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Inserir Título Aqui Inserir Título Aqui História do Cristianismo: Origem à Reforma Rupturas no Medievo Cristão Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Edgar da Silva Gomes Revisão Textual: Prof. Me. Claudio Brites Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos: • O Cisma do Oriente no Século XI; • Os Papas de Avignon. Fonte: Getty Im ages Objetivo • Refletir as causas das duas principais rupturas no seio do cristianismo na Idade Média. Caro Aluno(a)! Normalmente, com a correria do dia a dia, não nos organizamos e deixamos para o úl- timo momento o acesso ao estudo, o que implicará o não aprofundamento no material trabalhado ou, ainda, a perda dos prazos para o lançamento das atividades solicitadas. Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo, você poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário todos ou alguns dias e determinar como o seu “momento do estudo”. No material de cada Unidade, há videoaulas e leituras indicadas, assim como sugestões de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua interpretação e auxiliarão o pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois estes ajudarão a verificar o quanto você absorveu do conteúdo, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. Bons Estudos! Rupturas no Medievo Cristão UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão Contextualização Para contextualizar nossas unidades, utilizaremos o recurso de filmes e documentários, porém, para isso, será necessário, como em toda “Fonte Histórica”, refletir de forma crí- tica a situação problema apresentada para a introdução dos estudos da nossa disciplina. HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA – 21 – O EXÍLIO EM AVIGNON Poucas instituições humanas sobreviveram tanto tempo e desempenharam um papel tão crucial e continuado – não apenas na história e na cultura da Europa, mas na de todo o mun- do – como a Igreja Católica. Nesta série de documentários faremos uma viagem através de sua história, desde a crucificação de Jesus Cristo até o Papado de Francisco, já no século XXI. Dois mil anos de história que também são da civilização ocidental. Para fazer isso, temos o testemunho dos mais prestigiados especialistas internacionais: acadêmicos, historiadores, teólogos e pesquisadores do cristianismo que nos trarão o quadro mais completo de uma instituição que começou com um pequeno grupo de seguidores para se tornar uma das instituições mais globais e poderoso do planeta. E, como não poderia ser de outro modo, entraremos no Vaticano, a sede do poder papal e cuja história está intimamente ligada à dos católicos em todo o mundo. Em: https://youtu.be/gCPSO89LRx0. 6 7 O Cisma do Oriente no Século XI Não nos tornamos diferentes. Ainda somos os mesmos do Século VIII. Ah, se vocês pudessem concordar em ser uma outra vez o que já foram, quando éramos um na fé e na comunhão! (Alexis Khomiakov – poeta russo século XIX) Fonte: http://bit.ly/2QxGavR O processo histórico de institucionalização do cristianismo a partir do século IV, com toda sua sofisticação administrativa e “inflação” de cargos eclesiásticos, será uma realidade nova dentro da organização primitiva conhecida pelos cristãos dos primeiros séculos. Esse aspecto novo, de união com o poder civil, será conhecido como cristan- dade, de perseguidos a aliados do império romano, os cristãos sofreram um verdadeiro impacto político em seu “cotidiano” de fé a partir daí. Segundo Bellitto (2016, p. 59-61), os imperadores favoreceram à eclosão da cristan- dade e a igreja passou a se envolver cada vez mais nos assuntos seculares. Com isso, entra no ambiente da igreja os problemas relacionados “ao mundanismo e à ganância”, causando muitas “feridas no corpo da Igreja”. E por que não relacionarmos entre essas feridas o Cisma de 1054 entre Oriente e Ocidente? O que estava em jogo não dizia respeito apenas ao evento da década de 50 do século XI, as querelas políticas estavam sendo gestadas desde muito antes. Esse é um tema bastante conhecido na história do cristianismo, muitas vezes sob a ótica Ocidental, portanto, neste espaço, trataremos de forma sucinta de como os cris- tãos orientais vêm processando essa história. Para fundamentar nossa reflexão, nada mais oportuno do que recorrer à palavra “deles” através da publicação eletrônica Ec- clesia da Sacra Arquidiocese de Buenos Aires, que publicou o artigo Constantinopla Civistas Diu Profana. A estrutura de divisão existente entre o Império Romano do Oriente e do Ocidente, dada no ano de 286 d.C., estabeleceu duas capitais, uma no Ocidente, Roma, e outra no oriente, Constantinopla. Em relação ao “mundo cristão”, apesar da divisão do im- pério, a relação religiosa entre os cristãos, pelo menos no início, não causou nenhum estranhamento em matéria de fé. Após as invasões barbaras do Ocidente, iniciadas de forma lenta e gradual desde o início do século V, houve, por volta do ano 476 d.C., a queda do império romano em sua porção Ocidental, mas isso não causou nenhum dano à política e à administração civil da porção Oriental. A política civil via de regra interferia nas questões religiosas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, vide o fato da convocação dos concílios serem realizados pelos imperadores. Em relação à estrutura administrativa da igreja, no Ocidente, como dito, a sede era em Roma, e no Oriente, Constantinopla, contudo, eram uma só igreja em matéria de fé, ou seja, de uma fé que estava sendo gestada a partir do seu vínculo com a estrutura de Estado, pois a igreja dos primeiros séculos foi bastante perseguida pelo império romano e vivia cotidianamente seus conflitos, aprendendo e refletindo seus dilemas na prática. Com a união da Igreja com o Estado, os conflitos que foram debatidos nos primeiros 7 UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão concílios ecumênicos tinham, segundo o entendimento dos imperadores da época, a possibilidade de colocar em risco a estrutura do império, “os seis primeiros concílios ge- rais abordaram [...] as principais questões da igreja [...] o primeiro milênio ainda testemu- nharia a reunião de mais dois concílios gerais, que desta vez abordariam tanto questões políticas quanto religiosas” (BELLITTO, 2016, p. 51). A formação de um vasto império proporcionou aos romanos uma série de dificuldades li- gadas à manutenção dos limites territoriais com outros povos europeus. Durante o século IV, os povos germânicos foram gradativamente atraídos pela disponibilidade de terras fér- teis e o clima ameno das possessões romanas. Paralelamente, essas populações também sofriam com a pressão militar exercida pelos hunos, habilidosos guerreiros mongóis que forçavam a entrada dos germânicos no Império Romano [...]