a qual ele recarrega os 
Chakras. A partir desse instante, as qualidades sáttwicas da 
harmonia começam a manifestar-se. Um ótimo ajustamento é 
feito, espontaneamente, em nossa rede energética, nossa saúde 
melhora, nossas diversas faculdades (clareza de julgamento, 
concentração, descontração, etc.) se aprimoram. Os seres 
realizados, nas palavras do mestre taoísta Kuang Tzu, “tornam-
se sábios em sua placidez e reis em suas atividades”. Todavia, 
os frutos da árvore da vida somente podem ser degustados por 
aquele cuja Kundalini foi despertada por uma personalidade 
conhecedora de seu protocolo sagrado. Em sentido contrário, as 
tentativas de despertar a Kundalini feitas por Yogis amadores ou 
por falsos profetas, sejam elas tentadas por ignorância ou por 
perversidade, mostram-se igualmente perigosas, quer no plano 
físico, quer no plano espiritual. 
Durante sua majestosa ascensão, a Kundalini desperta as 
divindades dos Chakras que atravessa e atinge o reino do 
Sahasrara, no ápice do crânio. Esse movimento pode acontecer 
numa fração de segundo. Não obstante, milhares de Sahaja 
Yogis, dos cinco continentes, puderam acompanhar sua 
progressão. Pode-se ouvi-la com um estetoscópio. Se a força da 
Kundalini não for suficiente para abrir um Chakra que está 
bloqueado, pode-se ver sua pulsação a olho nu, no local do 
obstáculo, nas costas do aspirante (Sadhaka) prosternado diante 
de Shri Mataji. “Por que prosternado?”, alguém poderá 
perguntar. Porque o fluxo de Chaitanya (vibrações divinas), que 
desperta a Kundalini e ativa o sistema nervoso parassimpático, 
corre, generosamente, dos pés de Shri Mataji. Essa é a razão 
secreta pela qual ‘os pés de lótus’ das encarnações divinas têm 
sido objeto de adoração dos hinos antigos... e do sarcasmo de 
alguns leitores ocidentais que não compreenderam muitas coisas. 
A HARPA SAGRADA 
 
141 
A respeito da veneração dos pés de lótus, pode-se ler em 
Shankaracharya, em seu louvor à deusa, constante do 
Saundarya Lahari : “Ó Mãe! suplico-Te que coloques Teus Pés, na 
plenitude de Tua Graça, sobre minha cabeça. As partes principais dos 
Vedas usaram Teus Pés como uma coroa. A água que os lava forma o rio 
Ganges que flui do coque do cabelo de Pashupati (Shiva), desembocando 
num belo lago que é a refulgência da jóia vermelha da coroa de Hari 
(Vishnu)”. 
 
Guardando a cidade santa do Sahasrara, erige-se uma 
porta que não pode ser forçada, que é o Agnya Chakra, 
controlado por Cristo. Ele foi pintado por Miguel Ângelo com 
um grande esplendor no Juízo Final da Capela Sistina. Aqueles 
que tentam ali chegar, por meio de outro caminho, que não seja 
aquele que passa pelo despertar da Kundalini, são projetados 
para fora, ou seja, para ‘onde há lamentações e o rangido de 
dentes’. A abertura do terceiro olho não pode ser forçada. 
“Esforçai-vos para entrar pela porta estreita, porque, vos digo, que 
muitos procurarão entrar e não conseguirão.” Lucas, 13-24 
 
“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o 
caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ela. Quão 
estreita é a porta, e quão apertado o caminho que leva à vida! E que 
poucos são os que trilham o caminho que leva à vida!” 
Mateus, 7-13,14 
 
Cristo nos coloca aqui em estado de alerta contra a 
entrada de nossa atenção nos canais Ida e Pingala que se 
cruzam na altura do Agnya Chakra. 
A abertura do Agnya corresponde à purificação da 
atenção. Quando as folhas da porta se abrem, para usar uma 
analogia, elas rechaçam de nosso campo de consciência os 
ruídos do ego e do superego. O espaço que se abre assim, entre 
duas ondas de pensamento, é o da consciência silenciosa 
(Nirvichara Samadhi), a qual, em inglês, Shri Mataji chama de 
Thoughtless Awareness (consciência sem pensamentos). Quando 
O ADVENTO 
 
142 
se penetra mais à frente, mais profundamente no silêncio, 
descobre-se a intensidade do reino. Todavia, esse processo de 
purificação pode levar anos. Aqueles cuja atividade mental é 
incessante ou cuja emotividade é desregrada deverão passar por 
uma prova de paciência. Da mesma forma que Cristo nasceu na 
manjedoura de um estábulo, assim também Ele se mantém em 
nossos pensamentos, em meio àquilo que parece ser, algumas 
vezes, uma bela cavalariça! Quantos dentre nós conseguiram 
conservar intacta a pureza de sua atenção, nessa época de meios 
de comunicação prostituídos, de imagens violentas ou obscenas, 
de livros ruins e de flertes de rua? Quantos dentre nós têm ainda 
os olhos limpos e puros? Graças aos céus, a Kundalini nos 
regenera com uma grande doçura e é, gradativamente, que limpa 
as cavernas subconscientes de nosso cérebro, que desmantela a 
superestrutura supraconsciente e que, finalmente, restaura para 
nós o paraíso de nossa inocência. Isso porque, essa é a qualidade 
adorável do Menino-Deus que, sob o aspecto de Shri Ganesha, 
protege a castidade da Kundalini adormecida no Muladhar, e 
sob o aspecto de Cristo, cuida do protocolo da Kundalini 
manifestada no Sahasrara. 
A Auto-realização ocorre, exatamente, no momento em 
que a Kundalini transpassa a membrana da fontanela no topo da 
cabeça. Shri Mataji chama isso de “o batismo pela autoridade 
de Deus”. Alguns Sahaja Yogis sentem nascer ondas de graça 
no Sahasrara, as quais, em seguida, começam a fluir pelos 
canais Ida e Pingala. Outros, simplesmente, vivem a consciência 
silenciosa e a percepção física das vibrações que marcam a 
integração entre o sistema nervoso central e a consciência 
espiritual. O batismo pela autoridade dos homens, quando um 
padre molha a cabeça da criança, é um simulacro, ou melhor 
uma prefiguração simbólica desse grande evento. Se o padre for 
altamente realizado, o recém-nascido pode receber sua Auto-
realização, e o verdadeiro batismo acontece. Porém, quantos são 
os padres realizados? 
A HARPA SAGRADA 
 
143 
A Sahaja Yoga restaura a essência de uma porção de 
rituais de diversas religiões, porque ela estabelece uma conexão 
entre eles e os fenômenos energéticos que sustentam. O 
verdadeiro batismo cristão é nada mais que a intensa experiência 
de um segundo nascimento. É também a experiência do Satori 
dos mestres zen-budistas. É claro que isso não é aceito por um 
clérigo não-realizado que, controlando um ritual desprovido de 
sentido, acha que comanda o progresso das almas em direção à 
salvação. As sentinelas da fronteira - entre a cidade dos homens 
e a cidade de Deus - consolidaram seu comércio com as massas 
e coletaram dízimos e pedágios daqueles que passavam. As 
idéias dos teólogos tenderam, não sem sucesso, a recuperar as 
palavras de Cristo, a fim de assegurar melhor esse controle. Pela 
teoria dos sacramentos, substituiu-se a realidade do batismo, por 
um arcabouço conceitual que visava a sacralizar o rito e pela 
confirmação da autoridade do clérigo sobre os espíritos muito 
ingênuos e crédulos. Aqueles que eram menos crédulos e 
submissos foram queimados na fogueira pela inquisição católica. 
Felizmente, para nós, pobres buscadores da Verdade, essa 
possibilidade foi abolida pela História. 
Muito além das sugestões, suposições e crenças 
desordenadas que se basearam nas interpretações dos zelotes 
desviados, a ativação do parassimpático permite-nos entrar na 
cidade de Deus, sem necessidade de nenhuma inscrição prévia 
ou pagamentos, e também sem freqüentar qualquer curso de 
meditação. 
Shri Mataji, nesse ponto, é categórica: “Ninguém se 
torna Sahaja Yogi por meio do pagamento de uma quantia em 
dinheiro. Essa é uma decisão que compete a Deus”. 
O Sahasrara, o Chakra real, cidadela de um silêncio que 
os budistas chamaram de ‘o Vazio’ (Shunya),é o teatro da 
união entre a consciência individual e o Inconsciente Universal 
que é a consciência do Virata. O silêncio, o vazio, o 
inconsciente são os temas ancestrais da espiritualidade oriental. 
O ADVENTO 
 
144 
Bodhidharma, o pai do zen-budismo da China, diz acerca do 
inconsciente, conforme D. T. Suzuki, em seu livro “Ensaios 
sobre o zen-budismo”: 
“É como um tambor celestial que, permanecendo imóvel, produz 
espontaneamente e sem esforços conscientes toda uma variedade 
de sons destinados a ensinar e a disciplinar todos os seres. Ou 
ainda, é como a pedra filosofal que realiza todos os desejos e 
que, sem esforço consciente de sua parte, cria, espontaneamente, 
uma grande variedade de formas. Da mesma maneira, o 
inconsciente atua por meio da consciência individual e a faz 
compreender a verdadeira natureza do real; ele é a própria 
sabedoria, o mestre de corpo triplo, que funciona com absoluta 
liberdade... O inconsciente é a verdadeira consciência e a 
verdadeira consciência é o inconsciente. Despertemo-nos, 
finalmente, para o Inconsciente, em todas as coisas e em todos 
os nossos atos – pois ele é o caminho da disciplina, não há 
outros caminhos. Damo-nos conta assim de que, quando o 
Inconsciente é realizado, nada mais pode nos perturbar.” 
 
Os sons do tambor são as ondas de vibrações. Percebidas 
pela psique, algumas dessas vibrações formam imagens 
primordiais das quais falam Platão e Hegel. Segundo Jung, elas 
povoam o inconsciente coletivo e guiam o destino da 
humanidade. Jung tentou, por intermédio de seu método 
sintético, seguir os preceitos do mestre chinês. Em seu livro a 
“Psicologia do inconsciente”, o psiquiatra suíço afirma que “o 
discurso natural que, espontaneamente, concilia os contrários 
foi para mim o modelo e a fundamentação de um método que, 
em essência, visa a suscitar intencionalmente aquilo que, pela 
natureza, se produz de maneira espontânea e inconsciente, e a 
integrá-la à consciência”. Entretanto, todas as tentativas feitas 
por nosso inconsciente, a fim de se tornar consciente, exigem 
esforços conscientes que mobilizam, evidentemente, a energia de 
nosso sistema nervoso simpático e assim, ficamos escorregando, 
perpetuamente, para fora do estado que pretendemos atingir. 
Não! A fim de nos tornarmos conscientes do Inconsciente 
A HARPA SAGRADA 
 
145 
Universal, é, logicamente, necessário, que nos tornemos 
conscientes, em primeiro lugar, de nosso inconsciente individual 
que, representado pela Kundalini adormecida, é simplesmente 
uma parte do Inconsciente Universal. 
Assim sendo, a mobilização do parassimpático, mediante 
a ascensão da Kundalini, permite que nossa atenção consciente 
mergulhe em nosso inconsciente individual e, em seguida, se una 
ao Inconsciente Universal. Daí em diante, tendo penetrado na 
verdadeira trama do real, poderemos reconhecê-lo. Entramos 
assim em contato com a coisa em si (das Ding an sich, que 
Kant, em sua “Crítica da razão pura”, declarou que era 
inacessível). Passamos a reconhecer a realidade por uma 
percepção direta, e não mais por intermédio de opiniões, 
reconstruções ou decalcomanias de nossa atividade mental. Em 
outras palavras, a elevação da Kundalini nos faz ultrapassar os 
limites que determinam o campo de consciência do homem 
racional. Shri Mataji esclarece: “A entrada no Inconsciente 
remove a barreira entre a limitada consciência humana e a 
realidade”. 
A consciência sem pensamentos, Nirvichara Samadhi ou 
a consciência-silêncio, é a primeira etapa da trajetória em 
direção à união com o Inconsciente. A partir daí, o Sadhaka 
(devoto) penetrará mais profundamente e atingirá um estado que 
chamaremos de ‘consciência da evidência’ e ao qual Shri Mataji 
denomina, em inglês, Doubtless Awareness, a ‘consciência sem 
dúvidas’ (que, em sânscrito, é o Nirvikalpa Samadhi). Nesse 
estado, a realidade se torna evidente e fica além de quaisquer 
dúvidas. Seguem-se outros estágios ainda mais intensos e 
profundos de energia-consciência que não posso descrever aqui 
com detalhes. Entretanto, apresentam-se, sucintamente, os 
seguintes estados de consciência: 
1- No momento da Auto-realização: Nirvichara 
Samadhi, consciência-silêncio, consciência coletiva; 
O ADVENTO 
 
146 
2 - Estágio seguinte: Nirvikalpa Samadhi, consciência da 
evidência, ‘consciência sem dúvidas’, comunhão com a 
consciência coletiva; 
3 - Estágio ulterior: a Auto-realização total - domínio 
sobre os elementos; 
4 - Estágio supremo: a Realização de Deus (atingido por 
Buda e Mahavira). 
A fusão do ser humano com o Divino ocorre 
instantaneamente. A partir do instante da Auto-realização, o 
sistema nervoso central torna-se consciente do sistema nervoso 
autônomo. O prefixo ‘auto’ (contido na palavra autônomo), no 
sentido que lhe dá Shri Mataji, significa o espírito ou o Si (Self, 
em inglês e Atman, em sânscrito). O Si ou espírito é uma 
centelha do Si ou Espírito de Deus (Paramatma). De forma 
direta, a nova sensibilidade espiritual manifesta-se no plano 
físico. A brisa fresca do Espírito Santo veicula as mensagens do 
Inconsciente. As sensações de leve queimação e/ou de 
dormência nas pontas dos dedos começam a se manifestar. O 
que é que elas significam? “Alguém que conhece o código tem 
de dar a sua chave”, diz Shri Mataji, que declarou ao professor 
G. Adler, presidente da Associação dos Psicólogos Junguianos: 
“Vim para dar voz ao inconsciente”. 
As terapias que tentam mobilizar diferentes fenômenos 
energéticos aproximaram-se de um ou de outro aspecto do 
sistema. Por exemplo, a acupuntura e a reflexologia 
identificaram a rede de Nadis que distribuem a energia do 
sistema nervoso simpático (SNS) e operam sobre essa base 
limitada. Essas práticas não podem atingir o parassimpático 
(SNP), coração do sistema e receptor da energia vital. 
Contrapondo-se a isso, a Sahaja Yoga atinge diretamente o 
parassimpático, e, por isso, pode curar até mesmo os casos de 
câncer, como Shri Mataji proclamou, várias vezes, em público. 
O que é exatamente o câncer? A hiperatividade do SNS 
(simpático) consegue deslocar um Chakra de seu lugar original, 
A HARPA SAGRADA 
 
147 
na linha do Sushumna, cortando dessa forma sua conexão com o 
SNP (parassimpático). Em conseqüência disso, os Chakras não 
podem mais transmitir, por intermédio da rede de Nadis, o 
código evolutivo do organismo que mantém a coesão das 
células. As células, por sua vez, ficam incapacitadas para 
decodificar as instruções que os organizadores da vida (as 
divindades) lhes enviam por meio dos Chakras. Apesar disso, os 
Chakras continuam a emitir energia. No entanto, com a 
inexistência da atividade reguladora do parassimpático (SNP), a 
energia se torna destrutiva. Essa energia destrutiva começa a 
formar as células cancerosas e a disseminá-las. A ciência dos 
Chakras pode extirpar a causa básica do câncer, mediante a 
restauração da conexão do Chakra danificado com o Sushumna. 
Assim, o impacto da Kundalini sobre o parassimpático 
(SNP) permite a nosso sistema vibratório absorver as novas 
freqüências do corpo vibratório do Inconsciente, e mesmo 
utilizar essas vibrações para fins diversos. Essa capacidade de 
operacionalizar os poderes divinos é um dos mais antigos sonhos 
da humanidade. Todavia, no passado, o homem, incapaz de 
conhecer sua realidade vibratória, tentou se apresentar como 
instrumento do Inconsciente, mediante vários mitos políticos. 
Aquilo que o Inconsciente deseja passa a ser uma necessidade! 
Os mitólogos gregos chamavam-no de Destino implacável; 
Santo Agostinho invocava-o como Providência Divina; 
querendo obedecer a ele, Godefroy de Bouillon entrou em 
Jerusalém e Lenin deflagrou a insurreição de São Petersburgo. 
Devemos nos lembrar aqui da concepção hegeliana do herói 
(constante de livro do próprio Hegel, “A filosofia da história”). 
“Assim se apresentam todos os homens históricos: seus 
objetivospeculiares realizam os grandes desígnios que são da 
vontade do espírito do Mundo (Weltgeist)”. No entanto, será 
que o homem é capaz de discernir os grandes desígnios? Claude 
Lévi-Strauss, em seu texto “Introdução à obra de M. Mauss”, 
assevera que “o inconsciente é uma forma vazia, mas suas leis 
O ADVENTO 
 
148 
explicam as possibilidades de fazer com que as coisas se 
tornem significativas, ao reduzi-las à sua natureza de sistema 
simbólico”. 
Vale comentar o jargão dos estruturalistas, ou seja, na 
comunicação de um sinal (feito da união de um significante e de 
um significado) elaboram-se cadeias simbólicas que estabelecem 
a ordem social. Todavia, o problema da adequação entre o 
significante e o significado, e portanto o problema da leitura do 
sistema simbólico, permanece inteiro. Os sinais e mensagens do 
inconsciente são misturados pelos parasitismos que o ego e o 
superego criam no receptor. Antes da Auto-realização, não 
podemos apreender com segurança a estrutura inconsciente 
subjacente às instituições, costumes ou movimentos da História. 
É imprescindível dizer que o Inconsciente trabalha de 
uma maneira muito diferente no Sahaja Yogi. Não atua, 
necessariamente, por intermédio de uma decodificação mental, 
sempre suscetível de ser influenciada pelo ego, mas por meio da 
ativação espontânea, desprovida de esforço, do potencial 
vibratório do Sahaja Yogi, ainda que, de certo modo, obedeça à 
determinada cadência rítmica. O Sahaja Yogi deixa de ser 
apenas um receptor do Inconsciente e se torna também emissor. 
Ele é capaz de fertilizar uma plantação, curar um paciente de sua 
doença ou mesmo despertar a Kundalini de outrem. 
Um cientista austríaco, H. Mylany desenvolveu, perto de 
Viena, um projeto agrícola baseado na Sahaja Yoga. As 
colheitas obtidas nos campos irrigados com água ‘vibrada’ 
foram, consideravelmente, maiores que as colheitas dos campos 
vizinhos irrigados com água normal. O doutor Mylany está 
agora trabalhando num projeto de conservação de uma floresta 
na Bavária, utilizando os métodos da Sahaja Yoga. Shri Mataji 
explica que “nosso poder vibratório é, de fato, o poder das 
divindades que existem em nosso interior. Foi por meio do 
poder delas que os grandes santos do passado operaram tantos 
milagres. A fim de mobilizar esses poderes, a pessoa deve 
A HARPA SAGRADA 
 
149 
conhecer os protocolos dessas divindades, e usá-los com 
dignidade”. Quanto mais o Sahaja Yogi progredir em sua 
dimensão do Sushumna (o caminho do meio da evolução 
espiritual), mais ele afirmará a espontaneidade com a qual 
irradiará as vibrações de Chaitanya. Mesmo sem praticar 
nenhuma ação visível, ele atuará sobre o meio ambiente. Shri 
Mataji enfatiza que “temos de crescer e fazer com que os outros 
cresçam com nosso crescimento”. A fim de fazer isso, devemos 
permanecer em estado de alerta relativamente às incursões do 
SNS (simpático) em nossa atenção, porque o ego tenta, 
ardorosamente, reassumir o controle do qual ele foi destituído. 
A fundadora da Sahaja Yoga, Shri Mataji, nos coloca de 
sobreaviso de forma clara. “Se tentarem ser excepcionais, se 
acharem que são superiores na Sahaja Yoga, vocês serão 
tomados por uma força centrífuga, que os alijará para fora. 
Para permanecerem, no centro da Sahaja Yoga, com a força 
centrípeta, mantenham-se conscientes de que fazem parte 
integrante de um Todo, e que trabalham em plena harmonia 
com os outros”. A ioga atual demanda, evidentemente, uma 
emancipação coletiva (de certo modo ‘social’) e não uma 
ascensão individualizada para um sétimo céu habitado apenas 
por grandes estrelas, como muitos exibicionistas e outros falsos 
iogues, em seus Ashrams luxuosos, querem nos fazer crer. 
É preciso sublinhar aqui um elemento muito importante. 
O homem não pode usar esses fenômenos energéticos para fins 
maléficos. Com efeito, a Auto-realização acontece, 
espontaneamente, pelo despertar da Kundalini. Essa 
mobilização somente é possível quando a pessoa tem uma 
propensão a praticar o bem, que mantém o equilíbrio de sua 
energia em torno do Sushumna. Um ser humano perverso ou 
tirânico é ‘tecnicamente’ incapaz de receber sua Auto-
realização, porque seu sistema interior já está inativo. Além 
disso, uma vez que estamos falando do parassimpático (SNP), 
qualquer tentativa voluntária ou deliberada de provocar a Auto-
O ADVENTO 
 
150 
realização começará necessariamente no simpático (SNS) e lá 
permanecerá, forçosamente, de maneira artificial e perigosa. O 
segundo nascimento, como o primeiro, pressupõe a dádiva de 
vida que vem da mãe. Não viemos ao mundo por causa de 
nossas próprias ações. Uma outra criatura nos trouxe. É por isso 
que todas as tradições religiosas contêm essas noções de dádiva 
da graça divina, a necessidade de se entregar a ela, a 
disponibilidade perante o Divino e a capacidade de fazer com 
que as coisas aconteçam sem interferência. 
Shri Mataji comenta que “é uma grande façanha 
compreender que o espírito humano não pode, por si mesmo, 
encontrar-se no Real, mas que cabe ao Real mergulhá-lo em 
seu oceano de amor”. Essas palavras da Mãe ressoam aquilo 
que foi dito por místicos, sábios e clarividentes de todos os 
tempos. Kabir, São João da Cruz, Al Ghazzali, Meister 
Eckhardt, Gyaneshwara, todos eles proclamaram a vaidade e a 
pretensão de se conseguir isso por intermédio do esforço. Vale 
registrar a reflexão de Kierkegaard: “É precisamente quando o 
mar combina seus esforços com sua força, é que ele não 
consegue refletir a imagem do céu. Porém, quando o mar 
permanece tranqüilo, profundo e calmo, a imagem do céu se 
funde em seu vazio”. 
Quando o mar se faz profundo e calmo, a pessoa se 
banha no vazio da consciência-silêncio que é a maneira pela qual 
o Si percebe-se a si mesmo. Contudo, essa Contemplatio 
Mystica (do latim, contemplação mística), que pode se abrir até 
alcançar o êxtase, exige que a atenção-energia repouse no 
Sushumna, sem se deixar levar pelas solicitações do SNS 
(simpático). Manter-se nessa condição é uma das conquistas 
mais difíceis. O grande mestre zen-budista, Ringai Gigen, que 
morreu em 867, citado no livro “Zen-budismo e psicanálise” de 
Erich Fromm, Suzuki e Martino, tornou isso bastante claro: 
“Veneráveis senhores, é nesse ponto que os aspirantes devem 
concentrar-se com todo o seu coração, porque aqui um 
A HARPA SAGRADA 
 
151 
sopro de ar não passará. É como uma centelha de luz, ou 
como a faísca produzida pelo martelo quando este bate no 
aço. Com um piscar de olhos, todo o fenômeno é perdido. 
Se o aspirante tiver um olhar ausente, tudo estará perdido. 
Tão logo o espírito nele se concentra, ele escapa entre os 
dedos; logo que um pensamento surge, ele lhe volta suas 
costas.” 
 
