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ISABELA VICTÓRIA MOURA DE OLIVEIRA RAFAEL JÚNIOR DA SILVA ETEC JOSÉ ROCHA MENDES SÃO PAULO 2017 PANTOMIMA ZANNI I LAZZI Sinopse: Iniciar uma coleção de moda, requer meses de pesquisas principalmente quando o tema em que se trabalha é totalmente amplo e complexo. Por isto, é necessário um subtema, algo mais concreto e limitado. Assim, através deste artigo, viemos mostrar o nosso processo de criação da nossa coleção, com tema principal Circo e tema secundário Commédia Dell’Arte. Nas peças da coleção, nos inspiramos principalmente nas personagens Arlequin, Colombina e Pierrot, mais especificamente em suas emoções. E além deles, focamos em nosso público-alvo, os genderqueers e os não-binários, que são relativamente novos aqui no Brasil. Synopsis: Starting a fashion collection requires months of research, especially when the theme you are working on is broad and complex. For this reason, a sub-theme is needed, something more concrete and limited. So, through this article, we have come to show our process of creating our collection, with the main theme Circus and secondary theme Commedia Dell'Arte. In the pieces of the collection, we mainly inspired the characters Arlequin, Colombina and Pierrot, more specifically in their emotions. And beyond them, we focus on our target audience, genderqueers and non-binaries, which are relatively new here in Brazil. Palavras-Chaves: Arlequin, Circo, Colombina, Commedia Dell’ Arte, Genderqueers, Moda, Não-binário, Pantomima, Pierrot. Os dias estão sendo marcados pela expansão de diversas questões sobre o ser humano e suas ideologias para com si mesmo e o mundo. A nossa realidade é híbrida e complexa assim como o ser, e nada mais profundo e abrangente do que o circo para expressar esse mundo. As coleções Zanni e Lazzi trazem por meio da Commédia Dell’Arte cores, texturas e modelos extravagantes de personagens próprias e únicas para mostrar pensamentos que hoje entram em conflito com a conduta social e estão em constante processo de transformação, assim como essa linguagem artística. A origem do circo é de quando os antigos romanos faziam lutas de gladiadores e corridas de bigas, em anfiteatros. Também existem registros que falam sobre a existência de malabaristas, artistas de teatro e comediantes que viajavam pela Europa fazendo apresentações, algum tempo depois dos romanos. São itinerantes e passam pouco tempo em um mesmo local. Sua estrutura é feita por picadeiros, arquibancadas e cobertos por uma grande lona. O circo é um espetáculo que abrange diversas modalidades de artes, desde a bailarina até o palhaço. Uma das causas, é a variedade de culturas que o ajudaram a se tornar o que é hoje. Pantomima é uma manifestação artística de interpretação teatral em que os atores utilizavam mais os gestos e movimentos do que as falas. Para o entendimento do público, eram necessários coros¹. A primeira apresentação de Pantomima foi no Período do Teatro Romano. As cenas eram baseadas na mitologia e na história. Os intérpretes eram chamados de “pantomimus”, trajavam-se com roupas parecidas com as da tragédia e usavam máscaras. Após este período foram encontrados balés com algumas características semelhantes na Inglaterra, no início do século XVIII. Estes foram apresentados ao público como “novos entretenimentos dramáticos à maneira antiga das pantomimas”. O enredo se baseava em contos de fadas, com passos de dança. Atualmente, o termo Pantomima é sinônimo de mímica. A Commédia Dell'Arte surgiu em meados da Renascença Italiana, e vinha como contradição da Commédia Erudita². Podemos dizer também que ela retomou alguns pontos da Pantomima. Foi um espetáculo teatral circense, composto pelos primeiros atores profissionais que, juntos, formavam uma Companhia. Na época, as apresentações tinham pouco ou nenhum valor literário, e não existem raízes, de onde ela se originou. ³ Qualquer personagem cujos traços físicos ou características comportamentais podem ser reconhecidas pelo espectador. ⁴ Nome dado aos roteiros da Commédia Dell’Arte, anteriormente chamados de soggeto. Tais roteiros incluíam uma síntese de cada cena da peça com informações detalhadas acerca de marcação, intenção e caracterização. Haviam duas características narrativas básicas. Uma delas é a importância do personagem-tipo³, que era o centro da organização da