. Por volta de 406, as tribos germânicas dos quados, vândalos, suevos e alanos também adentraram ao militarmente combalido território romano. Os vândalos conquistaram o norte da África e, sob o comando de Genserico, formaram seu reino com capital em Cartago. Em 455, aproveitaram de seu fortalecimento econômico e militar para saquear a cidade de Roma. Os francos conquis- taram a porção norte da Gália. Os burúngios, em 433, se fixaram na região do rio Ródano. Jutos, anglos e saxões promoveram em conjunto a conquista da ilha da Bretanha. O Império Romano se mostrava todo desfigurado com a formação de novos reinos que tomaram toda Europa Ocidental. Aos romanos ainda restava o controle da Península Itálica. Contudo, no ano de 476, os hérulos, comandados pelo rei Odoraco, depuseram Rômulo Augústulo, o último imperador do Império Romano do Ocidente (SOUSA, s.d.) A questão cultural entre o Oriente e o Ocidente, infelizmente, aos poucos, provocou o distanciamento doutrinário entre as duas sedes religiosas. No contexto em que o dis- tanciamento começou a surgir, a autoridade máxima no ocidente estava a cargodo Papa que se estabelecia em Roma. No Oriente, existiam dois patriarcados bastante influentes: o primeiro estava na Turquia, na cidade de Constantinopla, e o outro, no Egito, na ci- dade de Alexandria. Porém, “quando Alexandria foi anexada pelo Egito ao Império Mu- çulmano, deixou de ser importante, restando somente Constantinopla, cidade que antes se chamava Bizâncio e que depois veio a ser chamada Istambul” (ECCLESIA BRASIL, s.d.). Ainda segundo a Ecclesia, dos séculos quinto ao nono, desde o primeiro concílio marcado para Nicéia, no Oriente, Ocorreram desavenças, desigualdades políticas e culturais entre as igrejas de Roma e de Constantinopla. Entre 456 e 867 discordaram quanto à inclusão feita no Credo Apostólico (filioque), por questões litúrgicas e disciplinares, havendo um distanciamento constante entre as duas vertentes católicas e disputas pelo poder econômico-político nas regiões mediterrâneas. Os ocidentais acusaram os orientais de heresias, criticando os monofisistas por acreditarem que Jesus tinha existência unicamente divina (negando sua humanidade) e negarem a doutrina da Trindade (século 5). Também condenaram os iconoclastas que se opunham à adoração às imagens e as destruíam. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) A questão cultural pode ser traduzida de forma bastante simples, coisa que não é, mas vamos a alguns aspectos que podem ser importantes para entendermos o que 8 9 estamos tentando situar no campo cultural. O cristianismo praticado pelos orientais foi assimilando as características religiosas asiáticas, mais centradas na espiritualidade, se- gundo a Ecclesia (s.d), isso ajudou a manter os orientais do império Bizantino afastados da porção romana do ocidente, focando sua tradição e ritual atrelados ao mundo grego. Ainda segundo o artigo da revista Ecclesia, os cristãos ocidentais carregaram a in- fluência dos costumes dos povos germânicos. Outro aspecto importante foi que houve uma crise entre as duas partes cristãs, essa estava agora relacionada à autoridade da igreja, pois, aproximadamente no ano de 867 d.C., a Igreja de Constantinopla colocou em cheque a autoridade da igreja de Roma sobre os demais patriarcados localizados no Oriente e, do século nono ao onze, ao invés de entrarem em um entendimento, as coisas só pioraram. O ápice da crise se deu no pontificado de Leão IX, Os Papas apresentaram exigências que pioraram suas diferenças, principalmente quando Leão IX polemizou, entre 1048 e 1054, e os ocidentais se opuseram ao sistema bizantino, segundo o qual a igreja oriental se submetia ao chefe secular – sistema chamado cesaropapis- mo: o Imperador era superior e eleito de Deus para governar a Igreja também, administrar seus conflitos e manter a unidade do Império e da Igreja. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) Nesse contexto, o patriarca de Constantinopla era Miguel de Cerulário, que assumiu o posto no ano de 1043. No comando da Igreja Bizantina, passou a atacar a pretensa supremacia da Igreja de Roma, chamada na época também de Igreja Latina. Era uma verdadeira campanha contra o poder do Papa. O Papa Leão IX, na tentativa de enfren- tar o poder de Cerulário, resolveu enviar um representante até Constantinopla, o Car- deal Humberto. Para isso, foi montada uma “cortina de fumaça”, jogando a discussão “para solucionar a questão teológica que as diferenciava” (ECCLESIA BRASIL, s.d.). No entanto, a coisa só piorou, pois o cardeal Humberto resolveu excomungar Miguel de Cerulário junto com toda a igreja Bizantina. A ação recebeu reação, pois o patriarca bizantino Miguel de Cerulário excomungou o Papa Leão IX, Esta ruptura ou dissensão ficou chamada como o Cisma do Oriente, ou o Grande Cisma, que originou a Igreja Ortodoxa ou Igreja Católi- ca do Oriente, separando-se da igreja Católica do Ocidente, a roma- na. