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364 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR NO TRAUMA, OITAVA EDIÇÃO
Flexura hepática
/
\
\
/
T
Diafragma
Baço
Flexura esplênica
)
Figura 13-1 Os órgãos dentro da cavidade peritoneal com frequência resultam em peritonite quando lesionados. Órgãos da cavidade
peritoneal incluem órgãos sólidos (baço e fígado), órgãos ocos do trato gastrointestinal (estômago, intestino delgado e cólon) e os
órgãos reprodutores.
A parte mais inferior do abdômen está protegida em todos os
lados pela pelve. Essa área contém o reto, urna parte do intestino
delgado (principalmente quando o doente está em pé), a bexiga
minária e, nas mulheres, os órgãos reprodutores. A hemorragia
retroperitoneal associada a mna fratura de pelve é uma grande
preocupação nessa região da cavidade abdominal.
O abdômen entre a caixa torácica e a pelve está protegido
somente pelos músculos abdominais e outros tecidos moles na
porção anterior e lateral. Posteriormente, as vé1tebras lombares e
os músculos J)ct.nivertebrnl e vsoas grossos e fmtes, localizados ao
longo da coluna, dão maior proteção (Figura 13-4).
Para fins de avaliação de doente, a supe1fície cio abdômen é
dividida em quatro quadrantes. Esses quadrantes são formados ao
se traçar duas linhas: uma no meio a prutir da ponta do apêndice
xifoide até a súúise púbica, e urna perpendiculru· a essa linha do
meio até o nível do umbigo (Figma 13-5). O conhecimento de pontos
de referência ru1atômicos é in1po1tante devido à alta correlação de
localização do órgão e resposta à dor. O quadrante superior direito
inclui fígado e vesícula biliar, o quadrrulte superior esquerdo contém
o baço e o estômago, e o quadrru1te infe1ior direito e o quadrru1te
inferior esquerdo contêm principalmente os intestinos, os ureteres
distais e, nas mulheres, os ovários. Uma prute do trato intestinal
existe em todos os quatro quaclrru1tes. A bexiga urinária e o útero
nas mulheres são a linha média entre os quaclrru1tes inferiores.
Fisiopatologia
Dividir os órgãos abdominais nos grupos oco, sólido e vascular
(vaso sanguíneo) ajuda a explicar as manifestações de lesão a
essas estruturas. Quando lesionados, órgãos sólidos (fígado, baço)
e vasos sanguíneos (amta, veia cava) sru1gram, sendo que órgãos
ocos (intestino, vesícula biliar, bexiga urináiia) prin1eirrunente
deixrun cair seu conteúdo na cavidade pelitoneal ou no espaço
retroperitoneal, embora também sangrem, mas geralmente não
com a mesma velocidade cios órgãos sólidos. A perda ele sangue
para dentro ela cavidade abdominal, independente ela sua origem,
pode contribuir ou ser a causa plimáiia cio desenvolvimento de
choque hemorrágico. A liberação de ácidos, enzimas digestivas e/
ou bactérias cio trato gastrointestinal pru·a dentro da cavidade
peritoneal resulta em peritonite (inflanrnção cio peritônio ou cio
revestimento da cavidade abdominal) e sepse (infecção sistêmica)
se não reconhecida e prontrunente tratada com intervenção cirúrgica.
Sendo a urina e a bile geralmente estéreis (não contêm bactérias) e
não contendo enzimas digestivas, a perfuração da vesícula biliar ou
da bexiga urinária não produz peritonite com a mesma rapidez que
o material saído do intestino. Do mesmo modo, devido trunbém à
falta ele ácidos, enzimas digestivas e bactérias, o sru1gue na cavidade
peritoneal não causa peritonite por algwnas horas. Sangramento
por lesão intestinal geralmente é pequeno, a menos que grandes
Veia cava inferior
Glândula adrenal
direita
Rim direito
Veia cava inferior
CAPÍTULO 13 Trauma abdominal
Artéria ilíaca externa
Veia ilíaca externa
365
Figura 13-2 O abdômen é dividido em dois espaços: cavidade peritoneal e espaço retroperitoneal. O espaço retroperitoneal inclui a parte
do abdômen atrás do peritônio. Como os órgãos retroperitoneais não se encontram dentro da cavidade peritoneal, a lesão a essas estruturas
geralmente não causa peritonite; no entanto, lesão nos grandes vasos sanguíneos e órgãos sólidos pode produzir rápida e intensa hemorragia.
Inalação Expiração
Diafragma
A B
Figura 13-3 Relação dos órgãos abdominais com o tórax em diferentes fases da respiração em um doente com ferimento por facada.
A. Expiração. B. Inalação.
366 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR NO TRAUMA, OITAVA EDIÇÃO
Cavidade
peritoneal
Omenlo Aorta
Estômago menor abdominal Fígado
Intestino
Rim esquerdo Pâncreas Músculos
paraespinhais
Figura 13-4 Essa seção transversa da cavidade abdominal permite
a visualização das posições dos órgãos na direção anteroposterior.
Caixa torácica
Processo
Margem costal-{\~~:~~~~~t 'rl~~:~i!:_~
1
~ ilt~,- xifoide
Fígado ,
Cólon
;::::c::;.'11J--Baço
-~!51''7,f---Estômago
Quadrante superior
esquerdo
Figura 13-5 Assim como com qualquer parte do corpo, quanto
melhor a descrição de dor, sensibi lidade, defesa e outros sinais, mais
exato o diagnóstico. O sistema mais comum de identificação divide o
abdômen em quatro quadrantes: superior esquerdo, superior direito,
inferior esquerdo e inferior direito.
vasos sanguíneos no mesentério (as dobras do tecido peritoneal que
conectam o intestino à parede posterior da cavidade abdominal)
estejam lesionados.
Lesões no abdômen podem ocorrer por trauma penetrante ou
contusão por trauma fechado. O trauma penetrante, como ferimento
causado por tiro ou facada, é mais rapidamente visível que o
trauma por contusão por trauma fechado. Vá1ios órgãos podem ser
lesados como resultado ele tramna penetrante, sendo mais comum
ferimentos causados por tiro em relação a ferimentos causados por
facada, visto a alta energia associada a essa lesão do tipo "míssil",
e a relativa baixa energia e limitado comprimento ela mai01ia cios
objetos usados para esfaquear uma pessoa. Uma visualização mental
da possível trajetória cio objeto penetrante, como uma bala, ou
o traçado ela lâmina ele uma faca, pode ajudar a identificar órgãos
internos possivelmente lesionados.
