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TEORIA 
DOS MOVIMENTOS SOCIAIS 
 
 
 
 
 
 
Conselho Editorial EAD 
Dóris Cristina Gedrat (coordenadora) 
Mara Lúcia Machado 
José Édil de Lima Alves 
Astomiro Romais 
Andrea Eick 
 
 
Obra  organizada  pela  Universidade  Luterana  do 
Brasil.  Informamos que  é de  inteira  responsabilidade 
dos autores a emissão de conceitos. 
A violação dos direitos  autorais  é  crime  estabelecido 
na Lei nº  .610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código 
Penal. 
 
 
 
APRESENTAÇÃO 
Os movimentos sociais sempre  foram considerados como uma reação 
de protesto contra opiniões, posições e ações que  se avaliavam como 
injustas.  Assim,  escrever  sobre  os  movimentos  sociais  é  mergulhar 
também  nas  relações  sociais  de  cunho  histórico  que  os  ensejaram,  e 
este é um dos desafios ao estudar‐se o tema. Em uma sociedade globa‐
lizada,  as  interconexões  existentes  entre  atores  globais  e  locais,  na 
trama de relações, são explícitas. Fatos que ocorrem nos Estados Uni‐
dos, como os ataques de 11 de setembro de 2001, acarretam reações em 
escala global cujos reflexos incidem nas esferas pública e privada local, 
em diferentes países, mesmo passados alguns anos. 
Os  jogos de escala  levam‐nos, muitas vezes, a questionar a proporção 
que adquire o “local”. E o “local”, no plano dos movimentos sociais, é 
algo muito  sério. Como  veremos,  as mobilizações  “locais”  em  torno 
das associações de bairro foram estratégicas para a retomada da mobi‐
lização popular, ao  longo dos anos 1970 do  século XX, no Brasil, em 
pleno regime ditatorial. Por outro lado, um movimento nacional, como 
a  Coordenação  Nacional  de  Articulação  das  Comunidades  Negras 
Rurais Quilombolas (CONAQ), mantém sua atuação em escala nacio‐
nal, sem se descuidar das estratégias de luta que são peculiares a cada 
região  do  país  e  às  demandas  de  cada  comunidade  de  quilombolas 
envolvidas no movimento. Esse é um trabalho hercúleo, dadas as dis‐
tinções quanto às  relações políticas “locais” e às demandas da esfera 
federal do Estado Nacional. 
Este  livro  oferece  ao  leitor um plano de  estudo  que  o  levará  a uma 
primeira aproximação com o tema dos movimentos sociais. Trata‐se de 
material que pretende muito mais instigar a busca por respostas, ofere‐
cer ferramentas para uma análise crítica em torno do assunto e indica‐
ções, a  fim de que, no  futuro, o  leitor possa  estabelecer  contato  com 
atores dos próprios movimentos sociais e, quem sabe, interessar‐se em 
aprofundar  seus  estudos.  Assim,  o  material  aqui  apresentado  não 
pretende ser exaustivo ou completo. Muito pelo contrário: desconfiem 
da obra sobre movimentos sociais que se diga completa.  
 
 
6 
As  discussões  em  torno  dos movimentos  sociais  são  discussões  em 
constante  transformação,  seja no plano prático ou no plano analítico. 
Dentre  os  autores  que  têm produzido  teoria  acerca dos movimentos 
sociais,  destacamos  a  professora  Maria  da  Glória  Gohn,  referência 
constante neste e em qualquer trabalho relativo aos movimentos soci‐
ais. O trabalho da professora merece destaque não só pelo detalhismo 
teórico, mas  também pelo  rico  trabalho de pesquisa empírica com os 
movimentos sociais, em especial na cidade de São Paulo. 
Pedimos  aos  leitores  que  encarem  este  pequeno  manual  como  um 
apanhado sobre o  tema, com dicas para  leitura e  filmes que  ilustram 
pontos  importantes do  tema estudado em cada capítulo. Fizemos um 
certo  esforço para utilizar  referências bibliográficas  e  tecer  sugestões 
de vídeos e textos disponíveis na internet, o que possibilitará ao leitor 
pesquisar sem se deslocar de seu local de estudo. Também trouxemos 
aqui sugestões de filmes atuais produzidos e dirigidos por pessoas de 
forte apelo popular no meio artístico. Gostaríamos de dizer que isso foi 
feito  em  consideração  ao  leitor,  no  sentido de  apresentar  opções  co‐
merciais  de  dicas  culturais  que  imaginei  serem  de  fácil  acesso  nos 
lugares onde apenas o curso a distância tem oportunidade de chegar. 
O livro se encontra dividido em duas partes. Na primeira, discorremos 
sobre o referencial teórico de análise acerca dos movimentos sociais ao 
longo  da  história.  Por  fim,  abordamos  como  os  novos movimentos 
sociais  têm‐se  organizado  em  torno de  suas  reivindicações,  apresen‐
tando ao  leitor os movimentos ambientalista,  feminista, as  lutas pelo 
reconhecimento  e  as  lutas pela  conquista do  espaço. Esperamos  que 
essa sistematização forneça ao  leitor meios para se situar criticamente 
no campo  teórico dos movimentos  sociais e desperte nele o  interesse 
em buscar mais informações do que as apresentadas neste manual. 
 
SOBRE O AUTOR 
Cíntia Beatriz Müller 
Cíntia Beatriz Müller possui graduação em Direito pela Universidade Lutera‐
na  do  Brasil  (1997),  mestrado  em  Antropologia  Social  pela  Universidade 
Federal do Rio Grande do Sul (2000) e doutorado em Antropologia Social pela 
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2006). Tem experiência na área 
de Antropologia, com ênfase em Antropologia do Direito, atuando principal‐
mente  nos  seguintes  temas:  grupos  étnicos,  remanescentes  de  quilombos, 
antropologia do direito, antropologia e direitos étnicos. É professora de antro‐
pologia e sociologia política na Universidade Federal da Grande Dourados no 
Mato Grosso do Sul. 
 
 
SUMÁRIO 
1 MOVIMENTOS SOCIAIS: INTRODUÇÃO ............................................................. 13 
1.1 Os movimentos sociais como movimentos revolucionários ......................... 13 
1.2 Os movimentos sociais na América Latina ................................................ 16 
( . ) Ponto Final ............................................................................................. 20 
Indicações Culturais ..................................................................................... 20 
Atividades .................................................................................................... 21 
2 TEORIA DOS MOVIMENTOS: O PARADIGMA MARXISTA ............................... sse 24 
2.1 Contribuições das teorias marxistas ......................................................... 24 
2.2 Algumas ideias de Lenin e a importância desse ideário para a análise sobre 
os movimentos sociais .................................................................................. 26 
2.3 Contribuições de Gramsci para a análise dos movimentos sociais .............. 28 
2.4 Os pós-marxistas ..................................................................................... 29 
(.) Ponto Final ............................................................................................... 30 
Indicações culturais ..................................................................................... 31 
Atividades .................................................................................................... 31 
3 MOVIMENTOS SOCIAIS: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA SOCIOLÓGICA 
ESTADUNIDENSE .............................................................................................. 33 
3.1 A “Escola de Chicago” na sociologia estadunidense ................................. 33 
(-) Ponto Final ............................................................................................... 38 
Indicações culturais ..................................................................................... 38 
Atividades .................................................................................................... 39 
 
 
10 
4 OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA EUROPA PÓS-ANOS 60 ........................... 41 
4.1 Parâmetros gerais dos NMS ..................................................................... 41 
(.) Ponto final ............................................................................................... 46 
Indicações culturais .....................................................................................47 
Atividades .................................................................................................... 47 
5 MOVIMENTOS SOCIAIS: AS REDES DE ORGANIZAÇÕES E A CONSTRUÇÃO SOCIAL 
DA IDENTIDADE ................................................................................................ 50 
5.1 O conceito de rede na antropologia dos Estados Unidos e na britânica ....... 50 
5.2 A globalização e a reconfiguração dos Estados Nacionais ......................... 51 
5.3 Atores sociais em busca de uma identidade .............................................. 54 
(.) Ponto final ............................................................................................... 56 
Indicações culturais ..................................................................................... 56 
Atividades .................................................................................................... 57 
6 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS: LUTA POR RECONHECIMENTO ......................... 60 
6.1 A luta pelo reconhecimento impulsionada pela construção social da 
identidade .................................................................................................... 60 
6.2 A construção social da diferença no Brasil: o racismo à brasileira ............. 62 
(.) Ponto final ............................................................................................... 67 
Indicações culturais ..................................................................................... 68 
Atividades .................................................................................................... 69 
7 MOVIMENTOS SOCIAIS: MOVIMENTO FEMINISTA NO BRASIL ........................... 71 
7.1 O movimento feminista no Brasil .............................................................. 71 
(.) Ponto final ............................................................................................... 75 
Indicações culturais ..................................................................................... 76 
Atividades .................................................................................................... 77 
8 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS: O SOCIOAMBIENTALISMO ............................... 79 
8.1 O movimento ambientalista e a Ecologia .................................................. 79 
(.) Ponto final ............................................................................................... 83 
 
11 
Indicações culturais ..................................................................................... 84 
Atividades .................................................................................................... 85 
9 MOV. SOCIAIS E A LUTA PELO ESPAÇO: A INTERAÇÃO RURAL E URBANA ......... 88 
9.1 As raízes históricas da desigualdade no meio rural ................................... 88 
9.2 O processo de urbanização das cidades: o urbano e o rural se encontram .. 94 
(.) Ponto final ............................................................................................... 97 
Indicações culturais ..................................................................................... 97 
Atividades .................................................................................................... 98 
REFERÊNCIAS NUMERADAS ............................................................................ 101 
REFERÊNCIAS ................................................................................................ 104 
GABARITO ...................................................................................................... 108 
 
 
 
1 MOVIMENTOS SOCIAIS: INTRODUÇÃO 
Cíntia Beatriz Müller 
O objetivo deste capítulo é, além de oferecer subsídios históricos que 
possam  contextualizar o  leitor nos  fatores que  levaram  ao  início das 
mobilizações populares desde o século XVI até o século XVIII, apresen‐
tar ao leitor de que forma a Teoria dos Movimentos Sociais foi incorpo‐
rada  às  análises  latino‐americanas  sobre  o  fenômeno  e  como,  ainda 
hoje, as  teorias sobre os Novos Movimentos Sociais oferecem oportu‐
nidades para a construção de novas concepções teóricas. 
1.1 Os movimentos sociais como movimentos 
revolucionários 
Nos séculos XVI e XVII, a Europa vivenciou o advento do regime de 
economia capitalista. Esse período  foi marcado pelo  renascimento do 
comércio  em  sua  escala mundial, pelo  crescimento das  cidades, pela 
expulsão dos camponeses do meio rural, pela queda do absolutismo e 
pelo  fortalecimento  da  burguesia  e  o  início  do  desenvolvimento  da 
indústria.1 Particularmente, no que diz respeito ao processo de indus‐
trialização que ocorreu na Europa, tendo em vista o grande exército de 
reserva de mão de  obra  oriundo do  êxodo  rural paupérrimo  que  se 
aglomerava nas cidades emergentes, a troca de mercadorias propiciou 
o acúmulo de  capital necessário para alavancar uma  industrialização 
incipiente2. O fortalecimento do papel do comerciante que intermedia‐
va  a  troca de mercadorias  tirou da mão do  artesão  o monopólio da 
venda do produto que se  fortaleceu à medida que o mercado expan‐
dia‐se. 
 
 
 
 
 
14 
Comércio medieval 
 
Em  termos de técnica de produção,  identificamos a  transição do arte‐
sanato para a manufatura e o sistema fabril. O sistema fabril emerge da 
demanda  pelo  aumento  de  produção,  impossível  de  ser  suprido  no 
sistema de manufatura, e pelo aperfeiçoamento da  tecnologia de pro‐
dução. Pereira3 afirma que, com isso, a produção doméstica e o artesa‐
nato tornaram‐se cada vez mais rarefeitos. O incremento do comércio, 
impulsionado pelas Cruzadas, foi correlato ao crescimento das cidades 
ou burgos. Segundo o mesmo autor,  tal  local era  fundamental para a 
realização dos atos de comércio e a circulação de mercadoria, o que o 
transformou em local privilegiado para receber a mão de obra oriunda 
do  campo. Ainda  em  Pereira  tem‐se  que,  notadamente,  este  foi  um 
período de grandes conflitos, no qual os  servos  revoltavam‐se contra 
seus antigos senhores feudais, entre eles, a própria Igreja. Essas revol‐
tas davam‐se pela expulsão dos camponeses do campo, uma vez que a 
necessidade de produção e do comércio de alimentos levou os senho‐
res a realizarem cercamentos a esses burgos, e pela busca da liberdade, 
já que a condição de servos impunha uma série de restrições à liberda‐
de pessoal dos camponeses. 
Nos séculos seguintes, XVIII e XIX, é que ocorre, de  fato, a chamada 
Revolução Industrial européia (Inglaterra – XVIII e Alemanha – XIX)4. 
Essa  forma de  “revolução”  concentrou o  capital na burguesia,  classe 
emergente  liberal que  surgiu  com o  fortalecimento das  cidades  e do 
comércio, o que colocou o proletariado em extrema relação de depen‐
dência. Os  trabalhadores eram submetidos a “moradias superlotadas, 
escuras e  insalubres,  jornadas de  trabalho de até dezesseis horas diá‐
rias, condições alarmantes de  trabalho, crianças  fora da escola,  traba‐
lhando longos períodos, em péssimas condições”5. 
Com base nessas  condições pouco humanas de  trabalho,  iniciou‐se a 
reação dos  trabalhadores, num primeiro momento quebrando máqui‐
 
15 
nas,  realizando  protestos  pela  diminuição  da  jornada  de  trabalho  e 
aumento salarial e organizando sindicatos. Logo depois, eclodindo nos 
protestos  violentos  dos  quais  podemos  citar  o  de  1871,  chamado  a 
Comuna de Paris, que durou 72 dias. Essas posições antagônicas entre 
a classe proletária e a classe burguesa (outrora aliadas para a derruba‐
da do absolutismo durante a Revolução Francesa)6  fizeram emergir o 
socialismo que pregava a  transformação social em benefício dos mais 
pobres, no caso, o proletariado. 
Comuna de Paris 
 
Do ponto de vista clássico das teorias de análise dos movimentos soci‐
ais, a  correlação  entre o método de ação dos movimentos  e as ações 
radicais  de  violência  advinhada  realidade  das  revoluções.  Tanto  as 
revoluções europeias  (como a Francesa e a Russa) ou os movimentos 
pela  independência  na  América  (Estados  Unidos)  são  exemplos  de 
mobilizações sociais nos quais ocorreram batalhas, ações de guerrilha, 
atos violentos de depredação de bens particulares e públicos, e longos 
períodos de luta. 
Um dos mais  representativos  teóricos dos movimentos  sociais, Alain 
Touraine,  fornece‐nos  o  contexto  básico  sobre  o  tema:  “Entendo,  em 
princípio,  por movimentos  sociais  a  ação  conflitante  de  agentes  das 
classes  sociais  lutando  pelo  controle do  sistema  histórico”7. Destaca‐
mos, no conceito desse autor, a ênfase dada às noções de conflito, clas‐
ses sociais e controle do sistema histórico. Touraine pode ser conside‐
rado um pós‐marxista  (como veremos no  capítulo  seguinte)  e,  como 
tal, sua construção teórica baseia‐se na ênfase no conflito como a ideia 
de luta, de movimento de oposição coletiva a uma forma de opressão 
instaurada. Além disso, o conceito de classe social é importante para o 
autor, uma vez que esse conceito é o motor de transformação histórica 
da sociedade. A coletividade organizada investe, nos moldes clássicos, 
 
 
16 
pela tomada do controle. Assim, faz parte do projeto do grupo colocar 
suas concepções no lugar daquelas pré‐existentes.  
De  acordo  com  Touraine8,  há movimentos  coletivos  de  resistência  à 
opressão, e de outra monta, os que exercem pressão para a dissemina‐
ção  de  visões de  classe  sobre  o  sistema.  Essa  distinção  é  estratégica 
para  identificarmos se o movimento social  incide sobre o sistema en‐
quanto instituição ou enquanto organização. As análises clássicas lan‐
çam seu olhar sobre os movimentos sociais que incidem sobre o siste‐
ma institucional, isto, pois, de acordo com as ideias clássicas advindas 
do marxismo – parte do projeto dos movimentos sociais é a conquista 
dos aparelhos do Estado enquanto instituição. Isto só é possível após a 
mobilização coletiva eficaz, ou seja, “a transformação do conflito social 
em luta contra o poder estabelecido”9.  
Dessa  forma,  o  autor  enfatiza  a  necessidade  de  que  ações  isoladas 
sejam traduzidas em formas de ação coletivas, ou seja, que o mote de 
mobilização e os argumentos de reivindicação sejam compartilhados. 
1.2 Os movimentos sociais na América Latina 
A corrente de pensamento marxista teve grande repercussão no cená‐
rio  latino‐americano  até  os  anos  70 do  século XX.  Problemas  sociais 
desencadeados  pela  concepção  de  desenvolvimento,  dependência  e 
modernização,  propagados  na  época,  forneceram  as  bases  para  uma 
oposição consubstanciada na transformação social que se opunha a tais 
modelos. A América Latina desse período sofria com a ditadura militar 
em vários países, como Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. No âmbito 
desses governos, a política desenvolvimentista acarretou a modificação 
abrupta da forma de vida, principalmente de povos tradicionais (como 
grupos  indígenas)  e da população do  campo. O grande  êxodo  rural, 
que ocorreu na época, marcou o monopólio da terra nas mãos de pou‐
cos e o inchaço desproporcional da periferia das grandes cidades. 
Cortadores de cana‐de‐açúcar no interior do Brasil 
 
 
17 
O modelo  de modernização  que  abria  as  portas  ao  investimento  do 
capital estrangeiro no país retribuía com a oferta de mão de obra bara‐
ta  e  sem  especialização  e  capital monetário oriundo de  empréstimos 
tomados do Fundo Monetário Internacional (FMI). Com isso, o caráter 
de dependência econômica dos países da América Latina em  relação 
ao  capital  estrangeiro  e  às  novas  tecnologias  importadas do  exterior 
fazia com que a camada dominante da sociedade nacional, notadamen‐
te aquela que se originou no bojo de uma sociedade escravista, perpe‐
tuasse sua forma de governar e sua dominação sobre as classes subal‐
ternas. O modelo de modernização implementado nos anos 50 e 60 no 
continente era eminentemente europeu, ou seja,  tomava por base um 
capitalismo histórico maduro  concebido por países que,  ao  longo do 
colonialismo, desempenharam o papel de metrópoles10. 
Dessa forma, a América Latina era constantemente vista como atrasa‐
da. No entanto essa contradição era inerente ao modelo de moderniza‐
ção eleito que mantinha os laços de dominação consolidados ao longo 
do regime colonial. Notadamente Fernando Henrique Cardoso, citado 
por Gohn, ao desenvolver uma  teorização sobre a dependência “cha‐
mou atenção para as especificidades da América Latina, argumentan‐
do que nela o desenvolvimento deveria ser visto no contexto da dinâ‐
mica  global  da  economia”11.  Essa  nova  teorização  sobre  a  América 
latina abriu margem para uma análise crítica sobre os modelos teóricos 
majoritários e fomentou novas abordagens sobre o modelo de moder‐
nização. 
Scherer‐Warren12 explicita que, nesse período, os estudiosos da Teoria 
Social Latino‐Americana, de  inspiração  francamente marxista,  tomam 
consciência de que, na América Latina, a  formação de grupos  com o 
caráter de  classes  sociais,  tal  qual  a  conotação  europeia do  conceito, 
dificilmente  seriam  formados  a partir da  experiência histórica  latina, 
de uma realidade pós‐colonial. Isso se deu em função das especificida‐
des históricas do continente  latino‐americano, em especial, cuja estru‐
tura social originou‐se de uma situação colonial em que povos autóc‐
tones  foram dizimados e colocados em  franca situação de dominação 
ao longo de séculos. Assim sendo, o Estado assume um caráter estraté‐
gico  frente  aos movimentos  sociais,  pois  é  o  governo  que  define  os 
parâmetros e os rumos políticos de cada país, possuindo, por isso, sua 
sociedade política, potencial de transformação. 
Gohn13,  contudo, destaca que não existe um “paradigma  teórico pro‐
priamente  dito”  sobre  os movimentos  sociais  latino‐americanos. No 
Brasil,  como  em  todo o mundo, o modelo  clássico  inicial que visava 
formular uma referência explicativa e um projeto de ação para os mo‐
 
 
18 
vimentos  sociais  foi  o modelo  teórico marxista,  ressaltando‐se  a  in‐
fluência de Gramscia. O  exaurimento desse paradigma  teórico  levou 
suas  referências  a  serem  substituídas  pela  abordagem  proposta  pela 
Teoria dos Novos Movimentos Sociais. Em termos gerais, Gohn sugere 
elementos  que  devem  ser  considerados  na  formulação  de  um  para‐
digma  teórico  sobre  os movimentos  sociais  latino‐americanos,  entre 
eles14: 
1) a diversidade dos movimentos sociais quanto à sua constituição, 
composição e organização; 
2) a  proliferação de movimentos  populares  que  lutam  por  direitos 
sociais básicos; 
3) a  participação  de  organizações  religiosas  no  aparelhamento  dos 
movimentos sociais; 
4) a  forte participação de movimentos que  colocam em evidência a 
discriminação  étnica,  promovida  contra  indígenas  e  afro‐
americanos; 
5) a posição de antagonismo em relação ao Estado; 
6) as novas lutas sociais pleiteiam a inclusão e não mais a integração 
social; 
7) a  formulação  de  projetos  políticos  comuns  entre  movimentos 
sociais e partidos políticos; 
8) na América Latina, o papel dos intelectuais frente aos movimentos 
sociais é bastante importante. Eles têm funcionado como interme‐
diários  entre o movimento  social  e  agências governamentais  e  a 
própria mídia. 
No período de democratização da América Latina, outro conceito que 
tomou  fôlego  foi o de esfera pública. Esse conceito, em efervescência 
teórica no  início do  século XXI,  engloba  tanto  a perspectiva de uma 
esfera de interação burocrática, legal, que permita a relação entre gru‐
pos e movimentos sociais, como uma dimensão de autonomia cultural 
frente à produção de bens de consumo em massa15. Uma das principais 
influências na construção do conceito foi a de Habermas, que entendiaa Ativista político  italiano que divulgou suas  ideias políticas ao  longo do século XX, participou de ações 
vinculadas ao movimento comunista e permaneceu preso, quando, então, sistematizou parte de sua obra. 
Sua prisão deu‐se por sua atuação política em defesa de ações revolucionárias e em oposição ao regime 
que se consolidava na Itália naquele momento, capitaneado por Benedicto Mussolini e que desembocou no 
fascismo que colocou a Itália ao lado da Alemanha da 2ª Guerra Mundial. 
 
19 
a esfera pública como uma dimensão dialógica e comunicativa, entre 
atores  da  sociedade  civil,  Estado  e  sistema  político.  Para Habermas, 
citado por Avritzer e Costa16, a formação da opinião e a vontade coleti‐
va,  que  legitimam  os  processos  políticos,  acabavam  por  compor  um 
processo  de mediação  entre  o  sistema  político  e  o mundo  da  vida. 
Nessa relação, a sociedade civil torna‐se refém de um papel ambíguo, 
pois tanto é responsável pela criação de “microesferas públicas” quan‐
to é ela que seleciona as questões que serão alvo de crivo nesses mes‐
mos espaços. 
Se a esfera pública, assim como a cidadania, é algo que emerge com os 
Estados‐Nacionaisb17,  podemos  afirmar  que  as  transformações  pelas 
quais passam tais Estados também interferem e sofrem consequências 
advindas de ações da própria esfera pública. De  forma ampla, o con‐
ceito de esfera pública tem sido empregado ao  longo de pesquisas de 
opinião pública, ao estilo da Escola de Frankfurt, no qual o público é 
encarado como entidade atomizada e passiva, acrítico e valorado sob a 
óptica do consumidor. Por outro  lado, no que diz  respeito ao campo 
político,  não  se  teria  consolidado um  campo de  ação  racional,  argu‐
mentativo  e  dialógico,  dentro  do  contexto  habermaziano,  de  fazer 
político na América Latina. 
Dagnino, citado por Avritzer e Costa18, aponta para a  infeliz “coinci‐
dência”  entre  o  processo  de  democratização  na América  Latina  e  a 
consolidação de governos de postura neoliberal na região. Ao mesmo 
tempo,  iniciativas  e  reivindicações por maior participação  e  transpa‐
rência das ações de governo têm emergido na América Latina enquan‐
to novos personagens políticos buscam reconhecimento de sua identi‐
dade  política  no  âmbito  da  sociedade  civil  dos  Estados‐Nacionaisb. 
Diante  dessas  novas  configurações,  Avritzer  e  Costa19  formulam  a 
seguinte concepção de esfera pública: 
Malgrado a metáfora espacial que sugere, equivocadamente, a existência 
de  uma  localização  específica  na  topografia  social,  a  esfera  pública  diz 
respeito mais propriamente a um contexto de relações difuso no qual se 
concretizam  e  se  condensam  intercâmbios  comunicativos  gerados  em 
diferentes  campos  da  vida  social.  Tal  contexto  comunicativo  constitui 
uma  arena  privilegiada  para  a  observação  da  maneira  como  as 
transformações sociais se processam, o poder político se reconfigura e os 
novos atores sociais conquistam relevância na política contemporânea. 
                                                                  
b O processo de emergência dos Estados‐Nacionais diz respeito à história política deles, a partir da qual 
esses Estados surgiram das antigas formações, como os impérios e as colônias. 
 
 
20 
Dessa forma, os autores enfatizam que, mesmo com uma denominação 
que remete à dimensão de um local, como se a esfera pública fosse algo 
material que se localiza em um dado espaço, o sentido do termo refere‐
se ao conjunto de relações. Tais relações sucedem‐se na sociedade de 
forma ampla entre dados atores que compartilham um tipo de comu‐
nicação específica (como expressões e linguagens) e acaba por compor 
um  contexto  em  que  as  transformações  sociais  tornam‐se  possíveis, 
pois  as  ideias passam  a  ser  compartilhadas  e,  assim, provocam mu‐
danças sociais. 
( . ) Ponto Final 
Neste capítulo, buscou‐se reforçar a perspectiva de que a mobilização 
social é fruto de condições históricas cuja configuração de poder criou 
uma massa subalterna. Além disso, destacamos que o contexto históri‐
co europeu difere do latino‐americano e que, apesar da importação de 
modelos teóricos, notadamente europeus para a análise das mobiliza‐
ções sociais que ocorreram na América Latina, ainda nos encontramos 
a procura de um modelo explicativo dos movimentos sociais na Amé‐
rica Latina. Assim, destacamos neste capítulo introdutório as possibili‐
dades teóricas na análise dos movimentos sociais na América Latina e 
a importância do conceito de esfera pública como campo de interação 
entre sociedade civil, instituições políticas e Estado. 
Indicações Culturais 
ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: O Globo, 2003. Livro de 
suspense  lançado na Itália em 1980, que relata a  investigação de uma 
série de mortes misteriosas que ocorrem em uma abadia medieval no 
século XIV. É um excelente  livro que descreve a  relação que a  Igreja 
Católica possuía  com  a  construção do  saber na baixa  Idade Média  e 
oferece dados tangenciais sobre o empobrecimento dos camponeses e 
sua migração para os burgos, assim como oferece algumas representa‐
ções sobre o feminino que condizem com a época. 
VICTOR HUGO. Os miseráveis. 8.  ed. São Paulo: Hemus, 2002. Livro 
escrito em 1862, descreve como os pobres da cidade eram tratados pelo 
aparelho de  repressão do Estado  e  como o  empobrecimento  em que 
viviam os  aldeões os  levava a  cometer pequenos  furtos. É uma obra 
belíssima  sobre a  solidariedade humana e  sobre  como a norma  legal 
pode ser distorcida e situacionalmente utilizada para fins de vingança 
privada. 
 