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) Essa situação durou mais de dois séculos, até que houvesse uma primeira tentativa de apaziguar os ânimos. Isso se deu no concilio ecumênico de Lyon, no ano de 1274 d.C., e depois em Florença, no ano de 1439 d.C., que resultou em um breve período de comunhão entre as duas igrejas. Essa crise entre as igrejas do Oriente e do Ocidente é frequentemente citada como uma das causas da queda do império romano do orien- te. Enquanto se discutia questões religiosas, os romanos orientais se descuidaram das questões políticas mais urgentes. Segundo o artigo da Ecclesia, “com as divisões e dis- cussões teológicas, os turcos otomanos se aproveitaram para invadir Constantinopla e decretar a queda do Império Romano do Oriente, em 1453” (ECCLESIA BRASIL, s.d.) 9 UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão Breve Nota Sobre o Contexto Político na Cúria Romana Desde o século X, havia uma movimentação política na Cúria Romana para se fazer uma reforma em que o poder estaria centralizado nas mãos dos papas, esse processo foi longo e durou até o século XIII. Segundo Pierini (1997, p. 108), havia uma “luta entre os vários imperialismos políticos e religiosos, que se desenrolou entre os séculos X e XIII, não podia deixar de envolver, de alguma maneira, o papado, conferindo-lhe uma fisionomia à altura da situação”. Na realidade, essa movimentação teve sua gênese no século IX devido ao envolvimento do papado nas disputas entre os herdeiros do império carolíngio e os partidos que dominavam Roma – o apoio do “chefe” da igreja de Roma ora pendia para um lado ora para outro. Vários absurdos se sucederam nesse contexto a ponto de ser realizado um sínodo para condenar o cadáver de um papa. O “sínodo cadavérico”, condenou o papa Formo- so (891-896), seus rivais exumaram seu corpo para que fosse realizado um julgamento “pós-morte”. Na ocasião, o papa Estevão VI orquestrou esse absurdo, o ano era 897 d.C. No ano de 898, o papa João IX, em outro sínodo, reabilitou o papa Formoso. Nes- sa ocasião, João também procurou blindar a eleição dos papas dos condicionamentos locais. Segundo Pierini, [...] foram necessários mais de cinquenta anos até que a sede pontifícia conseguisse sair do pântano em que havia se metido. Isso começou a acontecer com a fundação do movimento reformista patrocinado pelo mosteiro de Cluny a parir de 910. (PIERINI, 1997, p. 108) No ano 1000, depois de alguns ensaios de reforma, surge uma verdadeira intenção reformadora na figura do Papa Silvestre II, que governou a igreja entre 999 e 1003 d.C. Segundo Perini (1997), Silvestre e seu discípulo Otão III planejaram uma renovatio imperii, sendo o precursor de um papado reformador e reformado. Como sabemos, os imperadores também estavam, de certa forma, envolvidos com o governo da igre- ja. Durante o governo de Henrique III (1039-1056), da dinastia Francônia, havia três pretendentes ao trono de Pedro no ano de 1046: Silvestre III, Bento IX e Gregório VI. Henrique tomou a atitude de depor os três pretendentes ao papado e apoiou a eleição de Clemente II, que governo a igreja de Roma entre os anos 1046-1047. De acordo com seu “histórico”, o papa Clemente II era pessoa digna e reformadora. O mosteiro de Cluny dava as cartas na reforma da igreja. Apesar das tentativas de reforma na igreja, quem enfrentou a questão do poder im- perial foi Leão IX (1049-1054), foi com esse papa que [...] a reforma do papado começou a delinear-se como uma concorrên- cia à autoridade imperial, segundo os princípios gelasianos que impli- cavam na superioridade da autoridade moral dos bispos e dos papas sobre o poder jurídico dos governantes civis. (PERINI, 1997, p. 109) Com a morte de Leão IX, foi o papa Nicolau II (1057-1061) quem deu o golpe de misericórdia no poder de intromissão dos imperadores nos assuntos estritamente ecle- siásticos. No ano de 1059, o sínodo lateranense deu novo formato para a eleição dos 10 11 papas. Segundo esse sínodo, a eleição pontifícia caberia apenas à liderança do clero romano. Os cardeais elegeriam o papa e ao imperador cabia apenas o gesto de “honra e reverência”, outra decisão importante decidida nesse sínodo foi a aprovação da primeiraproibição formal em relação à investidura de eclesiásticos por parte dos leigos. Na eleição do papa Alexandre II (1061-1073), pela primeira vez não houve a “colabo- ração” do poder civil na pessoa do imperador. Seu sucessor, Gregório VII, foi um dos reformadores mais importantes da igreja por causa de seu enfrentamento à pretensão de retorno à antiga forma da relação “igreja-estado”, pois, segundo Perini (1997, p. 109), “já havia [...] todos os ingredientes para a colisão frontal entre o império, que continuava feu- dal, e a Igreja, que queria libertar-se do feudalismo”. Nesse contexto, o antipapa Clemente III, no ano de 1084, coroou imperador Henrique IV, rei da Germânia de 1066-1105. O papa Gregório VII, no calor das disputas, havia excomungado Henrique IV no ano de 1076. No ano de 1105, Henrique V, filho de Henrique IV, derrubou o pai e assumiu o trono da Germânia, porém, em relação aos papas, nada mudou, haja vista que o novo imperador continuou sua luta contra os papas reformadores pelo direito de intromissão nos assuntos eclesiásticos. Ele governou até o ano de 1125 e empreendeu várias dispu- tas com os papas que se sucederam, a saber: papa Vitor III (1086-1087), papa Urbano II (1088-1099), papa Pascal II (1099-1118) e o papa Gelásio II (1118-1119). No contexto de disputas entre papas e imperadores, durante um percurso de aproxi- madamente trezentos anos, o cisma com o Oriente já havia infelizmente “dado as caras”, houve inúmeras tentativas de aproximação até o concílio de Trento no século XVI, todos resultando em insucesso. Agora o que podemos perceber é que a Cúria Romana estava mais focada em seus embates com o poder civil no Ocidente do que procurando uma tentativa de se reconciliar com a Igreja do Oriente, e assim mais problemas foram surgin- do até que o alto clero romano pudesse viver sob certa estabilidade interna. Muita água rolaria sob as pontes do rio Tevere até que o poder dos