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Estudos de
Controle de
Constitucionalidade
Ana Paula Santos Huoya
Davi Santana Souza
Elenice R. N. Dos Santos
Felipe A. G. Santos
Gabriella dos S. Machado
Geovane De Mori Peixoto
João Cássio A. Miranda
Lázaro Alves Borges
Mirela G. Portugal
Paulo Modesto
Pedro N. A. de Oliveira
Priscila Peixinho Maia
Rafael Peixoto
Rodrigo Pacheco Pinto
Gabriel Marques
(Organizador)
Volume 2
GABRIEL DIAS MARQUES DA CRUZ
(Organizador)
ESTUDOS DE
CONTROLE DE
CONSTITUCIONALIDADE
Volume 2
Instituto Brasileiro de Pesquisa Jurídica – IBPJ
2019
© Gabriel Dias Marques da Cruz
ISBN 978-85-94308-06-1
Instituto Brasileiro de Pesquisa Jurídica – IBPJ
CNPJ n. 28.539.750/0001-55
Prefixo ABISBN n. 94308
FICHA CATALOGRÁFICA
Cruz, Gabriel Dias Marques da. Estudos de Controle de Constitucionalidade:
Volume 2./ Gabriel Dias Marques da Cruz./ 1ª ed./ Campo Grande: Instituto
Brasileiro de Pesquisa Jurídica, 2019. 541 p.
1. Direito Constitucional. 2. Controle de Constitucionalidade. I. Título.
C.D.U. 34. 342.5.
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artigos que compõe a presente obra cabem aos autores e do
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CONSELHO EDITORIAL
ABILI LÁZARO CASTRO DE LIMA
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GEZIELA IENSUE
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IVO DANTAS
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NATALINA STAMILE (Itália)
PABLO MALHEIROS DA CUNHA FROTA
PAULO OPUSZKA
RENATO BRAZ MEHANNA KAMIZ
ORGANIZADOR E AUTORES
Organizador
GABRIEL DIAS MARQUES DA CRUZ
Autores
ANA PAULA SANTOS HUOYA
DAVI SANTANA SOUZA
ELENICE RIBEIRO NUNES DOS SANTOS
FELIPE ALMEIDA GARCIA SANTOS
GABRIELLA DOS SANTOS MACHADO
GEOVANE DE MORI PEIXOTO
JOÃO CÁSSIO ADILEU MIRANDA
LÁZARO ALVES BORGES
MIRELA GONÇALVES PORTUGAL
PAULO MODESTO
PEDRO NABUCO ARAÚJO DE OLIVEIRA
PRISCILA PEIXINHO MAIA
RAFAEL PEIXOTO
RODRIGO PACHECO PINTO
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO. Gabriel Dias Marques da Cruz
CAPÍTULO 1. ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL
E AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE POR
OMISSÃO: FERRAMENTAS DE COMBATE ÀS OMISSÕES
DO PODER PÚBLICO. Ana Paula Santos Huoya, 01
CAPÍTULO 2. ENTRE A INTERPRETAÇÃO E O
DECISIONISMO: AFINAL, A QUEM SERVE O PODER
CONSTITUINTE DIFUSO? Davi Santana Souza, 39
CAPÍTULO 3. DEMOCRACIA, EVOLUÇÃO DOS DIREITOS
HUMANOS E CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
NO BRASIL. Elenice Ribeiro Nunes dos Santos, 68
CAPÍTULO 4. RECURSO EXTRAORDINÁRIO E
REPERCUSSÃO GERAL: PROPOSTAS PARA O
ENFRENTAMENTO DO ACÚMULO DE PROCESSOS
SOBRESTADOS NO ÂMBITO DO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL. Felipe Almeida Garcia Santos, 97
CAPÍTULO 5. ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE
PRECEITO FUNDAMENTAL: ANÁLISE DA SUA
(IN)EFETIVIDADE APÓS 18 ANOS DA LEI 9.882/99.
Gabriella dos Santos Machado, 154
CAPÍTULO 6. O SUBSTANCIALISMO DE RONALD
DWORKIN: JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL E A BUSCA
POR RESPOSTAS CORRETAS. Geovane de Mori Peixoto, 198
CAPÍTULO 7. A CLÁUSULA DE RESERVA DE PLENÁRIO
COMO GARANTIA DA UNIDADE DECISÓRIA NO
CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE ABSTRATO-
CONCENTRADO PELO STF. João Cássio Adileu Miranda, 212
CAPÍTULO 8. FLEXIBILIZAÇÃO DO JUDICIAL REVIEW
OF LEGISLATION: SUBSISTE O MONOPÓLIO JUDICIAL
ESTATAL? Lázaro Alves Borges, 244
CAPÍTULO 9. LEGITIMIDADE DEMOCRÁTICA E
OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS: DO SILÊNCIO DO
LEGISLADOR AO DIÁLOGO INSTITUCIONAL NO MI 943.
Mirela Gonçalves Portugal, 273
CAPÍTULO 10. EFICÁCIA DO CONTROLE ABSTRATO DE
CONSTITUCIONALIDADE NOS ESTADOS E
INVOCAÇÃO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO DE NORMAS
DE REPRODUÇÃO, IMITAÇÃO E REMISSÃO ESTADUAL
À CONSTITUIÇÃO FEDERAL – O PAPEL RESERVADO ÀS
LEIS ORGÂNICAS MUNICIPAIS. Paulo Modesto, 314
CAPÍTULO 11. CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
E SIMBOLISMO CONSTITUCIONAL: UMA ANÁLISE DA
ADIn 1.442. Pedro Nabuco Araújo de Oliveira, 343
CAPÍTULO 12. PRECATÓRIOS: RELEITURAS DE UMA
NOVELA JURÍDICA. Priscila Peixinho Maia, 397
CAPÍTULO 13. O REQUISITO DE NOTÁVEL SABER
JURÍDICO PARA COMPOR O SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL: UMA ANÁLISE DAS SABATINAS DOS
INDICADOS À SUPREMA CORTE BRASILEIRA ENTRE
NOVEMBRO DE 2011 E FEVEREIRO DE 2017. Rafael Peixoto,
451
CAPÍTULO 14. A RELEVÂNCIA DA REPERCUSSÃO
GERAL NO BRASIL E O JULGAMENTO DA IMUNIDADE
DO LIVRO ELETRÔNICO NO RE 330.817/RJ. Rodrigo Pacheco
Pinto, 506
APRESENTAÇÃO
É com muita alegria que o nosso querido GPCC – Grupo
de Pesquisa em Controle de Constitucionalidade, vinculado à
Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA),
apresenta mais uma edição que expõe ao debate público as suas
pesquisas mais recentes, voltadas ao aprofundamento das reflexões
sobre o importante tema da proteção da Constituição Federal
brasileira.
Trata-se de uma edição especial, tendo em vista a
celebração de ao menos dois aniversários relevantes no ano de
2018: os 30 anos da Constituição Federal brasileira, assim como os
70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos. Dois
documentos notáveis, cuja efetividade tem enfrentado desafios dos
mais diversos em se tratando do ainda infeliz distanciamento entre
teoria e realidade.
Cabe à pesquisa jurídica traçar o diagnóstico dos problemas
detectados e a relevante missão de apontar caminhos aptos à
concretização das promessas textuais.
Em fevereiro de 2017 lançamos a nossa primeira Coletânea
de Estudos em Controle de Constitucionalidade, que marcou uma
etapa de muita celebração na trajetória do nosso Grupo de
Pesquisa. Momento de extrema felicidade, coroou mais de ano de
pesquisa e dedicação em prol de discutir assuntos importantes no
âmbito da Jurisdição Constitucional Brasileira.
Sendo assim, temos a alegria renovada de apresentar ao
público, agora, mais uma série de estudos em Controle de
Constitucionalidade, tratando-se do segundo volume que editamos.
O estímulo à pesquisa tem, nas publicações, uma
oportunidade especial de divulgarresultados, proporcionar debate
e enriquecer discussões. A teoria que produzimos pode e deve
servir para uma melhor compreensão dos desafios práticos que
enfrentamos. A reflexão e a crítica respeitosa têm o condão de nos
permitir enxergar mais longe, e ajudar a aperfeiçoar a nossa própria
realidade. Neste sentido, a obra reúne os seguintes estudos:
Ana Paula Santos Huoya escreveu sobre “Estado de
Coisa Inconstitucional e Ação Direta de Inconstitucionalidade por
Omissão: ferramentas de combate às omissões do Poder Público”.
Buscou efetuar uma comparação entre o instituto do Estado de
Coisas Inconstitucional na Colômbia e examinar a ADI por
Omissão no Brasil, com foco direcionado ao exame da ADPF
347/DF, julgada pelo STF.
Davi Santana Souza elaborou artigo com o seguinte
título: “Entre a interpretação e o decisionismo: afinal, a quem serve
o Poder Constituinte Difuso? ”. Nele versou sobre o significado
do Poder Constituinte Difuso e sua correlação com os debates
sobre a Legitimidade do Controle de Constitucionalidade,
examinando, ainda, como a jurisprudência do STF se comporta a
respeito da questão.
Felipe Almeida Garcia Santos dedicou-se ao seguinte
tema: “Recurso Extraordinário e Repercussão Geral: propostas
para o enfrentamento do acúmulo de processos sobrestados no
âmbito do Supremo Tribunal Federal”. No referido trabalho
apresentou três propostas para uma melhoria da análise da
repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal, na expectativa
de uma contribuição para o aperfeiçoamento do sistema.
Gabriella dos Santos Machado trata do tema “Arguição
de Descumprimento de Preceito Fundamental: análise da sua (in)
efetividade após 18 anos da Lei 9.882/99”. No trabalho, defende o
papel de relevância central que a arguição de descumprimento de
preceito fundamental pode vir a exercer no Brasil, já que destinada
à tutela dos preceitos fundamentais da Constituição.
João Cássio Adileu Miranda escreveu sobre “A cláusula
de reserva de plenário como garantia da unidade decisória no
controle de constitucionalidade abstrato-concentrado pelo STF”.
No trabalho, sustenta a relevância de uma reinterpretação da
cláusula de reserva de plenário no sentido de que tenha a aptidão
de promover unidade na fundamentação decisória do Supremo
Tribunal Federal. Formula, inclusive, sugestões de dispositivos
normativos capazes de amparar a referida conclusão, recorrendo,
por exemplo, ao Novo Código de Processo Civil e ao Regimento
Interno do Supremo.
Lázaro Alves Borges dissertou sobre “Flexibilização do
Judicial Review of Legislation: subsiste o monopólio judicial estatal?”.
No trabalho, examinou as origens do controle judicial de
constitucionalidade, com foco dirigido à análise do caso Marbury v.
Madison. A seguir, demonstrou a viabilidade de expansão dos
órgãos capazes de realizar a fiscalização da Constituição,
contemplando, em especial, o papel da arbitragem diante do
referido cenário.
Mirela Gonçalves Portugal tratou da “Legitimidade
Democrática e Omissões Inconstitucionais: do silêncio do
legislador ao diálogo institucional no MI 943”. Ao utilizar como
recorte em sua abordagem o aludido mandado de injunção, a
autora efetua uma análise das diversas teorias existentes no cenário
dos diálogos institucionais, construindo, portanto, uma análise
aplicável ao âmbito do controle das omissões inconstitucionais no
Brasil. Sua pesquisa teve por base o pensamento da Professora
Christine Bateup.
Pedro Nabuco Araújo de Oliveira escreveu sobre
“Controle de Constitucionalidade e Simbolismo Constitucional:
Uma análise da ADIn 1.442”. No aludido trabalho, analisou a
discussão judicial, efetuada pelo Supremo, acerca da fixação do
valor do salário mínimo, à luz de uma visão crítica e questionadora
do real propósito de efetivação da Constituição. A pesquisa
empreendeu uma investigação inspirada pela teoria crítica do
Professor Marcelo Neves.
Priscila Peixinho Maia escreveu sobre “Precatórios:
Releitura de uma Novela Jurídica”. No artigo, realiza uma análise
cuidadosa da tormentosa discussão judicial acerca dos precatórios
no Supremo Tribunal Federal, empregando estudos no âmbito das
teorias dialógicas para melhor compreensão do assunto. Ao final,
expõe sua dúvida acerca da real efetividade da Emenda
Constitucional nº 94 no Brasil.
Rafael Peixoto pesquisou “O requisito do notável saber
jurídico para compor o Supremo Tribunal Federal: uma análise das
sabatinas dos indicados à Suprema Corte Brasileira entre
novembro de 2011 e fevereiro de 2017”. Após realizar uma
cuidadosa análise do perfil das sabatinas a que foram submetidos
os indicados para o Supremo, sugere aperfeiçoamento na aferição
do notável saber jurídico por meio da participação de juristas no
processo, de modo a pluralizar e enriquecer o relevante papel do
Senado Federal.
Rodrigo Pacheco Pinto examinou “A relevância da
Repercussão Geral no Brasil e o julgamento da imunidade do livro
eletrônico no RE 330.817/RJ”. Em sua pesquisa, o autor analisa a
relevância do instituto da repercussão geral no recurso
extraordinário, ferramenta capaz de dinamizar a aferição de temas
de interesse nacional. Sua análise foi voltada, em especial, para a
atuação do Supremo no reconhecimento da imunidade do livro
eletrônico, providência de especial significado para o acesso à
cultura no Brasil.
Além dos artigos dos alunos integrantes do GPCC também
contamos com três artigos de Professores convidados, numa
tentativa de articulação de saberes que enseja olhares diversos para
os fenômenos que investigamos.
A Professora Elenice Ribeiro Nunes dos Santos
escreveu sobre “Democracia, Evolução dos Direitos Humanos e
Controle de Constitucionalidade no Brasil”. No referido trabalho,
defende uma correlação necessária entre direitos fundamentais e
democracia, analisando a atuação das Cortes Constitucionais e a
compreensão do seu papel na efetivação de direitos.
O Professor Geovani de Mori Peixoto tratou do
“Substancialismo de Ronald Dworkin: Jurisdição Constitucional e
a Busca por Respostas Corretas”. No trabalho, sustentou dois
conceitos-chave no pensamento de Dworkin, contemplando sua
análise sobre os conceitos de princípio e de integridade. O artigo
sublinha a importância do pensamento de Dworkin para
fundamentar o exercício da jurisdição constitucional, atentando,
inclusive, para o contexto brasileiro e suas peculiaridades.
Por sua vez, o Professor Paulo Modesto tratou da
“Eficácia do Controle Abstrato de Constitucionalidade nos
Estados e invocação pelo Ministério Público de normas de
reprodução, imitação e remissão estadual à Constituição Federal –
O papel reservado às Leis Orgânicas Municipais”. Apresenta
sugestões de aperfeiçoamento do exercício do controle de
constitucionalidade estadual e municipal no Brasil, efetuando uma
construção doutrinária crítica e propositiva a respeito do assunto.
Aproveito para agradecer os esforços de cada um dos
integrantes de nossa publicação, especialmente por conta do
tempo e energia dedicados para a tarefa. Agradeço, também, à
gentileza do Professor Luís Fernando Sgarbossa pela aceitação do
texto para publicação pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa Jurídica,
voltado para a qualificada promoção de estudos acadêmicos. Trata-
se de uma iniciativa extremamente notável, ainda mais em se
tratando do cenário desafiador por que passa o Brasil.
Encerro esta breve apresentação com a esperança de que
os estudos presentes nesta obra ajudem a construir soluções
capazes de iluminar os futuros caminhos da acidentada,
desafiadora e problemática trajetória jurídica brasileira.
Rememorando as inspiradoras palavras de Ulysses Guimarães, em
seu marcante discurso de promulgação da Constituição Federal de
1988, fica o desejo de que tragam luz, ainda que de lamparina, ante
a noite que nosatemoriza.
Salvador, 12 de abril de 2019.
GABRIEL DIAS MARQUES DA CRUZ
Mestre e Doutor em Direito do Estado – USP
Professor Adjunto de Direito Constitucional da UFBA e da
Faculdade Baiana de Direito
Coordenador do GPCC – UFBA
1
CAPÍTULO 1
ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL E AÇÃO
DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE POR
OMISSÃO: FERRAMENTAS DE COMBATE ÀS
OMISSÕES DO PODER PÚBLICO
Ana Paula Santos Huoya
RESUMO: O presente artigo possui como objetivo a comparação do
instituto do Estado de Coisa Inconstitucional enquanto inovação
importada da Corte Constitucional Colombiana à Ação Direta de
Inconstitucionalidade por omissão enquanto mecanismo tradicional de
Controle de Constitucionalidade no Brasil. Para tanto, pretende, em
primeiro lugar, traçar a origem do estado de coisa inconstitucional e
elencar atuações pretéritas da Corte Constitucional Colombiana para sua
aplicação, situando-o no sistema Constitucional Colombiano de combate
às omissões. Empós, busca descrever o procedimento da Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão, situando-a no sistema tradicional de
combate às omissões brasileiro para, então, analisar a aplicação do
Estado de Coisa Inconstitucional na ADPF 347/DF, comparando-a com
a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão.
PALAVRAS-CHAVE: Estado de Coisa Inconstitucional; Ação Direta
de Inconstitucionalidade por Omissão; Corte Constitucional
Colombiana; Omissões do poder público.
ABSTRACT: this paper aims to compare the Inconstitucional State of
Affairs as as imported inovation of the Colombian Constitutional Court
to the Direct Action of Inconstitutionality caused by omssions as a
traditional mechanism of Constitutionality Control in Brazil. Therefore,
this paper intents, first of all, to trace the origin of the inconstitutional
state of affairs and to list previous decisions of the Colombian
Constitutional Court for its application, situating it in the colombian
constitutional system to combat omissions. After that, the article seek to
describe the procedure of the Direct Action of Inconstitutionality caused
by omission, situating in the brazilian traditional system of combating
omissions. Then, it intents to analyze the application of the
inconstitutional state of affairs in ADPF 347/DF, comparing to the
Direct Action of Inconstitutionality caused by omssions.
KEYWORDS: Inconstitutional State of Affairs; Direct Action of
Inconstitutionality caused by Omissions; Colombian Constitutional
Court; state omissions.
2
RESUMEN: el presente artículo tiene como objetivo la comparación
del instituto del Estado de Cosa Inconstitucional como innovación
importada de la Corte Constitucional Colombiana a la Acción Directa de
Inconstitucionalidad por omisión como mecanismo tradicional de
Control de Constitucionalidad en Brasil. Para esto, pretende, en primer
lugar, trazar el origen del estado de cosa inconstitucional y enumerar
actuaciones pretéritas de la Corte Constitucional Colombiana para su
aplicación, situándolo en el sistema Constitucional Colombiano de
combate a las omisiones. Después, procura describir el procedimiento de
la Acción de Inconstitucionalidad por Omisión, situándola en el sistema
brasileño de lucha contra las omisiones,
para entonces analizar la aplicación del Estado de Cosa Inconstitucional
em la ADPF 347/DF, comparándola com la Acción de
inconstitucionalidad por omisión.
PALABRAS-CLAVE: Estado de Cosa Inconstitucional; Acción Directa
de Inconstitucionalidad por omisión; Corte Constitucional Colombiana;
Omisiones del poder público
SUMÁRIO: Introdução. 1 Estado de Coisa Inconstitucional:
gênese e evolução. 1.1 A jurisdição colombiana e as suas estratégias
de combate às omissões. 1.2 Estado de Coisa Inconstitucional
(ECI) na Corte Constitucional Colombiana. 2 Proteção Judicial de
combate às omissões no Brasil. 2.1 Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão (ADO). 3 A ADPF 347 e a
primeira aparição do Estado de Coisa Inconstitucional no Brasil.
Considerações finais.
INTRODUÇÃO
O desafio do pesquisador das omissões constitucionais no
direito brasileiro contorna a constante da eficácia das normas
constitucionais em um Estado de Direito que se preocupa com a
positivação de direitos sociais. Enquanto a inconstitucionalidade
por ação se depara com a validade das leis e atos normativos em
3
face da supremacia constitucional, a inconstitucionalidade por
omissão se remete à efetividade constitucional.
Em se tratando do Brasil, o desafio é ainda maior, visto que
a constituição cidadã deixou verdadeiros programas a serem
cumpridos e inúmeras normas de eficácia limitada. Também,
assumindo a aplicabilidade imediata dos direitos fundamentais e a
eficácia dos direitos fundamentais entre particulares, os programas
se tornam ainda mais complexos: são convidados o legislador, a
administração e os particulares para construir um Estado
Democrático de Direito que concretiza a Constituição por
completo.
Neste trabalho, busca-se comparar o instituto do Estado de
Coisa Inconstitucional enquanto inovação importada da Corte
Constitucional Colombiana à Ação Direta de Inconstitucionalidade
por omissão enquanto mecanismo tradicional de Controle de
Constitucionalidade no Brasil, sob a hipótese de que a escolha de
adoção do Estado de Coisa Inconstitucional vem da vontade de
conferir, a curto prazo, eficácia às normas constitucionais, cuja
solução move todos os três poderes. Já a Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão traça uma solução que
perpassa ou pelo poder legislativo ou pela administração,
impedindo o reconhecimento da omissão que, ao mesmo tempo,
contempla o legislador e o poder executivo. Hipoteticamente, se
formula a ideia de que a adoção do Estado de Coisa
Inconstitucional vem da vontade de conferir, a curto prazo,
4
eficácia às normas constitucionais, cuja solução move todos os três
poderes, enquanto a Ação Direta de Inconstitucionalidade por
Omissão traça uma solução que só perpassa pelo poder legislativo,
impedindo medidas impositivas para suprir a omissão.
Para tanto, procura traçar a origem e evolução do Estado de
Coisa Inconstitucional (ECI) na Colômbia, elencando atuações
pretéritas em que houve esta declaração em decisões da Corte
Constitucional Colombiana. Assim, passa a analisar o conceito de
ECI forjado na referida Corte, situando-o em seu sistema de
combate às omissões do poder público.
Em seguida, busca descrever o procedimento da Ação
Direta de Inconstitucionalidade por Omissão, também o situando
no sistema de combate às omissões constitucionais no direito
brasileiro. Por fim, passa a analisar a aplicação do Estado de Coisa
Inconstitucional no Brasil, manifestada através da ADPF 347/DF,
comparando-a com a Ação Direta de Inconstitucionalidade por
Omissão.
1 ESTADO DE COISA INCONSTITUCIONAL:
GÊNESE E EVOLUÇÃO
O Estado de Coisa Inconstitucional é um estado de coisas,
declarado a fim de tecer mecanismo decisório para superação de
omissões inconstitucionais. Ele foi forjado na Corte Constitucional
Colombiana, que busca, através dessa técnica não prevista em lei,
suprir violações sistemáticas de direitos fundamentais em busca de
5
soluções estruturais, que envolvam todos os poderes para
combater essas situações greves e contínuas, existentes em razão
de omissões do poder público. O ECI é declarado em situações
excepcionais, em que o problema necessita de solução
estruturante:
El Estado de Cosas Inconstitucional, es un conjunto de hechos,
acciones u omisiones que dan como resultado una violación
masiva de los derechos fundamentales. Estos hechos pueden
emanar de una autoridad pública específica que vulnera de
manera constante los derechos fundamentales, o de una problema
estructural que no sólo compromete una autoridad en particular
sino que incluye consigo la organizacióny funcionamiento del
Estado, y que por tanto se puede calificar como una política
pública, de donde nazca la violación generalizada de los derechos
fundamentales.
A decisão que instaurou o conceito de Estado de Coisa
Inconstitucional, de fato, traz alguns requisitos que devem ser
identificados para sua declaração, e que são retratados por
Marmelstein ao analisar a decisão da Acción de tutela T-025 de 2004:
(1) violação mássica e generalizada de vários direitos
constitucionais, capaz de afetar um número significativo de
pessoas; (2) a prolongada omissão das autoridades no
cumprimento de suas obrigações para garantir os direitos; (3) a
adoção de práticas inconstitucionais a gerar, por exemplo, a
necessidade de sempre ter que se buscar tutela judicial para a
obtenção do direito; (4) a não adoção de medidas legislativas,
administrativas e orçamentárias necessárias para evitar a violação
de direitos; (6) a existência de um problema social cuja solução
depende da intervenção de várias entidades, da adoção de um
conjunto complexo e coordenado de ações e da disponibilização
de um congestionamento do sistema judicial, caso ocorra uma
procura mássica pela proteção jurídica.
6
Assim, ao utilizar a declaração de ECI, a Corte
Constitucional Colombiana não só perfaz o papel de garantidora
de direitos individuais e assume papel ativista, defendendo todo o
sistema de direitos fundamentais em sua dimensão objetiva. E, a
partir da decisão, pretende-se engajar todo o poder público para
integrar a omissão estatal, coordenando-o a fim de traçar solução
que reverta o quadro de massiva violação de direitos. É, então,
decisão que busca conduzir todo o Estado para a observância da
dignidade da pessoa humana.
Pode ser alegada sempre a ideia de que a declaração do ECI
viola a separação dos poderes, afinal a solução estrutural passa por
alocação de recursos humanos e financeiros que afetam a
administração, bem como afetam as decisões do legislativo. Porém
as violações, segundo George Marmelstein, refletem, também, na
funcionalidade da atividade jurisdicional por causa de omissões
nestes poderes. A solução estrutural do ECI evita as soluções
individuais, que fariam o problema persistir em nível macro. Por
isso, a união entre órgãos faria a diferença para combater de forma
radical a violação massiva. Nesse sentido, não há lógica em existir
uma posição de confronto frente ao judiciário.
•A jurisdição colombiana e as suas estratégias de
combate às omissões
7
A Corte Constitucional Colombiana foi instituída em 1991 e
é ela quem realiza a parte majoritária da jurisdição constitucional.
É, atualmente, composta por nove membros eleitos pelo Senado
da República para um mandato de oito anos, a partir de uma lista
de três nomes apresentados pelo Presidente da República, três são
indicados pela Corte Suprema de Justiça e três pelo Conselho de
Estado, sendo proibida a reeleição.
Sobre o sistema de controle de constitucionalidade
colombiano, ele é apresentado como um sistema misto: envolve
controle difuso e controle concentrado das normas, introduzido de
forma integral em 1991. Na parte difusa, há a excepción de
inconstitucionalidad, que possui efeitos somente entre as partes.
Outra manifestação do controle se manifesta pelo Conselho de
Estado, que analisa os atos administrativos e decretos.
O Controle de Constitucionalidade concentrado se
manifesta, ainda e de forma principal, em torno da Acción Pública de
Inconstitucionalidad, entendida como “marco mundial no que diz
respeito à jurisdição constitucional”. Considerado um país de “vai
e vem” de conjunturas políticas e constitucionais, desde a
independência, a Colômbia sempre discutiu a ideia de supremacia
da constituição e de um controle de constitucionalidade. É
considerado, por alguns, um dos sistemas mais completos
existentes no mundo.
Cabe destacar o art. 4º da Carta Colombiana: “la
Constitución es normas de normas. Em todo caso de
8
incompatibilidad entre la Constitución y la ley u otra norma
jurídica, se aplicarán las disposiciones constitucionales”. Esse
modelo de controle convergiu todas as iniciativas históricas para o
controle de constitucionalidade, que convivem na constituição
vigente de 1991:
Aquí, el análisis del comportamiento de la acción pública de
inconstitucionalidad –que sigue conviviendo con el esquema de
las objeciones presidenciales, y en especial, el control de las leyes
por parte de la Corte Constitucional– se convierte en el punto de
partida para entender cómo esos modelos de control de los que
se hablaba a inicios del siglo XIX, coexisten hoy en nuestro
modelo constitucional de 1991.
Outro modo de controle de constitucionalidade que opera
na Colômbia é aquele feito pelo Presidente da República por meio
do que se chama de objeciones de inconstitucionalidade (control previo),
ocorrido quando um projeto de lei é enviado à sanção. Outro
modo de exercício é o controle judicial por provocação ou atuação
popular. Ainda, existe o control oficioso de constitucionalidade, que
julga tratados internacionais e leis que os aprovam e decretos
expedidos no Estado de Exceção.
Insta observar que, a Acción Pública é considerada
instrumento de alta participação cidadã que não se limita ao
controle da atuação legislativa, sendo verdadeira garantidora de
direitos e espaço de participação popular. Afinal, “se trata de una
acción que, hablando en términos procesales, no exige una carga
de conocimiento excesivo de técnica jurídica para acceder a ella”.
9
No que tange ao controle concreto de constitucionalidade,
Campos afirma que é feito através da revisão das decisões judiciais
das Acciones de Tutela, propostas pelos cidadãos em defesa de seus
interesses constitucionais:
Artículo 86. Toda persona tendrá acción de tutela para
reclamar ante los jueces, en todo momento y lugar,
mediante un procedimiento preferente y sumario, por sí
misma o por quien actúe a su nombre, la protección
inmediata de sus derechos constitucionales fundamentales,
cuando quiera que estos resulten vulnerados o amenazados
por la acción o la omisión de cualquier autoridad pública. La
protección consistirá en una orden para que aquel respecto de
quien se solicita la tutela, actúe o se abstenga de hacerlo. El fallo,
que será de inmediato cumplimiento, podrá impugnarse ante el
juez competente y, en todo caso, este lo remitirá a la Corte
Constitucional para su eventual revisión. Esta acción solo
procederá cuando el afectado no disponga de otro medio de
defensa judicial, salvo que aquella se utilice como mecanismo
transitorio para evitar un perjuicio irremediable. En ningún caso
podrán transcurrir más de diez días entre la solicitud de tutela y
su resolución. La ley establecerá los casos en los que la acción de
tutela procede contra particulares encargados de la prestación de
un servicio público o cuya conducta afecte grave y directamente
el interés colectivo, o respecto de quienes el solicitante se halle en
estado de subordinación o indefensión. (grifo nosso).
É mecanismo que, como na acción pública de
inconstitucionalidade, a postulação pode ocorrer diretamente do
cidadão perante à Corte, sem necessidade de advogado para
defender seus direitos fundamentais violados por ação ou omissão
de qualquer autoridade pública. Ela só possui cabimento em caso
subsidiário: caso não haja outro meio de proteger o direito. A
Acción de Tutela foi mecanismo inicial que deu ensejo para as
10
declarações do Estado de Coisa Inconstitucional, a exemplos das
Sentencia de Unificación (SU) 559-1997; Sentencia de Tutela (T) -068 de
1998; Sentencia T-153 de 1998; Sentencia T-388 de 2013, Sentencia T-
025 de 2004, entre outras.
1.2 Estado de Coisa Inconstitucional (ECI) na Corte
Constitucional Colombiana
Duas decisões marcaram o nascimento do Estado de Coisa
Inconstitucionalna Colômbia. Foi em 1997, que primeiramente a
Corte constatou o “estado de cosas violatorio de la Constituición
Política” no caso em que professores rogaram por alguns direitos
sociais e os poderes deveriam criar uma solução que os envolvesse
como um todo (Sentencia de Unificación de número 559/1997).
Depois, o ECI apareceu na decisão da Acción de tutela, de sentença
T-068/1998, que foi ajuizada para reclamar de demora de resposta
do sistema previdenciário em relação a pedidos administrativos de
alguns segurados.
Em momento posterior, o conceito do Estado de Coisa
Inconstitucional foi se consolidando melhor e alterou-se, bastante,
com o tempo, refletido na jurisprudência. A primeira aparição
ocorreu com o caso dos docentes municipais na SU – 559 de 1997:
“CORTE CONSTITUCIONAL-Colaboración armónica con
órganos del Estado/ESTADO DE COSAS-Notificación y
requerimiento por violación de la Constitución/ACCION DE
11
TUTELA-Notificación de irregularidad a las autoridades públicas
y efectos”.
Nessa ação, os docentes questionaram a ausência de
vinculação a qualquer fundo de previdência que lhes provesse
prestações, por exemplo, de saúde, apesar de pagarem,
mensalmente, com cinco por cento de seus salários para essas
prestações. A solução dada pela corte foi a declaração do estado de
coisas que violam a Constituição Política para evitar o excesso de
ajuizamento de acciones de tutela pela mesma razão.
Ainda, na decisão seguinte que declarou o ECI também na
intenção de unificar as decisões de ações iguais com os mesmos
pedidos, de uma população com seus direitos fundamentais
violados. Em Montenegro, sobre a SU 559 de1997:
La C. Const. en esta sentencia de unificación tiene la
seguridad de que mientras no se tomen medidas de
fondo sobre los factores enunciados y los otros que
los expertos puedan determinar, el problema
planteado, que de suyo expresa un estado de cosas que
pugna con la Constitución Política y sujeta a un grupo
significativo de educadores a sufrir un tratamento
indigno, se tornará de más difícil solución y propiciará
la sistemática y masiva utilización de la acción de
tutela.
Nesse sentido, Marmelstein entende que essa não é a faceta
que o ECI possui atualmente. Afinal, o Brasil possui mecanismos
como mandado de injunção, ação civil pública e súmulas
12
vinculantes para unificar sentenças e proteger direitos coletivos,
difusos e individuais homogêneos:
Se o ECI se limitasse a isso, seria desnecessária a sua
importação par ao Brasil. Afinal, já existem medidas
jurídico-processuais previstas na Constituição para a
proteção de interesses coletivos, difusos e individuais
homogêneos. A própria ADPF parece que cumpre essa
função a contento.
Essa decisão foi importante marco de reconhecimento,
entretanto, da proteção da dimensão objetiva dos direitos
fundamentais a partir de solução estrutural que buscou minimizar
os problemas para todos os peticionantes das ações de tutela.
As sentenças que seguiram estas foram mais complexas, não
só utilizando o Estado de Coisa Inconstitucional como estratégia
de resolução de demandas coletivas. O ECI passou a virar
instrumento de diálogo institucional. Em uma de suas sentenças
mais marcantes, a Corte Constitucional declarou o ECI em razão
do sistema prisional colombiano e o estado de violação de direitos
fundamentais no qual ele se encontra:
ESTADO DE COSAS INCONSTITUCIONAL EN
ESTABLECIMIENTO CARCELARIO-Hacinamiento. Las
cárceles colombianas se caracterizan por el hacinamiento, las
graves deficiencias en materia de servicios públicos y asistenciales,
el imperio de la violencia, la extorsión y la corrupción, y la
carencia de oportunidades y medios para la resocialización de los
reclusos. Esta situación se ajusta plenamente a la definición del
estado de cosas inconstitucional. Y de allí se deduce una flagrante
violación de un abanico de derechos fundamentales de los
13
internos en los centros penitenciarios colombianos, tales como la
dignidad, la vida e integridad personal, los derechos a la familia, a
la salud, al trabajo y a la presunción de inocencia, etc. Durante
muchos años, la sociedad y el Estado se han cruzado de brazos
frente a esta situación, observando con indiferencia la tragedia
diaria de las cárceles, a pesar de que ella representaba día a día la
transgresión de la Constitución y de las leyes. Las circunstancias
en las que transcurre la vida en las cárceles exigen una pronta
solución. En realidad, el problema carcelario representa no sólo
un delicado asunto de orden público, como se percibe
actualmente, sino una situación de extrema gravedad social que
no puede dejarse desatendida. Pero el remedio de los males que
azotan al sistema penitenciario no está únicamente en las manos
del INPEC o del Ministerio de Justicia. Por eso, la Corte tiene
que pasar a requerir a distintas ramas y órganos del Poder
Público para que tomen las medidas adecuadas en dirección a la
solución de este problema.
Na presença de muitos dados e com a presença de tabelas
para fundamentar juridicamente a decisão, a corte, no intuito de
proteger a dimensão objetiva dos direitos fundamentais (“ordem
constitucional como um todo”), novamente declarou o ECI.
Apesar de parecer uma decisão progressista, com a união de
órgãos para solucionar o problema, a inconstitucionalidade se
manteve:
La también representante Ángela María Robledo, quien
igualmente estuvo en un recorrido por cárceles el año pasado,
sostiene que lo que hicieron los parlamentarios en esos recorridos
fue confirmar muchos de los diagnósticos que se han venido
haciendo a través de los medios de comunicación, de algunas
organizaciones como Dejusticia, así como en sentencias de la
Corte Constitucional. (...) Para Robledo, las circunstancias desde
la sentencia T-153 de 1998 permanecen inalteradas. “Yo diría que
agravadas, como el tema del hacinamiento en los últimos años,
quizás agudizado en algunos casos por la actitud punitiva de
resolverlo todo encarcelando a la gente, y muchas veces a
14
personas pobres que no tuvieron condiciones ni abogados para
defenderse”.
Em Campos, essa sentença foi paradigmática, porém,
decepcionante. Afinal, não estabeleceu monitoramento para as
boas ordens da decisão, o que não se repetiu em casos seguintes
como o emblemático caso do deslocamento forçado (T025-2004).
Neste caso, a corte declarou o ECI, estabelecendo critérios para
sua aplicação, fixando seu conceito:
Outra relevante ação em que houve a mobilização do conceito do
Estado de Coisas Inconstitucional, com a busca de um diálogo
institucional visando superar uma massiva e sistemática violação
de direitos de um grupo vulnerável, foi no caso T 025/2004, em
que se discutia a situação dos migrantes internos ("despazados"),
ou seja, das pessoas que foram obrigadas a abandonar seu local
de origem por razões da violência provocada pelos conflitos
armados e buscaram refugio em outra localidade dentro do
mesmo país.
Dessas decisões é possível extrair os efeitos que a decisão
declarante do Estado de Coisas Inconstitucional pode trazer: (a)
formulação de ordens judiciais a serem cumpridas por todos os
poderes (judiciário, legislativo e executivo) para solucionar situação
de violação massiva de direitos fundamentais de um grupo
indeterminado de pessoas; (b) ampliação dos efeitos inter partes da
solução estrutural para uma tutela de direitos fundamentais, que
ganha efeito erga omnes, podendo qualquer um alheio à ação
requerer o mesmo direito em juízo.
15
Sobre a natureza jurídica dessa inovação jurisprudencial que
é o Estado de Coisa Inconstitucional, em Lemos, a hipótese inicial
era de que o ECI era técnica hermenêutica de jurisdição
constitucional, sendo considerado ativismo judicial para superar
bloqueios institucionais causadores de omissões, que provocam
grandes violações emdireitos fundamentais. Entretanto, no
decorrer da pesquisa foi concluído de forma diferente:
A natureza jurídica do estado de coisas inconstitucional na ADPF
347 é de uma decisão judicial tomada diante de uma situação de
violação generalizada de direitos fundamentais e da inércia ou
incapacidade persistente das autoridades públicas em modificar a
situação do sistema carcerário brasileiro, cuja superação necessita
da atuação de uma pluralidade de órgãos tanto do Executivo,
quanto do Legislativo e do Judiciário, sendo esse último
interventor e coordenador institucional, inclusive com medidas de
natureza orçamentária.
Por outro lado, Montenegro entende que a natureza do ECI
perpassa por sua função jurídica e política:
En relación con la función jurídica y política del ECI; La declaratoria
del ECI tiene un fin práctico principal que es: impulsar al aparato
estatal para que diseñe, implemente, financie y evalúe las políticas
públicas necesarias para cesar la violación masiva de derechos que
dio lugar a dicha declaratoria. (grifo do autor)
Ainda, se fala em outros elementos que permitem a
concretização dessa função jurídica e política. Entende-se que o
ECI deve ser um processo com continuidade, que possua
indicadores a fim de garantir constante avaliação sobre sua
superação ou não. Também, é necessário que seja estratégia de
16
decisão de caráter excepcional em razão da robusta intervenção
que é feita pela Corte ao declará-lo.
2 PROTEÇÃO JUDICIAL DE COMBATE ÀS OMISSÕES
NO BRASIL
O estudo das omissões constitucionais está diretamente
associado com a força normativa da constituição e a supremacia
constitucional. O direito brasileiro, na busca de caracterizar essas
omissões, consagrou o conceito de omissão inconstitucional como
aquele que muito se relaciona com as normas de eficácia limitada,
na distinção clássica de José Afonso da Silva sobre a eficácia das
normas constitucionais:
Para uma delimitação conceitual de omissão inconstitucional, é
preciso que se deixe claro, desde logo, que só haverá essa omissão
no domínio das chamadas normas constitucionais de eficácia
limitada (ou conforme a doutrina que se adota, normas de
integração completáveis ou normas com eficácia relativa
complementável ou dependentes de complementação), pois são
as únicas que dependem ora de providências normativas do
Poder Legislativo, ora de prestações positivas do Poder
Executivo (grifo do autor).
Portanto, a omissão inconstitucional fora reiteradamente
repassada pela doutrina com aproximação à teoria da norma
constitucional, de forma que a atenção quase sempre se voltou
para as omissões legislativas e seu controle. É o paradigma
17
legiscêntrico de priorização da observação do fenômeno das
omissões constitucionais em razão das omissões do legislador:
Em síntese: para a doutrina em geral, portanto, a omissão
normativa inconstitucional está sempre ligada a um enunciado
constitucional em que é previsto um dever expresso e específico
de legislar, configurada a ausência de atuação legislativa durante
certo período de tempo razoável, implicando, dessa forma,
violação objetiva à constituição.
O texto legal, por sua vez, associou a omissão
inconstitucional à falta de medida por parte do legislador ou da
administração (poder público) em efetivar alguma norma
constitucional. Para Carlos Alexandre de Azevedo Campos, o texto
quis exprimir que a falta de medidas normativas, não
necessariamente só legislativas, resultariam em falta de eficácia da
norma constitucional.