21 
A CASA dos  espíritos. Direção: Billie August. Produção: Bernd Eichin‐
ger. Estados Unidos: Miramax Films, 1993. (150 min). Este filme conta 
a  história da  Família Trueba  e,  por meio dela,  a  história política do 
Chile dos  anos de  1930  a  1970  com  o deslocamento da  estrutura de 
poder agrária para as cidades. Em meio à modernização do aparelho 
de Estado, um golpe coloca os militares no poder na década de 1970 e 
interrompe o governo do presidente Salvador Allende.  
O  QUE  é  isso  companheiro?  Direção:  Bruno  Barreto.  Produção:  Lucy 
Barreto e Luiz Carlos Barreto. Brasil: Miramax Films, 1997. (105 min). 
O  filme  descreve  o  contexto  político  brasileiro  após  a  instituição  do 
Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de 1968c. Ele apresenta a ação 
de militantes  que  planejam  sequestrar  o  embaixador  estadunidense 
para  trocá‐lo por  companheiros  presos  e  torturados.  Produzido  com 
base em fatos reais, o filme oferece informações sobre a situação políti‐
ca da  época  no Brasil  e  a  tensão  entre  o  sistema  político  e  parte da 
sociedade civil. 
Atividades 
1) Assinale a alternativa que responde à sentença a seguir. Revolução 
que  teve  início na  Inglaterra e  levou ao crescimento das cidades, 
consequência  do  cercamento  dos  campos  e  do  empobrecimento 
dos camponeses, à aceleração de investimentos no sistema fabril e 
à crise do Absolutismo europeu foi a: 
a) Revolução Comunista 
b) Revolução Industrial 
c) Revolução Francesa 
d) Comuna de Paris 
2) Assinale a alternativa correta de acordo com a afirmativa a seguir. 
O modelo desenvolvimentista  implantado na América Latina en‐
tre os anos de 50 e 70: 
a) Foi exportado, exclusivamente, para os Estados Unidos 
b) Era embasado na busca por  investimento estrangeiro, princi‐
palmente em empréstimos  tomados do Fundo Monetário  In‐
                                                                  
c Para ver o Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de 1968, acesse: 
<http://www.acervoditadura.rs.gov.br/legislacao_6.htm>. 
 
 
22 
ternacional, acarretando o êxodo rural e o crescimento desor‐
denado das cidades 
c) Tinha como características principais: a venda de estatais para 
grupos estrangeiros e a privatização de partede serviços pú‐
blicos 
d) Foi  consequência  do  impacto  pós‐Segunda Guerra Mundial 
sobre as indústrias europeia e japonesa 
3) Sobre os movimentos  sociais na América Latina, podemos dizer 
que: 
a) Nos anos 70, esses movimentos foram analisados sob o ponto 
de vista teórico do paradigma marxista 
b) A estrutura organizacional deles depende, unicamente, de re‐
cursos financeiros do Estado 
c) Não são compostos por grupos étnicos minoritários, como in‐
dígenas, uma vez que eles  têm  todos os seus direitos respei‐
tados pelo Estado e pela sociedade civil 
d) Emergiram  a  partir da  harmonia  que  se  consolidou  entre  a 
classe proletária e a burguesa 
4) Podemos dizer que a esfera pública é o espaço em que se estabele‐
cem relações entre: 
a) A classe burguesa, a aristocracia e, apenas, os camponeses 
b) A aristocracia e o proletariado 
c) O Estado, a sociedade civil e as instituições políticas 
d) O Banco Mundial e as empresas privadas 
5) A emergência dos Estados‐Nacionais trouxe como consequência: 
a) A consolidação de uma estrutura empresarial que poderia sa‐
car empréstimos no exterior 
b) O surgimento da esfera pública, na qual a opinião pública e a 
vontade coletiva acabam por mediar a relação entre o mundo 
da vida e o sistema político 
 
23 
c) O antagonismo de classes entre Estado e empresários da ex‐
portação 
d) A transformação das colônias em metrópoles durante o mer‐
cantilismo 
 
 
 
2 TEORIA DOS MOVIMENTOS: O PARADIGMA MARXISTA 
Cíntia Beatriz Müller 
A  partir  do  paradigma marxista,  analisamos  os movimentos  sociais 
como  catalisadores  de  processos  voltados  para  a  transformação  das 
condições sociais. Trata‐se de enfatizar a análise dos movimentos soci‐
ais sob a perspectiva da  luta, do conflito, da disputa que modifica as 
condições de vida das pessoas envolvidas no movimento e na socieda‐
de, em geral, e rompe com a alienação. De forma alguma, o paradigma 
marxista de análise dos movimentos sociais centra sua atenção sob as 
revoluções ou sob as  lutas operárias. Embora esse tipo de abordagem 
empreendida  pelos movimentos  sociais  evidencie  as  relações  de  su‐
bordinação e de dominação, cuja visibilidade é maior em situações de 
capitalismo tradicional, a abordagem centrada no paradigma marxista 
não se reduz a isso. 
De  acordo  com  Gohn1,  o  paradigma  marxista  clássico  possui  duas 
correntes distintas: uma baseada em abordagem que parte da produ‐
ção intelectual do jovem Marx e outra que encontra lastro nos escritos 
do Marx “maduro”. Esta última corrente apropria‐se dos conceitos de 
“formação social, forças produtivas, relações de produção, superestru‐
tura, ideologia, determinação em última instância, mais‐valia”2, e colo‐
ca  em  evidência  uma  análise  calcada  em  premissas  eminentemente 
econômicas. Valoriza, assim, o papel da classe operária por sua posição 
frente ao processo de produção, o que a transformaria, a grosso modo, 
em grupo privilegiado como agente histórico capaz de operar ações de 
transformação social 
2.1 Contribuições das teorias marxistas 
Ao abordar os movimentos sociais, as teorias marxistas não abandona‐
ram de todo o conceito de classes sociais que acaba por situar os atores 
envolvidos  no  contexto dos movimentos  frente  à  estrutura  social. A 
classe social, e os elementos que a compõem, acaba por definir parâme‐
tros acerca da consciência social do ator envolvido no movimento de 
 
25 
luta por conquistas da própria classe. Tomando o trabalho de Marx de 
forma ampla, podemos afirmar que os movimentos sociais não foram 
alvo  de  suas  preocupações  teóricas3.  Porém,  esse  filósofo  construiu 
categorias essenciais que potencializaram a análise sobre o tema. 
Karl Marx (1818‐1883) – Filósofo alemão 
 
Karl Marx nasceu na cidade de Trier (Trèves, pró‐
ximo da fronteira com a França), na Prússia. Estu‐
dou  Direito  (1837‐1841)  nas  universidades  de 
Bonn e Berlim, quando  travou conhecimento com 
a  filosofia de Hegel. Defendeu sua  tese de douto‐
rado em 1841 e passou a trabalhar na Gazeta Rena‐
na, como redator‐chefe, em 1842. Por razões políti‐
cas, viveu na Bélgica até 1848 e retornou para a Alemanha, onde ficou 
até 1849. Exilou‐se, então, definitivamente em Londres, onde morreu 
em 1883. Sua obra costuma ser dividida em duas fases: a da juventude 
– Manuscritos  econômicos  e  filosóficos  (1844), Miséria  da  Filosofia  (1847), 
sendo   que A Ideologia alemã (1848) e Manifesto comunista (1848) foram 
escritos em co‐autoria com F. Engels – e a da fase madura – O 18 Bru‐
mário  de  Luís  Bonaparte  (1852),  Esboços  dos  fundamentos  da  Crítica  da 
Economia política (1857/58), Para a Crítica da Economia política (1859) e O 
capital (1867 e 1894 em edição póstuma)4. 
Para Gohn5, uma importante categoria cunhada pelo autor é a de prá‐
xis social. Práxis social é, para Marx, a capacidade que as classes sociais 
trabalhadoras e os grupos dominados possuem de transformar a soci‐
edade por meio de  atividades  teóricas, políticas  e produtivas. Ainda 
segundo Gohn, a práxis teórica ofereceria recursos capazes de acelerar 
projetos  de  transformação  social;  ao  passo  que  a  práxis  produtiva, 
consubstanciada no locus ocupado pelo proletário, forneceria os recur‐
sos críticos que potencializariam a síntese transformadora da socieda‐
de, a partir da própria consciência social acerca da dominação, imple‐
mentada  pelos  detentores  do monopólio  dos meios  de  produção. A 
práxis política viria à  tona  embasada no  entrecruzamento das práxis 
teórica  e  produtiva.  Essa  conexão  entre  intelectualidade  e  processos 
sociais de transformação das condições de vida da classe trabalhadora, 
matéria‐prima da práxis política, é uma das contribuições de Marx em 
relação à análise dos movimentos sociais.  
Outra importante categoria de análise dos movimentos sociais forjada 
por Marx é a de solidariedade: “A solidariedade citada por Marx refere‐
se a uma relação social, com os mesmos interesses e deveria estar vol‐
 
 
26 
tada  para  um  dado  objetivo:  a  emancipação  dos  trabalhadores”6. A 
solidariedade, no  sentido marxista, apresenta uma dupla  função: por 
um lado é fator de coesão do grupo, ou seja, aponta uma dimensão de 
comprometimento entre aqueles que compartilham uma mesma  ideo‐
logia  e,  por  outro,  agrega  pessoas  que  compartilham  de  um  projeto 
emancipatório.  Para  consolidar  essa  solidariedade,  é  especialmente 
significativo  compartir  experiências  de  vida  e  de  classe,  pois,  dessa 
forma, as pessoas compartilhariam de um mesmo grau de consciência 
social acerca dos processos de dominação histórica do seu cotidiano. 
2.2 Algumas ideias de Lenin e a importância desse 
ideário para a análise sobre os movimentos sociais 
Vladimir Ilitch Lenin, advogado por formação, foi um líder revolucio‐
nário que esteve à frente de todas as fases da Revolução Russa de 1917. 
As ideias desse líder tiveram influências não apenas no contexto revo‐
lucionário soviético, mas em âmbito internacional. Tal repercussão não 
ocorreu por acaso. Com o caráter clandestino das atividades políticas 
revolucionárias na Rússia, ao longo do reinado do czar Alexandre II, os 
mentores  da  práxis  intelectual  obrigavam‐se  a  publicar,  no  exterior, 
todo o material a ser distribuído na Rússia. Também no exterior aca‐
bavam por traçar estratégias de organização do movimento revolucio‐
nário,  sem  contar  que,  inúmeras  vezes,  lideranças  revolucionárias 
precisavam permanecer abrigadas no exterior, tendo em vista o clima 
de perseguição política que imperava ao final do período czarista. 
Lenin durante a Revolução Russa em 1917 
 
Para Lenin7, o povo, composto aqui pela maioria em um conjunto de 
classes, deveria ocupar  seu  lugar  ao  centro das decisões políticas no 
Estado socialista‐revolucionário. Era decisivo que  fossem constituídas 
condições  concretas  paraa  participação  da  maioria  nas  decisões  e 
negócios públicos. Para  isso,  seria  estratégico  que  tanto  o  regime de 
Estado quanto o poder político propiciassem condições de participação 
 
27 
da maioria nas arenas de decisão. Essa participação, contudo, implica‐
va a necessidade de que essa maioria fosse capaz de conduzir a estru‐
tura de Estado. O monopólio do exercício do poder político pela classe 
burguesa, porém, implicava que os interesses desse contingente, com‐
posto por classes subordinadas, não fossem atendidos. 
A participação da maioria nos negócios de Estado é  importante para 
Lenin tendo em vista sua concepção de que “o Estado é o produto e a 
manifestação do fato que as contradições de classes são inconciliáveis. 
O Estado surgiu aí no momento e na medida em que, objetivamente, as 
contradições de classes não podiam ser conciliadas”8. 
A única forma de transformar o Estado, a transformação revolucioná‐
ria, seria, segundo Gohn, a conciliação da maioria, ou a participação de 
uma maioria nas decisões dos negócios públicos. Para Lenin, o modelo 
de  Estado  que  comporta  as  demandas  do  proletário,  enquanto  ele 
estiver subordinado aos interesses capitalistas, é o da república demo‐
crática. Porém o ideal socialista é o de que a classe proletária assuma o 
controle  completo de  sua  vida  social  e política  e, por decorrência,  o 
controle do governo do Estado Nacional. 
A organização da maioria, ou de massa, para torná‐la apta ao exercício 
do governo, de acordo com Lenin, possuía  sutilezas que a distinguia 
das organizações de  classe. Por  isso,  existem dois  tipos de organiza‐
ções, ambas essenciais à práxis social: a organização política e a orga‐
nização de operários para a  luta9. Seguindo o  raciocínio de Lenin, as 
organizações  de  operários  possuiriam  caráter  profissional,  amplo  e 
pouco  “conspiratório”,  ao passo que  as organizações de  caráter  emi‐
nentemente político deveriam  reunir pessoas voltadas para  esse  fim, 
de ação política. Em seu interior, não existiram distinções entre operá‐
rios  e  intelectuais,  sendo  essas  distinções  organizadas  de  forma  não 
muito extensa. A principal função da organização política, notadamen‐
te  do  Partido,  de  acordo  com  Lenin,  seria  a  de  organizar  a maioria 
envolvida no movimento social10, ou seja, a de desenvolver seu papel 
de vanguarda, de estar à frente dos acontecimentos.  
Embora Lenin não  tenha produzido  textos  específicos dedicados  aos 
movimentos  sociais,  em  seu  tempo  ele  foi  um  intelectual  envolvido 
com a luta das organizações de classes, notadamente os sindicatos. Os 
sindicatos deveriam assumir uma função pedagógica, sendo um possí‐
vel centro irradiador da ideologia socialista. Serviriam, assim, de estru‐
tura capaz de suportar uma preparação para a maioria, o povo, em seu 
momento de  tomada do poder11. Nesse  sentido, Lenin aponta para o 
caráter pedagógico possível dos movimentos sociais de vários níveis, 
como  atualmente  tem  sido  a  tônica  dos movimentos  de  luta  pelos 
 
 
28 
direitos humanos no Brasil, por exemplo. Essa função de disseminação 
de ideias caberia à vanguarda: “o papel da vanguarda do proletariado, 
que consiste em instruir, ilustrar, educar, atrair para uma vida nova as 
camadas e as massas mais atrasadas da classe operária e do campesi‐
nato”12. Obviamente,  como  paradigma  de  ação  para  os movimentos 
sociais  modernos,  essa  noção  deve  ser  atualizada,  mas  a  categoria 
vanguarda pode ser ainda operacional entre nós. 
2.3 Contribuições de Gramsci para a análise dos 
movimentos sociais 
Gramsci, teórico marxista italiano, nascido em 1891 na Sardenha, inici‐
ou seus estudos em 1903, no ginásio (hoje ensino fundamental – 5ª a 8ª 
séries), de onde teve de sair para buscar sustento ao longo dos anos de 
1904 a 190813. Devido a uma queda que sofreu aos quatro anos de ida‐
de, Gramsci era corcunda e sofria com essa deformidade física, sendo‐
lhe penoso desenvolver atividades laborais que envolvessem o uso da 
força  física. Entrou na  faculdade de Turim em 191014. Os Cadernos do 
cárcere,  conjunto de  textos  escritos pelo  autor  enquanto  esteve preso 
entre os anos de 1926 e 1937, são compostos por trinta e três cadernos, 
dos quais vinte  e nove  foram publicados pela primeira vez na  Itália 
entre os anos de 1948 e 1951. As ideias de Gramsci não representaram 
uma continuidade das ideias divulgadas por Lenin, porém  trouxeram 
uma  séria  contribuição  no  que  se  refere  à matéria  dos movimentos 
sociais com a ideia de hegemonia e o papel dos movimentos populares 
na transformação de espaços políticos. 
Gramsci, como teórico, desenvolveu uma noção mais ampla de Estado 
do  que  o  fez  Lenin.  Segundo Coutinho15,  para Gramsci  a  sociedade 
civil  seria um  importante campo de disseminação de  ideias políticas, 
espaço  social  em  que  a  participação  política  e  o  reconhecimento  de 
grupos e massas era possível. A “sociedade civil” formaria uma cama‐
da com potencial crítico capaz de opor‐se à opressão da   estrutura de 
Estado. É no âmbito da sociedade civil que se situam as organizações 
privadas. De acordo com Portelli16, sociedade civil, para Gramsci, é um 
conjunto  extenso  “e  sua  vocação  para  dirigir  todo  o  bloco  histórico 
implica uma adaptação de seu conteúdo, segundo as categorias sociais 
que atinge”. A sociedade civil estaria permeada de ideologia da classe 
dirigente. Esse  fato acabaria por  influenciar seus diferentes campos e 
concepções de mundo da sociedade civil ao passo que, como “direção 
ideológica”,  ela  estaria estruturada  em organizações que difundem a 
mesma  ideologia e os  instrumentos que difundem essa  ideologia, por 
exemplo, o sistema escolar. No âmbito da sociedade civil, é que se dão 
os embates pela hegemonia. 
 
29 
Gramsci  apresenta um  conceito de  hegemonia muito próximo  ao de 
Lenin e reforça a tese de que o papel da direção intelectual e ideológi‐
ca, ou seja, a existência de um grupo dirigente, é fundamental frente à 
base de classe. Para ele, o Estado está para além de uma simples socie‐
dade de organização política, mas  é decisivamente  influenciado pela 
sociedade civil. Daí a importância da incidência de intelectuais sobre a 
classe base na sociedade civil, para, por meio da transformação de seu 
sistema  ideológico,  transformar  a  própria  estrutura  política  e,  por 
consequência, o Estado. A hegemonia assim seria o conjunto de ideias 
e concepção de mundo formado a partir de valores da classe burguesa, 
cuja capilaridade estende‐se por toda a sociedade civil. A consolidação 
de  tais  ideias ocorreria em decorrência da atuação de um grupo  inte‐
lectual, uma vanguarda  conforme Lenin,  e da  correlação  ente outros 
grupos aliados17. 
Segundo Portelli18, “A hegemonia gramsciana é a primazia da socieda‐
de civil sobre a sociedade política”. Ainda segundo o mesmo autor, a 
luta para Gramsci não era pelo controle da sociedade política, como o 
era para Lenin, mas pelo controle da sociedade civil. A conquista do 
aparelho estatal apenas seria uma  forma de apropriar‐se do mecanis‐
mo de dominação estatal. Essa concepção opõe‐se à ideia de ditadura, 
uma vez que a conquista do Estado aconteceria pelas bases do conven‐
cimento e da apropriação ideológica da sociedade civil – assumir uma 
postura dominante − que, ao inverter seus valores hegemônicos, pode‐
ria vir a conquistar o aparelho de Estado – aqui em caráter dirigente. 
Em relação aos movimentos sociais, há duas perspectivas importantes 
na construção teórica gramsciana: a revalorização da noção de Estado e 
o conceito de hegemonia. De acordo com Gohn19, Gramsci foi o grande 
responsável por  tornar o Estado uma atraente arena para a  luta pela 
transformação  social, não apenas um mecanismo de dominação, mas 
um local que merecia ser redemocratizado e gerido de forma participa‐tiva, embasado nas forças organizadas da sociedade civil. Com o con‐
ceito de hegemonia, passou‐se a apreciar o conjunto de valores consi‐
derados  como  legítimo  no  interior  das  coletividades  por  oposição  à 
ideologia da  classe  burguesa. Assim, proporcionou‐se uma possibili‐
dade teórica para a transformação da ideologia nas classes formadoras 
da  sociedade  civil  que,  gradualmente,  poderiam mudar  a  sociedade 
política e as estruturas de Estado. 
2.4 Os pós-marxistas 
Podemos  citar,  entre  os  pós‐marxistas,  Theodor  Adorno  (Frankfurt, 
Alemanha  1903  –  Suíça,  1969), Hannah Arendt  (Hanover, Alemanha 
 
 
30 
1906 – Nova Iorque, EUA 1975),  Jürguen Habermas  (Düsseldorf, Ale‐
manha),  Ernesto  Laclau  (Buenos Aires, Argentina)  e Alain  Touraine 
(Paris, França)20. A principal crítica desse grupo dirige‐se à perspectiva 
reducionista do marxismo ao privilegiar uma classe específica como a 
propulsora de mudanças sociais, pressupondo que ela seria universal. 
Além disso, questionam, de forma ampla, o caráter antidemocrático do 
marxismo, defendendo a  tese de uma “democracia  radical” com pre‐
ponderância  em  valores  como  a dignidade  humana,  a  liberdade  e  o 
comunitarismo21.  Vários  dos  temas  abordados  por  esses  pensadores 
traduziram‐se em base  teórica para a ação de grupos  sociais e movi‐
mentos sociais. Em Hannah Arendt22, por exemplo, suas análises sobre 
o  totalitarismo  colocaram  a  dignidade  humana  como  um  valor  que 
deve preponderar nas relações sociais. 
Gohn23 coloca em evidência, nesse campo, em relação específica com os 
movimentos  sociais, Manuel Castells,  Jordi  Borja  e  Jean  Lojkine. De 
forma ampla, pois discutiremos Manuel Castells no âmbito do movi‐
mento ambientalista, o grupo preocupa‐se com os movimentos sociais, 
sua estrutura e o objetivo de sua incidência em um contexto de globa‐
lização,  de  um  capitalismo  transnacional,  da  emergência  de  novas 
identidades e a desconstrução do Estado‐Nação. Esses autores colocam 
o movimento social como parte da sociedade civil que incide de forma 
decisiva  sobre  as  organizações  políticas.  Outros  pensadores  que  se 
filiam à corrente neomarxista são os historiadores E. P. Thompson, Eric 
Hobsbawm e George Rude. É notável nesses autores a  forma como a 
construção  textual  do  livro  18  Brumário,  por  exemplo,  influenciou  a 
maneira como se tem escrito textos de análise de conjuntura e as impli‐
cações deles com a superestrutura. Além disso, noções como ideologia 
e hegemonia (assim, como contra‐hegemonia) podem ser identificadas 
em seus textos como instrumentos teóricos de análise e de diálogo com 
o campo teórico. 
(.) Ponto Final 
Os pensadores marxistas não conceberam uma teoria específica acerca 
dos movimentos sociais. Porém, ao se preocuparem em conferir visibi‐
lidade à exploração de classe, acabaram por forjar um referencial teóri‐
co  importante  como  estoque  analítico  dos  movimentos  de  massas. 
Como veremos adiante,  esses  conceitos  serão  retomados  e aprimora‐
dos por filósofos e pensadores que realmente estavam empenhados na 
elaboração de uma teoria acerca dos movimentos sociais. 
 
31 
Indicações culturais 
REDS.  Direção  e  produção:  Warren  Beatty.  Estados  Unidos:  Para‐
mount Pictures, 1981. (181 min.). Esse filme conta a história do jornalis‐
ta norte‐americano  John Reed  e mostra o quanto  a Revolução Russa 
impactou, também, o cenário político internacional. 
DOUTOR  Jivago. Direção: David Lean. Produção: David Lean e Carlo 
Ponti. Estados Unidos: MGM,  1965.  (201 min.). A  importância desse 
filme  está  na  forma  como  destaca  a mudança  estrutural  da  Rússia 
imperial em direção a um Estado comunista. Trata‐se de um romance 
que deixa explícito os valores sociais em choque e o quanto a adequa‐
ção das pessoas aos padrões morais da época era exigida, tanto por um 
quanto pelo outro  regime,  tanto pela estrutura  social  czarista quanto 
pelo projeto do Estado comunista. 
Atividades 
1) No que diz respeito à Teoria Marxista, de forma ampla podemos 
dizer: 
a) Não  fornece  recursos  analíticos  que  permitam  avaliar  os 
movimentos sociais contemporâneos 
b) Presta‐se apenas para analisar movimentos sociais de natu‐
reza sindical 
c) Teve seus referenciais analíticos atualizados de forma críti‐
ca por teóricos contemporâneos 
d) É  recurso  teórico datado que não  serve para  análises mo‐
dernas sobre os movimentos sociais 
2) Quais  dos  conceitos  a  seguir  perpassam  e  desempenham  papel 
central nas correntes marxistas clássicas? 
a) Classe social, vanguarda e sociedade civil 
b) Ideologia, sociedade civil e Estado Nacional 
c) Classe social, ideologia e alienação 
d) Hegemonia, alienação e classe social 
3) “Vanguarda” para Lenin: 
 
 
32 
a) diz respeito a um grupo de pessoas capazes de conduzir a 
classe proletária na tomada de consciência sobre sua aliena‐
ção social e da  importância de seu papel  frente à  transfor‐
mação do Estado Nacional 
b) não foi abordada por este autor 
c) valoriza uma camada de intelectuais que não deve interagir 
com a base de classe, e, sim, partir para ações isoladas 
d) é um grupo que  se origina da  classe burguesa e, por  isso, 
aperfeiçoa sua dominação frente à classe média 
4) Sobre o  conceito de  sociedade  civil, descrito por Gramsci, pode‐
mos dizer que: 
a) foi um conceito teórico formulado, na verdade, por K. Marx 
b) ela não  existe para Gramsci. Trata‐se de grupo pouco  im‐
portante e que desempenha um papel  insignificante na so‐
ciedade como um todo 
c) sociedade civil e sociedade política são termos sinônimos 
d) a  transformação dos valores hegemônicos na sociedade ci‐
vil,  com base nos valores  sociais que povoam o  cotidiano 
das classes populares, pode  tornar‐se o motor de  transfor‐
mação do Estado levando, assim, o povo a uma democracia 
social 
5) Um dos valores preponderantes nas análises dos pós‐marxistas é: 
a) o totalitarismo 
b) a dignidade humana 
c) o fortalecimento do Estado‐Nação 
d) a classe proletária como universal e homogênea em todo o 
mundo 
 
 
3 MOVIMENTOS SOCIAIS: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA SOCIOLÓGICA ESTADUNIDENSE 
Cíntia Beatriz Müller 
O objetivo deste capítulo é apresentar ao leitor as principais contribui‐
ções teóricas de pesquisadores estadunidenses para a análise dos mo‐
vimentos sociais – a Escola de Chicago – e a forma como até hoje influ‐
encia a análise dos movimentos sociais. 
Em linhas gerais, a escola estadunidense de Sociologia, que deu início 
à teorização sobre os movimentos sociais, recebeu influência da socio‐
logia clássica europeia. Para nossos estudos, iremos focalizar as contri‐
buições da Escola de Chicago, o caráter tributário dela, em relação ao 
paradigma do conflito de Simmel, a contribuição de Herbert Blumer e 
as etapas do processo de formação dos movimentos sociais. 
3.1 A “Escola de Chicago” na sociologia estadunidense 
A Universidade de Chicago foi fundada em 1895a. Nessa universidade 
foi criado o primeiro Departamento de Sociologia e a primeira revista 
de Sociologia dos Estados Unidos, a American Journal of Sociology, cujo 
primeiro diretor foi Albion Small. Uma das principais preocupações de 
pesquisa desse Departamento de Sociologia era com a compreensão e a 
intervenção em problemas sociais oriundos do acelerado processo de 
urbanização  pelo  qual  vinham  passando  as  cidades  americanas.  O 
primeiro  foco  foi  lançado  sobre  a  pobreza  e  a  imigração  entendidas 
como  problemas  sociais. Alunos  oriundos  desse  centro  de  pesquisa 
passaram  a  dirigir  outros  departamentos  de  sociologia  nos  Estados 
Unidos, notadamente na Columbia University e em Washington. 
Howard  Becker1,  pesquisador  formado  pela  “Escola  de  Chicago”, 
proferiu  conferência no Museu Nacional do Rio de  Janeiro  em  1990. 
Essa  conferência, na Revista Mana,  conforme  referência ao  finaldeste 
                                                                  
a Na mesma época, era fundada a Escola Americana de Antropologia, com a linha da Antropologia 
Cultural. Franz Boas foi um dos fundadores dessa escola, cujo pensamento influenciou diferentes centros 
de pesquisas nos Estados Unidos. (CASTRO, 2004). 
 
