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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
ROTEIRO DE AULA
Finalidades De Nossa Disciplina
- Fornecer uma visão global do direito (visão panorâmica e unitária das disciplinas jurídicas);
- Demonstrar a complementaridade das disciplinas jurídicas, embora haja autonomia
doutrinária; (ou o sentido sistemático da unidade do fenômeno jurídico);
- Estabelecer o sentido dos vocábulos jurídicos, traçando as fronteiras das realidades e das
palavras; (onde quer que exista uma ciência, existe uma linguagem correspondente);
- Existem vocábulos com sentido técnico, como “codicilo”, que significa pequeno testamento.
Existem também aqueles com sentido técnico e grafia idêntica a outro de uso corriqueiro. Ex:
“competência”.
- Localizar o direito no mundo da cultura, no universo do saber humano.
- A Introdução ao Estudo do Direito é o elo entre a cultura geral e a jurídica.
- Fornecer as noções básicas do “método jurídico”. Mas, o que vem a ser um método?
Acepções da Palavra Direito
Significado da palavra direito: norma, faculdade, expressão do justo, ciência, fato
social, tributo, reto, certo, correto, oposto a esquerdo...
Estudar Direito é estudar um ramo do conhecimento humano, que ocupa um lugar
distinto nos domínios das ciências sociais, ao lado da História, da Sociologia, da Economia,
da Antropologia etc.
“Direito” significa, por conseguinte, tanto o ordenamento jurídico, ou seja, o sistema de
normas ou regras jurídicas que traça aos homens determinadas formas de comportamento,
conferindo-lhes possibilidades de agir, como o tipo de ciência que o estuda, a Ciência do
Direito ou Jurisprudência.
Direito em sentido axiológico, como sinônimo de Justiça.
“Direito” é uma palavra polissêmica.
Um primeiro significado, de extrema importância, da palavra direito é conforme a
justiça ou devido por justiça, expressão do justo.
O segundo significado diz respeito à legislação, norma ou conjunto de normas
jurídicas. Nestes casos, a expressão deve ser utilizada com a primeira inicial maiúscula
(Direito).
O terceiro significado da palavra direito são “poder” ou “faculdade”.
O quarto significado da palavra direito é o científico. O Direito como uma ciência cujo
objeto de estudo é o fenômeno jurídico. Esta ciência busca sistematizar o conhecimento sobre
o direito como um fenômeno jurídico. Esta ciência busca sistematizar o conhecimento sobre o
direito como um fenômeno jurídico, para que se possa compreendê-lo e utilizá-lo.
Estes sentidos aqui expostos não acabam com as possibilidades de definições da
palavra direito, senão vejamos: pode significar “reto” (segmento direito), “certeza aritmética”
(cálculo direito), “correção moral” (homem direito) ou então, um dos lados de qualquer
objeto (lado direito, oposto ao esquerdo).
Como resposta clássica, tem-se que direito é o que é justo, conforme a lei.
Também pode ser a capacidade de praticar ou não praticar um ato, ou uma
prerrogativa que se tem de exigir de outrem, em proveito próprio, a prática ou abstenção de
algum ato.
E, do mesmo modo, direito é conjunto de normas jurídicas vigentes num país.
Mas os conceitos básicos de Direito mudaram. Eles mudam de acordo com os padrões
individuais e sociais de cada época vivida.
Assim, hoje: [...] O direito é uma ordem da conduta humana. Uma "ordem" é um
sistema de regras. O Direito não é, como às vezes se diz, uma regra. É um conjunto de regras
que possui o tipo de unidade que entendemos por sistema.
É impossível conhecermos a natureza do Direito se restringirmos nossa atenção a uma
regra isolada. As relações que concatenam as regras específicas de uma ordem jurídica
também são essenciais à natureza do Direito.
"Apenas com base numa compreensão clara das relações que constituem a ordem
jurídica é que a natureza do Direito pode ser plenamente entendida".
DIREITO como sinônimo de justiça
Justiça = consiste em dar a cada um o que lhe pertence. "Significa nunca ninguém pretender
alguma coisa senão seja sua, nem que não possa ser legitimamente adquirida." - São Tomás
de Aquino
DIREITO como sinônimo de faculdade
Direito = lei?
Direito = justiça? Portanto = lei, e às vezes, justiça.
Apesar do que vem escrito no inciso II do artigo 5º da constituição federal "ninguém
será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtudes de lei", nem todas as leis
tem o caráter da obrigatoriedade, existe lei que apenas conceituam determinadas situações,
também existem leis que não nos obrigam a qualquer coisa limitando-nos a permitir
determinado comportamento, estas leis são chamadas “permissivas”, eis que teremos uma
situação de direito significando faculdade, opção possibilidade de escolha quando a palavra
direito for assim empregada.
DIREITO como um fato social - "O fato social direito é a fonte principal das normas que
regulam nosso comportamento enquanto vivendo em sociedade."
- Fato: qualquer acontecimento.
- Fato jurídico: qualquer acontecimento regulado pelo direito (LEI) é um acontecimento
especial, porque o direito regulou aquele acontecimento.
- Ato -> ação: fazer alguma coisa
-> omissão: deixar de fazer alguma coisa
- Ato: qualquer acontecimento originado da vontade humana. Ex.: namoro
(juridicamente irrelevante, não implica em consequências jurídicas)
- Ato jurídico: qualquer acontecimento originado de nossa vontade humana e
regulado pelo direito. Ex.: casamento
DIREITO como lei
É uma norma, uma regra de comportamento ou ainda um conjunto de regras que tem
por objetivo regular o comportamento das pessoas que vivem em sociedade essas regras são
elaboradas pela própria sociedade através de seus representantes que quando prontas são
entregues ao governo para que cuide de sua aplicação e é feita de forma coercitiva.
Constituição Federal, artigo 5º
Inciso II: "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa se não em virtude de lei".
Inciso XLVI: "O Direito Brasileiro não admite a pena de morte em tempo de paz."
DIREITO como ciência - "O estudo do direito requer métodos próprios."
Método
É o caminho que deve ser percorrido para a aquisição da verdade, ou, por outras
palavras, de um resultado exato ou rigorosamente verificado. Sem método não há ciência.
Cada ciência tem a sua forma de verificação, que não é apenas o modelo físico-
matemático.
O conhecimento popular não tem método, por isso ele é inseguro, isolado, fortuito, sem nexo
com os demais.
Mandamentos do advogado - Eduardo Couture
"Advogado, o teu dever é lutar pelo direito, mas no dia que encontrares o direito em
conflito com a justiça, luta pela justiça."(neste caso direito é lei).
3 Preceitos Fundamentais do Direito Romano: Honeste vivere,
neminem laedere, suum cuique tribuere (viver honestamente, não prejudicar
ninguém, atribuir a cada um o que lhe pertence)
A Sociedade e o Direito – Relação de Dependência
“Ubi societas, ibi jus” (Onde está a sociedade, está o direito)
O Direito tem como finalidade prevenir o surgimento de conflitos sociais, e solucionar
tais conflitos, quando os mesmos ocorrerem.
Uma das finalidades do Direito é promover o bem comum, que significa o conjunto de
condições sociais que permitam aos cidadãos o desenvolvimento ativo e pleno de si próprios.
A finalidade do Estado de Direito, é manter pacífica a convivência social, através de
"regras de conduta" capazes e eficazes de sustentar e manter a solidez social. E, quando
vamos além, e falamos em Estado Democrático de Direito, estamos nos referindo a um
Estado de participação ampla, a ponto de fornecer ao indivíduo mecanismos de defesa, de
preservação de direitos, de respeito às garantias e liberdades, passíveis de serem invocados
até mesmo contra o próprio Estado.
E, de tal forma, a sociedade é, pois, um sistema único que integraliza as relações
humanas, dirigido à satisfação de suas necessidades.Aos olhos do homem comum, o Direito é lei e ordem, isto é, um conjunto de regras
obrigatórias que garante a convivência social graças ao estabelecimento de limites à ação de
cada um de seus membros.
Sendo assim, só podemos falar de “experiência jurídica”, em verdade, onde e quando
se formam relações entre os homens, por isso denominadas relações intersubjetivas, por
envolverem sempre dois ou mais sujeitos.
O Direito é, por conseguinte, um fato ou fenômeno social; não existe senão na
sociedade e não pode ser concebido fora dela. Uma das características da realidade jurídica é,
como se vê, a sua socialidade, a sua qualidade de ser social.
Há, portanto, em cada comportamento humano, a presença, embora indireta, do
fenômeno jurídico: o Direito está pelo menos pressuposto em cada ação do homem que se
relacione com outro homem.
O Direito é, sob certo prisma, um manto protetor de organização e de direção dos
comportamentos sociais. Todas as infinitas possibilidades de ação se condicionam à
existência primordial do fenômeno jurídico.
Direito como fenômeno social e como Ciência:
O ser humano é um ser gregário e político, vivendo em grupos, em sociedade, e em
razão disso, existe o surgimento de alguns conflitos sociais.
Neste sentido o Direito desempenha dois papeis: Socialização e controle social.
Por meio da Socialização o indivíduo aprende os papéis que assumirá na sociedade.
Tais papéis implicam no desempenho de várias obrigações que necessitam de um controle
social.
O Controle Social visa cuidar que não se deixe de cumprir o necessário para a
manutenção do equilíbrio da organização social. O Direito é o modo mais formal do controle
social.
O Direito é um desses instrumentos, cujo objetivo é o estabelecimento de normas de
conduta visando prevenir o conflito e viabilizar a existência em sociedade, trazendo paz,
segurança e justiça.
Nesse sentido, as principais funções do Direito seriam solucionar conflitos e
regulamentar e orientar a vida em sociedade assim como, legitimar o poder político e
jurídico.
O Direito atua para solucionar conflitos de interesses ou restaurar o estado anterior,
sendo, então, um instrumento de integração e de equilíbrio, oferecendo ou impondo regras
de comportamento para decisão que o caso sugere.
O Direito apresenta ainda, a tarefa de organizar o poder da autoridade que decide os
conflitos, legitimando os órgãos e as pessoas com o poder de decisão e estabelecendo normas
de competência e de procedimento.
Função Social do Direito:
Função preventiva: Disciplinando a sociedade, estabelecendo regras de
conduta, direitos e deveres.
Função de controle social: socializador em última instância. Só é necessário
quando a conduta humana já se apartou da tradição cultural aprendida pela
educação, pela moral e religião e alcançou o nível do lícito, ou do crime.
Função compositiva: o conflito por vezes é inevitável e necessário se faz
solucioná-lo. E aí está outra função social do direito: compor conflitos.
O direito existe, em tese, muito mais para prevenir do que para corrigir, muito mais
para evitar que os conflitos ocorram, do que para compô-los.
Funções e finalidades específicas que competem ao Direito: controle social;
prevenção e composição de conflitos de interesses; promoção de ordem e segurança;
resolução dos conflitos de interesse; repressão e penalização dos comportamentos
socialmente inadequados; organização da produção e uma justa distribuição de bens e
serviços; institucionalização dos poderes do Estado e da Administração Pública; realização
da justiça e do respeito aos direitos humanos.
Natureza do Estudo do Direito
Introdução ao Estudo do Direito é um sistema de conhecimentos, recebidos de
múltiplas fontes de informação, destinado a oferecer os elementos essenciais ao estudo do
Direito, em termos de linguagem e de método, com uma visão preliminar das partes que o
compõem e de sua complementaridade, bem como de sua situação na história da cultura.
