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127 UNIDADE 3 O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Prezado(a) acadêmico(a), bem-vindo(a) à Unidade 3 do caderno de Economia Política! Esta unidade tem por objetivos: • compreender o estágio imperialista da história do capitalismo; • adquirir conhecimento sobre as fases nas quais desenvolve-se o capitalis- mo; • caracterizar as peculiaridades da dinâmica do desenvolvimento do capita- lismo sob a globalização; • esclarecer a dinâmica da globalização por meio da reestruturação produ- tiva, do neoliberalismo e da financeirização do capital; • discutir aspectos e problemáticas desafiadoras que atravessam as socieda- des na entrada do século XXI. • compreender o estágio imperialista da história do capitalismo; • adquirir conhecimento sobre as fases nas quais desenvolve-se o capitalis- mo; • caracterizar as peculiaridades da dinâmica do desenvolvimento do capita- lismo sob a globalização; • esclarecer a dinâmica da globalização por meio da reestruturação produ- tiva, do neoliberalismo e da financeirização do capital; • discutir aspectos e problemáticas desafiadoras que atravessam as socieda- des na entrada do século XXI. Esta unidade está dividida em três tópicos e no final de cada um deles você encontrará atividades que reforçarão o seu aprendizado. TÓPICO 1 - O IMPERIALISMO TÓPICO 2 - OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO TÓPICO 3 - ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEM- PORÂNEAS 128 129 TÓPICO 1 O IMPERIALISMO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), o estudo relativo à fase recente do desenvolvimento do capitalismo, o capitalismo contemporâneo, exige que se compreenda o contexto mais amplo no qual a organização da sociedade atual se encontra. Desta forma, os tópicos da Unidade 3 irão esclarecer as peculiaridades presentes na dinâmica do desenvolvimento do capitalismo após a década de 1980 (Tópico 2) e discutir aspectos e problemáticas desafiadoras que atravessam as sociedades na entrada do século XXI (Tópico 3). Entretanto, o Tópico 1, que tem início a partir deste momento, debruçar-se-á sobre o estágio imperialista da história do capitalismo. A temática do imperialismo diz respeito às importantes transformações experimentadas durante o desenvolvimento do sistema capitalista a partir dos últimos 30 anos do século XIX. Neste sentido, a partir de 1910, alguns autores, amparados nas obras de Karl Marx, dedicaram-se a estudos que confluíram na configuração de um novo estágio do capitalismo, denominado imperialismo, que se estende ao longo de todo o século XX, e conta com novas determinações na virada para o século XXI. Karl Heinrich Marx, nascido em 1818 na Alemanha, foi filósofo e cofundador, junto com Friedrich Engels, da escola de pensamento marxista. Contudo, seus escritos influenciaram diversas áreas, como o Direito, a Economia e a Sociologia. A principal obra publicada por Marx é “O Capital”, em 1867, predominantemente, um livro sobre Economia Política, mas que realiza uma extensa análise crítica da sociedade capitalista. Os conceitos de mais-valia, força de trabalho, acumulação primitiva e meios de produção foram introduzidos por Marx e Engels na segunda metade do século XIX, mas são extremamente atuais à compreensão da sociedade capitalista atual. FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d4/Karl_Marx_001. jpg>. Acesso em: 19 jan. 2015. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 130 A modo de introdução cabe lembrar que, durante o processo de evolução do capitalismo, distinguem-se, também, alguns estágios específicos, tendo início com o capitalismo comercial ou mercantil que, por sua vez, estende-se desde a acumulação primitiva até o momento em que o capital tem a capacidade de controlar o trabalho humano, mediante o estabelecimento da manufatura, cobrindo, portanto, os séculos XVI, XVII e meados do século XVIII. NOTA Acumulação primitiva é um conceito marxista que explica a origem mais primitiva da acumulação de capital, cuja dinâmica decorre da expropriação, por parte dos capitalistas, dos meios de produção dos trabalhadores do campo. Isto é, trata-se da separação do produtor direto dos seus meios de subsistência. Trata-se, portanto, do nascimento da classe social burguesa, que passou a acumular e controlar grandes riquezas comerciais ao longo dos séculos, mas que confronta diretamente com a nobreza fundiária que dominava as relações de poder no período. A crescente burguesia é, nesta perspectiva, uma classe revolucionária, cujos interesses até convergiam com o restante da população: liberar as forças produtivas dos entraves estabelecidos pelas relações feudais de produção. “Temos, à época, uma burguesia de caráter audacioso, uma burguesia empreendedora, heroica mesmo, como se verifica dos seus inícios à sua marcha triunfal rumo à construção da nova sociedade.” (NETTO; BRAZ, 2006, p. 170). Esse primeiro movimento já revela a tendência à mundialização do capital devido à expansão marítima e à conquista de territórios distantes a partir de grupos mercantis europeus, traços históricos das revoluções burguesas empreendidas até meados do século XVIII. No período subsequente, o capitalismo ingressa em um novo estágio evolutivo, proporcionado pelo avanço da tomada de poder do Estado pela burguesia e por meio do aprimoramento das técnicas no ambiente produtivo, resultando na Revolução Industrial e na organização da produção através da nascente grande indústria. NOTA Quando falamos, aqui, em grande indústria, nos referimos à formação e à consolidação de uma completa estrutura fabril, na qual a divisão social do trabalho é fundamental e se realiza por meio da relação entre os trabalhadores e as máquinas. TÓPICO 1 | O IMPERIALISMO 131 A partir, portanto, da segunda metade do século XVIII, descortina-se o segundo estágio do capitalismo, o capitalismo concorrencial, também chamado de “clássico”, estudado com maior especificidade na Unidade 1. O desenvolvimento do capitalismo concorrencial estendeu-se até fins do século XIX; até o início do estágio imperialista. No percurso de cerca dos seus cem anos de maturação, o capitalismo tende a consolidar sua dinâmica própria de relações econômicas e sociais, revelando suas principais características: o controle da força de trabalho pelos detentores dos meios de produção e a mercantilização de tudo e de todos; a reificação ou coisificação das relações sociais. A grande indústria provocou, primeiramente, no capitalismo concorrencial, um processo de urbanização sem precedentes nas principais cidades europeias. A referida expropriação dos meios de subsistência dos trabalhadores do campo obriga-os a migrarem às cidades em busca de formas diferenciadas de sobrevivência, isto é, obriga uma grande massa de pessoas do campo a venderem sua força de trabalho no interior das fábricas localizadas nas cidades. NOTA A formação da grande indústria, propiciada pelos avanços da Revolução Industrial do século XVIII, faz as cidades crescerem rapidamente em termos de população. Essa dinâmica faz surgir áreas do conhecimento preocupadas com o caos das cidades, por exemplo, aquelas ligadas ao planejamento urbano e regional. FIGURA 24 - GRANDE INDÚSTRIA E CIDADES EUROPEIAS DO SÉCULO XVIII FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-zWf7Ho-s8CE/UzSJzeJslZI/AAAA AAAAACA/ouckFsuTKP0/s1600/revolucao_industrial.jpg>. Acesso em: 20 jan. 2015. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 132 Em segundo lugar, mas não menos importante, o capitalismo concorrencial possibilitou a criação do mercado mundial. Nesse contexto, os países mais avançados buscam matérias-primas para produção em diversos países do mundo que, depois de transformadas, em larga escala, são devolvidas em forma de mercadorias, criando vínculos econômicos e culturais permanentes com territórios distantes. “Povos, nações e Estados situados fora da Europa, que se mantinham isoladosresistindo com recursos de força, são agora integrados mais pela via da invasão comercial que pela intervenção militar.” (NETTO; BRAZ, 2006, p. 172). É, portanto, no estágio concorrencial do capitalismo que se desenvolve e se consolida um sistema econômico internacional, uma economia mundial, marcada pela desigualdade entre as trocas econômicas. Pois, uma vez que tal integração ocorreu entre países com condições socioeconômicas muito desiguais, suas consequências agravaram e ampliaram ainda mais a desigualdade preexistente. A caracterização concorrencial desse estágio ocorre justamente em função das amplas possibilidades de negócios que surgiram para os pequenos e também para os médios capitalistas entre meados do século XVIII e fins do século XIX. IMPORTANT E Os dois primeiros estágios da evolução do capitalismo são o capitalismo comercial (a partir da ideia de acumulação primitiva) e o capitalismo concorrencial (com a formação de uma economia mundial). Ao final do século XIX, em seus últimos 30 anos, o panorama do capitalismo em sua forma concorrencial estava prestes a sofrer alterações bastante significativas. O gatilho para a transição a um novo estágio de desenvolvimento do sistema capitalista encontrava-se em dois processos que merecem especial atenção: o surgimento dos monopólios e a modificação do papel dos bancos. Uma vez que o modo de produção capitalista encontrava-se organizado e devidamente consolidado, cuja evolução vimos através de suas formas comercial e concorrencial, as tendências “naturais” do capital, a concentração e a centralização encarregaram-se da convergência destes mercados, neste momento já integrados à formação dos monopólios. O impacto do surgimento de diversos e poderosos monopólios em menos de 30 anos (final do século XIX), controlando ramos produtivos inteiros, empregando e comandando milhares de trabalhadores e, o mais importante, influenciando diretamente as economias nacionais, alterou extraordinariamente o desenvolvimento do capitalismo. Apenas dois exemplos dessa alteração: 1) na Alemanha, o grupo Krupp empregava 16 mil pessoas em 1873, 24 mil por volta de 1890, 45 mil por volta de 1900 e quase 70 mil por volta de 1912; 50% da produção de carvão estava, em 1893, nas mãos de um único grupo produtor; 2) nos Estados Unidos, a um único grupo, em 1901, cabiam 60% da produção TÓPICO 1 | O IMPERIALISMO 133 de aço; aí, em 1904, 0,9% do total das empresas industriais respondia por 38% da produção industrial do país (NETTO; BRAZ, 2006, p. 177). NOTA Segundo o dicionário de economia Sandroni (1999), monopólio é uma forma de organização de mercado em que apenas uma empresa domina a oferta de determinado produto ou serviço. Atualmente, a maioria dos países proíbe esta prática, com exceção daqueles monopólios exercidos pelos Estados, como o fornecimento de serviços públicos. Como se percebe, a constituição dos monopólios, sobretudo aqueles relativos à produção industrial, torna-se o elemento-chave da economia capitalista já na entrada do século XX. Contudo, o surgimento dos monopólios industriais ocorre praticamente no mesmo momento em que há uma mudança no papel dos bancos. Aí, os bancos tornaram-se as peças básicas do sistema de crédito. Uma vez que reuniam capitais inativos de capitalistas, além das economias de muitas pessoas, os bancos passaram a controlar um volume monetário muito grande que, por sua vez, era disponibilizado para empréstimos. Devido à grande concorrência intercapitalista, o empréstimo para realização de novos investimentos tornou-se fundamental à sobrevivência no mercado. Desta forma, os bancos passaram a ocupar uma posição estratégica no controle de disponibilidade de créditos para diferentes empresas e ramos industriais. Pois, como passaram a conhecer as estruturas internas de muitas empresas (os defeitos e as virtudes), os bancos poderiam ofertar empréstimos a quem fosse de sua escolha e, ainda, participar somente dos melhores negócios. Como resultado: da condição de meros intermediários de pagamentos, os bancos passaram a associados dos capitalistas industriais; tanto a concentração quanto a centralização ocorrida nas atividades industriais passam a ocorrer também no setor bancário. Isto é, o surgimento dos monopólios industriais é acompanhado pela monopolização do setor bancário. Dois exemplos da monopolização no setor bancário: 1) em 1909, nove grandes bancos de Berlim – e as casas bancárias a eles associadas – controlavam 83% de todo o capital bancário alemão; 2) na França, os três bancos mais importantes, entre 1870 e 1909, decuplicaram [tornaram dez vezes maiores] os capitais alheios sob sua guarda (NETTO; BRAZ, 2006, p. 179). Os bancos, ao comprarem ações de grandes monopólios industriais, convertem-se em coproprietários destas empresas. As empresas também passam a possuir ações dos bancos. Consequentemente, produz-se uma fusão do capital monopolista industrial com o capital monopolista bancário. É justamente esta fusão dos capitais bancários e industriais que origina o capital financeiro, peça fundamental do terceiro estágio do desenvolvimento capitalista: o imperialismo. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 134 IMPORTANT E A formação dos monopólios industriais e o novo papel atribuído aos bancos dão origem ao capital financeiro, cuja dinâmica é essencial ao estágio imperialista do capitalismo. No item a seguir estudar-se-á, mais precisamente, o estágio imperialista, que, como visto nesta introdução, tem origem nas três últimas décadas do século XIX, se estende ao longo de todo o século XX e conta com novas determinações na virada para o século XXI. 2 O ESTÁGIO IMPERIALISTA Como se viu, o estágio imperialista do desenvolvimento do capitalismo inicia-se nos últimos anos do século XIX, período no qual o capital financeiro possui um papel decisivo. Aí, as empresas eram tipicamente monopolistas. Embora, ainda assim, subsistissem empresas pequenas e médias (não monopolistas), estas estavam totalmente subordinadas às pressões dos grandes monopólios. A circulação de mercadorias (o comércio externo) já empreendida pelo desenvolvimento do modo de produção capitalista possibilitou conectar todo o mundo aos centros capitalistas. A troca de mercadorias entre países constitui-se em sua principal vinculação. Contudo, no imperialismo, além da exportação de mercadorias, ganhou relevância a exportação de capitais. A exportação de capitais ocorria tanto por meio de empréstimos, quando “capitalistas concedem créditos, em troca de juros determinados, a governos ou capitalistas de outros países”, quanto como capital produtivo, quando “capitalistas implantam indústrias em outros países.” (NETTO; BRAZ, 2006, p. 181). Por sua vez, o estímulo à exportação de capitais está na procura de máxima lucratividade por parte dos capitalistas (por parte dos juros recebidos ou pelos lucros a serem repartidos). O objetivo das grandes empresas monopolistas é controlar, além dos mercados de seus próprios países, os mercados externos, associando-se a empresas do mesmo ramo localizadas em outros países. Ou seja, dividem, por meio de acordos entre si, as regiões do mundo as quais pretendem subordinar a seus interesses; realizam uma partilha econômica do mundo. No período de constituição do imperialismo, entre 1874 e 1914, cerca de 25 milhões de km² foram apropriados pelos países imperialistas, espaço que representa mais de 50% dos seus próprios territórios (NETTO; BRAZ, 2006). Tais acordos, que não eliminam a concorrência, mas estabelecem limites temporários à concorrência, continuaram presentes na dinâmica do capitalismo ao longo de todo o século XX. TÓPICO 1 | O IMPERIALISMO 135 Vladimir Lênin (1977, p. 641-642 apud NETTO; BRAZ, 2006, p. 180, grifos nossos) resume os traços principais do imperialismo por meio de cinco características: 1) A concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criouos monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada neste capital financeiro, da oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande; 4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitais, que partilham o mundo entre si; e 5) o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes. Quanto à ideia de oligarquia financeira, oriunda da fusão entre o capital bancário e o capital industrial, é preciso dizer que o controle da economia dos países passou a ser concentrado em um pequeno número de grandes capitalistas. E, além do controle interno, houve uma concentração do poder das decisões econômicas também dos países aonde seus grupos econômicos atuavam (devido à formação dos mercados externo). Desta forma, estes poucos capitalistas monopolistas passaram a dispor de uma enorme influência política no interior de seus territórios e no âmbito dos demais países capitalistas do mundo. “Assim, já antes da Primeira Guerra Mundial, o mercado de petróleo foi objeto de acordos entre a Standard Oil (norte-americana) e a Royal Dutch Shell (anglo-holandesa); na indústria eletrotécnica, em 1907, um acordo entre a General Electric/GE (norte- americana) e a Allgemeine Elektrizitägesellschft/AEG (alemã) garantiu à primeira os mercados americanos e à segunda os europeus e parte dos asiáticos.” (NETTO BRAZ, 2006, p. 182) E ainda com relação aos monopólios: Em 1954, nos Estados Unidos, 17 empresas controlavam 94% da produção de aço; apenas um monopólio (Standard Oil) controlava a indústria do petróleo e, em 1958, três grupos (General Motors, Ford e Chrysler) detinham 93% da produção de veículos; na Inglaterra, à mesma época, um grupo (Imperial Chemical Industries) controlava 95% de toda a produção química básica; na França, também na década de cinquenta, quatro grupos monopolistas controlavam 96% da produção de veículos, um grupo, toda a produção de alumínio, e outro, 80% da produção de colorantes químicos (NETTO BRAZ, 2006, p. 180). No entanto, a dinâmica de repartição do mundo em territórios econômicos para a exploração, que é própria do estágio imperialista do desenvolvimento do capitalismo, entra em crise em 1914. Pois, com a falta de territórios livres ao comércio, as novas expansões deram-se por meio do confronto direto entre os países imperialistas, resultando na Primeira Guerra Mundial. