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0 CONTEXTO QINAMICO DA INFQRMAQAQ;
UMA ANALISE INTRODUTORIA
Kevin McGar1y
Q contexto dinémico
da informagéo
Uma anélise introdutéria
Tradugio dc I-Ieiena Vilar cle Lcmos
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E‘ E‘ £1333 <?_.
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BRIQUET DE LEMOS
LTVRO S
._... 7 ——.-._ 2 "v:::-::-rm
© Library Association Publishing I993
Titulo original: The chmzging r:0nte.\'t of information: rm introductory cmrllysis
Trzlclrrgzio cla scgunrla ccligfro inglcsa pul>1ic.1(l:1cm 1993
Adquiriclos os'"clircil0s exclusives dc tmclugfio para os pafses cl: fingua porhrgucsa
Todos as ciircilos reservudos. De iICOFCl0 com 1: lei, ncnllunla parts clcste Eivro pods scr
fotocopizrcla, gravzrcla, rcprocluzida on armazenzrcla num sistcma cle rccrrperzigfio dc informa-
gfio ou trzmsnliticln sob qunlqucr forum on por qualqucr meio clctrénico ou mccfizxico scm
0 prévio consentimcnto do rlctentor dos clircifos 11 uforais, do fraclutor c do editor.
Revisfioz 1\/laria Lucia Vilzlr dc Lemos
Dndos imcrraaciorniis ale C;1t;xl0ga<;;'|0 me Publica *0 (CIP)g.l(Ccrmara Brasilcim do Livro, S50 Paulo, SP, Bmsil)
McCnrry, Kevin
O confexto dinfimico (Ea infommgzio; uma zmélisc introcluhfirin
I Kevin McCarry; tradugfio clc Helena Vilar dc Lcmos. — Brasilia,
DP; Briquet dc Lemos/Livros, 1999,
Tifulo original: The changing context of infomlarionz an intro-
ductory anal is.5'5
Bibliografizz.
1. Ciéncia (la inf0r|n:|§§0 - Aspcctos socinis I. Tftulo
98—*~°>‘P‘P CDD-206.42ISBN 3§_s§5z7-121)
lndices para catzilogo sistclmiticuz
1. Ciénciu dn informagfio : Aspcctos sociais : Sociologia 306.42
2. lnformngio : Ciénciu : Aspectos suciuis : Sociologia 306.42
. . V BIBLIOTECA VALER /*5
( BIBL!OT£EC.4§Fii?§\,
.. " R. "1.-=
REGISTRO: cfiibkjii \\ l //’ [7
\.. i9Q_§),//
Briqucr dc Lemos / Livros
Lemos lriforiimgfio c C0munic:i<;fi0 Ltda.
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Brasilia, D17 7U3‘lD—UUO
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Fax (061) 22; 17 2;
cwmzail: lJriquet@z::z.com.br
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Sumério
Capilulo 1
Sobre c0n11eciment0 e mfonnagao
1 1 "Fer conhecimento c ser inforlllildfl
1.2 Eventos, fatos c os dados da cxpenfillflfl
1.3 A reprcselfiagfio cla u1f0rmaga0 M 1
1.4 C0n11<-zcianento, informagao c perccpgao mmanfl
1,5 Temas c quesfées
Capitulo 2
Aspectos psicolégicos da lnformagao
2.1 Conceitos e llnguagem ' n _ H
2 Z Tcoriq cia aprendizagem e 2| 0rgflI1lZ*1§i‘° (la mfonnagao
2,3 A criagfio dc conliccinientos‘ e iilforiiaagffies novas
2 4 Mcméria c processamcnto da mformagao
2.5 Temas 6 6111681565
Capfiulo 3 - ~ ' ‘ 1a socieclaclcAnnazenamento e fransinissao cle 111f0rm§§06$ 1
3 1 A cultura c 0 processo cle trzmsn11SS£l0
3.2 A tracligfio oral
3.3 Escrifa alfabética
3.4 A fase cle Gutenberg ' _ 1
3.5 A imprensa e 0 CO111l€C1l116l11O rcglsltriw 0
3 6 Oq contextos dinfimicos do alfallfiflfilfio
3,7 A era clctrénica
3.8 Tamas e quesrées
Capitulo 4 ' f " socieclade~ ' - s naArmazenamento c recL11)§ragao dc 111 ormagoe
4 1 A biblioteca na SOCl6(_lEl(.lC
4 2 Redcs <-3 trzinsferéncia cle inforinagées
4.3 Textos e bibliografia
4 4 Os textos c suas caracterishcas
4.5 Tamas e queslées
_ »-»o\>-—---
26
30
35
35
42
46
47
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62
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111
122
126
130
136
Capitulo 5
A or zmiza " ~ ' - .5 I g CI 9? s-Oelal e10 .COl1l1€Cll1l6l1fO e (la liaforlalagfio
5-Z A assi zcagao l)1l)ll0gI£1fic3
5.3 PS1OlEgCl1S soclars (las Cl1SC1Pl11‘135
. ac roes cle crescnnento clas (l1SC1pli1];]3
5 4 Como ' ' '- as drsc1 l " ' .t_ d I P maf $30 Cllfcrentes, c problemas da
5 ges ao a mfornlagao
-5 '1e1nas c qu@3t5@S
Capitulo 6
Aspectos éticos e profissionais cla inf0r111agfiQ
61 I“tTO¢lU§50 210$ conceifos éticos
6.2 A éti — - . ,C3 6 as Tel3§0@8 proflsszonzus
6.3 Questées éticas e servigo de infonnagfio
6.4 Telnas e questfies
Inclice
Capitule 1
Sobre conhecimento e informaglio
1.1 Tet eonhecirnento e set informado
“Oncle esté n sabedoria que perdemos no e0n11eci:nent0,
oncle estzi 0 conlxecimento que perdcmos na info|'1nz1<_;fio?"'
Nestes versos de um poema cle TS. Eliot s50 usaclos trés termos
capitais: sabedoria, conhecimento e infonnagéo. Estes conceitos, em
cliversas formas e graus, permeiam os telnas e questées exznninados
neste 1ivro.
A palavra ‘sabedoria’, do modo 001110 é uti1izac1a na linguagem
corrente, sugere ulna profuncla conlpreensfio dos problemas huma-
nos junto com 21 capacidacle dc discernimento correto e prudente.7
Presuinimos que quem possui sabecloria tanto POSSU1 CO11l1€Cl1'i16IltO
quanto informaefio. 'C01111ecin1ent0' rem um senticlo especial para 0
fi16s0f0. De fato, 0 estuclo (la natureza e valiclade clo conliecimento
constitui um campo especifico da filosofia denominaclo epistemologia.
Neste polémico campo cle ativieladc inte1ectua1 0s filésofos clebatenl
questfies tfio dificeis quantor 0 que poclelnos conllecer? 0 que é certe~
za? quais as concligées e 1i1ni'rag6e$ (lo conheciniento véliclo?
Pot sua prépria natureza, 0 conhecimento deve cle alguma forma
clepender da i11f0rm2:g50;os clois tennos silo freqfientelnente interc:1n1-
ibiéveis. Um pouco da culpa por essa f:11ta dc precisfio recai sobre 21
lingua inglesa, na qual 0 verbo to know lsaber, conheccr} é levado a
exercer diferentes fungées, em muitos contextos diferentes. Vejamos
0s €XCn1p10S a seguir:
' I know why the litmus paper has turned red. [Sci por que 0
papel dc tornassol ficon vernu-11110.]
° I know how to drive a car. [Sci anclar dc Carrol
° I 1<n0w that Paris is the capital of France. [Sei que Paris é 21
capital da Fra11ga.}
° 1 know what ii" is to be hungry and poor. [Sci 0 que é passar
fome e ser p0bre.]
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Os conhecirnr. '*ntos ac ur ale ad ~' ' ~ - -gas 6 PrinCI,p]_Oq tfiéncosl lg ‘Os Inrplrcam. conlrecnnento dc cau-
~ ' con tecnn - ‘ » -nhecimento d€ um Faro ,€Sp€dficO onto Ele dctermngada tecmca; co-
, . V ‘ ' e con lecnnentofispmta - e urn estado de
.. ' . .~ qucr que se a 0 termo utr117 n. -. » - ,
ulna realidade extcrim 3 I , ‘dad?’ dcudmos unplmto £1‘-‘C ha
cirannr ‘infornragf ’( nos qlie 6 8 Ongem daq‘-“lo Clue "‘350l\’@l110S‘ ‘£10 e cue existc ‘ ’infommgéo prim Vririgs til f urn! eu Que alega enlpregar esta
* =' < - os c orn ' ~a 611“ , ’ . P I 1215 (€C0t1l}CC1l11C111'O.S(IfO$5Q1}]Qg
P bl‘ 1 Passwas nmqumas l)ll)e(l@5 de Pfocessar intor1n'1<;6es talpro enla tosse nrenor ou me ' ' C ' VCZOsmo 116111 exrstrsse Mhmnmos Ob . ’ _ . as somos seres< strnados e ca rrchoso ' -
(ILl'ilii1fOr111 -" ./ - -P S (lug decldem POT Comm PTOPHQ- agao S6121 utrlizada on rejeitada e se sal (1 ' ' '
rncnto, ou conlrecimentoé intorma ~~ P = - . )e orla e conlree|_
ml Emma N d _ gao. or que nos comportaznos de
assu t nao _ eve desanimar 0 leltor. Isto torna a vida — e 110330
H11’ O — n1a1s rnteressante.
a 111118 ' P .- , - . , _d publlcagao, tasunante e utrl, multo utzlizada or estu-
antes, professores e cs ' I - P
ma se ll f f' S P qmsafi Ores no Campo da mfonnafiifio C113-" 1 orrna 1011 cience Abstrr . . . '
artigos do periodicos e lel tr _ ‘Sis e n(,la so resulnern os 1nt’1n1er0g= ' a orros '~S61. 6561- t I .6 Pfisqutsas em nosso campo. Para
. . ‘ I = 1 I . e -
en c, c eve co11te1nplarn1u1tas idéias e pqhvmg HOV-H U
S6111 C1 Cfldfl EH10. O lnotrvo pelo qual me reteri 1 essa ob ’ q Burexams de mlance dos Cqbb r . ra e que um
-* alhos d ' /I .l_ I _ ’_ f _ Q e assuntos all einpregadog dam 30er or URL} ideia dos varzos usos e contextos do t ‘- f _ ,
Uma )6 U6 _ I ernio in onnagao,_ 1 q na anrostra mostrara 0 quc quero dizer Os catalogos d
u111ve1'sidade<: adoranr util' ' i as_ ~ 12.'1r os s -
slgniticarlr ~. - ,6 - egum.teS lemms’ (3 Pause no Clue1 _ Para vocc. ulfornlatrea, geréncla da intornragéo 1llf()1'1]];1fQ
og1aC,1processan1e11to de irrtorlnagfio, recuperagfio de intcirnlaga t
orla a intonnagao [T f ~ - - ’ O’ 6”g , ans erencaa de rntonna " - ‘ - ~C Vfmos Outros vocébulos Si_1m_hmS M It gao, nso da infonnagao,
de eursos de r l .~ . .‘ . ' L“ OS apamcfim cm Progmnlfls
g at uagdo 6 €SPe‘3‘al‘Z3§50. Podemos notar de irnedirato,.que o torrno 1ntor1nagfio', como conceitorfio sofre d id C i
1 r e esem re o.Suponlramos que se tenlra £1 mfio o Concise Orford diciionlz; g f
current English Como a ' ' ' ' i ry 0- rnaiona dos drcron-irios dc l’- . = in uas rocurqregistrar "rs formas lyisre ' g ' P ‘= 1 as de uso on sc- .pakwms Ha fin M _d, r _ id, Como as pessoas usanl asg ‘gem coti 1ana.Al1teremosn0 verbete ‘i11f0rmati0n'.
information n inforinin tell' ' 3- - ti , . .8, mg, nng told, 1\l],Q\.\lledg6' (deslred) Items oflmoxvledgc, news; infanmtion retrieval tmcin f . f _ _
books Com mte_ tn _ _ _ » < g o I11 ormatron stored m, f is, e e, information science stud OE f ., y processes or storing
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and retrieving information; information theory, study of transmission of
information by signals, etc."‘
Como se vé, csta detinigao tenta ineluir todos os possiveis usos do
tcrmo. interessante notar que considera ‘conllecimento’ um quasa-
sinoninlo do termo ‘intor1na<_;5o'. Talvez a ctimologia do vocabulo
possa nos ajudar. ‘lntornlagao’ tornou-se popuiar logo apos a inven-
géio da irnprensa no sécu1o XV, quando o norn1a1 era langar 11150 de
ulna palavra do tatitn para expressar tuna nova idéia. A raiz do termo
\/C111 de formatio e forma, anrbos os quais tralrsmitenr a idéia de mol-
dar algo on format um moldc. Era tambérn a palavra latina para 0
quc cliamarianros ‘not§eia'."‘ lsso no qua se retere etimologia clas-. . M . ?
sica. Mas 0 que os especrallstas no assunto tern a clxzer.
Intonnag;;"1o é o termo quc designer o contendo daquilo que perinutamos coin o
mundo exterior ao ajustar-nos a ele, e que tax eon: que nosso ajustaincnto seia
7nele pcrcebido. Viver (le tato é viver com intonnagfior
Esta é a cletinigéo proposta por Norbert \/Vicner, Fundador da cil>er-
nética, 0 estudo da conlunicagfio e controle em seres lrumanos e ina-
quinas.
Intormagfto é algo de Que nceessitz-nnos quando deparamos com ulna cseolha.
Qualquer que seja sen contendo a qnantidade de intormagfio necessaria depen-
de da complexidadc da escolha. Se cicparmnos corn um grands espcctro de esco-
1l1z:s igualmentc provaveis, se qnalqucr coisa pode zrcontecer, precisamos dc mais
intormagfio do que se encarzissemos uma simples escollra entre alternativ-as.‘
(George Miller)
O one acrescenta algo a uma representagfio Recebeinos intormagfio quando
o quc eonlrecemos se modifica. Intonnagao 6: aquilo qne logicarnente iustifica
alterngfio on retorgo dc: uma representagfio on cstado (le coisas. As representa-
goes podern ser explicitas como nnm mapa on proposigilo, on implicitas como
no estado de atividade orientada para um objetivo do receptor." (Claude Shannon)
* hrfornmgfio s. o ato dc informal", contar; alga que se conton, conhecimento, conlrecimcntos
(allneiados), noticia; recuperagfro do intormagao, localizar intormagoes zmnzlzemldas em ti-
vros, computadores, elc.; ciéncia da informagzio, estudo dos processos de armzlzenamcnto e
rccuperngflo Cle intormagoes; teoria dn intormagao, estudo dz] trzlnsmissflo de intorrnzlgocs
por meio dc sinais, etc. [N.'|'.]
** O antor ins )ir;r-sc no tato de ue 'noticia’ cm in lés é news, voczibulo derivado rle novo,, , _
noviclade, c quc sc origina do latim rmvus. O eqLii\'alente cm portugués é ‘nova’, como smon1-
‘ ' ' -' ' ' 'essf1o ‘boas novas’. O \'ocfil:>u10rno dc noticia, pratlcamente caido em desuso, .1 nao ser 11.: e.\p|
'n0ticia’ deriva do latiln rmtitid (conllcciinento, nogfio, idéia).
informa " ~Q30 retere-se nao tar - '~ ' 41to .10 qne voce CllZ, mas ao qne pO(1lE'l'l3 dizer O1;
Sela, illlorrrngao é 1 rnedidq d ' ' ‘‘ - z a llbcrdade d - . -
111e11s=-Ilg€1r1.i (Donald lVlCKay) e escolln qurmdo S6 seleclolm “ma
Estas defini " “ ' ' ‘goes sao nmat ' < ._ 0 111Hue11e1adas pela doutrlna da teona
da infonna 'Q30 ou teona da co ' ~ > . ,
Estg 63¢-ado Sulgiu Ch nee .d I11Eun1ef1§a0 001110 as vezes e chamada.= essl z ' - ..
cibernética de mcdir u yd id C, dngmada has teleCOmumCa§O@$ 61 " an 1 a ' - 4 ,
mente especializada liase d es G mformagoesi lL ulna area alta-1 -a a . ' ' - -
povoada por obstinailgs ]1_ra_1111tie111at1ca das probabllrdades, eengen 611'OS e cornunica " ' 'gao e especrahstas
e111intorn1atica tanrbén ' '- 1 1 rnlluente nas méncias bi ’ ‘ologicas e com-
p0rtan1entais.A esar cle ate ' - ' - _ .t , P _OI1a da rntornlagao nao estar cl1retan1e11_
e envolvlda C011] 1/310,63 C SI f' d
entendidos nas eiénci -gln ‘ca OS’ do modo Como S50 em gfirfll~ as sociais ' ' ~ - ,-N , Ou na Vi(l£l cotidlana, suas rdeias eeree ‘oes a' - -P E ;uda111 no cstudo (la n1lorn1ag:ao 0111 qnalquer contexto 6
XIS C 11111.2] \!;]1'1g| 50 intg _ - . . _ _ '~ Q ressante nos prn1c1pa1s atnbutos da 1ntor_
1113919 QU6 as detini ” - 'goes acnna no. - -30661] d. _ _ ‘ Q 9£@TCC6111. Quando as a11a11san1os
I 10s iscernrr o segnrnte: ’
A rnforrnagfio pods SCI;
' considerrrda conlo ' '‘ um (1‘1F156—s1116n1111o do terino tato-
_ “I11? “7f0T§0 C10 qlifi se conheee; P
a iberdade de escolha ao3 matéria _ d I selecionar uma n1ensage111;
— rnna ' -P 3 qua S6 extral o conl1ec1n1ento*
aqurlo qne é perinutado con1 0 111u11doexterior<-1115103
~ - earecebrdo passivainente; P ms
I definida em t '- ern1os de sens eteitos n .Q alga que rfiduz fl in f 0' receptor,
. cer eza e111 detern11nada situagio,
Bibliotecarios e ' ' ' " 'specrallstasecrentr 1 . ' . ~ ‘-
°‘1“I>Y@gfl=11 0 ter111o Dan cle - Sta; (la mfonnagflo fre¢l‘1ent@111¢l1t6' s1 nar - -to on docume t D ‘d Pg {E25 fl1l<‘1I8ssu11to contlclo 1111111 tex-O 11 0. 011 e o terino intornragao docun1ent'iria’
qne e marcante nas Cllffifcntc 1 - - -r , " ' ,
CO dc nnP"lS 6 estrutnra A {ifs dcflmgogs 6 O emprega metafonr‘ 1 - s. me a ' , -
ma, a amlogia eonstitui t _ ora, iunto com sna parenta pr0X1_‘ * at e 1111 ( ~
namos Probleinas e Pensap Polhnle dos moclos Como Solucloimos a resperto c Ol11U11ClO E an ', - . . 1ane1ra comexplrearnos as coisas para nos mesmos e pan OS Outmb Io
- » 1 ‘ colnparanro
901333 Que $6 p"1rece111 111 " " ‘ ’= as11aosaol ‘* ' » - ,-1teraln1ente identicas Dal a 1de1a
de intornra " '9210 001110 al o ue altera a ' ~ ~
(16 um _ N. g Cl llatureza on as relagoes dentro
B13133 111 uénr esta insi ' -g Stmdo @111 qua tenlos um rnapa (l1te-
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ralmente) dentro de nossas cabegas. Os psieologos nos dizem qne
possnimos 11111 inapa cognitivo que se inoclitica E1 nleclida que apre11-
demos. E111 sun1a, tragarnos 11111 inapa dos padroes de nossas experi-
éncias, 11111 inodelo interno do mundo exterior e 0 utiliza111os para
organizer nossas vidas -- e proeurar inl§orn1ag§1o. Cada vez qne este
mapa é alterado dizern-nos que ‘aprenden1os’, 0 que indica uina rela-
gao proxima entre i11for111agao, assianiiagao e apre11di2.agen1.7
I Ontra descoberta fitil da teoria da inforn1ag;€1o é 0 eonceito de ‘in-
certeza’. Nao se trata apenas de urn método de lnedigao usaclo pelos
enge11l1eiros de conninicagfio, n1as'envolve algo essencial a condigao
liurnana. N510 gostamos (la incerteza c tentamos reduzi~la sempre que
possivel. Dito de modo enxnto, a inforn1agf1o é o oposto da ineerteza,
se11do uma rnedida da imprevisibilidade de ulna 111Cl1SE1g6l'l1 e da quan-
tidade de incerteza que rednziu. Mas é apenas ulna quantidade e 1150
especitiea sentido, utilidade, veraeidade, situagao de tato, l1istoria on
finalidade. E111 sunaa, nada teln a ver com o sentido de uina n1ensa-
gem e111 sen uso especializado em seu proprio calnpo. Acbamos L'1t11,
porérn, adaptar n1etatorican1ente 0 tenno para uso proprio. A visao
rornana segundo a qual notieia e intorrnagiio eraln a n1csn1a coisa nao
é tfio absurda quanto se poderia in1agi11ar. Co1oqnialn1e11te talanclo,
deve liaver 11111 elemento dc 'surpresa’ na inforinagao que constitui
‘novidade’ para 1111111. A esséncia de uma boa piada é 0 ‘pano rapido’,
o inesperado e ilnprevisivel desteello da historia. No calnpo mais am-
plo (la co1111111icagao politica notaanos treq1'.ie11ten1ente o eontraste
revigorante entre os lugares-eonluns entediantes e surrados do politi-
co e as idéias reeéxn-en11l1adas do escritor eriativo. O e1en1ento surpre-
sa édiferente: nossos mapas cognitivos torazn 'transtorn1ados’, alte-
rados — e111 suma, tomos infonnados. “Viver do tato é viver 00111 in-
torlnagao” dizia a definigao do Norbert Wie11er. Assim corno desgos-
tamos clas tensoes causadas pela incerteza, aprecialnos a ordeln, ape-
sar de as vezes esta tendr-"zncia niio set evidente. No entanto, e esta é
nma observagao confirmada pelos psicologos, 0 eérebro iinpora or-
den1 onde ela nao existe. Realmente, os teoricos da i11tor111agtio té111
um aliado ilnprovavel e111 santo Agostinlw, que acreditava (dc modo
nmito enlatico) que 0 n1al estava na auséncia de orde111 e que 0 prin-
cipal objetivo do diabo era criar deso1"den1. Na teoria da inforrnagao a
entropia é considerada ulna medida da desordem. O que é pior, a
entropia é 11111 principio universal que penneia todos os sistemas, desde
1-
esorivanrnlras desarruinadas até 0 proprio uiiiverso. De acordo com a
*@gu"dFl 161 da terriiodinfiinioa a enrropia do universo cresce a cada
mmSEOn1m§§O_ dc energifi? @111 Suina, o universo esté enr colapso. A
palavra entropia, da fornia usada na teoria da iirforlnagao parece gum-
Cl-Hr p0u,ca relagfio com seu ser1fido'origina1, que é ‘\/o1i:ar7ao ponto dc
lmrtlda 7 $61160 @886 fimprego do ternio provaveiniente baseado em
- Cf . ,‘ ‘I _ / baralfiogovinho em follra, em quc
entmpia mm. C363 VCZ qu€LflS C11lIPI'€i;i1Ct(;f111ll1&dfl, rein
auinenta. Iirlformagoes sfio dados O;iIOSc€l em Dian 13 as a wtropla
has de ulna pilha no jogo (13 qm Emmi 11 0I(e/11; (Como 1’€ilf3fi3_Ofdcnadas para fO>nmU Palawzis ;§CO}1];Zgi€,3ir;tl11]\?l- as em sequencias
1113950 <5 58 vezes Considerada entro )i'1l)(:' ‘1\fiC ~14‘ este $61131 Ugo’ mfop
a rncsnla coisa quando lkgamos uln; ‘1mgO‘1 t\<1.d giilenlros asroainente
os ooiocanlos numa ordein I‘6COi1hCC;\/61 l11"1O'a{"O C Avie; do Chi“) (i:imposta mgdiantc Ordenagfio NO flntmtor cs agre. in or11iH9ao e
aoervo, 21 enrropia aunienta corno rod 1 A use éucesslvqi do
ainformagfio é O temm que desi In Oogosaf oriéosdiriuirp bein,
mutanlos com 0 mundo exterior aogaf ' H eu O aqua O Que pep. _ p ;ustar~nos a ele, e que fag @0111
Que Qosfo *1]1_15’"1111¢11*0 $<*-‘J51 H616: peroebido.” Entfio, coino 0 ‘mundo
exterior se sirua nesta anzilise basica da inforinagfio?
1.2 Eventos, fatos e os dados da experiéncia”
f 9 (11; '?‘l““31*'Q, W510 §“f1, Cflpfainos inforinaeoes por ineio de nossos
@5303 O5 5‘3"hd05 (V1530, flflfiigfio, olfaro, paladar taro etc ) O diq
mteiro fodo dia reeihi ' -' " ' , ’ - ' ' t_ _ ’ _ - _! “Q5 45 "1£@F111?l§0<i$ que yulganios l1'I'€iCV£H1I'_‘CS
W13 l10S5as neoessrdadcs e propésiros. Reconliecenios '1Igun1'rs infor
_, _ ( L -magocs como 1n1cdi:1f' ’ '- . ‘d f <1l11el1re ureia e reagnnos a eias, por cxempio,
quan 0 reanios b1'uscan1eni'e para evitar ulna colisio ou atcricleinos
o teiefone - , -. - _mo S50 dfi qgniléilidci ole toea. Muitas das inforinagroes que captamos
I ~ 11 1 rc a( e inlediala; tcnios consoiéncia de estar reccbendo~
45, 11188 nada iazeinos. Outras inforniagoes sao caprad-1; gem ue dc
las tenhanios consciéncia i 1' {~= \ qI _ * "165 151 J, conio quando lembramos de aigo
que ta vez tenliainos visto, mas, 001110 dizoriios ifio percebeinos Re. _ _ 1 , r _ -ayamos ou nao a isso iiaquele nronrenro, essa iriforriiagfio podc Se;
guardadfl <3 VII £1 afcfar muifo do HOSSO coinportamento ulterior
Como Norbe 7' - . . . . 'rm humano d If \’\ilC1l1€l nos fizz iembrar, nossa eficrericm como se-
\ ' s e)en(e( *‘ ,- - -I 0 qm vazenios coin este bombardcio dc In-
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forinagoes; 0 que ignorainos, 0 quc aceitan10s;con10 arinazenainos, e
coino utilizainos este acervo de info1'inz1g6es como guia para agoes
futuras cm busca de conheoinlento e sabedoria. A paiavra-cliave é
relevfincia e a inedida dc nosso disocrnimento é a refeigéo do irre-
lcvanre. Atravessar a rua com seguranga depende da selegfio do que é
relevantc do iniediato para nossa seguranga. Ignoramos as informa-
goes uas vitrincs das lojas e concentranros nossa atengfio na veiocida-
de e diregfio do trfifego. Nossa decisfio dc atravossar a rua, apes:-11‘ do
ser tomada aparentenienfe nuin étiino, depends de calculos feitos
coin base em experiéncias siinilarcs anteriores; por excmpio, a veloci-
dade do oarro, as condigoes do pavimento da rua on 0 coi11p0rta111en-
to dos outros pedestrcs. O tempo para decisfio é curto; portanro, ig-
norarnos cc1'l'as informagoes, apreendemos 0 resto e aginios. Ouvi-
mos dizer que os adnriiristradores indusrriais tém que tomar deoisoes
coin a inesina urgéncia, e decisoes inalpensadas estfio repietas de iguais
corisecriiéilcias. Para todos nos a principal arividade de nossas vidas
envolve tomar decisoes ou rcagiriao nmndo dos eventos. Que sfio
cventos? Eventos sfio a parte da realidade zi crue nos adapt-amos, par-
riculamrcnte aquela parte da reaiidade que se modifier: no espago e
no tempo. Na niaioria dos casos sfio pacotes de infonnagoes ou esti-
inuios que a realidade iinpoe ii nossa percepgfio. Evenros sfzo coisas
que acontecern; sfio condiooes ou objetos que existem para uni ou
vérios seres hunianos. E111 gem} usainos 0 rermo para algo que acou-
tece num breve cspago de tempo. Nossas vidas sao relarivainentc <:ur~
tas so comparadas coin 0 mundo ao nosso redor, por isso tendemos a
notar coisas que inudain rapidainente, ou que possuem urn ‘renlpo
de existéncia niuito inenor que 0 nosso. Esta é ulna das razoes por
que é trio dificil falar coin precisao sobre ‘mudanga’. Aiguns eventos
téni que ser dcduzidos mais do que percebidos. Para o geologo 0 pe-
riodo do um miihfio de anos para 0 su1"gin1<-znto de uina oordiiheira
pods ser um evento que constitui a 1]121i'él'iE1 principal de seu estudo.
Podeinos dividir os eventos em duas categorias: internos e exter-
nos. Um evenfo interno pode ser 0 ronco do estornago de alguém; o
evenfo extcrno é quando alguéni chaina a arcnofio para isso. Este
cxcinplo nfio é tfio folo quanto pode parecer 51 primeira vista. Uma
parte essencial de nosso dcsenvolvi111c11l"o quando crianga esté em
poder distinguir entre ‘nos’ c nosso moio anlbicnte; distinguir entre
eventos nos mundos interior e exterior. Assim COl11€§H111OS a organi-
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£2135 Zg¢§(:0f5u§§rZX5l:;:i1i1Cg:211%ipteriros, extornos, d0 Pilssado re-
alegar que ‘Se Conhece’ cofifongm slgiisao F€(]lllSItOS’€SSCllf1HlS para
_ _ _ , arnos este caprtulo. Ordem e
21 primerra lei do universo" escreveu Aiexander Pope, poem do gécuio
gglsl-Slglfrsgi3;I1l}111(f(E:t;')€l1.ilt1(i)Vi:3Ii9lil§(i:]£)§1:ii)C que falamos e escre§e-
sordern’ é a propria antitese dc iirforgiiraefro. Eiiims qui 6-
t61“PQ E I10 @$[J21§O é o rirneiro asso ' I n ewim O noordain. Esta Ordenagéo ‘st: . essencia para coioca-lo ‘em
F _ paeioteinporai forma a base das ciassrfica-
goes do conhecnnento c das informagoes hurnanas, qualquer que seja
ftkefingi 3:1c1aS$Ll1_1n31P- J5 El_SSina1a111os que os eventos acontecem no
P OCH 1Za§ao definrda. As categorias fundanrentais de tem-
P_° 6 651739‘: $5? Os contextos bzisicos dos processos de raciocinio. S50
gfgiiigiiriiaaiéijdalde. 3) tB1?1P(_3£'11OSSEl mais funda-
uin fluxo nnidirecionai que a onta coiiliroo, slgngi lo? tmnsformago;AS Ovalhas a pastar SatiSfeimSPm Con} I ~un1a cc IE! Pzlrao futuro.
1a nao tern tal concerto. Igno-
Iajll one houvc oveihas antes e que havera ovelhas depois deias. Este
nao e nosso caso; 0 tempo é urna experiéncia a ser ordenada.“’
_ Calendarios e reiogios fornecenr as estruturas formais deii1forn1a-
§5l9 P3_TF1 0Yd@l1HF 1108521 experiéncia no tempo; mapas mentais e ina-
pas fisicos fornecein 0 contexto para ordenar o espago. Experiéncias
Zgjigzfiigsfiaglgg illiziipgléilpgeiror nr’nner0 de diividas em nos-
, _ _A _ I s mars em fazer pfirguntgg ggbfe
Ilfgiseegffjii2312331;fiiillgjliorégér de in1P0r—ihes orde1n.‘_Sin.1ples__
Came, e deixamos de “LS mom areéorip que rotplamos msign1f1-
dos a gaze: perguntas 601111; as Grim. 8 os em on naozlsprnos tao da_
humano dos animavis Estas Cr “mi El e e rscgomque ,1 erencia 0 ser
buem para a sonia do conhgciriento hm“ pa mils pfoigrlos Ctiontrbmazenadasi Rudyard Kiphn f ;uma_no e as rn orinagoes ar.
g, ainoso cscrrtor do seculo XIX, drsse-o
. ’ _em versos 1l1BSqL1cQ1\1¢;5;
Tenho seis criados honestos
Ensinzirarn-ine tudo que Sabin
£905 11011168 S50 que c por que e quando
5 com r - .0 e onde e qucm. (Six honest serving men, W03)
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Na verdade, esses ‘criados honestos’ superpoem-se em suas inuitas e
variadas fungoes, e as vezes aparecem coin as roupas trocadas. S0zi-
nhos, ou eni combinagao, apoiam as atividades das disciplinas que
estareinos exanrinando no capitulo 4.
Perguntas do tipo que geralmente se relaoionain coin os usos que
se podem dar as coisas. Quimicos, engenheiros inetaiifirgicos e fisi-
cos, entre outros, especiaiizain-se em tais questoes. Perguntas do tipo
que szio frecpfientemente sobre as definigoes das palavras e afudam a
rnanter os iexicografos ocupados com a compilagao de dieionérios.
Questoes sopre ‘0 qué’ de algo treqiienteniente se limitarn corn por
que e como. As vezes, quando perguntarnos ‘que é isso?’ estamos per-
guntando ‘coino isso tunciona dentro do sisterna?’
Perguntas do tipo /Jor que sao as inais dificeis de responder porque
a resposta norrnalmente provoca rnais por ques, e assim a busoa de
intormagao continua. Perguntas do tipo quando e onde sao métodos
de organizar 0 tempo e o espago. Podem surgir tanto em contextos
passados quanto futuros. Se feitas a respeito do passado, trata-se de
perguntas bésicas que devem ser respondidas coin uma precisfio ra-
zoavel para que se possa travar uina conversa produtiva. As questoes
que forrnulam eonstituein o dia-a-dia da geogratia e da historia e
freqiientemente sao 1111121 forrna disfargada de por qué.“
Perguntas do tipo como gerahnente tratanr das origens dos proces-
sos, das origens das experiencias sobre processos, da utiiidade de um
proccsso, ou de Lima politica. As respostas para estas perguntas sfio
muitas vezes descrigoes da série de eventos que deterniinararn a ex-
periéncia em questao. Como conregou a Prinreira Guerra Mundial?A
resposta acarretaria a descrigiio de uma serie de eventos que levaram
ao inicio dessa catastrofe. Da nresina former, conro teve inicio 0 siste-
nla de bibliotecas piiblicas? A resposta incluiria as condigoes prece-
dentes, as pessoas envolvidas, suas aspiragoes e estratégias, de fato, a
resposta tocaria, em prirneiro lugar, em por que teinos bibliotecas
pfiblicas. Perguiitas do tipo quem gerainrente acabam sendo ulna for-
nia disfargada de perguntas do tipo que e como. ‘Quem é ela?’ pode
exigir uina resposta que descreva 0 papel do individuo numa organi-
zagao. ‘Ela é especialista em intorinatica do servigo de bibliotecas do
rnunicipio.’ Quenr ira fazer? suscita uina questao do tipo como; quem
é responsavei peia politica governamentai a respeito das bibtiotecas
piibiicas? ira por fin; suscitar ulna pergunta do tipo por qué. E quase
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certo que ulna pergunta do tipo por que acabara por surgir so os ou-
tros cnados lionestos forum pressionados cl€n1ais_
COnljO(;uI;1€SlgSS?fi;(]?6:;Z[fi£1£:1Clr;%:}1:S§j‘ii5 c illclepezidolitcliieiite do fgrau
Combinagécs csgotam as ,mm€i;1S C[Z)€1gUl1 ag c suas pcnnutagoes e
Imlmh) e H68 mesmos Fazgm SIS; ‘l n10 po f3H1,0s indagar sobrc 0
I W - gn, em suas vanas tornias, fatos,
que na opiniao da nossa prinieira ainostra dc clefiiiigoes podem gar
ffiglig$:I:l§lg:t.:;1?O€g1i:g:)Cl:£::1f;J2l:?EI§1O.‘E-I1[§O, qne s:i_(Zfatos.7,O1Iios-
que em geral COl'resPQn£16 3 ulna qfif-1210113111 cntrc si. Patole aqinloEmbom jossa Y 1 ‘ p = lagao on a tOI‘i1£lA\/C1(l?1(lCH:<1.
I mos c ianiai urn gato de um cvenlo, on fenonieno, nao
pocleinos clenoinnia-lo um fato. Se afirnio que 0 gato cxiste ou que 0
lgatolestzi no capaclio, esscs s50 tatos. Os tatos cstao intiinamciite
3263213;;;’s]);?;L:::2:€(: Ir:nliostraini on tentain inostrar,
Almanaque Abril, uni {It'll C011})éI]CliCl1(l‘l“nEe:]la pigml lolmhsms 6 0
nagées do 111U11ClO. E111 suas )'i 1lI1'1S£iCO(Ll_)a its R2 atwof 3 tlldall asministm da Finmndia. D(;Sg:ig( U; minfiai oquezne 0 prune1ro_
aceito esta infommgfio Como fdfio mcsmoa cc‘19<10 estflllél atilahzada,
nh3dO O ewmm da PC8503 mmando )0“ quc ep nao 1a;a testcnm-
mos falar dc fornia significativa solire lftnaqllé 6 cargo’ gala Peder-Vérios tipos. OS fates tbmtosj S110 OS Mg os nos oslofgainzaiiios eni
mcnfa de Como vemos 0 mundiol or gyos up gang, independents-
de montmhas Du nos afogarmos ,5; FiO>ien:1P 0, Pit 611105 dcSP(-Jncar
afinnagfio sob“: C163 on H50 Um /-“to gs, o¢1§0 Qllmrainos tazer ulna
H150 d6 dimgfio é do lado és-( “ado (M I (>01? Que na Gra-Eiictanlia a
nuina econoinia do livre nieicaclo uiii Ha‘ J Lilm fdio egonomuloflueSemi Seguido dc um aumento Dog A auinen 0 no po eraquisitivo
/ . prcgzos. E um fizlo cientxfzco que 3
agua sc expands quanclo coiigclada. Uma caracteristica esscncial dc
:g’§:Z;JO6Ci])E€ plo tern un1a)clata)e_c’xprcssa Lima duragéo. O fato é
1 \/(,l11€lll'C111€l"i{(. l¥]t(,l]g1\'€l dc urn evento; cm rcsumo
(1 fig"K1 COMO um evento se apresemfa para (1 mente que 0 contempla. l
onio vnnos o t s ,, -Ientes Contextos, Cl3€f';§i1\ihi:i.1(lfi(Z€1I(i_(;1l3;é) eAcFlZPlos oiorrcin eni cl1te~
Sociaisy 3 economia 6 is Ciénchg cxqtasselz z oe orc em. As clencias
_ _ =- = K sao sistenias dc ordenagao
3?: sisteniatizani unia cnorine quanticlade clc fatos. Eases contextos
uiifigealgotopiigli glgiiisggitosafegluestoes qu§ torniulani e aos métoclos
1 postas. O filosofo Rudolf Carnap taz
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disringao cntre ciéncias factuais c ciéncias formciis.“ Ciéncias tactuais
sfio as que (lizeni algo sobre o niunclo material, ou, e1npregan(lolin-
guagem inais técnica, téin contcfldo canpirico, Essas sfio todas as dis-
ciplinas que liclain diretanientc C0111 (laclos tactuais, coino a geogra-
fia, a antropologia, a fisica, a iiistoria e a biologia. As clisciplinas tactuais
conipreenclein todas as ciéncias, puras e aplicaclas, fisicas e sociais ——-
todas exceto as ciéncias tormais.”
As ciéncias forinais sao intercssantcs nfio so pela sua fungfio dc
sisteinatizacloras de nosso niundo, mas tainbém pela relagiio que guar-
clani com a etiinologia da palavra ‘inforniagfio’ vista antes. Elas con-
téni a nogao do forum e estrutum. As ciéncias fonnais sao as que nao
possueni coiltefrdo em{Jz'ric0 mas funcionain come sistcmas dc rac:io-
cinio. Assiin, ciéncias torinais sfio a logica e a inateniatica, inclusive a
geoinetria. Seu poder dc sistcinatizagfio dccorre do duas categorias
iniportaiitesz m'11nero e relag-E10. S50 sistemas ale raciocinio utilizarlos
pelos praticantes das ciisciplinas tactuais para responcler as questoes
que clcs mcsnios so COlOCEl1I1. Ha vfirios outros sisteinas cle ordcnagiio
que encontrarcinos mais tarcle, inas talvez seja conveiiieiltc a esta
aitura niencionar que 0 bom senso é um clos mais poclerosos sistenlas
cle ordenagéo que possuiinos. Ele 6l‘1VOl\/6 a transinissao, por inter-
inédio (la sabecloria popular, (la provérbios, ditados jucliciosos e tra-
digoes populares. niuito procuraclo e estudado por cientistas, his-
roriadores e cientistas sociais. l\/Iais tarcle voltareinos a este aspccto.
1.3 A representagéo (la inforiiiagao
A inforn1a§fio (love ser ordcnada, cstruturada ou contida dc alga-
ma tonna, senfio permanecera ainorfa c iiiutilizfivel. A razao disso
rccai can nossa qualidade de scres l1!l11]&I1OS, isto é, nas liinitagoes do
nosso aparelho sensorial. Soinos incapazes dc transcender 0 limits clc
nossos sentidos — com todo respeito aos niisticos e acleptos (Ea per-
cepgao extra-sensorial. A iiitormagfio devc scr represeiitacla para nés
cle alguina Fornia, e transmitida por algum tipo dc canal. Segundo
l\/Iarshall [\/lcl_.ul1an," soinente a luz elétrica é intorinagfio pura. Qual-
quer outro incio prccisa ter outro ineio clentro dc si. Por excinplo, a
intorinagéo docunieiitfiria pode estar contida em qualquer coisa que
uina pessoa escreva, componlia, iniprima,desenlie ou transinita por
ineios sinnlares. Com a fala ntilizanios as ondas sonoras para trans-
initir ulna mensagein para outra pessoa. Os aniinais podem enviar
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znensagens c/ufnliccls entre si e ., niesino nossos aninnis d ‘ ~
térn acesso a inforina " ' ‘ C 6 estlmagao¢ goes sensoriais "
gfiflb qualquer que sfilfl d tque nod S30 negadasl A Enema-, eve ser es rutura a de al u_ ma forma Aoescrever ulna Cartq Pam 31 U, _ g r.. r 1 6111 or L -coiliunto de enuneiados Pail que sgmlzamos Pmposdtadamfinte 0_ _ '1rvan1 conio ineio e C ' . _gao do que desegamos expressar. Vale notar que Pod oinuiuca
mfonnagéo Sam _ _ einos cornumcarque essa se a nossa " ~ -
mular-se no quintal esta ea d _ fintengao. Quein delxa 0 l1XO ac“-‘ 1\/1311 on - " - - .Fa on nae Ougmdo Com a 1 onnagao para seus vrzinhos, quer-
- -_. receinos . ' ~
30 Procuramos causar Eipl11€ll1OT inil énfiiavlstas 3 plmcum dfi empfi}z-1 ‘ DTCSSEIO possive evitand ' f1na§OeSn5O_q/erbais de Carri _ ; O 111 O1‘-L terne "zti -O andar Cuwado h g‘ V0, 001110 ulna postura desleixada,
A _ f OH C cgar atrasado.
m “ma?-50 portanto dev1 e te »
veiculo dove pgsguir um qgfb t r algtlipa fonna de vezculo. Egtg_ 1 1 u 0 essencia para ue Qpreelldldo do face t0 _ _ _ ’ Q P ssa ser coin-
sin1PleS, é greeiso (lie d rljfvfirsfl dlscndmnavell Em palm/ms mals‘ep or possa istin ui lo do “. . ~ s feno »que 0 cercani; conio disseinos antes tmfa_se (IE U] t EH_‘Cnos
trés classes de vef l C ll even 0' Xlstemculos ara ( ‘ ~ ~ _~ P 1 transnnssao de ilrforinagoeg;
' sinals
' sirnbolos
' signos.
Vocé usa sinai ' ' 'S ao Cll1'I iro carro S‘ . -
Para deterinin l " g ~ A r mdhza que O momcnto e O localM“ ‘1§5'-0 estao proxnnos Ri orosai t t l ‘
nal é ulna torina de signo qua; enhtj £5 llfillde a ando, 0 s1-
. _ 2 lza a necessi a e de u ’
Seguldo PQI algum “PO ‘lg W50, C qua requer algum ti cl q lisitllareceptor E tal-1110 mum) . P0 e reagao 0~ usado pclos biolo 0 -
do colnunica " ' ' g S 30 fistudar OS Padmfisgao dos aniniais Parece taml)’ 'I I ' em ter S1ClO tom _ _prestado pelos politicos, quando dizein ue os aclo Cm,
11318 entre si. Se estes sfio os meslno . _g0V€r110s enviam S1-d _ d _ M s $111318 geneticaniente progi-3m,q_os e organismos nao-liunianos é uni caso a ser 6\(fl111ll13ClO Em t
11105 gel-His min Sinq] é C0111 . l . 61‘.1 unread . . .
Q3; que O memsnto dc . I o/de unia pessoa a outra para ll1Cl1_
O I , i flglr esta proxnno.
s1 noe inn indie ’ ‘ - - .
it g IO 531°‘) da Presfiliga unediata da eoisa on even-‘.0 que representa. A funraga é inclicio dc fo - (1 ~
indica que Q tempo Plow“ 6 51$ lac (150, £1 que a do barometroe ' .~ ' » ~
go. Coda Luna dessas -igocs é perCebS_§O13 as lsao 1I1dlCl0 de e1nlJara_
_ . . ‘ ‘ ‘ ' 1 21 )or ’- -um szgnificado adrecle c0n1lJin'1do H’ bl da gucni COIDO se tivesseL . a a un antes exeinplos (11350 115
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coinunicagfio nao-verbal, onde uni gesto convencional pode signifi-
car ulna palavra ou idéia; por exemplo, balangainos a cabega para
ciina e para baixo para indicar sini, e a menealnos para dizer 11510. Ha
tanibém nurnerosas linguagens de signos em que gestos c011venciona-
dos sao usados colno substitutes da fala, coino, por exeinplo, e1nnos—
sa comunicagao com os surdos ou entre eles préprios. -
Os SiIl1l)OlOS_S§lO um tipo especial de signo: representam um obje-
to, idéia ou evento; nias a intengao é causar o rnesnio tipo de reagfio
einocional, coino se o que representarn estivesse presente. A0 contra-
rio do signo, o simlaolo destina-se a ter signiticado duradouro que 0
transcende. Uina cruz no codigo dc transito indica que ha um cruza-
inento iininente, e é tainbém 0 sinlbolo da eristandade. O aspecto
fundamental a respeito de sinibolos é que sao reprcsentacoes, cultu-
ralinente eonstruidas e aceitas, de coisas, idéias e aspiragoes. Seus
signiticados dependein intciramente do grupo social que os utiliza.
» A relagfio entre o sinibolo e scu reterente é em geral arbltrana, ou
Oseja, ele pode nfio ter qualquer seinelhanga com o que representa. s
simbolos iconicos s50 excegoes que, coino a raiz icon indrca, teni ulna
seinellianga sensorial coin 0 que representain. U111 sinibolo iconico
pode ser ulna pintura, uina iinagein esculpida, on ulna pega musical
que represente aspeetos de ulna experiéncia, coino teinpestades, ba-
tallias ou 0 canto de um passaro. Tais representagoes téni utilidade
inais pratica quando transinitein intorinagiio através das barreiras lin-
giiistieas; unia do suas utilidades que nein de longe se podc tlesprezar
esta nos banlieiros publicos, principalinente em locals inultilingiies,
coino os aeroportos. Existem vérios outros exeniplos que 0 leitor, C0111
alguin estorgo, pode fornecer: bandeiras, elnblemas religiosos, esta-
tuas monumeritos e outros sirnbolos de variado poder persuasive.7
Signos e simbolos s50 anliude usados de forma intercambiavel,
porérn muitos logicos procuram restringir o eniprego do siinbolo ao
senticlo aqui esbogado. Argurnentarn que se deve estabelecer uina
distingfio entre aquilo que representa outra eoisa devido a uina S6l'l1C-
ll13l1§El natural ou relagao associativa (fumaga como indicio de togo)
e aquilo que reeebeu uni signifieado culturalniente construido, como,
or exeniplo a tuinaga de uina ceriinonia de ereinagiio conio snnboloP ,
de ritual religioso. Ha, poréin, na linguistica ulna torte corrente de
pensamento que aclia que a palavra signo deve ser usada como uni
tenno inclusivo, como na semzotico, 0 estudo dos signos. O leitor po e
l 3
€SCOll'l6f est": pritiea c= = oiifornie sua ref “ ‘ ~ .
os légicos e traglar disti1i§6es ue e,I€n.cm' Prefenmos flea‘ C0111se a ,
uso de sfinbolos é 111111 evcluq . 1 ll m utels Semprfi que l)°$$1‘~’@l- O
L 4 I I .si\1( ace do cerebro liiiinaiio (isso é dis_
ciitivel) Podeinos tr"i 'l _ ~ ¢l1Si:Ol'111'!l'Il1fOf _ " ' .b 1 _ op , . \ l ‘ 1118980 sensorial e111 tornias sini-o icas. a music .-4
tomar coiisciénd ,-. .c _ Ora (6 nés mesmos 6O historiador de galitsI;c£jIr;&<Zf(;tpesol)1'e.outras pessoas. O lionieni é
de eXPeriéncias registradas iiillllicanciliclasl Allcnagao d§“um' mmlclo
experiéiicia 1150 pode ser CO1}]Pa1-fllhada g1E§;£gf;e:3Fu€X[%e§1'l(?1}Cl€lS_h Esta
por 111610 d6 signos Ou S],mbO]0S_ C p \ q c séfa coniuiiieadaeorge l\/lead colocou a questao (le5;_
ta torina “Pens ' '- HI llliplica seiii re uni ’ ,P siinbolo que (jvocal-H em Ou_treni 1 ine - .Chain; HO §;:121b16ISPO_5l¢1-E].UC evoca naqiiele que pensa_»|iA isto Mead
< 1 0 o sign] icante” QC é .
. H E] .mcagao hulnana i Cl base dos sistenias de coniu-
Cultura e eoi ' "niiincagao sio "is re 1' '
. ~ » ‘ ‘ gr?“ Olcas araa * " 1. ‘agao dc sinibolos. Pode g P '1 wnexao C Cn-, nios resuniir "1 ' ' - ' » -
siinbolos e as tunfgoes que exer C S pn“°‘P‘“S Cflractenshcas dos
@6111 114 eoniuiiicagao iiuinana.
Q ‘ .S50 propriedade de uni ru 0 C H-30 .- .
i11(1;'v1’dUO_ M6511“) qufi Ogingivgd [J1'0P1l€(l8(lC CXClUS1\I;1 d@ um
1- . uo possua uni niuiid ' dsiinbolrsnio p"ii'ticul1r d O pm/H O’ O
. ‘ ‘ = eve ser coin Jartilliad ' -isna snnbolico piiblico. I O medmmg um Sigh?‘
" fio utili7ados 111 tr ' " '- = ansinissao int “ ‘ -, _ . . _
dos e coinprecnsao l1Li111£ll1(;S '8 €1‘(3;1i]]l)lO e registio de significa-
A - 6 eniprego U111 sinibolo que evocaC111 voce '1 inesina 1-C. - _‘ a a - ~ .9 O qt“ cm mil", Clltao nos coniunicainos.
ESE " ' ~1,0 a iiogao de l\/lead de uni “sinil)0lo si nitieantei,
Os sinibolos tuiicionani coin 1 ‘ r ' g - . . 'de uma Cultum‘ gem elm 0 0 ieppsitorios do sigiiificaclos dentro
_ *i~ * s seres iunianos seriani 1~. esa _po c ineapazes de arinazeiiar sua eultura regigt; 1 P s do teni
Aléni de ser ' ( ‘ ac 3'1 virem coino re ositori ' ' ‘. O -
dos, as fornias Sl111lJ(§llC'ES fill-1)}CiO11"tl S de Slllimficados Conlpamnukl 1 11 eoino or as ‘f’ (1no (3 3 .‘ , _ _ g: uni ica oras den-
OS S, tlglales (lg ‘érllllos sociais e culturais.
1111 o os periniteiii aos iiidividuos e grupgg lgdq
queestejflin aléin dc suas cxperw . il'CO111I11Ul1ClO$
. . ' ieiicias SCl1SOIl'll§ i1 d'~ tconstruirnieios ' 1 C l H6 H as 6 3que perinitein dar senti l > ‘A .
OQ Sfmboiosl . C O 21 cssas experiencias- ios periinteni construir ‘ ~ - Asistenias de coniunicagao ine-
diante 05 quais 3 q .~ - -L gao social existe eon ' . .longo do tempo‘ , tinuae sc transforina ao
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lniagine por uni nionieiito a ultima biblioteca que visitou ou usou.
Pode ter sido a biblioteca publica local on a biblioteca da sua taci_ilda-
de. Os livros e inateriais atins torain coloeados nuina ordein preesta-
belecida, senfio seu valor coino intorinaciio seria niiniino, on ate’
inexisteiite. Entre as eapas de livros de todos os tainanlios, revistas
coin titulos iinpressionantes, recursos audiovisuais e bases de dados
eneoiitrain-se signos e Sll11lJOlOS de varios tipos, todos criados poi" ou-
tros seres liuinanos. E torniarfio uina coinbiiiagfio dc signos grcificos,
simbolos visuals, sigiios e sinibolos nicitenici-ticos, sigiios eletronicos, e
sigiios tciteis, caso ii biblioteca possua livros eni braile. A biblioteca
corporitica a capaeidade que a inentc e o racioeinio liuniano téni de
aprisionar o tempo. A0 converter eventos eni idéias e dai em obietos
inateriais ‘externos’, daino~llics ulna perinaiiéiicia relativa. Adeinais,
unia vez. que possuinios estes produtos da niente (iiieiitefatos) ein
tornia material, podcnios subnieté-los a operacoes tecnicas que aeen-
tuani sua utilidade e llies dao vida prépria, conio verenios adiante.
Outro exeinplo talvez nos ajude a explorar os processes pelos quais a
inforinagfio é transniitida e coniuiiicada entre seres iiuinanos, poi"
ineio da eoiiibiiiagfio de nieios verbais e nfio-verbais.
Fan 1803 Beethoven conipos suaTe1'eeira Sintonia, a Eroicci. Nunia
orquestra, o proeesso de coiiiuiiieagao e niuito eoinplexo. Inclui os
elcnientos a seguir, e leitores beiii-intorniados poderfio sugerir ou-
tros.
° Existe a partitura coinpleta para orquestra coinposta por Beetlioven
e rnais tarde revista por outras inaos. A partitura original era unia
expressao material da 111i'1sica ‘oiivida’ conio iniagens seiisoriais na
‘inente’ dc Beethoven e transtorlnada pela alquiniia especial des-
sa niente nuin padrfio coniplexo dc niarcas sobre o papel.
5 O texto é lido seqiieiicialiiiente da esquerda para a direita, e descre-
ve trases nielodic-as espeeitieas para eada instruineiito. Estes instru-
inentos sao artefatos culturais, cada u1i1 coin sua propria liistéria
e associaeoes musicals. O texto é lido da esquerda para a direita
nao devido a €ll<-'LlH]21 lei de anibito universal, inas devido a regrasD
culturais de decoditieagao de iiitorinacao textual,'c a eo1nun1ca-
gfio e uni coinportanieiito govcrnado poi" regras.
° Existe unia ordem criada deliberadaniente para ajudar-nos na coin-
preensao da obra e da mensageni cstética que preteiide transinitir.
