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História do Cristianismo: 
Origem à Reforma
Rupturas no Medievo Cristão
Responsável pelo Conteúdo:
Prof. Dr. Edgar da Silva Gomes
Revisão Textual:
Prof. Me. Claudio Brites
Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos:
• O Cisma do Oriente no Século XI;
• Os Papas de Avignon.
Fonte: Getty Im
ages
Objetivo
• Refletir as causas das duas principais rupturas no seio do cristianismo na Idade Média.
Caro Aluno(a)!
Normalmente, com a correria do dia a dia, não nos organizamos e deixamos para o úl-
timo momento o acesso ao estudo, o que implicará o não aprofundamento no material 
trabalhado ou, ainda, a perda dos prazos para o lançamento das atividades solicitadas.
Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo, você 
poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário todos ou alguns 
dias e determinar como o seu “momento do estudo”.
No material de cada Unidade, há videoaulas e leituras indicadas, assim como sugestões 
de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua interpretação e 
auxiliarão o pleno entendimento dos temas abordados.
Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de 
discussão, pois estes ajudarão a verificar o quanto você absorveu do conteúdo, além de 
propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de 
troca de ideias e aprendizagem.
Bons Estudos!
Rupturas no Medievo Cristão
UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
Contextualização
Para contextualizar nossas unidades, utilizaremos o recurso de filmes e documentários, 
porém, para isso, será necessário, como em toda “Fonte Histórica”, refletir de forma crí-
tica a situação problema apresentada para a introdução dos estudos da nossa disciplina.
HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA – 21 – O EXÍLIO EM AVIGNON
Poucas instituições humanas sobreviveram tanto tempo e desempenharam um papel tão 
crucial e continuado – não apenas na história e na cultura da Europa, mas na de todo o mun-
do – como a Igreja Católica. Nesta série de documentários faremos uma viagem através de 
sua história, desde a crucificação de Jesus Cristo até o Papado de Francisco, já no século XXI. 
Dois mil anos de história que também são da civilização ocidental. Para fazer isso, temos o 
testemunho dos mais prestigiados especialistas internacionais: acadêmicos, historiadores, 
teólogos e pesquisadores do cristianismo que nos trarão o quadro mais completo de uma 
instituição que começou com um pequeno grupo de seguidores para se tornar uma das 
instituições mais globais e poderoso do planeta. E, como não poderia ser de outro modo, 
entraremos no Vaticano, a sede do poder papal e cuja história está intimamente ligada à 
dos católicos em todo o mundo.
Em: https://youtu.be/gCPSO89LRx0.
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O Cisma do Oriente no Século XI
Não nos tornamos diferentes. Ainda somos os mesmos do Século 
VIII. Ah, se vocês pudessem concordar em ser uma outra vez o que já 
foram, quando éramos um na fé e na comunhão! (Alexis Khomiakov 
– poeta russo século XIX)
Fonte: http://bit.ly/2QxGavR
O processo histórico de institucionalização do cristianismo a partir do século IV, 
com toda sua sofisticação administrativa e “inflação” de cargos eclesiásticos, será uma 
realidade nova dentro da organização primitiva conhecida pelos cristãos dos primeiros 
séculos. Esse aspecto novo, de união com o poder civil, será conhecido como cristan-
dade, de perseguidos a aliados do império romano, os cristãos sofreram um verdadeiro 
impacto político em seu “cotidiano” de fé a partir daí.
Segundo Bellitto (2016, p. 59-61), os imperadores favoreceram à eclosão da cristan-
dade e a igreja passou a se envolver cada vez mais nos assuntos seculares. Com isso, 
entra no ambiente da igreja os problemas relacionados “ao mundanismo e à ganância”, 
causando muitas “feridas no corpo da Igreja”. E por que não relacionarmos entre essas 
feridas o Cisma de 1054 entre Oriente e Ocidente? O que estava em jogo não dizia 
respeito apenas ao evento da década de 50 do século XI, as querelas políticas estavam 
sendo gestadas desde muito antes.
Esse é um tema bastante conhecido na história do cristianismo, muitas vezes sob a 
ótica Ocidental, portanto, neste espaço, trataremos de forma sucinta de como os cris-
tãos orientais vêm processando essa história. Para fundamentar nossa reflexão, nada 
mais oportuno do que recorrer à palavra “deles” através da publicação eletrônica Ec-
clesia da Sacra Arquidiocese de Buenos Aires, que publicou o artigo Constantinopla 
Civistas Diu Profana.
A estrutura de divisão existente entre o Império Romano do Oriente e do Ocidente, 
dada no ano de 286 d.C., estabeleceu duas capitais, uma no Ocidente, Roma, e outra 
no oriente, Constantinopla. Em relação ao “mundo cristão”, apesar da divisão do im-
pério, a relação religiosa entre os cristãos, pelo menos no início, não causou nenhum 
estranhamento em matéria de fé. Após as invasões barbaras do Ocidente, iniciadas de 
forma lenta e gradual desde o início do século V, houve, por volta do ano 476 d.C., a 
queda do império romano em sua porção Ocidental, mas isso não causou nenhum dano 
à política e à administração civil da porção Oriental. A política civil via de regra interferia 
nas questões religiosas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, vide o fato da convocação 
dos concílios serem realizados pelos imperadores. 
Em relação à estrutura administrativa da igreja, no Ocidente, como dito, a sede era 
em Roma, e no Oriente, Constantinopla, contudo, eram uma só igreja em matéria de fé, 
ou seja, de uma fé que estava sendo gestada a partir do seu vínculo com a estrutura de 
Estado, pois a igreja dos primeiros séculos foi bastante perseguida pelo império romano 
e vivia cotidianamente seus conflitos, aprendendo e refletindo seus dilemas na prática. 
Com a união da Igreja com o Estado, os conflitos que foram debatidos nos primeiros 
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UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
concílios ecumênicos tinham, segundo o entendimento dos imperadores da época, a 
possibilidade de colocar em risco a estrutura do império, “os seis primeiros concílios ge-
rais abordaram [...] as principais questões da igreja [...] o primeiro milênio ainda testemu-
nharia a reunião de mais dois concílios gerais, que desta vez abordariam tanto questões 
políticas quanto religiosas” (BELLITTO, 2016, p. 51).