O diafragma se estende na porção superior até o qua1to espaço
intercostal anterior, lateralmente até o sexto espaço intercostal e na
pa1te posterior até o oitavo espaço intercostal clmante a expiração
máxima (ver Figma 13-3). Doentes que sofrem uma lesão penetrante
no tórax abaixo dessas localizações anatômicas também podem ter
sofrido uma lesão abdominal. Fe1irnentos penetrantes nos flancos
e nádegas tan1bém podem envolver órgãos da cavidade abdominal.
Essas lesões penetrantes podem causar sangramento de um grande
vaso ou de um órgão sólido, e a perfuração ele um segmento cio
intestino, o órgão mais frequentemente lesionado em caso ele trauma
penetrante.
Lesões por trauma contuso quase sempre são mais desafiadores
para se reconhecer que os causados por trauma penetrante. Essas
lesões aos órgãos abdominais resultan1 ou de forças de compressão
ou de cisalhamento. Nas lesões por compressão, os órgãos do
abdômen ficam esmagados entre objetos sólidos, como entre o
volante e a colw1a ve1tebral. Forças de cisalhamento geram mptma
dos órgãos sólidos ou mptma de vasos sanguíneos na cavidade
devido a forças de laceração exercidas contra os ligan1entos ele
sustentação. O fígado e o baço podem facilmente cisalhar e sangrar,
e a perda de sangue pode ocorrer com bastante rapidez. O aumento
de pressão intra-abdominal produzida por compressão pode romper
o diafragma, fazendo com que os órgãos abdominais se movam para
cima em direção à cavidade pleural (ver o capítulo Cinemática do
trauma e do trauma torácico). O conteúdo intra-abdominal forçado
para dentro ela cavidade torácica pode comprometer a expansão
cio pulmão e afetar a função respiratória e a ftmção cardíaca
(Figura 13-6). Embora acredite-se que a mptma de cada metade cio
diafragma ocorra igualmente, a mptma do hemicliafmgma (metade
do diafragma) esquerdo é diagnosticado com mais frequência,
visto que o fígado subjacente no lado esquerdo geralmente evita a
hemiação cio conteúdo abdominal no tórax direito e tornando mais
difícil o diagnóstico de uma lesão no diafragma no ladodireito.
Fraturas pélvicas podem estar associadas à perda de grandes
volumes de sangue causada por lesão nos muitos vasos sanguíneos
menores adjacentes à pelve. Outras lesões associadas a fratmas
pélvicas incluem dano à bexiga urinária e reto, e tan1bém lesões na
uretra, nos homens, e na vagina, nas mulheres.
Avaliação
A avaliação de lesão abdominal pode ser difícil, principalmente
com os recursos limitados de diagnóstico dispo1úveis no ambiente
pré-hospitalar. Deve ser criado um alto índice de suspeita de lesão
abdominal a partir de uma série de fontes de informação, incluindo
cinemática, achados de exame físico e infonnações de doente ou
pessoas que estavam no local.
CAPÍTULO 13 Trauma abdominal 367
do que ferimentos na parede abdominal anterior. No geral, somente
cerca de 15% dos doentes com ferimentos de facada no abdômen
precisarão ele intervenção cirúrgica, sendo que cerca de 85% dos
doentes com ferimentos à bala precisarão de cirurgia para tratan1ento
definitivo de suas lesões abdominais. Ferimentos tangenciais por
arma de fogo podem passar através ele tecidos subcutâneos, mas
mmca entram na cavidade peritoneal. Dispositivos explosivos
também podem arremessar fragmentos que penetram no peritônio
e lesionam órgãos internos.
IESIÔmago Trauma fechado
Figura 13-6 Com aumento da pressão dentro do abdômen, o
diafragma pode se romper, permitindo a herniação de órgãos intra-
abdominais como o estômago ou o intestino delgado dentro do
tórax.
Cinemática
Assim corno com outros tipos de tramna, o conhecimento do
mecanismo de lesão, seja contundente ou penetrante, desempenha
urna irnp01tante fm1ção ao formar o índice de suspeita do socorrista
quanto ao trauma abdominal.
Trauma penetrante
A maioria dos traumas penetrantes em ambientes civis resulta de
ferimentos de facadas e ferimentos causados por arma de fogo.
Ocasionalmente, empalação com ou sobre um objeto ocorre quando,
por exemplo, alguém cai por sobre um pedaço saliente de madeira
ou metal. Essas forças de energia cinética de baixas a moderadas
laceram ou cortam os órgãos abdominais ao longo do caminho da
faca, do projétil ou do objeto penetrante. Lesões de alta velocidade,
corno as criadas por rifles, fuzis e armas automáticas tendem a
c1iar mais lesões sérias devido aos espaços temporários maiores
criados conforme os projéteis se movirnentan1 através da cavidade
pelitoneal. Projéteis podem atingir ossos ( costelas, coluna ou pelve),
resultando em fragmentos que podem perfurar órgãos internos.
Ferimentos por facada têm menor probabilidade de penetrar na
cavidade peritoneal do que projéteis disparados de um revólver, rifle
ou escopeta.
Quando o peritônio é penetrado, as facadas têm mais
probabilidade de lesionar o fígado (40%), intestino delgado (30%),
diafragma (20%) e cólon (15%), sendo que em lesões por arma de
fogo é mais comtm1 causar danos ao intestino delgado (50%), cólon
( 40%), fígado (30%) e vasos abdominais (25%). 1 Devido à musculatura
mais densa das costas, o tratmm penetrante nas costas tem menor
probabilidade de resultar em lesões nas estruturas intraperitoneais
Diversos mecanismos levam a forças de compressão e cisalhamento
que podem lesionar os órgãos abdominais. Um doente pode passar
por consideráveis forças de desaceleração e compressão quando
se envolve em colisões de carro ou motocicleta, quando é atingido
ou atropelado por um veículo, ou após urna queda de uma altura
significativa. Embora os órgãos abdominais sejam lesionados com
mais frequência em eventos associados à significativa lesão cinética,
como a causada por rápida desaceleração ou intensa compressão,
lesões abdominais podem resultar de mecanismos de aparência
mais inofensiva, como agressões, quedas de escada e atividades
esp01tivas (p.ex., ser obstruído no jogo de futebol americano).
Qualquer dispositivo ou vestimenta ele proteção usados pelo doente
devem ser observados, incluindo cinto ele segurança, ail0 bag ou
protetores espo1tivos.