Cunha Junior, ainda, acrescenta que, na caracterização da
omissão inconstitucional, é necessário que convirjam, ao menos,
três critérios: (a) a omissão deve ser indevida, em face de uma
obrigatoriedade constitucional de agir no tempo adequado; (b)
deve se relacionar com mandamento constitucional certo e
determinado e não em relação a todo o sistema constitucional em
bloco; (c) deve existir em razão da ordem de legislar – no caso
daquela voltada ao legislador.
Este autor, em seu trabalho, se propôs, igualmente, a analisar
não só a omissão legislativa, que entende ser costumeiramente
estudada pela doutrina, mas busca examinar as omissões:
18
normativas (administrativa e legislativa), não normativa, política e
judicial. Assim, apresenta as modalidades de omissões: (a) total ou
parcial; (b) formal e material; (c) absoluta e relativa. As “a” e “b”
são consideradas idênticas. Enquanto a omissão total ou formal é a
simples omissão pela inação, a omissão parcial ocorre pela violação
ao princípio da igualdade através de uma ação, ao exemplo de
quando ocorre o “não favorecimento arbitrário” de determinado
grupo de pessoas às quais uma lei é direcionada. Quanto às
absolutas e relativas, Cunha Junior diz:
As omissões absolutas decorrem da violação de um dever
legislativo autônomo. Já as omissões relativas partem da ofensa
ao princípio da igualdade. Enquanto em relação às omissões
absolutas o legislador deveria necessariamente atuar, e se abstém
por completo, nas omissões relativas ele poderia ficar inerte, mas
resolve atuar, porém transgredindo o princípio da isonomia, seja
por não contemplar certos segmentos, seja por excluí-los do
benefício.
Além disso, apesar de não ser uma ideia de constante
difusão, Campos afirma que a omissão pode aparecer, também,
por ausência de coordenação entre medidas que partem tanto do
legislador quanto da administração, gerando uma falha no ciclo das
políticas públicas. Ele entende, ainda, que o problema da doutrina
tradicional é a redução do conceito de omissão a apenas espécies
normativas preceptivas. Nesse sentido, ele sustenta:
Ao que parece, a concepção tradicional não vislumbra a
inconstitucionalidade de limitações fáticas, sociais ou
19
institucionais, para a efetivação dos direitos constitucionais, mas
apenas obstáculos semânticos que são estabelecidos
aprioristicamente.
Centrada na supremacia constitucional e aplicabilidade
imediata das normas definidoras de direitos e garantias
fundamentais, a Constituição Federal de 1988 se preocupou em
criar instrumentos de combate às omissões, para que o destinatário
das normas não tivesse que aguardar de forma indefinida pela
confecção dessas normas.
Neste caminho, dois mecanismos principais no Brasil se
consagraram para combater as omissões inconstitucionais, na
busca da concretização da ordem constitucional. São eles a Ação
Direta de Inconstitucionalidade por Omissão e o Mandado de
Injunção:
Tanto a ação direta de inconstitucionalidade por omissão, como o
mandado de injunção, como será visto, são garantias voltadas
para reforçar o constitucionalismo do Estado Social. Constituem,
ambos, instrumentos de realização da aplicabilidade imediata das
normas definidoras de direitos e garantias fundamentais.
Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal incorporou
o mecanismo de declaração de inconstitucionalidade por omissão
de não só medidas legislativas, mas também administrativas, que
envolve soluções dialógicas. A ADPF 347 foi a primeira aparição
do Estado de Coisa Inconstitucional (ECI) no Brasil e despertou
curiosidade da doutrina, que retomou o debate das omissões no
20
intuito de compreender melhor o instituto colombiano enquanto
mais um instrumento de concretização da ordem constitucional.
Em razão do objeto de estudo deste trabalho, caberá, neste
momento, a análise da Ação Direta de Inconstitucionalidade por
Omissão e da incipiente apresentação do ECI em sede de Ação de
Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 347.
2.1 A Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão
(ADO)
A Constituição Federal de 1988 foi a primeira constituição
brasileira que apresentou, em seu bojo, intenção de combate da
inconstitucionalidade por omissão, ainda que não preveja a Ação
Direta de Inconstitucionalidade porOmissão (ADO)
expressamente. Não poderia ter ocorrido diferente, afinal, como
afirma Ramos:
Não permitem dúvidas de que o sistema político democrático
estruturado pela Constituição não é o de padrão liberal clássico e
sim o do welfare state: os objetivos fundamentais da República
brasileira, assinalados no art. 3º; o generoso elenco de direitos
sociais, boa parte deles consubstanciando créditos a prestações
estatais; a ampla gama de atividades econômicas de
responsabilidade estatal, na forma de serviços públicos; (...).
Em Sarlet, Marinoni e Mitidiero são traçados comentários
sobre o fenômeno da omissão inconstitucional e a legitimidade do
judiciário na sua atuação:
21
O fenômeno da inconstitucionalidade por omissão, como já
ressaltado, deriva da tomada de consciência de que a força e o
vigor da Constituição dependem da densificação das normas
constitucionais. Isso porque uma Constituição que afirma direitos
fundamentais, garantindo-os aos cidadãos e impondo deveres aos
sujeitos privados e, especialmente, ao Estado, obviamente não
pode conviver com a falta de atuação do legislador. Sabe-se que,
sem a atuação do legislador infraconstitucional, os direitos
fundamentais muitas vezes carecerão de tutela normativa de
proteção e, em outras, da própria ramificação necessária para lhes
dar vida e efetividade. Esta conclusão, por si só, legitima a
supressão da omissão inconstitucional pelo Judiciário.
Nesse contexto garantidor e intervencionista, o artigo 103,
§2º institui: “§2º Declarada a inconstitucionalidade por omissão de
medida para tornar efetiva norma constitucional, será dada ciência
ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e,
em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta
dias.”.
Esta ação se relaciona com a quantidade de normas inseridas
em seu bojo sem que haja dotação de aplicabilidade plena. São elas
as normas que “impõem ao legislador o dever de regulamentá-las”.
Assim é traçado o objetivo da ação direta de inconstitucionalidade
por omissão: dar eficácia plena às normas constitucionais
consideradas de eficácia limitada, frente à inércia do legislador ou
administrador que impeça essa concretização de direitos
constitucionais.
Em relação ao objeto da Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão, Cunha Junior entende que:
22
Omissão inconstitucional somente é aquela que consiste numa
abstenção indevida, ou seja, em não fazer aquilo que se estava
constitucionalmente obrigado a fazer, por imposição de norma
“certa e determinada”. De observar-se que a
inconstitucionalidade por omissão não se afere em face do
sistema constitucional em bloco, mas sim em face de uma certa e
determinada norma constitucional, cuja não exequibilidade frustra o
cumprimento da constituição.
Como o próprio autor destacou, um dos requisitos para que
ocorra a omissão é a violação da uma certa e determinada norma,
considerando, assim, a proteção da Carta Maior e seus comandos
determinados enquanto objeto da ADO. A ideia do “bloco de
constitucionalidade” e da omissão inconstitucional voltado para
uma norma específica acaba por limitar a atuação do judiciário
frente àquela norma, descartando a omissão estrutural, massiva e
sistêmica.
Há expressões constantes no texto constitucional que
permitem identificar essas normas que podem ser objeto da ADO,
ou seja, as normas de eficácia limitada: “conforme definido em lei”
e “a lei disporá sobre”.
Assim, firmam-se pressupostos para que os legitimados da
ADO possam propor a ação. São eles os mesmos da Ação Direta
de Inconstitucionalidade (ADI ou ADIn genérica): o que, para José
Afonso da Silva, fez com que a Constituição perdesse a
oportunidade de colocar o cidadão para propor algo como a Ação
Popular de Inconstitucionalidade da Constituição Alemã. Esta
23
ação se parece, no quesito de participação popular, por exemplo,
com a Acción de Tutela. Em sede de jurisdição Colombiana, esta
possui procedimento que corre em rito sumaríssimo, no qual há
legitimação os cidadãos de postular, inclusive sem a presença de
advogado, diretamente perante à Corte Constitucional.
Ainda sobre o objeto da Ação Direta de
Inconstitucionalidade por omissão, a norma constitucional deixa
claro que vai incidir a inconstitucionalidade por omissão em razão
da mora legislativa ou administrativa em relação à produção de
normas:
É a falta de edição de norma – cuja incumbência é, em regra, do
Legislativo, mas que também pode ser do Executivo e até o
Judiciário – que abre oportunidade à propositura da ação. Neste
sentido, pode ser objeto da ação a ausência de caráter geral,
abstrato e obrigatório.
Também, em Dimoulis e Lunardi:
Do ponto de vista subjetivo, há duas limitações da possibilidade
de declarar a omissão
legislativa. Em primeiro lugar, as omissões devem ser oriundas de
autoridades federais e estaduais, não cabendo à ADO fiscalizar
omissões municipais. Isso decorre de argumento analógico
extraído do art. 102, I, a, da CF que estabelece como objeto da
ADIn genérica só dispositivos federais e estaduais. Em segundo
lugar, a omissão fiscalizável deve ser causada pela autoridade que
tem o dever de regulamentação primário, sendo, na grande
maioria dos casos, o legislador federal e estadual.
Acerca do procedimento da ação, está melhor
regulamentado na Lei 12.063/2009, que inseriu capítulo na Lei
9.868/1999 para tratar dessa ação: “Art. 12-B. A petição
indicará: I - a omissão inconstitucional total ou parcial quanto ao
24
cumprimento de dever constitucional de legislar ou quanto à
adoção de providência de índole administrativa; II - o pedido, com
suas especificações”. O autor, ainda, precisa demonstrar na
exordial o direito fundamental que necessita da lei para se efetivar
para os casos em que a omissão inconstitucional é parcial, por
exemplo.
Os efeitos da decisão, entretanto, são os que geram maior
contrariedade na doutrina. Quando se trata do órgão
administrativo, é possível, ainda aplicar o prazo de trinta dias
previsto no artigo 103, §2º para a efetivação da norma
constitucional. Porém, quando se trata de omissão legislativa, ainda
que na Carta Maior haja este prazo, não há como exigi-lo do
Legislador:
Com efeito, em face dessa sistemática, não há como assegurar o
efetivo cumprimento do preceito constitucional, ou seja, nada
está a garantir que o poder legislativo irá legislar e, ao mesmo
tempo, caso não legisle, não há como imputar sanção ao
comportamento inconstitucional desse Poder.
Sobre esse tema, Sarlet, Marinoni e Mitidiero entendem esse
comportamento retoma ao tempo em que a Constituição dependia
da “boa vontade” do legislador. Isso não permitiria a atuação da
supremacia constitucional, tornando falho o sistema de controle
adotado. Ainda, acreditam que essa conduta legislativa, de
manutenção da omissão por juízo de conveniência e oportunidade,
25
seria a decorrência da outorga da possibilidade de se omitir. Assim,
entendem que pode o Judiciário suprir a omissão legislativa.
Ramos, por outro lado, critica veementemente esse modo de
agir demasiado intervencionista do Poder Judiciário:
Ao Poder Judiciário deveria caber, nesse modelo, o controle
jurídico da atividade intervencionista dos demais Poderes. No
entanto, sobre ele também recaem as expectativas e pressões da
sociedade no sentido da mais célere possível consecução dos fins
traçados na Constituição, incluindo imediata fruição de direitos
sociais ou extensão dos benefícios, de universalização
progressiva, concedidos a determinadas categorias ou regiões
com exclusão de outras. É nesse sentido que se pode dizer que o
próprio modelo de Estado-providência constitui força
impulsionadora do ativismo judicial, levando juízes e tribunais a
revelar, em algumas situações, a existência de limites impostos
pelo próprio ordenamento cuja atuaçãolhes incube, na ilusão de
poderem “queimar” etapas, concretizando, no presente, o
programa que a Constituição delineou prospectivamente.
Enfim, parte da doutrina é receosa quanto à atuação do
Judiciário na supressão da omissão, aliando-se à separação dos
poderes. Outra parte, se junta à ideia da supremacia constitucional.
Há, por outro lado, a sustentação da hipótese de se responsabilizar
civilmente o Estado pela ausência de atuação.
3 A ADPF 347 E A PRIMEIRA APARIÇÃO DO ESTADO
DE COISA INCONSTITUCIONAL NO BRASIL
Apesar de não ser mecanismo tradicionalmente atribuído ao
controle das omissões do poder público, a Arguição de
26
Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) pode ter isso
como objeto. Isso pode ocorrer quando as omissões lesem
preceito fundamental que obste a efetividade da norma
constitucional, sendo essas omissões totais, parciais, normativas ou
não. A decisão que declara essas omissões em sede de ADPF tem
o mesmo efeito da ADO: a corte dá ciência e assinala prazo
razoável para suprimento da omissão, arguindo, alguns, de que o
STF pode suprir a omissão com instrumentos de integração, em
observação do art. 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito
Brasileiro. Ainda, a ADPF deve ser utilizada como ação
subsidiária, no caso em que não se possa propor quaisquer outras
ações do controle concentrado e abstrato.
No caso da Arguição de Preceito Fundamental de número
347, proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em
maio de 2015 e com relatoria do Ministro Marco Aurélio, causou
verdadeira curiosidade doutrinária por ter declarado, quase que
com unanimidade de votos o “estado de coisas inconstitucional”
para o sistema penitenciário do Brasil. A importação colombiana
atraiu entusiastas e ferrenhos críticos, que divergem sobre sua
natureza jurídica e sua legitimidade.
Na referida ação, foi suscitado um quadro de violações
massivas a direitos fundamentais dos encarcerados, em razão de
omissões constantes do poder público, envolvidos todos os
estados federados, Distrito Federal e União. O PSOL foi auxiliado
na elaboração da petição inicial pelo professor e advogado Daniel
27
Sarmento, que sustentou a tese do ECI com base em
representação promovida pela Clínica de Direitos Fundamentais da
Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). O cenário
descrito na exordial se compara com o inferno dantesco: prisões
em que há constantes rebeliões, doenças infectocontagiosas,
comida insalubre, temperaturas extremas, falta de água potável,
presença de facções criminosas.
No intuito de sustentar a tese do ECI, o Partido buscou
enquadrar o seu pedido nos pressupostos para conseguirem a sua
declaração: violação generalizada a inúmeros preceitos
fundamentais dos presos; diversas omissões do poder públicos,
envolvendo legislador e administração, que levam a falhas em
políticas públicas; e necessidade de solucionar o problema através
de adoção de um rol de medidas de melhoria do sistema carcerário,
envolvendo os mais diversos entes da federação e legislador.
Em razão do enquadramento no Estado de Coisas
Inconstitucional, o Partido pediu para que com a sua declaração o
Supremo Tribunal Federal pudesse intervir, tomando medidas
urgentes para superar as violações graves. Também, pediu para que
pudesse haver supervisão da implementação das medidas,
buscando uma intervenção que concretizasse o papel
contramajoritário da corte maior. E, assim, em caráter liminar foi
requerido do ECI.
28
O julgamento do mérito da Ação ainda não ocorreu, mas
somente foi proferido acórdão acerca dos pedidos liminares
presentes na exordial:
a) Determine a todos os juízes e tribunais que, em cada caso de
decretação ou manutenção de prisão provisória, motivem
expressamente as razões que impossibilitam a aplicação das
medidas cautelares alternativas à privação de liberdade, previstas
no art. 319 do Código de Processo Penal. b) Reconheça a
aplicabilidade imediata dos arts. 9.3 do Pacto dos Direitos Civis e
Políticos e 7.5 da Convenção Interamericana de Direitos
Humanos, determinando a todos os juízes e tribunais que passem
a realizar audiências de custódia, no prazo máximo de 90 dias, de
modo a viabilizar o comparecimento do preso perante a
autoridade judiciária em até 24 horas contadas do momento da
prisão. c) Determine aos juízes e tribunais brasileiros que passem
a considerar fundamentadamente o dramático quadro fático do
sistema penitenciário brasileiro no momento de concessão de
cautelares penais, na aplicação da pena e durante o processo de
execução penal. d) Reconheça que como a pena é
sistematicamente cumprida em condições muito mais severas do
que as admitidas pela ordem jurídica, a preservação, na medida do
possível, da proporcionalidade e humanidade da sanção impõe
que os juízes brasileiros apliquem, sempre que for viável, penas
alternativas à prisão. e) Afirme que o juízo da execução penal tem
o poder-dever de abrandar os requisitos temporais para a fruição
de benefícios e direitos do preso, como a progressão de regime, o
livramento condicional e a suspensão condicional da pena,
quando se evidenciar que as condições de efetivo cumprimento
da pena são significativamente mais severas do que as 70
previstas na ordem jurídica e impostas pela sentença
condenatória, visando assim a preservar, na medida do possível, a
proporcionalidade e humanidade da sanção. f) Reconheça que o
juízo da execução penal tem o poder-dever de abater tempo de
prisão da pena a ser cumprida, quando se evidenciar que as
condições de efetivo cumprimento da pena foram
significativamente mais severas do que as previstas na ordem
jurídica e impostas pela sentença condenatória, de forma a
preservar, na medida do possível, a proporcionalidade e
humanidade da sanção. g) Determine ao Conselho Nacional de
Justiça que coordene um ou mais mutirões carcerários, de modo a
29
viabilizar a pronta revisão de todos os processos de execução
penal em curso no país que envolvam a aplicação de pena
privativa de liberdade, visando a adequá-los às medidas “e” e “f”
acima. h) Imponha o imediato descontingenciamento das verbas
existentes no Fundo Penitenciário Nacional – FUNPEN, e vede
à União Federal a realização de novos contingenciamentos, até
que se reconheça a superação do estado de coisas
inconstitucional do sistema prisional brasileiro. (grifo nosso)
Dos pedidos acima demonstrados e formulados na inicial,
foram deferidos apenas dois deles: o pedido “b” e o pedido “h”.
Também, foi deferida a cautelar de ofício para prestação de
informações pelos estados e União ao Supremo Tribunal Federal
sobre a situação prisional.
Nesse cenário, nove dos onze ministros falaram na
configuração do Estado de Coisa Inconstitucional, já na cautelar.
Além disso, foram utilizados argumentos como o papel do STF
como tribunal contramajoritário; situação precária dos presídios de
violação; ofensa de preceitos fundamentais e responsabilidade do
poder público.
Decerto, a declaração do ECI era pedido que embasava
todas as requisições do autor da ação, que viu nesse mecanismo
um espaço de superação de violação massiva de direitos
fundamentais, que atingem um número indeterminado de pessoas
e que necessita de solução estrutural, por vezes envolvendo
questões orçamentárias a serem utilizadas em busca da superação
desse estado de coisas que fere a Constituição cidadã.
30
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Estado de Coisa Inconstitucional é uma inovação
jurisprudencial, de uma Corte ativista, criada recentemente e que
vem através de suas decisões, buscando a máxima eficácia social da
dimensão objetiva dos direitos fundamentais. Esta corte veio de
um constitucionalismo em há muito fala em supremacia
constitucional e que possui o sistema de controle de
constitucionalidade, considerado o mais completo e popular:
permite, por exemplo, que o cidadãoseja legitimado a propor
Acción Pública de Incostitucionalidad, sem a presença de um advogado.
Por outro lado, no Brasil, a participação cidadã se limita às
audiências públicas e à participação do amicus curiae no processo
constitucional, não havendo capacidade postulatória para o
cidadão sozinho e, muito menos, sem advogado. Apesar disso, é
corte de postura igualmente ativista, que em decisões, como a da
ADPF 347/DF, busca implementar direitos sociais, ainda que
essas decisões tenham sua legalidade e legitimidade questionada.
Considerando esses sistemas, é possível concluir, dentro do
questionamento inicial, acerca das diferenças e aproximações entre
o Estado de Coisa Inconstitucional e a Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão:
•A Colômbia possui mecanismos de maior abertura ao cidadão
comum como a Acción Pública de Inconstucionalidad, enquanto o Brasil
escolheu um rol de legitimados para postular perante o Supremo
31
Tribunal Federal na Ação Direta de Inconstitucionalidade por
Omissão;
•O Estado de Coisa Inconstitucional, na Colômbia, foi declarado à
medida que foram propostas Acciónes de Tutela, que é mecanismo
em que qualquer cidadão pode pleitear perante a Corte
Constitucional a proteção de seus direitos fundamentais, que se
encontram vulneráveis ou violados por ação ou omissão do estado.
A Acción de Tutela não faz parte do sistema de controle abstrato,
mas funciona na proteção de direitos e garantias fundamentais,
observados no caso concreto;
•A Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão brasileira
faz parte do controle de constitucionalidade concentrado e
abstrato, estabelecido na Constituição de 1988, voltado para
omissão do legislador ou administrador em realizar ação prevista
constitucionalmente por norma de eficácia limitada. Pode ser
proposta, também, nos casos de omissão parcial, nos casos de
violação do princípio da isonomia;
•As Acciones de Tutela, revisadas pela Corte Constitucional –
separadamente ou em conjunto - são parte do sistema de controle
de constitucionalidade concreto, momento em que tem sido
declarado o Estado de Coisa Inconstitucional pela corte.
•Apesar da natureza jurídica da Acción de Tutela, de defesa dos
direitos fundamentais naquele caso concreto, a declaração do ECI
32
transpassa o caso, pois é feita por um juiz ativista – visto que esse
mecanismo não está expresso na Constituição Política -, que
percebe a realidade social. Assim, busca uma solução estruturante
para o problema, pois vê que ele atinge uma coletividade
indeterminada, violando, maciçamente, seus direitos fundamentais.
Nesse caso, o magistrado entende necessária a coordenação entre
poderes e instituições para a superação do estado de coisas
violador da dimensão objetiva dos direitos fundamentais.
•A solução dada em sede de Ação Direta de Inconstitucionalidade
por omissão possui limitação na abstração do caso, não podendo
estabelecer soluções estruturantes. Além disso, o conceito de
omissão que a doutrina tradicional utiliza como requisito da ADO
traz enfoque principal na omissão do legislador, apesar de possuir
previsão de supressão da omissão administrativa. Ocorre que esta
decisão é limitada por ser direcionada a um só poder ou
instituição, ao contrário da decisão que declara o ECI, que é
estrutural e proporcionadora de diálogo institucional.
•Na ADPF 347/DF foi declarado o Estado de Coisa
Inconstitucional com, praticamente, unanimidade, sendo este um
pedido parte do mérito da ação, o que não necessariamente precisa
ocorrer na Colômbia. Afinal, a Corte pode entender a configuração
do ECI mesmo sem pedido.
33
•O ECI proporciona mais espaço para o ativismo judicial e
recursos hermenêuticos. Contrariamente, a ADO possui menor
espaço para o ativismo judicial, visto que se limita a analisar a
inconstitucionalidade da omissão sobre uma norma constitucional
específica, não podendo essa omissão incidir sobre o bloco de
constitucionalidade. Este é exatamente o contrário da proposta do
ECI.
•O ECI representa uma solução que promove diálogos
institucionais e estabelecimento de medidas de controle e
monitoramento, sendo uma proposta de continuidade de
observância de indicadores para saber quando poderá ocorrer sua
superação. Por outro lado, a ADO somente pode dar ciência ou
pedir para cumprir em 30 dias, se limitando a uma norma ou um
comando constitucional de fazer que não é feito, não observando a
dimensão objetiva dos direitos fundamentais (bloco
constitucional), mas um comando violado.
Ou seja, não é forma de conferir em curto prazo eficácia às
normas, mas forma de conferir efetividade à constituição,
considerando-a enquanto sistema, que merece ser protegido
integramente, observada a dimensão objetiva dos direitos
fundamentais. De fato, a solução do ECI perpassa pelos três
poderes, o que traz uma expectativa de coordenação e diálogo
capaz de superar de forma mais concreta as omissões.
34
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39
CAPÍTULO 2
ENTRE A INTERPRETAÇÃO E O DECISIONISMO:
AFINAL, A QUEM SERVE O PODER CONSTITUINTE
DIFUSO?
Davi Santana Souza
RESUMO: Este trabalho tem por escopo empreender uma análise da
existência e da natureza do chamado “poder constituinte difuso”, sem
olvidar de uma rediscussão em torno das figuras correlatas à tradicional
Teoria do Poder Constituinte. Para tanto, debruçou-se na referida teoria,
focando-se também no fenômeno da chamada mutação constitucional e
na avaliação da sua legitimidade no sistema nacional de controle de
constitucionalidade. Analisou-se, ainda, a aplicação do mencionado
instituto pelo Supremo Tribunal Federal, procedendo-se a uma breve
investigação de decisões em que tais expressões foram utilizadas como
fundamento e a sua compatibilidade com os limites da competência
constitucional atribuída ao STF.
Palavras-chave: Controle de Constitucionalidade; Poder Constituinte;
Poder Constituinte Difuso; Mutação Constitucional; Hermenêutica
Constitucional.
SUMÁRIO: 1 Introdução. 2 A Teoria do Poder Constituinte:
breve contextualização. 3. Poder Constituinte Originário e Poder
Constituinte Derivado: dividindo o indivisível? 4. O Poder
Constituinte Difuso: quem é este desconhecido? 5. O Poder
40
Constituinte Difuso e o STF: decisionismo político ou
hermenêutica constitucional? 6. Conclusão. 7. Referências.
1. INTRODUÇÃO
A tradicional Teoria do Poder Constituinte tem suas origens
fixadas no final do século XVIII, mas não se manteve intocável
com o avançar do tempo, sofrendo sensíveis alterações à medida
que a realidade constitucional reclamava por mudanças.
Inicialmente proposto para se contrapor aos poderes constituídos,
doutrinadores mais modernos acharam adequado classificaro
Poder Constituinte em originário e derivado, repartindo este
último em poder constituinte reformador e poder constituinte
decorrente. Tal divisão já não existia incólume a críticas,
considerando a natureza indivisível daquele poder originário e uno,
responsável pela criação das estruturas básicas de um Estado. Não
obstante, recentemente passou-se falar em outra espécie de Poder
Constituinte: o difuso, que se manifestaria precipuamente por
meio das chamadas mutações constitucionais e seria responsável
pela “atualização” da Constituição e da manutenção da correlação
entre o seu texto e a cambiante realidade social.
Todavia, conforme se verá, nem todos assentem com a
existência de um poder constituinte difuso, e mesmo os que
concordam, são firmes na existência de determinados limites para a
sua legítima manifestação. Portanto, debruçaremos na análise
41
destes limites, bem como tentaremos verificar se os referidos
limites estão sendo respeitados quando o fenômeno da mutação
constitucional é invocado como fundamento de decisões que, pelo
menos a princípio, parecem contrariar o texto constitucional. O
foco voltado ao STF tem por objetivo analisar se as decisões
pautadas no suposto poder constituinte difuso estão comportadas
no âmbito da hermenêutica constitucional ou descambam para o
decisionismo político, extravasando a competência constitucional
atribuída ao STF de simplesmente guardar a Constituição (e não a
alterar).
2. A TEORIA DO PODER CONSTITUINTE: BREVE
CONTEXTUALIZAÇÃO
Em toda sociedade política existe uma força motriz que
impulsiona o surgimento de regras básicas da sua organização e
estruturação. Esta força rege-se por preceitos próprios extraídos de
um determinado contexto, fundando uma ordem constitucional
adequada aos anseios e às necessidades dos agentes que a faz se
manifestar. É um poder que institui a todos os outros e não é
instituído por qualquer outro, mas na verdade constitui todos os
demais e é por isso denominado “Poder Constituinte”.
Embora a teorização acerca do poder constituinte tenha
surgido apenas no apagar do século XVIII, é evidente que este ato
fundante de uma sociedade, fixando os limites e fundamentos de
42
sua organização, sempre existiu em qualquer comunidade política.
Todavia, é, sobretudo, no prelúdio da revolução francesa que a
teoria do Poder Constituinte emergiu como uma teoria acerca da
legitimação do poder, com objetivo de contestar a forma como a
Constituição era elaborada e denunciar a usurpação do legítimo
titular do mencionado poder.
As características atribuídas ao Poder Constituinte decorrem
diretamente da sua natureza pioneira e fundante de um sistema
constitucional. Desta forma, aduz a doutrina tradicional do abade
Sieyès que a referida potência é inicial, autônoma e incondicionada.
Inicial, pois tem o condão de inaugurar uma nova ordem jurídico-
constitucional, desvinculada da anterior, acaso existente, que
sucumbe em face da natureza inovadora do Poder Constituinte.
Ao mesmo tempo é um poder autônomo já que a ele e só a ele
compete decidir se, como e quando, deve "dar-se" uma
constituição à Nação. Também é incondicionado, pois não se
submete a qualquer padrão pré-determinado de forma ou
procedimento para sua manifestação. Noutra banda, o Poder
Constituinte ainda é permanente, já que sua potência não se esgota
com a elaboração da Constituição, permanecendo em estado de
latência, aguardando que algum fato histórico relevante lhe forneça
novas circunstâncias para manifestação.
Tal qual o movimento do constitucionalismo surgiu como
uma forma de limitar o exercício arbitrário do poder, a teorização
do Poder Constituinte se iniciou como uma tentativa de
43
concentrar no povo as decisões políticas fundamentais acerca da
organização da comunidade, alçando tal entidade ao posto de
titular daquele poder e cujo desvirtuamento equivaleria a ilegítima
usurpação do seu exercício. Não é por outra razão que o mais
importante teórico deste tema, o abade francês Emmanuel Joseph
Sieyès, atribui à nação a titularidade exclusiva do Poder
Constituinte e o respectivo encargo de elaborar uma Constituição.
É também se baseando nas ideias do iluminista francês que a
doutrina divide o Poder Constituinte em originário e em derivado,
consoante se verá linhas abaixo. Na verdade, Sieyès delimita de
forma bastante contundente a distinção entre o Poder Constituinte
– originário, fundador e ilimitado, e os poderes constituídos – cuja
organização e estruturação depende dos moldes traçados por
aqueloutro.
A necessidade de formalização de uma Constituição que
fosse respeitada e observada pelos seus destinatários, inclusive e
principalmente nos momentos de crise institucional, desaguou no
surgimento das constituições escritas, dotadas da característica da
rigidez. Com efeito, diz-se rígida a Constituição que estabelece,
para sua modificação formal, critérios distintos e mais complexos
que aqueles previstos para a alteração das leis ordinárias. A rigidez
constitucional, ao tempo em que protege o texto da Constituição
de mudanças repentinas e impensadas não impede a sua adequação
à realidade cambiante das coisas – na medida em que não consagra
o texto como imutável.
44
Portanto, a constatação da necessidade de modificação do
texto constitucional sem implicar numa nova manifestação do
Poder Constituinte, adensada à complexidade que alguns Estados
nacionais adquiriram, fez surgir perante a doutrina a ideia de um
poder constituinte derivado, atrelado ao originário e dele
dependente, e cujas reflexões acerca de sua pertinência serão
brevemente expostas linhas abaixo.
3. PODER CONSTITUINTE ORIGINÁRIO E PODER
CONSTITUINTE DERIVADO: DIVIDINDO O
INDIVISÍVEL?
Igualmente ao poder político, o Poder Constituinte, como
uma energia expressiva da vontade da comunidade política de um
determinado povo, é uno e indivisível. Por fins meramente
didáticos – eis que dogmaticamente seria inviável se afirmar a
divisão do que é indivisível por definição – a doutrina costuma
classificar o Poder Constituinte em originário e derivado. O Poder
Constituinte originário seria aquela potência que institui uma nova
ordem jurídico-constitucional, fixando as bases organizacionais de
uma comunidade e instituindo, outrossim, formas e condições para
o exercício dos órgãos constituídos. O poder constituinte
derivado, por ser um poder constituído, é limitado e condicionado
aos termos alinhavados pelo constituinte originário.
45
É comum, ainda, que se classifique o poder constituinte
derivado em duas espécies: o poder constituinte reformador,
responsável por reformar e atualizar formalmente o texto
constitucional e o poder constituinte decorrente, que se manifesta
exclusivamente nos Estados que adotaram a forma federativa e é
por meio do qual os estados-membros podem exercer a
competência da auto-organização. Não desceremos aqui nos
detalhes e nos limites de cada uma destas expressões, eis que tal
matéria extravasa os propósitos deste artigo, todavia, é importante
registrar a referida classificação cujo conteúdo relaciona-se com o
tema central do presente texto.
Com efeito, o que importa destacar neste momento é que
por meio do chamado poder constituinte reformador se opera a
alteração formal da Constituição, possibilitando mudanças no seu
texto, de acordo com os limites e procedimentos previstos na
própria Lei Maior. Noutras palavras, chama-se de reforma
constitucional o “processo formal de mudança constitucional, eis
que revestido de forma, requisitos e limites próprios, expressos,
previstos no texto da Lei Fundamental.”
Por muitos anos imaginou-se que a única forma de alteração
do sentido da Constituição seria mediante sua mudança formal, de
acordo com os modelos fixados expressamente pelo Poder
Constituinte originário.Todavia, a constatação da complexidade
no procedimento de alteração da Constituição fez-se questionar o
respaldo deste instituto como meio exclusivo de modificação do
46
sentido da Lei Maior em face da constante modificação dos
hábitos e do apressado ritmo da evolução social.
Assim, é salutar que “os processos formais de mudança da
Carta Constitucional, por inúmeros fatores, decorrem de um
processo lento e complexo” – e não era para ser diferente,
considerando o aspecto supremo de que é dotado o texto maior,
devendo manter-se infenso a clamores passageiros decorrentes de
maiorias eventuais. No entanto, em alguns casos, a suposta
necessidade de rápida adequação do texto constitucional à
realidade subjacente trouxe à tona o fenômeno da chamada
mutação constitucional que seria, portanto, “o processo informal de
mudança das constituições que atribui novos sentidos aos seus
preceitos, significados e conteúdos dantes não contemplados.” Ou,
noutros termos:
o processo informal de mudança da Constituição, por meio do
qual são atribuídos novos sentidos, conteúdos até então não
ressaltados à letra da Lex Legum, quer através da interpretação, em
suas diversas modalidades e métodos, quer por intermédio da
construção (construction), bem como dos usos e costumes
constitucionais.
De acordo com Uadi Lammêgo Bulos, foi a doutrina alemã
quem primeiro notou a existência de mudanças no funcionamento
das instituições constitucionais que ocorriam sem o procedimento
de reforma, que levou, inclusive, Hsü Dau-Lin, seguindo a
distinção preconizada por Paul Laband entre reforma
constitucional e mutação constitucional, a definir esta última como
47
a “separação entre o preceito da Lei Suprema e a realidade”,
resultando em uma lenta modificação das normas constitucionais,
sem interferências do poder de reforma.
Cediço que a Constituição deve refletir no seu conteúdo os
anseios da sociedade política que lhe originou, acompanhando sua
constante evolução, sob pena de cair em desuso. Noutra banda, pelo
imprescindível respeito à autoridade do texto constitucional em
decorrência da posição cimeira que este ocupa em um
ordenamento jurídico, é inafastável a noção de estabilidade inerente
às normas inscritas na Constituição.
É o embate entre estabilidade e evolução que faz despertar
as mais relevantes discussões em torno do fenômeno da mutação
constitucional. Ora, a Teoria do Poder Constituinte foi construída
com o objetivo fundamental de demonstrar os limites do poder e
os legitimados para seu exercício. A ideia de constituições escritas
e rígidas se desenvolveu também com o fito de proteger a Lei
Maior de alterações impensadas que vulnerassem a sua supremacia.
No entanto, desde a modernidade sempre foi evidente que seria
impossível a idealização de uma Constituição imutável e eterna. A
Constituição tem a pretensão de regular, com efetividade, fatos
sociais, e isso somente é possível se ela, ao tempo em que guarda
pertinência com a natureza singular do presente, também está
preparada para se vincular às variações históricas da realidade sob
seu domínio. Não foi por outra razão que o conceito de poder
constituinte reformador praticamente nasceu contemporâneo à
48
noção de Poder Constituinte originário, em face da necessidade de
atualização do sentido do texto constitucional – não obstante a
impossibilidade de manifestação diuturna do Constituinte-matriz.
O que ocorre é que, conforme dito, afirma-se que certas
vezes o próprio processo de alteração formal do texto
constitucional não acompanha a complexidade e a rápida evolução
social e é neste ponto que a matéria ganha um enredamento mais
notório. De fato, uma vez pressuposta a insuficiência da reforma
constitucional como meio exclusivo de alteração do sentido da
Constituição, ganha luzes uma nova teoria que propaga a existência
de um poder constituinte “difuso”, que se manifesta por meio das
mutações constitucionais e sobre o qual nos debruçaremos nos
tópicos seguintes.
4. O PODER CONSTITUINTE DIFUSO: QUEM É ESTE
DESCONHECIDO?
A expressão “poder constituinte difuso” é atribuída ao
francês Georges Burdeau para se referir a uma espécie
desorganizada de poder constituinte, que se manifesta
cotidianamente, destinada a continuar a obra do constituinte
originário, atualizando-a. Tal poder decorreria da necessidade de
“adaptação dos preceitos constitucionais aos fatos concretos, de
um modo implícito, espontâneo, quase imperceptível, sem seguir
formalidades legais.” Neste sentido escreve Luís Roberto Barroso:
49
[...] além do poder constituinte originário e do poder de reforma
constitucional existe uma terceira modalidade de poder
constituinte: o que se exerce em caráter permanente, por
mecanismos informais, não expressamente previstos na
Constituição, mas indubitavelmente por ela admitidos, como são
a interpretação de suas normas e o desenvolvimento de costumes
constitucionais. Essa terceira via já foi denominada por célebre
publicista francês poder constituinte difuso, cuja titularidade
remanesce no povo, mas que acaba sendo exercido por via
representativa pelos órgãos do poder constituído, em sintonia
com as demandas e sentimentos sociais, assim como em casos de
necessidade de afirmação de certos direitos fundamentais.
Chama-se difuso eis que, diversamente do que ocorre com o
Poder Constituinte originário e com aquele chamado reformador,
este “espécime” seria manifestado informalmente por meio dos
vários intérpretes e aplicadores da norma constitucional,
principalmente por meio do fenômeno da mutação constitucional.
Sua ação seria permanente, com existência implícita, eis que seu
procedimento não é consagrado de modo expresso pelos
mecanismos instituídos pela ordem jurídica.
Como exercício de função constituinte implícita, é
forçosamente limitado. E, por óbvio, seus limites são
necessariamente mais amplos e definidos do que os limites que se
impõem ao constituinte derivado, na medida em que este tem
permissão expressa da Constituição para reformá-la ou emendá-la
enquanto o poder constituinte difuso, porque não expressamente
autorizado, não pode reformar a letra e o conteúdo expresso da
Constituição: sua atuação se restringe a precisar ou modificar o
50
sentido, o significado e o alcance, sem, todavia, vulnerar a letra
constitucional.
De fato, mesmos os defensores da existência do poder
constituinte difuso e do fenômeno da mutação constitucional são
uníssonos ao advertirem a existência de limites no exercício da sua
manifestação, limites estes, invariavelmente mais severos que
aqueloutros fixados pela própria Constituição para o poder de
reforma. Luís Roberto Barroso, por exemplo, escreve que:
a mutação constitucional há de estancar diante de dois limites: a)
as possibilidades semânticas do relato da norma, vale dizer, os
sentidos possíveis do texto que está sendo interpretado ou
afetado; e b) a preservação dos princípios fundamentais que dão
identidade àquela específica Constituição.
Assim, a alteração do sentido da Constituição por meio da
mutação constitucional não pode extrapolar a forma plasmada na
letra dos preceptivos supremos do Estado, ou noutras palavras, a
possibilidade da quebra da ordem constitucional por meio da
mutação encontra-se vedada, pois redundaria em desautorizada
alteração ou até mesmo violação da Constituição. Ou seja,
enquanto o constituinte reformador, por meio dos procedimentos
constitucionais de emenda, está autorizado a alterar o texto
constitucional, desde que não esbarre nas chamadas cláusulas
pétreas, o constituinte difuso não tem a mesma permissão,
restando sua atuação restrita aos limites comportados pelo texto
posto.
51
O (não raro) desrespeito aos limites impostos à mutação
constitucional faz exsurgirem as chamadas mutações
inconstitucionais que são justamenteaquelas alterações que
contrariam o texto constitucional, ultrapassando as barreiras
consolidadas pela norma maior e, portanto, devem estar sujeitas ao
crivo do controle de constitucionalidade.
Pela forma a qual se apresenta, inevitável que a ideia da
existência de um poder constituinte difuso não esteja imune a
críticas.
Inicialmente, é evidente que as nomenclaturas das
expressões não são das melhores. O Poder Constituinte,
independentemente da sua natureza, possui titularidade difusa,
uma vez que se concentra nas mãos de todas as pessoas inclusas na
categoria “povo”. Sob esta ótica, tanto o Poder Constituinte
originário quanto o reformador também seriam “difusos”. A
verdade é que o exercício do Poder Constituinte, em um regime
representativo, é concretizado por representantes do povo, sem
que, todavia, se opere qualquer mudança na sua titularidade.
Noutra quadra, no que tange à mutação constitucional, não
se pode confundir o poder de criar e alterar a Constituição com a
prerrogativa de interpretá-la, atualizando-a, possibilidade esta que
decorre do próprio texto constitucional. Adequar o sentido do
texto à realidade não significa – nem poderia significar – uma
“mutação constitucional”, mas apenas uma interpretação
evolutivo-sistemática, adstrita aos limites já acima delineados.