A Ciência do Direito abrange um conjunto de disciplinas ou sistemas de normas que
exigem dos homens determinadas formas de conduta.
A Ciência do Direito tem como objeto o fenômeno jurídico tal como ele se encontra
historicamente realizado. Estuda o fenômeno jurídico tal como ele se concretiza no espaço e
no tempo, enquanto que a Filosofia do Direito indaga das condições mediante as quais essa
concretização é possível.
Não há, em suma, Ciência do Direito em abstrato, isto é, sem referência direta a um
campo de experiência social.
Noção de Teoria Geral do Direito
“Teoria”, do grego theoresis, significa a conversão de um assunto em problema, sujeito
a indagação e pesquisa, a fim de superar a particularidade dos casos isolados, para englobá-
los numa forma de compreensão, que correlacione entre si as partes e o todo.
É a Introdução ao Estudo do Direito que cabe, a nosso ver, dar uma noção geral de
cada disciplina jurídica, mas sem pretensão de realizar uma síntese das respectivas questões
fundamentais.
Conteúdo e importância da disciplina Introdução ao Direito
As disciplinas jurídicas representam e refletem um fenômeno jurídico unitário que
precisa ser examinado.
Um dos primeiros objetivos da Introdução ao Estudo do Direito é a visão panorâmica e
unitária das disciplinas jurídicas
A segunda finalidade da Introdução ao Estudo do Direito é determinar, por
conseguinte, a complementaridade das disciplinas jurídicas, ou o sentido sistemático da
unidade do fenômeno jurídico, além de adaptar e incorporar a linguagem jurídica.
Sendo assim, o estudo de Introdução ao Direito:
Apresenta os conceitos jurídicos, do ponto de vista sistêmico da área jurídica do
saber;
Leva a compreender a linguagem e o método próprios da Ciência Jurídica;
Analisa as funções sociais do Direito, sua interpretação e aplicação;
Ajuda a compreender o fenômeno jurídico como forma de expressão normativa,
social, cultural e histórica da sociedade ocidental;
Elenca as principais categorias jurídicas decorrentes das relações jurídicas;
Possibilita o estudo das diferentes disciplinas que compõem o Curso de Direito;
Sedimenta a construção de uma consciência jurídica e familiariza o estudante com a
Ciência do Direito.
Direito e as ciências afins: Várias ciências auxiliam o Direito em sua interpretação e
aplicação na prática do dia a dia forense, como a Economia, a História, a Antropologia, a
Psicologia, a Psiquiatria, a Informática, a Assistência Social, sem contar com outras áreas
cujos profissionais são requisitados como peritos (engenheiros, contadores, médicos legistas,
entre outros). De modo que, na prática, elas influenciam e auxiliam no aprimoramento e
aplicação das normas.
Filosofia do Direito: investiga os princípios fundamentais do direito, como norma,
poder, realidade, valor ou conhecimento e proporciona condições para que o direito
seja analisado de forma diversa da apresentada pelos Códigos e doutrinas, não se
restringindo à ordem lógica ou técnica do Direito, mas também aos valores éticos,
históricos e sociais. O que interessa à Filosofia são os fundamentos, a razão de ser das
leis. Estuda o “poder ser”.
Sociologia Jurídica: estuda o fato social em sua estrutura e funcionalidade,
procurando saber como os grupos humanos se organizam, se relacionam e
desenvolvem, em razão dos inúmeros fatores que atuam sobre as formas de
convivência. O que interessa é a eficácia das leis. “Estuda o “ser”. A Sociologia não tem
por objetivo traçar normas ou regras para o viver coletivo, mas antes verificar como a
vida social comporta diversos tipos de regras, como reage em relação a elas, nestas ou
naquelas circunstâncias. A Sociologia Jurídica apresenta-se, hodiernamente, como uma
ciência positiva que procura se valer de rigorosos dados estatísticos para compreender
como as normas jurídicasse apresentam efetivamente, isto é, como experiência
humana, com resultados que não raro se mostram bem diversos dos que eram
esperados pelo legislador. Como será observado, oportunamente, a Sociologia Jurídica
não visa à norma jurídica como tal, mas sim à sua eficácia ou efetividade, no plano do
fato social.
Ciência do Direito: Também chamada de Dogmática Jurídica estuda a norma jurídica
e sua aplicação aos casos particulares, como foi concebida e equacionada pelo
legislador, em determinada sociedade, e as questões referentes à sua interpretação e
aplicação, tal como ela está historicamente realizada. Estuda o “poder ser”.
História do Direito: Busca compreender o pensamento jurídico e o ordenamento
jurídico vigentes, como produtos de progressivas construções no tempo, tendo como
referência o encontro de visões de mundo que se constroem a partir das realidades
política, social, mental, cultural e econômica das sociedades que, em cada tempo,
colaboraram para sua produção.
Psicologia Jurídica: estuda os fenômenos mentais que são juridicamente relevantes,
estabelecendo um ligamento facilitador do trabalho do legislador e dos intérpretes do
Direito.
Economia: O que nos cabe analisar é apenas a relação entre o fenômeno jurídico e o
econômico, inclusive dado o significado da concepção marxista da história na
civilização contemporânea. Segundo o chamado “materialismo histórico”, o Direito
não seria senão uma superestrutura, de caráter ideológico, condicionada pela
infraestrutura econômica. Em palavras pobres, quem comanda as forças econômicas,
através delas plasma o Estado e o Direito, apresentando suas volições em roupagens
ideológicas destinadas as disfarçar a realidade dos fatos. Há uma interação dialética
entre o fenômeno econômico e o jurídico, não sendo possível reduzir essa relação a
nexos causais, nem tampouco a uma relação entre forma e conteúdo. Cabe, outrossim,
ponderar que, assim como o fator econômico atua sobre o Direito, este resulta também
de elementos outros, de natureza religiosa, ética, demográfica, geográfica etc., o que
demonstra a unilateralidade e a inconsistência de todas as teorias que, como a
marxista, enxergam no homem apenas uma de suas múltiplas dimensões.
O Direito e a Moral
O Direito manifesta-se mediante um conjunto de normas que definem a dimensão da
conduta humana exigida, que especificam a fórmula do agir.
A moral pode ser conceituada como o conjunto de práticas, costumes e padrões de
conduta, formadores da ambiência ética.
A Moral se preocupa pela vida interior das pessoas, como a consciência, julgando os
atos exteriores apenas como meio de aferir a intencionalidade, enquanto que o Direito cuida
das ações humanas em primeiro plano e, em função destas, quando necessário, investiga o
animus (intenção) do agente.
O dever moral não é exigível por ninguém, reduzindo-se a dever de consciência,
enquanto o dever jurídico deve ser observado sob pena de sofrer o devedor os efeitos da
sanção organizada, aplicável pelos órgãos especializados da sociedade. Assim, no direito, o
dever é exigível, enquanto na moral, não.
O direito, apesar de acolher alguns preceitos morais fundamentais, garantidos com
sanções eficazes, aplicáveis por órgãos institucionais, tem campo mais vasto que a moral,
pois disciplina também matéria técnica e econômica indiferente à moral, muitas vezes com
ela incompatíveis, como por exemplo, alguns princípios orientadores do direito contratual,
fundados no individualismo e no liberalismo, inconciliáveis com a moral cristã e, portanto,
com a moral ocidental. Mas, apesar disso, o jurídico não está excluído de julgamentos éticos.
Ética e moral em Kant
Kant, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, reconheceu, pela primeira vez
em uma ética filosófica, que todo ser racional possui um valor absoluto. Mesmo
considerando-o como um ser finito e limitado, Kant ressalvou que o ser humano possui o
privilégio de reger-se por leis assumidas livremente por sua própria razão.
O certo é que toda norma enuncia algo que deve ser, em virtude de ter sido
reconhecido um valor como razão determinante de um comportamento declarado
obrigatório.
Há pois em toda regra um juízo de valor, cuja estrutura mister é esclarecer, mesmo por
que ele está no cerne da atividade do juiz ou do advogado.
Ocorre algo de diverso nos domínios da Ética, notadamente no que se refere à Moral e
ao Direito, onde juízos de valor assumem uma feição diversa em virtude do caráter de
obrigatoriedade conferido ao valor que se quer preservar ou efetivar.
O legislador não se limita a descrever um fato tal como ele é, à maneira do sociólogo,
mas, baseando-se naquilo que é, determina que algo deva ser, com a previsão de diversas
consequências, caso se verifique a ação ou a omissão, a obediência à norma ou a sua violação.
Toda norma ética expressa um juízo de valor, ao qual se liga uma sanção, isto é, uma
forma de garantir-se a conduta que, em função daquele juízo, é declarada permitida,
determinada ou proibida.
A norma ética estrutura-se, pois, como um juízo de dever ser, mas isto significa que ela
estabelece, não apenas uma direção a ser seguida, mas também a medida da conduta
considerada lícita ou ilícita.
A regra representa, assim, um módulo ou medida da conduta. Cada regra nos diz até
que ponto podemos ir, dentro de que limites podemos situar a nossa pessoa e a nossa
atividade.
Direito e moral – semelhanças e diferenças
A moral varia no tempo e no espaço. Assim sendo, cada povo possui sua moral, que
evolui no curso da história, consagrando novos modos de agir e pensar.
No direito, o dever é exigível, enquanto na moral não.
As normas de Direito valem objetivamente, independentemente da opinião e do querer
dos obrigados.
A moral é autônoma, é de foro íntimo, cada um tem seus próprios valores morais e
que, não necessariamente, são iguais aos dos demais indivíduos.
A moral é autônoma e o Direito é hetorônomo.
O Direito manifesta-se mediante um conjunto de normas que definem a dimensão da
conduta humana exigida, que especificam a fórmula do agir.
A Moral estabelece uma diretiva mais geral, sem particularizações.
O Direito se caracteriza pela exterioridade, enquanto que a Moral, pela interioridade.
Enquanto a Moral se preocupa pela vida interior das pessoas, como a consciência,
julgando os atos exteriores apenas como meio de aferir a intencionalidade, o Direito cuida
das ações humanas em primeiro plano e, em função destas, quando necessário investiga o
animus (intenção) do agente.
Apenas o Direito é coercível. Ou seja, o certo é que todos cumpram a lei
espontaneamente. Mas, se isso não acontecer, a coação se faz necessária, essencial à
efetividade da norma. O termo coercível diz respeito à capacidade de acionar a força
organizada do Estado, para garantir o respeito aos seus preceitos.
Imoral – o que vai contra a moral
Amoral – aquilo que não possui um senso moral, que não contém aspecto moral.
Pela força do ordenamento jurídico, para todos os efeitos, considera-se justa aquela
norma que seja ao mesmo tempo jurídica e moral.
A principal diferença entre o Moral e o Direito está objetivamente na sanção (punição).
A moral dirige-se ao momento interno, psíquico, volitivo, à intenção que determina o
ato, ao passo que o direito se dirige ao momento externo, físico, isto é, ao ato exterior.
Teoria do mínimo ético
Consiste em dizer que o Direito representa apenas o mínimo de Moral declarado
obrigatório para que a sociedade possa sobreviver.
A Moral, em regra, dizem os adeptos dessa doutrina, é cumprida de maneira
espontânea, mas como as violações são inevitáveis, é indispensável que se impeça, com mais
vigor e rigor, a transgressão dos dispositivos que a comunidade considerar indispensável à
paz social.
