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TEORIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS Conselho Editorial EAD Dóris Cristina Gedrat (coordenadora) Mara Lúcia Machado José Édil de Lima Alves Astomiro Romais Andrea Eick Obra organizada pela Universidade Luterana do Brasil. Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores a emissão de conceitos. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº .610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código Penal. APRESENTAÇÃO Os movimentos sociais sempre foram considerados como uma reação de protesto contra opiniões, posições e ações que se avaliavam como injustas. Assim, escrever sobre os movimentos sociais é mergulhar também nas relações sociais de cunho histórico que os ensejaram, e este é um dos desafios ao estudar‐se o tema. Em uma sociedade globa‐ lizada, as interconexões existentes entre atores globais e locais, na trama de relações, são explícitas. Fatos que ocorrem nos Estados Uni‐ dos, como os ataques de 11 de setembro de 2001, acarretam reações em escala global cujos reflexos incidem nas esferas pública e privada local, em diferentes países, mesmo passados alguns anos. Os jogos de escala levam‐nos, muitas vezes, a questionar a proporção que adquire o “local”. E o “local”, no plano dos movimentos sociais, é algo muito sério. Como veremos, as mobilizações “locais” em torno das associações de bairro foram estratégicas para a retomada da mobi‐ lização popular, ao longo dos anos 1970 do século XX, no Brasil, em pleno regime ditatorial. Por outro lado, um movimento nacional, como a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), mantém sua atuação em escala nacio‐ nal, sem se descuidar das estratégias de luta que são peculiares a cada região do país e às demandas de cada comunidade de quilombolas envolvidas no movimento. Esse é um trabalho hercúleo, dadas as dis‐ tinções quanto às relações políticas “locais” e às demandas da esfera federal do Estado Nacional. Este livro oferece ao leitor um plano de estudo que o levará a uma primeira aproximação com o tema dos movimentos sociais. Trata‐se de material que pretende muito mais instigar a busca por respostas, ofere‐ cer ferramentas para uma análise crítica em torno do assunto e indica‐ ções, a fim de que, no futuro, o leitor possa estabelecer contato com atores dos próprios movimentos sociais e, quem sabe, interessar‐se em aprofundar seus estudos. Assim, o material aqui apresentado não pretende ser exaustivo ou completo. Muito pelo contrário: desconfiem da obra sobre movimentos sociais que se diga completa. 6 As discussões em torno dos movimentos sociais são discussões em constante transformação, seja no plano prático ou no plano analítico. Dentre os autores que têm produzido teoria acerca dos movimentos sociais, destacamos a professora Maria da Glória Gohn, referência constante neste e em qualquer trabalho relativo aos movimentos soci‐ ais. O trabalho da professora merece destaque não só pelo detalhismo teórico, mas também pelo rico trabalho de pesquisa empírica com os movimentos sociais, em especial na cidade de São Paulo. Pedimos aos leitores que encarem este pequeno manual como um apanhado sobre o tema, com dicas para leitura e filmes que ilustram pontos importantes do tema estudado em cada capítulo. Fizemos um certo esforço para utilizar referências bibliográficas e tecer sugestões de vídeos e textos disponíveis na internet, o que possibilitará ao leitor pesquisar sem se deslocar de seu local de estudo. Também trouxemos aqui sugestões de filmes atuais produzidos e dirigidos por pessoas de forte apelo popular no meio artístico. Gostaríamos de dizer que isso foi feito em consideração ao leitor, no sentido de apresentar opções co‐ merciais de dicas culturais que imaginei serem de fácil acesso nos lugares onde apenas o curso a distância tem oportunidade de chegar. O livro se encontra dividido em duas partes. Na primeira, discorremos sobre o referencial teórico de análise acerca dos movimentos sociais ao longo da história. Por fim, abordamos como os novos movimentos sociais têm‐se organizado em torno de suas reivindicações, apresen‐ tando ao leitor os movimentos ambientalista, feminista, as lutas pelo reconhecimento e as lutas pela conquista do espaço. Esperamos que essa sistematização forneça ao leitor meios para se situar criticamente no campo teórico dos movimentos sociais e desperte nele o interesse em buscar mais informações do que as apresentadas neste manual. SOBRE O AUTOR Cíntia Beatriz Müller Cíntia Beatriz Müller possui graduação em Direito pela Universidade Lutera‐ na do Brasil (1997), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2000) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2006). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia do Direito, atuando principal‐ mente nos seguintes temas: grupos étnicos, remanescentes de quilombos, antropologia do direito, antropologia e direitos étnicos. É professora de antro‐ pologia e sociologia política na Universidade Federal da Grande Dourados no Mato Grosso do Sul. SUMÁRIO 1 MOVIMENTOS SOCIAIS: INTRODUÇÃO ............................................................. 13 1.1 Os movimentos sociais como movimentos revolucionários ......................... 13 1.2 Os movimentos sociais na América Latina ................................................ 16 ( . ) Ponto Final ............................................................................................. 20 Indicações Culturais ..................................................................................... 20 Atividades .................................................................................................... 21 2 TEORIA DOS MOVIMENTOS: O PARADIGMA MARXISTA ............................... sse 24 2.1 Contribuições das teorias marxistas ......................................................... 24 2.2 Algumas ideias de Lenin e a importância desse ideário para a análise sobre os movimentos sociais .................................................................................. 26 2.3 Contribuições de Gramsci para a análise dos movimentos sociais .............. 28 2.4 Os pós-marxistas ..................................................................................... 29 (.) Ponto Final ............................................................................................... 30 Indicações culturais ..................................................................................... 31 Atividades .................................................................................................... 31 3 MOVIMENTOS SOCIAIS: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA SOCIOLÓGICA ESTADUNIDENSE .............................................................................................. 33 3.1 A “Escola de Chicago” na sociologia estadunidense ................................. 33 (-) Ponto Final ............................................................................................... 38 Indicações culturais ..................................................................................... 38 Atividades .................................................................................................... 39 10 4 OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA EUROPA PÓS-ANOS 60 ........................... 41 4.1 Parâmetros gerais dos NMS ..................................................................... 41 (.) Ponto final ............................................................................................... 46 Indicações culturais .....................................................................................47 Atividades .................................................................................................... 47 5 MOVIMENTOS SOCIAIS: AS REDES DE ORGANIZAÇÕES E A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA IDENTIDADE ................................................................................................ 50 5.1 O conceito de rede na antropologia dos Estados Unidos e na britânica ....... 50 5.2 A globalização e a reconfiguração dos Estados Nacionais ......................... 51 5.3 Atores sociais em busca de uma identidade .............................................. 54 (.) Ponto final ............................................................................................... 56 Indicações culturais ..................................................................................... 56 Atividades .................................................................................................... 57 6 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS: LUTA POR RECONHECIMENTO ......................... 60 6.1 A luta pelo reconhecimento impulsionada pela construção social da identidade .................................................................................................... 60 6.2 A construção social da diferença no Brasil: o racismo à brasileira ............. 62 (.) Ponto final ............................................................................................... 67 Indicações culturais ..................................................................................... 68 Atividades .................................................................................................... 69 7 MOVIMENTOS SOCIAIS: MOVIMENTO FEMINISTA NO BRASIL ........................... 71 7.1 O movimento feminista no Brasil .............................................................. 71 (.) Ponto final ............................................................................................... 75 Indicações culturais ..................................................................................... 76 Atividades .................................................................................................... 77 8 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS: O SOCIOAMBIENTALISMO ............................... 79 8.1 O movimento ambientalista e a Ecologia .................................................. 79 (.) Ponto final ............................................................................................... 83 11 Indicações culturais ..................................................................................... 84 Atividades .................................................................................................... 85 9 MOV. SOCIAIS E A LUTA PELO ESPAÇO: A INTERAÇÃO RURAL E URBANA ......... 88 9.1 As raízes históricas da desigualdade no meio rural ................................... 88 9.2 O processo de urbanização das cidades: o urbano e o rural se encontram .. 94 (.) Ponto final ............................................................................................... 97 Indicações culturais ..................................................................................... 97 Atividades .................................................................................................... 98 REFERÊNCIAS NUMERADAS ............................................................................ 101 REFERÊNCIAS ................................................................................................ 104 GABARITO ...................................................................................................... 108 1 MOVIMENTOS SOCIAIS: INTRODUÇÃO Cíntia Beatriz Müller O objetivo deste capítulo é, além de oferecer subsídios históricos que possam contextualizar o leitor nos fatores que levaram ao início das mobilizações populares desde o século XVI até o século XVIII, apresen‐ tar ao leitor de que forma a Teoria dos Movimentos Sociais foi incorpo‐ rada às análises latino‐americanas sobre o fenômeno e como, ainda hoje, as teorias sobre os Novos Movimentos Sociais oferecem oportu‐ nidades para a construção de novas concepções teóricas. 1.1 Os movimentos sociais como movimentos revolucionários Nos séculos XVI e XVII, a Europa vivenciou o advento do regime de economia capitalista. Esse período foi marcado pelo renascimento do comércio em sua escala mundial, pelo crescimento das cidades, pela expulsão dos camponeses do meio rural, pela queda do absolutismo e pelo fortalecimento da burguesia e o início do desenvolvimento da indústria.1 Particularmente, no que diz respeito ao processo de indus‐ trialização que ocorreu na Europa, tendo em vista o grande exército de reserva de mão de obra oriundo do êxodo rural paupérrimo que se aglomerava nas cidades emergentes, a troca de mercadorias propiciou o acúmulo de capital necessário para alavancar uma industrialização incipiente2. O fortalecimento do papel do comerciante que intermedia‐ va a troca de mercadorias tirou da mão do artesão o monopólio da venda do produto que se fortaleceu à medida que o mercado expan‐ dia‐se. 14 Comércio medieval Em termos de técnica de produção, identificamos a transição do arte‐ sanato para a manufatura e o sistema fabril. O sistema fabril emerge da demanda pelo aumento de produção, impossível de ser suprido no sistema de manufatura, e pelo aperfeiçoamento da tecnologia de pro‐ dução. Pereira3 afirma que, com isso, a produção doméstica e o artesa‐ nato tornaram‐se cada vez mais rarefeitos. O incremento do comércio, impulsionado pelas Cruzadas, foi correlato ao crescimento das cidades ou burgos. Segundo o mesmo autor, tal local era fundamental para a realização dos atos de comércio e a circulação de mercadoria, o que o transformou em local privilegiado para receber a mão de obra oriunda do campo. Ainda em Pereira tem‐se que, notadamente, este foi um período de grandes conflitos, no qual os servos revoltavam‐se contra seus antigos senhores feudais, entre eles, a própria Igreja. Essas revol‐ tas davam‐se pela expulsão dos camponeses do campo, uma vez que a necessidade de produção e do comércio de alimentos levou os senho‐ res a realizarem cercamentos a esses burgos, e pela busca da liberdade, já que a condição de servos impunha uma série de restrições à liberda‐ de pessoal dos camponeses. Nos séculos seguintes, XVIII e XIX, é que ocorre, de fato, a chamada Revolução Industrial européia (Inglaterra – XVIII e Alemanha – XIX)4. Essa forma de “revolução” concentrou o capital na burguesia, classe emergente liberal que surgiu com o fortalecimento das cidades e do comércio, o que colocou o proletariado em extrema relação de depen‐ dência. Os trabalhadores eram submetidos a “moradias superlotadas, escuras e insalubres, jornadas de trabalho de até dezesseis horas diá‐ rias, condições alarmantes de trabalho, crianças fora da escola, traba‐ lhando longos períodos, em péssimas condições”5. Com base nessas condições pouco humanas de trabalho, iniciou‐se a reação dos trabalhadores, num primeiro momento quebrando máqui‐ 15 nas, realizando protestos pela diminuição da jornada de trabalho e aumento salarial e organizando sindicatos. Logo depois, eclodindo nos protestos violentos dos quais podemos citar o de 1871, chamado a Comuna de Paris, que durou 72 dias. Essas posições antagônicas entre a classe proletária e a classe burguesa (outrora aliadas para a derruba‐ da do absolutismo durante a Revolução Francesa)6 fizeram emergir o socialismo que pregava a transformação social em benefício dos mais pobres, no caso, o proletariado. Comuna de Paris Do ponto de vista clássico das teorias de análise dos movimentos soci‐ ais, a correlação entre o método de ação dos movimentos e as ações radicais de violência advinhada realidade das revoluções. Tanto as revoluções europeias (como a Francesa e a Russa) ou os movimentos pela independência na América (Estados Unidos) são exemplos de mobilizações sociais nos quais ocorreram batalhas, ações de guerrilha, atos violentos de depredação de bens particulares e públicos, e longos períodos de luta. Um dos mais representativos teóricos dos movimentos sociais, Alain Touraine, fornece‐nos o contexto básico sobre o tema: “Entendo, em princípio, por movimentos sociais a ação conflitante de agentes das classes sociais lutando pelo controle do sistema histórico”7. Destaca‐ mos, no conceito desse autor, a ênfase dada às noções de conflito, clas‐ ses sociais e controle do sistema histórico. Touraine pode ser conside‐ rado um pós‐marxista (como veremos no capítulo seguinte) e, como tal, sua construção teórica baseia‐se na ênfase no conflito como a ideia de luta, de movimento de oposição coletiva a uma forma de opressão instaurada. Além disso, o conceito de classe social é importante para o autor, uma vez que esse conceito é o motor de transformação histórica da sociedade. A coletividade organizada investe, nos moldes clássicos, 16 pela tomada do controle. Assim, faz parte do projeto do grupo colocar suas concepções no lugar daquelas pré‐existentes. De acordo com Touraine8, há movimentos coletivos de resistência à opressão, e de outra monta, os que exercem pressão para a dissemina‐ ção de visões de classe sobre o sistema. Essa distinção é estratégica para identificarmos se o movimento social incide sobre o sistema en‐ quanto instituição ou enquanto organização. As análises clássicas lan‐ çam seu olhar sobre os movimentos sociais que incidem sobre o siste‐ ma institucional, isto, pois, de acordo com as ideias clássicas advindas do marxismo – parte do projeto dos movimentos sociais é a conquista dos aparelhos do Estado enquanto instituição. Isto só é possível após a mobilização coletiva eficaz, ou seja, “a transformação do conflito social em luta contra o poder estabelecido”9. Dessa forma, o autor enfatiza a necessidade de que ações isoladas sejam traduzidas em formas de ação coletivas, ou seja, que o mote de mobilização e os argumentos de reivindicação sejam compartilhados. 1.2 Os movimentos sociais na América Latina A corrente de pensamento marxista teve grande repercussão no cená‐ rio latino‐americano até os anos 70 do século XX. Problemas sociais desencadeados pela concepção de desenvolvimento, dependência e modernização, propagados na época, forneceram as bases para uma oposição consubstanciada na transformação social que se opunha a tais modelos. A América Latina desse período sofria com a ditadura militar em vários países, como Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. No âmbito desses governos, a política desenvolvimentista acarretou a modificação abrupta da forma de vida, principalmente de povos tradicionais (como grupos indígenas) e da população do campo. O grande êxodo rural, que ocorreu na época, marcou o monopólio da terra nas mãos de pou‐ cos e o inchaço desproporcional da periferia das grandes cidades. Cortadores de cana‐de‐açúcar no interior do Brasil 17 O modelo de modernização que abria as portas ao investimento do capital estrangeiro no país retribuía com a oferta de mão de obra bara‐ ta e sem especialização e capital monetário oriundo de empréstimos tomados do Fundo Monetário Internacional (FMI). Com isso, o caráter de dependência econômica dos países da América Latina em relação ao capital estrangeiro e às novas tecnologias importadas do exterior fazia com que a camada dominante da sociedade nacional, notadamen‐ te aquela que se originou no bojo de uma sociedade escravista, perpe‐ tuasse sua forma de governar e sua dominação sobre as classes subal‐ ternas. O modelo de modernização implementado nos anos 50 e 60 no continente era eminentemente europeu, ou seja, tomava por base um capitalismo histórico maduro concebido por países que, ao longo do colonialismo, desempenharam o papel de metrópoles10. Dessa forma, a América Latina era constantemente vista como atrasa‐ da. No entanto essa contradição era inerente ao modelo de moderniza‐ ção eleito que mantinha os laços de dominação consolidados ao longo do regime colonial. Notadamente Fernando Henrique Cardoso, citado por Gohn, ao desenvolver uma teorização sobre a dependência “cha‐ mou atenção para as especificidades da América Latina, argumentan‐ do que nela o desenvolvimento deveria ser visto no contexto da dinâ‐ mica global da economia”11. Essa nova teorização sobre a América latina abriu margem para uma análise crítica sobre os modelos teóricos majoritários e fomentou novas abordagens sobre o modelo de moder‐ nização. Scherer‐Warren12 explicita que, nesse período, os estudiosos da Teoria Social Latino‐Americana, de inspiração francamente marxista, tomam consciência de que, na América Latina, a formação de grupos com o caráter de classes sociais, tal qual a conotação europeia do conceito, dificilmente seriam formados a partir da experiência histórica latina, de uma realidade pós‐colonial. Isso se deu em função das especificida‐ des históricas do continente latino‐americano, em especial, cuja estru‐ tura social originou‐se de uma situação colonial em que povos autóc‐ tones foram dizimados e colocados em franca situação de dominação ao longo de séculos. Assim sendo, o Estado assume um caráter estraté‐ gico frente aos movimentos sociais, pois é o governo que define os parâmetros e os rumos políticos de cada país, possuindo, por isso, sua sociedade política, potencial de transformação. Gohn13, contudo, destaca que não existe um “paradigma teórico pro‐ priamente dito” sobre os movimentos sociais latino‐americanos. No Brasil, como em todo o mundo, o modelo clássico inicial que visava formular uma referência explicativa e um projeto de ação para os mo‐ 18 vimentos sociais foi o modelo teórico marxista, ressaltando‐se a in‐ fluência de Gramscia. O exaurimento desse paradigma teórico levou suas referências a serem substituídas pela abordagem proposta pela Teoria dos Novos Movimentos Sociais. Em termos gerais, Gohn sugere elementos que devem ser considerados na formulação de um para‐ digma teórico sobre os movimentos sociais latino‐americanos, entre eles14: 1) a diversidade dos movimentos sociais quanto à sua constituição, composição e organização; 2) a proliferação de movimentos populares que lutam por direitos sociais básicos; 3) a participação de organizações religiosas no aparelhamento dos movimentos sociais; 4) a forte participação de movimentos que colocam em evidência a discriminação étnica, promovida contra indígenas e afro‐ americanos; 5) a posição de antagonismo em relação ao Estado; 6) as novas lutas sociais pleiteiam a inclusão e não mais a integração social; 7) a formulação de projetos políticos comuns entre movimentos sociais e partidos políticos; 8) na América Latina, o papel dos intelectuais frente aos movimentos sociais é bastante importante. Eles têm funcionado como interme‐ diários entre o movimento social e agências governamentais e a própria mídia. No período de democratização da América Latina, outro conceito que tomou fôlego foi o de esfera pública. Esse conceito, em efervescência teórica no início do século XXI, engloba tanto a perspectiva de uma esfera de interação burocrática, legal, que permita a relação entre gru‐ pos e movimentos sociais, como uma dimensão de autonomia cultural frente à produção de bens de consumo em massa15. Uma das principais influências na construção do conceito foi a de Habermas, que entendiaa Ativista político italiano que divulgou suas ideias políticas ao longo do século XX, participou de ações vinculadas ao movimento comunista e permaneceu preso, quando, então, sistematizou parte de sua obra. Sua prisão deu‐se por sua atuação política em defesa de ações revolucionárias e em oposição ao regime que se consolidava na Itália naquele momento, capitaneado por Benedicto Mussolini e que desembocou no fascismo que colocou a Itália ao lado da Alemanha da 2ª Guerra Mundial. 