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André Ramos Tavares Marina Faraco Lacerda Gama (Coordenadores) Grupo de Pesquisa Hermenêutica e Justiça Constitucional - PUC-SP/CNPq OMISSÃO INCONSTITUCIONAL Conselho Editorial Celso Fernandes Campilongo Reginaldo Ferreira Lima Tailson Pires Costa Marcos Duarte Emerson Malheiro Célia Regina Teixeira Jonas Rodrigues de Moraes Viviani Anaya OMISSÃO INCONSTITUCIONAL - FORMATO EPUB Copyright: André Ramos Tavares e Marina Faraco Lacerda Gama (Coordenadores) Copyright da presente edição Editora Max Limonad Capa: Régis Strévis sobre quadro de Mark Rothko Editora Max Limonad www.maxlimonad.com.br editoramaxlimonad@gmail.com 2018 APRESENTAÇÃO O Grupo de Pesquisa Hermenêutica e Justiça Constitucional, vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq e certificado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, visa ao estudo da Justiça Constitucional em seu sentido amplo, incluindo o Poder Judiciário e o impacto socioeconômico de suas decisões, a partir de seu papel central na construção do constitucionalismo nacional e na consolidação de projetos constitucionais. Neste campo se insere a preocupação de avaliar tantos seus deveres, relacionados à concretização dos direitos fundamentais, como os limites de sua atuação, incluindo a questão hermenêutica. Dentre as diversas questões relacionadas à hermenêutica e à justiça constitucional, reunimos na presente obra profundas considerações de docentes da PUC/SP e de pesquisadores do Grupo sobre as “Omissões Inconstitucionais,” tema de grande complexidade e que tem sido objeto das discussões realizadas no último ano, identificando ou buscando oferecer respostas a tais lacunas legislativas. Agradecemos não apenas aos autores como também à PUC/SP, por meio do auxílio recebido do Edital PIPEq 4001/2018, que tornou possível a publicação deste livro. São Paulo, 30 de setembro de 2018. André Ramos Tavares Marina Faraco Lacerda Gama OS INSTRUMENTOS JUDICIAIS ESPECÍFICOS DE COMBATE À OMISSÃO INCONSTITUCIONAL NO BRASIL E SUA CONTEXTUALIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA[1] Specific judicial instruments to counter the unconstitutional legislative omission in Brazil and their socioeconomic contextualization André Ramos Tavares[2] Resumo: O artigo analisa a progressiva presença e refinamento da jurisdição constitucional brasileira em campo considerado tradicionalmente político. O foco é a eficiência dos instrumentos judiciais-processuais para suprir omissões ilegítimas do legislador e do administrador público. O artigo se debruça exclusivamente sobre os instrumentos constitucionais- judiciais que foram criados especificamente para essa finalidade, mas não deixa de observar o uso da jurisdição em geral com essa mesma finalidade e o papel que esses mecanismos podem desempenhar na construção do Estado Social. Para realizar essa análise, o artigo considera como pressuposto material importante a condição de economia periférica do país, que apresenta deficiências na implementação de direitos sociais, aliada à imposição de transformação socioeconômica que foi determinada pela Constituição Brasileira de 1988, enquanto constituição desenvolvimentista. A conexão entre esses elementos nem sempre é percebida pela doutrina mais técnica sobre jurisdição constitucional e costuma ser desconsiderada como elemento de análise pela doutrina econômico-desenvolvimentista. Palavras-chave: Omissão legislativa, omissão dos poderes constitucionais eleitos, omissão administrativa, ação judicial abstrata de controle da omissão, Mandado de Injunção, Jurisdição Constitucional. Abstract: The article analyzes the progressive presence and refinement of the Brazilian constitutional jurisdiction in a field traditionally considered exclusively political. The focus is on the efficiency of judicial-procedural instruments to meet illegitimate omissions of the legislator and the public administrator. The article addresses exclusively the constitutional-judicial instruments that were specifically created for this purpose, but it also observes the use of jurisdiction in general for the same purpose and the role that these mechanisms can play in the construction of the Welfare State. In order to carry out this analysis, the article considers as an important material assumption the condition of the country’s peripheral economy, which presents shortcomings in the implementation of social rights, coupled with the imposition of socioeconomic transformation that was determined by the Brazilian Constitution of 1988 as a developmental constitution. The connection between these elements is not always perceived by the more technical doctrine on constitutional jurisdiction and is usually disregarded as an element of analysis by the economic-developmental doctrine. Keywords: Legislative omission, omission of the elected constitutional powers, administrative omission, direct judicial action of unconstitutionality by omission, Injunctive Writ, Constitutional Jurisdiction. Sumário. 1. As omissões inconstitucionais: características e categorias no Direito brasileiro; 1.1. Entre omissão não-normativa e omissão legislativa; 1.2. O papel do juiz na inconstitucionalidade por omissão parcial de ato normativo; 2. Aspectos próprios da ação abstrata de controle da omissão e o poder da Corte Suprema; 2.1. Efeitos da decisão; 2.2. O caso dos poderes ampliados da Corte na ADPF; 3. O mandado de injunção; 3.1. Inovação constitucional; 3.2 Limites do juiz no mandado de injunção; 3.3. Competências judiciais para apreciar o mandado; 3.4. Alcance da decisão judicial; 3.5. Possibilidade de efeitos gerais em casos concretos; 3.6. O caso do mandado de injunção coletivo; 4. Conclusões: impacto da inação normativa dos Poderes eleitos no Brasil e o novo papel exercido pelo Poder Judiciário. 1. AS OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS: CARACTERÍSTICAS E CATEGORIAS NO DIREITO BRASILEIRO Inicialmente é preciso lembrar que, no Brasil, todo juiz é juiz constitucional, no sentido de que está autorizado a deixar de aplicar uma lei ao caso concreto por considerá-la inconstitucional, nos moldes (e também por influência) do sistema norte-americano. Desde um ponto de vista material, pode-se afirmar que o Supremo Tribunal Federal exerce, simultaneamente, a função de Tribunal Constitucional e Tribunal de recursos[3]. Desde 1965 o Supremo Tribunal desempenha a função típica de Corte Constitucional, pois mesmo sendo o Tribunal do ápice do sistema judicial, também tem competência originária para julgar, em abstrato, a constitucionalidade ou não de uma lei e decidir, desde logo, com efeitos gerais e não apenas “entre partes”. Por isso afirmo, seguindo Eduardo Ferrer Mac-Gregor, que há um tribunal constitucional. Mas é preciso registrar que o uso dessa expressão, no Brasil, não coincide com o conceito tipicamente europeu de tribunal constitucional. Além disso, a Constituição brasileira de 1988 criou uma ação abstrata (competência originária) para combater as omissões do legislador. Dispõe o art. 103, § 2º, da Constituição: “Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e, em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta dias”. Ao dispor sobre um instrumento especificamente voltado para a omissão, fica o questionamento sobre se isso significa que todas demais vias judiciais ficaram proibidas de serem usadas para alcançar essa finalidade. É tradição considerar que as ações do controle abstrato-concentrado de constitucionalidade são exclusivas, ou seja, excluem um controle difuso geral. Daí a característica certeira do rótulo “controle concentrado”. Isso, porém, só se sustenta em termos técnicos, ou seja, considerando a extensão do pedido. Nada impede, pois, que para casos concretos e restritos a jurisdição em geral possa ser utilizada para eliminar omissões inconstitucionais. Aliás, no caso brasileiro, há também um instrumento específico para essa finalidade,a atenção inevitável de certos poderes, instituições e segmentos organizados da sociedade, como o Poder Judiciário e o Ministério Público. A sociedade, porém, precisa estar permanentemente atenta. Nesse sentido, entendo que a criação de ações específicas para combate da omissão inconstitucional dos poderes eleitos e de certas autoridades públicas não deve ser compreendida como uma opção constitucional por vetar o manejo de outras ações para proferir decisões judiciais com características de superação desse estado de coisas. Assim ocorre com decisões judiciais proferidas em casos concretos e em ações coletivas, que determinam a criação de vagas em creches, o tratamento de determinadas moléstias ou que determinam certas obrigações de fazer, a despeito da falta de lei, da falta de norma regulamentadora ou da falta de ação de autoridades da Administração Pública. As ações específicas, aqui analisadas, não cobrem, pois, todo o largo espectro de atuação do Poder Judiciário no combate ao mal da omissão inconstitucional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, Luiz Alberto David, NUNES JUNIOR, Vidal Serrano. Curso de Direito Constitucional. 4ª ed. Saraiva: São Paulo, 2001. BERCOVICi, Gilberto. Política econômica e direito econômico. In: Revista Fórum de Direito Financeiro e Econômico ‐ RFDFE, Belo Horizonte, ano 1, n. 1, mar. / ago. 2012, ref. p. 1-18. Versão digital disponível em acesso em 28.12.2017, p. 11). ________. Estado Intervencionista e Constituição Social no Brasil: O Silêncio Ensurdecedor de um Diálogo Entre Ausentes. In: SOUZA Neto, Cláudio Pereira de; SARMENTO, Daniel & BINENBOJM, Gustavo (orgs.). Vinte Anos da Constituição Federal de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, pp. 725-738. CAPPELLETTI, Mauro. La Giurisdizione Costituzionale delle Libertà. Milano: A. Giuffre, 1995. CASCAJO CASTRO, José Luis, GIMERO SENDRA, Vicente. El Recurso de Amparo. 2ª ed. Tecnos, Madrid, 1988. Clève, Clèmerson Merlin. A fiscalização abstrata da constitucionalidade no direito brasileiro. 2ª ed. São Paulo: Editora RT, 2000. Cunha Junior, Dirley da. Controle Judicial das Omissões do Poder Público. Saraiva: São Paulo, 2004. FERRER MAC-GREGOR, Eduardo. 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Professor Titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, foi Presidente da Associação Brasileira de Direito Processual Constitucional (2013-2016). Líder do Grupo de Pesquisa Hermenêutica e Justiça Constitucional (PUC/SP - CNPq). [3] . O Supremo Tribunal Federal é a Corte judicial máxima no país, não havendo, do ponto de vista formal, um tribunal constitucional de modelo kelseniano, localizado ad hoc do Poder Judiciário. [4] . Gilberto Bercovici. Estado Intervencionista e Constituição Social no Brasil: O Silêncio Ensurdecedor de um Diálogo Entre Ausentes. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. [5] . A. R. Tavares, Manual do Poder Judiciário, São Paulo (Brasil), 2012, p. 51. [6] . A esse respeito cf. A. R. TAVARES, Influência de 1917 na doutrina e nas Constituições brasileiras, In: H. Fix-Zamudio, E. Ferrer Mac- Gregor(orgs.)., Mexico y la Costitución de 1917: influencia extranjera e trascendencia interncaional, Mexico (DF), 2017. [7] . A esse respeito cf. A. R. Tavares, Direito econômico diretivo: percursos das propostas transformadoras(Tese de Titularidade USP), São Paulo, 2014. [8] . A. R. Tavares, O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise histórico-comparativa entre Brasil e México, in Revista Brasileira de Estudos Constitucionais - RBEC, ano 10, n. 35, mai/ago 2016, p. 46, referência: p. 43-62. [9] . A. R. Tavares, CNJ como Instância de Suporte aos Magistrados na Complexidade decisória: o caso dos direitos sociais e econômicos, in: F. B. Cruz, (coord.) CNJ 10 anos, Brasília (Brasil), 2015, p. 47. [10] . A. R. Tavares, Manual do Poder Judiciário, cit., p. 38. [11] . A. R. Tavares, Manual do Poder Judiciário, cit., p. 38. [12] . A. R. Tavares, Manual do Poder Judiciário, cit., p. 42. [13] . A. R. Tavares, Justiça constitucional e direitos sociais no Brasil, In: J. C. FRANCISCO (coord.), Neoconstitucionalismo e atividade jurisdicional: do passivismo ao ativismo judicial, Belo Horizonte (Brasil), 2012, p. 138-140. [14] . Cf. IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: características gerais dos domicílios: 2016, Rio de Janeiro, 2017, p. 5. Versão digital, 28 de dezembro de 2012, em https:// biblioteca.ibge.gov. br/visualizacao/livros/liv101379.pdf. [15] . Conferir IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: PNAD contínua: educação: 2016, Rio de Janeiro, 2017, p. 2. Versão digital, 28 de dezembro de 2017, em https://biblioteca.ibge.gov. br/visualizacao/livros/liv101434.pdf. [16] . A esse respeito cito a Emenda Constitucional n. 95/2016 que previu um teto de despesas primárias para o Estado, engessando o futuro do país, ao mesmo tempo em que alterou as regras de cálculo dos pisos mínimos de aplicação orçamentária em saúde e educação (artigo 110 do ADCT) podendo implicar na redução do investimento mínimo nessas áreas. Essa emenda não atingiu os pagamentos, pelo Estado, de juros e encargos da dívida pública, promovendo o que Gilberto Bercovici já classificou como “uma supremacia do orçamento monetário sobre as despesas sociais” (G. Bercovici, Política econômica e direito econômico, in Revista Fórum de Direito Financeiro e Econômico - RFDFE, Belo Horizonte, ano 1, n. 1, mar. / ago. 2012, p. 2. ref. p. 1-18. Versão digital 28 de dezembro de 2017, em https://disciplinas.stoa.usp. br/pluginfile. php/311930/mod_resource/content/1/D_GBE_PoliticaeconomicaeDireitoEc onomico.pdf). [17] . A. R. Tavares, Justiça constitucional e direitos sociais no Brasil. cit., p. 141. [18] . Sobre o tema cf. TAVARES: André Ramos, Facções Privadas e Política Econômica não Democrática na Ditadura Brasileira, In: Revista Brasileira de Estudos Constitucionais - RBEC, Belo Horizonte (Brasil), ano 9, n. 32, p. 1047-1066, mai/ago. 2015. [19] . Sobre o domínio do Executivo no período da chamada ditatura militar, Antônio Pádua Ribeiro sustenta que: “A Constituição anterior ensejou a hipertrofia do Poder Executivo atingindo seriamente o princípio da independência e harmonia dos poderes por ela própria adotada. O legislativo foi convertido em mero órgão de homologação da legislação editada pelo Executivo, através de decretos-leis, e o Judiciário não pôde acompanhar o desenvolvimento do País porque sempre estava a depender do Executivo para inclusão no orçamento de verbas de seu interesse e da sua posterior liberação” (...) “situando-se em posição aviltante em termos de relacionamento dos poderes”. A. P. Ribeiro, Judiciário algumas inovações e transformações, in Revista de Informação Legislativa, v. 26, n. 104, out./dez. 1989, p. 201, referência p. 201-212. Atualmente, porém, a partir de uma prática que ficou conhecida como “presidencialismo de coalização”, a verdade é que a pauta nacional do Poder Executivo (e da sociedade) é comandada sobretudo pelo Poder Legislativo, cujas principais lideranças conseguem determinar os rumos nacionais e, também, indicar os nomes de algumas das principais pastas do Poder Executivo. [20] . C. M. Clève, A fiscalização abstrata da constitucionalidade no direito brasileiro, 2ª ed., São Paulo (Brasil), 2000, p. 243. [21] . Nesse sentido cf. STF, ADPF 192 AgR/RN, Tribunal Pleno, Relator MIn Luiz Fux, j. 19. 08.2015, DJe 17.09.2015, cuja ementa é taxativa: “[...] Os atos que consubstanciem mera ofensa reflexa à Constituição não ensejam o cabimento das ações de controle concentrado de constitucionalidade. Precedentes: ADPF 169-AgR, rel. Min. Ricardo Lewandowski, Pleno, DJe de 14/10/2013; ADPF 210-AgR, rel. Min. Teori Zavascki, Pleno, DJe de 21/6/2013; ADPF 93-AgR, rel. Min. Ricardo Lewandowski, Pleno, DJe de 7/8/2009[...]”. [22] . Essa carência foi parcialmente solucionada pelo novo CPC com instrumentos de identificação e bloqueio dessa massa de ações, com a imposição de decisões superiores que servem de paradigmas aos graus inferiores do Poder Judiciário. [23] . Como já propus em minha obra: A. R. Tavares, Curso de Direito Constitucional, 10ª ed. São Paulo (Brasil), 2012, p. 342. [24] . STF, Plenário, Rel. Min. Aldir Passarinho, j. 23.02.1989. [25] . Z. Veloso, Controle Jurisdicional de Constitucionalidade, 2. ed., Belo Horizonte, 2000. p. 251. [26] . Nesse sentido destaca-se o recente julgamento da Medida Cautelar na ADPF 378, julgada em 17.12.2015 (Plenário do STF, Relator Min. Edson Fachin, redator p. o acórdão Min Roberto Barroso), que definiu o rito do impeachment. No voto do relator reafirma-se o caráter de subsidiariedade da ADPF, apta a solucionar questões constitucionais que “insuscetíveis de apreciação direta pelo Supremo Tribunal Federal, tais como normas pré- constitucionais ou mesmo decisões judiciais atentatórias a cláusulas fundamentais da ordem constitucional” (transcrição pelo relator de trecho da ADPF 127, relatada pelo Min. Teori Zavaski). O relator, transcreve, ainda trecho da ADPF 33 (DJ 27.10.2006, Rel. Min Gilmar Mendes) em que fica assentado o seguinte: “Princípio da subsidiariedade (art. 4º, § 1o, da Lei no 9.882/99): inexistência de outro meio eficaz de sanar a lesão, compreendido no contexto da ordem constitucional global, como aquele apto a solver a controvérsia constitucional relevante de forma ampla, geral e imediata”. [27] . D. Cunha Junior, Controle Judicial das Omissões do Poder Público, São Paulo, 2004, p. 543. [28] . D. Cunha Junior, op. cit., p. 544 [29] . G. F. Mendes, Jurisdição Constitucional: o controle abstrato de normas no Brasil e na Alemanha. São Paulo (Brasil), 1996, p. 313. [30] . C. Nunes, Teoria e Prática do Poder Judiciário, Rio de Janeiro (Brasil), 1943, p. 583. [31] . Rel.Min. Ary Franco, in RTJ - Revista do Trimestral de Jurisprudência, ano 7 (jan/1963), v. 23, p. 39, 1ª col., 1963. [32] . É a posição de E. Garcia De Enterría, La Constitución como Norma y el Tribunal Constitucional, Madrid (Espanha, 1994, p. 198 [33] . Foi essa inclusive, a posição adotada a certa altura pelo Supremo Tribunal Federal. Confira-se, dentre outros, o acórdão resultante da Representação n. 700, na qual funcionou como relator o Min. Amaral Santos (j. 08.11.1967, STF, in RTJ - Revista Trimestral de Jurisprudência, ano 12 (Ago./1968), v. 45, n. 3, 1968, p. 714). Mas o Supremo fixou-se, mais recentemente, na natureza de processo objetivo do controle, com o que concebe esse processo como uma parcela da atividade propriamente jurisdicional. Não se compartilha da posição daqueles que entendem que se trata de atividade substancialmente política ou, pelo menos, não jurisdicional. É o que sustentam, dentre outros: R. L. Lourenço, Controle Constitucional de Constitucionalidadeà Luz da Jurisprudência do STF, 2ª ed., Rio de Janeiro (Brasil), 1999, p. 3-4. Sobre o tema: A. R. Tavares, Tribunal e Jurisdição Constitucional, São Paulo (Brasil), 1998, p. 19-121. [34] . R. Gneist, Der Rechtsstaat und die Verwaltungsgerichte in Deutschland. 2ª ed. Berlin (Alemanha), 1879, apud G. F. Mendes, op. cit., p. 45. [35] . Nesse sentido: F. Saja, Introducione ai Lavori del Seminario, in Corte Costituzionale, Giudizio “a quo” e Promovimento del Processo Costituzionale, Atti del Seminario Svoltosi in Roma. Milano (Palazzo della Consulta), 1989, p. 3; J. L. Cascajo Castro, V. Gimero Sendra, El Recurso de Amparo, 2ª ed. Madrid, 1988, p. 76; M. Capelleti, La Giurisdizione Costituzionale delle Libertà, Milano, 1995, p. 112-3; R. L. Lourenço, op. cit., p. 5. [36] . G. Zagrebelsky, Diritto Processuale Costituzionale? in Corte Costituzionale, Giudizio “a quo” e Promovimento del Processo Costituzionale, Atti del Seminario Svoltosi in Roma. cit., p. 113. [37] . Como anota Massimo Luciani, trata-se da “funzione oggetiva della giustizia costituzionale” (Giustizia Costituzionale e Ideale Democratico. In: Parlamento, Corte Costituzionale e Sviluppo della Forma di Governo in Italia, Associazone per gli Studi e le Ricerche Parlamentari. Milano, 1991, v. 2, p. 14). [38] . STF, Reclamação, Questão de Ordem, Medida Cautelar n. 397-RJ, j. 25.12.1992, DJ 21 de maio de 1993, p. 9765. [39] . Já mencionei a incidência, no que couber, da Lei n. 9.868/99, por se tratar de um dos documentos básicos na regulamentação do chamado “processo constitucional objetivo” e, agora, por haver previsão legal expressa nesse sentido, ratificando o sistema processual comum objetivo. Ademais, sublinhe-se que no polo passivo dessa ação será o órgão identificado constitucionalmente como o competente para adotar as providências cuja falta gerou a inconstitucionalidade por omissão. Quanto à cautelar, a Lei indica que “poderá consistir na suspensão da aplicação da lei ou do ato normativo questionado, no caso de omissão parcial, bem como na suspensão de processos judiciais ou de procedimentos administrativos, ou ainda em outra providência a ser fixada pelo Tribunal” (art. 12-F, § 1º da Lei 9.868/99, artigo incluído pela Lei 12.063/2009). [40] . Apesar de ter servido, como sabemos, a avanços em face da concentração de poderes arbitrários da monarquia europeia. Sobre o tema, sugiro a leitura de Sandra Liebenberg, Socio-Economic Rights, Claremont: Juta & Co., 2010. [41] . STF, ADPF/MC n. 4, Plenário, Rel. Min Ellen Gracie, j. 02.08.2006. [42] . A. R. Tavares, O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise histórico-comparativa entre Brasil e México, cit. p. 57,. [43] . STF, Plenário, Rel. Min. Gilmar Mendes, j. 09.05.2007. [44] . Trecho do voto do relator (vencedor) Min. Gilmar Mendes, STF, ADI 3.682/MT, j. 09.05.2007, DJ 06.09.2007. O aludido art. 18 da Constituição do Brasil, na redação dada pela Emenda Constitucional n. 15/1996 exige Lei Complementar Federal para definir o período em que cabe a tramitação de processos para criação, fusão, incorporação e desmembramento de Municípios. [45] . Plenário, Rel. para o acórdão Min. Gilmar Mendes, j. 25.10.2007. [46] . Esse julgamento transitou em julgado em 26/08/2017 (ADO n. 25), mas há pendência sobre a execução da decisão. [47] . W. C. Rothemburg, Inconstitucionalidade por Omissão e Troca de Sujeito: a perda de competência como sanção à inconstitucionalidade por omissão. São Paulo (Brasil), 2005, p. 90. [48] . Corrobora o entendimento de que se trata de medida diferenciada dentro do controle abstrato da constitucionalidade, a referência do art. 10 da Lei 9.882/1999, que, em seu caput, determina: “Julgada a ação far-se-á comunicação (...) fixando-se as condições e o modo de interpretação e aplicação do preceito fundamental”. Logo, mais do que apenas promover um controle de constitucionalidade, e declarar que determinado ato normativo viola preceito fundamental (conteúdo corrente do controle de constitucionalidade promovido pelas demais ações diretas) a decisão em ADPF deve indicar também como interpretar e aplicar o preceito fundamental violado, tornando-o efetivo. [49] . Assim: STF, Pleno, Questão de Ordem em Mandado de Injunção n. 107, rel Min. Moreira Alves, j. 23.11.1989, DJ 21 set. 1990. Era também a posição da doutrina: L. A. Araújo, V. S. Nunes Junior, Curso de Direito Constitucional, 4ª ed. São Paulo (Brasil), 2001, p. 123. [50] . Para um estudo sobre o assunto: R. A. C. Pfeiffer. Mandado de Injunção. São Paulo (Brasil), 1999, p. 31. Pela proximidade dos institutos mencionados, repetindo uma linha argumentativa de falta de originalidade: M. Figueiredo. O Mandado de Injunção e a Inconstitucionalidade por Omissão, São Paulo, 1991, p. 29-32. [51] . R. A. C. Pfeiffer,. op. cit., 1999. [52] . Retoma-se aqui as conclusões acerca da originalidade do constitucionalismo latino-americano, em A. R. Tavares, O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise histórico-comparativa entre Brasil e México, cit., p. 46. [53] . Cf. eg. MI 232/RJ, Plenário, Relator Min. Moreira Alves, j. 02.08.1991, DOU 27 mar. 1992, p. 3800, decisão analisada adiante. [54] . Considerando esse assunto na perspectiva da desconstrução do Pacto Constitucional, eu já havia registrado os fatos “jurídicos” curiosos em torno do tema: “[...] esse processo de descronstrução de nosso Pacto teve seu início antes mesmo da promulgação da Constituição de 1988, com a notícia da elaboração do que viria a ser o parecer do consultor-geral da República, cargo já inexistente na Constituição de 1988. Da lavra de Saulo Ramos, o parecer literalmente suspendeu o referido art. 192, no que estipulava os juros reais de 12% ao ano. O Banco Central do brasil, por meio de uma mera Circular (n. 1365) liberou todas as instituições financeiras do Brasil de cumprirem o referido teto constitucional. [...] logo a seguir, o STF emprestaria força de nova corte constitucional. E [...] alguns anos mais tarde, o Congresso ratificava formalmente o que já se fazia na prática autorizada do STF, banindo a cláusula do texto Constitucional” (André Ramos Tavares. A desconstrução do Pacto Constitucional. São Paulo: Outras Expressões, 2017, p. 148). [55] . STF, ADI 232, rel. Min. Moreira Alves, DOU 27 mar. 1992, p. 3800. [56] . Recentemente o STF decidiu (RE 693.456, j. 27.10.2016, rel. Min. Dias Toffoli) que os servidores públicos grevistas deverão ter descontados os dias de paralisação de sua remuneração, salvo se a greve for decorrente de conduta ilícita do poder público. Há possibilidade de compensação dos dias parados em caso de acordo entre as partes. Esse julgamento considerou, que, nos termos do art. 7º da Lei 7.783/1989, há suspensão do contrato de trabalho durante a greve. [57] . Apresentei essa tese à Faculdade de Direito da USP, ao concurso de livre-docência. Denomino essa função como “legislativa”, para evitar confusão com as função interpretativa da Constituição, que também possui caráter normativo. A publicação foi posterior, cf. AndréRamos Tavares. Teoria da Justiça Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 321 e ss.. [58] . Op. cit., p. 67. [59] . Essa posição, em relação ao aviso prévio proporcional passou por diferentes tratamentos na jurisprudência do STF. No Mandado de Injunção n. 278, (redatora para o acórdão Ministra Ellen Gracie, DJ 14.12.01) reproduziu-se a declaração da “mora do Congresso Nacional, que deverá ser comunicado para supri-la” (trecho da ementa). No entanto, no julgamento conjunto dos Mandados de Injunção ns. 943, 1010, 1074 e 1090 em 22.06.2011, a corte decidiu por concretizar o direito, adiando-se o julgamento para decidir de que forma isso seria feito. Entretanto, durante o período do adiamento determinado, foi promulgada a Lei 12.506 de 11 de outubro de 2011. Quando foi retomado o julgamento, em 06.02.2013, o STF decidiu estender os critérios dessa Lei para os casos em análise (julgamento conjunto MI 943, 1010, 1074 e 1090 Relator Min. Gilmar Mendes, j. 06.02.2013). [60] . Apenas a título de ilustração, cf. RE 393.175 AgR, Relator: Min. Celso de Mello, Segunda Turma, julgado em 12/12/2006, DJe de 02/02/2007. [61] . Dimitri Dimoulis e Soraya Lunardi também registram a mudança jurisprudencial ocorrida na interpretação do STF acerca dos efeitos da decisão a partir do julgamento dos mandados de injunção n. 721 (30.08.2007), n. 712 e n. 708 (ambos julgados em 25.10.2007). D. Dimoulis, S. Lunardi. Curso de Processo Constitucional: controle de constitucionalidade e remédios constitucionais, 2ª. ed., São Paulo, 2013, p. 409-410. [62] . A. L. Maluf, Reflexões sobre o projeto aprovado pelo Senado que regulamenta o Mandado de Injunção, in: Jornal Carta Forense, 22.06.2016, 28 de dezembro de 2017 (acesso), em http://cartaforense.com.br/conteudo/artigos/reflexoes-sobre-o-projeto- aprovado-pelo-senado-que-regulamenta-o-mandado-de-injuncao/16677. [63] . J. 26.10.2000, Relator Min Octávio Gallotti. CONSIDERAÇÕES SOBRE O EMPREGO DOS INSTRUMENTOS CONSTITUCIONAIS DE ENFRENTAMENTO DA OMISSÃO Considerations on the use of the Constitutional instruments to deal with omission Christiane Mina Falsarella[64] Resumo: O presente trabalho apresenta considerações sobre o emprego dos instrumentos previstos na Constituição Federal de 1988 com a finalidade de lidar com a omissão inconstitucional. Após a exposição de um panorama da disciplina da ação direta de inconstitucionalidade por omissão e do mandado de injunção, são delimitadas as situações de omissão passíveis de controle por meio de tais instrumentos. Em seguida, é analisada a prática de empregar outras ações para enfrentamento das omissões inconstitucionais, formulando-se, ao final, algumas questões a esse respeito para reflexão. Palavras-chave: omissão inconstitucional; controle; instrumentos Abstract: This paper presents considerations on the use of the instruments provided by the constitution of 1988 in order to deal with the unconstitutional omission. After exposing a panorama of the discipline of the “ação direta de inconstitucionalidade por omissão” and of the “mandado de injunção”, the situations of omission that can be controlled by those instruments are delimited. Following this, the practice of using other actions to deal with unconstitutional omissions is analyzed, and some questions are formulated for reflection. Key-words: unconstitutional omission; control; instruments Sumário: Introdução. 1. O controle da omissão inconstitucional. 2. Omissões passíveis de controle mediante ação direta de inconstitucionalidade por omissão e mandado de injunção. 3. Emprego de outros instrumentos para enfrentamento das omissões inconstitucionais. Conclusões. Referências bibliográficas. INTRODUÇÃO A omissão inconstitucional é tema que merece um estudo aprofundado, dadas as suas implicações na efetivação das normas constitucionais. A seguir serão apresentadas algumas considerações sobre o emprego dos instrumentos previstos na Constituição Federal com a finalidade de promover o combate à omissão, que são a ação direta de inconstitucionalidade por omissão e o mandado de injunção. Inicialmente, será exposto um breve panorama da disciplina dos instrumentos que permitem realizar o controle da omissão inconstitucional, o que inclui seus contornos jurídicos, hipóteses de cabimento e efeitos. A partir daí, serão delimitadas as situações de omissão passíveis de controle mediante ação direta de inconstitucionalidade por omissão e mandado de injunção, fazendo-se um contraponto com as situações em que a omissão deve ser sanada por outros meios. Na sequência, será abordado o emprego de outros instrumentos para lidar com omissões que, em princípio, deveriam ser objeto de ação direta de inconstitucionalidade e de mandado de injunção. Por fim, serão levantados alguns problemas relacionados a este último ponto, com o objetivo de trazer questionamentos sobre o tema para ensejar futuras reflexões. 1. O CONTROLE DA OMISSÃO INCONSTITUCIONAL A Constituição Federal de 1988, visando dar concretude aos objetivos previstos em seu artigo 3º[65], e em consonância com os princípios gerais do Estado de Bem-Estar, contém um extenso rol de direitos reputados fundamentais, destacando-se dentre eles os direitos sociais. Para que os anseios do constituinte nesse campo se convertam em realidade, incumbe ao poder público a adoção de medidas que confiram efetividade a tais direitos. Na prática, todavia, pode ocorrer – e de fato ocorre – uma omissão estatal no desempenho destas atividades. Verifica-se uma situação de omissão inconstitucional quando o poder público deixa de agir estando constitucionalmente obrigado a fazê-lo. Diante disso, coloca-se a questão da possibilidade de intervenção judicial para sanar a omissão dos demais poderes. Apesar de se admitir uma atuação do Poder Judiciário nesse sentido, a questão é sensível, esbarrando na problemática da separação dos poderes, que é consagrada pelo artigo 2º da Constituição Federal. De todo modo, observa-se que os termos e os limites da atuação do Poder Judiciário face às omissões dos Poderes Executivo e Legislativo devem ser fixados tomando-se por base as previsões do ordenamento jurídico. A Constituição Federal brasileira prevê dois instrumentos destinados ao controle da omissão inconstitucional: a ação direta de inconstitucionalidade por omissão e o mandado de injunção. A inclusão desses instrumentos no texto constitucional teve como objetivo fornecer mecanismos para contribuir na missão de tornar realidade o rol de direitos proclamados pelo constituinte, de forma que não configurem mera pretensão destituída de aplicabilidade na prática. A ação direta de inconstitucionalidade por omissão está prevista no artigo 103, § 2º, da Constituição Federal, que dispõe: “declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e, em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta dias”. A medida se insere no âmbito do controle abstrato de constitucionalidade, de competência do Supremo Tribunal Federal, sendo sua disciplina processual estabelecida no Capítulo II-A da Lei n. 9.868, de 10 de novembro de 1999, acrescentado pela Lei n. 12.063, de 27 de outubro de 2009. O instituto teve como fonte de inspiração o direito português[66], que prevê o controle abstrato de inconstitucionalidade por omissão, voltado à apreciação do descumprimento da constituição em razão da não edição das medidas legislativas necessárias para tornar exequíveis as normas constitucionais. A realização de tal controle compete ao Tribunal Constitucional de Portugal, que, constatando a existência de inconstitucionalidade por omissão, limita-se a dar ciência ao órgão legislativo competente. No sistema brasileiro, como se depreende do disposto no artigo 103, § 2º, da Constituição Federal, a omissão na edição de medida necessária à efetividade de norma constitucional passível de questionamento mediante o emprego desta modalidade de ação diretade inconstitucionalidade não se restringe àquela proveniente do Poder Legislativo, podendo abarcar também as que resultam de inércia de órgãos administrativos. Aliás, cabe registrar que a omissão sequer precisa ser normativa, admitindo-se a ação para sanar a omissão na realização de atos de execução, desde que implique em violação direta à constituição, na linha da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal acerca do assunto[67]. O artigo 12-B da Lei n. 9.868/1999 é expresso em indicar o cabimento da ação tanto nos casos de omissão no cumprimento de dever constitucional de legislar quanto de omissão na adoção de providência de índole administrativa. Conforme leciona Elival da Silva Ramos, para a configuração da inconstitucionalidade por omissão, “exige-se a presença de um específico dever de legislar, cujo adimplemento seja condição da plenitude eficacial de normas constitucionais de eficácia limitada[68]”. Na definição de José Afonso da Silva, responsável por cunhar a expressão, normas constitucionais de eficácia limitada “são todas as que não produzem, com a simples entrada em vigor, todos os seus efeitos essenciais, porque o legislador constituinte, por qualquer motivo, não estabeleceu, sobre a matéria, uma normatividade para isso bastante, deixando essa tarefa ao legislador ordinário ou a outro órgão do Estado[69]”. Ao tratar do tema, leciona Alexandre de Moraes: O que se pretende é preencher as lacunas inconstitucionais, para que todas as normas constitucionais obtenham eficácia plena. Para combater esta omissão, denominada doutrinariamente de síndrome de inefetividade por acarretar a inaplicabilidade de algumas normas constitucionais, a Constituição Federal trouxe-nos a ação direta de inconstitucionalidade por omissão[70]. Reconhecida a omissão inconstitucional, cabe perquirir quais são os efeitos da decisão. Cuidando-se de omissão atribuída órgão administrativo, será determinada a adoção das providências necessárias para saná-la no prazo de trinta dias[71]. Já no caso de omissão do Poder Legislativo, apenas será dada ciência da decisão, o que se convencionou chamar de “apelo ao legislador”. O fundamento para essa disparidade de tratamento repousa na separação dos poderes, sendo explicado do seguinte modo por Manoel Gonçalves Ferreira Filho: Assim, com relação à edição de normas pelo Poder Legislativo, a declaração configurará tão-somente uma constatação da omissão, mesmo porque a independência dos poderes ficaria comprometida se o Poder Judiciário pudesse ou suprir a omissão do Poder Legislativo ou obrigá-lo a editar leis[72]. O mandado de injunção, por sua vez, está previsto no artigo 5º, inciso LXXI, da Constituição Federal, que admite a concessão da medida “sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania”. Trata-se de instrumento inovador, não se identificando paralelo no direito estrangeiro que teria inspirado sua criação[73]. O processo e o julgamento do mandado de injunção, seja individual ou coletivo, é disciplinado pela Lei n. 13.300, de 23 de junho de 2016. Seu objetivo é o de enfrentar a mora legislativa relativa às situações especificadas, para viabilizar o exercício de norma que dependa de regulamentação. Dessa forma, igualmente o mandado de injunção tem cabimento na presença de normas de eficácia limitada. No tocante aos seus efeitos, a questão é objeto de controvérsia doutrinária, observando-se uma evolução na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que em um primeiro momento era restritiva, considerando que também o mandado de injunção implicaria em simples comunicação para ciência do reconhecimento da omissão normativa. Recentemente, porém, a corte vem flexibilizando esse entendimento, de forma a conferir maior eficácia ao remédio constitucional. Assim, passou a fixar prazo para a edição da norma, assegurando ao prejudicado o direito à indenização na hipótese de descumprimento, ou até mesmo a estabelecer diretamente a norma a ser aplicada no caso concreto[74]. Refletindo essa modificação jurisprudencial, o artigo 8º da Lei n. 13.300/2016 dispõe que: Art. 8 Reconhecido o estado de mora legislativa, será deferida a injunção para: I - determinar prazo razoável para que o impetrado promova a edição da norma regulamentadora; II - estabelecer as condições em que se dará o exercício dos direitos, das liberdades ou das prerrogativas reclamados ou, se for o caso, as condições em que poderá o interessado promover ação própria visando a exercê-los, caso não seja suprida a mora legislativa no prazo determinado. Parágrafo único. Será dispensada a determinação a que se refere o inciso I do caput quando comprovado que o impetrado deixou de atender, em mandado de injunção anterior, ao prazo estabelecido para a edição da norma. 2. OMISSÕES PASSÍVEIS DE CONTROLE MEDIANTE AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE POR OMISSÃO E MANDADO DE INJUNÇÃO Como visto, tanto a ação direta de inconstitucionalidade por omissão quanto o mandado de injunção destinam-se a enfrentar omissões do poder público que impeçam a efetividade de normas constitucionais. Nesse sentido, Alexandre de Moraes relaciona ambos os mecanismos constitucionais de controle da omissão à necessidade de se conferir aplicabilidade às normas constitucionais de eficácia limitada, ponderando que não se aplicam à qualquer hipótese de omissão do Poder Público[75]. De fato, a ação direta de inconstitucionalidade por omissão e o mandado de injunção têm por finalidade sanar omissões específicas, que se reportam a normas de eficácia limitada, mostrando-se inviável o seu emprego para fazer frente a omissões do poder público na implementação de outros tipos de normas constitucionais ou a omissões que impliquem em violações indiretas à constituição. Acerca das omissões do poder público não enquadráveis nos limites da ação direta de inconstitucionalidade por omissão, esclarece André Ramos Tavares: A jurisprudência brasileira não admite ação de inconstitucionalidade por omissão que não seja uma inconstitucionalidade direta, porque considera que aceitar inconstitucionalidade indireta significa transformar a ação direta de inconstitucionalidade por omissão em ação direta de ilegalidade por omissão (e, apenas indiretamente, uma ação de inconstitucionalidade). Assim, se a norma constitucional foi disciplinada por lei, mas ainda depende de nova norma, agora do Poder Executivo, para alcançar a plenitude dos efeitos, o caso é considerado como de omissão ilegal. Nesse tipo de omissão, apesar da omissão e da ilegalidade concomitantes, não se admite a ação direta de inconstitucionalidade. Evidentemente que a omissão do Executivo impede que a norma constitucional alcance a plenitude de seus efeitos. Mas a omissão do Executivo, nessas hipóteses, é, em primeiro lugar, contrária à própria Lei, ou seja, o Legislativo já legislou e isso impede o uso da ação de controle abstrato de omissão. A lei atuou dentro de seus limites e a atuação do Executivo deve ser exigida na sequência, mas não por meio da ação especialíssima de controle da omissão. (...) Idêntico é o encaminhamento nas hipóteses de omissão não normativa da Administração Pública, ou seja, quando há lei disciplinando a norma constitucional e esta lei ainda depende de atos administrativos e de execução posteriores, a serem adotados pela Administração Pública. A falta destes atos configura, igualmente, uma omissão ilegal por parte da Administração Pública.[76] Isso não significa, porém, que estas outras situações de omissão sejam insindicáveis. Como aponta André Ramos Tavares, ao se deparar com demandas relativas à omissão dos poderes públicos na implementação de direitos sociais, o Poder Judiciário tem determinado, nos casos concretos que lhe são submetidos, a adoção de medidas voltadas à concretização de tais direitos: Essa atuação do Poder Judiciário é própria de países de modernidade tardia “que ainda nãoalcançaram na plenitude a realização de um Estado Social Mínimo” (TAVARES, 2012ª, p. 42). A importância do Poder Judiciário no modelo de Estado Social brasileiro pode ser ilustrada pelo fato de que a política pública brasileira de tratamento de HIV, paradigma internacionalmente reconhecido, “teve início com decisões do judiciário obrigando o Estado a fornecer os medicamentos” (TAVARES 2012ª, p. 141). Essas decisões, ressalte-se, ocorreram em julgamentos de casos concretos, não em controle abstrato de constitucionalidade. No entanto, a solução visou enfrentar a omissão do Poder Público em fornecer uma estrutura de tratamento adequado[77]. Tratando-se, todavia, de situação que permita o enquadramento na ação direta de inconstitucionalidade por omissão, a opção por esta via apresentaria como vantagem a maior amplitude do pronunciamento judicial, entendendo o autor que: Mesmo considerando que “a concessão de prestações individuais (de maneira tópica) pelo Poder Judiciário não exclui nem impede a responsabilidade de o Estado enfrentar a questão de maneira geral” (TAVARES, 2012ª, p. 148), a modalidade de controle abstrato pode ser ainda mais efetiva para solucionar problemas de políticas públicas nacionais, já que os julgamentos concretos têm, necessariamente, efeitos restritos aos indivíduos que acionam a justiça, não promovendo uma solução abrangente em termos nacionais[78]. Entretanto, como salientado anteriormente, apenas nas hipóteses de omissão acima descritas é possível se valer dos mecanismos de controle da omissão constitucionalmente previstos. Nas demais hipóteses, faz-se necessário encontrar outra saída, mediante o ajuizamento de tipos diversos de ação. No direito pátrio, o ponto guarda relação com a temática da aplicação direta dos direitos fundamentais. De acordo com o parágrafo primeiro do artigo 5º da Constituição Federal, “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. Este dispositivo teria incidência inclusive no caso de direitos sociais – que são os que apresentam maior dificuldade para a concretização –, haja vista que se inserem no campo dos direitos fundamentais. O Supremo Tribunal Federal tem conferido aplicabilidade direta a certos dos direitos sociais, determinando que o poder público adote as providências necessárias a sua concretização. É o que tem ocorrido quando se depara com ações em que são pleiteados medicamentos ou vagas em creches, por exemplo. Tratando da exigibilidade pela via judicial do direito à saúde, assevera Ingo Sarlet que “após uma postura inicial mais contida, mesmo os Tribunais Superiores, com destaque aqui para o Supremo Tribunal Federal, passaram a reconhecer a saúde como direito subjetivo (e fundamental) exigível em Juízo, e não mais como direito enunciado de modo eminentemente programático[79]”. No entanto, segundo o autor, a corte reputa que alguns dos direitos sociais, como o salário mínimo e a assistência social, dependeriam da edição de lei, sendo “positivados como normas de eficácia limitada[80]”. O ponto resvala, ainda, na discussão em torno da noção de reserva do possível. A respeito do assunto, já tivemos a oportunidade de afirmar que, em sua formulação original pelo Tribunal Constitucional Federal Alemão, a cláusula da reserva do possível “se relaciona muito mais com a razoabilidade das pretensões dos indivíduos perante o Estado, a determinar o que é possível ou não ser exigido da coletividade, do que propriamente com a noção de escassez de recursos econômicos para atender a estas pretensões, noção com a qual a expressão é usualmente identificada[81]”. Sem se descurar da imensa importância de se implementar os direitos sociais assegurados na constituição, cabe atentar para que as intervenções do Poder Judiciário nesta seara sejam cautelosas, de modo a não configurar um ativismo judicial, no sentido negativo da expressão[82]. Uma composição aventada por Ingo Sarlet neste domínio seria o recurso às concepções que defendem a adoção do “diálogo institucional”, ideia que propugna pela participação de todos os poderes na tomada de decisões constitucionais[83]. Na visão do autor, o diálogo institucional: embora não possa (...) justificar uma exclusão do controle judicial, à feição de uma nova doutrina da separação dos Poderes, apresenta a faceta positiva, desde que bem manejado, de, mediante, o aproveitamento máximo das capacidades institucionais de cada ator envolvido, auxiliar na promoção da máxima efetividade dos direitos fundamentais[84]. De nossa parte, entendemos que a participação dos demais poderes, respeitados os limites das atribuições de cada um, é essencial ao adequado delineamento das medidas voltadas à implementação dos direitos sociais, não devendo a matéria ser inserida na exclusiva alçada do Poder Judiciário. Todavia, dadas as limitações pertinentes a um trabalho desta natureza, não se tem aqui a pretensão de analisar em detalhes a temática da aplicação direta dos direitos fundamentais, tampouco a cláusula da reserva do possível, não se incluindo no objeto deste artigo o exame dos instrumentos aptos a sanar omissões que não se enquadrem nas balizas da ação direta de inconstitucionalidade por omissão e do mandado de injunção. A apresentação de alguns aspectos concernentes a essas questões teve como objetivo tão-somente reforçar a conclusão de que não são todas as situações de omissão que admitem o emprego da ação direta de inconstitucionalidade por omissão e do mandado de injunção. 