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2012 Sociedade da informação e do conhecimento Prof. Walter Marcos Knaesel Birkner Copyright © UNIASSELVI 2012 Elaboração: Prof. Walter Marcos Knaesel Birkner Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. 306.42 B619s Birkner, Walter Marcos Knaesel Sociedade da informação e do conhecimento / Walter Marcos Knaesel Birkner. Indaial : Uniasselvi, 2012. 170 p. : il ISBN 978-85-7830- 603-8 1. Sociologia do conhecimento. I. Centro Universitário Leonardo da Vinci. III apreSentação Caro(a) acadêmico(a)! Iniciamos a nossa reflexão sobre a Sociedade da Informação e do Conhecimento. Porém, torna-se necessário primeiramente referenciarmos que nosso posicionamento sobre esta temática se insere no âmbito das discussões sociológicas e filosóficas. Portanto, ao partirmos da perspectiva sociológica e filosófica enquanto modelo analítico e interpretativo, torna-se claro e evidente que não queremos elaborar e muito menos emitir um juízo de valor sobre a questão, visto que a nossa proposta parte do pressuposto de que tanto a informação como o conhecimento são inerentes às sociedades atuais. O presente ensejo tem como objetivo fazer uma leitura panorâmica sobre a sociedade do conhecimento e da informação no âmbito sociológico e filosófico. Desta forma, ao tentar situar-se a “problemática” sob esta ótica, pretendemos situá-lo(a) sobre as principais ideias, conceitos e visões que se constituíram ao longo da trajetória do pensamento filosófico e sociológico. Diante disto, caro(a) acadêmico(a), ao lançarmos o desafio de tentar compreender as bases e os desdobramentos das tecnologias da informação e comunicação no contexto atual, implica necessariamente situar-se nos “meandros” das discussões que se colocam em pauta, e que incidem diretamente sobre a vida cotidiana. Portanto, todo e qualquer esforço teórico, conceitual e reflexivo no âmbito da sociologia e filosofia implica colocar-se em pleno estado de forças antagônicas, intempestivas e compulsivas no nosso desejado questionamento. Neste sentido, cabemos desejar-lhe uma ótima leitura, e que o presente ensejo possa de certa forma contribuir e abrir novos horizontes reflexivos sobre a temática em questão. Bons estudos! Prof. Walter Marcos Knaesel Birkner IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! UNI V VI VII Sumário UNIDADE 1 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS .................................................................................. 1 TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO TEMÁTICA ........................................................................................ 3 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3 2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO ................................................................................................... 3 3 AFINAL, O QUE É SOCIEDADE NESTA HISTÓRIA? ............................................................... 9 4 AFINAL, O QUE É INFORMAÇÃO NESTA HISTÓRIA? .......................................................... 13 4.1 ANTIGUIDADE .............................................................................................................................. 14 4.2 IDADE MÉDIA ................................................................................................................................ 15 4.3 MODERNIDADE ............................................................................................................................ 15 4.4 CONTEMPORÂNEO ..................................................................................................................... 17 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 20 RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 26 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 27 TÓPICO 2 – MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO ................................................... 29 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 29 2 GLOBALIZAÇÃO E SEUS EIXOS: DA MODERNIDADE À PÓS-MODERNIDADE; DA SOCIEDADE INDUSTRIAL À SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL; DA MODERNIDADE À HIPERMODERNIDADE/MODERNIDADE LÍQUIDA ........................ 30 2.1 MODERNIDADE ............................................................................................................................ 31 2.2 PÓS-MODERNIDADE ................................................................................................................... 33 2.3 CAPITALISMO ................................................................................................................................ 36 2.4 SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL ................................................................................................. 38 2.5 MODERNIDADE LÍQUIDA ......................................................................................................... 44 3 FINALIZANDO O TÓPICO .............................................................................................................. 46 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 47 RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 52 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 54 TÓPICO 3 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO .............................................................................. 55 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 55 2 DESENVOLVENDO A QUESTÃO ..................................................................................................55 3 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO OU SOCIEDADES DA INFORMAÇÃO ......................... 62 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 67 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 73 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 74 VIII UNIDADE 2 – DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO .......................................................... 75 TÓPICO 1 – APORTE HISTÓRICO: DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E DA INFORMAÇÃO ........................ 77 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 77 2 APORTE HISTÓRICO ........................................................................................................................ 77 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 80 RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 83 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 84 TÓPICO 2 – O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE ................................................................................ 85 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 85 2 A REALIZAÇÃO DA POTÊNCIA DO HOMEM ARISTOTÉLICO .......................................... 85 3 AS RELAÇÕES ENTRE O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE ........................................................ 87 RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 89 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 90 TÓPICO 3 – AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO ........................................................................................................ 91 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 91 2 AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO ........... 91 3 TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO – TIC .............................................. 94 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 99 4 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO ................................................... 102 5 CONCLUSÃO ....................................................................................................................................... 107 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 109 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 111 UNIDADE 3 – A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE ........................................................................................ 113 TÓPICO 1 – SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA ............................ 115 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 115 2 O PARADIGMA ................................................................................................................................... 115 3 ALTA MODERNIDADE ..................................................................................................................... 126 3.1 CONSEQUÊNCIAS NÃO PREVISTAS ....................................................................................... 128 3.2 OS VALORES ................................................................................................................................... 128 3.3 O PODER DIFERENCIAL ............................................................................................................. 128 3.4 MUDANÇA TECNOLÓGICA E PROCESSOS SOCIAIS .......................................................... 131 RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 133 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 134 TÓPICO 2 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL ....................................................... 135 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 135 2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL ........................................................................... 135 2.1 DESENVOLVENDO AS QUESTÕES ........................................................................................... 135 2.1.1 Sociedade da informação no Brasil ..................................................................................... 135 3 À GUISA DE CONCLUSÃO ............................................................................................................. 141 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 142 IX RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 145 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 147 TÓPICO 3 – A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO .................................................................... 149 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 149 2 O CONHECIMENTO NO SÉCULO XX .......................................................................................... 151 3 O ELO: UM ESPÍRITO INFORMACIONAL, ETOS DO DESENVOLVIMENTO ................. 155 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 158 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 162 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 163 REFERÊNCIAS ........................................................................................................................................ 165 X 1 UNIDADE 1 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir desta unidade, você será capaz de: • compreender aspectos histórico-conceituais da sociedade da informação; • reconhecer certos elementos da sociedade da informação no meio social; • estudar brevemente a história que envolve o tema da sociedade da infor- mação, na sua relaçãocom outras teorias; • observar alguns elementos vinculados ao caso brasileiro. Para a compreensão histórico-conceitual da sociedade da informação, procuramos organizar esta unidade em três tópicos. Ao longo de cada um deles você encontrará dicas, textos complementares, observações e atividades que lhe permitirão fixar os conhecimentos estudados. TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO TEMÁTICA TÓPICO 2 – MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO TÓPICO 3 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 INTRODUÇÃO TEMÁTICA 1 INTRODUÇÃO 2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Caro(a) acadêmico(a), neste primeiro tópico buscamos demonstrar elementos corriqueiros da sociedade da informação, fazendo ligações com a teoria que envolve este conceito. Partimos de uma noção do filósofo Baruch Spinoza de que a compreensão de alguma coisa se dá quando contamos sua causa (origem) e sua estrutura. Portanto, nossa preocupação neste primeiro tópico é desvendar histórica e conceitualmente (filosófica e sociologicamente) os pontos-chave da sociedade da informação e, a partir daí, compreender as mudanças que esta sociedade reflete. Para tal, iremos desenvolver três eixos. O primeiro eixo é uma introdução-exemplo acerca da sociedade da informação. O segundo eixo é um questionamento sobre o que é a sociedade neste processo. Por fim, o terceiro e último eixo também se apresenta como questionamento, desta vez sobre o que é a informação neste processo, esperando contribuir com o(a) acadêmico(a) no fortalecimento do conhecer e na potência do pensar. Uma forma mais fácil e prazerosa de pensar temas que hoje parecem espalhados é estabelecendo vínculos históricos, buscando datas e grandes feitos, folheando páginas aqui e ali que ampliem nossa percepção sobre o que queremos pesquisar. Ou então, podemos falar ao modo de um relicário, vasculhando o passado, mexendo na louça velha (se bem que a louça aqui não é tão velha), tirando o pó, emendando papéis, rabiscando e tomando notas de temas que hoje parecem vagos, espalhados. É assim, mexendo nas gavetas, retirando e repondo, lendo e relendo, que extraímos as informações necessárias para a nossa compreensão. Nesta medida, nosso tema espalhado, jogado ou lançado (aí vai da bagunça de cada um), não façamos rodeios, está cravado desde o altissonante título: Sociedade da Informação (mais precisamente no seu interior, como veremos). É de seu estudo que iremos nos avizinhar nas próximas páginas. E, se vamos fazê- lo, valem algumas questões xeretas: Afinal, do que se trata? Quem disse? Por que disse? Como disse? Quem é o pai da criança, ou das crianças? Sociedade? Informação? Caro(a) acadêmico(a), para dirimir estas dúvidas, convido-o(a) para que juntos possamos refletir e compreender acerca da sociedade da informação. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 4 FIGURA 1 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Tempo esgotado! Chamem os comerciais! Estamos ao vivo. Próxima pergunta valendo 30 milhões. Responde, pula ou passa? Vou responder ... Responda em vinte segundos ou perde tudo: O que é sociedade da Informação? Espere um pouco, não posso pensar com tanta pressa! FONTE: Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/oficinas/geografia/ ciberespaco/02.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. Nessa prática, para reconstruir o que parece espalhado, um pensador do século XVII, chamado Baruch Spinoza (1632–1677), nos dá uma pista importante sobre como captar estes objetos espalhados, dizendo ele que conhecer uma coisa é ter ideia adequada sobre ela. O que é isto? Ideia adequada? Diz ele que mais especificamente que a ideia adequada de uma coisa está ligada a duas coisas, quais sejam: causa e estrutura. Só podemos dizer que conhecemos algo de fato quando conhecemos sua causa (origem) e sua estrutura. É neste sentido que precisamos mexer nos relicários do tempo, das ideias. Assim, xeretando os conceitos e temas provenientes do objeto que vamos estudar, isto é, capturando na causa e na estrutura o significado do conceito de sociedade da informação, é que vamos tirar alguma matéria para nosso conhecimento e com isto dirimir nossas dúvidas, isto é, fortalecer nosso saber. BARUCH SPINOZA, pensador holandês do século XVII (1632-1677). Desenvolveu suas teses a partir da filosofia de René Descartes. Suas preocupações centrais eram com a política, ética e ciência. Escreveu várias obras, das quais se destacam Ética (1677) e Tratado Teológico-Político (1670). FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com/biografias/baruch-spinoza/>. Acesso em: 30 jul. 2012. NOTA TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 5 Nesta medida, para tentar responder a estas questões, vamos mexer um pouquinho nas (e com as) datas, puxando aqui e ali para compreender esse fenômeno – e também o conceito – que chamamos de sociedade da informação. Para isto faremos um passeio conceitual pela história humana dos últimos séculos, bem como passearemos pelas propostas (e respostas) dadas por diversos pensadores acerca do tema que ocupa esta e outras unidades. Portanto, ao iniciarmos nossa procura, nossa mexida, apresentamos algumas situações pontuais que envolvem a sociedade da informação e sua relação conosco. É notório o que ouvimos falar sobre esta tal sociedade. A mídia é seu viés convencional de divulgação. Jornais, televisão, rádio, internet, não param de veicular e de serem os próprios veículos de uma sociedade informacional, propagando conceitos e novas ondas de toda espécie. Desta maneira, vejamos alguns termos espalhados que compõem o que denominamos sociedade da informação, antes de uma interessante colocação: ● conexão; ● rede; ● processos; ● internet ● desconectados; ● plugados; ● curtida; ● global; ● economia financeirizada; ● informacional. FIGURA 2 – A INTERNET É UM DOS PROCESSOS DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO FONTE: Disponível em: <http://www.loteriapremium.com/como-apostar-na- loteria-pela-internet>. Acesso em: 30 jul. 2012. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 6 Coincidência? Não. É claro que você, acadêmico(a), já ouviu e leu esses termos. Participamos deles o tempo todo. Eles estão nos supermercados, no cartão de crédito, nas universidades, nas rádios, no cursinho de inglês, nas redes e assim por diante. Agora, sem esquecermos da colocação que prenunciamos anteriormente, e que ilustra a situação e o conceito sobre os quais refletimos: Em 2 de março de 2006, o Guardian [jornal britânico] anunciou que ‘nos 12 últimos meses as ‘redes sociais’ deixaram de ser o próprio grande sucesso para se transformarem no sucesso do momento’. As visitas ao site MySpace, que um ano antes era o líder inconteste do novo veículo das ‘redes sociais’, multiplicaram-se por seis, enquanto o site rival Spaces MSN teve 11 vezes mais acessos do que no ano anterior, e as visitas ao Bebo.com foram multiplicadas por 61 (BAUMAN, 2008, p. 7). Trata-se de uma colocação acerca do crescimento das “redes sociais” na Grã-Bretanha. Parece uma informação corriqueira, mas ela própria é reflexão de tempos inovadores que marcam a sociedade da informação, como observaremos no decorrer das unidades. Além disso, podemos constatar que a sociedade da informação é um processo que nos circunda, entrelaça nosso cotidiano e participa de nossos hábitos. Aliás, nós participamos dela. Nela viajamos, conhecemos pessoas, fazemos transações bancárias, vamos ao cinema, ouvimos música, mexemos em nossos celulares. Formamos redes sociais, que se multiplicam, ampliando nosso espaço de relações. Na mesma perspectiva, o tempo e o espaço diminuem e assumem novos contornos, o trabalho, a economia também, num emaranhado de redes mais e mais entrelaçadas. Neste horizonte, os termos espalhados começam a tomar rosto, e seu rosto, dados os elementos que iremosapresentar, é o rosto da sociedade da informação. Outro exemplo, mais pontual desta sociedade da informação, está no fato de que logo que tomamos contato com um termo, queremos a primeira informação possível sobre ele. Sociedade da Informação? Ok, os mais apressadinhos(as) correm ao Wikipédia, para ver a origem do termo, logo vendo que o pai da criança (termo) foi Fritz Machlup (1903-1985). Este exemplo, o mais cabal possível, nos mostra quão influenciados estamos pela sociedade da informação, pela sua velocidade e pela sua dinamicidade, pela instantaneidade que ela tem. Outra fonte de constatação da sociedade da informação é o cinema. Peguemos o exemplo de um diretor não muito famoso, chamado David Lynch (1946). Para muitos um desvairado, por quebrar a noção de tempo, por antecipar cenas e não ter um enredo linear. Cenas que começam pelo fim, terminam pelo começo, enfim, parece algo maluco, mas é genial, como em Twin Peaks, seriado de TV de 1990, em que a trama é marcada por um sem fim de redes, personagens com vidas entrelaçadas, ágeis, passíveis de mudança, num jeito de viver frenético. A vida na sociedade da informação passa a ser por flashes e mudanças contínuas, em fragmentos como no Twin Peaks de Lynch. Estes elementos, como os que mencionamos nos parágrafos acima, já demonstram as influências da sociedade da informação, quais sejam: o fluxo de informações sobre os objetos, a fugacidade, TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 7 a diminuição do espaço, a vida em rede, processos descontínuos etc. Ainda se apoiando no exemplo de Lynch, num dos seus filmes, chamado A Cidade dos Sonhos (2001), mostra uma complexidade de redes, de situações em que as personagens se envolvem, mostrando outro elemento fundamental da sociedade da informação: a construção de redes, onde nos conectamos e desconectamos de pessoas, ideias, trabalho, cidades. Além disso, o filme passa a sensação de realidades paralelas, coisa bem típica da sociedade de informação, onde temos a interação entre virtual e real, como serão demonstradas no decorrer das unidades. Cineasta norte-americano, nascido em 1946, famoso pelos filmes O Homem Elefante (1980), Veludo Azul (1986), Cidade dos Sonhos (2001) e pelo seriado Twin Peaks (1991). Seus trabalhos são marcados pela não linearidade, mistura entre sonho e realidade e por demonstrar as vidas fragmentadas. FONTE: Disponível em: <http://www.imdb.com/name/nm0000186>. Acesso em: 30 jul. 2012. Para quem gosta de prospecções, antevisões cósmicas ou previsões de futuro, vejamos uma colocação que marca este processo da sociedade da informação, com mais detalhes: O físico e teórico Michio Kaku, professor da Universidade de Nova York e cocriador da ‘Teoria das Cordas’, afirmou que o computador como o conhecemos hoje terá desaparecido em 2020. ‘No futuro, eles estarão em todos os lugares e em lugar nenhum’, [...]. Na ocasião, Kaku fez um exercício de futurologia mostrando como será o mundo nos próximos 30 anos. Segundo ele, tanto os computadores como a internet serão como a eletricidade é hoje. ‘Ambos estarão presentes nos tetos, no subsolo, nas paredes e nos aparelhos’, afirmou. O professor da Universidade de Nova York foi além e disse que a internet estará nos óculos e nas lentes de contato das pessoas. ‘Você será capaz de ver todas as informações biográficas de um indivíduo só olhando para ele. Encontrar sua alma gêmea será tarefa fácil’, brincou. Outra revolução que está a caminho é na área da medicina. Kaku afirmou que, em um futuro próximo, a tecnologia levará o homem a um estado perfeito de saúde. Segundo ele, o câncer irá desaparecer. ‘Escrevam isso: a palavra tumor não mais existirá na nossa língua’. Na visão do físico, as pílulas terão chips e microcâmeras que escanearão o corpo humano por dentro. Uma vez localizada a ameaça, nanorrobôs serão introduzidos para combater o câncer célula por célula, sem a NOTA UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 8 necessidade de cirurgias ou intervenção direta dos médicos. Kaku também acrescentou que o câncer e outras doenças serão diagnosticados com anos de antecedência graças a vasos sanitários que monitoram a saúde. ‘Os banheiros serão equipados com inteligência artificial capaz de analisar os resíduos corporais e identificar o surgimento de uma doença com muita antecedência. Neste futuro, Steve Jobs não teria morrido’, enfatizou (SIRNA, 2012). Estes exemplos e muitos outros demonstram o quanto somos influenciados pela dinâmica da sociedade de informação. Trata-se de se dar conta de sua existência, de sua importância, quais são seus operadores, para não pegarmos o bonde andando. Este é o efeito primeiro que queremos passar: perceber-nos dentro da sociedade da informação. E nos percebendo dentro vamos poder pesquisar; revirar as peças do relicário e fortalecer o pensar no que concerne à sociedade da informação. Assim, nossa meta é apresentar para você, acadêmico(a), do modo mais claro possível, os aspectos mais fundamentais da sociedade da informação. Para isto estabelecemos um roteiro, um percurso que esperamos ser de grande valia para você, caro(a) acadêmico(a): Começamos com esta jovial introdução, passando posteriormente para uma definição provisória de sociedade, bem como de informação. Na sequência, ligaremos a ideia de sociedade da informação a outras variáveis interpretativas ou a outros nomes para a mesma situação (modernidade, pós-modernidade, sociedade industrial e sociedade pós-industrial, tempos hipermodernos, modernidade líquida). Articularemos a própria sociedade da informação e, por fim, nesta primeira unidade, sua variável brasileira. Com isto pincelaremos alguns tópicos que consideramos fundamentais para o desenvolvimento intelectual para você, acadêmico(a). Já que falamos em filme e em David Lynch, vale indicar a você, acadêmico(a), se possível, para que assista ao filme A Cidade dos Sonhos (2001), para visualizar do ponto de vista prático esta vida de flash que marca a sociedade da informação. O filme retrata em linhas gerais a fugacidade da vida hollywoodiana, entrelaçando a maneira de viver da sociedade da informação, isto é, uma maneira enredada por laços complexos. FONTE: Coolturablog. Disponível em: <http://coolturalblog.wordpress.com/2010/06/23/ cidade-dos-sonhos-mulholland-drive-2001/>. Acesso em: 30 jul. 2012. DICAS TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 9 3 AFINAL, O QUE É SOCIEDADE NESTA HISTÓRIA? A preocupação com a sociedade é algo que remonta toda a tradição do pensamento ocidental (quando dizemos isto, dizemos as preocupações/ ideias de nossos antepassados e nossas também). Desde que os homens se constituíram em agrupamentos, há mais de cinco mil anos, há interesse pela organização, pela distribuição de funções, pelas leis, por códigos de convivência e, se quisermos, pelas instituições. Desta maneira, nossa preocupação inicial será com a necessidade de definir a ideia de sociedade, para entender em que medida a informação se instala nela, ou seja, de como a nossa sociedade se torna historicamente a sociedade da informação. Este ponto é que queremos deixar em mente. Neste sentido, para começar nossos estudos, um exemplo muito simples pode ser esclarecedor, um exemplo sobre a organização da sociedade. Vamos a ele. Ouvimos, lemos, trocamos ideias. Em nosso bairro (aqui vai nosso exemplo) Vai Lá, participamos da associação de moradores, que em maior ou menor medida chama um ou outro vereador para esclarecer alguma questão ou reivindicar dele alguma fiscalização. Com ele discutimos coisas de nosso interesse, num certo espaço político por nós constituído, onde grupos se organizam para levar propostas, como grupos de jovens, da terceira idade, clube de mães etc. O que o nosso exemplo quer ilustrar? Que nos deparamos com situações sociais,ou situações de sociedade, ou seja, na concepção do bairro temos uma organização social, tanto quanto na associação de moradores também. O vereador que foi chamado foi eleito para participar de uma casa de leis, que sem dúvida é uma instituição da sociedade (o famoso Poder Legislativo). Com isto, podemos observar o quanto temos que lidar com a sociedade, com fenômenos desta sociedade. A organização (nos organizamos em bairros, nos organizamos na associação de moradores, participamos da eleição do vereador, que por sua vez vai participar de uma instituição política: a Câmara - obviamente que também questionamos estas organizações) é um tópico importante que perpassa toda a sociedade. Se a informação vai ser a válvula fundamental, cabe esclarecer o que é sociedade. Lembremo-nos de que, para entender esta nova conjuntura da sociedade, precisamos considerar que a informação tornou-se parte da matéria-prima social. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 10 FIGURA 3 – SOCIEDADE FONTE: Disponível em: <http://navegandonahistoria.blogspot.com.br/2010/05/ turismo-identidade-cultura-e-sociedade.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. O Dicionário de Filosofia (ABBAGNANO, 2007), do famoso professor italiano Nicola Abbagnano (1901-1990), nos fornece três definições norteadoras (gerais) de sociedade. A primeira faz entender a sociedade como “o espaço das relações humanas de comunicação ou de intersubjetividade” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080). A segunda definição parte da ideia de que “a sociedade é a totalidade (um organismo) de indivíduos onde ocorrem as relações de comunicação” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080). E a terceira toma a sociedade como “um grupo de indivíduos onde estas relações ocorrem de forma comum ou institucionalizada” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080). O que estas definições (tendências) gerais nos permitem? Estas definições nos permitem compreender uma tendência geral sobre o que é sociedade: espaço onde ocorrem as interações humanas. Tendo esta tendência geral em mente, aprofundemos as definições propostas por Abbagnano. 1 “Sociedade como espaço de relações humanas de comunicação ou intersubjetividade” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080): este sentido foi introduzido na história do pensamento pelos estoicos (do mundo romano, com especial destaque para Cícero). Os escritores do mundo romano, diferente dos clássicos gregos (Platão e Aristóteles), não vinculam, com relação à polis, o aspecto estatal e social. Pela definição estoica, “a sociedade passa a ser tomada como independente do Estado ou da organização política” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080) (em Cícero trata-se de uma agregação de homens, onde se comunicam, estabelecem relações). Outro pensador importante que vai ater-se a esta definição é Thomas Hobbes (1588-1679), para quem a sociedade serve para “atender às necessidades básicas humanas e para evitar a guerra de todos contra todos, ou seja, uma reunião feita por temor” (ABBAGNANO, 2007, p. 1081) (os homens se agenciando para evitar as calamidades, por exemplo). Uma colocação mais, que se agrega a este primeiro tópico, temos proposta por Immanuel Kant (1724-1804), onde, para este, o homem TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 11 se satisfaz nas relações sociais que estabelece. Todos estes pensadores partem da tendência natural do homem para sociedade. A partir destas perspectivas, a análise da sociedade assume duas perspectivas fundamentais: uma que se preocupa com os fins da sociedade e a outra que se preocupa com as condições de fato que possibilitam as relações humanas: a) Os fins que a totalidade do gênero humano deve ter em vista e dos meios que a razão indica para a consecução de tais fins. As teorias políticas dos autores gregos, p. ex.. de Platão e de Aristóteles, [...]. b) As condições que, de fato, possibilitam as relações humanas. Essas condições foram definidas de várias maneiras, e sua definição pode ser considerada a primeira tarefa da sociologia [...]. Max Weber identificou- as na atividade social, que se realiza segundo uma ordem deliberada e relativamente constante [...]. Durkheim considerou característicos da sociedade humana os modos de agir que são impostos de fora e se consolidam nas instituições [...]. E a própria ação, ou comportamento, às vezes é considerada elemento objetivo que define o campo das relações humanas [...] (ABBAGNANO., 2007, p. 1081). 2 “Sociedade como totalidade (organismo) de indivíduos onde ocorrem as comunicações” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080): em síntese, esta noção é vinculada à ideia de que a sociedade é um todo orgânico. “Historicamente esta ideia começa na antiguidade, onde se comparava o Estado e a comunidade política a um organismo ou superorganismo” (ABBAGNANO, 2007, p. 1081). “Os já citados estoicos também contribuem com esta vertente, dizendo que vivemos entre seres racionais, formando uma comunidade, que é um organismo. Esta ideia também é aceita na Idade Moderna” (ABBAGNANO, 2007, p. 1081). Dois pensadores se apropriam dela: Augusto Comte (1798-1857) e Herbert Spencer (1820-1903). O primeiro entende a sociedade como um organismo coletivo, composto por outros organismos. Já Spencer parte de uma ideia de evolução, ou seja, de um organismo em evolução. Assim: [...] considera a própria sociedade como um organismo cujos elementos são, em primeiro lugar, as famílias e depois os indivíduos isolados. Segundo Spencer, o organismo social difere do organismo animal porque a consciência pertence apenas aos elementos que o compõem, pois a sociedade não tem órgãos de sentido como os animais, mas vive e sente apenas através dos indivíduos que a compõem (ABBAGNANO, 2007, p. 1081). Outros dois pensadores muito conhecidos também partem da noção de organismo: Georg Hegel (1770-1831) e Karl Marx (1818-1883). Hegel formula o conceito de sociedade civil, onde esta é uma conexão dupla: universal e mediadora de extremos independentes (os indivíduos) e de suas atividades particulares (Ibid., 2007, p. 1081), e que desemboca no Estado. Marx, por sua vez, toma o conceito de Hegel e aplica ao Estado e à ideologia, nas próprias palavras de Marx, citado por Abbagnano (2007, p. 1081): Por meus estudos, fui levado à conclusão de que nem as relações jurídicas nem as formas do Estado poderiam ser compreendidas por si mesmas ou pelo chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas de UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 12 que estão enraizadas nas relações materiais da existência, cujo conjunto é enfeixado por Hegel com o nome de sociedade civil: a anatomia dessa sociedade civil deve ser buscada na economia política. 3 “Sociedade como um grupo de indivíduos onde estas relações ocorrem de forma comum ou institucionalizada” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080): Esta terceira possibilidade interpretativa é mais utilizada pela sociologia, onde a palavra sociedade toma o sentido “[...] de conjunto de indivíduos caracterizado por uma atitude comum ou institucionalizada” (Idem, 2007, p. 1081). Nesta medida, o termo serve tanto para um grupo de indivíduos, quanto à instituição que assinala esse grupo, como, por exemplo, as expressões do tipo: sociedade capitalista, sociedade de massa, sociedade em rede etc. Filósofo italiano nascido em 1901 e falecido em 1990, famoso pelo seu Dicionário de Filosofia, o qual nos valeu para nossa exposição. FONTE: Nicola Abbagnano. Disponível em: <http://www. nicolaabbagnano.it/>. Acesso em: 30 jul. 2012. Portanto, se você, acadêmico(a), tem acompanhado esta discussão – árida, mas rica para seus conhecimentos –, será no seio destas definições que elencamos que vai passar a questão da informação. As definições parecem um tanto quanto áridas, como dissemos, mas cobrem perfeitamente nossa questão, sobre o sentido de sociedade: um espaço de relações humanas, de associação,onde estão inseridos o Estado, a cultura e, é claro, a informação. A tese que trazemos à baila é a de que as relações humanas trocam de foco, ou melhor, ganham novo foco através da informação. É esta noção que iremos desenvolver nesta seção, inserindo a noção de sociedade da informação, em alguns blocos conceituais maiores (pós-modernidade, sociedade pós-industrial, hipermodernidade e modernidade líquida). NOTA TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 13 Anthony Giddens Sociólogo britânico, também envolvido com a política no mandato do ex-primeiro ministro Tony Blair. Vem desenvolvendo seu pensamento ligado às questões que envolvem as bases de nosso tempo, que o(a) acadêmico(a) pode conferir no livro As Consequências da Modernidade (1991). FONTE: Disponível em: <http://sociologicallystylish.blogspot.com.br/2009/04/1st- confession.