papas estivesse centralizado nas suas mãos, sem a interferência civil. Figura 1 – Rio Tevere Fonte: Wikimedia Commons 11 UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão Tevere em italiano ou Tibre em latim é um grande rio italiano que “corta” a cidade de Roma com nascente na região italiana da Emília-Romanha e desaguando no Mar Tirreno. A relação conturbada de Henrique V com os papas, citados acima, teve um certo momento de trégua com a assinatura da concordata de Worms no ano de 1122, quando estava no trono de Pedro o Papa Calisto II, “[...] foi o primeiro de uma série de acordos estabelecidos entre a Igreja e Estado, convencionados, dependendo das circunstâncias, como concordatas de paz, de amizade ou de defesa” (PERINI, 1997, p. 110). O con- cílio de Latrão, no ano de 1123, confirmou esse acordo entre o imperador e o papa. Porém, esse acordo naufragou, pois, na realidade, não satisfazia nenhuma das partes envolvidas. Um dos motivos para o fracasso de Worms foi a disputa pela região meridio- nal da península itálica que estava nas mãos dos normando e era disputada pelo Papa, por Henrique V e pelos detentores de sua posse nesse momento, os normandos. O envolvimento na política “mundana” era uma situação com extremado peso para a igreja. No concílio de Latrão II, no ano de 1139, alguns pontos polêmicos surgiram como, por exemplo, o combate aos antipapas, entre eles Celestino II, que surgiu nesse contexto de disputa política dentro da igreja, [...] o concilio impôs a unidade papal sobre os seus delegados depois de um período de cisma, um problema que atormentou a Igreja ao lon- go do século XII, quando havia quase tantos antipapas quanto papas. (BELLITTO, 2016, p. 75-76) Mas a questão importante para nós aqui é saber que, segundo Perini (1997), Rogério, o Normando, foi excomungado pelo concílio, e que, no cenário político, surgia a dinastia alemão dos suevos, com o soberano coroado por um papa e um antipapa, Frederico I, o Barba Roxa, coroado imperador no ano de 1155 pelo Papa Adriano IV e posterior- mente no ano de 1167 pelo antipapa Pascoal III. As bases para a nova disputa de poder entre Igreja e Estado não se davam mais pe- los princípios de poder político “gelasianos” ou “agostinianos”, mas pelos princípios do direito romano onde, [...] o imperador considerava-se herdeiro dos Césares e, por isso, de- tentor da autoridade máxima e do poder supremo, senhor de tudo. Ele não quer mais ouvir falar de ofícios e benefícios concedidos ao papa, nem de deveres em relação a ele. (PERINI, 1997, p. 111) Em relação ao Grande Cisma de 1054, a situação foi ofuscada pelas disputas que a Igreja e o Estado estavam travando no Ocidente. As coisas se complicam aí bastante, quando pensamos nas diferenças culturais que envolviam Oriente e Ocidente, conforme comentado no tópico anterior. A questão da centralização do poder da igreja no Oci- dente não explica toda a questão da não reconciliação, mas é parte importante, como acabamos de ver. 12 13 O Papa Gelásio I foi o primeiro a efetuar a distinção entre poder temporal dos imperadores e poder espiritual dos papas, colocando os bispos em posição superior. Assim, um papa não poderia ser julgado por ninguém. A partir dele, surgiu uma norma eclesiástica que durou até a Idade Moderna chamada de Infabilidade Papal. O Papa Gelásio I também ratificou os livros canônicos e apócrifos aprovados pela Igreja Católica. Fonte: http://bit.ly/2QsOdu2 A questão era que o imperador, apesar de católico, refutou o poder dos papas res- peitando-os apenas como padres. Com isso, os confrontos se tornariam inevitáveis por mais um longo período. Os reformadores de Cluny, a centralização que havia sido en- caminhada até aqui, será cada dia mais colocada à prova. Mas dessa vez o absolutismo imperial não terá apenas a oposição do pontífice, [...] também a dos maiores feudatários do império, por exemplo, de Henrique, o Leão, duque da Baviera, das outras nações europeias e das forças comunais e senhoriais já em via de exuberante desenvolvi- mento, sobretudo na Itália setentrional. Foi essa singular aliança que derrotou Frederico I e, depois também o seu filho Henrique VI, (rei de 1190 a 1197, imperador coroado pelo papa Clemente III em 1191), e criou aquele conjunto de circunstancias favoráveis que permitiram ao papa Inocêncio III (1198-1216) se tornar, por alguns anos, o árbitro supremo, na Europa, dos impérios do Ocidente e do Oriente, me- diante a conquista de Constantinopla, em 1204, das nações que se declaravam vassalas da Santa Sé para escapar das miras imperiais, e das comunas em luta contra os imperadores. (PERINI, 1997, p. 111) Nos concílios de Latrão III (1179) e Latrão IV (1215), os papas Alexandre III e Ino- cêncio III puderam restabelecer certo período de predomínio dos papas sobre os impe- radores. Essas vitórias foram então o ponto de partida para a “luta dos papas contra as pretensões imperiais e a favor da reforma eclesiástica, sob todos os seus aspectos [...] no conjunto foi só uma ilusão. A luta estava para recomeçar” (PERINI, 1997, p. 112). Isso porque o suevo Frederico II (1197-1250) reuniu sob seu poder, com defeitos e qualida- des, a atitude política e religiosa. Um absolutista que não tinha escrúpulos para atingir seus objetivos e que desrespeitava qualquer programa eclesiástico. O imperador combateu os papas Gregório IX (1227-1241) e Inocêncio IV (1243- 1254) e chegou a ser excomungado pelo concílio de Lião no ano de 1245. Segundo Perini (1997), o consolo foi que com a morte desse imperador chegava ao fim o império medieval construído por Carlos Magno no ano 800. Houve ainda alguns imperadores que tentaram impor sua ingerência nos assuntos da Igreja, houve aqueles que prestaram grande serviços ao cristianismo, mas a aliança que havia existido até então nunca mais seria a mesma. Segundo Perini (1997), as alianças entre a Igreja e os imperadores mudou dos bizan- tinos para os francos, desses para os alemães, chegando