3. EMPREGO DE OUTROS INSTRUMENTOS PARA ENFRENTAMENTO DAS OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS O que nos chama a atenção nesta oportunidade é a forma de enfrentar as omissões para as quais a constituição prevê os instrumentos específicos da ação direta de inconstitucionalidade por omissão e do mandado de injunção. Tem-se notado com frequência o reconhecimento de omissões inconstitucionais pelo Poder Judiciário, com as correspondentes determinações de agir ao poder público, em ações diversas daquelas previstas pela Constituição Federal para o controle da omissão, mesmo nos casos em que seria cabível o ajuizamento de ação direta de inconstitucionalidade por omissão ou de mandado de injunção. Nessa esteira, surgem soluções como a construção do denominado “estado de coisas inconstitucional”, que se originou na jurisprudência da Corte Constitucional da Colômbia e se caracteriza pela presença de um quadro de violação de direitos fundamentais decorrente de omissões do poder público, inclusive no tocante à edição de medidas normativas necessárias à implementação dos direitos garantidos pela constituição[85]. No Brasil, a menção a um “estado de coisas inconstitucional” apareceu na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal no ano de 2015, em decisão proferida em medida cautelar na arguição de descumprimento de preceito fundamental n. 347, assim ementada: CUSTODIADO – INTEGRIDADE FÍSICA E MORAL – SISTEMA PENITENCIÁRIO – ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL – ADEQUAÇÃO. Cabível é a arguição de descumprimento de preceito fundamental considerada a situação degradante das penitenciárias no Brasil. SISTEMA PENITENCIÁRIO NACIONAL – SUPERLOTAÇÃO CARCERÁRIA – CONDIÇÕES DESUMANAS DE CUSTÓDIA – VIOLAÇÃO MASSIVA DE DIREITOS FUNDAMENTAIS – FALHAS ESTRUTURAIS – ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL – CONFIGURAÇÃO. Presente quadro de violação massiva e persistente de direitos fundamentais, decorrente de falhas estruturais e falência de políticas públicas e cuja modificação depende de medidas abrangentes de natureza normativa, administrativa e orçamentária, deve o sistema penitenciário nacional ser caraterizado como “estado de coisas inconstitucional”. FUNDO PENITENCIÁRIO NACIONAL – VERBAS – CONTINGENCIAMENTO. Ante a situação precária das penitenciárias, o interesse público direciona à liberação das verbas do Fundo Penitenciário Nacional. AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA – OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA. Estão obrigados juízes e tribunais, observados os artigos 9.3 do Pacto dos Direitos Civis e Políticos e7.5 da Convenção Interamericana de Direitos Humanos, a realizarem, em até noventa dias, audiências de custódia, viabilizando o comparecimento do preso perante a autoridade judiciária no prazo máximo de 24 horas, contado do momento da prisão (rel. Min. Marco Aurélio). Considerando-se que a noção de estado de coisas inconstitucional envolve a constatação de uma omissão generalizada do poder público, cuja solução depende da adoção de “medidas abrangentes de natureza normativa, administrativa e orçamentária”, a princípio pode-se alegar que a circunstância encerraria uma ofensa direta à constituição, bem como a ausência de regulamentação de norma constitucional de eficácia limitada. Se o exame do caso concreto comprovar essa suposição, em tese seria cabível o ajuizamento de ação direta de inconstitucionalidade por omissão. Segundo André Ramos Tavares, “o eventual cabimento de ação civil pública (além das tradicionais ações de cunho individual) para enfrentar omissões administrativas e materiais do Poder Público” não afasta o cabimento concomitante da ação direta de inconstitucionalidade por omissão[86]. No caso citado, ao que parece, houve a substituição de uma ação de controle concentrado de constitucionalidade (a ação direta de inconstitucionalidade por omissão) por outra (a arguição de descumprimento de preceito fundamental). Mas tem ocorrido também a substituição por ações de índole subjetiva. Essa inclinação talvez se explique como reação ao caráter restritivo assumido pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal em tema de efeitos da procedência da ação direta de inconstitucionalidade por omissão, que decorre da interpretação literal do artigo 103, § 2º, da Constituição Federal. No caso do mandado de injunção, considerando a modificação do entendimento da corte e as previsões da Lei n. 13.300/2016 acerca das consequências do reconhecimento da omissão, o cenário mostra-se um pouco distinto. CONCLUSÕES Para lidar com as situações de omissão inconstitucional, a Constituição Federal de 1988 instituiu a ação direta de inconstitucionalidade por omissão e o mandado de injunção. Observa-se, entretanto, uma tendência em empregar outras ações para esta finalidade, redundando no esvaziamento dos instrumentos, em especial da ação direta de inconstitucionalidade por omissão. Contudo, se a Constituição Federal já prevê instrumentos especificamente destinados a combater a omissão, haveria realmente a necessidade de se recorrer a outras ações e construções jurisprudenciais? Ou os instrumentos constitucionais de enfrentamento da omissão bastariam para resolver o problema? Pode-se questionar sobre os motivos que levariam a sua preterição ou até mesmo sobre a possibilidade de afastar o seu emprego, optando-se pelo ajuizamento de modalidade diversa de ação. Caso se considere que a proteção que conferem aos direitos constitucionais é insuficiente, seria possível simplesmente deixar de empregar tais instrumentos? Portanto, ao invés de se terminar com proposições conclusivas, apresentam-se tão-somente questionamentos para reflexão sobre o tema. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAMPOS, Carlos Alexandre de Azevedo. Estado de coisas inconstitucional. Salvador: JusPodivm, 2016. FALSARELLA, Christiane Mina. Reserva do possível como aquilo que é razoável se exigir do Estado. In COUTINHO, Nilton Carlos de Almeida (org.). Advocacia e Direito Público: aspectos processuais, constitucionais, tributários e trabalhistas. Belo Horizonte: Del Rey Editora, 2013. Disponível também em: https://www.apesp. org.br/comunicados/images/tese _christiane_ mina_out2012.pdf FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 35ª ed., 2009. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. São Paulo: Atlas, 31ª ed., 2015. RAMOS, Elival da Silva. Ativismo judicial: parâmetros dogmáticos. São Paulo: Saraiva, 2010. SARLET, Ingo. A eficácia dos direitos fundamentais: uma teoria geral dos direitos fundamentais na perspectiva constitucional. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 12ª ed., 2015. SILVA, José Afonso da. 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Mestre em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Procuradora do Estado de São Paulo. [65] . “Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. [66] . TAVARES, André Ramos. The Legislative Omission in Brazil: a special reference to the role of the constitutional judge. Focus – America Latina n. 1, 23/12/2016. Disponível em: http://www.federalismi.it/nv14/articolo-documento.cfm? Artid=32988&content=The+Legislative+Omission+in+Brazil:+a+special+r eference+ to+the+role+of+the+constitutional+judge&content_author=%3Cb%3EAndr %C3%A9+Ramos+Tavares%3C/b%3E, p. 6. [67] . TAVARES, André Ramos. O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise histórico-comparativa entre Brasil e México. Revista Brasileira de Estudos Constitucionais, ano 10, n. 35, maio/ago. 2016, p. 54-55. [68] . Controle de constitucionalidade no Brasil: perspectivas de evolução. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 474-475. [69] . Aplicabilidade das normas constitucionais. São Paulo: Malheiros, 7ª ed., 2007, p. 82-83. [70] . Direito Constitucional. São Paulo: Atlas, 31ª ed., 2015, p. 807. [71] . Ou em prazo razoável a ser estipulado excepcionalmente pelo tribunal, tendo em vista as circunstâncias específicas do caso e o interesse público envolvido, nos termos do artigo 12-H, § 1º, da Lei n. 9.868/1999. [72] . Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 35ª ed., 2009, p. 44. A conclusão, porém, não é imune a críticas. A esse respeito, cf. TAVARES, André Ramos. The Legislative Omission in Brazil: a special reference to the role of the constitutional judge. Focus – America Latina n. 1, 23/12/2016. Disponível em: http://www.federalismi.it/nv14/articolo- documento.cfm?Artid=3298 8&content=The+Legislative+Omission+in+Brazil:+a+special+reference+to +the+role+of+the+constitutional+judge&content_author=%3Cb%3EAndr %C3%A9+Ramos+Tavares%3C/b%3E, p. 11-12. [73] . FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional, p. 323-324. [74] . TAVARES, André Ramos. The Legislative Omission in Brazil, p. 17- 18. [75] . Direito Constitucional. São Paulo: Atlas, 31ª ed., 2015, p. 182 e 806. [76] . The Legislative Omission in Brazil: a special reference to the role of the constitutional judge. Focus – America Latina n. 1, 23/12/2016. Disponível em: http://www.federalismi.it/nv14/ articolodocumento.cfm? Artid=32988&content=The+Legislative+Omission+in+Brazil:+a+special+r efe rence+to+the+role+of+the+constitutional+judge&content_author=%3Cb% 3EAndr%C3%A9+Ramos+Tavares%3C/b%3 E, p. 6-7. [77] . O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise histórico-comparativa entre Brasil e México. Revista Brasileirade Estudos Constitucionais, ano 10, n. 35, maio/ago. 2016, p. 52-53. [78] . O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise histórico-comparativa entre Brasil e México, p. 53. [79] . A eficácia dos direitos fundamentais: uma teoria geral dos direitos fundamentais na perspectiva constitucional. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 12ª ed., 2015, p. 341. [80] . A eficácia dos direitos fundamentais, p. 321. [81] . Reserva do possível como aquilo que é razoável se exigir do Estado. In COUTINHO, Nilton Carlos de Almeida (org.). Advocacia e Direito Público: aspectos processuais, constitucionais, tributários e trabalhistas. Belo Horizonte: Del Rey Editora, 2013, p. 46. Disponível também em: https://www.apesp. org.br/comunicados/images /tese_christiane_mina_out2012.pdf. [82] . Para Elival da Silva Ramos, “por ativismo judicial deve-se entender o exercício da função jurisdicional para além dos limites impostos pelo próprio ordenamento que incumbe, institucionalmente, ao Poder Judiciário fazer atuar, resolvendo litígios de feições subjetivas (conflitos de interesse) e controvérsias jurídicas de natureza objetiva (conflitos normativos). Há, como visto, uma sinalização claramente negativa no tocante às práticas ativistas, por importarem na desnaturação da atividade típica do Poder Judiciário, em detrimento dos demais Poderes”. Ativismo judicial: parâmetros dogmáticos. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 129. [83] . Para um aprofundamento acerca do tema, sob a perspectiva do controle de constitucionalidade, conferir a obra de Sérgio Antônio Ferreira Victor: Diálogo institucional e controle de constitucionalidade: debate entre o STF e o Congresso Nacional. São Paulo: Saraiva, 2015. [84] . A eficácia dos direitos fundamentais: uma teoria geral dos direitos fundamentais na perspectiva constitucional. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 12ª ed., 2015, p. 380. [85] . Para mais informações sobre a referida construção jurisprudencial, consultar CAMPOS, Carlos Alexandre de Azevedo. Estado de coisas inconstitucional. Salvador: JusPodivm, 2016. [86] . The Legislative Omission in Brazil: a special reference to the role of the constitutional judge. Focus – America Latina n. 1, 23/12/2016. Disponível em: http://www.federalismi.it/nv14/arti colo-documento.cfm? Artid=32988&content=The+Legislative+Omission+in+Brazil:+a+special+ reference+to+the+role+of+the+constitutional+judge&content_author=%3C b%3EAndr%C3%A9 +Ramos+Tavares%3C/b%3E, p. 8. AS V(E)IAS ABERTAS DO CONSTITUCIONALISMO LATINO- AMERICANO: UM ESTUDO COMPARADO DAS OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS The open veins of Latin American constitutionalism: a comparative study of unconstitutional omissions Erick Beyruth de Carvalho[87] Resumo: O presente artigo propõe-se ao estudo comparativo das omissões inconstitucionais – e as suas manifestações jurídico-políticas – no Brasil e no México. A hipótese é a de que, compartilhando o mesmo contexto latino-americano e, portanto, em certa medida, os mesmos dilemas no que toca à efetivação dos direitos fundamentais, em especial os direitos sociais, um diálogo entre dois ordenamentos jurídicos possa contribuir para o entendimento do que seja a omissão inconstitucional, suas tipologias, as vias processuais de questionamento, o papel da jurisdição constitucional e o alcance das sentenças. Palavras-Chave: Omissão Inconstitucional – Brasil – México – Novo Constitucionalismo Latino-Americano Abstract: This article proposes a comparative study of unconstitutional omissions – and their legal and political manifestations – in Brazil and Mexico. The hypothesis is that, sharing the same Latin American context and, to a certain extent, the same dilemmas with regard to the realization of fundamental rights, especially social rights, a dialogue between two legal systems can contribute to the understanding of what is unconstitutional omission, its typologies, the procedural channels of questioning, the role of constitutional jurisdiction and the scope of sentences Keywords: Unconstitutional Omission - Brazil - Mexico - New Latin American Constitutionalism Sumário: 1. Premissas para compreensão das omissões inconstitucionais. 2. A contribuição brasileira para o tema. 3. O controle das omissões inconstitucionais no federalismo mexicano. 3.1 O papel da Suprema Corte Nacional de Justiça. 3.2 A “acción popular de inconstitucionalidad” nos Estados mexicanos. Considerações Finais. Referências bibliográficas. 1. PREMISSAS PARA COMPREENSÃO DAS OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS O tema das omissões inconstitucionais é um dos mais controvertidos do direito. Em que pesem as contribuições da doutrina e da jurisprudência – nacional e estrangeira – ainda não há um consenso sobre as linhas gerais do instituto e, principalmente, sobre os efeitos da sentença que reconhece a inconstitucionalidade por omissão. No entanto, sabe-se que a supremacia da Constituição, a separação de poderes e a efetividade dos direitos fundamentais são pontos cruciais para compreensão do silencio violador da norma constitucional. O reconhecimento da Constituição como uma norma jurídica e, portanto, dotada de força normativa e de caráter vinculante para os demais Poderes é uma construção de duas tradições jurídicas distintas, mas que, no segundo pós-guerra, acabam se encontrando – e se modificando: a doutrina norte-americana do judicial review e o modelo austríaco-kelseneano de controle de constitucionalidade. A tradição jurídica norte-americana tem como pedra angular o reconhecimento da supremacia da constituição, ou seja, a Constituição é um documento jurídico-político que vincula os demais Poderes e que consagra normas hierarquicamente superiores as leis ordinárias. Soma-se a isso o poder-dever dos juízes de negar aplicação às leis contrárias à Constituição, posto em prática no célebre caso Marbury vs Madison e, posteriormente, difundido em outros países ao longo do século XIX e XX. [88] Por sua vez o modelo austríaco-kelseneano surge no início do século XX. Como já está subentendido, trata-se de uma construção da Constituição austríaca de 1920, redigida a partir de um projeto do eminente jurista da Escola de Viena, Hans Kelsen. Esse modelo tem como característica o controle concentrado de constitucionalidade das leis, logo, a competência para declarar a incompatibilidade uma lei com a Constituição cabe somente a um único órgão: o Tribunal Constitucional. Nesse caso, a sentença de inconstitucionalidade teria efeito ex nunc (prospectivos) e constitutivo-negativo, mantendo as consequências produzidas pela norma antes do reconhecimento da sua inconstitucionalidade.[89] É imperioso mencionar que, para Kelsen, o Tribunal Constitucional deve atuar como “legislador negativo” quando declara a inconstitucionalidade de uma norma. Essa afirmativa decorre da maneira como o jurista austríaco vê a atividade jurisdicional e a atividade legislativa. A primeira cria normas individuais, enquanto a segunda cria normas gerais. Logo “anular uma lei é estabelecer uma norma geral, porque a anulação de uma lei tem o mesmo caráter de generalidade que a sua elaboração, nada mais sendo, por assim dizer, que elaboração com sinal negativo” e continua “[...] E um tribunal que tenha o poder de anular as leis é, por conseguinte, um órgão do poder legislativo”.[90] Ou seja, ao Tribunal Constitucional caberia apenas a análise da compatibilidade em abstrato entre leis infraconstitucionais e constitucionais, excluindo-se a análise de casos concretos. Em que pesem as exitosas experiências do direito europeu no tocante ao controle de constitucionalidade, não se pode olvidar a contribuição latino-americana em tema de jurisdição constitucional. A Constituição dos Estados Unidos Mexicanos de 1824 e a Constituição venezuelana de 1858 trataram de maneira pioneira do controle abstrato de constitucionalidade no contexto latino-americano, se antecipando às Constituições da Áustria e da Tchecoslováquia, comumente citadas como modelos fundantes desse tipo de controle no direito europeu. A Cartamexicana de 1824, por sua vez, predecessora da histórica e atual Constituição de 1917, previa um controle de constitucionalidade realizado por um órgão judicial e um órgão político, a “Corte Suprema de Justicia” e o “Congreso General”, respectivamente.[91] O segundo pós-guerra, contudo, vem a ser o momento fundamental para moldar a atual engenharia constitucional do ocidente, formando o que se convencionou chamar de “neoconstitucionalismo” ou, a nosso ver, o constitucionalismo contemporâneo. Via de regra, as Constituições do pós-guerra se caracterizam por possuírem um rol de direitos fundamentais mais amplo; diferenciar regras e princípios e, consequentemente, a atribuir força normativa a estes; como corolário desse reconhecimento, tem-se a vinculação dos demais Poderes às normas constitucionais; os Tribunais Constitucionais vão manter o modelo austríaco (controle abstrato e concentrado), somando às características do constitucionalismo norte-americano (supremacia da Constituição e controle difuso); tudo isso somado à Teoria dos Princípios. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 está no particular contexto latino-americano do século XX, rompendo com a tradição das Cartas Constitucionais fundacionais do século XIX que derivavam de um pacto entre liberais e conservadores e que, portanto, previam liberdades políticas limitadas, em contraposição a liberdades econômicas mais amplas. As novas Constituições trazem reformas com uma maior ênfase na proteção e efetivação dos direitos sociais, bem como a expansão da cidadania e, desse modo, também da democracia por meio do texto constitucional. [92] Estudos apontam que de 1978 a 2008, na América Latina, foram promulgadas cerca de 15 novas Constituições – entre elas a Constituição brasileira de 1988 –, enquanto podem-se distinguir três eventos que induzem a criação e a reforma de Constituições no contexto latino- americano. São eles: mudança no âmbito de regime político (transição de regimes autoritários para democráticos), crises políticas e mudanças nas preferências ou distribuição de poder entre os principais atores políticos. [93] A Constituição brasileira de 1988 surge no momento de transição à democracia, pois rompe com o regime ditatorial [94] que se estabeleceu após o Golpe de Estado de 1964 e, por conseguinte, prevê em seu texto uma série de novos direitos e garantias, tais como a liberdade de opinião e de imprensa, a diminuição da concentração de poderes no Poder Executivo, o fortalecimento do Poder Judiciário, bem como a ampla proteção aos direitos individuais e coletivos conferidos pelo art. 5.º da Constituição Federal de 1988 e também de maneira esparsa no texto constitucional. É imperioso mencionar, também, a previsão das ações constitucionais, tais como o mandado de segurança, o habeas data, o mandado de injunção, a ação direta de inconstitucionalidade – por ação e por omissão –, bem como a ação popular.[95] A ênfase em ações constitucionais como o mandado de injunção, mandado de segurança, ação direta de inconstitucionalidade, ação popular e outras acaba conferindo uma importância maior a atuação do Poder Judiciário.[96] Assim, este parece ter abandonado o papel de simples “legislador negativo” e assumido o papel de “legislador positivo”, dado o entendimento de que os princípios são normas jurídicas que vinculam os três Poderes, sendo passiveis de aplicação direta, ainda que não haja concretização legislativa. Sobre a função legislativa do Poder Judiciário, mais especificamente do Tribunal ou da Corte Constitucional, esclarece André Ramos Tavares que não se trata de um permissivo para invadir a competência do Poder Legislativo. O magistrado encontra-se limitado pelas normas processuais, pela Constituição e pelas próprias decisões do Tribunal, havendo, portanto, uma específica partilha de competências, como por exemplo, na omissão do legislador, em que esta é transferida para o Tribunal Constitucional. [97] Duas conclusões são relevantes, para o presente estudo, quanto às lacunas. (i) É certo que sua superação envolve produção legislativa. (ii) essa produção não é fruto – como normalmente se afirma – de um processo interpretativo, mas sim de uma típica função legislativa. [98] Nesse contexto situa-se a discussão acerca da inconstitucionalidade por omissão e a atuação dos Tribunais Constitucionais e Supremas Cortes. O controle das omissões dos Poderes Públicos e a sua respectiva solução implica em uma atividade tipicamente legislativa por parte do Tribunal Constitucional. Frise-se que essa é uma capacidade legislativa superveniente, provisória e específica em um caso concreto. [99] 2. A CONTRIBUIÇÃO BRASILEIRA PARA O TEMA DAS OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS No Brasil, a delimitação conceitual das omissões constitucionais passa por uma construção legal, doutrinária e também jurisprudencial. Difere-se, nesse ponto, de países como o México, em que o tema das omissões inconstitucionais é uma construção da Suprema Corte Nacional de Justiça e das Constituições Estaduais. A omissão inconstitucional, de forma sucinta, pode ser compreendida como o não cumprimento, pelo Poder Público – Legislativo ou Executivo –, de um dever constitucionalmente estabelecido. Ou seja, trata-se de uma abstenção indevida quando havia um dever constitucional de emanar alguma norma ou regulamento. Alguns elementos são importantes para delimitar conceitualmente o instituto e diferencia-lo, por exemplo, do silêncio advindo de uma decisão discricionária (e política) de algum dos Poderes. São eles: (i) a imposição constitucional de atuar deve estar prevista em uma norma certa e determinada (“ordem concreta para legislar” ou, nas palavras de Canotilho, “imposições concretamente impositivas”)[100], cujo a não exequibilidade frustra o cumprimento da Constituição. Logo não basta um simples dever geral de legislar ou atuar; (ii) alguns autores citam, também, que deve haver um juízo razoável de tempo para que se configure a omissão[101]; (iii) e, por fim, que a disposição legislativa deixe de ser plenamente eficaz por falta de atuação do Poder competente para esse fim.[102] Isto posto, em sede doutrinária, parece haver um consenso quanto a delimitação conceitual do instituto da omissão inconstitucional. O problema, no entanto, gira em torno da atuação do Supremo Tribunal Federal, órgão responsável por colmatar as lacunas. A Constituição prevê dois meios hábeis para questionar as omissões inconstitucionais: a ação direta de inconstitucionalidade por omissão e o mandado de injunção.[103] Ainda que o Supremo Tribunal Federal tenha, em um primeiro momento, equiparado os dois institutos no que toca aos efeitos da sentença, ambos possuem natureza diversa. A ação direta se destina à proteção da ordem jurídica objetiva e os seus princípios constitucionais basilares, figurando no rol do art. 103, § 2º da Constituição Federal e, tendo como legitimados, os mesmos atores da ação direta de inconstitucionalidade por ação. Declarada a inconstitucionalidade por omissão será dada ciência ao Poder competente para adoção das medidas necessárias, em se tratando de órgão administrativo para se fazer em 30 dias.[104] Por sua vez, o mandado de injunção compõe o rol dos writs no direito brasileiro ao lado do mandado de segurança, sendo cabível para defesa dos direitos fundamentais dos indivíduos contra atos ou omissões do Poder Público. Alguns autores o associam à figura do injuction do direito norte- americano, porém, nos filiamos àqueles que reconhecem a semelhança do mandado de injunção com o Recurso Constitucional alemão e com o Juízo de Amparo dos países de matriz latino-americana, como o México. [105] Segundo Willis Santiago Guerra Filho, a função do mandado de injunção é a defesa dos direitos do cidadão ou da sua ordem jurídica subjetiva – ponto em que se diferencia da ação direta de inconstitucionalidade por omissão. Assim, trata-se de “ação para tutela de situações jurídicas subjetivas decorrentes de normas consagradoras de direitos fundamentais, cujo oexercício encontra-se inviabilizado por omissão inconstitucional dos poderes públicos”.[106] Por muito tempo o instituto previsto no art. 5º, LXXI da Constituição Federal ficou sem regulamentação específica, cabendo ao Supremo Tribunal Federal através da aplicação da Lei do Mandado de Segurança definir os contornos da sua aplicação. Somente dezoito anos depois foi promulgada a Lei Complementar 13.300/2016 que regulamenta o writ. Estabelece o novo diploma que Art. 8º Reconhecido o estado de mora legislativa, será deferida a injunção para: I - determinar prazo razoável para que o impetrado promova a edição da norma regulamentadora; II - estabelecer as condições em que se dará o exercício dos direitos, das liberdades ou das prerrogativas reclamados ou, se for o caso, as condições em que poderá o interessado promover ação própria visando a exercê-los, caso não seja suprida a mora legislativa no prazo determinado. Da leitura sistemática da nova lei depreende-se que os dois incisos são cumulativos, ou seja, será dado prazo razoável para que o impetrado edite a norma regulamentadora e, ao mesmo, o Poder Judiciário vai estabelecer as condições em que se dará o exercício dos direitos, das liberdades ou das prerrogativas reclamados até que sobrevenha a norma regulamentadora, vide Art. 9º: A decisão terá eficácia subjetiva limitada às partes e produzirá efeitos até o advento da norma regulamentadora. (Grifo nosso) Antes do advento da Lei 13.300/2016, o receio de que houvesse uma invasão das competências do Poder Legislativo e do Executivo pelo Judiciário fez com que o STF atuasse de maneira cautelosa em um primeiro momento, equiparando os efeitos do mandado de injunção e da ação direta de inconstitucionalidade por omissão. Logo, declarada a mora legislativa nos casos de mandado de injunção, seria dada ciência ao Poder competente para colmatar a lacuna. Esvaziou-se o instituto. Esse posicionamento mais tímido do STF começa a mudar a partir do MI n. 721, sobre a aposentadoria especial dos servidores públicos e, posteriormente, pelos MI n. 712, 670 e 708 sobre a greve dos servidores públicos. O entendimento da autocontenção começa a dar lugar para a adoção de efeitos concretos nas decisões de omissão inconstitucional. Assim, em que pese a especificidade de cada caso, o Supremo Tribunal Federal passou a adotar o posicionamento de que, ante a prolongada mora legislativa para edição de legislação complementar, deveria se aplicar analogicamente normas correlatas presentes no ordenamento jurídico brasileiro, bem como conceder prazo para que o Legislativo sanasse a lacuna. Cite-se, a título de exemplo, que no caso da aposentadoria especial do servidor público (MI n. 721), aplicou-se o disposto no art. 57 da Lei 8.213/91 (Lei da Previdência Social), para sanar a omissão quanto à contagem diferenciada de tempo de serviço em decorrência de trabalho insalubre (art. 201, § 1º da CF/88). Os efeitos da decisão, contudo, foram inter partes, tornando viável o exercício do direito da impetrante. No caso dos mandados de injunção coletivos que tratavam da greve dos servidores públicos (MI 712, 608 670), em que era pleiteado o direito de greve previsto no art. 37, VII da CF/88, aplicou-se, no que coube, a Lei 7.783/1989 (Lei de Greve da Iniciativa Privada). Porém, a solução não foi igual ao acórdão do MI n. 721. No caso da greve dos servidores públicos, o STF deu efeitos erga omnes á decisão, equiparando, nesse aspecto, o mandado de injunção e a ação direta de inconstitucionalidade por omissão. Essa discussão parece ter ganhado novos contornos com o avento da Lei 13.300/2016 (Lei do Mandado de Injunção) que dispõe da seguinte maneira Art. 9º [...] § 1º Poderá ser conferida eficácia ultra partes ou erga omnes à decisão, quando isso for inerente ou indispensável ao exercício do direito, da liberdade ou da prerrogativa objeto da impetração. (Grifos no original) § 2º Transitada em julgado a decisão, seus efeitos poderão ser estendidos aos casos análogos por decisão monocrática do relator. O legislador buscou positivar uma prática que já era adotada pelo STF em alguns casos – como os citados acima, por exemplo. Assim, a Corte poderá dar efeitos erga omnes à decisão quando for indispensável ao exercício do direito. Chama atenção, também, a possibilidade de o relator estender os efeitos casos análogos por decisão monocrática, o que poderia ter sido feito, por exemplo, na hipótese da aposentadoria especial do servidor público. Pela limitação de espaço do presente estudo, cito brevemente a ADI. n. 3682/MT, ajuizada pela Assembleia Legislativa do Mato Grosso, em que a solução dada pelo STF foi a concessão de prazo de 18 meses para que o Legislativo elaborasse uma lei regulamentado a criação dos municípios Nota-se que ainda não existe um padrão nas decisões do STF quando reconhece as omissões inconstitucionais. Apesar de haver um avanço quanto à adoção da doutrina concretista, permanece a autocontenção da Corte em alguns temas. Nesse contexto, podemos classificar a eficácia das decisões em quatro grupos: (i) posição concretista geral (STF declara a omissão inconstitucional, supre essa omissão com efeitos erga omnes e concede prazo para que a Casa Legislativa atue. ex: MI n. 712); (ii) posição concretista individual direta (STF reconhece a omissão inconstitucional e supre a omissão na relação jurídica subjetiva, ou seja, inter partes. ex: MI. n. 721); (iii) posição concretista individual intermediaria (STF declara inconstitucional e concede prazo para atuação legislativa. ex: ADI 3862); (iv) posição não concretista (STF declara a inconstitucionalidade por omissão e dá ciência a casa legislativa para que cumpra a omissão).[107] Isto posto, a partir de uma breve exposição, podemos concluir que o tema das omissões inconstitucionais ainda carece de um amadurecimento institucional e doutrinário. Contudo, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, ao adotar gradualmente o modelo concretista, parece abrir novas vias para se pensar o tema das omissões na América Latina. Fica, também, dessa breve análise, uma reflexão acerca do papel da ação direta de inconstitucionalidade por omissão. Em termos de eficácia da sentença pode-se dizer que a evolução do posicionamento da Corte se deu majoritariamente em sede de controle concreto através das demandas em mandado de injunção. Ao controle abstrato, por sua vez, em sede de ação direta, coube a tímida tarefa de dar ciência ao Poder competente sobre a omissão – salvo nas hipóteses em que estabeleceu prazo para atuação – deixando de lado questões importantes como a responsabilização do ente omisso. Esse esvaziamento pode dar lugar para o protagonismo de novos institutos, como a arguição de descumprimento de preceito fundamental, por exemplo. 3. O CONTROLE DAS OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS NO FEDERALISMO MEXICANO O México, assim como o Brasil, é um país que compõe o grupo do chamado “capitalismo periférico”. Diferente da maioria das Cartas fundacionais do século XX, em grande parte influenciadas pelo constitucionalismo norte-americano e, portanto, de viés majoritariamente liberal, a Carta Política mexicana de 1917 traz um especial enfoque para os direitos sociais e coletivos. Frise-se que a Constituição de Weimar, sempre lembrada quando se trata da positivação de direitos sociais, só veio a surgir em 1919. Como já dito outrora nesse estudo, a efetivação dos direitos fundamentais, em especial àqueles de caráter social, é um dos pontos chaves para a compreensão das omissões inconstitucionais. Quando tratamos de Constituições com amplo rol de direitos prestacionais, acabamos nos deparando, consequentemente, com a omissão dos Poderes Públicos na efetivação desses direitos. De tal modo, o objetivo é fazer uma análise teórico-comparada das omissões inconstitucionais e o seu tratamento no âmbito da justiça constitucional. 3.1. O papel da Suprema Corte Nacional de Justiça no controle das omissões inconstitucionais A Constituição mexicana de 1917 possuí um modelo “dual” ou “combinado”[108]o mandado de injunção, que suporta a exata conclusão acima indicada. A Constituição brasileira teve uma preocupação, neste ponto específico, que é incomum às constituições de sua época. Foi inovadora ao procurar instrumentos próprios que pudessem contornar ou amenizar as dificuldades advindas da inércia do Poder Legislativo na chamada “concretização” das normas constitucionais, no sentido de sua realização prática. Durante a História constitucional brasileira, especialmente sob a ditadura militar, ficou generalizada a ideia de uma Constituição sem força para impor os direitos constitucionais e, especialmente, os sociais, apesar de solenemente declarados, como bem registrou Bercovici.[4] As Constituições contemporâneas passam a assegurar direitos sociais entre os direitos fundamentais, o que impôs deveres de implementação ao Estado. Assim, o papel institucional do Poder Judiciário teve de acompanhar a mudança do paradigma do Estado Liberal para o Estado Social. Isso gerou para o Poder Judiciário novos paradigmas de decisões judiciais concretas, principalmente na hipótese de o Estado-Administração recusar-se a cumprir os deveres e metas constitucionalmente estabelecidos[5]. Essa transição de paradigmas constitucionais, no Brasil, é semelhante à de outros países em estágio periférico de desenvolvimento, que optaram por um modelo de ruptura com as bases essencialmente liberais do Estado. São países que seguiram com inspiração na Constituição Mexicana de 1917, ainda que essa contribuição seja subvalorizada pela doutrina nacional[6]. O modelo do constitucionalismo brasileiro, próprio de alguns países periféricos, envolve um aspecto que, em algum sentido, pode ser considerado revolucionário, e, ainda, transformador. Isso implica em uma missão desenvolvimentista imposta juridicamente à sociedade e ao Estado, superando um estágio meramente liberal baseado, economicamente, na ausência do Estado e na supremacia do mercado[7]. Isso não significa nem deve ser confundido com a pretensão ilusória de eliminação do mercado, mas sim de sua subordinação aos patamares democráticos, especialmente aqueles que foram veiculados pela Constituição. O sistema de controle de constitucionalidade não pode ser desconectado dessa missão constitucional. Inserido nas inovadoras linhas do constitucionalismo latino-americano, que é historicamente inventivo em “controle de constitucionalidade, pois, em muitos casos se antecipou a modelos tidos como fundantes no Direito europeu”,[8] o sistema de controle por omissão no Brasil tem suas características singulares e deve ser compreendido como tendente a instrumentalizar esse papel social transformador do Estado. Não deveríamos, pois, considerar apenas mais uma ação judicial, mais um incremento da combativa jurisdição constitucional brasileira, sempre elucidada pelos autores sob uma leitura de técnica estrita e formal. A inovação desse combate omissivo prende-se à configuração desse novo constitucionalismo brasileiro, sobretudo na busca pelo Estado Social determinado constitucionalmente. No entanto, de acordo com que já tive oportunidade de observar em outra oportunidade, a singularidade desse instrumento convergiu com a ampliação do papel da jurisdição no Brasil: o reconhecimento em grau constitucional desses direitos e a incapacidade dos Poderes Executivo e Legislativo de implementá-los de forma adequada têm gerado numerosas e repetitivas demandas ao Poder Judiciário brasileiro. Essas questões tradicionalmente não integravam o escopo de assuntos julgados pelo Poder Judiciário e sofreram, na passagem do Estado liberal para o Social, forte resistência de todos os setores, inclusive de segmentos do próprio Poder Judiciário, quanto a assumir abertamente essa responsabilidade pelo Estado social.[9] Em realidade, porém, o Poder Judiciário não mais está voltado a apenas resolver conflitos entre particulares, que considero como o clássico conflito surgido em uma sociedade tradicionalmente composta por interesses uniformes e claramente reconhecidos. O Poder Judiciário passa a ser também o garantidor último dos diretos fundamentais, inclusive os de caráter social, por vezes contra o Estado-Executivo, bem como assume o papel de efetivar e concretizar um modelo de Constituição que incorpora o conflito[10], com cláusulas de mudança, transformativas. As questões envolvendo direitos sociais mudaram, nitidamente, o perfil, funções e responsabilidades do Poder Judiciário no mundo atual. Por isso, muito do que haveria de caber apenas nos estritos limites de uma ação específica como a ação por omissão (ou mesmo o mandado de injunção), acabou por ser arrebatado pela jurisdição em geral, em qualquer instrumento judicial comum. Os dados estarrecedores da periférica realidade brasileira certamente serviram como elementos de pressão para essa expansão judicial, mas o suporte desta expansão está ancorado, inequivocamente, na Constituição. Vejamos, porém, os dados que acabam por explicar e pressionar essa nova função judical-jurisdicional-processual. No Brasil a população ainda carece de direitos sociais básicos como, por exemplo, saúde e educação, que são prestados de forma precária pelo Estado. Tais direitos “acabaram abandonados pelos próprios Parlamentos, Executivos e Administração Pública.”[11] A inércia dos poderes eleitos, em matéria de direitos sociais, exige uma atuação mais intensa do Poder Judiciário. Trata-se de uma atividade judiciária própria dos chamados países de modernidade tardia “que ainda não alcançaram na plenitude a realização de um Estado Social mínimo”. A ação judiciária, portanto, tem por função evitar “que as normas constitucionais se tornem promessas inconsequentes e enganosas.”[12] Somente para exemplificar essa omissão do Estado no que diz respeito à garantia de direitos sociais, adverti, em 2012, para os alarmantes números que evidenciam a carência de saneamento básico, saúde pública e educação. [13] Houve avanços em relação ao ano de 2012, entretanto, a situação permanece preocupante. O serviço de esgotamento sanitário, por exemplo, um dos mais básicos serviços públicos para a saúde da população continua não sendo prestado a grande parte da população brasileira. De acordo com dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) promovida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2016, 32,5% dos domicílios brasileiros não tinham acesso a rede de esgoto. Isso significa que mais de 22,6 milhões de lares não contavam com serviço público de esgotamento sanitário, um serviço absolutamente básico, crucial para se falar em saúde da população[14]. Outro exemplo alarmante é a taxa de analfabetismo. Ainda de acordo com dados da PNAD, o número de analfabetos com 15 anos de idade ou mais no Brasil é de 11,8 milhões, representando 7,2% dessa população. Isolando-se a população de 60 anos ou mais o número chega a 20,4%; já se considerarmos apenas a população negra e parda de 60 anos ou mais, chega-se ao alarmante índice de 30,7% da população[15]. Os números reportados denunciam o precário e desigual acesso às condições mínimas de educação no Brasil. Esses dados dão uma perspectiva do contexto social em que o Poder Judiciário é chamado a intervir, por vezes se voltando contra o Poder Executivo e contra o Poder Legislativo. No Poder Judiciário brasileiro têm sido comuns pretensões de cidadãos requerendo leitos em hospital, medicamentos para sobrevivência, vagas em creches e escolas, além de direitos previdenciários e de assistência social que simplesmente são negados administrativamente, em situações de desprezo do Estado, descalabro público, corrupção e até mesmo contingenciamento de verbas existentes, sempre às custas de direitos sociais básicos, para garantir gastos crescentes com cargos públicos e os gastos para pagamento da dívida pública ou de seus altos juros e encargos[16]. E essas demandas não ocorrem exclusivamente pelos canais “próprios” de combate à omissão inconstitucional, aqui analisados. Nesse sentido, é significativo o fatode controle de constitucionalidade, contemplando tanto o controle difuso quanto concentrado. Porém, diferente da Constituição brasileira, a Carta mexicana prevê apenas a ação direta de inconstitucionalidade por ação, como se extrai do art. 105. [109] Artículo 105. La Suprema Corte de Justicia de la Nación conocerá, en los términos que señale la ley reglamentaria, de los asuntos siguientes: II. De las acciones de inconstitucionalidad que tengan por objeto plantear la posible contradicción entre una norma de carácter general y esta Constitución. Isto posto, no âmbito federal, ainda não há uma ação de controle abstrato de inconstitucionalidade por omissão. Parte da doutrina corrobora tal posicionamento, como se depreende do argumento Báez Silva citado por Victor Bazan, para quem as ações diretas de inconstitucionalidade não são instrumentos para atacar a inércia do legislador. Essa teria o objetivo de verificar a compatibilidade entre uma norma impugnada e uma norma constitucional e, deste modo, o seu objeto é o resultado de uma atividade normativa, o que não ocorre no caso das omissões.[110] Pode se dizer, todavia, que a Suprema Corte Nacional de Justiça tem admitido a aplicação do art. 105 quando se trata de omissões parciais, ou seja, àquelas em que o Poder competente regulamenta a matéria de maneira imperfeita ou defeituosa, excluindo o benefício ou direito de um determinado grupo que deveria ser contemplado segundo a Constituição. Nessa hipótese haveria violação ao princípio da igualdade. Para admitir tal posicionamento, a Suprema Corte entende que omissão parcial, resulta, na verdade, de uma ação, ou seja, de uma atuação imperfeita do legislador e por isso aceita a aplicação do art. 105 nesses casos. [111] Esse posicionamento foi consolidado na acción de inconstitucionalidad 118/ 2008 ajuizada pelo Partido da Revolucion Democratica que questionava os arts. 82 e 105 do Código Eleitoral do Estado de Morelos. De maneira sucinta, a controvérsia radicava em dois pontos: (i) a não implementação da reforma constitucional de 2007, que deveria ter sido feita em até 1(um) ano; (ii) a omissão no que toca a implementação de uma regra de recontagem de votos, conforme o disposto no art. 116 da Constituição Federal mexicana. A Suprema Corte admitiu apenas o segundo pedido, pois o art. 286 [112]-[113] do Código Eleitoral do Estado de Morelos previa a recontagem de votos apenas no âmbito municipal e distrital, excluindo o jurisdicional e o administrativo. Diante dessa omissão parcial do legislador estadual, decidiu a Suprema Corte no seguinte sentido No es óbice a lo anterior, que la violación constitucional consista en una omisión legislativa y que este Alto Tribunal haya anteriormente sostenido el criterio de que la acción de inconstitucionalidad resultaba improcedente en estos casos, porque derivado de una nueva reflexión debe precisarse que los órganos legislativos cuentan con facultades de ejercicio potestativo y de ejercicio obligatorio, y en su desarrollo pueden incurrir en diversos tipos de omisiones. Por un lado, puede darse una omisión absoluta cuando aquéllos simplemente no han ejercido su competencia de crear leyes; por otro lado, puede presentarse una omisión relativa cuando al haber ejercido su competencia, lo hacen de manera parcial o simplemente no la realizan integralmente, impidiendo el correcto desarrollo y eficacia de su función creadora de leyes. Ahora bien, combinando ambos tipos de competencias o facultades –de ejercicio obligatorio y de ejercicio potestativo–, y de omisiones –absolutas y relativas–, pueden presentarse las siguientes omisiones legislativas: a) Absolutas en competencias de ejercicio obligatorio, cuando el órgano legislativo tiene la obligación o mandato de expedir una determinada ley y no lo ha hecho; b) Relativas en competencias de ejercicio obligatorio, cuando el órgano legislativo emite una ley teniendo una obligación o un mandato para hacerlo, pero lo realiza de manera incompleta o deficiente; c) Absolutas en competencias de ejercicio potestativo, en las que el órgano legislativo decide no actuar debido a que no hay ningún mandato u obligación que así se lo imponga; y, d) Relativas en competencias de ejercicio potestativo, en las que el órgano legislativo decide hacer uso de su competencia potestativa para legislar, pero al emitir la ley lo hace de manera incompleta o deficiente. [114] No caso em tela, a Suprema Corte, por maioria, reconheceu que houve uma omissão relativa em competência de exercício obrigatório, ou seja, quando existe uma obrigação constitucional do órgão legislativo em emitir uma lei e este o faz de maneira incompleta. Na sentença, além de reconhecer a omissão parcial, a Suprema Corte estabeleceu que o órgão competente deveria regulamentar a matéria até o período eleitoral de 5 de julho de 2009 – e assim foi feito. [115] Em suma, a Suprem Corte Nacional de Justiça não admite o controle abstrato das omissões inconstitucionais absolutas. No entanto, permite o controle das omissões parciais por não considerá-las “omissões” propriamente ditas mas ações defeituosas ou imperfeitas do legislador. O controle das omissões inconstitucionais absolutas não é de todo desconhecido da doutrina mexicana. Como será desenvolvido adiante, diversas Constituições estaduais preveem expressamente a ação de inconstitucionalidade por omissão nas duas modalidades. 3.2. As entidades federativas e a acción popular de inconstitucionalidad É no âmbito das entidades federativas que o controle das omissões inconstitucionais ganha maior projeção. Tendo como pioneiro Veracruz, os Estados iniciaram um processo de reforma constitucional com o objetivo de, entre outras coisas, criar um sistema avançado de controle de constitucionalidade. Esse modelo, por sua vez, passou a comportar as ações diretas de inconstitucionalidade por ação e omissão (relativa e absoluta). A reforma constitucional foi feita nos Estados de Veracruz, Tlaxcala, Coahulia, Chiapas, Quintana Roo, Yucatán, Nayrit e Durango.[116] Tendo em vista algumas particularidades que serão demonstradas a posteriori, vamos nos ater ao Estado de Tlaxcala. A atual Constituição Política do Estado Livre e Soberano de Tlaxcala surge a partir da reforma constitucional implementada em 2001. Com forte inspiração no modelo veracruzano, o reconhecimento da supremacia constitucional dessa nova Carta Política implica, invariavelmente, na criação de um sistema de controle de constitucionalidade a ser exercido pelo Tribunal Superior de Justiça. São quatro as ações previstas pela Constituição do Estado: o juízo de proteção constitucional, o juízo de competência constitucional, a ação de inconstitucionalidade e a ação por omissão legislativa. Dessas quatro, somente o juízo de proteção constitucional tem um caráter subjetivo, pois visa a proteção direitos fundamentais dos tlaxcaltecas (art. 81, I da CPELT). As demais têm como função a proteção da ordem jurídica objetiva.