A compressão de um órgão sólido pode resultar em cisão de sua
estrutura (p.ex., laceração hepática); sendo que tais forças aplicadas
a uma estrntm·a oca, como mna alça do intestino ou a bexiga, pode
fazer com que a estrntura se abra à força ("ruptura"), derran1ando o
conteúdo para dentro cio abdômen. Forças de cisalhan1ento podem
resultar em rasgos de estruturas nos locais de acesso a outras
estrnturas, tais como o ponto onde o intestino delgado mais móvel
se junta ao cólon ascendente, o qual está fixado ao retroperitônio. Os
órgãos mais c01mm1ente lesionados após um trauma por contusão
no abdômen são o baço ( 40-55%), fígado (35-45%) e intestino delgado
(5-10%). Nem todas as lesões em órgãos sólidos exigem intervenção
cilúrgica (Figura 13-7). Muitos desses tipos de lesões em órgãos
sólidos já são observados com cuidado no hospital, já que costmnam
parar de sangrar por si só.
Histórico
O histórico pode ser obtido do doente, ela fanu1ia ou por alguém
que estava por peito, e deve ser documentado no relatótio de
atendimento ao doente e repassado à unidade de destino. Além dos
componentes do EXEMPLO de histórico (sintomas, alergias e idade,
medicações, antecedentes clínicos/cin'.u·gicos, última refeição,
eventos que precederam a lesão), pergtmtas devem ser adaptadas
ao tipo de lesão e a presença de condições de comorbidade que
potencialmente atm1entarão a mo1talidade ou morbidade. Por
exemplo, no caso de uma colisão de veículo, podem ser feitas
perguntas para determinar o seguillte:
• Tipo de colisão, posição do doente no veículo ou ejeção
do veículo
• Velocidade estilnada do veículo no momento ela colisão
368 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR NO TRAUMA, OITAVA EDIÇÃO
Figura 13-7
Suspeita de lesões no baço, fígado ou rim não mais
exigem exploração cirúrgica em centros de trauma
modernos. A experiência tem mostrado que muitas
dessas lesões interrompem o sangramento antes do
desenvolvimento de choque e se curam sem reparo
cirúrgico. Pesquisas nos últimos 20 anos demonstraram
que até mesmo significativas lesões de órgãos sólidos
podem ser observadas com segurança, desde que
o doente não apresente choque hipovolêmico ou
peritonite. Doentes são internados para cuidadoso
monitoramento de seus sinais vitais, contagem sanguínea
e exame abdominal, inicialmente na unidade de
tratamento intensivo. A vantagem dessa abordagem
é evitar que o doente se submeta a uma operação
potencialmente desnecessária. Visto que o baço
desempenha uma importante função combatendo
infecções, a remoção do baço (esplenectomia) predispõe
doentes (principalmente crianças) a determinadas
infecções bacterianas.
O tratamento não cirúrgico bem sucedido dessas
lesões foi relatado primeiro para lesões esplênicas em
crianças, mas essa abordagem agora é aplicada com mais
frequência a doentes adultos e também doentes que
sofreram lesões no fígado e nos rins. Seguinte ao trauma
por contusão, dados recentes indicam que cerca de
50% das lesões esplênicas e cerca de 67% das lesões no
fígado podem ser tratadas dessa maneira, com relato de
taxas de sucesso variando de 70% a mais de 90% .2
O risco de falha dessa técnica (novo sangramento,
com o desenvolvimento de choque exigindo intervenção
cirúrgica) é maior nos primeiros 7 a 1 O dias após a lesão.
Socorristas devem estar cientes dessa abordagem, já que
podem responder a doentes que passaram por novo
sangramento após terem alta do hospital.
•
•
Extensão do dano ao veículo, incluindo invasão no
compaitimento do passageiro, defornúdade do volante,
dano ao para-brisa, e necessidade de retirada prolongada
Uso de dispositivos de segurança, como cinto de segurança,
air-bag e presença de cadeiras de segurança pai·a criança
• Distância da qual o doente foi baleado
• Quantidade de sangue na cena (embora a estimativa exata
seja quase sempre difícil)
Exame físico
Avaliação primária
A maioria das lesões abdonúnais graves se apresentan1 como
anormalidadesidentificadas na avaliação prin1ária, p1incipalmente na
avaliação da respiração e da circulação. A menos que existan1 lesões
associadas, doentes com trauma abdominal geralmente apresentrun
un1a via área pérvia As alterações encontradas nas avaliações de
respiração, circulação e incapacidade em geral correspondem ao
grau de choque presente. Doentes com choque inicial compensado
pode ter um leve aun1ento na frequência ventilatória, sendo que
aqueles com choque hemorrágico grave demonstran1 acentuada
taquipneia. A rnptura do henúdiafragma em geral compromete a
função respiratória quando o conteúdo abdonúnal fica herniado
dentro do tórax no lado afetado, e podem ser ouvidos sons do
intestino por cin1a do tórax ao serem auscultados os sons de
respiração. Do mesmo modo, choque causado por hemorragia
intra-abdominal pode variar de leve taquicardia, com alguns outros
achados, à taquicai·dia grave, acentuada hipotensão, e pele pálida,
fria e pegajosa.
O ·i:ndicador 11w.is confiável de sangrmnento intra-abdominal
é a. vresença ele choque hivovolêmico ele origem não e..1,plicada. 1
Ao avaliai· incapacidade, o socorrista pode observai· somente sinais
sutis, como leve ansiedade ou agitação, no doente com choque
compensado devido a traun1a abdominal, sendo que doentes com
hemorragia de risco à vida pode ter sé1ia depressão de seu estado
mental. Ao se encontrai· anormalidades na avaliação desses sistemas
e ao se prepai·ai· pai·a transpmte imediato, o abdômen deve ser
exposto e exanúnado quanto à evidência de traun1a, como contusões
ou ferin1entos penetrantes.
Avaliação secundária
Durante a avaliação secundá1ia, o abdômen é exan1inado
detalhadan1ente. Esse exame envolve primeiran1ente inspeção e
palpação do abdômen e deve ser introduzida sistematican1ente.
Inspeção
O abdômen é exanúnado quanto a lesões do tecido mole e
distensão. Pode-se suspeitar de lesão intra-abdominal quando se
nota traun1a de tecido mole sobre o abdômen, flancos ou costas.