Assim sendo, o Direito não é algo de diverso da Moral, mas é uma partedesta, armada
de garantias específicas.
Principais Escolas do Pensamento Jurídico
A expressão “escolas do pensamento jurídico” designa formas específicas de
abordagem do Direito (fenômeno jurídico) circunscritas a determinados períodos do tempo e
do espaço, ora com maior, ora com menor abrangência. Embora as apresentemos em uma
perspectiva mais ou menos estanque (quer dizer, estudando, metodicamente, uma escola de
cada vez), as concepções acerca do Direito construídas em determinados períodos históricos
acabam influenciando aquelas desenvolvidas em períodos posteriores, o mesmo valendo
para a influência de um país, região ou continente sobre outro.
Direito Natural ou Jusnaturalismo
O Jusnaturalismo é a escola de pensamento jurídico que compreende que,
independentemente de um fenômeno forma de expressão legislativa, existe um Direito, que
lhe é superior (Direito Natural ou “lei natural”)
O Direito Natural se fundamenta na natureza humana, derivando de um conjunto de
concepções de ordem moral, que se sucedem e se modificam ao longo dos séculos. De acordo
com a visão jusnaturalista, o legislador deve ser, ao mesmo tempo, um observador dos fatos
sociais e um analista da natureza humana.
Considerado expressão da natureza humana ou deduzível dos princípios da razão, o
direito natural sempre foi tido, pelos defensores desta teoria, como superior ao direito
positivo, como sendo absoluto e universal por corresponder à natureza humana. Antes de
Cristo, seja em Atenas, seja em Roma, com Cícero (De res publica) assim era concebido.
3 Concepções básica sobre o Direito Natural ao longo da História
Concepção teológica do Direito Natural: parte do pressuposto de que existe uma
ordem sobrenatural ou transcendente que condiciona o mundo físico e o próprio agir
das pessoas, sendo em realidade os deuses os responsáveis pela criação das regras de
conduta, que irão disciplinar a vida em sociedade, sendo as autoridades humanas
meras porta-vozes desta vontade superior.
Concepção cosmológica do direito natural: transição das culturas míticas, para as
visões laicas sobre a realidade, segundo as quais uma ordem moral superior deve
orientar as ações humanas. A realidade não é mais vista como uma mera emanação da
vontade divina e sim como um resultado de uma racionalidade observada no
funcionamento da própria natureza.
Concepção racionalista do Direito Natural: parte da existência de uma lei natural
associada à própria existência humana.
Toda visão jusnaturalista do direito tem como pressuposto uma leitura moral a
respeito do direito, com base em valores previamente estabelecidos, ou seja, fonte universal e
imutável na revelação, na natureza, ou na razão.
Seja na visão teológica, na universalista propriamente dita ou na racional
individualista, em todas elas o Direito Natural é orientado por um conjunto de princípios
expressos por valores supremos, que darão sistematicidade e coesão ao conjunto de regras e
diretrizes de ordem moral estabelecidas pelo modelo de Direito Natural respectivo. Há uma
hierarquia entre a lei natural e a lei positiva.
O Direito Natural revela ao legislador os princípios fundamentais de proteção ao ser
humano, que deverão ser consagrados pela legislação, para que se tenha um ordenamento
jurídico justo. Para a corrente denominada jusnaturalismo (jus = direito), além do direito
escrito (positivo), há uma ordem superior que é a do direito justo. Tradicionalmente os
autores indicam três características do direito natural: ser eterno, imutável e; universal. Isto
porque, sendo a natureza humana a grande fonte desses direitos, ela é, fundamentalmente, a
mesma em todos os tempos e lugares.
O Direito Natural não é escrito, não é criado pela sociedade, nem é formulado pelo
Estado. (...) É um Direito espontâneo, que se origina da própria natureza social do homem e
que é revelado pela conjugação de experiência e razão. É constituído por um conjunto de
princípios, e não de regras, de caráter universal, eterno e imutável. (NADER, 2014).
O pensamento predominante na atualidade é o de que o Direito natural se fundamenta
na natureza humana.
Características do Direito Natural
Universalidade – próprio a todos os povos
Imutabilidade – tal qual a natureza humana, o direito natural não se modifica.
Indelebilidade – significa que não podem os direitos naturais ser olvidados pelo
coração e consciência dos serem humanos.
Obrigatoriedade – deve ser obedecido por todos.
Validez – Seus princípios são sempre válidos e podem ser impostos aos homens em
qualquer situação em que se encontrem.
Perpetuidade – Válido em todas as épocas
Indispensabilidade – Direito irrenunciável
Unidade – Sempre o mesmo para todos
Necessidade – Nenhum grupo social pode viver sem o direito natural.
O Declínio do Direito Natural: No Século XIX deu-se, pela primeira vez uma
separação rigorosa entre o Direito e a Moral. Com as revoluções burguesas da segunda
metade do Século XVIII, principalmente a Revolução Francesa de 1789, afirmaram-se
princípios jurídicos como legalidade, separação de poderes e isonomia.
O positivismo jurídico
O Positivismo Jurídico (ou Escola do Direito Positivo) procura afastar a Ciência do
Direito de valores morais, políticos, religiosos, filosóficos (como o relativo à justiça), bem
como do Direito Natural, defendendo a neutralidade do conteúdo do Direito, o qual passa a
ser visto como o conjunto de normas (sistema normativo, ordenamento jurídico), cabendo à
ciência do Direito o conhecimento e a descrição das normas jurídicas.
Surge na idade moderna, a partir de uma preocupação em investir na sistematização e
na racionalização do direito, negando a importância das fontes casuísticas e imprecisas do
direito, a começar pela ideia do Direito natural, que seria impregnado de considerações de
ordem moral, que impossibilitavam a criação de um direito impessoal e igual para todos.
Para os cultores do positivismo jurídico, fora da experiência jurídica, do fato ou do
Direito Positivo, isto é, do direito reconhecido pelo Estado e em suas leis, não há direito.
O Direito Positivo é assim denominado porque é o que provém diretamente do Estado
(do latim jus positum: imposto, que se impõe), vem a ser também, a base da unidade do
sistema jurídico nacional. É o ordenamento jurídico em vigor num determinado país e numa
determinada época.
Para o positivismo jurídico só existe uma ordem jurídica: a comandada pelo Estado e
que é soberana. Para os positivistas: Não há mais Direito que o Direito Positivo. Para o
positivista a lei é em si o único valor.
Teoria Pura do Direito (Hans Kelsen)
Com base na Teoria Geral do Estado para desenvolver uma teoria sobre o ordenamento
jurídico, Kelsen partiu da premissa de que o Direito representa uma expressão formal da
soberania estatal, não sendo um produto da natureza ou de fatos e sim um resultado da
vontade política do Estado.
Desse modo, o foco do jurista deveria estar na norma jurídica e na sua relação com as
demais normas, que formam uma estrutura lógico-sistemática denominada de ordenamento
jurídico.
Kelsen era um adversário sistemático daqueles que querem reduzir a Ciência Jurídica a
um capítulo da Sociologia, da Economia, da História ou da Geografia. Para ele, a Ciência
Jurídica é ciência autônoma, que deve operar com métodos próprios e com absoluta
fidelidade a seus prismas de observação.
Partindo desta colocação metodológica, Hans Kelsen sustenta que a Ciência do Direito
é uma pura ciência de normas e proposições normativas. O Direito não é senão um conjunto
de regras jurídicas organizadas de maneira escalonada, desde a regra suprema da “primeira
Constituição”, até as regras jurídicas subordinadas que se exprimem nas sentenças ou
decisões judiciais, ou então, nas cláusulas de um contrato.
As regras jurídicas dispõem-se, desse modo, escalonadamente, sendoumas
subordinantes e outras subordinadas, inseridas todas num sistema que haure a sua validade
do pressuposto lógico fundamental do respeito devido à norma constitucional originária.
Kelsen priorizava o aspecto estrutural do ordenamento jurídico e a correlação entre
suas normas, independentemente de concepções ideológicas e de regimes políticos. Pregava
a pureza metodológica de uma Ciência “Pura” do Direito.
Na Ciência “Pura” do Direito a análise do direito leva em consideração apenas os seus
aspectos normativos, descontaminando-o em relação aos aspectos políticos, sociológicos,
históricos, que eram à base do pensamento das escolas factualistas do final do Século XIX,
início do Século XX.
Norma Fundamental é a matriz do ordenamento jurídico, o pressuposto de validade de
todas as normas do ordenamento. Não é norma jurídica, no sentido próprio do termo, uma
vez que está acima da pirâmide.
A Constituição é um documento jurídico que espelha a Norma Fundamental, mas não
se confunde com ela, que é uma concepção ideal e representa o ponto de contato entre a
estrutura do ordenamento jurídico e a experiência histórica do direito, que será a responsável
pelo conteúdo do direito que vigora em um determinado Estado.
Segundo Kelsen, não compete ao jurista questionar o conteúdo da Norma
Fundamental, exatamente por se tratar de uma reflexão que escapa ao campo da Ciência do
Direito, cuja preocupação central deveria ser a inserção da norma no contexto do
ordenamento jurídico, independentemente do seu conteúdo.
Nesta concepção do direito estratificado em pisos, a validade de uma norma depende
de ela estar inserida em uma ordem jurídica válida, e nada mais. A validade das normas de
grau imediatamente inferior decorre da validade da norma de plano imediatamente
superior, e assim, sucessivamente, até à Norma Fundamental, que opera como pressuposto
lógico de todas as demais normas.
Na estrutura do ordenamento jurídico kelseniano, a norma jurídica impõe-se em
decorrência de uma vontade política, expressa pela figura do Estado e não por valores que se
afirmam a partir da convivência social. Exatamente por causa disso, a Ciência Pura do
Direito não se preocupa com parâmetros morais que fundam o ordenamento e sim com o
mecanismo de funcionamento interno da ordem jurídica. As normas seriam válidas pela
forma de produção e não pelo conteúdo.
A aferição (medição) da validade da norma jurídica não se deveria à prescrição nela
contida, mas sim à sua posição topográfica na estrutura do ordenamento jurídico e a sua
harmonia com as demais normas.
A questão do conteúdo da norma somente tem relevo na Teoria Pura do Direito para
fins de aferição de validade normativa, em função de um parâmetro de autoridade
hierárquica das normas: o conteúdo das normas superiores no ordenamento é determinante
do conteúdo das normas inferiores.
Segundo Kelsen a interpretação da norma deve ser fundada no caráter hierárquico e de
autorreprodução do Direito, a concepção kelseniana sobre a interpretação do direito segue a
premissa da pureza metodológica, presente em toda a sua Teoria.
A Teoria Pura do Direito de Kelsen teve uma aplicação distorcida, passando a servir de
base para um afastamento do direito de parâmetros éticos, algo nunca defendido pelo
próprio Kelsen.
Quadro comparativo
DIREITO POSITIVO DIREITO NATURAL
Temporal Atemporal
Existe em determinada época
Vigência Independe de vigência
Observância pela sociedade e aplicação pelo
Estado
Formal Informal
Depende de formalidades para sua
existência
Hierárquico Não hierárquico
Ordem de importância
Dimensão espacial Independe de local
Vigência em local definido
Criado pelo homem Emerge espontaneamente da sociedade
Fruto da vontade do homem
Escrito Não escrito
Códigos, Leis, jurisprudência
Mutável Imutável
Mediante a vontade humana
A Teoria Tridimensional de Miguel Reale
É tida como a melhor sistematização da visão culturalista sobre o Direito. Para Reale,
toda experiência jurídica pressupõe a correlação entre esses três elementos: fato, valor e
norma.