[117] Assim, para compreender a ação de omissão legislativa adotada em nível local, é necessário dividir a abordagem em três tópicos: (i) competência; (ii) os legitimados; (iii) e os efeitos da sentença. O órgão competente para exercer o controle de constitucionalidade é o pleno do Tribunal Superior de Justiça. ARTÍCULO 80. El Tribunal Superior de Justicia, funcionando en pleno, tendrá las siguientes facultades: [...] II. Actuar como Tribunal de Control Constitucional del Estado; A ação de omissão legislativa não é aceita de plano. É necessário que haja um quórum de pelo menos doze – dos quatorze magistrados que integram o pleno – para o julgamento da questão. Soma-se a esse requisito a aprovação de, pelo menos, dez magistrados sobre a pedido de inconstitucionalidade de omissão para que ele possa seguir adiante, caso contrário será denegado sem análise do mérito. Um aspecto interessante do modelo constitucional tlaxcalteca é o rol de legitimados para o ajuizamento da ação de omissão legislativa. O art. 85 autoriza as autoridadesestaduais, municipais e as pessoas residentes no Estado a provocar o Poder Judiciário quando se depare com um silêncio violador da Constituição. [118] Todavia, o texto aberto da Constituição deixa margem para uma gama de interpretações. Quem pode ser considerado autoridade estadual e municipal? As pessoas jurídicas também podem figurar como legitimados? Essas perguntas começam a ser respondida pela doutrina e pela Ley del Control Constitucional del Estado de Tlaxcala. Segundo depreende-se da leitura do art. 3º da LCCET Artículo 3. Para los efectos de esta Ley se entenderá por: Tribunal: El Tribunal de Control Constitucional. Autoridad: El Poder Legislativo, el Gobernador del Estado, los Ayuntamientos o Concejos Municipales, la Comisión Estatal de Derechos Humanos, la Universidad Autónoma de Tlaxcala, el Procurador General de Justicia y en general cualquier dependencia o entidad publica, estatal o municipal, que participe en los procesos previstos en esta Ley. III. Norma: Norma jurídica de carácter general Para fins de controle de constitucionalidade deve-se compreender por autoridade o Poder Legislativo, o Governador do Estado, os ayuntamientos, ou Conselhos Municipais, a Comissão Estatal de Direitos Humanos, a Universidade Autonoma de Tlaxcala, o Procurador Geral de Justiça e em geral qualquer dependência ou entidade pública, estatal ou municipal. Contudo, ainda paira uma dúvida sobre quem seriam as autoridades estatais e municipais a quem se refere o art. 84, VI da CPELT. Através de uma “interpretação aproximativa”, Cesar Austudillo entende por autoridades estatais e municipais, além dos atores legitimados ativos para interposição das controvérsias constitucionais e ações diretas de inconstitucionalidade, todos os órgãos da administração pública direta e indireta. O mesmo aplica-se as autoridades municipais, abarcando os ayuntamientos ou conselhos municipais, além dos órgãos da administração direta e indireta. Frise-se que o processo deverá ser desencadeado pelas pessoas que legalmente os representem (Art. 14 da LCCET). Sabe-se que além das autoridades administrativas, a Constituição também confere legitimidade às pessoas residentes no Estado. Trata-se de uma genuína “ação de inconstitucionalidade popular” pois está franqueada a todos aqueles que, residentes em Tlaxcala, desejem questionar a inércia do órgão competente. Esse entendimento também se estende às pessoas jurídicas, desde que comprovem residência no Estado. A abertura do processo objetivo de constitucionalidade à cidadania mostra-se como uma importante característica do movimento chamado Novo Constitucionalismo Latino-Americano que, ao buscar uma democratização das mais diferentes esferas da sociedade, confere ao cidadão a possibilidade de participar efetivamente do processo político e da guarda da Constituição. É imperioso mencionar que este não se confunde com o chamado “neoconstitucionalismo”. O novo constitucionalismo latino-americano surge de maneira pioneira nas Constituições colombiana (1991), venezuelana (1999) e, posteriormente, nas constituições boliviana em 2009 e equatoriana em 2008. Suas principais características são a recuperação da legitimidade constitucional através de um Poder Constituinte democrático, abrindo espaço para participação direta dos cidadãos visando evitar a oligarquização do sistema político, a preocupação com a efetividade dos direitos sociais, a proteção e representatividade dos povos originários, a busca de novos fundamentos para vida em comum, a proteção ao meio ambiente, entre outros. Nota-se que, em alguns aspectos, aproxima-se do “neoconstitucionalismo” mas, em outros, como por exemplo, na ampliação da legitimidade cidadã no processo constituinte e na interpretação da Constituição, difere-se da tese “neoconstitucional” que confere essa função – com certa exclusividade – ao Poder Judiciário. [119] A Constituição mexicana de 1917 é anterior ao surgimento do novo constitucionalismo latino-americano, mas parece que as reformas constitucionais pelo quais passaram as Cartas dos Estados mexicanos no início do século XXI incorporaram alguns elementos desse novo paradigma. Retomando ao estudo das omissões inconstitucionais, no Brasil, em que pese a ampliação dos legitimados ativos para propositura da ação direta de inconstitucionalidade (art. 103 da Constituição Federal) e a regulamentação das audiências públicas, ainda não há previsão para que o cidadão participe diretamente do processo objetivo de guarda da Constituição, gerando o que se convencionou chamar de “hiperconcentração” da jurisdição constitucional. As Constituições dos Estados brasileiros não fogem do padrão estabelecido pela Constituição Federal. Em regra, os legitimados para propositura a ação direta de inconstitucionalidade são: (i) o Govenador do Estado; (ii) a Mesa da Assembleia; (iii) o Procurador Geral de Justiça; (iv) o Prefeito ou a Mesa da Câmara Municipal; (v) o Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil do respectivo Estado; (vi) partido político com representação na Assembleia Legislativa do Estado; (vii) entidade sindical ou de classe que tenha base no Estado, como é o caso de Minas Gerais, Acre, Rio Grande do Sul, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina. Desses, há que se mencionar a legitimidade da Defensoria Pública (Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Alagoas e Ceará), das entidades de defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e dos consumidores (Rio Grande do Sul), das associações de bairro e entidade de defesa de interesses comunitários (Rio Grande do Sul). Conclui-se, de maneira provisória, que é necessário repensar o controle das omissões inconstitucionais, não só nos seus efeitos, mas também nos legitimados aptos à dar inicio ao processo objetivo de guarda da constituição. Isto posto, passa-se a análise dos efeitos da decisão que reconhece a omissão inconstitucional. Nos Estados brasileiros ora analisados, os efeitos são os mesmos estabelecidos pela Constituição Federal: dar ciência ao órgão competente para que tome as medidas cabíveis e, em se tratando de órgão administrativo, que faça no prazo de 30 dias sob pena de responsabilização. A CPELT prevê em seu art. 81 que, verificada a omissão legislativa, será dada a autoridade competente um prazo de até três meses para que expeça a norma jurídica solicitada e, não sendo feito no prazo estabelecido, haverá responsabilização. Em linhas gerais se aproxima do modelo brasileiro, porque a mera ciência e responsabilização não são suficientes para o cumprimento da sentença. Nesse quesito é imperioso mencionar a Constituição de Veracruz que estabelece o prazo de duas sessões legislativas para que a autoridade sane a omissão. [120] Não sendo feito, o Tribunal Superior de Justiça poderá ditar as bases para o exercício do direito pretendido até que seja expedida lei ou decreto. Sem querer realizar um processo de transplante constitucional entre o Brasil e o México no que toca ao sistema de controle de constitucionalidade, em especial das omissões, é possível vislumbrar alternativas que podem auxiliar ambos nessa tarefa tão cara às democracias constitucionais da América Latina. O reconhecimento de omissões inconstitucionais absolutas a nível federal no México, bem como a ampliação do rol de legitimados no Brasil para provocar o Poder Judiciário diante da inércia dos Poderes Públicos, foram só algumas das possibilidades aqui aventadas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Sabe-se que no Brasil houve uma tentativa, por parte da jurista Anna Cândida Cunha Ferraz, ao listar, em um artigo / proposta à Constituinte de 1988, uma série de medidas para o controle das omissões, entre elas: (i) a fixação de prazos em matérias de maior relevância, de natureza legislativa ou não, com sanções específicas pelo descumprimento de prazos; (ii) em se tratando de competência de um Poder específico, poderá o ato ser criado ad referendum e depois levado para revisão pelo próprio Poder. Em caso de rejeição a decisão pode se dar efeitos ex tunc ou ex nunc a dependerda hipótese; (iii) quando se trata de iniciativa legislativa reservada, poderia ser fixado um prazo específico, uma sessão legislativa anual por exemplo, semelhante ao Estado de Veracruz (dá o prazo de duas sessões legislativas). Descumprido esse prazo, passaria a competência a outro Poder; iv) soma-se a essas hipóteses a participação direta do cidadão (como na Constituição do Estado de Tlaxcala, por exemplo) através de iniciativas populares, referendos, plebiscitos, órgãos da comunidade (vimos que existe previsão dessa hipótese na Constituição do Rio Grande do Sul); (v) até a participação dos próprios poderes estaduais mediante iniciativas legislativas, principalmente no caso de leis ligadas aos interesses dos Estados.[121] Contudo, em conjunto com todas essas sugestões, a autora propõe a criação de uma Corte Constitucional como órgão competente (e fundamental) para verificar e sanar as omissões inconstitucionais. [122] Essa proposta também ganha eco com o posicionamento de Willis Santiago Guerra Filho, já no final do século XX, para quem deve-se criar um órgão para canalizar as aspirações da Constituição, “surge então a necessidade de criar um espaço jurídico e público para atuação de uma espécie de poder constituinte derivado material, na forma de uma Corte Constitucional [...].”[123] Porém, mesmo após a redemocratização, o Constituinte escolheu manter o Supremo Tribunal Federal e a estrutura que atuou durante o período da ditadura civil-militar no Brasil para interpretar a nova Carta Constitucional, sob a égide do Estado Democrático de Direito. Uma Corte Constitucional seria de importância ímpar para lidar com o problema das omissões inconstitucionais, principalmente diante do dilema de uma “suposta separação de poderes” que ainda freia uma atuação substancial do Supremo Tribunal Federal em temas relativos à efetividade dos direitos fundamentais, em especial àqueles de caráter social. A importância de uma Corte Constitucional, como órgão incumbido de decisões jurídico-políticas, é grande, pois, ao adotar uma concepção luhmanniana da sociedade, entende-se o Poder Judiciário como o centro do sistema jurídico porque é o encarregado de dar a última palavra sobre o direito e o não direito, ou para adotar o código do sistema do direito, sobre o que é lícito e ilícito. A Corte Constitucional, nesse contexto, seria, nas lições de Willis Santiago Guerra Filho, o “centro do centro” do sistema jurídico, pois, ao ser incumbida, também, das decisões políticas, migraria para a fronteira entre o sistema jurídico e o sistema político, adquirindo papel relevante sobre as decisões de ambos os sistemas e, também, onde se realizaria o “acoplamento estrutural” com os demais sistemas, não só o político mas também da arte, da educação, da ciência, da economia e outros, em um processo de mútua interpenetração, o que resultaria diversas interpretações sobre a Constituição e, consequentemente, sobre o direito, realizadas pelos cidadãos, as quais “irritam” e influenciam a Corte Constitucional. No entanto, lembrando sempre que, por ser um sistema autopoiético, a última interpretação válida é a do jurista.[124] Isto posto, diante da inexistência de uma Corte Constitucional, cabe ao Supremo Tribunal Federal a tarefa tão cara às democracias latino- americanas de sanar às omissões inconstitucionais. Um olhar crítico para os nossos vizinhos que, em grande medida, compartilham das desigualdades sociais e mazelas herdadas da colonização, pode nos ajudar a pensar um sistema de controle de constitucionalidade mais plural, democrático e efetivo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASTUDILLO, César. La inconstitucionalidad por omission legislativa en Mexico. México: Instituto de Investigaciones Jurídicas UNAM, 2003. p. 344 BÁEZ SILVA, Carlos. La omission legislativa y su inconstitucionalidade em México. Boletin Mexicano de Derecho Comparado, nueva série, año XXXV, num 105, septiembre-deciembre de 2002; BAZÁN, Víctor. 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O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise teórico-comparativa entre Brasil e México. Revista Brasileira de Estudos Constitucionais. Ano 10. N. 35. maio/agosto de 2016. p. 46. [92] . GARGARELLA, Roberto. El constitucionalismo y la “salla de máquinas” de la Constitución (1980-2010). Gaceta Constitucional, n. 48, p. 289-305. [93] . Cf. NEGRETTO, Gabriel L. Paradojas de la Reforma Constitucional em América Latina. Journal of Democracý en español, v. 1, n. 1, 2009; Ver também. NEGRETTO, Gabriel L. La reforma política en América Latina. Reglas electorales y distribución de poder entre presidente y congreso. Desarrollo Econômico – Revista de Ciencias Sociales, Buenos Aires, v. 50, n. 198, p. 197-221, jul.-set. 2010; COELHO, Andre Luiz; CUNHA FILHO, Clayton Mendonça; PEREZ FLORES, Fidel. Participación ampliada y reforma del Estado: mecanismos constitucionales de democracia participativa en Bolivia, Ecuador y Venezuela. OSAL, Buenos Aires: Clacso, ano XI, n. 27, p. 74-95, abr. 2010. [94] . Empregamos a expressão “ditadura” conforme os ensinamentos de Karl Loewenstein, ou seja, de que os governos ditatoriais operam, em certa medida, com as regras do jogo constitucional no seu exercício de poder, ainda que o respeito a essas regras se dê apenas formalmente, por exemplo, a confirmação formal de uma decisão pelo Parlamento que é “dócil” ao Poder Executivo (LOEWENSTEIN, Karl. Teoría de la constitución cit., p. 35). Ver também: ROCHA, Antônio Sérgio. Genealogia da constituinte: do autoritarismo à democratização. São Paulo: Lua Nova, 2013. p. 29-87. [95] . ROSEN, Keith S. Brazil’s new constitution: an exercise in transient constitucionalism for a transitional society. The American Journal of Comparative Law, v. 38, n. 4, p. 773-802, Autumn 1990. [96] . “Caberá, assim, ao judiciário suprir a ausência completa ou os defeitos de produção legislativa, no sentido tanto da realização dos direitos sociais, econômicos e culturais, como dos chamados “direitos fundamentais de terceira geração”, ou “direitos de solidariedade” [...] Vê se, portanto, como efetivamente se pode sustentar a tese, que talvez seja a principal, que a mim interessa defender no momento: a de que o judiciário deve assumir, na atualidade, a posição mais destacada, dentro os demais Poderes estatais, na produção do direito.” (Grifos no original) Cf. GUERRA FILHO, Willis. Autopoiese do direito na sociedade informacional. 2º ed. Lumen Juris: Rio de Janeiro, 2018 .p. 69 [97] . TAVARES, André Ramos. Teoria da Justiça Constitucional. Saraiva: 2005, pp. 321-334. [98] . TAVARES, André Ramos. Teoria da Justiça Constitucional. Saraiva: 2005, pp. 332. [99] . TAVARES, André Ramos. Teoria da Justiça Constitucional. Saraiva: 2005, pp. 331. [100] . CANOTILHO, J.J Gomes. Tomemos a sério o silêncio dos poderes públicos – o direito à emanação de normas jurídicas e a proteção judicial contra omissões normativas In: Coord. TEIXEIRA, Sávio Figueiredo. As garantias do cidadão na justiça. São Paulo: Saraiva, 1993. pp. 354. [101] . “Ademais disso, a inconstitucionalidade por omissão também pressupõe um juízo sobre o decurso do “tempo razoável” para a edição da medida omitida [...]” Cf. JÚNIOR, Dirley da Cunha Controle Judicial das Omissões do Poder Público. São Paulo: Saraiva, 2004. pp. 119.; Ver também: PIOVESAN, Flávia. Proteção Judicial contra omissões legislativas: ação direta de inconstitucionalidade por omissão e mandado de injunção. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1995. pp. 82-83. [102] . Cf. JÚNIOR, Dirley da Cunha Controle Judicial das Omissões do Poder Público. São Paulo: Saraiva, 2004. pp. 118-119; CUNHA FERRAZ, Ana Cândida. Inconstitucionalidade por omissão: uma proposta para a constituinte. R. Inf Legislativa. Brasília a. 23 n. 89 jan/mar 1986 [103] . Soma-se a esses dois instrumentos à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental. Por se tratar de ação de controle objetivo, também está apta para, subsidiariamente, questionar ações e omissões inconstitucionais. Nesse sentido, é imperioso mencionar os debates decorrentes da ADPF n. 4. [104] . GUERRA FILHO, Willis Santiago. Processo Constitucional e Direitos Fundamentais. 5º ed. São Paulo: RCS Editora, 2007. [105] . GUERRA FILHO, Willis Santiago. Processo Constitucional e Direitos Fundamentais. 5º ed. São Paulo: RCS Editora, 2007. [106] . GUERRA FILHO, Willis Santiago. Processo Constitucional e Direitos Fundamentais. 5º ed. São Paulo: RCS Editora, 2007. p. 157. [107] . Essa tipologia, bem como dados empíricos relativos às decisões do STF em sede de Mandado de Injunção e Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão podem ser consultados em: DENARI, Karina. Democracia e Diálogo Institucional: a relação entre os poderes no controle de omissões legislativas. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 2014. [108] . Essa terminologia é dada por André Ramos Tavares. Lembra que até 1994 a Constituição Mexicana possuía somente o controle concreto de constitucionalidade. Cf: TAVARES, André Ramos. O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise teórico-comparativa entre Brasil e México. Revista Brasileira de Estudos Constitucionais. Ano 10. N. 35. maio/agosto de 2016. p. 46. [109] . É imperioso mencionar que o art.105 da Carta Politica mexicana prevê, além da ação direta inconstitucionalidade, o reconhecimento e resolução das controvérsias constitucionais e também dos recursos de apelação nos processos ordinários de ordem federal em que a Federação faça parte. [110] . BAZAN, Victor. Control de las omisiones inconstitucionales e inconvencionale: recorrido por el derecho y la jurisprudencia americanos y europeos. Bogotá: Fundación Konrad Adenauer, 2014. p. 840. [111] . “Será total, quando a indevida abstenção é integral, consistindo, pois, absoluta falta de ação. Será parcial, quando o censurável silêncio transgressor do poder público ocorre somente em parte, ou seja, o poder público atua, mas de forma incompleta ou deficiente, sem atender fielmente aos termos exigidos pela Constituição” Cf: JÚNIOR, Dirley da Cunha Controle Judicial das Omissões do Poder Público. São Paulo: Saraiva, 2004. pp. 122. [112] . ARTÍCULO *286.- El cómputo de los votos es el procedimiento mediante el cual el órgano electoral da cuenta de los resultados de la votación obtenidos en cada casilla. El recuento de votos de una elección, es la actividad que podrán practicar a petición de parte interesada los Consejos Municipales o Distritales y el Tribunal Estatal Electoral del Estado, en el ámbito de su competencia, con la finalidad de establecer con toda certeza quién es el candidato, partido o coalición que triunfó en la elección que motiva el asunto del que están conociendo. El recuento parcial o total de votos de una elección tiene como finalidad hacer prevalecer el voto ciudadano, clarificando con certeza y exactitud la voluntad ciudadana expresada en las urnas. NOTAS REFORMA VIGENTE.- Reformado por Artículo Primero del Decreto No. 1319 publicado en el Periódico Oficial “Tierra y Libertad” No. 4711 de fecha 2009/05/27. Vigencia 2009/05/28. Antes decía: Artículo 286.- Los cómputos distritales y municipales se efectuarán el tercer día posterior al de la elección. Para efectos del cómputo, se observará el siguiente procedimiento: (Grifonosso) [113] . ARTÍCULO *286 BIS 1.-El recuento de votos de una elección será de dos tipos, administrativo y jurisdiccional. a) Administrativo.- Estará a cargo de los Consejos Distritales y Municipales, según se trate de la elección de Diputados, Gobernador y Ayuntamientos; b) Jurisdiccional.- Estará a cargo del Tribunal Estatal Electoral en el ámbito de su competencia. NOTAS REFORMA VIGENTE.- Adicionado por Artículo Segundo del Decreto No. 1319 publicado en el Periódico Oficial “Tierra y Libertad” No. 4711 de fecha 2009/05/27. Vigencia 2009/05/28. (Grifo nosso) [114] . Suprema Corte Nacional de Justiça, Martes 20 de enero de 2009. [115] . O tema das omissões parciais inconstitucionais também foi tratado nas ações de inconstitucionalidade 22/2001, 23/2001, 27/2002 e 07/2003. Na doutrina, entre nós, há que se mencionar novamente os estudos de André Ramos Tavares no que concerne a acción de inconstitucionalidad 22/2001. Cf: TAVARES, André Ramos. O controle abstrato de constitucionalidade por omissão e análise teórico-comparativa entre Brasil e México. Revista Brasileira de Estudos Constitucionais. Ano 10. N. 35. maio/agosto de 2016; No contexto latino-americano, tem-se os apontamentos de Victor Bazan, em especial sobre o Código Eleitoral do Estado de Morelo aqui analisado. Cf: BAZAN, Victor. Control de las omisiones inconstitucionales e inconvencionales: recorrido por el derecho y la jurisprudencia americanos y europeos. Bogotá: Fundación Konrad Adenauer, 2014; Por sua vez, há que se mencionar a contribuição de Carlos Báez Silva. Cf: BÁEZ SILVA, Carlos. La omission legislativa y su inconstitucionalidade em México. Boletin Mexicano de Derecho Comparado, nueva série, año XXXV, num 105, septiembre-deciembre de 2002. pp. 741-796 [116] . ASTUDILLO, César. La inconstitucionalidad por omission legislativa en Mexico. México: Instituto de Investigaciones Jurídicas UNAM, 2003. [117] . ASTUDILLO, César. La inconstitucionalidad por omission legislativa en Mexico. México: Instituto de Investigaciones Jurídicas UNAM, 2003. p. 344. [118] . ARTÍCULO 81. El pleno del Tribunal Superior de Justicia, actuando como Tribunal de Control Constitucional del Estado, conocerá de los asuntos siguientes: El ejercicio de esta acción corresponderá a las autoridades estatales y municipales, así como a las personas residentes en el Estado. (Grifo nosso) [119] . “Do ponto de vista do novo constitucionalismo, o estado constitucional, como superação do Estado Social e democrático de direito, passa principalmente por quatro caminhos: a reivindicação do conceito de soberania popular e a sua identificação com o poder constituinte; a incorporação de mecanismos de fortalecimento da legitimidade democrática do poder constituído, tanto por meio da participação direta nas decisões do controle democrático do poder político organizado; a busca de mecanismos de materialização e efetividade da Constituição e da eliminação das sombras nominalistas e, por último, o desaparecimento definitivo do poder constituído ou derivado (poder de reforma da Constituição pelos órgãos constituídos), ao considerar materialmente indelegável ao poder constituinte democrático. Desses quatro elementos, apenas um terço pode-se entender que é compartilhado com o constitucionalismo do Estado Social e pelo neoconstitucionalismo. Cf: PASTOR, Roberto Viciano; DALMAU, Rubén Martínez. A constituição democrática, entre o neoconstitucionalismo e o novo constitucionalismo. Trad. Illana Aló. In: VIEIRA, José Ribas; LACOMBE, Margarida; LEGALE, Siddharta (Coord.) Jurisdição Constitucional e direito constitucional internacional. Belo Horizonte: Fórum, 2016. pp. 116-117 [120] . Art. 64 [...] III. De las acciones por omisión legislativa, cuando se considere que el Congreso no ha aprobado alguna ley o decreto y que dicha omisión afecte el debido cumplimiento de esta Constitución, que interponga: La omisión legislativa surtirá sus efectos a partir de su publicación en la Gaceta Oficial del Estado. III. En dicha resolución se determinará un plazo que comprenda dos períodos de sesiones ordinarias del Congreso del Estado, para que éste expida la ley o decreto de que se trate la omisión. Si transcurrido este plazo no se atendiere la resolución, el Tribunal Superior de Justicia dictará las bases a que deban sujetarse las autoridades, en tanto se expide dicha ley o decreto.(Grifo nosso) [121] . CUNHA FERRAZ, Ana Cândida. Inconstitucionalidade por omissão: uma proposta para a constituinte. R.Inf.Legislativa. Brasília a. 23 n. 89 jan/mar 1986 [122] . “Nos casos em que couber, ou em que as medidas sugeridas acima não forem, por si, suficientes à fiscalização da omissão, deverá a verificação da existência da “inconstitucionalidade por omissão” ser atribuída a um órgão com função de controle constitucional, de preferencia uma Corte Constitucional, que, de resto, em nosso entender, deve ser criada.” Cf: CUNHA FERRAZ, Ana Cândida. Inconstitucionalidade por omissão: uma proposta para a constituinte. R.Inf. Legislativa. Brasília a. 23 n. 89 jan/mar 1986 [123] . GUERRA FILHO, Willis Santiago. Ensaios de Teoria Constitucional. Lumen Juris: Rio de Janeiro, 2018. Prefácio da reedição. [124] . Para uma visão mais ampla sobre o papel do Poder Judiciário na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, ver: LUHMANN, Niklas. El derecho de la sociedade. Trad. Javier Torres Nafarrate. 2. ed. México: Herder, 2005; GUERRA FILHO, Willis Santiago; CARNIO, Henrique Garbellini. Teoria política do direito cit., p. 248-250. OMISSÃO INCONSTITUCIONAL: UMA ANÁLISE DO DEVER CONSTITUCIONAL DE AÇÃO DOS PODERES PÚBLICOS E A SÍNDROME DE INEFETIVIDADE DE DIREITOS FUNDAMENTAIS NOS 30 ANOS DA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 Unconstitutional omission: an analysis of the public authorities constitutional duty of action and the ineffectiveness syndrome of fundamental rights in the 30 years of the Brazilian Constitution of 1988 Fabrício Muraro Novais[125] Resumo: Com o advento do Estado Social, as Constituições Dirigentes colocam em relevo a questão da efetivação de direitos fundamentais frente às omissões inconstitucionais. Como cediço, é com o neoconstitucionalismo que a inconstitucionalidade por omissão desenvolve-se com mais força no âmbito da eficácia e aplicabilidade das normas constitucionais, com destaque entre aquelas que exigem integração legislativa ou material dos poderes públicos, mormente, as de caráter programático definidoras de direitos sociais, de presença ordinária nas Constituições Dirigentes. Mas não é toda omissão do poder público que a Constituição macula com a pecha da inconstitucionalidade. O conceito de omissão não se reduz a um mero “não fazer” ou num simples dever geral de legislar ou atuar concretamente a Constituição. A omissão inconstitucional é aquela que decorre de imposições constitucionais ou ordens de legislar definidas em norma constitucional específica, certa e determinada que inexoravelmente prescreve o dever constitucional de ação. Palavras-chave: Constituição dirigente - omissão inconstitucional – dever constitucional de ação Abstract: With the upcoming of the Social State, the “Driving Constitutions” highlight the issue of the effectiveness of fundamental rights in face of unconstitutional omissions. As it is known to all, it is with neoconstitutionalism that unconstitutionality by omission develops more strongly within the scope of effectiveness and applicability of constitutional norms, especially among those that require legislative or material integration of public authorities, especially those of a programmatic nature that define social rights, of ordinary presence in the “Driving Constitutions”. But it is not every omission of public authorities that the Constitution tarnishes with the blemish of unconstitutionality. The concept of omission is not reduced to a mere “not doing” or a simple general duty to legislate or act concretely the Constitution. The unconstitutional omission is that which results from constitutional impositions or orders to legislate defined in specific,certain and determined constitutional norm that inexorably prescribes the constitutional duty of action. Keywords: Driving Constitutions - Unconstitutional omission - constitutional duty of action Sumário: 1. Apresentação do cenário brasileiro de florescimento de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão. 2. Neoconstitucionalismo e Constituição invasora: efetividade versus omissão inconstitucional. 3. Constitucionalização do direito: a experiência brasileira pós-Constituição de 1988 (uma descrição histórico-jornalística) e perpetuação dos vícios de origem. 4. Controle judicial da constitucionalidade em situações de omissão dos Poderes Públicos constituídos. 5. Conclusões. 6. Bibliografia 1. APRESENTAÇÃO DO CENÁRIO BRASILEIRO DE FLORESCIMENTO DE UMA TEORIA DA INCONSTITUCIONALIDADE POR OMISSÃO Nos 30 anos de vigência da Constituição brasileira de 05 de outubro de 1988, a construção e desenvolvimento de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão ainda desafia os estudiosos do direito constitucional nacional e coloca em estado de permanente tensão o exercício, – que não raro tangencia ou ultrapassa os limites do ativismo judicial –, da jurisdição constitucional voltada à plena concretização do Texto Maior. Em que pese, por certo, os primorosos trabalhos acadêmicos acerca da efetividade das normas constitucionais e da omissão inconstitucional levados a efeito em período anterior à promulgação da atual Carta da República, parece evidente, contudo, que foi a onda do neoconstitucionalismo[126] que arrastou os constitucionalistas, daqui e alhures, ao (re)estudo de (novos)velhos fenômenos e institutos da ciência constitucional, – como, v. g., a força normativa da Constituição, a hermenêutica e jurisdição constitucional, a eficácia e aplicabilidade das normas constitucionais –, no contexto do processo de democratização do Estado e da sociedade. Registra BARROSO que “A efetividade foi o rito de passagem do velho para o novo direito constitucional, fazendo com que a Constituição deixasse de ser uma miragem, com as honras de uma falsa supremacia, que não se traduzia em proveito para a cidadania”.[127] Ao lado do estudo da normatividade constitucional, “A ideia de constitucionalismo dirigente ou Constituição dirigente, por sua vez, mostra-se essencial para estruturar uma compreensão adequada das tarefas atribuídas aos poderes constituídos e as consequências do inadimplemento de tais obrigações”.[128] Ademais, como cediço, as demandas perenes e as estruturas de normatividade do Estado Social revelaram-se inexoravelmente vinculadas à Nova Hermenêutica. Quanto à questão, BONAVIDES esclarece que “os juristas liberais são conservadores; os juristas sociais, ao revés, criativos e renovadores; os primeiros ficam com a metodologia clássica, os segundo criam a Nova Hermenêutica”. Prossegue Bonavides, afirmando que “aqueles se comportam nos conceitos como juristas do Estado e só secundariamente da Sociedade; estes, ao contrário, tendem a buscar o direito nas suas raízes sociais e desertam o formalismo rigoroso dos positivistas da norma”.[129] Não há olvidar, assim, que a extensão da normatividade da Constituição também perpassa “pelo ângulo de análise que seus hermeneutas fazem aos substratos materiais de constitucionalidade”. É certo que “os juristas do Estado social, quando interpretam a Constituição, são passionais fervorosos da justiça; trazem o princípio da proporcionalidade na consciência, o princípio igualitário no coração e o princípio libertário na alma; querem a Constituição viva, a Constituição aberta, a Constituição real”. Às avessas, pois, “dos juristas do Estado liberal, cuja preocupação suprema é a norma, a juridicidade, a forma, a pureza do mandamento legal com indiferença aos valores e portanto à legitimidade do ordenamento, do qual, não obstante, são também órgãos interpretativos”.[130] De toda sorte, sem desconsiderar a celeuma referida, parece que há consenso na ideia de que a Constituição é uma lei vinculativa dotada de efetividade e aplicabilidade. Ocorre que existem peculiaridades à efetivação das normas constitucionais que as distinguem das demais espécies normativas. Observa-se que: “Se a constituição é uma lei como as outras, em alguma coisa, na verdade, se distingue delas. O carácter aberto e a estrutura de muitas normas da constituição obrigam à mediação criativa e concretizadora dos “intérpretes da constituição”, começando pelo legislador (primado da competência concretizadora do legislador) e pelos juízes, sem esquecermos hoje o primordial papel concretizador desempenhado pelo governo quer na sua qualidade de órgão encarregado da “direção política” quer na qualidade de órgão que dirige, superintende e/ou tutela a administração pública.”[131] No caso particular brasileiro, acrescente-se a todo esse cenário de ebulição de “novos” paradigmas jurídicos o contexto histórico e a metodologia, – se é que a Assembleia Constituinte realmente adotou alguma cientificamente aceitável –, de elaboração da Constituição de 1988. É cediço que muitos dos “erros”[132] do rejeitado Anteprojeto da Comissão AFONSO ARINOS acabaram se repetindo e se projetando à redação do Texto Maior que fora promulgado nos idos de 1988. Dentre eles, o utopismo merece destaque. Nesse tema, NEY PRADO assevera: “Poder-se- ia argumentar que as medidas propostas são de cunho meramente programático e que muitas delas costumam vir inseridas em algumas constituições, tanto brasileiras como estrangeiras. Acontece, no entanto, que o utopismo do Anteprojeto foi muito além do esperado”. Ainda segundo o autor referido, os notáveis, – assim denominados os integrantes da Comissão Afonso Arinos –, “decretaram por um passe de mágica, pela crença desmedida no poder das fórmulas escritas, que todas as normas programáticas passariam a ser pragmáticas, pois sentenciaram no art. 10, que “Os direitos e garantias constantes desta Constituição têm aplicação imediata”. Registre-se, por oportuno, que a redação do art. 10 transcrito é similar à Constituição de 1988, art. 5º, § 1º (in verbis: as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata), de modo que a questão da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais, mormente dos direitos sociais, pauta o debate acerca dos mecanismos idôneos de controle de omissões ditas inconstitucionais. Como se depreende, esses são alguns dos marcos históricos e teóricos que permeiam o debate sobre o fenômeno jurídico da inconstitucionalidade por omissão e os instrumentos jurídicos de combate à denominada síndrome da inefetividade das normas constitucionais. Nos tópicos que se seguem, será melhor explorada a extensão dos referenciais acima apresentados, sem contudo deixar de apresentar tantos outros pertinentes ao estudo da temática central ventilada. 2. NEOCONSTITUCIONALISMO E CONSTITUIÇÃO INVASORA: EFETIVIDADE VERSUS OMISSÃO INCONSTITUCIONAL É a partir da metade do século passado que a necessidade de conferir sustentabilidade ao Estado de Direito contemporâneo[133] engendrou o aparecimento de um novo discurso jurídico que, divergindo do paradigma positivista, aportava-se em valores ético-políticos. Com efeito, essa “nova epistemologia pós-positivista” enfatiza a insuficiência das bases do constitucionalismo moderno[134] como discurso teórico idôneo a justificar/operacionalizar a implementação/manutenção do Estado Democrático de Direito. Verifica-se, portanto, que o estágio pré- neoconstitucionalista não se mostrava absolutamente[135] refratário à epistemologia positivista, sendo certo que as concepções, exempli gratia, de Constituição formal e material desenvolvidas sob a sua égide apresentavam- se bastantes úteis a fundamentar os paradigmas dos Estados Liberal e de Bem-Estar Social. O fenômeno do neoconstitucionalismo[136] revelou-se conditio sine qua non da implantação e consolidação do Estado Democrático de Direito. Ocorre que para o reconhecimento da força normativa dos direitos fundamentais e a consolidação das instituições democráticas,fazia-se mister irromper um outro discurso jurídico, de viés pós-positivista, que entronizasse uma concepção principiológica, de aproximação do direito à moral, e que conferisse um novo status funcional à própria Constituição, como cediço. Reportando-se a breve contextualização histórica, o paradigma do Estado Democrático de Direito – como nova forma de organização política – floresce na Europa continental logo após a Segunda Guerra Mundial, em razão da confluência dos ideários do constitucionalismo e do princípio democrático, propugnando a subordinação total das leis a uma Constituição rígida transformadora. De fato, o constitucionalismo do pós-guerra concebe as Constituições democráticas “como um feixe de normas constitucionais principiológicas e a (sua) defesa em torno de uma jurisdição constitucional.”[137], reacendendo a discussão acerca do sentido de Constituição a partir da secular pergunta formulada por Ferdinand Lassalle: Que é afinal de contas uma Constituição? Para PAULO BONAVIDES, “A pergunta de Lassalle, há mais de um século, quando a luta social entrou a impugnar os valores da sociedade burguesa, foi a mais importante que já se fez no Direito Constitucional, desde a interrogação de Sieyès, em circunstâncias semelhantes, aos constitucionalistas franceses sobre ‘o terceiro estado’ e a natureza do poder constituinte”.[138] Assim é que, como acima acentuado, a retomada oblíqua desse questionamento na segunda metade do século XX incita inúmeras transformações nas teorias do direito – em especial, as que gravitam em torno do positivismo –, culminando num movimento denominado “neoconstitucionalismo pautado nas transformações ocorridas pela constitucionalização do direito”.[139] Pondera EDUARDO MOREIRA que “O neoconstitucionalismo é uma teoria que se enquadra em um Estado em busca de efetividade e transformação, por meios racionais de correção, e em torno de uma identidade própria da Constituição.”[140] Como se depreende, o implemento do Estado Democrático de Direito (ou Constitucional contemporâneo) demandava a promoção de significativas alterações no modo de se conceber a Constituição e, principalmente, a mutação de função do sistema constitucional. Nesse sentido, apoiando seu pensamento em argumentação de SASTRE ARIZA, ANTONIO CAVALCANTI MAIA esclarece que “A principal mudança refere-se ao papel desempenhado pelo texto constitucional em nações da tradição continental – Alemanha, Itália, Espanha e Portugal. Não mais um texto que sirva como um ‘esboço orientativo que deve ser simplesmente ‘respeitado’ pelo ‘legislador’, mas sim um ‘programa positivo de valores que deve ser ‘atuado’ pelo legislador’”.[141] Com efeito, a Constituição, assim concebida, passa a receber a qualificação de invasora e expansiva em razão desse seu novo papel: promover e coordenar o processo de constitucionalização do direito. Quanto à questão, RICARDO GUASTINI elucida que “em um ordenamento constitucionalizado, o Direito Constitucional tende a ocupar o espaço inteiro da vida social e política, condicionando a legislação, a jurisprudência, o estilo doutrinário, a ação dos atores políticos, as relações privadas e etc”.[142] No contexto dos países latino-americanos de modernidade tardia, esse novo discurso jurídico produz importantes modificações no modo de se compreender o direito e, em especial, no desenvolvimento do fenômeno constitucional. No Brasil, em particular, verifica-se que o processo de abertura política, que culminou na promulgação da Constituição de 1988, desencadeou uma espécie de balanço jurídico-constitucional. Fato é que especialistas de diversas áreas do conhecimento – como juristas, historiadores, cientistas políticos etc. – sob a influência do paradigma pós- positivista e sensíveis àquele momento constitucional, inserem alguns temas na pauta de suas reflexões, v. g., o contexto histórico de nascimento da Constituição; a prolixidade de seu texto; os avanços, os retrocessos e a inércia que a nova Carta engendrou no sistema jurídico por ela inaugurado. Contudo, foi a função de promotora dos direitos e garantias fundamentais a que mais se sobrelevou da Constituição de 1988 e que, por essa razão, rendeu-lhe o título de Constituição cidadã. Sem qualquer pretensão de menoscabar as concepções mais “progressistas”[143] sobre a Constituição brasileira, a proposta aqui é a de apresentar objetivamente em que medida houve e há (ou não) – desde o ato que lhe conferiu existência formal – o reconhecimento de sua força normativa, no sentido de exercício inegável, inafastável e efetivo de sua função de referencial da totalidade do ordenamento jurídico. Noutros termos, a construção de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão pressupõe o abandono da ideia tradicionalmente arraigada de que a Constituição seria um mero receituário político de cunho vagamente obrigatório, de modo que a ocorrência do fenômeno da constitucionalização do direito retira da lei ordinária a função de eixo essencial da ordem jurídica, atribuindo-a fundamentalmente à Carta Política. Em certa medida, vislumbra-se que um “novo”[144] direito constitucional desenvolve-se no Brasil a partir da Constituição de 1988, engendrando importantes alterações na dinâmica de concretização do direito positivado a partir desse processo de invasão constitucional. Dissertando sobre a questão, pondera Barroso: O novo direito constitucional ou neoconstitucionalismo desenvolveu-se na Europa, ao longo da segunda metade do século XX, e, no Brasil, após a Constituição de 1988. O ambiente filosófico em que floresceu foi o do pós-positivismo, tendo como principais mudanças de paradigma, no plano teórico, o reconhecimento de força normativa à Constituição, a expansão da jurisdição constitucional e a elaboração das diferentes categorias da nova interpretação constitucional.” O autor referido também registra que: “Fruto desse processo, a constitucionalização do Direito importa na irradiação dos valores abrigados nos princípios e regras da Constituição por todo o ordenamento jurídico, notadamente por via da jurisdição constitucional, em seus diferentes níveis”. Assim, a constitucionalização resulta na “aplicabilidade direta da Constituição a diversas situações, a inconstitucionalidade das normas incompatíveis com a Carta Constitucional e, sobretudo, a interpretação das normas infraconstitucionais conforme a Constituição, circunstância que irá conformar-lhes o sentido e o alcance”. [145] Com efeito, a constitucionalização do direito, enquanto processo – abstrato que é –, encontra sua expressão concreta no desenvolvimento da jurisdição constitucional, na aplicação de novas técnicas de interpretação propriamente constitucional e na efetivação de instrumentos jurídicos reafirmadores da força normativa da Constituição, dentre outros procedimentos constitucionalmente contemplados que poderiam ainda ser mencionados. Consigne-se que a descrição do fenômeno da constitucionalização do direito comporta pluralidade de vieses no âmbito dos diversos ramos jurídicos. Ad exemplum, para VIRGÍLIO AFONSO DA SILVA, a constitucionalização do direito é entendida como a “irradiação dos efeitos das normas (ou valores) constitucionais aos outros ramos do direito”, destacando que “(...). O principal aspecto dessa irradiação, (...), revela-se na vinculação das relações entre particulares a direitos fundamentais, também chamada de efeitos horizontais dos direitos fundamentais”.[146] Avançando nessa discussão, o fenômeno da constitucionalização do direito pode ser ainda compreendido como processo de absorção pelo texto da Constituição de temas absolutamente estranhos à estrutura essencial do Estado, ou seja, de matérias não propriamente constitucionais. Nessa perspectiva, BITTAR e BITTAR FILHO destacam, referindo-se ao Direito Civil Constitucional, que “Das diversas críticas recebidas e de setores da sociedade, uma insistentemente formulada foi a de sua extensão, com a diretriz de disciplina minuciosa e casuística dos assuntos; outra, a da intromissão em temas não integrantesda matéria propriamente constitucional”.[147] Com efeito, o fenômeno da constitucionalização do direito, enquanto expressão do constitucionalismo contemporâneo, desenvolve-se, precipuamente, no processo de efetivação do Estado Democrático de Direito, a partir do fortalecimento de uma Justiça Constitucional legitimada a emancipar a sociedade brasileira e a transformar a realidade na qual se insere. Nessa linha de raciocínio, LENIO STRECK faz as seguintes considerações: “A compreensão acerca do significado do constitucionalismo contemporâneo, entendido como o constitucionalismo do Estado Democrático de Direito, a toda evidência implica a necessária compreensão da relação existente entre Constituição e jurisdição constitucional. [...]. Isto significa afirmar que, enquanto a Constituição é o fundamento de validade (superior) do ordenamento e consubstanciadora da própria atividade político-estatal, a jurisdição constitucional passa a ser a condição de possibilidade do Estado Democrático de Direito. Portanto, o significado de Constituição depende do processo hermenêutico que desvendará o conteúdo do seu texto, a partir dos novos paradigmas exsurgentes da prática dos tribunais encarregados da justiça constitucional. Com isso, conceitos como soberania popular, separação de poderes e maiorias parlamentarias cedem lugar à legitimidade constitucional, instituidora de um constituir da sociedade. Do modelo de constituição formal, no interior da qual o Direito assumia um papel de ordenação, passa-se à revalorização do Direito, que passa a ter um papel de transformação da realidade da sociedade, superando, inclusive, o modelo de Estado Social”.[148] Como se depreende, o processo de constitucionalização do direito, deflagrado pelo Constitucionalismo contemporâneo, impõe que seja construída certa teoria da inconstitucionalidade por omissão e da aplicabilidade das normas constitucionais como condição de seu desenvolvimento e concretização. 3. CONSTITUCIONALIZAÇÃO DO DIREITO: A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA PÓS-CONSTITUIÇÃO DE 1988 (UMA DESCRIÇÃO HISTÓRICO-JORNALÍSTICA) E PERPETUAÇÃO DOS VÍCIOS DE ORIGEM Com a vitória dos ideais democráticos, a promulgação da Constituição brasileira de 1988[149] representa o marco jurídico de uma abertura política conquistada após mais de duas décadas de governo militar, e, no plano jurídico, lança as bases do processo de constitucionalização do direito brasileiro inspirado pelo neoconstitucionalismo. Não obstante a grande relevância desse processo político para a história do Brasil e à (re)construção das liberdades públicas até então suprimidas, no campo jurídico, o embrionário processo de constitucionalização do direito principiou seu desenvolvimento em alguns equívocos – talvez inevitáveis naquelas circunstâncias – cujas consequências irradiam-se hodiernamente no funcionamento das instituições públicas brasileiras, emperrando a efetivação do Estado Democrático de Direito. A Constituição de 1988, entusiasticamente batizada de “Constituição cidadã” pelo Dr. Ulysses Guimarães, revela-se mais como uma “Carta ou Grito de Liberdade” do que propriamente um instrumento jurídico apto a sustentar todas as transformações desejadas pela sociedade brasileira. Prova disto foi o descarte dos trabalhos realizados pela Comissão Afonso Arinos, responsável pela elaboração de um anteprojeto de Constituição a servir de base de discussão à Assembleia Nacional Constituinte.