A formação de um vasto império proporcionou aos romanos uma série de dificuldades li-
gadas à manutenção dos limites territoriais com outros povos europeus. Durante o século 
IV, os povos germânicos foram gradativamente atraídos pela disponibilidade de terras fér-
teis e o clima ameno das possessões romanas. Paralelamente, essas populações também 
sofriam com a pressão militar exercida pelos hunos, habilidosos guerreiros mongóis que 
forçavam a entrada dos germânicos no Império Romano [...]. Por volta de 406, as tribos 
germânicas dos quados, vândalos, suevos e alanos também adentraram ao militarmente 
combalido território romano. Os vândalos conquistaram o norte da África e, sob o comando 
de Genserico, formaram seu reino com capital em Cartago. Em 455, aproveitaram de seu 
fortalecimento econômico e militar para saquear a cidade de Roma. Os francos conquis-
taram a porção norte da Gália. Os burúngios, em 433, se fixaram na região do rio Ródano. 
Jutos, anglos e saxões promoveram em conjunto a conquista da ilha da Bretanha. O Império 
Romano se mostrava todo desfigurado com a formação de novos reinos que tomaram toda 
Europa Ocidental. Aos romanos ainda restava o controle da Península Itálica. Contudo, no 
ano de 476, os hérulos, comandados pelo rei Odoraco, depuseram Rômulo Augústulo, o 
último imperador do Império Romano do Ocidente (SOUSA, s.d.)
A questão cultural entre o Oriente e o Ocidente, infelizmente, aos poucos, provocou 
o distanciamento doutrinário entre as duas sedes religiosas. No contexto em que o dis-
tanciamento começou a surgir, a autoridade máxima no ocidente estava a cargodo Papa 
que se estabelecia em Roma. No Oriente, existiam dois patriarcados bastante influentes: 
o primeiro estava na Turquia, na cidade de Constantinopla, e o outro, no Egito, na ci-
dade de Alexandria. Porém, “quando Alexandria foi anexada pelo Egito ao Império Mu-
çulmano, deixou de ser importante, restando somente Constantinopla, cidade que antes 
se chamava Bizâncio e que depois veio a ser chamada Istambul” (ECCLESIA BRASIL, 
s.d.). Ainda segundo a Ecclesia, dos séculos quinto ao nono, desde o primeiro concílio 
marcado para Nicéia, no Oriente,
Ocorreram desavenças, desigualdades políticas e culturais entre as 
igrejas de Roma e de Constantinopla. Entre 456 e 867 discordaram 
quanto à inclusão feita no Credo Apostólico (filioque), por questões 
litúrgicas e disciplinares, havendo um distanciamento constante entre 
as duas vertentes católicas e disputas pelo poder econômico-político 
nas regiões mediterrâneas. Os ocidentais acusaram os orientais de 
heresias, criticando os monofisistas por acreditarem que Jesus tinha 
existência unicamente divina (negando sua humanidade) e negarem a 
doutrina da Trindade (século 5). Também condenaram os iconoclastas 
que se opunham à adoração às imagens e as destruíam. (ECCLESIA 
BRASIL, s.d.)
A questão cultural pode ser traduzida de forma bastante simples, coisa que não é, 
mas vamos a alguns aspectos que podem ser importantes para entendermos o que 
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estamos tentando situar no campo cultural. O cristianismo praticado pelos orientais foi 
assimilando as características religiosas asiáticas, mais centradas na espiritualidade, se-
gundo a Ecclesia (s.d), isso ajudou a manter os orientais do império Bizantino afastados 
da porção romana do ocidente, focando sua tradição e ritual atrelados ao mundo grego. 
Ainda segundo o artigo da revista Ecclesia, os cristãos ocidentais carregaram a in-
fluência dos costumes dos povos germânicos. Outro aspecto importante foi que houve 
uma crise entre as duas partes cristãs, essa estava agora relacionada à autoridade da 
igreja, pois, aproximadamente no ano de 867 d.C., a Igreja de Constantinopla colocou 
em cheque a autoridade da igreja de Roma sobre os demais patriarcados localizados no 
Oriente e, do século nono ao onze, ao invés de entrarem em um entendimento, as coisas 
só pioraram. O ápice da crise se deu no pontificado de Leão IX,
Os Papas apresentaram exigências que pioraram suas diferenças, 
principalmente quando Leão IX polemizou, entre 1048 e 1054, e os 
ocidentais se opuseram ao sistema bizantino, segundo o qual a igreja 
oriental se submetia ao chefe secular – sistema chamado cesaropapis-
mo: o Imperador era superior e eleito de Deus para governar a Igreja 
também, administrar seus conflitos e manter a unidade do Império e 
da Igreja. (ECCLESIA BRASIL, s.d.)
Nesse contexto, o patriarca de Constantinopla era Miguel de Cerulário, que assumiu 
o posto no ano de 1043. No comando da Igreja Bizantina, passou a atacar a pretensa 
supremacia da Igreja de Roma, chamada na época também de Igreja Latina. Era uma 
verdadeira campanha contra o poder do Papa. O Papa Leão IX, na tentativa de enfren-
tar o poder de Cerulário, resolveu enviar um representante até Constantinopla, o Car-
deal Humberto. Para isso, foi montada uma “cortina de fumaça”, jogando a discussão 
“para solucionar a questão teológica que as diferenciava” (ECCLESIA BRASIL, s.d.).
No entanto, a coisa só piorou, pois o cardeal Humberto resolveu excomungar Miguel 
de Cerulário junto com toda a igreja Bizantina. A ação recebeu reação, pois o patriarca 
bizantino Miguel de Cerulário excomungou o Papa Leão IX, 
Esta ruptura ou dissensão ficou chamada como o Cisma do Oriente, 
ou o Grande Cisma, que originou a Igreja Ortodoxa ou Igreja Católi-
ca do Oriente, separando-se da igreja Católica do Ocidente, a roma-
na. (ECCLESIA BRASIL, s.d.)
Essa situação durou mais de dois séculos, até que houvesse uma primeira tentativa 
de apaziguar os ânimos. Isso se deu no concilio ecumênico de Lyon, no ano de 1274 
d.C., e depois em Florença, no ano de 1439 d.C., que resultou em um breve período 
de comunhão entre as duas igrejas. Essa crise entre as igrejas do Oriente e do Ocidente 
é frequentemente citada como uma das causas da queda do império romano do orien-
te. Enquanto se discutia questões religiosas, os romanos orientais se descuidaram das 
questões políticas mais urgentes. Segundo o artigo da Ecclesia, “com as divisões e dis-
cussões teológicas, os turcos otomanos se aproveitaram para invadir Constantinopla e 
decretar a queda do Império Romano do Oriente, em 1453” (ECCLESIA BRASIL, s.d.)