52
De fato, no que tange ao exercício do poder constituinte
difuso por meio da mutação constitucional, não é despiciendo
reiterar que o texto constitucional consiste em barreira
intransponível. Com efeito, embora esteja consolidado que a
norma não se confunde com o texto, sendo na verdade o resultado
de uma construção oriunda da intepretação sistemática de
dispositivos normativos, é salutar compreender que a interpretação
não pode significar a possibilidade do intérprete estar autorizado a
atribuir sentidos de forma arbitrária aos textos, como se texto e
norma estivessem separados (e, portanto, tivessem existência
autônoma).
É incontestável que a interpretação do texto constitucional
pode se modificar em decorrência da evolução social subjacente,
assegurando assim a própria força normativa da Constituição. O
exercício de uma interpretação evolutiva, que extraia do texto a
norma que o constituinte quis expressar é uma decorrência natural
da hermenêutica constitucional, sem que para isto seja necessário
se recorrer a qualquer espécie de teoria do poder constituinte
difuso ou a alegação de uma mutação constitucional.
Vejamos. Um exemplo rotineiramente citado pela doutrina
como ilustrativo de uma mutação constitucional seria o
entendimento dado à expressão “casa” no artigo 5, II da
Constituição que diz: “a casa é asilo inviolável do indivíduo,
ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador,
salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar
53
socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”. De fato, o
Supremo Tribunal Federal já teve a oportunidade de se manifestar
no sentido de que o conceito de “casa”, para o fim da proteção
jurídico-constitucional, reveste-se de caráter amplo, pois
compreende, na abrangência de sua designação tutelar, (a) qualquer
compartimento habitado, (b) qualquer aposento ocupado de
habitação coletiva e (c) qualquer compartimento privado não
aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade.
Embora se afirme que o que ocorreu com a extensão do conceito
de casa tenha sido uma mutação constitucional por atuação do
constituinte difuso, é possível afirmar que o referido alargamento
conceitual decorreu de uma atualização da referida expressão,
mediante uma comparação entre o que se entendia como casa no
contexto pré-88 e o que se entende como casa nos tempos
hodiernos.
Nenhuma alteração do texto constitucional se fez necessária,
nenhum malabarismo hermenêutico precisou se operar. O STF
apenas sedimentou que casa não poderia significar tão somente o
ambiente onde determinada pessoa fixa domicílio, mas qualquer
construção habitada. Na ocasião, o Supremo simplesmente
consolidou entendimento já assentado extrajuridicamente, eis que
os dicionários, por exemplo, já conceituavam casa como
“nome genérico de todas as construções destinadas a habitação.”.
Conclui-se, assim, que os limites de uma interpretação legítima
comportam a expressão do que o constituinte quis dizer ou diria,
54
em face das circunstâncias concretas, sempre com atenção às
fronteiras ditadas pelo texto.
O que não é admissível é uma alteração informal do sentido
da Constituição, aplicando-a de forma contrária ao que legislador
constituinte definiu, sem que sejam respeitadas as formalidades
que autorizam a modificação do texto constitucional. Não é
correto torcer e retorcer uma teoria para adequá-la a algumas
necessidades eventuais, quando a solução é taxativa: “se o sentido
novo que se quer dar não couber no texto, será necessária a
convocação do poder constituinte reformador. E se não couber
nos princípios fundamentais, será preciso tirar do estado de
latência o poder constituinte originário.”
Para compatibilização do texto constitucional com a
cambiante realidade, portanto, a interpretação evolutiva revela-se o
meio mais adequado, sendo possível, por meio dela, a adaptação
do conteúdo, do alcance ou do significado da disposição
constitucional à mudança de sentido da linguagem nela inserida,
em decorrência da superveniência de novas situações ou da
evolução dos valores positivados na Constituição. Por meio da
interpretação evolutiva, sem contrariar o texto literal da
Constituição, admitem-se novos conteúdos ao mesmo, em razão
de mudanças históricas ou de fatores políticos ou sociais, que não
estavam presentes na mente dos constituintes quando elaboraram
a Constituição.
55
Deste modo, o mencionado método interpretativo permite
que determinadas situações que não foram contempladas no
momento da elaboração do texto originário sejam aplicadas, pelo
fato de não existirem nem terem sido antecipadas à época, mas se
enquadram claramente nas possibilidades semânticas do texto
constitucional. Trata-se de casos que, embora não previstos, se
tivessem sido, teriam recebido o mesmo tratamento. Ou seja, se
atribui ao texto constitucional sentidos novos, conteúdos antes não
ressaltados – mas lá existentes. Não há uma efetiva mudança de
sentido da norma em contraste com o texto, mas tão somente uma
complementação, adaptando-o às alterações fáticas da
comunidade, sem malferir seu espírito.
Evidente que a interpretação evolutiva pode redundar no
que chamam de mutação constitucional por interpretação ou
construção constitucional, mas com ela não se confunde.
Enquanto a mutação seria um gênero que abrangeria diversas
hipóteses por meio das quais a Constituição seria informalmente
modificada, a interpretação evolutiva, circunscrita aos limites
textuais, nos parece a forma correta de atualização do sentido da
Lei Maior, quando isto ocorrer sem qualquer desbordamento da
hermenêutica constitucional e, repise-se, com respeito ao texto. De
todo modo, esta interpretação evolutiva não significaria uma
mutação do texto constitucional, mas apenas uma compatibilização
do que se entendia que legislador constituinte disse com o que ele
56
realmente quis dizer, em face da contextualização do texto
supremo.
Qualquer mudança que ultrapasse os limites retrodelineados,
seja com o nome de mutação constitucional ou de qualquer outro
que aprouver ser utilizado no momento, é inconstitucional e
merece ser submetido ao controle de constitucionalidade em nome
da supremacia da Constituição.
Todavia, nem sempre isto acontece, conforme se verá no
tópico abaixo.
5. O PODER CONSTITUINTE DIFUSO E O STF:
DECISIONISMO POLÍTICO OU HERMENÊUTICA
CONSTITUCIONAL?
Em algumas oportunidades o Supremo Tribunal Federal,
órgão incumbido de realizar a defesa da Constituição,já se utilizou
do fenômeno da mutação constitucional para aplicar
entendimentos cuja mera leitura do texto constitucional não fazia
se antever.
Não desceremos aos detalhes de cada um deles, cuja análise
extrapolaria os objetivos deste artigo, todavia destacaremos alguns
excertos importantes para o desenvolvimento da temática central
debatida no presente texto.
Uma famosa decisão em que a mutação constitucional foi
invocada como fundamento foi aquela já mencionada que ampliou
57
a significação do vocábulo “casa”, previsto no artigo 5º, XII da
Constituição, para abranger não apenas as construções habitadas
em caráter de definitividade, mas também qualquer construção
ocupada, incluindo hotéis e ambientes de trabalho. Conforme já
antecipado linhas acima, no caso em destaque não entendemos o
ocorrido se tratar de um fenômeno distinto da mera interpretação
constitucional. Embora invocada como mutação, não houve uma
alteração no sentido do texto, mas apenas uma releitura, por meio
de uma interpretação evolutiva. As espécies não se confundem.
Pela interpretação o intérprete desnuda o que o constituinte
claramente disse ou quis dizer, nos limites que comportem o texto
interpretado. Pela mutação haveria uma possibilidade de alteração
do próprio sentido, ultrapassando o que foi dito ou pretendeu ser
dito pelo constituinte, sob alegação de que as mudanças na
sociedade autorizariam tal mudança, a despeito da inexistência de
movimentação para alteração formal do texto.
Vejamos um exemplo distinto. Por meio do julgamento do
Recurso Extraordinário 778.889 o STF manifestou entendimento
no sentido de que “a licença maternidade prevista no artigo 7º,
XVIII, da Constituição abrange tanto a licença gestante quanto a
licença adotante.” O referido dispositivo prescreve que é direito da
trabalhadora “licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do
salário, com a duração de cento e vinte dias”. Na ratio decidendi do
acórdão constou que se tratava de um caso de mutação
constitucional decorrente da alteração da realidade social e da nova
58
compreensão do alcance dos direitos do menor adotado. Embora
se trate de indiscutível avanço no plano político-social, a referida
decisão no plano jurídico carece de legitimidade. O texto
constitucional é claro em falar “gestante”. A adotante não gestou o
adotado, cuja proteção constitucional já incidiu em outro
momento: quando efetivamente estava sendo gestado. Por mais
legítima que possa parecer a decisão sob o ponto de vista
humanitário, não incumbe ao poder judiciário legislar, dispensando
um rol de formalidades que a própria Constituição exige para a sua
alteração formal e que no caso constituía solução insubstituível
para implementação do regime que se quis adotar. A interpretação
do texto não suporta uma decisão flagrantemente contrária ao que
foi previsto pelo constituinte, e que poderia ter sido previsto de
forma distinta, caso ele assim quisesse, mas não quis.
Tomemos ainda outro exemplo: HC 126.292/SP. Por meio
do julgamento deste remédio constitucional, o STF reformou
entendimento dantes esposado, passando a afirmar que “a
execução provisória de acórdão penal condenatório proferido em
grau de apelação, ainda que sujeito a recurso especial ou
extraordinário, não compromete o princípio constitucional da
presunção de inocência afirmado pelo artigo 5º, inciso LVII da
Constituição Federal”. Ora, o artigo 5º, LVII da Constituição
prevê que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em
julgado de sentença penal condenatória”. O conceito de “trânsito
em julgado” é normativo e de acordo com a Lei de Introdução às
59
normas do Direito Brasileiro “chama-se coisa julgada ou caso
julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso” (art. 6º, §3º).
Não se trata de ler a Constituição sob a ótica de normas
infraconstitucionais, mas na verdade realizar uma interpretação
sistemática do texto que, a todo momento que se referiu a trânsito
em julgado, quis se referir à situação daquele que já não pode mais
recorrer. Se uma decisão está sujeita a recurso, o trânsito em
julgado não se operou e a execução provisória viola sim o artigo
constitucional acima transcrito que constitui, inclusive, uma
cláusula pétrea, por consubstanciar direito individual. Sob
argumento de atualizar o texto à realidade, o STF lançou por terra
toda a teoria do poder constituinte e do respeito dos poderes
constituídos ao texto constitucional.
É importante sempre ter em mente que a Suprema Corte é a
legítima guardiã da Constituição, mas não a sua dona. Ao
desprezar e ultrapassar os limites semânticos do texto
constitucional o STF não se constrangeu em criar um texto novo,
autoinvestindo-se do papel de legislador extraordinário, usurpando
uma atribuição que a Constituição não se ocupou de lhe incumbir.
De fato, o constituinte não muniu o STF de poderes de
alteração do texto constitucional, mas somente a tarefa de lhe dar a
última interpretação, respeitando para isso os limites fixados pela
hermenêutica constitucional. Desbordar tais limites conduz a uma
usurpação do espaço reservado ao poder constituinte derivado pela
via do processo de emenda constitucional.
60
Não podemos esquecer que o constitucionalismo surgiu
justamente para assegurar a limitação do poder, evitando atuações
e manejos arbitrários. Por isso que em um estado de direito que
quer se consolidar como tal, interpretação não pode se confundir
com decisionismo e hermenêutica constitucional não pode se
confundir com voluntarismo do intérprete. A teoria da mutação
constitucional suportada pela do poder constituinte difuso, quando
posta em prática pelo Supremo ganha especial preocupação pois
lhe investe do “poder incontrolável de decidir infalivelmente sobre
a constitucionalidade da lei, tornando-se um árbitro irresponsável
da vida do Estado e dono, em vez de servo, da Constituição.”
Alterar o texto constitucional é uma tarefa difícil. E é assim
que é para ser. Não se defende aqui o engessamento da
Constituição, mas sim o respeito à sua dignidade normativa. Não
se olvide que para haver uma alteração formal do seu texto, é
necessário que cada uma das Casas do Congresso Nacional, este
formado por representantes eleitos pelo povo, por 3/5 dos seus
membros e em dois turnos, aprovem a referida mudança:
atualmente isto equivale a, no mínimo, 357 representantes
manifestando-se no mesmo sentido de forma inequívoca. Até que
ponto seria aceitável que em um único julgamento, apenas 6
pessoas - cujo investimento sofre relativo déficit de legitimidade
democrática - possam alterar o sentido da Constituição, alheando-
se dos procedimentos previstos pelo próprio constituinte
originário?
61
Como indica Häberle “a conformação da realidade da
Constituição torna-se também parte da interpretação das normas
constitucionais pertinentes a essa realidade.” Neste mesmo sentido
conclui Müller, ao afirmar que o teor literal do texto normativo é
apenas a “ponta do iceberg” da norma, cuja real normatividade
resulta da análise da realidade que lhe estrutura. Deste modo, toda
atividade hermenêutica é uma atividade historicamente situada,
prescindindo do conceito de mutação constitucional enquanto
fenômeno autônomo. O que não se pode perder de vista é que a
interpretação encontra limites claros no sentido semântico do
texto. Caso seja preciso superar tal limite, a manifestação do poder
constituinte reformador se torna imprescindível, sob pena de
usurpação da competência exclusiva do Poder Legislativo e o
desrespeito aos moldes de relação entre os poderes fixados pelo
Poder Constituinte.
5. CONCLUSÃO
A Teoria do Poder Constituinte, assim como a própria
teorização do constitucionalismo, nasceu como uma forma de
limitar o exercício do poder político e evitar sua usurpação por
quem seria um poder constituído.Gerações depois, contudo, a
concretização do referido escopo é novamente posto em risco em
decorrência do desvirtuamento da multicitada teoria.
62
O Constituinte originário, ao estabelecer os ditames básicos
de organização de um Estado, fixa também modos de alteração do
seu texto, evitando assim mudanças repentinas derivadas de um
sentimento momentâneo ou de pretensões de maiorias ocasionais.
Embora evolução e estabilidade sejam características que se
confrontem e tendam a ser harmonizar para que a Constituição
mantenha a sua força normativa, o texto constitucional tem uma
força que lhe é intrínseca. Por estas razões, alterar a Constituição
do ponto de vista formal, não é uma tarefa fácil. E não é para ser.
A rigidez da Constituição tem por objetivo salvaguardar a sua
supremacia e a utilização de supostas mudanças ditas informais
quando contrariam o texto máximo afrontam o constituinte
originário e a força normativa da Lei Maior.
Não devem ser abolidos os meios de atualização da
Constituição, engessando-a e transformando-a em uma “mera
folha de papel”. A interpretação evolutiva exsurge como um
método essencial para a adaptação do texto à realidade cambiante,
mas sempre adstrita aos limites que o próprio texto represente. A
alteração do sentido da Constituição, principalmente quando
empreendida por órgãos do poder judiciário a quem não se
incumbiu a função legislativa, é perigosa e deve ser feita com a
mais acurada das cautelas, evitando que decisões que deveriam se
pautar na Constituição posta se transmude em decisionismo
político e que a mutação constitucional e o resvaladiço poder
constituinte difuso sirvam de pretexto para que o judiciário legisle
63
em verdadeiras emendas constitucionais travestidas de decisões
judiciais.
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http://www.conjur.com.br/2007-ago-03/perspectiva_stf_controle_difuso
68
CAPÍTULO 3
DEMOCRACIA, EVOLUÇÃO DOS DIREITOS
HUMANOS E CONTROLE DE
CONSTITUCIONALIDADE NO BRASIL
Elenice Ribeiro Nunes dos Santos
RESUMO: A democracia e os direitos fundamentais são conceitos de
grande importância para a vida em sociedade. Estudar a relação entre
estes conceitos considerando a história constitucional do Estado
brasileiro é o desafio deste artigo. É necessário refletir sobre a
possibilidade de existência de uma democracia sem a existência de
direitos fundamentais e, do oposto, da existência de direitos
fundamentais fora do ambiente democrático. É igualmente importante
neste tema analisar a atuação das Cortes Constitucionais através do
controle de constitucionalidade na efetivação dos direitos fundamentais e
se tal função gera problemas no ambiente democrático.
Palavras-chave: Democracia – Direitos Fundamentais- Direitos
Humanos – Controle de Constitucionalidade
INTRODUÇÃO
No decorrer do século XX todos os regimes que se
apresentavam como alternativas à democracia fracassaram. No
início do século, as oligarquias, baseadas em sufrágios restritos, já
69
não eram bem vistas pela humanidade. Após a segunda guerra
mundial, os regimes totalitários e fascistas, os quais, em suas
críticas, afirmavam que a democracia gerou problemas econômicos
e caos, foram extintos. Os regimes comunistas que entendiamque
poderiam realizar o princípio da igualdade em um ambiente
antidemocrático sucumbiram com graves problemas,
principalmente de ordem interna. As ditaduras foram
desacreditadas e passaram a adotar uma fachada democrática para
subsistir.
A idéia de democracia ganha força no século passado com o
reconhecimento e a extensão do rol de direitos fundamentais. Os
direitos humanos se sedimentaram após a revolução francesa, mas
a constitucionalização, a internacionalização e a preocupação com
a criação de um sistema de direitos e garantias ocorreu apenas no
século XX, com ênfase para o período posterior a Segunda Guerra
Mundial.
Semelhanças podem ser percebidas no histórico desses dois
conceitos e, neste trabalho, o objetivo é responder ao
questionamento sobre qual a relação entre democracia e direitos
fundamentais e como estes dois conceitos estão relacionados na
história constitucional brasileira. Considera-se a hipótese de que
democracia e direitos fundamentais estão intimamente ligados ao
ponto da existência de um depender do outro.
Para comprovar a hipótese trabalharemos no primeiro
tópico o conceito de democracia, no segundo a evolução dos
70
direitos fundamentais e no terceiro e último tópico a consolidação
da democracia, a evolução dos direitos fundamentais e o controle
de constitucionalidade.
1 CONCEITO DE DEMOCRACIA
A Democracia grega, também conhecida como democracia
dos antigos, surgiu em um ambiente escravocrata, que excluía as
mulheres do conceito de povo e que condenou a morte um dos
maiores gênios da antiguidade: Sócrates. Não é sem motivos que
Platão desconfiava do “governo do povo”.
Assim, para os padrões atuais, o conceito de democracia teve
origem em um ambiente antidemocrático. Isso ocorre porque
democracia é um conceito histórico, um processo de afirmação do
povo e de garantias fundamentais através dos tempos. Isso faz
com que esteja relacionado aos valores da época, mas que ao
mesmo tempo preserve a constante de ser um regime
fundamentado na vontade popular. (SILVA, 2002, p. 430)
Como processo, o conceito de Democracia está em
permanente transformação, sempre incorporando novos
conteúdos. Deste modo nunca se realizará ou se concretizará
completamente. Sempre haverá algo a fazer para implementar o
regime democrático. Em termos de Democracia sempre estaremos
olhando pela janela, sempre teremos algo a ser alcançado, a ser
aprimorado.
71
Como afirma Canotilho (1999, p.283):
O princípio democrático não se compadece com uma
compreensão estática de democracia. Antes de mais, é um
processo de continuidade transpessoal irredutível a qualquer
vinculação do processo político a determinadas pessoas. Por
outro lado, a democracia é um processo dinâmico inerente a uma
sociedade aberta e activa, oferecendo aos cidadãos a possiblidade
de desenvolvimento integral, liberdade de participação crítica no
processo político, condições de igualdade económica política e
social (cfr. CRP, art.9º/d).
A idéia de democracia tem como essência a relação entre o
povo e o poder. Esta relação se aperfeiçoa a partir de um processo
de lutas e conquistas de direitos e garantias fundamentais.
• EVOLUÇÃO DA DEMOCRACIA
Inicialmente, o povo exercia o seu poder diretamente
(Democracia Direta) e, com o passar dos anos, surgiu a
necessidade da representação, haja vista não ser mais possível
decidir as questões em praça pública. Este fato faz com que surja a
democracia representativa, a representação a qual, por vezes, ao
invés de aproximar o povo do poder, distancia, enfraquecendo o
regime democrático. Tal situação é agravada com a adoção do
conceito de mandato representativo em oposição ao mandato
imperativo. Para que o povo não seja alijado do poder, a
Democracia Representativa (Democracia dos modernos) deve
conceber instrumentos que garantam a participação popular nas
72
decisões governamentais independente do conceito de
representação adotado.
No inicio do século XX, os Estados totalitários ganharam
força criticando a democracia liberal, considerada como
responsável pela desordem e pelo caos econômicos, vez que
abandonaria a sociedade “à cobiça ilimitada dos ricos e
poderosos”. Para esses estados a democracia era um mal. No
momento posterior, na luta dos capitalistas contra os regimes
totalitários, a democracia era um bem. Assim, a democracia foi
transformada em um instrumento ideológico. “Tanto assim, que os
grandes Estados capitalistas, campeões da democracia, não tiveram
dúvida em auxiliar a implementação de regimes autoritários
(portanto antidemocráticos) toda vez que lhes pareceu
conveniente.” (CHAUÍ, 2010)
2 EVOLUÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
A expressão dos direitos fundamentais surge após a
positivação dos Direitos Humanos. Segundo Dimitri Dimoulis
(2014, p. 41):
“Direitos fundamentais são direitos públicos
subjetivos de pessoas (físicas ou jurídicas),
contidos em dispositivos constitucionais e,
portanto, que encerram caráter normativo
supremo dentro do Estado, tendo como finalidade
limitar o exercício do poder estatal em face da
liberdade individual.”
73
2.2 EVOLUÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NO
PLANO INTERNACIONAL
Os religiosos e os filósofos foram os primeiros a falar sobre
uma essência do ser humano que deveria ser respeitada e
protegida. A idéia de dignidade da pessoa humana precede a ideia
de Direitos Humanos. Isso porque só é possível falar em direitos
humanos quando surge a possibilidade de exigir respeito a esses
direitos em juízo, e, tal possibilidade, se concretiza apenas no pós
Revolução Francesa (1789). O conceito de Direitos Humanos
surge no Estado liberal e era um conceito liberal. A primeira
geração (dimensão) dos direitos fundamentais não foi criada com o
objetivo principal de proteger os indivíduos do Estado, mas de
evitar a ressurreição do Estado Absolutista protegendo o indivíduo
do Estado. (TRINDADE, 1998)
É importante lembrar que o burguês liberal, idealizador da
primeira geração dos direitos humanos, não era um democrata. Na
Constituição Francesa de 1791 defenderam o voto censitário,
distinção entre cidadãos no que se refere aos direitos políticos, a
exclusão do direito ao voto dos criados assalariados e dos
devedores insolventes. Também criaram impostos e taxas para a
candidatura as assembleias locais e nacionais. Não se manifestaram
em um primeiro momento contra escravidão e contra a
desigualdade de gênero. Em relação a escravidão a Assembleia
74
Constituinte chegou a decidir em 15 de maio de 1791 que o corpo
legislativo não deliberaria “sobre o estado político das pessoas de
cor que não forem nascidas de pai e mãe livres”. (TRINDADE,
1998, p.64/72)
A teoria dos Direitos Fundamentais também está relacionada
ao Contratualismo. Segundo Bobbio (1994, p.15), o que os une
“(...)é a comum concepção individualista da sociedade. A
concepção segundo a qual primeiro existe o indivíduo singular
com os seus interesses e com suas carências, que tomam a forma
de direitos em virtude da assunção de uma hipotética lei da
natureza, e depois a sociedade”
Os direitos humanos durante o Estado Burguês só eram
acessíveis para o nacional, ou seja, só o indivíduo que fizesse parte
do povo em sentido jurídico poderia ter acesso a tais direitos que
seriam conferidos pelo Estado. Aquele que não tivesse uma
nacionalidade, denominados apátridas, não teria direito a ter
direitos, pois não seriam protegidos por um Estado.
No século XX a situação muda porque divulgar e proteger
os direitos e garantias fundamentais não era um interesse apenas
dos liberais. Como diz Jorge Miranda (2003, p.54):
A situação muda no século XX: não tanto por desagregação ou
dissolução das três vertentes liberais (em especial pelo fato de o
liberalismo politico deixar de fundar necessariamente no
liberalismo filosóficoe se separar do liberalismo econômico)
quanto por todas as grandes correntes – religiosas, culturais,
filosóficas, ideológicas, políticas – se interessarem pelos direitos
do homem e quase todas se afirmarem empenhadas na sua
75
promoção e na sua realização. O tema dos direitos do homem
cessou de ser, no nosso tempo uma exclusiva aspiração liberal.
Além disso, os direitos humanos, principalmente no pós
Segunda Guerra mundial, rompem a barreira do Estado para
alcançar um status universal. A proteção dos direitos humanos
passa existir não só para o cidadão de um determinado Estado,
mas para todo o ser humano. Neste contexto é estruturado o
Sistema Global de Proteção aos Direitos Humanos.
2.3 NO BRASIL
D. Pedro I, após dissolver a Assembleia Constituinte em
1823, outorga a primeira Constituição Brasileira, em 25 de março
de 1824, a qual positivava direitos fundamentais nos 35 incisos do
art.179. Eram direitos fundamentais de primeira dimensão,
semelhantes aos previstos nas Constituições da França e dos
Estados Unidos. Porém, não obstante tratar a respeito de direitos
humanos, existiam duas prescrições na Constituição do Império
que prejudicavam a concretização dos direitos fundamentais.
A primeira determinava que o Imperador era uma figura
inviolável e sagrada, não estando sujeito a nenhum tipo de
responsabilização (art.99). Esta disposição impossibilitava a
existência do Estado de Direito no Brasil, pois a lei só existia para
os súditos não existia para o governante. Não existira a igualdade
76
de todos perante a lei, o que prejudicava a efetivação de direitos e
garantias fundamentais.
Além disso, existia a previsão do Poder Moderador, teoria de
divisão de funções estatais idealizada por Benjamim Constant e
deturpada no texto constitucional da Constituição Imperial ao
atribuir ao imperador poderes ilimitados, submetendo todos os
poderes constituídos e impedindo a concretização da Teoria da
Separação dos Poderes no Brasil. O Poder Moderador (na forma
como foi positivado na Constituição de 1824), segundo Bonavides
(1987), era a constitucionalização do absolutismo.
O Brasil neste período era uma monarquia de base
escravocrata, existia a previsão de eleições para as Câmaras
localizadas nas cidades e vilas, porém o sufrágio era restrito e, além
de excluir os escravos e mulheres, possuía restrições relacionadas a
renda para acesso aos direitos políticos.
A partir da proclamação da República em 15 de novembro
de 1889, e principalmente, depois da promulgação da Constituição
Republicana em 24 de fevereiro 1891, surge no Brasil uma
Democracia incipiente. Tal Lei Fundamental, além de alterar a
forma de governo, modifica a organização político administrativa e
o sistema de governo. O Brasil transforma-se em uma República
Federativa. Porém, apesar dos institutos importados, instaura-se
no Brasil a chamada República das Espadas, que teve como seus
representantes os presidentes Deodoro da Fonseca e Floriano
Peixoto.
77
O grande mentor da Constituição de 1891 foi Rui Barbosa,
um entusiasta da Revolução Americana, que importou conceitos
criados pelas ex-colônias inglesas na América do Norte com
destaque para o conceito de federação, o sistema bicameral e o
conceito sistema presidencialista.
A primeira Constituição Republicana, assim como a
Constituição de 1824, tratava apenas sobre direitos individuais haja
vista no momento de sua elaboração apenas a primeira dimensão
dos direitos humanos estar consolidada. A declaração de direitos
constava do art.72 ao 78, e nos art. 69 a 71 estavam prescritos os
direitos de nacionalidade e direitos políticos.
A Constituição Republicana foi reformada apenas uma vez,
em 07 de setembro de 1926. Do conteúdo dessa reforma, de
natureza centralizadora, é possível destacar: a alteração do
dispositivo que tratava do Habeas Corpus para restringir a utilização
desta garantia a proteção do direito de locomoção, colocando um
fim a interpretação extensiva, denominada como Doutrina
Brasileira do Habeas Corpus, que defendia a utilização desta ação
constitucional para proteção e qualquer direito líquido e certo.
Neste período do governo de Prudente de Morais, a
República das Espadas é substituída pela República Velha ou
República do Café com Leite. Ou seja, na época os principais
cargos e, notadamente, a presidência era dividida entre
representantes das oligarquias agrárias dos Estados de São Paulo e
Minas Gerais, as quais se alternavam no poder utilizando
78
ferramentas como o voto de cabresto, o coronelismo e a política
dos governadores. (SILVA, 2002, p. 95)
Desta forma, a eleição ocorria, a Constituição fazia
referência ao sufrágio restrito para escolha do Presidente, porém
não definia a escolha do governante, pois quem definia eram as
oligarquias de Minas Gerais e São Paulo, as quais possuíam um
acordo que prescrevia a alternância dos dois grupos no exercício
da presidência do Brasil.
A República do Café com Leite perdurou até 1930, quando,
desrespeitando a alternância, após o governo de um presidente
oriundo de São Paulo, os paulistas decidem que desejam governar
mais uma vez. Tal decisão aborrece os mineiros, os quais se unem
a políticos do Rio Grande do Sul e lançam outro candidato a
Presidência. Por suposta fraude, a oligarquia mineira é derrotada,
porém, liderada por Getúlio Vargas e com a ajuda dos Tenentes
promovem a chamada Revolução de 1930 e assumem a
presidência.
A Revolução de 1930 leva Getúlio ao Poder com a promessa
de elaborar uma nova Constituição que traduzisse os avanços
existentes a época, as pautas do movimento tenentista e as
demandas por mudanças existentes desde a Semana de Arte
Moderna de 1922.
Todavia, Getúlio, ao chegar ao poder, não cumpre as
promessas, principalmente a referente a convocação da Assembleia
Nacional Constituinte. A oligarquia paulista, ainda aborrecida,
79
promove então a Revolução Constitucionalista em 09 de julho de
1932, da qual os paulistas, apesar de saírem militarmente
derrotados, saem politicamente vitoriosos, pois retomam o seu
prestígio e forçam Getúlio a convocar a Assembleia Nacional
Constituinte e promulgar a Constituição de 1934.
A Constituição, promulgada em 16 de julho de 1934,
reafirmava a idéia de República federalista e tratava a respeito da
primeira e segunda geração dos direitos fundamentais. Possuía um
texto avançado para época, prescrevendo, além de direitos
individuais, direitos sociais como saúde, educação e trabalho. Os
direitos fundamentais estavam previstos do artigo 106 ao 158.
Trazia um novo perfil de Estado, o qual deveria realizar
intervenções para dirimir problemas na área social. A idéia de
democracia também foi aperfeiçoada com a previsão expressa do
voto feminino.
Na Constituição de 1934 foram previstas, pela primeira vez,
garantias fundamentais como Mandado de Segurança e a Ação
Popular, as quais passam a compor todas as Constituições
brasileiras posteriores.
O texto avançado, porém tem vida breve. Mais uma vez
houve um retrocesso no processo democrático quando,
aproveitando-se de um evento mal sucedido, a Intentona
Comunista, Getúlio Vargas cria o ambiente político necessário
para a implantação de uma ditadura e outorga de uma Constituição
80
que serve de fundamento para o governo autoritário instaurado, a
denominada Constituição Polaca, datada de 10/11/1937.
A Constituição de 1937 possuía 174 artigos no corpo
principal e 13 artigos nas disposições transitórias e finais. Um
catálogo de direitos fundamentais também foi previsto no seu
texto, porém é interessante observar que dentre esses direitos não
estava o Mandado de Segurança e a Ação Popular. Os direitos
trabalhistas foram contemplados apenas em artigos que proibiam o
direito de greve e o lock-out. A Constituição também declarou em
todo país uma medidade legalidade extraordinária, o Estado de
Emergência.
A Constituição de 1946, promulgada em 18 de setembro,
representou um movimento de redemocratização do país e
valorização dos direitos humanos. Não obstante a deposição de
Vargas tenha ocorrido a partir de um movimento militar, este
documento representou um retorno do país a democracia. Tal
acontecimento é fruto de um movimento maior, em verdade
ocorria uma onda de democratização no mundo todo após a
segunda guerra mundial. Era uma contradição o Brasil lutar, no
plano internacional, contra governos autoritários e internamente
manter uma ditadura. Por conta disso Vargas convoca eleições
para Presidente da República em 1945, colocando-se como um dos
candidatos à presidência. Vargas termina, em razão de manobras
políticas, por ser deposto pelas Forças Armadas e o Ministro José
81
Linhares assume a chefia do executivo até a eleição do novo
presidente.
No que se refere aos direitos fundamentais, a Constituição
de 1946 se espelha na Constituição de 1891 e de 1934. Segundo
Bonavides e Andrade (1991), a obra da Constituinte de 1946
representou um compromisso entre forças conservadoras e forças
progressistas atuantes a época. Assim, dentre outras prescrições,
restabeleceu o Mandado de Segurança, a Ação Popular e
consagrou o Princípio da Inafastabilidade do Poder Judiciário.
André Felipe Véras de Oliveira (2010, p.50) ao tratar da
Constituição de 1946 afirma:
Nascida em um mundo polarizado entre as ideologias que
venceram a Segunda Guerra – o capitalismo e o socialismo – e
preparada sob o exercício de um governo reacionário (Dutra),
anticomunista, infenso à autonomia sindical, alinhado aos EUA e,
logicamente, submisso às diretrizes do FMI, a Constituição de
1946, que perigou falhar na defesa da ordem democrática em
1954 (suicídio de Vargas), em 1955 (elei- ção de Juscelino), em
1956 (revolta de Jacareacanga), em 1959 (revolta de Aragarças) e
em 1961 (renúncia de Jânio), não resistiu, contudo, à chegada de
1964 (reformismo de João Goulart).
A Constituição de 1946 resistiu a chegada de 1964 porque
neste ano ocorreu mais um golpe militar, implementado em
01/04/1964 e formalizado através do Ato Institucional nº 01 de
09/04/1964. Com o golpe, ocorre o rompimento com a
Constituição de 1946 e um retrocesso no que se refere a
democracia e ao sistema de direitos e garantias fundamentais. O
Brasil permaneceu sem Constituição escrita por quatro anos e,
82
durante este tempo, houve a publicação de atos institucionais (AI´s
nº1,2,3 e 4) de conteúdos extremamente arbitrários, até a outorga
da Constituição de 1967 e posterior publicação do último ato
institucional, o AI 5 de 1968.
Na Constituição de 1967, apesar de estarem previstos no
Titulo II os direitos e garantias fundamentais. Tais direitos não
eram respeitados e nem implementados pelo Estado. Ainda assim,
a Carta de 1967 teve vida curta, pois, em 13 de dezembro de 1968,
foi publicado o Ato Institucional nº 05, o qual rompeu com a
Constituição de 1967 e estabeleceu uma série de poderes
discricionários para o Presidente da República. Dentre as medidas
previstas no ato institucional nº 05, estava o recesso do Congresso
Nacional, das Assembleias legislativas e das Câmaras dos
Vereadores as quais só poderiam voltar a funcionar quando o
próprio presidente as convocasse. Prescreveu ainda a suspensão
dos direitos políticos, das garantias da magistratura e a cassação do
mandato de parlamentares. De acordo com o seu texto o
Presidente poderia, a qualquer momento, suspender a liberdade de
reunião, suspender a liberdade de associação e instituir a censura
suprimindo assim a liberdade de imprensa. Não foi coincidência o
aumento, considerável, da tortura e dos assassinatos praticados
pelo regime militar durante a sua vigência.
Ainda sob a égide do Ato Institucional nº 5, vários ministros
do STF foram cassados e o habeas corpus foi suspenso em relação ao
crime político, ao crime contra segurança nacional, contra a ordem
83
econômica e social e contra a economia popular. É importante
lembrar que depois do Ato Institucional nº 5, foram publicados
outros doze atos institucionais até a outorga da Constituição de
1969.
A Constituição de 1969, denominada pelos militares como
Emenda nº 1/69, trouxe ainda mais retrocesso no que diz respeito
aos direitos e garantias fundamentais. Para tanto, incorporou ao
seu texto medidas autoritárias dos atos institucionais até então
publicados, consagrou a intervenção federal nos estados membros;
cassou a autonomia política das capitais e outros municípios;
impôs restrições ao poder legislativo; validou o regime dos
decretos-leis; estendeu o rol de restrições aos direitos e garantias
fundamentais presentes na Constituição de 1967.
A Lei de Anistia, datada de 28 agosto de 1979, fez ressurgir a
esperança em dias melhores e abriu o caminho para transição
concretizada em 15 de janeiro de 1985, com a eleição indireta de
Tancredo Neves e José Sarney. Todavia, antes da posse, Tancredo
falece e José Sarney (vice-presidente) assume e cumpre a promessa
de convocar a Assembleia Nacional Constituinte através da
Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985.
A Constituição Brasileira de 1988 foi a primeira a utilizar a
expressão genérica Direitos e Garantias Fundamentais para se
referir as três dimensões dos direitos humanos. A amplitude do
catálogo de Direitos Fundamentais na Constituição de 1988 não
tem precedentes na história Constitucional brasileira. Isso pode ser
84
explicado pelo momento político vivido pelo Brasil a época da
Constituinte: o país estava saindo de uma ditadura militar de mais
de vinte anos, toda sociedade civil e todos os setores, (grupos
conservadores, sociedade civil, movimentos populares) desejavam
colocar naquele documento fundamental um conceito próprio de
justiça.
A Constituição de 1988 inova até na localização do título
relativo aos direitos fundamentais ao colocá-lo logo após os
princípios fundamentais, objetivando assim demonstrar a
importância dos Direitos e Garantias Fundamentais para o sistema
constitucional. Apesar do título específico, os direitos humanos
estão presentes em todo o texto constitucional e a princípio da
dignidade da pessoa humana foi previsto como principio
fundamental, e, portanto, norma matriz da Constituição. É
importante ressaltar que pela primeira vez os direitos fundamentais
foram incluídos como cláusula pétrea do sistema, nas
Constituições anteriores somente a República e a Federação eram
consideradas cláusulas pétreas. Foi estabelecido pela primeira vez
em um texto constitucional brasileiro um verdadeiro sistema de
direitos e garantias fundamentais.
Todavia, a extensão do catálogo de direitos fundamentais
também tem outros efeitos: a multiplicação das situações de
conflito e a ampliação do número de demandas judiciais baseadas
em violações constitucionais contribuindo, deste modo, para
salientar o fenômeno da judicialização das relações sociais.
85
3. CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA, EVOLUÇÃO
DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS E CONTROLE DE
CONSTITUCIONALIDADE
Para que exista Democracia é essencial que a vontade
popular seja respeitada, mas também é preciso que existam
eleições, partidos políticos separação dos poderes, respeito a
vontade da maioria e da minoria. Mas existe algo também que
caracteriza uma sociedade democrática: a instituição de direitos e
garantias. Nesse sentido, Bobbio ao definir democracia, previne:
No entanto, mesmo para uma definição mínima de democracia,
como é a que aceito, não bastam nem a atribuição a um elevado
número de cidadãos do direito de participar direta ou
indiretamente da tomada de decisões coletivas, nem a existência
de regras de procedimento como a da maioria (ou, no limite, da
unanimidade). É indispensável uma terceira condição:é preciso
que aqueles que são chamados a decidir ou a eleger os que
deverão decidir sejam colocados diante de alternativas reais e
postos em condição de poder escolher entre uma e outra. Para
que se realize esta condição é necessário que aos chamados a
decidir sejam garantidos os assim denominados direitos de
liberdade, de opinião, de expressão das próprias opiniões, de
reunião, de associação, etc. — os direitos à base dos quais nasceu
o estado liberal e foi construída a doutrina do estado de direito
em sentido forte, isto é, do estado que não apenas exerce o poder
sub lege, mas o exerce dentro de limites derivados do
reconhecimento constitucional dos direitos "invioláveis" do
indivíduo.
Assim, a instituição de direitos fundamentais é proporcional
ao grau de democracia de um determinado país. Quanto mais
86
fortalecida a democracia, maior o rol de direito e garantias
fundamentais. Democracia e direitos fundamentais estão
intimamente relacionados.
As ideias de situação e oposição, maioria e minoria, cujas
vontades devem ser respeitadas e garantidas pela lei, traduzem uma
sociedade internamente dividida, porém a democracia tem esta
singularidade: considera o conflito legítimo e legal, permite que a
própria sociedade trabalhe os seus conflitos para construir o
futuro. A democracia exige que os conflitos sejam reconhecidos e
respeitados e os eleva a categoria de direitos e requer o consenso
total apenas no que diz respeito as regras do processo. É esse
conflito, é esse dissenso no dizer de Bobbio (1997, p.61), que
levará a construção de um consenso da maioria para evolução do
processo democrático.
Esse consenso traduz a concepção política de justiça
conquistada a partir da democracia constitucional, a qual além de
servir de justificativa para as instituições políticas possibilita a
estabilidade do regime de uma geração para outra. Esta concepção
política de justiça permite que os cidadãos avaliem se suas
instituições são justas. (RAWLS, 2000, p.245)
Canotilho chega a afirmar que “os direitos fundamentais são
um elemento básico para a realização do princípio democrático.”
Os direitos fundamentais teriam assim uma função democrática
pois: ao legitimar o conflito permite a participação de todos os
cidadãos, implica participação em garantias que promovem a
87
participação politica, cria direitos sociais, econômicos e culturais
constitutivos da democracia. A democracia, ao ter como
pressuposto a participação igualitária dos cidadãos, incentiva os
direitos de participação e associação, os quais, por conta disso, são
considerados fundamentos funcionais da democracia. Os direitos
fundamentais representam um remédio contra o poder
antidemocrático e a sua efetivação garante o domínio da
democracia e o respeito a vontade popular.
A relação entre democracia e direito foi bastante aprimorada
quando a declaração de direitos passou a compor o texto
constitucional, ou seja, quando os direitos humanos foram
transformados em direitos fundamentais. Era possível imaginar
que, atribuindo uma maior força normativa aos direitos, o
problema da institucionalização estivesse resolvido. Porém não foi
o que aconteceu. Em realidade, a introdução dos direitos humanos
na lei maior conferiu mais visibilidade a questões que
anteriormente não eram percebidas e fez surgir problemáticas
novas em razão da sua natureza obrigatória.