[150] Entendeu-se naquelas circunstâncias que se os debates em torno da nova Constituição fossem pautados por um anteprojeto, a liberdade e a soberania da Assembleia Constituinte estariam comprometidas ou prejudicadas. Fato é que, desprezados os estudos jurídicos daquela Comissão – não que o trabalho dessa Comissão de notáveis fosse perfeito e alheio a fraudes de toda ordem –, a Constituinte entregou-se ao seu mister desprovida de qualquer metodologia ou critério jurídico-científico idôneo a evitar o casuísmo, o improviso, o acaso. Melhor sorte não poderia restar ao novo texto constitucional. O resultado, por evidente, não poderia ser outro: a promulgação de uma Constituição utópica, pormenorizada, ortodoxa, visionária de um futuro próximo, mas absolutamente órfã do presente.[151] Atualmente, é certo, as expressões Estado de Polícia, ditadura militar, supressão de liberdades pública, dentre outras, não ocupam a pauta do dia, e quando aparecem no noticiário ou no meio acadêmico, não tem a mesma conotação do passado. Com efeito, nesses trinta anos da Constituição, – não obstante os avanços conquistados no campo das liberdades e dos direitos sociais –, remanesce um sentimento, ainda que velado, de frustração alicerçado na percepção de que a República Federativa do Brasil ainda não se constituiu em verdadeiro Estado Democrático de Direito, ou seja, que a Constituição de 1988 ainda não se fez respeitada e cumprida. Nesse intervalo de tempo, a nascente “colcha de retalhos” confeccionada nos idos de outubro de 1988 recebeu tantos outros remendos (tecnicamente, Emendas) que acabaram por fulminar qualquer sorte de sistematicidade que ela poderia conter, tornando- se campo fértil para plantação de interesses dominantes e dos governos, – de todos e quaisquer partidos –, sempre contingentes. Como não bastasse, normas da Constituição carecedoras de regulação pelo legislador ordinário e de tutela da administração pública permaneceram na penumbra do esquecimento doloso, em estado de latência que poucos efeitos jurídicos produz. Essa inércia reiterada, – não raras as vezes, total –, dos Poderes Legislativo e Executivo na tarefa de aplicar e concretizar a Constituição acaba incitando os debates acerca das omissões inconstitucionais e dos mecanismos jurídicos para combatê-las. Num cenário de protagonismo do poder reformador, a banalização das reformas constitucionais colocou em relevo o problema de sua legitimidade e de seus limites de atuação. Sem qualquer parcimônia, o constituinte reformador deflorou o texto constitucional não para extirpar suas mazelas, aparar suas arestas ou realizar adequações necessárias demandadas pela realidade cambiante; ao contrário, preservando a tradicional crença político- jurídica de que a Constituição, pelo seu status de superioridade na hierarquia das normas, é porto seguro, abrigo indelével contra as investidas da lei comum, fez da Constituição “mera folha de papel”, lançando em seu texto ainda mais conteúdos que mereceriam tratamento jurídico indiscutivelmente infraconstitucional. Concomitante e paradoxalmente, o legislador ordinário quedou-se inerte, incorrendo em omissões inconstitucionais porque não se desincumbiu de seu mister de produzir a legislação de regulação das normas constitucionais (originárias ou, mesmo, derivadas), como determinado pela Constituição. A título de exemplo, observa-se que o art. 37, inciso VII da Constituição de 1988 foi alterado pela Emenda n. 19/1998, para excluir a exigência da reserva de lei complementar na regulação do direito de greve dos servidores públicos. Mesmo com essa facilitação de processo legislativo, o legislador ordinário permanece em omissão total quanto à elaboração dessa lei de regência. O fenômeno do emendismo não favorece a estabilidade constitucional porque compromete a segurança jurídica e a estabilidade institucional. A instabilidade da Constituição pode ensejar a instabilidade do próprio Estado. No que diz respeito à compreensão da ocorrência da inconstitucionalidade por omissão, é certo que a “permanência das normas constitucionais é fator decisivo para a eficácia e para a efetividade da Carta Magna na medida em que possibilita a consolidação do chamando sentimento constitucional e, consequentemente, favorece o desenvolvimento da força normativa da Constituição”.[152] Nessa toada, é importante consignar que as omissões inconstitucionais estão relacionadas ao fenômeno da erosão da consciência constitucional e, por conseguinte, da perda de prestígio das constituições escritas. No STF, em decisão monocrática proferida pelo Min. CELSO DE MELLO, naADI 1.484/DF (julgamento em 21.08.2001), ao cuidar da questão das omissões inconstitucionais, restou consignado: “O desprestígio da Constituição – por inércia de órgãos meramente constituídos – representa um dos mais graves aspectos da patologia constitucional, pois reflete inaceitável desprezo, por parte das instituições governamentais, da autoridade suprema da Lei Fundamental do Estado. Essa constatação, feita por KARL LOEWENSTEIN (“Teoria de la Constitución”, p. 222, 1983, Ariel, Barcelona), coloca em pauta o fenômeno da erosão da consciência constitucional, motivado pela instauração, no âmbito do Estado, de um preocupante processo de desvalorização funcional da Constituição escrita.” Em arremate, pondera o Ministro que “a inércia estatal em adimplir as imposições constitucionais traduz inaceitável gesto de desprezo pela autoridade da Constituição e configura, por isso mesmo, comportamento que deve ser evitado. É que nada se revela mais nocivo, perigoso e ilegítimo do que elaborar uma Constituição, sem a vontade de fazê-la cumprir ilegalmente, ou, então, de apenas executá-la com o propósito subalterno de torná-la aplicável somente nos pontos que se mostrarem ajustados à conveniência e aos desígnios dos governantes, em detrimento dos interesses maiores dos cidadãos.” Dentre os muitos efeitos gerados por essa hiperatividade do Poder Reformador, merece destaque o envelhecimento precoce do texto constitucional pela manutenção do casuísmo e inclusão frequente de políticas públicas (imposição de tarefas). Ocorre que não se pode atribuir essa consequência, com exclusividade, ao excesso de manifestações da competência reformadora, ou seja, não se trata de uma questão proeminentemente quantitativa, mas relacionada, sobretudo, à qualidade e aos objetivos do processo reformador. Curiosamente, depreende-se nesses trinta anos de Constituição de 1988 a concomitância do fenômeno do emendismo constitucional e das omissões inconstitucionais. Em apertada síntese do quanto apresentado: a Constituição é emendada sem parcimônia mas não é regulada e aplicada em toda a sua extensão, restando carente de efetividade. Como acenado em momento anterior, a Constituição brasileira de 1988 não se restringiu à fixação de princípios e regras gerais sobre direitos e garantias fundamentais e organização do Estado. Elaborada por uma Assembleia Nacional Constituinte inspirada no ideário democrático e determinada a eliminar todo e qualquer espaço de repressão remanescente do passado, acabou incorrendo no equívoco de regrar no seu texto conteúdos absolutamente estranhos à seara constitucional e sem compromisso com a realidade do presente. Por essa razão, a Constituição cidadã, idealizada pelos constituintes expressou-se em um texto utópico, complexo e analítico, fato que poderia lhe render a denominação de Constituição do pormenor, dado o nível de detalhamento, de particularismos e de minúcias a que desceu e entregou sua disciplina. No balanço dos vinte anos da Constituição de 1988 já se ponderava sobre a questão do casuísmo: “Com 245 artigos e 1.627 dispositivos, a Constituição brasileira é uma das maiores do mundo. E continua crescendo. Desde 1988, as 62 emendas feitas já a tornaram 25% maior (...). Isso não é um defeito em si. O problema é a quantidade de temas tratados na Constituição. Ela é muito extensa porque regula atividades demais, especialmente na área econômica. Chega a ponto de determinar políticas públicas que poderiam ser deixadas para cada governo decidir. ‘A Constituição cobre tantos assuntos que inúmeras matérias podem virar questão judicial’, afirma o constitucionalista Barroso. Na maioria dos países, as Constituições tratam dos princípios básicos, enquanto as políticas públicas ficam a critério de cada governo. Eles apresentam seus planos e os eleitores escolhem segundo o que acreditam. (Revista Época debate: uma análise das questões mais relevantes para o futuro do Brasil. 20 anos da Constituição cidadã: o real significado do documento histórico promulgado em 1988 – e o que o Brasil precisa fazer para aprimorá-lo, n. 539, 15 de setembro de 2008, pp. 74-76)”. Poder-se-ia imaginar que a postura generosa de tudo prever do constituinte originário, justificada pelas circunstâncias históricas, fosse paulatinamente superada por uma conduta cônscia e “isenta de paixões” dos responsáveis pela competência reformadora. Esperava-se que as virtudes da lucidez e do equilíbrio, próprias de tempos de menor turbulência institucional, pudessem nortear as 105 (cento e cinco) emendas constitucionais (99(noventa e nove) emendas de reforma e 06(seis) emendas de revisão) que se sucederam nos seus trinta primeiros anos de existência, retirando a Constituição de 1988 do plano da utopia e colocando-a no terreno do possível, do realizável. Parece que os vícios de origem, ainda presentes na Constituição de 1988 após 20, 30 anos de sua vigência, permanecem os mesmos. Com efeito, desde a sua promulgação, a Constituição de 1988 tem sido alvo de severas críticas em razão de sua prolixidade, sobretudo, pelo fato de insistirem na fixação de políticas públicas. Não faltaram vozes, como a do ex-presidente José Sarney, a sustentar que ela tornaria o país “ingovernável”, haja vista que os governos não conseguiriam cumprir todas as obrigações sociais assumidas por absoluta insuficiência de recursos públicos. Seria um prenúncio? Nesse sentido: “De acordo com um estudo feito pelos cientistas políticos Arantes e Couto, a Constituição de 1988 é a que possui o maior número de dispositivos que determinam políticas públicas em toda a História: 496. ‘Ela desce ao detalhe de dizer não só o que o governo tem de fazer, mas como tem de fazer’, afirma Arantes. O texto constitucional especifica até mesmo o tamanho da parcela fixa do orçamento que o governo tem de gastar em educação e saúde. Obrigar governos a gastar com o que é mais importante parece uma boa intenção. Mas isso na prática engessa a gestão pública e torna difícil para qualquer governo definir prioridades de acordo com sua linha de trabalho. É por isso que, desde 1988, não há governo que não tenha deparado com a necessidade de fazer emendas à Constituição para conseguir governar. Apesar de todas as novidades introduzidas na Constituição de 1988, a cidadania que virou carimbo do texto ainda é um ideal distante no Brasil. O acesso universal à educação foi conquistado, mas o ensino público gratuito e de boa qualidade – que traz a verdadeira cidadania, ao proporcionar a verdadeira independência intelectual do cidadão – ainda é uma utopia. (Revista Época. Idem, p. 76)”. Como cediço, as constituições analíticas[153] são aquelas detalhistas, redundantes, minuciosas, casuísticas, extremamente inchadas, prolixas e, não raramente, utópicas. Apresentam essas características, porque descem a minúcias e positivam sonhos, desdobrando-se “numa infinidade de normas no afã de constitucionalizar todo o conjunto da vida social”.[154] De acordo com ANDRÉ RAMOS TAVARES, “As razões apontadas para o surgimento da Constituição analítica são: a indiferença, que se tem transformado em desconfiança, quanto ao legislador ordinário; a estatura de certos direitos subjetivos, que estão a merecer proteção juridicamente diferenciada; a imposição de certos deveres, especialmente aos governantes, evitando-se o desvio de poder e a arbitrariedade; a necessidade de que certos institutos sejam perenes, garantindo, assim, um sentimento de segurança jurídica decorrente da rigidez constitucional”. [155] Tendo em vista que as constituições analíticas apresentam a tendência de imporem “certos deveres aos governantes”, faz-se mister ingressar, an passant, no tema do dirigismo constitucional. Com efeito, as constituições que fazem referência a diretrizes de atuação governamental e que adotam um “plano” de comando da evolução do Estado, podem ser denominadas de constituição dirigente. No que respeita à função de diretriz jurídica desempenhada pela Constituição, a problemática, segundo ponderações de CANOTILHO, está emse definirem os limites de uma constituição dirigente[156], ou seja, o que deve (e pode) uma constituição ordenar aos órgãos legiferantes e o que deve (como e quando deve) fazer o legislador para cumprir, de forma regular, adequada e oportuna, as imposições constitucionais, desenvolvendo e realizando os planos definidos pelo legislador constituinte originário, em inter-relação com a realidade social. Sem, contudo, desconsiderar a grande relevância desses questionamentos formulados por CANOTILHO, cumpre aqui somente consignar, por razões óbvias, que o agigantamento da Constituição – em virtude, v. g., do excessivo utopismo e casuísmo incorporado ao seu texto, inclusive com a previsão de objetivos e programas de atuação governamental – torna-se argumento de defesa das “crises de governabilidade”[157] e justificativa às omissões inconstitucionais. Com efeito, importante consignar que a (pseudo)discussão acerca da (in)governabilidade[158] contribuiu substancialmente à cultura de que a Constituição de 1988 sempre necessitaria de reformas para se adequar ao projeto político de um “novo grupo” que ascendesse ao poder. Nesse sentido, sobre o ângulo da não governabilidade, o Texto Constitucional precisaria de reformas, não de regulação pelo legislador ordinário e aplicação, sobretudo, pela administração pública; daí, serem comuns os casos de inconstitucionalidade por omissão dos poderes públicos. Portanto, a concepção de Constituição Dirigente que inspirara o constituinte originário paulatinamente foi cedendo espaço à de Constituição Dirigida, a partir da prática da manipulação constitucional que, segundo NESTOR PEDRO SAGÜÉS, expressa-se pela conjunção de três fatores: “La manipulación de la Constitución, en su versión no altruista, significa la conjunción de tres factores esenciales: 1) El ‘uso’ o utilización de la Constitución, lo que implica reducirla a la condición de objeto o herraminenta manejada por el manipulador. Este, en vez de servir a la Constitución, se sirve de ella. 2) con ardid, vale decir, merced una maniobra, artificio o engaño, treta generadora de una ‘interpretación manipulativa’ de la Ley Suprema, que procura hacer pasar gato por liebre constitucional.(...) 3) En provecho de un interes particular o inferior. La manipulación constitucional nunca es gratuita o inocente, sino que va a beneficiar a algo o a alguien. Siempre habrá um ganancioso y um perdedor com la maniobra manipulativa.”[159] E é claro que a manipulação constitucional não tem nenhum compromisso com a aplicabilidade da Constituição em toda sua extensão. Dar cumprimento ao postulado da máxima efetividade dos direitos fundamentais não é ação estatal prioritária que integra a pauta dos Poderes Legislativo e Executivo. A prática das omissões inconstitucionais é, portanto, deliberada. A Constituição de 1988 tornou-se apenas um documento de previsão de políticas governamentais aleatórias. Nesse sentido, a questão da inconstitucionalidade por omissão é sobreposta pela do contingenciamento de gastos públicos. Para melhor compreensão do quanto se expôs, basta analisar o objetivo de algumas recentes Emendas à Constituição (EC): EC n. 99, de 14.12.2017, altera o art. 101 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir novo regime especial de pagamento de precatórios, e os arts. 102, 103 e 105 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias; EC n. 95, de 15.12.2016, altera o http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc99.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc95.htm Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir o Novo Regime Fiscal, e dá outras providências; EC n. 94, de 15.12.2016, altera o art. 100 da Constituição Federal, para dispor sobre o regime de pagamento de débitos públicos decorrentes de condenações judiciais; e acrescenta dispositivos ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir regime especial de pagamento para os casos em mora; EC n. 93, de 8.9.2016, altera o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias para prorrogar a desvinculação de receitas da União e estabelecer a desvinculação de receitas dos Estados, Distrito Federal e Municípios. Com efeito, nos tempos atuais em que as teorias dos direitos fundamentais se fortalecem “a todo vapor” – e esse processo é muito relevante, frise-se –, não é politicamente correto asseverar que a Constituição de 1988 permanece utópica[160] e não realizável em plenitude. De fato, “uma atitude irrealista acompanha o racionalismo”. Para juristas racionalistas, “O traço mais distintivo dessa mentalidade é a crença no poder das fórmulas escritas. Para esses sonhadores, pôr em letra de forma uma idéia, é, de si mesmo, realizá-la. Escrever no papel uma Constituição é fazê-la, para logo, cousa viva e atuante: as palavras têm o poder mágico de dar realidade e corpo às idéias por ela representadas”. [161] Com efeito, não há olvidar que a construção de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão deve levar também em consideração essa perspectiva. É certo que, como afirma KONRAD HESSE: A Constituição não configura, portanto, apenas expressão de um ser, mas também de um deve ser; ela significa mais do que o simples reflexo das condições fáticas de sua vigência, particularmente as forças sociais e políticas. Graças a pretensão de eficácia, a Constituição procura imprimir ordem e conformação à realidade política e social. Determinada pela realidade social e, ao mesmo tempo, determinante em relação a ela, não se pode definir como fundamental nem a pura normatividade, nem a simples eficácia das condições sócio- políticas e econômicas. A força condicionante da realidade e a normatividade da http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc94.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc93.htm Constituição podem ser diferençadas; elas não podem, todavia, ser definitivamente separadas ou confundidas.[162] Aqui não se questiona que a Constituição real e Constituição jurídica estão numa relação de coordenação. O que se coloca em relevo, como advertiu WILHELM HUMBOLDT, é que “As Constituições não podem ser impostas ao homem tal como se enxertam rebentos em árvores. Se o tempo e a natureza não atuaram previamente, é como se se pretendesse coser pétalas com linhas. O primeiro sol do meio-dia haveria de chamuscá-las.” Em monografia sobre a Constituição Alemã, de dezembro de 1813, HUMBOLDT também assevera: “Toda Constituição, ainda que considerada como simples construção teórica, deve encontrar um germe material de sua força vital no tempo, nas circunstâncias, no caráter nacional, necessitando apenas de desenvolvimento.”[163] Força convir que os fenômenos do emendismo e da erosão da consciência constitucional contribuem significativamente à ocorrência das omissões inconstitucionais. Pondera ainda HESSE: “Embora a Constituição não possa, por si só, realizar nada, ela pode impor tarefas. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas, se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida, se, a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência, se puder identificar a vontade de concretizar essa ordem. Concluindo, pode-se afirmar que a Constituição converter-se-á em força ativa se fizerem-se presentes, na consciência geral – particularmente, na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional –, não só a vontade de poder (Wille zur Macht), mas também a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung)”.[164] A Constituição de 1988 (utópica e casuística “colcha de retalhos”) não encontra correspondência no tempo histórico, nas circunstâncias e no caráter nacional. Não há vontade de Constituição na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional, mas apenas vontade de poder. Não há como negar o fato que a Carta da República está em descompasso da realidade do País (dode que, no Brasil, o tratamento de portadores de HIV pelo sistema público de saúde, que hoje é fornecido habitualmente e se tornou referência mundial, tenha tido início em uma decisão judicial[17]. A Constituição de 1988 apresenta uma carga de direitos e prerrogativas ao cidadão que para muitos países, com uma democracia mais desenvolvida, pode ser considerada excessiva. Entretanto, não se pode olvidar que a Constituição de 1988 institui uma ruptura com um autoritário regime ditatorial[18] em que não havia efetiva e plena independência dos poderes e, ademais, o Poder Executivo tornara-se hipertrófico sobrepondo- se ao Legislativo e ao Judiciário[19]. O anterior Ato Institucional (AI) 2 de 1968 já excluíra da apreciação judicial os chamados atos do “Comando Supremo da Revolução”, ou seja, os atos de Governo, além de suspender todas as garantias de vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade, tanto dos magistrados, como dos demais agentes públicos que as detivessem anteriormente. O AI-5, de dezembro de 1968, fechou o Congresso e transferiu os poderes ao Poder Executivo, que governou sem Legislativo até outubro de 1969 (AI-16). A própria Constituição em vigor à época foi quase inteiramente emendada por ato do comando militar (sem participação de qualquer Assembleia Constituinte nem mesmo do Congresso Nacional), com a Emenda n. 1/1969, que centralizou, oficialmente, ainda mais, os poderes no Executivo. Assim, quando se avalia a atuação do Poder Judiciário para implementação de direitos constitucionais no Brasil, mas especialmente os direitos sociais, ingressa também o papel judicial na reconstrução da cidadania, recolocando o cidadão em uma posição central, sob a tutela judicial, depois dos anos de autoritarismo e hipertrofia do Poder Executivo, período nefasto no qual a cidadania e os direitos haviam sido severamente desconstruídos. Sob o mando da Constituição de 1988, contudo, os direitos ganharam destaque normativo, mas a realidade ainda permanece distante das pretensões constitucionais. Em parte, a agonia dos direitos sob uma Constituição democrática deu-se por força de constantes crises econômicas, somadas à incapacidade e desinteresse políticos em estabelecer planejamento governamental em longo prazo, cooptados pelo populismo imediatista e, em parte, esse estado de coisas também se deve, certamente, à corrupção sistêmica e estrutural nos Poderes eleitos. São esses os cenários que se deve ter em mente ao tratar do papel do Poder Judiciário contra as omissões dos Poderes detentores de mandatos. 1.1. Entre omissão não-normativa e omissão legislativa Configura-se omissão legislativa não apenas quando o órgão legislativo não cumpre seu dever, mas também quando não o cumpre completamente. A norma incompleta é omissa, e tal omissão, se a completude era exigência para o perfeito cumprimento de disposição constitucional estadual, é inconstitucional. Uma primeira observação diz respeito à omissão. Ao contrário do que estabelece a Constituição de Portugal, fonte de inspiração para a criação deste instituto em 1988, e que restringe o cabimento dessa específica ação expressamente às omissões legislativas, a omissão, para fins de ação direta no Brasil, pode ser normativa ou não-normativa. A omissão normativa pode ser decorrente da falta de ato do Parlamento (lei) ou de ato do Executivo (decreto). Exatamente por isso adverte Clèmerson Merlin Clève que “a omissão de ato normativo corresponde a um horizonte conceitual muito mais amplo do que a omissão de ato legislativo”.[20] Se omissão legislativa, no Brasil, é mais que omissão de ato do legislador, mesmo assim há casos de omissão normativa fora do alcance da ação direta de omissão. Isso porque a omissão que pode ser combatida pela ação abstrata deve decorrer diretamente da Constituição. Adicione-se, porém, casos de omissão não normativa. Esta pode ser decorrente da falta de ato administrativo ou, ainda, da falta de ato de execução material (ato da Administração Pública). Geralmente a omissão não normativa é um problema de ilegalidade, mas nas raras hipóteses em que a medida inexistente está requerida diretamente pela Constituição, essa omissão não-normativa será uma questão de inconstitucionalidade (e, assim, permite o uso da ação abstrata de controle da omissão). A jurisprudência brasileira não admite ação de inconstitucionalidade por omissão que não seja uma inconstitucionalidade direta, porque considera que aceitar inconstitucionalidade indireta significa transformar a ação direta de inconstitucionalidade por omissão em ação direta de ilegalidade por omissão (e, apenas indiretamente, uma ação de inconstitucionalidade)[21]. No Brasil ainda carecemos de um instrumento de controle concentrado para combater atos ilegais que atingem um grande número de pessoas e provocam uma enxurrada de ações no sistema judicial[22]. Assim, se a norma constitucional houver sido disciplinada por lei, mas ainda depender de nova norma, agora do Poder Executivo, para alcançar a plenitude dos efeitos, o caso é considerado como de omissão ilegal. Nesse tipo de omissão, apesar da omissão e da ilegalidade concomitantes, não se admite a ação direta de inconstitucionalidade. Evidentemente que a omissão do Poder Executivo impede que a norma constitucional alcance a plenitude de seus efeitos. Mas a omissão desse Poder, nessas hipóteses, é, em primeiro lugar, contrária à própria Lei, ou seja, o Poder Legislativo já legislou e, por ser ele o primeiro grau de cumprimento da Constituição, esta foi atendida. É isso que impede o uso da ação de controle abstrato de omissão. A lei atuou dentro de seus limites e a atuação do Poder Executivo deve ser exigida na sequência, mas não por meio da ação especialíssima de controle da omissão que aqui analiso. Apenas quando a omissão normativa seja diretamente reportada à Constituição (caso dos decretos autônomos, por exemplo) é que se pode utilizar o instrumento especial aqui mencionado. Idêntico é o encaminhamento nas hipóteses de omissão não normativa da Administração Pública, ou seja, quando há lei disciplinando a norma constitucional e esta lei ainda depende de atos administrativos e de execução posteriores, a serem adotados pela Administração Pública. A falta destes atos configura, igualmente, uma omissão ilegal por parte da Administração Pública. Nada impede, contudo, que se cogite, de constitutione ferenda, de uma ação direta de ilegalidade por omissão, pois o retardar ou impedir a produção de efeitos plenos da lei, quando se deixa de regulamentá-la é, indubitavelmente, um problema de ilegalidade por omissão que também prejudica a vontade constitucional. Ainda no plano das propostas, seria igualmente possível criar uma única ação, mais ampla e contemplativa de todas estas hipóteses, como seria o caso de uma ação direta de invalidade por omissão[23], e não apenas uma ação direta de inconstitucionalidade. Não se admite no Brasil o cabimento da ação direta quanto à omissão de atos não normativos do Poder Executivo e da Administração Pública, a partir da decisão do STF na ADI 19[24]. É nesse sentido o magistério de Zeno Veloso, ao defender a tese restritiva nos seguintes termos: não é qualquer falta de providência de órgãos públicos que pode legitimar a intervenção do Judiciário, em sede de ação de inconstitucionalidade por omissão, mas somente a ausência de medidas de cunho normativo, ou seja, de atos administrativos normativos, que são os que contêm regras gerais e abstratas, não sendo leis, em sentido formal, mas apresentando-se como lei, no aspecto material. A ação governamental, no sentido de realizações, tarefas, obras, programas administrativos, está fora do âmbito da inconstitucionalidade por omissão. [25] Meu posicionamento é contrário a esse entendimento restritivo, pois a Constituição do Brasil faz expressa referência a “omissão de medida”, sem qualquer restrição de qual medida (não se fala, por exemplo, em “omissão de medida normativa”), o que leva à possibilidade de situar a ação por omissão para situaçõesnível de desenvolvimento social- político-cultural-econômico da sociedade e do Estado a que se destina). Basta recordar que o recurso retórico aos postulados do mínimo existencial e da reserva do possível é recorrente em decisões do Pretório Excelso, porque presta-se à mitigação velada da efetividade dos direitos fundamentais e à suavização do exame de consciência do intérprete (o que devo fazer quando não sei o que fazer?). Exemplo emblemático para retratar esse estado de coisas é o do salário mínimo, idealizado na Constituição de 1988, art. 7º, inciso IV. Passados trinta anos de vigência do Texto Maior, esse dispositivo, – que deveria simbolizar a esperança num futuro melhor –, tornou-se prova da descrença do trabalhador na Lei Máxima do País. Não há salário mínimo que atenda às necessidades vitais básicas do trabalhador e às de sua família. O acesso ao sistema único de saúde está condicionado à distribuição de senhas e à espera em filas de atendimento infindáveis. O percentual de analfabetos funcionais no Brasil sinaliza o descaso com a educação e com programas de formação intelectual dos jovens. O pânico de perder a vida por bala perdida no logradouro público é o retrato do caos na segurança pública. Nesse cenário de abandono, o indivíduo não tem condições de construir um projeto existencial com dignidade; a família está desestruturada; a sociedade enferma; o Estado é omisso. Vozes em sentido contrário, todavia, poderiam argumentar que a questão central do fenômeno da inconstitucionalidade por omissão não são as vicissitudes, – sobretudo, o utopismo –, do Texto Maior, mas a falta de vontade e compromisso ético-jurídico dos responsáveis pelo seu cumprimento, diga-se, quase indiferença dos exercentes das funções legislativa e executiva em tornar realidade os mandamentos constitucionais. Desvios de recursos públicos levados a efeito pela prática reiterada da corrupção, bem como gestão pública ineficiente também poderiam ser apresentados como justificativas ao funcionamento insatisfatório do aparelho estatal. Bem, não há como se negar que esses argumentos também procedem e que interferem substancialmente na compreensão do fenômeno da inconstitucionalidade por omissão. Ocorre, no entanto, que o papel do constitucionalista é, considerando o estado da arte, pensar no aprimoramento das instituições e dos institutos jurídicos de preservação da força normativa e efetividade da Constituição, numa ambiência de indivíduos probos e honestos, razão pela qual o presente estudo não se deteve aos aspectos das mazelas morais dos mandatários do poder. Como preleciona ANDRÉ RAMOS TAVARES, o papel do constitucionalista é lutar contra tudo e contra todos que retardam o processo de constitucionalização do direito no Brasil, de modo que a construção de uma teoria da inconstitucionalidade da omissão, nesse contexto, faz-se ainda mais relevante e urgente. Parafraseando SAGÜÉS, não se pode admitir que a Constituição reduza-se a objeto ou ferramenta de manejo de manipuladores e oportunistas para a satisfação de seus próprios interesses. Todos, indistintamente, devem servir a Constituição e não, inescrupulosamente, servirem-se dela. É certo que a legítima e mais eficiente sanção pelo descumprimento da Constituição deve ser aplicada aos maus exercentes das funções legislativa e executiva pelo eleitor por meio do voto em eleições democráticas. Mas não é só. No sistema de separação tripartida de poderes, cabe ao Poder Judiciário o controle da constitucionalidade em situações de omissão. 4. CONTROLE JUDICIAL DA CONSTITUCIONALIDADE EM SITUAÇÕES DE OMISSÃO DOS PODERES PÚBLICOS CONSTITUÍDOS Como cediço, a inércia do Estado qualifica-se, perigosamente, como um dos processos informais de mudança da Constituição. Segundo KARL LOEWENSTEIN[165], a Constituição pode ser considerada normativa quando seus comandos se impõem, têm imperatividade, ou seja, quando os Poderes constituídos desempenham aquelas funções que lhe foram conferidas pelo Constituinte Originário nos exatos limites normativo-constitucionais. A Constituição normativa, em suma, é aquela que agrega em seu bojo elementos indispensáveis à estrutura e à dinâmica de determinado organismo estatal, de modo que a plena correspondência entre o dever-ser e o ser faz com que ela se apresente como uma “roupa feita sob medida para determinada sociedade”. Perante uma Constituição com essa envergadura não há falar em déficit de efetividade, – pelo descumprimento reiterado dos comandos constitucionais-, determinado por conveniências políticas eventuais (ou permanentes). Certo é que a Constituição normativa conduz o penhor de eficazmente reproduzir todos os interesses emergentes da sociedade complexa e organizada a que se destina. Isso não se verifica, no entanto, em ordenamento jurídico de Constituição nominal ou semântica (ou literal). Em apertada síntese, a Constituição nominal possui validade jurídica, mas é desprovida de efetividade existencial. Em geral, é fruto de processo de transição política de período autoritário para regime democrático. No calor dos ideários da democracia e no afã de tudo prever, a Constituição nominal acaba se configurando como “roupa de adulto para vestir criança”, ou seja, apresenta-se pródiga na previsão de direitos fundamentais e muito avançada em relação ao nível de desenvolvimento da sociedade a que se destina. Quanto à Constituição brasileira de 1988, – que é analítica, utópica, nominal –, vislumbra-se a presença, em abundância, de normas constitucionais de eficácia limitada-diferida de princípio programático[166]. Tais normas demandam atuação dos Poderes Públicos no sentido de produção de dispositivos infraconstitucionais de regulação e, consequentemente, execução administrativa. Anote-se que a Constituição impõe, – não se trata de mera solicitação – que se adotem providências positivas imprescindíveis a lhe conferir eficácia jurídica integral. Ocorre que no caso brasileiro, não é raro verificar a inércia dos Poderes constituídos frente às determinações de índole constitucional. A inconstitucionalidade por omissão leva à denominada síndrome da inefetividade das normas constitucionais de eficácia diferida ou limitada. Ora, partindo-se da premissa de que o Estado Democrático de Direito se compraz com uma ordem jurídica justa, qual seja, aquela sedimentada no postulado da máxima efetividade dos direitos fundamentais hospedados no Texto Constitucional e no fortalecimento do sistema democrático, pode-se concluir, em linhas gerais, que o vício de inconstitucionalidade por omissão defenestra toda e qualquer sorte de se atingir esses objetivos. Ocorre, contudo, que a compreensão do fenômeno da inconstitucionalidade por omissão requer algumas considerações acerca do tema da eficácia e aplicabilidade das normas constitucionais. Em obra de referência, JOSÉ AFONSO DA SILVA sustenta que, – quanto à eficácia e aplicabilidade –, as normas constitucionais classificam- se em: normas de eficácia plena e aplicabilidade direta, imediata e integral; normas de eficácia contida e aplicabilidade direta e imediata, mas possivelmente não integral; normas de eficácia limitada declaratórias de princípios institutivos ou organizativos e declaratórias de princípio programático[167]. Anote-se, por oportuno, que não se pretende aqui desenvolver estudo minucioso acerca da eficácia das normas constitucionais[168] mas tão-somente fazer algumas considerações em traços largos sobre essa temática e sua relação com a inconstitucionalidade por omissão. Adverte CANOTILHO que “A constituição é uma lei como as outras, mas é, também já o dissemos, uma lei-quadro. Isto explica a assinalável liberdade de conformação dos órgãos políticos-legislativos encarregados da concretização das normas constitucionais. Saber em que media as normas constitucionais se aplicam diretamente ou carecem de uma interpositio regulativa isso dependerá, em larga medida, da estrutura e natureza das normas constitucionais em causa.”[169] Como se depreende, existe um repertório diferenciado de normasconstitucionais que evidencia problemas diversos “em sede de aplicação consoante o tipo de norma a concretizar.” A inconstitucionalidade por omissão “verifica-se nos casos em que não sejam praticados atos legislativos ou executivos requeridos para tornar plenamente aplicáveis normas constitucionais que postulam lei ou providência administrativa ulterior para que os direitos ou situações nelas previstos se efetivem na prática.” [170] Importante registrar que o artigo 5º, § 1º da Constituição brasileira de 1988 estabelece que a “As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata.” Esse dispositivo, como cediço, tem como fonte inspiradora o art. 18º, n. 1 da Constituição Portuguesa. Quanto a ele, JORGE MIRANDA esclarece que: “Importa ainda distinguir consoante as normas constitucionais sejam ou não exequíveis por si mesmas (o que corresponde a dois modos ou a dois graus, um mais intenso do que o outro, de consagração dos direitos e de vinculação legislativa). Se a norma constitucional for exequível por si mesma, o sentido específico do art. 18º, n. 1, consistirá na possibilidade imediata de invocação dos direitos por força da Constituição, ainda que haja falta ou insuficiência da lei. A regulamentação legislativa, se se der, nada acrescentará de essencial: apenas pode ser útil (ou, porventura, necessária), pela certeza e segurança que criar quanto às condições de exercício dos direitos ou quanto à delimitação frente a outros direitos.”[171] A questão da aplicabilidade imediata ganha complexidade quando tangencia a efetividade dos direitos sociais insculpidos (na estrutura) em normas constitucionais não exequíveis por si mesmas, próprias de Constituição Dirigente e aberta. Na tentativa de construção de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão, vale registrar o pensamento de ROTHENBURG: “Na tese aqui sustentada, de que o controle judicial em tese da constitucionalidade em situações de omissão não se prende exclusivamente à omissão normativa, seria viável a destituição do sujeito omisso, com a designação de outro, a fim de se implementar a vontade constitucional.”[172] Como se depreende, a apresentação das principais teorias e debates acerca da eficácia e aplicabilidade das normas constitucionais demandaria estudo amplo não compatível com a extensão e propósito desse estudo. Assim, passa-se diretamente ao assunto das omissões controláveis. Quanto à ação direta de inconstitucionalidade por omissão, esclarece DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR que “Em face da Constituição Federal de 1988, todo ato omissivo do poder público que inviabilize a efetividade de uma norma constitucional está sujeito ao controle abstrato de constitucionalidade.”[173] Esse entendimento busca suporte no que prescreve o art. 103, § 2º da CF/88 quando fala em “omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional”[174]. É que “Ao contrário do que estabelece a Constituição de Portugal, fonte de inspiração para a criação deste instituto em 1988, e que restringe o cabimento da ação expressamente às omissões legislativas, a omissão, para fins de ação direta no Brasil, pode ser normativa ou não normativa. A normativa pode ser decorrente da falta de ato do Parlamento (lei) ou de ato do Executivo (decreto).”[175] No entanto, segundo a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal somente as omissões de medida normativa podem ser objeto de ação direta de inconstitucionalidade por omissão.[176] Assim, constata-se que no Brasil parece haver certo consenso no sentido que a inconstitucionalidade por omissão pode derivar de inércia de qualquer dos três poderes. Como acentua ERIC BARACHO DORE FERNANDES “as referências mais frequentes serão feitas às omissões de natureza legislativa e administrativa, eis que há dificuldade de se vislumbrar omissões de natureza jurisdicional, especialmente diante da ausência de precedentes específicos na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.”[177] Também é certo que somente se pode falar em inconstitucionalidade por omissão nos casos em que a violação omissiva é diretamente reportável à Constituição, sem ato ou omissão interposta de responsabilidade de outro “Poder”. É preciso, então, saber distinguir a inconstitucionalidade da ilegalidade por omissão para fins de utilização dos instrumentos próprios de controle de constitucionalidade. Por fim, a questão que se coloca é saber se a inconstitucionalidade por omissão decorre de um dever constitucional de agir, explícito e/ou implícito. É imperioso registrar que não é toda omissão dos Poderes Públicos que recebe a pecha da inconstitucionalidade. Como adverte DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR: Não haverá omissão inconstitucional, v. g., se a medida omitida não for indispensável à exequibilidade da norma constitucional. Por outro lado, o conceito de omissão não é um conceito naturalístico, reconduzível a um simples “não fazer”. Omissão inconstitucional somente é aquela que consiste numa abstenção indevida, ou seja, em não fazer aquilo que se estava constitucionalmente obrigado a fazer, por imposição de norma “certa e determinada”. De observar-se que a inconstitucionalidade por omissão não se afere em face do sistema constitucional em bloco, mas sim em face de uma certa e determinada norma constitucional, cuja exequibilidade frustra o cumprimento da constituição.[178] Como se depreende, parece que o dever constitucional de agir, nessa perspectiva, deve estar expresso no parâmetro de controle da inconstitucionalidade por omissão, ou seja, a Constituição, em caso de omissão legislativa, impõe a regulação do direito aos termos da lei ordinária ou lei complementar. Mas não é só. Acrescenta DIRLEY que “não basta o simples dever de legislar ou atuar, sendo necessária a existência de uma imposição constitucional ou ordem de legislar, seja ela, porém, abstrata ou concreta, mas forçosamente, reitere-se, definida em norma certa e determinada.”[179] Nota-se, portanto, que parte da doutrina que se debruça sobre o estudo das omissões inconstitucionais não adere à tese que a inconstitucionalidade por omissão pode decorrer de comandos explícitos do Texto Maior e de “decisões fundamentais da Constituição identificadas no processo de interpretação.” Discordando de DIRLEY e MIRANDA, ERIC BARACHO argumenta que “afirmar peremptoriamente que o dever constitucional de legislar deve ser expresso implicaria em uma supervalorização do elemento literal da interpretação de determinado dispositivo constitucional, em detrimento de critérios sistemáticos e teleológicos relevantes para que se preserve a unidade da Constituição.” É bem verdade que a interpretação literal não pode esgotar o processo de interpretação constitucional, devendo o intérprete guiar-se sempre pelos postulados da Hermenêutica constitucional, como, v. g., a unidade da Constituição e máxima efetividade dos direitos fundamentais. O que não se pode esquecer, no entanto, é que o produto da interpretação deve ser útil ao sistema jurídico e possível de concretização no plano da realidade, ou seja, não se deve perder a dimensão que a Constituição brasileira de 1988, a ser interpretada, é Dirigente e aberta, quiçá utópica, conforme se afirmou linhas atrás. Como ressalta ANDRÉ RAMOS TAVARES, referindo-se à carência dos direitos fundamentais na história nacional: “Entretanto, muito além do atendimento desses direitos básicos, o Brasil tem uma circunstância excepcional de déficit do próprio Estado de Direito, que ainda carece de aprimoramento após a saída da ditadura militar, preocupação central da Constituição de 1988”.[180] O posicionamento aqui defendido é que a construção de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão no Brasil não pode padecer do equívoco da utopia que inspirou o processo de elaboração do Texto Maior, sob pena de mitigação de sua força normativa e perpetuação do descrédito que o acomete. Assim, levando em conta esse contexto e o momento atual do País, seria prudente sustentar que haverá omissão inconstitucional quando houver um correspondente dever constitucionalde ação, até mesmo como paradigma facilitador do exercício da jurisdição constitucional. Nesse particular, concorda-se com DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR: “Em suma, são pressupostos da inconstitucionalidade por omissão: a) que a violação da Constituição decorra do não cumprimento de “certa e determinada” norma constitucional; b) que se trate de norma constitucional não exequível por si mesma (normas constitucionais de eficácia limitada), e c) que, na circunstância concreta da prática legislativa, faltem as medidas necessárias para tornar exequível aquela norma constitucional.” Com efeito, qualquer medida judicial adotada fora desses parâmetros para efetivação da Constituição não pode ser fundamentada no argumento da inconstitucionalidade por omissão. Por fim, não se pode olvidar do elemento temporal, ou seja, que os destinatários do dever constitucional de ação devem atuar em tempo útil, mesmo porque, – como advertiu, certa feita, ministra do Supremo Tribunal Federal –, “o futuro há de ter data”. E qual seria esse prazo? A verificação do decurso do “tempo razoável” para a edição da medida reguladora ou de execução da medida faltante somente é verificável em cada caso concreto. 