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G é r a r d P o m m i e r
° A M O R
E n s a i o sobre a
s f e r ê n c i a
I em psicanálise
e d i t o r a
I m p õ e so a q u i u m a r e f l e x ã o c r í -
t i c a , p o i s s u s t e n t a r q u e a d u r a ç ã o
d a s s e s s õ e s se r e l a c i o n a c o m a
p r o p o r ç ã o d a t r a n s f e r ê n c i a p a r e -
c e d a r u m a i m p o r t â n c i a
e x o r b i t a n t e a o l i v r e a r b í t r i o d o
a n a l i s t a . U m a t a l l i b e r d a d e n ã o
a m e a ç a f a z e r d e s t e ú l t i m o u m
m e s t r e d a d u r a ç ã o , q u e e l e p o d e -
ria d e l i m i t a r s e g u n d o s e u c a p r i -
c h o ? D e m a n e i r a m a i s r e a l i s t a ,
u m o b s e r v a d o r i m p a r c i a l p o d e -
ria t a m b é m e s t i m a r q u e e s t a d u -
r a ç ã o v a r i a s e g u n d o o q u e es te
p r a t i c a n t e é c a p a z d e s u p o r t a r .
E s t e o b s e r v a d o r p e n s a r á q u e a
s e s s ã o c o n t i n u a a t é o l i m i t e d o s u -
p o r t á v e l , c r i t é r i o c e r t a m e n t e i m -
p r e c i s o , m a s q u e n ã o d e i x a d e t e r
u m a c e r t a p e r t i n ê n c i a , p o s t o q u e
o q u e es te a n a l i s t a n ã o s u p o r t a r á
m a i s n u m d e t e r m i n a d o m o m e n -
t o s e r á o risco d e d e s a p a r e c e r , d e
ser a n i q u i l a d o n o m a r d a t r a n s f e -
r ê n c i a . A s s i m e l e t e r á a t i n g i d o
e s t e p o n t o m a t e m á t i c o o n d e a
a b e r t u r a d o c o r t e t e r á e x e r c i d o
s e u e f e i t o d e r e t o r n o
d e s n a r c i s a n t e , e n c r u z i l h a d a q u e
é m e l h o r , d e f a t o , n ã o u l t r a p a s -
sar . S e o t e m p o n ã o é d i n h e i r o
( n a á r e a c a t ó l i c a e r o m a n a a o m e -
n o s ) , e n t ã o a d u r a ç ã o d a s e s s ã o
s e r á a d a c u l p a b i l i d a d e t r a n s f e -
r e n c i a i d o a n a l i s a n t e . Se o a n a -
l i s t a se d e i x a a r r e b a t a r a l é m d e s -
t a b o r d a , t e r á p o u c a c h a n c e d e
p o d e r r e m o n t a r a c o r r e n t e d o s
a c o n t e c i m e n t o s d a p a l a v r a . E i s t o
t a n t o m a i s q u e , p a s s a d o e s t e
c u m e . s e u a n a l i s a n t e c o m e ç a r á a
se a n g u s t i a r , a p o n t o d e p r e f e r i r
l i m i t a r - s e e s p o n t a n e a m e n t e a f a -
l a s s e m i m p o r t â n c i a . T a l v e z e l e
t e n h a m e s m o a b o a i d é i a d e d o r -
m i r , o q u e , e m t a i s c i r c u n s t â n c i -
as , c o n s t i t u i r á a m e l h o r p r o t e ç ã o
d o n a r c i s i s m o . Q u e p o s s u a e n t ã o
u m b o m d e s p e r t a d o r !
O A M O R
A O
A V E S S O
Ensaio sobre a transferência em psicanálise
G É R A R D P O M M I E R
0 A M O R
A O
A V E S S O
Ensaio sobre a transferência em psicanálise
T r a d u ç ã o
Sandra Regina Felgueiras
;t,a>
de, Ft&COct
e d i t o r a
TÍTULO ORIGINAL:
L'AMOR A L/ENVERS
ESSAI SUR LE TRANSPERT EN PSYCHANALYSE
O Direitos de edição em língua portuguesa by Editora COMPANHIA DE FREUD
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
FA - Editoração Eletrônica
TRADUÇÃO E REVISÃO
Sandra Regina FeJgueiras
ILUSTRAÇÃO DE CAPA
Detalhe: Augiist Rodin
The DcvicTs Hand- 1902 - Muscc Rodin
IMPRESSÃO
Markgraph
FICHA CATALOGRÁF1CA
P787a
Pommier, Gérard.
O amor ao avesso: ensaio sobre a transfe-
rência em psicanálise / Gérard Pommier; tra-
dução: Sandra Regina Felgueiras - Rio de
Janeiro : Companhia de Freud, 1998.
480 p . ; 23 cm.
ISBN 85-85717-14-9
Tradução de: L'amor a 1'envers.
1. Transferência (Psicologia). 2. Psicaná-
lise. I . Título.
CDD-154-24
de- f-tL&COcC
e d i t o r a
ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA
Rua Visconde de Pirajá, 547 - Sala 702
Cep 22415-900 - Ipanema - Rio de Janeiro
TeL (021) 540-7954 - Telefàx; (021) 239-9492
emaíl: tereza@ism.com.br
mailto:tereza@ism.com.br
A
- / J . psicanálise foi inventada por um médico na preocupação de tratar. Sabemos, por
este fazer Freud elabora rapidamente uma técnica apoiada na transferência, "sentimento
dirigido àpessoa do analista " Uma definição tão sucinta signifíca que o sintoma — que
um primeiro amor traumatizante nodulou — poderia ser desnodulado pelo amor de
transferência ?
Para responder a esta questão, seria preciso desmontar os diferentes empuxos do
dispositivo analítico. São empuxos complexos, e os textos dos autores clássicos os estu-
dam geralmente de forma dispersa. Assim com a identificação e a pulsão, o signiôcante
e a letra, o sintoma e a angústia. Que articulações existem entre estes diferentes termos
e como se ordenam eles na transferência?É a este esforço de claiif cação que se prende
este ensaio, que toma seu ponto de partida na palavra analisante e no saber inconsciente
que ela encobre. Ele estuda cada vez mais de perto seus efeitos, ou seja, a identificação
transferenciai e o objeto pulsional que ela põe em jogo, que bordejam o teiritório onde
o sintoma se encarcera. O avanço da cura procede disso, assim como os limites com que
ela se confronta.
Esta exposição não é somente uma obrigação didática, segundo a qual seria pre-
ciso progredir do mais fácil para o mais difícil. Éa própria temporalidade da análise que
ela busca descrever, de seu início a seus fins. Ao cobrir um circuito tão complexo, este
ensaio não pretende resolver todas as questões, mas gostaria de pelo menos colocá-las,
mostrando suas conexões.
D o MESMO A U T O R :
D'unelogiquc deIapsychosc, 1983, Point Hors Ligne, Franco
Angeli (Milão), Paradiso (Barcelona) e Catálogos (Buenos
Aires).
L 'excepúon femimne, 1985, Point Hors Ligne, Alianza Edito-
rial (Buenos Aires) e Zahar (Rio de Janeiro).
Ledénouementduneanalyse, 1987, Point Hors Ligne, Nueva
Vision (Buenos Aires) e Zahar (Rio de Janeiro).
Li névroseiníàntile de JapsychanaJyse, 1989, Point Hors Ligne.
L 'ordre sexuel, 1989, Aubier.
Libido Ulimited—Freud apolidque?, 1990, Point Hors Ligne,
Artes Médicas (Porto Alegre).
Naissance et renaissance de 1'écriture, 1992, PUF.
Du bon usagc éroúque de la colete, 1994, Aubier.
í n d i c e
O J O G O D A A S S O C I A Ç Ã O L I V R E 9
Generalidade da t ransferência 11
T r a n s f e r ê n c i a positiva, negativa, neutra 41
O efeito sujeito 67
O que se trata de fazer operar durante a cura: o saber inconsciente, b inár io 83
O MURO DA TRANSFERÊNCIA 117
O que quer o analisante? 119
O obs tácu lo e a deriva, o e s p a ç o - t e m p o da t ransferência 141
As iden t i f i cações na t ransferência 165
Iden t i f i cação do analista na t ransferência 197
A quadratura da t ransferência 213
PRIMEIROS RESULTADOS
L I M I T E S D A C I R A N D A 223
D e c i f r a ç ã o e r e fe renc iação 225
É isso! 239
Travessia do plano da ident i f icação 255
O PONTO DE APOIO VELADO DA CURA: A PULSÃO 273
O psicanalista é verdadeiramente a lguém, ou, melhor ainda, alguma coisa? 275
É v o c ê o u eu, o narcisismo é un i lá te ro 299
R e l a ç ã o entre a pulsão e a ident i f icação 307
O corte 329
U m a nota sobre a d u r a ç ã o da sessão 349
Os diferentes destinos da pulsão e seu recalque, problema principal na cura 359
Imagens fixas 377
A suspensão do recalque pulsional na t ransferência 385
O Q U E SE C O N C L U I E M A N Á L I S E 395
O b s e r v a ç õ e s sobre os limites do efeito t e r a p ê u t i c o da t rans fe rênc ia 397
Saber fazer c o m seu sintoma 415
U m a obse rvação sobre o desejo do analista 431
A QUESTÃO DA TRANSFERÊNCIA NAS PERVERSÕES
E N A S PSICOSES 439
Suspensão do recalque e pe rve r são 441
O b s e r v a ç ã o sobre a t ransferênc ia na psicose 455
R e c a p i t u l a ç a o das modalidades da t ransferência segundo os tipos c l ín icos
O J O G O
D A
A S S O C I A Ç Ã O L I V R E
G e n e r a l i d a d e d a t r a n s f e r ê n c i a
Transferência originária, transferências secundáriasI
Quaisquer que sejam as capelas do império freudiano, concorda-se em
v e r na t r a n s f e r ê n c i a a mo la -mes t r a da cura ana l í t i ca . E n t r e t a n t o , seu c a m p o de
a p l i c a ç ã o é f r e q ü e n t e m e n t e o b j e t o de r e s t r i ç õ e s . Q u a n d o a e x i s t ê n c i a da trans-
f e r ê n c i a é r e c o n h e c i d a na psicose e na p e r v e r s ã o , é para subl inhar que seu p r o -
cesso bate n u m escolho, o do a m ó d i o * se se pode chamar assim, depois de
L a c a n , a e s p é c i e de ó d i o engendrada pe lo amor . . . " V i o l ê n c i a , p e r s e c u ç ã o ,
e r o t o m a n i a , e x c l a m a r á tal psicanalista: c o n c o r d e m c o m i g o , u m a t r a n s f e r ê n c i a
q u e n ã o se p o d e analisar ainda merece este nome? E se u m perverso v e m ve r
v o c ê , caro colega, sua i n i c i a t i v a t e m o u t r o o b j e t i v o que o de gozar de v o c ê ? E le
b u s c a r á e m v o c ê u m a figura talvez a t í p i c a , n o entanto m o d e r n a e exci tante da
l e i pa t r ia rca l ! C o m o , nestas c o n d i ç õ e s , falar ainda de ps i caná l i s e? D i v e r t e - o ser
o masoquis ta de u m s á d i c o , o u v o c ê g o z a r á as c o n t o r ç õ e s de u m exibic ionis ta?" . . .
D e f o r m a que , u m a vez fe i t a a lista das impossibi l idades, o d i spos i t ivo f r e u d i a n o
s e r á r e d u z i d o à p o r ç ã o c ô n g r u a da neurose, se n ã o é t a m b é m d i m i n u í d o e m
f u n ç ã o da idade , da gravidade de certos sintomas, o u de u m n í v e l c u l t u r a l m u i t o
r u d e . P o r l i m i t a ç õ e s e r e s t r i ç õ e s , a t r a n s f e r ê n c i a t e r á sido assim reduz ida a u m
m o d e s t o i n s t r u m e n t o cujas i n d i c a ç õ e s s e r ã o discutidas antes de e m p u n h a r sua
ca ixa de fe r ramentas .
* E m f r a n c ê s , Hainamoration. ( N T )
12 O AMOR \0 AVESSO
T o d a v i a , mais que d i s t i n g u i r c o m sutileza a f o r m a , o t i p o , o g ê n e r o se-
g u n d o os quais ela seria ef icaz, o b s t á c u l o o u r e s i s t ê n c i a , p o r que n à o e x a m i n a r a
c o n s t â n c i a deste i m p u l s o secreto que leva cada u m a falar? C o m c o n f i a n ç a , o u
c o m d e s c o n f i a n ç a , mas, e m todos os casos, os seres h u m a n o s t o m a m u m o u
mais semelhan tes c o m o i n t e r l o c u t o r e s i n e v i t á v e i s . N e n h u m p e n s a m e n t o ,
v i l i p e n d i o s o o u e logioso , que n ã o se enderece ao p r ó x i m o ! A a b s t r a ç ã o m e t a f í s i c a
d o mais s o l i t á r i o filósofo espera encon t r a r u m eco. O poeta trabalha pela m u d a
beleza de u m m u n d o que ele p r o c u r a fazer c o n c o r d a r c o m a sonor idade das
palavras e, t ã o r e t i r ado q u a n t o seja de qua lque r o u t r a t roca , n ã o m e n o s escreve-
rá para u m de seus i r m ã o s . N u n c a o m í s t i c o su rdo a toda o u t r a v o z que a de
D e u s f a r á sua e x p e r i ê n c i a f o r a de u m l i a m e re l ig ioso j á r e c o n h e c i d o . C o n s i d e -
r e - o c o m o a n ô n i m o o u o p e r s o n i f i q u e , o pensamen to sempre c o n s t r ó i seu
luga r de e n d e r e ç a m e n t o , f r e n t e ao qua l a palavra desenvolve suas d e m o n s t r a -
ç õ e s , suas provas , seus efei tos . G r a ç a s a ele, o r a c i o c í n i o ressoa e a r e f l e x ã o se
r e f l e t e . P o r que n u n c a dispensamos este i r m ã o que nos e m b a r a ç a de t an to que
nos ajuda? N ã o é ele q u e m , sem a r g ú c i a sup lementar , nos d e m o n s t r a a genera-
l idade da t r a n s f e r ê n c i a ?
P s i c ó t i c o s o u perversos f r e q ü e n t e m e n t e v ê m v e r psicanalistas: j á que o
f a z e m , é p o r q u e sempre existe para eles u m lugar de e n d e r e ç a m e n t o , p o r t a n t o ,
u m a t r a n s f e r ê n c i a p o t e n c i a l . D e c e r t o , u m c o n t r a d i t o r p o d e r i a d i ze r que e n c o n -
trar-se c o m u m analista n ã o é su f i c i en t e para d e f i n i r u m a a n á l i s e . E n t r e t a n t o ,
m e s m o se a inda n ã o se trata de a n á l i s e , estes encon t ros s ó se p o d e m desenrolar
c o m u m analista. É a mesma coisa, a l iás , nas neuroses, du ran t e as entrevistas
p r ehmina re s . É n e c e s s á r i o i n i c i a l m e n t e e n c o n t r a r este semelhante para o q u a l
u m t r e c h o de fala é a t i rado ao acaso. S ã o estas palavras atiradas c o m o perdidas ,
vol tadas para o n ã o - c o n h e c i d o , v o c á b u l o s mais o u m e n o s f i r m e m e n t e atados
que se es tendem, se d o b a m na meada, se desenredam, f a z e m n o v e l o , n ó , e n r e -
dam-se n o v a m e n t e , q u e f a r ã o a pa r t i cu la r idade da t r a n s f e r ê n c i a .
A p a r t i r deste assu je i tamento de t o d o ser h u m a n o à palavra , de f ine - se
u m a t r a n s f e r ê n c i a de t oda f o r m a o b r i g a t ó r i a , p o r q u e n i n g u é m pensa sem pa la -
vras que se jam j á par t i lhadas, transferidas. U m a vez a d m i t i d a esta gene ra l idade ,
é u m o u t r o p r o b l e m a e x a m i n a r o que se t o r n a esta t r a n s f e r ê n c i a 1 na psicose, na
1 Freud ut i l iza pela pr imeira vez o te rmo T r a n s f e r ê n c i a e m francês, e m 1888, no d i c i o -
n á r i o m é d i c o Vi l lare t : ele designa nesta é p o c a , po r " t r an s f e r ênc i a " , a m u d a n ç a de lado
do corpo do sintonia h i s t é r i co . É nos Études sur 1'hystérie [Estudos sobre a histeriaj
(1895) que a t r ans fe rênc ia (Übeitragung), comparada a uma falsa n o d u l a ç â o , toma a
a c e p ç ã o que ainda t e m hoje .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 13
neurose o u na p e r v e r s ã o . O a m o r de t r a n s f e r ê n c i a p e r m i t e ques t ionar e o rdenar
a c l í n i c a , n ã o o c o n t r á r i o .
I I
U m c r í t i c o pode r i a e n t ã o pe rgun ta r se u m a t ã o ampla d e f i n i ç ã o da t rans-
f e r ê n c i a conce rne ainda ao d i spos i t ivo da p s i c a n á l i s e . Este só seria o caso se o
i n c o n s c i e n t e atuasse e m u m a t r a n s f e r ê n c i a t ã o amplamen te de l imi tada . T o d a
t e o r i a da t r a n s f e r ê n c i a — i n d e p e n d e n t e m e n t e de suas a p l i c a ç õ e s p a r t i c u l a r e s —
deve e n t ã o estar f u n d a d a e m r e l a ç ã o à p r ó p r i a f o r m a ç ã o do inconsc ien te , quer
d ize r , a t í t u l o de u m a c o n s e q ü ê n c i a do recalque. C o m o d e f i n i - l a s implesmente ,
s em en t ra r e m c o n s i d e r a ç õ e s m u i t o complexas?
Seria su f i c i en te dizer , n is to seguindo as pr imeiras c o n t r i b u i ç õ e s de F reud ,
que o reca lque e, c o n s e q ü e n t e m e n t e , o inconsc ien te , resulta de u m p r i m e i r o
a m o r c u j o t r a u m a f a l t o u esquecer. Imens idade da resposta que f a l t o u dar à de -
m a n d a da m ã e , o a m o r p r i m e i r o t raumat iza , p o r q u e é i m p o s s í v e l lhe dar o que
l h e fa l ta . Se o p r ó p r i o c o r p o devesse responder a esta demanda, ele e q ü i v a l e r i a
a esta fa l ta , segundo o e n c o n t r o p r i m e i r o que o a m o r dá à p u l s ã o de m o r t e . Falta
de f a l o da m ã e de u m lado , i d e n t i f i c a ç ã o i m p o s s í v e l a este fa lo de o u t r o , disso
resul ta que a s i g n i f i c a ç ã o f á l i ca do c o r p o é i n i c i a l m e n t e recalcada. Esquecemos
que somos este c o r p o , n ó s o temos s implesmente sem c o m p r e e n d e r o que ele
representa, a n ã o ser que se trata de u m m i s t é r i o , o de u m a m o r que i g n o r a o
que o t r a u m a t i z a 2 U m a i d e n t i f i c a ç ã o i m p o s s í v e l ao fa lo ocasiona u m p r i m e i r o
reca lque , que cor responde ao desconhec imen to da c a s t r a ç ã o materna . D e u m
l a d o , é preciso recalcarque a m ã e n ã o t e m fa lo , j á que, de u m o u t r o l ado ,
d e v e r í a m o s d á - l o a ela. Nosso c o r p o se erige nesta f i c ç ã o , ele per tence, i n i c i a l e
a l u c i n a t o r i a m e n t e , ao sonho .
Este recalque do va lo r f á l i c o do c o r p o p rograma imed ia t amen te u m se-
g u n d o . D e f a t o , c o m o a c r i a n ç a poder i a d e s e m b a r a ç a r - s e desta a l u c i n a ç ã o de ser
2 Disso resulta que a s ignif icação do E u [Moi] será u m enigma: " O que concluir disso,
no ponto em que estamos, a não ser que o que revelamos como impossibilidade de
figuração para o ego n ã o é exatamente da mesma ordem que o interdito que cai sobre
uma r ep re sen t ação que n ã o teria objeto mundano e que, ao se obscurecer neste inter-
di to (com todo o seu inevi tável pano de fundo religioso), nota-se o que tem a ver c o m
a impossibilidade: Ego é u m nome de Furo; acrescentemos agora: relativamente às
" i d é i a s " isto é, às figuras tomadas no j o g o representativo." (Guy Le Gauffey,
Vincomplétude du symbolíque, de René Descartes àjacques Lacan, EPEL, 1991).
O AMOR AO AVESSO
o f a lo a n à o ser c o n f e r i n d o a p o t ê n c i a a seu pa i , que se rá a m a d o c o m o p r e ç o
desta l i b e r t a ç ã o ? N o en tan to , e p o r sua vez, este segundo a m o r f a r á t r auma , de
u m lado , p o r q u e a p o t ê n c i a assim conced ida ao pai é ainda mais castradora ( n à o
sou eu q u e m o sou, é ele q u e m o t e m ) , de o u t r o lado , p o r q u e esta p o t ê n c i a faz
deste pai u m sedutor , u m v i o l a d o r p o t e n c i a l . C o n s t i t u i n d o p r o p r i a m e n t e o
inconsc i en te e d i p i a n o d o recalque s e c u n d á r i o , o t r auma que p rocede da sedu-
ç ã o pe lo pa i s e rá t an to mais v i o l e n t o q u a n t o u m a u x í l i o era esperado dele e m
r e l a ç ã o ao que a demanda mate rna c o m p o r t a de i n f i n i t o . C o n t e m p o r â n e a deste
a c o n t e c i m e n t o , desencadeia-se a a n g ú s t i a de c a s t r a ç ã o d o s u j e i t o , que deve r e -
n u n c i a r a u m a parte de seu g o z o e m p r o v e i t o do pai . Esta a n g ú s t i a de c a s t r a ç ã o
m o t i v a o recalque: c o n v é m , p o r u m lado , preservar o a m o r de u m pa i salvador
e é prec iso , c o m o c o n s e q ü ê n c i a , p o r o u t r o l ado , recalcar o t r a u m a p r o v o c a d o
p o r sua f u n ç ã o (a c a s t r a ç ã o ) . O recalque se d e f i n e assim c o m o o que este s u j e i t o
n ã o quis saber para c o n t i n u a r a amar ( p o r t a n t o , a v i v e r ) , apesar d o t r auma :
c o l o c a d o d ian te d o d i l e m a de u m a s e d u ç ã o t r aumat izan te que a c o m p a n h a o
a m o r , o s u j e i t o recalca a p r i m e i r a para preservar o segundo . O recalque p r i m o r -
d i a l se a r t i cu la i n t i m a m e n t e , pois , c o m o reca lque s e c u n d á r i o . O p r i m e i r o
conce rne à s i g n i f i c a ç ã o fa l ica d o c o r p o (a c a s t r a ç ã o mate rna) e o segundo ao
t r a u m a que resulta da d e l e g a ç ã o desta p o t ê n c i a fa l ica ao pa i (a c a s t r a ç ã o p e l o
pa i ) .
Esta c o n c e p ç ã o d o recalque p o d e r i a fazer crer que este t r a u m a sexual
p recoce , v e r i f i c á v e l e m toda a c l í n i c a , f o i s o f r i d o p o r u m a i n o c e n t e c r i a n ç a . O
p o b r e b e b ê ter ia s o f r i d o rudezas, t endo assim amado a p o n t o de recalcar! D e i -
x e m n o en t an to seus l e n ç o s e m seus bolsos, pois o p r ó p r i o b e b ê responde ao
q u e se espera dele? N ã o , ele se p ro tege b e m ! N ã o é p o r q u e se recusa a r e s p o n -
der à d e m a n d a ma te rna que i n v o c a a p o t ê n c i a paterna? C o m o p o d e r i a , a l iás ,
esperar igualar-se à imens idade d o que l h e era demandado? E quase l o g o ao
n a s c i m e n t o que ele aprende a d ize r n ã o , m e n o s p o r c a p r i c h o q u e para resist ir a
sua a l i e n a ç ã o .
A s s i m , desde que v i v e , r e s p o n s á v e l p o r seu a m o r , p o r t a n t o , p o r u m
reca lque s i g n i f i c a d o p e l o " n ã o " dando o m e l h o r de si para se d i s t i n g u i r d o q u e
se espera dele e, l o n g e de nos arrancar l á g r i m a s , o b e b ê é c u l p a d o * p o r t o d a a
d u r a ç ã o de sua i n s o n d á v e l e x i s t ê n c i a . Para sua m ã e , n ã o soube dar o q u e e m
s i l ê n c i o ela l h e demandava , e seu p r i m e i r o a m o r e n g e n d r a r á u m a i n e x t i n g u í v e l
* E m f r a n c ê s , en ãute, que significa estar " e m falta" ou seja, ser culpado. ( N T )
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LI V IV E 15
d e m a n d a de p e r d ã o 3 Se o t r a u m a t i s m o sexual é t ã o d i f í c i l de r econhece r e mais
a inda de enunc ia r , c o m o se tivesse sido s o f r i d o c o m o u m a justa p u n i ç ã o , é na
m e d i d a e m que esta fal ta ficou inscr i ta n o regis t ro das contas. A s s i m t a m b é m o
s o f r i m e n t o d o s i n t o m a pu rga esta cu lpab i l idade de exis t i r e va i m o t i v a r t a m b é m
a d e m a n d a de a n á l i s e .
C r e s c i d o , o b e b ê t e r á l i m p a d o sua culpabi l idade? Mas n ã o ! J u n t o a q u e m
o o u v e , c o n t i n u a a se desculpar p o r m i l detalhes pelos quais n i n g u é m sonharia
e m r e p r o v á - l o , estes f r e n t e a q u e m o grande b e b ê t e m ataques de gentilezas
estando, o mais f r e q ü e n t e m e n t e , ocupados e m fazer o mesmo . A c o n f i s s ã o r e -
pe t i da de u m a fa l ta de c o n t e ú d o m a l c i r cunsc r i to se prende c o m o p o d e à m u l -
t i d ã o dos a c o n t e c i m e n t o s que j u s t i f i c a m que se manifeste a l g u m o lhar a seu
v i z i n h o . E is to t ã o cons tan temente que parece que as r a c i o c i n a ç o e s d o pensa-
m e n t o , o p r ó p r i o r a c i o c í n i o , e m sua mais obscura p ro fundeza , buscam i n d e f i n i -
d a m e n t e a j u s t i f i c a t i v a da e x i s t ê n c i a , aplicando-se e m descobri r u m a causa de
estar a í , que n u n c a é b e m a r g ü i d a p o r q u e ela permanece i n e x p l i c a v e l m e n t e
fal tosa, a mais n u m m u n d o h ian te , culpada do a m o r do pecador 4
3 N ã o é u m b o m índ ice da generalidade da culpabilidade, e portanto da t ransferência ,
constatar que todas as religiões fizeram da falta e do sacrifício expia tór io o p r inc íp io
necessár io à exis tência da comunidade? N ã o são elas construídas como se, no in íc io
dos tempos, u m pr imeiro sacrifício humano tivesse sido necessário, como se fosse
preciso que u m corpo ao menos fosse cortado para que os outros ficassem juntos? N ã o
é in t roduz indo conceitos novos que a psicanálise dá provas de originalidade. O novo
só é trazido por ela quando reduz o acontecimento de uma culpabilidade, consubstanciai
à exis tência , ao recalque or ig inár io , à perda da significação fálica de u m corpo nunca
à altura da demanda de falo materna. Neste terreno, o m o n o t e í s m o , que faz do pecado
or iginal uma perda da i nocênc i a primeira, mostrou o liame do amor e da falta. Sob o
reinado do deus de A b r a ã o , subsistindo numa re lação de i m p l i c a ç ã o m ú t u a , a
pecabilidade e o amor perseveram em sua via comum, de modo que aquele que
confessa que ama, como lhe é prescrito, reconhece t a m b é m que pecou.
4 U m cr í t ico da psicanálise poderia perguntar se a montagem técnica da cura n ã o é, em
nossa época , o dispositivo que corresponde ao desejo da histérica. Para ele, a ps icaná-
lise n ã o seria uma ciência , mas uma rel igião, que só apresenta uma nova versão , se n ã o
a moderna perversão de u m amor divino que ignora a si mesmo. " V o c ê s poderiam
garantir" dirá ele, "que a ação de Freud f o i mui to diferente daquela dos secretários ou
dos diretores de consc iênc ia , c o m osquais as mulheres místicas dos séculos passados se
confessavam? Acredi to que vocês nos convidam medicamente a colaborar c o m a mes-
ma m á q u i n a de gozo que aquela que, como era o caso outrora, permitia di r ig i r suas
preces a u m pai impotente ainda que divino! O efeito t e rapêu t i co n ã o é i m p r o v á v e l .
Mas, por favor, o que h á aí de novo? N u m a certa medida, de fato, o dispositivo
O AMOR AO AVESSO
C o m o o e q u í v o c o d o francês p e r m i t e , é p o r q u e h á esta falta que é p r e c i -
so* O q u ê ? N a d a a l é m disso: somente é preciso . Expl ica r - se c o m Sollen, c o m
u m deve r t i o vaz io q u a n t o m c o e r c í v e l . N à o é esta i n t e r m i n á v e l t en ta t iva de
e x p l i c a ç ã o que r eme te à o r i g e m da t r a n s f e r ê n c i a ? A e x p l i c a ç ã o e à r e d e n ç ã o
i m p o s s í v e l somen te o a m o r pode atenuar. O que se mos t ra , pois , m u i t o r ap ida -
m e n t e , é q u e o que , e m m u i t o poucas palavras, merece ser q u a l i f i c a d o de
i n a n a l i s á v e l comanda , p o r p r i n c í p i o , a demanda de a n á l i s e . A a n á l i s e se desen-
v o l v e g r a ç a s a u m i n a n a l i s á v e l — a demanda de a m o r — que ela n ã o cura . Ela s ó
se interessa p o r suas c o n s e q ü ê n c i a s s i n t o m á t i c a s .
A q u e l e que f o r m u l o u esta demanda confessa i m p l i c i t a m e n t e seu a m o r e,
c o m ele, sua cu lpab i l idade . C e r t a m e n t e a p s i c a n á l i s e n ã o arranca tais c o n f i s s õ e s .
E l a passa t an to m e l h o r sem elas q u a n t o seu p r o c e d i m e n t o as atua: na t r a n s f e r ê n -
cia , é su f i c i en t e que o analisante pague para confessar que , sem saber, ele ama,
c o m este a m o r v o l t a d o para seu t r auma de o r i g e m g r a ç a s ao q u a l o reca lque se
descobre . D e m o d o que o pagamen to s e r á u m equ iva len te da c o n f i s s ã o , a to
su f i c i en t e para que a t r a n s f e r ê n c i a assegure seu i m p é r i o . N ã o seria o p a g a m e n t o
t an to mais ef icaz q u a n t o mais ele p a r e ç a p o u c o j u s t i f i c a d o ? A q u e l e que paga
sem f u n d a m e n t o aparente deve ter, p o r isso, a lguma obscura r a z ã o e, se ele p o d e
constatar seus m o t i v o s , n ã o se rá l o g o na con ta de sua cu lpab i l i dade que a soma
se rá endossada? Pagando " g r a t u i t a m e n t e " , segundo as a p a r ê n c i a s , ele t e r á r e c o -
n h e c i d o sua pecaminosa e x i s t ê n c i a . C o m o exp l i ca r a necessidade de pagar a
a l g u é m q u e , c o m o u m psicanalista, se v e m v e r somen te para l h e falar? E is to
mais a inda q u a n d o n ã o se sabe exa tamente de q u e se dever ia falar , o u p i o r ,
q u a n d o se pensa ter u m a i d é i a disso, mas é i m p o s s í v e l f o r m u l á - l a c o n v e n i e n t e -
ps icanal í t ico corresponde ao desejo da histérica, certo(a) de obter graças a ele u m gozo
a partir do momen to em que recusa a satisfação do desejo. Segundo uma montagem
das mais católicas possíveis, a busca míst ica de u m pai espiritual reclama, a té mesmo
para o ser moderno , a assistência de u m diretor de consc iênc ia . A i n v e n ç ã o freudiana
afasta-se deste modelo experimentado? O eterno direcionamento para o pai, a inc r íve l
père-version v ê - s e posta e m cena e m nossa é p o c a , segundo o remake m o d e r n o da
ps i caná l i s e , e ele se mostra t ã o adequado à s u s p e n s ã o do s in toma quan to seus
p r i m o g ê n i t o s dos tempos e v a n g é l i c o s " Veremos que uma semelhante cr í t ica desmo-
rona a partir do m o m e n t o e m que a f i cção religiosa é remetida ao fato p o l í t i c o que a
engendra, descartando toda t r anscendênc i a .
* E m f r a n c ê s , c'estparce qu'ilya cetteãute qu'ilâut, que t a m b é m pode ser t raduzido
por: " é porque h á esta falta que se deve" no sentido do dever em seus m ú l t i p l o s
significados. ( N T )
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 17
m e n t e du ran t e a se s são . E rea lmente acontece de o t e m p o da sessão servir para
tagarelar sobre t u d o , salvo sobre o que seria preciso. V a i pe rmanecer somen te
u m a cu lpab i l i dade i n d e t e r m i n a d a que é i m p o r t a n t e situar, se se quer c o m p r e e n -
der o que v a i o r i en t a r a cura.
III
Se se tratasse somente, para o analisante, de tagarelar, pensamentos
desordenados d e v e r i a m apresentar-se. E nos pe rgun tamos e n t ã o segundo que
eixos de f o r ç a o f o r m i g a m e n t o das falas se lastra n o d i spos i t ivo . Q u e e s p é c i e de
f i o de p r u m o d á m u i t o r ap idamen te a u m a cura sua o r i e n t a ç ã o r e l a t ivamente
u n í v o c a , q u a n d o n ã o se mostra u m a e s p é c i e de i n é r c i a cega que leva os analisantes
às mesmas o b s e s s õ e s , e isto às vezes n ã o sem peso.
A p s i c a n á l i s e t e m a r e p u t a ç ã o de ser r edu to ra . A p o n t o de que, e m certos
p a í s e s c o m o os U S A , os praticantes do inconsc ien te sejam f a m i l i a r m e n t e desig-
nados c o m o t e r m o " redu tores de c a b e ç a " c o m o l e m b r a n ç a das t r ibos a m a z ô -
nicas que p r a t i c a v a m esta arte. N o en tan to , c o m o os analistas p r o c e d e r i a m a
estas r e d u ç õ e s , j á que p e r m a n e c e m silenciosos a m a i o r parte do t empo? N ã o é
antes o analisante que, desde que se o de ixe explicar-se, r e to rna ao tapete dos
temas fami l ia res e f a n t a s m á t i c o s , que p o u c o a p o u c o ele va i r eduz i r a sua es t ru-
tu ra , esta ú l t i m a c o m a n d a n d o o c o m u m de sua e x i s t ê n c i a ?
D e f a t o , esta r e d u ç ã o se p r o d u z sempre n o m e s m o sent ido, de m o d o que
invar ian tes i d ê n t i c o s r e t o r n a m ao tapete: o sexo, a i n f â n c i a , a f a m í l i a . A i n d a que
nada o i m p e ç a , quase n u n c a acontece que u m analisante desenvolva duran te
m u i t o t e m p o u m t ema f i l o s ó f i c o , re l ig ioso o u p o l í t i c o e, neste sent ido , a e x p e -
r i ê n c i a dos analistas é c o n c o r d a n t e . O m e n o r s o n h o , o m e n o r f an t a sma
r e c o l o c a r ã o l o g o e m cena a q u e s t ã o da sexualidade e t u d o que a ela se associa.
P o r que u m a ta l r e d u ç ã o se i m p õ e t ã o constantemente? I m a g i n e m o s o
esquema mais geral : q u a n d o u m analisante faz o relato de seus pensamentos sem
o m i t i r os mais í n t i m o s , e m e s m o q u a n d o sua e x i s t ê n c i a é regida p o r u m idea l
a l t amente m o r a l , c h e g a r á u m m o m e n t o e m que f a rá u m a a s s o c i a ç ã o que n ã o se
e n c a i x a r á nesta austeridade declarada. M a i s cedo o u mais tarde, f a l a rá de seus
desejos insat isfei tos, a t é m e s m o de a lguma torpeza secretamente realizada p o r
ele. E x p r i m i r á c o m d i f i c u l d a d e , se n ã o m e s m o se desculpando, estes fatos e estes
pensamentos , m i s t u r a n d o a eles as a s s o c i a ç õ e s de que p o d e r á d izer que n ã o
dever i a f a z ê - l a s . Mas , tarde demais! J á f o i atuado! E le e v o c a r á , co rando , u m
lapso i n f e l i z e, se p o d e r á narrar seus sonhos e m u m t o m mais l i v r e , g r a ç a s à
O AMOR. AO AVESSO
censura que usualmente os traveste, p e r d e r á seu asseguramento quando seu sent ido
e scond ido se desenhar. M u i t o f r e q ü e n t e m e n t e , a d e n e g a ç à o e n t à o se t o m a r á
seu m o d o de e l o c u ç à o mais c o m u m , mas a f ranqueza p o d e r á t a m b é m ser u m a
mane i ra de antecipar u m a a b s o l v i ç ã o i m p l i c i t a m e n t e ped ida . D e q u a l q u e r f o r -
ma , d i z e n d o t u d o , sua pecabi l idade fará valer seus d i re i tos , n à o somen te a que se
reconhece c o m o tal , mas sob re tudo aque permanece la tente — c o m u m e n t e
purgada que é pe lo s in toma , sem que se ev idenc ie . N o m e s m o m o v i m e n t o ,
aquele a q u e m a falta f o i confessada r e p r e s e n t a r á m u i t o r ap idamen te , ao m e n o s
c o n f u s a m e n t e , u m a e s p é c i e de j u i z e de r e d e n t o r p o t e n c i a l . E a q u e m se p e d i r i a
p e r d ã o s e n ã o a u m a p o t ê n c i a tute lar , que merece , e n f i m , ser qua l i f i cada de
parental?
Sobre a base desta cu lpab i l idade abstrata, i ne ren te à e x i s t ê n c i a de t o d o ser
fa lante , a falta se ancorar ia a pa r t i r de u m detalhe preciso , de u m a c a r a c t e r í s t i c a
t an to mais pa r t i cu la r q u a n t o ela f o i desmascarada g r a ç a s a u m a f o r m a ç ã o d o
inconsc i en t e . U m a vez l a n ç a d a esta â n c o r a , as se s sões s e g u i r ã o ta teando as m a -
lhas de sua cadeia, c e r n i n d o p o u c o a p o u c o o m a l de u m s i n t o m a des t inado a
pu rga r u m a d í v i d a e m f a v o r da qua l a cu lpab i l idade se rá a p r i m e i r a t e s t emunha .
Nas tagarelices c o m u n s , acontece f r e q ü e n t e m e n t e que i n t e r f i r a m de m a -
nei ra i n o p i n a d a f o r m a ç õ e s d o inconsc ien te : lapsos, chistes, etc. N o e n t a n t o ,
aqueles que as escutam raramente e s t ã o inves t idos de u m a p o s i ç ã o tu te la r , o u ,
mais exa tamente , p o d e ser que estejam, mas p o r q u e t a m b é m f a l a m a t r a n s f e r ê n -
cia a sua pessoa p e r m a n e c e r á i nope ran t e . N a m e d i d a e m que eles mesmos t rans-
f e r e m , segundo o m a l - e n t e n d i d o c o m u m da i n t e r l o c u ç ã o , e spon taneamente
a n u l a r ã o , à m e d i d a que se m a n t é m a tagarel ice, a par te de s o n h o de q u e p o d e -
riam ter s ido inves t idos .
N o d i spos i t i vo f r e u d i a n o , e m t roca , o analista pe rmanece p o u c o l o q u a z e
a t r a n s f e r ê n c i a se o r i en t a n u m s ó sen t ido . D e mane i r a q u e a c o n f i s s ã o de u m
p e c a d i l h o , a inda que o n í r i c o , v e t o r i a l i z a r á r á p i d a e p o t e n t e m e n t e a t r a n s f e r ê n -
cia. V ê - s e casualmente c o m o a t r a n s f e r ê n c i a se lastra, c o m a n d a d a q u e é pela
cu lp ab i l i d ade . É n e c e s s á r i o a inda precisar agora e m que consiste esta ú l t i m a , e m
r e l a ç ã o às etapas d o recalque p r e c e d e n t e m e n t e lembradas . C o n s i d e r e m o s i n i c i -
a l m e n t e a cu lpab i l i dade que p rocede d o recalque p r i m o r d i a l . " R e c a l q u e p r i -
m o r d i a l " q u e r d i ze r que a p r i m e i r a s i g n i f i c a ç ã o dada à a p a r ê n c i a d o c o r p o f o i a
d o f a l o q u e fa l ta à m ã e . C o n s e q ü e n t e m e n t e , a fa l ta c o n v o c a d a p e l o a m o r é
i n i c i a l m e n t e u m sem f o r m a e sem n o m e . P o r t a n t o , é a p a r t i r de u m a i m p o s s i b i -
l i d a d e de representar , o u , a l iás , de n o m e a r q u e se engendra u m a m o r q u e n ã o
c o n c e r n e i n i c i a l m e n t e a n i n g u é m e m par t i cu la r , o u ainda a n i n g u é m q u e p e r -
O JOGO D A ASSOCIAÇÃO LIVRE 19
m i t a dar-se u m a f o r m a , r e f l e t i r - se 5 . A q u i l o a que é preciso assemelhar-se, n ã o
sabemos o que é, a n ã o ser que o a m o r o ordena. N ã o p o d e r í a m o s satisfazer o
i n s o n d á v e l que assim nos requer e, ex i s t indo sob o que o a m o r reclama, ao
m e s m o t e m p o v ê m o s e n t i m e n t o da falta e o pensamento que, i n d e f i n i d a m e n t e ,
gostaria de j u s t i f i c á - l a 6 .
O r i g i n á r i a é a t r a n s f e r ê n c i a que tes temunha u m a perda do que t e r í a m o s
s ido , n u m t e m p o e d ê n i c o . F o i p e r d i d o p o r nossa p r ó p r i a e x i s t ê n c i a , e para
aceder à h u m a n i d a d e , o s ign i f ican te f á l i c o de que nosso c o r p o f o i i nves t ido pela
d e m a n d a ma te rna . O f a to de que i g n o r e m o s o n o m e desta s i g n i f i c a ç ã o d iz res-
p e i t o à d i f i c u l d a d e de encon t ra r i dé i a s que e x p r i m a m ao m e s m o t e m p o este
N a d a — p o r q u e a m ã e n ã o t e m o fa lo — e este T u d o — j á que se c o n v o c a aqu i
5 A ausência de forma de origem, a falha da representação, engendra o amor, contrari-
amente a uma doxa lacaniana que quereria que o amor, uma vez nascido, seria sempre
falhado. Por impa lpáve l que seja, a falha precede o amor e o impulsiona para adiante.
O amor, é verdade, porta em si o absoluto deste nada, de que ele porta o selo que
deixará cada u m de seus objetos sucessivos n u m "mui to pouco" relativo. Mas este
" m u i t o pouco" permanece pleno do absoluto que ele reclama. Toda forma particular
que percebo, na medida em que sua beleza n ã o me afeta mais, não será menos habitada
pela perda da minha. D e maneira que esta forma que vejo me protege, me previne de
descobrir, no momento mesmo em que o pressinto, o vazio que me habita. Lacan
def in iu a beleza como a ú l t ima barreira que mascara u m horror ú l t i m o . Este pensa-
mento n ã o concerne ao hor ror do recalque or ig inár io , que nos espera no que vemos,
quando n ã o preferimos nos desviar dele? N o entanto, de onde vem, de fato, o pres-
sentimento do recalque or ig inár io se n ã o do visível? Neste sentido, a angústia da
castração materna concerne a u m real sensível que sem dúvida não compreendemos,
mas que todavia percebemos perfeitamente, a ponto de que de seu agenciamento
dependa o sentimento da beleza, se c o n v é m qualificar assim a coisa que mascara o que
ela mostra.
6 T a m b é m n ã o existe em seu fundo de Razão pura, j á que p e r m a n e c e r á justif icativa da
falta [faute] de existir, inteiramente voltada que é para o outro da t ransferência . " E u
penso" graças à t ransferência e este pensamento busca justificar-me. O pensamento
racional, aquele que cogita u m Real a n t r o p o m ó r f i c o que percebemos na falta de nossa
p r ó p r i a visibilidade, é assim encadeado pela culpabilidade. Nosso pensamento n ã o
pára de se ampliar porque, tão longe quanto existamos, é preciso jus t i f icá- lo , e este
es fo rço de pensamento parece h o m o g ê n e o à racional ização do real, ou ainda à Razão
prática, porque o sensível nos fala desta falta [faute], lembra-nos de que somos ine lu -
tavelmente escória da harmonia universal. Tentando justificar sem fim a ordem do
m u n d o , ordenando-a segundo minhas h ipóteses , meus planos e meus cálculos, a
racionalidade do Real que pude construir me concede de volta u m p e r d ã o inteira-
mente p rov i só r io (se nos podemos permit i r esta paráfrase aproximativa: "Eu penso,
logo , eu l i m p o " minha culpabilidade).
O AMOR AO A V I $ S O
a i n f i n i d a d e d o que ela demanda . Sob o i m p é r i o desta c o n t r a d i ç ã o se sustenta o
m i s t é r i o d o f a lo . Bedeutungàe que o o lha r de o u t r e m , o espelho, o a m o r s ã o
tantas outras e n i g m á t i c a s testemunhas. Q u e s ign i f ica esta a p a r ê n c i a que nos é
remet ida? A c a s t r a ç ã o materna t e m o pode r dc nos r e c h a ç a r da s i g n i f i c a ç ã o
fal ica e é dela, pois , que nada queremos saber, i g n o r â n c i a que d á seu sen t ido
mais obscuro e mais po ten te à e x i s t ê n c i a . O Urvcrdrangimç; é assim enroscado
n u m f u r o , pe lo que o o u t r o da t r a n s f e r ê n c i a é de i m e d i a t o e i r r e m e d i a v e l m e n t e
o r e s p o n s á v e l . A s i g n i f i c a ç ã o que teve nosso c o r p o , n ó s a pe rdemos n o t e m p o
d o recalque, ú n i c o ve rdade i ro selo de o r i g e m , e é p o r isso que buscamos depois
esta s i g n i f i c a ç ã o g r a ç a s à t r a n s f e r ê n c i a 7
R e c a l q u e o r i g i n á r i o , t r a n s f e r ê nc i a da o r i g e m , aquele c u j a p r e s e n ç a d á
c o n s i s t ê n c i a a u m c o r p o que a pe rdeu torna-se o lugar de u m e n d e r e ç a m e n t o
d o pensamento . A n ô n i m a sem ser impessoal , a q u e s t ã o que se e n d e r e ç a a ele
busca recuperar esta perda. Ela se e n c a r n i ç a e m recuperar sua s i g n i f i c a ç ã o g r a ç a s
ao o u t r o que vemos nos ver . E la busca recobra r n o vaz io de seu o l h a r seu
p r ó p r i o vaz io o r i g i n á r i o . Esperamos d o o u t r o da t r a n s f e r ê n c i a que nos e n c a m i -
n h e para a l iberdade de u m c o r p o en t regue a sua p l e n i t u d e . T r a n s f i r o , pois , para
o u t r e m — para esta a p a r ê n c i a que d e t é m o m i s t é r i o da m i n h a — u m saber que
m e escapa e que conce rne a m e u c o r p o , e os pensamentos m e v ê m neste a b r i g o .
IV
É difícil dar um exemplo do que é o recalque originário, ainda que se o
e x p e r i m e n t e cons tan temen te e m suas c o n s e q ü ê n c i a s . Pode-se t e r u m a i n t u i ç ã o
dele g r a ç a s à l i t e ra tu ra : a escrita n ã o t e m esta v a n t a g e m sobre a palavra , a de
preservar o a n o n i m a t o n o lugar de e n d e r e ç a m e n t o , a inda que apresente, ao
m e s m o t e m p o , o i n c o n v e n i e n t e de apagar a p r e s e n ç a ? O s l i v r o s , assim, t ê m o
p o d e r de o fe rece r a i n t u i ç ã o de u m a p r e s e n ç a desencarnada, ú t i l para s i tuar u m a
o r i g e m sub je t iva a q u é m de t u d o . E p o r q u e a escrita imper sona l i za mais f a c i l -
7 Evocada nos primeiros parágrafos , a generalidade da t ransferênc ia pode agora ser pre-
cisada. Se ela é proporcional ao recalque pr imord ia l , e n t ã o esta t r ans fe rênc ia a tua rá
tanto na psicose quanto na pe rve r são e na neurose. Esta generalidade da t r ans fe rênc i a
n à o quer t a m b é m dizer, é verdade, que e m todos os casos será anal isável . U m a coisa é
a t ransfe rênc ia , outra coisa é sua ut i l ização para fins anal í t icos . E po r isso que, mesmo
quando os mais brilhantes de seus discípulos t inham uma prá t ica ampliada, Freud
deixa entender, n ã o sem p r u d ê n c i a , que a análise dizia respeito especificamente às
neuroses.
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 21
m e n t e u m luga r de e n d e r e ç a m e n t o que pode ser " q u a l q u e r u m " que, às vezes,
ela t e s t e m u n h a u m lugar de o r i g e m cu ja e x p e r i ê n c i a se perde n o c a m i n h o c o -
m u m n o m o m e n t o e m que se encont ra : assim, p o r e x e m p l o , aquele que quer
fa lar de seu p r o f u n d o desamparo f r e q ü e n t e m e n t e nunca p o d e r á f a z ê - l o , pois , a
p a r t i r d o m o m e n t o e m que e n c o n t r o u o a m i g o p r o n t o a escutar este desampa-
r o , se v e r á mais distante dele g raças ao calor dessa amizade. M a i s u m a vez, ele
nada d i r á sobre isso, r e m e t e n d o para a m a n h ã a c o n f i s s ã o de seu e x í l i o .
A l g u n s escritores, p ro teg idos que f o r a m e m sua s o l i d ã o pela t ã o f r á g i l
m u r a l h a d o pape l b r a n c o , n ã o t e s t e m u n h a r ã o c o m mais v a n t a g e m a o r i g i n a l i d a -
de da t r a n s f e r ê n c i a — sua neut ra l idade a n ô n i m a — que as falas m ú l t i p l a s , a
imens idade das tagarelices que a renega* a pa r t i r do m o m e n t o e m que ela se
enuncia? A palavra renega i n f i n d a v e l m e n t e o que a leva adiante, sempre i n o -
cente de seus esquecimentos , cu jos t r a ç o s , e m t roca, a escrita p e r m i t e examinar .
S e m d ú v i d a n ã o é u m dos menores m o t i v o s da p a i x ã o da l e i t u r a p o d e r r e e n c o n -
t rar pela p r i m e i r a vez sua p r ó p r i a a u s ê n c i a , o esquec imento de u m E u [Moi]
t r az ido pela f i c ç ã o .
R a r o s s ã o os escritores que c h e g a m a evocar a p r ó p r i a coisa c o m o suple-
m e n t o de seus resultados, que eles a tua l izam. A s s i m n o p r i m e i r o c a p í t u l o de La
passion selon G. H. [ A p a i x ã o segundo G . H . ] * * , de Cla r ice Lispec tor , que d á
ao l e i t o r a i m p r e s s ã o de a p r o x i m a r este p o n t o de o r i g e m , que toda p r e s e n ç a
esconderia . Se se aceita andar u m p o u c o e m c o m p a n h i a da escri tora, ela lhe
f a l a r á dele c o m o é c o n h e c i d o sem ser r e c o n h e c i d o , c o m o permanece sempre
n ã o nasc ido, a v i r . O l e i t o r t a m b é m p o d e r á ter pensado que exist ia antes de
amar, que nada f o i mais v i o l e n t o que o que p recedeu a a t u a l i z a ç ã o do a m o r ,
q u a n d o ele era ainda a n ô n i m o , e talvez tivesse p o d i d o escrever, da mesma f o r -
m a que ela, que seria preciso fazer dura r este m o m e n t o suspenso: " E que eu
t enha a grande c o r a g e m de resistir à t e n t a ç ã o de evi tar u m a f o r m a . Esse e s f o r ç o
que f a r e i agora p o r de ixar subi r à t ona u m sent ido , qua lquer que seja, esse
e s f o r ç o seria f ac i l i t ado se eu fingisse escrever para a l g u é m . "
O l e i t o r é assim chamado a reconhecer a pa r t i r de que c o n j u n t o i m p r e -
ciso, de que m a g m a sem f o r m a ele se t o rna a l g u é m . N ã o é o a n o n i m a t o de seu
p r ó p r i o c o r p o que ele descobre n u m a t r a n s f e r ê n c i a p r i m e i r a , a c o n s t r u ç ã o de
sua i n f i n i d a d e sempre re tomada , c o n v o c a n d o a cada vez o a m o r de u m a n o v a
* Traduzimos sistematicamente déniei-por "renegar", deixando ao leitor a consideração
da a d e q u a ç ã o de seu uso. ( N T )
* * As ci tações de Clarice Lispector fo ram retiradas do l iv ro A paixão segundo G. H.,
Livraria Francisco Alves, R i o de Janeiro, 1991, 15 a ed ição . ( N T )
O AMOR AO AVI S s O
manei ra que lhe p e r m i t a encon t ra r seu l imi t e? É isto o que ele t e r á r e c o n h e c i d o
e m C la r i ce L i spec to r q u a n d o leu : " [ . . . ] j á que t e n h o que ter uma f o r m a p o r q u e
n à o s in to f o r ç a de f icar desorganizada, já que fa ta lmente precisarei enquadra r a
mons t ruosa carne i n f i n i t a e c o r t á - l a e m p e d a ç o s a s s i m i l á v e i s pe lo t a m a n h o de
m i n h a boca e pe lo t a m a n h o da v i s à o de meus olhos [ . . . ] . " Ele poder i a te r a
i n t u i ç ã o desta ve rdade , m e s m o que n à o soubesse nada da m e t a p s i c o l o g i a
f r eud i ana . G r a ç a s a ela, ele leu nesta frase a d e s c r i ç ã o de u m d e s p e d a ç a m e n t o de
u m c o r p o pelos o lhos e pelos dentes, c o r p o que n à o t e m ainda f o r m a q u a n d o
c o m e ç a , i m e d i a t a m e n t e i n f i n i t o e m u i t o grande, so l i c i t ado sem repouso pela
p u l s ã o para fo ra de si m e s m o , obsedado p o r u m a i m p o s s í v e l d e l i m i t a ç ã o d o
nada: " T e r e i que ter a c o r a ge m [ . . . ] de i r f a lando para o nada [ . . . ] assim c o m o
u m a c r i a n ç a pensa para o nada." Pensar para o nada n ã o é o ato que mais de
p e r t o e x p e r i m e n t a o recalque o r i g i n á r i o ? O pensar para o nada a inda par te
i n o c e n t e m e n t e e m busca d o o u t r o da t r a n s f e r ê n c i a , empres tando sua p r e s e n ç a
ao sem f o r m a .
C l a r i c e L i s pe c to r descreve nestes t e rmos a busca d o semelhante a q u e m
va i ser preciso falar: "Escuta, v o u ter que falar p o r q u e n ã o sei o que fazer de ter
v i v i d o . P i o r a inda, n ã o q u e r o o que v i . [ . . . ] . T o m a o que v i , l i v r a - m e de m i n h a
i n ú t i l v i s ã o , e de m e u pecado i n ú t i l . E s tou t ã o assustada que s ó p o d e r e i aceitar
que m e p e r d i se i m a g i n a r que a l g u é m m e es tá dando a m ã o . " M a s o que assim
saiu d o nada, na fal ta , poder i a a lguma vez ter a l g u m sent ido? Éa q u e s t ã o c o l o -
cada pela escri tora q u a n d o ela c o n t i n u a : " N ã o c o m p r e e n d o o que v i . E n e m
m e s m o sei se v i , j á que meus o lhos t e r m i n a r a m n ã o mais se d i f e r e n c i a n d o da
coisa v i s ta . " C o m o , de f a to , colocar-se à d i s t â n c i a d o sem f o r m a , j á que , a p a r t i r
d o m o m e n t o e m que ele se e n r a í z a n o o u t r o , este se mos t ra c o m o a o r i g e m de
nosso p r ó p r i o n à o - c o n h e c i d o ? O u s implesmente c o m o c o m p r e e n d e r de m a -
ne i ra i n t e l i g í v e l este m o m e n t o sempre an t e r i o r e sempre j á passado, j á que , a
cada vez que este n ã o - c o n h e c i d o é t rans fe r ido para a lguma coisa o u para a l -
g u é m , i m e d i a t a m e n t e perde a qua l idade que o caracterizava n o m o m e n t o an t e -
rior? O recalque o r i g i n á r i o , assim, pe rmanece para sempre i n c o m p r e e n s í v e l , de
m o d o q u e é e x p e r i m e n t a d o q u a n d o de cada u m dos pensamentos , q u a n d o de
cada u m a das s e n s a ç õ e s que , t o m a n d o sua f o r m a , o a n i q u i l a m . L e i a m o s mais
u m a vez C l a r i c e L i spec to r : ' [ . . . ] S ó que agora, agora sei de u m segredo. Q u e j á
es tou esquecendo, ah s in to q u e j á estou esquecendo. . . [ . . . ] S o u a vestal de u m
segredo q u e n ã o sei mais qua l f o i . [ . . . ] Soube o que n ã o p u d e e n t e n d e r [ . . . ] . "
O s e n t i m e n t o de u m vaz io que , i n f i n i t a m e n t e , precede t u d o e chama
a l g u m a coisa p e r m i t e , t a l c o m o C l a r i c e L i spec t o r descreve, c o m p r e e n d e r a a r t i -
c u l a ç ã o d o reca lque p r i m o r d i a l c o m o recalque s e c u n d á r i o . U m A m o r a n t e r i o r
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 23
a toda escolha de o b j e t o traz e m si a a s p i r a ç ã o vazia que precede o recalque da
o r i g e m , antes de abrigar-se e m a lguma coisa o u e m a l g u é m . C o m o este p r i m e i -
r o a m o r f i c a p r ó x i m o do h o r r o r de u m vazio o r i g i n á r i o é o que mos t ra C la r i c e
L i s p e c t o r q u a n d o escreve: " [ . . . ] o h o r r o r sou eu diante das coisas", o u ainda
" L o g o que eu p u d e r dispensar tua m ã o t ã o quente , i r e i sozinha e c o m h o r r o r . "
C o m o se a fa l ta de c o n s i s t ê n c i a , de v i s ib i l idade de cada u m q u a n d o es tá sem
a m o r o reduzisse n o v a m e n t e ao sem f o r m a : " [ . . . ] T e r á sido o a m o r o que vi?