Estou sempre me lembrando da frase extraordinária e 
inexplicável de Shri Mataji, a qual no entanto foi, uma centena 
de vezes, confirmada pela experiência. “Se quiserem aprender 
como se tornar o Si, reduzam sua atividade mental. Se 
conseguirem fazer isso, a inspiração virá até vocês. Observem, 
simplesmente, a minha face e ela os conduzirá ao silêncio”. 
No passado, antes que as graças muito especiais de Shri 
Mataji Nirmala Devi se materializassem na Sahaja Yoga, apenas 
alguns indivíduos alcançaram a Auto-realização. Aqueles que o 
fizeram, como os vinte e seis mestres zen-budistas, eram seres 
humanos extremamente evoluídos que se impulsionaram a si 
mesmos para cima, entre os dois canais, Ida e Pingala, como 
alpinistas que se apóiam nas duas paredes de uma chaminé a fim 
de subir até o topo. Tendo assim ultrapassado o Agnya Chakra, 
a graça da Adi Shakti os acolheu no Sahasrara. Será que os 
mortais comuns teriam podido segui-los? Será que somos 
indiferentes à nossa própria verdade? Porventura, não estamos 
buscando a genuína plenitude da sabedoria, da alegria e da paz? 
É lamentável que não se possa, em sã consciência, forçar 
ninguéma ter paz. Assim o ser humano, no final de seus dias, 
não poderá se unir ao infinito, algo a que sempre aspirou. 
Porém, hoje em dia, estamos na posição de afirmar que essa 
contradição pode ser superada. Nossas observações, nossas 
experiências e seus resultados confirmados, repetidas vezes, 
demonstraram três fatos principais: 
O ADVENTO 
 
152 
1. O sistema nervoso parassimpático (SNP) tem o 
potencial para ser o agente de transformação da consciência; 
2. Esse potencial é concretizado mediante o despertar da 
Kundalini que acontece quando o sujeito é bombardeado pelas 
vibrações de Chaitanya ; 
3. Essas vibrações são emitidas pela presença física 
(Darshan) de Shri Mataji ou mesmo na presença de sua 
fotografia, a qual, captando o coeficiente de sua imagem, 
demonstrou suas inacreditáveis propriedades. 
 
Em outras palavras, ainda que isso possa ser inaceitável 
para aqueles que gostariam de acreditar que nasceram por si 
mesmos e não pela intermediação de uma mãe, Shri Mataji cria a 
ambiência vibratória propícia para que possamos nascer no 
espírito. Ela derrama a água da vida acerca da qual Cristo falou 
a Nicodemo. Representa o fator catalisador indispensável à 
manifestação de nosso próprio poder espiritual, porque o ser 
iluminado é também aquele que ilumina. Quando uma vela 
queima, não queima com sua própria chama? Entretanto, é 
necessário que uma outra vela, já acesa, a acenda. Shri Mataji 
sugeriu, muito graciosamente, essa imagem para aqueles cujos 
egos gostariam de pensar que o Si manifestou-se por obra e 
graça apenas de seus egos! 
Falei sobre a vaidade do esforço. Agora, é preciso 
invocar a eficácia do desejo. O desejo precede todas as coisas. 
Ele nos lança sobre a trajetória que desejamos seguir. O desejo é 
o campo de ação de Mahakali. É em resposta ao desejo que 
Mahasaraswati cria e Mahalakshmi faz evoluir. O desejo que 
Shiva tem de se fazer conhecer permite que Vishnu oriente a 
criação de Brahma para a Auto-realização. Da mesma forma, é 
imprescindível que canalizemos nosso desejo para a Auto-
realização e paremos de canalizá-lo para coisas fúteis. Isso é 
importante, pois a Kundalini vem, em última análise, de Shri 
A HARPA SAGRADA 
 
153 
Mahakali e a força de sua ascensão depende da intensidade do 
desejo de nos transformar no Si. 
Estamos vivendo um momento tão privilegiado da 
história, que muitos leitores estarão, brevemente, na posição de 
verificar a verdade de minhas proposições. 
 
 
A KUNDALINI (A ENERGIA POTENCIAL DO ESPÍRITO 
SANTO) 
 “Adoro, em meu coração, a deusa Kundalini 
Quando ela emerge do Muladhar, sua morada, 
Para se elevar até o trono do Sahasrara, 
Abrindo um a um os lótus do caminho real do Sushumna. 
Sua beleza reveste-se da fulgurância do relâmpago 
E de seu corpo flui a ambrosia da Yoga.” 
Hino a Bhairawi 
 
“A Kundalini é sua Mãe, aprenda sempre a ficar sob os seus 
cuidados. Seja um bom filho e ela zelará por você até o fim.” 
Shri Mataji Nirmala Devi 
 
Ao começar esse parágrafo, me senti tomado de uma 
grande timidez. Senti-me paralisado. Foram necessários vários 
dias, para que decidisse continuar a escrever. 
A Sahaja Yoga integra e transcende todas as formas de 
meditação, de oração e de outras Yogas, porque ela é a Yoga da 
concretização do potencial de energia divina, a Yoga do 
despertar da Kundalini. Como falar disso? A força divina do 
Espírito Santo, que reside em nosso interior, é a pureza virginal, 
consciência vibrante do sagrado, desejo do Integral e do 
Absoluto; apenas a isso, o Si aceitará unir-se. 
Fui tomado de uma espécie de vertigem, porque me dei 
conta, mais uma vez, de que as coisas que estou escrevendo são 
completa e incrivelmente verdadeiras. O momento da História 
O ADVENTO 
 
154 
que está na iminência de surgir... e de se decompor é algo tão 
inacreditável que, às vezes, receio, poucas pessoas razoáveis 
seriam capazes de vivenciá-lo. Que esse livro possa prepará-las e 
ajudá-las a abrir-se para esse momento. Os cientistas que 
trabalham na fronteira do que é infinitamente grande (quasares, 
buracos negros, etc.) e aqueles que pesquisam no limiar do 
infinitesimalmente pequeno (partículas elementares do átomo) 
sabem que o paradigma epistemológico, o fundamento do 
conhecimento sobre o qual erigiu-se nossa civilização está na 
iminência de ser posto de cabeça para baixo. O desenvolvimento 
de novas máquinas que empurram para trás as fronteiras da 
memória, do cálculo, da imagem, indica, dizem os doutos, o 
advento de uma nova era no mundo do pensamento. A 
revolução epistemológica é um dos temas centrais da ficção 
científica norte-americana. 
Quando era menino, brincava, com minha tia, de 
procurar um objeto escondido. Ela me dizia ‘frio’ ou ‘quente’, 
conforme me aproximasse ou me afastasse do objeto (frio, 
morno, quente, muito quente!). Na maioria dos jogos de 
esconde-esconde, as pessoas ficam na situação ‘morna’, sem que 
achem o tesouro escondido. De fato, não sabemos que o jogo de 
tudo se desenrola no âmago do eixo sacro-craniano, na coluna 
vertebral. Quantos artistas, sábios e buscadores sentem um novo 
mundo em gestação, a iminência de uma nova ruptura evolutiva! 
Todavia essa ruptura é, exatamente, o que acontece quando a 
Kundalini, convidada pelas vibrações de Chaitanya, surge do 
osso sacro a fim de iluminar o Sahasrara Chakra. Ao se 
desenrolar, a Kundalini também projeta, em alguns 
microssegundos, o filme da revolução mais radical e 
fundamental que jamais poderia acontecer, vale dizer, a 
revolução de nossa consciência. 
A Kundalini foi protegida, durante séculos, da 
curiosidade das massas por um esoterismo estrito. Todavia, 
seriam necessários milhares de livros como este a fim de citar os 
A HARPA SAGRADA 
 
155 
textos esotéricos que a glorificaram, bem como para apresentar 
os símbolos mediante os quais ela aparece na arte e na 
arquitetura. Por exemplo, em seu livro “Os fundamentos do 
misticismo tibetano”, o lama Anagarika Govinda revela a relação 
entre o mantra OM MANI PADME HUM e a Kundalini Yoga. O 
formato das stupas budistas representa a sobreposição dos 
Chakras. A estrutura bulbar de certas mesquitas iranianas, da 
mesma forma que as cúpulas alongadas dos templos tailandeses, 
simbolizam o Sahasrara, e a árvore de Jessé, nos vitrais de 
Chartres, descreve os sete Chakras. Muitos artistas foram assim 
inspirados pelo Inconsciente. 
O simbolismo da Kundalini se vale de vários temas, tais 
como a sarça ardente de Moisés, as línguas de fogo do 
Pentecostes... Alguns magos do Egito e da América do Sul 
tiveram acesso, provavelmente, a um ou outro aspecto do 
Tantra (técnica) da Kundalini, e assim adquiriram vários 
poderes mágicos (Siddhis). Tudo indica que não se aproximaram 
muito da Kundalini propriamente dita. Símbolos da Kundalini 
podem ser encontrados em diversas culturas. Citemos o exemplo 
da serpente de Mercúrio, Agathodaimon, símbolo alquímico do 
processo de metamorfose psíquica, que representa, segundo os 
gnósticos, a medula espinhal e o bulbo raquidiano. Os grandes 
mestres da Ásia consideravam a existência da Energia e de seu 
caminho interior, como sendo o segredo mais temível, que 
somente transmitiriam para alguns discípulos que merecessem, 
de fato, conhecer esse segredo. Todavia, ao longo dos séculos, 
mesmo alguns seres não-realizados espalharam o segredo aos 
quatro ventos. O ‘tantrismo’ e algumas seitas tibetanas 
deturparam a tradição e perverteram o culto. Hoje, as cartas 
estão completamente embaralhadas pelos iogues falsos que 
ficaram enfatuados com o sucesso de seus livros, nos quais 
descrevem, com a denominação de ‘Kundalini Yoga’, 
exatamente aquilo que não deve ser feito se alguém quiser 
preservar sua única chance de alcançar a Auto-realização. 
O ADVENTO 
 
156 
No afã de tentar explicar Shri Kundalini, poderia iniciar 
com uma reflexão do mestre espiritual muçulmano AlGhazzali, 
contemplando o Virata da forma como Ele é invocado na 
expressão Allahu Akbar - Deus é o Maior: 
“Essa expressão significa... que Ele é tão magnífico para 
que um outro, que não Ele, pudesse compreender 
perfeitamente o mistério de Sua Grandiosidade, seja um 
profeta ou um anjo! O que é que estou dizendo? Somente 
Deus conhece Deus!” 
 
Quem é o Conhecedor (aquele que conhece) e quem é o 
Conhecido (aquilo que é o objeto do conhecimento)? 
É no início de um ciclo de criação que a separação inicial 
entre a energia divina primordial (Mãe divina, Adi Shakti, 
Espírito Santo) e o Ser primordial (Sadashiva, o Pai) vai criar a 
possibilidade para Deus de se separar em Conhecido e 
Conhecedor, porque a Adi Shakti traça um espaço no qual 
aquele que quer conhecer distancia-se, primeiramente, daquilo 
que deseja ser conhecido, e em seguida aproxima-se novamente. 
Esse espaço é a própria Criação, o teatro cósmico do jogo 
amoroso do reconhecimento. Esse jogo progride até que o 
potencial divino da Criação seja realizado, e assim, 
conseqüentemente, é despertada a capacidade da Criação de 
reconhecer o Divino. “Foi assim que as coisas ocorreram”, diz 
Shri Mataji. 
Uma parte da energia do Espírito Santo (ou Adi Shakti) 
não se manifesta no momento da Criação, mas permanece 
latente no Virata. Essa energia divina ‘adormecida’ é a Adi 
Kundalini, a Kundalini Primordial do Virata. É ela que tem o 
potencial de santificar o universo. É personificada, na mitologia 
hindu, pela deusa Gauri, a mãe do Menino-Deus, Shri Ganesha, 
e representa a inocência imaculada da Virgem divina. 
Presidindo a espiritualização do mundo fenomênico, a Adi 
Kundalini se põe a promover o progresso de cada um dos 
A HARPA SAGRADA 
 
157 
Chakras. Assim sendo, quando aparece num dos Adi Chakras 
(os Chakras do Virata), a divindade residente nesse Chakra é 
plenamente despertada, e um avanço fundamental da evolução 
do mundo fenomênico é posto em movimento. Assim é que o 
surgimento de Shri Ganesha correspondeu, por exemplo, ao 
aparecimento do carbono tetravalente, a base da vida no 
universo. Shri Mataji diz: “O poder da Kundalini abrange o 
poder do desejo da Bhagawati, a Mãe divina. Ela é despertada 
pelo seu desejo”. 
Na esfera da existência desse mundo material, a 
Kundalini está escondida no interior do microcosmo humano, 
em cada de nós. Pelo fato de já estar lá é que Shri Mataji pode 
afirmar que “está tudo pronto para sua Auto-realização, falta 
apenas ligar a corrente elétrica”. Todavia, essa força pode se 
mostrar tímida, como já presenciamos em muitos encontros 
públicos, e qualquer incidente, por menor que seja, pode 
bloquear sua ascensão. Por essa razão é necessário manter uma 
atitude humilde e receptiva, tanto quanto possível, no momento 
abençoado em que a Kundalini é despertada. 
A Kundalini poderia ser comparada a um cabo elétrico 
enrolado sobre si mesmo, trançado por numerosos fios que se 
entrelaçam. Ela se eleva, e desenrolando seus anéis, penetra no 
centro de cada Chakra. A espessura da Kundalini, isto é, o 
número de seus fios diminui, se os Chakras que ela atravessa 
estiverem contraídos e não se abrirem de modo perfeito. Sua 
força é reduzida proporcionalmente aos congestionamentos que 
encontra em sua ascensão. Se os Chakras inferiores se dilatam 
adequadamente, a Kundalini progride. Se os Chakras superiores 
estiverem bloqueados, somente um pequeno número de suas 
fibras alcançará o Sahasrara. 
A Kundalini não força o caminho por si mesma. 
Primeiramente, regenera os Chakras danificados, despertando 
suas divindades, e retifica os defeitos existentes nas várias 
dimensões de nosso ser. É claro que se os Chakras inferiores 
O ADVENTO 
 
158 
estiverem bloqueados, a Kundalini não poderá ascender de 
maneira alguma. Voltaremos a esse tópico, quando falarmos 
sobre os perigos do uso irresponsável da sexualidade, no 
capítulo dedicado ao ‘tantrismo’. 
Vamos seguir agora, em câmara lenta, o filme da 
ascensão da Kundalini (num ser humano espiritualmente muito 
evoluído, a Auto-realização manifesta-se, numa fração de 
segundo, e mantém-se de forma definitiva). Quando sua 
ascensão acontece, sem problemas, através dos cinco primeiros 
Chakras, a Kundalini atinge o Agnya e se difunde na parte 
inferior do cérebro, como uma espécie de nuvem que traz 
consigo uma leve sensação formigante de doçura e de sono. 
Podemos dizer, assim, que a Mãe de nosso segundo nascimento 
canta para nós um acalanto, a fim de nos relaxar completamente. 
Depois, mantidas sempre as condições ótimas, sente-se a força 
vital da Kundalini fundir-se, ao descer pelo Ida e Pingala, como 
se uma nuvem de energia se espraiasse numa chuva de bem-
estar. Os dois canais conduzem essa onda de bem-estar até o 
Nabhi Chakra, onde um novo impulso da Kundalini se une a 
essa onda. (Nesse meio tempo, a cabeça se torna mais leve, 
como se tivesse se desembaraçado de antigas cargas). 
Em seguida, a tríplice força (Mahalakshmi, 
Mahasaraswati e Mahakali) se eleva com uma velocidade 
ascensional enorme no Sushumna e abre o Agnya. As pupilas 
dos olhos começam a se dilatar. A leveza da cabeça se 
transforma numa sensação de percepção refinada, de plena 
lucidez. Alguns discípulos avançados viram nesse ponto o 
Omkara, a luz de Cristo. A pessoa começa a sentir o silêncio do 
Sahasrara. A pressão da força acumulada da Kundalini cresce, 
progressivamente, com a abertura do Brahmarandhra. Nesse 
momento culminante do batismo, a pessoa sente a brisa fresca 
das vibrações divinas que a penetram e a pessoa se torna 
‘realizada’. 
A HARPA SAGRADA 
 
159 
Se a Kundalini não for além do Agnya, a pessoa estará 
apenas ‘despertada’ (Jagruti). Nesse último caso, poderá 
adquirir alguns poderes curativos, mas será incapaz de se manter 
no estado de consciência-silêncio (Nirvichara Samadhi). Não 
obstante, depois de algum tempo, a atividade regeneradora da 
Kundalini, desde logo ativada, começará a produzir seus frutos. 
Finalmente, aqueles que ‘nasceram novamente’ poderão atingir 
o estágio de consciência mais profundo denominado Nirvikalpa 
Samadhi que é a Consciência da Evidência, na qual não restará 
mais qualquer dúvida, quanto à verdadeira natureza de Deus, do 
Si ou espírito. 
Os seres muito evoluídos encontraram na Sahaja Yoga 
uma experiência, simultaneamente, imediata e definitiva. Alguns 
sentiram bolas de neve nas palmas de suas mãos, que pareciam 
fundir-se em seus antebraços e em todo o seu ser. Outros 
sentiram um vento poderoso soprando em seus corpos ou um rio 
de energia fluindo em seus sistemas nervosos, vale dizer, o 
frescor da Auto-realização. Se o Vishuddhi Chakra estiver 
bloqueado ou, de alguma forma, danificado, a pessoa não sentirá 
as vibrações frescas, apesar da Kundalini ter-se elevado até o 
Sahasrara e de ter havido a abertura do Brahmarandhra. 
Entretanto, com o desenvolvimento crescente da consciência 
silenciosa, o indivíduo será banhado por um lago de paz interior. 
Num programa público, quando Shri Mataji desperta a 
Kundalini de centenas ou até de milhares de pessoas, segue, 
passo a passo, a progressão de Chakra a Chakra, percebendo, 
assim, os pontos de bloqueio, que são, em sua maioria, de 
origem psíquica. O tempo todo, procura conduzir esses 
reservatórios de energia em direção à sua catarse redentora, 
dando todas as instruções de viva voz. Eis aqui a transcrição de 
uma fita gravada durante um de seus programas públicos: 
“O sentimento de culpabilidade que vocês têm é o resultado 
dos condicionamentos acumulados no superego e no ego. 
Digam a vocês mesmos que quem cometeu o erro foi seu 
O ADVENTO 
 
160 
ego e não vocês. Cada um deve afirmar: ‘não sou culpado 
de coisa alguma’. Não importa o que tenham feito ou quais 
os Chakras que estão bloqueados. Devem corrigi-los 
simplesmente. Não se condenem. Sejam o Si. Para fazerem 
isso, a melhor coisa é perdoar. Issoabrirá seu Agnya 
Chakra. Supliquem a Deus para lhes perdoar; isso fará 
com que sua atenção se volte para o coração... A dignidade 
e a serenidade emergirão em seu interior, quando 
compreenderem que vocês são o espírito.” 
 