3 aspectos básicos, discerníveis em todo e qualquer momento da vida jurídica: um
aspecto normativo (o Direito como ordenamento e sua respectiva ciência); um aspecto fático
(o Direito como fato, ou em sua efetividade social e histórica) e um aspecto axiológico (o
Direito como valor de Justiça).
Onde quer que haja um fenômeno jurídico, há, sempre e necessariamente, um fato
subjacente (fato econômico, geográfico, demográfico, de ordem técnica etc.); um valor, que
confere determinada significação a esse fato, inclinando ou determinando a ação dos homens
no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo; e, finalmente, uma regra ou
norma, que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro, o
fato ao valor.
Classificações
- Direito Substantivo (Material): O conjunto das regras criadas pelo Estado que normatiza a
vida em sociedade definindo relações jurídicas.
- Direito Adjetivo (Processual): consiste nas regras de direito processual que regulam a
existência dos processos, bem como o modo destes se iniciarem, se desenvolverem e
terminarem.
- Direito Objetivo: é um conjunto de normas que regem o comportamento humano,
prescrevendo uma sanção (punição) em caso de sua violação. É expresso por modelos
abstratos de conduta (Códigos, Leis, Consolidações etc.). São modelos normativos genéricos
que não individualizam as pessoas neles envolvidas.
- Direito Subjetivo - É o poder de ação assegurado legalmente a todas as pessoas para defesa
e proteção de toda e qualquer espécie de bens materiais ou imateriais, do qual decorre a
faculdade de exigir a prestação ou abstenção de atos, ou o cumprimento da obrigação, a que
outrem esteja sujeito. É o poder de exigir uma determinada conduta de outrem, conferido
pelo direito objetivo, pela norma jurídica.
Direito Público e Privado
Os romanos utilizaram o critério da utilidade. Quando o objeto do Direito era voltado
para o interesse da coletividade este era tido como Direito Público, se o interesse era do
particular este seria Direito Privado.
Crítica a esta divisão: Publicização do Direito - A publicização deve ser entendida
como um processo de intervenção legislativa infraconstitucional, diferente de outro
fenômeno conhecido como constitucionalização que tem por fito submeter o direito positivo
aos fundamentos de validade constitucionais.
Não existe um critério único e adotado de forma exclusiva para a diferenciação entre
Direito Público e Privado
Um dos critérios é o denominado critério do conteúdo ou objeto da relação jurídica.
Neste critério, quando prevalece o interesse geral o direito é público, quando prevalece o
particular o direito é privado.
O outro confere maior destaque à forma da relação jurídica, ou Teoria da Natureza da
Relação Jurídica. Assim, se a relação é de coordenação, trata-se, em regra, de Direito Privado,
se a relação é de subordinação, trata-se, em regra de Direito Público.
Direito Privado - autonomia da vontade e da licitude ampla. Direitos Civil,
Empresarial.
Direito Público - supremacia do interesse público e da estrita legalidade. Direitos
Constitucional, Financeiro, Tributário, Internacional Privado, Administrativo, Processual,
Ambiental, Penal etc.
Teorias Monistas A existência de somente um Direito.
Existência exclusiva do Direito Privado
(Rosmini e Ravà). Sempre foi o único
durante séculos e seu nível de
aperfeiçoamento não foi atingido ainda pelo
Direito Público.
Teorias Dualistas A existência de dois Direitos.
Teoria do interesse em Jogo - teoria Clássica
ou teoria Romana
O direito será público ou privado de acordo
com a predominância dos interesses.
Teoria do Fim Quando a finalidade do direito for o estado,
teremos o Direito Público, quando for o
indivíduo,teremos o Direito Privado.
Teoria do Titular da Ação Quando a iniciativa da ação for do estado,
teremos o Direito Público, quando for do
particular, teremos o Direito Privado.
Teorias Trialistas Além do Direito Público e Privado, admitem
alguns estudiosos um terceiro gênero,
chamado por alguns de Direito Misto e por
outros de Direito Social Misto.
Superação da Dicotomia - se dá pela tendência hoje de alguns ramos do Direito que
têm pontos de Direito Público e o Privado, resultando no avanço da sociedade, com relações
cada vez mais complexas.
Na atualidade, com a positivação de novos direitos surgidos nas sociedades de massa,
como o Direito Ambiental e o Direito do Consumidor, por exemplo, a ideia de que há
Direitos Transindividuais que vinculam as esferas pública e privada, resultou na
classificação dos Direitos Difusos e Coletivos que trataremos adiante.
Direito Interno e Internacional
Teoria Dualista - Os dualistas defendem que o Direito Internacional e o Direito interno
são concepções distintas, à medida que se encontram baseados em duas ordens: a interna e a
externa.
Teoria Monista - o Direito internacional e o Direito interno são noções de uma só
ordem jurídica e, neste caso, havendo um só ordenamento, haveria uma norma
hierarquicamente superior a todas as demais regulando este único ordenamento. Esta teoria,
ainda, apresenta duas versões: a que defende a preferência do Direito interno, e, outra, a
precedência do Direito internacional.
Ramos do Direito
Direito Positivo Interno
- Privado: Civil e Empresarial;
- Público: Constitucional, Administrativo, Financeiro e Tributário, Processual, Penal,
Eleitoral, Militar.
- Novos Direitos: Trabalho, Previdenciário, Econômico, Consumidor, Ambiental.
Direito Privado
Direito Civil: O objeto do Direito Civil abrange não apenas as relações sociais de
caráter patrimonial, mas também relações pessoais com certo conteúdo patrimonial, como os
direitos de autor, e mesmo relações pessoais puras, como os direitos ao nome e à imagem.
Empresarial: relaciona-se ao regramento da atividade econômica habitualmente
destinada à circulação das riquezas, mediante bens ou serviços, implicando em uma
estrutura de natureza empresarial.
Direito Público:
Constitucional - tem por objeto o sistema de regras referente à organização do Estado,
no tocante à distribuição das esferas de competência do poder político, assim como no
concernente aos direitos fundamentais dos indivíduos para com o Estado, ou como membros
da comunidade política.
Administrativo - tem por objeto o sistema de princípios e regras, relativos à realização
de serviços públicos, destinados à satisfação de um interesse que, de maneira direta e
prevalecente, é do próprio Estado.
O Direito Financeiro e Tributário é uma disciplina que tem por objeto toda a atividade
financeira do Estado concernente à realização da receita e despesa necessárias à execução do
interesse da coletividade.
O Direito Processual objetiva o sistema de princípios e regras; mediante os quais se
obtém e se realiza a prestação jurisdicional do Estado necessária à solução dos conflitos de
interesses surgidos entre particulares, ou entre estes e o próprio Estado.
O Direito Penal é o sistema de princípios e regras mediante os quais se tipificam as
formas de conduta consideradas criminosas, para as quais são cominadas, de maneira
precisa e prévia, penas ou medidas de segurança.
O Direito Eleitoral disciplina a escolha dos membros dos Poderes Executivo e
Legislativo. Suas normas regulam critérios para as candidaturas, para as eleições, apurações
etc.
O Direito Militar regula as normas aplicáveis aos militares.
O Direito do Trabalho é composto por normas jurídicas que regulam as relações
individuais entre empregado e empregador, bem como, por normas de Direito Coletivo do
Trabalho, que engloba os acordos coletivos de trabalho, o direito de greve e as relações
sindicais.
O Direito Previdenciário é parte dos Direitos da Seguridade Social garantidos na
Constituição, que englobam além da Previdência Social, a Assistência Social e a Saúde. É um
ramo da maior relevância porque afeta diretamente todos os cidadãos do País.
O Direito Econômico é composto por normas jurídicas que regulam a produção e
circulação de produtos e serviços com foco no desenvolvimento do País e no controle do
mercado, visando impedir a concorrência desleal, regular monopólios e oligopólios.
O Direito do Consumidor, positivado na Lei 8078/90, regula as relações entre
consumidores e fornecedores de produtos e serviços.
Os Direitos Difusos e Coletivos são objeto de tutela jurídica específica que garante o
direito de ação não só individual, como também coletiva, que pode ser proposta pelo
Ministério Público, por associações que representem determinada categoria e por outros
titulares previstos em Lei.
O Direito Ambiental é um ramo, relativamente novo do Direito, mas da maior
relevância em todo o planeta na atualidade. A Constituição Brasileira de 1988 consagrou a
proteção dos valores ambientais, tendo como base o artigo 225.
Direito Positivo Externo – Direito Internacional Público e Privado.
O Direito Internacional Público é composto dos tratados internacionais, convenções,
pactos, convênios ou acordos, além dos costumes internacionais.
O Direito Internacional Privado é regido por normas que regulam as relações
privadas em âmbito internacional. Trata de definir qual a norma a ser aplicada em razão do
domicílio, ou da nacionalidade da pessoa, do lugar em que foi realizado o ato, do local em
que se situa o objeto do Direito.
Capítulo 4 - Teoria da Norma Jurídica
A norma jurídica é um comando, um imperativo dirigido às ações dos indivíduos e das
pessoas jurídicas e demais entes. É uma regra de conduta social; sua finalidade é regular as
atividades dos sujeitos em suas relações sociais. A norma jurídica imputa certa ação ou
comportamento a alguém, que é seu destinatário.
Ao se dirigir ao destinatário, a norma jurídica proíbe e obriga, onde aquele que deve
cumprir estará diante de uma proibição (“É proibido fumar neste estabelecimento”) ou de
uma obrigação (“É obrigatório o uso de crachá de identificação para a entrada neste setor”).
Segundo o Direito Positivo, a norma jurídica é o padrão de conduta social imposto pelo
Estado, para que seja possível a convivência entre os homens. Paulo Nader conceitua como
sendo a conduta exigida ou o modelo imposto de organização social.
Segundo Orlando Secco, trata-se das regras imperativas pelas quais o Direito se
manifesta, e que estabelecem as maneiras de agir ou de organizar, impostas coercitivamente
aos indivíduos, destinando-se ao estabelecimento da harmonia, ordem e da segurança da
sociedade.
A palavra norma ou regras jurídicas são sinônimas, apesar de alguns autores
utilizarem a denominação regra para o setor da técnica e outros, para o mundo natural.
Existe distinção entre norma jurídica e lei. Esta é apenas uma das formas de expressão
das normas, que se manifestam também pelo direito costumeiro e, em alguns países pela
jurisprudência.
O que efetivamente caracteriza uma norma jurídica, de qualquer espécie, é o fato de ser
uma estrutura proposicional enunciativa de uma forma de organização ou de conduta, que
deve ser seguida de maneira objetiva e obrigatória.
Características:
Generalidade: Temos que a norma jurídica é preceito de ordem geral, que obriga a
todos que se acham em igual situação jurídica. Da generalidade da norma deduzimos o
princípio da isonomia da lei, segundo o qual todos são iguais perante a lei.
Abstratividade. As normas jurídicas visam estabelecer uma fórmula padrão de
conduta aplicável a qualquer membro da sociedade. Regulam casos como ocorrem, via de
regra, no seu denominador comum. Se abandonassem a abstratividade para regular os fatos
em sua casuística, os códigosseriam muito mais extensos e o legislador não lograria seu
objetivo, já que a vida em sociedade é mais rica que a imaginação do homem.