5. CONCLUSÕES Nos 30 anos de vigência da Constituição brasileira de 05 de outubro de 1988, a construção e desenvolvimento de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão ainda desafia os estudiosos do direito constitucional nacional e coloca em estado de permanente tensão o exercício, – que não raro tangencia ou ultrapassa os limites do ativismo judicial –, da jurisdição constitucional voltada à plena concretização do Texto Maior. Foi a onda do neoconstitucionalismo que arrastou os constitucionalistas, daqui e alhures, ao (re)estudo de (novos)velhos fenômenos e institutos da ciência constitucional, – como, v. g., a força normativa da Constituição; a hermenêutica e jurisdição constitucional; a eficácia e aplicabilidade das normas constitucionais –, no contexto do processo de democratização do Estado e da sociedade. As demandas perenes e as estruturas de normatividade próprias do Estado Social revelaram-se inexoravelmente vinculadas à Nova Hermenêutica, de modo que a extensão da normatividade da Constituição também perpassa “pelo ângulo de análise que seus hermeneutas fazem aos substratos materiais de constitucionalidade.” Nesse contexto, – não obstante a celeuma em torno da ocorrência do neoconstitucionalismo –, parece que há consenso na ideia de que a Constituição é uma lei vinculativa dotada de efetividade e aplicabilidade. Ocorre que a Constituição de 1988 (utópica e casuística “colcha de retalhos”) não encontra correspondência no tempo histórico, nas circunstâncias e no caráter nacional. Não há vontade de Constituição na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional, mas apenas vontade de poder. Não há como negar o fato que a Carta da República está em descompasso da realidade do País (do nível de desenvolvimento social-político-cultural-econômico da sociedade e do Estado a que se destina). No Texto Maior, vislumbram-se, em abundância, normas constitucionais de eficácia limitada-diferida de princípio programático. Tais normas demandam atuação dos Poderes Públicos no sentido de produção de dispositivos infraconstitucionais de regulação e, consequentemente, execução administrativa. Com efeito, no caso brasileiro, não é raro verificar a inércia dos Poderes constituídos frente às determinações de índole constitucional. O posicionamento aqui defendido é que a construção de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão no Brasil não pode padecer do equívoco da utopia (e dos excessos) que inspirou o processo de elaboração do Texto Maior, sob pena de mitigação de sua força normativa e perpetuação do descrédito que o acomete. Assim, levando em conta essa premissa, a prolixidade da Constituição de 1988 e o momento atual do País, seria prudente sustentar que haverá omissão inconstitucional quando houver um correspondente dever constitucional de ação, até mesmo como paradigma facilitador do exercício da jurisdição constitucional. Não é toda omissão do poder público que a Constituição macula com a pecha da inconstitucionalidade. O conceito de omissão não se reduz a um mero “não fazer” ou num simples dever geral de legislar ou atuar concretamente a Constituição. A omissão inconstitucional é aquela que decorre de imposições constitucionais ou ordens de legislar definidas em norma constitucional específica, certa e determinada que inexoravelmente prescreve o dever constitucional de ação. 6. BIBLIOGRAFIA BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo, 1ª ed., 3ª tiragem, São Paulo: Saraiva, 2009. ________. Neoconstitucionalismo e Constitucionalização do Direito (O Triunfo Tardio do Direito Constitucional do Brasil). In: A Constitucionalização do Direito: Fundamentos Teóricos e Aplicações Específicas. Coord. Cláudio Pereira de Souza Neto e Daniel Sarmento. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007. BERCOVICI, Gilberto. “A Constituição Dirigente e a Constitucionalização de Tudo (ou do Nada)”, (nota 12). In: SOUZA Neto, Cláudio Pereira; SARMENTO, Daniel (orgs.). A constitucionalização do direito. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007. 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Possui graduação em Direito pela Universidade de São Paulo/USP – Largo São Francisco. Doutor e Mestre em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Pós-graduado em Direito e Justiça Constitucional pela Università di Pisa/Itália. Pós-doutor em Direito Constitucional Comparado pela Università del Salento – Lecce/Itália. Atuou como Assessor Processual da Presidência do Supremo Tribunal Federal – STF. Membro fundador da Associação Brasileira de Direito Processual Constitucional – ABDPC. Pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Professor adjunto da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – UEMS. [126] . Sempre ressaltando que a não aceitação ou discordância acerca da ocorrência do fenômeno daquilo que se denominou de neoconstitucionalismo não é prejudicial ao desenvolvimento do presente estudo, nem tampouco as suas conclusões. Como cediço, no Brasil, os efeitos do neoconstitucionalismo são marcantemente percebidos a partir do processo constituinte que originou a Constituição de 1988. [127] . BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. 1ª. ed, 3ª. tiragem, São Paulo: Saraiva, 2009, p. 224. [128] . FERNANDES, Eric Baracho Dore. Omissões inconstitucionais e seus instrumentos de controle. Contribuição para o aprimoramento institucional, (Coleção Eduardo Espínola), Salvador: Juspodivm, 2017, p. 47. [129] . BONAVIDES, Paulo. Do Estado Liberal ao Estado Social, 10ª ed., São Paulo: Malheiros, 2011, p. 19. [130] . BONAVIDES, Paulo. Do Estado Liberal ao Estado Social, 10ª ed., São Paulo: Malheiros, 2011, p. 19. [131] . CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 3ª ed., Coimbra: Almedina, 1999, p. 1077. [132] . Adotou-se a terminologia empregada por Ney Prado na obra Os notáveis erros dos notáveis: da Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, Rio de Janeiro: Forense, 1987, ao se referir a problemas na estrutura do Anteprojeto Afonso Arinos. Nada obstante a não utilização deste Anteprojeto, muitos dos erros apontados pelo autor referido, de alguma forma, acabaram se repetindo no texto final da Constituição de 1988. [133] . Concebido também, nesse contexto, como Estado Constitucional ou Estado Democrático de Direito (Estado de Direito Democrático). [134] . A existência de vários constitucionalismos ou movimentos constitucionalista sempre suscita alguma celeuma no campo jurídico. [135] . Fez-se aqui uso desse advérbio, haja vista que os valores ético- políticos sempre sombrearam os postulados da hermenêutica positivista. [136] . Apesar de não provocar interferência direta nas conclusões levadas a efeito, sabe-se que não há consenso quanto à existência de um movimento neoconstitucionalista. [137] . MOREIRA, Eduardo Ribeiro. Neoconstitucionalismo: A Invasão da Constituição. São Paulo: Método, 2008, (Coleção Professor Gilmar Mendes; v. 7), p. 30. [138] . BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 20ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 170. Em continuidade, adverte o mesmo constitucionalista: “Com sua resposta, o teorista francês tornou possível o constitucionalismo da democracia liberal e representativa, do mesmo modo que o socialista alemão, com outra resposta também fecunda, fez factível a teoria material da Constituição, ora em voga, perfilhada pelos melhores constitucionalistas do Estado social, que todavia sem confessar foram muitas vezes buscar os pressupostos e as bases teóricas dessas reflexões na esplêndida monografia de Lassalle./ Os constitucionalistas modernos ou sustentam com Laband, Jellinek e Kelsen uma teoria formal da Constituição, abraçados ao positivismo que culminou de último com a Escola de Viena, ou se repartem em posições distintas, quais as de Schmitt, Smend, Hsü Dau-Lin, Heller, Schinder, Kägi e Haug. Destes últimos resultou a teoria material da Constituição, conforme flui da Escola de Zurique (...)./ Em todos esses autores a teoria constitucional, não importa a variante seguida, descobre conceitos-chaves sobre Constituição e mudança constitucional, de profundo alcance para identificar posições doutrinárias ainda prestigiosas cujo exame é indispensável”. [139] . MOREIRA, Eduardo Ribeiro. Op. cit., pp. 30-31. [140] . Idem, p. 28. [141] . MAIA, Antonio Cavalcanti. In Posfácio: MOREIRA, Eduardo Ribeiro. Neoconstitucionalismo – A Invasão da Constituição. São Paulo: Método, 2008, (Coleção Professor Gilmar Mendes; v. 7), p. 208. [142] . GUASTINI, Riccardo. A “Constitucionalização” do Ordenamento Jurídico e a Experiência Italiana, In: A Constitucionalização do Direito: Fundamentos Teóricos e Aplicações Específicas. Coord.: Cláudio Pereira de Souza Neto e Daniel Sarmento, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007, p. 272. [143] . Termo utilizado aqui como recurso linguístico defensivo, ou seja, com o escopo de se evitar o emprego das palavras otimistas, românticas ou utópicas. [144] . Mutatis mutandis, confira: SILVA, José Afonso da. O Constitucionalismo brasileiro (Evolução Institucional), São Paulo: Malheiros, 2011. [145] . BARROSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalismo e Constitucionalização do Direito (O Triunfo Tardio do Direito Constitucional do Brasil). In: A Constitucionalização do Direito: Fundamentos Teóricos e Aplicações Específicas. Coord. Cláudio Pereira de Souza Neto e Daniel Sarmento. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007, p. 249. [146] . SILVA, Virgílio Afonso da. A Constitucionalização do Direito: Os direitos fundamentais nas Relações entre Particulares. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 18. [147] . BITTAR, Carlos Alberto; BITTAR FILHO, Carlos Alberto. Direito Civil Constitucional. 3ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 19. [148] . STRECK, Lenio Luiz. Jurisdição constitucional e hermenêutica: uma nova crítica do direito. 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2004, pp. 13- 14. [149] . Para José Afonso da Silva: “Em suma, a Constituição de 1988 não concluiu a reforma do Estado e deixou intacta a estrutura arcaica de poder, por meio da qual as elites conservadoras realizam a contrarreforma. Não obstante a observação feita acima, o Congresso Constituinte, com todas as reservas que se possam fazer sobre sua natureza, produziu um documento constitucional da mais alta importância não apenas para o Constitucionalismo brasileiro, mas para o Constitucionalismo em geral. E os seus mais de 20 de existência, sem transtornos mais sérios, provam suas bases de legitimidade, pois não há dúvida de que ele vem presidindo a vida nacional, assegurando a Democracia, ao menos na sua dimensão política – sem o quê não se construirá a Democracia social que assegure justiça social ao povo. Sob ele já se realizaram seis eleições gerais e seis eleições municipais com a mais absoluta liberdade, pelo quê até se pode reconhecer que os tempos dos coronéis vai ficandocada vez mais para trás” (SILVA, José Afonso da. O Constitucionalismo brasileiro (Evolução Institucional), São Paulo: Malheiros, 2011, p. 522). [150] . Nesse sentido: “Foi a única vez na História que uma Constituição brasileira começou a ser feita coletivamente a partir do zero – todas as outras nasceram de propostas construídas por juristas notáveis. No começo dos trabalhos, em fevereiro de 1987, a esquerda – que tinha muitos aliados encastelados no PMDB – conseguiu impor seus interesses graças à eleição do deputado Mário Covas como líder da bancada do partido e à indicação do senador Fernando Henrique para redigir o regimento da Carta. Covas nomeou gente de esquerda para dirigir as comissões e subcomissões; Fernando Henrique elaborou um regimento que neutralizava a vantagem numérica da centro-direita” (MARCHI, Carlos. A Carta que blindou a democracia brasileira. In: Caderno Especial, 20 anos de Constituição, Jornal O Estado de S. Paulo, 02 de outubro de 2008, p. 03). [151] . Nesse sentido, pondera Nalini: “Era natural a expectativa de profundas mudanças estruturais num Brasil que deixava um período autoritário. Por isso a chamaram Constituição-panacéia, remédio para todos os males. Ambiciosos, os constituintes procuraram abrigar nela todas as aspirações. Por isso a sua ambigüidade, sua prolixidade e o caráter analítico a desafiar a capacidade de memorização de todos os dispositivos” (NALINI, José Renato. Vinte anos de cidadania. In: Jornal O Estado de S. Paulo, A2, Espaço Aberto, 03 de setembro de 2008). [152] . KUBLISCKAS, Wellington Márcio. Emendas e Mutações Constitucionais: análise dos mecanismos de alteração formal e informal da Constituição Federal de 1988, São Paulo: Atlas, 2009, p. 31-32. [153] . “É o caso da Constituição brasileira de 1.988 e da Constituição da Índia, de 1.950, com mais de 400 artigos” (TAVARES, André Ramos. Op. cit., p. 73). [154] . MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2008, pp. 16. [155] . TAVARES, André Ramos. Op. cit., p. 73. [156] . CANOTILHO, J.J. Gomes. Constituição Dirigente e Vinculação do Legislador: Contributo para a Compreensão das Normas Constitucionais Programáticas. 2ª ed., Coimbra: Coimbra, 2001, p. 11. [157] . Quanto ao tema, pondera Gilberto BERCOVICI: “A crítica feita à constituição dirigente pelos autores conservadores diz respeito ainda, entre outros aspectos, ao fato de a constituição dirigente ‘amarrar’ a política, substituindo o processo de decisão políticas pelas imposições constitucionais. Ao dirigismo constitucional foi imputada a responsabilidade maior pela ‘ingovernabilidade’. O curioso é que são apenas os dispositivos constitucionais relativos a políticas públicas e direitos sociais que ‘engessam’ a política, retirando a liberdade de atuação do legislador. E os mesmos críticos da constituição dirigente são os grandes defensores das políticas de estabilização e de supremacia do orçamento monetário sobre as despesas sociais. A imposição, pela via da reforma constitucional e da legislação infraconstitucional, das políticas ortodoxas de ajuste fiscal e de liberalização da economia, não houve qualquer manifestação de que se estava ‘amarrando’ os futuros governos a uma única política possível, sem qualquer alternativa. Ou seja, a constituição dirigente das políticas públicas e dos direitos sociais é entendida como prejudicial aos interesses do país, causadora última das crises econômicas, do déficit público e da ‘ingovernabilidade’. A constituição dirigente invertida, isto é, a constituição dirigente das políticas neoliberais de ajuste fiscal é vista como algo positivo para a credibilidade e a confiança do país junto ao sistema financeiro internacional. Esta, a constituição dirigente invertida, é a verdadeira constituição dirigente, que vincula toda a políticas do Estado brasileiro à tutela estatal da renda financeira do capital, à garantia da acumulação de riqueza privada.” (A Constituição Dirigente e a Constitucionalização de Tudo (ou do Nada), (nota 12). In: SOUZA Neto, Cláudio Pereira; SARMENTO, Daniel (orgs.). A constitucionalização do direito. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007, pp. 171-172). [158] . Quanto ao tema, pondera Faria: “Governabilidade e legitimidade são palavras plurívocas. Carregadas de implicações ideológicas, não são noções facilmente definíveis em termos analíticos. Historicamente, ambos os conceitos estão associados às transformações recentes do desenvolvimento capitalista e a seu impacto sobre o Estado liberal – especialmente no que se refere à dificuldade de se encontrar um ponto de equilíbrio entre a continuidade da acumulação privada e os imperativos de justiça social.” (FARIA, José Eduardo. O Brasil pós-constituinte. Rio de Janeiro: Graal, 1989, p. 23). [159] . SAGÜÉS, Nestor Pedro. “Reflexiones sobre la manipulación constitucional”, In: Revista Latino-Americana de Estudos Constitucionais, Del Rey, n. 5, jan./jun. 2005, p. 383. (Tradução livre: “A manipulação da Constituição, em sua versão altruísta, significa a conjunção de três fatores essenciais: 1) O ‘uso’ ou utilização da Constituição, o que implica reduzi-la à condição de objeto ou ferramenta manejada pelo manipulador. Este, em vez de servir à Constituição, se serve dela. 2) Com ardil, vale dizer, a partir de manobra, artifício ou engano, cria truque de uma interpretação manipulativa da Lei Suprema, que procura fazer passar gato por lebre constitucional.(...). 3) Em proveito de um interesse particular ou inferior. A manipulação constitucional nunca é gratuita ou inocente, sendo que vai beneficiar a algo ou a alguém. Sempre haverá um ganancioso e um perdedor com a manobra manipulativa.”). [160] . “Em que pese a dificuldade de se elaborar uma única classificação para os diversos tipos utópicos, a razão básica para justificar esse fenômeno, no nosso entender, reside no caráter profundamente idealístico da nossa cultura política, do qual a nossa elite, mesmo a mais intelectualizada, ainda não se desvencilhou.” (PRADO, Ney. Os notáveis erros dos notáveis: da Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, Rio de Janeiro: Forense, 1987, p. 75-6) [161] . VIANNA, Oliveira. O idealism da Constituição, Rio de Janeiro: Terra de Sol, 1927, p. 25; KARL POPPER chamou a atenção para a derivação idealista dos intelectuais pouco acostumados com problemas empíricos (cf. The Open Society and Its Enemies, vol. II, p. 224 e cap. XXIV (apud PRADO, Ney. Os notáveis erros dos notáveis: da Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, Rio de Janeiro: Forense, 1987, p. 76). [162] . HESSE, Konrad. A Força Nomartiva da Constituição, tradução Gilmar Ferreira Mendes, Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1991, p. 15. [163] . Cf. Humboldt apud HESSE, Konrad. A Força Nomartiva da Constituição, tradução Gilmar Ferreira Mendes, Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1991, p. 17. [164] . HESSE, Konrad. A Força Nomartiva da Constituição, tradução Gilmar Ferreira Mendes, Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1991, p. 19. [165] . Cfr. LOEWENSTEIN, Karl. Teoría de La Constitución, Barcelona: Ariel, 1970. [166] . Novamente, à construção de uma teoria da inconstitucionalidade por omissão, faz-se mister refletir se esse (e em que medida) “progressismo” é utópico. Registre-se que: “De fato, essa nossa tendência “de não distinguir bem a ordem do “dever- ser” da “do ser”, chega até a instituir, no comum, uma inversão ou uma distorção no processo do entendimento do mundo. Evita-se auscultar os fatos, a realidade, seu caráter íntimo, dinâmico ou profundo. Ao invés disso, segue-se muitas vezes a atitude de projetar sobre esta mesma realidade os conceitos a priori, sobre como deveria ser o mundo. Ou melhor, como se desejaria que fosse, partindo de certos esquemas mentais, ou de certos acervos de valores, projetados, assim, sobre um mundo que não se conhece e até que se desdenha de conhecer. Adota-se aqui o vício psicológico central, advertido por Jung, de projetar no não eu o nosso próprio eu.Isto é, de não sentir o mundo ou a vida como são, porém antes como produto de nossa própria concepção abstrata. Em outras palavras, deixa-se de auscultar a vida como se apresenta e, em lugar disso, se erigem concepções teóricas do mundo. Como este, obviamente, comporta-se de maneira diversa, temos sempre a tendência para ficar perplexes.” (PESSOA DE MORAIS, Tradição e Transformação no Brasil, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1973, 2ª ed., p. 287 apud PRADO, Ney. Os notáveis erros dos notáveis: da Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, Rio de Janeiro: Forense, 1987, p. 75.) [167] . Predominantemente, parece ser essa a classificação adotada pelo Supremo Tribunal Federal. [168] . Na doutrina nacional existem algumas outras classificações importantes: normas exequíveis por si sós e normas não exequíveis por si sós (programáticas, de estruturação e condicionadas) (Manoel Gonçalves Ferreira Filho); normas de aplicação (irregulamentáveis e regulamentáveis) e normas de integração (completáveis e restringíveis) (Celso Bastos e Carlos Ayres Britto); normas de organização, definidoras de direitos e programáticas (Luís Roberto Barroso). [169] . CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 3ª ed., Coimbra: Almedina, 1999, p. 1077. [170] . SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais, 6ª ed., 3ª tiragem, São Paulo: Malheiros, 2004, p. 166. [171] . MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional, tomo IV, Direitos Fundamentais, 2ª ed., Coimbra: Coimbra, 1998, p. 277. [172] . ROTHENBURG, Walter Claudius. Inconstitucionalidade por Omissão e Troca de Sujeito: a perda de competência como sanção à inconstitucionalidade por omissão, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p. 89. [173] . CUNHA JÚNIOR, Dirley da. Controle de Constitucionalidade, Teoria e Prática, 8ª edição, Salvador: JusPODIVM, 2016, p. 274-5. [174] . Art. 103, § 2º: “Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e, em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta dias.” [175] . TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional, 8ª edição, São Paulo: Saraiva, 2010, p. 337. [176] . Cfr. ADIN 19-5, Rel. Min. Aldir Passarinho, DJU 14.04.89, RT 645/184 e ADIN 297. [177] . FERNANDES, Eric Baracho Dore. Omissões inconstitucionais e seus instrumentos de controle. Contribuição para o aprimoramento institucional, (Coleção Eduardo Espínola), Salvador: Juspodivm, 2017, p. 167. [178] . CUNHA JÚNIOR, Dirley da. Controle de Constitucionalidade, Teoria e Prática, 8ª edição, Salvador: JusPODIVM, 2016, p. 263. Na obra referida, faz-se referência ao entendimento de JORGE MIRANDA, Manual de Direito Constitucional, Tomo II, p. 518-519: “Antes de mais, somente é de ter por relevante o não cumprimento da Constituição que se manifesta através do não cumprimento de uma das suas normas, devidamente individualizada. (…) A inconstitucionalidade por omissão (…) não se afere em face do sistema constitucional em bloco. É aferida em face de uma norma cuja não exequibilidade frustra o cumprimento da Constituição. A violação especifica-se olhando a uma disposição violada, e não ao conjunto de disposições e princípios”. [179] . Op. cit., p. 263-264. [180] . TAVARES, André Ramos. “The Legislative Omission in Brazil: a special reference to the role of the constitutional judge”, In: federalism.it, Focus America latina, 23.12.2016, n. 1, p. 24. MANDADO DE INJUNÇÃO: BALANÇO JURISPRUDENCIAL E IMPACTO DA LEI N. 13.300/16 Writ of Injunction: Jurisprudential balance and Law n. 13.300/16 impact Flávia Piovesan[181] Maria Cecília Cury Chaddad[182] Resumo: Inovação da Constituição Federal de 1988, o mandado de injunção visa viabilizar, pela via judicial, o exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania, obstaculizados pela ausência de regulamentação infraconstitucional. Em um primeiro momento, o Supremo Tribunal Federal conferiu um alcance muito restrito a este remédio constitucional, esvaziando sua potencialidade. Em 2007, houve uma guinada jurisprudencial, quando se reconheceu a validade da corrente concretista, orientação que inspirou a redação da lei regulamentadora deste writ, aprovada em 2016, que consolidou este entendimento. A estabilidade jurídica em relação ao alcance do mandado de injunção contribui com o fortalecimento de um constitucionalismo democrático e emancipatório, que tem nos direitos e liberdades sua centralidade maior, guiado pela força expansiva do princípio da dignidade humana. Palavras-Chave; Mandado de injunção; direitos fundamentais; omissão inconstitucional. Abstract: Innovation of the Federal Constitution of 1988, the writ of injunction seeks to make viable the exercise of constitutional rights, freedoms and the prerogatives inherent to nationality, sovereignty and citizenship, hampered by the absence of regulation. At first, the Federal Supreme Court granted a very limited scope to such constitutional remedy, depriving it of its potentiality. In 2007, there was a jurisprudential turnaround, when the validity of the current that advocates for power of this writ was recognized, a guideline that inspired the drafting of its regulatory law, approved in 2016, which consolidated this understanding. Legal stability in relation to the scope of the writ of injunction contributes to the strengthening of a democratic and emancipatory constitutionalism, which has in its rights and freedoms its greater centrality, guided by the expansive force of the principle of human dignity. Keywords: Writ of inunction – fundamental rights – unconstitutional omission Sumário: 1. Introdução. 2. O mandado de injunção na Constituição Federal de 1988. 3. Balanço jurisprudencial. 4. Regulamentação do mandado de injunção. 5. Considerações Finais. 6. Bibliografia. 1. INTRODUÇÃO Marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos diretos humanos no Brasil, a Constituição de 1988 é marcada por um significativo universo de normas de eficácia limitada, sobretudo no título dedicado à ordem social. São normas estabelecedoras de programas constitucionais de ação social a serem desenvolvidos pelo Estado, cujo delineamento depende de regulamentação ulterior. Na data de sua promulgação, em 05 de outubro de 1988, estimava-se que mais de duzentas e quarenta normas do texto constitucional dependiam de posterior regulamentação[183] – o que, na visão de Tércio Sampaio Ferraz Jr à época, refletia uma Constituição que ainda estava “por se fazer”[184]. A fim de evitar o risco de que a omissão em implementar os programas indicados na Constituição comprometesse a efetividade do constitucionalismo social inaugurado em 1988, o texto previu instrumentos para controlar a omissão, introduzindo a ação direta de inconstitucionalidade por omissão (artigo 102) e o mandado de injunção (artigo 5º, inciso LXXI), ações constitucionais com legitimados distintos e finalidades diversas. No presente artigo, retomando conclusões já apresentadas anteriormente em outros trabalhos[185], pretende-se analisar os avanços decorrentes da nova orientação do STF e as inovações advindas da Lei n. 13.300, aprovada em 23 de junho de 2016, que disciplina o processo e o julgamento dos mandados de injunção individual e coletivo. 2. O MANDADO DE INJUNÇÃO NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 Como referenciado no item precedente, há violação da Constituição de 1988 quer quando se faça o que nela se proíbe, quer quando não se faça o que ela determina. Ampliou-se, assim, a concepção de inconstitucionalidade: ao lado da inconstitucionalidade por ação, prevista há muito no constitucionalismo pátrio, reconheceu-se a gravidade da inconstitucionalidade por omissão, que, igualmente, está sujeita ao controle jurisdicional. Especificamente no que se refere ao mandado de injunção, trata-se de ação constitucional que tem por finalidadetornar viável o exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania obstado pela inexistência de norma regulamentadora. Partindo da premissa de que se trata de um instituto sem precedentes[186], restou ao intérprete o desafio de identificar o alcance deste importante instrumento voltado à salvaguarda da máxima efetividade das normas constitucionais pertinentes à dimensão mais preciosa do constitucionalismo contemporâneo – a dos direitos e garantias. Diferentemente do restrito rol de legitimados da ação direta de inconstitucionalidade por omissão (art. 103), o mandado de injunção pode ser impetrado por qualquer pessoa, natural ou jurídica, que dependa da regulamentação de uma dada norma constitucional para desfrutar de direitos, liberdades e prerrogativas constitucionais. O mandado de injunção surgiu da necessidade de se prever um instrumento que permitisse a um indivíduo reclamar ao Poder Judiciário a regulamentação de um comando constitucional em um caso concreto, cuja ausência normativa lhe estivesse inviabilizando o exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. O mandado de injunção simbolizaria, assim, a força da Constituição em oposição à inação do Estado, visando garantir a eficácia ótima do texto constitucional. Todavia, quando da promulgação da Constituição, houve muito dissenso quanto ao alcance do mandado de injunção e, até o recente advento de sua regulamentação, coube à doutrina e ao Supremo Tribunal Federal o papel de apontar os seus delineamentos. Especificamente no que se atém à finalidade do mandado de injunção, a doutrina divergia se seria este um instituto apto a garantir, efetivamente, o exercício de diretos e liberdades constitucionalmente previstos (corrente concretista); se a sua finalidade seria a de informar o órgão omissão, conferindo-lhe um prazo para colmatar a lacuna, sob pena de satisfação do direito (corrente intermediária); ou, ainda, se o mandado de injunção não passaria de um sucedâneo da ação direta de inconstitucionalidade, tão somente atestando a ciência ao órgão omisso acerca de seu dever de expedir norma regulamentadora (corrente não-concretista). Esta última foi a corrente adotada pelo Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do MI 107/DF, em 1990, influenciando toda sua jurisprudência – com raras exceções – até 2007, quando houve um importante guinada jurisprudencial. No que se refere à corrente concretista, mister destacar que tal corrente pode ser dividida em duas subespécies: corrente concretista geral, pela qual a decisão que conceder o mandado de injunção teria eficácia erga omnes, e a e corrente concretista individual, para a qual a decisão que conceder o mandado de injunção teria eficácia inter partes apenas[187]. Essa última parece-nos a mais razoável, tendo em vista que, pelo mandado de injunção, objetiva-se a tutela do direito subjetivo do impetrante – e não da ordem jurídica em geral, que seria tutelável pelo controle concentrado de constitucionalidade (mediante a ação direta de inconstitucionalidade por omissão). Há muito que defendemos a corrente concretista, com o consequente reconhecimento de que competiria ao Poder Judiciário, na hipótese de omissão, criar norma jurídica para o caso concreto – interpretação que confirma a força do mandado de injunção e, assim, da Constituição Federal, em consonância com o que dispõem os princípios da hermenêutica constitucional[188]. Isto porque a hermenêutica constitucional, ainda que não exclua a aplicação das demais regras da hermenêutica jurídica, tem princípios, especificidades e complexidades próprias, que devem ser considerados pelo intérprete, tendo como premissa o fato de que a Constituição desempenha importante papel no ordenamento jurídico, na medida em que se trata da fonte de todo o sistema de normas do Estado, dotada, portanto, de superioridade em relação aos demais instrumentos normativos[189]. Com isso, no momento da análise do texto constitucional, o intérprete deve emprestar-lhe máxima efetividade, tendo, assim, especial zelo aos direitos fundamentais, sobretudo diante do princípio que confere unidade e sentido ao sistema constitucional: o princípio da dignidade da pessoa humana, núcleo essencial do ordenamento jurídico brasileiro[190], com especial força expansiva a permitir a sua projeção a toda ordem jurídica. Para a defesa de tal tese, parte-se da premissa de que o princípio da dignidade da pessoa humana é fundamento da ordem constitucional brasileira[191] de maior relevo, pelo que toda atividade interpretativa deve guiar-se no sentido de concretizar os direitos e garantias postos na Constituição, privilegiando e potencializando a força normativa da Constituição [192]. Prova da relevância do princípio da dignidade da pessoa humana é a previsão contida no § 1º do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, ao estabelecer que as normas definidoras de direitos e garantias fundamentais têm aplicabilidade imediata, comando que deve ser obrigatoriamente considerado pelo operador do direito quando da interpretação das normas. Nesse sentido, Ingo Wolfgang Sarlet sustenta que a falta de concretização de uma norma constitucional não pode servir de obstáculo para aplicação pelo Judiciário, o qual, em razão do mencionado § 1º do artigo 5º, “não apenas se encontra na obrigação de assegurar a plena eficácia dos direitos fundamentais, mas também autorizado a remover eventual lacuna oriunda da falta de concretização” [193]. É a isso que se denomina de “mandado de otimização (ou maximização)” [194]. Daí a necessidade de uma interpretação ótima do texto constitucional, no sentido de conferir à norma que trata do mandado de injunção a máxima efetividade, com a consequente concretização das normas constitucionais, tal como exigido no inciso LXXI do artigo 5º da Constituição -- cujo claro objetivo é o de impedir que “a falta de norma regulamentadora” obstaculize o exercício “dos direitos e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania”[195]. Deste modo, todo e qualquer comando constitucional pode – e deve – ser passível de fruição por qualquer cidadão. Conforme já afirmado, diante da inviabilidade de exercício de direito, liberdade ou prerrogativa constitucional, o indivíduo pode valer-se do mandado de injunção, instrumento que tem por finalidade permitir a provocação do Poder Judiciário para que esse órgão lhe confira meios efetivos para transpor a barreira causada pela ausência de norma ou de atos do Poder Público. Acrescente-se que, pelo princípio da inafastabilidade da jurisdição, o Judiciário não pode deixar de se manifestar quando lesões ou ameaça a direitos são submetidas à sua apreciação, pelo que não se pode tolerar que o Poder Judiciário adote uma postura passiva diante de um pleito fundamentado em normas constitucionais[196]. Considerando que o mandado de injunção e a ação direta de inconstitucionalidade por omissão surgiram nesse contexto de reconhecimento da força normativa da Constituição com o intuito de criar meios efetivos e concretos para verem implementadas as normas de eficácia limitada[197], a mais adequada interpretação do mandado de injunção é aquela que considera os princípios da hermenêutica constitucional e seu importante papel no que se refere à implementação dos direitos e garantias constitucionalmente previstos. Sob esta perspectiva, a corrente que mais se coaduna com o texto e o contexto em que foi promulgada a Constituição Federal de 1988, na linha da “interpretação conforme a Constituição” é a corrente concretista. Muito embora este não tenha sido o entendimento majoritário em um primeiro momento – o que muito enfraqueceu o mandado de injunção, a ponto de se questionar até mesmo a sua criação[198] – desde 2007, o Supremo Tribunal Federal mudou o seu entendimento sobre o instituto, reconhecendo a sua verdadeira finalidade, como será enfocado a seguir. 3. BALANÇO JURISPRUDENCIALEm um primeiro momento, a potencialidade da nova garantia foi em muito esvaziada pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, especialmente em face do posicionamento jurisprudencial adotado em 1990, que consagrou a corrente não concretista ao equiparar o mandado de injunção à ação direta de inconstitucionalidade por omissão. O MI 107/DF[199], que por anos foi visto como o leading case, foi impetrado por um servidor público militar, que pleiteava a regulamentação da estabilidade prevista no § 9º do artigo 42 da Constituição Federal[200]. No caso, foi decidido que o mandado de injunção não seria instrumento apto a amparar expectativas dos cidadãos, sob o argumento de que seria ação que “visa a obter do Poder Judiciário a declaração de inconstitucionalidade dessa omissão se estiver caracterizada a mora em regulamentar por parte do poder, órgão, entidade ou autoridade de que ela dependa, com a finalidade de que se lhe dê ciência dessa declaração, para que adote as providências necessárias”. Embora o MI 107/DF tenha sido considerado o leading case, quando de seu julgamento, o Supremo Tribunal Federal recorreu a dois precedentes: o MI 235/RJ[201], também relatado pelo Ministro Moreira Alves, que tratava de caso análogo ao descrito acima, e o MI 188/RJ[202], relatado pelo Ministro Sepúlveda Pertence, por meio do qual Procuradores autárquicos federais, de acordo com o que se depreende da ementa do julgado, pleitearam sua integração nos quadros da Advocacia-Geral da União. Neste segundo caso, o Supremo Tribunal Federal entendeu que “carece, pois, de legitimação “ad causam”, no mandado de injunção, aquele a quem, ainda que aceita provisoriamente a situação de fato alegada, a Constituição não outorgou o direito subjetivo cujo exercício se diz inviabilizado pela omissão de norma regulamentadora”. No período de 1990 a 2007, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal majoritariamente – com raras exceções a serem destacadas a seguir – consolidou o impacto do MI 107/DF em relação aos julgados que o sucederam, em acolhimento à corrente não concretista. Assim, diante da falta de regulamentação de norma que permitisse o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania, restaria ao Judiciário tão somente declarar a inconstitucionalidade por omissão, dando ciência ao órgão omisso para que a suprimisse oportunamente. Verifica-se, portanto, que o Supremo Tribunal Federal, ao apreciar as primeiras demandas trazidas em sede de mandado de injunção, retirou-lhe a potencialidade e o sentido, uma vez que, ao entender não ser esse instrumento apto a concretizar o direito constitucionalmente previsto, igualou, no que se referia à sua finalidade, o mandado de injunção à ação direta de inconstitucionalidade por omissão, institutos que se assemelham no ponto de partida, mas que deveriam ter caminhos e finalidade distintos[203]. Frise-se que houve casos pontuais em que o Supremo Tribunal Federal adotou interpretação diversa, atenuando a rigidez conferida ao instituto quando da apreciação dos primeiros casos, fixando prazo para a elaboração da norma faltante e, na hipótese de permanência na inércia, o impetrante poderia pleitear indenização pelos prejuízos sofridos em razão da ausência da norma (MI 283-5/DF[204], o MI 284/DF[205] e o MI 447-1/DF[206]). No MI 232/RJ[207], o Supremo Tribunal Federal decidiu declarar a mora do Congresso Nacional na edição de norma garantindo a isenção de contribuição para a seguridade social das entidades beneficentes, dando-lhe um prazo de 6 meses para suprir essa ausência, sob pena de, esgotado o prazo, conferir de pronto referida imunidade às entidades beneficentes. Esse entendimento foi mantido quando da análise do MI 283-5 pelo Supremo Tribunal Federal. Vale destacar, ainda, o caso do MI 543/DF[208], julgado em 2000, por meio do qual se levou ao Supremo Tribunal Federal pedido para o exercício do direito à anistia previsto no § 3º do art. 8º do ADCT, o qual previu prazo de doze meses, a contar da promulgação da Constituição, para que o Congresso Nacional regulamentasse tal direito, o que não foi feito no prazo indicado. Neste caso, diante da existência de prazo constitucionalmente previsto e não atendido, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a mora sem a necessidade de prévia comunicação ao Legislativo, mas, por maioria, vencidos os Ministros Ilmar Galvão, Marco Aurélio e Carlos Velloso, limitou-se a garantir o direito à indenização, mediante ação de liquidação. Em 2007, no julgamento dos MI 670, 708 e 712, o Supremo Tribunal Federal rompeu com a posição não concretista, lançando um novo horizonte interpretativo ao mandado de injunção, de forma a resgatar sua potencialidade, mediante a concretização de direitos constitucionalmente assegurados. No MI 721/DF, o Supremo Tribunal Federal analisou pedido de aposentadoria especial apresentado por Maria Aparecida Moreira, entendendo que, no mandado de injunção, “há ação mandamental e não simplesmente declaratória de omissão. A carga de declaração não é objeto da impetração, mas premissa da ordem a ser formalizada”, pelo que, diante da inexistência de disciplina específica da aposentadoria especial, prevista no artigo 40, § 4º, da Constituição Federal, determinou a adoção do regime próprio dos trabalhadores em geral - artigo 57, § 1º, da Lei n. 8.213/91[209]. Especificamente em relação à eficácia da decisão, entendeu a Corte que “tratando-se de processo subjetivo, a decisão possui eficácia considerada a relação jurídica nele revelada”, ou seja, foi conferido o efeito individual, tendo sido adotada a corrente concretista individual. No MI 712/PA, impetrado pelo Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário do Estado do Pará - SINJEP contra o Congresso Nacional, no qual se pretendia a garantia ao direito de greve, o relator, Ministro Eros Grau, acompanhado pelo Ministro Gilmar Mendes, conheceu do mandado de injunção para, enquanto a omissão não for sanada, aplicar, observado o princípio da continuidade do serviço público, a Lei n. 7.783/89, que dispõe sobre o exercício do direito de greve na iniciativa privada. Nesta decisão, o Supremo Tribunal Federal salientou “a necessidade de se conferir eficácia às decisões proferidas pelo Supremo no julgamento de mandados de injunção”. Reconheceu que “a mora, no caso, é evidente e incompatível com o previsto no art. 37, VII, da CF, e que constitui dever- poder deste Tribunal a formação supletiva da norma regulamentadora faltante, a fim de remover o obstáculo decorrente da omissão, tornando viável o exercício do direito de greve dos servidores públicos”[210]. No mesmo sentido, ao analisar o MI 670/ES impetrado pelo Sindicato dos Servidores Policiais Civis do Espírito Santo - SINDIPOL, pelo qual também se pleiteava a garantia ao exercício do direito de greve, o Ministro Gilmar Mendes conheceu da medida para, enquanto não suprida a lacuna legislativa, aplicar a Lei n. 7.783/89, observado o princípio da continuidade do serviço público. O Ministro Gilmar Mendes entendeu que “a inércia do Poder Legislativo em regular o direito de greve dos servidores públicos acabou por gerar uma preocupante realidade em que se observam inúmeras greves ilegais com sérias consequências para o Estado de Direito”. E mais: “considerado ainda o enorme lapso temporal dessa inércia, não resta alternativa para o Poder Legislativo quanto a decidir pela regulação ou não do tema, e que cabe, por sua vez, ao Poder Judiciário, intervir de forma mais decisiva, de modo a afastar a inoperância de suas decisões em mandado de injunção, e atuar também nos casos de omissão do Poder Legislativo, tendo em vista as balizas constitucionais que demandam a concretização do direito de greve a todos os trabalhadores”[211]. O Supremo Tribunal Federal manteve essa orientação em outras demandas com características semelhantes, consolidando, gradativamente, esses extraordinários avanços, no sentido de conferir ao mandado de injunção eficácia mais condizente como texto constitucional. Com efeito, a questão da não regulamentação do § 4º do artigo 40 da Constituição Federal, que cuida da aposentadoria especial, se repetiu no MI 758/DF, tendo havido a “adoção, via pronunciamento judicial, daquela própria aos trabalhadores em geral - artigo 57, § 1º, da Lei n. 8.213/91”[212]. O tema da não regulamentação do direito de greve dos servidores públicos civis, previsto no inciso VII do artigo 37 da Constituição Federal, voltou a ser debatido no Supremo Tribunal Federal no âmbito do MI 708/DF, em que, mais uma vez, como solução para a omissão legislativa, decidiu-se pela aplicação da lei geral de greve (Lei n. 7.783/89)[213]. Em 2009, no MI 795/DF, relatado pela Ministra Cármen Lúcia, seguindo o precedente do MI 721/DF, foi garantida, à impetrante, servidora pública, a concessão de aposentadoria especial nos termos da lei geral, em vista da não regulamentação do § 4º do artigo 40 da Constituição Federal[214]. Na sessão de julgamento do MI 795/DF, o plenário do Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, concedeu parcialmente a ordem em casos análogos (MI 788/DF, MI 795/DF, MI 796/DF, MI 797/DF, MI 808/DF, MI 809/DF, MI 815/DF, MI 825/DF, MI 828/DF, MI 841/DF, MI 850/DF, MI 857/DF, MI 879/DF, MI 905/DF, MI 927/DF, MI 938/DF, MI 962/DF, MI 998/DF), decidindo pela comunicação da mora legislativa à autoridade coatora competente na regulamentação do § 4º do artigo 40 da Constituição Federal, determinando a aplicação do artigo 57 da Lei n. 8.213/91, em sede de processo administrativo. Na mesma oportunidade, o Supremo Tribunal Federal resolveu questão de ordem suscitada pelo Ministro Joaquim Barbosa[215] para autorizar que os Ministros decidam monocrática e definitivamente os casos idênticos. Em 2011, a Corte ofereceu solução efetiva a mais um tema cuja regulamentação ainda se encontra pendente: o aviso prévio proporcional (artigo 7º, inciso XXI, da Constituição Federal). O tema vinha sendo debatido em uma série de mandados de injunção (MI 943, MI 1010, MI 1074 e MI 1090) e, após pronunciamento pela procedência das ações por parte do Ministro Gilmar Mendes, o próprio relator sugeriu a suspensão do julgamento para que se pudesse “examinar a explicitação do direito pleiteado, nos casos concretos em exame”, tendo como parâmetros “experiências de outros países, recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e, também, projetos em tramitação no Congresso Nacional, propondo a regulamentação do dispositivo constitucional”. Em 2013, o julgamento foi retomado, quando já estava em vigor a Lei n. 12.506/2011, que regulamentou o direito ao aviso prévio proporcional, oportunidade em que foram aplicados ao caso concreto parâmetros idênticos aos da referida legislação. Na mesma decisão, autorizou-se que os ministros aplicassem monocraticamente esse entendimento aos mandados de injunção pendentes de julgamento, “desde que impetrados antes do advento da lei regulamentadora”[216]. Com isso, passou-se a ter, na prática, o mandado de injunção apto a possibilitar, concretamente, o exercício de direitos e liberdades constitucionais a tantos quantos se sintam prejudicados pela falta de norma regulamentadora, nos precisos termos do que prevê a Constituição Federal de 1988. Tais decisões simbolizam, portanto, considerável avanço na implementação da vontade constitucional, sobretudo em se tratando de direitos, prerrogativas e liberdades, e certamente influenciaram a aprovação da na Lei n. 13.300, de 23 de junho de 2016, que regulamenta o mandado de injunção. 