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 136 IMPORTANT E O estágio imperialista pode ser entendido por meio de elementos como a formação dos monopólios industriais; a fusão que origina o capital financeiro; a exportação de capitais; a associação internacional de empresas; e a partilha territorial do mundo. A evolução a partir do estágio imperialista operou a mundialização do capitalismo, cuja expansão ocorre para além de qualquer fronteira. Pois, com seu desenvolvimento, a divisão social do trabalho na produção mercantil (ver Figura 26) não se restringiu às unidades produtivas, originando uma divisão internacional do trabalho, na qual cada território nacional procura especializar- se em determinados tipos de produção. Aí é possível perceber países mais desenvolvidos e menos desenvolvidos e as relações de domínio e exploração dos primeiros sob os segundos. FIGURA 25 - DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO EM UMA FÁBRICA DE ALFINETES FONTE: Disponível em: <https://economianostra.files.wordpress.com/2013/05/fc3a1brica-de- alfinetes.png?w=300&h=108>. Acesso em: 20 jan. 2015. A expansão mundial do capitalismo pode ser entendida por meio de sua característica desigual e combinada. Quanto à desigualdade, as sociedades menos desenvolvidas, com traços atrasados, têm a possibilidade, ou são obrigadas, a adotar certos traços avançados, saltando as etapas intermediárias. Tais traços, desiguais, atrasados e avançados, combinam-se sempre de forma original, resultando em uma específica forma de desenvolvimento para cada território (LÖWY, 1998). Na passagem específica sobre a terminologia, na obra História da Revolução Russa (TROTSKY, 1980, p. 25, grifo nosso), se lê: A desigualdade do ritmo, que é a lei mais geral dos processos históricos, evidencia-se com maior vigor e complexidade nos destinos dos países atrasados. Sob o chicote das necessidades externas, a vida retardatária vê-se na contingência de avançar aos saltos. Desta lei universal da TÓPICO 1 | O IMPERIALISMO 137 FIGURA 25 - DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO EM UMA FÁBRICA DE ALFINETES desigualdade dos ritmos decorre outra lei que, por falta de denominação apropriada, chamaremos de lei do desenvolvimento combinado, que significa aproximação das diversas etapas, combinação das fases diferenciadas, amálgama das formas arcaicas com as mais modernas. Contudo, a relevância dos diferentes espaços para o entendimento do desenvolvimento pelo capitalismo mundial é mais bem captada pela ideia de desenvolvimento geográfico desigual. A noção de desenvolvimento geográfico desigual pode ser apreendida como uma construção teórica cuja origem está nos escritos de Vladimir Lênin sobre o processo de desenvolvimento capitalista na Rússia, mas que adquire maior significado pela lei do desenvolvimento desigual e combinado de Leon Trotsky depois da Revolução de 1905 (na Rússia) e ganha, mais recentemente, sua devida espacialização pelos esforços de geógrafos marxistas como Neil Smith e David Harvey. O fôlego no estudo do desenvolvimento desigual e combinado das formações sociais capitalistas que se perdeu após Trotsky ganha ímpeto na intenção de se formular uma teoria do desenvolvimento geográfico desigual, como já foi dito, mais recentemente; atribui-se esses exames a geógrafos do lado da crítica marxista, sobretudo a partir da década de 1980, como Neil Smith (1988) e David Harvey (1982, 2004, 2006), embora o tema tenha sido tratado também por outros estudiosos, colocando a dimensão espacial no centro do debate sobre o desenvolvimento do modo de produção capitalista (THEIS, 2009). FONTE: Disponível em: <http://www.apec.unesc.net/VIII_EEC/sessoes_tematicas/7%20-%20 Eco%20Reg.%20Urbano/PLANEJAMENTO%20REGIONAL%20NO%20BRASIL>. Acesso em: 13 mar. 2015. FIGURA 26 - LEON TROTSKY; NEIL SMITH; DAVID HARVEY FONTE: Disponível em: <http://static.guim.co.uk/sys-images/Guardian/Pix/ pictures/2013/2/28/1362053521131/Leon-Trotsky-006.jpg>; <http://2. bp.blogspot.com/vybyw6SCQY0/UGmh9RnexmI/AAAAAAAAAiI/pGm1t0Tzqo4/ s1600/neil_smith_multipliciudades.jpg> e <http://www.oktober.no/var/ ezwebin_site/storage/images/forfattere/utenlandske/harvey_david/1971-2-nor- NO/harvey_david.jpg>. Acesso em: 21 jan. 2015. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 138 NOTA Na figura acima se vê: Leon Trotsky (1879-1940), intelectual e dirigente político durante a Revolução Russa; Neil Smith (1954-2002); e David Harvey (1935-). Os dois últimos referem-se a geógrafos marxistas responsáveis por pesquisas sobre a desigualdade do sistema capitalista. A diferença fundamental entre a “lei do desenvolvimento desigual e combinado e a teoria do desenvolvimento geográfico desigual” está na ênfase da primeira em explicar porque diferentes e irregulares padrões de desenvolvimento em formações sociais periféricas/atrasadas podem, combinando-se, vivenciar uma revolução política. Já a segunda constitui uma tentativa teórico-metodológica de conceber a natureza geográfica da desigualdade socioeconômica entre regiões e países produzida pelo capitalismo. “A coexistência, simultânea e dinâmica, de espaços economicamente mais e menos pujantes é o resultado do desenvolvimento geográfico desigual”, embora seja, também, condição para o processo de continuada valorização do capital (THEIS; BUTZKE, 2012, p. 104, grifo do autor). Na teoria do desenvolvimento geográfico desigual, dois elementos sãocentrais (HARVEY, 2004): a produção das escalas espaciais e a produção da diferença geográfica. A produção das escalas espaciais diz respeito à produção de uma hierarquia de escalas espaciais que organiza as atividades humanas. [...] não se pode entender o que acontece numa dada escala fora das relações de acomodamento que atravessam a hierarquia de escalas – comportamentos pessoais (por exemplo, dirigir automóveis) produzem (quando agregados) efeitos locais e regionais que culminam em problemas continentais, de, por exemplo, depósitos de gases tóxicos ou aquecimento global (HARVEY, 2004, p. 108). A produção da diferença geográfica é resultante, por um lado, da conformação de um mosaico geográfico ambiental ao redor do mundo e, por outro, pela forma como essas diferenças geográficas são modificadas pelos processos político-econômicos e socioecológicos que ocorrem atualmente. A acumulação do capital é que gera desenvolvimento geográfico e a taxa de lucro é o que dá direção ao desenvolvimento. Em consonância com esse movimento, as áreas com altas taxas de lucro vão se desenvolver e as áreas que apresentam baixas taxas de lucro vão apresentar baixos índices de desenvolvimento (SMITH, 1988). Marx, numa perspectiva mais geográfica, observou que “o capital cresce enormemente num lugar, numa única mão, porque foi, em outros lugares, retirado de muitas mãos.” (SMITH, 1988, p. 212). FONTE: Disponível em: <http://www.apec.unesc.net/VIII_EEC/sessoes_tematicas/7%20-%20 Eco%20Reg.%20Urbano/PLANEJAMENTO%20REGIONAL%20NO%20BRASIL>. Acesso em: 13 mar. 2015. TÓPICO 1 | O IMPERIALISMO 139 É importante compreender o modo pelo qual as diferenças geográficas foram sendo produzidas política e historicamente, pois tais traços e características tornaram-se explícitos justamente no estágio imperialista do desenvolvimento do capitalismo, quando, pelo domínio dos monopólios, constituiu-se como um sistema econômico mundial. [...] o imperialismo levou a cabo e consolidou a vinculação de nações e Estados de todo o planeta, estabelecendo um fluxo de conexões que acabou por configurar uma economia em que todos são interdependentes (sem prejuízo das hierarquias e das relações de dominação e exploração). (NETTO; BRAZ, 2006, p. 187). IMPORTANT E No estágio imperialista a expansão do capitalismo ultrapassou fronteiras nacionais, constituindo um sistema econômico mundial. Nos próximos dois subitens (2.1 e 2.2) tratar-se-á, brevemente, a respeito da fase “clássica” do imperialismo, entre 1890 e 1940, e da fase conhecida como “anos dourados”, do fim da Segunda Guerra Mundial até o início da década de 1970. 2.1 A FASE “CLÁSSICA” DO IMPERIALISMO A característica fundamental existente durante todo o estágio imperialista do capitalismo se refere à formação e desenvolvimento dos monopólios, cujas dinâmicas de acumulação e crescimento econômico resultaram em constantes crises, como as de 1891, 1900, 1907, 1913, 1921, 1929 e 1937-1938. A crise de 1929 foi a mais “dolorosa” delas. Por esta perspectiva, pode-se afirmar que o desenvolvimento do capitalismo sob as forças de mercado obrigou os capitalistas dos grandes monopólios pensarem em alternativas ao cenário de recessão econômica, resultando em políticas implementadas no segundo estágio do imperialismo (NETTO; BRAZ, 2006). A fase “clássica”, portanto, refere-se ao momento de formação do imperialismo, período que foi visto até aqui. Contudo, cabe destacar que é nesta fase em que se percebe a necessidade de intervenção por parte do Estado para efetuar os ajustes necessários ao funcionamento da economia capitalista. No liberalismo econômico, o Estado procurava garantir as condições externas para a produção e a acumulação capitalista, mas outra modalidade de participação do Estado fazia-se necessária: UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 140 [...] uma intervenção que envolvesse as condições gerais de produção e da acumulação. Essa era uma exigência estritamente econômica; mas o contexto sociopolítico em que ela se punha condicionou largamente a modalidade em que foi implementada (NETTO; BRAZ, 2006, p. 193, grifo do autor). IMPORTANT E A fase “clássica” se refere ao período de formação e desenvolvimento do próprio estágio imperialista. Neste período, as forças do mercado são predominantes para os ajustes da economia. Um suporte teórico para a intervenção estatal fazia-se necessário, uma vez que esta perspectiva contrariava o pensamento liberal-econômico dominante até final da década de 1920. O principal autor responsável pela legitimação do intervencionismo estatal foi John Maynard Keynes, a partir da obra “Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro”, de 1936, visto com mais detalhes na Unidade 2 deste Caderno de Estudos. O capitalismo não dispunha espontaneamente da faculdade de utilizar inteiramente os recursos econômicos. Isto é, os recursos precisavam ser plenamente empregados para evitar crises e desemprego e, para isso, era preciso que o Estado atuasse como regulador dos investimentos privados por meio do ajuste de seus próprios gastos, os gastos do governo. “Keynes atribuía papel central ao orçamento público enquanto induto de investimento.” (NETTO; BRAZ, 2006, p. 195). O próximo estágio do imperialismo recebe o nome de “anos dourados” justamente devido aos bons resultados econômicos alcançados pelas ideias e políticas keynesianas implementadas a partir da década de 1930. 2.2 OS “ANOS DOURADOS” DA ECONOMIA IMPERIALISTA Entre o fim da Segunda Guerra Mundial (1945) até início da década de 1970, o imperialismo viveu uma fase única em todo seu desenvolvimento. Esta fase pode ser denominada por “anos dourados” ou as “três décadas gloriosas”. Pois, durante quase 30 anos, o sistema capitalista operou com resultados econômicos nunca antes alcançados, os quais não se repetiriam mais. As frequentes crises da fase “clássica” não foram totalmente suprimidas, pois foram observadas crises em 1949, 1953, 1958, 1961 e 1970, mas seus impactos foram relativamente menores devido à intervenção do Estado na economia (sob inspiração de Keynes). Os dados do Quadro 7, a seguir, revelam as altas taxas de crescimento alcançadas na segunda fase do imperialismo nas principais economias do mundo. TÓPICO 1 | O IMPERIALISMO 141 2.2 OS “ANOS DOURADOS” DA ECONOMIA IMPERIALISTA QUADRO 8 - SITUAÇÃO ECONÔMICA MUNDIAL EM PERÍODOS SELECIONADOS Período Indicadores econômicos 1950 a 1970 Produção industrial nos países capitalistas aumentou 2,8 vezes 1940 a 1966 Produção industrial norte-americana cresceu 5,0% 1947 a 1966 Produção industrial japonesa cresceu 9,6% 1947 a 1966 Produção industrial da Comunidade Europeia cresceu 8,9% 1950 a 1973 Produto Interno Bruto dos países capitalistas aumentou, anualmente, 4,9% 1960 a 1968 Crescimento da economia norte-americana foi de 4,4% 1960 a 1968 Crescimento da economia japonesa foi de 10,4% 1960 a 1968 Crescimento da economia alemã (ocidental) foi de 4,1% 1960 a 1968 Crescimento da economia francesa foi de 5,4% 1960 a 1968 Crescimento da economia inglesa foi de 3,8% Década de 1960 Estados Unidos, Japão, Alemanha (ocidental), França, Grã-Bretanha e Itália registram forte crescimento econômico e um alto nível da taxa de lucro. FONTE: Netto; Braz (2006) IMPORTANT E Nos “anos dourados” do imperialismo, embora tenham existido crises, observaram- se ótimos resultados econômicos em todos os países capitalistas do mundo. Nos marcos deste elevado desempenho econômico, contrapõem-se críticas e constantes questionamentos ao capitalismo à ordem burguesa que vigorava predominantemente em diversos países. Um primeiro elemento refere-se à prosperidade e poderio adquirido pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Seu modelo de economia planificada uniu países libertos da ocupação nazista, rompeu com o sistema capitalista e iniciou, em 1922, uma experiência socialista. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 142 IMPORTANTE A utilização do planejamento (ou planificação) de forma ampla pelos países surge na União Soviética como um plano quinquenal (cinco anos) para toda a economia. No período da revolução russa, especialmente entre 1917 e 1930, ainda não existiam experiências de planejamento aplicadas no mundo: antes da Primeira Guerra Mundial a União Soviética foi o único território a adotar o planejamento de forma sistemática. Por meio desta perspectiva acreditava-se que a economia deveria ser conduzida de forma centralizada pelo planejamento. O que se constata é que no início da década de 1920 já se iniciava um processo de organização centralizada na União Soviética: o número de funcionários do Estado passou de pouco mais de 100.000 para crescentes 5.880.000. Entre 1928 e 1933, vigora o Primeiro Plano Quinquenal global soviético (aprovado em maio de 1929, pelo V Congresso dos Sovietes da URSS), cujo processo abarca todo o sistema econômico, mas exclui formalmente os mecanismos usuais de mercado e formação de preços, esmiuçando o processo produtivo em função de metas nacionais estabelecidas pelo Estado visando uma rápida industrialização. Entretanto, “o plano visava não apenas o desenvolvimento econômico por si mesmo, mas, também o melhoramento do nível de vida da população” (MIGLIOLI, 1997, p. 51); tratava-se de um conjunto integrado de objetivos, com metas para todos os setores da economia, para a força de trabalho, as finanças e o desenvolvimento cultural. O Comitê Central de Planejamento (GOSPLAN) tinha conhecimento de todos os produtos fabricados, bem como os custos dos insumos destes produtos para cada setor da economia soviética, podendo controlar e determinar o grau de crescimento da renda e as quantidades das produções setoriais. Por meio de planos elaborados com base nas informações estatísticas sobre a economia, as metas passavam para escalões hierárquicos inferiores e regionais e chegavam às empresas, as quais requisitam, primeiramente, os materiais necessários, para, num segundo momento, o plano voltar ao GOSPLAN para realização do balanceamento detalhado do nível das produções (LIRA, 2006). Outro questionamento ao desenvolvimento do capitalismo originava-se na Europa Nórdica e Ocidental, a partir do movimento operário e sindical e dos partidos ligados aos trabalhadores, os quais ganharam grande legitimidade sob a população, impondo limites e restrições à organização dos grandes monopólios capitalistas. É nesta segunda fase do imperialismo, entre derrotados e vitoriosos da Segunda Guerra Mundial, que o eixo político-militar e econômico transferiu-se da Europa para os Estados Unidos. Desta forma, a política norte-americana procurou se impor às outras potências imperialistas (tanto vitoriosas quanto derrotadas: França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Japão) como um país imperialista com liderança mundial. Além do crescimento dos indicadores econômicos, durante a segunda fase do imperialismo a economia sofreu outras alterações importantes. A primeira mudança foi sobre a exportação de capitais, vista anteriormente. Tais exportações não decrescem na fase dos anos dourados, mas seu fluxo é alterado, isto é, na fase clássica do imperialismo, as exportações de capitais dirigiam-se dos países centrais para os periféricos; no segundo estágio do imperialismo, a exportação de capitais tem origem e destino final nos países centrais, resultando num giro de grande TÓPICO 1 | O IMPERIALISMO 143 quantidade de capitais apenas entre os principais países imperialistas. O fluxo de capitais aos países periféricos restringiu-se a empréstimos de Estado (central) para Estado (periférico) (NETTO; BRAZ, 2006). IMPORTANT E Na segunda fase do imperialismo, à diferença da fase “clássica”, as exportações de capital tiveram maior volume justamente no fluxo entre os próprios países capitalistas. Uma segunda mudança no capitalismo durante a fase imperialista nos “anos dourados”, e que recebeu maior atenção de estudiosos, diz respeito à organização interna do trabalho industrial. O fato é que o modo de produção taylorista-fordista (de Frederick Taylor e Henry Ford), em desenvolvimento já na fase “clássica”, ganha relevância e se torna o padrão mundial para toda a indústria. Por meio destas técnicas específicas de produção foi possível implementar a produção em massa de mercadorias, ou seja, a produção em larga escala de diversas modalidades de produtos. No taylorismo-fordismo, iniciado na indústria automobilística, priorizava- se a racionalização da