Por outro lado, a constitucionalização dos direitos
fundamentais significou uma limitação a soberania popular, haja
vista as normas constitucionais que prescrevem direitos
fundamentais não estarem subordinadas a decisões majoritárias ou
deliberações democráticas. O Constitucionalismo atua contendo a
tomada de decisão popular através da Lei Fundamental. Percebe-se
o paradoxo entre democracia e constitucionalismo e
88
consequentemente entre democracia e direitos fundamentais. Isso
porque quando o poder constituinte regula a democracia ele
também a limita. Ao mesmo tempo pode-se afirmar que a
Constituição só tem sentido em um ambiente democrático, a
democracia necessita da Constituição para se concretizar.
(CHUEIRI; GODOY, 2010)
Alexy (1999) identifica quatro dificuldades a partir da
institucionalização dos direitos humanos. A primeira delas é que os
direitos fundamentais, como normas constitucionais, passam a ser
considerados como fundamento do sistema e a limitar todas as
outras normas do ordenamento devem se conformar formalmente
e materialmente com o seu conteúdo. Com isso toda estrutura do
estado, inclusive os três órgãos supremos, Executivo, Legislativo e
Judiciário estão vinculados a Constituição e por consequência aos
direitos fundamentais. Esta vinculação pode ser controlada através
do Poder Judiciário, o qual neste caso atua para dirimir os
conflitos. Então temos a nossa segunda dificuldade: a
concretização dos direitos fundamentais realizada pela Corte
Constitucional. É uma concretização suprema, realizada pelo
guardião da constituição que submete, reitero, os três poderes. A
terceira dificuldade é que os bens protegidos através dos direitos
fundamentais são bens de grande importância para o Estado, o que
exige um cuidado e uma responsabilidade ainda maior dos órgãos
estatais no trato com tais dispositivos. O quarto problema é a
necessidade de uma interpretação que possibilita uma fixação de
89
limite aos direitos fundamentais através da ponderação dos bens
jurídicos tutelados. Sem a realização da ponderação não é possível
verificar o conteúdo exato do direito.
Por conseguinte, percebe-se que a última palavra em relação
aos direitos fundamentais não é do povo. Mesmo em um regime
democrático. A última palavra, depois da positivação dos direitos
humanos na Constituição, é da corte constitucional. E essa corte
nem sempre tem seus membros escolhidos pelo povo. Isso está de
acordo com o texto constitucional? No caso brasileiro isso
representaria o cumprimento ao princípio fundamental da
Constituição brasileira que prescreve que todo poder emana do
povo?
Os direitos fundamentais parecem converter-se em um problema
para a democracia quando eles são levados a sério e de um mero
ideal tornados em algo real. É exata essa impressão? É o ideal, do
qual trata a Declaração Universal dos Direitos do Homem, uma
quimera que leva à rebentação uma contradição entre direitos
fundamentais e democracia?(Alexy, 1999,p.64)
Para responder a esse questionamento Alexy propõe três
modos de visão da relação entre direitos fundamentais e
democracia: o ingênuo, o idealista e o realista. Para o ingênuo entre
direitos fundamentais e democracia não pode existir conflito
porque ambos representam coisas boas para o sistema. Essa visão
não corresponde à verdade porque não existem conflitos apenas
entre o bom e o mau. Existem conflitos no interior de coisas boas.
90
Um bom exemplo é a democracia. O conflito é inerente à ideia de
democracia.
O modo idealista admite o conflito e também a reconciliação
entre direitos fundamentais e a democracia. Porém, como a
própria denominação já informa, isso é um ideal, não teria lugar no
mundo concreto.
Na visão realista a relação entre democracia e direitos
fundamentais é marcada por uma contradição: nessa visão os
direitos fundamentais são ao mesmo tempo democráticos e
ademocráticos. São democráticos porque ao garantirem os direitos
de liberdade e igualdade, asseguram desenvolvimento e existência
dos indivíduos e porque ao assegurar as liberdades tornam
possíveis as condições funcionais do processo democrático. São
ademocráticos porque eles desconfiam do processo democrático.
Essa desconfiança é resultado da vinculação do legislador a
interpretação dada pelos órgãos judiciais aos direitos fundamentais,
dessa forma retiram do parlamento poderes de decisão e os
entregam para um órgão que não tem entre seus membros
representantesdo povo eleitos.
Para Alexy a chave para resolver a contradição na posição
realista é a distinção entre a representação política e argumentativa
do povo. O parlamente, portanto, representaria o cidadão
politicamente e a Corte constitucional representaria
argumentativamente. O Próprio autor reconhece que no caso da
corte essa representação é mais ideal do que a do parlamento. A
91
representação do Tribunal é eficiente quando aos argumentos do
tribunal estão em consonância com os da coletividade e das
instituições políticas. Quando esses argumentos conduzem a
reflexões e discussões que possibilitam o reconhecimento da
institucionalização dos direitos fundamentais. Esse fato supera a
contradição interna que rege a relação entre democracia e direitos
fundamentais e permite, segundo Alexy, a realização dos direitos
fundamentais no Estado democrático.
Se do conflito faz parte da relação entre direitos
fundamentais e Democracia, vez que a democracia é formada pelo
conflito e a construção das soluções passa pela discussão, esse
conflito também leva ou pode levar a construção de soluções e é
isso que demonstra Alexy quando trata da posição realista. A Corte
Constitucional pode representar a sociedade argumentativamente.
Isso não significa ceder a pressão de grupos, mas, trabalhar em
sintonia com os movimentos populares e instituições na busca das
melhores soluções para o país. O órgão responsável pela guarda da
Constituição para alcançar esse estágio não poderia perder de vista,
em nenhum momento, que todo poder emana do povo.
Contudo, para que essa sensibilidade da Corte
Constitucional seja desenvolvida e permita que ela atue como
representante da sociedade no âmbito da argumentação há de se
repensar, em um primeiro momento, a composição do órgão a
qual deveria ser o mais plural possível, com membros dos três
poderes e da sociedade civil. A guarda da Constituição não deveria
92
estar sob a responsabilidade de um único poder, como no caso
brasileiro. Isso propicia excessos e equívocos que poderiam ser
evitados com uma composição plural.
Ser representante argumentativo da sociedade não significa
adotar sempre a posição majoritária, todavia, também atuar na
função contramajoritária limitando atos dos outros poderes e
fazendo valer os direitos e garantias fundamentais. Assim, quando
Alexy afirma que os direitos fundamentais são democráticos e
antidemocráticos, está falando que os direitos fundamentais devem
ser interpretados de acordo com a Constituição, mesmo que isso
contrarie a vontade da maioria ou do representante politico do
povo, o poder legislativo.
A história constitucional brasileira demonstra como,
realmente, a efetivação do sistema de garantias de direitos
fundamentais está relacionada com a existência de um regime
democrático. Percebe-se também o Supremo Tribunal Federal
atuando cada vez mais como representante argumentativo da
sociedade limitando em muitos casos a atuação do poder
legislativo. Essa atuação contramajoritária do Poder Judiciário e,
principalmente, da Corte Constitucional brasileira, no controle de
constitucionalidade é essencial para a concretização dos direitos e
garantias fundamentais e a própria existência da democracia.
4 CONCLUSÕES
93
Considerando todos os pontos trabalhados conclui-se que:
O conceito de democracia, assim como o conceito de
direitos humanos é histórico e incorporam valores ao seu
conteúdo com o passar do tempo;
A democracia se realiza e se oxigena através da instituição
dos direitos e garantias fundamentais;
Os direitos fundamentais não podem existir em um
ambiente antidemocrático;
A institucionalização, a constitucionalização dos direitos
fundamentais levou a limitação da representação popular, a qual
apesar de contramajoritária é essencial para garantir a efetivação
dos direitos e garantias e tornar a democracia perene;
O controle de constitucionalidade realizado pelo Poder
Judiciário é de grande importância para a realização e construção
do ambiente democrático, na medida em que protege as minorias e
promove os respeito aos direitos humanos mesmo que tal proteção
contrarie os interesses da maioria.
O Supremo Tribunal Federal como corte constitucional tem
importante papel na consolidação da Democracia no Brasil. Sua
atuação ponderada e nos limites previstos pelo Poder Constituinte
é vital para concretização dos Direitos Humanos na sociedade
brasileira.
94
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97
CAPÍTULO 4
RECURSO EXTRAORDINÁRIO E REPERCUSSÃO
GERAL: PROPOSTAS PARA O ENFRENTAMENTO DO
ACÚMULO DE PROCESSOS SOBRESTADOS NO
ÂMBITO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Felipe Almeida Garcia Santos
RESUMO: O presente artigo visa sistematizar o estudo do instituto da
repercussão geral no Recurso Extraordinário, buscando propostas para
as deficiências procedimentais e estruturais que ocasionam o
congestionamento de processos por todo o território nacional. A
pesquisa se desenvolve apresentando dados quantitativos da atuação do
Supremo, apontando os principais gargalos que impossibilitam uma
atuação eficiente da Corte. Posteriormente, trazemos três propostas que,
a nosso ver, em muito contribuiriam para o equacionamento da
sistemática de reconhecimento e julgamento da repercussão geral, o que,
não se olvide, afetaria positivamente milhões de litigantes em todo o
país. O método dedutivo foi o mais utilizado nessa pesquisa, a partir da
leitura de fontes legislativas, bibliográficas e documentais.
PALAVRAS-CHAVE: Recurso Extraordinário. Repercussão Geral.
Procedimento. Direito Processual Constitucional. Supremo Tribunal
Federal.
ABSTRACT: The present paper aims at systematize the study of the
institute called general repercussion in the extraordinary appeal, analyzing
its operation during the present moment and searching for answers to
the structural and procedural malformations, which cause the actual
congestion of processes throughout Brazil. This research develops itself
by presenting some quantitative data about the Supreme Court’s
performance, indicating the saturation points which make it impossible
to the Court to operate optimally. At last, we bring up three proposals
that, we think, would very much add to equate the actual systematic of
recognizing and judging of general repercussion, which would,
undoubtedly, affect millions of contenders all over the country. The
scientific method that was used the most during this research is the
deductive one, after reading many legislative, bibliographic and
documental sources.
98
KEYWORDS: Constitution. Judicial branch. Supremo Tribunal Federal.
Constitutional Court. Legal Nature.
SUMÁRIO: Introdução; 1. Identificação e análise estatística dos
“gargalos” do Supremo Tribunal Federal; 2. Propostas contra a
disfuncionalidade do sistema de repercussão geral brasileiro; 2.1.
Instituição de novos procedimentos de julgamento de causas com
repercussão geral já reconhecida e de seleção e julgamento de
recursos com repercussão geral ainda a ser analisada; 2.2. Redução
parcial das prerrogativas processuais da Fazenda Pública e do
Ministério Público como forma de seleção natural dos recursos
protelatórios e de combate da morosidade dos processos; 2.3.
Adequação estrutural e expansão quantitativa dos NUGEP;
Conclusão.
INTRODUÇÃO
Entendemos que o objetivo do legislador, ao criar o instituto
da repercussão geral, foi, sem dúvida, buscar novo filtro seletivo
para o conhecimento de recursos pela Corte, numa tentativa de
respeitar a capacidade material dos julgadores. Nesse sentido,
acreditamos que o impacto inicial da medida foi bastante positivo:
em 2007, ano de implantação do instituto, o número total de
processos distribuídos foi de 112.938. Em 2016, esse número caiu
para 57.366.
99
A melhora apresentada, todavia, não é suficiente. A
quantidade de recursos extraordinários que chegam aos gabinetes
dos Ministros ainda é enorme, e isso afeta diretamente sua
capacidade de julgar em tempo hábil: são mais de 1.000 recursos
extraordinários para cada membro.
Segundo informações divulgadas pelo ministro Luís Roberto
Barroso, em 2014, levando em consideração a média anual de
julgamento de casos de repercussão geral reconhecida, o STF pode
levar mais de 12 anos para zerar o estoque .
Atualizando os números para 2016, calcula-se que seriam
necessários mais de 9 (nove) anos (324 processos pendentes
divididos por 35 julgamentos por ano) para tanto. Aliás, mesmo
que usássemos o número recorde de repercussões gerais julgadas
em 2014 (64), ainda assim mais de 5 (anos) anos seriam necessários
para zerar o estoque (324 divididos por 62).
Desse modo, entendemos como fundamental repensar a
forma de ação do tribunal nessa matéria. Nesse sentido, as
soluções apontadas até o momento têm levado em conta dois
fatores de grande importância: a qualidade das decisões, das quais
não se pode abdicar, e a quantidade de causas julgadas, que não
pode ser ignorada, sob pena de cair o sistema jurídico em total
descrédito perante a sociedade civil.
A tarefa primordial é, portanto, encontrar uma solução que
equilibre os fatores apontados. Isso nada mais é do que respeitar o
disposto na Constituição, em especial no que tange à necessidade
100
de uma duração razoável do processo (art. 5º, LXXVII da CF) e
no próprio princípio da eficiência da Administração Pública, do
qual aquele é corolário.
Pretendeu-se, então, buscar um procedimento mais eficaz a
ser utilizado pelo Supremo Tribunal Federal nesses casos, um
procedimento que limitasse a quantidade de repercussões gerais
reconhecidas pela Corte e que delimitasse o momento em que elas
seriam julgadas no mérito. Com isso, não só haveria uma resposta
célere do órgão à sociedade civil, como os próprios Ministros
teriam mais tempo e tranquilidade para julgar, uma vez que tudo
estaria calendarizado.
Outra possibilidade é flexibilização de prerrogativas dadas à
Fazenda Pública, que em muitos momentos delas se utiliza tão
somente para postergar o transito em julgado do processo, sem
que se vislumbre decisão em mérito a seu favor. O Estado é hoje,
como se sabe, o maior litigante do país, e isso se deve em grande
parte à essa cultura e rede de privilégios da Fazenda Pública.
Por fim, trazemos a situação dos Núcleos de Gerenciamento
de Precedentes (NUGEP), instituídos em 2016 através de
resolução do Conselho Nacional de Justiça de forma mandatória a
todos os tribunais pátrios. Como muitas outras iniciativas, os
NUGEP foram adotados até o momento em fração ínfima dos
Tribunais brasileiros, e mesmo nos que ele existe, sua
funcionalidade é duvidosa.
101
1 IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE ESTATÍSTICA DOS
“GARGALOS” DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
O Poder Judiciário brasileiro passa, atualmente, por severa
crise de funcionalidade, crise essa que parece ter se acentuado após
o início do processo de redemocratização, há três décadas.
De acordo com dados disponibilizados no sítio eletrônico do
Supremo Tribunal Federal, em 1989, ano imediatamente
subsequente à promulgação da nova Constituição Federal, 14.721
processos foram protocolados na Corte, tendo apenas 6.622 deles
sido distribuídos.
Ao longo dos anos, os números aumentaram até o ápice,
ocorrido em 2007, quando 127.535 foram protocolados e 116.216
distribuídos. Essa massa de ações direcionadas ao Supremo
diminuiu gradativamente a partir de 2007, com a entrada em
vigência da repercussão geral. De todo modo, os números ainda
assustam: em 2016, foram protocolados 90.865 processos, dos
quais 33.499 foram inadmitidos logo no juízo de admissibilidade
por questões formais.
Alguns são os fatores que podem ter desencadeado essa
situação: uma conjunção da abertura democrática, do dever
fundamental que tem o Estado de prestar a jurisdição no território
nacional e, em última análise, da cultura brasileira de excesso de
litigiosidade.
102
Some-se a isso o processo de globalização e a introdução da
tecnologia na vida do cidadão comum, a permitir maior
conhecimento dos seus direitos e das formas de acessá-lo,e a
chamada crise do Judiciário resta configurada.
Essa crise não demorou a atingir, como se vê pelos números
acima demonstrados, o Supremo Tribunal Federal, instância
originalmente planejada para conhecer causas de largo impacto, a
reclamar cognição plena e exauriente da corte.
Na medida em que essa realidade começa a interferir na
capacidade do STF de exercer seu mister constitucionalmente
estabelecido, qual seja, deliberar sobre as questões que
verdadeiramente interessam ao país e construir os precedentes que
servirão de orientação para os tribunais de primeira e segunda
instâncias, é necessário que se realize um estudo minucioso das
causas e das possíveis soluções para o problema.
Nesse sentido, o atual Ministro do Tribunal Luís Roberto
Barroso, em estudo publicado em 2014 , apresentou aqueles que
seriam os principais “gargalos”, ou óbices ao bom funcionamento
da Corte. São pontos de atuação do Supremo Tribunal Federal
onde a quantidade de processos se acumula, e sobre os quais os
procedimentos previstos em lei, Regimento Interno ou mesmo a
prática da corte não têm logrado êxito em otimizar a prestação
jurisdicional.
Apresentamos agora os pontos trazidos por Barroso, mas
sem nos limitarmos a mencioná-los, colacionamos dados
103
estatísticos que baseiam a preocupação do Ministro, mostrando em
números como o trabalho no Supremo fica prejudicado diante da
falta de fluidez decorrente do atual estado de coisas.
1.1 IDENTIFICAÇÕES DOS “GARGALOS” QUE
ATRAPALHAM O BOM FUNCIONAMENTO DA
CORTE
São basicamente três os fatores apontados por Barroso: (a) o
volume de habeas corpus; (b) o congestionamento do plenário; e (c)
o acúmulo de processos com repercussão geral reconhecida.
Tratemos cada um de forma isolada:
1.1.1 Alto Volume De Habeas Corpus
A ação de habeas corpus está prevista no artigo 5º, inciso
LXVIII da Constituição Federal de 1988. É instituto antigo,
previsto inicialmente pelo Código Criminal de 1832 e
constitucionalizado pela primeira vez em 1891, ainda que alguns
entendam, como fez Pontes de Miranda, que o instrumento já
estava implicitamente previsto na Constituição de 1824.
Nas primeiras décadas após ser colocado no ordenamento
jurídico, o habeas corpus era utilizado como remédio tutelar de
praticamente todos os direitos subjetivos, de modo que a
interpretação extensiva dessa disposição constitucional ficou
conhecida como “doutrina brasileira do habeas corpus” . Somente
104
após a aprovação da emenda constitucional de 1926 é que se
limitou o seu cabimento à proteção da liberdade de locomoção.
Em apenas um período histórico do Brasil houve limitação à
utilização do habeas corpus. Isso ocorreu durante o regime militar,
quando o governo totalitário editou o famoso Ato Institucional nº
5, em 13 de dezembro de 1968. Segundo o artigo 10 dessa norma,
ficava “suspensa a garantia do habeas corpus, nos casos de crimes
políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social
e a economia popular.”
A proibição do habeas corpus durante o regime ditatorial
demonstra sua importância e relevância histórica, como
instrumento de garantia de direitos que os militares não podiam
tolerar. Tanto é assim que, tão logo a redemocratização do país
teve lugar, essa ação passou novamente a ser prevista.
A partir da redemocratização, aliás, esse instrumento voltou
a passar por um surto de utilização, em especial perante o
Supremo Tribunal Federal. Conforme demonstrou o relatório final
do projeto Panaceia universal ou remédio constitucional? Habeas corpus nos
Tribunais Superiores, realizado pela Fundação Getúlio Vargas do Rio
de Janeiro , no período entre 1990 e 2012, as ações de habeas corpus
cresceram 397%, totalizando 6,8% de todos os casos julgados pelo
STF em 2012 (foram 4.846 ações, perdendo em quantidade apenas
para os recursos extraordinários e agravos de instrumento).
O recurso ordinário de habeas corpus, por sua vez, cresceu
ainda mais: cerca de 1.170%, apesar dessa modalidade representar
105
meros 0,28% dos julgamentos do STF em 2012 (259 recursos),
como mostra o gráfico abaixo.
Figura – Gráfico HCs e RHcs julgados pelo STF
Fonte: AMARAL et al. (2014, p. 31)
O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, pouco tem se
movimentado para conter essa enxurrada de ações: entre as poucas
medidas tomadas, colocam-se os enunciados de súmulas acerca do
tema editadas nos anos de 1984 e 2003. Contraditoriamente,
também em 2003 foi criada uma nova possibilidade de impetração
de habeas corpus, ampliado ainda mais as “portas de acesso” ao
Supremo por meio dessa classe de ação, apesar da falta de previsão
constitucional para tanto.
106
Trata-se da Súmula 691, segundo a qual: “Compete
originariamente ao Supremo Tribunal Federal o julgamento de
habeas corpus contra decisão de turma recursal de juizados especiais
criminais”. Apenas em 2007 a corte revogou esse entendimento.
Nota-se, por conseguinte, que a questão por trás da enorme
quantidade de habeas corpus a atormentar o STF, nos dias de hoje, é
a sua amplitude. A tarefa sobre a qual se deve debruçar o Supremo
não é tanto a de interpretar o texto descrito na Constituição, mas
sim de construir um entendimento doutrinário e jurisprudencial
sólido acerca da aplicabilidade do habeas corpus, de modo a
assegurar eficácia para essa garantia, sem, todavia, tornar inviável a
atuação do Supremo Tribunal Federal.
Apesar da relevância do tema, por motivos de recorte do
objeto da pesquisa, nos absteremos de tratá-lo com mais
profundidade neste trabalho.
1.1.2 Congestionamento Do Plenário
Outro fator que compromete a funcionalidade da atuação do
Supremo Tribunal Federal é a grande quantidade de processos
congestionados esperando pelo julgamento no Tribunal Pleno da
Corte.
Segundo informações disponíveis no sítio eletrônico do
Supremo, em dezembro de 2016 existia uma fila de 828 processos
107
já liberados pelos relatores, todos eles aguardando um lugar na
pauta do plenário.
Diferentemente do que ocorre com as ações de habeas
corpus, alguns passos já foram dados rumo à resolução deste
último problema. Entre eles, a aprovação da Emenda Regimental
nº 49, em 28 de maio de 2014 , que transferiu do plenário para a
turma a competência para julgar as seguintes matérias: a)
recebimento de denúncia ou queixa; b) ações penais contra
deputados e senadores (à exceção dos presidentes das casas),
ministros de Estado, comandantes das Forças Armadas, membros
dos tribunais superiores, membros do TCU, chefes de missão
diplomática de caráter permanente; c) ações contra o CNJ e o
CNMP; e d) reclamações.
Além das modificações efetuadas pela Emenda nº 49/2014,
os ministros decidiram ainda, na mesma sessão, transferir do
plenário para a turma o julgamento dos mandados de segurança,
mandados de injunção e dos habeas data. Foram ainda transferidas
para a turma o julgamento de ações envolvendo litígios entre
Estados estrangeiros e a União, além dos conflitos federativos.
Com essas modificações, nas palavras de Luís Roberto
Barroso, consumou-se uma “revolução profunda e silenciosa na
dinâmica de atuação do plenário, cujas competências ficarão
cingidas às de uma corte constitucional: julgar, essencialmente, as
ações diretas e as repercussões gerais”.
108
O ministro Barroso, aliás, propõe algumas outras
providências capazes de desafogar o plenário, de modo que ele se
reserve tão somente à análise das questões mais importantes. São
elas:
•julgamento em plenário virtual das medidas cautelares em
ações diretas que tenham sido concedidas há mais de 5
(cinco) anos, por proposta do relator. Ato contínuo, caso
três ministros discordassem da proposta, iria a matéria para
julgamento no plenário físico.
•julgamento em plenário virtual dos agravos regimentais e
embargos de declaração,atualmente julgados em listas.
•julgamento também em plenário virtual das ações diretas
de inconstitucionalidade contra leis estaduais em que as
questões se repetem – geralmente envolvendo provimento
em cargos públicos sem concurso ou alguma outra
inconstitucionalidade flagrante -, uma vez que a decisão
consiste em mera reafirmação da jurisprudência do
Tribunal.
Importante notar que a atual presidente do STF, Ministra
Cármen Lúcia, vem atuando no sentido de descongestionar o
plenário através de novas medidas, como a averiguação de ações
em espera de pautas que já deveriam ter sido direcionadas para a
turma, bem como o agrupamento de processos por tema. Essa
109
segunda medida, em especial, nos parece interessante, uma vez
que, quando os processos estão agrupados de acordo com o tema,
se torna possível pautá-los em conjunto e, por conseguinte, julgá-
los de forma mais eficiente.
Propostas com essas são da maior relevância, na medida em
que tornar o Plenário do STF funcional, livre de questões
irrelevantes ou repetitivas, significa potencializar sua capacidade
para deliberar sobre as questões que de fato importam para o país.
A partir disso, mais precedentes podem ser gerados,
proporcionando maior segurança jurídica e eficiência na prestação
jurisdicional.
Contudo, também aqui não entraremos em detalhes, haja
vista não se tratar do cerne objeto desta pesquisa.
1.1.3 Acúmulo de Processos com Repercussão Geral
Reconhecida
Como já trazido em capítulo antecedente, o instituto da
repercussão geral foi inserido no ordenamento jurídico brasileiro
através da Emenda Constitucional nº 45/2004, condicionando a
admissibilidade do recurso extraordinário à demonstração de
existência, no caso sob judice, de “questões relevantes do ponto de
vista econômico, político, social ou jurídico, que ultrapassem os
interesses subjetivos da causa” (artigo 1.035, § 1º do CPC). O não
110
reconhecimento da repercussão geral exige, segundo a norma,
manifestação de dois terços dos membros do STF.
O objetivo do legislador foi, por óbvio, buscar novo critério
limitador para o conhecimento de recursos pela corte, de modo a
respeitar a capacidade material dos julgadores e seus gabinetes.
Nesse sentido, podemos dizer que o impacto inicial da medida foi
bastante positivo: em 2007, ano de implantação do instituto, o
número total de processos distribuídos foi de 112.938. Em 2016,
esse número caiu para 57.366.
Especificamente em relação aos recursos extraordinários, em
2008, ano subsequente à implantação do filtro, o número de
recursos distribuídos foi de 21.742. Em 2015, último ano em que
esse número foi disponibilizado pelo site do Supremo, caiu para
11.567.
A despeito da melhora que os números demonstram, a
quantidade de recursos extraordinários que chegam aos gabinetes
dos ministros ainda é enorme, a ponto de afetar sua capacidade de
julgar em tempo hábil: são mais de 1.000 recursos extraordinários
para cada membro.
Joaquim Falcão, Pablo de Camargo Cerdeira e Diego
Werneck Arguelhes procederam, em pesquisa realizada na
Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, uma ampla coleta de
dados acerca dos padrões processuais desenvolvidos no âmbito do
STF . Sua conclusão foi no sentido de que o Tribunal se comporta
111
simultaneamente como três “cortes” distintas, fundidas em apenas
uma instituição: corte constitucional, recursal e ordinária.
Em resumo, o STF se comporta como corte constitucional
quando se ocupa do controle de constitucionalidade concentrado,
apreciando, por exemplo, as ações declaratórias de
constitucionalidade, as ações diretas de inconstitucionalidade, entre
outras.
Por sua vez, age como corte recursal quando julga as ações que
chegam ao Tribunal em decorrência do questionamento de
decisões tomadas por outras instâncias judiciais relativamente à
matéria constitucional. Ou seja, quando atua no exercício do
controle difuso de constitucionalidade.
Por fim, revela-se como corte ordinária nos momentos em
que aprecia causas que não se adequam a nenhuma das categorias
tratadas acima, como nos casos em que trabalha como “tribunal de
instância única no caso individual”. Exemplos são os processos
movidos contra membros do Congresso Nacional.
Como se percebe do quadro desenhado pelos autores, os
recursos extraordinários correspondem apenas a uma das
categorias de competência do Supremo Tribunal Federal, enquanto
atua como corte recursal, também apenas uma de suas funções.
Se apenas nesse fragmento de realidade cada ministro já se
encontra sem capacidade material de exercer efetivamente sua
jurisdição, que dirá quando se somar todas as classes processuais
de sua competência? A realidade é preocupante, e isso justifica
112
trabalhos como este, em que se buscam propostas no sentido de
viabilizar a atuação do mais importante Tribunal do Brasil.
Isso justifica também a preocupação demonstrada por Luís
Roberto Barroso, quando afirmou que, atualmente, o Supremo
Tribunal Federal consome a maior parte dos seus recursos
humanos e materiais para lidar com um “imenso varejo de
miudezas”, deixando de julgar ou atrasando o julgamento de
muitos casos que efetivamente possuem repercussão geral.
Aliás, como o Ministro já afirmou, mesmo após a criação da
repercussão geral, com o objetivo de tornar mais funcional a
atuação da corte, “mantiveram-se a estrutura burocrática, os
bloqueios processuais e a vasta jurisprudência defensiva que
haviam sido concebidos para lidar com o espantoso volume de
processos existentes.” Isso deve mudar o mais rapidamente
possível.
Para tanto, importa analisar estatisticamente a sistemática de
repercussão geral, comportando o período temporal entre
03.05.2007, data de entrada em vigor da Emenda Regimental nº
21/2007 que estabeleceu as normas necessárias à execução das
disposições legais e constitucionais sobre o instituto, tornando-o
aplicável, e dezembro de 2016:
a) Nº de processos submetidos ao exame de RG: 940
b) Nº de processos com RG negada: 300
113
c) Nº de processos com RG reconhecida: 640
d) Nº de processos com RG julgados: 316
e) Nº de processos com RG pendentes de julgamento:
324
Dividindo-se o número total de processos com repercussão
geral reconhecida e mérito julgado pelo número de anos já
passados entre a entrada em vigor do instituto e 2016, último ano
com dados disponíveis, chegamos à média de 35 processos com
repercussão geral reconhecida julgados a cada ano. Abaixo está a
quantidade anual de processos julgados:
a) 2008: 27 processos
b) 2009: 26 processos
c) 2010: 24 processos
d) 2011: 38 processos
e) 2012: 12 processos
f) 2013: 46 processos
g) 2014: 62 processos
h) 2015: 44 processos
i) 2016: 37 processos
O Ministro Barroso, em pesquisa realizada em 2014,
asseverou que, se tomássemos por referência a média anual de
julgamento de processos com repercussão geral admitida, seriam
necessários mais de 12 (doze) anos para julgamento do estoque de
repercussões gerais já reconhecidas.
114
Atualizando os números para 2016, seriam necessários mais
de 9 (nove) anos (324 processos pendentes divididos por 35
julgamentos por ano) para tanto. Aliás, mesmo que usássemos o
número recorde de repercussões gerais julgadas em 2014 (64),
ainda assim mais de 5 (anos) anos seriam necessários para zerar o
estoque (324 divididos por 62).
É interessante perceber que, desde que o Ministro fez a
pesquisa, no início de 2014, o número de repercussões gerais
reconhecidas pendentes de julgamento de mérito permaneceu
praticamente o mesmo: 330 contra 324 no último ano. Isso se
justifica pelo aumento no número de recursos distribuídos no
período 2013-2016, em especial no ano de 2014, como se vê
abaixo:
Figura – Distribuição de recursos extraordinários por
semestre
Fonte: Secretaria Geral da Presidênciado STF
115
A lentidão para que esses julgamentos ocorram se agrava
ainda mais em decorrência do sistema de sobrestamento de
processos previsto pelo art. 1.036, § 1º do CPC. Segundo esse
dispositivo, todos os processos pendentes que tramitem no Estado
ou na região e que sejam referentes à controvérsia, cuja análise de
repercussão geral se encontre pendente de julgamento no STF,
serão suspensos até o pronunciamento definitivo da corte.
Esse problema, aliás, se acentuou ainda mais com a chegada
do novo Código de Processo Civil. No Código antigo, somente os
recursos com controvérsia idêntica à analisada pelo STF teriam seu
andamento sobrestado. Pela nova sistemática, todos os processos
correlatos, quaisquer que sejam suas naturezas, serão afetados.
O resultado disso foi uma explosão de processos
sobrestados em pouco menos de um ano de vigência da nova
norma processual: segundo as informações disponíveis no sítio do
tribunal, atualmente, aguardam julgamento 1.514.448 processos
com repercussão geral sobrestados na origem, contra 570.139
processos apenas três anos antes.
Diante dessa realidade, necessário se faz repensar o modus
operandi do Tribunal nessa matéria. As soluções apontadas até o
momento têm levado em conta dois fatores de grande importância:
a qualidade das decisões, das quais não se pode abdicar, e a
quantidade de causas julgadas, que não pode ser ignorada sob pena
de cair o sistema jurídico em total descrédito diante da sociedade
civil.
116
Achar uma solução que equilibre os fatores apontados,
contudo, não é tarefa das mais fáceis. E é desse modo que se
justifica a presente pesquisa: análises detalhadas da questão
apresentada são em baixo número na doutrina nacional, ainda que
o problema já perdure por algumas décadas. Urge, portanto,
buscar um procedimento mais eficaz a ser utilizado pelo Supremo
Tribunal Federal nesses casos, ou mesmo propor mudanças na
estrutura da corte que viabilizem sua funcionalidade. O que não se
pode, efetivamente, é aceitar a situação atual.
Para os fins específicos desta pesquisa, iremos nos
aprofundar na análise deste último “gargalo” identificado por
Barroso, qual seja, o acúmulo de processos com repercussão geral
reconhecida.
2 PROPOSTAS CONTRA A DISFUNCIONALIDADE DO
SISTEMA DE REPERCUSSÃO GERAL BRASILEIRO
Assim como Paulo Ricardo Schier, entendemos que a crítica
pela crítica vira denuncismo, ou mesmo uma mera tentativa de
delatar o Direito enquanto ideologia, resultando numa
secundarização dos seus temas.
Por isso, como o próprio título do trabalho sugere, o
objetivo central desta pesquisa é propor soluções para o excesso de
processos sobrestados, em todo o país, em decorrência de recursos
extraordinários com repercussão geral reconhecida pelo STF, mas
ainda pendentes de julgamento.
117
Não resta dúvida que o enorme contingente de processos
que atormenta o Poder Judiciário termina por frear o
desenvolvimento e o crescimento da economia e, acima de tudo,
gera desconfiança e críticas na população. No mesmo sentido, a
falta de resolução em tempo hábil de um processo, pendente de
resolução em decorrência de recurso sobrestado nas instâncias
superiores, é deveras danosa para a sociedade.
Por isso tudo é que trazemos aqui algumas soluções que
ajudariam na resolução do problema de forma menos onerosa
possível para o Erário, passando:
•pelo equacionamento da repercussão geral através da limitação no
conhecimento de novas repercussões gerais, estabelecimento de
momentos específicos para escolha das repercussões gerais a serem
reconhecidas, além de novos procedimentos para julgamento de
novas repercussões gerais e das repercussões já reconhecidas
anteriormente.
•por uma reformulação da hermenêutica do Supremo Tribunal
Federal sobre os privilégios processuais da Fazenda Pública,
possível a curtíssimo prazo, e;
•numa perspectiva estrutural, pela adequação estrutural e expansão
quantitativa dos Núcleo de Gerenciamento de Precedentes
(NUGEP), de modo a tornar possível a padronização de
procedimentos administrativos decorrentes de julgamentos de
repercussão geral, de casos repetitivos e de incidente de assunção
de competência.
118
Esperamos que as propostas sejam levadas em conta,
sendo esse o próprio objetivo da pesquisa acadêmica: atentar a
comunidade para novas formas de pensar e de proceder, visando
uma maior eficácia na consecução dos objetivos escolhidos.
2.1. INSTITUIÇÃO DE NOVOS PROCEDIMENTOS DE
JULGAMENTO DE CAUSAS COM REPERCUSSÃO
GERAL JÁ RECONHECIDA E DE SELEÇÃO E
JULGAMENTO DE RECURSOS COM REPERCUSSÃO
GERAL AINDA A SER ANALISADA
As propostas a serem analisadas neste tópico tomam como
base aquelas apresentadas por Luís Roberto Barroso no “I
Colóquio sobre o STF: Homenagem ao centenário de Victor
Nunes Leal”, evento promovido pela Associação dos Advogados
de São Paulo e pelo Instituto Victor Nunes Leal, em 25 de agosto
de 2014.
A análise a ser realizada aqui, contudo, não se limita às ideias
trazidas pelo Ministro àquela ocasião. Utilizamos também artigos
científicos publicados em resposta ao trabalho de Barroso e ideias
nossas para (re)construir e esquematizar a proposta a ser
apresentada, que, ao nosso ver, é fundamental para equacionar o
sistema de repercussão geral no Supremo.
Sendo assim, dividimos o tópico em quatro partes, de modo
que fique claro em que etapa e de qual forma a mudança irá
impactar no procedimento. São elas: (a) limitação ao conhecimento
de novas repercussões gerais; (b) estabelecimento de momentos
119
específicos para escolha das repercussões gerais a serem
reconhecidas; (c) mudança procedimental no julgamento de novas
repercussões gerais, e, por fim; (d) novos procedimentos para
julgamento das repercussões já reconhecidas anteriormente.
Antes de adentrarmos em sua análise, todavia, é importante
ressaltar que as modificações aqui sugeridas não pressupõem
qualquer inovação legislativa, senão apenas alteração em algumas
práticas do STF e emendas ao Regimento Interno.
2.1.1 Limitação ao Conhecimento de Novas Repercussões
Gerais
A proposta original de Barroso sugere limitar o número de
repercussões gerais a serem reconhecidas para apenas 10 a cada
semestre (completando 20 a cada ano). Para chegar a esse número,
o Ministro tomou como base o número de membros da Corte
(eliminando o presidente, já que esse não recebe distribuição de
processo), de modo que cada membro teria a relatoria de uma
repercussão geral por semestre, bem como a média de julgamento
de casos de repercussão geral que, à época, era de 27 processos ao
ano.
Entendemos que essa quantidade deve ser maior. Primeiro,
porque a quantidade de recursos extraordinários julgados pelo
Supremo aumentou desde lá, alcançando a atual média de 35
(trinta e cinco) processos ao ano. Segundo, porque realmente
120
acreditamos que 20 (vinte) processos anuais é uma quantidade
pequena, tendo em vista o recente contexto democrático brasileiro,
ainda instável e necessitado de mais de precedentes obrigatórios, a
tornar o sistema mais seguro do ponto de vista jurídico.
Nada impede, também, que vá ocorrendo um aumento
gradual nesse número de repercussões a serem julgadas, na medida
em que as repercussões gerais mais antigas forem sendo
equacionadas.
Quanto à regra da igualdade de distribuição de recursos
pelos ministros, entendo-a como não essencial. Isso, porque não
existe qualquer prejuízo no fato de um ministro ficar incumbido de
relatar mais de um processo dotado de repercussão geral. Se o
problema recair na quantidade de trabalho, basta compensar o
magistrado sobrecarregado quando da distribuição de outras
espécies de processo.
Proposta interessante neste sentido é a de Rodrigo Barioni,
para quem seria tecnicamente mais preciso fixar o número de
casos de repercussão gerala serem selecionados a partir do
conhecimento do número total de casos da Corte e de sua
adequada capacidade de trabalho.
Para tanto, seria possível aos ministros utilizarem-se dos
dados estatísticos disponibilizados pelo próprio STF, de modo a
identificar um número ideal de casos a serem julgados a cada
semestre. Assim, ao invés de haver uma quantidade fixa de
processos a serem julgados no semestre, o próprio Supremo, em
121
reunião também semestral, definiria a quantidade de processos que
deveriam ser julgados no semestre subsequente, tomando como
base os dados coletados. Dessa maneira, o STF poderia se adaptar
às mudanças que porventura aumentem ou diminuam o tempo
para os julgamentos.
Para complementar, deveria ainda ser estabelecido um
número mínimo de processos a serem julgados por semestre, de
modo que a eventual sobrecarga dos ministros, em face de outros
assuntos de sua competência, não elimine totalmente a obrigação
de avançar no julgamento dos recursos extraordinários. Essa
quantidade poderia ser aquela inicialmente proposta por Barroso,
de 10 julgamentos semestrais.
2.1.2 Estabelecimento de Momentos Específicos para
Escolha das Repercussões Gerais a Serem
Reconhecidas
Outro ponto que deve ser tratado é o momento em que as
repercussões gerais são reconhecidas. Na práxis atual do STF, os
relatores recebem os recursos que passaram pelo juízo de
admissibilidade genérico e, tão logo possuam uma posição sobre a
existência de repercussão geral no caso, colocam-no no Plenário
Virtual para que seja votado no prazo de 20 dias. Note-se que não
há nesse procedimento qualquer controle quantitativo das
repercussões gerais decididas: os ministros apenas votam na
medida em que vão chegando.
122
A ideia para combater essa falta de controle é conjugar o
critério qualitativo, relativo à importância da matéria trazida no
recurso , com um critério de ordem quantitativa, estabelecendo
uma quantidade de processos que o Tribunal pode julgar dentro de
determinado prazo.
Em suma, o que se propõe é que somente os recursos
extraordinários mais importantes de cada safra devem ser
selecionados. Esse processo de escolha deverá ser feito
semestralmente, em sessão plenária, juntando todos os recursos
interpostos naquele lapso temporal.
Exemplificando, imagine-se que se estabeleça que 30
repercussões gerais serão reconhecidas a cada semestre. Dessa
forma, todo dia 10 de junho seriam selecionados 30 recursos
extraordinários dotados dessa repercussão geral qualificada, que, por
sua vez, deveriam ser julgados no mérito também no prazo de seis
meses. Assim, em 10 de dezembro já seria possível escolher mais
30 recursos extraordinários dotados de repercussão geral, uma vez
que os anteriores já teriam sido julgados.