Bilateralidade: o direito existe sempre vinculando duas ou mais pessoas, conferindo
poder a uma parte e impondo dever à outra. Bilateralidade expressa o fato da norma possuir
dois lados: um representado pelo direito subjetivo e o outro pelo dever jurídico, de tal modo
que um não pode existir sem o outro, pois regula a conduta de um ou mais sujeitos em
relação à conduta de outro(s) sujeito(s) (relação de alteridade).
Sujeito ativo (portador do Direito Subjetivo)
Sujeito passivo (possuidor do dever jurídico)
Imperatividade: revela a missão de disciplinar as maneiras de agir em sociedade,
pois o direito deve representar o mínimo de exigências, de determinações necessárias. Assim,
para garantir efetivamente a ordem social, o direito se manifesta através de normas que
possuem caráter imperativo. Tal caráter significa imposição de vontade e não simples
aconselhamento.
Coercibilidade: Quer dizer possibilidade de uso de coação. Essa possui dois
elementos: psicológico e material. O primeiro exerce a intimidação, através das penalidades
previstas para as hipóteses de violações das normas jurídicas. O elemento material é a força
propriamente, que é acionada quando o destinatário da regra não a cumpre
espontaneamente. As noções de coação e sanção não se confundem.
Coação é uma reserva de força a serviço do Direito, enquanto a sanção é considerada,
geralmente, medida punitiva para a hipótese de violação de normas.
Atributividade (ou autorizamento): Esse é, aliás, o elemento distintivo por excelência
entre a norma jurídica e as demais normas de conduta: a aptidão para atribuir ao lesado a
faculdade de exigir o seu cumprimento forçado. Então, a essência específica da norma
jurídica é a atributividade (ou autorizamento), porque o que lhe compete é autorizar ou não
o uso das faculdades humanas. Assim, a norma jurídica é atributiva por atribuir às partes de
uma relação jurídica, direitos e deveres recíprocos. Ou seja, atribui à outra parte o Direito de
exigir o seu cumprimento.
Diversas Classificações
a) Normas de conduta: Tais normas têm as pessoas como destinatárias e estabelecem
um padrão de agir social segundo uma estrutura lógica, na qual a norma prevê uma
hipótese, correspondente a um fato do mundo da vida e uma consequência jurídica para a
ocorrência concreta do fato hipotético. Estrutura da norma = hipótese (fato) + dispositivo
(sanção).
b) Normas de organização: fixam competências e atribuições no âmbito do Estado, algo
indispensável no Estado do Direito, no qual prevalece o império da lei, estando as
autoridades públicas subordinadas a um princípio de legalidade estrita, segundo o qual as
suas ações somente podem ocorrer nos limites fixados pela lei. Em regra não possuem uma
sanção específica, sendo o efeito do descumprimento deste tipo de norma a nulidade do ato
praticado.
a) Normas codificadas: são aquelas que constituem um corpo orgânico sobre certo ramo
do direito, como o Código Civil.
b) Normas consolidadas: são as que formam uma reunião sistematizada de todas as leis
existentes e relativas a uma matéria; a consolidação distingue-se da codificação porque sua
principal função é a de reunir as leis existentes e não a de criar leis novas, como num Código.
Ex: CLT.
c) Normas extravagantes ou esparsas: são todas as leis que não estão incorporadas às
Codificações ou Consolidações: são as leis que vagam fora; são as editadas isoladamente
para tratar de temas específicos. Ex.: Lei de FGTS, Lei do Inquilinato etc.
Classificações da norma:
Norma Imperativa ou Cogente (preceptiva): É aquela que exige de seu destinatário
uma conduta positiva ou uma ação, sendo antijurídica qualquer atitude diferente da
prescrita na lei ou a omissão.
Obs.: Miguel Reale entende que as normas preceptivas são as que determinam que se
faça alguma coisa, as que estabelecem um status, as que reconhecem ou identificam
outras normas como pertencentes ao sistema vigente.
Norma Proibitiva: são as que negam a alguém a prática de certos atos. Neste caso, a
postura juridicamente admitida pressupõe uma omissão por parte do destinatário da prática
da conduta prevista pela norma.
Norma Supletiva (permissiva): Este tipo de norma compreende aquelas situações em
que a ordem jurídica cria um padrão de agir, mas permite ao destinatário optar por uma
atuação diferente, de acordo com o princípio da autonomia privada.
Obs.: Miguel Reale entende que as normas permissivas são as que facultam fazer ou
omitir algo.
Obs. 2: Miguel Reale professa que as normas supletivas são espécie de regras
dispositivas, pois elas se destinam a suprir o vazio deixado pela livre disposição das
partes.
Critério da extensão territorial
- Normas Federais, Estaduais e Municipais:
As normas jurídicas são classificadas desta forma em razão da esfera do Poder Público
de que emanam, pois todo território de um Estado acha-se sob a proteção e garantia e um
sistema de Direito.
Assim, as normas jurídicas são federais, estaduais ou municipais, na medida em que
sejam instituídas respectivamente pela União, pelos Estados-Membros e pelos Municípios.
Para sabermos se existe hierarquia entre estas normas, faz-se necessário a distinção da
competência legislativa da União, dos Estados-Membros e dos Municípios.
Segundo Miguel Reale, não há, pois, uma hierarquia absoluta entre leis federias,
estaduais e municipais, porquanto esse escalonamento somente prevalece quanto houver
possibilidade de concorrência entre as diferentes esferas de ação. A rigor, as únicas normas
jurídicas que primam no sistema do Direito brasileiro são as de Direito Constitucional.
Critério da Sanção
Normas perfeitas: estabelecem a sanção na exata proporção do ato praticado.
Invalidam quaisquer atos quando resultantes de transgressões a dispositivos legais. Ex.: Art.
1548, CC.
Normas mais que perfeitas: estabelecem sanções, além de invalidar o ato praticado.
A sanção é mais intensa do que a transgressão. Ex.: Art. 939 do CC.
Normas menos que perfeitas: não invalidam o ato, mas impõem uma sanção ao
agente transgressor. Ex.: Art. 1254, CC
Normas imperfeitas: Representam um caso muito especial. Nem invalidam o ato
nem estabelecem sanção ao transgressor. Tal procedimento se justifica por razões relevantes
de natureza social e, sobretudo, ética. Ex.: Art. 1551 do CC
Quanto à Amplitude: se refere ao alcance fático da hipótese contida na norma
Norma Genérica: A hipótese nela prevista tem conteúdo aberto, sendo aplicável a
uma infinidade de situações. Obrigam, indiscriminadamente, a quantos venham a se situar
sob sua incidência, em função dos pressupostos que elas enunciam (a maioria das leis e
regulamentos e certas normas costumeiras e jurisprudenciais).
Norma específica: Disciplina certas situações de modo pontual, buscando um
regramento detalhado do direito em questão ou simplesmente trata de uma matéria muito
especializada.
Norma Individualizada: Tem aplicação a uma situação determinada, perfeitamente
identificável no tempo e no espaço, havendo casos em que sua disciplina jurídica se exaure
na incidência sobre um fato específico ou perdura durante reduzido período de tempo.
Pontuam ou certificam, in concreto, as disposições anteriores, como se dá numa sentença
judicial, ou numa provisão ou resolução administrativa. Ex. Decreto de Nomeação ou
Tombamento.
Miguel Reale entende que as normas particulares vinculam determinadas pessoas,
como as que compõem um negócio jurídico, um contrato; ou as de uma lei que
expressamente contenha disposições só aplicáveis a casos particulares.
Quanto ao elemento espacial
Norma de Direito Internacional: As relações entre os Estados na ordem internacional
contam com normas estabelecidascom base em tratados, convenções e costumes
internacionais, cujo fundamento se encontra no princípio da “autolimitação da soberania”,
segundo o qual, os Estados se submetem voluntariamente às regras de direito internacional,
a elas aderindo e recepcionando no direito interno, de acordo com os procedimentos
previstos na legislação de cada país.
Norma de Direito Interno (Federal, Estadual e Municipal): De modo geral, a norma
jurídica é associada à norma de direito interno, que é criada pelo Estado, no exercício do seu
poder soberano, e que se impõe a todos que se encontram em seu território.
Quanto ao elemento temporal:
Permanente: O usual é que uma norma ao entrar em vigor, assim permaneça até que
outra norma a revogue, salvo se ela própria criar algum tratamento específico para a sua
incidência temporária (art. 2º, LINDB)
Temporária: Situação excepcional no direito que se traduz por uma norma cuja
vigência é limitada no tempo por disposição expressa daquele que a criou ou pelo
exaurimento das hipóteses concretas por ela alcançadas.
Quantos aos efeitos sobre o fato
Norma de efeito prospectivo: princípio da irretroatividade da lei, em regra a
mudança legislativa operará apenas em relação aos fatos ocorridos após a entrada em vigor
das novas normas. Ex nunc.
Norma de efeito retroativo: normalmente estar-se-á falando de normas de conteúdo
benéfico, que concedem algum benefício aos seus destinatários. Ex tunc.
Plano da vigência, Validade e Eficácia da Norma
Da vigência:
Ao preencher os mecanismos de reconhecimento criados pela ordem jurídica, uma
norma pode ser dita como vigente. Os pressupostos para a vigência de uma norma decorrem
de ser o órgão responsável pela sua edição não apenas competente para criar normas
jurídicas naquele sistema jurídico, mas também dotado de legitimidade para a edição
daquela modalidade de norma.
Miguel Reale – “Vigência ou validade formal é a executoriedade compulsória de uma regra de
direito, por haver preenchido os requisitos essenciais à sua feitura ou elaboração.”
Da validade:
O campo da validade da norma jurídica situa-se em uma posição média entre a questão
formal e material do direito.
Segundo Miguel Reale são 3 os aspectos essenciais da validade do Direito, 3 os
requisitos para que uma regra jurídica seja legitimamente obrigatória: o fundamento, a
vigência, e a eficácia, que correspondem, respectivamente, validade ética, validade formal
ou técnico-jurídica e validade social.
Fácil é perceber que a apreciação ora feita sobre vigência, eficácia e fundamento vem
comprovar a já assinalada estrutura tridimensional do Direito, pois a vigência se refere à
norma; a eficácia se reporta ao fato, e o fundamento expressa sempre a exigência de um
valor.
Podemos dizer que a validade decorre, invariavelmente, de o ato haver sido executado
com a satisfação de todas as exigências legais. Uma norma jurídica, para que seja obrigatória,
não deve estar apenas estruturada logicamente segundo um juízo categórico ou hipotético,
pois é indispensável que apresente certos requisitos de validade.
Na lição de Miguel Reale, a validade de uma norma jurídica pode ser vista sob três
aspectos:
1) técnico-formal = vigência
2) social = eficácia
3) ético = fundamento
a) Validade formal (Vigência) vem a ser "a executoriedade compulsória de uma norma
jurídica, por haver preenchido os requisitos essenciais à sua feitura ou elaboração" Desta forma, a
norma jurídica tem vigência quando pode ser executada compulsoriamente pelo fato de ter
sido elaborada com observância aos requisitos essenciais exigidos, quais sejam: 1) emanada
de órgão competente, 2) com obediência aos trâmites legais, 3) e cuja matéria seja da
competência do órgão elaborador
b) Validade Social ou Eficácia. Sob o prisma técnico-formal, uma norma jurídica pode
ter validade e vigência, ainda que seu conteúdo não seja cumprido; mesmo descumprida, ela
vale formalmente. Porém, o Direito autêntico é aquele que também é reconhecido e vivido
pela sociedade, como algo que se incorpora ao seu comportamento. Assim, a regra do Direito
deve ser não só formalmente válida, mas também socialmente eficaz. Eficácia vem a ser o
reconhecimento e vivência do Direito pela sociedade, “é a regra jurídica enquanto monumento
da conduta humana” - MR.