19 a esfera pública como uma dimensão dialógica e comunicativa, entre atores da sociedade civil, Estado e sistema político. Para Habermas, citado por Avritzer e Costa16, a formação da opinião e a vontade coleti‐ va, que legitimam os processos políticos, acabavam por compor um processo de mediação entre o sistema político e o mundo da vida. Nessa relação, a sociedade civil torna‐se refém de um papel ambíguo, pois tanto é responsável pela criação de “microesferas públicas” quan‐ to é ela que seleciona as questões que serão alvo de crivo nesses mes‐ mos espaços. Se a esfera pública, assim como a cidadania, é algo que emerge com os Estados‐Nacionaisb17, podemos afirmar que as transformações pelas quais passam tais Estados também interferem e sofrem consequências advindas de ações da própria esfera pública. De forma ampla, o con‐ ceito de esfera pública tem sido empregado ao longo de pesquisas de opinião pública, ao estilo da Escola de Frankfurt, no qual o público é encarado como entidade atomizada e passiva, acrítico e valorado sob a óptica do consumidor. Por outro lado, no que diz respeito ao campo político, não se teria consolidado um campo de ação racional, argu‐ mentativo e dialógico, dentro do contexto habermaziano, de fazer político na América Latina. Dagnino, citado por Avritzer e Costa18, aponta para a infeliz “coinci‐ dência” entre o processo de democratização na América Latina e a consolidação de governos de postura neoliberal na região. Ao mesmo tempo, iniciativas e reivindicações por maior participação e transpa‐ rência das ações de governo têm emergido na América Latina enquan‐ to novos personagens políticos buscam reconhecimento de sua identi‐ dade política no âmbito da sociedade civil dos Estados‐Nacionaisb. Diante dessas novas configurações, Avritzer e Costa19 formulam a seguinte concepção de esfera pública: Malgrado a metáfora espacial que sugere, equivocadamente, a existência de uma localização específica na topografia social, a esfera pública diz respeito mais propriamente a um contexto de relações difuso no qual se concretizam e se condensam intercâmbios comunicativos gerados em diferentes campos da vida social. Tal contexto comunicativo constitui uma arena privilegiada para a observação da maneira como as transformações sociais se processam, o poder político se reconfigura e os novos atores sociais conquistam relevância na política contemporânea. b O processo de emergência dos Estados‐Nacionais diz respeito à história política deles, a partir da qual esses Estados surgiram das antigas formações, como os impérios e as colônias. 20 Dessa forma, os autores enfatizam que, mesmo com uma denominação que remete à dimensão de um local, como se a esfera pública fosse algo material que se localiza em um dado espaço, o sentido do termo refere‐ se ao conjunto de relações. Tais relações sucedem‐se na sociedade de forma ampla entre dados atores que compartilham um tipo de comu‐ nicação específica (como expressões e linguagens) e acaba por compor um contexto em que as transformações sociais tornam‐se possíveis, pois as ideias passam a ser compartilhadas e, assim, provocam mu‐ danças sociais. ( . ) Ponto Final Neste capítulo, buscou‐se reforçar a perspectiva de que a mobilização social é fruto de condições históricas cuja configuração de poder criou uma massa subalterna. Além disso, destacamos que o contexto históri‐ co europeu difere do latino‐americano e que, apesar da importação de modelos teóricos, notadamente europeus para a análise das mobiliza‐ ções sociais que ocorreram na América Latina, ainda nos encontramos a procura de um modelo explicativo dos movimentos sociais na Amé‐ rica Latina. Assim, destacamos neste capítulo introdutório as possibili‐ dades teóricas na análise dos movimentos sociais na América Latina e a importância do conceito de esfera pública como campo de interação entre sociedade civil, instituições políticas e Estado. Indicações Culturais ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: O Globo, 2003. Livro de suspense lançado na Itália em 1980, que relata a investigação de uma série de mortes misteriosas que ocorrem em uma abadia medieval no século XIV. É um excelente livro que descreve a relação que a Igreja Católica possuía com a construção do saber na baixa Idade Média e oferece dados tangenciais sobre o empobrecimento dos camponeses e sua migração para os burgos, assim como oferece algumas representa‐ ções sobre o feminino que condizem com a época. VICTOR HUGO. Os miseráveis. 8. ed. São Paulo: Hemus, 2002. Livro escrito em 1862, descreve como os pobres da cidade eram tratados pelo aparelho de repressão do Estado e como o empobrecimento em que viviam os aldeões os levava a cometer pequenos furtos. É uma obra belíssima sobre a solidariedade humana e sobre como a norma legal pode ser distorcida e situacionalmente utilizada para fins de vingança privada. 21 A CASA dos espíritos. Direção: Billie August. Produção: Bernd Eichin‐ ger. Estados Unidos: Miramax Films, 1993. (150 min). Este filme conta a história da Família Trueba e, por meio dela, a história política do Chile dos anos de 1930 a 1970 com o deslocamento da estrutura de poder agrária para as cidades. Em meio à modernização do aparelho de Estado, um golpe coloca os militares no poder na década de 1970 e interrompe o governo do presidente Salvador Allende. O QUE é isso companheiro? Direção: Bruno Barreto. Produção: Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto. Brasil: Miramax Films, 1997. (105 min). O filme descreve o contexto político brasileiro após a instituição do Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de 1968c. Ele apresenta a ação de militantes que planejam sequestrar o embaixador estadunidense para trocá‐lo por companheiros presos e torturados. Produzido com base em fatos reais, o filme oferece informações sobre a situação políti‐ ca da época no Brasil e a tensão entre o sistema político e parte da sociedade civil. Atividades 1) Assinale a alternativa que responde à sentença a seguir. Revolução que teve início na Inglaterra e levou ao crescimento das cidades, consequência do cercamento dos campos e do empobrecimento dos camponeses, à aceleração de investimentos no sistema fabril e à crise do Absolutismo europeu foi a: a) Revolução Comunista b) Revolução Industrial c) Revolução Francesa d) Comuna de Paris 2) Assinale a alternativa correta de acordo com a afirmativa a seguir. O modelo desenvolvimentista implantado na América Latina en‐ tre os anos de 50 e 70: a) Foi exportado, exclusivamente, para os Estados Unidos b) Era embasado na busca por investimento estrangeiro, princi‐ palmente em empréstimos tomados do Fundo Monetário In‐ c Para ver o Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de 1968, acesse: <http://www.acervoditadura.rs.gov.br/legislacao_6.htm>. 22 ternacional, acarretando o êxodo rural e o crescimento desor‐ denado das cidades c) Tinha como características principais: a venda de estatais para grupos estrangeiros e a privatização de partede serviços pú‐ blicos d) Foi consequência do impacto pós‐Segunda Guerra Mundial sobre as indústrias europeia e japonesa 3) Sobre os movimentos sociais na América Latina, podemos dizer que: a) Nos anos 70, esses movimentos foram analisados sob o ponto de vista teórico do paradigma marxista b) A estrutura organizacional deles depende, unicamente, de re‐ cursos financeiros do Estado c) Não são compostos por grupos étnicos minoritários, como in‐ dígenas, uma vez que eles têm todos os seus direitos respei‐ tados pelo Estado e pela sociedade civil d) Emergiram a partir da harmonia que se consolidou entre a classe proletária e a burguesa 4) Podemos dizer que a esfera pública é o espaço em que se estabele‐ cem relações entre: a) A classe burguesa, a aristocracia e, apenas, os camponeses b) A aristocracia e o proletariado c) O Estado, a sociedade civil e as instituições políticas d) O Banco Mundial e as empresas privadas 5) A emergência dos Estados‐Nacionais trouxe como consequência: a) A consolidação de uma estrutura empresarial que poderia sa‐ car empréstimos no exterior b) O surgimento da esfera pública, na qual a opinião pública e a vontade coletiva acabam por mediar a relação entre o mundo da vida e o sistema político 23 c) O antagonismo de classes entre Estado e empresários da ex‐ portação d) A transformação das colônias em metrópoles durante o mer‐ cantilismo 2 TEORIA DOS MOVIMENTOS: O PARADIGMA MARXISTA Cíntia Beatriz Müller A partir do paradigma marxista, analisamos os movimentos sociais como catalisadores de processos voltados para a transformação das condições sociais. Trata‐se de enfatizar a análise dos movimentos soci‐ ais sob a perspectiva da luta, do conflito, da disputa que modifica as condições de vida das pessoas envolvidas no movimento e na socieda‐ de, em geral, e rompe com a alienação. De forma alguma, o paradigma marxista de análise dos movimentos sociais centra sua atenção sob as revoluções ou sob as lutas operárias. Embora esse tipo de abordagem empreendida pelos movimentos sociais evidencie as relações de su‐ bordinação e de dominação, cuja visibilidade é maior em situações de capitalismo tradicional, a abordagem centrada no paradigma marxista não se reduz a isso. De acordo com Gohn1, o paradigma marxista clássico possui duas correntes distintas: uma baseada em abordagem que parte da produ‐ ção intelectual do jovem Marx e outra que encontra lastro nos escritos do Marx “maduro”. Esta última corrente apropria‐se dos conceitos de “formação social, forças produtivas, relações de produção, superestru‐ tura, ideologia, determinação em última instância, mais‐valia”2, e colo‐ ca em evidência uma análise calcada em premissas eminentemente econômicas. Valoriza, assim, o papel da classe operária por sua posição frente ao processo de produção, o que a transformaria, a grosso modo, em grupo privilegiado como agente histórico capaz de operar ações de transformação social 2.1 Contribuições das teorias marxistas Ao abordar os movimentos sociais, as teorias marxistas não abandona‐ ram de todo o conceito de classes sociais que acaba por situar os atores envolvidos no contexto dos movimentos frente à estrutura social. A classe social, e os elementos que a compõem, acaba por definir parâme‐ tros acerca da consciência social do ator envolvido no movimento de 25 luta por conquistas da própria classe. Tomando o trabalho de Marx de forma ampla, podemos afirmar que os movimentos sociais não foram alvo de suas preocupações teóricas3. Porém, esse filósofo construiu categorias essenciais que potencializaram a análise sobre o tema. Karl Marx (1818‐1883) – Filósofo alemão Karl Marx nasceu na cidade de Trier (Trèves, pró‐ ximo da fronteira com a França), na Prússia. Estu‐ dou Direito (1837‐1841) nas universidades de Bonn e Berlim, quando travou conhecimento com a filosofia de Hegel. Defendeu sua tese de douto‐ rado em 1841 e passou a trabalhar na Gazeta Rena‐ na, como redator‐chefe, em 1842. Por razões políti‐ cas, viveu na Bélgica até 1848 e retornou para a Alemanha, onde ficou até 1849. Exilou‐se, então, definitivamente em Londres, onde morreu em 1883. Sua obra costuma ser dividida em duas fases: a da juventude – Manuscritos econômicos e filosóficos (1844), Miséria da Filosofia (1847), sendo que A Ideologia alemã (1848) e Manifesto comunista (1848) foram escritos em co‐autoria com F. Engels – e a da fase madura – O 18 Bru‐ mário de Luís Bonaparte (1852), Esboços dos fundamentos da Crítica da Economia política (1857/58), Para a Crítica da Economia política (1859) e O capital (1867 e 1894 em edição póstuma)4. Para Gohn5, uma importante categoria cunhada pelo autor é a de prá‐ xis social. Práxis social é, para Marx, a capacidade que as classes sociais trabalhadoras e os grupos dominados possuem de transformar a soci‐ edade por meio de atividades teóricas, políticas e produtivas. Ainda segundo Gohn, a práxis teórica ofereceria recursos capazes de acelerar projetos de transformação social; ao passo que a práxis produtiva, consubstanciada no locus ocupado pelo proletário, forneceria os recur‐ sos críticos que potencializariam a síntese transformadora da socieda‐ de, a partir da própria consciência social acerca da dominação, imple‐ mentada pelos detentores do monopólio dos meios de produção. A práxis política viria à tona embasada no entrecruzamento das práxis teórica e produtiva. Essa conexão entre intelectualidade e processos sociais de transformação das condições de vida da classe trabalhadora, matéria‐prima da práxis política, é uma das contribuições de Marx em relação à análise dos movimentos sociais. Outra importante categoria de análise dos movimentos sociais forjada por Marx é a de solidariedade: “A solidariedade citada por Marx refere‐ se a uma relação social, com os mesmos interesses e deveria estar vol‐ 26 tada para um dado objetivo: a emancipação dos trabalhadores”6. A solidariedade, no sentido marxista, apresenta uma dupla função: por um lado é fator de coesão do grupo, ou seja, aponta uma dimensão de comprometimento entre aqueles que compartilham uma mesma ideo‐ logia e, por outro, agrega pessoas que compartilham de um projeto emancipatório. Para consolidar essa solidariedade, é especialmente significativo compartir experiências de vida e de classe, pois, dessa forma, as pessoas compartilhariam de um mesmo grau de consciência social acerca dos processos de dominação histórica do seu cotidiano. 2.2 Algumas ideias de Lenin e a importância desse ideário para a análise sobre os movimentos sociais Vladimir Ilitch Lenin, advogado por formação, foi um líder revolucio‐ nário que esteve à frente de todas as fases da Revolução Russa de 1917. As ideias desse líder tiveram influências não apenas no contexto revo‐ lucionário soviético, mas em âmbito internacional. Tal repercussão não ocorreu por acaso. Com o caráter clandestino das atividades políticas revolucionárias na Rússia, ao longo do reinado do czar Alexandre II, os mentores da práxis intelectual obrigavam‐se a publicar, no exterior, todo o material a ser distribuído na Rússia. Também no exterior aca‐ bavam por traçar estratégias de organização do movimento revolucio‐ nário, sem contar que, inúmeras vezes, lideranças revolucionárias precisavam permanecer abrigadas no exterior, tendo em vista o clima de perseguição política que imperava ao final do período czarista. Lenin durante a Revolução Russa em 1917 Para Lenin7, o povo, composto aqui pela maioria em um conjunto de classes, deveria ocupar seu lugar ao centro das decisões políticas no Estado socialista‐revolucionário. Era decisivo que fossem constituídas condições concretas paraa participação da maioria nas decisões e negócios públicos. Para isso, seria estratégico que tanto o regime de Estado quanto o poder político propiciassem condições de participação 27 da maioria nas arenas de decisão. Essa participação, contudo, implica‐ va a necessidade de que essa maioria fosse capaz de conduzir a estru‐ tura de Estado. O monopólio do exercício do poder político pela classe burguesa, porém, implicava que os interesses desse contingente, com‐ posto por classes subordinadas, não fossem atendidos. A participação da maioria nos negócios de Estado é importante para Lenin tendo em vista sua concepção de que “o Estado é o produto e a manifestação do fato que as contradições de classes são inconciliáveis. O Estado surgiu aí no momento e na medida em que, objetivamente, as contradições de classes não podiam ser conciliadas”8. A única forma de transformar o Estado, a transformação revolucioná‐ ria, seria, segundo Gohn, a conciliação da maioria, ou a participação de uma maioria nas decisões dos negócios públicos. Para Lenin, o modelo de Estado que comporta as demandas do proletário, enquanto ele estiver subordinado aos interesses capitalistas, é o da república demo‐ crática. Porém o ideal socialista é o de que a classe proletária assuma o controle completo de sua vida social e política e, por decorrência, o controle do governo do Estado Nacional. A organização da maioria, ou de massa, para torná‐la apta ao exercício do governo, de acordo com Lenin, possuía sutilezas que a distinguia das organizações de classe. Por isso, existem dois tipos de organiza‐ ções, ambas essenciais à práxis social: a organização política e a orga‐ nização de operários para a luta9. Seguindo o raciocínio de Lenin, as organizações de operários possuiriam caráter profissional, amplo e pouco “conspiratório”, ao passo que as organizações de caráter emi‐ nentemente político deveriam reunir pessoas voltadas para esse fim, de ação política. Em seu interior, não existiram distinções entre operá‐ rios e intelectuais, sendo essas distinções organizadas de forma não muito extensa. A principal função da organização política, notadamen‐ te do Partido, de acordo com Lenin, seria a de organizar a maioria envolvida no movimento social10, ou seja, a de desenvolver seu papel de vanguarda, de estar à frente dos acontecimentos. Embora Lenin não tenha produzido textos específicos dedicados aos movimentos sociais, em seu tempo ele foi um intelectual envolvido com a luta das organizações de classes, notadamente os sindicatos. Os sindicatos deveriam assumir uma função pedagógica, sendo um possí‐ vel centro irradiador da ideologia socialista. Serviriam, assim, de estru‐ tura capaz de suportar uma preparação para a maioria, o povo, em seu momento de tomada do poder11. Nesse sentido, Lenin aponta para o caráter pedagógico possível dos movimentos sociais de vários níveis, como atualmente tem sido a tônica dos movimentos de luta pelos 28 direitos humanos no Brasil, por exemplo. Essa função de disseminação de ideias caberia à vanguarda: “o papel da vanguarda do proletariado, que consiste em instruir, ilustrar, educar, atrair para uma vida nova as camadas e as massas mais atrasadas da classe operária e do campesi‐ nato”12. Obviamente, como paradigma de ação para os movimentos sociais modernos, essa noção deve ser atualizada, mas a categoria vanguarda pode ser ainda operacional entre nós. 2.3 Contribuições de Gramsci para a análise dos movimentos sociais Gramsci, teórico marxista italiano, nascido em 1891 na Sardenha, inici‐ ou seus estudos em 1903, no ginásio (hoje ensino fundamental – 5ª a 8ª séries), de onde teve de sair para buscar sustento ao longo dos anos de 1904 a 190813. Devido a uma queda que sofreu aos quatro anos de ida‐ de, Gramsci era corcunda e sofria com essa deformidade física, sendo‐ lhe penoso desenvolver atividades laborais que envolvessem o uso da força física. Entrou na faculdade de Turim em 191014. Os Cadernos do cárcere, conjunto de textos escritos pelo autor enquanto esteve preso entre os anos de 1926 e 1937, são compostos por trinta e três cadernos, dos quais vinte e nove foram publicados pela primeira vez na Itália entre os anos de 1948 e 1951. As ideias de Gramsci não representaram uma continuidade das ideias divulgadas por Lenin, porém trouxeram uma séria contribuição no que se refere à matéria dos movimentos sociais com a ideia de hegemonia e o papel dos movimentos populares na transformação de espaços políticos. Gramsci, como teórico, desenvolveu uma noção mais ampla de Estado do que o fez Lenin. Segundo Coutinho15, para Gramsci a sociedade civil seria um importante campo de disseminação de ideias políticas, espaço social em que a participação política e o reconhecimento de grupos e massas era possível. A “sociedade civil” formaria uma cama‐ da com potencial crítico capaz de opor‐se à opressão da estrutura de Estado. É no âmbito da sociedade civil que se situam as organizações privadas. De acordo com Portelli16, sociedade civil, para Gramsci, é um conjunto extenso “e sua vocação para dirigir todo o bloco histórico implica uma adaptação de seu conteúdo, segundo as categorias sociais que atinge”. A sociedade civil estaria permeada de ideologia da classe dirigente. Esse fato acabaria por influenciar seus diferentes campos e concepções de mundo da sociedade civil ao passo que, como “direção ideológica”, ela estaria estruturada em organizações que difundem a mesma ideologia e os instrumentos que difundem essa ideologia, por exemplo, o sistema escolar. No âmbito da sociedade civil, é que se dão os embates pela hegemonia. 29 Gramsci apresenta um conceito de hegemonia muito próximo ao de Lenin e reforça a tese de que o papel da direção intelectual e ideológi‐ ca, ou seja, a existência de um grupo dirigente, é fundamental frente à base de classe. Para ele, o Estado está para além de uma simples socie‐ dade de organização política, mas é decisivamente influenciado pela sociedade civil. Daí a importância da incidência de intelectuais sobre a classe base na sociedade civil, para, por meio da transformação de seu sistema ideológico, transformar a própria estrutura política e, por consequência, o Estado. A hegemonia assim seria o conjunto de ideias e concepção de mundo formado a partir de valores da classe burguesa, cuja capilaridade estende‐se por toda a sociedade civil. A consolidação de tais ideias ocorreria em decorrência da atuação de um grupo inte‐ lectual, uma vanguarda conforme Lenin, e da correlação ente outros grupos aliados17. Segundo Portelli18, “A hegemonia gramsciana é a primazia da socieda‐ de civil sobre a sociedade política”. Ainda segundo o mesmo autor, a luta para Gramsci não era pelo controle da sociedade política, como o era para Lenin, mas pelo controle da sociedade civil. A conquista do aparelho estatal apenas seria uma forma de apropriar‐se do mecanis‐ mo de dominação estatal. Essa concepção opõe‐se à ideia de ditadura, uma vez que a conquista do Estado aconteceria pelas bases do conven‐ cimento e da apropriação ideológica da sociedade civil – assumir uma postura dominante − que, ao inverter seus valores hegemônicos, pode‐ ria vir a conquistar o aparelho de Estado – aqui em caráter dirigente. Em relação aos movimentos sociais, há duas perspectivas importantes na construção teórica gramsciana: a revalorização da noção de Estado e o conceito de hegemonia. De acordo com Gohn19, Gramsci foi o grande responsável por tornar o Estado uma atraente arena para a luta pela transformação social, não apenas um mecanismo de dominação, mas um local que merecia ser redemocratizado e gerido de forma participa‐tiva, embasado nas forças organizadas da sociedade civil. Com o con‐ ceito de hegemonia, passou‐se a apreciar o conjunto de valores consi‐ derados como legítimo no interior das coletividades por oposição à ideologia da classe burguesa. Assim, proporcionou‐se uma possibili‐ dade teórica para a transformação da ideologia nas classes formadoras da sociedade civil que, gradualmente, poderiam mudar a sociedade política e as estruturas de Estado. 2.4 Os pós-marxistas Podemos citar, entre os pós‐marxistas, Theodor Adorno (Frankfurt, Alemanha 1903 – Suíça, 1969), Hannah Arendt (Hanover, Alemanha 30 1906 – Nova Iorque, EUA 1975), Jürguen Habermas (Düsseldorf, Ale‐ manha), Ernesto Laclau (Buenos Aires, Argentina) e Alain Touraine (Paris, França)20. A principal crítica desse grupo dirige‐se à perspectiva reducionista do marxismo ao privilegiar uma classe específica como a propulsora de mudanças sociais, pressupondo que ela seria universal. Além disso, questionam, de forma ampla, o caráter antidemocrático do marxismo, defendendo a tese de uma “democracia radical” com pre‐ ponderância em valores como a dignidade humana, a liberdade e o comunitarismo21. Vários dos temas abordados por esses pensadores traduziram‐se em base teórica para a ação de grupos sociais e movi‐ mentos sociais. Em Hannah Arendt22, por exemplo, suas análises sobre o totalitarismo colocaram a dignidade humana como um valor que deve preponderar nas relações sociais. Gohn23 coloca em evidência, nesse campo, em relação específica com os movimentos sociais, Manuel Castells, Jordi Borja e Jean Lojkine. De forma ampla, pois discutiremos Manuel Castells no âmbito do movi‐ mento ambientalista, o grupo preocupa‐se com os movimentos sociais, sua estrutura e o objetivo de sua incidência em um contexto de globa‐ lização, de um capitalismo transnacional, da emergência de novas identidades e a desconstrução do Estado‐Nação. Esses autores colocam o movimento social como parte da sociedade civil que incide de forma decisiva sobre as organizações políticas. Outros pensadores que se filiam à corrente neomarxista são os historiadores E. P. Thompson, Eric Hobsbawm e George Rude. É notável nesses autores a forma como a construção textual do livro 18 Brumário, por exemplo, influenciou a maneira como se tem escrito textos de análise de conjuntura e as impli‐ cações deles com a superestrutura. Além disso, noções como ideologia e hegemonia (assim, como contra‐hegemonia) podem ser identificadas em seus textos como instrumentos teóricos de análise e de diálogo com o campo teórico. (.) Ponto Final Os pensadores marxistas não conceberam uma teoria específica acerca dos movimentos sociais. Porém, ao se preocuparem em conferir visibi‐ lidade à exploração de classe, acabaram por forjar um referencial teóri‐ co importante como estoque analítico dos movimentos de massas. Como veremos adiante, esses conceitos serão retomados e aprimora‐ dos por filósofos e pensadores que realmente estavam empenhados na elaboração de uma teoria acerca dos movimentos sociais. 