[ . . . ] aquele h o r r o r , isso era o amor? a m o r t ã o n e u t r o que — " A m o r t ã o n e u t r o ,
t ã o o r i g i n á r i o que C la r i ce L i spec to r f i ca na imposs ib i l idade de t e r m i n a r sua
frase, que ela c o n c l u i c o m u m t r a v e s s ã o , c o m o se n ã o pudesse d izer a que esta
neu t r a l idade se igualar ia .
U m a t r a n s f e r ê n c i a o r i g i n á r i a — absolu tamente neu t r a — tenta assim j u s -
t i f i c a r o Ser, desalojar sua causa. Esta t r a n s f e r ê n c i a , p r o p o r c i o n a l ao recalque
o r i g i n á r i o e t ã o i n e x t i n g u í v e l quan to ele, parece bastante d i f e ren te das t ransfe-
r ê n c i a s plurais que c o r r e s p o n d e m às f o r m a ç õ e s do inconsc ien te . Se existe u m a
t r a n s f e r ê n c i a " o r i g i n á r i a " , a t í t u l o de u m a c o n s e q ü ê n c i a do recalque de m e s m o
n o m e , seria t ã o p r o b l e m á t i c o d izer o que ela é, o u sobre o que ela recai , q u a n t o
o seria n o que conce rne a este recalque, pois sempre, desde que ela t o m a f o r m a ,
s e r ã o as t r a n s f e r ê n c i a s s e c u n d á r i a s , as das f o r m a ç õ e s do inconsc ien te , que apare-
c e r ã o e i m p e d i r ã o destacar sua especif ic idade. T u d o o que se escreve n o que se
o u v e , o a t rope lo dos lapsos, as letras* do sonho à espera de serem lidas, o u ainda
os s in tomas c o m u m e n t e i n t r o d u z i d o s n o c o r p o , os fantasmas c u j o p r i n c i p a l
interesse pe rmanece calado, toda esta l i te ra l idade se a p ó i a na t r a n s f e r ê n c i a o r i g i -
n á r i a .
V
Uma multiplicidade de transferências foi o que Freud inicialmente des-
c o b r i u e m sua p r i m e i r a mane i ra de ver , e nada é mais d i v e r t i d o de descascar,
nada é mais es t imulan te para o i n t e l e c t o 8 D e p o i s que ele d i s t i n g u i u seu j o g o ,
coisa i n t e i r a m e n t e o u t r a f o i perceber a s ingular idade m u i t o mais desprazerosa
* E m f rancês , lettres, palavra que pode ser traduzida por "letras" ou "cartas" basicamen-
te. ( N T )
8 Quando Freud, a p r o p ó s i t o do sonho, fala de " t r ans fe rênc ia" de "pensamentos de
t r ans f e r ênc i a " designa com isso u m modo de desdobramento em que o desejo i n -
consciente se exprime e se disfarça através do material fornecido pelos restos p r é -
conscientes da vigília. (Sigmund Freud, 1900, cf. G W , I I - I I I , 568; SE, V . 562; Fr., 461).
O U I O » AO ^VISMl
de u m a t r a n s f e r ê n c i a c u j o m e n o r i n c ô m o d o é s ign i f ica r u m a m o r cons t r ange-
d o r , a l ienante , i gnoran te de sua p r ó p r i a e x i s t ê n c i a , somente c o m p a r á v e l às f o -
lhas de h e r b á r i o delicadas de seus diversos i r m à o s : sen t imentos t e m o s , i n v e j a .
e n a m o r a m e n t o . p a i x à o . Nada disto lhe concerne verdadei ramente . O s analis.mtes
i g n o r a m duran te m u i t o t e m p o estes falsos i r m à o s . e n q u a n t o que , n o e n t a n t o ,
s à o eles que o m a n t ê m na cura , e nada os e s p a n t a r á mais que apreender a ex i s -
t ê n c i a deste a m o r p r i m e i r o , cu ja i n s i s t ê n c i a os arrebata de f o r m a i n t e i r a m e n t e
d i f e r e n t e que segundo a p lura l idade n u a n ç a d a dos sen t imen tos segundos h á
p o u c o evocados.
A t e n s ã o que va i da t r a n s f e r ê n c i a s ingular às t r a n s f e r ê n c i a s p lura is é , p o r -
t an to , h o m o g ê n e a à q u e l a que ar t icu la o recalque p r i m o r d i a l ao recalque secun-
d á r i o 9 E n t r e t a n t o , se assim o c o r r e , p o r que as t r a n s f e r ê n c i a s de segunda o r d e m
d e v e r i a m ser m ú l t i p l a s ? É p o r q u e , se o recalque o r i g i n á r i o c o n c e r n e u n i c a m e n -
te à s i g n i f i c a ç ã o falica d o c o r p o , e m t roca o recalque s e c u n d á r i o c o n c e r n e a u m
encadeamento , o da c o n j u n ç ã o d i s j u n t i v a dos d i fe rentes t e rmos d o c o m p l e x o
de É d i p o . Este recalque segundo n ã o conce rne a u m dos t e rmos deste c o m p l e -
x o e m par t i cu la r . Podemos , p o r e x e m p l o , saber que t i v e m o s apego a nossa m ã e ,
mas sem m e d i r exa tamente a v i o l ê n c i a c o m as mu lhe re s que esta a l i e n a ç ã o
e n g e n d r o u . E t a m b é m n ã o i g n o r a m o s que p u d e m o s n u t r i r e m r e l a ç ã o a nosso
pai pensamentos ambivalentes , a t é hostis, f azendo sempre de n ó s assassinos p o -
tenciais daqueles que a d m i r a m o s . Cada t e r m o d o c o m p l e x o de É d i p o c o m p o r -
ta, assim, u m a a m b i v a l ê n c i a e m p o t ê n c i a , que se ex t e r io r i za segundo atos s i n t o -
m á t i c o s . Desconhecemos as c o n s e q ü ê n c i a s destes sen t imen tos e m nossa v i d a
a tual p o r q u e é ü ó g i c o , i n c o m p r e e n s í v e l , associar en t re si dois c o n t r á r i o s c o m o
o ó d i o e o a m o r . A c o n t e c e que desconhecemos estes sen t imen tos e n o d ia e m
que aval iarmos cada u m deles separadamente p o d e r e m o s pensar que s o u b e m o s
desde sempre , e te remos r a z ã o . O que p e r m a n e c e r á i nconsc i en t e , e m t roca , se
refere ao encadeamento que m a n t êm en t re si as duas ordens de f a t o c o n j u n t a s ,
pois s ó d i f i c i l m e n t e pode remos r econhece r — salvo m u i t o abs t ra tamente —
q u e o a m o r possa engendrar o ó d i o . E depois nos s e r á a inda mais d i f í c i l p e r c e -
be r que , c o n s e q ü e n t e m e n t e , qu isemos matar nosso pa i para de i ta r c o m nossa
m à e . O q u e i n e v i t a v e l m e n t e e s c a p a r á à c o n s c i ê n c i a d i z respei to à a s s o c i a ç ã o de
t e r m o s c o n t r á r i o s . D e mane i ra que o recalque s e c u n d á r i o interessa este p r ó p r i o
9 A escrita por materna tendo freqüentemente um efeito de claríficação, podem-se es-
crever as t ransferências plurais graças à letra T 2 , que apresenta a vantagem de mostrar
sua equ iva lênc ia c o m o recalque s e c u n d á r i o S 2 segundo a escrita de Lacan. A escrita
que vai de S, a S, corresponde ao que separa T , de T 2 .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 25
encadeamen to . É um saber que é inconsc ien te , posto que u m s ign i f i can te s e r á
recalcado somen te e m sua a s s o c i a ç ã o c o m u m de seus amigos . I g n o r a m o s a
c o n j u n ç ã o d i s j u n t i v a que u m s ign i f ican te m a n t é m c o m u m o u t r o , recalque c u j a
m a n i f e s t a ç ã o i n c o m p r e e n s í v e l p rec ip i t a o s i n t o m a 1 0 E este o caso, p o r e x e m -
p l o , q u a n d o u m fantasma de v i o l a ç ã o se j u n t a a u m desejo de s e d u ç ã o , m i s t u r a
d e t o n a n t e que p r o v o c a a crise h i s t é r i c a , tal c o m o F r e u d a desc reveu 1 1
P o r q u e p õ e m e m j o g o vá r i a s c o n t r a d i ç õ e s , as t r a n s f e r ê n c i a s plurais esca-
p a m à c o n s c i ê n c i a . Elas d i z e m respeito à cadeia dos de te rmin ismos que o analisante
busca c o m p r e e n d e r 1 2 E n t r e t a n t o , buscar c o m p r e e n d e r n ã o p o d e a j u d á - l o , po is
é o u t r a a d i f i c u l d a d e que existe e m e luc idar l o g i c a m e n t e c o n t r a d i ç õ e s , a c o m -
p r e e n s ã o o e l i m i n a r i a c o m o su j e i t o . D e f a to , se encontrasse para cada a c o n t e c i -
m e n t o a causa exp l i ca t i va e x t e r i o r que o desculparia, ele m e s m o se r e d u z i r i a a
ser somen te o j o g u e t e de u m c o n j u n t o de d e t e r m i n i s m o s , c a i b a m - l h e eles p o r
seu passado f a m i l i a r , p o r sua cu l t u r a o u p o r in fe l ic idades da H i s t ó r i a . P r i v a n d o -
se assim de seu l i v r e a r b í t r i o , o n d e e n c o n t r a r á , pois , o que p r o p r i a m e n t e l h e
per tence e m t u d o o que m a q u i n o u ? Se sua e x i s t ê n c i a t e m a l g u m sent ido , o n d e
se e n c o n t r a r á a n ã o ser prec isamente na n e g a ç ã o d o que o d e t e r m i n o u ? A s s i m
o c o r r e c o m o s i n t o m a , c u j a causalidade n ã o se reduz aos d e t e r m i n i s m o s , mas
exa tamente a sua n e g a ç ã o . N a m e d i d a e m que o su je i to é " c o n s c i e n t e " ele
1 0 U m a c o n c e p ç ã o inteiramente outra do inconsciente levaria a cons ide rá - lo como uma
m e m ó r i a enterrada, implicando uma técnica catártica.
1 1 Pelo fato da impossibilidade lógica de u m encadeamento que poderia ser admit ido
pela consc iênc ia , o incesto edipiano de nenhuma forma se mostra segundo as repre-
sen tações habituais da re lação sexual, ele se realiza inconscientemente por outras vias.
U m a re lação sexual c o m a m ã e seria, por exemplo, atuada na evocação da alimenta-
ç ã o , o u na ocasião de qualquer atividade pulsional. Da mesma forma, o "assassinato do
pa i " n ã o se assemelha a uma e x e c u ç ã o , mas pode-se realizar inocentemente no m o -
mento de u m j o g o in fan t i l em que se trata de imitar u m h o m e m potente, etc. A maior
parte dos seres humanos teria, pois, razão para protestar se se quiser fazê- los admit ir o
c e n á r i o do complexo de É d i p o , pois o incesto materno e o fantasma assassino d i fe rem
da s igni f icação ord inár ia , da qual o mi to tebano só dá uma in tu i ção .
1 2 O encadeamento tem, assim, u m efeito que lhe é p r ó p r i o : "[...J a r ep resen tação i n -
consciente é inteiramente incapaz, enquanto tal, de penetrar no p r é - c o n s c i e n t e , e ela
só pode nele exercer u m efeito pondo-se em c o n e x ã o com uma represen tação a n ó d i n a
que já pertence ao p r é - c o n s c i e n t e , transferindo-lhe sua intensidade e fazendo-se co-
br i r por ela. Está aí o fato da t ransferência que fornece a expl icação de tantos f e n ô m e -
nos espantosos da vida mental dos n e u r ó t i c o s . " (Sigmund Freud, Die Traumdeutung,
1900, G W . I I - I I I , 568; SE, V 562; Fr., 461).
O AMOR * O AVtSSO
permanece inconsc ien te d o que o de t e rmina . Neste sen t ido , o e s f o r ç o i n t e l e c -
tua l arrisca-se r e c o n d u z i r à f o r m a ç ã o d o s in toma .
A " c o m p r e e n s ã o " é u m p r o b l e m a s e c u n d á r i o à d e s n o d u l a ç à o d o s i n t o -
ma, o p e r a ç ã o que veremos s ó ser p o s s í v e l p o r q u e as t r a n s f e r ê n c i a s p lura is se
a p o i a m na t r a n s f e r ê n c i a o r i g i n á r i a . A p o s i ç ã o con fe r ida ao analista depende des-
te d u p l o g a t i l h o : de u m lado , ele deve cons tan temente entregar-se a esta e s p é c i e
de strip-tease-x que o obr iga o desfile das f o r m a ç õ e s d o inconsc ien te d o analisante.
Mas , de o u t r o lado, estas t r a n s f o r m a ç õ e s camaleonescas n ã o se p o d e r i a m efe tuar
se n ã o existisse u m a a r m a ç ã o ú n i c a , a p r e s e n ç a de u m a nudez p r i m e i r a q u e
supor ta as d i ferentes escolhas de o b j e t o . O analista " c o m p l e t o " endossa as d i f e -
rentes peles das i d e n t i f i c a ç õ e s transferenciais. Tra te-se d o fan tasma* d o pa i , d o
da m ã e , dos ob je tos de d e s i s t ê n c i a que da í p r o c e d e m , i r m ã o , i r m ã , o u ainda de
seus avatares e x o g â m i c o s : h o m e m , m u l h e r 1 3 . E l e p o d e r á deixar-se f r e q ü e n t a r
p o r eles e, assim hab i t ado , d e v e r á a cada vez realizar esta mesma o p e r a ç ã o se-
g u n d o a qua l , u m a i d e n t i f i c a ç ã o al ienante sendo percebida , o s i n t o m a que dela
p rocede vai-se l iberar . Esta tarefa de destacamento n ã o se a c a b a r á j amais , p o r -
que a t r a n s f e r ê n c i a o r i g i n á r i a , a general idade de u m a m o r que precede toda
escolha de o b j e t o , p e r m i t e m a n t e r u m m e s m o fio à m e d i d a que se apresentam
as d i fe rentes ident idades .
VI
Com o exemplo clínico seguinte, quis mostrar como a complexidade das
t r a n s f e r ê n c i a s plurais t o m a apo io n u m a t r a n s f e r ê n c i a o r i g i n á r i a . O senhor L .
t i n h a u m a longa c o n v i v ê n c i a c o m a p s i c a n á l i s e e sem d ú v i d a ela se t o r n o u seu
s i n t o m a menos custoso. D e p o i s que a t ing i ra a idade adul ta , diversas vezes t i n h a
e x p e r i m e n t a d o o d i v â e todas as vezes ele o havia a l i v i ado . A o fim de alguns
anos, a m a i o r par te dos analisantes esquece a q u i l o p o r que v e i o , c o m o se u m a
o u t r a pessoa tivesse f e i t o este c a m i n h o . Eles esquecem a p o n t o de n ã o mais
saber que a q u ü o lhes f o i ú t i l e, c o m m a i o r o u m e n o r desenvo l tu ra , d e s p e d e m
aquele que f o i seu s i lencioso c o m p a n h e i r o . A f i n a l , eles n ã o l h e d e v e m nada.
* E m f rancês , fantôme. ( N T )
1 3 " O que são as t ransferências? São re impressões , cópias das m o ç õ e s e dos fantasmas que
devem ser revelados e tomados conscientes à medida do progresso da anál ise; o que é
caracter ís t ico de sua espécie é a subs t i tu ição de uma pessoa anteriormente conhecida
pela pessoa do m é d i c o . " (Sigmund Freud,Bruschstück einen Hystcnc AnnJyse, 1905,
G W V , 279; SE, V I I , 116; Fr.. 86-7) .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 27
N u m e r o s o s s ã o aqueles cujos sintomas n ã o os d e i x a m t ã o f a c i l m e n t e . Eles se
i m p a c i e n t a m c o m a d e m o r a da cura e p e d e m contas, d e s c o n f i a m dos r igores da
t é c n i c a e de u m s i l ê n c i o que lhes parece i m o t i v a d o , ao cabo de a l g u m t e m p o .
A s vezes f a z e m a lista do que cons ide ram c o m o erros o u i n t e r p r e t a ç õ e s erradas,
se apegam a d i f icu ldades atuais para e x i g i r u m resul tado, enervam-se a t é pe rde r
seu s a n g u e - f r i o . D e m o d o que, algumas vezes, a l i onde u m extenso e m i n u c i o -
so t r aba lho n ã o ob teve sucesso, u m a e x p l o s ã o os a l iv ia . Esta c ó l e r a sã os faz
abandonar aquele que cons ide ram c o m o u m incapaz, e e i - los m i r a c u l o s a m e n t e
afastados in extreniis, e ao menos p o r a l g u m t e m p o , das i n q u i e t a ç õ e s s i n t o m á -
ticas que d i f i c u l t a v a m suas e x i s t ê n c i a s .
N a i n d i f e r e n ç a , o u m e l h o r , e m p é s s i m a s r e l a ç õ e s , o analisante f r e q ü e n t e -
m e n t e de ixa seu analista, sem aliás saber j u s t a m e n t e o que lhe acon teceu na
cura , apressando-se e m esquecer o p o u c o que r ea l i zou a l i , m e s m o q u a n d o sua
e x i s t ê n c i a se v i u t ransformada . A s s i m é o resgate do e fe i to t e r a p ê u t i c o : u m a
e s p é c i e de a m n é s i a apodera-se d o t raba lho e fe tuado .
O senhor L . n ã o seguiu n e n h u m destes diferentes caminhos . E l e r e c o -
nhec i a os b e n e f í c i o s e as i n s u f i c i ê n c i a s de suas duas aná l i ses anter iores . Se p a r o u
duas vezes f o i c i r cuns tanc ia l e t a m b é m pela i d é i a de que o que c o m e ç o u devia
t a m b é m t e r m i n a r . E c o m o seus dois analistas precedentes pa rec i am par t i lha r a
mesma o p i n i ã o , a a n á l i s e p á r a , p o r fal ta de analisante levado mais adiante e m sua
tarefa. N o en t an to , s intomas i d ê n t i c o s à q u e l e s que j á conhec ia reaparecem e ele
se dec ide a r e t o m a r o c a m i n h o do d i v ã , j á que esta p r á t i c a o a l iv iava. P o r t a n t o ,
é nessas c i r c u n s t â n c i a s que r e t o m a u m a a n á l i s e , preso à l i b e r t a ç ã o que lhe trazia
o e n c a d e a m e n t o de sua p r ó p r i a fala, l i b e r ado a cada dia p o r esta a l i e n a ç ã o
consen t ida .
V o l t a n d o de algumas semanas de f é r i a s , passadas n o en tan to c o m o havia
sonhado e e m a g r a d á v e l c o m p a n h i a , ele m e diz que sua a n á l i s e lhe t i n h a f e i t o
fa l t a c r u e l m e n t e . F o i u m s e n t i m e n t o d e s a g r a d á v e l e b i za r ro de e x t e n s ã o d o
t e m p o que o p e r t u r b o u ; menos seu a longamen to , menos o t é d i o que sua brusca
s u s p e n s ã o . M e n o s a i n f i n i d a d e da d u r a ç ã o que sua a tempora l idade , a incons i s -
t ê n c i a de u m t e m p o sem e s c a n s ã o . H á m u i t o s anos n ã o conhec ia mais este
s e n t i m e n t o , t an to mais angustiante quan to , quando o t e m p o p o r acaso se i n t e r -
r o m p i a , era sob u m a l u z i r r ea l que a paisagem e os obje tos lhe apareciam.
E v o c a n d o estes m o m e n t o s d e s a g r a d á v e i s , e c o m o se seu inconsc ien te
devesse a u t e n t i f i c á - l o s , sua frase t r o p e ç a n u m lapso. Q u e r e n d o dizer: " T e n h o a
i m p r e s s ã o de ter p e r d i d o m e u t e m p o " , ele p r o n u n c i a : " T e n h o a i m p r e s s ã o de
te r p e r d i d o m e u tu" assinalando imed ia t amen te o e q u í v o c o desta palavra faltosa,
que se p o d e en tender r ap idamen te da mesma f o r m a c o m o a i n s t â n c i a d i a l ó g i c a
o « « o » m A v i * \ o
a que se o p õ e o " e u " [mot] e c o m o o t e t o * da casa, ab r igo i g u a l m e n t e , a sua
mane i ra , deste " e u " Este e q u í v o c o era interessante p o r q u e este lapso f o i p r o -
d u z i d o q u a n d o da e v o c a ç ã o de u m a falha ev iden te d o ni t ransferencia i . O d u p l o
sen t ido t a m b é m indicava que o teco da casa f o r m a v a o p r ó p r i o ab r igo que ele
f o r j a v a para si, o que é , para ele m e s m o , sob este t e to , a p e l í c u l a que cie apresen-
ta f o r a ' 4 T u d o teria sido d i t o neste en t re -do i s t(u/eto), c o m o se na s u s p e n s ã o da
t r a n s f e r ê n c i a se tivesse a rvorado u m a i n s t â n c i a ideal , aquela que , p o r q u e di ta
agora o que o E u deve ser n o f u t u r o , d i r i ge o t e m p o para o presente. T a m b é m
a d u r a ç ã o subje t iva é achatada e m suas a t u a l i z a ç õ e s , d e i x a n d o o presente vaz io
de dever f u t u r o , u l t r apequeno .
C o m o é quase sempre o caso q u a n d o u m analista exp l i ca o f u n c i o n a -
m e n t o de u m s in ton ia — aqu i o acha tamento da d u r a ç ã o sub je t iva — , ele p o d e
p e r m i t i r - s e f a z ê - l o apenas s ó - d e p o i s , q u a n d o a s e q ü ê n c i a das a s s o c i a ç õ e s do
analisante lhe d á os e lementos n e c e s s á r i o s para sua c o m p r e e n s ã o . E u m a das
r a z õ e s que o f azem p r e f e r i r o s i l ê n c i o . Nes te sen t ido , ele es tá sempre atrasado
e m r e l a ç ã o a seu analisante. D e u m o u t r o p o n t o de vista, n o en t an to , ele o
precede, p o r q u e , n o m o m e n t o e m que os esclarecimentos s ã o dados pela se-
q ü ê n c i a d o pensamento , o paciente quase que sempre esqueceu o que f o i o
p o n t o de par t ida de suas a s s o c i a ç õ e s . O analista pode r i a l e m b r a r - l h e , mas is to
gera lmente n à o é ú t i l , p o r q u e esta t r a n s l a ç â o cega é su f i c i en te para absorver o
s i n t o m a , segundo u m a e q u i v a l ê n c i a que se pode constatar (mas que seria c o n -
ven ien te exp l i ca r ) . É p o r isso que mais u m a vez ele se cala.
M a l o Senhor L . fez aquelas o b s e r v a ç õ e s mencionadas sobre seu lapso de
r e t o r n o — t ã o exempla r d o recalque o r i g i n á r i o — , n o v a m e n t e c o m os p é s n o
c h ã o e m seu t e m p o sub j e t i vo , ele se perguntava " o que se esconde a t r á s d o
i n t e r l o c u t o r " e p o r que era i n f i n d a v e l m e n t e a n i m a d o p o r u m " p e r p é t u o anseio
de a u t o j u s t i f i c a ç ã o ( . . . ] m u i t o mais que ter pensamentos que lhe se r iam p r ó p r i -
os" A p e r t a v a c o m perguntas, e n t ã o , n u m á p i c e , a i n s t â n c i a ideal e m r e l a ç ã o à
qua l ele se devia i n f i n i t a m e n t e j u s t i f i c a r — sursis que abria a c o n t a g e m de seu
t e m p o . D e que servir ia e n t ã o da r - lhe u m a " e x p l i c a ç ã o " tardia sobre o q u e
acabava de acontecer , pois acabava de realizar e f e t i v a m e n t e a o p e r a ç ã o q u e o
• J o g o entre as palavras toi, " t u " ou " t i " e ro/r, " te to" h o m ó f o n a s em f rancês . ( N T )
1 4 D e fato, o " E u " n à o é somente o que somos para ou t rem, mas t a m b é m o personagem
que imaginamos que somos, independentemente de ou t rem, em nossos devaneios
fora da t ransfe rênc ia ao tu . Trata-se desta instância nosso ideal, assim c o m o dc sua
pessoa, que nos figuramos pelo que "eu" \jc\ sou idealmente para " m i m " [mot] desde
sempre.
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 29
t i n h a a l iv iado? N ã o se trata tan to de que u m a tal t e o r i z a ç ã o ter ia s ido i n ú t i l (o
que era o caso), mas m u i t o mais de que seria f r ancamen te n o c i v a , p o r q u e o
analista que se ter ia mos t r ado assim t ã o in t e l i gen te , t ã o i n t u i t i v o , t ã o sabedor das
e l u c u b r a ç õ e s aparen temente desordenadas de seu analisante,n ã o de ixar ia de
most ra r -se r ap idamen te c o m o u m mestre, u m personagem que, p o r ser c o m -
preens ivo e pa te rno , n ã o deixar ia menos de, m e d i n d o sua estupefaciente i n t e l i -
g ê n c i a , f a z ê - l o pe rde r c o m o favas contadas o f i o secreto do t(u/eto). (Sai d a í ,
que aí m e m e t o , que m i m e t i z o * e m t e u lugar , r o u b a n d o - t e t e u idea l c o m t o d o
o peso de m e u idea l " a n a l í t i c o " ) .
O t e m p o s u b j e t i v o se abre e m f u n ç ã o de u m recalque c u j o agente é u m
pa i . M a s n ã o h á n e n h u m a necessidade do pa te rna l i smo d o analista para p ô r e m
cena C r o n o s , o pa i t e r r í v e l que escande a c r o n o l o g i a do t e m p o . A l i á s , é s em
outras s o l i c i t a ç õ e s e c o m o se a t empora l idade encont rada a tivesse i n v o c a d o que
a f i g u r a pa terna aparece nos pensamentos do Senhor L . , i m e d i a t a m e n t e depois
que ele e v o c o u a a u t o j u s t i f i c a ç ã o . E l e se pe rgun ta : "se n ã o estava se f azendo
pe rdoar pelos cr imes con t r a o p a i . " D e o n d e lhe v e i o u m a ta l a s s o c i a ç ã o ? M u i t o
pouca coisa parecia p r e p a r á - l a n o n í v e l dos pensamentos mani fes tos . T u d o se
hav ia passado c o m o se a a p a r i ç ã o tivesse r e s p o n d i d o a u m c á l c u l o l ó g i c o q u e
p rog ramava u m a entrada e m cena i n e v i t á v e l , u m a vez dec l inada a que perda de
idea l cor respondia a derrocada do t e m p o . O que assim se mos t rava , na suc in ta
a m b i g ü i d a d e do t(u/eto), a n ã o ser a a u s ê n c i a de t e m p o d o reca lque o r ig ina l?
N ã o h á h i s to r i c idade sem C r o n o s , o d e v o r a d o r de c r i a n ç a ! E era esta p r e s e n ç a
paterna t razida e m algumas frases do Senhor L . que marcava a b o r d a de seu
t e m p o .
A que t i n h a eu serv ido a t é e n t ã o , duran te os segundos e m que estas
a s s o c i a ç õ e s se sucederam, o n d e n ã o f u i tu n e m teto, n e m o semelhante d i a l ó g i c o ,
n e m u m abr igo seguro? A nada mais que a dar lastro à frase, estendida de t u a
t e t o , nesta passagem i m p e r c e p t í v e l de u m t e m p o vazio a u m t e m p o p l e n o . O
S e n h o r L . , t o m a n d o p é , m e r g u l h a v a neste i n t e r s t í c i o do t e m p o . E l e se calava
sem pensar, sem mais se p reocupar c o m m i n h a p r e s e n ç a . . . V e i o - l h e e n t ã o à
c a b e ç a u m a frase que f r e q ü e n t e m e n t e lhe ve io nestas f é r i a s . Este r i t o r n e l o o
t i n h a obsedado p o r p e r í o d o s , ve rdade i ramente a qua lque r m o m e n t o , e todas as
vezes estas t r ê s pequenas palavras, facas na noite, lhe pareceram m u i t o e n i g m á -
ticas.
* E m f rancês , j o g o de palavras, por homofonia , entre m'yniette, "me ponho a í " "me
meto a í " e mimète, " m i m e t i z o " " i m i t o " ( N T )
O «MOR AO AVI s $ O
Sem d ú v i d a esta frase inqu ie tan te lhe viera pela p r i m e i r a vez e m u m
c o n t e x t o preciso, mas ele era incapaz de se l embrar . E , desde esse m o m e n t o ,
este ritomelo o havia obsedado quase que todos os dias. v i o l e n t o e p o é t i c o
talvez, mas c o m o se fosse a chave de seu t e m p o suspenso, c o m o se presentificasse
o e n i g m a de sua s u p r e s s ã o para fo ra do m u n d o . Seria preciso crer q u e estes
v o c á b u l o s d e v i a m estar associados à i d é i a de seu pa i , pois v o l t a r a m depois de t ê -
l o evocado?. . . Era a q u e s t ã o que ele se colocava, q u a n d o pensou de repen te q u e
esta frase se i m p ô s a ele pela p r i m e i r a vez q u a n d o tentava fazer u m a ses são
s o z i n h o , fo ra de m i n h a p r e s e n ç a física. E , c o m o se fosse este desejo de fazer u m a
a u t o - a n á l i s e (e, c o n s e q ü e n t e m e n t e , de e l i m i n a r este analista) que tivesse m e r -
g u l h a d o o c o n t e x t o n o esquec imen to , l embrava agora f a c i l m e n t e que pensa-
men tos o p e r t u r b a v a m q u a n d o a i d é i a das facas na noite lhe v ie ra pela p r i m e i r a
vez. Estava sonhando , ainda que acordado, c o m u m a de suas p r ime i r a s l i g a ç õ e s
amorosas. C o n h e c e r a u m a j o v e m m u l h e r p o r q u e m n ã o sentia u m a a f e i ç ã o
m u i t o p r o f u n d a , mas persistira neste flerte, sem d ú v i d a p o r cur ios idade sexual ,
talvez t a m b é m para se adequar aos usos que q u e r e m que u m h o m e m j o v e m
perca sua v i r g i n d a d e o mais r á p i d o p o s s í v e l . M a s estes sen t imen tos m i t i g a d o s
t i v e r a m o e fe i to pe lo qua l se dever ia esperar, e f o i nestas c i r c u n s t â n c i a s que a
bela, m u i t o m a l amada, d e i x o u - o e ele ficou arrasado. N ã o est imava m u i t o esta
m o c i n h a , c u j o p r ó p r i o n o m e lhe escapava h o j e , e n o en t an to se l e m b r a v a de
que , q u a n d o nada sentia, andando na rua v o l t a n d o de u m e n c o n t r o f a l h a d o ,
t ive ra u m a i m p r e s s ã o de i r rea l idade i d ê n t i c a à q u e l a que havia evocado n o i n í c i o
da s e s são . N o s dois casos, isto t i n h a s ido c o m o se, de u m s ó go lpe , o m u n d o se
tornasse chato e branco. Nes te c o n t e x t o " a u t o - a n a l í t i c o " a frase facas na noite
destacou-se c la ramente pela p r i m e i r a vez. E t ê - l a n o v a m e n t e l oca l i zado a t o m a -
va menos e n i g m á t i c a .
E le n à o ignorava , p o r j á se ter p e r g u n t a d o , a que l e m b r a n ç a de i n f â n c i a
os qua l i f i ca t ivos chato e branco se l i g a v a m . Eles e v o c a v a m o p r i m e i r o s e n t i -
m e n t o de i r rea l idade que havia e x p e r i m e n t a d o , q u a n d o , n u m a c l í n i c a o n d e
acabavam de lhe t i ra r as a m í g d a l a s , a c o r d o u e u m a e n f e r m e i r a lhe m o s t r o u c o m
c e r i m ô n i a as duas bolas brancas n u m prato branco* N a v é s p e r a , antes da o p e -
r a ç ã o , i m p l o r a r a que sua m ã e dormisse ao lado dele na c l í n i c a , mas nesta m a n h ã ,
cons ide rando f r i a m e n t e o que lhe havia s ido r e t i r ado , s ó p ô d e sen t i r que , c o m o
* E m francês, pht bhnc. A palavra pht f o i anteriormente traduzida por "chato"; em
p o r t u g u ê s , et imologicamente, "chato" e "pra to" v ê m da mesma palavra plattus, em
la t im. ( N T )
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 31
se descobrisse u m sexto sent ido, expe r imen tava a i r real idade de u m m u n d o
cha to e b r a n c o , m a n t i d o e m segredo a t rás daquele de todos os dias.
U m a n o v a q u e s t ã o lhe aparecia h o j e : durante a e x p e r i ê n c i a c i r ú r g i c a de
sua i n f â n c i a , ele se p ô d e apoiar, tan to quan to desejava, na t e rnura de sua m ã e , e
n ã o c o m p r e e n d i a mais p o r que t i n h a expe r imen tado u m a s e n s a ç ã o de i r real idade
equ iva l en te à q u e l a que , m u i t o t e m p o depois, devia e x p e r i m e n t a r n o m o m e n t o
e m que u m a m u l h e r o abandonava. Se n ã o t i n h a afeto p o r aquela m u l h e r , p o r
que o m u n d o t i n h a desabado?
Pa receu -me e n t ã o que esta n o v a q u e s t ã o poder i a fazer perder o fio de
navalha* e m p r o v e i t o de u m a i n e s g o t á v e l c o m p a r a ç ã o entre o a m o r m a t e r n o e
o a m o r f e m i n i n o . O c o n t e ú d o da sessão t i n h a sido substancial: o s i n toma de
a t empora l idade de suas fé r i a s f o r a r e t o m a d o n o t e m p o da t r a n s f e r ê n c i a e, a l é m
disso, acabava de ser associado a u m e l emen to da mesma s é r i e . Cons ta t ando esta
c o i n c i d ê n c i a , ac red i te i j u d i c i o s a m e n t e suspender a sessão . T a l v e z eu tivesse p e n -
sado que as facas na noite pu n h a m e m r e l a ç ã o a anestesia do ato c i r ú r g i c o e a
a n g ú s t i a de c a s t r a ç ã o . Seguramente avaliei t a m b é m que esta e x p l i c a ç ã o era m u i t o
f ác i l e mais val ia esperar d ispor de u m fio u m p o u c o menos grosseiro. A b r i ,
p o r t a n t o , a po r t a , n ã o sem assegurar ao Senhor L . , n o m o m e n t o de sair, que as
facas na noite ce r tamente n ã o t i n h a m ainda d i t o sua ú l t i m a palavra. P o r u m
m o t i v o que d i z respei to à queda do o b s t á c u l o que a p r e s e n ç a f í s ica c o m p o r t a e
sem d ú v i d a analogamente ao que se chama na v ida quo t i d i ana " o e s p í r i t o da
escada"** m e u l i m i a r de c o n s u l t ó r i o é f r e q ü e n t e m e n t e r i c o e m ecos. E o lugar
o n d e u m ú l t i m o pensamento que m e é d i r i g i d o se f o r m a e às vezes se f o r m u l a .
F o i o que aconteceu: exatamente antes de atravessar a passagem da por ta , o
S e n h o r L . e x c l a m o u , n o t o m de u m a descoberta repent ina : a noite das longas
facas\
C o m o ele assinala n o i n í c i o da sessão seguinte, era surpreendente , e m
c e r t o s e n t i d o , que n ã o tivesse f e i t o mais cedo esta a s s o c i a ç ã o , ao m e n o s
acessoriamente, pois ela evocava tan to mais i r res i s t ive lmente as facas na noitena
m e d i d a e m que seu pa i era j u i z e que a n o i t e das longas facas era u m a c o n t e c i -
m e n t o de sua i n f â n c i a . E l e se surpreende, pois , i n i c i a l m e n t e , c o m esta a m n é s i a .
D e p o i s de ter hesi tado, j u s t i f i c a p o r u m m o m e n t o que n ã o t i n h a f e i t o esta
a s s o c i a ç ã o antes p o r q u e a noite daslongas facas'não f o i u m a c o n t e c i m e n t o e m si
* Em francês, couteau, que também pode ser traduzido por faca, como feito anterior-
mente. ( N T )
* * E m f rancês , 1'esprít de 1'escalier, que remete à ques tão de algo que se manifesta c o m
retardo. ( N T )
O AMOU \ O W t H O
m e s m o an t i - semi ta , con t ra r i amente à noite de msr.d. R e v o l v e n d o estas i d é i a s .
ele se debate ainda u m p o u c o . Depo i s , f o i - l h e preciso r econhece r ainda u m a
vez nesta a m n é s i a o que fo ra u m a das maiores fontes de a n g ú s t i a i n f a n t i l , a de
n à o poder , c o m o as outras c r i a n ç a s , vo ta r seu pai t r a n q ü i l a m e n t e às g e m ô n i a s .
sem arriscar-se a ve r b r u t a l m e n t e realizar-se seu v o t o . Era a v ivac idade de u n i
desejo de m o r t e i m p e n s á v e l a tal é p o c a que se mostrava sempre t â o a t i v o na
a m n é s i a .
C o m o se se tratasse de uma a s s o c i a ç à o ligada ao m e s m o c o m p l e x o , ele
pensa quase que imed ia t amen te e m u m a l e m b r a n ç a d o m e s m o ano de 1934.
Tratava-se de u m a r e u n i ã o de f a m í l i a , numerosa e ru idosa , du ran te a qua l u m
personagem — talvez u m t i o , desaparecido depois du ran te a guerra — t i n h a
f e i t o u m a de suas brincadeiras mais refinadas, t í p i c a deste t i p o de c e r i m ô n i a : ele
t i n h a t r az ido u m e n o r m e b o l o , c o b e r t o de g l a c ê en fe i t ado c o m n u m e r o s o s
m o t i v o s decora t ivos . Sua m ã e t i nha tentado c o r t á - l o , mas sua p r i m e i r a t en ta t iva
f o i i n f r u t í f e r a . Ela t e n t o u mais duas vezes. E n f i m , depois de ter desl izado, a faca
cravou-se c o m v i o l ê n c i a n o b o l o . A l â m i n a c o r t o u de u m s ó g o l p e a t é o p r a to
o que n ã o era s e n ã o u m a massa negra de c a r v ã o , cober ta de c reme . . . esta faca na
noite d o c a r v ã o ! . . . N ã o acaba ele de descobr i r assim, ao cabo das a s s o c i a ç õ e s ,
que l e m b r a n ç a c o n v i n h a a t r i b u i r a este ritornelo d o facas na noite"? M a s o u t r o s
pensamentos d e v i a m acompanhar esta l e m b r a n ç a , p o r q u e se tratava de u m a
i m a g e m f o r t e , a de sua m ã e neste instante, de p é f r e n t e à mesa c o m a faca na
m ã o ! E le guardava cons igo o s e n t i m e n t o de que teria p r e f e r i d o que esta cena
n u n c a tivesse acon tec ido . E , agora que o en igma parecia prestes a se esclarecer,
ele se to rnava mais c o n f u s o que nunca . Ele guardava de sua m ã e a l e m b r a n ç a de
u m pe r sonagem agressivo que acabava de realizar u m ato v i o l e n t o c o n t r a u m
pe r sonagem pa te rno que t r o ç a r a dela. A b ru ta l idade de sua m ã e , s ú b i t a e exces-
siva, o t i n h a sempre m e r g u l h a d o neste m e s m o s e n t i m e n t o de es tupor , e m e s m o
q u a n d o estas e x p l o s õ e s n à o lhe d i z i a m respei to , e x p l o s õ e s que e r a m quase s e m -
pre d i r ig idas a seu pa i . Ocor res sem estas cenas e m lugares p ú b l i c o s o u e m casa,
m u i t o f r e q ü e n t e m e n t e teve v e r g o n h a de suas a ç õ e s bru ta i s , c o m o se tivesse
u m a par te de responsabil idade p o r elas.
E l e conhec ia seu s e n t i m e n t o f r e n t e a esta cena tensa e c o l é r i c a de sua
m ã e . E ra t ã o ins id ioso q u a n t o a cu lpab i l idade espectral q u e i n f i l t r a v a sua v i d a
q u o t i d i a n a . V i a seu o lha r n ã o somente c o m o se u m a r e p r o v a ç ã o l h e fosse ser
f e i t a , mas t a m b é m c o m o se o que ela p r ó p r i a fizesse l h e pudesse ser r e p r o v a d o .
N ã o é ve rdade que se sentira r e s p o n s á v e l pelos atos c o m e t i d o s p o r ela? E se
l e m b r a v a de que era sob o peso de u m ta l s e n t i m e n t o de t e r c o m e t i d o u m a fa l ta
q u e andava r e g u l a r m e n t e na rua d a n d o seu d i n h e i r o — o d i n h e i r o q u e ela l h e
O JOGO 13 A ASSOCIAÇÃO LIVRE 33
dava — aos m e n d i g o s , especialmente a u m dent re eles, u m v e l h o senhor que
estendia c o m d i f i c u l d a d e a m ã o . . . E le estava neste p o n t o do re la to de suas l e m -
b r a n ç a s , que se encadeavam c o m rapidez umas c o m as outras. Mas p o r u m a
r a z ã o que n ã o c o m p r e e n d i a , enquan to se l embrava destas h i s t ó r i a s de sua i n f â n -
cia, n ã o p o d i a i m p e d i r - s e de pensar e m u m t r a ç o marcante de sua v i d a amorosa
a tual . Tratava-se de sua l i g a ç ã o c o m aquelas que chamava: "as mulheres que
c h o r a m " , o u aquelas que n ã o hes i tam e m most ra r sinais de seu s o f r i m e n t o .
C o m o o c o r r i a que u m a tal r e l a ç ã o fosse estabelecida?
O S e n h o r L . p o d i a agora recapi tu lar o desenrolar de suas a s s o c i a ç õ e s que ,
segundo u m encadeamento re la t ivamente c u r t o , i a m de u m pensamento a u m
o u t r o , o segundo parecendo con t rad ize r o p r i m e i r o . Q u e l i ame pode r i a haver ,
de f a t o , en t re a m u l h e r que segurava a faca e a que chorava? E n t r e aquela que ,
p o t e n c i a l m e n t e , matava e aquela que ele fazia sofrer? O l i a m e e x p l í c i t o era seu
s e n t i m e n t o de v e r g o n h a , o u , mais exatamente , o de u m a fal ta c o m e t i d a de que
ele par t i c ipava , e que devia pagar, c o m o ind i cava a bizarra i n t e r p o s i ç ã o da l e m -
b r a n ç a d o m e n d i c a n t e . Esta r e m e m o r a ç ã o t inha-se apresentado j u s t a m e n t e an -
tes d o t e r m o e x ó g a m o da cadeia, que era sua piedade a respei to das "mu lhe re s
que s o f r e m " , ele p r ó p r i o aliás encarregando-se de m a r t i r i z á - l a s m u i t o f r e q ü e n -
t e m e n t e . U m a vez localizadas estas duas extremidades da cadeia, sua m ã e de u m
lado , as mu lhe re s do o u t r o , v i n h a - l h e mais u m a vez a i m a g e m do m e n d i c a n t e .
N ã o t i n h a ela sido ú t i l nas a s s o c i a ç õ e s , j á que c o n s t i t u í a u m a e s p é c i e de b á s c u l a
causai en t re o p r im e i r o p ó l o d o pensamento e o segundo? N a real idade, o
pensamen to d o m e n d i c a n t e perd ia sua bizarr ia desde que se o examinasse n o
c o n t e x t o : esta cu lpab i l idade , n ã o a sentia antes de t u d o e m r e l a ç ã o a u m a figura
d o pa i , c o m o havia estabelecido a p r i m e i r a s é r i e de a s s o c i a ç õ e s que ia das facas
na noite... à noite das longas facas? A segunda sé r i e de pensamentos que se t i n h a
f o r m a d o c o n c e r n i a e n t ã o ao fio que ia de sua m ã e às mulheres : f o r a sua m ã e que
ele t i n h a v i s to dar o p r i m e i r o go lpe , c o m o ind icava esta l e m b r a n ç a - t e l a da faca
n o b o l o . A l é m d o b o l o f a c t í c i o , n ã o era o semblante pa te rno , representado p o r
seu t i o , que ela havia atacado c o m d e t e r m i n a ç ã o ? E la havia c o m e t i d o u m a
a g r e s s ã o c o n t r a o pa i c o m o ele p r ó p r i o desejara fazer, j á que se sentia cu lpado .
D e m a n e i r a que , na segunda s e q ü ê n c i a , era a u m a m u l h e r que era preciso fazer
chora r , c o m o se fosse n e c e s s á r i o que a fizesse pagar sua p r ó p r i a fal ta .
Se a c o m p a i x ã o lhe arrancava l á g r i m a s , p o r e x e m p l o , n o m o m e n t o e m
que dera d i n h e i r o a u m necessitado, o c o n t e x t o ind icava su f i c i en t emen te p o r
q u a l pa i d e c a í d o as l á g r i m a s t i n h a m assim sido derramadas. Poder-se- ia deduz i r
d is to que a mesma l ó g i c a operava q u a n d o se punha , p o r sua vez, e m p o s i ç ã o de
fazer chorar . U m a m u l h e r , sua m ã e , comete ra o ato assassino e m seu lugar , u m a
O AMOR AO 1VISSO
ou t r a o pagava, e m seu lugar t a m b é m . P o r u m a parte , ele buscava purgar o a to
c o m e t i d o cont ra o pai e chorava , mas, p o r ou t r a , t a m b é m fazia chora r , po is ele
m e s m o tena c o m e t i d o este ato, se tivesse ousado. O resul tado mais s u r p r e e n -
dente deste processo n à o f o i u m a c o m u n h ã o c o m a v í t i m a ? C o m u n h ã o a m o r o -
sa, s á d i c a , sexual, de u m su j e i t o que confessava c o m a mesma ê n f a s e sua submis -
s ã o e sua f e m i n i l i z a ç à o de sempre d iante dc u m pai v i o l e n t o . A m u l h e r de q u e m
se compadec ia era, e n f i m , pois , t a m b é m u m o u t r o e l e -mesmo , f e m i n i l i z a d o p o r
u m pai castrador. Ele chorava , e n f i m , sua p r ó p r i a c a s t r a ç ã o .
As "mu lhe re s que c h o r a m " o fasc inavam q u a n d o ele p r ó p r i o as fazia
chorar , mas o a t i ç a v a m q u a n d o se q u e i x a v a m p o r qua lque r o u t r a r a z ã o . Q u a n -
d o era c o n v o c a d o pe lo desespero de u m a m u l h e r , seus protestos con t ra as e x a ç õ e s
de u m perverso personagem, na verdade con t ra qua lque r u m , o interessavam
p a r t i c u l a r m e n t e . Sob o go lpe de u m a e s p é c i e de dever , a pa r t i r d o m o m e n t o e m
que u m persegu idor era evocado , ele e n t ã o se i den t i f i c ava a u m a e s p é c i e de fiel
cava lhe i ro g e n t i l . N ã o é u m a s i t u a ç ã o bastante curiosa, j á que eu m e s m o , seu
analista, eu representava, para a m u l h e r c o m q u e m ele v i v i a , u m pe r sonagem
o d i o s o que c o n v i n h a considerar c o m o u m carrasco? D e f a t o , c o m p r e e n d i q u e
eu era para ela o p a d r ã o da perversidade, j á que n ã o somen te m e c r i t i cava a
l e n t i d ã o da a n á l i s e d o Senhor L . , mas t a m b é m m e i m p u t a v a as crueldades que
seu c o m p a n h e i r o fazia c o m ela, c o m o se a a n á l i s e o tivesse t o r n a d o s á d i c o . N ã o
escapava ao Senhor L . que , g r a ç a s a estas i m p u t a ç õ e s , ele sa ía b r a n c o c o m o a
neve das pequenas m i s é r i a s que a fazia sofrer . O p r ó p r i o d i spos i t i vo a n a l í t i c o ,
assim, tornara-se o lugar de u m r e l a n ç a m e n t o d o que p re t end ia tratar, e n t r a n d o ,
c o m u m a parte n ã o n e g l i g e n c i á v e l , nas c o n d i ç õ e s de v i d a e r ó t i c a deste casal. O
S e n h o r L . n ã o fo r a r egu la rmen te levado a m e defender , q u a n d o sua c o m p a -
nhe i r a ex ig ia que in ter rompesse a anáÜse q u e j u l g a v a nefasta?
A u m a p r i m e i r a l e i tu ra , q u e m n ã o apontar ia que estas s e q ü ê n c i a s de p e n -
samento parecem confusas e descosturadas? N o entanto , sua l ó g i c a aparece q u a n d o
se destaca u m personagem inva r i an te ; nesta s é r i e de a s s o c i a ç õ e s , t r ê s figuras d o
pe r segu idor e r a m evocadas. U m pai i n i c i a l m e n t e (sobre q u e m v e r e m o s d a q u i a
p o u c o e m q u e era n o t á v e l que ele o pusesse neste l u g a r ) . Sua m ã e , depois , t i n h a
s ido aquela que agr ide . E l e m e s m o , e n f i m , deu-se este lugar . A l é m disso, a
t r i p l i c i d a d e das visadas destes carrascos encont ra ra seu i m p u l s o na t r a n s f e r ê n c i a ,
j á q u e e u m e s m o era u m , segundo u m a d i s p o s i ç ã o que s ó havia apa rec ido e m
ú l t i m a i n s t â n c i a . N a real idade, a t r a n s f e r ê n c i a n ã o f o r a c o n v o c a d a para cada
u m a destas f iguras d o perseguidor? N à o n o sen t ido de u m a r e p r e s e n t a ç ã o figu-
rada n o fantasma, c o m o para a ú l t i m a , mas n o sen t ido de u m ape lo a t o m a r u m a
certa a t i t u d e f r e n t e ao re la to . D e f a t o , a cada vez q u e aparecia u m a figura d o
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 35
carrasco, eu era i m e d i a t a m e n t e c o n v o c a d o a u m lugar que a c o n t r a b a l a n ç a v a , se
b e m que ele n ã o seja s e n ã o u m a ou t r a f i g u r a do carrasco. Se man i fes te i u m a
m í n i m a c o m p a i x ã o a respei to dos d e s a g r a d á v e i s impasses que o Senhor L . atra-
vessava r e g u l a r m e n t e 1 5 , i m e d i a t a m e n t e f u i posto n o lugar de u m alter ego que ,
c o m o ele, estava sempre prestes a ver te r l á g r i m a s de c r o c o d i l o sobre sua p r ó p r i a
v í t i m a , sempre v i t i m i z a d a p o r ser queixosa. Se, ao c o n t r á r i o , j u l g u e i c o m d u r e -
za o j o g o c r u e l a que ele se entregava c o m sua companhe i r a , n ã o p o d i a fal tar ve r
e n t ã o e m m i m u m pa i t e r r í v e l r e l a n ç a n d o - o n o c í r c u l o i m p e r a t i v o de seu p ra -
zer. E n f i m , m e s m o pe rmanecendo q u i e t o , segundo a neut ra l idade i m p r o v i s a d a
que c o n v é m e m semelhante o c a s i ã o , eu n ã o menos era considerado c o m o u m
pro tagon i s t a a t i vo da s i t u a ç ã o , sem p o d e r esperar r e t i r a r - m e disso. Para deixar
e m j o g o todas as t r a n s f e r ê n c i a s , seria preciso, p o r t a n t o , tentar man te r esta t e r -
ceira p o s i ç ã o , p reca r iamente " n e u t r a " entre a da c o m p a i x ã o e a da c rue ldade 1 6
E m suma, eu estava d i v i d i d o pela m u l t i p l i c i d a d e das t r a n s f e r ê n c i a s e sem d ú v i d a
era somente esta d i v i s ã o que m a n t i n h a a t r a n s f e r ê n c i a e m seu f i o . U m a d i v i s ã o
que n ã o abriga n e n h u m a i d e n t i f i c a ç ã o par t i cu la r mostrava-se c o m o o abr igo da
t r a n s f e r ê n c i a e lhe dava sua f o r ç a .
E n t r e a t r a n s f e r ê n c i a n o singular , tal c o m o se exp l i c i t a pela passagem do
t u ao t e to , e as t r a n s f e r ê n c i a s n o p l u r a l , existe u m apo io constante das segundas
sobre a p r i m e i r a . As t r a n s f e r ê n c i a s n o p l u r a l apareceram segundo duas m o d a l i -
dades precisas, e m f u n ç ã o do lugar que o carrasco ocupava. Elas apelavam seja à
empat ia , à c o m u n h ã o , à piedade; seja, ao c o n t r á r i o , à dureza, a t i tude que, se o
analista a tivesseadotado, pode r i a passar para u m a jus ta f r u s t r a ç ã o , n ã o prestan-
d o o s e r v i ç o que p res tou e n t ã o , c o m u m a ou t ra e n c a r n a ç ã o do carrasco. F o i
somen te na m e d i d a e m que m e m a n t i v e na c o n t r a d i ç ã o das t r a n s f e r ê n c i a s , c o m o
su je i to d i v i d i d o , que pude sustentar u m a e ou t ra face do que animava o analisante:
que r dizer , de u m lado , sua c o m p a i x ã o c o m as mulheres — sen t imen to que
1 5 Certos analistas avaliam, ao con t rá r io , que é tecnicamente útil fazer pender o barco
para o lado de uma t ransferência particular. Assim Margaret Li t t le que, nos exemplos
cl ínicos que cita, exige de uma de suas pacientes que rompa com sua m ã e . Neste caso,
aliás, parece que seria proveitoso mostrar-se pior que ela. A história não diz o que se
t o r n o u a t ransfe rênc ia ulterior.
1 6 Entretanto, a ú l t ima pos ição , a da neutralidade por obr igação , tem a vantagem de
deixar desenvolver-se o j ogo completo das três posições , o que n ã o seria o caso se eu
tivesse assumido a máscara de u m moralizador ou a de u m companheiro amigo. E
claro que n ã o deixei de ser tomado, segundo a ocasião, em uma destas t ransferências ,
e minha ún i ca liberdade consiste em não caucionar nenhuma.
O AMOR A O A V I $ S O
p r o v i n h a de sua v i o l ê n c i a — e, de o u t r o lado , sua crueldade que , e m t roca , o
c o m o v i a a t é às l á g r i m a s , pois a t i ran ia que ele p rocurava exercer t i nha c o m o
causa paradoxal sua p r ó p r i a cu lpab i l idade .
E u fazia estas r e f l e x õ e s sobre o t rabalho que t i nha s ido c u m p r i d o , n à o
sem assinalar que mui tas q u e s t õ e s se puseram. A f i g u r a d o pai merec ia ser exa-
minada mais a ten tamente , p o r q u e c o n s t i t u í a a rede mais fraca desta s u c e s s ã o de
pensamentos ( enquan to que era somente g r a ç a s a ela que a c o n t r a d i ç ã o en t re os
dois p ó l o s f e m i n i n o s se expl ic i t ava) ; pois era preciso c laramente aponta r que a
e v o c a ç ã o da noite das longas /âcas n ã o dizia nada que just if icasse a a m e a ç a de
castigo p o r u m pa i . D a mesma f o r m a , o e p i s ó d i o do b o l o f a c t í c i o era, q u a n d o
m u i t o , u m a br incade i ra de m a u gosto. D e m o d o que a figura de u m pai t e r r í v e l
assemelhava-se m u i t o a u m a c o n s t r u ç ã o i n t e i r a m e n t e i n t e l ec tua l , cr iada e m t o -
das as suas p e ç a s c o m o u m a s imet r ia c o m a m ã e m a n e j a n d o a faca, o u m e s m o ,
talvez ainda, inventada para agradar ao analista que sou, lacaniano a inda p o r
c i m a , r aça conhec ida p o r seu apego aos valores patriarcais. O lugar de carrasco
d o pa i , n e c e s s á r i o ao c o n j u n t o desta bela c o n s t r u ç ã o , parecia reservado s o m e n t e
a p a r t i r de fracos í n d i c e s . N e n h u m a f o r m a ç ã o d o inconsc ien te , lapso o u s o n h o ,
l h e co r respond ia especi f icamente . E c o m o , neste p o n t o de sua e l a b o r a ç ã o , l he
assinalei esta c a r ê n c i a , ele imed ia t amen te buscou o que pode r i a t ê - l o l e v a d o a
e x p e r i m e n t a r u m tal s e n t i m e n t o e m r e l a ç ã o a seu pa i . N ã o lhe f o i prec iso mais
que u m instante para constatar que se p u n h a u m p r o b l e m a , de f a t o . M e s m o
fazendo u m e s f o r ç o , n ã o encon t rava , e m suas l e m b r a n ç a s de i n f â n c i a , n e n h u m
fa to que correspondesse ao personagem abstrato que acabara de descrever.