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. O sociólogo inglês Anthony Giddens (1991, p. 21), por seu turno, vai afirmar que a: “‘Sociedade’ é obviamente uma noção ambígua, referindo-se tanto à ‘associação social’ de um modo genérico quanto a um sistema específico de relações sociais”. O que Giddens (1991) quer dizer com isto? Que definir sociedade é difícil, porque esta ideia possui muitos significados, mas o mesmo sociólogo ressalta que a sociedade se refere ao associar, isto é, modos de estabelecimento das relações sociais, seja, por exemplo, na cultura, na tradição, na lei, nas instituições, como o casamento etc., que são modos de estabelecimento das relações sociais. É no meio destes modos que a informação assume papel fundamental. 4 AFINAL, O QUE É INFORMAÇÃO NESTA HISTÓRIA? Como você pode perceber, acadêmico(a), sociedade é um conceito múltiplo que procura sintetizar as relações humanas ou os modos de estabelecimento das relações sociais. Como temos mencionado constantemente, a informação assume papel estratégico nestas relações. E para que nos estudos você possa agregar conceitos, vale um exercício muito antigo de pesquisa filológica/filosófica. Mas não se assuste, acadêmico(a), com as palavras, ou que este exercício será muito difícil, basta lembrar-se de Spinoza e o exercício de estrutura. Valendo-se dele, podemos dizer que esta pesquisa filológica/filosófica nada mais é que o recurso à origem e a causas que produzem determinado termo (um exercício de relíquias, de peças a serem refeitas, como dissemos na introdução). Com este exercício podemos aprofundar os significados primitivos, realizando uma interação com os sentidos assumidos hoje. NOTA UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 14 Vale mencionar a você, acadêmico(a), para ficar atento(a) aos períodos históricos, porque o texto é construído a partir desta relação. Portanto, mencionaremos a definição de informação na Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Contemporâneo. Filologia: é uma disciplina antiga em que se busca analisar os significados fundamentais do vocabulário, das diversas línguas. 4.1 ANTIGUIDADE A história do termo remonta à tradição greco-romana. Na Grécia Antiga, a informação possui o sentido de modelo (hypotyposis) e representação (prolepsis) (CAPURRO; HJORLAND, 2007). Era alguma coisa que a nossa razão (logos) captava da realidade. Daquilo que é permanente (hypokeimenon) e múltiplo/diverso (symbebekota), isto é, aquilo que é necessário e aquilo que é contingente. No mundo romano, informação assume os seguintes sentidos, dos quais se destacam as definições de: ● Varro (116-27 a. C.): Informação (informatur), em sentido biológico/ médico (ligação da cabeça e coluna vertebral). ● Virgílio (70-19 a. C.): informatio e informo. Possui o sentido de produzir (informatum) (CAPURRO; HJORLAND, 2007, p. 156). NOTA NOTA DICAS TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 15 4.2 IDADE MÉDIA A Idade Média, por sua vez, agregará ao termo nova coloração, destacando-se neste quesito o filósofo Agostinho de Hipona (354-430): Informatio sensus (percepção visual). “Aquilo que é percebido e armazenado na memória. Também possui sentido pedagógico: os feitos de Deus nos instruem e educam (ad eruditionem informationemque nostram, que pode ser traduzido por instrução para nossa informação)” (CAPURRO; HJORLAND, 2007, p. 156), isto é, eles nos informam. 4.3 MODERNIDADE A partir da Modernidade, a questão do conceito informação se aprofunda por estar ligada à teoria do conhecimento, isto é, como se garante (ao sujeito) as informações (conhecimento) que se recebe (dos objetos). Uma vez que temos uma mudança de paradigma científico promovida por Galileu Galilei (1564- 1642) e Johannes Kepler (1571-1630), que fazem aparecer uma nova leitura da realidade, ou seja, uma realidade infinita com universo infinito também, o que difere da concepção antiga e medieval em que o universo e a realidade eram limitados, portanto, as noções de informação tinham ligação com a transmissão, produção, armazenamento. Na versão moderna isto implica a necessidade de um sujeito que possa organizar esta realidade/universo infinito, daí o capturar do que chamamos teoria do conhecimento do conceito informação. Faz-se necessária uma teoria do conhecer que permita organizar as informações que o sujeito recebe de uma realidade infinita. Nessa direção, Informação veio a referir-se cada vez menos à organização interna ou formação, [...]. Em vez disso, a informação veio a referir-se à essência fragmentária, flutuante, casual do sentido. A informação, de acordo com a visão global moderna mais geral, mudou de um cosmos ordenado divinamente para um sistema governado pelo movimento de corpúsculos. [...] (CAPURRO; HJORLAND, 2007, p. 156). A partir disto, vários filósofos vão discutir acerca da informação, dentre eles Francis Bacon (1561-1626), John Locke (1632-1704), George Berkeley (1685- 1753) e David Hume (1711-1776), sem esquecer-se de René Descartes (1596-1650), para quem a informação tem o sentido de “dar uma forma (substancial) à matéria para comunicar alguma coisa a alguém [...]” (CAPURRO; HJORLAND, 2007, p. 156). Em outras palavras, trata-se de uma ideia que se passa na mente. De maneira geral, temos duas definições na Antiguidade: o sentido médico e o sentido de produção, como você pôde acompanhar. Esta primeira dualidade de definições demonstra o quão difícil e ao mesmo tempo salutar o conceito de informação. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 16 René Descartes, filósofo e matemático francês do século XVII. Criador do Método, isto é, processo para obtenção de conhecimento. Prática utilizada em todas as ciências. O método expõe em sua obra mais famosa O Discurso do Método (1637). FONTE: Disponível em: <http://www.iplugados.com/biografias1.html>. Acesso em: 11 ago. 2012. Em resumo, este recurso à história do conceito (a que chamamos filológica/ filosófica), como você pôde conferir, caro(a) acadêmico(a), quer apresentar a importância da informação para a condição humana. É pela troca de informações entre nós mesmos, com os outros e com o mundo que vamos correlacionando dados e posições sobre a existência. Além disto, a variedade de definições do termo demonstra os vários sentidos tomados pelos humanos e sua constituição histórica. É nesta seara que o termo informação vai tomar uma nova conotação do ponto de vista contemporâneo. Além disto, é óbvio que a informação é um processo inerente à atividade dos humanos. Se ligarmos informação com linguagem, os seres humanos estariam em constante processo de informação. Mas, à guisa da conclusão desta parte, antecipamos que na sociedade contemporânea (da informação) trata-se de um tipo especial de informação. Como veremos adiante e em muitos outros tópicos, o fenômeno da sociedade da informação é um processo que se inicia a partir da década de 1960. Nesta medida, iremos inseriro debate da sociedade da informação como “filha de seu tempo” (para usar uma expressão de um filósofo chamado Hegel), ou seja, como processo inserido em um debate de uma passagem/reposicionamento da modernidade para pós-modernidade/sociedade pós-industrial/ hipermodernidade/modernidade líquida. Ou dito de outro modo, como passamos de um modo de vida (moderno) para outro (pós/hiper/líquido) tendo a informação como eixo mais recente neste estilo. NOTA NOTA TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 17 4.4 CONTEMPORÂNEO Contemporaneamente, o conceito informação passa a ser utilizado por várias áreas do saber humano, da matemática, passando pela filosofia e se filiando às tecnologias computacionais e às interpretações genéticas. Ou para refrescar a memória, acadêmico(a), basta lembrar dos exemplos de nossa introdução. Uma passada pelo Dicionário Aurélio (FERREIRA, 2009, p. 1104) constata isto: [Primeira definição: Ato ou efeito de informar-(se) [...]. [Segunda definição:] Dados [...] acerca de alguém ou algo [...]. [Terceira definição:] Conhecimento participação [...]. [Quarta definição:] Comunicação ou notícia trazida ao conhecimento de uma pessoa ou do público [...]. [Quinta definição:] Instrução, direção. [Nona definição, ligada à informática:] Coleção de fatos ou de outros dados fornecidos à máquina, a fim de se objetivar um processamento [...]. [Décima definição, ligada à teoria da informação:] [...], medida da redução da incerteza, sobre um determinado estado de coisas, por intermédio de uma mensagem [...] sendo quantificada em bits [em sentido geral códigos] de informação. Informação Genética. [...]. Mensagem contida no ácido desoxirribonucleico através da sequência dos seus nucleotídeos, e que se expressa pela síntese de proteínas. FIGURA 4 – INFORMAÇÃO GENÉTICA FONTE: Disponível em: <http://considereapossibilidade.wordpress. com/2009/01/31/a-informao-gentica-no-para/>. Acesso em: 30 jul. 2012. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 18 Contemporaneamente, como você tem acompanhado neste nosso exercício histórico e conceitual, conferimos grande atenção à informação, porque compreendemos que, através das novas tecnologias (grande rede, conquistas da genética, da nanotecnologia, mass media, economia financeirizada etc.), temos as codificações das mensagens mais e mais aceleradas, diminuindo os espaços (quiçá, também o tempo) do globo terrestre, e que tal perspectiva contribui para uma sociedade em novos níveis de ação. A informação passa a ter papel central: O desenvolvimento e a disseminação do uso de redes de computadores desde a Segunda grande Guerra Mundial e a emergência da ciência da informação como uma disciplina nos anos 50, são evidência disso. Embora o conhecimento e a sua comunicação sejam fenômenos básicos de toda sociedade humana, é o surgimento da tecnologia e seus impactos que caracterizam a nossa sociedade como sociedade da informação [negrito nosso] (CAPURRO; HJORLAND, 2007, p. 149, grifos dos autores). A informação passa a ser condição básica, uma vez que passamos, no contemporâneo, no dia a dia, a ter o mote das cadeias globais promovidas pela natureza digital, que influencia desde o hospital com seus equipamentos, até o trânsito de uma cidade bem equipada neste quesito. Ou seja, “[...] é lugar comum considerar-se a informação como condição básica para o desenvolvimento econômico juntamente com o capital, o trabalho e a matéria-prima, mas o que torna a informação especialmente significativa na atualidade é sua natureza digital” (CAPURRO; HJORLAND, 2007, p. 149). FIGURA 5 – TECNOLOGIAS NOS RONDANDO CONSTANTEMENTE FONTE: Disponível em: <http://noticias.r7.com/blogs/ogg-ibrahim/2012/03/17/ a-tecnologia-que-nos-aproxima-e-nos-afasta/>. Acesso em: 30 jul. 2012. Para entendermos melhor a natureza digital da informação, lancemos mão de um quadro panorâmico dos efeitos da informação (e suas tecnologias). Para desenvolver o mesmo, tomamos de empréstimo a definição de informação dada no TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 19 Dicionário do pensamento social do século XX (OUTHWAITE; BOTTOMORE, 1996), que se mostra muito esclarecedor, porque enumera os passos de formação de uma sociedade da informação. Como você irá conferir, houve num primeiro momento a digitalização das informações, depois a informação tornou-se tecnologia, operando mudanças nas relações sociais e, sendo de extrema relevância social, produzindo um novo modelo de sociedade, a chamada sociedade da informação. O quadro é retirado e montado a partir, como mencionamos, do Dicionário do pensamento social do século XX (OUTHWAITE; BOTTOMORE, 1996, p. 395): QUADRO 1 – QUADRO AÇÃO-RESULTADO DA INFORMAÇÃO FONTE: Adaptado de: Outhwaite; Bottomore (1996, p. 395) UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 20 O QUE É INFORMAÇÃO? Muitos dizem que navegamos na Terceira Onda de Tofler, ou seja, a onda da informação, que seguiu as ondas agrícola e industrial. Autores como Malone, Drucker, Levy, entre outros, dizem que os clássicos fatores de produção estão perdendo seu status para o capital intelectual e para a informação. LEITURA COMPLEMENTAR E para fechar esta seção sobre a informação (para marcar sua importância contemporânea), vale a seguinte colocação: Segundo Marshal McLuhan, estamos assistindo ao fim da era Gutenberg, ao fim da era iniciada com a criação do código fonético e sistematizada pela invenção dos tipos móveis de imprensa, principal responsável, segundo ele, pela destribalização da cultura, pelo individualismo, pelo nacionalismo, pelo militarismo e pela tecnologia ocidental, até a linha de montagem de Ford (que hoje estaria superada). Com o circuito elétrico, que possibilita a ionização ou simultaneidade da informação [bem como a redução do tempo e do espaço], termina a era da expansão (explosão) das sociedades e começa a era da ‘implosão’ da informação: a informação complexa, antiverbal, se manifesta em mosaico, descontínua e simultaneamente [negrito nosso] – e a televisão é o seu profeta. [A televisão passa a alterar o comportamento interpessoal, bem como a internet, pois traz informações sem fim] (PIGNATARI, 1981, p. 12-13). Em síntese, acadêmico(a), você pode acompanhar que a informação passa a ser o bloco pelo qual as atividades humanas são operadas, sua mola mestra. Seja porque torna tudo em banco de dados, seja porque toma a tecnologia (internet, celulares, mídia) por meio de relação, isto é, toma os artefatos tecnológicos meios pelo qual realizamos os trabalhos, os estudos, os contatos entre as pessoas. Para que você aprimore seus estudos no que concerne ao conceito de informação, indicamos a leitura do Dicionário do pensamento social do século XX. Apesar do termo dicionário no nome, que pode assustar, o texto é de leitura fácil, contendo em torno de 500 verbetes descrevendo as mudanças sociais. A obra se mostra rica fonte para aprofundamentos futuros. OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento social do século XX. Tradução de Eduardo Francisco Alves; Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. DICAS TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 21 Mas no campo empresarial, especificamente, como pode ser descrita a informação? A informação pode ser entendida como um dos recursos dos quais a empresa dispõe e utiliza (ou necessita) para a consecução de seus objetivos. De forma genérica, informar significa comunicar algo a alguém. Existe uma clássica distinção entre dados e informações. Oliveira (1993, p. 34) define dado como sendo “qualquer elemento identificado em sua forma bruta que por si só não conduz a uma compreensão de determinado fato ou situação”. A informação, por sua vez, é mais estruturada. É definida como sendo “o dado trabalhado que permite aoexecutivo tomar decisões” (OLIVEIRA, 1993. p. 34). Cassaro (2003, p. 35) corrobora afirmando que “os dados alimentam, dão entrada no sistema, e as informações são produzidas, saem do sistema”, podendo ser a entrada para outro sistema de informação. Como exemplo de dados pode ser citada a quantidade de clientes de uma empresa ou o preço de venda cobrado por determinado item. A lucratividade gerada pelos diversos clientes ou grupo de clientes, que contribui para o gestor decidir, entre outros fatores, qual carteira de clientes incrementar, é uma informação. Os dados, no conceito do Serviço Federal de Processamento de Dados - SERPRO (2003), “são sinais que não foram processados, correlacionados, integrados, avaliados ou interpretados de qualquer forma. Os dados representam a matéria-prima a ser utilizada na produção de informações”. Quanto às informações, de acordo com o SERPRO (2003), “neste nível, os dados passam por algum tipo de processamento para serem exibidos em uma forma inteligível às pessoas que irão utilizá-los”. A importância do fator informação fica ainda mais evidenciada no contexto empresarial contemporâneo, marcado pela extrema e notória competitividade e pela necessidade de eficiência em todos os processos organizacionais. Conceituando eficiência de maneira breve, ela consiste em realizar as atividades de modo correto, ou seja, relaciona-se mais com os meios utilizados. Agir com eficácia, entretanto, é fazer as coisas certas, ou seja, relaciona-se mais com os resultados esperados. Na era da informação, ela é condição indispensável para o funcionamento da empresa e para a consequente sobrevivência, pois conforme cita Cassaro (2003, p. 25), “A empresa em si é uma estrutura estática. O [...] que lhe dá dinamismo é o conjunto de sistemas de informações, ou seja, a gama de informações produzidas pelos seus sistemas, de modo a possibilitar o planejamento, a coordenação e o controle de suas operações”. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 22 Fica óbvio que sem informações a empresa não opera. Ela não poderá tomar nenhuma decisão, não poderá estabelecer nenhum objetivo nem estratégia. Isso sem considerar que, mesmo que a empresa apenas reagisse aos fatos já ocorridos, não deixaria de estar considerando informações históricas. Cassaro (2003, p. 34) comenta que “tanto mais dinâmica será uma empresa quanto melhores e mais adequadas forem as informações de que os gerentes dispõem para as suas tomadas de decisão”. A informação também permite a integração entre os diversos sistemas organizacionais (recursos humanos, marketing, finanças etc.), permitindo a retroalimentação destes para fins de controle, bem como gerando insumos para planos de ação. Ela é um dos principais requisitos para se ter uma visão sistêmica da empresa. Na visão do SERPRO (2003), “A qualidade dos sistemas de informação de uma organização é reconhecidamente uma vantagem corporativa estratégica. Mas, apesar de todos os avanços tecnológicos, o processamento de informações corporativas continua sendo complexo”. Porém, Silva (2001) afirma que cada vez mais, na era da informação, a sociedade terá que se adaptar ao problema da sobrecarga de informações. Isto vai nos compelir a buscar e usar técnicas que ajam como um filtro, selecionando as informações confiáveis e relevantes e maximizando o tratamento das informações recebidas. Isso revela uma outra tendência atual: a customização. Cada indivíduo apresenta uma necessidade específica de informação, ou seja, de acordo com seus objetivos, determinados aspectos serão relevantes. Porém, em meio ao excesso de informações, muitas das quais irrelevantes, tornam-se necessários processos capazes de gerar e recuperar essas informações quando necessárias, de modo a atender, preferencialmente de forma facilitada, as necessidades específicas de cada usuário. [...] Quanto às características da informação, Cassaro (2003) distingue as informações como sendo operacionais, ou seja, aquelas úteis para realizar determinada atividade, como, por exemplo, uma requisição de material; ou como sendo gerenciais, que são basicamente uma compilação das informações operacionais que chegam até o gestor e lhe subsidiam na tomada de decisão. Segundo Cassaro, (2003, p. 41) “enquanto as informações operativas praticamente independem das pessoas, as informações gerenciais são muito influenciadas pelas pessoas que ocupam posições gerenciais”. Uma característica da informação gerencial é o seu potencial preditivo, ou seja, permite inferências sobre situações futuras, permitindo o planejamento de TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 23 onde a empresa espera chegar, bem como a verificação de que a empresa está se orientando para a consecução dos objetivos esperados, possibilitando ajustes caso esteja em situação indesejada. É importante frisar também, conforme citam Padoveze (1994) e Cassaro (2003), que a informação deve ter certos atributos, entre eles destacam-se a relação custo e benefício, utilidade e oportunidade. Dessa forma, os benefícios ocasionados pela utilização de determinada informação devem, inclusive por questão de bom senso, ser maiores que os custos incorridos para obtê-la. É importante verificar se a informação está realmente sendo usada e que benefícios seu uso traz. Entretanto, é difícil precisar com exatidão e objetividade os resultados de uma informação, ou seja, associar diretamente a ele os resultados, satisfatórios ou não, de uma decisão. Quanto à oportunidade, toda informação tem uma utilidade ou valor elevado em determinado momento, decrescendo até chegar ao valor nulo com o passar do tempo. Observando a figura apresentada por Cassaro (2003, p. 37), é possível perceber de forma mais clara a importância da informação ser oportuna. FIGURA 1 – VALOR DA INFORMAÇÃO OPORTUNA FONTE: Adaptado de: Cassaro (2003, p. 37) Conforme exemplifica Cassaro (2003), a figura acima supõe o fato de um gerente necessitar tomar uma decisão no dia 20, e apenas nesse dia tal decisão pode ser tomada. Dessa forma, a informação disponibilizada no dia 30 não teria valor algum. Porém, se a informação fosse fornecida no dia 10, dando maior tempo para o gestor se preparar e ponderar os possíveis resultados da escolha das alternativas disponíveis, surpreendentemente, a informação também não teria o seu valor UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 24 máximo. Nesse dia, o gerente não teria nenhuma decisão a ser tomada e o destino da informação provavelmente seria a gaveta, além de que, no prazo de 10 dias muitas variáveis poderiam se alterar. No dia 20, quando a decisão fosse tomada, essa informação não corresponderia mais com a realidade. Ressaltando que as empresas tendem a operar em ambientes dinâmicos e com alto grau de risco e incerteza, condições presentes em praticamente todas as decisões. Cabe aqui uma distinção entre risco e incerteza: a condição de risco se dá quando o tomador de decisões pode estimar as probabilidades de ocorrência dos vários resultados que a alternativa escolhida acarretará. Quando não se tem informações para conhecer ao menos a probabilidade de ocorrência de certos eventos, tem-se a incerteza. Lima (2007, p. 5) define a diferença entre risco e incerteza da seguinte forma: A diferença entre risco e incerteza está relacionada ao conhecimento das probabilidades ou chances de ocorrerem certos resultados. O risco ocorre quando quem toma as decisões da aplicação de um ativo pode estimar as probabilidades relativas a vários resultados, com base em dados históricos, o que chamamos de distribuições probabilísticas objetivas. Quando não se tem dados históricos e é preciso fazer estimativas aceitáveis, ou seja, distribuições probabilísticas subjetivas, lidamos com a incerteza.Correção e exatidão das informações: Cassaro (2003, p. 38) afirma que “uma informação gerencial quase nunca tem de ser exata, basta-lhe ser correta e estar disponível no momento necessário”. A informação exata corresponde à realidade com precisão total, sendo, portanto, relativa a breve e determinado momento, a partir do qual deixa de ser exata. Os custos de obtenção também são relativamente maiores aos da informação precisa e os benefícios adicionais relativos não são compensatórios. Relevância: escolhas entre alternativas diversas, com diversas finalidades, exigem informações diferentes. Sendo assim, “relevância é o grau de importância que uma informação possui para uma tomada de decisão” (CASSARO, 2003, p. 38). Há de se considerar também que, para tomar determinada decisão, vários fatores pesam sobre as escolhas, alguns em maior e outros em menor grau. Como nem sempre é possível ter informações sobre todas as variáveis envolvidas, é coerente priorizar a obtenção de informações sobre os aspectos mais importantes. Comparação e tendência: é relevante que as informações para finalidades gerenciais possam ser comparadas, possibilitando o conhecimento das variações ocorridas e permitindo que tendências sejam percebidas, evitando suas consequências caso sejam negativas e aproveitando as oportunidades quando positivas. TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO TEMÁTICA 25 A informação é um dos recursos mais relevantes que as empresas [por exemplo] possuem para traçarem suas estratégias, tomarem suas decisões, coordenarem suas ações e efetivarem os controles necessários para acompanhar as mudanças de direção entre o previsto e o realizado. [...] FONTE: Disponível em: <http://vozesdoverbo.blogspot.com.br/2010/10/o-que-informacao.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. 26 Neste tópico você viu: ● Primeiro: uma introdução vinculando exemplos ligados à sociedade da informação, como o cinema. Conforme nos ensina Baruch Spinoza: partir para análises mais aprofundadas. ● Segundo: uma pincelada sobre o conceito de sociedade, que em síntese pode ser resumido no seguinte: espaço de relações humanas. Três são as definições norteadoras (gerais) de sociedade, que apresentamos. A primeira faz entender a sociedade como “o espaço das relações humanas de comunicação ou de intersubjetividade” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080). A segunda definição parte da ideia de que “a sociedade é a totalidade (um organismo) de indivíduos onde ocorrem as relações de comunicação” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080). E a terceira toma a sociedade como “um grupo de indivíduos onde estas relações ocorrem de forma comum ou institucionalizada” (ABBAGNANO, 2007, p. 1080). O que estas definições (tendências) gerais nos permitem? Estas definições nos permitem compreender uma tendência geral sobre o que é sociedade: espaço onde ocorrem as interações humanas. É neste espaço que será vinculada a informação, ou seja, em nossas interações. ● Terceiro: uma pincelada sobre o conceito de informação. Inicialmente realizou um trabalho filológico, isto é, demonstrando a origem, como dissemos na introdução, via Spinoza, sobre buscar a origem, remontando alguns pontos, até chegar à ideia de informação vinculada à sociedade da informação. Nesta perspectiva o(a) acadêmico(a) pode conferir que no nosso dia a dia damos grande atenção e importância à informação, porque ela se traduz através das novas tecnologias (grande rede, conquistas da genética, da nanotecnologia, mass media, economia financeirizada etc.), que se codificam em mensagens mais e mais aceleradas, diminuindo os espaços (quiçá, também o tempo) do globo terrestre. Tal prática também contribui para formar uma visão geral que explica a globalização, isto é, esta mesma sociedade da informação traduz o nosso tempo, como vimos. RESUMO DO TÓPICO 1 27 Para fixar os conhecimentos adquiridos neste tópico, responda a cada uma das questões: 1 Realize uma síntese do texto complementar: O que é informação? 2 Defina sociedade a partir de Giddens. AUTOATIVIDADE 28 29 TÓPICO 2 MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a), neste segundo tópico buscamos demonstrar do ponto de vista teórico e histórico os movimentos que conformam a sociedade contemporânea como sociedade da informação, isto é, como, a partir de determinado período, a informação passou a ser eixo/mola fundamental da sociedade, como você vai conferir, mais precisamente a partir da década de 1960. Para isto iremos articular uma história das interpretações da sociedade para localizar a ideia de sociedade da informação, no período que mencionamos. Valendo-se da proposta de Spinoza, vamos remontar a estrutura que revela os pontos da sociedade da informação hoje. Com este empreendimento, esperamos contribuir com você, acadêmico(a), no fortalecimento do conhecer e na potência do pensar. Como você pôde acompanhar na unidade anterior, de maneira geral, a partir das definições apresentadas, a sociedade é o espaço onde estabelecemos as relações humanas (que são exemplificadas nas instituições, nas músicas, nos sentidos e sem sentidos que o humano dá coletivamente), e mais recentemente estas relações são atravessadas, marcadas, enlaçadas pelo aspecto da informação, que, como vimos, é entendida como o processo em que transformamos dados digitais (sejam eles linguagens, imagens, livros, filmes) em informação que é transmitida constantemente por redes, resultando na compressão do tempo e do espaço, acelerando os fluxos de ideias, conceitos, moda, arte, música, especulações econômicas, em ritmo nunca antes visto. Mas, como você tem acompanhado, isto não se realiza de modo gratuito, as mudanças ocorrem historicamente e possuem um processo de chegada, isto é, os modos que observamos hoje possuem uma história para chegar ao que vemos hoje, sofrendo grandes metamorfoses. Há uma gama de causas e transformações, como bem nos lembrava Spinoza, no Tópico 1. E isto não é diferente com a sociedade da informação. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 30 2 GLOBALIZAÇÃO E SEUS EIXOS: DA MODERNIDADE À PÓS- MODERNIDADE; DA SOCIEDADE INDUSTRIAL À SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL; DA MODERNIDADE À HIPERMODERNIDADE/ MODERNIDADE LÍQUIDA Tradicionalmente, para compreender estas mudanças que vislumbramos na sociedade da informação, podemos nos valer da Sociologia, ciência que lança três hipóteses muito interessantes acerca desta chegada à sociedade da informação. Em outras palavras, traça um viés, um caminho que demarca a passagem da modernidade/sociedade industrial para pós-modernidade/sociedade pós- industrial ou modernidade para hipermodernidade/modernidade líquida, que nada mais é que o transcorrer do século XVI até os dias atuais. A primeira diz que a partir do Renascimento e das grandes navegações iniciamos um processo de globalização do mundo, impulsionado pelas mutações do capitalismo. Historicamente, estas mutações estariam “instaladas” no que podemos chamar de modernidade, que vai do Renascimento até o século XIX, e a pós-modernidade, a partir do século XIX, sendo a sociedade da informação um dos braços ou características deste último. Esta hipótese que colocamos é, por exemplo, tese desenvolvida pelo sociólogo brasileiro Octavio Ianni (1926-2004), que em seu livro A Sociedade Global (IANNI, 1993) procura analisar estas mutações, desde o surgimento do capitalismo, no século XIV, passando pelas grandes navegações, pela formação dos estados-nação, pelas revoluções política e industrial, até chegar às multinacionais, à informática e à bolsa de valores. “A estes movimentos, Ianni denomina globalização” (COSTA, 2005, p. 232). OCTAVIO IANNI, sociólogo brasileiro (1926-2004). Desenvolveu vários estudos sobre o Brasil e a cultura. Escreveu várias obras, das quais sedestacam A Sociedade Global (1992) e Teorias da Globalização (1996). FONTE: Disponível em: <http://umapiruetaduaspiruetas.wordpress.com/2012/03/27/notas- para-a-prova-de-ppsb-estilos-de-pensamento-octavio-ianni/>. Acesso em: 30 jul. 2012. NOTA TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 31 Globalização: De maneira geral, fenômeno caracterizado pela maior integração (não sem conflito) econômica, cultural, social, onde, por exemplo, as mercadorias (econômica), as religiões (cultural) e os grupos sociais são aproximados, bem como pela utilização de tecnologias e pela circulação de informação em massa. FIGURA 6 – GLOBALIZAÇÃO FONTE: Disponível em: <http://www.notapositiva.com/trab_estudantes/trab_ estudantes/filosofia/filosofia_trabalhos/compreendglobaliz.htm>. Acesso em: 30 jul. 2012. 2.1 MODERNIDADE Para filtrar para você, acadêmico(a), e para que a compreensão seja precisa, apresentaremos a seguir pontos fundamentais da modernidade, que no seio de suas contradições servirá de alicerce para a sociedade da informação: Mike Featherstone (1995, p. 20) caracteriza a modernidade de modo muito simples: NOTA UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 32 Afirma-se, de modo geral, que a modernidade surgiu no Renascimento e foi definida em relação à Antiguidade, como no debate entre os antigos e os modernos. [...], a modernidade contrapõe-se à ordem tradicional, implicando a progressiva racionalização e diferenciação econômica e administrativa do mundo social [...] – processos que resultaram na formação do moderno Estado capitalista-industrial [...]. Um pensador famoso, de uma leitura riquíssima (e ainda vivo), chamado Jürgen Habermas (1929-), também contribui para nossa pesquisa. Diz ele que a modernidade (na verdade, ele vai chamar de projeto moderno) parte de um conjunto de teses formuladas pelos filósofos iluministas, tais como (COSTA, 2005, p. 233): Crença no pensamento científico. Papel da moralidade na condução da vida humana. Universalismo do pensamento. Universalismo das formas de organização da sociedade. Em Johnson (1997, p. 152) também temos uma boa definição, que parte dos mesmos aspectos que anunciamos “[...] modernismo é uma visão particular das possibilidades e direção da vida social, com origens no Iluminismo e baseada em fé no pensamento racional. Da perspectiva modernista, a verdade, a beleza e a moralidade existem como realidades objetivas que podem ser descobertas, conhecidas e compreendidas através de meios racionais e científicos. Essa opinião não só torna o progresso inevitável, mas fornece uma base para o aumento do controle sobre a condição humana e maior liberdade individual”. Estes pontos podem ser traduzidos na aposta industrial, na urbanização, na construção das grandes cidades, na ciência como resposta para tudo, na conversão da religião em espaço privado, isto é, a possibilidade de cada um exercer sua religião. São deste período também as grandes colonizações. Além destes quesitos, poderíamos aportar mais quatro, que reforçam nossa compreensão acerca da modernidade, suas nuances e princípios fundamentais, já que nosso mote é chegar à sociedade da informação. Vejamos quais são os quatro reforços (COSTA, 2005, p. 233): Racionalismo. Organização. Esperança na liberação humana da escassez. Esperança na liberação humana do arbítrio (político, religioso). NOTA TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 33 FIGURA 7 – MODERNIDADE FONTE: Disponível em: <http://vidaqueseconta.blogspot.com.br/2011/07/ modernidade-por-arnaldo-jabor.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. FONTE: HABERMAS, Jürgen. O Discurso Filosófico da Modernidade. Disponível em: <http://livraria.folha.com.br/ catalogo/1047451/o-discurso-filosofico-da-modernidade>. Acesso em: 30 jul. 2012. Acadêmico(a), para acompanhar estas questões com maior profundidade, indicamos o livro de Jürgen Habermas, que é extremamente esclarecedor: O discurso filosófico da modernidade. 