 
34 
livro, esclareceu, naquela oportunidade, qual o significado da expres‐
são “escola” para o contexto da Universidade de Chicago na primeira 
metade  do  século  passado.  Becker  destaca  que  existem  pelo menos 
duas concepções possíveis para o emprego da expressão “escola”: uma 
referindo‐se à escola de pensamento e a outra à  escola de atividade. Uma 
Escola de Pensamento é composta por pessoas. Nesse caso, pesquisa‐
dores e estudantes, que compartem uma mesma linha de pensamento, 
dividem conceitos e filiações teóricas em comum. Acredito que temos 
como exemplo de uma escola de pensamento, os núcleos de pesquisa 
que se reúnem em torno de um orientador específico, com o qual pas‐
sam  a  compartilhar  conceitos  e  referenciais  teóricos.  Esses  núcleos 
podem  ser  enquadrados na  classificação de  “escola de pensamento”.  
Já uma Escola de Atividade agrega pessoas que não partilham, neces‐
sariamente, a mesma filiação teórica, mas trabalham  juntas, desenvol‐
vem pesquisas que  se  complementam, discutem  sobre elas e buscam 
desenvolver  atividades  em  um  mesmo  espaço  acadêmico  comum. 
Howard Becker leva a crer que a Escola de Chicago estaria muito mais 
próxima da definição de “escola de atividade”, pois, em seu início, as 
pessoas não compartilhavam de um referencial  teórico comum ou da 
maioria das ideias predominantes no Departamento de Sociologia, mas 
a disposição de enfrentar questões consideradas problemas culturais. 
Uma das principais  influências  teóricas da Escola de Chicago  foi do 
sociólogo alemão Georg Simmel  (1858‐1918) com quem Robert Parkb, 
outro proeminente professor da universidade de Chicago, estudou em 
Heidelberg, na Alemanha. Georg Simmel, por sua vez, foi diretamente 
influenciado pela filosofia de E. Kant, F. Nitzsche e Goethe. Duas mar‐
cas  da  Sociologia  simmeliana  repercutiram  fortemente  na  Escola  de 
Chicago: a dimensão da proeminência do indivíduo sobre a “massa” e 
a do conflito social. Para Simmel, o indivíduo poderia possuir inúme‐
ras qualidades individuais, mas, paradoxalmente, quanto mais qualifi‐
cado esse indivíduo tornava‐se menor a possibilidade de que viesse a 
figurar uma unidade com outros indivíduos2. 
Assim conforme explica o autor3: 
a necessidade de prestar tributo às grandes massas – e sobretudo a necessidade de 
se  expor  continuamente  a  elas  –  arruína  facilmente  o  caráter:  ela  rebaixa  o 
indivíduo,  retirando‐o  da  posição  elevada  por  suas  formação  e  levando‐o  a  um 
ponto no qual ele pode adequar a qualquer um. 
 
                                                                  
b Ao tempo de Park, de acordo com Becker (1996) o departamento já reunia os cursos de sociologia e 
antropologia na Universidade de Chicago, o que fez com sua influência se estendesse, também, ao campo 
da antropologia. 
 
35 
Para Simmel, a “massa” não expressa o somatório de características de 
cada um que compõe o grupo, mas das partes em comum que unem as 
pessoas. Assim, nas análises de fenômenos de “massa”, seria possível 
identificar características individuais especiais nas pessoas que a com‐
põem e que não são, necessariamente, compartilhadas pelo grupo ou 
que se quer são percebidas e valorizadas pela “massa”. Por outro lado, 
há a dimensão do conflito, extremamente importante para a Teoria de 
Simmel. O conflito estabelece‐se, basicamente, nas relações entre indi‐
víduo  e  sociedade, uma  vez  que,  embora  a  sociedade  só  exista  com 
base em  indivíduos, ela também se contrapõe ao  indivíduo “com exi‐
gências e atitudes como se fosse um partido estranho”4. Nessa tensão, 
instala‐se o conflito.  Segundo Simmel5, a divergência entre indivíduo e 
sociedade alcança  seu ponto alto no momento em que “a  sociedade” 
busca  transformar cada  indivíduo em um simples membro da unida‐
de. A reação do  indivíduo é a da rebelião contra o papel socialmente 
construído com uma constante luta entre “a parte” – o indivíduo – e “o 
todo” – a sociedade. Essa noção da preponderância do papel do  indi‐
víduo sobre o da “massa” e a dimensão do conflito e da rebelião serão 
importantes para compreendermos a Escola de Chicago.  
No  que  tange  ao método de pesquisa,  a  escola  seguia diretrizes um 
tanto  ecléticas,  misturando  técnicas  qualitativas  e  quantitativas  de 
coleta  de  dados,  também  por  forte  influência  de  Robert  Park:  “se 
achasse que era possível mensurar alguma coisa, ótimo, se não  fosse, 
ótimo  também”,  conforme  comenta  Becker6.  Existia,  de  certa  forma, 
correlação entre a dimensão material dos problemas sociais e explica‐
ções teóricas. Por exemplo, a busca da compreensão de por que a cri‐
minalidade  concentrava‐se  em  determinados  pontos  da  cidade  em 
detrimento de outros, ou a própria delinquência juvenil como elemen‐
tos para a  elaboração da noção de “região moral” – “área da  cidade 
onde uma população se separa das demais”7. Por outro lado, os alunos 
de Park  também desenvolveram pesquisas qualitativas bastante pró‐
ximas da Etnografia e da Psicologia Social. Um dos maiores expoentes 
das  pesquisas  relacionadas  à  Psicologia  Social  foi  o  filósofo George 
Herbert Mead (ex‐aluno de Robert Park), cujo aluno mais influente foi 
Herbert Blumer, considerado como um dos principais teóricos sobre os 
movimentos sociais no âmbito da Teoria Clássica Estadunidense.8 
Herbert Blumer e sua contribuição para a análise dos movimentos 
sociais 
Herbert Blumer, além de  jogador profissional de  futebol, que passou 
um  ano  no  Brasil  nos  anos  de  1930,  excelente  teórico  da  Psicologia 
Social, veio a fazer parte do corpo docente do Departamento de Socio‐
 
 
36 
logia da Universidade de Chicago em um grupo que sucedeu Robert 
Park9. De acordo com Gohn10, Blumer construiu sua  teoria dos movi‐
mentos  sociais  com  base na  insatisfação  que  o  indivíduo  tem  com  a 
própria  vida  e  na  esperança  de mudá‐la,  de  transformá‐la.  Blumer 
dividiu  os movimentos  sociais  em  três  grupos:  genéricos,  específicos  e 
expressivos. De certa  forma, ao buscarmos compreender como Blumer 
constrói sua classificação dos movimentos sociais, devemos ter presen‐
te a teoria simmeliana da qual ele era um tributário. 
Os Movimentos Genéricos  seriam aqueles organizados no  sentido de 
provocar mudanças nos valores  individuais. Essas  transformações de 
valores  podem  ser  chamadas  de  “tendências  culturais”,  conforme 
Gohn11.  Trata‐se  de  um  processo  de  transformação  que  passa  pela 
dimensão  do  indivíduo  e  de  como  ele  encara  a  si mesmo,  fazendo 
emergir novos valores e  considerações acerca de  seus direitos  civis e 
políticos. Assim, os movimentos sociais de caráter genérico operariam 
em  uma  dimensão  individual  que  não  deixaria  de  ser  psicológica, 
sendo verdadeiros  indicadores de novas  tendências, mesmo que des‐
providos de uma  organização mais  sistemática  ou de  objetivos mais 
específicos. Um dos exemplos é o da emancipação das mulheres, com 
um  caráter pouco específico, porém  congruente  com a  fase  inicial da 
mobilização quando a ação dos grupos era propriamente pouco orga‐
nizada. 
As mulheres sufragistas da década de 30 
 
 
Gohn12  também apresenta que os movimentos  chamados por Blumer 
de Movimentos  Expressivos  são  os  constituídos  por  aqueles  grupos 
que não se encontram necessariamente comprometidos com objetivos 
de mudança ou transformação social. Esses grupos encontram‐se com‐
 
37 
prometidos com a disseminação de ideias que permeiam toda a socie‐
dade (exemplos seriam osmovimentos religiosos e aqueles vinculados 
à moda), mas podem ser capazes de ditar “tendências”, ou seja, influ‐
enciar sem que, com isso, assumam um papel de transformar os objeti‐
vos de cunho social de outros movimentos. 
Já os Movimentos Específicos,  segundo os  estudos de Gohn13,  repre‐
sentariam um momento seguinte ao genérico, quando as insatisfações 
e demandas  já  estariam  consolidadas. Nessa  fase do movimento,  há 
um sentido de  identidade de grupo constituído de forma que as  lide‐
ranças e os membros deles teriam capacidade de reconhecer os símbo‐
los e sinais que especificariam os membros do grupo. 
Para Blumer citado por Gohn14, os movimentos sociais desenvolvem‐se 
em um processo com cinco fases ou estágios: 
a) AGITAÇÃO: neste momento, novas demandas, impulsos e neces‐
sidades são identificados. É nesse momento que o movimento co‐
meça a traçar seus objetivos e direções. O agitador tem um papel 
estratégico e positivo, sendo ele o responsável por conduzir e ini‐
ciar o processo de transformação social que enseja o movimento. 
b) EXCITAÇÃO  OU  DESENVOLVIMENTO  DO  ESPIRIT  DE 
CORPS: este estágio diz respeito ao sentimento de coesão e solida‐
riedade  do  grupo  que  é  formado  e  compartilhado  por meio  do 
processo de  formação do grupo. Gohn  elenca  três  estratégias de 
formação dos “espírito de corpo” do grupo: “relação do grupo a 
grupo de uma mesma categoria”; “relacionamentos informais de‐
senvolvidos em associação”; e, “as cerimônias  formais em que se 
cristalizam certos comportamentos”. 
c) DESENVOLVIMENTO DE UMA MORAL:  trata‐se da consolida‐
ção de símbolos por  intermédio dos quais valores são expostos e 
reafirmados.  São,  por  exemplo,  símbolos  como  bandeiras,  insíg‐
nias, textos, ou seja, o conjunto de ideias que organiza os objetivos 
fundantes  do  grupo  e  os  princípios  compartilhados  por  seus 
membros. 
d) DESENVOLVIMENTO DE UMA  IDEOLOGIA: a  ideologia confi‐
gura a forma como o grupo vê certas questões, como avalia o pro‐
blema  e  formula  sua  resolução.  É  espelhada  pelo  conjunto  de 
crenças do grupo, que encontra eco tanto em lendas e mitos quan‐
to no conjunto de textos que reflete suas ideias. 
 
 
38 
e) DEFINIÇÃO  DE  OPERAÇÕES  TÁTICAS:  este  último  estágio  é 
aquele que estabelece ações pelas quais o grupo  irá movimentar‐
se. As táticas podem ser de adesão, manutenção (dos adeptos) e de 
especificação dos objetivos. 
É importante destacar que Gohn traz ao seu texto comentários sobre a 
produção teórica de Herbert Blumer a partir de textos originais: Collec‐
tive Bahavior  (1939) e Social Movements  (1951), ou seja,  textos que ocu‐
pam um lugar dentro do contexto de produção da Escola de Chicago e 
da teorização estadunidense. É importante termos presente que, como 
destaca Becker15, Blumer veio ao Brasil na década de 30 e, em conse‐
quência disso, muitos  brasileiros  foram  estudar nos Estados Unidos. 
Há, portanto, repercussão de suas ideias no campo da Sociologia brasi‐
leira ainda nos anos 2000,  inclusive, no que diz respeito às etapas do 
processo de formação dos movimentos sociais. Por exemplo, o manual 
de Sociologia Geral, de Lakatos e Marconi16 define os seguintes estágios 
dos movimentos  sociais,  que  lembra muito  a  divisão  de  etapas  de 
Blumer, o que demonstra a atualidade desse tipo de esquema de análi‐
se: Agitação  (inquietação ou  intranquilidade); Excitação  (excitamento 
ou desenvolvimento do espirit de corps); Formalização (desenvolvimen‐
to da moral e da ideologia ou planejamento). 
(-) Ponto Final 
Neste capítulo, procuramos destacar o significado da Escola de Chica‐
go na formulação de teorias clássicas da Sociologia estadunidense bem 
como sua formação e influência teórica por parte do sociólogo alemão 
Georg Simmel. Além disso, apresentamos ao leitor como os teóricos ali 
formados  formularam  explicações  sobre  os movimentos  sociais.  Por 
fim, expusemos a teoria de Herbert Blumer que formulou uma tipolo‐
gia de classificação dos movimentos sociais e identificou os estágios de 
desenvolvimentos dos mesmos. 
Indicações culturais 
FREITAS, Wagner Cinelli. Espaço urbano e criminalidade: Lições da esco‐
la de Chicago. São Paulo: Método, 2004. Neste livro, bastante recente, o 
leitor encontra mais informações sobre a Escola de Chicago, sobre seus 
estudos urbanos relacionados à criminalidade e à organização espacial 
da cidade. O autor apresenta, ao final de seu livro, um estudo aplicado 
às cidades brasileiras a partir da teoria desenvolvida por Robert Park e 
Ernet Burguess. Embora trate do tema da criminalidade, o livro é rica 
fonte de informações sobre a Escola de Chicago como local de produ‐
ção teórica. 
 
39 
MAGNANI, José Guilherme Cantor. A antropologia urbana e os desa‐
fios da metrópole. Tempo Social, São Paulo, v. 15, n. 1, abr. 2003. Dispo‐
nível em: 
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103‐
20702003000100005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 28 jul. 2008. Neste 
artigo, o leitor encontra orientações sobre a realização de trabalho de 
campo no âmbito dos contextos urbanos, que podem auxiliar na elabo‐
ração de futuras pesquisas sobre o tema dos movimentos sociais urba‐
nos. Nesse texto, o autor destaca o ineditismo dos trabalhos de campo 
da Escola de Chicago no âmbito da própria tradição antropológica. 
Atividades 
1) Marque a resposta que completa o cabeçalho do exercício. A Esco‐
la de Chicago, quando se sua criação, sofreu influência do: 
a) forte processo de interiorização da população estadunidense 
no início do século XX 
b) acelerado fenômeno de urbanização pelo qual passou a cida‐
de de Chicago que  também recebeu grande número de  imi‐
grantes 
c) pensamento filosófico francês do final do século XIX 
d) pensamento latino‐americano acerca dos movimentos sociais 
2) H. Becker diferencia “escola de pensamento” de “escola de ativi‐
dades”. Para esse autor, uma “escola de atividades” é aquela: 
a) em que os pesquisadores devem compartilhar a mesma base 
teórica e conceitual 
b) em  que  todos  tomam  um mesmo  referencial  teórico  como 
ponto de partida de suas análises 
c) em que os pesquisadores compartilham um mesmo universo 
de pesquisa, que elaboram estudos que se complementam e 
que acabam por colaborar mutuamente ao longo de seus es‐
tudos 
d) em  que  todos praticam  apenas  técnicas de  coleta de dados 
qualitativas  e  etnográficas  deixando  de  lado  investigações 
cujos dados possam ser aferidos quantitativamente 
 
 
 
40 
3) A teoria de George Simmel influenciou a Escola de Chicago: 
a) em suas concepções de “massa” e indivíduo e na valorização 
do conflito como tensão que se origina da relação do indiví‐
duo com as forças sociais 
b) quanto ao conceito de classe social e sociedade civil 
c) tendo Simmel, que foi professor de H. Blummer e o orientou 
em suas pesquisas nos Estados Unidos 
d) de forma superficial, com a tese de que tiveram pouca reper‐
cussão no desenvolvimento teórico em Chicago 
4) Os  movimentos  sociais  considerados  “genéricos”  por  Herbert 
Blumer são capazes de potencializar  transformações sociais. Essa 
mudança de valores pode ser chamada de: 
a) tendências radicais 
b) tendências culturais 
c) Escola de Chicago 
d) estudos urbanos 
5) Herbert Blumer especifica cinco estágios no processo de desenvol‐
vimento dos movimentos sociais. Essas fases são interdependentes 
e denominadas, respectivamente: 
a) desenvolvimento do espírit de corps; desenvolvimento de uma 
moral; desenvolvimento de uma ideologia; formulação de tá‐
ticas; agitação 
b) desenvolvimento do espírit de corps; desenvolvimento de uma 
moral; agitação; desenvolvimento de uma  ideologia;  formu‐
lação de táticas 
c) desenvolvimento do espírit de corps; agitação; desenvolvimen‐
to de uma moral; desenvolvimento de uma ideologia; formu‐
lação de táticas 
d) agitação; desenvolvimento do espírit de corps; desenvolvimen‐
to de uma moral;desenvolvimento de uma ideologia; formu‐
lação de táticas 
 
 
4 OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA EUROPA PÓS-ANOS 60 
Cíntia Beatriz Müller 
Os novos movimentos sociais (NMS) marcaram a Europa após os anos 
de  1960  e  demonstraram  a  insuficiência  teórica  dos  referenciais  de 
análise marxistas  clássicos  e norte‐americanos para  explicar  suficien‐
temente os novos acontecimentos. Alain Touraine dedicou‐se a estudos 
sociológicos sobre a  realidade de vida de  trabalhadores e estudantes, 
foi  influenciado  pelos  eventos  de  1968,  uma  série  de  protestos  nos 
quais os estudantes tomaram a frente em suas reivindicações. Para esse 
autor, o principal conceito a ser apreendido no estudo dos movimentos 
sociais é o de ação, em oposição a um sistema dominante constituído. 
Já Melucci, priorizou a construção de suas análises a partir de estudos 
realizados em sindicatos e formas de participação política. Trata‐se de 
um pensador criativo que buscou em suas análises explicitar relações 
de desigualdade naturalizadas na  sociedade a partir de  suas análises 
empíricas. 
4.1 Parâmetros gerais dos NMS 
Maria  da  Glória  Gohn1  aponta,  com  bastante  perspicácia,  algumas 
características dos NMS: 
1) A  RETOMADA  DA  CULTURA  COMO  UM  CONCEITO  CEN‐
TRAL. Cultura é uma palavra polissêmica, ou seja, tem múltiplos 
significados. Ela pode fazer referência tanto ao cultivo de plantas, 
quanto ao grau intelectual de determinada pessoa ou, o que é mais 
corrente entre nós, ao conjunto de símbolos capaz de transmitir in‐
formações, capaz de potencializar a comunicação entre as pessoas. 
No âmbito dos movimentos sociais, o significado da palavra “cul‐
tura” aproxima‐se da “ideologia”, sem que esta última esteja, ne‐
cessariamente, atrelada a uma perspectiva de classe como na Teo‐
ria Marxista. 
 
 
42 
2) SUPERAÇÃO  DO  PARADIGMA  DE  ANÁLISE  MARXISTA 
CLÁSSICO.  A  perspectiva  teórica marxista  clássica  leva  a  uma 
análise macrossocial que, de certa  forma, homogeneíza a diversi‐
dade que compõe os movimentos sociais. Além disso, a ênfase na 
análise economicista das disputas torna invisível o campo da polí‐
tica e da cultura, por exemplo, e anula o poder criativo do indiví‐
duo,  ou  o    ator  social,  que permanece  refém da macroestrutura 
econômica. 
3) SUPRESSÃO DO GRUPO DE VANGUARDA. Os NMS marcam a 
emergência de atores difusos e que  se organizam de  forma não‐
hierarquizada. “A nova abordagem elimina a centralidade de um 
sujeito específico, predeterminado, e vê os participantes das ações 
coletivas como atores sociais”2. Portanto, a construção dos eixos de 
atuação dos NMS é feita em diálogo e não mais baseada em uma 
perspectiva  iluminista,  na  qual  uma  parcela  do movimento  era 
capaz de ditar tendências de atuação ao grupo. A liderança passa 
a desempenhar um papel mais fluido, volátil, que se estabelece ao 
longo da atuação em vez de um corpo técnico consolidado. 
4) VALORIZAÇÃO DO CAMPO  POLÍTICO. A  política,  nos NMS, 
assume um caráter de  suma  importância, pois deixa de ser vista 
como algo distanciado do ator, próprio do Estado. A perspectiva 
da política, agora, assume  sua condição de prática cotidiana que 
envolve  a  todos. A política passa  a  ser  analisada  como vetor de 
forças que perpassa  toda a sociedade civil e não apenas os negó‐
cios de Estado. 
5) ÊNFASE NA ANÁLISE DA AÇÃO E DA  IDENTIDADE COLE‐
TIVA AFIRMADA. A valorização  recai sobre a  identidade que o 
grupo  luta em afirmar e não mais em algo externo que é  social‐
mente  imposto a  ele. É  justamente a  luta pelo  reconhecimento  e 
pela afirmação das identidades que marca a coesão social do gru‐
po, define seus limites (de inclusão e exclusão) e aponta o rumo de 
sua ação coletiva. O olhar do pesquisador volta‐se para o conjunto 
de  ações  implementado no processo de  construção dessa  identi‐
dade, para assim, apreender seu significado e os sentimentos que 
evoca. 
O  conjunto de  características  elencadas por Gohn demonstra que  al‐
gumas  categorias  analíticas  continuam  sendo  empregadas:  ideologia, 
sociedade civil, lutas sociais e solidariedade. Na verdade, a análise dos 
NMS propõe o deslocamento do olhar da macroestrutura para a mi‐
croestrutura, ou seja, resgata o valor do cotidiano, das ações individu‐
ais  e  das  vontades  que movem  o  sujeito  no  interior  do  grupo.  Essa 
 
43 
nova perspectiva, na verdade,  toma alguns  referenciais de análise da 
corrente  estadunidense.  Os  interacionistas  simbólicos,  notadamente 
Erving Goffman, demonstravam interesse na forma de construção das 
identidades individuais. 
Passaremos  a  analisar  o  referencial  de  dois  teóricos  emblemáticos 
Alain Touraine  e Alberto Melucci. Ambos  abordam o  fenômeno dos 
NMS a partir de perspectivas distintas, mas complementares. 
Alain Touraine: o ator retorna à cena 
Alain Tourainea (1925‐ ) é um pesquisador que, ainda hoje, encontra‐se 
elaborando suas ideias de forma crítica. Filiado à tradição teórica fran‐
cesa,  retomou  conceitos  e  ideias  de  outros  pensadores  dessa  escola 
sociológica,  como Sartre, ao  trabalhar a noção de projeto3. A aborda‐
gem  empregada  por  Touraine  em  sua  análise  sobre  os movimentos 
sociais é denominada acionalista, pois: “o axioma aí implícito enfatiza 
o  comportamento  social, ou  seja, a  conduta dos  indivíduos  e grupos 
em termos de conflito ou de integração”4. Um dos méritos que Tourai‐
ne foi o de trazer o sujeito, denominado ator, como elemento dinâmico 
da história, verdadeiro agente de transformação social. 
Touraine5 parte em sua análise que retoma o protagonismo do ator, da 
constatação de que a sociedade enriquece‐se com a diversidade e que 
as decisões políticas e econômicas escapam cada vez mais do controle 
absoluto dos Estados nacionais. A racionalidade que deveria reger as 
ações sociais perde  terreno para o desenraizamento e a  instabilidade. 
As sociedades modernas passam a ser vistas como espaço de expressão 
da  liberdade da  criatividade humana. Para o autor,  sociedade “é um 
conjunto  de  regras,  de  costumes  e  de  privilégios  contra  os  quais  os 
esforços criadores,  individuais e coletivos,  têm de continuar a  lutar”6. 
A ênfase aqui é dada à  liberdade, pois é ela que confere ao  sujeito a 
possibilidade de  livrar‐se dos “princípios  transcendentes” e dos valo‐
res  comunitários. O  protagonismo  do  sujeito,  como  agente  transfor‐
mador da História, desloca a atenção das ações do Estado como tal.  
O  sujeito é alguém criativo e não pode mais  ser definido por  termos 
históricos, pois é capaz de escolher sua própria lógica organizativa e os 
processos nos quais se quer engajar, em suma é o agente que constrói a 
história.  História,  para  Touraine,  significa  “o  conjunto  de  modelos 
culturais, cognitivos, econômicos, éticos, pelos quais uma coletividade 
constrói suas relações”7. Touraine continua, explicando que a história, 
                                                                  
a Para saber mais sobre a Democracia na América Latina, acesse: 
<http://www.dhnet.org.br/tecidosocial/anteriores/ts101/entrev_alain_touraine.htm>. 
 