Tais lesões podem incluir contusões, abrasões, ferimentos por
tiro ou facada, sangramento evidente e achados incomuns, como
evisceração, objetos empalados ou mai·cas de pneu. O "sinal do
cinto de segurança" ( equimose ou abrasão atravessando o abdômen
resultante de compressão da pai·ede abdominal contra a tira do
cinto que passa pelo ombro ou cinto de segurança abdonúnal) indica
No caso de lesão penetrante, podem ser feitas perguntas pai·a que força significativa foi aplicada ao abdômen como resultado
deternúnai· o seguinte: de desaceleração repentina (Figura 13-8). Embora a incidência de
•
•
Tipo de arma (revólver ou rifle, calibre, comprin1ento da
faca)
Número de vezes que o doente foi baleado ou esfaqueado
lesões intra-abdonúnais em doentes adultos com sinais de cinto de
segurança seja cerca de 20%, a incidência pode chegai· a 50% nas
crianças. As lesões associadas a restrições normalmente são no
intestino e no mesenté1io, que ficam comprinúdos e esmagados
entre o cinto de segurança e a parede abdominal anterior e a coluna
vertebral na parte posterior, e quase sempre presentes ele modo
retardado. Sinal ele Grey-Tnrner ( equimose envolvendo os flancos) e
sinal ele Cullen ( equimose em volta do umbigo) indicam sangramento
retroperitoneal; no entanto, esses sinais são comumente protelados
e podem não ser vistos nas primeiras horas após a lesão.
O contorno do abdômen deve ser observado, avaliando se
está liso ou distendido. Uma distensão do abdômen pode indicar
hemonagia interna significativa; no entanto, a cavidade pelitoneal
em um adulto pode acumular até 1,5 litro de fluidos antes de mostrar
sinais óbvios de distensão. Distensão abdominal também pode ser
o resultado de um estômago cheio de ar, que pode ocorrer dmante
ventilação aitificial com dispositivo tipo balão-máscai·a. Embora
esses sinais possan1 indicar lesão intra-abdominal, alguns doentes
com lesão interna substancial podem não ter esses achados.
Palpação
A palpação do abdômen é feita pai·a identificai· áreas ele sensibilidade.
De preferência, a palpação começa em uma área na qual o doente
não se queixa de dor. Depois, é palpado cada quadrante abdominal.
Ao palpar a área sensível, o socorrista pode observar que o doente
"tensiona" os músculos abdominais nessa área. Essa reação
chamada defesa voluntária, protege o doente ela dor resultante da
palpação. Defesa involuntária representa rigidez ou espasmos cios
músculos da parede abdominal em resposta à peritonite. Figura 13-9
relaciona achados físicos compatíveis com a presença de peritonite.
Diferente da defesa voluntária, a defesa involwltátia permanece
quando o doente se distrai (p.ex., com a conversa) ou o abdômen
é discretamente palpado (p.ex., com pressão do estetoscópio
enquanto parece auscultai· os sons do intestino). Embora a presença
de sensibilidade rebote tenha sido por muito tempo considerada
um impo1tante achado indicador de peritonite, muitos cirurgiões
agora acreditam que esta manobra - pressionar proftmdamente
Figura 13-8 Um "sinal de cinto de segurança" abdominal
resultante da desaceleração do doente em relação ao cinto de
segurança abdominal.
Fonte: Cortesia de Peter T. Pons, MD, FACEP.
CAPÍTULO 13 Trauma abdominal 369
o abdômen e depois rapidamente liberar a pressão - causa dor
excessiva. Se houver sensibilidade de rebote, o doente sentirá dor
mais intensa quando cessai· a pressão abdominal.
A palpação profunda ou agressiva ele tm1 abdômen obviamente
lesionado eleve ser evitada porque, além da dor que causa, a
palpação pode deslocai· coágulos sanguíneos e reiniciai· uma
hemorragia, e pode derrainai· conteúdo do trato gastrintestinal se
houver perfurações. Tan1bém deve haver muito cuidado na palpação
se existir um objeto empalado no abdômen. Na verdade, há pouca
informação útil adicional a ser obtida com a palpação do abdômen
de um doente com um objeto empalado.
Embora sensibilidade seja um imp01tante indicador de lesão
intra.abdominal, vátfos fatores podem confundir a avaliação ele
sensibilidade. Doentes com estado mental alterado, como aqueles
com lesão cerebral tratm1ática (LCT) ou doentes sob a influência
de drogas ou álcool, podem ter um exame não confiável; ou seja, o
doente pode não relatai· sensibilidade nem responder à palpação até
mesmo se houver significativas lesões internas. Doentes pediátlicos
ou geriátricos têm maior probabilidade de exan1es abdominais
não confiáveis devido a respostas à dor comprometidas. De modo
contrário, doentes com fraturas elas costelas inferiores ou uma
fratura pélvica podem ter un1a avaliação cluviclosa. (an1bígua), com
sensibilidade resultante ou das fraturas ou elas lesões internas
associadas. Se o doente tem dor que desvie a atenção das lesões,
como fratmas ele extremidades ou da coluna ve1tebral, pode-se não
referir dor abdominal na palpação.
Palpação da pelve no ambiente pré-hospitalai· dá poucas
informações que possam alterai· o tratan1ento do doente. Se há
tempo para realizar esse exame, isto é feito somente uma vez, já
que algtm1 coágulo que tenha se fo1mado no local de un1a fratura
instável pode se romper, e assim exacerbar a hemorragia. Dmante
esse exan1e, a pelve é gentilmente palpada quanto à instabilidade e
sensibilidade. Essa avaliação envolve três etapas:
l. Pressionar as cristas ilíacas para dentro
2. Pressionai· as cristas ilíacas para fora
3. Pressionai· a sínfise púbica para trás
Se for notada instabilidade em algwna etapa do exan1e, não
deve mais haver palpação da pelve.
Figura 13-9
• Sensibilidade abdominal significativa na palpação ou
ao tossir (localizada ou generalizada)
• Defesa involuntária
• Sensibi lidade na percussão
• Sons do intestino reduzidos ou ausentes
370 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR NO TRAUMA, OITAVA EDIÇÃO
Auscul tação
Hemorragia e derramamento de conteúdo intestinal na cavidade
peritoneal pode resultar em íleo, quadro no qual a peristalse cio
intestino cessa. Isso resulta em um abdômen "quieto", já que os sonsdo intestino estão reduzidos ou ausentes. A auscultação dos sons
do intestino de modo geral não é w11a ferramenta útil ele avaliação
pré-hospitalar. Não se deve perder tempo tentando determinar a sua
presença ou ausência porque esse sinal diagnóstico não vai alterar o
tratamento pré-hospitalar do doente. No entanto, se forem ouvidos
sons cio intestino sobre o tórax durante a auscultação de sons de
respiração, pode-se considerar mna ruptura diafragmática.
Percussão
Embora a percussão do abdômen possa revelar sons timpânicos ou
abafados, essa informação não altera o tratamento pré-hospitalar cio
doente de trauma, e somente se desperdiça tempo valioso; pmtanto,
não é recomendada como ferran1enta de avaliação pré-hospitalar.