produção, reduzindo o tempo por meio do aumento do ritmo de trabalho. Tal racionalização foi possível pelo parcelamento e fragmentação das tarefas produtivas, portanto, o trabalho, realizado de forma extensiva (longas jornadas de trabalho), também passou a ser realizado de forma intensiva. O ritmo da intensidade pelo qual o trabalho realizava-se era ditado pela velocidade da esteira, a mesma esteira que interligava as diferentes e fragmentadas (individualizadas) etapas e de produção. Ademais, o padrão taylorista-fordista baseado na produção em massa de mercadorias, que deu origem à era do consumo de massa (que também será visto no Tópico 2), também foi ampliado à questão cultural, estendendo o estilo de vida norte-americano ou o american way of life para o restante do mundo, especialmente a partir da década de 1950. O estilo de vida hegemônico que procurou-se universalizar dizia respeito justamente ao mercado de consumo de massa, com ênfase ao automóvel, aos eletrodomésticos e à dominação dos meios de comunicação e expressão (imprensa, rádio, cinema, discos, televisão). UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 144 FIGURA 27 - ESTILO DE VIDA NORTE-AMERICANO NA DÉCADA DE 1950 FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/-itSZZUJCkxg/US090z0itPI/ AAAAAAAAALk/Xx3RDqNaSQE/s1600/hhousewife.jpg>. Acesso em: 21 jan. 2015. Por fim, cabe destacar outras três peculiaridades do imperialismo nos “anos dourados”, os quais vão se consolidar e aprofundar ao longo desse estágio: o crescimento do crédito ao consumidor; a inflação; e a intensificação do setor de serviços. Com relação ao aumento das vendas a crédito, apenas é importante destacar que esta tendência foi institucionalizada a partir da década de 1940 e garantiu uma ampliação das possibilidades de consumo de diversas mercadorias, desde roupas até móveis, equipamentos eletrodomésticos e automóveis. Pois, uma vez implementado o processo de produção em larga escala de bens, era preciso que as mercadorias encontrassem seus compradores no mercado de trocas de bens e serviços. Já o fenômeno da inflação torna-se frequente durante os “anos dourados”, penalizando os trabalhadores assalariados, uma vez que o poder aquisitivo de seus salários é depreciado, ou seja, o dinheiro recebido pelo trabalho passa a valer menos, pois aquele aumento à concessão de créditos também resulta em maiores índices inflacionários. Mas, embora penalize os assalariados em geral, a inflação passa a ser esperada pelo capital monopolista, uma vez que se torna possível elevar o preço das mercadorias constantemente. Quanto ao setor de serviços, os dados mostram que houve um enorme crescimento. Vejamos o motivo. No setor de serviços incluem-se atividades de empresas financeiras e de seguros, comerciais, publicitárias, médias, educacionais, turísticas. Trata-se do trabalho improdutivo, que passou a empregar uma grande massa de trabalhadores durante o segundo estágio do imperialismo. TÓPICO 1 | O IMPERIALISMO 145 FIGURA 27 - ESTILO DE VIDA NORTE-AMERICANO NA DÉCADA DE 1950 Tais trabalhadores possuem muitas diferenças entre si, desde trabalhadores sem nenhuma qualificação até técnicos e universitários. O Quadro 8 dá uma ideia do crescimento da participação da força de trabalho ocupada no setor de serviços. QUADRO 9 - CRESCIMENTO DA FORÇA DE TRABALHO DO SETOR DE SERVIÇOS EM PAÍSES SELECIONADOS Período Indicadores da força de trabalho empregada 1910 e 1970Passou de 36,8% para 62,1% nos Estados Unidos 1907 e 1970 Passou de 22,2% para 41,9% na Alemanha 1911 e 1966 Passou de 39,7% para 50,3% na Grã-Bretanha 1911 e 1970 Passou de 26,0% para 47,8% na França 1920 e 1970 Passou de 16,5% para 38,0% no Brasil FONTE: Netto; Braz (2006) O aumento da participação do setor de serviços na economia constitui um dos fenômenos típicos do capitalismo e sua dinâmica por meio dos monopólios. Entretanto, esta peculiaridade também será perceptível na atual fase do imperialismo, conhecida por capitalismo contemporâneo (estágio que será explorado no Tópico 2). Este fenômeno diz respeito “à tendência a mercantilizar todas as atividades humanas, submetendo-as à lógica do capital; com efeito, mediante os “serviços”, tomam caráter de mercadoria o trato da educação, da saúde, da cultura, do lazer e os cuidados pessoais (a enfermos, a idosos etc.).” (NETTO; BRAZ, 2006, p. 202, grifo do autor). NOTA A “mercantilização” de tudo e de todos também é chamada de reificação (que pode ser entendida como coisificação), a qual implica em transformar as relações sociais em relações de troca entre mercadorias. A intervenção estatal nos “anos dourados”. ESTUDOS FU TUROS No Tópico 2 trataremos o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, também conhecido como o período da globalização. 146 Neste tópico você aprendeu que: • O imperialismo diz respeito às importantes transformações experimentadas durante o desenvolvimento do sistema capitalista a partir dos últimos trinta anos do século XIX, estágio que se estende ao longo de todo o século XX, e conta com novas determinações na virada para o século XXI. • As fases do capitalismo, que antecedem o imperialismo, são as do capitalismo comercial e do concorrencial. • A gênese do imperialismo está no surgimento dos monopólios e na modificação do papel dos bancos. • Os monopólios referem-se à concentração de poucas empresas que passam a controlar setores inteiros de produção. • O novo papel dos bancos no imperialismo é o de associarem-se aos monopólios industriais. • A exportação de capitais ganha relevância no estágio imperialista e ocorre pelos empréstimos e pelo investimento em capitais produtivos. • No imperialismo os monopólios repartem o mundo entre si conforme os interesses de investimento. • O imperialismo pode ser dividido por uma etapa “clássica”, outra dos “anos dourados” e, por fim, pelo capitalismo contemporâneo. RESUMO DO TÓPICO 1 147 Caro(a) acadêmico(a)! Para fixar melhor o conteúdo estudado, vamos exercitar um pouco. Leia as questões a seguir e responda-as em seu Caderno de Estudos. Bom trabalho! 1 Em quais estágios podemos separar a evolução do capitalismo antes da fase imperialista? Qual a principal característica de cada um deles? 2 Quando e em que contexto se organiza o estágio imperialista do capitalismo? 3 Uma característica central na formação do imperialismo está no desempenho do capital financeiro. Explique: 4 O que significa exportação de capitais, cuja dinâmica ganha relevância com o imperialismo? Quais as formas de exportação de capitais? 5 De que forma as empresas multinacionais realizam a partilha do mundo em regiões de interesse? 6 Quais são as três principais fases do estágio imperialista? Em quais períodos predominaram? 7 Marque V nas questões consideradas verdadeiras e F para aquelas consideradas falsas: ( ) A fusão entre monopólios capitalistas e bancários não refere-se ao específico estágio imperialista do capitalismo, mas ganha importância a exportação de capitais. ( ) Os objetivos das empresas multinacionais convergem à partilha do mundo em regiões de interesse por meio de acordos que não eliminam, necessariamente, a concorrência entre empresas. ( ) A mundialização do capitalismo, característica do imperialismo, induziu a uma divisão internacional do trabalho, resultando em nações especializando-se em determinados tipos de produção. ( ) Nos “anos dourados” do imperialismo diversos países entram numa profunda crise econômica devido ao baixo consumo da população. AUTOATIVIDADE 148 149 TÓPICO 2 OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO É possível distinguir três conformações mais específicas do desenvolvimento do capitalismo: uma etapa liberal, ao longo do século XIX; o capitalismo “organizado”, entre 1930 e 1980; e uma última etapa relativa ao período mais recente, cujos traços são demarcados pelos processos de globalização. A primeira etapa do desenvolvimento do capitalismo, o liberalismo econômico, contava com o Estado para garantir ampla e livre concorrência entre os agentes econômicos no mercado e um regime específico do mercado de trabalho. NOTA O mercado onde operam os agentes econômicos é o mercado de bens e serviços, o qual determina o nível de produção e de preços em um país. Por sua vez, no mercado de trabalho são definidos a taxa de salários e o nível geral de emprego. Ou seja, até início do século XX, os donos das empresas ou os detentores dos meios de produção conduziam o mercado de trabalho de forma livre e sem obstáculos regulatórios por parte do Estado, implicando, por exemplo, na proibição dos sindicatos de trabalhadores, uma vez que sua atuação contrariava a ideia da livre concorrência e do contrato diretamente entre os indivíduos (DOMINGUES, 1999). Ora, a barganha por aumentos salariais é mais eficaz quando os trabalhadores unem-se por meio de sindicatos, daí advém a necessidade de os contratos entre trabalhadores e empregadores serem realizados individualmente e não de forma coletiva. IMPORTANT E Liberalismo econômico: crença na autorregulação do mercado e defesa de um regime rígido do mercado de trabalho. 150 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO As constantes crises sofridas pelo sistema capitalista e a crescente organização das classes operárias entre o final do século XIX e o início do século XX acumularam certa desconfiança na capacidade do mercado regular-se de forma independente. A Grande Depressão de 1929, conhecida como Crise de 1929 [Figura 29], consolida uma nova etapa do desenvolvimento do capitalismo, cuja principal característica está na ampliação da intervenção direta do Estado na economia. NOTA A depressão econômica que iniciou com a queda drástica da Bolsa de Valores de Nova York em outubro de 1929 estendeu-se ao longo da década de 1930, causando redução dos níveis de produção e altas taxas de desemprego em diversos países. Nesta segunda etapa do desenvolvimento do capitalismo forma-se o chamado Estado de Bem-Estar Social (examinado com maior especificidade na Unidade 2), cuja dinâmica trouxe um conjunto de garantias sociais aos trabalhadores. Neste momento, diversas políticas a partir do Estado são formuladas e implementadas no sentido de orientar os rumos do desenvolvimento dali para a frente. Além disso, cabe dizer: neste momento a classe trabalhadora encontrava- se com razoável poder de compra, cujo terreno foi excelente para a implantação do sistema de produção fordista na maioria dos países capitalistas do mundo, iniciando, assim, a era do consumo de massa (DOMINGUES, 1999). NOTA O fordismo ou o sistema de produção fordista refere-se à produção em massa (em série) de produtos. Esta organização da produção no capitalismo foi idealizada por Henry Ford (fundador da Empresa Ford) em 1913, com o intuito de atender ao consumo de massa. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 151 FIGURA 28 - PRODUÇÃO EM MASSA DO MODELO A FONTE: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ford_Motor_ Company_assembly_line.jpg>. Acesso em: 22 jan. 2015. Este conjunto de fatores específicos do modo de produção capitalista permitiu que, entre 1930 e 1980, a acumulação de capital fosse constantemente crescente e, por isso, podemos caracterizar esta etapa como um período mais “organizado” do desenvolvimento do capitalismo, na qual o Estado exerce papel fundamental. IMPORTANT E A partir da década de1930 as ideias do liberalismo econômico dão lugar à intervenção direta do Estado nas relações econômicas e sociais, originando o Estado de Bem- Estar Social e a ascensão do fordismo. Na década de 1980 o cenário do desenvolvimento do capitalismo sofre certa inversão em direção ao esgotamento. Altos níveis de inflação dos preços em diversos países do mundo, não freados por meio da intervenção do Estado, abrem caminho às políticas conhecidas como neoliberais, as quais serão vistas nos itens a seguir. Ademais, a produção em massa, principal característica do sistema de produção fordista predominante até então, também entrou em crise: os produtos do tipo standard (em série) perdem espaço frente à diferenciação dos produtos e dos processos industriais mundiais. 152 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO Esta terceira e mais recente etapa do desenvolvimento do capitalismo carrega a ideologia neoliberal como forma de orientar politicamente os territórios, mas é caracterizada, também, por fenômenos como a terceirização, cujos determinantes são específicos do processo de globalização. Nesta etapa há uma ampliação dos fluxos econômicos para o nível mundial, tanto por meio das atividades industriais e comerciais quanto pelas financeiras, estas últimas possuem função primordial na dinâmica da globalização. Outro aspecto é a diluição das fronteiras nacionais num cenário global de comércio com a estruturação de blocos supranacionais, tais como a União Europeia, NAFTA (que compreende México, Estados Unidos e Canadá), e outros blocos em implantação, bem como a Aliança de Livre Comércio das Américas (ALCA) e a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA). IMPORTANT E A terceira e mais recente etapa do desenvolvimento do capitalismo intensifica-se na década de 1980 e é conhecida como globalização. Contudo, é importante perceber que os processos de produção pós-fordistas possuem caráter plural no âmbito da organização econômica. Em países do centro do capitalismo as características são relativas à alta tecnologia e flexibilização das relações de trabalho (regime flexível do mercado de trabalho); nos países periféricos, subsistem formas de produção avançadas e atrasadas com exploração intensiva de força de trabalho (regime rígido do mercado de trabalho). Neste cenário o Estado tem, novamente, um importante e revalorizado papel: “O Estado é fundamental para todas as novas articulações do capitalismo contemporâneo, dependendo dele o próprio processo de ‘desregulamentação’ (e, parcialmente, nova ‘regulação’) do mercado” (DOMINGUES, 1999, p. 64-65). 2 REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA A fase dos “anos dourados” do capitalismo, relativa ao período entre 1930 e 1980, com resultados de crescimento econômico e taxas de lucro compensadoras, chega ao fim. As ondas longas expansivas são substituídas por ondas longas recessivas. A taxa de lucro começou a declinar rapidamente, conforme mostra a Tabela 1, a seguir. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 153 2 REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA TABELA 1 - TAXAS DE LUCRO EM PAÍSES SELECIONADOS País Taxa de lucro (%)1968 1973 Alemanha Ocidental 16,3 14,2 Grã-Bretanha 11,9 11,2 Itália 14,2 12,1 Estados Unidos 18,2 17,1 Japão 26,2 20,3 FONTE: Netto; Braz (2006, p. 213). O crescimento econômico também se reduziu: nenhum país capitalista central conseguiu manter as altas taxas observadas no período anterior (entre 1950 e 1970). Ademais, dois fatores anunciaram o esgotamento dos anos gloriosos do desenvolvimento do capitalismo. Primeiro, o colapso do ordenamento financeiro mundial, pela decisão norte-americana de romper com o padrão-ouro a partir do fim do acordo de Bretton Woods; e, o segundo fator, refere-se ao choque do petróleo, com a alta dos preços determinada pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). NOTA As conferências de Bretton Woods estabeleceram, em julho de 1944, as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados do mundo, convencionando o ouro como lastro para o comércio internacional. Em face desta inversão da dinâmica do desenvolvimento do capitalismo mundial (que passou de uma condição de prosperidade para uma de prejuízos econômicos), os grandes monopólios passaram a formular e implementar um conjunto articulado de respostas para a profundidade da crise que se passava, o qual transformou largamente a cena mundial: mudanças econômicas, sociais, políticas e culturais ocorreram e estão ocorrendo num ritmo extremamente veloz. Estas respostas podem ser descritas como a restauração do capital, sintetizadas como uma estratégia articulada sob o tripé: reestruturação produtiva, ideologia neoliberal, financeirização do capital. Todas as transformações implementadas pelos grandes monopólios capitalistas tiveram como objetivo reverter a queda da taxa de lucro. 