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UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
Breve Nota Sobre o Contexto Político na Cúria Romana
Desde o século X, havia uma movimentação política na Cúria Romana para se fazer 
uma reforma em que o poder estaria centralizado nas mãos dos papas, esse processo 
foi longo e durou até o século XIII. Segundo Pierini (1997, p. 108), havia uma “luta entre 
os vários imperialismos políticos e religiosos, que se desenrolou entre os séculos X e 
XIII, não podia deixar de envolver, de alguma maneira, o papado, conferindo-lhe uma 
fisionomia à altura da situação”. Na realidade, essa movimentação teve sua gênese no 
século IX devido ao envolvimento do papado nas disputas entre os herdeiros do império 
carolíngio e os partidos que dominavam Roma – o apoio do “chefe” da igreja de Roma 
ora pendia para um lado ora para outro. 
Vários absurdos se sucederam nesse contexto a ponto de ser realizado um sínodo 
para condenar o cadáver de um papa. O “sínodo cadavérico”, condenou o papa Formo-
so (891-896), seus rivais exumaram seu corpo para que fosse realizado um julgamento 
“pós-morte”. Na ocasião, o papa Estevão VI orquestrou esse absurdo, o ano era 897 
d.C. No ano de 898, o papa João IX, em outro sínodo, reabilitou o papa Formoso. Nes-
sa ocasião, João também procurou blindar a eleição dos papas dos condicionamentos 
locais. Segundo Pierini, 
[...] foram necessários mais de cinquenta anos até que a sede pontifícia 
conseguisse sair do pântano em que havia se metido. Isso começou a 
acontecer com a fundação do movimento reformista patrocinado pelo 
mosteiro de Cluny a parir de 910. (PIERINI, 1997, p. 108)
No ano 1000, depois de alguns ensaios de reforma, surge uma verdadeira intenção 
reformadora na figura do Papa Silvestre II, que governou a igreja entre 999 e 1003 
d.C. Segundo Perini (1997), Silvestre e seu discípulo Otão III planejaram uma renovatio 
imperii, sendo o precursor de um papado reformador e reformado. Como sabemos, 
os imperadores também estavam, de certa forma, envolvidos com o governo da igre-
ja. Durante o governo de Henrique III (1039-1056), da dinastia Francônia, havia três 
pretendentes ao trono de Pedro no ano de 1046: Silvestre III, Bento IX e Gregório VI. 
Henrique tomou a atitude de depor os três pretendentes ao papado e apoiou a eleição 
de Clemente II, que governo a igreja de Roma entre os anos 1046-1047. De acordo 
com seu “histórico”, o papa Clemente II era pessoa digna e reformadora. O mosteiro de 
Cluny dava as cartas na reforma da igreja. 
Apesar das tentativas de reforma na igreja, quem enfrentou a questão do poder im-
perial foi Leão IX (1049-1054), foi com esse papa que 
[...] a reforma do papado começou a delinear-se como uma concorrên-
cia à autoridade imperial, segundo os princípios gelasianos que impli-
cavam na superioridade da autoridade moral dos bispos e dos papas 
sobre o poder jurídico dos governantes civis. (PERINI, 1997, p. 109)
Com a morte de Leão IX, foi o papa Nicolau II (1057-1061) quem deu o golpe de 
misericórdia no poder de intromissão dos imperadores nos assuntos estritamente ecle-
siásticos. No ano de 1059, o sínodo lateranense deu novo formato para a eleição dos 
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papas. Segundo esse sínodo, a eleição pontifícia caberia apenas à liderança do clero 
romano. Os cardeais elegeriam o papa e ao imperador cabia apenas o gesto de “honra e 
reverência”, outra decisão importante decidida nesse sínodo foi a aprovação da primeiraproibição formal em relação à investidura de eclesiásticos por parte dos leigos.
Na eleição do papa Alexandre II (1061-1073), pela primeira vez não houve a “colabo-
ração” do poder civil na pessoa do imperador. Seu sucessor, Gregório VII, foi um dos 
reformadores mais importantes da igreja por causa de seu enfrentamento à pretensão de 
retorno à antiga forma da relação “igreja-estado”, pois, segundo Perini (1997, p. 109), “já 
havia [...] todos os ingredientes para a colisão frontal entre o império, que continuava feu-
dal, e a Igreja, que queria libertar-se do feudalismo”. Nesse contexto, o antipapa Clemente 
III, no ano de 1084, coroou imperador Henrique IV, rei da Germânia de 1066-1105.
O papa Gregório VII, no calor das disputas, havia excomungado Henrique IV no ano 
de 1076. No ano de 1105, Henrique V, filho de Henrique IV, derrubou o pai e assumiu 
o trono da Germânia, porém, em relação aos papas, nada mudou, haja vista que o novo 
imperador continuou sua luta contra os papas reformadores pelo direito de intromissão 
nos assuntos eclesiásticos. Ele governou até o ano de 1125 e empreendeu várias dispu-
tas com os papas que se sucederam, a saber: papa Vitor III (1086-1087), papa Urbano II 
(1088-1099), papa Pascal II (1099-1118) e o papa Gelásio II (1118-1119).
No contexto de disputas entre papas e imperadores, durante um percurso de aproxi-
madamente trezentos anos, o cisma com o Oriente já havia infelizmente “dado as caras”, 
houve inúmeras tentativas de aproximação até o concílio de Trento no século XVI, todos 
resultando em insucesso. Agora o que podemos perceber é que a Cúria Romana estava 
mais focada em seus embates com o poder civil no Ocidente do que procurando uma 
tentativa de se reconciliar com a Igreja do Oriente, e assim mais problemas foram surgin-
do até que o alto clero romano pudesse viver sob certa estabilidade interna. Muita água 
rolaria sob as pontes do rio Tevere até que o poder dos papas estivesse centralizado nas 
suas mãos, sem a interferência civil. 
Figura 1 – Rio Tevere
Fonte: Wikimedia Commons
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UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
Tevere em italiano ou Tibre em latim é um grande rio italiano que “corta” a cidade de 
Roma com nascente na região italiana da Emília-Romanha e desaguando no Mar Tirreno.