31 Indicações culturais REDS. Direção e produção: Warren Beatty. Estados Unidos: Para‐ mount Pictures, 1981. (181 min.). Esse filme conta a história do jornalis‐ ta norte‐americano John Reed e mostra o quanto a Revolução Russa impactou, também, o cenário político internacional. DOUTOR Jivago. Direção: David Lean. Produção: David Lean e Carlo Ponti. Estados Unidos: MGM, 1965. (201 min.). A importância desse filme está na forma como destaca a mudança estrutural da Rússia imperial em direção a um Estado comunista. Trata‐se de um romance que deixa explícito os valores sociais em choque e o quanto a adequa‐ ção das pessoas aos padrões morais da época era exigida, tanto por um quanto pelo outro regime, tanto pela estrutura social czarista quanto pelo projeto do Estado comunista. Atividades 1) No que diz respeito à Teoria Marxista, de forma ampla podemos dizer: a) Não fornece recursos analíticos que permitam avaliar os movimentos sociais contemporâneos b) Presta‐se apenas para analisar movimentos sociais de natu‐ reza sindical c) Teve seus referenciais analíticos atualizados de forma críti‐ ca por teóricos contemporâneos d) É recurso teórico datado que não serve para análises mo‐ dernas sobre os movimentos sociais 2) Quais dos conceitos a seguir perpassam e desempenham papel central nas correntes marxistas clássicas? a) Classe social, vanguarda e sociedade civil b) Ideologia, sociedade civil e Estado Nacional c) Classe social, ideologia e alienação d) Hegemonia, alienação e classe social 3) “Vanguarda” para Lenin: 32 a) diz respeito a um grupo de pessoas capazes de conduzir a classe proletária na tomada de consciência sobre sua aliena‐ ção social e da importância de seu papel frente à transfor‐ mação do Estado Nacional b) não foi abordada por este autor c) valoriza uma camada de intelectuais que não deve interagir com a base de classe, e, sim, partir para ações isoladas d) é um grupo que se origina da classe burguesa e, por isso, aperfeiçoa sua dominação frente à classe média 4) Sobre o conceito de sociedade civil, descrito por Gramsci, pode‐ mos dizer que: a) foi um conceito teórico formulado, na verdade, por K. Marx b) ela não existe para Gramsci. Trata‐se de grupo pouco im‐ portante e que desempenha um papel insignificante na so‐ ciedade como um todo c) sociedade civil e sociedade política são termos sinônimos d) a transformação dos valores hegemônicos na sociedade ci‐ vil, com base nos valores sociais que povoam o cotidiano das classes populares, pode tornar‐se o motor de transfor‐ mação do Estado levando, assim, o povo a uma democracia social 5) Um dos valores preponderantes nas análises dos pós‐marxistas é: a) o totalitarismo b) a dignidade humana c) o fortalecimento do Estado‐Nação d) a classe proletária como universal e homogênea em todo o mundo 3 MOVIMENTOS SOCIAIS: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA SOCIOLÓGICA ESTADUNIDENSE Cíntia Beatriz Müller O objetivo deste capítulo é apresentar ao leitor as principais contribui‐ ções teóricas de pesquisadores estadunidenses para a análise dos mo‐ vimentos sociais – a Escola de Chicago – e a forma como até hoje influ‐ encia a análise dos movimentos sociais. Em linhas gerais, a escola estadunidense de Sociologia, que deu início à teorização sobre os movimentos sociais, recebeu influência da socio‐ logia clássica europeia. Para nossos estudos, iremos focalizar as contri‐ buições da Escola de Chicago, o caráter tributário dela, em relação ao paradigma do conflito de Simmel, a contribuição de Herbert Blumer e as etapas do processo de formação dos movimentos sociais. 3.1 A “Escola de Chicago” na sociologia estadunidense A Universidade de Chicago foi fundada em 1895a. Nessa universidade foi criado o primeiro Departamento de Sociologia e a primeira revista de Sociologia dos Estados Unidos, a American Journal of Sociology, cujo primeiro diretor foi Albion Small. Uma das principais preocupações de pesquisa desse Departamento de Sociologia era com a compreensão e a intervenção em problemas sociais oriundos do acelerado processo de urbanização pelo qual vinham passando as cidades americanas. O primeiro foco foi lançado sobre a pobreza e a imigração entendidas como problemas sociais. Alunos oriundos desse centro de pesquisa passaram a dirigir outros departamentos de sociologia nos Estados Unidos, notadamente na Columbia University e em Washington. Howard Becker1, pesquisador formado pela “Escola de Chicago”, proferiu conferência no Museu Nacional do Rio de Janeiro em 1990. Essa conferência, na Revista Mana, conforme referência ao finaldeste a Na mesma época, era fundada a Escola Americana de Antropologia, com a linha da Antropologia Cultural. Franz Boas foi um dos fundadores dessa escola, cujo pensamento influenciou diferentes centros de pesquisas nos Estados Unidos. (CASTRO, 2004). 34 livro, esclareceu, naquela oportunidade, qual o significado da expres‐ são “escola” para o contexto da Universidade de Chicago na primeira metade do século passado. Becker destaca que existem pelo menos duas concepções possíveis para o emprego da expressão “escola”: uma referindo‐se à escola de pensamento e a outra à escola de atividade. Uma Escola de Pensamento é composta por pessoas. Nesse caso, pesquisa‐ dores e estudantes, que compartem uma mesma linha de pensamento, dividem conceitos e filiações teóricas em comum. Acredito que temos como exemplo de uma escola de pensamento, os núcleos de pesquisa que se reúnem em torno de um orientador específico, com o qual pas‐ sam a compartilhar conceitos e referenciais teóricos. Esses núcleos podem ser enquadrados na classificação de “escola de pensamento”. Já uma Escola de Atividade agrega pessoas que não partilham, neces‐ sariamente, a mesma filiação teórica, mas trabalham juntas, desenvol‐ vem pesquisas que se complementam, discutem sobre elas e buscam desenvolver atividades em um mesmo espaço acadêmico comum. Howard Becker leva a crer que a Escola de Chicago estaria muito mais próxima da definição de “escola de atividade”, pois, em seu início, as pessoas não compartilhavam de um referencial teórico comum ou da maioria das ideias predominantes no Departamento de Sociologia, mas a disposição de enfrentar questões consideradas problemas culturais. Uma das principais influências teóricas da Escola de Chicago foi do sociólogo alemão Georg Simmel (1858‐1918) com quem Robert Parkb, outro proeminente professor da universidade de Chicago, estudou em Heidelberg, na Alemanha. Georg Simmel, por sua vez, foi diretamente influenciado pela filosofia de E. Kant, F. Nitzsche e Goethe. Duas mar‐ cas da Sociologia simmeliana repercutiram fortemente na Escola de Chicago: a dimensão da proeminência do indivíduo sobre a “massa” e a do conflito social. Para Simmel, o indivíduo poderia possuir inúme‐ ras qualidades individuais, mas, paradoxalmente, quanto mais qualifi‐ cado esse indivíduo tornava‐se menor a possibilidade de que viesse a figurar uma unidade com outros indivíduos2. Assim conforme explica o autor3: a necessidade de prestar tributo às grandes massas – e sobretudo a necessidade de se expor continuamente a elas – arruína facilmente o caráter: ela rebaixa o indivíduo, retirando‐o da posição elevada por suas formação e levando‐o a um ponto no qual ele pode adequar a qualquer um. b Ao tempo de Park, de acordo com Becker (1996) o departamento já reunia os cursos de sociologia e antropologia na Universidade de Chicago, o que fez com sua influência se estendesse, também, ao campo da antropologia. 35 Para Simmel, a “massa” não expressa o somatório de características de cada um que compõe o grupo, mas das partes em comum que unem as pessoas. Assim, nas análises de fenômenos de “massa”, seria possível identificar características individuais especiais nas pessoas que a com‐ põem e que não são, necessariamente, compartilhadas pelo grupo ou que se quer são percebidas e valorizadas pela “massa”. Por outro lado, há a dimensão do conflito, extremamente importante para a Teoria de Simmel. O conflito estabelece‐se, basicamente, nas relações entre indi‐ víduo e sociedade, uma vez que, embora a sociedade só exista com base em indivíduos, ela também se contrapõe ao indivíduo “com exi‐ gências e atitudes como se fosse um partido estranho”4. Nessa tensão, instala‐se o conflito. Segundo Simmel5, a divergência entre indivíduo e sociedade alcança seu ponto alto no momento em que “a sociedade” busca transformar cada indivíduo em um simples membro da unida‐ de. A reação do indivíduo é a da rebelião contra o papel socialmente construído com uma constante luta entre “a parte” – o indivíduo – e “o todo” – a sociedade. Essa noção da preponderância do papel do indi‐ víduo sobre o da “massa” e a dimensão do conflito e da rebelião serão importantes para compreendermos a Escola de Chicago. No que tange ao método de pesquisa, a escola seguia diretrizes um tanto ecléticas, misturando técnicas qualitativas e quantitativas de coleta de dados, também por forte influência de Robert Park: “se achasse que era possível mensurar alguma coisa, ótimo, se não fosse, ótimo também”, conforme comenta Becker6. Existia, de certa forma, correlação entre a dimensão material dos problemas sociais e explica‐ ções teóricas. Por exemplo, a busca da compreensão de por que a cri‐ minalidade concentrava‐se em determinados pontos da cidade em detrimento de outros, ou a própria delinquência juvenil como elemen‐ tos para a elaboração da noção de “região moral” – “área da cidade onde uma população se separa das demais”7. Por outro lado, os alunos de Park também desenvolveram pesquisas qualitativas bastante pró‐ ximas da Etnografia e da Psicologia Social. Um dos maiores expoentes das pesquisas relacionadas à Psicologia Social foi o filósofo George Herbert Mead (ex‐aluno de Robert Park), cujo aluno mais influente foi Herbert Blumer, considerado como um dos principais teóricos sobre os movimentos sociais no âmbito da Teoria Clássica Estadunidense.8 Herbert Blumer e sua contribuição para a análise dos movimentos sociais Herbert Blumer, além de jogador profissional de futebol, que passou um ano no Brasil nos anos de 1930, excelente teórico da Psicologia Social, veio a fazer parte do corpo docente do Departamento de Socio‐ 36 logia da Universidade de Chicago em um grupo que sucedeu Robert Park9. De acordo com Gohn10, Blumer construiu sua teoria dos movi‐ mentos sociais com base na insatisfação que o indivíduo tem com a própria vida e na esperança de mudá‐la, de transformá‐la. Blumer dividiu os movimentos sociais em três grupos: genéricos, específicos e expressivos. De certa forma, ao buscarmos compreender como Blumer constrói sua classificação dos movimentos sociais, devemos ter presen‐ te a teoria simmeliana da qual ele era um tributário. Os Movimentos Genéricos seriam aqueles organizados no sentido de provocar mudanças nos valores individuais. Essas transformações de valores podem ser chamadas de “tendências culturais”, conforme Gohn11. Trata‐se de um processo de transformação que passa pela dimensão do indivíduo e de como ele encara a si mesmo, fazendo emergir novos valores e considerações acerca de seus direitos civis e políticos. Assim, os movimentos sociais de caráter genérico operariam em uma dimensão individual que não deixaria de ser psicológica, sendo verdadeiros indicadores de novas tendências, mesmo que des‐ providos de uma organização mais sistemática ou de objetivos mais específicos. Um dos exemplos é o da emancipação das mulheres, com um caráter pouco específico, porém congruente com a fase inicial da mobilização quando a ação dos grupos era propriamente pouco orga‐ nizada. As mulheres sufragistas da década de 30 Gohn12 também apresenta que os movimentos chamados por Blumer de Movimentos Expressivos são os constituídos por aqueles grupos que não se encontram necessariamente comprometidos com objetivos de mudança ou transformação social. Esses grupos encontram‐se com‐ 37 prometidos com a disseminação de ideias que permeiam toda a socie‐ dade (exemplos seriam osmovimentos religiosos e aqueles vinculados à moda), mas podem ser capazes de ditar “tendências”, ou seja, influ‐ enciar sem que, com isso, assumam um papel de transformar os objeti‐ vos de cunho social de outros movimentos. Já os Movimentos Específicos, segundo os estudos de Gohn13, repre‐ sentariam um momento seguinte ao genérico, quando as insatisfações e demandas já estariam consolidadas. Nessa fase do movimento, há um sentido de identidade de grupo constituído de forma que as lide‐ ranças e os membros deles teriam capacidade de reconhecer os símbo‐ los e sinais que especificariam os membros do grupo. Para Blumer citado por Gohn14, os movimentos sociais desenvolvem‐se em um processo com cinco fases ou estágios: a) AGITAÇÃO: neste momento, novas demandas, impulsos e neces‐ sidades são identificados. É nesse momento que o movimento co‐ meça a traçar seus objetivos e direções. O agitador tem um papel estratégico e positivo, sendo ele o responsável por conduzir e ini‐ ciar o processo de transformação social que enseja o movimento. b) EXCITAÇÃO OU DESENVOLVIMENTO DO ESPIRIT DE CORPS: este estágio diz respeito ao sentimento de coesão e solida‐ riedade do grupo que é formado e compartilhado por meio do processo de formação do grupo. Gohn elenca três estratégias de formação dos “espírito de corpo” do grupo: “relação do grupo a grupo de uma mesma categoria”; “relacionamentos informais de‐ senvolvidos em associação”; e, “as cerimônias formais em que se cristalizam certos comportamentos”. c) DESENVOLVIMENTO DE UMA MORAL: trata‐se da consolida‐ ção de símbolos por intermédio dos quais valores são expostos e reafirmados. São, por exemplo, símbolos como bandeiras, insíg‐ nias, textos, ou seja, o conjunto de ideias que organiza os objetivos fundantes do grupo e os princípios compartilhados por seus membros. d) DESENVOLVIMENTO DE UMA IDEOLOGIA: a ideologia confi‐ gura a forma como o grupo vê certas questões, como avalia o pro‐ blema e formula sua resolução. É espelhada pelo conjunto de crenças do grupo, que encontra eco tanto em lendas e mitos quan‐ to no conjunto de textos que reflete suas ideias. 38 e) DEFINIÇÃO DE OPERAÇÕES TÁTICAS: este último estágio é aquele que estabelece ações pelas quais o grupo irá movimentar‐ se. As táticas podem ser de adesão, manutenção (dos adeptos) e de especificação dos objetivos. É importante destacar que Gohn traz ao seu texto comentários sobre a produção teórica de Herbert Blumer a partir de textos originais: Collec‐ tive Bahavior (1939) e Social Movements (1951), ou seja, textos que ocu‐ pam um lugar dentro do contexto de produção da Escola de Chicago e da teorização estadunidense. É importante termos presente que, como destaca Becker15, Blumer veio ao Brasil na década de 30 e, em conse‐ quência disso, muitos brasileiros foram estudar nos Estados Unidos. Há, portanto, repercussão de suas ideias no campo da Sociologia brasi‐ leira ainda nos anos 2000, inclusive, no que diz respeito às etapas do processo de formação dos movimentos sociais. Por exemplo, o manual de Sociologia Geral, de Lakatos e Marconi16 define os seguintes estágios dos movimentos sociais, que lembra muito a divisão de etapas de Blumer, o que demonstra a atualidade desse tipo de esquema de análi‐ se: Agitação (inquietação ou intranquilidade); Excitação (excitamento ou desenvolvimento do espirit de corps); Formalização (desenvolvimen‐ to da moral e da ideologia ou planejamento). (-) Ponto Final Neste capítulo, procuramos destacar o significado da Escola de Chica‐ go na formulação de teorias clássicas da Sociologia estadunidense bem como sua formação e influência teórica por parte do sociólogo alemão Georg Simmel. Além disso, apresentamos ao leitor como os teóricos ali formados formularam explicações sobre os movimentos sociais. Por fim, expusemos a teoria de Herbert Blumer que formulou uma tipolo‐ gia de classificação dos movimentos sociais e identificou os estágios de desenvolvimentos dos mesmos. Indicações culturais FREITAS, Wagner Cinelli. Espaço urbano e criminalidade: Lições da esco‐ la de Chicago. São Paulo: Método, 2004. Neste livro, bastante recente, o leitor encontra mais informações sobre a Escola de Chicago, sobre seus estudos urbanos relacionados à criminalidade e à organização espacial da cidade. O autor apresenta, ao final de seu livro, um estudo aplicado às cidades brasileiras a partir da teoria desenvolvida por Robert Park e Ernet Burguess. Embora trate do tema da criminalidade, o livro é rica fonte de informações sobre a Escola de Chicago como local de produ‐ ção teórica. 39 MAGNANI, José Guilherme Cantor. A antropologia urbana e os desa‐ fios da metrópole. Tempo Social, São Paulo, v. 15, n. 1, abr. 2003. Dispo‐ nível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103‐ 20702003000100005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 28 jul. 2008. Neste artigo, o leitor encontra orientações sobre a realização de trabalho de campo no âmbito dos contextos urbanos, que podem auxiliar na elabo‐ ração de futuras pesquisas sobre o tema dos movimentos sociais urba‐ nos. Nesse texto, o autor destaca o ineditismo dos trabalhos de campo da Escola de Chicago no âmbito da própria tradição antropológica. Atividades 1) Marque a resposta que completa o cabeçalho do exercício. A Esco‐ la de Chicago, quando se sua criação, sofreu influência do: a) forte processo de interiorização da população estadunidense no início do século XX b) acelerado fenômeno de urbanização pelo qual passou a cida‐ de de Chicago que também recebeu grande número de imi‐ grantes c) pensamento filosófico francês do final do século XIX d) pensamento latino‐americano acerca dos movimentos sociais 2) H. Becker diferencia “escola de pensamento” de “escola de ativi‐ dades”. Para esse autor, uma “escola de atividades” é aquela: a) em que os pesquisadores devem compartilhar a mesma base teórica e conceitual b) em que todos tomam um mesmo referencial teórico como ponto de partida de suas análises c) em que os pesquisadores compartilham um mesmo universo de pesquisa, que elaboram estudos que se complementam e que acabam por colaborar mutuamente ao longo de seus es‐ tudos d) em que todos praticam apenas técnicas de coleta de dados qualitativas e etnográficas deixando de lado investigações cujos dados possam ser aferidos quantitativamente 40 3) A teoria de George Simmel influenciou a Escola de Chicago: a) em suas concepções de “massa” e indivíduo e na valorização do conflito como tensão que se origina da relação do indiví‐ duo com as forças sociais b) quanto ao conceito de classe social e sociedade civil c) tendo Simmel, que foi professor de H. Blummer e o orientou em suas pesquisas nos Estados Unidos d) de forma superficial, com a tese de que tiveram pouca reper‐ cussão no desenvolvimento teórico em Chicago 4) Os movimentos sociais considerados “genéricos” por Herbert Blumer são capazes de potencializar transformações sociais. Essa mudança de valores pode ser chamada de: a) tendências radicais b) tendências culturais c) Escola de Chicago d) estudos urbanos 5) Herbert Blumer especifica cinco estágios no processo de desenvol‐ vimento dos movimentos sociais. Essas fases são interdependentes e denominadas, respectivamente: a) desenvolvimento do espírit de corps; desenvolvimento de uma moral; desenvolvimento de uma ideologia; formulação de tá‐ ticas; agitação b) desenvolvimento do espírit de corps; desenvolvimento de uma moral; agitação; desenvolvimento de uma ideologia; formu‐ lação de táticas c) desenvolvimento do espírit de corps; agitação; desenvolvimen‐ to de uma moral; desenvolvimento de uma ideologia; formu‐ lação de táticas d) agitação; desenvolvimento do espírit de corps; desenvolvimen‐ to de uma moral;desenvolvimento de uma ideologia; formu‐ lação de táticas 4 OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA EUROPA PÓS-ANOS 60 Cíntia Beatriz Müller Os novos movimentos sociais (NMS) marcaram a Europa após os anos de 1960 e demonstraram a insuficiência teórica dos referenciais de análise marxistas clássicos e norte‐americanos para explicar suficien‐ temente os novos acontecimentos. Alain Touraine dedicou‐se a estudos sociológicos sobre a realidade de vida de trabalhadores e estudantes, foi influenciado pelos eventos de 1968, uma série de protestos nos quais os estudantes tomaram a frente em suas reivindicações. Para esse autor, o principal conceito a ser apreendido no estudo dos movimentos sociais é o de ação, em oposição a um sistema dominante constituído. Já Melucci, priorizou a construção de suas análises a partir de estudos realizados em sindicatos e formas de participação política. Trata‐se de um pensador criativo que buscou em suas análises explicitar relações de desigualdade naturalizadas na sociedade a partir de suas análises empíricas. 4.1 Parâmetros gerais dos NMS Maria da Glória Gohn1 aponta, com bastante perspicácia, algumas características dos NMS: 1) A RETOMADA DA CULTURA COMO UM CONCEITO CEN‐ TRAL. Cultura é uma palavra polissêmica, ou seja, tem múltiplos significados. Ela pode fazer referência tanto ao cultivo de plantas, quanto ao grau intelectual de determinada pessoa ou, o que é mais corrente entre nós, ao conjunto de símbolos capaz de transmitir in‐ formações, capaz de potencializar a comunicação entre as pessoas. No âmbito dos movimentos sociais, o significado da palavra “cul‐ tura” aproxima‐se da “ideologia”, sem que esta última esteja, ne‐ cessariamente, atrelada a uma perspectiva de classe como na Teo‐ ria Marxista. 42 2) SUPERAÇÃO DO PARADIGMA DE ANÁLISE MARXISTA CLÁSSICO. A perspectiva teórica marxista clássica leva a uma análise macrossocial que, de certa forma, homogeneíza a diversi‐ dade que compõe os movimentos sociais. Além disso, a ênfase na análise economicista das disputas torna invisível o campo da polí‐ tica e da cultura, por exemplo, e anula o poder criativo do indiví‐ duo, ou o ator social, que permanece refém da macroestrutura econômica. 3) SUPRESSÃO DO GRUPO DE VANGUARDA. Os NMS marcam a emergência de atores difusos e que se organizam de forma não‐ hierarquizada. “A nova abordagem elimina a centralidade de um sujeito específico, predeterminado, e vê os participantes das ações coletivas como atores sociais”2. Portanto, a construção dos eixos de atuação dos NMS é feita em diálogo e não mais baseada em uma perspectiva iluminista, na qual uma parcela do movimento era capaz de ditar tendências de atuação ao grupo. A liderança passa a desempenhar um papel mais fluido, volátil, que se estabelece ao longo da atuação em vez de um corpo técnico consolidado. 4) VALORIZAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO. A política, nos NMS, assume um caráter de suma importância, pois deixa de ser vista como algo distanciado do ator, próprio do Estado. A perspectiva da política, agora, assume sua condição de prática cotidiana que envolve a todos. A política passa a ser analisada como vetor de forças que perpassa toda a sociedade civil e não apenas os negó‐ cios de Estado. 5) ÊNFASE NA ANÁLISE DA AÇÃO E DA IDENTIDADE COLE‐ TIVA AFIRMADA. A valorização recai sobre a identidade que o grupo luta em afirmar e não mais em algo externo que é social‐ mente imposto a ele. É justamente a luta pelo reconhecimento e pela afirmação das identidades que marca a coesão social do gru‐ po, define seus limites (de inclusão e exclusão) e aponta o rumo de sua ação coletiva. O olhar do pesquisador volta‐se para o conjunto de ações implementado no processo de construção dessa identi‐ dade, para assim, apreender seu significado e os sentimentos que evoca. O conjunto de características elencadas por Gohn demonstra que al‐ gumas categorias analíticas continuam sendo empregadas: ideologia, sociedade civil, lutas sociais e solidariedade. Na verdade, a análise dos NMS propõe o deslocamento do olhar da macroestrutura para a mi‐ croestrutura, ou seja, resgata o valor do cotidiano, das ações individu‐ ais e das vontades que movem o sujeito no interior do grupo. Essa 43 nova perspectiva, na verdade, toma alguns referenciais de análise da corrente estadunidense. Os interacionistas simbólicos, notadamente Erving Goffman, demonstravam interesse na forma de construção das identidades individuais. Passaremos a analisar o referencial de dois teóricos emblemáticos Alain Touraine e Alberto Melucci. Ambos abordam o fenômeno dos NMS a partir de perspectivas distintas, mas complementares. Alain Touraine: o ator retorna à cena Alain Tourainea (1925‐ ) é um pesquisador que, ainda hoje, encontra‐se elaborando suas ideias de forma crítica. Filiado à tradição teórica fran‐ cesa, retomou conceitos e ideias de outros pensadores dessa escola sociológica, como Sartre, ao trabalhar a noção de projeto3. A aborda‐ gem empregada por Touraine em sua análise sobre os movimentos sociais é denominada acionalista, pois: “o axioma aí implícito enfatiza o comportamento social, ou seja, a conduta dos indivíduos e grupos em termos de conflito ou de integração”4. Um dos méritos que Tourai‐ ne foi o de trazer o sujeito, denominado ator, como elemento dinâmico da história, verdadeiro agente de transformação social. Touraine5 parte em sua análise que retoma o protagonismo do ator, da constatação de que a sociedade enriquece‐se com a diversidade e que as decisões políticas e econômicas escapam cada vez mais do controle absoluto dos Estados nacionais. A racionalidade que deveria reger as ações sociais perde terreno para o desenraizamento e a instabilidade. As sociedades modernas passam a ser vistas como espaço de expressão da liberdade da criatividade humana. Para o autor, sociedade “é um conjunto de regras, de costumes e de privilégios contra os quais os esforços criadores, individuais e coletivos, têm de continuar a lutar”6. A ênfase aqui é dada à liberdade, pois é ela que confere ao sujeito a possibilidade de livrar‐se dos “princípios transcendentes” e dos valo‐ res comunitários. O protagonismo do sujeito, como agente transfor‐ mador da História, desloca a atenção das ações do Estado como tal. O sujeito é alguém criativo e não pode mais ser definido por termos históricos, pois é capaz de escolher sua própria lógica organizativa e os processos nos quais se quer engajar, em suma é o agente que constrói a história. História, para Touraine, significa “o conjunto de modelos culturais, cognitivos, econômicos, éticos, pelos quais uma coletividade constrói suas relações”7. Touraine continua, explicando que a história, a Para saber mais sobre a Democracia na América Latina, acesse: <http://www.dhnet.org.br/tecidosocial/anteriores/ts101/entrev_alain_touraine.htm>. 