Uma questão importante é o aumento na quantidade de
recursos que seriam excluídos da apreciação meritória, por conta
da falta de repercussão geral. Isso se torna especialmente
preocupante na medida em que, como visto anteriormente, da
decisão denegatória de repercussão geral não cabe qualquer
recurso (artigo 326 do RISTF e 1.035, caput do CPC), implicando
num “efeito dominó” que acabará por excluir da apreciação do
123
Supremo todos os processos sobrestados que versem sobre aquela
temática, bem como os que poderiam ser propostos no futuro.
Como ressalta Rodrigo Barioni, “dentre os casos não
selecionados, haverá alguns que veiculam questões constitucionais
com duvidosa repercussão geral” . São aqueles casos que, embora
não possuam, naquele momento, qualificação suficiente para
permitir seu julgamento, poderiam ser selecionados pelo STF em
outras circunstâncias. Ou seja, são causas que poderiam ter sua
repercussão geral reconhecida, caso fossem analisadas dentro de
outra safra de processos.
Desse modo, entendemos que seria mais arrazoado o
Supremo Tribunal Federal selecionar, a cada safra, aqueles recursos
que, embora não tenham sido escolhidos naquele momento,
possam o ser numa análise futura.
Utilizando a divisão feita por Barioni, os recursos
extraordinários passariam a ter três hipóteses de status dentro do
STF: (a) casos com repercussão geral reconhecida; (b) casos com repercussão
geral negada; e (c) casos de repercussão geral sobrestada.
Esses processos com repercussão geral sobrestada poderiam,
a nosso ver, ser analisados em mais duas sessões semestrais. Caso
não fossem selecionados, após essas três tentativas, teriam seu
status rebaixado para “repercussão geral negada”, com todas as
consequências que essa negativa acarreta.
124
2.1.3 Mudança Procedimental no Julgamento das Novas
Repercussões Gerais
Quanto ao procedimento de julgamento de novas
repercussões gerais, duas questões devem ser objeto de análise: (a)
a data de julgamento dos recursos extraordinários com repercussão
geral reconhecida; e (b) a data da sustentação oral desses casos.
Quanto aos julgamentos (hoje colocados na pauta pelo
Presidente), passaria a existir um cronograma pré-fixado de
julgamento, sempre definido com pelo menos seis meses de
antecedência.
Assim, se na sessão de dezembro de 2016 fossem
reconhecidas 30 repercussões gerais, todos esses processos seriam
julgados a partir de agosto de 2017. Luís Roberto Barroso explica
o modelo por ele imaginado:
Acho que o modelo ideal funcionaria assim: a Repercussão Geral
1 (RG1) seria julgada como o primeiro processo da pauta de 4a
feira, dia 5 de agosto de 2015. A Repercussão Geral 2 (RG2) seria
julgada como o primeiro processo da pauta de 4a feira, dia 19 de
agosto. E assim por diante.
Funcionando dessa forma, os ministros do STF teriam mais
de seis meses para se prepararem para os casos importantes,
eliminando (em tese) os famigerados pedidos de vista. Do mesmo
modo, os advogados não precisariam viajar várias vezes para
125
Brasília para esperar o julgamento, que nunca se sabe ao certo
quando vai ocorrer.
É importante ressaltar que essa fixação de datas pode trazer
também algumas complicações do ponto de vista prático. A
nomeação de novo ministro, após as sustentações orais em
determinado processo, é um desses casos, assim como a
aposentadoria de um ministro e a subsequente demora do
Presidente da República em indicar outro. Além disso, existe a
possibilidade de recursos extraordinários com repercussão geral
reconhecida serem distribuídos para esse novo ministro, ainda não
nomeado. Essa situação complicaria a confecção de calendário,
uma vez que não dá para saber ao certo quando a nomeação será
feita. Todas essas questões devem ser debatidas em detalhes no
futuro, caso se adote o procedimento aqui proposto.
Em relação às datas de sustentação oral, a mesma lógica dos
julgamentos seria seguida, só que com lapso temporal menor entre
o momento do reconhecimento da repercussão geral e a data da
sustentação. Por exemplo, o caso que tivesse a repercussão geral
reconhecida em dezembro de 2016, e com julgamento a ser
realizado a partir de agosto de 2017, teria a sustentação oral
realizada a partir de fevereiro de 2017.
Percebe-se nitidamente nessa proposta a influência que o
período de exercício da advocacia dentro do STF exerceu sobre
Barroso, sabendo ele mais do que ninguém como a regra geral
prevista no Código de Processo Civil, pela qual as sustentações
126
orais devem acontecer logo após a exposição da causa pelo relator,
já na própria sessão de julgamento (artigo 937), acaba por limitar
substancialmente a contribuição para a formação dos votos, que
costuma ser preparada pelos ministros com grande antecedência.
Essa sistemática, a nosso ver, valoriza o contraditório
efetivo, na medida em que as partes ganham a oportunidade de
efetivamente contribuir para a formação do pensamento do
julgador.
2.1.4 Novos Procedimentos para Julgamento das
Repercussões já Reconhecidas AnteriormenteQuanto às repercussões gerais mais antigas, a ideia é realizar
uma espécie de “varredura” daqueles recursos que não justificam a
movimentação da máquina judiciária do STF, seja por não possuir
os pressupostos processuais necessários, seja por tratarem de
matérias de baixa relevância.
Como ressalta Barroso, quando em 2007 iniciou-se a prática
da repercussão geral, “em razão da falta de familiaridade com a sua
sistemática, inúmeras repercussões gerais foram concedidas em
matérias de baixa relevância ou de jurisprudência já pacificada no
tribunal”.
No mais das vezes, a própria inaptidão dos ministros com o
novo procedimento gerou reconhecimentos de repercussão geral
por simples falta de votos suficientes para compor o quórum de
oito votos necessários para a recusa.
127
Assim, propõe-se que o Supremo trabalhe em três frentes
para solucionar esse acúmulo de processos. Todas elas demandam
apenas pequenas alterações no Regimento Interno da Corte.
Primeiro, os relatores dos processos com repercussão geral
reconhecida fariam uma lista daqueles recursos que, entre todos os
que compõem seu acervo, devem ser submetidos a um julgamento
breve. São aqueles processos de natureza simples, que não
demandam cognição exauriente por parte do julgador, e que nem
mesmo deveriam ter passado pelo filtro da repercussão geral.
A ideia de Barroso é que, nesses casos, o relator apresente
seu relatório e voto em até 20 minutos. O primeiro ministro
divergente teria o prazo de 15 minutos para se manifestar, e os
demais teriam cinco minutos cada para proferir seus votos. As
sustentações orais seriam feitas nos moldes do artigo 937 e os amici
curiae poderiam se manifestar somente por escrito, através do
próprio Plenário Virtual.
Outra proposta é que cada relator de processos com
repercussão geral reconhecida busque dentro de seu acervo aqueles
que versam sobre temas já pacificados pela jurisprudência
dominante do STF. Nesses casos, a partir da intelecção do artigo
323-A do RISTF, seria feito o julgamento por meio eletrônico.
Apesar dessa possibilidade só ter sido incluída no Regimento
em 2010, nada impede que se aplique às repercussões gerais
reconhecidas anteriormente, haja vista tratar-se de norma de
caráter procedimental.
128
Por fim, naqueles casos em que claramente não há qualquer
repercussão geral, ou em que a questão veiculada não é
constitucional, os relatores poderiam submeter, através questão de
ordem ao Plenário, a retirada do reconhecimento de repercussão
geral. São casos que nem deveriam ter passado pelo primeiro juízo
de admissibilidade, realizado no tribunal de origem, mas que, por
algum motivo, galgaram espaço até chegar à Corte.
Entendemos que as modificações aqui apontadas em muito
contribuiriam para modificar o quadro atual do controle difuso
exercido pelo Supremo. Como já se pontuou, mantendo-se a
média de julgamentos atual, seriam necessários mais de 9 (nove)
anos para zerar o estoque de repercussões gerais. Pior, o número
de processos sobrestados na origem só aumenta: hoje são incríveis
1.514.448 processos aguardando o pronunciamento do STF sobre
os temas com repercussão geral.
Assim, a partir de um melhor gerenciamento dos recursos
extraordinários e de seus julgamentos, o Tribunal ganhará em
celeridade, qualidade e transparência na sua jurisdição, afetando
positivamente todo o Poder Judiciário e a vida das pessoas que
dependem de sua atividade.
2.2 REDUÇÃO PARCIAL DAS PRERROGATIVAS
PROCESSUAIS DA FAZENDA PÚBLICA E DO
MINISTÉRIO PÚBLICO COMO FORMA DE SELEÇÃO
NATURAL DOS RECURSOS PROTELATÓRIOS E DE
COMBATE DA MOROSIDADE DOS PROCESSOS
129
Por fim, propomos uma redução parcial das denominadas
prerrogativas processuais da Fazenda Pública e do Ministério
Público.
Acreditamos que duas dessas prerrogativas devem ser
extintas do ordenamento jurídico: o prazo em dobro para recorrer
previsto no art. 183 do CPC/15, além da inexigência de preparo,
positivada no artigo 1007, § 1º do mesmo Codex.
Ressalte-se que não há pretensão de realizar, aqui, um estudo
exaustivo sobre tais prerrogativas, uma vez que isso iria de
encontro ao próprio objeto do trabalho. Assim, nessa parte final
de pesquisa, apenas se busca trazer uma proposta viável de solução
do problema central, sem maiores divagações acerca de conceitos
acessórios.
A maior parte da doutrina se utiliza, como base
argumentativa para defender o uso ilimitado e indiscriminado das
prerrogativas processuais pelo Estado, dos chamados princípios
balizadores da Administração Pública. Entendem que a supremacia
e a indisponibilidade do interesse público devem preponderar, via
de regra, sobre o interesse privado.
Haveria então uma prevalência do princípio da Supremacia
do Interesse Público sobre o princípio da Isonomia, já que o
interesse público seria sempre dotado de superioridade em relação
aos interesses de caráter individual. Isso, assumindo que a
Administração Pública representaria os interesses da coletividade e,
130
desse modo, teria o direito de impor obrigações a terceiros, de
maneira a beneficiar todos.
Feita essa introdução, importa agora fazer uma importante
distinção entre as chamadas prerrogativas e os privilégios. As
primeiras, nas palavras de Willis Santiago Guerra, “seriam
compreendidas como posições de vantagens justificadas pelo
caráter objetivo do valor que preservam, assim como pela
amplitude do interesse da dificuldade envolvidas na espécie”.
Privilégios, por sua vez, seriam “vantagens indevidas, por não
terem base razoável, lógica ou mesmo justificável, relacionando-se
quase sempre com uma proteção subjetiva e direcionada”.
Tratando do tema, Ada Pellegrini Grinover explica que:
Tanto as prerrogativas como os privilégios, no direito atual, só
podem admitir-se por exceção, em razão da diversidade de
posições subjetivas, dentro do ordenamento jurídico. Ambos —
prerrogativas e privilégios — constituem, assim, exceções ao
regime comum: a diferença entre elas está em que o privilégio é
instituído visando à proteção de interesses pessoais, enquanto a
prerrogativa decorre do interesse público.
Os conceitos de privilégios e prerrogativas em muito se
imbricam com a nova formulação de interesse público que tem
sido trazida pela doutrina, dividindo-o em interesse primário e
secundário.
Nessa construção, o interesse primário se concretizaria nas
finalidades próprias e constitucionalmente estabelecidas que o
131
Estado deva promover. Cuida-se dos interesses que abrangem toda
a sociedade, aqueles que fundamentam a própria existência do
Estado, como é o caso da justiça, do bem-estar social, da
segurança, entre outros.
Por outro lado, o interesse secundário teria por escopo
apenas o interesse da pessoa jurídica de direito público em si
mesmo, enquanto parte de uma relação jurídica, atuando em nome
e pelo interesse do Erário. Seria o interesse particular do próprio
Estado, quando representado pelas suas pessoas jurídicas: União,
Estados membros, Municípios e suas Autarquias, entre outras.
Celso Antônio Bandeira de Mello, tratando dessa distinção,
afirma que os primários seriam “os interesses da coletividade como
um todo”, enquanto que os secundários seriam aqueles interesses
“que o Estado (pelo só fato de ser sujeito de direitos) poderia ter
como qualquer outra pessoa, isto é, independentemente de sua
qualidade de servidor de interesses de terceiros: os da
coletividade”.
Nessa formulação do interesse público, entendemos que as
prerrogativas da Fazenda Pública em grande parte dos casos em
que são aplicadas enquadram-se no conceito de interesse público
secundário, sendo utilizadas como meras prerrogativas visam
preservar ao máximo o Erário e tornar confortável o litígio para o
Estado.
A supremacia do interesse público diz respeito aos interesses
da coletividade,os quais deve a Administração Pública representar.
132
Somente visando o benefício de todos se justifica a possibilidade
dela impor obrigações a terceiros, motivo pelo qual, existindo
conflito entre interesse público e o interesse particular, o primeiro
deve sempre prevalecer.
Desse modo, algumas das prerrogativas atribuídas ao
Estado, enquanto parte litigante, devem ser repensadas na
atualidade. Isso, em respeito não só aos princípios da supremacia
do interesse público e da isonomia, como também aos princípios
da eficiência e da duração razoável do processo.
A primeira delas é o prazo em dobro para recurso. Como se
sabe, o Código de Processo Civil, promulgado em 2015, modificou
a disciplina dos prazos atinentes às entidades públicas previstas
anteriormente no artigo 188 do CPC/73.
De acordo com o novo artigo 183, a União, os Estados, o
Distrito Federal, os Municípios e suas respectivas autarquias e
fundações de direito público passaram a gozar de “prazo em dobro
para todas as suas manifestações processuais, cuja contagem terá
início a partir da intimação pessoal”.
Houve, desse modo, unificação dos prazos da Fazenda
Pública pelo novo CPC, sendo contados todos em dobro a partir
de agora. Na prática, apenas houve redução do prazo para
contestar, que antes era computado em quádruplo.
Não questionamos aqui o novo prazo em relação à
apresentação de contestação pelo Poder Público: acreditamos que
o prazo dobrado se justifica, na medida em que é patente a maior
133
dificuldade do ente público e da administração indireta em
formular sua defesa.
Por outro lado, após esse ponto, que de fato é decisivo para
a formação do processo que envolve matéria fática, não mais
parece se justificar o aumento de prazos recursais, uma vez que a
principal dificuldade para o exercício da ampla defesa já foi suprida
com a contestação e as exceções porventura trazidas ao processo.
José Roberto de Moraes explica que Alfredo Buzaid, patrono
do CPC/73, assentava seu pensamento igualitário na premissa de
que prazos diferenciados só existiriam para privilegiar o servidor
público e nem sempre de forma eficiente e diligente; não sendo
possível o legislador pressupor tal ânimo decadente, não se
justificava nenhuma diferenciação.
Desse modo, a conclusão que se chega é de que as
prerrogativas processuais somente poderiam ser consideradas
constitucionais quando a Administração Pública (Fazenda Pública)
estiver em juízo representando, de fato, o interesse da coletividade
(interesse público primário).
Mas como ter certeza de que a Administração está agindo de
tal modo? Para tanto, adotamos a solução trazida por Willis
Santiago Guerra Filho, sugerindo o retorno do instituto constante
do Código de Processo Civil de 1939, denominado sistema do prazo
judicial.
No supracitado sistema, a parte deve apresentar ao juízo, de
maneira fundamentada, as razões da necessidade do prazo dobrado
134
para cada caso concreto, ficando ao arbítrio do magistrado
(também de modo fundamentado) a concessão da dilação do
prazo.
A fundamentação do magistrado deveria se pautar
fundamentalmente nos critérios da proporcionalidade e da
razoabilidade, entendendo-se presentes ambos quando houver: (a)
adequação, que exige que as medidas adotadas pelo Poder Público
se mostrem aptas a atingir os objetivos pretendidos; (b)
necessidade ou exigibilidade, que impõe a verificação da
inexistência de meios menos gravoso para atingimento dos fins
visados; (c) proporcionalidade em sentido estrito, que é a
ponderação entre ônus imposto e o benefício trazido para
constatar se é justificável a interferência na esfera dos direitos do
cidadão.
Com base nesses elementos, deve o magistrado buscar
garantir a real necessidade de concessão de prazo diferenciado,
evitando criar um quadro anti-isonômico no processo. Todavia,
uma vez cumpridos esses requisitos, as prerrogativas se
configuram como legítimas.
Sobre o tema, Gustavo Binenbojm assevera que três
condições seriam necessárias para que se considerem as
prerrogativas da Fazenda Pública legítimas, sob o prisma
constitucional. São elas:
135
• a compreensão do princípio da isonomia, isto é, a
discriminação criada em desfavor dos particulares seja apta
a viabilizar o cumprimento pelo Estado dos fins que lhe
foram cometidos pela Constituição e pela lei;
•o grau ou medida da compreensão da isonomia, isto
é, a extensão da discriminação criada em desfavor dos
particulares deve observar o limite do estritamente
necessário e exigível para viabilizar o cumprimento pelo
Estado dos fins que lhe foram cometidos pela Constituição
ou pela lei;
• por fim, o grau ou medida do sacrifício imposto à
isonomia deve ser compensado pela importância da
utilidade gerada, numa análise prognóstica de custos para
os particulares e benefícios para a coletividade como um
todo
Note-se que, apesar de haver com esse procedimento um
óbvio acréscimo no trabalho dos juízes na medida em que seria
necessária a análise individualizada de cada caso em que a Fazenda
Pública fosse parte acreditamos que esse acréscimo representará
uma economia processual mais à frente.
Além disso, a possibilidade de utilização de instrumento
recursal pela Fazenda Pública, com vistas a rever a decisão
denegatória de dilação de prazo prolatada pelo juiz, em nada
atrapalharia o regular andamento do processo, desde que não fosse
136
possível atribuir-lhe efeito suspensivo. Assim, desde que não se
sobrecarregue o primeiro grau historicamente mais mal
estruturado que os tribunais com a análise de recursos versando
sobre o tema, não há que se falar em prejuízo para a duração
razoável do processo.
Isso porque, não raro, processos em que o Estado é parte
são objetos de recursos em sequência, mesmo sem qualquer
expectativa de êxito, objetivando tão somente protrair a satisfação
do particular e resguardar o Erário pelo maior tempo possível. Tal
realidade gera consequências gravíssimas, não só para quem litiga
contra a Fazenda Pública, mas também para o próprio Poder
Judiciário, que vive assoberbado de processos envolvendo o setor
público.
Igualmente, acreditamos que não se justifica a concessão de
prazos dilatados para o Ministério Público. A pura vontade do
legislador de padronizar as prerrogativas para todos os que estão
atuando em nome do Poder Público não parece ser suficiente para
fundamentar essa situação.
O que se pode fazer, como já apontado aqui, é conceder
também ao Ministério Público a possibilidade de apresentar ao
juízo petição requerendo a dilação de seus prazos processuais,
desde que tenha razões suficientes para tanto.
Por fim, faz-se necessário abordar outro ponto dos
privilégios processuais da Fazenda Pública: o não pagamento de
preparo pela Fazenda Pública.
137
O argumento usualmente utilizado para defender a medida é
de que uma possível cobrança de preparo implicaria num
contrassenso, uma vez que os recursos são todos públicos,
podendo então gerar confusão patrimonial. Além disso, esbarraria
no limite da imunidade recíproca , previsto no artigo 150, VI,
alínea a da Constituição.
Entendemos pela extinção da previsão pelo resultado que
essa ausência de pagamento de custas gera, em termos de retardo
processual. Conforme assevera Fabio Periandro de Almeida
Hirsch, a faculdade dada aos procuradores de, no fim do último
dia do prazo dobrado, imprimir uma peça padronizada e
apresentá-la no protocolo, “como forma de cumprir seu ônus da
impugnação universal – obrigação de recorrer de tudo o que for
contrário ao Erário, ainda que desprezível , representa uma das
malversações do sistema de prerrogativas_.
Importante notar que as custas, para além da destinação de
sua receita , funcionam como espécie de filtro natural dos recursos:
sendo atribuído aos procuradores o pagamentode custas em cada
processo que lhes é dado, o caminho natural é que se eles passem a
se concentrar mais nas teses defensivas com maior possibilidade de
êxito na instância superior. Além disso, a rigorosidade na seleção
dos recursos também decorrerá da dificuldade natural de
arregimentar as estruturas funcionais do Estado para quitação
dessas despesas.
138
Até o momento, o que tem ocorrido é a utilização da
prerrogativa de isenção de custas para perpetuar uma situação de
abuso de direito, uma vez que o retardo do trânsito em julgado
passa a ser um fim em si mesmo. Em não sendo possível conseguir
a revisão da decisão em instância superior, ao menos se consegue
postergar ao máximo a definitividade da ordem de pagamento do
débito.
Não há como olvidar do paradoxo que isso gera: como pode
o Estado, criado justamente para proteger os cidadãos, provocar
um dano injusto e litigar até a exaustão, com o único objetivo de
postergar a satisfação de prestação juridicamente devida? Onde
está o interesse público primário nesse estado de coisas?
Além disso, concordamos com André Ramos Tavares e
Fábio Periandro Hirsch , no sentido de impor à parte recorrente
não só o pagamento de custas, como também a prestação de
caução. Dessa forma, “uma vez não admitido ou improvido o
recurso, reverter-se-ia tanto em benefício da Justiça como da parte
contrária, que afinal deve mais uma vez arcar com a mazela da
morosidade”.
Ademais, para não ferir o princípio da isonomia, ambas as
partes deveriam ficar sujeitas ao pagamento de caução.
Entendemos como acertada a medida, uma vez que a seleção dos
recursos pelo Poder Público não pode se basear no princípio da
dúvida gerar a recorribilidade. Pelo contrário: o melhor (para
139
todos) é que haja de fato uma seleção dos recursos, de modo a
efetivamente se respeitar o direito do particular e desafogar a já
saturada máquina do Judiciário.
2.3 ADEQUAÇÃO ESTRUTURAL E EXPANSÃO
QUANTITATIVA DOS NUGEP
Em outubro de 2012, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ),
percebendo a falta de regulamentação quando ao procedimento de
julgamento por amostragem dos recursos extraordinários, o que
gerava verdadeiro engessamento do sistema de remessa de
recursos repetitivos ao Supremo publicou a Resolução
Normativa nº 160 , instituindo a criação do Núcleo de
Repercussão Geral e Recursos Repetitivos (NURER).
A ideia era que cada Tribunal da Federação instituísse seu
próprio NURER, que deveria atuar ao lado dos órgãos
competentes para o processamento e admissibilidade de recursos
extraordinários e especiais. Com isso, esperava o CNJ racionalizar
e aperfeiçoar o gerenciamento dos processos diante dos casos
sobrestados, porque repetitivos, pelo STF e pelo STJ.
Entretanto, após a entrada em vigor do novo Código de
Processo Civil, em março de 2016, o CNJ se viu obrigado a
ampliar a competência desses núcleos, de modo a abarcar não só
os recursos repetitivos direcionados aos tribunais superiores, como
também os incidentes de assunção de competência e de resolução
140
de demandas repetitivas. Essa exigência consta do artigo 979, §§ 1º
e 3º do novo diploma normativo.
Assim, foi publicada nova Resolução em 13 de julho de
2016, a de nº 235 , criando os Núcleos de Gerenciamento de
Precedentes (NUGEP) e visando a “padronização de
procedimentos administrativos decorrentes de julgamentos de
repercussão geral, de casos repetitivos e de incidente de assunção
de competência previstos na Lei 13.105” nos 91 (noventa e um)
tribunais existentes na Federação.
Essa padronização passa pelas seguintes medidas, a serem
adotados pelos Núcleos:
•criação, no âmbito do CNJ, de um banco nacional de
dados com informações acerca da repercussão geral, dos
casos repetitivos e dos incidentes de assunção de
competência ocorridos no âmbito do STF, do STJ, do
TST, do TSE, do STM, dos tribunais regionais federais,
dos tribunais regionais do trabalho e dos tribunais de
justiça dos estados e do Distrito Federal;
•manutenção, alimentação e disponibilização do banco de
dados supra referido, com informações atualizadas sobre
os processos sobrestados no Estado ou na região,
conforme o caso, bem como nas turmas e colégios
recursais e nos juízos de execução fiscal;
141
•envio constante de informações ao NUGEP do CNJ,
assim como a manutenção, na página do tribunal na
internet, dos dados atualizados de seus integrantes, tais
como nome, telefone e e-mail, com a principal finalidade
de permitir a integração entre os tribunais do país;
•acompanhamento dos processos submetidos à técnica
dos casos repetitivos e da assunção de competência em
todas as suas fases, alimentando o banco de dados
nacional;
•acompanhamento da tramitação dos recursos
selecionados pelo Tribunal como representativos da
controvérsia encaminhados ao STF, ao STJ e ao TST (art.
1.036, § 1º, do CPC), a fim de subsidiar a atividade dos
órgãos jurisdicionais competentes pelo juízo de
admissibilidade e pelo sobrestamento de feitos,
alimentando o banco de dados;
•informação acerca da publicação e o trânsito em julgado
dos acórdãos dos paradigmas;
•recepção e compilação dos dados referentes aos recursos
sobrestados no Estado ou na Região, conforme o caso,
bem como nas turmas e colégios recursais e nos juízos de
execução fiscal;
142
•informação ao NUGEP do CNJ acerca da existência de
processos com possibilidade de gestão perante empresas,
públicas e privadas, bem como agências reguladoras de
serviços públicos, para implementação de práticas
autocompositivas;
Entendemos que tal iniciativa do CNJ é digna de aplausos,
dada a atual sistemática da repercussão geral e a dinâmica que vem
sendo empregada aos casos em que esta se mostra repetitiva.
No Brasil, percebe-se que ainda está presente a equivocada
ideia de que não haveria um sistema de precedentes, motivo pelo
qual muitos órgãos de primeira e segunda instância do Judiciário
ignoram, de forma deliberada ou por pura e simples omissão, a
existência de decisões vinculativas dos tribunais superiores,
prejudicando a própria funcionalidade da prática forense no país.
Entendemos, todavia, que a tendência é mesmo a
consagração de um sistema de precedentes obrigatórios no Brasil,
numa aproximação inevitável do nosso tradicional sistema de civil
law com o common law. Aliás, como assevera Fredie Didier Jr. , esse
acolhimento do sistema de precedentes é aparentemente
inquestionável, em especial após o advento do Código de Processo
Civil de 2015, que em muito alterou o tratamento do tema no
nosso ordenamento jurídico.
Com base na resolução, cada tribunal teria o prazo de 90
(noventa) dias, a contar da data de publicação da resolução (13 de
143
julho de 2016), para organizar o seu NUGEP, como unidade
administrativa permanente.
Ocorre que como infelizmente é de praxe na
Administração Pública brasileira _ esse prazo inicialmente imposto
foi desobedecido pelos tribunais. De acordo com o último
levantamento feito pelo CNJ, em novembro de 2016, apenas 22
dos 91 tribunais pátrios instalaram seus núcleos.
Outra situação que preocupa é a referente à criação do
banco de dados nacional com informações acerca da repercussão
geral, dos casos repetitivos e dos incidentes de assunção de
competência dos tribunais.
A instituição do banco de dados é, sem dúvida, a principal
medida anunciada pela Resolução nº 235/16, uma vez que sua
instituição possibilitará, em tese, a ampla consulta às informações
de repercussão geral e demandas repetitivas, agilizando
significativamente o julgamento dos processos.
Contudo, não obstante tenha sido estabelecido prazo até o
final de 2016 para que o referido banco fosse disponibilizado em
plataforma online, até o presente momento não há notícia de que o
CNJ assim procedeu. Isso preocupa, tendo em vista a latentedisfuncionalidade do sistema de precedentes, hoje, no Brasil.
Por fim, mesmo nos tribunais em que os NUGEP já foram
(mesmo que apenas formalmente) estabelecidos, não é raro
encontrar problemas operacionais no sistema disponível para o
acesso público. No Tribunal de Justiça da Bahia, por exemplo, em
144
todas as visitas que fizemos à página virtual do órgão , durante o
período de construção deste trabalho, o link de acesso ao sistema
encontrava-se disfuncional.
Os dados acima são alarmantes. É de fundamental
importância que as cúpulas administrativas dos tribunais não ajam,
em relação aos NUGEP, de modo meramente pro forma. Ou seja,
não basta somente instituir os núcleos, sem se preocupar com a
real efetividade do serviço, com a adequação estrutural desse
órgão, com o próprio fim para o qual ele foi idealizado.
Agindo dessa maneira, os tribunais vão de encontro à
própria função social do direito, que é harmonizar os direitos e
garantias do homem e do cidadão, ao lado da criação de
instrumentos de políticas públicas que permitam que esses direitos
e garantias se efetivem no plano fático . A ação pro forma inviabiliza
essa efetividade das normas jurídicas, gerando danos e
impossibilitando mudanças reais no panorama crítico vivido pelo
Poder Judiciário atualmente.
Assim, configura-se urgente que os tribunais brasileiros que
ainda não instituíram os NUGEP, assim como aqueles que
instituíram, mas apenas de modo formal, procedam a uma
adequação estrutural para possibilitar a efetivação do quanto
exposto na Resolução nº 235/16 do CNJ.
Além disso, ao próprio CNJ cabe respeitar seu ato
normativo, colocando em prática a construção do banco nacional
de dados previsto na resolução. Com essa medida, espera-se que
145
ocorra melhora significativa no modus operandi dos tribunais em
relação aos casos envolvendo precedentes obrigatórios.
CONCLUSÃO
O presente trabalho teve como base a investigação dos
institutos do recurso extraordinário e da repercussão geral, de
modo a esmiuçar seu funcionamento e, com base nos elementos
coletados, oferecer propostas coerentes e viáveis de
desafogamento do Judiciário brasileiro nessa matéria.
Desse modo, infere-se que é possível combater o acúmulo
de processos sobrestados no âmbito do Supremo Tribunal Federal
em decorrência de reconhecimento de repercussão geral. Para
tanto, são necessárias adequações nos procedimentos utilizados
pela Corte para seleção de novos casos com repercussão geral,
bem como nos julgamentos dos casos novos e antigos.
Igualmente, é fundamental repensar a forma como
funcionam os Núcleos de Gerenciamento de Precedentes
(NUGEP): atualmente, como visto no decorrer do trabalho, eles
beiram a disfuncionalidade, fugindo da proposta inicialmente
projetada pelo Conselho Nacional de Justiça.
Por fim, entende-se como razoável a supressão de algumas
das prerrogativas processuais da Fazenda Pública e do Ministério
Público. Não se ignora que se trata de questão polêmica, já de há
muito discutida em sede doutrinária. Contudo, conforme
146
fundamentamos, não se pode simplesmente pressupor que todos
os prazos em dobro para o Estado agir em juízo são necessários.
De fato, alguns são, mas boa parte não pode ser assim
considerada, e são esses que acabam por tornar o já saturado
Poder Judiciário ainda mais moroso.
Desse modo, a concessão “caso a caso”, pelo juiz, dos
prazos dobrados para recorrer e de gratuidade de preparo
funcionariam, a nosso ver, como uma forma de seleção daqueles
recursos que realmente têm chance de revisão nas instâncias
superiores, excluindo-se por seleção natural aqueles que apenas se
prestam a protelar o pagamento do quantum devido pelo Estado ao
particular.
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Tribunal de Justiça, no Tribunal Superior Eleitoral, no Tribunal
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http://seer.uenp.edu.br/index.php/argumenta/article/view/72
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152
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Resultados da
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http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=estatistica&pagina=movimen%20toProcessual.
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=estatistica&pagina=movimen%20toProcessual.
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=estatistica&pagina%20=sobrestadosrg
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=estatistica&pagina%20=sobrestadosrg
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153
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DA BAHIA. Portal
TJBA. NUGEP. Disponível em: <http://www.tjba.jus.br/nurer>.
Acesso em 02 de fev. 2017.
http://www.tjba.jus.br/nurer
154
CAPÍTULO 5
ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO
FUNDAMENTAL: ANÁLISE DA SUA
(IN)EFETIVIDADE APÓS 18 ANOS DA LEI 9.882/99
Gabriella dos Santos Machado
RESUMO: O presente trabalho realiza o estudo dos principais artigos
da Lei nº 9.882/99 que impactam na (in)efetividade da arguição de
descumprimento de preceito fundamental, além de dissertar sobre as
factíveis soluções apontadas pela doutrina e jurisprudência para o
referido instituto alcançar sua máxima efetividade aguardada. Desse
modo, alguns aspectos controversos acerca da ADPF serão analisados,
como o alcance do seu objeto e as modalidades da arguição, a discussão
sobre a interpretação literal do princípio da subsidiariedade e quais são os
principais argumentos favoráveis e adversos, delineados pela doutrina,
concernentes à permanência da arguição no ordenamento jurídico
brasileiro.
PALAVRAS-CHAVE: Efetividade; Arguição de descumprimento de
preceito fundamental; Lei nº 9.882/99; objeto; espécies; soluções para
(in)efetividade.
ABSTRACT: The present work studies the main articles of Law
9.882/99 that impact on the (in) effectiveness of the ADPF, as well as
on the feasible solutions indicated by the doctrine and jurisprudence for
said institute to reach its maximum effectiveness expected. Thus, some
controversial aspects of the ADPF will be analyzed, such as the scope of
its object and the modalities of the ADPF, the discussion on the literal
interpretation of the principle of subsidiarity and what are the main
155
favorable and adverse arguments, outlined by the doctrine, concerning
the permanence of the ADPF in the Brazilian legal system.
KEYWORDS: Effectiveness; ADPF; Law 9.882/99; object; species;
solutions to (in) effectiveness.
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. A arguição de descumprimento de
preceito fundamental. 2.1 Objeto. 2.2 Espécies. 2.3
Subsidiariedade. 3. Críticas e defesas quanto à permanência da
arguição de descumprimento de preceito fundamental no
ordenamento jurídico brasileiro. 5. Conclusão. 6. Referências.
1. INTRODUÇÃO
A arguição de descumprimento de preceito fundamental
(ADPF) foi consagrada de maneira inédita pela Constituição
Federal de 1988, originalmente prevista em seu artigo 102,
parágrafo único e posteriormente transformado em § 1º, pela
Emenda Constitucional nº 03/93 e somente após (11) onze anos o
instituto foi regulamentado pela Lei nº 9.882/99.
A lei regulamentadora da ADPF prevê duas modalidades de
arguição de descumprimento, quais sejam, a arguição direta ou
autônoma e a arguição incidental. O instituto da arguição congloba
na via concentrada elementos da fiscalização abstrata e também
156
incidental, de modo a se aproximar da via difusa, denotando uma
originalidade e um caráter sui generis da ação. Apesar da liminar
proferida na ADIN nº 2.231 ter suspendido a aplicação da
arguição de descumprimento de preceito fundamental em sua
espécie incidental, a doutrina desenvolve estudos sobre a
viabilidade prática da referida espécie de arguição.
Destaca-se que até o presente momento, a ADPF é um
instituto que não detém suas nuances completamente definidas, de
modo que a Constituição não traz nem mesmo o seu objeto.
Ademais, mesmo após 18 anos da edição da Lei nº 9.882, de 03 de
dezembro de 1999, ainda existem dúvidas acerca do controverso
instituto.
A solução de alguns problemas que circundam a arguição
(como a definição mais precisa do seu objeto e a dúvida da
intepretação literal e excessiva do princípio da subsidiariedade) é
de suma importância para a sua efetividade, de modo que venha a
se tornar um dos instrumentos mais relevantes para a garantia dos
princípios democráticos fundamentais respaldados na
Constituição.
Não há dúvida de que a ADPF é uma inovação das mais
importantes no sistema de controle de constitucionalidade
brasileiro e se devidamente potencializada e aplicada, tende a se
tornar um instrumento apto para o aperfeiçoamento do modelo
atualmente vigente.
157
Nessa linha de raciocínio, o presente trabalho debruça-se no
estudo dos principais artigos da Lei nº 9.882/99 que culminam na
(in)efetividade da arguição de descumprimento de preceito
fundamental e nas possíveis soluções apontadas pela doutrina e
jurisprudência para o referido instituto alcançar sua máxima
efetividade esperada.
Desse modo, o ponto nevrálgico do presente trabalho é a
análise dos principais argumentos favoráveis ou adversos,
apontados pela doutrina, pertinentes à permanência ou não da
ADPF no ordenamento jurídico brasileiro.
2. A ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE
PRECEITO FUNDAMENTAL
A arguição de descumprimento de preceito fundamental é
um instituto inédito na jurisdição constitucional brasileira, tendo
em vista que a Constituição da República de 1988 foi a primeira
Carta Política a introduzir a referida espécie de controle
concentrado na história constitucional brasileira.A ADPF estava originalmente prevista no artigo 102,
parágrafo único da Magna Carta de 1988, porém com o advento da
Emenda Constitucional nº 03/93, a arguição passou a ter previsão
no seu parágrafo 1º e a sua redação pode ser apontada como uma
158
das mais enigmáticas de toda a Constituição. O supracitado artigo
expressamente estabelece:
Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal,
precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-
lhe:
(...)
§ 1.º A argüição de descumprimento de preceito
fundamental, decorrente desta Constituição, será
apreciada pelo Supremo Tribunal Federal, na
forma da lei [grifo nosso].
Verdade seja dita, a interpretação do art. 102, §1º do Texto
Constitucional propicia somente duas conclusões além da própria
denominação da arguição: de início, a competência para seu
processamento e julgamento, a qual encarrega ao Supremo
Tribunal Federal; seguidamente, a previsão da necessidade de lei
regulamentadora da medida.
Em função da norma constitucional sujeitar a apreciação da
arguição na forma da lei, o Supremo Tribunal Federal assentou sua
posição no sentido de que o aludido dispositivo constitucional
instituidor da arguição era de eficácia limitada e, portanto, carente
de regulação legal. Apesar da arguição ter sido criada em 1988, a
sua norma regulamentadora só surgiu em 03 de dezembro de 1999
(pasmem!), isto é, 11 (onze) anos após o nascimento da ação.
159
Nessa linha de raciocínio, após grande demora, a ADPF foi
finalmente disciplinada pelo legislador federal através da Lei nº
9.882 de 03 de dezembro de 1999. A mencionada lei
regulamentadora tem causado não somente dúvidas e
perplexidades a respeito do instituto, mas também grandes reações
da doutrina, tanto dos seus críticos como dos seus proclamadores.
A constitucionalidade da referida lei da arguição já está sendo
questionada em bloco por meio da ADIN nº 2.231/8, proposta
pelo Conselho Federa da Ordem dos Advogados do Brasil, sendo
Relator o Ministro Neri da Silveira e ainda está aguardando o
julgamento.
A consagração da Lei nº 9.882/99 não trouxe a solução para
a aplicação da arguição, ao revés, iniciou uma série de divergências
acerca do alcance, espécies e objetos passíveis de impugnação pela
ADPF, uma vez que a norma incumbida de explicitar o sentido do
Texto Constitucional e disciplinar o real alcance do instituto
acabou por deixá-lo lacônico, transferindo para o Supremo
Tribunal Federal um amplo espaço de conformação da medida por
via de construção jurisprudencial.
Desse modo, a arguição de descumprimento de preceito
fundamental consiste em uma ação judicial especial designada a
provocar a jurisdição constitucional concentrada do Supremo
Tribunal Federal para a tutela da supremacia dos preceitos mais
relevantes da Constituição da República. O Egrégio Pretório
160
Supremo tem sinalizado nas suas decisões que a ADPF veio
completar o sistema de controle objetivo de constitucionalidade no
ordenamento jurídico, porém, para tanto, faz-se necessário traçar
os verdadeiros limites e o real alcance da medida para efetivar o
sistema de controle concentrado brasileiro.
2.1 OBJETO
O artigo 1º da Lei nº 9.882/99 disciplina o objeto da ADPF,
dispondo expressamente o seguinte:
Art. 1º A argüição prevista no § 1º do art. 102 da
Constituição Federal será proposta perante o
Supremo Tribunal Federal, e terá por objeto
evitar ou reparar lesão a preceito fundamental,
resultante de ato do Poder Público.
Parágrafo único. Caberá também argüição de
descumprimento de preceito fundamental:
I - quando for relevante o fundamento da
controvérsia constitucional sobre lei ou ato
normativo federal, estadual ou municipal,
incluídos os anteriores à Constituição; (Vide
ADIN 2.231-8, de 2000)
II – (VETADO) [grifo nosso]
A arguição de descumprimento de preceito fundamental, tal
qual como estabelecida no artigo 1º da Lei nº 9.882/99, é aplicada
para evitar ou reparar lesão a preceito fundamental resultante de
ato do Poder Público, do mesmo modo quando for relevante o
fundamento da controvérsia constitucional sobre lei ou ato
normativo federal, estadual ou municipal, inclusive os anteriores à
promulgação da Carta Magna.
161
De acordo com a própria redação do art. 1º, caput, da Lei nº
9.882/99 é possível perceber a grande abrangência da ADPF, que
pode ser manuseada não somente com o propósito de censurar
atos normativos, mas da mesma forma atos administrativos e até
mesmo atos jurisdicionais estão sujeitos agora ao crivo do controle
concentrado de constitucionalidade. Segundo o douto Daniel
Sarmento, a expressão ‘ato do Poder Público’ deve ser assimilada
em seu sentido mais lato, de modo que alcança também os atos
privados que agem investidos de autoridade pública, como os
praticados por empresas concessionárias e permissionárias de
serviço público.