2.2 PÓS-MODERNIDADE Johnson (1997, p. 152) nos dá uma definição muito clara do que é pós- modernidade: O pós-modernismo rejeita a visão modernista argumentando, em primeiro lugar e acima de tudo, que verdade, beleza e moralidade não têm existência objetiva além do que pensamos, escrevemos e falamos sobre elas. Da perspectiva pós-modernista, a vida social não é uma realidade DICAS UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 34 objetiva, à espera de que se descubra como funciona. Em vez disso, o que experimentamos como vida social é, na verdade, apenas a maneira como nela pensamos, e há muitas e mutáveis formas de fazer isso. Não há sociedades, comunidades ou famílias que existam como entidades fixas, mas apenas como um fluxo contínuo de conversas, modelos abstratos, histórias e outras representações que perpassam por todos os níveis da vida social, de conversas íntimas entre amantes aos produtos da mídia [aqui entra a sociedade da informação]. Embora alguns elementos no fluxo sejam ‘privilegiados’ ou recebam maior peso e legitimidade social do que outros, em última análise, uma versão da realidade, da beleza ou da moralidade não é pior nem melhor do que outra. Primeiro, é destes sinais de ruptura (no sentido de homogeneidade: sobre a verdade, beleza e moralidade) que a sociedade da informação vai se instalar. Se não há modelos abstratos, se faz necessário compreender as constantes mudanças que não param de acontecer. Segundo, a própria informação também se torna fonte privilegiada dos processos de interação humana, ou seja, quanto mais acesso a dados e a recursos tecnológicos, mais privilégios haverá em certos fluxos sociais. Em outras palavras, podemos dizer que a sociedade da informação surge dos efeitos (e contradições) entre modernidade e pós-modernidade, ou ainda, que a modernidade é globalizante e, por tal feito, produz em seu seio variáveis de interpretação, feitas pela sociologia, da qual partimos, em tempos em tempos. Mas, para esta nota, especifiquemos a pós-modernidade. Partindo da tese de Ianni (1993), que expomos anteriormente (da sociedade da informação como uma das filhas da globalização), trabalhemos outros elementos acerca da pós-modernidade. O primeiro elemento está ligado à ideia de que este conceito nasceu nos meandros das artes visuais e da arquitetura: Criado no campo das artes visuais e da arquitetura, o conceito de pós-modernidade procurava designar uma postura de ruptura com tudo o que caracterizou a produção artística da modernidade, ou seja, a organização do campo artístico e a institucionalização da arte, a profissionalização do artista e a circulação dos produtos por meio de um bem organizado mercado de arte. Procurava romper também a busca por critérios universais da arte e pelo anseio de perenidade e legitimação que caracterizou o modernismo [...] (COSTA, 2005, p. 232). Esta postura de ruptura proposta pela arte, marcadamente influenciada pela indústria cultural, passa a marcar a criação simbólica de sociedade (COSTA, 2005). Desta maneira, o conceito (oriundo de uma proposta contestadora de arte) “[...] associou-se à quebra de valores e de normas de comportamento que caracterizou o homem contemporâneo, especialmente nos grandes centros urbanos” (COSTA, 2005, p. 232-233). Por esta situação, por não permitir uma objetividade de leitura, mas várias possibilidades, afirmar categoricamente o termo é ambíguo, dada a sua flexibilidade de uso. Assim: Em razão dessa flexibilidade e ampliação de uso, o conceito de pós-modernidade acabou ganhando ambiguidade, podendo identificar o TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 35 desconstrutivismo [na arquitetura, como os movimentos artísticos da periferia] [...]. Servia tanto para designar as organizações não governamentais comomanifestações simbólicas que repudiavam valores e princípios inquestionáveis da modernidade – entendida como o período histórico da sociedade ocidental que se estende do Renascimento até meados do século XIX. Entre esses valores estavam o nacionalismo, a democracia, a igualdade entre os homens e a justiça (COSTA, 2005, p. 233). Nesta medida, a pós-modernidade seria um movimento, que, migrado dos movimentos artísticos para os movimentos sociais, passa a identificar um conjunto de fatores-chave que marcam nosso período e cruzam nossas relações interpessoais. Além disto, estes mesmos fatores marcam e dão o diagnóstico da sociedade da informação. Vejamos alguns deles (COSTA, 2005, p. 233): A emergência da informação nas relações econômicas. A emergência da informação na produção. A emergência da informação na comunicação entre pessoas. A decadência dos regimes comunistas no mundo. O fim da produção industrial. O desencanto generalizado em relação às expectativas idealistas da filosofia, das ciências e das técnicas. Esta mesma posição analítica é tomada por Jean Baudrillard (1929-2007), teórico francês, que entende que as tecnologias assumem papel fundamental na formação da pós-modernidade, sendo mote de relações intersubjetivas, bem como elemento fundamental para as futuras constituições industriais. As tecnologias também são entendidas como conjunto de fatores que dificultam a distinção – separação entre a realidade e a aparência, incluindo nesse sentido as tecnologias da informação. [...] destaca que novas formas de tecnologia e informação tornam-se fundamentais para a passagem de uma ordem social produtiva para uma reprodutiva, na qual as simulações e modelos cada vez mais constituem o mundo, de modo a apagar a distinção entre realidade e aparência (FEATHERSTONE, 1995, p. 20). Outro famoso intérprete desta vertente de compreensão, na verdade o pai do termo, Jean François Lyotard (1924-1998), também apresenta os elementos que caracterizam a sociedade pós-moderna, com o ponto fundamental de que não há possibilidade para uma grande narrativa, mas narrativas menores da existência, que se cruzam o tempo todo. [...] discorre sobre a sociedade pós-moderna, ou era pós-moderna, cuja premissa é o movimento para uma ordem pós-industrial. Seu interesse específico reside nos efeitos da ‘computadorização da sociedade’ sobre o conhecimento, e ele argumenta que não se deveria lamentar a perda de sentido na pós-modernidade, vista que ela assinala uma substituição do conhecimento narrativo pela pluralidade de jogos de linguagem e do universalismo do localismo [negrito nosso] (FEATHERSTONE, 1995, p. 20). UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 36 FIGURA 8 – PÓS-MODERNIDADE FONTE: Disponível em: <http://fmecenas.wordpress.com/2010/12/21/marcas- da-pos-modernidades/>. Acesso em: 30 jul. 2012. 2.3 CAPITALISMO Entende-se por capitalismo o seguinte: Sistema em que os meios de produção são de propriedade privada de uma pessoa (ou grupo de pessoas) que investe o capital; o proprietário dos meios de produção (capitalista) contrata o trabalho de terceiros que, portanto, vendem a sua força de trabalho para a produção de bens. Estes, depois de vendidos, permitem ao capitalista não apenas a recuperação do capital investido, mas também a obtenção de um excedente – o lucro. Tanto a compra dos meios e fatores de produção quanto a venda dos produtos, resultantes da atividade empresarial, realizam-se no mercado de oferta e procura de bens e serviços, existente na sociedade capitalista (LAKATOS, 2010, p. 344). FIGURA 9 – CAPITALISMO FONTE: Disponível em: <http://envolverde.com.br/sociedade/ mundo-sociedade/crise-terminal-do-capitalismo/>. Acesso em: 30 jul. 2012. Retomando... A segunda hipótese para denominar estas mutações é demarcar o caminho da sociedade industrial, que seria, diferente da modernidade, deslocada para o século XVIII, culminando com a Revolução Industrial, passando para uma TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 37 Sociedade industrial De acordo com De Masi (1999, p. 16-17), as características fundamentais da sociedade industrial, iniciadas a partir do século XVIII, são as seguintes: 1) concentração de grandes massas de trabalhadores assalariados nas fábricas e nas empresas financiadas e organizadas pelos capitalistas de acordo com o modo de produção industrial; 2) predomínio numérico dos trabalhadores no setor secundário em comparação ao setor primário e terciário; 3) predomínio da contribuição prestada pela indústria à formação da renda nacional; 4) aplicação das descobertas científicas ao processo produtivo na indústria; 5) racionalização progressiva e aplicação da ciência na organização do trabalho; 6) divisão social do trabalho e sua fragmentação técnica cada vez mais capilar e programada; 7) separação entre o lugar onde se vive e o local de trabalho, entre sistema familiar e sistema profissional, com a progressiva substituição da família extensa pela família nuclear; 8) progressiva urbanização e escolarização das massas; 9) redução das desigualdades sociais; 10) reforma dos espaços em função da produção e do consumo dos produtos industriais; 11) maior mobilidade geográfica e social; 12) aumento da produção de massa e crescimento do consumismo; 13) fé em um progresso irreversível e em um bem-estar crescente; 14) difusão da ideia de que o homem, em conflito com a natureza, deve conhecê-la e dominá-la; 15) sincronização do homem não mais de acordo com os ritmos ou tempos da natureza, mas com os incorporados nas máquinas; 16) concessão do predomínio aos critérios de produtividade e de eficiência entendidos como único procedimento para a otimização dos recursos e dos fatores de produção; 17) convicção de que para alcançar escopos práticos existe one best way, um único caminho ótimo a ser intuído, preparado e percorrido; 18) possibilidade de destinar a cada produto industrial um local preciso (a fábrica) e tempos precisos (padrão) de produção; 19) presença conflitual, nas fábricas, de duas partes sociais – empregados e empregadores – distintas, reconhecíveis, contrapostas; 20) possibilidade de reconhecer uma dimensão nacional dos vários sistemas industriais; 21) existência de uma rígida hierarquia entre os vários países, estabelecida com base no Produto Nacional Bruto, na propriedade das matérias-primas e dos meios de produção. sociedade pós-industrial a partir do século XIX, mais ao seu final, sendo como a pós-modernidade, a sociedade da informação, seu viés contemporâneo, isto é, atual, presente nos últimos 50 anos. Caracterizando a passagem da vida industrial para vida que utiliza a informática como meio de produção. Esta hipótese que colocamos é, por exemplo, tese desenvolvida pelo sociólogo italiano Domenico de Masi (1938-), que em seu livro A sociedade pós-industrial (DE MASI, 1999) procura analisar estas mutações, desde o surgimento do capitalismo, no século XIV, passando pelas grandes navegações, pela formação dos estados-nação, pelas revoluções política e industrial, até chegar às multinacionais, à informática e à bolsa de valores. Ou seja, com a sociedade da informação teríamos as mutações advindas da sociedade industrial, passando pela sociedade pós-industrial. NOTA UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 38 2.4 SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL Para pensar a passagem para a sociedade pós-industrial, alguns itens se fazem fundamentais, isto é, alguns itens marcam um verdadeiro processo de transição em termos de uma nova sociedade (pós-industrial), três fenômenos fundamentais: 1 Convergência entre países industriais, independentemente do regime político (EUA e URSS). Nesta perspectiva: socialismo/capitalismo como filhos da sociedade industrial. 2 Crescimento das classes médias no âmbitoda sociedade e da tecnoestrutura da empresa. Novo paradigma para o conflito: burguês X proletário. 3 Fase extrema do capitalismo maduro: difusão do consumo de massa e da sociedade do consumo. Estes três pontos detonam novas passagens para a globalização, outra maneira de olhá-la para além da dicotomia modernidade-pós-modernidade. Se esta dicotomia privilegia noções mais abstratas, como razão, progresso, esta dicotomia sociedade industrial-sociedade pós-industrial articula pontos mais sociais, como a relação do trabalho, produção, sociedade. Nesta parte, propomos apresentar um quadro comparativo, que melhor elucide do que se trata a questão da sociedade pós-industrial, isto é, seus temas mais fundamentais. Desta maneira, a partir de De Masi (1999, p. 48), temos a seguinte classificação, que o(a) acadêmico(a) pode tomar como observação mais elaborada: QUADRO 2 – COMPARATIVO Sociedade pré- industrial Sociedade Industrial Sociedade pós-industrial Período Até o século XIX. Da metade do século XVIII até a metade do século XX. Desde a Segunda Guerra Mundial. [...] Instituições básicas Dinastias, igrejas, exército, família patriarcal, grupos primários. Estado, empresa, sindicato, banco, família nuclear, grupos secundários, partidos. Universidades, institutos de pesquisa e de cultura, grandes empresas de comunicação de massa, bancos, família instável. Grupos primários e secundários. Organização do Estado Regimes autoritários. Dinástico. Democracias representativas e estado de bem-estar, instituições rígidas, democracia associativa, socialismo real, Estado intervencionista. Democracias representativas, neoliberalismo e estado de bem-estar, instituições flexíveis, participacionismo. TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 39 Recursos principais Terra, matérias- primas, alto índice de natalidade. Meios de produção, matérias-primas, patentes, produtividade. Inteligência, conhecimento, criatividade, informações, laboratórios científicos e culturais. Setor econômico dominante Extrativismo, criação de animais, agricultura, pesca, exploração das florestas e das minas, produção para consumo próprio. Setor primário. Produção de bens: fabricação, transformação, distribuição. Setor secundário. Produção de ideias e fornecimento de serviços: transportes, comércio, finanças, seguros, saúde, instrução, administração, pesquisa científica, cultura, lazer. Setor terciário. Estrutura profissional Camponeses, mineiros, pescadores, operários não qualificados, artesãos. Operários, engenheiros, empresários, funcionários de escritório. Profissionais liberais, técnicos, cientistas, indústria do lazer, tecnoestrutura. Local típico Campo, pequenos centros urbanos, loja do artesão, manufatura. Small is beautiful. Instalações industriais, fábrica, escritório, cidade, urbanização. Big is beautiful. Difusão de informação, eletronic cottage, laboratórios científicos, trabalho domiciliar on-line, urbano, fábrica descentralizada. Dimensões adequadas. Recursos Matérias-primas, instrumentos flexíveis. Tekne. Fazer à mão. Energia, instrumentos rígidos, linha de montagem. Tekne + Logos. Fazer com a máquina. Eletrônica, informática, biogenética, tecnologias intelectuais e adequadas. Logos. Fazer com que a máquina faça. Desafios Mortalidade infantil, fome, doenças, necessidades ‘materialistas’, escassez. Crise energética, alienação, poluição, desperdício dos recursos, anomia, disparidades sociais, guerra. Segurança no trabalho. Qualidade de vida, saúde psíquica, conformismo, guerra, necessidades pós- materialistas. Preocupação com o ambiente. O que está em jogo nos conflitos sociais Domínio e sobrevivência, subordinação e revoltas, guerras locais. Propriedade dos meios de produção, apropriação da mais-valia, poder de compra, conquista dos mercados. Luta de classes, conflito industrial, guerras mundiais. Elaboração e imposição dos modelos de programação, gestão do saber. Movimentos sociais, conflitos urbanos, guerra atômica e destruição da humanidade. Atores sociais centrais Proprietário de terra, aristocratas, senhores. Camponeses, artesãos, plebe. Empresários, trabalhadores, sindicatos. Técnicos, mulheres, cientistas, administradores da informação, intelectual. Estrutura de classe Senhores, servos. Burguesia, classes médias, proletariado. Dirigentes, dominantes. Contestadores, dominados. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 40 Fator e coesão Solidariedade mecânica, dimensões limitadas, origem comum, fé. Solidariedade mecânica, ideologia, solidariedade de classe, organização formal, objetivo comum, comunicações. Solidariedade programada, redes múltiplas de comunicação, participação no grupo, objetivo comum, aldeia global. Fator de mobilidade social Nascimento, herança, sucessão, afiliação. Nascimento, herança, merecimento, espírito, empreendedor, cooptação, clientelismo, carreira. Metodologias Experiência imediata, bom senso, tentativa a erro, ação e reação, sabedoria. Empirismo e experimentação, busca de soluções, descoberta, organização científica do trabalho, padronização, especialização, sincronização, concentração, maximização, centralização. Teorias abstratas: modelos, simulações; análise de sistemas; pesquisa dos problemas; invenção; enfoque científico dos processos de previsão, de programação, de decisão; desregulamentação e descentralização. Relação com o tempo e o espaço Orientação para o passado, força da tradição, resposta imediata; tempos sincronizados com a natureza; disponibilidade de tempo; sentido do além. Adaptação conjuntural às necessidades: Planejamento a médio prazo; cálculo científico dos tempos e sua redução, ritmo padronizado e imposto, baseado na máquina; vida baseada no tempo de trabalho. Orientação para o futuro; cenários e previsões a longo prazo; ritmo de trabalho escolhido e individualizado; vida baseada no lazer. Dimensão local Coincidência do lugar onde se vive com o lugar onde se trabalha. Dimensão multinacional; lugar onde se trabalha separado do lugar onde se vive. Unidade de tempo e de lugar. Dimensão transnacional; conexões telemáticas e televisivas de todos os lugares [internet]. Estrutura psíquica Personalidade. Personalidade edipiana. Personalidade narcisista. Vantagens Ritmos lentos, equilíbrio com a natureza, autogestão, pouca burocracia, solidariedade primária. Consumo de massa, mobilidade geográfica e social, domínio da natureza, igualitarismo. Educação de massa, acesso às informações, lazer, invenção da natureza, redução da incerteza. Desvantagens Miséria, servidão, alienação, mortalidade infantil, ignorância, fadiga física. Alienação, competitividade, desperdício, anomia, fadiga psicofísica, exploração. Manipulação, direção externa, controle externo, massificação, marginalização, desemprego, fadiga psíquica. FONTE: De Masi (1999, p. 48) TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 41 Retomando... A terceira e última hipótese, para remontar à estrutura que serve para levantar a “casa” que culmina com a sociedade da informação, pode ser apresentada em duas variáveis, que advêm da modernidade. De um lado, nos últimos 100 anos, teríamos a hipermodernidade e, do outro, a modernidade líquida. A primeira diz que a modernidade passou para estruturas hipers, isto é, exageram-se as formas da modernidade, tal comoa informação que era relativamente apresentada para uma pequena parcela da população e passa a ser desenvolvida em escala global, sendo um dos pontos deste hiper da modernidade a sociedade da informação, pois demarcaria a compreensão do tempo e do espaço, o fazer circular da informação, mais e mais veloz pelo seu aparato tecnológico, tendo nesta velocidade os seus efeitos contraditórios. Por seu turno, a modernidade líquida se caracteriza por afirmar que a modernidade tem suas estruturas liquificadas, isto é, maleáveis, de tal modo que as estruturas modernas assumem novas características com a utilização do aparato tecnológico no dia a dia, prática esta que em tempos modernos era apenas artigo de luxo em laboratórios ou em livros de ficção científica. Hipermodernidade: este termo é ligado ao pensamento do filósofo francês Gilles Lipovestky (1944-). O termo é desenvolvido por Lipovestky na obra Tempos hipermodernos (juntamente com Sébastien Charles). A tese central do livro, segundo Pereira (2006, p. 5), é de que “o conceito de pós-moderno (como algo que viria depois da modernidade) é ambíguo, vago, pois é evidente que, a partir da década de 1950, tem início a modernidade com novas características, e não uma passagem rasteira ou superação da anterior”. Quais são estas novas características, que o homem contemporâneo tem que encarar, e nas quais a nossa pesquisa sociedade da informação se insere? Apresentemo-las: ● veloz expansão do consumo e da comunicação em massa; ● abrandamento das normas autoritárias e disciplinares; ● surto de individualização; ● sagração do hedonismo e do psicologismo; ● descrença em propostas (de futuro) revolucionárias; ● tecnologismo; ● descontentamento com as propostas políticas e de militâncias. Gilles Lipovetsky se pergunta ao que leva o superlativo: hiper? Segundo Pereira (2006, p. 6) “há novos valores, uma nova cena social e uma realidade em que estamos interagindo constantemente, produzindo uma situação nova para o homem contemporâneo”. Pereira (2006, p. 6) lança mão de mais duas perguntas NOTA UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 42 que compõem o superlativo: “[...]: hipercapitalismo, hiperclasse, hiperpotência, hiperterrorismo, hiperindividualismo, hipermercado, hipertexto — o que mais não é hiper? O que mais não expõe uma modernidade elevada à potência superlativa?” O que também serve de questionamento para a própria sociedade da informação: até que ponto ela não é uma supervalorização. Com a posição de Lipovestky, e como veremos adiante, de Zygmunt Bauman, temos um “exame de consciência” dos efeitos modernos, o que implica também observar os efeitos e nuances da sociedade da informação. “O que está em jogo com estas questões, mais do que decretar o óbito da modernidade, é seu acabamento realizado no liberalismo globalizado, na mercantilização dos modos de vida (ou consumo da subjetividade alheia) e no individualismo cavalar” (PEREIRA, 2006, p. 6). Pereira (2006, p. 6) coloca as teses de Lipovetsky em jogo: ‘O pós-moderno ainda dirigia seu olhar para um passado que se decretara morto. Essa época terminou’, afirma Lipovetsky. Tínhamos uma modernidade limitada; agora é chegado o tempo da modernidade consumada, uma escalada aos extremos sob o signo do excesso: tecnologias em transformações vertiginosas; internet e seu dilúvio de fluxos numéricos (milhões de sites, bilhões de páginas, trilhões de caracteres, que dobram a cada ano); o turismo e suas multidões em férias; aglomerações urbanas e megalópoles superpovoadas, asfixiadas, tentaculares; milhões de câmeras para lutar contra o terrorismo e a criminalidade (hipervigilância); frenesi consumista (hiperconsumismo); esportes radicais; assassinos em série; bulimias e anorexias, obesidade, compulsões e vícios; desenvolvimento sustentável; ecologia industrial. O que está em jogo, além dos elementos que apresentamos acima, na hipermodernidade, é estar sempre em movimento. Ênfase a processos mais e mais velozes. Maneiras de proceder cada vez mais ágeis, incluindo novas técnicas de ação, que aprimorem mais e mais os serviços. Acelerar para não ser ultrapassado, evoluir sempre, o que implica um novo arranjo do tempo social, segundo Pereira (2006, p. 6): No centro do novo arranjo do regime do tempo social vê-se que quanto mais depressa se vai, menos tempo se tem. A falta de tempo motiva mais queixas que a falta de dinheiro ou liberdade. Percebem-se construções mais personalizadas dos usos do tempo: flexibilização e aceleração. Foram-se a ociosidade, a contemplação, o relaxamento: o que importa é a autossuperação, a vida em fluxo nervoso, acelerado. NOTA TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 43 Nesta medida (e aqui desenvolveremos uma possível crítica), a sociedade da informação, a partir da leitura hipermoderna, estaria servindo de aparato para indivíduos inseguros, servindo de recurso à saúde, obsessão das massas; teríamos indivíduos atomizados, fechados em seus casulos tecnológicos e virtuais. Presos aos vírus e aos sistemas (seja na economia, na educação, nas ações do Estado), em que o mundo está aos seus pés, mas o vizinho ao lado é um inimigo a ser combatido. Poderíamos incluir a isto os mass media, que estampam constantemente catástrofes, epidemias e terrorismo. Ou seja: [...] proteção, segurança, defesa das “conquistas sociais”, urgência humanitária, preservação do planeta são preocupações eminentes no contexto hipermoderno. Em resumo, “limitar os estragos”. De um lado, a sociedade-moda não para de instigar aos gozos já reduzidos do consumo, do lazer e do bem-estar. De outro, a vida fica menos frívola, mais estressante, mais apreensiva (Pereira, 2006, p. 6). Onde tudo se reduz a sistema, e se este falha, temos a limitação do humano. A leitura de Lipovestky pode parecer catastrófica (como parecerá de Bauman, que trataremos na próxima nota), mas na verdade ela se pergunta pelos limites das propostas que privilegiamos na dinâmica social. A aposta (proposta) nas tecnologias, no consumo, na segurança tem seu preço nas pulsões humanas, e é nestas perspectivas que Lipovestky lança mão de suas interpretações. FIGURA 10 – HYPERCONSUMO FONTE: Disponível em: <http://subjetividadescompatilhadas.blogspot. com.br/2012/05/como-o-ser-o-humano-buscou-resolver.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. NOTA UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 44 2.5 MODERNIDADE LÍQUIDA A frase de Karl Marx (e também do seu parceiro de escrita Friedrich Engels): “Tudo o que é sólido desmancha no ar” (presente no Manifesto do Partido Comunista) é importante. Aqui, ela nos serve de recurso para sintetizar o que apresentamos no decorrer do texto, isto é, a passagem de uma modernidade que foi construída na aposta na ciência, na razão, no Estado, dentre outros elementos, para uma pós-modernidade, ou em suas outras variáveis: sociedade pós-industrial, hipermodernidade e a que veremos a partir destas linhas, a modernidade líquida. Esse termo sugere o surgimento de novas questões, entre elas a ideia da sociedade atual como sociedade da informação. Nosso último ponto, antes de tratar propriamente da sociedade da informação, diz respeito a esse termo cunhado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-), chamado modernidade líquida. Com este termo, Bauman (apud AURÉLIO, 2010, p. 58, grifos nossos) quer marcar a pretensa “[...] transição no âmbito da sociedade moderna, caracterizada basicamente pelo advento de novas tecnologias e meios de comunicação e pela supremacia econômica do capital financeiro e das corporações transnacionais”. O que esta metáfora da liquidez nos sugere? Ela vem ao encontro como nova possibilidade de interpretação do contemporâneo (na qual se insere a Sociedade da Informação), seja em suas contradiçõese dilemas, seja em suas possibilidades. Além disto, a “[...] metáfora da ‘liquidez’ sugere, pois, uma noção de fluidez, de dinâmica e de volatilidade, em contraste a uma ‘modernidade sólida’ de relações, instituições e formas ‘estáveis’” (AURÉLIO, 2010, p. 58, grifos nossos). Novamente, nos vem uma pergunta: para que a metáfora nos serve? Primeiro, ela nos permite constatar que justamente a sociedade da informação participa deste processo de fluidez, dinâmica e volatilidade. Segundo, ela também é fruto das tensões sociais e do contraste entre modernidade e modernidade líquida. Uma possibilidade grosseira de comparar ambas se dá pela física: de um lado teríamos a modernidade (com a física newtoniana, com sua fixidez) e do outro a pós- modernidade (com a teoria da relatividade, com sua fluidez). Nesta medida, o que está em jogo é compreender o estado das coisas, sem qualquer excesso ou saudosismo: Zygmunt Bauman, porém, não oferece gritos de ordem saudosos de uma romântica e imaginosa ‘vida comunitária’ em tudo superior a essa ‘fragilidade dos laços humanos’. Ele está interessado em compreender a NOTA TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 45 ‘líquida sociedade moderna’ e o indivíduo dos ‘tempos líquidos’, em sua constante busca pela saciedade dos prazeres imediatos, ‘conectando-se’ e ‘desconectando-se’ de objetos e pessoas, dilacerado por sentimentos conflitantes, apartando-se por vezes de sua condição de sujeito político. Essa sensação de ‘fragilidade’ e ‘insegurança’ na ‘modernidade líquida’ aumenta em virtude daquilo que o geógrafo britânico David Harvey chamou de ‘compressão espaço-tempo’; das desregulamentações no mundo do trabalho; e dos desafios do Estado frente a um ‘mundo sem fronteiras’ [...] (AURÉLIO, 2010, p. 58, grifos nossos). Este espírito interpretativo permite ter uma leitura lúcida da sociedade da informação, fazendo compreender os seus efeitos numa modernidade líquida, sem cair na ideia de soluções utópicas, assim como Bauman faz no seu exercício. Avesso a barganhar soluções utópicas simplórias, Bauman aborda as construções identitárias e relações sociais em uma sociedade do ‘culto’ à performance (no trabalho, no sexo, no lazer) e ao consumo (do corpo perfeito, da moda, de tecnologias, de estilos de vida) (AURÉLIO, 2010, p. 60). Além destes elementos haveria, para Bauman, um recolocar, isto é, se a modernidade era marcada pela família, pelo governo, pela indústria, pautados por um eu estável, uma existência sólida, temos a passagem para uma modernidade por seu lado líquido, isto é, onde estas instituições sociais, como família, governo, indústria assumem um novo caráter, pautados pelo perfil provisório (um exemplo mais lúcido, basta pensar quantos empregos tivemos; na sociedade industrial/ modernidade a vida seria em grande medida datada, um único emprego, uma única família). E nesta via, a sociedade da informação seria um de seus lados, isto é, seria o lado que envolve a técnica na liquidez. FIGURA 11 – MODERNIDADE LÍQUIDA FONTE: Disponível em: <http://lojaorganicuspn.blogspot.com.br/2009/12/ modernidade-liquida.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 46 Retomando... Com isto, queremos que você, o(a) acadêmico(a), veja as transformações que culminam com a sociedade da informação, demonstrando o percurso até chegar à mesma, partindo das hipóteses, como colocamos, de que ela seria uma vertente da globalização, iniciada a partir do Renascimento e das grandes navegações. Ou dito de outro modo, temos várias passagens para chegar à sociedade da informação (a partir da modernidade que se globaliza, temos a passagem segundo alguns autores, da sociedade industrial para sociedade pós-industrial, para outros, da modernidade para hipermodernidade, outros dizem da modernidade para modernidade líquida ou, ainda, da modernidade para pós-modernidade). 3 FINALIZANDO O TÓPICO A questão de tomar a sociedade baseada na informação, toma diferentes nomes e diferentes abordagens teóricas, como você pode conferir, e que praticamente possuem a mesma tendência geral, qual seja, a de vivermos num mundo em processo contínuo, onde a matéria-prima toma a informação como cerne. Nesta medida, podemos ligar a sociedade da informação ao conceito de pós- modernidade (o que vale para outras: sociedade pós-industrial) e, para resumirmos o que apresentamos, dois pontos marcam-na fortemente: 1. Para começar, ele [pós-modernidade/sociedade da informação] invadiu o cotidiano a tecnologia eletrônica de massa e individual, visando à sua saturação com informações, diversões e serviços. Na era da informática, que é o tratamento computadorizado do conhecimento e da informação, lidamos mais com signos do que com coisas. O motor à explosão detonou a revolução moderna há um século; o chip, microprocessador com o tamanho de um confete, está causando o rebu pós-moderno [e da sociedade da informação], com a tecnologia programando cada vez mais o dia a dia. 2. Na economia, ele [pós-modernidade/sociedade da informação] passeia pela ávida sociedade de consumo, agora na fase do consumo personalizado, que tenta a sedução do indivíduo isolado até arrebanhá- lo para sua moral hedonista – os valores calcados no prazer de usar bens e serviços. A fábrica, suja, feia, foi o templo moderno [ou da sociedade anterior à sociedade da informação]; o shopping, feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno (SANTOS, 2000, p. 09-10) Outra possibilidade elucidativa dar-se-á através do seguinte esquema: Modernidade Capitalismo Sociedade Industrial Globalização Teorias de compreensão da Globalização (Pós-modernidade, Sociedade Pós- Industrial, Hipermodernidade, Modernidade Líquida, Sociedade da Informação). TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 47 Este esquema não atende a uma leitura linear de história, o mesmo é apenas ilustrativo. Para aprofundamento da temática, sugerimos a leitura do seguinte livro: FONTE: Disponível em: <http://mundodoeuvadio.blogspot.com.br/2012_04_01_archive. html>. Acesso em: 30 jul. 2012. LEITURA COMPLEMENTAR PÓS-MODERNIDADE E MODERNIDADE LÍQUIDA Zygmunt Bauman Um dos testes psicológicos característicos para avaliar o grau de conservadorismo e ajustabilidade da percepção humana consiste numa série de 20 desenhos apresentada em sucessão estrita. A primeira figura é clara e exibe indiscutivelmente a imagem de um gato “típico”. Os desenhos em sucessão gradual, e de modo furtivo (somos tentados a dizer “imperceptível”), se afastam passo a passo da configuração familiar de um felino, transformando-se, de maneira bem consistente, na imagem de outra criatura. O último dos 20 desenhos é, novamente de forma clara, inequívoca, uma representação fidedigna, só que desta vez de um “típico” cão. Pelo número de quadros que precisam ser exibidos aos observadores para que percebam que o que veem não é mais um gato, e sim um cão, os NOTA DICAS UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 48 psicólogos conseguem determinar o grau de “conservadorismo” (ou rigidez), em contraposição ao grau de “ajustabilidade” (ou flexibilidade), de sua percepção: o teste tenta captar o fenômeno do “atraso de percepção”, aflição geral a todos os seres humanos, e sua variação de intensidade entre diferentes indivíduos. Nossos olhos, como transparece nesse exemplo, são treinados por nossas experiências anteriores a reconhecer e “assimilar” novos e inovadores pontos de vista, e acomodá-los entre os familiares. Por isso mesmo, os olhos são induzidos a minimizar ou mesmo a não notar os tipos de fenômenos inovadores que “não se encaixam” na lição da experiência anterior e que, com isso, se recusam a ser incluídos à força nas categorias habituais. Primeiramente, a constataçãode que o volume dessas “anomalias” tornou-se tão grande que não podemos continuar negligenciando a importância de sua alteridade; e, em segundo, o reconhecimento de que o que nossos olhos veem não é o que eles veriam se tais fenômenos pertencessem de fato a categorias familiares e habituais, tende a apresentar um grande atraso em relação às mudanças num ambiente observado com atenção. Leva tempo até nossa visão alcançar o que vemos. Esse teste permite-nos, portanto, encontrar algo mais do que apenas a intensidade de nossa inércia e de nossa flexibilidade cognitivas. Ele põe a nu a “zona cinzenta” que se estende entre a descoberta de que há “algo errado” com as imagens correntes – de que elas já não são exatamente como “deveriam ser” – e o momento do “Eureca!”, quando conseguimos, em um lampejo de compreensão, reorganizar as sensações incompatíveis, recolocá-las numa ordem nova e razoável, abandonar suas interpretações anteriores e decidir quais fenômenos- objeto elas representam de fato. Essa diferença de tempo entre o aparecimento de novos fenômenos e o reconhecimento de sua diferenciação foi notada e descrita também por Thomas Kuhn, em seu justamente aclamado estudo sobre as “revoluções científicas” – um estudo que desencadeou ele próprio uma verdadeira revolução em nossa compreensão de como funciona nossa cognição e como progride nosso conhecimento. A ideia de Kuhn, de que, em vez de adicionar com suavidade novos bocados de informação aos antigos, o conhecimento científico coopera por meio de sucessivas revoluções, virou de cabeça para baixo nosso conhecimento pregresso sobre como se desenvolve nossa capacidade de conhecer, incluindo sua variedade mais definitiva, científica, e de como se produz sua autocorreção. Os estudiosos, como assinala Kuhn, buscam fenômenos que a descrição preestabelecida da realidade (chamada por ele de “paradigma”) em que foram treinados os orienta a notar e registrar como “relevantes”. Concentrando sua atenção sobre objetos e eventos “legitimados” dessa maneira pelo paradigma, eles deixam de reparar, ou dispensam e colocam de lado todos os fenômenos que “não se encaixam”, tratando-os como irrelevantes ou anomalias “bizarras”. TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 49 Os estudiosos tendem a atribuir tais fenômenos a alguns erros detectados em seus procedimentos de investigação, ou a alguns fatores desconhecidos externos à área em pesquisa – todos no terreno da confiança justificada pelo paradigma a que legisladores e intérpretes obedecem, um paradigma que não pode dar conta de presenças estranhas. Contudo, no decurso do tempo, o número e a gravidade dos dados omitidos e deixados de fora tornam-se grandes demais para ser ignorados. E eis que ocorre aos pesquisadores que, em vez de serem visitantes alienígenas, aleatórios e contingentes à área sob análise, como inicialmente se supunha, tais aparições são intrínsecas a essa área e até bastante sistemáticas; são de fato características permanentes e inseparáveis dela. Tem início, assim, de forma séria, a busca de um “sistema” por trás da aparente aleatoriedade. É ativado então, na terminologia de Kuhn, o esforço para compor um “novo paradigma” que seja capaz de acolher, pôr em ordem e em todos os sentidos tornar inteligíveis os fenômenos que o paradigma “antigo” foi incapaz de antecipar, reconhecer e explicar. Em geral, leva um tempo considerável