cena. A outra, é a ação, que é o que dá origem ao enredo dos acontecimentos. Existiam várias Companhias, geralmente formadas por membros da família e alguns atores contratados e que se apresentavam em diversos lugares, desde ruas até palácios. Eram itinerantes, e por isso, conquistaram a Europa. Os espetáculos tiveram uma grande influência carnavalesca. É possível vê-la nos figurinos, acrobacias, danças e em outros momentos, onde os atores traziam toda a alegria e festividade para a peça. Cada peça continha um roteiro, que era chamado de Scenario⁴ onde eram fixados em cada ponta do palco, para que os atores pudessem ler. Mas ao mesmo tempo em que seguiam o scenario, os atores improvisavam, o usando apenas como uma base, para que houvesse uma sequência nas cenas. Nas Companhias, cada ator poderia ter um personagem-tipo para a vida toda. Para isso, ele deveria se especializar em determinadas funções, como por exemplo: dança, acrobacia ou mímica. Seus figurinos também eram características marcantes, em conjunto com suas máscaras. Dependendo de onde a personagem estivesse e também da época, suas características poderiam ser modificadas, como figurino ou personalidade. É importante ressaltar que foi criado um modelo muito característico das peças, criado por Gianni, onde as personagens eram divididas em duas classes: os patrões e os criados (ou Zanni). Os Zanni eram uma das classes de personagens encontrada na Commédia Dell’Arte. Eram os criados das peças, sendo as personagens mais engraçadas e conhecidas. Geralmente, as cenas continham mais de uma personagem, ou seja, existiam dois ou mais atores no palco. Além disso, podia-se ver características muito fortes da pantomima. As principais personagens da classe, são o Arlequin e a Colombina. Porém, além deles, existe também o Pierrot, que se encaixa na Pantomima. O Arlequin é o principal personagem da Commédia Dell’Arte, na classe dos Zanni. O ator deveria se especializar em acrobacias, já que iria representar um acrobata. Suas três principais características são a estupidez, a inteligência e a esperteza. Nos espetáculos, graças ao seu trabalho na área da criadagem, Arlequin tem grande prestígio e poder por receber informações importantes, o que o tornava o principal motivo das intrigas. Seus trajes eram feitos de remendos coloridos e algum tempo depois, começaram a serem feitos de losangos verdes, vermelhos e azuis. A personagem tinha a cabeça raspada, porém coberta por um chapéu preto e também uma meia máscara, que com o passar do tempo foi retirada de suas características. Suas cenas geralmente são feitas com a personagem Colombina, que era apaixonada por ele. A Colombina é uma personagem também pertencente à classe Zanni. É considerada uma antecessora de Soubrette, por alguns estudiosos. Para interpretá-la a atriz deveria saber dançar bem. Sua primeira vestimenta, era um vestido branco, com avental verde e um pequeno chapéu colocado de lado, e assim ficou, até 1695, quando ela aparece com um vestido de bailarina de tule branco e uma guirlanda de flores no cabelo. Após ela ficar famosa na França, foi modificado um personagem chamado Pedrolino da classe Zanni, que acabou com o nome de Pierrot, fazendo assim com que entrasse para a trama. As características principais de Pierrot são a melancolia, a ingenuidade, a pantomima. Seu traje mais conhecido é feito de seda, folgado, com uma gola bufante. Sua maquiagem é em formato de losango preto, que acaba com uma gota, representando sua tristeza. Os trajes das outras personagens Zanni eram, normalmente calças largas e bufantes, máscaras feitas de couro, e um cinto, onde havia uma adaga de madeira. Seus alvos de piadas, trapaças e enganações,eram seus patrões, que os incomodavam. Os que mais ficaram conhecidos, foram: Pantallone e Dottore. Ambos eram mesquinhos. Outro personagem importante, conhecido por ser fanfarrão, foi Capitano, que também era alvo de enganações. Existem duas maneiras muito conhecidas de interpretação utilizadas, principalmente, na Commédia Dell'Arte: a burla e o lazzo. A Burla é um tipo de improvisação que utiliza ou gestos ou falas, com efeito cômico. Após a execução dela, o ator deveria voltar ao ponto em que havia parado. A diferença entre a Burla e o Lazzo é que na Burla as cenas eram mais extensas, e precisavam de um tema único. O Lazzo é um tipo de improvisação muito utilizada