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TRAUMATOLOGIA FORENSE Parte 3 28/03/2020 MSc. Profa. Janaina Fernandes Bióloga e Farmacêutica Asfixiologia: A asfixiologia forense é a parte da Medicina legal que estuda as asfixias. Todo ser vivo respira, absorvendo oxigênio e liberando gás carbônico. Curiosamente, o termo asfixia vem do grego, (a sphyxis) e significa “ausência de pulso”. O conceito vulgar de respiração consiste em apenas “encher e esvaziar” de ar os pulmões, mas cientificamente se trata de um processo bem mais complexo: o oxigênio que inspiramos na nossa respiração, depois de chegar até os pulmões, é distribuído para todas as células do nosso corpo, onde será utilizado em uma série de reações bioquímicas denominadas respiração celular. A morte por asfixia não é instantânea: geralmente leva quatro minutos (em média). De acordo como Código Penal, são circunstâncias agravantes ter o agente cometido o crime “com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel” Quando se observa um ser vivo se asfixiando, nota- se que ele executa fortes movimentos inspiratórios, na tentativa de obter mais oxigênio. A seguir, observam-se movimentos expiratórios, acompanhados geralmente de pequenas convulsões. Em seguida ocorre a parada respiratória com perda de consciência. Examinando-se externamente o cadáver vítima de asfixia encontramos vários elementos, que variam de acordo com as causas da asfixia: cianose da face: mais frequente nos casos de estrangulamento e esganadura espuma: encontrada nos afogados projeção da língua: comum no enforcamento equimoses externas: frequentes nos estrangulamentos e esganaduras livores cadavéricos: se apresentam com a cor escura e aparecem precocemente. Equimoses viscerais: são vulgarmente denominadas como petéquias de TARDIEU (que foi o estudioso quem as descreveu) . São manchas de cor vermelha, de forma arredondada, de tamanho que pode variar da cabeça de um alfinete a uma lentilha. Elas surgem por causa do rompimento dos capilares, e se encontram geralmente nas pleuras. cinomose espumas Projeção da língua equimoses Livores cadavéricos Petéquia de Tardieu A sufocação é a asfixia em que o obstáculo ‘a entrada de ar no aparelho respiratório não é produzido pela constrição do pescoço, e sim por algum tipo de obstáculo. Ela pode ocorrer de várias maneiras: 1. DIRETA 2. INDIRETA Oclusão direta das narinas e da boca: os orifícios superiores do aparelho respiratório são fechados. Pode ser produzida por travesseiros, cobertores ou outros objetos. Pode ser acidental, que ocorre por exemplo com recém nascidos, que dormindo com as mães são sufocados por panos que se encontram no leito. Na oclusão criminosa a cabeça da vítima é envolvida com panos até causar-lhe a morte. Na suicida a pessoa coloca sobre a cabeça panos até que se consuma a morte. Oclusão dos orifícios da laringe e da faringe: Também pode ser criminosa ou acidental. Na criminosa ocorre a introdução dentro da boca de tampões de pano, papel ou outro objeto. Porém este tipo de oclusão é mais, frequentemente, acidental, especialmente entre crianças, que ao ingerir pequenos objetos como botões, bolinhas de vidro, ou peças de brinquedo, acabam por morrer sufocados. Entre adultos também ocorrem acidentes, principalmente quando ingerem grande quantidade de alimentos e engasgam. Os indivíduos alcoolizados podem ser sufocados com o próprio vômito. Compressão torácica: é uma modalidade de sufocação onde o indívíduo asfixia-se porque peso excessivo não lhe permitem realizar os movimentos de inspiração e expiração. Também é chamada de sufocação indireta. Pode ser homicida, quando o indivíduo sentam-se sobre o tórax da vítima, até mata-la. Quando é acidental, geralmente assume caráter coletivo, por exemplo, nas grandes aglomerações populares, queda de muro, prensamento em acidentes. Na necrópsia encontramos, além dos sinais clássicos de asfixia, fraturas dos arcos costais e rotura dos pulmões. Na asfixia por soterramento, o indivíduo se encontra mergulhado em um meio pulverulento. Geralmente é acidental, embora existam casos de infanticídio onde a mãe enterra vivo o recém nascido. Pode ocorrer em vários meios sem ser a terra, especificamente. Por exemplo, o indivíduo pode morrer soterrado ao cair dentro de um depósito de farinha. O exame do cadáver mostra, além dos sinais de asfixia, vestígios nítidos da substância em que ocorreu o soterramento, localizados principalmente nas narinas e na boca. O exame da traquéia também mostrará vestígios desta substância. É a asfixia produzida pela penetração de líquido nas vias respiratórias. Não é indispensável que o corpo da vítima esteja totalmente coberto. O afogamento pode ser suicida, acidental, ou homicida(mais raro) HOFFMAN descreveu três fases do afogamento: a primeira é a caracterizada pela parada respiratória, a segunda se traduz por dispnéia com inspirações profundas e expirações curtas; e a terceira, se instala a asfixia com perda da consciência e dos reflexos. VIBERT, estudando a