D e m i n h a parte , a rmado de u m a teor ia cu ja c o r r e ç ã o j á t i n h a v e r i f i c a d o ,
n ã o ignorava que era su f i c i en te que o pa i fosse o agente suposto da c a s t r a ç ã o
f e m i n i n a para q u e fosse i m e d i a t a m e n t e t e m i d o . P o r u m l ado , a c r i a n ç a t e m e ser
castrada, c o m o sua m ã e parece ter s ido p o r seu pa i , e, p o r o u t r o , se sua m ã e se
apresenta c o m o u m personagem v i o l e n t o , é p o r q u e ela busca v ingar -se desta
c a s t r a ç ã o (assim, esta v i o l ê n c i a ter ia c o r r e s p o n d i d o t a m b é m a seu v o t o , pos to
que ter ia t e m i d o u m t r a t amen to s i m i l a r ) . O S e n h o r L . n à o p o s s u í a esta t eo r i a .
N ã o era t an to p o r q u e eu preferisse v e r i f i c a r o que o levava a a t r i b u i r a seu pa i
u m a m á s c a r a t ã o i n t r a t á v e l , mas m u i t o mais p o r q u e n ã o p o d i a d e s e m b a r a ç a r - s e
dela a n à o ser na m e d i d a e m que ele m e s m o fizesse esta descober ta . Se l h e
tivesse d i t o , e u apenas ter ia encarnado, d o a l to de m e u saber, u m n o v o avatar d o
p a i e m q u e s t ã o .
E n t r e t a n t o , o S e n h o r L . c o n t i n u a v a a se i n t e r roga r , pesquisando na selva
de sua m e m ó r i a , l evan t ando seus f i l õ e s associativos, c o m p a r a n d o suas l e m b r a n -
O JOGO D A ASSOCIAÇÃO LIVRE 37
ças , na e s p e r a n ç a de fazer e m e r g i r u m a i m a g e m deste pa i t e r r í v e l que havia
c o n s t r u í d o c o m t ã o poucas provas. P o r u m instante a c r e d i t o u d i s t i n g u i r u m a ta l
f i g u r a o f i c i a n d o nas c e r i m ô n i a s da sinagoga, inquie tantes para u m a c r i a n ç a . M a s
n ã o , n ã o era isso. Seu pa i era somente u m assistente entre ou t ros duran te estes
o f í c i o s . O m i s t é r i o aumentava e ele t e r m i n o u p o r se pe rgun ta r p o r que diabos
t i n h a precisado i n v e n t a r esta f i g u r a t e r r i f i can te . . . a n ã o ser, talvez, p o r q u e ela era
m u i t o p r á t i c a , n ã o é verdade? Para sua v ida e r ó t i c a . . . f o i o que f o i r e p e n t i n a -
m e n t e l evado a dizer: e m u i t o d i f i c i l m e n t e pode r i a c o n c l u i r de ou t r a f o r m a ,
t e n d o e m vista a s e q ü ê n c i a . D e fa to , fazendo ainda u m ú l t i m o e s f o r ç o para
evocar seu pa i sob os t r a ç o s do carrasco, p o r duas vezes as l e m b r a n ç a s que
espontaneamente lhe v i e r a m — apesar dele, ele d iz — refer iam-se i n i c i a l m e n t e
a sua m ã e , depois a sua m u l h e r . Q u e surpresa constatar que, enquan to buscava
u m a l e m b r a n ç a conce rnen te ao pa i , topava c o m estes personagens f e m i n i n o s !
Q u a n d o a i m a g e m de sua m ã e lhe v e m u m a p r i m e i r a vez, é a p r o p ó s i t o de suas
l e m b r a n ç a s de i n f â n c i a , onde , che io de u m m e d o in tenso , c o m i a m u i t o l en t a -
m e n t e u m a l i m e n t o que ela o obr igava a engo l i r , a t é que sua c ó l e r a explodisse
e que , e n f i m , segundo u m c e r i m o n i a l regrado, ela de l ic iosamente o consolasse.
U m p o u c o depois , q u a n d o buscava u m a ou t ra l e m b r a n ç a , havia exata-
m e n t e pensado, apesar dele, e m sua m u l h e r , e i m p ô s - s e a ele a i d é i a do prazer
d i v e r t i d o que e x p e r i m e n t a v a ao l e v á - l a a t é o l i m i t e , a t é que ela explodisse,
ent regando-se depois ao p e d i d o de p e r d ã o , o que fazia d i l i g e n t e m e n t e . C o m o
n ã o assinalar que estes pensamentos lhe v i e r a m c o m o se a f u n ç ã o paterna n u n c a
se isolasse t ã o b e m q u a n t o n o m o m e n t o e m que u m a m u l h e r e x p r i m i a v i o l e n -
t amen te sua c ó l e r a ? Esta f u n ç ã o se isolara assim de u m a mane i ra n o t á v e l , c o m o
se seu luga r estivesse reservado, n ã o na r e l a ç ã o de u m h o m e m c o m seu f i l h o ,
mas a p a r t i r do desejo m a t e r n o .
O S e n h o r L . , pois , hav ia constatado a a u s ê n c i a de toda l e m b r a n ç a precisa
de u m p a i fu s t igador . Cada vez que fizera u m e s f o r ç o neste sent ido, vo l t a ra
espontaneamente a esta figura da m u l h er a m e a ç a d o r a , f i g u r a sobre a qua l é
prec iso acredi tar que t i n h a , e n f i m , mais de u m a t ra t ivo para ele. P o r que u m a ta l
a u s ê n c i a de l e m b r a n ç a , na m e d i d a e m que seria surpreendente que seu pa i n ã o
o houvesse r e p r e e n d i d o , ao menos e m algumas o c a s i õ e s ?
Se só quis guardar de seu pai u m a i m a g e m bondosa, a p o n t o de que toda
l e m b r a n ç a tenha desaparecido de sua m e m ó r i a , n ã o f o i precisamente p o r causa
da f u n ç ã o que este h o m e m o c u p o u e m r e l a ç ã o a sua m ã e ? N a m e d i d a e m que
f o r a ele q u e m suportara o peso das r e c r i m i n a ç õ e s desta m u l h e r , devia ser- lhe
r e c o n h e c i d o , e a m á - l o , c o n s e q ü e n t e m e n t e . F o i este a m o r que o c u l t o u a figura
.IV O U l t l R A O AVESSO
t i r â n i c a 1 7 A f u n ç ã o paterna o salvara do que havia de excessivo n o a m o r ma te r -
n o e havia d i ss imulado que ele era t a m b é m o t i r ano . Ass im, a i d é i a insistente de
u m a i m a g e m paterna p e r s e c u t ó r i a fo ra cu idadosamente separada das l e m b r a n ç a s
da pessoa de seu pai . O a m o r n à o esquece t u d o a p o n t o de i g n o r a r a si mesmo?
E o que ele t i n h a buscado ocu l t a r só aparecia g r a ç a s a esta c o n s t r u ç ã o in t e l ec tua l
d o carrasco. Al i á s , seria m e l h o r d izer " c o n s t r u ç ã o re l ig iosa" p o r q u e a ú n i c a
l e m b r a n ç a que f u g i d i a m e n t e apareceu f o i a da sinagoga.
N o caso do Senhor L . , esta r e l a ç ã o c o m o pai se destacava m u i t o m e l h o r
na m e d i d a e m que a m e n o r l e m b r a n ç a d e s a g r a d á v e l re fe ren te a ele t i nha s ido
apagada o u m i n i m i z a d a . E é p r o p o r c i o n a l m e n t e a este recalque — pois o recalque
pode ser d e f i n i d o s implesmente c o m o u m a c o n s e q ü ê n c i a d o que h á de t r a u m a -
t izante n o a m o r — que se separava da pessoa d o pai u m a f i g u r a t i r â n i c a e impes -
soai da qua l n e m m e s m o se sabia o que ex ig ia , a n à o ser que ex ig ia . E p o r isso
que , ao e n i g m a das facas na noite — r e m e t i d o i n i c i a l m e n t e a u m a i m a g i n á r i a
u m p o u c o i n c o n v e n i e n t e de c a s t r a ç ã o c i r ú r g i c a — , i m e d i a t a m e n t e f o i associada
a noite das longas facas, even to que evocava mais e x p l i c i t a m e n t e o assassinato
d o pa i .
A l g u m a s sessões depois , a a s s o c i a ç ã o ent re o a m o r e o assassinato, que
n ã o f o i esclarecida imed ia tamente , f o i e fe t ivamente fei ta. Isto se p r o d u z i u q u a n d o
u m a cadeia de pensamentos v o l t o u a l igar a noite das longas facas ao a m o r d o
pa i , q u a n d o o Senhor L . vo l tava aos acon tec imen tos h i s t ó r i c o s p r e c e d e n t e m e n -
te evocados e se l e m b r o u de que, q u a n d o exerce ram seu d o m í n i o , os SS acusa-
r a m os S A de homossexual idade . E as duas a s s o c i a ç õ e s seguintes d e v i a m desem-
boca r n o que o a m o r d o pai c o m p o r t a e f e t i vamen te de homossexua l idade e,
c o n s e q ü e n t e m e n t e , de u m desejo de assassinato p r o p o r c i o n a l a esta s u b s e r v i ê n -
cia sexual . I n i c i a l m e n t e f o i u m a vaga l e m b r a n ç a que se apresentou, sobre a qua l
ele n ã o sabia mais se se tratava de u m a l e i tu ra o u de u m a anedota que o u v i r a
con ta r : a de u m rapaz que n ã o p ô d e escapar à e x t e r m i n a ç ã o s e n ã o s o f r e n d o as
s e v í c i a s sexuais dos nazistas. Mas i m e d i a t a m e n t e u m a segunda l e m b r a n ç a lhe
v e m , mais precisa p o r q u e diz ia respei to a seu p r i m e i r o c o n t a t o c o m a real idade
O " A m o r " pelo pai n ã o corresponde plenamente à s ignif icação corrente deste te rmo,
pois n ã o se resume a u m sentimento temo, a uma a t ração e ró t ica , o u a uma p r e f e r ê n -
cia confessada. N ã o é em termos sentimentais que c o n v é m def in i r o que resulta da
impessoalidade de uma f u n ç ã o que fica u m pouco submersa na mul t ip l ic idade de
sentido do verbo amar. Se fosse preciso escolher nesta mult ipl ic idade o melhor senti-
do, po r exemplo o amor pelas guloseimas e o por Deus, seria m u i t o mais o segundo
que seria preciso reter.
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 39
da homossexua l idade . Q u a n d o t i n h a sete o u o i t o anos, f o r a ao c inema n u m a
q u i n t a - f e i r a depois do m e i o - d i a e, durante o f i l m e , u m h o m e m o havia i m p o r -
t u n a d o n o escuro, de m o d o que, assustado c o m suas propostas, f u g i u i m e d i a t a -
m e n t e .
A e c o n o m i a e r ó t i c a do Senhor L . encont rava sua r a z ã o nesta d i s p o s i ç ã o
de l e m b r a n ç a s , segundo as quais o p ó l o v i o l e n t o era a t r i b u í d o a sua m ã e , e n -
q u a n t o que seu pa i f i cava a c o m o d a d o n u m a relat iva neut ra l idade . N ã o é n o t á -
v e l que , na neurose mais c o m u m , esta b i p a r t i ç ã o quase sempre se apresente, seja
sob esta f o r m a , seja segundo u m a f o r m a que lhe é inversa? E n ã o é preciso
espantar-se se ela se percebe t a m b é m nas v a c i l a ç õ e s i d e n t i f i c a t ó r i a s da t ransfe-
r ê n c i a n o m o m e n t o de sua r e m e m o r a ç ã o , c o m o veremos n o p r ó x i m o c a p í t u l o .
T r a n s f e r ê n c i a p o s i t i v a , n e g a t i v a , n e u t r a
A presença do analista
I
O primeiro encontro com um psicanalista pode-se desenvolver sob o
s igno da s impat ia o u da ant ipat ia . A c o n t e c e de esta p r i m e i r a i m p r e s s ã o se m a n -
ter, da mesma f o r m a que oco r r e na v i d a quo t id i ana , e seria i n ú t i l considerar que
estes sen t imentos n ã o ex i s t em o u n ã o t ê m i m p o r t â n c i a . O estilo o u o c a r á t e r de
u m analista p o d e agradar i m e d i a t a m e n t e a u m analisando, o u d e s a g r a d á - l o , a i n -
da que o segundo caso -mode lo seja raro (De fa to , se o analista suscita a ant ipa t ia
d o analisante na p r i m e i r a abordagem, este ú l t i m o n ã o v o l t a r á , o u v o l t a r á poucas
vezes).
A l é m d is to , p o d e m o s assinalar f l u t u a ç õ e s da s impat ia o u da ant ipa t ia de -
pois de c o m e ç a d a a cura, v a r i a ç õ e s r e f e r e n c i á v e i s e m f u n ç ã o de seu desenrolar,
m e s m o q u a n d o estes sen t imentos se r e v e l a m sem que tenhamos prestado a t en -
ç ã o aos eventos p s í q u i c o s que os p r o v o c a m . Os afetos c o n s t i t u e m , neste sen t i -
d o , í n d i c e s preciosos, que p e r m i t e m in t e r roga r de f o r m a ú t i l cada etapa d o
t r aba lho a n a l í t i c o .
Segundo u m a t e r m i n o l o g i a amplamen te empregada, a t r a n s f e r ê n c i a é f r e -
q ü e n t e m e n t e cono tada c o m os sinais p o s i t i v o o u n e g a t i v o 1 Coisa i n t e i r a m e n t e
1 "A transferência, tanto na sua forma positiva quanto na negativa, entra a serviço da
resis tência; mas nas mãos dos m é d i c o s ela se torna o mais possante dos instrumentos
t e r a p ê u t i c o s e desempenha u m papel que dif ici lmente pode ser subestimado na d i n â -
mica do processo de cura." (S. Freud, "Psychoanalyse" und "Lib ido theor ie" 1923,
G W . X I I I , 223; SE, X V I I I , 247).
O AMOR A O AVESSO
ou t ra é a c o n t r a t r a n s f e r ê n c i a , t e r m o c r i t i c á v e l . pois só existe u m a t r a n s f e r ê n c i a .
E verdade que u m analista t e m interesse e m quest ionar os sen t imentos que o
discurso d o paciente p r o v o c a nele . anula mais que . considerando-se que 6 u m
ser h u m a n o c o m o os ou t ros , ele t e m d i r e i t o a suas fadigas e a seus h u m o r e s , a
menos que se t o m e p o r u mo rdenador ( i l u são , al iás , i gua lmen te " a f e t i v a " ) . N o
en tan to , n o m o m e n t o d o mais simples ato a n a l í t i c o , a s t úc i a que d i r á o n d e se
encon t r a o " s u j e i t o " d o lado d o analisante que f a l o u , o u d o lado d o analista
que , g r a ç a s a seu ato, revela o lugar deste " s u j e i t o " nesta fa la 2 , u m a tal u n i c i d a d e
da t r a n s f e r ê n c i a , a cavalei ro entre o ato daquele que o u v e e a palavra daquele
que a p r o f e r e , revela a d i v i s ã o deste su j e i t o . A par t i r somente desta palavra, e
p o r p o u c o que o analista se o p o n h a a ela, ele será afetado a cada m o m e n t o pela
p r o d u ç ã o de saber de seu analisante. O t e r m o c o n t r a t r a n s f e r ê n c i a n ã o c o n v é m ,
vemos , p o r q u e as a f e t a ç õ e s d o analista r e s p o n d e m p o r esta t r a n s f e r ê n c i a só e
u n i c a m e n t e 3 . A p o s i ç ã o d o analista na t r a n s f e r ê n c i a n ã o resulta de n e n h u m a
c o m u n i c a ç ã o de inconsc ien te a i n c o n s c i e n t e ' N ã o se v ê , a l iás , c o m o o que
ter ia s ido recalcado de u m lado poder ia , c o m o que m a g i c a m e n t e , ressurgir d o
o u t r o ! Pode-se, se se quiser, c o n t i n u a r a chamar de c o n t r a t r a n s f e r ê n c i a a m a n e i -
ra pela q u a l o analista d á c r é d i t o às i d e n t i f i c a ç õ e s que lhe s ã o emprestadas, o que
n ã o d e i x a r á de ter e f e i t o 5 M a s , j u s t a m e n t e , e c o n t r a r i a m e n t e ao c o m u m dos
mor ta i s , ele aceita endossar estas i d e n t i f i c a ç õ e s sem lhes dar c r é d i t o e sem levar
e m con t a aqu i l o p o r que ele m e s m o se t o m a , a t i tude c o m a qua l sua p r ó p r i a
a n á l i s e t e r á r o m p i d o , d a n d o - l h e esta r e l a ç ã o c o m o Ser atenta, quase c é t i c a , que
caracteriza aqueles que e x p e r i m e n t a r a m o d i spos i t ivo f r e u d i a n o . Disso resulta
que as a f e t a ç õ e s d o analista d e p e n d e m da t r a n s f e r ê n c i a d o analisante, e n ã o o
2 "A transferência é um fenômeno em que estão incluídos juntos o sujeito e o psicana-
lista. D i v i d i - l a em termos de t ransferência e con t ra t rans fe rênc ia , quaisquer que sejam
a ousadia e a desenvoltura de p ropós i tos que se permitam a respeito destes termos, n ã o
é nunca senão uma forma de eludir aquilo de que se trata." (J. Lacan, Le séndnaire,
l i v ro X I , Quatre concepts fondanientaux de la psychanalyse, Seuí l ) .
3 "Quando os preconceitos do analista, quer dizer, sua con t r a t r ans fe r ênc i a , t e rmo c u j o
emprego correto, a nosso ver, n ã o poderia ser estendido a l é m das razões dialé t icas do
erro, o extraviaram em sua i n t e r v e n ç ã o , ele paga imediatamente seu p r e ç o por uma
t r ans f e r ênc i a negativa. Freud imputa a D o r a sua p r ó p r i a r e s i s t ênc i a . " (J. Lacan,
" In te rven t ion sur le transfert", Ecrics, Seuil).
4 C f . o p r imei ro cap í tu lo do l i v ro de M i c h e l Neyraut sobre Le transferi, P U F , 1979.
5 " É inf in i tamente importante para o sucesso de uma análise que o analista tenha uma
n o ç ã o suficiente de seus p róp r io s desvios, de seus p róp r io s erros e que possa dominar
os pontos fracos de sua personalidade." (S. Freud, Analyse ünie, analyseinúnie, 1937).
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 43
c o n t r á r i o , e que , neste sent ido , n ã o existe nada que m e r e ç a p r o p r i a m e n t e f a l a n -
d o ser c h a m a d o " c o n t r a t r a n s f e r ê n c i a " 6
S o m e n t e as v a l ê n c i a s negativas o u positivas da t r a n s f e r ê n c i a m e r e c e m ,
po is , ser examinadas. M a s se devessem cor responder ao uso co r ren te da s impat ia
o u da an t ipa t ia seu e m p r e g o seria cons iderave lmente res t r i to , maculadas que
es tar iam e n t ã o p o r u m ps i co log i smo p o u c o p r á t i c o . A s s i m , é mais eficaz d e l i n e -
ar as f u n ç õ e s das t r a n s f e r ê n c i a s "pos i t ivas" e "negat ivas" i n d e p e n d e n t e m e n t e
dos afetos sentidos.
O analista n ã o responde à demanda, mas pela demanda . E le responde a
p a r t i r d o m o m e n t o e m que sub l inha u m e l emen to d o saber inconsc ien te . P o r -
t an to , é i n e v i t á v e l que se ve ja afetado n u m cer to lugar , que ele ocupa e m f u n -
ç ã o de u m a ú n i c a t r a n s f e r ê n c i a , c o m p o r t a n d o e m si mesma a n o ç ã o de u m
a c o p l a m e n t o de f o r ç a s c o n t r á r i a s , f azendo r e s i s t ê n c i a segundo u m a quadra tura
c a l c u l á v e l . Os t e rmos " s i m p a t i a " o u "an t ipa t i a " most ram-se , assim, inadequa-
dos para d e f i n i r as d i ferentes a p r e s e n t a ç õ e s da t r a n s f e r ê n c i a .
U m analista p o d e r á , c o n s e q ü e n t e m e n t e , escolher de l iberadamente t raba-
lha r na t r a n s f e r ê n c i a negat iva, sem e x p e r i m e n t a r n e n h u m a ant ipat ia pe lo p a c i -
ente e m q u e s t ã o , p o r q u e ele ter ia n o t a d o , p o r e x e m p l o , que a pos i t i v idade
i n d u z i r i a u m a f r a t e rn idade i n ú t i l o u per igosa 7 D a mesma f o r m a , a t r a n s f e r ê n c i a
pos i t i va p o d e ser n e c e s s á r i a e m m o m e n t o s part iculares da cura, u m gesto f r a t e r -
n o n ã o se c o n f u n d i n d o c o m u m sinal de s impat ia 8 .
A r e l a ç ã o da t r a n s f e r ê n c i a pos i t iva c o m seu nega t ivo responde p o r certas
i d e n t i f i c a ç õ e s que , na m e d i d a e m que c o n c e r n e m à h i s t ó r i a i n f a n t i l , p o d e m ser
r e l ac ionadas à a m b i v a l ê n c i a dos s e n t i m e n t o s d i r i g i d o s aos pais. O t e r m o
a m b i v a l ê n c i a se prestaria a c o n f u s ã o se se quisesse ver nele a a l t e r n â n c i a de dois
6 Cf . , igualmente: Al ice Bal int e Michae l Balint (1939, O n transference and Counter -
Transference, Int. Psycho. Anal., 20).
7 Freud precisará , em uma carta em resposta a Biswanger: " O que se dá ao paciente n ã o
deve jamais ser afeto imediato, mas sempre afeto conscientemente concedido, e isto
mais ou menos segundo as necessidades do momento" (S. Freud, Lettre à Binswanger,
i n Discours, parcours de Freud, Gallimard).
8 Nada impede, aliás, que u m analista exprima sua simpatia por u m analisante em certas
c i rcuns tânc ias , notadamente quando ele atravessa exper iências difíceis. E mui to claro
que, se u m lu to ou u m acidente surpreende o meio familiar de u m analisante, uma
palavra de c o n d o l ê n c i a n ã o tem nada de indecente. Tanto mais quanto acontece f r e -
q ü e n t e m e n t e que, frente à crueldade do destino, u m paciente busque desesperada-
mente dar u m sentido psicanalí t ico a acontecimentos para os quais ele mesmo n ã o
p ô d e encontrar uma causa, para o que é requerido o si lêncio e o trabalho do lu to .
44 O AMOR AO AVESSO
sen t imentos opostos. N a realidade, é p o r q u e o a m o r engendra o ó d i o que l i d a -
mos c o m dois p ó l o s t ã o opostos quan to i n s e p a r á v e i s . Se se considera , para co
m e ç a r , o m s o n d á v e l d o a m o r m a t e r n o , ele d e i x a r á sempre aquele que f o i seu
o b j e t o n u m estado de d í v i d a i n e x t i n g u í v e l , e é f r en te a esta e x i g ê n c i a sem f i m
que u m s e n t i m e n t o de h o r r o r pode t o m á - l o ' Q u a n t o ao a m o r d o pa i , ele é
p r o p o r c i o n a l a seu ó d i o , gera lmente inconsc ien te . A f u n ç ã o castradora d o pa i
n ã o resulta da a t i tude mais o u menos coe rc i t i va que t o m a a respei to de seus
filhos, mas da p o s i ç ã o que ocupa e m r e l a ç ã o a sua m u l h e r . O s vexames o u
m e s m o as bruta l idades sofridas p o r u m filho n ã o s ã o o m o t i v o p r i n c i p a l de sua
t i r an ia , semprem u i t o mais v i o l e n t a q u a n d o t e m sua f o n t e n o amor : de f a t o , o
pai é a m a d o na m e d i d a e m que salva. M a s esta f u n ç ã o faz dele u m castrador. O
a m o r e o ó d i o e s t ã o , pois , n u m a r e l a ç ã o de i m p l i c a ç ã o m ú t u a . D i s t o resulta que
a a m b i v a l ê n c i a se o rdena segundo s e q ü ê n c i a s regradas. P o r e x e m p l o , é f r e q ü e n -
te que u m a c r i a n ç a mos t re a t é u m a certa idade u m a a f e t a ç ã o atenta a respei to de
seu pa i , para bruscamente , e t e n d o c o m o base este s e n t i m e n t o a n t i g o , lhe decla-
rar sinais de hos t i l idade i n t e i r a m e n t e e x p l í c i t o s . O p r e t e x t o deste r e v i r a m e n t o
var ia , mas n u n c a é mais c laro que q u a n d o u m n e u r ó t i c o , c o m o é o caso f r e -
q ü e n t e m e n t e , r ep rova seu pa i p o r ser ausente, o u , mais e x p l i c i t a m e n t e ainda,
q u a n d o l h e i m p u t a amar u m a ou t ra m u l h e r — o que ele f a r á m e l h o r a inda se a
s i t u a ç ã o se prestar e f e t i vamen te a u m a tal c r e n ç a . E le r e p r o v a seu pa i p o r amar
o u t r a m u l h e r que sua m ã e , alega ele, e n q u a n t o , na real idade, lhe faz agravo de
amar o u t r a m u l h e r . . . que ele. C o m o se pode r i a c o m p r e e n d e r que sua a v e r s ã o se
a p ó i a na inveja? Eis o que ele i g n o r o u , e o que o mais f r e q ü e n t e m e n t e sempre
i g n o r a 1 0 .
Ta is m u d a n ç a s de afe to d o p o s i t i v o para o n e g a t i v o se p r o d u z e m f r e -
q ü e n t e m e n t e para as c r i a n ç a s e elas i n v e r t e m mui tas vezes os s en t imen tos q u e
e x p e r i m e n t a m e m r e l a ç ã o a cada u m de seus pais. E is to t a m b é m o c o r r e d u r a n t e
9 "O sujeito de que se trata, aquele de que seguimos o traço, é o sujeito do desejo e não
o sujeito do amor! Pela simples razão de que não se é o sujeito do amor: é-se comumente,
é-se normalmente sua v í t ima . E inteiramente diferente." (Jacques Lacan, A identiôca-
ção, 27 de j u n h o de 1962).
1 0 A inda mais, mesmo que sua análise exponha criticamente os termos desta inveja, per-
manece quase que imposs íve l f azê - lo no tá - la m u i t o rapidamente, porque ele imed ia -
tamente pensaria que seu desejo seria o de u m homossexual que se ignora. E m certo
sentido, é exatamente este o caso, ainda que seja somente apoiando-se neste desejo
' homossexual" virado em ó d i o que o sujeito vai-se encontrar no campo dos homens.
N ã o se trata de uma homossexualidade inconsciente, mas desta sobre a qual se apó i a a
heterossexualidade. Assim, ele ama na mulher o que ele mesmo f o i .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 45
o desenrolar da cura a n a l í t i c a , segundo os te rmos agora esclarecidos de t ransfe-
r ê n c i a p o s i t i v a o u nega t iva 1 1
II
Um analista poderia, seja por temperamento, seja porque tenha feito a
escolha de de ixa r ent rar e m j o g o p l enamen te apenas u m a das vertentes da t rans-
f e r ê n c i a , desconhecer mais o u menos s is tematicamente a ou t ra . E q u a n d o seus
analisantes e v o c a r e m esta face ocu l t a se rá l evado a pensar que os pobres p a c i e n -
tes se p e r d e m , e b u s c a r á r e m e t ê - l o s ao c a m i n h o co r r e to . P o d e r á e n t ã o l a n ç a r as
r e a ç õ e s negativas que o b t e r á à con ta das r e s i s t ê n c i a s , o que cer tamente é o caso,
a inda que se trate das suas 1 2
Is to é apenas u m p r o b l e m a que se a p r e s e n t a r á q u a n d o o analista supor ta r
somen te u m a certa t r a n s f e r ê n c i a c o m e x c l u s ã o das outras. D e f a t o , u m a tal
p o s i ç ã o se j u s t i f i c a e m certas o c a s i õ e s e o ato que consiste e m re lac ionar u m a
t r a n s f e r ê n c i a a u m a ou t r a possui u m v a l o r i n t e r p r e t a t i v o cer to . O p r o b l e m a só
c o m e ç a a p a r t i r d o m o m e n t o e m que u m a t r a n s f e r ê n c i a é oposta à ou t ra , c o m o
se somen te u m a den t re elas merecesse interesse. O analista depois t e r á d i f i c u l d a -
de e m seguir seu paciente n o m o m e n t o e m que ele realizar este salto per igoso
que consiste e m m u d a r de t r a n s f e r ê n c i a . C o n t i n u a r á a tomar-se p o r u m pa i ,
e n q u a n t o seu pac iente o p e r o u u m a i n v e r s ã o que o p õ e e m o u t r o lugar . Q u a l -
que r u m que p r o n u n c i e u m a frase se situa n u m cer to lugar e i d e n t i f i c a , conse-
q ü e n t e m e n t e , a u t o m a t i c a m e n t e , seu i n t e r l o c u t o r . As t r a n s f e r ê n c i a s e v o l u e m ,
pois , e m f u n ç ã o das p r o d u ç õ e s ideativas, e sua f l e x i b i l i d a d e se rá t an to mais su t i l
q u a n t o u m a ta l i n v e r s ã o pode , às vezes, operar-se durante u m a ú n i c a se s são , o u
m e s m o du ran t e o e n u n c i a d o de u m a só frase.
Este salto per igoso é real izado, p o r e x e m p l o , p o r este paciente: depois de
ter evocado u m h o r r o r s i n t o m á t i c o ao b a r u l h o , que o per tu rbava a ta l p o n t o e m
sua v i d a c o t i d i a n a que quase sempre p u n h a nos o u v i d o s bo l inhas de cera para
n ã o o u v i r , i m e d i a t a m e n t e encadeia u m a e v o c a ç ã o do s o m do c o r o de c a ç a ,
1 1 " É no manejo da t ransferência que se encontra o principal meio de imajar a c o m p u l s ã o
à r epe t i ç ão e t r ans fo rmá- l a em uma razão para se lembrar.. ." (S. Freud, La technique
psychanalytique, p. 113).
1 2 N ã o é o caso, por exemplo, de Margaret Li t t le que, em alguns dos casos clínicos que
relata, lança sistematicamente à conta materna os dissabores de seus pacientes? O u
talvez ainda aquele de Freud, quando remete, em numerosos exemplos, as d i f iculda-
des da cura a uma sedução paterna.
O AMOR A O WESSO
o u v i d o q u a n d o de u m passeio pela floresta. C o m o toda a sua h i s t ó r i a i nd i cava ,
a l iás , esta m ú s i c a se refer ia a u m s ign i f ican te sem d ú v i d a n e n h u m a pa te rno . l ; . o
r u í d o d o i n s t r u m e n t o n ã o teve t e m p o de se esfumar de sua m e m ó r i a , p o r q u e
i m e d i a t a m e n t e é u m o u t r o t e r r o r de sua i n f â n c i a que ele l embra , aquele e x p e -
rimentado ao o u v i r o a r ru lhar dos p o m b o s n o p e i t o r i l de sua lanela, can to q u e
associa agora aos gemidos d o gozo f e m i n i n o . U m m e s m o h o r r o r d o b a r u l h o se
a r t i cu la , assim, d u p l a m e n t e . A passagem de u m a borda a o u t r a deste encadea-
m e n t o s u p õ e u m a m u d a n ç a de lugar para aquele que o evoca e, c o n s e q ü e n t e -
m e n t e , u m m o v i m e n t o das t r a n s f e r ê n c i a s .
D a mesma f o r m a , t a m b é m , este j o v e m h o m e m que , depois de constatar,
a respei to de sua c o m p a n h e i r a , u m fantasma assassino o n d e ele seria o carrasco,
va i b ruscamente lamentar-se de sua sorte a p o n t o de por-se a chorar , s igno ce r to
de que depois de ter s ido t o r t u r a d o r ele se i d e n t i f i c o u c o m a v í t i m a . Esta i n v e r -
s ã o d o a fe to seria i n c o m p r e e n s í v e l se n ã o correspondesse a seu sadismo sexual:
é - l h e n e c e s s á r i o p r i m e i r o fazer sofrer , antes de c o m u n g a r amorosamen te c o m
aquela que ele mar t i r i z a . E m tais o c a s i õ e s , o analista fa lhar ia e m seu ato se n ã o
identif icasse a m u d a n ç a de i d e n t i f i c a ç ã o que se opera neste c i r c u i t o e p e r m a n e -
ceria i m p a v i d a m e n t e f i x a d o à t r a n s f e r ê n c i a paterna i n i c i a l , e n q u a n t o que n o
m o m e n t o das l á g r i m a s a c o m u n h ã o f e m i n i n a ocupa a boca da cena. E na m e d i -
da e m que s ó v i u f o g o , seu ato n ã o se rá q ue i m a d o , desacredi tado? 1 3
Cada m o m e n t o da t r a n s f e r ê n c i a se referencia f a c i l m e n t e q u a n d o se a c o m -
panha da a p a r i ç ã o o u da d e s a p a r i ç ã o de certos s in tomas. M a s tais í n d i c e s f r e -
q ü e n t e m e n t e f a l t a m . E x i s t e m , e n t ã o , outras r e f e r ê n c i a s ú t e i s : é f r e q ü e n t e que
s e q ü ê n c i a s inteiras da e x i s t ê n c i a sejam orientadas m a j o r i t a r i a m e n t e segundo u m a
certa t r a n s f e r ê n c i a . E , se u m analista p o d e dispensar p r o v e i t o s a m e n t e p e r g u n t a r
a seu analisante se prefere seu papai o u sua m a m ã e , é m e l h o r , n o e n t a n t o , que
ele fale de sua escolha de o b j e t o e de seus avatares e x o g â m i c o s , po is é a p a r t i r de
Este problema do analista concerne a sua capacidade de deixar o analisante i r para
onde vai, evitando m a n t ê - l o nos limites de uma escolha parcial. Quando uma ú n i c a
t ransferênc ia é levada em conta, esta escuta m a n t é m o analisante exclusivamente n u m
certo caminho, o que lhe será útil para explorar a metade de seu percurso. Entretanto,
n ã o ficará e m b a r a ç a d o cada vez que evocar uma outra face da t ransferênc ia? Ele pode-
rá f icar t ão perturbado que prefer i rá , às vezes, in terromper sua cura. Acontece neste
sentido, f r e q ü e n t e m e n t e , durante aquilo que se chama gastronomicamente uma "se-
gunda fatia" de análise, que muitos analisantes declarem nunca ter falado antes de seu
pai o u de sua m ã e . Esta particularidade n à o resulta, f o r ç o s a m e n t e , de uma ca rênc ia do
analista precedente, pois o analisante pode só ter visto nele uma certa figura e, conse-
q ü e n t e m e n t e , desenvolver suas falas.
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 47
u m a e v e n t u a l exc lus iv idade afe t iva e de sua a r t i c u l a ç ã o ao s i n t o m a que se o r i e n -
ta t a m b é m a t r a n s f e r ê n c i a que se e n d e r e ç a a ele. N ã o i g n o r á - l o dispensa de ixa r -
se pegar t r ans fe renc ia lmente mais que o n e c e s s á r i o , o u ao menos ev i ta r que
i n e v i t á v e i s armadilhas se t r a n s f o r m e m e m o b s t á c u l o s d e f i n i t i v o s .
T u d o seria r e l a t ivamen te simples se as t r a n s f e r ê n c i a s posit ivas e negativas
c o n s t i t u í s s e m u m par de opostos s i m é t r i c o s , mas o p r o b l e m a mostra-se mais
c o m p l e x o se se i n t e r r o g a o p o n t o de passagem de u m t e r m o a o u t r o . Q u a n d o
u m a c r i a n ç a se p õ e bruscamente a detestar seu pa i , este ó d i o se exp l i ca p o r q u e
ela o ama e p o r q u e este a m o r é castrador. U m b e m engendra u m m a l . D a
mesma f o r m a , mais u m a aná l i s e se mos t re eficaz, mais a t r a n s f e r ê n c i a pos i t iva
c r e s c e r á , mais ela a r r i s ca r á engendrar u m a t r a n s f e r ê n c i a nega t iva . 1 4 N o m o m e n -
t o preciso e m que o analista acreditar n u m cer to sucesso assegurado, s o b r e v i r á a
e x p l o s ã o que a n u l a r á o a m o r e x t r e m a m e n t e al ienante que d a í p rocede , escavan-
do n o v a m e n t e a d i s t â n c i a de u m s in toma talvez do lo roso , mas que, e m t o d o
caso, restabelece u m a s e p a r a ç ã o mais r e s p i r á v e l .
Desde que a a n á l i s e c o m e ç a , as i d e n t i f i c a ç õ e s atuais e as escolhas de o b j e -
t o d o analisante a t u a m na t r a n s f e r ê n c i a . N o en tan to , este i n v e s t i m e n t o i n i c i a l -
m e n t e fica opaco , para aquele que o efetua assim c o m o para aquele que o sofre .
D e f a to , o p r i m e i r o desconhece o que demanda — que se acha j á real izado e m
sua palavra (o analisante desconhece o p r ó p r i o f a to de que demanda u m a satis-
f a ç ã o t ransferencia i ao analista). E o segundo n ã o se pode dar con ta d o que lhe
é d e m a n d a d o a n ã o ser c o m u m t e m p o de atraso (nos melhores casos). C o m
e fe i t o , o u b e m d e i x a r á atuar a t r a n s f e r ê n c i a , e neste caso se rá co locado e m u m
luga r a seu despei to , a inda que c o m seu c o n s e n t i m e n t o , o u b e m se d e f e n d e r á
disso, e e n t ã o o p r o b l e m a n ã o se co loca mais, pois n ã o h a v e r á mais a n á l i s e .
Nes t e estado de de sconhec imen to m ú t u o , a parte t ã o rap idamente engajada
p o d e i n t e r r o m p e r - s e t a m b é m t ã o rap idamente . E suf ic ien te , p o r e x e m p l o , que ,
n o m o m e n t o e m que o analisante se l a n ç a n u m relato p a t é t i c o de suas i n f e l i c i -
dades, o analista se mos t re s i m p á t i c o , compreens ivo e h u m a n o , para que , do
p o n t o de vista das i d e n t i f i c a ç õ e s atuais, estas doces provas de h u m a n i d a d e o
a c o m o d e m , de u m a vez, na classe dos assassinos c o m u n s (dos quais todos sabem
1 4 "Quando o tratamento c o m e ç a sob os auspícios de uma t ransferência positiva fraca,
moderada, a e x u m a ç ã o das l embranças é, inicialmente, tão fácil quanto na hipnose e
os sintomas m ó r b i d o s se apaz igúam t a m b é m por u m certo tempo. Todavia, se depois
a t rans fe rênc ia se torna hostil ou excessiva e exige, por isso mesmo, o recalque, a
l e m b r a n ç a dá lugar imediatamente à a t u a ç ã o " (Sigmund Freud, La technique
psychanalytique, p. 110).
O AMOR AO AVtSUI
que n ã o d e i x a m de por-se de qua t ro e m n o m e de sua cu lpab i l i dade ) . I n s t r u í d o
deste p e r i g o , o prat icante poder ia t a m b é m mostrar-se distante, a t é m e s m o b r u -
ta l . A g i n d o assim, n ã o menos a r r i s ca r á situar-se a c o n t r a t e m p o , se o faz c m u n i
m o m e n t o e m que seria preciso n à o recusar sua m ã o ' 5 .
A pa r t i r d o m o m e n t o e m que a aná l i se c o m e ç a a p r o d u z i r seus efe i tos ,
u m a t r a n s f e r ê n c i a pos i t iva se desenvolve , mas a bondade a t r i b u í d a ao analista
se rá inversamente p r o p o r c i o n a l à t i rania da f u n ç à o que ele p õ e e m j o g o . D e
m o d o que , q u a n d o a t r a n s f e r ê n c i a n ã o se i nve r t e pura e s implesmen te , q u a n d o
o analisante n ã o se p õ e bruscamente a fazer a lista de seus agravos e de suas
r e p r o v a ç õ e s , o u n ã o t i ra umas f é r i a s , pode acontecer - lhe cair doen te , subs t i tu -
i n d o suas ses sões , ter u m a enxaqueca na sala de espera, u m a nevra lg ia ao se
sentar, o u ficar c o m s o l u ç o s ao dei tar n o d i v ã . Q u e l i ç ã o t i ra r disto? M u i t o mais
que ve r nestes inc identes a p r o v a da e f i c á c i a da t r a n s f e r ê n c i a , e mais ainda q u a n -
d o o f a to j á se p r o d u z i u diversas vezes c o m o m e s m o analisante, o analista n ã o se
m o s t r a r á mais insp i rado ao t o m a r s is temat icamente este risco e m sent ido opos -
to? Eis u m a m a n o b r a que parece fác i l , j á que , para ev i ta r que u m b e m engendre
u m m a l , nada i m p e d e a c o m o d a r a d i s t â n c i a à p r o p o r ç ã o dos progressos, p o r
e x e m p l o most rando-se mais distante e p o u c o a g r a d á v e l q u a n t o mais os resul ta-
dos da cura f o r e m s a t i s f a t ó r i o s .
T a l v e z seja desprazeroso mos t ra r esta secura c o m analisantes que n ã o
i n s p i r a m tais sen t imentos . Mas vale mais, na m a i o r parte das vezes, agi r assim,
menos e m n o m e de u m p r i n c í p i o que seria t ã o e s t ú p i d o de f ende r q u a n t o o de
u m a c o m p a i x ã o s i s t e m á t i c a que para p e r m i t i r à a n á l i s e superar seus p r ó p r i o s
sucessos. Se se que r t i ra r as l i ç õ e s deste agenc iamento da a m b i v a l ê n c i a , n ã o seria
1 5 Esta me tá fo ra , "dar sua m ã o " designa coisa diferente que a piedade o u a c o m p a i x ã o .
Trata-se do gesto quase impessoalque dá forma ao sem forma quando o analisante se
vê numa tal aflição que toda fraternidade de discurso se perdeu. Se existe u m risco da
t ransferência positiva, é o da c o m p a i x ã o que define o sentimento daquele que partilha
as dores de u m semelhante. Neste sentido, a c o m p a i x ã o n ã o tem dire i to de cidadania
na cura, no que se refere às dificuldades da vida ou mesmo quanto à espéc ie de s o f r i -
mento que procede do es forço exigido pela p rópr i a análise. N ã o seria escandaloso que
o analista seja inicialmente o agente daquilo c o m que se mostraria c o m o v i d o depois?
A c o m p a i x ã o t em t a m b é m u m sentido menos ps ico lóg ico , o de uma partilha de uma
p a i x ã o c o m u m . Pode-se concordar que a mesma pa ixão anima o analisante e o analista
e se seria tentado a evocar a este p r o p ó s i t o o que Lacan chamava uma "fraternidade de
discurso" Entretanto, como n ã o existe medida c o m u m entre o que o ato ana l í t i co
descobre e o que o analisante busca m u i t o mais, por seu lado, recobnr, a "fraternidade
de discurso" é uma pos ição de in íc io que rapidamente encontra seu l i m i t e .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 49
m e l h o r às vezes se mos t ra r b r u t a l n o m o m e n t o da t r a n s f e r ê n c i a pos i t iva , j á que
u m a s imples neu t ra l idade arrisca mostrar-se c o m o c o m p a i x ã o — o u u m a f o r m a
de f r a t e r n i z a ç ã o — e que esta c o m p a i x ã o f i n a l m e n t e seria nefasta? Se is to se
produzisse , a p r ó p r i a t r a n s f e r ê n c i a se to rna r i a o escolho p r i n c i p a l da a n á l i s e , de
m o d o que seria g r a ç a s a ela que u m a p r o g r e s s ã o se rá efetuada j u s t a m e n t e neste
p o n t o . O analista t a m b é m p o d e mostrar-se r a b u g e n t o e quere lan te , n o m o -
m e n t o m e s m o e m q u e a a f e i ç ã o e o r e c o n h e c i m e n t o l h e s ã o v i v a m e n t e e x -
pressos.
A t r a n s f e r ê n c i a ent ranha u m a r e s i s t ê n c i a , u m a c o l o c a ç ã o e m trans, e o
que se p õ e assim de t r a v é s de ixa ad iv inha r a a f e t a ç ã o do saber inconsc ien te .
G r a ç a s a esta r e s i s t ê n c i a , a a f e t a ç ã o de u m saber n ã o - c o n h e c i d o aparece m u i t o
antes que este saber se saiba, o mais f r e q ü e n t e m e n t e segundo u m s igno c o n t r á -
r i o ao pensamento que se es tá e x p r i m i n d o . (E o caso, ent re ou t ros , do t i r ano
d o m é s t i c o que cai e m l á g r i m a s q u a n d o do relato de suas p r ó p r i a s e x p l o r a ç õ e s ) .
O c o r r e o m e s m o n o que conce rne aos afetos da t r a n s f e r ê n c i a : às vezes é neces-
s á r i o marca r d i s t â n c i a n o m o m e n t o e m que o analisante t ransborda de a f e i ç ã o
o u de r e c o n h e c i m e n t o e m r e l a ç ã o a seu analista. E m troca, ele pode ser j u d i c i -
oso ao so r r i r a m a v e l m e n t e para aquele que acaba de e x p r i m i r p ro fundas reservas
q u a n t o à mane i r a de ser, às vest imentas o u ao m o b i l i á r i o do analista — q u a n d o
n ã o e x p r i m e f r a n c a m e n t e o ó d i o o u o desgosto que e x p e r i m e n t a e m r e l a ç ã o a
sua pessoa 1 6
P o r que u m a m a i o r s impl i c idade raramente é p o s s í v e l ? N ã o se pode r i a
i m a g i n a r u m a t é c n i c a que , sendo menos pesada, seria p r ó p r i a para t empera r os
efei tos c o n t r á r i o s da t r a n s f e r ê n c i a ? I n f e l i z m e n t e , a u t i l i z a ç ã o de ou t ros p r o c e d i -
m e n t o s parece d i f í c i l p o r causa da r i g idez de certos p a r â m e t r o s t é c n i c o s . O
p a g a m e n t o das s e s s õ e s , p o r e x e m p l o , p o d e r i a e n x u g a r u m a b o a par te da
nega t iv idade engendrada pela pos i t iv idade , e se poder ia pensar que u m a a r g u -
m e n t a ç ã o dos h o n o r á r i o s realizada e m t e m p o o p o r t u n o v a i acarretar u m a l í v i o .
E n t r e t a n t o , existe u m l i m i t e super io r à soma de d i n h e i r o que se pode ex ig i r . D a
m e s m a f o r m a , a d u r a ç ã o da sessão pode r i a ser encurtada, o u ainda ser a u m e n t a -
d o o n ú m e r o das se s sões . Mas , aí t a m b é m , exis t i r ia u m l i m i t e super ior , t an to
mais r a p i d a m e n t e a t i n g i d o quan to , para u t i l i za r u m a t é c n i c a c o m toda a segu-
r a n ç a , é preciso d i spor de u m a i m p o r t a n t e t r a n s f e r ê n c i a pos i t iva (o que era o
caso para Lacan , c o m q u e m se pode pe rgun ta r se o uso desta t é c n i c a n ã o era
16 Devemos, no entanto, pôr em jogo a agressividade do sujeito a nosso respeito, já que
estas i n t u i ç õ e s , sabemos, f o r m a m a t ransferência negativa que é o n ó inaugural do
drama ana l í t i co" (Jacques Lacan, Ecríts, p. 107).
50 O AMOR w A V I $ t O
quase que o b r i g a t ó r i o , p o r causa da espessura da t r a n s f e r ê n c i a p rovocada pela
d i m e n s ã o d o personagem) . A no to r i edade de u m analista o u seus resultados
br i lhan tes p o d e m l e v á - l o a trabalhar mais cons tan temente sob o c o n s t r a n g i -
m e n t o da t r a n s f e r ê n c i a pos i t iva . O e m p r e g o das t é c n i c a s cor respondentes ( e m
pa r t i cu la r a das sessões curtas) t e m boa chance de ser i m o t i v a d a n u m o u t r o
c o n t e x t o e de relevar somente da c ó p i a c o n f o r m e aos standards supostos do
l acan i smo.
T a n t o mais que n ã o se pode neg l igenc ia r a possibi l idade de t rabalhar na
t r a n s f e r ê n c i a p o s i t i v a , c o m o atestam d i f e r en t e s t e s t e m u n h o s da p r á t i c a de
F r a n ç o i s e D o l t o , de M a r g a r e t L i t t l e o u numerosos autores a n g l o - s a x õ e s (cuja
a t i t ude de empar ia é , e m certos aspectos, menos obtusa que a que consist ir ia e m
f i x a r u m a ant ipa t ia de p r i n c í p i o ) . O recurso à empat ia b e n é v o l a só se to rna
c r i t i c á v e l q u a n d o é e r ig ida e m sistema 1 7 ? A n t e s de dar os ú l t i m o s re toques na
t é c n i c a q u e u t i l i z a m o s ainda, F r e u d co locava sua m ã o na testa de seus analisantes
a f i m de a j u d á - l o s a soltar a l í n g u a . E le fazia este gesto, que evoca m u i t o mais a
s impat ia , n u m a é p o c a e m que n ã o t i n h a mais i l u s õ e s sobre os sen t imentos que
os analisantes d i r i g i a m a seus analistas. E le j á t i n h a r e c o n h e c i d o a f u n ç ã o do
" s e m b l a n t e " q u e r d izer , is to pe lo q u e o m é d i c o é afetado e m n o m e da p r ó p r i a
p r o d u ç ã o d o s i n t o m a . Esta t é c n i c a seria doravante caduca? Sua p r o s c r i ç ã o n ã o
se i m p õ e e m todos os casos-modelo . P ô r a m ã o na testa o u n o o m b r o de u m
analisante, n o o b j e t i v o de trabalhar se n e c e s s á r i o na t r a n s f e r ê n c i a pos i t i va , pode
responder p o r u m a a f e t a ç ã o pa r t i cu l a r conced ida ao analista e tais gestos, q u a n -
d o s ã o apropr iados , somente e x c e p c i o n a l m e n t e s ã o t omados p e l o analisante
c o m o marcas de pa te rna l i smo, o u c o m o signos de e f u s ã o o u de c o m p a i x ã o . Este
recurso t é c n i c o , menos b e m registrado na doxa lacaniana que a secura de u m
s i l ê n c i o de p r i n c í p i o , p e r m i t e f r e q ü e n t e m e n t e desbloquear s i t u a ç õ e s t rans fe -
renciais q u e ficariam, de ou t r a f o r m a , sem sa ída .
O que passa p o r t r a n s f e r ê n c i a " p o s i t i v a " o u " n e g a t i v a " c o n s t i t u i s o m e n t e
a dup l a face de u m a mesma m o e d a — cu ja a p r e s e n t a ç ã o é s u m a r i a m e n t e a n á l o -
7 N u m e nou t ro caso, e segundo sua valência , a t ransferênc ia , que permite a anál ise , é
t a m b é m seu principal escolho. Poru m lado, porque o engendramento da negatividade
pela positividade arrisca fazer de todo sucesso o l imi te do fracasso. E t a m b é m , por
out ro lado, porque, positivas ou negativas, as t ransferências plurais en fo rmam a trans-
fe rênc ia or iginár ia — sem forma — e porque elas guardam, por este viés , uma c o n f o r -
tável f u n ç ã o de n e g a ç ã o da cast ração (o "rochedo" da cas t ração) . Existe, assim, u m
duplo l imi t e da t ransferência : u m interno, o ou t ro externo, inscrevendo-se toda a
d i r eção da cura neste campo.
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 51
ga à a r t i c u l a ç ã o da piedade e do sadismo, p o r e x e m p l o 1 8 U m analista p o d e r i a
errar se, t e n d o e x a m i n a d o a p e ç a que lhe é mostrada e m apenas u m a de suas
faces, desse o t r o c o e m c o n s e q ü ê n c i a . Este seria o caso se ele se mostrasse c o n -
co rdan te o u , ao c o n t r á r i o , r í g i d o , e m lugar de se con ten ta r e m apresentar o
g u m e desta dup l a face, que o d i v i d e p r i m e i r a m e n t e . E le f i ca , e n t ã o , nesta e s p é -
cie de neu t ra l idade improv i sada , que quer que n ã o possa mostrar-se n e m f r a t e r -
na l , n e m h o s t i l , de m o d o que n ã o possa recusar n e n h u m destes sen t imentos , se
seu analisante os a t r i b u i a ele.
III
Como proceder para sustentar a neutralidade de uma transferência que
seria somen te a e n f o r m a ç ã o da t r a n s f e r ê n c i a o r i g i n á r i a ? O p r o b l e m a parece t a n -
t o mais i n s o l ú v e l quan to , a pa r t i r do m o m e n t o e m que f o i colocada e m f o r m a ,
ela i m e d i a t a m e n t e se rá pos i t iva o u negat iva. O í n d i c e constante de u m a t ransfe-
r ê n c i a " z e r o " parece d i f íc i l de preservar. M a n t e r u m a t r a n s f e r ê n c i a " z e r o " (neutra)
d i f i c i l m e n t e parece depender do saber-fazer do analista, j á que, antes m e s m o da
p r i m e i r a entrevis ta , a b a l a n ç a j á pende n u m sent ido o u n o u t r o ! A neu t ra l idade
parece u m a n o ç ã o c o n t e s t á v e l e m u m p o n t o ; de f a to , se o analista sustenta ao
m e n o s u m a certeza sobre a qua l n ã o p o d e t ransigi r é a de que seu ato, o u
somen te sua p r e s e n ç a , a f i r m a que h á saber inconsc ien te . Nesta med ida , e l o n g e
de ser n e u t r o , o analista t o m a p o s i ç ã o dogma t i camen te , quaisquer que sejam,
N u m esforço de logi f icação , poder-se-ia pensar que existe uma homologia entre, de
u m lado, as n o ç õ e s de t ransferências positivas e negativas e, de outro lado, as n o ç õ e s
mais lacanianas de a l ienação e de separação. A al ienação do paciente ao analista seria
proporc ional à t ransferênc ia positiva e a separação à t ransferência negativa. N a medida
em que a psicanálise t em como horizonte a desal ienação, ou ainda a separação, con -
c lu i r - se-á disso que o analista deveria preferir situar-se na t ransferência negativa (e,
c o n s e q ü e n t e m e n t e , mostrar-se no conjunto mu i to distante e desagradável) . Entretan-
to, a duplicidade das transferências retira toda per t inênc ia a esta homologia. D e fato, se
o analisante se encontra numa t ransferência negativa, uma atitude negativa que lhe
respondesse o alienaria certamente nesta pos ição . Seria, portanto, uma t ransferênc ia
positiva do analista que abriria mais no sentido da separação. Longe de ser separadora,
uma t rans fe rênc ia negativa de p r inc íp io da parte do analista pode comportar efeitos de
a l ienação cons ideráveis . Assim, acontece f r e q ü e n t e m e n t e que, mais u m analista se
mostre desagradável , mais seu analisante o deixará com dificuldade. De forma que, se
fosse preciso despedir u m paciente cuja t ransferência consti tuísse o ú l t i m o sintoma,
n ã o seria r e c o m e n d á v e l p ô - l o porta afora. Seria melhor lhe fazer uma declaração de
simpatia ou mesmo de amor: a partida seria mais certa.
O AMOR * O »Vt ÍJO
al iás , suas maneiras insinuantes e seu ar de b o m m e n i n o . An te s m e s m o de ter
p r o n u n c i a d o u m a ú n i c a p a l a v r a , o ana l i san te l h e a t r i b u i u m a v o n t a d e
in t e rp re t a t i va . N ã o é isto que pode t o r n á - l o i r r i t an te e m u m a é p o c a e m que
toda certeza i d e o l ó g i c a t e m a imprensa contra?
Q u e í n d i c e poder i a servir de c r i t é r i o para u m a neut ra l idade q u e é , p o r
d e f i n i ç ã o , re la t iva a pe lo menos duas outras possibil idades, pos i t iva o u negativa?
S e m d ú v i d a , pode-se indagar , neste sent ido, sobre a e x i s t ê n c i a — a l é m da regra
f u n d a m e n t a l — de di ferentes r e g u l a m e n t a ç õ e s concernentes à t é c n i c a a n a l í t i c a .
C o n f o r m a n d o - s e a u m cer to n ú m e r o de p r o c e d i m e n t o s que ele m e s m o n ã o
f i x o u e que seu analisante conhece t a m b é m , o analista se rá n e u t r o , de toda
f o r m a , apesar dele . Este c o n f o r m i s m o d o d i spos i t ivo n ã o conce rne somente aos
m e m b r o s da I n t e r n a c i o n a l , mas t a m b é m à m a i o r parte dos lacanianos, que t a m -
b é m u t i l i z a regras e p r o c e d i m e n t o s que eles mesmos n ã o f i x a r a m e que são
i g u a l m e n t e conhec idos . Estas r e f e r ê n c i a s i n e v i t á v e i s a u m a regra e x t e r i o r c o m -
p o r t a m i n c o n v e n i e n t e s , sendo o mais i m p o r t a n t e a o c u l t a ç ã o d o desejo do ana-
lista. M a s n ã o t ê m t a m b é m u m a van tagem, a de c o n c o r r e r para levar a p lura l idade
das t r a n s f e r ê n c i a s a t é a p o s i ç ã o de n e u t r a l i d a d e que as t o r n a v i r t u a l m e n t e
a n a l i s á v e i s ? T o d o analista se refere a u m d i spos i t i vo que n ã o i n v e n t o u , da mes-
m a f o r m a que re t i r a t a m b é m sua au to r idade da teor ia p s i c a n a l í t i c a , que , t a m -
b é m ela, serve de r e f e r ê n c i a " n e u t r a " da t é c n i c a . E c laro que o d i spos i t ivo o u a
t eo r i a n ã o p e r m i t e m d e f i n i r u m p o n t o n e u t r o , a n ã o ser a t í t u l o f i c t í c i o , e que
s ã o antes de t u d o os analistas de todas as t e n d ê n c i a s que se asseguram g r a ç a s a
estas r e f e r ê n c i a s .