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Os elemento -’ ‘ - .I56 em Outrofi :1<Z:11f1(;1Ifi11(:>sddr<lE111‘: :1tov1n1ent0 Provavelmcnte mfg!-
Aléln da partltura com let Hlnspostau 'do mdstel _ P 3 qufiiffiglstra 21 IHLISICEI Como um todo,
mentos dalgfiugillglllas tespqlzylfifzas Pala Cada gmpo dc inShu'
si é um grupo cultural, 331: i:,o(;1)11:?1si,cl‘2,1l<;(1)g‘Eos,~.e’ti:: orqucstra em
nica por meio da linguagem da mosica E<;1gu1s .1ca oluelse comu-
soma dos individuos que o c0n1p6em_ éngtafi grgpo 11210. e apenas aham um Pmpésito, 6 Como todos OS Si;tema—se JdU1211S1St€i11€l que
de suas parfes. O sisjtema (orquestm) 6 ‘ s,1n¢uor 0 que a sometum fomecsm O Contcxtoz O wide féito s1;;1 111aoelra dc ler 3 pflrh_
H50 fax lwnhmn Senfldo musical A)e1];S um u1;1co1ostru111ent0
tos tocam segundo ulna cozxlbillagglo din ‘E1?-lic 0 os 1nstrumen_
ilfierpretagfio sigllificativa da Pmtitma A35} are qflfi (scone umaBio passadas POI inmnnédio dc Hun En. u 111$ T€1§0es ' 0 niaestro
ficadw O event‘) total do COnCert;%§uF1*geo1 e”s1nfli3 pre-£30d1_
Platéia —— demonstrz: 0 c - ' exccugao ell magao da, ’ 1116 95 dllffopologos ol1amana111 de pro-
cesso ntual da coinulucagéio humana, A platéia comporta-se sc-
gundo certo ntual precstabelecido, e cspera que :1 orquestra aja do
mesmo modo. Exis ' -V - ~ -atuagfial OS Sinais dti:;:1;$;1l3:1O1:(§:‘s1s£)0§l;: {'l'i'€:ll'lil11ISS£¢_}O SOC}3l eoa
tor hé quasc 200 MOS‘ Estes Sinai Sgo mH111f es os lpe 0 conrlposs
105 que expmssam as intengfifls mmiéqis dols ormllcos em s1n1bo_
, . _ V ~ ( co111pos1tor.Orege11te]c;]u1%ado pela 111£k1}€II'£] como mterprcta :1 parfitura on seja (301110
eet 1 - I - ’ ’for tai\]:;1f‘:=%fri;1‘,{j(£1s1t:::1E)(izlfofzgsi irijrpretads. lSe e/ssa excougfio
da mprodugfiu O COnC6rtO*é um fllclm 3;/5>c€ 311 gflro a fideladadle
ca: é formal ao invés dc factual ens tednos daC§0?fLl111Ca9aO artlstl:
nos referimos nesfe capitulo. /ls artes es eciflc I @s€1t1§as Ia que ;a
mas simbolicas de se11time11fo humanop Vamcln egmm for-
lnais <1; forma do qufi do Comlefido NO 611$ icia, e as 6P6ndeI/n
rico em que a obra foi composta lode '1C_ ltl 0, 0 contexto lslsto
dela. Beethoven admirava Nflpoleélo Oric iml uar H0553‘ Rpréclagao
lnm/a~sc Bonaparte, mas este timid foi na megte a slnfonla elm-30 Saba que Napokfio Sc Pluto 1 uPf11111 O POr Beethoven
1 proc amara 1111perad0lr_
Vimos ue si 11 ' ' 'os smar " fl » - -C1 8 , s e snnbolos sao modos necessanos de H1-
tercfinlbio e tI‘21I1Sf€i'é ' 'ncla Cl ” - - ,ms forums O in , d 6511f°g11¢"1§*0¢5, p0dendo assumlr 111u111€-
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linguagem; meslno assim é mais fficil dizer 0 que a linguagem faz do
que dizer 0 que ela é. Ali11guage1n é 0 veiculo fundamental da cornu-
nicagao lmmana. Pode-se argumentar que as civilizagoes séo feitas de
palavras, que mesmo 0 universo 11510-verbal -— montanhas, pontes,
rios — so cxiste por causa do que podemos afinnar a seu respeito.
Quais, entfio, séo as principais caracteristicas da1inguagen111umana?
° E121 reflete :1 pcrsonalidade do individuo e também os valores cul-
turais de ulna sociedade. For sun vez, molds tanto a personalida-
de quanto :1 cultura.
' Possibilita :1 criagfio, desenvolvimento e transmissfio do cultura hu-
mans, .21 continuidade dos sociedades, e 0 controle c 21 coesfio dos
grupos SOCIEUS.
° Influencia a percepgfio humana e as fonnas como encaramos a
realidade.
° Funciona como um sistema do ordenagfio so annazenar a memo-
ria coletiva de seu préprio grupo lingiiistico e dc outros. A lingua-
gem é um sistema; ulna rode de relagoes definidas comparével E1
nossa orquestra. um sistema do signos e simbolos, orais e escri-
fos, usados por membros de ulna sociedade de lnaneira relativa-
mente unifonne do modo :1 evocar significado. Talvez seja um dom
exclusivo do espécie humana; um dom adquirido gragas 5: capaci~
dade natural e :10 conlato social Com outros seres humanos. N510 se
pode separz'1—1a da ‘esséncia humans’ do ser humzmo. O uso cotidi-
ano do termo cnvolvc vflrios sentidos diferentes que 21 disciplina
da lix1gijistica distingue cuidadosanlente. Linguagem cientifica,
linguagem artistica, linguagem juridical, etc. silo maneims de nos
referirmos a uma variedade especifica ou nivc-:1 do fala ou escrita.
No dominio dos estudos sobre informagéo falamos do linguagens
nalurais em contraste com sistemas construidos artificialmente
como as linguagens dos computadores ou o esperanto.
As linguagens do signos possuem uma estrutura de conlplexidade
comparzivel 21 lillguagem falada e escrita, e dese111pe11han1 uma galna
similar de fungoes. Calcula-se que aproximaclaanente 4 O00 Iinguas
sfio faladas em todo o mundo, mas apenas 7% possueln forms escrita.
Algumas linguas tém, mais do que outras, ulna maior presenga no
que tango 2:0 registro do conhecinlellto e da cxperiéucia humana.
Nas ciéncias da inforlnagfao e comunicagiio :1 lingua inglesa responde
31
por parcela sig11ificativa dos trabalhospublicados. Outras linguas
européias e orientais desfacam-se e111 campos especializados 001110
o0111p11taoz'io e ciéncias narurais. Surge c11tf1o a perg1111ta: sao algurnas
liuguas superiores a outras? Assim se aorcditava piamelaite clurante 0
século XIX, e possivelmcnte por muito tempo depois. Para quem ain-
cla alimente essa crenga em declinio concedemos 21 palavra ao especi-
alista c111 li11gi1fsfica David Crystal:
O fato é que toda cultura até hoje estudada, i11(lepe11de11te111e11le do grau de seu
dese|1volvi|11e11to em termos cultrlrais ou teonologioos, sempre se revelou pos-
suiclora de uma lfngua plcna111e11te desemrolvida comparavel as das ‘naooes civi-
lizadz1s'."
Em sua opi11if1o, é 11111 cquivoco utilizar conceitos da rwizrianos para
descrever o dese11volvime11t0 das linguas nafurais. E111 tennos evol11-
cionarios, pode-se dizer que as culturas l111111a11as evoluiram de sim-
ples para complexas, mas 11510 ha indioio de que a li11g11age111 tenha
passado pelo 111esmo processo. N510 eXis{"e111 linguas da ldade da Pe-
dra ou da ldade do Bronze, por mais 1‘udi111e11tar que seja a tecnologia
material de seus us11:'1rios. Todas as linguas de que temos noticia aton-
dem as neoessidades sociais eipsicologioas do suas COl11Ul1lClfld€S de
usuarios, c elas orga11iza111 as realidadcs materials e espirituais segu11-
do suas necessidades percebidas. Sendo, porém, o 111u11do i111perfei-
fo, o uso de certas linguas fem aco111pa11l1ado a expansfio e do111i11a-
@510 culturais. Algumas gozaram de prestigio e111 diferentes periodos
da liistoria, e111 geral reflefindo as estr11t11ras do poder politioo. O gre-
go cedeu lugar ao lat"i111 51 rnedida que o lmpério Romano se expan-
dia. Seguindo a niesma linlia de descrlvolvimcilto, o inglés passou de
ulna lingua de quatro lnilhoes de pcssoas 11a época de Sliakespeare
para ulna li11g11a lloje falada 110 mundo inteiro por um 111’1n1ero esti-
mado e111 cerca de 800 111ill16es de pessoas. Para quem deseia publicar
c111 inglés suas idéias, a llistoria propiciou 1111121 vantagem inegavel.
Nao 111e11os privilegiados por osta dianteira political e eco11o111ica sao
as editoras e os fabricantes de coinputadorcs do m1111do anglofono.
Do ponto dc vista ’réc11ico, toda lingua possui um léxico e uma
sintaxe: um vocal)11l.t'1rio e 11111 co11ju11to de regras para utiliza-lo. O
’ra1na11l1o do léxico podc variar dc 11111a lingua para outra; o 111ag111fico
Oxford Errglislz dicti0nary16 possui 111ais de 11111 111ill15o do palavras e
continua crescendo a cada dia. P01, 111o11or que seja o léxico, as regras
sobre seu 11so serao suficiente111e11te colnplexas para permitir que ole
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irate do fluxo do tempo, a organizagao do espago, o registro de iodas
as nccessidades da aventura l1u111a11a que viinos e>:a111ina11do. A uni-
dade basica da lingua é a palavra, e a palavra deve fazer seu trabalho
referindo-so a ouitra eoisa sem arnlaigiiidadez seu refereilte. Isso soa
simples, mas o leitor cético salve que irada relacionado a linguas ja-
111ais é simples. A palavra possui em si duas outras propriedades moi-
to 11ecess2'1rias para ulna con1u11icag€1o exata: a clenotagcio e a conotagao.
A denotagao de soa casa pode ser estabelecida apontando para ela --
1111121 definigao ostensiva. Seu lar, porérn, 11510 se define com igual fa-
cilidade. Ele conota o acfimulo de associagoes e experiéncias familia-
res, 1111121 area de significado particular que so se pode dcscrever por
meio de uma narrativa coerente, talvez até 11111 romance ou um poe-
ma. Esses dois tcrmos logicos sfio iinportantes para distinguir dois
dominios a11t611o111os e co11ti11ua111e11tc interativos da oo111u11icag€1o
31111111211111. A diferenga esta exemplificada na li11guage111 do cienfista e
do poeta, do artisra e do conrador. A palavra podc ser dividida em
segmentos rnenores. A unidacle basioa da li11guage111 lalada é 0 fonema,
a 111e11or L111lCl2lClC do so111 que pode mudar o significado de uma pala-
vra. Cato e rato soam diferentes e possuem significados diferentes
porque diferern e111 um fo11e111a. As lelras do alfabeto represerrtam
si111lJolica111e111'e fo11e111as e, assim, seqiiéncias de letras do alfabeio
represelitain seqiiélloias do lonemas, aproxi111ada111e11tc 45 11a lingua
inglesa. Para saber que 11111a seqiiéncia do letras resulta 111111121 palavra
com significado, porque representa todos os fonemas daquela pala-
vra, a crianga precisa aprender que a palavra 11111 conjunto de {onc-
inas. U111a tarefa de aprendizado um tanto consideravel.
Quando falamos da lingua como sis're111a de ordcnagao de nossas
experiéncias pensamos em palavras que clividem o fluxo da experien-
oia e111 segrnentos 111a11ejavcis e classificam essas experiéncias para
uossa analise e observagiio. Fazemos isso de modo dramz'1tico ao gri-
far Fogof Ao buscar inforziiagao 1111111 cafalogo procuramos englobar
roda u111a série do idéias que co111pree11de111os de moclo inconipleto
agarranclo-110s a u111a palavra que, por assim dizer, faga a consulta
‘Hoar quieta’. As vczcs agimos assim quando assistimos a ulna pales-
tra que 1150 co111pree11de111os bem. Lailoamo-nos 1 palavra mais aco-
lhedora que flutue em 11osso l1orizo11tc111e11tal e nos agarrainos a ela.
Seg111e11ta111os11ossa experiéncia em duas categorias basic:-1s: subs-
tdncia e agfio, concretos e prooessos, ou 111era111ente coisas que {loam
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paradas e coisas que afetarn outras coisas. Em tennos grarnaticais
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dc i11forn1a§6es. lleialrros u1ii1lizi)lja(lllil<illi Cl ldamos Com 'reCu"pemg3O‘ W nhtulado A fabrlcagao de ca-
Gl€lTdS. 'lo1nen10s cadeiras 001110 tern1o de entrada. Isso nos da:
Chairs —111a11ufact11ring. [Cadeiras - fal)ricag:5o.]
Assiin a e an - ‘ “ ' 'd 1’ P 1‘; 1° 1195 3 Subslflllclfl, 011 ¢0I1Cr6t0, para terrnos ulna base
6 fipolo para nossa pesqulsa. Estarnos usando categorias que cstao
gttpslttédas nta Igraprlatica e no léxico do nossa lingua. Estavarnos antes,
ca 1 - -P U 0, 3 311610 (l6 fispago e tempo, entao por que nao:
Cl1£llES];- 111a11ufacturi11g — V\7ales — nineteentli century. [C&(l6i1'33
V ~ a rloagao — Pa1s de Gales — século XlX.]
Mas aind" " ' ' ' ' - - - -Cad _ dd nao ut1l1za111os 11111 ad1et1vo, uma nldrcagao do tipo do
elra e que estamos talando. Portanto pO(lC111()5 rep
Ch?‘-ITS — 11/iCl<er T 111a11ufacturi11g - \/Vales — 111111-:teentl'1 century.
{Cadenas ~ v1111e — falaricagao — Pafs do Gales - século X1X.]
Temos ulna s ' ' “ ’ ' - - ~ , -disti11g11i—las filllliiig liglfii if$1 lo’ °°'“P°S‘§“° -WNa Hnguagem natumlibem Comao ens? erro 011 ofntros n1ater1a1s.
mas de infoflnagfio Cada alavra te 11a1111§uage1n orn1al,dos s1ste_
11111 sisten1a- relaciona-se 50111 outr In Kl alga? Com ultra. E pate deIagamcnto éomplexo de intercom: as pa Zvras piordnreio deuni entr~e-
S50 absolutos autO_SubSiSt€nteS isX(;C§. ’s 11111 a es lmguisticas nao
identiclade relacional A alavra so: litosl Possum“ O que Se Chamahas palavms Uma C-Om? ‘d X15 ¢lP°Yql1e se relaciona con] ou-
- _ paragao entre lrngua e xadrez llustrara este
3§P@CtE1 As u111dadeslJ1isicas de cavalo, peao, etc. so existern em rela-
§g§1IE§;L:;'t$}fCi;l2?E203 dastl-769518 eflo inaterial dc que sao feitas nao
Se “ma pega for eX§mVg:d1;8S Ere agao s1n1lJ0l1oa dentro do srstenla.
po eremos sul:-st1tu1-la por outro ol)]eto,
E1633? que <30l1C0fde111os c0111 o que ele representa e que nfio se con-
uns 3:Er§:dl;i93f)§lz13:§:CC5;Z re11€rese(pta111 valores dilerentes.
Pensando dc ulna forum I ‘ga 10s e assunios entao estava
Xidadc da HR U8 Vocé 251ee111o11st;a 111e11 argu1ne11to e a co1nple-
Cam, bancos gbaliquemfi big}? Pegsa 0 em c01sas 001110 lnobilia de
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outta eoisa onde possainoscolocar nossos traseiros. Poderiarnos ter
dito: ‘wicker chairs’ {cadeiras de vime] , que é a linguagem natural e a
fonna 001110 talamos. Mas 0 inglés é uma lingna ilégica que <11 prece-
dénoia ao adjetivo sobre 0 sulastantivo; em tennos logicos coloca a
subclasse antes da classe. Poderiamos ta111bém,ter pesquisado nossa
base de dados sob os outros terrnos de busca. E verdade, mas 0 pro-
cesso de busca seria 111ais colnplexo, pri11cipaln1e11tenun1 catalogo cle
biblioteca. No entanto, talvez estejalnos todos certosz todo sistema
de i11for111agao que se preze oferece 11111 n1apa de palavras que rnostra
as relagoes entre elas, 001110 e111 '1nobilia do casa veja também cadei-
ras; bancos de iardim veja também cadeiras’, apenas a titulo de aviso.
lsso é 11111 tributo ao Thesaurus de Peter Mark Roget,” que 11510 é
somente um looalizador de palavras, mas ta111bé111 um localizador de
idéias. Por isso os tesauros sao valiosos no ar111azena1nento e recupe-
ragiio de inforinagao, pri11cipaln1e11te 11as ciéncias naturais e sociais.
A linguagem pode ser considerada e111 dois planos: sua representa-
giio fisica e seu sentido s11lJjace11te. Se estalnos nos cornunicando por
rneio da fala, entao os aspectos fisicos da elocngfio 01.1 frase sao as
ondas sonoras. Se utilizarmos 11111 suporte documental 0s aspectos
fisicos serao as marcas no papel que esorevemos £1 111510 ou datilogra-
tamos. A represe11tag;"1o imediata compreendc todos os aspectos da
estrutura superficial que vem ao encontro do nossos ouvidos 011 110s-
sos olhos; a estrutura latenle da n1e11sagen1 exige mais esforgo de nos-
sa parte para decodilicar e interpretar a rnensagem. O ato de ler é 11111
exernplo i111po1'ta11te (e negligenciado) do processalnento da infor-
magao l1u111a11a, principal111e11te por ser algo praticado pela n1aioria
do nos. Ha um velho ditado que diz que so coniegalnos realn1e11te a
ler quando pode1110s ‘let entre linlras’, quando podemos 11510 somente
decoditicar as linllas do um texto manuscrito on impresso (os signos
graficos), mas tarnbém colnpreender os significados n1ais profundos
que estao alénr da superticic graniatical do texto. A i11terpreta(_;ii0 de
textos é urn dos principais interesses do muitas especialidades, que
vao da critica literaria ou da teologia 11 comunicagao social. Retorna-
rernos inais tarde a alguns dos principais pl’Ol)l61113S concernentes ao
‘significadd e sua diticil relagao 00111 a teoria da i11lor111aga0.
A representagflo tisica cla li11g11age111 é tortemente influenciada pela
identidade relaoional das palavras. Vej a a Erase e111 inglés: ‘man catches
fish’ [l1on1en1 apanha peixe]. As palavras ‘man’, 'catcl1es' e ‘fish’ po-
7.1
dcm sersubstanrivo ou verbo Clependendo do contexro em que se-
lznn Lrhlizadas. Sens valores de significado 115:0 derivam (le cada ulna
do_ 4 1 que 0 lertor possul sobre as
regras smtatlcas do inglés. Em ternaos lirrgiiisticos ulna frase é cha-
mada uma ccldeia, e os profissionais da informagio as vezes empre-
am o mesmo I r ' = .
gadeia é um arrargtllilllgzlldecl=:lZ;iZll1lli>:;lle%ll??S cl; as-Sulgtosv Uma
nritir significado. Nossa pro ' l glnsl mos -eslma Oalfilnsf, _ : _ pna e venerada lmgua mglesa constitur
§l§aPgetasl'Clfrlialistas, n1aS.P£‘rr£l quem a
dmms para Os desavisados O $11636 30 erece urn labrrrnro do arma-
I _ _ _ _ . ges ependc da ordem das palavras
Eiggrgiripdoiidcplegrde tambénl daquilo due os teoricos
dades‘ S6 féssmnos mt: re rm cncm, parajevrtar possrvers amb1gu1-
1 gos romanos podenamos vanar a ordem das
i)*i1l3YIfl5 Clél nossa frase simples porque cada palavra teria unla desi-
gzggiseifgglillsgzgtilglriiuitgiungfio 11a frase; mas remos qnc obe-
, , os serao semelhantes as gozacllsslmas
6 allgglgiiillligfiéiifes one os logrrais as vezcs nos infligem. I _
podemos incllzlgar ¢<>1;:>S;l: Idiogfsilallos lll'?Klplmg,
linguagem do modo como 0 Fazemos S50 il1cutC1ld' ( awn’ lcamos a_ - as em nos por umC
dc unra vi(l"£ Dflssada corlrlrlolldls ( 6-CH’CO" NOS as llazcmos ll-aS€el’* - , ma cspeczc dc prcsente dc 1n1cra<_;ao?
Estas ralvez parcganr perguntas inocuas, mas causam furor entre cor-
;§§§@a§Lt§?§§§§Z S§§°l§§r?§sfOll§gll§lSl9srT“'l“'§€(la Idgbflll’ ‘la
Noam Chon1sl<Y famoso cilentistq 18- 8 m Qrlllagaol Ha mos queA _ ‘ ,_ = nortc-amerrcano, ocupa 0 centro
Clapolernica rnero natural versus meio social?” Nfio 11339611105 com
21133311265Eliilgiglligggllvo pessoall e crasdc, nras nascenios corn o qne ele
lingiiisticos e apca - clqulslga-O 6 llnguagem ' S(lml.)s ammalsI r, pacl a e polcncral de Falar e partc rao rnregrante
fi§;:lC:l3gZ§;1l%j€:;]lgI:r11ar1os que seria absurdo inlaginarmo-nos sern
» L em nos unra clrsposzgao genetlcamcnre progra-s:;‘;;2;?:: izzizfizgilzio é 8 asI prmrorado, com vrsta a competéncra social,
pelo me10 em que nascemos. Em é a parre do ‘rneio social’,
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Heredifariedade e nreio social rrabalham juntos. Uma crianga pri-
vacla de contato lingtiistico 1150 aprendera a falar no sentido aceito
deste termo. Temos um conheciznento inato dessas regras e esta ca-
pacidacle é universal; embora as linguas apresentem diferengas su-
perficiais, as regras basicas valem para todas. Para a teoria dc Chomsl<y
é vital a forga geradora da linguagem. Corn nossos cerca de 45 fonemas
podemos gerar rnilharcs dc palavras e (teoricanrente) um nrimero fli-
mitado dc frases. A0 fazé-lo criamos inforrnagao em sua fonna repre-
sentativa mais dinfnnica: a fala. Ao consignzi-la em fonna cle marcas
ou signos registrados temos, enffio, dc lembrar onde colocarnos as
palavras e frases para recuperzi-las quando neccssarias. O aspecto in-
trigante é que, apesar de nascennos cercados por urna lingua conl1e-
cida, 1150 temos que aprendé-la no senfido formal de que c/omega»
mos do Zero, Como acontece corn a mfisica ou a matelnatica. E verda-
de que aprendemos sobre padroes forrnais de uso quando varuos para
a escola, e taml)én1 sobre a utilidade da redundfincia lirlgiiistica quan-
do tentamos redigir titulos ou telegramas inequivocos. No entanto, a
teoria de Cl10111sl<y faz 0 que as teorias devem fazer ao proper B1113
explicagao plausivel dos eventos que formam nossa experiéncia. Mes-
mo assim nosso sentido de deslumbrarnento perrnanece ao pensar-
mos na crianga que aprende as regras do use da lingua absorvendo-as
do uso de sua conrunidade lingiiistica. As linguas artificiais funcio-
nam numa espécie de modo inverso. A sintaxe precede a formagfio do
idioma, como ocorre na programagao dc computadores. A criagfio dc
linguas artificiais é indicagfio do nosso anseio por uma lingua clara e
inequivoca, que 1150 so transcenda barreiras culturais e lingiiisticas,
mas que fornega um rerrato irrefutavel da realidacle.l°
Nessa busca os filésofos tém por muitos séculos procurado um
sistema logico universal que transcend;-1 a linguagcm natural. Alguns
dos resultaclos clisso, corno a logica simbélica e a algebra booleana,
pocleln ser considerados linguas arrificiais. As aplicagoes rnais prairi-
cas se enconiram nas linguagens dc computador, corno BASIC e COBOL,
processos que pcrnritem que sejam escritos programas a serern segui-
dos pelas rnaquinas. Assim 0 ser lrumano conrunica-se corn a 1naqui-
11a. A redundfincia criativa da lingua natural deve ser abandonada; a
lnaquina, diferentemente do ser llumano, 1150 lé entre as linlras.
Em raciocinio nos traz outro conjurfro de perguntas espinhosasz
a relagiio e11tre linguagenr e pensamenro. Existe a llipétese de pensa-
73
gllerggis (E1l|:lIE)(fl21(;l;;‘SIl1](l€P€{1((§€11f€S, totalmente sue-
tradicionalz as P688038 tém <enSmn.v stso esfia e acordo corn a visao
vras, fiin da discussao. Ha Lilllllfl seguiidao30?slliillllZdlogadrlprillllapgljé
:kll1Ei‘\S1;1(i¢€::S<;11111:/Specie pp;/£1r;1l1i»t1:$=;;:_31sa111e11to, sfia a form-H que 11101-
-errcontra-se no poeta elrebelde do sé:1lr(ll)r€‘:{S1llVll3 este Eonlo dc Vista
Prometheus bound [Pronieteu acorreratad ‘V ‘,‘ +1€l-Cy S alley, em seufala 6 Q {ah C I - p ’ 0_l. lie deu ao l"1o111en1 a
, riou o pcnsaniento.Que e a H16(llClEl do unrverso."
Uina terceira possibilidade, lioje aniplarnente aceita, é que a lin-
guagezrr e o pe11sa111e11to sao interdependentes, 0 que 1150 significa
QUE $6]§l11 ldépticos. Ha prova-s ernpiricas subsfairciais que apéiam
E:S11212:3)‘;Cli:c:')r§::g@;:1iESE?/tggfiljlo .1121 fedpcagfio que iniflgfiilrs e
Problsmas do que uma re rmcnta 50 c iorerrtes na resolH(;a0 de
sanwnto nfiowgrbal é umlg dgmengu _usi'v3111e1rteverbal. O pen-
humanal OS Pesquisadoms do {M30 as ipta a ElflV1Cl£1(l€.C0g11lllVEl
_ ~ _ ro terao que nos explrcar 001110
<f3:iS1§ll0(l:rlZiedl§l§<—lJrll;:)l_llfz¢l0lla-56 C0111 HS célebres palavras iniciais: “No prin-
Existe ainda outra ' ' ' ‘ ' '
les envolvidos can sistelllrfil € lmporlantf Palm aque-
Cl1on1sl<y alega, o meio influencia a a u1S'( ti Clglmlllmcagflol Se’-Como
veria variagoes na forma coino este rrilzioslgao ablllguageml H30 lla-
lillguagens em si?Ati11al afirnramos ante C Perm? I O 6 poltanlo mstmcando mfommgées éom H0880 meio s1\(;1I\:IC1€St€l1I1OS€Ofll1I113?1111611t€
do beduino do deserto do Saara O ineio Fm‘ la Zxllfrllellcla dllcrc (la
nleio fisico dos esquimés das re iioes er - lsllco/lo‘ C “mo (Mere ll?famosa hipétesfi de Sapir_Wh§rf em pigs o ‘i"flC€).'lSSO nos leva a
forma mais radical afirrna 1‘ 0 35. sudlvanas formal NaA que a rnguagern dctermma nosso rnoclo de
pensar, ou, se prefenr: determinismo ling1'21'si’ico.3‘ A Eorma maig Suave
6 Plamivfil <liZ que C111l)Ol'£l a linguagem possa 1150 deternrinar o modo
fétgrii§E::l?\O;;g:;5F;::jiizifiliplilggi odmodo‘ co111o Percebeirios e
Dissecanros a natureza scgundo as dilletlilsa Lrillllrqgma lfiordaimatcma AS catggorms C tipoq uc isolamo 145$ e IHCI1 as Pela lrpgua
nos 1150 os encontranios ali poil ue este S d Obnlull O clOS'lenOme—
Smvadon A0 Contrério O mundila lam e arxo do nar1z_do ol?_
_ l w , presenta-se 1111111 fluxo cale1dosco-
prco dc inipressoes que deve ser organizado por nossas inentes, o que
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significa lJasica1rie11te pela estrutura de nossa lirrguagem. Sornos ten-
tados a pe11sar que o rnundo externo (real), por assim dizer, abre ca-
rninlio e111 nossas mentes l)o111lJardeando-nos com inipressoes que
passivamente classiticamos 001110 idéias. Seccionarnos a natureza, diz
esta teoria, e a organizarnos em conceitos, on seja, cm unidades basi-
cas clo pensamento.
Assim agimos segundo as regras de nossa comunidade lingiiistica
e nossa cultura espeeifica. A descrigao das cores é um caso muito
citado da influéncia (la lingua 11a cultura. Estudiosos da Antiguiclade
classica muitas vezes ficaran/1 intrigados porque Homero se refere ao
rnar de “purpiireas vagas”. E possivel que os gregos homéricos real-
mente assim percebessem a cor do mar. A i11terpretag_:§1o do espectro
clas cores é 11111 dos assuntos tavoritos cntre lingiiistas e antropologos.
Sera que vemos as cores de 1110(lO diterente contorme a lingua que
talalnos? Se afirniativo, enlfio a linguagenl 1150 representa so infor-
macao, mas define o tipo de iiiforriiagfio que l'€CCl)€I]1OS ou percebe-
mos. Algumas culturas carecem de um equivaleute exato da palavra
inglesa brown [castanlro]; os romanos aparenternente 1150 possuiam
termos genéricos para eastanlio ou einza. O galés literzirio divide a
parte verde-castanho do espectro de modo rnuito diferente do inglés.
Ha varios outros exernplos, e talvez 0 leitor possa oterecer alguns.”
Mesmo assim, a posigao universalista parece resistir. Apesar de lia-
ver diferengas conceituais entre as linguas elas 1150 sfio tao grandes
que a irfleligibilidadc nrtitua nao seja possivel. Portanto, nao ha des-
culpa para a inexisléncia de sistemas globais de intercfiinbio dc in lor-
nragoes. Por conseguinte, se nossa prograrnagao gcnética é ativada e
guiada polo nosso meio lingfiistico, nosso meio fisico tanilaém tera
sua intluéncia. Para coinpreender as mtluéncias culturais no proces-
sarnento da intormagao usemos ametafora do gabarito, que é Uillfl
cliapa fina, cle metal ou inadeira, c0111 recortes, ou uma arrnagéo leve
usada para cortar, inipriinir on desenhar. A0 interrogar a realidade
usamos este gabarito lingiiisticaniente proietado para tazer pergun-
tas e interpretar as respostas. Existem substanciais comprovagoes de
natureza experir11e11’ral deste deterrninisrno lingiiistico; contudo, a his-
toria 1150 acaba aqui. Se a torma mais radical disso fosse verdadc,
aclrariamos clificil explicar as inudaiigas. As teorias deterministas de
qualqucr tipo explicam nruito, nras sempre deixam alguma coisa sem
explicacao. E é esta algurna eoisa que causa confusfio.
Z5
1.4 Conhecirnento, informagfio c percepgao hurnana
Notamos antes que nossos sentidos sao co11tinuan1e11te bombarde-
ados por estiniulos do nrundo exterior. Esse 11510 é absolutan1ente urn
processo de nlao 1'rnica. Nossos senticlos sondarn o meio an1bie11te.
Durante a rnaior parte de nossas vidas, sornente urn n1onitora111e11to
a cacla segundo do. nosso lneio nos salva de confusoes, terimentos on
eoisa pror. A rnedrda quepe1‘cebe111os 0 znundo, nos o analisarnos,
l:z1l.C’l‘DOS descobertas e eornecturas, exatamente eorno taziamos quan-
do eramos eriangas a deseobrir o rnundo de objetos a nossa volta.
Desta tornia pudemos n1ais tarde vir a ler signiticados em sirnbolos e
nnagens e controlar e 111a11ipula1' nosso n1eio. E111 surna, toi assin1 que
aprendeinos. Qnal a explicagfro disso e por que é possivel essa troca
de 111torn1ag6es? So podemos tazer isso, contorrne 110s fez lenrbrar
11111 tisrco tanroso, devido ao clrainado prineipio cmiropico. Segundo
argulnento, o unlverso particular que’ de tato pereebenros que
1a itarnos e seleclonado entre todos os urnversos possivels peio tato
de iiuelcriaturas sensiveis eorno nos aqui se encontranr para observa-
lo. E,x1st1r é ser percelaiclo"; on, estarnos aqui porque estarnos aqui.
I-la nma longa tracligao entre os filosotos de que a percepeao, en1
especial 0 tato e a visfio, ofereceni um eo11l1eei1ne11to irretutavel. Do
inesrno modo que niuitos cientistas da inforrnaez-"lo eles apostain tudo
na crenea de que a eerteza baseia-se no conl1ecin1ento que nos vein
por meio dos sentidos. Esta posieao geralinente esta de acordo co111 a
vrsao que o senso co111un1 tern das cois-as enquanto cuidainos de nos-
so d1a—a-dia. O errrpirisriro é Lnna entre inrinieras opinioes segundo as
quars nossos eonceitos e conl1eei1nento sfio total on parcialmente ba-
seados no niundo eontornie 0 pcrcebemos por ineio de nossos senti-
dos. E111 suas tormas n1ais radicals atirmaria que sornos essencial-
rnente os parceiros subalternos 11essa troca, receptores passivos de
1I11pT’6sS5€s{ on simples espelhos inclividuais sein eonsciéncia para ulna
n1ater1a obietiva preexistente. A co11seqiié11cia logica destc po11to de
vista é que infor111aeao seria estudada de modo rnais contiavel sob a
egxde das clencras natnrais e niatcriiaticas, espeeialmente da tisica e
da cpriinica. Trata-se de un1 arginnento lnuito forte. Ha unia ineontes-
tabilrdade quanto a certas scnsagocs cruas con1o as provocadas por
COWS, Cocegas, dor on 0 rnergullio nas aguas gélidas de un1 rio de
forte correnteza. Para n1in1 seria diticil negar a existencia de 11111:: alu-
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cinante dor de dente, e a ‘intersubjetiviclade cla percepeiio’ n1e leva a
supor que a lnaioria das pessoas 11510 gosta da experiéneia, inclusive
os tilésotos. Certas autoridades no assunto distingne111 entre as sen-
sagoes ernas que acabei de nrencionar e as percepgoes reais. As (illi-
n1as sao urn tipo de dedugfio acerca das sensagoes cruas e 11510 as pro-
prias sensaeoes. E111 seguida 6X£11"Di113lT£ as tonnas pelas quais nossa
cornpreensao eonceitual do rnundo se baseia nesses perce/ates.” A
percepgao preeisa ser rapida; a torniagao de conceitos pode levar anos.
A i11tor111aeao que nos ehega das percepgoes originaispode pern1ane-
eer eonosco por a11os corno ulna torma de conhecimento tcicito, talvez
para ser utilizado quando menos esperarnos. A questéo ainda suseita
a idéia de que eu sinlplesnrente registro os eventos passivanrente da
111esn1a maneira que men compntador registra o que vou digitando
no teclado. O poeta ro111a11tico Willia111 Wordswortl1 disse: “O que
senricrianros e seinipereebenios”, mas ele era poeta e ronrfnitieo, nao
a teste111u11l1a n1ais adnnravel para convencer 0 cético cabega—dura
——- até n1esn1o 0 tanioso filosoto do séeulo XVIII David Hume. ‘I111-
pressoes’ é ulna das palavras-ehave de sua filosofia e a que ele destaca
eorno fonte do 11osso conlrecinrento. O treclio a seguir toi extraido do
inicio do seu Tratado sobre Cl ndtrireza hurnana:
Todas as percepeoes da mente l1un1a11a se resolvem en1 dois tipos distintos, a
que chamarei impressoes c idéias. A diierenga esta no gran de torga e vivacidade
coin que atetarn a mente e pcnetrarn en1 nosso pcnsznnento e conseiéncia. As
percepgoes que penetrarn com mais vigor e violéncia podenios denominar im-
pressoes; e sob este nonie incluirei todas nossas sensagoes, paixoes e ernogoes no
znomento e111 que tazein soa primeira aparigao em nossa mente. Por idéias reti-
ro-ine as palidas imagens dessas impressoes no pens-an1e11to e no raeiocinio [...]“
A quanto corresponde a forte eo11tribuig:ao da realidade tisica e
onde esta a contribuigao dada pela niente pensante? U111 poueo antes
de Hume, outro filosofo, ]ol1n Locke, ataoara o n1es1no problema.
Para ele, a parte realrnente obietiva da transagao sao as carateristicas
priniarias dos obietos, como dureza, inassa, extensao no espago, exis-
téncia no 111undo desde antes de nos e i11depenclente111e11te de nos,
penseinos neles on 11510. Porém as earacteristicas secunclarias dos ob-
ietos sao criadas pela niente. As cores, portanto, 1150 se encontrarn no
rnundo, 111as sfio criadas por nos e dentro de nos. Esta lripotese talvez
possa explicar as diterengas transcultnrais no que tango a percepgfio
das cores a que nos reterirnos antes. Os adversarios do po11to dc vista
26 Z7
.1 ‘ _empirista sao denoniiliados racionalistas. Estes filosotos, que sao na
rnaioria oriundos do continente europeu, apelarn E1 razao coino L'1lti-
nio arguinento e justiticativa do conheciniento lininano. Para eles, a
inateinética representa 0 apiee da realizagao inteleetual humana sen-
do o arbitro que deve avaliar todo o conl1eci1nento empirieo. Os con-
ceitos de espago, tempo, m'1u1ero, relagao sao ‘atividades forrnadoras’
irnpostas a realidade pela inente pensante. Este tipo de raciocinio é
conheeido tecnicaniente como raciocinio a priori, que e111 latirn quer
dizer ‘existente antes dc’. lsto irnplica que deveinos pressupor tais
coneeitos antes de etetnar operagoes nientais no mnndo dc nossa
experiéncia e dele extrair intorlnagoes. Esta posigao inteleetual cor-
responde as opinioes de Cl1on1sl<y sobre aquisiefio da linguagem que
vnnos antes. Do ponto de vista lingnistico a posieao racionalista tern
certo poder de persuasao. O conlieciinento racionalrnente construido
so pode existir na forina lingtiistica (on sinibolica), de ontro nrodo
nfio podenios utiliza-lo eonro tornla de racioeinio. A linguageni, por-
tanto, deve ser a torrna natural dc representagfiio do eor1l1eci111e11to,
seja para seu intercfinibio corn outras nrentes, seia para seu desenvol-
virnento extraindo intorrnagoes das nrentes de nossos antepassados.
Qual a posieao eorreta: enipirista on racionalista? A resposta 111ais
sensata é que fainais saberenios. O que realnieiite sabernos é que,
qualquer que seja o ponto de vista doininante, tera urn efeito irresis-
tivel nos progranlas de queni estuda intorniaeao en1 todos seus varia-
dos aspectos. lnragine-se tendo que proporcionar 11111 servigo de in-
torrriagao para \/Villiani VVordswortl1 on David Hume. Pense no tipo
dc questoes que seriain torniuladas ao seu sisteina e na variedade de
materiais que vocé teria de selecionar antecipadanrente. Adoten1os
por enquanto o caminlio da prudéncia e suponl1an1os que 0 justo
rneio-terrno esteia entre os dois extrernos da agao on do pensarnento.
A afirrnativa en1pirista elassiea segnndo a qnal a inente é nrna tabula
rasa ao se nascer necessita de nma explieagfio substancial. Se é assirn,
entao conio é que darnos o priineiro passo 110 can1inl1o do aprendiza-
do? Por outro lado, se nos sentarnos e111 poltronas, contiando no pen-
sainento pnro c ignorando os dados da experiéncia, arrisearno-nos a
ser iludidos. Ha a antiga liistoria do tilosoto medieval que, obcecado
pclo signiticado religioso do nniuero trés, baseou urn coniplexo siste-
ina de teorias aeerca do eainelo na tirnie snposigiio de que 0 aniinal
possnia trés corcovas. Ele se reeusava tirrneniente a coniprovar sna
28
teoria exarninando urn ca111elo de verdade. Quando o eaineleiro, que
possuia vasto eonlieeiniento enipirico dos eainelos e sens habitos,
tenton corrigir 0 filosoto, levou uuia snrra por eausa da inforrnagfio
que apresentara. Nao é raro encontrar urn pesquisador que taz unra
pilha de tudo que encontra e se vé perdido ao tentar iinpor uma tor-
rna corn sentido 51 aniorfa massa de dados que acurnulou. N510 menos
nieritorio é o outro extremo, na pessoa do teorico de gabinete que
despreza por 11 prova sua teoria diante da realidade erupirica. l\/Iais
tarde talvez ve11l1a a encontrar nrna linda teoria destruida por urn
fato feio. No rniniino podemos dizer que trazemos urn pouco de nos
ao nosso eneontro corn a realidade.
Tocamos de leve no tema da leitura antes neste capitulo. Ler, do
n1esn1o rnodo que perguntar, é algo que tazenios seni nos darrnos
conta, como andar on respirar; 11510 associainos iiriediatarnente essa
atividade com 0 estudo da iiitorrnaeao. Meslno assini, por niais sotis-
ticada que seja, nossa tecnologia eletronica seinpre dependera de al-
guém para decodificar signos grafieos de algurn tipo. Por inuitos anos
acreditou-se que o ato da leitura era exelusiva111e11te passivo: 0 con-
teijdo do texto sirnplesniente transniitia-se para a mente do leitor. A
i11ve11gao da cainara totogratica 110s trouxe nnia analogia irnediata
para a atividade visual dos 0ll1OS. De tato nossos oll1os nao ‘vc“:en1’ no
sentido estrito da palavra; eles sao dispositivos de coleta de inforn1a-
goes para o eérebro. Olliarnos coin nossos oll1os, inas veinos con1nos-
so cérebro. A0 mover dos oll1os a sondar un1a pagina de texto em
busca de i11tor111aeao da-se 0 110n1e técnico de movimento sacridico. O
texto nos oterece a intornraeao visual; nos tornecenios a inforuraeao
11510-visual. Qnanto mais pudennos torneeer, rnais rapidarnente po-
derernos ler e eornpreender o texto. Vejamos o seguinte ‘roteiro’:
£4 I \ ' ' 77Sannos onte111 a norte para iantar
M ' ' 77Fomos a urn restanrante indiano
It ' I)Iautainos minto benr
“Voltarnos para casa.”
Nossa coinpreensao da intorrnagao tornecida por este texto é con-
dicionada pela intorrnagao 11510-visual que 11os n1esn10s torneeernos.
Se so raramente tenios dinlleiro para courer fora, podenios iniaginflr
a excitagfio antes da saida. Se sonios especialistas em eulinaria i11dia-
na podeinos espeeular sobre o cardapio que o autor teria apreciado.
Z9
Podemos supor que nao liouve nenl1un1 problema em relaeao ii con-
ta, e que tudo corren bem. Aportamos 0 qne se cliama tecnieameiite
esquenia de nossa propria experiéncia e completamos os detalhes que
faltain. Alguns especialistas alegariain que usanros o texto apenas
como uiua estrutura com a qual escrevemos nosso proprio roteiro.
1.5 Tomas e questoes
Vimos a diticuldade de detinir inforniagao e 0 perigo de eonceituz'1-
la eomo n1n tipo de pluma a tlutuar entre as pessoas. A teoria da
intormagao 110s da alguinas percepgoes Liteis sobre os eteitos da in-
torinaeao; um dos mais Lll'€lS é 0 conceito de incerteza. A ineerteza é
quase sempre nrna tonte dc tensao, e a redugao dessa incerteza, por
menor que scia, serfi senipre ben1-vinda. Se voeé esteve presente
e111 alguin ritual social de qualquer tipo tera notado que 0 evento
comegacorn u111 maxinio de incerteza; os presentes 11510 saberu o que
conversar, nias 21 n1edida que trocanr intormaeoes a incerteza e a ten-
sao gradualn1e11te diminuein. As vezes é dificil distinguir eonl1eci-
rnento de intorniagfio. No uso comum parece liaver unia escala as-
cendente que vai do /Jercepto elementar para u111 fato observaclo, dai
para sna expiessdo numa {Jroposigdo até cliegar £1 infornmgcio sobre a
sitnagfio que é observada. O tato observado do gato sentado no tape-
te tor11a—se intorniaeao quando se torna coinniiicavel a outrein. Ain-
cla assim, os tatos por si sos nao eonstituem eo11l1eei1nento. Presse-
guindo coin nosso banal exemplo, ulna hipotese sobre a exigéncia
biologica representada pelo comportaliiento sedentario dos gatos nos
tapetes colocaria o tato observado nnm conjunto de relagoes com
easos senielliantes. Isso tornaria nossa observagao isolada ruais signi-
ficativa e talvez. contribuisse para a soma dos conlrecinientos dispo-
niveis sobre o coinportanieiito telino. Assini, corisiclerarnos 0 eonl1e-
ciuiento como algo teorico e niais gencralizado, e informagzcio como
conhecimento potencial. A teoria da intorniagfio tem tido grande in-
tlnencia en1 muitas das mais iniportantes disciplinas, principalmente
a biologia. Para o inicrobiologista Richard Dawl<ins,35 a tecnologia da
intoriiiagiio dos genes é digital. Cada nneleo das células vegetais c
aninrais contém unia base de dados coditieada digitalinente, maior
ein contendo de intorinaeao que todos os 30 volumes da Encyclopcledia
brztannica juntos. E este u1'1n1ero rciere-se a nma eélula, 11510 a todas
as celulas iuntas de um organismo. Seja como for, o que nos interessa
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aqui é que isso mostra como a teoria (la intorinagao veio alicerear
disciplinas cientificas como a biologia e a tecnologia da con1puta<_;£io.
O que esta no coraeao de tudo que é vivo nfio é o ealido aleuto
11en1 a el1an1a da vida. iirtoririaeao, palavras, instrugoes. A informa-
gao, bem conio a energia e a lnz, é ditusa, e esta intorinagao é digital.
Nfio é preciso nenliuui alto voo (la iniaginaefio para eonstatar que a
tecnologia digital agora dornina o nniverso social da iiifornraeao. O
requisite basico para a memoria de um compntador é urn ineio de
arinazenamento com un1 grande n1_'n11ero de posieoes dc menioria.
Cada posieiio deve ser capaz de estar nunr nL'nnero distinto de situa-
goes. A intorinagao nuni disco lonogratico comum é amilogiccz: é ar-
mazenada nnni suleo ondular. A iiitorniagfio no seu CD é digital, ar-
mazenada nnrna série de diminntas depressoes, sendo que cada uma
esta la definitivainentc on 1150 esta. Na lia n1eio-ter111o. Aqni, u111
teina pode tornar-se um problenra. A inforniagfio pode ser eserita em
eélnlas. Dawldns nos diz que os engenlieiros geneticistas niodernos
dispoem da tecuologia para escrever o Novo Testamento on qualquer
outra eoisa no DNA de uma bacteria. Voltaremos a essas qncstoes.
Sera que a iniorinaeao existia antes do despertar da consciencia
l1un1a11a? Varias autoridades estfio convencidas que si111. Examine-
inos a seguinte citagao: “A intorniagfio existe. N50 precisa ser perce-
bicla para que possa existir. N510 requer uma inteligfzncia para interpre-
ta-la. N510 precisa ter signitic-ado para existir. Ela existe."Z" Esta visfio
rneeanicista do universo da iiiformagao é coinpartilliada por outro
eniinente cientista da intorniagfio, Brian Vickery. Essa opiniao con-
trapoe-se as ‘detinigoes de eleitos' que argumentain que a informa-
gao passa a existir ao atetar a iuente liuniana. O observador linniano
é parte essencial da equagl"-Io. A intorinagao possni um potencial de
agao, coino a eletrieidade 21 espera da 111510 linrnana que toque no in-
terrupt0r.Uma visfio niecanicista extreinada deixaria os seres huma-
nos na condigtio de epifenoinenos, ineras lrivolidades, reflexes passi-
vos de uma realidade material inditerente a proposito on plano. O
terino ‘existir' pode ser inuito escorregadio. Podemos dizer 'leoes exis-
tem’, ate atirrnar que ‘unicornios existeni’ e aincla com 111ais vigor
que a ‘nniversidade de Oxford existe’. Tenios a existéncia ernpirica
de um animal vivo que 11510 gostariamos dc dcparar na estrada. Te-
mos a existéncia de uni construto mental com deterininados atrilJn—
tos, o que os tilosotos tradicionais cl1a111arian1 ‘uma esséncia’. C0111
31
nosso riltimo exemplo temos uma existéncia organizacional parcia1~
mente ‘real’ e parcialmente construida por nossas inentes. N0 entan-
to, é também evidente a partir de nossa visao de senso comum do
mundo que as pessoas vivem mun nnmdo de signiticados; elas criarn
signiiicados, compartilham signiticados, transiniteni signiticados, e
tendem a terner a talta de signiticado conlo ulna privagao terrivel. O
innndo da conotagao é tao importante quanta 0 mundo mais palpa-
vel da denotagfio. Poderiamos aspirar ao justo meio-ternio entre os
extreinos e dizer que 1150 se pode tratar a i11tor1na<_;ao de torina signi-
ticatlva sern as pessoas, ou as pessoas sem a illtormagfio. Nossa capa-
cidade de pensar em tcnnos categoricos é parte tiio integrante de nos
que nfio pode ser cxplicada. Senl esta capacidade nao poderiamos
organrzar 0 inundo em que vive111os;n§o poderiamos sequer comegar
a pensar. Se a trouxemos conoseo (a priori ) on a aprendemos 21 medi-
da time progredimos nos lembra da controvérsia meio natural versus
meio social e sua estreita pertinéilcia para a natureza da linguagem.
Usa111os 0 raciocinio categorico 1150 apenas para organizar nosso
rnundo mas também a intorniagao registrada que resultou de nossa
interagao com e1e.Aristoteles calculou que liavia dez categorias basi-
cas, entre as quais substfincia, qualidade, quantidade, agfio, e, é claro,
espago e tempo. O tainoso iilosoto do século XVIH, 11111na11ue1 Kant,
aumentou 0 nifnnero de categorias para 13. 1\/lais importante, ensinou
que as eategorias C0111 que organizanios 0 111undo exterior sao identi-
cas para todos os seres sensiveis; essas categorias sao inalteraveis e
tornam 0 nosso mundo iinico no espago e no tempo. U111 renornado
bibliotecario, S.R. Ranga11atha11, postulou cinco categorias tn11c1an1en-
tais a serem usadas na orgaiiizagfio da intorma<_;.'i71o registrada. S50 elas
personalidade, matéria, energia, espago e tempo. Estfio retletidas. no
nosso cxemplo de analise tematica de cadeiras no Pais de Cales.
Atribuimos signiticado ao nosso mundo ao identiticar e relacionar
classes de eventos ao invés de casos individuais. Consignamos even-
tos irldividuais a ulna classc ou classes de eventos que, a nosso ver,
poderéo logicamente conté»10s. Dessa torma consigrlaznos nosso ca-
narlo de estiiiiagfio :1 classe dos passaros, que o contéin. Possuimos a
capacidade logica de agrupar coisas segundo seu gran de se1nell1anga
e dessemelhanga. Podeinos também notar gradagoes nuina hierar-
quia de classes quando raciocinamos do geral para o particular.
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Notas e referéncias
1 ELIOT, T.S. Chorus from the rock. London: Faber, 1947.
Z WIENER, Norbert. The human use of human beings: cybernetics and society.
Cambridge, Mass: MiT Press, 1960, p. Z5. [Ed brasileiraz Cibernética e sociedacle: 0
uso humano de seres hurnrmos, SE10 Paulo: Cnltrix, 1968.]
t 3 MILLER, George. The psychology ofcommunication. 1-larmondswortliz Penguin
Books, 1966, p. 8.
4 SHANNON, Claude, VVEAVER, VVarren. The mathematical theory ofcommuni-
cation. Chicago: University of Illinois Press, 1949, p. 3. [Ed brasileiraz A teoria ma-
temdtica do con1unica§;fio. Silo Paulo: DIFEL, 1975.1
5 MACKAY, Donald. Information mechanism and meaning. Cambridge, Mass;
MIT Press, 1969, p. 8.
6 SHANNON, Claude, VVEAVER, V1/arren, op. cit.
7 Ver: MACHLUP, E, 1\/IACHLUP, U. The study of information, New York: Wile)’,
1983, p. 641-671. Ver tamlaémz NEILL, S.D. Models of the universe of knowledge.
Iournal ofthe American Society for Information Science,v. 35, 11. 5, p. 357—377, 1980.
8 Essas idéias toram desenvolvidas por Norbert \/Viener em: Cybernetics: control
and communication in man and macliine. Cambridge, Mass: MIT Press, 1943. [Ed
brasileiraz Cibernética, ou, eontrole e comunicagzio no animal e na rmiquina. Sflo Pau-
lo: Edusp; Poiigono, 1970.] Ver tambérn: WIENER, Norbert. God and golem, inc.
Cambridge, 1\/lass; MIT Press, 1964.
9 Para uma aiialise sobre eventos e tatos ver: REBCHENBACH, Hans. Experience
and prediction. Chicago: University of Chicago Press, 1962, p. 33-92.
10 Para um intercssante estudo sobre intormaefio e tempo ver: SHALES, Michael.
On time: knowledge and human experience. London; Hutcllinson, 1982. Argumenta
que a existeneia de relogios provoca uma percepgfio do tempo de uma forma especi-
al. A mente processa a informagflo procedente dos relégios e a intcrpreta como Ser
no Tempo. .
1 1 CARNAP, Rudolf. Formal and factual sciences. Readings in the philosophy of
science. Cambridge: Cambridge University Press, 1953, p. 123-128.
12 Para ulna aplicagflo Z1 geogratia vet: ABLER, Ronald et a1. Spatial organisation:
the ge0graf)l1er's view of the world. New York: Prentice-1-1a11, 1967.
13 Vcr: MCLUHAN, Marshali. Gutenberg galmy. Toronto: Toronto University
Press, 1965. [Edicfio brasileiraz Calcixia cle Gutenberg. S510 Paulo: Ed. Nacional; Edusp,
1972]
14 MEAD, George. Mind, self and society, edited by C.VV. Morris. Chicago:
University of Chicago Press, 1962, p. 89 segs. Ver tambéni: FRO1-IMANN, Brend. The
power of images: a discourse analysis of the cognitive viewpoint. lourncrl ofDocumen-
tation, v. 43,11. 4, p. 365-454.
15 CRYSTAL, David (ed) Encyclopaerlia of language. Cambridge: Cambridge
University Press, 1987, chapter 1, p. Z7.
16 Para uma 11ist6ria intcrcss-ante ver: l\/ICARTHUR, Tom. Worlds of reference.
Cambridge: Cambridge University Press, E985, p. 93 segs. \/er também: RAYMOND,
DR. Hypertext and OED. Communications of the ACM, v. 31, p. S71—878, 1983.
17 Para uma liistéria do conceito de tesauro V61’: 1\/1CARTHUR, Ton], op. Cit., p.
1 19-1 Z3 .
33 33
fig CHOMSEKY, Noam. lranguage and mind. New York; Harcourt Brace, 1966.
o ‘ I Essas llnguagens sao exainrnadas com detalhes por Andrew Large em The
artificial language movement. Oxford: Blaclrwell, 1985.
_ Z0 Eva11ge111o segL111ddS50 iofio. O logos signitica tanto palavra quanto razfio,
ainda que os especialrstas discordem.
C 21 Encontra-se uma descricfio acessivel do determinisnio lingtiistico em:
BQZROLL, 1.13. Language, thought and reality. Urbana: University of lllinois Press,
ZZ Ver CRYSTAL, David, op.cit.
I 23 Sobre percepgao, ainda inerece ser Iido; ABERCROMBIE, ML. The anatomy of
gluclgement. London: Hutclimson, 1960.
24 HUME1, David (1711-177.6). Sua obra classica, Treatise ofhuman nature [Tra-
ltjarlo da natureza 11un1ana}. A citagfio é do capitulo dc abertura, Livro 1. Ver tam-
@n_‘= Bi‘;NNETT, 1o11at11a11. Locke, Berkeley, Hume: central themes. Oxford: Oxford
University Press, 1971.
25 DAWKINS, Richard. The lllind watclzmaker. Oxford: Oxford University Press,
1934. [Ed portugucsa: O relojoeiro cego. Lisboa: Edicoes 70, 1988.] Ver, principal-
n1e11te, 0 capitulo sobre taxlononria e classiticacfio.
26 S"E'ONiER, Torn. Informatlon and the internal structure of the universe. Beriin,
Sprlnger, 1999, p. 21. Para unia critica da posigfio dc Stonier ver: BREER, Soren,
1ntor111at1on and consciousness, Cyberrietics and Human Knowing, v. 1, n. 2-3, p.