Sensibilidade significativa na percussão ou dor quando se pede para
o doente tossir representa um in1p01tante achado de petitonite.
Sinais peritoneais estão resumidos na Figura 13-9.
Exames especiais e indicadores
principais
A avaliação citúrgica e, em muitos casos, intervenção permanecem
as principais necessidades para a maioria dos doentes que sofreran1
lesões abdominais; não se deve perder tempo em tentar determinar
os detalhes exatos da lesão. Em muitos doentes, a identificação de
lesão de um órgão específico não será revelada até que o abdômen
seja também avaliado por tomografia computadorizada (TC) ou
exploração cüúrgica.
No setor de emergência, o ultrassom se tornou a principal
modalidade à beit'a leito usada para avaliar wn doente ele trauma
quanto a hemorragia intra-abdominal. i .:i.5 A avaliação direcionada
com ultrassonografia para doentes de trauma (focused assessment
with sonography for trauma, FAST) envolve três visões da
cavidade petitoneal e uma quaita visão do pericárdio pai·a avaliai· a
presença ele fluidos, presumivelmente sangue, em volta do coração
(Figura 13-10). Já que fluidos não refletem as ondas do ultrassom
no dispositivo, esses fluidos apai·ecem anecoicos (inrngem
sonografican1ente escura). A presença de fluidos em W11a ou mais
áreas é preocupante; no entai1to, a ultrassonografia não consegue
diferenciar sangue de outros tipos de fluidos (ascite, urina de Wlla
bexiga rompida, etc.). Em comparação com outras técnicas usadas
pai·a avaliai· a cavidade peritoneal, FAST pode ser rapidan1ente
realizado ao leito do doente, não inte1fere na ressuscitação, é não
invasivo, e muito menos dispendioso que um exaine por TC. A
desvantagem principal de FAST é não dai· um diagnóstico definitivo
da lesão, mas somente indicar a presença de fluidos que podem
representai· sangue. Outras desvantagens do exaine FAST são as
imagens dependentes da habilidade e experiência do operador, e
utilidade comprometida em doentes obesos, com ar subcutâneo, e
que tenham passado por cirurgia anterior. Talvez o mais in1p01tante
é o fato de que um exan1e FAST negativo não desca1ta a presença
de uma lesão, inclusive a que pode exigir intervenção cit'úrgica. Um
exame FAST negativo significa somente que, no momento em que
o exame foi realizado, não foram visualizados fluidos no abdômen.
Esse resultado pode ser por não haver lesão ou porque não havia
sangue suficiente acumulado no abdômen que pudesse ser visto
( o que é uma real possibilidade considerando a rápida resposta do
atendimento médico de emergência [AME] na cena do incidente de
trauma).
Devido à facilidade de uso e aprin10rada tecnologia de
ultrassom, alguns sistemas AME e equipes militai·es em terra e ai·
explorai·an1 o uso de FAST no an1biente pré-hospitalai·. O exan1e
FAST tem demonstrado ser confiável em cainpo, mas não há dados
publicados que mostrem que o uso dessa tecnologia leva a melhores
resultados para doentes com trauma abdorninal. 7· 13 FAST pode ter
utilidade em Wll an1biente estrito ou em situação de perda de vidas
em massa. No entanto, o uso de FAST não é recomendado pelo
Atendimento Pré-hospitalar no Trawna corno rotina no cuidado
pré-hospitalar, principalmente porque pode atrasar o transpo1te
pai·a a Wlidade de destino, ou pode passar a falsa segurança quanto
à verdadeira condição do doente.
Apesar de todos esses componentes distintos, a avaliação da
lesão abdominal pode ser difícil. Os seguintes são os indicadores
principais para se determinai· o índice de suspeita pai·a lesão
abdominal:
• Sinais evidentes de trauma (p.ex., lesões cio tecido mole,
ferimento à bala)
• Presença de choque hipovolêrnico sem outra causa óbvia
• Grau de choque maior do que o que pode ser explicado por
outras lesões (p.ex., fraturas, hemorragia externa)
• Presença de sinais peritoneais
Tratamento
Os principais aspectos do tratamento pré-hospitalar de doentes com
traW11a abdominal são reconhecer a presença de possível lesão e
iniciar rápido transpmte, conforme adequado, à wlidade apropriada
mais próxin1a que seja capaz de tratai· o doente.
An01n1alidades nas funções vitais identificadas na avaliação
prima.na são confirmadas durante o transpmte. Oxigênio
suplementai· é adrnmistrado pai·a manter saturação em 95% ou mais,
e a ventilação é assistida conforme necessário. Hemorragia externa é
controlada com pressão direta ou cmativo com pressão. Se o doente
sofreu traW11a por contusão e que tan1bérn pode ter causado lesão
da coluna ve1tebral, a in1obilização da colW1a é realizada conforme
adequado (ver capítulo Trauma da colW1a ve1tebral). Vítimas de
trauma penetrante no torso não precisam de ünobilização da coluna
ve1tebral.
O doente é rapidan1ente imobilizado e iniciado o transporte.
Doentes com traW11a abdominal quase sempre precisam de
transfusão e intervenção cüúrgica para controlai· hemorragia interna
e repai·ai· lesões; desse modo, doentes devem ser transferidos
para Wlidades que tenhan1 capacidade citúrgica ünediata, como
Wll centro de trauma, se disponível, quando os seguintes achados
forem observados: evidência de trauma abdominal associado com
hipotensão ou sinais peritoneais, ou a presença de evisceração ou
objeto transpassado. Levai· um doente com lesões intra-abdominais
pai·a uma unidade que não tem uma sala de operações e equipe
Figura 13-10
-----~,,, _____ .,._,,.--
A
A. Quatro visualizações constituem o exame FAST.
C. Visualização normal do quadrante superior direito.
Fonte: Cortesia da foto de John Kendall, MD.
E. Visua lização normal do quadrante superior esquerdo.
Fonte: Cortesia da foto de John Kendall, MD.
CAPÍTULO 13 Trauma abdomina l 371
Sonda de ultrassom
Diafragma
B. Visualização esplenorrenal normal de identificação de órgãos.
D. Visual ização anormal do quadrante superior direito
demonstrando a presença de fluido (sangue).
Fonte: Cortesia da foto de John Kendall, MD.
F. Visua lização anorma l do quadrante superior esquerdo
demonstrando a presença de fluido (sangue).
Fonte: Cortesia da foto de John Kendall, MD.