154 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO IMPORTANT E O processo de restauração do capital a partir da década de 1980 pode ser descrito pelo tripé formado por (1) reestruturação produtiva, (2) a ideologia neoliberal e (3) a financeirização do capital. Um primeiro fator relativo à reestruturação produtiva refere-se ao violento ataque ao movimento sindical e diretamente aos sindicatos de trabalhadores de diversos setores e de diversos países do mundo. Cabe lembrar, a formação dos sindicatos de trabalhadores foi um dos suportes do sistema de regulação social conduzido pelo Estado de Bem-Estar Social. Desta forma, os capitalistas atribuíam às conquistas do movimento sindical a responsabilidade pelos gastos públicos com as garantias sociais, bem como atribuíam a queda das taxas de lucro às suas demandas por aumentos salariais. FIGURA 29 - MOVIMENTO SINDICAL DE TRABALHADORES NO FINAL DA DÉCADA DE 1970 FONTE: Disponível em: <http://www.spbancarios.com.br/Uploads/ckfinder/ userfiles/images/capa_pagina1.jpg>. Acesso em: 22 jan. 2015. Ao fim da década de 1970, esses ataques ocorrem por meio de medidas legais restritivas, as quais reduzem o poder de intervenção do movimento sindical de trabalhadores; nos anos oitenta, o assalto do patronato (classe dos patrões) toma formas claramente repressivas, os exemplos são as ações dos governos Thatcher, da Inglaterra, e Reagan, nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, começam a ser introduzidas alterações nos circuitos produtivos do mundo inteiro, que deslocam aquele padrão das relações de trabalho predominante nos “anos dourados”. Isto é, a modalidade de acumulação TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 155 denominada por rígida, própria do período do modelo fordista de produção, começa a ser substituída pela modalidade de acumulação flexível. IMPORTANT E Na reestruturação produtiva esgota-se a modalidade rígida das relações de trabalho, a qual passa a ser substituída pelo regime de acumulação flexível. A acumulação flexível se refere à flexibilidade dos processos de trabalho e de produção, dos mercados de trabalho, dos produtos e dos padrões de consumo. Neste momento, passam a formarem-se setores inteiramente novos, fornecimento de serviços financeiros novos, mercados novos e, ainda, intensifica-se a inovação comercial, tecnológica e organizacional. Um exemplo é o método “just in time” de produção, no qual os produtos somente são fabricados no momento exato em que forem necessários, ou quando já forem vendidos. Da mesma forma, ocorre com as matérias-primas necessárias para a produção, as quais apenas são adquiridas no momento em que forem ser utilizadas, reduzindo ao mínimo os estoques de matérias-primas e de produtos. Este método pôde ser difundido amplamente pelo mundo devido ao avanço das tecnologias da informação, que permitiram comunicação rápida e eficiente de fornecedores. A reestruturação produtiva opera na base da acumulação flexível. Pois, a produção “rígida” é substituída por um tipo diferenciado de produção. Nesta nova modalidade, a produção em massa, já referida anteriormente,tem a característica de produção em larga escala mantida, mas procura romper com a “standartização” (produtos iguais e padronizados). Desta forma, passa a destinar-se a mercados específicos, buscando atender variabilidades culturais e regionais, bem como as especificidades de cada grupo de consumidores. Por outro lado, a reestruturação produtiva resultou numa dinâmica de desconcentração industrial, cuja principal característica está na desterritorialização da produção. Neste processo, unidades produtivas (completas ou desmembradas) são deslocadas para novos espaços territoriais, especialmente países subdesenvolvidos e periféricos, nos quais a exploração da força de trabalho pode ser mais intensa, seja pelo baixo preço da mão de obra, seja pela ausência de legislação protetora do trabalho e de tradições de luta sindical. Este movimento de desterritorialização da produção permite o controle da produção por um grande monopólio, o qual, na verdade, não produz um só produto. Exemplo disto é a empresa Nike. Em 1996, não era produzido nem mesmo um cadarço na sede da empresa, mesmo assim, empregava 9.000 funcionários nos setores de organização estratégica, desenvolvimento de produtos e subcontratação 156 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO de serviços. Entretanto, juntas, as empresas que terceirizavam suas atividades de produção, espalhadas pelo mundo, somavam 75 mil empregados. (NETTO BRAZ, 2006). IMPORTANT E Na reestruturação produtiva ocorre uma intensa desterritorialização da produção por meio da terceirização das etapas do processo de produção das grandes empresas, para outras menores, situadas em diversos países do mundo, na maioria das vezes, países mais pobres. Um elemento essencial à reestruturação produtiva se trata de uma intensiva incorporação na produção de tecnologias resultantes de avanços técnico-científicos. Assim, o desenvolvimento da produção de um modo geral ocorre de tal forma que reduz enormemente a demanda por força de trabalho. Ou seja, ocorre um aumento na produção, mas uma redução no nível de pessoas empregadas, uma vez que há uma substituição de homens e mulheres por máquinas no momento da fabricação dos produtos. FIGURA 30 - INCORPORAÇÃO DE TECNOLOGIAS NO PROCESSO DE PRODUÇÃO FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/cfeWxhTuWR0/VJm8zuG2wJI/ AAAAAAAACg8/AXBOzgi45lY/s1600/MB-robot.jpg>. Acesso em: 22 jan. 2015. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 157 A introdução da microeletrônica e dos recursos informáticos e robóticos na esfera da produção vem alterando os processos de trabalho e afetando fortemente o contingente dos trabalhadores ligados à produção. Talvez esta dinâmica possa ser vista até como uma terceira Revolução Industrial ou uma Revolução Informacional. O fato é que a base produtiva vem se deslocando rapidamente dos suportes eletromecânicos para os eletroeletrônicos (NETTO; BRAZ, 2006). Quanto às implicações resultantes desta específica organização do modo de produção capitalista ao trabalhador, uma delas se refere às exigências que são postas à força de trabalho. Pois, devido a estas alterações, se requer aos trabalhadores envolvidos na produção uma qualificação mais alta e, ao mesmo tempo, a capacidade para participar de atividades múltiplas. Isto é, os trabalhadores devem ser qualificados e polivalentes para estarem inclusos nos empregos ofertados sob este novo cenário proporcionado pela reestruturação produtiva. Contudo, ainda assim, cabe observar certo paradoxo: enquanto os processos de produção passam a exigir certa mão de obra altamente qualificada, noutros setores muitas atividades são desqualificadas, de forma a empregar trabalhadores substituíveis a qualquer momento. Portanto, de um lado, se encontram trabalhadores extremamente qualificados, mas com pouca segurança no emprego, os quais formam um pequeno núcleo; de outro lado, uma grande parcela de pessoas trabalhando em atividades precarizadas, com alta rotatividade (isto é, também com pouca segurança no emprego), salários baixos e, normalmente, em empresas terceirizadas vinculadas àquelas do pequeno núcleo qualificado (NETTO; BRAZ, 2006). DICAS Um movimento de reação a este processo ocorreu recentemente na Argentina, por meio da recuperação de empresas que precisaram ser fechadas. O videodocumentário “Ocupar, resistir, produzir”, produzido pelo Canal Futura, está disponível em: <https://www. youtube.com/watch?v=U6qh_PT_kuk> Outra implicação ao conjunto dos trabalhadores relaciona-se à gestão da força de trabalho. Sem um regime rígido das relações de trabalho, a organização da produção também sofre alterações: o controle da força de trabalho pelo sistema capitalista ocorre por meio da “participação” e do “envolvimento” dos funcionários, os quais, agora, tornam-se “colaboradores”, “cooperados” ou “associados”, valorizando a comunicação e a redução de hierarquias mediante a utilização de “equipes de trabalho” que buscam constantemente atingir metas e resultados. Em outras palavras, esta configuração reformulada do processo produtivo busca quebrar a consciência de classe dos trabalhadores, utilizando-se de um discurso “de que a empresa é sua casa” e vinculando diretamente o êxito pessoal com o da empresa, para garantir que o trabalhador não se sinta explorado. 158 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO A Figura 32, a seguir, procura mostrar as possíveis alterações nas relações de trabalho, isto é, a relação entre empregados e empregadores. No eixo vertical estão as possibilidades externas do regime de trabalho e do contrato salarial, do mais “rígido” para o mais “flexível”. No eixo horizontal, as variações internas, ou seja, as formas de organização e cooperação no interior das firmas: do “controle direto” para uma “autonomia responsável” ou “participação”. No interior deste cenário encontram-se diferentes formas das relações do mercado de trabalho, tal como a brasileira, que se encontra na condição de um fordismo periférico: com maior flexibilidade do contrato salarial, mas com controle direto do mercado interno de trabalho (LIPIETZ, 1991). FIGURA 31 - RELAÇÕES DO MERCADO DE TRABALHO FONTE: Adaptado de Lipietz (1991) O que se passa é que esta nova relação entre empregadores e empregados no mundo do trabalho, a flexibilização, resultou em ônus que recaíram fortemente sobre os trabalhadores, como a redução salarial (entre 1973 e 1992, o preço da hora de trabalho daqueles envolvidos com a produção, nos Estados Unidos, caiu de US$ 10,37 para US$ 8,80) e a precarização dos empregos. Formas precárias são observadas quando, por exemplo, passam a existir poucas garantias de continuidade no emprego e pela implementação do emprego em tempo parcial (também frequentemente sem garantias) (NETTO; BRAZ, 2006). A Tabela 2, a seguir, revela alguns dados estatísticos com relação ao desemprego em países selecionados. Uma das informações relevantes refere que entre 1991 e 2000 a maioria dos indicadores revela aumento do desemprego, seja em países mais ricos ou nos mais pobres. Nos anos seguintes é possível perceber os países que foram mais ou menos atingidos pela crise financeira de 2008, impactando no aumento do nível de desemprego. Destaque para a Espanha, com maior índice de desemprego em 2013, 26,6%. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 159 FIGURA 31 - RELAÇÕES DO MERCADO DE TRABALHO TABELA 2 - TAXA DE DESEMPREGO EM PAÍSES SELECIONADOS (% DO TOTAL DA FORÇA DE TRABALHO) País / Região 1991 1995 2000 2005 2010 2011 2012 2013 Argentina 5,8 18,8 15,0 10,6 7,7 7,2 7,2 7,5 Austrália 9,6 8,5 6,3 5,0 5,2 5,1 5,2 5,7 Bolívia 2,9 5,0 4,8 5,4 3,3 2,7 2,7 2,6 Brasil 6,9 6,0 9,5 9,3 7,9 6,7 6,1 5,9 Canadá 10,3 9,5 6,8 6,7 8,0 7,4 7,2 7,1 Chile 8,2 7,3 9,2 8,0 8,1 7,1 6,4 6,0 China 4,9 4,5 4,5 4,1 4,2 4,3 4,5 4,6 Alemanha 5,6 8,1 7,7 11,1 7,1 5,9 5,4 5,3 Leste Asiático & Pacífico 4,7 4,2 4,7 4,7 4,4 4,3 4,4 4,5 Europa & Ásia Central 9,4 10,0 9,7 8,8 9,3 9,0 9,3 9,6Espanha 16,4 23,1 14,2 9,3 20,2 21,7 25,2 26,6 União Europeia 8,8 10,8 9,2 8,9 9,6 9,6 10,5 10,9 França 9,1 11,8 10,2 8,9 9,3 9,2 9,9 10,4 Reino Unido 8,5 8,7 5,6 4,8 7,9 7,8 8,0 7,5 Japão 2,1 3,2 4,8 4,4 5,0 4,5 4,3 4,0 América Latina & Caribe 6,9 8,1 8,8 8,0 7,3 6,7 6,3 6,2 Federação Russa 12,2 9,4 10,6 7,1 7,3 6,5 5,5 5,6 Uruguai 7,6 10,4 10,3 9,0 7,2 6,3 6,5 6,6 Estados Unidos 6,9 5,7 4,1 5,2 9,7 9,0 8,2 7,4 FONTE: Banco Mundial DICAS Assista ao videoentrevista com o prof. Ricardo Antunes, da Unicamp. Por meio desse material é possível entender o perfil da classe trabalhadora no Brasil. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=pcY8bXrxslg> (Quem é a classe trabalhadora no Brasil? Em três blocos). Outros indicadores permitem perceber que a precarização das relações de trabalho trouxe de volta formas de exploração próprias do passado, tais como aumento das jornadas de trabalho, trabalho infantil, salários diferenciados entre homens e mulheres, trabalho semiescravo. O Quadro 10, a seguir, mostra, por exemplo, os dados relativos aos grupos ocupacionais e aos estratos sociais ocupados pelos trabalhadores no Brasil, para o ano de 2007 e, ainda, a posição ocupada pelas mulheres. 160 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO QUADRO 10 - GRUPOS OCUPACIONAIS E ESTRATOS SOCIAIS OCUPADOS POR MULHERES, BRASIL, 2007 Grupo ocupacional Estrato social % mulheres Empregadores 1,2,3 26,0 4,5 33,1 Total 26,5 Colarinhos-brancos 1,2,3 44,5 4,5 58,8 Total 49,1 Trabalhadores não agrícolas 1,2,3 23,3 4,5 52,1 Total 41,0 Trabalhadores agrícolas 1,2,3 8,60 4,5 12,9 Total 12,0 Não remunerados não agrícolas 1,2,3 54,5 4,5 59,8 Total 59,5 Não remunerados agrícolas 1,2,3 60,1 4,5 57,7 Total 57,8 Total 1,2,3 33,8 4,5 49,5 Total 42,3 FONTE: Adaptado de Quadros; Maia (2010) Os Estratos sociais referem-se à renda total dos indivíduos: 1, 2 e 3 são relativos aos salários acima de R$ 500,00; os estratos 4 e 5, abaixo de R$ 500,00. Desta forma, é possível perceber, primeiramente, que, no geral, as mulheres estão presentes em apenas 33,8% dos estratos que recebem maior remuneração. Ao focarmos nos dados sobre a classe dos empregadores, vê-se que apenas 26,5% destes postos de trabalho são ocupados por mulheres. E, ainda, a maioria delas (33,1%) encontra-se no estrato social que recebe menor remuneração. No estrato social com maior remuneração, apenas 26% dos postos de trabalho são ocupados por mulheres. Existem dois grupos ocupacionais em que as mulheres são predominantes: justamente os dois grupos não remunerados não agrícolas (59,5% são mulheres) e agrícolas (57,7% são mulheres). Ademais, em todos os grupos ocupacionais da pesquisa as mulheres estão mais presentes naqueles estratos sociais com menor remuneração. Portanto, estes dados buscam ilustrar parte da realidade das relações de trabalho em pleno século XXI. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 161 DICAS Para entender ainda mais sobre o processo de reestruturação produtiva e o mundo do trabalho no Brasil, não deixe de ler o artigo do prof. Ricardo Antunes, da Unicamp, “A nova morfologia do trabalho no Brasil. Reestruturação e precariedade”, publicado em 2012, na Revista Nueva Sociedad. Disponível em: <http://www.nuso.org/upload/articulos/3859_1.pdf>. 3 NEOLIBERALISMO Vimos que na terceira fase do desenvolvimento do capitalismo, a etapa do capitalismo contemporâneo, também conhecida por globalização, houve diversas mudanças relativas ao mundo do trabalho: a dinâmica denominada reestruturação produtiva. Tais alterações são fruto de uma forma específica de orientar o desenvolvimento dos países, isto é, uma forma específica de política, chamada de neoliberalismo. Uma das peculiaridades do capitalismo contemporâneo é que a partir da década de 1980, aquelas garantias sociais e de trabalho conquistadas anteriormente estão, pouco a pouco, sendo destruídas pelas políticas neoliberais. A desmontagem total ou parcial dos diversos tipos de Estado de Bem-Estar Social é o exemplo emblemático da estratégia neoliberal na atualidade. Por meio de políticas tipicamente neoliberais prioriza-se a supressão de direitos sociais conquistados arduamente, os quais, pela perspectiva neoliberal, tratam-se de privilégios dos trabalhadores (e não direitos), e liquida-se com as garantias ao trabalho em nome da flexibilização das relações de trabalho. O que se pode denominar ideologia neoliberal compreende uma concepção de homem (considerado atomisticamente como possessivo, competitivo e calculista), uma concepção de sociedade (tomada como um agregado fortuito, meio de o indivíduo realizar seus propósitos privados) fundada na ideia da natural e necessária desigualdade entre os homens e uma noção rasteira da liberdade (vista como função da liberdade de mercado) (NETTO; BRAZ, 2006, p. 226, grifos do autor). A ideologia neoliberal tem papel de legitimar o projeto de romper com as restrições e regulamentações sociopolíticas que limitam a liberdade de movimento das forças do mercado. Ou seja, o objetivo de orientar o desenvolvimento por meio de políticas neoliberais está na inteira desregulamentação das atividades econômicas para que se obtenha um máximo de liberdade nas relações econômicas. Uma primeira frente do projeto neoliberal diz respeito à intervenção do Estado na economia. Aí, o Estado é visto como um empecilho para o desenvolvimento das forças produtivas, que deve ser reformado urgentemente. Contudo, esta reforma trata-se, na verdade, de uma contrarreforma, ou seja, trata- se da supressão da participação e intervenção do Estado na economia e da redução de direitos e garantias sociais. 162 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO Mas, é importante salientar: uma economia, mesmo que voltada somente para o crescimento econômico, não pode funcionar sem a intervenção estatal. Desta forma, o Estado não deixa de existir, nem mesmo deixa de intervir nas relações econômicas e sociais, mas recebe novos papéis, tais como: proteção dos mercados consumidores, garantia de acesso privilegiado a contratos públicos em setores estratégicos de alta tecnologia, oferta de incentivos fiscais e investimentos em ciência e tecnologia. Na Tabela 3, a seguir, é possível perceber os dispêndios realizados com investimento em ciência e tecnologia pelo Governo Federal do Brasil entre 2000 e 2010. Tanto os dados da esfera federal quanto os da esfera estadual apresentam constantemente crescimento ao longo dos anos. Os resultados, portanto, dão ideia das novas formas apresentadas pelas políticas de desenvolvimento implementadas pelo Estado brasileiro, os quais podem ser aplicados e dizem respeito à realidade de diversos outros países. TABELA 3 - INVESTIMENTOS EM C&T NO BRASIL (EM MILHÕES CORRENTES) Ano PúblicosFederais Estaduais Total 2000 5.795,4 2.854,3 8.649,7 2001 6.266,0 3.287,1 9.553,1 2002 6.522,1 3.473,3 9.995,4 2003 7.392,5 3.705,7 11.098,2 2004 8.688,2 3.900,5 12.588,6 2005 9.570,1 4.027,3 13.597,4 2006 11.476,6 4.282,1 15.758,6 2007 14.083,5 5.687,4 19.770,9 2008 15.974,5 7.138,0 23.112,5 2009 18.475,2 8.424,8 26.900,0 2010 22.577,0 10.201,8 32.778,7 FONTE: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação Aliado a este processo de desregulamentação das relações de trabalho (a já referida flexibilização), outra reforma importante no que diz respeito à atuação do Estado na economia foi o processo de privatização, pelo qual o Estado repassa ao campo privado setores que anteriormente eram de administração pública. Desta forma, torna-se possível a exploração privada e lucrativa de complexos industriais inteiros, como a siderurgia, a indústria naval e automotiva, também a indústria petroquímica, além de serviços de grande importância, relativos à distribuição de energia, transportes, telecomunicações, saneamento básico, bancos e seguros. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 163 TABELA 3 - INVESTIMENTOS EM C&T NO BRASIL (EM MILHÕES CORRENTES) NOTA O movimentode privatização de setores públicos é uma característica principal do capitalismo contemporâneo e das políticas neoliberais de condução da economia. A transferência da administração pública para a privada também significou uma profunda desnacionalização da economia, isto é, setores nacionais na economia passaram a ser operados e controlados por empresas estrangeiras. Pois, uma vez que certa empresa que assume, por exemplo, a administração de uma empresa siderúrgica estatal no Brasil, aquela empresa pode não possuir sede no país. Na Tabela 4, a seguir, encontra-se o número de empresas desnacionalizadas, isto é, a quantidade de empresas nacionais adquiridas por empresas estrangeiras entre 2004 e 2012, e a variação percentual entre um ano e outro. TABELA 4 - EMPRESAS DESNACIONALIZADAS, BRASIL, 2004-2012 Ano Quantidade de empresas desnacionalizadas Variação (%) 2004 69 - 2005 89 28,99 2006 115 29,21 2007 143 24,35 2008 110 -23,08 2009 91 -17,27 2010 175 92,31 2011 208 18,86 2012 296 42,31 FONTE: Adaptado de Lopes (2013) Durante toda a série somam-se 1.296 empresas nacionais que passaram para o controle estrangeiro, com significativo aumento a cada ano; o último período, 2012, se revela com maior número de desnacionalizações, 296, contra as 69 observadas em 2004. Apenas nos anos de 2008 e 2009 não se observou crescimento deste indicador (claros indícios da crise financeira de 2008). Contudo, no ano subsequente, em 2010, o crescimento foi de 92,31%, o mais alto registrado. Algumas consequências do movimento de desnacionalização da economia: • Aumento das remessas de lucros para fora do país: entre 2004 e 2011, as remessas totais para o exterior elevaram-se 238,4%. • Aumento das importações: entre 2004 e 2011 houve aumento de 260% do total das importações, passou de US$ 62,835 bilhões para US$ 226,233 bilhões. Este dado revela que as multinacionais importam grande quantidade de bens 164 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO intermediários para a produção de bens finais, enfraquecendo a dinâmica interna da economia; ou importam os próprios bens finais produzidos nas matrizes estrangeiras utilizando as filiais somente para venda final. • Estagnação tecnológica: pois, as inovações tecnológicas (ou o investimentos em pesquisa e desenvolvimento) são realizadas no interior das matrizes estrangeiras e não em suas filiais em outros países, gerando um atraso competitivo para a economia interna e, consequentemente, uma estagnação do crescimento econômico. FONTE: Lopes (2013) Com relação à última consequência da desnacionalização da economia brasileira, o indicador de registro de patentes junto ao United States Patent and Trademark Office (USPTO) contribui no esclarecimento do grau de inovação tecnológica nos diferentes países. No Brasil, o número de patentes concedidas (inovações tecnológicas) cresceu 6,3% entre 1981 e 2009, contudo, considerando números bem baixos na década de 1980, o Brasil, em comparação com outros países, não tem motivos para comemorar. Em 2009, por exemplo, os Estados Unidos registraram 82 mil patentes; o Japão, mais de 35 mil; a Coreia do Sul, 8.762; e o Brasil, apenas 103 patentes (THEIS, 2014). Embora o investimento em ciência e tecnologia esteja crescendo constantemente (como se viu), poucas são empresas nacionais que decidem inovar, e este cenário é agravado pela referida desnacionalização propiciada pelo neoliberalismo. DICAS Para saber mais sobre a história das privatizações e consequente desnacionalização no Brasil, assista ao documentário “Privatizações: a distopia do capital”, dirigido por Silvio Tendler, em 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=A8As8mFaRGU>. 4 FINANCEIRIZAÇÃO DO CAPITAL Caro(a) aluno(a), primeiramente, cabe lembrar, rapidamente, do que vimos até este momento no Tópico 2. Para compreendermos a formação da sociedade contemporânea, o desenvolvimento do capitalismo foi dividido em três grandes etapas: 1) O liberalismo econômico, que tem auge durante o século XIX com a crença no livre mercado como melhor ajuste da economia, e perdura até a década de 1930, cujo fim é demarcado pela crise econômica de 1929. 2) A partir daí surge uma segunda etapa, cuja intervenção do Estado nas relações econômicas e sociais é fundamental para seu entendimento; este período se alonga desde 1930 até o início da década de 1980. É o período no qual muitos países implementam políticas específicas para orientar o desenvolvimento. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 165 4 FINANCEIRIZAÇÃO DO CAPITAL 3) Por fim, viu-se uma última etapa, do capitalismo contemporâneo, que se estende desde 1980 até os dias de hoje, a qual é reconhecida na mídia em geral por globalização. Em nossos estudos vimos, também, que o capitalismo contemporâneo (a globalização) representa a restauração do capital, por motivo da profunda crise econômica em que se encontrava. No Brasil, por exemplo, os índices de inflação foram os mais altos da história durante este período. Mas, ainda, é importante não perder de vista que a restauração do capital pode ser entendida por meio do tripé: reestruturação produtiva – neoliberalismo – financeirização do capital. O item que será visto a partir de agora tratará da última parte deste tripé: a financeirização do capital. A Figura 32 ilustra a organização da dinâmica da restauração do capital. FIGURA 32 - TRIPÉ DO PROCESSO DE RESTAURAÇÃO DO CAPITAL FONTE: O autor A possibilidade dos fluxos econômicos alcançarem um nível de circulação mundial sempre foi uma marca do capitalismo, ampliada ainda mais no capitalismo contemporâneo. Contudo, existem particularidades no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo que vão além de sua grande expansão. Antes de estudarmos, de fato, a financeirização do capitalismo, vejamos outras características do desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. Um primeiro elemento diz respeito à forma das transações econômicas mundiais. As interações comerciais intensificaram-se especialmente entre os países mais ricos (centrais). Estas transações tornaram-se muito mais importantes e significativas do que aquelas entre os países centrais e periféricos (pobres). A chamada Tríade (Estados Unidos, União Europeia e Japão) realiza entre si a maior parte das transações econômicas e comerciais mundiais, as quais são operadas por grandes monopólios e processadas nas matrizes e filiais. Outro fator diferencial das relações econômicas mundiais do capitalismo contemporâneo é a estruturação de blocos supranacionais que passam a constituir espaços geoeconômicos regionais, com normas próprias para suas transações e 166 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO promovendo a integração de investimentos e mercados, os quais favorecerão, fundamentalmente, os grandes monopólios que passaram a comandar estes processos (NETTO; BRAZ, 2006). NOTA Blocos supranacionais são acordos econômicos e comerciais realizados entre um grupo específico de países e/ou regiões. Os blocos podem ser classificados em: zona de livre comércio, união aduaneira, mercado comum e união econômica ou monetária. Vejamos a formação de alguns destes blocos. • União Europeia: tem origem na Comunidade Econômica Europeia, formada na década de 1950, sendo instituída com o atual nome em 1993. Possui 28 países- membros independentes. O objetivo é assegurar trânsito livre para pessoas, bens, serviços e comércio. FIGURA 33 - PAÍSES MEMBROS DA UNIÃO EUROPEIA FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:UE-EU-ISO_3166-1. png>. Acesso em: 23 jan. 2015. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 167 FIGURA 33 - PAÍSES MEMBROS DA UNIÃO EUROPEIA • NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio): envolve México, Estados Unidos e Canadá, tendo o Chile como associado. O objetivo é garantir livre comércio entre os três países, com custo reduzido para troca de mercadorias. O NAFTA entrou em vigor a partir de 1994. (NAFTANOW, 2015).• ALADI (Associação Latino-Americana de Integração): procura contribuir para a integração latino-americana garantindo seu desenvolvimento econômico e social. Atualmente, é o maior bloco supranacional na América Latina, fundado em 1980, com 13 países-membros. (ALADI, 2015). • APEC (Cooperação Econômica Ásia Pacífico): inclui países da área do Pacífico, Ásia e Oceania, e ainda os Estados Unidos e o Chile, totalizando 21 membros. O objetivo é promover o livre comércio e a cooperação econômica em toda a região. O fórum foi criado em 1989 justamente para fortalecer a competição num cenário em que se estabeleciam blocos supranacionais em outras partes do mundo. Um dos temores era de que o Japão passasse a dominar a atividade econômica da região. (APEC, 2015). • Mercosul (Mercado Comum do Sul): formado por cinco países da América do Sul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela). Trata-se de uma união aduaneira que garante livre comércio e política comercial comum, cujas discussões iniciaram na década de 1960. Sua fundação data do ano de 1991. (MERCOSUL, 2015). FIGURA 34 - PAÍSES MEMBROS DO MERCOSUL FONTE: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/ File:MERCOSUR_(orthographic_projection).svg>. Acesso em: 26 jan. 2015. 168 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO Contudo, como já sinalizado na abertura deste item, uma das transformações mais importantes no capitalismo contemporâneo (a terceira etapa do desenvolvimento do capitalismo) consiste na financeirização do capital. Mas, do que se trata, afinal? Primeiramente, há de se entender que este processo é propiciado fundamentalmente pelo avanço dos recursos informacionais, os quais garantem comunicações instantâneas entre os agentes econômicos do mundo. Mais ainda, seu suporte está na gigantesca concentração do sistema bancário e financeiro. Esta concentração acompanhou o movimento mais geral da economia, contudo, teve efeitos específicos devido à amplitude que atingiram as atividades exclusivamente especulativas. Um indicador da concentração bancária mostra que ao final do século XX, menos de 300 bancos controlavam a totalidade das finanças internacionais. Esta concentração, que opera em nível internacional, também se mostra evidente no interior dos países: no final do século XX, 25 bancos dos Estados Unidos concentravam 85% dos depósitos norte-americanos, e apenas três bancos japoneses concentravam todos os depósitos japoneses (NETTO; BRAZ, 2006). O desenvolvimento do próprio sistema capitalista depende tanto do capital real quanto do capital fictício. Entretanto, o elemento principal da financeirização do capitalismo é o aumento brutal do capital fictício, isto é, as ações, as obrigações, os certificados e os outros títulos que são negociáveis, mas não possuem valores em si mesmos, apenas representam um título de propriedade, que dá direito a um rendimento e são conversíveis em dinheiro. O que se percebeu mais recentemente é o crescimento de um segmento de pessoas que passaram a viver somente desse capital fictício, os rentistas. Ou seja, formou-se uma grande massa de dinheiro que não é reinvestida no setor produtivo, tendo caráter meramente especulativo, que, por sua vez, não guarda correspondência com a massa de valores reais. NOTA Capital real é o valor criado no âmbito da esfera da produção. Já o capital fictício é oriundo dos rendimentos a partir de juros ou o direito a um fluxo de renda futuro. A financeirização do capitalismo contemporâneo deve-se a que as transações financeiras (isto é: as operações situadas na esfera da circulação) tornaram-se sob todos os sentidos hipertrofiadas e desproporcionais em relação à produção real de valores – tornaram-se dominantemente especulativas (NETTO; BRAZ, 2006, p. 232, grifos do autor). O Gráfico 1 contextualiza estas informações em termos históricos, apresentando a evolução do Produto Interno Bruto [PIB] (capital real) e dos ativos TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 169 financeiros das famílias americanas (capital fictício), entre 1946 e 2012. É nítido que a riqueza financeira, que era colada com o movimento do PIB nas décadas seguintes ao pós-guerra, passa a crescer em ritmo muito mais acelerado após a década de 1980, justamente no período que estamos estudando relativo à etapa do capitalismo contemporâneo. GRÁFICO 1 - PRODUTO INTERNO BRUTO E RIQUEZA FINANCEIRA, ESTADOS UNIDOS, 1946-2012 FONTE: Rossi (2014) Enquanto as cifras do comércio são da ordem de US$ 18 bilhões por ano, a riqueza relativa ao capital fictício ultrapassa o nível de US$ 60 bilhões por ano. Os rentistas, que são possuidores de capitais fictícios, buscam extrair ganhos sobre valores frequentemente imaginários, pois os papéis financeiros são garantias futuras de rendimento que, às vezes, deixam de possuir tal garantia de retorno dos investimentos. Contudo, apenas se descobre isso quando, durante as crises do mercado financeiro, um título que tinha valor cotado, por exemplo, em R$ 100,00, passa a valer, no dia seguinte, apenas R$ 50,00 ou, ainda, fica sem valor algum. Entretanto, entre uma crise e outra, tais “bolhas financeiras” estouram, derivando crises reais, tais como a do México, em 1995, da Ásia, em 1997, da Rússia, em 1999, da Argentina, em 2001, e, mais recentemente, dos Estados Unidos, em 2008 (NETTO; BRAZ, 2006). Sobretudo devido à forte integração e dependência dos mercados internacionais, as consequências das crises econômicas e financeiras, como o aumento crescente do desemprego, atingem países da periferia do sistema capitalista, mas também os países do centro da organização capitalista de produção. 170 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO FIGURA 35 - PROTESTO NA ESPANHA POR CONSEQUÊNCIA DA CRISE NORTE- AMERICANA FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-lx3YDR4uUQE/TkM0TKxMlSI/ AAAAAAAACgQ/vi7Yy4zlxGE/s1600/2+indignados.jpg>. Acesso em: 26 jan. 2015. DICAS Para ampliar o debate em torno dos movimentos populares que tomaram as ruas do mundo mais recentemente, não deixe de ler a coletânea organizada pela Boitempo Editorial, denominada “Occupy”, publicada em 2012. Conta com textos de David Harvey, Slavoj Žižek e Emir Sader. Portanto, foi possível perceber, ao longo do Tópico 1, que o processo de restauração do capital após a década de 1980, também chamada de globalização, trouxe uma dinâmica totalmente nova ao cenário do desenvolvimento do capitalismo. Daí advém a necessidade de distinguirmos uma terceira etapa da organização das sociedades, a do capitalismo contemporâneo. DICAS Um documentário importantíssimo para compreender a dinâmica da globalização chama-se “O mundo global visto do lado de cá”, dirigido, em 2006, por Silvio Tendler. Nele encontram-se entrevistas com o geógrafo brasileiro Milton Santos. Disponível em: <https:// www.youtube.com/watch?v=-UUB5DW_mnM>. TÓPICO 2 | OS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO 171 O “mundo novo” do capitalismo contemporâneo, entre o final do século XX e início do século XXI, é muito diferente daquele que surgia em 1930, no qual o Estado intervia diretamente nas relações econômicas e sociais. Primeiramente, é possível perceber um mercado renovado por produtos totalmente novos; desenvolvidos e fabricados a partir do zero, basta pensar em todos os eletrônicos da década de 1990 e anos 2000. Além do turbilhão de novidades, alteraram-se as formas de realização do comércio, a partir dos grandes shopping centers e de toda lógica comercial virtual por meio da internet. O fetiche pelos automóveis foi rapidamente transfigurado na cultura de consumo pelos eletrônicos. Atualmente, mais do que em outras etapas do desenvolvimento do capitalismo, tudo é efetivamente passível de ser transacionado como um produto mercantil. Isto é, tudo pode tornar-se uma mercadoria: desde serviços, por exemplo, de cuidados aos idosos, passeio e recreação diária com animais domésticos e, até mesmo, de acompanhantes sexuais. FIGURA 36- PROCESSO DE MERCANTILIZAÇÃO INTENSIVA DURANTE A GLOBALIZAÇÃO FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-0-LvUiGGIgQ/UeWEVpj5v3I/ AAAAAAAAAEo/lvkwEGQBg5I/s1600/mundo.jpg>. Acesso em: 26 jan. 2015. A velocidade acelerada pela qual circulam mercadorias e pessoas também permite que informações, imagens, sons e toda uma simbologia girem rapidamente pela Terra. “Os recursos informacionais estimulam a constituição de referências culturais comuns, desterritorializadas, e novas modalidades de interação social, que se operam no plano da virtualidade, alteram relações e valores [...]”. (NETTO; BRAZ, 2006, p. 236). Um elemento importante no aumento da velocidade de circulação de mercadorias e pessoas está na evolução dos meios de transporte como superação das barreiras e fronteiras que se colocam na expansão do desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. O movimento do capitalismo busca constantemente expandir-se para novos espaços geográficos. Esta dinâmica resulta numa nova percepção sobre o espaço e o tempo, pois, com a redução do tempo de circulação dos capitais (devido à evolução dos transportes e comunicações), aumenta-se a 172 UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO velocidade desta circulação. E, aumentando a velocidade da circulação, o espaço geográfico tende a contrair-se, como se o “espaço fosse anulado ou aniquilado pelo tempo”. (HARVEY, 2005). O geógrafo inglês David Harvey recupera um exato extrato onde Karl Marx explica esta ideia (MARX, 1973, p. 538 apud HARVEY, 2005, p. 50-51): “até a distância espacial se contrai em relação ao tempo: o importante não é a distância do mercado no espaço, mas a velocidade [...] pela qual o mesmo pode ser alcançado”. Ademais, outros resultados podem ser extraídos da dinâmica propiciada pelo capitalismo contemporâneo: a criação do maior contingente histórico de desempregados, subempregados e empregados precarizados; a restauração de formas arcaicas de exploração da força de trabalho de homens, mulheres e crianças, a partir de jornadas de trabalho exaustivas que o próprio desenvolvimento do capitalismo havia superado. Neste período houve, também, a criação de certo mito relacionado à sociedade de consumo, no qual o “cidadão consumidor” passa ao centro das atenções das empresas: equívoco, porém, proporcionado pelos canais de publicidade, uma vez que milhões de pessoas vivem em condições sub-humanas, cujas rendas sequer custeiam o alimento necessário para um dia, quiçá fosse suficiente para a aquisição de outros bens de consumo (NETTO; BRAZ, 2006). Sobretudo, o processo de restauração do capitalismo aqui estudado resultou na retomada das taxas de lucro observadas entre as décadas de 1950 e 1970. Contudo, as taxas de crescimento econômico permaneceram baixas, revelando constante concentração de renda no interior dos países. As crises, tipicamente financeiras, tornaram-se frequentes. Como resultado: a distância entre os pobres e os ricos é constantemente alargada entre os países do mundo e, ainda, dentro dos países ricos esta diferença também persiste; se percebe a ascensão do racismo e da xenofobia provocada, entre outros motivos, pela individualidade e competição dos sujeitos; e o agravamento da crise ecológica do planeta. Questões que parecem distantes de serem resolvidas nos marcos do desenvolvimento do capitalismo contemporâneo (NETTO; BRAZ, 2006). Entretanto, ao exacerbar todas as contradições do capitalismo, a globalização também criou ferramentas e condições necessárias para repensarmos a forma de organização atual da sociedade. As revoluções técnicas e científicas que originaram, principalmente, novos mecanismos de comunicação e participação da sociedade, iluminam novos cenários para um desenvolvimento mais humano, justo e democrático. ESTUDOS FU TUROS No Tópico 3 trataremos especificamente dos aspectos desafiadores do desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. 