até que essa substituição do quadro cognitivo, urgentemente tomada como necessidade e buscada com desespero – e, a partir de um guia para a correta investigação, transformada em seu maior obstáculo –, seja concebida e posta em operação. Acredito que meu próprio itinerário do paradigma “pós-moderno” para o da “modernidade líquida” seguiu a trajetória prevista por Kuhn. Em meus estudos acerca dos atributos característicos da vida moderna, notei que um bom número de aspectos da sociedade contemporânea desafiava acintosamente as expectativas sugeridas pela opinião em geral aceita sobre como é e o que constitui a vida em tempos modernos. O volume de “anormalidades”, de “exceções à regra”, tornava questionável a “norma” e a “regra” assumida de forma aberta ou tácita pelo discurso dominante que se referia a uma “modernidade”. Se a vida moderna era de fato como a teoria aceita da modernidade me ensinara, então o que eu descobri sobre a realidade atual não era mais a “modernidade”, e sim outra coisa. Mas o quê? A primeira aproximação de uma resposta a essa pergunta foi a ideia, bastante popular naquele momento, de “pós-modernidade”. O inconveniente, contudo, era que aquela noção tinha um caráter puramente “negativo”: ela nos dizia profusamente o que a realidade atual já não era, mas oferecia pouca informação sobre o que estava em seu lugar. Tentando entender o caráter da vida contemporânea, ela usava conceitos antigos e há muito mobilizados nas descrições da modernidade, apenas adicionando a cada uma delas um sinal negativo: “isso não está mais presente”, “isso é diferente de como era”, “algo mais desaparece depressa”. Em suma, o principal significado da ideia de pós-modernidade é que ela é algo diferente da modernidade. Ele indica, portanto, que a modernidade já não é a nossa forma de vida, que a Era Moderna está encerrada, que ingressamos hoje em outra forma de viver. Mas essa ideia ofereceu pouca orientação sobre a identidade desta “outra forma”, de suas regras próprias, de sua lógica própria UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 50 e de suas características definidoras. Em razão dessas três deficiências (o caráter “negativo”, a indicação de um fim da modernidade e a escassez de informações que apresenta a respeito dos atributos próprios dessa nova forma de vida), a ideia de “pós-modernidade” pareceu-me desde o início uma solução provisória para o dilema. Sem dúvida, não há solução satisfatória e muito menos definitiva para nossa questão. O que achei menos aceitável nessa ideia foi a presunção de que “a era da modernidade” terminou e que estamos, por assim dizer, já no “lado oposto”, ou pelo menos perto de entrar nele. Parecia inaceitável e errado, porque, até onde eu sabia, éramos modernos por completo; na verdade, mais modernos que nunca; ou seja: voltamos a lâmina afiada da “faca modernizadora” contra a própria modernidade, contra seus próprios produtos do passado. Éramos, de fato, tal como nossos predecessores imediatos, modernizadores compulsivos e obsessivos. A modernização compulsivo-obsessiva foi desde o princípio a mais profunda essência da modernidade, e nada sinalizava que estivéssemos na iminência de nos libertar dessa compulsão, dessa obsessão. Com uma importante ressalva, porém: se nossos antepassados quiseram derreter todos os sólidos existentes, não foi pelo desagrado em relação à solidez, mas pela insuficiente solidez daqueles sólidos tradicionais/incorporados/estabelecidos. Eles consideravam “derreter os sólidos” uma medida meramente transitória, a ser aplicada apenas até que esses sólidos fossem produzidos de modo a não exigir nem permitir qualquer fusão posterior. A modernidade era uma concepção de movimento e mudança que acabaria por fazer das movimentações e transformações algo redundante, obrigando- as a operar fora de suas próprias atividades – uma concepção de movimento e mudança, mas com uma linha de chegada. O horizonte que a modernidade mirava era a visão de uma sociedade estável, solidamente enraizada, da qual qualquer desvio mais acentuado apenas pode ser uma mudança para pior. Foram precisamente esse propósito e essa ambição que fizeram a real diferença entre tradições anteriores da modernidade e nossa forma própria e emergente de vida, que (de maneira relutante e cautelosa) chamei de “pós- modernidade”, por falta de nome melhor. O que a modernidade em sua versão antigaenxergava como o iminente ponto final de sua tarefa, como o início do tempo de descanso e de ininterrupto e purificado regozijo das realizações passadas, agora tratamos como uma fada Morgana, uma miragem: em nossa perspectiva, não havia no final do caminho qualquer linha de chegada, qualquer sociedade perfeita, totalmente boa, “sem melhoramentos a contemplar”. A mudança perpétua seria o único aspecto permanente (estável, “sólido”, se quisermos assim dizer) de nossa forma de viver. A pós-modernidade, como ela se apresentava naquele momento, era a modernidade despojada de suas ilusões. A partir dessa conclusão, só havia um pequeno passo a se dar para definir como “líquido-moderna” aquela forma emergente de vida, aquela forma TÓPICO 2 | MUITOS NOMES PARA A MESMA SITUAÇÃO 51 que era moderna de uma maneira radicalmente diferente daquilo que havíamos testemunhado (e de que havíamos participado) antes. Assim, trata-se de uma forma de vida digna de nota, sobretudo por sua reconciliação com a ideia de que, assim como todas as substâncias líquidas, também as instituições, os fundamentos, os padrões e as rotinas que produzimos são e continuarão a ser como estas, “até segunda ordem”; que elas não podem manter e não manterão suas formas por muito tempo. Em outras palavras, que entramos em um modo de viver enraizado no pressuposto de que a contingência, a incerteza e a imprevisibilidade estão aqui para cair. Se o “fundir a fim de solidificar” era o paradigma adequado para a compreensão da modernidade em seu estágio anterior, a “perpétua conversão em líquido”, ou o “estado permanente de liquidez”, é o paradigma estabelecido para alcançar e compreender os tempos mais recentes – esses tempos em que nossas vidas estão sendo escritas. FONTE: BAUMAN, Zygmunt. Legisladores e intérpretes: sobre modernidade, pós-modernidade e intelectuais. Tradução Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar. 2010. p. 8-13. 52 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico você viu: ● Primeiro: que muitos termos procuram dar conta conceitualmente da questão da leitura de nosso tempo, da leitura de nossa sociedade. Uma perspectiva geral para isto é pensar que, em grande medida, globalizamos o mundo levados pelas mutações do capitalismo. Esta é uma prática conceitual adotada, por exemplo, pelo sociólogo brasileiro Octavio Ianni (1926-2004), que em seu livro A sociedade global procura analisar estas mutações, desde o surgimento do capitalismo, no século XIV, passando pelas grandes navegações, pela formação dos estados- nação, pelas revoluções política e industrial, até chegar às multinacionais, à informática e a bolsa de valores. A estes movimentos Ianni denomina globalização (COSTA, 2005). E é nesses movimentos que se instala a sociedade da informação, isto é, dentro do movimento que vai do Renascimento, passando pela Revolução Industrial, passando pelas formações dos Estados, pelas grandes descobertas e colonizações, pelo imperialismo, até chegar à influência da informática na relação do homem com o meio (sendo a sociedade da informação este último). ● Segundo: que a sociedade da informação, por ser uma leitura da globalização, relaciona-se com outras interpretações deste fenômeno: pós-modernidade; hipermodernidade e modernidade líquida. ● Terceiro: que a leitura da globalização é dividida entre um antes e um pós. Antes: modernidade, sociedade industrial e pós: pós-modernidade, e sociedade pós- moderna e leituras mais comedidas ou que possuem outra interpretação deste antes e pós, como a leitura da hipermodernidade, da modernidade líquida e da sociedade da informação. ● Quarto: que a modernidade é marcada pela aposta na razão, no progresso, na indústria, na formação dos estados-nação etc. E que a partir do século XX surge a pós-modernidade como resposta às propostas dadas pela modernidade, isto é, como contestação das apostas da modernidade. ● Quinto: que a sociedade industrial reflete também as tensões que a modernidade marca, ou seja, aposta na indústria, no progresso, Estado etc. E que a partir da Segunda Guerra temos o início da sociedade pós-industrial, marcada pelo uso da tecnologia, da informática, da influência da mídia. ● Sexto: também leituras diferenciadas sobre o fenômeno da globalização, como a hipermodernidade que diz em linhas gerais o seguinte: veloz expansão do consumo e da comunicação em massa, abrandamento das normas autoritárias 53 e disciplinares, surto de individualização, sagração do hedonismo e do psicologismo, descrença em propostas (de futuro) revolucionárias, tecnologismo, descontentamento com as propostas políticas e de militâncias. Todos estes itens seriam o campo de ação da sociedade da informação. ● Sétimo: e por fim, o(a) acadêmico(a) pôde acompanhar sobre a leitura denominada modernidade líquida, que de maneira geral diz que a globalização tornou líquidas as estruturas modernas, isto é, novas maneiras de interação surgiram, com efeitos diversos, nas quais estaria inclusa a sociedade da informação, com sua visão técnica. 54 Realize uma síntese da leitura complementar. AUTOATIVIDADE 55 TÓPICO 3 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO 2 DESENVOLVENDO A QUESTÃO Neste Tópico 3, caro(a) acadêmico(a), você tomará nota do eixo fundamental da unidade, ou seja, tomará contato com os aspectos fundamentais da sociedade da informação. De maneira bem simples e direta, os temas serão introduzidos e proporcionarão a você conhecimento mais profundo. Chegamos ao cerne de nossa pesquisa. Desta maneira, vale relembrar a tese da qual partimos: a sociedade da informação está inserida no jogo das tensões entre modernidade e pós-modernidade (ou, da sociedade pós-industrial, hipermoderna ou da modernidade líquida), bem como aos efeitos da globalização. Para desenvolver esta seção, alguns itens devem ser rememorados. O primeiro foi da tese de que partimos, desvendando historicamente o conceito de sociedade da informação. Além disso, sociedade se define como espaço de interação humana, e que contemporaneamente ela possui diversos aspectos constitutivos, sendo que a informação é um deles. Em terceiro lugar, lembremos que a informação também é um conceito vasto e marca uma virada, contribuindo com a dinâmica social e a moldando. Trata-se de um conceito e um fenômeno de inegável importância histórica. É impossível ignorá-lo se quisermos entender o mundo em que vivemos, e nele nos inserirmos. Caro(a) acadêmico(a), para facilitar o exercício, vamos trabalhar esta seção com o recurso pergunta-reposta, sobre temas relacionados sobre a sociedade da informação. Se nosso primeiro movimento foi teórico, foi de buscar o conceito, queremos nesta parte dirigir nossa compreensão pela infiltração prática da sociedade da informação. Ou como os gregos (base da ocidentalidade) faziam, através do diálogo, da pergunta e da resposta, meio pelo qual iam constituindo o conhecimento, compreender esta sociedade da informação. Basta lembrar o famoso filósofo Sócrates (469 a. C.–399 a. C.), nos seus diálogos com seus concidadãos, através dos quais, perguntando e questionando, o filósofo ia construindo o saber. E com isto o conhecimento se torna mais sistematizado e compacto. Vejamos o exercício socrático: A informação caracteriza o ser humano? Segundo Polizelli e Ozaki (2008, p. 8), a informação define o humano, “[...], pois, [...] por meio da consciência de si 56 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS próprio e de sua existência, o que lhe confere propósito e, como consequência, a habilidade de manipular e gerir informação a ser usada no processo de sobrevivência, preservação e evolução”. E hoje, mais do que nunca, a informação se tornou um bem de grande valia, abaixo apenas da vida, pois marca de muitas maneiras o cotidiano humano (com a tecnologia,com o acesso a espaços simultâneos etc.). O que diferencia a sociedade da informação das demais? Como observamos na primeira pergunta, a informação é salutar para o humano, mas em nosso período ela toma um novo foco de poder. Alguns pontos fundamentais nos diferem: volume de informações, infinidade de processos, facilidade de encontrá-los dentre vários. É nesse sentido que conseguimos diferenciar nossa atual ‘sociedade da informação’ das anteriores [moderna, industrial, e a vemos inserida, na hipermodernidade e na modernidade líquida], marcada não apenas pelo [1] volume virtualmente infinito de informação a que temos acesso, mas, sobretudo, pela [2] democratização das mídias, [3] o que permite sua geração e ampla difusão de forma descentralizada, revolucionando a história da informação e, por conseguinte, de toda a humanidade (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 8). A quem se atribui a criação do termo? As origens do termo sociedade da informação têm sua criação atribuída a Fritz Machlup (1902-1983), que formulou o conceito em 1962. Enquanto jargão, onde lemos/ouvimos/vemos o termo sociedade da informação? “O termo sai das academias (universidades) e países industrializados, tanto sociedade quanto informação, transformam-se em termos correntes (jargão) nos mass media, alcançando o vocabulário dos cidadãos” (WERTHEIN, 2000, p. 71). Fazendo um pouco de história: quando surge/nasce o termo? A partir de que década? “Ele nasce no Japão, no início da década de 1960, para descrever os impactos do desenvolvimento tecnológico e econômico no seio social, referentes às mudanças sofridas no país depois da 2ª Guerra Mundial” (RAMOS, 2010, p. 25). A partir da década de 1970 o termo sociedade da informação se espalha pelo globo, tornando-se palavra-chave nas ações políticas e econômicas do mundo globalizado. Segundo Santos, (apud RAMOS, 2010, p. 25): [...] a denominação fortaleceu-se no contexto de debates acadêmicos, envolvendo cientistas sociais e economistas e foram motivados pela percepção de que a emergência, desenvolvimento e difusão de novas tecnologias de informação e comunicação estariam na base da estruturação de um novo quadro de relações sociais e econômicas, configurando um novo tipo de sociedade. Na década de 1980, podemos ligar a questão da sociedade da informação à reestruturação e expansão do capitalismo, marcando uma nova mutação na gestão do capital, pautada pela financeirização do mesmo, de processos globais de capital (WERTHEIN, 2000, p. 71-2). TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 57 ● A sociedade da informação é um processo pronto? Vale ressaltar que a sociedade da informação não é um produto pronto, espontâneo. Como vimos na questão anterior, o processo da sociedade da informação é discutida desde os anos 1960 e é articulada desde a década de 1990, por diversos meios e iniciativas, tais como: ● OCDE – Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico: realizando workshops sobre a sociedade da informação. ● E-Europe: que discute a questão para a União Europeia. ● E-Korea: que debate a questão do ponto de vista da Coreia do Sul. ● Livros brancos – informação e comunicação: na perspectiva japonesa. ● Livro verde: no Brasil. O que implica dizer que a sociedade da informação não é pensada apenas em níveis rasteiros, havendo todo um debate, através do qual se procura esmiuçar seus impactos. Em função disso, a sociedade da informação não pode ser pensada apenas no plano quantitativo (aumento do número de computadores), mas no plano qualitativo, como a inter-relação de universidades, agências governamentais e empresas privadas para obter campos de sinergia de resultados sociais e econômicos na sociedade como um todo (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 13). FIGURA 12 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO FONTE: Sociedade da informação e comunicação organizacional. Disponível em: <http://www.jeniffersantos.com.br/comunicacao-organizacional-e- sociedade-da-informacao.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. ● Que processos a sociedade da informação quer marcar/diagnosticar? “Os processos que a sociedade da informação identifica ou que se identificam com ela estão na troca de paradigma ou modelo de organização na qual o controle e o melhoramento dos processos industriais foram obliterados pelo processamento e manipulação da informação como chave da roda econômica” (RAMOS, 2010, p. 25). 58 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS Nesta medida, a realidade que a sociedade da informação procura traduzir (marcar/diagnosticar) está ligada às: [...] transformações técnicas, organizacionais e administrativas que têm como ‘fator chave’ não mais os insumos baratos de energia – como a sociedade industrial –, mas os insumos baratos de informação propiciados pelos avanços tecnológicos na microeletrônica e telecomunicações (WERTHEIN, 2000, p. 71). Este processo também é marcado fortemente pela influência da internet: Devemos ao desenvolvimento das chamadas Tecnologias da Comunicação e Informação (TCIs) o principal motor dessas profundas e emblemáticas transformações ocorridas nas últimas décadas, sendo a internet a mídia de convergência que, de fato, possibilita essa revolução sem precedentes (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 8). Em níveis de proposta, como cada parte do globo fundamenta a questão da sociedade da informação? As propostas ficam assim, segundo (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 14): ● União Europeia: possui uma proposta mais institucional. ● Estados Unidos: privilegia as empresas privadas. ● Asiáticas: reforçam o papel do Estado. ● Brasileira: reforça também o papel do Estado, bem como a iniciativa privada. FIGURA 13 – ESTADO FONTE: História Viva. Disponível em: <http://historianovest.blogspot.com. br/2009/10/sobre-as-origens-e-o-desenvolvimento-do.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. Em níveis mais técnicos, o que se desenvolve? No movimento geral da globalização, o desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação, por exemplo, através de fibras óticas, ligadas à utilização de recursos da informática, produziu uma estrutura global de comunicação. Um dos resultados obtidos na sociedade da informação subjaz na interação dos digitalizados meios de comunicação com a transformação de todos os conteúdos em bits, bem como, com TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 59 a conexão entre computadores, o que possibilitou a existência de grandes redes de informação. O que as novas técnicas/tecnologias advindas da sociedade da informação trazem? As novas tecnologias provenientes da sociedade da informação (ou que passam entre ela) têm permitido três variáveis marcantes para esta fase da sociedade: Com relação ao trabalho: 1) Ênfase na flexibilidade. 2) Ênfase na rapidez. 3) Ênfase na eficiência. Trata-se de uma ruptura (na sociedade da informação) nos níveis de relação entre capital e trabalho marcantes no capitalismo industrial (WERTHEIN, 2000, p. 72). Vejamos na imagem a seguir, exemplo em empresa: FIGURA 14 – EMPRESA EMPRESA DA SOCIEDADE INDUSTRIAL EMPRESA DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Enfoque analítico/atomístico. Enfoque macro/holístico. Individualismo/predomínio/ distanciamento entre as pessoas. Igualdade de direitos/compartilhamento/ participação. Autoridade centralizadora/paternalista/ autocrática. Autoridade adulta/facilitadora/ democrática. Continuidade num único nicho profissional. Especialização excessiva. Opções múltiplas. Liberdade de escolha. Visão generalizada. Economia de escala/tendência ao gigantismo e à centralização. Descentralização. Reguardando-se a integração. Valorização da quantidade. Valorização da qualidade associada à quantidade. Empresário avesso ao risco. Busca de protecionismo. Empresário empreendedor. Criativo e competitivo. A grande alavanca é o dinheiro. Agrande alavanca é a informação/o conhecimento/a educação. O sucesso é garantido pelo poder de investigação em máquinas e instalações. A mente humana é o grande software. O computador é p grande hardware. FONTE: A compreensão da sociedade da informação. Disponível em: <http://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-19652000000300003>. Acesso em: 30 jul. 2012. 60 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS Mas diante disto tudo que foi apresentado nas perguntas, o(a) acadêmico(a) poderia se perguntar: quais são as características fundamentais da Sociedade da Informação? Segundo Werthein (2000, p. 72), “alguns elementos são fundamentais na Sociedade da Informação, produzindo o que poderíamos chamar de novidade, em níveis de relações sociais”. Vejamos quais são estes elementos, que Werthein (2000, p. 72) enumera: A informação é sua matéria-prima: as tecnologias se desenvolvem para permitir ao homem atuar sobre a informação propriamente dita, ao contrário do passado [modernidade/sociedade industrial], quando o objetivo dominante era utilizar informação para agir sobre as tecnologias criando implementos ou adaptando-os a novos usos. Os efeitos das novas tecnologias têm alta penetrabilidade: porque a informação é parte integrante de toda atividade humana, individual ou coletiva e, portanto, todas essas atividades tendem a ser afetadas diretamente pela nova tecnologia. Predomínio da lógica de redes: esta lógica, característica de todo tipo de relação complexa, pode ser, graças às novas tecnologias, materialmente implementada em qualquer tipo de processo. Flexibilidade: a tecnologia favorece processos reversíveis, permite modificação por reorganização de componentes e tem alta capacidade de reconfiguração. Crescente convergência de tecnologias: principalmente a microeletrônica, telecomunicações, optoeletrônica, computadores, mas também crescentemente, a biologia. O ponto central aqui é que trajetórias de desenvolvimento tecnológico em diversas áreas do saber tornam-se interligadas e transformam-se as categorias segundo as quais pensamos todos os processos. Qual é a ligação com a democracia? De acordo com Valle (2010, p. 127), “a sociedade da informação se manifesta de melhor maneira vinculada com regimes democráticos, pois estes possibilitam a manifestação”. “[...] clara dos representados e a transparência das atividades dos representantes no exercício de suas atividades, além do controle, pela sociedade, das atividades delegadas, com o uso das redes eletrônicas de computadores [...]” (VALLE, 2010, p. 127). A partir disto, vale perguntar: qual é a ação/papel do Estado? “O tecnológico em grande parte é influenciado pelo Estado, para que se aumente sua dinâmica e sua razão de influência. Em muitos casos é o próprio Estado o responsável pela implantação de iniciativas que permitem o desenvolvimento da sociedade da informação. Aliam-se a isto as iniciativas público-privadas que visam tal desenvolvimento” (WERTHEIN, 2000, p. 73). UNI TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 61 O que seria uma experiência concreta desta relação do Estado com a sociedade da informação? O Estado seria um líder ou mediatizador dos processos, permitindo que novas forças sociais fossem abrigadas na sociedade da informação. [...] um olhar sobre a experiência concreta das sociedades de informação permite revelar como a reestruturação do capitalismo e a difusão das novas tecnologias da informação lideradas e/ou mediatizadas pelo Estado estão interagindo com as forças sociais locais e gerando um processo de transformação social. Em termos gerais, é consenso entre analistas que a realização do novo paradigma se dá em ritmo e atinge níveis díspares nas várias sociedades. (WERTHEIN, 2000, p. 73). Mas a sociedade da informação não estaria interligada a fatores políticos e sociais? Numa leitura superficial sobre a tecnologia, pode-se ter a visão ingênua e determinista de que esta é a promotora isolada dos efeitos da sociedade da informação, que a tecnologia possui uma lógica própria, sem a interferência de fatores sociais e políticos. Isto é equivocado, porque os processos de transformação oriundos da tecnologia dependem de uma complexa interação, dos quais podemos marcar quatro (WERTHEIN, 2000, p. 72): Fatores sociais preexistentes. A criatividade. O espírito empreendedor. As condições da pesquisa científica que afetam no avanço tecnológico. Todas estas marcas mostram que a sociedade da informação não é um fato isolado, determinado na intimidade do fazer técnico, mas envolvido com outros pressupostos. Perceber isto é evitar desastres de toda ordem, como os dos campos de concentração na Segunda Guerra Mundial. Esta perspectiva é melhor articulada por um exemplo do sociólogo espanhol Manuel Castells (2001, p. 25), para mostrar os laços entre o político: É provável que o fato da constituição desse paradigma ter ocorrido nos EUA e, em certa medida, na Califórnia e nos anos 70, tenha tido grandes consequências para as formas e a evolução das novas tecnologias da informação. Por exemplo, apesar do papel decisivo do financiamento militar e dos mercados nos primeiros estágios da indústria eletrônica, da década de 40 à de 60, o grande progresso tecnológico que se deu no início dos anos 70 pode, de certa forma, ser relacionado à cultura da liberdade, inovação individual e iniciativa empreendedora oriunda da cultura dos campi norte-americanos da década de 60 [...]. Meio inconscientemente, a revolução da tecnologia da informação difundiu pela cultura mais significativa de nossas sociedades o espírito libertário dos movimentos dos anos 60. 62 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS FONTE: Roda Viva. Disponível em: <http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/141/ entrevistados /manuel_castells_1999.htm>. Acesso em: 30 jul. 2012. Para que você, acadêmico(a), possa aprofundar seus estudos, indicamos o seguinte link, que contém entrevista do sociólogo espanhol Manuel Castells para o programa Roda Viva da TV Cultura, em 05/07/1999, explicando com maior profundidade a questão da sociedade da informação:<http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/141/entrevistados/manuel_ castells_1999.htm>. 3 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO OU SOCIEDADES DA INFORMAÇÃO Como marcamos, a sociedade é um processo ambíguo, pautado pelas relações sociais que se cruzam sem fim, o que implicaria dizer que a sociedade da informação assume um caráter múltiplo, não sendo igual em um país desenvolvido e em outro subdesenvolvido. O que isto significa? Que a sociedade da informação tem uma história e se envolve com histórias do corpo social. Vejamos mais aspectos pelo jogo pergunta-resposta. Haveria ainda na sociedade da informação, além do determinismo, espaço para o preconceito do evolucionismo? Além do mencionado determinismo na pergunta: Mas, a sociedade da informação não estaria interligada a fatores políticos e sociais? “Outro preconceito muito forte está ligado ao evolucionismo (ou melhor, evolucionismo social), de que a sociedade da informação seria uma das etapas que a humanidade teria que passar ou chegar” (WERTHEIN, 2000, p. 72). Em outras palavras, o evolucionismo social, ideia retirada da teoria biológica de Darwin e transposta para as sociedades humanas, sugere etapas de evolução das sociedades. Nesse sentido, a sociedade da informação pode ser entendida como a mais atual delas. Para o sociólogo Giddens, como vimos, não haveria apenas uma sociedade, mas várias sociedades, e a sociedade da informação seria uma delas e dentro dela também haveria várias sociedades da informação. Ainda segundo Guerra (apud WERTHEIN, 2000, p. 72), para a devida compreensão disso, DICAS TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 63 [...] melhor seria referir-se a sociedadesda informação, no plural [negrito nosso], para identificar, numa dimensão local, aquelas nas quais as novas tecnologias e outros processos sociais provocaram mudanças paradigmáticas. [...]. [Ao invés de usar sociedade da informação:] Por sua vez, a utilização do termo sociedade da informação no singular tomaria uma nova coloração conceitual: A expressão ‘sociedade da informação’, no singular, seria melhor utilizada, numa dimensão global (ou mundial), para identificar os setores sociais, independente de sua ubicação local, que participam ‘como atores de processos produtivos, de comunicação, políticos e culturais que têm como instrumento fundamental as TIC (tecnologias de informação e comunicação) e se produzem – ou tendem a produzir- se – em âmbito mundial’ (GUERRA apud WERTHEIN, 2000, p. 72). O que estes dois preconceitos (determinismo e evolucionismo) distorcem e alimentam? Eles disfarçam as dinâmicas sociais, que nas suas contradições contribuem para o desenvolvimento tecnológico e, por consequência, para toda sociedade da informação. Estes preconceitos tomam o lócus social como amorfo, passivo, sem história, e que em nada refletem sobre os efeitos da sociedade da informação. O que deve ficar claro é que não será um de fora que irá levar a cidade ao oásis da sociedade da informação, mas que a própria sociedade toma a informação como atividade de vanguarda (WERTHEIN, 2000, p. 72-3). Desta maneira, tanto a sociedade como o corpo civil, quanto o Estado, compõem relações constantes para o melhoramento da sociedade da informação. Desta maneira, se há contradições com relação aos países, há distinção na sociedade da informação? Como é de praxe nos novos paradigmas, há as tentativas de diminuir as exclusões (como a divisão entre países ricos e pobres). Mas, mesmo com este esforço “[...] as desigualdades de renda e desenvolvimento industrial entre os povos e grupos da sociedade reproduzem-se no novo paradigma” (WERTHEIN, 2000, p. 73). Há, então, uma distinção de países, de onde ela provém? Esta distinção é visualizada de uma melhor maneira pela dicotomia: mundo industrializado x mundo pós-industrializado. É nela que a sociedade da informação vai se instalar (e as leituras da globalização também). Enquanto, no mundo industrializado, a informatização de processos sociais ainda tem de incorporar alguns segmentos sociais e minorias excluídas, na grande maioria dos países em desenvolvimento, entre eles os latino-americanos, vastos setores da população, compreendendo os médios e pequenos produtores e comerciantes, docentes e estudantes da área rural e setores populares urbanos, adultos, jovens e crianças das classes populares no campo e na cidade, além daquelas populações marginalizadas, como desempregados crônicos e os ‘sem-teto’, engrossam a fatia dos que estão ainda longe de integrar-se no novo paradigma (WERTHEIN, 2000, p. 73). 64 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS Há um desafio social relacionado com a sociedade da informação? A questão das desigualdades e distinções é um dos grandes desafios da sociedade da informação. Mas este desafio exige a cooperação social para que as benesses da sociedade da informação atendam a todos de fato. De nada adianta o avanço técnico-científico sem a ligação com o social. De nada adianta acelerar processos, se há marginalizados (WERTHEIN, 2000, p. 73). Dentro da sociedade da informação há propostas utópicas? O discurso utópico perpassa as multiplicidades de formações que o homem constituiu na ocidentalidade, desde A República de Platão (427 a. C.–348 a. C.), passando pela Utopia, de Thomas More (1478-1535) e pela Cidade do Sol de Tommaso Campanella (1568-1639), bem como pela Nova Atlântida de Francis Bacon. Temos a proposta por uma nova formação, por novos ditames sociais. E isto não foi e não é diferente com a sociedade da informação, já que nela também observamos o otimismo e a fascinação: A convergência tecnológica reforça os efeitos da sinergia decorrente da penetrabilidade das tecnologias na sociedade da informação. Daí é fácil compreender a fascinação (e o temor) com uma utópica sociedade informatizada em que não apenas o desenvolvimento tecnológico parece não ter limites nem desacelerar e, dessa forma, alterar continuamente todos os processos que afetam a vida individual coletiva. Se a corrida espacial frustrou a imaginação popular de viagens interplanetárias ao alcance de todos no século XXI, os avanços da telemática e da microeletrônica prometem colocar ao alcance da mão facilidades nunca antes imaginadas em termos de bem-estar individual, lazer e acesso rápido, ilimitado e eficiente ao rico acervo do conhecimento humano (WERTHEIN, 2000, p. 74). FIGURA 15 – UTOPIA FONTE: Obvious. Disponível em: <http://obviousmag.org/archives/2010/03/ dragonfly_-_a_utopia_da_agricultura_urbana.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. Há exemplos destas utopias, na sociedade da informação? Como exemplo, podemos citar duas utopias, uma denominada computopia e outra ligada à educação. TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 65 1) Computopia: a ideia de que os computadores poderiam organizar tudo o que neles fosse inserido. Um exemplo desta situação é o do plano japonês para a sociedade da informação, ainda na década de 1970: Nessa utopia, a tecnologia dos computadores terá como função fundamental substituir e amplificar o trabalho mental dos homens; permitirá a produção em massa de conteúdo cognitivo, informação sistematizada, tecnologia e conhecimento (WERTHEIN, 2000, p. 74). 2) Na educação: a ideia de que seria possível ter aprendizes autônomos, alunos que constituiriam o conhecimento a seu bel-prazer. É o que observamos em Tiffin; Rajansingham (apud WERTHEIN, 2000, p. 74): [...] a sala de aula como um ‘sistema de comunicação que torna possível a um grupo de pessoas encontrar-se para falar sobre algo que desejam aprender, ver figuras e diagramas e ler textos que as ajudem a compreender. Numa sala de aula convencional isto é tornado possível pelas paredes que dão proteção contra o barulho e interferência externos, de forma que aqueles que estão dentro da sala podem ouvir e ver uns aos outros e também, no quadro-negro, as palavras, diagramas e figuras sobre o assunto que está sendo aprendido. A questão é: pode a tecnologia da informação fornecer um sistema de comunicação alternativo que seja pelo menos tão eficiente quanto a sala de aula convencional?’ (TIFFIN; RAJANSINGHAM, 1995, p. 6). Ou seja, trazer o Everest para a sala de aula, ou a Amazônia, por exemplo, através da realidade virtual (RV). Seriam utilizados os recursos tecnológicos para ampliar a capacidade informacional dos sujeitos humanos. Teríamos aprendizes autônomos [...]. Sem recorrer às utopias, como fica a questão ambiental na sociedade da informação? Diante das catástrofes ambientais advindas do modelo de produção da sociedade industrial, a sociedade da informação se mostra como proposta mais plausível para o meio ambiente, pois envolve menos recursos. Assim, É desejável promover a sociedade da informação porque o novo paradigma oferece a perspectiva de avanços significativos para a vida individual e coletiva, elevando o patamar dos conhecimentos gerados e utilizados na sociedade, oferecendo o estímulo para constante aprendizagem e mudança, facilitando a salvaguarda da diversidade e deslocando o eixo da atividade econômica em direção mais condizente com o respeito ao meio ambiente (WERTHEIN, 2000, p. 74). Além das questões sociais, quais são outros desafios da sociedade da informação? Obviamente que toda a constituição ocidental perpassa por desafios técnicos, econômicos, culturais, sociais, legais (direito), psicológicos e filosóficos. Todavia, alguns são desafios de ordem prática. Segundo Werthein (2000, p. 74), são desafiosligados a possíveis perdas: 1) Perda de qualificação. 2) Automação. 3) Desemprego. 4) Perda de comunicação interpessoal e grupal, transformada pelas novas tecnologias. 