A relação conturbada de Henrique V com os papas, citados acima, teve um certo 
momento de trégua com a assinatura da concordata de Worms no ano de 1122, quando 
estava no trono de Pedro o Papa Calisto II, “[...] foi o primeiro de uma série de acordos 
estabelecidos entre a Igreja e Estado, convencionados, dependendo das circunstâncias, 
como concordatas de paz, de amizade ou de defesa” (PERINI, 1997, p. 110). O con-
cílio de Latrão, no ano de 1123, confirmou esse acordo entre o imperador e o papa. 
Porém, esse acordo naufragou, pois, na realidade, não satisfazia nenhuma das partes 
envolvidas. Um dos motivos para o fracasso de Worms foi a disputa pela região meridio-
nal da península itálica que estava nas mãos dos normando e era disputada pelo Papa, 
por Henrique V e pelos detentores de sua posse nesse momento, os normandos.
O envolvimento na política “mundana” era uma situação com extremado peso para 
a igreja. No concílio de Latrão II, no ano de 1139, alguns pontos polêmicos surgiram 
como, por exemplo, o combate aos antipapas, entre eles Celestino II, que surgiu nesse 
contexto de disputa política dentro da igreja,
[...] o concilio impôs a unidade papal sobre os seus delegados depois 
de um período de cisma, um problema que atormentou a Igreja ao lon-
go do século XII, quando havia quase tantos antipapas quanto papas. 
(BELLITTO, 2016, p. 75-76)
Mas a questão importante para nós aqui é saber que, segundo Perini (1997), Rogério, 
o Normando, foi excomungado pelo concílio, e que, no cenário político, surgia a dinastia 
alemão dos suevos, com o soberano coroado por um papa e um antipapa, Frederico I, 
o Barba Roxa, coroado imperador no ano de 1155 pelo Papa Adriano IV e posterior-
mente no ano de 1167 pelo antipapa Pascoal III.
As bases para a nova disputa de poder entre Igreja e Estado não se davam mais pe-
los princípios de poder político “gelasianos” ou “agostinianos”, mas pelos princípios do 
direito romano onde,
[...] o imperador considerava-se herdeiro dos Césares e, por isso, de-
tentor da autoridade máxima e do poder supremo, senhor de tudo. Ele 
não quer mais ouvir falar de ofícios e benefícios concedidos ao papa, 
nem de deveres em relação a ele. (PERINI, 1997, p. 111) 
Em relação ao Grande Cisma de 1054, a situação foi ofuscada pelas disputas que a 
Igreja e o Estado estavam travando no Ocidente. As coisas se complicam aí bastante, 
quando pensamos nas diferenças culturais que envolviam Oriente e Ocidente, conforme 
comentado no tópico anterior. A questão da centralização do poder da igreja no Oci-
dente não explica toda a questão da não reconciliação, mas é parte importante, como 
acabamos de ver.
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O Papa Gelásio I foi o primeiro a efetuar a distinção entre poder temporal dos imperadores 
e poder espiritual dos papas, colocando os bispos em posição superior. Assim, um papa não 
poderia ser julgado por ninguém. A partir dele, surgiu uma norma eclesiástica que durou 
até a Idade Moderna chamada de Infabilidade Papal. O Papa Gelásio I também ratificou os 
livros canônicos e apócrifos aprovados pela Igreja Católica.
Fonte: http://bit.ly/2QsOdu2
A questão era que o imperador, apesar de católico, refutou o poder dos papas res-
peitando-os apenas como padres. Com isso, os confrontos se tornariam inevitáveis por 
mais um longo período. Os reformadores de Cluny, a centralização que havia sido en-
caminhada até aqui, será cada dia mais colocada à prova. Mas dessa vez o absolutismo 
imperial não terá apenas a oposição do pontífice,
[...] também a dos maiores feudatários do império, por exemplo, de 
Henrique, o Leão, duque da Baviera, das outras nações europeias e 
das forças comunais e senhoriais já em via de exuberante desenvolvi-
mento, sobretudo na Itália setentrional. Foi essa singular aliança que 
derrotou Frederico I e, depois também o seu filho Henrique VI, (rei de 
1190 a 1197, imperador coroado pelo papa Clemente III em 1191), e 
criou aquele conjunto de circunstancias favoráveis que permitiram ao 
papa Inocêncio III (1198-1216) se tornar, por alguns anos, o árbitro 
supremo, na Europa, dos impérios do Ocidente e do Oriente, me-
diante a conquista de Constantinopla, em 1204, das nações que se 
declaravam vassalas da Santa Sé para escapar das miras imperiais, e 
das comunas em luta contra os imperadores. (PERINI, 1997, p. 111)
Nos concílios de Latrão III (1179) e Latrão IV (1215), os papas Alexandre III e Ino-
cêncio III puderam restabelecer certo período de predomínio dos papas sobre os impe-
radores. Essas vitórias foram então o ponto de partida para a “luta dos papas contra as 
pretensões imperiais e a favor da reforma eclesiástica, sob todos os seus aspectos [...] no 
conjunto foi só uma ilusão. A luta estava para recomeçar” (PERINI, 1997, p. 112). Isso 
porque o suevo Frederico II (1197-1250) reuniu sob seu poder, com defeitos e qualida-
des, a atitude política e religiosa. Um absolutista que não tinha escrúpulos para atingir 
seus objetivos e que desrespeitava qualquer programa eclesiástico.
O imperador combateu os papas Gregório IX (1227-1241) e Inocêncio IV (1243-
1254) e chegou a ser excomungado pelo concílio de Lião no ano de 1245. Segundo 
Perini (1997), o consolo foi que com a morte desse imperador chegava ao fim o império 
medieval construído por Carlos Magno no ano 800. Houve ainda alguns imperadores 
que tentaram impor sua ingerência nos assuntos da Igreja, houve aqueles que prestaram 
grande serviços ao cristianismo, mas a aliança que havia existido até então nunca mais 
seria a mesma.
 Segundo Perini (1997), as alianças entre a Igreja e os imperadores mudou dos bizan-
tinos para os francos, desses para os alemães, chegando aos franceses (monarquia que 
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UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
causou tambémsérios atritos com o papado). Essa longa disputa de mais de três séculos 
resultou em maior centralização do poder da Cúria Romana que estava se formando, a 
direção da igreja ocidental estava agora nas mãos dos “seus”, apesar de no século XIV 
a Cúria ter se transferido para Avignon. Os papas, no processo de “estadia” nessa re-
gião, não foram cativos como se supõe e também não estavam alijados de seu poder e 
influência, como veremos a seguir. 