71-93, 1992. \/er tambem: VECKERY, Brian. Information science: theory and practice.
London: Bowker-Saur, 1989.
27 Y@YI_KEI\'lP, 101111. The philosophy of Kant. London: Oxford University Press,
1.968, pr111cipa1mente o capitulo 1 sobre as condicoes do con11ecimento [The condi-
1’liO1]S‘(?l1(I1~O\-V16(I1gE:|. Para um apanhado contribuigfio de Ranganatlian £1 teoria da
C Ilfislllflacao ver: ALA worlcleneyclopaerlm oflzbrary and informatimi services. Chica-
go: American Library Association, 1937.
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Capitulo 2
Aspectos psicologicos da informacfio
2.1 Conceitos c linguagem
O leitor talvez se lenibre do conceito de l\/1eLu11an sobre a luz e1é—
trica como ‘in1§orn1acfio pura’. Seu principal argu111e11to era que todo
lneio de intonnagfio é contefido do outro ineio. Por exelnplo, a tala é
o contelido da escrita, a linguagein é o contefiido da iala, e os concei-
tos siio o co11tc1'1do da linguagem. Elle 1150 chegou a relacionar a lin-
guagem ao pensaniento e ao raciocinio. Esta talvez até seja mna ana-
logia irreal, mas pelo menos nos iaz. pensar de modo mais analitico
sobre as tormas como as pessoas usam e buscain informagao. O ter-
mo conceito é muito usado no discurso da ciéncia da intormacao e
11e111 sempre da inesina rnaneira. ‘
O professor diz “quero tratar do conceito dc controle bi1J1iogra.ti-
co" on tan1bén1 pode reclaniar que um aluno 1150 possni “11e1111u111
conceito de limpeza". O cientista da iiitonnacfio tala c111 coinparar os
conceitos presentes nuin docu111e11to com os conceitos presentes 11a
consulta iormulada. O que é um conceito, precisa1ne11te? Uma uni-
dade de pe11sa111ento ou um pequeno tiiolo para montar idéias mais
complexas? Sera que pode ser ai11da subdividido, como o .t'1tomo?Esse
uso correspo11de aproxin1ada111ente ao adotado na biblioteconoinia e
na ciéncia da i11tor:11a<_;tio. Fizemos este tipo de analise ternzitica ao
tratar de um livro sobre manutatura dc cadeiras de vime no Pais dc
Gales no século XlX. Logicos e psicologos talvez discordein de nosso
uso, mas eles proprios concordarn entre si. Um conceito pode ser:
° i qualquer objeto de percepcéo, junto com sua i111portfi11cia on sig-
signiticado, on qualquer coisa que se possa imaginar e que possa
ser distinguida de outras coisas. Nossas cadeiras de vime sao U111
exemplo tfio bom quanto qualquer outro.
° co1111ecin1e11to que 1150 é diretalnente apreendido por lneio dos
sentidos, mas é 0 resultado da manipulacéo dc dados on impres-
soes sensoriais. Assim, podem-se observar no siinpfitico cavalo do
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vizinho certas propriedades, mas para se ter um conceito, deve111-
se ta111bé111 apreender essas propriedades que fazein parte da 110-
@510 geral de ‘eqiiinidade’. Tais propriedades podem ser qualquer
aspecto do animal que se aprecie: velocidade, modo de reiinchar,
carreira on eoisa que 0 valha. A0 agir assiin estainos realizando as
operagoes inteiectuais de abstragfso c geiieralizagzio, a priineira para
isoiar a propriedadc, a segunda para reconhecer que ela pode ser
apiicada a varios obietos. O tilosofo grego Platfio argumentou que
a ‘eqiiinidade’ dos cavaios, a ‘arboridade’ das arvores, a ‘rubridade’
de objetos de cor vernielha cram entidades subsistentes por si ines-
nias c as denoniiiiou formas on idéias originais, que deter111i11a-
vam a aparéncia que os objetos de nossa percepgao deviani ter.
° conceitos abstratos, conio os que a niatcniéitica utiliza para organi-
zar outros conceitos; por exempio, a raiz quadrada de Z, e outros
conceitos mateiiiaticos com os quais pelejfavanios 11a escola.
A abordagern do psicologo cognitive acentuaria que 11111 conceito
1150 é unia coisa discreta separada de todo o resto. Como a palavra ele
possni unia idcntidade relacional e' atua co111o 11111 116 que iiga outros
conceitos. Na teoria da apreiidizageiii gerahnente caracteriza-se como
um processo intelcctual pelo qual vainos aléni do percepto, a eoisa
ii11ediata111ente percebida, e fazenios conjecturas sobre suas proprie-
dades adicionais.‘ Veinos unla magi: c inferilnos que scia suculenta, e
que apodrecera so 11510 a colocarinos 11a geiadcira. Este é 11111 conceito
einpirico baseado 11a nossa cxperiéncia prévia 00111 inagas. Mas quan-
do em 1945 Arthur C. Clarke previu que satélites rodeariain a Terra
001110 0 equivaiente cietronico do sistenia nervoso huinano, estava
conceituando ao extrapolar a i11for111ag:"1o de que dispunha. Esta ati-
vidade intelectuai é a base do aprendizado e dacriatividade huinana.
Nossas experiéiicias da intfincia silo niveis ascendentes do do111i-
nio de conceitos que atingein diferentes grams a cada etapa do 11osso
cresciinento. U111 pe11sadorn111ito prestigioso nesta area foi }ea11 Piaget
(1896-1980). Biologo de foriiiagao, aplicou seus c011heci111e11tos bio-
logicos aos problemas da epistcinologia e do desenvolviniento da
aprendizageiii iiuniana. E16 deiiominou esta nova especialidade dc
‘epistemologia genética’. Segundo sua teoria do descnvoivi1ne11to
cognitivo, a crianga evolui do estadio seiisoriomotor da iiiffmcia pas-
sando pelo estadio pré-operacional e111 que dé os prirneiros passos, e
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da tase posterior do operagoes concretas para a Ease final de opera-
goes formais, que surge no inicio da ado1escé11cia.Z
Esses estadios do dese11volvin1e11t0 intelectuai ncio torain 0 pro-
duto de especuiagocs do gabinete. As experiéncias dc Piaget basea-
ra111-se e111 estudos empiricos lTkil1\.ICiOSOS e rigorosaniente controia-
dos dc grupos dc criangas. Os estadios de Piaget sao aproxiniagoes e
11510 devem ser tratados 001110 divisocs absolutas aplicéveis a todas as
criangas. Para aquiio a que nos propomos ei-los rcsu111ida111c11tc~:.
O estridio sensoriomotor: 0-4 anos. Ao nascer, a crianga nao possni
conheciinento do inundo ou autoconsciéncia do qualquer tipo. Tudo
1150 passa dc unia contuséio terrivei. Mas possni aptidoes inatas dc se
cornportar conforms certos padroes analogos ao dispositivo de aqui-
sigao da linguagem dc Choinsky visto no capitulo anterior. Eases pa-
droes sao estimuiados e inodificados pelo anibiente, e suas ativida-
des sensorioniotoras toniain-se inenos aleatorias e inais intencionais.
Gradualniente a crianga constroi modelos mentais do 111u11d0 a voita
por ineio das atividades que reaiizou nesses inodcios. Este modeio
interno de seu inundo é importante para o aprendizado posterior, ou
o que Piaget chania agéio internalizada. O progresso intelectuai nes-
ses dois priineiros anos é notavel, sendo inaior ainda nos dois anos
seguintes quando a curva do aprendizado sobe aceiituadaniente. Os
objetos toriiarani-se estaticos e perniaiicntes (procurara por eles se
desaparecerein); passani :1 ter existéncia prépria ao invés de sereni
apenas Luna extensao do eui Os eventos tor11a111-se relacionados. U111a
experiéncia ieva a outra e assini causa c efeito se relacionani.
O limiar do raciocirlio operacional: 4-8 anos. Durante este estzidio,
brincar e conipartilhar 21 experiéncia de brincar é uma parts essencial
do deselivoiviniento da crianga. Essas atividades peririiteni E1 crianga
desenvolver uma tonna de raciocinio coletivo, a ver 0 inundo ao seu
redor a partir dc outros pontos do vista.
Operagfies concretas. Por Volta dos setc on oito anos 0 processo dc
operagoes concretas coinega a surgir. As operagoes concretas segundo
Piaget signiticani que a crianga pode reaiizar calcuios iiitclectuais 00111
dados que lhe sfio fornecidos. Ela pode coniegar a ciassificar e eate-
gorizar 0 incio ambiente de forinas diterelitcs c por razoes diterentes,
apesar de as operagocs hitelectuais cstarem ainda estreitaniente vin-
culadas aos obietos da experiéncia iniediata.
37
O limiar das operagoes formais: 9—lZ anos. A crianga apresenta 111aior
habilidade para raciocinar abstratanientc, separando as classes de coi-
sas das coisas que elas representa111.A crianga é capaz de forniar clas-
ses complexas a partir das propriedades das coisas observadas, e fazer
afirniagzoes a elas relacionadas.
Desta etapa e111 diante a crianga teni ao seu dispor 11111 forrnidavel
inecariismo para solucao de problemas. Pode forniular hipoteses, fa-
zer dedugoes, e testa—las diante de sua propria experiéncia. Tor11a—se
uina consurnada eagadora e usuaria cle inforniagoes, e suas necessi-
dades ticani 111ais complexas a cacla etapa segui11te. Existeni duas 0a-
racteristicas que Piaget consiclera as esséncias invariaveis dc qual-
quer iiiteligencia, sefa ela animal on liuniaua. Ele as clraina do assi-
rnilagdo e aconiodagcio. Assirnilacao é a inocliticacao do insunro
perceptual pela estrutura cle 0o11l1eci111e11t0 existente que 0 estuda11-
te individual possui. O que percebeinos é modificado, ainda que su-
tilmeiite, pela iinagem do mundo e111 110ssas mentes. Acoiriodagao é
0 efeito que a nova experiéncia tern dc inodificar esta estrutura inter-
11a ou i111age111; é a finalizagao do ato de aprender. Este conceito é
iinportante tanto para a ciéncia da inforiiiagao 001110 para a teoria da
aprendizageni. As etapas de Piaget sao iiteis para 0 estudo do cresci-
inento e desenvolviiiiento, e nein é preciso dizer que 11510 contain
00111 o acordo universal dos psicologos. Elas variain segundo o ineio
tisico e cultural propiciado a crianca, e, iiaturalnrente, ta111bé111 se~
gundo as particularidades ou constituigfio individual que tazr-2111 00111
que 11e11l1ui11a crianga seja igual a outra. U111a coisa é certa: a crianga
é 1.1111 pensador erftico desde o 11asci111e11t0;l1a poucos indicios cle que
sua niente seja u111a tabula rasa onde a experiéncia, ben1 011 nial, pos-
sa ser escrita. Na qualidade dc cieirtistas da iiiforirragfio, rec011l1e0e-
1110s estas etapas dc desenvolviiiiento quando fornecemos servigos
de bibliotecas e i11t0r111agE1o 001110 parceiros desta grande aventura.
Bibliotecas infantis, bibliotecas escolares, brinquedotecas, teatros de
rnariouetes, e até 111es111o os teinidos ogosde computador atestam 0
rec011l1e0i111e11to da sociedade de que ha ulna hora para cada 11e0essi-
dade do intorinagao; e se essa necessidade nao for suprida, a privagfio
resultante liinitara o progresso individual.
Outra caracteristica inarcante do crescimento é a necessidade de
classificagao. Tudo o que ulna crianga pode perceber deve ser repre-
sentado por u111a categoria diterente dentro da sua estrutura cognitiva.
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Se 1150 possuir e111 sua inente uni sisteina que separe caes de gatos ela
os percebera 001110 a 111esn1a espécic de aniinal. Quando separa os
caes dos gatos ela os classifica ao decidir tratar uni animal de inodo
diterente do que trata o outro, teudo por base u111a diferenga percebi-
da. Este eteito pode ser coinparado 00111 a detinicao de ir1t0r111ag:“1o
dada por um autor: "a diferenga que taz a diferenca”.*
U111 tainoso especialista russo e111 psicolingiiistica, Lev Vygotsl<y,*
atirnra que coricretizamos nossa liumairidade por meio da aquisigao
de conceitos. Ele distingue conceitos ‘cie11tifi00s' de coneeitos ‘es-
pont:?1neos'. O conceito cientifico é formal e ‘nitido’. Tais conceitos
$50 de natureza classificatéria e geralniente tao exatos quanto o per-
mite nossa natureza l1u111a11a. Quando se pode diterengar uin auto-
movel de 11111 caininliao, tern-se 11111 conceito formal cle autoinovel;
quando se pode distinguir cntre diterentes inarcas 00111 base 11os de-
talhes técnicos, entao so tem 0111 conceito cientifico de autoinovel.
Sua cletinigao deuotativa de certa marca de carro é exata e nitida.
_ Conceitos espontaiieos tern origern nas eniogoes e sentiirientos,
u111a area negiigenciada por Piaget e e111 geral ignorada por cientistas
da into1‘111ag:§o. O argumento sulJface11te ao conceito espoiitaneo é
que 11510 so pode alcaiigar coinpreensao ou ei1tendi111e11to se111 uni
se11ti111e11t0 de eirvolviinento por parte do estudaiite. Este argumen-
to é certainente verdadeiro 11a pratica educacioual. Pode-se ll1Ll1tCl£lf
0 estudante 00111 dados, tatos e iritormagoes, 111as se os sentimeiitos
nao estivereln envolvidos, todo 0 ei11pree11di111e11t0 estara destinado
ao fracasso. U111 conceito e111 ambos os sentidos 1150 c’: totalinentc
destituido de se11ti111e11t0; de fato, a pessoa devc ter alguin tipo de
atitude antes que sua ate11§f1o possa ser captada. Para a crianga, o
concerto dc ‘irnia’opera 0111 dois niveis. 111 0 nivcl classiticatorio tor-
mal que distingue sua irina dos outros amigos 011 parentes 1nais atas-
tados. Este é tambérii um conceito impregnado de experiéncia :1
inedida que a crianca cresce. Precisara atingir um alto grau de matu-
ridade intelectual até que possa coinpreender a trateriiidade entre as
iiiulheres, opressao, direitos e deveres, e outras couotagoes do termo.
A As relacoes entre conceitos e linguagern sao 11111 canipo tértil para
controvérsia. Os conceitos precede-111 a liiiguagem? Podemos ter con-
ceitos seni linguagem? Como geralinente ocorre, os especialistas in-
terpretani a prov-a segundo suas proprias detiiiigoes da situagao. Es-
tudos feitos 00111 criangas 111ostra111 que elas organizarn a realidade
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0111 grupos ‘pré-sensoriais’ antes de aprenderein os rotulos apropria-
dos para 0 que percebem. Situagao 1150 nruito diferente de quando
vagamos entre as estantes da biblioteca na esperanga de que impres-
soes incipientes se cristalizarao nuina pergunta negociavel para o ca-
talogo responder. A opiniao c0111u111 é que liilguagem e pensamento
deter111ina1n-se reciprocarnente, c0111 0 pensainerito nao-lingtiistico
levando pequena vantagem. Os etéiogos 110s informam que os maca-
cos conseguem conceituar até certo po11to. S3210 capazes cle utilizar
instrurnentos quando llies surgem as possibilidades fisicasz uma vara
para alcangar uma banana, até mesino duas varas juntas, desde que
esteiam dentro do seu 0a111po visual. Mas sinalizar, indicar ou si1nbo-
lizar uma vara na auséncia desta é urn tipo diterente de conceituacao.
lsso elevaria o nivel de coriiuiiicagao a 1:111 gran totalniente diferente,
0111 que seria preciso u111 segundo simbolo on sistema dc sinais pelos
quais as coisas pudesseni ser representadas quando ausentes.
A crianga, a inedida que se desenvolve, 11510 apenas vé 11111 objeto
e111 grupos ‘pré-sensoriais’; outros I1}€l]1l)1'OS de sua coniunidade lin-
giiistica Hie apresentanr ulna palavra para 0 objeto. A crianga pode
1150 so pensar em ’vara' mas tanibéin visualizar uma quando esta nfio
sc encontrar visualmente presente. Vygotsky denoniiiiou ‘raciocinio
0111 complexes’ esta tase do comportaniento psicolingiiistico. Existe
uma coeréncia e uma légica 110 raciocinio da crianca, niesmo quando
emprega a mesnia palavra para varios objetos. Ha u111a sequéiicia de
raciocinio ligando uma eoisa a outra, e a crianga usa a linguagem para
tixar esta seq1'ié11cia. O uso comum de ‘papai’ para cliamar qualquer
liornem causa trequeiiteincnte hilaridade entre adultos; estes seguem
a mesrna li11l1£1 de raciocinio quando especiticanios relagoes generi-
cas entre objetos — quando partiinos da espécie liumana e111 geral
até cliegar aos ingleses, dai aos nativos do Yorkshire e outros 0011da-
dos. Podenios ainda fazer uma ligagéo associativa quando deduzimos
a partir dos nativos de Yorl<sl1ire até chegar a jogadores de criquete.
_ A uniea torina de lidar 00111 a realidade é organiza-la em pedagos
rnaneiziveis que se adaptein a nossos propositos, um pouco 001110 0
liomein que dividiu a raga liumana entre aqueles que llie en1prestari-
am e aqueles que 11510 llie einprestariazn di11l1eiro. Transterimos esta
idéia para 0 terre110 do armazeriaineiito e recuperagao cla informa-
gao. Unia das abordage11s mais produtivas da analise seniantica da
linguagern e do pensaniento vein da aplicagao de idéias estruturalis-
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tas, que introduzimos discretamente com 0 exeinplo do iogo dc Xa-
drez.‘ Deste ponto de vista cl linguagem é uma rede de relagoes entre
unidades. também uma forina plausivel cle descrever nosso pensa-
mento e comportainento de aprendizagem. U111 modo de impor al-
guina ordem ao fluxo da realidade é organiza-la e111 ‘carnpos de signi-
ficados’. Dentro do cada cainpo as palavras (lexemas) i11ter-relacio-
11am-se e definem-se segando formas especiticas. Ia vimos que as di-
ferentes palavras para cor formam 11111 compo. As varias palavras para
as partes do corpo, cabega, pescogo, ombros, tormam um campo se-
mantico; 00111 eteito, a medicina apoia-se fortemente em tesauros
para organizar a intormacfro inédica. O obietivo é reineter o usuario
para outros cabeealhos onde sc encontrem intorniagoes adicionais
on pertinentes. As relagoes entre os termos siio expressas de varias
formasz de género para espécie, detlores para rosas, de passaros para
pardais on de um campo mais geral para aplicacoes inais especiticas.
Por exemplo, ‘Farmacia var também niedicameiitos, ver também tipos
especiticos de medicameiitos por area de atu 21050: medicaineritos que
agem sobre 0 sistema cardiovascular; i11edicame11tos que agern sobre
o sisterna digestivo; inedicamentos que agem sobre 0 rnetabolismo’ e
assim por diante. Obténi-se maior especiticiclade subdividindo-se ain-
da inais 0 CHlJ€§£lll1O inais ainplo como uma remissiva de ‘medica-
mentos que age111 sobre o sisterna digestivo’ para ‘eméticos’, ‘laxa11-
tes’ e outros. Podeinos tainbém relacionar nossos termos de busca
por ineio de aiitoninios (palavras que represeiitam 0 oposto) e smo-
niinos (palavras que signiticam 0 mesmo, on quase 0 n1es111o).6
Até agora temos 11os concentrado em palavras e conceitos, 111as e
quanto as atividades sem palavras on atividades 11510-verbais do nosso
i11telecto?As artes apoiam-se osteiisivainente na expressfro 11fio-ver-
bal, e quem se arrisca a dizer que a arte nao é uma torrna valida de
interpretar a rcaliclade? Quase 00111 certeza, os artistas considerariain
que 0 ca111i11l10 para cliegar 1 esséncia das coisas seria pela pintura,
escnltura, desenlio e as outras artes. Uma grande parte do discurso
cientifico consiste ein representagoes que sfio cle Carziter total on par-
cialmente 11510-verbal. De tato, as palavras podem atrapalliar a con-
ceituagao. Sera que desenlramos niapas antes de es0rever111os pala-
vras? Os geogratos diriam que sim. Portanto, possuimos mapas, plan-
tas, roteiros, graficos e diagramas. Os quimicos possuem seus propri-
os meios de descrever sirbstiiiiciasz podem usar urn rotulo verbal, es-
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crever uma formula, desenliar um diagrama estrutural, ou construir
um 111odelo estrutural. Ia 111e11cionamos 0 siinbolismo matematico; é
a linguagem em que se supoc estejam escritas as leis da natureza. O
imediatisirio e a economia dc aprese11tac50 alcancados por estes 1né—
todos s50 evidentes por si mes111os. Seria dificil tazer uni relato verbal
coerente de todas as relagoes presentes iiurn mapa; as descrigoes ver-
bais de formulas seinpre corrern perigo de gerar anibigiiidade — e a
airibigijiidade é scmpre um problerna 11a recuperagfro da informagao.
2.2 Teoria da aprerrdizagezn e a organizagfio da inf0rrnag50
Aprender pode significar varias coisasz
' Pode signiticar o dominio de grande coriliecimento 011 juizo criti-
co em determinado campo on disciplina.
' Pode ser uni terino altameiite genérico para a mudclnga mental re-
lativamente duradoura que ocorre 0111 resposta a uma exigéncia
de agao.
° Pode significar uma alteragéio nun1a estrutura cognitiva on 11121])£l
mental existente.
? Pode signiiicar um salto da imagina05o criadora de uma torrna
até e11t5o inexplicada ou inexplieavel dc forma conviricente.
Aprendernos sobre a vida; aprendemos matérias 11a escola; ingres-
sa111os na universidadc para aprender ciéncia da intorinagfio, bibliote-
cono111ia ou acl111i11istra<_;;'1o da informagao. Aprender é uma atividade
abrarigente pela qnal passamos a conhecer o 1nu11do ao nosso redor.
uma atividade paradoxal, como podeinos ver peio que toi apresen-
tado. Envolve estar ativo e passivo; agir e submeter-se ao inesmo tern-
po. Suas conquistas v50 desde estar nierainente consciente até aquilo
que se pode cliamar compreerrscio e mestria, quando entao é possivei
ensinar aos outros. Ao se clefrontar 00111 u111 campo do conliecirnento0 estudante é uma criatura de deseios ao invés do necessidades; que
quer conlieccr, 1150 sinrplesinente 0 que tazcr, 111as o que pensar, no
que acreditar, e o que ser. O processo envolve varios processos intclec-
tuais isolados ou combiriados entre si:
Dedugdo é um modo de raciocinio que comega 00111 pre111issas e pro-
posigoes e tenta delas extrair conclusoes véilidas. Encontra sua 111e-
llior expressiio no tormato classico do silogismoz “Todos os lromens
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s50 mortais, Socrates é liomem, portanto Socrates é mortal.” Parte da
premissa 111aior para a premissa 111e11or até a conclusao pelo processo
de inferéncia. interirnos que Socrates é mortal porque pertence E1 es-
pécie liuinana, que é mortal. Alguns pensadores tern levantado (lovi-
das quanto a essa tornia de raciocinio. Cliamarn-11a tautologica, ou
seja, a pessoa esté ape11as pondo 1 mostra aquilo que se encontra
(a priori ) 11a premissa.
lndugrio. Um processo muito apreciado pelos primeiros cientistas que
sofrerain a influéncia de Francis Bac0n.7 O que é verdadeiro sobre
certos individuos é verdadeiro para sua categoria. O que é verdadeiro
11a parte é provavelmente verdadeiro no todo. Considera-se c0nl1eci-
mento direto e sem mediacao, e é a base da metodologia empirica e
experimental. Na verdade, trata-se de um contraste imperteito, pois
atinal precisa tazer algum tipo de deducao a partir da acumulacao de
casos observados.
Abstragrio. O processo dc abstrair ou selecionar 11111 padr50 especifico
a partir de casos apareriternente desorganizados. U111 parente proxi-
nro do processo indutivo. ,
Ceneralizagfio. O processo pelo qual cl1ega-se a urn juizo aplicavel a
toda u1na classe, freq1'1e11te111e11te com base numa experiéncia com
um 11L'1mero limitado de casos dessa classe. Geralmente considerado
um parente indisciplinado da dedugfio; apesar cle, segundo 110s di-
zem, ser a mais constante caracteristica do nosso processo cognitivo.
lntuigdo. Conliccimerito direto e, apareritemente, sem111ediag5o.As—
socia-se as vczes a 11111 co11l1e0ime11to muito protundo, tao protundo
que 1150 envolve raciocinio consciente. Em teologia, é as vezes e111-
pregado 110 c011l1ecime11to i11c0n1u11i0avel que 0 mistico tern de Deus.
Crenga. Aceitag5o ernocional de proposicao on doutrina baseada 110
que sc considera iinplicitamente 001110 razoes suficientes. Os moti-
vos da crenca, no entanto, muitas vezes 1150 s50 examinados de acor-
do 00111 os processos analiticos consagrados. A crenca tern sido sem-
pre tonte de problemas para a epistemologia e para 0s mais destaca-
dos n1e111bros da comunidacle cientitica. N50 desaparecera, pois ain-
da intluencia nossas estruturas cognitivas e imagens do inundo. Ela
determina como os dados da experiéncia s50 interpretados, como se
pode observar na polérnica entre criacionistas e evolucionistas. Mes-
43
{no 3351111, 113 GL5-Bretanha ainda apostamos nos dois lados ao pedir
as pessoas, ao assinareni docunientos importantes, que 0 fagam 11a
C6]-tez " ' a / - .aide que sao verdadeiros ate onde vai seu conl1ec1111e11to e sua
crenga .
Ima ' " - . - -t gmagao. A taculdade mental de compor rmagens de obietos ex-
ern ' . - -os que nao se fazcm presentes perante nossos cinco sentidos.
ghflkefpfiare expressa a 110050 de imaginagao 0111 Sonho de uma noite
e verao:
- Os amantes e os loucos tém inente tao febril,
Fantasias visionarias que pergebem
O que a frla raz50 iamais coinpreeiidera.
O lunatico, 0 amante e 0 poem
S7 . . . ,__=10 todos teltos de imaginagao. (Ato 5, Cena 1)
’ O vocabulo ‘imagiiiagao’ tern passado maus inomentos desde a
epoca vitoriana, quando, por alguma raz50, era tido como a antitese
;li¥iE:€l1l)1§:e;:1:§ltoriz1<;t;1a€li.Atualmente ele esta reabilitado, e_,.11os clas-
candidatos fl Carl) Ed 1 PFlf¢_C€_ 001110 111115 qualidade desegavel dos
’ _ 1 gos e especralistas em rnfornragao. Sen sentrdo ge-
nerico conipreende uma visao jovial e uma disposigao de encarar de
manerra nova situagoes velhas. Como u111a ‘atividade formadora’ apro-
€;1113"56 pfirlgosainente da f1n1g50 formal da intormacao que se supoe
ca a mesma eoisa com dados incipientes.
Qllillquer que seja 0 método doininante em 11ossos estilos de
aprendizagem, tendemos a buscar significado. Se pudermos arriscar
uma geiieralizacao iridutiva, a principal atividade cla espécie humana
e a criagao, rregociagiio e alteracao de signiticados. lsso constitui uma
parte essencial da co111u11i0ag5o l1111na11a. O signiticado é relacional:
envolve algo 011 alguém a mais; 0 significado depends tarnbém do
conterrto. O snigmtrcado 0o11text11al pode ser exernpliticado por nos-
sas leis de transito. Vermelho significa pare, e verde significa siga,
lssllizifp;31:!) C(Ir(?g1rl:€(lf0- Eia lji o11e,diz respeito a 1611111111101.“ Criainos
gm 1ca os, dai 0 uso de 11ossas categorias de espa-
go e tempo e, de uma forrna mais moclesta, as categorias que utiliza-
gllfilissgjlgz S();9n(;C;f1l1CEl111'Cl1iIOSregistrados. Fragmentamos
, . . useaveis, para tins de aprendrzado; parc-
ce q11e 0 pre-requisrto essencial para 0 aprendizado é segn1entar o
assunto a ser estudado, e dispo-lo segnndo niveis de diticuldade de
aprendrzado. Os significados dependem de contraste, o que explica
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porque os antoriimos s50 importantes na organizacao de descritores
para recuperac5o da intormagao. Serra de ma qualidade u111a tese que,
tendo 001110 teina a liberdade, 11510 tratasse das caracteristicas da tira-
nia; do mesmo modo, 111ateriais contrarios E1 vivissecagao devein ser
relacionados corn a propria vivissecacfio. Ha certas areas de nosso co-
nl1e0i111ento o11de os significados atribuidos a conceitos derivam da
existéncia de seus opostos. Signifioado é também 'qualidade de rela-
g5o’. Se talamos de mudanga temos que lidar com permanéncia, se-
n5o como poderiamos saber 0 que é mudaiica? Como poderiarnos
encontrar um ponto de partida para avaliar sua extensfio? Ainda as-
sim, qualquer tipo de aprendizado, 1150 importa (11150 primitivo, esta
relacionado 5 mudanga. Sem mudanga mio hci aprerrdizado.
A0 aprender, utilizamos dc diterentes tormas os métodos mencio-
nados acima, e muitas vezes tica dificil distinguir um do outro, ou
sua iinportancia relativa 110 eteito total. Tomemos como exernplo a
aprendizagein por ensaio e erro. Nos a encontranios em sua torma
mais basica no adestrarnento de animais, onde recoinpensa e puni-
cao s50 os agentes deterininaiites. O animal responde, de inicio, as
caracteristicas gerais (la tareia que llie é exigida com uma variedade
de atos, e depois, pouco a pouco, vai eliininarido as respostas que se
mostram insatistatorias. Ent5o, aplica111~se as recompensas e ele pas-
sa a repetiricom inais frequéiicia os atos que se mostrarain satistatorios.
O sucesso do ato de aprender envolve a rejeigao de dados e informa-
coes. A situacao 1150 é diferente dos programas dc treinaineiito basi-
co de muitos oficios, onde aproximagao e corregao torrnain a base do
prograina dc aprendizageni.
Como seres l111111ai1os, a ‘estrutura cognitiva’ é importante na acci-
tagfio ou reieigfio de dados. Deseiivolveinos 0 que se cliama 11111 con-
junro de aprendizagern baseado nurria avaliacfio preliminar da tarefa
dc aprendizagem, decidindo se valera 110ss0s estorgos, e invocando,
de 11ossas experiéncias passadas, qualquer intorinagao que seja perti-
11e11te a essa situag5o. Possuimos até nossos métodos tavoritos para
entrentar essa tarefa de aprendizagem. Possuimos diterentes estilos
de aprendizagem que intluenciain a torma 001110 lidamos com um
assunto, e o uso que tazemos dos servicos de inforinagaoe bibliote-
cas. Alguns dc nos somos holisticos em 11ossa abordagem: gostarnos
de visualizar um padrao global do material a ser estudado; outros
gostam de organizar os pedagos pouco a pouco, até que o padrao
45
resultante seja cle seu agraclo. A isso se denoniiua com freqijéncia
aprendizagem ‘roclo versus parte’ ou aprendizagem /lolfstica versus
seqiiencial. Os rnesmos estilos se aplicam tanto ao ensino como 51
aprenclizageni. lmaginenios q11e precisamos ensinar a uma platéia a
organizagao e as fungoes dos servigos cle informagao e bibliotecas na
Gr€1-Bretanlia. Poclemos comegar 00111 um roteiro esqirematico e ir-
rnos riscanclo aos poucos as partes coinponentes :1 rueclicla que avan-
gamos. Podemos falar do papel central desenipenhado pela British
Library, mostrar suas inter-relagoes e ligagoes corn as bibliotecas pu-
blrcas, especializaclas e universitzirias e riscar as informagoes a medi-
da que avangainos. Ou pocleinos corrsrruir cada componente pouco a
pouco, 11a expectaliva cle um efeito do tipo ‘ora, vejam so!’ sobreo
estuclante enquanto 0 sistenla vai senclo revelaclo em tocla sua gloria.
Obviamente, o estilo cleve adcquar-se ao assunro; a rnfrsica, por exem-
plo, requer um métoclo seqiiencialista se estiverrnos fazenclo avalia-
goes que irnpliquem a atribuicao cle notas on conceitos, e 0 mesmo
se pode afirnlar sobre 0 aprenclizaclo (la conclugfio cle veiculos.
2.3 A criagflo cle conhecimentos e illforrnagoes novas
Sabemos que o corrlreeimeriromucla; e nlucla, e111 grairde parte,
clevido as muclazrgas que se verificam em nossas pereepgoes cla reali-
clade. Sabenios que acuinulanios novos latos sobre a socieclacle, 0
muudo fisico, e 0 inunclo (la consciéncia incliviclual. Sabemos niuito
poueo sobre as formas como as pessoas criam 1150 so novas fécnicas,
111as Eorrnas totalnlente novas (le [JC1'C6l)€1' iriforrnagoes. Ia ouvimos
falar cla magi que cai na eabega cle Newton, com conseqfiéncias dra-
rnaticas para nossas percepeoes sobre a reoria da gravitagfio. Mesmo
assini, sonios basfante espertos para saber que isso {oi um acaso que
favoreceu uma nrente predisposra; rrragfis cairam e111 rnuitas ealnegas,
antes e clepois, sein que tenlianr sido verificaclas conseqiié11cias simi-
lares on comparaveis. ‘Criar' é uma palavra vaga, apesar cle frequen-
temente utilizada corn efeito retorico na incliistria cla publiciclacle.
Uma ‘pessoa criativa’ é aquela que clemonstra tanro ll11£1gi1121§fiO como
lrabilidacles rotineiras, alguém que criou um novo padrfio ou sequen-
cia de liabiliclacles para resolver um problema que o perturba.
Esta é uma iinportairte area sobre a qual a teoria cla informagao
ainda 1150 conseguiu langar nruitas luzes. N50 por culpa dos cientis-
tas cla inforniagfio, que, em geral, consicleram 0 assunto fora cle sua
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algacla; tencle-se a assoeiar a criativiclade coin as artes, enquanto a
iriveritividade possni mais uma ressonfincia tecnologica. A literatura
sobre criativiclacle é muito clispersa e fragmentaria, senclo, em boa
parte, do uatureza autobiograficaf’ Diz-se nruitas vezes que a intui-
gfio atropela a cleclugao, a inclugfro e outros métoclos cientificos reco-
nhecidos. Aparentemente, nem a pessoa criativa nein a inventiva se-
riam assicluos usuarios cle laibliorecas e sistemas cle iirforuiagfro, to-
nrando muitos livros eniprestados on anclanclo por ai com for111ulari-
os de coleta cle claclos. U111 conrentario atribuiclo a Albert Einstein (liz
que os cientisras mais criativos sao aqueles que tern acesso a seus
sonlros. De fato, for um sonlro que (leu a August Kekulé (1829-1896)
a solugfio cle 11111 problerna. Seu sonho, que sempre se repetia, de uma
serpente engolindo a propria caucla, forneceu-lhe uma pisla para a
natureza dos anéis de benzeno, que for uma imporrante contribuigfio
para a quiinica orgéinica. A criagao eomega, segunclo alguns relatos,
com uma excitagao vaga, as vezes confusa. Surge uma espécie dc an-
seio, ou ‘palpite', e 0 importarrte é que este palpite é pré-verbal, 1150
cliferente clos ‘grupos pré~sens0riais’ cle que lalamos antes. O famoso
lilésofo Alfred Vl/hiteliead fala do “estaclo de perturbaclora ansieclz:-
de da iriragirragao que prececle uma bem-sucecliola gerreralizagao indu-
tiva", e existeui varios outros testemunlios clo mesmo eleito, atén1es-
mo cle ganliaclores do prémio Nobel. nruito dificil determinar até
que ponto esla criativiclacle possui uma base biolégica ou rnetafisica.
Arthur Koestler,'“ que fez um estudo clesse Eenomeno, elaborou uma
teoria de ‘bissociagao’, que é a capacidacle cle cletectar similaridades
em clessemelliangas. Ele, no entanto, 11510 resolveu a questao se esse
‘génio criativo’ é inato, ou apenas uma capaciclacle infinila cle dedica-
9&0 ao tralaallro e utilizagao das informagoes pertinentes. O nrais cer-
to é que a rneruoria possni intinia pertirréncia para a questfio.
2.4 Memoria e processamento (la inforrnagfio
O que é exatamente a ineméria, e como ela arrnazena conceitos?
Sera conrposta cle material armazenado em forma lingiiistica, e111for-
ma cle imagens, ou uma cornbinagfio cle ambos? Como recordamos
eventos passaclos? Lenrbrauro-nos deles como realmente se passaram,
ou sao montaclos e rranspostos clurante o ato cla len1branga?Trata-se,
talvez, do conceito mais crucial (la ciéncia cla iuformagao e (la bil)liote-
conomia, pois sempre nos orgulhalnos e111 clesignar as bibliotecas como
47
a ‘rnernéria da sociedade’, e ultiniamerite temos transferido esse con-
ceito para bases de dados eletronicas. A analogia com reinontagem e
transposigéo se aplica até coin maior forga as bases de dados, pois
elas se atualizanl continuainerite de acordo coin a logica 1150-
monotonica com que sfio projetadas. Tanrbéin pensainos nos terrnos
sociais da ‘niernoria coletiva’, que exaininarenios no préxirno capita-
lo. O eampo senrantico gerado pelo conceito inostra qufro essencial é
a niemoria para a singularidade e a ‘esséncia mais recondita’ que dis-
tingne 0 ser liunrano do resto cla criagéio. Esse carnpo inclui: aprendi-
zagern, retengao, revocacao, I'€COl1l'l6Cl111€11fO, rnnemonica, termos que
eucontrararn guarida no discurso da ciéncia da intormagfio. Os psico-
logos postulani uma nreniéria de curto prclzo e outra de longo prazo,
rnemoria episodica, rnenrorias ativa e latente, e até discuteni se as
lenibrangas sao arinazenadas em partes especitieas do cérebro. A
maioria coneorda que existe ulna rede de conexoes que é ativada no
processo de recordagfio. Ha rnuito que isso devia ser conhecido intui-
tivarnente, pois os eatalogos de antigas biblioteeas ja possuiarn redes
de reinissivas, ernbora toscas pelos nossos padroes atuais.
Y Segundo os beliavioristas, a rnernéria consiste ein uma grade de
associagoes que se tornanr cacla vez rnais conrplexas pela reagao do
individuo aos estiinulos das inforinagoes. N510 existem elenrentos
‘nientalisticos’ envolvidos; eni suina, nao se tern permissao de usar o
terzno ‘niente’. De acordo coin os psicologos da Gestalt, a atividade
da meinoria resulta de uma tendéncia inata para a forniagfio de pa-
droes em que as mudangas na nremoria invariavelrnente forcani no
ruino de configuragoes inais perfeitas. O atributo central de um gestalt
é uma fornia on configumgdo que possni urn todo unificado: as pro-
priedades nao podem ser derivadas das somas das suas partes e suas
relagoes. Percelnernos as coisas como ‘todos’, nao como a adigao de
pedagos e partes. Se voeé observa urn rosto, vocé o ve conio urn gestalt,
uma totalidade; se vé 0 desenho de parte de urn rosto, seu cérebro se
esforga para cornpletar a tigura. Esta caracteristica da percepgfzo lur-
maua é iniportante nos estudos sobre process-amento serial e proces-
sanrento paralelo por conrputadores. Pcreepgao c ineinoria nao sao
elnpiricanrente separéveis, que perceber é uni ato da rneméria.Quando vemos algo, recordamos o que isso é e o classificamos. A base
biologica (la ineinoria é Luna area eontroversa, prineipalrnente E1 me-
dida que desenvolvenios torrnas externas de niernoria liurnana em
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sistemas especialistas. Para as teorias nraterialistas da rnente, é essen-
cial que, de algunia forma, existam representagoes cerebrais da me-
moria. Disso resultou uni engenhoso eonjunto de termos que inelui
mnemos e engramas. O mnemo designava a lnase duradonra da inente
on de uni organisnro que respondia pelos fatos da rnernoria; ou seia,
pela recordagcio e o reconhecimento. As vezes era designado como urn
vestigio da nienréria. O engrama era uni liipotético estado perma-
nentemente alterado de tecido vivo, resultado de uma ativagao tern-
poraria. Oada engramcl possuia uni lugar especifico no cérebro. Tal-
vez possainos avaliar os aspectos mais praticos destas teorias se de-
senvolvernios o exemplo da leitura conio proeessarnento de informa-
gao e eoniunicagfro com outra pessoa, o autor de um texto.
O autor fornece inforrnagoes coditicadas corno nrarcas on sinais
na pzigina. Estes sinais sao dispostos de acordo coin convengoes espe-
cificas, por exenrplo, da esquerda para a direita. O dado inlportante é
que o leitor fornece intorlnagoes nzio-visuais retiradas das que estao
disponiveis em seu cérebro. E1150 é sé: o leitor é até rnais ativo ao se
adiantar, experimentando, sondando e elaborando hipéteses sobre o que
vein a seguir. De fato, uma autoridade no assunto Cl18lI10l1 a leitura
“um jogo psicolingfifstico de r1d'ivinhc1g:d'o”_" Para ‘que um texto seja
lido etieientenrente é preciso uni boeado de conhecilnento prévio.
Este taro pode explicar aqueles lendarios leitores velozes que alcan-
ganr velocidades de leitura de 700 palavras por niinuto, euquanto 0
resto de nos temos que 110s arrastar a menos da nietade desse indice.
Quanto maior for a coincidéncia entre o que o autor toma como certo
e a inforniagao ncio-visual suprida pelo leitor, mais eticiente sera 0 ato
de leitura. Se tento ler urn livro nunia lingua estrangeira, 115.0 o corn-
preenderei: nfio CllSpOl1l10 de qualquer informagxio néto-visual para ote-
recer. Por rnais clara que sej a a exposigfio do autor, 0 texto continuara
ilegivel para 1ni1n. Esta distingfio entre infonnagao visual e nfio-vi-
sual é inrportante, pois rnostra que ha uma relagéio reciproca entre o
conhecedor potencial e a fonte de informagcto potencial. Existe urn in-
tercainbio entre 0 que se eneontra nos nossos cérebros e os dados
da experiéncia. Quanto niais iilfornragfio nao—visual o leitor puder
usar, 111e110s intorniagao visual sera necessaria no texto. Quanto me-
nos irrformagfio nao-visual, mats intorrnacao visual devera ser suprida
pela pagina. Se a tarefa for diticil, tendenios a ler mais devagar; se 0
assunto for familiar, os itens fanriliares nos saltarn aos 0ll}OS e pode-
40
mos cortar C£llI1lI1l10. Ate aqui tudo bem: vemos com os Oll1OS mas
lemos com 0 cérebro. '3
O Oll1O eapta informagoes iiteis do mundo visual apenas quando
em repouso, a 11510 ser que esteja tixando um obieto movel. Pode mo-
ver~se de uma posigao para outra, para captar intormagao, a uma ve-
locidade que niio passa do quatro ou cineo vezes por segundo. Toda a
informagao visual captada por um so relance ocorre durante os pri-
nieiros centésilnos de segundo on rnenos. No tempo restante, os olhos
permanecem em estado nao-tuncional, enquanto o cérebro trabalha
as intorlnagoes recebidas. Pensemos na dificuldade de ler em voz alta
para uma platéia, ao mesmo tempo em que se mantém um ritnro
cadenciado de enunciagao vocal compreensivel! Mas, por enquanto,
voltemos ao eérebro onde se supoe que acontega toda essa atividade.
Os seres laumanos sao analogistas compulsivos, e, quanto a isso,
nao era inenor 0 padecimento de nossos antepassados. Os gregos an-
tigos imaginavam que a inente (nao o cérebro) possufa uma ante-sala
onde os recém-chegados eram avaliados para saber se rnereciarn on
nao ingressar nurn grande salao de reunioes. Usamos praticainente o
mesmo conceito e 0 cliamainos memoria de curto f7TdZO. Voltando a
nosso exemplo da leitura, apraz-nos avangar no texto para pegar o pe-
dago mais viavel que possamos apreender. Estas sao unidades de sig-
niticado percebido que acliamos que podemos reter, por um breve
intervalo, enquanto comparamos o insumo com 0 que conhece-
mos. Ouvir um ditado on uma palestra requer a mesma liabilidade de
aprendizado. Se o orador acelerar, enrolar a lingua, ou falar muito
devagar, nossos esforcos para cliegar a uma conclustfo semantica se-
rfio baldados.
Ler em voz alta para uma platéia clepende inuito da distancia que
vai entre o Oll10 e a voz, a quantidade de texto apreendida nunra fixa-
gao do ollrar, e a formagéio de urn contexto serndiitico que dé sentido £1
eiiurrciaciio vocal. Se a conclusfio for muito longa, tenderemos a bal-
buciar; se for muito curta, causara um vacilante efeito de estacato.
Ritmo é vital. Se 11510 pudermos tazer essa conclusao num periodo de
tempo razoavelmente breve, entao nossas memorias de eurto prazo
ficariio sobrecarregadas. Elas sao como varias pequenas ante-salas,
como os estudantes descobrem arduamente quando tentam tomar
notas durante uma palestra que é pronunciada rapidamente. Como
lidamos com a capacidade liinitada da niemoria de curto prazo? Um
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tilésoto escocés, William Hamilton (1788-1856), i11teressou-semui-
to por este problems. Ele escreveu: “Se vocé langar um punbado de
bolas de gude ao cliao, encontrara dificuldacle para observar ao mes-
mo tempo mais do que seis ou sete sem ticar contuso."”
George Miller, psicologo norte-americano, descobriu que é possi-
vel recordar uma maior quantidade de itens se estiverem coditicados
on agrupados. “l possivel lenibrar uma quantidade maior de mime-
ros e letras quando se apresentam em seqtiéncias reconliecidas que
possualn alguma associagao conosco. Freqiientemente, usamos esta
técnica para reter na mernéria lorrgos niimeros teletonieos on um ex-
tenso nL'1n1ero de classilicagao ou mirnero de cliamada enquanto ten-
tamos alcangar as estantes antes de esquecé-lo. N510 é a-toa que a
memoria de curto prazo é cliamada memoria de ‘lista de compras’.
Quanto mais se aproxima de sete itens, maior 0 perigo de erro. A per-
cepgao pode ser considerada como o agrupamento de dados sensori-
ais em uniclades on padroes maiores. Na verdade, o problenia da trans-
teréncia para a memoria de longo prazo ntio é tao simples quanto
nosso modelo da ante-sala nos levaria a supor. A disposigao dos as-
sentos no grande saliio ainda nfio é totalmente compreendida; se tos-
se, o ensino e a aprendizagem seriam muito mais faceis, sem talar da
programagfio de computadores para sisternas baseados em conheci-
lnentos. l\/lesmo depois de aceito seu ingresso na memoria de longo
prazo, as idéias podem ser velaclas ou suprimidas. Iamais seréo recu-
peradas exatarnente da torma como toram 'pr0CessaClaS’. Este c011S~
tante processo dc niudar e montar, execntado pela memoria, leva-nos
a ter cautela diante do depoimento cle testeinunlias, e pode também
ser responsavel pelas aptidoes criativas que estivemos examirlarldo.
2.5 Temas e questoes
Senrpre que se lé um livro, trava-se uma conversa ou se canta uma
cangao, essa experiéncia eausa alteragoes fisicas no cérebro. Este é o
consenso entre neurologistas, psieélogos e especialistas em COl1l]CCl—
mento.“ Em questfio de segundos, tormam-se novos circuitos que
resultam em memorias que podem moditicar para seinpre a maneira
de se pensarsobre o mundo. Os tilosotos sempre indagaranr como é
que a meniéria deixa sua marca: seus engramas, para que possamos
carregar o passado em nossas mentes. Hoje se levanta a questao com
niuito mais urgéncia e clioque de pontos de vista devido In transferen-
A51
pi
cra para as maquinas desta exclusiva iungao liurnana. Ao derrubar
algumas barreiras que tradicionalmente dividirarn seus campos, psi-
cologos, biologos, tisicos e especialistas em informatica unerri-se na
tentativa de tormular qnestoesepisteniologicas tradicionais. '6 Sao elas,
como recordamos do prirneiro capitulo: como sabemos o que sabe-
mos? Como construimos os mapas mentais — as estruturas de nie-
inoria -- que servem como nosso guia do mundo? Estas perguntas
toram primeirarnente colocadas na boca de Socrates (que participou
de nosso silogismo) lra aproximadamcnte Z 4-O0 anos. Como 0 leitor
deve ter adivinliado, ningném ainda surgiu com uma resposta satis-
Eatoria, e com o passar dos séculos os filosotos se entediaram com a
questfio, quer dizer, até que viram seu territorio sendo invadido pelas
outras especialidades lia pouco citadas. supérfluo atirmar que um
exame cuidadoso de Computer Abstracts produzira mais material so-
bre temas epistemologicos do que Information Science Abstracts, a
nao ser que este autor esteja redondainente equivocado.
Pode ser culpa do computador que estas questoes tenbam sido
tiradas do esqueciinento em que se achavain nos compéndios filoso-
ticos. Um autor nao duvida de que foi isso que aconteceu. “Ao pro-
meter on ameagar que iria substituir o liomem, o computador nos
den uma nova definigao do liomem como um processador de infor-
riiagao, e da natureza como intonnagao a ser processada/’”
O lioniem tem estado no centro cle tudo ha mais de quatro secu-
los, pelo menos no pensamento enropeu. A era dos sistemas l1ome1n—
maquina tez ressuscitar outro problema da filosofia, conliecido como
problema corpo—mente. Se sistemas artificiais podem duplicar a inte-
ligéncia dc criaturas vivas, inclusive seres liumanos, o que seria ex-
cluido dessa operagao? Serzi possivel a uma niaquina reproduzir o
cérebro lrumano sem qualquer clesvantagem? Ate recenteinente a
inaioria dos tilosofos mantinha uma visao dualista da relagao entre
corpo e rnente. Este ducllismo encontra-se, em sua. forma mais expli-
cita, nas teorias do tilosoto trancés do século XVII, Rene Descartes,
que dividiu a realidade em substancias espirituais, que eram invisi-
veis, e substfincias fisicas, que possuiam extensao no espago. Ele ima-
ginou que a alma estaria sentada, por assim dizer, no balcao de um
teatro, vetando, organizando e rejeitando idéias provenientes do
niundo exterior. A0 usar os termos alma, psique, espirito ou consci-
encia, estamos utilizando nogoes dualistas. Fazenios isso ainda de
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modo mais provocativo quando talamos da mente que controla o
cérebro. Os leitores norte-americanos que adotarn uma visao absolu-
tista da Primeira Ernenda a Oonstituigfio saberao também que a ‘li-
berdade de express§o' baseia-se na velha noefio dualista dc que men-
te e corpo silo coisas separadas. Como disse um autor: “terir alguém
com Luna pedra é diterente de ferir alguém com uma idéia".“‘
Geralmente, aqueles que advogaram as varias tornias de dualismo
sustentam que ha uma interagao causal entre eventos inentais e fisi-
cos. A medicina psieossomatica é um exemplo conliecido. A princi-
pal oposigao a esta opiniao parte daqueles que concebem o mundo
como um sistema fechado, no sentido de que todos os aeontecimen-
tos fisicos devein ser cxplicados em termos exclusivamente tisicos, se
é que sao explicaveis. N50 se pode invocar o invisivel para explicar o
visivel. Postular o cérebro como u111 retletor da inente, ou um estado
subietivo de consciéncia interior, era denoniinado a talacia do ‘(aspiri-
to na maqnina’. O cérebro é primordial e aquilo que resolvemos cha-
mar cle niente, consoiéncia, intuigao, imaginagao ou qualquer outro
sinoniino é apenas um reflexo visivel do cérebro em agao. Qualquer
coisa que ‘tazemos: cantar cangoes, escrever poesia, resolver proble-
111as matematicos, tudo isso é 0 resultado de neuronios emitindo des-
cargas. Comparzivel ao fonenia como a menor unidade contrastante
na lingiiistica, o neuronio é a eélula singular que é a unidade funda-
mental da estrutura do tecido nervoso. Oada neuronio consiste ern
u111a porgao central, o corpo celular, da qual se estendem duas fibras:
o dendrite e 0 axonio. O dendrito é geralinente muito curto e termina
num eomplicado eteito de raniiticagoes: a ralniticagfio terminal. Os
axonios sao geralniente mais longos, mnitas vezes possuem ramifica-
goes ditas colaterais, e terrninam numa ranlificagiio terininal muito
menor. A descarga, on excitagao, comega com a ramificagao terminal
do dendrito e é transmitida aos terminais do axonio. Este tlll'lH1O pode
atuar diretarnente no musculo ou glandula — um etetor — ou trans-
mitir a excitaefio ao dendrito de outro neuronio. A area de encontro
do axonio com um dentrito é cliamada siiiclpse. A sinapse é a regiao
on local de pontos onde urn impulso nervoso passa do axonio de urn
neuronio para o dendrito ou corpo celular de outro.
Segundo a teoria dos neuronios, o neuronio é a unidade metaboli-
ca do tecido nervoso; mas as idéias modernas considerani que a uni-
dade funcional nfio é o neuronio, mas o arco on circuito nervoso que
A 52
é o caminlio tornado pelo impulsoneural por meio de urn on varios
neuronios conectores para uni etetor ou orgao executor —— musculo
ou glandula. No jargao da intormatica, dir-se-ia que o dendrito é o
dispositivo dc entrada do neuronio. Enquanto alguns dos sinais que
chegam estimulam o neuronio, outros o inibcni. Se os positivos exce-
deni os negativos o neuronio clispara, enviando seu proprio impulse
pelo axonio caulitornie. O axonio é o canal de saicla, aiimentando
através das iungoes (as sinapses) os clendritos de outras células. Na
verdade, isso nao passa dc uni esbogo metatorico: o circuito resultan-
te esta além dos nossos poderes atuais de descrigao. l\/lesmo assim,
alguns problcmas podem ser csclarecidos se afirmamos que as me-
morias sao armazenadas como neuronios recém-conectados.“’
Emprega-se o adjetivo ‘neural’ na tecnologia da intormagao em
qualqu er contexto onde um sistema tenta aproxiniar-se da complexi-
dade e poder do sistema nervoso de um animal (ou do liomeni), como
11os computadores neurais e redcs ncurais. Na verdade, o ncuronio é
conliecido desde 0 inicio deste sécnlo e em 1843 um fisiologista dc
nome Emil Dubois-Raymond descobriu que era eletricidade e 1150
uma forga vital sobrenatural que corria no sistenia nervoso. Ia 1nenci-
onarnos a antiga rnaxima do ensinoz ‘aprcnder é fazer concxoes; tazer
conexocs é aprender’; e a aplicagiio a nenronios torna-se obvia. O
conexionisnio esta em voga como novo rarno da ciéncia cognitiva
que tenta inostrar como redes de clcmentos neuronitormes sao capa-
zes de realizar ‘coniputacoes nientais’. Como vinios, as memorias sao
armazenadas como padroes de neuronios recém-conectados; alénr
disso, cada novo circuito age como urn sianbolo, u111a rcpresentagao
de algo do inundo exterior. Portanto, ao reativar o eircuito o cérebro
pode reativar a memoria. O reconhecimento ocorre quando o cérebro
encontra um padrao neural similar ao que esta armazenado, acen-
dendo como unr painel eletronico. Coin niillioes de neuronios atri-
ando em paralelo, podemos instantancarirente reconlrecer um rosto,
como dissemos; mas, se alguém iogar um punlrado de tosforos, nos-
sos iniolos terao que engatar o modo serial se quiserinos conta-los.1"
E esta intersegao entre o observzivel e o inobservavel, entre o mis-
terioso e o cientifico, entre tormas de vida baseadas no carbono e
cliips de silicio, que atraiu os tilosotos. lnteligéncia mecanica ou inte-
ligéncia artificial (IA)oz qualquer aspecto do agdo dc uma nuiquina c/ue
chmnrzrfamos de inteligente se 0 observcisservros numcr pessoa. Os prin-
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cipais campos de interesse atual na ciéncia da intonnaciro sao os sis-
temas especialistas baseados em conliecimentos, interagao com lin-
guagens lruinanas (naturais) e visiio mecfinica. talamos da solugao
de problemas e a aprendizagem, em geral, e da solugfio de problemas
e teoria da aprendizagem. O ponto crucial de muitas das polémicas
nestc canipo controverso é que nfio clicgamos a um acordo sobre o
que constitui a inteligéncia humana. Se aceitannos como detinigflo
operacional as fungoes dedutivas da inteligéncia e expressa-las em
silogismos, seremos tentados a concluir que o cérebro tunciona como
o computador, ou que o cornputador funciona como o cérebro.