44 assim, é um conjunto de orientações culturais, cujos valores são seleci‐ onados e impostos pelo grupo dirigente à população. O conflito, a ação, acontece no momento em que grupos subordinados passam a lutar pelo controle e pela autonomia de sua própria historicidade (con‐ junto de modelos culturais) para livrar‐se do conjunto de valores esta‐ belecidos pelo grupo dirigente. O autor destaca que não se trata de classes sociais em disputa. Nesse caso, a disputa é pela autonomia na construção de sua própria historicidade, na qual o modelo cultural é transformado em sistema de relações sociais assimétricas, de domina‐ ção e de exercício de poder. Para Touraine, existem quatro espécies de condutas coletivas:1) CONDUTAS DE CRISE ORGANIZACIONAL: trata‐se de conflito que se estabelece entre membros de uma organização e aquele que detém a autoridade ou o poder. Via de regra, o conflito orienta ou para a desorganização ou para a reorganização8, o que faz das cri‐ ses organizacionais reféns da própria estrutura da organização. 2) TENSÕES INSTITUCIONAIS: essas tensões visam impor decisões sobre o quadro das organizações. O grupo tem noção dos limites do campo de decisão que não extrapola os limites da potenciali‐ dade das instituições e almeja melhorar sua posição frente ao campo. 3) PROTESTOS MODERNIZADORES: trata‐se de um tipo de protes‐ to “mais frequente na ordem cultural do que ordem social”9, é um protesto “contra a ausência de historicidade”, ou seja, os protestos modernizadores colocam‐se contra as posições reacionárias que preservam valores históricos antigos em detrimento de uma ação para o futuro. 4) MOVIMENTOS SOCIAIS: ações coletivas não orientadas por valores conscientes. Eles se definem pelo confronto de interesses opostos, um contramovimento, cujos adversários possuem um conjunto de símbolos de comunicação em comum.10 Movimento social para Touraine é formado pela conjunção de três princípios: da identidade, 5) PRINCÍPIO DA IDENTIDADE: a mobilização social antecede a consciência acerca da identidade, porém é fundamental ao ator poder identificar quem são as pessoas que integram o movimento e quem são as pessoas que se opõem a ele. “É o conflito que cons‐ titui e organiza o grupo”11. A identidade é a auto‐identificação, 45 que se revela no conflito com os adversários, na ação, e no reco‐ nhecimento do objetivo das reivindicações. 6) PRINCÍPIO DE OPOSIÇÃO: a organização do movimento e a consciência acerca da definição dos papéis de quem sejam os ad‐ versários são conquistadas na oposição, no conflito, ou seja, na ação. “Só se pode falar de princípio de oposição se o ator se sente confrontado com uma força social geral num combate que coloca em causa orientações gerais da vida social”12.b 7) PRINCÍPIO DA TOTALIDADE: é “o sistema de ação histórica cujos adversários, situados na dupla dialética das classes sociais, disputam entre si a dominação”13. Para analisar um movimento social, não podemos deixar de contextualizá‐lo no campo da histo‐ ricidade do qual ele emerge e das classes ou forças sociais que se encontram em oposição, em disputa pelo monopólio “de um sis‐ tema de ação histórica”14. É importante destacar que, para Touraine, os movimentos sociais não são uma reação às imposições da sociedade, mas, em ordem inversa, a sociedade é que reflete a situação de conflito entre os movimentos sociais.15 “Um movimento social é uma ação conflitual pela qual certas orientações culturais, um campo de historicidade, são transformados em formas de organização social, definidas tanto por normas culturais gerais como por relações de dominação social”16. As desigualdades sociais acirradas pelo modelo econômico preponde‐ rante no cenário internacional incrementaram o cenário de conflito social, ensejando a ação coletiva em defesa de valores, sociais e cultu‐ rais, de comunidades. O conceito de movimento social não é dissociado do de classe para Touraine, porém enquanto a classe reflete uma posição do grupo frente à estrutura (não há que se falar em sujeito) os movimentos sociais são ação materializada por meio da conduta de atores. Com essa distinção, Touraine marca posição diante do marxismo e seu distanciamento da matriz economicista (um princípio metassocial) como principal mote explicativo das transformações históricas. O movimento social não é ação independente de outros conflitos, pois combina “a referência a b Para a análise da “vida social” existem três elementos preponderantes: o sujeito, a historicidade e os movimentos sociais. Estes últimos “combatem para dar forma social a essas orientações culturais”. (TOURAINE, 1996, p. 70). 46 um campo cultural e a consciência de uma relação social de domina‐ ção”17. Alberto Melucci: a identidade e os movimentos sociais Alberto Melucci, cientista social e psicólogo clínico, ao contrário de Touraine, que centrou sua análise sobre os sistemas macrossociais, tomou como referência o nível micro, colocando em evidência a ação coletiva sob a ótica psicossocial ‐ de acordo com Gohn18, um dos teóri‐ cos fundadores do paradigma da identidade. Melucci19 encontra‐se preocupado com a forma como a globalização, as desigualdades eco‐ nômicas e sociais e os matizes do desenvolvimento têm‐se imbricado com as ações coletivas, notadamente, os movimentos sociais. Nesse cenário, os movimentos sociais teriam um papel de ação inovadora, pois enriquecem a participação e a diversidade na vida democrática, cujas transformações têm se dado em escala global. Melucci, em suas pesquisas, analisa as ações coletivas e busca “decom‐ por a unidade empírica dos fenômenos”20 para se elaborar uma contri‐ buição analítica e solucionar a indagação acerca da medida em que os movimentos sociais têm influenciado as mudanças sociais. Ao planejar a decomposição dos elementos da ação coletiva, o autor afirma dar‐se conta da necessidade de reformularmos o quadro conceitual referente à discussão, tendo em vista o paradoxo que se estabelece entre socie‐ dade e os sistemas complexos na modernidade. A sociedade, por sua vez, tem investido em recursos de autonomia de atores individuais e coletivos com o aumento da circulação de informações. Por outro lado, tendo em vista as especificidades na circulação, cada vez maior, da informação, os métodos de controle e de exercício do poder adquirem uma capilaridade que vai até a intimidade do sujeito. (.) Ponto final Os NMS emergiram na Europa nos anos de 1960 como uma reação às transformações sociais e culturais que ocorreram no período. Suas características são, a grosso modo: a revalorização da noção de cultura; a superação do paradigma marxista, a supressão da vanguarda; a valorização do campo político e a ênfase na noção de identidade cole‐ tiva. Alain Touraine e Alberto Melucci são dois dos principais expoen‐ tes teóricos desse momento. Touraine retoma a valorização do ator e ao protagonismo do sujeito ser humano criativo capaz de transformar as forças históricas, ao passo que Melucci focaliza os contextos micros‐ sociais, conferindo aos movimentos sociais um potencial de inovação e de transformação capaz de operar em escala planetária. 47 Indicações culturais KURLANSKY, Mark. 1968: o ano que abalou o mundo. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. Neste livro, o autor traz um apanhado dos aconte‐ cimentos ao longo de todo o ano de 1968 ao redor do mundo e leva‐nos a questionar que tipo de espírito de época prevaleceu naquele ano em que os acontecimentos globais de guerras, revoluções e reconstruções do modo de viver influenciam todos os âmbitos sociais. OS SONHADORES. Direção: Bernardo Bertolucci. Produção: Jeremy Thomas. Estados Unidos: Fox Searchlight Pictures, 2003. (130 min). Neste filme, a intenção do diretor é provocar o público a rememorar não apenas o que ocorreu em maio de 1968 em Paris, mas se dar conta do impacto que esse período trouxe sobre os costumes na época. O filme é bastante provocativo, mas vai ao encontro do espírito da época, que é o de romper com valores do passado e das estruturas de poder tradicionais. Atividades 1) A demanda pelo aperfeiçoamento dos recursos teóricos acerca dos movimentos sociais que desembocou na teoria dos Novos Movi‐ mentos Sociais (NMS) foi uma decorrência da: a) superação dos referenciaisteóricos marxistas e estaduni‐ denses e o ineditismo dos acontecimentos culturais, econômicos e sociais dos anos 60 b) retomada dos valores conservadores dos anos de 1930 e a depressão da economia dos Estados Unidos c) acontecimentos como a crise do petróleo, a revolução de 1968 e a tomada da Bastilha, em Paris d) o deslocamento do eixo de influência geopolítica do sentido ocidente−oriente para o eixo sul−norte 2) A luta pelo reconhecimento de identidades coletivas é importante no contexto dos NMS, pois: a) a emergência de novas identidades individuais enriquece a discussão e auxilia na não configuração de grupos e reivin‐ dicações coletivas 48 b) a luta pelo reconhecimento é uma reivindicação que se conduz individualmente e não há necessidade de identida‐ de coletiva nesse contexto c) a afirmação das identidades marca a coesão social do gru‐ po, define seus limites (de inclusão e exclusão) e aponta o rumo de sua ação coletiva d) é esse o espírito marxista 3) Para Alain Touraine, o conceito de sujeito é importante, pois ele é uma pessoa autônoma: a) e extremamente dependente das ações dos Estados‐ Nacionais b) incapaz de avaliar racionalmente suas possibilidades de ação c) e essa afirmação é um equívoco: o conceito de sujeito não diz respeito à teoria desenvolvida por este pesquisador d) e é alguém criativo e não pode mais ser definido por termos históricos, pois é capaz de escolher sua própria lógica orga‐ nizativa e os processos nos quais se quer engajar, em suma, é o agente que constrói a história 4) Movimento social, para Touraine, é formado pela conjunção de três princípios: da identidade, de oposição e da totalidade. O prin‐ cípio da identidade é aquele que se: a) identifica na falta de disputa e em interações consensuais b) revela no conflito, na oposição e no reconhecimento do ob‐ jetivo das reivindicações c) manifesta em momentos de paz e tranquilidade entre os grupos sociais d) constrói na análise das características dos sujeitos em mani‐ festações pacíficas do cotidiano 5) Alberto Melucci encontra‐se preocupado com a forma como a globalização, as desigualdades econômicas e sociais e os matizes do desenvolvimento têm‐se imbricado com as ações coletivas, no‐ 49 tadamente, os movimentos sociais. Para ele, os movimentos soci‐ ais: a) seria grupos dispensáveis, pois não seriam capaz de desen‐ volver transformações sociais b) decorrem de fatores distintos, dentre os quais a globaliza‐ ção, porém não se caracterizam por ações inovadoras, ser‐ vindo para reforçar as disparidades econômicas e sociais c) são atores banais da sociedade civil, não representam qual‐ quer potencial de mudança social d) teriam um papel de ação inovadora, pois enriquecem a par‐ ticipação e a diversidade na vida democrática, cujas trans‐ formações têm se dado em escala global 5 MOVIMENTOS SOCIAIS: AS REDES DE ORGANIZAÇÕES E A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA IDENTIDADE Cíntia Beatriz Müller O objetivo deste capítulo é oferecer subsídios ao leitor para que conhe‐ ça a origem e o significado do conceito de redes nas Ciências Sociais; contextualizar a apropriação do modelo das redes pelos Movimentos Sociais; e, por fim, levá‐lo a compreender que a luta pela construção social da identidade é um reflexo da sociedade em rede e dos movi‐ mentos sociais organizados em rede. 5.1 O conceito de rede na antropologia dos Estados Unidos e na Britânicaa O termo “rede” refere‐se a um conceito que não é novo na teoria socio‐ lógica. Até a década de 1970, o conceito não tinha uso difundido nos Estados Unidos, onde era empregado para a análise de relações em pequenos grupos ou de suas estratégias de comunicação. Instrumentos de coleta de dados aplicados em grupos de parentesco, vizinhança e amigos, coletavam informações que subsidiavam a configuração das redes sociais por parte dos pesquisadores e do tipo de conteúdo e solidariedade que percorriam suas conexões. A noção de rede era confundida frequentemente com o de “campo”, ou seja, um dado es‐ paço social onde as relações constroem‐se. O primeiro pesquisador a utilizar o conceito de rede, efetivamente, foi Caplow, em 1955, nos Estados Unidos. Em seu texto, ele já empreendia a classificação de redes quanto a origem do contato (trabalho, residência) e a sua condi‐ ção de sobreposição. Porém, de acordo com Bott1, seu estudo não foi compreendido pelos pesquisadores estadunidenses e britânicos. Mais tarde, o termo “redes” foi um pouco mais refinado e empregado com o termo “círculo social”, ao final da década de 1960. “Seu estudo é de uma importância especial para os estudos das “redes totais”, quer a A seção 5.1 é baseada em: BOTT, 1976. 51 dizer, redes que não são definidas pela seleção de uma pessoa particu‐ lar ou de um grupo específico, como o ponto focal ou ‘ego’”2. Bott assinala que, para Kadushin3, a grande razão para a configuração de uma rede eram os interesses compartilhados, em comum. Assim, destaca Bott, enquanto os pesquisadores britânicos partiam da investi‐ gação acerca das pessoas para, a partir delas, atingir a configuração de sua rede social os pesquisadores estadunidenses partiam da pesquisa acerca dos interesses em comum. Marcadamente, o conceito de rede teve início a partir de estudos realizados com minorias políticas e naci‐ onais: em relação aos Estados Unidos, com as tribos indígenas, e aos britânicos, com as tribos africanas. John Barnes (1954), A. Epstein (1961 e 1969), Max Gluckman (1969), Philip Mayer (1961) e Adrian Mayer (1962) são alguns antropólogos britânicos que realizaram análises utilizando o conceito de rede social. Assim, concluíram que o fenômeno da configuração de redes ocorre tanto em meio urbano quanto rural, e presta‐se tanto ao estudo de vizinhanças quanto de situações mais complexas, como uma conjuntu‐ ra de eleição na Índia.4 Boissevain5 empregou o conceito para analisar facções e partidos políticos, ou seja, processos políticos dinâmicos e, em 1968, ofereceu um conceito que Bott considerou como uma contri‐ buição significativa para a época: “as redes sociais como a matriz social geral a partir da qual várias formas de quase‐grupos e, eventualmente, grupos e grupos corporativos podem ser diferenciados em certas cir‐ cunstâncias”6. 5.2 A globalização e a reconfiguração dos Estados Nacionais Os Estados Nacionais, na era da globalização, são verdadeiros territó‐ rios em rede. Como foi visto acima, a noção de rede não é estranha à Sociologia, tendo sido alvo de estudos desde os anos de 1960. O que se transforma com a globalização são as proporções que tais redes to‐ mam. Elas se avolumam e se transformam em redes por onde vagam capitais flutuantes, produtos relacionados à Informática, por exemplo. As redes compostas por pessoas que se encontram em organizações transnacionais e Estados passam a assumir um importante protago‐ nismo no mundo globalizado. Uma das marcas da globalização é a relativização das fronteiras dos Estados‐nacionais, principalmente, quanto ao fluxo de capitais. A velo‐ cidade com que operações comerciais e investimentos viajam pelo mundo traduz‐se no simples acionar do teclado de computadores e os 52 meios de comunicação por sinais eletrônicos não conhecem fronteiras que não seja a imposta pelo idioma. A volatilidade das relações, das informações e do capital, além de refletir sobre a noção de Estado Na‐ cional, também tem contribuído para se repensar a configuração do poder mundial. O Estado, que outrora regulava a maior parte das atividades sociais e econômicas que ocorriam em seu território,além de manter o monopólio do uso dos meios de coerção teve que, paulati‐ namente, rarefazer sua soberania7. Frente ao processo planetário da globalização, o Estado tem diminuído seu campo de atuação, é extremamente difícil de manter senão no sentido mais estreito, de “policiamento do território e da população”. [A debilitação do Estado, contudo, é tributária da nova ordem globalizada, principalmente, da necessidade de trânsito sem obstáculos do capital econômico] Deliberada ou subconscientemente, esses interEstados, instituições supralocais que foram trazidas à luz e têm permissão de agir com o consentimento do capital mundial, exercem pressões coordenadas sobre todos os Estados membros ou independentes para sistematicamente destruírem tudo que possa deter ou limitar o livre movimento de capitais e restringir a liberdade de mercado.8 Longe de ser uma crise passageira, a ordem internacional demanda Estados menos interventores, praticamente, reduzidos à função de controlador social e administrador do policiamento da população. Trata‐se de um processo interligado, com repercussão em outros pla‐ nos da vida, do dia‐a‐dia, integração do capital mundial, esfacelamen‐ to do território dos Estados em parcelas de soberania restrita, o desen‐ volvimento tecnológico acelerado. Nesse cenário, contudo, “as rique‐ zas são globais, a miséria é local”9. Com a rarefação do Estado também a esfera pública, campo de interação entre sociedade civil, Estado e instituições políticas, torna‐se mais volátil, de difícil interação. Esse mesmo contexto também forçou uma revolução tecnológica. O incremento no uso da Informática nos processos de produção, comer‐ cialização e consumo de bens desencadeou novos processos de compe‐ tição e circulação de informações e valores entre os agentes de produ‐ ção e consumo. Assim, o capitalismo passa a reorganizar‐se em escala mundial e passa a “empresariar as atividades científicas”, ou seja, é instituída a “tecnociência”. “Objeto da apropriação privada, a tecnoci‐ ência transmuta‐se em mercadoria de alto valor, progressivamente inserida no cotidiano das sociedades, em suas estrutura de poder e em suas matrizes simbólicas”10. A nova reconfiguração de poder ensejou o deslocamento do eixo de tensão mundial do sentido leste‐oeste para o sentido norte‐sul. Ao 53 mesmo tempo, empresas transnacionais passaram a investir, buscando a maximização dos lucros em países do Hemisfério Sul, enquanto mantiveram o poder de decisão em países do norte. Este, também, tende a ser o sentido do fluxo de capital o que acaba por manter níveis subumanos de desenvolvimento local com o enxugamento sistemático dos capitais de mercados do sul. O deslocamento do capital é facilita‐ do, justamente, pela revolução tecnológica. Deslocamento do eixo de tensão Movimentos sociais Os movimentos sociais no contexto globalizado A coincidência do processo de democratização nos países da América Latina com um ciclo de abertura do capital nacional para o mercado internacional foi um dos fatores que obrigaram os movimentos sociais a reconfigurar sua forma de atuação. A sociedade civil também foi impactada por essa nova ordem mundial e, englobada por ela, as or‐ ganizações que compõem o terceiro setor. Scherer‐Warren11 destaca três níveis de organização da sociedade civil: a) ASSOCIATIVISMO LOCAL: Segundo esta autora, “como as asso‐ ciações civis, os movimentos comunitários e sujeitos sociais envol‐ vidos com causas sociais ou culturais do cotidiano, ou voltados a essas bases”. Este nível reúne organizações do terceiro setor locais ou comunitárias, por exemplo, associações de bairro, organizações não‐governamentais, núcleos do movimento dos trabalhadores rurais sem‐terra. Apesar de possuírem status de local, essas orga‐ nizações têm travado alianças e relações em níveis nacional e transnacional. b) ARTICULAÇÕES INTER‐ORGANIZACIONAIS: Neste nível, podemos identificar a coalizão de organizações, como destaca nossa autora, na composição de fóruns, associações e redes de re‐ des. Esse formato potencializa a tomada de posição de grupos da 54 sociedade civil frente ao Estado e é propulsado pelo uso da Infor‐ mática e das novas tecnologias: agora, além da possibilidade de envio de mensagens escritas, que acabava por selecionar o tipo de usuário da rede. Novos softwares possibilitam o envio de mensa‐ gens de voz. É possível, por meio da banda larga, realizar conver‐ sas e reuniões internacionais sem adicionar custos ao orçamento da organização. c) MOBILIZAÇÃO NA ESFERA PÚBLICA: Este tipo de articulação busca provocar efeitos de sua incidência nos espaços de diálogos na esfera pública. Para tanto, são organizadas estratégias de visibi‐ lidade dos problemas sociais, por exemplo, protestos, utilização dos espaços de mídia alternativa para esclarecimentos e divulga‐ ção acerca do objeto das reivindicações. Vale destacar o caráter si‐ tuacional dessas redes, uma vez que o conflito entre seus compo‐ nentes tende a enfraquecê‐las no sentido do desgaste das relações e na alteração do fluxo das informações. Destacamos que as relações que se estabelecem nesses três níveis e que aparentemente constroem‐se com base em situações políticas específi‐ cas, bastante pontuais, que se manifestam em determinadas situações, dizem respeito ao fenômeno social da configuração de redes de movi‐ mentos sociais. Em outras palavras, o Movimento Social, em sentido mais amplo, se constitui em torno de uma identidade ou identificação, da definição de adversários ou opositores e de um projeto ou utopia, num contínuo processo em construção e resulta de múltiplas articulações acima mencionadas.12 A coalizão de grupos requer, assim, uma identidade ou a identificação de problemas em comum, cuja organização em rede poderá empoderar os personagens que dela participam no sentido da conquista social de direitos de cidadania. 