Grande Cisma: algumas questões políticas e de fé
Com base nos dados disponíveis na Ecclesia, podemos ainda refletir melhor sobre 
outros pontos de vista sobre o cisma, além da questão da infalibilidade papal e da ques-
tão do filioque. Segundo a Ecclesia, o papa se tornou um autocrata assumindo o papel 
de um monarca absolutista se colocando acima da Igreja, ou das igrejas, porque, nesse 
contexto, elas estavam unidas e essa atitude causou estranhamento nos patriarcados 
estabelecidos no Oriente. Os papas estavam assumindo o governo da igreja universal 
sem que para isso houvessem consultado os patriarcas gregos,
[...] se colocou acima da Igreja, expedindo ordens de um modo que 
poucos ou nenhum bispo do oriente jamais havia feito, não só quanto 
aos subordinados da Igreja, mas também quanto as autoridades secu-
lares. A Igreja no ocidente tornou-se centralizada a um ponto que era 
desconhecido em qualquer dos patriarcados no oriente, com exceção 
possivelmente no Egito. Monarquia no ocidente; no oriente um cole-
giado. (ECCLESIA BRASIL, s.d.)
Outro ponto interessante observado pelos ortodoxos orientais foi o de que havia um 
grande fosso intelectual entre o clero e os leigos, ou seja, a forma como o clero agia em 
relação aos leigos em ambos os lados. Na igreja Oriental, o relevo dado à teologia e à 
forma como ela era pensada diferia muito da forma como o Ocidente tratava a questão, 
pois, para os ortodoxos, o estudo da teologia pelos leigos era de grande relevância para 
o progresso do pensamento cristão, haja vista que “o teólogo leigo sempre foi uma 
figura aceita na Ortodoxia; alguns dos patriarcas bizantinos mais cultos – Photius, por 
exemplo - haviam sido leigos antes de serem escolhidos para o Patriarcado” (ECCLESIA 
BRASIL, s.d.). 
 No ocidente, segundo os ortodoxos, durante a longa Idade Média, apenas o clero 
detinha o poder intelectual, ou seja, “a teologia tornou-se privilégio dos padres, uma vez 
que a maior parte dos leigos era analfabeta, e não era capaz de entender as tecnicidades 
de uma discussão teológica” (ECCLESIA BRASIL, s.d.). Para a igreja Ortodoxa, que 
também confiava aos bispos e ao clero o papel especial da educação, não havia dis-
tinção entre os religiosos e os leigos, cabendo também a esses (leigos) um importante 
papel como interlocutores entre o saber e a população ávida por aprender. Não havia, 
portanto, a divisão que foi colocada pela igreja ocidental entre clero e leigos. A falta de 
instrução também causou outro inconveniente, 
As relações entre os cristãos do leste e do oeste se tornaram ainda 
mais difíceis pela ausência de uma língua comum. Como os dois lados 
já não conseguiam se comunicar entre si com facilidade, ou ler o que 
o outro escrevera, apareceram frequentes mal-entendidos em termos 
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de teologia. Estes mal-entendidos pioravam ainda mais por causa das 
traduções malfeitas as quais se teme terem sido feitas deliberada e ma-
liciosamente. O leste e o oeste se tornavam estranhos um ao outro, o 
que era algo que provavelmente afetaria ambos os lados. Na Igreja pri-
mitiva tinha havido unidade na fé, mas uma diversidade de escolas de 
teologia. Desde o início, tanto o leste quanto o oeste haviam enfocado 
o mistério cristão cada um à sua maneira. O enfoque do ocidente era 
mais prático; o do leste, mais especulativo. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) 
Um ponto a ser ressaltado da visão oriental sobre os ocidentais foi que, enquanto o 
legalismo jurídico romano impregna o pensamento teológico da igreja no Ocidente, os 
“gregos” têm uma reflexão mais espiritualizada nesse aspecto, ou seja, entre os exem-
plos que diferenciavam uns dos outros, podemos citar alguns: “quando pensavam a 
Trindade, os romanos o faziam pela unidade de Deus Pai, os gregos pela triunidade das 
Pessoas [...]; quando refletiam sobre a crucificação, os romanos pensavam [...] no Cristo, 
vítima, os gregos, no Cristo vencedor (ECCLESIA BRASIL, s.d.). Além disso, os gregos 
falavam mais da deificação, enquanto os romanos enfocavam na redenção de Cristo. 
Mas é importante pontuar que para as escolas teológicas de Antioquia e Alexandria 
essas questões colocadas acima eram complementares, e não excludentes uma à outra, 
tendo seu próprio lugar na tradição católica. O problema é que, com as disputas políticas 
impostas pelo papado, os estranhamentos culturais que foram se aprofundando 
[...] com pouca unidade cultural, sem uma língua comum havia o pe-
rigo de que cada lado seguisse seus pontos de vista isolados e que 
chegasse a extremos, esquecendo-se do valor que há em pontos de 
vista opostos. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) 
Falamos dos diferentes enfoques dados à doutrina no Leste e no Oeste. Havia dois 
pontos doutrinais em relação aos quais os dois lados não se completavam mais, mas 
entravam em conflito direto, era sobre a primazia da igreja de Roma e a infalibilidade do 
Papa e o filioque; a unidade da Igreja poderia ainda ter sido preservada se não tivesse 
havido essas duas outras questões difíceis. Segundo os gregos, a estrutura centralizada 
e monárquica da Igreja do Ocidente foi reforçada pelas invasões dos bárbaros. Porém, 
contanto que o Papa reivindicasse poder absoluto só no Ocidente, Bizâncio não faria 
qualquer objeção. Os bizantinos não se incomodavam que a Igreja do Ocidente fosse 
centralizada, contanto que o papado não interferisse no Leste. 
E logo que tentasse impor seu poder dentro dos Patriarcados do Orien-
te, problemas haveriam de surgir. Os ortodoxos deram ao Papa uma 
primazia de honra, mas não a primazia universal que ele achava que 
lhe era devida. O Papa considerava a infalibilidade uma prerrogativa 
sua; os ortodoxos diziam que em questões relacionadas a fé a decisão 
final cabia não ao Papa sozinho, mas a um concilio representando 
todos os bispos da Igreja. Aqui temos duas concepções diferentes da 
organização externa da Igreja. (ECCLESIA BRASIL, s.d.)