66 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS 5) Invasão de privacidade. 6) Efeitos oriundos da violência/poluição visual. 7) Poluição acústica. 8) Controle da vida pessoal e do mundo circundante. 9) Perda da identidade conforme a complexidade tecnológica impõe sua anatomia. De fato, na sociedade da informação há perda de relações interpessoais? Este é um dos pontos mais críticos a ser pensado. Novamente Werthein (2000, p. 75) nos fornece uma resposta: [...] lutar contra os aspectos perniciosos da tecnologia virtual, acusada de disseminar na sociedade a utilização de um simulacro de relacionamento como substituto de interações face a face e contra a alegada usurpação pelo capital do direito de definir a espécie de automação que desqualifica trabalhadores, amplia o controle gerencial sobre o trabalho, intensifica as atividades e corrói a solidariedade (WERTHEIN, 2000, p. 75). O que pode ser feito para evitar a perda de privacidade? Muito se tem pensado acerca deste tema, o que é muito dificultoso, pois ainda vivemos, porque estamos extasiados com os processos tecnológicos, principalmente os advindos da grande rede. Todavia, [...] a sociedade tem-se mobilizado para promover [...] o ‘comportamento normal responsável’ inclusive por meio de legislação adequada para proteger os direitos do cidadão na era digital. A perda do sentimento de controle sobre a vida e a perda da identidade são temas que continuam preocupantes e que estão ainda por merecer estratégias eficientes de intervenção (WERTHEIN, 2000, p. 76). Qual é a relação entre nível de renda e as novas tecnologias? Sem o aumento da renda e da distribuição da riqueza, muitos perdem acesso a informações preciosas, o que lhes impede de participar do processo de conhecimento. Portanto, O ritmo do avanço tecnológico no alvorecer do novo paradigma tem sido, sob qualquer ótica, extraordinário. O ritmo de expansão da internet no mundo levou apenas um terço do tempo que precisou o rádio para atingir uma audiência de 50 milhões de pessoas. [...]. A redução dos preços dos computadores por volume de capacidade de processamento facilitou grandemente essa difusão, mas não permitiu ainda superar a relação entre nível de renda e acesso às novas tecnologias (WERTHEIN, 2000, p. 76). Algumas condições que inibem o processo: · Baixa renda per capita. · Analfabetismo. · Falta de acesso. Já que todos têm acesso aos conteúdos (ou possivelmente vão ter), como fica a questão da propriedade intelectual? Esta questão é delicada. Basta ter em mente, este ano (2012), a ocorrência polêmica de duas leis no Congresso americano que tinham TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 67 por meta inibir a vinculação de conteúdo sem o respeito à propriedade intelectual (as famosas PIPA e SOPA). Na sociedade da informação, este é um dos maiores desafios. O reconhecimento de direitos autorais, nesta medida, uma prática de muitos estados está na compra de direitos autorais, transformando em espaços de domínio público. Qual é a contribuição, na sociedade da informação, para a educação? Nunca se falou tanto em apanágios técnicos que permitiriam melhores formas de gestão educacional. Entretanto, isto se mostra árido ainda, dado que nem educadores são preparados para uma tecnoeducação, nem o Estado possui um plano comum de ações. Poderíamos dizer que, na educação, a sociedade da informação trabalha sempre no nível do risco e do desafio. Esta questão é melhor exposta por Werthein (2000, p. 77): No campo educacional dos países em desenvolvimento, decisões sobre investimentos para a incorporação da informática e da telemática implicam também riscos e desafios. Será essencial identificar o papel que essas novas tecnologias podem desempenhar no processo de desenvolvimento educacional e, isso posto, resolver como utilizá-las de forma a facilitar uma efetiva aceleração do processo em direção à educação para todos, ao longo da vida, com qualidade e garantia de diversidade. As novas tecnologias de informação e comunicação tornam- se, hoje, parte de um vasto instrumento historicamente mobilizado para a educação e aprendizagem. Cabe a cada sociedade decidir que composição do conjunto de tecnologias educacionais mobilizar para atingir suas metas de desenvolvimento. FIGURA 16 – EDUCAÇÃO FONTE: Ciência, tecnologia e educação. Disponível em: <http://envolverde. com.br/educacao/ciencia-tecnologia/ciencia-tecnologia-e-educacao/>. Acesso em: 30 jul. 2012. LEITURA COMPLEMENTAR A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO De onde viemos já sabemos - mas para onde vamos mesmo? Não há como esgotar um assunto tão vasto e tão cheio de minúcias como o que está sendo abordado aqui. É muito interessante notar que, embora as histórias do computador e da internet sejam muito recentes e estejam bem documentadas, 68 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS ainda assim existem conflitos de interpretação de fatos. Será que exageramos a importância de alguns dos envolvidos e nos esquecemos de mencionar pessoas ou empresas que foram tão importantes quanto? Ou até mais? É possível. O poeta Fernando Pessoa escreveu, naquele estilo mais português, impossível dele: “O universo não é ideia minha. A minha ideia do universo é que é ideia minha”. Da mesma forma, este relato é apenas a ideia que os autores fazem do vasto universo dos computadores e da internet. Nunca é demais relembrar outra frase, também atribuída a Pessoa: “Metade de mim delira, metade de mim pondera”. Ao rever qualquer história, ou quaisquer histórias, somos sempre, como Pessoa, caixas ambulantes de ponderação e delírio. Cabe a quem lê recriar a sua versão da história e, novamente, do seu jeito, ser Pessoa. Por isso, quando se entra no lado mais metafísico do assunto, aquele em que cada um tem a sua própria ideia e faz seu próprio julgamento, as certezas pessoais aumentam. As perguntas abaixo são muito ouvidas hoje, e as respostas espelham o ponto de vista e a experiência dos autores desta obra. Não são verdades universais, mas apenas tópicos para jogar mais lenha na fogueira virtual... [...]. Portanto, a internet se espalhou em menos tempo, mas ao atingir a marca dos 50 milhões de usuários, estava bem menos presente nos lares do que qualquer um dos outros sistemas. É claro que hoje ainda há no mundo muito mais telefones e bem mais aparelhos de rádio e tevê do que internautas surfando. E isso não vai mudar num futuro próximo, até porque telefones, rádios e tevês são (e serão), por algum tempo ainda, muito mais baratos que um computador. Leve em conta também a possibilidade da convergência, ou seja, de, num futuro breve, utilizarmos um aparelho só, que será ao mesmo tempo telefone, TV e micro. No começo do século 21, contam-se no mundo 7 bilhões de humanos e cerca de 600 milhões de internautas. Cerca de 50% da população mundial ainda não tem telefones, que já estão por aí há muito tempo. Jamais, em qualquer circunstância, uma tecnologia, mesmo o arado ou a foice, foi disponível para todos os humanos. Imaginar um mundo linear, inteiramente plano e pleno em suas necessidades, é uma das mais insistentes utopias humanas. Jamais veremos toda uma humanidade conectada, letrada, com os mesmos padrões de comportamento e de conhecimento. Nem a palavra escrita, que já tem cinco mil anos, nem o livro, seu mais perfeito hardware, foram capazes desta proeza. Independente de fatores como a distribuição de renda e os níveis de escolaridade, os internautas continuarão a ser parte do mundo, como os letrados. É nessas horas que o termo vanguarda e o conceito de inovação distinguem uns de outros, e uma parte do todo sedestaca, mesmo não sendo maioria ou regra dominante. [...] Haverá trabalho no futuro ou seremos todos consultores? Uma vida de 60 anos equivale a 525 mil horas vividas. Alguém que trabalhe oito horas diárias durante 30 anos terá trabalhado 80 mil horas durante toda a sua TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 69 carreira profissional. Ou seja, apenas 15% das horas vividas, embora a maioria possa (e vá) afirmar que o trabalho consumiu 67% de sua existência. O sono, as necessidades básicas e os cuidados com o organismo consomem outras 219 mil horas, 40% do total vivido. Restam, portanto, 226 mil horas para que cada um decida o que fazer com elas. Quase a metade da vida. Admitindo que o mundo de hoje não é o melhor dos mundos, ele é, ainda assim, o melhor dos mundos que existiram até hoje. Nenhum saudosismo pode levar alguém a querer voltar a épocas onde havia escravidão, feudalismo, pestes, guerras, trevas culturais e, principalmente, uma expectativa de vida de 30 anos, em média. Há exatos 100 anos um trabalhador francês dava um expediente de 14 horas diárias. A partir de 2001, está trabalhando apenas a metade, sete horas. Nessa progressão (sim, é uma clara progressão, e nada indica que ela vá parar onde estamos hoje), chegaremos em breve a jornadas diárias de cinco horas. Ou quatro. E não mais a cinco dias de expediente por semana, mas quatro, ou três. Quando isso ocorrer, um mundo completamente diferente substituirá o atual, e pouca gente consegue imaginar como ele será, até por falta de experiência anterior. É que, pela primeira vez, desde que o macaco desceu da árvore, há centenas de milhares de anos, o trabalho deixará de ser o centro de nossas vidas. Você já deve ter ouvido alguém dizer: eu trabalho 14 horas por dia, sete dias por semana. Acredite: isso não é bem dedicação extrema, é muito mais marketing pessoal. Ou então você entrou no túnel do tempo e deu de cara com um francês em 1901. Os hipertrabalhadores, se existem mesmo, são exceções. Porque ainda estão plugados na noção de que tempo físico é igual a produtividade. Eles terão mais dificuldade para se adaptar à sociedade da alta tecnologia, que libertará a raça humana da escravidão fabril e a deixará disponível para a educação permanente. Ou para mais lazer. Ou para não fazer nada. Essa nova comunidade, a chamada sociedade da informação, está sendo criada agora. Ela se caracteriza por coisas como a abstração, a virtualidade, a conectividade e a qualidade do trabalho. E, como regra básica para que ela exista, as noções de tempo e de espaço que nortearam a humanidade nos últimos milênios terão que ser desmontadas e reestruturadas em uma nova ordem. É claro que ainda não sabemos se melhorar a qualidade do trabalho vai significar mais ou menos trabalho, não do ponto de vista do tempo, mas da intensidade intelectual. Também não está claro se mais horas livres irão significar mais ócio ou mais negócio. Sabe-se apenas que o Homo faber vai se transformar em uma nova espécie, que pode ser o Homo ludens ou o Homo conectadus. Mas isso ainda não é bem conosco. Ainda. Nós talvez nem venhamos a ser os inquilinos desse novo mundo. Somos, por enquanto, os pedreiros que o estão construindo... Vou ter de estudar pelo resto da vida? 70 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS Na era industrial, as organizações igreja, estado, exército, empresa funcionavam segundo suas próprias lógicas, que eram estanques e isolacionistas (ou, em outras palavras, cada uma achava que não tinha que dar satisfação de seus atos às demais). Então, quem ia para um seminário estudava apenas o suficiente para o desempenho da carreira clerical, sem se preocupar em entender a estrutura funcional do exército. Quem ia para uma empresa não estava preocupado em aprender as idiossincrasias do estado e vice-versa. O estudo era, portanto, direcionado a uma única atividade. Na era pós-industrial, assistimos ao fenômeno oposto: à mescla das diversas lógicas organizacionais. Já era então preciso estudar um pouco mais para entender o suficiente sobre o funcionamento de outros setores. Foi uma época que rendeu frutos positivos e negativos: o estado montando e administrando empresas e a iniciativa privada buscando parcerias em setores antes ligados à igreja e ao exército. Na era da nova tecnologia, os limites entre setores e as barreiras físicas estão sendo pulverizados. Ao mesmo tempo, desabam as catedrais cartoriais da sabedoria. Até bem pouco tempo atrás, um curso de engenharia demorava décadas para ficar obsoleto. Com as constantes mudanças da era da nova tecnologia, a base de aprendizado do engenheiro se expandiu para além das plantas e dos logaritmos: independente de sua especialização, é preciso que ele entenda, por exemplo, de sistemas de comunicação virtual. Caso contrário, sua educação ficará datada e ele terá de defender com unhas e dentes as únicas técnicas que conhece. Assim, em qualquer setor, quatro anos de formação universitária básica já não são suficientes para preencher as necessidades do futuro próximo. E isso é simples de entender: há 80 anos, acontecia uma mudança tecnológica significativa a cada dez anos. E os cursos universitários já duravam quatro anos. Hoje em dia, ocorre uma mudança por ano, e os cursos continuam sendo de quatro anos. Proporcionalmente às necessidades, os cursos ficaram longos demais. Logo, é preciso complementá-los, constantemente. É isso que na era da nova tecnologia se chama de formação permanente. O aprendizado à distância, sem sair de casa, deverá preencher uma boa parte daquele tempo livre que será gerado pela redução da jornada de trabalho. O documento que hoje chamamos de currículo será então parecido com qualquer coisa, menos com o que é hoje. Causaria espanto a gente pensar que os currículos serão atualizados por hora? [...] Qual a influência da internet nisso tudo? Toda. O fenômeno atual tem como base o uso intensivo e ilimitado da comunicação interativa entre pessoas e entre empresas. A internet vem produzindo riqueza, promovendo o crescimento econômico e gerando novos empregos. E enterrando velhos princípios aplicados à economia, como a curva de Philips e as teorias de Thomas Malthus. Melhor ainda, a internet cria desenvolvimento TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 71 acelerado com inflação baixa. Para nós, brasileiros, acostumados que fomos a ter que escolher entre crescer com inflação ou conter a espiral inflacionária através da recessão, a nova onda soa como música aos nossos ouvidos. Basta a gente voltar meros cinco ou seis anos no tempo. Quem se lembra, aí por 1995, da primeira discussão na empresa sobre abrir ou não um site na internet? E, quando a decisão era abrir, a tarefa era confiada à área de marketing, que desenhava o site como um minioutdoor numa telinha de micro. Não era para vender nem para interagir com clientes e fornecedores, mas apenas para informar. Ou, pior ainda, só para ter um site, já que o concorrente tinha um. Quem, estando naquela mesa de reuniões, imaginaria que menos de mil dias depois, muitas empresas estariam usando a internet como seu canal privilegiado de contato com o mundo externo? As universidades já não têm mais como objetivo preparar empregados competentes, mas empreendedores articulados, que depois poderão decidir se vão usar os conhecimentos adquiridos a serviço de uma empresa ou para abrir o seu próprio negócio. Uma recente pesquisa feita com universitários paulistanos mostra que já chegamos ao ponto de inflexão dessa curva: mais de 60% deles gostariam de trabalhar por conta própria depois de formados, mas menos de 10% arriscarão essa alternativa num primeiro momento. Olhando pelo lado positivo, a pesquisa revela que a cabeça da moçada já está feita – e que agora é só uma questão de tempo. O que valerámais no século 21? Na era digital, a moeda forte de troca é a informação, acessível e universal. Independente da natureza da informação, a tecnologia necessária para transportá- la, editá-la ou armazená-la será a mesma e estará disponível em todo o mundo. Com isso, haverá grandes bancos de dados interligados em redes nacionais e internacionais, associados a serviços seletivos e específicos. O usuário será um entre muitos milhões, mas ao mesmo tempo terá um tratamento único e personalizado, como nunca chegou a ter no supermercado em que, durante anos, fez suas compras todo fim de semana. Essa situação está determinando o surgimento de um novo tipo de profissional, atualizado e com perfil de estrategista, que tem a capacidade de compreender, captar, analisar e interpretar a realidade de cada usuário. E, principalmente, de adaptar toda a tecnologia disponível a um atendimento rápido, eficiente e diferenciado. Quantos gabriéis por aí não se encantaram, no dia em que acessaram pela primeira vez um provedor, e na tela apareceu escrito: “Bom-dia, Gabriel”. E aí o Gabriel pensou: impressionante, porque no posto onde eu abasteço o carro há anos os frentistas não sabem o meu nome. É essa primeira e inocente reação que, num breve futuro, vai se multiplicar à enésima potência: o Gabriel não irá mais ao posto: os postos, muitos, é que virão ao Gabriel. 72 UNIDADE 1 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – ASPECTOS HISTÓRICO-CONCEITUAIS A sociedade da informação colocará à disposição dos interessados um número fantástico de oportunidades individuais. Saber distingui-las e aproveitá- las é (sempre foi) uma questão individual. E nada será feito sem riscos ou sequelas. No Brasil, chegamos atrasados à Revolução Industrial. Temos, agora, a chance de embarcar a tempo na era digital. [...] Eu detesto computadores! É normal. Na internet há centenas de sites do tipo Eu detesto catchup, Eu detesto reunião ou Eu detesto Mick Jagger. Sempre haverá quem deteste alguma coisa, e computadores não são exceção. Não é tanto uma questão de o que alguém detesta, mas por quê. A maioria dos avessos ao computador vê nele o símbolo de uma mudança que ocorreu depressa demais. E, de uma forma ou de outra, a humanidade nunca tem sido muito favorável a mudanças bruscas. Há até quem deteste mudanças. Charles Chaplin, talvez o maior gênio da história do cinema, detestava o filme falado e foi o último cineasta a aderir a essa novidade tão óbvia quanto revolucionária. Hoje, há muita gente inteligente que se orgulha de não ter e-mail e excelentes escritores que decidiram não substituir sua velha máquina de escrever por um editor de textos. No século 16, Galileu ofereceu uma visão totalmente nova do Universo, ao afirmar que a Terra girava em torno do Sol. Mas a Igreja Católica, confrontada com uma revelação que poderia abalar alguns de seus dogmas, ofereceu a Galileu duas escolhas: ou se retratar publicamente ou ser queimado na fogueira da Inquisição. Menos drásticos, mas igualmente cáusticos, foram os críticos de Charles Darwin no século 19: não podendo mais matar o autor, resolveram matar sua obra, ao proibir que seu livro A Origem das Espécies se transformasse em matéria de estudo e discussão nas escolas públicas. Mas há quem faça a opção pela não mudança de forma consciente, e conviva muito bem com ela. João Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas brasileiros, nunca aceitou a mecanização de sua poesia. Preferia escrever à mão - e nem por isso seus versos tiveram menos brilho. A era digital traz uma visão totalmente nova da sociedade, do progresso, do trabalho e da própria vida. Entre os que embarcaram nesse universo e os que preferem se manter no estágio anterior, começa a se abrir um abismo cada vez mais profundo. Pode-se argumentar que muito pior que a recusa em entrar por uma porta que leva a um futuro totalmente novo é a decisão de simplesmente ignorar a existência dessa porta. Pode-se até sugerir que os refratários pelo menos tentem e só depois decidam. Mas apenas isso: sugerir. Nunca obrigar. Mesmo a verdade da internet, por mais verdadeira que já seja, não será, como nenhuma é, a verdade definitiva. FONTE: Sociedade da informação. Disponível em: <http://super.abril.com.br/tecnologia/ sociedade -informacao-442036.shtml>. Acesso em: 30 jul. 2012. 73 RESUMO DO TÓPICO 3 Dentre os pontos principais vistos neste tópico, destacamos os seguintes: • O que diferencia a sociedade da informação: “É nesse sentido que conseguimos diferenciar nossa atual ‘sociedade da informação’ das anteriores [moderna, industrial e a vemos, inserida, na hipermodernidade e na modernidade líquida], marcada não apenas pelo [1] volume virtualmente infinito de informação a que temos acesso, mas, sobretudo, pela [2] democratização das mídias, [3] o que permite sua geração e ampla difusão de forma descentralizada, revolucionando a história da informação e, por conseguinte, de toda a humanidade” (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 8). • Fazendo um pouco de história: quando surge/nasce o termo? A partir de que década? “Ele nasce no Japão, no início da década de 1960, para descrever os impactos do desenvolvimento tecnológico e econômico no seio social, referentes às mudanças sofridas no país depois da 2ª Guerra Mundial” (RAMOS, 2010, p. 25). • Em níveis de proposta, como cada parte do globo fundamenta a questão da sociedade da informação? As propostas ficam assim (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 14): • União Europeia: possui uma proposta mais institucional. • Estados Unidos: privilegia as empresas privadas. • Asiáticas: reforçam o papel do Estado. • Brasileira: reforça também o papel do Estado, bem como a iniciativa privada. • Preconceitos: alguns preconceitos são vinculados à sociedade da informação, quais sejam: Determinismo e Evolucionismo, isto é, que todas as sociedades humanas seriam e estariam determinadas a ter como mote a sociedade da informação. Este preconceito é delicado, e o mote fundamental desta sociedade é servir aos humanos, não determiná-los. Outro preconceito é o evolucionismo, que consiste em dizer que todas as sociedades evoluem até um tipo de sociedade da informação, isto é, uma falácia, porque na verdade a sociedade da informação deve se caracterizar pelo múltiplo, ou seja, permitir várias expressões, e que cada espaço humano estabelece sua maneira de ver a sociedade da informação. • Utopias: as utopias sempre rondam os seres humanos, isto é, a busca por um lugar perfeito e que seja aplicado a qualquer custo. Na sociedade da informação não é diferente, propostas de computadores e outras tecnologias ocupando o espaço humano surgem a todo instante, mas, sem grande medida, as técnicas surgem para facilitar a vida humana e constituem seu relacionar com o mundo. • Educação: com o advento da sociedade da informação temos o aumento e acesso a bens culturais, como: livros raros, bibliotecas, professores, tudo ao alcance de um click. 74 Realize uma síntese do texto complementar acerca da sociedade da informação. AUTOATIVIDADE 75 UNIDADE 2 DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir dessa unidade você será capaz de: • conceituar sociedade do conhecimento e da informação; • compreender o advento das tecnologias da informação e comunicação na vida cotidiana; • compreender os desdobramentos do uso das tecnologias de informação e comunicação na vida cotidiana; • situar ao(à) acadêmico(a) as diferentes visões e perspectivas, tanto no âm- bito sociológico quanto no filosófico, sobre a sociedade do conhecimento e da informação; • evidenciar a importância das tecnologias da informação e comunicação nos dias atuais. Para a compreensão da temática, procuramos organizar esta unidade em três tópicos, sendo que ao longo de cadaum deles você encontrará subitens. No final de cada tópico serão apresentados, textos complementares, dicas, ob- servações e atividades que lhe permitirão testar o seu conhecimento sobre a temática em questão. TÓPICO 1 – APORTE HISTÓRICO: DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E DA INFORMAÇÃO TÓPICO 2 – O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE TÓPICO 3 – AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 76 77 TÓPICO 1 APORTE HISTÓRICO: DEMARCAÇÃO ESPAÇO TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E DA INFORMAÇÃO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a)! Neste tópico faremos um breve aporte histórico sobre as origens da sociedade do conhecimento e da informação, procurando fazer uma demarcação espaço-temporal do surgimento da sociedade do conhecimento e da informação. Portanto, ao adotarmos a perspectiva histórica, pretendemos inseri-lo no contexto das nossas discussões. Neste sentido, ao olhar para o passado, é possível observar mudanças de hábitos, costumes, comportamentos na vida cotidiana, resultantes do surgimento de componentes tecnológicos, tais como: o telefone, o rádio, a televisão e, mais recentemente, os computadores e a internet. Iniciaremos os nossos estudos com foco nas transformações sociais, políticas e econômicas exercidas pelo surgimento das tecnologias de informação e comunicação no âmbito global. As informações contidas nesta unidade foram reunidas a partir de uma extensa pesquisa bibliográfica no âmbito da sociologia e filosofia. Assim é que um pequeno esforço reflexivo e retrospectivo nos ajudará a compreender a importância do que estamos tratando aqui. Em outras palavras, estamos falando de conhecimento e informação, dois aspectos complementares que fazem parte das nossas vidas hoje como nunca antes. Se rapidamente olharmos para as décadas que nos antecederam (digamos lá, 50 anos), concluiremos sem grande esforço que o avanço informacional foi maior do que em toda a vida humana precedente na Terra. 2 APORTE HISTÓRICO A história da tecnologia da informação, no século XX, é absolutamente extraordinária e fascinante, cuja velocidade e os avanços têm caráter estonteante, e deixariam boquiabertos nossos antepassados que não a vivenciaram como nós temos a oportunidade de fazê-lo. Pensemos apenas que o primeiro computador, UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO 78 o Eniac, criado na Universidade de Pensilvânia ainda na década de quarenta, pesava 32 toneladas e media 30 metros. Era chamado de o “Einstein eletrônico”, mas também de “Frankenstein matemático”, pela engenhoca enorme, pesada e cheia de fios e milhares de válvulas. Vinte anos depois, os mainframes ainda eram enormes. Ocupavam uma sala de aula para armazenar muito menos informação do que um PC (Personal Computer) ou os iPhones no século XXI. Não é de tirar o fôlego? Portanto, entre meados dos anos cinquenta e início dos anos sessenta do século XX, a humanidade viu, inserido no seu convívio social, um conjunto de aparatos técnicos e científicos como jamais antes em toda a sua história. Este processo, resultante da aposta do homem na ciência, provocou mudanças drásticas em todas as atividades, tanto do ponto de vista do segmento empresarial, quanto no nível da vida pessoal. Na visão de Eric Hobsbawm (1995), este período histórico representa um marco significativo, em todas as mentes, como o século que colocara a ideia do progresso como inevitabilidade, não só em termos materiais, mas também em relação ao avanço das liberdades, apesar das monarquias e das forças conservadoras, que resistiam tenazmente desde a Revolução Francesa. Esta nova revolução mundial que se processará no mundo será vista por milhões de pessoas, mesmo em países longínquos. Apesar de ter sido um período de excepcionais conquistas da ciência, o século XX não terminou bem. À catástrofe de duas guerras haviam se seguido cerca de 30 anos de extraordinário crescimento econômico e transformação social que mudaram de maneira profunda a sociedade humana. Suas três últimas décadas, no entanto, foram um período de decomposição, incerteza e crise. À medida que se aproximavam os anos 90, o estado de espírito dos que refletiam sobre o século era de crescente desencanto. O futuro aparecia como desconhecido e problemático. O mundo capitalista viu-se novamente às voltas com problemas que parecia ter eliminado: desemprego, depressões cíclicas, população indigente em meio a um luxo abundante e o Estado em crise (DUPAS, 2001, p. 13). Segundo afirma Moreira (1999), este novo século será cada vez mais dominado pelas tecnologias de informação e comunicação. Será marcado pelo novo modo de viver das pessoas, e extrapolará sua esfera de produção específica, partindo para outras formas culturais. Ao final do século XVIII, observa o sociólogo, a população da Terra atingiu a marca de um bilhão. Menos de 120 anos depois, dobrava esse número, atingindo os três bilhões, por volta da metade do século passado. Em 1970 atingia os quatro bilhões de pessoas, e apenas 20 anos depois ultrapassava os cinco bilhões. Ao fim da primeira década do século XXI, alcançamos os seis bilhões. Na visão pessimista de Dupas, “o que nos interessa reter é o efeito descomunal e inédito da população planetária sobre a percepção e a criação artísticas” (DUPAS, 2001, p. 15). TÓPICO 1 | APORTE HISTÓRICO: DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E DA INFORMAÇÃO 79 FIGURA 17 –POPULAÇÃO MUNDIAL E RECURSOS FONTE: Disponível em: <http://geocartoons.blogspot.com.br/2008/07/populao- mundial-e-recursos.html>. Acesso em: 30 out. 2012. Na sequência, Dupas (2001) sugere que esta nova lógica sobre a qual o “novo” capitalismo global está inserido, caracterizado por um lado pela aposta na técnica e na ciência e, por outro lado, pelo vazio das incertezas, se apresentará fragmentado, perdendo-se nas lacunas e fraturas do real, com múltiplos significados e contradições. O capitalismo global apoderar-se-á por completo dos destinos da tecnologia, libertando-a de amarras metafísicas e orientando-a única e exclusivamente para a criação de valor econômico. As legislações de marcas e patentes transformaram-se em instrumentos eficazes de apropriação privada das conquistas da ciência, reforçando os traços concentradores e hegemônicos do atual desenvolvimento. As consequências dessa autonomização da técnica com relação a valores éticos e normas morais foram, dentre outras, o aumento da concentração de renda e da exclusão social, o perigo de distribuição do hábitat humano por contaminação e da manipulação genética ameaçando o patrimônio comum da humanidade. (DUPAS, 2001, p. 15). Segundo Castells (2001), este processo, baseado na aposta na ciência e na tecnologia, resulta de três processos históricos, nomeadamente: revolução da tecnologia da informação; crise econômica do capitalismo e do estatismo e a consequente reestruturação de ambos. Sobre estes três importantes aspectos, faremos menção no texto complementar adiante, intitulado “Depreendendo nosso mundo”. UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO 80 Diante dessa perspectiva, uma nova consciência sobre a relação entre economia e sociedade nasce, e é regida “por novos imperativos, por uma tecnociência computadorizada que invade o nosso espaço pessoal e substitui o livro, e ninguém sabe se tudo isso anuncia uma nova Idade Média ou Renascença’’ (DUPAS, 2001, p. 15). Comparado à perspectiva do sociólogo espanhol Manuel Castells (2001), é temerosa a postura de Dupas (2001), que vê com ceticismo o conjunto de consequências do desenvolvimento das tecnologias da informação e seus impactos nas relações sociais, seja nos âmbitospolítico, econômico ou cultural. É inegável que a sociedade está mudando, rapidamente e influenciada pela revolução tecnológica informacional. Poucos fenômenos sociais de ordem mundial são tão evidentes. Mas é arriscado apresentar qualquer prognóstico mais pretensioso, na sequência do que sugerem os autores acima. Cabe, não obstante, a atenção devida do leitor ao que sugerem os autores, seja do ponto de vista sociológico de Castells (2001), baseado em ampla observação empírica, seja do ponto de vista filosófico pessimista de Dupas (2001), cujas considerações não escapam de uma análise comprometida com a crítica aos rumos do capitalismo, desde as suas origens. Ao leitor cabe a atenção e o cuidado, com a vantagem de que o que vivencia, no instante em que o lê, pode confirmar ou refutar o que foi interpretado e analisado há mais de uma década antes. Tecnociência: para uma leitura analítica do conceito, procurar as obras dos sociólogos franceses Gilbert Hottois e Bruno Lattour. LEITURA COMPLEMENTAR DEPREENDENDO NOSSO MUNDO Um novo mundo está tomando forma neste fim de milênio. Originou-se mais ou menos no fim dos anos 60 e meados da década de 70 na coincidência histórica de três processos independentes: revolução da tecnologia da informação; crise econômica do capitalismo e do estatismo e a consequente reestruturação de ambos; e apogeu de movimentos sociais e culturais, tais como libertarismo, direitos humanos, feminismo e ambientalismo. As interações entre esses processos e as reações por eles desencadeadas fizeram surgir uma nova estrutura social dominante: a sociedade em rede; uma nova economia: a economia informacional- global; e uma nova cultura: a cultura da virtualidade real. A lógica inserida nessa economia, nessa sociedade e nessa cultura está subjacente à ação e às instituições sociais em um mundo interdependente. NOTA TÓPICO 1 | APORTE HISTÓRICO: DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E DA INFORMAÇÃO 81 Algumas características cruciais deste novo mundo são identificadas na análise apresentada nos três capítulos do nosso livro. A revolução da tecnologia da informação motivou o surgimento do informacionalismo como a base material de uma nova sociedade. No informacionalismo, a geração de riqueza, o exercício do poder e a criação de códigos culturais passaram a depender da capacidade tecnológica das sociedades e dos indivíduos, sendo a tecnologia da informação o elemento principal dessa capacidade. A tecnologia da informação tornou-se ferramenta indispensável para a implantação efetiva dos processos de reestruturação socioeconômica. De especial importância foi seu papel ao possibilitar a formação de redes como modo dinâmico e autoexpansível de organização da atividade humana. Essa lógica preponderante de redes transforma todos os domínios da vida social e econômica. A crise dos modelos de desenvolvimento econômico, tanto do capitalismo como do estatismo, motivou sua reestruturação paralela a partir de meados dos anos 70. Nas economias capitalistas, empresas e governos estabeleceram várias medidas e políticas que, em conjunto, levaram a uma nova forma de capitalismo. Suas características são a globalização das principais atividades econômicas, flexibilidade organizacional e maior poder para o patronato em suas relações com os trabalhadores. Pressões competitivas, flexibilidade de trabalho e enfraquecimento de mão de obra sindicalizada levaram à redução de despesas com o Estado do bem-estar social, alicerce do contrato social na era industrial. As novas tecnologias da informação desempenharam papel decisivo ao facilitarem o surgimento desse capitalismo flexível e rejuvenescido, proporcionando ferramentas para a formação de redes, comunicação à distância, armazenamento/processamento de informação, individualização coordenada do trabalho e concentração e descentralização simultâneas do processo decisório. Nessa economia global interdependente, novos concorrentes, empresas e países, vieram reivindicar uma participação crescente na produção, no comércio e no trabalho. O surgimento de uma economia poderosa e competitiva na região do Pacífico e os novos processos de industrialização e expansão de mercado em várias regiões do mundo ampliaram o escopo e a escala da economia global, estabelecendo uma base multicultural de interdependência econômica. Por intermédio da tecnologia, redes de capital, de trabalho, de informação e de mercados conectaram funções, pessoas e locais valiosos ao redor do mundo, ao mesmo tempo em que desconectaram as populações e territórios desprovidos de valor e interesse para a dinâmica do capitalismo global. Seguiram-se exclusão social e não pertinência econômica de segmentos de sociedades, de áreas urbanas, de regiões e de países inteiros, constituindo o que chamo de “o Quarto Mundo”. A tentativa desesperada de alguns desses grupos sociais e territórios para conectar-se à economia global e escapar da marginalidade levou a uma situação que chamo de “a conexão perversa”, quando o crime organizado em todo o mundo tirou vantagem de sua condição para promover o desenvolvimento da economia do crime global. O objetivo é satisfazer o desejo proibido e fornecer mercadorias ilegais à contínua demanda de sociedades e indivíduos abastados. UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO 82 A reestruturação do estatismo provou ser mais difícil, sobretudo para a sociedade estatista predominante no mundo, a União Soviética, no centro de uma ampla rede de países e partidos estatistas. Está comprovado que o estatismo soviético foi incapaz de assimilar o informacionalismo e, com isso, bloqueou o crescimento econômico e enfraqueceu, de forma decisiva, seu aparato bélico, fonte básica de poder em um regime estatista. A conscientização sobre a estagnação e o declínio levou alguns líderes soviéticos, de Andropov a Gorbachev, a tentarem uma reestruturação do sistema. Para superar a inércia e a resistência do partido/ Estado, os líderes reformistas franquearam o acesso a informações e pediram o apoio da sociedade civil. A poderosa expressão de identidades nacionais/culturais e as demandas populares por democracia não puderam ser facilmente canalizadas para um programa de reformas preestabelecido. A pressão dos acontecimentos, os erros táticos, a incompetência política e a eterna divisão dos aparatos estatistas levaram ao súbito colapso do comunismo soviético em um dos mais extraordinários eventos da história política. Com ele, o império soviético também desmoronou, e os regimes estatistas em sua esfera global de influência enfraqueceram-se de forma decisiva. Assim terminou, em espaço de tempo equivalente a um instante pelos padrões históricos, a experiência revolucionária mais importante do século XX. Também significou o fim da Guerra Fria entre o capitalismo e o estatismo, uma guerra que dividira o mundo, determinara geopolíticas e assombrara nossa vida nesta última metade de século. Em seu modelo comunista, o estatismo praticamente acabou ali, apesar de o tipo de estatismo da China ter tomado um caminho mais complicado e sutil para sua saída histórica. A bem da coerência da argumentação aqui apresentada, lembremos ao leitor de que nos anos 90, o Estado chinês, embora sob controle total do Partido Comunista, apresenta uma organização voltada para a incorporação da China no capitalismo global com base em um projeto nacionalista representado pelo Estado. Esse nacionalismo chinês com características socialistas está se afastando rapidamente do estatismo em direção ao capitalismo global e, ao mesmo tempo, tentando encontrar um modo de adaptar-se ao informacionalismo sem abrir a sua sociedade. FONTE: CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999. v. 3. p. 411-439.83 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico vimos: ● O aporte histórico sobre as origens da sociedade da informação e do conhecimento. ● As tecnologias da informação e comunicação cada vez mais dominam este novo século. 