Vamos tentar agora relacionar o despertar da Kundalini 
com o desenvolvimento de nossas faculdades cognitivas. 
Enquanto os animais são espontâneos, porém não têm 
consciência da força que seus instintos lhes dão, o homo sapiens 
sabe que é um ser racional e consciente, mas não é espontâneo. 
Ele se programa, efetivamente, pelo uso da razão, pela atividade 
da Rajo Guna, enquanto que os animais são limitados pela Tamo 
Guna. Em seu estado normal de consciência, o homem percebe 
a si mesmo como um indivíduo irredutível e diferente, vale dizer, 
um ser peculiar. Essa etapa lhe permite desenvolver seu ego e é 
necessária a fim de propiciar a superação dos condicionamentos 
tutelares do superego. O ‘homem-ovo’ (ou o ‘egotipo’) é um 
mito, porém indispensável, porque permite preparar o 
desenvolvimento do instrumento de percepção, pelo qual é 
gerada nossa identidade. A partir disso, é que se torna possível 
perceber nossa genuína identidade (do Si ou do espírito). Nesse 
meio tempo, certamente, o homem acredita ser o mestre de si 
mesmo e da matéria, ele interfere na História, manipula a criação 
e a destruição e se torna o regente do planeta. 
O homem-ovo é o estado no qual a Kundalini está 
adormecida e encerrada no osso triangular sacro. A vida 
psíquica do homem e suas faculdades cognitivas dependem das 
interações do sistema nervoso simpático e da possibilidade de se 
aproximar do ponto de equilíbrio. Trata-se de uma identidade 
A HARPA SAGRADA 
 
161 
separada, que é também uma identidade dividida, a consciência 
infeliz (das unglückliche Bewusstsein), descrita por Hegel em 
sua fenomenologia do espírito. 
O homem-ovo frui, inicialmente, a liberdade dada por 
sua autonomia; ele se sente, dentro de sua casca, como o único 
mestre. Contudo, essa situação é cercada por limites, os quais 
ele acaba percebendo, à proporção que sua consciência se 
aguça. Ciente de que é um ser finito, não pode ignorar 
totalmente a dimensão infinita que existe dentro e fora dele. “O 
homem não sabe como se libertar desse (desejo de tornar-se 
alguém) ‘ou de ser algo mais’, que o impede de ser apenas um 
animal caçador e às vezes amoroso”, observa Paul Valéry. Ele 
não pode desconhecer o fato de que está condenado a almejar o 
Si, sem ser capaz de atingi-lo. Foi nesses termos que Sartre 
encheu as páginas de seu livro “O ser e o nada”. Desse mesmo 
modo, as duas almas discordantes discutem no peito do doutor 
Fausto, de Goethe. O homem não sabe como reconciliar o finito 
e o infinito. Infelizmente, para aumentar seu desconforto, a 
fronteira entre os dois mundos passa, exatamente, no meio de si 
mesmo. É precisamente essa a questão crucial que é discutida 
pelos filósofos. Ademais, a liberdade concedida ao homem-ovo é 
apenas a de escolher entre isso e aquilo, entre o bem e o mal. 
Essa liberdade, exercida com ignorância, provoca erros, 
sofrimentos e crimes. Encontramo-nos, assim, no meio daquilo 
que meus professores de religião chamavam, pudicamente, de ‘o 
problema dos males do mundo’. 
Ao longo dos milênios de evolução e de refinamento, a 
consciência humana sempre desejou ter a harmonia espontânea, 
além da oscilação das Gunas, além das contradições existenciais 
e das investidas contra a ética. 
O ser humano evoluído quer se livrar do mito do ego, da 
solidão e da ignorância que advêm dele. Encapsulado na casca 
de seu ego e de seu superego, o homem-ovo não é integrado 
consigo mesmo nem com o cosmo. Ele tem pouca ou nenhuma 
O ADVENTO 
 
162 
conexão com o Inconsciente Universal e todas as ações que 
concebe, nessas condições, provocam agressão, injustiça social e 
outros males. Contudo, para que haja alguma mudança no modo 
de agir é preciso transformar o sujeito da ação. A revolução 
precisa ocorrer no nível primordial do ator social, dentro de 
cada indivíduo. É impossível promover uma mudança radical 
numa classe social composta de indivíduos, se esses não se 
transformarem. Após a subversão da década de 60, talvez uma 
geração inteira tenha entendido isso. 
Essa evolução da consciência, sustentada por diversas 
encarnações divinas, cavalgou os milênios para, finalmente, 
concitar esse momento fantástico da transformação que, agora, 
passaremos a viver juntos. Com efeito, a abertura da membrana 
da fontanela no topo do crânio, pela Kundalini despertada, 
representa a ruptura da casca do ovo. O pintainho pode agora 
aprender a voar. É por isso que, em sânscrito, o termo Dvijaha 
significa, ao mesmo tempo, pássaro e nascido duas vezes. E 
inspirados pelo inconsciente, os cristãos, na Páscoa, rompem a 
casca de seus ovos. O novo Adão nasceu. A experiência 
imediata da Kundalini abre uma nova era para a humanidade 
buscadora. Esta proposição se baseia naquilo que foi vivenciado 
por muitas pessoas. Os falsos profetas, anunciados no 
Apocalipse de São João, tentaram deturpar a grande Yoga 
(Maha Yoga) de Shri Mataji. Isso prova, simplesmente, que 
chegou a hora do encontro, que São João fixou para nós de sua 
Ilha de Patmos. Voltaremos a esse tema ulteriormente. 
Poderia ser útil resumir esse capítulo sobre o 
instrumental da consciência por meio das representações gráficas 
das figuras 8 e 9. 
A HARPA SAGRADA 
 
163 
 
 
FIGURA 8 - ANTES DA AUTO-REALIZAÇÃO 
 
I - Antes da Auto-realização, o domínio do consciente (que se deleita com 
o presente) é um fio de consciência imperceptível, representado aqui pelo Sushumna 
por uma linha pontilhada. A atenção da pessoa é impregnada pelos pensamentos, 
que vêm do mental e que engendram o ego, e pelos humores do domínio 
subconsciente que forjam o superego. 
II - Não há conexão direta entre a consciência e o Inconsciente Universal. 
A Kundalini está adormecida. 
III – As divindades dos Chakras não são plenamente operacionais. Sem 
conexões entre a consciência e os Chakras, os diversos aspectos da personalidade 
não estão integrados. 
IV - A consciência está aprisionada no ovo do cérebro (ego e superego). 
O ADVENTO 
 
164 
 
 
FIGURA 9 - DEPOIS DA AUTO-REALIZAÇÃO 
 
I - O espaço do domínio consciente é alargado. O ego e o superego se 
desincham. 
II - A Kundalini, agora no Sahasrara, estabelece uma conexão direta com 
o Inconsciente Universal. Este último se manifesta sob a forma de vibrações frescas. 
III – As divindades dos Chakras foram despertadas pela Kundalini 
ascendente. As divindades aqui representam os refletores das divindades 
primordiais dos Adi Chakras do Virata, e elas ‘organizam’, conseqüentemente, 
nossa energia-consciência. Como são colocadas em contato uma com a outra pela 
Kundalini, a integração da personalidade ocorre. Elas decodificam as mensagens do 
Espírito Santo e respondem a essas mensagens e passam a dirigir nossa evolução 
espiritual. 
A HARPA SAGRADA 
 
165 
IV - A atenção é atraída, para o interior, pelo advento do despertar da 
Kundalini. Ao mesmo tempo, pode-se perceber a Kundalini de outra pessoa. Nossos 
Chakras fazem uma ‘leitura’ dos outros seres humanos como se fossem sistemas de 
consciência. A consciência coletiva se estabelece. 
V - Num ser realizado que atinge sua plena maturidade, as divindades 
deixam seu lugar de trabalho nos Chakras para eleger seu domicílio no Sahasrara e 
sentar-se nos tronos que ali lhes estão reservados. Esse é o estado de completa 
integração com o Divino. 
 
Cada Chakra corresponde a um planeta do sistema solar, 
a uma vogal do alfabeto sânscrito, a uma nota musical, a uma 
cor, etc. Ao iluminar cada Chakra, a Kundalini desperta em nós 
uma porção de poderes e de correspondências cósmicas. Sou 
ainda muito novato, nessa arte, para poder descrevê-los aqui, 
porém o princípio é o seguinte: por intermédio de nossaKundalini, entramos em contacto com o Inconsciente Universal, 
que se põe a reagir. Ele ouve nossas preces e, com isso, nos 
tornamos intercessores da espécie humana. Finalmente, com 
total pureza nessa relação, o Inconsciente obedece a nossos 
desejos, porque estes se originam diretamente do Atman (Si). O 
desejo do Atman consiste em que outros Atmans se manifestem 
e que mais e mais seres humanos possam vivenciar a alegria da 
Auto-realização. Assim sendo, por intermédio da Graça da 
Kundalini, nos tornamos redentores. 
A Kundalini torna factível a divinização do ser humano, 
porquanto é dotada da propriedade de consumir e queimar todas 
as impurezas. Quando essas impurezas são queimadas, sejam 
provenientes de nossas fraquezas ou referentes à ‘coletividade’ 
(de Bhuts) que invadiu nosso sistema, os seres realizados sentem 
calor no sistema nervoso simpático (SNS), o que faz com que as 
vibrações se tornem quentes. Quando a Kundalini regenera e 
cura, as vibrações se tornam frias. A Kundalini é um fogo, 
porém um fogo de neve, cujas chamas queimam com frescor! 
Todavia, para que a Kundalini possa fazer seu trabalho de 
purificação, por meio da queima das impurezas, estas devem ser 
O ADVENTO 
 
166 
reveladas a ela, o que significa que temos de encarar nossos 
problemas e nossas fraquezas, e não permitir que se acumulem 
no lado esquerdo do Vishuddhi Chakra, sob a forma de 
sentimentos de culpa. Fazendo isso, nos limitamos a oferecer às 
negatividades a chance de se afastarem do fogo da Kundalini. 
Isso nos foi explicado por Shri Mataji, durante uma de suas 
magistrais palestras, em Londres, no dia 17.05.81. 
No momento da Auto-realização, estamos longe de 
perceber o extraordinário elenco de poderes que recebemos 
como um prêmio. O poder da consciência coletiva, o poder de 
controlar a atenção, de mobilizar o Inconsciente, de nos 
proteger, de dar proteção aos outros, de expulsar os Bhuts e até 
mesmo de destruí-los. Todavia, o maior de todos os poderes (o 
qual recebemos, automaticamente) é o de despertar a Kundalini 
de outras pessoas, que é a prova, por excelência, de que os 
poderes divinos começaram a se manifestar em nosso interior. 
Já existem milhares de almas realizadas no mundo todo 
(uma quantidade impressionante!), embora o processo de 
emancipação coletiva tenha tido início há tão pouco tempo. Isso 
pode ser explicado pelas propriedades da consciência coletiva e 
pelo poder dos Sahaja Yogis de despertar a Kundalini. Assim, 
ainda que as atmosferas das sociedades em que vivemos estejam 
saturadas de todas as espécies de vibrações, cujas freqüências se 
contrapõem às freqüências divinas, a esperança de uma 
transformação coletiva que tenha um impacto social deixa de ser 
uma utopia. É claro que os poderosos desse mundo gostariam 
que essa esperança se circunscrevesse ao terreno da utopia. Essa 
esperança não pode mais ser diluída no jargão teológico das 
igrejas institucionalizadas que se dizem guardiãs dela, mas que 
adiariam sua concretização indefinidamente para o futuro. A 
esperança está tomando forma no presente, sendo efetivada na 
experiência cotidiana, e sua efetivação está tomando o lugar que 
lhe foi reservado pela História. Porquanto, essa transformação 
coletiva envolve, também, a íntima ligação entre o conjunto de 
A HARPA SAGRADA 
 
167 
almas realizadas e o Virata, algo que foi prometido por Cristo: 
“Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, 
e estou em vós”. João, 14, 20. 
Certamente, a Igreja Católica pretendeu representar o 
corpo místico dessa consciência coletiva. Contudo, em termos 
políticos, econômicos e culturais, o sucesso que assegurou a 
sobrevivência dessa instituição, não se situou numa outra 
dimensão diferente daquela relativa ao advento experimentado 
por uma nova consciência? Se se levar em consideração a 
realidade dos fatos da consciência (e não a interpretação muito 
elástica que o clero católico fez dos textos deturpados quando 
afirma que ‘fora da Igreja, não há salvação’), ficará evidente que 
muitos crentes, ao longo do tempo, foram vítimas de uma 
gigantesca impostura. Deus não precisa da intermediação dos 
cardeais vestidos de púrpura para dar a Auto-realização a seus 
filhos. No entanto, é de mau gosto ressaltar esse ponto, porque 
essa organização, de dimensão planetária, vive da credulidade de 
seus fiéis, algo que foi condicionado por ela por meio de uma 
arte secular. 
Estamos falando aqui, efetivamente, do advento do 
reino de Deus e não apenas de sua probabilidade, e nem sequer 
de sua mera iminência. Falamos do fato de que, no momento em 
que redijo essas linhas, milhares de pessoas experimentam um 
segundo nascimento. 
Lembremo-nos, novamente, de que é impossível atingir a 
realidade dessa transformação sagrada, quer pela mera 
curiosidade intelectual, quer mediante quaisquer esforços. Isso 
se deve à natureza da Kundalini, pois ela não pode ser 
domesticada. Não se pode fazer nada além de se entregar a ela, 
como a criança divina, Shri Ganesha, entregou-se à sua Mãe 
imaculada. A Kundalini transcende as Gunas, o sistema nervoso 
simpático (SNS) e todas as nossas manipulações. É, também, 
por causa disso que a Sahaja Yoga se distingue das demais 
formas de Yoga e das outras disciplinas religiosas que têm por 
O ADVENTO 
 
168 
meta a destruição do ego. A Sahaja Yoga não destrói coisa 
alguma, porém integra e transcende... É bom que 
compreendamos isso, de forma plena. Mukti (liberação) não é só 
a liberação do ego, mas também do superego. De fato, se 
desmantelarmos a proteção que o ego oferece à nossa psique, 
sem nos libertar, ao mesmo tempo, das influências e 
interferências que emergem do superego, nos exporemos ao 
risco de ficar sob o domínio das forças que surgem do 
subconsciente coletivo e de outras entidades. 
Os falsos Gurus de hoje estão desenvolvendo todos os 
tipos de meditações, e também as chamadas técnicas 
transcendentais, que garantem a eles, por meio da manipulação 
de Bhuts, manter sua influência sobre o subconsciente de seus 
discípulos. Os últimos são exortados a aniquilar seus egos, pois 
um ego forte e sadio se oporá, naturalmente, às manipulações 
doentias. 
É imprescindível que a pessoa se liberte das Gunas, do 
ego e do superego. Isso somente é possível pela atuação da 
Kundalini na passagem secreta do Sushumna. Se isso não 
ocorrer, quaisquer esforços de renovação espiritual correm o 
risco de ficar perdidos na influência absurda dos falsos Gurus, 
no fanatismo dos muçulmanos fundamentalistas, ou nos 
movimentos carismáticos superficiais, mediante os quais as 
igrejas desacreditadas procuram apresentar uma nova fachada ao 
mundo, sem que ofereçam nada, de realmente novo, para 
resolver o problema de dar aos fiéis um segundo nascimento. 
Dessa forma, e isso deverá ser repetido à saciedade, a 
verdade de nossa transformação depende de nosso instrumental 
interior de consciência, cuja realidade e modo de operação não 
dependem de quaisquer interpretações que possamos fazer, ou 
de quaisquer crenças ou inibições que tenham sido levantadas ao 
nosso redor, pelas grandes, assim denominadas, instituições 
religiosas. 
A HARPA SAGRADA 
 
169 
A semente, a flor e a árvore cresceram durante milênios, 
em consonância com certas leis, que não dependem das teorias 
dos botânicos. A mesma coisa vale para a Kundalini. Dado que 
a estrutura do microcosmo reflete o modelo primordial do 
Virata, a Kundalini aciona, em nosso interior, os três aspectos 
primordiais de Deus, que chamamos de Santíssima Trindade, o 
Pai, o Filho e a Mãe (o Espírito Santo), os três aspectos do 
Divino que têm reinado sobre o cosmo por toda a eternidade. 
A Adi Shakti (o Poder Primordial, a Mãe ou a Energia 
Primordial) manifesta-se quando a Kundalini ascende da base da 
coluna espinhal e eclode no Sahasrara. A passagem de algo 
potencial para algo efetivamente atual(para usar a terminologia 
aristotélica) corresponde à manifestação do Espírito Santo no 
Sahasrara. 
O Menino-Deus é também representado no Yantra 
dentro de nós. Assentado, como Shri Ganesha, no Muladhara 
Chakra, Ele controla o protocolo da Kundalini. Em sua forma 
evoluída, como Jesus Cristo, Ele vigia a porta (Agnya Chakra) 
da cidade do Espírito Santo, o Sahasrara. Ele se manifesta 
quando abre a passagem estreita do Agnya para a Kundalini, 
purificando, dessa forma, o ego e o superego. 
O Pai, a testemunha imemorial, o Altíssimo, o Todo-
poderoso, é manifestado no ser humano como o Si, quando o Si 
se une à Shakti, no Sahasrara. 
Shri Shankaracharya explicita esse encontro no 
“Saundarya Lahari”: 
“Em segredo, tu te divertes com Teu Senhor, no lótus de mil 
pétalas, tendo atravessado a terra situada no Muladhara 
Chakra, o fogo no Swadishthana, a água no Manipura, o ar 
no Anahata (coração), o éter, mais acima, no Vishuddhi, e 
Manas entre as sobrancelhas (Agnya), e tendo assim 
percorrido o caminho inteiro de Kula.” 
 
O Katha Upanishad dá mais detalhes sobre essa união: 
O ADVENTO 
 
170 
“Há cento e um nervos que são irradiados pelo lótus do 
coração. Um deles sobe em direção ao lótus de mil pétalas 
no cérebro. Se, quando um homem morrer, sua força vital 
elevar-se através desse nervo, ele se tornará imortal.” 
 
Shri Mataji compara o Si com a chama, e a Kundalini 
com a energia do gás que queima. Quando um entra em contato 
com o outro, a ignição ocorre. Isso é a ‘iluminação’. 
O Si nada mais é que o espírito, ou a alma, ou o Atman, 
personificado por Shri Shiva, que reside no coração humano, do 
lado esquerdo do Anahata Chakra, ou Chakra do Coração. 
Podemos dizer que a região límbica do cérebro é, de uma certa 
forma, o espaço celestial onde a pessoa repousa antes de 
aparecer na presença sacrossanta de Deus Todo-poderoso 
(Sadashiva). Ele reside acima do Sahasrara e pode ser 
alcançado através da abertura imperceptível da membrana da 
fontanela (batismo). Quando a atenção humana, transportada 
pela Kundalini, perfura a membrana da fontanela, entra na 
presença de Deus, e o Si, que é o reflexo de Deus no coração, é 
iluminado e começa a emitir vibrações frescas. 
Assim a Testemunha e Sua Energia ultimam, no 
Sahasrara do iluminado, seu jogo cósmico, cujo início marcou o 
nascimento do universo. O jogo é aquele jogo de Deus, no qual, 
em Sua Criação, Ele Se procura e Se acha. Deus nos convida 
para Sua dança, nos conclama a nos reunirmos a Ele, a nos 
tornar os espelhos de Sua revelação. 
 
 
 
LIVRO IV
 
ABRINDO A JANELA 
 
 
 
 
 
 “A liberdade, em sua forma mais sutil, é o altruísmo 
pleno, sem arestas, o vácuo completo tal como a flauta, para 
que a melodia de Deus possa ser bem tocada. Essa é a 
completa liberdade. A liberdade surge quando vocês são 
capazes de exercer seus próprios poderes interiores. Em seu 
sistema nervoso central, com toda a sua mente consciente, 
vocês devem sentir a existência do espírito.” 
 