A questão do filioque foi uma disputa sobre os termos como era entendido o Espírito 
Santo na relação trinitária colocada no credo Niceno-Constantinopolitano, que passou 
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UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
“despercebida” no início, mas que depois foi tomando uma relevância muito grande para 
cada um dos lados que a defendia de forma diferente. Como colocam os Ortodoxos, 
[...] originalmente o credo dizia ‘Eu creio no Espírito Senhor e fonte 
de vida, que procede do Pai, e com o Pai e o Filho recebe a mesma 
adoração e a mesma gloria’ Esta, que é a forma original, é recitada 
sem modificações no Oriente até hoje. (ECCLESIA BRASIL, s.d.)
Em relação ao Ocidente, houve uma alteração que não foi aceita pelos gregos, o 
acréscimo de uma frase extra, “e do Filho”, essa alteração deixou o credo da seguinte 
forma: “que procede do Pai e do filho”. Para os gregos, a origem dessa alteração é in-
certa, segundo eles, o acréscimo do filioque no credo pode ter vindo da Espanha para 
combater o arianismo, mas o problema era que a igreja espanhola ratificara a alteração 
em um concílio regional, 
[...] no terceiro Concílio de Toledo (589), se não antes. Da Espanha, o 
filioque espalhou-se para a França, e daí para a Alemanha, onde foi 
bem recebido por Carlos Magno e adotado pelo concílio semi icono-
clasta de Frankfurt (794). (ECCLESIA BRASIL, s.d.)
Com a alteração adotada na corte de Carlos Magno, começou a se espalhar a acusação 
de que os bizantinos eram heréticos por não aceitarem a inclusão do filioque no credo 
rezado na igreja oriental – mas os gregos estavam rezando o credo em sua forma original, 
então por que seriam heréticos? A questão setornou mais complexa porque, em Roma, 
pelo menos até meados do século XI, o filioque também não fazia parte do credo. 
Em 808 o Papa Leão III escreve numa carta para Carlos Magno, que 
embora ele mesmo achasse que o filioque procedia em termos doutri-
nais, ele considerava errado interferir nos termos do credo. Delibera-
damente mandou inscrever o credo em placas de prata - sem o filio-
que - e as colocou na igreja de São Pedro. Até segunda ordem, Roma 
agiria como mediadora entre a Alemanha e Bizâncio. Só depois de 
850 que os bizantinos passaram a prestar atenção ao filioque. Quan-
do o fizeram sua reação foi muito crítica. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) 
É evidente que a igreja Ortodoxa não concordou com a alteração realizada no credo 
original. Segundo os Ortodoxos, existem dois motivos para isso: em primeiro lugar, não 
se pode alterar, segundo eles, o que foi determinado pelos concílios ecumênicos, a não 
ser em um outro concilio ecumênico. Isso é óbvio para eles, pois “o Credo é propriedade 
de toda a Igreja, e uma parte dela não tem o direito de interferir nele. O Ocidente, ao 
alterar arbitrariamente o credo, sem consultar o oriente é culpado contra a unidade da 
Igreja” (ECCLESIA BRASIL, s.d.). 
O outro ponto a ser ressaltado é que, para os Ortodoxos, teologicamente, o Espírito 
Santo procede apenas do Pai e seria uma heresia dizer que Ele procede também do 
Filho. Para os Ortodoxos, a unidade da fé cristã está baseada na questão Trinitária e a 
alteração realizada nos concílios regionais de Toledo e Frankfurt altera esse entendimen-
to, ou seja, a intervenção de Carlos Magno no século IX trouxe sérias consequência para 
a Unidade dos cristãos do Oriente e do Ocidente, pois, 
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uma vez que a doutrina sobre a Trindade é o cerne da fé cristã, uma 
pequena mudança de ênfase na teologia trinitária tem consequên-
cias enormes em muitos outros campos. O filioque não só destrói 
o equilíbrio entre as três pessoas da Trindade, mas também leva a 
uma falsa compreensão da ação do Espírito no mundo, estimulando a 
existência de uma doutrina falsa sobre a Igreja. [...] Deve-se notar, no 
entanto, que certos teólogos ortodoxos consideram o filioque apenas 
um acréscimo não autorizado ao Credo, não necessariamente heréti-
co por si só. (ECCLESIA BRASIL, s.d.)
Outras questões de menor importância também apimentaram as disputas entre as 
igrejas do oriente e do ocidente, deixando cada vez mais distante um entendimento para 
que elas se reunificassem – tais como o casamento do clero, admitido pelos ortodoxos 
e negado pelos ocidentais, que insistem no celibato do clero; fora isso, as normas rela-
tivas ao jejum é diferente em uma cultura e em outra; e até o tipo de pão utilizado na 
celebração eucarística foi ponto de discórdia, enquanto os gregos celebravam com pão 
fermentado, os ocidentais utilizam o pão ázimo. Ou seja, tudo acabava sendo motivo 
para a permanência da divisão iniciada no ano de 1054. 
Os Papas de Avignon 
Segundo o senso comum, ao observar um acontecimento histórico como o da trans-
ferência do papado de Roma para Avignon no início do século XIV, logo se infere que 
o Papa foi levado envolto em grilhões e impossibilitado de retornar. Contudo, para esse 
pensamento ter sentido, isso teria que ter ocorrido com um papa, mas com sete papas 
consecutivamente vivendo fora dos muros da Cúria Romana, a reflexão sobre esse “ca-
tiveiro” precisa ser repensada! 
 O “Cativeiro de Avignon” está longe de ser um cativeiro, e, segundo os pesquisadores 
Fátima Regina Fernandes e Rafael de Mesquita Diehl (2017) do Núcleo de estudos Me-
diterrâneos da UFPR, o que houve foi uma estratégia desses papas “cativos” no sentido 
de fortalecer o poder econômico e político do papado, o qual estava enfrentando mais 
uma vez em sua história um momento crítico nas disputas entre os imperadores e os 
papas – como pudemos observar acima. A situação política e econômica na Itália estava 
bastante confusa e o rei francês pressionava o papado para estabelecer sua influência 
sobre eles, e ver alguns de seus desejos atendidos como, por exemplo, a extinção da 
Ordem dos Templários. 