 
44 
assim, é um conjunto de orientações culturais, cujos valores são seleci‐
onados  e  impostos  pelo  grupo  dirigente  à  população.  O  conflito,  a 
ação,  acontece  no momento  em  que  grupos  subordinados  passam  a 
lutar pelo controle e pela autonomia de sua própria historicidade (con‐
junto de modelos culturais) para livrar‐se do conjunto de valores esta‐
belecidos  pelo  grupo dirigente. O  autor destaca  que  não  se  trata de 
classes sociais em disputa. Nesse caso, a disputa é pela autonomia na 
construção de  sua própria historicidade, na qual o modelo cultural é 
transformado em sistema de relações sociais assimétricas, de domina‐
ção e de exercício de poder. 
Para Touraine, existem quatro espécies de condutas coletivas:1) CONDUTAS DE CRISE ORGANIZACIONAL: trata‐se de conflito 
que se estabelece entre membros de uma organização e aquele que 
detém a autoridade ou o poder. Via de regra, o conflito orienta ou 
para a desorganização ou para a reorganização8, o que faz das cri‐
ses organizacionais reféns da própria estrutura da organização. 
2) TENSÕES INSTITUCIONAIS: essas tensões visam impor decisões 
sobre o quadro das organizações. O grupo tem noção dos  limites 
do campo de decisão que não extrapola os  limites da potenciali‐
dade  das  instituições  e  almeja  melhorar  sua  posição  frente  ao 
campo. 
3) PROTESTOS MODERNIZADORES: trata‐se de um tipo de protes‐
to “mais frequente na ordem cultural do que ordem social”9, é um 
protesto “contra a ausência de historicidade”, ou seja, os protestos 
modernizadores  colocam‐se  contra  as  posições  reacionárias  que 
preservam valores históricos antigos em detrimento de uma ação 
para o futuro. 
4) MOVIMENTOS  SOCIAIS:  ações  coletivas  não  orientadas  por 
valores conscientes. Eles  se definem pelo confronto de  interesses 
opostos,  um  contramovimento,  cujos  adversários  possuem  um 
conjunto de  símbolos de  comunicação  em  comum.10 Movimento 
social para Touraine é formado pela conjunção de três princípios: 
da identidade, 
5) PRINCÍPIO DA  IDENTIDADE:  a mobilização  social  antecede  a 
consciência  acerca  da  identidade,  porém  é  fundamental  ao  ator 
poder identificar quem são as pessoas que integram o movimento 
e quem são as pessoas que se opõem a ele. “É o conflito que cons‐
titui  e  organiza  o  grupo”11. A  identidade  é  a  auto‐identificação, 
 
45 
que se revela no conflito com os adversários, na ação, e no reco‐
nhecimento do objetivo das reivindicações. 
6) PRINCÍPIO  DE  OPOSIÇÃO:  a  organização  do  movimento  e  a 
consciência acerca da definição dos papéis de quem sejam os ad‐
versários  são  conquistadas  na  oposição,  no  conflito,  ou  seja,  na 
ação. “Só se pode falar de princípio de oposição se o ator se sente 
confrontado com uma força social geral num combate que coloca 
em causa orientações gerais da vida social”12.b 
7) PRINCÍPIO  DA  TOTALIDADE:  é  “o  sistema  de  ação  histórica 
cujos adversários, situados na dupla dialética das classes  sociais, 
disputam  entre  si  a dominação”13.  Para  analisar  um movimento 
social, não podemos deixar de contextualizá‐lo no campo da histo‐
ricidade do qual ele emerge e das classes ou forças sociais que se 
encontram em oposição, em disputa pelo monopólio “de um sis‐
tema de ação histórica”14. 
É  importante destacar que, para Touraine, os movimentos sociais não 
são uma reação às imposições da sociedade, mas, em ordem inversa, a 
sociedade  é  que  reflete  a  situação  de  conflito  entre  os movimentos 
sociais.15 “Um movimento social é uma ação conflitual pela qual certas 
orientações  culturais, um  campo de historicidade,  são  transformados 
em formas de organização social, definidas tanto por normas culturais 
gerais como por relações de dominação social”16. 
As desigualdades sociais acirradas pelo modelo econômico preponde‐
rante  no  cenário  internacional  incrementaram  o  cenário  de  conflito 
social, ensejando a ação coletiva em defesa de valores, sociais e cultu‐
rais, de comunidades.  
O  conceito de movimento  social  não  é dissociado do de  classe  para 
Touraine, porém enquanto a classe reflete uma posição do grupo frente 
à estrutura (não há que se falar em sujeito) os movimentos sociais são 
ação materializada por meio da conduta de atores. Com essa distinção, 
Touraine marca posição diante do marxismo e seu distanciamento da 
matriz  economicista  (um princípio metassocial)  como principal mote 
explicativo das  transformações históricas. O movimento  social não  é 
ação  independente de  outros  conflitos,  pois  combina  “a  referência  a 
                                                                  
b Para a análise da “vida social” existem três elementos preponderantes: o sujeito, a historicidade e os 
movimentos sociais. Estes últimos “combatem para dar forma social a essas orientações culturais”. 
(TOURAINE, 1996, p. 70). 
 
 
 
46 
um campo cultural e a consciência de uma relação social de domina‐
ção”17.  
Alberto Melucci: a identidade e os movimentos sociais 
Alberto Melucci,  cientista  social  e  psicólogo  clínico,  ao  contrário  de 
Touraine,  que  centrou  sua  análise  sobre  os  sistemas  macrossociais, 
tomou como referência o nível micro, colocando em evidência a ação 
coletiva sob a ótica psicossocial ‐ de acordo com Gohn18, um dos teóri‐
cos  fundadores  do  paradigma  da  identidade. Melucci19  encontra‐se 
preocupado com a  forma como a globalização, as desigualdades eco‐
nômicas e sociais e os matizes do desenvolvimento  têm‐se  imbricado 
com  as  ações  coletivas,  notadamente,  os movimentos  sociais. Nesse 
cenário,  os movimentos  sociais  teriam  um  papel de  ação  inovadora, 
pois enriquecem a participação e a diversidade na vida democrática, 
cujas transformações têm se dado em escala global. 
Melucci, em suas pesquisas, analisa as ações coletivas e busca “decom‐
por a unidade empírica dos fenômenos”20 para se elaborar uma contri‐
buição analítica e solucionar a indagação acerca da medida em que os 
movimentos sociais têm influenciado as mudanças sociais. Ao planejar 
a decomposição dos elementos da ação coletiva, o autor afirma dar‐se 
conta da necessidade de reformularmos o quadro conceitual referente 
à discussão,  tendo em vista o paradoxo que se estabelece entre socie‐
dade e os sistemas complexos na modernidade. A sociedade, por sua 
vez,  tem  investido em recursos de autonomia de atores  individuais e 
coletivos com o aumento da circulação de informações. Por outro lado, 
tendo  em  vista  as  especificidades  na  circulação,  cada  vez maior,  da 
informação, os métodos de controle e de exercício do poder adquirem 
uma capilaridade que vai até a intimidade do sujeito. 
(.) Ponto final 
Os NMS emergiram na Europa nos anos de 1960 como uma reação às 
transformações  sociais  e  culturais  que  ocorreram  no  período.  Suas 
características são, a grosso modo: a revalorização da noção de cultura; 
a  superação  do  paradigma  marxista,  a  supressão  da  vanguarda;  a 
valorização do campo político e a ênfase na noção de identidade cole‐
tiva. Alain Touraine e Alberto Melucci são dois dos principais expoen‐
tes  teóricos desse momento. Touraine  retoma a valorização do ator e 
ao protagonismo do sujeito ser humano criativo capaz de transformar 
as forças históricas, ao passo que Melucci focaliza os contextos micros‐
sociais, conferindo aos movimentos sociais um potencial de inovação e 
de transformação capaz de operar em escala planetária. 
 
47 
Indicações culturais 
KURLANSKY, Mark. 1968: o ano que abalou o mundo. Rio de Janeiro: 
José Olympio, 2005. Neste livro, o autor traz um apanhado dos aconte‐
cimentos ao longo de todo o ano de 1968 ao redor do mundo e leva‐nos 
a questionar que tipo de espírito de época prevaleceu naquele ano em 
que os acontecimentos globais de guerras, revoluções e reconstruções 
do modo de viver influenciam todos os âmbitos sociais. 
OS  SONHADORES. Direção:  Bernardo  Bertolucci.  Produção:  Jeremy 
Thomas.  Estados  Unidos:  Fox  Searchlight  Pictures,  2003.  (130 min). 
Neste  filme, a  intenção do diretor é provocar o público a  rememorar 
não apenas o que ocorreu em maio de 1968 em Paris, mas se dar conta 
do  impacto  que  esse  período  trouxe  sobre  os  costumes  na  época. O 
filme é bastante provocativo, mas vai ao encontro do espírito da época, 
que é o de romper com valores do passado e das estruturas de poder 
tradicionais. 
Atividades 
1) A demanda pelo aperfeiçoamento dos recursos teóricos acerca dos 
movimentos  sociais que desembocou na  teoria dos Novos Movi‐
mentos Sociais (NMS) foi uma decorrência da: 
a) superação  dos  referenciaisteóricos marxistas  e  estaduni‐
denses  e  o  ineditismo  dos  acontecimentos  culturais, 
econômicos e sociais dos anos 60 
b) retomada dos valores conservadores dos anos de 1930 e a 
depressão da economia dos Estados Unidos 
c) acontecimentos  como  a  crise  do  petróleo,  a  revolução  de 
1968 e a tomada da Bastilha, em Paris 
d) o deslocamento do eixo de influência geopolítica do sentido 
ocidente−oriente para o eixo sul−norte 
2) A luta pelo reconhecimento de identidades coletivas é importante 
no contexto dos NMS, pois: 
a) a emergência de novas identidades individuais enriquece a 
discussão e auxilia na não configuração de grupos e reivin‐
dicações coletivas 
 
 
48 
b) a  luta  pelo  reconhecimento  é  uma  reivindicação  que  se 
conduz individualmente e não há necessidade de identida‐
de coletiva nesse contexto 
c) a afirmação das  identidades marca a coesão social do gru‐
po, define seus  limites  (de  inclusão e exclusão) e aponta o 
rumo de sua ação coletiva 
d) é esse o espírito marxista 
3) Para Alain Touraine, o conceito de sujeito é importante, pois ele é 
uma pessoa autônoma: 
a) e  extremamente  dependente  das  ações  dos  Estados‐
Nacionais 
b) incapaz  de  avaliar  racionalmente  suas  possibilidades  de 
ação 
c) e essa afirmação é um equívoco: o conceito de  sujeito não 
diz respeito à teoria desenvolvida por este pesquisador 
d) e é alguém criativo e não pode mais ser definido por termos 
históricos, pois é capaz de escolher sua própria lógica orga‐
nizativa e os processos nos quais se quer engajar, em suma, 
é o agente que constrói a história 
4) Movimento  social,  para  Touraine,  é  formado  pela  conjunção  de 
três princípios: da identidade, de oposição e da totalidade. O prin‐
cípio da identidade é aquele que se: 
a) identifica na falta de disputa e em interações consensuais 
b) revela no conflito, na oposição e no reconhecimento do ob‐
jetivo das reivindicações 
c) manifesta  em momentos  de  paz  e  tranquilidade  entre  os 
grupos sociais 
d) constrói na análise das características dos sujeitos em mani‐
festações pacíficas do cotidiano 
5) Alberto Melucci  encontra‐se  preocupado  com  a  forma  como  a 
globalização, as desigualdades econômicas e  sociais e os matizes 
do desenvolvimento têm‐se imbricado com as ações coletivas, no‐
 
49 
tadamente, os movimentos sociais. Para ele, os movimentos soci‐
ais: 
a) seria grupos dispensáveis, pois não seriam capaz de desen‐
volver transformações sociais 
b) decorrem de  fatores distintos, dentre os quais a globaliza‐
ção, porém não se caracterizam por ações  inovadoras, ser‐
vindo para reforçar as disparidades econômicas e sociais 
c) são atores banais da sociedade civil, não representam qual‐
quer potencial de mudança social 
d) teriam um papel de ação inovadora, pois enriquecem a par‐
ticipação e a diversidade na vida democrática, cujas  trans‐
formações têm se dado em escala global 
 
 
5
MOVIMENTOS SOCIAIS: AS 
REDES DE ORGANIZAÇÕES E A 
CONSTRUÇÃO SOCIAL DA 
IDENTIDADE 
Cíntia Beatriz Müller 
O objetivo deste capítulo é oferecer subsídios ao leitor para que conhe‐
ça a origem e o significado do conceito de redes nas Ciências Sociais; 
contextualizar a apropriação do modelo das  redes pelos Movimentos 
Sociais; e, por  fim,  levá‐lo a compreender que a  luta pela  construção 
social da  identidade é um  reflexo da  sociedade em  rede e dos movi‐
mentos sociais organizados em rede. 
5.1 O conceito de rede na antropologia dos Estados 
Unidos e na Britânicaa 
O termo “rede” refere‐se a um conceito que não é novo na teoria socio‐
lógica. Até a década de 1970, o conceito não  tinha uso difundido nos 
Estados Unidos,  onde  era  empregado  para  a  análise de  relações  em 
pequenos grupos ou de suas estratégias de comunicação. Instrumentos 
de  coleta de dados aplicados em grupos de parentesco, vizinhança e 
amigos,  coletavam  informações  que  subsidiavam  a  configuração das 
redes  sociais  por  parte  dos  pesquisadores  e  do  tipo  de  conteúdo  e 
solidariedade  que  percorriam  suas  conexões.  A  noção  de  rede  era 
confundida  frequentemente com o de “campo”, ou seja, um dado es‐
paço  social onde as  relações  constroem‐se. O primeiro pesquisador a 
utilizar  o  conceito  de  rede,  efetivamente,  foi  Caplow,  em  1955,  nos 
Estados Unidos.  Em  seu  texto,  ele  já  empreendia  a  classificação  de 
redes quanto a origem do contato (trabalho, residência) e a sua condi‐
ção de sobreposição. Porém, de acordo com Bott1, seu estudo não  foi 
compreendido pelos pesquisadores estadunidenses e britânicos. 
Mais tarde, o termo “redes” foi um pouco mais refinado e empregado 
com o termo “círculo social”, ao final da década de 1960. “Seu estudo é 
de uma  importância especial para os estudos das “redes  totais”, quer 
                                                                  
a A seção 5.1 é baseada em: BOTT, 1976. 
 
51 
dizer, redes que não são definidas pela seleção de uma pessoa particu‐
lar ou  de um grupo específico, como o ponto focal ou ‘ego’”2. 
Bott assinala que, para Kadushin3, a grande razão para a configuração 
de uma  rede  eram os  interesses  compartilhados,  em  comum. Assim, 
destaca Bott, enquanto os pesquisadores britânicos partiam da investi‐
gação acerca das pessoas para, a partir delas, atingir a configuração de 
sua rede social os pesquisadores estadunidenses partiam da pesquisa 
acerca dos  interesses  em  comum. Marcadamente, o  conceito de  rede 
teve início a partir de estudos realizados com minorias políticas e naci‐
onais: em  relação aos Estados Unidos, com as  tribos  indígenas, e aos 
britânicos, com as tribos africanas. 
John Barnes  (1954), A. Epstein  (1961  e  1969), Max Gluckman  (1969), 
Philip Mayer  (1961)  e Adrian Mayer  (1962)  são  alguns  antropólogos 
britânicos que realizaram análises utilizando o conceito de rede social. 
Assim,  concluíram que o  fenômeno da  configuração de  redes ocorre 
tanto  em meio  urbano  quanto  rural,  e  presta‐se  tanto  ao  estudo  de 
vizinhanças quanto de situações mais complexas, como uma conjuntu‐
ra de eleição na Índia.4 Boissevain5 empregou o conceito para analisar 
facções  e partidos políticos, ou  seja, processos políticos dinâmicos  e, 
em 1968, ofereceu um conceito que Bott considerou como uma contri‐
buição significativa para a época: “as redes sociais como a matriz social 
geral a partir da qual várias formas de quase‐grupos e, eventualmente, 
grupos e grupos corporativos podem ser diferenciados em certas cir‐
cunstâncias”6. 
5.2 A globalização e a reconfiguração dos Estados 
Nacionais 
Os Estados Nacionais, na era da globalização, são verdadeiros territó‐
rios em rede. Como foi visto acima, a noção de rede não é estranha à 
Sociologia, tendo sido alvo de estudos desde os anos de 1960. O que se 
transforma  com  a  globalização  são  as  proporções  que  tais  redes  to‐
mam. Elas se avolumam e se transformam em redes por onde vagam 
capitais flutuantes, produtos relacionados à Informática, por exemplo. 
As  redes  compostas por pessoas  que  se  encontram  em  organizações 
transnacionais  e  Estados  passam  a  assumir  um  importante  protago‐
nismo no mundo globalizado. 
Uma das marcas da globalização  é a  relativização das  fronteiras dos 
Estados‐nacionais, principalmente, quanto ao fluxo de capitais. A velo‐
cidade  com  que  operações  comerciais  e  investimentos  viajam  pelo 
mundo traduz‐se no simples acionar do teclado de computadores e os 
 
 
52 
meios de comunicação por sinais eletrônicos não conhecem  fronteiras 
que não  seja a  imposta pelo  idioma. A volatilidade das  relações, das 
informações e do capital, além de refletir sobre a noção de Estado Na‐
cional,  também  tem  contribuído  para  se  repensar  a  configuração  do 
poder mundial.  O  Estado,  que  outrora  regulava  a maior  parte  das 
atividades  sociais e econômicas que ocorriam em  seu  território,além 
de manter o monopólio do uso dos meios de coerção teve que, paulati‐
namente, rarefazer sua soberania7. 
Frente ao processo planetário da globalização, o Estado tem diminuído 
seu campo de atuação, 
é extremamente difícil de manter senão no sentido mais estreito, de “policiamento 
do  território  e da população”.  [A debilitação do Estado,  contudo,  é  tributária da 
nova ordem globalizada, principalmente, da necessidade de trânsito sem obstáculos 
do  capital  econômico]  Deliberada  ou  subconscientemente,  esses  interEstados, 
instituições  supralocais que  foram  trazidas à  luz  e  têm permissão de agir  com  o 
consentimento  do  capital mundial,  exercem  pressões  coordenadas  sobre  todos  os 
Estados membros  ou  independentes  para  sistematicamente  destruírem  tudo  que 
possa  deter  ou  limitar  o  livre movimento  de  capitais  e  restringir  a  liberdade  de 
mercado.8 
Longe  de  ser  uma  crise  passageira,  a  ordem  internacional  demanda 
Estados  menos  interventores,  praticamente,  reduzidos  à  função  de 
controlador  social  e  administrador  do  policiamento  da  população. 
Trata‐se de um processo  interligado, com repercussão em outros pla‐
nos da vida, do dia‐a‐dia, integração do capital mundial, esfacelamen‐
to do território dos Estados em parcelas de soberania restrita, o desen‐
volvimento  tecnológico acelerado. Nesse  cenário,  contudo, “as  rique‐
zas são globais, a miséria é local”9. Com a rarefação do Estado também 
a  esfera  pública,  campo  de  interação  entre  sociedade  civil,  Estado  e 
instituições políticas, torna‐se mais volátil, de difícil interação.  
Esse mesmo  contexto  também  forçou  uma  revolução  tecnológica. O 
incremento no uso da Informática nos processos de produção, comer‐
cialização e consumo de bens desencadeou novos processos de compe‐
tição e circulação de informações e valores entre os agentes de produ‐
ção e consumo. Assim, o capitalismo passa a reorganizar‐se em escala 
mundial  e passa  a  “empresariar  as  atividades  científicas”,  ou  seja,  é 
instituída a “tecnociência”. “Objeto da apropriação privada, a tecnoci‐
ência  transmuta‐se  em  mercadoria  de  alto  valor,  progressivamente 
inserida no cotidiano das sociedades, em suas estrutura de poder e em 
suas matrizes simbólicas”10. 
A nova  reconfiguração de poder  ensejou o deslocamento do  eixo de 
tensão mundial  do  sentido  leste‐oeste  para  o  sentido  norte‐sul.  Ao 
 
53 
mesmo tempo, empresas transnacionais passaram a investir, buscando 
a  maximização  dos  lucros  em  países  do  Hemisfério  Sul,  enquanto 
mantiveram  o  poder  de  decisão  em  países  do  norte.  Este,  também, 
tende a ser o sentido do fluxo de capital o que acaba por manter níveis 
subumanos de desenvolvimento local com o enxugamento sistemático 
dos capitais de mercados do sul. O deslocamento do capital é facilita‐
do, justamente, pela revolução tecnológica. 
Deslocamento do eixo de tensão Movimentos sociais 
 
Os movimentos sociais no contexto globalizado 
A coincidência do processo de democratização nos países da América 
Latina  com um  ciclo de abertura do  capital nacional para o mercado 
internacional foi um dos fatores que obrigaram os movimentos sociais 
a  reconfigurar  sua  forma  de  atuação. A  sociedade  civil  também  foi 
impactada por essa nova ordem mundial e, englobada por ela, as or‐
ganizações  que  compõem  o  terceiro  setor.  Scherer‐Warren11  destaca 
três níveis de organização da sociedade civil:  
a) ASSOCIATIVISMO LOCAL: Segundo esta autora, “como as asso‐
ciações civis, os movimentos comunitários e sujeitos sociais envol‐
vidos com causas sociais ou culturais do cotidiano, ou voltados a 
essas bases”. Este nível reúne organizações do terceiro setor locais 
ou comunitárias, por exemplo, associações de bairro, organizações 
não‐governamentais,  núcleos  do  movimento  dos  trabalhadores 
rurais sem‐terra. Apesar de possuírem status de  local, essas orga‐
nizações  têm  travado  alianças  e  relações  em  níveis  nacional  e 
transnacional. 
b) ARTICULAÇÕES  INTER‐ORGANIZACIONAIS:  Neste  nível, 
podemos  identificar  a  coalizão  de  organizações,  como  destaca 
nossa autora, na composição de fóruns, associações e redes de re‐
des. Esse formato potencializa a tomada de posição de grupos da 
 
 
54 
sociedade civil frente ao Estado e é propulsado pelo uso da Infor‐
mática  e das novas  tecnologias:  agora,  além da possibilidade de 
envio de mensagens escritas, que acabava por selecionar o tipo de 
usuário da rede. Novos softwares possibilitam o envio de mensa‐
gens de voz. É possível, por meio da banda larga, realizar conver‐
sas  e  reuniões  internacionais  sem adicionar  custos ao orçamento 
da organização. 
c) MOBILIZAÇÃO NA ESFERA PÚBLICA: Este  tipo de articulação 
busca provocar efeitos de sua  incidência nos espaços de diálogos 
na esfera pública. Para tanto, são organizadas estratégias de visibi‐
lidade  dos  problemas  sociais,  por  exemplo,  protestos,  utilização 
dos espaços de mídia alternativa para esclarecimentos e divulga‐
ção acerca do objeto das reivindicações. Vale destacar o caráter si‐
tuacional dessas redes, uma vez que o conflito entre seus compo‐
nentes tende a enfraquecê‐las no sentido do desgaste das relações 
e na alteração do fluxo das informações. 
Destacamos que as relações que se estabelecem nesses três níveis e que 
aparentemente constroem‐se com base em situações políticas específi‐
cas, bastante pontuais, que se manifestam em determinadas situações, 
dizem respeito ao fenômeno social da configuração de redes de movi‐
mentos sociais. 
Em outras palavras, o Movimento Social, em sentido mais amplo, se constitui em 
torno de uma identidade ou identificação, da definição de adversários ou opositores 
e  de  um  projeto  ou  utopia,  num  contínuo  processo  em  construção  e  resulta  de 
múltiplas articulações acima mencionadas.12 
A coalizão de grupos requer, assim, uma identidade ou a identificação 
de problemas em comum, cuja organização em rede poderá empoderar 
os personagens que dela participam no sentido da conquista social de 
direitos de cidadania. 
5.3 Atores sociais em busca de uma identidade 
Manuel Castells destaca que o cerne do significado do  termo “identi‐
dade” tem a ver com a relação entre pessoas e povos, no que diz res‐
peito aos atores sociais  identidade seria, para o autor, “o processo de 
construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda 
um conjunto de atributos culturais inter‐relacionados”13. É pacífico que 
um indivíduo possa portar inúmeras identidades e que a evocação de 
uma ou outra é  situacional, porém, para Castells, essa variação pode 
ser  uma  fonte  de  tensão  em  momentos  de  ação  social  e  de  auto‐
representação dos atores. A  identidade é uma  forma de  individuação 
 
55 
do ator ao mesmo  tempo em que é parte do processo de sua própria 
autoconstrução, quer como indivíduo, quer como grupo.  
Castells lança seu foco de análise sobre o processo social de construção 
das identidades coletivas, o que sempre ocorre em contextos de relação 
de poder. Essas relações, reforço, estabelecem‐se, em sua maioria, em 
situações  de  relações  assimétricas.  Assim,  o  autor  desenvolve  uma 
tipologia tripartite de processos de construção de identidades coletivas 
que originam distintos resultados14: 
a) IDENTIDADE LEGITIMADORA. Estabelecida a partir de estrutu‐
ras de poder e dominação da sociedade que, por meio da constru‐
ção  de  identidades,  visa  estender  o  alcance  de  sua  incidência  e 
controle sobre os atores sociais. Ee tipo de identidade origina uma 
sociedade civil entendida como campo de  interação entre grupos 
de atores e aparatos de Estados. A dinâmica de interação pode po‐
tencializar  a  transformação  do  Estado,  por  exemplo,  como  para 
Gramsci e Tocqueville, a partir de  identidades semelhantes com‐
partilhadas,por exemplo, a  cidadania ou a democracia; ou,  con‐
forme Horkheimer, Marcuse, Sennet e Foucault, potencializam es‐
tratégias de dominação por parte de agências estatais e a homoge‐
neidade pela da imposição de identidades. 
b) IDENTIDADE DE RESISTÊNCIA.  É  a  identidade  que  emerge  a 
partir de situações sociais de conflito, embasada em atores que vi‐
vem em posições estereotipadas ou desvalorizadas da sociedade. 
Esses atores criam verdadeiros nichos de luta frente a identidades 
nacionais englobantes e legitimadoras em que potencializam a cri‐
ação e o  implemento de políticas de  identidade que  lhes assegu‐
rem o respeito pela diferença. A identidade de resistência pode le‐
var  à  constituição  de  comunidades  nas  quais  se  reúnem  atores 
mobilizados em ações de resistência coletiva. 
c) IDENTIDADE  DE  PROJETO.  Com  esse  tipo  de  identidade,  os 
atores pretendem não apenas posicionarem‐se em outro patamar 
na hierarquia social, mas, também, transformar a própria estrutu‐
ra social. Esse tipo de identidade produz sujeitos a partir da cono‐
tação tomada por Tourraine. “A construção da identidade consiste 
em um projeto de uma vida diferente,  talvez  com base  em uma 
identidade oprimida, porém  expandindo‐se no  sentido da  trans‐
formação da sociedade como projeto de identidade”15. 
Castells16 destaca que essa  tipologia não é estanque. Ela é permeável 
sendo que uma  identidade pode variar de posição, sendo, por exem‐
plo, ora de resistência ora de projeto, há uma dinâmica de identidades 
 
 
56 
que não obedece a um roteiro pré‐definido e cuja análise é material de 
estudo do  cientista  social,  principalmente. Ao  longo desse  estudo,  o 
pesquisador não pode descuidar‐se da situação histórica de construção 
da identidade. Dessa forma, para o autor, é importante situar a discus‐
são  sobre  a  construção  social da  identidade no  contexto histórico da 
sociedade em rede.  
Frente  às  novas  relações  estabelecidas  na  sociedade  globalizada,  as 
sociedades civis sofrem com o processo de fragmentação, pois “não há 
mais continuidade entre a lógica da criação de poder na rede global e a 
lógica de associação e representação em sociedades e culturas específi‐
cas”  17. O  fluxo de poder que  se propaga nos diferentes  sentidos da 
rede, mas, via de regra, em direção a um centro que acaba por se opor 
ao local, lócus – geográfico ou espacial – no qual o indivíduo estabelece 
seus critérios de auto‐identificação. Por isso, para Castells18: 
enquanto  na modernidade  a  identidade  de  projeto  fora  constituída  a  partir  da 
sociedade  civil  (como,  por  exemplo,  no  socialismo,  com  base  no  movimento 
trabalhista),  na  sociedade  em  rede,  a  identidades  de  projeto,  se  é  que  se  pode 
desenvolver, origina‐se a partir da resistência comunal. 
Nos próximos capítulos, estudaremos os movimentos sociais na socie‐
dade em rede, atuando, também, eles por meio de redes. 
(.) Ponto final 
Neste capítulo, procuramos informar o leitor da origem das discussões 
sobre o conceito de  rede e do  fato de que ela não é algo estranho às 
análises no campo das Ciências Sociais. Além disso, enfatizamos que a 
composição  de  redes  não  é  um  fenômeno  restrito  aos movimentos 
sociais, mas algo que está  se  consolidando na  sociedade globalizada. 
Terminamos por apresentar como teóricos estão se reportando a dife‐
rentes níveis de  organização da  sociedade  civil por  consequência da 
emergência de uma sociedade em rede. Por fim, apresentamos o quan‐
to as mobilizações sociais  têm ensejado a construção social de  identi‐
dades, cuja  tipologia é explicitada por Manuel Castells, nos próximos 
capítulos  retomaremos  a  perspectiva  da  organização  em  rede  e  a 
emergência das novas identidades frente aos movimentos ambientalis‐
ta e pelo reconhecimento. 
Indicações culturais 
QUANTO vale ou é por quilo? Direção: Sérgio Bianchi. Produção: Patrick 
Leblanc e Luís Alberto Pereira. Brasil: Riofilme, 2005.  (104 min). Este 
filme promove uma forte crítica às organizações do Terceiro Setor e a 
 