SHRI MATAJI NIRMALA DEVI 
 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
 
CAPÍTULO V 
 
 
“O bem é aquilo que provoca o impulso da alma em sua própria 
direção, em consonância com a natureza, e algo que deve ser buscado 
segundo a própria natureza.” 
SÊNECA 
 
“Porque meu povo perpetrou dois males. Deixou-me a mim, fonte 
de água viva, e cavou para ele cisternas, cisternas rotas, que não podem 
reter as águas.” 
JEREMIAS, 2.13 
 
Estamos em 1976, num vilarejo da Índia. É a hora 
deliciosa, simultaneamente fresca e tranqüila, do crepúsculo. No 
pátio, algumas vacas ruminam, indolentemente, voltadas para a 
sala onde nos encontramos. Camponeses, Sahaja Yogis e 
peregrinos do Ocidente estão reunidos em torno de Shri Mataji. 
As lamparinas a óleo dão vida às paredes rebocadas de branco. 
Maureen, uma moça inglesa, comenta: “isso parece uma cena 
bíblica”. 
Um alto funcionário veio ver Shri Mataji e pediu que lhe 
desse a Auto-realização. A Mãe e vários Sahaja Yogis 
trabalharam nele. Ao fazerem isso, todos se esforçaram muito. 
Todavia, não havia nada a fazer. A Kundalini dele não 
conseguiu ultrapassar o Nabhi Chakra. Desapontado, o homem 
foi embora. Algumas horas depois, soubemos, por um de seus 
colegas, que o sujeito em questão, administrador corrupto, se 
apropriou, indevidamente, de fundos públicos que lhe foram 
confiados. O Nabhi Chakra é presidido por Shri Vishnu e sua 
Shakti (o poder, a energia do Deus masculino e dele 
O ADVENTO 
 
174 
inseparável), Shri Lakshmi, que controlam nosso darma, e essas 
divindades se recusaram a conceder suas bênçãos a uma pessoa 
que havia zombado delas, por meio da prática de atos corruptos. 
O que é o darma? Por que é tão importante conhecê-lo e 
compreendê-lo? A palavra sânscrita não pode ser traduzida 
fielmente por uma palavra portuguesa, mas sim por um 
amálgama de noções como a virtude, a retidão, a moralidade, a 
justiça, a lisura, a moral, a ética, a integridade, etc. O darma 
evoca alguns critérios éticos que nos permitem fazer certas 
coisas e nos proíbem de praticar outras. Todavia, qual é a 
realidade que está por trás dessas palavras e princípios? Nossos 
educadores, os guardiões das regras de moralidade, aplicam, 
freqüentemente, suas proibições sem inteligência e sem 
discernimento, ou até mesmo sem qualquer convicção. Todos os 
adolescentes irreverentes se rebelavam contra as advertências de 
‘não façam isso, não façam aquilo’, com a pergunta ‘por que 
não?’ Como ninguém me deu uma resposta satisfatória, tentei 
descobrir por mim mesmo, isto é, comecei a praticar aquelas 
coisas que eram proibidas, a fim de descobrir o porquê disso. 
Furtei, menti e me lancei nessas aventuras chamadas românticas 
(as quais, depois de algum tempo, tornaram-se mais que 
permitidas). Entretanto, a imersão no vício, com o propósito de 
descobrir um sentido para a virtude, pode ser uma conduta 
duvidosa. Somente após a Auto-realização, foi que comecei a 
entender o que estava acontecendo, e foi assim que me convenci 
de que valia a pena ser dhármico. 
Ser dhármico é sentir, pensar e agir corretamente, de um 
modo justo. Ser justo - eis o princípio fundamental - é aquilo 
que reforça e sustenta nossa capacidade de evoluir 
espiritualmente. Ser dhármico é comportar-se de uma maneira 
tal que agrade as divindades de nossos Chakras. Agindo dentro 
dos limites do darma, nossa rede sutil interior de energia-
consciência será protegida por essas divindades das 
interferências externas. Com isso, essas divindades poderão, 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
175 
finalmente, sustentar o pleno florescimento de nosso verdadeiro 
ser. 
Como saber se dado comportamento é dhármico? Para 
uma alma realizada, essa é uma questão simples. O Sushumna é 
o canal de Shri Mahalakshmi (que é o poder da evolução da Adi 
Shakti). As encarnações de Shri Vishnu balizam esse caminho. 
Com efeito, Shri Vishnu é o aspecto de Deus que preserva, faz 
com que sua criação evolua e é a própria personificação do 
darma. A abertura do Sushumna implica, assim, uma 
conscientização espontânea do darma. Dessa forma, como já foi 
dito, o Sahaja Yogi cujo sistema nervoso já foi despertado pela 
consciência perceptiva vibratória perceberá, fisicamente, o 
darma. Esse Sahaja Yogi sentirá as más vibrações de uma 
pessoa adhármica. Por exemplo, uma bela estátua emitia 
vibrações péssimas no lado direito do Chakra do coração. 
Sentimos uma dor do lado direito do peito, exatamente no lugar 
presidido por Shri Rama, que rege nossas relações de 
paternidade. Descobrimos, mais tarde, que o artista havia 
matado seu pai. Certa vez, um homem que enganava, 
secretamente, sua esposa nos enviava vibrações queimantes e 
que eram captadas no lado esquerdo do Nabhi Chakra, 
governado pelo aspecto Gruha Lakshmi, a deusa do lar. Shri 
Mataji esclarece que “um animal pode perambular em meio ao mau 
cheiro de um ambiente pestilento, sem sesentir mal. No entanto, um 
ser humano não suportará isso. Da mesma forma, após a Auto-
realização, o pecado se torna repulsivo para a consciência 
despertada. Vocês sentem o mau odor dele. É seu corpo que reage”. 
Para um ser não-realizado, vale dizer, para a vasta 
maioria dos seres humanos, o sistema nervoso central ainda não 
está conectado com a consciência perceptiva vibratória do 
darma. Isso significa que a maioria pode queimar seus dedos nas 
chamas do pecado, sem que seu sistema nervoso central envie 
sinais de dor de volta para o cérebro e deflagre o reflexo de 
recuar os dedos, a fim de evitar que se queimem. Para nos guiar 
O ADVENTO 
 
176 
no caminho do comportamento correto, Shri Vishnu e o mestre 
primordial (Adi Guru Dattatreya) se encarnaram em numerosas 
ocasiões, tendo sido ajudados em sua missão de iluminação 
pelos grandes profetas e santos. De fato, é muito simples, pois o 
que aprimora o darma é aquilo que faz desabrochar, plenamente, 
nossas qualidades físicas, intelectuais e emocionais, trazendo 
harmonia e concórdia às nossas vidas. Esse era o objetivo das 
leis de Manu e de Moisés, e os valores dos estóicos e dos 
cristãos, o caminho do equilíbrio ou Tao, o caminho do meio de 
Buda. Todos esses conceitos implicam a aceitação de um ideal e 
de uma conduta correta. Também, é essencial um estilo de vida 
que mantenha, em equilíbrio, os movimentos de energia em 
torno do Sushumna. Quando os Chakras não estão sob o 
domínio das tensões laterais do Ida e do Pingala Nadis, a 
dimensão sáttwica (equilibrada) se expressa. Esse é o momento 
oportuno em que os lótus (ou Chakras) se abrem, quando a 
Kundalini ascendente os atravessa. A partir daí, devem ser 
evitados todos os comportamentos extremos que desestabilizem 
nossa atenção, projetando-a sobre o sistema nervoso simpático 
(SNS), esquerdo ou direito. Outra não era a mensagem da 
Grécia antiga, na qual a proporção e a medida eram cultivadas. 
É preciso, diz-nos Confúcio, que nos adaptemos às leis do Céu. 
Essas admoestações tinham por objetivo manter livre e 
desembaraçado nosso instrumental parassimpático, para a 
ascensão da Kundalini. Muito próximo de nós, na Europa, o 
código de honra da cavalaria medieval quis reafirmar a primazia 
da ética. 
Antes da abertura do Sushumna, é portanto muito 
relevante levarmos uma vida dhármica, moral, equilibrada, de tal 
maneira que nossa atenção não se envolva, excessivamente, com 
os dois canais (Ida e Pingala). O perigo de nos aventurarmos 
em demasia nesses canais é que, ao contrário do Sushumna, eles 
não representam o caminho evolutivo para nosso 
aperfeiçoamento. Os canais Sushumna, Ida e Pingala, que 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
177 
constituem as três principais artérias de energia no microcosmo 
humano, estão vinculados a domínios cósmicos diferentes. As 
pessoas muito ligadas ao Pingala Nadi vão, depois da morte, 
para o supraconsciente coletivo. Por sua vez, o canal esquerdo 
(Ida Nadi) conduz as pessoas ao subconsciente coletivo. Para os 
seres humanos, esses domínios cósmicos são aliados cegos que 
os podem levar a renascimentos infelizes. Por outro lado, se a 
pessoa permanecer parada nas províncias mais inferiores desses 
domínios, ela poderá cair no inferno ou voltar para a Terra na 
forma de um espírito, um Bhut, conforme se discutiu 
anteriormente. Apenas o Sushumna é capaz de nos levar para o 
reino de Deus. Como já dissemos, com a exacerbação do Ida 
Nadi, as pessoas se tornam completamente possuídas e 
perturbadas. Se isso ocorrer em relação ao Pingala Nadi, 
poderemos encontrar monstros egocêntricos, opressores. 
Certamente, os opostos se encontrarão. Shri Mataji enfatiza, 
constantemente, que a moderação nos mantém próximos do 
canal central. Aquele que conseguir concentrar sua atenção 
preservará, também, sua inocência e sua espontaneidade. Shri 
Ganesha, Deus da inocência é, também, o Senhor da sabedoria. 
“Guiando os homens e servindo o Céu, o sábio usa apenas de moderação. 
Pela moderação somente, ele é capaz de se ajustar rapidamente ao Tao”. 
Lao Tse continua nos dizendo (no livro, “Tao te king”) que o 
Tao, significando aqui o darma, é o melhor remédio para 
imunizar o ser humano contra os Bhuts: “Quando o Tao reinar no 
mundo, nenhum espírito mostrará seus poderes fantasmagóricos. Não é 
que os espíritos terão perdido seus poderes, mas seus poderes não poderão 
mais prejudicar os homens”. 
 
O Adharma (a negação do darma) nos torna vulneráveis 
diante dos inimigos de Shri Vishnu, vale dizer, das forças que 
trabalham contra nossa evolução. Ignorar o mundo das 
entidades não faz com que elas desapareçam. Aqueles que não 
compreendem sua origem, talvez ignorem a lei segundo a qual o 
resultado de nossas ações (Karma) nos acompanha, após a 
O ADVENTO 
 
178 
morte, e influencia bastante as etapas seguintes de nosso destino. 
Vamos comentar brevemente esse assunto. 
Quando o coração cessa de bater, sabemos que o Atman 
(espírito) deixa o aparato material que usou, no afã de vivenciar 
a curta duração de uma existência humana. A consciência 
individual se retira dos órgãos físicos que haviam sido sua 
sustentação. O conteúdo da consciência se concentra na 
Kundalini, que começa a reduzir seu porte, até atingir um ou 
dois centímetros. Por solicitação da vontade do Atman, a 
Kundalini abandona o corpo morto, carregando consigo os 
Chakras. Estes, por sua vez, encapsularam, dentro de si 
mesmos, o conteúdo da consciência (todo o Karma) que 
resultou dessa vida, que é adicionado aos conteúdos resultantes 
de vidas anteriores, vale dizer, a memória total. Observe-se que 
alguns drogados conseguem alcançar, algumas vezes, de forma 
episódica, essa memória total de todo o ciclo de suas 
reencarnações. Essa memória pode também ser vivenciada, de 
modo imperfeito, nos sonhos muito profundos ou sob a 
influência da hipnose. No caso da hipnose, uma entidade do 
subconsciente faz com que nossa atenção se volte para o 
passado, no subconsciente coletivo. 
Primeiramente, a Kundalini vela sobre seu cadáver 
durante, aproximadamente, 13 dias. Isso explica a relevância dos 
ritos funerários, que são feitos no afã de apaziguar o espírito do 
morto; e explica, também, certas técnicas de magia negra que os 
feiticeiros utilizam, num cemitério, a fim de capturar esses 
espíritos. Em seguida, conforme o conteúdo dos Chakras e o 
estado da Kundalini, o morto se sente atraído pela força 
gravitacional dos campos energéticos que correspondem às suas 
condições. Por isso, se move em direção a uma província 
cósmica apropriada a ele. Os tipos rajásicos (orientados pelo 
lado direito) se dirigem para as províncias do supraconsciente 
coletivo, enquanto que os tipos tamásicos (orientados pelo lado 
esquerdo) se encaminham para o subconsciente coletivo, e, 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
179 
finalmente, os tipos sáttwicos (orientados pelo canal central) se 
movem em direção à superconsciência do Virata. O Bardo 
Todol, o “Livro Tibetano dos Mortos”, relata essas passagens. 
Os cristãos falam em limbo e purgatório, porém sem ter uma 
noção muito clara a respeito deles. No Virata, o Preta Loka 
(domínio dos espíritos) tem diversas subdivisões que são 
descritas por alguns textos muito antigos. Shri Mahavira, o 
reformador do Jainismo, descreveu os diversos círculos do 
inferno, com detalhes que teriam agradado a Dante Alighieri. As 
interações desses locais assinalados e a consciência individual 
determinam a próxima encarnação. Os seres muito evoluídos ou 
realizados escolhem seus pais e, através destes, o meio ambiente 
em que pretendem viver sobre a Terra. Todavia, todos os outros 
têm a oportunidade também de renascer, sendo, por assim dizer, 
projetados numa matriz. No momento da concepção, o Atman 
encarna-se novamente e a Kundalini une-se a ele três meses 
depois. 
Se, por uma ou outra razão, um indivíduo, em seu estado 
após a morte (o Bardo,segundo os tibetanos), escapar do 
mecanismo normal desse ciclo, pode se aproximar do consciente 
coletivo, isto é, da raça humana. As almas frustradas ou 
torturadas (fantasmas, Pretas, Bhuts, etc.) ficam vagando nas 
proximidades das províncias conscientes do Virata, prontas para 
se manifestar, quer sob a forma de Bhuts, quer sob a forma de 
espectros. Um Sahaja Yogi pode percebê-los, a olho nu, 
vagando no espaço. Essas entidades nocivas se apresentam 
como pequenos pontos negros. Às vezes, podem ser vistos sob a 
forma de uma Kundalini desfigurada, acompanhada de Chakras 
opacos e deformados. As malformações que podem ser, assim, 
observadas fisicamente, numa forma de alguns centímetros, 
representam os estigmas dos pecados que pesam sobre a 
consciência do Bhut. Trata-se de um espetáculo que sugere que 
devemos evitar quaisquer transgressões, enquanto temos ainda 
uma forma humana. 
O ADVENTO 
 
180 
Certas pessoas, muitas vezes propelidas por demônios, 
que esperam recrutá-las, escolhem o suicídio como solução para 
seus problemas. Isso é um engano! Ninguém morre. Ninguém 
pode matar a si mesmo. Apenas os compostos materiais 
derivados dos elementos terra e água nos deixam no momento 
de nossa chamada morte. Todo o resto permanece. É bem pior 
sofrer na condição de desencarnado que na situação humana. 
Enquanto se tem ainda um corpo físico, pode-se ajudar a si 
mesmo e se corrigir. Todavia, sem o corpo físico, o sofrimento é 
um inferno. Ademais, na condição de Bardo, não é possível 
melhorar as oportunidades de evolução, objetivo da encarnação 
humana, mas pode-se sempre ficar exposto a um pecado 
ulterior, tornando-se assim um Bhut. 
Vejamos agora o que é o pecado. Os padres fizeram um 
uso deturpado da palavra ‘pecado’, o que gerou muita culpa nos 
fiéis. Devemos tentar restaurar a essência de todos os grandes 
preceitos morais, colocando-os no contexto de suas relações 
com as propriedades dos Chakras, à luz da experiência vivida no 
ato de despertar a Kundalini das pessoas. Todos nós, Sahaja 
Yogis, nos inclinamos diante dos ensinamentos dos verdadeiros 
Gurus e profetas, porque compreendemos, agora, como estes se 
esforçaram para nos proteger, mostrando-nos as coisas que 
podiam ser feitas e aquelas que deviam ser evitadas. 
Descobrimos como os diferentes Chakras podem ser afetados 
por pecados específicos. 
 
O MULADHARA CHAKRA 
 
Se o Ocidente não quiser compreender, rapidamente, as 
leis sutis que regem a sexualidade normal, esse Chakra 
continuará a ser perturbado, como ocorre com vários indivíduos 
pseudoliberados. Por causa dos excessos sexuais, a consciência-
energia torna-se debilitada. A reeducação da atenção a esse 
respeito, no Ocidente, será um exercício longo, porém 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
181 
proveitoso. No pólo oposto, o lado direito desse Chakra fica 
bloqueado pela constipação ou pela repressão sexual, o 
puritanismo. Por exemplo, um dia, perdido em meus 
pensamentos, estava cruzando a praça, diante da Catedral de 
Westminster, em Londres, quando uma dor aguda e súbita, 
nessa parte de meu corpo, me desviou de minhas reflexões. 
Olhei ao redor, e explodi numa gargalhada, por ter constatado 
que a praça tinha ficado escura, com tantas freiras, que me 
rodearam de todos os lados, ao saírem de seus carros em direção 
à igreja. Meu Muladhara, por intermédio de meu estado de 
consciência coletiva, captou a distorção causada pela 
sexualidade reprimida nos Muladharas Chakras dessas freiras. 
 
O SWADISHTHANA CHAKRA 
 
Muito freqüentemente, esse Chakra fica sob pressão 
quando nossas atividades são muito dominadas pelo ego, ou, 
simplesmente, quando o ritmo de nosso trabalho é muito 
estressante. O lado esquerdo é perturbado pelas práticas 
psíquicas e espirituais não autorizadas (Anadhikar) pelo Divino. 
Os psiquiatras, os dignitários eclesiásticos, os pseudomestres 
espirituais e os adeptos de seitas esotéricas ficam, 
freqüentemente, com o Swadishthana esquerdo bloqueado. Essa 
forte perturbação ou bloqueio revela o parasitismo dos Bhuts no 
subconsciente, quando ocorre também um bloqueio no Agnya 
esquerdo. Certas perversões sexuais deformam completamente o 
Swadishthana. O lado direito desse Chakra fica bloqueado pelo 
excesso de atividades e pelo excesso de planejamento. A diabete 
tem sua origem na perda do equilíbrio provocada por um 
excesso de atividade mental. Os artistas e outras pessoas muito 
criativas geralmente têm problemas com o Swadishthana, cuja 
energia criativa gastam exageradamente e, assim, a exaurem. 
O NABHI (ou MANIPURA) CHAKRA e o VOID 
 
O ADVENTO 
 
182 
Esse Chakra pode ser perturbado e descontrolado pelo 
consumo de certas carnes, bebidas fermentadas e drogas. Ele 
também pode ser prejudicado por atividades adhármicas 
relativas ao dinheiro, ao meio ambiente material, aos problemas 
familiares, ou a outros erros fundamentais em nosso estilo de 
vida. Os problemas hepáticos resultam de uma exagerada tensão 
no Nabhi direito e no Swadishthana direito. Nesse caso, a 
atenção se torna dispersiva e frenética como um peixe fora 
d’água. Como Buda disse: “A tranqüilidade mental e a 
faculdade da concentração desaparecem”. 
A região que fica em torno do Nabhi (o Oceano de 
Ilusão ou Bhava Ságara, ou o Void) é prejudicada pelo culto 
prestado a um falso guru ou pelo fanatismo. Os fundamentalistas 
cristãos, judeus, muçulmanos ou de quaisquer outras religiões 
ficam com essa parte do corpo completamente bloqueada. 
 
O ANAHATA (ou CORAÇÃO) CHAKRA 
 
Esse Chakra dá ou tira o sentimento de segurança. As 
tensões que podem causar a perda do sentimento de segurança 
geralmente dizem respeito ao relacionamento com o pai ou com 
o marido (lado direito), com a mãe ou com a esposa (lado 
esquerdo), ou conflitos entre os próprios pais da pessoa 
(Coração central). Também pode ser afetado por nossos 
romances juvenis. Quando esse Chakra está bloqueado, a pessoa 
vive com um sentimento de insegurança. Quando ele se fecha, o 
amor não é sentido nem dado pela pessoa. O lado esquerdo fica 
bloqueado: a) por uma atividade física muito intensa; b) pela 
moderna Hatha Yoga em sua forma incompleta (feita apenas 
como uma ginástica); c) pela insuficiente atenção que prestamos 
ao espírito que reside dentro de nós; e d) por ações prejudiciais 
a nosso espírito, motivadas por nossas insensibilidades, 
grosserias ou indiferenças. O lado direito pode ser prejudicado 
quando não são seguidos vários tipos ideais de comportamento 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
183 
social. Por exemplo, o bom relacionamento entre os cônjuges, 
ou as boas relações entre o pai e os filhos (ou vice-versa), as 
relações cívicas adequadas da pessoa com a comunidade. Um 
bloqueio sério desse lado direito pode levar ao câncer do peito 
ou, se for do lado esquerdo, a um ataque cardíaco. 
 