Oonsidereinos de 11ovo 0 silogisino simples. Trata-se de um argu-
mento on processo Formal em que sc taz Luna interéncia direta a par-
tir de duas proposigoes para se cliegar a uma terceira proposicao: a
conclusfio. Se todos os triangulos sao tiguras de trés lados, ao se ter
diante dos ollios uma ligura de tres lados, infere-se que ela seja um
trifingnlo. As proposigoes que compocm o silogisino sao todas do tipo:
'l'odo S é P
Nenlrum S é P
Algum S é P
Alginn S nfio é P.
A esses mecanismos forniais tornecemos contefrdo semantico na for-
ma de exemplos concretos:
Todas as rnullieres sao bondosas
Nenliuma mullier é bondosa
Alguinas lnullieres sao bondosas
Algumas mullieres néio sao bondosas.
Podeinos recluzidos a lrases cm linguagein coinunr com suieito e
predicado. Por exeinplo, ‘todas as rnulheres’ é o sujeito c ‘sao bondo-
sas' é o predicado. Podemos tanibém dizer:
Todos os elefantes sao cangurus
Socrates é um elefantc
Portanto, Socrates é um cangnru.
A torma é valida, mas sabemos que o conteudo senrantico nao ('2
verdadeiro. O raciocinio e a inteligéncia burnana possuem nluitas es-
tranlias sntilezas. N50 é tacil descrever a intcligéncia bumana em ter-
inos de logica simples e respostasi do tipo sim/nao. Para contornar
55
este fenorneno, especialistas em intormzitica cstao clesenvolvenclo urn
tipo dc légica para coniputaclores baseada na fonna clitusa (fuzzy)
como pensamos. Essa logica tenta associar um gran cle verdade a suas
proposicées atribuinclo-llies uma probabilidade em terrnos numeri-
cos, como um valor entre U — totalinente falsa — e I -- c0n1pleta-
inente verdadcira. Tuclo se passa rapiclamente e antes do final do sé-
culo sera impossivel clistinguir entre a inteligéncia clos laornens c a
inteligéncia das rnziqninas: a uniéo final entre silicio e carbono. Esta
foi a profecia cle Alan Turing (1912-1934), renoinaclo mateniatico
britzliiicof‘ que ficou farnoso, entre outros teitos, por causa (la ina-
quina cle Turing e 0 tcstc cle Turing. A niéquina cle Turing toi crucial
para 0 projeto dos prilneiros cornputadorcs, embora nao seja real-
inente uma inaquina. Trata-se cle um esqueina teorico corn cluas on
mais posigoes possiveis que reage a urn insuino (input) para produzir
uni procluto (out/But). Uma méquina dc Turing assenta—sc sobre uma
fita de extensfio intinita, e coineca a funcionar em cleterininado esta-
clo. Pode ler uma palavra cla fita ou escrever uma palavra para a fita na
posigfio atual, e tambéni mover-se passo a passo em alnbas as (lire-
goes da fita. Representa, portanto, um processador cle clados progra-
nravel coin caracteristicas de insuino e procluto. For, nas palavras do
uni especialista, “a sonibra logica do computaclor”.21 Tambérn influ-
enciou a viséio cultural do que constituia a ‘inteligéncia’ e nos torna-
inos ‘lioinens e rnulheres cle Turing’. Assirn, tainbéni sonros assedia-
clos pelo tcstc de Turing (1950). Urna sala possni clois ferininais, nni
ligaclo a uni cornputaclor e outro controlaclo reniotainentc por alguéin.
Entra 0 leitor. Se vocé nfro pucler clecidir sobre qual dos terrninais é
controlaclo nrecanicaanente, pocleré creditar inteligéncia a niéquina.
Dai a dcfinigao cle inteligéncia mccfinicaz funcionar cle uma fonna
que requer inteligéncia em ulna pessoa. Seré que a rnriquina pas-
sou no teste? Aincla nao. A nao ser eni cainpos bastante lirnitaclos e
torrnais, e, acredite se quiscr, no xaclrez! Entra 0 algoritino, que é
ulna séric dc passos precisos que podcin resolver um dado problenia
—len1bra do nosso silogisino? Nos os vcn10s cxpressos em progranias
(le computaclores, Huxogranias, organogranias e frases do linguagem
clara. Na verdade, nfio raciocinainos contiinraniente clesta forma
algoritnrica, nem falainos como se fossernos tluxograinas verball-
aaclores. Discutiinos energicamente sobre conviccoes pr0funcla1r1en-
te enraizadas; nao argunientarnos como nraquinas logicas. No entan-
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to, existe uma forte posicfio no cainpo da IA que atirrna que 0 cérebro
é um ‘coinputador de carne’.Z‘ Existe 111113 identidacle absolnta
(ontologica) entre a consciéncia e a atividaclc elétrica que gera pa-
droes dc raciocinio no cérebro —- elas sao a inesrna eoisa; nfio ha
nenhrnn ‘espirito na inaqnina’; l16Hl1Ul‘i13 ‘substancia etérea (la men-
te’ a clirigirrnossos pcnsarnentos. Descartes estava total c absoluta-
inente equivocado. A posigfio fraca no campo (la IA trata a rnente
como 0 resultado da atividacle cerebral. O fainoso lnaternético Roger
Penrose, ao discntir o arguniento de se a ‘consciéncia’ é algo cientifi-
caniente descritivel ou se Descartes tern razfio, observa:
Alternativamente, talvez liaja algnin proposito divino ou misterioso para 0s fe-
nonienos da consciéncia —p0ssive1n1ente algo clc teleolégico que ainda nfio nos
for rcvelaclo Mais prcfcrivel para men l‘flOClO cle pensar seria uma versao nm
pouco mais cientifica deste tipo cle argnmento, a saber, 0 principio antrépico
que flflrnlfl ql_l€ H ITZITUYCZH (l0 U11lV(tfSO OHCTC-I HOS €l1COi1{l'£llT1OS é EQYTCITICITTC
coinpelida pela exigéncia dc que seres Sensivcis como 116$ csfciam presentes
para observzi-la.“
Escapamos assim cla arniadilha dualista apenas para nos desce-
lJl'lI'l110S argunientando que pensamos do niodo como pensainos por-
que as coisas sao do ieito que sao; e nossos cérebros sfio organizados
corno sao. O filosofo Iohn Searle é dc opiniiio que a nrente c 0 coin-
putador sao totalmente cliterentes.” O coniputaclor tern sintaxe, que
é raciocinio algoritniico formal; a rnente é caracterizacla por possuir
conteiido senifintico. O signiticado é essencial. Sabianios que nosso
silogisnio (lo elefante era absurclo eznbora a forina (0 algoritrno) esti-
vesse correta. A alegagfio cle Searle é que 0 coniputador taz as coisas
senr conipreendé-las; apenas obeclece as regras. Obeclece a essas re»
gras coin a rnesina coinpreensao que se espera dc um termometro
acerca dos capriclios do tempo. Como exeinplo ele invoca seu con-
ceito do ‘sala chinesa’. Ele imagina que precisa contar ulna historia
em chines. Recebe instrugoes em inglés sobre como orclenar os vérios
petlagos dc papcl corn uiiidades de escrita clrinesa. Essas sao no estilo
‘combine este rabisco coin este outro' e entiio ele inanipula as ficlias
exataniente confornie as instrugoes que llre forani (Tadas. As seqiién-
cias clos siinbolos que representain as liistorias, c a seguir as pergun-
tas, sao introclnziclas na sala por uma fresta. Nenhuma outra infor-
niagao externa é periniticla. Por fin}, clepois que a seqiiéncia de ral)is-
cos toi arrnniada segunclo as instrugocs, a seqiiéricia rcsultante é pas-
57
sada para fora pela mesma fresta. Searle esclarece que 1150 sabe pala-
vra alguma de clrinés, e por isso nao teria idéia do contefido das his-
torias. Obedeceu a0 algoritmo mas 0 contendo semfinticoesta aléin
da sua conrpreensfio. As rnentes liurnanas tém contetidos semanti-
cos, significados, ressonfincias; einbora usein padroes sintaticos no
raciocinio formal, este 1150 é seu inodo mais criativo de funcionar.
Crucial para 0 csforgo de pesquisa sobre inteligéncia artificial é a
nogao de que os niveis simbélicos (algoritinicos) da niente podeni
ser expurgados, por assim dizer, de sua base neural; de que 0 software
pode ser separado do hardware. Estes niveis simbolicos seriam entfio
irnpleinentados em outros rneios, como, por excinplo, 0 substrato ele-
trénico dos conipntadores. Ainda nao esta claro a que profundidade
o cérebro copiador deve cliegar.
Engenheiros do conlrecimcnto dizern que as regras que regein os
conliecirnentos de sisteinas especialistas podein ser colocadas em seus
computadores ‘rnentais’ onde funcionain antomaticaniente. Essas
aptidoes cle sisteinas especialistas, tém sido obtidas cm discipiinas
como quirnica, farmacologia e geologia. Outros nao tém tanta certa-
za. O cientista da informagao Nigel Ford assinala que as aptidoes dc
urn sistenia especialista tendeni a ser lieuristicas, aglonierados dc tc'c-
nicas empiricas para lidar com problenras especificos.“ Como afir-
mou outro antor: '7\pesar de 0 especialista em diagnosticos, 0 taxio11o-
mista e o classificador de algodao poderem lnostrar suas pistas e for-
ninlar suas 111z'1xi1nas, eles S3lJ6l11 nruito mais do que dize1n”.Z7'
Quando estavainos falando dos modos inisteriosos do elétron, dc
como ele néo possni ulna localizagao e é afetado pelo proprio ato dc
observagao, ornitirnos dizer que os efeitos iniediatos desse c011l1eci-
niento sobre nossas vidas nao sao aparentes. Podeinos nao conhccer
o elétron tanto quanta gostarianios, mas nossas televisoes fancie-
narn e nossos cornputadores tarnbérn. Colocarnos nossa xicara sobre
a mesa apesar de nos ter sido dito que ela é composta de atoinos a
zurnbir em circulo e a se clrocar uns com 0s outros. Conseguirnos
sobrevivcr coin teorizagoes de curto on inesnio inédio alcance, e 1150
l12’1 motivo pelo qual a ciéncia da informacao 11510 possa fazer um born,
solido, e ineritorio trabalho sem sc preocupar se 0 espago é uma cons-
trugfio mental e se 0 tempo ‘flui’ apenas no dominio da consciéncia.
A questao é sc a ciéncia da infonnagao do futuro pode ser con-
duzida dentro de uni sisterna fcclrado de raciocinio algoritmico; se
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pode crescer e desenvolver-se nuni vazio cultural. Os bibliotecarios
dc bibliotecas pifiblicas, em especial, conseguirain exerccr suas tare-
fas sem se envolverem muito com 0 ‘fator liuniano’. sa a liistéria dira
se seguiram 0 carninlro certo. A vcrdade ineludivcl é e é possivel
estuclar a informagao coino um sistenia fecliado coin regras defini-
das; mas quando a isso se acrescentarn pessoas, com sens coniuntos
difusos, sua enlouquecedora irnprevisibilidadc, sua busca e criagao
de significaclos, entao a vida fica muito abagungada. isto quer dizer
que a teorizagiio precisa tornar-se rnais profnnda on de longo alcance
e precisa atracar-se coin questiies fnndamentais relativas ao ‘cu’, E1
esséncia do ser humano.
Os debates sobre a consciéncia da inteligéncia mecfinica prova-
velnrente continnarfio por um bom tempo. Alguns filosofos, coino
Iolin Searle, arguinentain que as inaquinas 11510 podem possuir cons-
ciéncia porqne nao possuein ‘intencionalidade'. Este é um conceito
interessante e poléinico que se originon na filosofia européia medie-
val onde o tenno era usado para obietos dc conhecilnento que esti-
vessem presentes para a consciéncia que conirece. Assini, ein con-
traste corn a arvore real que é objeto da percepgfio externa, cxiste
uma arvore ‘intencional’, na rnente do conheccdor, e se dizia que esta
arvore conceitual tinlia uma 'existéncia intencional'. Esta doutrina
for retomada no século XX por urn filosofo farnoso, Edmund Husserl,
para quem todo estado mental estava voltado para alguma entidade,
c esta intencionalidade era a marca inconfundivel da consciéncia.
Todo nosso raciocinio é sobre algunr objeto, e esta ‘atinéncia’ (about-
ness) da a0 objeto ulna existéncia independente. Nosso raciocinio
sol:-re ternas do conliecimento da—llies uma ‘atinéncia' que organiza-
mos para uso futuro.
Em suina, pode-se arriscar a opinar que estas experiéncias demen-
te—corp0, internas—externas, posigoes fortes versus posigées fracas no
canrpo da 1A sao dicotomias tipic-as dc nossa cultura e legado do pen-
sarncnto europen. Nao disponios da pluralidade de clisccrninientos
do pensaniento oriental, que gostarianios de ter, pensanrento nao tfio
sujeito, como o nosso, ao raciocinio binario do tipo sim—n€1o. Na ines-
ma linira dc raciocinio, como uma pcnsadora feminista nos alerta, as
categorias cultnrais que inoldani nossa pcrccpgao do conlrecimento
sao dominadas pelo género nrasculinozg Até quase o século XX a mai-
oria dos filosofos, se nao todos, erarn lioniens, portanto har1ecessida-
1.53G
59
de dc uma epistemologia feminista reflexiva. lsso daria bom tema
para urn seminario, seria 0 caso de alguérn pensar. Desenvolvcreinos
um pouco do debate sobre 0 en autonoino no capitulo sobre etrca.
Notas e referéncias
1 Ver: BRUNNER, Ierome. Beyond the information given. London: Allen and
Uni-viii, 1977.
Z PIACE1‘, Jeim, INHELDER, Barbel. The fisyclzology of the child. London:
Routledge and Kegan Paul, 1966. Ver especialrnente os capitulos 2-3. [Ed brasi1ei-
ra; Psicologia do crianga. Sfio Paulo: DIFEL, 1985.]
3 BATESON, Gregory. Mind cmrl nature. New York; Bantam Books, 1980. [Ed
portuguesa; Nalureza e cs-pfrito. Lisboa: Publicagoes Quixote, 1987.]
‘i VYGOTSKY, Lev. Thought and lmigrrage (1937). London: Allen and Unwin,
1962. [Rein1press§1o.] [Ed brasileira: Pens-riniento e linguagem. S510 Paulo: Martins
Fontes, 1987.]
5 A lingijistica cstrutural 6 uma escola dc pcnsamcnto que trata a linguagem
como uma estrutura entretccicla onde cada elemento coinponente sonrente adquirc
vaiidade cm reiagfio com outros eleinentos do sistcma. Exerce forte influéncia em
outras discipiinas, principalmentc na antropologia e na adniinistragfio. Criada por
Ferdinand Saussure. Course in general linguistics (1915). New York; Pliilosopliicai
Library, 1966. [Reimpressfio] [Er]. brasiieira: Gurso (le lirigiifsticrl geral. S50 Paulo:
Cultrix, 1972.]
6 Ver 0 artigo muito 1'1tii sobre 0 MEDLARS (Medical Literature Analysis and
Retrieval System), base de dados produzida pela National Library of Medicine dos
EUA, em: ALA world encyclopeclia of library and inforzmztimr services. Chicago: ALA,
1986.
7 Francis Bacon (1 §6l—l6Z6). Abandonou a logica dedutiva de Aristoteles e
ressaltou a importfincia das experiéncias na i11terp1"etagz"1o da natureza.
8 Para um exemplo interessante da teoria contextual e a recuperagfio dc infor-
magoes ver: HUNTER, 13.]. ls classification redundant? Catalogue and Index, n. 103-
104, p. 6-9, Spring/Summer, 1992. 'Fz11r1bé1r1: INGWERSEN, 1’. Information and infor-
mation science in context. lnternationalLibr<1:)1 Review, v. ‘£2, n. Z, p. 99-135, 1992.
9 Vet: GHESELIN, Brewster. The creative jJrocess. New Yorl<: New American
Library, 1938. Ver tainbémz ‘Creativity’, in GREGORY, Richard (ed). Oxford companion
£0 the mind. Oxford: Oxford University Press, 1988.
1U KOESTLER, Arthur. The act ofcreation. London: 1-lutclrinson, E969.
1 1 GOODMAN, Kenneth. Reading; a psyclrolinguistic guessing game. journal of
the Reading Specialist, p. 126-135, ‘i A/lay 1967.
12 Ver: S1\'il'I‘H, Frank. Psycliolirrguistics (Incl reading. New York: Holt Rineliart,
1977.
13 1-IAMIUFON, \/Villiam. Literature and philosoplzy. Edinburgh: Simkin, 1852.
14 Ver: MILLER, George. Psycliology and connnrmicalimi. Harniondsworth:
Penguin, 1966. Ver também: LURIA, A.R. The mind ofa mneinonist. Cambridge,
l\/lass; Harvard University Press, 1968.
15 Ver: GARDNER, Howard. The n1ind’s new science: <1 history of the cognitive
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revolution. New York: Basic Books, 1985. [Ed brasiieira: A nova ciéncia cla mente.
SE10 Paulo; Edusp, 1995.]
16 Para uma l1’1cida analise ver: IOHNSON, George. In the palaces ofmemory:l1ow
we build worlds insicle our heads. London: Grafton, 1988. [Ed brasileira: Nos pc1lrici-
os (la melnoria. S50 Paulo: Siciliano, l99‘l.]
17 BOEJTER, ].D. Turing's men: culture and the cmriprrter. 1..ondon: Di1cl<w01'tli,
1985.
18 Ver; IOHNSON, George, op. cit., p. 19-30. Vcr também: MATURANA, 1-1.,
VARELA, The tree oflmowledge. Boston: New Science Library, 1988. [Ed b1'asilei-
ra: A ciivore (lo corrlzecirrierito. Campinas: Psy, 1995.]
19 Ver: ROSE, Stephen. The conscious l)roin. New York; Paragon House, 1969.
[Ed brasiieira; O cérebro consciente. Sao Paulo: Alta-Omega, 1984.]
Zfl Ver: LYNCH, Cary. Synrlfases, circirits m1c[tl1ebegir1ning.\' ofmeniory. Cambridge,
Mass; l-larvard MIT Press, 1989.
21 PENROSE, Roger. The emperor's new mind: computers, minds and the laws of
physics. Oxford: Oxford University Press, 1989, p. 35-‘i2. [Ed. brasileira: A Inente
nova do rei: coniputaclores, llzelitex e as leis (la ffsica. Rio do laneiroz Campus, 1991.]
O artigo original dc Turing foi reimpresso em: HOFSTADTER, Douglas, DENNE'I"l",
DC. The1ninrl’sl. Harmonclswortliz Penguin, 1981.
22 BOLTER, ].D., op. 1:11., p. 65.
Z3 MINSKY, l\/Iarvin. The society ofniirid. New York: Simon and Scliuster, 1986.
Z4 PENROSE, Roger, op. cit., p. 405.
25 SEARLE, Iolin. Minds, brains and science. London: BBC, 1984. Ver tambéni:
BRIER, Soren. Information and consciousness. Cybernetics anclH11mm1 Kiwwleclge, v.
1,11. 2-3, p.71-79, 1992.
Z6 FORD, Nigel. Expert systeins and mlificicil inlelligerice. London; Library Asso-
ciation, 1991.
Z7 ARDICO, A. Artificial intelligence: systems theory and society. /\! and society,
v. 2, p. 113-120, 1988.
Z8 HARDENG, Sandra. Whose lcnnwleclge? Whose science? Milton Keynes: Open
University Press, 1991. O lado esquerdo do cérebro lida com o raciocinio logico e
atividades verbais; o iado direito, com o espacial, criativo e imaginativo. E possivel
que a cnltnra ocidcntal proietc esta dicotoniia de modo mnito rigido - possivel-
mente uma fallia do género masciilino?
61
Capitulo 3
Armazenamento e transmissfio
de informagoes na sociedade
3.1 A cultura e 0 processo de transmissao
No capirulo anterior vimos os inoclos pelos quais 0 ser llumano
interpreta e organiza 0 munclo (la expcri€:11cia. Aprenclernos que 0
cérebro translorma informagoes sensoriais em sinais e simbolos. Mais
illrporlante ainda, vinios como lnanipulamos esses sinais e sfn1lJ0l0S
quando desefamos trocar meusagens entre nos e como executamos
esres atos cle coniunicagao segundo regras acordaclas. De oncle tira-
rnos essas regras? Nos as aprencleinos (la cultura ou culturas a que
pertencemos ou a que, cle algum moclo, esralrlos vinculados. Apesar
de 0 terrno ‘cultura' ser usaclo para significar exceléncia moral ou
refinamento iutelecrual, nos 0 consideraremos, para 0 que nos inte-
ressa no rnonrento, eorno H1113 forrna pratica cle clesignar 0 inoclo de
vicla dos grupos lmmanos e toclas as arividacles que este ruoclo de vicla
ilnplica. Assiin, 'cultura' incluiria erengas, l1al)ili(la(les, artes, moral,
costumes e qualquer outra aptidao fisica ou intelectual aclquiricla por
scres lrumanos como meml)ros cla sociedacle. Em senticlo arnplo, a
culrura incluiria tarnbénr as vfrrias enlidacles e instituigoes criadas
para colocar 0 preeeclente em pratica. O estuclo cle sisternas cle infor-
lnac;-a'o e comunicagao irnpoe que se aclrnitarn lnpoteses cle natureza
cultural cleviclo aos scguintcs motivos:
' A CLlllfL11’€l é criacla por seres lrulnauos; clepeucle cle sisternas do
signos e sirnbolos; precisa ser transinitida cle uina geragao a outta
pelo ineio que for necessario.
° A culru ra fornece a rnatriz clas regras pelas quais utilizanlos a lingua-
gern, signos e simbolos nao-verbais, on qualqucr outro rncio que
possamos criar para reprcsentar inforrnagao.
° A cultura pode ser categorizacla no senticlo nao-material conro
possuiclora de sisfenras élicos, nrorais ou artisticos que ll1e sao pro-
prios e paclroes cle organizagao social.
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° A cultura pode ser categorizada no senticlo material cle modo a
incluir artefatos como arrnas, ferrarncntas, construgoes, qualquer
eoisa feita pelo ser huinano para qualquer fim. Esra categoria as
vezes inelui objetos uaturais, como montaullas, peclras e rios, no
caso de suscitarem associagoes sagradas on significaclos especiais
para cletcrnlinados grupos.‘
Falamos no capirulo anterior sobre a transrnissao cle nosso lcgaclo
genérico e as fornras como cstamos preclispostos a agir deviclo a sua
influéncia. Nosso legado cultural atua (lc fonna rnuito parecicla. A0
contrario dos aniluais, l18SCC1'l1OS clentro dc cstruturas rle aprencliza-
clo e cornportamenro que preexistiarn a nos, e as utilizamos para de-
las exrrair infonnagoes sobre 0 rnunclo e 0 lugar que nele ocupamos.
Se nossos pais pudesscrn, de algurn nrodo, transcrever o conhecirnew
to e a saberloria, frutos (la experiéncia cle tocla uma vida, para seus
genes, seus Clescendentes come(_;arian1 a vicla um passo a frente, e
pelo mesnro processo reincorporarianr seus préprios conhecimentos
a seus proprios genes. Mas esta icléia pertence ao clorninio cla ficgao
cicntifica e cada gcragfzo cleve comegar do zero. Portanto, clevemos
aos outros menrbros cle nosso contexto cultural, vivos e nrorros, as
formas como organizarnos nossas inforuraeoes sobre o rnunclo e as
lnaneiras corno pensamos em translorrrra-lo.
Pensenros por um instanre no vellro aclagio ‘toclas as civilizagoes
sao governaclas pelos rnortos’. Trata»se, rnuito provavelrnente, dc enor-
rne sirnplificagao. Mesmo assim, a corrtribuigao (lelcs nos é legada cle
rnodos sutis e variaclos: pela tracligao oral que nos cerca, 0 processo
cle eclucagfro formal, e as formas mais cluraclouras clos nreios cle infor-
magao existenfes em bibliotecas, museus e galerias cle arte. Nas filer-
ras cerradas do livros cla bilalioteca pfiblica vocé‘: enconrrara as obras
de grancles pensaclores que recebem o epiteto cle ‘grandes’ porque
rnuclaraul as estruturas com que questionarnos o nrunclo. Sao pensa-
clores como Aristoteles, Platao, Isaac Newton, Karl Marx, Sigmund
Freud e rnuiros outros. Gs modos como pensainos acerca do muntlo
sao influenciarlos por suas icléias e obras. lgual processo de transmis-
sao ocorre quauclo vocé aprecia a arquitetura cla cirlade, as pinturas
na galeria clc arre ou os artefatos no rnuseu. lsso nos foi trausrniriclo;
esta all porque alguém colocou all e, ao razé-lo, tinlla um proposito.
Pernranéncia e conservagao sao-essenciais para a continuiclacle Cle
uma cultura. Para perrnitir que sercs lrumanos sc beneficiem do co-
63
nliecimento e das aptidoes de outros devemos dispor de alguin tipo
dc sistema dc armazenarncnto para transinitir esses beneticios atra-
vés dos tempos. Precisamos do eqnivalente social dc nossas proprias
inemorias, etetivamcnte, ulna memoria social ou cultural. Sem este
mecanismo iznprcscinclivel cada nova geragao teria que reaprender
do inicio todos os conliecinrentos e habiiidades tao arduamentc ad-
quiridos por scus antepassados ao longo do tempo.
» Este sisteina de armazeiiameiito apresenta-se sol) diterentes no-
mes. Alguns estudiosos cliamam-no de ‘meinoria cultural’, outros dc
'transcrito social’, alguns cliegam la utilizar o termo ‘livro cultural’,
que sugere uma comparagao com a fungao de arrnazcnainento da
biblioteca. Carregar em nossas cabecas tudo que sabernos tern todas
as vantagcns e clesvantagcns da memoria individual. O conlrcci1nen-
to é algo einotivo, intirno c pessoal, e também estasujeito a scr cs-
quecido. Pior ainda, estamos sujeitos a rcorganizar seletivamente 0
conhecimcnto que dcvemos transiuitir, diticultando assim que ou-
tros averigiicni o que realinente acontcccu on compreendam os tun-
darnentos Eactuais das liistorias que contamos. Se todas as pcssoas
instruidas do grupo cultural tossem elirninadas por uma catastrote, a
idcntidade do grupo estaria em grave perigo. A liistoria nos tornece
varios exemplos de grupos sociais que cairam no olvido por uma on
outra razao. Temos que adivinlrar 0 que S3l_)l£lI11 ou sentiain sobre 0
niunclo cxaminanclo ruinas, editicios e outros artctatos. Como ocor-
reu com os pictos, aqui inesmo na Gra-Bretanha, até a lingua de cul-
turas passadas pode desaparecer sem deixar vestigio.
As culturas orais sao vulneraveis aos seguintes perigos:
° Ha o perigo de a mcmoria coletiva ticar sobrecarrcgada e clistorcida
coin o passar do tempo. E dificil ‘ticar de fora’ e avaliar critican1en-
te algo que so existc em nossas nientes.
° Alguns ineinbros terao maior acesso ao couliecirnento do que ou-
tros e portanto gozarao de urn poder clesproporcional. Se o conlie-
ciinento for rcgistrado, sera mais diticil restringir o acesso a ele,
apesar dc isso nao ser de torma alguma impossivel, como vcrcmos.
Como voco deve recordar do capitnlo Z, a mcnioria liumana de-
sempenha uma tunoao especial para cacla um de nos. Posiciona cada
indivicluo no tluxo do tempo c llle contcre ulna identidade onica a
partir da qual todas as coniunicagoes pessoais sao geradas. A mesma
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tungao é descmpenhada pela memoria coletiva de um grupo social. A
liistoria esta repleta de exemplos da alasorgao completa dc unidades
culturais inenores por outras maiores c mais poderosas —- dc fato,
este tenoineno é clecisivo 11os debates e polémicas culturais contem-
poraneos. Os grupos que nao sobrevivem perinanecem, no maximo,
como curiosidades arqueologicas. Destrua-se a memoria coletiva de
uma cultura e ela sera apagada da liistoria.
Suponliamos que esta memoria coletiva se situe, dc algnm moclo,
fora das mentes dos membros individuais do grupo, on, melhor ain-
da, que se possa guardar em lugar convcnicnte, para consultar quan-
do preciso. Suponliamos ainda que esta niemoria possa ser represen-
tada em torma cluracloura, dc modo que seja coinpreendida por to-
dos os membros do grupo. Se essas liipoteses se concretizarem, entao
a mernoria coletiva nao so sobrcvivcra, mas tamlném todos os mem-
lJros do grupo se lneneticiarao das memorias uns dos outros. Esses
tatos positivos vieram a ocorrcr, inas nao da torma completa e ideal
que plancjamos. este tenomcno que alguns antropologos cliamam
memoria exossomcitica, que signitica, literalmente, ‘fora do corpo’. A
historia desta atividacle externalizadora mostra a cngcnliosidade téc-
nica do l]Ol11€111 c o auge cle sua atividade dc criador dc simbolos.
Abrange uma longa saga dc adaptacao, iriveiigao e inovagao, dos pri-
meiros rabiscos em pedras, cacos dc ceriimica e nas paredes das ca-
vernas até a tecnologia da intorrnacao que nos rodcia. Estc desenvol-
vimento continuo de arteiatos nao so reprcsenta uma sucessao e subs-
tituigao de ‘ferramentas dc intormagad, mas tanibéni irnplica a ques-
tao dc como essas terramentas por sua vez atetaram sens criadores.
Estas sao etapas identiticaveis e importantes no desenrolar clesta
historia; talamos cle uma etapa oral, uma etapa do cllfabeto, uma eta-
pa do manuscrito, uma etapa da tipogrrzfia e uma etapa eletronica.
Mas que o leitor se acautele! Essas ctapas nao possuern pontos exa-
tos de intlexao no tempo. Unia nem sempre substitui totalmcnte a
outra. Podcni coexistir em liarmonia, e reprcsentaln menos um ino-
delo linear do que um modelo circular. Apesar de darmos 5: tradigao
oral prioridade cronologica, ela existe lioje mais forte do que nunca.
Talvez no tuturo ela volte a ter a preeininéncia que teve no passado.
3.2 A tradicfio orai
Esta época represcnta o que o teorico (la coriruiricagfio Walter Ongz
6§
chaina “oralidade primaria”. A expressao denota o primado rnaximo
da tala como o inicio de todo o conliecimento lrumano. "No princi-
pio era o Verbo." Onde lrouver seres lrurnanos havera uma lingua e
sempre sera uma lingua talada e ouvida. preciso que liaja um trans-
missor e um receptor. As linguagens de siuais, apesar de sua riqueza
de gestos e engenlrosa coniplexidade, sao, na niellior das hipotcscs,
substitutes da fala. A tala enunciada pela voz liuniana é rica em in-
torrnacoes. De tato, quanclo escrevenlos, tentanios irnitar sua capaci-
dade de transmissao dc inlormagao. A voz liumana pode exprimir
tonalidade, cor, cadéncias e matizes dc signiticado que inexistem em
suas representagoes escritas. Se duvidar desta alirinagao tente ver dc
quantas lnaneiras vocé pode dizer ‘boa-noite’, criando um significa-
do diterente a cada elocugao. No entanto, apesar de seus inuitos be-
neticios, a tala impoe uma rigida organizagao ao espago onde se da a
inf0rn1ag:€io: os ouvidos devein perinanecer a distancia razoavel de
quem tala. Aristoteles, escrevendo sobre url)anismo, detenninou que
todos 0s cidadaos deveriarn estar a uma distancia em que pudessein
ouvir a voz do arauto. E, sc o espago impoe restricoes £1 comunicagao
oral, o tempo é ainda mais cruel. Todas as sensagoes acontecein no
tempo. A lala é som, e o som guarda relacao com 0 tempo diterente
da relagfio dos outros meios de intormaeao que sao registrados pelos
sentidos liumanos. O som existe apenas quando emana da sensagcio.
Nao ha torina de parar urn som, do modo como se para uma camara
de video. Se paro o som, tenlio siléncio. A visfio pode registrar movi-
mento e tainbéin reduzir o movimento a planos tixos que represen-
tam uma espécie dc liistoria inversa de um tilme. Se vocé é tavoravel
a tese de que a estrutura da socicdade é determinada pelo seu modo
cloniinante de comunicagzao, as sociedades de base oral otereceriio
uma prova contundente a seu favor.
Os grupos lrunranos que clependern da coinunicagao trente-a-frente
tém, torcosarnente, que se rnanter pequenos. preciso um sistema
que determine qucm talara com quern. Os membros do grupo tém
de permanecer ao alcance da voz coletiva, e alguém deve decidir o
que sera dito ou calado. Ha os outros problemas de transrnissao de
idéias, crengas e l1£1l)lllCl3(l6S entre geraeoes. Como a maioria dos es-
tudantes sabe, a inemoria é um instruinento talivel e requer boa dose
dc ajuda para auinentar sua contiabilidade tuneional. N50 sabcmos
exatainente por que, mas acliarnos que o ritmo é um inaravillroso
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aliado no aprendizado de fatos, desde os versos infantis que cantava-
mos para aprender o altabeto e os moses, as alturas mais subliines do
soneto e da poesia lirica. Nossos antepassados remotos descobriram
essa tendéncia, e a usararn com l)ons resultados. Para tacilitar a me-
nroria e a recordagao, a tradigao coletiva preservava~se em torma de
poesia on prosa ritrnica. De tato, todo pensamento mais lorrgo de
base oral tem algo de ritmico, por mais tosco que seja o ritmo.
Talvez lraja uma razao tisiologica inata para esta predilegao imma-
na pelo ritrno. Uma eoisa, porém, sabemos com ccrteza razoavel: a
poesia é mais tacil de lembrar do que a prosa. Os sentirnentos e sua
expressao cadenciada ajudam a incmoria a localizar a ‘maior unidade
manejavel dc signiticadd e tornam mais tacil sua rctengao na memo-
ria. Em sentido cultural mais amplo, a poesia e a prosa ritrnica facili-
taram o imperativo social dc ordenar 0 conliecirnento disponivel, pois
a ordem deve preceder o controle. Portanto, a forma de representagfio
do conhecimentoestava nas formas mais tacilmente memorizéveis e
recitaveis do inito, da poesia e dos provérbios, cangoes e lendas. O
terrno ‘rnito’ talvez precise de algumas palavras que elucidem seu sig-
nilicado primordial. O jornalismo; sensacionalista levaria 0 leitor a
crer que mito é a versao elegante de uma enorme mentira que toi ‘ex-
posta’. O vocabulo possni unr signiticado técnico, principalnrente do
modo como é usado por antropologos sociais. l\/lito vein do grego
mythos, e signitica enredo on estrutura. Rcalrnente, seu sentido origi-
nal de estrutura, construgao ou piano aproxima-se perigosamcnte do
termo latino forma, que utilizamos ao tentar detinir intorrnagao.‘
Os mitos tentam responder a pergunta: por que? Por que estanios
aqui? De onde viemos? As grandes epopéias, como a llirlda, 0 Kalevala
c 0 Ramaiana, todas tratam dos temas clranrriticos sobre as origens e
destinos dos respectivos povos c grupos culturais. S50, nas palavras
de um antropologo social, “lristorias que contamos a nos rnesrnos
sobre nos inesmos”. A analise dos rnitos tern sido urn conrponente
essencial da ol)ra de muitos antropologos, e, dc modo notavel, da
obra de Claude Levi-Strauss? Como produtos da ‘infancia da huma-
nidade', sao analisados quanto a suas estruturas e camadas de signifi-
cados de uma torrna bastante proxima dos métodos empregados pe-
los linguistas ao dissecar estrururas multitormes da linguagem.
Os grandes rnitos classicos falvez pertengam a tempos passados,
mas a realidade fundamental da linguagem oral esta senipre [)I'€S€l1—
67
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te. De tato, pesquisas rcccntes em tecnologia da intormagao voltam
sens eslorgos na diregao de computadores comandados pela voz. Le-
mos sobre coniponentes e programas especiais que perinitirao ao coin-
putador converter em codigo digital ondas sonoras taladas nuln dis-
positivo de gravagao. Os resultados serao processados exatarnentc
como se os dados tossein inseridos por meio dc urn teclado. l\/l€l1’Sl121ll
l\/iclsulian‘ argumentou que a voz liuinana é 0 meio dc intormagao
mais rlco no universo da coinunicagao. Este é um arguinento forte e
diticil dc provar de modo conclusivo, mas nao cliega a ser tao excori-
trico a ponto de contradizer nossa experiéncia cotidiana. O universo
da linguagem oral pode ser analisado de torma analoga ao da tisica
das partlculas e £1 cosmologia do universo tisico. A linguageni lalacla
utiliza tonemas como nnidades de construgao. Estes tonemas sao seg-
inentos, que se sucedem no tempo, de uma linlia tilologica. A etapa
seguinte é representada pelo inorteina, a manor unidade contrastiva
do grcrnicitica. A inotivagao original para se usar mortema como ter»
mo toi uma alternativa £1 nogao da palavra, que se liavia mostrado
dilicil de trabalhar ao se comparar as linguas. As palavras podiain ter
esrruturas coinplexas, dc }110(_lO que liavia necessidade de uni concei-
to unico para inter-relacionar irocoes como raiz, pretixo on palavra
composta. Uma das caracterlsticas principals do método cientitico
eni relagao a qualquer assunto é isolar o maxiino possivel dc unida~
des tuncionais de uni sistema. O inortema, portanto, é visto como a
inenor unidadc tuncional na composigao das palavras. Alguns exem-
plos sao: ‘lromern’, ‘dc—’, ‘—agao’. O mortema liomein tunciona sozi-
nlio, mas os outros dois precisain ser combinados com outros para
tormar palavras. ‘Desinterr-:ssado' consiste em tres mortemas: ‘des’,
’interess' e ‘ado’; ‘interess' é uma torina livre, ‘cles' e ‘ado’ sao lorinas
iixas. Estanios observando a lingua como urn sistenia tisico, assim
como um cientista natural examinaria o universo tisico. l\/las ha tain-
béin outra inaneira de se observar a linguagcm, na qual se criam no-
vos contextos ou inesrno ‘realidades'."
Atirinar que a tala é o alicerce do conliecimento lnnnano é uma
proposigao a qual darianios, no rniniino, aprovacao corn restrigoes. A
tala é o elo que nos une a outras rnentes; c até que possamos encou-
trar um meio alternativo dc transmissao do pensamento, a voz lin-
niana continuara sendo o principal motor no doininio das coisas lin-
lnanas. O poder (la palavra articulada apresenta muitos problenias
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para inuitas pessoas, principalmente para quem pertence ao ‘inundo
real’ como o onico niundo da realidade tlsica. Sc adotar uma posigao
parecida com a de sociologos como Berger c Lucl<rnan,7 entao as rea-
lidades sao constructos sociais que nao apenas se solarepoem, mas
também criam e se controlam inutuamente. Se estamos ocupados
em reunir, organizar e disseniinar intorrnagoes registradas e nac-
registradas, entao precisainos estar atentos a estes pontos de vista
variantes.
Um tilosoto britanico, ].L. Austin (.l.9ll—l96O),3 analisou a tun-
cao das elocugoes em relaeao ao coinportarnento dc queni tala e do
quem ouve na comunicagao interpessoal. Envolvidas neste ato estao
as intengoes dc queni tala e os efeitos sobre queni ouve, junto com a
criaeao de um novo estado dc coisas. O que Austin cliania de “atos
da tala" pode ser analisado dc varias tormas:
° Representatives. Quein lala compromete-se em graus variados com
a verdade cla proposicao; por exeinplo, cu afirrno, eu nego, eu acre-
dito.
' Diretivos. Quem fala tenta levar o ouvinte a tazer algo; por exem-
plo, cu pogo, cu desatio, eu ordeno.
° Comissivos. Quem lala coznproniete-se em grams variados com um
runio cle agao; por exeinplo, eu garanto, en financio, en prometo,
eu yuro.
' Expressivos. Quem lala cxpressa uma posicao sobre uni estado de
coisas; por exemplo, cu pogo desculpas, cu larnento, eu congratu-
lo, eu don boas-vindas.
° Declarativos. Quem tala altera unia situagao on estado dc ser ao
tazer uma elocugao especitica; por exemplo, renuncio, batizo este
navio, dcclaro abcrta esta sessao, en vos declaro marido e inullier.
Como é tacil perceber, as elocugoes acizna cliterem dos enunciados
factuais discutidos no capltnlo l. Muitas instituigoes sociais -- juri-
dicas, éticas, religiosas c estéticas — baseiam-se no uso competente
desses varios atos de tala. Obviamente, no caso dos declarativos, a
pessoa que taz 0 enunciado deve ter competéncia para tal, e estar
agindo dentro do contexto adequado.
Se a palavra é tao poderosa para criar novas realidades sociais ein
nossa coinplexa sociedade nioderna, pode-se iniaginar sua intluencia
penctrantc nas sociedades orais agratas onde nao liavia nenlium ou-
69
tro meio rival de comunicagao. O poder decorria da liabilidade dc
usar a tala para persuadir outrern; portanto, o caminlio para 0 poder
consistia cm praticar assiduaniente a arte da persuasao. Esta arte —
0 estudo da retorica W continuaria a exercer torte intluéncia na edu-
cagao dos iovens durante séculos apos a invencao da escrita. E para
rnostrar a pertinéncia do ditado que diz que ‘nao lia nada de novo
sob o sol’, gastamos parte substancial do nosso produto interno bruto
para persuadir outros seres linnianos a tomarern certos rumos dc agao
contorrne nossos anseios e desejos. E mais: enipregamos grande no-
mero de protissionais da intorrnagao que aplicam suas habilidades
com tal ti1n.Aindustria da publicidade conta com uma gama muito
sotisticada de scrvigos de bibliotecas e intorrnacao.° No entanto, o
orador e persuasor da tradigfio oral nao dispunlra de grande variedade
de recursos televisuais c bases de dados. Reflitamos por um instante
sobre suas diticuldades de comunicagao. Precisara de boa ineinoria,
pois nfio podera recorrcr a anotacoes escritas para disparar a idéia
seguinte ou (l€:Sl'.l'lflCl'121l' o conteudo factual de uma trase que agoniza
no ar. Tern que prender a atengao da platéia enquanto puxa da cabe-
ga a proxima idéia benr-encadeadaiinesiuo assim, o pnblico nao deve
notar isso. Uma pausa, teita no rnoinento oportuno, pode ter eteito
dramatico; uma parada torgada pode ser um desastrc.
Veiainos os probleinas do orador numa sociedade oral: nada de
escrita, de iinprensa, deponto eletronico (teleprompter), de anota-
goes. Uma solugao seria permitir que seu discurso tivesse uma torma
poética on ritmica onde padroes e cadéncias auxiliariam sua memo-
ria entraquecida. Ontro método iitil seria aproveitar o que é conl1eci-
do na teoria da comunicagao moderna como ‘redund:§ncia'. Apesar
de seu uso depreciativo em outros contextos, a redundancia ainda a
evitar ambiguidades; por isso clevernos ser ciridadosos ao redigir urn
telegrams. Os retoricos cliainavarn a redundancia copia, embora a
utilizassem por outros rnotivos. Quem liouver tollieado uma epopéia
da Antiguidade tera notado o tuncionamento da copia. Havia certos
epitetos repetitivos que eram usados para descrever eventos e pes-
soas tamosas. Por exemplo na lliada, um dos personagens principais,
Heitor, nao é nunca meramente o VCll1O Heitor, mas, siin, 0 “podero-
so Heitor do elmo de penaclro ondulante" e outros superlativos re-
buscados. Urna protusao de epitetos repetitivos, uma vez memoriza-
dos, auxiliava 0 orador a antever o terua ou subtema seguinte. Para
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uma geragao acostuinada com bordoes, csses elaborados dispositivos
retoricos podeni soar de man gosto c coniicos, rnas podcrn ser encou-
tradas semelhancas coin os epitetos basicos dc inuitas manclictes de
iornais sensacionalistas. Os gregos estudavam a nienioria como um
recurso auxiliar da vida publica, o que ela ainda continua sendo. Para
meihorar a capacidade de memorizagao, os oradores eram encoraja-
dos a coustruir ‘palacios cla memoria', enorrnes prédios imaginarios
que guardavam nas cabegas. Apos anos cle pratica as inragens torna-
vani-se tao vividas que a pessoa podia techar os Oll]0S e ver seu pala-
cio como se tosse real. Finalrnente essas arquiteturas inentais torna-
varn-se impossiveis de apagar. A0 planeiar seu discurso o orador pen-
saria na propria casa, ou numa quellretossetan1iliar.Oada divisao do
seu discurso era atribuida a um aposento. A ante~sala poderia repre-
sentar bibliotecas publicas, a cozinlra, bibliotecas universitarias, a sala
de visitas, bibliotecas especializadas e de industrias, e assim por diari-
te. Para ajudar a meinoria ele andaria por cada aposento em sua men-
te. Qualquer que tosse sua eticacia, ioi uma das poucas exportacoes
européias a interessar aos cliineses quando as duas civillzacoes inici-
ararn contatos continuos.'" E, ern nosso caso, quando vocé escollie
urn topico para investigagao, esta escolliendo um topico do grego to-
pos, que signilica 'lugar’. Podemos por de lado esse dispositivo como
parte da arqueologia do armazenamento e recuperagao de interma-
gao, mas ainda utilizanios ‘enderego’ em intorinatica para designar o
nfrmero exclusivo que permite acesso a qualquer arquivo, e um carn-
po de enderego para que 0 sisteniasaiba onde encontrar c guardar os
dados respectivos. Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar
era tao importante para os antigos como para nos, e eles possuiam
poucos recursos auxiliares secundarios para repelir a erosfio continua
dos cngrainas on o declinio dos neuronios. Algo tinha de ser teito.
3 . 3 Escrita alfabética
O allabeto mais antigo que se conliece é o semita setentrional,
desenvolvido por volta de 1703 aO na Palestina e na Siria. Compu-
nlia-se de ZZ consoantes. Os altabetos liebraico, arabe e tenicio base-
arain-se nesse rnodelo. l\/[ais tarde, por volta de 990 aC, o altabeto
tenicio toi usado como modelo pelos grcgos que acrcscentaram vo-
gais as consoantes. Este altabeto inoditicado toi o modelo para os
etruscos por voita de SOD aC, de onde vieram as letras do antigo alta-
71
beto rornano e, em filtiina instancia, de todos os alfabetos oeidentais.
Este alfabeto foi levaclo para a Gra-Bretanlra pelos legioriarios do
lmpério Romano e depois pelos rnissiouarios ronranos. Era o alfabeto
classico dc Z3 letras, senr o j, V e W, acrescentados mais tarde.
Esta sintese nfio passa dc uni pobre resunio dos resultados de pro-
cessos cuiturais c intelectuais que levaram milhares cle anos. O alfa-
i)et0 tern sido clrarnado de a maior invengfio do lromeni, embora,
como muitas outras invengoes, l1a§a sido a eulmiriagao de uma longs
linlragem dc rebates falsos e experinientos engenlaosos. Segundo David
Diringer,“ é quase certo que sua origeni tenlia sido num Cinico ponto
da laistériaz “Historicarnentc, foi a riltima gr-ande torma de escrita a
surgir, c a mais altamente desenvolvicla, a mais coiivenientc, e 0 siste-
rrra de escrita mais faeilrnente adaptévcl jarnais inventado.”
Este aspecto precisa ser ressaltado porque liavia varios tipos cle
sistemas de sinais graficos; 0 alfabeto 1150 estava sozinlro, c ele sim-
plesinente nrio ‘aconteceu’. A evolugao destes sistemas de sinais pode
ser diviclida em:
' Pictogrcifica: representagoes de objetos, agoes ou idéias.
° ldeogrdfzcaz uma atividade, objeto ou idéia representacla por um
unreo signo. .
° Silcibica: signos que representam grupos de letras.
Os seres lrurnanos coniegaranr com a pictogratia primitiva — as-
sim como as criangas gostani dc corneear — descnliaiido figuras, ra-
biscando inragens toseas, ou tazendo marcas que servissern dc talismfis
magicos, ou nresrno marcas dc posse. Com 0 passar do tempo esses
signos pictoricos tornarani-se estilizados, perdendo seus valores figu-
rativos basicos para set01'n£tr<-3111 uni sistema secundario de ideogramas
ou ideégratos. Os signos pictéricos coritinuam versaiteis e111 suas tun-
goes modernas. Por exernplo, figuras que mostrarn como opcrar uma
mziquiila podeni expressar uma seqiiéneia de idéias e iiistrugfies que
rrruitas vezes transpoenr as barreiras das linguas. Dependein, poréni,
grandemente do eorrtexto para produzir significado. Algunras das ins-
trugoes pictograficas do eédigo dc trfrnsito contém infiirieros exem-
plos da necessidade de decodificar a partir do contexto imediato. As
arrrbigiiidades de cornunieagfio dc alguns desses sinais pictograficos
sao bem conlrecidas de muitos usuarios de estradas e modificarn a
alegagfio tao citada de que ‘uma inragem vale por mil palavras’.
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As escritas ideograticas sfio ainda influentes nos sisternas moder-
nos do conrunicagfio. A escrita cliiiiesa e 0 kanji japonés, derivado da
chinesa, sao cxemplos conlieeidos de descendentes de escritas ideo-
graticas. Esses ‘signos de idéias’ sao elraniados iogégrafos ou logogra-
mas, quando um sinal representa uma palavra ou parte de uma pala-
vra. A materrizitica e a logica utilizam sistcmas logograticos, e 0 cifrfro
oertamente é hem conhecido do todos nos.
Os lristoriadores do alfabeto tragam uma linlia diviséria entre 0
alfabeto propriamente dito e os signos representatives que vimos exa-
minando. Assim 0 fazem por urn rnotivo muito sensato. A escrita
propriamente dita utiliza signos visuais para representar sons ou gru-
pos de sons: ela une 0 rnundo visual ao mundo sonoro. lsso é conl1e-
cido como scllto fonémico, quando signos gratieos se ligam 51 fala. a
COl11pI6C11S§O de que as palavras de uma lirigua emitidas por uni fa-
lantc sao eonstruidas a partir de uma pequena lista permutével do
unidades ainda menores. Para 0 leigo trata-sc de sons; para o li11g1Liis-
ta sao Eonernas, nossas eorrlrecidas silabas, consoantes e vogais. Ao
conrbinar as unidades funcionais da fala com as da escrita, os mova-
dores forjararn 0 elo vital entre os dois mundos da COl1lL1lliCEl§§O.
A revolugao da escrita foi a prirneira das grandes revolugoes da
coniunicagfio na liistéria (la liuliianidade, e da qual todas as subse-
qiientes sao devedoras. A escrita foi a tecnologia dc comunicagfiomais avangada, desde 0 quarto nrilénio aC até o século XV dC, quan-
do loliann Gutenberg conipés corn tipos niéveis o texto do primeiro
livro a ser impresso. H.G. Wells, em seu estilo Huente, rnostra qual
foi a irnporténcia disso: "Pennitiu que ficassenr registrados acordos,
leis e rnandarnentos. Possibilitou 0 creseimento das cidades-estados
da Grécia. Tornou possivel a consciéncia lristérica continua. O man-
damento cle uni saccrdote ou 0 rei e seu selo podiarn deslocar-se para
muito além de sua vista e podiam sobreviver £1 sua nrortc” (The outline
ofhistory, 1920 [ed brasileira: Historic universall).
Sornos tentados a refletir sobre 0 fato de os seres liumanos virem
proeurando ajuclar e externalizar suas rnemorias desde o inicio da
Vida social e comunitaria. A liistoria rernota da comuriieagéio media-
da inclui bastoes corn entallies, cordas corn nos e outros métodos
engenliosos para cstirnular a nieniéria individual ou i11'[€l'l11Cdl£lTlRCD~
sagens nas atividades cotidianas da vida comunitaria. A invengao do
alfabeto néo somente pernaitiu E1 llumanidade coniunicar icléias por
73
meio de signos visuais, mas tambérn criar um registro perinanente
destes signos e assim criar uma niemoria externa. Os arrtropologos
eliamam-na inenioria ‘exossomatica’, para indicar que se situa fora
do corpo; e esta memoria pode ser arinazenada, no inicio em tem-
plos, mais tarde em bibliotecas. Sociedacles orais liinitadas no espago
e aeorreutadas ao tempo podiain agora aumentar seu eontrole sobre
essas duas categorias basicas do espago e do tempo.
E, 0 que é mais importairte, este novo niétodo de registro separa-
va o conhecedor do objeto conlreciclo. Como 0 alfabeto externaliza
idéias ele nos permite distaneiarmo-nos daquilo que conliecemos e
avaliar critieameirte nossas proprias opinioes e as dos outros.
' A escrita criou o mundo do estudo sistematico e da burocracia.
Ordens e instrugoes podiam agora cliegar a destinos remotos exata-
meute da niesma torina como erani despachadas. Qualquer socieda-
de que utilize a eserita pode mauter uma compiexa identidade organi-
zacional em vasta area geografica. As burocracias dependem de ante-
eedentes para seu processo decisorio; registros escritos ou gréficos
forneceni as informagoes necessérias, desde que, é claro, os docu-
inentos estejam guardados de modo apropriado e indexados para ra-
pida reeuperagao. Certos autores, como Harold Innis, térn argumen-
taclo que o Império Romano sonrente se inanteve por tanto tempo
devido a existéncia de registros grafieos.”
Uma caracteristica notavel das socieclades orais é a imprecisao, ou
nresino iirexisténcia de tempo ‘datado' como conliecemos. O modo
oral de preservagao de irrtormagoes 1150 precisava de datas ou crono-
logias rigorosamente calibraclas. O tempo assumia fornia e substan-
cia gragas as estagtoes, testas e ritos religiosos. A partir do riioniento
em que se registra o pensamento em Eormas que llie sao externas,
estabeleee-se um sentido de tempo liistorico e a nritologia tribal ad-
quire um novo rival que é a liistéria registrada. Interpretagoes auton-
zadas do passado nao mais se baseiam na irnagiiiagao coletiva acu-
iriulada. O que tern sido, variavelmente, eliamado de tradigao ma-
iiuscrita ou quirogrcifica durou aproximadarnente trés inilénios e meio.
Foi essa uma fase na liistoria da courunicagfio que teve suas proprias
caracteristieas distintivas que, ainda lroje em dia, sao parte integran-
te da textura de nossas idéias e pensaniento. O periodo manuscrito
oriou o universo das tabulas de argila, rolos de papiros, codices e os
uiauuscritos ilumiuados das bibliotecas dos mosteiros. Coexistiu com
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tradigoes de pensamento e coniportamento basicairiente orais. Tam-
bém demonstrou importaute aspeeto da relagfio entre 0 advento cle
uma nova tecnologia de cornunicagiio e a sociedade que oferece o
contexto para suas aplicagoes. A velocidade de adogao pode ser bas-
tante lenta, ocorrendo nmna velocidade quase glacial. Novas fases de
conrunicagfio uao vao deixando as antigas para tras, como um trem
que deixa a estagéo. O muudo antigo era o mundo do arauto, de
imagens visuais ao invés de textos escritos. Nao era a assinatura, mas
o selo que autentieava um docuniento. E111 doeurnentos politicos e
coniereiais era a iinpressao do anel com 0 sinete real que autorizava a
agao. O rei Iofio nao ‘assinou’ a Oarta Magna em lZl5, ele a selou.