57 
forma como têm interagido com os excluídos. A partir dele é possível 
perceber  a  configuração  de  redes  de  “solidariedade”  (financiadores, 
organizações  não  governamentais)  ao mesmo  tempo  em  que  se  de‐
monstra  que  a  estrutura  social  excludente  muito  pouco  mudou  ao 
longo  dos  séculos  no  Brasil.  (para  assistir  ao  trailler  acesse: 
<http://www.quantovaleoueporquilo.com.br/>.  
SEMINÁRIO  CONTRA  O  RACISMO  AMBIENTAL,  1,  2005.  Niterói. 
Disponível em: 
http://br.youtube.com/results?search_query=semin%C3%A1rio%20raci
smo%20ambiental&search=Search&sa=X&oi=spell&resnum=0&spell=1 
Acesso em: 19 maio 2008. Neste conjunto de vídeos, o  leitor pode en‐
trar em contato com uma ação estratégica do Grupo de Trabalho contra 
o Racismo Ambiental. Ao promover o  I Seminário Brasileiro contra o 
Racismo Ambiental o GT reuniu, na Universidade Federal Fluminense, 
no ano de 2005, pesquisadores  acadêmicos e integrantes de organiza‐
ções não‐governamentais,  representantes de povos  tradicionais  (indí‐
genas  e  quilombolas),  dando  visibilidade  ao  problema  do  Racismo 
Ambiental no Brasil. O GT contra o Racismo Ambiental é uma rede de 
organizações  estrutura  da  no  interior  da  Rede  Brasileira  de  Justiça 
Ambiental sobre a qual iremos conversar no capítulo específico sobre o 
movimento socioambiental. 
REDE DE  INFORMAÇÕES  PARA O  TERCEIRO  SETOR. Disponível 
em:  <http://www.rits.org.br/>. Acesso  em:  28  jul.  2008. Neste  site,  o 
leitor tem contato com uma rede fundada em 1997, cujo principal obje‐
tivo é o de oferecer subsídios para o fortalecimento de outras organiza‐
ções e dos movimentos sociais. Sua principal vocação é a de articular 
informações,  conhecimento  e  recursos  técnicos  para  tais  atores,  com 
ênfase  na  utilização  da  Tecnologia  da  Informação  e  Comunicação 
(TICs). 
Atividades 
1) As redes sociais são fenômenos: 
a) exclusivamente urbanos 
b) sinônimos de campo social 
c) que surgiram com a globalização 
d) que  ocorrem  tanto  em  localidades  urbanas  quanto  rurais, 
marcam  vínculos  de  laços  de  solidariedade  e  permitem  a 
 
 
58 
identificação  de  grupos  sociais  que  compartilham  padrões 
morais e interesses em comum 
2) Uma das consequências da globalização frente ao poder mundial: 
a) foi o fortalecimento dos Estados‐Nacionais 
b) foi o deslocamento do eixo de poder e dominação no sentido 
norte‐sul 
c) foi a redistribuição de  lucro e alimentos entre os países mais 
pobres e mais ricos 
d) foi a disseminação de valores ambientais onde a interação do 
homem com a natureza cultivou o respeito pelo “verde” 
3) As redes de mobilização que atuam na esfera pública são estraté‐
gicas: 
a) para a realização de ações apenas de cunho local 
b) têm um  forte  caráter  informativo  e  atuam  frente  ao Estado, 
sociedade civil e instituições políticas 
c) não  são  estratégicas  para  a mobilização  de  grandes  grupos 
para protestos organizados, por exemplo 
d) não  têm  caráter  de  movimento  social,  pois  não  propiciam 
ações conjuntas entre vários atores 
4) Sobre a “identidade”, não podemos dizer: 
a) que ela é situacional, o que permite que um mesmo ator acio‐
ne diferentes identidades em diferentes momentos 
b) que seu significado constrói‐se a partir de atributos culturais, 
que dependem da interação do sujeito com o grupo social ao 
qual pertence e  com outros  com o qual  se  constrói por  con‐
traste 
c) que não é um fenômeno relevante em um contexto de globali‐
zação 
d) que a emergência de  identidades coletivas ocorre, via de  re‐
gra, em situações de relação de poder assimétrica em que um 
grupo  passa  a mobilizar‐se,  tendo  em  vista  o  desrespeito  a 
seus valores morais e condições de vida 
 
59 
5) A “identidade de resistência”: 
a) não emerge em situaçãode conflito 
b) depende da existência prévia de uma identidade do tipo legi‐
timador 
c) coloca em evidência valores estereotipados e  sinais de domi‐
nação 
d) é algo que não se percebe nos Estados Nacionais 
 
 
6 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS: LUTA POR RECONHECIMENTO 
Cíntia Beatriz Müller 
Encerramos o capítulo anterior explicando sobre a construção social da 
identidade na sociedade em  rede. Daremos continuidade à discussão 
discorrendo sobre as lutas pelo reconhecimento dessas identidades em 
efervescência no mundo globalizado. 
6.1 A luta pelo reconhecimento impulsionada pela 
construção social da identidade 
Embora o termo “reconhecimento” tenha sido empregado por teóricos 
dos  movimentos  sociais,  ele  não  se  consolidou  em  termos  teóricos 
acadêmicos, campo no qual a expressão “luta social” mostrou‐se mais 
bem estabelecida, reportando ao “significado de uma concorrência por 
chances de  vida  ou de  sobrevivência”1. Mesmo  aqueles  teóricos  que 
aprofundaram sua investigação sobre a dimensão da “luta” ignoraram 
em suas elaborações  teóricas o aspecto moral do conflito. Georg Sim‐
mel, de acordo com Honneth2, chega a atribuir a “sensibilidade social 
para a diferença”  relevância na  composição de  conflitos, porém Sim‐
mel não chega a relacionar esse fator como algo ligado aos pressupos‐
tos  intersubjetivos  do  reconhecimento  de  identidades  coletivas  ou 
pessoais. A Escola de Chicago seguiu o mesmo caminho, valorizando 
elementos como genéricos de “honra, glória e prestígio”, deixando de 
avaliar  elementos  que poderiam  explicar‐nos um pouco mais  “sobre 
como determinar adequadamente a lógica moral das lutas sociais”3. 
Para Honneth,  a  ação dos movimentos  sociais guarda  relação  com  a 
experiência  moral  do  desrespeito.  Essa  possibilidade  de  análise  foi 
ignorada pelos  teóricos das ciências sociais. As explicações dadas aos 
conflitos foram, muitas vezes, reduzidas a dimensões de “distribuição 
desigual  objetiva  de  oportunidades materiais  de  vida”4,  como  se  a 
lógica de distribuição estivesse posta em separado da ordem cotidiana 
da vida e de suas  implicações morais e emotivas. Por  isso, confronta‐
mo‐nos  com  uma  dimensão  do  conflito  que  denominamos  de  “luta 
 
61 
social”  que  se  constrói  a  partir  da  indignação  pelo  desrespeito  aos 
valores morais de justiça estabelecidos. Para entender o significado da 
“luta pelo reconhecimento”, é pressuposto compreendermos os meca‐
nismos sociais que estabelecem o nexo, ou a conexão, entre “desrespei‐
to moral” e “luta social”5. 
Segundo Honneth, a luta pelo reconhecimento emerge em um contexto 
de tensão moral que torna possível a valorização de identidades sociais 
passíveis de serem compartilhadas, ou seja, adquirem caráter de mo‐
vimento  coletivo. Na mesma obra, Honneth  afirma que  o  reconheci‐
mento do direito e da estima social detém o potencial para deflagrar o 
tipo de tensão social necessário para a luta, uma vez que o desrespeito 
a essa forma de reconhecimento transcende a pessoa e adquire caráter 
coletivo, afetando a todos os portadores de uma identidade coletiva. A 
experiência  compartilhada  do  desrespeito  funciona  como  “motivos 
diretores  da  ação,  na  exigência  coletiva  por  relações  ampliadas  de 
reconhecimento”6. 
Os meios pelos quais as  lutas pelo  reconhecimento e pela  resistência 
impõem‐se, colocam‐se a partir das experiências morais, que definirão 
a forma como as coletividades irão “articular publicamente os desres‐
peitos e as lesões vivenciados como típicos e reclamar contra eles”7. No 
entanto, para empreender a luta pelo reconhecimento, os movimentos 
sociais  independem  de  ter  ou  não  consciência  do  desrespeito moral 
que vivenciam seus atores, pelo contrário, levando em consideração a 
retórica das ações baseadas em princípios que transformam e naturali‐
zam as diferenças, principalmente, aqueles relacionados aos interesses 
materiais. Via de  regra, os atores desconhecem o desrespeito que  so‐
frem as identidades sociais mobilizadas na luta. A identidade coletiva 
do movimento social está baseada no nexo que  liga sua finalidade da 
ação às experiências que os atores têm da lesão.8 
Segundo Honneth9,  a  experiência  do  desrespeito,  que  desencadeia  a 
resistência e a rebelião, faz‐se sentir na ruptura da expectativa do reco‐
nhecimento vinculado à identidade pessoal do sujeito. Essa expectativa 
de reconhecimento é vivida no cotidiano pela pessoa no convívio com 
o  entorno  sociocultural,  quando  ela  é  rompida.  Esse  sentimento  de 
desrespeito  adquire  caráter  coletivo  a  partir  do momento  em  que  o 
ator  compartilha  sua  compreensão  acerca da  lesão  e percebe‐o  como 
típicos de uma  coletividade. Ao  identificar o  tipo de  lesão da qual a 
pessoa é alvo e compreender seu caráter coletivo, o indivíduo torna‐se 
capaz de apreender “as causas sociais responsáveis pelos sentimentos 
individuais de  lesão”10. É na emergência desse sentimento de desres‐
peito que passa a ser percebido como compartilhado por uma  identi‐
 
 
62 
dade coletiva, transcendendo a esfera individual, que se consolidam os 
motivos morais de uma “luta coletiva pelo reconhecimento”11. 
Nosso autor  lembra que é necessário dizer, contudo, que nem  todo o 
movimento  social  encontra‐se  engajado  em uma  luta pelo  reconheci‐
mento. Há mobilizações direcionadas a  interesses e a  fins específicos 
que se traduzem em atitudes coletivas. Os “sentimentos de desrespeito 
formam o cerne de experiências morais”12 entre as quais a expectativa 
de reconhecimento é vivida como parte da estrutura psíquica do sujei‐
to. O modelo  de movimento  que  se  inicia  com  base  no  sentimento 
coletivo de  injustiça é aquele que  se consubstancia na experiência da 
negação  do  reconhecimento  jurídico  ou moral.  Trata‐se da  luta  pela 
integridade pessoal, de uma reação moral ao não‐reconhecimento, que 
possui  uma  gramática moral  própria.  Apreender  essa  dimensão  da 
moral  cotidiana  apenas  é  possível  por meio  da  combinação  entre  o 
método  de  pesquisa  da  “Antropologia  social”  e  da  “Sociologia  da 
cultura”  que  desembocaram  na  “história  do  cotidiano”13.  Honneth 
ainda afirma que, por intermédio da historiografia e da investigação da 
construção  social dos padrões morais expressos por meios de hierar‐
quização de valores e dos estereótipos, pode‐se apreender “o sentido 
de uma regulamentação normativa que define as relações do reconhe‐
cimento mútuo”14. 
6.2 A construção social da diferença no Brasil: o racismo 
à brasileira 
Como se deu a construção dos valores morais no Brasil? 
De  acordo  com  os  autores  Laburthe‐Tolra  e Warnier,  etnocentrismo 
“consiste em manter a sua própria civilização e suas próprias normas 
sociais (construídas e depois adquiridas) como superiores às outras”15. 
Ou  seja,  a  ação  etnocêntrica  organiza  a  humanidade  em  uma  escala 
hierárquica  que  estabelece  graus  de  valorização  do  ser  humano,  de 
acordo com a adesão, ou não, às regras compartilhadas pelo grupo que 
ocupa o topo da graduação social. Tal hierarquização pode ser combi‐
nada com o racismo  (que é a  ideia de que pessoas com diferentes as‐
pectos  físicos pertencem  a  raças diferentes  e, por  isso,  compartilham 
valores morais distintos e  inferiores). Roberto da Matta16  sintetizou a 
construção  desse mecanismo  de  hierarquização  social  na  sociedade 
brasileira com o texto A Fábula das Três Raças ou o Problema do Racismo à 
Brasileira. Para o autor, o paradigma do  racismo à brasileira permeia 
tanto  a  camada  erudita  quanto  a  popular,  as  quais  formam  o  povo 
brasileiro, e contribui para colocar cada qual em seu lugar apropriado 
no âmbito da hierarquia de valores que permeia nossa sociedade. 
 
63 
A análise de A fábula das três raças, e sua permanência entre nós, forne‐
ce  referênciaspara  se  pensar  sobre  “a  distância  significativa  entre  a 
presença empírica dos elementos e seu uso como recursos ideológicos 
na construção da ideologia social” do Estado brasileiro17. As três raças 
em questão aqui são definidas pelos traços físicos ou fenotípicos, carac‐
terística do racismo de marca que opera na sociedade brasileira, e são a 
branca, a preta e a  índia. Com a descoberta do Brasil e a  inserção da 
colônia no regime mercantilista, a concentração de  terras sob o poder 
de poucos proprietários exigiu a exploração da mão de obra escrava 
em larga escala. “Era a Coroa portuguesa que, legitimada pela religião, 
pela  política  e  pelos  interesses  econômicos,  explorava  soberbamente 
nosso  território  com  sua gente,  fauna  e  flora”18. A Coroa portuguesa 
passou a  exercer  sua dominação direta  sobre o Brasil  impondo a  ele 
seu modelo de organização política e seu corpo de leis. Tal modelo era 
baseado em ações altamente centralizadas em figura do rei e em uma 
legislação universalizante,  cuja pretensão de  regramento  se  expandia 
da metrópole em direção à colônia19 
De certa forma, mesmo sendo uma potência colonial na época, Portu‐
gal  era desprovida de uma  classe  burguesa  “com  ideias  igualitárias, 
individualistas e acreditando em um poder definidor total do mercado 
e do dinheiro”20. Assim, como Estado mercantilista, Portugal tinha em 
seu Rei o principal capitalista no país. A camada burguesa, nesse cená‐
rio,  simplesmente  complementa  a  camada  dos  nobres  e  o  papel  do 
próprio Rei. Nesse ínterim, a população negra brasileira escravizada é 
empregada  na  grande  lavoura  de  cana  e  depois  na  exploração  das 
minas, enquanto os grupos indígenas são exterminados e empurrados 
cada vez mais para o interior das fronteiras brasileiras. 
Com a proximidade da abolição da escravatura e da Proclamação da 
República, essa estrutura hierárquica centralizada é posta à prova. Se, 
por um  lado, a Proclamação da República  revelou‐se um movimento 
um tanto conservador que preservou a estrutura política e agrária do 
país, por outro, a abolição da escravidão oferecia uma real chance de 
transformação na estrutura da hierarquia social brasileira. “Deste mo‐
do, se a ideologia católica e o formalismo jurídico que veio de Portugal 
não  eram mais  suficientes  para  sustentar  o  sistema  hierárquico,  era 
preciso uma nova  ideologia”21. Tal amarra foi fornecida pelo racismo. 
A  ideia de raça, trazida à  literatura especializada na França, no  início 
do  século  XIX,  propaga  a  noção  de  que  existe  uma  herança  física 
transmitida pelos seres humanos. A “raça” constrói‐se como uma rea‐
ção à noção de humanidade propalada pelo Iluminismo e aos valores 
igualitários “das revoluções burguesas”22. 
 
 
64 
De acordo com Schwarcz23, a definição dos tipos raciais emerge como 
produto da discussão sobre uma origem monogenista ou poligenista do 
homem. Segundo essa autora, os monogenistas concebiam uma origem 
única do homem. Muitos  fundamentavam suas afirmações nos  textos 
bíblicos, porém, apesar de uma origem  compartilhada, o desenvolvi‐
mento dos grupos humanos, após a criação, dava‐se de forma diferen‐
ciada. Haveria  diferentes  graus  de  perfeição  e  a  evolução  não  seria 
única. A hipótese poligenista, continua a autora, seria uma reação cientí‐
fica, tomando por base a especialização pela qual a Biologia, passou no 
período, aos preceitos religiosos sobre a criação. Conforme essa  ideia, 
as diferentes raças originaram‐se embasadas em diferentes centros de 
criação.  Essa  perspectiva  fundamentou  a  ideologia  de  que  como  as 
diferentes “raças” nasceram em distintos centros de criação. Poderiam, 
tendo em vista o diferente desenvolvimento que vivenciaram,  ter ad‐
quirido diferentes propensões intelectivas e comportamentaisa. 
Guimarães  mostra  que  o  imaginário  do  Brasil  pós‐abolição  estava 
calcado na ideia de nação híbrida oriunda da inter‐relação entre bran‐
cos,  negros  e  índios.24  Continua  o  autor  afirmando  que  pensadores 
brasileiros viam o país do início do século XX como capaz de absorver 
diferentes culturas, principalmente de  imigrantes europeusb que para 
cá convergiam vindos dos programas de  imigração. Essa absorção de 
valores estrangeiros eram bem‐vinda, desde que fosse ao encontro da 
noção de modernidade,  compartilhada pela  elite nacional  emergente 
no pós‐abolição. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, 
a imigração foi suspensa, principalmente porque os grupos migrantes 
que chegaram  foram os alemães, os  italianos e os  japoneses oriundos 
de países que compunham as potências do Eixo opostas ao Brasil no 
cenário mundial. Apenas na década de 30, o Brasil começou a reverter 
seu problema racial que, até então, era visto com base na matriz bioló‐
gica. Ao  longo do período da  importação de  escravos africanos  e da 
entrada de imigrantes europeus no país, as elites referiam‐se ao Brasil 
como um país “sem povo e sem cultura”25. 
Guimarães26 afirma que, em verdade, a propalada capacidade do Brasil 
de “absorver” outras culturas era a contra‐face da ausência de homo‐
geneidade interna de seu povo e de uma cultura nacional. Ao longo da 
Primeira  República,  a  escravidão  foi  reconhecida  como  um  sistema 
“inumano  e  aviltante”.  Começou‐se  a  admitir  a  existência  de  uma 
                                                                  
a Esta correlação entre aspecto biológico e comportamental serviu de base para fundamentar as conclusões 
oriundas da Frenologia, da Antropometria e da Antropologia Criminal do século XIX (SCHWARCZ, 1993). 
b Entre 1850 e 1932, estima‐se que 4 milhões de europeus tenham migrado para o Brasil, estabelecendo‐
secido nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul 
(GUIMARÃES, 2002, p. 118). Destacamos que a migração de japoneses para o estado do Pará para 
fugirmos do senso‐comum de que apenas os estados das Regiões Sul e Sudeste receberam esses imigrantes 
no país. 
 
65 
dívida cultural em relação à população negra brasileira e aos intelectu‐
ais do período passaram a interpretar o Brasil como ocupado não por 
uma  raça,  mas  pelo  povo  brasileiro,  ideologicamente  visto,  agora, 
como miscigenado. Guimarães  salienta que a  inclusão dos negros na 
historiografia nacional, assim como dos grupos indígenas, deu‐se pelo 
reconhecimento  de  uma  participação  primordial.  Na  fundação  da 
cultura brasileira, a eles não  foi  reconhecida uma  identidade autôno‐
ma. Essa  inclusão simbólica do negro no mito fundador da sociedade 
brasileira,  contudo,  não  solucionou  seus  problemas  de  desigualdade 
social.  
Entre os anos de 1560 e 1850  foram  forçosamente  importados para o 
Brasil entre seis e quatro milhões de africanos. A escravidão no Brasil 
oferecia 
uma  complexa gradação de  espaços de  reconhecimento  seletivo de necessidades  e 
desejos dos dependentes do senhor, numa hierarquia cujo ápice é determinado pela 
maior ou menor proximidade em relação às preferências afetivas do senhor27. 
O caráter mais ou menos severo da escravidão passava pelo  filtro de 
valores subjetivos e por uma economia de tarefas e apenas administra‐
da por aquele que ocupava o papel funcional de senhor. Com a aboli‐
ção da escravidão no país,  foi dada  liberdade aos ex‐escravos que  fo‐
ram,  então,  substituídos  em  parte  da  grande  lavoura  do  café,  por 
exemplo,  pela mão  de  obra  imigrante,  notadamente  a  japonesa  e  a 
italiana em São Paulo. Em outros locais do país, como em Pernambuco, 
os  ex‐escravos  passaram  a  viver  nas  bordas  das  grandes  fazendas, 
servindo de mão de obra barata. Mesmo com a suspensão de  imigra‐
ção e a valorização do operariado nacional e mestiço, na década de 30, 
o negro brasileiro  sofreu  com o preconceito  e  as desigualdades  raci‐
ais28. 
Ainda  segundoGuimarães29, Gilberto  Freyre  tem,  sem  dúvida,  uma 
parcela de  responsabilidade pela popularização da expressão “demo‐
cracia racial”, principalmente, ao divulgar a ideia de uma cultura bra‐
sileira como mestiça. O autor utilizava a expressão “democracia étni‐
ca”  por  oposição  ao movimento  integralista.  Ainda  de  acordo  com 
referências de Guimarães, para Freyre a superação de uma democracia 
política  seria  dada  pela  concreção  de  uma  democracia  étnica  com  a 
finalidade  de  justificar  a  adoção  de medidas  sociais  e  políticas  não 
universais  tomando  por  base  a  heterogeneidade  nacional.  Souza30 
acrescenta que a acentuada industrialização e a urbanização do país no 
início do século XX apenas transferiu as desigualdades do campo para 
a cidade, a estrutura de dominação estava mantida e as condições de 
vida do povo negro precarizaram‐se. O poder patriarcal, antes pessoa‐
 
 
66 
lizado, agora passou a ser exercido em moldes abstratos e  impessoais 
e,  até mesmo,  em  cenários  de  Estado. À medida  que  o mestiço  era 
incorporado à sociedade, como o  tipo brasileiro, o negro passou pelo 
processo de proletarização e de demonização: 
As  oposições  deixam  de  localizar‐se  nos  binômios  senhor/escravo  ou 
coronel/dependente  para  assumirem  formas  impessoais  como  doutor/analfabeto, 
trabalhador  qualificado/trabalhador  desqualificado,  morador  de  bairros 
burgueses/morador de favelas, etc. O que é comum a todos esses últimos binômios 
impessoais  é  que  a  relação  entre  positivamente  privilegiados  e  negativamente 
privilegiados independe de um vínculo de subordinação construído a partir de uma 
situação particula.31. 
Para Telles32, nos anos 50, o mito da democracia racial brasileira  teve 
reflexos  internacionais.  Data  dessa  década  um  conjunto  de  estudos 
solicitados pela Unesco  que buscava  compreender  a harmonia  racial 
em  que  vivia  o  povo  brasileiro.  Telles  acrescenta  que  Florestan  Fer‐
nandes, da Universidade de São Paulo, foi nomeado um dos pesquisa‐
dores  líderes desse projeto, que acabou por  tornar‐se um dos princi‐
pais instrumentos de contestação a ideia de democracia racial divulga‐
da  por Gilberto  Freyre, Marvin Harris  e Charles Wagley.  Fernandes 
centrou  suas  análises  em  relações  de  caráter  hierárquico,  buscando 
entender as  relações de discriminação  racial que estavam por  trás da 
desigualdade que as ensejaram. Guimarães, citado por Telles33, destaca 
que  Freyre  e  Fernandes  estão  construindo  suas  teorias  em  regiões 
diferentes do país, destacando que as perspectivas de ambos são pau‐
tadas  em  realidades  regionais  de  relações  étnicas  diferenciadas.  O 
grupo de pesquisadores de Freyre está elaborando suas pesquisas na 
Região Nordeste do Brasil ao passo que o grupo de Fernandes focali‐
zou seu campo de coleta de dados nas Regiões Sul e Sudeste de migra‐
ção europeia recente.  
Abdias Nascimento citado por Guimarães, na época em que o mito da 
democracia racial propagou‐se no Brasil “o status de raça, manipulado 
pelos brancos,  impede que o negro tome consciência do  logro que no 
Brasil chamam de democracia racial e de cor”34. Estava aberto o cami‐
nho para a ação do Movimento Negro Unificado e de outras organiza‐
ções que se consolidaram embasadas nessa identidade diferenciada. 
Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)c 
Os objetivos da CONAQ são a busca pelo respeito à identidade étnica 
do grupo e a promoção de ações de combate à discriminação racial e 
                                                                  
c Esta seção é baseada em: COORDENAÇÃO NACIONAL DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS 
QUILOMBOLAS, 2008. 
 
67 
de garantia dos direitos étnicos dos quilombolas. Por  isso, a CONAQ 
pleiteia: 
 Os objetivos da CONAQ  são: a busca pelo  respeito à  identidade 
étnica do grupo e a promoção de ações de combate à discrimina‐
ção racial e de garantia dos direitos étnicos dos quilombolas. Por 
isso, a CONAQ pleiteia: 
 a garantia do direito à terra e a implementação de projetos para o 
desenvolvimento sustentável das comunidades; 
 a  preservação  dos  costumes,  da  cultura  e  da  tradição  entre  as 
gerações das populações quilombolas; 
 a  proposição  de  políticas  públicas  que  valorizem  a  organização 
tradicional da comunidades, sua história e cultura; 
 a garantia do respeito ao direito das crianças e adolescente para a 
continuidade da cultura e tradição das comunidades quilombolas;  
 o combate à discriminação racial. 
Para tanto, a coordenação desenvolve ações no sentido de pressionar o 
governo a efetivamente  implementar o que a Constituição Federal de 
1988 obriga, ou seja,  titular a propriedade das comunidades e  ter sua 
identidade étnica respeitada, conforme está determinado no artigo 68 
do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da CF/88d. A Co‐
ordenação elabora documentos de protesto, como moções, notas públi‐
cas e convocatórias de ação, além de empreender diálogos com o go‐
verno federal, por exemplo, ao longo da consulta pública sobre a alte‐
ração  da  Instrução Normativa  n.  20  de  19  de  setembro  de  2005e  do 
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, que especifica a 
forma como a titulação de suas terras deve ser feitaf. 
(.) Ponto final 
Ao longo deste capítulo, buscamos discutir de que forma as lutas pelo 
reconhecimento  consolidam‐se  em  torno de  identidades  sociais  com‐
partilhadas.  O  desrespeito  a  valores  morais  acaba  por  impulsionar 
conflitos, servindo de mote de coalizão de coletividades, embasado no 
                                                                  
d Para ver na íntegra o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 
acesse: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm#adct>. 
e Para ver na íntegra a Instrução Normativa n. 20, de 19 de setembro de 2005 acesse: 
<http://www.incra.gov.br/arquivos/0148600045.pdf>. 
f Para saber mais acesse: <http://www.conaq.org.br/>. 
 