O VISHUDDHI CHAKRA 
 
Esse Chakra de 16 pétalas controla nosso complexo 
otorrinolaringológico, pelo qual nos comunicamos com o 
mundo. Ele assinala também o início da formação do ego e do 
superego. É o Chakra da coletividade, da arte da pessoa 
conhecer seu próprio lugar, sem agredir os outros e sem se 
autodepreciar. Ele pode ser danificado por nossa ânsia de 
aparecer e por jogos emocionais e mentais. Também pode ser 
prejudicado pelo ato de fumar, pelo uso de linguagem chula ou 
inconveniente, ou, simplesmente, por resfriados. Se uma pessoa, 
antes de sua Auto-realização, cantar mantras, poderá ofender a 
divindade do Vishuddhi e também aquela que estiver sendo 
invocada. Por exemplo, Aradhana, uma menina realizada, estava 
tentando dormir perto de um templo, no qual os devotos 
entoavam incessantemente, o mantra “Hare Rama, Hare 
Krishna”. Após algum tempo, ela se levantou, enrolou seu 
cobertor e disse para sua surpresa babá: “Deus ficou tão 
saturado com esse cântico, que Ele já se retirou há muito 
tempo. Agora, também vou me retirar daqui”. Adeptos dessaspráticas sofrerão problemas de garganta, de nariz, e de ouvidos. 
O câncer pode se espalhar pelos setores do corpo controlados 
pelos dezesseis subplexos. O lado esquerdo é afetado quando a 
pessoa se sente culpada (por exemplo, por meio do 
condicionamento da confissão no catolicismo) ou quando 
alguma entidade ou Bhut toma conta do Vishuddhi Chakra, 
falando por intermédio do indivíduo ou encerrando-o num 
silêncio glacial. 
 
O ADVENTO 
 
184 
O AGNYA CHAKRA 
 
Esse centro, extremamente sensível, não permite que 
nenhuma impureza atinja o Sahasrara. O Agnya é bloqueado 
pela hipocrisia intelectual, por ondas de pensamento errático, 
por leitura excessiva, por intelectualismo exagerado, pela 
incapacidade de perdoar, ou de pedir perdão (o antídoto para 
isso é o ‘pai-nosso’). É afetado, ainda, pelo toque de um guru 
falso durante uma pseudo-iniciação; pelo condicionamento 
pseudocristão que mantém muito mais uma tradição religiosa 
institucionalizada que a realidade viva do Cristo. Fica também 
bloqueado pela aceitação da ortodoxia judaica que nega a 
divindade de Cristo; pelo uso errôneo de nossos olhos; pelo fato 
de assistirmos, demasiadamente, a programas de televisão, assim 
como pela atração que podemos ter por imagens vulgares, 
violentas ou obscenas e pelos flertes contínuos em cada esquina. 
Como o Agnya rege os nervos óticos, bem como as 
glândulas pineal e pituitária, o estado puro e limpo do Agnya é 
uma condição indispensável para o domínio do intelecto e da 
atenção. O processo de purificação pode levar alguns anos, e 
merece que nos consagremos a ele com paciência e disciplina, 
particularmente porque todo o meio ambiente ocidental faz com 
que isso seja muito difícil! Os problemas do Agnya Chakra 
podem se manifestar como queimações na testa, dor nos olhos e 
dores de cabeça. Um Bhut no Agnya pode levar ao surgimento 
de alucinações, as quais a pessoa pode confundir com progresso 
espiritual, e até mesmo à cegueira. Bohdan Shehovych, um 
médico russo, que é Sahaja Yogi, pôde ver seu Agnya sendo 
atacado por Bhuts e nos dá o seguinte depoimento: “Vi meu 
Agnya no interior de minha cabeça. Ele apareceu como uma espécie de 
ovo, brilhante como o Sol. Também pude ver pontos negros que pareciam 
mover-se em torno dele”. 
O lado direito do Agnya pode ficar bloqueado por 
manifestações exageradas do ego (o hemisfério esquerdo do 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
185 
cérebro), e o lado esquerdo por entidades do superego, que 
podem causar sensações desagradáveis na parte posterior da 
cabeça ou na têmpora direita. 
 
O SAHASRARA CHAKRA 
 
O lótus de 1.000 pétalas contém, sob uma forma sutil, 
todos os outros Chakras. É assim o Chakra da integração. As 
pessoas dogmáticas, da mesma forma que os militantes ateístas, 
ficam com seus Sahasraras bloqueados. O bloqueio também 
ocorre com as pessoas que se apegam às suas opiniões e aos 
seus conceitos a respeito de Deus. Isso pode se tornar algo 
doloroso, se a pessoa se recusar a reconhecer a verdade, mesmo 
após ter testemunhado sua manifestação. Por exemplo, se ela se 
recusar a reconhecer o fato de que Shri Mataji despertou sua 
Kundalini, a despeito de ter sentido as vibrações se originarem 
dela. 
Não se trata de desenvolver, nesse livro, as inumeráveis 
permutações e combinações que podem ser formadas pelos sete 
Chakras básicos. A música divina elabora, infinitamente, a 
combinação das sete notas da escala. Alicerçado em dados e 
fontes vibratórias diferentes, o homem se torna, instintivamente, 
(aliás espontaneamente), consciente da verdade e da falsidade. 
Ele tornou-se capaz de saborear o fruto da árvore do 
conhecimento do bem e do mal. “O único conhecimento válido 
é aquele que é verificável”, diz-nos Piaget em sua “Sabedoria e 
as ilusões da filosofia”. É essa espécie de validação que a Sahaja 
Yoga confere no campo da ética. Nossas experiências nos 
ensinaram algumas regras simples de conduta correta. 
- As pessoas que trabalham muito ou que são muito 
preguiçosas devem mudar seus comportamentos, a fim de voltar para o 
centro, evitando os comportamentos extremos. 
- Os indivíduos que se preocupam, excessivamente, com 
dinheiro ou posses materiais nunca terão paz e contentamento. 
O ADVENTO 
 
186 
- Aqueles que conferem muita importância à aparência, ao 
sucesso, à reputação tornam-se artificiais e desprovidos de 
profundidade e sabedoria. 
- As criaturas que pensam ou planejam, demasiadamente, 
tornam-se hiperativas e serão incapazes de entrar em sintonia com as 
‘ondas’ divinas. 
- As pessoas que levam uma vida licenciosa têm a 
probabilidade de perder toda a consciência das qualidades divinas. A 
fim de manter sua inocência e espontaneidade, os homens devem ser 
capazes de olhar para as mulheres com olhos puros e vice-versa. 
- Aqueles que têm uma visão religiosa muito estreita deverão 
abrir seus Sahasraras, para que se tornem capazes de reconhecer 
todas as grandes religiões e todas as grandes encarnações. 
O darma faz com que algo se revele, de fato, como é. Na 
matéria, é a valência do átomo que determina a qualidade de um 
elemento. Trata-se, segundo Aristóteles, da essência da coisa. O 
darma de um ser é aquilo que sustenta esse ser na existência, o 
que lhe dá a forma específica. Será que constitui um grande 
milagre o fato de a macieira produzir maçãs, em vez de ameixas? 
Ou de que as formigas sejam capazes de construir seus 
formigueiros sem nunca ter freqüentado a escola? Ou ainda, que 
o tigre não tenha os mesmos instintos que tem o carneiro? Esses 
milagres acontecem devido ao poder de Shri Vishnu, a 
personificação do darma, que mantém todas as coisas dentro de 
limites adequados. Na natureza, a perversão não existe. A 
macieira não pode produzir ameixas, o fogo não pode molhar, e 
a platina não se oxida. Todavia, um homem pode se transformar 
numa mulher, porque ele pode usar sua liberdade para esse fim, 
e é assim que as coisas se desviam de seu caminho correto. 
O estado natural que precede o homem não é bom nem 
mau (“O homem nasce bom, porém a sociedade o corrompe”, 
diz Rousseau e Hobbes assevera que: “O homem é o lobo do 
homem”), porque essas distinções somente fazem sentido na 
consciência de alguém dotado de discernimento ético. Isso é o 
que distingue o homem das outras espécies vivas. Trata-se de 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
187 
sua condição de ter de escolher entre o bem e o mal. Essa é uma 
escolha que os animais e os anjos não precisam fazer. Para o 
estoicismo, a liberdade é a grandeza do homem. Já o 
existencialismo vê, na liberdade, a maldição humana. Ambos 
estão certos. Os que erram são os libertinos que confundem a 
liberdade com a licenciosidade. 
O paradoxo do homem é que ele segue apenas um 
caminho, que é a senda da liberdade e que pode conduzi-lo tanto 
para sua salvação, quanto para sua perdição. Precisamos saber o 
que é que podemos fazer nesse caminho. O darma do homem é 
o de respeitar livremente as regras da conduta correta que 
garantam uma ótima interação com seu meio ambiente. Essa 
interação é também assegurada aos outros níveis de vida, em 
função das leis da biologia e dos instintos. Os esforços humanos 
(feitos no sentido de estabelecer essas regras) dão nascimento ao 
que se chama de moralidade. 
As novas gerações caracterizaram-se pelos movimentos 
laterais de energia e por uma oscilação entre os pólos contrários 
do sistema nervoso simpático (SNS), que bloqueiam os Chakras 
no caminho central, no afã de se descartar do darma e por conta 
de sua rejeição das regras morais já desacreditas pela hipocrisia 
dos eclesiásticos que as pregavam. Somente a sinceridade de 
nossa busca manteve a possibilidade da Auto-realização. 
Todavia, se não houver busca, quando o movimento do pêndulo 
se torna muito violento, as pessoas poderão dissipar suas 
energias vitais em processos psíquicos antagônicos, 
contraditórios e incontroláveis (alternânciasde depressão e 
exaltação, de desespero e orgulho, de culpabilidade e 
arrogância, etc.). A personalidade dhármica, dotada de 
equilíbrio e autocontrole, preserva sua vida interior e a beleza do 
lótus de sua consciência interna, porque não é dominada nem 
dominadora. Assim, ela se mostra pronta para a grande 
transformação. Nas palavras de meu amigo Gavin Brown: 
“Quando você se identifica com o darma, coloca-se no caminho que liga 
O ADVENTO 
 
188 
todas as existências. Passa a fazer aquilo que é necessário e se abre para a 
vida e para o amor, e fica contente com você mesmo e com Deus, 
fechando-se assim o círculo”. 
Compreenderemos melhor, agora, os erros que as velhas 
regras de moral queriam que evitássemos. Ir contra o darma, ou 
em outros termos, cometer um pecado, é ir contra a 
possibilidade de um 'vir a ser' superior. Portanto, o pecado é um 
desvio, mais ou menos sério, do caminho central da evolução de 
nossa consciência. É uma agressão contra aquilo que é mais 
bonito em nosso interior. O problema é que, antes da Auto-
realização, não sabemos disso. A asfixia do darma ocorre de 
modo discreto e progressivo. 
Segundo E. A. Burt, em seu livro “Os ensinamentos do 
Buda compassivo”, Buda teria dito que “pela queda de apenas uma 
gota, o pote se enche d’água. A tigela fica cheia do mal, ainda que ele se 
acumule nela pouco a pouco”. 
No que tange a isso, Shri Mataji explica como o pecado 
nos anestesia: 
“A sensibilidade dos Chakras torna-se embotada, após os 
primeiros choques infligidos neles. O ser humano se acostuma muito 
facilmente com todos esses hábitos chocantes. Ele existe, porém de 
maneira muito superficial, dado que não quer descer até as profundezas de 
seu ser, porquanto nesse movimento, terá de encarar as atitudes chocantes 
acumuladas dentro de si mesmo. Tenta esquecer esses comportamentos 
porque isso o ajuda a sobreviver. No entanto, a mera existência não é 
suficiente. É algo frustrante, degenerescente e insultuoso. Muitas pessoas 
corajosas quererão, realmente, encarar a si mesmas. São essas que a 
Sahaja Yoga poderá ajudar.” 
 
O processo de purificação exige de nós muita 
perseverança e colaboração. Mesmo com o instrumento 
danificado (ou seja, com os Chakras bloqueados) pode-se 
receber a Auto-realização. O maior trunfo de um buscador, em 
meio a todos os seus erros e dificuldades, é o de ter estado 
sempre buscando a Verdade, resoluta e sinceramente. 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
189 
A busca apaixonada da Verdade é o aspecto vital do 
Bodhichitta (o desejo de iluminação suprema), que é descrito 
nos textos do budismo Mahayana, como sendo a chave para se 
atingir o estado de Bodhisattwa. Nesse sentido, devem ser 
consultadas as instruções de Maitreya ao jovem peregrino 
Sudhana nos Gandvyuha Sutras. 
Quando os Chakras e os Nadis são prejudicados pelo 
Adharma, ficamos na situação de uma cisterna que deixa 
escorrer a água ou de uma taça que não a retém. Talvez, 
possamos compreender melhor a relação existente entre o 
darma, nosso instrumento psicossomático e a Auto-realização, 
escutando a descrição que Shri Mataji faz do Samadhi de Shri 
Buda: 
“Buda tinha darma. Seu corpo era limpo. Seu espírito e sua 
atenção não encontravam alegria nos apetites do mundo. 
Sua taça estava pronta e se esvaziou de todo o seu 
conteúdo, quando abandonou seus esforços e entregou-se 
completamente. Esse foi o momento em que as vibrações 
divinas precipitaram-se sobre ele como uma chuva 
torrencial; a Shakti encheu sua taça e fez dele um Shakta, o 
iluminado. Assim, quando lhes é dito que respeitem sua 
virtude, vocês estão sendo advertidos para que mantenham 
sua taça intacta e limpa.” 
 
Pela graça de Deus, a água de seu amor tem, igualmente, 
a faculdade de reparar lentamente a taça da qual escoa. 
Contudo, se a taça estiver completamente desintegrada, é lógico 
que não haverá nenhuma esperança. Por isso, é conveniente que 
não exploremos o domínio do Adharma, até o ponto de ruptura 
entre a fenda e a fratura. 
Os comportamentos a ser evitados foram descritos de 
forma consistente pelas diferentes tradições. Os padres 
escolásticos da Idade Média diziam: “Cupiditas radix omnium 
malorum est” - “a cobiça é a raiz de todos os males” - os 
O ADVENTO 
 
190 
bonzos budistas falam da luxúria, da cólera e da ganância. Um 
provérbio persa corrobora a advertência budista: “Você sabe o 
que é que jamais pode ser satisfeito? É o olho da ganância. 
Todos os bens do mundo não podem encher o abismo de seus 
desejos”. Os vícios tendem a nos deixar perpetuamente 
frustrados e são incapazes de nos satisfazer plenamente. 
“Lassata necdum satiata” – ‘cansada, porém jamais satisfeita’ - 
dizia Juvenal a respeito de Messalina. Ademais, os animadores 
de Woodstock, os bardos de Plutão que são os Rolling Stones 
não têm nenhuma dúvida a respeito disso: ‘I can get no 
satisfaction..’ – ‘não posso obter satisfação alguma’. 
Nos textos sânscritos clássicos, os sábios identificaram 
seis inimigos internos que atuam contra os Chakras: 
1. Kama (luxúria e cupidez), contra o Muladhara 
Chakra; 
2. Krodha (cólera, agressão e violência), contra o 
Swadishthana; 
3. Lobha (inveja), contra o Nabhi; 
4. Moha (apego à família e à comunidade), contra o 
Anahata; 
5. Machara (ciúme), contra o Vishuddhi; 
6. Mada (vaidade e orgulho), contra o Agnya Chakra. 
 
Mas, hoje em dia, as racionalizações capitalistas 
endeusam a ganância, a luxúria (a mais desenfreada, como 
equivalente à palavra gloriosa ‘liberação’) e a violência (que é 
exercida sob a chancela oficial da polícia em regimes totalitários 
e em sociedades injustas). 
Infelizmente, não é possível citar aqui todas as escrituras 
que nos preveniram contra as conseqüências do pecado, mas 
gostaria de estabelecer, simplesmente, a ligação entre certas 
perturbações de nossa vida psíquica e os dois pecados 
fundamentais que podemos cometer, vale dizer, o pecado contra 
o Pai e o pecado contra a Mãe. 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
191 
- Todo homem é, potencialmente, aquele que dá à sua 
criança a segurança absoluta em relação à vida. Ele encarna, 
de alguma maneira, o aspecto tutelar de Deus, o Pai. Guia, 
protege e provê nossas necessidades. Cristo disse que “vosso 
Pai sabe do que é que precisais, mesmo antes de pedirdes a 
Ele”. O pecado contra o Pai é a falta de confiança na 
providência divina. Nosso cérebro quer compreender e controlar 
todas as coisas, ser o tutor de nosso destino e o contabilista de 
todas as seguranças artificiais que engendra para nos proteger. 
Todos esses esforços se transformam, por fim, numa patologia 
de um espírito constantemente inquieto, uma fantasmagoria 
sempre renovada de falsas identificações e de seguranças 
ilusórias. A fama, o poder e a acumulação material são alguns 
nomes dados a esse jogo de pessoas enganadas. A avareza e 
todas as práticas imorais associadas com os bens materiais, tais 
como: fraudes, corrupções, explorações, apropriações indébitas, 
extorsões, furtos e roubos são formas de pecados contra o Pai. 
Os movimentos da atenção se voltam para o exterior, agindo 
como os tentáculos de um polvo, a fim de capturar e acumular 
objetos materiais. Todavia, os seres realizados (aqueles que 
nasceram duas vezes) têm sua atenção interiorizada e a rara 
capacidade de se deleitar com aquilo que possuem. Saboreiam 
suas próprias virtudes. Estão satisfeitos materialmente e não 
gastam suas energias, no afã de acumular coisas supérfluas. São 
generosos sem ostentação e compartilham, com os outros, as 
coisas que possuem. Certa vez, Shri Mataji disse: “Um ser 
realizado é como um imperador. Como Sai Baba de Shirdi, ele 
pode dormir sobre uma pedra e mesmo assim sentir o conforto 
bem-aventurado de um bebê nos braços de sua mãe”. É preciso 
compreender que a capacidade de conhecer a satisfação depende 
de um estado interior e não das circunstâncias externas. 
Dependedo SER e não do TER. Uma pessoa pode sentir-se 
lesada, seja qual for seu nível de vida ou sua posição social. 
O ADVENTO 
 
192 
Haverá, sempre, em Saint Tropez, ou em qualquer outro 
porto, um iate maior e mais bonito que o seu, e se, por acaso, 
você já possuir o iate mais bonito e maior, você quererá, em 
seguida, a moça maravilhosa que está no terraço do bar e depois 
outras coisas mais. 
- Toda mulher representa, potencialmente, para sua 
criança, o supremo recurso ao amor, encarnando aquele 
aspecto do Divino que, desse modo, nutre o universo. Além 
disso, sua inocência e sua pureza manifestam-se por intermédio 
de sua castidade, a qual representa outro aspecto fundamental da 
energia divina. O pecado contra a Mãe é o ataque a essa 
dignidade, quando a psique ‘sexualizada’ vê na mulher apenas 
um objeto de consumo, o pretexto para divertimentos carnais. 
Cristo recomendou que não tivéssemos olhos adúlteros. Trazer 
o sexo no olhar, em lugar de usufruir dele numa relação sadia 
com sua esposa é um desperdício de energia. Esses olhares sujos 
ofendem a maternidade das mulheres para as quais são dirigidos 
e obstruem o Agnya Chakra. Surpreendentemente, nos países 
considerados cristãos, foi que esse flerte tornou-se um 
passatempo quase nacional. Por causa dessa degradação da 
mulher, toda a concepção do universo é degradada. O frescor da 
inocência é substituído pela sujeira. A mente viciada projeta sua 
visão sobre o mundo e faz dele um vasto esgoto. Certos filmes 
premiados no festival de Cannes são exemplos patentes, entre 
tantos outros dessa essa visão poluída. As conseqüências dessa 
perversão podem ser constatadas na patologia dos psiquismos 
extremamente condicionados. 
O leitor talvez já tenha feito um certo paralelismo entre 
esses dois pecados e nossa estrutura psicossomática. O pecado 
contra o Pai é cometido por intermédio do Pingala Nadi e o 
ego, enquanto que o pecado contra a Mãe é cometido pelo Ida 
Nadi e o superego. Se alguém estiver muito estressado, num dos 
pólos, tenderá a cometer os pecados do pólo oposto, conforme 
o movimento perpétuo de ação e reação entre os Nadis. Esse 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
193 
processo se verifica não só para o indivíduo, mas também para 
toda a sociedade. Por exemplo, o Ocidente se desenvolveu, 
predominantemente, por meio do canal solar, Pingala Nadi. Nos 
países ocidentais, o pecado contra a Mãe é transmitido pelos 
costumes. Existe pouco do verdadeiro respeito pela mulher e 
pela maternidade. Na maioria dos países tropicais que se 
desenvolveram, predominantemente, por meio do canal lunar, 
Ida Nadi, o pecado contra o Pai fez florescer os regimes 
corruptos e o conceito de ética profissional é quase 
desconhecido. 
Nesse contexto, é claro que esses dois pecados se opõem 
ao darma. Entretanto, no que diz respeito à Auto-realização, o 
pior dos dois parece ser o pecado contra a Mãe. A explicação 
psicossomática que precisa ser compreendida, perfeitamente, é a 
de que enquanto o pecado contra o pai prejudica alguns Chakras 
(Nabhi, Vishuddhi), o pecado contra a Mãe ataca, diretamente, 
o Muladhara Chakra, que é o alicerce que sustenta toda a 
estrutura. 
Os adeptos da liberação sexual acham difícil 
compreender o estado ao qual foram reduzidos. Na Inglaterra, 
na França e na Austrália, demos a Realização do Si a um grande 
número deles. No caso deles, de uma forma geral, a Kundalini 
se elevava, muito rapidamente, sugerindo que as pessoas 
deveriam ser personalidades muito evoluídas espiritualmente, e 
que estiveram, durante suas vidas passadas, em busca de Deus. 
Todavia, para nossa grande surpresa, após alguns minutos ou 
mesmo após alguns segundos, a Kundalini se recolhia, 
novamente, ao osso sacro. Isso era um indicador de que o 
Muladhara Chakra estava muito debilitado para manter a 
ascensão da Kundalini. Tínhamos de explicar, tão 
diplomaticamente quanto possível, a essas pessoas que a 
‘revolução sexual’ não conduz ao crescimento espiritual. 
Algumas delas já haviam entendido isso. Outras nos 
consideraram hipócritas ou vitorianos anacrônicos e se sentiram 
O ADVENTO 
 