3.4 A fase de Gutenberg
Os cinco séculos deeorridos desde que Gutenberg montou sua ti-
pograiia em l\/iogfuicia (c. 145(3) tém siclo inoldados de fornias pro-
fundas e variadas por uni dispositivo que é, em esséncia, extrema-
rnente simples. Quer dizer, extrernamente simples depois que foi in-
ventado e testado. Basicamente, é uni dispositivo técnico para repro-
duzir textos virtualrnente idénticos e em quantidades ilirrlitadas.
Como esse dispositivo realiza essa faganlia? A imprensa foi definida
como: "0 mecanismo de juntar tipos rnoveis de metal, cada um pos-
suindo na extremidade superior um carater alfabético em relevo, que,
ao ser entintado e pressionado sobre material adequado, deixa uma
marca ou inrpressao”.
Foi essa a invengfio que viria a- se tornar tfio forte ao espalliar o
poder e a influéncia da Europa pelo mundo afora. Esta ligaeao com 0
poder e a domiuagao eulturai européia é our tato a ser observado logo
de saida. A impressao nfio era originalmente uma técniea européia. A
arte da impressao originou-se na China. O mais antigo livro ‘impres-
so’ que traz uma data é uma versfio chinesa do fainoso sutra Dia in an-
te, feito na China em 868 dC, e impresso a partir de bloeos de madei-
ra sobre foliias tie papel de casca de amoreira que sao eoladas for-
mando um rolo continuo. Apesar da longa tradigfio da produgao de
livros (la China e da Coréia, o frnico elemento desse processo que se
infiltrou no Oeidente Foi o segredo da fabricagfio do papel. Quando
os arabes conquistaram Sanrarcanda, em 751 dC, adquiriram essa
arte, que foi iiitroduzida pelos mouros na Espanlia e na Sicilia.
75
N510 lia provas de que a idéia da inipressfio com tipos moveis te-
nlia sido ditundida por meio das rotas de comércio entre 0 Oriente e
o Ocidentc. O mais provavel é que llaia sido descoberta de novo na
Europa. A iiiveirgao da imprensa é atribuida (com certa polémiea) a
Ioliami Gutenberg, dc Mogirncia. Até mesrno a data do seu nasci-
mento é incerta, mas se supoe que sua protissao fosse a de ourives.
A polvora, a inrprensa e a Reformer’ sao citadas por liistoriadores
como os trés principais agentes causais das transformagoes tecno-
logieas, politicas e economieas que, em ultinia insténcia, moldarain
nosso mundo atual. Ainda que possa liaver divergencias quanto as
contribuigoes da polvora e da Retorrna, nao ha duvida de que a im-
prensa tern exercido influéncia poderosa e diversificada no mundo
moderno. I-la, no entanto, ainda trés questoes fundanrentais que nos
intrigani. Por que levou tanto tempo para que a imprensa surgisse na
Europa? Por que sua invengiio ocorreu naquele momento espeeitico
da lristoria? Por que se difundiu de modo tfio rapido a partir do ino-
mento em que, tinaimente, passou a existir? Os anos imediatamerite
anteriores e posteriores a 1500 guardam eerras sernelliangas com11os-
so proprio tempo. Se a polvora iosse a boinba nuclear de sua época, a
invengao da biissola e o conseqiiente increniento da exploragao geo-
graiiea podern ser comparados a nossos programas espaciais e aos
avangos tecnologicos que doles resultaram. O inundo medieval era
peqneno e auto-suficiente, miniinamente dependente de viagens e
observagoes enipiricas; seu contro estava fixo enr Ierusalém. As ex-
ploragoes de Cristovao Colombo e sens contemporfmeos arnpliaranr
a ‘visf_o de inundo’ e 0 ‘espago vital’ da Europa. A partir do inicio do
séeulo XV liouve o que os liistoriadores denominanr uma nova ‘visfio
de inundo’."Novas rotas de comunicagfio maritima abriram oportu-
nidacies para o comércio internacional e o contato e a iiiteragfio entre
diferentes culturas. O creseimento ciemografico de aldeias e cidades
acarretou (para alguns) uma rnelhoria do benr-estar material e o an-
seio de eonliecer mellior o mundo onde viviam. Passarani a utilizar os
‘eriados lionestos’ de Kipling e 0 resultado disso foi urn aniplo ques-
tionamento dos valores, normas e explicagoes aceitos sobre por que o
mundo era como era. Essc questionamcnto assumiu uma torma co-
letiva em instituigoes charnadas stuclicz generalia universitatis, que
reconlieeenios pela filtima palavra coino uma ‘universidade’. Estes
erani locais onde elérigos e leigos pO(llEl111 ser educados fora da nor-
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ma, e o vigor de sua vida inteleetual atraiu estudantes e protessores
de longinquas paragens. Elas erani inteleetualmente mais autono-
mas do que os estabelecirnentos monasticos que cram estritamente
regulados. Era pratiea usual dos estudantes que as frequentavani vol-
tar as suas instituigoes de origem e doar suas niiiiuciosas anotagoes
de aulas as respectivas bibliotecas.
O contexto da dernanda por um novo meio de eornunicagao cres-
cia constauternente. Desde o século XII vinlia ocorrendo um au111en-
to substanoial no niinrero de nniversidades na Europa. O desejo pelo
‘novo saber’ levou a urn aurnento do ninnero de estudantes. Entao,
como lioie, urn aumento no numero de estuclantes teve um eteito
decisivo nas técnieas pedagogicas. Os nrétodos de ensino claquele
tempo baseavain-se totalmente no livro como meio cle armazena-
mento e transmissao de intorinagoes. O unico livro disponivel era
geralmente aquele que o professor tinlra em rnao. Ele lia 0 livro em
voz alta e os estudantes toniavam notas como podiam. Em inglés, o
vocabulo inoderno lecturer [professor imiversitario] vein do latini
lector, que signifier: leitor. Os iinicos recursos existentes para a execu-
gao de copias cram os oferecidos pelos stationarii, os iivreiros das
universidades. A copia de manuscritos por esses ‘escreventes’ era uma
atividade dc niao-de-obra intensiva, portanto, era eara e estava aeima
dos recursos de rnuitos estudantes pobres. Além disso, os stationarii
nao podiam dar conta da demanda; liavia urn mercado a espera de
uma téenica que pudesse produzir textos cm quantidade suficiente a
um custo razoévol. l\/[as a imprensa nio estava destinada a ser uma
atividade ‘solitaria' ao longo dos mais de quatro séculos que a sepa-
ijam dos dias de lioje. Para Iolrann Gutenberg ela tinlia que ser uma
atividade de produgao em massa que exigia uma base tecnolégica e
uma divisao especializada do trabaliro. Ele também preeisava de ca-
pital de investinrento; produzir iniormagfio era, tanto qnanto lroje,
produzir mercadoria. Ele teve sorte. Como o eomércio rnaritimo trou-
xera prosperidade a l\/ioguncia e tambérn a varias outras eidades eu-
ropéias, ele eneontrou pessoas que dispunlram do capital de risco
necessario. As invengoes em geral exigeni, para seu sucesso comer-
cial, uma necessidade sentida, o conliecirnento neeessério e o inves-
timento tinanceiro adequado. Também precisam do uma base tec-
nologica segura assente nos i'1ltimos avangos de tecnologias auxi-
liares.”
77
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A idéia da inrprensa nao era nova. Assirn como em varias outras
invencoes, os cliineses estavam um rnilénio on mais a nossa trente.
Na ‘imagem mental’ (a estrntura cognitiva) lravia a xilogravura; uma
imagein talbada em relevo mini bloco dc madeira, do qual podiain
ser tiradas impressoes. Essas impressoes, agrupadas e costuradas, erarn
conirecidas como ‘livros tabulares’ on ‘livros xilograticos’. Era perfci-
tamente possivel cortar tipos dc rnacleira ern relevo; eles continuam
sendo usados como brinquedos intantis, mas se desgastam quando
utilizados trequenteinente. Os caracteres ciiineses nao precisavain
ser usados com inuita treqijr“-zncia, mas o altabeto roniano tern um
pequeno numero de caracteres e, por isso, as letras teriam que ser
reutilizadas. A inadcira, como ‘substrato’, possuia graves liinitagoes.
E o metal? A metalurgia enropéia atingira alto grau de desenv0lvi-
mento. Séculos antes de Gutenberg, os monges liaviarn utilizado se-
los gravados para iinprilnir as letras capitulares no inicio dos manus-
critos. O segreclo estava na tecnologia da gravacfio; os ourives cram
proficientcs neste oticio, e Gutenberg era ourives. Ele fez uma matriz
para receber o metal fundido, c, tallrando as letras em forrna inverti-
da, a niatriz tornava-se o inolde a partir do qual se obtinliam as letras
dc impressao.“ E, mellior ainda, essas letras pocliarn ser derretidas
numa caideira e reutilizadas. O tipo era ‘movel’ e ‘descartavel’. Esses
‘soldadinlios dc clrumbo’ torain essenciais para o sucesso da inven-
gao. Se Gutenberg tivesse lierdado a escrita cliinesa (aproximada-
mente 60 O00 ideogramas) o gasto teria sido tao vultoso que seria
inipensavel em terrnos cornerciais. l\/[as nfro toi isso que acontcccu. O
legado que recebcu era uni altabeto euja base era tornrada por poucas
letras mas com uma capacidade iliniitada dc combinagao dessas le-
tras. O legado dos fcnicios aos gregos foi decisivo e a Europa viria a
ser a maior beneticiada. No entanto, era preciso fazer esses ‘soldadi-
nlros de cirurnbo’ nrarcliareni numa toilra de papei para que a inven-
gao se tornasse uma inovaciio. Foi um lance de génio a idéia de adap-
tar a prensa dc lagar, usada na vinicuitura, como prelo dc impressao;
uma convergéncia de tecnologias nao menos iinportante do que as
que tém caracterizado nosso proprio século.
Gutenberg foi bein-sucedido, e niuitos irnpressores o acompanl1a-
_ram. Ainda lioie, ticamos maravilllados com a velocidade dc difusfio
da imprensa quanclo levainos em conta a situagao em que se encou-
travanr os rneios de co1nunica§€1o'no sécnlo XV. Meio século apés o
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surgimento do priineiro livro iinpresso em 1452, liavia centenas de
tipogratias espalliadas pela Europa, a maioria concentrada na Italia e
nos Paises Baixos, a saber, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Esta difu-
sa'o da nova invencao alnpliou-se para quase toda a cristandade oci-
dental. O eteito da imprensa na historia da produgfio de livros pode
ser aproxirnadamente estimado pela velocidade coin que essa nova
técnica toi adotada. Até a época de Gutenberg cerca de 30 O00 ma-
nuscritos continham o acervo nlundial dc inforrnagoes registradas.
Durante os 156 anos seguintes, até a época em que Shakespeare es-
crevia, estinra~se que por volta de l Z50 O00 titulos baviam sido pu-
blicados. Seria para essa época uma ‘explosao bibliogratica’. Qual a
explicacao para uma busca tao avida da niultiplicagao de textos ini-
pressos? A lristoria exemplar que se segue pode nos dar pelo menos
uma indicagao. l\/lartinlio Lutero (1.483-1546) era um reformador re-
ligioso, e, como todos os retorniadores, queria atingir o maior publico
possivel. Sua principal intencfio era desatiar a autoridade espiritual e
temporal da Igreia Gatolica que era entiio o maior poder da cristan-
dade ociclental. Em 31 de outubro dc 1517 ele divulgou seu desafio
doutrinario a autoridade do papa por meio de ‘teses’ on pronuncia-
mentos manuscritos que atixou na porta da igreja de V\/ittenberg, na
Alemanlra. Esses poléniicos clocunientos logo aparcceriam em forma
inipressa e “por um lance de nragica ele se viu talando para o mundo
inteiro”. Calculou-se que em quatro anos uns 300 OGO exeniplares de
suas 'teses’ e outros textos de sua autoria lraviam sido vendidos.“
Essa, mesino pelos atuais critérios de desempenlio editorial, é uma
grande vendageni. Reaimentc, havia o desejo dc libertar-se da auton-
dade do cleroe conquistar o acesso sem intermediarios ii Biblia como
a fontc unica da verdade religiosa. Havia tainbénr o que podemos
chan1ar‘fator vernacular’: os manitestos retormaclores luteranos eram
impressos em alcnrao. As idéias nao erain mais cocliticadas em latim,
lingua das pessoas cultas, que poucos leigos podiain entender.*7A li-
gagao entre a imprensa como invengao alemfi e seu potencial empre-
go na promogao da Reforma nao passou desperccbida aos contempo-
raneos, e esta nova alianga entre a irnprensa, linguas nacionais e re-
torma religiosa nao parou nas frontciras politicas e religiosas. Em 1476
Williarii Caxton liavia montado uma tipogratia em Westminster. A
imprensa expandin e cocliticou as literaturas vernacnlares da Europa,
enibora, como treqiientenlente acontece na liistéria da comuniea-
79
gao, neni todos foram beneticiados com isso. Boa parte dependia do
poder politico e economico da comunidade linguistica especifica. O
tato de a lingua galesa ter nrantido até lioie um pouco de seu antigo
vigor deve-se em grande parte Z1 tradugfio (ta Biblia para o galés feita
pelo bispo l\/{organ en] $88. A falta dc uma torrna impressa geral-
lnente leva ao declinio: “existir é existir em tornia inipressa”, e por
esta razfio as linguas gaélica e cornica entraram em deeadéncia, a
ultima ao ponto de extincao. A imprensa, nas palavras dc um autor, é
a “rnultiplicagao da inente”: a fértil matriz dc um rnereado de idéias
em eterna expansao. Os mercados, porém, iniplicam eompetigao e
nesses contextos as culturas mais fracas deveni necessariamente ser
assimiladas on desaparecer.“
3.5 A imprensa e 0 conbecirnento registraclo
Os eteitos da imprensa na historia da eivilizagfio superam qual-
quer estimativa. 1° N50 foi apenas o rapido crescirnento do niirnero de
exemplares disponiveis, mas a nrudanca dc seu conteudo que tauto
influenciou o elima inteiectual daquele tempo. Até entao, os livros
bavi-am sido em geral dc conteudo teologico; agora passavam a incor-
porar as idéias das novas ciéncias, nas obras dc Galileu, Kepler e on-
tros pioneiros da nova tilosotia natural.
Em termos fisicos este novo meio trilliaria o caminlro da miniatu-
rizagfio que iria earactcrizar os multimeios de tempos posteriores. A
propria tornra do codice toi produto desta tendencia da natureza
liuinana de 'tornar praticas’ as coisas. O rolo dc papiro era magnitico,
mas urn tranibollio, principalinente quando, cm toda sua extensao,
que podia superar os 10 metros, era desenrolado no cliao. Quaiquer
que tosse sua eapacidade dc arniazenanrento, a reeuperagao rapida
nao era seu ponto forte. O volumen era um rolo dc papiro ou toihas
dc pergaminbo geralnrente enroladas em torno dc um carretel a par-
tir do qual o rolo literalmente ‘se deser1roiava'. Seu efeito na pacién-
cia lunnaua era semellrante ao dos primitivos gravadorcs de som que
usavam rolos dc titas. Os cristaos primitivos cortaram os rolos ern
pedacos e criaranr o cédice; a prefiguragfio logica do eodice seria pro-
vavclmentc o cliptico, um caderno dc duas paginas utilizado para ora-
gocs. Quaisquer que tenlranr sido suas origens o codice deitou raizes
protundas na psique ocidental, tao protundas que, sempre que pode-
mos, ainda tentamos e arnrazenanios nrultimeios como se tivessern o
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tormato dc livro. Esta primeira colecao de follras presas de um lado
desbancou o rolo nos prirneiros séculos como o principal meio para
textos eultos. No entanto, ein sua torma encadernada o livro impres-
so priinitivo era pesado. Esses pesados télios (incunabulos) nao so-
mente cram iinpressos coin uni liorrivel altabeto gotico, mas tam-
béni encademados com capas de madeira, que em nada cor1tribui-
ram para tacilitar a colocacao nas estantes ou a portabilidade. Quan-
do a grancle Summa theologica de Tomas dc Aquino foi assim enca-
dernada, diz-se que o tilosoio Erasrno teria coinentado, de mau hu-
mor, que “ninguém conseguiria earrega-lo, niuito menos coloca-lo na
cabega”. O liomern provideneial toi Aldo Manuzio (1450-15l5),
veneziano, e o primeiro dc uma série de eruditos/impressores que
viriam a contribuir de modo notavel para a cultura erudita. Aldo
avoeou-se como objctivo principal impriniir todos os classieos gregos
irnportantes que ate entao niio liaviam sido publicados e corrigir aque-
les textos que iiaviain sido publicados em versoes erroneas e inexatas.
Ele coloeava as foilras impressas dependuraclas do lado de fora da
oticina e oferecia prénrios para quein conseguisse descobrir algunr
erro de impressao. Em sua menioria toram denoininadas as exceien-
tes edigoes aldinas que vieram a ser um dos notaveis canais por onde
o pensarnento classico eliegou a Europa. Sua obra tormidavel nos faz
lenrbrar 0 Thesaurus linguae graecczew que lioie se encontra arinaze-
nado nurn cederrom. Iunto com sua visao intelectual era suficiente-
rnente pratico para conseguir que as revisoes de provas de que preci-
sava tossem teitas por uma ninlraria; tanrbéni produziu pequenos
volumes irnpressos com tipo italico. O tipo italico era do leitura mais
tacit para a maioria conservadora cujos ollios estavam mais aeostu-
mados E1 letra nianuscrita. O estudioso que viaiava podia agora emba-
lar um punlrado desses volumes em seu alforie e levar consigo sua
biblioteca de traballio, uma fonte de intormacfio nfio cliterente da
que se encontra no conteudo eletronico da maieta dc uni executivo
moderno. Resumamos alguns dos principais efeitos da imprensa, cujos
resultados destringarcmos mais tarde.
' A imprensa pernritiu que as linguas vernaculas crescessem e trutiti-
cassem; :1 supreniacia do latim como lingua culta internacional
toi forgada ao declinio.
' Estimulou o crescirnento incipiente dos Estados nacionais, reli-
gioes nacionais e identidades nacionais. A imprensa aeelerou e aru-
' 81
pliou 0 interesse comercial pela publicagao e vencla clelivros. O
eclitor, que so preocupava com 0 inercado, comegou a cleslocar 0
impressor, que se concentrava na produgao téonica. Odesloca-
mento ocupacional definitive foi 0 que levou ao desaparecirnento
clo oficio de copista.
N0 periodo medieval os estucliosos visitavam as biliotecas para let
e examinar os livros; esse comportameiito foi alteraclo pelo novos
fatores cle Cluplicagfio e reprodutibiliclade mecfinica; os livros cram
distribuidos aos leitores.
A disponibilidacle cle (liferentes fextos incutiu 0 métoclo cientifi-
co cle critica e comparagao. Os estucliosos comegarailr a investigar
probleinas empiricanreiite e 0 prestigio do texto como autoriclade
{mica comegou a declinar.
Como qualquer novo meio cle comunicagao, 0 novo sistema dc
iinpressfio comegou a entrar enr clioque com a estrutura juriclica
existente. Em alguns casos cle rnodo marcante, esse conflito prefi-
gurava as clificulclades legais com que 0 computador iria clefron-
tar-se. Surgiram novas leis para eontrolar ou suprimir a livre circu-
lagfio de icléias; remanescentes dessas leis ainda convivem conosco.
Alérn cle expandir as literaturas veméculas, a imprensa preservou
e codificou sua situagiio. Povos numericamente pequenos e eco-
nomicamente fracos viram suas linguas mafernas entrarem em
declinio e em alguns casos se extinguirem. A sobrevivéncia da lin-
gua galesa deve-se em grancle parte E: traclugfio da Biblia para 0
galés pelo bispo Morgan em 1588, quase um século depois cle a
imprensa ter sido introcluzida na lnglaterra. A imprensa uniformi-
zou a ortografia e 0 uso educado (la lingua. Deviclo a natureza de
seu traballio, os tipégrafos influenciam a forma e o estilo do mate-
rial impresso. Apesar de 0 inglés falaclo ter mantido sua cliversida-
dc, 0 inglés impresso apresenta menos variagéo. O estudo de ma-
nusoritos em latim exigia alto nivel cle exatidiio e corregao. Estas
normas passaram para o legado vernacular do texto impresso, e
clai tornou-se moclelo para a lingua falada. Estes efeitos poclem
ainda ser vistosna influéncia (lo latim na gramatica inglesa e na
110950 cle que a fala correra segue paclrées literarios.
A imprensa influenciou 0s paclroes do organizagao e recuperagéo
clo conlrecimento registrado. Por exemplo, a histéria dos clicio11a-
rios e enciclopéclias esta intimamente ligada a historia (la impren-
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sa. Uma forte clepencléncia da orclem alfabétioa, embora surgida
no final da lclacle Méclia, é fundamental para a cultura impressa.
Observem a ‘ubiqiiiclacle’ da lista telefonica, muito mais bem-su-
cedida em sua onipresenga do que a Bil;-lia, para cuia dissemina-
gao os primeiros protestantes trabalharam tao cliligentenlente. A
lista telefonica é hoje citacla como um tipico exenlplo do modo
gutenberguiano dc comunicagaoz multiplicam-se os cxemplares a
exausrfio cle maneira que todo mundo no rnercado possua um.
' O livro impresso 1150 envolve apenas uma tecnologia riiferente
(la do manuscrito; 0 resultado é um procluto diferente. Enquanto
os manuscritos cram copiaclos em pequenas quanticlacles, 0s pri-
meiros livros erain impressos em ecligoes médias do Z30 a 1 Z59
exemplares. No fim do século XX a primeira tiragern de um livro
cientifico talvez Posse cle 1 500 exemplares, enquanto a de um
best-seller em ecligao de bolso pode alcangar hoje Z50 GOO exem-
plares. Esta economia cle escala significa que os exeniplares po-
clem ser rapiclamente difuncliclos.
O poder de preservagao do pensamento registrado cresceu enor-
lTl€ll18I1lf6. ldéias que haviam sido registradas em poucos manuscri-
tos corriam sempre o perigo de se perclerem ou cairem no esqueci-
mento da comuniclade acaclémica. ldéias registradas nurn milheiro
de exemplares tinham mais cliance cle clurar do que naquela ténue
cacleia (le manuscritos.
A nova invengao da imprensa tinha um potencial que so foi com-
preencliclo aos poucos, 51 meclida que a flCCl13 do tempo ganliava velo-
cidade. No entanto, como seus sucessores, so se desenvolveu porque
as pessoas viam uma necessidacle para suas manifestagoes. N50 se
pode separar significativamente o meio cle seus usuarios.
3.6 Os contextos dinfimicos éo aifabetisrno
Em meaclos do século XVIII, 300 anos apos a invengfio da impren-
sa, metacle cla populagfio inglesa nao sabia escrever. Em 1914 mais de
99% dos noivos liaviam conquistaclo clominio suficiente da tecnologia
cle comunioagao para assinar 0 registro do casainento cle inoclo que
satisfizesse a autoridacle responsavel. Existein varias cleclugoes que se
podem tirar clesta afirmagfio feita por uma publicagao governameii-
tal, alegranclo-se com 0 fato de a lnglaterra ser ulna ‘sociedade alfa-
83
betizada'. E111 priineiro lugar, deduzirnos que quern sabe assinar 0
noine sabe ler, embora, se for engenlioso, o individuo talvez haja trei-
nado para clregar a fazer uni garranclio passavel nas ClICLll1S‘lZ§11Ci2lS.
Em segundo lugar, ainbos os noivos sao obrigados a assinar ou tazer
uma inarca a ser endossada pelo escrivfio. Em terceiro lugar, existe
uma legislagao, sancionada pelo Estado, concernente a contratos en-
tre duas pessoas. Esta legislagao vigora, na Gra—Bretanlra, desde a
norina que dispoe sobre casamentos, conlrecida como Lei Lorde
Hardwicke, dc U53. Esta lei pretenclia acabar com os abusos entao
conletidos na forina dc inatrimonios clandestinos. Nenliunr matri-
inonio seria valido se nao Posse registrado no livro de casamcntos e
finnado, coin a assinatura on uma rnarca em cruz, pelos nubentes e
duas testenrunlias. Desde entao, vein sendo tormado um corpo siste-
rnatico de indicios da distribuicao do alfabetisnio. Até o advento da
lei de registro denascin1e11tos,obitos e casainentos de 1836, os dados
eram coletados localinente, mas a partir de entiio passaram para a
responsabilidade do Registrar General que publicava tabelas agrega-
das sobre populagfio altabetizada em seu relatorio anual.Z'
Esre salto no tempo exige explicacao. A inellror que se pode ofere-
cer para o leitor desconcertado é que a situagao aciina descrita sin’re-
tiza todos os problenias cla diseussfio sobre altabetizacao. Qual 0 in-
dice dc altabetizagao de nossos antepassados? Se atirinarinos que l1ElVl£1
na lnglatcrra 90% de altabetizados ein tal data, 0 que isso significa
exatamente? Como se inede a altabetizagao? A altabetizagao inclui
tanto a escrita quanto a leitura? Sc disserinos (coino o fazein algo-
mas pessoas) que nao somos tao altabetizados quanto nossos ante-
passados, quai 0 periodo do passado que esta senclo tornado como
base de coinparagao? Constitui apenas inetade da lristéria anunciar
eutoricamente a veloeidade coin que a técnica da imprensa espall1ou~
se pela Europa e pelo rnundo, sem assinalaros valores sociais que
saudaram esta inovagao e a presenga das liabilidades necessarias para
utilizar os produtos dessa técnica. Como qualquer outro meio de
comunicacao, a imprensa depende dc seus usuarios para sua existen-
cia. Seguindo esta linlia de raciocinio, falainos liofe de educagdo
informcitica, eclucagcio visual e educagdo ambienicll.
Voltando ii época dos primordios do altabeto podemos supor que
apenas uma elite sabia dccodificar os caracteres altabéticos. Imagi-
nanios que um numero substancial dos mercenaries de Alexandre, 0
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Grande, cram alfabetizados porque riscavain grafitos nas inuralhas
das cidades conquistadas. Como exércitos mercenaries ein geral 1150
atraein os intelectuais da nagzio, soinos levados a deduzir que a alta-
betizagéo era algo cornum na Grécia. Supomos que inuitos judeus
sabiam ler por ser o judaisino uma religiao revelada com doutrinas e
preceitos vcnerados em fonna escrita. Passando para a era cristé, in-
terirnos que alguns nionges sabiain ler, einbora 1150 lnuitos. Sabemos
que a ordein beneditina prescrevia a leitura como atividade necessa-
ria. Perto do ano lUOU, a Europa eontinuava analfabeta. Um estudio-
so arrisea o palpitc de que uma pessoa em cada mil sabia ler, mas nao
diz se sabia escrcver. Dado o que sabeinos sobre as condigoes sociais
e econornicas da época, os outros 999 1150 estariam inuito preocupa-
dos. O conceito nada signiticaria para eles, pois atirinar que alguérn é
analfabeto implica alguma fonna de sociedade altalnetizada. /\ltal3e-
tizacéio é, como ‘pobreza’ e 'iniséria’, um conceito relativo cujo signi-
ticado depencle do contexto social. Na nresina linlia dc raciocinio
estaria uma avaliacao do conheciinento sobre 0 uso de coniputadores
das populagoes do Terceiro Mundo. As populagoes do inicio da ldade
Media nao dispunliain de papel, livros ou tecnologia da escrita, mes-
ino que senrissein necessidade dc tars tecnologias.
Por mais cornplexas que sejain as causas que gerararn o anal-
tabetismo do inicio da ldade Media, urn forte inotivo esta na especi-
alizagao de fungoes que dividia a sociedade entre quem lutava, quem
rezava e quein traballiava a terra: as ordens sociais da nobreza, clero e
campesinato. A estrutura da sociedade e as necessidades de informa-
cao guardarn intima associagao. A lgreja possuia o nronopolio da alta-
betizagao e pretendia conserva-lo enquanto tosse possivel. Os precon-
ceitos sociais das classes rnilitares desencorajavam entre seus meni-
bros qualquer gosto pelo estudo. As raras exeegoes recebiain o epiteto
desprezivel dc clerk. * Henrique I, que sabia ler e escrever, {oi apelida-
do Beauclerk Os cainponeses, sem direitos, nada tinlrarn a ganliar
com a altabetizagao, e, em geral, nfio aspiravam a ela. Lenrbremos
que 0 Estado rnoderno é governado pela palavra impressa; sua pre-
senga esta tao integrada a nosso arnbiente visual que raraincnte a
notamos. O inundo medieval era regido por cerinionias e espet2'1cu-
los. A lgreja usava meios visuals como recursos didaticos: estatuas,
" Em inglés clerk significa tanto clérigo (do latim clericus) quantoescrevcnte, amanucnse ou
empregado adménistrativo. (N.'l".)
85
desenhos lieraldicos, pinturas e teatro. De tato a lnstéria do governo
na lnglaterra liga-se intimamente a altabetizagao de certos reis que
pensavain em termos de documentos muito antes de saberem lé-los.
Em sociedade assim estratiticada as rnudancas tinham que partir dos
escaloes superiores. E eram muito graduais e lentas.”
Entre 1066 e 1377 aconteceu uma revolugao na Inglaterra que tein
muito a ver conrnossa analise da tradicao oral. Houve uma mudanga
nos inodos de raciocinio, que se atastaram da inemoria rumo a escri-
ta. Mais extraordinario toi o uso de documentos para assuntos secu-
lares em contraste com os solenes ritos religiosos a que estavarn tradi-
cionalmentc associados. Esta pratica resultou da conquista normanda,
em 1066, que introcluziu na lnglaterra uma estrutura adininistrativa
radicalmente diferente. Esta nova estrutura passaria a ser conhecida
como burocracia, o ‘governo da escrivaninl1a', que depende de prece-
dentes para inecanizar seu poder decisorio. Estes procedimentos, por
sua vez, dependem de registros que sejam acessiveis e recuperziveis.
Por um longo periodo, esses registros, como documentos juridicos
e cartorarios (atos e titulos relativos a propriedade), eram interpreta-
dos como registros destinados a mero arquivainento e 115:0 para co-
municacao ativa, contorme vernos essa ativiclade. Bastava a palavra
falada dos mensageiros para os negocios cotidianos daquela época.
Esta percepcao do docuinento encontra paralelo na liistéria inicial
do coinputador. Os computadoreseram devoradores de mimeros on
tanques de armazenamento, e seu potencial de comunicacao era lar-
gainente ignorado. Os processadores de textos surgiram em 1964 na
torma de inaquinas de escrever eletronicas com meméria; quem en-
tao poderia ter antecipado seu eniprego ativo na linguagem e sua
fungfio no ensino?33 Outra poderosa intluéncia na sociedade medie-
val for o estilo de aprendizagem daquele tempo. A leitura em voz alta
e os ditados perrnitiam ao analfabeto participar do uso de documen-
tos. O livro medieval destinava-se a ser lido en1 voz alta; sua pontua-
gao servia mais para poupar 0 folego do orador do que para rnostrar a
estrutura gramatical. Barras obliquas ajudavam a lidar com 0 proble-
ma do intervalo voz—oll1os que pode tao tacilmente atrapalliar 0 lei»
tor timido. Antes do ano IUUO, reconliecidaniente um ponto arbitra-
rio no tempo, havia na cultura medieval ambas as tradigoesz oral e
escrita. Com a clregada dos normandos, comegou a acontceer uma
transtormagao. A palavra escrita 11510 substituiu simplesinente a oral,
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mas comegou a surgir um novo tipo de interdependéncia entre as
duas, rrao tao forte quanto a eonvergéncia de tecnologias que teinos
hoie em dia, mas, mesmo assim, com semelhancas visiveis.
A tradigao oral viria a intluenciar as etapas seguintes de impress.-io
quirogratica e eletronica. O avanco do habito da leitura silenciosa,
junto com a dernanda por nogoes elementares de escrita, comegou a
excluir os analfabetos, e pode ter atuaclo como um estimulo a aquisi-
gao dessa qualificagfio. Mas a escrita manual introduziu outra dicoto-
mia. Ser capaz de ler textos impresses nao era o mesmo que ler uma
carta escrita a méio. Quando observamos a caligratia da corte e os
manuscritos dos tribunais podernos coinpreender por que. Eles sao
decorativos para 0s meinbros da corte, mas ilegivcis, exceto para paleo-
grafos e liistoriadores. A expansao economica cla lnglatcrra elisabetana
e os séculos de exploracao territorial tiveram efeito decisivo no cres-
cimento da alfabetizagao tanto na Ora-Bretanlra como na Europa. O
anseio de viafar certamente contribuiu para 0 desenvolvimento da
ciéncia. A Europa do inicio da Idade Media era uma sociedade esta-
tica; todos pernraneciain no mesmo lugar clurante 0 tempo que lhes
tosse permitido. Quein viajava cram as civilizagoes islfimicas, clai a
superioridade de sua geogratia e cartogratia. A extensao do Império
lslamico, que ia do Afegairistao Ii Turquia, criou problemas adminis-
trativos que dependiam intensamente do conhecimento exato cla lo-
calizagao absoluta e relativa.“ Elas tinliam que responder a um gran-
de numero de perguntas do tipo ‘o que esta onde’ e ‘onde esta 0 que’,
e por isso publicaram obras sobre as ciéncias espaciais da geogratia e
da astronomia. O conhecimento cartogratico” atingira alto nivel, e,
de tudo isso, o que seria mais util para os viajantes europeus mais
tarde é que obras gregas fundamentais sobre geogratia foram
traduzidas para o arabe, eontribuindo assiin para garantir sua preser-
vagao. Tao logo os europeus roinperam sua imobilidade, seu antigo
torpor intelectual eomecou a desaparecer. Quanto mais longe de casa,
mais indagamos sobre o meio que nos cerca. isso talvez tenlra algo a
ver coin a reducfio da incerteza e sua intluéncia na busca dc informa-
gfio. Essas hipéteses talvcz possam cxplicar a expansfio cultural da
Ora-Bretanha no século XVl1l e o crescimento dc uma classe média
rica com tempo livre suticiente para valorizar a cultura impressa.
Esta nova classe media comercial proporcionou um mercado lu-
erativo para o editor arrojado, especialmente no campo dc livros in-
87
tantis. No entanto, para os caniponeses pobres, que torniavam quase
metade da populagao, a altabetizacao nao trazia beneticio algum onde
as perspectivas dependiarn de fortuna e tamilia. l\/lesmo que o traba-
lliador rural soubesse ler, o traballro fisico incessante deixava-0 sem
tempo livre para a leitura. De que adiantava aprender a escrever? Se
qnisesse contar alguma eoisa para alguém no viiarejo vizinlro, ele ca»
nnnharia até la para contar. De qualquer forrna, igual ao servo inedi-
eval, rararnente se afastava de sua paroquia. Se precisasse assinar 0
nomc, a lei permitia-lhe tirznar coin uma cruz. O eusto da eclucacao
dos tilhos era proibitivo. Nfio so deveria pagar ao professor, como te-
Flfl Ellllda que se privar dos ganlios que os fl111OS auferiam. Mesmo que
fosse suticienteinente resoluto para tentar, iria quase certamente se
defrontar coin a oposigfio daqneles que consideravarn a altabetizagao
como uma arneaca a ordem social. Tudo estava muito distante de
nossos estunados ideais da sociedade da inforrnacfro.
_ Na Inglaterra for a Revolugfro Industrial e o éxodo das populagoes
do cainpo para a cidade que deram 0 impulso ruino Z1 altabetizagao,
enquanto a complexidade e a incerteza da vida urbana estimularain a
procura de mais informacao e a qualiticagao necessaria £1 sua inter»
pretagao e utilizagao. O analtabetismo, que poderia passar desperce-
bido no meio rural, tornou-se estigina de inferioridade no turbilliao
de trocas da nova ordem industrial. As escolas tornaram-se uma ne-
cessidade, pois o Estado passou a percebcr vagainente o valor econo-
niico cla intormaoao na torma de investiinento em capital liumano.
1’l€1Vl£l tainbém um crescente in'miero de leitores para a tlorescente
rndustria jornalistica. 1\/las o obstaculo era que a altabetizagfro esta
embutida no contexto social, e, quando esse contexto rnuda, tain-
bérn madam os niveis de alfabetizagao. Ser alfabetizado eni Honduras
1150 é o mesmo que ser alfabetiz-ado em 1-Iampstead, Londres NW3. A
alfabetizagfio pode significar uma capacidade ininiina de decoditica-
giro de textos impressos; pode signiticar uma consciéncia critica dos
pressupostos culturais, das norinas éticas e valor estético da paiavra
nnpressa. Muitos dos inesmos critérios podem ser mencionados numa
drscussfio sobre educagao televisual on educagfio intormatica. Pode-
mos estar razoavelmcnte certos de que a declaragao triuntal do Re-
gistrar General de 1914 nfio levou em conta essas observagoes.
Em nossa\\argu1nentag'.io sobre inobilidade, altabetismo e cresci-
mento dos nieios do comunicagao, esqueceinos 0apoio vital propor-
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cionado pelo sistema de transportes. Portanto, uma breve palavra so-
bre um personagem esquecido na lristoria da comunicagao —- o
col/Jorieur -- o vendedor ambulante de livros que carregava boisas
oheias dc tollietos impresses, penduradas, literalmente, ao pescoco.
Esses tollietos erarn originalmente dc natureza religiosa, mas toram
aos poucos se nretamorfoseando em documentos intormativos de na-
tureza mais rnundana e cornereial. Esse nrascate era 0 elo na cadeia
de distribuigao, um precursor do servigo de extensao da biblioteca,
um canal de coinunieaeao — e um grande escalador de inontanlias e
morros escarpados. Nao lhe restava outra opgfio, pois nao liavia estra-
das. O prelo de iinpressao pode ter se difundido com impressionante
rapidez, mas ainda lravia 0 problema da distribuicao, que, como todo
editor sal)e, é vital para a sobrevivéncia de sen empreendimento.
A constrngao de estradas tacilitou a distribuigao de jornais e a
expansao do comorcio. A invengfio das estradas de terro den maior
mobilidade as pessoas ao leva-las dc urn lugar a outro. Talnbém trans-
portavain livros, jornais e cartas. A rapidez na entrega de mensagens
passou da velocidade do cavalo para a da locomotiva e desta para a da
eletricidade -— cerca de dez niillroes de vezes mais rapidzrzfi
O telégrato integrou-se com a estrada de terro como canais de
colnunicagiio mutuamente auxiliares. O passageiro da estrada de ter-
ro podia ver os tamiliares postes telegraficos através da ianela do va-
gao. A maneira como suas iinagens conjugadas dominavam a paisa-
gem vitoriana é brilliantemente descrita por Olrarles Dickens em Hard
times [Tempos diticeis}; “as linlias telegraficas que tracavain no céu
do crepifrsculo Luna colossal pauta de papel de inusica”.27
Eis camadas de intorma<_;oes conipactadas em notavel imageni vi-
sual; e soinos criaturas predominantemente visuais, que dependem
cla frase evocativa ou da capacidade dc representacfio do artista, na
auséncia cla realidade fotografica. Quando Dickens era menino era
preciso confiar na genialidade do pintor de retratos se alguém quises-
se conlrecer o rosto de urn antepassado. Por mais tiel que tosse 0
retrato, era seinpre a realidade retletida através dos olhos de outro.
IN. Niépce apresentou a priineira totografia bem-sucedida em 1822,
sendo seguido por Louis Daguerre em 1839. Tinlra inicio, assim, a
totogratia rnodcrna que abrange todos os processos oteis para a pro-
ducao de iniagens em materiais sensiveis. Oomegando como arte e
diversao do amadores, rapidanientc aliou-se ao prelo de irnpressao
89
nas técnicas do ilustracfio do livros e totojornalismo e gerou a indus-
tria cinematogratica e a televisao. Assiin como a palavra talada fora
congelada na escrita, agora o registro visual de uni evento podia ser
transmitido entre geracoes. Na década de 1840]ol1n Benjamin Dancer
combinon a arte da totografia coin a microscopia, criando assim a
micrototografia. Ao fazé-lo, pode reduzir uma pagina de intorrnagao
para um tamanlro ininiaturizado em forina cie microtiline. Este meio
de arinazeiiainento e transferéncia de inforinagao iniciou sua carrei-
ra na espionagem e na guerra. Durante a Guerra Franco-Prussiana cle
1870, estando Paris sitiada, a guarnigao assediada amarrou micrototo-
gratias 11as candas do poinbos, para enviar noticias e intormagoes para
os que estavain do lado de fora.
Se voltarinos o olliar para a liistoria da intormagao registracla, a
partir de nossa posicfio vantajosa do ‘aqui e agora’ da década de 1990,
veremos uma corrente de aconteciinentos que coinegou placida1nen-
te com a invengéio da escrita, vagneou até a invengao da imprensa, e
ai comegou a toinar o aspecto dc uni rio caudaioso. A capacidade de
gravar e transmitir intorniagoes orais, visuais e auditivas aumentou
ainda mais a vaziio desse rio ato se tornar elegante dizer que estainos
sendo ‘inundados’ por uma torrente de dados e intormagoes.
Se utilizarmos uma metatora ‘vivencial’ poderemos aproxiinar 0
conceito do nossa realidade. Alguéni nascido na primeira década des-
te século teria testemunliado os primeiros passos vacilantes do radio
ao procurar ‘intormar, edncar e divertir’ na pessoa juridica da incipiente
BBC. Se essa pessoa liouvesse tido bastante sorte, a proxima etapa
seriam as primeiras transmissoes de televisao, teitas a partir do Ale-
xandra Palace, em Londres, em 1936, seguida da protusao de avancos
téeiricos cla televisfio e das gravagoes sonoras do pos-guerra, e, se boa
saiide e longevidade permitisseni, as alegrias do disco compacto e do
videodisco interativo. Gaso nessa longevidade a pessoa ainda se man-
tivesse ativa, entfio, telas sensiveis ao toque, coinpntadores com co-
mando de voz e transterencia de informagoes por redes aiudariam-na
a tornar mais vivaz seus anos crepuscnlares.
Voltando a nosso modelo dos cinco tradicionais sentidos da audi-
gao, visao, oltato, paladar e tato, poderemos detectar linhas de exten-
sao do desenvolvimento cultural da comunicacao lrumana. Vocé re-
cordara a importfincia vital da voz liumana nas sociedades orais agratas,
e como sua inoduiacao e poder dc persuasfio determinavam os limi-
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tes do espaco social. O advento da escrita nas formas manuscrita e
impressa parecia ter temporariamente usurpado esta domi-nfincia.
Podia-se ler o que uma pessoa escreveu, mas apenas ein sentido me-
tatorico podia-se ouvir a voz do autor talando conosco por meio do
texto. Em 1876 Alexander Graham Bell estendeu o aicance da voz
lnnnana ao inventar 0 teletone, nias este era um meio de comnnica~
gao apenas bidirecional, ou seja, entre duas pessoas. Mas, 50 anos
depois, a invengao do radio por Guglielmo Marconi introduziria um
modo cle coinunicagao em que uni talaria para inuitos. No ano se-
guinte a invencfio dc Bell, Thomas Edison criou a prirneira lnaquina
de gravar sons. O niundo tisico do século XIX se encolhia. O tempo
relativo dava lugar a padroes absolutos, a tim de regular 0 modo novo
e rapido de comunicagao tisica.Z3 A hora local era muito comum ate
mesino nuina pequena illia como a Gra-Bretanlia e constituia um
dos mais cativantes tragos dc sua vida rural. As carruagens tinhain
seus proprios reiogios. Gom a estrada de ierro vierain os liorarios e a
organizacfio exata do tempo tanto para liabitantes do Yorkshire qu anto
para os londrinos. O mesmo modeio global cornegou a toinar forma
quando os navios a vapor aproximaranr os continentes e o telégrato
consolidou o lmpério Britanico, a respeito do qual nos garantiarn dc
que ali o Sol jamais se punlia. A lei da hora-padrfio, de 1886, baseava-
se no meridiano dc Greenwich; o Sol continuava em seu curso.”
A noticia de que agora podemos construir relogios atomicos dc
alta precisao, que so variam um segundo em um milliao de anos, nfio
é apenas uma questfio ‘académica’ no sentido depreciativo do ternio.
Esta padronizagao e precisao é que sustentam as redes de telecomu-
nicacoes nacionais e internacionais e muitas atividades e servigos in-
dustriais. Um exemplo interessante do iinpacto das comunicagoes na
episteinologia nos é dado pelos geografos. Até cerca de i950, os geo-
gratos em gerai pensavam e elaboravam suas hipoteses sobre distan-
cia e espaco em termos absolutos. l\/ledidas de distancia e posigao
erain as absolutas e imntaveis unidades de millias e qniloinetros. A
partir de 1950, 'posi¢;fio relativa’ e ‘distfincia relativa’ tom sido utiliza-
das para detinir um espaco expallsivel e contraivel. Perguntas sobre
onde c o que nao podiam mais ser respondidas nuni contexto absolu-
to. As perguntas agora passavam a ser porque posigoes absolutas e
relativas sao estruturadas da tornia que sao. A distfincia relativa de
Londres a San Francisco sera diierente para docentes universitérios c
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para 0s lnembros mais abastados (lo jet set. Pocler aquisitivo, tempo
1ivre e efieiéncia da comunicagfio invalidam a distaiicia absoluta.
E tentaclor sugerir um paralelo entre a biblioteconomia tradici0—
11211 e a geografia. No passaclo (e no presente) as bibtiofecas cram or-
ganizaclas com base na localizagao absoluta. Os livros 1150 eram elas-
sificaclos, mas marcaclos segunclo uma ‘localizaeao fixa’, o que nfio
cliferia do modo como a gente organiza os livros em casa. ‘Trés livros
a direita, duas prateleiras alJaix0’: um métoclo de loealizagfio aincla
aclotado em aeervos rnuito grandes. Assim como os geografos do se-
culo XIX, 0 conlrecimento técnico (lo bibliotecario era posicional, ba-
seatlo 110 principio do onde estci 0 c/ué. A rapiclez cla recuperagfio era 0
in-aximo cla eompeténeia. Os leitores eram nranticlos longe das estan-
tes. O aclvento cla classificagao introcluziu um pouco cle relativismo.
Por exemplo, 0 mfimero cle astronomia na classificagao de Dewey é
520. Isto mostra sua relagao com ciéncia em 500; indica que vem
apos matenrética em 510, e antes de fisiea em 530. O mimero da Lua
em 521.62 mostra que vein depois de saté1ites em 521.6 e precede
521.63-68, que se refere a satélites cle outros planetas do sistema so-
1ar. A loealizagfio pressupos um racioeinio relacional por parte clos
usuarios, aproximanclo-os clas estantes, se nae dos bibliotecarios. A
classificagéo (le Dewey, como qualquer outra, é um modo ale cornu-
nicagao, que gera significados, por mais vagos e confusos que sejam.
As estraclas cle {erro foram uma clédiva para 0 clesenvolvimento
introcluziclo por Rowland Hill no sistema postal britfiliieo, que estava
intinrameirte ligado ao deserlvolviirreiifo cla i11stru<_;5io.“’ O agl0111era-
clo cle significaclos sociais t0r110u—se mais c0n1p1exo quando observa-
mos a erescenfe mobilidacle (lo traballro, (la migragfio rura1 para os
centres inclustriais e para 0 exterior. Sempre lravia alguém no cireulo
familiar que sabia escrever, e 0 contato corn entes quericlos era um
incentivo para aquisieéio dessa liabilidade. De fato, 0s recém-criaclos
curriculos clas eseolas elenrentares do final clo século XIX incluiarn a
técniea cla reclagao ale cartas. Fazia parte tarnbérn cla politica gover-
namental a iristrugao como forma cle ajuclar a liberar o mercado cle
traballio a0 laeilitar a emigragao. Escrever cartas e corresponcler-se
havia sido l'ra(lici0nalmente privilégio clas classe altas; escrever cartas
era passatempo caro. A entrega cle eartas per capital na lnglaterra e
Pais cle Gales aumentou (lo mimero ofieial de quatro em 1839, para
oito em 1840, clregando a 60 em 1900. N0 final do século a Gra-
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Bretanha possuia 0 maior volume de entrega de cartas e eartoes pos-
tais clo munclo. Ha material para uma tese nisso, principalmente se se
compara esse fenémeno com 0 crescirnento do fax na L'11tima cleeacla.
O telefone oferece um exemplo sociologico ainda mais interes-
sante. A principio, seu uso foi visto pelas classes altas como uma ex-
tensiio dos dispositivos entfio existentes para chamar a criaclagem.
Aclaptou-se a forga as estruturas cognitivas existentes manticlas por
eerta classe social. Depois, quem tenton profetizar 0 future do tele-
fone aeabou se equivocanclo. Como lravia um exeesso cle meninos
mensageiros em Lonclres, clizia 0 The Times, niio havia necessiclacle
cleste aparellio modernoso. Na lripotese cle que desse certo, a socieda-
cle teria regras estritas sobre quem cleveria se comurricar com quem.
O telefone era perigoso; imagine 0 que seria se, aciclentalmente, um
(luque falasse com um lixeiro?
Algumas inveneoes hibernanr a espera (10 memento eerto. Alexan-
der Bain (1810-1877), engenheiro elétrico cscocés, foi quem primei~
ro teve éxito (1842) em escanear uma imagem e enviar 0 resultaclo
pelo telégrafo, criando 0 primeiro sistema cle fax. Seu projeto cle esca-
ner era muito complexo para a tecnologia cla época. Mas, 30 anos
clepois, isso levou a proclueao clc aparelhos telegiaficos populates que
transmitiam fae-similes. Outros fem icléias que fornecem 0 quadro
coneeitual para os sucessores. O cocligo Morse foi um ensaio para um
aparellio que prorluz iirfornragao em termos cle oposfos binaries, as-
sim transiormanclo toda a natureza clo ambiente cla informagao.
3.7 A era eletroniea
Aiguns estudiosos sugeriram recentemente que os primeiros si-
nais escritos nas tabulas cle argila cla antiga Suméria eram provas de
transagoes que envolviarn registros cle tributos e comércio. E como se
0 instinto lmniano para 0 coméreio e a troca tornasse necessario 0
calculo e registro cle 11L’1mer0s a0 invés cla reclagéio de longos textos
sobre a concligiio liumana. Os sumérios e babilénios eram eomereian-
tes e as mais antigas tabulas euneiformes atestam seus requisites ele
preeisfio numérica. A eles clevemos o uso (lo mimero 60 para minutes
e segunclos, e também outras nogoes e eonceitos marematicos.
Defrontamo-nos pela primcira vez com algumas clessas nogoes e eon-
ceitos quando comegainos a estudar aritmétiea e nos engalfinlramos
com os problemas de uniclatles, clezenas e centenas, sem esqueeer 0
93
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iirdispensavel zero. Erain, ao que parece, uni povo muito pratieo para
qnem 0 abaeo era tao iinportante quanto 0 eomputaclor 0 é para 0
inunclo inoclerno. Esse antiqnissiino instruinento dc caleulo for usa-
do na eontabiliclacle clo governo britanico até ineaclos do séeuio XVEH
e, segundo alguns autores, ainda se usa na China e no lapfio. Nele os
algarrsmos e operaeoes sao representados pelas posicoes tlas eontas
presas a varetas dc inatleira. No inicio erain usados seixos, dai 0 voca-
bulo latino calculus, pedra; e ja que estainos no terreno cla etiinologia,
0 computaclor mais antigo cle todos nos den digitus, cleclo ein latim.
E digital é uma palavra dc grantle peso no universe cla inforrnatiea
contemporfmea. A invengao (le uma inaquina cle calcular meefinica
com engrenagens eonstitui uma evolueao clireta do abaco. Essa ina-
quina, por sua vez, levou a caleulaclora programzivel, (le roclas denta-
clas, e por fin: aos atuais eonipntaclores eletronieos.
Vinios coin a invencao por Gutenberg (la inipressao coin tipos
nioveis que eie foi tavoreeiclo por trés fatores esseneiais ao sueesso (le
um invento. Ele clispunlia do alfabeto roniano; havia uma deniancla
cle inercado pelo produto; e as tecnologias neeessarias cram apropri-
aclas para 0 traballro dc proclugao. Charles Babbage“ nae teve igual
sorte, apesar cle a neeessiclacle cle sua invenefio ser realmente enorme.
No séeulo XIX a neeessiclacle cle ealeulos répiclos espalliava-se pelo
munclo industrial. Governos eontrolavani, taxavam e polieiavani po-
pulaeoes cle dimensoes ate entiio desconlieeiclas. O eoniércio expa11-
cliu 0 ininiero cle transagoes financeiras e exéreitos dc timeionarios
erain enipregados para ealeular os volumes cle transagoes eonduzidas
pelas casas Cle coniércio, baneos e coinpanliias de seguro.
Nas escolas da époea, saber liclar coin nunieros era iiabiiidacle mnito
eneorajacla, merecenclo altas reeompensas a proeza de fazer ea1cu1os
rapiclos ‘dc cabeca’. Em inuitas das prineipais eidacles britfinieas ba-
via ‘soeieclacles estatistieas’ coin a tarefa cle eompilar dados numeri-
cos sobre eclueagao sanitaria e outros prementes problemas sociais cle
entao. O eomputaclor ideado por Babbage ia niuito alérn do reperto-
rio basieo ele soinar, subtrair e niultipliear. Era uma inaquina de cal-
eular cle uso geral eapaz cle exeeutar instrugoes especificaclas pelo
operaclor. Podia até niesmo ‘deeiclir' como proeeder clurantc um cal-
eulo. Mas as espeeifieagoes cle Babbage para a inaquina analitiea su»
peravam em muito as possibiliclacles das téenicas cle engenlraria
vitorianas. O rnunclo teve de esperar mais uni séenlopara que surgis-
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sem eoinutaclores eletronieos eonfiaveis e de alta veloeiclacle, além (la
{rtil eontribuieao teorica de um professor cle niatematicalz
Viinos no prirneiro eapitulo urn exeinplo ele silogismo como moclo
de raciocinio caraeteristieo cla iégica aristotéliea cle sujeito—pre(licad0.
George Boole (1815—1875)“ inventou uma forma cliterente de logica
que tormaliza e torna explieitos proeecliinentos esealonaclos cle raeio~
einio que estfio fora cla grainatiea cla linguagern.
A principal eontribuicao dc Boole foi eoioear o raeioeinio logico
em forrna algébriea, e clai a logiea siinboliea. Sua énfase nas opera-
goes binarias esta lioie incorporacla £1 tecnologia cla computaeao e sua
erenga em que a mente funeiona segunclo as leis cla logiea viria a ter
iinplieagoes niais tarde para a espinlrosa questao cla relagao entre coin-
putaclor e eérebro lnnnano. Babbage fez o proieto dc seu eolnputaclor
em 1834; passariam mais cle eeni anos ate que os inanuais eseolares
niostrassem a fotografia cla nova niaravillia (lo inundo (lo p0s—guerra.
Tratava-se clo Electronic Nrlnierical integrator and Computer (ENIAC)
[integraclor e eoinputaclor nuinérieo eletronieo]. Esta nova rnaquina
estava nuina grancle saia da University of Pennsylvania, pesava 30
toneiaclas e oeupava ulna area cle 140 3112. Ensinuava-se tainbénr, vela-
elainente, que para eonstruir uni eomputador eoinparavel ao eérebro
lruniano seria preeiso L111] espago do tanranlro do eentro ele Lonclres.