Desta forma, quando as normas jurídicas são acatadas nas relações intersubjetivas e
aplicadas pelas autoridades administrativas ou judiciárias, há eficácia. Como esclarece Maria
Helena Diniz, “vigência não se confunde com eficácia; logo, nada obsta que uma norma seja vigente
sem ser eficaz, ou que seja eficaz sem estar vigorando.” Pode ser que determinadas normas
jurídicas, por estarem em choque com a tradição e valores da comunidade, não encontrem
condições fáticas para atuar, não seja adequadas à realidade. Todavia, o fato é que não existe
norma sem o mínimo de eficácia, de execução ou aplicação na sociedade a que se destina.
Daí a relevância da valoração do fato social, para que a norma seja eficaz. Sobre a matéria,
temos ainda a contribuição de Paulo Nader, ao se referir às causas do desuso, dizendo que
elas estão em certos defeitos das leis, e em função disso as classifica em: "anacrônicas", isto é,
as que envelheceram enquanto a vida evoluía, havendo uma defasagem entre as mudanças
sociais e a lei; leis artificiais, ou seja, fruto apenas do pensamento, mera criação teórica e
abstrata, estão distanciadas da realidade que vão governar; “leis injustas”, ou seja, aquelas
que, traindo a mais significativa das missões do direito que a de espargir justiça, nega ao
homem aquilo que lhe é devido; leis defectivas, que são as que, por não terem sido
planejadas com suficiência, revelam-se na prática, sem condições de aplicabilidade, não
fornecendo todos os recursos técnicos para a sua aplicação (por exemplo: quando prescreve
uso de certa máquina pelo operário, mas que não existe no mercado).
c) Validade Ética ou Fundamento. Toda a norma jurídica além da validade formal
(vigência) e validade social (eficácia), deve possuir ainda validade ética ou fundamento. O
fundamento é na verdade o valor ou o fim visado pela norma jurídica. De fato, toda a norma
jurídica deve ser sempre uma tentativa de realização de valores necessários ao homem e a
sociedade. Se ela visa atingir um valor ou afastar um desvalor, ela é um meio de realização
desse fim valioso, encontrando nele a sua razão de ser ou o seu fundamento. As regras que
protegem, por exemplo, as liberdades, são consideradas como tendo fundamento, porque
buscam um valor considerado essencial ao ser humano. Realmente, é o valor que legitima
uma norma jurídica que lhe dá uma legitimidade; daí a distinção entre legal (que possui
validade formal) e legítimo (que possui validade ética). Podemos dizer que o valor que dá a
razão última da obrigatoriedade da norma. Ela obriga porque contém preceito capaz de
realizar o valor; em última análise, esta é a fonte primordial da obrigatoriedade de uma regra
de direito (imperatividade em termos axiológicos). Ter que é a coerção ou a coação que
asseguram a obrigatoriedade do Direito é atitude que resulta no amesquinhamento da
natureza humana. Nem a coação-ato, nem a coerção-potência podem substituir
satisfatoriamente o sentimento jurídico; só o entendimento do Direito sob o prisma de valor
dignifica a condição do ser humano.
Da eficácia: Refere-se à efetiva aplicação ou execução da norma jurídica. Este representa o
plano em que a norma jurídica repercute na vida das pessoas, disciplinando concretamente
as relações sociais.
O desuso das leis e as leis anacrônicas: situações excepcionais, em que uma norma
jurídica é vigente, formalmente válida, mas não é socialmente aceita ou simplesmente não é
aplicada no dia a dia. Ex. Lei que torna obrigatório o uso do cinto de segurança.
Capítulo5 - Teoria do Ordenamento Jurídico
O Direito objetivo/positivo, como conjunto de normas jurídicas constitui no seu todo
um sistema global que se denomina ordenamento jurídico. De fato, o Direito se apresenta
concretamente, em qualquer país, sobre a estrutura de um ordenamento: as normas jurídicas
não existem isoladas, não atuam de forma solitária, porém se correlacionam e se implicam,
formando um todo uniforme e harmônico.
Os autores apresentam diversas definições no que respeita a definição do ordenamento
jurídico. Paulo Nader leciona que o ordenamento jurídico compreende “o sistema de
legalidade do Estado, formado pela totalidade das normas vigentes, que se localizam em
diversas fontes”.
Conforme Miguel Reale, ordenamento jurídico “é o sistema de normas jurídicas in
facto, compreendendo as fontes de direito e todos os seus conteúdos e projeções: é, pois, os
sistemas das normas em sua concreta realização, abrangendo tanto as regras explícitas como
as elaboradas para suprir as lacunas do sistema, bem como as que cobrem as liberalidades
deixadas ao poder discricionário dos indivíduos (normas negociais).”
Aspecto relevante sobre o ordenamento jurídico é a questão da plenitude. Assim, o
ordenamento jurídico não pode deixar a descoberto, sem dar solução, qualquer litígio ou
conflito capaz de abalar o equilíbrio, a ordem e a segurança da sociedade. Por isso, ele
contém, a possibilidade de solução para todas as questões que surgirem na vida de relação
social, suprindo as lacunas deixadas pelas fontes do direito. É o princípio da plenitude do
ordenamento jurídico.
Se ele não fosse sem lacunas e autossuficiente, não poderia cumprir precisamente sua
missão. Os elementos do ordenamento jurídico brasileiro estão estruturados na forma de
atenderem à obediência aos ditames da Constituição Federal.
Todo o nosso direito positivo para ter validade deriva-se dos princípios
constitucionais. Estando na República Federativa do Brasil, os Estados, via de consequência,
têm poderes para se organizar e reger-se pelas constituições e leis que venham adotar. A
autonomia dos Estados é condicionada, isto é, tem poderes explícitos e implícitos que não lhe
são vedados pela Constituição Federal.
Os Municípios também tem autonomia condicionada. A legislação municipal deve
seguir os ditames da Constituição Estadual e por consequência da Constituição Federal. Em
outras palavras, o que não for de competência da União ou do Estado, será do Município.
Não existe uma hierarquia, cada um vai agir de acordo com a sua competência.
A reflexão a respeito da estrutura do ordenamento jurídico passa pelo estudo da sua
caracterização como um sistema de normas e por uma análise dos modelos de
sistematicidade jurídica existentes, como pressuposto de validação das normas jurídicas.
De modo geral, um sistema representa um conjunto dotado de uma estrutura e
organização determinados, que obedece a algumas características básicas, a saber:
Pluralidade de elementos: Todo sistema tem como pressuposto a existência de mais
de um elemento. Caso se esteja tratando de apenas um elemento não há que falar de sistema.
Interação entre os elementos: Para que exista um sistema, não basta a existência de
diferentes elementos, sendo indispensável que exista uma correlação entre eles, para que se
integrem de algum modo.
Harmonia entre os elementos: Além de se relacionarem, os elementos formadores de
um sistema deve fazê-lo de modo harmônico. O atrito entre os componentes do sistema
acaba por comprometer a sua própria estabilidade, podendo levar até o seu perecimento.
Diante de tal fato, pode-se concluir que o ordenamento jurídico é formado por
diversas normas, que vigoram em um mesmo Estado, havendo entre elas uma
interdependência, servindo uma de fundamento de validade para a outra, o que logicamente
pressupõe a inexistência de contradições entre elas.
No curso da História do Pensamento Jurídico, são observadas duas concepções
sistemáticas, a saber:
Sistema estático: A validade da norma é determinada pelo seu conteúdo, pelos valores nela
contidos. A validade de cada norma é aferida individualmente e não de forma relacional. A
norma é válida, se justa ou de acordo com a concepção de Direito Natural cultuada em um
determinado momento histórico: universalista, teológica ou racional.
Sistema dinâmico: A validade da norma é determinada por critérios formais, não
sendo determinada pelo seu conteúdo e sim pelo grau de autoridade de quem a elabora.
Sistema verticalizado em que a norma decorre da sua compatibilidade com as normas
hierarquicamente superiores no ordenamento, sendo o conteúdo da norma utilizado apenas
como parâmetro relacional, a fim de verificar eventual incoerência entre as prescrições
contidas em normas do mesmo sistema, situação em que prevalecerá o comando contido na
norma de maior hierarquia.
O professor Canotilho, fornece-nos a explicitação da ideia de que o sistema jurídico
deve ser visto como um sistema normativo aberto de regras e princípios:
(1) é um sistema jurídico porque é um sistema dinâmico de normas;
(2) é um sistema aberto porque tem uma estrutura dialógica {Caliess} traduzida na
disponibilidade e “capacidade de aprendizagem” das normas constitucionais para captarem
a mudança da realidade e estarem abertas s concepções cambiantes da “verdade” e da
“justiça”;
(3) é um sistema normativo, porque a estruturação das expectativas referentes a
valores, programas, funções e pessoas, é feita através de normas;
(4) é um sistema de regras e de princípios, pois as normas do sistema tanto podem
revelar-se sob a forma de princípios como sob a sua forma de regras.
Por sua vez, Ronald Dworkin mostra que, nos chamados casos-limites ou hard cases,
quando os juristas debatem e decidem em termos de direitos e obrigações jurídicas, eles
utilizam standards que não funcionam como regras, mas, trabalham com princípios, política e
outros gêneros de standards.
Princípios (principles) são, segundo este autor, exigências de justiça, de equidade ou de
qualquer outra dimensão da moral, e que junto com as regras compõem o sistema jurídico.
Assim, ao afirmar que os juristas empregam, em determinados casos, princípios e não regras
o autor reconhece serem duas espécies distintas do gênero norma, habitando o sistema
jurídico, cuja diferença trataremos de esboçar adiante.
O prof. Luiz Flávio Gomes, a partir do pressuposto pelo qual o Direito se expressa por
meio de normas, assim se manifesta: As normas se exprimem por meio de regras ou
princípios.
As regras disciplinam uma determinada situação; quando ocorre essa situação, a
norma tem incidência; quando não ocorre, não tem incidência. Para as regras vale a lógica do
tudo ou nada (Dworkin). Quando duas regras colidem, fala-se em "conflito"; ao caso concreto
uma só será aplicável (uma afasta a aplicação da outra).
O conflito entre regras deve ser resolvido pelos meios clássicos de interpretação: a lei
especial derroga a lei geral, a lei posterior afasta a anterior etc.
Princípios são as diretrizes gerais de um ordenamento jurídico (ou de parte dele). Seu
espectro de incidência é muito mais amplo que o das regras. Entre eles pode haver "colisão",
não conflito. Quando colidem, não se excluem. Como "mandados de otimização" que são
(Robert Alexy), sempre podem ter incidência em casos concretos (às vezes,
concomitantemente dois ou mais deles).
A diferença marcante entre as regras e os princípios, portanto, reside no seguinte: a
regra cuida de casos concretos. Exemplo: o inquérito policial destina-se a apurar a infração
penal e sua autoria - CPP, art. 4º.