 
68 
momento em que surge a troca de experiências e impressões acerca da 
discriminação sofrida. O impacto da desatenção aos direitos econômi‐
cos, sociais, culturais, civis e políticos funciona como aglutinador para 
a  formulação de pleitos  coletivos  que  tomam por  base  a  identidade. 
Por isso, trouxemos o exemplo das coordenações dos povos indígenas 
da Amazônia  brasileira  e  das  comunidades  rurais  quilombolas  para 
ilustrar quem são, quais os objetivos e como são formuladas ações por 
parte desses atores. 
Indicações culturais 
BROWN, Dee. Enterrem meu  coração na  curva de um  rio. Porto Alegre: 
LP&M, 2003. Este  livro narra,  com base em documentos históricos, a 
forma  como  o  governo  estadunidense  tratou  seus  povos  indígenas. 
Trata‐se de um relato bastante realista que explicita as tensões existen‐
tes entre os próprios povos indígenas e, principalmente, entre estes e o 
governo, que  cercou  suas  terras, apropriou‐se de  seus  recursos natu‐
rais e minou suas relações sociais e culturais. 
VILLAS‐BÔAS, Cláudio; VILLAS‐BÔAS, Orlando. Xingu: História de 
Índios  e Sertanejos. Porto Alegre: Kuarup,  1992. Este  livro  apresenta 
uma série de notas tomadas pelos sertanistas Villas‐Bôas em suas via‐
gens pela região do Xingu.  
VILLAS‐BÔAS, Cláudio; VILLASBÔAS, Orlando. Xingu: o Velho Kaia 
Conta a História do seu Povo. Porto Alegre: Kuarup, 1989. Neste livro, 
os sertanistas Villas‐Bôas trazem ao público a história da tribo Juruna, 
do Xingu,  tomando por base as  informações dadas pelo antigo  chefe 
dela. 
NÚCLEO de Educação, Pesquisa e Cultura dos Povos do Mar. Compu‐
tação  Gráfica:  Carlos  Bottesi.  Brasil: Ministério  do Meio  Ambiente, 
1997.  (22  min).  Disponível  em: 
http://www.mma.gov.br/port/cid/video/636_bxres.wmv>.  Acesso  em: 
29 jul. 2008. Trata‐se daapresentação dos resultados do Projeto Cultu‐
ral São Sebastião tem Alma que promoveu uma série de ações de res‐
gate e valorização da cultura dos povos tradicionais do litoral do esta‐
do de São Paulo, especialmente os caiçaras. São apresentadas ações do 
projeto  relacionadas a mobilização,  educação,  saúde  e divulgação da 
cultura caiçara. 
 
 
69 
Atividades 
1) Axel Honneth afirma que a ação dos movimentos sociais guarda 
relação com a experiência moral do desrespeito. Em sua constru‐
ção teórica ele destaca a  importância para as  lutas por reconheci‐
mento do nexo entre: 
a) identidade e cultura 
b) desrespeito moral e luta social 
c) cotidiano e política 
d) classe social e marxismo 
2) Para adquirir potencial de mobilização, o desrespeito deve possuir 
caráter: 
a) individual 
b) perpétuo 
c) coletivo 
d) temporário 
3) Segundo Honneth, as relações sociais hierárquicas são socialmente 
dadas e o indivíduo acaba se rebelando contra este padrão moral. 
Esse padrão de valores estabelece “o sentido de uma regulamen‐
tação normativa que define as relações do reconhecimento [...]”: 
a) da natureza 
b) da sociedade 
c) mútuo 
d) do campo político 
4) A Fábula das Três Raças funciona como uma metáfora da hierarqui‐
zação da sociedade brasileira. As três raças a que se refere a “Fá‐
bula” são: 
a) portugueses, alemães e japoneses 
b) indígenas, caboclos e brancos 
 
 
70 
c) brancos, indígenas e negros 
d) negros, brancos e cafusos 
5) Os  teóricos  destacam  a  transição  estrutural  do  binômio  se‐
nhor/escravo ou coronel/dependente para assumirem  formas  im‐
pessoais como: 
a) natureza/cultura material; público/privado 
b) não houve continuidade estrutural na forma de dominação 
c) doutor/analfabeto,  trabalhador  qualificado/trabalhador  des‐
qualificado, morador de bairros burgueses/morador de  fave‐
las etc. 
d) senhor/escravo e escravo/senhor 
 
 
7 MOVIMENTOS SOCIAIS: MOVIMENTO FEMINISTA NO BRASIL 
Cíntia Beatriz Müller 
O objetivo do capítulo é oferecer ao leitor as diretrizes de formação do 
movimento feminista no Brasil, salientando suas influências, com base 
no cenário  internacional e a  influência da Igreja Católica, no  início do 
século XX; destacar a ressurgência do movimento nas décadas de 60 e 
70 e qual o impacto da ditadura militar sobre o movimento, e finalizar 
apontando  que,  nos  anos  90,  o movimento  tem  refletido  sobre  suas 
próprias  categorias e buscado evidenciar as diferentes perspectivas e 
demandas que compõem as demandas das mulheres no Brasil. 
7.1 O movimento feminista no Brasil 
A  luta feminina pelo sufrágio universal no Brasil merece destaque no 
início de nosso  texto, pois pode  ser  considerado  como um ponto de 
partida que  transformou a  forma  como a  sociedade  concebia o  lugar 
social da mulher brasileira. 
O movimento feminino e das mulheres brasileiras: de 1918 até 
1937 
Desde 1918, com a fundação da Liga para Emancipação Intelectual da 
Mulher (LEIM) por Berta Lutz, a  luta pelo direito político ao voto era 
tema de debates. Um ano depois, 1919, a Liga foi renomeada para Liga 
pelo  Progresso  Feminino  (LPF)  e  data  desse  ano  a  apresentação  do 
primeiro projeto de  lei que garantia o direito ao voto às mulheres no 
Brasil – que não  foi aprovado. Em 1922, a LPF passou a atuar  como 
Federação Brasileira para o Progresso Feminino  (FBPF), quando pro‐
moveu, no estado do Rio de Janeiro, o I Congresso Internacional Femi‐
nista1. Porém, foi em um contexto político bastante mais efervescente, 
tributário da década de 30, que as sufragistas brasileiras conquistaram 
seu intento. 
 
 
72 
A  Revolução  de  outubro  de  1930  foi  apaziguada  com  a  entrega  do 
exercício do poder político a um Governo Provisório, substituído pela 
ordem política definitiva,  após  os  trabalhos da Assembleia Nacional 
Constituinte  de  34.  Entre  os  compromissos  do  Governo  Provisório, 
estava a reforma da legislação eleitoral. Nesse espírito, foi expedido o 
Decreto n. 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, que apresentava as regras 
do  sistema  eleitoral  brasileiro  e,  entre  elas,  definia  o  sufrágio  como 
universal e  secreto. A Constituinte de 1934a sofreu  influências de vá‐
rios grupos de pressão da sociedade brasileira, sensibilizada pela ação 
revolucionária  de  1932.  Apesar  desse  contexto  inovador,  é  curioso 
perceber, como aponta Araújo2, que a Igreja Católica, colocada de lado 
com  o  advento  da  República  e  o  Estado  laico  reagiu  no  sentido  de 
buscar uma  tomada de posição no contexto político da década de 30. 
De  acordo  com  essa  autora,  a  Federação Pernambucana  para  o  Pro‐
gresso Feminino, a Liga Eleitoral Católica e a Cruzada de Educadoras 
Católicas são exemplos de grupos  impulsionados por ações da  Igreja 
Católica nesse contexto. 
Esse dado, porém, não desvanece o mérito de algumas  lideranças  fe‐
mininas como Berta Lutz, cujas ideias emancipatórias foram reforçadas 
ao longo de seus estudos na Europa e o contato que teve com mulheres 
vinculadas aos movimentos sociais naqueles países. Embora a mobili‐
zação  feminina pelo direito ao voto e a participação das mulheres na 
Assembleia Constituinte de  1932  tenha ocorrido  em  todo o  território 
nacional,  apenas  uma mulher  conseguiu  reunir  o  número  de  votos 
suficientes para participar da elaboração da Constituição de 1934. Foi 
Carlota Pereira de Queiroz, de São Paulo. Berta Lutz, representante da 
Liga  Eleitoral  Independente  (LEI),  tornou‐se  primeira  suplente  na 
eleição de 1932, vindo a assumir uma vaga na Câmara de Deputados 
Federais após a elaboração da Constituição de 1934, no ano de 1936.3 
As organizações feministas brasileiras sofreram um duro golpe com o 
advento do Estado Novo no Brasil por Getúlio Vargas em 1937. Nessa 
ocasião,  elas  encontravam‐se  mobilizadas  pelas  reivindicações  por 
direitos mais  amplos  relacionados, por  exemplo,  à  esfera  trabalhista. 
Porém,  ao  extinguir  os  partidos  políticos  no  Brasil,  Getúlio  Vargas 
também extinguiu as organizações civis que possuíam registro civil, ou 
seja, estivessem regularmente registradas. A Federação Pernambucana 
para o Progresso Feminino  foi extinta e muitas outras associações de 
mulheres enfrentaram esse mesmo problema. Ainda segundo Araújo, 
o governo federal obrigou essas organizações a readequar seus objeti‐
vos  a  finalidades  “puramente  cultural  e  beneficente”. Essa  exigência 
                                                                  
a Para ver na íntegra a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 16 de julho de 1934, 
acesse: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao34.htm>. 
 
73 
levou muitas organizações de mulheres a aproximarem‐se mais e mais 
dos  valores  católicos  como mote de  organização  para  reivindicações 
que guardavam muito mais uma conotação moral do que propriamen‐
te política. 
O feminismo e sua ressurgência no cenário político brasileiro 
Com o advento do feminismo entre as camadas mais intelectualizadas, 
teorias  e  críticas  passaram  a  ser  tecidas  em  relação  à  forma  como  a 
mobilização  das  mulheres  era  inicialmente  feita.  As  discussões  da 
década de 60  trouxeram à  tona a diversidade na construção do papel 
feminino  que  mantinha  em  comum  a  identidade  biológica,  sexual. 
Mesmo  sendo  tributário de  influências estadunidenses e européias, o 
feminismo brasileiro sofreu  influências do contexto político e cultural 
dos anos 60 no Brasil4. Cynthia Sarti5 destaca duas  características do 
movimento feminista desse período: o caráter conflituoso e questiona‐
dor e a articulação entre gênero e classe. No que tange à dimensão do 
conflito, as mulheres passaram a questionar as formas de dominação e 
de  exercício de poder  amplamente, não  apenas  frente  à  família, mas 
frente ao Estado e à política comoum todo. 
Segundo a mesma autora, no início dos anos 60 e ao longo dos anos 70, 
as mulheres participaram em  condição de  igualdade  com os homens 
na luta armada de resistência contra a opressão. Mais tarde, essa expe‐
riência  seria  repensada  com  base  no  contexto  teórico  europeu  e  por 
pesquisadoras  de  forte  inspiração  marxista.  Aliados  a  esse  caráter 
contestatório,  a  forte urbanização das  cidades brasileiras  e o modelo 
desenvolvimentista  adotado  pelos  governos militares,  bem  como  os 
novos recursos apresentados ao público feminino como acesso à edu‐
cação, aos meios de comunicação, aos benefícios do controle de natali‐
dade,  propulsaram  os  questionamentos  em  torno  do  papel  social  e 
familiar  da mulher. Nesse  cenário,  a  autora  cita  os  grupos  políticos 
paulistas:  Brasil Mulher, Nós Mulheres  e Movimento  Feminino  pela 
Anistia como exemplos desse contexto político da década de 80 e dos 
anos de abertura política e cultural. 
Os  grupos  feministas,  tendo  a  origem  social  de  suas  militantes  nas  camadas 
médias  e  intelectualizadas,  em  sua  perspectiva de  transformar  a  sociedade  como 
um todo, atuaram articulados às demandas femininas das organizações de bairro, 
tornando‐as próprias do movimento geral das mulheres brasileiras6s. 
Atuar em grupos feministas implicava, então, o deslocamento da mu‐
lher do espaço privado e controlado de seus lares para o espaço públi‐
co  e dominado  por  forças  que  nem  sempre  se  encontravam  sobre  o 
controle dos personagens que exerciam poder direto sobre elas, como o 
 
 
74 
pai, o marido ou o patrão. As mulheres com maior acesso e poder para 
a mobilização e a ruptura com os padrões  tradicionais de dominação 
foram as consideradas classes médias e intelectualizadas. Isso instigava 
um tipo de crítica da esquerda sobre o movimento: o de que as possibi‐
lidades de  transformação do mundo  impulsionadas por essas mulhe‐
res passavam por uma dimensão de  classe que, nem  sempre,  iria ao 
encontro da alteridade popular feminina. 
Já  nos  anos  70,  ainda  de  acordo  com  Sarti,  as mulheres  passaram  a 
reivindicar não apenas mudanças na estrutura social, mas um tipo de 
tratamento  que  atendesse  às  especificidades  do  público  feminino  e 
suas  demandas. Com  a  abertura  política  dos  anos  80,  o movimento 
feminista  especializou‐se,  passou  a  militar  em  organizações  não‐
governamentais  e  absorveu  uma  postura mais  técnica.  Sarti  destaca 
que uma das  consequências desse processo de  institucionalização  foi 
“seu direcionamento para as questões que respondiam às prioridades 
das agências financiadoras”. 
A marca disso  foi a  emergência da discussão  em  torno dos “direitos 
reprodutivos”. Por outro lado, essa mesma especialização por parte do 
movimento propiciou oportunidade para a produção acadêmica sobre 
a mulher. 
Sueli Carneiro7 destaca em seu texto o importante papel que as mulhe‐
res tiveram na redemocratização do país ao incidirem estrategicamente 
sobre a elaboração da Constituição de 1988 e no campo das políticas 
públicas. Além disso, por meio de ações, o movimento feminista plei‐
teou  condições  de  trabalho  equivalentes  entre  homens  e  mulheres, 
embora  ainda  não  tivesse  conquistado  a  equivalência  salarial  entre 
homens  e mulheres. O  feminismo dos  anos  90 buscou  repensar  seus 
valores universais e, entre eles, a construção social do conceito de mu‐
lher.  Por  isso,  algumas  autoras  buscaram  perceber  a  alteridade  de 
olhares “enegrecendo o  feminismo”8 no sentido de constatarem,  tam‐
bém, a diversidade das mulheres que compõem o próprio movimento. 
Essa nuance do  feminismo destaca que mulheres  indígenas  e negras 
têm demandas específicas e peculiaridades que devem ser analisadas 
no momento da  construção de estratégias de  reivindicação e na  inci‐
dência sobre políticas públicas. 
ONG Criola: o feminismo e sua dimensão étnicab 
A  organização  Criola  já  conta  com  quinze  anos  de  experiência  em 
trabalhos  envolvendo mulheres,  adolescentes  e meninas  negras  que 
                                                                  
b Esta seção é baseada em CRIOLA, 2008. 
 
75 
vivem  no  Rio  de  Janeiro,  em  especial. O  objetivo  da  organização  é 
“instrumentalizar” mulheres,adolescentes  e meninas  negras  contra  a 
homofobia, o sexismo e o racismo. Essa ONG vai ao encontro do que 
Sueli  Carneiro9  relata  em  suas  análises,  pois  coloca  em  evidência  e 
propõe ações diferenciadas a mulheres que demandam atenção e polí‐
ticas  públicas  especiais.  A  organização  tem  caráter  não‐lucrativo  e 
recebe subvenção de entidades públicas e privadas, nacionais e  inter‐
nacionais. Valorizando  as mulheres negras  como  agentes  capazes de 
promover a  transformação na  sociedade, Criola mantém as  seguintes 
linhas de ação: 
 saúde da mulher negra; 
 economia trabalho e renda; 
 defesa e garantia de direitos humanos; 
 ação política e articulação com instituições e movimentos sociais; 
 difusão de informações, documentação e publicações; 
 desenvolvimento institucional; 
 dimensões de gênero e raça do movimento cultural Hip‐Hip. 
Mesmo mantendo as linhas de ação enumeradas, Criola também man‐
tém  outros  eixos  de  atuação.  Entre  eles  está  “Negras  na  História”, 
seção na qual promove e divulga a história de vida de mulheres  im‐
portantes em seu  tempo como  figuras sociais e de  liderança. Em “Na 
Mídia”,  a  organização  disponibiliza  ao  público  várias  publicações, 
artigos e reportagens, material didático sobre saúde da mulher e com‐
bate à discriminação, por exemplo, para serem copiados e estudadosc. 
(.) Ponto final 
O movimento social feminino no Brasil teve início ainda no começo do 
século XX  quando  o mote  de mobilização  foi  em  busca  do  sufrágio 
universal.  Inúmeras  organizações  feministas  e  protagonizadas  por 
mulheres  foram  constituídas  no  Brasil  e  sofreram  o  impacto  de  sua 
desarticulação  pelo  Estado Novo  do  governo  de Getúlio Vargas  em 
1937.  Novamente mobilizadas pela luta contra a repressão nos anos da 
ditadura, as mulheres vivenciaram  transformações culturais e sociais. 
Atores importantes no contexto da “abertura política” dos anos 70 e 80, 
as mulheres chegaram aos anos 90 atuando de forma mais técnica por 
                                                                  
c Para saber mais sobre a ONG Criola, acesse: <http://www.criola.org.br/interno.htm>. 
 
 
76 
meio de  organizações  não‐governamentais  e  questionando  a  própria 
construção social da categoria mulher. Por conta desse autoquestiona‐
mento, o movimento tem atuado em linhas  de reivindicação ao acesso 
equitativo a direitos universal e, também, colocado em evidência seg‐
mentos diferenciado e alteridades  subalternas englobadas pelas  lutas 
feministas. 
Indicações culturais 
QUE BOM  te ver viva. Direção: Lúcia Murat. Produção: Toiga Brasil 
Sagres, 1989. (100 min). O filme trata do tema da tortura de mulheres 
ao  longo da ditadura militar, cruzando  ficção e narrativas de oito ex‐
presas políticas. As mulheres relatam não apenas o tipo de tratamento 
que tiveram, mas como sobreviveram e sobrevivem até hoje conviven‐
do com suas lembranças. 
ANJOS Rebeldes. Direção: Katja von Garnier. Estados Unidos: HBO, 
2004.  (123 min). Conta  a história das  sufragistas  estadunidenses  que 
reivindicavam o direito ao voto em 1912. O filme relata como as ideias 
de  igualdade partiram da Europa rumo aos Estados Unidos, as estra‐
tégias do movimento para colocar em evidência suas reivindicações e 
as consequências que a luta por direitos igualitários acarretou para as 
mulheres da vanguarda. 
AGENDE. Disponível em: <http://www.agende.org.br/>. Acesso em: 29 
jul. 2008. A AGENDE – Ações em Gênero Cidadania e Desenvolvimen‐
to  –  atua no Brasil  e na AméricaLatina  em  ações de  fortalecimento, 
articulação  e  capacitação  de  organizações  de  mulheres, monitora  o 
implemento de políticas públicas, os acordos internacionais e promove 
espaços de  interlocução para socialização e troca de experiência entre 
organizações. 
CEPIA. Disponível em: <http://www.cepia.org.br/default.asp>. Acesso 
em:  29  jul.  2008.  Organização  não‐governamental  que  promove  os 
direitos humanos e o fortalecimento da cidadania de grupos excluídos. 
Para tanto desenvolve estudos e pesquisas, bem como ações de educa‐
ção e intervenção social, promove ações de acompanhamento de políti‐
cas públicas e de advocacy. A organização promove a interlocução entre 
movimentos sociais, operadores do Direito e profissionais da área da 
saúde. Desenvolve  programas  que  priorizam  o  acesso  à  justiça,  aos 
direitos  sexuais  e  reprodutivos,  assim  como  os direitos  humanos de 
forma ampla. O leitor encontra nesse site, além de informações sobre a 
organização,  vários  textos  para  download  sobre  legislação  e  gênero  e 
violência contra a mulher, por exemplo. 
 
77 
REDE MUJER Y HÁBITAT DE AMÉRICA LATINA. Disponível  em: 
<http://www.redmujer.org.ar/red.html>. Acesso em: 29 jul. 2008. Trata‐
se de  uma  rede  internacional  que  reúne  organizações de defesa dos 
direitos das mulheres e à moradia. A rede foi fundada em 1988 e sua 
secretaria encontra‐se sob a responsabilidade da organização WAT da 
Tanzânia. As entidades que compõem a rede realizam ações de desen‐
volvimento  comunitário  e  formulação de  conhecimento  teórico  sobre 
as relações de discriminação e de diferenciação de gênero em âmbito 
rural e urbano na América Latina. Os  principais objetivos da rede é o 
de difundir, propor e desenvolver atividades que garantam os direitos 
das mulheres nas cidades, assim como atuar de forma propositiva nos 
movimentos de mulheres,  em  relação à problemática da  cidade  e do 
hábitat. O  site divulga  eventos  em  toda  a América,  concursos  e prê‐
mios, além de disponibilizar publicações para download na  íntegra em 
língua espanhola e, algumas, traduzidas para o português. 
Atividades 
Para as questões a seguir marque a alternativa correta. 
1) Entre  os  anos de  1918  e  1937,  o movimento  feminista  brasileiro 
sofreu influência: 
a) da academia, pois havia muitas mulheres nas universidades 
brasileiras 
b) das  mobilizações  que  ocorreram  na  Europa  e  nos  Estados 
Unidos 
c) das discussões da política brasileira que se baseava em valo‐
res tradicionais 
d) apenas da Igreja Católica 
2) O Decreto n. 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, que apresentava as 
regras do sistema eleitoral brasileiro e, entre elas, definia o sufrá‐
gio como universal e secreto foi expedido: 
a) durante a República café‐com‐leite 
b) durante o governo imperial 
c) durante o Governo Provisório que seguiu à Revolução Consti‐
tucionalista de 1932 
d) ao longo do governo militar dos anos 70 
 
 
78 
3) O movimento feminista ressurgiu ao longo dos anos de repressão 
do regime militar (anos 60‐70) com as seguintes características: 
a) conflituosidade e articulação entre gênero e classes sociais 
b) exacerbada moral cristã e apatia política 
c) racista e homofóbico 
d) sexista e discriminatório 
4) As associações de bairro desempenharam um papel importante na 
retomada  da  autonomia  do movimento  feminista  dos  anos  80, 
pois: 
a) esses espaços articulavam demandas da Igreja Católica e das 
mulheres em geral 
b) as associações eram presididas por homens e, assim, as mu‐
lheres poderiam aprender a fazer política 
c) a afirmação está errada, pois as mulheres frequentavam ape‐
nas o espaço dos partidos políticos 
d) as associações de bairro eram o espaço em que as  feministas 
intelectualizadas conciliavam seus conhecimentos às práticas 
populares promovendo os direitos das mulheres 
5) Ao  analisar  criticamente  a  construção  social  da  categoria  “mu‐
lher”, o movimento feminista percebeu que: 
a) a categoria dava conta de todas as mulheres em suas especifi‐
cidades culturais e sociais 
b) era necessário dar visibilidade aos diferentes grupos de mu‐
lheres que possuem demandas específicas e reivindicam polí‐
ticas e atitudes que as valorizem a partir de  suas diferenças 
culturais e sociais 
c) o  termo  englobava  um  conjunto  uniforme  e  homogêneo  de 
pessoas que em nada se distinguia uma da outra 
d) esse  tipo  de  análise  crítica  jamais  foi  feito  pelo movimento 
feminista
 
 
8 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS: O SOCIOAMBIENTALISMO 
Cíntia Beatriz Müller 
Este  capítulo  apresenta  ao  leitor  a  distinção  entre Ambientalismo  e 
Ecologia e as diretrizes gerais que fundamentam o movimento ambien‐
talista, além de oferecer indicações sobre a forma como entidades vin‐
culadas  ao movimento  ambiental  estruturam‐se  e  sistematizam  suas 
linhas de ação. 
8.1 O movimento ambientalista e a Ecologia 
A preservação do verde é uma plataforma de ação política, um mote 
de mobilização em torno da preservação do ambiente seja entre a clas‐
se média, seja entre estudantes ou políticos. O movimento ambientalis‐
ta, ao provocar um debate amplo sobre a questão do desenvolvimento 
sustentável  e da preservação do meio ambiente,  tem  suscitado ques‐
tões, tais como a necessidade do aproveitamento racional dos recursos 
hídricos,  do  tratamento  dos  afluentes  e  de  saneamento  básico  para 
toda a população, por exemplo. O movimento ambientalista emergiu 
com  força nos anos 60 em países do Hemisfério Norte, especialmente 
nos Estados Unidos. Manuel Castells define o movimento ambientalis‐
ta  como “uma  forma de movimento  social descentralizado, multifor‐
me, orientado à formação de redes e de alto grau de penetração”1. 
Este autor2, na mesma obra, diferencia ambientalismo e Ecologia. Para 
ele, ambientalismo “são as formas de comportamento coletivo” que se 
propõem a alterar a  interação entre o homem e o ambiente, definido 
como natural. De certa forma, essa postura coloca‐se contra as estraté‐
gias desenvolvimentistas que, embasadas em uma perspectiva globali‐
zante, visam maximizar os  lucros e  tornar as  relações humanas mais 
precárias. Ecologia, define o autor, “é o conjunto de crenças, teorias e 
projetos que contempla o gênero humano como parte de um ecossis‐
tema”.  Castells3  identifica  quatro  eixos  principais  de  discussão  que 
perpassam o movimento: 
 
 
80 
a) PROXIMIDADE E AMBIGUIDADE EM RELAÇÃO À CIÊNCIA E 
TECNOLOGIA (C e T). De certa forma, o movimento ambientalis‐
ta identifica nos usos perniciosos da C e T um de seus adversários. 
A utilização desse tipo de conhecimento para o desenvolvimento 
desenfreado  e a maximização de  lucros  trouxeram uma  série de 
impactos ambientais, alguns, inclusive, ainda desconhecidos como 
aqueles decorrentes do plantio de transgênicos. Ao mesmo tempo, 
e  daí  a  ambiguidade,  vários  cientistas  e  tecnólogos  integram  os 
quadros de organizações “verdes”. 
b) MOVIMENTO COM  BASES CIENTÍFICAS.  Este  é  o  reverso  do 
cientificismo perverso. Os ambientalistas, via de regra, fundamen‐
tam seus argumentos em bases científicas, porém não apenas para 
desarmar os adversários. A concepção de ciência divulgada pelos 
“verdes” é holista, ou seja, deve preservar o humanismo e as bases 
gerais em sua aplicação. 
c) LUTA  PELO  CONTROLE  DA  DEFINIÇÃO  HISTÓRICA  DO 
TEMPO E DO ESPAÇO. Em termos práticos, este quesito diz res‐
peito  à  valorização  das  relações  diretas  com  o  ambiente,  sem  a 
mediação  de  racionalidades  técnicas,  propalada  por  interesses 
comerciais.  Seria  a  reconquista  do  espaço,  traduzida  em  termos 
políticos na participação popular na política local e pela retomada 
de uma espécie de democracia de base. 
d) PROJETO DE UMA NOVA  E  REVOLUCIONÁRIA  TEMPORA‐
LIDADE. Segundo o autor, é possível classificar a dimensão tem‐
poral em três categorias: 
 TEMPO  CRONOLÓGICO:é  linear  e  predeterminado,  ou  seja, 
possui partes homogêneas e  frações exatas em  termos quantitati‐
vos; é o tempo utilizado na indústria e na solução dos negócios de 
Estado; 
 TEMPO INTEMPORAL: manifesta‐se com a perturbação do  tem‐
po cronológico, que pode ser provocada pelo ritmo da sociedade 
em  rede,  cujo  fluxo de  informação, por exemplo, pode deflagrar 
ações na ordem de segundos, por exemplo, a migração de capitais;  
 TEMPO  GLACIAL:  é  um  tempo  de  longa  duração,  possui  um 
ritmo de transformação social mais lento e pautado por outros va‐
lores que não os  relacionados ao  capital globalizado, “em  termo 
bem objetivos e pessoais, viver o tempo glacial significa estabele‐
cer os parâmetros de nossas vidas a partir da vida de nossos  fi‐
lhos, e dos filhos dos filhos de nossos filhos”4. 
 