O recurso a u m a regra o u a u m p r o c e d i m e n t o c o d i f i c a d o s u b l i n h a van ta -
j o s a m e n t e q u e o analista é somen te o i n s t r u m e n t o da o p e r a ç ã o à q u a l ele se
presta. Trata-se , e n t ã o , de u m a n e u t r a l i z a ç ã o d o que h á de s u b j e t i v o na p o s i ç ã o
d o analista, o u ao menos isto p a r e c e r á assim a seu analisante, que p e n s a r á ev i t a r
a a rb i t ra r iedade de u m a pessoa. O recurso a u m a regra e a u m a t é c n i c a c o d i f i c a -
das parece ev i ta r responder a u m a t r a n s f e r ê n c i a pos i t iva p o r u m a t r a n s f e r ê n c i a
negat iva , o u r e c i p r o c a m e n t e , e m a n t e r o r u m o da t r a n s f e r ê n c i a ze ro g r a ç a s a
este p u r o a r t i f í c i o . Se, p o r e x e m p l o , u m a t r a n s f e r ê n c i a pos i t i va m u i t o v i o l e n t a
leva u m paciente a t e l e fona r v á r i a s vezes p o r dia a seu analista, este p o d e , sem
d ú v i d a , fazer saber que esta i n s i s t ê n c i a n ã o lhe c o n v é m e o i n c o m o d a , mas
t a m b é m p o d e p r e f e r i r u m a resposta menos b r u t a l m e n t e especular e assinalar
que is to n ã o faz parte da regra. Isto n à o o i m p e d i r á , u l t e r i o r m e n t e , se as c i r c u n s -
t â n c i a s e x i g i r e m , de p e d i r ao m e s m o analisante que lhe t e l e f o n e , m u d a n d o as-
s i m de p o s i ç ã o , n ã o p o r c a p r i c h o , mas p o r q u e a s i t u a ç ã o da t r a n s f e r ê n c i a se
m o d i f i c ou .
O JOGO IDA ASSOCIAÇÃO LIVRE 53
N o en tan to , p o r q u e i d e n t i f i c a o analista e o d i s f a r ç a e m c a t e c ú m e n o ,
t oda regra de c o n d u t a da cura dada adiantadamente arrisca-se agravar a n e u t r a -
l idade da t r a n s f e r ê n c i a 1 9 N ã o é que n ã o exista n e n h u m a t é c n i c a a n a l í t i c a : existe
u m a e ela t e m sua e f i c á c i a . M a s se esta t é c n i c a pode ser deduz ida da i n d e t e r m i -
n a ç ã o que subsiste ent re u m saber-fazer geral e o d e s c o n h e c i m e n t o d o ato par-
t i cu la r , ela e s t a r á n o i m p o s s í v e l de prescrever o que é preciso fazer para cada
analisante. Guardando-se a dev ida p r o p o r ç ã o , ela n ã o t e r á o u t r o c o n t e ú d o que
aquele de que se p o d e falar a respei to do arco e flecha, o u da p i n t u r a , que é
i n t e i r a m e n t e reve lado n o ato, i g u a l m e n t e (existe ce r tamente u m saber-fazer
c o d i f i c á v e l , mas n ã o é o que o artista faz) . A " t é c n i c a " n ã o é , pois , o s u b c o n j u n t o
p r á t i c o de u m a teor ia o u a a p l i c a ç ã o de u m saber ( tanto mais que este, sempre
par t i cu la r , é j u s t a m e n t e o que se trata de fazer aparecer). Esta t é c n i c a n ã o se
e n c o n t r a e m n e n h u m m a n u a l e, neste sen t ido , n u n c a r e s p o n d e r á p o r a lguma
regra de a p l i c a ç ã o .
A " n e u t r a l i d a d e " e n t ã o concerne às o p i n i õ e s o u aos j u l g a m e n t o s de v a l o r
que o analista seria s u s c e t í v e l de e x p r i m i r ? Nes te caso, consideraremos que ele
d e v e r á abster-se de d i r i g i r qua lque r j u l g a m e n t o aos acon tec imentos , assim c o m o
d e v e r á evi tar aconselhar seu paciente c o m o u m d i r e t o r de c o n s c i ê n c i a fa r ia .
Esta " n e u t r a l i d a d e " do analista t e r á a van t agem de deixar o analisante i m a g i n a r
o que quiser. E isto n ã o somente e m r e l a ç ã o a seus gostos e o p i n i õ e s , mas
t a m b é m a p r o p ó s i t o de suas escolhas i d e o l ó g i c a s o u dou t r ina i s .
A c o n t e c e de os analisantes serem i n f o r m a d o s sobre as o p i n i õ e s e as esco-
lhas de seus analistas. Estas i n f o r m a ç õ e s p o d e m às vezes p e r t u r b á - l o s , a p o n t o de
os i n d u z i r t r ans fe renc ia lmente a pensar c o m o ele, o u , t a m b é m t ransfe renc ia l -
m e n t e , a pensar o c o n t r á r i o . M a s , quaisquer que sejam os efeitos de suas o p i -
n i õ e s o u escolhas, o analista n ã o t e m cura disso, n o sent ido e m que somente o
que interessa o s i n t o m a releva do d i spos i t ivo .
É u m a necessidade i n t e i r a m e n t e re la t iva a de os pacientes i g n o r a r e m as
o p i n i õ e s , os fe i tos o u as at i tudes do analista. Q u a n d o acontece de os analisantes
serem i n f o r m a d o s da v i d a p r ivada o u p ú b l i c a de seu analista, eles n ã o l e v a m e m
con t a estas i n f o r m a ç õ e s , salvo se q u e r e m entabular u m a querela , o u , ao c o n t r á -
, 9 " N o espaço da t ransferência , n ã o é raro ver en tão o sujeito projetar uma re lação
totalmente m o r t í f e r a c o m a Le i . E m uma tal s i tuação, o analista é, de toda f o m i a ,
"cont ro lado" por u m paciente que, no l imi te , vigia se o "regramento" é corretamente
aplicado: esta ex igênc ia pode aplicar-se à duração da sessão, desejada i m u t á v e l , assim
como ao teor das in te rp re tações" (Maud Mannon i , Anioui; haine, séparaüon. Renouer
avec la langueperdue de 1'enfance, D e n o é l , 1993).
O AMOR AO AVESSO
n o , con fo r t a r - se na boa escolha que f i ze ram. Q u a n d o i g n o r a m estes detalhes
pr ivados , eles os i n v e n t a m a cada vez que t e m necessidade, o u b o r d a m u m
r o m a n c e sob m e d i d a a pa r t i r de detalhes às vezes í n f i m o s ! Esta capacidade de
i n v e n ç ã o chega às vezes a lhe c o n f e r i r u m a p o s i ç ã o m o r a l rígida, assim fabric-an-
do-se sob m e d i d a u m i n t r a t á v e l Supereu . Nesta c o n d i ç õ e s , ve remos a cura ad-
q u i r i r u m papel d isc ip l inar e t o m a r á u m a f u n ç ã o adaptativa. A c o n t e c e , p o r e x e m -
p l o , que u m paciente cu ja v ida era, segundo ele, m u i t o desregrada, se t o r n e
s á b i o u n i c a m e n t e pela r e p r o v a ç ã o de seu c o m p o r t a m e n t o que a t r i b u i a seu
analista. Nes t e sen t ido , a " n e u t r a l i d a d e " c o n d i c i o n a u m a realidade p s í q u i c a que
n u n c a se rá neu t ra , j á que o analisante quase sempre a t r i b u i r á ao analista u m a
o p i n i ã o sobre suas at ividades.
T a m b é m é n e c e s s á r i o d e l i m i t a r mais precisamente o que se entende p o r
" o p i n i ã o " D e f a to , é n e c e s s á r i o d i s t i n g u i r ent re as o p i n i õ e s d o analista sobre a
marcha d o m u n d o o u seus n e g ó c i o s , o p i n i õ e s que só d i z e m respei to a ele, e as
que ter ia a respei to de seu analisante, que s ã o as que e x a m i n a m o s agora. Se ele
as c o m u n i c a a seu analisante, a cura pode t ransformar-se e m d i r e ç ã o de cons-
c i ê n c i a ? Assinalaremos p r e v i a m e n t e que , e m certas c i r c u n s t â n c i a s , n ã o somente
o analista t e m u m a o p i n i ã o sobre a s i t u a ç ã o d o analisante, mas p o d e acontecer
c o m u n i c a r is to . E n ã o é m e l h o r que faça valer seu p o n t o de vista, se seu analisante
entra n u m a v i a perigosa? C e r t a m e n t e se trata e n t ã o , menos de u m a " o p i n i ã o "
que de u m ato que sempre t e r á u m sent ido e m r e l a ç ã o à a n á l i s e . D e qua lque r
f o r m a , pondo-se à parte as s i t u a ç õ e s excepcionais , a a b s t e n ç ã o é sempre p r e f e -
r í v e l 2 0 .
E x a m i n e m o s m e l h o r a " o p i n i ã o " n o o r d i n á r i o da cura . Q u a n d o u m ana-
lista aprova o que d iz seu analisante, gera lmente o faz de mane i r a l a c ô n i c a , p o r
e x e m p l o d i z e n d o : " B o m " " s i m ! " " é isso" o u ainda " ó t i m o ! " P o r pequenas
que sejam, c o m o essas palavrinhas s e r ã o ouvidas , j á que apresentam u m e q u í v o -
co? D e f a to , o analisante n ã o s a b e r á se estes t e rmos s ã o vazios e q u e r e m d ize r
somen te que ele f o i o u v i d o o u se se trata de j u l g a m e n t o s . A l é m disso, n o segun-
d o caso. p e r m a n e c e r á i n d e d d í v e l saber se os j u l g a m e n t o s " v e r d a d e i r o " o u " f a l -
" U m psicanalista pode empreender a defesa do que sua prá t ica lhe ensina? N ã o é n ã o
ju lgando, evitando ter uma o p i n i ã o , que ele pode ouv i r o que se diz? Privilegiar uma
certa parte do discurso às expensas de tal outra menos agradável de o u v i r é prejulgar
que há o menos amáve l e, por esta restr ição, o amor de t rans fe rênc ia , m o t o r da cura,
é questionado abruptamente em sua reciprocidade necessár ia ." ( R e n é Tostain , Le
temps d'aimer, D e n o é l , 1988).
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 55
so" e " b e m " o u " m a l " recaem sobre o su je i to do e n u n c i a d o o u sobre o da
e n u n c i a ç ã o . A a p r o v a ç ã o de u m a frase c o m o " m i n h a m ã e era l o u c a " n ã o pe r -
m i t e saber se o analista pensa t a m b é m que a m ã e de seu paciente era u m p o u c o
l o u c a , o u se somente o u v i u pe r f e i t amen te o que seu analisante pensa. Este n ã o
s a b e r á se seu analista pensa que o que ele disse é " v e r d a d e i r o " o u se ele s ign i f i ca
que e n t e n d e u " b e m " E p o d e r á i m a g i n a r que u m a a d v e r t ê n c i a , o u u m a o p i -
n i ã o , l h e f o i e n d e r e ç a d a m e s m o q u a n d o n ã o chega a d e c i d i r e m que sen t ido
i n t e r p r e t á - l a . E será suf ic iente somente u m a a p r o v a ç ã o do analista,m e s m o quando
c o m p o r t e u m e q u í v o c o , para que e m seguida o analisante se sinta n o d i r e i t o de
se p e r g u n t a r se o que ele disse f o i c o n v e n i e n t e . A l é m disso, a pa r t i r do m o m e n -
t o e m que sua fala f o i escandida p o r ao menos u m a destas a p r o v a ç õ e s i m p l í c i t a s ,
o que p e n s a r á ele cada vez que elas n ã o lhe f o r e m renovadas, q u a n d o ele n ã o
o u v i r , p o r e x e m p l o , " b o m " " s i m " o u " e s t á c o r r e t o " n o f i m da sessão? E le n ã o
t e n d e r á a i m a g i n a r que se perdeu? A m a i o r i a dos analisantes p e n s a r á , pois , f r e n t e
a elas, que seu analista e m i t e o p i n i õ e s , o u m e s m o que é p r o s é l i t o de u m a regra
m o r a l r í g i d a . J á que, de qua lque r f o r m a , elas são sempre a t r i b u í d a s , n ã o são estas
o p i n i õ e s que v ã o t o r n a r pesada a neut ra l idade da t r a n s f e r ê n c i a .
D e f a t o , a e x p r e s s ã o das o p i n i õ e s n ã o é o te r reno e s p e c í f i c o da n e u t r a l i -
dade, que n u n c a se rá t ã o b e m d e l i m i t a d a quan to n o que concerne ao afe to . N ã o
f o i p rec i samente usando o t e r m o " b e n e v o l ê n c i a " que F r e u d i n t r o d u z i u esta
n o ç ã o de neutra l idade? O analista se v ê si tuado e m u m cer to lugar pe lo discurso
de seu analisante e n ã o p o d e p rever antec ipadamente qua l lugar lhe se rá a t r i b u -
í d o , po is esta p o s i ç ã o f l u t u a . E l e deve p o r t a n t o , nesta med ida , pe rmanecer n e u -
t r o . À sua a f e t a ç ã o cor responde u m afeto que aquele que fala sente e e x p r i m e
f r e q ü e n t e m e n t e , afe to que faz eco ao que i gno ra e m seu p r ó p r i o dizer . O afeto
responde à d i v i s ã o do su je i to e o analista é esperado neste p o n t o . Nestas c i r -
c u n s t â n c i a s , o f a to de se de ixar afetar sem saber ainda p o r que e de supor tar esta
i n v e s t i d u r a c o m c i r c u n s p e c ç ã o sem ex te r io r i za r seus sent imentos p e r m i t e r e d u -
z i r p o r a n t e c i p a ç ã o o o b s t á c u l o que cons t i t u i r i a sua m a n i f e s t a ç ã o . É na p r o p o r -
ç ã o desta r e d u ç ã o que o saber inconsciente e m e r g i r á . Cer tamente o p re ju lgamen to
t rans fe renc ia i de m u i t o s analisantes é tal que a a p a r i ç ã o de u m o b s t á c u l o n e m
sempre sucede a u m a neut ra l idade i n su f i c i en t e . Se acontece de o analista aban-
dona r sua neut ra l idade afet iva e se se lamenta ao mesmo t e m p o que seu analisante,
o u a inda se se r egoz i j a c o m ele, seu paciente p o d e r á pensar que se trata de u m a
m a n o b r a , que esta a f e t a ç ã o é afetada e que, na realidade, aquele que manifes ta
tais s en t imen tos pe rmanece p r o f u n d a m e n t e i n d i f e r e n t e ao que lhe acontece o u ,
a inda , que r i d iscre tamente dele.
O AMOR AO A V t U U
A "neutral idade '* encon t ra sua r a z ã o e m r e l a ç ã o à demanda a fe t iva d o
anal isante 2 1 C e r t a m e n t e , ele exige u m cer to grau de c o m p r e e n s ã o c de c o m p a i -
x ã o e o analista n ã o lhe pode r e c u s á - l a s c o m p l e t a m e n t e . C) analista aceita esta
demanda e m u m a certa med ida , o u m e l h o r , t o m a p o s i ç ã o de mane i ra tal q u e ,
progress ivamente , vai-se most rar que ele n ã o se compadece . O u seja, o analista
se rá o b r i g a d o a se adaptar à a p r e s e n t a ç ã o da t r a n s f e r ê n c i a segundo u m tempo
graduado que o leva a "fazer c o n c e s s õ e s " e m f u n ç ã o da in tensidade das r e s i s t ê n -
cias, tais c o m o aparecem n o discurso. C o n t r a r i a m e n t e a u m a i m a g e m d o psica-
nalista m u i t o d i f u n d i d a , o pra t icante n ã o f ica duran te u m t e m p o d e t e r m i n a d o
pregado e m sua p o l t r o n a e sempre t a m b é m i g u a l m e n t e n e u t r o . C o m o pode r i a
e m todas as o c a s i õ e s pe rmanece r m u d o c o m o u m a carpa, pe ixe que F r e u d
n u n c a des ignou c o m o e m b l e m a da p r o f i s s ã o ?
O s c l i c h ê s referentes à regra a n a l í t i c a se t o r n a r a m t ã o d i f u n d i d o s que a
m a i o r parte dos pacientes espera, desde o p r i m e i r o e n c o n t r o , de f ron ta r - se c o m
u m s i l ê n c i o de c h u m b o . T a m b é m se imag ina sua surpresa q u a n d o o u v e m u m
analista p r o f e r i r algumas palavras, e às vezes m e s m o u m a frase i n t e i r a , c o m u m
s u j e i t o , u m v e r b o e u m c o m p l e m e n t o ! E n t r e t a n t o , a c o n d u ç ã o da cura rec lama
que o analista se e x p r i m a — m e s m o se seu analisante t e m a i m p r e s s ã o de que o
que ele d i z t e m m u i t o pouca s i g n i f i c a ç ã o . C o m o se pode r i a se dispensar de
falar , p o r e x e m p l o , se u m o b s t á c u l o se apresenta p o r m u i t o t e m p o e f i x a u m a
i d e n t i f i c a ç ã o a sua pessoa? A d i a l é t i c a da palavra co r re o r isco de se conge la r se
o analista permanece m e r g u l h a d o n u m a i d e n t i f i c a ç ã o ce r t i f i cada p o r seu s i l ê n -
c i o e seu paciente , enredado pe lo a m o r , v ê suas a s s o c i a ç õ e s se ca la rem ao p é
desta e s t á t u a . A cura cor re o risco, e n t ã o , de s implesmente se t o r n a r b r e v e .
A s s i m c o m este analisante que , depois de vá r i a s semanas, a fora a lgumas
n o t í c i a s concernentes a sua v ida p rof i s s iona l ( c u j o sucesso se c o n f i r m a v a , o b r i -
gado) , n ã o m e n c i o n a mais n e n h u m de seus pensamentos í n t i m o s , calando-se
sobre sua v i d a p r ivada o u sobre seus sonhos. E le l i m i t a v a suas falas às c r í t i c a s e
i l u s t r a ç õ e s das fo rmas de ser d o analista, de seus t iques e defe i tos ev identes , ao
m e s m o t e m p o que d o m a i o r o u m e n o r gosto de seu m o b i l i á r i o . E m u m s e n t i d o
esta a t i tude se expl icava , pois ele estava c o n v e n c i d o de que sua cura estava
p r ó x i m a d o fim, a despei to de d i f i cu ldades que pers is t iam e m d i fe ren tes d o m í -
" É a este O u t r o a l é m do outro que o analista deixa lugar pela neutralidade pela qual
ele se faz seme-uter, nem u m nem o out ro dos dois que estão lá, e se ele se cala é para
lhe deixar a palavra. O inconsciente é este discurso do O u t r o em que o sujeito recebe
sob a forma invertida que c o n v é m à promessa, sua p róp r i a mensagem esquecida"
(Jacques Lacan. Ecnts, p. 439).
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 57
n ios . Seu m a u h u m o r a u m e n t o u ainda mais nas ú l t i m a s sessões , a p o n t o de que
agora permanecesse quase t o t a l m e n t e s i lencioso. E u i n c i d e n t a l m e n t e no ta ra que
ele t i n h a n o dedo u m anel que se assemelhava a u m a a l i a n ç a , e n q u a n t o que , que
eu soubesse, ele n ã o era casado. Sem ter calculado meus efei tos (mas ta lvez
l evado pela d u r a ç ã o ex t r ema de sua e s t a g n a ç ã o ) , eu o i n t e r r o g u e i sobre a p r o v e -
n i ê n c i a deste anel . E u cer tamente n ã o sabia o que al i estava e m j o g o , mas esta
p e r g u n t a p r o v o c o u o d e r r a m a m e n t o de u m a to r r en t e de l á g r i m a s . Sua a v ó aca-
bara de m o r r e r e ele trazia seu anel " p r o v i s o r i a m e n t e [en attendant^' t e r m i n o u
ele p o r d i z e r - m e . C o m o se a c a l m o u e parecia prestes a m e r g u l h a r n o s i l ê n c i o ,
p e r g u n t e i o que ele assim esperava [attendaii\. E le n ã o pareceu c o m p r e e n d e r .
Ins is t i para que m e dissesse o que esperava usando este anel . E l e r e p e n t i n a m e n t e
t a m b é m se pe rgun tava p o r que cer tamente n ã o p o d i a v e n d ê - l o . N a real idade,
ele se recusava a aceitareste f a l e c i m e n t o e, al iás , lhe v i n h a à c a b e ç a que era p o r
isso que n e m m e s m o o havia anunc iado a m i m . O m o t i v o deste s i l ê n c i o n ã o
fal tava a inda ser descober to , r e l a n ç a n d o o processo a n a l í t i c o n o p r ó p r i o d ia e m
que este paciente ia declarar que n ã o vo l t a r i a mais? In extremis, via-se abordada
u m a q u e s t ã o que conce rn i a ao papel de m e d i a d o r — fac tua lmen te representado
pela a l i a n ç a — que ele t ivera entre sua m ã e e sua a v ó mate rna . E a descoberta
desta f u n ç ã o de c ó p u l a (de fa lo) engendrar ia u m passo que se v e r i f i c o u dec i s ivo
e m sua a n á l i s e . E l e se recusara a falar do f a l e c i m e n t o desta a v ó c o m o se isto n ã o
tivesse i m p o r t â n c i a . I n t e r r o m p e r sua cura era, neste sen t ido , recusar fazer l u t o
da ve lha senhora.
A neu t ra l idade d o analista p e r m i t e ao analisante a t r i b u i r - l h e a i d e n t i f i c a -
ç ã o co r responden te a seu fantasma atual . " N e u t r a l i d a d e " quer d izer e n t ã o que o
o b s t á c u l o opos to pela pessoa se rá r e d u z i d o — na m e d i d a do p o s s í v e l somen te ,
p o r q u e existe u m l i m i t e ao que p o d e ser supor tado . A " n e u t r a l i d a d e " t e m , pois ,
poucas r e l a ç õ e s c o m a a t i tude b e n é v o l a de u m b o m d o u t o r ( p o s i ç ã o que n ã o é
neu t ra , mas paternalis ta) . J á que se trata de n ã o fazer o b s t á c u l o , esta capacidade
se o b t é m m e n o s g r a ç a s a u m e s f o r ç o de von tade que g raça s à a n á l i s e , que ensina
a r e l a t iv idade das i d e n t i f i c a ç õ e s ao m e s m o t e m p o que p r e v i n e con t r a o d iscre to
prazer masoquis ta que as a g r e s s õ e s p o d e m sempre engendrar .
Nes t e sen t ido , a " b e n e v o l ê n c i a " do analista só va i a t é u m cer to p o n t o .
D e f a t o , sua b o n d a d e n ã o p o d e exceder u m l i m i t e estr i to , a l é m do qua l se t o r n a
suspeita. N ã o haver ia a l g u m excesso e m se most rar " b e n é v o l o " q u a n d o o p a c i -
ente agr ide f r e n e t i c a m e n t e , m e s m o se n ã o se d á con ta de que o faz? U m a b e n e -
v o l ê n c i a i n t e m p e s t i v a tornar -se- ia e n t ã o , e m si mesma, u m a v i o l ê n c i a , po is se
a l g u é m busca fazer p i c a d i n h o de seu i n t e r l o c u t o r , t en tando i n s t r u m e n t a r isto de
m i l f o r m a s , cada u m a mais c r ia t iva que ou t ra , e se a estas delicadas a t e n ç õ e s u m
O AMOR AO AVESSO
sorriso responde suavemente , esta charmosa a t i tude poder i a ser in te rpre tada de
ou t r a f o r m a que c o m o u m a tentat iva de d o m i n a r , apesar de tudo? Pode-se
i m a g i n a r resposta mais i r r i tante? C o m o seria d i f í c i l negoc ia r esta preciosa n e u -
tral idade se o analisante n à o trouxesse u m a cont rapar t ida fíduciária à v i o l ê n c i a
que seu discurso i m p l i c a !
Poucos estudos f o r a m fe i tos sobre as p s i caná l i s e s gratuitas o u r eembo l sa -
das, mas seria l ó g i c o que elas n u n c a pudessem f r a n q u e a r u m l i m i t e , o d o
desencadeamento das a g r e s s õ e s puls ionais que p r o p r i a m e n t e q u a l i f i c a m a a n á l i -
se. T o d a p r á t i c a gra tu i ta t e r á sua con t rapar t ida , a m e n o r delas sendo seu e f e i t o
n o r m a t i v o , j á que o analisante b u s c a r á pagar de u m a mane i ra o u de o u t r a e, se
n ã o p o d e f a z ê - l o c o m d i n h e i r o , t e r á a t e n t a ç ã o de co r r e sponde r aos ideais su-
postos daquele que t e m a bondade de se o fe recer c o m o pasto. A r e t r i b u i ç ã o da
ses são n à o d á somente u m va lo r a u m ato que é n o r m a l que se pague, ela t e m
u m a c a r a c t e r í s t i c a que escapa ao v a l o r de t roca o r d i n á r i o d o d i n h e i r o . D e f a t o ,
c o m o nada mais é que sua iden t idade o que o analisante p õ e e m j o g o ao se
mos t r a r agressivo, o p a g a m e n t o t e m a v a n t a g e m de l h e p e r m i t i r i s to , sem
con t rapar t ida s i n t o m á t i c a suplementar .
Deste p o n t o de vista, o pagamen to da ses são n ã o representa somen te o
mais n e u t r o s í m b o l o d o va lo r . E le e f e t i vamen te possui u m v a l o r s i m b ó l i c o , o de
ve to r ia l i za r o d i spos i t i vo , nele i n d i c a n d o que é o analisante q u e m goza d o ana-
lista, n ã o o c o n t r á r i o .
Este p r o b l e m a d o d i n h e i r o n ã o se apresenta m u i t o q u a n d o s o m e n t e ques-
t õ e s superf ic ia is s ã o abordadas. Mas este n ã o é o caso a p a r t i r d o m o m e n t o e m
que se p r o d u z u m a f r u s t r a ç ã o , que r dizer , desde as p r ime i ras s e s s õ e s . A i n d a q u e
o d i spos i t i vo responda p o r u m a c o n v e n ç ã o , a f r u s t r a ç ã o que dele resulta n ã o é
m e n o r e o analista cor re i m e d i a t a m e n t e o risco de ser cons ide rado c o m o u m
perseguidor , j á que n ã o responde à demanda . E n t ã o se rá u rgen te esclarecer —
e m ato — u m a q u e s t ã o que o analisante p o d e colocar-se . D e v e ser c l a ro q u e o
analista n à o goza de n e n h u m a f o r m a da s i t u a ç ã o d i f í c i l e m que se e n c o n t r a seu
paciente e que ele n ã o t e m n e n h u m prazer c o m o papel re la t ivamente p e r s e c u t ó r i o
que lhe cabe. N a m e d i d a e m que se faz pagar, n ã o se t o r n a c la ro q u e esta f u n ç ã o
n ã o o d ive r t e? N ã o é p o r acaso q u e , n o m o m e n t o de u m f r a n q u e a m e n t o
i d e n t i f i c a t ó r i o , numerosos analisantes s i n t a m d i f i c u l d a d e de pagar sua s e s s ã o ,
q u e e s q u e ç a m , o u a t é , às vezes, recusem-se f a z ê - l o . D e f a t o , é n o m o m e n t o de
tais passagens q u e a f r u s t r a ç ã o se a g u d í z a . Q u a n d o o pac ien te n à o paga, t u d o se
passa c o m o se a d o r que e x p e r i m e n t a nestes m o m e n t o s devesse ser cons iderada ,
e m si mesma , c o m o u m pagamen to (o q u e se pode r i a e x p r i m i r p o r u m a frase
c o m o : " S o f r o p o r sua causa, l o g o , n ã o d e v o pagar a v o c ê " o u a inda : " S u p o n h o
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 59
que v o c ê t i r e u m prazer de m e u a b a n d o n o " ) . E n t r e t a n t o , ainda mais que este
n ã o é o caso g raça s a u m reg ramen to do d i spos i t ivo , o pagamento n ã o pode r i a
levar , p o r si s ó , a t r a n s f e r ê n c i a a seu p o n t o de neut ra l idade .
IV
A solução do problema não reside nas características da transferência que
j á v imos? A t r a n s f e r ê n c i a " o r i g i n a l " e fe t iva para todos os seres humanos p r o c e -
de de u m a perda que todos eles i g n o r a m a que o b j e t o se refere . M a s c o m o esta
perda resulta da entrada na palavra, e c o m o o psicanalista é j u s t amen te aquele a
q u e m se fala, este psicanalista r e p r e s e n t a r á o não-conhecido a que nos d i r i g i m o s
p o r causa desta perda. Ce r t amen te toda pessoa poder ia ocupar este lugar a pa r t i r
d o m o m e n t o e m que se fala a ela, mas n ã o poder ia m a n t ê - l o s e n ã o a pa r t i r do
m o m e n t o e m que p e r m a n e ç a n ã o c o n h e c i d o . E isto n ã o é quase que i m p o s s í v e l
na v i d a co t id iana , onde cada u m possui u m a identidade? Pode-se pe rgun ta r sob
que c o n d i ç õ e s a c a r a c t e r í s t i c a de ser " n ã o c o n h e c i d o " pode r i a ser preservada
para a l g u é m ! A v i s ib i l idade de u m a tal pessoa j á n ã o é e m si u m a mais, pois que
as c a r a c t e r í s t i c a s físicas s ão u m a f o r m a de i d e n t i f i c a r e f r e q ü e n t e m e n t e de fazer
co r re sponde r certos t r a ç o s a certos significantes?Parece que o fa to de ver a
pessoa a q u e m se fala va i , a t é u m cer to p o n t o , desvelar o n ã o - c o n h e c i d o e
obstacul izar a t r a n s f e r ê n c i a o r i g i n á r i a (que n o entanto ela e n f o r m a ) . Sob o o lhar ,
o n ã o - c o n h e c i d o parece ser domest icado e sua f o r ç a parece reduzir -se . T o d a -
v ia , n ã o se p o d e levar o n ã o - c o n h e c i d o a t é u m a p r e s e n ç a vazia de toda d e t e r m i -
n a ç ã o , pois qua l ser h u m a n o poder i a apresentar-se de u m a mane i ra t ã o neu t ra
de f o r m a a que n ã o seja mais que u m p u r o e simples por ta- fantasma, que seu
analisante n ã o pode r i a r econhecer na rua, onde usa u m a ou t ra vest imenta?
M a i s que d e f i n i r o n ã o - c o n h e c i d o c o m o o que n ã o ter ia qualidades (po r
e x e m p l o v i s í v e i s ) , m e l h o r seria e s p e c i f i c á - l o c o m o o que c o n t i n u a a exis t i r
c o m o u m a p r e s e n ç a , u m a vez s u b t r a í d o de todas as suas qualidades s e n s í v e i s e de
todas as suas d e t e r m i n a ç õ e s . Esta p r e s e n ç a " p u r a " — a do n ã o - c o n h e c i d o — é a
que c o n v é m à t r a n s f e r ê n c i a a n a l í t i c a 2 2 O d ispos i t ivo a n a l í t i c o , de que o d i v ã e
a p o l t r o n a só representam u m a o c o r r ê n c i a m e t a f ó r i c a , mos t ra este cons t r ang i -
m e n t o : se existe u m analista, ele é aquele que t e r á a arte de f i ca r neste lugar do
22 "O desejo não é mais que seu lugar, na medida em que não é, para Sócrates, mais que
desejo de discurso, de discurso revelado, revelando para sempre. D e onde resulta a
atopia do sujeito socrá t ico , j á que antes dele nunca tinha sido ocupado, por nenhum
h o m e m , tão purif icado, este lugar do desejo" (J. Lacan, Le transferi, sessão de 11 de
janeiro de 1961).
O MW O R AO A V • S * O
n ã o - c o n h e c i d o duran te t o d o o t e m p o de u m a cura. E n ã o se rá p o r q u e escape a
t o d o o lha r d i r i g i d o a ele, o u a toda i n d i s c r i ç ã o conce rnen te a sua v ida p r ivada ,
que p r e s e r v a r á esta qual idade . C o m p r e e n d e r e m o s i m e d i a t a m e n t e , se nos l e m -
bra rmos de que o n ã o - c o n h e c i d o p r o p í c i o à t r a n s f e r ê n c i a n ã o é o u t r o q u e o
que o paciente ignora e m seu p r ó p r i o d i z e r M p o r que é su f i c i en te c o l o c á - l o e m
re levo a cada sessão .
N à o h á sessão sem este e n c o n t r o f a m i l i a r c o m o n ã o - c o n h e c i d o c o m o
qua l , n o m e s m o go lpe , o analista se rá inves t ido! F r e u d n ã o t i n h a p r e c a u ç õ e s
part iculares e m preservar seu q u a n t o - a - m i m , o u suas o p i n i õ e s , e p o r isso n à o
p o s s u í a menos a arte de de ixar o n ã o - c o n h e c i d o e m seu lugar . N e n h u m a neces-
sidade, para isso, de acrescentar g r a ç a , i n u t i l m e n t e , a alguns galanteios de p í t i a :
o m i s t é r i o d o recalque o r i g i n á r i o n à o se apresenta sem v é u n o t e m p o m e s m o d o
frente-a-frente?
Q u e u t i l i dade haveria , de f a to , e m c o n f u n d i r esta d i m e n s ã o p r i m e i r a da
t r a n s f e r ê n c i a c o m u m a n e u t r a l i z a ç ã o a s sép t i c a d o analista? 2 1 N i n g u é m contesta
que u m a certa d i s c r i ç ã o d o analista seja p r e f e r í v e l . N o en tan to , esconder c i u -
m e n t a m e n t e sua v ida pr ivada o u p ú b l i c a c o m o se esta m e d i d a devesse dar u m a
m a i o r e f i c á c i a à t r a n s f e r ê n c i a c o n s t i t u i u m a faca de dois gumes . D e f a t o , se esta
regra de d i s c r i ç ã o se most rar m u i t o r í g i d a , o u se f o r aplicada c o m m u i t a o s t en -
t a ç ã o , o n ã o - c o n h e c i d o n ã o se rá absolu tamente preservado, j á que o analisante
p o d e r á r econhecer e m seu analista u m obsessivo enc ruado que lhe i m p õ e seu
s i n t o m a e m n o m e de sua pretensa neut ra l idade . E le se v e r á e m t e r r i t ó r i o c o n h e -
c i d o a pa r t i r d o m o m e n t o e m que se der conta de que é t r a f i cado pela " r e g r a "
m á s c a r a da i m p e r s o n a l i z a ç à o t o r t u r a n t e q u e caracteriza o fantasma obsessivo. A
cura ter ia e n t ã o c ed ido , n ã o ao desejo d o analista, mas a sua es t ru tura , n e u t r a l i -
zando mais o n à o - c o n h e c i d o 2 3
2 3 " É por isso que Freud encontra sua figura fundamental na t ragédia de É d i p o , é porque
ele mo sabia que matara seu pai e que deitava c o m sua m ã e " (J. Lacan, Le transferi,
sessão de 11 de janeiro de 1961).
24 Certos analistas da IPA levaram mui to longe esta c o n c e p ç ã o , recomendando acolher
os pacientes c o m uma deco ração sempre idênt ica , ou ainda r e c e b ê - l o s sempre vestidos
com a mesma roupa. Amigos argentinos me confidenciaram que, quando de uma de
suas visitas a Buenos Aires, u m membro eminente da I P A tinha dado este conselho
sobre a vestimenta. Qua l n ã o teria sido sua surpresa quando, vol tando alguns anos
depois, encontrou seus colegas vestindo sempre as mesmas roupas, j á que ele mesmo
abrandara suas o p i n i õ e s há mu i to tempo!...
2 5 " [ . . . ] a f u n ç ã o da t ransferência . Este indeterminado de puro ser que def in i t ivamente
n à o t em acesso à d e t e r m i n a ç ã o " (Jacques Lacan, L 'envers de la psychanalyse, 11 de
m a r ç o de 1970).
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 61
Dissemos , n ã o é t an to a e x i s t ê n c i a de u m a regra que seria p r o b l e m á t i c a ,
mas sua p r e s c r i ç ã o p r é v i a . D e fa to , ela se arrisca neut ra l izar o n ã o - c o n h e c i d o
i d e n t i f i c a n d o o analista. A t é c n i c a de " n ã o - r e s p o s t a à d e m a n d a " p o r e x e m p l o ,
é , c o m as me lho res r a z õ e s , destinada a p r o v o c a r u m a r e g r e s s ã o p o r f r u s t r a ç ã o .
E n t r e t a n t o , ela p o d e i r n o sent ido inverso ao d o o b j e t i v o alegado? O s i l ê n c i o
c o m p l e t o d o analista, sua recusa e m responder a t o d o q u e s t i o n a m e n t o — m e -
nos n o sen t ido de dar u m a reposta, mas n o de ser capaz de r e l a n ç a r a q u e s t ã o —
p o d e fa lha r q u a n t o ao resul tado esperado. D e f a to , o c a r á t e r s i s t e m á t i c o do
p r o c e d i m e n t o n ã o pode r i a p re tender p ro t ege r o n ã o - c o n h e c i d o , p o r q u e o ana-
lista seria i d e n t i f i c a d o a u m s á d i c o o u a u m mestre. A f r u s t r a ç ã o , q u a n d o é
aplicada p o r p r i n c í p i o , n ã o per tence mais ao discurso do mestre que ao do
analista ( c o m o p o d e m o s perceber es tudando, p o r e x e m p l o , os m é t o d o s do b u -
d i s m o zen)? C e r t a m e n t e sua a d m i n i s t r a ç ã o n ã o d e i x a r á de p r o p o r c i o n a r prazer
a certos analisantes, mas o analista estaria mais l o n g e ainda de ter c u m p r i d o seu
o f í c i o , na m e d i d a e m que se c o n t e n t o u e m aplicar o que só é u m a regra r e l a t i -
v a m e n t e aos o b j e t i v o s que p o d e m comanda r i n f r i n g i - l a .
O luga r da t r a n s f e r ê n c i a n ã o é , p o r t a n t o , preservado pe lo obsessivo que
p rende o paciente a suas r e g u l a m e n t a ç õ e s e a seu fantasma de d e s s u b j e t i v a ç ã o
m a t e m á t i c a , n e m pe lo mestre que, a cobe r to de s i l ê n c i o e de pseudoneutra l idade,
assegura-se de u m p o d e r sobre seu paciente . E preciso pensar que este lugar
seria m e l h o r assegurado p o r d e m o n s t r a ç õ e s e s p o n t â n e a s que ser iam, e n f i m , as
d o desejo do analista? A i m p r e v i s i b i l i d a d e de seus atos — que assim p o d e r i a m
p re t ende r ser t ã o or ig ina is quan to a t r a n s f e r ê n c i a de m e s m o n o m e — , sua f a n -
tasia desconcertante , o u m e s m o sua v i o l ê n c i a , n ã o atestariam u m a r u p t u r a r a d i -
cal c o m os per igos da regra congelada assim c o m o c o m aqueles do s i l ê n c i o
s á d i c o ?
E m u m a c o n f e r ê n c i a c u j o t ex to f o i p u b l i c a d o c o m o t í t u l o La réponse
totale de Vanalyste aux besoins de son patient [ A resposta t o t a l d o analista às
necessidades de seu pac ien te ] , M a r g a r e t L i t t l e , p o r e x e m p l o , d á u m r e s u m o ,
n ã o somen te de suas diferentes fo rmas de i n t e r v e n ç ã o , mas t a m b é m de suas
m o d i f i c a ç õ e s de h u m o r 2 6 A l e i t u r a deste t e x t o d á o s e n t i m e n t o de u m t e s t e m u -
n h o a u t ê n t i c o , f o r a da regra, conce rnen te ao desejo do analista. E la evoca p r i n -
c i p a l m e n t e u m a analisante sobre a qua l n e n h u m a i n t e r p r e t a ç ã o t i n h a o m e n o r
e f e i t o . E l a nos exp l i ca que, antes de ter m o d i f i c a d o sua t é c n i c a , e a cada vez que
26 «g^» _ La réponse totale de Vanalyste aux besoins de son patient, Margaret L i t t l e ,
c o m u n i c a ç ã o feita em uma r eun i ão cient íf ica da Sociedade Br i tân ica de Psicanálise em
18 de janei ro de 1956.
O AMOR AO AVtSSO
í n t c r v i n h a , esta paciente ren i ten te deixava en tender que . segundo seu p o n t o de
vista, ela s ó repetia as l i ç õ e s aprendidas e m seu manua l d o p e r f e i t o ap rend iz de
analista. D e aco rdo c o m M a r g a r e t L i t t l e , esta d i f i c u l d a d e n à o p o d i a ser superada
a n à o ser g r a ç a s à c o m u n i c a ç ã o imed ia t a de seus sen t imentos . U m a tal " c o m u -
n i c a ç ã o i m e d i a t a " cons is t iu , p o r e x e m p l o , e m dizer : " E s t o u pessoalmente m u i -
t o penalizada c o m o l u t o que afeta v o c ê . ' ' O u ainda: " V o c ê m e aborrece m u i t o
c o m esta h i s t ó r i a que j á m e c o n t o u vá r i a s vezes.. ." N a via da c o m u n i c a ç ã o
imedia ta , a l iás , M a r g a r e t L i t t l e n à o se deteve e m t ã o b o m c a m i n h o , po is que lhe
aconteceu t a m b é m e x i g i r de u m a paciente que se afastasse da m ã e , a m e a ç a n d o -
n, se ela n à o fizesse isso. de i n t e r r o m p e r sua a n á l i s e .
S e m d i scu t i r sobre o risco de tais i n t e r v e n ç õ e s , que t ê m c o m o resul tado
p r e v i s í v e l fazer d o analista u m personagem a u t o r i t á r i o ainda p i o r que a m ã e e m
q u e s t ã o , compreende-se que M a r g a r e t L i t t l e busque r o m p e r c o m a r o t i n a c r i -
ando u m e fe i to s u b j e t i v o (mas c o m o se p o d e " c r i a r " u m e f e i t o sub je t ivo? ) . Ela
de l ibe radamente se situa " f o r a d o enquadre" e esta m o d a l i d a d e de i n t e r v e n ç ã o
d o analista exala, n i n g u é m d i s c o r d a r á d i s to , u m e n v o l v e n t e p e r f u m e de a u t e n -
t i c idade . N o en tan to , u m a tal t omada de p o s i ç ã o p e r m i t e fazer m e l h o r que
aquela j á evocada p receden temente , e este v i é s é aquele que assegura u m a p r e -
s e n ç a apta a r e l a n ç a r a t r a n s f e r ê n c i a o r i g i n á r i a ? E m o u t r o s t e rmos , aí o n d e o
obsessivo, assim c o m o o mestre, fracassa, a espontaneidade h i s t é r i c a p e r m i t e ser
b e m sucedido? O p r ó p r i o e n u n c i a d o da q u e s t ã o p e r m i t e no t a r i m e d i a t a m e n t e
que u m a l i m i t a ç ã o se i m p õ e , pois dobra r o analisante à es t ru tura h i s t é r i c a apre-
senta u m i n c o n v e n i e n t e i d ê n t i c o ao que f o i p receden temen te assinalado: o ines-
perado p o d e surpreender , mas n ã o apresenta o n ã o - c o n h e c i d o . N ã o é p o r q u e o
analisante fica surpreso, a t é d i v e r t i d o o u seduz ido pela a t i t ude cheia de a r d o r e
de c a r á t e r de seu analista, que se rá i n t e r r o g a d o pe lo n ã o - c o n h e c i d o de seu p r ó -
p r i o dizer , c o m o parece sempre p r e f e r í v e l .
U m a vez s u b t r a í d o t u d o a q u i l o pe lo que se demarca a p r e s e n ç a d o anal is-
ta, sobre que se p o d e apoiar sua or ig ina l idade? Q u a l é a e x p e r i ê n c i a mais d e p u -
rada da p r e s e n ç a ? 2 7 O grau ze ro da t r a n s f e r ê n c i a n ã o p o d e r i a te r d e f i n i ç ã o , n e m
í n d i c e , o u , mais prec isamente , se a neu t ra l idade p o s s u í s s e u m í n d i c e , seria o de
u m a p r e s e n ç a assegurada pa radoxa lmen te , a despei to da a u s ê n c i a de q u a l q u e r
f o r m a 2 8
r " É por sua atopia, por esta em parte alguma de seu Ser, que Sócra tes p rovocou , os
fatos nos provam, toda uma série de pesquisas." (Jacques Lacan, Le tnws/èrt, sessão de
21 de dezembro de 1960).
2 8 Vol tamos a pensar aqui na frase de Clarice Lispector, que se protege de de f in i r a
neutralidade do amor, quando escreve: " [ . . . ] amor t ão neutro que [...J n à o , n à o quero
O JOGO D A ASSOCIAÇÃO LIVRE 63
Para receber qua lquer das t r a n s f e r ê n c i a s p o s s í v e i s , u m a neut ra l idade pe r -
f e i t a é r eque r ida . E n t r e t a n t o , é p r o b l e m á t i c o que ela se sustente mais que u m
ins tante . D a mesma f o r m a , mais que u m p o n t o estat icamente n e u t r o e i m ó v e l ,
que seria dado de u m a vez p o r todas e m r e f e r ê n c i a a u m a r e g u l a m e n t a ç ã o o u à
t eor ia , o p o n t o zero da t r a n s f e r ê n c i a resulta, a cada vez, do ato d o analis ta 2 9 Este
ato t e m a pa r t i cu la r idade de reservar o n ã o - c o n h e c i d o , mas o que é esta presen-
ça " N e u t r a " , que só se a f i r m a e m negat ivo? C o m o pode ela fazer f u r o n o que
sempre e m t o d o lugar s ignif ica?
O c o n j u n t o d o m u n d o h u m a n o se de f ine pela rede das s i g n i f i c a ç õ e s que
o p in t a , a p r ó p r i a gra tuidade expansiva deste m u n d o fazendo parte destas s i g n i -
f i c a ç õ e s . N o en tan to , existe ao menos u m f u r o neste c o n j u n t o : se a s i g n i f i c a ç ã o
fá l i ca d o c o r p o é o r i g i n a r i a m e n t e recalcada, e n t ã o este c o r p o faz f u r o na h a r m o -
n ia u n i v e r s a l 3 0 É esta p r e s e n ç a opaca que po r t a a t r a n s f e r ê n c i a o r i g i n á r i a , dando
sua imper sona l idade ao c o r p o do analista, na m e d i d a e m que seu ato t e r á s i tua-
d o , e m n e g a t i v o c o m o se v i u , sua neu t ra l idade po t enc i a l .
ainda me falar, [...] falar agora seria precipitar u m sentido, como quem depressa se
imobi l iza na segurança paralisadora de uma terceira perna" E Clarice dá provas de
uma maior c lar iv idência ainda quando acrescenta que se vê levada pela neutralidade
do amor na d i reção daquilo que ela chama: "vagalhões de mudez" Esta ci tação n ã o
parece dirigida em particular aos analistas?
2 9 N ã o é somente a vacuidade que seu ato comporta que pode oferecer novamente o
ponto de apelo de todas as possíveis transferências? E m se atendo à ét ica de tornar a
partir de u m sem-forma, isto é, assumindo o risco de perder tudo do amor concedido,
ao mesmo tempo que uma forma, tudo t a m b é m pode ser ganho. Quando Clarice
Lispector escreve: "Quero saber o que mais, ao perder, eu ganhei" ela sublinha a
ausência que acompanha o sem-forma da origem, que nada pode definir , mas que
autoriza o passo à infinidade das co locações em forma.
3 0 O que é u m furo? C o m o se pode rep resen tá - lo sem o def inir negativamente em
relação a suas bordas? A t í tu lo de exercícios de topologia divertida, a banda de Moebius
mostra a dificuldade de def inir u m fu ro . Se u m observador in t roduz seu dedo na luz
central de uma tal banda, crerá ter ocupado t a m b é m u m fu ro , cernido por uma borda.
N o entanto, se este dedo aprisionado segue este aparente l imi t e , ele se verá, umavez
percorrida a metade da c i rcunfe rênc ia , no exterior deste fu ro . Este, pois, n ã o p o d e r á
ser def in ido por sua borda e n ã o se p o d e r á distinguir t a m b é m (com uma só pulsação
temporal) seu dentro e seu fora. Ocorre o mesmo com a presença de u m corpo. U m
corpo humano faz f u r o , e mais particularmente se se o considera do ponto de vista
desta pos ição n ã o identificada que pemii te a t ransferência original . U m anatomista —
entre outros familiarizados com o organismo humano — pensará que u m corpo se
del imita graças a seu saco de pele, que circunscreve u m espaço pleno, e que ele n ã o
64 • < ( V I D R \ o \ v i \ \ o
Assim, a presença do analista vem a ser definida graças ao que ela nào é,
a negat iv idade desta d e f i n i ç ã o au to r i zando uma escuta par t icu lar , sempre a q u é m
das s i g n i f i c a ç õ e s do discurso e dos j u l g a m e n t o s que ela n o r m a l m e n t e requer .
Neste sen t ido , a neut ra l idade desta p r e s e n ç a comanda a a t e n ç ã o di ta flutuante,
aquela que n à o pode ser d i s t r a í d a pe lo requisito das o p i n i õ e s . Q u a n d o a l g u é m
fala, t emos p o r vezes a i m p r e s s ã o de que os pensamentos que enunc i a des f i l am
rap idamente , a p o n t o de parecer d i f í c i l segui- los. Mas na real idade este sen t i -
m e n t o n ã o procede d o e s f o r ç o de c o m p r e e n s ã o daquele que escuta? D e f a t o , se
o que o u v e busca c o m p r e e n d e r cada palavra p r o n u n c i a d a , todas as vezes e m que
f i ze r o e s f o r ç o de apreender u m a i d é i a sua a t e n ç ã o r e b a i x a r á e m r e l a ç ã o à se-
g u i n t e e ao t e m p o de n o v a m e n t e escutar, ele t e r á a i m p r e s s ã o de ter p e r d i d o o
fio da meada. C o n s e q ü e n t e m e n t e , p e n s a r á que f o i c o n f r o n t a d o c o m u m desen-
v o l v i m e n t o de pensamento m u i t o r á p i d o .
O analista que , p o r e x e m p l o , faz o e s f o r ç o de buscar c o m p r e e n d e r o n d e
se encon t ra , n o que o u v e , o " c o m p l e x o de c a s t r a ç ã o " o u m e s m o " o o b j e t o da
p u l s ã o " t e r á todas as chances de rap idamente perder o fio d o discurso. Escutar
u m analisante falar se faz imed ia t amen te , e sem grade de l e i tu ra . Nes te m o m e n -
t o , os i n s t rumen tos de a p r e c i a ç ã o da a n g ú s t i a de c a s t r a ç ã o , o e s t e t o s c ó p i o d o
objeto a, o b i n ó c u l o d o recalque de nada servem. Se p e r d e r m o s t e m p o u t i l i z a n -
do-os , r ap idamen te largaremos a m ã o deste que ficciona, deste que nos c o n d u z
nesta t r a n s f e r ê n c i a de escrita a u m só su j e i t o , na qua l é preciso en t ra r sem pensar
p o r q u e , n ã o desagradando nis to Descartes, o pensamento consc ien te n ã o q u a l i -
fica o su j e i t o , cu j a o p e r a ç ã o i m p o r t a . N ã o parece mais e c o n ô m i c o n ã o buscar
c o m p r e e n d e r ? Para a q u e l e q u e e scu ta s e m p r e s s u p o s t o t e ó r i c o n e m
p r e j u l g a m e n t o , a e l o c u ç à o da palavra d o l o c u t o r se t o r n a e n t ã o m u i t o lenta e
este que o u v e d i s p õ e de m u i t o t e m p o en t re , p o r e x e m p l o , o m o m e n t o o n d e
oco r r e u m lapso e aquele e m que é o p o r t u n o a s s i n a l á - l o : en t re o ins tante de u m
e r ro l ó g i c o e aquele e m que u m a c o n t r a d i ç ã o o demons t r a .
N ã o é n o t á v e l que aquele que escuta u m l o c u t o r c o m u m a grande a t e n -
ç ã o arrisque-se nada mais o u v i r , d e t i d o que p o d e r á estar p o r mi lha res de ques-
constitui u m f u r o . N o entanto, desde que se pense o problema em termos de saber,
tudo será diferente: aquele que habita este corpo nada sabe dele. Seu corpo t em, para
ele, u m mis t é r io desde que sua s ignif icação f o i recalcada; pelo fato de seu invest imento
fà l ico (quer dizer, entre o momen to em que ele f o i falado e aquele em que c o m e ç o u
a falar), h á a t ensão que vira este corpo para esta s igni f icação perdida. Sem o olhar do
ou t ro o corpo f lutua, faz f u r o , tal como u m saco de pele vazio. C o m ele, preenche e
conjuga a plena opacidade do n â o - s a b e r (pois esta plenitude depende de ou t rem) .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 65
t õ e s que l h e p o d e co locar cada u m a das palavras que escuta? U m a c r i a n ç a que ,
p o r e x e m p l o , escuta sua m ã e queixar-se da queda de u m vaso prec ioso se espan-
t a r á de escutar d izer que ele se q u e b r o u e m " m i l p e d a ç o s " E la se p e r g u n t a r á
c o m p e r p l e x i d a d e c o m o sua m ã e pode saber que h á m i l e, e n q u a n t o est iver
en t regue a estas conjec turas , n ã o o u v i r á a s e q ü ê n c i a das falas maternas. P o d e r
o u v i r requer , assim, a arte de n ã o escutar.
E d i f í c i l representar-se o p r o b l e m a que acaba de ser levantado concernen te
à "neu t r a l i dade da escuta" e pode ser interessante, c o m fins d i d á t i c o s , t r a n s p ô -
l o para o d o m í n i o e s c ó p i c o : aquele que fixa u m p o n t o c o m m u i t a a t e n ç ã o n ã o
v e r á u m detalhe p r ó x i m o , n o entanto i m p o r t a n t e . Escapar à d i m e n s ã o p u n t i f o r m e
d o o lha r p e r m i t e d i spor de u m a p e r c e p ç ã o imed ia t a de u m a e x t e n s ã o mais vasta,
que s e r á l í c i t o examina r c o m t o d o o t e m p o n e c e s s á r i o .
Se cons iderarmos o c a m p o e s c ó p i c o , t r ê s t e rmos m e r e c e m ser d i s t i n g u i -
dos: a v i s ã o ( e x t e n s ã o ) , o o lhar ( p u n t i f o r m e ) e a a t e n ç ã o . Os dois p r i m e i r o s s ã o
c láss icos da c o n c e i t u a l i z a ç ã o lacaniana e o t e rce i ro f o i considerado pa r t i cu l a r -
m e n t e p o r F r e u d — c o m o n ã o se i n d i c a talvez m u i t o q u a n d o se examina a
n o ç ã o de " a t e n ç ã o flutuante"
C o m o especif icar "a a t e n ç ã o " n o c a m p o e s c ó p i c o ? Pode-se f a z ê - l o da
seguinte mane i ra : se u m observador fixa seu o lhar e m u m cer to o b j e t o , ao
m e s m o t e m p o p o d e prestar a t e n ç ã o a u m o u t r o o b j e t o de seu c a m p o visual . P o r
e x e m p l o , u m vis i tante p o d e o lhar a po r t a da casa para a qua l se d i r i ge e, ao
m e s m o t e m p o , prestar a t e n ç ã o ao c ã o que late n u m o u t r o p ó l o de seu c a m p o de
v i s ã o , mas is to sem o lha r o a n i m a l , p o r m e d o de que seu o lhar aumen te a
agressividade deste.
O u t r o e x e m p l o : na p r á t i c a das artes marciais , é i m p o r t a n t e aprender a
dissociar o o lha r e a a t e n ç ã o . C o n v é m , p o r u m lado, o lhar o a d v e r s á r i o e m u m
p o n t o fixo (seu o l h a r ) , mas sem que seja f ixada neste p o n t o u m a a t e n ç ã o que ,
p o r seu l ado , deve pe rmanecer dispersa n o c o n j u n t o dos m o v i m e n t o s p o s s í v e i s .
Se a a t e n ç ã o e o o lhar se c o n f u n d i s s e m , aquele que o lha n ã o d ispor ia mais que
de u m p o n t o de r e f e r ê n c i a e m r e l a ç ã o a seu a d v e r s á r i o , e j á estaria sendo
desestabil izado. E l e talvez tenha p e r d i d o o comba te antes m e s m o de t ê - l o c o -
m e ç a d o ! A l é m disso, u m comba ten t e arrisca-se c o m e t e r o e r ro de crer que j á
v e n c e u , u n i c a m e n t e pela f o r ç a de sua von tade , c o n f u n d i n d o o o lhar e a a t en -
ç ã o : r e d u z i n d o esta d i s j u n ç ã o , compor ta - se m e n t a l m e n t e c o m o se j á estivesse
ac ima de seu a d v e r s á r i o . C o n s e q ü e n t e m e n t e , p o r a n t e c i p a ç ã o d e i x o u o luga r
o n d e na real idade se encon t ra e ao m e s m o t e m p o perde a base de sua p r e s e n ç a ,
que s ó se p o d e assegurar lá o n d e ele se encont ra — da mesma f o r m a , a e f i c á c i a
O A M O K t ú \ M I $ \ O
que pode esperar lhe f a l t a r á . L m troca, a d i s j u n ç ã o d o o lhar e da a t e n ç ã o p e r m i -
te descrever o c a m p o da v i s ã o , assegurando desta f o r m a a estabil idade de sua
p r e s e n ç a . O comba te pode c o m e ç a r .