84 AUTOATIVIDADE Caro(a) acadêmico(a), desenvolva um roteiro para uma palestra que deve tratar sobre “a substituição do livro pelas formas virtuais de leitura”. 85 TÓPICO 2 O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO 2 A REALIZAÇÃO DA POTÊNCIA DO HOMEM ARISTOTÉLICO “O homem é um animal que fala”, já dizia o antigo filósofo grego Aristóteles, em Ética e Nicômaco. Nessa direção, poderíamos dizer com certo conforto que a sociedade da informação e do conhecimento, sendo também denominada sociedade em rede, é a realização do ser humano na sua plenitude. Assim, homens e mulheres do mundo todo, cada vez mais se integram, através dos meios de comunicação virtuais, monológicos e dialógicos, à sociedade em rede. FIGURA 18 – EVOLUÇÃO HUMANA FONTE: Disponível em: <http://inovaead.blogspot.com.br/2010/06/o-mundo-tecnologico.html>. Acesso em: 24 out. 2012. Os seres humanos não estão mais isolados e agora, mais do que nunca, utilizam a sua condição de fala a fim de conhecerem o mundo, os fatos, as realizações humanas e as pessoas. Usam os meios de comunicação, como nunca, para dizer o que pensam, para expressar seus sentimentos, compartilhar seus problemas e também as suas alegrias. Comunicam-se sem medo. É claro que isso provoca mudanças na formação cultural da sociedade global em rede. É nesse contexto, global em rede, que isso acontece, liberando os desejos e a potencialidade humanos. Em outros termos, trata-se de admitir que aquela aspiração dos renascentistas, de há 500 anos atrás, finalmente se universaliza. Trata-se da incrível transposição espacial e temporal das fronteiras das culturas nacionais para a inédita e tão esperada condição do homem cidadão do mundo, algo que já foi observado pelo sociólogo norte-americano Adam Scharf, em seu empolgante livro intitulado “A sociedade informática” (1995). UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO 86 FIGURA 19 – MEIOS DE COMUNICAÇÃO FONTE: Disponível em: <http://jrockproject.files.wordpress. com/2010/05/comunicacao-no-brasil.jpg>. Acesso em: 24 out. 2012. Nessa direção, pensemos só por um minuto como será o sistema de transmissão televisiva, o que ainda nos proporcionará a Internet ou, ainda, como ouviremos rádio? Ainda nos parece fantástico, mas será normal que vejamos simultaneamente mais de um canal de transmissão via cabo, satélite e assim por diante. Só o que nos proporciona atualmente a transmissão via satélite, é algo impensável há décadas atrás. Imagine o que isso representa em termos de integração mundial, de acesso à informação e às culturas de outros países e continentes. Isso marca, seguramente, uma nova etapa da sociedade, e estamos vivendo essa transição, não sem o enorme privilégio histórico que isso representa a todos os que a vivenciam. É claro que o leitor já deve ter parado para pensar em como é fascinante ter acesso a milhões de informações científicas, artísticas, entre outras, sem pagar um tostão por elas, em grande parte das vezes. Na década de oitenta, por exemplo, para ter acesso a um livro ou a um álbum de alguma banda de rock’n roll, ou ainda a uma imagem que pudesse ser utilizada na confecção de um trabalho escolar ou universitário, as possibilidades de obtenção eram infinitamente mais restritas do que na segunda década do século XXI. Se na década de oitenta, um estudante de direito ou ciências sociais precisava fotocopiar as páginas do Contrato Social de Jean Jacques Rousseau ou do Leviatã de Thomas Hobbes de um livro de capa dura na biblioteca de sua instituição de ensino superior, atualmente ele baixa esse valiosíssimo material de graça, da Internet. Imagine o quanto se ganha em termos de informação, ilustração e ampliação de nosso conhecimento com esse recurso! Naqueles anos, ainda havia uma lei de direitos autorais que impedia qualquer um de fotocopiar mais de dez por cento de uma obra. Agora, se o leitor é um amante do rock’n roll, sabe que o seu pai comprava, no dinheirinho contado, um ou dois álbuns por mês, de vinil ou em CD, a fim de aumentar a sua coleção musical. Esse mesmo leitor, sim, Você aí, sem grandes TÓPICO 2 | O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE 87 esforços, faz um download de um sítio de buscas musicais, gratuitamente, da coleção completa do AC/DC. Que privilégio, hein? E não é difícil, nesse cenário, imaginar um brasileiro fazendo buscas para conhecer melhor as músicas do continente africano, ou de um europeu obter informações reveladoras sobre a música criativa produzida no estado de Pernambuco. Tudo isso, e muito o mais proporcionado pelas tecnologias da informação e da comunicação, nos proporciona uma expansão mental e cultural sem precedentes. Nesse sentido, a formação de uma cultura supranacional, muito mais abrangente em termos de concepções estéticas e de informação, está em curso. Com a formação de uma grande cultura multinacional e a substituição das formas de expressão mais locais pela homogeneização das expressões mais midiáticas, para além do fim das xenofobias, haverá uma interpenetração cultural absolutamente sem precedentes. E o grande facilitador dessa incrível revolução cultural internacional é o conjunto de recursos da informática, eliminando sem dó, como um tsunami globalizante, as barreiras culturais. FIGURA 20 – RELAÇÕES ENTRE INDIVÍDUOS FONTE: Disponível em: <http://clusterscriativos.blogspot.com.br/2010/04/ porque-clusters-criativos.html>. Acesso em: 24 out. 2012. 3 AS RELAÇÕES ENTRE O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE Grandes têm sido as preocupações, nos últimos vinte anos, com o fato de que as revoluções das tecnologias da informação resultem na potenciação do “ensimesmamento” do homem, isto é, na sua introspecção individualista e egoísta. Uma vez que os recursos tecnológicos de comunicação e informação estejam ao seu dispor, é natural que esse tipo de preocupação e especulação sociológica venha à tona. Assim, os indivíduos tenderiam crescentemente ao isolamento doméstico. Até as necessidades afetivas poderiam, como em grande parte podem, ser atendidas virtualmente. UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO 88 Por outro lado, o que vemos com bastante frequência nas últimas duas décadas, é uma superação dos isolamentos comportamentais pela intensificação das formas de comunicação virtuais. Se não são físicas, essas formas de comunicação pela NET provocam, não obstante, um aumento exponencial dos diálogos e da troca de informação. Amplificam, ao invés de diminuir, os relacionamentos. Permitem por extensão a amplificação de grupos sociais distantes fisicamente. Vejam-se as redes sociais. São um exemplo fantástico de multiplicação de relacionamentos, trocas de informação, de solidariedade e também de engajamento em questões coletivas. As cidades estão cheias de movimentos pela internet. Cada vez que alguém tem uma boa e contagiante ideia e a lança no FACEBOOK, ela se alastra rapidamente e é capaz de interferir no resultado de um pleito eleitoral, de salvar animais, de denunciar uma injustiça, de revitalizar uma praça (como é o caso da Prainha de Blumenau, comprometida pela enchente de 2011, na curva do Rio Itajaí, e ocupada por jovens, a partir de um chamamento via rede social, denominado “Vamo se unir” - sic). Nessa direção, é possível dizer que as críticas e os temores mais pessimistas em relação à individualização dos comportamentos, parecem fadados ao esquecimento. Não é por desmerecimento às advertências de certa vertente sociológica, sempre crítica aos avanços tecnológicos, mas comparando o que se diziahá dez ou quinze anos sobre o receio de “ensimesmamento” dos indivíduos, os primeiros anos da segunda década do século XXI parecem desconstruir os argumentos dos céticos. No mesmo sentido, é possível lançar mão dos e-mails, dos recursos de busca na NET, principalmente do GOOGLE, através do qual uma simples busca de um nome de um valioso amigo ou parente, nos permite o restabelecimento de contatos afetivos e profissionais jamais imaginados pelos nossos bisavós. Tomem- se as facilidades do MSN, nessa perspectiva. Ah, um amigo me falou de ti e me deu o teu endereço. Podes me acionar? E lá vêm aquelas boas lembranças, sucedidas de contatos, de agendamentos de encontros presenciais, sim, presenciais e, como num passe de mágica, tudo é resolvido. Num passe de mágica? Não. Fruto do incansável, audacioso e ambicioso esforço humano na busca do conhecimento e ao encontro de alternativas e soluções que, não importa se imbuídos do desejo de lucro ou poder, facilitam melhoram e trazem felicidade às vidas humanas. A solidariedade, a comunicação e a coletivização são aspectos inerentes às formas de organização social, na família, na igreja, nas empresas, nas associações e nas “tribos”. E não há razão para acreditarmos que os recursos das tecnologias de comunicação tenham sido imbuídas de intenções obscuras de ensimesmamento, individualização e insulamento humanos. Nem mesmo, é possível acreditar que, com o que podemos ver com nossos próprios olhos, todas essas comodidades tecnológicas sejam utilizadas pelos “animais que falam” justamente para que se tornem taciturnos. Seres humanos precisam de gente ao redor e qualquer desvio nesse sentido sempre existiu, é escolha de alguns indivíduos ou resultado de outras causas que constituem a exceção e não a regra. 89 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico vimos: • “O homem é um animal que fala”. Assim, homens e mulheres do mundo todo, cada vez mais se integram, através dos meios de comunicação virtuais, monológicos e dialógicos, à sociedade em rede. • Os seres humanos usam os meios de comunicação, como nunca, para dizer o que pensam, para expressar seus sentimentos, compartilhar seus problemas e também as suas alegrias. Comunicam-se sem medo. • Com a formação de uma grande cultura multinacional e a substituição das formas de expressão mais locais pela homogeneização das expressões mais midiáticas, para além do fim das xenofobias, haverá uma interpenetração cultural absolutamente sem precedentes. • Por outro lado, o que vemos com bastante frequência nas últimas duas décadas, é uma superação dos isolamentos comportamentais pela intensificação das formas de comunicação virtuais. • A solidariedade, a comunicação e a coletivização são aspectos inerentes às formas de organização social, na família, na igreja, nas empresas, nas associações e nas “tribos”. 90 AUTOATIVIDADE Caro(a) acadêmico(a)! Com os conhecimentos adquiridos nesse tópico, produza um texto sobre as principais ideias abordadas. 91 TÓPICO 3 AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO 2 AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Caro(a) acadêmico(a), ao falarmos das tecnologias da informação e comunicação como fator determinante no advento da sociedade da informação, estamos a falar das transformações resultantes do processo da globalização de mercados e dos avanços do uso dos processos tecnológicos na vida cotidiana dos indivíduos. Desse mosaico de transformações exercidas pelos meios tecnológicos na vida quotidiana dos indivíduos emerge o conceito de sociedade da informação. Sob este prisma, o que iremos apresentar nas próximas páginas são dois pontos: o primeiro busca assinalar as tecnologias da informação e comunicação como fator determinante no advento da sociedade da informação. O segundo procura discutir o conceito de sociedade da informação sob a ótica de diferentes autores. Portanto, esperamos que os tópicos escolhidos possam contribuir de certa forma para inseri- lo(a) no debate sobre a sociedade da informação e que sirva de uma ferramenta que possa expandir o seu horizonte pensante. Nos últimos anos do século XX, o mundo vem adquirindo uma nova configuração, fundamentada nas tecnologias da informação e da comunicação. A sociedade pós-industrial vem sofrendo modificações de forma acelerada, reestruturando o capitalismo, na medida em que todas as economias do planeta passam a interdepender umas das outras, em escala global. Diante disto, observa-se que as grandes empresas mundiais passam por um processo de descentralização e interconexão das empresas, o aumento do capital frente ao trabalho, com o declínio do sindicalismo e crescente desemprego, a incorporação massiva da mulher no mundo do trabalho. Além disso, 92 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO consideremos a queda do Estado soviético, alterando a geopolítica internacional, em consequência do fim da Guerra Fria, bem como a intervenção dos Estados para desregular os mercados de forma seletiva, desmantelando o sistema de bem- estar social, e a difusão da lógica das redes em todas as formas de organização. FONTE: Adaptado de: <http://www2.eptic.com.br/sgw/data/bib/ artigos/3e8907616186d62bb07beac9ac5ed240.pdf>. Acesso em: 17 out. 2012. FIGURA 21 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO FONTE: Disponível em: <http://www.fgp.com.br/site/default.asp>. Acesso em: 4 abr. 2012. Com o crescente aumento do uso das Tecnologias da Informação e de Comunicação nos diversos setores da atividade humana, bem como a sua integração às facilidades das telecomunicações, tornou-se evidente a possibilidade de ampliar cada vez mais tanto o acesso à informação, assim como o desenvolvimento de novos meios que proporcionassem de forma rápida sua distribuição no campo das pesquisas científicas. As atividades tradicionais, como a leitura, a escrita, o correio, o comércio, a publicidade ou o ensino, em atividades realizadas em ambiente virtual passam agora a ser capturadas por estes novos dispositivos tecnológicos de informática, cada vez mais avançados. Este processo, que teve a sua origem no fim dos anos 60 e início dos anos 70, não foi, por si só, responsável pela nova forma de organização social. Centrado na ideia de informação e comunicação, o uso das TIC resultou da interação de três processos independentes: revolução da tecnologia da informação; da economia (crise econômica do capitalismo e do estatismo e a consequente reestruturação de ambos); e apogeu de movimentos sociais e culturais, tais como a afirmação das liberdades individuais, dos direitos humanos, do feminismo e do ambientalismo (CASTELLS, 2001). TÓPICO 3 | AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 93 Na escala societária, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) constituíam um limiar sobre o qual se sucediam os acontecimentos políticos, militares ou científicos, tornando-se desta forma uma expressão de competição global, cuja lógica encontrava-se inserida dentro de uma economia informacional/ global; e uma nova cultura, a cultura da virtualidade real, onde a sociedade e a cultura estão subjacentes à ação e às instituições sociais em um mundo interdependente. A interação entre esses processos e as reações por eles desencadeadas fez surgir uma nova estrutura social dominante, a sociedade em rede. Na época atual, as chamadas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) constituem ferramentas indispensáveis no processo de fortalecimento e integração das nações na nova cadeia global. Segundo Castells (2001), este processo foi de extrema importância, poisseu papel conferiu uma dinâmica e formação de redes das diversas esferas da atividade humana. Esta nova lógica preponderante de redes, sobre a qual a nova sociedade se assenta, transformou todos os domínios de vida social e econômica. Por intermédio da tecnologia, redes de capital, de trabalho, de informação e de mercados conectaram funções, pessoas e locais valiosos ao redor do mundo, ao mesmo tempo em que desconectaram as populações e territórios desprovidos de valor e interesse para a dinâmica do capitalismo global. Seguiram-se exclusão social e não pertinência econômica de segmentos de sociedades, de áreas urbanas, de regiões e de países inteiros, constituindo o que chamo de "o Quarto Mundo". A tentativa desesperada de alguns desses grupos sociais e territórios para conectar-se à economia global e escapar da marginalidade levou a uma situação que chamo de "a conexão perversa", quando o crime organizado em todo o mundo tirou vantagem de sua condição para promover o desenvolvimento da economia do crime global. O objetivo é satisfazer o desejo proibido e fornecer mercadorias ilegais à contínua demanda de sociedades e indivíduos abastados (CASTELLS, 1999, p. 411). Sob esta perspectiva, segundo afirma Ferreira (2003, p. 8), a fim de compreender o surgimento das novas formas de organização social por conta das tecnologias informacionais, devemos observar os resultados dessa “revolução tecnológica na estrutura social”, a saber: 1 informação e conhecimento estão profundamente inseridos na cultura das sociedades; 2 as novas tecnologias da informação agregam processos de produção, distribuição e direção, permitindo diferentes tipos de atividades interligadas de acordo com o modo organizativo que se ajusta melhor à estratégia da empresa ou à história da instituição. Três conceitos surgem dessa transformação fundamental do modo em que o sistema de produção opera e, juntos, formam as bases atuais da nova economia e forçarão a redefinição da estrutura ocupacional, além do sistema de classes da nova sociedade: articulações entre as atividades; redes que configuram as organizações; e fluxos de fatores de produção e de mercadorias; flexibilidade e adaptabilidade são necessidades fundamentais para a direção de organizações, pois complexidade 94 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO e incerteza são características essenciais do novo meio ambiente organizacional; 3 as novas tecnologias de comunicação têm um impacto direto sobre os meios de comunicação e sobre a formação de imagens, representações e opinião e opinião pública em suas sociedades, resultando em uma tensão crescente entre globalização e individualização no universo dos audiovisuais; 4 as fontes de poder na sociedade e entre as sociedades são alteradas pelo caráter estratégico das tecnologias e da informação na produtividade da economia e na eficácia das instituições sociais. A habilidade de promover a mudança tecnológica está relacionada diretamente com a habilidade de uma sociedade para difundir e intercambiar informações e relacioná-las com o restante do mundo. Caro(a) acadêmico(a), como forma de alargar o seu horizonte sobre esta temática, gostaríamos de mencionar duas obras que lhe servirão de base para sua maior compreensão: CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999 v. 1. DE MASI, Domenico. A sociedade pós-industrial. 2. ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1999. 3 TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO – TIC Desde os primórdios da humanidade, o homem sempre sentiu a necessidade de se comunicar com os outros homens. As novas tecnologias vêm efetuando mudanças sociais drásticas nos diversos segmentos da sociedade. As chamadas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) têm se apresentado como um fator decisivo na nova organização social, sem precedentes na história. O próprio capitalismo passa por um processo de profunda restauração, caracterizado por maior flexibilidade de gerenciamento; descentralização das empresas e sua organização em redes tanto internamente quanto em suas relações com outras empresas; considerável fortalecimento do papel do capital vis-à-vis o trabalho, com o declínio concomitante da influência dos movimentos de trabalho; incorporação maciça das mulheres na força de trabalho remunerada, geralmente em condições discriminatórias; intervenção estatal para desregular os mercados de forma seletiva e desfazer o estado do bem-estar social com diferentes intensidade e orientações, dependendo da natureza das forças e instituições políticas de cada sociedade; aumento da concorrência econômica global em um contexto de progressiva diferenciação dos cenários geográficos e culturais para acumulação e a gestão de capital (CASTELLS, 1999, p. 21). Primeiramente, para melhor compreender o conceito de Tecnologias da Informação e Comunicação - TIC e o seu papel nas sociedades atuais, de forma DICAS TÓPICO 3 | AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 95 a dar uma “robustez” mais ampla às nossas reflexões, faremos um pequeno aporte histórico sobre o conceito de tecnologia em Manuel Castells. Neste sentido, segundo afirma o autor (1999, p. 24): Para dar os primeiros passos nessa direção, devemos levar a tecnologia a sério, utilizando-a como ponto de partida desta investigação; devemos localizar esse processo de transformação tecnológica revolucionária no contexto social É importante referir que o termo tecnologia como tal só aparece nos meados do século XVIII, com a Revolução Industrial, expandindo-se desta forma para as mais diversas áreas do conhecimento humano. O Dicionário de Sociologia, de Alan Johnson (1997), indica a palavra “tecnologia” como o repositório acumulado de conhecimento cultural sobre ambientes físicos e seus recursos materiais, com vistas a satisfazer desejos e vontades. Contudo, segundo afirma Johnson (1997), tecnologia não pode ser confundida com a ciência, na medida em que ela consiste de conhecimentos práticos sobre como usar recursos materiais, ao passo que a Ciência consiste de conhecimento abstrato e teorias sobre como o processo do conhecimento se constrói. Consultivo sobre Tecnologias da Informação e Comunicação, no Secretariado Geral das Nações Unidas (2000-2001). FONTE: Disponível em: <http://www.zahar.com.br/catalogo_autores_detalhe. asp?aut=Manuel+Castells>. Acesso em: 20 set. 2012. MANUEL CASTELLS nasceu na Espanha, em 1942, e é professor de sociologia e planejamento regional na Universidade da Califórnia, Berkeley, onde ingressou em 1979, após lecionar por 12 anos na Universidade de Paris. Foi professor visitante em 15 universidades e conferencista convidado de instituições acadêmicas e profissionais em mais de 35 países. Publicou 20 livros, entre os quais a trilogia A Era da Informação: economia, sociedade e cultura (Paz & Terra, 1999). Integrou o Grupo Especializado de Alto Nível sobre a Sociedade da Informação, na Comissão Europeia (1995-1997), e o Conselho NOTA DICAS “O termo tecnologia provém do verbo grego tictein, que significa criar, produzir, significando, portanto, o conhecimento prático que almeja alcançar um determinado fim concreto. Da combinação com o termo logos (palavra, fala), o termo exprimia a diferença entre o simples fazer artesanal de um fazer com raciocínio” (BRIGNOL, 2004, p. 26). 96 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO Na sociedade industrial, o conceito de tecnologia esteve associado à forma de produto, passando, portanto, a não mais designar a forma de produção, ou seja, concentra-se nos produtos, nos processos, nos equipamentos e nas operações.Assim, na visão de De Masi (1999), esta lógica, onde a tecnologia torna-se uma ferramenta indispensável nas relações de produção, obrigou o mundo da produção industrial a sofrer grandes mudanças, tanto no processo de regulamentação da empesa, como na organização do trabalho, de forma a responder aos imperativos que a própria tecnologia trouxe para o aperfeiçoamento das condições de vida do homem. Neste sentido, para De Masi (1999, p. 158), as principais transformações provocadas por esses imperativos são as seguintes: • Um intervalo de tempo mais longo exigido pelo processo produtivo para levar até o fim a realização de um produto. • Um aumento da necessidade de capital para a produção. • Maior especialização e definição de funções, operações, processos e materiais, com uma consequente rigidez que impede conversões de uma operação para outra. • Maior necessidade de mão de obra especializada. • Maior exigência de organização de todas as atividades especializadas envolvidas, o que resulta na posterior exigência de outros especialistas: os especialistas em organizações. • A necessidade de planejamento, em face do tempo e dos capitais empregados, da rigidez dos processos, das exigências organizacionais e da instabilidade do mercado em relação aos sistemas industriais que utilizam tecnologias avançadas. Domenico De Masi é professor de Sociologia do Trabalho na Universidade La Sapienza, de Roma. Foi administrador de empresas e fundou a escola de especialização em ciências organizacionais S3-Studium, com sede em Roma. É presidente da Società Italiana Telelavoro (SIT). Trabalhou como consultor e instrutor para as mais importantes organizações em atividade na Itália. Seus objetos de estudo são a sociedade industrial, a criatividade, o mercado de trabalho, as equipes ideativas, a valorização dos recursos humanos, o teletrabalho, o tempo livre. Escreveu ou organizou mais de 20 livros e colabora com revistas e os jornais mais significativos da Itália. FONTE: Disponível em: <http://alagoinhaipaumirim.blogspot.com.br/2008/01/o-cio- criativo.html>. Acesso em: 20 set. 2012. Já no século XX, a tecnologia passa a ser descrita como um campo do conhecimento que, além de usar o método científico, cria e/ou transforma processos materiais. Assim, segundo De Masi (1999), a tecnologia passa a ser o motor do NOTA TÓPICO 3 | AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 97 desenvolvimento da sociedade, elevando o padrão de vida de uma determinada sociedade, reduzindo desta forma as desigualdades. Neste sentido, na visão de De Masi (1999, p. 159), a tecnologia passa a ser: uma nova forma de racionalidade funcional que modifica os modelos educacionais, “os sistemas de especulação, tradição e razão”; revolucionando os transportes e as comunicações, cria novos tipos de relações sociais (onde, por exemplo, as relações de parentesco são substituídas por ligações de trabalho e profissionais) e de interdependência econômica. A tecnologia, enfim, modifica a percepção (também estética, como testemunham as novas tendências das artes figurativas) do espaço e do tempo. Na visão de Castells (2001, p. 49), a tecnologia corresponde: (ao) uso de conhecimento científico para especificar as vias de se fazer as coisas de uma maneira reproduzível. Entre as tecnologias da informação incluo, como todo o conjunto convergente de tecnologias em microeletrônica, computação (software e hardware), telecomunicações/radiodifusão, e optoelectrônica. Além disso, diferentemente de alguns analistas, também incluo nos domínios da tecnologia da informação a engenharia genética e seu crescente conjunto de desenvolvimento e aplicações. Com base nessa citação, torna-se claro que a tecnologia não determina a sociedade, nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica. Portanto, para Castells (2001), a tecnologia e a sociedade são categorias interdependentes, na medida em que a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas “ferramentas tecnológicas”. Neste sentido, para Castells (2001), a tecnologia é uma condicionante, e não determinante, da sociedade. Por conseguinte, a relação entre tecnologia e sociedade está marcada pela presença do papel do Estado, podendo estimular ou constranger ambientes de inovação tecnológica, organizando as forças sociais dominantes em determinado tempo e espaço. Em grande medida, o grau de tecnologia existente numa sociedade é a representação de sua capacidade coletiva de controle sobre o meio político, isto é, de determinação sobre o formato das instituições, ou seja, do próprio Estado, no sentido de que este permita o melhor desenvolvimento das iniciativas e o uso das tecnologias a favor dos indivíduos. Desta feita, “o processo histórico em que esse desenvolvimento de forças produtivas ocorre assinala as características da tecnologia e seus entrelaçamentos com as relações sociais” (CASTELLS, 2001, p. 31). Sob esta ótica, a tecnologia não pode ser vista como uma “ferramenta” que busca resolver problemas imediatos que se apresentam numa determinada sociedade, mas sim como um meio integrante e compatível com a sociedade em que está inserida. Para o sociólogo espanhol, o suposto dilema do determinismo tecnológico é falso. Portanto, não se trata de perguntar se a tecnologia determina comportamentos na sociedade ou se a sociedade é quem controla a tecnologia. Como diz Castells (2001, p. 25), “a tecnologia é a sociedade e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas”. Isso não 98 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO impede de admitir que no começo é uma parte da sociedade que dá o “start”, para depois os outros se apropriarem das inovações. Foi o que aconteceu nos EUA, quando um setor específico da sociedade introduziu essas novas formas de produção, comunicação, gerenciamento e vida (CASTELLS, 2001). Nessa medida, tanto a informação como o conhecimento criam um novo sistema baseado num complexo integrado de rede global de interação, onde a produtividade e a competitividade das suas unidades dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada no conhecimento. Sem dúvida, informação e conhecimento sempre foram elementos cruciais no crescimento da economia, e a evolução da tecnologia determinou em grande parte a capacidade produtiva da sociedade e os padrões de vida, bem como formas sociais de organização econômica [...]