81 
Vamos acompanhar como as organizações que assessoram e compõem 
os movimentos sociais têm colocado essas perspectivas em prática. 
O Greenpeace: a mídia como forma de dar visibilidade à questão 
ambientala 
O  Greenpeace,  certamente,  é  uma  das mais  populares  organizações 
ambientais do mundo. Fundada em 1971, no Alasca, por ativistas que 
buscavam impedir a realização de testes nucleares pelos Estados Uni‐
dos, é uma organização que atua em escala mundial e que visa modifi‐
car do comportamento das pessoas em relação ao ambiente. A posição 
do Greenpeace diante dos problemas ambientais e de seus adversários 
é a de confrontar situações de desrespeito ambiental e de risco: como 
um grupo de pressão propõe‐se a levar aqueles que tomam decisões a 
modificar o ponto de vista e a forma de agir deles. Como a maior parte 
das  organizações  voltadas  para  a  preservação  ambiental,  também 
preocupa‐se com a sustentabilidade de iniciativas em relação à viabili‐
dade do planeta para as gerações  futuras. O Greenpeace é  financiado 
com  contribuição  de  colaboradores  do mundo  todo,  não  recebendo 
contribuições de partidos políticos ou governos. 
As  ações da organização  são pautadas pelos  seguintes valores:  inde‐
pendência,  não‐violência,  confronto  não‐violento  e  ação  conjunta. A 
independência da organização é assegurada pelo  financiamento  rece‐
bido de colaboradores e não de entidade políticas, o que  lhes garante 
isenção  política  e  econômica,  assegurando‐lhes  liberdade  de  ação  e 
protesto. É interessante entender como o Greenpeace conjuga as ideias 
de não‐violência  e  confronto não‐violento. A primeira noção diz  res‐
peito à forma de interação com a população, os governos e os empresá‐
rios, ao passo que o confronto não‐violento visa chamar a atenção do 
público, em especial utilizando‐se da mídia, para determinadas situa‐
ções  de  risco  ou  desrespeito  ao  ambiente. O  confronto  não‐violento 
também é um meio de pressão sobre as instituições políticas para que 
mudem  a  forma  como  tratam  determinados  problemas.  A  ideia  de 
confronto  e  não‐violência  pode  parecer  contraditória.  Podemos  até 
mesmo lançar o questionamento “não‐violento para quem?”, uma vez 
que a pressão e o tensionamento, no sentido de uma tomada de consci‐
ência, podem gerar uma dimensão de violência que não se manifesta 
em  contornos  físicos,  mas  em  uma  dimensão  psicológica,  gerando 
desconforto para a própria população. No entanto, a dimensão da não‐
violência está na não‐imposição de um ponto de vista e de valores do 
grupo sobre outros grupos. Quanto à ação conjunta, o grupo incentiva 
                                                                  
a Esta seção é baseada em: GREENPEACE, 2008. 
 
 
82 
a  conexão  de  pessoas  que  compartilhem  as  mesmas  preocupações 
quanto à preservação da natureza e à necessidade da mudança de uma 
mentalidade maior, na forma de interação entre o homem e a natureza. 
As  linhas de atuação do grupo, de acordo com o  site do Brasil, divi‐
dem‐se em Amazônia, clima, energia, nuclear, oceanos e transgênicos. 
No que diz respeito à Amazônia, a organização denuncia o desmata‐
mento ilegal e incentiva a adesão ao programa Cidade Amiga da Ama‐
zônia, que visa promover o desenvolvimento sustentável e o consumo 
responsável de madeira. Quanto ao eixo nuclear, o grupo oferece  in‐
formações  para  a  população  sobre  os  perigos  do  uso  dessa matriz 
energética e os altos custos para a implantação e manutenção de usinas 
nucleares. No que diz respeito aos oceanos, o grupo pressiona o Brasil 
para que  lidere ações no sentido de evitar a matança de baleias e ga‐
ranta a criação de áreas de proteção para a preservação e recuperação 
de hábitats marinhos no Atlântico. 
As ações do grupo, além dos protestos e ações para conferir visibilida‐
de às questões ambientais, são pautadas pela divulgação de  informa‐
ções, o “cyber ativismo” e adesão a campanhas. O grande veículo de 
divulgação de conteúdo do grupo é seu site na internet. Todos os eixos 
temáticos  possuem  informações  atuais  veiculados  em  português  e 
guardando algum tipo de vínculo com o país. Com o “cyber ativismo” 
o grupo propõe  a  adesão dos  internautas  às petições de protesto do 
grupo. Trata‐se de um  tipo de militância política que emergiu com a 
popularização da  internet  e da  consciência  social dos  internautas da 
sociedade em rede. A promoção de campanhas, um dos eixos de ação 
de  diferentes  organizações,  por  parte  do Greenpeace,  no  Brasil,  tem 
incidido na proteção à Amazônia  com a  campanha “Meia Amazônia 
não!”b e “Dematamento Zero!”c (seria uma alusão à política do prefeito 
de Nova Iorque chamada “Violência Zero!”?). O grupo investe pesado 
na participação da sociedade civil como propulsora de suas ações e no 
internauta, em especial, na adesão a suas campanhas. 
A Rede Brasileira de Justiça Ambiental: ação em rede em defesa do 
ambiented 
A RBJA possui objetivos de dimensão pedagógica e de mobilização em 
rede. Na dimensão pedagógica, coloca‐se o esforço no intercâmbio do 
acúmulo analítico sobre o tema e das diversas estratégias de ação entre 
os atores na  luta ambiental. A  rede  também  incentiva a  formação de 
                                                                  
b Para saber mais sobre esse movimento, acesse: <http://www.meiamazonianao.org.br/>. 
c Para saber mais sobre esse movimento, acesse: 
<http://www.greenpeace.org/brasil/amazônia/desmatamento‐zero>. 
d Esta seção é baseada em REDE BRASILEIRA DE JUSTIÇA AMBIENTAL, 2008. 
 
83 
parceria  entre  pesquisadores,  no  sentido  de  promover  o  aprofunda‐
mento  teórico relacionado ao  tema da  justiça ambiental no país e seu 
diálogo com os direitos humanos, denunciando as consequências per‐
versas da globalização e sua  relação com o meio ambiente. Quanto à 
mobilização da rede, em discussão com os parceiros que a compõem, 
adere por meio de cada um de seus componentes a ações de pressão 
que visam à modificação de posição de agentes que se encontram pra‐
ticando atos que se enquadrariam como de injustiça ambiental. 
Dentre as ações da RBJA está a manutenção de um Banco Temático, a 
adesão a Campanhas, a celebração de parcerias internacionais, a manu‐
tenção do Grupo de Trabalho  “Químicos”  e  “Racismo Ambiental”  e 
discussões  sobre os  temas da  Justiça Ambiental e outros que perpas‐
sam a rede. Chamo atenção para os Grupos de Trabalhos que são com‐
postos por pesquisadores vinculados às universidades e organizações 
não‐governamentais assim como a sindicatos e movimentos sociais de 
forma mais ampla. O GT Químicos foi concebido em 2003 e visa traçar 
estratégias de ação e divulgar informações sobre o impacto da poluição 
e da contaminação sobre a vida dos seres humanos, assim como mobi‐
lizar pessoas que se veem expostas a situações de trabalho e moradia, 
por  exemplo,  precários. O GT  contra  o Racismo Ambiental,  por  sua 
vez,  surgiu  em  2005  e  tem por objetivo definir  estratégias de  ação  e 
articulações no combateao racismo ambiental. Entre elas, a está previs‐
ta a promoção de campanhas. Porém, assim como o conceito de justiça 
ambiental é novidade no Brasil também o é o de racismo ambiental. 
Destacamos que a RBJA promove uma discussão de caráter pedagógi‐
co relativamente intenso. Encontra‐se disponível no site da redee textos 
sobre  justiça ambiental, racismo ambiental, mapa do racismo ambien‐
tal no Brasil para consulta, e  textos  importantes para o GT Químicos. 
Quanto a esse segundo tema, a rede promove discussões sobre a con‐
taminação por amianto, mercúrio, contaminação química do solo e de 
recursos hídricos, além de divulgar relatório sobre a contaminação de 
trabalhadores por substâncias químicas nocivas. É  interessante salien‐
tar  que,  embora  trate  de  tema  relacionado  aos  direitos  humanos,  a 
RBJA  conta  com  poucos  advogados  dentre  os  parceiros  inscritos  na 
rede. Muitos deles encontram‐se vinculados ao GT  contra o Racismo 
Ambiental em estados da Região Nordeste do Brasil, como o Ceará. 
(.) Ponto final 
Neste capítulo, procuramos destacar as características gerais da mobi‐
lização em  torno da questão ambiental. Por  isso, apresentamos,  inici‐
                                                                  
e Para saber mais, acesse: <http://www.justicaambiental.org.br/_ justicaambiental/pagina.php?id=490>. 
 
 
84 
almente,  a  discussão  proposta  por Manuel  Castells:  proximidade  e 
ambiguidade em relação à ciência e à tecnologia; consolidação de um 
movimento com bases científicas; luta pelo controle da definição histó‐
rica do  tempo e do espaço; e o projeto de uma nova e revolucionária 
temporalidade. 
Para ilustrar a forma de atuar de organizações e dos novos movimen‐
tos sociais, apresentei a configuração de duas instituições: o Greenpea‐
ce, em moldes mais  tradicionais, com uma  sede e  infraestrutura pró‐
prias, e a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, configurada como uma 
rede de organizações e pessoas que se organizam sem uma centralida‐
de, e que comporta outras duas sub‐redes o GT Químicos e o GT con‐
tra o Racismo Ambiental. 
Indicações culturais 
NUNES,  Paulo Henrique. Meio Ambiente & Mineração:  o Desenvolvi‐
mento Sustentável. Curitiba: Juruá, 2006. Este livro apresenta a discus‐
são sobre  impactos em duas dimensões: na primeira parte, analisa os 
conceitos  envolvidos  e  a  legislação  pertinente  ao  tema;  na  segunda 
parte, propõe a análise de um caso concreto. De forma crítica, o autor 
expõe as dificuldades de implementar os instrumentos legais de prote‐
ção ao ambiente e o abismo que está posto no sentido de assegurar o 
desenvolvimento de forma sustentável. 
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. As  flores de abril: movimentos sociais e 
educação  ambiental.  São  Paulo:  Autores  Associados,  2005.  O  livro 
reúne textos referentes à cultura e ao ambiente e à relação envolvendo 
o homem e a natureza. Especialmente dirigido a educadores, descreve 
práticas eco pedagógicas por meio de conteúdo inovador. 
A ÚLTIMA Hora. Direção: Nadia  Conners;  Leila  Conners  Petersen. 
Produção: Chuck Castleberry; Leonardo DiCaprio; Brian Gerber; Leila 
Conners Petersen. Estados Unidos: Warner Independent Pictures, 2007. 
(95 min).  Documentário produzido por Leonardo Di Caprio que reúne 
o depoimento de vários cientistas e políticos que falam sobre os riscos 
e os problemas ambientais em um contexto global. 
AMAZÔNIA Viva. Realização: Sincrocine. Brasil: Ministério do Meio 
Ambiente,  [199‐?].  (11  min).  Disponível  em: 
<http://www.mma.gov.br/port/cid/video/631_bxres.wmv>. Acesso  em: 
20 maio 2008. Trata‐se de um documentário disponível no acervo de 
vídeos produzidos pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente do Minis‐
tério do Meio Ambiente do  governo  federal. Este  vídeo dá  ao  leitor 
 
85 
uma  visão  ampla  do  acervo  de  biodiversidade  que  se  encontra  sob 
responsabilidade do Brasil, contido na Floresta Amazônica. 
HABITAT  Humano.  Edição:  Marcos  Ferreira.  Brasil:  Ministério  do 
Meio  Ambiente,  1994.  (7  min).  Disponível  em: 
<http://www.mma.gov.br/port/cid/video/666_bxres.wmv>. Acesso  em: 
20 maio 2008. O vídeo destaca a forma como o homem interage com o 
meio  ambiente  a partir da  construção de  seu hábitat urbano  e  como 
essa forma de interação pode trazer prejuízos ao meio ambiente. 
INSTITUTO  SOCIOAMBIENTAL  (ISA).  Disponível  em: 
<http://www.socioambiental.org/ home_html>. Acesso em: 29 jul. 2008. 
O ISA encontra‐se em atuação desde 1994 e promove ações propositi‐
vas na defesa do meio ambiente e das populações indígenas. O site da 
organização  disponibiliza material  referente  a  projetos  e  programas, 
informações  sobre  suas atividades assim  como divulga  critérios para 
filiação. Há divulgação de bibliografia sobre o tema da proteção ambi‐
ental em  interface com a defesa dos direitos socioculturais dos povos 
indígenas. 
Atividades 
1) O movimento ambientalista, geralmente, organiza‐se em: 
a) rede altamente centralizadas em sua atuação 
b) todas as  redes ambientalistas  são  iguais, ou  seja,  reúnem os 
mesmos atores e têm as mesmas estratégias de atuação 
c) redes escentralizadas, nas quais as ações e os projetos, mesmo 
em nível de organização, são discutidos e formulados com di‐
ferentes  atores,  via de  regra,  envolvendo  parceiros  locais,  e 
multiformes,  ou  seja,  reúnem diferentes  atores  que  ocupam 
diferentes papéis frente aos movimentos sociais, seja de mobi‐
lização, seja no planejamento de ações 
d) redes que não  funcionam e que não são duram mais do que 
dois anos 
2) O ambientalismo distingue‐se da Ecologia: 
a) pois coloca em ação os estudos e as teorias da Ecologia visan‐
do à transformação na forma como o homem  interage com a 
natureza 
b) pois não há distinção entre uma e outra, são sinônimos 
 
 
86 
c) por seu caráter teórico e abstrato e por sua baixa capacidade 
de mobilização social 
d) porque não há razão para se pensar que uma e outra são dife‐
rentes, pois têm o mesmo objetivo prático 
3) O papel da ciência para os movimentos ambientalistas é criticado 
quando: 
a) visa ao bem da coletividade com a implantação de tecnologias 
de desenvolvimento com respeito ao “verde” 
b) busca apenas a lucratividade, aperfeiçoando os meios de pro‐
dução  sem  se preocupar  com  o  impacto  e  as  consequências 
socioambientais dessa forma de ação 
c) percebe‐se que os usos e abusos da ciência nunca foram criti‐
cados pelos ambientalistas que, inclusive, divulgam a ciência 
como  uma  forma  de  concentração  de  benefícios  ambientais 
apenas para os países do hemisfério Norte 
d) atende às demandas dos povos, garantindo sua diversidade e 
atentando para o desenvolvimento das gerações futuras 
4) O “tempo glacial” do movimento ambientalista: 
a) é de  curta duração,  ou  seja,  encontra‐se dividido  em partes 
iguais e é linear 
b) é de curta duração e engloba uma perspectiva de abrangência 
que engloba as gerações futuras 
c) é  de  longa  duração,  pois  agir  nesse  ritmo  significa  realizar 
ações cujos efeitos repercutirão de  forma equilibrada nas ge‐
rações futuras 
d) é de  longa duração, porém seus efeitos devem ser avaliados 
sem levar em consideração a situação das gerações futuras 
5) O  estilo  de  organização  do Greenpeace  e  da Rede  Brasileira  de 
Justiça Ambiental diferem entre si: 
a) quanto  à preocupação  com o meio  ambiente  e  com  a  trans‐
formação das formas de interação entre homem e natureza 
 
87 
b) por  ser o primeiro uma organização  com uma estrutura  sis‐
temática  própria,  enquanto  o  segundo  caracteriza‐se  pela 
reunião de outras organizações que  compartilham objetivos, 
mas que preservam suas  identidades e objetivos estratégicos 
independentes entre si 
c) por  valorizarem  o  caráter pedagógico de  atuação  na  qual  a 
circulação de informação é extremamente valorizada 
d) por  atuarem,  ambas,  com  forte  conteúdode divulgação por 
meio da internet 
 
 
9 MOVIMENTOS SOCIAIS E A LUTA PELO ESPAÇO: A INTERAÇÃO RURAL E URBANA 
Cíntia Beatriz Müller 
Neste capítulo, vamos discutir as causas históricas que levaram à mo‐
bilização dos trabalhadores na esfera rural e estudaremos os movimen‐
tos sociais emergentes na Amazônia. Levando em consideração que o 
rural e o urbano encontram‐se em relação, apresentaremos um pouco 
da história da urbanização no Brasil e as causas que levaram a popula‐
ção da cidade a reagir às desigualdades sociais que nela consolidaram‐
se pelos movimentos urbanos. 
9.1 As raízes históricas da desigualdade no meio rural 
Historicamente, a propriedade da terra sempre foi um ponto de tensão 
no Brasil. Segundo Silva1, a estrutura  fundiária do país sempre apre‐
sentou  uma  distribuição  desigual,  desde  o  Período Colonial  com  as 
capitanias hereditárias. Ainda hoje, a distribuição das  terras pelo  sis‐
tema  de  sesmarias  encontra‐se  na  origem  de  algumas  propriedades 
consideradas como latifúndios. Por intermédio desse sistema, a Coroa 
portuguesa podia doar as terras do Brasil Colonial aos nobres e notá‐
veis de suas relações. Com a Lei de Terras de 1850, os posseiros tive‐
ram a chance de regularizar suas terras e elas passaram a ser adquiri‐
das pela compra. Isso, porém, trouxe uma séria consequência, promul‐
gada no início da imigração de estrangeiros para o país: a Lei de 1850 
elevou o preço da terra de tal forma que tornou o acesso a ela inibitório 
tanto para os imigrantes aqui chegados como para os nacionais empo‐
brecidos, em especial os libertos e ex‐escravos. 
O primeiro tipo de relação de trabalho conhecido no meio rural brasi‐
leiro  foi o da escravidão. Esse ponto distingue a  formação do capita‐
lismo brasileiro no campo, da formação europeia. Em 2008, celebramos 
os 120 anos da abolição do trabalho escravo no Brasil, ou seja, dos 508 
anos de decorreram desde o descobrimento do país pelos povos euro‐
peus, 388 foram vividos em regime de escravidão. Esse tipo de relação 
trouxe  impacto  sobre  a distribuição de  terras  e de poder  no  campo, 
 
89 
além de dificultar o acesso à terra aos campesinos, escravos e libertos. 
Com a substituição da mão de obra escrava pelo colonato, as relações 
de  trabalho não se modificaram de  forma radical,  tendo maior reper‐
cussão nas Regiões Sul e Sudeste do país. A estrutura de dominação 
estabelecida com a escravidão  foi reafirmada, voltada para a exporta‐
ção de produtos agrícolas em larga escala características do modelo de 
plantagem ou plantation2. 
Discussões que envolviam o acesso à  terra no país  sempre estiveram 
envoltas em contradições dentro do próprio governo. Segundo Olivei‐
ra3, as Constituições Federais de 1946 e de 1967 buscaram definir limi‐
tes à extensão das propriedades rurais estabelecendo, respectivamente, 
o  limite  de  10 mil  hectares  “a  área  de  terra  devoluta máxima  a  ser 
vendida a brasileiros natos ou naturalizados” e 3 mil hectares. Ainda 
segundo o autor, as Regiões brasileiras que apresentam maior concen‐
tração  fundiária  são  a Norte  e  a Centro‐Oeste,  nas  quais  as  grandes 
propriedades rurais têm‐se expandido por sobre as terras de comuni‐
dades  tradicionais,  especialmente dos povos  indígenas,  e da Floresta 
Amazônica. Tais regiões, também consideradas como fronteiras agríco‐
las em expansão por ainda manterem uma certa reserva de terras, tem 
passado por um rápido processo de ocupação e de monopólio fundiá‐
rio com apoio do Estado4. 
Com o rápido processo de industrialização pelo qual passou o país ao 
longo dos anos 50 e 70, o êxodo rural levou muitas famílias do campo 
para os bolsões de exclusão das cidades. No campo, porém, houve um 
aumento  do  número  posseiros5  e  a  tecnificação  do  trabalho  agrícola 
que  reclama maior  parcela  de  trabalho  assalariado,  em  sua maioria 
temporária6. Tais dados são fundamentais para entendermos as futuras 
mobilizações em  torno da reivindicação por  terras. Esses posseiros se 
encontravam em situação de dependência e subordinação em relação 
aos grandes proprietários, por não possuírem títulos de terras e auto‐
nomia financeira capaz de possibilitar‐lhes a manutenção de seus pró‐
prios meios de produção. 
Colabora nesse sentido o fato de que as relações pessoais historicamen‐
te estabelecidas apresentavam situações em que os agricultores recebi‐
am tratamento diverso mesmo dentro de um mesmo conjunto de tra‐
balhadores. Além disso, muitas vezes, ao desfazerem‐se de suas pos‐
ses, os agricultores viam‐se pressionados a venderem  suas  terras aos 
proprietários.7 Assim, relações de compadrio e clientelismo, ou seja, de 
cunho  pessoal,  também  influenciavam  nas  relações  de  trabalho  no 
campo. Da mesma forma, tendo em vista e melhoria relativa da infra‐
estrutura  no meio  rural  e  da  sistemática  expulsão  dos  posseiros,  a 
 
 
90 
migração para as áreas de expansão da fronteira agrícola intensificou‐
se nos anos 708. 
Via de regra, os pequenos proprietários e posseiros têm sido conside‐
rados como um entrave ao modelo desenvolvimentista propalado no 
país, ao longo dos anos 60/70, por parte de setores conservadores. Ao 
mesmo  tempo, porém, é  importante destacar que esse  tipo de  crítica 
também  constrói‐se  uma  vez  que  essa  parcela  da  população  incide 
sobre um  setor  estratégico da  sociedade nacional: o da produção de 
alimentos9. Segundo Silva10, foi nesse período, ao longo dos anos 60/70, 
que o Conselho de Segurança Nacional passou a controlar as relações 
fundiárias que se estabeleciam no campo, um  tanto  tensas, entre pro‐
dutores  que monopolizavam  o  acesso  à  terra  e  os  posseiros. Com  a 
produção das grandes propriedades voltada para o mercado internaci‐
onal (dedicadas a produção de café, cana‐de‐açúcar e soja), o minifún‐
dio passou a adquirir um papel  importante no mercado  local de pro‐
dução de alimentos. Esse também é um dos principais argumentos em 
defesa da reforma agrária, nos anos 7011. 
Vamos  conversar um pouco mais  sobre a mais nova  fronteira de ex‐
pansão agrícola do país, a Região Norte formada pela Amazônia Legal. 
Os  estados  que  formam  a  região  amazônica  guardam  uma  riqueza 
variada de fauna e flora, modos tradicionais de apropriação do espaço 
e, recursos naturais que atraem a atenção de empresas de mineração e 
de exploração de madeira, por exemplo. Além disso, sua vasta superfí‐
cie reserva espaço para a apropriação de terras para pastagens e plan‐
tio, após o desmatamento. 
Os movimentos sociais na região amazônica 
A Região Norte do Brasil é composta por sete estados: Acre, Amapá, 
Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, com uma superfície 
que concentra 45% das terras brasileiras e cerca de 10 milhões de habi‐
tantesa. Curiosidade à parte, a região amazônica só aderiu ao Brasil em 
1823, cerca de um ano após a independência, pois suas elites temiam a 
abolição da escravidão e o fim do  latifúndio, tendo em vista as  ideias 
liberais que pareciam  contagiar Portugal12. Segundo Silva13, o povoa‐
mento na Região Norte do Brasil tomou impulso com a indústria extra‐
tivista e o  ciclo de exploração da borracha que  iniciou em 1870 e  foi 
intensificado em 1877, ano em que a Região Nordeste do país foi asso‐
lada por uma grave seca. Essa autora afirma que o imigrante nordesti‐
no foi submetido ao regime de peonagem, ou seja, espécie de escravi‐
                                                                  
a É possível visualizar o mapa interativo do Diagnóstico Ambiental da Amazônia Legal disponibilizado 
pelo IBGE no site: <http://mapas.ibge.gov.br/amazonia/viewer.htm>. 
 