Importante observar que no julgamento da ADPF nº 80, o
Supremo Tribunal Federal decidiu que as súmulas e enunciados do
Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça e dos
demais Tribunais não podem ser objeto de arguição de
descumprimento de preceito fundamental. Ademais, no
julgamento da ADPF nº 147 o STF reconheceu que a súmula
vinculante também não pode ser objeto de ADPF.
Por fim, faz-se mister destacar que no julgamento da ADPF
nº 73 o STF discutiu o cabimento de ADPF cujo ato lesivo era
veto presidencial, de modo que fixou o entendimento no sentido
de sua inadmissibilidade nessa situação. Assim, a Corte Suprema
entendeu que a análise judicial do veto do presidente constituiria
uma violação ao princípio da separação de poderes e prevalece, até
162
o momento, a inteligência de que o veto não pode ser objeto de
ADPF.
Nessa linha de raciocínio, segue tabela sistematizando as
hipóteses de objeto da arguição permitidas e vedadas no controle
de constitucionalidade segundo a jurisprudência e doutrina
supracitada anteriormente:
NÃOPODE
ser objeto da
ADPF:
Súmulas não
vinculantes
NÃO podem
ser objeto de
ADPF.
Súmulas
vinculantes
também NÃO
podem ser
objeto de
ADPF.
Veto do
Presidente da
república NÃO
pode ser objeto
de ADPF.
Decisões
judiciais
também NÃO
podem ser
objeto de
ADPF.
PODE ser
objeto da
ADPF:
Lei Municipal
que viole
diretamente a
CRFB em um
preceito
fundamental.
Lei distrital de
natureza
municipal caso
viole a CRFB
em um
preceito
fundamental.
Normas pré-
constitucionais.
Atos
normativos
secundários.
163
Segundo o diploma legal regulador do instituto, a ADPF tem
por propósito evitar ou reparar lesão a preceito fundamental
provocada por ato do Poder Público, evidenciando, dessa forma, o
caráter preventivo e repressivo da arguição, apresentando como
pressuposto a comprovação do nexo de causalidade entre a lesão e
o ato do Poder Público.
No que concerne ao objeto da arguição de descumprimento
de preceito fundamental, o artigo 1º da Lei nº 9.882/99 fixou que a
ADPF será cabível contra ato do Poder Público, bem como
quando for relevante o fundamento da controvérsia constitucional
sobre lei ou ato normativo federal, estadual ou municipal, incluídos
os anteriores à Constituição. Nessa linha de raciocínio, o objeto da
arguição é mais amplo do que da ADIN genérica que abrange
apenas lei ou ato normativo federal ou estadual, conforme
estabelece o art. 102, I, "a", da Constituição Federal:
Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente,
a guarda da Constituição, cabendo-lhe:
I - processar e julgar, originariamente:
a) a ação direta de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo
federal ou estadual e a ação declaratória de constitucionalidade de
lei ou ato normativo federal [grifo nosso];
É consabido que tanto a Constituição da República de 1988,
como a Lei infraconstitucional nº 9.882/99, não delimitaram o164
conceito de preceito fundamental, incumbindo esta tarefa à
doutrina e, em última instância, ao Supremo Tribunal Federal.
Desse modo, a locução preceito fundamental consiste na
terminologia de maior polêmica a respeito da arguição de
descumprimento, sendo cerne de uma grande variedade de estudos
por parte da doutrina e jurisprudência.
Indiscutivelmente, preceito fundamental não corresponde a
todo e qualquer preceito da Constituição. De outra forma, faz-se
mister reconhecer, por conta do princípio da unidade, que não
existe hierarquia jurídica entre as normas constitucionais. Contudo,
é possível realizar uma distinção entre os conceitos de Constituição
material e Constituição formal e, mesmo entre as normas
materialmente constitucionais, haverá aquelas que se especificam
por seu caráter estrutural ou por sua estatura axiológica.
Assim, a expressão preceito fundamental implica no
reconhecimento de que a violação de determinadas normas (mais
frequentemente princípios, mas casualmente regras) resulta em
consequências mais graves para o sistema jurídico como um todo.
A doutrina majoritária sustenta que apesar da locução
preceito fundamental constituir-se em conceito jurídico
indeterminado, existe um conjunto de normas que inegavelmente
devem ser conglobadas no domínio dos preceitos fundamentais.
Nesse rol exemplificativo estão abrigados os fundamentos e
objetivos da República, as decisões políticas estruturantes
165
(princípios fundamentais: arts. 1º ao 4º da CRFB/88), os direitos
fundamentais individuais, coletivos, políticos e sociais (arts. 5º e
seguintes da CRFB/88), as cláusulas pétreas (art. 60, §4º da
CRFB/88) e os princípios constitucionais sensíveis (art. 34, VII da
CRFB/88).
Desse modo, ao valer-se de um conceito jurídico
indeterminado, a Lei nº 9.882/99 forneceu uma maior
maleabilidade à jurisprudência da Corte Suprema, que poderá
organizar com mais facilidade alterações no mundo dos fatos, tal
como a evolutiva interpretação da Carta Magna. Assim, caberá ao
Supremo Tribunal Federal definir o conceito de preceito
fundamental, sempre a partir da consideração do dado axiológico
subjacente ao conjunto de normas constitucionais.
2.2 ESPÉCIES
A doutrina majoritária tem extraído na Lei nº 9.882/99 duas
espécies ou tipos de arguição de descumprimento de preceito
fundamental: a arguição autônoma e a arguição incidental. A
arguição autônoma tem sua previsão no art. 1º, caput, da Lei de
regência, cujo texto descreve que “a argüição prevista no § 1º do
art. 102 da Constituição Federal será proposta perante o Supremo
Tribunal Federal, e terá por objeto evitar ou reparar lesão a
preceito fundamental, resultante de ato do Poder Público”. E a
espécie incidental decorreria do mesmo art. 1º, parágrafo único, “I
166
- quando for relevante o fundamento da controvérsia
constitucional sobre lei ou ato normativo federal, estadual ou
municipal, incluídos os anteriores à Constituição”.
Vale a pena ressaltar a posição, divergente da maioria
doutrinária, defendida pelo douto Dirley da Cunha Júnior que
assegura que a divulgação de tipologias de arguições não é
apropriada, tendo em vista que pode verter uma equivocada ideia
de que a Lei nº 9.882/99 estabeleceu mais de uma modalidade de
ADPF, para além daquela constitucionalmente prevista.
Desse modo, Dirley sustenta que a arguição possui uma
natureza única, já que da maneira que a aludida ação foi consagrada
pela Constituição Federal e regulada pela Lei nº 9.882/99, mesmo
quando se tratar da dita modalidade incidental, a ADPF sempre vai
ser uma ação direta, suscitada por petição inicial, devendo conter a
indicação do preceito fundamental que se considera violado, a
indicação do ato questionado; a prova da violação do preceito
fundamental; o pedido, com suas especificações; e a comprovação
da existência de controvérsia judicial relevante sobre a aplicação do
preceito fundamental que considera violado, conforme a previsão
do artigo 3º da Lei nº 9.882/99. Por conseguinte, rigorosamente a
ADPF é sempre uma ação autônoma, somente se distinguindo no
que concerne aos seus requisitos processuais.
Outro fundamento a favor dessa posição é com relação aos
legitimados para a propositura da ação, já que, mesmo na hipótese
167
do artigo 1º, parágrafo único, inciso I da Lei nº 9.882/99, a
arguição depende da iniciativa de um dos sujeitos previstos pelo
artigo 103 da Constituição Federal, segundo o que fixa o artigo 2º
da supracitada Lei, in verbis:
Art. 2º Podem propor argüição de descumprimento de
preceito fundamental:
I - os legitimados para a ação direta de
inconstitucionalidade;
Nessa linha de raciocínio, para parcela da doutrina, como
Dirley da Cunha Júnior, o art. 1º da Lei nº 9.882/99 não fixa
diferentes modalidades de arguição de descumprimento de
preceito fundamental, somente distingue as formas de
processamento e cientifica quais são os objetos passíveis de
discussão via ADPF, destacando que, para os atos normativos,
existe a possibilidade de serem objeto de arguição, além dos
federais e estaduais, os municipais, bem como os anteriores à
Constituição, requisitada a relevância da controvérsia
constitucional.
Contudo, a doutrina preponderante assevera ser possível
identificar duas modalidades de arguição de descumprimento de
preceito fundamental, uma direta ou autônoma e outra indireta ou
incidental, como afirma o doutrinador Manoel Carlos de Almeida
Neto:
168
Duas são as modalidades de arguição de descumprimento de
preceito fundamental. A primeira é a arguição direta ou autônoma
que representa tipicamente uma ação direta de controle
concentrado de constitucionalidade, a qual é proposta no
Supremo Tribunal Federal objetivando a defesa dos preceitos
constitucionais fundamentais. A segunda forma de
processamento é a arguição incidental, suscitada ao Pretório
Excelso em razão de um processo judicial.
Destarte, segundo a doutrina dominante, a modalidade que
se intitula direta ou autônoma encontra amparo no art. 1º, caput, da
Lei nº 9.882/99, fazendo parte do típico processo objetivo do
controle concentrado principal, ajuizada em função da norma em
abstrato, visando a tutela da Carta Magna. Diz-se ADPF direta ou
autônoma por não necessitar da existência de qualquer outro
processo anterior, no qual questione sobre a aplicação de preceito
fundamental.
Em contrapartida a arguição de descumprimento de preceito
fundamental em sua modalidade indireta ou incidental é uma ação
do controle concentrado-incidental suscitada perante o Egrégio
Pretório Excelso em função de um processo judicial em curso
perante as instâncias ordinárias onde se questiona, com
fundamentos importantes, sobre a aplicação de ato do poder
público inquirido em face de algum preceito constitucional
fundamental, possuindo por desígnio predominante a defesa de
um interesse ou direito subjetivo de uma das partes. Assim,
segundo o posicionamento dominante, a ADPF incidental possui
como requisito de admissibilidade a existência de controvérsia
169
judicial relevante sobre a aplicação de lei ou ato normativo federal,
estadual ou municipal em face de preceito constitucional
fundamental. Sendo assim, o objetivo da ADPF incidental é:
(...) antecipar decisões do Supremo Tribunal Federal sobre
controvérsias constitucionais relevantes, que antes só chegariam
ao seu conhecimento muito depois, após o percurso das tortuosas
vias recursais. Evita-se com isto que, neste ínterim, seja criada e
alimentada uma situação de incerteza jurídica, congestionando os
tribunais, ensejando a possibilidade de decisões discrepantes e
permitindo a consolidação no tempo de situações subjetivas que
possam vir a contrariar a orientação que, depois o Supremo
venha a adotar em relação a certas questões de índole
constitucional.
Antes de continuara discorrer sobre arguição de
descumprimento de preceito fundamental na modalidade indireta
ou incidental, faz-se mister a conceituação de incidente. A palavra
incidente advém do latim incidere, isto é, cair sobre. Desse modo, a
ADPF incidental pode ser compreendia como aquela resultante de
um processo judicial em curso, atuando nos moldes do incidente
de inconstitucionalidade.
Entretanto, diferente do que ocorre no incidente de
inconstitucionalidade nos tribunais em controle difuso, a decisão
da arguição de descumprimento incidental que resolve
controvérsia constitucional irá vincular não somente o julgamento
do caso concreto que a provocou, mas também a todos os outros
em que a mesma questão estiver sendo discutida, de acordo com
170
previsão expressa do art. 10, caput e §3º da Lei 9.882/99. Ademais,
se o incidente de arguição de inconstitucionalidade no controle
difuso, regulado pelo CPC, pode ser suscitado pelas partes, pelo
Ministério Público ou até de ofício, na arguição incidental no
controle concentrado somente os órgãos legitimados para a
propositura da ADIN, elencados no art. 103 da Carta Magna, estão
aptos a fazê-lo, conforme o art. 2º da Lei da ADPF.
É de extrema importância destacar que a ADIN nº
2.231/DF questiona alguns dispositivos da Lei nº 9882/99,
principalmente o artigo 1°, parágrafo único, artigo 5°, § 3°, artigo
10, caput e § 3° e artigo 11, isto é, os artigos que regulamentam
sobre a modalidade incidental da arguição de descumprimento de
preceito fundamental.
O Ministro Relator da aludida ADIN, Néri da Silveira,
deferiu em parte a medida liminar, no que concerne ao artigo 1°,
para excluir, da sua aplicação, controvérsia constitucional
concretamente já posta em juízo, bem como deferiu, na totalidade,
a liminar, para suspender o § 3° do artigo 5°, sob o argumento de
que não cabia a legislador ordinário ter criado uma nova
modalidade de ADPF (incidental), tendo em vista que esta
atribuição deveria ser cumprida pelo legislador constituinte. Após,
o Ministro Sepúlveda Pertence pediu vista dos autos, o que gerou a
suspensão do julgamento final da medida liminar. Nessa linha de
raciocínio, apura-se que atualmente não é mais possível o manejo
171
da arguição de descumprimento de preceito fundamental em sua
modalidade incidental até o desfecho final do julgamento pelo
Egrégio Pretório Excelso.
Em virtude da liminar proferida na ADIN nº 2.231 está
suspensa a aplicação da arguição de descumprimento de preceito
fundamental em sua espécie incidental, tendo em vista que para o
Relator Min. Néri da Silveira essa modalidade de arguição necessita
de previsão constitucional, motivo pelo qual não poderia ser
regulamentada pela Lei nº 9.882/1999. Desse modo, a doutrina e o
Supremo Tribunal Federal questionam se alguns dispositivos da
supracitada Lei seriam realmente inconstitucionais.
O douto Alexandre de Moraes, atualmente Ministro do STF,
e a Ministra Ellen Gracie defendem a inconstitucionalidade dos
referidos artigos da Lei nº 9.882/99, uma vez que a ADPF
incidental seria inconstitucional por ampliar as competências
constitucionais do Supremo Tribunal Federal, constituindo novas
atribuições para a Corte não previstas pela Constituição Federal de
1988.
Já uma segunda corrente, capitaneada por Dirley da Cunha
Júnior, André Ramos Tavares, Uadi Lammêgo Bulos, Ministro
Carlos Britto, dentre outros, defende a constitucionalidade dos
supracitados artigos da Lei nº 9.882/99, de modo que o legislador
ordinário não ampliou as competências constitucionais da Corte
Suprema, já que a própria Lei Maior autorizou ao legislador
172
ordinário a regulamentação de um incidente processual de
inconstitucionalidade, preservando a ADPF como uma só ação de
controle de constitucionalidade abstrato, porém ela desenvolve-se
através de dois ritos distintos, quais sejam, a ADPF na via direta
principal e a ADPF incidental na via indireta proposta no bojo de
um processo subjetivo.
O posicionamento defendido no presente trabalho inclina-se
nos ideais sustentados pela segunda corrente, tendo em vista que a
espécie incidental da arguição não resulta na ampliação das
competências constitucionais da Corte Suprema, ao revés, é um
procedimento consagrado dentro do próprio instituto da ADPF e
que pretende proteger preceitos fundamentais. Assim, é factível o
desenvolvimento da arguição na sua modalidade incidental da
mesma maneira como ocorre no controle difuso pelo próprio
incidente de inconstitucionalidade, de modo que o objeto da
arguição incidental se torna mais restrito, já que exige-se a
comprovação da controvérsia constitucional, porém sem
desnaturar seu propósito central que é a guarida do preceito
fundamental dentro da perspectiva de um controle concentrado de
constitucionalidade.
Ademais, sustentar a inconstitucionalidade da arguição
incidental implicaria em um enfraquecimento da própria ADPF,
resultado não esperado pelo legislador constituinte originário,
173
considerando que a arguição representa um relevante instrumento
de proteção ao Estado Democrático de Direito.
2.3 SUBSIDIARIEDADE
Segundo a previsão expressa do art. 4º, §1º, da Lei nº
9.882/99, “não será admitida argüição de descumprimento de
preceito fundamental quando houver qualquer outro meio eficaz
de sanar a lesividade”. O referido dispositivo consagra o princípio
da subsidiariedade da ADPF, porém restringe demasiadamente as
suas hipóteses de cabimento. A doutrina e a própria jurisprudência
do Supremo Tribunal Federal têm oscilado no entendimento deste
princípio no âmbito da ADPF, resultando em manifestações
antagônicas. Isto é, a matéria não é de simples compreensão.
Existe uma parcela da doutrina, como José Afonso da Silva e
André Ramos Tavares, que rejeita o caráter subsidiário ou residual
que a Lei nº 9.882/99 pretendeu reservar para a ADPF. O
fundamental principal é o de que o art. 102, §1º da CRFB/88
somente autorizou a lei a dar forma, isto é, a regulamentar o
processo da arguição e não a limitar o seu conteúdo. Desse modo,
não se deve interpretar a norma constitucional com submissão à
vontade do legislador. Nesse sentido, afirma-se a autonomia da
ADPF em relação às ações objetivas e subjetivas existentes no
sistema, sendo admita a arguição sempre que se verificar a violação
de preceito constitucional de natureza fundamental por ato do
174
Poder Público (e, na hipótese incidental, quando estiverem
reunidos os demais requisitos).
Assim sendo, o legislador constituinte originário de 1988
ocasionou um reposicionamento entre as ações diretas de controle
abstrato de constitucionalidade com o intuito de reservar a
titularidade da defesa dos preceitos fundamentais à arguição de
descumprimento, deixando a proteção das demais normas
constitucionais para a ação direta de inconstitucionalidade e ação
declaratória de constitucionalidade.
De acordo com as lições do doutrinador André Ramos
Tavares a “arguição é cabível sempre, absolutamente sempre,
quando houver violação de preceito fundamental”, de maneira que,
neste caso, irá operar a “exclusão das demais medidas existentes no
sistema processual constitucional”. Desse modo, segundo as
palavras do referido autor:
(...) não obstante admitir-se a possibilidade de que mais de uma
ação preste-se ao mesmo objetivo, a verdade é que, com a
introdução da arguição, o mais coerente e constitucionalmente
admissível será para ela desviarem-se todos- insista-se uma vez
mais- todos os casos de descumprimento de preceitos
fundamentais da Constituição. É o que impõe a própria
sistemática constitucional. Com essa estruturação a medida
estaria, como se percebe, angariando parte do que,
historicamente, tem pertencido à ação chamada genérica (...).
Como visto em todos os argumentos esposados até agora, o
constituinte de 1988 jamaisrelegou a arguição de descumprimento
de preceito fundamental a uma indigna e humilhante posição de
175
ação secundária ou residual. A Constituição em nenhuma hipótese
autoriza essa interpretação, ainda mais quando é consabido que a
ADPF foi originada da mesma fonte (poder constituinte
originário) da qual resultou a ação direta de inconstitucionalidade e
nem por isso esta última ação se onerou da tarja de ação
subsidiária.
Não faz sentido tratamento da arguição como ação
meramente subsidiária. “E porque não também com a ação
declaratória de constitucionalidade, que foi originada, inclusive, a
partir de mera reforma constitucional? Não há, assim, argumento
jurídico que sustente, validamente, à luz do texto constitucional, a
prevalência de um instituto sobre o outro”.
A ADPF ocupa uma posição de principalidade no sistema de
fiscalização abstrata de constitucionalidade, tendo em vista que foi
estabelecida para a defesa, com exclusividade, dos preceitos
constitucionais fundamentais. O legislador ordinário não poderia
rebaixar a posição da arguição e lhe emprestar um caráter
meramente subsidiário. Pode-se até supor que a intenção originária
do legislador ordinário era somente suprir, com a ADPF, os
espaços vazios não preenchidos pela ação direta de
inconstitucionalidade, porém a Constituição Federal não dá azo
para essa conclusão.
Nesse mesmo entendimento, o douto André Ramos
Tavares:
176
A arguição (...) não é instituto com caráter ‘residual’ em relação à
a ação direta de inconstitucionalidade (genérica ou omissiva).
Trata-se, na realidade, de instrumento próprio para resguardo de
determinada categoria de preceitos (os fundamentais), e é essa a
razão de sua existência. Daí o não se poder admitir o cabimento
de qualquer outra ação para a tutela direta desta parcela de
preceitos, já que, em tais hipóteses, foi vontade da Constituição o
indicar, expressamente, que a arguição será a modalidade cabível,
o que exclui as demais ações.
De acordo com o doutrinador Luís Roberto Barroso, a
subsidiariedade será ilegítima se for compreendida em sentido
literal radical, tornando imprestável a arguição. Assim, trata-se de
questão de razoabilidade da interpretação do art. 4º, §1º, da Lei nº
9.882/99 e não de invalidade da norma.
A segunda posição doutrinária em relação à regra da
subsidiariedade inclina-se para o extremo oposto da primeira.
Constituída na redação expressa do artigo 4º, §1º, da Lei da ADPF,
assevera a inadmissibilidade da arguição de descumprimento de
preceito fundamental sempre que cabível outra ação do processo
objetivo (como a ação direta de inconstitucionalidade por ação ou
omissão e a ação declaratória de constitucionalidade) ou mesmo
ações individuais ou recursos. Essa linha de raciocínio, defendida
por Zeno Veloso e Alexandre de Moraes e pelo próprio Supremo
Tribunal Federal em alguns precedentes, rejeita a ADPF sempre
que seja possível questionar o ato por via de mandado de
segurança, ação popular, reclamação ou recursos ordinários e
extraordinários, no mínimo antes que eles sejam esgotados.
Nessa esteira de raciocínio, uma interpretação estrita do art.
4º, §1º da Lei nº 9.882/99 ocasionará à inadmissibilidade da
177
arguição na grande maioria das hipóteses. Desse modo, restaria
caracterizado um papel marginal e inglório à ADPF, tal como
antes ocorrera na história do mandado de injunção. Pois, na
prática, improvavelmente deixará de haver no acervo do controle
concentrado ou do controle difuso a possibilidade, em tese, de
manusear-se alguma ação ou recurso contra o ato a ser
questionado. “E a demora inevitável no esgotamento de todas as
outras vias comprometerá, naturalmente, os objetivos visados pela
arguição, dentre os quais o de evitar a incerteza trazida por
decisões contraditórias e de promover segurança jurídica”. Faz-se
mister uma interpretação mais aberta e produtiva da regra da
subsidiariedade.
3. CRÍTICAS E DEFESAS QUANTO À PERMANÊNCIA
DA ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE
PRECEITO FUNDAMENTAL NO ORDENAMENTO
JURÍDICO BRASILEIRO.
É consabido que a arguição de descumprimento de preceito
fundamental deve servir como instrumento de proteção dos
preceitos fundamentais, quais sejam, a título exemplificativo, as
decisões políticas estruturantes, os direitos fundamentais
individuais, coletivos, políticos e sociais, as cláusulas pétreas e os
princípios constitucionais sensíveis. Desta forma, a ADPF consiste
em uma importante ferramenta de proteção da cidadania por meio
178
da garantia da integridade dos preceitos fundamentais e promoção
da dignidade da pessoa humana.
Com o intuito de proteção da cidadania, o substitutivo do
projeto de lei regulamentador da arguição de descumprimento de
preceito fundamental estabelecia a possibilidade de qualquer
pessoa ajuizar diretamente a arguição em caso de agressão a
preceito fundamental, possibilitando um maior teor democrático
ao sistema de controle concentrado. Assim, o projeto do qual
resultou a Lei 9.882/99 havia garantido, no inciso II do art. 2º, a
legitimidade para a propositura da referida ação a “qualquer pessoa
lesada ou ameaçada por ato do Poder Público”.
Contudo, o supracitado inciso foi vetado pelo Presidente da
República sob o fundamento de que haveria um aumento do
número de processos perante o Supremo Tribunal Federal. A
referida legitimação individual estava conectada com a modalidade
de ADPF incidental, já que se exigia a demonstração de lesão ou
ameaça de lesão a direito. Em razão do veto, apenas manteve-se a
possibilidade de os interessados representarem ao Procurador
Geral da República para que ele exerça sua competência para
iniciar a ação. E diante da sua eventual omissão em deflagrar a
arguição, a parte interessada nada poderá praticar.
Sustenta-se no presente trabalho que uma das formas de se
conferir maior efetividade a ADPF seria permitir uma legitimação
mais abrangente para o ajuizamento da arguição, pois favoreceria o
desenvolvimento de uma maior consciência da necessidade de se
179
salvaguardar a Carta Política. Assim, a indicada alegação de que
haveria um volume ainda maior de processos com a legitimação de
qualquer do povo não merece prosperar, tendo em vista que é
primordial possibilitar o acesso aos cidadãos para a proteção das
liberdades e direitos fundamentais perante o Supremo Tribunal
Federal, determinando para tanto critérios regulares de admissão
das arguições de descumprimento de preceito fundamental.
Segundo os ensinamentos de Maria Garcia, a ADPF
consagrada no parágrafo 1º, do art. 102, da Constituição Federal de
1988 e regulada pela Lei nº 9.882/99, ao não consagrar a
possibilidade de sua impetração pelos cidadãos em geral resultou
na inefetividade dos objetivos constitucionais para o instituto.
Assim, segundo a referida autora “a regulamentação do dispositivo
constitucional não atendeu a sua finalidade a qual decorre da
estrutura sistêmica da Constituição, dos seus pressupostos, da sua
tessitura, do seu espírito, enfim, pois desde logo não convence que,
nesse dispositivo, a Constituição viesse apenas estabelecer uma
outra forma de controle de constitucionalidade e pelos mesmos
autores da ação direta”.
Nesse sentido, faz-se mister a construção de meios
processuais para filtragem de causas para a impetração da arguição
e não privar o cidadão de uma maior sensação de ingerência
judicial. A arguição de descumprimento de preceito fundamental
foi construída com o propósito de completar o já complexo
sistema de controle de constitucionalidade e, sem sombra de
180
dúvidas, a Lei nº 9.882/1999 foi editada com o espírito de
colmatar as lacunas deixadas pela construção jurisprudencial do
Supremo Tribunal Federal em sede de controle concentrado.
Assim, apesar do instituto não ter revelado todas as suas
potencialidades ainda,constata-se nele uma relevante ação na
defesa de normas sensíveis da Constituição.
Nessa linha de raciocínio, com o intuito de combater a
inefetividade prática da Lei nº 9.882/99 pode-se cogitar a inclusão
de qualquer pessoa como legitimada ativa para a realização do
controle principal de constitucionalidade, via arguição, através de
uma emenda constitucional modificando o teor literal do art. 103
da CRFB/1988. Sendo assim, resta aconselhável ser estabelecida
ao menos a consagração da iniciativa popular para a propositura de
arguição de descumprimento de preceito fundamental, conforme a
própria Lei Maior consagra para projetos de lei, em consonância
com o art. 61, §2º, da CRFB/88.
É notório que a doutrina brasileira que se propôs a estudar a
ADPF divide-se em duas visões básicas: aqueles que veem o futuro
da arguição com um pessimismo e de outro lado, aqueles que são
orientados por um otimismo moderado a respeito da temática,
conforme ora vai ser detalhado. Assim, em uma visão mais
pessimista sobre a efetividade da arguição, Dimitri Dimoulis afirma
que a arguição é um “instituto que não deu certo”, cuja chegada
“não mudou praticamente nada no mundo jurídico”.
Corroborando esse espírito pessimista sobre a ADPF, o douto
181
Elival da Silva Ramos assevera que a arguição é dispensável, já que
seu campo de aplicação pode vir a ser protegido pelo sistema
jurisdicional brasileiro.
É importante destacar que Elival Ramos chega a tratar a
arguição como uma cura, designando um subcapítulo do seu livro
como: “Enfim, a panaceia: a arguição de descumprimento de
preceito fundamental”, empregando o vocábulo panaceia com o
propósito de comparar a arguição com um remédio para todos os
males existentes no ordenamento jurídico vigente. Na sequência
do seu livro, o aludido autor cria um novo subcapítulo relacionado
a ADPF denominado de “a reconfiguração do recurso
extraordinário e a eliminação da ADPF”, em que afirma
enfaticamente que não existe mais a necessidade do instituto caso
ocorre uma reformulação no recurso extraordinário.
Vale a pena destacar que apenas é atribuído às ações julgadas
pelo controle concentrado de leis a impossibilidade do ajuizamento
de ação rescisória com o intuito de rediscutir decisões proferidas
pelo Egrégio Pretório Excelso. Assim, essa é uma grande diferença
entre a ADPF e o recurso extraordinário, sem olvidar que ainda
existe o fato de que o RE nunca será, em um primeiro momento,
julgado pelo Egrégio Pretório, necessitando de um juízo de
conhecimento nas varas de 1ª instância e ainda do pronunciamento
dos Tribunais a quo Já a ADPF será conhecida e julgada
primeiramente no STF, o que, por si só, já aumenta a fraqueza das
182
críticas apontadas pelos doutrinadores que defendem a extirpação
da ADPF do sistema jurídico.
Vale a pena destacar a proposta formulada pelo doutrinador
Gabriel Dias Marques da Cruz, que defende a extinção (morte) da
arguição de descumprimento de preceito fundamental do
ordenamento jurídico brasileiro como solução para o seu problema
da inefetividade. Assim, o referido autor afirma que seria
desnecessário a previsão de duas ações tão similares ao exercício
do controle principal de constitucionalidade no Brasil, quais sejam,
a ADI (ação direta de inconstitucionalidade) e a ADPF (arguição
de descumprimento de preceito fundamental). Ou seja, a
subsidiariedade e o descumprimento de preceito fundamental não
encontram subsídios teóricos razoáveis a ponto de serem
utilizados como critérios delimitadores da escolha de uma ação em
lugar da outra, sendo mais plausível extinguir a ADPF, de uma vez
por todas, como uma proposta de reformulação do sistema de
controle brasileiro.
Em contrapartida, também pode ser vislumbrada a visão dos
doutrinadores que defendem um futuro otimista cauteloso a
respeito da efetividade da arguição e dentre eles, cabe destacar, a
douta Paula Maragno afirma na sua tese de doutorado:
Certamente, é no STF que se depositam todas as esperanças para
o amadurecimento da arguição e a sua ampla e irrestrita utilização
pela sociedade. De fato, caberá à doutrina e ao STF atribuir à
ADPF seu verdadeiro valor, sua verdadeira utilidade. Tal
183
valoração depende, em muito, da correta leitura que se deve fazer
do chamado princípio da subsidiariedade.
Desse modo, a postura otimista usualmente deposita suas
esperanças no aperfeiçoamento e efetividade da arguição através da
jurisprudência do STF. Por isso, o Egrégio Pretório Excelso
necessita realizar uma boa aplicação da ADPF em prol dos
preceitos fundamentais, já que no Estado Democrático de Direito
a arguição revela-se um meio competente para a proteção dos
princípios sensíveis da Constituição. Desse modo, como também
cabe ao Supremo Tribunal Federal definir o conceito de preceito
fundamental, não resta dúvidas da imprescindível função que a
Corte Suprema realiza na prática para alcançar a efetividade
esperada da arguição de descumprimento de preceito fundamental.
A posição defendida no presente trabalho é que uma visão
otimista moderada/cautelosa deve prevalecer, já que não existem
normas constitucionais sem sentido e/ou finalidade, de modo que
não foi à toa que o legislador constituinte introduziu o art. 102, §1º
no texto da Lei Maior. Assim, o referido dispositivo constitucional
pode até ser conceituado como uma norma constitucional de
eficácia limitada, mas, sem sombra de dúvidas, ele foi introduzido
com uma finalidade específica e que deve ser cumprida.
Nessa linha de raciocínio, André Ramos Tavares defende na
sua obra sobre o estudo da arguição de descumprimento preceito
fundamental que a referida ação tem cabimento, absolutamente
sempre, quando houver a violação de preceito constitucional
184
fundamental. Para tanto, o supracitado autor afirma que existe a
possibilidade da convivência de uma duplicidade de ações de
controle de constitucionalidade direcionadas ao mesmo fim e que
no que diz respeito aos preceitos constitucionais fundamentais, o
objeto da ação direta de inconstitucionalidade genérica (ADIN) foi
total e exclusivamente absorvido pela arguição.
Assim, isto significa que a ADPF, em razão do seu caráter de
principalidade, ocasionou um reposicionamento da ADIN e da
ADC no contexto do controle abstrato de constitucionalidade, isto
é, as aludidas ações estarão limitadas à defesa das normas
constitucionais não conglobadas no conceito de preceitos
fundamentais.
Nesse seguimento, o autor André Ramos Tavares afiança
que a ADPF possui um caráter principal e critica aqueles
doutrinadores que defendem um espaço residual a ser preenchido
pelo instituto. Com base no texto do art. 102 da CRFB/88, a
arguição seria “medida tão primordial (ou principal) quanto a ação
direta de inconstitucionalidade- ou até de relevância superior, se se
quiser”. Ademais, os preceitos fundamentais necessitam de uma
ação específica para protegê-los, de modo que o descumprimento
daquilo que se denomina como fundamental revela-se como “mais
preocupante e perturbador que o descumprimento do restante da
Carta Constitucional”. Assim, defende-se no presente trabalho,
concordando com o douto André Ramos, que a ADPF deve
possuir uma maior celeridade no seu rito processual ou
185
precedência no julgamento, o que chega a ser mesmo uma
imposição natural, pela situação e posição da ação.
Um outro argumento de defesa da ADPF no ordenamento
jurídico brasileiro diz respeito a adoção de uma posição
intermediária concernente ao requisito formal da subsidiariedade
(parágrafo 1º, do art. 4º, da Lei nº 9.882/99), de modo a manter a
excepcionalidade da arguição, que poderá ser utilizada em
hipóteses graves e específicas, isentando a exigência de
esgotamento dos recursos judiciais prévios, com o intuito de
efetivar a defesa imediata da Constituição Federalde 1988 em
relação aos seus preceitos fundamentais quando comprovado o
interesse público latente. Assim, segundo o ensinamento de Daniel
Sarmento sobre o tema:
Nestas hipóteses de Arguição incidental, entendemos que o STF
deverá examinar, caso a caso, se realmente a questão
constitucional ventilada ostenta relevante interesse público. O
interesse público deve ser entendido aqui não como o consistente
na resolução da controvérsia concreta que tenha ensejado a
arguição, pois, por mais relevante que seja o caso, para dirimi-lo
devem ser utilizados os inúmeros recursos próprios do
ordenamento processual. Caso contrário, permitir-se-ia o acesso
indiscriminado ao Supremo para resolver conflitos intersubjetivos
concretos, com o atropelo das instâncias recursais competentes, o
que representaria uma afronta ao devido processo legal e ao
princípio do juiz natural. Além disso, acabar-se-ia inviabilizando
por completo o Pretório Excelso, pela sobrecarga de trabalho. (...)
No nosso entendimento, esta Arguição Incidental, sem prévia
exaustão das instâncias ordinárias, só pode ser admitida naqueles
casos em que existirem um grande número de processos
idênticos, gravitando em torno da mesma questão constitucional.
Nestas hipóteses, quando não for cabível a resolução da questão
constitucional através dos instrumentos abstratos de controle de
186
constitucionalidade, será possível o emprego da ADPF. Isto
evitará que se estenda desnecessariamente a insegurança jurídica
decorrente da dúvida sobre a constitucionalidade de certos atos
estatais, e evitará o congestionamento desnecessário do Poder
Judiciário, que será poupado do ônus de julgar um sem-número
de processos rigorosamente iguais.
Um outo argumento que preserva a arguição de
descumprimento de preceito fundamental no atual ordenamento
jurídico é sustentado pelo douto Gilmar Ferreira Mendes, que
alega que a ADPF pode ser considerada um instituto superior,
inclusive, ao incidente de constitucionalidade, já que a arguição
completa de sobremaneira o controle de constitucionalidade ao
estabelecer que o instituto congloba questões até então excluídas
do Poder Judiciário no âmbito do Supremo Tribunal Federal.
O jurista André Ramos Tavares ressalta a importância
específica da ADPF no intuito de evitar ações lesivas aos preceitos
fundamentais e impossibilitar que omissões impliquem o
esmorecimento dos aludidos preceitos.
Também merece destaque a tese, defendida por Gilmar
Ferreira Mendes, segundo a qual a ADPF seria um mecanismo
hábil para o controle de constitucionalidade jurisdicional
preventivo concentrado por duas razões interessantes, a conhecer:
a) mediante a via processual da arguição, a proposta de emenda
constitucional sofrerá escrutínio judicial mais adequado à
importância sistemática dessa espécie normativa; e b) a Lei nº
9.882/99 autoriza um amplo debate constitucional sobre a
temática, possibilitando, inclusive, a oitiva de pessoas com
187
experiência no assunto, seja através dos amicus curiae, seja em
audiência pública realizada para essa finalidade. Somando-se a isso,
tem-se a ampla legitimidade ativa para propor a arguição, que
autorizaria não somente o parlamento por meio de seus
integrantes, mas também os órgãos de representação da sociedade,
por exemplo, as associações, a cooperar com o processo de
controle de constitucionalidade das propostas de emenda à
Constituição.
Nessa linha de raciocínio, conclui-se que devem prevalecer
os argumentos favoráveis à permanência da arguição de
descumprimento de preceito fundamental no ordenamento
jurídico brasileiro, tendo em vista que é necessário enxergar a
aludida ação como uma peça fundamental e imprescindível do
controle concentrado de constitucionalidade que, sem sombra de
dúvidas, se bem aplicada na prática pelo Supremo Tribunal
Federal, pode-se extrair sua potencialidade máxima de efetividade e
contribuição para o ordenamento jurídico brasileiro.
5. CONCLUSÃO
O presente trabalho não teve como finalidade
preponderante a análise exaustiva da Lei nº 9.882/99, mas somente
o estudo dos principais pontos mais relevantes no que diz respeito
a efetividade da arguição de descumprimento de preceito
fundamental.
188
A arguição de descumprimento de preceito fundamental foi
consagrada, de forma inédita, na Constituição de 1988, porém sua
lei regulamentadora somente surgiu em 1999, isto é, 11 (onze) anos
após o surgimento da ação!!! Regulamentou-se a ADPF no intuito
de suprir, no ordenamento jurídico brasileiro, algumas lacunas no
sistema de controle concentrado de constitucionalidade,
possibilitando que o Supremo Tribunal Federal apreciasse algumas
matérias que antes somente eram possíveis sofrerem a análise por
outras ações de controle difuso (por meio de recurso
extraordinário ou reclamação), como por exemplo, normas pré-
constitucionais e normas municipais.
A ADPF poderá desempenhar um papel importante e
fundamental no direito brasileiro, sobretudo se as suas efetivas
potencialidades forem bem exploradas pela doutrina e
principalmente pela jurisprudência do STF. Dessa forma, se bem
aplicada, a arguição poderá resolver muitos casos que envolvam
preceitos fundamentais e isso implicaria em suprimir do campo da
ação direta de inconstitucionalidade e da ação declaratória de
constitucionalidade tais preceitos, que hoje são defendidos por
essas ações.
O instituto consiste em uma ação que se propõe a defesa dos
preceitos fundamentais, tão relevantes na vida política de uma
sociedade e que a doutrina ainda encontra dificuldade em
conceituar a magnitude de sua abrangência. Desse modo, a
arguição não poderá ser posicionada em um patamar inferior aos
189
das demais ações de controle de constitucionalidade, ao revés, em
igual nível ou até mesmo superior. Nessa linha de pensamento,
trata-se de uma ação que possui uma riqueza ímpar, apesar de a sua
exata dimensão não ser devidamente explorada e avaliada pela
doutrina.
Apesar de, no primeiro momento, parecer que apenas na
hipótese de absoluta inexistência de qualquer outro meio eficaz
para afastar eventual lesão a preceito fundamental poderia utilizar-
se da arguição de descumprimento de preceito fundamental, restou
demonstrado que o princípio da subsidiariedade do referido
instituto deve ser compreendido no contexto da ordem
constitucional.
Desse modo, não se deve realizar uma interpretação literal
do artigo 4°, parágrafo 1°, da Lei n° 9.882/99, já que no
ordenamento jurídico brasileiro, se for levado em consideração
todo e qualquer meio processual existente, sempre haverá algum
que seja possível impugnar o ato que se entenda estar ofendendo
ou na iminência de ofender preceito fundamental. Sendo assim,
caso o dispositivo em comento seja interpretado com excessivo
rigor, a ADPF restará quase que absolutamente despida de
aplicabilidade.
Nesse diapasão, não se deve permitir que a mera existência
de processos ordinários e recursos extraordinários possam
descartar a utilização da arguição de descumprimento de preceito
fundamental. É necessário realizar uma interpretação mais aberta e
190
produtiva da regra da subsidiariedade, de modo que o referido
princípio deve ser veemente mitigado.
Cumpre salientar que regra da subsidiariedade não foi
prevista no texto constitucional, mas somente no artigo 4º, §1º, da
Lei Federal nº 9.882/1999 e o presente trabalho defende a posição
que o referido artigo possui fortes indícios de
inconstitucionalidade, cujo reconhecimento pela ADI nº 2.231
poderia, talvez, transformar o próprio instituto da arguição.
Porém, como até o presente momento, o artigo em comento não
foi declarado inconstitucional, defende-se que a regra da
subsidiariedade deve ser fortemente mitigada, de modo que a
ADPF não ocupa uma posição secundária no sistema brasileiro de
controle de constitucionalidade.Ao revés, deve prevalecer o entendimento de que a ADPF
ocupa uma posição de principalidade no sistema de fiscalização
abstrata de constitucionalidade, já que foi estabelecida para a
defesa, com exclusividade, dos preceitos constitucionais
fundamentais. O legislador ordinário não poderia rebaixar a
posição do instituto e lhe emprestar um caráter meramente
subsidiário. Assim, em razão do caráter de principalidade da
ADPF, ocorreu um reposicionamento da ADIN e da ADC no
contexto do controle abstrato de constitucionalidade, ou seja, as
aludidas ações estarão limitadas à defesa das normas
constitucionais não conglobadas no conceito de preceitos
fundamentais.