4. REGULAMENTAÇÃO DO MANDADO DE INJUNÇÃO Em vista da divergência doutrinária e jurisprudencial sobre o alcance do mandado de injunção, a regulamentação do inciso LXXI do artigo 5º da Constituição Federal ganhou crescente importância no Congresso Nacional: foram propostos vários projetos de regulamentação do instituto, a saber: PLs n. 998/88[217], 1.662/89[218], 4.679/90[219], 6.002/90, 3.153/00[220], 6.839/06[221] e 6.128/09[222], este último apresentado após a importante mudança de posicionamento do Supremo Tribunal Federal já mencionada, que foi aprovado em 2016, transformando-se na Lei n. 13.300, de 23 de junho de 2016. Embora não tenha escolhido o caminho que de modo mais efetivo e célere atenda ao que a Constituição prevê, esta lei confirma a tese de que o mandado de injunção é um instrumento de suma importância para o exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania, tendo finalidade diversa daquela prevista para a ação direta de inconstitucionalidade por omissão. Na justificativa apresentada pelo autor do projeto de lei, há expressa referência aos julgados mais recentes do Supremo Tribunal Federal, quando passou a adotar a corrente concretista, verbis: “Esse é o objetivo da presente proposição. Proponho a regulação do procedimento do mandado de injunção, fixando inclusive as normas quanto aos seus efeitos mandamentais, em sintonia com a evolução jurisprudencial pátria (MI 721-DF, entre outros precedentes)”. Nesta toada, merece destaque o artigo 8º, que apresenta a seguinte redação: Art. 8º. Reconhecido o estado de mora legislativa, será deferida a injunção para: I - determinar prazo razoável para que o impetrado promova a edição da norma regulamentadora; II - estabelecer as condições em que se dará o exercício dos direitos, das liberdades ou das prerrogativas reclamados ou, se for o caso, as condições em que poderá o interessado promover ação própria visando a exercê-los, caso não seja suprida a mora legislativa no prazo determinado. Parágrafo único. Será dispensada a determinação a que se refere o inciso I do caput quando comprovado que o impetrado deixou de atender, em mandado de injunção anterior, ao prazo estabelecido para a edição da norma. Da leitura deste dispositivo, percebe-se que a intenção do legislador foi a de cumular as duas medidas: (i) determinação de prazo para a edição de norma regulamentadora faltante, caso já não tenha havido o transcurso de prazo estabelecido para a edição da norma em anterior mandado de injunção; e (ii) estabelecimento de condições para efetivo exercício, pelo impetrante, de direitos, liberdades ou prerrogativas constitucionalmente previstas. Entendemos que, ao endossar a corrente concretista adotada pelo Supremo Tribunal Federal a partir de 2007, o mais adequado seria que, mediante o mandado de injunção, o provimento jurisdicional fosse apto a viabilizar de imediato o exercício do direito, estabelecendo as suas condições sem que o impetrante fosse compelido a aguardar por mais prazo e a recorrer novamente ao Judiciário para ver implementado o seu direito após o esgotamento do prazo. O provimento jurisdicional, por si só, deveria ser capaz de tornar viável o exercício do direito ao impetrante, sem demandar do impetrante ajuizamento de uma nova ação. Ademais, ao estabelecer que a decisão deve determinar “prazo razoável para que o impetrado promova a edição da norma regulamentadora”, deixou-se margem para alto grau de subjetividade e minimizou-se o fato de que, em muitas situações, a impetração do mandando de injunção se dá após anos e anos de espera pela regulamentação de uma dada norma constitucional, como nos casos apontados no item precedente (décadas, em alguns casos). Vale destacar, ainda, que, nos termos do artigo 9º da Lei n. 13.300/16, a decisão proferida em mandado de injunção, como regra, terá eficácia subjetiva limitada às partes (eficácia inter partes) e produzirá efeitos até o advento da norma regulamentadora. Contudo, o parágrafo primeiro de referido artigo prevê que “poderá ser conferida eficácia ultra partes ou erga omnes à decisão, quando isso for inerente ou indispensável ao exercício do direito, da liberdade ou da prerrogativa objeto da impetração”. De acordo com este mesmo dispositivo, uma vez transitada em julgado a decisão, os seus efeitos poderão ser estendidos a casos análogos por decisão monocrática do relator. No parágrafo 3º do mesmo artigo 9º,há a previsão de que “o indeferimento do pedido por insuficiência de prova não impede a renovação da impetração fundada em outros elementos probatórios”. Aqui louva-se a previsão desta cláusula, que acolhe sistemática já prevista nas leis que tratam de ações de natureza coletiva, como a lei disciplinadora da ação popular e da ação civil pública. O artigo 10 admite a possibilidade de revisão da decisão, a pedido de qualquer interessado, no caso de surgirem relevantes modificações das circunstâncias de fato ou de direito que haviam fundamentado a decisão. A Lei n. 13.300/16 previu em seu artigo 11 que, caso seja aprovada a norma regulamentadora relacionada a um dado mandado de injunção, como regra, esta produzirá efeitos ex nunc em relação aos beneficiados por decisão transitada em julgado. Todavia, ressalva-se a possibilidade de a aplicação da norma superveniente caso seja mais favorável. Tal previsão confere amparo normativo a precedentes do Supremo que firmaram semelhante entendimento, como no caso do MI 283, em que o Supremo observou que “prolatada a condenação, a superveniência de lei não prejudicaria a coisa julgada, que, entretanto, não impediria o impetrante de obter os benefícios da lei posterior, na medida em que lhe fosse mais favorável”. No sentido de consolidar normativamente outro avanço da jurisprudência do Supremo é a inserção do artigo 12, que cuida do mandado de injunção coletivo, que pode ser impetrado pelo Ministério Público para a defesa da ordem jurídica, do regime democrático ou dos interesses sociais ou individuais indisponíveis; por partido político com representação no Congresso Nacional, para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas de seus integrantes ou relacionados com a finalidade partidária; por organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos 1 (um) ano, para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas em favor da totalidade ou de parte de seus membros ou associados, na forma de seus estatutos e desde que pertinentes a suas finalidades, dispensada, para tanto, autorização especial; pela Defensoria Pública, quando a tutela requerida for especialmente relevante para a promoção dos direitos humanos e a defesa dos direitos individuais e coletivos dos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º da Constituição Federal. À luz do artigo 13, a sentença fará coisa julgada limitadamente às pessoas integrantes da coletividade, grupo, classe ou categoria substituídos pelo impetrante. Merece especial destaque o disposto no artigo 2º da Lei n. 13.300/16, que, inovando em relação aos precedentes do Supremo Tribunal Federal[223] e visando conferir a máxima efetividade a este instrumento, prevê expressamente a possibilidade de impetração do mandado de injunção no caso de omissão parcial: Art. 2º Conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta total ou parcial de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Parágrafo único. Considera-se parcial a regulamentação quando forem insuficientes as normas editadas pelo órgão legislador competente. Tal dispositivo elimina a dúvida de que a regulamentação parcial é equiparável à não regulamentação, tendo em vista que há omissão legislativa não apenas quando o legislador não cumpre seu dever constitucional de emanar normas, mas também quando o faz incompletamente, ferindo o princípio da isonomia[224]. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS À luz do balanço jurisprudencial do mandado de injunção e da análise da regulamentação do writ pela Lei n. 13.300/16, observa-se que a trajetória do instituto foi marcada por oscilações jurisprudenciais, por recuos e avanços interpretativos. A história do mandado de injunção pode ser dividida ao menos em dois períodos: pré e pós 2007. Como visto, o período pré 2007, sobretudo em vista do impacto do leading case MI107 julgado em 1990, caracterizou-se pela frustração constitucional, na medida em que o Supremo Tribunal Federal, na qualidade de órgão guardião da Constituição, com sua jurisprudência fundamentalmente não concretista mitigou de forma drástica a potencialidade do instituto. A mudança ocorre em 2007, a partir do julgamento dos MI 670, 708 e 712, quando o Supremo, com firmeza, rompe em definitivo com a jurisprudência anterior, ao adotar a corrente concretista, em um resgate constitucional da potencialidade do mandado de injunção. Neste cenário, a aprovação da Lei n. 13.300/16 vem a consolidar no âmbito normativo, com maior grau de solidez, os recentes avanços jurisprudenciais em relação ao mandado de injunção. Confere à nova orientação do Supremo Tribunal Federal uma especial guarida, não apenas consolidando os avanços já obtidos (a fim de evitar recuos e retrocessos), como também, em maior grau de detalhamento, disciplinando os efeitos do mandado de injunção individual e coletivo. Permite demarcar um novo horizonte na trajetória do mandado de injunção, devolvendo-lhe a efetividade e a potencialidade desejável, com o fim maior de contribuir ao fortalecimento de um constitucionalismo democrático e emancipatório, que tem nos direitos e liberdades sua centralidade maior, guiado pela força expansiva do princípio da dignidade humana. 6. BIBLIOGRAFIA BARBI, Celso Agrícola. Mandado de injunção, in Mandados de Segurança e de Injunção, Sálvio de Figueiredo Teixeira (coord.). São Paulo: Editora Saraiva, 1990. BARROSO, Luís Roberto. O controle de constitucionalidade no direito brasileiro. São Paulo: Editora Saraiva, 2004. BARROSO, Luiz Roberto. 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São Paulo: Saraiva, 2013. ________; e CHADDAD, Maria Cecilia Cury. “Mandado de Injunção: desafios e perspectivas” in O processo na Constituição, Ives Gandra da Silva Martins e Eduardo Jobim (org.), São Paulo: Quartier Latin, 2008. ________; “A proteção dos direitos humanos no sistema constitucional brasileiro”. In: Revista de direito constitucional e internacional: RDCI. V. 11, n. 45, out./dez São Paulo: Revistade omissão tanto normativa quanto não normativa. Ademais, na parte final, a norma constitucional admite que a ação servirá também para o caso em que se trate de “órgão administrativo”, a fim de “adoção das providências necessárias”. As providências também não necessitam ser normativas. A única exigência, pois, é que sejam providências exigidas diretamente pela Constituição. Acrescente-se que o posicionamento restritivo geral mencionado passou a não fazer mais sentido após a adoção do critério da subsidiariedade para a nova ação direta, chamada arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF), já que a Lei n. 9.882/99, ao tratar dessa nova ação, cria a subsidiariedade como critério de seu cabimento, ou seja, admite esta nova ação direta como cabível nas hipóteses de inconstitucionalidade (não de ilegalidade) para as quais não caiba outra ação direta do controle abstrato de constitucionalidade. A recente evolução jurisprudencial do STF confirma essa conclusão já que passou a admitir, agora, o cabimento da ADPF se as ações acaso existentes não tenham a mesma amplitude que a ADPF apresenta[26]. Reforça esse entendimento a própria lei regulamentadora da ADPF, que a admite como cabível em face de “ato do Poder Público”, novamente sem qualquer redução para apenas atos normativos. Agora, a Lei n. 12.063/2009 expressamente inclui, como objeto da ação direta de inconstitucionalidade por omissão (ADO), “a omissão inconstitucional total ou parcial quanto ao cumprimento de dever constitucional de legislar ou quanto à adoção de providência de índole administrativa” (original não destacado). A Lei supera a discussão, afastando as teses doutrinárias (inconsistentes) mais restritivas acima indicadas. Por fim, o eventual cabimento de ação civil pública (além das tradicionais ações de cunho individual) para enfrentar omissões administrativas e materiais do Poder Público não inviabiliza, em nada, a conclusão acima, pelo cabimento (concomitante, no caso) de ação direta. Irrepreensível, pois, a lição de Dirley da Cunha Júnior neste tema, em sua tese exclusivamente dedicada ao controle judicial das omissões do Poder Público: “não apenas as omissões legislativas [lato sensu], mas também as omissões de medidas de natureza administrativa (como os decretos, os regulamentos, as instruções, as portarias, as ordens de serviços, as circulares, as decisões administrativas, as resoluções, etc.) estão sujeitas ao controle da constitucionalidade por via da ação direta de inconstitucionalidade por omissão”[27], ou seja, “qualquer medida dos órgãos políticos (Legislativo, Executivo e Judiciário), e até mesmo dos órgãos simplesmente administrativos”[28]. Em síntese, portanto, não será cabível a ação direta de inconstitucionalidade por omissão quando se tratar de problema de ilegalidade por omissão, mas será cabível quando houver omissão de qualquer ato, seja normativo (do Congresso Nacional, de qualquer de suas Casas, das Assembleias Legislativas, das Câmaras de Vereadores e da Câmara Legislativa do Distrito Federal, do Presidente da República, dos Governadores dos Estados e do Distrito Federal, dos Prefeitos, dos Tribunais, das agências reguladoras, de ministros ou secretários de Estado) e também será cabível quando a omissão for de ato não normativo (como atos administrativos em geral e os atos de pura execução material, advindos de qualquer órgão ou Poder de qualquer entidade federativa). 1.2. O papel do juiz na inconstitucionalidade por omissão parcial de ato normativo Questão extremamente delicada diz respeito à lei defeituosa ou imperfeita, geradora de inconstitucionalidade parcial. Se se toma em consideração apenas o aspecto da omissão, não faz sentido falar em nulidade, como se sabe. Já se considerada a lei total, ou seja, o ato positivo e existente, editado em desconformidade com a Constituição, porque insuficiente, a doutrina mais ortodoxa propõe a nulidade de toda lei (com isso as situações para as quais havia lei passam a não ter lei, agravando-se a situação). Por isso, em algumas situações, há de se admitir a aplicação da lei que padece da inconstitucionalidade parcial por omissão (defeito), sob pena de agravar a própria inconstitucionalidade já verificada parcialmente. A melhor doutrina há tempos assinala que é necessário admitir a manutenção da lei inconstitucional na específica hipótese em que isto consubstancia “exigência do próprio ordenamento constitucional”[29]. Assim, v. g., se o Tribunal Constitucional declarasse a inconstitucionalidade da lei que estipula o salário mínimo, por ser incompleta, e pronunciasse sua nulidade, agravaria o estado de desrespeito à vontade constitucional. 2. ASPECTOS PRÓPRIOS DA AÇÃO ABSTRATA DE CONTROLE DA OMISSÃO E O PODER DA CORTE SUPREMA Castro Nunes, com precursora e aguda percepção sobre o processo constitucional, já observava que “o controle da constitucionalidade é uma forma especial de jurisdição, que se governa por princípios e regras que lhe são peculiares”[30]. O próprio Supremo Tribunal Federal de há muito adota postulados próprios para a ação direta. Assim, já em 1962 sublinhou que o instituto da ação direta de inconstitucionalidade “não é um processo judiciário, em que o Tribunal funcione como juiz de controvérsia entre partes, característica essencial dos processos judiciais”[31]. Alguns autores entendem que os Tribunais Constitucionais, no desempenho de controle concentrado da constitucionalidade, exercem verdadeira função constitucional especial[32], e não uma jurisdição propriamente dita, ainda que objetiva. Para outros, que vão mais longe nessa divergência, essa função é necessariamente política[33]. A admissibilidade de um processo judicial que não servisse para a defesa de um direito subjetivo havia sido contemplada no fim do século XIX por Von Gneist[34], para quem a exigência de que houvesse dois sujeitos processuais em posições distintas, discutindo direitos subjetivos, contém uma civilistische petitio principi. A partir daí desconstruiu-se a ideia restritiva de que processo judicial ou jurisdição estaria presa a concepções subjetivas e pessoais. Um Tribunal Constitucional passou a ser admitido a estar no centro de uma jurisdição muito especial, mas ainda assim jurisdição, no sentido de submeter-se a um modus operandi não- político e a limites bem definidos em sua atuação. Apesar de limites jurídicos e um processo jurisdicional nos termos acima observados, no processo no qual se desenrola o controle de constitucionalidade judicial concentrado o juiz não obedece às regras processuais próprias dos conflitos intersubjetivos de interesses, do tipo clássico[35]. Observa Zagrebelsky[36] que uma “visão objetiva”[37] da Justiça Constitucional tem sido dominante, no sentido de se pretender, com essa referência, deixar claro que o Tribunal deve assumir uma preocupação em garantir, em primeiro lugar, a coerência do ordenamento relativamente à Constituição. Importa, para o processo objetivo, a preocupação com a restauração da Ordem Constitucional, com a certificação de que a Constituição prevalece, é cumprida ou impõe-se sobre os comportamentos que pretendem dela desviar-se, ainda que o desvio ocorra por uma omissão. Nesse sentido, já decidiu o Supremo Tribunal Federal, em acórdão relatado pelo Ministro Celso de Mello, que “[o] ajuizamento de ação direta de inconstitucionalidade, perante o Supremo Tribunal Federal, faz instaurar processo objetivo (...) no qual inexiste litígio referente a situações concretas ou individuais”[38]. Daí que os efeitos da decisão sejam também divergentes do processo intersubjetivo clássico, sem que isso infirme o perfil jurisdicional: os efeitos são erga omnes e vinculantes[39]. 2.1. Efeitos da decisão Uma vez julgada procedente a ação direta de inconstitucionalidade por omissão, duas possibilidades se abrem para a decisão da Corte. Em se tratando de inconstitucionalidade do Poder Legislativo, o STF apenas “certificará” a existência da omissão que o autor pretendia combater. Foi o entendimento do própriodos Tribunais, 2003. ________; Flávia. Proteção judicial contra omissões legislativas: ação direta de inconstitucionalidade por omissão e mandado de injunção, 2ª edição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003. SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais, 4ª edição. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. [181] . Professora doutora em Direito Constitucional e Direitos Humanos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Professora de Direitos Humanos dos Programas de Pós Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e da Universidade Pablo de Olavide (Sevilha, Espanha); visiting fellow do Human Rights Program da Harvard Law School (1995 e 2000), visiting fellow do Centre for Brazilian Studies da University of Oxford (2005), visiting fellow do Max Planck Institute for Comparative Public Law and International Law (Heidelberg – 2007; 2008; 2015 a 2018) e Humboldt Foundation Georg Forster Research Fellow no Max Planck Institute (Heidelberg - 2009-2014); ex-membro Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana; ex-membro da UN High Level Task Force on the implementation of the right to development; e ex-membro do OAS Working Group para o monitoramento do Protocolo de San Salvador em matéria de direitos econômicos, sociais e culturais. Integrante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (2018-2021). [182] . Doutora em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica; membro da Rede Brasileira Infância e Consumo, Rebrinc; fundadora do movimento Põe no Rótulo. [183] . PIOVESAN, Flávia. A proteção dos direitos humanos no sistema constitucional brasileiro. In: Revista de direito constitucional e internacional: RDCI. V. 11, n. 45, out./dez São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 216–236. [184] . FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. Constituição de 1988: legitimidade, vigência, eficácia e supremacia. São Paulo: Atlas, 1989, p. 58. [185] . PIOVESAN, Flávia; CHADDAD, Maria Cecília Cury. Efeitos da decisão em Mandado de Injunção. In: MENDES, Gilmar Ferreira; VALE, André Rufino do; QUINTAS, Fábio Lima (organizadores). Mandado de injunção: estudos sobre sua regulamentação. São Paulo: Saraiva, 2013; CHADDAD, Maria Cecília Cury A efetividade das normas constitucionais através do mandado de injunção: o controle da omissão parcial. Belo Horizonte: Fórum, 2011. PIOVESAN, Flávia e CHADDAD, Maria Cecilia Cury. “Mandado de Injunção: desafios e perspectivas” in O processo na Constituição, Ives Gandra da Silva Martins e Eduardo Jobim (org.), São Paulo: Quartier Latin, 2008 p. 410/429; PIOVESAN, Flávia. Proteção judicial contra omissões legislativas: ação direta de inconstitucionalidade por omissão e mandado de injunção, 2ª edição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003. [186] . Para maior aprofundamento acerca do debate atinente à origem do mandado de injunção, v. obras citadas na nota de rodapé n. 5. [187] . A esse respeito, v. Celso Agrícola Barbi, Mandado de injunção, in Mandados de Segurança e de Injunção, Sálvio de Figueiredo Teixeira (coord.). São Paulo: Editora Saraiva, 1990, p. 391. [188] . PIOVESAN, Flávia; CHADDAD, Maria Cecília Cury. Efeitos da decisão em Mandado de Injunção. In: MENDES, Gilmar Ferreira; VALE, André Rufino do; QUINTAS, Fábio Lima (organizadores). Mandado de injunção: estudos sobre sua regulamentação. São Paulo: Saraiva, 2013; CHADDAD, Maria Cecília Cury A efetividade das normas constitucionais através do mandado de injunção: o controle da omissão parcial. Belo Horizonte: Fórum, 2011. PIOVESAN, Flávia e CHADDAD, Maria Cecilia Cury. “Mandado de Injunção: desafios e perspectivas” in O processo na Constituição, Ives Gandra da Silva Martins e Eduardo Jobim (org.), São Paulo: Quartier Latin, 2008 p. 410/429; PIOVESAN, Flávia. Proteção judicial contra omissões legislativas: ação direta de inconstitucionalidade por omissão e mandado de injunção, 2ª edição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003. [189] . Nesse mesmo diapasão, Celso Bastos, Hermenêutica e interpretação constitucional, 3ª edição. São Paulo: Celso Bastos Editora, 2002, p. 109; J. J. Gomes Canotilho, Direito constitucional e teoria da constituição, 5ª edição. Coimbra: Almedina, 2002, p. 1192. [190] . Flávia Piovesan, Direitos humanos e o Direito Constitucional Internacional, 18ª edição, revista, ampliada e atualizada. São Paulo: Saraiva, 2018. [191] . “Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I - a soberania; II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político” (grifos da transcrição) [192] . Noutra oportunidade, sustentamos que “se a Carta de 1988 rege todo o ordenamento jurídico com inegável preponderância, aquilo que para ela mesma pareceu fundamental não pode, em hipótese alguma, ser tomado como supletivo” (Flávia Piovesan e Renato Stanziola Vieira “A força normativa dos princípios constitucionais fundamentais: a dignidade da pessoa humana” in Temas de Direitos Humanos, p. 363). [193] . Ingo Wolfgang Sarlet, A eficácia dos direitos fundamentais, 4ª edição. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004, p. 262. No mesmo sentido, Luís Roberto Barroso, O controle de constitucionalidade no direito brasileiro, São Paulo: Editora Saraiva, 2004, p. 257. [194] . Ingo Wolfgang Sarlet, A eficácia dos direitos fundamentais, p. 245. [195] . É preciso conferir às normas constitucionais a sua máxima efetividade, eis que não se pode dar a uma norma constitucional “interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser” (Jorge Miranda, Teoria do Estado e da Constituição, Rio de Janeiro: Editora Forense, 2002, p. 452). [196] . Frise-se que a jurisdição propugnada pela Constituição é aquela acessível ao cidadão, efetiva, que não se rende ao formalismo excessivo, pelo contrário, é uma Justiça ligada à realidade política e social. É uma jurisdição de resultados que privilegia, sobretudo, a dignidade da pessoa humana. Sobre o tema, v. Cassio Scarpinella Bueno, Tutela antecipada, São Paulo: Saraiva, 2004, p. 10; Uadi Lammêgo Bulos, Manual de interpretação constitucional, São Paulo: Editora Saraiva, 1997, p. 101; e Luís Roberto Barroso, O controle de constitucionalidade no direito brasileiro, p. 1. [197] . Sobre o tema, Celso Bastos, A Constituição de 1988, in As Constituições brasileiras: análise histórica e propostas de mudança. Luiz Felipe D’Avila (org.). São Paulo: Brasiliense, 1993, p. 83/93 e p. 87. [198] . Mandado de injunção o que foi sem nunca ter sido: uma proposta de reformulação. In: DIREITO, Carlos Alberto Menezes (Org.). Estudos em homenagem ao Prof. Caio Tácito. Rio de Janeiro: Renovar, 1997. p. 429- 436. [199] . STF, Tribunal Pleno, MI 107/DF, rel. Min. Moreira Alves, j. 21.11.90, DJU 02.08.91, p. 9.116. Decisão: por maioria de votos, vencido o Min. Marco Aurélio, não conheceram do mandado de injunção. Vale destacar que o Ministro Carlos Velloso não conheceu do mandado de injunção por entender que, no caso presente, não havia direito concedido pela Constituição e cujo exercício estivesse inviabilizado pela ausência de norma infraconstitucional. Noutra ocasião, quando do julgamento do MI 176-PE, o Ministro Carlos Velloso conferiu ao mandado de injunção, utilizando suas palavras, um “caráter substancial”, é ler o trecho de seu voto “sustento a tese no sentido do caráter substancial do mandado de injunção, pelo que faz o mesmo as vezes de norma infraconstitucional ausente e integra o direito ineficaz”. [200] . Originalmente, referido dispositivo tinha a seguinte redação: “Art. 42 (...) § 9º - A lei disporá sobre os limites de idade, a estabilidade e outras condições de transferência do servidor militar para a inatividade”. [201] . STF, Tribunal Pleno, MI 235/RJ, rel. Min. Moreira Alves, j. 20.06.90, DJU 12.03.93. Decisão: por maioria de votos, vencidos o Min. Marco Aurélioe o Min. Carlos Velloso, não conheceram do mandado de injunção. [202] . STF, Tribunal Pleno, MI 188/RJ, rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 11.06.90, DJU 22.02.1991, p. 1258. Decisão: por unanimidade, o Tribunal não conheceu da ação de mandado de injunção. [203] . Por meio da ação direta de inconstitucionalidade por omissão objetiva-se dar ciência ao órgão que detém competência constitucional de que este se encontra omisso em seu dever de elaborar uma dada norma. Ao passo que, pelo mandado de injunção, busca-se possibilitar, concretamente, o exercício de direitos e liberdades constitucionais aos que se veem impossibilitados de fazê-lo pela falta de norma regulamentadora que lhes ofereça meios para esse fim. [204] . STF, Tribunal Pleno, MI 283/DF, rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 20.03.91, DJU 14.11.91. Decisão: por unanimidade, deferiram em parte o mandado de injunção. [205] . STF, Tribunal Pleno, MI 284/DF, rel. para acórdão Min. Celso de Mello, j. 22.11.92, DJU 26.06.92. Decisão: por unanimidade, extinguiram o processo em parte e, por maioria, deferiram em parte o mandado de injunção. [206] . STF, Tribunal Pleno, MI 447/DF, rel. Min. Moreira Alves, j. 05.05.94, DJU 01.07.94. Decisão: por maioria, conhecido em parte e nela deferido o mandado de injunção. [207] . STF, Tribunal Pleno, MI 232/RJ, rel. Min. Moreira Alves, j. 02.08.91, DJU 27.03.92. Decisão: por maioria, rejeitada a preliminar e, no mérito, o mandado de injunção foi conhecido em parte e nela deferido. [208] . STF, Tribunal Pleno, MI 543/DF, rel. Octavio Gallotti, j. 26.10.2000, DJU 24.05.2002. Decisão: o Tribunal, por maioria, deferiu, em parte, o mandado de injunção, nos termos do voto do senhor ministro- relator, vencidos, em parte, os senhores Ministros Ilmar Galvão, Marco Aurélio e o Presidente (Ministro Carlos Velloso), que deferiam o mandado de injunção, nos termos do pedido. [209] . STF, Tribunal Pleno, MI 721-DF, rel. Min. Marco Aurélio, j. 30/08/07, DJ 30/11/2007. Decisão: O Tribunal, à unanimidade e nos termos do voto do Relator, julgou parcialmente procedente o mandado de injunção. Votou a Presidente, Ministra Ellen Gracie. Ausente, justificadamente, a Senhora Ministra Cármen Lúcia. [210] . STF, Tribunal Pleno, MI 712/PA, rel. Min. Eros Grau, j. 25/10/07, DJU 31/10/08. Decisão: O Tribunal, por maioria, nos termos do voto do Relator, conheceu do mandado de injunção e propôs a solução para a omissão legislativa com a aplicação da Lei n. 7.783, de 28 de junho de 1989, no que couber, vencidos, parcialmente, os Senhores Ministros Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa e Marco Aurélio, que limitavam a decisão à categoria representada pelo sindicato e estabeleciam condições específicas para o exercício das paralisações. Votou a Presidente, Ministra Ellen Gracie. Não votou o Senhor Ministro Menezes Direito por suceder ao Senhor Ministro Sepúlveda Pertence, que proferiu voto anteriormente. Ausente, justificadamente, a Senhora Ministra Cármen Lúcia, com voto proferido em assentada anterior. [211] . STF, Tribunal Pleno, MI 670/ES, rel. Min. Maurício Corrêa, j. 25/10/07, DJ 31/10/08. Decisão: O Tribunal, por maioria, conheceu do mandado de injunção e propôs a solução para a omissão legislativa com a aplicação da Lei n. 7.783, de 28 de junho de 1989, no que couber, vencidos, em parte, o Senhor Ministro Maurício Corrêa (Relator), que conhecia apenas para certificar a mora do Congresso Nacional, e os Senhores Ministros Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa e Marco Aurélio, que limitavam a decisão à categoria representada pelo sindicato e estabeleciam condições específicas para o exercício das paralisações. [212] . STF, Tribunal Pleno, MI 758/DF, rel. Marco Aurélio, j. 01/07/08, DJ 26/09/08. Decisão: O Tribunal, por unanimidade e nos termos do voto do relator, deferiu o mandado de injunção. [213] . STF, Tribunal Pleno, MI 708/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, j. 25/10/07, DJ 31/10/08. Decisão: O Tribunal, por maioria, nos termos do voto do Relator, conheceu do mandado de injunção e propôs a solução para a omissão legislativa com a aplicação da Lei n. 7.783, de 28 de junho de 1989, no que couber, vencidos, parcialmente, os Senhores Ministros Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa e Marco Aurélio ,que limitavam a decisão à categoria representada pelo sindicato e estabeleciam condições específicas para o exercício das paralisações. [214] . STF, Tribunal Pleno, MI 795/DF, rel. Cármen Lúcia, j. 15/04/09, DJ 08/05/09. Decisão: O Tribunal, por unanimidade, concedeu a ordem, nos termos do voto da Relatora. [215] . A questão de ordem foi suscitada no âmbito do MI 795/DF, tendo sido criticada pelo Ministro Marco Aurélio, que se pronunciou contrariamente à proposta do Ministro Joaquim Barbosa. [216] . STF, Tribunal Pleno, Min. Gilmar Mendes, MI 943/DF, j. 06/02/2013, DJ 30/04/2013. Decisão: Julgado procedente o mandado de injunção na assentada anterior, o Tribunal, por unanimidade e nos termos do voto do Relator, determinou a aplicação dos parâmetros da Lei n. 12.506/2011 no caso concreto. O Tribunal autorizou os ministros a decidirem monocraticamente casos idênticos. O Ministro Marco Aurélio consignou que não deveria ser apregoado nenhum processo que não esteja previamente agendado no sítio do Tribunal na internet. [217] . Projeto de Maurilio Ferreira Lima - PMDB/PE, apresentado em 10/10/88, com objetivo de regular o rito processual do Mandado de Injunção, que foi apensado ao PL 6.002/90 em 21/12/90. [218] . Apresentado por Samir Achoa – PMDB/SP em 08/03/89, tendo por objeto determinar a aplicação da Lei n. 1.533, de 31 de dezembro de 1951 (antiga lei do mandado de segurança), ao mandado de injunção, projeto que também foi apensado ao PL 6.002/90 em 21/12/90. [219] . Apresentado por Cunha Bueno – PDS/SP, em 07/03/90, com o objetivo de regulamentar o mandado de injunção, que foi apensado ao PL 998/88. [220] . De autoria de José Roberto Batochio - PDT/SP, apresentado em 31/05/00, foi apensado ao PL 6.002/90. [221] . Apresentado por Maninha – PSOL/DF em 20/03/06, apensado ao PL 6.002/90. [222] . Apresentado por Flávio Dino - PCdoB/MA em 30/09/2009, apensado ao PL 6.002/90. [223] . MI 498/DF, rel. min. Marco Aurélio, j. 06.02.1997, DJU 04.04.1997. [224] . Sobre o tema, v. Flávia Piovesan, Proteção judicial contra omissões legislativas: ação direta de inconstitucionalidade por omissão e mandado de injunção, p. 137 e Maria Cecília Cury Chaddad, O Mandado de Injunção como Instrumento de Controle da Omissão Parcial: a busca pela maior efetividade das normas constitucionais, p. 151/157. OS EFEITOS DO MANDADO DE INJUNÇÃO COLETIVO The effects of collective “mandado de injunção” Georges Abboud[225] Resumo: O artigo versa sobre os efeitos do mandado de injunção coletivo mediante análise de julgados do Supremo Tribunal Federal no intuito de estabelecer quais os limites para o mandado de injunção coletivo a fim de evitar práticas ativistas. Palavras-chaves: Ativismo judicial; mandado de injunção coletivo; omissão legislativa. Abstract: This paper aims to analyze the effects of collective “mandado de injunção” from the perspective of the rulings by the Federal Supreme Court in order to establish its role in avoiding activist practices. Keywords: Judicial activism – collective “mandado de injunção”– legislative omission Sumário. 1. Introdução. 2. Entre não concretistas e concretistas. 3. Aspectos relevantes da Lei do Mandado de Injunção. 4. Dos efeitos da decisão prolatada em mandado de injunção: notas para evitar o ativismo. Bibliografia. 1. INTRODUÇÃO Em uma democracia constitucional, a Constituição é a ordem jurídica fundamental do Estado e da sociedade. É a Constituição que organiza o espaço público e o privado, posto que rege, soberana, os três Poderes estatais e os cidadãos. Todo o texto constitucional vincula, justamente porque dotado de força normativa. Essa é a razão pela qual defendemos não fazer mais sentido uma vetusta a classificação das “normas” constitucionais segundo sua aplicabilidade e eficácia. Acatar a categorização das disposições constitucionaisconforme o grau de sua eficácia (se de eficácia plena, contida, limitada, etc...) é caminhar em direção à noção perigosa de que a Constituição obriga apenas em parte.[226] Os direitos previstos pelo Constituinte obrigam e podem ser reclamados judicialmente, ainda que ausente a regulamentação legislativa correspondente. Para essas situações é que se reserva o intitulado mandado de injunção (CF, 5º, LXXI). Entretanto, algumas observações devem ser feitas quanto aos seus efeitos para que a) seja garantida a proteção aos direitos constitucionalmente previstos, independentemente da interpositio legislatoris e b) não sejam chanceladas práticas ativistas, sobretudo no julgamento dos MI coletivos. 2. ENTRE NÃO CONCRETISTAS E CONCRETISTAS O mandado de injunção é uma garantia constitucional, isto é, um instrumento assecuratório dos direitos constitucionalmente consagrados[227]. Cuida-se, mais especificamente, de um remédio constitucional cuja finalidade é assegurar o exercício de direitos e liberdades constitucionais não regulamentados ou de prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania também não regulamentadas. Não existe, no direito comparado, ação que seja similar, muito embora parte da doutrina lhe atribua, como fundamento histórico, a injunction inglesa ou o writ of injunction norte-americano.[228] No que concerne aos seus efeitos, duas correntes se digladiam: os concretistas e os não concretistas.[229] A posição não concretista, consagrada no MI 107 de relatoria do Min. Moreira Alves, é a que predominou por maior período no STF. No caso em apreço, fora impetrado mandado de injunção por Oficial do Exército contra o Presidente da República, quem – conforme à época se alegava – não teria, em tempo, encaminhado ao Congresso projeto de lei que disciplinasse a duração dos serviços temporários, conforme determinação do art. 42, §9º, da CF. Ao analisar a questão, o STF afastou a possibilidade de expedição de norma geral ou concreta para suprir eventual omissão, porquanto considerou que existiam óbices constitucionais à solução dessa estirpe (a Separação de Poderes e o princípio da democracia) e que nenhum dispositivo autorizava o Judiciário a proceder com edição normativa autônoma, em substituição ao próprio Legislativo Conforme os não concretistas, ao Judiciário, ante a procedência do mandado de injunção, caberia apenas comunicar ao Legislativo acerca da omissão flagrada. Cuida-se de corrente que retirou qualquer eficácia concreta do mandado de injunção, equiparando sua decisão à da ação declaratória de inconstitucionalidade por omissão e rebaixando-o a uma mera notificação. A corrente concretista, por outro lado, autoriza ao Judiciário que, reconhecida a conduta omissiva, edite norma ou, por analogia, empreste regulação aplicável a um caso similar, com o escopo de garantir, no caso concreto, o necessário para viabilizar o exercício do direito de que seja titular o impetrante. Os concretistas se dividem em concretistas diretos e concretistas intermediários. Para os primeiros, o Judiciário não precisaria dar prazo para que o Legislativo elaborasse a norma regulamentadora, ao tempo que, para os segundos, necessária é a concessão do lapso temporal, de modo que, apenas se não suprida a omissão, o juiz estaria autorizado a estabelecer as normas supletivas necessárias. A corrente concretista se diferencia, ainda, entre concretista individual e concretista geral, conforme se entenda que a decisão prolatada surte efeitos inter partes ou erga omnes respectivamente. Com o passar do tempo, a Corte, que, a princípio perfilhava a teoria não concretista, paulatinamente, reviu seu posicionamento. No MI 283-5, de relatoria do Min. Sepúlveda Pertence, o Judiciário, além de constatar a mora legislativa, assinalou prazo para que fosse colmatada a lacuna, sob pena de assegurar ao prejudicado pela omissão a reparação por perdas e danos. Posteriormente, no julgamento do MI 232-1, de relatoria do Min. Moreira Alves, fora concedido mandado de injunção para determinar que, caso não editada a lei referida no art. 195, §7º da CF no prazo de seis meses, o impetrante poderia gozar da imunidade tributária requerida. Por sua vez, quando da análise do MI 758, de relatoria do Min. Marco Aurélio, o STF determinou, por unanimidade, a aplicação analógica do art. 57, §1º, da Lei 8.213/91 para regular o quanto disposto no art. 40, §4º da CF, concedendo-se aposentaria especial aos que exerciam atividade insalubre. A ementa é digna de colação: Mandado de injunção – Natureza. Conforme disposto no inciso LXXI do artigo 5º da Constituição Federal, conceder-se-á mandado de injunção quando necessário ao exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidades, à soberania e à cidadania. Há ação mandamental e não simplesmente declaratória de omissão. A carga de declaração não é objeto da impetração, mas premissa da ordem a ser formalizada. Mandado de injunção – Decisão – Balizas. Tratando-se de processo subjetivo, a decisão possui eficácia considerada a relação jurídica nele relevada. Aposentadoria – Trabalho em condições especiais – Prejuízo à saúde do trabalhador – Inexistência de lei complementar – Artigo 40 §4º, da Constituição Federal. Inexistente a disciplina específica da aposentadoria especial do servidor, impõe-se a adoção, via pronunciamento judicial, daquela própria aos trabalhadores em geral – art. 57, §1º, da Lei 8.213/91. (Nossos grifos). Finalmente, ainda antes da edição da Lei do Mandado de Injunção, ao decidir o MI 712, de relatoria do Min. Eros Grau, o STF aderiu à intitulada corrente concretista geral, conferindo efeitos erga omnes à decisão, determinando que fosse viabilizado a todos os servidores públicos o exercício do direito de greve, mediante empréstimo da lei que regulamenta a greve dos trabalhadores celetistas. Conforme ensinamento de Canotilho, o mandado de injunção configura-se como um direito constitucional autônomo e não como simples garantia processual.[230] Dessa forma, a norma que o consagra usufrui de plena vinculatividade e normatividade, características inerentes a todos os direitos fundamentais e sociais. Esse ponto é fundamental para justificar as razões pelas quais não classificamos as normas constitucionais como costumeiramente se faz nos manuais de direito constitucional, e.g., programáticas, eficácia plena, contida etc. Os direitos fundamentais-sociais vinculam o poder público em uma dimensão positiva. Ou seja, para a concretização desses direitos, não basta uma atuação negativa do Estado. Faz-se necessário que a tomada de medidas concretas e, dentre essas, a edição de leis que regulamentem a forma como esses direitos fundamentais-sociais serão resguardados. Assim, fica evidente a necessidade de conferirmos efeitos concretos ao mandamus em razão de ausência legislativa. Do contrário, uma gama de direitos constitucionalmente assegurados ficaria desassistida. Essa tutela jurídica é embasada na garantia de proteção jurídica inerente ao Estado Democrático de Direito, ou seja, é reflexo deôntico do próprio Estado Democrático. Necessário rememorar que o mandado de injunção foi, justamente, criado para assegurar a concretização das disposições constitucionais concessivas de direito sociais, sobretudo aquelas que impunham ao Poder Público obrigações no que se refere à educação: Como bem revela o estudo sobre a origem do mandado de injunção, o instituto foi criado com vistas a sanar o problema da ineficácia das disposições constitucionais que concediam direitos sociais, em particular daquelas definidoras das obrigações estatais no plano da educação pública.[231] Aderindo-se à corrente não concretista, o objetivo supra estaria inegavelmente comprometido, posto que a efetivação dos direitos sociais dependeria da boa vontade do Legislativo acatar à recomendação do Judiciário para a edição de norma regulamentadora. Outrossim, em função do que dispõe a CF 5.º § 2.º, podemos asseverar que a concretização dos direitose liberdades no que diz respeito à sua aplicabilidade torna-se verdadeiro direito fundamental, independentemente da necessidade de uma interpositio legislatoris. Essa vinculatividade direta dos direitos, liberdades e garantias representa a negação do ‘princípio programático’ na interpretação e concretização desses direitos no seu conjunto.[232] No Estado Constitucional, os direitos fundamentais passam a ser compreendidos e inteligidos como elementos definidores e legitimadores de toda a ordem jurídica positiva.[233] Por essa razão, cremos ser necessária a atribuição de efeitos concretos ao mandado de injunção. Veja-se que negar provimentos jurisdicionais concretos, na ausência de uma interpositio legislatoris, consistiria em repudiar o próprio Estado Democrático de Direito, pois aniquilar-se-ia um de seus elementos fundantes, qual seja: o reconhecimento de um status activus processualis que “permita a todos os cidadãos a tutela jurisdicional efetiva desses direitos sem que caiba atribuir a nenhum dos direitos constitucionais implicados um significado puramente declarativo ou programático”.[234] No mesmo sentido, Flora Augusta Varela Aranha, após escorço histórico sobre a criação do mandado de injunção quando da constituinte de 1987-1988, assim concluiu: Portanto, diante daquilo que o constituinte originário almejou para o mandado de injunção, mormente à luz do escorço histórico do instituto, percebe-se claramente que as discussões enfrentadas em torno dessa ação, até o advento da Lei 13.300/2016, estiveram ligadas a fundamentos doutrinário e jurisprudenciais pautados ideologicamente numa direção contrária à proposta de um Estado Democrático de Direito nos moldes traçados pela Constituição de 1988, que traz, em seu rol de direitos e garantias fundamentais, a tutela processual assecuratória da máxima efetividade de suas normas, expressas em seu texto. [235] De outra parte, a certo modo, a defesa da teoria não concretista conduz à equiparação do mandado de injunção à própria Ação Declaratória de Inconstitucionalidade por Omissão. Conosco, José Afonso da Silva se manifestou: Não é função do mandado de injunção pedir expedição da norma regulamentadora, pois ele não é sucedâneo da ação de inconstitucionalidade por omissão (art. 103, §2º). É equivocada, portanto, data venia, a tese daqueles que acham que o julgamento do mandado de injunção visa à expedição da norma regulamentadora do dispositivo constitucional dependente de regulamentação, dando a esse remédio o mesmo objeto da ação de inconstitucionalidade por omissão. Isso quer apenas dizer que o mandado de injunção não passaria de ação de inconstitucionalidade por omissão subsidiária – a dizer: como os titulares dessa ação (art. 103) se omitiram no seu exercício, então fica deferido a qualquer interessado o direito de utilizar o procedimento injuncional para obter aquilo que primeiramente ocorria àqueles titulares buscar. 3. ASPECTOS RELEVANTES DA LEI DO MANDADO DE INJUNÇÃO Ciente da relevância do instituto, o Poder Legislativo, tardiamente, editou a Lei 13.300 de 2016, que disciplina o processo e o julgamento dos mandados de injunção individuais e coletivos. Conforme disposto no art. 2º da referida lei, será concedida a injunção sempre que a falta total ou parcial de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania.[236] É legitimada para ajuizamento do mandado de injunção, nos termos do art. 3º da Lei do Mandado de Injunção, toda pessoa física ou jurídica que tenha a implementação de seu direito obstaculizada por mora/omissão legislativa.[237] Para o mandado de injunção coletivo, são legitimados o Ministério Público, quando a tutela requerida for especialmente relevante para a defesa da ordem jurídica, do regime democrático ou dos interesses sociais ou individuais indisponíveis; partidos políticos com representação no Congresso Nacional, para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas de seus integrantes ou relacionados com a finalidade partidária; organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos 1 (um) ano, para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas em favor da totalidade ou de parte de seus membros ou associados, na forma de seus estatutos e desde que pertinentes a suas finalidades, dispensada, para tanto, autorização especial (art. 12). A legitimidade passiva se consolidou para figurar no polo passivo o ente responsável pela edição da norma a ser regulamentada.[238] Outrossim, conforme art. 4º da Lei, a petição inicial deverá indicar, também, a pessoa jurídica que o órgão impetrado integra ou aquela a que está vinculado. Para cabimento do mandado de injunção, faz-se necessária a caracterização de omissão legislativa que obstaculize a tutela de direito fundamental, bem como preceito constitucional que imponha dever de legislar ao Poder Público.[239] Se houver lacuna legislativa, mas inexistir dever constitucional de legislar, o MI não será provido.[240] 4. DOS EFEITOS DA DECISÃO PROLATADA EM MANDADO DE INJUNÇÃO: NOTAS PARA EVITAR O ATIVISMO O art. 8º, II da Lei, em consonância com a jurisprudência à qual nos alinhamos, determinada que, uma vez reconhecido o estado de mora legislativa, caberá ao Judiciário “estabelecer as condições em que se dará o exercício dos direitos, das liberdades ou das prerrogativas reclamados ou, se for o caso, as condições em que poderá promover ação própria visando a exercê-los, caso não seja suprida a mora legislativa no prazo determinado”. Disso se extrai que a lei adotou, como regra, a posição concretista intermediária, porque autoriza ao Judiciário editar o comendo normativo, desde que, anteriormente, conceda prazo para que a autoridade impetrada supra a omissão. Quanto ao alcance subjetivo da decisão, a Lei estipulou, no artigo 9º, que surtirá efeitos inter partes e perdurará até o advento da norma regulamentadora própria. Contudo, o próprio legislador estipulou algumas possibilidades de ampliação da abrangência dos efeitos: § 1º Poderá ser conferida eficácia ultra partes ou erga omnes à decisão, quando isso for inerente ou indispensável ao exercício do direito, da liberdade ou da prerrogativa objeto da impetração. § 2º Transitada em julgado a decisão, seus efeitos poderão ser estendidos aos casos análogos por decisão monocrática do relator. Parece-nos que, por falta de técnica, o legislador acabou equiparando, no §1º do art. 9º, a eficácia erga omnes com a eficácia ultra partes. É necessário, porém, rememorar que a eficácia ultra partes não se confunde com a erga omnes. Esta questão é relevante, tendo em vista que, se a decisão do mandado de injunção se revestir de eficácia erga omnes, poderá ser equiparada à atividade legiferante, o que não se admite. Dito de outro modo, o STF não legisla a questão no julgamento do MI, mas tão somente resolve a lide para a coletividade que o impetrou. Muito embora o mandado de injunção também possa ser ajuizado na modalidade coletiva, tal qual ocorreu no MI 712, seus efeitos não podem equiparar-se pura e simplesmente ao da legislação. Com efeito, quando dá provimento ao mandado de injunção, o juiz declara a situação de inconstitucionalidade em razão de omissão legislativa e profere o modus faciendi para efetivar determinado direito. De acordo com a melhor doutrina, o mandado de injunção presta-se a fazer com que, na prática, o direito possa ser exercido pelo particular. O STF, mediante o mandado de injunção, determina o modus faciendi para que o impetrante não fique privado de seu direito constitucionalmente garantido, tendo em vista a lacuna legislativa.[241] Declara-se a normatividade necessária para que seja exercido o direito fundamental e, com isso, o Judiciário se aproxima sensivelmente à atuação legislativa. Contudo, esse poder deve ser limitado ao caso concreto, ainda que a lide seja coletiva. A lei nãopode ser lida de forma a se entender que o Judiciário está autorizado a exercer atividade legiferante por meio do julgamento do mandado de injunção coletivo. Trata-se de visão que quebraria nossa engenharia constitucional. Há dois pontos fundamentais para nossa conclusão: a) haveria total afronta da separação de poderes sem autorização constitucional para tanto e b) mesmo ao editar a norma regulamentadora no julgamento do MI, o Judiciário não age como Legislador porque obrigatoriamente deve fundamentar sua conclusão. Diferentemente, do Legislativo, o Judiciário não tem campo de manobra discricionária na elaboração da regulamentação normativa omissa. Sabemos que nosso sistema constitucional possibilita que o Judiciário prolate decisões aditivas. Decisões aditivas em sentido estrito são aquelas que não apenas julgam inconstitucional parte do texto normativo, como “também reparam imediatamente o silêncio do legislador gerador desse quadro de invalidade ou a lacuna criada pela própria componente ablativa da sentença, através da identificação de uma norma aplicável”.