Felizinente, como o livro que, dizia-se, ele iria suplantar, o computa-
clor nos Liltiinos 40 anos tornou-se niuito menor e mais portatil, (le
fato, exageraclainente portatil, como algumas empresas que fazein a
vigilaneia cle universidacles poclein comprovar. Ha outros paralelos
interessantes aléni cla evolugao clo livro desde 0 pesaclo toino acorren-
tacio a uma escrivaninlia numa biblioteea inonastica ao e1cgante livro
cle bolso na banea cle jornais cla estagfio cle treni. Qualquer que seja 0
meio einpregado para representar nossos perisamentos, tenros que
utilizar os recursos tisicos (lo meio anibiente e, na maior parte das
vezes, os materiais que estejani mais a mao. Os babilénios utiiizavani
argi1a,os egipeios, os talos cle papiro, que é abunclante no Nilo, outras
culturas usaram nracleira, follras cle palmeira, banibu ou outro mate-
rial cluravel e aeessivel. Soubessein ou 1150, 0 uso clesses materiais
transforinaria, cle alguin moclo,p0rn1en0r que fosse, as viclas cle1nui-
tos cle seus usuarios. O silieio é uni elemento nao-metalico que ocor-
re em abundaneia na erosta cla Terra. Oom ele fazeni-se as minuscu-
las pastillras de eristal, tfro pequenas que pocleni passar pelo buraeo
95
de uma agullia e transtormar-se de modo irreeonliecivel naquela eoi-
sinha versatilissinia — o mieroproeessaclor; uma etapa cla evolueiio
tecnologica tfio importante quanto aquela eni que o liomem cla Ida-
de cla Pedra inventou as priineiras ferrainentas. estranho que uma
das unidades eonstitutivas da naturcza viesse a proporcionar a base
fisiea para a ‘alma eletr6nica' clo coniputador.
Tao rapidos sao os progresses na teenologia cla intormétiea que
qualquer tentativa de clesericfio ou avaliaeao detalliada é corno ten-
tar entrar duas vezes no mesino rio — e, no caso, um rio de forte cor-
renteza. Uma das inelhores tormas de se nianter a par das inovacoes e
pesquisas correntes consiste em eonsultar a publicaeao Computer
Abstracts, que sai todos os nieses. De inieio os eoinputadores esta-
vam restritos as instituigoes inilitares, aeadeinieas e dc pesquisa, 0
que nao era diterente dos territories reservados onde se cncontram,
lioje em dia, os ‘supercomputadores’. 1\/lais tarcle, einpresas comerci-
ais coniegaram a eoniprar coniputaclores de grancle portc (mainframes)
para arniazenainento e disseiriiiiaeao cle intorinagoes esseneiais para
suas atividades organizaeionais e dc coinércio. Ai surgiu o primo me-
nor do mainframe, 0 rninicomputaclor, clepois o coinputaclor dc mesa,
0 laptop e o palmtop, langando uma nova geracao ele teenologias
miniaturizaclas. Assim os cornputaclores de grancle porte vém sendo
substituidos pelos eomputadores pessoais que eliegaram a ser consi-
derados como pouco mais do que uma ealculadora inerementada.
Este processo, eonlieeido como downsizing, tornou-se possivel por-
que os chips dc silieio dobram dc capaeidacle a cada 18 meses. O
conceito de rede, tao iinportante para as eiéncias sociais e economi-
eas, estabeleceu agora sua priniazia na eonvergéneia das tecnologias
da inforniatiezl, tclevisao e teleeolnunicacoes. Se era precise haver
colaboragao social para que tossein exeeutaclas até as mais priniitivas
terrainentas, entao nfio ha motive para que o mesrno prineipio nae
venha a aunientar a eticiéncia da eoinunieaeao entre eomputadores.
A eoinputaeiio interativa envolve o uso cle uni mieroeomputaclor
on terminal dc uma tornia eonversaeional clinainiea. Assiin, progra-
mas gratieos interativos perniitein ao usuario criar e editar imagens
na tela. O usuario pode escollier runios dc agfio e ate inesmo tazer
perguntas. O mesmo prineipio prevaleee no disco eompacto interativo
(DCI), video interativo (Vi) e televisao interativa.
Além do modo visualinente interativo (lescrito, lia a eonheeicla
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arte de estabelecer eontato por meio de sinais vocais. Na teoria cla
eornunicaeao existe urn tipo de pessoa que eonqnista reputagao cle
eonversador por saber quanclo pontuar as observacoes do interloeutor
com ‘grunlriclos inteligentcs’.\Esses grunliidos podem exprimir urn
leque cle opgoes semfinticas. As vezes esse tipo cle reagao pode incli-
ear esquiva ao invés cle intcresse; niesmo assim, aclmite-se geral1nen-
te que duas pessoas podem cooperar mais etieienteinente nurna tare-
fa se pudereni conversar. Conseqtientemente, a eornunieagao oral é
ein si mesnia uma fronteira de pesquisa. A eomunicacfio vocal pres-
supoe a capaeidacle cle aeeitar a informagao talacla e produzir fala
compreensivel; em suina, entracla e saida (le voz. Ainbos apresentam
diterentes eoniuntos cle problemas para o tecnologo da intorrnagzao.
O servico teletonieo de liora certa é um €XCl11/P10 conlieeido dc
saida ele voz, porém retratério a resposta vocal. E exeniplo cle um
sistema em que se compoein trases controlaclas por eoinputador a
partir de um eonjunto lnnitaclo cle eleinentos pré-coordenados. Esta
técnica é obviamente inipropria para aplicacoes gerais. As palavras
ou nriinero cle trases necessarias podem aproxirnar-se do eontenclo cle
um clieionario coniuin; e nfio é so isso, ha tarnbém o problerna de a
lingua inglesa ser riea eni sinonimos. O eoinputador deve também
dar eonta das variacoes cle aeentuacéio e entonaeao normais na tala
natural. O que ainda constitui um desatio cla entrada de voz esta em
coinbinar o enuneiado falaclo com uma de uma vasta gaina cle possi-
veis palavras, frases ou sentengas previamente armazenadas. Os si-
nais eorrespondentes a um enunciado particular seriio (literentes de
urn falante para outro; na verdacle, podem muclar na ineslna pessoa
se ela estiver resfriada on ernocionacla.
A tala, coino notanios antes, é a taculdacle liuniana cle cornuniear
intormaeoes oralinente, on seja, ntilizando as ondas sonoras procluzi-
das pela voz quando adequaclamente niodulada. A fala é imensamente
complexa na pratica, pois um simples enuneiaclo, que pode clurar tal-
vez um segundo, é eapaz cle eonter uma riqueza de intorinagoes. lsso
é possivel por se tratar de um paclrao complexo de ondas sonoras que
ditercm em amplitude e trequéneia, e 0 tazem a cada momento. Dai
0 problema: a tala é evaneseente, e é por isso que preeisamos da per-
manéneia proporeionada pela escrita. Cada padrfio é proprio de um
unieo talante, embora liaja motivos que eausem mudaneas em nos-sos registros vocais, sendo o avanco dos anos uma possibilidacle ob-
97
via. E provzivel, segundo relatérios de pesquisas c011te111p0rf111e0s, que
ainda terihamos um 021111111110 a percorrer até que venhani a existir
teletones traciutores, servidores de voz e111 redes locais, sintetizadores
dc fala que agraciem aos ouvidos mas 11510 torceni 0 cérebro, sem talar
da possibiiidade de clitarem para um processador de textos.
Vimos 110 capituto I que todos nossos (i11U11CiE1CiOS, dos criativos
aos banais, sao 0 resultado dc velocidacies variaveis de neurénios dis-
parando e111 circuitos diferentes. Se pocternos nos c0111u11icar com 0s
coinputaciores pelo tato e pela voz, qual sera a torrna 111ais préxima
de contato que poderemos ati11gir?N0i11stitut0 de pesquisas Fujitsu
cla universidade de Hokkaido, 110 Iapao, pesquisadores estfio desen-
volvendo 11111 supercoinputador que moiiitora paclrées de ondas cere-
brais para predizer 0 que uma ‘cobaia’ iiuniana dira a seguir. E111 tes-
tes, 0 sistema, ‘Fala si1e11ci0sa', toi capaz de dizer aos pesquisaclores 0
50111 vocalico que as cobaias iiuinarias produziriam a seguir, quase
meio segundo antes de pronuiicia-10. Os inventores eonsideram isso
como 0 primeiro passo a ca111i11i10 dc 11111 coniputador de mesa que
possa ser operado pelo pensainento ao invés dc tato 011 som.
3.8 Ternas e questées
E111 uina cte suas muitas obras, 0 tilésofo AN. Wiiiteireact apre-
seritoii uma observagao iiiteressante para 0 estudioso cla c0111u11ica-
950: “E discutivei se toi a 11150 hunrana que criou 0 eérebro tiumano,
ou se toi 0 eérebro que criou a 11150. Certaincnte a ligagao é iritiina e
reciproea/’“
A questfio por ele suscitada é que a 111510 é uma terramenta do
cérebro, 111as 0 cérebro é eoiistantcrlreiite irifiueiiciado pela e11verga-
dura e aicance da ferranielrta que utiliza. Afinal, podenros descrever
um cavalo 001110 tendo X ‘pahnos’ dc altura, ou eitar 0 provérbio que
diz que muitas maos t0r11a111 0 trabailro mais ieve. Esta ‘perspectiva
cle terrarnerita’ da histéria e do future cla e0111u11icag€10 11-210 é nova.
U111 autor do sécuio XEX, Saniuel Butler,“ apresentou a 110050 do pa-
raielo entre a ex/0111950 dos érgaos i1u111a110s e a evoiugao das terra-
rnentas e méquiiras. A evolugao aniinal, arguriienta Butler, acontece
priircipalriiente por evolugao ‘e11d0ss0n1z'1ti0a’, isto é, pela evolugfro
tie érgaos dentro do corpo. Contudo, parecenros ter chegado a0 H111
deste deserivolviinerito, pois entre 0s povos neoliticos e 1165 inesmos
1150 existe rrenhuiiia ditere11<_;:a tisioiégica perceptivel 011 ciedutivei.
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Entao, que tazer? A0 invés de desenvoiver novos oihos e ouvidos,
criamos teiescépios para ampliar nosso sentido da visao, e 001110 111e-
rnérias criainos a imprensa, biblioteeas e cornputadores, estes 11111
acréseirno desde a époea de Butler. Esta perspectiva tern sido desen-
voivicia sisteniaticamerite pelo neurologista Richard Gregory, que vé
a histéria da coiriunicagao hunrana 001110 0 desem/01vi111e11t0 seqi1e11-
cial e coiaborativo de terranrentas da inente. “Por ferranientas cla
mente retiro-me a recursos auxiliares de medigao, calcuio e racioci-
nio. Deveinos il1CiUi1'iT£ll11i)é111 0 poder (ta taia, das irriagens e da escri-
ta para eoiiiunicar e arniazenar eoiiliecimeirtos 0 idéias."“‘
Seu iirteresse esta 110 Homo fczber, 01101110111 001110 eriador cie terra-
111e11tas. E111 seu estudo da mente ele vé a constante interagao entre
artetato e inteleeto, a relagiio reciproca entre cérebro e 11150, e até
mais ainda: 0s rnodos 001110 as terrainentas cla niente serveni como
1110del0s da realidade. Seguinclo esta Iinha tie racioeinio, cada nova
ferranienta dc coinunieagzao tera inolciacio de algunra t0r111a 0s mode-
10s do 111u11d0 que Eevanros clentro cte nossos cérebros.
As ferraineiitas sao tanto produtos quanta extensfies de nossos
membros, e sua in1port2"111cia 1150 pode ser exagerada. As fc-zrramentas
depeiidein das propriedacles dos materiais cle que sao feitas, da fina-
liciade para a qua} sao teitas e de aigum tipo de eolaboragfro social,
por inais ruciiineiitar que seja. Portanto, fatores sociais e nrateriais
sao sempre relevantes nas discussées sobre dese11v0lvi111e11t0 tec110Ié—
gico. Fazer togo, construir moradias 011 fazer roupas dependeraiii de
terranientas de algurn tipo e de sistemas cie c0111u11icagE10 e organiza-
950 social. Os macacos sabem iinprovisar terrainentas para iidar 00111
um probiema iinediato, 111as construir ulna terraineirta para uma even-
tualidade iniaginacia para 0 futuro é nrarca de raciocinio eonceitual.
Para 0 evolucionista esta capacidade cieu a0 hornern poder sobre 0
resto da criagfio, que cresceu 1 medida que a base material de sua
tecnoiogia de terra111e11tas t0r110u-se mais eficiente e mais portatii.
Por isso deti11i1110s as etapas evolutivas 001110 idades da pedra, do ter-
ro, do ago e assim por diante. Para as cuituras orais orientadas para 0s
mites, tazer togo e terramentas era ato dc desatio e arrogarieia, pois
sua posse diniiiiuia a depeiidéncia do h0111e111 e111 face dos deuses; a
puiiigfio seria sua prépria autodestruiefio, uma perspectiva que en-
contra eco em alguinas eritieas contemporfiirieas 21 tecnologia.
Tentar i111p0r 1.1111 esquema cronolégico ai esses ac011teei111e11t0s
99
evolucionarios é algo polérnico. Hoie em dia, as aparéncias irrdicain
que teria havido apr0xi111ada111e11te uns dois 11111110011 de anos de pro-
gresso lento da tabrieagao de ferranrentas antes da exploszio te011oi0~
gica desencadeada pela produgao de terrarnentas 00111 partes 11101/eis.
Por exeniplo, os arcos de pua data111 das prirneiras dinastias egipcias
por volta de 3000 aC. Estas realizagoes foranr praticariiente contem-
poraneas do inicio da altabetizagfio. Se dividirnros esse esquenia tern-
poral e111 bases percentuais, os progressos, 001110 os co1111e0e111os, 00-
i11e§aran1 a ocorrer apenas 110s 1'11ti1110s 15% do te111po decorrido. Se a
hipotese de Gregory tor valida, entao a tecnologia chegou antes que
pudéssernos forniular as estruturas conceituais 00111 as quais te11ta-
1110s hoje coinpreerider seu Iugar no niundo. Os indfcios parccein ser
tortes a seu favor.” A alavanca toi durante milhares de anos 111ais
importarite do que a roda. a utilizavainos antes que os principios
do sistema de alavancas t0sse111 formalizados 110 estudo conheeido
001110 mecanica. A roda é considerada uma 1111/0110510 genuina, pois
1150 se encontra uma réplica deia 11a natirreza. M05010 assim, pode-se
considerar a roda 001110 uma alavanca que trabalha 11u111a rotagao de
360°. Mais tarde as civilizagfies sumérias valeranr-se da roda para re-
presentar 0 nioviinento das estreias. A roda perrnaneceria 001110 urrra
metatora poética cediga para descrever os 11101/i111e11t0s celestiais por
111uit0s séculos depois. -
O abaco, que 111e110i011a1110s antes, suscita questfies interessantes
sobre sua invcncao. E claro que devia estar presente uma espécie do
'pri110ipio do 111e110r cstorgo’, 001110 sucede corn a niaioria das outras
invengoes. Ha ainda outro aspeeto a considerar. que se trata de
uma ‘terramenta da rnente’, segundo 0 inodo 001110 Gregory emprega
0 ter111o, e que indica que 11oss0s ancestrais remotos tinl1a111, tanto
quanto 110s, oicriza por fazer co11tas de cabega, serrao qual 0 111otiv0
do sucesso das eaicuiadoras? O abaco é uni cornputador digital, e 11a
maioria de 110s 0 eérebro gosta mais de processos analogicos do que
digitais; de fato, os neurologistas nos dizeni que 0 eérebro é 11111
analogista inveterado. Isto talvcz explique por que este autor teve
ditieuldade tao pr0111111ciada para se acosturnar 00111 uni reiégio dc
puiso digital. Provavelnicnte ha 11111 iinpulso 00111pe11sat0ri0 11a i11-
vengao dc terra111e11tas. S0 nossos dedos tossem 001110 chaves dc fen-
da provave1111e11te 1150 precisariamos de tais i11stru111e11tos. Deixainos
para os outros,terrainentas e pessoas, as coisas 11as quais 1150 soinos
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bons. O astrolabio é o111ei110r exernpio de 11111 eornputador analégico
prinritivo. Feito de plaeas 00111 gravagées e111 baixo-relevo, era utiliza-
do para 11a\/egagao e para sc saber as horas 1 noite. As piacas gravadas
n1ostrava111 0 curso das estrelas. Empregado por 111uitas 0iviiizag0es
dura11te111uitos séculos, mostrava a utilidade de rnodetos eoneeituais
para se obter 0 11'1axi1110 de proveito de 111ton11a<_;0es limitadas.
Ha tarnbém outro 0011jur1t0 de pontos de vista que tendem mais a
11111 deterrrlinisrno de coinunicagao do que dc tecnoiogia. O ponto
principal do arguirrento pode ser apresentado, de 1110010 pratico, por
11111a surpreendeiite declaragao de urn de seus principais proponen-
tes: “A escrita rcestrutura 0 pensa111e11to."-‘*3
Para esse autor a escrita 1150 passa dc 11111a terrarnenta (-:xter11a,
LHI13 reciprocidade entre inao 0 pe11sa111ent0, 111as que altera a c0ns0i~
éncia l111111a11a a0 p011t0 de ela 111es111a externalizar-se. A escrita con-
gela nossos pensarneritos fora de nos, tanto que lhe atribuimos status
de realidade externa. Isso parece 00111 0 argu111e11tO da ‘ferrairienta
niental’ segundo 0 qual 0 tempo do relogio é 11111 tenipo inventado, e
devido a esta infiuéncia acabarnos acreditando que 0 tempo possni
existéncia objetiva. Vejanios urn pouco mais desse raciocinio. A alta-
betizagao da n1ente11u111ana ajudou a criar a tradigao do raeio11alis1110
cientitico.
E111 esséncia, a escrita é a redugao tisica do $0111 dinfimico a0 espa-
go, estando, portanto, atastada cla esfera da existéncia 11u111a11a. A111»
da soinos inclinados a eonsiderar que algo escrilto é, de certa torma,
111ais objetivo do que aigo silnplesnieiite dito. E 11111 sistema on dis-
positivo de registro mantido por 1110io de inarcas 011 forrnas conven-
cionadas. As forrnas sao feitas de proposito pela agao 111ot0ra da 111210
do individrio, que preeisa organizar e montar seus pensanieritos para
a tareta de registra-ios por escrito. Essas deliberagoes ajudanr a tornar
111ais analiticos, e iineares, os pensarnentos expressados. Desta repre-
se11ta1;f10iii1ear do pensaniento surgiu 0 modeio dc uma tégica iinear,
de sujeito—predi0ado, que passou a ser a prova para aterir a validade
de enunciados e 11111 i11str11111e11t0 para chegar E1 verdade. ‘N50 proce-
de’ (non scquitur), diz-se quando veriticamos que a conclusao 1150
decorre das preinissas do arguinento. A escrita, portanto, é uma
tecnologia, e tecnoiogia impiica i11strun1e11t0s. Os irrstrurnentos que
usa1110si11f1ue110ia111 nossas percepgées do 111und0.Assi111, a partir dos
processos inteiectuais exigidos pelo ato de escrever, os seres humairos
101
se acosturriaram ao uso da logica linear, do raeiocfnio abstrato e 0
concerto de un1a realidade objetiva externa a 110s. O conhecedor esta
separado do objeto de conlieciinento, 0 graeas a esta separaeao alcan-
ga 1111121 perspectiva analitica rnais desprendida do que 0' conhecido.
Outro teorico da coiiiunicagfio, Eric Havelo0l<,”" avanga ainda 111ais
nesta 1i1111a de raciocinio. Para ele, a adogao do altabeto pelos gregos
tra11st0r111o11 sua lingua nuni artefato oiajetivo, tornando-a assim dis-
ponivel para exa111e,a11alise 0 critica. Desta fornia iniciou-se o estudo
da graniatica e 0s tundanientos do pensanrerito nroderno. A pcrgunta
/Jor c/ué? assuniiu posigfro de destaque nos pri1110rdios das espe011la-
gfies tilosoticas e das investigagoes cientiticas.
Apesar de essas atirinagées 11510 serein totalmentc paciticas, ha pou-
cas diividas dc que sem 0 alfabeto teria sido irnpossivel a0u111ular 0
atual corpo de 0o11l10ci111e11t0s cientiticos 0 técnicos.
E preciso exaniinar 00111 111ais detalhe o arguniento segnndo 0 qua}
a escrita e' linear e a cornunicagao oral, 1150. A linguagein oral utiliza
tonenias 001110 unidades construtivas; a escrita utiliza equivaientes
11a tornia de grafemas. Estes tonernas sao segrnentos de uma cadeia
tonologica que se segueni no tempo. Quaiquer pessoa que tenha
tornado ditado sabe que é preciso esperar até que surjani ‘pedagos’
signiticativos antes de se cscrever ou datilografar. A0 ler, tazemos pra-
t_ican1e11te 0-111es111o. O texto escrito 'c0ngela’ a tala, 0 que é nnia
procza 11111, 111as tanibéin incorpora novos tcxtos aléni do alcance do
autor 011 produtor. N510 lia eontrole sobre 001110 sera interpretado 0
subseqtieiites excgeses poderfro causar niuita confusao e discussao.
A palavra escrita, 00111 toda sua per111a11011cia, nada signitiea a nao
ser e111 relaeao 00111 a paiavra talada. O texto precisa de constante
aperteigoaniento pelo contexto ou as condigoes sociais e irrtelectuais
do a111bie11te. Observa-se este aparente paradoxo no dese11v0lvin1e11-
to do fudaisrno, a primeira religifro a se definir por meio de 11111 texto
escrito: a Toni. N0 entanto, para poder tuncionar 001110 guia prescritivo
de regras dc cornportamento, essa obra exigiu uni longo processo de
explicagao, 00111entarios e continua pesquisa oral.“ Estas atividades
apareeeram em outro textoz 0 Talmude dd Toni. O cristianisrno, 11111
rebento do judaisrno, entrentou a 111es111a questao 11a tra11s111issa0 da
Biblia, einbora tenlia lidado 00111 seus probleznas de exegese de torrna
111e11os pacifica, 00111 0 derraniaineiito de nruita tinta e muito sangue.
_ A0 lidar 00111 os eteitos sociais da escrita on de qualquer teenologia,
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convéni estar atento as ar111adill1as'd0 reducio11is111o, ou seja, a sup0-
sigfio de q11e a nova tecnologia é agents aut0no111o dc rnudanga. Nein
todas as transt0rn1a<;0es do 111111100 antigo se devem ao niero surgi-
niento da escrita altabética. A propria teenologia deve sua existéncia
a eausas sociais. Como virnos, a i11ve11§fi0 da inrprensa veio na hora
certa para ajudar a resolver 1.1111 PI'Ol)l€l1]El 11rge11te de dois grupos teo-
légicos e111pe11l1a(l0s e111 iriterpretagfies antagénicas do 111es111o textoz
protestantes e catolieos. Foi so 111ais tarde que 21 111u1tipli0a§ao dos
textos criou u111a base de iritorinagao para 0 novo espirito cientitico.
U111 1110delo evolucionista pode ser ta111l)én1 enganador para a pes-
soa desatenta. Exernplo deste inétodo ainda se vé eni rnuitas histori-
as da 00n1u1110a<;ti0. N0 inicio liavia a tradigfio oral, do 1101110111 pre-
logieo e da iiitfincia da liurnanidade. Dai uma sucessao dc escritas 0111
ordeni evolutiva, da escrita pictografica (priinitiva), passando pelas
escritas logograticas (sirnpies) aos sisteinas silabieos {inteligeirtes 111as
desaieitados) até atingir a perfeigao altabética. E sen1 a perteigao al-
fabética 1150 haveria civilizagao. Tainbérn errganadora é a visao ‘sar-
castica’ que diz ou insinua que todo progresso anterior pertence ao
lixo cla lristoria — 1111111 historia linear sem qualquer re1eva11eia atual.
O progresso liistorieo da tecnologia da 0o1111111ieaga0 aparentaria
ser circular a0 invés de lirrear; de tato, 1111 1111111 sensagao inevitavel de
‘de volta ao tuturo’ quando veinos pictogranias sendo 11ova1ne11te usa-
dos eni telas de 0o111p11tad0res, 0u talainos de icones e pacotes de
planilhas cl1a111ad0s ‘al>a0os'. ‘Rolar’ é l10ie 11111 niodo dc apresentar
textos elctrfinicos ao leitor, pois cada li11l1a adicional de tcxto leva as
outras a subireni na teia, iinha por Iinha, enquanto a linlra que antes
estava no alto desaparece de vista. 'Rolar’ 11111 texto no cornputador,
e111 todas suas variadas torrnas, é muito menos trabalhoso do que ler
U111 rolo, seu antepassado bibliogrfrfico. Ii, tarnbérn interessante que a
pena, aquela extcnsao primordial do cérebro e da 11150, se recuse a ser
suplantada seja e111 conceito seja e111 atualidade. E111 sua 110va apre-
se11taga0, 0 usuario 00111 u111a caneta e1etr611i0a escreve £1 111510 livre 11a
tela onde os produtoscla 111510 0 do cérebro sfio convertidos e111 texto
escrito. N510 111e110s iinportante, a caneta-tinteiro ainda prospera 001110
u111 siinbolo esse11cial 11a lieraldica pessoal do executivo de enipresas.
Temos 111uit0 a aprender das culturas orais 0 agratas e cada vez
niais perdeinos a arrogancia 00111 que desprezavainos essa epistemo-
logia ‘pré-logiea’. Mesino que aceitemos que a escrita e a imprensa
103
ajudararn a trciuar 0 cérebro nas técnicas cle raciocinio algoritmico
formal, parece l1£lV61' boas razoes para aceitar a visao do poeta segun-
do a qual 0 coragao sabe mais do que 0 cérebro pode dizer. O filésofo
Michael Polauyi“ utiliza a expressao ‘eouhecilneiito tacito’ para (les-
crever 0 iuizo e a cornpreensfio intuitivos que os seres iiumanos pos-
suem, com a importaute ressalva cle que so uma fragao deste c0nhe-
ciineuto pcssoal pode ser precisaniente formulada em algoritmos ou
proposigoes légicas. Sabenros mais do que pociemos dizer.
As ciéncias inédicas, por exeniplo, oferecem numerosos exemplos
de ‘conheeiinelito tacito’ acuinulaclo sob a fornra cle clescobertas tar-
clias cle fratanienros e reméclios cla sabecloria popular. Algumas cle
nossas eiéncias mais respeiradas surgiram da magia primitiva; muitas
surgiram de um estaclo de ingénua inclugfio, resolvenclo problemas
praticos por meio cle ensaios e erros. Os egipcios construiram pirfimi-
des muito antes cie a geometria e a arquitetura se forinalizarern como
discipliuas. Sabiam que um rriiingulo retéingulo podia ser construiclo
com as meclidas 3, 4 e 5. Acharam que esse era um conheciiuento util
mas 1150 se preocuparam em inclagar sobre seus pri11cipiosfunclainen-
tais. O que Pitagoras (ou um cle seus discipulos) fez foi provar esta
relagfio mediante ‘pura' cleclugao na forma de 11111 reorema geometri-
co. Os gregos puderam entao abanclonar 0s ensaios e erros e desenhar
qualquer triangulo retfingulo a partir do teorema eoufirniado clc que
0 quaclraclo cla lripotenusa é igual a soma dos quadraclos clos catetos
(aZ+bZ=c3). O intuitivo fora forinalizaclo pelo cognitive: 0s l1emisié-
rios direito e esquerclo do cérebro estavani traballianclo iuntos.
Além de criar ferramentas como extensoes cla mao e amplifica-
goes cla forga muscular llumana, os gregos ampliaram 0 conceito do
pictograma para iuragens coneretas de si proprios. A arte (lo escultor
comegou basrante ceclo na histéria llumana. A utilizagao cla repre-
sc-rntagao provoeava fortes opiuioes em culturas clifcrentes. O uso de
representagées de pessoas, auimais e plantas, fossem esculpidas ou
pintaclas, era estritamente proibido pela lei l11OS3iCE1. Os egipcios eram
menos exageraclos; eles usavam tubos ialantes colocados no inferior
cle estatuas com varias finalidacles. Alguinas dessas finalidacles funci-
onavain como um sistcma arquefipico ale apoio as decisfies.
_ A fuiigfio cle apoio as decisoes exercicla pelo orzieulo de Delfos é
bem conhecicla para precisar de descrigao nrinuciosa. Basta assinalar
que uma 'cleclaragao clélfica’ é sin<’5'nim0 do consellio anilaiguo dado
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pelo oraeulo e um possivel alerfa para 0 especialista em inforniagao
contemporalwo, sem falar dos criaclores clc sistemas especialistas.
Os antigos gregos, scmpre acleptos (la aclapfagao, cleseuvolverani
automates primitives na forma de inarionetes. Erain usaclas em tea-
tros do bonecos e coutrolacias por fios e contrapesos. Os gregos cha-
mavam esses fios dc neuronios, epara nos 0 neurénio é a unidade
basica do funcionanlcnto do cérebro. Neural é a forma aclietiva para
clcnominar um sistema que tenra se aproximar cla coinplexiclade e
capaciclacle do sisteina nervoso animal. Assim o eonceito original esta
embuticlo nos coniputadores e redes neurais. N50 é so a meméria
liumana que se acha externalizada, mas 0 cérebro llumano faliibélii.
Se 0s hebreus cram scvcros quanro 5 reproclugfio de iniagens, nfio
adotavain a mesma posigao cerceaclora em relagfio a coriiuiricagéio
internacional “onde as nagoes conversarfio entre si".
Um (lia faz cleclaragao a outro (lia,
e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
Sem iinguagem, sem Eala, ouvem-se as suas vozes,
em tocla a extensilo cla terra, e as
suas palavras até ao fini do munclo. (Salmo 19)
Isso {oi ha mais dc Z 500 anos e 0 salinista nada sabia acerca de rele-
eomunieagfies, transponders e informatica. Estava ressaltando 0 po-
tcncial (la lmmanidacle para romper, por meio cla iinaginagfio criati-
va, 0s limites inatos a0 pensamento. Na mesma época e em contexto
mais secular, 0 filésofo Par1né11ides“2 expressa as mesmas linlias de
raciocinio cle modo mais sucinto: “Tudo que se pode pensar pode
existir", donde decluzimos a realiclacle poteucial cle qualquer idéia
concebida cle fonna correta. Nessa hisréria intelectual é louga e con-
turbada, e esta etapa que denominanlos ‘oral’ é a senienieira fértil cle
inovagoes que so seriam realizaclas muiro mais tarde.
Enquauto estamos no mesmo tema vejamos isto: "O que estamos
construinclo agora é 0 sistenra uervoso da lrumaniclacle que ligara toda
a raga hurnana, para 0 benr ou para 0 inal, nuiua uniclade que ne11l1u-
ina era anterior teria ii1iagi11acl0.”‘“ Quelu assim falava era Arthur C.
Clarke, cujo nomc estara para sempre associado a coruunicagfio por
satélites. E sao palavras cle 1945.
O satélite cle comunicagao tem a fuugfio de auxiliar as c0n1unica-
goes entre pontos da superficie da Terra ou coin uma nave espacial.
Desde o laugaiuento do Telstar em 1962, 0 crescimeuto clesta tecuo—
105
logia tornou-se progressivamente mais pocleroso dentro da politica
da comuuicagfio global. Este evento de mais de trés décadas tambéin
rnfluenciou 0 teorico cla conrunicacao Marshall McLuhan. McLuhan,
Orig e Innis tenclein a fazer variacoes sobre 0 niesnio teina principal.
l\/lcLuhan postulava uma cultura tribal que envolvia toclos os senti-
dos dc coinunicagao; e111 seguida viniia a cultura iinpressa que favo-
rccia a razao e a visfro (a galaxia de Gutenberg); seguida pela ‘aldeia
global’ eletronica, que provocou urn retorno a valores tribais e uma
correcfio cla éntase anterior no racional e visual. O uso que tazia cle
atorisinos en1 vez de argumentos era ruuito mais uma caracteristica
cla tradigrio oral pela qual ele possuia uma veueragao acritica. Falou
de ineios cle comunicacao ‘quentes’ e ‘trios’, dos rneios ‘rnassageando’
os senticlos; e sua afirrnagao tfio reproduzida dc que "0 meio é a men-
sagern” é mais tacil cle citar do que cle conrpreender. Mesmo assim,
tempo e espago nao mais lirnitani a rapida troca cle intorrnagao como
acontecia com nossos antepassados. lsso suscita a pergunta se 0 que
é tecnicarnente viavei é sempre socialniente desejavel. Tarnbém es-
creveu nuina época em que a televisao era o meio de comunicagao
clonnnantc, e rarainente inenciona 0 conrputador em suas publica-
g6es.Tan1bé1n (cliscutivelniente) cleu excessiva éntase ao inlpacto das
tecnologias dc coinunicacfio sobre 0 ser liurnano. Nisso sotreu a in-
tluéncia cla episteniologia cle Iolm Locke, cle que tratamos brevemente
no capitulo anterior. Segundo esta visao, son1os observadores passi-
vos ao invés cle intérpretes ativos da informacfro recebida pelos senti-
dos. Além clisso, ao invés cle serrnos recipientes 51 espera cle sennos
preencliidos corn dados que clleganr, sornos criaclores: gostarnos de
produzir nossa propria espécie, tanto liurnana quanto tecnolégica.
Vemos esses produtos como servos, assim utilizanclo nosso proprio
sisteina social como niodelo. Este ponto de vista ecoa r1as conotagoes
de rnuitos dos tennos técnicos que utilizanros. Nulna recle cle teleco-
rnunicacoes internaciouais urn satélite é unla estagfro subsidiaria ou
‘escrava’. U111 ‘rnestre’ inais poderoso o controla ou atua como elo cle
transteréncia cle dados. Na mesrna linlla notarnos que ‘robo’ cleriva
da palavra tclreca para ‘trabalho’. O traballio que temos em mente é
urn leque cle tediosas tarefas de alta precisfio ou algnnras taretas peri-
gosas. Se surgiraou nao ulna raga de robos e coniputadores rebeldes
ci la Espartaco é questfio que cleixarnos para a ticgao cientitica.
Telnos uina iinensa divicla cultural corn 0 altabeto e as tornias de
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pensarnento geradas pela altabetizacao. Talvez o alfabeto seja 0 re-
sultado do ‘principio do menor estorgo’, ou porque cle algunia torrna
algum ancestral remoto nao quis se dar ao traballio cle criar picto-
grarnas para todas as coisas do rnundo. Leibnitz, tilosofo alernao do
século XVH, considerava cs pictograinas uma grande icléia. Ele propos
ulna lingua que seria um calculo universal de pictogranias, cle modo
que quanclo surgisse uma discussao nfio lraveria dirvidas sobre ambi-
gfiidacles ou significados ocultos. Falarnos de coinputaclores em ter-
rnos tribais conio geragoes; estanios agora a nieio carninlro do desen-
volvimento cla quinta geragao ern que o cérebro se tornou o modelo
para 0 cornputaclor, e reciprocarnente cornpreenclernos 0 cérebro usan-
do o coinputaclor como ruodelo. A regra sera o processarnento parale-
lo e a inteligéncia mecanica. Serao teitos prograrnas que aprenclern
com a experiéncia e corn os quais os usuarios podem traballrar em
linguagern natural (huinana). tarnbém previsivel a existéncia cle
sisternas cle bases cle dados relacionais altaniente cornplexos, reco-
nheciinento eficiente dc irnagens, e reconheciinento e sfntese da fala.
O lapao foi o pais que lnais estimulou e tarnbéln toi o principal res-
ponsavel por essa tencléncia, ao conviclar, cm 1981, outros paises a
cooperarenr nuru prograrna coniunto de pesquisa e desenvolvirnen-
to. Q Iapfio possni unia cultura complexa, profunda e antiga, fora da
tradigao ocidental. Qualquer pessoa intercssacla 110s aspectos socio-
culturais cla ciéncia da intormaciio sentir-se-a tentada a perguntar
por qué. Essa pergunta toi teita por Ungar, em 1988/” Ele argu-
menta que a quinta geragfio de cornputadores tern mais a vcr coin os
probleinas inerentes ao sisteina dc escrita japonés do que coin o de-
senvolviinento dc uina trota cle niaquinas pensantes.
Devido a urna nrescla dc rnotivos politicos c culturais a escrita
Ieanji é considerada tundainentai para a nianeira iaponesa cle pensar.
A relutancia dos iaponeses ern abandonar a escrita Ieanji significa que
precisam superar ulna série cle problenras para que simples processa-
dores cle textos poss am ler, arrnazenar e iinprirnir esses caracteres corn-
plexos. Ungar argunrenta que os caracteres leanji acarretam toda uma
série cle problenias para 0 desenvolvirnento de rnaquinas que possarn
utilizar a linguagern natural. Parece que o /eariji é uma escrita proble-
matica por varias razoesz o tainanlio (lo conjunto de caracteres, pou-
ca organizagao e cornplexiclade visual. Ha urn grands conjunto de
caracteres a ser aprendido: ler urn iornal requer 0 conlreciinento de
107
uns dois mil caraeteres. A alfabctizaeao é dificil de ser aprendida;
ainda assim os iaponeses atingem um gran dc alfabetizagao funcio
ual que supera de longe a lnglaterra e niuitas outras nacoes industri-
ais avancadas. Talvez a escrita japonesa apresente uma barreira a ser
transposta, e este dcsafio inotiva seus engenheiros do conhecimento
a dedicar suas energias a coinputagao neural. Para compreender a
proeminéncia iaponesa na tecnologia e no gerencianiento da infor-
lnagao é preciso eompreender a cultura iaponesa. Isso se aplica coin
igual valor as nagoes do Ocidente.
Notas e rc feréneias
1 Encontram-se uteis analises cla natureza da eultura em; LEAC]-I, Edmund.
Coinmruzication and culture. Cambridge: Cambridge University Press, 1966. [Ed.
portuguesa: Culture e cornunicagfio. Lisboa: Edieoes 70, 1992.] Ver tambérn: GEERTZ,
Clifford. Interpretation ofcultures. New York: Holt Rinehart, 1968. [Ed. brasileira: A
interpretagfio das eulturas. Rio cle laneiroz-Cuanabara, 1989.]
Z ONC, VValter. The flresence of the word. Yale: Yale University Press, 1967.
3 Para um estutlo cle ieitura fluente sobre mito ver: FRYE, Northrop. The anatomy
of criticism. Princeton: Princeton University Press, 1957. [Ed. brasileiraz Anatomic
(la crfficcr. S§O Paulo: Cultrix, 1957.} Recomenda-se também: VEYNE, P. Dicl the
Creeks believe in their myths? Chicago: Chicago University Press, 1988. [Ed. brasi-
leiraz Acreditavam os gregos em seus mitns? S50 Paulo: Brasiliense, 1984.}
‘l LEVI-STRAUSS, Claude. The savage mind. London: 1971. [Ed. brasiieira: O
pensamento selvagem. Campinas: Papirus, 1989.] Ver também: FINNEGAN, Ruth.
l\/lodes of thought. Cambriclgez Cambridge University Press, 1972.
5 Vcr: MILLER, ]011atl1an. 1\/lorshall1\/lcLul1(ln. London: Fontana Books, 1972.
[Ed. brasileira; As idéias de McLuhan. Sao Paulo: Ed. cla Universidade de S50 Paulo,
1973.}
6 Ver: LYONS, Iohn. Language meaning and context. London: Fontana Books,
1981.
7 BERGER, R, LUCKIVIANN, T. The social construction of reality. Harmondsworth,
Penguin, 1967. [Ed. brasileiraz A conslrugeo social do realidacle. Petrépolis; Vozes,
1976.]
. 8 AUSTIN, 1.}... How to do things with worcls. London: Oxford University Press,
1968.
9 Ver, por exemplo: OSTERGAARD, B.-S. The media in Western Europe. Lonclon:
Sage, 1992.
10 Ver: SPENCE, Ion-atlian D. The memory palace of Mcltteo Ricci. New York;
Viking Press, l984. A obra classica sobre 0 tema ainda é: YATES, Frances. The art of
memory. Harmoudsworth: Penguin Books, 1969.
11 DIRINCER, David. A history of the alphabet. 3rd ed. London: Hutchinson,
1968, p. 14.
E952 INNJS, Harold. Empire and communications. Toronto: Toronto University Press,
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13 Para os autecedentes dessa era ver: ROBERTS, ].l\/1. The triumph of the West.
London: BBC, 1988. Observe-se em particular a influencia do deseobrirnento da
Arnériea na creseente preponderancia da Europa.
14 O texto (le leitura mais fluente sobre a invengao cla imprensa é: STEINBERC,
S. Five hundred years of printing. Harrnondsworth: Penguin, 1966.
15 Sobre inforrnaeoes técnicas ver: CASKELL, Philip. lntrocluction to lnbliograpliy.
London: Oxford University Press, 1973.
16 l\lE\/\/l\=lAN, }.O. The world made print: Lutl1er’s 1522 NewTestament. Repre-
sentations, v. ll, p. 95-l33, 1985.
_ 17 Ver: HELL, Christopher. The English Bible and the seventeenth century revo-
lution. London: Allen, 1992. Caleula que um milhao dc exenipiares cla Biblia forarn
venclidos nos eern anos anteriores E1 1RBVOlLl§§lO).
18 Sl\/IALL, Colin. History ofprint. Aberdeen: Aberdeen University Press, 1982.
19 Ver: EISENSTEIN, Elizabeth. Emergence of print culture in the \/Vest. loumal
ofCommunicati0n, v. 30, n. 1, p. 99—lO7, 1980.
Zfl Produzido pelo Oxford text Archive. O ‘TLC’ proporciona em forrnato legi-
vel por eomputador as obras dc 3 157 autores que escreveram eni grego, de Homero
ate 600 c1C.
Z1 Report of the Registrar General 1914. Parliamentary papers, 1916, v. IV, Table
10. Ver também: GRAFF, I-larvey. Literacy and social development in the West.
Cambridge: Cambridge University Press, 1981.
Z2 CLANCHY, Michael. From memory to written record: England 1066-1307.
London: E. Arnold, 1979. Ver tambéinz MCGARRY, Kevin. Comrmmicalion, literacy
and libraries. London: Library Association, 1990.
Z3 Para uma narrativa interessante de ler sobre a influéncia do processador de
textos ver: HEIM, i\/lieliael. Electric language: a philosofahicrzl study ofword processing.
New Haven: Yale University Press, 1988.
Z4 Ver: ABLER, R. et al. Spatial orgcmization. New York; Prentice Hall, 1971.
Z5 ROBINS, Arthur. The nature ofmaps: unclerstanding maps and mapping. Chi-
cago: Chicago University Press, 1976.
Z6 VINCENT, David. Literacy and popular culture; England 1780-I914. Cam-
bridge: Cambridge University Press, 1989.
Z7 DICKENS, Charles. Hard times. Merece ser lido por causa do ‘hiperfaetua-
lismo' da era vitoriana da personagem Mr. Cradgrincl.
Z8 Ver: SHALES, Michael. Ontime: lmowlerlge and human experience. Loncflon:
Hutchinson, 1984.
Z9 O sistema horario em que o meio-clia ocorre no momento (Ia passagern do
Sol méclio sobre o nieridiano cle Greenwich. Hora-padréo baseada em Z4 meridianos,
cada um situado a 15° do outro e comecando em Greenwich. Quem primeiro supe-
rou na prritiea os ineornodos eausaclos pelas horas locais em suas linhas forarn as
Colnpanhias ferrovizirias dos EUA e Canada.
30 Rowland Hill (1772-1842). Propugnava uma tarifa postal, reduzida e unifor-
ine, de um péni, a ser paga antecipadamente na forms cle selos. Ver também David
Vincent, op. cit., capitulo Z.
31 Charles Babbage (1792-187i). Assim como George Boole, era autodidata.
Proietou o que chamou maquinas analiticas e difereneiais. A0 contrfirio do que su-
109
cedeu coin Gutenberg, a tecnologia conten1p0ranea 11510 podia atender a suas
cspecificagoes. Observem-se também as contribuigoes de Ada Lovelace, principal-
inente no que tange aos conceitos dc progrzlmagao e programa de controle. Ver tam-
bém: MEADOWS, 1\.]. lnfo-technology: changes in the way we communicate. Oxford:
Equinox, 1988. 1
32 Ver tamiaém a eontribuicao dc I. von Neuinann (1903-1957) especialmente
no que so refere ao conceito dc prograina armazenado que possibiiitou a existéncia
dospmndnmcompumdomsckhonkosPmaunflfiddoefludodahkwflahndeo
tual do coinputacior ver: PENROSE, Roger. The emperor's new mind . London: Oxford
University Press, 1989, especia1i11ente 0 capitulo Z, §'\1gorit11n1s and Turing 111ac11ines'.
33 George Boole. Sen grande obietivo era expressar 0 raciocinio 11un1ano em
termos mateniaticos. Booleano, como adietivo, denota 0 tipo de dado logico (ele-
mento booleano), isto é, com apenas dois valorcs, verdadeiro on falso, O on 1. Quan-
do ap1icad0 a fenomenos hurnanos e sociais esfe raciocinio de dois valores tern de
coder lugar ao raciocinio continuo, por exemplo, louco ou nfio-louco, calvo ou nio-
calvo (foliculos capilares contestados).
34 Gitaclo cm: GREGORY, Richard. Mind in science. London; \>\/eidenfeld and
Nicholson, 1982, p. Z8.
35 Seu romance Erewhon (Nowlrere) [Nenhures] contéln relatos notave1n1ente
prescientes da inteiigéncia mecanica. Um bom argun1er1to a favor (ta teoria cle que a
1i1'e1‘atu1'a c as artes oferecem um 'sistema de alarms antecipadd para as ciéncias e as
tecnologias.
‘ 36 GREGORY, R., op. cit. Ver também: YOUNG, I. Z. P/rilosoplzy and the brain.
London: Oxford University Press, 1980.
37 Ver a lristoria clzissica cla tecnologia: SINGER, George. History of technology.
London: Oxford University Press, 1953.
38 ONG, \'\/alter, op. cit.
39 Ver seu: Preface to Plato. Cambridge, Mass: 1-Iarvarcl University Press, 1966.
40 Ve1‘:VERl\'1ES, G. Scripture and tradition in iudaisin, in B/\UMANN,Cer(1. (e<'1.)
Communication in transition. London: Oxford University Press, 1984. Ver tambérnz
OLEVER, R. Comnrunication and cullure in ancient India. Syracuse, NY: Syracuse
University Press, 1971.
41 Para um relato das teorias dc Mic11ac1Po1anyi ver: }OI-IANSSEN, K.Ru1efo11ow-
ing and tacit kno\-v1edge. Al and Society, v. Z, p. Z87-301, 1988. Para e1e,quar1tidade
alguma dc rcgras e fatos pode “capturar o conlreciniento que um especialista possui
quando armazena sua experiéncia resultante de dezenas de nlilllares de situagzées”.
42 Filésofo grego que viveu no século V aG. Sustelrtava que nada muda. Nisso
mhezefiqaaongmndodMo"qumnonmhasanmsnnflansnmkcmnnumn1guM§§
43 CLARKE, Arthur C., na rcvista Wireless World, May 1945. Ve1'ta1111Jém: FERCU-
SON, M. New communication technologies and the public interest: Beverley Hills:
Sage, 1986.
44 UNGAR, ].1\/1. The fifth generation fallacy: why Iapun is betting its future on
artificial intelligence. London: Oxford University Press, 1988.
110
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Capitulo 4
Armazenamento e recuperagéio
de informagoes na sociedade
4.1 A biblioteca na sociedade
O prirneiro capitulo deiineou alguinas das prinoipais teorias sobre
processamento cle infor111ag:6cs c os probleinas que apresentain no
estudo do conhec1n1ent0 111111121110. O scgundo e terceiro capitulos
an1p1iaran1 :1 analise para exannnar a evolugfio das técnicas hulnanas
do registro de dados e inforlnagoes, iunto 00111 a influéncia dessas
tecnologias de definigfio na forma co111o pcnsalnos acerca do mundo.
Ncste capitulo vereinos as formas 001110 as sooiedades téin ar111aze11a-
do e organizado esta crescente ‘reserva cle pensarnentos rcgistrados’
no passado, e tangamos um olhar apreensivo sobre 0 futuro.
N510 basta apenas ser capaz de arnlazenar i11for1na§:'io fora do ce-
rebro; ela deve ser ar111aze11a(1a cle modo organizado para que se possa
voltar a utilizzi-1a. Desde 0 passado mais longinquo a quc podemos
recuar com algurna ecrteza, sempre houve locais especificamente
construidos com esse fi1n. As bibliotecas, c111 seu sentido mais arnplo,
existem ha quase tanto tempo quanta os proprios registros escritos.
O instinto dc preservar e a paixfio cle colecionar té111 sido os fatorcs
de’rer111i11a11tes na sua criagfio, 111a11utc11gfio e dese11vo1vin1ento. Quad-
qucr que scja a sua forma externa, a esséncia de uma bibiioteca é
uma colegfio de materiais organizaclos para uso. As formas externas
ctesses materiais tém rnudado a cada inovagao 11a tecnologia da co-
n1u11ica<_;5o, das tabutas dc argila ao conlputador. A organizagiio para
uso define sua fungéo como recipienle ou deposits para a n1e111oria
externa cla hunlanidade; mas ar111azena111e11to irnplica recufmragzao c
recuperagfio implica acesso, on a oportunidade dc tirar proveito disso
na condigéio de usuario. Infelizinente, na histéria desse 111ecanism0
cultural, o acesso a suas colegoes 11510 cresceu na mesma proporgao
do anseio de preservagao e orde111.Ta1veZ a resposta esteia na historia
da politica do poder 111111121110 que tende a iiustrar uma caracteristica
conspicua da 1notiva§.i011u111a11a. Hz’: rnuito tempo em nossa historia
111
—-———--
intelectual descol)ri1110s ulna forte e 11111tua111e11te sustentével rela-
@210 entre informagao e poder sobre os outros, e o poder sobre os ou-
tros em geral (se 1150 sclnpre) ilnplica privar alguém dos frutos ili111i-
taclos do intelecto 111111121110. A biblioteca do templo de Ramses e111
Tcbas possuia a sabedoria acumulada cla sua cultura e seu tempo,
mas seu uso restringia-se =1 casta sacerdotal do escribas e autoriclades
do governo. Como as primciras bibliotecas da Assiria e Babilonia, era
0 que podernos charnar biblioteca governan1ental, criada para forme-
cer infornragoes para a ordern estabelecida. Para o bern ou para 0 inal,
o a11seio de armazenar os produtos da inernoria coletiva tcin estado
conosco desde 0 inicio cla era da escrita. Da sala cle arquivo na antiga
Ninive ao Public Record Office cln Kew, 11a lnglaterra, cla biblioteca
dc Alexandria E1 gigantesca Library of Congress, nos EUA, este proces-
so cle e011servagf1o tern funcionado. Todo Estado possui sua propria
colecfio, arquivo ou biblioteca nacional. Os ingleses dispoeln cla British
Library co111 seu acervo dc livros, e 11a British Film Library e no Nation-
al institute of Recorded Sound e11contran1-se os proclutos especia1iza-
dos cla tccnologia da coinunicagfio.
N510 ha lnelhor cxcmplo cla fu11g51o do conservacao na historia cul-
tural clo que o da fainosa biblioteca dc Alexandria. Esta cnorme bi-
blioteca, que possufa duas grandes divisoes, foi fundacla pelos gover-
nantes grcgos do Egito, uma dinastia conhecida co111o dinastia dos
Ptolorneus. Na cidacle fundada por Alexandre, o Grande (356—3ZZ
aO), os bibliotecérios dc Alexandria procuraram reunir entre as pare-
des da biblioteca a totalidadc da literatura entao existentel Os exem-
plares cram arrumados c111 ordem sistc111atica. Os que estivessem trun-
cados eram completados. Deles se faziain cornentarios criticos e1is-
tas. Dc longe 0 mais famoso desses bibliotecérios eruditos foi Galin1a-
co, que viveu no século 111 aC. Ele elaborou 11111 grandioso cataiogo
conhecido como Pinalzes, uma lista cle docurnentos relativos .1 cultu-
ra grega e oriental. E111terrnos rnodernos a biblioteca de Alexandria
seria uma co111bi11agao dc ccntro cle pesquisas, editora, instituto dc
estudosli11guistic0s,1nuseu e repositorio cultural. l\/luitas bibliotecas
nacionais dc hoje e111 dia 11510 possuem tal diversidade dc fungoes. No
cntanto, a instituicfio denionstrava aqucla continua ligagfio e11tre cole-
ta de infor111agao e poder politico. Quando se tern a intengao de cons-
truir Luna biblioteca do qualquer tipo, e111 qualquer época ou local,
necessita-se de uma politiea sistelnfrtica dc f0r111ag51o do accrvo. A
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1150 ser que se seia muito rico, este €l'l1pl'CCl1(ll111€I1lI0 precisara de
alguin tipo de invcstin1e11to. As politicas dc for111ag€1o dc acervo dessa
di11a111ica instituigfio i11cluian1 1150 so as negociagoes de praxe con1
autores, comerciairtes c colecionadores dc livros, n1as tainbéin a pra-
tica cle obrigar os navios que aportavam cm Alexandria a lhes entre-
gar seus preciosos livros para seren1 copiaclos pela biblioteca. Os li-
vros tornarain-se uma espécie de 1110€Cl£t corrcnte. A
Onde a biblioteca foi buscar poder para ilnplelnentar essa politica
de aquisigao? A bibliotcca dc Alexandria era criagao, orgulho e alegria
dc uma forca dc ocupac5o;11aofoi a 1iltin1a biblioteca a ser construida
c0111 os espélios dc uma conquista. Se un1a biblioteca construida con1
base e111 tal ética é 111ell1or do que biblioteca alguma é questao que
pode aniniar rnuitos se1ni11:'1rios. N50 podeinos avaliar de 1110do rea-
lista sua influéncia na instrugfio da populagao nativa conquistada,
mas sabemos que preservou para a posteridade obras que do contra-
rio estariam perdidas. Se111 esta preciosa heranga a cultura européia
teria sofrido uma perda incalculével.
A primeira de 1/arias catéstrofes abateu-se sobre ela e111 47 aC: 1.1111
incéndio no cais cle Alexandria durante a invasfio dc César. Esses de-
sastres continuaranr até a destruicéo final e111 640 dG. Especialistas
calculain que no auge cle seu dese11volvin1e11t0 a biblioteca possuia
cerca de meio 1111111510 de rolos cle papiros, quantidade essa que so-
rnente seria superacla depois de muitos séculos. Além do interesse
historico, essa instituigao é ilnportante por seu lcgado conceitual so-
bre 0 que deva ser um acervo nacional ou inter11acional dc docun1e11-
tos. T2-1111bé111 znostra a fragilidade e os problenlas da perrnanéncia do
rneio de i11f.0r1nagf.o 111a11uscrito. A for111ag?io e construgao dc uma
biblioteca poden1 resultar de rnuitas intengoes, conscientes ou in-
eonscientes. As colcgoes particulares dos ricos e poderosos cram as
vezes acumuladas por exibicionismo ou amor aos livros 001110 objetos
fisicos. As vezes era u111 auténtico amor a cultura e ao estudo. N50
obstante, so foran1 preservadas colegocs que, de outro modo, teria111
sido dcstruidas, os estudiosos sao agraclecidos. As obras dc Aristételes
(como as c0nl1ecen1os) devem sua preservagfro ao dirigente ro111a11o
Sulaf un1 personagein voraz co1110 poucos. interessante especular
sobre 0 provavel ruino cle nossa histéria intelectual so as obras desse
pensador genial 110111/essem ficado perdidas para a posteridade.
As bibliotecas n1o11asticas cram a personificagao institucional cla
112 113
fé religiosa, mas so se tor11ara111 atuantes quando o cristia11isn1o supe-
rou sua hostilidade inicial ao estudo, pri11cipal111c11te os cstudos clas-
sicos (pagans). Poréin a principal ocupacao dos scriptoria 111o11asticos
era a copia de textos, c desta fornla suas atividades co11trib11fra111 para
a tra11s111issao da cultura. Esses nlosteiros, co111o centros cle cultura,
tor11ara111—se os prototipos cla universidade moderna. Contextos di-
112“1n11'cos apresentain novos desafios.