. A emergência de um novo paradigma tecnológico organizado em torno de novas tecnologias da informação, mais flexíveis e poderosas, possibilita que a própria informação se torne o produto do processo produtivo. Sendo mais preciso: os produtos das novas indústrias de tecnologia da informação são dispositivos de processamento da informação. Ao transformarem os processos de processamento da informação, as novas tecnologias da informação agem sobre todos os domínios da atividade humana e possibilitam o estabelecimento de conexões infinitas entre diferentes domínios, assim como entre os elementos e agentes de tais atividades (CASTELLS, 2001, p. 88). Assim, para Castells (2001), o que caracteriza a atual revolução tecnológica não é a centralização do conhecimento e da aplicação, senão o uso da informação para a gestão de todo o processamento da informação e gerenciamento, num processo de retroalimentação eterno, promovendo a passagem de três estágios das novas tecnologias de telecomunicações nas últimas décadas, quais sejam: a automação das tarefas, as experiências de usos e a reconfiguração das aplicações. “Nos dois primeiros estágios, os avanços tecnológicos se caracterizam pelo learn by using, isto é, pelo aprender usando. No último, são osusuários que aprenderam a tecnologia fazendo o que acabou resultando na configuração das redes e na descoberta de novas aplicações” (CASTELLS, 2001, p. 51). Desta feita, seria incorreto falar de uma Sociedade Informacional, implicando uma inadequada “homogeneidade das formas sociais” em qualquer lugar do globo sob o novo sistema. Não se trata de reduzir os povos da Terra ao novo paradigma informacional. Mas, segundo o pensador espanhol, poderíamos falar de uma sociedade informacional assim como falamos da “sociedade urbano- industrial, cujas características são bem definidas e algumas de suas principais estão difundidas mundialmente” (CASTELLS, 1999, p. 38). Caro(a) acadêmico(a), como forma de alargar o seu horizonte sobre os paradigmas da tecnologia da informação, segue-se o texto extraído da obra “Sociedade em rede – a era da informação: economia, sociedade e cultura”, de Manuel Castells (1999, p. 77-81). Neste texto o autor aponta quais são os paradigmas da tecnologia da informação. Acompanhe! TÓPICO 3 | AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 99 LEITURA COMPLEMENTAR Nas palavras de Christopher Freeman: Um paradigma econômico e tecnológico é um agrupamento de inovações técnicas, organizações e administrativas inter-relacionadas cujas vantagens devem ser descobertas não apenas em uma nova gama de produtos e sistemas, mas também, e sobretudo, na dinâmica da estrutura dos cursos relativos de todos os possíveis insumos para a produção. Em cada novo paradigma, um insumo pode ser descrito como “fator-chave” desse paradigma, caracterizado pela queda dos custos relativos e pela disponibilidade universal. A mudança contemporânea de paradigma pode ser vista como uma transferência de uma tecnologia baseada principalmente em insumos baratos de energia para uma outra que se baseia predominantemente em insumos baratos de informação derivados do avanço da tecnologia em microeletrônica e telecomunicações. O conceito de paradigma tecnológico, elaborado por Carlota Perez, Christopher Freeman e Giovanni Dosi, com a adaptação da análise clássica das revoluções científicas feita por Thomas Kuhn, ajuda a organizar a essência da transformação tecnológica atual, à medida que ela interage com a economia e a sociedade. Em vez de aperfeiçoar a definição de modo a incluir os processos sociais além da economia, seria útil destacar os aspectos centrais do paradigma da tecnologia da informação para que sirvam de guia em nossa futura jornada pelos caminhos da transformação social. No conjunto, esses aspectos representam a base material da sociedade. A primeira característica do novo paradigma é que a informação é a sua matéria-prima: são tecnologias para agir sobre a informação, não apenas informação para agir sobre a tecnologia, como foi o caso das revoluções tecnológicas anteriores. O segundo aspecto refere-se à penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias. Como a informação é uma parte integral de toda atividade humana, todos os processos de nossa existência individual e coletiva são diretamente moldados (embora, com certeza, não determinados) pelos novos meios tecnológicos. A terceira característica refere-se à lógica de redes em que qualquer sistema ou conjunto de relações usa essas novas tecnologias da informação. A morfologia da rede parece estar bem adaptada à crescente complexidade de interação e aos modelos imprevisíveis do desenvolvimento derivado do poder criativo dessa interação. Essa configuração topológica, a rede, agora pode ser implementada materialmente em todos os tipos de processos e organizações graças a recentes tecnologias da informação. Sem elas, tal implementação seria bastante complicada. E essa lógica de redes, contudo, é necessária para estruturar o não estruturado, porém preservando a flexibilidade, pois o não estruturado é a força motriz da inovação humana. Em quarto lugar, referente ao sistema de redes, mas sendo um aspecto claramente distinto, o paradigma da tecnologia da informação é baseado na flexibilidade. Não apenas os processos são reversíveis, mas organizações e 100 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO instituições podem ser modificadas, e até mesmo fundamentalmente alteradas, pela reorganização de seus componentes. O que distingue a configuração do novo paradigma tecnológico é a sua capacidade de reconfiguração, um aspecto decisivo em uma sociedade caracterizada por constante mudança e fluidez organizacional. Tornou-se possível inverter as regras sem destruir a organização, que pode ser reprogramada e reaparelhada. Porém, não devemos evitar um precipitado julgamento de valores ligado a essa característica tecnológica. Isso porque a flexibilidade tanto pode ser uma força libertadora como também uma tendência repressiva, se os redefinidores das regras sempre forem os poderes constituídos. De acordo com Mulgan: “As redes são criadas não apenas para comunicar, mas para ganhar posições, para melhorar a comunicação”. Portanto, é essencial manter uma distância entre a avaliação do surgimento de novas formas e processos sociais, induzidos e facilitados por novas tecnologias, e as pessoas: só análises específicas e observação empírica conseguirão determinar as consequências da interação entre as novas tecnologias e as formas sociais emergentes. Mas também é essencial identificar a lógica embutida no novo paradigma tecnológico. Então, uma quinta característica dessa revolução tecnológica é a crescente convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado, no qual trajetórias tecnológicas antigas ficam literalmente impossíveis de se distinguir em separado. Assim, a microeletrônica, as telecomunicações, a optoeletrônica e os computadores são todos integrados nos sistemas de informação. Ainda existe, e existirá por algum tempo, uma distinção comercial entre fabricantes de chips e desenvolvedores de software, por exemplo. Mas até mesmo essa diferenciação fica indefinida com a crescente integração de empresas em alianças estratégicas e projetos de cooperação, bem como pela incorporação de software também nos componentes de chips. Além disso, em termos de sistemas tecnológicos, um elemento não pode ser imaginado sem o outro: os microcomputadores são em grande parte determinados pela capacidade dos chips, e tanto o projeto quanto o processamento paralelo dos microcomputadores dependem da arquitetura do computador. As telecomunicações agora são apenas uma forma de processo da informação; as tecnologias de transmissão e conexão estão, simultaneamente, cada vez mais diversificadas e integradas na mesma rede operada por computadores. A convergência tecnológica transforma-se em uma interdependência crescente entre as revoluções em biologia e microeletrônica, tanto em relação a matérias quanto a métodos. Assim, avanços decisivos em pesquisas biológicas, como a identificação dos genes humanos e segmentos do DNA humano, só conseguem seguir adiante por causa do grande poder da informática. Por outro lado, o uso de materiais biológicos na microeletrônica, apesar de ainda muito distante de uma aplicação mais genética, já estava em estágio experimental, em 1995. Leonard Adleman, um cientista da computação da Universidade do Sul da Califórnia, usou moléculas sintéticas de ADN e, com ajuda de uma reação química, provocou seu funcionamento de acordo com a lógica combinatória do DNA, com um material básico para a computação. Embora a pesquisa ainda tenha um longo caminho a percorrer rumo à integração material entre a biologia e a eletrônica, a lógica da biologia (capacidade de autogerar sequências coerentes não programadas) está cada vez mais sendo introduzida nas máquinas. A área TÓPICO 3 | AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO(TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 101 mais avançada da robótica refere-se a robôs com capacidade de aprendizagem, usando a teoria da rede neural. Assim, no laboratório de rede neural do Centro de Pesquisa Conjunta da União Europeia, localizado em Ispra, na Itália, um cientista da computação, Jose Millan, há anos está ensinando pacientemente alguns robôs a aprenderem sozinhos, com a esperança de que, em um futuro próximo, eles sejam bem empregados em atividades como vigilância e manuseio de material em instalações nucleares. O atual processo de convergência entre diferentes campos tecnológicos no paradigma da informação resulta de sua lógica compartilhada na geração da informação. Essa lógica é mais aparente no funcionamento do DNA e na evolução natural e é, cada vez mais, reproduzida nos sistemas de informação mais avançados à medida que os chips, computadores e softwares alcançam novas fronteiras de velocidade, de capacidade de armazenamento e de flexibilidade no tratamento da informação oriunda de fontes múltiplas. Embora a reprodução do cérebro humano com seus bilhões de circuitos e insuperável capacidade de informação dos computadores de hoje em dia estão sendo superados a cada mês. A partir da observação dessas mudanças extraordinárias em nossas máquinas e conhecimento sobre a vida e com a ajuda de tais máquinas e conhecimentos, está havendo uma transformação tecnológica mais profunda: a das categorias segundo as quais pensamos todos os processos. Segundo as ideias propostas pelo historiador de tecnologia Bruce Mazlish: É necessário reconhecer que a evolução biológica humana, agora mais bem entendida em termos culturais, impõe à humanidade – a nós – a conscientização de que ferramentas e máquinas são inseparáveis da evolução da natureza humana. Também precisamos perceber que o desenvolvimento das máquinas, culminando com o computador, mostra-nos, de forma inevitável, que as teorias úteis na explicação do funcionamento de dispositivos mecânicos também têm utilidade no entendimento do animal humano – e vice-versa, pois a compreensão do cérebro humano elucida a natureza da inteligência artificial. De uma perspectiva diferente, baseados nos discursos da moda nos anos 80 sobre a “teoria do caos”, na década de 90 uma rede de cientistas e pesquisadores convergia para uma abordagem epistemológica comum, identificada pela palavra “complexidade”. Organizado em torno de seminários do Instituto Santa Fé, no Novo México (originalmente um clube de físicos altamente capacitados da empresa Los Alamos Laboratory e, logo após, contando com a participação de um grupo seleto de ganhadores do Prêmio Nobel e amigos), esse círculo intelectual tem como objetivo a comunicação do pensamento científico (inclusive ciências sociais) sob um novo paradigma. Seus membros procuram compreender o surgimento de estruturas auto- organizadas que criam complexidade a partir da simplicidade e ordem superior a partir do caos, mediante várias ordens frequentemente descartadas pela ciência tradicional como sendo uma proposição não comprovável. Esse projeto é um exemplo do esforço realizado em diferentes ambientes no sentido de encontrar um terreno comum para a troca de experiência intelectual entre a ciência e a tecnologia na Era da Informação. Porém, essa abordagem parece impedir qualquer estrutura sistemática de integração. O pensamento da complexidade 102 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO deve ser considerado mais como um método para entender a diversidade do que uma metateoria unificada. Seu valor epistemológico pode ter se originado do reconhecimento de que a natureza e a sociedade possuem a faculdade de fazer, acidentalmente, descobertas felizes e inesperadas. Não se pode afirmar que não haja regras, mas as regras são criadas e mudadas em um processo contínuo de ações deliberadas e interações exclusivas. O paradigma da tecnologia da informação não evolui para o seu fechamento como um sistema, mas rumo à abertura como uma rede de acessos múltiplos. É forte e impositivo em sua materialidade, mas adaptável e aberto em seu desenvolvimento histórico. Abrangência, complexidade e disposição em forma de rede são seus principais atributos. Assim, a dimensão social da Revolução da Tecnologia da Informação parece destinada a cumprir a lei sobre a relação entre a tecnologia e a sociedade proposta algum tempo atrás por Melvin Kanzberg: “A primeira lei de Kanzberg diz: A tecnologia não é boa, nem ruim e também não é neutra”. É uma força que provavelmente está, mais do que nunca, sob o atual paradigma tecnológico que penetra no âmago da vida e da mente. Mas seu verdadeiro uso na esfera da ação social consciente e a complexa matriz de interação entre as forças tecnológicas liberadas por nossa espécie e a espécie em si são questões mais de investigação que de destino (Benício & Paiva, 2004). Portanto, prossigamos agora com essa investigação. FONTE: Castell (1999, p. 77-81) 4 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO Nas páginas anteriores, o nosso foco foi dado à questão da informação como o fator determinante no advento da sociedade da informação. Vimos que com os processos de globalização dos mercados e a velocidade dos avanços tecnológicos, surgiu um novo tipo de sociedade, baseado na informação e no conhecimento. Na sequência, iremos nos debruçar sobre as diversas concepções de sociedade da informação e conhecimento. É importante dizer que várias foram as terminologias utilizadas por diversos autores para nos referirmos a uma sociedade baseada na informação e no conhecimento. Portanto, face à diversidade de opiniões e teorias relacionadas ao conceito de sociedade da informação, optamos por apresentar aqui todas elas, pelo simples fato de todas elas apresentarem um ponto de convergência, visto que reconhecem o avanço do desenvolvimento tecnológico como fator resultante dessa nova sociedade. Utilizando as perspectivas até aqui analisadas, a partir dos impactos das Tecnologias da Informação e Comunicação - TIC no seio das sociedades, podemos nos perguntar: O que é sociedade da informação e do conhecimento? A expressão sociedade da informação e sociedade do conhecimento é, por vezes, usada com a mesma conotação. Embora alguns autores considerem que a expressão sociedade do conhecimento prende-se às mudanças resultantes do desenvolvimento TÓPICO 3 | AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 103 econômico, a sociedade da informação se prende às complexas redes de comunicação que potenciam a troca da informação. O termo sociedade da informação é utilizado comumente para se referir a uma nova forma de organização social, econômica e cultural, que tem em vista a centralidade da informação e comunicação no processo de organização social. Ou seja, uma sociedade que faz o melhor uso das Tecnologias da Informação e Comunicação - TIC, nos diversos setores da atividade humana. Este novo modelo de organização social tem a informação como a base para o desenvolvimento econômico, social e cultural, resulta da revolução das tecnologias da informação e comunicação. O conceito de sociedade da informação surgiu em 1969, nos trabalhos de Alain Touraine, e de Daniel Bell em 1973, sobre os impactos dos avanços tecnológicos nas relações de poder, identificando a informação como o ponto central da sociedade contemporânea. Conforme observa o sociólogo espanhol Manoel Castells (1999, p. 32): Já é tradição em teorias do pós-industrialismo e informacionalismo, começando com os trabalhos clássicos de Alain Touraine e Daniel Bell, situar a distinção entre pré-industrialismo, industrialismo e informacionalismo (ou pós-industrialismo) num eixo diferente daquele em que se opõemcapitalismo e estatismo (ou coletivismo, segundo Bell). Embora as sociedades possam ser caracterizadas ao longo dos dois eixos (de forma que tenhamos estatismo industrial, capitalismo industrial e assim por diante), é essencial para o entendimento da dinâmica social manter a distância analítica e a inter-relação empírica entre os modos de produção (capitalismo, estatismo) e os modos de desenvolvimento (industrialismo, informacionalismo). Segundo Kumar (2006), a informação constitui um requisito principal da nossa sobrevivência, visto que nos permite estabelecer relações necessárias entre nós mesmos e o ambiente em que vivemos. Para o autor, a grande reivindicação em favor da informação teve origem em certos progressos revolucionários obtidos na época da tecnologia do controle e da comunicação – a “tecnologia da informação”, ou TI, como veio a ser chamada. O nascimento da informação não só como conceito, mas também como ideologia, está inextricavelmente ligado ao desenvolvimento do computador durante os anos da guerra e no período imediatamente posterior, sendo que parte fundamental dessa história teve motivadores bélicos (industrial-militar-científico). Daniel Bell (1973) desenvolveu a sua teoria nos anos 70 do século XX, numa visão antecipatória das transformações sociais que só mais tarde viriam a ocorrer, resultante da expansão dos serviços e na qual a informação e o conhecimento teórico ganham importância estratégica. Analisando o desenvolvimento da sociedade americana dos anos 50, baseado na computação e comunicação e os efeitos que as tecnologias da informação iriam trazer, construiu sua teoria. Para o autor, a sociedade pós-industrial tem suas origens na sociedade industrial. Para o autor, o novo modelo de organização social é a sociedade pós-industrial, cuja característica mais marcante é a presença da informação, tanto do ponto de vista quantitativo como do ponto de vista qualitativo. 104 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO Daniel Bell foi um sociólogo estadunidense, professor de Sociologia na Universidade de Harvard, diretor da Fundação Suntory e pesquisador residente da American Academy of Arts and Sciences. Graduado em Sociologia em 1939 na City College of New York, iniciou sua carreira como jornalista, tornando-se editor de The New Leader (1941-1945), Fortune (1948-1958) e cofundador do The Public Interest Magazine (1965). Em 1960, a Universidade de Colúmbia concedeu-lhe o título de PhD. Lecionou nesta universidade durante 1959 até 1969 e depois na Universidade de Harvard. Foi um pensador muito influente durante as décadas de 1960 e 70, principalmente com obras sobre o pós-industrialismo e a tese do fim das ideologias. Sua obra até hoje representa um marco nas discussões em economia, sociologia e economia política. FONTE: Adaptado de: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Daniel_Bell>. Acesso em: 17 out. 2012. Segundo De Masi (1999), Daniel Bell formula importantes hipóteses sobre as tendências do desenvolvimento para as sociedades contemporâneas. Mesmo que o sociólogo inglês rejeite o papel de profeta, suas hipóteses são consistentes, pois assentadas em dados empíricos, como na obra The Coming of Post-Industrial Society. Para De Masi (1999, p. 149), “ele não propõe profecias, porque sustentado em dados reais, demonstrando que os caminhos da sociedade industrial apontam, desde há muito, para a importância crescente da informação e de seu papel de protagonista, tornando-se ao mesmo tempo o principal meio de produção e geração de mais-valia, como também o produto final”. Para Daniel Bell (1970), nesta sociedade o conhecimento teórico torna-se a fonte indispensável no crescimento da sociedade do futuro, na medida em que a nova base sobre a qual a sociedade está assentada é definida e rotulada por seus novos métodos de acessar, processar e distribuir informação. Essa nova situação da sociedade equivale ao que Bell pressupôs sobre uma “mudança radical de transformação revolucionária da sociedade moderna” (KUMAR, 2006, p. 15). Assim: Se o desenvolvimento da tecnologia é o motor do desenvolvimento da sociedade e se o conhecimento teórico parece fundamental também para controlar e encaminhar o desenvolvimento da própria tecnologia, o primeiro tipo de tecnologia que deve receber atenção é essencialmente intelectual. É o instrumento dos processos decisórios da sociedade pós- industrial [...], onde a nova centralidade do conhecimento intervém para influenciar a relação entre a ciência e tecnologia e os próprios procedimentos da invenção. Modifica-se assim a relação entre a teoria e empirismo (DE MASI, 1999, p.158). Na visão de Daniel Bell (1970), a sociedade pós-industrial é uma sociedade da informação, em que a economia de serviços indica o advento do pós-industrial. Assim, como observa De Masi (1999), Bell identifica as mudanças estruturais das ocupações profissionais e sociais como principal indicador dessa passagem da sociedade industrial à pós-industrial. Trata-se, portanto, da nova importância que NOTA TÓPICO 3 | AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 105 assumem os serviços no lugar dos setores secundário e primário. E para justificar sua afirmativa, sugere uma análise do setor de serviços e uma decomposição cartesiana do mesmo para perceber a importância do setor quinário, em substituição ao quaternário, fenômeno emblemático da era pós-industrial. O que o sociólogo inglês não faz, contudo, é demonstrar mais detidamente quais as relações entre o setor quinário e os processos industriais, além das alterações significativas aí existentes, e que caracterizariam a “evolução do próprio setor industrial” (DE MASI, 1999, p.163). Neste sentido, segundo Kumar (2006, p. 15-16), três correntes ideológicas caracterizam a teoria pós-industrial: • A primeira, vinculada aos processos de transformações exercidas pelas tecnologias da informação nas estruturas sociais, intitulada de sociedade da informação, baseada na tradição progressista do pensamento ocidental, onde o conhecimento e seu acúmulo são equiparados à maior eficiência e maior liberdade. • A segunda corrente é o pós-fordismo, sustentada pela teoria marxista que rejeita as relações de propriedade como elemento estrutural que explica a diversidade entre os modelos de organização social. O pós- industrialismo rompe com padrões e práticas capitalistas antigas e, para acompanhar a mudança, a teoria marxista precisa ser revista. • A terceira corrente é a sociedade pós-moderna, abarcando todas as formas de mudanças que se processam, quer sejam elas culturais, políticas e econômicas. Possui uma ambição conceitual dos fenômenos e uma base eclética em sua constituição ideológica que a torna “escorregadia e confusa”. Outro grande teórico que se debruça sobre as transformações sociais exercidas pelas tecnologias na sociedade pós-industrial é o sociólogo francês Alain Touraine. Alain Touraine é um sociólogo francês. Desenvolveu o seu trabalho de investigação no Centre National de la Recherche Scientifique. Touraine é conhecido por estudos sobre a sociologia industrial, ultrapassando as concepções tradicionais que dominavam esta área de investigação. Para Touraine, na sociedade contemporânea a questão do trabalho ultrapassa a dicotomia, o conflito empresário-trabalhadores assalariados. Suas principais obras: Sociologie de l’action, La sociologie post-industrielle e Pour la sociologie. FONTE: Adaptado de: <http://www.infopedia.pt/$alain-touraine>. Acesso em: 17 out. 2012. Segundo afirma De Masi (1999), o sociólogo francês tem importantes contribuições ao debate sobre a sociedade pós-industrial. No livro intitulado La société post-industrielle foram reunidos, revistos e atualizados, quatro ensaiosescritos entre 1959 e 1968, sobre o tema da sociedade pós-industrial. “Precedidos de NOTA 106 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO uma ampla “premissa” em que Touraine encara de frente o problema da definição da sociedade contemporânea, ele aponta os avanços em relação ao modo anterior de organização da sociedade, e anuncia o papel hegemônico das tecnologias de informação” (DE MASI, 1999, p. 165). Na visão de Alain Touraine (1969), a sociedade corresponde a um sistema de sistemas de ação ou níveis, nomeadamente: a historicidade, o institucional e organizacional. Estes três níveis apresentam uma correspondência direta com os sistemas econômicos. Assim, para Touraine (1975 p. 138 apud DE MASI, 1999, p.174-175), “nas sociedades economicamente mais avançadas o que é acumulado é a capacidade de produção, o próprio princípio do trabalho criador, ou seja, o conhecimento”. Touraine aponta para a importância fundamental da educação e da pesquisa enquanto fatores elementares para a administração dos sistemas sociais, políticos e econômicos. O modelo cultural corresponde, portanto, ao “elemento P (produção)” da organização econômica. Disso resulta que os sistemas mencionados têm formas iguais e permitem uma correspondência entre si, como é representado pelo esquema da figura a seguir. O autor francês denomina as sociedades pós-industriais de sociedades “programadas”. Segundo ele, não apenas acumulam-se bens de troca ou bens de capital, mas, sobretudo, informação, que é cada vez mais o principal meio de trabalho, e tudo isso se deve ao progresso técnico. Ele sugere que é a primeira vez que a sociedade ocidental não produz nenhuma grande meta econômica, religiosa ou política. Sabemos que temos de nos superar dialeticamente, isto é, passar da sociedade industrial para a pós-industrial. Somos orientados, definitivamente, para o movimento contínuo, o que está muito longe de nos garantir o equilíbrio. Mas queremos cada vez mais a previsibilidade compatível com a liberdade, e o que nos gera otimismo crescente são as ferramentas da informação. FIGURA 22 - CONFIGURAÇÕES DA SOCIEDADE PROGRAMADA s = elementos sociais c = elementos culturais modelo cultural produção C hierarquia distribuição S S Mobilização organização S necessidade de consumo FONTE: De Masi (1999, p. 175) A mobilização corresponde à organização do trabalho e da produção. Consiste na associação das forças para alcançar um objetivo cujos movimentos são perfeitamente ou, com mais frequência, imperfeitamente notados. É um tipo de mobilização que se opõe com nitidez à mobilização industrial, cujo princípio é pôr o trabalho à disposição do capital, ou mais ainda à mobilização pré-industrial, aquela que Weber chamou de TÓPICO 3 | AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO 107 burocracia fundamentada numa definição dos direitos/deveres e das relações hierárquicas de todos os titulares de uma função. A hierarquia é diretamente ligada à distribuição, portanto ao nível de participação alcançada na gestão do sistema. Sua imagem mais difundida é a meritocracia. Enfim, as necessidades são definidas em termos de consumo, de fruição e de gozo, e não em termos de conquista ou de manutenção de um nível ou de atributos relativos ao lugar ocupado na organização social (DE MASI, 1999, p. 175). Para Gouveia e Gaio (2004, p. 2), tendo em conta a diversidade de opiniões e teorias associadas, o conceito de sociedade da informação deve ser considerado tendo em conta diversas perspectivas: • Noam Chomsky, para quem a sociedade da informação ““…é também o fruto da globalização econômica, a fim de promover maior circulação de capital e informação nas mãos de grandes grupos empresariais, que são os arquitetos da sociedade global. Sob este prisma, a nova sociedade baseada na informação e na inovação tecnológica serve aos interesses de uma determinada classe que defende os seus ideais de liberdade de comercializar, criando, portanto, profundas desigualdades sociais. • Gianni Váttimo - a ““…sociedade pós-moderna ou transparente é plural, incentiva a participação, reconhece e dignifica as diversidades e dá voz às minorias, e os valores passariam a ser construídos a partir desta perspectiva participativa, múltipla, ou até mesmo caótica. • Para Javier Echeverria, a sociedade da informação está inserida num processo pelo qual a noção de espaço e tempo tradicional está em transformação pelo surgimento de um “espaço virtual”, transterritorial, que formará uma telecidade, numa telessociedade que se sobreporá mesmo aos Estados clássicos, criando novas formas de inter-relações humanas e sociais, ainda que por vezes ocorram conflitos neste processo de transformação. • Para Gonzalo Abril, a informação é um discurso institucionalizado, absorvendo todos os modos de conhecimento e comunicação já desenvolvidos pelo homem, alcançando um atual estágio de “regime da informação”, numa “sociedade informática”. Em síntese, a sociedade da informação consiste na forma como a informação é exposta à sociedade através das “Tecnologias de Informação e Comunicação, no sentido de lidar com a informação e que toma esta como elemento central de toda atividade humana” (CASTELLS apud GOUVEIA; GAIO, 2004, p. 2). 5 CONCLUSÃO Pois bem, acadêmico(a). O que podemos rapidamente depreender do acima exposto? É de que, antes de termos de encarar o cenário contemporâneo como um grande desafio ou uma “jaula de ferro”, nos dizeres de Weber quando se referia à burocracia, estamos diante de um mundo de oportunidades. E mesmo essas oportunidades, de maneira geral, ou são o conjunto de informações ou tecnologias de informação cada vez mais à nossa disposição, ou são os meios que nos conduzirão às grandes oportunidades, as mesmas que poderão nos levar à 108 UNIDADE 2 | DEMARCAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: APORTE HISTÓRICO materialização de muitos dos nossos desejos e muito além do alcance material e imaginário de nossos antepassados. Podemos ficar parados, podemos esperar sentados ou até mesmo dispensar tudo o que se nos oferece através da instrução, do conhecimento, da informação e da educação. Temos esse direito legal. É uma conquista histórica. Outra conquista histórica é essa sociedade da informação. Está cheia de oportunidades, se quisermos. De modo geral, no curto, médio e longo prazos, nos bastarão os recursos informacionais. É pegar ou largar. 109 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico você viu que: ● O termo sociedade da informação é utilizado comumente para se referir a uma nova forma de organização social, econômica e cultural, que tem em vista a centralidade da informação e comunicação no processo de organização social, ou seja, uma sociedade que faz o melhor uso das Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC. ● Na visão de Daniel Bell (1970), a sociedade pós-industrial é uma sociedade da informação, em que a economia de serviços indica o advento do pós-industrial. ● Nesta sociedade o conhecimento teórico torna-se a fonte indispensável no crescimento da sociedade do futuro, na medida em que a nova base sobre a qual a sociedade está assentada é definida e rotulada por seus novos métodos de acessar, processar e distribuir informação. ● Três correntes ideológicas caracterizam a teoria pós-industrial: a primeira, vinculada aos processos de transformações exercidas pelas tecnologias da informação nas estruturas sociais; a segunda corrente é o pós-fordismo, sustentada pela teoria marxista que rejeita as relações de propriedade; a terceira corrente é a sociedade pós-moderna, abarcando todas as formas de mudanças que se processam, quer sejam elas culturais, políticas e econômicas. ● Em face de diversidadede opiniões e teorias associadas, o conceito de sociedade da informação deve ser considerado tendo em conta diversas perspectivas. ● A informação e o conhecimento desempenharam um papel importante no surgimento da nova sociedade, baseada na informação e no conhecimento. ● As novas tecnologias da informação e comunicação têm um impacto direto na vida social dos indivíduos. ● Os novos dispositivos de informação constituem verdadeiras fontes de poder nas sociedades, e são alterados de acordo com o caráter estratégico da produtividade da economia e na eficácia das instituições sociais. ● O termo tecnologia provém do verbo grego tictein, que significa criar, produzir, significando, portanto, o conhecimento prático que almeja alcançar um determinado fim concreto. ● O que caracteriza a renovação tecnológica não é a centralidade do conhecimento e nem da informação. 110 ● Tecnologia não pode ser confundida com a ciência, na medida em que ela consiste de conhecimentos práticos sobre como usar recursos materiais, ao passo que a Ciência consiste de conhecimento abstrato e teorias sobre como o processo do conhecimento se constrói. ● A expressão Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC refere-se ao conjunto de recursos tecnológicos capazes de produzir e disseminar informações, ou seja, ferramentas que permitem arquivar e manipular informações em forma de textos, imagens e sons, permitindo desta forma que nos comuniquemos uns com os outros. ● Cinco elementos caracterizam o novo paradigma das tecnologias da informação e comunicação. 111 Para complementar o estudo desta unidade, caro(a) acadêmico(a), faça uma redação sobre o tema ‘tempo livre’, a partir da bibliografia de Domenico De Masi. AUTOATIVIDADE 112 113 UNIDADE 3 A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta unidade tem por objetivos: • compreender a importância dos avanços tecnológicos no campo das comu- nicações no novo cenário na sociedade contemporânea; • entender a importância histórica do momento atual marcado fortemente pelas transformações das tecnologias da informação; • analisar os aspectos relativos ao ambiente informacional na sociedade brasi- leira e a importância do conhecimento, sobretudo contemporaneamente e as oportunidades que brasileiros têm com a informação e com o conhecimento. Esta unidade está dividida em três tópicos. Ao final de cada um deles, você encontrará atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados. TÓPICO 1 – SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA TÓPICO 2 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL TÓPICO 3 – A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO 114 115 TÓPICO 1 SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a)! Nesta última unidade, faremos uma digressão acerca das informações sociais motivadas pelos avanços tecnológicos no campo das comunicações que vêm desenhando um novo cenário na sociedade contemporânea, reorganizando as noções de tempo e espaço dos agentes produtivos que se utilizam progressivamente dos recursos telemáticos e dissimulando a clássica divisão socioeconômica através da distinção entre “plugados” e “desconectados”, que se verifica crescentemente entre indivíduos, grupos sociais e economias num contexto internacional em amplo e aparentemente irreversível processo de globalização por meio de redes de comunicação virtual. Nessa direção, a Unidade 3 tem o objetivo geral de demonstrar a importância histórica do momento vivido atualmente – marcado pelas transformações das tecnologias da informação – procurando alertar para os grandes efeitos sociais desse processo, sobretudo, na importantíssima alteração das noções de tempo e espaço – significando mudanças nas estruturas mentais dos seres humanos – e a necessidade de compreender este momento como uma oportunidade histórica, para sociedades e indivíduos. Na sequência, abordaremos aspectos relativos ao ambiente informacional na sociedade brasileira. E por último, faremos uma digressão sobre a importância do conhecimento, sobretudo contemporaneamente e as oportunidades que nós brasileiros, podemos aproveitar. 