A n a l o g i c a m e n t e , podemos t ranspor estes t e rmos d o c a m p o e s c ó p i c o para
o da a u d i ç ã o . O s t rês t e rmos correspondentes s e r ã o agora o fa to de o u v i r , o de
escutar e a a t e n ç ã o . O m e s m o t e r m o , a t e n ç ã o , que . dispersa, p e r m i t i a ao c o m -
batente assegurar sua p r e s e n ç a , c o r r e s p o n d e r á à famosa a t e n ç ã o f l u t u a n t e d o
analista. O que f l u t u a de a t e n ç ã o entre o lha r e v i s ã o t o m a e m seus filões o n ã o -
c o n h e c i d o , que a f i r m a a p r e s e n ç a . O " f l u t u a n t e " da e x p r e s s ã o f r e u d i a n a nada
t e m , pois , de u m desvanec imento o u de u m a d i s t r a ç ã o p r o p í c i a às e f l o r e s c ê n c i a s
inconscientes ; ao c o n t r á r i o , assegura u m a p r e s e n ç a in te i ra , p r e s e n ç a " n e u t r a "
c u j a p l e n i t u d e se a p ó i a n o c a m p o desta d i s j u n ç ã o .
Esta q u e s t ã o da p r e s e n ç a , essencial para a e f i c á c i a da t r a n s f e r ê n c i a , m a n -
t é m assim u m a p r i m e i r a l i g a ç ã o c o m "a a t e n ç ã o f l u t u a n t e " tal c o m o F r e u d a
d e f i n e , notada m e n t e e m sua obra Conseils aux médecins sur le trai te ment
psychanalytíque [Conselhos aos m é d i c o s sobre o t ra tamento p s i c a n a l í t i c o ] (1912) .
Sabe-se que ex i s t em i n t e r p r e t a ç õ e s d i ferentes da n o ç à o de " a t e n ç ã o f l u t u a n t e "
especia lmente a de T h e o d o r R e i k (Ecouter avec la troisième oreille [Escutar
c o m o t e rce i ro o u v i d o ] ) . Trata-se, segundo este au tor , de de ixa r estabelecer-se
u m a e s p é c i e de escuta de inconsc ien te a inconsc ien te , pela g r a ç a de u m a empat ia
en t re o analisante e o analista, c o m o se este devesse deixar-se carregar sem
r e s i s t ê n c i a pelas a s s o c i a ç õ e s de seu analisante. Mas trata-se de se de ixa r embalar
a t é que , da p r o f u n d e z a de u m estado o n í r i c o , b ro t e a i n t e r p r e t a ç ã o miraculosa?
O p o s t a m e n t e a esta c o n c e p ç ã o da a t e n ç ã o f l u t u a n t e , que c o n f i n a m u i t o
mais c o m a d i s s o l u ç ã o , n à o é a a f i r m a ç ã o da p r e s e n ç a que assegura a e f i c á c i a da
t r a n s f e r ê n c i a ? A a f i r m a ç ã o desta p r e s e n ç a ce r tamente n ã o o c o r r e sem r e s i s t ê n c i -
as n e m sem o b s t á c u l o s . M a s n à o é g r a ç a s ao que parece ser- lhe i n i c i a l m e n t e
c o n t r á r i o que a a n á l i s e progr ide? Ela n ã o a v a n ç a g r a ç a s ao que lhe faz o b j e ç ã o ?
O e f e i t o s u j e i t o
I
Quase todas as sessões podem comportar um efeito de verdade muito
simples, de que o analisante t i ra f r e q ü e n t e m e n t e u m a grande sa t i s f ação i n t e l e c -
tua l n o i n í c i o de sua cura (ainda que possa satisfazer-se c o m isso duran te m u i t o
t e m p o ) . Se ele e x p r i m e u m pensamento sem se dar con ta do que d iz , e na
m e d i d a e m que o n o t e g r a ç a s ao analista, este m o m e n t o r e f l e x i v o lhe p e r m i t i r á
apropr iar-se deste pensamento . Sua tagarelice secreta, que pastava a t é aí l i v r e -
m e n t e o n d e lhe agradasse, suas r a c i o c i n a ç õ e s clandestinas que o d i r i g i a m , mais
que ele a elas, t o rnam-se i m e d i a t a m e n t e sua p ropr iedade recuperada. M a r a v i -
lha! N u m r e l â m p a g o ele r ea l i zou que é exatamente ele q u e m pensa o que pensa!
O interesse, al iás , n ã o es tá e m fazer suas, e m eco à escuta do analista, as
r a c i o c i n a ç õ e s que se t e r i a m f o r m a d o a despeito daquele que as pensa. Trata-se
sob re tudo , para ele, de m e d i r sua responsabil idade n a q u i l o de que se que ixa ,
p o r e x e m p l o , na q u e i x a de que sua m u l h e r o aliena o u na de sua escolha, o u
ainda na de que a s i t u a ç ã o i n e x t r i c á v e l e m que es tá apr is ionado resulta de seu
p r ó p r i o e n g a j a m e n t o , etc. N ã o somente pensa o que pensa, mas, a l é m disso, f o i
exa tamente ele q u e m fez o que es tá f azendo . Este e fe i to de verdade — cu ja
d i m e n s ã o é t i c a n ã o é n e g l i g e n c i á v e l — se o b t é m f a c i l m e n t e . E su f i c i en te de ixa r
en tende r à q u e l e que fala que cer tamente e n u n c i o u aqu i l o que disse e que q u a n -
d o atravessa u m p r o b l e m a ele m e s m o es tá engajado nele , e m grande m e d i d a . E
o analisante f i c a r á ao menos satisfeito de aprender que é u m grande rapaz. T r a -
ta-se, e m suma, de i n j e t a r u m su je i to n o lugar e m que, c o m o b o m su je i t o d o
i n c o n s c i e n t e , ele j á estava, e este " e f e i t o s u j e i t o " , às vezes salvador n o i n í c i o da
a n á l i s e , pe rmanece sempre r ev igoran te , e m seus andamentos de r o m a n a . E l e
m e s m o augura a a n á l i s e d o inconsc ien te , o p e r a ç ã o que exige ainda u m a m a n o -
bra i n t e i r a m e n t e ou t r a .
>> AMOR AO * V f S S O
C o m o c o n s e q ü ê n c i a deste e fe i to de discurso, o su j e i t o " r e t i f i c a " sua p o -
s i ç ã o , mais c o m r e l a ç ã o a seu E u que c o m r e l a ç ã o ao m u n d o . E m u n i a ú i m . i
o c o r r ê n c i a , e c o m e n t a n d o o caso D o r a , Lacan e v o c o u u m a " r e t i f i c a ç ã o d o
s u j e i t o n o R e a l " t e r m o que n à o d e i x o u de ter u m f r a n c o sucesso j u n t o aos
professores extraviados n o c a m p o freudiano: esta e x p r e s s ã o n à o p e r m i t e sonhar
que a a n á l i s e au tor iza u m a e s p é c i e de m o d i f i c a ç ã o do que p o d e haver de ga lho fa
nestas a g i t a ç õ e s n e u r ó t i c a s ? E n t r e t a n t o , esta interessante e x p r e s s ã o t e m u m a
i m p l i c a ç ã o i n t e i r a m e n t e ou t ra . Se n ã o se trata de r e t i f i c a r o i n f e l i z e m seus atos
( c o m o far ia u m d i r e t o r de c o n s c i ê n c i a ) , e m t roca ele pode aprender , e scu tando-
se falar , que es tá engajado n o que o apris iona, e que u m a l ibe rdade paradoxa l
co r responde à a l i e n a ç ã o e m que se debate. Descobre-se u m a l ibe rdade i n t e i r a -
m e n t e f o r ç a d a , a que ele se p rende t ã o p o u c o que é p r e f e r í v e l p e r d ê - l a o mais
r ap idamen te p o s s í v e l e m p r o v e i t o d o s i n t o m a que a t í t u l o de u m a r e s i s t ê n c i a
aos d e t e r m i n i s m o s , o que é equ iva len te .
Q u a n d o o analisante fala dele, se que ixa d o que o faz sofrer , descreven-
do-se c o m o dever ia ser, se o s i n toma n ã o o atrapalhasse. D a mesma f o r m a ,
q u a n d o p r o j e t a sua v ida f u t u r a , é na mesma ficção d o que seria preciso fazer que
i m a g i n a soberbas as perspectivas que se a b r e m para ele. T a l c o m o a c r i a n ç a que
representa sem parar a real idade, t a lhando-a à m e d i d a de seus fantasmas, a m o -
dal idade sub je t iva de seu discurso se estende ao c o n d i c i o n a l . A s s i m ele situa o
n ã o - c o n h e c i d o que c o n d i c i o n a seu desejo. Sob este m o d o ficcional, o s u j e i t o
apresenta sua h i s t ó r i a , seja ela passada o u f u t u r a , na a n t e c i p a ç ã o d o que ter ia
fa l tado o u do que fal tar ia para realizar seus sonhos. Deste m o d o , a p r ó p r i a e s t ru -
tura da f i c ç ã o que sustenta a palavra analisante p e r m i t e ao analista an tec ipar c o m
certeza a respei to d o e fe i to de verdade quees tá a p o n t o de chegar .
G r a ç a s a esta moda l idade c o n d i c i o n a l d o discurso, nada é mais f á c i l q u e
p r o v o c a r u m " e f e i t o s u j e i t o " D e f a to , n ã o é su f i c i en t e fazer semblan te de q u e
a verdade se a p r o x i m a para que ela e f e t i vamen te venha , j á q u e a es t ru tu ra j á
reserva o lugar do que seria preciso n o presente? Se o analista se c o m p o r t a ,
antec ipando-se sobre o saber, c o m o se j á estivesse quase lá , de f a to e s t a r á lá .
Ex i s te , assim, u m a arte d o " semblan t e " d o analista e m sua mane i r a de an tec ipa r
o d izer , arte que consiste e m apresentar o saber c o n d i c i o n a l e m q u e se sustenta
a f i c ç ã o c o m o j á a d v i n d o e m sua escuta. Esta a t i tude de finta p e r m i t e q u e de
f a t o advenha , e n q u a n t o que pode r i a ter p e r m a n e c i d o o c u l t o , c o m o é o caso na
fala c o m u m . Esta m a n o b r a recai na m o d a l i d a d e de discurso quase c e r t a m e n t e ,
de f o r m a que o analista pode r i a dar a i m p r e s s ã o de j á estar i n f o r m a d o d o saber
i n c o n s c i e n t e , o que e v i d e n t e m e n t e n ã o é o caso; ele s imp le smen te faz " c o m o
se" e d is to decor re que . c o r r e s p o n d e n d o ao "se" c o n d i c i o n a l da palavra , o saber
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 69
e m suspenso a p a r e ç a quase que imed ia t amen te , descober to ao m e s m o t e m p o
p o r aquele que r ea l i zou a f i n t a e pe lo analisante. Q u a n d o , n o decurso de u m a
ses são , este pe rgun ta , p o r e x e m p l o : " V o c ê se l e m b r a deste sonho que lhe c o n t e i
ano passado?" o analista pode responder que n ã o t e m a m e n o r l e m b r a n ç a , caso
e m que de f a to n ã o se l e m b r a r á . E m t roca , se ele de ixa en tender que se l e m b r a ,
m e s m o q u a n d o n ã o t e m ve rdade i ramen te certeza, na m a i o r i a das vezes os mais
precisos detalhes concernentes a este sonho lhe v i r ã o i m e d i a t a m e n t e , p r o v a n -
d o - l h e mais u m a vez que a d i spon ib i l i dade da escuta é m u i t o mais vasta d o que
parece, desde que se dob re à estrutura de f i c ç ã o da p r ó p r i a verdade. N ã o se
trata, pois , c o m o parece, de t o l i c e , j á que , ao f i n a l da o p e r a ç ã o , o " s emb lan t e "
de ixa de s ê - l o . O que i n i c i a l m e n t e parecia falso va i , g r aça s a esta f i n t a , f i n a l m e n -
te revelar-se ve rdade i ro . Esta arte pode ser levada aos l im i t e s d o absurdo, ela se
m o s t r a r á quase sempre ef icaz , j á que r e p o u s a r á sempre n u m a certeza b e m
estabelecida, a da estrutura de f i c ç ã o g r aça s à qua l o su je i to se d i v i d e e exis te 1
II
O "efeito sujeito" lança à conta da transferência um primeiro dividendo
f ác i l de receber, a inda que esteja l o n g e de ser p r ó p r i o à p s i c a n á l i s e . Se se trata de
au t en t i f i ca r a p r e s e n ç a d o su j e i t o evanescente na fala c o m u m , qua lque r o u v i n t e
u m p o u c o a ten to p o d e ob t e r efei tos i d ê n t i c o s , e o ato do analista n ã o se l i m i t a ,
de f o r m a a lguma, a este " e f e i t o s u j e i t o " , que nunca d i r á nada do saber i n c o n s -
c iente e n q u a n t o associado. Q u a n d o se apresenta na fala u m a f o r m a ç ã o do i n -
consciente , é excepc iona l que se preste ao m e s m o t e m p o à p lu ra l idade das t rans-
f e r ê n c i a s . U m lapso, p o r e x e m p l o , apresenta o desvio entre o que f o i d i t o e o
que quis ser d i t o , entre o consciente e u m v o t o inconsc ien te . Mas a e v i d e n c i a ç ã o
deste desvio a inda nada d i r á do que o f u n d a c o m o inconsc ien te — quer dizer ,
u m sen t ido c o n t r a d i t ó r i o que é ainda d i f e ren te da o p o s i ç ã o c o n s c i e n t e / i n c o n s -
c ien te . C e r t a m e n t e v i m o s que se trata de u m a f o r m a ç ã o do inconsc i en te e
acredi taremos que ela p o d e ser l ida neste i n t e r v a l o consc i en t e / i nconsc i en t e .
N ã o é este o caso, pois o que i m p o r t a é somente a c o n j u n ç ã o d i s j u n t i v a d o
i n c o n s c i e n t e . N a m e d i d a e m que u m a tal c o n j u n ç ã o n ã o se apresenta, o ato que
a t r i b u i su j e i t o a u m enunc i ado quase n ã o se d i f e renc ia do e fe i to p o é t i c o , o u
Lacan fez, no que concerne a minha exper iênc ia , u m uso variado e eficaz desta estru-
tura da palavra (Assim, quando eu falava pela primeira, e aliás ún ica , vez da avó que eu
n ã o t inha conhecido, ele op inou como se a tivesse conhecido m u i t o bem e como se se
tratasse, para ele, de uma l e m b r a n ç a sempre viva.) .
70 O AMOR AO AVESSO
daquele d o j o g o de palavras c o m u m . O r a . c o m o veremos , a m e n o s que sejam
c o n f u n d i d o s ato a n a l í t i c o e poesia, n ã o é a r e v e l a ç ã o d o su j e i t o da e n u n c i a ç ã o
que qua l i f i c a a p s i c a n á l i s e , c u j o o b j e t o p r ó p r i o é o s i n t o m a .
O instante de verdade e n i g m á t i c o que p r o v o c a u m e f e i t o de s en t ido , o
riso o u as l á g r i m a s , s e r á t ã o f r e q ü e n t e q u a n t o se quiser. Ele p o d e m e s m o ser
p r o v o c a d o p o r a n t e c i p a ç ã o e m quase todas as sessões , desde q u e se apreenda o
m o m e n t o adequado. G r a ç a s a sua r e f l ex iv idade simples e p r á t i c a , o " e f e i t o su -
j e i t o " p e r m i t e r o m p e r à von tade , duran te u m a a n á l i s e , a m o n o t o n i a das frases e
dos pensamentos temperados . Ele pode c o n s t i t u i r u m a e s p é c i e de v i s t o de sa ída
de quase todas as s e s sões . Mas se é sempre ú t i l c o l o c á - l o n o o f í c i o , é i n t e i r a m e n -
te o u t r a coisa a me rcado r i a assim selada. N a d a mais f ác i l que fazer assim j o r r a r
seu b r i l h o , e às vezes é su f i c i en t e pouca coisa! N e n h u m a necessidade de esperar
o a d v e n t o de u m s ign i f i can te carregado de sen t ido : a inda q u a n d o ele t i v e r u m
a n d a m e n t o de paco t i lha , s e rá su f i c i en te , p r o v i d a , c o m o ela v i b r a a inda, de a l g u -
m a o r i g e m inconsc ien te . Seu v a l o r d iz respei to agora a sua p r o v e n i ê n c i a e x ó t i c a
b e m mais que à carga de suas s i g n i f i c a ç õ e s !
Segundo o p r i v i l é g i o c o n c e d i d o ao " e f e i t o s u j e i t o " a e s c a n s ã o dos e q u í -
vocos s igni f icantes , dos lapsos, dos erros de g r a m á t i c a o u dos s imples t r o p e ç o s
de fala p e r m i t e i n j e t a r u m su j e i t o n u m saber j á lá , e m espera, a f l o r a n d o nas frases
e, e m suma, pré-consciente. U m a tal s u b j e t i v a ç ã o merece ser qua l i f i cada de
in t e l ec tua l , j á que , neste e s t á g i o , somente o desencadear d o saber s e r á c o n c e r n i d o
p o r este e f e i t o . Se a a n á l i s e devesse permanecer nisso, ela se assemelharia m u i t o
a u m ba te -papo ent re dois amigos , u m sendo m u i t o m a l pago pe lo o u t r o , q u e
ele d i v e r t e m u i t o mais d o que p õ e a c o n t r i b u i r . Pois, u m a vez assim pos to n o
lugar , a legremente , o su j e i t o d o saber, f a l t a r á a inda fazer alguns passos a mais ,
m e n o s d i v e r t i d o s , para que a t r a n s f e r ê n c i a desencadeie sua p lena e f i c á c i a (assim
c o m o suas d i f i cu ldades ) .
Q u a n d o u m analisante c o n t a u m s o n h o , p o d e o c o r r e r q u e se de s t aquem
desta n a r r a ç ã o alguns t r a ç o s e n g r a ç a d o s que n ã o t i n h a p e r c e b i d o , sem q u e , p o r
isso, o analista esteja a inda afetado e m nada p o r sua n a r r a ç ã o . É o caso, p o r
e x e m p l o , deste senhor , c u j a homossexua l idade se rv iu àp o t ê n c i a fa l i ca c o m o
poucas mu lhe re s o f a r i a m . U m dia , ele sonha que f ez a e x p e r i ê n c i a de s u b i r a p é
a t o r r e Ei fFel . C o n t a n d o a cena, as p r o p o r ç õ e s e r é t e i s d o m o n u m e n t o , bizarras
que fossem, n ã o se t i n h a m m o s t r a d o assim a ele, a n ã o ser ao r e l a t á - l a s . O desejo
i nconsc i en t e se m a n i f e s t o u g r a ç a s a u m a t a l r e p r e s e n t a ç ã o ? Era c e r t a m e n t e o
caso, c o m o atestou o s e n t i m e n t o e x p e r i m e n t a d o d u r a n t e esta e x p e d i ç ã o o n í r i c a .
E l e se l e m b r a v a de que n à o t i n h a s ido sem v e r t i g e m q u e a t i n g i r a o c u m e deste
m o n u m e n t o , q u e l h e l e m b r a v a agora o f a l o , adorado p o r ele p o r t o d o o s e m p r e .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 7/
A l i á s , ele se p e r g u n t o u p o r que seu inconsc ien te t i n h a acredi tado ser ú t i l dissi-
m u l a r e m u m a m e t á f o r a t ã o m e t á l i c a u m a t ra t ivo d i á r i o para ele, interesse que
n ã o su rpreend ia consc i en temen te n e n h u m a censura.. . Mas antes de abordar
q u e s t õ e s t ã o abstratas, quis t e r m i n a r de con ta r seu sonho . M a l t i n h a c o m p l e t a d o
sua a s c e n s ã o parisiense, q u a n d o descia pe lo m e s m o c a m i n h o , prosseguia t a m -
b é m suas e x p l o r a ç õ e s pedestres, encetando, sem t o m a r f ô l e g o , o c a m i n h o da
C h i n a . S e m conhece r h e s i t a ç ã o n e m d ú v i d a , o sonhador contava p e r c o r r e r a
d i s t â n c i a que separa Paris de P e q u i m c o m o mais simples e q u i p a m e n t o . E eis
que , q u a n d o caminhava a b o m passo, u m a b r incade i ra d ive r t i da , a inda que de
gosto d u v i d o s o , lhe v e i o à c a b e ç a c o m i n s i s t ê n c i a . A pequena frase: " A p é para
a C h i n a " g r a ç a s a algumas c o n t o r ç õ e s de sua sonor idade , t inha-se m e t a m o r f o -
seado na l í n g u a d o sonho segundo a n o v a f o r m u l a ç ã o : " C a g a n d o pe lo pau
D e u s m e u , n ã o era m u i t o e n g r a ç a d o ? O c ô m i c o da i n v e r s ã o era ev iden te , eu
n ã o p o d i a c o n t e s t á - l o . E m u m cer to sent ido , o e fe i to a n a l í t i c o t a m b é m n ã o
parecia fal tar , j á que , g r a ç a s a esta piada, u m a d iagona l e x t r a o r d i n á r i a p o d i a ser
t r a ç a d a ent re o e r o t i s m o anal e o a m o r pe lo f a lo . V e r í d i c a , cer tamente! M a s ,
mais que se d i v e r t i r c o m esta e n g r a ç a d a chinesice, c o m este q u e b r a - c a b e ç a s ,
n ã o seria m e l h o r constatar que eu somente havia sido c o n v i d a d o para u m a
d i v e r t i d a escapada ao pa í s dos sonhos c o m o u m b o m c o m p a n h e i r o p o d e r i a
s ê - l o ?
As d e l í c i a s é t i cas d o " e f e i t o s u j e i t o " rap idamente e n c o n t r a m u m l i m i t e .
A escrita do s i n t o m a n ã o seria m o d i f i c a d a p o r sua r e f l ex iv idade u n i c a m e n t e , e
de u m a i n t e i r a m e n t e o u t r a o p e r a ç ã o va i depender o t raba lho de reescrita que
especifica p r o p r i a m e n t e o e f e i to t e r a p ê u t i c o da aná l i s e . O " e f e i t o s u j e i t o " g ra -
ças ao qua l aquele que fala se d á conta de que disse o que acaba de d izer ( en -
q u a n t o que o far ia sem pensar nisso, m a q u i n a l m e n t e ) , d i f e re deste e fe i to tera-
p ê u t i c o , segundo o qua l u m a f o r m a ç ã o do inconsc ien te que aparece n o d i scur -
so desloca e reescreve u m a ou t ra , penosa de supor tar na m e d i d a e m que se
escreve n o c o r p o . A segunda o c o r r ê n c i a c o m p o r t a t a m b é m u m " e f e i t o s u j e i -
t o " sup lementa r ao a l í v i o que p rocu ra , enquan to a p r i m e i r a é somente f o n t e de
u m j ú b i l o i n t e l e c t u a l m o m e n t â n e o (que resulta, f r e u d i a n a m e n t e f a l ando , de
u m a passagem d o p r é - c o n s c i e n t e ao consciente) .
A s s i m c o m esta analisante, c u j a beleza n ã o passava despercebida. T ã o
j o v e m q u a n t o j á m u i t o adver t ida sobre as coisas da v ida , n ã o deixava de se
d i v e r t i r , q u a n d o n ã o se apagava, c o m o n ú m e r o de h o m e n s maduros que a
* E m f rancês , respectivamente: A pied vers la Chine e A chierparla pine. ( N T )
7J O AMOR AO AVEHO
c o r t e j a v a m c o m o se isso n à o fosse nada, sem n e m m e s m o parecerem e m b a r a ç a -
dos p o r seu estado c i v i l e suas responsabilidades de chefes de f a m í l i a . " C o m o
o c o r r e " u m dia ela i n g e n u a m e n t e se pergunta , "que eu seja t ã o f r e q ü e n t e m e n -
te a lvo dos a s s é d i o s destes maridos honestos?" Este j o g o de palavras, t an to mais
desopi lante q u a n t o f o i i n v o l u n t á r i o , lhe d á a i m p r e s s ã o de ter r e c e b i d o p o r seu
d i n h e i r o q u a n d o , depois de m i n h a r e a ç ã o , se o u v e d i z è - l o . Mas este m a l i c i o s o
e q u í v o c o ainda n ã o diz ia nada d o que pod ia i n t e r e s s á - l a na f r e q ü e n t a ç à o destas
mar ione tes . O j o g o de palavras devia e n t ã o permanecer à espera, para ser v e r d a -
de i r amen te eficaz, d o s i n t o m a que lhe cor responder ia . O s ign i f i c an t e f icava
ad ian tado p o r toda a d i s t â n c i a de u m a crise de r iso que , p o r ser c o r r o b o r a t i v a ,
n ã o d iz ia a inda d o desejo inconsc ien te . C l a r o , apresentava-se assim u m " e f e i t o
s u j e i t o " que isolava u m a s e q ü ê n c i a que p o d i a ser l ida , mas ela c o m p o r t a v a so-
m e n t e u m e f e i t o de sen t ido e n i g m á t i c o ( c o m o most rava o f a to de que fizesse
rir). Ta i s efe i tos s ignif icantes s ã o t ã o f r e q ü e n t e s q u a n t o se quiser, de f o r m a que ,
mais que p r i v i l e g i a r i n d e v i d a m e n t e u m a m e r c a d o r i a c o m f r a c o v a l o r de uso, o
analista p o d e p r e f e r i r n ã o sub l inha r todos os "e fe i tos s u j e i t o " que o analisante
pode r i a o f e r e c e r - l h e para sair de sua d i f i c u l d a d e . Jogos de palavras, i n v e r s õ e s ,
anagramas o u m e s m o certos lapsos n ã o s e r ã o f o r ç o s a m e n t e d ignos de ser s u b l i -
nhados , p o r q u e , m e s m o se e v o c a m , n à o p e r m i t i r ã o destacar o saber i n c o n s c i e n -
te e n q u a n t o c o n j u n ç ã o d i s j u n t i v a .
N a mesma m e d i d a e m que é ú t i l a t ivar o " e f e i t o s u j e i t o " p o r sua d i m e n -
s ã o é t i c a e pe lo i n s u b s t i t u í v e l e n g o d o da t r a n s f e r ê n c i a que p e r m i t e , n ã o serve
para nada p e d i r o que ele n ã o pode dar. A l é m disso, se n ã o p o d e m o s n ã o l e v á -
las e m c o n s i d e r a ç ã o , n e m nos con t en t a r c o m elas, é m e l h o r n ã o i g n o r a r estas
amiadi lhas , t an to mais enganosas quan to pa recem p e r m i t i r u m fác i l desve lamento
d o desejo. N a d a parece mais prazeroso que esta descoberta sempre n o v a d o
desejo i nconsc i en t e , que se ofe rece quase que a cada frase na a s s o c i a ç ã o s i g n i f i -
cante! Cada ses são p o d e fazer b r i l h a r a p r e s e n ç a de u m s u j e i t o , q u e a l iás s ó pede
isso m e s m o , e n c o n t r a n d o n o r e l â m p a g o de sua m a n i f e s t a ç ã o sub j e t i va u m c o n -
f o r t o n a r c í s i c o e u m s e n t i m e n t o de responsabi l idade p o r seu des t ino (sem q u e
p o r isso este des t ino se e x p l i q u e ) .
III
O que se passaria se o ato analítico parasse aí? Contentando-se com um
e f e i t o de s u b j e t i v a ç ã o , nada t r a n s p i r o u a inda da d i m e n s ã o sexual d o s i n t o m a e m
sua c o n t r a d i ç ã o . D e s i mp e d i n d o o desejo p o r sua p o n t a sub j e t i va , trata-se, d e
toda f o r m a , de u m a " a n á l i s e p r ó p r i a " m e n o s n o s en t ido de u m e v i t a m e n t o
O JOGO D A ASSOCIAÇÃO LIVRE 73
desta d i m e n s ã o sexual que do " p r ó p r i o " da r e a p r o p r i a ç ã o . C l a r o , o " p r ó p r i o "
d o " e f e i t o s u j e i t o " n u n c a é sem r e l a ç ã o c o m a c a s t r a ç ã o , mas só a evoca à
d i s t â n c i a e, con ten tando-se c o m isso, a c o n j u n ç ã o d i s j u n t i v a das t r a n s f e r ê n c i a s ,
o u a inda d o s i n t o m a , só se rá abordada a lus ivamente . U m " e f e i t o s u j e i t o " p o d e ,
segundo parece, ser a r t i cu lado à c a s t r a ç ã o , mas n ã o é esta e v i d ê n c i a , n o en tan to ,
que é su f i c i en te sub l inhar .
N o e x e m p l o seguinte , a q u e s t ã o da c a s t r a ç ã o se apresenta e m p r i m e i r o
p l a n o , e n o en tan to f a l t o u m u i t o para que o s i n t o m a se desprendesse! C h e g a n d o
a sua s e s s ã o , esta j o v e m m u l h e r m e avisou quase que i n c i d e n t a l m e n t e de alguns
abo r r ec imen tos que considerava p e r i f é r i c o s . E la d i r i g i a u m a revista — c o m
m ã o m u i t o pesada — e, c o m o m u i t o s que se c o l o c a m nesta p o s i ç ã o , a p r o v e i t a -
va-se disso para d i r i g i r e aconselhar os que escrevem. E m suma, se entregava de
c o r a ç ã o alegre aos autores que mar t i r i z ava de m i l fo rmas . A m a i o r parte deles
n ã o r ed ig ia m u i t o b e m , é verdade, e assim eles t i n h a m necessidade de ser o r i e n -
tados! E preciso acrescentar que eles f r e q ü e n t e m e n t e ace i tavam de b o m grado
estes cons t rang imentos , desejosos que estavam de ve r seus trabalhos pub l i cados .
E n t r e t a n t o , apesar de sua c o m p r e e n s í v e l flexibilidade, passavam mui tas vezes
u m m a u qua r to de h o r a q u a n d o t o m a v a m c o n s c i ê n c i a das e x i g ê n c i a s d o " c o m i -
t ê de l e i t u r a " — e m n o m e do qua l ela falava. Sucessivamente, o " c o m i t ê " se
mos t rava hesi tante q u a n t o ao n ú m e r o de l inhas, ao agenc iamento , ao v o c a b u l á -
r i o , à s intaxe, à clareza o u aos t í t u l o s . C o m o , de f a to , recusar-se o prazer de
t o r t u r a r u m p o u c o o autor , r ecor ta r seu t e x t o , acrescentar-lhe u m s u b t í t u l o
inesperado sem p r e v e n i - l o , o u reordenar seus p a r á g r a f o s (sem con ta r os erros de
ú l t i m a h o r a a que p o d i a sempre se entregar u m impressor que, ele t a m b é m ,
t i n h a d i r e i t o a algumas pequenas alegrias!).
Esta j o v e m m u l h e r , p o r t a n t o , m e c o m u n i c o u u m a c o n t e c i m e n t o desa-
g r a d á v e l que acabava de oco r re r . N o m o m e n t o de r eme te r para o impressor as
c ó p i a s d o n ú m e r o atual de p u b l i c a ç ã o , n ã o consegu iu se segurar, e havia , c o m o
que p o r i n a d v e r t ê n c i a , co r t ado a c o n c l u s ã o de u m a r t igo . E verdade que o t i n h a
achado d e t e s t á v e l , mas n ã o se ter ia p e r m i t i d o semelhante censura sem que t i -
vesse excelentes r a z õ e s . E ra preciso compreende r , f o i s implesmente n o m o -
m e n t o da p a g i n a ç ã o , e para levar e m con ta o lugar d i s p o n í v e l , que o fim da
ú l t i m a p á g i n a t i n h a desaparecido. Poder-se- ia ficar sem saber a q u e m seria p r e -
ciso i m p u t a r esta d e s g r a ç a , mas, p r o v i s o r i a m e n t e , ela f o i considerada r e s p o n s á -
v e l . C ú m u l o do azar, sobrecarregada de t rabalho c o m o era, t a m b é m o m i t i r a
p r e v e n i r o a u t o r desta i n f e l i z , mas, e n f i m , i n t e i r a m e n t e n e c e s s á r i a a m p u t a ç ã o . E
depois , c o m o m e c o n f i o u c o m u m t o m de v o z cansado, s o f r e r á a c ó l e r a d o que
escrevia, sem que isso a incomodasse de ou t r a f o r m a , pois ele dever ia t e r - l h e
O AMOR AO M t \ S O
agradec ido , seu a r t i go f i c a n d o m u i t o mais d iges t ivo e elegante nesta t o n n a
s imp l i f i cada . S i m ! Era assim! Era sua responsabil idade, que assumia p l e n a m e n t e :
devia cor ta r o. . . tex-to. Ela verdade i ramente n ã o fez o lapso, mas era i n t e i r a -
m e n t e c o r r e t o . Sua e l o c u ç ã o s implesmente f o i suspensa, destacando a palavra
texto, a r t i cu l ando-a e m todas as suas letras, de f o r m a que era i m p o s s í v e l n à o
o u v i r o que o l e i t o r t e r á t a m b é m o b v i a m e n t e i m a g i n a d o .
A i n d a que esta pequena c o n f u s ã o tenha s ido ev iden te , r e t i ve e n t r e t a n t o
toda r e a ç ã o , p r e f e r i n d o esperar a c o n t i n u a ç ã o . Pois, e n f i m , nada m e assegurava
de que era exa tamente a palavra " sexo" que f a l t o u escapar-lhe. D u r a n t e alguns
m o m e n t o s , seu s i l ê n c i o e sua p e r t u r b a ç ã o fizeram pensar ainda mais nisso. Mas
e n f i m , ainda que u m a d ú v i d a permanecesse, ela c o n t i n u o u sua n a r r a ç ã o , f e -
c h a n d o este p a r ê n t e s e c o m o se nada tivesse acon t ec ido .
A d i r e t o r a e n t ã o c o m e ç o u o relato de u m o u t r o a c o n t e c i m e n t o que lhe
parecia m u i t o mais d i g n o de a t e n ç ã o . C o n v i d a d a na v é s p e r a para fazer u m a
c o n f e r ê n c i a , ela se v i u d iante de u m a u d i t ó r i o res t r i to a umas q u i n z e pessoas,
quase que exc lus ivamente m a s c u l i n o . Ela falava, pois , a n i m a d a m e n t e , de u m
tema que a apa ixonava e, levada pe lo entus iasmo, se su rp reendeu f azendo u m
gesto bastante inadequado e m tais c i r c u n s t â n c i a s : sentada c o n f o r t a v e l m e n t e c o m o
estava n u m a p o l t r o n a , e cercada e m s e m i c í r c u l o pelos o u v i n t e s , b ruscamente
passou sua perna para o b r a ç o da p o l t r o n a . A i n d a que estando vest ida, p o r sorte,
c o m u m a c a l ç a , ela n à o d e i x o u de perceber u m m o m e n t o de flutuação na assis-
t ê n c i a , u m p o u c o surpresa c o m seu gesto, n o en t an to gracioso . C o m m u i t a
f e l i c idade , havia i m e d i a t a m e n t e d o m i n a d o esta surpresa g r a ç a s ao c h a r m e de seu
discurso. A v a l i a n d o que eu m e s m o , sem d ú v i d a , estava u m p o u c o m e x i d o e,
antes de prosseguir , l he pareceu n e c e s s á r i o t o rna r a n ó d i n o este a c o n t e c i m e n t o
para o o u v i n t e atual , que r dizer , eu m e s m o . E la ins is t iu para m e fazer n o t a r que
u m a tal p o s i ç ã o era das mais f e m i n i n a s .
T o d a v i a , sua e x p l i c a ç ã o t e n d o t o m a d o p r o p o r ç õ e s cada vez mais c o n f u -
sas, a despei to de seu t o m seguro, d e c i d i d e t ê - l a p o r u m m o m e n t o e m seu
a r reba tamen to , i n t e r r o g a n d o - a sobre sua ú l t i m a a f i r m a ç ã o . Q u e r e l a ç ã o havia ,
de f a t o , en t re o p e r t e n c i m e n t o ao g ê n e r o f e m i n i n o , que ela r e i v i n d i c a v a , e a
a t i t ude esperta que , duran te esta c o n f e r ê n c i a , havia mani fes tado? M i n h a p e r -
g u n t a l h e deve ter pa rec ido pe r t i nen t e , pois ela se espantou , e n f i m , c o m esta
r e l a ç ã o , que t i n h a que c o n v i r te r estabelecido. E f i c o u p o r u m m o m e n t o s i l e n -
ciosa. C o m o este i n t e r v a l o se p r o l o n g a v a a l é m dos h á b i t o s desta pessoa, m u i t o
fa lante , a t r a í sua a t e n ç ã o para a s u c e s s ã o de pensamentos q u e acabava de se
p r o d u z i r . P e r g u n t e i - l h e e n t ã o se era t ã o ce r to que n à o hav ia r e l a ç ã o e n t r e a
p r i m e i r a par te d o q u e t i n h a e n u n c i a d o , i s to é cortar o... texto( que e u t en tava
O JOGO D A ASSOCIAÇÃO LIVRE 75
p r o n u n c i a r da mesma mane i r a que ela) e sua d e s c r i ç ã o da cena da p o l t r o n a ,
s e q ü ê n c i a s que ela havia l i gado e m u m t e m p o m u i t o mais c u r t o do que seria
preciso para l ê - l a s . E u cer tamente t i n h a minhas i d é i a s : n ã o acabava ela, e m
algumas frases, de amarrar jun tas , a sua mane i ra , a c a s t r a ç ã o e a q u e s t ã o c o n f l i t u a l
de sua r e l a ç ã o c o m os h o m e n s e a f e m i n i l i d a d e ? ( C o m o ve remos depois , o f a to
de eu ter t i d o " i d é i a s " n ã o f o i sem c o n s e q ü ê n c i a s ) .
E u i n t e r v i e r a , pois , n u m a s u c e s s ã o de duas s e q ü ê n c i a s . P o r ser p lena de
sen t ido , sua a r t i c u l a ç ã o n ã o deixava de ser confusa . E u m e havia c o n t e n t a d o
aqu i c o m u m " e f e i t o s u j e i t o " , cu j a i n j e ç ã o eu havia operado na j u n t u r a das duas
a s s o c i a ç õ e s , ent re cortar o... texto e o e p i s ó d i o da perna n o b r a ç o da p o l t r o n a .
Este " e f e i t o s u j e i t o " estava man i fe s t amen te a r t i cu lado c o m a c a s t r a ç ã o — m u i t o
pesadamente al iás . I n s t i t u i r a p r e s e n ç a do su je i to neste lugar vaz io teve c o m o
resul tado i n d i c a r que o ato de " c o r t a r " l o n g e de ser u m i n c i d e n t e p e r i f é r i c o
con tado anedo t i camen te , merec ia ser c o n d u z i d o para o cen t ro da cena dada
c o m o p r i n c i p a l . Cortar o texto era, assim, s i n toma t i camen te associado ao ato de
se mos t ra r de pernas abertas f r e n t e a u m a p l a t é i a de h o m e n s espantados. N o
entan to , este " e f e i t o s u j e i t o " p o r interessante que parecesse ser, parecia te r
deslizado abso lu tamente , c o m o a á g u a nas penas de u m c a n á r i o , sem levantar o
m e n o r e q u í v o c o e sem que t a m b é m d a í procedesse o m e n o r p o n t o de apo io —
s im , ce r tamente agira c o m o acabava de ser descr i to . Era esta, exa tamente , sem
d ú v i d a , a r e l a ç ã o de p r o v o c a ç ã o que m a n t i n h a c o m o Sexo. E da í?
O que caracteriza o " e f e i t o s u j e i t o " nesta sessão merece ser sub l inhado .
A cena c o m e ç a n u m a a m b i ê n c i a que se poder i a qua l i f i ca r de " f r a t e rn idade de
d iscurso" . A analisante fala abundan temen te e, nesta t o r r en t e , é arrebatada c o m o
su je i to p o r sua p r ó p r i a fala. E eis que a rapidez das a s s o c i a ç õ e s leva, de toda
f o r m a , a u m p l a t ô , esta j u n t u r a e m que é su f ic ien te marcar c o m u m " v o c ê o
disse!" o p r ó p r i o e s p a ç o que u n e dois pensamentos para que se ve ja f o r m a d a
u m a p r o p o s i ç ã o que só pede ser subje t ivada (mas que n ã o o é ainda) . U m e fe i to
de sen t ido i m p l í c i t o se v ê assim exposto : " D a mesma f o r m a que v o c ê cor ta o. . .
texto, v o c ê e x p õ e despudoradamente seu estado a n a t ô m i c o ! . . . " A s t ú c i a que
d i r á o n d e se si tua o su j e i t o nesta o p e r a ç ã o ! E le es tá d o lado d o analista que
acabou de fazer u m a pe rgun ta , o u d o lado daquela que acaba de falar, n o m o -
m e n t o e m que se o u v e g r a ç a s a esta pergunta? E b e m p o r haver esta a m b i g ü i d a -
de q u e a e x p r e s s ã o " f r a t e rn idade de d iscurso" c o n v é m a u m a o p e r a ç ã o e m c u j o
i n í c i o o analisante e o analista c a m i n h a m de m ã o s dadas, e arrebatam-se c o n j u n -
t a m e n t e 2 .
2 Eles n ã o f o r m a m u m par semelhante ao do escritor c ò m o leitor, o segundo seguindo
o p r ime i ro em sua f icção , para finalmente encontrar a si mesmo?
76 O AMOR A O AVCllO
I V
Se a transferência devesse ser definida somente graças a este momento de
c o m u n h ã o subje t iva , ela se engajaria n u m o t i m i s m o enganador . D e fa to , i n t e i -
r amen te na e u f o r i a de sua descoberta in t e l ec tua l , o analisante pode r i a ter a i m -
p r e s s ã o de que o inconsc ien te se r e v e l o u a ele g r a ç a s a esta o p e r a ç ã o . E ac red i -
t a rá desta f o r m a ter descober to u m elo fal tante c o m o se pode fazer desenvo l -
v e n d o u m saber l inear cor responden te à l ó g i c a c o m u m . Q u e i m a n d o e n t ã o as
etapas deste saber revelado, c o r r e n d o de saber e m saber, é na e x u l t a ç â o que ele
poder i a i m a g i n a r que é su f i c i en te reapropr ia r o su j e i t o a seus enunc iados para
descobr i r quais s ã o suas r a z õ e s e, c o m elas, e m que consiste o o b j e t o de seu
desejo e o p o r q u ê d o que o faz doen te .
E n t r e t a n t o , este f e l i z su j e i t o , que c r ê perceber de u m a só vez a i n f i n i d a d e
de u m t e r r i t ó r i o sobre o qua l s ó t e r á que estender seu i m p é r i o , n ã o va i rap ida-
m e n t e encon t r a r u m m u r o ? D e f a to , o saber que rege o i nconsc i en t e n ã o en t r e -
g a r á seu segredo p o r q u e u m p e q u e n o c l a r ã o b r i l h o u sobre ele. R a p i d a m e n t e
t o r n a r á a cair na sombra , po is de n e n h u m a f o r m a é r e d u t í v e l g r a ç a s aos p r i n c í -
pios da l ó g i c a c láss ica , segundo a qua l o e q u a c i o n a m e n t o de u m n ã o - c o n h e c i d o
e sua r e s o l u ç ã o ser iam i m e d i a t a m e n t e coextens ivos a t o d o c a m p o que deles
depende . Dis tan te de ser l inear , este saber n e m m e s m o é s u s c e t í v e l de ent regar-
se pa rc ia lmen te a t é u m p o n t o l i m i t e , a l é m d o qua l se d e f i n i r i a e l egan temente o
o b j e t o que lhe escapa. O o b j e t o causa d o desejo n ã o é esta e s p é c i e de l i m i t e
e x t e r n o d o s ign i f i can te que nunca se descobr i r ia t ã o b e m q u a n t o n o m o m e n t o
o n d e as palavras f a l t a m , c o m o se ao " e f e i t o s u j e i t o " correspondesse u m o b j e t o
c o l o c a d o n o l i m i t e d o que este su je i to p o d e saber.
O e x e m p l o c l í n i c o precedente , assim c o m o os dos c a p í t u l o s anter iores ,
most ra , ao c o n t r á r i o , que o saber descober to associa-se ce r t amen te a a lgo d o
saber, mas que o encadeamento assim e fe tuado a p a r t i r de u m t e r m o , l o n g e de
p r o d u z i r u m a c o n c a t e n a ç ã o ha rmon iosa , c o n d u z t o d o d i r e i t o para o q u e o c o n -
t rad iz . Este ga io saber perde m u i t o de sua v i r t u d e e u f o r i z a n t e q u a n d o suas d i f e -
rentes s e q ü ê n c i a s colocadas jun ta s d e i x a m o u v i r o q u e se parece m u i t o c o m
u m a caco fon i a , m u i t o f r e q ü e n t e m e n t e absurda. P o r que , p o r e x e m p l o , o h o -
m e m j o v e m e ro t i c amen te c r u e l cho ra ao m e s m o t e m p o q u e sua v í t i m a ? A qua l
bizarra r a z ã o responde u m a f o b i a d o b a r u l h o que , de u m l a d o , evoca u m c o s t u -
m e de c a ç a pa t r ia rca l , e n q u a n t o que , de o u t r o l ado , pela g r a ç a d o a r r u l h o de
u m a p o m b a , se associa ao g e m i d o d o g o z o f e m i n i n o ? Jamais u m a r a z ã o l i nea r
d a r á a causalidade de tais a s s o c i a ç õ e s , n o en t an to essenciais de c o m p r e e n d e r , j á
q u e c o m a n d a m o e r o t i s m o dos analisantes c o n c e r n i d o s . O " e f e i t o s u j e i t o " a t i n -
ge r ap idamen te , pois , u m l i m i t e .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 77
A s r e s t r i ç õ e s colocadas a sua e f i c á c i a e m nada r e t i r a m sua i m p o r t â n c i a , j á
que é g r a ç a s a ele que os processos de i d e n t i f i c a ç ã o e m j o g o na t r a n s f e r ê n c i a
e n c o n t r a m seu a t r a t i vo . I g u a l m e n t e , seu po t en t e e fe i to de sent ido é u m a p r o -
messa para o analisante. Po r f i m , sua d i m e n s ã o é t i c a lhe d á i m e d i a t a m e n t e esta
p o s i ç ã o que o d i f e r e n c i a r á de todos aqueles que, n ã o t e n d o e x p e r i m e n t a d o a
a n á l i s e , c o n t i n u a m a i g n o r a r que , m e s m o sendo pr i s ione i ros , de t e rminados , n ã o
d e i x a m de ser os atores do que os apris iona, c o m o seu s i n t o m a lhes l e m b r a .
O " e f e i t o s u j e i t o " descobre o " s u j e i t o s u p o n í v e l ao saber", segundo a
f e l i z e x p r e s s ã o p ropos ta p o r Lacan. Mas este saber que rege o inconsc i en te n ã o
se agencia r azoave lmente , c o m o a s i g n i f i c a ç ã o co r ren te deste t e r m o pode r i a
de ixar en tender : cada u m a de suas s e q ü ê n c i a s con t r ad i z a que a precede. N ã o é
a este e l e m e n t o c o n t r á r i o que o analista oferece sua p r e s e n ç a , j á que este saber se
e n d e r e ç a a ele? Escu tando aquele que fala, ele representa o O u t r o d o saber na
m e d i d a e m que qua lque r s e q ü ê n c i a s ign i f i ca t iva i m p l i c a r á seu c o n t r á r i o , a t í t u l o
do que a c o m p l e m e n t a n o saber do inconsc ien te (o ó d i o / a piedade. . . o a m o r /
o assassinato, e tc) . N o e fe i to de sent ido desta c o m p l e m e n t a ç ã o , o analista r e p r e -
senta o O u t r o d o saber.
E m alguns de seus s e m i n á r i o s , Lacan l e m b r o u a p o s i ç ã o do analista c o m o
sendo a d o O u t r o , e m m o m e n t o s precisos da t r a n s f e r ê n c i a . Este O u t r o d o saber
representa u m a ent idade o n i p o t e n t e , arcaicamente mate rna o u d e p o s i t á r i a d o
tesouro dos significantes? O l i m i t e do " e f e i t o s u j e i t o " mos t ra que o analista só
o representa n u m n í v e l mais modes to : q u a n d o o analisante fala, e a r e f l e x i v i d a d e
do d i spos i t i vo lhe p e r m i t e tornar-se t ã o consciente quan to quei ra do que d iz ,
este saber t ã o l í m p i d o p e r m a n e c e r á t r u n c a d o do que lhe cor responde , c o n t r a d i -
t o r i a m e n t e a t r i b u í d o à q u e l e a q u e m a palavra se e n d e r e ç a , O u t r o neste sen t ido .
D e t oda f o r m a , e n q u a n t o a t r a n s f e r ê n c i a durar , ele p e r m a n e c e r á sempre O u t r o ,
p o r q u e , t ã o l o n g e quan to v á , o saber i m p l i c a r á a c o n t r a d i ç ã o que ele i g n o r a .
N o m o m e n t o e m que aquele que fala encon t r a este m u r o , toda c o n c e p -
ç ã o f ra te rna , l i t e r á r i a , da t r a n s f e r ê n c i a é abol ida i m e d i a t a m e n t e . O des l izamento
de u m s ign i f i can t e a u m o u t r o s ign i f i can te onde o i r m ã o se esconde i n t e r r o m p e
b ruscamente o h a r m o n i o s o encadeamento do saber, que fracassa na d u p l i c i d a d e
e s o ç o b r a n o e q u í v o c o . T ã o possante que n ã o se o p o d i a si tuar i n i c i a l m e n t e do
l ado daquele que falava o u do lado daquele c u j o ato p e r m i t i u sua s u b j e t i v a ç ã o ,
o " e f e i t o s u j e i t o " encon t ra e n t ã o u m m u r o t ã o espesso quan to a b ina r idade do
saber i n c o n s c i e n t e . O f e l i z t e m p o da c o m u n h ã o do discurso f o i m u i t o b reve ,
m e s m o que n ã o de ixe de se apresentar n o v a m e n t e ! P o r seu p r ó p r i o m o v i m e n -
t o , as a s s o c i a ç õ e s v ã o deslizar a t é o p é deste m u r o , c u j o e n c o n t r o e m nada
resulta de u m a t é c n i c a d o analista. N ã o é p o r q u e este pe rmanecer ia m u d o c o m o
7S O AMOR *0 «VtSSO
u m a carpa, resguardando-se de t o d o sinal de s impatia o u de an t ipa t ia , n e m
p o r q u e esta i r r i t an t e neut ra l idade seja d igna de aplausos que a f r a t e rn idade espe-
rada encon t r a seu l i m i t e . I ndependen t emen te da t é c n i c a , e m u i t o espontanea-
m e n t e , a fala t o m a o r u m o d o m u r o que f o r m a seu l i m i t e i n t e r n o , desde que ela
se de ixe caminha r .
T a m b é m n ã o é a imposs ib i l idade de enunc ia r u m pensamento pa r t i cu la r
o que seria e n t ã o p r o b l e m a : q u a n d o u m analisante p á r a de falar e declara que ,
apesar de seus e s f o r ç o s , n ã o consegue associar mais nada, pode-se, c o m o e x p e -
riência, p e r g u n t a r - l h e se ao menos sabe o que quer dizer , m e s m o se n ã o o faz.
E f e t i v a m e n t e , ele poder i a n ã o chegar a evocar tal o u tal o u t r o aspecto escabroso
de sua e x i s t ê n c i a o u de seus sonhos. O u ainda, poder i a considerar m o m e n t a n e -
amen te seus pensamentos c o m o n ã o d ignos de interesse. O u , e n f i m , avaliar que
o analista n ã o se rá capaz, o u d i g n o , de o u v i - l o s . G e r a l m e n t e n ã o é n e n h u m a
destas r a z õ e s que é invocada , p o r q u e , de u m lado , é o p r ó p r i o c o n t e ú d o do
pensamento que escapa — e n ã o u m a de te rminada i d é i a pa r t i cu la r — e, de
o u t r o l ado , a responsabil idade desta vacuidade se rá i m p u t a d a à p r e s e n ç a d o ana-
lista. A f o r m u l a ç ã o exata d o m o t i v o de u m tal s i l ê n c i o seria e n t ã o : " N ã o c o n s i -
g o fa lar c o m você' A p r e s e n ç a d o i n t e r l o c u t o r faz o b s t á c u l o a u m a fala que n ã o
sabe ainda, n o en tan to , o que querer ia e x p r i m i r — ainda que o q u e i r a 3
O m u r o da t r a n s f e r ê n c i a se engendra a pa r t i r d o p r ó p r i o saber i n c o n s c i -
ente e é p o r a r t i f í c i o que é i m p u t a d o à p r e s e n ç a d o analista. A b ina r idade d o
s ign i f i can te , p o r si s ó , c i m e n t a este m u r o . F i m d o " e f e i t o s u j e i t o " ! O a m o r
p o t e n c i a l que ele c o m p o r t a v a se i n v e r t e . O t r a t a m e n t o p o r v o c ê de u m su j e i t o
quase ú n i c o passa ao t r a t amen to p o r v o c ê s ocasionado pela d u p l i c i d a d e s i g n i f i -
cante . D e " v o c ê " a " v o c ê s " se i n t e r p õ e a d i s t â n c i a i r r e m e d i á v e l de u m s i g n i f i -
cante d ú p l i c e , c u j o e q u í v o c o o analista supor ta . E a p r ó p r i a palavra separa r a d i -
J O fato de que a palavra, em pr inc íp io feita para a i n t e r l o c u ç ã o , encontre u m l imi t e na
presença daquele a quem ela se ende reça nada diz ainda de espec í f i co sobre a transfe-
rênc ia em análise. O budismo zen p ô d e fundar uma ét ica no impasse d i a lóg i co , fazen-
do da prát ica do Koan — resposta absurda do mestre a seu d i sc ípu lo — o modelo da
heterogeneidade discursiva que o sujeito habita. N a literatura c o n t e m p o r â n e a , seja a
p r o p ó s i t o da amizade ou da comunidade inconfessável dos votos que, sem que sejam
falados, fazem comunidade, Maurice Blanchot evocou a t o r ç ã o do espaço que separa
dois ou mais locutores. Todavia, n ã o é tanto a re lação c o m o p r ó x i m o que c o n v é m
colocar em pr imei ro plano, se se quer destacar a especificidade do m u r o da palavra em
análise. N o s exemplos que acabaram de ser evocados, tudo se passa c o m o se a opaci -
dade da p resença permitisse uma c o m u n i c a ç ã o graças à n â o - c o m u n i c a ç ã o .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 79
ca lmen te o O u t r o da t r a n s f e r ê n c i a daquele que lhe fa la 4 O e fe i to su j e i t o p o d e
ter s ido p r o d u z i d o à v o n t a d e a t é aí , e ele sem d ú v i d a c o n s t i t u i o mais simples e
o mais c o n f i á v e l p r o c e d i m e n t o t é c n i c o para atrair a t r a n s f e r ê n c i a . Sua i m p o r -
t â n c i a é t i c a é ou t ra ; ele p o d e t a m b é m cair, n u m cer to caso, e quase ao acaso,
n u m a c o r r e s p o n d ê n c i a ta l c o m o s i n toma que a a n á l i s e t e r á u m ce r to resul tado
t e r a p ê u t i c o (é nesta m e d i d a que certos analistasusam e abusam das e s c a n s õ e s .
P o r que pr ivar -se delas, j á que algumas p o d e m mos t ra r sua justeza?). T o d a v i a ,
q u a n d o se p r o d u z i r desta mane i r a e r r á t i c a , o analista t e r á que t o m a r o c u i d a d o
de dar con ta deste e fe i to b e n é f i c o (o que n ã o é grave) e de p e r m i t i r que ele se
m a n t e n h a (o que é d e p l o r á v e l ) .
P o r seu p r ó p r i o m o v i m e n t o , os pensamentos se encade iam e se associam
ao p é deste m u r o f r e n t e ao qua l o saber, enquan to inconsc ien te , se d i v i d e .
C o m e ç a m a colocar-se e n t ã o as verdadeiras d i f icu ldades da t r a n s f e r ê n c i a . A t é
este p o n t o a cadeia associat iva se a r t i c u l a c o n s c i e n t e m e n t e — p r ó x i m o à
r e f l e x i v i d a d e — , mas, a pa r t i r dele, se desdobra, se c o n f u n d e n o lapso o u se
i n t e r r o m p e n u m s i l ê n c i o , ar t iculada que é a u m saber inconsc ien te a t r i b u í d o ao
O u t r o da t r a n s f e r ê n c i a . N ã o se trata tan to de que exista a q u é m deste m u r o o
consciente e a l é m o inconsc ien te , mas m u i t o mais de que este ú l t i m o a p a r e ç a
n o seio do p r i m e i r o e g r a ç a s à r e s i s t ê n c i a i n t e rna que ele c o m p o r t a . O que afeta
o s ign i f i can te consciente aparece c o m o u m a c o n s e q ü ê n c i a da t r a n s f e r ê n c i a à
pessoa d o analista, e este e n c o n t r o de f ine a r e s i s t ê n c i a . N ã o p o r q u e o analista
resistiria, pois é claro agora que é da t r a n s f e r ê n c i a que resulta a r e s i s t ê n c i a , na
m e d i d a e m que seria afetado p o r aqu i l o que fal ta ao saber (consciente) para que
se possa saber ( e m sua d i v i s ã o ) .