[242] É necessário o emprego de decisões dessa estirpe sobretudo para a tutela de direitos fundamentais, para cuja a concreção a CF sói impor uma atuação positiva ao legislador, de modo que a liberdade ou a discricionariedade legislativa cede frente às obrigações de facere conexas a esses direitos.[243] Quando profere decisão aditiva, o Judiciário supre o déficit legislativo no que se refere aos direitos fundamentais. Entretanto, a decisão que dá provimento ao mandado de injunção não se enquadra como aditiva. Veja-se que decisões aditivas alteram texto existente, ao tempo que o mandado de injunção tem lugar quando ausente regulamentação legislativa. É por isso que preferimos classifica-la como decisão de inconstitucionalidade com pronúncia de normatividade. A criação de uma categoria autônoma é necessária, em vista do ineditismo que a ação de mandado de injunção possui no cenário constitucional mundial. Por fim, cumpre salientar que mandado de injunção não pode ser confundido com a ação direta de inconstitucionalidade por omissão. Essa funciona como uma espécie de controle político do Judiciário sobre a função legislativa em sentido lato, e tem a finalidade de obter-se do Poder Judiciário a declaração de que há omissão inconstitucional, para que seja cientificado o órgão ou poder omisso, a fim de que tome as providências necessárias para sanar a mora legislativa. A eficácia da decisão judicial se limita à “recomendação”, ao sujeito passivo, para que edite a norma infraconstitucional reclamada. No MI, por sua vez, o STF, além de constatar a omissão legislativa, ele pronuncia a normatividade – regra regulamentadora – para o caso concreto, não em abstrato. Isto é importante rememorar: a decisão do MI está limitada ao caso concreto, não possui (e nem poderia possuir) eficácia contra todos, do contrário se confundiria com atividade legislativa. No máximo, pode-se falar em eficácia ultra partes em caso de MI coletivo. Na esteira do que defendemos, os Mins. Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa e Marco Aurélio, nos MI 712/PA e 708/DF, entenderam que o correto era limitar a decisão à categoria representada pelos respectivos sindicatos, os quais estabeleciam condições específicas pra o exercício das paralisações. Também foi decidido não conceder efeitos erga omnes a essa decisão. O Min. Ricardo Lewandowski, no MI 708/DF, dissentiu em relação aos efeitos da decisão do mandado de injunção coletivo, afirmando: “entendo que o mandado de injunção regula caso concreto e não se pode, digamos assim, estabelecer uma regra, ou tomar uma regra geral abstrata e, enfim, até legislar”.[244] O mandado de injunção, inclusive o coletivo, tutela primordialmente direitos subjetivos; mesmo quando, impetrado na modalidade coletiva, o interesse tutelado refere-se à defesa de determinada classe, seu objetivo, ao contrário da ADIn, não consiste em proteger interesse difuso, consequentemente, não se deve atribuir efeito erga omnes a essas decisões. Destarte, em sendo ação coletiva, a decisão proveniente do mandado de injunção é regulamentada pelo art. 103, do CDC, que imprime efeitos erga omnes para as ações coletivas que veiculem pretensão difusa e efeitos ultra partes para as ações que tenham a pretensão coletiva. O mandado de injunção primordialmente tutela interesses subjetivos dos particulares, logo, entendemos que o sujeito passivo não deve ser integrado apenas pela pessoa física ou jurídica que deve suportar os efeitos da sentença, o órgão omisso, o Congresso Nacional, por exemplo, “o órgão que deve efetivar a regulamentação, que deve emitir a norma regulamentada, deve participar na condição de litisconsorte necessário”. [245] Em relação ao Legislativo, opera-se o aspecto declaratório da decisão que reconhece a omissão legislativa e recomenda ao Legislativo que realize as providências necessárias para sanar essa omissão legislativa. O efeito mandamental, ou seja, a ordem expedida pela decisão que acolhe o mandado de injunção atinge a entidade em face do qual o impetrante quer exercer o direito, a liberdade ou a prerrogativa. Contra esse é que deve ser emitida uma ordem.[246] Caso se entendesse que o interesse primeiramente tutelado no mandado de injunção consistia na tutela do interesse difuso em razão da omissão legislativa, transformar-se-ia o mandado de injunção em instrumento apto a permitir que o STF legislasse sempre que houvesse omissão do Legislativo, o que desvirtuaria sua natureza de garantia fundamental apta a garantir a eficácia dos direitos fundamentais sociais quando não houvesse uma interpositio legislatoris. O mandado de injunção, mesmo o coletivo, integra o processo subjetivo de controle de constitucionalidade. O STF, para concessão da decisão de acolhimento, deve examinar as particularidades de cada caso concreto até para, no afã de corrigir a omissão legislativa, não usurpar a função do Congresso. Assim, a decisão do mandado de injunção coletivo deve ficar limitada à categoria representada pelos respectivos sindicatos, que estabeleciam condições específicas pra o exercício das paralisações: seu efeito deve ser ultra partes e não erga omnes. Do contrário, ter-se-ia que admitir que se o STF concedesse decisão aditiva em um MI impetrado pelo sindicato dos professores da rede pública do Estado de São Paulo, para estes poderem exercer seu direito de greve. Essa decisão aditiva, por ter efeitos erga omnes, estabeleceria os parâmetros para que os médicos da rede pública do Estado de São Paulo também exercessem seu direito de greve. No exemplo acima descrito, fica claro como a decisão proveniente do mandado de injunção equipara-se a uma lei e em razão das limitações que o dispositivo da sentença possui para regulamentar as matérias complexas, essa decisão, além de usurpar a função do Legislativo, pode ocasionar graves riscos. Assim, o correto é realmente limitar os efeitos da decisão aditiva proveniente do MI à entidade associativa que o solicitou, aplicando- se sobre o dispositivo da sentença o art. 103, II, do CDC. Desse modo, no exemplo acima dado, se o sindicato de médicos do Estado de São Paulo quisesse exercer seu direito de greve, deveria ingressar com mandado de injunção coletivo perante o STF, a fim de ver resguardado seu direito. Esse é o posicionamento mais correto em relação ao mandado de injunção coletivo, para não se permitir que a função do STF simplesmente equipare-se à função do Legislativo. O Supremo deve conceder decisão aditiva com efeito ultra partes diante de mandado de injunção coletivo. Essa restrição faz-se necessária até para evitar os riscos que uma única decisão poderia provocar. Afinal, é de fácil percepção que os parâmetros normativos que o STF estabelecesse para o exercício do direito de greve dos professores não poderiam simplesmente ser importados para o exercício do direito de greve dos médicos sem acarretar riscos para a sociedade. BIBLIOGRAFIA ABBOUD, Georges; Nelson Nery Jr. Direito constitucionalbrasileiro: curso completo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017. AFONSO DA SILVA, José. Comentário contextual à Constituição. 9ª ed. São Paulo: Malheiros, 2014. ARANHA, Flora Augusta Varela. O controle da omissão inconstitucional no direito brasileiro: considerações em torno da lei do mandado de injunção. In: Revista de Direito Constitucional e Internacional. Vol. 107/2018. BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Mandado de Injunção. RePro 56/115. BLANCO DE MORAIS, Carlos. Justiça constitucional. 2ª ed. Coimbra: Coimbra, 2005. CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Tomemos a sério o silêncio dos poderes públicos – o direito à emanação de normas jurídicas e a proteção judicial contra as omissões normativas. In: Sálvio de Figueiredo Teixeira (org.). As garantias do cidadão na justiça. São Paulo: Saraiva, 1993. HAAS, Adriane, Eduardo Cambi; Nicole Naiara Schmitz. Mandado de injunção: considerações sobre a lei 13.300/2016. In: Revista de Processo, vol. 273/2017. MENDES, Gilmar Ferreira; Paulo Gustavo Gonet Branco. Curso de Direito Constitucional. 11ª ed. São Paulo: Saraiva, 2016. MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional. 4ª ed. Coimbra: Coimbra, 1990. NERY JUNIOR, Nelson e Rosa Maria de Andrade Nery. Constituição Federal comentada e legislação constitucional. 5. ed. São Paulo: Ed. RT, 2014. QUEIROZ, Cristina. Direitos fundamentais sociais: questões interpretativas e limites de justiciabilidade, In: Virgilio Afonso da Silva (org.). Interpretação constitucional, São Paulo: Malheiros, 2005. VELLOSO, Carlos Mário. A nova feição do mandado de injunção. Revista de Direito Público, n. 100, 1991. [225] . Georges Abboud – mestre e doutor em direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP. Professor de processo civil da PUC-SP Advogado e Consultor Jurídico. Email: georges.abboud@neryadvogados.com.br [226] . Já nos pronunciamos a respeito do tema: Georges Abboud; Nelson Nery Jr. Direito constitucional brasileiro: curso completo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017, p. 134. [227] . Jorge Miranda. Manual de direito constitucional. 4ª ed. Coimbra: Coimbra, 1990, p. 88-89. [228] . Nesse sentido: “E foi exatamente assim, como essencial remédio da equity, que o instituto se originou na Inglaterra, no longínquo século XIV. Nasceu, pois, do juízo de equidade – ou seja, é um remédio outorgado, mediante um juízo discricionário, quando falta norma legal (statutes) regulando a espécie e quando a common law não oferece proteção suficiente. A equidade, no sentido inglês do termo (sistema de estimativa social para a formulação da regra jurídica para o caso concreto), assenta-se na valoração judicial dos elementos do caso e dos princípios de justiça material, segundo a pauta de valores sociais; e assim se emite decisão fundada não no justo legal, mas no justo natural. Na injunction inglesa como no mandado de injunção do art. 5º, LXXI, o juízo de equidade não é inteiramente desligado de pautas jurídicas. Não tem o juiz inglês da equity o arbítrio de criar norma e agir ex nihil, pois se orienta por pauta de valores jurídicos existentes na sociedade (princípios gerais de Direito, costumes, conventions, etc.). E o juiz brasileiro também não terá o arbítrio de criar regras próprias, pois terá em primeiro lugar que se ater à pauta que lhe dão o ordenamento constitucional, os princípios gerais de Direito, os valores jurídicos que permeiam o sentir social – enfim, os vetores do justo natural que se aufere no viver social, na índole do povo, no envolver histórico. Aí é que seu critério estimativo fundamenta sua decisão na falta de regulamentação do direito, liberdade ou prerrogativa objeto da proteção do mandado de injunção. Mas a fonte mais próxima deste é o writ of injunction do Direito Norte-Americano, onde cada vez mais tem aplicação na proteção dos direitos da pessoa humana, para impedir, por exemplo, violações da liberdade de associação e de palavra, da liberdade religiosa e contra denegação de igual oportunidade de educação por razões puramente raciais, tendo-se estabelecido mediante julgamento favorável de uma injunction (caso “Brown vs. Board of Education of Topeka”, 1954) o direito de estudantes negros à educação em escolas não segregadas”. José Afonso da Silva. Comentário contextual à Constituição. 9ª ed. São Paulo: Malheiros, 2014, p. 167-168. Cf. também: Adriane Haas, Eduardo Cambi; Nicole Naiara Schmitz. Mandado de injunção: considerações sobre a lei 13.300/2016. In: Revista de Processo, vol. 273/2017, p. 4. [229] . Sobre o tema, ver: Adriane Haas, Eduardo Cambi; Nicole Naiara Schmitz. Mandado de injunção: considerações sobre a lei 13.300/2016. In: Revista de Processo, vol. 273/2017, p. 12-13. [230] . José Joaquim Gomes Canotilho. Tomemos a sério o silêncio dos poderes públicos – o direito à emanação de normas jurídicas e a proteção judicial contra as omissões normativas. In: Sálvio de Figueiredo Teixeira (org.). As garantias do cidadão na justiça. São Paulo: Saraiva, 1993, p. 364. [231] . Gilmar Ferreira Mendes; Paulo Gustavo Gonet Branco. Curso de Direito Constitucional. 11ª ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 1257. [232] . Cristina Queiroz. Direitos fundamentais sociais: questões interpretativas e limites de justiciabilidade, In: Virgilio Afonso da Silva (org.). Interpretação constitucional, São Paulo: Malheiros, 2005, p. 196. [233] . Ibid., p. 169. [234] . Cristina Queiroz. Direitos fundamentais sociais: questões interpretativas e limites de justiciabilidade, In: Virgilio Afonso da Silva (org.). Interpretação constitucional, São Paulo: Malheiros, 2005, p. p. 212. [235] . Flora Augusta Varela Aranha. O controle da omissão inconstitucional no direito brasileiro: considerações em torno da lei do mandado de injunção. In: Revista de Direito Constitucional e Internacional. Vol. 107/2018, p. 11. [236] . (...) não há norma constitucional que imponha ao legislador o dever de regulamentar os direitos do nascituro. Como se infere do art. 5º, LXXI, da CRFB/88, o mandado de injunção tem lugar quando a falta de norma regulamentadora impedir o exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Nesse passo, inexistente a previsão do direito na Constituição Federal, tampouco do dever de regulamentação, não há que se falar em omissão legislativa que possa ser imputada às autoridades impetradas. (MI 6.591 AgR, rel. min. Luiz Fux, j. 16-6-2016, P, DJE de 30-6-2016.) [237] . Mandado de injunção – Legitimidade ativa da requerente para impetrar mandado de injunção por falta de regulamentação do disposto no § 7.º do art. 195 da CF. – Ocorrência, no caso, em face do disposto no art. 59 do ADCT, de mora, por parte do Congresso, na regulamentação daquele preceito constitucional. Mandado de injunção conhecido, em parte, e, nessa parte, deferido para declarar-se o estado de mora em que se encontra o Congresso Nacional, a fim de que, no prazo de seis meses, adote ele as providencias legislativas que se impõem para o cumprimento da obrigação de legislar decorrente do art. 195, § 7.º, da CF, sob pena de, vencido esse prazo sem que essa obrigação se cumpra, passar o requerente a gozar da imunidade requerida. (g.n). (STF, MI 232 – RJ, Pleno, j. 02.08.1991, m.v. , rel. Min Moreira Alves, DJe 27.03.1992). [238] . Agravo regimental em mandado de injunção. Direito administrativo. Servidor público civil. Aposentadoria especial. Art. 40, § 4.º, da CF. Legitimidade passiva ad causam. Precedentes. Ordem injuncional fundada na inexistência de norma regulamentadora do art. 40, § 4.º, III, da Carta da República, a impedir o exercício de direito constitucionalmente assegurado, qual seja, a aposentadoria especial do servidor público que exerce atividades sob condições prejudiciais à saúde ou à integridade física. Firmou-se a jurisprudência da Corte no sentido de que é do responsável pela elaboração da norma reivindicada a legitimidade para figurar no polo passivo do mandado de injunção. Ao julgamento do MI 721-7/DF, o Plenário do STF fixou o entendimentode que, evidenciada a mora legislativa em disciplinar a aposentadoria especial do servidor público prevista no art. 40, § 4.º, da Lei Maior, se impõe a adoção supletiva, via pronunciamento judicial, da disciplina própria do Regime Geral da Previdência Social, a teor do art. 57 da Lei 8.213/1991. Precedentes. Agravo regimental conhecido e não provido. (g.n) (STF, MI 5304 – DF, Pleno, j. 10.4.2014, m.v. , rel. Min Rosa Weber, DJe 16.05.2014). [239] . Mandado de injunção. Legitimidade ativa do sindicato. Possibilidade jurídica do pedido. Interesse de agir. Revisão geral anual. Art. 37, x, da constituição da república. Omissão do chefe do poder executivo. Recurso provido em parte. 1. O mandado de injunção pressupõe preceito constitucional que imponha ao Poder Público o dever de legislar, bem como a falta de norma regulamentadora que torne inviável o exercício dos direitos, das liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania (art. 5.º, LXXXI, da CF), requisitos presentes no caso em tela. 2. A norma inserta no art. 37, X, da CF é assecuratória de direito subjetivo público, que implica em edição de lei específica, de iniciativa privativa do Chefe do Executivo, o que não ocorreu no Município de Nanuque. 3. O direito subjetivo, em que pese a força normativa da Constituição, não é absoluto, na medida em que necessário se faz a observância do princípio da reserva do possível, mormente porque a concretização desse direito implica em aumento de despesa com pessoal. Tal fato não significa que os órgãos incumbidos de implementar políticas públicas, para conferir maior densidade possível a norma constitucional assecuratória de direitos, possam simplesmente invocar o princípio da reserva do orçamento, por ignorar essa força normativa. 4. A omissão legislativa por inércia daquele que tem a iniciativa exclusiva de desencadear o processo legislativo e, via de consequência, impedir a satisfação de direito subjetivo, pode configurar a mora e autoriza a intervenção judicial, por meio do mandado de injunção, se no contexto ficar comprovado a possibilidade, seja porque a receita e as projeções permitiam, sem comprometimento de outras obrigações, seja porque, no período, fora concedido a servidores de determinadas carreiras, reajuste ou aumento de vencimento. 5. O enuncia do da Súmula 339 não se aplica aos casos de revisão, pois, quando de sua edição os precedentes se referiam a reajustes e aumentos e, como se sabe, esses não se confundem com revisão e não configuram direito subjetivo, além do que à época não havia na Constituição revogada norma assecuratória do direito à revisão, bem como sua periodicidade. (g.n) (TJMG, Ap. 10443100053331001, 8.ª Câm. Civ. , j. 25.04.2013, v. u., rel. Bitencourt Marcondes, DJ 06.05.2013). [240] . “Mandado de injunção. Inexistência de lacuna técnica. Inadmissibilidade do writ injuncional. Mandado de injunção não conhecido. – O direito à legislação só pode ser invocado pelo interessado, quando também existir – simultaneamente imposta pelo próprio texto constitucional – a previsão do dever estatal de emanar normas legais. Isso significa que o direito individual à atividade legislativa do Estado apenas se evidenciará naquelas estritas hipóteses em que o desempenho da função de legislar refletir, por efeito de exclusiva determinação constitucional, uma obrigação jurídica indeclinável imposta ao Poder Público. Para que possa atuar a norma pertinente ao instituto do mandado de injunção, revela-se essencial que se estabeleça a necessária correlação entre a imposição constitucional de legislar, de um lado, e o consequente reconhecimento do direito público subjetivo à legislação, de outro, de tal forma que, ausente a obrigação jurídico-constitucional de emanar provimentos legislativos, não se tornará possível imputar comportamento moroso ao Estado, nem pretender acesso legítimo à via injuncional. Precedentes.” (MI 668/DF, rel. Min. Celso de Mello, “in” Informativo/STF 308/2003). “A análise da postulação ora deduzida pelo autor deste “writ” injuncional permite reconhecer, considerada a presente disciplina normativa do sistema recursal, tal como instituída em nosso ordenamento positivo, que não cabe mandado de injunção, seja para efeito de estabelecer-se novo tipo de recurso, seja, ainda, para estender-se, a determinada situação processual, certa espécie recursal já prevista pela legislação”. (STF, MI 723 MC – DF, j. 06.06.2005, decisão monocrática, rel. Min Celso de Mello, DJe 22.6.2005) [241] . Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery. Constituição Federal comentada e legislação constitucional. 5. ed. São Paulo: Ed. RT, 2014 cit., coment. 123, art. 5.º, p. 255. [242] . Carlos Blanco de Morais. Justiça constitucional. 2ª ed. Coimbra: Coimbra, 2005. t. II, parte I, cap. 1, II.IV. 2.1.3, p. 380. [243] . Ibid., p. 411. [244] . Voto do Min. Ricardo Lewandowski no MI 708. [245] . Carlos Mário Velloso. A nova feição do mandado de injunção. Revista de Direito Público, n. 100, 1991, p. 172. No mesmo sentido, cf. Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery. Constituição Federal comentada e legislação constitucional. 5. ed. São Paulo: Ed. RT, 2014, cit., coment. 123 ao art. 5.º da CF/1988, p. 255. [246] . José Carlos Barbosa Moreira. Mandado de Injunção. RePro 56/115. REFLEXÕES SOBRE A ATUAÇÃO DO MAGISTRADO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA NO CONTROLE DE OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS PERCEBIDAS EM CASOS CONCRETOS DE GRAVE REPERCUSSÃO SOCIAL Reflections of the methodological approach used by brazilian`s judges (lower courts) to decide individual cases characterized by unconstitutional omssions of social rights in Brazil Hugo Leonardo Abas Frazão[247] Resumo: O artigo analisa como as omissões inconstitucionais devem ser enfrentadas no âmbito das ações ordinárias processadas por magistrados de primeira instância no Brasil. Para tanto, aborda o tema a partir do estudo da metodologia judicial aplicada no caso da ação de reintegração de posse do Programa Minha Casa Minha Vida “Cristo Vive”, que tramitou na Vara Federal de Tucuruí-PA, entre os anos de 2015 e 2018. O citado caso, de perfil processual aparentemente simples, revelou, em seu “pano de fundo”, graves omissões envolvendo a promoção do direito social à moradia popular, as quais geravam complexidade ao conflito, cabendo ao juiz competente a adoção de medidas de abertura do processo à sociedade, voltadas a suprir as omissões e estabelecer norma de decisão que fosse capaz de pacificar o conflito constitucional. O desenvolvimento do estudo se pautou em uma abordagem dedutiva, por meio de revisão bibliográfica, documental e analise de caso. Propõe demonstrar que o controle das omissões inconstitucionais é tema que pode surgir em qualquer caso concreto, cabendo aos magistrados brasileiros estarem preparados para a adoção de métodos jurídicos que não apenas julguem o caso, mas que contribuam para tutelar, efetivamente, a Constituição. Palavras-chave: Magistrados de primeira instância. Omissões inconstitucionais. Abertura do processo judicial. Abstract: The article examines how the unconstitutional omissions must be addressed by the Brazilian’s judges (lower courts) in the context of individual cases in Brazil. Studies the judicial methodology applied in the case of action to repossess one federal public property, used to implement social public policy named “Minha Casa, Minha Vida Cristo Vive”. The purpose of the public policy was build the affordable housing that should be intended for poor families of Brazil. The lawsuit was dismissed by the federal judge of Tucuruí City, between 2015 and 2018. The case presented serious unconstitutional omissions that undermined the promotion of the social right to housing popular. To solve the case, the judge applied the method of opening the judicial process to society, to suppress the unconstitutional omissions and pacify the conflict. The methodology used was the deductive method of approach, combined with bibliographical research. Demonstrates that the judicialreview of omissions unconstitutional is the subject that can arise in any court case, and the judges must be prepared to solve them, as a measure of protection of the Constitution. Keywords: Brazilian’s judges (lower courts). Unconstitutional omissions. Method of opening the judicial process to society. Sumário: Introdução. 1 A jurisdição constitucional do magistrado de primeira instância como exercício de “explicação do direito” ao caso concreto. 2 A Constituição brasileira como projeto de futuro e o enfrentamento em concreto das omissões inconstitucionais. 3 A atuação constitucional no “Caso Cristo Vive”: uma demanda judicial aparentemente simples, mas reveladora de omissão inconstitucional de grave repercussão social. 3.1 Identificação das omissões inconstitucionais no caso concreto. 3.2 Abertura do processo judicial para os elementos metajurídicos. 3.3 Obtenção da solução conciliada. 4 Conclusão. Referências. INTRODUÇÃO O modelo de controle ou de curadoria da Constituição do Brasil possui uma peculiaridade institucional ainda pouco explorada pelos estudos doutrinários do país: a de que os magistrados de primeira instância não são apenas “juízes do caso”, mas também “juízes da Constituição”. Isso se dá por influência do modelo de curadoria estadunidense, no qual todos os magistrados do Poder Judiciário estão incumbidos de fiscalizar o cumprimento da Lei Maior, além de autorizados a “deixar de aplicar uma lei ao caso concreto por considerá-la inconstitucional” (TAVARES, 2016, p. 2), respeitadas as regras processuais de competência. Decerto que a jurisdição constitucional do magistrado de primeira instância é bastante limitada, pois só produz efeitos nos limites das respectivas ações judiciais que lhes são propostas e não tem o condão de retirar ou suspender a norma constitucional do ordenamento jurídico (com efeitos gerais). Não obstante, é inegável que o simples ato de a exercer oferece um horizonte aberto de possibilidades a respeito da judicialização das questões constitucionais, haja vista que os inúmeros órgãos judiciais existentes passam a controlar, concorrentemente, o trabalho do “legislador”. Além dessa competência constitucional difusa, o Brasil outorga competência exclusiva (ou concentrada) ao seu Supremo Tribunal Federal – por influência do modelo de curadoria europeu – para assumir a “função típica de Corte Constitucional, podendo receber ações originárias para definir, abstratamente, a constitucionalidade ou não de uma lei, e decidir com efeitos gerais” (TAVARES, 2016, p. 2). Assim, o Estado brasileiro convive com um regime de cotutela ou “coguarda” da Constituição bastante complexo, que reúne “de forma híbrida, características marcantes dos clássicos modelos de controle abstrato e de controle concreto de constitucionalidade” (MENDES, 2008, p. 2). Tal organização contrasta com o que acontece, por exemplo, na Itália, que tem sua Corte Constitucional como única instituição competente para declarar inconstitucional lei ou ato equivalente, restando aos “juízes ordinários” a tarefa de mera remissão da questão constitucional à Corte (ricorso incidentale), sempre que houver alguma dúvida razoável (la non manifesta infondatezza) em relação à validade de uma lei (PASQUINO, 2016, p. 20). A quantidade de juízos constitucionais que há no Brasil não contribui, necessariamente, para a pacificação dos conflitos da vida, ante as chances reais de seus julgamentos causarem ainda mais divergência sobre o mesmo objeto relevante, acaso não adotem métodos institucionais que facilitem o diálogo entre as respectivas decisões. Todavia, o bom desempenho dos magistrados de primeiro grau no papel de “coguardiões” ou de auxiliares da Corte Constitucional contribui para a formação de precedentes que visem a aprimorar o sentido da norma constitucional (STRAUSS, 2010, p. 41) e a manter uma desejada relação de integridade e coerência entre si. Nesse contexto, o presente artigo busca destacar a importância dos citados guardiões auxiliares que, não raras vezes, resistem ao fato de que os principais estudos sobre Justiça Constitucional abordam apenas a organização, estrutura e atividade das Cortes Constitucionais[248], reservando pouca atenção àqueles que, paradoxalmente, são os primeiros a (tentar) proteger a Constituição na maioria dos conflitos judicializados. Em especial, reflete-se aqui como os magistrados enfrentam o debate das omissões inconstitucionais que se apresentam no bojo das ações de processo ordinário (cíveis, penais, trabalhistas etc.), quando a solução do pleito principal esbarra na falta de lei ou ato normativo que aborde, total ou parcialmente, determinado tema jurídico. Na hipótese da citada omissão caracterizar ilícito praticado por Poder Político, caberá ao membro do Poder Judiciário o dever de responsabilizar o respectivo ente público pela falta normativa, com o propósito de assegurar o “projeto de futuro” estabelecido pela Constituição dirigente brasileira (Cf. CANOTILHO, 2001, p. 455-459), sobretudo quanto à promoção de direitos socioeconômicos. Ressalta-se que, apesar da existência de ações apropriadas para a verificação das omissões inconstitucionais, como a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO), no tocante às omissões em abstrato, e o Mandado de Injunção (MI), para omissões em concreto, o presente artigo procurar destacar como essa mesma verificação pode ocorrer em ações judiciais comuns, discutindo deficiências na regulação de normas constitucionais para o específico fim de solucionar um caso concreto. Em vista disso, o artigo analisa um caso cível[249] que tramitou na Vara Federal de Tucuruí-PA, a Ação de Reintegração de Posse do Programa Minha Casa Minha Vida “Cristo Vive”, movida pela Caixa Econômica Federal em face dos ocupantes irregulares do terreno. Embora processualmente ordinário, o caso revelou graves omissões inconstitucionais envolvendo a promoção do direito social à moradia popular (art. 6º, CR), que obstaculizavam a pacificação do conflito. A dificuldade impôs ao magistrado aplicar método de atuação constitucional destinado a suprir a omissão no tocante ao caso concreto. Explica-se como a abertura do processo de interpretação da Constituição à sociedade, mediante a adoção de institutos como amicus curiae e audiência pública, foi fundamental para a definição da norma de decisão. Com efeito, o uso de tal metodologia favoreceu a apreensão dos fatos socioculturais em testilha, estimulando as partes a celebrarem acordo judicial que, além de suprir as omissões inconstitucionais, eliminou o conflito e gerou a retomada da política pública imobiliária. 1. A JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL DO MAGISTRADO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA COMO EXERCÍCIO DE “EXPLICAÇÃO DO DIREITO” AO CASO CONCRETO A atuação constitucional do magistrado de primeira instância percorre um caminho que não se encerra com o uso da linguagem técnico-jurídica, mas depende de uma inevitável “compreensão do homem comum”, que lhe ajude a desvendar as complexidades fáticas, bem como a acompanhar o crescimento do progresso social e científico (COPETTI NETO, 2015, p. 186). Nesse passo, o ato de sentenciar é, antes de tudo, um “instrumento de informação e comunicação” que, ao invés de se ligar diretamente a problemas de mera especulação abstrata, narra os “problemas oriundos das regulações sociais, das composições de conflitos, da proteção dos direitos”, com o propósito útil de assegurar a convivência pacífica da comunidade (COPETTI NETO, 2015, p. 186). Trata-se de dever do magistrado de primeira instância perseguir a norma de decisão mediante a “arte” de aproximar a Constituição das peculiaridades do conflito, construindo os fundamentos materiais que explicarão a aplicação do direito ao caso concreto, uma vez que naquela Carta “estão as respostas que oferecem ‘janelas de oportunidades’ para uma versão melhor do país” (BRITTO, 2018). Ainda que, na sentença de primeiro grau, o magistrado examine a questão constitucional contemporânea como mera questão incidental ou prejudicial ao objeto principalda demanda, o citado ato decisório não se reservará apenas ao interesse das partes formais do processo. Pelo contrário, ao exprimir atuação evidentemente constitucional, a sentença transforma-se em ato de intervenção na deliberação democrática cuja motivação expressa o entendimento do juiz no tocante à ponderação dos direitos fundamentais sob tensão, com o escopo direto e imediato de justificar a decisão prolatada (ROSSI, 2015, p. 139). Ou seja, os destinatários de tal sentença já não são somente autor e réu, ou seus advogados, e sim a comunidade constitucional, o que impõe, com maior rigor, a adequação da linguagem da sentença para pô-la, além do tecnicismo, conforme o contexto em que se desenvolvem os debates da esfera pública (MARTÍNEZ, 2015, p. 184). Com efeito, se no Estado Absoluto a sentença era um mero “ato de autoridade” do monarca e no Estado Liberal – especialmente no cenário pós-revolução francesa – um mero “ato de aplicação” da lei (enquanto expressão da vontade geral e principal fonte do direito); no Estado Constitucional a sentença torna-se um “ato de explicação” do direito, que se dedica a, democraticamente, transparecer as razões públicas pelas quais os juízes chegam à solução para um caso concreto (MARTÍNEZ, 2015, p. 184- 185), buscando alcançar “aceitabilidade social[250]“ (ROSSI, 2015, p. 139) ou “a convivência pacífica entre os iguais” (COPETTI NETO, 2015, p. 187). Tudo isso revela que o magistrado de primeira instância deve, antecipando-se aos tribunais, aliviar o atual descompasso de ilegitimidade entre a atuação judicial e necessidades sociais, adotando, inclusive, estudos e métodos de pesquisa ligados às diversas áreas do conhecimento humano (matemática, sociologia, biologia, medicina etc.) para que a instrução processual, efetivamente, absorva as complexidades fáticas do caso concreto e anteceda uma sentença judicial imbuída de reconciliar a sociedade sob conflito, sobretudo quando o Poder Político não se dedica a realizar esse papel. No tocante ao tema dos direitos sociais previstos na Constituição, por exemplo, a melhor atuação dos juízes corresponde à atividade de controle dos atos de planejamento e execução das respectivas políticas públicas, de responsabilidade do Legislativo e Executivo, avaliando se os poderes políticos cumprem com a missão de fazê-las de maneira apropriada. Tal atividade de controle, no entanto, não pode ser empregada eficazmente sem o auxílio de especialistas, de órgãos ou entidades com representatividade adequada e de segmentos da sociedade interessados em prestar colaboração ao juízo, pois o direito não é dotado de preconcepções suficientes para captar os elementos metajurídicos que tangenciam os casos difíceis (CARROZZA, 2015, p. 200). Por essa razão, cada vez mais os casos difíceis demandam a assimilação de multiperspectivas linguísticas que esclareçam a realidade constitucional. Em vista disso, o direito brasileiro tem acolhido instrumentos processuais destinados a cumprir tal função, como a perícia interdisciplinar (art. 156, CPC), o amicus curiae (art. 138, CPC) e a audiência pública (art. 138, II, CPC). Esses instrumentos autorizam que o magistrado obtenha o profundo convencimento sobre a qualidade da ação ou omissão praticada pelo Poder Público, em face de um determinado caso concreto. Ante a constatação do cumprimento, o ator judicial tenderá a exercer a autocontenção judicial, isto é, decidir pela não intervenção em deferência às ações e medidas já dispensadas pelo legislador ou administrador público. No entanto, se verificado o descumprimento, deve desempenhar função jurisdicional equilibrada, avaliando a maneira mais proporcional de compensar a injustiça praticada pelo outro poder, sob pena de, pelo excesso ou pela insuficiência de providência satisfatória, pôr em risco a visão de democracia contida na Constituição. O juiz constitucional deve operar como um “ouvinte-ativo” dos elementos fáticos para, em seguida, ponderá-los e justificá-los segundo os princípios jurídicos da Constituição. Dessa forma, estimula-se o “debate argumentativo entre as posições do conflito” e induz-se o reconhecimento da sociedade quanto ao conteúdo da sentença a ser prolatada (FRAZÃO, 2017, p. 124 e 125). Com essa postura de “humildade” para com o conhecimento desconhecido, poderá o magistrado fazer com que as partes evitem propor recursos e que sua sentença sirva de modelo para outros casos semelhantes. Isto é, a base para legitimar decisões judiciais de maneira a não haver interesse em uma reapreciação da demanda por instancia superior está na “confiança do atuar jurídico”, na aceitação do caminho percorrido como correto. Reforça-se que a explicação do direito ao caso concreto só será possível a partir da adoção de um método de investigação multidisciplinar que apreenda “temáticas fora do âmbito e da bibliografia específica do Direito” (CUNHA, 2011, p. 3) e prepare o magistrado, ainda, a valer-se desse conhecimento técnico adquirido adequadamente, dando-lhe a devida utilidade à resolução do problema judicial. 2. A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA COMO PROJETO DE FUTURO E O ENFRENTAMENTO EM CONCRETO DAS OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS No Brasil, a Justiça Constitucional tem se notabilizado pela defesa do projeto de futuro previsto na Constituição de 1988, qual seja, a dar cumprimento às normas constitucionais nela contidas, ainda que, eventualmente, sofram resistência dos Poderes Políticos. Não se trata de uma missão simples, pois o que está em jogo não é o conceito de democracia enquanto um mero comando formal ou de procedimento. Pelo contrário, avista-se com isso a democracia sob o aspecto material ou de conteúdo, fruto ou expressão dos princípios da Constituição; é um conceito dinâmico conforme a vida da sociedade, sua diversidade, evolução e progresso (cultural, científico e tecnológico) (DAL CANTO, 2016, p. 1). Com o advento da citada Constituição, nascida a partir do fim do regime de exceção militar a que o país foi submetido (1964-1985), o Poder Judiciário assumiu a tarefa de garante do novo regime constitucional, o qual contemplou uma carta de direitos fundamentais bastante progressista, que mais exprimia um modelo de “como o país almeja ser” do que “como, de fato, se apresentava”. O intuito era transformar o Brasil em um lugar com mais diretos efetivamente reconhecidos, inclusive os de cunho social. A propósito, o inconformismo com a condição periférica no tocante ao desenvolvimento socioeconômico da sociedade brasileira levou doutrinares, como Tavares, a reconhecer que a Constituição consistia em mais do que um mero instrumento normativo, atuando como principal veículo de modificação da realidade nacional e de redução das desigualdades entre os seus cidadãos (TAVARES, 2012, p. 2), mediante a previsão de um amplo programa de direitos sociais (vide art. 7º, CR). Decerto, a própria matriz de valores escolhida pelo constituinte para justificar o novo momento constitucional (entre eles a “dignidade humana”, o “pluralismo político” e a “não-discriminação por motivo de raça, sexo, cor, idade etc.”) esclarece como o conceito de justiça social deveria ser encarado a partir de então: mais inclusivo e civilizatório. Ocorre que, do ponto de vista pragmático, o Poder Político, a despeito de consistir nos agentes competentes para regular as previsões constitucionais e cumprir as metas administrativas inerentes à sua concretude (TAVARES, 2012, p. 44), jamais se mostrou, verdadeiramente, disposto a realizar as transformações democráticas aspiradas pelo constituinte. Com efeito, uma atmosfera de elitismo político ainda restringe a atuação do legislador e do administrador público em relação a temas socioeconômicos, especialmente quando voltados à assistência exclusiva de grupos de minorias. Nesse contexto, as políticas públicas tendem a não ocorrer com o engajamento esperado, a menos que recebam o apoio dos grupos sociais dominantes, os quais são os que, de fato, financiam as campanhas eleitorais e exercem, graças a essa condição, pressão econômicapela manutenção do status quo (FRAZÃO; SILVEIRA, 2017, p. 136). A propósito, essa realidade pátria é bastante peculiar, na medida em que faz com que seu Legislativo seja, historicamente, menos progressista do que os Poderes Legislativos de nações primeiro mundistas, como as europeias e a dos Estados Unidos (BARROSO, 2017). Diante disso, a temática das omissões inconstitucionais vem recebendo cada vez mais a atenção do Poder Judiciário brasileiro, pois, se o legislador ou o Poder Político não empreende a regulação ou medida jurídica reclamada pela Lei Maior, a consequência natural revela-se na judicialização da questão, especialmente por meio de ações próprias para tanto: a ADO e o MI. Prova disso é que o STF, a partir dos anos 2000, passou a desempenhar um papel ativo no tocante à correção de tais omissões, sobretudo àquelas decorrentes de ofensa direta à Constituição, denominadas pela doutrina de omissões normativas (TAVARES, 2016, p. 6-7). Essa posição do Tribunal serviu, aliás, de paradigma para outras Cortes Constitucionais e como objeto de estudo à doutrina estrangeira da Justiça Constitucional (MENDES, 2010). Em relação às omissões não-normativas, caracterizadas pela falta de medidas concretas da administração pública atinentes à execução de uma política pública existente, Tavares assinala que, até o ano de 2005, o STF não as admitia como objeto de ação de controle de omissão, sob a alegação de que representariam apenas um “problema de ilicitude infraconstitucional”, veiculáveis, assim, por meio de ações de ilegalidade por omissão (TAVARES, 2016, p. 6-7). Entretanto, Tavares já entendia que essa jurisprudência defensiva do STF era incompatível com o texto constitucional, uma vez que “a Constituição do Brasil faz expressa referência a ‘omissão de medida’, sem qualquer restrição de qual medida (não se fala, por exemplo, em ‘omissão de medida normativa’)”. Para o autor, a ADO, desde sua previsão (art. 103, CR), deveria servir de foro para o controle de omissões tanto normativas quanto não-normativas, a citada discussão só perdeu a relevância com o advento da Lei n. 12.063/2009, a qual previu expressamente a possibilidade de a ADO ser ajuizada para forçar o cumprimento do “dever constitucional [...] quanto à adoção de providência administrativa” (art. 12-B, I, da citada lei) (TAVARES, 2016, p. 55). Outra inovação relevante da Justiça Constitucional no tocante ao assunto foi a criação de uma espécie de microssistema de controle das omissões inconstitucionais, o qual promoveu o diálogo de conexão entre os procedimentos das ações de ADO e MI, conferindo-lhes maior alcance no tocante à eficácia. Como exemplo, vale citar o “novo perfil do mandado de injunção” desenvolvido pela jurisprudência do STF, dotado da possibilidade de atribuir efeitos ultra partes ou erga omnes às suas decisões, a depender do interesse público envolvido e até que sobrevenha a lei que discipline, definitivamente, o tema. Apesar das eventuais críticas quanto ao fato de o provimento judicial invadir, ainda que provisoriamente, o raio de competência do legislador, este, curiosamente, ratificou tal método de solução judicial ao introduzi-lo como preceito normativo da recente lei do mandado de injunção (vide art. 9º, Lei n. 13.300/2016). Em complemento, Tavares entende que outras ações judiciais de natureza concreta (como ações ordinárias ou ações civis públicas), não concebidas especialmente com o propósito de resolver omissões inconstitucionais, também servem para constatá-las na espécie. Com efeito, os impasses gerados pela omissão injusta à resolução de um caso concreto podem ser refreados mediante solução constitucional praticada pelo magistrado de primeira instância, induzindo a formação de precedentes ou levando os atores do Estado a suprimirem a deficiência trazida pela omissão inconstitucional, de maneira equivalente ao que possibilita o controle abstrato de constitucionalidade (TAVARES, 2016, p. 53). Como assinala Tavares, a falha do papel político do Estado chama o juiz constitucional “a socorrer parcela da população que pleiteia acesso a direito básicos como ‘leitos em hospitais, medicamentos para sobrevivência, vagas em creches e escolas, além de direitos de previdência e assistência social, que simplesmente são negados administrativamente’” (TAVARES, 2016, p. 52). O sistema de distribuição de competências entre os poderes do Estado não pode servir para justificar o descumprimento da Constituição. Assim, se o legislador não se interessar em promover o direito social, o sistema de curadoria constitucional reagirá para assegurar a pretensão ao jurisdicionado por meio da sentença judicial. A sociedade e a Constituição devem caminhar em perfeita simetria, a fim de que o direito permaneça capaz de resolver os conflitos da sociedade. Ademais, outros temas correlatos à justiça social, que digam respeito ao direito das minorias, ao pluralismo e à diversidade cultural, se não tratados pelo Poder Legislativo, devem ser objeto de atuação da Justiça Constitucional, ainda que por meio do enfrentamento em concreto dos magistrados de primeira instância, qualquer que seja o tipo de ação judicial em que se verifique a respectiva omissão inconstitucional. A atuação dos citados magistrados em se tratado das omissões inconstitucionais de direitos sociais, porém, não pode ser excessiva nem insuficiente, mas equilibrada e razoável, sob o risco de a Justiça Constitucional abusar da sua competência e tornar-se uma ameaça à Constituição. 