191
Conclui-se também que, para se alcançar à máxima
efetividade da arguição, é necessário existir um Poder Judiciário
mais atuante, democrático e comprometido com a proteção da
Carta Política, dos preceitos e direitos fundamentais, promovendo
o respeito à cidadania em todos os seus âmbitos (econômico,
social, político, cultural, dentre outros...), com o intuito de proteger
os valores e princípios primordiais da Constituição Federal em sua
magnitude, especialmente em sede do controle concentrado
através do Supremo Tribunal Federal.
É evidente que a partir do momento em que a doutrina e a
jurisprudência estabelecerem um conceito menos duvidoso para os
preceitos fundamentais, a arguição passará a desempenhar uma
importância no direito brasileiro de grandes proporções, já que se
for estabelecido que somente ela poderá defender os preceitos
fundamentais, que são os pilares da Magna Carta, então essa ação
se constituirá na mais importante das ações de controle abstrato de
constitucionalidade.
Defende-se no presente trabalho que uma das formas de se
conferir maior efetividade a ADPF seria possibilitar uma
legitimação mais abrangente para o ajuizamento da arguição, pois
favoreceria o desenvolvimento de uma maior consciência da
necessidade de se salvaguardar a Carta Política. Dessa forma, a
indicada alegação de que haveria um volume ainda maior de
processos com a legitimação de qualquer do povo não merece
prosperar, já que é primordial possibilitar o acesso aos cidadãos
192
para a proteção das liberdades e direitos fundamentais perante a
Corte Suprema, determinando para tanto critérios regulares de
admissão das arguições de descumprimento de preceito
fundamental.
A posição defendida no presente trabalho é que a visão
otimista moderada/cautelosa da arguição deve prevalecer, no
sentido de que não existem normas constitucionais sem sentido
e/ou finalidade. Assim, não foi à toa que o legislador constituinte
introduziu o art. 102, §1º no texto da Lei Maior, de modo que o
referido dispositivo constitucional pode até ser conceituado como
uma norma constitucional de eficácia limitada, mas, sem sombra
de dúvidas, ele foi introduzido com uma finalidade específica e que
deve ser respeitada e efetivada na prática.
Por fim, o presente trabalho defende a permanência da
arguição de descumprimento de preceito fundamental no atual
ordenamento jurídico brasileiro, tendo em vista que a ADPF é um
instituto com uma natureza singular e que completa
demasiadamente o controle de constitucionalidade ao fixar que a
referida ação congloba aspectos até então excluídos do âmbito do
Supremo Tribunal Federal no controle de constitucionalidade
concentrado.
Portanto, a ADPF deve ser compreendida como uma ação
capaz de salvaguardar o ordenamento jurídico pátrio,
possibilitando um controle abstrato mais efetivo da
constitucionalidade que congloba as normas pré-constitucionais e
193
municipais, abarcando a proteção de todos os preceitos
fundamentais.
REFERÊNCIAS
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constitucionalidade. Salvador/BA: Juspodivm, 2008.
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constitucionalidade municipal. Rio de Janeiro: Forense, 2010.
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crítica da jurisprudência. 6.ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
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BRASIL, Supremo Tribunal Federal. Ação direta de
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______. Supremo Tribunal Federal. Arguição de descumprimento
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Órgão Julgador: Tribunal Pleno. Diário de Justiça da União, 27
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______. Supremo Tribunal Federal. Arguição de descumprimento
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198
CAPÍTULO 6
O SUBSTANCIALISMO DE RONALD DWORKIN:
JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL E A BUSCA POR
RESPOSTAS CORRETAS
Geovane De Mori Peixoto
SUMÁRIO: 1. Introdução; 2. “Uma Questão de Princípios” – O
Fundamento Principiológico do Pensamento de Dworkin; 3. O
Papel do Juiz na Aplicação do Direito: A Importância da
Integridade; 4. As “Respostas Corretas” na Concepção de Ronald
Dworkin; 5. A Jurisdição Constitucional na Concepção de Ronald
Dworkin.
PALAVRAS-CHAVE: Jurisdição Constitucional;
Substancialismo: Pensamento dworkiano.
INTRODUÇÃO
199
O objetivo central deste texto é apresentar em síntese o
modelo substancialista de jurisdição constitucional elaborado por
um dos autores contemporâneos mais influentes da doutrina
constitucional, Ronald Dworkin.
Para melhor compreender a concepção de Ronald Dworkin
sobre jurisdição constitucional, e a sua busca pelas respostas corretas,
noção desenvolvida por ele, é importante, inicialmente, delimitar
dois conceitos fundamentais do seu pensamento: o de princípio e
o de integridade.
• “Uma Questão de Princípios” – O Fundamento
Principiológico do Pensamento de Dworkin
Para este pensador, o princípio “é um padrão que deve ser
observado, não porque vá promover ou assegurar uma situação,
econômica, política ou social, considerada desejável, mas porque é
uma exigência de justiça ou equidade, ou alguma outra dimensão
da moralidade.”.
Ao estabelecer esta nova concepção sobre o tema,
Dworkin “transfere essa ideia de princípio da pessoa para a
comunidade política. Isto significa que, tal qual é possível observar
esta estrutura principiológica no homem, também o é na
comunidade que se forma a partir dele e por ele”.
200
Pretende ele, com isso, demonstrar que uma comunidade
verdadeiramente democrática não apenas admite como pressupõe a
salvaguarda de posições contramajoritárias, cuja força obrigatória
advém de princípios exigidos pela moralidade política.
Dworkin busca uma reaproximação entre o Direito e a
Moral, assim como o fez Alexy, fundada na valorização promovida
pela categoria dos princípios, em contraposição ao pensamento
positivista. Esforça-se para estabelecer a distinção entre regras e
princípios como corolário central de seu pensamento. Em função
dessa afirmação principiológica da sua teoria, os direitos
fundamentais, neste contexto, assumem o status de direitos morais,
estabelecendo, por consequência, a ideia de Constituição como
integração.
“Os princípios possuem uma dimensão que as regras não têm –
a dimensão do peso ou importância. Quando os princípios se
intercruzam (...), aquele que vai resolver o conflito tem de levar
em conta a força relativa de cada um. Esta não pode ser, por
certo, uma mensuração exata e o julgamento que determina que
um princípio ou uma política particular é mais importante que
outra freqüentemente será objeto de controvérsia”.
É importante registrar que, princípios não são gerados por
decisões políticas do legislativo, ou por decisão singular de um
tribunal, mas por um processo aberto, no qual todos os atores
sociais têm assento, além dos profissionais do Direito, por óbvio,
dependendo a continuidade do seu poder da manutenção do que é
“apropriado” (adequado).
201
Disso, decorre a possibilidade dos magistrados
fundamentarem suas decisões em princípios, em qualquer tipo de
caso, consoante explica Wálber Carneiro, ao asseverar que:
Para Dworkin, entretanto, “levar os direitos a sério” e julgar de
modo não discricionário não se esgota na mera fundamentação
da decisão neste ou naquele princípio, uma prática, aliás, muito
comum no Brasil. A fundamentação em princípios como uma
possibilidade contra a discricionariedade do direito judicial deve
ser vista em Dworkin no contexto de sua tese sobre a integridade,
que demanda uma tarefa hercúlea do julgador na busca da
resposta correta.
Não resta alternativa senão aceitar o convite para bailar com
a tese da integridade dworkiana e compreender, assim, o papel do
juiz na aplicação do direito, senão vejamos.
• O Papel do Juiz na Aplicação do Direito: A
Importância da Integridade
Parte-se da afirmação de que Dworkin “elabora um processo
complexo de interpretação judicial para fazer jus à exigência de que
somente o fechamento operacional garante a abertura cognitiva”, a
partir de uma leitura luhmanniana. Assim, chega-se à conclusão de
que “os argumentos do entorno podem ser reconstruídos
internamente quando estiverem de acordo com o processo de
argumentação jurídica. Na verdade, é o próprio processo que
estabelece as condições de abertura do sistema”.
202
Fundamental, então, dividir esseprocesso em fases: (1) pré-
interpretativa; (2) interpretativa; e (3) pós-interpretativa – a decisão
em si. Pode-se arriscar, aqui, que seria uma tentativa de
“ontologização” da teoria sistêmica luhmanniana. Para o
funcionamento deste modelo, todavia, é fundamental a noção de
“integridade” dworkiana.
A ideia de integridade para Dworkin “serve como um
veículo para a “transformação orgânica” do conjunto de normas
públicas presentes no sistema a partir do reconhecimento da
importância dos princípios”.
A busca pela integridade do direito em Dworkin não representa um
espaço discricionário em que o julgador deverá encontrar uma
justificativa pessoal para decidir um caso que não possui resposta
no sistema, uma vez que o princípio que deve ser buscado para
fundamentar uma decisão não está, como pensou Hart, à
disposição do intérprete.
As teorias pós-positivistas, como o neoconstitucionalismo, que
enaltecem a existência de normas principiológicas no sistema
jurídico, promovendo a “reconciliação” entre a moral e o direito,
em superação ao paradigma positivista, trouxeram a falsa
impressão de que se estava fazendo um convite para decisões
metafísicas, desconectadas, portanto, do plano físico, permitindo
uma postura discricionária, e fortalecendo, assim, o ativismo
judicial; ledo engano!
203
Dworkin apresenta na sua teoria, e na crítica imanente a ela,
o que é necessário para buscar a integridade no processo de
interpretação, notadamente, defendendo que o processo não é
subjetivo, individual do juiz, mas sim pautado na necessidade de
uma interação intersubjetiva, uma vez que a decisão é da
sociedade. Nas palavras do próprio Dworkin, “uma sociedade
política que aceita a integridade como virtude política se
transforma, desse modo, em uma forma especial de comunidade,
especial num sentido que promove sua autoridade moral para
assumir e mobilizar monopólio da força coercitiva”.
A integridade (...) insiste em que cada cidadão deve aceitar as
exigências aos outros, que compartilham e ampliam a dimensão
moral de quaisquer decisões políticas explícitas. A integridade,
portanto, promove a união da vida moral e política dos cidadãos:
pede ao bom cidadão, ao decidir como tratar seu vizinho quando
os interesses de ambos entram em conflito, que interprete a
organização comum da justiça à qual estão comprometidos em
virtude da cidadania.
Conclui-se, dessa forma, que a integridade exige que o
conteúdo moral de um princípio não seja considerado a partir de
uma concepção individualizada, mas considerado a partir do fato
de que vivemos com o outro. A partir dessa compreensão, se
alcança a força normativa dos princípios em Dworkin.
Para a superação do voluntarismo hermenêutico que caracteriza o
normativismo, será necessário conceber o Direito como um
sistema de regras e princípios, dotado de integridade, e não como um
mero sistema de normas, inapto a abarcar toda a variada e
complexa realidade social. Seu esforço será o de defender um
204
ativismo judicial construtivo, pautado por argumentos racionais e
controláveis, que não descambe para uma versão autoritária do
governo de juízes.
Dworkin sustenta, então, o argumento de que é possível
defender a existência de um maior preparo por parte dos
magistrados para conferirem “respostas corretas” (bem como a
própria existência destas), do que dos legisladores ou a da massa de
cidadãos que os elegeram.
•As “Respostas Corretas” na Concepção de Ronald
Dworkin
Com a sua tese das respostas corretas, Ronald Dworkin enfatiza
a impossibilidade de álea na interpretação jurídica, tornando
necessário compreender que “lidamos com sintaxes e que não
podemos isolá-la da semântica (por exemplo, a velha cisão fato-
norma), e tampouco entender a pragmática como “reserva técnico-
hermenêutica” para resolver insuficiências lógico-semânticas”.
Sobre esta questão, ao analisar o pensamento de Dworkin,
argumenta Lenio Streck que:
(...) quando este diz que é possível distinguir boas e más decisões
e que, qualquer que sejam seus pontos de vista sobre a justiça e a
eqüidade, os juízes também devem aceitar uma restrição
independente e superior, que decorre da integridade, nas decisões
que tomam. Importa acrescentar que Dworkin, ao combinar
princípios jurídicos com objetivos políticos, coloca à disposição
205
dos juristas/intérpretes um manancial de possibilidades para a
construção/elaboração de respostas coerentes com o direito
positivo – o que confere uma blindagem contra a
discricionariedade (se se quiser, pode-se chamar isso de
“segurança jurídica”) – e com a grande preocupação
contemporânea do direito: a pretensão de legitimidade.
Ainda, em análise da busca de correição da decisão, contra a
discricionariedade, Dworkin sustenta os seguintes argumentos:
Os juízes que aceitam o ideal interpretativo da integridade
decidem casos difíceis tentando encontrar, em algum conjunto
coerente de princípios sobre os direitos e deveres das pessoas, a
melhor interpretação da estrutura política e da doutrina jurídica
de sua comunidade. Tentam fazer o melhor possível essa
estrutura e esse repositório complexos. Do ponto de vista
analítico, é útil distinguir os diferentes aspectos ou dimensões de
qualquer teoria funcional. Isso incluirá convicções sobre
adequação e justificação. As convicções sobre a adequação vão
estabelecer a exigência de um limiar aproximado a qual a
interpretação de alguma parte do direito deve atender para tornar-
se aceitável.
Para cumprir essa dificílima tarefa, Dworkin cria a metáfora
do “juiz Hércules”, imaginando um modelo ideal de juiz capaz de
realizar a contento esta “empreitada”, que possui como
características fundamentais “capacidade e paciência sobre-
humanas, e que aceita o direito como integridade”. Estas respostas,
advirta-se, não devem ser entendidas como “absolutas” e
“unívocas”, numa pretensão universalizante; como enfatiza o
próprio Dworkin: “são as respostas que, no momento, me
parecem as melhores”.
206
Críticas não faltaram a esta posição, sendo Dworkin, e o seu
“juiz Hércules”, acusado de ser “solipcista”, e tão discricionário
quanto o julgador que ele combate (como, por exemplo, a crítica
do jurista norte-americano Frank Michelman), mas não parecem,
todavia, legítimas. Busca, Dworkin, em verdade, um ponto de
referência contra a discricionariedade, que deve ultrapassar as
tradições jurídicas consuetudinárias, e “esclarece esse ponto de
referência da razão prática de dois modos: metodicamente, lançando
mão do processo da interpretação construtiva; e conteudisticamente,
através do postulado de uma teoria do direito que reconstrói
racionalmente e conceitualiza o direito vigente”.
Na defesa do pensamento dworkiano, Jürgen Habermas
sustenta que:
“O modelo de Dworkin tem precisamente esse sentido: trata-se
de um direito positivo, composto de regras e princípios, que
assegura, através de uma jurisprudência discursiva, a integridade
de condições de reconhecimento que garantem a cada parceiro do
direito igual respeito e consideração. (...) Dworkin caracteriza seu
procedimento hermenêutico-crítico como uma “interpretação
construtiva” que explicita a racionalidade do processo de
compreensão através da referência a um paradigma ou a um
fim””.
Deve-se, por último, compreender que a busca da “resposta
correta” é, também, uma metáfora, quer dizer: “um motor imóvel
que nos empurra para o acerto”. Acertar, então, é uma
possibilidade, mas não existem garantias categóricas de que se está
207
certo. Em feliz síntese sobre esta constatação, Wálber Carneiro
conclui que:
(...) se levarmos em conta a existência de um pano
de fundo que sustenta como hermenêutico a nossa
compreensão de mundo e se essa linguagem é
condição de possibilidade para o resgate da razão
moral-prática, não podemos admitir que haja,
independentedas dificuldades que iremos
enfrentar no desvelamento de sentido, mais de
uma resposta correta para um mesmo problema. A
divergência sobre a correta solução de um caso
que, até certo ponto, torna-se insolúvel, não pode
ser considerada razão pela qual deveríamos
abandonar a idéia de resposta correta.
A busca da “resposta correta” é difícil tarefa para o
intérprete, mas necessária, e não se pode desistir do “jogo” antes
de jogá-lo, mas, para isso, como anteviu Ronald Dworkin,
demandar-se-á uma tarefa “hercúlea”, para a qual somente se
logrará êxito indo além dos limites propostos pela
“standardização” de uma cultura jurídica atrasada e
espistemologicamente “pobre”, como tem acontecido no Brasil,
que só será alcançada com a ajuda da Filosofia no Direito.
•A Jurisdição Constitucional na Concepção de Ronald
Dworkin
A centralidade dos princípios nas constituições
contemporâneas, situadas em um paradigma neoconstitucional
208
(pós-positivista), irá justificar, na concepção dworkiana, a própria
jurisdição constitucional. “Somente ao se considerar que os
princípios constitucionais possuem dignidade normativa se pode
justificar (...) o poder das cortes constitucionais anularem normas
produzidas por legislativos eleitos”. Ronald Dworkin enfatiza,
assim, a importância dos princípios na legitimação da jurisdição
constitucional.
No tocante à jurisdição constitucional, Dworkin irá legitimá-la da
seguinte maneira. Se, em um caso difícil, o magistrado, não
podendo aplicar uma regra, aplica um princípio, não está criando
direito novo, mas aplicando o direito preexistente. Por conta
disso, a inclusão dos princípios no sistema jurídico resolve os
problemas de legitimação dos tribunais constitucionais criados
pela concepção volitiva da jurisdição presente no modelo
normativista.
Ainda, em análise da relação entre legitimação democrática e
a jurisdição, Dworkin sustenta, reitere-se, argumentos de que a
tarefa de encontrar respostas corretas é mais viável de ser realizada
por parte dos magistrados, não sendo tão facilmente realizada
pelos legisladores ou os cidadãos que os elegeram.
Acrescente-se, também, que dificilmente o legislativo
“tomará uma decisão contrária a um setor influente politicamente,
já o Judiciário não tem essa pressão direta, tendo em vista que os
setores da sociedade não podem “se vingar” do juiz, não votando
nele”.
209
Talvez se tivesse conhecido, todavia, a atual situação do
Poder Judiciário Brasileiro, notadamente neste caso aquele órgão
responsável a priori pela jurisdição constitucional, ele não chegasse
a esta conclusão, uma vez que se tem acompanhado uma série de
decisões políticas proferidas pelo Supremo Tribunal Federal.
Assume, assim, papel fundamental na concretização
constitucional, e particularmente dos direitos fundamentais, a
jurisdição constitucional, pela teoria de Ronald Dworkin. Registre-
se, inclusive, que para Dworkin os direitos fundamentais são
“reconhecidos no seio de uma comunidade política (comunidade
de princípios), cujos integrantes são tratados com igual respeito e
consideração”.
Assim, a Constituição e seu sistema de direitos fundamentais
incorporam princípios morais, com os quais a legislação
infraconstitucional e as decisões judiciais devem ser compatíveis.
Daí advogar Dworkin uma leitura moral da constituição, que coloque
a moralidade política no coração do direito constitucional. Tal
concepção pressupõe que o aplicador do Direito assuma uma
postura ativa e construtiva, caracterizada pelo esforço de
interpretar o sistema de princípios como um todo coerente e
harmônico dotado de integridade.
A ideia da leitura moral da constituição é, talvez, a alma do
pensamento substancialista, e, simultaneamente, de alta
complexidade. Cabe ao judiciário o papel de interpretar as normas
editadas pelo legislativo, e mesmo sendo esta tarefa vinculada ela
não significa que ao magistrado cabe apenas buscar a interpretação
210
que supostamente seria conferida pelos legisladores. Tampouco
será a interpretação um ato de vontade dos magistrados.
Assim, “os juízes não lêem suas próprias convicções na
Constituição, porque o capítulo que eles escrevem deve estar
conectado com a história escrita até então”, sem desconsiderar,
todavia, que eles são os seus autores.
Com isso, consegue Dworkin, simultaneamente, delinear a
existência de um núcleo moral da Constituição, que merece uma
leitura especial, e a necessidade de respeito aos ditames
democráticos dos espaços institucionais dos Poderes do Estado. E
é nesse sentido, que a “função do controle de constitucionalidade
se torna essencial, ao assegurar a garantia dos direitos
fundamentais contra maiorias eventuais”, definindo a sua posição
substancialista.
A jurisdição constitucional, portanto, é possível concluir,
tem como funções o fortalecimento da democracia, e
principalmente a defesa dos direitos fundamentais, a partir da
“leitura moral da constituição”, proporcionada pela incorporação
de normas morais (princípios) ao sistema jurídico,
proporcionando-lhe, através de um processo hermenêutico
adequado, para busca de “respostas corretas”, e,
fundamentalmente, garantidor da integridade do sistema jurídico.
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212
CAPÍTULO 7
A CLÁUSULA DE RESERVA DE PLENÁRIO COMO
GARANTIA DA UNIDADE DECISÓRIA NO
CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
ABSTRATO-CONCENTRADO PELO STF
João Cássio Adileu Miranda
RESUMO: o objeto deste artigo é a cláusula de reserva de plenário, no
controle de constitucionalidade abstrato-concentrado pelo STF, a partir
de um método dogmática. Proponho a interpretação da como a
exigência do voto da maioria absoluta dos membros de um Tribunal para
decretar uma lei inconstitucional pelas mesmas razões, a fim de otimizar
a deliberação e a força de precedente dos julgados do STF em sede de
controle abstrato-concentrado de constitucionalidade. Afinal, o processo
decisório do STF não garante uma única ratio decidendi nos seus julgados.
PALAVRAS-CHAVE: Controle de constitucionalidade; reserva de
plenário; efeito vinculante; precedente.
ABSTRACT: this article studies the full bench rule application in the
judicial review of legislation by the Brazilian Supreme Court, through a
dogmatic method. I suggest that the full bench rule should be interpreted
as the demand that a law must only be nullified for its unconstitutionality
by the vote of the majority of six members of the Court and by the same
reasons, in order to optimize the Court’s deliberation and the binding
force of its judicialreview of legislation decisions. After all, the judicial
review rules do not ensure a single ratio decidendi in its cases
judgements.
KEY-WORDS: Judicial review; full bench rule; binding force;
precedent.
213
Sumário: 1. Introdução; 2. O processo decisório no STF; 2.1.
Modelo de formação e manifestação da decisão colegiada; 2.2. O
voto do Ministro Relator e as sessões de julgamento televisionadas;
2.3. A causa de pedir aberta e a flexibilização do princípio do
pedido; 3. A cláusula de reserva de plenário; 3.2. Conteúdo
normativo; 3.3. Fundamento constitucional; 4. Efeitos e limites da
decisão constitutiva de inconstitucionalidade; 4.1. Natureza da
decisão que julga lei inconstitucional; 4.2. O efeito vinculante e a
eficácia erga omnes; 4.3. Posicionamento do STF acerca dos limites
objetivos do efeito vinculante; 4.4. O efeito vinculante e os
precedentes obrigatórios; 5. Alternativa à atual compreensão da
cláusula de reserva de plenário; referências.
1. INTRODUÇÃO
O Direito Constitucional impõe grandes desafios aos seus
intérpretes, à vista da grande abertura semântica e da grande carga
valorativa e moral dos enunciados constitucionais, quer sejam
expressos, quer sejam implícitos. Nesse diapasão, é temerário
defender uma única interpretação correta em matéria
constitucional.
Cada compreensão normativa reflete a moralidade política
própria do intérprete, irradiado por sua trajetória no tempo e
espaço, bem como pela moralidade política enraizada na instituição
que faz parte – as quais podem ser diferentes. Sobretudo diante de
214
casos difíceis, a coexistência de interpretações divergentes, e com
igual correção, é plenamente possível.
No entanto, essa pluralidade se torna problemática no STF –
uma Corte colegiada que exerce o controle de constitucionalidade
abstrato-concentrado mediante decisões com eficácia erga omnes e
efeito vinculante.
A problemática supra é relevante em razão da consequência
dessas decisões: o que os membros da Corte acordarem sobre a
inconstitucionalidade de um ato normativo perante à Constituição
pode vincular sujeitos que sequer participaram da deliberação
judicial. Isto é, a interpretação constitucional é centralizada.
Privilegia-se um único posicionamento institucional em prejuízo de
um universo de interpretações possíveis, em razão da supremacia
da Constituição, da segurança jurídica e da integridade, estabilidade
e coerência da jurisprudência constitucional.
A legitimidade democrática do controle de
constitucionalidade é posta em xeque por questões como a sua
centralização interpretativa e o seu caráter contramajoritário. Esse
cenário se agrava ao levar em consideração o processo decisório
do STF.
Importa registrar que não tenho como objetivo negar a
legitimidade democrática do controle de constitucionalidade neste
artigo. Pelo contrário. Parto do pressuposto que o controle de
constitucionalidade é, sim, legítimo. Especialmente se exercido
pelo STF.
215
Dentre as diversas questões que envolvem o processo
decisório do STF, criticarei, com foco no controle concentrado de
constitucionalidade, a atual compreensão da cláusula de reserva de
plenário, que consiste na exigência do voto da maioria absoluta dos
membros da Corte para que uma lei seja decretada
inconstitucional. Não se exige, porém, que os membros da Corte
também acordem quanto aos fundamentos da decisão – o que será
questionado aqui à luz dos elementos positivados do sistema de
controle abstrato-concentrado de constitucionalidade.
Nesse diapasão, a identificação da ratio decidendi e dos
fundamentos determinantes de diversos julgados do STF é uma
tarefa árdua. Uma lei pode ser decretada constitucional por razões
diferentes contidas em cada voto dos Ministros – prejudicando a
formação de um posicionamento institucional da Corte.
Não obstante, o quadro de grave divergência de
fundamentação não é regra nos julgados do STF. Pelo contrário. A
ratio decidenti é identificável pelo voto do relator na maioria dos
casos, considerando a quantidade de votos registrados em ata, o
que não afasta a relevância da problemática da pesquisa.
O segundo capítulo deste artigo trata dos elementos do
processo decisório do STF que influenciam à falta de unidade
decisória da Corte, excluída a cláusula de reserva de plenário.
O terceiro capítulo aborda a cláusula de reserva de plenário,
expondo o seu conteúdo normativo e fundamento constitucional.
216
O quarto capítulo cuida dos efeitos do controle abstrato-
concentrado de constitucionalidade, sobretudo o efeito vinculante
e a eficácia erga omnes, relacionando aquele com os precedentes
obrigatórios do Código de Processo Civil.
Por fim, o quinto capítulo trata da minha proposição
resultante da pesquisa: a interpretação da cláusula de reserva de
plenário como a exigência do voto da maioria absoluta dos
membros de um Tribunal para decretar uma lei inconstitucional
pelas mesmas razões, em sede de controle abstrato-concentrado de
constitucionalidade.
2. O PROCESSO DECISÓRIO DO STF
As normas internas referentes à organização e aos
procedimentos de uma determinada Corte incentivam a
deliberação racional entre os seus membros, bem como refletem
na legitimidade do controle de constitucionalidade.
Em outras palavras, o potencial e o desempenho deliberativo
de um Tribunal depende de suas condições institucionais, de modo
que o processo decisório não é um fim em si mesmo, e, sim, uma
garantia de outros valores constitucionais.
Portanto, sob o prisma formal, os problemas no processo
decisório prejudicam a capacidade de um Tribunal produzir
autênticos precedentes constitucionais. Relativamente ao STF,
Virgílio Afonso da Silva identifica a ausência de troca de
217
argumentos entre Ministros, a carência de decisões que veiculam a
opinião da Corte objetivamente e a ausência de unidade
institucional e decisória – problemática pertinente ao presente
trabalho.
Este tópico cuidará de elementos do processo decisório do
STF que auxiliam a compreender a causa e influência da atual
concepção da cláusula de reserva de plenário, sem, no entanto, a
intenção de esgotá-los. Privilegio, pois, o problema da falta de
unidade institucional e decisória do STF.
Posto isso, registro que a mudança do modo de aplicação da
reserva de plenário não traria solução para todos os problemas do
STF em relação à deliberação e formação de uma jurisprudência
coesa.
2.1. O modelo da formação e manifestação da decisão
colegiada
O presente item é o de maior relevância para o tópico sobre
o processo decisório do STF. Conforme Conrado Hübner
Mendes:
“Do ponto de vista formal, uma decisão deliberativa pode
se manifestar tanto como uma voz única (single voice) quanto
num formato de múltiplas vozes (multiple voice). Ela pode ser
uma pura seriatim, uma per curiam ou ficar em algum ponto
intermediário entre os dois extremos, no qual se pode
218
encontrar uma decisão colegiada com votos concorrentes e
dissidentes ao lado da opinião da corte”.
As decisões colegiadas do STF estão enquadradas na
categoria intermediária entre o posicionamento institucional da
Corte e o respeito aos entendimentos divergentes dos Ministros, os
quais são independentes.
O resultado do julgamento consiste na agregação dos votos
concordantes quanto ao dispositivo, incluindo os concorrentes.
Permite-se, então, as decisões plurais, sem fundamentos
sustentados por maioria. Todavia, o voto vencido também integra
o acórdão.
O acórdão (cuja autoria é institucional) e a ementa são, de
alguma forma, produzidos coletivamente pela Corte. Mas essa
produção coletiva não implica numa exposição fiel dos
fundamentos determinantes da decisão, a exemplo da Rcl nº 9.428,
que tratou da liberdade de imprensa, tomando o julgamento da
inconstitucionalidade da Lei deImprensa como paradigma. Nesse
julgado, Fredie Didier Jr. e Leonardo Carneiro da Cunha
perceberam que vários Ministros sustentaram a necessidade de se
ponderar a liberdade de expressão com outros direitos
fundamentais.
A existência de votos divergentes e concorrentes é bem vista
pelos Ministros e ex-Ministros do STF em geral, mesmo que Corte
tenha mais divergência interna que o Tribunal Constitucional
219
Federal alemão e a Suprema Corte dos Estados Unidos, que
também adota multiple voice. Apesar disso, o Ministro Gilmar
Mendes já admitiu em sessão que a técnica de votos autônomos
dificulta a formação e identificação de um fundamento
determinante pelo próprio colegiado.
Essa agregação de votos não otimiza a interação entre os
votos dos Ministros, impedindo a formação de uma ratio decidendi
compartilhada e de precedente. Tal quadro reforça a metáfora do
STF como “onze ilhas”, utilizada por Conrado Hübner Mendes ao
criticar o comportamento não-deliberativo da Corte. Além da
ausência de diálogo e isolamento dos Ministros, a metáfora pode se
referir ao modo pelo qual acórdãos são estruturados, qual seja pela
agregação, o que pode dificultar a formação e identificação do
consenso do colegiado.
2.2. O voto do Ministro Relator e as sessões de julgamento
televisionadas
O Ministro Relator do processo apresenta o seu voto
somente na sessão de julgamento, a qual não é precedida de outro
encontro oficial dos Ministros.
Acompanho a interpretação de Virgílio Afonso da Silva
acerca desse procedimento, segundo a qual a deliberação é
prejudicada e há o aumento da chance de apresentação de votos
concorrentes pelos demais Ministros. Por conseguinte, sem prévio
220
conhecimento do voto do Relator, cada Ministro vota como se
Relator fosse, dado que comparece à sessão com voto pronto.
Devido à natureza jurídico-dogmática do presente trabalho,
não irei abordar a influência da “TV Justiça”, conta do twitter e do
YouTube do STF e afins na deliberação entre os Ministros. De
qualquer sorte, não se pode olvidar que essa divulgação da
atividade do STF facilita o acesso à informação pelo cidadão
comum e contribui com a democratização do Judiciário.
2.3. A causa de pedir aberta e a flexibilização do princípio do
pedido
Os incisos I e II do art. 3º da Lei nº 9.868/1999 determinam
que na ação direta de inconstitucionalidade deve constar o
dispositivo impugnado, o pedido especificado e a fundamentação
jurídica deste – similarmente ao processo civil.
Contudo, a causa de pedir é aberta no processo objetivo. O
Tribunal tem a prerrogativa de decidir com base em fundamentos
não suscitados nas peças dos demais sujeitos processuais, visto que
não há discussão de interesses subjetivos - embora a provocação
da Corte seja imprescindível.
Dimitri Dimoulis e Soraya Lunardi entendem que a causa de
pedir aberta também consiste que o indeferimento da ação direta
de inconstitucionalidade consiste na declaração de
constitucionalidade e que o indeferimento da ação direta de
221
constitucionalidade consiste na constituição de
inconstitucionalidade, conforme redação do art. 24 da Lei nº
9.868/1999.
O princípio do pedido é mitigado similarmente,
considerando a gama de decisões que o Tribunal pode proferir
além da declaração de constitucionalidade ou da constituição de
inconstitucionalidade. A interpretação conforme a Constituição e a
constituição parcial de inconstitucionalidade sem redução de texto
são alternativas hermenêuticas positivados no parágrafo único art.
28 da Lei nº 9.868/1999.
A causa de pedir aberta tem como função ampliar o debate
no processo objetivo e permitir a análise da constitucionalidade do
dispositivo normativo impugnado perante toda a Constituição, e
não perante apenas aos enunciados elencados pelo autor e demais
sujeitos processuais.
A causa de pedir aberta e a flexibilização do princípio do
pedido colaboram, pois, com a dispersão de fundamentos do STF
e consequentemente com a atual concepção da cláusula de reserva
de plenário. Esses institutos aumentam a liberdade argumentativa
dos Ministros no processo de tomada de decisão, o que dificulta
deliberação para pacificar os fundamentos do acórdão. Afinal, isso
poderia tornar as sessões do Tribunal Pleno ainda mais longas,
prejudicando a celeridade da Corte.
3. A CLÁUSULA DE RESERVA DE PLENÁRIO
222
A análise da cláusula de reserva de plenário poderia estar
contida no tópico anterior. Faço esse destaque em razão do foco
do trabalho nesse instituto, que será abordado com mais
profundidade que os demais elementos do processo decisório do
STF trabalhados.
3.2. Conteúdo normativo
A princípio, a cláusula de reserva de plenário não é um
instituto de difícil interpretação. A margem de conformação pelo
intérprete é significantemente pequena, devido à alta densidade
normativa do artigo 97 da Constituição. Identifica-se, de logo, a
existência de regras que fixam a competência do Pleno (ou órgão
especial) de um determinado Tribunal para apreciar questões
constitucionais e o “quórum” para declaração de
inconstitucionalidade.
Antes de discorrer sobre as normas acima, esclarecerei
brevemente a qualificação destas como regras.
Diante das possibilidades fáticas e jurídicas, uma regra
contém determinações que só podem ser satisfeitas em sua
totalidade, preenchido o suporte fático. As exceções da regra não
são resultadas de uma ponderação do conflito entre uma regra e
outra norma, mas da ponderação do conflito entre os princípios
que fundamentam as normas em colisão. É incoerente (a partir dos
223
pressupostos adotados) a concepção da cláusula de reserva de
plenário como um princípio, tendo em vista a incompatibilidade
do caráter de suas determinações com a ideia de mandados de
otimização.
O conceito de competência contido em uma das normas da
cláusula de reserva de plenário assume uma conotação
organizacional. De acordo com José Afonso da Silva, é “a
faculdade juridicamente atribuída a uma entidade ou a um órgão
ou agente do Poder Público para emitir decisões. Competências
são as diversas modalidades de poder de que servem os órgãos ou
entidades estatais para realizar suas funções”. Ou de forma mais
sucinta: a distribuição de poder de decisão.
A cláusula de reserva de plenário atribui ao Pleno (ou órgão
especial com função de Pleno) uma competência absoluta definida
em razão da matéria (controle de constitucionalidade), devido ao
seu status constitucional e ao seu evidente interesse público, posto
que corresponde a um mecanismo de Controle de
Constitucionalidade.
A cláusula de reserva de plenário é também uma
competência funcional, por se relacionar com a repartição de
tarefas a serem exercidas em um mesmo processo, ocorrendo uma
cisão horizontal de competência no incidente de
inconstitucionalidade dos órgãos fracionários ao Pleno. A remessa
dos autos ao Plenário ou órgão especial ocorre apenas quando
224
suscitada a inconstitucionalidade de uma norma que ostente caráter
prejudicial à decisão de mérito.
Por fim, o entendimento segundo o qual a cláusula de
reserva de plenário exige que a maioria absoluta dos membros do
Tribunal (ou do órgão especial) concorde apenas quanto ao
dispositivo da decisão é pacífico, com a ressalva deste trabalho.
3.3. Fundamento constitucional
Apresentarei, neste item, os fundamentos da cláusula de
reserva de plenário reconhecidos pela doutrina. Este instituto se
sustenta em elementos constitucionais internos (expressos e
implícitos) de maior generalidade, visto que a justificação externa
da Constituição é desnecessária.
Ao comentar a Constituição de 1934, Pontes de Miranda
asseverou que a cláusula de reserva de plenário tem como
fundamento a primazia interesse público sobre o interesse privado
e a estabilidade jurídica, ao impor maiorprudência ao Judiciário na
defesa da Constituição e dificultar a decretação de
inconstitucionalidade das leis.
Outro fundamento da cláusula de reserva de plenário é a
presunção de constitucionalidade das leis, que garante a
imperatividade das normas jurídicas até decisão contrária do
Judiciário. A forma da democracia dotada pelo Brasil garante a
liberdade do legislador para conformar (e reformar) a Constituição.
225
Essa primazia decisória corresponde a um princípio formal, uma
razão para aplicar normas, independentemente de seu conteúdo.
As decisões do legislador eleito democraticamente são presumidas
legítimas, tendo em vista que a constitucionalidade das leis não é
ontológica, mas produto da hermenêutica jurídica.
José Afonso da Silva aduz que a reserva de plenário é
resultado da ponderação de dois valores: de um lado, a supremacia
constitucional, que exige a expurgação das normas
inconstitucionais; de outro, a estabilidade do ordenamento
jurídico, de modo que leis não sejam facilmente excluídas do
Direito positivo.
Os princípios supra não estão em conflito. A imposição de
maior consensualidade nos órgãos jurisdicionais para concretizar a
Constituição é decorrência lógica de sua supremacia constitucional,
ainda que a estabilidade do ordenamento jurídico seja uma
limitação aparente. Os acórdãos constitutivos de
inconstitucionalidade não se limitam à exclusão da lei impugnada
do Direito positivo, à vista da positivação da declaração parcial de
nulidade sem redução de texto.
A delimitação do conteúdo normativo da Magna Carta é
produto da construção judicial, doutrinária e também dos diversos
fragmentos da sociedade. Devido ao seu poder de dar a última
palavra no exercício da jurisdição constitucional, o estabelecimento
da maioria absoluta dos votos de uma Corte como mínimo para a
constituição de inconstitucionalidade de uma lei impõe, em tese,
226
que a decisão reflita de fato o posicionamento do Tribunal como
instituição.
Outrossim, mesmo que em nome da supremacia
constitucional, caso fosse permitido o Controle de
Constitucionalidade pelos órgãos fracionários e com o voto da
maioria simples, tal mecanismo não otimizaria a segurança jurídica,
premissa maior da estabilidade jurídica.
Como fato, a segurança jurídica consiste na previsibilidade,
cognoscibilidade e confiabilidade da aplicação (e justificação) do
Direito. Como valor, estes três elementos são estados de coisas
desejáveis, assumindo um significado axiológico substancial para a
sociedade. Por fim, como norma, tem a natureza de princípio,
portanto, de mandado de otimização, consubstanciando uma
ponderação de valores feita pelo legislador. Segundo Judith
Martins-Costa, cria-se um crédito de confiança do cidadão frente
ao Estado, correspondente ao seu dever de abstenção e também na
racionalização de seu poder.
A cláusula de reserva de plenário, como mecanismo de
limitação do Poder Judiciário, funda-se nas referidas expressões da
segurança jurídica, evitando fáceis mudanças de entendimentos
sobre questões constitucionais em órgãos colegiados do Judiciário,
sem petrificar a atuação destes.
A cláusula de reserva de plenário tem o fundamento e a
função de que as decisões constitutivas de inconstitucionalidades
estejam fundadas no posicionamento institucional de uma Corte. A
227
título de curiosidade, isso se torna difícil em Tribunais de Justiça
com um alto número de desembargadores. Exempli gratia, o
Tribunal de Justiça Do Estado de São Paulo tem 355 (trezentos e
cinquenta e cinco) desembargadores. O seu órgão especial, de
vinte e cinco membros, corresponde a apenas 14,2% do Pleno. No
entanto, tendo em vista os limites do objeto do artigo, essa
problemática não será aqui melhor desenvolvida, visto que essas
críticas não se aplicam ao STF, cujo Plenário aprecia questões de
constitucionalidade das leis.
4. EFEITOS E LIMITES DA DECISÃO CONSTITUTIVA
DE INCONSTITUCIONALIDADE
4.1. Natureza da decisão que julga lei inconstitucional
No presente trabalho, adoto a teoria de Pontes de Miranda
acerca da natureza constitutiva da decisão de inconstitucionalidade
de lei – teoria contrária à de Hans Kelsen. Explicar-se-á o porquê
em estreitíssima síntese, já que se trata de um pressuposto teórico
que não influencia diretamente na conclusão da pesquisa.