IV
Será mais delicado produzir um "efeito sujeito" de maneira apropriada,
que r d izer , n ã o somen te n u m m o m e n t o e m que se apresente u m a f o r m a ç ã o
s i n t o m á t i c a , mas a inda q u a n d o ela cor responde a u m a certa a f e t a ç ã o d o analista.
Se u m ato a n a l í t i c o m í n i m o (p igar ro , a p r o v a ç ã o , r u í d o s diversos.. .) sub l inha a
p r o d u ç ã o de u m a certa f o r m a ç ã o do inconsc ien te , e se este ato cor responde a
4 Lacan enfaticamente sublinhou esta d e s p r o p o r ç ã o , "esta "Disparidade" [.,.] sublinha
essencialmente que aquilo de que se trata vai mais longe que a simples n o ç ã o de uma
dissimetria entre os sujeitos. H á o insurgimento, se posso dizer, desde o p r i n c í p i o ,
contra a idé ia de que a intersubjetividade possa, por si, fornecer o quadro no qual se
inscreve o f e n ô m e n o " (J. Lacan, Le transferi, 16 de novembro de 1960).
O AMOU AO AVESSO
u m a certa s i t u a ç ã o t ransferenciai , o analista se v è assim engajado na p r o d u ç ã o de
u m a tal f o r m a ç ã o . D e u m lado , a p r o d u ç ã o d o inconsc ien te c o n c e r n i d a (lapsos,
atos fa lhos, ratas diversas...) se m o s t r a r á sob a f o r m a de u m a d i s t o r ç ã o s i g n i f i c a n -
te c u j o va lo r " i n t e l e c t u a l " n ã o deixa d ú v i d a , e n q u a n t o que . de o u t r o l ado , na
t r a n s f e r ê n c i a , c o m o se pode d izer e n t ã o c o m bons m o t i v o s , o analista é "a fe ta -
d o " p o r u m a tal p r o d u ç ã o e m u m lugar pe lo qua l sua p r e s e n ç a responde . Esta
c o n j u n ç ã o d o in t e l ec tua l e d o a f e t i v o t i ra d o analista o lugar de u m b o m c o m -
p a n h e i r o c o m o qua l se pode se d i v e r t i r n o m o m e n t o de algumas e x c u r s õ e s
f reudianas . D o r a v a n t e ele é parte pregnante de u m s i n t o m a distante de ser s em-
pre d i v e r t i d o .
O c o r r e assim, p o r e x e m p l o , nesta cur ta s e q ü ê n c i a : a inda que n à o tivesse
n e n h u m m e i o de conhece r meus costumes e meus defe i tos , esta j o v e m m u l h e r
estava c o n v e n c i d a de que eu era u m escravo d o t raba lho , e sgo tando-me d ia -a -
dia e s u p o r t a n d o i m p a c i e n t e m e n t e t u d o o que pode r i a d i s t r a i r -me disso. A t é aí
esta r e p r e s e n t a ç ã o de m i m , ta lvez u m p o u c o austera, n ã o de ixava de m e dar
u m a seriedade de que eu n ã o m e p o d i a que ixa r .
I n t e i r a m e n t e o u t r a coisa f o i a c r e n ç a , p o u c o a p o u c o c o n s t i t u í d a p o r ela
c o m o d o g m a , de que m e u o b j e t i v o conce rnen t e a sua cura era c o l o c á - l a para
trabalhar, f a z ê - l a sair d o fkmiente r e l a t ivamente t r a n q ü i l o e m que u m a c o n -
f o r t á v e l f o r t u n a f a m i l i a r a t é e n t ã o a t i n h a acan tonado , d e i x a n d o - l h e o lazer de
exercer alguns pequenos o f í c i o s n o d o m í n i o da arte o u d o m ó v e l a n t i g o ( a t i v i -
dade e m que p o d i a empregar a i n t e l i g ê n c i a ociosa q u a n d o t i n h a d i f i c u l d a d e de
o c u p a ç ã o honrosa) . E la p o u c o a p o u c o convenceu-se , sem que e u dissesse a
m í n i m a coisa a este respei to, que estes t empos e d ê n i c o s c h e g a v a m a seu fim, e
que l h e seria preciso e m breve passar às vias de f a to n u m a sociedade p r o n t a a
relegar ao lugar de escravo qua lque r u m que n ã o desse r a p i d a m e n t e suas provas .
A in te rva los regulares, e c o m o se lhe fosse preciso ganhar t e m p o , ela n ã o d e i x a -
va de se de fende r c o m v e e m ê n c i a con t r a minhas s o l i c i t a ç õ e s supostas, a r g u -
m e n t a n d o sobre seus prepara t ivos e sobre o t raba lho n o t u r n o j á e m curso , ape-
sar de alguns p rob lemas de i n t e n d ê n c i a . A a t iv idade d i u r n a e n o t u r n a q u e des-
crevia dever ia estar apta, segundo e b , a acalmar m i n h a e v e n t u a l i ra e ela p o d e r i a
a t é h o n r a r d i g n a m e n t e , ao m e s m o t e m p o , a m e m ó r i a de F r e u d , i n v e n t o r d o
d i a b ó l i c o d i spos i t i vo cu jos cons t r ang imen tos ela e x p e r i m e n t a v a .
A t é o dia e m que ela m e pe rgun ta , mais u m a vez, se eu m e dava c o n t a de
seu e s f o r ç o . . . de que ela estava t raba lhando. . . "tensa da m a n h ã a t é a n o i t e , isso
i n c i t a e ela t rabalha c o m o u m . . . louco" N ã o d e i x e i de sub l i nha r , r u i d o s a m e n t e
é verdade , a a p a r i ç ã o deste louco t ã o n o t a v e l m e n t e m a s c u l i n o . E b acabava de
dec l inar -se c o m o u m l o u c o , mais que c o m o u m a l o u c a , n o m o m e n t o e m q u e
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 81
encarava u m a a t iv idade p r ó x i m a , e sem d ú v i d a n e n h u m a devia esta man i f e s t a -
ç ã o s i n t o m á t i c a à p r e s s ã o suposta da t r a n s f e r ê n c i a , que assim revelava u m a e m -
b a r a ç o s a c o n t r a d i ç ã o entre a f e m i n i l i d a d e e o t raba lho . R e t r o a t i v a m e n t e , nesta
cur ta frase, certos t e rmos t o m a v a m , deve-se dizer , u m cer to r e l evo . D o que
estava tenso ao que incitava, a t é ao que trabalhava, era m u i t o t en t ado r l e r u m
avatar do penisneid, sendo o mascu l i no assimilado p o r ela h á m u i t o t e m p o à
a t iv idade laboriosa, c o m o c o n f i r m a v a a c o n j u g a ç ã o v i r i l do f i m de sua frase.
O s i n t o m a confessava assim sua p r e s e n ç a , e m c i r c u n s t â n c i a s de que o
analista par t ic ipava . E isto tan to mais que este era m e m b r o desta p o r ç ã o da
h u m a n i d a d e p r o v i d a do o b j e t o l i t i g i o s o , p e r t i n ê n c i a que pode r i a sempre de ixa r
pensar que estava disposto a m e d i r c o m sua pretensa super ior idade a ou t r a m e -
tade do g ê n e r o h u m a n o .
O q u e se t r a t a d e f a z e r o p e r a r d u r a n t e a c u r a :
o s a b e r i n c o n s c i e n t e , b i n á r i o
I
O inconscientenão tagarela, escreve, sempre pronto a se colocar em
trans do que se d iz 1 Q u a n d o se aplica o q u a l i f i c a t i v o " i n c o n s c i e n t e " ao que
a l g u é m acaba de dizer , este t e r m o deixa pensar que o l o c u t o r n ã o se deu con ta
do alcance de suas palavras. Nes te sent ido , t u d o se passaria c o m o se, t ranspor ta -
do p o r seu a r reba tamento , o pensamento devesse ultrapassar a i n t e n ç ã o daquele
que acaba de falar, este ú l t i m o t endo , apesar dele, exposto u m de seus vo tos
secretos. Se quisesse r e to rna r ao que acaba de dizer , seria preciso n e g á - l o o u se
jus t i f icar . Nescit vox missa reverti ( uma palavra p r o n u n c i a d a é i r r e v o g á v e l ) .
E n t r e t a n t o , é u m desejo que n ã o t e m nada de inconsc ien te que se v ê f r e q ü e n -
t emente desmascarado deste m o d o . U m pensamento p r i v a d o e x p õ e - s e às claras,
de f o r m a que aparece c o m o u m a p r o v o c a ç ã o mais o u menos escandalosa, e
empregaremos i m p r o p r i a m e n t e o t e r m o inconsc ien te para qua l i f i ca r esta c o n -
1 N a Proposição de 9 de outubro de 1967, Lacan formal izou u m algori tmo que subli-
nha seu efeito de escrita:
S . • S*
s (S1 S2, S")
Onde S é "o significante da t ransferência , isto é, de u m sujeito, com sua impl icação
por u m significante que diremos qualquer, mas reduzido ao padrão de suposição do
pr imei ro significante; o s representa o sujeito que disso resulta, implicando no p a r ê n -
tese o saber, suposto presente, dos significantes no inconsciente, s ignif icação que t em
o lugar do referente ainda latente, nesta relação terceira que o associa ao par significan-
te—significado."
S4 O \ M O R <n AVESSO
f i ssão de u m desejo secreto, c o n h e c i d o p o r aquele que acaba de f a z ê - l a . T i r a d a
a sorte, este ú l t i m o nada a p r e n d e r á de n o v o , a n à o ser que ele era t raba lhado p o r
este desejo mais p r o f u n d a m e n t e d o que acreditava, e a p o n t o de c o n f e s s á - l o .
O c o r r e mais raramente que o p r ó p r i o l o c u t o r seja s u r p r e e n d i d o p e l o
c o n t e ú d o d o que acaba de p r o f e r i r , e n ã o somente pe lo fa to de que o tenha d i t o
sem querer . U m pensamento n o v o assim se e x p ô s . E n t r e t a n t o , o f a to de que
u m saber seja latente é su f ic ien te para q u a l i f i c á - l o de inconsciente? Estas desco-
bertas p o d e m n ã o d izer respeito ao inconsc ien te p r o p r i a m e n t e d i t o , q u e r dizer ,
u m a c o n t e c i m e n t o recalcado, mas somente a u m saber la tente que n u n c a f o i
a lvo de u m recalque. P o r t a n t o , é na i n s í g n i a d o p r é - c o n s c i e n t e que c o n v é m
co loca r estas e s p é c i e s de achados.
Se o inconsc ien te qua l i f i ca este saber, n ã o é n o sen t ido e m que ele mes-
m o se i gnora r i a , pois a r e f l e x i v i d a d e só representa u m a das c a r a c t e r í s t i c a s p o t e n -
ciais d o saber. A m a t e m á t i c a que regra o m o v i m e n t o das estrelas, p o r e x e m p l o ,
i g n o r a a si mesma, j á que seu m o v i m e n t o n ã o cor responde a n e n h u m a escrita
que a comandar i a . A p r ó p r i a pureza de sua r e lo joa r i a regrada faz sua fa lha , j á que
seu m o v i m e n t o n u n c a n e c e s s i t a r á de a l g u m su j e i t o para conhece r a si m e s m o —
exce to o deus i n t e i r a m e n t e r e t ó r i c o dos filósofos. Se este saber é i nconsc ien te ,
n ã o é n o sen t ido f r e u d i a n o . U m saber p o d e p e r f e i t a m e n t e , pois , ser fa l toso de
seu su j e i t o , sem que aí se tenha d e f i n i d o a inda o i nconsc i en t e c o n t r a d i t ó r i o e
d i v i d i d o da neurose .
A a s s o c i a ç ã o l i v r e — e c o m ela o d e s e n v o l v i m e n t o da cura p s i c a n a l í t i c a
— p o d e r i a ser c o m p r e e n d i d a c o m o o resul tado de u m d e s e n v o l v i m e n t o n ã o
c o n t r a d i t ó r i o d o saber, c o m o se este ú l t i m o , somen te p r é - c o n s c i e n t e , estivesse
à espera de seu su j e i t o . Seria su f i c i en te e n t ã o , segundo u m a certa t é c n i c a , i n j e t a r
este s u j e i t o e m seu lugar q u a n d o o analisante fala sem saber o q u e d i z (al iás ,
c o m o cada u m faz f r e q ü e n t e m e n t e ) . V i m o s que , e m se c o n t e n t a n d o c o m esta
o p e r a ç ã o , a p s i c a n á l i s e nada ter ia t r az ido de n o v o . A q u e l e que " s u b j e t i v a " o
discurso nestas c o n d i ç õ e s o faz a pa r t i r de u m a p o s i ç ã o de mest re ( c o m o , p o r
e x e m p l o , na p r á t i c a K o a n zen) . Para o b t e r u m tal e f e i t o , n ã o h á n e n h u m a
necessidade de t ransfer i r , é su f i c i en te obedecer . Esta o p e r a ç ã o ex ige u m a i d e n -
tificação (somente u m a ) e n ã o r eque r o saber i nconsc i en t e .
O processo d i f e r e q u a n d o , u m a certa f o r m a ç ã o d o i n c o n s c i e n t e t e n d o
v i n d o à l u z na palavra d o analisante, se tratar de atual izar a t r a n s f e r ê n c i a d o saber
c o n t r a d i t ó r i o que a ela cor responde . Este saber i nconsc i en t e s e r á supos to à q u e l e
a q u e m a palavra se e n d e r e ç a . E m f u n ç ã o desta s i t u a ç ã o de t r a n s f e r ê n c i a i n t e i r a -
m e n t e p r o v i s ó r i a , o analisante p r o d u z i r á lapsos, sonhos e a p r e s e n t a r á os s i n t o -
mas e s p e c í f i c o s d o m o m e n t o .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVKE 85
Exis t e u m p o n t o de r e s i s t ê n c i a i n t e r n o ao saber, h o m o g ê n e o ao p r ó p r i o
recalque , c u j o í n d i c e é dado pe lo estado da t r a n s f e r ê n c i a 2 A a s s o c i a ç ã o l i v r e
n u n c a se d e s e n v o l v e r á sem esta r e s i s t ê n c i a . E la f o r m a o l i m i t e da f r a t e rn idade
sub je t iva que u n e aquele que fala à q u e l e que escuta. M u i t o d i f e r en t e de u m
saber p r é - c o n s c i e n t e é aquele que c o m p o r t a e m si m e s m o u m a ta l c o n t r a d i ç ã o
que revela i m p o s s í v e l enunc ia r para ela u m t e r m o sem que i m e d i a t a m e n t e o
t e r m o cor responden te escape à c o n s c i ê n c i a . A b inar idade deste saber d i s jun ta a
cada vez que é expos to . Desde que o saber se associe l i v r e m e n t e , ele r u m a para
o que o dissocia. A b a n d o n a d o a sua p r ó p r i a encosta, desdobrando-se sob a
l iberdade v ig iada de u m a t r a n s f e r ê n c i a p lena d o tesouro de seu c o m p l e m e n t o ,
ele se d i s jun ta . E p o r q u e se mos t ra t r u n c a d o do que o c o m p l e m e n t a r i a que sua
p r ó p r i a d i v i s ã o chama à t r a n s f e r ê n c i a . D e f a to , q u a n d o o analisante enunc i a u m
t e r m o deste saber d i s j u n t i v o , a s e q ü ê n c i a que lhe é acoplada n o inconsc i en te se
transfere para o lado do analista. Este suporta , pois , a d i s j u n ç ã o . O pensamento
que lhe é a t r i b u í d o cont rar ia , neste sent ido , o que o analisante p r o c u r a e x p r i -
m i r , is to é , a verdade de que busca aprox imar - se . D e mane i r a que, à m e d i d a que
sua fala se desenvolve , na m e d i d a e m que nada v e m escandi-la, a c o m p l e t u d e
desta verdade se afasta tan to mais seguramente quan to mais é acossada — dando
a i m p r e s s ã o de que nada p o d e r á cansar mais a verdade que suas provas. U m a
i m p o s s í v e l c o m p l e m e n t a ç ã o an ima agora o m o v i m e n t o da t r a n s f e r ê n c i a . U m
saber, fa l toso d o saber que lhe daria sent ido , p r o c u r a seu i r m ã o p e r d i d o n o
analista. É a este ú l t i m o que se e n d e r e ç a u m a palavra t runcada de sua i n a c e s s í v e l
m e t a d e 3
Esta c o n t r a d i ç ã o , e m que se suporta o s in toma , t o r n a toda e x p l i c a ç ã o
ine f i caz e a t é i n c o m p r e e n s í v e l na l ó g i c a c o m u m . A s s i m c o m este paciente que
2 Ela exige ser, de fato, apreciada, "manejada" como escreve Ferenczi: "Quantos esfor-
ços e penas teriam sido evitados se, durante meus estudos, me houvessem ensinado a
arte de manejar a t ransferência e a resis tência" (Sandor Ferenczi, Psychanalyse 4,
Oeuvres complètes, t. I V , 1927-1933, Payot, 1982).
3 Pode-se comentar agora c o m mais precisão a escrita proposta precedentemente. A
binaridade do saber do inconsciente corresponde à duplicidade da t ransferência . D e
acordo c o m a escrita que dela p r o p ô s Lacan, o saber inconsciente merece este índ ice
da cifra dois (S 9), de u m lado porque sucede ao recalque or ig inár io e, de outro lado,
porque este saber d iv id ido é duplo, buscando o complemento que lhe permit i r ia
saber-se. Chocando-se com esta duplicidade, o amor pr imeiro da t ransferência encon-
tra u m m u r o , a ponto de que frente a este l imi te ele se inverta, se transforme, se n ã o
em ó d i o , ao menos numa demanda de expl icação cuja v io lênc ia será proporcional à
falha do saber.
O AMOR AO AVESSO
acabara de " c o m p r e e n d e r " u m a s e q ü ê n c i a de sonho , ainda que este esclareci-
m e n t o só se fizesse ao p r e ç o de obscurecer qual havia sido seu papel na coisa.
Ele quis dizer: " E u m e d o u con ta . . . " e d iz : " l . u me v o l t o c o n t r a . . . " E n ã o
o u v e i m e d i a t a m e n t e nesta frase: " E u me e n c o n t r o " * sent ido que . acrescentado
aos precedentes, i lustraria pe r fe i t amen te esta c o i n c i d ê n c i a e m f u n ç ã o da qua l ele
n ã o t inha consegu ido apreender-se a n ã o ser se de ixando .
II
A binaridade do saber do inconsciente poderia ser compreendida como
u m a o p o s i ç ã o simples, a n á l o g a à o p o s i ç ã o d o dia e da n o i t e , d o b r a n c o e d o
p re to , d o quen te e d o f r i o , etc. E n t r e t a n t o , se este fosse o caso, n ã o exis t i r ia
n e n h u m a r a z ã o para que u m tal saber escapasse à c o n s c i ê n c i a . E preciso fazer
u m e s f o r ç o c o m p l e m e n t a r para c o m p r e e n d e r que o t e r m o " c o n t r a d i t ó r i o "
empregado a p r o p ó s i t o da b inar idade , s ign i f ica que u m t e r m o implica o que o
con t rad iz , de f o r m a que escapa à l ó g i c a c o m u m (o que seria o caso se " n e g r o "
n ã o fosse somente o c o n t r á r i o de " b r a n c o " mas se significasse t a m b é m a p r e -
s e n ç a , a a p a r i ç ã o p r ó x i m a d o " b r a n c o " ) 4
O que é u m pensamento " e m si m e s m o " c o n t r a d i t ó r i o ? " A m o m e u
p a i " p o r e x e m p l o , é u m pensamento que por t a u m a c o n t r a d i ç ã o , p o r q u e s ó o
a m o pe lo f a to de sua f u n ç ã o , que o faz t a m b é m u m p o u c o a m á v e l r i v a l 5 Eis o
que m e dever ia levar , c o n s e q ü e n t e m e n t e , a o d i á - l o c o m u m a v i o l ê n c i a p r o p o r -
c i o n a l à d o m e u a m o r . E n t r e t a n t o , a p r o p o s i ç ã o segundo a q u a l " a m o m e u p a i "
traz u m a s é r i e de c o n s e q ü ê n c i a s para meus pensamentos assim c o m o para m i -
nhas a ç õ e s e, ao m e s m o t e m p o , aquela segundo a qua l " e u o o d e i o " — t a m b é m
* E m francês , respectivamente:Je me rends compteje me rends contre tJemerencontre,
j o g o de homofon ia e p a r o n í m i a . ( N T )
4 Esta observação faz pensar no artigo de Freud sobre Dessens opposés desmotsprímitiB
[Os sentidos opostos das palavras pr imit ivas j , cu jo campo de apl icação é mais extenso
do que parecia a p r i nc íp io . Todavia, neste texto de Freud e apesar da ampli tude que se
lhe pode atribuir , este sentido oposto fica l imi tado e seu campo de ap l icação p r i m i t i -
vo , e x ó t i c o , impede fazer dele a genera l ização que convir ia . C f , por exemplo, a
palavra francesa bouche— abertura e fechamento — , o u ainda personne— n i n g u é m
e a l g u é m — , ou mesmo o verbo a l e m ã o aufheben — suspensão e m a n u t e n ç ã o , etc.
5 " [ . . . ] a t ransferência é algo que coloca em causa o amor, coloca-o em causa m u i t o
profundamente no que diz respeito à re f lexão analí t ica para que aí tenha in t roduz ido ,
como uma d imensão essencial, o que se chama sua ambiva lênc ia" (J. Lacan, Le transferi,
sessão de 14 de dezembro de 1969).
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 87
cons tan temente — c o m p o r t a r á u m a ou t ra sé r i e associativa e os atos c o r r e s p o n -
dentes. D e m o d o que nada p o d e r á u n i r estas duas sé r i e s disjuntas, a n ã o ser o
s i n toma — n o caso, p o r e x e m p l o , o s en t imen to re l ig ioso que t e s t e m u n h a r á p o r
sua c o n j u n ç ã o i l ó g i c a , a de u m pai assassinado e d i v i n i z a d o . E m tais c i r c u n s t â n -
cias, o p r ó p r i o pensamento se sustenta p o r seu c o n t r á r i o ; o a m o r p o r t a e n t ã o o
ó d i o , e a d e n e g a ç ã o a p r o p ó s i t o de u m o u o u t r o destes sen t imentos , q u a n d o é
u t i l i zada na cura pe lo paciente , parece-se c o m u m socor ro de n e n h u m a va l i da -
de para suspender u m a c o n t r a d i ç ã o e m que u m dos te rmos n ã o parece mais
ve rdade i ro que o o u t r o , j á que e s t ã o n u m a r e l a ç ã o de i m p l i c a ç ã o m ú t u a . N e -
n h u m p r o c e d i m e n t o discurs ivo parece, pois , capaz de desfazer a c o n t r a d i ç ã o
que u m tal t i p o de pensamento c o m p o r t a — n e m , c o n s e q ü e n t e m e n t e , o s i n t o -
m a co r r e sponden te 6 N ã o é exatamente esta imposs ib i l idade que o afeto teste-
munha? Quase a cada vez que u m analisante sente u m a e m o ç ã o i n e x p l i c á v e l ,
l á g r i m a s o u r iso, ent re outras, estaremos certos de d ispor de u m b o m í n d i c e da
c o n j u n ç ã o d i s jun t iva . M a i s precisamente ainda, no ta remos o quan to é f r e q ü e n -
te que u m a m á n o t í c i a seja anunciada c o m u m sorriso o u u m ataque de r i so .
C o m o as c o n t r a d i ç õ e s do inconsc ien te aparecem duran te a cura? É o
e q u í v o c o às vezes ev iden te do s ign i f i can te que p e r m i t e e x p o r a b ina r idade d o
saber inconsciente? Este p o d e ser o caso, ainda que e x c e p c i o n a l m e n t e . C e r t a -
m e n t e numerosos s ignif icantes p o d e m ser e q u í v o c o s e p o d e m deno ta r s i g n i f i -
c a ç õ e s d i ferentes e m f u n ç ã o do c o n t e x t o . N o en tan to , os j o g o s de palavras e as
i n v e r s õ e s f á c e i s só ocas ionalmente c o r r e s p o n d e m à b inar idade do saber i n c o n s -
ciente . Eis , al iás , u m a i n a d e q u a ç ã o d e s a g r a d á v e l , pois se a b inar idade c o r r e s p o n -
desse ao e q u í v o c o , a p s i c a n á l i s e seria u m a p í l u l a de prazer dourada c o m alegres
6 Certos conceitos psicanalíticos permanecem praticamente incompreensíveis na lógica
comum. E o caso, por exemplo, de termos como "complexo paterno" ou ainda "cas-
t r a ç ã o " Quando eles são descritos no discurso corrente — e por que n ã o tentar f a z ê -
lo? — , perdem imediatamente o essencial de sua signif icação. Assim a "cas t r ação"
evoca a evi ração, quando ela condiciona o desejo. Assim o amor do pai t em como
c o n s e q ü ê n c i a o fantasma de seu assassinato, etc. A dificuldade é tal que muitos psica-
nalistas podem desencorajar-se a ponto de renunciar explicar o processo da cura, es-
tando armados de tão más ferramentas. Da mesma maneira que os conceitos psicana-
lí t icos, as f o r m a ç õ e s do inconsciente se nodu lampor def in ição tão contraditoriamente
que sua apresen tação só poderia ser s in tomát ica . Por exemplo, onde vai poder parar
uma j o v e m mulher que, percebendo que seu marido e sua melhor amiga parecemter
uma t e n d ê n c i a u m pelo outro, não deixará de sonhar representando seu esposo vesti-
do c o m suas roupas femininas, e deambulando nos braços de sua rival? Pensará que seu
marido se serviu dela para se aproximar de sua amiga, ou, ao con t r á r io , imag inará uma
s i tuação que deixa l ivre curso a uma homossexualidade sua que quereria ignorar?
XV O AMOR AO AVESSO
ataques de riso! N o f r a g m e n t o seguinte, encon t ra remos u m e x e m p l o de s i g n i f i -
can te q u e , n o t a r e m o s , s ó se r e v e l o u b i n á r i o n o s ó - d e p o i s de sua l e i t u r a
t ransferencia i .
Esta m u l h e r j o v e m se separara algumas semanas antes de seu c o m p a n h e i -
r o . A l i á s , f o i n e c e s s á r i o que se estabelecesse esta d i s t â n c i a para que ela se desse
con ta de que m u i t o s t r a ç o s f az i am deste h o m e m u m a dup l i ca t a de seu pa i . E ,
a inda que tenha sido ela q u e m p r e c i p i t o u a r u p t u r a , n à o menos atravessava u m
p e r í o d o depressivo, t ã o s o f r i d o q u a n t o u m a e s p é c i e de l u t o . Q u a n d o , du ran te
u m a s e s s ã o , ela de ixa suas a s s o c i a ç õ e s vagarem, e m b a r a ç a - s e l i g e i r a m e n t e q u e -
r e n d o p r o n u n c i a r a palavra perpétuo. N a verdade, a palavra que ela tentava
a r t icu la r , t e n d o sido mais da metade engo l ida , n ã o parecia grande coisa q u a n d o
c h e g o u a meus o u v i d o s e, n o caso de u m a semelhante c o n f u s ã o , somen te c o m
d i f i c u l d a d e se p o d i a falar de lapso. E n t r e t a n t o , a palavra l i t ig iosa t e n d o sido
destinada a q u a l i f i c a r u m a d e p r e s s ã o que ela t e m i a fosse perpétua, é c o m m o t i v o
que ela a considera carregada de u m e q u í v o c o , b e m f u n d a d o neste caso. A
c o n f u s ã o resultava da mis tu ra de duas cadeias: de u m lado , lhe parecia haver
r e co r t ado perpétua segundo esta s i g n i f i c a ç ã o o n d e o pai está morto nela* e, de
o u t r o l ado ela p roced ia desta l e i t u r a inversa segundo a qua l ela m e s m a ter ia sido
m o r t a — Père...(pe)...tue...elle— p o r u m a i n s t â n c i a paterna. L o n g e de c o n s t i -
t u i r u m j o g o de palavras f ác i l , estas duas lei turas f o r a m ver i f icadas p o r u m t raba-
l h o de a n á l i s e an te r io r .
O e q u í v o c o que ela trazia e m perpétua c o m p o r t a v a u m d u p l o sen t ido
c o n t r a d i t ó r i o , pois n ã o é a mesma coisa mata r o u ser m o r t a . E n t r e t a n t o , estas
duas v e r s õ e s se apresentavam e m c o n t i n u i d a d e en t re si: f o r a exa tamente ela
q u e m dera o p r i m e i r o g o l p e e x i g i n d o u m a s e p a r a ç ã o , a inda que a c o n s e q ü ê n c i a
deste g o l p e tenha s ido ela mesma ser abatida, c o m o u m a e s p é c i e deste e f e i t o
b u m e r a n g u e t ã o c a r a c t e r í s t i c o de t o d o fantasma de assassinato. Nes t e sen t ido ,
este e q u í v o c o descobria u m a ú n i c a s e q ü ê n c i a d o saber i n c o n s c i e n t e , aquela q u e
conce rne ao assassinato d o pa i e ao l u t o pa radoxa l que a ele se segue ge r a lmen te .
Este m o r t o a matava , c o m o most rava a d e p r e s s ã o que ela atravessava. A a m b i -
g ü i d a d e s ign i f i can te t i n h a estado a q u i a s e r v i ç o da descoberta de seu p r ó p r i o
desejo, p o r q u e f o r a ela mesma q u e m t i n h a p r i m e i r o s i g n i f i c a d o a r u p t u r a . E n -
t r e t an to , ela f o r a , a t é este dia , incapaz de c o m p r e e n d e r q u a l era a causa deste
desejo. P o r que , c o m e f e i t o , o assassinato s i m b ó l i c o encenado p o r esta separa-
ç ã o dever ia te r u m ta l resultado? Francamente f a l ando , ela n ã o p o d i a passar e m
* E m francês, respectivamente, perpétuel, perpétueüe e lepère esc tué en clle. ( N T )
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 89
s i l ê n c i o que a r u p t u r a t i n h a sido p rovocada p o r u m a h i p o t é t i c a i n f i d e l i d a d e ,
que nada parecia ter c o n f i r m a d o depois. Desde sempre esta j o v e m m u l h e r este-
ve obsedada p o r sua r iva l idade p o t e n c i a l c o m u m a ou t r a m u l h e r , qua lque r u m a ,
al iás . A s s i m , era p l a u s í v e l que u m a r u p t u r a t ã o b r u t a l , c u j o m o t i v o t i n h a s ido
i m p r o v á v e l , i nc lus ive a seus p r ó p r i o s o lhos , tenha estado a s e r v i ç o de u m inces-
to f a n t a s m á t i c o , cu jos efei tos s ã o sempre t ã o devastadores. As c i r c u n s t â n c i a s da
s e p a r a ç ã o d e i x a v a m supor u m ta l c e n á r i o , mas somente os avatares da t ransfe-
r ê n c i a i r i a m p e r m i t i r c o n f i r m á - l o .
I n i c i a l m e n t e , u m p r i m e i r o í n d i c e d o que marcava esta e s p é c i e de p e r í o -
do de l u t o t i n h a a t r a í d o m i n h a a t e n ç ã o . É que esta analisante, sempre t ã o p o n -
tua l e t ã o respeitosa e m r e l a ç ã o à regra estabelecida, v iu - se vá r i a s vezes incapaz
de pagar. E la se c o m p o r t a v a c o m o se a sessão devesse ser- lhe conced ida g r a t u i -
t amente , e n is to era preciso ve r o s igno de u m a p r o t e ç ã o mate rna . Este í n d i c e
ainda era p e q u e n o re l a t ivamente ao sonho que se i r i a seguir, sonho e m que eu
era representado p o r t a n d o u m t r a ç o c o m u m c o m sua m ã e . Nes te sonho m u i t o
c u r t o , eu estava n u m a cidade de ve rane io . E u j o g a v a n o cassino e estava sentado
f r e n t e à mesa verde , quase que escondido p o r u m a e n o r m e p i l h a de f ichas .
C la ramen te ganhe i m u i t o d i n h e i r o . . . Os ou t ros jogadores m e obse rvavam c o m
u m a certa an imos idade , c o m o se t ivessem i n v e j a de m e u sucesso... D e p o i s , a
h i s t ó r i a c o m p o r t a v a u m a c o n t i n u a ç ã o de q u e a s o n h a d o r a n ã o mais se l e m -
b rava .
O que ela pode r i a d izer a p r o p ó s i t o de t ã o c u r t o esquete? Sua p r i m e i r a
a s s o c i a ç ã o d iz ia respei to ao cassino, lugar de d i v e r t i m e n t o h a b i t u a l de u m a c ida -
de t e r m a l m u i t o aborrec ida onde , mui tas vezes e m sua i n f â n c i a , havia passado as
f é r i a s c o m sua m ã e . E la se l embrava e m par t i cu la r de u m a n o i t e o n d e esta
ganhara u m a pequena quant ia , mas n ã o era c o m isso, que nada t i n h a de e x t r a o r -
d i n á r i o , que f icara espantada. U m o u t r o acon tec imen to se t i nha p r o d u z i d o p o u c o
depois e ela ainda sentia v e r g o n h a ao vo l t a r a pensar nele . D e p o i s de ter a c u m u -
lado u m ganho bastante s i g n i f i c a t i v o , sua m ã e estava n o sa lão e m c o m p a n h i a de
alguns amigos . O champanha havia acrescentado u m a n o t a sup lementa r de ale-
gr ia à f e l i c idade que a sorte havia revelado e u m j o v e m h o m e m presente n a q u e -
le m o m e n t o acredi tou-se au to r izado a fazer alguns galanteios, u m p o u c o v i v o s
demais, sem d ú v i d a , à j o v e m m u l h e r . T a l v e z fosse cos tume , nestes lugares —
mas o f a t o é que ele acreditava j á estar e m te r reno conqu i s t ado . A v i o l ê n c i a
c á u s t i c a c o m que sua m ã e o despediu, n u m á p i c e , e levando a v o z a p o n t o de a
a s s i s t ê n c i a f i c a r m u d a , eis a l e m b r a n ç a que a paralisava ainda.
C o n s i d e r a n d o o desenrolar desta cena, e c o m o f r e q ü e n t e m e n t e é o caso,
o lapso perpétua já. era u m a a s s o c i a ç ã o sobre o sonho , c u j o re la to v i r i a depois .
<J0 O AMOR AO AVESSO
Este e f e i t o de s ó - d e p o i s s ó aparecia c o m e v i d ê n c i a n o m o m e n t o da e v o c a ç ã o de
sua m ã e desped indo u m j o v e m h o m e m — da mesma f o rm a que ela acabara, p o r
sua parte , de despedir seu amante? Ass im, o analista se v i u afe tado n u m ce r to
lugar p o r este sonho , aquele, m a t e r n o , que correspondia à parte t ã o desco-
nhec ida q u a n t o incestuosa d o perpétu.i. C o m e f e i t o , se o fantasma de assassinato
d o pai t e m u m a f u n ç ã o , é exatamente a de au tor izar o incesto c o m a m ã e , p o r
m o r t í f e r o que seja.
T ã o l o n g e q u a n t o fossem as a s s o c i a ç õ e s concernentes ao e q u í v o c o deste
s ign i f i can te , elas nunca p o d e r i a m d izer nada sobre esta a f e t a ç ã o , que f o r m a v a o
l i m i t e i n t e r n o d o saber, o p o n t o o n d e se i n t e r r o m p i a seu des l i zamento . Seria
preciso considerar o s ign i f i can te d o p o n t o de vista da i d e n t i f i c a ç ã o emprestada
ao analista, e este exame p e r m i t i r i a v e r i f i c a r que o e q u í v o c o cor respond ia exa-
t amen te à b ina r idade d o saber inconsc ien te (incesto/assassinato d o p a i ) 7
III
Como notamos neste exemplo, a contradição do saber inconsciente é
portada p o r u m só s ignif icante (perpétuel/e). N o discurso cor ren te , os significantes
b i n á r i o s s ã o c o m u n s , mas a possibi l idade de isolar esta b ina r idade n ã o é f r e q ü e n -
te. P o d e m o s somen te assinalar seu e fe i to n o n í v e l da d u p l i c i d a d e da t r a n s f e r ê n -
cia, e m par t i cu la r g r a ç a s à d e n e g a ç ã o . A d e n e g a ç ã o c o n s t i t u i , sabemos, u m í n d i -
ce c l á s s i co d o r e c o n h e c i m e n t o d o saber inconsc ien te pe lo t u r g i m à o d o o u t r o da
t r a n s f e r ê n c i a . Q u a n d o u m analisante relata u m sonho o u q u a n d o e x p õ e u m a
ou t r a f o r m a ç ã o s i n t o m á t i c a , acontece- lhe f r e q ü e n t e m e n t e i m a g i n a r que o ana-
lista v a i " i n t e r p r e t a r " o que ele descreve n u m cer to sen t ido , e q u a n d o este
sen t ido n à o lhe c o n v é m ele v a i negar o pensamento q u e a t r i b u i ao o u t r o . O
e x e m p l o dado p o r F r e u d e m seu t e x t o Die Verneinung e x p l i c i t a este p r o c e d i -
m e n t o : " V o c ê va i pensar que essa pessoa que aparece n o m e u s o n h o é m i n h a
m ã e — d i r á u m paciente — pois b e m ! n ã o é de j e i t o n e n h u m . " F r e u d c o n v i d a
a tirar deste e n é r g i c o p ro tes to a certeza de que se trata exa tamen te da m ã e d o
sonhador , i den t i f i c ada g r a ç a s a este p r o c e d i m e n t o . Q u a n d o u m a s i g n i f i c a ç ã o é
denegada, esta nega t iv idade , q u e l h e pe rmanece ex te rna , t e m o m é r i t o de a f i r -
m a r f o r t e m e n t e sua pos i t i v idade — segundo a d u p l i c i d a d e d o s i g n i f i c a n t e i n -
c o n s c i e n t e . O q u e , ao m e s m o t e m p o , e s t á e n ã o e s t á apresenta a m e s m a
" Q u e o inconsciente diga sempre a verdade e que ele minta é, nele, perfeitamente
sus tentável . Cabe a nós sabê- lo (Jacques Lacan, D'un discou rs qui ne seraic pas du
semblant, 17 de fevereiro de 1971).
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 91
d u p l i c i d a d e que a que se p o d e ler n u m s ign i f i can te e q u í v o c o , q u a n d o , m u i t o
ocas iona lmente , ele cai j u s t o .
O í n d i c e c l á s s i co de u m pensamento c o n t r a d i t o r i a m e n t e associado ao
pensamento parece, e n t ã o , revelar-se g r aça s à " d e n e g a ç ã o " e é preciso se pe r -
gun ta r se, p o r este m e i o , a c o n t r a d i ç ã o f i n a l m e n t e se rá suspensa. Poder -se- ia
p e n s á - l o , j á que g raça s ao discurso u m a apor ia discursiva f o i colocada, mas o
p r ó p r i o discurso, e n f i m , ter ia p e r m i t i d o s u s p e n d ê - l a ! N a d a menos cer to , n o
en tan to , pois u m a vez que u m pensamento contradisse u m o u t r o , o segundo se
m o s t r a r á c o m o " v e r d a d e i r o " e m d e t r i m e n t o do p r i m e i r o . F r e u d precisa, a l iás ,
que o n o v o saber assim o b t i d o é somente " i n t e l e c t u a l " 8 T u d o se passa, pois ,
c o m o se a s u s p e n s ã o " i n t e l e c t u a l " de u m recalque tivesse de ixado de lado o
" a f e t i v o " , c o m o se a d e n e g a ç ã o tivesse exa tamen te dado o s igno de u m a
dup l i c idade , mas esta ú l t i m a só se r e f e r i r i a ao discurso (e n ã o à b ina r idade do
saber atuado na t r a n s f e r ê n c i a ) . D e f o r m a que, se nos con t en t a rmos e m sub l inha r
u m a d e n e g a ç ã o , ob te remos somente u m " e f e i t o s u j e i t o "
A d e n e g a ç ã o discursiva c o m p o r t a , pois , u m e fe i to de r e v e l a ç ã o p r ó x i m o
do " e f e i t o s u j e i t o " , posto e m ato na t r a n s f e r ê n c i a da b inar idade do saber i n -
consciente . M a s , neste caso, aquele a q u e m a palavra se e n d e r e ç a supor ta a
metade d i s jun ta do que se d iz , cu ja e x p r e s s ã o é i m p o s s í v e l ao mesmo tempo,
a n ã o ser sob a f o r m a de u m afe to . O afeto mostra-se assim c o m o u m a conse-
q ü ê n c i a da d u p l i c i d a d e do saber, tal c o m o se denota na t r a n s f e r ê n c i a . O saber
permanece c i n d i d o do que o m o t i v a , d i v i d i d o p o r seu p r ó p r i o m o v i m e n t o de
descoberta que , t ã o l o n g e quan to vá , i g n o r a r á sempre a parte que de ixa aos bons
cuidados d o o u t r o c o m q u e m se fala. B í f i d a , a t r a n s f e r ê n c i a se apresenta c o m o
afeto de u m lado e c o m o saber do o u t r o , este ú l t i m o n ã o p o d e n d o superar o
p r i m e i r o a n ã o ser r e c o n d u z i n d o - o t a m b é m obscuramente a t é sua ou t r a face.
Nes te sen t ido , o i n t e l ec tua l n ã o se o p õ e ao a f e t i vo . Pelo c o n t r á r i o , ele o c o m -
pleta, j á que o pensamento a r r a z o a r á c o m sua metade desconhecida g r a ç a s ao
afeto: o a f e t i v o é u m a a f e t a ç ã o constante do s ign i f ican te , n o sent ido i n t e l ec tua l
do t e r m o , pos to que cada t e r m o de saber se rá afetado a cada instante pe lo saber
desconhec ido que ele i m p l i c a . A a f e t a ç ã o do analista v a r i a r á nesta m e d i d a , n o
decor re r d o discurso.
8 Lembramo-nos de que, se na denegação Freud assinala que o reconhecimento f ina l da
verdade de u m pensamento inicialmente negado permanece puramente intelectual,
ele n ã o suspende o recalque. C o m o , aliás, o poderia, j á que o "efeito sujei to" da
d e n e g a ç ã o permanece interno ao discurso e não concerne à con t r ad ição que o pensa-
mento inconsciente porta?
92 O ^ M O R A O W t J S O
T o d a v i a , poder-se- ia pensar que a parte n à o conhec ida u m dia se rá r e v e -
lada e que , c o n s e q ü e n t e m e n t e , o o u t r o da t r a n s f e r ê n c i a nada mais r e p r e s e n t a r á
e n t ã o q u a n t o a sua i m a n t a ç à o . E n t r e t a n t o , o que permanece i g n o r a d o de m a -
neira a lguma representa u m t e r r i t ó r i o que poder ia v i r j un ta r - se às terras já des-
cobertas, pois ele j á é i n t r í n s e c o ao mais f a m i l i a r . Se a parte escondida se revela
— e ela o pode m u i t o f a c i l m e n t e — . se rá e n t à o sua metade , a t é agora exposta,
que ca i r á na obscur idade , n à o mais se fazendo reconhecer , p o r sua vez, a n à o ser
g r a ç a s a u m afe to para o qua l o o u t r o da t r a n s f e r ê n c i a p r o p o r á a inda u m a vez o
a b r i g o .
T o d a a t u a l i z a ç ã o e m f o r m a " i n t e l e c t u a r da causalidade d o desejo se f u r t a
a esta d i f i c u l d a d e . E o afe to v e m atenuar este fracasso, f azendo sent i r seu e fe i to
n o p o n t o o n d e o saber se d i v i d e . L o n g e de ser opos to ao pensamento , o afe to
t es temunha , ele t a m b é m , p o r u m pensamento , ainda que seja inconscien te ' '
U m a tal c o n s t â n c i a da a f e t a ç ã o engendrada pe lo pensamento aparece, p o r e x e m -
p l o , neste f r a g m e n t o c l í n i c o : o Senhor J . sempre t r o u x e e m si u m a a m b i ç ã o , a
de escrever e ser r e c o n h e c i d o g r a ç a s aos romances e novelas de que j á havia
e s b o ç a d o v á r i o s manuscr i tos . Ficaremos surpresos ao perceber que este desejo
secreto, f o n t e de suas a n g ú s t i a s e i n s ô n i a s , o c o r r o í a na m e d i d a m e s m o de sua
d i f i c u l d a d e de e m p u n h a r a caneta. I n i b i ç õ e s , suores f r io s f r e n t e à f o l h a e m b r a n -
c o , cada u m a das p á g i n a s que ele l en tamen te elaborara depois se c o b r i r a de
rasuras quase que i n t e i r a m e n t e . Cada u m a das letras que ele t r a ç a v a se dis torc ia
sob seu e s f o r ç o , a p o n t o de ser quase i l e g í v e l . An te s de ser dei tada n o papel , a
m a i o r parte das palavras que ele u t i l i zava era colocada e m c o m p a r a ç ã o c o m seus
s i n ô n i m o s . Cada frase t inha s ido pesada e a t é ce r to p o n t o d e s e m b a r a ç a d a dos
diversos pensamentos a d v e n t í c i o s que a paral isavam. T o r t u r a d o p e l o desejo de
escrever, o Senhor J . t i nha e x p e r i m e n t a d o assim u m a d i f i c u l d a d e que , p o r ser
par t i lhada c o m a m a i o r parte dos h u m a n o s , lhe p e r m a n e c e u m u i t o freqüente-
m e n t e despercebida, c o n v e n c i d o s que todos e s t ã o de que escrever consiste e m
r e p r o d u z i r a fala.
Para d e f i n i r seu s i n t o m a , l h e pareceu ter f i n a l m e n t e e n c o n t r a d o u m dia
u m a f o r m u l a ç ã o exempla r : " M e u p r o b l e m a é n ã o p o d e r o c u p a r o lugar d o
9 Notemos neste momento que diferenciar o afeto e o objeto pulsional n ã o procede
somente de u m necessár io esclarecimento t e ó r i c o , pois esta d i s t inção t e m t a m b é m
uma c o n s e q ü ê n c i a prát ica . Se a expressão de u m afeto resultasse da pu l são , po r que e
como ela seria analisada? A ques t ão n ã o se coloca mais quando se considera o afeto
como o signo de u m saber em ges tação, que insistirá tanto mais quanto n ã o f o r in te r -
rogado c o m os instrumentos que o produzem m e d í a t a m e n t e , isto é , os significantes.
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 93
E s c r i t o r " ele m e declara. Este a fo r i smo lhe pareceu cor responder a sua d i f i c u l -
dade, p o r q u e , de f a to , era u m a e s p é c i e de personagem Idea l d o E s c r i t o r que o
i m p e d i a , de t an to que o sol ic i tava c o m suas e x i g ê n c i a s . P o u c o depois de haver
assinalado i s to , dois sonhos sucessivos, enquadrando u m a n o i t e agitada, lhe de -
v i a m ofe recer e lementos de r e f l e x ã o talvez menos d ignos d o mora l i s ta , mas
m u i t o mais p e r t o do que o enredava.
O p r i m e i r o sonho d i f i c i l m e n t e merecer ia este n o m e , pois se tratava da
l e m b r a n ç a de u m a i m a g e m isolada, que se apresentara a ele n o m o m e n t o da
queda n o sono. F i e l a sua o b s e s s ã o , ele se v i r a n u m quad ro que evocava u m a
igre ja , o u , de toda f o r m a , u m lugar santo. D e p é d iante de u m p ú l p i t o o n d e
estava u m vasto regis t ro , e a rmado de u m a p l u m a semelhante às dos ve lhos
t empos , soz inho neste lugar consagrado, ele devia apor u m n o m e n o l i v r o sa-
grado. E le pode r i a d izer que as letras que devia t r a ç a r e r a m as de seu s o b r e n o -
m e . M a s , ao i n v é s disso, d iz que se tratava do n o m e de seu pa i . F i c o u i r r e s o l u t o
d iante d o p e r g a m i n h o , incapaz de c o m e t e r este ato. I m ó v e l c o m o se p o d e estar
e m certos sonhos, u m t e m p o i n f i n i t o o separava do instante e m que sua m ã o
t r a ç a r i a u m a p r i m e i r a le t ra n o regis t ro , sabendo j á que u m o u t r o t e m p o i n f i n i t o
i r i a i g u a l m e n t e s e p a r á - l o do m o m e n t o e m que, a p ó s ter escri to a p r i m e i r a ,
pode r i a t r a ç a r a segunda.
O que d izer desta i n i b i ç ã o de t r a ç a r este n o m e , a n ã o ser que ela a r t i c u -
lava sua d i f i c u l d a d e de escrever aos sen t imentos a m b í g u o s que sempre e x p e r i -
mentara a respei to de seu pai? D u r a n t e m u i t o t e m p o , f i c o u impress ionado c o m
u m a m á x i m a l i t e r á r i a : "Escrever é sair da categoria dos assassinos", que pensava
ter s ido f o r m u l a d a e m a l g u m lugar p o r K a f k a . Mas , agora que t i n h a s o f r i d o a
a n á l i s e , se pe rgun tava se isto n ã o era i n v e r t e r o sent ido do ato. C o m e fe i to , o
escr i tor n ã o busca fo r j a r - se u m n o m e de mais p r e s t í g i o que aquele que l h e
d e i x o u seu pa i , e n ã o o mata , c o n s e q ü e n t e m e n t e , a cada vez que pega a caneta?
Nes te p o n t o de suas r e f l e x õ e s , ele se p e r g u n t o u se seu a m o r p o r seu pa i n ã o l h e
segurava a m ã o q u a n d o quer ia escrever. T u d o se passava c o m o se sua p e t r i f i c a ç ã o
fosse a c o n s e q ü ê n c i a de u m ato que f o r a incapaz de realizar e que n ã o mais
p o d i a e l u d i r , pos to que seria n e c e s s á r i o que , u m dia o u o u t r o , portasse t a m b é m
esse n o m e .
F o i u m p o u c o mais tarde, na mesma n o i t e , que se f o r m o u o segundo
s o n h o . E l e se desenrolava n u m c o n t e x t o e x ó t i c o , p r o v a v e l m e n t e a f r i cano , sem
d ú v i d a r e t i r ado de u m f i l m e de aventuras v is to r ecen temen te . A p r i m e i r a cena
se desenrolava n u m a paisagem de savana de u m a beleza t ã o marav i lhosa que ,
pressentia-se, a c a t á s t r o f e só p o d i a ser i m i n e n t e . Estava só n o v a m e n t e , face a
esta na tureza e s p l ê n d i d a cu ja majestade o aspirava a t é a d i s s o l u ç ã o , o apagava
O AMOR AO AVESSO
antes m e s m o que se tivesse apresentado o m e n o r p e r i g o , l i r a p i d a m e n t e , o
p e r i g o que se sentia sobrevoar se precisava sob a e s p é c i e de u m a gigantesca
serpente. As i n t e n ç õ e s carniceiras d o r é p t i l n ã o d e i x a v a m d ú v i d a e ele o via
ap rox imar - se sem pode r e s b o ç a r o m e n o r gesto de defesa o u a m e n o r ten ta t iva
de fuga , v e n c i d o antec ipadamente c o m o f o r a , e m sua i n f â n c i a , f r e n t e aos m o n s -
tros de seus sonhos, os l e õ e s ferozes aos p é s dos quais, sem r e s i s t ê n c i a , ele se
dei tava paralisado.
Sua i m o b i l i d a d e m o r t a l , ele percebeu descrevendo-a , era semelhante à
d o p r i m e i r o sonho , o n d e n o en t an to nada parecia a m e a ç á - l o . E l e se v ia assim,
po is , e m seu sonho , pob re coisa abandonada às vontades d o r é p t i l , enquan to seu
pensamen to res ignado, sem o m e n o r p â n i c o , detalhava f r i a m e n t e a s i t u a ç ã o ,
con tava as pregas da fera e seus a n é i s , registrava suas cores, detalhava a f o r m a de
sua c a b e ç a , p r o c u r a n d o apl icar as l i ç õ e s de u m a e n c i c l o p é d i a o n d e havia apren-
d i d o , q u a n d o era c r i a n ç a , a d i s t i n g u i r o c r â n i o da serpente daquele da v í b o r a .
A i n d a encon t rava t e m p o , nesta i n f i n i d a d e i n e x o r á v e l , de se marav i l ha r c o m a
agi l idade da l í n g u a b i f u r c a d a e c o m a f i x i d e z d o o lha r m a r r o m , t ã o eficaz, de
f a t o , para m e r g u l h a r a presa que ele era na h ipnose . N ã o era c o m o o lha r neces-
s á r i o a u m a f u t u r a d e s c r i ç ã o l i t e r á r i a que prosseguia seu exame? E e n f i m lhe
v e i o b ruscamente , c o m a f r i a f e l i c idade de u m z o ó l o g o , o que devia ser o n o m e
desta cobra: dev ia ser u m Kra. C o m o seu e s p í r i t o a inda estava ág i l , a despeito da
i m i n ê n c i a d o ú l t i m o m o m e n t o ! E le p o d i a n o m e a r este a n i m a l , m e s m o quando
o d rama ia ser c o n s u m a d o . E o seria sem d ú v i d a se u m c a ç a d o r n ã o tivesse
a t i rado neste m o m e n t o , r e d u z i n d o o m o n s t r o a u m a m o n t a n h a de a n é i s sem
v i d a i m e d i a t a m e n t e apanhados c o m n e g l i g ê n c i a pe lo salvador e l a n ç a d o s a t rás
de u m a v ia tu ra que a r r ancou sem d e m o r a .
D e p o i s a cena se t r a n s f o r m o u , c o m o se seus protagonis tas t ivessem m u -
dado de c o n s i s t ê n c i a e agora fossem de u m embor rachada plas t ic idade. O so-
n h a d o r se v ia n o v e í c u l o , p r o v a v e l m e n t e a t r á s , p e r t o da serpente , e n q u a n t o que
o c a ç a d o r n ã o mais estava n o vo l an t e , o n d e as regras de d i r e ç ã o e x i g i a m que
estivesse. D e f a to , ele se encon t rava n u m a p o s i ç ã o b izar ra , es t icado e c o m o
a d o r m e c i d o , a c a b e ç a sobre o espaldar d o banco de t rás e os p é s sobre o espaldar
d o banco da f r e n t e , n u m a a t i tude que , e m o u t r o e s p a ç o que o d o s o n h o , seria
das mais d e s c o n f o r t á v e i s . Q u a n t o ao r é p t i l , perdera seu v o l u m e m o n s t r u o s o e
seus restos e v o c a v a m agora m u i t o mais u m m o n t e de e x c r e m e n t o s , a lgo de
s u j o , de i m u n d o , c o m o j á fazia pensar seu n o m e Kra. Esta d e n o m i n a ç ã o b izar ra
lhe l e m b r a v a sob re tudo o n o m e de sua c o m p a n h e i r a p o r suas duas ú l t i m a s l e -
tras. R , A , q u e f o r m a v a m suas in ic ia i s . O " K " t a m b é m d iz ia respe i to a ela c o m o
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 95
u m "caso"*, c o m o u m a pessoa f o r a do c o m u m , que o subjugava, e o fascina-
va. . . ; mas s im , eis q u e m o h ipno t i zava . O Kra era e n t ã o ela, d iss imulada nas
andaduras de serpente. A s s i m representada, ela n ã o era semelhante à m u l h e r dos
t empos e d ê n i c o s , assimilada a seu arauto apanhado na á r v o r e do mal? A m u l h e r
e a serpente n ã o f o r a m dois personagens associados desde a p r i m e i r a aurora da
h u m a n i d a d e e desde sua p r i m e i r a aventura? N o en tan to , menos abstrata que
estas m e t á f o r a s b í b l i c a s , u m a ou t r a a s s o c i a ç ã o devia e n t ã o chamar sua a t e n ç ã o .
Pensou n o v a m e n t e na i m a g e m que se apresentou a ele n o m o m e n t o e m que
a d o r m e c e u e e m sua r e l a ç ã o c o m sua m o n o m a n i a de escr i tor e m g e s t a ç ã o . . .
N ã o p o d i a e l u d i - l o mais, e este pensamento se i m p ô s doravante a ele: sua c o m -
panheira , quan to a ela, mane java a p l u m a sem o m e n o r a b o r r e c i m e n t o . N ã o
escrevia ela c o t i d i a n a m e n t e e sem e s f o r ç o , n o estilo romanesco o u p o é t i c o , sem
t a m b é m recusar o ensaio e a r e f l e x ã o f i l o s ó f i c a ? E la se most rava p r o l i x a e m
qua lquer est i lo, e m todas as d i m e n s õ e s de papel , b ranco o u quad r i cu l ado e sem
que n e n h u m g ê n e r o a desagradasse.