(Continua na próxima página)
372 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR NO TRAUMA, OITAVA EDIÇÃO
Figura 13-10
O exame FAST tem valor no doente de trauma porque as
lesões intra-abdominais mais significativas estão associadas
a hemorragia na cavidade peritoneal. Embora o ultrassom
não possa diferenciar o tipo de fluido presente, presume-se
que todo fluido no doente de trauma seja sangue.
Técnica
• São obtidas imagens de quatro janelas acústicas
(visualizações), três das quais avaliam a cavidade
peritoneal:
1. Pericárdica
2. Peri-hepática (espaço de Morrison)
3. Periesplênica
4 . Pélvica
• Fluido acumulado aparece anecoico (sonograficamente
escuro).
*FAST tem sido estudado em diversos sistemas pré-hospitalares.'·"
cirúrgica disponíveis anula o objetivo do rápido transpo1te. Em
um an1biente rnral onde não há hospital com cirnrgiões gerais na
equipe, deve ser considerada a transferência direta para um centro
de trauma, seja por terra ou por ar. Urna inte1venção cirúrgica
precoce é a chave para a sobrevivência de wn doente instável com
trauma abdominal.
É obtido o acesso intravenoso (IV) durante o transp01te.
A decisão de administrar substituiçãode fluidos cristaloides no
trajeto depende da situação clínica do doente. O trauma abdominal
representa uma das principais situações na qual é indicada a
ressuscitação equilibrada. Conforn1e discutido no capítulo Choque,
a administração agressiva de fluido IV pode elevar a pressão aiterial
do doente a níveis que podem romper algum coágulo que tenha
se formado, resultai1do em recorrência de sangrarnento que havia
cessado devido à coagulação sanguínea e hipotensão. Desse modo,
socorristas têm que conseguir um delicado equilíbrio: manutenção
da pressão arterial que permita pe1fusão a órgãos vitais sem
retornar a pressão aitelial ao nonnal ( o que pode reiniciai· locais de
sangrarnento no abdômen). Na ausência de LCT, a pressão aiterial
sistólica desejada é de 80 a 90 rnrnHg (pressão aiterial média de 60 a
65 mrnHg). Doentes com suspeita de sangran1ento intra-abdominal
e urna LCT devem ser mantidos com pressão aiterial sistólica de, no
mínimo, 90 nunHg.
Considerações
especia is
Objetos empalados
Devido ao trauma adicional que pode causar a remoção de um
objeto empalado, e devido ao fato de que a extremidade distal
do objeto pode estai· controlando ativamente (tamponmnento)
. -
• Presença de fluido em uma ou mais áreas indica um
exame positivo.
Vantagens
• Pode ser rapidamente realizado
• Pode ser feito ao leito do doente
• Não interfere na ressuscitação
• É não invasivo
• Menos dispendioso que a TC
Desvantagens
• Resultados comprometidos em doentes obesos, com
ar subcutâneo, ou que tenham passado por cirurgia
anterior.
• Obtenção de imagem depende da habilidade do
operador.
o sangrarnento, a remoção de um objeto empalado em an1biente
pré-hospitalai· é contraindicado (Figura 13-11). O socorrista não
deve mover nem remover um objeto empalado no abdômen de
um doente. Nos hospital esses objetos não são retirados até que
seu formato e localização tenhan1 sido identificados por avaliação
radiográfica, e até que a reposição de sangue e equipe cüúrgica
estejan1 presentes e prontos. Geralmente esses objetos são retirados
na sala de operações.
O socorrista pode estabilizai· o objeto empalado, manual ou
mecanicamente, pai·a evitai· qualquer outro movünento em can1po
e durante o transpo1te. Em algumas circunstâncias pode ser
necessário cortar o objeto empalado pai·a livrai· o doente e perrnitÜ'
transpo1te pai·a o centro de traun1a. Se houver sangrainento em
volta, deve ser aplicada pressão direta com a palma da mão em volta
do objeto no felirnento. É imp01tante o apoio psicológico do doente,
principalmente se o objeto empalado estiver visível ao doente.
Não deve ser feita palpação nem percussão no abdômen desses
doentes porque essas ações podem produzir outra lesão de órgão
da extremidade distal do objeto. São desnecessá1ios mais exan1es
porque a presença de objetos empalados mostra a necessidade de
tratamento por um cfrurgião.
Evisceração
Em un1a evisceração abdominal, uma paite do intestino ou outro
órgão abdornü1al é deslocado através de un1 fe1irnento abe1to e se
projeta pai·a fora da cavidade abdominal (Figura 13-12). O tecido
visualizado geralmente mais visualizado é o omento gorduroso
que fica sobre os intestinos. Não devem ser feitas tentativas pai·a se
recolocai· o tecido eviscerado na cavidade abdominal. As vísceras
devem ser deixadas na superfície do abdômen ou salientes conforme
encontradas.
Figura 13-11 Faca encravada no abdômen.
Fonte: Cortesia de Lance Stuke, MD, MPH.
Esforços de tratamento devem se concentrar na proteção contra
mais danos do segmento protuberante do intestino ou de outro órgão.
A maior paite do conteúdo abdominal exige um ambiente (unido. Se
o intestino ou algmn dos outros órgãos abdominais ficai·em seco,
ocorrerá 11101te celular. P01tanto, o conteúdo abdominal eviscerado
deve ser cobe1to com mn curativo limpo ou estéril que tenha sido
umedecido com solução salina (pode ser usada solução salina
normal IV). Esses curativos devem ser periodicamente mnedecidos
com solução salina para evitm ressecamento. Curativos (unidos
podem ser cobettos com 1m1 curativo grai1de, seco ou oclusivo de
modo a mailter o doente aquecido.
O apoio psicológico é extremainente impmtailte pai·a os
doentes com evisceração abdominal, e deve-se ter cuidado pai·a
mailter o doente calmo. Toda pressão que munente a pressão dentro
do abdômen, como choro, gritos ou tosse, pode forçai· os órgãos
ainda mais pai·a fora. Esses doentes devem ser imediatainente
trai1spo1tados para uma tmidade com centro cirúrgico.
Trauma na doente obstétrica
Alterações anatômicas e fisiológicas
A gestação causa alterações ai1atônúcas e fisiológicas aos sistemas
do organismo. Essas alterações podem afetar os padrões de lesões
observadas e tornar a avaliação de tuna doente grávida especialmente
desafiadora. O socorrista está lidando com dois ou mais doentes e
precisa ter consciência das alterações que ocorreram na anatonúa e
fisiologia da mulher ao longo da gravidez.