Kelsen afirmava que uma lei inconstitucional sequer era uma
lei, devido à sua nulidade. No mesmo sentido, a doutrina
americana defendia que as relações fundadas sob lei
inconstitucional não tinham juridicidade, sendo nulas, pois a
inconstitucionalidade inexiste no mundo jurídico. Por isto, a
228
declaração de inconstitucionalidade deveria ter efeitos ex tunc. O
constitucionalismo brasileiro seguiu essa corrente, a qual é adotada
por muitos até hoje. Nesse sentido, Barroso sustenta que a decisão
é declaratória dado que dá certeza jurídica a uma situação
preexistente à impugnação da lei.
Pontes de Miranda asseverou que controle de
constitucionalidade tem como objeto o plano de validade da lei. A
declaração de inexistência de lei não diz respeito à sua
compatibilidade com a Constituição, motivo pelo qual prescinde
da cláusula de reserva de plenário. A arguição de
inconstitucionalidade (em sentido amplo), em si, pressupõe a
existência de uma lei promulgada após apreciação por duas casas
do Poder Legislativo e sanção presidencial. Lei esta que deve ser
obedecida até a decisão definitiva do Tribunal competente que
decrete a sua inconstitucionalidade. Não se pode olvidar que
muitas vezes a lei só é questionada após anos de vigência, ou até se
torna inconstitucional por razões supervenientes à sua
promulgação, de modo que não se pode negar sua existência.
Destarte, o Tribunal competente também decide acerca da
convalidação ou invalidação das relações jurídicas e atos jurídicos
praticados sob a lei inconstitucional, mediante a modulação dos
efeitos de suas decisões em sede de controle de
constitucionalidade. Este instituto altera o termo inicial destas
decisões, podendo não decretar a invalidade de situações jurídicas
construídas sob norma reconhecida como inconstitucional. Não se
229
discutiria o plano de eficácia de decisão que declarasse a nulidade
preexistente à impugnação da lei inconstitucional.
4.2. O efeito vinculante e a eficácia erga omnes
A eficácia das sentenças dos processos subjetivos se limita às
partes envolvidas. No processo objetivo não poderia ser igual: o
capítulo dispositivo da decisão tem eficácia é erga omnes, atingindo a
todos independentemente de sua participação no caso, e efeito
vinculante, relativamente ao Judiciário e à administração pública,
direta e indireta, em todas unidades federativas.
Dirley da Cunha Jr. afirma que a eficácia erga omnes é
suficiente para deduzir o efeito vinculante, de maneira que não
haveria sentido para o tratamento como institutos distintos. No
entanto, essa distinção tem relevância prática, caso se adote a teoria
da transcendência dos motivos determinantes – que será abordada
ainda neste item.
Segundo Dimitri Dimoulis e Soraya Lunardi, o efeito
vinculante decorre do princípio dos precedentes vinculantes,
presente nos países de common law, com o objetivo de fortalecer a
eficácia das decisões constitucionais e de garantir a uniformidade
decisória no Judiciário.
O efeito vinculante “proíbe a renovação de ato cujo
conteúdo se identifique ao do ato reputado incompatível com a
Constituição pelo STF”, bem como exige que os atos contrários
230
sejam reconhecidos como inválidos e impugnáveis por reclamação
constitucional.
Por outro lado, é a coisa julgada material, de eficácia erga
omnes, que impede o reexame de uma questão pelos órgãos do
Judiciário, e não o efeito vinculante das decisões do STF.
É bem verdade que não haveria razão para o constituinte
utilizartermos diferentes para o mesmo instituto. Conforme a
teoria da transcendência dos motivos determinantes, o efeito
vinculante é atribuído à fundamentação determinante da decisão
constitucional. Isto é, centraliza a interpretação do Tribunal que
exerce o controle de constitucionalidade concentrado.
Nesse diapasão, caso vigore em um Estado uma lei de
conteúdo idêntico a uma decretada inconstitucional pelo STF,
aquele está obrigado a revoga-la. Essa teoria é coerente com o
objetivo de racionalizar o exercício da jurisdição constitucional,
consoante Luís Roberto Barroso.
4.3. Posicionamento do STF acerca dos limites objetivos do
efeito vinculante
O posicionamento do STF acerca dos limites objetivos do
efeito vinculante é incerto. Pode-se dividir o impasse em duas
correntes: a que identifica a coisa julgada com efeito vinculante e a
que reconhece o efeito vinculante dos motivos determinantes para
a decisão.
231
Essa divergência tomou lugar na Rcl 1.987, na qual
prevaleceu a transcendência dos motivos determinantes, com os
votos dos Ministros Maurício Correa (Relator), Cezar Peluso,
Gilmar Mendes e Nelson Jobim. Alegou-se, em síntese, que a
eficácia transcendente da motivação é inerente à própria função
jurisdicional e à efetiva tutela da força normativa da Constituição.
Caso a vinculação se limitasse ao dispositivo da decisão, esta
perderia sua força de precedente a atingir casos futuros, não se
diferenciando da coisa julgada material. Considerando que o
controle de constitucionalidade é fundado em questões de direito,
o seu valor de precedente estaria nas razões determinantes da
decisão.
Do outro lado, Carlos Ayres Britto (que contraditoriamente
votou pela procedência da reclamação), Marco Aurélio, Sepúlveda
Pertence e Carlos Velloso, rejeitaram a ideia supra, por entender
que quaisquer motivos teriam qualidade de coisa julgada, ou que as
decisões do STF por si se transformariam em súmulas vinculantes.
Posteriormente, o STF rejeitou a referida tese em diversos
julgados, sob o argumento de que a concentração do poder
decisório é antidemocrática e desprivilegiava as instâncias
inferiores do Judiciário. No julgamento da Questão de Ordem da
ADC nº 1, o Ministro Marco Aurélio afirmou que o efeito
vinculante, de forma geral, fere a independência dos juízes e o
devido processo legal, ao submeter cidadãos a decisões sem ter
participado do processo.
232
Dimitri Dimoulis e Soraya Lunardi constatam acertadamente
que a transcendência dos motivos determinantes é aceita de forma
velada, intitulando esse comportamento da Corte como tese de
efeito transcendente indireto.
Esta tese é identificável na jurisprudência do STF que
permite a decretação de inconstitucionalidade de lei estadual por
decisão monocrática, em julgamento de recurso extraordinário
interposto contra decisão de Tribunal de Justiça que declara uma
lei constitucional em dissonância com a jurisprudência dominante
do STF, com base no art 557, §1º-A, do Código de Processo Civil
de 1973 (art. 932, IV, do Código de Processo Civil). Essa
jurisprudência, aliás, afasta a cláusula de reserva de plenário
indevidamente. E o faz com o objetivo declarado de garantir a
plenitude à autoridade do STF na interpretação constitucional –
argumento idêntico ao da teoria da transcendência dos motivos
determinantes.
4.4. O efeito vinculante e os precedentes obrigatórios
Mesmo que o foco do presente trabalho seja o controle
abstrato-concentrado de constitucionalidade, o efeito vinculante
tem importância prática nos processos subjetivos. Afinal, o Código
de Processo Civil atribuiu força de precedente obrigatório às
decisões do STF em controle concentrado de constitucionalidade,
a despeito do Direito jurisprudencial ser uma fonte do Direito
233
tradicionalmente secundária nos sistemas de civil law, devido à
ausência do stare decisis. Isto é, a sua obrigatoriedade não é
intrínseca ao pronunciamento judicial, derivando da lei.
O precedente é uma regra jurídica usada por um Tribunal no
lugar de decisão do caso, aplicada aos fatos relevantes que
resultaram no litígio. Corresponde à sua própria ratio decidendi – a
opção hermenêutica determinante que tenha aptidão para ser
universalizada e se tornar regra geral.
Ademais, o precedente se assemelha ao efeito vinculante em
diversos pontos.
Primeiramente, a aplicação de ambos institutos depende da
unidade decisória. O uso da reclamação constitucional é dificultado
sem uma delimitação segura da decisão paradigma. Do mesmo
modo, a ausência de um posicionamento institucional claro é um
obstáculo ao cumprimento das decisões com força obrigatória (por
um motivo ou por outro) por outros órgãos do Poder Público e do
Judiciário.
Aliás, não se pode falar propriamente de fundamentos
determinantes ou de ratio decidendi de uma decisão plural, o que se
torna problemático ao se levar em conta que a invocação de
precedente sem a subsunção deste ao caso concreto implica na
ausência de fundamentação da decisão judicial.
O segundo ponto corresponde à fundamentação jurídica (ou
opção hermenêutica). No controle abstrato-concentrado de
constitucionalidade, a ratio decidendi se aproxima dos fundamentos
234
determinantes, porquanto a cognição é realizada sobre uma tese
jurídica necessária à solução do caso. Mesmo se se tratar do
controle de constitucionalidade de uma lei estadual de conteúdo
idêntico a uma já considerada inconstitucional pelo STF, a aferição
dessa identidade de conteúdo se dá no plano normativo, e não
fático.
Por fim, as funções do efeito vinculante e do precedente
para o Direito são afins. Os institutos mencionados buscam
racionalizar a atividade jurisdicional, mediante a universalização
das decisões judiciais. De mais a mais, garantem a isonomia a casos
iguais e a previsibilidade do Judiciário.
5. ALTERNATIVA À ATUAL COMPREENSÃO DA
CLÁUSULA DE RESERVA DE PLENÁRIO
A minha proposição consiste na interpretação da cláusula de
plenário como a exigência do voto da maioria absoluta dos
membros de um Tribunal para decretar uma lei inconstitucional
pelas mesmas razões, em sede de controle abstrato-concentrado de
constitucionalidade. Ou seja, que os magistrados concordem em
relação ao dispositivo e fundamentação do acórdão constitutivo de
inconstitucionalidade, haja vista que a unidade decisória é
indispensável à aplicação dos precedentes obrigatórios e do efeito
vinculante.
235
Outrossim, o art. 926 do Código de Processo Civil
estabeleceu quatro deveres aos Tribunais no tocante à formação e
à manutenção da jurisprudência, com o fito de racionalizar o Poder
Judiciário – ainda que com baixa densidade normativa. Contudo,
apenas os deveres de uniformização e de coerência (no sentido
formal) jurisprudencial têm relevância para o presente trabalho.
Fredie Didier Jr. descreve o dever de uniformização da
jurisprudência como o dever de os Tribunais solucionarem
divergências internas. Essas divergências internas englobam tanto
as divergências entre órgãos fracionários quanto as divergências
dentro de um mesmo órgão (incluindo o Plenário). Logo, o dever
de uniformização da jurisprudência não prescinde da unidade
decisória. Isso porque a solução de divergências internas não é
possível sem a fixação de um posicionamento institucional de uma
determinada Corte diante de casos iguais, com uma ratio decidendi
única.
O dever de manter a jurisprudência coerente, no sentido
formal, traduz-se no dever de não contradição interna das decisões
de um Tribunal. A contradição interna também abarca duas
situações: a contradição entre capítulos da decisão; e a contradição
entre o texto do acórdão e o quanto decidido na deliberação, como
já ocorrido em julgados do STF. Reitero que a segunda espécie de
contradição denota a ausência de posicionamento institucional deuma Corte – situação indesejável pelo Código de Processo Civil.
236
Posto isso, a mudança na interpretação da cláusula de
reserva de plenário ajudaria no cumprimento do art. 926 do
Código de Processo Civil, ao garantir a unidade decisória no
controle abstrato-concentrado de constitucionalidade.
A minha proposição poderia, sim, trazer impasses
pragmáticos ao funcionamento do STF, a exemplo do
alongamento das sessões, visto que seria uma norma de imposição
de consenso no processo decisório. Entretanto, esse efeito
negativo não é verificável empiricamente sem que seja implantado.
E mesmo que o fosse, excederia os limites jurídico-dogmáticos da
minha pesquisa.
A título de curiosidade, regulamentação da representação
interpretativa no Regimento Interno do STF e na Constituição de
1967 dá critérios à operacionalização da alternativa por mim dada à
cláusula de reserva de plenário, não obstante esteja em desuso.
A representação interpretativa tem (ou tinha) como objetivo
provocar o STF para a fixação de uma interpretação de lei ou ato
normativo federal ou estadual. Essa interpretação fixada no
acórdão é dotada de força vinculante. Isso não significa que
equivale ao efeito vinculante do controle abstrato concentrado de
constitucionalidade, embora também se trata de um instrumento
de centralização hermenêutica. Registro, porém, que os Ministros
julgadores só concordaram quanto ao dispositivo nas
representações que tive acesso.
237
Em suma, o art. 185, § 2º, do Regimento Interno do STF
que realmente interessa à operacionalização de minha proposta.
Tal dispositivo estabelece que, na hipótese dos votos se dividirem
em duas interpretações, será designada nova sessão para a votação
de uma única interpretação a ser fixada no acórdão.
Por conseguinte, o regime da representação interpretativa
traz uma solução prática à garantia da unidade decisória. Sem
embargo disso, não me enveredarei quanto à possibilidade de
aplicação analógica desse regime, ou a necessidade de lei para
tanto, neste trabalho.
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118.
ÁVILA, Humberto. Teoria da Segurança Jurídica. 3ª ed. São
Paulo: Malheiros, 2014.
238
BARROSO, Luis Roberto. O controle de constitucionalidade
do Direito brasileiro: exposição sistemática da doutrina e análise
crítica da jurisprudência.6ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
BRAGA, Paula Sarno; DIDIER JR., Fredie; OLIVEIRA, Rafael
Alexandria de. Curso de Direito Processual Civil 2: Teoria da
Prova, Direito Probatório, Precedente, Coisa Julgada e Tutela
Provisória. 10ª ed. Salvador: JusPodivm, 2015.
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244
CAPÍTULO 8
FLEXIBILIZAÇÃO DO JUDICIAL REVIEW OF
LEGISLATION: SUBSISTE O MONOPÓLIO JUDICIAL
ESTATAL?
Lázaro Alves Borges
RESUMO: O controle de constitucionalidade tradicionalmente se
compreende pela verificação de compatibilidade formal e material das
leis e atos normativos através do Poder Judiciário, tendo sua origem no
caso Marbury X Madison (1803). O julgado conclui que os juízes, ao
analisar um caso concreto, por realizarem a interpretação, deveriam
respeito ao ordenamento e, portanto, realizariam o controle, o que se
distinguia dos demais órgãos de poder. Passados mais de 200 anos,
questiona-se o monopólio dos magistrados na realização da atividade
com o estabelecimento de funções equivalentes a entes estatais e não-
estatais, com o estabelecimento da Arbitragem. Questiona-se os motivos
e possíveis conseqüências da adoção das técnicas não judiciais para
realização do controle de constitucionalidade.
PALAVRAS-CHAVE: Poder Judiciário. Controle de
constitucionalidade. Arbitragem.
ABSTRACT: The control of constitutionality traditionally translates by
the verification of formal and material compatibility of laws and
normative acts through the Judiciary, having its origin in the case
Marbury X Madison (1803). The judge concludes that the judges, when
analyzing a concrete case, for performing the interpretation, should
respect the order and, therefore, would carry out the control, which was
distinguished from the other organs of power. After more than 200
years, the monopoly of the magistrates is questioned in the
accomplishment of the activity with the establishment of functions
equivalent to state and non-state entities, with the establishment of
Arbitration. We question the reasons and possible consequences of the
adoption of non-judicial techniques to carry out the constitutionality
control.
KEYWORDS: Judiciary. Control of constitucionality. Arbitration.
245
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Análise do Marbury X Madison
(1803). 3. Novas realizações de controle de constitucionalidade
não-jurisdicionais. 4. A arbitragem e o controle de
constitucionalidade. 5. O argumento da estatalidade da função de
controle de constitucionalidade. 6. Das conseqüências da adoção
da tese. 7. À guisa de conclusões. 8. Referências Bibliográficas
Introdução
Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode
esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem.
O judicial review of legislation é um instituto que prevê que o
controle de constitucionalidade é realizado por todo juiz ou
tribunal, sendo função típica ao Poder Judiciário, remontando ao
célebre caso Marbury X Madison (1803). Na lição de Dirley da
Cunha Junior, o modelo define-se como um controle judicial de
constitucionalidade das leis e atos do poder público que qualquer
juiz ou tribunal, ante um caso concreto, pode desempenhar
incidental ou indiretamente pressupondo uma controvérsia.
Difundido no Brasil através dos escritos de Ruy Barbosa,
consoante André Luiz Batista Neves, o controle jurisdicional de
constitucionalidade não foi importado ao Brasil a título de mímica
diletante do paradigma norteamericano, mas no interesse da
consolidação da República, como seu condicionante, seja por
receio da volta da Monarquia, seja por temor de implantação de
246
um presidencialismo caudilista análogo aos demais países
latinoamericanos. Compreender que a função de aplicar a
Constituição como forma de pulverização do poder centralizado
do período absolutista auxilia ao entendimento do mister nos dias
atuais e vaticina no que se transmutará.
Conceitua a doutrina majoritária o controle como a atividade
relacional de garantia do ordenamento entre norma inferior e
mater ao jurisdicional, devido à capacidade institucional deste em
interpretar a norma e, assim, dizer o direito. Nesse sentido, muitos
doutrinadores indicam como pressuposto para a atividade o
estabelecimento de um órgão competente, sendo este, na
experiência brasileira, o Poder Judiciário. Pode-se elencar como
fundamento dessa conclusão a própria atividade jurisdicional (que,
em latim, “juris”, Direito, “dicção”, dizer) que, a partir da adoção
do modelo montesquiano de tripartição dos poderes, atribuiu a
capacidade de solucionar as controvérsias e tornar definitiva a
coisa litigiosa.
Malgrado o posicionamento majoritário, o presente artigo
busca questionar a precedência e unicidade dos juízes atuais em
dizer o que deva ser a Constituição (seria uma erosão do
tradicional conceito de jurisdição?) com enfoque nos litígios
submetidos a arbitragem. Os equivalentes jurisdicionais ou formas
de consensualidade nos conflitos submetidos à jurisdição privada
poderiam, à luz do caso Marbury X Madison (1803), declarar a
inconstitucionalidade de uma norma incidenter tantum?
247
Em uma breve busca de referencial teórico, encontra-se
escassez quanto ao enfrentamento específico do problema,
considerando que, inobstante sua previsão desde o século passado,
a negociação no âmbito do processo é um projeto reforçado no
Novo CPC e paulatinamente implementado na cultura jurídica
brasileira com objetivo de desafogar os inúmeros processos do
Poder Judiciário e permitir maior autonomia da vontade entre os
litigantes. Insta salientar que novos diplomas reforçam a sua
aplicação, sobretudo no direito público, âmbito em que a
Constituição foi minuciosa e que, porventura, possa haver uma
inconstitucionalidade a ser declarada (ex. um procedimento
licitatório que descumpra o art. 37 XXI CF ou pagamento de
vantagem a uma concessionária de serviço público que descumpra
o quantum determinado no estatuto constitucional, por exemplo).
Desde logo, entende-se que a proposta é inconcebível
quanto ao modelo concentrado-abstrato kelsiano. Neste, o
argumento da estatalidade encontra bases sólidas e razoáveis para
refutar a proposta do juízo arbitral como: necessidade de
legitimado único para interpretação oficial deve deter a última
palavra sobre a vexata quaestioe efeitos transcendentes à partes que
obrigam a terceiros não contratuais, o contraria a arbitragem em
sua própria essência. Focar-se-á no controle difuso de
constitucionalidade, o qual inicialmente coube a todo e qualquer
juiz ou tribunal a declaração da inconstitucionalidade da norma,
extirpando-a na aplicação do caso concreto.
248
•Análise do Marbury X Madison (1803)
Preliminarmente, cabe remontar ao histórico do controle
difuso de constitucionalidade. O escorço histórico será brevemente
realizado no intuito de estabelecer as premissas e os motivos que
levaram a competência judicial para que, posteriormente, verifique-
se se são compatíveis com a arbitragem. Até porque, as referências
a este instituto são, no mais das vezes, para remeter ao passado
histórico, sem indicar dispositivo específico da Magna Carta (onde
se consagrou de forma implícita em artigos como o art. 97 e art.
102, III, a, ambos de competência do Supremo Tribunal Federal
ou o art. 125 §2º da representação de inconstitucionalidade do
Tribunal de Justiça).
García de Enterría questiona a surgimento da ideia do
judicial review quanto à Constituição de 1787. Para o publicista
espanhol, o marco inicial estaria no Federalist Paper, quando
Alexandre Hamilton proporá diretamente o tratamento da
Constitucional como fundamental Law, constando uma vinculação
mais forte: a Constituição vincula ao juiz mais fortemente que as
leis, as quais só podem ser aplicadas se não conformes à
Constituição.
Todavia, a doutrina majoritária brasileira aponta o célebre
caso estadunidense. Num escorço histórico, relata Luís Roberto
Barroso que, nas eleições americanas no final de 1800, o
249
Presidente Jonh Adams e os federalistas (atuais democratas na
composição política estadunidense) perderam as eleições no
Congresso e no Executivo Federal, decidindo-se assim, conservar a
sua influência política no Poder Judiciário, aprovando em 13 de
fevereiro de 1801, uma lei de reorganização do Poder Judiciário
federal (the Circuit Court Act, reduzindo o número de ministros da
Suprema Corte e criando dezesseis novos cargos de juiz federal e,
posteriormente, em 27 de fevereiro de 1801, the Organic Act of the
District of Columbia autorizou Adams a nomear quarenta e dois
juízes de paz, dentre eles, Jonh Marshall, ao qual a correspondência
para a investidura no cargo, não lhe fora entregue pelo Ministro
Jonh Marshall.
Faz-se interessante observar que Marbury, embora tivesse
sido aprovado pelo Senado e prestado compromisso desde 4 de
fevereiro de 1801, permaneceu no cargo de Secretário de Estado
até o último dia de mandato de Adams. Sucede que o Congresso
revogou a lei de reoganização judiciária federal (the Circuit Court
Act, 1801), extinguindo os cargos e destituindo os ocupantes,
negando-se a entregar os atos de posse.
Marshall, em seu voto, demonstrou a procedência do direito
de Marbury a investidura no cargo, fixando que somente os atos de
natureza política e os que a lei ou a Constituição atribuíssem a
discricionariedade do agente público não seriam suscetíveis de
controle judicial. Entretanto, sustentou a inconstitucionalidade do
art.13 de uma lei judiciária de 1789, que expandira a competência
250
da Suprema Corte para julgamento de ações não previstas na
Constituição, tendo o diploma legal invadido o rol taxativo do
texto constitucional. Fundamentou a decisão nos seguintes termos:
•Supremacia da Constituição;
•Nulidade de lei que contrarie a Constituição, consectário
lógico da primeira;
•Legitimidade do Poder Judiciário na interpretação da
Constituição por este dizer o Direito (aplicação como forma de
interpretação, típica de países de Common Law).
Nesse sentido, merece trazer à baila os ensinamentos de Ruy
Barbosa acerca da hierarquia das normas na aplicação do direito
positivo pelo intérprete
Se, pois, os Tribunais não devem perder de vista a Constituição, e
se a Constituição é superior a qualquer ato ordinário do Poder
Legislativo, a Constituição e não a lei ordinária há de reger o caso,
a que ambas dizem respeito. Destarte, os que impugnaram o
princípio de que a Constituição se deve considerar, em juízo,
como lei predominante, hão de ser reduzidos à necessidade de
sustentar que os tribunais devem cerrar os olhos à Constituição, e
enxergar a lei só.
Quanto aos fundamentos do controle, pode-se verificar que
os juízes e tribunais legitimam-se pela função interpretativa do
Direito positivo e sua consequente aplicação. Nesse sentido, Eros
Grau, com base na hermenêutica clássica e jurídica, conclui que a
interpretação e aplicação não se realizam autonomamente, mas a
aplicação do direito consiste em concretizar a lei em cada caso, isto
251
é, na sua aplicação. Não, há, portanto, momentos distintos do
árbitro ao aplicar a norma ao caso ainda que por máximas de
experiência ou na interpretação do direito positivo.
Em particular, inexiste qualquer vedação para que o julgador
observe a situação fática, sendo o controle difuso marcadamente
pelo processo subjetivo, ou seja, aquele em que a finalidade de seu
exercício é tão somente a defesa de um direito ou interesse
subjetivo da parte e não propriamente a defesa objetiva da
Constituição. Defende-se que a existência de lide entre as partes e
aplicação do estatuto processual não impede uma análise objetiva
dos dispositivos constitucionais, posto que essa visão redundaria
numa competência absoluta do Supremo Tribunal Federal e dos
Tribunais do Estados em serem os guardiões das respectivos
diplomas jurídico-políticos. Verificar o processo subjetivo como de
meros interesses subjetivos contraria ainda o Novo Código de
Processo Civil e sua tendência de abstrativização dos efeitos e
desvinculação dos casos concretos (com a técnica de formulação
de precedentes judiciais, o incidente de resolução de demandas
repetitivas, a difusão de tutela coletiva). Por outro lado, isso não
invalida a tese jurídica do trabalho, porquanto que, ainda que haja
um grau de objetividade, o caso concreto é o plano de fundo do
trabalho do intérprete, o qual também deve ser observado. O que
se pretende dizer é que, além de suposta falência do critério de
distinção – sempre haverá interesses em jogo e, sendo eles advindo
das partes ou de legitimados/amicus curiae, nada importará ao
252
resultado final da verificação de incompatibilidade material ou
formal e extirpação da norma ou a um caso concreto ou do
ordenamento jurídico -, subsiste a similaridade com a atuação do
árbitro.
Retoma-se aqui a ideia apresenta de García de Enterría,
posto que seria o árbitro vinculado de forma mais preponderante à
Constituição do que a lei ou a qualquer convenção das partes. Por
isto, defende-se que, ainda que as partes não convencionem no
compromisso arbitral, o árbitro deve realizar controle de
constitucionalidade das normas pela vinculação mais forte ao texto
constitucional.
Verificar a inconstitucionalidade no ordenamento jurídico é
tarefa obrigatória daqueles que labutam rotineiramente (applicatio).
Deste modo, é descabido não atribuir ao árbitro a possibilidade de
declaração incidental de inconstitucionalidade por característica
exclusivamente estatal. O célebre caso Marbury X Madison, caso
houvesse sido proferido atualmente, teria incluído as demais
formas de solução de conflitos antepostos pelos litigantes.
•Novas realizações de controle de constitucionalidade não-
jurisdicionais
Neste tópico, pretende-se brevemente remontar que a nova
estrutura de repartição de funções permite a outros órgãos de
poder o exercício efetivo de evidenciar e suprimir
253
incompatibilidades com relação à Magna Carta. Em que pese a
informação anterior, ainda há na doutrina quem sustente não
ocorrer nos casos abaixo controle de constitucionalidade por
atrelar a função jurisdicional.Hodiernamente, o Poder Legislativo, na atribuição da
Comissão de Constituição e Justiça, poderá enviar parecer acerca
da constitucionalidade da proposta, sendo este vinculante, o que
poderá ser posteriormente observado em Plenário. Considera-se
ainda a sustação de ato normativo do Executivo pelo Congresso
Nacional que exorbite o poder regulamentar ou os limites da
delegação legislativa (art. 49 V CF), bem como a edição de um
novo diploma normativo compatível com a Constituição.
Ademais, o Poder Executivo, no tocante ao veto jurídico do
Presidente, deverá alegar em 15 dias úteis o vício que macula
juridicamente a proposta de lei a fim de contrariar a Constituição
Federal. Outrossim, o chefe do Poder Executivo pode deixar de
aplicar uma lei que considere inconstitucional, bem como expedir
mediante decreto determinação nesse sentido a toda aos órgãos
que lhe são subalternos.
De modo similar, os Tribunais de Contas, na forma da
Súmula 347 aprovada em 1963 do Supremo Tribunal Federal,
poderão, no exercício de suas atribuições, apreciar a
constitucionalidade das leis e dos atos do Poder Público nos atos
ou contratos submetidos ao seu julgamento técnico.
254
Os Conselhos Superiores da Judicatura (Conselho Nacional
de Justiça) e do parquet (Conselho Nacional do Ministério Público)
possuem a competência para afastar a aplicação de norma
inconstitucional, desde que no exame de situações concretas
submetidas ao controle administrativo, não aplicando norma que
lhe seja inválida. A lógica é similar ao do Poder Executivo,
verificando-se uma função similar, contudo precária, ao controle
de constitucionalidade na função administrativa normativa-
hierárquica. Conquanto que no controle judicial há uma
definitividade do pronunciamento acerca da palavra a ser dada,
num contexto de normas polissêmicas e de interpretações
conforme a Constituição, os demais equivalentes analisariam
motivadamente de forma precária. Destarte, o chefe do Poder
Executivo, o Conselho Nacional de Justiça e Ministério Público e
o Tribunal de Contas realizariam funções equivalentes ao controle de
constitucionalidade.
O atual sistema de precedentes judiciais visa a corroborar
com a distinção. Isto porque o julgador estará vinculado às
orientações vinculantes verticalmente ou horizontalmente,
resultando numa maior solidez ao controle judicial de
constitucionalidade.
Interessante proposta de aplicação do controle de
constitucionalidade por ação no processo administrativo fiscal
provocada pelo contribuinte, quando já questionado na via judicial
com jurisprudência consolidada pela sua inconstitucionalidade,
255
negando a aplicação da lei. Enquadrar-se-ia como equivalente a
função, o que poderia ser realizado também na via arbitral.
Veicula-se na doutrina a proposta hermenêutica de Peter
Haberle para qual a interpretação da constituição deve ser aberta
para todos os intérpretes. Defende o jurista que deve haver uma
ampliação do círculo dos intérpretes constitucionais, advogando
uma abertura compatível com o Estado Democrático de Direito.
O autor inclui no rol de interpretes os seguintes indivíduos e
grupos sociais: o recorrente e o recorrido, amicus curiae e formas de
intervenção de terceiros, órgãos e entidades estatais, auxiliares do
juízo, grupos sociais como escolas, partidos e organizações
religiosas, a doutrina constitucional, dentre outros. Percebe-se a
abrangência e o caráter agregador da proposição filosófico-
constitucional, concebendo o que a doutrina denomina de
Constituição aberta. Sugestiona-se, portanto, ao encontro da tese,
incluir neste catálogo os árbitros nas causas submetidas a sua
jurisdição. Curioso e concomitante exemplificador destacar que o
art. 120, seção 4 da Constituição da Grécia de 1975 aponta que a
sua observância é confiada ao patriotismo dos gregos.
Deve-se salientar que Pablo Lucas Verdú critica o
posicionamento de Haberle, por entender que o maniqueísmo que
se apresenta na teoria crítica de Popper e, segundo ele, de Haberle,
entre abertura-perfeição e fechamento-imperfeição é um
radicalismo inadequado. Para o professor espanhol nenhum
256
Constituição, bem como nenhuma sociedade é exclusivamente
fechada ou exclusivamente aberta.
Em que pese a ponderação de Verdú, a abertura da
jurisdição constitucional brasileira mostra-se uma tendência, por
mais das vezes, barrada pela jurisprudência defensiva do Supremo
Tribunal Federal – que, inobstante de um lado restrinja o acesso,
possui uma cultura de inafastabilidade da jurisdição amplíssima – e
de outro, ineficaz pela quantidade de feitos submetidos às diversas
varas do Poder.
Questionar-se acerca da subsistência do judicial review of
legislation é, de certo modo, ampliar os legitimados a dizer o que é a
Constituição. As leituras realistas não podem prevalecer num
Estado em que se pretende pluralista e garantidor da autonomia
dos cidadãos. Não se nega as lições do Ex-Ministro Nelson
Hungria de que o Supremo Tribunal Federal teria o condão de
errar por último acerca da tradução do diploma mor. O que se
pretende é possibilitar a maior participação e pluralidade na
jurisdição constitucional.
• A arbitragem e o controle de constitucionalidade
A arbitragem é uma heterocomposição de solução de
conflitos mediante a qual os conflitantes buscam em pessoa de sua
confiança a solução amigável e ‘imparcial’ do litígio. Para José
Maria Rossani Garcez, a arbitragem ainda pode ser definida como
257
uma técnica que visa a solucionar questões de interesse de duas ou
mais pessoas, físicas ou jurídicas, sobre as quais estas tem a
capacidade jurídica para transacionar e renunciar ao direito
vindicado, por decisão de uma ou mais pessoas - o árbitro ou os
árbitros - os quais têm poderes para assim decidir pelas partes por
delegação expressa destas, resultante de convenção privada, sem
estar investidos formalmente das funções estatais.
Questão prejudicial é saber se a arbitragem é uma das formas
de jurisdição. A doutrina clássica aponta que todo juiz tem
jurisdição, podendo-lhe faltar a competência para apreciar a causa,
ou seja a competência seria o limite da jurisdição. De encontro a
esta proposição, Wilson Alves de Souza reformula o conceito,
deprendendo-se no conceito em sua literalidade (dizer o direito),
verificando que esta é atribuída pela Constituição
Nesse sentido, o Novo Código de Processo Civil reforça o
procedimento arbitral, posto que em seu artigo 3º permite
expressamente a arbitragem, findando qualquer discussão da sua
força vinculante à jurisdição estatal. Negar a possibilidade do
procedimento no ordenamento jurídico brasileiro como outrora é
criar empecilhos a continuidade histórica e a autonomia privada.
A Lei de Arbitragem (Lei 9307/1996) diz, em seu artigo 18,
que o árbitro é juiz de fato e de direito, e a sentença que proferir
não fica sujeita a recurso ou a homologação pelo Poder Judiciário.
A solução de conflitos por via da jurisdição privada sujeita-se a
controle judicial tão somente em relação a sua validade quando
258
ajuizada no prazo de noventa dias após o recebimento da
notificação da respectiva sentença, parcial ou final, ou da decisão
do pedido de esclarecimentos (Art. 32 e 33).
Sobre a norma jurídica aplicável, na arbitragem de direito,
deve-se discutir se a existência de cláusula compromissória que não
conste o diploma magno, impede o julgador que examine
inconstitucionalidade. Neste sentido, ainda que haja disposição das
partes quanto ao direito, a incidência da Constituição sobre todo o
ordenamento jurídico invalidaria o dispositivo convencionado,
tornando-o letra morta. Outrossim, recusar a possibilidade a
qualquer tempo analisar norma mater de ordem pública seria violar
o ordenamento jurídico.
Ademais, ainda que possam estabelecer em cláusula
compromissória cheia,por exemplo, a escolha da lei aplicável,
permitida a opção pelo julgamento com base na equidade ou com
fundamento em princípios gerais de direito, usos e costumes e
regras internacionais de comércio, devem ser respeitadas a ordem
pública e os bons costumes. O controle de constitucionalidade das
leis e atos normativos denota-se como preceito de ordem pública,
não podendo ser dispensado entre as partes por anuência mútua.
Imagine que num contrato de divisão do pro labore de determinado
sócio seja inferior ao salário mínimo vigente em uma empresa com
razoável faturamento e que fique constado o vínculo de
subordinação, típico das relações trabalhistas. O árbitro deverá
259
aplicar diretamente a garantia o salário mínimo como mínimo vital
a ser percebido.
Carmem Tiburcio, em estudo paradigmático e inovador
acerca do tema, mas com o viés internacionalista, aponta que a
jurisdição constitucional pode ter elementos estrangeiros na
aplicação pelos próprios entes estatais, como verificação da
compatibilidade das normas com base no local da celebração
conforme o art. 7o , §1o , da Lei de Introdução das Normas do
Direito Brasileiro. Cita a internacionalista o exemplo de um
casamento realizado na França com ação de nulidade para
impedimento matrimonial. Ainda assim, o procedimento adotado
Na hipótese de aplicação de regras de direito, o árbitro decide
com base no ordenamento jurídico vigente. Já houve alguns
precedentes na Argentina nos quais tribunais locais decidiram que
os árbitros podem examinar a constitucionalidade das leis de
emergência argentinas. Entendeu-se que o árbitro é juiz de fato e
de direito e, como o juiz de direito pode analisar a
constitucionalidade da lei no caso concreto, também o árbitro
pode apreciar se a lei está em conformidade com a Constituição
argentina. Seguindo este entendimento, em uma arbitragem com
sede no Brasil e com aplicação da lei substantiva brasileira, o
árbitro pode deixar de aplicar determinada lei por considerá-la
inconstitucional, realizando o controle incidental. O árbitro aplica
o direito brasileiro na sua integralidade e tem o dever de examinar
a constitucionalidade da lei aplicável ao caso.
Na linha de raciocínio, questiona-se se a Arbitragem não
poderia tão somente inaplicar determinada norma em relação ao
caso concreto e não realizar controle difuso de constitucionalidade.
Nesse particular, tratando-se de controle difuso de
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constitucionalidade inexistiria diferença ontológica dentre as
atividades, posto que a essência do controle está radicada na
faculdade do Poder Judiciário deixar de aplicar a norma em defesa
dos princípios constitucionais, permitindo-se assim dizer que o
árbitro realiza controle difuso de constitucionalidade.
•O argumento da estatalidade da função de controle de
constitucionalidade
Os argumentos da necessidade do pronunciamento estatal
para controle de constitucionalidade assemelha-se aos outrora
utilizados quanto a (in)aplicação da consensualidade na
Administração Pública.
Adota-se, neste trabalho, a concepção de que apenas se a
prerrogativa pública não for tão somente instrumental, não se deve
falar em sua exclusividade.
O controle de constitucionalidade tem por objeto leis e ato
normativo do Poder Público, sendo litígios que envolvem
diretamente o Estado. Por isso, faz-se mister destacar a velha
discussão da possibilidade da consensualidade na Administração
Pública, outrora discutida – desde a edição da Lei 9307/1996 -,
cuja doutrina já discorria sobre a sua possibilidade, haja vista os
interesses públicos disponíveis da Administração. Apontava a
doutrina contrária a existência de interesse público intangível.
Entendo que, por força do art. 1º, §1º, incluído pela Lei
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13129/2015, a discussão se encerrou, cabendo a Arbitragem
quanto aos direitos disponíveis. Inclina-se a abertura do
procedimento a campos de atuação clássicos do Direito.
Por outro lado, observa-se uma tendência com a
constitucionalização do Direito Privado e a eficácia horizontal dos
direitos fundamentais, haver a submissão de normas
inconstitucionais nas relações privadas e possivelmente aplicação
do controle de constitucionalidade arbitral.
Outrossim, o argumento da estatalidade não trouxe
uniformidade das decisões acerca da interpretação da Constituição.
Isto porque, ao prever que cada juiz ou tribunal tem a competência
para atribuir a interpretação correta sem um sistema de stare decisis
ou de um cadastro nacional de declaração de inconstitucionalidade,
o Brasil adotou no sistema difuso uma colcha de retalhos onde a
questão de inconstitucionalidade só é levada anos após para o
Supremo Tribunal Federal através de recurso extraordinário com
repercussão geral conhecida.
Diferentemente seria se estivéssemos no modelo difuso
português de inconstitucionalidade, em que da declaração de
inconstitucionalidade de uma norma cabe recurso imediato para o
Tribunal Constitucional.
262
•Das conseqüências na adoção da tese
Atribuir a crítica da pluralidade de decisões privadas acerca
do que seria a Constituição também não merece prosperar. Isto
porque, na jurisdição constitucional atual, a diversidade de
entendimentos que buscam traduzir o significado e alcance da
Magna Carta subsiste. Repercutiria então na proposta do Prof.
Gabriel Marques de propor a elaboração de um cadastro de
inconstitucionalidade, o que, poderia envolver também as decisões
arbitrais quanto o tema.
Em que pese não ser objeto do artigo, vale mencionar que a
uniformização das decisões da jurisdição constitucional encontra-
se no princípio do stare decisis et non quieta movere, isto é, da eficácia
vinculante de suas decisões ou força do precedente, no qual as
decisões da Suprema Corte produzem eficácia erga omnes, tornando-
se dead Law (lei morta). No Brasil, há diversas tentativas de
estabelecer equivalentes aos institutos, quais sejam a Ação
Declaratória de Constitucionalidade para unificar as decisões dos
tribunais acerca da (in)constitucionalidade, a adoção do regime de
súmulas vinculantes e, mais recentemente, a adoção do sistema de
precedentes vinculantes estabelecido pelo Novo Código de
Processo Civil. Essa discussão também permanece na adoção da
possibilidade da arbitragem. O que se pretende demonstrar é que
similares imbróglios do sistema de controle difuso de
constitucionalidade não seriam agravados.
263
Por outro lado, haveria maior autonomia entre as partes,
oxigenação da interpretação acerca dos dispositivos constitucionais
com visões de outros campos do saber aliados a tecnicidade
jurídica, possibilidade das partes em trâmites mais céleres e
convencionados. Como a Arbitragem pode se utilizar de
conhecimentos extrajurídicos, à escolha de pessoa com
conhecimento específico em determinada matéria, a
fundamentação do voto extrapola os argumentos afamados no
sistema judicial.
Um último tópico deve versar sobre como realizar o
levantamento de fundamentos constitucionais para a decisão
arbitral, que, como exposto, pode se pautar em outras áreas do
conhecimento. Nesse sentido, cabe às partes arrolá-los e, se não
enfrentados, entende-se que pode haver apreciação judicial por ser
matéria de ordem pública. Caso sejam perpassados na decisão,
devem ser, a priori, respeitados pelo magistrado togado, posto que
o árbitro era competente, devendo aquele, diante da polissemia das
normas constitucionais e da pluralidade de possíveis interpretações
de uma norma, ratificá-la, ainda que não se pronuncie neste
sentido. O argumento de que apenas por ordem pública, a
autonomia da vontade estaria derrogada perfaz-se na utilização de
um conceito jurídico indeterminado para invalidar o acordo
celebrado por partes capazes e legítimas, posicionando o Estado-
juiz como fiscal de negócios jurídicos válidos. Se for possível