aos franceses (monarquia que 13 UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão causou tambémsérios atritos com o papado). Essa longa disputa de mais de três séculos resultou em maior centralização do poder da Cúria Romana que estava se formando, a direção da igreja ocidental estava agora nas mãos dos “seus”, apesar de no século XIV a Cúria ter se transferido para Avignon. Os papas, no processo de “estadia” nessa re- gião, não foram cativos como se supõe e também não estavam alijados de seu poder e influência, como veremos a seguir. Grande Cisma: algumas questões políticas e de fé Com base nos dados disponíveis na Ecclesia, podemos ainda refletir melhor sobre outros pontos de vista sobre o cisma, além da questão da infalibilidade papal e da ques- tão do filioque. Segundo a Ecclesia, o papa se tornou um autocrata assumindo o papel de um monarca absolutista se colocando acima da Igreja, ou das igrejas, porque, nesse contexto, elas estavam unidas e essa atitude causou estranhamento nos patriarcados estabelecidos no Oriente. Os papas estavam assumindo o governo da igreja universal sem que para isso houvessem consultado os patriarcas gregos, [...] se colocou acima da Igreja, expedindo ordens de um modo que poucos ou nenhum bispo do oriente jamais havia feito, não só quanto aos subordinados da Igreja, mas também quanto as autoridades secu- lares. A Igreja no ocidente tornou-se centralizada a um ponto que era desconhecido em qualquer dos patriarcados no oriente, com exceção possivelmente no Egito. Monarquia no ocidente; no oriente um cole- giado. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) Outro ponto interessante observado pelos ortodoxos orientais foi o de que havia um grande fosso intelectual entre o clero e os leigos, ou seja, a forma como o clero agia em relação aos leigos em ambos os lados. Na igreja Oriental, o relevo dado à teologia e à forma como ela era pensada diferia muito da forma como o Ocidente tratava a questão, pois, para os ortodoxos, o estudo da teologia pelos leigos era de grande relevância para o progresso do pensamento cristão, haja vista que “o teólogo leigo sempre foi uma figura aceita na Ortodoxia; alguns dos patriarcas bizantinos mais cultos – Photius, por exemplo - haviam sido leigos antes de serem escolhidos para o Patriarcado” (ECCLESIA BRASIL, s.d.). No ocidente, segundo os ortodoxos, durante a longa Idade Média, apenas o clero detinha o poder intelectual, ou seja, “a teologia tornou-se privilégio dos padres, uma vez que a maior parte dos leigos era analfabeta, e não era capaz de entender as tecnicidades de uma discussão teológica” (ECCLESIA BRASIL, s.d.). Para a igreja Ortodoxa, que também confiava aos bispos e ao clero o papel especial da educação, não havia dis- tinção entre os religiosos e os leigos, cabendo também a esses (leigos) um importante papel como interlocutores entre o saber e a população ávida por aprender. Não havia, portanto, a divisão que foi colocada pela igreja ocidental entre clero e leigos. A falta de instrução também causou outro inconveniente, As relações entre os cristãos do leste e do oeste se tornaram ainda mais difíceis pela ausência de uma língua comum. Como os dois lados já não conseguiam se comunicar entre si com facilidade, ou ler o que o outro escrevera, apareceram frequentes mal-entendidos em termos 14 15 de teologia. Estes mal-entendidos pioravam ainda mais por causa das traduções malfeitas as quais se teme terem sido feitas deliberada e ma- liciosamente. O leste e o oeste se tornavam estranhos um ao outro, o que era algo que provavelmente afetaria ambos os lados. Na Igreja pri- mitiva tinha havido unidade na fé, mas uma diversidade de escolas de teologia. Desde o início, tanto o leste quanto o oeste haviam enfocado o mistério cristão cada um à sua maneira. O enfoque do ocidente era mais prático; o do leste, mais especulativo. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) Um ponto a ser ressaltado da visão oriental sobre os ocidentais foi que, enquanto o legalismo jurídico romano impregna o pensamento teológico da igreja no Ocidente, os “gregos” têm uma reflexão mais espiritualizada nesse aspecto, ou seja, entre os exem- plos que diferenciavam uns dos outros, podemos citar alguns: “quando pensavam a Trindade, os romanos o faziam pela unidade de Deus Pai, os gregos pela triunidade das Pessoas [...]; quando refletiam sobre a crucificação, os romanos pensavam [...] no Cristo, vítima, os gregos, no Cristo vencedor (ECCLESIA BRASIL, s.d.). Além disso, os gregos falavam mais da deificação, enquanto os romanos enfocavam na redenção de Cristo. Mas é importante pontuar que para as escolas teológicas de Antioquia e Alexandria essas questões colocadas acima eram complementares, e não excludentes uma à outra, tendo seu próprio lugar na tradição católica. O problema é que, com as disputas políticas impostas pelo papado, os estranhamentos culturais que foram se aprofundando [...] com pouca unidade cultural, sem uma língua comum havia o pe- rigo de que cada lado seguisse seus pontos de vista isolados e que chegasse a extremos, esquecendo-se do valor que há em pontos de vista opostos. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) Falamos dos diferentes enfoques dados à doutrina no Leste e no Oeste. Havia dois pontos doutrinais em relação aos quais os dois lados não se completavam mais, mas entravam em conflito direto, era sobre a primazia da igreja de Roma e a infalibilidade do Papa e o filioque; a unidade da Igreja poderia ainda ter sido preservada se não tivesse havido essas duas outras questões difíceis. Segundo os gregos, a estrutura centralizada e monárquica da Igreja do Ocidente foi reforçada pelas invasões dos bárbaros. Porém, contanto que o Papa reivindicasse poder absoluto só no Ocidente, Bizâncio não faria qualquer objeção. Os bizantinos não se incomodavam que a Igreja do Ocidente fosse centralizada, contanto que o papado não interferisse no Leste. E logo que tentasse impor seu poder dentro dos Patriarcados do Orien- te, problemas haveriam de surgir. Os ortodoxos deram ao Papa uma primazia de honra, mas não a primazia universal que ele achava que lhe era devida. O Papa considerava a infalibilidade uma prerrogativa sua; os ortodoxos diziam que em questões relacionadas a fé a decisão final cabia não ao Papa sozinho, mas a um concilio representando todos os bispos da Igreja. Aqui temos duas concepções diferentes da organização externa da Igreja. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) A questão do filioque foi uma disputa sobre os termos como era entendido o Espírito Santo na relação trinitária colocada no credo Niceno-Constantinopolitano, que passou 15 UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão “despercebida” no início, mas que depois foi tomando uma relevância muito grande para cada um dos lados que a defendia de forma diferente. Como colocam os Ortodoxos, [...] originalmente o credo dizia ‘Eu creio no Espírito Senhor e fonte de vida, que procede do Pai, e com o Pai e o Filho recebe a mesma adoração e a mesma gloria’ Esta, que é a forma original, é recitada sem modificações no Oriente até hoje. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) Em relação ao Ocidente, houve uma alteração que não foi aceita pelos gregos, o acréscimo de uma frase extra, “e do Filho”, essa alteração deixou o credo da seguinte forma: “que procede do Pai e do filho”. Para os gregos, a origem dessa alteração é in- certa, segundo eles, o acréscimo do filioque no credo pode ter vindo da Espanha para combater o arianismo, mas o problema era que a igreja espanhola ratificara a alteração em um concílio regional, [...] no terceiro Concílio de Toledo (589), se não antes. Da Espanha, o filioque espalhou-se para a França, e daí para a Alemanha, onde foi bem recebido por Carlos Magno e adotado pelo concílio semi icono- clasta de Frankfurt (794). (ECCLESIA BRASIL, s.d.) Com a alteração adotada na corte de Carlos Magno, começou a se espalhar a acusação de que os bizantinos eram heréticos por não aceitarem a inclusão do filioque no credo rezado na igreja oriental – mas os gregos estavam rezando o credo em sua forma original, então por que seriam heréticos? A questão setornou mais complexa porque, em Roma, pelo menos até meados do século XI, o filioque também não fazia parte do credo. Em 808 o Papa Leão III escreve numa carta para Carlos Magno, que embora ele mesmo achasse que o filioque procedia em termos doutri- nais, ele considerava errado interferir nos termos do credo. Delibera- damente mandou inscrever o credo em placas de prata - sem o filio- que - e as colocou na igreja de São Pedro. Até segunda ordem, Roma agiria como mediadora entre a Alemanha e Bizâncio. Só depois de 850 que os bizantinos passaram a prestar atenção ao filioque. Quan- do o fizeram sua reação foi muito crítica. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) É evidente que a igreja Ortodoxa não concordou com a alteração realizada no credo original. Segundo os Ortodoxos, existem dois motivos para isso: em primeiro lugar, não se pode alterar, segundo eles, o que foi determinado pelos concílios ecumênicos, a não ser em um outro concilio ecumênico. Isso é óbvio para eles, pois “o Credo é propriedade de toda a Igreja, e uma parte dela não tem o direito de interferir nele. O Ocidente, ao alterar arbitrariamente o credo, sem consultar o oriente é culpado contra a unidade da Igreja” (ECCLESIA BRASIL, s.d.). O outro ponto a ser ressaltado é que, para os Ortodoxos, teologicamente, o Espírito Santo procede apenas do Pai e seria uma heresia dizer que Ele procede também do Filho. Para os Ortodoxos, a unidade da fé cristã está baseada na questão Trinitária e a alteração realizada nos concílios regionais de Toledo e Frankfurt altera esse entendimen- to, ou seja, a intervenção de Carlos Magno no século IX trouxe sérias consequência para a Unidade dos cristãos do Oriente e do Ocidente, pois, 16 17 uma vez que a doutrina sobre a Trindade é o cerne da fé cristã, uma pequena mudança de ênfase na teologia trinitária tem consequên- cias enormes em muitos outros campos. O filioque não só destrói o equilíbrio entre as três pessoas da Trindade, mas também leva a uma falsa compreensão da ação do Espírito no mundo, estimulando a existência de uma doutrina falsa sobre a Igreja. [...] Deve-se notar, no entanto, que certos teólogos ortodoxos consideram o filioque apenas um acréscimo não autorizado ao Credo, não necessariamente heréti- co por si só. (ECCLESIA BRASIL, s.d.) Outras questões de menor importância também apimentaram as disputas entre as igrejas do oriente e do ocidente, deixando cada vez mais distante um entendimento para que elas se reunificassem – tais como o casamento do clero, admitido pelos ortodoxos e negado pelos ocidentais, que insistem no celibato do clero; fora isso, as normas rela- tivas ao jejum é diferente em uma cultura e em outra; e até o tipo de pão utilizado na celebração eucarística foi ponto de discórdia, enquanto os gregos celebravam com pão fermentado, os ocidentais utilizam o pão ázimo. Ou seja, tudo acabava sendo motivo para a permanência da divisão iniciada no ano de 1054. Os Papas de Avignon Segundo o senso comum, ao observar um acontecimento histórico como o da trans- ferência do papado de Roma para Avignon no início do século XIV, logo se infere que o Papa foi levado envolto em grilhões e impossibilitado de retornar. Contudo, para esse pensamento ter sentido, isso teria que ter ocorrido com um papa, mas com sete papas consecutivamente vivendo fora dos muros da Cúria Romana, a reflexão sobre esse “ca- tiveiro” precisa ser repensada! O “Cativeiro de Avignon” está longe de ser um cativeiro, e, segundo os pesquisadores Fátima Regina Fernandes e Rafael de Mesquita Diehl (2017) do Núcleo de estudos Me- diterrâneos da UFPR, o que houve foi uma estratégia desses papas “cativos” no sentido de fortalecer o poder econômico e político