91 
zação onde o trabalhador vincula‐se ao patrão pela dívida que assume 
nos barracões, onde era obrigado a  comprar, e pela  falta de acesso a 
recursos que lhe possibilitem contato com a sociedade fora da proprie‐
dade em que  trabalha. Continuaa autora mostrando que, a exemplo 
do que  também ocorreu no  centro‐oeste, quando não era empregado 
como mão de obra extrativista, o trabalhador era enviado para fazen‐
das nas quais passava a derrubar a mata para dar espaço às pastagens 
e à criação extensiva de gado. 
Além de explorar a floresta, os grandes proprietários que se dedicaram 
a apropriar‐se economicamente da Amazônia,  respaldados por proje‐
tos desenvolvimentistas do Estado  brasileiro,  encontraram  ali  outras 
pessoas  e outras  culturas. Cumpre  ressaltar que,  em grande parte, o  
movimento de resistência dos povos indígenas na Amazônia foi ampli‐
ficado por conta de megaprojetos do próprio governo federal, como no 
caso  do  grupo  Mundurucu.  O  grupo  Mundurucu  é  composto  por 
aproximadamente  15 mil  indígenas  que  vivem  nos  estados do  Pará, 
Amazonas e Mato Grosso, e encontra‐se mobilizado contra a constru‐
ção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu14. O represen‐
tante  do  grupo,  Emílio Mundurucu15,  que  participou  do  seminário 
“Populações  tradicionais  e  Questões  de  Terra  na  Pan‐Amazônia”, 
realizado em Manaus − AM, entre os dias 18 a 22 de  janeiro de 2005, 
destaca  que  seu  povo  não  reconhece  a  chegada  dos  portugueses  ao 
Brasil  como  uma  espécie de descoberta  e  entende  que  atualmente  o 
grupo  corre  risco de perder  suas  terras. Entre as principais ameaças, 
estão as mineradoras, a agropecuária, a madeireira e o plantio acelera‐
do da soja. 
Outros grupos que  se  consideram  comunidades  tradicionais  também 
têm reivindicado respeito e cuidado em relação às terras na Amazônia, 
por exemplo, as quebradeiras de coco e os ribeirinhos. Segundo Olivei‐
ra16,  o movimento  das  quebradeiras  de  coco  babaçu  tem  15  anos  e 
reúne 400 mil mulheres de quatro estados da região amazônica: Pará, 
Maranhão, Tocantins e Piauí e formam o Movimento Interestadual de 
Quebradeiras de Coco Babaçu. O movimento é formado por mulheres 
que lutam pela preservação das matas de babaçu, pelo direito ao aces‐
so  a  elas  e  ao  uso  delas  e  pelo meio  ambiente  equilibrado.  Embora 
tenha a  identidade de quebradeiras  reconhecida, a  terra que utilizam 
para o extrativismo, muitas vezes, corre o risco de ser invadida ou, até 
mesmo, vendida  e  cercada, o que  as  coloca,  como produtoras,  sob o 
risco de perder suas matas e sua garantia de produção. 
O movimento dos ribeirinhos do Médio Amazonas, por sua vez, arti‐
cula sua luta entre a área rural e a cidade e reivindica ações de preser‐
 
 
92 
vação do ambiente e políticas especiais de acordo com suas demandas 
próprias. Segundo Nogueira17, o povo ribeirinho da Amazônia sofreu o 
impacto  da  decadência  da  extração  da  borracha  e  da  castanha  e  da 
ausência de uma política de compensação que oferecesse alternativas 
para que o povo ribeirinho mantivesse‐se vivendo em suas terras. Por 
isso, parte dos  ribeirinhos deslocou‐se para as periferias das grandes 
cidades,  como  foi  o  caso  de Manaus,  por  exemplo,  onde  a  falta  de 
empregos  colocou‐os  em  situação  de  vulnerabilidade  e  risco  social. 
Uma parte dos  ribeirinhos permaneceu  na  zona  rural  e,  até mesmo, 
empreendeu o êxodo às avessas ao longo da década de 90, retornando 
ao  seu  lugar  de  origem. O  autor  afirma  que  o  principal  risco  desse 
povo encontra‐se frente à grilagem de suas terras e à devastação delas, 
empreendida  por  empresas,  cuja  sede  localiza‐se  em  cidades,  como 
Brasília e São Paulo, e que, via de regra, possuem documentação ilegal. 
Vale  destacar  a  luta  do movimento  quilombola  na Região Norte  do 
país  e  o  conflito  entre  sua  perspectiva  de  apropriação  coletiva  dos 
recursos  naturais  e  a  perspectiva  individual. Costa18  afirma  que,  no 
Pará,  as  comunidades  quilombolas de Nova  Esperança  e Concórdia, 
situadas  a  cerca  de  100  quilômetros  de  Belém,  formaram‐se  com  a 
abolição  da  escravidão  com  libertos  que  se  fixaram  nas  terras  e  em 
antigas  fazendas,  ao  longo  de  rios,  igarapés,  estabelecendo  áreas  de 
domínio comum e mantendo uma forma tradicional de interação com 
a natureza, de  trabalho e de práticas  religiosas. Segundo o autor, em 
1972,  porém,  um  projeto  de  assentamento  promovido  pelo  Instituto 
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) passou a legalizar 
as terras por meio de lotes individuais. Essa lógica individual de apro‐
priação da terra colocou em risco o modo tradicional de ocupação do 
espaço  pelas  comunidades  quilombolas  e  trouxe  a  possibilidade  de 
apropriação da terra pela lógica de mercado, estranha às comunidades. 
Em consequência dessa ação do Estado, o estilo de vida quilombola foi 
impactado e o ambiente também, pois fazendas instalaram‐se na regi‐
ão, promovendo a derrubada da mata e a abertura de pastagens. Como 
essas  grandes  propriedades  instalaram‐se  nas  cabeceiras  dos  rios  e 
igarapés os cursos de água passaram por processos de assoreamento, 
impactando  as  comunidades  historicamente  instaladas  abaixo  das 
nascentes.  
Além dos movimentos sociais emergentes ao  longo dos anos 90, com 
base em reivindicações dos povos tradicionais, também o Movimento 
dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) atua na região amazônica. 
O movimento  atua  na  Amazônia  Legal,  Pará,  Tocantins,  Rondônia, 
Mato Grosso, e promove a  luta social em torno da questão agrária na 
região, principalmente, alertando quanto à ação de empresas multina‐
 
93 
cionais19. As multinacionais, alvo de protestos, são empresas envolvi‐
das na exploração de minérios que, ao identificarem áreas com poten‐
cial para extração, pagam para as famílias deixarem as áreas20. Segun‐
do Coelho21, essa prática rompe os laços sociais da comunidade assen‐
tada e pode  incentivar o êxodo de produtores rurais  já estabelecidos, 
principalmente,  no  sul  do  Pará. Acrescenta  o  autor  que,  além  dessa 
preocupação,  a  introdução  de  transgênicos  em  uma  região  de  rica 
diversidade ambiental, de fauna e flora, também é outra preocupação 
do movimento na região. 
Existe  possibilidade  de  apontarmos  uma  tipologia  dos movimentos 
sociais emergentes na Amazônia, conforme  formulado pelo professor 
Alfredo Wagner de Almeida22. Seriam eles: 
a) MOVIMENTOS  ÉTNICOS:  são  aqueles  que  se  consolidam    em 
torno de elementos identitários considerados relevantes ao grupo 
e compartilhados entre eles, caracterizam‐se por basearem‐se em 
laços de solidariedade que se referem “a seu modo de existir e fa‐
zer” cotidiano. 
b) MOVIMENTOS EM TORNO DE UMA OCUPAÇÃO ESPECÍFICA 
E/OU CRITÉRIOS DE GÊNERO: como no caso das quebradeiras 
de coco babaçu, na divisão social do trabalho, são as mulheres as 
responsáveis pela prática do extrativismo. Assim, é sobre elas que 
índice o ônus do  impacto da perda ou do cerceamento do acesso 
aos  recursos naturais,  é  em  torno disso que as mulheres mobili‐
zam‐se: para assegurar a liberdade de um modo próprio de aferir 
autonomia e renda. 
c) MOVIMENTOS EM TORNO DE PRÁTICAS DE MOBILIZAÇÃO: 
é  o  caso do movimento dos  trabalhadores  rurais  sem‐terra  que, 
por estarem excluídos do processo de produção, constroem assim 
sua identidade e estabelecem na prática de ocupações e na forma‐
ção de assentamentos uma estratégia de mobilização do movimen‐
to. 
d) MOVIMENTOS EM REAÇÃO A MEGAPROJETOS: caracterizam‐
se como movimentos em reação a projetos de larga escala que im‐
pactam grupos sociais, de tal forma que provoca a emergência de 
uma  identidade  compartilhada  e  amplia  laços  de  solidariedade. 
Tais projetos podem  ser de  cunho  local, como no  caso do Movi‐
mento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE), ou 
nacional, caso do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). 
 
 
94 
e) MOVIMENTOS EM TORNO DA RELAÇÃO COM O AMBIENTE: 
este é o caso dos ribeirinhos que vivem nas margensdos rios e que 
possuem uma forma específica de interdependência  com o ambi‐
ente, dependendo tanto da terra quanto da água para subsistirem 
em sua região. 
Almeida acrescenta que, de forma comum, todos os movimentos pos‐
suem uma forte consciência ambiental, colocando como prioritária sua 
relação  com o meio ambiente, pois dele depende  sua  subsistência. O 
autor  lembra  a  importância  de  ressaltar‐se  também  que  os  grupos 
envolvidos nesses movimentos compartem uma perspectiva de apro‐
priação da  terra que  lhes é particular: a perspectiva da  terra  tradicio‐
nal. Explica o autor que terras tradicionais são terras coletivas, ou seja, 
são as terras atualmente ocupadas por grupos que ou lutam para per‐
manecer em um espaço que construíram ao longo do tempo, como os 
grupos  indígenas  e  quilombolas,  ou  que  lhes  foi  possível  construir 
após sucessivos processos de deslocamento, como seringueiros,  ribei‐
rinhos e quebradeiras de  coco, por exemplo. A  luta dos movimentos 
sociais  pelos  territórios  tradicionais,  caracterizados  pelo  conjunto  de 
recursos naturais que permitem a manutenção e a reprodução do gru‐
po, e que é ocupado coletivamente, é a grande razão das atuais mobili‐
zações na Amazônia brasileira. 
O meio rural e o meio urbano estão em um continuum de relações. Em 
vários momentos,  comentamos o  fato de que a população do  campo 
era obrigada a migrar para a cidade. Por outro lado, a permanência de 
parcela da população no campo deu‐se,  justamente, com base na rela‐
ção com aqueles que conseguiam  lograr manter‐se na urbe ou que se 
viram obrigados a retornar ao meio rural. Vamos entender um pouco a 
forma como se deu o processo de urbanização no Brasil. 
9.2 O processo de urbanização das cidades: o urbano e o 
rural se encontram 
O Brasil dispõe de uma imensa área territorial, porém seu processo de 
urbanização se iniciou pela costa litorânea. Segundo Holanda23, a con‐
quista territorial se deu no sentido litoral, agreste, sertão, mata e pam‐
pas,  não  por  acaso. As  cartas  de  doação  das  capitanias  hereditárias 
expedidas pela Coroa portuguesa impunham que as vilas fossem edifi‐
cadas próximas ao mar e aos rios navegáveis. A única capitania a des‐
cumprir tal ordem foi a de São Vicente, em 1554, que forçou o povoa‐
mento de seu interior e o afluxo de entradas e bandeiras. Tal desloca‐
mento  se deu  frente  aos  interesses  comerciais desenvolvidos  com  as 
“bandeiras”, grupos de exploradores que adentravam o continente na 
 
95 
busca de metais, como o ouro, e do aprisionamento de escravos dentre 
os “negros da  terra”, ou  seja, grupos  indígenas brasileiros. Explica o 
autor que o povoamento do litoral era planejado pela coroa tendo em 
vista o baixo custo das exportações de produtos que dali partiam em 
comparação com aqueles que se originavam do sertão, além do fato de 
que  o  litoral  brasileiro  era  habitado  por  indígenas  que  falavam  um 
mesmo  idioma:  o  tupi‐guarani  facilitando,  assim,  sua  dominação  e 
conquista. Apenas com o descobrimento das minas de ouro nas Gerais, 
nos idos de 1700 que a interiorização do povoamento do país e a fixa‐
ção da população no interior passaram a consolidar‐se.  
O ritmo de  instalação e crescimento das cidades no Brasil esteve  inti‐
mamente  relacionado  aos  ciclos  de  produção  econômica  regional, 
como o ciclo da cana‐de‐açúcar no Nordeste, do ouro nas Minas Gerais 
e do café na Região Sudeste, especialmente em São Paulo. A cidade do 
Rio de Janeiro, inclusive por ser a sede da Corte portuguesa por ocasi‐
ão da fuga nas guerras napoleônicas, e depois por ser a sede de suces‐
sivos governos, também vivenciou uma urbanização rápida. O rápido 
processo de urbanização levava à construção de novos quarteirões e à 
demolição de antigas casas, transformando o espaço público de forma 
radical,  segundo Matos24. Aqueles  que  chegavam  na  cidade  assim  o 
faziam  por  serem  imigrantes  que  vinham  diretamente  para  ela  ou 
escapavam do êxodo rural, ou negros remanescentes das antigas sen‐
zalas. Tendo em vista a extrema dependência da urbe em  relação ao 
campo no que tange à circulação de dinheiro, a ausência de uma legis‐
lação trabalhista, o grande número de desempregados e a pobreza nas 
cidades, a  luta pela conquista de um emprego foi tensa, explica o au‐
tor. Essa situação durou até a década de 20 após o término da Primeira 
Grande Guerra. 
O processo de urbanização no Brasil, porém, foi marcado pela perspec‐
tiva das “cidades planejadas”, ou  seja,  tendo  em vista o processo de 
urbanização que se desenvolveu ao longo do final do séc. XVIII e início 
do XIX, o  séc. XX  o  “planejamento” deveria  “solucionar” problemas 
urbanos. Para se ter uma ideia, a prioridade nas cidades do séc. XVIII 
eram as casas e os muros. As ruas passaram a  ter  importância com o 
incremento da  atividade  comercial nas  cidades25. Segundo Souza26,  a 
reforma promovida no Rio de Janeiro, entre os anos de 1902 e 1906, por 
Francisco Pereira Passos, foi inspirada nas reformas urbanas realizadas 
em Paris, no século XIX. Acrescenta o autor: a Reforma Passos, como 
ficou posteriormente conhecida,  trouxe sérios  impactos para a cidade 
do  Rio  de  Janeiro  e  sua  população.  Seus  principais  objetivos  eram: 
adequar a cidade às   demandas capitalistas para a circulação de mer‐
cadorias e consumidores; elevar a capital do país ao nível de urbaniza‐
 
 
96 
ção  e  de  estética  de  outras  capitais  latino‐americanas,  como  Buenos 
Aires  e Montevidéu;  e, “limpar”, ou  seja,  remover, habitações precá‐
rias,  como  os  cortiços,  da  área  central  da  cidade  do  Rio  de  Janeiro, 
promovendo assim uma espécie de “higienização” das áreas  centrais 
em relação à pobreza. 
Desde o século XVIII, diferentes formas de controle incidiam sobre os 
moradores  das  cidades,  desde  um  aparato  policial  que  permitia  um 
controle mais pessoal do  cidadão  até  a  cobrança de  impostos para  a 
manutenção de bens e funções públicas sobrecarregavam aqueles que 
viviam nas cidades brasileiras27. A fiscalização e as multas que  incidi‐
am sobre construções classificadas como “irregulares” acirrava a  ten‐
são  na  cidade  e  a  população  ensaiava  seus  primeiros  protestos. No 
século  XIX,  novas  distinções  passaram  a  ser  acionadas  nas  cidades, 
para  além  da  dicotomia  rural/urbano:  a  distinção  residenci‐
al/comercial. Normas relativas à construção de prédios e à valorização 
de determinadas áreas urbanas provocou a alta dos aluguéis e novas 
tensões  foram produzidas entre a população e a administração públi‐
ca28. O pauperismo urbano espalhou‐se pela cidade e os pobres foram 
afugentados das áreas mais bem servidas de aparatos urbanos  (como 
luz, ruas, esgotos, acesso à água), seja por força das reformas, seja pelo 
aumento dos impostos e aluguéis. 
Com  o  acelerado  processo  de  industrialização  e  a  concentração  de 
renda advinda desse processo, movimentos sociais passam a emergir 
nas cidades. Segundo Gohn29, ao  longo dos anos 30, vários movimen‐
tos e agitações de rua podem ser identificados nas cidades de Recife e 
São Paulo. Os aluguéis sempre foram fonte de tensões nas cidades. Em 
1942,  eclodiram  movimentos  pelo  congelamento  dos  aluguéis  nas 
cidades do Rio de Janeiro e em São Paulo. Nas décadas de 50/60, mo‐
vimentos de associações de bairros reagem à falta de investimentos por 
parte do Estado na periferia que recebia cada vez mais  imigrantes da 
área  rural  e  às  escassas  oportunidades  de  participação  popular  na 
política dos municípios. Entre as décadas de 70 e 80, a luta dos mora‐
dores das cidades incidiu, também, nas reivindicações pelo incremento 
dos aparelhos urbanos, como o movimento por transportes coletivos, o 
movimento de lutas por creches em São Paulo e Belo Horizonte e, em 
1979,  foi  organizado  o movimento  das  favelas,nos  estados  de  São 
Paulo e Minas Gerais. Já nas décadas de 80 e 90, emergiram os movi‐
mentos de luta pela moradia, como o movimento de luta pela moradia 
das associações comunitárias, movimento dos sem‐casa, na cidade de 
São Paulo. 
 
 
97 
(.) Ponto final 
Neste capítulo, buscamos discutir como a escravidão e a Lei de Terras 
de 1850 estão na base do monopólio do acesso à terra e da desigualda‐
de no campo. Além disso, destacamos a chegada do  imigrante com a 
finalidade de substituir a mão de obra escrava, o incremento do núme‐
ro de posseiros no campo e a precarização das relações de trabalho. As 
mobilizações  no  campo  passaram  a  contestar  fortemente  as  relações 
consolidadas  na  estrutura  de  dominação  e  tornaram‐se  matéria  de 
interesse do Gabinete de Segurança Nacional, nos anos 60/70. Nos anos 
90  identificamos a emergência de novos movimentos sociais na Ama‐
zônia, nossa última  fronteira de  expansão do  agronegócio, detentora 
de riquezas naturais ainda inexploradas. 
Por último, discutimos o processo de construção das cidades no Brasil, 
ao longo da linha costeira, e de como a interiorização das cidades este‐
ve  relacionada  aos  ciclos  econômicos.  Além  disso,  destacamos  que 
ocorreram reformas urbanas violentas que trouxeram prejuízos para a 
população,  em  especial  no Rio  de  Janeiro.  Por  outro  lado,  podemos 
encontrar vários movimentos  sociais emergindo nas cidades,  lutando 
pelo acesso aos benefícios da urbanização e direitos sociais. 
Indicações culturais 
NEVES, Delma Pessanha. Assentamento rural: reforma agrária em miga‐
lhas.  Niterói:  EDUFF,  1997.  Neste  estudo,  a  antropóloga  aponta  os 
principais problemas enfrentados pelos assentamentos para a reforma 
agrária no Brasil. A partir de um ponto de vista crítico, a autora expõe 
relações sociais e evidencia paradoxos vividos pelos assentados e téc‐
nicos envolvidos nos programas de assentamento. 
OLIVEIRA, Lúcia Lippi (Org.). Cidade: história e desafios. Rio de Janei‐
ro: FGV, 2002. Trata‐se de coletânea de artigos divididos em três par‐
tes: “saberes sobre a cidade”, “cidade e patrimônio” e “Rio de Janeiro: 
história e desafios”. Reunindo um ótimo time de antropólogos, histori‐
adores, sociólogos, geógrafos, arquitetos e urbanistas, o  livro oferece‐
nos uma panorama sobre os estudos na e sobre a cidade. 
WOORTMANN, Ellen; WOORTMANN, Klaas. O  trabalho  da  terra. A 
lógica e a simbólica da lavoura camponesa. Brasília: Ed. da UnB, 1997. 
Os autores, dois antropólogos, oferecem uma descrição densa sobre o 
significado do trabalho na terra para grupos camponeses. Escrito com 
base em  trabalho de campo realizado em Sergipe, o estudo apresenta 
 
 
98 
de forma bastante completa as dimensões e os significados do processo 
de trabalho entre grupos camponeses. 
Atividades 
Assinale a alternativa correta que preenche as lacunas nas frases. 
1) A Lei de Terras de  ........... permitiu  a  aquisição de  ................ por 
meio da ................. 
a) 1890 – terras – compra 
b) 1850 – matas e rios – doação da Coroa Portuguesa 
c) 1850 – terras – compra 
d) 1950 – terras – compra 
2) A  plantation  era  a  lavoura  de  ...............  proporções  caracterizada 
pela  ..............,  que  empregava mão  de  obra  ..............  e  tinha  sua 
produção destinada ao mercado .............. 
a) pequenas – policultura – escrava – nacional 
b) grandes – monocultura – escrava – internacional 
c) grandes – monocultura – imigrante – boliviano 
d) pequenas – monocultura – escrava – brasileiro 
3) O povoamento da  .................  tomou  impulso com o  ..............., no‐
tadamente com o ciclo da .............. que iniciou em .................. 
a) Amazônia – extrativismo – borracha – 1870 
b) Patagônia – extrativismo – cana‐de‐açúcar – 1870 
c) Amazônia – extrativismo – soja – 1980 
d) Amazônia – extrativismo – babaçu – 1870 
4) Indígenas,  ribeirinhos  e  ...................  são  alguns  dos  povos  que 
vivem  na Região  ..............  e  que  têm  suas  terras  ameaçadas  por 
grandes .............. e pela instalação de ................. 
a) quilombolas – Sudeste – indústrias – parques 
 
99 
b) sertanejos – Sul – comerciantes – reservas extrativistas 
c) quilombolas – Amazônica – traficantes – escolas e hospitais 
d) quilombolas – Amazônica – proprietários – megaprojetos 
5) O processo de .............. no Brasil se iniciou pelo ..............., tendo em 
vista determinação da Coroa ................. e o barateamento no envio 
de produtos para a .................. 
a) urbanização – litoral – portuguesa – metrópole 
b) desenvolvimento – sertão – espanhola – colônia 
c) urbanização – sudeste – russa – metrópole 
d) urbanização – litoral – espanhola – metrópole 
 
REFERÊNCIAS NUMERADAS 
Capítulo 1 
1 PEREIRA; GIOIA, 1994a. 
2 PEREIRA; GIOIA, 1994a, p. 165. 
3 PEREIRA; GIOIA, 1994a, p. 166‐167. 
4 PEREIRA; GIOIA, 1994b. 
5 PEREIRA; GIOIA, 1994b, p. 261. 
6 PEREIRA; GIOIA, 1994b, p. 261. 
7 TOURAINE, 2004. 
8 TOURAINE, 2004, p. 283. 
9 TOURAINE, 2004, p. 284. 
10 GOHN, 2007. 
11 GOHN, 2007, p. 213. 
12 SCHERER‐WAREN, 2005. 
13 GOHN, 2007, p. 211‐216. 
14 GOHN, 2007, p. 227‐240. 
15 AVRITZER; COSTA, 2004. 
16 AVRITZER; COSTA, 2004. 
17 AVRITZER; COSTA, 2004. 
18 AVRITZER; COSTA, 2004. 
19 AVRITZER; COSTA, 2004. 
 
Capítulo 2 
1 GOHN, 2007, p. 172. 
2 GOHN, 2007, p. 172. 
3 GOHN, 2007, p. 176. 
4 ANDERY, 1994. 
5 GOHN, 2007, p. 176‐177. 
6 GOHN, 2007, p. 178. 
7 LÊNIN, 1978b. 
8 LÊNIN, 1978c, p. 140. 
9 LÊNIN, 1978a. 
10 LÊNIN, 1979, p. 25. 
11 LÊNIN, 1979, p. 124. 
12 LÊNIN, 1979, p. 124. 
13 COUTINHO, 1992. 
14 COUTINHO, 1992, p. 1. 
15 COUTINHO, 1992, p. 273. 
16 PORTELLI, 1977. 
17 PORTELLI, 1977, p. 64. 
18 PORTELLI, 1977, p. 65. 
19 GOHN, 2007, p. 185. 
20 LECHTE, 2003. 
21 LECHTE, 2003, p. 197. 
22 ARENDT, 1989. 
23 GOHN, 2007, p. 199‐207. 
 
Capítulo 3 
1 BECKER, 1996. 
2 SIMMEL, 2006, p. 47. 
3 SIMMEL, 2006, p. 49. 
4 SIMMEL, 2006, p. 83. 
5 SIMMEL, 2006, p. 84. 
6 BECKER, 1996. 
7 BECKER, 1996. 
8 GOHN, 2007, p. 26. 
9 BECKER, 1996. 
10 GOHN, 2007, p. 30. 
11 GOHN, 2007, p. 31‐32. 
 
 
102 
12 GOHN, 2007, p. 35. 
13 GOHN, 2007, p. 32. 
14 GOHN, 2007, p. 33‐34. 
15 BECKER, 1996. 
16 LAKATOS; MARCONI, 2006. 
 
Capítulo 4 
1 GOHN, 2007, p. 121‐126. 
2 GOHN, 2007, 123. 
3 GOHN, 2007, p. 143. 
4 GOHN, 2007, p. 142. 
5 TOURAINE, 1996, p. 65. 
6 TOURAINE, 1996, p. 66. 
7 TOURAINE, 1996, p. 67. 
8 TOURAINE, 2004, p. 287. 
9 TOURAINE, 2004, p. 290. 
10 TOURAINE, 2004, p. 291. 
11 TOURAINE, 2004, p. 291. 
12 TOURAINE, 2004, p. 292. 
13 TOURAINE, 2004, p. 293. 
14 TOURAINE, 2004, p. 293. 
15 TOURAINE, 1996, p. 101. 
16 TOURAINE, 1996, p. 102. 
17 TOURAINE, 1996, p. 105. 
18 GOHN, 2007, p. 153. 
19 MELUCCI, 2001. 
20 MELUCCI, 2001, p. 08. 
 
Capítulo 5 
1 BOTT, 1976 p. 295. 
2 BOTT, 1976, p. 296. 
3 BOTT, 1976. 
4 BOTT, 1976, p. 297. 
5 BOTT, 1976. 
6 BOTT, 1976, p. 298. 
7 BAUMAN, 1999, p. 72. 
8 BAUMAN, 1999, p. 73‐75. 
9 BAUMAN, 1999, p. 82. 
10 BAUMGARTEN, 2005, p. 25. 
11 SCHERER‐WARREN, 2006. 
12 SCHERER‐WARREN, 2006. 
13 CASTELLS, 2002 p. 22. 
14 CASTELLS, 2002, p. 24‐26. 
15 CASTELLS, 2002, p. 26. 
16 CASTELLS, 2002, p. 26. 
17 CASTELLS, 2002, p. 27. 
18 CASTELLS, 2002, p. 28. 
 
Capítulo 6 
1 HONNETH, 2003, p. 254. 
2 HONNETH, 2003. 
3 HONNETH, 2003, p. 255. 
4 HONNETH, 2003, p. 255. 
5 HONNETH, 2003, p. 256. 
6 HONNETH, 2003, p. 257. 
7 HONNETH, 2003, p. 257. 
8 HONNETH, 2003, p. 258. 
9 HONNETH, 2003, p. 258. 
10 HONNETH, 2003, p. 258. 
11 HONNETH, 2003, p. 259. 
12 HONNETH, 2003, p. 260. 
13 HONNETH, 2003, p. 262. 
14 HONNETH, 2003, p. 263. 
15  LABURTHE‐TOLRA; WARNIER,  1997,  p. 
31. 
16 MATTA, 1987, p. 58‐59. 
17 MATTA, 1987, p. 62‐63. 
18 MATTA, 1987, p. 58. 
19 MATTA, 1987, p. 64. 
20 MATTA, 1987, p. 66. 
21 MATTA, 1987, p. 69. 
22 SCHWARCZ, 1993, p. 47. 
23SCHWARCZ, 1993, p. 48. 
24 GUIMARÃES, 2002, p. 232. 
25 GUIMARÃES, 2002, p. 119. 
26 GUIMARÃES, 2002. 
27 SOUZA, 2000, p. 256. 
 
103 
28 GUIMARÃES, 2002, p. 122. 
29 GUIMARÃES, 2002, p. 149. 
30 SOUZA, 2000, p. 238‐242. 
31 SOUZA, 2000, p. 260. 
32 TELLES, 2003. 
33 TELLES, 2003. 
34 GUIMARÃES, 2002, p. 156. 
 
Capítulo 7 
1 ARAÚJO, 2003. 
2 ARAÚJO, 2003. 
3 ARAÚJO, 2003. 
4 SARTI, 2004. 
5 SARTI, 2004. 
6 SARTI, 2004. 
7 CARNEIRO, 2003. 
8 CARNEIRO, 2003. 
9 CARNEIRO, 2003. 
 
Capítulo 8 
1 CASTELLS, 2002, p. 143. 
2 CASTELLS, 2002, p. 155‐158. 
3 CASTELLS, 2002, p. 157. 
4 CASTELLS, 2002, p. 158. 
5 BULLARD, 2006, p. 126. 
 
Capítulo 9 
1 SILVA, 2004, p. 17. 
2 GORENDER, 2004, p. 21‐24. 
3 OLIVEIRA, 1994, p. 55. 
4 GORENDER, 2004, p. 40. 
5 OLIVEIRA, 1994, p. 62. 
6 GORENDER, 2004, p. 35. 
7 SILVA, 2004, p. 18. 
8 GORENDER, 2004, p. 40. 
9 ABRAMOVAY, 2004, p. 98. 
10 SILVA, 2004, p. 21. 
11 ABRAMOVAY, 2004, p. 99. 
12 GONÇALVES, 2001, p. 110. 
13 SILVA, 2004, p. 19‐22. 
14 MUNDURUCU, 2006, p. 23. 
15 MUNDURUCU, 2006, p. 24. 
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______. O retorno do actor. Lisboa: Instituto Piaget, 1996. 
 
GABARITO 
Capítulo 1 
1. a 
2. b 
3. c 
4. c 
5. c 
Capítulo 2 
1. c 
2. a 
3. a 
4. d 
5. b 
Capítulo 3 
1. b 
2. c 
3. a 
4. b 
5. d 
Capítulo 4 
1. a 
2. c 
3. d 
4. b 
5. d 
Capítulo 5 
1. d 
2. b 
3. c 
4. c 
5. c 
Capítulo 6 
1. b 
2. c 
3. c 
4. c 
5. c 
Capítulo 7 
1. b 
2. c 
3. a 
4. d 
5. b 
Capítulo 8 
1. c 
2. a 
3. b 
4. c 
5. b 
Capítulo 9 
1. c 
2. b 
3. a 
4. d 
5. a

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