A gestação hmnana normalmente é de 40 semanas, da
concepção ao nascimento, e este período gestacional é dividido em
três seções, ou trimestres. O primeiro trimestre termina peito da 12"
semai1a de gestação e o segm1do trimestre é mn pouco mais longo
que os outros dois, ternúnando por volta da semana 28.
Após a concepção e implailtação do feto, o útero continua a
aumentar até a 38ª semai1a de gestação. Até próximo da 12" semai1a,
o útero em crescimento permanece protegido pela pelve óssea. Na
20" semai1a de gestação, a paite superior do útero (ftmdo) está no
umbigo, e o fundo se aproxima do processo xifoide na 38ª semana.
Essa alteração anatônúca torna o útero e seu conteúdo mais
CAPÍTULO 13 Trauma abdominal 373
Figura 13-12 Intestinos eviscerados através de ferimento na
parede abdominal.
Fonte: Cortesia de Lance Stuke, MD, MPH.
suscetíveis a lesão por contusão e lesão penetrante (Figura 13-13).
Lesão no útero pode incluir ruptura, penetração, abrn.ptio placentae
(quando uma paite da placenta se descola da parede uterina), e
ruptura prematura das membranas (Figura 13-14). A placenta e
o útero gravídico são altamente vascularizados; lesões a essas
estrutmas podem resultar em hemorragia proftmda. A hemorragia
também pode ficar oculta dentro do útero e da cavidade peritoneal,
e assim não estai· externainente visível.
Embora seja evidente wna acentuada protuberância na
gestação avai1çada, o resto dos órgãos abdominais permanecem
basicamente inalterados, com a exceção do útero. Os intestinos
que ficain deslocados superionnente são protegidos pelo útero nos
dois últimos trimestres da gestação. O aumento ele tainai1ho e peso
elo útero altera o centro ele gravidade da doente e awnenta o risco
de quedas. Devido à sua protuberância, o abdômen gravídico quase
sempre é lesionado em uma queda.
Além dessas alterações anatônúcas, também ocorrem
alterações fisiológicas ao longo da gestação. A frequência cai·clíaca
ela mulher normalmente aumenta ao longo ela gestação em 15 a 20
batimentos/núnuto acima do nonnal por volta do terceiro trimestre. 14
Isso dificulta a interpretação de taquicai·clia. A pressão aiterial
sistólica e cliastólica normalmente cai de 5 a 15 mmHg durante o
seg1mdo trimestre, mas geralmente volta ao nonnal com a gestante
a termo. 1·1 Na 10ª semairn de gestação, o débito cai·díaco ela mulher
amnenta de 1 a 1,5 litro/minuto. Até o pa1to a termo, o volwne de
sai1gue da gestailte terá aumentado em cerca de 50%. Deviclo ct
374 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR NO TRAUMA, OITAVA EDIÇÃO
esses aumentos no débito ca.rclíaco e volume sanguíneo, a doente
grávida pode perder ele 30% a 35% ele seu volume sanguíneo antes
que se to1'nem a:pa:rentes sina.is e sintomas ele hipovoleniia. 14 O
choque hipovolêmico pode induzir ao paito prematuro em doentes
no terceiro trimestre. A oxitocina, liberada jwlto com o hormônio
anti.diurético em resposta à perda de volume de sangue circulante,
estimula as contrações uterinas.
Algumasmulheres podem ter hipotensão significativa quando
em posição supina. Esta hipotensão supina da gestação normalmente
ocorre no terceiro trimestre e tem como causa a compressão da veia
cava pelo útero aumentado. 14 Isso reduz acentuadan1ente o retorno
venoso para o coração, e havendo menos enchimento, o débito
cai·díaco e a pressão aiterial cleclinan1 (Figura 13-15).
As manobras a seguir podem ser usadas pai·a aliviai· a hipotensão
supina:
Figura 13-13 Altura uterina.
A
1. A mulher pode ser colocada no seu lado esquerdo
ú)osição ele decúbito lateral esquerdo) ou, se for inclicacla
a in10bilização ela coluna ve1tebral, eleve ser colocado 10
a 15 cm ele acolchoamento sob o lado direito da prancha
longa (Figura 13-16).
2. Se a doente não puder ser virada ele lado, a perna direita
eleve ficar elevada pai·a trazer o útero pai·a a esquerda.
3. O útero pode ser manualmente deslocado para o lado
esquerdo ela doente.
Essas três manobras diminuem a compressão sobre a veia
cava, aumentando o retorno venoso para o coração e aumentando
o débito cardíaco.
Durante o terceiro trimestre, o diafragma está elevado e pode
ser associado a uma clispneia leve, p1incipalmente com a doente em
posição supina. A peristalse (movimentos musculares propulsores
cio intestino) é mais lenta durante a gestação, podendo restar
alin1ento no estômago muitas horas após a refeição. Assin1, a doente
grávida tem maior risco ele vômito e aspiração subsequente.
Toxemia ele gestação (também conhecida como eclampsia)
é uma complicação tarclia ela gestação. Visto que pré-eclmnpsia é
cai·acterizada por edema e hipe1tensão, eclampsia é caracterizada
por alterações no estado mental e convulsões, assim imitando
sintomas ele LCT. Uma cuidadosa avaliação neurológica e perguntas
sobre potenciais complicações ela gestação e outras condições
clínicas como cliabete conhecido ou histórico ele convulsão são
importantes. 11 •12
Avaliação
Normalmente, a gravidez não altera as vias aéreas ela mulher, mas
pode ocorrer significativa angústia respiratória quando a doente no
terceiro trimestre é colocada na posição supina em cima da prai1cha
longa. A diminuição ela peristalse cio trato gastrointestinal amnenta
a probabilidade ele vômito e aspiração. São avaliadas a clesobstrnção
elas vias aéreas e a função pulmonai·, incluindo auscultação ele sons
ele respiração e monitoramento ele oximetria ele pulso.
e
Figura 13-14 Diagrama de trauma uterino. A. Descolamento prematuro da placenta (abruptio placentae). B. Ferimento por arma de
fogo no útero. C. útero rompido.
Veia cava
inferior
Figura 13-15 útero a termo comprimindo a veia cava.
Figura 13-16 Foto de doente grávida virada de lado.
Assim como o hemoperitônio devido a outras fontes, o
sangramento intra-abdominal associado à lesão ute1ina pode não
causar peritonite durante horas. O mais provável é que a perda de
sangue de urna lesão possa ser mascarada pelo aumento de débito
cardíaco e volume de sangue da doente grávida. Assim, um alto
índice ele suspeita e avaliação para alterações sutis (p.ex. , cor ela
pele) podem resultar em in1p01tantes sinais.