O que mais ele p o d i a associar, agora, sobre as outras s e q ü ê n c i a s d o so-
nho?. . . " C o m o " d iz ele, " c o m e c e i a evocar a iden t idade das personagens, p e n -
so neste c o m p o r t a m e n t o p r o t e t o r d o c a ç a d o r , assim c o m o e m seu s i l ê n c i o e e m
sua f o r m a de se f u r t a r ao o lhar . Esta a t i tude m e deixa pouca d ú v i d a : só p o d e
tratar-se de v o c ê que, neste avatar a f r i cano , n ã o é o u t r o que m e u p s i c a n a l í t i c o
c o m p a n h e i r o . F a ç o v o c ê mane ja r o f u z i l n o lugar do s ign i f i can te , na l o u v á v e l
i n t e n ç ã o de m e d e s e m b a r a ç a r de m i n h a o b s e s s ã o p l u m i t i v a , assimilada e m m e u
sonho a m i n h a a n g ú s t i a f r e n t e ao O u t r o sexo.. . a n g ú s t i a t an to mais v i o l e n t a
quan to m e v i paralisado, de toda f o r m a , dos dois lados da n o i t e : p o r u m lado , n o
m o m e n t o de adormecer , o m e d o de t o m a r o n o m e de m e u pai m e prega n o
lugar . . . e n ã o t e n h o r e a ç ã o d i f e ren te , p o r o u t r o lado , f r e n t e a este n o m e que
dever ia ser cons iderado c o m o m e p r o t e g e n d o . J á no tamos e m outras se s sões , e
a f i g u r a ç ã o d o sonho o l e m b r a de mane i ra marcante : Serpente, KRA possui a
p o t ê n c i a f á l i c a que m e h i p n o t i z a nas volutas da escrita, nos signos que se rvem
para t r a ç a r as letras desta l í n g u a ma te rna c u j o d o m í n i o m e escapa... mas que eu
abordar ia , se ousasse po r t a r m e u n o m e c o m o se fosse o m e u , se ousasse c o m e t e r
o ato assassino que m e c o n t e n t e i e m a t r i b u i r - l h e . . . "
Cons ide rada segundo sua ve r ten te s i m b ó l i c a , a d e s t r u i ç ã o da serpente se
apresentava c o m o a m á s c a r a de u m a a n g ú s t i a de c a s t r a ç ã o t an to mais ev iden te
* O nome da letra "K" e a palavra cas, "caso" são homofônicos em francês. A palavra
"caso" é empregada aqui como u m t ipo especial, como em cas de ôgure, em f rancês .
( N T )
O AMOR AO A V I i t O
q u a n t o a f o n n a de u m r é p t i l t e m a v i r t u d e o r d i n á r i a de r e f o r ç a r esta analogia .
C o m o m i n h a f u n ç ã o de psicanalista m e fez ser cons iderado c o m o u m salvador,
poder i a pensar que u m afeto p o s i t i v o t inha inves t ido a t ransferencia . M a s isto
sena neg l igenc ia r a ú l t i m a parte d o sonho que . ainda que n ã o explicitasse mais
que o tr iste des t ino f r e q ü e n t e m e n t e dado aos salvadores, t i n h a o m é r i t o de
confessar e m poucas imagens que o p o s i t i v o d o afe to c o m p o r t a v a t a m b é m seu
nega t ivo , segundo a b i f i d i d a d e cursiva da t r a n s f e r ê n c i a . L e m b r a m o - n o s de que
o c a ç a d o r p o u c o a p o u c o pe rdeu sua a t i tude alegre, seus gestos p o u c o a p o u c o
f o r a m ra len tando , c o m o nas imagens de u m f i l m e v e l h o . E n f i m , presa de u m a
e s p é c i e de l e v i t a ç à o na ú l t i m a s e q ü ê n c i a , ele acabara o c u p a n d o u m a p o s i ç ã o
h o r i z o n t a l , c u j a s i g n i f i c a ç ã o era d i f í c i l de compreende r . Q u e a s s o c i a ç õ e s se apre-
sentavam a p r o p ó s i t o desta d i s p o s i ç ã o de u m personagem m e r g u l h a d o e m u m
semi-sono? Seu repouso parecia b e m ser o ú l t i m o . . . Pois ele t i n h a os pés para
treme... E al iás seus p é s estavam n o lugar d o m o r t o . O sen t ido desta d i s p o s i ç ã o
apareceu a ele somen te descrevendo-a . . . Mas agora que esta obscur idade se
levantava, u m o u t r o pensamento se apresentava: é que u m a certa i m a g e m d o
s o n h o f o r a escamoteada n o re la to . N o m o m e n t o e m que a serpente acabara de
ser e l i m i n a d a e j ogada para t rás d o v e í c u l o , o sonhador tentara sentar-se ao lado
d o m o t o r i s t a , mas seu i m p u l s o v iu-se i n i b i d o segundo o m e s m o ra len tado que
j á t i n h a e x p e r i m e n t a d o duas vezes na n o i t e . N ã o t i n h a consegu ido sentar-se
o n d e pro je ta ra , o u , mais exatamente , neste instante , as imagens d o s o n h o se
e m b r u l h a r a m elasticamente, e ele se v i u a t rás d o v e í c u l o , a inda que a plasticidade
tenha d e i x a d o en tender que devia estar na f r e n t e .
A s s i m , a ú l t i m a i m a g e m a t r i b u í a ao c a ç a d o r n ã o s o m e n t e o luga r d o
m o r t o , mas t a m b é m o lugar daquele que o havia i m p e d i d o — talvez p o r q u e
estavam o r t o e ocupava todos os lugares — de sentar n o l uga r q u e ele havia
e sco lh ido . D a í a buscar u m a s i g n i f i c a ç ã o mais geral n ã o hav ia mais que u m
passo: n ã o era u m a e s p é c i e de a m o r d o pa i que o i m p e d i a de colocar-se n o lugar
t ã o desejado d o au to r , c o m o se o f a to de assinar u m a obra e m seu n o m e p a r a l i -
sasse a m ã o de u m filho de sen t imentos m u i t o filiais? E a m o r t e q u e i m p l i c a v a o
fa to de escrever l h e p e r m i t i a avaliar sua " d i f i c u l d a d e de t o m a r o l uga r d o escr i -
t o r " , segundo o a f o r i s m o cu ja descoberta havia p r e c e d i d o estes dois sonhos . E l e
a t r i b u í a a responsabil idade desta d i f i c u l d a d e ao analista, que n o e n t a n t o t i n h a
v i n d o v e r para t i r á - l o d o e m b a r a ç o . O afe to da t r a n s f e r ê n c i a , q u e parec ia t ã o
p o s i t i v o q u a n d o da p r i m e i r a s e q ü ê n c i a d o sonho , v i r a r á para seu c o n t r á r i o q u a n d o
das ú l t i m a s imagens .
Desfe i ta g r a ç a s a u m a t r a n s f e r ê n c i a paterna, a p o t ê n c i a m a l é f i c a d o Kra
deixava a t r á s dela u m e x c r e m e n t o , f o n t e de u m a bizarra i n q u i e t a ç ã o . N o m e s -
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 97
m o ins tante , o sonhador se pe rguntava qual era seu lugar e se ele devia p ô r - s e na
f r e n t e o u a t r á s de u m v e í c u l o do qual qua lquer p i l o t o c laramente havia desapa-
r e c i d o . E l e n ã o sabia mais se lhe tocava d i r i g i r o u se devia sentar-se ao lado deste
pai de p a c o t i l h a m e i o m o r t o que a n o i t e lhe havia dado. Nes te c u m e de sua
incer teza, a b i f i d i d a d e da t r a n s f e r ê n c i a se e x p r i m i u segundo esta frase espantosa:
" N ã o chego a t o m a r m e u lugar , e n o en tan to v o c ê es tá m o r t o . " C o m o , c o m
e fe i to , ter ia ele p o d i d o t o m a r o luga r de q u e m acabava de s a l v á - l o r e d u z i n d o o
K R A à d i m e n s ã o de excrementos , n o m o m e n t o e m que , segundo seu v o t o ,
este salvador morresse? A q u e l e que t o m a o lugar de u m m o r t o n ã o t e m e ele
p r ó p r i o m o r r e r ?
N o m o m e n t o e m que, na beleza da savana, o r é p t i l se a p r o x i m o u dele e
estava prestes a e n g o l i - l o , t u d o se passou c o m o se este drama, n o en tan to h o r -
r í v e l , realizasse seu des t ino . E le j á havia consen t ido sua p r ó p r i a perda. A i m a -
g e m gelada de seu fim o t i n h a de ixado n u m a e s p é c i e de calma, c o m o e s p í r i t o
claro e f r i o , s e n s í v e l aos diversos detalhes da cena assim c o m o à d i m e n s ã o e s t é -
t ica desta s i t u a ç ã o m o r t a l . T i n h a v i s to v i r sua m o r t e c o m o u m a c o n t e c i m e n t o
que respondia p o r u m a s u s p e n s ã o assinalada de l onga data e que fazia parte da
o r d e m na tu ra l do un ive r so . H á m u i t o t e m p o pressentido, ele e n f i m se realizava.
E m t roca , t u d o se p e r t u r b o u a pa r t i r do m o m e n t o e m que a serpente f o i
aba t i da . O s luga res t i n h a m m u d a d o e se t o r n a r a m i n c e r t o s . A p r ó p r i a
t empora l idade parecia ter-se d i s t o r c i d o . A serpente, decer to , era t e r r í v e l , en t r e -
tanto sua fascinante beleza se c o n f u n d i a c o m a de u m a f e m i n i l i d a d e de que era
somente u m avatar. Q u e c o n f u s ã o quando esta e s t é t i c a m o r t a l mas d e s l u m b r a n -
te se r e d u z i u a este m i s e r á v e l m o n t e de excrementos negros e e m f o r m a de
fezes! Pe rcebendo o e x c r e m e n t o , o sonhador n ã o soube dizer o que ao m e s m o
t e m p o v ia ; a l é m deste m o n t e n ã o era u m s í m b o l o i n t e i r a m e n t e o u t r o que se
i m p u n h a a ele? C o m o n ã o o evocaria , se se fiasse na a n g ú s t i a que a v i s ã o deste
de je to provocava? Ú n i c a de so rdem de u m un ive r so t a m b é m h a r m o n i o s o , esta
e s c ó r i a enrugada o h o r r o r i z a r a mis te r iosamente e c o n t i n u a v a a f a z ê - l o , a ele que
ficara t ã o c a l m o diante da i m i n ê n c i a de u m a m o r t e certa. O que p o d i a s ign i f i ca r
a r e d u ç ã o da f e m i n i l i d a d e a este e x c r e m e n t o repugnan te , enquan to ele m e s m o
ficava de p é , n u m lugar que n ã o era aquele que desejara, j u n t o a este s e m i m o r t o
f l u t u a n d o ac ima do solo? Eis o que ele d i f i c i l m e n t e c o m p r e e n d e r i a .
A g o r a que f o r a salvo do p i o r , a a n g ú s t i a n o en tan to envo lve ra o sonha-
d o r , i n c o m p r e e n s i v e l m e n t e a n i q u i l a d o p o r estes s í m b o l o s e n i g m á t i c o s d o
e x c r e m e n t o e d o s e m i m o r t o . E le havia analisado antes a p o t ê n c i a f á l i ca que o
e x c r e m e n t o t i n h a e m c o m u m c o m a f e m i n i l i d a d e e p o d i a v e r i f i c a r seu v a l o r
g r a ç a s à f i g u r a ç ã o r ep t i l i ana t ã o evocadora de seu sonho . A o m e s m o t e m p o , e
O AMOR AO N V E S J O
desde sempre, sem ter aliás r e c o r r i d o para m o aos s e r v i ç o s de sua a n á l i s e , ele
sabia de seu desgosto pe lo e x c r e m e n t o , assim c o m o de seu i n d c n e g á v e l erot is
m o . Mas o r e c o n h e c i m e n t o desta c o n j u n ç ã o d o desgosto c d o e r o t i s m o n ã o
deixava de abandonar o fa to na mais comple ta obscur idade . I r ia ele e luc ida r esta
p r o x i m i d a d e g r a ç a s às diferentes s e q ü ê n c i a s d o sonho? C o m e f e i t o , o " p a i " que
o salvava era t a m b é m aquele que, most rando-sc mais f o r t e que ele, o castrava e
o f e m i n i l i z a v a . C o m o c o n s e q ü ê n c i a , era l ó g i c o que o e x c r e m e n t o o desgostava
v i o l e n t a m e n t e p o r q u e t omava a s i g n i f i c a ç ã o da sodomia . S o d o m i a que , a l é m
disso, n à o era somente h o r r o r i f i c a n t e , mas t a m b é m e r ó t i c a , na m e d i d a e m que
sua r e l a ç ã o c o m a f e m i n i l i d a d e assim se encont rava ordenada. O e x c r e m e n t o
pa te rno o sodomizava a cada vez que u m pai o salvava e que , sa lvando-o , t o m a -
va t a m b é m seu lugar , aquele d o que seria d i g n o de po r t a r p r o p r i a m e n t e seu
n o m e . Escrever seria sem d ú v i d a o ato que teria de ixado u m o u t r o t r a ç o que o
d o e x c r e m e n t o . M a s c o m o o sonhador pode r i a c o m e t ê - l o antes de ter s ido ele
m e s m o c a ç a d o r ? A a f e t a ç ã o d o analista v i n h a n o lugar d o a to que ele dever ia ter
c o m e t i d o e, desta f o r m a , a t r a n s f e r ê n c i a v i n h a c o m p l e t a r a imager ia de suas
i n i b i ç õ e s .
E n q u a n t o o escutava, fiquei espantado, à m e d i d a que se de senvo lv i am
suas a s s o c i a ç õ e s , p o r ve r art icular-se t ã o c laramente a passagem da a n g ú s t i a de
c a s t r a ç ã o materna (que lhe teria f e i t o aceitar a m o r t e quase que agradavelmente)
à a n g ú s t i a de c a s t r a ç ã o pe lo pa i , que u m assassinato pode r i a ter saldado se ele se
tivesse au to r i zado , e se n ã o tivesse ficado na incer teza q u a n t o ao luga r que lhe
seria n e c e s s á r i o depois ocupar . Era o que eu c o m p r e e n d i a d o s o n h o , a q u e s t ã o
de " c o m p r e e n d ê - l o " n ã o se c o l o c a n d o para ele, estando ainda enga jado nesta
a n g ú s t i a . A l i á s a c o m p r e e n s ã o t e m qua lque r i m p o r t â n c i a antes d o a to que a
p e r m i t i r á s ó - d e p o i s ? T o d a ten ta t iva de e x p l i c a ç ã o é i n ú t i l antes deste instante
de verdade que a p r ó p r i a t r a n s f e r ê n c i a supor ta .
É i n ú t i l expl icar , p o r q u e ar e s i s t ê n c i a d o saber e m seu p r ó p r i o e n c a m i -
n h a m e n t o cor responde à a f e t a ç ã o d o anal is ta 1 0 S e m nada fazer de pa r t i cu l a r , o
analista "resiste" p o r q u e a t r a n s f e r ê n c i a o p õ e neste lugar o n d e sua p r e s e n ç a p õ e
'" E m La dynaniique du transferi [ A d inâmica da t r ans fe rênc ia ] , Freud escreve: "Nada
mais difícil em análise que vencer as resistências, mas n ã o e s q u e ç a m o s que são justa-
mente estes f e n ô m e n o s que nos trazem o serv iço mais precioso permi t indo-nos trazer
à luz as e m o ç õ e s amorosas secretas e esquecidas dos pacientes e confer indo a estas
e m o ç õ e s u m cará ter de atualidade, pois é preciso lembrar que nada pode ser m o r t o in
absenda ou in e&gie" (S. Freud, La dynamique du transfere, 1912, trad. franc. i n La
technique psychanalyüque, 1953)
O JOGO D A ASSOCIAÇÃO LIVRE 99
o i nconsc i en t e e m ato. Pode o c o r r e r que o analista se canse e que n ã o resista
mais, p r e f e r i n d o as de l í c i a s tagarelas da f ra te rn idade de discurso. Seu analisante
p o d e r á e n t ã o fa lar- lhe t r a n q ü i l a m e n t e de u m a coisa o u outra , segundo u m fraseado
sem lapsos n e m erros gramaticais, e ele n ã o se deve espantai: de ve r t a m b é m se
ca la rem seus sonhos. A contrario, as f o r m a ç õ e s do inconsc ien te se desenvo lve -
r ã o n o v a m e n t e desde que o analista se recupere e f a ç a d o m u r o da t r a n s f e r ê n c i a
u m a a t u a l i z a ç ã o . S o m e n t e depois desta a t u a l i z a ç ã o o analisante e n c o n t r a r á u m a
e x p l i c a ç ã o , se ainda sente necessidade disso.
É c o m o t r a n s f e r ê n c i a que u m saber s e r á suposto ao analista, e é c o m u m
que este c r é d i t o n ã o lhe p e r m a n e ç a aber to ( o u n ã o duran te m u i t o t e m p o ) p o r
seus t í t u l o s o u p o r seu r e n o m e . E le t a m b é m n ã o o deve a a lguma qual idade de
a d i v i n h a ç ã o que, ta l c o m o u m a v i d e n t e e x t r a l ú c i d a , ter ia demons t r ado e m a l -
gumas s i t u a ç õ e s confusas. Este saber só lhe se rá suposto p o r q u e , sendo o saber
inconsc ien te d i s j u n t i v o , ele sofre de sua metade (e é ela que se rá , neste sen t ido ,
"amada" na t r a n s f e r ê n c i a ) . C o m o veremos n o e x e m p l o seguinte , à b ina r idade
d o saber cor responde a d u p l i c i d a d e da t r a n s f e r ê n c i a . A b i f i d i d a d e v e r s á t i l das
t r a n s f e r ê n c i a s resulta da b ina r idade do saber inconsc ien te : ela apresenta o p ó l o
a f e t i vo do que n ã o se sabe n u m Saber en t re tan to enunc i ado c laramente .
Esta analisante passou a e x p e r i m e n t a r u m a i n v e r o s s í m i l d i s t r a ç ã o h á a l -
g u m t e m p o . M a i s u m a vez ela ques t ionava este s i n toma s u b l i n h a n d o q u a n t o era
d i s t r a í d a q u a n d o , depois de ter en t rado e m m i n h a sala, quis j u s t i f i c a r seu atraso
nesta se s são . D e p o i s de queixar-se deste i n c o n v e n i e n t e , c o n t i n u o u fa l ando , e
ap rove i tou-se disso para fazer a lista de suas ú l t i m a s mancadas: a n t e o n t e m , t i n h a
esquecido suas chaves d e n t r o de casa. A t é fazia p o u c o caso da c o m i d a que
que imara o n t e m , e n q u a n t o j o g a v a as sujeiras do gato na m á q u i n a de lavar. M a i s
d e p l o r á v e l ainda, c o m o ela m e assinalava c o m azedume, o f a to de que se e n c o n -
trava a inda a descober to e m sua con ta b a n c á r i a . Nes ta m a n h ã mesma, e n f i m ,
d i r i g i n d o f r e n e t i c a m e n t e para v i r à sessão e pensando, e n t ã o , e m o u t r a coisa,
n ã o t i n h a b a t i d o n o a u t o m ó v e l de u m idoso senhor?
Segundo u m p r i n c í p i o que j á se mostrara eficaz, p r epa re i -me para d i s c u -
t i r todos os acon tec imen tos que acabavam de ser enumerados ao acaso, e c o m
mais a n i m a ç ã o ainda na m e d i d a e m que h a v i a m sido m e n c i o n a d o s e m u m a
m e s m a frase, u m deles d i z e n d o respei to à t r a n s f e r ê n c i a . N ã o era o p o r t u n o c o n -
siderar que t r ê s dos fatos que ela acabara de e x p o r (seu atraso, seu v e r m e l h o
b a n c á r i o , o acidente) d e v i a m — quaisquer que t e n h a m sido suas c i r c u n s t â n c i a s
par t iculares — sua c o a b i t a ç ã o neste enunc iado a u m a secreta c o n j u n ç ã o que se
deve r i a i n t e r r o g a r sem demora?. . . A i n d a que n ã o o reconhecesse i n i c i a l m e n t e a
n ã o ser c o m r e t i c ê n c i a , depois c o m mais ardor , parecera- lhe dar c o m o cer to
O AMOR AO AVESSO
que o ac idente de a u t o m ó v e l , pe rmanecendo sem gravidade , acontecera u n i c a -
m e n t e p o r e r ro seu.
O s p r i n c í p i o s d o c ó d i g o de t ransi to cer tamente lhe d a r i a m r a z ã o , mas n o
c o n t e x t o da ses são ela dever ia considerar o p r o b l e m a de o u t r a f o r m a . Eis o que
se passou. C o m o o c o r r e f r e q ü e n t e m e n t e e m tais o c a s i õ e s , t u d o parecia desen-
rolar-se m u i t o r ap idamente , e n q u a n t o que na realidade os a c o n t e c i m e n t o s se
suced iam m u i t o mais l en tamen te . T i n h a v i s to pe r f e i t amen te a p r o x i m a r - s e o
v e l h o senhor que , agarrado ao vo l an t e de u m v e í c u l o c u j a p o t ê n c i a e v i d e n t e -
m e n t e o ultrapassava, entrava i m p r u d e n t e m e n t e n o c r u z a m e n t o sem prestar
a t e n ç ã o à p r i o r i d a d e . Ela teve u m grande t e m p o para parar, mas, mos t rando-se
m u i t o mais f o r t e q u e ela, o d e m ô n i o m a l i g n o que a habi tava e m certos m o m e n -
tos aperta o acelerador ao i n v é s d o freio, p r o m e t e n d o - l h e que seu d i r e i t o ce r to
c o n j u g a d o à p o t ê n c i a de seu m o t o r l h e p e r m i t i r i a passar apesar de t u d o , e que
ela te r ia assim m o t i v o s para u m a sorte que as a p a r ê n c i a s lhe d a v a m n o en tan to
c o m o a m p l a m e n t e c o n t r á r i a . S i m , era b e m preciso r econhece r que t i n h a a sua
p a r t i c i p a ç ã o . . .
Q u a n t o a seus abo r r ec imen tos c o m seu b a n q u e i r o , s ó havia observado
suas contas m u i t o d is t ra idamente , era preciso reconhecer . S imp le smen te abrira
o enve lope de seu ex t ra to mensal? Eis o que ela n ã o p ô d e precisar! E n ã o t i n h a ,
apesar de t u d o , real izado despesas que p o d e r i a m esperar, c o n t a n d o a í t a m b é m ,
sem d ú v i d a , c o m u m a m á g i c a i n t e r v e n ç ã o da p r o v i d ê n c i a ?
Q u a n t o à s u g e s t ã o q u e eu parecia t e r - l h e f e i t o , segundo a qua l ela se ter ia
c o l o c a d o de l ibe radamente e m e r r o , esperando ser finalmente absolv ida de seus
pecadi lhos , eis o que lhe parecia i m p r o v á v e l . Faltosa, mas apesar de t u d o p e r d o -
ada e v i t o r i o sa , n ã o era a s i t u a ç ã o que ter ia buscado e que , finalmente, a ter ia
encantado? Se, c o m o eu parecia e x i g i r , r econhec i a q u e buscara os a b o r r e c i -
m e n t o s que sof r ia , n ã o v ia para que servia fazer u m a ta l c o n s t a t a ç ã o ! Esta p r e c i -
p i t a ç ã o de l ibe rada na cu lpab i l idade l h e restava h e r m é t i c a . E eu far ia m u i t o m e -
l h o r a j u d a n d o - a d o que a t o r m e n t a n d o - a . . .
E la estava neste p o n t o de seu q u e s t i o n a m e n t o d u b i t a t i v o q u a n d o l h e
v e m u m pensamento b i za r ro : acabava de associar sua c o n d u t a pe r igosamen te
aparvalhada à sua a t i tude a respei to de seu m a r i d o . A d q u i r i r a o h á b i t o de a c u -
m u l a r as r e c r i m i n a ç õ e s e as o b s e r v a ç õ e s acerbas a respei to de u m a u n i ã o mu i t o
p l á c i d a . S e m que compreendesse p o r que , acabara de v i r - l h e o p e n s a m e n t o de
q u e esta a c r i m ô n i a e n d ê m i c a e c o m p u l s i v a c o r r e s p o n d i a , d i z - m e ela, a u m
" m o v i m e n t o de a u t o d e s t r u i ç ã o de m e u m a r i d o " E e b v e r d a d e i r a m e n t e n à o v i a
e m que sua a t i t ude venenosa dever ia t e r o sen t ido de u m a a u t o d e s t r u i ç ã o . . .
" E s t o u exa tamente de a c o r d o c o m o senhor , d o u t o r , e c o n c o r d o q u e o t e r m o
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVK.E 10Í
Auto p o d e r i a ter f e i t o o l i a m e entre m i n h a c o n d u t a c o n j u g a i e este ac idente
c o m o v e l h o senhor . N o en tan to , e s t ã o aí estas facil idades de l i n g u a g e m d i v e r -
tidas às quais, estou segura disso, o senhor a t r i b u i r á u m f r aco v a l o r ! " A i n d a que
sob esta f o r m a denegada, cons idere i que a a s s o c i a ç ã o estava fe i ta : o Auto, l o n g e
de a c o n d u z i r a u m impasse, l he havia p e r m i t i d o fazer u m l i a m e entre sua v i d a
c o n j u g a i chocan te e o c h o q u e d o acidente , sobre o qua l se pe rgun tava agora se
n ã o t r o u x e r a a lguma secreta s a t i s f a ç ã o . . . assim c o m o q u a n d o d i r i g i a u m ataque
b e m preparado a seu t e r n o esposo. S i m , era- lhe preciso reconhecer , hav ia t i r a -
do u m cer to prazer d is to , e i n i c i a l m e n t e o de ter r e s p o n d i d o ene rg icamente às
i n j ú r i a s d o v e l h o senhor, u t i l i z a n d o u m v o c a b u l á r i o t ã o v i v o e b e m m e l h o r
escolh ido que o seu.
I n f e l i z m e n t e , esta pequena alegria f o i de cur ta d u r a ç ã o . T u d o f o i solapa-
do n o m o m e n t o e m que o v e l h o desceu d o v e í c u l o . Q u e s a t i s f a ç ã o p o d e r i a t i r a r
de u m t r i u n f o t ã o fác i l? C o m e fe i to , a l é m de sua idade a v a n ç a d a , o senhor era
sacudido p o r t remores , talvez devidos à i r r i t a ç ã o , mas m u i t o mais v e r o s s i m i l -
m e n t e a u m a d o e n ç a nervosa. D e m o d o que ela r ap idamen te se a c a l m o u e,
esquecendo seus agravos, ocupou-se d o v e l h o senhor, f a z e n d o - o subi r à c a l ç a -
da, p r o t e g e n d o seu v e í c u l o que atravancava a rua, a j u d a n d o - o e n f i m a p r e e n -
cher seus p a p é i s de seguro, n ã o sem velar para que seu d i r e i t o cer to fosse a l i
m e n c i o n a d o . Sua c ó l e r a , que havia i n i c i a l m e n t e p r o v o c a d o nela u m estado de
alegria b e m mais e s t ê n i c a , t i n h a r ap idamen te d e c a í d o . E se v ia agora a d m i n i s -
t r ando ao v e l h o cuidados bastante f i l i a i s . N o f i m , ela se v i u ao cabo da aventura ,
u m a vez c u m p r i d o seu dever segundo as regras da m o r a l c iv i l i zada , n u m estado
depressivo que as despesas ocasionadas p o r algumas chapas amassadas n ã o chega-
v a m a j u s t i f i c a r . N a real idade, f o i n u m estado de grande a b a t i m e n t o que ela
t e r m i n o u o dia . . .
D e p o i s desta n a r r a ç ã o , e c o m o se ela lhe tivesse t raz ido u m a n o v a c o m -
p r e e n s ã o , v o l t o u b ruscamente aos t e rmos que t i n h a m f i c a d o e n i g m á t i c o s p rece -
d e n t e m e n t e : eis exa tamente o que r ep rovava e m seu m a r i d o : ela era obr igada ,
sem parar, a se ocupa r dele c o m o de u m a c r i a n ç a ! . . . preparar seus ch ine los ,
coz inha r , o rgan izar seus pequenos assuntos!... e se era t ã o f r e q ü e n t e m e n t e r a b u -
genta era p o r q u e recusava u m a ta l p o s i ç ã o de m ã e ga l inha que , se n ã o tomasse
c u i d a d o , fa r ia c o m que ca ísse na me lanco l i a . . . D e f a to , n ã o se tratava aí de u m a
f o r m a de a u t o d e s t r u i ç ã o , c o m efei to?
N ã o era n o t á v e l que o t e r m o Autodestruição, que i n i c i a l m e n t e servira
para q u a l i f i c a r a c ó l e r a n ã o sem a lguma i m p r o p r i e d a d e s i n t o m á t i c a , fosse agora
u t i l i z a d o para qua l i f i c a r a d e p r e s s ã o que a m e a ç a v a oco r re r , se ela n ã o se i n s u r -
gisse c o n t r a a f u n ç ã o ma te rna que o m a r i d o ter ia buscado a t r i b u i r - l h e ? Este
102 O AMOR AO AVESSO
i n s e n s í v e l mas r á p i d o des l izamento de sent ido me l e v o u a lhe p e r g u n t a r sobre o
que lhe parecia t ã o ev iden te : p o r que acabara de empregar p o r duas vezes o
q u a l i f i c a t i v o " m a t e r n o " ? O fa to de se most rar atenciosa e c o r t ê s c o m u m se-
n h o r idoso , cu j a v ia tu ra fo r a tratada c o m c u i d a d o depois que ele f o i p r e v i a m e n -
te i n j u r i a d o , p e r m i t i a considerar u m a tal a t i tude c o m o "materna"? A i n o c ê n c i a
de m i n h a pe rgun ta n à o pega m e u analisante desprevenido . Ela m e responde
i m e d i a t a m e n t e , e quase que sem respirar, que isso era na tura l . " M a t e r n o " era o
t e r m o que c o n v i n h a para qua l i f i c a r a s i t u a ç ã o , e p o r u m m o t i v o essencialmente
n e g a t i v o . N ã o era ev iden te que cuidados t ã o atenciosos s ó p o d i a m ser ma te r -
nos, pos to que de f o r m a a lguma p o d e r i a m ser os de u m a filha? C o m o u m a filha
pode r i a agir desta f o r m a ? Ela n ã o t e m mui tas contas a acertar c o m seu pa i , que
a t o r n a m antes cheia de ó d i o a respei to de seu pai?
Esta a f i r m a ç ã o p e r e m p t ó r i a , parece-me, t i n h a o m e s m o v a l o r que u m a
d e n e g a ç ã o . Era preciso toda a m á í n d o l e cos tumei ra aos d i s c í p u l o s de F r e u d
para s u p ô - l o , n ã o fosse a s e q ü ê n c i a . C o m e f e i t o , ela a c r e d i t o u que era b o m
prosseguir neste a fã i m p e t u o s o , r e t o m a n d o a lista de seus agravos a seu pa i , que
n o e n t a n t o j á m e t i n h a de ta lhado m i l vezes. E n t r e t a n t o , n ã o p u d e fazer ou t ra
coisa que i n t e r r o m p ê - l a , desta vez, n ã o sem este pensamento de f u n d o de que
os fios c o n t r a d i t ó r i o s nos quais seus l iames filiais se t i n h a m a t é a í e n r i j e c i d o i a m
desatar-se nesta rup tu ra . Seu uso e q u í v o c o da autodestruição n ã o fazia a m o s t r a ç ã o
d is to antes de qua lque r d e m o n s t r a ç ã o ? Ela acabava de se l a n ç a r a inda u m a vez
e m suas i n e s g o t á v e i s a c u s a ç õ e s , e n q u a n t o que o que acabava de d i ze r l h e p e r m i -
t ia r econhece r a natureza de seu d i l e m a . T u d o se passava c o m o se ela se e n c o n -
trasse d ian te de u m a e s p é c i e de escolha. O u b e m , d ian te d o h o m e m c o m q u e m
havia casado, se i d e n t i f i c a v a c o m o u m a filha, e nesse caso seu gesto agressivo
fazia desabar u m pa i incestuoso, o que t i n h a c o m o resul tado i n f e l i z que de f a to
se autodestruía nesta p r ó p r i a a g r e s s ã o ; o u b e m n à o p o d i a escapar a este m o v i -
m e n t o de d e s t r u i ç ã o a n ã o ser i d e n t i f i c a n d o - s e c o m o u m a m ã e , p res tando u m
s e r v i ç o caseiro de que n ã o se desligava s e n ã o g r a ç a s a p r o c e d i m e n t o s i n t e i r a -
m e n t e explos ivos . E n t r e estas duas i d e n t i f i c a ç õ e s , a da filha e a da m ã e , ela n ã o
sabia mais q u e m u l h e r era, n e m m e s m o se esta e s p é c i e a l iás exis t ia f o r a dos
magazines destinados a ce r t i f i ca r sua e x i s t ê n c i a . D e f o r m a q u e t o d a certeza fica-
va suspensa ao desejo d o h o m e m , e era p o r isso que o p r o v o c a v a usando d i v e r -
sos s u b t e r f ú g i o s , en t re os quais a a g r e s s ã o n à o era o m e n o r .
T e n d o - a , po i s , i n t e r r o m p i d o antes q u e a c o n t r a d iç ã o s i n t o m á t i c a da
autodestruição fosse recober ta pe lo f l u x o de suas queixas , a c o m p a n h e i - a a t é a
po r t a . A i n d a pensat iva, ela m e aperta ca lorosamente a m ã o q u e l h e e s t end i
c o m o de h á b i t o . E o shake hands se p r o l o n g a p o r u m ins tante s e m q u e p a r e ç a
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 103
af lo ra r o pensamento de que a m ã o se abrira m u i t o mais para receber o paga-
m e n t o da sessão do que para estes f ins e fus ivos" . . . Mas ela se d á con ta todav ia :
m e u Deus , n ã o era u m a n o v a b o b a g e m , acabava de arriscar-se esquecer de m e
pagar, p o n d o - s e assim n o v e r m e l h o c o m i g o c o m o j á estava c o m seu banco!
T e r i a s ido assim n e c e s s á r i o enr iquecer os t r ês atos falhos assinalados na p r i m e i r a
frase da sessão p o r u m quar to ! E c o m o este ú l t i m o se p r o d u z i a n o m o m e n t o e m
que se tratava de suas queixas de f i l h a , esta p o s i ç ã o c u j o d e s c o n h e c i m e n t o estava
ar t icu lado ao s i n t o m a de fal ta de a t e n ç ã o estava posta e m ato na t r a n s f e r ê n c i a 1 2
IV
Existe, portanto, uma modalidade da transferência que difere do "efeito-
s u j e i t o " e c u j a o p e r a ç ã o rec lama f r e q ü e n t e m e n t e u m t e m p o mais l o n g o . T r a t a -
se, a pa r t i r deste p o n t o onde o analista é afetado na p r o d u ç ã o s i n t o m á t i c a , de
fazer de f o r m a a que u m a ta l a f e t a ç ã o desvele a dup l i c idade de sua es t rutura ao
11 Somente graças ao contexto podemos pensar que um esquecimento de pagamento no
f inal da sessão se refira a uma dívida com o pai. D e fato, o valor neutro do dinheiro
não representa sempre o pagamento de uma dívida s imból ica . Ele t a m b é m pode ser
considerado como uma despesa, despender sendo uma coisa inteiramente outra que
pagar. Alguns analisantes podem regrar o p r e ç o de sua sessão como u m atirar dinheiro
pela janela, como se joga à sorte, ou ainda como se oferece a uma prostituta... assim
alguns pacientes delicados t ê m o b o m gosto de dizer... e por que n ã o o fariam, j á que
estão presos a mencionar seus pensamentos ín t imos? "Despesa" e "pagamento" repre-
sentam dois valores diferentes do dinheiro em análise, e sua dis t inção, que é u m assun-
to de contexto, se articula às posições disjuntivas da t ransferência . E mu i to claro que
caberá ao analista manobrar de tal forma que a despesa tome valor de u m pagamento.
1 2 C o n v é m fazer uma reserva quanto a este exemplo: ele poderia dar uma visão simplista
da relação do saber do inconsciente c o m a t ransferência: o sujeito do inconsciente
resulta de detenninismos que são os do complexo de Edipo. C o m o estes determinismos
são con t rad i tó r ios entre si, de u m lado são inconscientes (é imposs ível falar deles
logicamente), e de outro lado o sujeito n ã o poderia, c o n s e q ü e n t e m e n t e , definir-se
como o resultado destes determinismos (ele se beneficia, pois, a este respeito, de uma
l iberdade cond ic iona l , de que o afeto testemunha); ainda que a e x i s t ê n c i a de
determinismos seja patente, não se poderia estabelecer por nenhum lado, salvo em
curtas seqüênc ias , re lações simples de causa a efeito explicando u m sintoma ou uma
passagem ao ato. Por esta razão, é melhor guardar-se de u m esquematismo simplista da
simetria transferenciai, segundo a qual, por exemplo, a toda apresen tação de u m signi-
ficante paterno, do lado do analisante, deveria corresponder uma t ransferência de u m
significante materno do lado do analista: o estado da t ransferência nunca será dado
antecipadamente.
O AMOR AO V t S»t»
m e s m o t e m p o que a b inar idade d o s in toma (quer dizer , c o n c r e t a n i e n t e , seu
e q u í v o c o ) . Para aparecer, u m tal co locar e m r e l a ç ã o deve desprezar as leis o r d i -
n á r i a s da l ó g i c a e. neste sent ido , nada t e m de in te lec tua l (na m e d i d a e m que se
c o n f u n d a este t e r m o c o m a racional idade c o m u m — quer dizer , p o r e x e m p l o .
aquela d e f i n i d a p o r A r i s t ó t e l e s n o O originou). I n c o m p r e e n s í v e l na o r d e m
discursiva, p o r p o u c o que sua dup la polar idade seja ex ib ida n o m e s m o instante ,
o s i n t o m a n ã o poder ia ser antec ipadamente a o p o r t u n i d a d e de u m a escrita m a -
t e m á t i c a , j á que resiste p o r d e f i n i ç ã o aos t r ês p r i n c í p i o s da l ó g i c a a r i s t o t é l i c a .
Disso resulta, c o n s e q ü e n t e m e n t e , que neste p o n t o ele faz l i m i t e à i d e n t i f i c a ç ã o
da t r a n s f e r ê n c i a (e p o r t a n t o cons t i t u i r i a a sa ída l ó g i c a da a n á l i s e — p o r i d e n t i -
f i c a ç ã o ao s intoma — se a t r a n s f e r ê n c i a o r ig iná r i a — a busca de a m o r — n ã o
re lançasse sua d i n â m i c a — ao menos a té u m p o n t o f ina l que pode ser precisado).
E s c o l h e n d o o e x e m p l o c l í n i c o que se segue, quis avaliar a b inar idade
e q u í v o c a d o s i n t o m a , tal c o m o se a p ó i a na d u p l i c i d a d e da t r a n s f e r ê n c i a . Assina-
laremos que esta s e q ü ê n c i a bastante l onga c o m e ç a p o r u m a a g r e s s ã o discreta
con t r a o analista. C e r t a m e n t e a hos t i l idade se e x p r i m e nela n u m regis t ro su t i l e
c i v i l i z a d o , mas n ã o de ixa de se e fe t ivar . Esta hos t i l idade conce rne a u m a certa
f o r m a de i d e a l i z a ç ã o d o analista e, nesta m e d i d a , eu n ã o p o d i a fazer ou t r a coisa
que f e l i c i t a r - m e . E f o i p o r q u e esta a g r e s s ã o p ô d e ser t r a n q ü i l a m e n t e levada a seu
t e r m o , sem o b j e ç ã o da parte daquele que a supor tava, que o o b s t á c u l o da trans-
f e r ê n c i a f o i c o n t o r n a d o , c o n d u z i n d o m u i t o d i r e t amen te , g r a ç a s a este apo io
ve lado , ao que a a n á l i s e do s in toma t i nha de mais c o m p l e x o .
Peguemos o b o n d e andando deste analisante. Seu b o n d e va i para a S u í ç a ,
pa í s c o n h e c i d o pela neut ra l idade de seus bancos. N u m deles se e n c o n t r a v a de -
pos i tado u m p e q u e n o p e c ú l i o , ainda bastante p o l p u d o , d e i x a d o para ele p o r sua
m ã e . Esta s ó lhe havia de ixado esta h e r a n ç a g r a ç a s a u m f e l i z c o n c u r s o de c i r -
c u n s t â n c i a s , pois , na real idade, só devia semelhante f o r t u n a à hab i l i dade f i n a n -
ceira de seu t e rce i ro m a r i d o , que t ivera a i d é i a de m o r r e r b e m antes q u e ela.
Este analisante, o Senhor H . , v ia java , p o r t a n t o , r e g u l a r m e n t e à S u í ç a para
superv is ionar c o m o f r u t i f i c a v a m seus bens. A ve loc idade dos m e i o s de t r anspor -
te m o d e r n o s l h e p e r m i t i a realizar esta tarefa m u i t o c o m o d a m e n t e , e m p o u c o
m e n o s q u e u m a tarde, seu e n c o n t r o c o m seu b a n q u e i r o l h e d e i x a n d o m e s m o
alguns lazeres en t re os dois trens. C o m o se o c u p a r á , d u r a n t e esta espera, aquele
que n ã o t e m p a i x ã o pelos r e l ó g i o s o u p o r este choco la t e c o m cujas qual idades se
fez a r e p u t a ç ã o h e l v é t i c a assim c o m o c o m seus cofres- for tes? Ele p o d e r i a , p o r
e x e m p l o , e c o m mais l iberdade que e m sua c idade de o r i g e m , assistir à p r o j e ç ã o
de u m f i l m e p o r n o g r á f i c o , n u m a sala conceb ida j u s t a m e n t e , parece, para este
f i m , encon t r ando- se c o m o que p o r acaso situada a m e i o c a m i n h o en t r e o b a n c o
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 105
e a gare. E era a esta a t iv idade que o Senhor H . n ã o deixava de se entregar e m
cada u m a de suas viagens, aliás sem o m e n o r r e m o rs o , satisfazendo assim u m
i m p u l s o que o agitava desde sempre. A aná l i s e só r ecen temen te havia afastado
u m p o u c o este p e n d o r de suas p r e o c u p a ç õ e s cot idianas. Sua a t r a ç ã o pela v i s ã o
c o p u l a t ó r i a de u m casal estava, nos ú l t i m o s t empos , u m p o u c o atenuada, sobre-
t u d o desde que, pela g r a ç a do d i v ã , l i g o u esta a t iv idade ao d e s a g r a d á v e l s i n t o m a
de e j a c u l a ç ã o precoce que an imava seus encont ros . E n t ã o pensou que era m e -
l h o r escolher, e o fez , reservando à neut ra l idade s u í ç a u m prazer de que j á n ã o
se aprovei tava mais na F r a n ç a , pa í s que doravante reservava a p a i x õ e s mais o r t o -
doxas.
N ã o f o r a somente sua p r e c i p i t a ç ã o e j a c u l a t ó r i a que o t i n h a c o n d u z i d o a
aprovei ta r os b e n e f í c i o s da p s i c a n á l i s e . E le i g u a l m e n t e sof r ia de u m penoso
handicap e m seu t raba lho in t e l ec tua l : era- lhe i m p o s s í v e l prosseguir , a l é m de
algumas p á g i n a s , a l e i t u ra de u m a obra sé r ia , sem rap idamen te sentir suas p á l p e -
bras pesarem, ainda m e l h o r que q u a n d o u m a c ã i b r a muscu la r intensa, o u u m a
v i o l e n t a d o r de c a b e ç a i n t e r r o m p i a b r u t a l m e n t e esta honrada a t iv idade . Esta
d e s a g r a d á v e l p r o p e n s ã o o i m p e d i r a , al iás, de t i rar p r o v e i t o c o m o quer ia de sua
v i v a i n t e l i g ê n c i a n o quad ro de u m curso u n i v e r s i t á r i o . A s s i m , qua l n ã o f o i sua
surpresa ao constatar, q u a n d o de sua recente v i a g e m à S u í ç a , que n ã o somen te
t inha conseguido ultrapassar a q u i n t a p á g i n a de u m a obra bastante rebarbat iva
sem se en to rpecer i m e d i a t a m e n t e , mas que, a l é m disso, havia l i d o de u m a só
vez durante t r ê s horas.
E o que, p o r t a n t o , ele lera c o m tan to apetite? " U m l i v r o " , ele m e d iz ,
"de sua au tor ia , seu, de v o c ê que agora m e escuta! D e v o dizer que o de i para
m i m de presente h á m u i t o t e m p o , que o c o l o q u e i na bei ra de u m a estante, e
que só à sua v i s ã o este l i v r o m e parecia pesar toneladas, sem falar das c o m i c h õ e s
a l é rg i cas que a l e i t u ra de seu t í t u l o p rovocava . T e n d o - o co locado p rec ip i t ada -
m e n t e e m m i n h a maleta antes de par t i r , q u e m poder i a crer que este gesto co ra -
j o s o ter ia efei to? Pois b e m , f o i esse o caso! N ã o somente l i c o m d e s e m b a r a ç o
seu l i v r o , e m algumas passagens m u i t o á r d u o , a t é m e s m o u m p o u c o i n g r a t o , as
d i f icu ldades a u m e n t a n d o , isto sem d izer do j a r g ã o m u i t o d e s a g r a d á v e l de sua
p r o f i s s ã o , mas, a l é m disso, de numerosas gralhas e erros de o r tog ra f i a d e p l o r á -
veis que t i v e r a m m i n h a c o r r e ç ã o . N o t e i , e m par t icu lar , u m a frase, aliás elegante
e de u m a f e i t u r a quase cláss ica . Mas o e m p r e g o i n t e m p e s t i v o do "ne" a t o r n a
c la ramente i n c o r r e t a e f rus t ra este m e r i t ó r i o e s f o r ç o . V o c ê p o d e v e r i f i c a r f a c i l -
m e n t e que o despacho de 26 de f e v e r e i r o de 1901 do Senhor Georges Leygues ,
M i n i s t r o da I n s t r u ç ã o P ú b l i c a à é p o c a , proscreve o e m p r e g o do "ne e x p l e t i v o "
nas c o n d i ç õ e s e m que v o c ê o u t i l i z o u . É claro que t e n h o à sua d i s p o s i ç ã o as
106 O A « O H AO U t S i O
r e f e r ê n c i a s deste "ne" s u p r a n u m e r á r i o , n o caso de seu ensaio ser des t inado .1
u m a nova i m p r e s s ã o . Eis a í .
Percebo que esta v i a g e m à S u í ç a i gua lmen te apresentou u m a ou t r a p a r t i -
cular idade , é que desta vez dispensei, aliás sem n e m m e s m o perceber , o prazer
de i r ve r u m f i l m e p o r n o g r á f i c o , d i v e r t i m e n t o que me c o n c e d o usua lmente
en t re dois trens, c o m o v o c ê sabe. O t e m p o passou, t e r m i n e i m inhas o c u p a -
ç õ e s , . . . t i v e a i d é i a de pe rco r re r a p é o c a m i n h o que separava o b a n c o da gare c,
sem perceber , passei d is t ra idamente f r e n t e a m e u c i n e m a hab i t ua l . . . S o m e n t e
q u a n d o o c u p e i m e u lugar e m m e u c o m p a r t i m e n t o t i v e u m a i l u m i n a ç ã o : só
pude m e dispensar d o e s p e t á c u l o de hard core, da v i s ã o a rque jan te de casais
at irados a c o p u l a ç õ e s frenéticas p o r q u e — descu lpe-me, mas eu lhe pago m u i t o
para que v o c ê entenda isto — , p o r q u e , p o r t a n t o , eu lhe t i nha co r t ado o " N F \ . "
R e g i s t r e i s i lenciosamente seu t r i u n f o , r esguardando-me de f e l i c i t á - l o p o r
t ã o espantoso progresso, e logios que ele n ã o ter ia d e i x a d o , se eu os tivesse
c o n c e d i d o , de l a n ç a r à conta de u m m e u masoqu i smo (de que a p r o f i s s ã o , al iás,
p o d e sempre co r r e t amen te ser suspeita). O f a to de ter e m caixa de n e n h u m a
f o r m a i m p l i c a que as contas sejam p o r isso ajustadas e, o u v i n d o - o , eu n ã o m e
p o d i a i m p e d i r de pensar e m u m de seus trabalhos a n a l í t i c o s anter iores . E le havia
f e i t o n u m passado p r ó x i m o u m a s é r i e de a s s o c i a ç õ e s que ta lvez desse a chave da
l i g a ç ã o exis tente en t re o fantasma de cena p r i m i t i v a (já que era o v o y e u r i s m o
p roceden te deste fantasma que o levava a estes cinemas especializados) e a e s p é -
cie de reverenc iadora a g r e s s ã o que eu acabara de a g ü e n t a r .
Pensei i r res i s t ive lmente nesta s e q ü ê n c i a de seu t raba lho a n a l í t i c o , o n d e o
fantasma de cena p r i m i t i v a se havia a r t i cu lado a seu s i n t o m a de e j a c u l a ç ã o p r e -
coce. C o m o j á m e n c i o n e i e m ou t r a obra , esta a s s o c i a ç ã o se f e z g r a ç a s ao e q u í -
v o c o de u m a frase: " V i v o c o m o terceiro n u m casal." Esta fala t i n h a suscitado
duas ordens de pensamentos d is t in tos : de u m lado , o v o y e u r i s m o estava i m p l i -
cado c o m e v i d ê n c i a n o v e r b o v i v e r \je vis]; d o o u t r o , o e q u í v o c o exis tente
ent re como terceiro [en tiers] e inteira [enttére] i n t e r rogava a e s p é c i e de i d e n -
t i f i c a ç ã o f e m i n i n a que sof r ia n o m o m e n t o de sua e j a c u l a ç ã o p recoce . A l ó g i c a
desta i d e n t i f i c a ç ã o se p r end i a ao f a t o de que a e x p r e s s ã o d o g o z o f e m i n i n o o
fazia gozar m u i t o mais d o que ele sonhara.
A p ó s este b reve ins tante de r e f l e x ã o , esperei c o m p r u d ê n c i a a l g u m a n o v a
i n d i c a ç ã o — pois o que h á de mais de l i cado , e m nossa arte, q u e o m o m e n t o e m
que , c o m o era seu caso, u m s i n t o m a se havia deslocado? E le t a m b é m se c a l o u ,
esperando sem d ú v i d a m i n h a r e a ç ã o . M a s c o m o ela n ã o v e i o , e c o m o u m o u t r o
pensamen to se apresentou , ele o c o m u n i c o u l o g o . A c o n t e c e q u e , a lguns dias
antes, u m g r u p o de e x t r e m a d i re i t a , a F a c ç ã o A r m a d a V e r m e l h a , acabava de
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 107
levar à m o r t e , a l é m - t u m b a , u m f inancis ta i m p o r t a n t e e c é l e b r e , assassinato que
a imprensa e a t e l e v i s ã o d i v u l g a r a m amplamen te . C o m o v i d o p o r este e s c â n d a l o
m a n t i d o e m t o r n o deste f a to da atualidade, o Senhor H . quis m e n c i o n á - l o e m
seu d i á r i o , o n d e ele r egu la rmen te anotava suas r e f l e x õ e s í n t i m a s . E eis que e m
lugar de escrever "anteontem [avant-hier], u m magnatadas f i n a n ç a s f o i assassi-
nado" . . . ele p ô d e le r de sua p r ó p r i a pena: 11 antes inteira [avant entière]", etc.
Q u a l n ã o f o i a pe rp lex idade do Senhor H . f r e n t e ao t e s t e m u n h o de u m a m e -
m ó r i a inconsc ien te t ã o obst inada, i n t e i r a m e n t e p r o n t a a deslizar, apesar dele,
e m sua escrita e a se servir de algumas letras faltosas para se l e m b r a r a seu b e l -
prazer!... " A que se agarra u m a f o r m a ç ã o d o inconsc ien te , n ã o é , sendo- lhe
suf ic iente j u s t amen te algumas letras s u p r a n u m e r á r i a s : EN." E c o m o r epe t i de -
pois dele, mas a l é m disso soletrando-as, estas famosas letras, E, N... o c l a r ã o se
fez instantaneamente: "E, N , mas s im, s ã o as mesmas letras que eu lhe c o r t e i
r ecen temente , se b e m que n u m a o r d e m inversa ."
Semelhante a l q u i m i a t i n h a que surpreender , de f a to , pois p o r duas vezes
e m t ã o p o u c o t e m p o u m a l i te ra l idade i d ê n t i c a t i n h a u n i d o a cena p r i m i t i v a ,
n u m a p r i m e i r a vez à a g r e s s ã o , n u m a segunda vez ao assassinato. N a p r i m e i r a
sé r i e de a s s o c i a ç õ e s que t e r m i n a v a na l e i tu ra de m e u l i v r o , ele m e l a n ç a v a u m a
casca de banana, aliás m u i t o p o l i d a m e n t e . Esta ma l ign idade lhe p e r m i t i r a fazer a
e c o n o m i a de seu e ro t i smo voyeur i s ta , exe rc ido h a b i t u a l m e n t e p o r o c a s i ã o de
viagens e m que v ia f r u t i f i c a r , se n ã o o d i n h e i r o de seu pa i , ao menos aquele do
h o m e m que o s u b s t i t u í r a ( f ru tos aliás i l ega lmente depositados). E agora, o assas-
sinato d o b a n q u e i r o a l e m ã o o conduz i a , segundo u m c i r c u i t o inverso , ao gozo
da cena. E l e f o r m u l o u este pensamento nos seguintes te rmos: " O v o y e u r i s m o
n ã o é m e oferecer , ao m e s m o t e m p o estando f o r a d o go lpe , o gozo do assassina-
to?" Duas cadeias de a s s o c i a ç õ e s distintas, u m a ant iga e a ou t r a mais recente ,
pa rec iam assim querer con jugar - se . Mas u m an tagon i smo rad ica l n ã o as afastava
i m e d i a t a m e n t e u m a da outra? C o m e f e i t o , c o m o m a n t e r j u n t o s o gozo sexual e
u m fantasma assassino? C o m o ele pode r i a a d m i t i r que seu prazer pudesse ser
t r i b u t á r i o de u m pensamento assassino?
A s s i m , ve rdade i ramen te n ã o f o i surpreendente que a sessão que sucedeu
à descoberta de u m semelhante abismo se anunciasse sob d i f í c e i s a u s p í c i o s . U m a
e s p é c i e de v e r t i g e m insidiosa t i n h a c o m e ç a d o a t o m á - l o q u a n d o , a c a m i n h o de
m e u c o n s u l t ó r i o , se perguntava , n ã o sem a n g ú s t i a , o que i r i a d izer d a q u i a
p o u c o . A v e r t i g e m c o n t r a d i t ó r i a na qua l se e n c o n t r o u quase o o b r i g o u a parar
de andar. Nes t e m o m e n t o lhe v e i o u m pensamento f u g i d i o que se t i n h a apre-
sentado a ele h á m u i t o t e m p o , pensamento t e r r í v e l sobre o qua l sempre o m i t i r a
f a l a r - m e , r e m e t e n d o sempre para depois o enunc i ado desta e x t r e m a obscen ida-
Jílfi O AMOR AO AVI S > O
de. T i v e r a , pois . este pensamento , que permaneceu a par t i r d a í marcado a f e r r o
e f o g o , o pensamento de que a v i s ã o de u m filme p o r n o g r á f i c o c o h o r r o r dos
campos de c o n c e n t r a ç ã o se e q ü i v a l i a m . Pensamento sobre o qua l se avalia o que
t i nha de v e r t i g i n o s o para u m h o m e m c u j o pai era j u d e u . Ele c o n j u g a v a deste
m o d o , de mane i ra i n c o n f e s s á v e l , o prazer p r o f u n d o da cena p r i m i t i v a e o assas-
s i n a t o d o p a i q u e esta cena c o m p o r t a f a n t a s m a t i c a m e n t e . P e n s a m e n t o
supreendente t a m b é m , p o r q u e a H i s t ó r i a m a i ú s c u l a v i n h a a ele i m e d i a t a m e n t e ,
n o m e s m o instante . U m a realidade que nada tivesse de fantasma t i c o n ã o deveria
i n t e r d i t a r - l h e i m a g i n a r semelhante ho r ro r ?
Prazer e assassinato, que t u d o teria d e v i d o afastar, se e n c o n t r a v a m exata-
m e n t e con jugados nestas f o r m a ç õ e s s i n t o m á t i c a s , o b r i g a n d o - o a o lha r de f r en t e
u m pensamento i n s u s t e n t á v e l que , a cada vez que aparecia c la ramente , lhe dava
v o n t a d e de v o m i t a r c o m o u m b e b ê . . . " V o m i t a r c o m o u m b e b ê . " T a l era o
pensamento insistente que n à o mais o abandonava desde que t ive ra u m sonho
— que al iás seria preciso qua l i f i c a r m u i t o mais c o m o i m a g e m a l u c i n a t ó r i a , a fim
de dar con ta de sua v i o l ê n c i a — , i m a g e m sobre a qua l i m e d i a t a m e n t e era cer to
que era a mais ex t r ema r e p r e s e n t a ç ã o d o s e n t i m e n t o v e r t i g i n o s o que ele expe -
r i m e n t a v a . O que t i n h a v is to n ã o se pode r i a t r aduz i r e m n e n h u m a l í n g u a e sem
d ú v i d a figurava o que se p o d i a figurar de mais arcaico a p r o p ó s i t o de sua exis-
t ê n c i a . . . " E u via u m a boca de h o m e m que se parecia c o m u m â n u s e fiquei
co lado neste â n u s , que se t ransformava e m seio . . . "
A s s i m c o m o seu fantasma apresentava dois pensamentos i m p o s s í v e i s de
m a n t e r j u n t o s , t a m b é m duas p u l s õ e s opostas, o r a l e anal, o s o l i c i t a v a m c o n t r a -
d i t o r i a m e n t e nesta i m a g e m o n í r i c a , que lhe v i n h a a cada vez que o s e n t i m e n t o
nauseante o o p r i m i a : " E u m e p e r g u n t e i se n ã o ia v o m i t a r c o m o u m b e b ê . "
E n t r e t a n t o , c o m o se as f o r m a ç õ e s d o i nconsc i en t e que l h e pe rmanece -
r a m misteriosas lhe devessem servir de m u l e t a neste m o m e n t o desprazeroso, o
pensamento seguia seu curso, r e tomava seus d i re i tos , e i n t e r r o g a v a o ú l t i m o
hpsus caJamJ, que comete ra h á p o u c o t e m p o escrevendo antes inteira e m lugar
de anteontem. Este lapso, c o m m u i t o s anos de atraso, n ã o t o r n a v a e n f i m c o m -
p r e e n s í v e l u m s i n t o m a , o da e j a c u l a ç ã o precoce , n o e n t a n t o h á m u i t o t e m p o
curado? Estes d e s a g r a d á v e i s orgasmos precoces n ã o se p r o d u z i r a m , de f a t o , p r a -
t i c a m e n t e n u n c a mais , e ele havia a t r i b u í d o esta a l i v í a n t e m e l h o r a ao q u e p u d e -
ra acredi tar c o m p r e e n d e r de seu m e c a n i s m o : acreditava ter c o m p r e e n d i d o q u e
gozava d o g o z o f e m i n i n o — g o z o que ele m e s m o p r o v o c a v a , n o e n t a n t o ! N ã o
se tratava de q u e o g o z o f e m i n i n o o angustiasse ( c o m o lera antes nos manua i s ) ,
pois c o m o a a n g ú s t i a pode r i a estar na f o n t e de u m prazer? E le e n c o n t r a r a a b o a
pista — pensava — g r a ç a s ao l i a m e deste s i n t o m a e d o fantasma de cena p r i m i t i -
va , e x p l i c i t a d o pe lo e q u í v o c o ent re como terceiro e inteira.