173 Neste tópico você aprendeu que: • O desenvolvimento do capitalismo compreende uma etapa do liberalismo econômico, outra do capitalismo “organizado”, e, uma última, referente ao período mais recente, a globalização. • A fase da globalização pode ser entendida pelas dinâmicas da reestruturação produtiva, no neoliberalismo e da financeirização do capital. • A reestruturação produtiva resultou numa intensa desconcentração industrial da produção pelo mundo. • O neoliberalismo diz respeito às políticas de condução das relações econômicas que são específicas do período da globalização. • A financeirização do capital trata-se do desproporcional aumento do capital fictício frente ao capital real. RESUMO DO TÓPICO 2 174 AUTOATIVIDADE Caro(a) acadêmico(a)! Para fixar melhor o conteúdo estudado, vamos exercitar um pouco. Leia as questões a seguir e responda-as em seu Caderno de Estudos. Bom trabalho! 1 Em quais etapas podemos dividir o desenvolvimento do sistema capitalista, e a quais períodos se referem? 2 Quais dinâmicas permitem compreender o processo de globalização (ou de restauração do capital)? 3 Após a década de 1980 há o predomínio de políticas neoliberais para conduzir o desenvolvimento dos países. Cite, pelo menos, três alterações que podem ser percebidas nas relações de trabalho devido a esta dinâmica. 4 Marque com X somente a(s) resposta(s) correta(s) sobre o neoliberalismo e a globalização: a) ( ) O Estado passa a atuar de maneira diferenciada garantindo, por exemplo, apoio e incentivos fiscais, e constante investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação. b) ( ) Há uma alteração na regulamentação das relações econômicas e sociais gerando fortes reflexos no mercado de trabalho. c) ( ) Criam-se os Estados de Bem-Estar Social, privilegiando direitos sociais e trabalhistas. 5 O movimento de restauração do capital que se intensifica após a década de 1980 gerou, entre outros, um processo de reestruturação produtiva, que tem efeitos perceptíveis no nosso dia a dia. O que podemos entender por desconcentração industrial da produção de produtos? 6 Marque V para as questões verdadeiras e F para as falsas: a) ( ) A financeirização do capital, propiciada pelo avanço dos recursos informacionais, diz respeito à concentração do sistema bancário e financeiro. b) ( ) O processo conhecido como financeirização do capital refere-se à intensificação e à concentração dos fluxos econômicos mundiais, contudo, a formação de blocos supranacionais (como a União Europeia e o Mercosul) pouco contribuíram para esta dinâmica. c) ( ) O fato dos capitais fictícios (os títulos públicos, as ações....) terem ganhado proporção muito maior em relação ao capital real (as compras, os produtos...) não interferiu na dinâmica da financeirização do capital. 175 TÓPICO 3 ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), ao longo do terceiro, e último, tópico da Unidade 3 deste Caderno procurar-se-á discutir aspectos e problemáticas desafiadoras que atravessam as sociedades na entrada do século XXI. Num primeiro momento veremos as relações de trabalho e sua manifestação entre as diferentes raças. Será que pessoas de cor branca recebem mais que pessoas de outras raças? Como esta dinâmica se apresenta para o caso brasileiro? O terceiro item irá tratar sobre a temática da violência presente na sociedade brasileira, com especial atenção ao caso dos jovens. Assim, veremos as taxas de mortalidade causadas por eventos violentos em cada grupo de idade ao longo dos anos. Além disso, procuraremos observar esta situação nas diferentes regiões brasileiras e, também, nas diferentes raças da população. Será que notaremos desigualdades? Por fim, dar-se-á ênfase ao desafio contemporâneo referente à justiça socioambiental existente no território nacional, com auxílio do “Mapa de conflitos envolvendo injustiça ambiental e saúde no Brasil”. Aí será possível verificar o número de conflitos socioambientais nas áreas urbanas e rurais, de diferentestipos e em diferentes estados e regiões do Brasil. 2 RELAÇÕES DE TRABALHO ENTRE RAÇAS O tema do racismo no Brasil e no mundo é discutido há tempos, por meio de diversas políticas implementadas e em processo de implementação, em pesquisas e artigos especializados. Sua atualidade pode ser percebida através dos dados estatísticos relativos às ocupações trabalhistas e à estratificação dos salários entre diferentes raças. No capitalismo contemporâneo, a ocupação dos indivíduos em diferentes cargos passou a relacionar-se com o prestígio das relações sociais proporcionado pela posição ocupacional, ou seja, a posição ocupacional está ligada à maneira de vestir-se, aos relacionamentos com autoridades e chefias, e ainda, com a diversidade de raças presentes nas sociedades. Um elemento importante quando se analisa a estrutura ocupacional dos indivíduos nos dias de hoje, seja no Brasil ou no mundo, é a formação de uma classe média de trabalhadores assalariados. Entre este grupo, destaca-se a proliferação de UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 176 novas ocupações vinculadas aos trabalhadores que atuam em escritórios, comércio e serviços, chamados de “colarinhos-brancos”, “os novos empregados que deixam de manipular máquinas e objetos para ‘manipular’ papéis, símbolos e pessoas em seus demiurgos administrativos.” (QUADROS; MAIA, 2010, p. 447). Desta forma, tornou-se mais seguro e atraente ser empregado por uma grande empresa multinacional ao invés de arriscar-se no ambiente competitivo do capitalismo contemporâneo com uma pequena ou média empresa própria. Conforme visto no Tópico 2, a reestruturação produtiva a partir da década de 1980 trouxe a racionalização das relações de trabalho e, ainda, criou novas hierarquias entre os grupos ocupacionais, fragmentando os ramos de trabalho paralelamente à especialização acentuada nos diversos setores econômicos entre gerentes, especialistas e funcionários. Grandes empresas que atuam em nível internacional procuram empregar mão de obra altamente qualificada, inclusive importando-a de outras partes do mundo; ao mesmo tempo, se generaliza o uso de trabalhadores temporários com pouca qualificação profissional. Antes de analisarmos as desigualdades de raça entre os trabalhadores, cabe apresentar a estratificação social dos salários utilizada para demonstrar qual o nível de rendimento, em 2007, para cada cargo ocupado. TABELA 5 - ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DOS SALÁRIOS, BRASIL, 2007 Estrato social Renda total Superior Acima de R$ 2.965,00 Médio Entre R$ 1.482,00 e R$ 2.865,00 Baixo Entre R$ 593,00 e R$ 1.482,00 Inferior Entre R$ 296,00 e R$ 593,00 Ínfimo Abaixo de R$ 296,00 FONTE: Adaptado de Quadros; Maia (2010, p. 453) Os resultados para o caso brasileiro mostram que nos dois primeiros grupos, Superior e Médio, estão os Empregadores, aqueles que empregaram assalariados nos setores agrícolas e não agrícolas. Os referidos colarinhos- brancos, autônomos e assalariados, possuem rendimentos representados pelos três primeiros estratos, Superior, Médio e Baixo. Por sua vez, os trabalhadores não agrícolas, autônomos, assalariados e domésticos (que se referem às ocupações não agrícolas, como operários da construção civil, ajudantes em obras e vinculados ao serviço doméstico) estão presentes nos estratos de rendimento Baixo e Inferior. Pessoas pobres e miseráveis convergem aos dois últimos estratos sociais, Inferior e Ínfimo, enquanto os trabalhadores não remunerados (agrícolas e não agrícolas) ocupam a base da pirâmide social (QUADROS; MAIA, 2010). Na Tabela 6, a seguir, é possível visualizar com exatidão estas informações, nela estão contidos os grupos ocupacionais de trabalhadores, bem como o rendimento para o ano de 2007 no Brasil. No grupo dos Empregadores, que representa apenas 5% da população ocupada (3,4 milhões de pessoas), estão TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 177 os trabalhadores com maiores rendimentos, ou seja, 35,5% dos Empregadores possuem salários acima de R$ 2.965,00. Enquanto, entre a maioria dos ocupados (42% da população ocupada brasileira ou 38 milhões de pessoas), os Trabalhadores não agrícolas, apenas 1,1% recebem acima de R$ 2.965,00. O grupo dos Trabalhadores não agrícolas possui rendimentos vinculados aos estratos de salários mais baixos. A maior parte deles, 43,8%, encontra-se no estrato social Inferior, recebe entre R$ 296,00 e R$ 593,00. Da mesma forma os Trabalhadores agrícolas (9% da população ocupada ou 8,5 milhões de pessoas), pois sua maioria também se encontra no estrato social Inferior. TABELA 6 - GRUPOS OCUPACIONAIS ENTRE OS ESTRATOS SOCIAIS, BRASIL, 2007 Grupo ocupacional Estrato social (%)Superior Médio Baixo Inferior Ínfimo Empregadores 35,5 27,4 25,3 7,3 1,2 Colarinhos-brancos 10,6 16,8 37,0 27,8 5,1 Trabalhadores não agrícolas 1,1 5,1 31,7 43,8 17,1 Trabalhadores agrícolas 1,3 3,2 20,0 40,5 32,9 Não remunerados não agrícolas 1,1 1,4 3,3 6,0 88,1 Não remunerados agrícolas 0,2 0,6 3,3 18,6 77,3 FONTE: Adaptado de Quadro; Maia (2010, p. 455) Com relação aos trabalhadores chamados colarinhos-brancos, o segundo maior grupo, com 35% dos ocupados e 31 milhões de pessoas, percebe-se certa equidade na distribuição nos estratos sociais, mas, ainda assim, somam 64,8% nos estratos Baixo e Inferior, recebendo, portanto, um máximo de R$ 1.482,00. Uma última informação proporcionada por meio dos dados da tabela acima, no entanto a mais preocupante, refere-se aos grupos dos trabalhadores não remunerados, que somam 9,3 milhões de pessoas. Neste grupo estão aqueles que não recebem remuneração diretamente pelas atividades principais desenvolvidas, mas possuem outras fontes de remuneração, tais como programas sociais de transferência de renda. Aí, tanto nos “não remunerados não agrícolas” quanto nos “não remunerados agrícolas”, sua maioria se concentra no estrato social Ínfimo, com rendimentos inferiores a R$ 296,00. Portanto, foi possível perceber uma imensa desigualdade na distribuição dos rendimentos recebidos entre os grupos ocupacionais. Vejamos, agora, na tabela que segue, as desigualdades sócio-ocupacionais relacionadas à raça dos trabalhadores ocupados. Por meio da Figura 38 é possível visualizar a quantidade de pessoas brancas que ocupam cada um dos grupos ocupacionais, além do estrato social de rendimentos ao qual pertencem. Primeiramente, podemos ver que as pessoas de cor branca são maioria nos dois primeiros grupos ocupacionais: no grupo dos Empregadores, representam 73,1%; os colarinhos-brancos, 61,9%. Isto é, são maioria UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 178 dos dois grupos que possuem maior remuneração de forma geral, conforme visto anteriormente. Dentro destes dois grupos, as pessoas de cor branca são maioria, também, nos estratos sociais de maior remuneração. Entre os Empregadores, 74,6% dos que recebem mais do que R$ 593,00 são de cor branca; entre os colarinhos- brancos, 67,7% dos que recebem mais do que R$ 593,00 são de cor branca. Mas, então, em qual grupo ocupacional a maioria das pessoas não é branca? Justamente naqueles grupos em que predominam rendimentos Inferior e Ínfimo, com exceção dos “Não remunerados não agrícolas”, aí, 51,6% é de cor branca. Entre os trabalhadores não agrícolas, 45,1% são de cor branca. Entre os trabalhadores agrícolas, apenas 37,4% são de cor branca. E entre os não remunerados agrícolas, 40,1% são de cor branca. Contudo, no interior destes grupos que possuem menor remuneração, os estratos sociais 1, 2, 3 (acima de R$ 593,00) sempre são ocupados em maioria por pessoas de cor branca, nunca a maioria é ocupada por outras raças. TABELA 7 - GRUPOS OCUPACIONAIS E ESTRATOS SOCIAIS ENTRE AS RAÇAS, BRASIL, 2007 Grupo ocupacional Estrato social Brancos (%) Empregadores 1, 2, 3 74,6 4, 5 53,0 Total 73,1 Colarinhos-brancos 1, 2, 3 67,7 4, 5 49,8 Total 61,9 Trabalhadores não agrícolas 1, 2, 3 54,5 4, 5 39,0 Total 45,1 Trabalhadores agrícolas1, 2, 3 56,1 4, 5 31,1 Total 37,4 Não remunerados não agrícolas 1, 2, 3 74,5 4, 5 50,1 Total 51,6 Não remunerados agrícolas 1, 2, 3 62,3 4, 5 39,2 Total 40,1 FONTE: Adaptado de Quadro; Maia (2010, p. 461) Retornando aos dados sobre Empregadores: apenas 26,9% dos ocupados como Empregadores são de outras raças. E apenas 25,4% dos ocupados como Empregadores que recebem remuneração equivalente aos estratos sociais 1, 2, 3 são de outras raças. Da mesma forma os colarinhos-brancos: apenas 38,1% dos ocupados são de outra raça. E apenas 32,3% dos que recebem remuneração equivalente aos estratos sociais 1, 2, 3 são de outras raças. O que podemos perceber é que a dinâmica das relações de trabalho no capitalismo contemporâneo continua gerando um cenário de permanente TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 179 desigualdade de rendimentos entre a população brasileira, mas, além disso, resulta na formação de desigualdades entre as posições ocupadas por pessoas brancas e negras, portanto uma desigualdade ocupacional entre as raças e entre as raças nos estratos sociais de rendimentos: pois existe uma desigualdade racial dos rendimentos no Brasil. DICAS Os dados apresentados neste tópico também estão disponíveis de forma separada para as grandes regiões do Brasil. O artigo completo se encontra nas referências, e pode ser acessado em: <http://dx.doi.org/10.1590/S1415-98482010000300001>. Tais desigualdades também podem ser captadas por meio da renda média da população, segundo o sexo e a raça da população. A seguir é possível perceber que, em 2009, a renda média dos homens de raça branca era de R$ 1.491,00 e das mulheres de raça branca, R$ 957,00. Já a renda média dos homens de raça negra era de R$ 833,50; das mulheres de raça negra, ainda menor, de R$ 544,50. Isto é, fica evidenciada a desigualdade existente quanto às relações de gênero, bem como a desigualdade entre as relações raciais. FIGURA 37 - RENDA MÉDIA DA POPULAÇÃO, SEGUNDO SEXO E RAÇA, BRASIL, 2009 FONTE: Ipea (2011, p. 35) UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 180 3 VIOLÊNCIA E JUVENTUDE A temática relativa à violência e seu constante crescimento na vida cotidiana tem ganhado grande importância na atual organização das sociedades, especialmente nas grandes aglomerações urbanas. Desta forma, ao longo dos anos, muitos indicadores foram sendo utilizados para avaliar o grau de violência em diferentes lugares e de diferentes formas, tais como taxas de homicídio, conflitos étnicos, ambientais, religiosos e raciais, índices de criminalidade, entre outros. A própria ideia de violência vem passando por constantes reconceituações, contudo, pode-se dizer, segundo Waiselfisz (2014), que violência guarda relação com a noção de coerção ou força e com o dano que se produz a um indivíduo ou a um grupo de indivíduos ao qual pertence determinada classe social de gênero ou étnica. Por meio desta perspectiva, os dados e as informações disponibilizados aqui procurarão traçar um panorama da violência brasileira para o período mais recente, mas com especial atenção à juventude. Isto é, os jovens que se encontram entre 15 e 29 anos, idade utilizada na implementação de políticas nacionais e internacionais ligadas à juventude. Em 2011, o Brasil contava com uma população jovem de 51,8 milhões, representando 26,9% do total da população brasileira. Esta população já foi maior; na década de 1980, por exemplo, representavam 29% da população total, contudo, as progressivas quedas nas taxas de fertilidade resultaram numa alteração da pirâmide etária do país. GRÁFICO 2 - TAXA DE MORTALIDADE VIOLENTA POR IDADE, BRASIL, 2011 FONTE: Waiselfisz (2014, p. 26) TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 181 Com o fim de relacionar a violência e a idade dos indivíduos, no Gráfico 2 estão dispostas as taxas de mortalidade e sua incidência entre a idade da população, oriundas de homicídios (linha mais escura), suicídios e relacionadas a acidentes de trânsito (linha mais clara). O que se percebe é que as taxas de mortalidade por motivos violentos se acentuam justamente no início da juventude, principalmente aquelas mortes vinculadas a homicídios e acidentes de trânsito. Os resultados mais expressivos para estes indicadores encontram-se aos 21 anos, quase 70% dos mortos jovens durante os 21 anos de idade está relacionada a casos de homicídio. Historicamente, estes dados também são preocupantes. Na década de 1980, 11,7% das mortes (da população total) estavam relacionadas a homicídios, dez anos depois, 22,2%. Nos anos 2000, o percentual cresceu para 26,7% e, em 2011, 27,1% das mortes são relacionadas a homicídios. Isto é, entre 1980 e 1990 houve um crescimento de 90% das mortes deste tipo. Entre 1980 e 2011, o crescimento foi de 132%! (WAISELFISZ, 2014). Agora, vejamos a comparação da evolução (entre 1980 e 2011) dos óbitos para a população jovem (15 a 29 anos) e para a população não jovem. QUADRO 11 - ESTRUTURA DA MORTALIDADE: TAXAS DE ÓBITOS (POR 100 MIL HABITANTES) SEGUNDO A CAUSA, ENTRE A POPULAÇÃO NÃO