194 
muito ofendidas. Não compreendem que os juízes dessa situação 
não são elas (nem nós). Os magistrados do Juízo Final já estão 
sentados em seus tronos e são as divindades de nossos Chakras. 
O juiz responsável pelo Muladhara Chakra, Shri Ganesha, 
jamais transige. 
Nascido da virgem imaculada Shri Gauri, o papel 
cósmico de Shri Ganesha é o de proteger a pureza da criação 
inteira. A fim de obtermos suas bênçãos, tais como a inocência, 
a sabedoria que surge da inocência, e o contentamento que 
emerge da sabedoria, temos de respeitar sua pureza em nós 
mesmos e nos outros. O hino magnífico dedicado à Grande 
Deusa, o Devi Mahatmyam, proclama que “todas as mulheres, 
do jeito que são, têm as tuas formas, ó Deusa”. Todas as 
mulheres são a imagem da Mãe de Shri Ganesha, Shri Gauri, 
que é a Kundalini do universo. Precisamos saber como respeitá-
las, pois com exceção de minha esposa, todas as mulheres do 
mundo devem ser consideradas mães ou irmãs. Infelizmente, 
uma cultura decadente condicionou nossa percepção da mulher e 
colocou em moda essas formas de relacionamento que conflitam 
não só com o verdadeiro júbilo, mas também destroem nossa 
evolução. Por exemplo, a tradição do teatro francês de bulevar 
que celebra o adultério, ou as elucubrações dos freudianos que 
denunciam, como moral burguesa e tabus culturais, alguns 
resquícios do darma que ainda nos restaram. 
Esse tema da liberação sexual foi tão mexido que 
devemos aprofundá-lo um pouco mais. Em primeiro lugar, é 
preciso denunciar o absurdo de certas escolas eclesiásticas, as 
quais, ao longo dos tempos, desenvolveram a teoria de que 
existe uma espécie de incompatibilidade entre o sexo e o 
progresso espiritual. Com efeito, todos os Rishis (sábios ou 
clarividentes) da era védica eram casados. Seus sucessores, 
menos evoluídos espiritualmente, acreditavam que era preciso 
levar uma vida de celibato. Há de fato uma razão simples para 
isso. Ao reprimirem sua sexualidade (Ida Nadi, canal lunar, 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
195 
esquerdo), esses brâmanes, monges, jesuítas e assemelhados 
podiam galvanizar melhor a energia do Pingala Nadi (canal 
solar, direito) e assim explorar as várias avenidas do poder 
psíquico ou político, porque um sempre conduz ao outro. Paulo 
de Tarso era um exemplo típico de celibatário reprimido, que 
levou a jovem igreja cristã a se desviar para um excessivo 
proselitismo e um ativismo institucional, com o objetivo de 
conquistar Roma. Assim sendo, é preciso denunciar a falácia 
igualmente absurda, e mesmo mais perigosa, conhecida como 
‘tantrismo’, de que a sexualidade é o caminho para a Auto-
realização, ou ainda, em termos mais seculares, para a realização 
pessoal (como Reich e os neofreudianos diriam). Essas duas 
tendências representam investidas contra o Muladhara Chakra, 
de ambos os lados direito e esquerdo, respectivamente. Uma 
tendência pode, de fato, se transformar em seu oposto, vale 
dizer, um monge, que foi puritano durante uma determinada 
encarnação, pode renascer como um libertino em outra e vice-
versa. 
Carl Gustav Jung, em seu livro “A Psicologia do 
inconsciente”, nos diz que “a vida erótica somente desabrocha 
quando o espírito e os instintos chegam a um acordo feliz”. 
Esse acordo, ou essa concordância, não é obra do acaso, mas do 
respeito às regras de comportamento que alicerçam o meio ao 
qual damos o nome de ‘família’. Dois anos vividos no Nepal e 
cinco invernos consecutivos na Índia, longe das cidades e das 
armadilhas para os turistas, me ajudaram a entender melhor o 
lugar da família numa cultura alicerçada no darma. 
Conforme observou a Unicef, a criança, na Índia, é 
tratada como um rei. Os comportamentos dos membros da 
família são definidos pela consciência de sua responsabilidade 
emrelação à criança. Assim, a sociedade não tolera as atitudes 
arbitrárias que colocam em perigo seu meio ambiente emocional. 
O adultério do pai, por exemplo, seria objeto de opróbrio e de 
uma condenação sem apelação. 
O ADVENTO 
 
196 
Desde uma idade muito tenra, a criança se vincula à rede 
complexa das relações interpessoais, que lhe permite 
desenvolver, simultaneamente, seu equilíbrio psíquico e sua 
segurança emocional. Relações particulares são desenvolvidas 
com o pai, com a mãe, com os irmãos e irmãs mais velhos e mais 
moços, com os avós, com os tios e tias, amigos, vizinhos, e 
assim por diante. Cada um desses relacionamentos tem uma 
peculiaridade emocional que lhe é própria, dando origem a um 
clima afetivo específico. A criança é assim rodeada por uma 
gama muito rica de expressões de amor. Através de um prisma 
sutil dessa estrutura ela dá e recebe amor. Conhece todas as 
delicadas sutilezas e nuanças que convergem para ela e 
satisfazem suas necessidades afetivas. Guiada e instruída por 
seus pais, acicatada por seus irmãos e irmãs, amada por seus 
avós, mimada por seus tios e tias, a criança constrói na família 
ideal não só o castelo de felicidade, mas também os critérios de 
referência e a moldura emocional de maturidade, os quais irão 
equipá-la para enfrentar o resto de sua vida. O indiano não 
considera as mulheres como suas prováveis futuras parceiras, 
porém como irmãs e mães, conforme a idade. Sua atitude em 
relação às mulheres foi modelada durante sua infância e 
adolescência. Finalmente, quando se aproxima a época do 
casamento, a noiva é escolhida por meio de uma decisão coletiva 
da família, depois de consultados os horóscopos dos noivos, e, 
naturalmente, com o consentimento de ambas as partes para a 
futura união. 
Essa coletividade reafirma a dimensão social do 
casamento e contribui para a integração do casal recém-formado 
na estrutura social existente. Somente depois disso, o casal 
recém-unido pelo matrimônio descobre um novo tipo de 
relacionamento, isto é, o amor entre cônjuges, que se expressa 
na relação física. Quando a união sexual é descoberta em todo o 
seu frescor, na intimidade terna de um encontro particular e 
muito reservado, o casamento tende a se transformar num 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
197 
grande sucesso. A exclusividade do vínculo entre o marido e a 
esposa torna o casamento precioso e sagrado. Ela dá a moldura 
na qual, sem remorso ou desilusão, uma grande intensidade pode 
desenvolver e florescer. Essa exclusividade dá origem à 
instituição do casamento na sua forma histórica mais 
desenvolvida (a poliandria e a poligamia são peculiares às 
sociedades mais primitivas) que permite o ajustamento ótimo do 
instrumental neuropsíquico dos dois parceiros. 
Shri Mataji afirma a respeito desse padrão monogâmico 
que “milhares de anos atrás, os grandes sábios já haviam previsto que o 
relacionamento mais satisfatório e prático entre um homem e uma mulher 
seria monogâmico”. 
A plenitude do amor físico é alicerçada na especificidade 
da linguagem sexual que tem de ser respeitada. Essa linguagem 
pertence somente a uma determinada expressão de amor, no 
relacionamento entre cônjuges. O convívio conjugal, por mais 
belo que seja, é somente um dos diversos tipos de 
relacionamentos interpessoais. Se essa linguagem for usada de 
maneira incorreta ou pervertida, de maneira a deslocar a 
sexualidade de seu contexto adequado, as regras do jogo seriam 
destruídas. Por exemplo, ao introduzirem a sexualidade na 
relação fraternal entre os homens, os homossexuais se 
encerraram num gueto de valores equivocados, os quais, em 
vão, tentam legitimar mediante uma subcultura paralela. 
A consciência perceptiva vibratória comprova que a 
sexualidade sem intimidade e respeito torna-se vulgar e barata, e 
é danosa para as dimensões mais profundas da consciência 
humana, vale dizer, para os Chakras. Os pequenos gozos, os 
prazeres de equilibrista que são obtidos aqui e ali, afastam-nos 
mais e mais da verdadeira plenitude, serena e intensa, emocional 
e física, de uma relação bem-sucedida. Em suma, a instituição do 
casamento, em seu contexto mais amplo da família, tem como 
um de seus escopos a criação de uma moldura na qual a 
sexualidade humana pode encontrar sua realização. 
O ADVENTO 
 
198 
A sutil arte de viver, que consiste em manter cada 
relacionamento dentro de determinado limite de comportamento 
e atividade corretos, está severamente ameaçada no Ocidente. 
Por razões históricas (o modo capitalista de produção, as 
guerras mundiais, o entorpecimento da sensibilidade religiosa 
pelas igrejas), a unidade familiar foi muito enfraquecida, tendo 
os ataques mais cruéis sido desfechados por movimentos de 
‘liberação’, que devem ser considerados como um afastamento 
do darma. Nesse tipo de ambiente, a criança é submetida a todos 
os tipos de ataques. O Chakra do Coração não é mais 
alimentado pelas vibrações do amor, e a criança se torna 
frustrada sem conhecê-lo. Muito freqüentemente, os avós estão 
ausentes e os pais muito ocupados para cuidarem de sua criança, 
a qual desenvolve uma forte tendência subconsciente a procurar 
uma compensação emocional em outro lugar. Na escola, o 
adolescente descobre a resposta mágica. Colegas de escola, 
programas de educação sexual, e outras pressões ambientais 
concentram a atenção da criança no paraíso da promiscuidade 
sexual. 
É realmente muito difícil para uma criança resistir ao 
incrível condicionamento cultural da sociedade ocidental que 
apresenta o sexo como sendo a única fonte de intensidade de 
sentimento e sensação, à parte a violência e a dor. Esse é 
efetivamente o leitmotiv, o motivo principal, que inspira tantos 
exemplos de publicidade, arte gráfica em geral, filmes, revistas, e 
outros veículos de comunicação. As estratégias de marketing 
apresentam a mulher como um objeto de prazer e como o 
produto máximo de consumo. O sexo se torna um fim em si 
mesmo. Em torno desse fascínio se desenrolam todas as liturgias 
de nossas Babilônias modernas. A mensagem é largamente 
aceita porque, no ambiente urbano alienante da sociedade 
industrial avançada (onde se aboliu a maior parte das relações 
sociais comunitárias) a cópula física parece ser a única 
escapatória para a gratificação emocional. E esse ambiente é, 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
199 
por si mesmo, fruto da hiperatividade do Pingala Nadi. A fuga 
para o Ida Nadi, no afã de restaurar o equilíbrio, é inevitável. A 
própria sociedade encoraja a promiscuidade sexual, porque ela 
funciona como uma válvula de segurança para todas as energias 
e aspirações frustradas das pessoas que, assim, aceitarão mais os 
contra-sensos de seu sistema socioeconômico. 
As sociedades que, em nome do sucesso material, 
dilaceraram seu tecido social, ao estimular a irresponsabilidade 
familiar até seu último grau, consideram-se ‘desenvolvidas’ e 
propõem modelos de crescimento para os países pobres ‘em 
desenvolvimento’. “Existe um problema de superpopulação nos 
países em desenvolvimento?”, perguntava, com um ar paternalista, 
um alto funcionário anglo-saxão. “É verdade, senhor. No entanto, 
o que há com sua filha? Ela tem catorze anos, é viciada em heroína e 
não se lembra nem sequer dos nomes de seus namorados!” Quem 
escolheria uma mãe como essa? É por isso, sem dúvida, que os 
seres que se encarnam atualmente preferem os lares mais 
seguros dos países ‘em desenvolvimento’. 
Na Europa e nos Estados Unidos, as crianças são, 
freqüentemente, deixadas à própria sorte, sem critérios, guias ou 
modelos. Estão perdidas e não têm consciência disso. Meninos e 
meninas entram assim no ciclo de suas experiências sexuais e 
tentam a sorte. A história é apresentada em termos bastante 
açucarados de um romance juvenil. Porém, a realidade vivida é 
muito diferente. Muitos jovens confessaram o mesmo fracasso. 
Quando se reúnem, querem saborearapenas a alegria de estar 
juntos e a segurança do amor. Contudo, não conseguem 
alcançar isso. A espontaneidade do relacionamento entre um 
rapaz e uma moça ficará, quase sempre, comprometida, se 
existir, na mente do rapaz, a expectativa de ter uma relação 
sexual com a garota. Às vezes, a mesma coisa acontece na 
mente da garota, ainda que de forma mais ‘romântica’. Pode ser 
que resistam a essas tentações. Qualquer que seja a hipótese, a 
inocência do relacionamento se perdeu. A confusão que 
O ADVENTO 
 
200 
transparece em seus olhos atrapalha seu contato, porque, 
inconscientemente, eles a percebem. Talvez essas projeções 
mentais consigam enlevar o rapaz e a garota e, nesse caso, terão 
uma aventura. Todavia, nessa hipótese, o amor físico não será 
completamente bem-sucedido e satisfatório, porque os parceiros 
já entraram no relacionamento com seus instrumentos 
neuropsicológicos perturbados. Nesse caso, a satisfação surgida 
da relação diminui cada vez mais e ambos partem, novamente, à 
procura de novos parceiros. Esses jogos gratificam o ego, mas 
ferem o coração. São elaboradas grandes estratégias de sedução. 
Johannes, o Don Juan de Kierkegaard, comenta: “Sou ótimo, 
principalmente nas ações preliminares....” Os primeiros olhares 
e as primeiras carícias abrem as portas da armadilha. Ao 
mostrarem, dramaticamente, que a história de Don Juan termina 
com o fatídico encontro com a estátua do Comandante (ou seja, 
com a morte), Molière e Mozart, duas almas realizadas, 
tentaram nos advertir. 
As manobras da conquista e da sedução são muito 
antigas e foram descritas pela literatura. Havia os amantes 
byronianos, o médico curioso a respeito da mecânica dos 
corações, Lou Salomé e Madame Bovary. Todavia, isso jamais 
havia atingido uma amplitude estatística semelhante à atual. 
Graças à democracia permissiva (“Cuidem para que isso 
não se transforme numa demonocracia”, diz Shri Mataji), os 
vícios dos nobres, ricos e degenerados transformaram-se em 
hábitos das massas. Ao redor do monte do Adharma, estudantes 
de catorze anos e avós de sessenta anos perseguem-se uns aos 
outros. Adúlteros, pederastas e lésbicas conduzem a bandeira da 
‘liberação’, desfraldando como estandartes suas roupas íntimas. 
Ao fazerem isso, estão destruindo a pureza de todas as 
diferentes formas de relações humanas, que, para a mulher, 
segundo sua idade, segue o modelo da mãe ou da irmã, tia e 
sobrinha, irmã e irmã. Em relação aos homens, o modelo ideal 
compõe-se de relações entre pai e filho, tio e sobrinho, irmão e 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
201 
irmão, porque o amigo é também irmão! A liberdade sobre a 
qual os apóstolos do Adharma fixam sua visão é a liberdade de 
destruir a si mesmos e aos outros. 
Aqueles que, levianamente, com ou sem refinamento, se 
entregam ao jogo da sedução, acreditam que estão gozando a 
vida, mas Shri Mataji contesta isso, categoricamente. “Se estão 
realmente satisfeitos, por que é que sua atenção precisa passar de 
uma pessoa à outra durante o tempo todo?” Nesse processo, o 
equilíbrio psíquico é completamente perdido e o cérebro doente 
‘sexualiza’ todas as coisas ao seu redor. A natureza, as férias, as 
reuniões e as viagens se tornam, simplesmente, oportunidades 
para encontros sexuais, e essa obsessão mata a espontaneidade 
do sexo e a alegria da vida. 
A Sahaja Yoga nos permite diagnosticar o dano sofrido 
por nosso instrumento sutil interno. Se o Muladhara Chakra 
estiver seriamente prejudicado, logo a própria sustentação da 
Kundalini estará em perigo. A conseqüência imediata será a 
perda do equilíbrio psíquico, que se expressa, normalmente, via 
inocência e espontaneidade. Sem esse equilíbrio, o darma não 
pode ser percebido intuitivamente. A pessoa pode perseverar no 
erro, cada vez mais profundamente, e até jactar-se de fazer isso. 
Isso é um indicador do fechamento do Nabhi Chakra. A atenção 
não é mais controlada, porque as divindades dos Chakras 
inferiores entram em recessão. A atenção ‘sexualizada’ toma 
conta do Ida Nadi e se torna o principal vetor de percepção, 
invadindo os olhos e os pensamentos. O Agnya Chakra, em 
conseqüência disso, fica perturbado. 
Isso significa que a erotização ou ‘sexualização’ da 
consciência passa do subconsciente para o consciente do sujeito, 
que fica privado de sua capacidade de discernimento e, por 
causa disso, ele se identifica com todos os absurdos que surgem 
em sua mente. Isso é terrível, porque até mesmo a consciência 
perceptiva é atacada, não sendo capaz de tomar ciência do 
O ADVENTO 
 
202 
ataque. Logo, as pessoas se identificam com seus erros e tratam 
como retrógrados aqueles que ousam criticá-los. 
Aquele cuja consciência perceptiva vibratória ainda não 
foi totalmente comprometida começa a compreender que as 
coisas não melhorarão, mas não sabe o que fazer para recuperar 
a inocência, a espontaneidade e a alegria perdidas. Com isso, 
essa pessoa sofre muito. Os relacionamentos humanos se tornam 
uma espécie de inferno. Quando a alegria se ausenta, o prazer 
físico não pode substitui-la de modo satisfatório. Os efeitos de 
um comportamento sexual adhármico fazem-se sentir inclusive 
no plano físico. Por isso, os médicos se preocupam cada vez 
mais com o crescente número de casos de frigidez feminina e de 
impotência masculina. Muitas mulheres ‘liberadas’ não sabem o 
que é ter um orgasmo. Por isso, a sinistra anedota da terapia 
sexual não muda coisa alguma. O sexo cerebral é o passaporte 
para a impotência, porque o erotismo desconecta a reação 
sexual física de seu ambiente emocional normal (como por 
exemplo, a intimidade do casamento). A atividade sexual torna-
se cada vez menos espontânea (parassimpático) e cada vez mais 
artificial (simpático). Em outras palavras, responde cada vez 
menos aos seus estímulos normais e requer novas formas de 
excitação. No final do processo, sob a orientação invisível dos 
Bhuts, haverá um desvio para as perversões e para a violência. 
Esses temas estão sendo agora celebrados pelos meios de 
comunicação. A mídia se compraz, maldosamente, em chamar a 
atenção das massas para o grande show de nosso tempo, ou 
seja, para a pavana ou a dança de satã. 
É preciso que se diga que o mal existe. Nossos brilhantes 
intelectuais modernos, que declararam que o diabo não existia, 
esqueceram-se de que o grande truque armado por ele foi o de 
fazê-los acreditar que ele não existia. O príncipe dos sedutores 
conhece seu mundo e sabe como se tornar atraente. 
Identifiquemos um pouco melhor a existência de satã, 
porque o erro pior é ver sua cauda bifurcada onde não existe. 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
203 
Com o devido respeito aos maniqueus e aos cátaros, a perfeição 
metafísica de Deus exclui a possibilidade de um princípio 
absoluto do mal que se oporia ao absoluto princípio do bem. O 
mal aparece somente na criação e sua gênese é descrita em 
várias mitologias, as quais não iremos citar aqui. Antes da 
aparição do homem, certas categorias de entidades começaram a 
se desviar do caminho central da evolução de Shri Vishnu e a 
acumular os poderes da Rajo Guna (os titãs para os gregos, os 
gênios para os árabes e os Asuras para os hindus), assim como 
os poderes da Tamo Guna (Rakshasas ou demônios). Graças a 
esses poderes, tentavam, de quando em quando, assumir o 
controle do processo evolutivo. 
Na época de Shri Rama, há cerca de 8.000 anos, eles 
ainda estavam presentes na Terra, enquanto que 2.000 anos mais 
tarde, no tempo de Shri Krishna, os protagonistas do drama 
perene do bem e do mal eram, de fato, seres humanos, 
reconhecidamente dotados de poderes super-humanos. O que o 
Ocidente chama de satã representa a coletividade do mal, ou 
poderíamos dizer, o elo que coordena as diferentes entidades 
diabólicas. Nos tempos modernos, os demônios, tendo perdido 
grande parte de seus antigos poderes, nasceram, de fato, na raça 
humana, ondejá apareceram com diferentes nomes e formas 
(por exemplo, Nero, Sade, Rasputin, Hitler). Eles também 
surgiram, conforme foi profetizado nas escrituras, como falsos 
profetas e falsos gurus. “Então se alguém vos disser: olhai, aqui está o 
Cristo, ou ei-lo acolá! Não lhe deis crédito. Porque se levantarão falsos 
Cristos e falsos profetas que farão prodígios, e maravilhas tais que (se isso 
fosse possível) até os escolhidos se enganariam”. Mateus, 24,23,24 
 