O JOGO D A ASSOCIAÇÃO LIVRE 109
A s c o n d i ç õ e s e m que descobrira esta a r t i c u l a ç ã o lhe t i n h a m pa rec ido
p e r f e i t a m e n t e claras e numerosas l e m b r a n ç a s as v e r i f i c a r a m . E l e notara , p o r
e x e m p l o , que , q u a n d o duran te suas viagens o u v i a n u m h o t e l os embates de u m
casal n u m qua r to v i z i n h o , sua a t e n ç ã o se d i r i g i a exc lus ivamente para a e x p r e s s ã o
do prazer f e m i n i n o (sem d ú v i d a o mais n o t á v e l ) , de m o d o que t o d o o seu
prazer se resumia e m o u v i r o da m u l h e r gozando . E isto a u m tal grau que t i n h a
no t ado muitas vezes que arquejava c o m o elas! A c r e d i t o u , pois , p o d e r d e d u z i r
disto mais u m a vez que, se gozava t ã o r á p i d o n o ato sexual, era p o r q u e a expres-
são do prazer f e m i n i n o era t a m b é m o seu. Esta c o n s t a t a ç ã o que f izera , ent re
outros apon tamentos que i a m n o m e s m o sent ido , f o r a su f ic ien te , al iás , para que
este s in toma parasse de se manifes tar .
E , n o en tan to , u m a ta l c o m p r e e n s ã o — isto parecia claro somente agora
— permanecera i n c o m p l e t a — o que colocava algumas q u e s t õ e s quan to ao que
ter ia p o d i d o ser o m o t i v o de sua e f i c á c i a . U m m i s t é r i o permanecera i n t ac to e,
verdade i ramente d i z e n d o , sua e x i s t ê n c i a n e m m e s m o f o r a suspeitada: p o r que ,
pois , f o r a ele l evado , q u a n d o da c o p u l a ç ã o , a se i d e n t i f i c a r a u m a m u l h e r —
m e s m o que fosse c laro , c o m e fe i to , que u m a vez f r anqueado este passo ele
gozava c o m ela? O lapsus calanii deslocava todos os problemas , pois o que
quer ia dizer s e n ã o que, antes de estar na p o s i ç ã o inteira, era preciso con ta r u m a
ou t ra i n s t â n c i a , a que era s ignif icada pela i n t r o d u ç ã o do antes? O c o n t e x t o
mostrava que se tratava do pa i m o r t o , de cu ja e x i s t ê n c i a a t é aquele m o m e n t o
n ã o havia suspeitado. A m u l h e r adqu i r i a seu prazer q u a n d o o h o m e m n ã o era
mais que sexo e era elevado ao n í v e l de u m a p o t ê n c i a a n ô n i m a , paterna sem
d ú v i d a . E la gozava de a lguma f o r m a na a u s ê n c i a do i n d i v í d u o que a t rabalhava,
a l é m dele, t i r a n d o pa r t i do d o gozo deste pa i , d o qua l ele t a m b é m dever ia , p o r
c o n s e q ü ê n c i a e p o r con t r ago lpe , sof rer o j u g o . Sem que se tenha dado con ta ,
fazia sempre a m o r a t r ê s , e u m pai abstrato o sodomizava ao m e s m o t e m p o que
trabalhava sua c o m p a n h e i r a .
E l e se l e m b r a v a agora de u m sonho passado ao qua l n ã o prestara a t e n ç ã o :
encontrava-se n u m a m u l t i d ã o c o m u m a m u l h e r que o agradava m u i t o . A des-
pe i t o desta s i t u a ç ã o p o u c o í n t i m a , parecia estabelecido que i a m fazer amor . M a s
só pudera c o m e ç a r a p e n e t r á - l a p o r q u e seu pa i se t i n h a a p r o x i m a d o e lhe f o r n e -
cera u m a e s p é c i e de co r t i na . E l e o " c o b r i a " cer tamente , dos olhares, mas t a m -
b é m n u m o u t r o sent ido que se most rava a ele agora. C o m m u i t o atraso, m o s t r a -
va-se, pois , u m sent ido suplementar do s in toma , c o m o se a metade que lhe
faltasse somen te agora se mostrasse. Este sent ido n o v o n ã o anulava o que t i n h a
s ido descober to i n i c i a l m e n t e , n e m t a m b é m o in tegrava , pos to que a m o r t e do
p a i c o n t i n u a v a o opos to de u m gozo , ao qua l n o en tan to estava associada.
110 O AMOR AO A V ISSO
N o e x e m p l o deste s in toma , sua a r t i c u l a ç ã o c o m u m a i d e n t i f i c a ç ã o era
s u f i c i e n t e m e n t e estreita para n ã o de ixar d ú v i d a . A e j a c u l a ç ã o p recoce t i n h a
desaparecido q u a n d o fo r a isolada a s e q ü ê n c i a : " v i v o c o m o t e rce i ro n u m casal"
O e q u í v o c o que cai sobre o s ign i f ican te como terceiro/inteira t i n h a m o s t r a d o
de que i d e n t i f i c a ç ã o a u m a m u l h e r ele p roced ia . E n t r e t a n t o , u m e f e i t o t e r a p ê u -
t i c o , i m e d i a t a m e n t e o b s e r v á v e l , precedia de l o n g e a c o m p r e e n s ã o d o q u e i n i c i -
a lmen te se mostrara c o m o u m simples j o g o de palavras. D e f a t o , n ã o era t ã o
fác i l c o m p r e e n d e r a r e l a ç ã o exis tente en t re a e v o c a ç ã o de u m a cena p r i m i t i v a
( v i v e r como terceiro) e o f a to de se i d e n t i f i c a r a u m a m u l h e r {inteira), e menos
ainda apreender p o r que o resultado t inha sido u m a e j a c u l a ç ã o talvez intempest iva,
n o en tan to v i r i l .
S o m e n t e m u i t o depois a a r t i c u l a ç ã o c o m p l e t a d o s i n t o m a se m o s t r o u , e
ela se c o m p l e t o u quase que i m e d i a t a m e n t e g r a ç a s à a n á l i s e de u m n o v o sonho ,
relatado e m te rmos precavidos: " R e c o n h e ç o que este s o n h o é m u i t o escabroso
e, para d ize r t u d o , b e m d i g n o da p o r n o g r a f i a de que sempre f u i gu loso . S i n t o -
m e m a l e m p r o n u n c i a r esta palavra, mas é preciso chamar as coisas p o r seu
n o m e e v o c ê j á a o u v i u de ou t ros . O que eu v ia n ã o se prestava a c o n f u s ã o ;
tratava-se de u m a suruba. E u m e encont rava i n t e i r a m e n t e n u na cama c o m u m a
m u l h e r que t a m b é m estava nua e, a t é a í , t u d o parecia n o r m a l . S i t u a ç ã o menos
o r t o d o x a en t re t an to , podia-se t a m b é m no ta r a p r e s e n ç a , n o m e s m o l e i t o , do
m a r i d o da senhora, e este senhor i g u a l m e n t e se encon t rava nos mais simples
trajes. A coisa n ã o parava a í . E u m e ocupava a t ivamen te c o m o g o z o da senhora,
f a z e n d o - l h e ca r í c i a s manuais a que ela se entregava de boa v o n t a d e .
M a s este toques m e l eva ram a perceber que ela n ã o t i n h a vag ina , desco-
ber ta que , a l iás , e m nada d i m i n u í a m e u ardor . D e t a l h e sup lementa r , à a l tura e m
que a natureza quere r ia que m i n h a m ã o encontrasse u m a f enda , ela encon t rava
u m a coisa t o t a l m e n t e ou t r a . C e r t o , n ã o se tratava de u m p ê n i s , mas era m u i t o
c laro que u m o b j e t o d u r o e c o m p r i d o estava neste luga r sob sua pe le . P o u c o
e m b a r a ç a d o , n o en tan to , c o m esta anomal i a , eu c o n t i n u a v a a m e e s f o r ç a r para
o b t e r alguns sinais de u m prazer, que aliás c o m e ç a v a a despontar , de f a t o . D u -
rante este t e m p o , o m a r i d o n ã o parecia prestar n e n h u m a a t e n ç ã o a estes e m b a -
tes, n e m que fosse lhes c o n c e d e n d o u m o lha r . O esposo l e g í t i m o pe rmanec ia
c o m o m á r m o r e . Para dizer a verdade, esta c o n s i s t ê n c i a m a r m ó r e a estendia-se de
seus p é s à c a b e ç a , de f o r m a que , passando p e l o m e i o de seu c o r p o , sua m o n s t r u -
osidade era de u m a rigidez, ela t a m b é m , i n t e i r a m e n t e m i n e r a l . F o i neste m o -
m e n t o que se i m p ô s a m i m u m a i d é i a clara c o n c e r n e n t e a este c e n t r o d o c o r p o
de u m a t ã o majestosa c o n s i s t ê n c i a . . . pensei n u m c l a r ã o , e c o m o se se tratasse dc u m a
certeza: " Q u a n d o a senhora gozar , o senhor m e s o d o m i z a r á . " N a d a , n o e n t a n -
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE
t o , de ixava ainda p reve r este f i m t r á g i c o , m i n h a a g i t a ç ã o m a s t u r b a t ó r i a prosse-
g u i n d o sem registrar m u i t o progresso. Q u a n d o , b ruscamente , o n o m e da esposa
m e v e m c o m a clareza de u m a i l u m i n a ç ã o , c o m o se g r a ç a s a ele eu tivesse
e n c o n t r a d o a chave de u m m i s t é r i o . N o en tan to , c o m o v o c ê p o d e r á constatar,
nada era mais nebu loso que a perspect iva aberta p o r este achado.
R e p e n t i n a m e n t e pensei, enquan to m i n h a m ã o c o n t i n u a v a sua d a n ç a , que
esta m u l h e r , eu t i n h a certeza disso, se chamava Senhora Carpentière. M e u i n -
consciente possui u m a c a r a c t e r í s t i c a : ele é ve rdade i ramente dos mais servis —
quando n ã o m e j o g a e m maus desvios, ele c a m i n h a soz inho . D e f a to , p e r c e b i ,
fa lando a v o c ê , que ele acabava de trazer n o m o m e n t o preciso , nas bagagensd o
p a t r o n í m i c o desta senhora, o como terceiro, que já t í n h a m o s analisado h á a l -
g u m t e m p o . Este n o m e p r ó p r i o n ã o fal tava e m engenho , posto que, c o m e f e i -
t o , e n c e n a ç ã o do sonho , é r a m o s t r ês a nos e s f o r ç a r c o m b i n a d o s . Sob a f o r m a
deste n o m e , como terceiro ressurgia, desta vez p r o v i d o de u m a carpa...
N ã o era m u i t o estranho? O que eu d i r i a deste pe ixe a n ã o ser que , ta lvez,
fico m u d o c o m o u m a carpa f r e n t e ao prazer f e m i n i n o . . . c o n c e d o que esta asso-
c i a ç ã o é fraca, ve rdade i ramen te d i zendo . . . O que quer de m i m esta carpa n o t u r -
na? Penso bruscamente , cer tamente , n o que eu n u n c a pensaria!... a carpa era o
prato t ã o f a v o r i t o quan to t í p i c o c o m o qua l m e u pai se regalava: a carpa r eche -
a d a — Ge£lte£sch...\ U m a c a r a c t e r í s t i c a paterna é assim, pois , apresentada n o
n o m e da dama. T o d a v i a , agora que r e f l e t i sobre isso c o m mais a t e n ç ã o , e j á que
m e u sonho ins i s t iu nisso, isso deve ser t a m b é m u m a c a r a c t e r í s t i c a de seu m a r i -
do . N ã o é este s o d o m i t a i m p á v i d o que lhe d á seu nome? D e toda f o r m a , e se
posso m e p e r m i t i r este chiste, é g r aça s a este salto de carpa que esta m u l h e r leva
o se lo* p a t e r n o . "
O s ign i f i can te Carpentière* trazia assim algo de n o v o , n ã o n o sen t ido e m
que tivesse l i be r a do u m e l e m e n t o suplementar , mas p o r q u e situava o t e r m o
m é d i o , o do pa i , que p e r m i t i a a r t icu la r o c o n j u n t o d o s i log i smo s i n t o m á t i c o .
P o r seu i n t e r m é d i o , a i d e n t i f i c a ç ã o i m a g i n á r i a à m u l h e r que goza se exp l i c i t ava .
C o m o demons t rava somente agora este ú l t i m o sonho , a a n g ú s t i a de c a s t r a ç ã o
t o m a v a para ele a f o r m a de u m gozo p r e c i p i t a d o , n o instante de u m a s o d o m i a
f a n t a s m á t i c a executada pe lo pa i . A l é m disso, esta a d j u n ç ã o de u m a carpa, t an to
j u d i a q u a n t o paterna, ao s ign i f i can te da c o p u l a ç ã o esclarecia o l i a m e , t an to
e n i g m á t i c o q u a n t o escandaloso, que ele havia estabelecido mui tas vezes, aquele
que u n i a o h o r r o r dos campos de c o n c e n t r a ç ã o e a p o r n o g r a f i a .
* Em francês, saut (salto) e sceau (selo), homófonos. (NT)
* O significante Carpentière i nc lu i carpe, père, entíère e en tiers. ( N T )
112 O \MOR AO A V I U O
N a realidade, e r e t roa t ivamen te , seria exatamente preciso r e c o n h e c e r q u e
ns e x p l i c a ç õ e s que ele se dera antes t i n h a m f i cado e m suspenso: ce r to , a a n g ú s t i a
f r e n t e ao gozo f e m i n i n o n ã o fo ra suf ic ien te para exp l i ca r o s i n ton i a , p o r q u e
sozinha n ã o p e r m i t i a c o m p r e e n d e r u m a e j a c u l a ç ã o que ele n ã o desejava t ã o
precoce . E n t r e t a n t o , esta a n g ú s t i a de gozar m u i t o r á p i d o encon t r ava agora u m a
a r t i c u l a ç ã o na r e l a ç ã o que aparecia entre a i d e n t i f i c a ç ã o f e m i n i n a e a p o t ê n c i a
paterna: c o m este pa i , era preciso conci l ia r -se o u e n f r e n t á - l o 1 3 !
Q u a n d o o Senhor H . l a n ç a v a a pa r t i r da í u m o lha r r e t r o s p e c t i v o aos
arcanos de sua sexualidade passada, parecia que nunca fo r a t ã o p o t e n t e quan to
q u a n d o encont ra ra mulhe res que, sem serem f r í g i d a s , l e v a v a m n o en tan to m u i -
t o t e m p o antes de de tonar . A g o r a que n ã o somente d i spunha , sem e s f o r ç o e
sem pensar nisso, de sua p o t ê n c i a v i r i l , e que descobria a l é m disso o que f o r a sua
c o n d i ç ã o , o Senhor H . p o d i a saber e m que n ã o era a mesma coisa ser incapaz de
se c o n t e r ao m e n o r sinal de prazer f e m i n i n o e gozar à a p r o x i m a ç ã o d o orgasmo
de sua parceira .
E l e havia a t r i b u í d o à sua f e m i n i l i z a ç ã o o p r i m e i r o f e n ô m e n o , mas o que
n ã o t i n h a v i s to é que esta f e m i n i l i z a ç ã o s ó a l c a n ç a v a u m ta l resul tado p o r q u e seu
pa i , b e m a l é m de sua pessoa real , n ã o estava s i m b o l i c a m e n t e m o r t o . N ã o t inha
ainda ousado o lha r de f r e n t e e en f r en t a r seu assassinato s i m b ó l i c o e, c o n s e q ü e n -
t e m e n t e , desde que esta a l m a - d o - o u t r o - m u n d o era evocada pe lo prazer f e m i n i -
n o , t u d o se passava c o m o se sofresse ao m e s m o t e m p o sua s o d o m i a e gozasse
i m e d i a t a m e n t e . O s detalhes de seu e r o t i s m o anal, que o t i n h a m o c u p a d o m u i t o
t e m p o n o passado, e que al iás o t e n t a v a m ainda ep i sod icamen te , lhe h a v i a m
p e r m i t i d o r econs t ru i r u m a ta l s e q ü ê n c i a (ele n ã o t i nha , p o r e x e m p l o , r e c r i m i -
nado de mane i ra s ign i f i ca t iva sua man ia de c o ç a r o â n u s e a de esfregar a ore lha
segundo u m t i q u e f ami l i a r ? ) . S e m esta s e q ü ê n c i a a r e l a ç ã o da e j a c u l a ç ã o precoce
c o m a cena p r i m i t i v a permanecer ia i n c o m p r e e n s í v e l , assim c o m o , sem o e ro t i s -
m o anal , a e r e ç ã o e o g o z o p r e c i p i t a d o p e r m a n e c e r i a m n o c a m p o d o m i s t é r i o
( n o sen t ido r e l i g ioso d o t e r m o M i s t é r i o , c u j a f u n ç ã o é c o l o c a r e m cena u m pai
" s i m b ó l i c o " ) . Q u a n t o ao prazer que t i n h a agora à a p r o x i m a ç ã o d o o rgasmo
f e m i n i n o , era de o u t r a o r d e m . E m sua p r o x i m i d a d e , era u m a v i o l ê n c i a e r ó t i c a
m a n t i d a que ele supor tava, u m a e s p é c i e de f r e n t e - a - f r e n t e c o m is to de que
, 3 E m certos ritos religiosos mono te í s t a s , uma prát ica , como a da exc i são , n ã o parece
antes de tudo destinada a fazer calar o gozo feminino? Esta v io l ênc ia ritual, po r ser
exercida menos contra a mulher que contra seu prazer, se ín t eg ra à re l ig ião na medida
em que é necessár io , deste modo , n ã o ouv i - l a ausentar-se c o m u m Pai... segundo o
voto de u m f i l h o angustiado pela p resença deste ú l t i m o .
O JOGO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE 113
talvez fosse o agente, mas que todavia p o d i a m a n t e r respei tosamente na m e d i d a
e m que l h e agradava.
C o m o ocor re ra que m u i t o s anos antes, q u a n d o sua c o m p r e e n s ã o hav ia
somente se d i r i g i d o ao e q u í v o c o como terceiro/inteira, o resul tado tivesse s ido
u m e fe i to t e r a p ê u t i c o , t ã o i m e d i a t o q u a n t o pos i t ivo? Pois n ã o somen te sua
s i g n i f i c a ç ã o estava i n c o m p l e t a , mas, a l é m disso, era falsa, d o p o n t o de vista
l ó g i c o . E le t i n h a d i r e i t o de se pe rgun ta r agora p o r qua l mis ter iosa magia d o
e q u í v o c o s ign i f ican te se p o d i a expl icar u m e fe i to t e r a p ê u t i c o que, a posteríorí,
permanecia t ã o i n c o m p r e e n s í v e l quan to aquele que teria sucedido ao e m p r e g o
de u m a f ó r m u l a caba l í s t i c a . A l é m disso, o p r i m e i r o lapso n ã o t i n h a se rv ido para
ocul ta r duran te m u i t o t e m p o u m a verdade, isto é, a d i m e n s ã o d o assassinato
paterno que só se descobria c o m o segundo lapso (antes inteira) — para e n f i m se
c o n f i r m a r g r aça s à Senhora Carpentière'?
Era f o r ç o s o c o n v i r que se u m a ta l s i g n i f i c a ç ã o f o r a ocu l tada era p o r q u e
fo r a t ransferida para o lado d o analista, a t í t u l o da d i v i s ã o do saber i nconsc i en t e
(S 7 ) . E e n t ã o era c o m p r e e n s í v e l que esta parte escondida n ã o se pudessemos t ra r
a n ã o ser n o m o m e n t o de u m a a g r e s s ã o perpetrada con t r a este analista. A s s i m ,
era preciso reconhecer que era menos o marav i lhoso saber descober to n u m
p r i m e i r o t e m p o que a p r ó p r i a t r a n s f e r ê n c i a que se mostrara eficaz.
V
Esta c o n s t a t a ç ã o n ã o era, sob certos pon tos de vista, i n q u i e t a n t e e, a inda
mais, d e s a g r a d á v e l ? Pois era preciso r econhece r que n ã o f o r a a descoberta i n t e -
lec tua l que t i n h a sido cura t iva , mas exatamente a t r a n s f e r ê n c i a . Seu r e l ê o r t o p é -
d i co t i n h a p e r m a n e c i d o eficaz duran te m u i t o s anos, o t e m p o para que u m lapso
quei ra subs t i tu i r u m o u t r o . As r a c i o n a l i z a ç õ e s elaboradas n u m p r i m e i r o t e m p o
só t i v e r a m , pois , u m a ú n i c a f u n ç ã o , a de demons t ra r a f o r ç a da t r a n s f e r ê n c i a .
N a real idade, esta c o n s t a t a ç ã o t i n h a p r o v o c a d o e m m i m u m a certa i n q u i -
e t a ç ã o , c o m o s u p l e m e n t o da m o d é s t i a de r i g o r nestas c i r c u n s t â n c i a s . D e f a t o ,
era m u i t o p o s s í v e l que o saber que f o r a p r i m e i r a m e n t e descober to tivesse a l g u -
m a p e r t i n ê n c i a . M a s t a m b é m n ã o menos pe rmanec ia que este saber t a m b é m
pode r i a ter sido falso e se mos t ra r t a m b é m eficaz, j á que sua p r i m e i r a f u n ç ã o f o r a
p r o v a r a f o r ç a da t r a n s f e r ê n c i a (pra t icamente i n d e p e n d e n t e m e n t e da verdade
que p u n h a e m j o g o ) . E u n ã o ter ia p o d i d o , e n f i m , d i r i g i r a a t e n ç ã o d o analisante
para u m a o u t r a s e q ü ê n c i a , a pa r t i r da qua l ele expo r i a a lguma certeza d i f e r en t e ,
e v e n t u a l m e n t e r i d í c u l a , o que n ã o i m p e d i r i a demons t ra r a e f i c á c i a da t ransfe-
IN V M O H m AVI JMl
E u pensava agora, n à o sem alguns suores tr ios , nas trancas e x p l o s õ e s de
riso que me sacudiram o u v i n d o falar diferentes analistas de outras cor ren tes
t e ó r i c a s que a m i n h a . Estes praticantes, t endo p ropos to a seus pacientes mte t
p r e t a ç õ e s c u j o c o n t e ú d o m a l u c o m e parecia ce r to , t a m b é m n ã o a t r i b u í r a m a
suas i n t e r v e n ç õ e s a s u s p e n s ã o de sintomas? E u n ã o t ivera estas r e a ç õ e s o u v i n d o ,
p o r e x e m p l o , os tes temunhos de alguns amigos kleinianos? A c h e i m u i t o p o u c o
conv incen tes suas r e f e r ê n c i a s , que se sabe l imitadas à " b o a " o u à " m á m ã e "
apreendida p o r m e i o de ob je tos qual i f icados s u b s e q ü e n t e m e n t e ! O s t r i u n f o s
t e r a p ê u t i c o s que se a t r i b u í a m t i n h a m p r o v o c a d o o riso l o u c o , ao menos m e n t a l ,
de seu o u v i n t e d u p l a m e n t e medusado diante de seu b r icabraque c o n c e i t u a i e de
seu e f e i t o suposto. Mas , c o m a r e f l e x ã o , j á que o resultado t e r a p ê u t i c o se a p o i -
ava sob re tudo na f o r ç a da t r a n s f e r ê n c i a , j á que c o n s e q ü e n t e m e n t e eu estava
a lo jado na mesma i n s í g n i a , p o r que eu t i nha que m e d ive r t i r ? Q u a i s q u e r que
fossem suas t e o r i z a ç õ e s , seu p o d e r t e r a p ê u t i c o n ã o era mais m á g i c a que o m e u ,
na m e d i d a e m que eu agora sabia que era su f ic ien te que u m a certa s e q ü ê n c i a de
saber fosse exposta (mesmo se se apresentasse sob a f o r m a de u m a e l u c u b r a ç ã o )
para que u m saber inconsc ien te cor responden te se visse i m e d i a t a m e n t e posto
e m m o v i m e n t o , e para que u m afe to , p o r p r i n c í p i o idêntico para qua lquer
t e r m o d o saber c o n c e r n i d o , desse e n t ã o , à t r a n s f e r ê n c i a , sua e f i c á c i a ! D e m o d o
que o f a to de sub l inhar u m a comple t a estupidez n o d izer d o analisante pod ia
f i n a l m e n t e acarretar a mesma a f e t a ç ã o , d o lado d o analista, que se u m j o g o
r e f i n a d o sobre u m e q u í v o c o tivesse s ido suscitado.
N ã o havia nestas c o n s i d e r a ç õ e s algo para fazer i n c l i n a r para a m o d é s t i a
lacanianos puros e duros entre os quais ousava m e contar? E esta real idade n ã o
abria ho r i zon te s inesperados para a p s i c a n á l i s e ? U m d é b i l m e n t a l n ã o pode r i a
per fe i tamente , a par t i r desta c o n s t a t a ç ã o , exercer esta p r o f i s s ã o d i g n a m e n t e , c o m o
parecia demons t ra r al iás a h i s t ó r i a desta d i sc ip l ina 1 4 ?
M a s suspendamos p o r u m instante u m a i r o n i a sempre f ác i l ( sobre tudo
q u a n d o se conhece , m e s m o supe r f i c i a lmen te , a s i t u a ç ã o ) e i n t e r r o g u e m o s p o r
u m instante estas falas acerbas. D e f a to , a deb i l idade m e n t a l q u e acaba de ser
evocada d i z respeito a u m a f u n ç ã o , m u i t o mais que a pessoas que , q u a l q u e r que
seja sua v ivac idade de e s p í r i t o , s o f r e r ã o os cons t r ang imen tos da p o s i ç ã o que
o c u p a m n o d i spos i t i vo . N a d a i m p e d e q u e t a m b é m o c o r r a assim, da mesma
1 4 Serge Lebovic i n ã o declarou, em 1946, isto é, exatamente antes da e x p a n s ã o da psica-
nálise na França, que seria preciso obter no menor prazo possível "cem psicanalistas
m e d í o c r e s " ? Ignoro se hoje ele considera que seus votos fo ram amplamente realiza-
dos, ainda que segundo certos especialistas este seja inteiramente o caso.
O JOGO D A ASSOCIAÇÃO LIVRE 115
f o r m a , p o r e x e m p l o , que u m a f u n ç ã o paterna possa ser perversa sem que aquele
que a sustenta o seja. N o que se refere à t r a n s f e r ê n c i a , sua f u n ç ã o mesma, ta lvez
eficaz, s u p õ e que aquele que a sustenta se de ixe afetar sem buscar c o m p r e e n d e r ,
e às vezes p o r m u i t o t e m p o antes de toda c o m p r e e n s ã o . D u r a n t e este l o n g o
t rabalho obscuro , s u p o n d o u m s i l ê n c i o r e l a t i vo do logos, a e v o c a ç ã o do t e r m o
debi l idade m e n t a l , l o n g e de ser i r ô n i c a , designa co r re t amen te u m a a t i tude de
p r i n c í p i o , pos to que c o n v é m guardar-se de compreende r , m e s m o e sob re tudo
o que parece ev iden te . Eis u m a a t i tude cujas c o n s e q ü ê n c i a s s ã o mais eficazes,
seguramente, que aquelas que t r a r i a m a i n t e l i g ê n c i a imed ia t a e e x p l i c a ç õ e s da-
das p rec ip i t adamente (mesmo q u a n d o parecessem exatas).
Esta e x p e r i ê n c i a m e leva a pensar nos analisantes cu j a l í n g u a , s e n d o - m e
fami l i a r , n ã o é n o en tan to a m i n h a . Seguramente , q u a n d o m e f a l a m , certas
finezas l i n g ü í s t i c a s que e m p r e g a m m e escapam, a p o n t o de eu ser f r e q ü e n t e -
men te ob r igado , q u a n d o é o caso, a fazer r epe t i r mui tas vezes os di ferentes
e q u í v o c o s de u m a f o r m a ç ã o do inconsc ien te . D e f a to , se percebo i m e d i a t a -
men te que, p o r e x e m p l o , u m lapso acaba de se p r o d u z i r , g r a ç a s às m o d u l a ç õ e s
da v o z , n ã o de ixa de c o n t i n u a r ve rdade i ro que n ã o c o m p r e e n d o sempre todos
os seus sentidos. O r a , acontece que estou, n o c o n j u n t o , surpreso c o m a qua l ida -
de dos resultados ob t idos c o m estes analisantes. Os sucessos m u i t o r á p i d o s e
supreendemente ob t idos apesar destes laboriosos tateamentos n ã o p o d e r i a m ser
a t r i b u í d o s a u m a l e n t i d ã o de c o m p r e e n s ã o m i n h a , p r o p o r c i o n a l à e f i c á c i a da
t r a n s f e r ê n c i a ? C e r t o , estes pacientes n ã o p o d e m saber se n ã o c o m p r e e n d o a
s i g n i f i c aç ã o de u m a palavra — p o r q u e a l í n g u a m e é estranha — , o u se é , ao
c o n t r á r i o , seu lugar n o c o n j u n t o do discurso que i n t e r r o g o . Eles i g n o r a m se
m i n h a i n c o m p r e e n s ã o es tá l igada à l í n g u a o u se ao que ela d iz . T o d a v i a , q u a l -
quer que seja a resposta que t r agam a esta a m b i g ü i d a d e , t u d o se passa c o m o se
ela r e f o r ç a s s e a t r a n s f e r ê n c i a e, n o m e s m o m o v i m e n t o , o e fe i to t e r a p ê u t i c o .
Neste sent ido , parece cer to que o discurso a n a l í t i c o exige menos a i n t e l i g ê n c i a
d i p l o m a d a que esta é t i c a t ã o d i f í c i l que consiste e m se de ixar afetar antes de
saber p o r q u ê 1 3 .
1 5 O que impor ta deste ponto de vista é a " p r e s e n ç a " do analista: " A presença do analista
é em si mesma uma mani fes tação do inconsciente...
Seria preciso ver no inconsciente os efeitos da palavra no sujeito — na medida em que
os efeitos são tão radicalmente pr imár ios que são propriamente o que determina o
estatuto do sujeito como sujeito." (Jacques Lacan, Les quatre concepts fondanientaux
de la psychanalyse, 15 de abril de 1964).
O M U R O D A
T R A N S F E R E N C I A
O q u e q u e r o a n a l i s a n t e ?
I
Pode acontecer de um analisante falar da chuva e do bom tempo, ou
ainda que se p o n h a n u m a d e s c r i ç ã o de que n e n h u m t r a ç o p a r e ç a fazer acon te -
c imen to . En t re tan to , t ã o vazias quanto possam parecer estas c o n s i d e r a ç õ e s , sempre
c h e g a r á o m o m e n t o e m que ele e x i g i r á u m a a p r e c i a ç ã o , u m sinal de consenso
do o u v i n t e . S o a r á e n t ã o a h o r a e m que , sob u m p re t ex to qua lquer , s e rá f o r m u -
lada u m a demanda t an to mais to t a l quan to mais seu c o n t e ú d o t e r á sido q u a l -
quer. Q u a n d o seu p o n t o de par t ida n ã o é t ã o geral , o analisante f a l a r á de sua
v ida e dos acon tec imen tos passados e presentes que o marca ram. T a m b é m aí ,
chega sempre u m m o m e n t o e m que o analista é i n t i m a d o a dar u m conse lho e
a t o m a r p a r t i d o .
E quan to mais esta demanda seja vã , mais p o d e r á v i r a r para a que ixa e da
que ixa para a r e c l a m a ç ã o 1 F o i n e c e s s á r i a esta re la t iva b ru ta l idade do analista —
pois é u m a n ã o responder p o l i d a m e n t e — para que fosse f o r m u l a d o mais clara-
m e n t e o que quer o analisante 2 Exis te u m interesse e m f o r ç a r este desve lamento
do quere r do analisante, pois a pa r t i r dele as jus t i f i ca t ivas v ã o - s e encadear de
1 " . . . todo o passado se entreabre, até o fundo da primeira infância . Demandar, o sujeito
nunca fez a l é m disso, ele só p ô d e viver por isso e nós entramos na série [...] A regressão
n ã o mostra outra coisa que o retorno no presente de significantes usados nas demandas
para as quais h á p resc r i ção . " (Jacques Lacan, "La direct ion de la cure et les pr ínc ipes de
son p o u v o i r " 1958, i n Ecríts, 1966, Seuil).
2 "Isto n ã o pode ser concebido sem situar corretamente a pos ição que o p r ó p r i o analista
ocupa em relação ao desejo constitutivo da análise, que é aquilo com que se engaja
nisto o sujeito, a saber — O que é que ele queP." (Jacques Lacan, Le transferi, sessão
de I o de m a r ç o de 1961).
120 O AMOR AO *Vt*SO
manei ra i n i n t e r r u p t a — m e s m o que o analista desista da presa — a t é q u e este
quere r se c h o q u e c o m o m u r o do desejo inconsc ien te . Sem esta c o n f r o n t a ç ã o ,
j amais o s in toma e n u n c i a r á suas r a z õ e s .
A s s i m o c o r r e u c o m esta j o v e m m u l h e r , v iva e alegre, m u i t o f e l i z na
m a i o r parte de suas atividades. E u n ã o c o m p r e e n d i a o que a pe r tu rbava e so-
m e n t e ao cabo de a l g u m t e m p o ela f a l o u de u m p r o b l e m a c o m o qua l i n i c i a l -
m e n t e dec la rou estar acostumada. Para dizer a verdade, c o m o s ó t i n h a c o n h e c i -
d o este handicap, t e rminara p o r considerar que se tratava de u m estado prat ica-
m e n t e n o r m a l . N a p r i m e i r a vez que m e v e i o ver , e v o c o u c o m d i f i c u l d a d e a
q u e s t ã o , que se poder ia f o r m u l a r e m duas palavras: é que ra ramente lhe aconte-
cia ter u m orgasmo fazendo a m o r , e de toda f o r m a nunca c o m u m h o m e m
amado . D e p o i s de f i n a l m e n t e ter d i t o algumas palavras sobre is to , quase que
i n c i d e n t a l m e n t e , passou a se que ixa r mais e mais amargamente desta l i m i t a ç ã o ,
buscando suas causas e seus r e m é d i o s , para e n f i m reconhece r que , l o n g e de ser
u m p r o b l e m a s e c u n d á r i o , s ó havia c o m e ç a d o u m a a n á l i s e para superar esta d i f i -
cu ldade .
" C o m o p o d e acontecer" m e c o n f i a ela u m dia, " q u e toda a m i n h a p re -
f e r ê n c i a se d i r i j a aos h o m e n s j o v e n s , e m e s m o a t é m u i t o jovens? D e f a t o , meus
amantes pa recem às vezes ser p ra t i camente c r i a n ç a s , j á que n u n c a sou t ã o tocada
q u a n t o pelas e m o ç õ e s dos adolescentes... N ã o c o m p r e e n d o esta p r e f e r ê n c i a t ã o
marcada, enquanto que os h o m e n s m e d ã o m e d o . "
C o m o a l i g a ç ã o estabelecida pela l o c u ç ã o c o n j u n t i v a subo rd ina t i va en-
quanto que c o m o resto da frase nada t i nha de ev iden te , s u b l i n h e i - a , destacan-
do-a . C o m e fe i to , p o r que , pois , u t i l i zando-a , ela havia instaurado u m a d i c o t o m i a
ent re os j o v e n s (as c r i a n ç a s ) e os menos j o v e n s (os homens)? O s p r i m e i r o s n ã o
e r a m homens? Eis o que parecia merece r alguns esclarecimentos . A l i á s n ã o lhe
f o i preciso mais que este discreto p e d i d o de e x p l i c a ç ã o para q u e se l a n ç a s s e e m
longas d e d u ç õ e s sobre o m o t i v o de suas p r e f e r ê n c i a s j u v e n i s , e sco lhendo f i n a l -
m e n t e ve r n o aspecto infantil dos j o v e n s u m m e n o r p e r i g o sexual (e e n t ã o era
l í c i t o o p ô - l o s aos h o m e n s ) .
Esta e x p l i c a ç ã o m u i t o mais c o m p l i c a v a o p r o b l e m a d o q u e o esclarecia.
Pois eu n ã o ignorava , j á que ela m e havia c o n f i a d o , q u e o p e r i g o sexual n ã o era
m e n o r da parte dos adolescentes, que o p r e t e n d i d o angel ica l i n f a n t i l l h e valera
mais de u m a vez assaltos que sua e m o ç ã o , a l iás , de ixava pressentir . A obscu r ida -
de permanec ia . E m t roca , a palavra infantil'me pegara m u i t o , e a c r e d i t e i b o m
o p i n a r a cada vez que ela a empregasse... de m o d o q u e ela a usava cada vez
mais . . . a p o n t o de se pe rgun ta r de repente q u e m , po is , ela dev i a ser para t e r tais
freqüentações, ela que j á n ã o era mais u m a m e n i n a . Ela q u e n à o t i n h a f i l h o s , era
sua f i b r a ma te rna que a d ive r t i a assim p o r a l g u m v i é s p e r v e r t i d o ? M i n h a e x -
O MURO D A TRANSFERÊNCIA 121
c l a m a ç ã o ap rovadora f o i e n t ã o t ã o ruidosa que lhe f i c o u i n t e i r a m e n t e c laro que
n ã o se tratava absolu tamente dis to .
E l a ce r t amente se dava con ta de que nestes di ferentes encadeamentos se
escondia u m enredo . F o i p o r isto que lhe pareceu p r e f e r í v e l r e t o m a r o c o n j u n -
to do r a c i o c í n i o : qua l t i n h a sido o segundo t e r m o da e q u a ç ã o na base desta
c o l o c a ç ã o e m s é r i e c u j o ú l t i m o elo ex ig ia e v i d e n t e m e n t e u m rea jus tamento d o
c o n j u n t o ? Ficava claro que, opos tamente aos j o v e n s , os h o m e n s l h e d a v a m
m e d o . E c o m o era ev iden te que toda a s é r i e associativa devia ser recolocadae m
q u e s t ã o à l u z do t e r m o infantil, seria preciso considerar que o t e r m o opos to ao
t e r m o " c r i a n ç a " devia ser na realidade o t e r m o pais. E disso ela i m e d i a t a m e n t e
p ô d e de duz i r que os h o m e n s que lhe davam m e d o eram. . . pais. A s s i m ela c o l o -
cava e m seu j u s t o lugar a i n f e r ê n c i a m u i t o r ap idamente fe i ta , segundo a qua l
seria u m a m ã e para os j o v e n s que n ã o lhe d a v a m m e d o . Ela havia declarado
p rec ip i t adamente que era u m a m ã e para aqueles que n ã o a angust iavam, e n -
quan to que seria mais exato d izer que era u m a f i l h a f r e n t e à q u e l e s que l h e
davam m e d o . Mas p o r ter assim adiantado seu " q u e r e r " a t é seu p o n t o mais
e x t r e m o , n ã o f o i u m a e s p é c i e de desamparo que se a p o d e r o u dela? E f e t i v a m e n -
te, e m seguida a este r e m e t i m e n t o ao lugar de u m a sé r i e i d e n t i f i c a t ó r i a , a ques-
t ã o que devia fechar a sessão f o r m u l o u - s e bruscamente nestes t e rmos : " O que
posso e n t ã o ser, se n ã o sou u m a c r i a n ç a ? "
N a m e d i d a e m que estava i den t i f i cada a u m f i l h a c o n f r o n t a d a c o m u m
pai , seu r a c i o c í n i o f o r a c o n s t r u í d o para abrigar esta i d e n t i f i c a ç ã o , e pe lo m e s m o
c a m i n h o seu s i n t o m a de f r i g i d e z — que só aparecia n o p r i m e i r o p lano c o m os
homens s u s c e t í v e i s de serem amados, sobre os quais n ã o nos espantaremos que
estejam na sé r ies dos "pa is" Nes te sent ido , este r a c i o c í n i o m e s m o lhe era s i n t o -
m á t i c o , e m b o r a sem ser falso, p o r q u e e x p u n h a a verdade da a l i e n a ç ã o que
recobr ia . I m p o s s í v e l e x p o r esta verdade sem seu l i ame consubstanciai c o m a
men t i r a ! U m a i d e n t i f i c a ç ã o i m a g i n á r i a , a de f i l h a , f o r a ser iamente abalada n o
m o m e n t o e m que a q u e s t ã o de u m a o u t r a i d e n t i f i c a ç ã o — que se pode r i a des ig-
nar c o m o a de "a m u l h e r " — se estava co locando . Estar i d e n t i f i c a d a a u m a
m u l h e r aparecia e m f i l i g r a n a na q u e s t ã o que t i n h a marcado o f i n a l desta se s são :
" O que posso e n t ã o ser, se n ã o sou u m a c r i a n ç a ? " O p o n t o de i n t e r r o g a ç ã o
i m p ô s - s e c o m r a z ã o , pois n ã o era ele que, na m e d i d a e m que "ser u m a m u l h e r "
pe rmanece r i a p r o b l e m á t i c o , i r i a p e r m i t i r de toda f o r m a a r r o m b a r a f echadura
d o orgasmo?
O m o v i m e n t o de esclarecimento do querer de u m analisante t a m b é m
i m p o r t a para o q u e s t i o n a m e n t o de u m a i d e n t i f i c a ç ã o i m a g i n á r i a e d o s i n t o m a
que dela p rocede . E c o m u m que este desvelamento de u m a i d e n t i f i c a ç ã o n ã o
t e r m i n e c o m ela. Para que u m a l í v i o sem r e t o r n o se p r o d u z a ainda é preciso que
122 O UlOR Ml A V I S * O
se apresente imed ia t amen te u m a s o l u ç ã o de recarga, c o m o sugere, a l iás , a ú l t i -
ma q u e s t ã o desta analisante. O que ela poder ia cer tamente ser, de f a t o , se n ã o
fosse u m a c r i a n ç a ? Para esta pergunta , a resposta " u m a m u l h e r " nada t e m de
ev iden te , mas esta incerteza n ã o é mais f r u t í f e r a que a tenta t iva de responder à
pe rgun ta , o u seja, pela perspectiva da maternidade?
Nes te e x e m p l o , o s i n toma n e u r ó t i c o se prende ao esquema geral que
aqueles que a b r i r a m u m l i v r o de p s i c a n á l i s e c o n h e c e m de cor : ele p rocede do
t r a u m a t i s m o sexual p o r u m pai . O s exemplos deste t r a u m a t i s m o a b u n d a m des-
de a descoberta da p s i c a n á l i s e e se rv i ram para demons t ra r a p r i m e i r a teor ia do
t r a u m a t i s m o sexual de F reud . Des locado para o p lano d o fantasma na sua se-
gunda mane i ra de encarar o p r o b l e m a , F r e u d n à o d e i x o u de lhe dar u m lugar
cen t ra l e m suas teorias. E este even to p s í q u i c o que centra o que se poder ia
chamar a r e i v i n d i c a ç ã o f e m i n i n a , o t e r m o " q u e r e r " só e x p r i m i n d o f racamente
o que es tá e m q u e s t ã o , s e n s í v e l e m toda a c l í n i c a e a m p l a m e n t e e x p l o r a d o .
II
Muito menos conhecido e interessante de estudar é o fantasma viril cor-
respondente . O t e r m o " r e i v i n d i c a ç ã o " c o n v é m i g u a l m e n t e a este querer : e m
n o m e de u m ideal de j u s t i ç a , u m a equ i ta t iva d i s t r i b u i ç ã o d o g o z o an ima o
que re r e s p e c í f i c o da neurose mascu l ina .Os senhores se m o s t r a m m u i t o f r e q ü e n -
t e m e n t e p r o n t o s , p o r sua vez, a in f l amar - se segundo este f u n d o de q u e r u l ê n c i a .
Poder-se- ia acredi tar que esta especif ic idade mascul ina sub l inha r i a que as m u -
lheres p o u c o se p r e o c u p a m c o m a i n j u s t i ç a , p o r q u e sua r a z ã o de denegar a
c a s t r a ç ã o é c o m p a t í v e l c o m a ana tomia f e m i n i n a o u p o r q u e sua m e n o r p r e o c u -
p a ç ã o de saber que o leva ao t e r reno da p o t ê n c i a as t o rna , sob diversos aspectos,
m u i t o menos re iv ind ica t ivas . N a real idade, existe en t re os h o m e n s e as m u l h e -
res somente u m a d i s t o r ç ã o de a p r e s e n t a ç ã o d o fantasma de s e d u ç ã o h i s t é r i c a ,
i m p o n d o aos h o m e n s a agressividade j u s t i c e i r a — se q u e r e m preservar seu
p e r t e n c i m e n t o v i r i l — a l i o n d e as mu lhe re s e s t ã o a m p l a m e n t e d e s e m b a r a ç a d a s
desta p r e o c u p a ç ã o 3 O fantasma d o j u s t i c e i r o , m i n i m i z a d o na l i t e r a tu ra a n a l í t i c a
3 Sobre a in f l exão do querer pela e le ição do sexo, cf. P . -L. Assoun: " D e onde procede
o voluntarismo desenfreado de que se colore esta escolha de obje to homossexual. É
como se o sujeito se fizesse mili tante de seu p r ó p r i o querer... isto pelo que é preciso
uma "vontade de fe r ro" : resistir ao Pai, de maneira a invalidar, ao mesmo tempo que
a l inguagem do in terdi to , a lei do desejo." (Paul-Laurent Assoun, Freud etlã femme,
C a l m a n - L é v y , 1983).
O MURO DA TRANSFERÊNCIA 123
( enquan to o É d i p o f o r n e c e dele u m t ã o b o m e x e m p l o ) , é o exato s i m é t r i c o da
que ixa f e m i n i n a re fe ren te a u m t r auma t i smo sexual. A demanda de j u s t i ç a cons -
t i t u i u m a e n c e n a ç ã o d i f u n d i d a do fantasma mascu l ino , seja representada nas
figurações guerreiras da c o n f r o n t a ç ã o c o m u m r i v a l , seja colocada e m ato e m
n o m e de u m idea l p o l í t i c o , o u busque ainda ela satisfazer-se d iante de u m t r i b u -
nal . A i n d a é n e c e s s á r i o precisar que estas c o n f r o n t a ç õ e s se l i m i t a m usua lmente a
u m a r u m i n a ç ã o í n t i m a que apenas alguns sintomas e x t e r i o r i z a m .
Q u a l é o o b j e t o do l i t í g i o , para a l é m dos m o t i v o s dados? A q u e i x a
cor responde ao fantasma de ter sido lesado e se trata de v o l t a r a ganhar u m gozo
de que o u t r o t i ra p r o v e i t o . Nes ta v e r s ã o do fantasma, é u m i r m ã o que s e r á a
o p o r t u n i d a d e da c o n f r o n t a ç ã o : n ã o é f r e q ü e n t e que u m a m i g o an t igo , o u u m
p r ó x i m o , se ve ja assim co locado bruscamente n o posto dos acusados? U m a ta l
s i t u a ç ã o d o p r o b l e m a i m p õ e u m a d e d u ç ã o , pois , desde que h á r iva l idade f r a t e r -
na, pode-se estar cer to de que, do p o n t o de vista do gozo , u m o b j e t o incestuoso
m o t i v a a lu ta . É verdade que a r e i v i n d i c a ç ã o incestuosa se most ra ainda mais
c laramente q u a n d o se p rende a u m personagem pa te rno , mas esta n ã o é a apre-
s e n t a ç ã o mais f r e q ü e n t e deste fantasma.
D e toda f o r m a , u m a c a r a c t e r í s t i c a de p r i m e i r o p lano desta r e i v i n d i c a ç ã o
exige ser i m e d i a t a m e n t e subl inhada: é que , se o o b j e t o da demanda é i n c e s t u o -
so, a p r ó p r i a demanda, p o r equi tat iva que se apresente, na realidade é transgressora.
A demanda de que j u s t i ç a seja fe i ta , na p r ó p r i a m e d i d a e m que o que busca
ob te r é p r o s c r i t o pela l e i , possui, p o r t a n t o , esta c a r a c t e r í s t i c a p r ó p r i a do fantas-
m a de ser i l ega l e m seu f u n d a m e n t o . Eis p o r q u e ela p r e f e r i r á i g n o r a r a obscen i -
dade d o que quer , e assim pode permanecer m u i t o t e m p o inconfessada. Seu
o b j e t o pe rmanece secreto para ela mesma, c o m o mostra a r e l a ç ã o inversa que
m a n t é m c o m o d i r e i t o e m v i g o r na cidade, o u , mais s implesmente , c o m a l e i da
p r o i b i ç ã o d o inces to . A s s i m , é constante que, durante a p r ó p r i a cura, u m a q u e i -
xa a respei to de u m r i v a l só seja exposta ao psicanalista segundo vias indiretas e
c o m atraso — c o m o se houvesse a lguma r a z ã o para ter v e r g o n h a dela.
Se os h o m e n s ficam t ã o m e x i d o s c o m seus di re i tos , n ã o d e v e m esta sen-
s ib i l idade à i n j u s t i ç a que c o n h e c e m quando ves tem a m á s c a r a do E d i p o ? A
lenda que r que É d i p o tenha sido abandonado p o r u m p r i m e i r o pa i , c u j o desejo
assassino n ã o figura nada de o u t r o que a c a s t r a ç ã o realizada, e que tenha sido
l evado p o r u m o u t r o h o m e m que considera c o m o seu pa i a u t ê n t i c o . O fantas-
m a t ã o c o m u m de ter sido abandonado e adotado p o r ou t ros pais que aqueles
que f o r a m os geni tores se exp l i c i t a assim na lenda, desta f o r m a dando con ta da
d u p l i c i d a d e das f u n ç õ e s paternas. Este fantasma t e m c o m o cor re la to u m a de -
m a n d a de r e p a r a ç ã o expressa con t r a u m personagem pa te rno e m n o m e de u m
124 O AMOR \ O A V ISSO
o u t r o pai ( c o m o é o caso para H a m l e t ) , o u ainda d i r e t amen te de u m f i l h o
c o n t r a u m pai ; mas qua lque r que seja, e m todos os casos, a t i n i de se b e n e f i c i a r
d o g o z o da m à e . O h e r ó i 4 desta saga í n t i m a es tá a n i m a d o e n t ã o p o r u m a sede de
v i n g a n ç a ao m e s m o t e m p o que p o r u m a p r e o c u p a ç ã o de l e g i t i m a ç ã o da filiação.
O s e n t i m e n t o de sof re r u m a i n j u s t i ç a parece f r e q ü e n t e m e n t e t an to mais
i n d e t e r m i n a d o na m e d i d a e m que seu ve rdade i ro o b j e t o é i nconsc i en t e . Ele se
p o d e fazer sent i r ao m e s m o t e m p o que u m s e n t i m e n t o de e x í l i o s u b j e t i v o , p o r
e x e m p l o n o m o m e n t o de u m a r e u n i ã o de amigos , de u m a r e u n i ã o m u n d a n a ,
o u a inda e m qua lque r o c a s i ã o de e x a c e r b a ç ã o da c o m p e t i ç ã o social . É i m p o r -
tante assinalar esta i n d e t e r m i n a ç â o , p o r q u e ela sub l inha a d i m e n s ã o f a n t a s m á t i c a
de seu o b j e t o . E la f o r m a l i z a a sua mane i ra a p e r m a n ê n c i a d o desejo e a e s p é c i e
de a b s t r a ç ã o que a an ima . Para a v e r s ã o d o fantasma aqu i subl inhada , a f o r ç a do
desejo é p r o p o r c i o n a l à falha i r r e m e d i á v e l — e in jus ta — que m a n t é m o su je i to
afastado d o b e m que c o b i ç a . D e f o r m a que seu p r ó p r i o desejo n ã o lhe pode
aparecer a n à o ser c o m o u m m a l con t r a o qua l se debate, m a l a n t i n ô m i c o a toda
a o r d e m dos Bens , que , i m e d i a t a m e n t e , a anular ia . T ã o l o n g e q u a n t o u m su j e i -
* Pa rad igmá t i co da neurose masculina, o papel do just iceiro serve como auréo la do
h e r ó i moderno — ao menos a partir do É d i p o , que f o i u m dos primeiros defensores
dos fracos que fez falar dele. N e m o amor nem a fraternidade poder iam frear a marcha
para frente deste justo. Sustentado pela con t r ad i ção de u m desejo que se desconhece,
ele aliás n ã o sabe o que busca, a n ã o ser que é preciso reso lvê - lo em ato. O justiceiro
n à o t em cor pol í t ica , tanto faz sucesso na direita como na esquerda. N ó s o veremos
vestindo o costume do aventureiro sol i tár io, em busca do Eldorado no Oeste distante
ou em W a l l Street, enquanto aparecerá inteiramente à vontade no gesto r e v o l u c i o n á -
rio. É d i p o está p r ó x i m o , existem versões modernas do fantasma do just iceiro que não
podemos detalhar: exigir reparação de u m pai que, por d e f i n i ç ã o , permanece desco-
nhecido, querer corr ig i r os errados no con jun to da sociedade a n ô n i m a dos i r m ã o s , eis
o que t a m b é m pode dar, se n ã o u m mot ivo , ao menos sua força a u m ideal revolucio-
ná r io . A ação contra os detentores de u m poder terá a vantagem de realizar as duas
faces de u m fantasma ao mesmo tempo assassino e just iceiro, pregando uma le i (a da
igualdade dos i rmãos) contra uma outra lei (a dos pais). A His tó r i a talvez dirá , ainda
que seja atualmente mu i to mais avara de expl icações , po r que o particular do just iceiro
n à o se colet ivizou no conjunto dos r evo luc ioná r ios . Se o just iceiro resiste po r p r i n c í -
p io à vida de grupo, talvez seja porque toda coletividade idealiza mais o u menos
rapidamente uma figura paterna. E na medida e m que u m r e v o l u c i o n á r i o f o i u m
just iceiro no sentido n e u r ó t i c o do termo (quer dizer, u m sujeito decidido a passar às
vias de fato c o m o pai), ele n ã o deixará de se situar em exc lusão e m re lação a seu
p r ó p r i o grupo, a partir de que este ú l t i m o se consti tuiu fraternalmente sob a é g i d e de
u m novo pai.
O MURO DA TRANSFERÊNCIA 125
t o sustente seu desejo, ele se m o s t r a r á p o r t a n t o rebelde a toda a o r d e m dos Bens ,
que n ã o l h e c o n c e d e r ã o o que quer . Se existe u m a t á t i c a para que os impasses
d o desejo se confessem a l é m do que se quer , n ã o consiste ela e m , l e v a n d o o
su je i to a falar de suas mais i n c o n f e s s á v e i s f i c ç õ e s , f a z ê - l o sair dos t e r r i t ó r i o s de
sonho o n d e ele se acantona c o m o H e r ó i ?
Nas f i c ç õ e s m í t i c a s e romanescas, o personagem do j u s t i c e i r o que , c o m o
É d i p o o u H a m l e t , se r eme te à l e i do desejo, nunca e x p r i m e m e l h o r sua verdade
que q u a n d o seu ato o p õ e e m r u p t u r a c o m a l e i c o m u m . D a mesma f o r m a , o
h e r ó i m o d e r n o d o r o m a n c e p o l i c i a l o u do f i l m e de a ç ã o se desloca de p r e f e r ê n -
cia à m a r g e m da sociedade, a t é m e s m o e m o p o s i ç ã o aberta a suas leis. N a e s p é -
cie de sonho desperto onde se m o v e , ele busca ob te r r e p a r a ç ã o para si m e s m o
e m n o m e de u m a n o b r e causa, e isso ele nunca f a r á t ã o b e m quan to soz inho
con t r a todos . A s s i m t a m b é m , r ac ioc inando a p r o p ó s i t o dos di ferentes aspectos
de u m dano i m a g i n á r i o e e x p l o r a n d o as v e r s õ e s de u m a saga mais o u menos
h e r ó i c a , mais de u m analisante r e c l a m a r á nada menos que a l e g i t i m a ç ã o de u m
desejo de que acaba de l e m b r a r que , assim c o m o o de É d i p o , se situa p o r d e f i -
n i ç ã o f o r a da l e i . Se quere r vingar-se p õ e e m f o r m a u m desejo incestuoso, o
j u s t i c e i r o n ã o se assemelha a a l g u é m que se t o m a p o r u m fora -da- le i? Presa
deste d i l e m a , a neurose tece sua f i c ç ã o h e r ó i c a , r u m i n a