Como podemos perceber, esse imbróglio tem como ponto de partida o avanço do 
poder dos reis franceses e sua influência em parte dos territórios da península itálica e 
sobre o poder papal. Um dos pontos que levaram aos sérios conflitos entre os papas e 
o poder crescente da França sobre eles (os papas) teve como estopim o enfrentamento 
entre o Papa Bonifácio VIII e o Rei Filipe IV, o Belo, em que houve troca de ofensas de 
ambos os lados. Enquanto Bonifácio condenava a cobrança de elevados impostos reali-
zada pelo rei francês, esse acusava o papa de sodomita e herético. O ponto mais crítico 
das desavenças entre o rei e o papa foi um cerco promovido por tropas francesas ao 
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UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
papa na cidade italiana de Anagni, Bonifácio foi humilhado pela “corte francesa”, mas 
não se intimidou.
Desse acontecimento em diante, a relação entre a corte francesa e o papado não 
“esfriou” e o rei francês passou a pressionar a Cúria Romana para que fosse eleito 
um papa francês. O Papa Bonifácio faleceu no ano de 1303 e seu substituto foi outro 
italiano, o Papa Bento XI, que governou a igreja por pouco tempo, vindo a falecer em 
1304. Depois disso, a pressão se fez mais forte e dessa vez foi eleito um papa francês, 
escolhido para governar a igreja, Clemente V, resultado de um compromisso entre os 
cardeais italianos e Felipe IV, o Belo. 
Dessa feita, o rei francês, satisfeito com a eleição e os resultados que ela provocou 
a seu favor, “exigiu” a transferência do papa para Avignon. Conseguiu também que o 
Papa Clemente revogasse os documentos assinados pelo Papa Bonifácio, além de ter o 
desejo de ver extinta a Ordem dos Templários, o que foi atendido por Clemente, pois 
queria apoderar-se de seus bens. Essa era uma questão de “honra” para o Belo, que 
estava de olho nesses bens, 
[...] os Templários eram grandes proprietários de terras na Europa, 
cujo rendimento ajudava a financiar as suas ações militares no ultra-
mar [...] agiam como banqueiros e administradores de propriedades 
que muitas vezes se situavam em lugares luxuosos. (BELLITTO, 2016, 
p. 90)
A perseguição de Felipe IV sobre os Templários teve como elemento intrigante a 
covardia do papa Clemente, que era fraco demais e ficou suscetível aos avanços da am-
bição do rei francês sobre as posses da Ordem. Esse papa passou para a história como 
o papa que não evitou as falsas acusação de Filipe IV à condenação dos Templários, acu-
sações de que eram heréticos e imorais, o que resultou em que “alguns dos cavaleiros, 
incluindo o seu grão-mestre, foram queimados na fogueira” (BELLITTO, 2016, p. 91). 
Segundo Fernandes e Diehl (2017, p. 22), 
[...] houve no início do século XIV não só um enfraquecimento do 
ideal de supremacia do poder papal sobre os poderes seculares dos 
monarcas, mas também uma submissão do Papado aos interesses da 
monarquia francesa. 
Devemos ressaltar neste ponto aspectos importantes daquele contexto onde houve a 
transferência da Cúria de Roma para Avignon. Não havia ainda no início do século XIV 
o que entendemos hoje como sentimento nacional, pois os estados nacionais ainda es-
tavam com suas fronteiras bastante indefinidas, inclusive, como sabemos, Avignon não 
era um território francês.
Como é bem exposto por Fernandes e Diehl (2017), foram as mentalidades moder-
nas que projetaram para o período medieval os sentimentos nacionais, que ainda esta-
vam em fase embrionária e fragmentada. Outro dado importante apontado pelos auto-
res citados é o seguinte, “não houve uma transferência da Sé pontifícia, mas apenas da 
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residência do Papa, que continuou ostentando o título de Bispo de Roma” (FERNANDES;
DIEHL, 2017, p. 22). 
Tabela 1
N. Papa País Nascimento Pontificado
195 Clemente V França 1305-1314
196 João XXII França 1316-1334
197 Bento XII França 1334-1342
198 Clemente VI França 1342-1352
199 InocêncioVI França 1352-1362
200 Urbano V França 1362-1370
201 Gregório XI França 1370-1378
Fonte: MCBRIEN, 2001
Na Tabela 1, podemos ter ideia da longa duração da transferência da sede administra-
tiva da Cúria Romana para Avignon. Reforçamos o que foi dito acima, o papa transferiu 
apenas a administração, porém, continuou ostentado seu “poder” e as honrarias que o 
cargo de bispo de Roma e chefe da igreja Ocidental lhe conferiam. Para fundamentar 
nossa percepção de insegurança e confusão política vivida pelo papado na cidade de 
Roma, recorreremos mais uma vez a Fernandes e Diehl, que fazem uma ótima análise 
sobre isso:
A transferência da Cúria pontifícia (e não da Sé, que continua a ser 
Roma) por um lado evidencia as fraquezas do Papado em seus pró-
prios territórios, devido aos conflitos políticos entre guelfos e gibelinos 
na Itália, ao embate com o Império, à necessidade de garantir uma 
linhagem aliada no trono Siciliano, bem como os conflitos entre a 
aristocracia romana reverberando nas divisões internas do Colégio 
dos Cardeais. Entretanto, a transferência do papa e seu aparato admi-
nistrativo para Avignon também podem ser entendidas como uma es-
tratégia de buscar diminuir a influência das facções romanas do Sacro 
Colégio na eleição e decisões pontifícias, bem como buscar um terri-
tório que fosse mais seguro militar e geograficamente. (FERNANDES;
DIEHL, 2017, p. 43-44)
Segundo esses autores, era então muito conveniente para o papa se estabelecer em 
Avignon, pois sua localização estava imbricada nas grande rotas comerciais que o favo-
reciam a comunicação e o recebimento de impostos para a Sede Apostólica. Isso facilita-
va o projeto papal no sentido de restabelecer seu poder e ampliar sua influência nas de-
cisões da Igreja, já que estava sob a proteção de um reino forte naquele contexto, como 
o francês, ou seja, tudo se tratava de um jogo de interesses. Apesar de seu poder estar 
um pouco enfraquecido diante das monarquias que governavam a Europa, “por outro 
lado ele ganhava influência no âmbito ‘intra-eclesiástico’, aumentando os mecanismos 
de controle sobre nomeações episcopais, tribunais eclesiásticos e as finanças da Igreja” 
(FERNANDES; DIEHL, 2017, p. 43), ou seja, a estrutura administrativa da igreja estava 
de certa forma sendo “reformada” pelos papas de Avignon, que passaram a centralizar 
a estrutura da hierarquia eclesiástica nas suas mãos. Segundo Fernandes e Diehl (2017, 
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UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
p. 43), “ao governar a Igreja com maior possibilidade material de controle do que antes 
e residindo fora de sua Sé, o papa reforçava a sua pretensão de jurisdição universal”.