Discutirei, mais tarde, a natureza das atividades desses 
homens diabólicos. Ao mesmo tempo, as forças satânicas 
tornaram-se muito mais poderosas em relação à humanidade, 
visto que descobriram um meio de invadir nossa psique, 
notadamente pela criação de formas de controle dos Bhuts, via 
O ADVENTO 
 
204 
magia negra. O plano diabólico é muito simples. Em primeiro 
lugar, o darma do homem tem de ser perturbado, para que se 
rompa sua ligação com o Inconsciente Universal. Nesse caso, o 
papel do Inconsciente passaria a ser desempenhado por atores 
infernais. Nesse ponto, entram em cena os Bhuts. Por intermédio 
do controle dos Bhuts é estabelecido o controle dos seres 
humanos e, particularmente, daqueles que são influenciáveis, a 
fim de se influenciar o curso do desenvolvimento da sociedade 
em direção à sua destruição, ou seja, distante do Sushumna. Por 
que é que tudo está ocorrendo? Porque (ainda que aqui eu vá 
tornar a explicação bastante esquemática) essas pessoas 
demoníacas opõem-se ao advento sáttwico de uma raça de seres 
humanos realizados, o que poderia significar o cancelamento 
definitivo de sua revolta. “Sou o espírito que nega tudo”, como 
Goethe faz Mefistófeles dizer, e o que satã nega, por excelência, 
é a perfectibilidade do homem, pois essa possibilidade mortifica 
seu ego luciferiano. Se falhar o plano de Deus consistente em 
abrir seu reino a seus filhos, os demônios sabem que Shri Shiva 
dançará Tandava, provocando a destruição de todo o universo. 
A aniquilação que resultaria disso teria o efeito de liberar 
aqueles que se recusaram a ter sua oportunidade de evolução. 
Ao corromperem a raça humana, eles obrigam Deus (Sadashiva) 
a repudiar Sua criação, da mesma forma que um artista 
desapontado rasga os esboços de uma obra de arte que deveria 
ter completado. 
Vamos resumir. O bem é aquilo que promove e 
consolida nossa evolução em direção ao reino de Deus. O mal é 
aquilo que se opõe à nossa evolução. A batalha cósmica, entre 
as forças que ajudam a evolução e aquelas que lutam contra ela, 
foi transposta do cenário macrocósmico (luta entre deuses e 
demônios) para o cenário microcósmico da psique humana. A 
regra que Deus deu ao jogo da evolução humana foi a 
salvaguarda da liberdade humana. Em face dos ataques dos 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
205 
Bhuts, o ser humano não-realizado só pode se proteger pelos 
méritos de sua virtude. 
A fim de preservar esses méritos foi que, ao longo do 
tempo, se teceu a trama das relações entre o sentido de nossa 
evolução, a moralidade e as leis que formam o próprio tecido de 
todo o processo civilizador. Essa trama exerce uma espécie de 
função imunológica coletiva contra as influências do mal. Com 
efeito, o homem evolui num contexto social. Quando este último 
tolera e legitima as práticas que não estão harmonizadas com o 
darma, o nível de resistência das pessoas às interferências 
negativas é reduzido. Assim, as pessoas se tornam mais 
inclinadas a ter pensamentos, sentimentos e comportamentos 
negativos, aumentando a bola de neve que prejudica, por sua 
vez, seus vizinhos. Dessa forma, nossos valores morais, que se 
preocupam, essencialmente, com as relações do indivíduo com a 
comunidade, incorporam as leis do darma, num sentido social 
que assegura a coesão da família humana. A definição desses 
valores morais foi o objetivo da encarnação de Shri Vishnu, na 
pessoa de Shri Rama. Esses valores morais encontram expressão 
numa coleção de ritos, costumes e leis, que, convenientemente 
observados, erguem uma barricada contra as incursões de Bhuts 
e os decorrentes comportamentos destrutivos. Um sistema legal 
inspirado pelo darma tenderá a destruir o ambiente no qual os 
Bhuts possam prosperar. Esse é, na verdade, o imperativo 
psicossomático que está na base da verdadeira noção de lei. O 
Jus Quiritum dos primeiros romanos emergiu de uma liturgia de 
exorcismos e ritos religiosos que combinavam as energias 
psíquicas contra os Bhuts adhármicos. 
De fato, já é tempo de encontrarmos novamente nossa 
conexão com o darma. Para fazermos isso, é bom que não 
esperemos muito dos sistemas existentes, ética e legalmente. 
Isso porque, a História demonstrou, com grande riqueza de 
detalhes, que os melhores sistemas puderam ser manipulados 
pelos piores homens. O Estado idealizado por Hegel, por 
O ADVENTO 
 
206 
exemplo, que se supunha capaz de realizar o bem comum (o 
bonum commune de São Tomás de Aquino) tornou-se o 
instrumento do sadismo nazista, um século depois. 
Hoje em dia, no Ocidente, adjetivos tais como ‘bom’ e 
‘mau’ são usados da mesma forma como os adjetivos ‘azul’ e 
‘amarelo’. É ‘bom’ aquilo que me agrada; é ‘mau’, por exemplo, 
o estado da inflação ou a afluência de muita gente, no metrô, na 
hora do rush. Fizemos da tolerância um valor absoluto e nos 
esquecemos de que tolerar o mal é prejudicar o bem! E a 
liberdade da qual nos orgulhamos tanto consiste em nos colocar 
à mercê de forças ocultas. As pessoas bonitas (beautiful people) 
da década de 60 encheram os cofres dos falsos profetas, 
permitindo que estes criassem seus impérios abomináveis. Não 
nos esqueçamos de que, em última análise, a sobrevivência de 
uma civilização repousa na qualidade da estrutura psico-
espiritual, moral e legal que a sociedade constrói, para se 
proteger das forças maléficas, seja qual for o modo pelo qual 
elas atuem. Quando essa barreira se desmantela, o fim está 
próximo. O fim se anuncia pela corrupção dos costumes e a 
dissolução social. 
Voltemos ao tema da família, célula básica do edifício 
social. A cerimônia do casamento representa a aceitação da 
união pela coletividade humana, que é o sentido da dimensão 
religiosa, e pelo grande ser primordial do Virata. Quando o 
novo lar está banhado de amor, consideração e ternura do casal, 
muitas bênçãos se materializam, inclusive a prosperidade 
material (por meio da graça de Shri Lakshmi como Gruha 
Lakshmi, a divindade do lar). 
Alguns versos do poeta Emile Verhaeren celebram essa 
felicidade do casal, em seu livro “As horas claras”: “Tenho as tuas 
mãos entre as minhas...E teus olhos confiantes que me retêm...Com seu 
fervor, tão docemente; E te sinto em paz com todas as coisas...Que nada, 
nem sequer uma fugitiva suspeita de temor...Perturbará, nem por um 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
207 
momento, A confiança santa... Que dorme entre nós como uma criança que 
repousa.” 
A atenção correta, que o casal dá aos seus atos e 
relações, tece em torno dele o interesse já despertado das 
divindades. A conexão com o Inconsciente Universal é mantida, 
e a família permanece ligada à divina ecologia. Os dias, os 
encontros e eventos saboreados juntos são o penhor de uma 
sólida felicidade. Devido ao fato de ter me casado, cinco anos 
após a Auto-realização, vivenciei, pessoalmente, como o 
casamento ratificou e ampliou as conquistas da Auto-realização. 
A própria cerimônia fez com que minha esposa e eu 
mergulhássemos numa meditação muito profunda, cuja alegria e 
consciência coletivas nos vincularam aos outros participantes. 
Desde então, o ritmo das coisas construiu em torno de nós uma 
nova arte de viver, de compartilhar e de receber. Todo esse 
domínio de novas alegrias é, naturalmente, impensável na 
promiscuidade dos estilos de vida ‘liberados’, que os conduzem, 
de fato, para a impossibilidade de se obter o autoconhecimento. 
Shri Mataji expressou isso, num tom quase de desalento.“Se o amor não puder florescer nas condições ótimas do 
matrimônio, como é que poderá florescer fora dele? Como é que o 
mundo todo poderá conhecer o amor?” 
 
Shri Mataji comentou, de forma abrangente, o 
relacionamento entre o marido e a esposa: 
“Eles não são idênticos, mas ambos são semelhantes, não há 
dúvida! Um é a roda direita e o outro é a roda esquerda do carro. Se uma 
das rodas for maior do que a outra, o carro não poderá andar direito. 
Ambos devem ser respeitados. O relacionamento entre o marido e a esposa 
tem de ser absolutamente informal e espontâneo; toda artificialidade entre 
eles deve desaparecer. Eles devem se amar e, também, algumas vezes, 
podem discutir, a fim de demonstrar sua vinculação. Isso é um sinal de 
uma relação sadia. Todavia, uma mulher deve comportar-se como mulher e 
um homem deve ser como homem. A fidelidade espontânea, o amor e o 
compartilhar são as únicas maneiras de dar e receber as alegrias do 
casamento. O menor desvio da fidelidade conjugal deve ser absolutamente 
O ADVENTO 
 
208 
evitado, e, se cometido, deve ser confessado abertamente. Uma pessoa que 
não acredita no relacionamento do tipo ‘um homem e uma mulher’ não 
deve jamais contrair matrimônio; por que tornar uma outra pessoa infeliz? 
Os efeitos da infidelidade secreta são devastadores e podem arruinar toda 
a sociedade.” 
 
Por exemplo, pode acontecer de uma mulher desenvolver 
um câncer de mama devido à sua insegurança provocada pelo 
comportamento leviano de seu marido. Comprovou-se essa 
relação de causa e efeito em muitas sessões de terapia vibratória. 
A sagrada instituição da família está ameaçada pelas 
luzes da era pós-guerra. Entretanto, essas luzes são sinais que 
foram acesos pelos náufragos. Vejamos isso um pouco mais de 
perto. 
Sabemos que as células do organismo são, 
espontaneamente, arranjadas, conforme certos esquemas, e que 
a ruptura desses esquemas leva à morte da célula ou à sua 
mutação cancerosa que pode ameaçar os tecidos vizinhos. Do 
mesmo modo, cada indivíduo é parte de uma rede sutil de 
energias, que mantém o equilíbrio de sua personalidade. Essa 
rede essencial ou básica é chamada de família. A ruptura desse 
esquema ameaça a harmonia psíquica e emocional do indivíduo. 
Vimos, muitas vezes, como os Chakras das pessoas são 
danificados por problemas de seu ambiente familiar. Quando um 
membro da família se comporta de maneira arbitrária (o pai 
bebe, a mãe segue suas histórias românticas, o marido é um 
playboy, etc.), o senso de coletividade se perde. Aqueles que 
estão em torno dessa família destruída ficam desestabilizados, e 
sentem que seus valores e modelos de comportamento foram 
aviltados. Motivados por um espírito de vingança, podem adotar 
algum tipo de comportamento prejudicial à sociedade. Numa 
família em que a mãe não é respeitada, as filhas perdem seu 
senso de castidade. Isso foi demonstrado, em alguns estudos 
sociológicos, cujo tema era a motivação das prostitutas 
‘profissionais’, por meio dos quais verificou-se que, 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
209 
freqüentemente, os pais delas eram adúlteros, e assim elas 
procuravam vingar suas mães, punindo o sexo masculino ao 
desviar outros homens do bom caminho. 
Por causa dessa família desarmônica, a mutação 
cancerosa se espalha por toda a sociedade, sem que ninguém se 
dê conta disso. Uma pessoa que abandonou os valores da família 
emite pensamentos contrários à vida familiar, que subjugam, 
particularmente, os indivíduos mais fracos, que mudam seus 
valores e comportamentos. As células do organismo social 
começam a se degenerar umas após as outras. 
Shri Mataji fez a seguinte observação: “foi a introdução da 
moeda na economia que produziu os primeiros atentados contra o casal”. 
Isso porque, nas sociedades agrárias que precederam as 
sociedades que usam a moeda como meio de troca, os homens e 
as mulheres desempenhavam papéis que, apesar de diferentes, 
eram reconhecidos como tendo igual importância. Os egos de 
ambos os parceiros eram igualmente satisfeitos. Contudo, no 
momento em que o marido começou a ser aquele que trazia 
dinheiro para o lar, ele achou que tinha uma importância maior, 
seu ego inflou e ele começou a depreciar a posição de sua 
esposa. A mãe de família, apesar de desempenhar uma função 
vital, porém não remunerada na sociedade, não contava mais 
com a estima e a consideração da sociedade que lhe eram 
atribuídas até então. Ademais, as grandes somas de dinheiro 
trazidas para casa pelo marido, começaram a atrair a atenção 
voraz de outras mulheres. Mesmo hoje em dia, os homens 
flertam com secretárias e vendedoras e esperam que suas 
esposas passem as camisas que suas amantes desabotoarão. 
“Ótimo”, disseram as mulheres e assim abandonaram o papel 
adequado a elas, vale dizer, o de satisfazer as necessidades da 
sociedade em termos do canal lunar, e, soltando as rédeas de 
seus egos, passaram a se dedicar às tarefas próprias do canal 
solar. Esse movimento pode seguir vários caminhos. A mulher 
se torna carreirista, feminista, ou, de fato, faz com que os 
O ADVENTO 
 
210 
homens ‘caiam’, um após o outro, a fim de satisfazer seu ego. 
Muitos homens também agem de modo semelhante. As relações 
extraconjugais não são quase nunca o encontro verdadeiro de 
dois corações (não confundir com um melodrama emocional), 
mas quase sempre um encontro de dois egos. Citemos, 
novamente, esse observador tão perspicaz que era La 
Rochefoucauld: “A razão pela qual um homem e sua amante nunca se 
cansam um do outro é porque eles sempre falam de si mesmos”. 
A castidade de uma mulher é seu maior poder, pois por 
intermédio dele, ela mantém aquilo que ama, sob a atenção do 
Inconsciente, porque Shri Ganesha a abençoa. Todavia, quando 
abandona esse poder secreto e salta a barreira, ela pode, muito 
facilmente, conquistar tudo aquilo que produziu a aparente 
supremacia do macho e sobretudo o dinheiro. Poderá ganhar a 
nova guerra entre os sexos, porém destruirá, de passagem, o 
mundo todo e se transformará num monstro de dominação. A 
confusão emocional na sociedade torna-se assim mais profunda; 
a homossexualidade encontra aí sua raiz. Para Shri Mataji, “O 
homem e a mulher se completam e podem tornar sua vida tão bela e cheia 
de alegria. Quando é que o homem aprenderá a se deleitar com aquilo que 
é dele, sua própria esposa, ao invés de cobiçar a mulher do próximo?” O 
casamento do sexo e do dinheiro quebra essa confiança entre o 
homem e a mulher. 
Na Índia, durante a cerimônia de casamento, nove 
símbolos são apresentados à noiva, os quais representam os 
poderes de Shri Lakshmi. Isso ressalta que os poderes da mulher 
casada ligam seu lar (e as pessoas vinculadas a ela) ao esquema 
evolutivo do seu desenvolvimento espiritual. Ela é o poder, a 
força e o suporte do lar, mesmo em situações econômicas 
difíceis, ou ainda, em circunstâncias, algumas vezes, dramáticas. 
Tiremos as conclusões. Já é tempo de reconhecermos, 
sabiamente, que o darma deve ser respeitado e estabelecido com 
total liberdade. O darma desaparecerá se for imposto pelas 
restrições de um inquisidor ou chefe político.“O darma se 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
211 
extingue quando aplicado por coerção externa, tal como as 
penas de um pavão que são atadas nas de um corvo”, segundo 
o comentário de Shri Mataji. Todavia, a liberdade não consiste 
em desmantelarmos nossas famílias, nem sequer em nos tornar 
escravos de nossas fraquezas. Todos os costumes e estilos de 
vida que encorajem nossa decadência, ou uma ‘abertura’ para o 
pecado, ou uma ‘tolerância’ em relação aos Bhuts devem ser 
combatidos de forma radical. Em verdade, se um homem e uma 
mulher se amam, logo, devem se casar. Se não se amam, é 
melhor que se separem. Esse é o modesto ponto de partida para 
quem deseja recuperar seu equilíbrio e se preparar para sua 
Auto-realização. Esqueçamos as teorias das igrejas que 
identificamo progresso espiritual com a repressão sexual, 
engendrando intermináveis gerações de sacerdotes frustrados. 
Rejeitemos, também, as teorias da psicologia moderna que 
justificam nossas fraquezas, bajulam nosso ego e projetam nos 
outros - nos pais, na infância, na sociedade - a responsabilidade 
por nossos pecados. Encaremos, corajosamente, o caos de 
nossas sociedades. Quantos, dentre nós, podem ler com 
equanimidade as seguintes linhas do evangelho: “Ouvistes aquilo 
que foi dito aos antigos que não cometereis adultério. Eu, porém, digo-vos 
que todo aquele que olhar para uma mulher cobiçando-a, já em seu 
coração cometeu adultério com ela.” Mateus 5,27. Nesse caso 
específico mencionado por Cristo, os Bhuts depravados podem 
passar de uma pessoa para outra, mediante uma mera troca de 
olhares! 
Não obstante, uma profecia muito antiga vaticinou que 
os santos, que estivessem à procura de Deus, obteriam sua 
Auto-realização durante a pior escuridão da era das trevas (Kali 
Yuga). Por isso, devemos olhar para o futuro com confiança em 
nossas chances de evolução, sejam quais forem os erros 
cometidos e sejam quais forem as dificuldades dos tempos 
modernos. Diz-nos Shri Mataji que “Nirmala significa pura. As 
pessoas me perguntam, ‘o que é que acontece com nossos Karmas?’ Eu os 
O ADVENTO 
 
212 
absorvo e os aniquilo. Sua Kundalini é como um fogo que queima suas 
impurezas”. No entanto, para que a graça possa atuar, devemos 
abrir mão das atitudes que a insultam. 
Devemos desistir de todos os fatores que prejudicam 
nossa consciência, tais como as bebidas alcoólicas, as drogas e o 
fumo. Redescubramos a alegria do sexo dentro da santidade do 
casamento. Voltemos nossas costas para a violência e o 
deboche, bem como para todas as formas modernas e sutis que 
tentam legitimar esses vícios. Não nos vinculemos a esses falsos 
profetas que são apenas feiticeiros e necromantes. 
Caros leitores atentos, que me seguiram até aqui, vocês 
sabem, perfeitamente, que não lhes foi dito nada de novo, 
porque essas admoestações estão contidas nas estâncias do 
Bhagavad Gita, nos versículos da Bíblia, nas estrofes do 
Alcorão e nos ensinamentos do Guru Nanak. Temos 
simplesmente de afinar nossas harpas e preparar os alicerces de 
nossa era para a Realização do Si. Entretanto, se meu apelo não 
é novo, ele é urgentíssimo. Isso porque, expirará, em breve, o 
prazo dado para que nos corrijamos, tal como Cristo e o Profeta 
Maomé tornaram claro: “E o que sucedeu no tempo de Noé, do mesmo 
modo sucederá também quando vier o Filho do homem. Eles comiam e 
bebiam, casavam os homens com as mulheres, e as mulheres com os 
homens, até o dia em que Noé entrou na arca, e então veio o dilúvio e fez 
perecer a todos. E como sucedeu em tempo de Ló, estavam comendo e 
bebendo, faziam compras e vendas, plantavam e edificavam. Mas no dia 
em que Ló saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que consumiu a 
todos. Assim mesmo será no dia em que se há de manifestar o Filho do 
homem”. Lucas 17, 26-30 
 