do papado, o qual estava enfrentando mais uma vez em sua história um momento crítico nas disputas entre os imperadores e os papas – como pudemos observar acima. A situação política e econômica na Itália estava bastante confusa e o rei francês pressionava o papado para estabelecer sua influência sobre eles, e ver alguns de seus desejos atendidos como, por exemplo, a extinção da Ordem dos Templários. Como podemos perceber, esse imbróglio tem como ponto de partida o avanço do poder dos reis franceses e sua influência em parte dos territórios da península itálica e sobre o poder papal. Um dos pontos que levaram aos sérios conflitos entre os papas e o poder crescente da França sobre eles (os papas) teve como estopim o enfrentamento entre o Papa Bonifácio VIII e o Rei Filipe IV, o Belo, em que houve troca de ofensas de ambos os lados. Enquanto Bonifácio condenava a cobrança de elevados impostos reali- zada pelo rei francês, esse acusava o papa de sodomita e herético. O ponto mais crítico das desavenças entre o rei e o papa foi um cerco promovido por tropas francesas ao 17 UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão papa na cidade italiana de Anagni, Bonifácio foi humilhado pela “corte francesa”, mas não se intimidou. Desse acontecimento em diante, a relação entre a corte francesa e o papado não “esfriou” e o rei francês passou a pressionar a Cúria Romana para que fosse eleito um papa francês. O Papa Bonifácio faleceu no ano de 1303 e seu substituto foi outro italiano, o Papa Bento XI, que governou a igreja por pouco tempo, vindo a falecer em 1304. Depois disso, a pressão se fez mais forte e dessa vez foi eleito um papa francês, escolhido para governar a igreja, Clemente V, resultado de um compromisso entre os cardeais italianos e Felipe IV, o Belo. Dessa feita, o rei francês, satisfeito com a eleição e os resultados que ela provocou a seu favor, “exigiu” a transferência do papa para Avignon. Conseguiu também que o Papa Clemente revogasse os documentos assinados pelo Papa Bonifácio, além de ter o desejo de ver extinta a Ordem dos Templários, o que foi atendido por Clemente, pois queria apoderar-se de seus bens. Essa era uma questão de “honra” para o Belo, que estava de olho nesses bens, [...] os Templários eram grandes proprietários de terras na Europa, cujo rendimento ajudava a financiar as suas ações militares no ultra- mar [...] agiam como banqueiros e administradores de propriedades que muitas vezes se situavam em lugares luxuosos. (BELLITTO, 2016, p. 90) A perseguição de Felipe IV sobre os Templários teve como elemento intrigante a covardia do papa Clemente, que era fraco demais e ficou suscetível aos avanços da am- bição do rei francês sobre as posses da Ordem. Esse papa passou para a história como o papa que não evitou as falsas acusação de Filipe IV à condenação dos Templários, acu- sações de que eram heréticos e imorais, o que resultou em que “alguns dos cavaleiros, incluindo o seu grão-mestre, foram queimados na fogueira” (BELLITTO, 2016, p. 91). Segundo Fernandes e Diehl (2017, p. 22), [...] houve no início do século XIV não só um enfraquecimento do ideal de supremacia do poder papal sobre os poderes seculares dos monarcas, mas também uma submissão do Papado aos interesses da monarquia francesa. Devemos ressaltar neste ponto aspectos importantes daquele contexto onde houve a transferência da Cúria de Roma para Avignon. Não havia ainda no início do século XIV o que entendemos hoje como sentimento nacional, pois os estados nacionais ainda es- tavam com suas fronteiras bastante indefinidas, inclusive, como sabemos, Avignon não era um território francês. Como é bem exposto por Fernandes e Diehl (2017), foram as mentalidades moder- nas que projetaram para o período medieval os sentimentos nacionais, que ainda esta- vam em fase embrionária e fragmentada. Outro dado importante apontado pelos auto- res citados é o seguinte, “não houve uma transferência da Sé pontifícia, mas apenas da 18 19 residência do Papa, que continuou ostentando o título de Bispo de Roma” (FERNANDES; DIEHL, 2017, p. 22). Tabela 1 N. Papa País Nascimento Pontificado 195 Clemente V França 1305-1314 196 João XXII França 1316-1334 197 Bento XII França 1334-1342 198 Clemente VI França 1342-1352 199 InocêncioVI França 1352-1362 200 Urbano V França 1362-1370 201 Gregório XI França 1370-1378 Fonte: MCBRIEN, 2001 Na Tabela 1, podemos ter ideia da longa duração da transferência da sede administra- tiva da Cúria Romana para Avignon. Reforçamos o que foi dito acima, o papa transferiu apenas a administração, porém, continuou ostentado seu “poder” e as honrarias que o cargo de bispo de Roma e chefe da igreja Ocidental lhe conferiam. Para fundamentar nossa percepção de insegurança e confusão política vivida pelo papado na cidade de Roma, recorreremos mais uma vez a Fernandes e Diehl, que fazem uma ótima análise sobre isso: A transferência da Cúria pontifícia (e não da Sé, que continua a ser Roma) por um lado evidencia as fraquezas do Papado em seus pró- prios territórios, devido aos conflitos políticos entre guelfos e gibelinos na Itália, ao embate com o Império, à necessidade de garantir uma linhagem aliada no trono Siciliano, bem como os conflitos entre a aristocracia romana reverberando nas divisões internas do Colégio dos Cardeais. Entretanto, a transferência do papa e seu aparato admi- nistrativo para Avignon também podem ser entendidas como uma es- tratégia de buscar diminuir a influência das facções romanas do Sacro Colégio na eleição e decisões pontifícias, bem como buscar um terri- tório que fosse mais seguro militar e geograficamente. (FERNANDES; DIEHL, 2017, p. 43-44) Segundo esses autores, era então muito conveniente para o papa se estabelecer em Avignon, pois sua localização estava imbricada nas grande rotas comerciais que o favo- reciam a comunicação e o recebimento de impostos para a Sede Apostólica. Isso facilita- va o projeto papal no sentido de restabelecer seu poder