submersão, estabeleceu duas modalidades: a submersão-asfixia, e a submersão- inibição. Na submersão-inibição, o indivíduo, ao cair na água, não apresenta reação, e morre quase que instantaneamente. O mecanismo deste tipo de morte ainda não está totalmente esclarecido, mas acredita-se que seja por causa da inibição dos centros respiratórios cerebrais. Na submersão-inibição ou AFOGADO BRANCO não há inspiração de água. Ocorre quando uma pessoa cai na água e não retorna à superfície, e mesmo quando é resgatada em poucos minutos, já é encontrada morta. O tempo transcorrido da submersão é curto que não da para matar por asfixia. Condições: a vítima se encontra alcoolizada, sob o efeito de outro depressor do sistema nervoso central. Mais comum em locais onde a água se encontra muito fria. Discute-se a existência da síndrome de imersão (parada cardíaca quando a pessoa mergulha em água e temperatura 5 graus abaixo da temperatura corporal). Nos casos de afogamento branco, o cadáver não possui os sinais clássicos. Na submersão-asfixia a vítima ao cair, vem a tona, tenta respirar, tosse, engole água, e acaba perdendo a consciência após uma luta prolongada. Na realidade a vítima, submersa, tenta prender a respiração o máximo quanto pode; mas em seguida, o reflexo da inspiração é mais forte, e ela acaba inspirando água, o que a faz perder a consciência. Se ela não for salva, a partir desse momento, dentro de 4 ou 5 minutos ela estará morta. LESÕES EXTERNAS: Hipotermia Pele anserina. Retração do mamilo, escroto e do pênis. Maceração da epiderme. Tonalidade vermelha dos livores cadavéricos. Cogumelo de espuma. Erosão dos dedos Presença de corpos estranhos sob as unhas. Equimoses da face e das conjuntivas Mancha verde de putrefação (tórax)* Lesões "pos mortem" produzidas por animais aquáticos Destruição das partes moles do corpo como orelhas, lábios globos oculares,pálpebras, causados por animais marinhos Compressão da língua entre os dentes, ou sua protusão *enfisema putrefativo, que é resultado da putrefação cadavérica, que faz com que o cadáver atinja um tamanho gigantesco, e acabe por vir a tona; LESÕES INTERNAS: • Presença de líquidos nas vias respiratórias. • Presença de corpos estranhos no líquido das vias respiratórias. • Lesões dos pulmões: aumentados, distendidos, enfisema aquoso e equimoses. • Sinal de BROUARDEL = enfisema aquoso sub pleural (esponja molhada). • Manchas de TARDIEU = equimose sub pleural (raras). • Manchas de PALTAUF = Hemorragias subpleurais ( equimoses vermelho claro com + 2cm de diâmetro, devido a ruptura das paredes alveolares) • Diluição do sangue(hidremia) • Crioscopia: aumentada (água doce) e diminuída (água salgada) • Sinal de Wydler = presença de espuma, líquido e sólido no estômago. • Sinal de Niles = hemorragia temporal • Sinal de Vargas Alvarado = hemorragia etimoidal • Sinal de Etienne Martin = congestão hepática • Equimoses nos músculos e pescoço. Sinal de BROUARDEL Sinal de Niles Região temporal O estudo das asfixias por gases é bastante complexo. Existem vários tipos de gases capazes de causar diversos sintomas no corpo humano, que podem inclusive levar a morte. Entre estes gases, podemos citar: a) gases lacrimogêneos: causam intenso lacrimejamento, por causa da irritação ocular, que pode levar até a conjuntivite e cefaléia. b) gases vesicantes: (gás mostarda) age produzindo lesões locais como úlcera de córnea, destruição da mucosa da traquéia, infecção brônquica, necrose dos pulmões. A pele se cobre de ulcerações, e a morte geralmente sobrevém por broncopneumonia. c) gases tóxicos: os principais são o ácido cianídrico é o monóxido de carbono. O ácido cianídrico produz a morte quase que instantaneamente, tanto é que ele foi usado nas câmaras de gás, onde eram executados os condenados a morte. O monóxido de carbono é o gás que sai dos motores dos automóveis; é extremamente tóxico, se liga a hemoglobina, tomando o lugar do oxigênio. No cadáver vítima deste gás encontramos livores róseos, os músculos mantém uma coloração vermelha viva. Alguns gases anestésicos, quando absorvidos em excesso, podem também levar a morte por asfixia. Existem vários indivíduos que se asfixiam por uso do clorofórmio embebido em um pano, levado a boca e ao nariz. Além desses gases existe outra modalidade de asfixia que é chamada de CONFINAMENTO. São casos em que o indivíduo, enclausurado dentro de um recinto, esgota o oxigênio vital contido no mesmo, vindo a falecer dentro do mesmo. Ocorre em situações como: quando paredes desabam no interior de minas, prendendo os operários nas galerias; quando os submarinos afundam; quando crianças se trancam dentro de malas ou pequenos cubículos; ou quando se colocam vários indivíduos em um quarto ou cubículo de tamanho reduzido, onde a ventilação não é suficiente. Pode ser acidental, criminoso ou intencional (suicidio) Os cadáveres vítimas deste tipo de asfixia apresentam as seguintes características: • persistência da temperatura do corpo muito tempo após a morte • umidade do cadáver • pele