Os princípios norteiam uma multiplicidade de situações. O princípio da presunção de
inocência, por exemplo, cuida da forma de tratamento do acusado bem como de uma série
de regras probatórias (o ônus da prova cabe a quem faz a alegação, a responsabilidadedo
acusado só pode ser comprovada constitucional, legal e judicialmente etc.).
Os princípios desempenham funções estratégicas, a saber: fundamentadora,
interpretativa e supletiva ou integradora: por força da função fundamentadora dos
princípios, é certo que outras normas jurídicas neles encontram o seu fundamento de
validade.
O artigo 261 do CPP (que assegura a necessidade de defensor ao acusado) tem por
fundamento os princípios constitucionais da ampla defesa, do contraditório, da igualdade
etc.
Os princípios, ademais, não só orientam a interpretação de todo o ordenamento
jurídico, senão também cumprem o papel de suprir eventual lacuna do sistema (função
supletiva ou integradora). No momento da decisão o juiz pode valer-se da interpretação
extensiva, da aplicação analógica bem como do suplemento dos princípios gerais de direito
(CPP, art. 3º). Considerando-se que a lei processual penal admite "interpretação extensiva,
aplicação analógica bem como o suplemento dos princípios gerais de direito" (CPP, art. 3º),
não havendo regra específica regente do caso torna-se possível solucioná-lo só com a
invocação de um princípio.
A validade do ordenamento jurídico
O ordenamento jurídico apresenta-se como a expressão formal do poder soberano do
Estado.
A soberania estatal em termos políticos pressupõe a supremacia do poder do Estado
em relação a todos os demais poderes existentes na sociedade e uma atuação em
coordenação com os demais Estados na ordem internacional.
Juridicamente falando, a soberania do Estado se traduz pelo monopólio da criação e
aplicação do direito, de forma que serão válidas apenas as normas jurídicas chanceladas pelo
Estado e, do mesmo modo, somente poderão aplicar tais normas os tribunais dotados de
autoridade reconhecida pelo Estado (Jurisdição).
A sistematicidade do ordenamento jurídico pressupõe a coerência entre as suas
normas, a fim de não gerar insegurança em relação ao direito aplicável. Ocorre que, por
vezes, sobretudo em sistemas jurídicos mais complexos, vigoram normas contendo
comandos incompatíveis entre si, gerando as chamadas antinomias jurídicas, que deverão
ser solucionadas, de modo a preservar a coerência do ordenamento.
Contudo, algumas situações do mundo da vida escapam à previsão legislativa, dando
origem ao fenômeno das lacunas normativas, que também comprometem a estabilidade do
ordenamento jurídico e demandam o desenvolvimento de procedimentos técnicos para o seu
preenchimento.
Hierarquia e constitucionalidade das leis
A Hierarquia normativa
O primeiro doutrinador a lecionar que o sistema jurídico era composto por normas
superiores e inferiores interligadas e estruturadas entre si foi Merkel. Porém, a estrutura
hierárquica das normas jurídicas ganhou ênfase através de Hans Kelsen.
As normas não estão todas num mesmo plano de análise. Existem normas superiores e
inferiores. As inferiores são subordinadas às normas superiores, e este escalonamento
garante unidade ao sistema.
Já nas páginas precedentes por várias vezes se fez notar a particularidade que possui o
Direito de regular a sua própria criação. Isso pode operar-se de forma a que uma norma
apenas determina o processo por que outra norma é produzida.
Mas também é possível que seja determinado ainda - em certa medida - o conteúdo da
norma a produzir.
Assim, dado o caráter dinâmico do Direito, uma norma somente é válida porque e na
medida em que foi produzida por outra norma que representa o fundamento imediato de
validade daquela.
A relação entre a norma que regula a produção de uma e outra norma assim
regularmente produzida pode ser figurada pela imagem da supra-infra-ordenação. A norma
que regula a produção é a norma superior, a norma produzida segundo as determinações
daquela norma é a inferior.
A ordem jurídica não é um sistema de normas jurídicas ordenadas no mesmo plano,
situadas umas ao lado das outras, mas é uma construção escalonada de diferentes camadas
ou níveis de normas jurídicas.
Com base nisto é possível afirmar que as normas de diferente hierarquia possuem
características distintas, notadamente quanto a sua criação. Uma norma de uma determinada
hierarquia somente pode ser editada ou revogada inovando a ordem jurídica por outra
norma quando a segunda for editada pelo mesmo órgão e seguir o mesmo procedimento
fixado pela Constituição, ou ainda, quando editada e instituída por órgão superior.
As normas inferiores dependem das superiores. Subindo das normas inferiores até
aquelas que se encontram mais acima na estrutura do ordenamento, chega-se enfim a uma
norma suprema, que não depende de nenhuma outra norma superior, e sobre a qual repousa
a unidade do ordenamento: a Norma Fundamental.
Todo ordenamento possui uma Norma Fundamental que dá unidade a todas as outras
normas; isto é, faz de normas esparsas um todo unitário, que se pode chamar de
ordenamento jurídico.
A Teoria do Ordenamento Jurídico como um todo se organiza em torno de uma
premissa de autoridade política estatal, que terá uma projeção formal na correlação
hierarquizada entre as normas jurídicas, havendo normas de maior peso, situadas
topograficamente nos estratos mais elevados da alegoria piramidal de Hans Kelsen, e outras
a elas subordinadas, que se encontram mais próximas da base.
Na mecânica de funcionamento da ordem jurídica, tal diferença em termos de
autoridade normativa será expressa pelo que se chama de relação de produção e execução
entre as normas.
Em uma estrutura hierárquica, como o ordenamento jurídico, os termos execução e
produção são relativos, porque a mesma norma pode ser considerada, ao mesmo tempo,
executiva e produtiva.
São exemplos de normas com caráter apenas de produção: decisões judiciais, atos
jurídicos etc.
Os limites com os quais o poder superior restringe e regula o poder inferior são
relativos ao conteúdo e relativos à forma, chamados de limites materiais e de limites formais,
respectivamente.
O limites materiais se referem ao conteúdo em si. Se o conteúdo, o comando, o teor da
lei respeita e está de acordo com limites da lei hierarquicamente superior.
Os limites formais se referem a todas aquelas normas da Constituição contidas no
capítulo sobre processo legislativo, que prescrevem o modo ou procedimento pelo qual as
normas de hierarquia inferior podem ser editadas pelos órgãos legislativos, no que se refere
à iniciativa do processo legislativo, tramitação de projetos e quórum de aprovação,
competência para legislar sobre determinada matéria, entre outras questões.
Na hermenêutica constitucional contemporânea, a Constituição é considerada como
um conjunto normativo formado por regras e por princípios jurídicos.
A visão integrada das normas do ordenamento jurídico pressupõe que a supremacia
hierárquica da Constituição não seja base apenas para a aferição de uma compatibilidade
vertical entre as normas, com a exclusão do sistema daquelas contrárias ao texto
constitucional, mas também abra a possibilidade da utilização da interpretação das normas
infraconstitucionais à luz dos princípios constitucionais como um mecanismo de
harmonização não apenas formal das normas do ordenamento jurídico, mas também de uma
integração, sob a ótica de sua finalidade, que é extraída dos princípios implícita e
explicitamente presentes na Constituição.
A problemática das lacunas surge exatamente quando as normas em vigor não são
capazes de dar conta de todas as situações criadas pela realidade social, o que leva a uma
insegurança jurídica.
O art. 126 do Código de Processo Civil diz que “o juiz não se exime de sentenciar ou
despachar alegando lacuna ou obscuridade da lei.” No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as
normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia, aos costumes e aos princípios gerais de
direito. Comando que é complementado pelo artigo 127 que determina que “o juizsó decidirá
por equidade nos casos previstos em lei.”
Da mesma forma, o art. 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro -
LINDB prevê que “quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os
costumes e os princípios gerais de direito.”
Pirâmide de Kelsen
Aprendemos acima que no sistema jurídico existe a chamada hierarquia de normas.
Sendo que na lição de Celso Ribeiro Bastos, "as normas de direito encontram sempre seu
fundamento em outras normas jurídicas".
Assim as normas inferiores encontram seu fundamento de validade em outras normas
de escalão superior. Desde a norma mais simples até à própria Constituição ocorre o
fenômeno da "pirâmide jurídica".
Representa-se esta estrutura hierárquica de um ordenamento através de uma pirâmide.
O vértice é ocupado pela norma fundamental e a base pelos atos executivos. Nesta pirâmide,
as normas tiram os seus fundamentos de validade nas regras que se encontram em escala
superior da hierarquia normativa.
Deste modo, para sabermos se uma norma é valida, basta que verifiquemos a sua
concordância com as regras que se encontram acima no ordenamento. Portanto, podemos
então transcrever um trecho da obra de Hans Kelsen:
“Todas as normas cuja validade pode ser reconduzida a uma e mesma norma fundamental
formam um sistema de normas, uma ordem normativa. A norma fundamental é a fonte
comum da validade de todas as normas pertencentes a uma e mesma ordem normativa, o
seu fundamento de validade comum. O fato de uma norma pertencer a uma determinada
ordem normativa baseia-se em que o seu último fundamento de validade é a norma
fundamental desta ordem. É a norma fundamental que constitui a unidade de uma
pluralidade de normas enquanto representa o fundamento da validade de todas as normas
pertencentes a essa ordem normativa.”(KELSEN, Hans. Teoria pura do direito.
[tradução João Baptista Machado]. 6ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998).
Deste modo é que devemos zelar pela unidade de nosso ordenamento jurídico,
procurando excluir de seu âmbito de eficácia toda a norma que vá de encontro à nossa
Constituição Federal. Podemos situar as normas do ordenamento jurídico em diferentes
graus de hierarquia. Eis uma das mais citadas concepções de hierarquia das normas do
ordenamento jurídico brasileiro:
1 . Normas constitucionais: ocupam o grau mais elevado da hierarquia das normas
jurídicas. Todas as demais devem subordinar-se às normas presentes na Constituição
Federal, isto é, não podem contrariar os preceitos constitucionais. Quando contrariam,
costuma-se dizer que a norma inferior é inconstitucional.
2. Normas complementares: são as leis que complementam o texto constitucional. A lei
complementar deve estar devidamente prevista na Constituição. Isso quer dizer que a
Constituição declara, expressamente, que tal ou qual matéria será regulada por lei
complementar.
3. Normas ordinárias: são as normas elaboradas pelo Poder Legislativo em sua função
típica de legislar. Exemplo: Código Civil, Código Penal, Código Tributário etc.
4. Normas regulamentares: são os regulamentos estabelecidos pelas autoridades
administrativas em desenvolvimento da lei. Exemplo: decretos e portarias.
5. Normas individuais: são as normas que representam a aplicação concreta das
demais normas do Direito à conduta social das pessoas. Exemplo: sentenças, contratos etc.
Capítulo 6 – Sujeitos da Relação Jurídica
Toda relação jurídica tem origem num fato jurídico. O direito, já o ensinavam os
romanos, nasce do fato (ex facto oritur jus).
Neste sentido, Antônio Bento Betioli, define o fato jurídico, em sentido amplo,
como sendo “todo acontecimento, natural ou humano, que por corresponder ao
modelo configurado pela norma jurídica implica consequências de direito, a
atribuição de direitos e deveres”
Savigny, no século XIX, definiu a relação jurídica como “um vínculo entre pessoas,
em virtude do qual uma delas pode pretender algo a que a outra está obrigada”.