Antes do fined do século XII a uuiversidade de Paris, cuja origern
re111o11ta a u111a escola rnonastica, tornara-so o cc11tro cla nova filoso-
fia escolastica que tentava conciliar o cristia11is111o corn o pensa111en-
to filosofico grego c gerava uma nova literatura profissional que 111-
trapassava e111 grande inedicla os cscritos rnedievais antigos. A neces-
sidade do livros para nlillrares de estudantes tor11ou~se 11111 problerna
pre111e11tc. O cornércio co11tc111por£111eo de livros expa11dia-se £1 medi-
da que os copistas te11tava111 dar conta do recado 11os stationarii ou
livrarias ligadas 51 Liniversidade. Esses copistas cram leigos, que assim
ro111pia111 11111 prolongaclo111o11opolio clerical e tor111avan1 0 nucleo da
profissao de escreventes —— aquelcs que escrevenr. O acervo, como
era costunreiro tanto nas instituigocs 111o11r'1sticas q1.1a11to academi-
cas, dividia-se e111 duas partes: os livros 111ais consultados cram
acorrentaclos 11:1 biblioteca principal; os disponivcis para en1présti111o
cram guardados 11u111a sala separada.‘ Faltavain ainda uns ZOO anos
ou mais para a i11ve11c51o dc Gutenberg; 112710 é dificil ver qufio urgente
era o contexto da deinanda pela rapida inultiplicacfio de textos. Era o
inicio cla fungfio do referéncia c e111présti111o e das relagoes tracl1cio-
nais entre a academia e 0 eornércio de livros. A partir da universidade
de Paris surgiu a universidade dc Oxfordi e dai o colnplexo do biblio-
tecas universitarias c de faculdadcs que ternos lioie.
A meta principal cla educagfio é. a tra11s111iss€1o da cultura e111 suas
forlnas variadas cle aptidocs, idéias c valores; é légico entao que o
estudante deva ter acesso 1 ‘111e111oria exter11a'. As bibliotecas 1121010-
nais oferccern 11111 aspecto intcressante do crescirnento e desenvolvi-
111e11t0 do Estado nacional rnoderno. Quanto mais antigo e mais politi-
canlente forte 0 Estado, maior e mais influerlte a biblioteca. 1-151 u111
forte elo reciproco entre maturidade de111ocr:'1tica e amplitude dos
servicos de bibliotecas e i11for111a<_;z"1o; n1es111o as bibliotecas 111onasti~
cas, apesar de lirnitadas, 11.510 puderam se estabelecer enquanto os
estragos causados pela ldade l\/lédia européia 1150 havialn sido sufici-
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ente111e11te sa11aclos.A British Library (00111 a devida vénia do Library
ofOo11gress) diz ser a111ais iinportante biblioteca nacional de pesqui-
sa do 111u11do. F01 criada pelo British Library Act dc 1972 co111o centro
nacional de referéncia e outros servicos bibliogréficos e dc i11for111a-
ctio que devein apoiar i11stituig6es de ensino e pesquisa, e, 1150 111e-
nos importante, servicos de infornragao e bibliotecas da i11cl1'1stria.
Assi111 dese111pe11l1a 11111 papcl vital 11a eco11o111ia nacional e 11a criacao
dc riqueza. Como instituigao cultural exists ha quase Z50 anos, ten-
do rccebido seu i11vesti111e11to inicial c0111 a doacao de uma biblioteca
real, a dc Iorge HI. O acervo cla biblioteca 11510 tern paralclo e111 mate-
ria de riqueza, varicdade e profundidade. Represents todas as épocas
da civilizagao escrita, e111todas as linguas e abrange todos os aspectos
do pe11sa111ento 11u111a11o.‘
Essa biblioteca n1a11té111 a colecfio nacional de prlblicacoes ingle-
sas recebidas como deposito legal. Por exigéncia cla lei, os editores
depositam exeinplares dc suas pul)licac6es e111 bibliotecas designa-
das c0111 a fu11c€1o de depositarias. A British Library, portanto, atua
001110 111eca11is111o de co11trole cla produgiio nacional do pensarnento
registrado. O acervo conrpleto co11té111 mais cle 18 milhoes dc volu-
111es cle livros e publicacocs seriadas irnpressas (inclusive 130 GOO ti-
tulos dc publicacoes seriadas correntes), 33 n1ill16es cle especificacoes
dc patentes, cerca dc Z 111ill16es de pecas cartograficas, 8 inilhoes de
pccas filatélicas, 600 D00 volumes de iornais, 900 GOO discos so11oros
e varios 111ill1oes dc rrranuscritos e docu111e11tos oficiais para os quais
é dificil dar u111 111'1111ero exato. A bibliotcca ocupa posicao central 110
servigo nacional dc enrpréstirno entre bibliotecas, e, como se isso jzi
1150 bastasse, atcnde a 1111121 clientela irrternacional por 111eio cle seus
servicos dc referéncia e for11ecin1e11to dc docurnentos.De modo fini-
co entre as bibliotecas nacionais, financia pesquisas cxternas no carn-
po da inforniagfso e cla l)ibliotcco11o111ia. O que se pode, razoavel-
rnente, inferir acerea dessa multipliciclade e e11or111idade cle dados?
Exenlplifiea, a seu modo, a aspiragfro do cérehro rnundial externo a
realizar as vérias funcoes que associainos ao cérebro: classificar os
dados recebidos, para possibilitar a colaboracao entre os sul)siste111as
do corpo, e outras atividadcs sernelhantes. Até possui, e111 projeto,
1111121 base nacional dc dados bibliograficos como parte cle sua politica
para o século XXI. Este projeto resultaria e111 u111a vasta rede de bases
Cle dados para 0 pais, possibilitando que colaboradores previan1e11te
115
$1-
designados coinpartillieni entre si intorinagoes bibliograticas. Os acer-
vos sao cliversiticados para atender a complexiclacle cultural cla histo-
ria do Estaclo nacional. Toclos os tipos cle bibliotecas refletenr cle al-
guin modo as relagoes entre cultura material e niio-material, ou entre
a niensagenr e sua iiiariitestagao fisica. l\/Iapas, iornais, selos, discos
sonoros, tuclo isso retlete a variegada tecnologia (lo é1I'H18ZCl1£ll‘l16l1lIO
e transmissfio cle inforinagoes. Essas inovagoes tecnolégicas precisam
do estinrulo e dos servigos das econornias industriais. Se cletern1ina-
cla biblioteea nacional possuir uma econoinia desse tipo como sua
base e contexto, entfio 111€ll101‘ para ela. Tal nao acontece com muitas
das bibliotecas nacioiiais do rnunclo.
Outra caracteristica que nierece ser notada: a British Library vein
se clesenvolvendo ha Z50 anos, absorvenclo acervos e bibliotecas subs-
tanciais nessc percurso evolutivo. N510 toi criacla de repente por um
decreto autocrético, como seu arquétipo, a biblioteea cle Alexandria.
As instituigoes britiinicas selnpre evoluiram por etapas cleviclo a uma
tilosofia politica que clesconfiava do controle centralizaclo. Esta filo-
sofia de lczissez-faire refiete-se na liistoria cle outras instituigoes cul-
turais e orgaos responsaveis por sua implementagéo; exeinplos nota-
veis clisso sao a educaefio e os governos locais. Esses exeinplos sao
LIIHE1 (leixa que nos leva a outro orgéio cultural: a biblioteca publiea.
A palavra ‘publica’ cleriva seu significaclo essencial cla base latina,
publicus, que signitica ‘do povo’ e, em seus senti(l0s correlatos, ‘ge-
ral’, ‘conrum’ ou ‘universal’. Alega-se que liavia bibliotecas publicas
na antiga Atenas, mas nfio podemos ser tao ingénuos ao ponto cle
pensar que erain publicas no sentido que a palavra tem no sécuto XX.
A prinieira biblioteca publica tundacla em Roma foi obra de urn certo
Asinio Péiio (76 aC—5 clC). O tato mais extraorclinério que podemos
consiclerar cligno cle nota é que se clizia que “ele tornou os talentos do
l10l11Cl11 propriedade cornurn cle todos". N50 podemos ter uma icléia
clara sobre exatarnente quanto esse ‘todos’ abrangia a populagao co-
inum cle Roma, mas a icléia cle conipartilliar e tornar clisponiveis as
intorinagoes registraclas é um ideal ate liojc inatingido. lnforinagfio,
conlrecimento (ou talentos) crescem ao serem compartilliados. Este
ideal cle conrpartilhar as intorriragoes para 0 bem colnum esteve
subinerso por inais de 1 800 anos apos ter sido vagainente percebiclo
e inioialinente expressaclo. A lideranga no clesenvolvimento do ideal
cla biblioteca pliblica cabe aos Estados Uniclos. Seus planejadores
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sociais beneticiaram-se cla crenga ietfersoniana, arnplaniente aceita,
cle que unia delnoeracia so sobrcvive e prospera nuina sociedade onde
os ciclaclaos seiani sutieienteinente educaclos e intormatlos para que
possain fazer CSCOll]£lS sensatas.“ lsso mostra a (liferenga: os legislado-
res roinanos, por mais esclareciclos que fossem, nao concorclariain
com a tilosofia politica dc Thomas Ietterson, e, peusanclo bem, tarn-
pouco seus sucessores cristfios. O conceito nuclear cla biblioteca pu-
blica dcsafia que os idcais Clemocréticos sejarn comprovados. Que é a
biblioteca publica? a instituigao que tornece inn servigo gratuito a
tocla a populagfio de ulna cornuniclade, clistrito ou regiao, sendo enr
geral tinanciacla, no toclo on ean parte, corn recursos publicos. N50 se
trata siniplesanente cle concorclar vaganrente com o ideal; deve-se es-
tar disposto a pagar irnposto por ele. O servigo cla biblioteca publica
nao é gratis em sentido absoluto; é gratuito no momenta em que é pres-
tado.7 A outta questao ineomocla é o acesso, niediante urn servigo de
biblioteca, a infornragao registrada. possivel caracterizar as biblio-
tecas pelo gran de acesso penniticlo a quem procura conhecimento e
iritoraiiagao. Ha bibliotecas particulares c tamiliares que 1150 estfio
abertas para uso publico. As bibliotecas cla aristocracia rural inglesa
sao exeinplos deste tipo. Pode lraver uma série de bibliotecas se1nipar-
ticulares que exigein clos socios o paganiento cle assinaturas ou taxas
cle atiliagao para 0 uso geral. A tamosa London Library vein a mente.
Pode lraver bibliotecas semiparticulares que exigem uma certa espe-
cializagao cle quenl as procura; ou bibliotecas, publicas ou particula-
res, que pO(l€l11 ser utilizaclas por causa cla protisséo da pessoa. Este
tipo pode incluir em graus variados bibliotecas universitarias, inclus~
triais e especializaclas, até mesnro bibliotecas em farois.
Suponlla, por meio de urn pequeno exercicio (le raciocinio, que
vocé esteja justiticanclo urn servigo tie inforinagao e biblioteca a ser
otereciclo por uma empresa industrial que apresenta uma curva cle
cresciinento acentuacla. O scrvigo pocle apoiar as tomaclas cle deci-
soes gereneiais, exanrinar e inonitorar as tenciéncias clo inercado, tor-
necer eclucaefio e treinainento para :1 forga cle traballio e obter infor-
magoes por meio de uma perspieaz ligagao em rede com campos atins.
No entanto, grancle parte cla sua base cle inforniagiio sera cle acesso
rcstrito e vocé tera que se precaver contra a espionagenr industrial.
isso nao é raro, pois os objetivos da organizagao supoenr uma unifor-
niidade de intengoes entre seus inenabros e enipregados, e é para isso
117
que inducfio e planos dc treinainento existeni. Os insatisteitos pode-
rfio ir einbora se discordareni, e o investiinento nunra torga cle traba-
lho bein-intorniacla beneticiara a orgaiiizagao. Coteie seus argumen-
tos coin os que vocé apresentaria aos cidadaos de uma cidade de Lan-
casliire ein ineados do século XIX. Se esposasse a tilosotia cle Iohn
Stuart 1\/lill e seus discipulos utilitaristas, argumentaria que 0 teste cle
qualquer agfio é “a maior telicidade para o maior niimero cle pesso-
as”." As bibliotecas pfiblicas trariain a ditusao cla educacfio, e qual-
quer investiinento que a cidadc fizesse teria urn retorno mil vezes
niaior. As bibliotccas piiblicas alterariani padrocs de coniportaniento
ao inanter as pessoas longe dos bares. Uina populacao educada ine-
llioraria a base industrial e contribuiria para a econoniia nacional.
Vocé estaria usando argurnentos iguais aos dos pioneiros do movi-
mento por bibliotecas publicas.”
Em 1850, o parlamento inglés aprovou 0 Public Libraries Act. Era
uina lei fraca e experiinentai, de cuinpriinento tacultativo e nfio-i1npo~
sitiva. Praticarnente tudo era relegado £1 iniciativa local das ciclacles e
vilas. Decorrido quase uni século foi que a provisao de bibiiotecas
tornou-se obrigacfio legal. A resposta do governo £1 provisao cle acesso
toi lenta e de pulso traco. Se foi urn caso de indiferenca, inércia cu
liostilidade é assunto para os liistoriadores discutirein. Ha paralelos
evidentes coin a liistoria da iniplenicntagfio de servigos eclucacionais.
N0 caso da educagfio, foi preciso inostrar 0 caniinlro ao governo por
meio dos estorgos de organizagoes tilantropicas; no caso das bi1>1iote-
cas poblicas pela forga do dinlieiro e da vontade cle Andrew Carnegie
(1835-1919). Este tilantropo nascido na Escocia tornou disponivel
para centenas de coinuriidadesein vfirias partes do mundo novos pre-
dios para bibliotecas, mas so os prédios 1150 tazeni bibliotecas, do
mesmo modo que so os prédios escoiares nao fazein escolas.
l\/lonotona e prosaica como possa parecer a alguns, a liistoria das
bibliotccas publicas inglesas ilustra coin vigor 0 que pode acontecer
quando uma nagao decide proporcionar acesso aos registros de sua
cultura. E, aléin disso, estava pedindo as pessoas que pagassein, para
que outros menos atortunados pudcsscni usutruir desse patriinonio
cultural. linagine a reagfio dc uni. cavalliciro vitoriano nieinbro da
ordein estabelecida. Estao llie pedindo para pagar pela educacfio das
‘classes intcriores’, c, aléin do mais, por bibliotecas poblicas. Talvez
se convenca a pagar pela ediicagfio, uma vez que esta levara a uma
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redugfio dos crimes contra a propriedade; serfio incutidos no povo
valores adequados; a educagfio nao serfi soinente o torneciinento cle
uni servigo de intorniagao. As bibliotecas publicas apresentain uni
problenia diterente. Destinain-se a adultos; talvez seiain freq1'ienta-
das apenas por radicais e descontentes politicos. O conteudo do cur-
riculo escolar e do acervo da biblioteca publica clevein ser nioriitoraclos
cle perto. A selecfio dc livros e materiais para a biblioteca publica ta-
zia parte da mesma estrutura intelectual que escolheu os vaiores eti-
cos c religiosos a serein ensinaclos no curriculo escolar.
Essas atitudes cram proeniinentes quando do surgiinento das bi-
bliotecas publicas, bern conio durante a luta inicial pelo cnsino obri-
gatorio coni tinanciainento piiblico. Esta ultinia possuia a vantagern
do argiunento do capital humane, que o Estado iria em ultiina anali-
se tcr retomo do seu investiinento. As bibliotecas publicas eranr vis-
tas como uni problenia de adultos; dc tato, o apareciniento cle servi-
cos para criangas so ocorreu depois dc uni tempo consideravel. Ape-
sar dc 0 auto-aperfeigoainento ser uina parte vital do ethos contern-
poraneo, poderia ser erroneainente considerado como urn bein parti-
cular.” Se é 0 individuo que vai se beneficiar, por que os outros11ave-
riarn de pagar? As criangas, por outro lado, tinharn toda uma vida
diante de si, e liavia pelo menos algrnna chance dc o Estado obter urn
retorno do investinicnto. Como consequéncia o progresso cla biblio-
tcca publica foi a principio bastante lento - uina velocidade quasc
glacial. A entao recéni-toruiada Library Association traballrou duro
para desenvolver uma consciéncia a respeito de bibliotecas publicas
entre as pessoas intluentes, e iniciar prograinas cle treinaniento para
preparar pessoal para essas instituigoes. Uni Feito uotavel na década
dc 1920 foi a criagfio cla National Library e clos sistenias regionais de
bibliotecas; constatara-se que nenliuina biblioteca poderia 1nanter-
se isolada se quisesse oferecer uni servigo abrangente. Para inanter as
pessoas intormaclas seria preciso formar redes: esta injungfio era en-
tao uni iinperativo, e sera niais ainda no future.
Atraidos pelos scrvigos mais eticientes que as vezes tuucionavanr
cni locais especialmente construidos, liouvc aumento na utilizacéio
da biblioteca publica antes da Segunda Guerra l\/lundial. Este au-
iuento pode ser devido, em parte, a legislacfio educacional do século
XX que propiciou o surgiinento dc uma maior quantidade de usuarios
etetivos ou potenciais. No pos-guerra, a protissfio coinecou a crescer
119
apoiacla em sua rccénr-descoberta autoconfianga, e os scrvigos exis-
tentcs se cxpancliram dc rrroclo a acomodar materiais nao-impressos
e criar servigos bibliotccérios para as carnaclas menos atortunadas da
populagao. Mas a taxa cle crescimcnto nfio foi uniforms. Os servicos
cle bibliotecas publicas na lnglaterra téni sido sempre prejudicaclos
pelo tratanrento desigual claclo pclas autoridades resporisévcis pelas
bibliotecas — desigualclaclc cle tamanho, populagfio, recursos finan-
ceiros, e, nfio raro, atitucles ideologicas ern relacao ao nivel c alcance
do servigo.
Embora seja possivel citar cxcmplos antcriores, é razoavel clizer
que as bibliotccas especializadas e industriais inglesas sao produtos
do perioclo posterior a l9ZO. As guerras impulsionam 0 clesenvolvi-
mento tecnologico e essa tcncléricia, quando transposta para a cstera
civil, salicntava a necessidacle cle sisterrras dc infomagao.“ Na reali-
cladc, poder-se~ia atinnar que as gucrras salientam a irnportfincia dos
servigos dc intorinagéio, mas isso 1150 é motivo para clcsencadear guer-
ras. I-loove aunrento constants 110 surgimento (lessas bibliotccas en-
tre as guerras, principalmente sob a égide cla Association of Special
Libraries and lnfornration Bureaux. A Segurrcla Guerra l\/lunclial cour-
provou a suspeita cle que 0 nivcl rracional cle alfabetizagéio nao era
tfio alto quanto dcveria scr e tampouco os honicns rccrutaclos cram
fisicarncnte tfio aptos quanto seus governantcs iriiaginavain. Quais-
quer que fosscrn as causas basicas cle sua cxisténcia, surge 0 Education
Act cle 1944 e clois anos mais tarclc 0 National l-lealtlr Service [scrvigo
naciorial cle saude]. Ambas as areas cle ativicladcs -— eclucagao e sau-
de — estfio profundamente cnvolviclas com a econornia e a politica
cle inforiiragéio. Os scrvigos cle infonnagfio para a saude c a providen-
cia social atingiram lroic alto grau dc plancjaniento c exccucao.”
A legislagfio eclucacional clos ultinros 30 anos tom buscado alargar
a base social cla cclucagao dc scgundo c tcrceiro graus. Essa meritorio
anscio cleveria ter contcniplaclo a rnultiplicagao trutitcra das biblio-
recas cscolares e centros cle recursos pedagogicos. Lamentavclmentc
isso que era tfro clcsejavel nfio aconteccu. Talvez a pcrcepgfio do pu-
blico accrca clas bibliotccas nunca tenlia sido suticienterncnte estu-
clada ou lcvacla em conta. Em certo nivel, as bibliotecas poclern ser
consicleraclas clcpositos dc informagao/coirliecinrento. A conrparagfio
possui conotagiio passiva, sendo os bibliotecérios vistos como guar-
clifies, senrpre a invcntar novas técnicas para manter 0 local arrurnado
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c as pessoas dc fora, como tornia cle conrbater a cntropia do sisreirra.
E111 termos cle sisternas, poclenr ser consicleraclas canais clinamicos
que lcvarn as intornragocs até onde scjam mais necessarias. Como as
palavras e signos clo sisterna lingiiistico, cada bibliotcca possui uma
iclenticlacle relacional: so existe porque so rclaciona com outra biblio-
tcca, por sernelharrga ou clifereuga. A biblioteca pode também ser
vista como ferramenta social. Como 0 machado dc pedra e 0 compu-
taclor, é uma terramerrta cla inente com roupageur institucional. Como
qualquer outta fcrranrenta, tcm dc ser projctada dc modo que a tor-
ma sc suborcline a fungao: rnolcla-sc o artetato scgundo as necessida-
dcs pcrcebidas do usuario. l\/las, c se essas neccssidacles percebiclas
prccisarem cle ajustcs? E se estivcrern erraclas? A quem cabe clizcr?
Uni csqucma basico do sistcnra naciorral dc bibliotecas cla Gra-
Brctanba incluiria os seguintes tipos cle servigos dc bibliotccas c in-
formagao:
° bibliotecas goverrramerrtais;
' bibliotecas uacionais; . ‘
° bibliotecas cle faculclades e universiclades;
° bibliotecas cle liospitais c centros dc pcsquisas méclicas;
‘ bibliotecas escolarcs; A
° bibliotecas dc instituigoes particularcs e sociccladcs cientificas;
° bibliotecas inclustriais;
' bibliotecas voltaclas para temas cspeciticos e protissionais espcciali-
zados.
Nota—se de inrediato que nfio lia uma classificagao niticla. As bibliotc-
cas naoionais podeni ser diviclidas segundo as necessicladcs do usua-
rio, como, por exerrrplo, a National Library for the Blind [biblioteca
nacional para cegos}. As bibliotccas cle instituigocs cducacionais po-
clem ser cliviclidas segundo as ctapas do clescnvolvimento cclucacio-
nal, ou rieccssidades eclucacionais espccificas, como, por excinplo, a
British Dyslexia Associationliassociagao briténica dc dislexia]. Bibli-
otccas (liviclidas por assuntos tambénr pressupocnr grupos dc usuéri-
os especializaclos, como, por excrnplo, as bibliotccas do Royal Institute
of Chemistry [real instituto dc quimica] on cla Royal Geographical
Society [real socieclaclc geografica]. Mesmo esses cxeinplos 1150 esgo-
tani os miiltiplos servigos cle iirformagfio oterecidos por protissionais
autouornos que prcstam consultoria <3 outros servigos cle intornragao
121
p_
graeas aos recursos proporcionados pela tecnologia cla intorrnagfio.
Ha tanibéin o fluxo informal cle iritorriiagao que se cla quantlo repre-
sentantes cle grupos dc espeeialistas se reuneni para trocar idéias. Um
exempio deste conceito é a Gontecleration of Information and
Conrnrunication Industries (CICI) [coritecieragao das inclL'istrias dc
cornunicaeao e inforinagao], que congrega associaeoes cornerciais e
organisinos profissionais que, enr conjunto, couipreenclein as inclus—
trias cla iriforiiiagfio.“ Essas pessoas se eucontram, trocain idéias c-:
cultivarn ainizade em benefieio nifituo. E assim tern sido desde que a
sociedade existe.
4.2 Redes e transferéneia de informaeoes
A torniaeao cle redes é uma das mais importantes questoes com
que hoje se detronta a cornunidade bibiiotecaria e (le inforniagao. A
eonvergéncia cla tecnologia cia inforrnética com as coinunicagoes ate-
ta a criagao, gestao e uso cla iiitorrnagao cle inoclo inéclito desde a
introclugfio cla imprensa cle tipos rnéveis. A invengao cle Gutenberg
perinitiu aos estudiosos eoinunicar-se entre si, trocar publicagoes e
formar aquilo a que ireinos 110s referir conio ‘colégios invisiveis’. A
tecnologia eietronica permite que conversem coni a rncsnia proximi-
clacle e naturalidacle como se estivessein ao redor cla togueira tribal --
lenibra-se cle nossas redes ncurais? Se as bibliotecas tossern a exteriori-
zagao do cérebro lruniano, tais redes se aproxirnariarn cla idéia cle urn
cérebro global corn neuronios clisparanclo em intervalos variaveis em
diterentes circuitos." Quanclo pensarnos na comunidaclc biblioteca-
ria e de inforinagiro, tenios conio referente um grupo cliversificado cle
organizagoes e instituicoes, algunias clas quais forani inclicaclas bre-
veinente. Qual sua tuneao na sociedade? S50 responsaveis pela cria-
gao e forneciinento cle servigos e produtos de l!1fOTl11£l§§O para usua-
rios tinais. lnclueni toclos 0s tipos cle servigos bibliotecarios, tornece-
clores de inforrnagicio conierciais e nfio-eomerciais, editoras cle mate-
riais eletronicos e irnpressos, tivrarias, servigos cle apoio cm rede, etc.
Apesar cle tenclerrnos a pensar em termos de nosso préprio con-
texto operacional, 0 conceito cle rede abrange totalrnente as ativicla-
(les cle comunicagao lrumana. As enipresas que queiram ter éxito mini
niercaclo sujeito a mudangas rapicias clevein n1ai1ter—se urn passo Z1
ifrente cla concorréncia, nionitoranrglo e reagincio a quaiquer transfor-
inagao. As redes cie infonnatica sao vistas como fornia dc tornar isso
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possivel: ericurtani o tempo e a rlistfincia; ajuclani a einpresa a distri-
buir a proclugéo pelo rnunclo iiiteiro, colocanclo—a 110s lugares que se-
jain niclliores e mais baratos e onde os servieos sejam mais eticientes,
inclepenclenteniente cle tusos liorarios c custos cle transporte. Para
ajuclar nisso existe 0 Huxo transnacional cle dados, on seia, a trans-
niissfio eletronica cle claclos através clas fronteiras politicas. Este novo
conceito e realiclacie resultam da iiirerrraciorralizacao e globalizagao
cia ecouoniia cla intorniacfio. As estruturas organizacionais dos nego-
cios estfio sendo clrasticaniente afetaclas. No passado, as redes cle coni-
putaclores retletiani a estrutura aclrninistrativa: erarrr liicrarquicas.
Terminais burros estavam ligaclos a podcrosos minicoinputaclores ou
coinputaclorcs cle grancle porte que cletinliani 0 controle cle progra-
inas e dados, ao inesnio tempo que llies restringianr 0 acesso.
Hoje em dia, coin coinputaclores pessoais cle baixo custo, cada
enipregaclo pode roclar progranias cle rotina a partir cle seu préprio
conrputaclor cle mesa, ligancio-se apenas a liospecleiros ou serviclores
para acessar arquivos coinpartillraclos e programas especializados.
Talvez este arraiijo conlieciclo como 'cliente—servidor’ lraja estin1ula-
do ou resulte cle uni nivelainento clas liierarquias adininistrativas. Ha
uni paralelo C0111 0 aclvento do telefone e seu impacto na estrutura
social. Qualquer novo recurso, cle qualquer tipo, tencle a transforniar
as relagoes entre as pessoas. Parece que as einpresas cstfio adotando a
posigfio cle que ha enormes ganlros a obter corn 0 coinpartillrarnento
de dados gerenciais cle torina rapida e segura. As bibliotccas aclota-
rain essa posigfio lia algum tempo, sc puclernros usar a catalogaefro
cooperativa e os ernpréstiiuos entre bibliotccas conio excniplo.
O que, cntéio, tern a ‘sociedade cur rede’ para oterecer aos profis-
sionais e gerentes cla inforniacao? Pode eviclenciar os paclroes carn-
biantes da coniunicagao liuniana, priucipalniente os elos cle co1nu11i-
cacao informal entre usuarios. Esses esqueinas estfio em plena antivi-
clacle: utilizando correio eletronico, grupos cle clebates eletronicos, ser-
vidores cle arquivos e BBS. Usuérios cle redes (por exeinplo, professo-
res e pesquisaclores universitarios) pocleni dispensar as fornias tradi-
cionais cle coinunicagao como as revist-as e bolctins dc noticias. Esta
recriacao eletronica do traclicionalcliatariz rural tem protuncias inr-
plicagoes para a cultura, como vercinos no proximo capitulo.
Estas niudangas afetam a coiuunicagfio c a cooperagao entre bi-
bliotecas e porlein nrocliticar as torinas conro se coinunicain coni 0
123
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H1UHClO exterior. Auinentanr 0 acesso bibliogratieo para o nsuzirio. Ao
invés cle restringir-se ao catalogo cla biblioteca poblica do bairro ou
cla biblioteca cla universiclacle, vocé pode tanibéin ter acesso aos acer-
vos de outras bibliotecas. Tanrbeni serao atetaclos os tipos cle servigos
oterecidos aos usuarios, bern como o moclo corno sao prestaclos.“
O recurso das redes esta se tornando um rneio de publicacéo for-
nial; isto é verdacle principalinente na area rlas pesquisas acacléniicas
e inclustriais. A convergéneia de tanianlia cliversiclade cle usuarios tera
uni eteito unificador sobre o estado dispar (la indtistria e (las protis-
soes cla intorniaeiio. Por muito tenipo tern sido como as tribos nonra-
des cla Europa neolitica, que so tonrarain conlieciinento uinas das
outras quando passararn a coinpetir por recursos escassos.
Os 'textos’ que tiverern cle ser 'c_ontextualiza(los’ nessa futura uni-
claclc terfio suas represcntaeoes executaclas por bibliotecarios, pesqui-
saclores cla inclustria e clas universidades, gerentes cle processainento
dc claclos, gerentes de bases cle dados, clocumentalistas, niuseoiogos e
arquivistas. O leitor pode apresentar outros exeinplos.
O principal estiniulo as pesquisas voltadas para a concretizagao
dessas icléias parte da British Library, que é tanibénr guia, filosofa e
aniiga (los perplexos - que sao niuitos. Ela esta atenta ein especial
para 0 tato cle que nos aproxirnainos (lo fini clo século, 0 que oferece
uma util cliinensao cronologica para avaliaeao. As seguintes propos-
tas reterein-se a seus pianos cle torniagao (le redes para o século XXI:
° Ela tuncionara como unia iinica biblioteca a partir dc dois lo-
cais principais. Devido as facilidacles proporcionaclas pela tec-
nologia (la intorrnagao, a distfincia entre Londres e York é irrele-
van te no que tange a provisao cle servigos aos usuarios. “Sela nuina
L sala cle ieitura ou en1 locais reinotos, os usuarios teréio o rnesrno
acesso ao catalogo por intermédio da autoniagao.”
° Sera um centro iinportante de arrnazenaniento e acesso a textos
cligitais.
° Tornarfr 0 forneciinento renioto cle clocuinentos o rnais rapicloe
barato possivel, coin 0 eniprego rle arniazenaniento e transniissfio
Cligitais.
Notanios, assim, que o torneciinento cle intorinagoes aconipanhou o
clesenvolvirnento da gcograiia ao substituir a (listancia absoluta pela
relativa, e a localizagao absoluta pela relativa. A cligitalizagao, como
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virnos, é a representagao cla infoririagfio por meio cle niinieros. E a
digitalizagfio nos atasta (lo reino dos cinco sentidos tradicionais. Que
icléia perturbadora! N50 so tera como efeito liniitar a excessiva arro-
gfincia intelectual, mas tambéni em inuitos sistenias cle liierarquia
pirainiclal clestronara os poderosos e elevara os cle posigao interior. Os
estilos gerenciais terao que se adaptar ao processo cle desceiitralizagao.
Sobre a opgfio entre centralizagfio e clesceiitralizaeao, 0 veterano
inovador l\/lurray Layer cliz que a escolha tornou-se irrelevante:
porque os sisternas cle tecnologia cla inforniacfio poclein ser tanto centraliza-
clos quanto (lescentralizaclos ao rnesino tempo. Uni banco cle claclos nacional,
por exemplo, é uma enticlacle conceitual, c nfro geogréfica; com uma rede dc
claalos (le alta velociclacle corn rniiltiplos processaclores clistribufclos, os dados
nao precisarn ser inantidos nuin local especifico, ou todos no mesnro lugar. O
acesso ii totaliclacle elos dados pode ser obticlo cle qualquer ponto conectado :1
l'CClC $6111 PHSSZIY l'lCCCSSZll'l€lITlCnl'C pelo SCU C€nlTO.Ifi
lsso seria verdadeiro no caso cle nossa proposta cle base (le dados
bibliograticos elo Reino Uniclo. O rnesnio principio (ou auséncia cle
principio) reflete-se lia cultura pos-inoclernista conternporsinea, cuja
circunteréncia cliz-se estar enr toda parte e 0 centro em lugar alguni
— uni tema interessante para a influéncia (la tecnologia na cultura.
lnicianios este capftulo corn observaeoes sobre Alexandria e sua
iuncfro de conservagfio na liistoria dos textos e das idéias. A conserva-
gfro é um clos principais problenias que as bibliotecas e os centros cle
clocuineritagfio entrentani lioje ein dia. A conexiclade entre os even-
tos liistoricos é eterna fonte cle cleslunibrameiito. Viinos o clesenvol-
virncnto cla altabetizacao no século XIX: conio as escolas cornegarain
a se inultiplicar e prosperar; como a publicacao cle livros didaticos
tornou-se uma inciifistria lucrativa, e terininarnos corn a aprovaeao
irnplicita cle que a lrunraniclacle estava finalnrente no caminho certo.
Esquecemos cle inencionar que o progresso tern U111 prego, seja
inrecliato ou posterior. Toclas essas ativiclades precisavani (lo substrato
necessario: 0 papel. As enorines cleniandas cle consurno cle papel to-
rain constataclas no inicio do século quanclo os iornais (sempre ga-
nanciosos) conregaram a aparecer ern grande nirniero.
O papel era teito principallnente cle trapos. A coleta cle trapos era
ocupaeao suia, perigosa e clesprezada. Passou a ser ainda inais clesconsi-
dcracla quanclo os vitorianos coineearani a implernentar leis sobre
saiiclc e meio ainbiente. Griaranr-se cliversas coniissoes oficiais para
125
clescobrir um substituto para os trapos. Varios suceclfirieos toram pro-
postos e testados, inclusive a graminea esparto. A Guerra Civil dos
EUA fez coin que se aproximassem ainda mais as mentes clos admi-
nistraclores e pesquisadores. As tontes fornececloras cle trapos esta-
vam bioqueadas. Restou-nos a polpa de inacleira, quiniica e 1neefuii-
ca. Nossa atengfio imperialista voltou-se para as regioes que possni-
ain iniensas reservas tlorestais, 0 que 1150 so fez. surgir um novo cani-
po que pocleinos charnar de ‘geopolitica cla inforniagiio’, mas tam-
bém uma preocupaefio central clas atuais cuitura e incultura ambien-
tais.'7l\/las voltcnros ao tenia cla conservagao: a nradeira é ma conser-
vaclora cle textos. Quem liouver tentaclo ler um jornal riunia praia
ensolaracla saberé por que. Como isso cliz respeito fr British Library e
seus planos grancliosos sobre cligitalizagao? A resposta é porque sen-
do tambérn unia biblioteca cle cleposito legal cle todas as publicagoes
do pais, as obras ali clcpositaclas a partir cle l86O correm sério risco.
Atenta 51 necessidacle cle cooperagao com outras bibliotecas nacio-
nais e de pesquisa, as tuturas politicas cla British Library terao coino
objetivo a preservagao cle material na seguinte orclem tie prioriclade:
° Material iinportante para a liistoria e a cultura nacionais, e n1ate-
riais raros e Linicos inclusive manuscritos. isso incluira material dc
importfincia bibliogratica, ou material classiticaclo como artetato.
° Material do acervo nacional (le publicagocs britanicas.
° l\/Iaterial que foi nruito utilizarlo e que se tornou tragil.
° Material nfro clisponivcl em nenlium outro lugar.
' Material pertencente ao arquivo cle pesquisa.“
' Material cle pouco uso mas que esteia inuito fragil para ser tot0co-
piaclo ou consultaclo.
Ternos viviclo numa socieclacle cle textos clesde que o alfabeto foi
criaclo. Qual a natureza especial clesses tcxtos?Precisare1nos cleles no
atlmiravel inunclo novo (lo escaneainento e digitalizagao cle iinagens?
4.3 Textos e bibliografia
Bibliotecas, arquivos, museus, galerias cle arte e a maioria clos sis-
ternas cle informagfio poclem ser vistos como ‘recipientes’ que con-
tém acervos organizaclos cle textos. Se alguma prova cla influéncia cla
indiistria téxtil em nosso imaginario intelectual fosse necesséria, ela
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seria eneontrada na palavra ‘texto’ e seus dcrivados. O vocaibulo ‘tex-
to’ deriva do verbo iatino texere, ‘tecer’ e, portanto, retere-se nao a
um material especitico como tal, mas ao seu estado cle tecido, fr tra-
ma e textura dos materiais. Ha uni clesvio nietatorico dc uni meio
material para uni sistema conceitual, cla tecelagein cle teciclos ii teia
cle paiavras numa pégina ou outro meio cluraclouro. A inesma ima-
gein arquetipica esta contida na descrigfio cle um dos personagens cle
Shakespeare: “Deslincla niais facilniente o tio cla verbosidacle do que
a substancia cle sua argu1nentagfio”.'° A substaneia é obviamente o
algoclfio ou tibra, neste caso a base supcresticada do texto falaclo. Em
uso corrente a palavra ‘texto’ nao paclece cle clesemprego, principal-
mente na teenologia cla informaefio. O ternio pode ser usado cle (lite-
rentes inaneiras em contextos (literentes:
' Como um traballio escrito continuo, como a integra cle uma car-
ta, poeina, pega ou romance.
' A parte principal escrita on irnpressa cle ulna carta, inannscrito,
. texto datilogratadqlivro, jornal on relatorio, exclusive quaisquer
titulos, cabeeallios, apénclices, notas ou material subsidiario. Na
intornratica geralinente significa as palavras visualizadas na tela
on impressas em papel. No entanto, 31 I11€(li(l3 que a tecnologia da
inforrnagfio avanga torna-se cada vez mais comum incluir os ele-
mentos grrificos como componentes do texto.
° A reclagao exata cle qualquer enunciaclo em forma escrita ou impres-
sa, por exemplo, 0 texto clctinitivo clo Ulisses, cle lames loyce, on
(la lei cle proprieclade intelectual inglesa de 1988. O texto autori-
zado ou ideal a ser usado coino base intalivel para ontras deriva-
goes.
° Uni tenia on topico selecionado rle uni livro religioso.
° Uni texto reconiendaclo para coinentéirio on critica.
° Na impressao, os tipos em oposigéio ao espago ein branco.
“ Na lingoistica, uma unidacle cla tala on cia escrita, principalmentc
sc composta cle uma ou mais trases e formando um toclo coeso.
O Famoso bibliografo DH McKenzie afirina:
Delino ‘textos' como aquilo que inclui claclos verbais, visuals, orais e nuinérieos
na torina dc mapas, gravuras e nifrsica, on arquivos cle sons gravaclos, filmcs c
videos; na realiriacle, ruclo clescle a epigrafia até as formas mais recentes cle
(l lscograiia. Z"
127
Esta definigao abrange arnpla garna de artefatos para 0 registro de
inforniagoesz da epigraficz, estudo cle inserigoes em inoedas e monu-
rnentos, E1 discografia, estudo dc discos sonoros. As eoncepgoesorigi-
nais de ‘texto’ pressupunham uma culture impressa esfcivel e peremp-
toria; erani parte essencial cla afiriiiagéio da supremacia da palavra.
Tal é 0 impacro cla revolugao eletrénica iia termiiiologia instituicla
que texto, docurnento e meio sao palavras que rendem a ser utiliza-
das de modo inrercambiavel. Podenios distingui-las cm geral cle uma
fornia mais pragmatica do que logica, apesar cle o aforismo cle Mc-
Luhan, segundo 0 qual no universo eletronico nao podemos distin-
guir entre meio e nicnsageni, ter mais do que um laivo de verdade.
Poclenios considerar 0 tcxto como um tecido intelecrual cle signos
numa unidacle coerenre e 0 docuanento como substrate fisico, bern a
inaneira da computagao neural, que considers: a rnente como 0 soft-
ware e o cérebro como 0 substrate material. isso nos perniite dizer:
“vocé danificou 0 doeriinerito, mas felizznenfe 0 texto esta intacto”.
Pode-se utilizar ‘meio’ para docuniento no sentido cle que urn meio
é uma substancia ou processo intervenienre por meio do qual algurna
outra eoisa atua ou é transportada, corno 0 calor através do vidro. O
‘meio’ parece rer ulna conotagfio mais clinfimica. A palavra ‘docu-
1ne1ita§fio' ainda é popular na Europa para descrever a analise, orga-
nizaeao e recupcragao cle docunicntos e iaz parte do treinaniento de
inuitos dos que se aurodenoniinariam gerenres da iniorniagao. Exis-
te uni periodico cle boa rcputagfio publicaclo na lnglaterra que ‘rein
essa palavra no tirulo.“ Aclvogados, arquivistas e liistoriadores de-
monstraan uma forte preferéncia por ‘docuniento’, 0 que pode ser
in liuéncia da eultura iinpressa, ainda assim 0 terino aparece coin gran-
de Ereqfiéncia ein cada volume anual do Computer Abstracts e do
Information Science Abstracts.
Ila mementos em que essas difereiiciagoes parecem uma arida
bizaritiniee ou pelo menos urn legado da imprensa que feliznrente
desaparcccrzi coin o advento cla soeiedade sein papel. Num meio ele-
tronico, ao contrario do iinprcsso, nao ha urn vinculo necessario en~
tre as esrruturas fisicas 0 légicas. No lugar do alfabeto inipresso nuina
pagina, 0 rexro iica reduzido a um cédigo binario cle zeros e uns. A
maféria naruralinenre organizada reduz-se a elérrons manipulavcis.
Erireodigo rnagnérico 11510 cxisrcm originais.
E uni universo difereiite cle discurso se alguéin cstiver procurando
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. ‘ii;
esrabelecer a autentieidade de urn prinieiro in—félio cle Shakespeare.
O substrate fisico, isto é, a niancha impressa no papel, 0 layout, as
rnargens, tudo sc combina como prova para estabeleeirnento cla au-
tentioidade do texto. A partir dai, e so entao, pode 0 texto ser utiliza-
do como fonte confiavel para critica e interpretagfro. Tradicionalmente
este couceito do texto ideal tem sugerido uma entidade fixa e arcin-
poral que possni autoridacle coinparavel aquela atribuicla as Escritu-
ras. Era tal a natureza do processo de iinpressao que um autor podia
inudar cle idéia enquanto 0 texto estava sendo impresso. Disso re-
sultavam corregoes, acrésciinos on a substituigao cle grancles exten-
soes de textos. Se essas ernendas erain uma reelaboragfio criativa do
texto, ou apenas liesitantes reflexoes tardias, era o texto intencional
que eonsrituia o texto. Enquaiito confiavainos na cadeia cle manus-
critos o problerna era pior, conio se pode ver na tareia incoinoda com
que se defrontam os estudiosos cla Biblia. Este texto tinlia uma fun-
gfio especial a deseinpeirhar e era iniperativo garantir os mais altos
niveis cle exatidfio. Portanto, a transinissfio escrupulosa dos textos era
vital para que se evitasse a falsificagao ou a fraucle: dai a iinportancia
das bibliotecas na cadeia de transniissiio. Copias podein ser preserva-
das e coinparaclas. Coin 0 arrnazenainento eletrénico de textos em
vcrsoes nizfiltiplas, esta nogao de texto original tende a perder autori—
dade, se nfio iinporténcia. No universo da codificagao digital 11510 exis-
tern textos autorizados no sentido coin que 0 bibliégrafo textual os
reconlieccria. Sera inreressaiite observar como isso aietara futures
especialistas no cainpo das liunianidacles.
Os problemas na transinissao da cadeia nianuscrita tern inereeido
a atengao de liistoriaclores, criticos de textos e muitos outros es’rudi-
osos. Quando observamos 0 iniponente eclificio da cultura moclerna
de repente nos danios conta dc qufio vacilantes e frageis tém sido
seus alicerces. De {ato nao disponios praticainenre de nenlium texto
original cla Antiguidade. N50 teinos nenliurn escrito lrologréfico coin-
posto pelas infios de Platao, Aristételes ou outros grandes pensado-
res. Tenios que nos apoiar cin copias de copias de cépias que fazeni
parte cle uma longa cacleia de transinissao, Por isso os prirneiros ina-
nuscritos do poeta latino Virgilio datain de quatro séculos apos sua
niorte. Treze séculos separarn Platao dos prirneiros inanuscritos exis-
tentes cle suas obras. Os primeiros lTl£ll1USCl'll'OS coniplefos do Novo
Tesrainento datam apenas do século IV ! urn longo liiato cron0légi-
129
co desde a transinissao inicial do texto cla torrna oral para a escrita.
Quanclo levanios ein conta esses aspectos podcnios apreciar mais ta-
cilinente a iinportancia cultural das bibliotecas, nao so coino deposi-
tarias de textos, mas lIZll11lJéiI1 para cataloga-los e classitica-los, 21 fiin
cle que se possa ampliar sua utilizagfio adequadazz Ila tanibéin 0 pro-
blema cla durabilidade do sulastrato fisico do texto. Assinalainos a
iinportfincia do papiro como material cle escrita, inas, por ser urn pro-
duto vegetal, é inuito seiisivei £1 uniiclade. Nas areias excessivaniente
secas do Egito suas cliances cle sobrevivéncia erani inaiores do que
nos solos cle clinias urnidos. Nestas concligoes, o uso do pergaininlio
(peles cle cabras e bezerros) era uni ineio inais contiével de conservar
textos. Enibora os problemas iisicos tossein iniportantes, as diiicul-
dades niorais e intelectuais podiain ser maiores. N50 era raro o des-
cuido na transcrigao e os copistas nao estavani isentos de interferir
na redagao ou no conteudo do texto, principalinente se tinliani algu-
nia opiniéio religiosa ou politica a defender. O estudo e corregao de
textos alterados é cla alcada do critico textual e do paleogmfo, que
estudani textos antigos. A estes especialistas tom-se aliado estudio-
sos cle outros campos como a critica literziria, a liistoria e a teologia.
4.4 Os textos e suas caracteristicas
Ha textos cle varios tipos ein suas tornias externas, coino livros,
tilmes ou progranias de televisfio; podeni tainbéin ser cle varios tipos
cni suas iornias internas, como narratives, expositivos, descritivos,
persuasivos ou Hcticios. Essas nao sao catcgorias exclusivas e fre-
qiienteinente se sobrepoeni. Por exenipio, lioje tcinos a facgcio,” que
iunde tato e iicefio. O texto escrito ou iinprcsso exemplitica o velho
ditado dc que a tornia obcdece 51 tungao; isso é tfio verdadeiro no caso
de uma lista de conipras ou uma reportagein cle jornal como no caso
de uni tratado cle fisica nuclear. A tungao cla linguagcm escrita como
cxtensiio da nienioria depends ein rnuito de sua capacidacle cle repre-
sentar inforinacoes de torina sisteinatica e conveniente. O texto deve
ter unidade e nao siniplesrnente ser urn conjunto cle irascs bem-
construidas conipostas do palavras ou morfenias; deve representar
uma inensagein cocrcntc c conipreeusivel. l\/las, como outras tormas
cle coniunicagao, é urn produto cultural e inuda coniornic outras ne-
cessidades sociais e tecnologicas. Originalinente, os textos erani es-
critos sein cabegallios, pontuagao, letras inaitisculas ou espaco entre
130
li
i
,
r
r
I
rr
F
vi
Fiiiii
r5I= E 1
iii? V
ii. .
.ii: .
l-j i
l
vi; YY VG
palavras. A leitura era cliticil e vagarosa. Oradualniente a organizagfio
interna cla inforinagiio escrita so niocliticou para econoiiiizar o teln p0
de leitores cada vez mais ocupados. isso se deu principallnente no
eoiitexto juridico, religioso e adlninistrativo. Surgirainnovas conven-
gocs 110s textos, conio o uso de letras inaiusculas e sua diterenciagao
das 1nini’1sculas, inargens, titulos c paragratos. A pontuagéo tern sua
origeln na virgula ou tracinlio obliquo que persnitia ao leitor eniatizar
e indiear os signiticados HUH1 texto que estivesse lendo em voz alta.
. Alguns forrnatos cle texto sao intluenciados pela natureza do as-
sunto. Aclotanios uni esqucina cronologico para unia narrativa histo-
rica, nias rclacionainos as receitas em Eornia tabular se estivernios
escrevcndo uni livro dc culinaria. Nuni texto cle persuasao poclenios
adotar a tatica de apresentar priineiro 0 arguincnto principal e apoia-
lo coni arguinentos silbsiclifirios c eleinentos cle coniprovagao. Uni
texto expositivo num manual técnico pode utilizar uma disposigao
cle perguntas e respostas, on um lnétodo algoritniico; 0 texto pode
ate ser dividido em quadros, como nos textos tradicionais cle ensino
prograinad0.2“‘ A lista telefonica tern coino principal olaietivo a rapida
recuperacao de dados. Para isso, o texto precisa ter ulna organizacfio
espacial concisa e ecoiioniica, corn verbetes ein seqiiéiicia siste1nati-
ca e logica. Billietes dc passagens aéreas c ingressos dc teatro tanibéin
sao tornias cle texto e incluein 0 niaxirno cle intormagfro no espago
que tor niais econoinico. Téni de ser breves sem ser obscuros. Nas
socicdades inodernas muitas forinas de texto cvoluirani entre grupos
de interesses especializados para a apresentacao de grande volume de
inforinagoes especiticas e 11a maior parte ciémeras. Exeniplos cornuns
sao: boletins das bolsas dc valores, cardapios de liotéis e restaurarites,
listas cle corriclas cle cavalos, lioroscopos e noticiario jornalistico.
Os forniatos de textos dos §ornais sao urn rico filao para pesquisa-
dores cla coinunicagao cle iiitorinagoes escritas e inipressas. lnclueni
uma varieclacle cle tipos cle textos intluenciados por igual variedacle
de suposigoes, ulna caracteristica verdadeira tanto da imprensa buta-
riica cle ‘qualidadc’ quanto dos 'tal)loidcs’. Certas suposigoes sao fei-
tas acerca do vocabulario, interesses, vigor intelcctual e estilo de lei-
tura do leitor. Podeinos acliar que a seqiiéncia dos cventos nunia his-
toria otcreceria uni suporte natural para o tluxo da narrativa, inas isso
ein geral irfio ocorre. O autor talvez queira iniciar C0111 um angulo,
algo que prenda 0 intcressc do leitor e fornega uni esquenia ou inapa
B1
rnental para aconipanhar a liistoria. A intormagao mais iinportante é
logo apresentada, organizacla segundo a iinportancia, nfio a cronolo-
gia. O autor tern em nientc 0 leitor que correra os ollios pelo artigo ii
procura de ‘pontos cle aterrisagein’ adequados, on que comegara a ler
uni artigo mas nfio ira até 0 tinr, a nao ser que scja persuadiclo a faze-
lo. Obviamente, os jornalistas terao estilos diterentes, a depcnclcr do
tato de serem redatores cle reportagens especiais, colunas assinadas
on eclitoriais. A torma obedeccra a fungao como em todos os outros
tipos de texto. De fato, podenios planejar urn texto de tal torma que
seu conteudo intorniativo tique oculto para queni eie nao se destina.
lsso 110s leva ao doininio cla criptogratia e dos textos cifradosfi O
universo de codigos e citras pode ser material para liistorias dc espio-
nagem; sao tainbéni uma parte vital cla coniunicagfio cliploniatica e
cla transteréncia dc intorniagao em mensagens cla industria e do co-
mércio. Vejainos 0 seguinte:
Anchusa italica
Esta resistente planta perene oterece-nos ulna sobcrba exibigao dc tlores azuis
da cor cle genciana no periodo dc junlio a agosto. Plantar forlnanclo grupos para
conseguir urn arrojado toque dc cor.
Altura 2 rcimificagfioz 90-120 cnr x 60 cm.
Posicfio : Precisa de solo tértil c local ensolar-ado. Aguar bein antes de ptantar.
lsto é uni texto e uma entrada catalogrzifica sobrc uma Flor. Mas a
tlor é eni si niesma urn tcxto para o botanico e tanibém para o poeta
roinfintico. N0 entanto, tentar identitica-la visualmente cle niemoria
pode ser uma tareta tecliosa. Folliear uma enciclopédia de jarclina-
gem é urn rnétodo aleatorio de recuperagao de imagens. Precisarrios
do controie do texto secundario para fixar a existéncia secundaria da
flor num universo cle tcxtos impressos.
Hoje em (lia tratamos 0 tilnie como um texto; na verdade, ‘ler’ um
tiline é uma torma de percepgao que precisarnos aprender. Os antro-
pologos culturais argumentain que a moda e 0 vcstuario sao textos.
Pegas avulsas cle roupas cspalliadas nas gavetas sao como palavras
soltas. Combine-as nuina rclacao sintatica e tera urn enunciado.
O texto verbal realmente moldou nosso niunclo e nossas percep-
goes. Criou ‘comunidades textuais’: grupos dc pessoas cujas ativida-
cles sociais e intclectuais estfio centradas em torno cle textos corno
unia linguagcni publica. Um tloricultor bronco e analtabeto poderia
ter reconliecido nossa Anchuscl italica intuitivaniente, ou por meio
l3Z
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. 1&5
ifif
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cle imagens, mas para comunicar isso a outro ser liurnano teria que
trazer sua clescobcrta para a estera cla linguageni publica danclo-llie
algurn tipo cle nonie, que sua platéia teria que conipartilbar.
Ha urn probicnia, porém, com nossos textos verbais, pois preci-
sam do apoio cla imagern para ilustrar seu conteudo conceitual. Eles
também impoein Luna lineariclade dc intengao que é essencial ao pen-
samento logico, como viinos. Nao nos ocorre naturalmente, como
percebenios quando temos que analisar 0 tipo niiudo do texto de
uma apolice dc seguros. As pessoas nao pensani seguindo linhas re-
tas, passando de uma coisa a outra: saern por niilliocs de tangentes
porque estfio interessadas em inillioes cle coisas. O pensaniento bu-
inano conipreende uma intricada rede cle associagoes e conexoes. Essas
conexoes sao muitas vezes evasivas, e durainente conquistadas. Como
observanios antes: aprendcr é tazer conexoes. Hipertexto é um termo
usado em intormatica para designar 0 texto coniposto de pequenas
unidades (geralniente um parégrato on tela cle Z4 linhas) entre as
quais o leitor pode saltar usanclo ligagoes (links) previanicnte defini-
das. A0 contrério de um livro em que as pagin-as estao em seqtiéncia,
0 hipertexto pennite quc qualquer uma cle um certo nuniero dc pagi-
nas vcnlia apos a que se esta lendo, e na ordem clesejada.“ O inclice é
eletronico e em geral existe uni glossério ou dicionario. O livro dida-
tico medieval deixava espagos em branco para que o estudante pu-
desse aerescentar suas proprias anotacoes; um pacote de liipertexto
perniite ao leitor acrescentar anotaeoes em qualquer ponto e expor-
tar porgocs dessas anotagoes para uni processador cle tcxtos. Amplia-
se 0 aspeeto verbal de modo a incluir o visual e o auclitivo na hiper-
midia. Este dispositivo perinite ao usuario interagir coin diversos
meios, como, por exeniplo, textos e graticos em filrne, em cederrom e
disco inagnético. Gravagoes sonoras poclem tarnbém ser incluidas.