e ampliar sua influência nas de- cisões da Igreja, já que estava sob a proteção de um reino forte naquele contexto, como o francês, ou seja, tudo se tratava de um jogo de interesses. Apesar de seu poder estar um pouco enfraquecido diante das monarquias que governavam a Europa, “por outro lado ele ganhava influência no âmbito ‘intra-eclesiástico’, aumentando os mecanismos de controle sobre nomeações episcopais, tribunais eclesiásticos e as finanças da Igreja” (FERNANDES; DIEHL, 2017, p. 43), ou seja, a estrutura administrativa da igreja estava de certa forma sendo “reformada” pelos papas de Avignon, que passaram a centralizar a estrutura da hierarquia eclesiástica nas suas mãos. Segundo Fernandes e Diehl (2017, 19 UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão p. 43), “ao governar a Igreja com maior possibilidade material de controle do que antes e residindo fora de sua Sé, o papa reforçava a sua pretensão de jurisdição universal”. O problema que surgiu a partir desse longo “cativeiro” foi o “Cisma do Ocidente”, com papas e antipapas, que se arrastou até o ano de 1417 e foi resolvido apenas no Concílio de Constança. Esse concílio tinha como questão a tarefa de unir novamente a igreja e se deu entre os anos de 1414-1418. Contudo, para complicar o que não estava fácil, havia também um concílio em Pisa, se a tarefa desse concílio fracassasse, se ele fosse “incapaz de acabar com o cisma, tornado ainda pior com a presença de três papa- dos ao invés de apenas dois, a Igreja teria de enfrentar uma divisão que poderia se tornar permanente” (BELLITTO, 2016, p. 118). Como já vimos, esse concílio tinha três tarefas: unificar a igreja de Roma, reformar a igreja e combater as heresias daquele contexto. Apesar da precedência da unificação, ela foi tratada no contexto das principais atribuições relativas à autoridade papal e conciliar. O concílio reunido tratou então de reunificar a igreja pela sua autoridade e seu primeiro ato foi depor o Papa João XXIII, o qual convocou o concílio, mas precisava abrir mão de seu posto na tentativa de encontrar um consenso sobre um nome para governar a igreja unida novamente. Em relação ao papa o romano Gregório XII, esse também concordou em renunciar pelo bem da Igreja e para contribuir assim com o fim do cisma. Bento XIII se recusou a aceitar as decisões do concílio, os padres conciliares só declararam sua deposição após terem a certeza de que haviam esgotado todos os argumentos para que ele o fizesse espontaneamente, o que ocorreu em julho de 1417. O concílio deliberou também a forma como o novo papa deveria ser eleito. Para isso, alteraram as regras decididas nos concilio de Latrão III e Lyon II de forma apenas provi- sória. Para vencer as eleições, [...] um candidato precisaria reunir, além de dois terços dos votos dos cardeais, dois terços dos votos de cada uma das cinco “nações”. O ob- jetivo era o de se alcançar um solido consenso para evitar a repetição do que havia ocorrido em Pisa”. (BELLITTO, 2016, p. 123) Foi eleito em três dias o cardeal Odo Colonna, que adotou o nome de Martinho V. Esse papa conseguiu manter a unidade e o respeito de todo o mundo cristão sob a ju- risdição romana. Como vimos, o “cativeiro” de Avignon não foi resolvido com a “volta” de um papa para Roma, as disputas políticas acima das religiosas quase quebraram a unidade da igreja do Ocidente, isso quase um século antes do advento da Reforma Protestante no século XVI. 20 21 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros A disputa entre o papa Bonifácio VIII e o rei Filipe IV no final do século XIII STREFLING, Sérgio Ricardo. A disputa entre o papa Bonifácio VIII e o rei Filipe IV no final do século XIII. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 37, n. 157, p. 409-419, set. 2007. O papado avinhonense e os poderes civis: as décadas de 30 e de 40 do século XIV a partir de três obras de Guilherme de Ockham MAGALHÃES, Ana Paula Tavares. O papado avinhonense e os poderes civis: as dé- cadas de 30 e de 40 do século XIV a partir de três obras de Guilherme de Ockham. HISTÓRIA, São Paulo, v. 27, n. 2. 2008. Vídeos Historia de la iglesia catolica – 21 – el exilio en Avignon https://youtu.be/gCPSO89LRx0 História de la iglesia catolica – 22 – el gran cisma de la iglesia https://youtu.be/h6pbE2QlDNs 21 UNIDADE Rupturas no Medievo Cristão Referências ALBERIGO, Giuseppe (org.). História dos Concílios Ecumênicos. 2 ed. São Paulo: Paulus, 1995. BELLITTO, Christopher M. História dos 21 Concílios da Igreja: de Nicéia ao Vaticano II. São Paulo: Loyola, 2016. CARLAN, Cláudio Umpierre. Constantino e as transformações do Império Romano no século IV. RHAA, v. 11, p. 27-35. [s.d.] Disponível em: <http://www.unicamp.br/chaa/ rhaa/downloads/Revista%2011%20-%20artigo%202.pdf>. Acesso em: 28 maio 2019. ECCLESIA BRASIL. A santa igreja ortodoxa. [s.d.]. Disponível em: <https://www. ecclesia.com.br/biblioteca/igreja_ortodoxa/a_igreja_ortodoxa_historia7.html>. Acesso em: 28 de maio de 2019. FERNANDES, Fátima Regina Fernandes; DIEHL, Rafael de Mesquita Diehl. A Cúria Papal: de Roma para Avignon (c. 1250-1350). INTUS-LEGERE HISTORIA, v. 11, n. 1, p. 21-44. 2017. GOMES, Edgar da Silva; SOUZA, Ney (org.). Trento em Movimento: contexto e Permanências. Jundiaí: Paco Editorial, 2018. [e-book] HOORNAERT, Eduardo. Origens do Cristianismo. São Paulo: Paulus, 2016. [e-book] MAGALHÃES, Ana Paula Tavares. O papado avinhonense e os poderes civis: as décadas de 30 e de 40 do século XIV a partir de três obras de Guilherme de Ockham. HISTÓRIA, São Paulo, v. 27, n. 2. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ his/v27n2/a11v27n2.pdf>. Acesso em: 28 maio 2019. PIERINI, Franco. A Idade Antiga. São Paulo: Paulus, 1998. PIERINI, Franco. A Idade Média. São Paulo: Paulus, 1997. SOUSA, Rainer Gonçalves. Invasões Bárbaras. Brasil Escola. [s.d.]. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/historiag/invasoes-barbaras.htm>. Acesso em: 28 de maio de 2019. 22