5.3 Atores sociais em busca de uma identidade Manuel Castells destaca que o cerne do significado do termo “identi‐ dade” tem a ver com a relação entre pessoas e povos, no que diz res‐ peito aos atores sociais identidade seria, para o autor, “o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter‐relacionados”13. É pacífico que um indivíduo possa portar inúmeras identidades e que a evocação de uma ou outra é situacional, porém, para Castells, essa variação pode ser uma fonte de tensão em momentos de ação social e de auto‐ representação dos atores. A identidade é uma forma de individuação 55 do ator ao mesmo tempo em que é parte do processo de sua própria autoconstrução, quer como indivíduo, quer como grupo. Castells lança seu foco de análise sobre o processo social de construção das identidades coletivas, o que sempre ocorre em contextos de relação de poder. Essas relações, reforço, estabelecem‐se, em sua maioria, em situações de relações assimétricas. Assim, o autor desenvolve uma tipologia tripartite de processos de construção de identidades coletivas que originam distintos resultados14: a) IDENTIDADE LEGITIMADORA. Estabelecida a partir de estrutu‐ ras de poder e dominação da sociedade que, por meio da constru‐ ção de identidades, visa estender o alcance de sua incidência e controle sobre os atores sociais. Ee tipo de identidade origina uma sociedade civil entendida como campo de interação entre grupos de atores e aparatos de Estados. A dinâmica de interação pode po‐ tencializar a transformação do Estado, por exemplo, como para Gramsci e Tocqueville, a partir de identidades semelhantes com‐ partilhadas,por exemplo, a cidadania ou a democracia; ou, con‐ forme Horkheimer, Marcuse, Sennet e Foucault, potencializam es‐ tratégias de dominação por parte de agências estatais e a homoge‐ neidade pela da imposição de identidades. b) IDENTIDADE DE RESISTÊNCIA. É a identidade que emerge a partir de situações sociais de conflito, embasada em atores que vi‐ vem em posições estereotipadas ou desvalorizadas da sociedade. Esses atores criam verdadeiros nichos de luta frente a identidades nacionais englobantes e legitimadoras em que potencializam a cri‐ ação e o implemento de políticas de identidade que lhes assegu‐ rem o respeito pela diferença. A identidade de resistência pode le‐ var à constituição de comunidades nas quais se reúnem atores mobilizados em ações de resistência coletiva. c) IDENTIDADE DE PROJETO. Com esse tipo de identidade, os atores pretendem não apenas posicionarem‐se em outro patamar na hierarquia social, mas, também, transformar a própria estrutu‐ ra social. Esse tipo de identidade produz sujeitos a partir da cono‐ tação tomada por Tourraine. “A construção da identidade consiste em um projeto de uma vida diferente, talvez com base em uma identidade oprimida, porém expandindo‐se no sentido da trans‐ formação da sociedade como projeto de identidade”15. Castells16 destaca que essa tipologia não é estanque. Ela é permeável sendo que uma identidade pode variar de posição, sendo, por exem‐ plo, ora de resistência ora de projeto, há uma dinâmica de identidades 56 que não obedece a um roteiro pré‐definido e cuja análise é material de estudo do cientista social, principalmente. Ao longo desse estudo, o pesquisador não pode descuidar‐se da situação histórica de construção da identidade. Dessa forma, para o autor, é importante situar a discus‐ são sobre a construção social da identidade no contexto histórico da sociedade em rede. Frente às novas relações estabelecidas na sociedade globalizada, as sociedades civis sofrem com o processo de fragmentação, pois “não há mais continuidade entre a lógica da criação de poder na rede global e a lógica de associação e representação em sociedades e culturas específi‐ cas” 17. O fluxo de poder que se propaga nos diferentes sentidos da rede, mas, via de regra, em direção a um centro que acaba por se opor ao local, lócus – geográfico ou espacial – no qual o indivíduo estabelece seus critérios de auto‐identificação. Por isso, para Castells18: enquanto na modernidade a identidade de projeto fora constituída a partir da sociedade civil (como, por exemplo, no socialismo, com base no movimento trabalhista), na sociedade em rede, a identidades de projeto, se é que se pode desenvolver, origina‐se a partir da resistência comunal. Nos próximos capítulos, estudaremos os movimentos sociais na socie‐ dade em rede, atuando, também, eles por meio de redes. (.) Ponto final Neste capítulo, procuramos informar o leitor da origem das discussões sobre o conceito de rede e do fato de que ela não é algo estranho às análises no campo das Ciências Sociais. Além disso, enfatizamos que a composição de redes não é um fenômeno restrito aos movimentos sociais, mas algo que está se consolidando na sociedade globalizada. Terminamos por apresentar como teóricos estão se reportando a dife‐ rentes níveis de organização da sociedade civil por consequência da emergência de uma sociedade em rede. Por fim, apresentamos o quan‐ to as mobilizações sociais têm ensejado a construção social de identi‐ dades, cuja tipologia é explicitada por Manuel Castells, nos próximos capítulos retomaremos a perspectiva da organização em rede e a emergência das novas identidades frente aos movimentos ambientalis‐ ta e pelo reconhecimento. Indicações culturais QUANTO vale ou é por quilo? Direção: Sérgio Bianchi. Produção: Patrick Leblanc e Luís Alberto Pereira. Brasil: Riofilme, 2005. (104 min). Este filme promove uma forte crítica às organizações do Terceiro Setor e a 57 forma como têm interagido com os excluídos. A partir dele é possível perceber a configuração de redes de “solidariedade” (financiadores, organizações não governamentais) ao mesmo tempo em que se de‐ monstra que a estrutura social excludente muito pouco mudou ao longo dos séculos no Brasil. (para assistir ao trailler acesse: <http://www.quantovaleoueporquilo.com.br/>. SEMINÁRIO CONTRA O RACISMO AMBIENTAL, 1, 2005. Niterói. Disponível em: http://br.youtube.com/results?search_query=semin%C3%A1rio%20raci smo%20ambiental&search=Search&sa=X&oi=spell&resnum=0&spell=1 Acesso em: 19 maio 2008. Neste conjunto de vídeos, o leitor pode en‐ trar em contato com uma ação estratégica do Grupo de Trabalho contra o Racismo Ambiental. Ao promover o I Seminário Brasileiro contra o Racismo Ambiental o GT reuniu, na Universidade Federal Fluminense, no ano de 2005, pesquisadores acadêmicos e integrantes de organiza‐ ções não‐governamentais, representantes de povos tradicionais (indí‐ genas e quilombolas), dando visibilidade ao problema do Racismo Ambiental no Brasil. O GT contra o Racismo Ambiental é uma rede de organizações estrutura da no interior da Rede Brasileira de Justiça Ambiental sobre a qual iremos conversar no capítulo específico sobre o movimento socioambiental. REDE DE INFORMAÇÕES PARA O TERCEIRO SETOR. Disponível em: <http://www.rits.org.br/>. Acesso em: 28 jul. 2008. Neste site, o leitor tem contato com uma rede fundada em 1997, cujo principal obje‐ tivo é o de oferecer subsídios para o fortalecimento de outras organiza‐ ções e dos movimentos sociais. Sua principal vocação é a de articular informações, conhecimento e recursos técnicos para tais atores, com ênfase na utilização da Tecnologia da Informação e Comunicação (TICs). Atividades 1) As redes sociais são fenômenos: a) exclusivamente urbanos b) sinônimos de campo social c) que surgiram com a globalização d) que ocorrem tanto em localidades urbanas quanto rurais, marcam vínculos de laços de solidariedade e permitem a 58 identificação de grupos sociais que compartilham padrões morais e interesses em comum 2) Uma das consequências da globalização frente ao poder mundial: a) foi o fortalecimento dos Estados‐Nacionais b) foi o deslocamento do eixo de poder e dominação no sentido norte‐sul c) foi a redistribuição de lucro e alimentos entre os países mais pobres e mais ricos d) foi a disseminação de valores ambientais onde a interação do homem com a natureza cultivou o respeito pelo “verde” 3) As redes de mobilização que atuam na esfera pública são estraté‐ gicas: a) para a realização de ações apenas de cunho local b) têm um forte caráter informativo e atuam frente ao Estado, sociedade civil e instituições políticas c) não são estratégicas para a mobilização de grandes grupos para protestos organizados, por exemplo d) não têm caráter de movimento social, pois não propiciam ações conjuntas entre vários atores 4) Sobre a “identidade”, não podemos dizer: a) que ela é situacional, o que permite que um mesmo ator acio‐ ne diferentes identidades em diferentes momentos b) que seu significado constrói‐se a partir de atributos culturais, que dependem da interação do sujeito com o grupo social ao qual pertence e com outros com o qual se constrói por con‐ traste c) que não é um fenômeno relevante em um contexto de globali‐ zação d) que a emergência de identidades coletivas ocorre, via de re‐ gra, em situações de relação de poder assimétrica em que um grupo passa a mobilizar‐se, tendo em vista o desrespeito a seus valores morais e condições de vida 59 5) A “identidade de resistência”: a) não emerge em situaçãode conflito b) depende da existência prévia de uma identidade do tipo legi‐ timador c) coloca em evidência valores estereotipados e sinais de domi‐ nação d) é algo que não se percebe nos Estados Nacionais 6 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS: LUTA POR RECONHECIMENTO Cíntia Beatriz Müller Encerramos o capítulo anterior explicando sobre a construção social da identidade na sociedade em rede. Daremos continuidade à discussão discorrendo sobre as lutas pelo reconhecimento dessas identidades em efervescência no mundo globalizado. 6.1 A luta pelo reconhecimento impulsionada pela construção social da identidade Embora o termo “reconhecimento” tenha sido empregado por teóricos dos movimentos sociais, ele não se consolidou em termos teóricos acadêmicos, campo no qual a expressão “luta social” mostrou‐se mais bem estabelecida, reportando ao “significado de uma concorrência por chances de vida ou de sobrevivência”1. Mesmo aqueles teóricos que aprofundaram sua investigação sobre a dimensão da “luta” ignoraram em suas elaborações teóricas o aspecto moral do conflito. Georg Sim‐ mel, de acordo com Honneth2, chega a atribuir a “sensibilidade social para a diferença” relevância na composição de conflitos, porém Sim‐ mel não chega a relacionar esse fator como algo ligado aos pressupos‐ tos intersubjetivos do reconhecimento de identidades coletivas ou pessoais. A Escola de Chicago seguiu o mesmo caminho, valorizando elementos como genéricos de “honra, glória e prestígio”, deixando de avaliar elementos que poderiam explicar‐nos um pouco mais “sobre como determinar adequadamente a lógica moral das lutas sociais”3. Para Honneth, a ação dos movimentos sociais guarda relação com a experiência moral do desrespeito. Essa possibilidade de análise foi ignorada pelos teóricos das ciências sociais. As explicações dadas aos conflitos foram, muitas vezes, reduzidas a dimensões de “distribuição desigual objetiva de oportunidades materiais de vida”4, como se a lógica de distribuição estivesse posta em separado da ordem cotidiana da vida e de suas implicações morais e emotivas. Por isso, confronta‐ mo‐nos com uma dimensão do conflito que denominamos de “luta 61 social” que se constrói a partir da indignação pelo desrespeito aos valores morais de justiça estabelecidos. Para entender o significado da “luta pelo reconhecimento”, é pressuposto compreendermos os meca‐ nismos sociais que estabelecem o nexo, ou a conexão, entre “desrespei‐ to moral” e “luta social”5. Segundo Honneth, a luta pelo reconhecimento emerge em um contexto de tensão moral que torna possível a valorização de identidades sociais passíveis de serem compartilhadas, ou seja, adquirem caráter de mo‐ vimento coletivo. Na mesma obra, Honneth afirma que o reconheci‐ mento do direito e da estima social detém o potencial para deflagrar o tipo de tensão social necessário para a luta, uma vez que o desrespeito a essa forma de reconhecimento transcende a pessoa e adquire caráter coletivo, afetando a todos os portadores de uma identidade coletiva. A experiência compartilhada do desrespeito funciona como “motivos diretores da ação, na exigência coletiva por relações ampliadas de reconhecimento”6. Os meios pelos quais as lutas pelo reconhecimento e pela resistência impõem‐se, colocam‐se a partir das experiências morais, que definirão a forma como as coletividades irão “articular publicamente os desres‐ peitos e as lesões vivenciados como típicos e reclamar contra eles”7. No entanto, para empreender a luta pelo reconhecimento, os movimentos sociais independem de ter ou não consciência do desrespeito moral que vivenciam seus atores, pelo contrário, levando em consideração a retórica das ações baseadas em princípios que transformam e naturali‐ zam as diferenças, principalmente, aqueles relacionados aos interesses materiais. Via de regra, os atores desconhecem o desrespeito que so‐ frem as identidades sociais mobilizadas na luta. A identidade coletiva do movimento social está baseada no nexo que liga sua finalidade da ação às experiências que os atores têm da lesão.8 Segundo Honneth9, a experiência do desrespeito, que desencadeia a resistência e a rebelião, faz‐se sentir na ruptura da expectativa do reco‐ nhecimento vinculado à identidade pessoal do sujeito. Essa expectativa de reconhecimento é vivida no cotidiano pela pessoa no convívio com o entorno sociocultural, quando ela é rompida. Esse sentimento de desrespeito adquire caráter coletivo a partir do momento em que o ator compartilha sua compreensão acerca da lesão e percebe‐o como típicos de uma coletividade. Ao identificar o tipo de lesão da qual a pessoa é alvo e compreender seu caráter coletivo, o indivíduo torna‐se capaz de apreender “as causas sociais responsáveis pelos sentimentos individuais de lesão”10. É na emergência desse sentimento de desres‐ peito que passa a ser percebido como compartilhado por uma identi‐ 62 dade coletiva, transcendendo a esfera individual, que se consolidam os motivos morais de uma “luta coletiva pelo reconhecimento”11. Nosso autor lembra que é necessário dizer, contudo, que nem todo o movimento social encontra‐se engajado em uma luta pelo reconheci‐ mento. Há mobilizações direcionadas a interesses e a fins específicos que se traduzem em atitudes coletivas. Os “sentimentos de desrespeito formam o cerne de experiências morais”12 entre as quais a expectativa de reconhecimento é vivida como parte da estrutura psíquica do sujei‐ to. O modelo de movimento que se inicia com base no sentimento coletivo de injustiça é aquele que se consubstancia na experiência da negação do reconhecimento jurídico ou moral. Trata‐se da luta pela integridade pessoal, de uma reação moral ao não‐reconhecimento, que possui uma gramática moral própria. Apreender essa dimensão da moral cotidiana apenas é possível por meio da combinação entre o método de pesquisa da “Antropologia social” e da “Sociologia da cultura” que desembocaram na “história do cotidiano”13. Honneth ainda afirma que, por intermédio da historiografia e da investigação da construção social dos padrões morais expressos por meios de hierar‐ quização de valores e dos estereótipos, pode‐se apreender “o sentido de uma regulamentação normativa que define as relações do reconhe‐ cimento mútuo”14. 6.2 A construção social da diferença no Brasil: o racismo à brasileira Como se deu a construção dos valores morais no Brasil? De acordo com os autores Laburthe‐Tolra e Warnier, etnocentrismo “consiste em manter a sua própria civilização e suas próprias normas sociais (construídas e depois adquiridas) como superiores às outras”15. Ou seja, a ação etnocêntrica organiza a humanidade em uma escala hierárquica que estabelece graus de valorização do ser humano, de acordo com a adesão, ou não, às regras compartilhadas pelo grupo que ocupa o topo da graduação social. Tal hierarquização pode ser combi‐ nada com o racismo (que é a ideia de que pessoas com diferentes as‐ pectos físicos pertencem a raças diferentes e, por isso, compartilham valores morais distintos e inferiores). Roberto da Matta16 sintetizou a construção desse mecanismo de hierarquização social na sociedade brasileira com o texto A Fábula das Três Raças ou o Problema do Racismo à Brasileira. Para o autor, o paradigma do racismo à brasileira permeia tanto a camada erudita quanto a popular, as quais formam o povo brasileiro, e contribui para colocar cada qual em seu lugar apropriado no âmbito da hierarquia de valores que permeia nossa sociedade. 63 A análise de A fábula das três raças, e sua permanência entre nós, forne‐ ce referênciaspara se pensar sobre “a distância significativa entre a presença empírica dos elementos e seu uso como recursos ideológicos na construção da ideologia social” do Estado brasileiro17. As três raças em questão aqui são definidas pelos traços físicos ou fenotípicos, carac‐ terística do racismo de marca que opera na sociedade brasileira, e são a branca, a preta e a índia. Com a descoberta do Brasil e a inserção da colônia no regime mercantilista, a concentração de terras sob o poder de poucos proprietários exigiu a exploração da mão de obra escrava em larga escala. “Era a Coroa portuguesa que, legitimada pela religião, pela política e pelos interesses econômicos, explorava soberbamente nosso território com sua gente, fauna e flora”18. A Coroa portuguesa passou a exercer sua dominação direta sobre o Brasil impondo a ele seu modelo de organização política e seu corpo de leis. Tal modelo era baseado em ações altamente centralizadas em figura do rei e em uma legislação universalizante, cuja pretensão de regramento se expandia da metrópole em direção à colônia19 De certa forma, mesmo sendo uma potência colonial na época, Portu‐ gal era desprovida de uma classe burguesa “com ideias igualitárias, individualistas e acreditando em um poder definidor total do mercado e do dinheiro”20. Assim, como Estado mercantilista, Portugal tinha em seu Rei o principal capitalista no país. A camada burguesa, nesse cená‐ rio, simplesmente complementa a camada dos nobres e o papel do próprio Rei. Nesse ínterim, a população negra brasileira escravizada é empregada na grande lavoura de cana e depois na exploração das minas, enquanto os grupos indígenas são exterminados e empurrados cada vez mais para o interior das fronteiras brasileiras. Com a proximidade da abolição da escravatura e da Proclamação da República, essa estrutura hierárquica centralizada é posta à prova. Se, por um lado, a Proclamação da República revelou‐se um movimento um tanto conservador que preservou a estrutura política e agrária do país, por outro, a abolição da escravidão oferecia uma real chance de transformação na estrutura da hierarquia social brasileira. “Deste mo‐ do, se a ideologia católica e o formalismo jurídico que veio de Portugal não eram mais suficientes para sustentar o sistema hierárquico, era preciso uma nova ideologia”21. Tal amarra foi fornecida pelo racismo. A ideia de raça, trazida à literatura especializada na França, no início do século XIX, propaga a noção de que existe uma herança física transmitida pelos seres humanos. A “raça” constrói‐se como uma rea‐ ção à noção de humanidade propalada pelo Iluminismo e aos valores igualitários “das revoluções burguesas”22. 64 De acordo com Schwarcz23, a definição dos tipos raciais emerge como produto da discussão sobre uma origem monogenista ou poligenista do homem. Segundo essa autora, os monogenistas concebiam uma origem única do homem. Muitos fundamentavam suas afirmações nos textos bíblicos, porém, apesar de uma origem compartilhada, o desenvolvi‐ mento dos grupos humanos, após a criação, dava‐se de forma diferen‐ ciada. Haveria diferentes graus de perfeição e a evolução não seria única. A hipótese poligenista, continua a autora, seria uma reação cientí‐ fica, tomando por base a especialização pela qual a Biologia, passou no período, aos preceitos religiosos sobre a criação. Conforme essa ideia, as diferentes raças originaram‐se embasadas em diferentes centros de criação. Essa perspectiva fundamentou a ideologia de que como as diferentes “raças” nasceram em distintos centros de criação. Poderiam, tendo em vista o diferente desenvolvimento que vivenciaram, ter ad‐ quirido diferentes propensões intelectivas e comportamentaisa. Guimarães mostra que o imaginário do Brasil pós‐abolição estava calcado na ideia de nação híbrida oriunda da inter‐relação entre bran‐ cos, negros e índios.24 Continua o autor afirmando que pensadores brasileiros viam o país do início do século XX como capaz de absorver diferentes culturas, principalmente de imigrantes europeusb que para cá convergiam vindos dos programas de imigração. Essa absorção de valores estrangeiros eram bem‐vinda, desde que fosse ao encontro da noção de modernidade, compartilhada pela elite nacional emergente no pós‐abolição. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a imigração foi suspensa, principalmente porque os grupos migrantes que chegaram foram os alemães, os italianos e os japoneses oriundos de países que compunham as potências do Eixo opostas ao Brasil no cenário mundial. Apenas na década de 30, o Brasil começou a reverter seu problema racial que, até então, era visto com base na matriz bioló‐ gica. Ao longo do período da importação de escravos africanos e da entrada de imigrantes europeus no país, as elites referiam‐se ao Brasil como um país “sem povo e sem cultura”25. Guimarães26 afirma que, em verdade, a propalada capacidade do Brasil de “absorver” outras culturas era a contra‐face da ausência de homo‐ geneidade interna de seu povo e de uma cultura nacional. Ao longo da Primeira República, a escravidão foi reconhecida como um sistema “inumano e aviltante”. Começou‐se a admitir a existência de uma a Esta correlação entre aspecto biológico e comportamental serviu de base para fundamentar as conclusões oriundas da Frenologia, da Antropometria e da Antropologia Criminal do século XIX (SCHWARCZ, 1993). b Entre 1850 e 1932, estima‐se que 4 milhões de europeus tenham migrado para o Brasil, estabelecendo‐ secido nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (GUIMARÃES, 2002, p. 118). Destacamos que a migração de japoneses para o estado do Pará para fugirmos do senso‐comum de que apenas os estados das Regiões Sul e Sudeste receberam esses imigrantes no país. 65 dívida cultural em relação à população negra brasileira e aos intelectu‐ ais do período passaram a interpretar o Brasil como ocupado não por uma raça, mas pelo povo brasileiro, ideologicamente visto, agora, como miscigenado. Guimarães salienta que a inclusão dos negros na historiografia nacional, assim como dos grupos indígenas, deu‐se pelo reconhecimento de uma participação primordial. Na fundação da cultura brasileira, a eles não foi reconhecida uma identidade autôno‐ ma. Essa inclusão simbólica do negro no mito fundador da sociedade brasileira, contudo, não solucionou seus problemas de desigualdade social. Entre os anos de 1560 e 1850 foram forçosamente importados para o Brasil entre seis e quatro milhões de africanos. A escravidão no Brasil oferecia uma complexa gradação de espaços de reconhecimento seletivo de necessidades e desejos dos dependentes do senhor, numa hierarquia cujo ápice é determinado pela maior ou menor proximidade em relação às preferências afetivas do senhor27. O caráter mais ou menos severo da escravidão passava pelo filtro de valores subjetivos e por uma economia de tarefas e apenas administra‐ da por aquele que ocupava o papel funcional de senhor. Com a aboli‐ ção da escravidão no país, foi dada liberdade aos ex‐escravos que fo‐ ram, então, substituídos em parte da grande lavoura do café, por exemplo, pela mão de obra imigrante, notadamente a japonesa e a italiana em São Paulo. Em outros locais do país, como em Pernambuco, os ex‐escravos passaram a viver nas bordas das grandes fazendas, servindo de mão de obra barata. Mesmo com a suspensão de imigra‐ ção e a valorização do operariado nacional e mestiço, na década de 30, o negro brasileiro sofreu com o preconceito e as desigualdades raci‐ ais28. Ainda segundoGuimarães29, Gilberto Freyre tem, sem dúvida, uma parcela de responsabilidade pela popularização da expressão “demo‐ cracia racial”, principalmente, ao divulgar a ideia de uma cultura bra‐ sileira como mestiça. O autor utilizava a expressão “democracia étni‐ ca” por oposição ao movimento integralista. Ainda de acordo com referências de Guimarães, para Freyre a superação de uma democracia política seria dada pela concreção de uma democracia étnica com a finalidade de justificar a adoção de medidas sociais e políticas não universais tomando por base a heterogeneidade nacional. Souza30 acrescenta que a acentuada industrialização e a urbanização do país no início do século XX apenas transferiu as desigualdades do campo para a cidade, a estrutura de dominação estava mantida e as condições de vida do povo negro precarizaram‐se. O poder patriarcal, antes pessoa‐ 66 lizado, agora passou a ser exercido em moldes abstratos e impessoais e, até mesmo, em cenários de Estado. À medida que o mestiço era incorporado à sociedade, como o tipo brasileiro, o negro passou pelo processo de proletarização e de demonização: As oposições deixam de localizar‐se nos binômios senhor/escravo ou coronel/dependente para assumirem formas impessoais como doutor/analfabeto, trabalhador qualificado/trabalhador desqualificado, morador de bairros burgueses/morador de favelas, etc. O que é comum a todos esses últimos binômios impessoais é que a relação entre positivamente privilegiados e negativamente privilegiados independe de um vínculo de subordinação construído a partir de uma situação particula.31. Para Telles32, nos anos 50, o mito da democracia racial brasileira teve reflexos internacionais. Data dessa década um conjunto de estudos solicitados pela Unesco que buscava compreender a harmonia racial em que vivia o povo brasileiro. Telles acrescenta que Florestan Fer‐ nandes, da Universidade de São Paulo, foi nomeado um dos pesquisa‐ dores líderes desse projeto, que acabou por tornar‐se um dos princi‐ pais instrumentos de contestação a ideia de democracia racial divulga‐ da por Gilberto Freyre, Marvin Harris e Charles Wagley. Fernandes centrou suas análises em relações de caráter hierárquico, buscando entender as relações de discriminação racial que estavam por trás da desigualdade que as ensejaram. Guimarães, citado por Telles33, destaca que Freyre e Fernandes estão construindo suas teorias em regiões diferentes do país, destacando que as perspectivas de ambos são pau‐ tadas em realidades regionais de relações étnicas diferenciadas. O grupo de pesquisadores de Freyre está elaborando suas pesquisas na Região Nordeste do Brasil ao passo que o grupo de Fernandes focali‐ zou seu campo de coleta de dados nas Regiões Sul e Sudeste de migra‐ ção europeia recente. Abdias Nascimento citado por Guimarães, na época em que o mito da democracia racial propagou‐se no Brasil “o status de raça, manipulado pelos brancos, impede que o negro tome consciência do logro que no Brasil chamam de democracia racial e de cor”34. Estava aberto o cami‐ nho para a ação do Movimento Negro Unificado e de outras organiza‐ ções que se consolidaram embasadas nessa identidade diferenciada. Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)c Os objetivos da CONAQ são a busca pelo respeito à identidade étnica do grupo e a promoção de ações de combate à discriminação racial e c Esta seção é baseada em: COORDENAÇÃO NACIONAL DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS QUILOMBOLAS, 2008. 67 de garantia dos direitos étnicos dos quilombolas. Por isso, a CONAQ pleiteia: Os objetivos da CONAQ são: a busca pelo respeito à identidade étnica do grupo e a promoção de ações de combate à discrimina‐ ção racial e de garantia dos direitos étnicos dos quilombolas. Por isso, a CONAQ pleiteia: a garantia do direito à terra e a implementação de projetos para o desenvolvimento sustentável das comunidades; a preservação dos costumes, da cultura e da tradição entre as gerações das populações quilombolas; a proposição de políticas públicas que valorizem a organização tradicional da comunidades, sua história e cultura; a garantia do respeito ao direito das crianças e adolescente para a continuidade da cultura e tradição das comunidades quilombolas; o combate à discriminação racial. Para tanto, a coordenação desenvolve ações no sentido de pressionar o governo a efetivamente implementar o que a Constituição Federal de 1988 obriga, ou seja, titular a propriedade das comunidades e ter sua identidade étnica respeitada, conforme está determinado no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da CF/88d. A Co‐ ordenação elabora documentos de protesto, como moções, notas públi‐ cas e convocatórias de ação, além de empreender diálogos com o go‐ verno federal, por exemplo, ao longo da consulta pública sobre a alte‐ ração da Instrução Normativa n. 20 de 19 de setembro de 2005e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, que especifica a forma como a titulação de suas terras deve ser feitaf. (.) Ponto final Ao longo deste capítulo, buscamos discutir de que forma as lutas pelo reconhecimento consolidam‐se em torno de identidades sociais com‐ partilhadas. O desrespeito a valores morais acaba por impulsionar conflitos, servindo de mote de coalizão de coletividades, embasado no d Para ver na íntegra o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 acesse: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm#adct>. e Para ver na íntegra a Instrução Normativa n. 20, de 19 de setembro de 2005 acesse: <http://www.incra.gov.br/arquivos/0148600045.pdf>. f Para saber mais acesse: <http://www.conaq.org.br/>. 68 momento em que surge a troca de experiências e impressões acerca da discriminação sofrida. O impacto da desatenção aos direitos econômi‐ cos, sociais, culturais, civis e políticos funciona como aglutinador para a formulação de pleitos coletivos que tomam por base a identidade. Por isso, trouxemos o exemplo das coordenações dos povos indígenas da Amazônia brasileira e das comunidades rurais quilombolas para ilustrar quem são, quais os objetivos e como são formuladas ações por parte desses atores. Indicações culturais BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva de um rio. Porto Alegre: LP&M, 2003. Este livro narra, com base em documentos históricos, a forma como o governo estadunidense tratou seus povos indígenas. Trata‐se de um relato bastante realista que explicita as tensões existen‐ tes entre os próprios povos indígenas e, principalmente, entre estes e o governo, que cercou suas terras, apropriou‐se de seus recursos natu‐ rais e minou suas relações sociais e culturais. VILLAS‐BÔAS, Cláudio; VILLAS‐BÔAS, Orlando. Xingu: História de Índios e Sertanejos. Porto Alegre: Kuarup, 1992. Este livro apresenta uma série de notas tomadas pelos sertanistas Villas‐Bôas em suas via‐ gens pela região do Xingu. VILLAS‐BÔAS, Cláudio; VILLASBÔAS, Orlando. Xingu: o Velho Kaia Conta a História do seu Povo. Porto Alegre: Kuarup, 1989. Neste livro, os sertanistas Villas‐Bôas trazem ao público a história da tribo Juruna, do Xingu, tomando por base as informações dadas pelo antigo chefe dela. NÚCLEO de Educação, Pesquisa e Cultura dos Povos do Mar. Compu‐ tação Gráfica: Carlos Bottesi. Brasil: Ministério do Meio Ambiente, 1997. (22 min). Disponível em: http://www.mma.gov.br/port/cid/video/636_bxres.wmv>. Acesso em: 29 jul. 2008. Trata‐se daapresentação dos resultados do Projeto Cultu‐ ral São Sebastião tem Alma que promoveu uma série de ações de res‐ gate e valorização da cultura dos povos tradicionais do litoral do esta‐ do de São Paulo, especialmente os caiçaras. São apresentadas ações do projeto relacionadas a mobilização, educação, saúde e divulgação da cultura caiçara. 69 Atividades 1) Axel Honneth afirma que a ação dos movimentos sociais guarda relação com a experiência moral do desrespeito. Em sua constru‐ ção teórica ele destaca a importância para as lutas por reconheci‐ mento do nexo entre: a) identidade e cultura b) desrespeito moral e luta social c) cotidiano e política d) classe social e marxismo 2) Para adquirir potencial de mobilização, o desrespeito deve possuir caráter: a) individual b) perpétuo c) coletivo d) temporário 3) Segundo Honneth, as relações sociais hierárquicas são socialmente dadas e o indivíduo acaba se rebelando contra este padrão moral. Esse padrão de valores estabelece “o sentido de uma regulamen‐ tação normativa que define as relações do reconhecimento [...]”: a) da natureza b) da sociedade c) mútuo d) do campo político 4) A Fábula das Três Raças funciona como uma metáfora da hierarqui‐ zação da sociedade brasileira. As três raças a que se refere a “Fá‐ bula” são: a) portugueses, alemães e japoneses b) indígenas, caboclos e brancos 70 c) brancos, indígenas e negros d) negros, brancos e cafusos 5) Os teóricos destacam a transição estrutural do binômio se‐ nhor/escravo ou coronel/dependente para assumirem formas im‐ pessoais como: a) natureza/cultura material; público/privado b) não houve continuidade estrutural na forma de dominação c) doutor/analfabeto, trabalhador qualificado/trabalhador des‐ qualificado, morador de bairros burgueses/morador de fave‐ las etc. d) senhor/escravo e escravo/senhor 7 MOVIMENTOS SOCIAIS: MOVIMENTO FEMINISTA NO BRASIL Cíntia Beatriz Müller O objetivo do capítulo é oferecer ao leitor as diretrizes de formação do movimento feminista no Brasil, salientando suas influências, com base no cenário internacional e a influência da Igreja Católica, no início do século XX; destacar a ressurgência do movimento nas décadas de 60 e 70 e qual o impacto da ditadura militar sobre o movimento, e finalizar apontando que, nos anos 90, o movimento tem refletido sobre suas próprias categorias e buscado evidenciar as diferentes perspectivas e demandas que compõem as demandas das mulheres no Brasil. 7.1 O movimento feminista no Brasil A luta feminina pelo sufrágio universal no Brasil merece destaque no início de nosso texto, pois pode ser considerado como um ponto de partida que transformou a forma como a sociedade concebia o lugar social da mulher brasileira. O movimento feminino e das mulheres brasileiras: de 1918 até 1937 Desde 1918, com a fundação da Liga para Emancipação Intelectual da Mulher (LEIM) por Berta Lutz, a luta pelo direito político ao voto era tema de debates. Um ano depois, 1919, a Liga foi renomeada para Liga pelo Progresso Feminino (LPF) e data desse ano a apresentação do primeiro projeto de lei que garantia o direito ao voto às mulheres no Brasil – que não foi aprovado. Em 1922, a LPF passou a atuar como Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF), quando pro‐ moveu, no estado do Rio de Janeiro, o I Congresso Internacional Femi‐ nista1. Porém, foi em um contexto político bastante mais efervescente, tributário da década de 30, que as sufragistas brasileiras conquistaram seu intento. 72 A Revolução de outubro de 1930 foi apaziguada com a entrega do exercício do poder político a um Governo Provisório, substituído pela ordem política definitiva, após os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte de 34. Entre os compromissos do Governo Provisório, estava a reforma da legislação eleitoral. Nesse espírito, foi expedido o Decreto n. 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, que apresentava as regras do sistema eleitoral brasileiro e, entre elas, definia o sufrágio como universal e secreto. A Constituinte de 1934a sofreu influências de vá‐ rios grupos de pressão da sociedade brasileira, sensibilizada pela ação revolucionária de 1932. Apesar desse contexto inovador, é curioso perceber, como aponta Araújo2, que a Igreja Católica, colocada de lado com o advento da República e o Estado laico reagiu no sentido de buscar uma tomada de posição no contexto político da década de 30. De acordo com essa autora, a Federação Pernambucana para o Pro‐ gresso Feminino, a Liga Eleitoral Católica e a Cruzada de Educadoras Católicas são exemplos de grupos impulsionados por ações da Igreja Católica nesse contexto. Esse dado, porém, não desvanece o mérito de algumas lideranças fe‐ mininas como Berta Lutz, cujas ideias emancipatórias foram reforçadas ao longo de seus estudos na Europa e o contato que teve com mulheres vinculadas aos movimentos sociais naqueles países. Embora a mobili‐ zação feminina pelo direito ao voto e a participação das mulheres na Assembleia Constituinte de 1932 tenha ocorrido em todo o território nacional, apenas uma mulher conseguiu reunir o número de votos suficientes para participar da elaboração da Constituição de 1934. Foi Carlota Pereira de Queiroz, de São Paulo. Berta Lutz, representante da Liga Eleitoral Independente (LEI), tornou‐se primeira suplente na eleição de 1932, vindo a assumir uma vaga na Câmara de Deputados Federais após a elaboração da Constituição de 1934, no ano de 1936.3 As organizações feministas brasileiras sofreram um duro golpe com o advento do Estado Novo no Brasil por Getúlio Vargas em 1937. Nessa ocasião, elas encontravam‐se mobilizadas pelas reivindicações por direitos mais amplos relacionados, por exemplo, à esfera trabalhista. Porém, ao extinguir os partidos políticos no Brasil, Getúlio Vargas também extinguiu as organizações civis que possuíam registro civil, ou seja, estivessem regularmente registradas. A Federação Pernambucana para o Progresso Feminino foi extinta e muitas outras associações de mulheres enfrentaram esse mesmo problema. Ainda segundo Araújo, o governo federal obrigou essas organizações a readequar seus objeti‐ vos a finalidades “puramente cultural e beneficente”. Essa exigência a Para ver na íntegra a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 16 de julho de 1934, acesse: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao34.htm>. 73 levou muitas organizações de mulheres a aproximarem‐se mais e mais dos valores católicos como mote de organização para reivindicações que guardavam muito mais uma conotação moral do que propriamen‐ te política. O feminismo e sua ressurgência no cenário político brasileiro Com o advento do feminismo entre as camadas mais intelectualizadas, teorias e críticas passaram a ser tecidas em relação à forma como a mobilização das mulheres era inicialmente feita. As discussões da década de 60 trouxeram à tona a diversidade na construção do papel feminino que mantinha em comum a identidade biológica, sexual. Mesmo sendo tributário de influências estadunidenses e européias, o feminismo brasileiro sofreu influências do contexto político e cultural dos anos 60 no Brasil4. Cynthia Sarti5 destaca duas características do movimento feminista desse período: o caráter conflituoso e questiona‐ dor e a articulação entre gênero e classe. No que tange à dimensão do conflito, as mulheres passaram a questionar as formas de dominação e de exercício de poder amplamente, não apenas frente à família, mas frente ao Estado e à política comoum todo. Segundo a mesma autora, no início dos anos 60 e ao longo dos anos 70, as mulheres participaram em condição de igualdade com os homens na luta armada de resistência contra a opressão. Mais tarde, essa expe‐ riência seria repensada com base no contexto teórico europeu e por pesquisadoras de forte inspiração marxista. Aliados a esse caráter contestatório, a forte urbanização das cidades brasileiras e o modelo desenvolvimentista adotado pelos governos militares, bem como os novos recursos apresentados ao público feminino como acesso à edu‐ cação, aos meios de comunicação, aos benefícios do controle de natali‐ dade, propulsaram os questionamentos em torno do papel social e familiar da mulher. Nesse cenário, a autora cita os grupos políticos paulistas: Brasil Mulher, Nós Mulheres e Movimento Feminino pela Anistia como exemplos desse contexto político da década de 80 e dos anos de abertura política e cultural. Os grupos feministas, tendo a origem social de suas militantes nas camadas médias e intelectualizadas, em sua perspectiva de transformar a sociedade como um todo, atuaram articulados às demandas femininas das organizações de bairro, tornando‐as próprias do movimento geral das mulheres brasileiras6s. Atuar em grupos feministas implicava, então, o deslocamento da mu‐ lher do espaço privado e controlado de seus lares para o espaço públi‐ co e dominado por forças que nem sempre se encontravam sobre o controle dos personagens que exerciam poder direto sobre elas, como o 74 pai, o marido ou o patrão. As mulheres com maior acesso e poder para a mobilização e a ruptura com os padrões tradicionais de dominação foram as consideradas classes médias e intelectualizadas. Isso instigava um tipo de crítica da esquerda sobre o movimento: o de que as possibi‐ lidades de transformação do mundo impulsionadas por essas mulhe‐ res passavam por uma dimensão de classe que, nem sempre, iria ao encontro da alteridade popular feminina. Já nos anos 70, ainda de acordo com Sarti, as mulheres passaram a reivindicar não apenas mudanças na estrutura social, mas um tipo de tratamento que atendesse às especificidades do público feminino e suas demandas. Com a abertura política dos anos 80, o movimento feminista especializou‐se, passou a militar em organizações não‐ governamentais e absorveu uma postura mais técnica. Sarti destaca que uma das consequências desse processo de institucionalização foi “seu direcionamento para as questões que respondiam às prioridades das agências financiadoras”. A marca disso foi a emergência da discussão em torno dos “direitos reprodutivos”. Por outro lado, essa mesma especialização por parte do movimento propiciou oportunidade para a produção acadêmica sobre a mulher. Sueli Carneiro7 destaca em seu texto o importante papel que as mulhe‐ res tiveram na redemocratização do país ao incidirem estrategicamente sobre a elaboração da Constituição de 1988 e no campo das políticas públicas. Além disso, por meio de ações, o movimento feminista plei‐ teou condições de trabalho equivalentes entre homens e mulheres, embora ainda não tivesse conquistado a equivalência salarial entre homens e mulheres. O feminismo dos anos 90 buscou repensar seus valores universais e, entre eles, a construção social do conceito de mu‐ lher. Por isso, algumas autoras buscaram perceber a alteridade de olhares “enegrecendo o feminismo”8 no sentido de constatarem, tam‐ bém, a diversidade das mulheres que compõem o próprio movimento. Essa nuance do feminismo destaca que mulheres indígenas e negras têm demandas específicas e peculiaridades que devem ser analisadas no momento da construção de estratégias de reivindicação e na inci‐ dência sobre políticas públicas. ONG Criola: o feminismo e sua dimensão étnicab A organização Criola já conta com quinze anos de experiência em trabalhos envolvendo mulheres, adolescentes e meninas negras que b Esta seção é baseada em CRIOLA, 2008. 75 vivem no Rio de Janeiro, em especial. O objetivo da organização é “instrumentalizar” mulheres,adolescentes e meninas negras contra a homofobia, o sexismo e o racismo. Essa ONG vai ao encontro do que Sueli Carneiro9 relata em suas análises, pois coloca em evidência e propõe ações diferenciadas a mulheres que demandam atenção e polí‐ ticas públicas especiais. A organização tem caráter não‐lucrativo e recebe subvenção de entidades públicas e privadas, nacionais e inter‐ nacionais. Valorizando as mulheres negras como agentes capazes de promover a transformação na sociedade, Criola mantém as seguintes linhas de ação: saúde da mulher negra; economia trabalho e renda; defesa e garantia de direitos humanos; ação política e articulação com instituições e movimentos sociais; difusão de informações, documentação e publicações; desenvolvimento institucional; dimensões de gênero e raça do movimento cultural Hip‐Hip. Mesmo mantendo as linhas de ação enumeradas, Criola também man‐ tém outros eixos de atuação. Entre eles está “Negras na História”, seção na qual promove e divulga a história de vida de mulheres im‐ portantes em seu tempo como figuras sociais e de liderança. Em “Na Mídia”, a organização disponibiliza ao público várias publicações, artigos e reportagens, material didático sobre saúde da mulher e com‐ bate à discriminação, por exemplo, para serem copiados e estudadosc. (.) Ponto final O movimento social feminino no Brasil teve início ainda no começo do século XX quando o mote de mobilização foi em busca do sufrágio universal. Inúmeras organizações feministas e protagonizadas por mulheres foram constituídas no Brasil e sofreram o impacto de sua desarticulação pelo Estado Novo do governo de Getúlio Vargas em 1937. Novamente mobilizadas pela luta contra a repressão nos anos da ditadura, as mulheres vivenciaram transformações culturais e sociais. Atores importantes no contexto da “abertura política” dos anos 70 e 80, as mulheres chegaram aos anos 90 atuando de forma mais técnica por c Para saber mais sobre a ONG Criola, acesse: <http://www.criola.org.br/interno.htm>. 76 meio de organizações não‐governamentais e questionando a própria construção social da categoria mulher. Por conta desse autoquestiona‐ mento, o movimento tem atuado em linhas de reivindicação ao acesso equitativo a direitos universal e, também, colocado em evidência seg‐ mentos diferenciado e alteridades subalternas englobadas pelas lutas feministas. Indicações culturais QUE BOM te ver viva. Direção: Lúcia Murat. Produção: Toiga Brasil Sagres, 1989. (100 min). O filme trata do tema da tortura de mulheres ao longo da ditadura militar, cruzando ficção e narrativas de oito ex‐ presas políticas. As mulheres relatam não apenas o tipo de tratamento que tiveram, mas como sobreviveram e sobrevivem até hoje conviven‐ do com suas lembranças. ANJOS Rebeldes. Direção: Katja von Garnier. Estados Unidos: HBO, 2004. (123 min). Conta a história das sufragistas estadunidenses que reivindicavam o direito ao voto em 1912. O filme relata como as ideias de igualdade partiram da Europa rumo aos Estados Unidos, as estra‐ tégias do movimento para colocar em evidência suas reivindicações e as consequências que a luta por direitos igualitários acarretou para as mulheres da vanguarda. AGENDE. Disponível em: <http://www.agende.org.br/>. Acesso em: 29 jul. 2008. A AGENDE – Ações em Gênero Cidadania e Desenvolvimen‐ to – atua no Brasil e na AméricaLatina em ações de fortalecimento, articulação e capacitação de organizações de mulheres, monitora o implemento de políticas públicas, os acordos internacionais e promove espaços de interlocução para socialização e troca de experiência entre organizações. CEPIA. Disponível em: <http://www.cepia.org.br/default.asp>. Acesso em: 29 jul. 2008. Organização não‐governamental que promove os direitos humanos e o fortalecimento da cidadania de grupos excluídos. Para tanto desenvolve estudos e pesquisas, bem como ações de educa‐ ção e intervenção social, promove ações de acompanhamento de políti‐ cas públicas e de advocacy. A organização promove a interlocução entre movimentos sociais, operadores do Direito e profissionais da área da saúde. Desenvolve programas que priorizam o acesso à justiça, aos direitos sexuais e reprodutivos, assim como os direitos humanos de forma ampla. O leitor encontra nesse site, além de informações sobre a organização, vários textos para download sobre legislação e gênero e violência contra a mulher, por exemplo. 77 REDE MUJER Y HÁBITAT DE AMÉRICA LATINA. Disponível em: <http://www.redmujer.org.ar/red.html>. Acesso em: 29 jul. 2008. Trata‐ se de uma rede internacional que reúne organizações de defesa dos direitos das mulheres e à moradia. A rede foi fundada em 1988 e sua secretaria encontra‐se sob a responsabilidade da organização WAT da Tanzânia. As entidades que compõem a rede realizam ações de desen‐ volvimento comunitário e formulação de conhecimento teórico sobre as relações de discriminação e de diferenciação de gênero em âmbito rural e urbano na América Latina. Os principais objetivos da rede é o de difundir, propor e desenvolver atividades que garantam os direitos das mulheres nas cidades, assim como atuar de forma propositiva nos movimentos de mulheres, em relação à problemática da cidade e do hábitat. O site divulga eventos em toda a América, concursos e prê‐ mios, além de disponibilizar publicações para download na íntegra em língua espanhola e, algumas, traduzidas para o português. Atividades Para as questões a seguir marque a alternativa correta. 1) Entre os anos de 1918 e 1937, o movimento feminista brasileiro sofreu influência: a) da academia, pois havia muitas mulheres nas universidades brasileiras b) das mobilizações que ocorreram na Europa e nos Estados Unidos c) das discussões da política brasileira que se baseava em valo‐ res tradicionais d) apenas da Igreja Católica 2) O Decreto n. 