 O problema que surgiu a partir desse longo “cativeiro” foi o “Cisma do Ocidente”, 
com papas e antipapas, que se arrastou até o ano de 1417 e foi resolvido apenas no 
Concílio de Constança. Esse concílio tinha como questão a tarefa de unir novamente a 
igreja e se deu entre os anos de 1414-1418. Contudo, para complicar o que não estava 
fácil, havia também um concílio em Pisa, se a tarefa desse concílio fracassasse, se ele 
fosse “incapaz de acabar com o cisma, tornado ainda pior com a presença de três papa-
dos ao invés de apenas dois, a Igreja teria de enfrentar uma divisão que poderia se tornar 
permanente” (BELLITTO, 2016, p. 118). 
Como já vimos, esse concílio tinha três tarefas: unificar a igreja de Roma, reformar a 
igreja e combater as heresias daquele contexto. Apesar da precedência da unificação, ela 
foi tratada no contexto das principais atribuições relativas à autoridade papal e conciliar. 
O concílio reunido tratou então de reunificar a igreja pela sua autoridade e seu primeiro 
ato foi depor o Papa João XXIII, o qual convocou o concílio, mas precisava abrir mão de 
seu posto na tentativa de encontrar um consenso sobre um nome para governar a igreja 
unida novamente. Em relação ao papa o romano Gregório XII, esse também concordou 
em renunciar pelo bem da Igreja e para contribuir assim com o fim do cisma. Bento 
XIII se recusou a aceitar as decisões do concílio, os padres conciliares só declararam sua 
deposição após terem a certeza de que haviam esgotado todos os argumentos para que 
ele o fizesse espontaneamente, o que ocorreu em julho de 1417. 
O concílio deliberou também a forma como o novo papa deveria ser eleito. Para isso, 
alteraram as regras decididas nos concilio de Latrão III e Lyon II de forma apenas provi-
sória. Para vencer as eleições, 
[...] um candidato precisaria reunir, além de dois terços dos votos dos 
cardeais, dois terços dos votos de cada uma das cinco “nações”. O ob-
jetivo era o de se alcançar um solido consenso para evitar a repetição 
do que havia ocorrido em Pisa”. (BELLITTO, 2016, p. 123)
Foi eleito em três dias o cardeal Odo Colonna, que adotou o nome de Martinho V. 
Esse papa conseguiu manter a unidade e o respeito de todo o mundo cristão sob a ju-
risdição romana. 
Como vimos, o “cativeiro” de Avignon não foi resolvido com a “volta” de um papa 
para Roma, as disputas políticas acima das religiosas quase quebraram a unidade da 
igreja do Ocidente, isso quase um século antes do advento da Reforma Protestante no 
século XVI.
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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
 Livros
A disputa entre o papa Bonifácio VIII e o rei Filipe IV no final do século XIII
STREFLING, Sérgio Ricardo. A disputa entre o papa Bonifácio VIII e o rei Filipe IV no 
final do século XIII. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 37, n. 157, p. 409-419, set. 2007.
O papado avinhonense e os poderes civis: as décadas de 30 e de 40 do século XIV a partir de três 
obras de Guilherme de Ockham
MAGALHÃES, Ana Paula Tavares. O papado avinhonense e os poderes civis: as dé-
cadas de 30 e de 40 do século XIV a partir de três obras de Guilherme de Ockham. 
HISTÓRIA, São Paulo, v. 27, n. 2. 2008.
 Vídeos
Historia de la iglesia catolica – 21 – el exilio en Avignon
https://youtu.be/gCPSO89LRx0
História de la iglesia catolica – 22 – el gran cisma de la iglesia
https://youtu.be/h6pbE2QlDNs
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UNIDADE 
Rupturas no Medievo Cristão
Referências
ALBERIGO, Giuseppe (org.). História dos Concílios Ecumênicos. 2 ed. São Paulo: 
Paulus, 1995.
BELLITTO, Christopher M. História dos 21 Concílios da Igreja: de Nicéia ao Vaticano II.
São Paulo: Loyola, 2016.
CARLAN, Cláudio Umpierre. Constantino e as transformações do Império Romano no 
século IV. RHAA, v. 11, p. 27-35. [s.d.] Disponível em: <http://www.unicamp.br/chaa/
rhaa/downloads/Revista%2011%20-%20artigo%202.pdf>. Acesso em: 28 maio 2019.
ECCLESIA BRASIL. A santa igreja ortodoxa. [s.d.]. Disponível em: <https://www.
ecclesia.com.br/biblioteca/igreja_ortodoxa/a_igreja_ortodoxa_historia7.html>. Acesso 
em: 28 de maio de 2019.
FERNANDES, Fátima Regina Fernandes; DIEHL, Rafael de Mesquita Diehl. A Cúria 
Papal: de Roma para Avignon (c. 1250-1350). INTUS-LEGERE HISTORIA, v. 11, n. 1,
p. 21-44. 2017.
GOMES, Edgar da Silva; SOUZA, Ney (org.). Trento em Movimento: contexto e 
Permanências. Jundiaí: Paco Editorial, 2018. [e-book]
HOORNAERT, Eduardo. Origens do Cristianismo. São Paulo: Paulus, 2016. [e-book]
MAGALHÃES, Ana Paula Tavares. O papado avinhonense e os poderes civis: as 
décadas de 30 e de 40 do século XIV a partir de três obras de Guilherme de Ockham. 
HISTÓRIA, São Paulo, v. 27, n. 2. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/
his/v27n2/a11v27n2.pdf>. Acesso em: 28 maio 2019.
PIERINI, Franco. A Idade Antiga. São Paulo: Paulus, 1998.
PIERINI, Franco. A Idade Média. São Paulo: Paulus, 1997.
SOUSA, Rainer Gonçalves. Invasões Bárbaras. Brasil Escola. [s.d.]. Disponível em: 
<https://brasilescola.uol.com.br/historiag/invasoes-barbaras.htm>. Acesso em: 28 de 
maio de 2019.
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