No geral, a condição do feto quase sempre depende da condição
da mãe; no entanto, o feto pode estar em perigo embora a condição
da mãe e sinais vitais pareçan1 estar hernodinarnicarnente nonnais.
CAPÍTULO 13 Trauma abdominal 375
Isso ocorre porque o organismo desvia o sangue para longe do útero
( e do feto) para os órgãos vitais. Alterações neurológicas devem ser
observadas e docmnentadas, embora a etiologia exata possa não ser
identificável no an1biente pré-hospitalar.
Assim como com urna doente não grávida, a auscultação dos sons
do intestino de modo geral não é útil no an1biente pré-hospitalar. Do
mesmo modo, desperdiçar minutos valiosos procurando por sons do
coração do feto na cena não é prático; a presença ou ausência desses
sons não altera o tratamento pré-hospitalar. A genitália externa deve
ser verificada quanto à presença de sangran1ento vaginal e eleve-se
perguntar à doente se ela sente contrações e movimento cio feto.
Contrações podem indicar o início de um paito prematuro, sendo
que urna diminuição no movimento fetal pode ser um sinal fatídico
de profunda angústia fetal .
A palpação do abdômen pode revelai· sensibilidade. Um útero
firme, rígido e sensível é sugestivo de descolan1ento prematuro ela
placenta, que está associado a sai1gramento vaginal visível em cerca
de 70% dos casos. 14
Tratamento
Em se tratando de doente grávida lesionada, a sobrevivência do feto
pode ser melhor assegurada ao se concentrai· na condição da mãe.
Essencialmente, pai·a o feto sobreviver, geralmente a mãe precisa
sobreviver. A p1ioridade é garantir uma via aérea adequada acessível
e auxiliar a função ventilatória. Deve ser administrado oxigênio
suficiente pai·a manter a leitura de oximetria de pulso em 95% ou
mais. Pode ser necessária a ajuda com a ventilação, principalmente
nos estágios finais da gestação. É prudente esperai· o vômito e ter
ferramenta de sucção por peito.
Os objetivos do controle do choque são basican1ente os mesmos
para todo doente e inclui criteriosa administração de fluido IV, em
especial se houver evidência de choque descompensado. Qualquer
evidência de sangramento vaginal ou abdômen rígido e duro com
sangrainento externo no último trimestre de gravidez pode indicai·
descolan1ento prematuro de placenta ou um útero rompido. Essas
condições an1eaçam não somente a vida do feto, mas tan1bém a
da mãe, pois a hemorragia fatal pode ocorrer rapidan1ente. Não há
dados exatos para definir a melhor pressão aiterial pretendida pai·a
urna doente grávida lesionada. No entanto, a restauração da pressão
aitelial sistólica e média provavelmente resultará em melhor
pe1fusão fetal, apesai· do risco ele favorecer outra hemorragia interna
na mulher.
O transp01te de doente de trauma grávida não deve demorai·.
Toda doente de traun1a grávida deve ser rapidamente transp01tada
- mesmo aqueles que aparentain ter pequenas lesões - à unidade
adequada mais próxima. Uma unidade ideal seria aquela com
recursos ci1úrgicos e obstét1icos in1ediatan1ente disponíveis. A
devida ressuscitação da doente é a chave para a sobrevivência da
mãe e do feto.
Lesões geniturinárias
Lesões nos rins, ureter e bexiga ocorrem mais frequentemente com
hema.tú1'ici (sangue na urina). Este sinal não será notado até que
376 ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR NO TRAUMA, OITAVA EDIÇÃO
seja inserido um cateter urinário no doente. Como os rins recebem
uma significativa paite cio débito cai·clíaco, lesões penetrai1tes
ou por contusão a esses órgãos podem resultai· em hemorragia
retropelitoneal ele risco à vicia.
nesses órgãos, tais lesões estão associadas a uma dor significativa e
envolvimento psicológico. Esses órgãos também contêm numerosos
vasos sffilgtúneos, e quai1tidades de sangue copiosas podem ser
observadas. No geral, tal sangran1ento pode ser controlado com
pressão direta ou curativo com pressão. Não devem ser inse1idos
curativos na vagina ou na uretra pai·a controlai· o sffilgrainento,
principalmente em mulheres grávidas. Se não for necessária a
pressão direta pai·a controlai· a hemorragia, essas lesões devem
ser cobe1tas com gaze (muda, lin1pa e embebida em solução salina.
Qualquer paite an1putada deve ser tratada conforme descrito no
capítulo Trauma musculoesquelético. Outras avaliações de todas as
lesões genitais devem ocorrer no hospital.
Fraturas pélvicas podem estai· associadas a lacerações ela
bexiga urinária e das paredes da vagina ou cio reto. Fraturas pélvicas
abe1tas, tais como as com profundas lacerações na virilha ou
períneo, podem resultar em hemorragia externa grave.
O trauma à genitália externa pode ocorrer devido a vários
mecffilÍsmos, embora predominem lesões resultantes de ejeção
ele mna moto ou um veículo, um acidente industlial, mecanismos
do tipo em que se monta em urna sela, ferimento de ain1a ele fogo
ou agressão sexual.Devido às numerosas extremidades nervosas
• Lesões intra-abdominais em geral são de risco à vida devido à hemorragia interna e cle1Tan1an1ento de conteúdo
gastrointestinal na cavidade peritoneal.
• A extensão das lesões internas não é identificável no ainbiente pré-hospitalai·; desse modo, o mecaI1ismo de lesão
em combinação com sinais de trauma abdonlÍllal deve aumentar o índice de suspeita do socorrista.
• O tratan1ento do doente com tramna abdominal inclui oxigenação, controle da hemorragia e rápida imobilização
pai·a u·ai1sporte. A imobilização ela coluna vertebral não é necessária pai·a u·auma penetrante do tórax.
• A ressuscitação equilibrada com soluções ctistaloicles pernúte a perfusão ele órgãos vitais enquai1to potencialmente
núnimiza o risco ele agravainento de hemorragia interna.
• Já que a inte1venção cirúrgica de emergência pode salvai· tm1a vida, um doente com u·auma abdonlÍllal deve ser
transpmtado pai-a mna unidade com recurso cirúrgico in1ediato.
• As alterações anatômicas e fisiológicas da gestação têm in1plicações quanto ao padrão ele lesão, apresentação ele
sinais e sintomas ele trauma, e u·atainento ela doente ele trauma grávida.
• O tratainento de comprometimento fetal causado por tramna potencial é obtido com a ressuscitação eficaz da
doente.