Como viinos pela atirinagao cle McKenzie, o iinpacto das tecno-
logias (le conrunicagfio anipliou o alcance da palavra texto. De fato,
rnuitos bibliotecarios e outros protissionais da intorniagfio tern visto
suas babilidades protissionais ampliadas ao maxiino ao lidarem com
problemas dearniazenaniento e recuperagao a ineclida que os textos,
e os clocuincntos que llies dao tornia tern se diversiticado. Formas
tisicas diterentes iniplicain probleinas dc apresentagao can catalogos
'e acessibilidacle para o usuario. mais tacil conipulsar urn livro do
que uni filnie, por isso, a descrigao catalogratica cle um tiiine tera que
133
ser mais gencrosa no que tange as inforinagoes que oferece ao
consulente. 'llainbém tern liavido uma divisao do traballio na profis-
sao de bibliotecario cujo critério de divisfio a fonna dos documen-
tos. Assiin temos bibliotecarios dc materiais audiovisuais, de mapas
ou de obras raras, cada uni deles constituindo uni grupo de especia-
llstas que proinovem a circulacao de iiitoriiiagoes entre si. Ha tam-
béni 0 desenvolviinentodo conceito de centro de recursos pedagogi-
cos como um instruniento de ensino e aprcndizageni. longo 0 ca-
niinlio palinilliado desde os tempos do ‘texto infalivel’ do bibliografo
tradicional. Esse era o texto sancionado pela autoridade do autor,
auto—suficientc e liistoricanicnte definivel, que era locctlizcivel, preser-
vcivel, clatcivel e ex/)liccivel.Z7' Era 0 referente maxiino coin o qual cada
texto derivado guardava algum tipo de relacao, e seu significado lia-
via sido decidido cle unia vcz por todas. Conio o leitor tcra pcrcebido,
isso era mais uni constructo ideal do que ulna realidade. Nfillhtllll
texto que tenlia algunia coinplexidade possui 0 inesmo significado
para senipre, e outros tipos de documentos podeni aunientar seu sig-
nificado. Assim teinos o texto aberto que é visto como gerador, crian-
do novas fornias de aprcsentagao e interpretagao.
O conceito dc autor perden sua posigao original dc criador reputa-
do do texto, principalniente cm alguinas formas dc arte. O século XIX
presenciou 0 inicio da autoria coletiva quando os governos passarain
a assuinir mais responsabilidade c usar inforniacoes na definigao dc
suas politicas. O Her l\/laiesty’s Stationery Office é a maior editora do
Reino Unido. A autoria coletiva é uma caracteristica inarcante dos
universos da ciéncia e dos negocios, sem esquecer das artes e da mu-
sica. A adaptagao de uma obra por outra pessoa pode resultar nuin
traballio totalmente difercnte por seu proprio inérito; o filine basea-
do nuni livro pode ser uma fornia dc arte autonoma independente
das suas origens. Urn centro dc recursos pedagogicos pode ter uma
locoinotiva a vapor do século XIX, assim como fotografias, guias, videos
e gravagoes sonoras dessa niaquina em todo seu esplcndor. Uni paleon-
tologo pode regoziiar-sc com a descoberta de uma pegada de dinos-
sauro ou falar da revelagfio de uma fenda nuin rocliedo conio uma
vasta fonte de informagoes sobre 0 periodo Trizissico. lsso serao tex-
tos?Senaoforen1, sob a alcada dc quem ficarao, na eventualidade de
ser preciso organiza-los para serem usados? O texto tradicional tinlia
autor, compositor, proietista on algunia outra pessoa responsavel pela
134
sua criagao, e alguéni que poderia ser identificado se as coisas nao
estivessein contorme a lei.
Estes sao textos intencionais, distintos da liistorica locomotiva a
vapor e da pegada dc dinossauro ‘niio-iiiteiicionais’. No texto interr-
cional, o autor em geral explica do que se trata. Se o livro tratar cle
fosseis, isto vira escrito na pagina cle rosto; explicita-sc sua ‘atinéncia’
Ilaboutnessl. O autor constroi 0 texto c 0 leitor reconstroi o significa-
do do niellior modo possivel. A0 organizar 0 texto para ser usado, a
palavra do autor é soberana, niesmo que o leitor iulgue, com os nie-
lliores inotivos, que 0 texto fala dc algo totalmente distinto. Em tex-
tos nao-intencionais, a ‘ati11éncia' deve ser inferida e o contexto de
pertinéncia é da maior iniportancia. Até se reconlicccr a iniportancia
da arqucologia industrial como disciplina, jogainos as locomotivas
na sucata: 1150 possuiani pertinéncia iinediata para nossos interesses.
No inicio do século XIX, quando 0 registro dos fosseis era tido como
uni dcsafio a cronologia biblica, erarn descobertos coin crescentc ra-
pidez. A liistoria do desenvolvimento das formas textuais e docu-
mentérias dcnionstra uma visao interessantc cla qualidade integrativa
do universo cla inforniagfio. O filosofo Karl Popper apresenta um mo-
delo interessantc deste processo. Propoc trés universos a nosso dis-
por. O l\/iundo l é o inundo das coisas materiais, 0 rnundo de pau e
pedra, cle carne c osso, da realidade que inclui a fenda exposta de
nosso penliasco e seus fosseis. O l\/lundo Z é o analogo mental dc
toda essa ‘realidade', nossa paisagem interior dc ilnagens, sons e pa-
lavras tacitas, nossas reagoes individuais e eoletivas ao l\/lundo l. O
l\/lundo 3 é 0 mundo das idéias, arte, ciéncia, linguagcin, ética, insti-
tuigoes ——-» toda a lieranga cultural, a totalidade do pensainento regis-
trado em qualquer fornia. Sao todas as idéias e inforniagoes £lCLII111_1—
ladas conio resultado dc nossa busca visando a responder c interpre-
tar o ii\/lundo 1. Mas devein ser prescrvadas e codiiicadas em obietos
do l\/lundo 1, como cérebros, livros, niaquinas, filines, coniputadores,
materiais audiovisuais e registros de todo tipo. As frases que vocé
esta lendo pertenceni ao l\/lundo l, parte da paisagem geral inundial.
Como voco as processa é 0 l\/lundo Z, sua paisagem mental. Sua1nen-
sageni on conteiido faz parte do l\/lundo 3, que possui valor indepen-
dente, mas depende de bibliotecas, bases de dados c instruinentos
culturais afins para preservagfio e difusao. Elos vitais nessa corrente
de dependéncia sao as profissoes e grupos profissionais que lidain
135
E
coin a criagfio dc informagées, por nreio de sua organizagao e disse-
lnlnagao até 0 ponto ein que possarn ser usadas. Ai, 0 usuario bein-
sucedido torna parte no processo de criagfio. Pode-se arguinentar que
0 Mundo 3 é um lnundo de exisféncia potencial dependente dos pro-
cessos inteiectuais gerados pelo i\/[undo Z. O texto sé adquire exis-
téncia potenciai quando posto ein coniafo coin a inente pensante do
usuario. Este mundo atinge entao plena existéncia na criagao do sig-
nificacio resultante. O Mundo I fornece 0 material, da argila e papiro
ac silicio. Quanta mais se expiora 0 Mnndo 3, mais riquezas sao pro-
duzidas pelo i\/[undo 1. Poréin —- e este é urn grande porém ~— a
ordenagfio, organizagao e gereneialnento estiio no cerne do Mundo 3.
A linguagenr, corno vimos, é a principal organizadora de nossas paisa-
gens inentais e inundiais e invocainos sen uso nao sé para organizar
0s préprios textos primarios, rnas tainbém 0s nieios que utilizanios
para deles recuperar inforrnagées, 0s textos secundzirios de sisteinas
de indexacao e resuinos. Quanta inais 0 Mundo 3 cresce, mais neces-
saries sc tornani esses services secu11dari0s.3“
4.5 Tcmas e questées
E raro 0 mes em que a revista oficiai da Library Association nao
fraz noticia do fecharnenro de bibliotecas on alguma fornia de inni-
tagfio dc seus servig0s.3° Se pudéssemos oihar para tras, da perspecti-
va privilegiada do niagico ano ZOOO, taivez tivéssemos a vantageni cle
urn foco mais nitido do que aquele que é hoje p0ssive1.Ter-se-ia pas-
sado um século e meio desde a lei inglesa das bibliotecas pfibiicas; ao
livre feriain se unido varios outros rneios cle coniunicagao; e as redes
teriain criado urn analogo césniico do cérebro huniano com rodas
suas interconexées neurais. Por que uma iciéia aparentemente tao
maravilhosa nfio den certo? Todas as tecnologias estavam dispelli-
veis; 116111111111 escriba precisava mais copiar iaboriosamente urn nia-
nuscrito, a correr contra 0 fiitinro clarfio do crepnsculo. Os fatos sao
cruéis: nunca ein inomento alguinesses recursos chegaram a ser uti-
iizados por mais de um tergo da popuiagao. Taivez haja sofrido de
uma confnsfio dc objefivos, on nunca haja tido urn obfetivo clam-
rnente definicio. Educagao, lazer c informagao possuem certa resso-
nancia oratéria como retérica piiblica, mas tentar transiorinar esses
fcrlnos em realidades concretas é tarefa dificil, ciararnente aciina das
possibilidades cie quem rrabaihava nessas ‘universiciacies do povo’.
136
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Pode-se argnrnentar que a biblioteca piibiica tern padecido do equi-
vaientc cultural de ulna esquizofrenia. Iunro coin 0 impulse utiii’ra-
rio havia 0 brago repressor do pnritanisnro. As bibliotecas pnblicas
forain criacias como bein pfiblico. Se era para gastar dinheiro dos co-
fres péblicos, isso deveria gerar aigum retorno para a c0munidade.3"
O faio dc as pessoas utiiizarern a bibiioteca pfibiica para infornragao,
estuda e educagfio pareceria, a primeira vista, justificar essa despesa,
pois se tornariam artesiios, inecfinicos, ou ingressariam em outras pro-
fisséies que afinai confribuiriam para a criagao de riqucza.
Pode-se confiar que as bibiiotecas que servemE1 ciéncia e a inc1iis~
tria fazein todo 0 possivel nessa area cle intcresse basico do Estado.
Bibiiotecas com grandes acervos de ficgfio e outros materiais destina-
dos ac iazer teriain que ser monitoradas com isengiio. Esse tipo cle
ieitura iznplicava escapisino, desejo de iugir aos desafios do naundo
real. Suponha 0 caso do cidadfao idoso, sem recursos, que paga im-
postos para que urn leitor mais préspero tome eniprestado materiais
que poderia comprar. Pagar para 0 Eazer de outro serzi tainbém subsi-
diar-Ihe 0 prazer? Dizia-se que os puritanos proibiam 0 antigo esp0r-
te dc instigar caes contra urn urso acorrentado nao peia crueldade
que isso representava, mas por causa do prazer que dava aos especia-
dores. Ha, poréln, uma teoria polérnica segundo a qual todas as coi-
sas criadas pelo homern para fins prziticos inevitavchnente transfor-
inain-sc em coisas de lazer e decoragfio. Talvez a infiexivel funci0na-
iidade da biblioteca pnblica esfeja apenas dobrando-se a LH118 ocuifa
lei da histéria a0 se tornar um centro de lazer e recreagao.“ Pode-se
aiegar que a indiistria da inforinatica segue 0 rnesino ruino. Se assizn
for, talvez faca sentido pianejar a separagfio de nossas excelentes bi-
bliotecas cle rcferéncia e acervos especializados de suas parceiras de
empréstinio dc obras de ficgao. Estas poderialn ser postas na inatriz
do lazcr, e as colegées especializacias e de referéneia ligadas elet"roni-
caniente as bibliotecas escoiares, especializadas e universitarias.
Ha anos que existein niuifos vinculos de cooperagiio, principal-
nrente entre bibliotecas especializadas e industriais. Se tudo 0 que
disseinos for verdade, entao a tecnologia 1150 é probicma. Facilitaria
0 treinamento e educagfio dos funcionarios, pois as exigéneias do 10-
cal dc trabalho seriarn facilinente expressas em terlnos curriculares.
Um érgfio de controie centralizado eiiniinaria os caprichos ide0iégi-
cos que ha tanto assoiam 0 controle local das bibliotecas pfiblicas.
137
As rccles residenciais sao uma nova tecnologia que permife que
grancle varieclade dc servigos cle inforinagao esteja clisporlivel no coni-
putador cloinéstico. Portanro, a clistancia nao é problenia. Qualqucr
que seja 0 resultado cle futuras estratégias cle planefamento, o dinl1ei-
ro fera que vir cle algum lugar. No inicio, as biblioiecas pirblicas erain
graruitas no local cle a’rencli1nento§ meclicla que os inultiineios c os
nieios clependentes cla iiiioriiiaiica se clesenvolveram, as bibliorecas
coniegarani a cobrar por esses services. Assini, tfio logo coincganros a
ter solugoes recnolégicas para os problcnias l)il)liogrfificos e cle infor-
inacao, sornos presenteados com mais problemas: quanclo, oncle, e
por que (levemos pagar por infor1nag:ao?A tecnologia gera questoes
economicas que por sua vez suscirani questoes politicas. Ten: o incli-
vidno direito a inforrnagao? Esra inforlnagfio clove ser paga? Como
clcterininar os cusfos (lessas transacoes?
Durante a maior parte (la iiistoria recente, certo tipos cle informa-
@210 ten: sido consicleraclos bens publicos.“ As iniormagoes governa-
nientais e as forneciclas por érgaos oficiais tém siclo clisseininaclas li-
vremerrre e téni siclo subsidiaclas porque sao uteis ao funcionanrento
eficiente do Estado. No setor privado a informagao ‘co1nercializavel'
é paga.“ O setor governaniental é o maior proclutor de inforniaeoes
clo Reino U1}lClO, bein coino na inaioria clos paises altainente desen-
volviclos. Ian Rowlands catcgorizou as inforniagoes colctaclas pelo go-
verno coino inforinagoes para serem utilizaclas para ‘geréncia’, ‘meri-
ro’ ou '1ncrcado’.”* A inforinagfio ‘gerencial’ ainda 0 governo a gover-
nar, einbora possa lraver um bcneficio inesperaclo para quein seia de
fora cla adininistragao publica. Como resultaclo clessa funcao admi-
rnsrrariva, érgaos (lo seror publico procluzem vasra qnanticlade de
dados legiveis por coinputaclor. Peirseinos nos beneficios prop0rcio-
naclos aos pesquisaclores cle mercaclo pelas informag_:6es censitarias.
Eis um exeniplo do setor publico auxilianclo o setor privaclo geraclor
cle riquezas. Aqui teinos 0 eontribnintc (queira ou nfio) assuinindo
papel cle iinportancia vital na clifusiio (le inovagoes e forneciinento
cle novos servigos. Acrcscenteinos que o contribuinre nem semprc
tern acesso a iniorinacoes resultantes clesta interagao entre os setores
publico e privaclo. ll. provavel que venlia a aunientar a cobranga pelo
forneciinento de inforinagoes no setor publico. O ethos economico
lierdaclo cla clécada cle 1980 é rnnito niais pocleroso em sua influéncia
(lo que a simples posse cla tecnologia disponivcl para fazerinos coisas
138
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que julgamos imporrantes. A cloutrina clo aurofinancianiento conti-
nuara a ser iinplernentada em servigos cle infonnagao e bibliotecas
pL'1blicas.O arguniento sera dc que assim recursos escassos serao mais
benr aproveitaclos. A cobranga pode servir cle eleniento clissuasorio
do usuario ocasional on para evitar que os services sejarn soiicitaclos
aciina de suas possibiliclaclcs, embora 1150 l€l1l1El111OS cerreza do que
acontecera corn a pessoa necessitada que nfio possa pagan Nao tenros
cerreza sobre como gracluar as necessiclacles cie infonnagao se estiver-
mos elaboranclo uma politica cle assisténeia aos que necessitani cle
informagao. Aguardainos unia polifica nacional de iriforniagfio.“
Espera-se que o alicercc clessa polirica nacional cle inforrnacfro seia
[11112] aanpliagao do acesso a eclucagao e £1 iorinagfio de recursos huma-
nos. Assinalainos as inter-relagoes entre clesenvolvimento industrial,
instrugéo e alnpliaggao cla base eclucacional no século XIX. Os esiorgos
subseqiientes para aunrentar a raxa cle partieipagao na eclueagao su-
perior 1150 foram um estroncloso sucesso, e a lnglaterra ainda esta
atras cle outras nagoes inclusrriais avangaclas.
Na era vitoriana, surgiranr novas universidacles, que ficaram co-
nliecidas como ‘redbric/es’ [deviclo aos riiolos aparenres dos prédios},
e no pos-guerra eriarain-se as univcrsidacles ‘plate-glclss’ [devido as
viclragas nas Fachatlas] e por fiin 0 setor universitario expandiu-se
incorporanclo as universidaclcs polirécnicas. Sao muclangas animaclo-
ras, poréin ainda estanios liclanclo inais coin promessas (lo que reali-
zagoes efetivas. A eclucagao e a forrnagfio cle recursos liumanos sao as
bases cla criacao cle CO11ll6Ci111611l'OS, que por sua vez criarao riqueza
material e espirirual. lnfelizniente, sao plantas cle crcscimento lenio
e inuiras vezes interligarlas. Por isso, ein gerai os legislaclores se (lei-
xam secluzir por H1113 visao cle curfo prazo que estimula 0 seror priva-
do ao niesmo tempo que exige cada vez mais retorno cle uma base
eclucacional carente cle recursos. Tentar criar unia polirica nacional
cle inforrnagfio coin tal cstratégia causara ulna situagao eni que 0 Es-
taclo tera cle respirar coin um so pulinao, ein terinos econoniicos.
Se nos for pcrmiticlo, por um momenro, retornar Z1 nossa vellia
amiga, a ‘clisfancia espacial', esre fator ‘rem siclo freqiientcmente ulna
barreira ao acesso ao ensino superior. Open University clevein ser
creclitaclas nossas filosofias atuais e a eclucagfio E: clistaricia. Esta for-
ina cle estudo nrelliorou 1l1Uil'O gragas E1 recnologia cla iniorrnacao. O
fator inobiliclacle tanibéin esta sendo pesquisado, c cursos nloclulares
139
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permitein ao aluno transferir-se de uma area para outra e também
tazer cursos em tempo parcial on integral seguntlo suas necessidacles
e tlisponibiiiclades. Por exenipio, a estrutura do semestre~pa(lrao cle
15 semanas trara as vantagens cle unia estrutnra modular e transfe-
réncia cle créclitos. Esta reestruturagao do ano letivo oterece duas oca-
sioes reguiares cle ingresso, 0que é especiaimente iniportante para
aiunos cle meio periodo, do cursosprofissionais ou que rnantenliam
taniilia. Esta ruptura com os cursos lineares pcrrnitiu que as cliversas
iacetas das ciéncias cla inforniagao e coniunicacao fossein exploratlas
criativarnente em diterentes percursos cle estudo. O processo cle ‘aber-
tura’ aincla ‘rem um longo caniinlro, principalnicnte para climinar as
barreiras que se erguem contra os earentes cle recursos e climinuir a
clistfincia entre ‘ricos’ e ‘pobres’ cle informagiio. As leitoras estarfio
acompanhanclo esse progresso coin olhar critico, uma vez que 0 pri-
meiro escritor cle que se tem registro teria siclo uma mulher.“’
Notas e referéncias
1 A biblioteca cle Alexandria esta sendo reconstruicla. Ver tanrbém uni periodi-
co muito can com 0 mesmo titulo: Alexclmlricl: Iournrrl ofNational and International
Libraries, eclitaclo por M.B. Linc e publicaclo pela British Library.
Z Lucio Cornélio Sula (138-78 aC). Ditaclor romano. As obras cle Aristoteles,
que clurante algum tempo estiveram escondiclas, cairanr em suas mfios como parte
de um processo de confisco.
3 Seu equivalente nioderno é a colegfro dc obras cm reserva, ou empréstimo cle
curto prazo, encontrada na maioria cl-as bibliotecas universitarias.
4 Ver: THOMPSON, Iamcs. University library history: an overview. London: Library
Association, l980.
5 Leitura recomendada: DAY, Alan. The British Library: structure, functions
and services. London: Library Association, I988. Ver tanrbém: The British Library.
For scholarship research and innovation: strategic objectives for the year ZOUU. London:
British Library, 1993.
6 Thomas lefferson (1743-1826). Terceiro presidente dos EUA. Os ingieses
dcstruiram a Library of Congress na guerra cle 1812. Iefferson ressuscitou-a venden-
cio-lhe sua biblioteca particular e seu sisterna de classificacflo.
7 Ver: MURlSON, “ll. The public library: origins, purpose and significance. 3.
ed. London: Library Association, 1988. Principalmente 0 capitulo sobre cobranga
pela prestagao cle servigos cle bibliotcca.
8 A filosofia utilitarista exerceu grande influéncia na politica e no p1aneiarnen-
to social vitoriano. Para um estudo espccializaclo ver: BLACK, Alistair. Social origins
ofthe public library in the nineteenth century. London; Polytechnic of North London,
1989. Tcse cle cloutor-ado.
140
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_ 9 Sobre os antecedentes gerais ver: USHERWOOD, Bob. Public libraries and
public lenowlerlge. London: Library Association, 1938.
10 Em oposigao ao bcm pnblico, que é coirrpartilhaclo; a iluminagao das rugs é
um exemplo.
1 1 Ver: KAYEI, David. information and business: an introduction. London: Bingley,
1985.
12 Ver: BRIT‘T‘r\IN, ].M., MCDOUCALL, I. The use of information in the NHS.
London; British Library Research and Development Department, 1992.
13 Ver tambérn o trabalho do PICT (Programme on Information and Commu-
nication Technologies). Contatoz University of Newcastle upon Tyne, Newcastle NE1
7RU, Inglaterra.
14 Ver: BURTON, Paul. Information technology and society: implications for the
information professions. London; Library Association, 1992.
15 Ver o trabalho do Office for Library Information and Networking cria(lo pela
British Library na University ofBat11. O objetivo é pronrover o uso cle redes nacio-
nais cle informagao no Reino Unido. Ver sua publicacao mais recente: Networles,
libraries and information for the United Kingdom.
16 LAVER, Murray. Information technology and libraries. London: British Library,
1993.
17 Ver: HALL, ]., PRESTON, P. The carrier ivave: new information technologies
and the geograplry of informcltiorr 1846-2003. London; Unwin Hyman, 1988.
i3 Ver a coletanea de trabalhos: National Preservation Office. Conservation in
crisis. London: British Library, 1937. '
19 SHAKESPEARE, \'Vllll2liTl. Trrzballios cle amor perdidos, 5.° ato, ccna 1.
ZO MCKENZIE, DE Bibliography and the sociology of texts. London: British
Library, 1936. 70 p. Altamente recomcnclado por causa do tratamento cl-aclo ii
tecnologia (la informagao e Er bibliografia.
Zl The Iournal of Documentation. London: Aslib (Association for Information
Management), triinestral. Enfaticamente recornenclaclo no que se refere a material
a ser utilizaclo ern trabalhos e projetos iinais cle curso.
Z2 Para um enfoque especializaclo ver: FIELD, D.l\/1. The early evolution of the
authoritative text. Harvard Library Bulletin, v. Z6, p. 8}-111, 1928.
Z3 Os romancistas as vezes se valem dessa técnica. Obras cle teatro on cinema
cle cunho historico as vezes tundenr fatos e ficgzao. Os espectaclores em gerai sao
advertidos cle que o espetaculo se baseia em fatos cla vicla real. Em virtucle cle nfio ser
imecliatamente aparente o grau preciso clo que é fato e do que é ficgfio, esse género
pode gerar polémica. Tanto exernplos impresses quanto cla televisfio poclem ser de
dificil classificagao em termos cle biblioteconornia e ciéncia cla intormagfiio.
Z4 Ver, por exeniploz BA'F't'Y, David. An irrtrocluction to the twentieth edition of
the Dewey Decimal Olclssificcltiorr. London; Library Association, 1989. Uma util fer-
ramenta para 0 estudo autocliclata.
Z5 Tecnicamente, criptogratia significa converter em codigo uma mensagern
escrita enr linguagem comum. Sobrc essa area cla transferéncia cle informagoes ver:
\l\/RIXON, EB. Code ciphers and secret languages. London: Harrap, 1989.
Z6 Urn guia util é: 1\/ICALEESE, Ray. Hypertext; theory and practice. Oxford:
Blaclnvell, 1989.
I41
1" 1
Z7 Colnparar c0111 pr0b1e111z1s dc ‘fixidcz’ e111 direifo auroral 110 capitulo 61
Z8 Ver; ROWLEY,]e1111ifcr. Abstractingarldindexing. London: Library Association,
1989. Uma i11tr0dugz"1o, dc lcitura ;1gradfiv€], sobre 11111 campo 11111110 compicxo.
Z9 I11fitul21d;1 Library Association Record. Dist1'ibufd:1 aos sécios cla Library
Ass0ciai'i011. U111 pouco 111z1is austcro 111215 11e111 por isso menos fitil é 0 Iournal of
Irrfomzation Science publicndo pelo Institute of §11E0r111-M1011 Scientists.
30 Ver: NORTON, B. Charging for library and ir1fonmltio11. services. London: Library
Association, 1988, Ver ta111bé111: ROBERTS, SA. Costing arid the economics of library
and information services. London: Aslib, 1984; BMLEY, SJ. Ci1;1rg111g for public library
services. Policy and Politics, v. 17, 11. 1, p. 59-74, I989.
31 21 teoria do H01110 ludens do Eilésofo-l1isl01‘iz1(]01 }0l11111 HL1izi11g21. Significa
1itc1"z1l111c11("e ‘h0111c111q11e brinca’. Assim que 110s z1fz1sta111os do f1111ci011al (por exem-
plo, crega, pcsca) f-=1',:e1110s essas coisas por prazer. O inteiecto 11lc:111ga 0 111;ixi1110 dc
criatividade qurmdo b1'i11c:1.
' 32 B6111 que 11510 so pode rccusar :1 um i11c|ivid110 sem que se rccuse a todos. P01‘
excmplo, 11510 é possivel privar alg11é111 dos servigos dc il11111i1111g§10 priblica, policia,
defcszl e simi]21res. Dcvido :10 Estudo poder captar receita por meio dc imposfos,
s0n1el1i‘e ele pode fi11:111ci111' 0 f01'11eci111e11t0 dcsscs bens plibficos.
33 A il‘l(1l:1Sfl’i£l f111‘111;1céutic:1 é bom exempio dc L1111 ator ilnporhlntc (holniiws
ludens?) da ec011o1111z1 das 1111<_;6es desenvolvidas. Calcula-se que 11 C0111u11id21(1e Eu-
ropéia emp1‘egz1 mais cle meio 1111111510 dc pessoas no s€['0r, A i11E0r1112g:€10 é vital para
e1ti\/idades dc QEYO risco €C0n(°J111ic0, Como 1100111606 00111 21 pcsquisa, c1ese11voEvi111e11-
$0, registro e c0111c1'ciz11izz1§z'10 dc 111cdica111<-:11t0s, vigiE§11cia pés-vc11cI;1s e bar1'cirz1s £1
fre111s§eré11ciz1 dc i11f0r11111gE1es. Ver: I"IAYGARTH-}s\CKSO1\€, Angela. Ph:1r111z1cc-zuticals:
an i11[0r111z1t1011-based 1'11dusfry. Aslib Proceedings, v. 39, 11. 3, p. 75-86, 1987. C0111-
parar c0111: GINN, D.S. AIDS i11f0r111z1i'io11 crisis. B11lleiir1 of the Arrwrican Library
Association, 1'. 42, p. 33-40, I987.
34 ROWLANDS, 1:111. T1'z1deable i11f0r111ati011: issues in public-private synergy.
ASSIG, Aslib Social Sciences Newsletter, v. IO, 11. 3, p. l—9.
35 Ver: GRAY, 101111. National i11f01'111r1ti011 policy: 111ytl101'111agic, Alexandria,v_ l,
11. 3, p, 21-30; MALLEY,1z111. Nzltionzll and i11tcr11z1ti011z1l inlperatives of :1 UK11z1t1011a]
i11f01'111ati011 policy. Aslib Proceerlings, v. 42, 11. 3, p. 89~95.
36 T121111-se dc E1131eduzu111-=1, sacerdotiszl su111ériz1 do terceiro 111iEé11i0 -11C. Seus
poemas sobreviveraln e111 tébulas 01111:-:iFor111-es. E até sabemos qual era sua aparé11-
cia: u111 111i11uci0so rclevo dc seu rosto s0brevivc11u111 disco dc calcério. Ver: BANSTONE,
A. (ed) A book 0f1v0111e11. poets. New York: Scl10cl<c11 Books, 1988. Ver t21111bé111:
'l'OMLINSON, A1111. Half as zmrrly: twice a:1‘p01ver/’u.I: 1v0111er1 in publis/"ling, London:
P01)/tcc]111ic of NOIH1 London Press, 1989.
142
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Capitulo 5
A organizagéo social do conhecimento
e da infonnagéo
5.1 Classificagéo bibiiogréfica
Os capituios zmteriores c011ce11’rrz1rz1111-sc basic21111e11te nas ‘formas
exteri0res', 11:1 corporificagéo fisica dos 111ei0s dc i11f0r111:1g§10 c na or-
gt111iZ21<;.i0 i11te1cctua1 cla i11f0r111z1g€10 11e1cs coutirla. Ncste capitulo
voltamos nossa atengéo para 0 que cha111z1111os ‘formas i11t<:ri0res', isto
é, :1 11atureza do colatefido do pc11sa111e11t0 e idéias, sua criagfio e rela-
§fi0 com a sociedade. T21111bé111 veremos 001110 11 1121turcza social dos
seres lauananos por sua vez infl11e11cia 0s produtos do infelectoz 11111
campo que um fzunoso pensador dc11o111i110u episternologia sociai
[fesse Shara (E903—198Z)]. Exa111i11e:110s por u111 i11st"a11te a seguintc
entracla bibliogrzifica da British National Bib1iOgrcl{Jhy:
POPE, Mrlurice .
The story of deciplu-:r111e11l' from Egyptian l1ier0glyp11ics to Linear B. by
Maurice Pope. London: Thzrnles and Hudson, 1975-Z161). iH.Eacs111s.111;1p
(c0I.)p01'ts.;Z5c111 ('I"11ird \*\/orlcl of ArcI111c0l0gy)_ Bibliogs.
E111 prin1e11'0h1g:1r, Irata—se dc 1.1111 sucedfineo do docu111e11to real,
que funciona 001110 1111121 breve inclicagfio 110 czlfzflogo da prc-:sc11ga do
livro 11:1 bibliofeca. T21n1bé111 fornece 0211111111103 pelos quais sc pode
chegar 51 eoisa real que ele represeuta. A abordagem autoral é impor-
tanfe, pois 0 autor é a pcssoa i11tclcc1'11a1111e11tc rcsp011sé\/cl pela cxis~
téncia do livro. O fitulo distingue a obra dc outras que trata111 do
111es111o assunto. U111 sistema dc catalogagfio eficicntc lhe proporci0-
11ar2'1 11111 021111111110 dc pcsquisa por 1111110, se vocé 11510 sc le111brar do
1101116 do autor. A ciescrigfio 11161111 0 c011s1.1le11te para qualquer camc-
rerfstica especial que scja adcquada aos seus propésitos. Como se
trata dc assunto técnico, talvez H16 seja 1'1‘riI uma apresc11ta<_;2'10 visual,
e assim temos ilustragfics, fac-si111iI<-rs, u111 mapa colorido, com vzirios
rctratos das pessoas famosas ncste campo. A 111E0r111ag§'10 sobre série
incfica que se trata dc um item dc 1.1111 grupo dc livros publicados
143
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sobre topicos atins e111 arqueologia. S510 tantas as vantagens cla cata-
logagfio intormatizada que potlernos realizar buscas sob qualquer 11111
desses aspectos (la obra. O assunto pode ser estudado clos pontos cle
vista de vérias especialidades: paleogratia (estuclo das escritas anti-
gas), epigratia {inscrigoes antigas), arqueologia (estuda das antigas
civilizagées), sem falar dos historiadores do ar111aze11a111e11t0 e recu-
peragao cla i11for111a<_;f1o. E111 esséncia, 21 obra c011té111 paclroes con-
ceituais corporificaclos 11a torma cle signos e simboios que sao inten-
cionalrnente estruturaclos 001110 111e11sage11s com signiticaclo. A tor-
11111 exterior é a cle 11111 livro cle Z5 cm cle aitura, contenclo mapas,
totogratias e ilustragoes. O assunto perinanece 0 111es1110, embora as
tonnas de apresentagao tisica e i11telect1_1al sc 1110diiique1r1. Pode-se
ter u111 dicionzirio cle escritas antigas e111 cederronl. Revisoes anuais
cla literatura ou anais cle eventos podem ser expresses em braile 011
bfilgaro, mas a ‘forma interior’ cla obra continua a 111es111a.
Poclernos visualizar esse contelido teinatico 011 ‘torma interior’
001110 11111 cliaanante de muitas facetas, e111 que cada facets oterece
11111 ca111i11l10 cle busca para q11e111 estiver 1 procura cle i11f0r111ag6es
relevantes. U111 métoclo seria por meio do estudo de inscrigoes anti-
gas, outro poderia escolher a epigratia, ou :1 histéria clos sistemas cle
escrita. A obra poderia tan1bé111 conter i11for111ag6es relevantes para
u111 tema cle pesquisa sobre 21 historia cla antiga Creta, arqueologia
egipcia, talvez ate lingijistica ou a llistoria cla co111u11icag€1o l1un1:111a.
As idéias co11ticlas no texto t0r111a111 11111 tecido urclitlo c0111 vzirios
fios. Esses tios ligam 0 livro 21 1111121 rede cle conceitos e111 outros livros
e pcrioclicos nas areas teinéticas que 1ne11ci011a1110s, e pr0vavel111e11te
e111 i111i111eras outras. A bibliografia indicada 11a clescrigfio do livro re-
vela a clivicla clo autor 00111 outros autores 11:1 sua propria cspeciali(ia-
de e e111 outras. Esta lista cle fontes te111 ilnportante fu11§€10 na co111u-
nicagao e organizagfio do co11l‘1eci111e11t0, como veremos. O resultado
é a c011tril:»uiQ5o do autor a u111 debate publico sobre as incertezas e111
areas especiticas do co11l'1eci111e11to que clesig11a1110s ‘disciplinas’.
Se vocé tiver algulna vez percorrido as estantes cle livros cla bibli-
oteca (le sua faculclade ou cla biblioteca publica local, talvez tenha
notaclo certas divisoes cle assuntos 001110:
109-199 Filosotia
ZOO»-Z99 Reiigifio
3U{}~399 Ciéncias Sociais "'
'3.
l
l1
400-499 Lingua
500-599 Ciéncia
600-699 Tecnologia
700-799 Belas-Artes
809-899 Literatura
999-999 Historia, Geogratia, Biogratia
Na ter111i110logia cla classiticagfio essas sao as ci1a111aclas classes prin-
cipais e poclem ser subclivicliclas e111 areas menores do conl1eci111e11to,
que 110 decorrer clote111po tenclern a se expandir e produzir areas cada
vez menores cle estuclo e pesquisa. Para liclar 00111 essa evcntualiclade,
o criaclor do nlétoclo, l\/ielvil Dewey (1851-1931), utilizou uma nota-
gfio (l<~:cin1al para reiletir as etapas das ge11eraliclacles mais al)rz1nge11tes
as especiticagoes mais estreitas. Assiln, 001110 torma cle exemplo, te-
1110s 0s seguintes graus cle divisao;
Ciéncia 500
Ciéncias cla Vida 570
Biologia 574
Fisiologia 574.1
Respiragfio 574.12 _
Aerébica 574. 121
O acréscimo cle cacla algarismo apés o ponto clecimal indica uma area
mais cspecializacla. Como 0 leitor deve saber, este tipo de subdivisfio
1150 iunciona de 1110clo perfeito e111 todos os assuntos, mas 0 impor-
tante é que Dewey estava ciente de que 0 conl1eci111e11to era 11111 “or-
ga11is111o e111 crescimento", segundo expressao dc outro teorico cla clas-
sifieagao.‘ Apesar cle tucio, 0s estorgos para cocliticar e representar as
111t0r111ag6es registradas “neste e em outros esquemas" 111ostra111 a
necessicladc cla tarefa e os pressupostos e111 constante ruutagao sobre
os quais so baseiam os métodos requericlos. Para cornegar, que sfio
clisciplinas? Como se 0rigi11ara111? Estavam escritas e111 alguin qua-
clro-negro cosmico que 0s estucliosos e pesquisaclores iriam Clescobrir
e iclentiticar? Como se moclificaln e se desenvolveln? Possuem camc-
tcristicas especiais que i11tl11e11cia111 :1 c0111u11icag€10 cla intonnagfio?
5.2 As origens sociais das disciplines
Oualquer colamniclacle que queira sobreviver precisa garantir que
144 14s
certas habilidacles seja111tra11s111iticlas cle uma geragfio a outta. Obser-
vamos isso quanclo l'ra’1amos cla natureza da culrura no capitulo Z.
Essas halyilicladcs poclem ser 0011s1ste11tes e praticas; podem ta111bé111
ser sociais e inrelectuais.
l11eviravel111e11te, certas apticloes vé111 a ser mais valorizadas (lo
que outras, e q11e111 as possni gozara cle u111a posigao cle prestigio cor-
resp011cle11te — sejaln 111610101 da Atenas anfiga, teélogos cla Europa
111eclie\/al, 011 laiélogos, fisicos 011 cientistas cla computagfio cle nossa
propria época. O sisreina educacional oferece 11111 111é‘roclo formaliza-
do cle tra11smissf1o dos c011l1eci111e11tosculfurais, intelcctuais e pré1ti-
cos cla nacao. A0 fazé-lo, refletc 0s valorcs sociais c011te111p0rf111c0s 11a
selegfio das matérias que serao ensiriadas nas escolas. Esta selegfio
das matérias faz partc do que resolvernos cliamar curriculo, uma es»
pécie (le classificagfio dos assuntos que co11sicle1'a1110s cle maior 1111-
portfincia, e por c011segui11’re 0lJriga1110s nossos filhos a aprender. Es-
ses assuntos e temas geral111c11te perteiicem a agrupa111<~:11t0s 111211011-zs
cle co11l1eci111e11t0s que cl1a111a1110s disciplinas acadéniicas. Podemos
descrever cle modo iitil essas disciplinas acaclénucas 001110 11111 ‘reta-
l11a111e11t0’ cla totalidacle do c011l1eci111e11t0 111111121110 em segmentos
111a11ejr'1\/eis cle ‘Korma que p0ssa111 scr aprenclidos 0 tra11s111iticl0s 00111
mais facilidade. Dc fato, pode-se alcgar que a maioria dc nossas disci-
plinas académicas, se 1150 toclas, deriva cle alg11111af0r111a dos curricu-
los escolares que 110ss0s antepassaclos criaram ao longo dos séculos.
As sociedadcs, para alcangar clese11v0lvi111e11to e progrcsso, 11510 po-
cle111 tcr seu f1111ci011a111e11to clepeiidente do principio cle que roclo
1111111d0 pode fazer qualqucr coisa. A base cla cficiéncia esta 11a espe-
cializagao planejacla cle fuiigoes, c01110 110s i11fo1111a111 0s especialistas
0111 ad111i11istra<;fio. Este principio é 0 111es1110 tanto e111 a<:l111i11istra<;€1o
industrial quanto 110 111u11cl0 do saber. Alguns cientistas co11ce11tra111
seus interesses nas ciéncias cla vicla, outros buscam 11a biologia pro-
blemas a pesquisar, outros se especializam cle inicio e111 fisiologia,
mas clepois voltam sua ate11g:§i0 para 0 SLll)C£Ul1pO mais especializaclo
cla respiragio, até que por rim alguns poucos cleclicaclos e11c011rra111 a
chavc dc todos 0s problcmas 110 estuclo cla acrobica. A 111e(lici11a rc-
flete essa especializagfio de fungoes 0111 grau ainda maior, e a 111es111a
teoria permeia 0 pla11eja111e11ro social. Atende-se 210 lJe111-estar co-
11111111 quanclo cada 11111 executa 11111 servigo especializaclo e111 be11cfi-
cio dos clemais, e por sua vez pode confiar 110 servigo cspecializaclo
146
que eles prcstam. Nas socicclades i11dus’rriais modernas esses especia-
listas te11cle111 a se situar c111 dois grupos principais: aqueles cuias l1a-
biliclades 11510 i111plica111 11ecessaria111e11te filosofar sobre a iiaturcza
do que fazeni; e outros que clesraca111 a pesquisa, reflcxao e critica
como os ele111e11ros fu11cla111e11tais cle suas ativ1clacles.
A pr1111eira categoria reflete a disposigfio corncrcial 011 prética; a
segusicla refiete a do profissional e do acad€:111ic0. A clistingao rraclici-
onal entre inesrre-cle-obras e arquiteto ilustra uni aspccto pertincnte.
Supoe-se que 0 l116SlTl'C—Cl6—Ol)I'3S co11ce11tra-se 11a ativiclacle especifica
e imediata e e111 geral 11510 ’rc:111 preocupagoes quanto 51 i111p0rt2“111cia
social cle seu oficio 011 do lugar que cle ocupa 11a liistoria cultural. O
arquiteto precisa levar em c011siclerag§1o os c€111011es estéticos do pro-
jeto arquitcténico, a evolucao histérica dc suas apridoes pr0fissi0-
nais, a arte e ciéncia (la etliFica<;€1o e111 oposicfio 51 incra co11st'rug€10.
T211110 0 arquifeto quauto 0 inestre-cle-obras farao seus cursos, 111as 0
primeiro se formara 111111121 Lmivcrsiclacle rec011l1ecida e conquistara,
11a lnglaterra, 21 concligao cle 111e111l31'0 associaclo 011 titular cle 1111111
associacao profissional.
A disringfso que os ingleses traclicio11al111e11te faziam entre cava-
lheiro e 11e_g0cia11te ainda persists e111 varias areas da ativiclade 111111111-
11a. Se aceirarinos a proposigfio clisc11t1'vel dc que a arquitetura é uma
disciplina cientifica, quais os pressupostos sociais e intelectuais que
estarc-:1110s acl111iti11cl0? U111a clisciplina cientffica é 11111 campo organi-
zado de iilvestigalgfio (1 qual se dedicrr uma comunidade de pessoas qua-
lificadcts. Esta é uma clefi11igf1o geralmellte aceita. A palavra ‘organi-
zada' é i111p01"ta11te; 1150 pode ser uma 1110111 coletiviclade aleatéria cle
pessoas, é preciso que haia alg11111 tipo cle esrrutura. O conceito de
c0111u11idade indica 001110 0 1011110 'cliscipli11a’ cleriva cle discifmlus,
cliscipulo, alg11é111 que aprende c0111 0s e11si11a111c11tos de 11111 111estr<-:.
O pressuposto social subiacentc baseia-se 11a divisao do tral)all10. A
c0111u11iclacle recebe cla sociedade maior a 111iss§.o dc clesenvolver, i11-
vcstigar, analisar e pesquisar alguns aspecfos clo 1111111clo fisico, moral
ou social. E'.spera-se que estes profissionais e estudiosos afuem como
autoricladcs c111 suas cspecializacoes cle escolha; cspera-se que 1119111-
te11l1a111 c 111o11it0re111 paclrocs cle eficiéncia, e que 11se111 suas l1abili-
cladcs para proteger 0 be111-estar social em roclas suas 111a11ifestag6es.
Essas obrigagoes constitucln 11 vocagao cle 1111121 disciplina especifica.
Mas, vocé retruca, parece que 111111tas clisciplinas 11510 fazeln coisas
147
"<1
praticas co1110 0 nosso arquiteto, citado 11a pouco 001110 exemplo.
verclacle. Pode-se ostuclar arquitetura se111 que se tenha 11ecessaria-
111e11te a i11te11<;ao cle exercer 11a prética as apticloes especiais do arqu1-
teto; 0 111es111o se pode dizer do direito; e, mais perto cle nos, pode-se
estuclar a biblioteca 11a sociedade, 011 a psicologia cla i11f0r111ac€1o s1-2111
a i11te111;ii0 dc seguir carreira e111 qualquer clestas areas.
A palavra acadérnico é problematica, e 11111itas vezes seu sentido é
deternlirlaclo pelas i11te11g6es de q11e111 a einprega. Quanclo as univer-
siclacles européias torain tunclaclas, cleclicavam-se 51 fonnagfio cle pro-
tissionais e111 111eclici11a, teologia e direito. C0111 0 passar do tempo, o
termo ‘acadé111ic0' aclquiriu a conotacfio cle i11vestigagfio intelectual
pura, isenta cle corisicleragoes cle 11s0 e aplicagoes praticas.
As clisciplinas 110s perinitein <tlisti11g11ir e11tre c011l1eci111e11to e mera
opiniao. As pessoas té111 opinioes sobre toda espécie de coisas, e, cle
tato, poss11e111 0 clireito cle té-las. O prolJle111a esta 11a 111a11eira como
essas opinioes sao torniaclas e c01110 se fu11cla1nen1‘a1n. As opinioes
poclem surgir cle impressoes tugidias, de boatos 011 leituras e11ga11o-
sas. A clisti11g:f1o entre c011l1eci111e11t0 e opiniao é importanto. O co-
11l1eci111e11t0 é 0 resultado de investigagao critica e clisciplilmcla, cria-
da e (lesenvolvicla pelos critérios de jrrstificagdo e validade. Os claclos
e i11for111ag6es que constitueni as opinioes sao tratados cle certas for-
1_11as especiticas antes cle se1e111 aceitos 001110 co11l1eci111e11to. Estas
‘formas especiticas’ difereiiciani a orie11ta<;€1oj11riClica 011 111édica qua-
liticada clas opinioes cle 11111 rabula ou uma benzedeira. As cliseipliuas
baseaclas 110 c011l1eci111e11to sao, cle taro, siste111as sociais coinpostos
por pessoas que c0111partill1a111 1111111 area dc i11vestigacao. C01110 a
maioria clos sistemas sociais, possue111 u111a visiio especitica da reali-
dacle que llies é prépria. Contain 00111 um sistema cle co111u11ica(_;f1o e
certas regras para atingir exccléncia e111 seu campo proprio. Ta111l)é111
se se11te111 110 clever cle garautir sua co11ti11111clacle como grupo recru-
tando e for111a11d0 novos 111c111l>ros.
As ‘tonnas exteriores’ (la clisciplina c0111pree11cle111 suas realizagoes
e artetatos concretos ju11ta111e11te c0111 s11as publicacoes. O corpo bi-
bliografico cle u111a disciplina pode variar desde 0 manual diclatico
i11trocl11torio do iniciante até as altas elucubragoes cle 11111 simposio
i11tcr11acio11al. Te11te1110s isolar as principais caracteristicas clas disci-
plinas e icleiititicar o que $60 e 0 que 1160 scio.
° U11121 disciplina 11510 é apenas uma colegao aleatéria cle opi11i6es
148
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surnarias e regras e111pfricas para a resolugao cle problemas. Os
conceitos e idéias centrais da clisciplina sao interligaclos, classifi-
caclos e coorclenaclos. Dizernos que uma clisciplina possni 1111121
geogratia conceitual que é peculiar 51 sua 11at11reza e finalidade.° Cacla clisciplina classitica se11 dominio te111atico cle 1111121 torma espe-
cifica. As disciplinas cientfticas te11de111 a surgir e se clesenvolver
cle 111a11eira classificatéria. Alguinas caracterizain-se clisti11fa111e11-
te por essa ativiclacle. A biossistematica 011 taxio110111ia dos seres
vivos possni a 111ais i111p011e11te cle toclas as diterengas classiticato-
rias. Divide-se e111 rei110 a11i111al e vegetal 011 disciplinas cla botani-
ca e Zoologia, respectiva111e11te. A entomologia é exemplo cle disci-
plina que ainda esta e111 sua Ease taxionomica preliminar. Os pes-
quisaclores co11ti11ua111 clcscol)ri11clo 1101/as espécies de insetos.
° Cacla clisciplina possui tanto 11111a estrutura oral quanto doc11111e11-
tal por meio cla qual icléias poclem ser preservaclas, tra11s111iticlas,
avaliadas e valicladas. Como veremos adiante, as tormas cl0c11111e11-
tais de u111a clisciplina variarao segundo sua natureza e finaliclacle.
° As clisciplinas va1ia111 11a i111port.1'i11c1a que llies é atribuicla pelo sis-
tema de valorcs cla sociedatle maior.
° As clisciplinas baseaclas 110 co11l1eci111e11t0 c as profissoes rec011l1e-
ciclas e111 geral se inter-relaci011a111 cle torma complexa.
° Oacla clisciplina possui proccdinieiitos para recr11ta111e11to e tor-
~ inagao cle futures 111e111l)ros.
Como 0 estuclo de clisciplinas baseaclas 110 co11l1eci111e11t0 1105 cliz.
respeito 001110 profissionais cla i11tor111aga0? U111a parte i111p0rta11te
cla resposta que se pocle dar deve ser que os protissionais (la i11tor111a-
géio licla111 00111 pessoas. Liclainos 00111 pessoas e111pe11l1aéas e111 ativi-
dacles especiais: criagdo, registro, arrnazenanwrlto, recuperagfio, disse-
nzinagcio e uso cle i11t0r111a<;6es. E111 11111itos casos elas usam essas 110-
vas i11fo1'111a<_;6es para comegar a criar i11tor111a<;oes e repetir todo 0
processo 1101/a111e11te. Estamos euvolvidos cle f0r111as 0 cliferentes graus
cle i11te11siclacle 11iss0 que podemos cE1a111ar ciclo da i11fornmgd'0. Co1110
editores, reclatorcs, traclutores, inclexaclorcs, bibliotecarios, arq11ivis-
tas, projetistas de sistemas, gerentes clei11tor111agf1o, precisamos saber
certas coisas a respeito clas pessoas a q11e111 servi1110s se quisermos
executar 11osso tral)all10 cle111a11eira eficiente. Precisamos saber 001110
as pessoas i11l§or111a111 as outras e 001110 se i11for111a111. Profetar u111 sis-
149
te111a (le i11f0r111aga0 para fisicos nucleares acarretara liipoteses radi-
caliiiente cliferentes clas ue fariamos a0 criar 11111 sistema similar ara
' ‘ v 0 Pespecialrstas em arte l)1za11t111a. O trabalho do profissional cla infor-
macao inclui ‘c011l1cci111e11to sobre c011l1eci111e11t0’, uma espécie de
eplstcinologia aplicada. U111 profissioiial cla i11f0r111a1_;a0 pode ser cle
tato especialista e111 cletermiiiaclo assunto e 001110 tal seria cl11pla111e11-
te abeiigoado ao servir a se11s colegas cle especializacao. Quando se
trata cle outras especialiclades e clisciplinas, clai a vicla fica mais diff-
cil. O t1)0 cle co11l1eei111e11t0 ue 0 rofissional cle i11f01111a E10 0ss11iQ
pode ser coiiiparaclo 00111 1111121 cspécie dc ‘geografia do c011l1eci111e11-
to’. Podemos utilizar u111111apa do metro cle Loiidres para nos locomo-
vermos ela ca ital in lesa, 111as isso 1150 é 0 111es111o ue reiviiidicar_ CE
que possuinios u111 c011l1ec1111c11t0 cletalliado cla ciclade. As estagoes e
suas coiiexoes p0cle111 representar 0 aparato bibliografico que regula
0 fluxo dc 111for111ac€10 (lo assunto. Podciiios exa111i11ar outro ass1111t0
e111 terinos dc perguntas. Por exeinplo, é possivel represelitar a estru-
tura 111ter11a dc coiiiunicagocs niecliante perguiitas basicas 001110:
QUEM esta clizendo 0 QUE a QUEM, por QUAL canal, e c0111 QUE efeito?
DOCUMENTOS <_l_+ PESSOAS
SUBSISTEMA <—I—> SUBSISTEMA
C0111 este pequeno cliagrania pode-se represeiitar 0 fluxo cle informa-
goes 11111_11a cliscipliiia 11a torma cle dois subsistemas ligaclos e i11terati-
vos. Como todos 0s sistemas, 0 toclo é maior (lo que a so111a das par-
tes. N0 sistenia cle docuineiitos, livros relacionani-se 00111 outros li-
vros, livros 00111 periodicos, pcrioclicos c0111 periodicos, e bases cle claclos
00111 lJases cle dados, e varias per11111tag6es e conibiiiagoes. Esta intera-
9510 1150 é 111e110s vcrclacleira 110 subsisteiiia de ‘pessoas’ e111 que 0s
especialistas c0111u11ica111-se entre si por meios formais e informais. O
subsisteiiia clocuiiiental é ainda catcgorizaclo pelo modo 001110 se es-
trutura a produgfio (le p11l)licac6es. Veia-se 0 exeniplo da ciéiicia cla
i11f0r111agZ10, que é (questiona-se) uma cliscipliiia. A rede coiiiega 00111:
Tcxtos iiitroclutorios, p0p11la1'izac6es
l\/loiiografias cspecializadas, relatorios cle pesquisas
Perioclicos, anais cle eveiitos
Revisoes bibliograficas a11uais
150
l1
1...
Servigos cle resunios e iiiclexagao
Bibliografias — c0rre11tes c retrospectivas
A estrutura social pode ser representacla por:
Estuclantes, professores, pesquisaclores, profissionais
Organizagoes profissioiiais
Organizagoes nacionais e i11ter11aci011ais
O leitor tera percebiclo que esta a1110stra cle estrutura (lepenclera
cla natureza da CllSClplll121.3 Oleitor estarzi correto. A 1111'1sica, por exem-
plo, é u111a cliscipliiia cle longa reputacao 00111 suas proprias foririas
peculiares cle transferéiicia cle i11f0r111ag:€10. Seria natural e11c011trar
categorias para concertos, recitais e partituras musicais. Dominios
vastos c: extensos 001110 a quiniica 111erece111 por si sos u111 estuclo cle
co111u11icaca0.*
5.3 Padroes (ie cresciinc-:11to das disciplinas
Por mais teérica que seia ulna clisciplina, suas origeiis e11c011tra111-
se e111 alguin tipo cle 11ecessiclacle social e ela ta111l>é111 satisfaz a alga-
111as das necessiclacles sociais cle seus 111e111br0s. N50 menos i111p0r-
tante entre essas necessidades estao a curiosiclacle iiitelectual e a auto-
esti111a. O cresciniento é 11111a aiialogia biolégica e nos ajuda a esclare-
cer os paclroes canibiaiites (la foriiiagao cle (lisciplinas. Alguinas disci-
plinas assc111ell1a111-se a 0rga11is111os 11a f0r111a 001110 retira111 seu sus-
tento do aiiibiente criaclo por outras clisciplinas. A iiiforiiiatica tem-
se beiieficiado de progressos 11a psicologia cognitiva, que pesquisa a
apreiiclizagcni l1u111a11a. Outras, 001110 as ciéncias bioiogicas, cresceni
c se clivicleni e111 areas 111ais especializaclas e finaliiieiite estabelecem
sua propria i11depe11clé11cia. A genética é u111 bom exemplo desta ten-
cléncia. A geografia é 11111 bom exemplo cle todas as clisciplinas que
cresceni por acrésci1110 011 colonizagao. Quanclo Dewey elaborou seu
sistema 110 final do século XIX, geografia era apenas 11111 ter1110 culto
para se referir a viagens e descrigoes. Elc a esprenieu, cleixanclo-a quase
invisivel, iunto 00111 l1istoria e biografia. Esse assunto é sabiclaiiicnte
clificil cle aclmiiiistrar e111 ter111os cle classificacao e recuperagao, pois
a ele tém sido a11exadas varias posicoes clefentliclas vaganieiite 11as
ciéiicias l1u111a11as e sociais. A liiigiiistica é u111 exeniplo (le discipliiia
cle cresci111e11to rapiclo e recente. Reiviiidicanclo desceiicléncia cle 11111a
15}.
uniao (la tilosofia com a filologia, tornou-se niatéria largamente ensi-
nada no inicio da clécacla cle 1960. O territorio que reivinclica é o
estuclo cientifico cla linguagem huniana e essa reivinclicagéo foi apol-
ada pela crescent-e necessidade cle pesquisas sobre a linguagern e a
coiriuiiicagao em relagao as necessiclacles e coniportamento huma-
nos, cle fato, estuclar 0 assunto 'na integra’. Um grupo de teoricos
brilhantes claborou um quadro novo e mais amplo para estudantes e
pesquisaclores. A clisciplina logo coinegou a se cliversificar e tundir-se
corn outras clisciplinas. Os resultaclos sao estudos especializados como
a psicolingfiistica, a sociolingiiistica e a neurolingiiistica.
Coino inuitas outras clisciplinas, a lingiiistica pode ser utilizacla
como mstrurnento para aiudar a resolver os probleinas cle areas terna-
U038 afins, porém,