pelos atores da Commédia Dell’Arte, principalmente pelos que interpretavam a classe dos Zanni. Mesmo sendo uma improvisação, os atores já tinham conhecimento de que em determinada parte da peça eles teriam de utilizar este tipo de improviso. O lazzo é uma mistura de gestos e falas. Lazzi é um repertório de lazzo que, na época, tinha função dramatúrgica e acabou tornando-se uma característica de alguns atores. Depois de todas estas informações, resolvemos escolher o nome da nossa marca focando em nosso público-alvo, que acabou sendo Tropicali. E por que Tropicali? Tropicali deriva da palavra tropicalismo, que foi um importante movimento do final da década de 1960, onde através da arte (música, dança, teatro, entre outras) expressava sua opinião sobre a ditadura e o contexto político da época. Então, voltando ao nosso tema, apresentamos nossas duas coleções: Zanni e Lazzi, que embora tenham nomes diferentes, possuem as mesmas características. Nossas peças são inspiradas nas emoções de cada personagem de um espetáculo teatral circense da Commédia Dell’ Arte. Interligamos as personagens a felicidade do povo brasileiro e, principalmente, ao nosso público-alvo. O conceito das coleções são as diferenças e as semelhanças entre as emoções dos três personagens (Arlequin, Colombina e Pierrot), que estão conectadas, graças ao triângulo amoroso em que se encontram. A história do triângulo amoroso entre Arlequim, Colombina e Pierrot é uma mistura de amor, humor, movimentos corporais e muitas cores, que relacionamos às estações Primavera e Verão. O ano que escolhemos é 2018, pela grande presença de bordados manuais, recortes e listras. Os tecidos usados para a confecção dos looks, são todos de reuso. Pesquisamos onde encontraríamos um local que pudéssemos comprar tecidos bons e únicos, mas de maneira consciente e sustentável. Acabamos indo parar no Banco De Tecidos, que atualmente, possui duas unidades. A ideia principal do Banco é colocar em uso tecidos que temos em casa, mas não utilizamos, retalhos grandes que geralmente jogamos fora, e dar uma nova chance para eles. Com isso, nós diminuímos o consumo dos recursos naturais do planta. "O Banco de Tecido nasceu quando a cenógrafa e figurinista Lu Bueno constatou que possuía cerca de 800 quilos de tecidos de cores, padronagens e tamanhos variados, acumulados após 20 anos de trabalho no cinema, teatro e televisão. Buscando uma forma de lidar com esse estoque, ela encontrou com o Banco de Tecido uma solução para reaproveitar o que estava parado. O escritório e estoque principal do Banco, hoje em dia, está sob os seus cuidados. Fica localizado no mesmo espaço onde ela desenvolve seus projetos paralelos ao banco como espetáculos de teatro e outras produções." Além da sustentabilidade dos tecidos, não utilizamos fibras de animais. Nós criamos uma marca vegana, e unimos este pensamento junto com a sustentabilidade do reuso. Escolhemos, tecidos leves e frescos, como a mousseline. Mas também utilizamos tecidos sofisticados, como o crepe de seda. Fizemos uma mistura entre tecidos com muito movimento e tecidos mais duros, para conseguirmos passar o oposto das emoções de Arlequin e Pierrot. Colocamos muito bordado, para deixarmos as peças únicas. Nos recortes, representamos principalmente, as roupas da personagem Arlequin. Para montarmos a cartela de cores, continuamos nos concentrando nas emoções das personagens Arlequin Colombina e Pierrot. Por fim, fizemos uma cartela com 9 cores. Optamos por dividir em 3 cores para representarem cada personagem. As cores do Arlequin, são o amarelo, o laranja e o vermelho. As da Colombina são o azul, o rosa e o roxo. E as do Pierrot, azul petróleo, cinza e preto. Os nomes fantasia que demos, são baseados em uma história que criamos. O Amarelo Real é baseado no local em que a história ocorre, um palácio. O Laranja Carnavalesco, é por causa do momento em que se passa, em um carnaval. O Vermelho Sedução, é a cor que representa a personalidade de galante do Arlequin. O Azul da Esperança, foi nomeado assim pela fé que a Colombina tinha de que, um dia, Arlequin iria amá-la. Roxo de Histórias, representa o desejo de viver uma história de amor. O Rosa Apaixonante, foi baseado em uma das características da personagem, que é cativante. O Azul Profundo representa a profundidade dos sentimentos de Pierrot por Colombina. Cinzas veio da