JOVEM E JOVEM, BRASIL Ano População Não Jovem População Jovem Tr an sp or te Su ic íd io H om ic íd io Tr an sp or te Su ic íd io H om ic íd io 1980 16,4 2,8 8,5 18,9 4,4 19,6 1990 19,1 3,1 14,7 22,9 4,1 41,2 2000 16,3 3,8 16,7 20,3 4,5 52,3 2011 21,0 4,9 17,6 29,0 5,7 53,0 Crescimento (%) 1980-1990 16,6 9,4 74,1 21,6 -7,0 110,7 1990-2000 -14,5 23,9 13,0 -11,5 9,0 26,8 2000-2011 28,5 28,9 5,6 43,0 27,6 1,5 1980-2011 28,1 74,7 107,8 53,8 29,3 171,0 FONTE: Adaptado de Waiselfisz (2014, p. 30) A comparação entre a população não jovem e a população jovem permite verificar a desigualdade das mortes violentas que acometem a população. Nos três primeiros períodos, 1980, 1990 e 2000, a proporção da população jovem que vem a óbito é maior tanto devido a acidentes de trânsito e homicídios, apenas no caso dos suicídios a maioria se refere à população não jovem. Novamente, cabe ressaltar os dados sobre homicídios: em 1980 a taxa para a população não jovem era de 8,5, enquanto na população jovem 19,6; em 1990, 14,7 para os não jovens e 41,2 para UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 182 os jovens! E, em 2010, a taxa era de 16,7 para os não jovens e 52,3 para os jovens! Os dados para o ano de 2011 são ainda mais expressivos, em todas as causas de mortes violentas os jovens são, proporcionalmente, mais afetados, inclusive nos casos de suicídios. Quanto ao crescimento das taxas de óbitos se percebe que, entre os jovens, os aumentos são mais significantes do que nos não jovens. Entre 1980 e 1990 houve um crescimento de 110,7% nos casos relacionados a homicídios que afetaram jovens. Entre 1990 e 2000, 26,8% de crescimento; entre 2000 e 2011, felizmente, apenas, 1,5%. No entanto, entre 2000 e 2011, as mortes relacionadas a acidentes de trânsito e suicídios mostraram altos níveis de crescimento, 43% e 27,6%, respectivamente. Contudo, se compararmos a evolução entre a década de 1980 e 2011, os não jovens aumentaram sua taxa de óbitos em 107,8%, enquanto os jovens, em 171%. Os resultados mais expressivos para os jovens também se revelam verdadeiros para os casos de óbitos devidos a acidentes de trânsito; 28,1% para os não jovens e 53,8% para os jovens. GRÁFICO 3 - CAUSAS DE MORTALIDADE NA POPULAÇÃO JOVEM E NÃO JOVEM, BRASIL, 2011 FONTE: Waiselfisz (2014, p. 30) O Gráfico 3 ilustra o panorama desigual das causas de mortes entre a população jovem e a não jovem. A participação da população jovem no índice de mortalidade devido a causas externas (diferentemente das causas naturais, como a velhice) é muito superior à da população não jovem. Enquanto quase 70% das mortes dos jovens TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 183 ocorrem devido a causas externas, apenas 8,5% das mortes dos não jovens são oriundas de causas externas. Entre as causas externas, os dados também revelamas mortes devido a homicídios, suicídios e acidentes de trânsito (transporte). Nos três casos, como se viu dos dados estatísticos anteriormente, fica clara a desigualdade na mortalidade dos jovens e dos não jovens, sugerindo quem são as maiores vítimas da violência que acomete a sociedade brasileira. Como se viu, embora os acidentes de trânsito tenham maior participação nas causas de morte dos jovens, são os homicídios que registraram maior crescimento entre a década de 1980 e o ano de 2011. A Tabela 8, a seguir, mostra as taxas de homicídio na população entre 15 e 29 anos segundo as grandes regiões do Brasil, entre 2001 e 2011. TABELA 8 - TAXAS DE HOMICÍDIO (POR 100 MIL) NA POPULAÇÃO ENTRE 15 E 29 ANOS, SEGUNDO AS GRANDES REGIÕES DO BRASIL Região 2001 2005 2010 2011 ∆% Norte 34,2 45,2 69,8 65,9 92,4 Nordeste 42,2 50,5 72,9 72,2 71,1 Sudeste 74,5 54,6 39,5 37,5 -49,6 Sul 31,3 41,8 47,1 44,4 41,8 Centro-Oeste 48,9 49,9 58,6 62,1 27,2 Brasil 54,0 50,5 54,5 53,0 -1,8 FONTE: Adaptado de Waiselfisz (2014) Uma primeira visão sobre o Brasil, de forma mais ampla, revela uma pequena queda na taxa de homicídios entre 2001 e 2011: -1,8%; a taxa manteve-se estável ao longo dos anos. Entretanto, quando comparamos as grandes regiões brasileiras é possível perceber uma grande desigualdade. A região Norte foi aquela que teve maior aumento das taxas de homicídio, 92,4% entre 2001 e 2011. E, no interior desta região, o estado que teve maior aumento foi o Pará, com 185,6% de variação da taxa de homicídios. O Estado de Roraima foi o que teve maior redução, -43,6%. Por sua vez, a região Sudeste foi a única do país que reduziu sua taxa de homicídios entre os jovens, e em quase pela metade: -49,6%. O Estado de São Paulo, que tinha uma taxa de 86,8, em 2002, e passou para 21,9, em 2011, redução de 74,8%, a maior redução do país. Já o Estado de Minas Gerais tinha uma taxa de 24,9 e subiu para 43,3, crescimento de 74,1%. Na região Nordeste, o estado que registrou maior aumento da taxa foi a Bahia, com variação de 255,9%, o maior aumento do país ao longo dos 11 anos. Nesta região, Pernambuco foi o único estado que reduziu sua taxa de homicídios, -33,1%. Entre os três estados da região Sul, Paraná foi o que teve maior crescimento da taxa, 65,6% e, Rio Grande do Sul, a menor taxa, 13,1%. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 184 No Centro-Oeste, Goiás e Mato Grosso do Sul foram os únicos que registraram crescimento da taxa de homicídios, mas, no primeiro, 84,0% e, no segundo, apenas, 1,4%. Mato Grosso foi o que teve maior redução: -5,7%. Por outro lado, se olharmos apenas o ano mais recente da pesquisa, 2011, veremos que a região Nordeste foi a que registrou maior taxa de homicídios: 72,2. Enquanto a menor taxa encontra-se na região Sul: 44,4. No Nordeste, a maior taxa para 2011 esteve no Estado de Alagoas (149,9, a maior do país) e, a menor, no Piauí (24,9). E, na região Sul, a maior taxa foi do Estado do Paraná (64,1), e, a menor, de Santa Catarina (22,6). Na região Norte, a maior taxa para 2011 foi registrada no Estado do Pará (77,1), e a menor em Roraima (28,5). No Sudeste, a maior taxa foi do Estado do Espírito Santo (105,1), e a menor, no Estado de São Paulo (21,9, a menor taxa do país para 2011). E, no Centro-Oeste, a maior taxa de homicídios para o ano de 2011 foi do Estado de Goiás (72,0), e a menor, no Mato Grosso do Sul (45,5). A partir do Gráfico 4 fica mais evidente a evolução destes indicadores. No gráfico estão dispostas taxas de homicídios entre os jovens (15 a 29 anos) das grandes regiões do Brasil, entre 2001 e 2011. GRÁFICO 4 - EVOLUÇÃO DA TAXA DE HOMICÍDIOS ENTRE JOVENS, SEGUNDO AS GRANDES REGIÕES DO BRASIL, 2001-2011 FONTE: Adaptado de Waiselfisz (2014) TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 185 A seguir, na Tabela 9, os dados relativos às taxas de homicídios encontram- se ordenados segundo cada estado do país, para os anos de 2001 e 2011. Alagoas, Espírito Santo e Paraíba são os três estados que ocupam os primeiros lugares no que diz respeito às maiores taxas de homicídios do Brasil em 2011. Em 2001, estes três lugares eram ocupados pelos estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Já os estados de São Paulo, Santa Catarina e Piauí ocupam os três últimos lugares da lista, com as menores taxas de homicídio do Brasil em 2011. Em 2001, os estados com menores taxas de homicídios eram Maranhão, Piauí e Santa Catarina. Este último manteve-se entre os três estados com menores taxas de homicídios, conseguindo reduzir uma posição no ranking entre 2001 e 2011. TABELA 9 - ORDENAMENTO DOS ESTADOS POR TAXAS DE HOMICÍDIO ENTRE OS JOVENS 2001 2011 Estados Taxa Posição Taxa Posição Alagoas 57,5 7 149,9 1 Espírito Santo 86,5 4 105,1 2 Paraíba 29,4 19 88,5 3 Bahia 22,4 23 79,6 4 Pernambuco 118,3 1 79,2 5 Pará 27,0 20 77,1 6 Amazonas 32,2 17 75,8 7 Goiás 39,2 14 72,0 8 Rio Grande do Norte 19,5 24 65,9 9 Distrito Federal 66,0 6 65,9 10 Ceará 31,0 18 64,4 11 Paraná 38,7 15 64,1 12 Sergipe 55,3 10 62,0 13 Amapá 74,1 5 58,1 14 Rio de Janeiro 103,3 2 56,4 15 Mato Grosso 55,9 9 52,7 16 Mato Grosso do Sul 44,8 12 45,5 17 Minas Gerais 24,9 22 43,3 18 Maranhão 17,6 25 41,9 19 Rondônia 57,0 8 40,9 20 Tocantins 25,4 21 39,6 21 Rio Grande do Sul 33,5 16 37,9 22 Acre 41,6 13 33,4 23 Roraima 50,6 11 28,5 24 Piauí 15,9 26 24,9 25 Santa Catarina 14,0 27 22,6 26 São Paulo 86,8 3 21,9 27 FONTE: Adaptado de Waiselfisz (2014). UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 186 O que é importante nos marcos deste tópico diz respeito ao panorama da organização das sociedades durante o estágio do capitalismo contemporâneo. A evolução das relações econômicas e sociais a um nível internacional, propiciado pela dinâmica da globalização (que estudamos no tópico anterior), não proporcionou uma redução das taxas de óbitos por causas externas nos países da periferia do sistema capitalista de produção. O Brasil, por exemplo, ocupa a 7ª posição dos países do mundo com maiores taxas de homicídio entre os jovens (54,5 em 2010), atrás de El Salvador, Ilhas Virgens, Trinidad e Tobago, Venezuela, Colômbia e Guatemala. Estados Unidos encontra-se na 41ª, com uma taxa de homicídios de 3,4 pessoas (jovens) para cada 100 mil habitantes – muito inferior às dos países mais pobres. Alemanha encontra-se na 84ª posição, com uma taxa de homicídios em 0,4. DICAS Este e outros dados sobre violência e juventude no Brasil podem ser encontrados no “Mapa da Violência: homicídios e juventude no Brasil”, disponível em: <http://mapadaviolencia. org.br>. Resgatando a discussão sobre a desigualdade de rendimento entre raças, do item anterior, e integrando-a à questão da violência, percebe-se aí, também, que os homicídios no Brasil possuem uma raça definida. A Tabela 10 apresenta o número de homicídios no Brasil, entre 2002 e 2010, segundo a raça da população. TABELA 10 - NÚMERO DE HOMICÍDIOS, SEGUNDO A RAÇA DAS VÍTIMAS, BRASIL, 2002-2010 Ano Branca Negra Amarela Indígena Total Participação (%)Branca Negra 2002 18.867 26.952 103 75 45.997 41,0 58,6 2003 18.846 28.331 178 78 47.433 39,7 59,7 2004 17.142 27.702 139 71 45.054 38,0 61,5 2005 15.710 28.454 81 93 44.338 35,4 64,2 2006 15.753 29.925 91 125 45.894 34,3 65,2 2007 14.308 30.193 45 144 44.690 32,0 67,6 2008 14.650 32.349 74 153 47.226 31,0 68,5 2009 14.851 33.533 60 135 48.579 30,6 69,0 2010 14.047 34.983 62 111 49.203 28,5 71,1 Total 144.174 272.422 833 985 418.414 34,5 65,1 FONTE: Adaptado de Waiselfisz (2012, p. 10) TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 187 O que se constata é a grande participação da raça negra (pretos e pardos) no total dos homicídios que acometem a população. Entre 2002 e 2010 esta participação cresceu constantemente: em 2002, 58,6% dos homicídios tinham como vítimas pessoas negras; em 2010, chegou a 71,1%. Enquanto o número de homicídios a pessoas brancas se reduziu entre 2002 e 2010 em -25,55%, nas pessoasnegras aumentou 29,80%. Da mesma forma se encontra com as pessoas negras jovens. O número de homicídios a pessoas jovens brancas se reduziu em -33,97%, e das pessoas jovens negras aumentou 23,36%. A participação dos jovens negros no número de homicídios, que era, em 2002, de 62,2%, passou para 69,10%, em 2010. 4 JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL Os temas discutidos até aqui permitiram vislumbrar alguns aspectos desafiadores das sociedades contemporâneas. Viu-se que o cenário do mercado de trabalho no Brasil é bastante desigual quanto à distribuição de renda, gerando consequências às mulheres e aos negros, por exemplo. Mas, as consequências da desigualdade do desenvolvimento também se revelam nos indicadores sobre violência no Brasil; aí, os jovens são os mais afetados, com acentuada participação entre as vítimas de homicídios. Entretanto, os desafios das sociedades contemporâneas – aqui, com especial atenção ao Brasil – podem apresentar-se, ainda, por outras formas. Uma dessas formas é evidenciando o número de conflitos socioambientais existentes no território nacional. Por esta perspectiva, foi criado o “Mapa de conflitos envolvendo injustiça ambiental e saúde no Brasil”. O mapa busca organizar e socializar as informações disponíveis sobre os conflitos existentes em áreas urbanas e rurais a partir de denúncias da própria comunidade atingida. A partir do ano de 2006, um projeto envolvendo a Fiocruz e a Fase, com o apoio do Departamento de Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, procurou mapear as principais situações discutidas em fóruns e redes de todo o Brasil. Neste contexto, foram priorizados os casos com maior relevância socioambiental e sanitária, procurando revelar a visão das populações atingidas por determinadas políticas, as demandas dessas populações, suas estratégias de resistência e propostas de encaminhamento. São quase 300 conflitos mapeados em todos os estados do Brasil, envolvendo diferenciadas populações, como agricultores familiares, moradores de encostas e favelas, garimpeiros, trabalhadores da indústria, seringueiros. Os conflitos se referem à violência por demarcação de terras indígenas, alteração do uso e ocupação do solo, luta por direito à educação e saúde, e também exposição a produtos químicos derivados de empresas em regiões irregulares, entre outros. Primeiramente, cabe observar a distribuição dos conflitos entre as áreas urbanas e rurais. O que se percebe pelo Gráfico 4 é que a maioria dos conflitos mapeados encontra-se nas áreas rurais. Um dos motivos do predomínio dos conflitos UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 188 em áreas rurais se refere à expansão da dinâmica capitalista ocorrer pela extração de recursos naturais e pela utilização de terras cultiváveis, caso do agronegócio, da mineração para a produção do ferro e do aço e da bauxita-alumínio, além de grandes empreendimentos como hidrelétricas e rodovias. Este avanço constante para o interior das áreas rurais prejudica social e ambientalmente inúmeros grupos populacionais, desde indígenas, quilombolas, extrativistas, pescadores. Por outro lado, as lutas das comunidades em ambientes urbanos normalmente envolvem questões ligadas à saúde, meio ambiente, moradia, saneamento, qualidade de vida e direitos humanos, isto é, questões que ainda não incorporaram a necessidade da garantia de justiça ambiental para o conjunto da sociedade, gerando uma condição de injustiça socioambiental. GRÁFICO 5 - DISTRIBUIÇÃO DOS CONFLITOS EM ÁREAS URBANAS E RURAIS FONTE: Adaptado de Fiocruz; Fase (2006) Da mesma forma, o Gráfico 6, a seguir, procura demonstrar a distribuição da população atingida pelos conflitos socioambientais. TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 189 GRÁFICO 6 - PRINCIPAIS POPULAÇÕES ATINGIDAS PELOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS FONTE: Adaptado de Fiocruz; Fase (2006) Cabe-nos olhar atentamente os dados dispostos no Gráfico 6. A maioria da população atingida pelos conflitos socioambientais é formada por povos indígenas, 33,67% dos conflitos mapeados, seguida pelos agricultores familiares: 31,99%. A população quilombola também possui uma participação relativa importante: 21,55% dos conflitos socioambientais mapeados atingem estas populações. Na sequência, os mais atingidos são os pescadores artesanais (14,81%), os moradores de entorno de aterros e/ou terrenos contaminados (13,80%) e ribeirinhos (13,47%). Portanto, como se viu anteriormente, a população mais atingida reside na área rural, mas, também, encontram-se muitos casos que atingem a população da área urbana, como os operários e trabalhadores da indústria, moradores dos centros e periferias urbanas e moradores de encostas e favelas. Além dessas populações apresentadas no gráfico, podem ser citadas as populações extrativistas, quebradeiras de coco, mulheres, catadores de caranguejos, entre outras, todas com menos de 2% de ocorrências. Os principais danos e impactos socioambientais se referem à alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território, são 65,66% dos impactos causados. Estes danos, por sua vez, irão originar conflitos em diversas populações. O segundo impacto mais importante é a poluição dos recursos hídricos, representando 45,12%, seguido da falta ou irregularidade na demarcação do território nacional (40,07%). Estes impactos são causados pelas disputas por territórios específicos entre populações e setores econômicos, como o agronegócio, a mineração ou obras de infraestrutura. Ademais, cabe lembrar, ainda, das queimadas, desmatamentos (35,35%), falta de licenciamento ambiental (24,58%), poluição do solo (38,72%) UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 190 ou atmosférica (23,91%) e as invasões ou danos a áreas protegidas e unidades de conservação (21,55%). Mas, neste contexto, existem ainda os danos e riscos causados à saúde, que levam em conta, também, a qualidade de vida, a cultura e as tradições das populações. Pois o mapa indica uma piora na qualidade de vida das pessoas devido à incidência dos conflitos socioambientais. O que está em jogo neste caso não é apenas evitar os prejuízos decorrentes de certos impactos ambientais, como a poluição, mas a manutenção de certos valores, práticas sociais e relações com a natureza que foram ou serão perdidos diante do “progresso” econômico no aproveitamento de recursos naturais e da disputa por território. (FIOCRUZ; FASE, 2006 s/p.). Assim, viu-se que quase 80% dos conflitos resultam em piora da qualidade de vida da população. Contudo, os conflitos também sujeitam populações a doenças não transmissíveis ou crônicas, como o câncer, e doenças respiratórias decorrentes da poluição química (40,07%), violência, ameaça (37,71%), insegurança alimentar, devido aos impactos no ambiente de produção (30,98%) e falta de atendimento médico (29,97%). Neste contexto, algumas atividades são predominantes na responsabilidade pelos conflitos socioambientais. O Gráfico 7 traz as principais atividades que originaram os conflitos. O item que mais se destaca é a atuação de entidades governamentais, isto porque as injustiças sociais e ambientais estão ligadas justamente à atuação ou à deficiência de atuação do próprio poder público (Judiciário e/ou ministérios públicos) em conduzir políticas públicas e legislação ambiental. Assim, a “atuação de entidades governamentais” aparece como a principal atividade responsável por causar conflitos (52,86%); a formulação de políticas públicas e a orientação da legislação ambiental também têm uma participação importante (18,18%); a atuação do Judiciário e/ou do Ministério Público, 9,76% de participação. TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 191 GRÁFICO 7 - ATIVIDADES RESPONSÁVEIS PELOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS FONTE: Adaptado de Fiocruz; Fase (2006) No entanto, um segundo grupo causador de conflitos sociais e ambientais se refere a atividades econômicase sua interferência nos territórios e modos de vida das populações. Aqui, destaca-se o agronegócio, representado pela “monocultura”, com participação de 33,67% de participação na causa dos conflitos, e também atividades ligadas à mineração e siderurgia (16,84%), à construção de barragens e hidrelétricas (14,81%), madeireiras (13,47%), indústria química e de petróleo ou gás, cuja participação é de 11,78%. O Gráfico 7 ainda revela outras atividades que contribuem para a formação de conflitos sociais e ambientais, muitas delas ligadas à produção de energia, por exemplo. No item “outros”, com participação relativa também relevante, 28,96%, aparecem os setores turísticos e imobiliários, devido a constantes disputas territoriais pela expulsão das populações que se situam nos locais de seus empreendimentos, como a construção de “eco resorts” ou no ambiente urbano, onde os moradores pobres são acusados pela degradação ambiental e pela violência nas cidades. Pois bem, caro(a) aluno(a), uma vez entendidos os possíveis conflitos sociais e ambientais existentes nas sociedades contemporâneas, vejamos como eles distribuem-se segundo os estados brasileiros. O Quadro 12, a seguir, relaciona o número de conflitos em cada estado e região brasileira. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 192 QUADRO 12 - DISTRIBUIÇÃO DOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS, SEGUNDO ESTADOS E REGIÕES, BRASIL Região Estado Conflitos principais Conflitos relacionados Total % por estado % por região Centro- Oeste Goiás 8 1 9 2,62 9,62Mato Grosso 13 3 16 4,66Mato Grosso do Sul 6 2 8 2,33 Nordeste Alagoas 9 0 9 2,62 29,45 Bahia 16 4 20 5,83 Ceará 9 3 12 3,50 Maranhão 8 3 11 3,21 Paraíba 6 4 10 2,92 Pernambuco 13 3 16 4,66 Piauí 4 1 5 1,46 Rio Grande do Norte 9 0 9 2,62 Sergipe 8 1 9 2,62 Norte Acre 8 0 8 2,33 21,28 Amapá 8 0 8 2,33 Amazonas 15 2 17 4,96 Pará 10 3 13 3,79 Rondônia 9 0 9 2,62 Roraima 8 0 8 2,33 Tocantins 9 1 10 2,92 Sudeste Espírito Santo 13 0 13 3,79 27,70Minas Gerais 23 4 27 7,87Rio de Janeiro 20 1 21 6,12 São Paulo 30 4 34 9,91 Sul Paraná 15 2 17 4,96 11,95Rio Grande do Sul 10 3 13 3,79 Santa Catarina 10 1 11 3,21 Total 297 46 343 100,00 100,00 FONTE: Adaptado de Fiocruz; Fase (2006) A região que mais concentra número de conflitos socioambientais é a região Nordeste, com 29,45% dos casos, seguida da região Sudeste, com 27,70% e da região Norte, com 21,28% dos casos de conflitos. As regiões que menos concentram conflitos socioambientais mapeados pela pesquisa são a região Centro-Oeste, com apenas 9,62% dos conflitos, e a região Sul, com 11,95%. TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 193 GRÁFICO 8 - DISTRIBUIÇÃO DOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS NAS REGIÕES BRASILEIRAS FONTE: Adaptado de Fiocruz; Fase (2006) Na região Nordeste, a que concentra mais casos, o estado que se destaca é a Bahia, com maior número de conflitos, resultando em 5,83% dos casos da região. O estado que menos registrou casos foi o Piauí, com 1,46%. Já na região Sudeste, o Estado de São Paulo se destaca, com 9,91% dos casos de conflitos registrados; o Estado do Espírito Santos é o que menos possui casos, representando 3,79% dos conflitos. No interior da região Norte, o estado que mais possui casos de conflitos socioambientais é o Amazonas, com 4,96%, e os estados com menos registros são Acre, Amapá e Roraima, todos os três com 2,33% dos casos. No Sul do país, Paraná se destaca, com 4,96% dos casos, enquanto, em Santa Catarina, encontram-se apenas 3,21% dos casos. E, no Centro-Oeste, a região que menos concentra conflitos, o Estado do Mato Grosso do Sul é o que registra menos conflitos, com 2,33% dos casos nesta região. Já Mato Grosso registra 4,66% dos conflitos socioambientais existentes no Centro-Oeste. O estado em que existe menor quantidade de conflitos mapeados é o Piauí, com apenas cinco conflitos (principais e relacionados), seguido de Mato Grosso do Sul, Acre, Amapá e Roraima, todos os quatro com apenas oito casos mapeados. Por outro lado, o estado no qual existe maior quantidade de conflitos socioambientais é São Paulo, com 34 registros. O Estado de São Paulo é seguido por Minas Gerais, com 27 conflitos, e a Bahia, com 20 casos registrados. Uma das ferramentas disponibilizadas pelo “Mapa de conflitos envolvendo injustiça ambiental e saúde no Brasil” é a possibilidade de se visualizar no mapa do Brasil a localização exata de todos os conflitos mapeados, distribuídos entre os municípios e estados. UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 194 Na Figura 38, a seguir, encontra-se em ênfase o Estado de São Paulo, devido à grande quantidade de conflitos observados. FIGURA 38 - MAPA DE CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS DO ESTADO DE SÃO PAULO FONTE: Fiocruz; Fase (2006) DICAS A partir do “Mapa de conflitos envolvendo injustiça ambiental e saúde no Brasil” é possível acessar as informações para todos os estados brasileiros. Disponível em: <http://www. conflitoambiental.icict.fiocruz.br> TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 195 LEITURA COMPLEMENTAR Os dilemas do trabalho no limiar do século 21 Ricardo Antunes Se há um tema que está sempre presente nos debates atuais, junto com a destruição ambiental, esse tema é o do trabalho e seu corolário, o desemprego. Isso porque também não há nenhum país que, em alguma medida, não esteja vivenciando o desmoronamento do trabalho. Em plena eclosão da mais recente crise financeira, estamos constatando a corrosão do trabalho contratado, a erosão do emprego regulamentado, que foi dominante no século 20 e que está sendo substituído pelas diversas formas alternativas de trabalho e subtrabalho, de que são exemplo o “empreendedorismo”, o “trabalho voluntário”, o “cooperativismo”, modalidades que frequentemente “substituem” o trabalho formal, gerando novos e velhos mecanismos de intensificação e mesmo autoexploração do trabalho. Os modos de precarização do trabalho, o avanço tendencial da informalidade, o desemprego dos imigrantes, tudo isso acentua o tamanho da tragédia social em que estamos envolvidos. O emprego assalariado formal, modalidade de trabalho dominante no capitalismo da era taylorista e fordista, que magistralmente Chaplin satirizou em Tempos modernos, está se exaurindo e sendo substituído por formas de trabalho que em alguns casos se assemelham às da fase que marcou o início da Revolução Industrial. Senão, como explicar, em pleno século 21, as jornadas de trabalho que, em São Paulo, chegam a 17 horas por dia? Tudo isso nos obriga a refletir: que trabalho queremos, de que trabalho necessitamos? Trabalho como atividade vital Aqui, devemos fazer uma pequena digressão. Sabemos que o trabalho, concebido como atividade vital, nasceu sob o signo da contradição. Desde o primeiro momento, foi capaz de plasmar a própria sociabilidade humana, por meio da criação de bens materiais e simbólicos socialmente vitais e necessários. Mas também trouxe dentro dele, desde seus primeiros passos, a marca do sofrimento, da servidão e da sujeição. Ao mesmo tempo em que expressa o momento da potência e da criação, o trabalho também se originou nos meandros do “tripalium”, instrumento de punição e tortura. Se era, para muitos, dotado de uma ética positiva (ver as análises de Weber), própria do mundo dos negócios (cujo significado etimológico é negar o ócio), para outros, ao contrário, tornou-se um não valor, estampado na magistral síntese de Marx: “Se pudessem, os trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!”. Mas o século 20 moldou-se pela estruturação da chamada sociedade do trabalho, em que desde muito cedo fomos educados para o princípio fundante do trabalho. Esse cenário começou a ruir, no entanto, a partir dos últimos 20 anos. Tragicamente, quanto mais a população vem aumentando, menor é a capacidade de incorporar os jovens ao mercado de trabalho. Esta é a situação que vivenciamos hoje: não encontramos empregospara aqueles que dele necessitam para sobreviver e os que ainda estão empregados em geral trabalham muito e não ficam um dia sem FIGURA 38 - MAPA DE CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS DO ESTADO DE SÃO PAULO UNIDADE 3 | O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO 196 pensar no risco do desemprego. Esse medo ocorre não só na base dos assalariados, pois essa tendência cada vez mais avança na ponta da pirâmide social, chegando até os gestores. Desemprego Uma rápida consulta aos dados acerca do desemprego mundial é esclarecedora. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em recente relatório, projetou mais de 50 milhões de desempregados ao longo deste ano de 2009, em consequência da intensificação da crise que atingiu especialmente os países do Norte. A mesma OIT acrescentou, ainda, que aproximadamente 1,5 bilhão de trabalhadores sofrerão redução em seus salários (Relatório mundial sobre salários 2008 – 2009). Na China, país que mais intensamente cresceu na última década, com quase 1 bilhão de trabalhadores, cerca de 26 milhões de trabalhadores que migraram do campo para as cidades perderam seus empregos, gerando a onda de revoltas a que assistimos atualmente. A América Latina também não ficou de fora desse cenário: a mesma OIT antecipou que, dada a ampliação da crise, “até 2,4 milhões de pessoas poderão entrar nas filas do desemprego regional em 2009”, somando-se aos quase 16 milhões hoje desempregados, sem falar do “desemprego oculto” e outros mecanismos que mascaram as taxas reais de desemprego (Panorama laboral para América Latina e Caribe, janeiro de 2009). No limite da degradação Dentro de um contexto marcado por uma profunda crise estrutural, ampliam- se, portanto, as formas de aviltamento do trabalho. Os exemplos são abundantes e o espaço aqui seria por demais limitado. Mas podemos emblematicamente apresentar alguns casos mais expressivos. A cada dia vemos mais e mais exemplos de trabalho escravo no campo; nos agronegócios do açúcar, no etanol de Lula, cortar mais de 10 toneladas de cana por dia é a média por baixo, low profile. No norte do país esse número pode chegar a até 18 toneladas diárias. Em São Paulo, não é difícil localizar a degradação dos trabalhadores imigrantes, como os bolivianos, subempregados nas empresas de confecção, com jornadas que atingem até 17 horas diárias, configurando uma modalidade de trabalho no limite da condição degradante. E os exemplos se esparramam por todas as partes do mundo: chicanos (EUA), dekasseguis (Japão), gastarbeiters (Alemanha), lavoro nero (Itália) etc. No Japão, jovens operários migram em busca de trabalho nas cidades e dormem em cápsulas de vidro do tamanho de um caixão. Configuram o que já chamei de operários encapsulados. Na América Latina, trabalhadoras domésticas chegam a trabalhar 90 horas por semana, tendo não mais que um dia de folga ao mês, conforme lembrou Mike Davis em seu Planeta favela (Boitempo, 2006). TÓPICO 3 | ASPECTOS DESAFIADORES DAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 197 Se, no século passado, os povos do Norte migraram em massa para o Sul do mundo (como os italianos, alemães, portugueses, espanhóis, tão bem acolhidos no Brasil), estamos presenciando o exato inverso. Nesse sentido, exemplos recentes na Espanha, nos EUA e na Inglaterra, contra os brasileiros, são por demais expressivos. Outra manifestação, ainda que diferenciada, é também esclarecedora: trabalhadores britânicos em greve, no início de 2009, empunhavam um cartaz que dizia: “Empreguem primeiro os trabalhadores britânicos”, em manifestação contrária à contratação de italianos e portugueses. Se é justíssima a reivindicação de salário igual para trabalho igual, para se contrapor à tendência destrutiva dos capitais de explorar o imigrante carente de trabalho, é repulsiva a manifestação que estampe qualquer traço xenófobo contra trabalhadores imigrantes. O fenômeno é curioso: em plena apologética da assim chamada “globalização”, os capitais transnacionais podem fluir e viajar livremente, enquanto o trabalho imigrante encontra-se cada vez mais cerceado e tolhido. Talvez pudéssemos dizer que, enquanto os capitais transnacionais são livres em seus voos e saques, os trabalhadores imigrantes devem se manter cativos. O trabalho jovem São essas algumas das forças que moldam o mundo do trabalho hoje. Mas existe ainda outro ponto – dentre tantos – que podemos lembrar, para concluir. Sendo a CULT uma publicação que tem nos jovens um público importante, vale a pena fazer uma nota geracional: poucos jovens hoje conseguem emprego nas carreiras que escolheram. Quando têm qualificação, perambulam de um emprego a outro até chegar – se conseguirem – ao que pretendiam inicialmente. Quando lhes falta o capital cultural, aí a empreitada é mais difícil. Para conseguir emprego, são “obrigados” a realizar trabalhos “voluntários”. Ou o que é ainda mais frequente: a explosão do trabalho do estagiário, que se converte em um trabalho efetivo com sub-remuneração. Se a ordem societal dominante dificulta o acesso dos jovens em idade de trabalhar, ela inclui, por outro lado, precoce e criminosamente crianças no mercado de trabalho, não somente no Sul, mas também nos países capitalistas avançados. Pouco importa que o trabalho hoje seja supérfluo e que centenas de milhões de assalariados em idade de trabalho se encontrem em desemprego estrutural. Os capitais globais frequentemente recorrem ao corpo produtivo das crianças, que deveriam estar exercitando seu corpo brincante (na conceitualização de Maurício da Silva). E esse retrato se amplia quando estudamos a produção de sisal, de têxtil e confecções, calçados, cana-de-açúcar, carvoarias, pedreiras, olarias, emprego doméstico etc. Por fim, outra contradição social cada vez mais vital: se os empregos se reduzem, aumentam os índices de desemprego, empobrecimento e miserabilidades social – realidade em que bilhões hoje vivem com menos de 2 dólares por dia. Se, como resposta, os capitais globais e suas transnacionais recuperarem os níveis de crescimento, como fez a China na última década, o aquecimento global nos converterá no mundo da torrefação. Trabalho e aquecimento global serão, portanto, os grandes dilemas do século 21. FONTE: ANTUNES, Ricardo. Os dilemas do trabalho no limiar do século 21. Cult, 139. Disponível em: <http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/os-dilemas-do-trabalho-no-limiar-do- seculo-21>. Acesso em: 29 jan. 2015. 198 Neste tópico você aprendeu que: • A globalização trouxe, entre outras dinâmicas, muitos aspectos desafiadores para as sociedades contemporâneas. • O mercado de trabalho no Brasil é bastante desigual quanto à distribuição de renda, gerando consequências às mulheres e aos negros. • A violência no Brasil vem afetando sobremaneira os jovens, devido acentuada participação entre as vítimas de homicídios. • Outra forma de evidenciar a desigualdade do desenvolvimento é pelo número de conflitos socioambientais existentes. • A maioria dos conflitos socioambientais acomete as populações indígenas. RESUMO DO TÓPICO 3 199 AUTOATIVIDADE Caro(a) acadêmico(a)! Para fixar melhor o conteúdo estudado, vamos exercitar um pouco. Leia as questões a seguir e responda-as em seu Caderno de Estudos. Bom trabalho! 1 Segundo os grupos ocupacionais e os estratos sociais apresentados para o Brasil em 2007, qual dos grupos recebe maiores salários? E qual aquele que possui menor remuneração? 2 Como podemos perceber, a diferença de remuneração existe entre pessoas brancas e de outras raças? Explique. 3 Podemos dizer que existem diferenças entre o rendimento dos homens e das mulheres no Brasil? 4 Segundo os dados apresentados, em 2011, qual tipo de população é mais atingida pela violência? E qual tipo de violência? 5 Em qual região podemos observar maior taxa de homicídios na população entre 15 e 29 anos, no ano de 2011? 6 Conforme os dados apresentados, quais populações são consideradas mais atingidas por conflitos socioambientaisno ano de 2006 no Brasil? Qual proporção? 7 É possível perceber que os conflitos socioambientais distribuem-se de forma desigual pelo território brasileiro. Qual estado concentra maior número (total) de conflitos? Qual é seu percentual com relação ao total de conflitos no Brasil? 8 Qual a região do país que mais concentra conflitos socioambientais? Qual o percentual com relação a regiões do Brasil? 200 201 REFERÊNCIAS ALADI. Associação Latino-Americana de Integração. Disponível em: <http:// www.aladi.org/nsfweb/sitioport>. Acesso em: 24 jan. 2015. APEC. Cooperação Econômica Ásia Pacífico. Disponível em: <http://www. camara.gov.br/mercosul/blocos/APEC.htm>. Acesso em: 24 jan. 2015. BENEVIDES, Claudia do Valle. Um Estado de Bem-Estar Social no Brasil? Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Economia da Universidade Federal Fluminense – Rio de Janeiro: 2011. Disponível em: <http://www.proac.uff.br/cede/sites/default/files/EBES_no_Brasil__2_ dissertacao_benevides.pdf >. Acesso em: 9 jan. 2015. BIROU. Alain. Dicionário das ciências sociais. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978. BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. 5. ed. Brasília, D.F: Ed. da UnB; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000. 2v. BOCCHI, João Ildebrando. 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