pálida São mortes causadas por constrição do pescoço. É a modalidade de asfixia mecânica determinada pela constrição do pescoço por um laço cuja extremidade se acha fixa a um ponto, agindo o próprio peso do individuo como força viva. Laço acionado pelo peso da própria vitima. Suicídio, homicídio, acidental ou execução judicial. Sinais externos: sulco cervical - obliquo: de baixo para cima e de frente para trás (raramente transverso e excepcionalmente invertido - Interrompido: ao nível do nó - Bordos desiguais: superior saliente língua geralmente está um pouco protusa, os livores se encontram na parte inferior do corpo, por causa da ação gravitacional. As pernas e os pés podem apresentar pequenos ferimentos, porque nas convulsões que precedem a morte o enforcado poderá projeta-los com violência contra a parede, ou objetos próximos. O exame do pescoço do enforcado revela: Linha Argentina: encontrada nos sulcos apergaminhados, em que o tecido conjuntivo subcutâneo se desidrata e se condensa por causa da compressão, deixando uma estria de cor branca, que acompanha a direção do sulco. Ela se chama linha Argentina por causa de sua cor esbranquiçada que algumas vezes parece ser prateada (em latim, prata se escreve argentum) Equimoses sanguíneas nos músculos (como o esternocleidomastóide) Lesões da carótida: especialmente as lesões da túnica interna das carótidas. Lesões das cartilagens da laringe Lesões da coluna vertebral (se o enforcamento for violento). O estrangulamento pode ser definido como a constrição do pescoço por baraço mecânico (corda ou cordel) acionado por força estranha ao peso do próprio corpo. Sinais externos: - Sulco transversal e horizontal, podendo eventualmente, ser obliquo - Sulco contínuo e homogêneo em relação a profundidade, já que não existe nó. Sua profundidade é uniforme e os bordos apresentam cor violácea, que contrasta com a palidez do fundo. O sulco do estrangulamento dificilmente se apergaminha, porque a pós a morte cessa a ação constritiva. Interno: espuma rósea na laringe e traquéia, congestão pulmonar. No exame interno do pescoço, encontraremos lesões hemorrágicas dos tecidos do pescoço, e também equimoses das pálpebras e das conjuntivas. Raramente encontramos lesões nas carótidas ou nas cartilagens da laringe. Geralmente homicídio A esganadura é a asfixia mecânica pela constrição anterolateral do pescoço produzida pela ação direta das mãos do agente. Não há sulco, que cede seu lugar para marcas ungueais (de unha) e diversas escoriações, equimoses e hematomas. Com certa frequência, é notada a fratura do hioide (osso) O cadáver vítima de esganadura apresenta as seguintes características: -petéquias disseminadas por quase toda a face -congestão da conjuntiva e da face - equimoses e escoriações cervicais de forma semilunar, causadas pelas unhas . - espuma rósea na traquéia Ler e responder as questões no seu caderno (tirar foto das respostas) ou digita-los para posterior envio no meu email pessoal (janaina.gigabyte@gmail.com) ou whatsapp. 1. Qual a raiz e o significado de “asfixia”? 2. O estudo da asfixia é importante para a medicina legal, por que? 3. Qual a função do processo respiratório para organismo humano? 4. Quais os sinais mais comuns no corpo cadavérico que sofreu asfixia? 5. Qual a diferença entre sufocação, soterramento e afogamento? 6. Explique as diferenças entre sufocação direta e indireta. 7. Discuta sobre o estudo de Vibert sobre os tipos de afogamento. 8. Quais os sinais externos e internos, verificados na necropsia, mais comuns do afogamento? 9. O que é asfixia por gases irrespiráveis? Quais os tipos de gases encontrados? 10. O que é confinamento e suas consequências? Descreva os sinais mais encontrados. 11. Observe as imagens abaixo e diga se é enforcamento, esganadura ou estrangulamento. Por que? A B C https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp- traumatologia-mdicolegal https://slideplayer.com.br/slide/5595397/ https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2483775/mod_resource/cont ent/1/PARTE%202%20-%20SUM%C3%81RIO%20-%20ASFIXIOLOGIA.pdf https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://pt.slideshare.net/nataliaportinari/medicina-forense-usp-traumatologia-mdicolegal https://slideplayer.com.br/slide/5595397/ https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2483775/mod_resource/content/1/PARTE 2 - SUM%C3%81RIO - ASFIXIOLOGIA.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2483775/mod_resource/content/1/PARTE 2 - SUM%C3%81RIO - ASFIXIOLOGIA.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2483775/mod_resource/content/1/PARTE2 - SUM%C3%81RIO - ASFIXIOLOGIA.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2483775/mod_resource/content/1/PARTE 2 - SUM%C3%81RIO - ASFIXIOLOGIA.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2483775/mod_resource/content/1/PARTE 2 - SUM%C3%81RIO - ASFIXIOLOGIA.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2483775/mod_resource/content/1/PARTE 2 - SUM%C3%81RIO - ASFIXIOLOGIA.pdf