“Quando o tempo chegar, ninguém saberá como negá-lo. 
Alguns serão rebaixados, outros serão exaltados. 
Obedeçam a Deus antes que chegue o dia, o dia em que Deus 
não recuará. Nesse dia, não encontrarão lugar para se esconder. 
Vocês não poderão negar suas obras.” 
Alcorão, 56.1 e 42,46 
 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
213 
O prazo fatal é verdadeiro. Falaremos sobre isso mais 
adiante. 
É claro que é quase impossível nos mantermos 
dhármicos numa sociedade adhármica. Todavia, fomos nossos 
próprios predecessores e em nossas encarnações precedentes, 
conduzimos nossa sociedade à sua presente situação caótica e 
suicida. Fomos também aqueles que, mediante os seus erros, 
procuraram a verdade. E é isso que conta! Possam todos os 
buscadores da Verdade ser despertados! Vamos pedir perdão. 
Vamos levantar nossas cabeças. No Ramayana, Shri Rama diz 
para Vibhishana, o demônio arrependido: “seja quem for que 
procurar refúgio em mim, eu não poderei rejeitá-lo”. Shri 
Krishna disse a Arjuna no Gita: “não tenha medo, livre-se de 
todas as dúvidas. Redimirei seus pecados”. E o Filho falou 
como o Pai, que se rejubilou com a descoberta da ovelha 
perdida. 
O verdadeiro significado da palavra islã é a ‘entrega’ a 
Deus ou a ‘submissão’ a Alá. Alá é misericordioso e 
compassivo. Tornando possível a incrível maturidade da Sahaja 
Yoga, Shri Mataji nos forneceu um instrumento para nossa 
salvação imediata. Ela veio para nos trazer a emancipação e para 
nos revelar aquele reino onde o darma é transcendido. Nesse 
reino não podemos ser condicionados nem tentados. Nele, não 
somos impelidos a agredir ou a oprimir os outros, porque nos 
tornamos testemunhas desapegadas da magnífica Obra de Deus. 
Isso porque, no final dessa Kali Yuga, a humanidade alcançará, 
inconscientemente, o maior ponto de inflexão da História. As 
alternativas são inexoráveis, vale dizer, a integração ou a 
desintegração. O campo em que se trava a batalha entre essas 
alternativas encontra-se em nosso interior. O darma é uma força 
centrípeta de suporte interior e coesão que coloca tudo em torno 
do Si. “É um ponto em que a força da gravidade de nossos 
pecados não pode agir”, como diz Shri Mataji. A Sahaja Yoga 
O ADVENTO 
 
214 
restaura em nós, espontaneamente, o darma, quaisquer que 
tenham sido os excessos praticados, por nós, no passado. 
Posso testemunhar tudo isso. É tão somente esse 
testemunho que me permitiu escrever esse livro. Antes de agosto 
de 1975, no qual encontrei Shri Mataji, sofri muito pelo fato de 
ter praticado todas as besteiras que as pessoas de minha geração 
praticavam. Exauri, com uma sucessão de namoradas 
complacentes, minha capacidade de sentir a felicidade de estar 
na companhia de alguém. Fumei haxixe em Genebra, cheirei 
cocaína em Nova York, tomei LSD na Califórnia, misturando 
assim uma exploração de geografia terrestre com uma topografia 
ainda mais incerta dos paraísos falsos. Tentei compreender o que 
acontecia comigo e o que ocorria ao meu redor. Entretanto, 
fiquei aturdido em meio a todos aqueles sujeitos desorientados. 
Eu não entendia muito bem, mas acho que estava totalmente 
perdido. Éramos como náufragos à deriva, tentando, mesmo 
assim, ajudar uns aos outros. Essa fraternidade certamente 
aqueceu meu coração, porém o que me manteve à tona, ao 
longo do tempo, foi o conselho de Sócrates ‘de não levar nada 
demasiadamente a sério’, para se evitar o risco de levar muito a 
sério algo que não valesse, realmente, a pena. 
É bom ressaltar que podemos aprender com as drogas 
que existem várias províncias cósmicas. Apenas isso. As drogas 
nos lançam no supraconsciente ou no subconsciente, onde 
ficamos sem defesas psíquicas. Os Bhuts sabem perfeitamente 
disso e é claro que tentam tirar proveito dessa situação. 
Nessa época, meu corpo tinha mais darma que eu, e 
protestava contra aquilo que meu ego o fazia sofrer. Ele me 
enviava vários sinais que eu não entendia. Dormia muito mal, 
sofria de problemas neurovegetativos, e tendia a me tornar cada 
vez mais instável em meus diferentes relacionamentos. 
Por ocasião de meu primeiro encontro com Shri Mataji, 
ela pediu licença, várias vezes, para ir ao banheiro. Eu a ouvi 
vomitar. Ela estava absorvendo as vibrações ruins acumuladas 
OS MÉRITOS DA VIRTUDE 
 
215 
em meus Chakras, e suas idas ao banheiro eram uma 
conseqüência direta disso. Não senti muito orgulho disso... No 
entanto, ao me tornar testemunha de minha própria salvação, 
finalmente, tive todo o tempo para constatar onde e como me 
havia desviado. Também pude ver o que deveria fazer para sair 
daquela situação desconfortável. 
Consideremos, por um momento, a percepção hindu 
acerca das leis cósmicas. Brahma e Saraswati manifestam a 
energia criativa de Deus, Shiva e Kali, a energia do desejo e da 
destruição, e Lakshmi e Vishnu, a energia de proteção, 
sustentação e evolução,cujo aspecto normativo é o darma. A 
qualidade dhármica desperta, em nós, a predisposição de fazer o 
bem, de ter virtude e de praticar a justiça. Fora de nós, essa 
qualidade dhármica trabalha nas modalidades de coesão e 
integração do cosmo. Assim, quer no microcosmo, quer no 
macrocosmo, o darma é, simplesmente, o princípio da ecologia 
divina. Sem darma não pode haver ecologia. Os delicados 
mecanismos de auto-regulação dos ciclos de energia ficariam 
desordenados. O drama de nosso tempo é que a tecnologia nos 
armou para que pudéssemos interferir na biosfera, enquanto que 
nosso senso de darma não evoluiu no mesmo ritmo. Nosso 
poder mecânico, nossa química e nossos computadores 
aumentam e espalham as conseqüências de todos os nossos 
inumeráveis erros. Em meio a tudo isso, a chamada ‘elite 
pensante’ não suspeita, nem por um momento, que possa existir 
uma aliança letal entre os Bhuts e as máquinas. Entronizadas por 
nossas proezas técnicas, as forças do mal (que não existem, 
segundo os ‘pensadores’ modernos) instalaram-se na mente da 
humanidade. Elas arruinaram a vida familiar e nossas cidades. 
Atacaram nosso sistema nervoso (o estresse moderno). Se não 
as combatermos, elas destruirão as condições de sobrevivência 
da vida na Terra. Estamos na iminência de descontrolar os 
ecossistemas de nossa Mãe Terra. Estocamos a energia de nosso 
pai, o Sol, nas bombas atômicas. Conquistamos a matéria. Isso 
O ADVENTO 
 
216 
foi algo sensato que fizemos, segundo o livro do Gênese. Nesse 
meio tempo, a matéria dominou nosso espírito, algo que jamais 
devíamos ter deixado acontecer. 
Os sábios, os estadistas e os pensadores estão 
começando a perceber, lentamente, que estamos na iminência de 
provocar nossa própria destruição e que a única saída seria a 
promoção de uma espécie de revolução espiritual. Ao mesmo 
tempo, os falsos profetas, fiéis ao seu propósito maléfico, estão 
medindo a distância até a brecha. Para que se possa acreditar na 
solução desse dilema, é preciso ser incorrigivelmente otimista ou 
ter encontrado, de fato, uma boa solução! 
Qual seria a solução? “Trata-se de uma utopia”, dirão 
os eruditos. Eles observam que, muito naturalmente, o 
incorrigível milenarismo cristão se reaquece com a virada do 
milênio. O alarme é tocado, o sinal é dado e o fim do mundo é 
esperado. Recentemente, as Testemunhas de Jeová fizeram suas 
rondas, pregando o iminente fim do mundo (ainda que este seja 
sempre adiado por causa de suas preces). Os astrólogos estão 
preocupados. Nostradamus é consultado. O que é que está 
acontecendo? O Apocalipse? Agora? Em breve? Nunca? 
Vamos primeiro dar uma olhada na parte da peça que 
vem em primeiro lugar, antes de evocar seu grande clímax. 
 
 
 
DO OUTRO LADO DO LIMITE 
 
 
CAPÍTULO VI 
 
 
 
Nada existe além do Si. 
Shankaracharya 
 
Em sua Crítica da Razão Pura, Emmanuel Kant 
anunciou, sobriamente, que a estranha razão humana era incapaz 
de ignorar algumas questões filosóficas, para as quais ele não 
possuía respostas convincentes. Com efeito, quando se 
consideram as diversas áreas da filosofia (epistemologia, 
ontologia, cosmologia, filosofia política, etc.), descobrimos que 
os pensadores se debruçaram apenas sobre uma questão tão 
irritante quanto fundamental. Se despojarmos essa questão das 
formas intelectuais que incorporou, ao longo das civilizações, 
vemos que ela aparece, em última análise, como um dilema que 
se duplica como um enigma. Por exemplo, na história das idéias 
européias, ela surge como vários binômios: identidade/mudança, 
matéria/espírito, acaso/necessidade, essência/existência, 
substância/acidente, etc. O grande dilema consiste no fato de 
que o limite entre o finito e o infinito passa pelo homem, o qual 
fica assim dividido, de certa forma, por essa contradição. 
Descartes, por exemplo, considerava que a glândula pineal era o 
ponto de encontro, quer do aspecto espiritual, quer do lado 
animal, do ser humano. ‘De que maneira ultrapassar esse limite?’ 
Este foi o enigma que assustou os alquimistas, os místicos e os 
santos. Para o intelecto humano, a contradição primordial reside 
no fato de que o infinito (que é absoluto, universal, necessário e 
O ADVENTO 
 
218 
‘cósmico’) manifesta-se no homem por meio de sua dimensão 
finita (que é relativa, particular, livre e ‘microcósmica’). O 
infinito é, simultaneamente, revelado e oculto pela sua 
manifestação, o que é expresso pela noção hindu de Maya e a 
noção cristã de Mistério. 
“Que importância tem isso?”, indagarão, com soberba, 
as gerações daqueles que não quiseram se deixar envolver pelas 
questões da metafísica. Contudo, é impossível desconhecer essa 
contradição, porque a consciência humana participa do jogo 
cheio de artifícios, mediante o qual o infinito se revela no finito. 
O homem traz dentro de si mesmo algo de infinito, apesar de ser 
limitado pela individualidade de seu ego. Apesar de dividido, ele 
tem consciência de sua divisão. Não é “anjo nem demônio”, diz 
Blaise Pascal, para o desconforto de Sören Kierkegaard, porque 
este acha difícil que o homem aja, sinta e pense, sendo algo 
como ‘nem isso nem aquilo’. Segundo Paul Valéry, “o homem 
procura, há muito tempo, compreender de que lhe serve ter essa 
dose razoável de espírito que sente. Esse excesso que lhe diz 
que não é uma solução exata para o problema de viver, porque 
ele encontra sempre um pretexto para não se sentir satisfeito 
com o momento presente”. Todavia, J. P. Sartre, em seu livro 
“O ser e o nada”, expõe com uma amargura sarcástica que 
sermos ‘humanos’ é precisamente sofrer, sem esperança, o 
absurdo da contradição existencial. Somos duplamente 
condenados. Primeiro, por desejarmos a plenitude da existência, 
e em segundo lugar, por não conseguirmos alcançar esta 
plenitude. Sim, esse mundo considerado em sua gigantesca 
insignificância é, exatamente, aquele que ecoa o grito de 
Macbeth (5.5.24) : “Um conto narrado por um idiota, cheio de 
ruídos e de fúria, que não significa coisa alguma”. A 
alternativa seria a panacéia cristã proposta pelas igrejas, nas 
quais a salvação exige a abdicação da inteligência e da liberdade. 
Não! Que o homem preserve, pelo menos, a nobreza de sua 
revolta! Camus, um pouco mais afortunado que Sartre, morreu 
A DANÇA DE SATÃ 
 
219 
ao volante de seu carro, evitando assim cair numa má-fé 
marxista um pouco fácil. 
Nem todos têm a coragem altiva dos existencialistas, 
pois é difícil viver apenas pela força do desespero e sobreviver 
somente com a conclusão de que nossa existência não serve para 
coisa alguma. Outros pensadores ocuparam-se com a síntese, em 
vez da auto-hipnose induzida pela contradição (os 
existencialistas são os herdeiros da escola jônica, porque se 
colocam entre o Ser imutável de Parmênides e a perpétua 
mudança de Heráclito). Isso também trouxe uma consolação 
passageira. Aristóteles e São Tomás de Aquino criaram 
conceitos importantes que objetivavam a obtenção da síntese. 
Todavia, como a fênix renasce de suas cinzas, o debate se abria 
de novo após a elaboração de cada síntese. Em seu “Contrato 
social”, Rousseau (com sua afirmação de que “o homem nasce 
bom, a sociedade torna-o mau”) propôs uma solução que 
revolucionou a filosofia política. 
Por outro lado, Santo Agostinho fixou o limite que 
separa a Cidade de Deus do mundo dos homens, o que deu 
origem à delegação vertical de autoridade, sobre a qual se 
baseou o direito divino dos reis. Rousseau substituiu a imanência 
pela transcendência, e o poder que vinha de baixo pelo poder 
que se originava do alto. Para o pai da democracia moderna, o 
limite é ultrapassado mediante a inserção do indivíduo na 
universalidade do ser coletivo social, para o qual o indivíduo 
delega parte de seus direitos. O homem não fica mais isolado 
dentro de seus limites e se torna uma parte integrante do grande 
Todo. Essa intuição fundamental, essencialmentecorreta, 
buscou sua concretização num ambiente que não lhe convinha, 
ou seja, na esfera política. Pretendendo que sua cidade se 
tornasse semelhante à Cidade de Deus, os homens inventaram o 
estado totalitário. O deslocamento do limite entre o finito e o 
infinito criou a utopia. Todavia, a utopia gera quase sempre os 
O ADVENTO 
 
220 
assassinos. O lema ‘liberdade, igualdade e fraternidade’ 
conduziu-nos a Robespièrre e ao Terror. 
Tendo lustrado suas armas filosóficas em seu tratado de 
lógica, Hegel fez um último e formidável esforço no sentido de 
conciliar o finito e o infinito. Em seu livro “A fenomenologia do 
espírito” defende a tese de que a mediação da razão supera as 
contradições da consciência alienada (das Unglückliche 
Bewusstsein), porque a razão permite que a autoconsciência se 
dê conta de sua universalidade. O universal e o particular se 
reconciliam, porquanto “a razão é a certeza consciente de ser a 
realidade total”. O modelo hegeliano, malgrado algumas 
intuições engajadas, não pode funcionar por uma razão muito 
simples. A síntese mais elevada que consciência pode vivenciar 
apenas emerge quando é alçada para além do intelecto. Sem essa 
transcendência, a Razão (Vernunft) não pode se identificar com 
o espírito (Geist). Não havia mestres zen-budistas na Prússia dos 
Hohenzollern para dizer que o Satori era possível. 
A ambição de Hegel de abranger sua época pelo 
pensamento hegeliano não morreu com ele. Os hegelianos de 
direita e de esquerda tentaram fazer sua síntese num nível 
bastante inferior. Os hegelianos de direita exaltaram o Estado e 
prepararam o caminho para as teorias fascistas de Sorel e de 
Mussolini. Os hegelianos de esquerda se apropriaram da 
dialética do espírito para transformá-la na dialética da matéria. 
Marx, Engels e Lenin desenvolveram um modelo reducionista no 
qual o homem é manipulado pelo conflito entre as forças 
produtivas e os modos de produção. Esse modelo permitia a 
concretização do sonho comunitário de Rousseau. A dimensão 
do infinito ou do divino é negada ou ignorada. O marxismo 
baseou sua estrutura conceitual na rejeição da grande síntese. 
Em outras palavras, com Feuerbach e Marx, a filosofia 
continental européia ‘resolveu’ o dilema entre o finito e o 
infinito pela negação deste último. Desde então, não se levantou 
mais o problema de cruzar o limite. 
A DANÇA DE SATÃ 
 
221 
A outra grande corrente filosófica ocidental, a anglo-
saxônia, não negou o infinito, mas simplesmente ignorou-o. Na 
pátria de Hobbes, Locke e Adam Smith, a grande preocupação 
era organizar o mundo em torno do indivíduo e controlar, de 
alguma maneira, o ambiente político-econômico do microcosmo. 
A dimensão cósmica era uma questão de relativa indiferença. 
Para David Hume, o único conhecimento aceitável era aquele 
que pudesse ser verificado. Como Kant já havia afirmado, o 
infinito não era verificável. A partir daí, a filosofia analítica e 
estruturalista do século XX concentrou-se sobre um mundo 
finito, feito de relações lógicas e lingüísticas. Isso explica a 
asfixia intelectual das universidades ocidentais, as quais levaram 
muitos estudantes para a rebelião marxista. Nem todo mundo 
podia efetuar jogos abstratos com uma linguagem binária ou 
com uma lógica ruim como Ayer e Wittgenstein. 
Vamos resumir o problema. Para existir, a criança tem de 
abandonar o éden intra-uterino e o estado de união cósmica que 
vivenciou no ventre de sua mãe. A necessidade de se separar 
para existir é a característica essencial do ser microcósmico. A 
separação traz como conseqüência, naturalmente, a limitação. 
Todavia, à medida que o homem evolui de uma encarnação para 
outra, ele acorda, paulatinamente, para a intuição de que existe 
uma parte de si mesmo que é ilimitada. Consciente ou 
inconscientemente, procura recuperar o estado original da união 
cósmica. Contudo, como é que ele poderia imergir numa 
dimensão infinita, se ainda se mantém individual e autônomo? 
Muitos pensadores tentaram alcançar essa universalidade por 
intermédio da razão, sem se dar conta de que o domínio mental 
engendra suas próprias formas e limitações. O século XVIII, 
apesar de ter glorificado a razão humana, viu Kant estabelecer, 
inexoravelmente, os limites da razão. Após várias gerações de 
pessoas pretensamente racionais terem perpetrado duas guerras, 
o Ocidente começou a perder sua fé nas virtudes da razão, e, 
adotando as prescrições de Freud, muitas pessoas tentaram 
O ADVENTO 
 
222 
recuperar a sensação da união cósmica por meio do sexo. No 
entanto, a união da carne não é a do espírito, e aqueles que 
buscam realizar o último mediante a primeira acabam incorrendo 
no equívoco das seitas partidárias do ‘tantrismo’. 
Assim, consciente ou inconscientemente, vamos 
caminhando. “Está faltando algo na natureza humana”, diz 
Shri Mataji. Falta-lhe o autoconhecimento. Todas as grandes 
escrituras de nossas civilizações nos convidaram a nos conhecer, 
utilizando-se de diferentes linguagens. Elas nos prometeram que 
a união com a verdadeira realidade era possível. A palavra 
religião vem do latim religare, que significa tornar a ligar 
(religar), unir, unificar. Longe de ser uma quimera irritante, essa 
ânsia pelo infinito que nos habita é o que nos aproxima do Real, 
o que nos faz avançar. A Mãe, Shri Mataji, afirma: “O desejo de 
conhecer o Além aparece na evolução da raça humana. 
Quando um pássaro está em sua gaiola, ele aspira ao espaço 
do céu. Semelhantemente, o homem ficou aprisionado na casca 
de seu ego e de seu superego para que esse desejo de conhecer 
o Além acelerasse o processo de evolução”. Nessa seqüência 
aparece a ordem lógica da vida: “Como a semente contém todas 
as partes da árvore, assim também, cada ser humano traz 
consigo todas as sementes de seu crescimento espiritual”. 
A oposição entre a matéria finita e o espírito infinito 
parecerá, em última análise, um falso problema, criado pela 
razão humana que analisa e separa, não obstante o homem se 
sentir rasgado pela coexistência estranha entre o finito e o 
infinito. Por outro lado, a ciência nos ensina que a matéria é 
nada mais que pura energia. A espiritualidade também nos diz 
que o espírito nada mais é que pura energia. Ora, a consciência 
humana é uma forma de energia que atua, simultaneamente, nos 
campos material e espiritual. A freqüência das vibrações, por 
assim dizer, é a única diferença entre a matéria e o espírito. O 
ser humano se defronta com a seguinte questão: ‘como 
A DANÇA DE SATÃ 
 
223 
sintonizar a freqüência das ondas do espírito infinito que habita 
em si mesmo?’ 
Nietzsche estava certo, pois o homem deve ser 
sobrepujado. Em vez de lutar contra a aparente oposição entre o 
espírito infinito e a matéria finita, o homem deveria dedicar-se à 
descoberta das condições para a mudança da consciência 
humana. Pensadores como Heidegger e Tomás de Aquino não 
foram inspirados por uma intuição metafísica do Ser? O que é 
que Cristo tentou dizer a Nicodemo? Qual foi a transformação 
que aconteceu com Buda? Qual foi a experiência que motivou 
Pascal a escrever sobre a “alegria, alegria, chorando pela 
alegria” em seu “Memorial”? As lições da História são claras 
nesse ponto. Quando posicionado em seu lado finito, o homo 
sapiens pode apenas formular perguntas. Entretanto, é incapaz 
de responder a elas, porque o domínio de sua atividade mental 
está limitado ao mundo finito. O infinito apenas pode ser 
conhecido por intermédio do infinito. Logicamente, o indivíduo 
cuja atenção foi conectada ao infinito é capaz de conhecer o 
infinito. 
Conseguimos assim isolar o paradoxo verdadeiro. Ele 
não reside mais entre o finito e o infinito, porém no fato de que a 
contradição existencial do homem deve ser sobrepujada, se bem 
que ele mesmo se mostre incapaz de se comprometer com essa 
transformação. Foi, exatamente, essa a conclusão a que 
chegaram

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