3. A ATUAÇÃO CONSTITUCIONAL NO “CASO CRISTO VIVE”: UMA DEMANDA JUDICIAL APARENTEMENTE SIMPLES, MAS REVELADORA DE OMISSÃO INCONSTITUCIONAL DE GRAVE REPERCUSSÃO SOCIAL Nos tópicos acima, foram apresentadas breves considerações teóricas que subsidiam a atuação constitucional do magistrado de primeira instância. Agora, o comportamento de juiz constitucional será observado perante o estudo de um caso prático: o “Caso Cristo Vive”. Trata-se de uma ação cujo pedido principal apresenta-se como um easy case (a reintegração de posse de um imóvel público urbano federal). No entanto, antes de resolvê-lo, exige-se, por prejudicialidade, o exame de um hard case, presente na verificação de omissões inconstitucionais (falta parcial de lei e ação administrativa) que impedem a realização de política pública de moradia popular – classificada dentro do programa do governo federal Minha Casa, Minha Vida (PMCMV) – a ser feita no mesmo imóvel objeto do pedido de reintegração. Sob o aspecto jurídico, a Constituição de 1988 assegurou o direito social à moradia (art. 6º) como um direito fundamental, estabelecendo um papel atencioso do Estado no tocante à redução do déficit habitacional do país, sobretudo nas suas regiões mais pobres. No intuito de dar concreção a esse compromisso constitucional, o governo federal, por meio da empresa estatal Caixa Econômica Federal – CEF, operadora do PMCMV, iniciou em 2012 a execução do citado programa na cidade de Tucuruí, denominado de conjunto habitacional Cristo Vive. A política foi idealizada visando à entrega de um bairro residencial contendo mil casas populares, destinadas às famílias de baixa renda, sem moradia própria, cadastradas junto ao órgão de assistência social da prefeitura e classificadas segundo os critérios do programa. Em complemento, a CEF também passaria a oferecer linhas de crédito com juros reduzidos para que tais famílias pudessem financiar o imóvel de maneira facilitada. O custo total da obra foi orçado, inicialmente, em cinquenta e um milhões de reais (REDE LIBERAL, 2015b) e a data de término do empreendimento foi prevista para 16/09/2012 (GOVEIA; ISHIHARA; LIMA NETO, 2017, p. 1). A despeito de CEF ter contratado uma empresa especializada (EFECE) em executar projetos imobiliários dessa natureza, a obra não teve a evolução esperada, tendo sido marcada por inúmeras falhas técnicas de infraestrutura e habitação. Além disso, a citada empresa abandonou “o canteiro de obras no período de janeiro de 2014” e a empresa que a sucedeu (TECHCASA) tambémSTF, que o tem justificado por considerar impossível impor ao legislador a feitura de qualquer lei. Esse entendimento está baseado no princípio constitucional da separação e harmonia de poderes, bem como no respeito ao chamado “tempo político” das instâncias eleitorais. É sabido, contudo, que essas justificativas têm gerado grande atrito com as aspirações sociais, deslegitimando o Parlamento. O mesmo entendimento é aplicado parcialmente ao Poder Executivo, exatamente quando a omissão deste ocorre dentro do processo legislativo. Assim, por exemplo, nos casos em que a iniciativa privativa de projeto de lei é do Presidente da República e ele não inicie o processo legislativo ao qual está obrigado (lembro que há casos nos quais o Presidente está obrigado a iniciar esse processo legislativo, como o caso da revisão da remuneração dos servidores públicos, que deve ser anualmente realizada). Evidentemente tal posicionamento, assumido pelo próprio STF, acaba por frustrar as expectativas depositadas nessa ação e, sobretudo, no papel de resguardo social atribuído à Corte. Considero esse posicionamento restritivo do STF como sendo extremado e inadequado. Não se deve esquecer que seu principal fundamento é retórico (cláusula da separação de poderes, que não deixa de ser uma cláusula interpretada pelo próprio STF, que tem servido, ao longo da História do Direito a longos e insuportáveis formalismos[40]). Ademais, caso se continue a emprestar esse entendimento restritivo à ADO, a consequência será transferir para a ADPF uma inovação que deveria ser da ADO. Aliás, foi exatamente esse o raciocínio feito no julgamento de admissibilidade da ADPF n. 4[41]. Como já afirmei em outra oportunidade a “questão da possível transferência do locus da inovação para outra ação, a também inovadora ADPF, demonstra que essa ação pode substituir a ADO, esvaziando sua utilidade justamente em virtude dessa interpretação jurisprudencial restrita”[42] Em julgamento mais recente, na análise da Ação Declaratória de Inconstitucionalidade por Omissão n. 3.682/MT[43], o Supremo Tribunal Federal procedeu a um avanço para além da mera certificação da inconstitucionalidade. Foi reconhecida a mora legislativa e conferido prazo de 18 (dezoito) meses para que o Congresso Federal “adote todas as providências legislativas necessárias ao cumprimento do dever constitucional imposto pelo art. 18, § 4º da Constituição”[44]. Ainda que não tenha uma força cogente, o prazo serve para constranger o Poder Legislativo perante a sociedade. É possível, contudo, que após o julgamento do MI 670[45], no qual o STF mudou seu posicionamento sobre os efeitos da decisão que combate a inconstitucionalidade por omissão em concreto, que também modifique seu posicionamento para o caso do combate abstrato à omissão, via ADI. Uma possível mudança de posicionamento, mas que ainda depende de decisão[46], pode ter sido iniciada no caso da ADO n. 25 (Plenário, Rel. Min. Gilmar Mendes, j. 30.11.2016). Nessa decisão o STF julgou procedente a ação e, com isso, determinou a criação de Lei Complementar para realizar o artigo 91 do ADCT (repasse aos Estados e Distrito Federal de uma compensação decorrente de isenções de ICMS, no caso, de ICMS relativo a operações de exportação). O STF concedeu prazo de 12 (doze) meses para a promulgação dessa Lei Complementar de que trata o aludido artigo do ADCT, sob pena de, após esse prazo, o valor a ser transferido e as cotas de cada ente da Federação passarem a ser definidos pelo Tribunal de Contas da União, garantindo-se o exercício do direito mesmo em caso da permanência da omissão. O citado prazo, contudo, esgotou-se sem que houvesse sido promulgada a necessária Lei Complementar, conforme determinado pelo STF. Diante disso, a União, mesmo com o trânsito em julgado da ADO, solicitou o desarquivamento da ação e a prorrogação do prazo para a edição da Lei Complementar por mais 24 (vinte e quatro) meses, reconhecendo o descumprimento dos termos decisórios. O Estado do Pará, na qualidade de autor da ação, assim como outros Estados que atuaram no processo como amici curiae, manifestaram-se novamente, desta vez para contraditar o incabível pedido de prorrogação de prazo. Os Estados de Minas Gerais e Maranhão chegaram a pedir o imediato cumprimento do acórdão do STF, com a expedição de ofício para que fosse acionado o Tribunal de Contas da União. Trata-se, como se vê, de transferência constitucional provisória e emergencial de competência legislativa originalmente atribuída, pela Constituição, a um Poder inerte, que foi reincidente na inércia inconstitucional mesmo após a sua “condenação”. Na doutrina brasileira destaca-se a importante reflexão, a esse propósito, de Walter Claudius Rothenburg, em obra dedicada ao tema, na qual o autor propõe, como alternativa, a destituição provisória do sujeito omisso (geralmente o Parlamento brasileiro), com a conjugada indicação de outro, para implementar a vontade constitucional. Nas suas palavras, “não tendo o constituinte, ao disciplinar os efeitos da ação de inconstitucionalidade por omissão (artigo 103, § 2º), determinado a que ‘Poder’ será dada ciência para a adoção das providências necessárias a colmatar a lacuna constitucional, pode o encarregado dessa fiscalização de constitucionalidade (Supremo Tribunal Federal) determinar o destinatário – dentro de opções que o sistema constitucional positivado ofereça. Assim, para ilustrar, uma omissão do Poder Legislativo federal pode redundar em ciência ao Legislativo de alguma outra unidade da federação”[47]. Em se tratando de omissão inconstitucional não do Parlamento, nem de nenhum dos “Poderes”, mas sim da Administração Pública, outra foi a solução adotada diretamente pela Constituição. Em tais casos, o Texto Constitucional é taxativo e não deixa margem para preocupações jurídicas pelo STF. Este pode e deve determinar o prazo de trinta dias para que a omissão seja cumprida, sob pena de responsabilidade daquele que desatender ao decisum. A nova disciplina legal prevê, contudo, que as providências, nessa hipótese, devam ser adotadas no prazo de 30 dias “ou em prazo razoável a ser estipulado excepcionalmente pelo Tribunal tendo em vista as circunstâncias específicas do caso e o interesse público envolvido” (art. 12-H, § 1º da Lei n. 9.868/1996, incluído pela Lei n. 12.063/2009). É, contudo, questionável se a legislação poderia estabelecer essa regra, contra determinação expressa da Constituição do prazo máximo de 30 dias. A previsão é, para dizer o mínimo, desnecessária, quando não inconstitucional, se nela estiver compreendida a dilação do prazo a juízo exclusivo do STF. Aliás, independentemente de comando constitucional expresso (como há no caso), podemos dizer que não é concedido ao legislador a capacidade de autorizar outros órgãos a manterem ou perpetuarem a situação de inconstitucionalidade. Neste caso a lei incide em incompatibilidade ainda maior, pois a norma constitucional é expressa quanto ao prazo máximo. Resta, neste ponto, esclarecer se a cominação de prazo nos mesmos termos pode ser estabelecida inclusive quando se tratar de edição de ato normativo. A resposta há de ser positiva, desde que o ato seja de responsabilidade de órgão administrativo, e não de “Poder”. Assim, por exemplo, sobre a falta de decreto do Poder Executivo ou de “portaria” de Ministro de Estado não incide esta parte da norma constitucional. O critério, portanto, é simples: saber se se trata de órgão da Administração ou de órgão de Governo. Esta conclusão, contudo, há de ser aplicada apenas às hipóteses de omissão de ato normativo. Em se tratando de ato meramente administrativo, é dever impor prazo de trinta dias para cumprir a Constituição, sob pena de descumprimento de obrigação de fazer específica determinada por decisão judicial (e amparada na Constituição). 2.2. O caso dos poderes ampliados da Corte na ADPF Foi pioneira, no STF, a voz do Ministro Celso de Mello no realçar que a existência de outros meios processuais, por si só, não basta para que incidanão conseguiu atender as expectativas do contrato, mantendo o empreendimento aquém do estado de qualidade desejado.[251] Com efeito, a construtora TECHCASA só retomou a execução das obras do Cristo Vive no mês de janeiro de 2015, permanecendo ativa até a primeira quinzena do mês de junho do mesmo ano, quando ocorreu a paralisação das obras por iniciativa dos funcionários da construtora, que alegavam que não estavam recebendo seus salários (GOVEIA; ISHIHARA; LIMA NETO, 2017, p. 1). A situação gerou um quadro de abandono preocupante, levando o Jornal Liberal 1ª Edição, de 14 de julho de 2015, veiculado pela TV Liberal de Belém-PA, a noticiar que isso simbolizava “o descaso do Poder Público com a população”. Decerto, enquanto os moradores da cidade demonstravam-se descrentes com a capacidade estatal de retomar as obras, o estado do imóvel revelava-se deplorável: “o mato já invadiu os quintais das casas; algumas unidades já possuem rachaduras que prejudicam a estrutura do imóvel” (REDE LIBERAL, 2015). A CEF chegou a reconhecer a responsabilidade pela má operação da política pública (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2017, p. 45), sobretudo pelo fraco desempenho dos dois contratos que celebrou para a construção do empreendimento, o que, lamentavelmente, contribuiu para o fato do abandono. O imóvel público permaneceu vazio até 04/09/2015, quando movimentos populares ocuparam todas as casas do empreendimento imobiliário indevidamente (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2017, p. 25). Desde então, cerca cinco mil pessoas passaram a viver de forma precária no local. Ainda em 11/09/2015, a CEF propôs ação de reintegração de posse para reaver a posse das unidades habitacionais, requerendo a concessão de liminar para que a ordem de desocupação fosse imediatamente expedida. Além disso, pediu a responsabilização dos ocupantes pelos danos eventualmente causados ao imóvel. Recebida a demanda, o juízo federal da Vara Única de Tucuruí acolheu o pedido liminar e determinou que as famílias desocupassem os imóveis imediatamente, visando a devolvê-los ao Poder Público, sob pena de cumprimento forçado mediante o auxílio policial. Ocorre que, mesmo com a resistência dos populares em desocupar o bem público, a execução da liminar não pôde se efetivar prontamente, devido à falta ou baixa estrutura das instituições policiais na região de Tucuruí-PA, valendo citar: a ausência da instituição da Polícia Federal (cuja unidade mais próxima está sediada em Marabá-PA) e as precárias condições de funcionamento da Polícia Militar de Tucuruí-PA, que dentre outras dificuldades, possui baixíssimo número de oficiais e soldados, que, à época, se revelava incapaz de auxiliar eficazmente o Poder Judiciário da União na reintegração simultânea de tantas unidades habitacionais[252]. Antes que a Justiça Federal pudesse solucionar tal impasse, os ocupantes do Cristo Vive obtiveram uma liminar, em sede de agravo de instrumento, suspendendo a ordem de reintegração, em 21/10/2015. O relator do recurso de agravo acolheu o pedido suspensivo, sob o argumento de que a reintegração estaria ocorrendo sem planejamento social adequado e que isso implicaria ofensa à dignidade humana. Mesmo após a suspensão da ordem liminar de reintegração, os problemas sociais relacionados à ocupação irregular permaneceram presentes e, naquele momento, o direito infraconstitucional já não oferecia resposta para pacificar o conflito. De fato, o Poder Judiciário estava diante do seguinte dilema: não era possível retirar os cerca de cinco mil ocupantes mediante ordem “pura e simples” de desocupação (o que, provavelmente, agravaria os riscos à ordem social e à integridade física das pessoas envolvidas); tampouco retomar a obra do PMCMV sem que tal impasse fosse resolvido. Como alternativa, o magistrado de primeira instância empregou método de atuação constitucional para a resolução da demanda, qual seja, considerando que a questão constitucional relacionada à não implementação da política pública prejudicava a discussão sobre reintegração de posse do imóvel, o magistrado instaurou uma fase de instrução processual específica para discutir a citada questão prejudicial. Na prática, a elucidação do incidente constitucional tornava-se mais importante do que o próprio pedido principal da demanda. A ação de reintegração de posse estava prejudicada por questões de omissão inconstitucional imputadas contra o Poder Público. Isso exigia do Poder Judiciário a adoção de método de trabalho voltado à abertura do processo judicial, no intuito de que o conflito pudesse ser totalmente conhecido e resolvido, com a conclusão do PMCMV e a efetiva entrega das casas aos socialmente necessitados. 3.1. Identificação das omissões inconstitucionais no caso concreto Para alcançar o propósito acima transcrito, o magistrado traçou alguns planejamentos iniciais, que o ajudaram a sanear o feito e a estabelecer o perfil de norma de decisão que adotaria como premissa. Primeiramente, o magistrado resumiu a questão constitucional na seguinte problematização: quais as questões constitucionais que impedem a realização da política pública de moradia popular, no “Caso Cristo Vive”? Como resposta, foi possível detectar a existência de duas omissões inconstitucionais. A primeira delas se pauta em uma omissão inconstitucional parcial indireta (ou omissão ilegal direta) quanto à não adoção de atos materiais suficientes ao cumprimento da política pública social disciplinada pela Lei do PMCMV (Lei n. 11.977/2009). Isso prejudica a realização do direito à moradia previsto no art. 6º da CR, pois a omissão do Executivo impede que tal norma constitucional alcance a plenitude dos seus efeitos (TAVARES, 2016, p. 7). Apesar de se tratar de uma omissão inconstitucional, admite-se que ela é, em primeiro lugar, contrária à própria lei do PMCMV e indiretamente violadora da Constituição, uma vez que o legislador já disciplinou a política pública e é a falta de atos meramente executórios que interrompem o direito constitucional. Decerto, tal omissão indireta não seria admissível como objeto de ADO, mas, tendo em vista que o exame se dá no bojo do controle difuso de constitucionalidade, cujo espectro de admissibilidade de matérias é mais amplo do que na via estreita das ações constitucionais típicas, entende-se que a invalidade por omissão seja conhecida e receba o mesmo tratamento dado às omissões inconstitucionais diretas (TAVARES, 2016, p. 7). Portanto, a falta dos atos executórios sob a responsabilidade da CEF, além de ser considerada contrária à lei, também ofende com igual intensidade a vontade constitucional. A segunda omissão inconstitucional parcial se dá em razão de a lei do PMCMV não prever um plano de ação emergencial para situações de crise ou de invasão, que autorize o agente operador do programa (CEF) a adotar protocolos especiais voltados para prevenir ou remediar conflitos inesperados, como no caso de invasão, agindo eficazmente para assegurar o cumprimento da política pública. Ora, há inúmeros exemplos, por todo o país, em que imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida são alvo de invasões antes de concluídas as obras ou entregues as unidades residenciais[253]. Isso reflete o não atendimento do programa federal e desperdício de dinheiro público. Em verdade, como reconhecido pelos representantes do PMCMV (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2017, p. 35-36), não há autorização legal para que a agente operadora realize ações fora do protocolo padrão de atuação visando a evitar que o programa fracasse em razão das peculiaridades do contexto local. Em Tucuruí, por exemplo, onde mil casas inacabadas foram invadidas, o cumprimento da liminar de reintegração poderia não se perfazer devido à falta de policiamento para fazê-lo ou, ainda que a convocação de policiais lotados em outra região cooperasse para que o imóvel fosse reintegrado, se não retomadas as obras imediatamente, uma nova invasão poderia acontecer em semanas, assim que a polícia se desmobilizasse do local. Assim, a falta de previsão legal autorizando a adoção de protocolosa cláusula da subsidiariedade e se afaste o cabimento da ADPF. Não porque estes outros meios (comuns) devam ser pura e simplesmente (arbitrariamente) desconsiderados no teste da subsidiariedade, mas exatamente porque é necessário analisar a eficácia dos instrumentos e não os instrumentos em si; para recusar a ADPF é imprescindível que o instrumento judicial apresente real eficácia (alcance jurídico e produção dos resultados desejados) para sanar a lesividade. E este é o sentido da subsidiariedade que deve ser adotado. Nas suas palavras: (...) o princípio da subsidiariedade não pode – e não deve – ser invocado para impedir o exercício da ação constitucional de arguição de descumprimento de preceito fundamental, eis que esse instrumento está vocacionado a viabilizar, numa dimensão estritamente objetiva, a realização jurisdicional de direitos básicos, de valores essenciais e de preceitos fundamentais contemplados no texto da Constituição da República. Se assim não se entendesse, a indevida aplicação do princípio da subsidiariedade poderia afetar a utilização dessa relevantíssima ação de índole constitucional, o que representaria, em última análise, a inaceitável frustração do sistema de proteção, instituído na Carta Política, de valores essenciais, de preceitos fundamentais e de direitos básicos, com grave comprometimento da própria efetividade da Constituição (ADPF 17 AgRg/AP, Min. rel. Celso de Mello, j. 5-6-2002). A tese é aplicável no contexto do sistema de proteção dos direitos fundamentais. Dentro desse universo específico é preciso aquilatar a real eficácia das medidas acaso existentes, na realização de direitos, valores e preceitos básicos. Seguindo referida tese, o STF, por maioria, admitiu a ADPF 4, ajuizada pelo Partido Democrático Trabalhista em face da Medida Provisória n. 2.019-1, de 20-4-2000, que dispôs sobre o valor do salário mínimo no Brasil. De acordo com a tese que prevaleceu, a ADI por omissão – cabível, prima facie, para contestar a suficiência do salário mínimo –, com sua natureza constitutiva de apenas uma mora legislativa oficial, não seria capaz de tornar efetivo o direito constitucionalmente assegurado de um salário mínimo capaz de assegurar as necessidades do trabalhador e sua família (como efetivamente não foi). A ADPF seria, nessa linha de pensamento, uma medida judicial capaz de gerar novos efeitos[48], para além dos efeitos atribuídos pelo art. 103, § 2º, da Constituição do Brasil, à ADI por omissão (que se reduziu, na jurisprudência da Corte, ao efeito de dar ciência ao poder competente de sua inércia e conceder-lhe um prazo não obrigatório para suprir a omissão). A ADPF, assim, seria medida na prática eficaz para sanar a lesão impugnada, no caso, lesão por omissão (ADPF/MC 4, Min. rel. Ellen Gracie, j. 17-4-2002). Note-se o alcance da tese: admite-se a ADPF mesmo havendo a previsão de uma ação direta de inconstitucionalidade por omissão, complementando o eventual efeito (fraco) obtido nesta ação. Nesse sentido, o voto do Min. rel. Cezar Peluso acabou por ser esclarecedor: “a subsidiariedade de que trata a legislação diz respeito a outro instrumento processual-constitucional que resolva a questão jurídica com a mesma efetividade, imediaticidade e amplitude que a própria ADPF”. Ou seja, se não houver esse outro instrumento, cabe a ADPF. E a ação direta por omissão, como sabemos, não se tornou um instrumento eficaz na jurisprudência do STF, embora essa seja uma posição que pode ser alterada pela jurisprudência. Todavia a referida ADPF terminou sem um desfecho de mérito. Em julgamento posterior (Pleno, 02.08.2006, Rel. Min. Ellen Gracie), julgou-se prejudicada a ADPF n. 4 por conta da edição de normas posteriores à norma que consistia em seu objeto, a MP 2.019-1/2000. 3. O MANDADO DE INJUNÇÃO 3.1. Inovação constitucional O mandado de injunção é mais uma das novidades trazidas pela Constituição brasileira de 1988. É cabível sempre que a falta (omissão) de norma reguladora torne inviável o exercício de direitos constitucionais. Refere-se, portanto, à denominada “mora legislativa”, assim como a ação de controle abstrato da omissão. Mas, diferentemente desta, pode ser proposta por qualquer pessoa interessada. O mandado de injunção está previsto constitucionalmente nos seguintes termos: “conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania” (inciso LXXI do art. 5º). Recentemente, foi editada Lei regulamentando o Mandado de Injunção, em suas modalidades individual e coletivo. Trata-se da Lei 13.300 de 2016, Lei do Mandado de Injunção. Todavia, mesmo antes da vigência da Lei o Mandado de Injunção, não havia obstáculo à sua propositura, eis que o dispositivo constitucional, que prevê o mandado de injunção, foi considerado de aplicação imediata, independentemente de uma lei específica. O entendimento do Supremo Tribunal Federal[49] foi o de utilizar, no que coubesse, o rito do mandado de segurança, rito este que ainda se aplica subsidiariamente nos termos do art. 14 da recente Lei do Mandado de Injunção Acerca das fontes que geraram a criação constitucional desse mandado de injunção, encontra-se, na doutrina, séria controvérsia a respeito. Alguns autores mencionam a injunction do Direito britânico. Pelas diferenças (especialmente o fundamento) deste instituto com o brasileiro, não se deve admitir essa aproximação. Há quem indique a injunction norte-americana. Aqui, igualmente, as diferenças são substanciais[50]. Razão assiste a Roberto Pfeiffer[51] ao assinalar que o mandado de injunção da Constituição de 1988 é instituto tipicamente nacional[52], sendo as semelhanças com outros institutos de Direito estrangeiro insuficientes para desses outros institutos pretender fazer decorrer o writ brasileiro em sua específica formatação. 3.2. Limites do juiz no mandado de injunção Como visto antes, o mandado de injunção objetiva combater a morosidade do Poder Público em sua função legislativa-regulamentadora, entendida em sentido amplo, para que se viabilize, assim, o exercício concreto de direitos, liberdades ou prerrogativas previstas na Constituição. Não são todas as espécies de normas constitucionais que autorizam o ajuizamento de mandado de injunção, nem todas as espécies de omissões do Poder Público podem ser combatidas pelo mandado de injunção. Nesse sentido, fica aqui o mesmo questionamento fundamental feito a propósito da criação da ADI por omissão: ao criar uma ação especialíssima para combater a omissão, mas com restrições de cabimento, estaria o constituinte a impedir que outras ações judicias fossem utilizadas para que o Judiciário proferisse decisões de combate à inércia dos Poderes? Deixarei este questionamento central para ser encaminhado mais adiante. Quanto às normas que violadas por omissão permite a propositura do mandado de injunção, é preciso que dependam de regulamentação. Portanto, não cabe o mandado de injunção se a norma constitucional invocada não depender de ato normativo posterior, ainda que esteja sendo descumprida. Ou seja, é possível haver descumprimento de norma constitucional, mas esse descumprimento não depender da edição de uma norma. Nesse caso não é cabível o mandado de injunção, já que este, diferentemente da ação direta, este mandado só ataca situações que dependem de norma (regulamentadora). Também não se admite o mandado de injunção quando se pretende apenas que haja uma nova legislação para fins de modificar aquela já existente, ainda que esta seja incongruente com a Constituição. Nesse sentido, seguindo a senda constitucional, a Lei 13.300/2016 em seu art. 2º caput admite o cabimento para a hipótese de “falta total ou parcial de norma regulamentadora”. Mas a existência de norma regulamentadora “ruim”, inconstitucional ou ilegal, faz com que o instrumento específico do mandado de injunção não possa mais ser usado. Da mesma maneira, não se admiteo mandado de injunção quando o objetivo for o de obter do Poder Judiciário o pronunciamento acerca do que seria a correta interpretação da norma regulamentadora existente. Vale, aqui, a regra geral de que o Poder Judiciário não atende a consultas interpretativas como objeto central de uma ação. De outra parte, a omissão do Poder Público deve inviabilizar direito constitucional. Mais uma vez o referido art. 2º, caput, da Lei também não deixa margem de dúvida ao repetir o cabimento apenas quando a omissão normativa “torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania”. 3.3. Competências judiciais para apreciar o mandado de injunção Via de regra, o juiz competente é o juiz de primeira instância, mas há questões de foro por prerrogativa de função. Estabelece o art. 102, I, q, da Constituição Federal que compete ao Supremo Tribunal Federal processar e julgar, em caráter originário, “q) o mandado de injunção, quando a elaboração da norma regulamentadora for atribuição do Presidente da República, do Congresso Nacional, da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, das Mesas de uma dessas Casas Legislativas, do Tribunal de Contas da União, de um dos Tribunais Superiores, ou do próprio Supremo Tribunal Federal”. De outra parte, consoante o disposto no art. 105, I, h, da Carta Federal, competirá ao Superior Tribunal de Justiça processar e julgar, originariamente, “h) o mandado de injunção, quando a elaboração da norma regulamentadora for atribuição de órgão, entidade ou autoridade federal, da administração, direta ou indireta, excetuados os casos de competência do Supremo Tribunal Federal e dos órgãos da Justiça Militar, da Justiça Eleitoral, da Justiça do Trabalho e da Justiça Federal”. 3.4. Alcance da decisão judicial O Supremo Tribunal Federal, aplicando o instituto, concedeu-lhe contorno bastante acanhado. Entendeu, inicialmente, que o mandado guarda similitude com a ação direta de inconstitucionalidade por omissão, com o que a procedência levaria apenas à comunicação do Poder responsável de sua omissão, apontando a necessidade da adoção de medidas que supram a falta cometida, ou, no caso de se tratar de órgão da Administração, a decisão imporia sua atuação (normativa) em até trinta dias. Esse foi o entendimento adotado pelo Min. Moreira Alves, proferido na questão de ordem levantada no MI 107-3, acerca da autoaplicabilidade do mandado de injunção: Em face dos textos da Constituição Federal relativos ao mandado de injunção, é ele ação outorgada ao titular de direito, garantia ou prerrogativa a que alude o artigo 5º, LXXI, dos quais o exercício está inviabilizado pela falta de norma regulamentadora, e ação que visa a obter do Poder Judiciário a declaração de inconstitucionalidade dessa omissão se estiver caracterizada a mora em regulamentar por parte do Poder, órgão, entidade ou autoridade de que ela dependa, com a finalidade de que se lhe dê ciência dessa declaração, para que adote as providências necessárias, à semelhança do que ocorre com a ação direta de inconstitucionalidade por omissão (artigo 103, § 2º da Carta Magna), e de que se determine, se se tratar de direito constitucional oponível contra o Estado, a suspensão dos processos judiciais ou administrativos de que possa advir para o impetrante dano que não ocorreria se não houvesse a omissão inconstitucional (Min. Rel. Moreira Alves, DJ de 21- 9-1990, Ementário 1.595-1, original sem destaques). Mais recentemente, mesmo antes da Lei 13.300/2016, a Corte Suprema vinha entendo que, variando de acordo com a natureza da norma que necessita da regulamentação legislativa, o Poder Judiciário poderia determinar diretamente o Direito a ser aplicado para a situação concreta que lhe houvesse sido submetida. Isso ocorreu no caso da imunidade prevista no art. 195, § 7º, da Constituição[53]. Também admite que o Poder Judiciário possa fixar um prazo certo para a edição da medida necessária, e, em caso de desatendimento deste, assegurar ao interessado direito à indenização pela impossibilidade de exercício ou concretização de um direito que lhe é constitucionalmente assegurado. Esta última tem sido a orientação mais comumente adotada pela Corte. Assim, reconhece-se, diante da ciência do Congresso Nacional de que está em mora e de sua recalcitrância, o direito de o interessado pleitear indenização pelos danos decorrentes da impossibilidade de exercitar seu direito constitucional tendo em vista a inércia legislativa abusiva. O caso dos juros reais fixados pela Constituição em 12% ao ano (anteriormente à EC n. 40/2003, que eliminou essa previsão constitucional) retratam bem o contexto que venho descrevendo. Esse percentual não era aplicado, porque o próprio Supremo Tribunal reconheceu tratar-se, no caso, de norma que dependeria de lei para ser cumprida, e mais, dependeria de lei que disciplinasse o sistema financeiro nacional. Isso fulminou o caráter transformador desse dispositivo, que pretendia bloquear a financeirização da economia brasileira e a exploração bancária de devedores que se submetem a juros bancários escorchantes por falta de qualquer outra opção[54]. Em outra decisão, o Supremo Tribunal avançara para reconhecer, após vencido o prazo razoável para que o Congresso editasse a legislação adequada, o direito de o interessado passar a gozar da imunidade, ainda que não atendesse aos requisitos estabelecidos em lei, justamente por não haver a lei[55]. Nesse caso, aliás, o próprio Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição brasileira de 1988, em seu art. 59, fala de um prazo de regulamentação não superior a seis meses. O Supremo, contudo, passou a contar o prazo de seis meses da data da cientificação do Congresso Nacional de que se encontrava em mora. Nessa linha, o Min. Gilmar Mendes, no MI 670, que discutiu, novamente, o direito de greve de servidores públicos, propôs, em seu voto, que, enquanto não se suprisse a omissão legislativa, fosse aplicada a Lei n. 7.783, de 28-6-1989, que trata do exercício do direito de greve no âmbito da iniciativa privada[56], observando-se o princípio da continuidade do serviço público (MI 670/ES, Min. Rel. Maurício Corrêa, decisão de 7-6-2006). O Min. Eros Grau, em mandado de injunção com esse mesmo objeto (MI 712- 8/PA), adotou solução semelhante, defendendo a alteração da postura do STF quanto à natureza das decisões proferidas em mandado de injunção. Em seu voto, colocou o seguinte dilema: “Importa verificarmos é se o Supremo Tribunal Federal emite decisões ineficazes; decisões que se bastam em solicitar ao Poder Legislativo que cumpra o seu dever, inutilmente” (STF, MI 712-8/PA, Min. Rel. Eros Grau), e concluiu: “Pois é certo que este Tribunal exercerá, ao formular supletivamente a norma regulamentadora de que carece o art. 37, VII da Constituição, função normativa” (STF, MI 712-8/PA, Min. Rel. Eros Grau, com decisão do Plenário tomada em 25/10/2007). No seu entender, com isso, o Tribunal estaria exercendo função normativa, função que eu já havia indicado como própria dos tribunais constitucionais em minha tese apresentada em 2003[57]. Essa função se exerce sem significar, contudo, afronta à “separação de Poderes”, já que não há uma separação de Poderes como postulado universal, ou provinda do direito natural, como bem colocou o Min. Eros Grau; essa “ideia” existe somente da forma e na medida como está prevista na Constituição (embora seja mais uma cláusula constantemente reinterpretada pelo STF). E o mandado de injunção encontra previsão constitucional, devendo ser considerado para fins de identificar essa específica forma institucional criada em 1988. Invoco, aqui, novamente, as lições insuperáveis de Sandra Liebenberg, que bem adverte: “[e]m sua forma idealizada e estática, a doutrina da separação de poderes vem a ser ritualisticamente invocada pelas cortes como uma forma de evitar a determinação constitucional a elas dirigidas para interpretarem e imporem os direitos constitucionalmentegarantidos”[58]. Assim é que temos, historicamente falando, uma permanente obstrução dos direitos constitucionais, pela vitória de argumentos formais lastreados em teorias ideologicamente comprometidas com o não cumprimento de constituições sociais em países periféricos. O Min. Marco Aurélio, em seu voto apresentado no mesmo MI 721/DF, conclamou o STF a modificar o seu posicionamento acerca do alcance do mandado de injunção: O instrumental previsto na Lei Maior, em decorrência de reclamações, consideradas as Constituições anteriores, nas quais direitos dependentes de regulamentação não eram passíveis de ser acionados, tem natureza mandamental e não simplesmente declaratória, no sentido da inércia legislativa. (...) Aliás, há de se conjugar o inciso LXXI do artigo 5º da Constituição Federal com o § 1º do citado artigo, a dispor que as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais constantes da Constituição têm aplicação imediata. Iniludivelmente, buscou-se, com a inserção do mandado de injunção no cenário jurídico- constitucional, tornar concreta, tornar viva a Lei Maior, presentes direitos, liberdades e prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Não se há de confundir a atuação no julgamento do mandado de injunção com atividade do Legislativo. Em síntese, ao agir, o Judiciário não lança, na ordem jurídica, preceito abstrato. Não, o que se tem, em termos de prestação jurisdicional, é a viabilização, no caso concreto, do exercício do direito, do exercício da liberdade constitucional, das prerrogativas ligadas à nacionalidade, soberania e cidadania. O pronunciamento judicial faz lei entre as partes, como qualquer pronunciamento em processo subjetivo, ficando, até mesmo, sujeito a uma condição resolutiva, ou seja, ao suprimento da lacuna regulamentadora por quem de direito, Poder Legislativo (STF, MI 721/DF, Min. Rel. Marco Aurélio). Em seu voto sobre a regulamentação do direito de greve o Ministro Celso de Mello asseverou que o mandado de injunção, desse modo, deve traduzir significativa reação jurisdicional, fundada e autorizada pelo texto da Carta Política que, nesse writ processual, forjou o instrumento destinado a impedir o desprestígio da própria Constituição, consideradas as graves consequências que decorrem do desrespeito ao texto da Lei Fundamental, seja por ação do Estado, seja, como no caso, por omissão – e prolongada inércia – do Poder Público. E, mais adiante, concluindo: as considerações que venho de fazer somente podem levar-me ao reconhecimento de que não mais se pode tolerar, sob pena de fraudar-se a vontade da Constituição, esse estado de continuada, inaceitável, irrazoável e abusiva inércia do Congresso Nacional, cuja omissão, além de lesiva ao direito dos servidores públicos civis – a quem se vem negando, arbitrariamente, o exercício do direito de greve, já assegurado pelo texto constitucional –, traduz um incompreensível sentimento de desapreço pela autoridade, pelo valor e pelo alto significado de que se reveste a Constituição da República (MI 712-8/PA). Assim, em 25 de outubro de 2007 o STF declarou, por unanimidade, a mora do Congresso Nacional em legislar sobre o exercício do direito de greve no setor público e, por maioria de votos, decidiu aplicar, com certas adaptações, a lei de greve existente e em vigor para o setor privado (Lei n. 7.783/89), eliminando a lacuna do legislador. É curioso observar aí uma aparente seleção do caso com o qual seria superada (overrule) a jurisprudência “clássica” restritiva, pois em outra decisão, na mesma época, também em mandado de injunção, o STF se limitou a reconhecer oficialmente a mora legislativa do Congresso Nacional, em relação ao direito ao aviso prévio proporcional, previsto no art. 7º, XXI, da CB (STF, MI 695/MA, Min. Rel. Sepúlveda Pertence, j. 1º-3-2007)[59]. Outro aspecto curioso foi o de aplicar uma legislação similar já existente, apenas ampliando as pessoas às quais incidiria a Lei (alargamento do âmbito subjetivo). A leitura que se pode ter da decisão é a de que, com certas ressalvas, estabeleceu que a lei relativa ao direito de greve aprovada pelo Congresso Nacional apenas para o setor privado era inconstitucional (por omissão) ao não incluir o setor público e suas particularidades. Mas o tema é polêmico. Assim, ampliou-se apenas o espectro de sujeitos alcançados por essa lei. Essa foi a única inovação no caso. Isso se aproxima mais, portanto, de uma já tradicional decisão aditiva da Justiça Constitucional, alargando o âmbito de incidência de uma lei ou apenas usando de analogia. Mas fazer isso não parece depender de um mecanismo tão inovador, especial e delicado como o mandado de injunção. Pelo contrário, é possível constatar essa ampliação em zonas de penumbra normativa, como algo que se considera aceitável nas ações ordinárias em geral[60], até pela autorização, de raiz napoleônica, de que na falta da Lei o juiz julgue com base nos princípios e na analogia. De qualquer sorte, a mudança da jurisprudência recalcitrante foi uma grande conquista para a cidadania brasileira, especialmente por se tratar de um país cujo compromisso constitucional é constantemente relegado a segundo plano, e a ideia de “fraude à Constituição” uma prática rotineira de governos democraticamente eleitos, com o que a Justiça Constitucional estaria a auxiliar decisivamente na operatividade das normas constitucionais. O efeito didático (indireto) dessas decisões, para outras situações semelhantes, também não é desprezível. A Lei 13.300/2016 não ignorou esses avanços jurisprudenciais. A Lei tem como ponto de fundamental importância a definição da atuação judicial em caso de mora legislativa, por força do artigo 8º. Esse artigo segue a referida posição do Supremo Tribunal Federal, que a partir do ano de 2007 passou a não mais apenas notificar a autoridade omissa de sua falta (o chamado “apelo ao legislador”, bem conhecido da Justiça Constitucional da Alemanha desde a década de setenta), mas efetivamente sanar a omissão, concretizando o direito[61]. O referido artigo 8º confere algumas alternativas ao magistrado em caso de reconhecimento da omissão, (i) “determinar prazo razoável para que o impetrado promova a edição da norma regulamentadora”, ou (ii) “estabelecer as condições em que se dará o exercício dos direitos, das liberdades ou prerrogativas”. O mesmo artigo estabelece, ainda, a possibilidade de (iii) o julgador estabelecer “as condições” para futura ação contra o descumprimento do prazo para suprir a omissão, quando essa for a determinação do mandado de injunção. Ao dar a alternativa do prazo, a Lei se posicionou, no entendimento de André Luiz Maluf, pela chamada corrente “concretista intermediária”[62], pois nessa hipótese o atendimento ao direito pleiteado não é imediato e direto. No entanto, o mais relevante é que, após o decurso do prazo fixado judicialmente (e este é um papel inovador reconhecido ao juiz constitucional), o Poder Judiciário poderá efetivamente tutelar o direito do autor do mandado de injunção, mesmo que para tanto possa ser necessário que o interessado proponha nova ação. As novas fronteiras trazidas pelo legislador para a jurisdição em mandado de injunção chancelam uma atuação mais intensa do Poder Judiciário. Tal reconhecimento pelo próprio Poder Legislativo é mais um argumento contrário ao ataque simplista e generalizante de setores que consideram semelhante atuação do Poder Judiciário, mesmo que necessária para o escrito cumprimento da Constituição diante de omissão normativa, como inaceitável e violadora das lindes da atividade jurisdicional. 3.5. Possibilidade de efeitos gerais em casos concretos Quanto aos efeitos da decisão proferida em mandado de injunção, para autores que entendem que o Poder Judiciário tem de solucionar o caso concreto, adiciona-se a proposta de que seja também decisão com efeitos erga omnes, para que não reste violado o princípio da isonomia. Contudo, para muitos analistas haveria aqui uma intromissão indevidado Poder Judiciário em função que pertence ao Legislativo, intervenção caracterizada justamente pela atribuição de eficácia erga omnes (típica da atividade legislativa) a uma decisão (judicial) de construção normativa. Nesse sentido posicionou-se o Min. Ricardo Lewandowski, em seu voto proferido no Mandado de Injunção n. 708-0, no qual divergiu, em parte, da decisão adotada pela maioria, que optou por resolver em definitivo e com efeitos gerais a inércia legislativa de que se estava tratando naquele mandado de injunção. Observou o ministro: “De fato, embora sedutora a ideia segundo a qual seria possível e desejável, até, aplicar-se a todos os movimentos grevistas do setor público a Lei 7.783/89, destinada a regular as paralisações no setor privado, disciplinando, assim, definitivamente, ou enquanto perdurar a inércia do Legislativo, as greves de servidores públicos, hoje carentes de qualquer regramento, quer me parecer que tal solução, insisto, representaria indevida ingerência do Judiciário na competência privativa do Congresso Nacional de editar normas abstratas e de caráter geral, além de desfigurar o mandado de injunção, importante instrumento concebido pelo constituinte para regular, caso a caso, o exercício de direito, liberdade ou prerrogativa assegurados na Carta Magna”. Por isso o Ministro concedeu “o exercício do direito de greve aos trabalhadores em educação do município de João Pessoa”, ou seja, deu eficácia ao mandado de injunção, mas restrita aos autores do mandado de injunção. A conclusão do ministro é tecnicamente impecável, pois, como mencionado anteriormente, é imprescindível distinguir entre decisões proferidas em sede de mandado de injunção, um instrumento de controle concreto, das decisões próprias de uma Justiça Constitucional abstrata (via ADO ou ADPF), sob pena de confusão e desvirtuamento de institutos (especialmente porque a legitimidade ativa para ação abstrata é enumerada e constitucionalmente fechada). A Lei 13.300/2016, nesse ponto, contempla a possibilidade de ajuste conforme o caso concreto. Embora estabeleça que, em regra a “decisão terá eficácia subjetiva limitada às partes” (art. 9º, caput) estabelece que, excepcionalmente “[p]oderá ser conferida eficácia ultra partes ou erga omnes à decisão, quando isso for inerente ou indispensável ao exercício do direito, da liberdade ou da prerrogativa objeto da impetração” (art. 9º, § 1º). A opção legislativa reconhece como mais adequada a solução inter partes. Entretanto, visando a evitar perecimento de direitos acaba também possibilitando, mas sempre de forma excepcional, a ampliação da eficácia da decisão. 3.6. O caso do mandado de injunção coletivo O Supremo Tribunal já admitia, anteriormente à Lei 13.300/2016, o mandado de injunção de cunho coletivo, ou seja, com alcance para todos os interessados ou representados pela entidade que propõe a ação. Esse entendimento foi adotado no MI 20-4/DF: “A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal firmou-se no sentido de admitir a utilização, pelos organismos sindicais e pelas entidades de classe, do mandado de injunção coletivo, com a finalidade de viabilizar, em favor dos membros ou associados dessas instituições, o exercício de direitos assegurados pela Constituição” (Min. Rel. Celso de Mello, DJ de 22-11-1996, Ementário 1.851-01). Contudo, admite-se o mandado coletivo “por aplicação analógica do art. 5º, LXX, da Constituição”. E isso desde que o mandado de injunção não seja utilizado como sucedâneo do mandado de segurança (MI 689/PB, j. 7-6-2006). A tese de cabimento do mandado de injunção coletivo foi acatada pelo legislador, que assegurou, no art. 12, parágrafo único da Lei do Mandado de Injunção, a modalidade que chamamos no Brasil de “coletiva”, assim considerada por justamente tutelar direitos titularizados por “uma coletividade indeterminada de pessoas ou determinada por grupo, classe ou categoria”. Trata-se de aspecto que aproxima esta ação da ação direta e abstrata. Para a propositura do mandado de injunção coletivo, nos termos do artigo 12 da Lei, são legitimados “o Ministério Público [...]; partido político com representação no Congresso Nacional [...]; organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento a mais de 1 (um) ano [...]; a Defensoria Pública”. Quanto aos efeitos do mandado de injunção coletivo o art. 13 da Lei adota solução que torna como regra a produção dos efeitos inter partes e a exceção os efeitos ultra partes ou erga omnes, caso indispensável para a fruição do direito, liberdade ou prerrogativa objeto da ação (art. 13, caput, c/c art. 9º, § 1º). Consagrando-se vencedora essa tese, ratificada pela legislação, que resgata a eficácia do mandado de injunção e da própria decisão do STF, mas que pode excepcionalmente reconhecer efeitos amplos e gerais, restará a este Tribunal enfrentar mais detidamente o problema do contraste desse entendimento com a orientação inicial do próprio STF quanto ao cabimento da ADPF (como se sabe, residual), por força do decidido na ADPF n. 4- 1/DF e no voto do Min. Celso de Mello na ADPF n. 45-9/DF. A pergunta é a seguinte: mandado de injunção ou arguição de descumprimento de preceito fundamental? A solução pode estar na compreensão adequada do “teste da subsidiariedade”, conforme anotei anteriormente. 4. CONCLUSÕES: IMPACTO DA INAÇÃO NORMATIVA DOS PODERES ELEITOS NO BRASIL E O NOVO PAPEL EXERCIDO PELO PODER JUDICIÁRIO Apesar da grandeza territorial e de recursos naturais e estratégicos do país, o Brasil ainda sofre com mazelas sociais insuportáveis do ponto de vista humano, e inadmissíveis em face dos direitos consignados na Constituição de 1988, como explanado na introdução. Há carências inegáveis em saúde, educação e em saneamento básico, demandas essenciais da existência humana que são constantemente postergadas pelos Poderes eleitos. Somente por essa situação crítica, que se prolonga por toda a história nacional, dever-se-ia olhar com mais cuidado para a atuação de qualquer Poder, instituição ou segmento social na luta para tornar efetivos os direitos sociais da Constituição do Brasil. Entretanto, muito além do atendimento desses direitos básicos, o Brasil tem uma circunstância excepcional de déficit do próprio Estado de Direito, que ainda carece de aprimoramento após a saída da ditadura militar, o que mereceu a atenção central da Constituição de 1988 e que se tornou uma preocupação ainda maior nos últimos tempos. Nesse sentido a missão do Estado é de considerável magnitude, pois no Brasil estamos lidando, ainda, com a permanente necessidade de construir uma nação justa, solidária e democrática, além de reparar os danos da época do regime militar e de um passado rico em desigualdades e exploração do ser humano. Nesse sentido, a Constituição do Brasil previu, além dos direitos sociais que necessitam de uma atividade normativa para implementação, diversos direitos de transição para a democracia. Um exemplo é o direito desenvolvimento. Mas ilustra o tema desta pesquisa, de maneira paradigmática, o direito à reparação econômica àqueles que foram impedidos de exercer atividade profissional por perseguição política durante o regime (art. 8º, § 3º do ADCT da CB). É extremamente significativo que esse direito tenha ficado sem regulamentação por 14 (quatorze anos) até a edição da Lei 10.559/2002, diploma normativo posterior à solução parcialmente dada pelo STF no julgamento do Mandado de Injunção n. 543/DF[63]. Neste se reconheceu a mora do Congresso Nacional já no ano de 2000 e se assegurou aos impetrantes o direito a indenização, mediante ação de reparação patrimonial em que seria apurado o valor. A inaplicabilidade da norma constitucional do teto de juros reais de 12% ao ano bem demonstra a dificuldade, no Brasil, em implantar comandos constitucionais fortemente direcionados à transformação dos laços de dominação social que ainda permanecem, há séculos. A construção de um Brasil livre, justo e solidário ainda é um processo lento e não-contínuo. Por isso,