As relações jurídicas seriam então formadas por:
Elemento material: relação social entre os sujeitos
Elemento formal: determinação jurídica do fato.
“Quando uma relação de homem para homem se subsume ao modelo normativo
instaurado pelo legislador, essa realidade concreta é reconhecida como sendo relação
jurídica” (Lições Preliminares de Direito, p. 211)
A afirmação e Reale significa que uma relação social (entre pessoas) transforma-
se em uma relação jurídica quando seus efeitos podem ser subordinados às
prescrições e determinações legais.
Salienta Pontes de Miranda, que a relação jurídica é o lado eficacial da
incidência das normas de direito sobre os suportes fáticos e, por isso, a relação
jurídica se forma quando correspondente a uma conduta prevista na norma.
As relações jurídicas são formadas pelos seguintes elementos: sujeito ativo;
sujeito passivo; objeto imediato e objeto mediato; fato gerador (fato propulsor) ou
vínculo de atributividade.
Segundo Carlos Alberto Bittar,
“observa-se, assim, na relação jurídica, a existência de submissão de
uma pessoa a outra (vínculo), em função de determinado fenômeno
qualificado juridicamente (fato gerador), por meio do qual se lhe
exige certa conduta (objeto imediato), que pode ser comportamento
positivo (ação), ou negativo (omissão), em torno de um bem jurídico
protegido (objeto mediato). De poderes, de deveres gerais e de
sujeições (deveres e obrigações) compõem-se, assim, essas interações,
na medida da realização dos valores protegidos e da consecução dos
fins visados, individualmente, pelos envolvidos” (Curso de Direito
Civil, p. 49)
As relações jurídicas são aquelas ligadas às normas jurídicas, onde a relação
jurídica é um vínculo que une duas ou mais pessoas, cuja relação se estabelece por
fato jurídico, cuja amplitude relacional é regulada por normas jurídicas, que operam
e permitem uma série de efeitos. É um comando, um imperativo dirigido às ações
dos indivíduos, é uma regra, uma conduta social, onde regula as atividades dos
sujeitos em suas relações sociais.
Elementos da relação Jurídica.
Sujeito Ativo - Titular do Direito
Sujeito Passivo - responsável pelo cumprimento da obrigação.
Objeto - Objeto da relação jurídica é o próprio objeto do direito subjetivo, são
as coisas ou utilidades sobre que incide o interesse legítimo do sujeito ativo a que se
refere o dever do sujeito passivo. Pode ser uma coisa (um imóvel, um carro, etc..),
como pode ser uma pessoa (um filho, uma criança) ou um certo bem imaterial (a
liberdade, a honra, a integridade moral etc..), podendo ainda constituir-se numa
prestação. Objeto imediato: prestação; objeto mediato: bem jurídico tutelado.
Fato jurígeno - É um fato a que a lei atribui um especial efeito (fato gerador ou
fato jurídico). Os fatos jurígenos são os fatos que dão origem à constituição duma
relação jurídica (fatos constitutivos), à modificação duma relação jurídica (fatos
modificativos) ou à extinção de uma relação jurídica (fatos extintivos).
Vínculo - Ele surge com a ocorrência do Fato gerador, que funciona como
iniciador da relação jurídica. Desta forma, a relação jurídica colocada na lei
abstratamente, materializa-se com a ocorrência do fato jurídico (fato gerador),
ligando os sujeitos em torno de um objeto e respaldando (garantia) o direito subjetivo
como uma garantia para a efetivação daquele dever jurídico descrito na Lei. Ex.: Na
batida entre dois veículos o título legitimador é a lei, em razão do ato ilícito praticado
(art. 186 e 927 NCC).
Obs.: A apostila trata fato gerado e vínculo de atributividade como sinônimos: “fato
gerador ou vínculo de atributividade da relação jurídica é o que transforma uma relação social
em uma relação jurídica, ou seja, o que confere ao sujeito ativo a faculdade de exigir do sujeito
passivo um determinado comportamento”.Espécies de Relações Jurídicas
Considerando existir diversos critérios para determinar as espécies de uma
relação jurídica, elas podem ser:
a) Quanto à Abrangência:
- Abstratas: quando a lei estabelece um comando geral e abstrato.
- Concretas: relação jurídica existente na realidade, entre pessoas determinadas,
sobre um objeto determinado, e procedendo a um fato jurídico determinado.
b) Quanto ao Número:
- Simples: quando se forma de um só vínculo, unindo duas partes.
- Complexas: quando contiver vários direitos subjetivos, caso em que as pessoas
ocupam, simultaneamente, as duas posições, figurando, ao mesmo tempo, como
sujeito ativo e passivo.
c) Quanto à Natureza:
- Principais: quando é autônoma.
- Acessórias: quando depende de uma principal, na sua existência ou na sua eficácia.
d) Quanto à Eficácia:
- Absolutas: quando vinculam aos seus efeitos todas e quaisquer pessoas e não
apenas as pessoas diretamente envolvidas; operam erga omnes (para com todos).
Compreendem as relações de direitos personalíssimos e as de direitos reais.
- Relativas: quando vinculam aos seus efeitos apenas as pessoas diretamente
envolvidas. Somente envolvem as partes relacionadas entre si. São também
chamadas: relações pessoais.
e) Quanto ao objeto:
- Reais: quando os seus efeitos incidem sobre bens. Existindo um poder de utilização
direta das coisas.
- Obrigacionais: quando visa prestações específicas e geralmente economicamente
apreciáveis. Aqui o objeto denomina-se prestação o que pode ser um dar, um fazer
ou um não fazer.
f) Quanto à forma:
- Públicas: aquela em que participa o Estado com predomínio de seu interesse ou
com poder de autoridade.
- Privadas: quando as pessoas, inclusive o Estado, participam em condições de
igualdade.
- Relações Jurídicas Abstratas: São aquelas onde não se individualizam os titulares
dos direitos e obrigações. São as relações jurídicas tal como colocadas na lei. Obs.:
*antes do fato ocorrer é abstrato. É o que está na lei. Quando ocorre o fato se
concretiza.
- Relações Jurídicas Concretas: Os sujeitos aqui são individualizados. Ex.: “A” bateu
no carro de “B”. Sua conduta amoldou-se a regra do art.186, CC, uma vez que causou
prejuízo a outrem. Agora, está ele obrigado a reparar o dano a “B”. *a lei aplicada ao
caso concreto. É o abstrato tornando-se concreto pela ocorrência de um fato.
- Relações Jurídicas Simples: Quando os direitos são conferidos a uma das partes e
somente deveres a outra parte.
Ex.: Testamento. Nele, o sujeito ativo é aquele que faz o testamento e o passivo é o
testamenteiro (aquele que vai abrir o testamento e dizer quem é o beneficiário, e pode
ser herdeiro - depende do tipo de testamento).
- Relações Jurídicas complexas: São aquelas onde os direitos e as obrigações recaem
sobre ambos os sujeitos da relação.
Ex.: contrato de compra e venda.
*eu dou o objeto e recebo o dinheiro, o outro recebe o objeto e me dá o dinheiro.
*o contrato de compra e venda é uma relação jurídica, mas não dá para saber quem é
a pessoa ativa e quem é a passiva, pois todos os dois possuem direitos e obrigações.
Só poderá ser realmente definido quando existir algum problema no contrato, como
alguém não cumprir uma cláusula.
*sujeito ativo, então, nesse caso, é quem entra com a ação.
- Relações Jurídicas Principais: Tem vida autônoma, não dependem de nenhuma
outra relação jurídica para sobreviver.
- Relações Jurídicas Acessórias: Dependem de uma outra relação jurídica, não tem
autonomia. Ex.: o contrato de sublocação gera uma relação jurídica acessória à da
locação, que é a principal. Efeito disto é que, uma vez rescindido o contrato de
locação, rescindido estará automaticamente o de sublocação, uma vez que a relação
acessória sempre seguirá a principal, pois a relação acessória não tem vida autônoma.
*as relações jurídicas podem ser uma ou mais, não necessariamente terá de ser uma
única. Pode, por exemplo, ser concreta, complexa e principal.
- Relações Jurídicas Públicas: Onde o estado sempre atua em posição de
superioridade. Ex.: os contratos administrativos onde o Estado goza de certos
privilégios frente ao particular.
*em uma concessão tipo prefeitura c/particular, o Estado tem privilégios. Como,
p.ex., poder rescindir o contrato sem nenhuma pena. O interesse público supera o
particular. Ex.: empresa de ônibus.
*em caso de ações o Estado tem prazos maiores. *jus imperium - direito de império.
- Relações Jurídicas Privadas: As partes se encontram em posição de igualdade. *só
entre particulares. Ex.: compra e venda.
- Relações Jurídicas Pessoais: Vinculam o titular do direito a um número
determinado de pessoas.
- Relações Jurídicas Obrigacionais: Vinculam pessoas determinadas, sabendo-se
quem são os sujeitos da relação.
A relação obrigacional é composta por três elementos fundamentais:
a) subjetivo ou pessoal: sujeito ativo (credor); sujeito passivo (devedor)
b) objetivo ou material: a prestação
c) ideal, imaterial ou espiritual: o vínculo jurídico.
- Relações Jurídicas Reais: Vinculam o titular do direito a um número
indeterminado de pessoas. Uma parte da relação é determinada e a outra
indeterminada. *direitos reais-ligado a bens materiais.
- Relação Jurídica Absoluta: São aquelas que vinculam aos seus efeitos todas e
quaisquer pessoas e não apenas as pessoas diretamente envolvidas (operam erga
omnes). Ex.: direitos personalíssimos e direitos reais (uso, habitação, propriedade).
*direitos personalíssimos - honra, liberdade. Ex.: se eu mudo meu nome vale p/todos,
todos terão que aceitar meu novo nome não apenas eu.
- Relações Jurídicas Relativas: quando dizem respeito e vinculam aos seus efeitos
apenas as pessoas diretamente envolvidas. As pessoas estranhas à relação não são
abrangidas. São também chamadas relações pessoais e obrigacionais. (inter partes)
Ex.: direito de família, relações contratuais, relações sucessórias. *direito de família,
sucessão-pessoal. Obrigacional seria a contratual. *pode ser só uma relação ou até as
duas. Ex.: em uma separação posso ter relação pessoal ou obrigacional c/relação aos
alimentos. Posso pedir ou não, mas se pedir passo a ser obrigado a dar.
Relações Jurídicas de Direito Material
Relações Jurídicas Civis: Estabelecem-se entre pessoas consideradas em pé de
igualdade. São as relativas à pessoa em si mesma ou no seio da família, bem como as
decorrentes da sucessão mortis causa (casamento, nascimento, óbito, inventário,
adoção etc.), além daquelas estabelecidas entre particulares de caráter patrimonial
(contratos, propriedade etc.) art. 1.533 CC - Casamento, Contrato 481 CC.
- Relação Jurídica Penal: É aquela onde o Estado (titular do direito de punir) trava
contra o autor de uma conduta definida como crime na Lei.
- Relação Jurídica Processual: Havida entre o Estado e as partes envolvidas no
processo, na qual são exigidos comportamentos atinentes ao bom andamento do
processo, visando a uma decisão sobre um direito material questionado.
- Relação Jurídica Tributária: Estabelece-se entre o estado e o particular, com a
finalidade de criar e cobrar tributos, visando prover recursos que se voltarão para
benefício de toda sociedade.