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, que apresentava as regras do sistema eleitoral brasileiro e, entre elas, definia o sufrá‐ gio como universal e secreto foi expedido: a) durante a República café‐com‐leite b) durante o governo imperial c) durante o Governo Provisório que seguiu à Revolução Consti‐ tucionalista de 1932 d) ao longo do governo militar dos anos 70 78 3) O movimento feminista ressurgiu ao longo dos anos de repressão do regime militar (anos 60‐70) com as seguintes características: a) conflituosidade e articulação entre gênero e classes sociais b) exacerbada moral cristã e apatia política c) racista e homofóbico d) sexista e discriminatório 4) As associações de bairro desempenharam um papel importante na retomada da autonomia do movimento feminista dos anos 80, pois: a) esses espaços articulavam demandas da Igreja Católica e das mulheres em geral b) as associações eram presididas por homens e, assim, as mu‐ lheres poderiam aprender a fazer política c) a afirmação está errada, pois as mulheres frequentavam ape‐ nas o espaço dos partidos políticos d) as associações de bairro eram o espaço em que as feministas intelectualizadas conciliavam seus conhecimentos às práticas populares promovendo os direitos das mulheres 5) Ao analisar criticamente a construção social da categoria “mu‐ lher”, o movimento feminista percebeu que: a) a categoria dava conta de todas as mulheres em suas especifi‐ cidades culturais e sociais b) era necessário dar visibilidade aos diferentes grupos de mu‐ lheres que possuem demandas específicas e reivindicam polí‐ ticas e atitudes que as valorizem a partir de suas diferenças culturais e sociais c) o termo englobava um conjunto uniforme e homogêneo de pessoas que em nada se distinguia uma da outra d) esse tipo de análise crítica jamais foi feito pelo movimento feminista 8 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS: O SOCIOAMBIENTALISMO Cíntia Beatriz Müller Este capítulo apresenta ao leitor a distinção entre Ambientalismo e Ecologia e as diretrizes gerais que fundamentam o movimento ambien‐ talista, além de oferecer indicações sobre a forma como entidades vin‐ culadas ao movimento ambiental estruturam‐se e sistematizam suas linhas de ação. 8.1 O movimento ambientalista e a Ecologia A preservação do verde é uma plataforma de ação política, um mote de mobilização em torno da preservação do ambiente seja entre a clas‐ se média, seja entre estudantes ou políticos. O movimento ambientalis‐ ta, ao provocar um debate amplo sobre a questão do desenvolvimento sustentável e da preservação do meio ambiente, tem suscitado ques‐ tões, tais como a necessidade do aproveitamento racional dos recursos hídricos, do tratamento dos afluentes e de saneamento básico para toda a população, por exemplo. O movimento ambientalista emergiu com força nos anos 60 em países do Hemisfério Norte, especialmente nos Estados Unidos. Manuel Castells define o movimento ambientalis‐ ta como “uma forma de movimento social descentralizado, multifor‐ me, orientado à formação de redes e de alto grau de penetração”1. Este autor2, na mesma obra, diferencia ambientalismo e Ecologia. Para ele, ambientalismo “são as formas de comportamento coletivo” que se propõem a alterar a interação entre o homem e o ambiente, definido como natural. De certa forma, essa postura coloca‐se contra as estraté‐ gias desenvolvimentistas que, embasadas em uma perspectiva globali‐ zante, visam maximizar os lucros e tornar as relações humanas mais precárias. Ecologia, define o autor, “é o conjunto de crenças, teorias e projetos que contempla o gênero humano como parte de um ecossis‐ tema”. Castells3 identifica quatro eixos principais de discussão que perpassam o movimento: 80 a) PROXIMIDADE E AMBIGUIDADE EM RELAÇÃO À CIÊNCIA E TECNOLOGIA (C e T). De certa forma, o movimento ambientalis‐ ta identifica nos usos perniciosos da C e T um de seus adversários. A utilização desse tipo de conhecimento para o desenvolvimento desenfreado e a maximização de lucros trouxeram uma série de impactos ambientais, alguns, inclusive, ainda desconhecidos como aqueles decorrentes do plantio de transgênicos. Ao mesmo tempo, e daí a ambiguidade, vários cientistas e tecnólogos integram os quadros de organizações “verdes”. b) MOVIMENTO COM BASES CIENTÍFICAS. Este é o reverso do cientificismo perverso. Os ambientalistas, via de regra, fundamen‐ tam seus argumentos em bases científicas, porém não apenas para desarmar os adversários. A concepção de ciência divulgada pelos “verdes” é holista, ou seja, deve preservar o humanismo e as bases gerais em sua aplicação. c) LUTA PELO CONTROLE DA DEFINIÇÃO HISTÓRICA DO TEMPO E DO ESPAÇO. Em termos práticos, este quesito diz res‐ peito à valorização das relações diretas com o ambiente, sem a mediação de racionalidades técnicas, propalada por interesses comerciais. Seria a reconquista do espaço, traduzida em termos políticos na participação popular na política local e pela retomada de uma espécie de democracia de base. d) PROJETO DE UMA NOVA E REVOLUCIONÁRIA TEMPORA‐ LIDADE. Segundo o autor, é possível classificar a dimensão tem‐ poral em três categorias: TEMPO CRONOLÓGICO:é linear e predeterminado, ou seja, possui partes homogêneas e frações exatas em termos quantitati‐ vos; é o tempo utilizado na indústria e na solução dos negócios de Estado; TEMPO INTEMPORAL: manifesta‐se com a perturbação do tem‐ po cronológico, que pode ser provocada pelo ritmo da sociedade em rede, cujo fluxo de informação, por exemplo, pode deflagrar ações na ordem de segundos, por exemplo, a migração de capitais; TEMPO GLACIAL: é um tempo de longa duração, possui um ritmo de transformação social mais lento e pautado por outros va‐ lores que não os relacionados ao capital globalizado, “em termo bem objetivos e pessoais, viver o tempo glacial significa estabele‐ cer os parâmetros de nossas vidas a partir da vida de nossos fi‐ lhos, e dos filhos dos filhos de nossos filhos”4. 81 Vamos acompanhar como as organizações que assessoram e compõem os movimentos sociais têm colocado essas perspectivas em prática. O Greenpeace: a mídia como forma de dar visibilidade à questão ambientala O Greenpeace, certamente, é uma das mais populares organizações ambientais do mundo. Fundada em 1971, no Alasca, por ativistas que buscavam impedir a realização de testes nucleares pelos Estados Uni‐ dos, é uma organização que atua em escala mundial e que visa modifi‐ car do comportamento das pessoas em relação ao ambiente. A posição do Greenpeace diante dos problemas ambientais e de seus adversários é a de confrontar situações de desrespeito ambiental e de risco: como um grupo de pressão propõe‐se a levar aqueles que tomam decisões a modificar o ponto de vista e a forma de agir deles. Como a maior parte das organizações voltadas para a preservação ambiental, também preocupa‐se com a sustentabilidade de iniciativas em relação à viabili‐ dade do planeta para as gerações futuras. O Greenpeace é financiado com contribuição de colaboradores do mundo todo, não recebendo contribuições de partidos políticos ou governos. As ações da organização são pautadas pelos seguintes valores: inde‐ pendência, não‐violência, confronto não‐violento e ação conjunta. A independência da organização é assegurada pelo financiamento rece‐ bido de colaboradores e não de entidade políticas, o que lhes garante isenção política e econômica, assegurando‐lhes liberdade de ação e protesto. É interessante entender como o Greenpeace conjuga as ideias de não‐violência e confronto não‐violento. A primeira noção diz res‐ peito à forma de interação com a população, os governos e os empresá‐ rios, ao passo que o confronto não‐violento visa chamar a atenção do público, em especial utilizando‐se da mídia, para determinadas situa‐ ções de risco ou desrespeito ao ambiente. O confronto não‐violento também é um meio de pressão sobre as instituições políticas para que mudem a forma como tratam determinados problemas. A ideia de confronto e não‐violência pode parecer contraditória. Podemos até mesmo lançar o questionamento “não‐violento para quem?”, uma vez que a pressão e o tensionamento, no sentido de uma tomada de consci‐ ência, podem gerar uma dimensão de violência que não se manifesta em contornos físicos, mas em uma dimensão psicológica, gerando desconforto para a própria população. No entanto, a dimensão da não‐ violência está na não‐imposição de um ponto de vista e de valores do grupo sobre outros grupos. Quanto à ação conjunta, o grupo incentiva a Esta seção é baseada em: GREENPEACE, 2008. 82 a conexão de pessoas que compartilhem as mesmas preocupações quanto à preservação da natureza e à necessidade da mudança de uma mentalidade maior, na forma de interação entre o homem e a natureza. As linhas de atuação do grupo, de acordo com o site do Brasil, divi‐ dem‐se em Amazônia, clima, energia, nuclear, oceanos e transgênicos. No que diz respeito à Amazônia, a organização denuncia o desmata‐ mento ilegal e incentiva a adesão ao programa Cidade Amiga da Ama‐ zônia, que visa promover o desenvolvimento sustentável e o consumo responsável de madeira. Quanto ao eixo nuclear, o grupo oferece in‐ formações para a população sobre os perigos do uso dessa matriz energética e os altos custos para a implantação e manutenção de usinas nucleares. No que diz respeito aos oceanos, o grupo pressiona o Brasil para que lidere ações no sentido de evitar a matança de baleias e ga‐ ranta a criação de áreas de proteção para a preservação e recuperação de hábitats marinhos no Atlântico. As ações do grupo, além dos protestos e ações para conferir visibilida‐ de às questões ambientais, são pautadas pela divulgação de informa‐ ções, o “cyber ativismo” e adesão a campanhas. O grande veículo de divulgação de conteúdo do grupo é seu site na internet. Todos os eixos temáticos possuem informações atuais veiculados em português e guardando algum tipo de vínculo com o país. Com o “cyber ativismo” o grupo propõe a adesão dos internautas às petições de protesto do grupo. Trata‐se de um tipo de militância política que emergiu com a popularização da internet e da consciência social dos internautas da sociedade em rede. A promoção de campanhas, um dos eixos de ação de diferentes organizações, por parte do Greenpeace, no Brasil, tem incidido na proteção à Amazônia com a campanha “Meia Amazônia não!”b e “Dematamento Zero!”c (seria uma alusão à política do prefeito de Nova Iorque chamada “Violência Zero!”?). O grupo investe pesado na participação da sociedade civil como propulsora de suas ações e no internauta, em especial, na adesão a suas campanhas. A Rede Brasileira de Justiça Ambiental: ação em rede em defesa do ambiented A RBJA possui objetivos de dimensão pedagógica e de mobilização em rede. Na dimensão pedagógica, coloca‐se o esforço no intercâmbio do acúmulo analítico sobre o tema e das diversas estratégias de ação entre os atores na luta ambiental. A rede também incentiva a formação de b Para saber mais sobre esse movimento, acesse: <http://www.meiamazonianao.org.br/>. c Para saber mais sobre esse movimento, acesse: <http://www.greenpeace.org/brasil/amazônia/desmatamento‐zero>. d Esta seção é baseada em REDE BRASILEIRA DE JUSTIÇA AMBIENTAL, 2008. 83 parceria entre pesquisadores, no sentido de promover o aprofunda‐ mento teórico relacionado ao tema da justiça ambiental no país e seu diálogo com os direitos humanos, denunciando as consequências per‐ versas da globalização e sua relação com o meio ambiente. Quanto à mobilização da rede, em discussão com os parceiros que a compõem, adere por meio de cada um de seus componentes a ações de pressão que visam à modificação de posição de agentes que se encontram pra‐ ticando atos que se enquadrariam como de injustiça ambiental. Dentre as ações da RBJA está a manutenção de um Banco Temático, a adesão a Campanhas, a celebração de parcerias internacionais, a manu‐ tenção do Grupo de Trabalho “Químicos” e “Racismo Ambiental” e discussões sobre os temas da Justiça Ambiental e outros que perpas‐ sam a rede. Chamo atenção para os Grupos de Trabalhos que são com‐ postos por pesquisadores vinculados às universidades e organizações não‐governamentais assim como a sindicatos e movimentos sociais de forma mais ampla. O GT Químicos foi concebido em 2003 e visa traçar estratégias de ação e divulgar informações sobre o impacto da poluição e da contaminação sobre a vida dos seres humanos, assim como mobi‐ lizar pessoas que se veem expostas a situações de trabalho e moradia, por exemplo, precários. O GT contra o Racismo Ambiental, por sua vez, surgiu em 2005 e tem por objetivo definir estratégias de ação e articulações no combateao racismo ambiental. Entre elas, a está previs‐ ta a promoção de campanhas. Porém, assim como o conceito de justiça ambiental é novidade no Brasil também o é o de racismo ambiental. Destacamos que a RBJA promove uma discussão de caráter pedagógi‐ co relativamente intenso. Encontra‐se disponível no site da redee textos sobre justiça ambiental, racismo ambiental, mapa do racismo ambien‐ tal no Brasil para consulta, e textos importantes para o GT Químicos. Quanto a esse segundo tema, a rede promove discussões sobre a con‐ taminação por amianto, mercúrio, contaminação química do solo e de recursos hídricos, além de divulgar relatório sobre a contaminação de trabalhadores por substâncias químicas nocivas. É interessante salien‐ tar que, embora trate de tema relacionado aos direitos humanos, a RBJA conta com poucos advogados dentre os parceiros inscritos na rede. Muitos deles encontram‐se vinculados ao GT contra o Racismo Ambiental em estados da Região Nordeste do Brasil, como o Ceará. (.) Ponto final Neste capítulo, procuramos destacar as características gerais da mobi‐ lização em torno da questão ambiental. Por isso, apresentamos, inici‐ e Para saber mais, acesse: <http://www.justicaambiental.org.br/_ justicaambiental/pagina.php?id=490>. 84 almente, a discussão proposta por Manuel Castells: proximidade e ambiguidade em relação à ciência e à tecnologia; consolidação de um movimento com bases científicas; luta pelo controle da definição histó‐ rica do tempo e do espaço; e o projeto de uma nova e revolucionária temporalidade. Para ilustrar a forma de atuar de organizações e dos novos movimen‐ tos sociais, apresentei a configuração de duas instituições: o Greenpea‐ ce, em moldes mais tradicionais, com uma sede e infraestrutura pró‐ prias, e a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, configurada como uma rede de organizações e pessoas que se organizam sem uma centralida‐ de, e que comporta outras duas sub‐redes o GT Químicos e o GT con‐ tra o Racismo Ambiental. Indicações culturais NUNES, Paulo Henrique. Meio Ambiente & Mineração: o Desenvolvi‐ mento Sustentável. Curitiba: Juruá, 2006. Este livro apresenta a discus‐ são sobre impactos em duas dimensões: na primeira parte, analisa os conceitos envolvidos e a legislação pertinente ao tema; na segunda parte, propõe a análise de um caso concreto. De forma crítica, o autor expõe as dificuldades de implementar os instrumentos legais de prote‐ ção ao ambiente e o abismo que está posto no sentido de assegurar o desenvolvimento de forma sustentável. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. As flores de abril: movimentos sociais e educação ambiental. São Paulo: Autores Associados, 2005. O livro reúne textos referentes à cultura e ao ambiente e à relação envolvendo o homem e a natureza. Especialmente dirigido a educadores, descreve práticas eco pedagógicas por meio de conteúdo inovador. A ÚLTIMA Hora. Direção: Nadia Conners; Leila Conners Petersen. Produção: Chuck Castleberry; Leonardo DiCaprio; Brian Gerber; Leila Conners Petersen. Estados Unidos: Warner Independent Pictures, 2007. (95 min). Documentário produzido por Leonardo Di Caprio que reúne o depoimento de vários cientistas e políticos que falam sobre os riscos e os problemas ambientais em um contexto global. AMAZÔNIA Viva. Realização: Sincrocine. Brasil: Ministério do Meio Ambiente, [199‐?]. (11 min). Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/cid/video/631_bxres.wmv>. Acesso em: 20 maio 2008. Trata‐se de um documentário disponível no acervo de vídeos produzidos pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente do Minis‐ tério do Meio Ambiente do governo federal. Este vídeo dá ao leitor 85 uma visão ampla do acervo de biodiversidade que se encontra sob responsabilidade do Brasil, contido na Floresta Amazônica. HABITAT Humano. Edição: Marcos Ferreira. Brasil: Ministério do Meio Ambiente, 1994. (7 min). Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/cid/video/666_bxres.wmv>. Acesso em: 20 maio 2008. O vídeo destaca a forma como o homem interage com o meio ambiente a partir da construção de seu hábitat urbano e como essa forma de interação pode trazer prejuízos ao meio ambiente. INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Disponível em: <http://www.socioambiental.org/ home_html>. Acesso em: 29 jul. 2008. O ISA encontra‐se em atuação desde 1994 e promove ações propositi‐ vas na defesa do meio ambiente e das populações indígenas. O site da organização disponibiliza material referente a projetos e programas, informações sobre suas atividades assim como divulga critérios para filiação. Há divulgação de bibliografia sobre o tema da proteção ambi‐ ental em interface com a defesa dos direitos socioculturais dos povos indígenas. Atividades 1) O movimento ambientalista, geralmente, organiza‐se em: a) rede altamente centralizadas em sua atuação b) todas as redes ambientalistas são iguais, ou seja, reúnem os mesmos atores e têm as mesmas estratégias de atuação c) redes escentralizadas, nas quais as ações e os projetos, mesmo em nível de organização, são discutidos e formulados com di‐ ferentes atores, via de regra, envolvendo parceiros locais, e multiformes, ou seja, reúnem diferentes atores que ocupam diferentes papéis frente aos movimentos sociais, seja de mobi‐ lização, seja no planejamento de ações d) redes que não funcionam e que não são duram mais do que dois anos 2) O ambientalismo distingue‐se da Ecologia: a) pois coloca em ação os estudos e as teorias da Ecologia visan‐ do à transformação na forma como o homem interage com a natureza b) pois não há distinção entre uma e outra, são sinônimos 86 c) por seu caráter teórico e abstrato e por sua baixa capacidade de mobilização social d) porque não há razão para se pensar que uma e outra são dife‐ rentes, pois têm o mesmo objetivo prático 3) O papel da ciência para os movimentos ambientalistas é criticado quando: a) visa ao bem da coletividade com a implantação de tecnologias de desenvolvimento com respeito ao “verde” b) busca apenas a lucratividade, aperfeiçoando os meios de pro‐ dução sem se preocupar com o impacto e as consequências socioambientais dessa forma de ação c) percebe‐se que os usos e abusos da ciência nunca foram criti‐ cados pelos ambientalistas que, inclusive, divulgam a ciência como uma forma de concentração de benefícios ambientais apenas para os países do hemisfério Norte d) atende às demandas dos povos, garantindo sua diversidade e atentando para o desenvolvimento das gerações futuras 4) O “tempo glacial” do movimento ambientalista: a) é de curta duração, ou seja, encontra‐se dividido em partes iguais e é linear b) é de curta duração e engloba uma perspectiva de abrangência que engloba as gerações futuras c) é de longa duração, pois agir nesse ritmo significa realizar ações cujos efeitos repercutirão de forma equilibrada nas ge‐ rações futuras d) é de longa duração, porém seus efeitos devem ser avaliados sem levar em consideração a situação das gerações futuras 5) O estilo de organização do Greenpeace e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental diferem entre si: a) quanto à preocupação com o meio ambiente e com a trans‐ formação das formas de interação entre homem e natureza 87 b) por ser o primeiro uma organização com uma estrutura sis‐ temática própria, enquanto o segundo caracteriza‐se pela reunião de outras organizações que compartilham objetivos, mas que preservam suas identidades e objetivos estratégicos independentes entre si c) por valorizarem o caráter pedagógico de atuação na qual a circulação de informação é extremamente valorizada d) por atuarem, ambas, com forte conteúdode divulgação por meio da internet 9 MOVIMENTOS SOCIAIS E A LUTA PELO ESPAÇO: A INTERAÇÃO RURAL E URBANA Cíntia Beatriz Müller Neste capítulo, vamos discutir as causas históricas que levaram à mo‐ bilização dos trabalhadores na esfera rural e estudaremos os movimen‐ tos sociais emergentes na Amazônia. Levando em consideração que o rural e o urbano encontram‐se em relação, apresentaremos um pouco da história da urbanização no Brasil e as causas que levaram a popula‐ ção da cidade a reagir às desigualdades sociais que nela consolidaram‐ se pelos movimentos urbanos. 9.1 As raízes históricas da desigualdade no meio rural Historicamente, a propriedade da terra sempre foi um ponto de tensão no Brasil. Segundo Silva1, a estrutura fundiária do país sempre apre‐ sentou uma distribuição desigual, desde o Período Colonial com as capitanias hereditárias. Ainda hoje, a distribuição das terras pelo sis‐ tema de sesmarias encontra‐se na origem de algumas propriedades consideradas como latifúndios. Por intermédio desse sistema, a Coroa portuguesa podia doar as terras do Brasil Colonial aos nobres e notá‐ veis de suas relações. Com a Lei de Terras de 1850, os posseiros tive‐ ram a chance de regularizar suas terras e elas passaram a ser adquiri‐ das pela compra. Isso, porém, trouxe uma séria consequência, promul‐ gada no início da imigração de estrangeiros para o país: a Lei de 1850 elevou o preço da terra de tal forma que tornou o acesso a ela inibitório tanto para os imigrantes aqui chegados como para os nacionais empo‐ brecidos, em especial os libertos e ex‐escravos. O primeiro tipo de relação de trabalho conhecido no meio rural brasi‐ leiro foi o da escravidão. Esse ponto distingue a formação do capita‐ lismo brasileiro no campo, da formação europeia. Em 2008, celebramos os 120 anos da abolição do trabalho escravo no Brasil, ou seja, dos 508 anos de decorreram desde o descobrimento do país pelos povos euro‐ peus, 388 foram vividos em regime de escravidão. Esse tipo de relação trouxe impacto sobre a distribuição de terras e de poder no campo, 89 além de dificultar o acesso à terra aos campesinos, escravos e libertos. Com a substituição da mão de obra escrava pelo colonato, as relações de trabalho não se modificaram de forma radical, tendo maior reper‐ cussão nas Regiões Sul e Sudeste do país. A estrutura de dominação estabelecida com a escravidão foi reafirmada, voltada para a exporta‐ ção de produtos agrícolas em larga escala características do modelo de plantagem ou plantation2. Discussões que envolviam o acesso à terra no país sempre estiveram envoltas em contradições dentro do próprio governo. Segundo Olivei‐ ra3, as Constituições Federais de 1946 e de 1967 buscaram definir limi‐ tes à extensão das propriedades rurais estabelecendo, respectivamente, o limite de 10 mil hectares “a área de terra devoluta máxima a ser vendida a brasileiros natos ou naturalizados” e 3 mil hectares. Ainda segundo o autor, as Regiões brasileiras que apresentam maior concen‐ tração fundiária são a Norte e a Centro‐Oeste, nas quais as grandes propriedades rurais têm‐se expandido por sobre as terras de comuni‐ dades tradicionais, especialmente dos povos indígenas, e da Floresta Amazônica. Tais regiões, também consideradas como fronteiras agríco‐ las em expansão por ainda manterem uma certa reserva de terras, tem passado por um rápido processo de ocupação e de monopólio fundiá‐ rio com apoio do Estado4. Com o rápido processo de industrialização pelo qual passou o país ao longo dos anos 50 e 70, o êxodo rural levou muitas famílias do campo para os bolsões de exclusão das cidades. No campo, porém, houve um aumento do número posseiros5 e a tecnificação do trabalho agrícola que reclama maior parcela de trabalho assalariado, em sua maioria temporária6. Tais dados são fundamentais para entendermos as futuras mobilizações em torno da reivindicação por terras. Esses posseiros se encontravam em situação de dependência e subordinação em relação aos grandes proprietários, por não possuírem títulos de terras e auto‐ nomia financeira capaz de possibilitar‐lhes a manutenção de seus pró‐ prios meios de produção. Colabora nesse sentido o fato de que as relações pessoais historicamen‐ te estabelecidas apresentavam situações em que os agricultores recebi‐ am tratamento diverso mesmo dentro de um mesmo conjunto de tra‐ balhadores. Além disso, muitas vezes, ao desfazerem‐se de suas pos‐ ses, os agricultores viam‐se pressionados a venderem suas terras aos proprietários.7 Assim, relações de compadrio e clientelismo, ou seja, de cunho pessoal, também influenciavam nas relações de trabalho no campo. Da mesma forma, tendo em vista e melhoria relativa da infra‐ estrutura no meio rural e da sistemática expulsão dos posseiros, a 90 migração para as áreas de expansão da fronteira agrícola intensificou‐ se nos anos 708. Via de regra, os pequenos proprietários e posseiros têm sido conside‐ rados como um entrave ao modelo desenvolvimentista propalado no país, ao longo dos anos 60/70, por parte de setores conservadores. Ao mesmo tempo, porém, é importante destacar que esse tipo de crítica também constrói‐se uma vez que essa parcela da população incide sobre um setor estratégico da sociedade nacional: o da produção de alimentos9. Segundo Silva10, foi nesse período, ao longo dos anos 60/70, que o Conselho de Segurança Nacional passou a controlar as relações fundiárias que se estabeleciam no campo, um tanto tensas, entre pro‐ dutores que monopolizavam o acesso à terra e os posseiros. Com a produção das grandes propriedades voltada para o mercado internaci‐ onal (dedicadas a produção de café, cana‐de‐açúcar e soja), o minifún‐ dio passou a adquirir um papel importante no mercado local de pro‐ dução de alimentos. Esse também é um dos principais argumentos em defesa da reforma agrária, nos anos 7011. Vamos conversar um pouco mais sobre a mais nova fronteira de ex‐ pansão agrícola do país, a Região Norte formada pela Amazônia Legal. Os estados que formam a região amazônica guardam uma riqueza variada de fauna e flora, modos tradicionais de apropriação do espaço e, recursos naturais que atraem a atenção de empresas de mineração e de exploração de madeira, por exemplo. Além disso, sua vasta superfí‐ cie reserva espaço para a apropriação de terras para pastagens e plan‐ tio, após o desmatamento. Os movimentos sociais na região amazônica A Região Norte do Brasil é composta por sete estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, com uma superfície que concentra 45% das terras brasileiras e cerca de 10 milhões de habi‐ tantesa. Curiosidade à parte, a região amazônica só aderiu ao Brasil em 1823, cerca de um ano após a independência, pois suas elites temiam a abolição da escravidão e o fim do latifúndio, tendo em vista as ideias liberais que pareciam contagiar Portugal12. Segundo Silva13, o povoa‐ mento na Região Norte do Brasil tomou impulso com a indústria extra‐ tivista e o ciclo de exploração da borracha que iniciou em 1870 e foi intensificado em 1877, ano em que a Região Nordeste do país foi asso‐ lada por uma grave seca. Essa autora afirma que o imigrante nordesti‐ no foi submetido ao regime de peonagem, ou seja, espécie de escravi‐ a É possível visualizar o mapa interativo do Diagnóstico Ambiental da Amazônia Legal disponibilizado pelo IBGE no site: <http://mapas.ibge.gov.br/amazonia/viewer.htm>. 