quarta-feira de cinzas, após o carnaval. A Tristeza é uma das principais características da personagem. E como o público-alvo é representado nessas escolhas? Nossa marca é voltada para os genderqueers e os não binários brasileiros. Estes são novos termos que designam pessoas que não se enquadram no gênero cis, definição utilizada para designar pessoas que se identificam com seu sexo biológico. São pessoas que possuem pouca ou nenhuma representatividade, ou marcas que se preocupem com elas aqui no Brasil. Além disso, alguns não binários modificam seus corpos com hormônios, dificultando o bom caimentos das peças de roupas, principalmente em fast fashions, sendo este um dos motivos para termos escolhido este público, que precisam de peças feitas sob medidas. Antes de explicarmos mais sobre eles, é necessário explicarmos as definições de gênero e sexo biológico. O gênero é como nós nos identificamos. Sexo biológico é a designação que temos desde quando nascemos, pelo órgão sexual. Na sociedade em que vivemos, nos é imposto apenas dois gêneros: masculino ou feminino. No entanto, existem pessoas que não se sentem confortáveis em aceitarem eles. Será que em algum momento na história alguém pensou na possibilidade de haver um meio termo? Segundo alguns especialistas, sociólogos e filósofos, o gênero é um conceito construído socialmente. A filósofa francesa Simone Beauvoir, disse uma vez: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. A maneira como educamos nossas crianças, desde quando nascem, já designa ou a obriga a ser o que estamos impondo, sendo assim, impedindo de elas poderem ser quem realmente são. Um exemplo muito bom, são as cores. Nós colocamos um gênero nelas. Quando descobrimos o sexo do bebê, decoramos o quarto de rosa para as “meninas” ou azul para os “meninos”. No final do século XX, filósofos, estudantes acadêmicos e professores começaram a pesquisar sobre este assunto, que resultou na Teoria Queer. Esta Teoria abrangia gays afeminados, lésbicas masculinizadas, travestis, transgêneros e pessoas que não se identificavam como homem ou mulher. Então, ela começou a abrir os olhos da sociedade para as pessoas que não acreditavam no conceito binário, no final da década de 90. Apesar disso, o maior período de repercussão está ocorrendo agora, na segunda década do século XXI. Mesmo a Teoria tendo como alvo as pessoas que não se enquadram nos estereótipos, vale ressaltar que o termo não-binário pode ter significado diferente, dependendo de sua concepção. Em sua tese, ela apenas defende que homens e mulheres são termos construídos socialmente, e não são necessários. Genderqueer é um derivado desta teoria. É um termo político, que engloba o que foge da heteronormatividade. Não-binário é um termo que engloba outros gêneros, além do masculino e feminino, apesar de muitos não se sentirem contemplados pelo Genderqueers. Pessoas não binárias, não se identificam com os gêneros masculino e feminino, ou se reconhecem como os dois. Também podem sedenominar como trans, porque qualquer pessoa que não se reconhece com o sexo biológico pode ser considerada transgênero. Além disso, existem vários outros gêneros, como por exemplo: agênero, bigênero, gênero fluido, pangênero. Pessoas agêneras, não se identificam com os gêneros impostos pela sociedade, vulgo masculino e feminino. Os bigêneros se reconhecem com dois ou mais gêneros. Dependendo de como ela se sente, pode-se identificar mais com um gênero do que com outro. Gênero fluido, é uma identidade de gênero que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro. Pangênero é alguém que tem gêneros demais para contar. Conclusão: Ao começarmos o trabalho, vimos que seriam necessárias muitas pesquisas, principalmente para entendermos nosso público-alvo e interliga-lo ao nosso subtema, Commédia Dell’Arte. Com as nossas pesquisas, percebemos que nosso público são pessoas divertidas e que se encaixam com o nosso tema. Abordamos as emoções e sentimentos das personagens, que, apesar de serem antigas, continuam sendo atuais. Ao executarmos as peças, podemos perceber que nelas colocamos tudo o que queríamos passar, como uma forma de arte. Para nosso público se sentir bem, acreditamos que a parte mais importante da roupa é ter um significado, passar uma mensagem ao mundo de como eles são, o que eles sentem. 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