91 zação onde o trabalhador vincula‐se ao patrão pela dívida que assume nos barracões, onde era obrigado a comprar, e pela falta de acesso a recursos que lhe possibilitem contato com a sociedade fora da proprie‐ dade em que trabalha. Continuaa autora mostrando que, a exemplo do que também ocorreu no centro‐oeste, quando não era empregado como mão de obra extrativista, o trabalhador era enviado para fazen‐ das nas quais passava a derrubar a mata para dar espaço às pastagens e à criação extensiva de gado. Além de explorar a floresta, os grandes proprietários que se dedicaram a apropriar‐se economicamente da Amazônia, respaldados por proje‐ tos desenvolvimentistas do Estado brasileiro, encontraram ali outras pessoas e outras culturas. Cumpre ressaltar que, em grande parte, o movimento de resistência dos povos indígenas na Amazônia foi ampli‐ ficado por conta de megaprojetos do próprio governo federal, como no caso do grupo Mundurucu. O grupo Mundurucu é composto por aproximadamente 15 mil indígenas que vivem nos estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso, e encontra‐se mobilizado contra a constru‐ ção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu14. O represen‐ tante do grupo, Emílio Mundurucu15, que participou do seminário “Populações tradicionais e Questões de Terra na Pan‐Amazônia”, realizado em Manaus − AM, entre os dias 18 a 22 de janeiro de 2005, destaca que seu povo não reconhece a chegada dos portugueses ao Brasil como uma espécie de descoberta e entende que atualmente o grupo corre risco de perder suas terras. Entre as principais ameaças, estão as mineradoras, a agropecuária, a madeireira e o plantio acelera‐ do da soja. Outros grupos que se consideram comunidades tradicionais também têm reivindicado respeito e cuidado em relação às terras na Amazônia, por exemplo, as quebradeiras de coco e os ribeirinhos. Segundo Olivei‐ ra16, o movimento das quebradeiras de coco babaçu tem 15 anos e reúne 400 mil mulheres de quatro estados da região amazônica: Pará, Maranhão, Tocantins e Piauí e formam o Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu. O movimento é formado por mulheres que lutam pela preservação das matas de babaçu, pelo direito ao aces‐ so a elas e ao uso delas e pelo meio ambiente equilibrado. Embora tenha a identidade de quebradeiras reconhecida, a terra que utilizam para o extrativismo, muitas vezes, corre o risco de ser invadida ou, até mesmo, vendida e cercada, o que as coloca, como produtoras, sob o risco de perder suas matas e sua garantia de produção. O movimento dos ribeirinhos do Médio Amazonas, por sua vez, arti‐ cula sua luta entre a área rural e a cidade e reivindica ações de preser‐ 92 vação do ambiente e políticas especiais de acordo com suas demandas próprias. Segundo Nogueira17, o povo ribeirinho da Amazônia sofreu o impacto da decadência da extração da borracha e da castanha e da ausência de uma política de compensação que oferecesse alternativas para que o povo ribeirinho mantivesse‐se vivendo em suas terras. Por isso, parte dos ribeirinhos deslocou‐se para as periferias das grandes cidades, como foi o caso de Manaus, por exemplo, onde a falta de empregos colocou‐os em situação de vulnerabilidade e risco social. Uma parte dos ribeirinhos permaneceu na zona rural e, até mesmo, empreendeu o êxodo às avessas ao longo da década de 90, retornando ao seu lugar de origem. O autor afirma que o principal risco desse povo encontra‐se frente à grilagem de suas terras e à devastação delas, empreendida por empresas, cuja sede localiza‐se em cidades, como Brasília e São Paulo, e que, via de regra, possuem documentação ilegal. Vale destacar a luta do movimento quilombola na Região Norte do país e o conflito entre sua perspectiva de apropriação coletiva dos recursos naturais e a perspectiva individual. Costa18 afirma que, no Pará, as comunidades quilombolas de Nova Esperança e Concórdia, situadas a cerca de 100 quilômetros de Belém, formaram‐se com a abolição da escravidão com libertos que se fixaram nas terras e em antigas fazendas, ao longo de rios, igarapés, estabelecendo áreas de domínio comum e mantendo uma forma tradicional de interação com a natureza, de trabalho e de práticas religiosas. Segundo o autor, em 1972, porém, um projeto de assentamento promovido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) passou a legalizar as terras por meio de lotes individuais. Essa lógica individual de apro‐ priação da terra colocou em risco o modo tradicional de ocupação do espaço pelas comunidades quilombolas e trouxe a possibilidade de apropriação da terra pela lógica de mercado, estranha às comunidades. Em consequência dessa ação do Estado, o estilo de vida quilombola foi impactado e o ambiente também, pois fazendas instalaram‐se na regi‐ ão, promovendo a derrubada da mata e a abertura de pastagens. Como essas grandes propriedades instalaram‐se nas cabeceiras dos rios e igarapés os cursos de água passaram por processos de assoreamento, impactando as comunidades historicamente instaladas abaixo das nascentes. Além dos movimentos sociais emergentes ao longo dos anos 90, com base em reivindicações dos povos tradicionais, também o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) atua na região amazônica. O movimento atua na Amazônia Legal, Pará, Tocantins, Rondônia, Mato Grosso, e promove a luta social em torno da questão agrária na região, principalmente, alertando quanto à ação de empresas multina‐ 93 cionais19. As multinacionais, alvo de protestos, são empresas envolvi‐ das na exploração de minérios que, ao identificarem áreas com poten‐ cial para extração, pagam para as famílias deixarem as áreas20. Segun‐ do Coelho21, essa prática rompe os laços sociais da comunidade assen‐ tada e pode incentivar o êxodo de produtores rurais já estabelecidos, principalmente, no sul do Pará. Acrescenta o autor que, além dessa preocupação, a introdução de transgênicos em uma região de rica diversidade ambiental, de fauna e flora, também é outra preocupação do movimento na região. Existe possibilidade de apontarmos uma tipologia dos movimentos sociais emergentes na Amazônia, conforme formulado pelo professor Alfredo Wagner de Almeida22. Seriam eles: a) MOVIMENTOS ÉTNICOS: são aqueles que se consolidam em torno de elementos identitários considerados relevantes ao grupo e compartilhados entre eles, caracterizam‐se por basearem‐se em laços de solidariedade que se referem “a seu modo de existir e fa‐ zer” cotidiano. b) MOVIMENTOS EM TORNO DE UMA OCUPAÇÃO ESPECÍFICA E/OU CRITÉRIOS DE GÊNERO: como no caso das quebradeiras de coco babaçu, na divisão social do trabalho, são as mulheres as responsáveis pela prática do extrativismo. Assim, é sobre elas que índice o ônus do impacto da perda ou do cerceamento do acesso aos recursos naturais, é em torno disso que as mulheres mobili‐ zam‐se: para assegurar a liberdade de um modo próprio de aferir autonomia e renda. c) MOVIMENTOS EM TORNO DE PRÁTICAS DE MOBILIZAÇÃO: é o caso do movimento dos trabalhadores rurais sem‐terra que, por estarem excluídos do processo de produção, constroem assim sua identidade e estabelecem na prática de ocupações e na forma‐ ção de assentamentos uma estratégia de mobilização do movimen‐ to. d) MOVIMENTOS EM REAÇÃO A MEGAPROJETOS: caracterizam‐ se como movimentos em reação a projetos de larga escala que im‐ pactam grupos sociais, de tal forma que provoca a emergência de uma identidade compartilhada e amplia laços de solidariedade. Tais projetos podem ser de cunho local, como no caso do Movi‐ mento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE), ou nacional, caso do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). 94 e) MOVIMENTOS EM TORNO DA RELAÇÃO COM O AMBIENTE: este é o caso dos ribeirinhos que vivem nas margensdos rios e que possuem uma forma específica de interdependência com o ambi‐ ente, dependendo tanto da terra quanto da água para subsistirem em sua região. Almeida acrescenta que, de forma comum, todos os movimentos pos‐ suem uma forte consciência ambiental, colocando como prioritária sua relação com o meio ambiente, pois dele depende sua subsistência. O autor lembra a importância de ressaltar‐se também que os grupos envolvidos nesses movimentos compartem uma perspectiva de apro‐ priação da terra que lhes é particular: a perspectiva da terra tradicio‐ nal. Explica o autor que terras tradicionais são terras coletivas, ou seja, são as terras atualmente ocupadas por grupos que ou lutam para per‐ manecer em um espaço que construíram ao longo do tempo, como os grupos indígenas e quilombolas, ou que lhes foi possível construir após sucessivos processos de deslocamento, como seringueiros, ribei‐ rinhos e quebradeiras de coco, por exemplo. A luta dos movimentos sociais pelos territórios tradicionais, caracterizados pelo conjunto de recursos naturais que permitem a manutenção e a reprodução do gru‐ po, e que é ocupado coletivamente, é a grande razão das atuais mobili‐ zações na Amazônia brasileira. O meio rural e o meio urbano estão em um continuum de relações. Em vários momentos, comentamos o fato de que a população do campo era obrigada a migrar para a cidade. Por outro lado, a permanência de parcela da população no campo deu‐se, justamente, com base na rela‐ ção com aqueles que conseguiam lograr manter‐se na urbe ou que se viram obrigados a retornar ao meio rural. Vamos entender um pouco a forma como se deu o processo de urbanização no Brasil. 9.2 O processo de urbanização das cidades: o urbano e o rural se encontram O Brasil dispõe de uma imensa área territorial, porém seu processo de urbanização se iniciou pela costa litorânea. Segundo Holanda23, a con‐ quista territorial se deu no sentido litoral, agreste, sertão, mata e pam‐ pas, não por acaso. As cartas de doação das capitanias hereditárias expedidas pela Coroa portuguesa impunham que as vilas fossem edifi‐ cadas próximas ao mar e aos rios navegáveis. A única capitania a des‐ cumprir tal ordem foi a de São Vicente, em 1554, que forçou o povoa‐ mento de seu interior e o afluxo de entradas e bandeiras. Tal desloca‐ mento se deu frente aos interesses comerciais desenvolvidos com as “bandeiras”, grupos de exploradores que adentravam o continente na 95 busca de metais, como o ouro, e do aprisionamento de escravos dentre os “negros da terra”, ou seja, grupos indígenas brasileiros. Explica o autor que o povoamento do litoral era planejado pela coroa tendo em vista o baixo custo das exportações de produtos que dali partiam em comparação com aqueles que se originavam do sertão, além do fato de que o litoral brasileiro era habitado por indígenas que falavam um mesmo idioma: o tupi‐guarani facilitando, assim, sua dominação e conquista. Apenas com o descobrimento das minas de ouro nas Gerais, nos idos de 1700 que a interiorização do povoamento do país e a fixa‐ ção da população no interior passaram a consolidar‐se. O ritmo de instalação e crescimento das cidades no Brasil esteve inti‐ mamente relacionado aos ciclos de produção econômica regional, como o ciclo da cana‐de‐açúcar no Nordeste, do ouro nas Minas Gerais e do café na Região Sudeste, especialmente em São Paulo. A cidade do Rio de Janeiro, inclusive por ser a sede da Corte portuguesa por ocasi‐ ão da fuga nas guerras napoleônicas, e depois por ser a sede de suces‐ sivos governos, também vivenciou uma urbanização rápida. O rápido processo de urbanização levava à construção de novos quarteirões e à demolição de antigas casas, transformando o espaço público de forma radical, segundo Matos24. Aqueles que chegavam na cidade assim o faziam por serem imigrantes que vinham diretamente para ela ou escapavam do êxodo rural, ou negros remanescentes das antigas sen‐ zalas. Tendo em vista a extrema dependência da urbe em relação ao campo no que tange à circulação de dinheiro, a ausência de uma legis‐ lação trabalhista, o grande número de desempregados e a pobreza nas cidades, a luta pela conquista de um emprego foi tensa, explica o au‐ tor. Essa situação durou até a década de 20 após o término da Primeira Grande Guerra. O processo de urbanização no Brasil, porém, foi marcado pela perspec‐ tiva das “cidades planejadas”, ou seja, tendo em vista o processo de urbanização que se desenvolveu ao longo do final do séc. XVIII e início do XIX, o séc. XX o “planejamento” deveria “solucionar” problemas urbanos. Para se ter uma ideia, a prioridade nas cidades do séc. XVIII eram as casas e os muros. As ruas passaram a ter importância com o incremento da atividade comercial nas cidades25. Segundo Souza26, a reforma promovida no Rio de Janeiro, entre os anos de 1902 e 1906, por Francisco Pereira Passos, foi inspirada nas reformas urbanas realizadas em Paris, no século XIX. Acrescenta o autor: a Reforma Passos, como ficou posteriormente conhecida, trouxe sérios impactos para a cidade do Rio de Janeiro e sua população. Seus principais objetivos eram: adequar a cidade às demandas capitalistas para a circulação de mer‐ cadorias e consumidores; elevar a capital do país ao nível de urbaniza‐ 96 ção e de estética de outras capitais latino‐americanas, como Buenos Aires e Montevidéu; e, “limpar”, ou seja, remover, habitações precá‐ rias, como os cortiços, da área central da cidade do Rio de Janeiro, promovendo assim uma espécie de “higienização” das áreas centrais em relação à pobreza. Desde o século XVIII, diferentes formas de controle incidiam sobre os moradores das cidades, desde um aparato policial que permitia um controle mais pessoal do cidadão até a cobrança de impostos para a manutenção de bens e funções públicas sobrecarregavam aqueles que viviam nas cidades brasileiras27. A fiscalização e as multas que incidi‐ am sobre construções classificadas como “irregulares” acirrava a ten‐ são na cidade e a população ensaiava seus primeiros protestos. No século XIX, novas distinções passaram a ser acionadas nas cidades, para além da dicotomia rural/urbano: a distinção residenci‐ al/comercial. Normas relativas à construção de prédios e à valorização de determinadas áreas urbanas provocou a alta dos aluguéis e novas tensões foram produzidas entre a população e a administração públi‐ ca28. O pauperismo urbano espalhou‐se pela cidade e os pobres foram afugentados das áreas mais bem servidas de aparatos urbanos (como luz, ruas, esgotos, acesso à água), seja por força das reformas, seja pelo aumento dos impostos e aluguéis. Com o acelerado processo de industrialização e a concentração de renda advinda desse processo, movimentos sociais passam a emergir nas cidades. Segundo Gohn29, ao longo dos anos 30, vários movimen‐ tos e agitações de rua podem ser identificados nas cidades de Recife e São Paulo. Os aluguéis sempre foram fonte de tensões nas cidades. Em 1942, eclodiram movimentos pelo congelamento dos aluguéis nas cidades do Rio de Janeiro e em São Paulo. Nas décadas de 50/60, mo‐ vimentos de associações de bairros reagem à falta de investimentos por parte do Estado na periferia que recebia cada vez mais imigrantes da área rural e às escassas oportunidades de participação popular na política dos municípios. Entre as décadas de 70 e 80, a luta dos mora‐ dores das cidades incidiu, também, nas reivindicações pelo incremento dos aparelhos urbanos, como o movimento por transportes coletivos, o movimento de lutas por creches em São Paulo e Belo Horizonte e, em 1979, foi organizado o movimento das favelas,nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Já nas décadas de 80 e 90, emergiram os movi‐ mentos de luta pela moradia, como o movimento de luta pela moradia das associações comunitárias, movimento dos sem‐casa, na cidade de São Paulo. 97 (.) Ponto final Neste capítulo, buscamos discutir como a escravidão e a Lei de Terras de 1850 estão na base do monopólio do acesso à terra e da desigualda‐ de no campo. Além disso, destacamos a chegada do imigrante com a finalidade de substituir a mão de obra escrava, o incremento do núme‐ ro de posseiros no campo e a precarização das relações de trabalho. As mobilizações no campo passaram a contestar fortemente as relações consolidadas na estrutura de dominação e tornaram‐se matéria de interesse do Gabinete de Segurança Nacional, nos anos 60/70. Nos anos 90 identificamos a emergência de novos movimentos sociais na Ama‐ zônia, nossa última fronteira de expansão do agronegócio, detentora de riquezas naturais ainda inexploradas. Por último, discutimos o processo de construção das cidades no Brasil, ao longo da linha costeira, e de como a interiorização das cidades este‐ ve relacionada aos ciclos econômicos. Além disso, destacamos que ocorreram reformas urbanas violentas que trouxeram prejuízos para a população, em especial no Rio de Janeiro. Por outro lado, podemos encontrar vários movimentos sociais emergindo nas cidades, lutando pelo acesso aos benefícios da urbanização e direitos sociais. Indicações culturais NEVES, Delma Pessanha. Assentamento rural: reforma agrária em miga‐ lhas. Niterói: EDUFF, 1997. Neste estudo, a antropóloga aponta os principais problemas enfrentados pelos assentamentos para a reforma agrária no Brasil. A partir de um ponto de vista crítico, a autora expõe relações sociais e evidencia paradoxos vividos pelos assentados e téc‐ nicos envolvidos nos programas de assentamento. OLIVEIRA, Lúcia Lippi (Org.). Cidade: história e desafios. Rio de Janei‐ ro: FGV, 2002. Trata‐se de coletânea de artigos divididos em três par‐ tes: “saberes sobre a cidade”, “cidade e patrimônio” e “Rio de Janeiro: história e desafios”. Reunindo um ótimo time de antropólogos, histori‐ adores, sociólogos, geógrafos, arquitetos e urbanistas, o livro oferece‐ nos uma panorama sobre os estudos na e sobre a cidade. WOORTMANN, Ellen; WOORTMANN, Klaas. O trabalho da terra. A lógica e a simbólica da lavoura camponesa. Brasília: Ed. da UnB, 1997. Os autores, dois antropólogos, oferecem uma descrição densa sobre o significado do trabalho na terra para grupos camponeses. Escrito com base em trabalho de campo realizado em Sergipe, o estudo apresenta 98 de forma bastante completa as dimensões e os significados do processo de trabalho entre grupos camponeses. Atividades Assinale a alternativa correta que preenche as lacunas nas frases. 1) A Lei de Terras de ........... permitiu a aquisição de ................ por meio da ................. a) 1890 – terras – compra b) 1850 – matas e rios – doação da Coroa Portuguesa c) 1850 – terras – compra d) 1950 – terras – compra 2) A plantation era a lavoura de ............... proporções caracterizada pela .............., que empregava mão de obra .............. e tinha sua produção destinada ao mercado .............. a) pequenas – policultura – escrava – nacional b) grandes – monocultura – escrava – internacional c) grandes – monocultura – imigrante – boliviano d) pequenas – monocultura – escrava – brasileiro 3) O povoamento da ................. tomou impulso com o ..............., no‐ tadamente com o ciclo da .............. que iniciou em .................. a) Amazônia – extrativismo – borracha – 1870 b) Patagônia – extrativismo – cana‐de‐açúcar – 1870 c) Amazônia – extrativismo – soja – 1980 d) Amazônia – extrativismo – babaçu – 1870 4) Indígenas, ribeirinhos e ................... são alguns dos povos que vivem na Região .............. e que têm suas terras ameaçadas por grandes .............. e pela instalação de ................. a) quilombolas – Sudeste – indústrias – parques 99 b) sertanejos – Sul – comerciantes – reservas extrativistas c) quilombolas – Amazônica – traficantes – escolas e hospitais d) quilombolas – Amazônica – proprietários – megaprojetos 5) O processo de .............. no Brasil se iniciou pelo ..............., tendo em vista determinação da Coroa ................. e o barateamento no envio de produtos para a .................. a) urbanização – litoral – portuguesa – metrópole b) desenvolvimento – sertão – espanhola – colônia c) urbanização – sudeste – russa – metrópole d) urbanização – litoral – espanhola – metrópole REFERÊNCIAS NUMERADAS Capítulo 1 1 PEREIRA; GIOIA, 1994a. 2 PEREIRA; GIOIA, 1994a, p. 165. 3 PEREIRA; GIOIA, 1994a, p. 166‐167. 4 PEREIRA; GIOIA, 1994b. 5 PEREIRA; GIOIA, 1994b, p. 261. 6 PEREIRA; GIOIA, 1994b, p. 261. 7 TOURAINE, 2004. 8 TOURAINE, 2004, p. 283. 9 TOURAINE, 2004, p. 284. 10 GOHN, 2007. 11 GOHN, 2007, p. 213. 12 SCHERER‐WAREN, 2005. 13 GOHN, 2007, p. 211‐216. 14 GOHN, 2007, p. 227‐240. 15 AVRITZER; COSTA, 2004. 16 AVRITZER; COSTA, 2004. 17 AVRITZER; COSTA, 2004. 18 AVRITZER; COSTA, 2004. 19 AVRITZER; COSTA, 2004. Capítulo 2 1 GOHN, 2007, p. 172. 2 GOHN, 2007, p. 172. 3 GOHN, 2007, p. 176. 4 ANDERY, 1994. 5 GOHN, 2007, p. 176‐177. 6 GOHN, 2007, p. 178. 7 LÊNIN, 1978b. 8 LÊNIN, 1978c, p. 140. 9 LÊNIN, 1978a. 10 LÊNIN, 1979, p. 25. 11 LÊNIN, 1979, p. 124. 12 LÊNIN, 1979, p. 124. 13 COUTINHO, 1992. 14 COUTINHO, 1992, p. 1. 15 COUTINHO, 1992, p. 273. 16 PORTELLI, 1977. 17 PORTELLI, 1977, p. 64. 18 PORTELLI, 1977, p. 65. 19 GOHN, 2007, p. 185. 20 LECHTE, 2003. 21 LECHTE, 2003, p. 197. 22 ARENDT, 1989. 23 GOHN, 2007, p. 199‐207. Capítulo 3 1 BECKER, 1996. 2 SIMMEL, 2006, p. 47. 3 SIMMEL, 2006, p. 49. 4 SIMMEL, 2006, p. 83. 5 SIMMEL, 2006, p. 84. 6 BECKER, 1996. 7 BECKER, 1996. 8 GOHN, 2007, p. 26. 9 BECKER, 1996. 10 GOHN, 2007, p. 30. 11 GOHN, 2007, p. 31‐32. 102 12 GOHN, 2007, p. 35. 13 GOHN, 2007, p. 32. 14 GOHN, 2007, p. 33‐34. 15 BECKER, 1996. 16 LAKATOS; MARCONI, 2006. Capítulo 4 1 GOHN, 2007, p. 121‐126. 2 GOHN, 2007, 123. 3 GOHN, 2007, p. 143. 4 GOHN, 2007, p. 142. 5 TOURAINE, 1996, p. 65. 6 TOURAINE, 1996, p. 66. 7 TOURAINE, 1996, p. 67. 8 TOURAINE, 2004, p. 287. 9 TOURAINE, 2004, p. 290. 10 TOURAINE, 2004, p. 291. 11 TOURAINE, 2004, p. 291. 12 TOURAINE, 2004, p. 292. 13 TOURAINE, 2004, p. 293. 14 TOURAINE, 2004, p. 293. 15 TOURAINE, 1996, p. 101. 16 TOURAINE, 1996, p. 102. 17 TOURAINE, 1996, p. 105. 18 GOHN, 2007, p. 153. 19 MELUCCI, 2001. 20 MELUCCI, 2001, p. 08. Capítulo 5 1 BOTT, 1976 p. 295. 2 BOTT, 1976, p. 296. 3 BOTT, 1976. 4 BOTT, 1976, p. 297. 5 BOTT, 1976. 6 BOTT, 1976, p. 298. 7 BAUMAN, 1999, p. 72. 8 BAUMAN, 1999, p. 73‐75. 9 BAUMAN, 1999, p. 82. 10 BAUMGARTEN, 2005, p. 25. 11 SCHERER‐WARREN, 2006. 12 SCHERER‐WARREN, 2006. 13 CASTELLS, 2002 p. 22. 14 CASTELLS, 2002, p. 24‐26. 15 CASTELLS, 2002, p. 26. 16 CASTELLS, 2002, p. 26. 17 CASTELLS, 2002, p. 27. 18 CASTELLS, 2002, p. 28. Capítulo 6 1 HONNETH, 2003, p. 254. 2 HONNETH, 2003. 3 HONNETH, 2003, p. 255. 4 HONNETH, 2003, p. 255. 5 HONNETH, 2003, p. 256. 6 HONNETH, 2003, p. 257. 7 HONNETH, 2003, p. 257. 8 HONNETH, 2003, p. 258. 9 HONNETH, 2003, p. 258. 10 HONNETH, 2003, p. 258. 11 HONNETH, 2003, p. 259. 12 HONNETH, 2003, p. 260. 13 HONNETH, 2003, p. 262. 14 HONNETH, 2003, p. 263. 15 LABURTHE‐TOLRA; WARNIER, 1997, p. 31. 16 MATTA, 1987, p. 58‐59. 17 MATTA, 1987, p. 62‐63. 18 MATTA, 1987, p. 58. 19 MATTA, 1987, p. 64. 20 MATTA, 1987, p. 66. 21 MATTA, 1987, p. 69. 22 SCHWARCZ, 1993, p. 47. 23SCHWARCZ, 1993, p. 48. 24 GUIMARÃES, 2002, p. 232. 25 GUIMARÃES, 2002, p. 119. 26 GUIMARÃES, 2002. 27 SOUZA, 2000, p. 256. 103 28 GUIMARÃES, 2002, p. 122. 29 GUIMARÃES, 2002, p. 149. 30 SOUZA, 2000, p. 238‐242. 31 SOUZA, 2000, p. 260. 32 TELLES, 2003. 33 TELLES, 2003. 34 GUIMARÃES, 2002, p. 156. Capítulo 7 1 ARAÚJO, 2003. 2 ARAÚJO, 2003. 3 ARAÚJO, 2003. 4 SARTI, 2004. 5 SARTI, 2004. 6 SARTI, 2004. 7 CARNEIRO, 2003. 8 CARNEIRO, 2003. 9 CARNEIRO, 2003. Capítulo 8 1 CASTELLS, 2002, p. 143. 2 CASTELLS, 2002, p. 155‐158. 3 CASTELLS, 2002, p. 157. 4 CASTELLS, 2002, p. 158. 5 BULLARD, 2006, p. 126. Capítulo 9 1 SILVA, 2004, p. 17. 2 GORENDER, 2004, p. 21‐24. 3 OLIVEIRA, 1994, p. 55. 4 GORENDER, 2004, p. 40. 5 OLIVEIRA, 1994, p. 62. 6 GORENDER, 2004, p. 35. 7 SILVA, 2004, p. 18. 8 GORENDER, 2004, p. 40. 9 ABRAMOVAY, 2004, p. 98. 10 SILVA, 2004, p. 21. 11 ABRAMOVAY, 2004, p. 99. 12 GONÇALVES, 2001, p. 110. 13 SILVA, 2004, p. 19‐22. 14 MUNDURUCU, 2006, p. 23. 15 MUNDURUCU, 2006, p. 24. 16 OLIVEIRA, 2006, p. 48‐49. 17 NOGUEIRA, 2006, p. 45‐46. 18 COSTA, 2006, p. 42‐43. 19 COELHO, 2006, p. 52‐53. 20 COSTA, 2006, p. 53. 21 COELHO, 2006, p. 53. 22 ALMEIDA, 2006, p. 60‐62. 23 HOLANDA, 1995, p. 100. 24 MATOS, 2002, p. 44. 25 GOHN, 2003, p. 183. 26 SOUZA, 2004, p. 36‐37. 27 GOHN, 2003, p. 182. 28 GOHN, 2003, p. 185. 29 GOHN, 2003. REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, Ricardo. Agricultura familiar e capitalismo. In: STÉDILE, João Pedro (Coord.). A questão agrária na década de 90. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2004. p. 94‐104. ALMEIDA, Alfredo Wagner. 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