2 O PARADIGMA As transformações sociais motivadas pelos avanços tecnológicos no campo da comunicação desenharam um novo cenário social no mundo. Reorganizam as noções de tempo e espaço dos agentes produtivos que se utilizam progressivamente dos recursos telemáticos e dissimulam a clássica divisão socioeconômica através da distinção entre “plugados” e “desconectados”. Não é difícil verificar essa UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 116 nova diferença social, crescente entre indivíduos, grupos sociais e as economias nacionais em um contexto internacional em amplo e aparentemente irreversível processo de globalização por meio de redes de comunicação virtual. Nos entroncamentos dessas redes estão grandes espaços urbanos, polos de controle e irradiação de tecnologia informacional, determinando os “rearranjos” econômicos, políticos e culturais do planeta e em cada país. Nesse enredo, encontram-se novas formas de exclusão marcadas por graus de irrelevância de indivíduos e sua utilidade social, que podem também ser percebidas através da configuração geográfica marcada pela existência, em cada país, de cidades de intensa circulação de informações e outras que perdem em relevância econômica e cultural por viverem um tempo “real” aparentemente diferente. As interferências que tais alterações promovem em outras esferas da vida não são desprezíveis, tratando mesmo de se admitir que passamos por um período intermediário de significativas alterações tecnológicas responsáveis por reordenamentos de ordem social amplos a ponto de estabelecer os parâmetros de um novo modelo de organização social. Neste sentido, países, regiões, cidades, grupos sociais e indivíduos são confrontados com renovadas formas de exclusão. Elas nem sempre são bem percebidas, mas demandam perspicácia e habilidade para notá-las, seja para o entendimento acerca do sentido e das tendências do modelo que se insinua de maneira impositiva, seja para a composição de um ambiente socialmente favorável onde as pessoas saibam se ajustar a essas mudanças. Em sua obra seminal já conhecida, o sociólogo espanhol Manuel Castells (2001) analisa a reorganização da economia mundial, destacando que os fluxos de tecnologia informacional, condição primeira para o desenvolvimento, passarão por entroncamentos urbanos importantes e estratégicos. Trata-se das “megacidades” aglutinadoras de todas as possibilidades criativas, definidoras dos rumos e do ritmo da nova “sociedade informacional”. Se o autor aponta a organização da economia em torno das três regiões principais, Europa, América do Norte e do Pacífico Asiático, não é menor a sua ênfase na importância nuclear que adquirem grandes metrópoles nesta recomposição da ordem econômica global. E tais cidades não estariam localizadas apenas nestas três regiões, possibilitando a grandes cidades em países periféricos o status de desenvolvidas. Esta característica estaria remarcando a reorganização da divisão internacional do trabalho, cuja ponta seria ocupada por cidades com grande parte de sua produção voltada ao trabalho informacional de alto valor agregado, diferente da configuração tradicional, cujas posições são ocupadas por economias nacionais. Isto levaria as cidades, conectadas às principais redes informacionais, a fazerem parte de uma espécie de clube internacional dos desenvolvidos ou, nas palavras de um comissário europeu do Habitat II, de “um arquipélago de ricas cidades-regiões de alta tecnologia no mar da humanidade empobrecida”. (GRAHAM, 1996, p. 34). TÓPICO 1 | SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA 117FIGURA 23 – DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO FONTE: Disponível em: <http://www.fotolog.com/ geografo/18643377/>. Acesso em: 30 out. 2012. A divisão internacional do trabalho é definida pelos papéis das nações e dos blocos geográficos ocupados na economia internacional, definidos estes papéis a partir do que produzem, oferecem e consomem. Agora, esses papéis seriam ocupados também e cada vez mais por cidades estratégicas. Não é diferente a previsão de Castells (2001), que se refere a regiões prósperas e ricas em informações e às áreas econômicas pobres e irrelevantes do ponto de vista da circulação econômica mundial, portanto excluídas porque são desinteressantes. É nessa rota interpretativa da exclusão que seu colega, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (1992, p. 3) já afirmava: As teorias sociológicas sempre estiveram baseadas na exploração do homem pelo homem, de um país por outro. Agora tem uma tragédia maior: têm os que não servem nem para ser explorados. E dentro de cada um de nossos países tem massas humanas que não servem mais de base para a riqueza. Esta dimensão da exclusão social se configura atualmente de modo mais drástico e não se trata de uma previsão, mas de um diagnóstico. E a causa maior deste fenômeno está relacionada ao uso do conhecimento, de maneira mais abrangente, e à disponibilidade de recursos informacionais na estrutura organizacional das sociedades. Em outras palavras, ainda em referência a Castells (2001), é o grau de conexão de cada sociedade às redes informacionais mundiais que indicará seu nível de desenvolvimento, como será tal condição que tornará mais ou menos dinâmica, mais ou menos interessante a vida das pessoas e maiores ou menores as oportunidades. NOTA UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 118 Vão na mesma direção as preocupações do sociólogo inglês, Richard Sennet (2008), ao falar do problema relacionado ao sentimento de utilidade ou inutilidade dos indivíduos na sociedade contemporânea. E, de modo geral, essa condição está relacionada ao acesso e uso dos recursos informacionais e de nossa capacidade de nos inserirmos e fazermos parte de redes de comunicação. A esse respeito, observa Sennet (2008, p. 77), que “de maneira geral, quanto mais baixo estivermos na escala da organização e mais rala for nossa rede, mais precisaremos do pensamento estratégico para sobreviver, e o pensamento estratégico exige um mapa social legível”. Por sua vez, esse mapa legível exige informação e domínio dos recursos informacionais contemporâneos. Porém, é necessário tentar colocar o problema de modo a perceber nele não apenas os seus aspectos indesejados, mas também aqueles que, no interior da mesma lógica estrutural, funcionariam como antídotos dos primeiros. Isto é, precisamos de qualquer modo prever e avaliar os impactos e os rumos de uma sociedade progressiva e rapidamente invadida pela ação tecnológica no campo da informação. Assim, se ela exclui, todavia não há propriamente uma imposição das circunstâncias sociais a isso. Há, sim, tipos de reação de indivíduos e de culturas em relação a essa tendência informacional. Trata-se, numa linguagem simples, de pegar o bonde ou não. Outra tentativa interpretativa bastante conhecida sobre os rumos da sociedade pós-industrial é a de Daniel Bell (1973), já mencionada na unidade anterior deste caderno. Ele acredita que os benefícios resultantes dos benefícios dos avanços tecnológicos deverão compensar os males inevitáveis a serem verificados, sobretudo nas formas de significativa reestruturação social, seja na economia, na política, e na cultura. Na sua tentativa de previsão social, Bell (1973) aponta para o crescimento de algumas atividades profissionais, destacando as áreas de saúde, pesquisa científica e planejamento político, todas privilegiadas por se tratarem de atividades vitais para a sociedade pós-industrial, configurando categorias profissionais com status de “intelligentsia”. Seu otimismo maior fica por conta da precedência do conhecimento teórico sobre qualquer outro fator de desenvolvimento e planejamento da organização social. Nestas condições, Bell (1973) parece acreditar na realização da utopia científica do século XIX, tão conhecida no surgimento da própria sociologia de possibilitar a edificação de uma sociedade racionalmente mais organizada e previsível. A aproximação definitiva entre o conhecimento científico e a tecnologia deveria, assim, proporcionar uma economia muito mais planejada previamente pelas empresas, em função da alta competitividade, exigindo funções e serviços de alta qualificação. De maneira geral, isso acontece com as organizações capitalistas desde o século XIX, a partir do que a burocratização das empresas tornou suas atuações e posições no mercado mais previsíveis. Através da crescente racionalização das informações, isso permitiu a organização progressiva e a sobrevivência do sistema capitalista. As empresas atuais necessitariam, portanto, de um planejamento estratégico muito maior agora, em função da ênfase no aspecto informacional da produção como fator de geração de lucro, muito maior do que na exploração TÓPICO 1 | SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA 119 tradicional da força de trabalho. Deste modo, no entendimento de Bell (1973), pela dependência de um conhecimento teórico anterior ao processo produtivo, organizações produtoras de informação como as universidades e outros centros de pesquisa e elaboração analítica terão cada vez mais importância, indicando a primazia do conhecimento no mundo do trabalho. Assim, para as sociedades e organizações que querem sobreviver, o lema é “pesquisar, pesquisar e pesquisar sempre”. Foi isso que permitiu o desenvolvimento tecnológico e o protagonismo de certas sociedades e organizações, para não falar dos indivíduos. A consequência deste avanço tecnológico para a tomada de decisões no campo da economia e da política resultaria no que o autor chama de “tecnologia intelectual”, campo da produção de informações estratégicas que promoveria uma razoável “inclusão seletiva”, no dizer de Castells (2001). É do interior deste processo gerador de campos de trabalho especializado que as decisões importantes da sociedade seriam geradas, permitindo, através do amplo uso, variáveis somente controláveis pela tecnologia informacional, a tomada de decisões “ótimas” que maximizem ganhos e minimizem custos. A que nos levam estas previsões sociológicas? Naturalmente se poderá objetivar quanto aos fins indesejáveis aos quais nos levarão tais mudanças e não são poucas as advertências nesta direção, refletidas em preocupações no mundo do trabalho e o enclausuramento dos “plugados”, formando redes comunitárias virtuais protegidas e afastadas dos espaços públicos urbanos degenerados e tomados pelas ameaças de violência. Se tais mudanças são questionáveis, parecem, contudo, fadadas a prosseguir por uma força histórica aparentemente irresistível, tal qual o próprio advento do capitalismo que, no seu processo histórico de desenvolvimento foi razoavelmente impulsionado pelo desenvolvimento de uma predisposição cultural ao seu modo de produção, como sugeriu Weber (1985) na “Ética protestante e o espírito do capitalismo”, tese que resiste, sob algumas críticas, ao nosso tempo. É novamente em Castells (1999) que encontramos uma interpretação contemporânea, quando ele denomina “espírito do informacionalismo” as mudanças de caráter cultural e institucional que vêm modificando o comportamento dos indivíduos nos campos econômico, político e cultural, o que resultaria na elaboração de um “novo paradigma de organização econômica na história”. (CASTELLS, 1999, p. 213). Vale a pena considerar o paralelo que Castells (1999) estabelece com a leitura de Max Weber. Trata-se de sugerir que essas mudanças de atitude culturalseriam o elemento de interferência no modo de produção capitalista. Segundo o sociólogo espanhol, esse modo de produção está longe de desaparecer, mas sofre mudanças no seu processo, isto é, uma relativa mudança quanto à fonte principal do lucro, que deixa de estar na exploração intensiva e extensiva da mão de obra, passando a residir na capacidade de criação, obtenção e uso de tecnologia de informação. Em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, Weber (1985) procurou demonstrar o quanto um comportamento ético de tipo religioso interferiu no UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 120 desempenho econômico dos indivíduos, permitindo a vinculação de suas crenças religiosas, reinterpretadas pelas diversas seitas protestantes, ao modo de produção capitalista. A ideia de acumulação capitalista do trabalho, que parecia absurda aos olhos do catolicismo tradicional, passava a ser não apenas tolerada, mas estimulada em função da representação divina que adquiria o esforço humano através do trabalho. O resultado disto para o capitalismo nos países europeus de maioria protestante foi evidenciado pelo autor, através de estatísticas, demonstrando desde as diferenças entre as ocupações profissionais de protestantes e católicos, até os índices positivos de desenvolvimento econômico atingidos por estes países. Este indivíduo histórico, reunindo aspectos comportamentais produzidos coletivamente, teria, portanto, ajudado a estabelecer um “novo paradigma organizacional”, ou ainda “desenvolvimentista”. (CASTELLS, 1999, p. 214). Portanto, no desenvolvimento do capitalismo, considerando as devidas proporções, um condicionante ético parece ter tido importante papel histórico na aceleração do processo. Está claro que com o decorrer dos tempos as estruturas de modo de produção na sociedade industrial e os fatores de perpetuação, leiam-se os artifícios de estímulo ao consumo, vão estabelecendo um distanciamento e uma consequente independência de qualquer justificação ética inicial, necessária a uma conduta adaptável ao sistema. Aliás, é apropriado não negligenciar toda a capacidade da infraestrutura de um modelo econômico no condicionamento comportamental dos indivíduos. Isso é admitido por Castells (1999, p. 216-217), “mesmo quando se apoia na perspectiva culturalista histórica de Weber para tentar entender o “espírito” de nossa época”. Dessa maneira, mesmo que o mundo material, capitalista, com suas necessidades e suas regras, influencie e oriente o comportamento dos indivíduos, também é possível admitir que os indivíduos, criando coletivamente um novo modo de ver as coisas e de se comunicarem, também interfiram no modo de produção. Prossigamos, portanto, nas pistas deixadas por Weber, e que servem de caminho para que Castells (1999) tente elucidar o conjunto de acontecimentos da sociedade que o autor chama de informacional. Como fator estrutural condicionante das mudanças por que passa a sociedade global, Castells (1999) aponta as redes de empresas. Chamamos de estruturais as mudanças provenientes de base econômica. NOTA TÓPICO 1 | SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA 121 Esta relação horizontal entre as empresas, que deve muito ao modelo de produção do Leste asiático, impulsionadas pela concorrência global e viabilizadas pelo conjunto de aparatos tecnológicos redefinidores das noções de tempo e espaço, seria assim o fator de estabelecimento do “novo paradigma organizacional” ou “desenvolvimentista”. Contudo, segundo o sociólogo espanhol, ainda faltaria estabelecer analiticamente um elo cultural entre as redes de informação e o modelo de organização para entender a sua força histórica. FIGURA 24 – AS PRÁTICAS DE CONSUMO DA SOCIEDADE ATUAL E A RELAÇÃO NEGATIVA COM O MEIO AMBIENTE FONTE: Disponível em: <http://metamorfosecoletiva.blogspot.com. br/2011/01/as-praticas-de-consumo-da-sociedade.html>. Acesso em: 30 out. 2012. No caso do impulso capitalista, foi, em boa conta, um elemento de justificação ética. Em outras palavras, a ética protestante, com inúmeras variações, apareceu como um elemento ideológico perfeitamente encaixado às necessidades do modo de produção capitalista. E talvez fosse dispensável dizer que o impulso de acumulação, inerente a essa ética, com desdobramentos no consumo, continua a ser o motor do modo de produção capitalista. Porém, Castells (1999) afirma que a organização em rede tem uma dimensão cultural que lhe é peculiar, como seria necessário na constituição de cada paradigma, já que ele não vê a possibilidade de que a economia funcione autonomamente em relação à sociedade, isto é, sem uma justificativa de ordem ética. No caso da sociedade em rede, não seria propriamente um conjunto de valores homogêneos, o que não confere com o caráter multifacetário desta sociedade. Ao contrário, se trataria de um “código cultural comum” transitando pelas infovias, composto por uma multiplicidade de valores, informações, ideias e estratégias de decisão, mudando todo momento e dando lugar a novos elementos, UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 122 num processo caracterizado pela alta velocidade de intensas trocas e substituições, deslocamentos e inovações e, por isso mesmo, identificado com uma “cultura do efêmero”. (CASTELLS, 1999, p. 217). Esta intensa troca entre empresas e indivíduos em rede, cujos resultados e ferramentas transbordam diariamente sobre suas frágeis trincheiras para se dispersarem num espaço cibernético cada vez mais visitado, passa a ser a nova fonte de energia criativa. Mais que isso, introduz progressiva e tenuemente um modo de comportamento, amplifica noções de estética e cria novas identidades – como a do cidadão virtual, a do navegador ciberespacial. Cria também novas profissões, supera as restrições de tempo porque elimina as barreiras espaciais, valendo a recíproca – como observa Stephen Graham (1996); promove contatos culturais, ainda que virtuais, com intensidade e em número de pessoas muito maior, ampliando as referências para a elaboração de ideias, para a definição de comportamentos, além de gerar novos comportamentos sociais e novas subculturas. Esse novo universo on-line em rede é responsável, através de redes de computadores, de cabos e comunicações via rádio, pela redefinição de categorizações tradicionais e de estruturas de pensamento. Provoca a reelaboração arquitetônica da organização física do poder, eliminando paredes e limites transpostos por um sistema virtual de conexões, reconfigurando o mundo do trabalho nas fábricas e escritórios. Seria provavelmente interminável uma discussão sobre a procedência de um aspecto político, econômico ou de outra ordem social específica, a causa inicial a ter impulsionado tal “revolução” da tecnologia informacional. Poderíamos, para tanto, recorrer mais uma vez a uma afirmação de Manuel Castells (1999, p. 69), segundo o qual “O surgimento da sociedade em rede” [...] não pode ser entendido sem a interação entre estas duas tendências relativamente autônomas: o desenvolvimento de novas tecnologias da informação e a tentativa da antiga sociedade de reaparelhar-se com o uso do poder para servir a tecnologia do poder. “De forma ainda genérica, o autor também concorda que lucratividade e competitividade seriam historicamente os verdadeiros determinantes da inovação tecnológica e do crescimento da produtividade, complementando, contudo, que o impulso inicial da atual inovação tecnológica teria se dado a partir da necessidade de expansão do mercado”. (CASTELLS, 1999, p. 101). De todo modo, isto nos distanciaria da discussão sobre um aspecto que nos parece mais útil de abordagem. A existência de um fenômeno relativamente independente em meio a este processo nos [re]conduz, portanto, ao elo entre a teia costurada pelas redes virtuaisde informação, ramificada por milhões de computadores e outras ferramentas de comunicação, e um novo modelo de organização da sociedade, atingindo crescentemente a vida humana em todas as suas esferas e com resultados tão imprevisíveis agora quanto no início deste processo. É justamente a manifestação de um novo modelo de organização que interessa aqui compreendermos, tanto quanto avaliarmos, ainda que superficialmente, a sua dimensão. TÓPICO 1 | SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA 123 Quanto ao elo cultural entre a organização em rede e seus efeitos, parece podermos admitir a sua necessidade, ao menos na sociedade moderna. Isto é, precisamos de um elo cultural entre o modo de organização informacional e os comportamentos dos indivíduos. Não importa se sua origem estaria no interior da organização econômica dos países mais competitivos – o que parece ser o caso –, para depois se refletir em alguma dimensão superestrutural, ou se o seu surgimento apenas coincidiria de forma adaptativa e utilitária com o modo de produção, como foi o caso da ética protestante. A existência desse elo cultural, que Castells (1999) chama de “espírito do informacionalismo”, foi de todo modo viabilizado pelo ambiente mundial de redes telemáticas. E ali tem residido por enquanto, o que não inviabiliza que alguém se pronuncie em favor da inesgotável inteligência humana, que apenas aguardava as conexões em nível tão abrangente para a troca de ideias que pudesse mais uma vez na história modificar as estruturas intelectuais, como ocorreu desde a primeira forma de sistematização coletiva do pensamento humano através de religião, e depois com o desenvolvimento da filosofia a partir da cultura greco-romana; e mais tarde com o renascimento e todas as consequências da modernidade, entre elas o desenvolvimento das ciências, o surgimento dos Estados-nações e o modo de produção industrial, provocando interferências que ultrapassam em muito os seus âmbitos específicos. Todos esses momentos históricos de transformações suscitaram mudanças de comportamento e maneiras de interpretar e organizar a vida em grande parte, mesmo, imprevisíveis. Aliás, quanto à imprevisibilidade, estão de acordo Castells (1999) e Giddens (1991), para os quais o conhecimento sempre promove resultados inesperados e mesmo não pretendidos, definindo o futuro como um quadro aberto dentro do qual até certo ponto a sociedade não tem o poder de determinação e controle. É deste modo que podemos entender as consequências do encontro entre a ascese protestante e o modo de produção capitalista, que teria resultado no espírito capitalista observado por Weber. E ainda, com referência a outro clássico da sociologia, quando mudanças de alguma ordem se difundem entre os indivíduos, tendem a formar uma intersubjetividade, estabelecendo as condições objetivas para a formação de uma “consciência coletiva” independente, um “ser psíquico de vida própria”, como demonstrou Durkheim. Ler a esse respeito, sobre o conceito de fato social, nas obras de Durkheim. NOTA UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 124 É desse ser psíquico de vida própria a que se refere Castells (1999, p. 217), quando afirma: [...] sem dúvida, há um código cultural comum nos diversos mecanismos da empresa em rede [...] composto de muitas culturas, valores e projetos que passam pelas mentes e informa as estratégias dos vários participantes da rede, mudando no mesmo ritmo que os membros da rede e seguindo a transformação organizacional e cultural das unidades da rede. É de fato uma cultura do efêmero, uma cultura de cada decisão estratégica, uma colcha de retalhos de experiências e interesses, em vez de uma carta de direitos e obrigações. É uma cultura virtual multifacetada, como nas experiências visuais criadas por computadores no espaço cibernético ao reorganizar a realidade. Não é fantasia, é uma força concreta que informa e põe em prática poderosas decisões econômicas a todo o momento no ambiente das redes. [...] O ‘espírito do informalismo’ é a ‘cultura da destruição criativa’, acelerada pela velocidade dos circuitos optoeletrônicos que processam seus sinais. Deste modo, observada talvez a sua distinção mais significativa em relação a outros modelos totalizantes de organização oriundos de transformações históricas, qual seja, o seu caráter “efêmero”, o “espírito do informacionalismo” é uma espécie de consciência ou inconsciência coletiva destinada a interferir na organização cotidiana da vida dos homens, tantos quanto forem alcançados por ela. Não se trataria de uma consciência coletiva à maneira tradicional, institucionalizada, mas se evidenciaria como um “fato social”, objetivamente capaz de interferir nas elaborações intelectuais e nas maneiras de reconstruir a realidade social, na mesma maneira que, influenciados por um conjunto de dados estatísticos, indivíduos decidem com frequência acerca de suas vidas, conformando a sociedade de acordo com as consequências do conhecimento produzido por ela. Fato social é um conceito do sociólogo francês Emilie Durkheim, relacionado às grandes ideias e formas de pensamento que orientam as ações dos indivíduos em sociedade, tais quais os valores, as normas, a religião, as leis, a educação, enfim, conhecimento que exerce coerção sobre o nosso pensamento, nossas escolhas e nossas ações. Todo um conjunto de instituições sociais, como diria Giddens (1991, p. 49), “impregnados pelo pensamento sociológico [...], não seriam o que são hoje não fossem inteiramente ‘sociologizados’ e ‘psicologizados’” pelos homens. NOTA TÓPICO 1 | SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA 125 Referindo-se ainda à reflexividade do conhecimento quando aplicado à sociedade, o autor demonstra como as várias formas de conhecimento científico, neste caso a sociologia, interferem nas decisões dos homens a respeito de assuntos como o casamento. Tal capacidade de influência poderíamos muito bem estender às tecnologias da comunicação. Da mesma maneira poderíamos perceber o surgimento de um novo campo específico de influência às ações humanas, comprovável de certo modo ao poder dos meios de comunicação de massa. No entanto, não estamos diante de um veículo de reprodução do imaginário social baseado num modelo complexo de organização social, e sim do próprio modelo, ainda em elaboração. E este modelo, até que se consolide, dependerá deste elo psicocoletivo que seria o “espírito do informacionalismo”, isto é, uma mentalidade que transita diariamente pelos fluxos da infovia global através de programas, diálogos, imagens e técnicas, desgarrando-se depois, paulatinamente, de suas origens cibernéticas, uma vez fecundadas nas mentes humanas. FIGURA 25 – O PODER DA SOCIEDADE EM REDE NA ÁREA CORPORATIVA FONTE: Disponível em: <http://blog.agconexa.com/2011/08/o-poder-da- sociedade-em-rede-na-area-corporativa/>. Acesso em: 30 out. 2012. Não teria sido diferente o que aconteceu com a ética do trabalho observada por Weber (1985). Como ele mesmo admite essa ética “fugiu da gaiola” quando o capitalismo solidificado conseguiu determinar mecanicamente o comportamento dos indivíduos, sem a necessidade de qualquer justificativa ética ou elo cultural que conduzisse pacificamente os indivíduos, convencendo-os a aceitar voluntariamente uma ação cujo resultado contém uma lógica utilitarista, vinculada NOTA UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 126 a um determinado sistema. Todavia, lembra o mesmo Weber (1985), como que a pronunciar mudanças que requeiram um novo espírito, “ninguém sabe quem habitará essa gaiola no futuro [...].” (CASTELLS, 1999, p. 217). Inegável, de toda maneira, é o fato de que tal alteração de modelo organizacional na sociedade somente o é – e poderemos verificar seus efeitos – na medidaem que realmente invade todas as esferas da vida humana, como que totalitariamente. Isso acontece de modo a que valores, instituições, noções estética e de moral, entre outros níveis de referência à conduta humana, sofram os impactos desse “novo espírito”. Castells (1999, p. 50) propõe que não se subestime a importância da revolução informacional no campo da organização social, o que poderia ser prejudicado pelo “exagero profético” e a “manipulação ideológica” manifesta em boa parte do que tem sido dito a respeito desse fenômeno, e compara o significado de tais mudanças aos efeitos incomensuráveis da Revolução Industrial. A esse respeito ainda serão necessárias avaliações futuras, quando o nível atual de tecnologia informacional e suas ferramentas estiverem ao alcance de um número maior de pessoas. Naturalmente seria tarefa por demais complexa, senão absurda, quantificar o volume de interferência da organização científica do trabalho sobre as instituições cotidianas do homem na sociedade industrial do século XX. Contudo, tal influência é evidente, não somente no mundo da produção e do trabalho, mas, em várias esferas da vida humana, seja na organização do tempo, seja na arquitetura, na formação educacional e no planejamento urbano, entre outras. A influência das ideias de um Frederic Taylor, e não menos de Ford na sociedade industrial deste século, foi certamente muito significativa, merecendo um sem número de interpretações e análises acerca do impacto do taylorismo e do fordismo não apenas na esfera produtiva, mas em várias outras, como as citadas acima, nas vidas dos povos. (DE MASI, 1999, p. 38-48). 3 ALTA MODERNIDADE Falando a respeito das “consequências da modernidade”, Anthony Giddens (1991, p. 14) destaca os efeitos produzidos na vida humana a partir do desvinculamento das formas tradicionais de ordem social, indicando-os em dois planos, quais sejam, “o extensional: através do qual se criam as condições de interconexão social que abrangem o Globo; e o intencional: alternando algumas das características mais íntimas e pessoais do cotidiano das pessoas”. O autor recusa termos como “pós-modernismo” ou “sociedade pós-industrial”, este aplicado por Daniel Bell (1973), por entender que os princípios da tecnologia informacional estão contidos no advento da modernidade, preferindo usar o termo “alta modernidade”. Segundo Giddens (1991), dois dos principais fundamentos da modernidade estão longe de desaparecer: o primeiro é o Estado-nação, detentor do controle sobre a territorialidade e do monopólio do uso da violência. TÓPICO 1 | SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA 127 Esta observação parece ir propositadamente de encontro às teses sobre o fim dos Estados-nações e a supremacia do poder dos grandes grupos econômicos sobre os governos. Casttels (1999), por exemplo, afirma que não haveria mercados globalizados sem o fim dos Estados-nações. O segundo é o modo de produção sistemático do capitalismo dentro do qual o que estamos denominando revolução da tecnologia informacional seria apenas um estágio avançado. Estes dois fundamentos da sociedade moderna continuariam modelando as instituições e a vida das pessoas, o que não o impede de reconhecer um “controle racionalizado da informação” sobre as instituições. Contudo, sugere ao autor, este é inerente ao industrialismo. Apesar da controvérsia, as reflexões de Giddens (1991) reforçam a demonstração – e é o que nos interessa aqui – sobre os efeitos multidimensionais de certo modelo organizacional sobre o cotidiano dos homens. Segundo ele, “as organizações modernas são capazes de conectar o local e o global de forma que seriam impensáveis em sociedades mais tradicionais [...] afetando rotineiramente a vida de milhões de pessoas”. (GIDDENS, 1991, p. 29). “A instituição do dinheiro, por exemplo, teria alterado significativamente as noções de tempo, promovendo a conexão instantânea entre compradores e vendedores e agilizando os negócios numa velocidade e encurtamento de distâncias de maneira inimagináveis em circunstâncias de escambo”. (GIDDENS, 1991, p. 32). Se a influência destas instituições sociais modernas parece indiscutível, então poderemos reservar à tecnologia informacional o seu lugar histórico nos destinos da humanidade. Em seu ensaio sobre “As Consequências da Modernidade”, Giddens (1991) aponta quatro aspectos, os quais denomina “conjunto de fatores”, que servem para compreender os desdobramentos da aplicação do conhecimento reflexivo à atividade social, servindo como um “filtro”. Destes quatro, interessam-nos os três primeiros, pela especificidade do que estamos tratando aqui. O primeiro é o poder diferencial, segundo o qual alguns indivíduos ou grupos estariam mais aptos à apropriação do conhecimento especializado do que outros; o segundo é o papel dos valores, que se interligam por meio de redes de influências mútuas; e o terceiro é o impacto das consequências não pretendidas, onde o conhecimento produzido ultrapassa as dimensões sociais do inicialmente proposto. (GIDDENS, 1991, p. 59-60). NOTA UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 128 3.1 CONSEQUÊNCIAS NÃO PREVISTAS Começando pelo último aspecto, parece aceitável afirmar que os impactos de grandes alterações históricas sempre estiveram além dos objetivos iniciais pretendidos pelos seus impulsionadores. Ora foram objetivos econômicos, ora políticos, ora religiosos ou de outra origem. É o que podemos lentamente perceber em relação aos impactos de revolução informacional. Quais são os objetivos inerentes a qualquer inovação tecnológica? Aumento da produtividade tem sido uma das respostas apontadas. Contudo, nem produtividade, nem inovação tecnológica são fins em si mesmos. Tampouco representam propósitos altruístas de melhorar as condições da humanidade. Como já vimos anteriormente, toda inovação sociológica é motivada inicialmente pelo desejo do lucro das empresas e, numa perspectiva mais ampla, foi a luta destas ampliações de espaços no mercado internacional que resultou no estabelecimento de redes informacionais de empresa. Daí, as consequências de que dão perspectivas às inovações da tecnologia informacional hoje, no seu âmbito social, não terem sido nem pretendidas nem inteiramente previstas. 3.2 OS VALORES O segundo aspecto, qual seja, o papel dos valores, remete ao desdobramento das inovações, sendo parte do seu próprio impacto. Como já se disse anteriormente, a crescente utilização das redes informacionais tem permitido a absorção e o processamento de dados numa capacidade surpreendente. Dentro desse processo, há uma multiplicidade de símbolos verbais e visuais, conceitos e terminologias sendo transmitida e processada, interferindo crescentemente no imaginário coletivo e mediando as relações dos indivíduos. O resultado disto no campo da economia, como da biologia, da cultura e da política tem deliberado uma significativa expectativa quanto ao uso do conhecimento. A “penetrabilidade” em várias esferas da atividade humana, até às mais domésticas, é característica das grandes inovações tecnológicas, como observa Castells (1999), não sendo outra a situação proporcionada pela “revolução tecnológica informacional”. Trata-se, como observou Giddens (1991, p. 176), “de um processo simultâneo de transformação da subjetividade e da organização social global”. 3.3 O PODER DIFERENCIAL Porém, o aspecto da classificação que deixamos por último é o que nos interessa de forma mais conclusiva. Trata-se do que Giddens (1991) chama de poder diferencial. Alguns indivíduos ou grupos sociais estariam mais aptos a se apropriar de conhecimento especializado do que outros. Em sua abordagem a respeito da Modernidade, o autor assinala aspectos como a racionalização do tempo e a desvinculação de dogmas tradicionais [pré-modernos],entre outros fatores derivantes como elementos da supremacia cultural ocidental sobre outras culturas durante os últimos cinco séculos. A determinação sobre o ritmo de mudanças seria TÓPICO 1 | SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA 129 aí um aspecto distintivo. Sem entrar no detalhamento da explicação do autor, mas antes sugerindo um elo interpretativo entre vários autores, pode-se afirmar que uma propensão à adaptação, proporcionada em certos ambientes culturais, tem diferenciado as sociedades tecnologicamente. A capacidade de “gerenciamento da tecnologia”, mais do que o simples acesso, é apontada por Castells (1999) como distintivo no desenvolvimento das nações, por que ainda que a tecnologia esteja disponível é preciso estar apto a utilizá-la e de forma eficiente. Isto teria causado tal defasagem. Citando um levantamento de Paul David, Castells (1999) observa que as maiores taxas de crescimento econômico não coincidem com as revoluções tecnológicas. Levar- se-ia algum tempo para que as instituições de cada sociedade se adaptassem às novas descobertas e delas fizessem uso eficiente, verificando também diferenças de rapidez de absorção entre diferentes sociedades e no interior destas entre as regiões. “Para que as novas tecnologias possam surtir os efeitos em seu potencial, seria necessário que se difundissem por toda economia, o que depende da capacidade das instituições, das empresas e da cultura em geral [leia-se educação, qualificação e especialização] de promoverem as mudanças necessárias no sentido adaptativo”. (CASTELLS, 1999, p. 92-93). Ainda que seja necessário perceber o atual processo de integração econômica não implique o desaparecimento de algumas culturas, enquanto um projeto ocidental difundiu-se amplamente entre outras sociedades. Igualmente indiscutível é o fato de que a resistência ao modelo organizacional da sociedade industrial, incluindo o modelo democrático, caracterizou-se por uma opção involuntária à marginalidade global e a irrelevância dentro de uma perspectiva da hegemonia cultural. A perspectiva de Castells (1999) é de que todas as sociedades estarão conectadas mundialmente em redes de informação, determinando a dinâmica de cada uma delas. Mas haverá sociedades majoritariamente conectadas e outras em que somente um ou outro polo dinâmico interno pertencerá a estas redes globais informacionais, sendo isto que fará a distinção entre desenvolvimento e irrelevância. Isto leva rapidamente à conclusão de que a competitividade e a relevância dos países dependerão de investimentos na estrutura de tecnologia informacional como em outras décadas se investiu em estradas e portos e, sem cais nos ardis discursivos acerca dos benefícios da globalização, podemos concluir que as concentrações de poder estarão onde estiverem os controles sobre as novas formas de comunicação. Em termos de exclusão social, as ciências sociais, sobretudo a sociologia, têm diante de si mais um problema-conceito de abordagem renovada. Agora se trata da crescente separação entre os detentores da informação e os “sem-bits”, revelando uma também renovada faceta do poder, cuja manifestação crescente Weber (1985) localizava no conhecimento. Porém, referia-se à racionalidade legal- burocrática. Atualmente, observamos o domínio de uma espécie de racionalidade informacional cibernética. Nesta direção, vários autores da sociologia sugerem, mais ou menos explicitamente, que as sociedades têm resolvido [quando têm] e continuam a resolver seus problemas, e a assegurarem a sua inserção cultural e UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 130 econômica, através de um comportamento mais ou menos adaptativo, mais ou menos resistente, às inovações tecnológicas. Prevendo o advento da sociedade pós-industrial, já em 1973, Daniel Bell (1973) afirmava que as mudanças em cada sociedade seriam promovidas de acordo com as condições políticas e econômicas de cada uma delas. Em outras palavras, caberia à disposição de cada sociedade o ritmo de tais mudanças. Na perspectiva do autor, a sociedade é dividida em três níveis estruturais: o social, o político e o cultural. Cada qual é norteado por um princípio axial. Na estrutura social, o princípio seria economizar; na política, participar, enquanto no nível da cultura seria o desejo de realização e de aprimoramento do Eu. Talvez estes princípios axiais, com todo o cuidado analítico que merecem, sejam referências importantes para a reflexão social a respeito de seus rumos e possibilidades. Talvez indiquem mesmo a capacidade de cada sociedade no processo de adaptação às inovações tecnológicas informacionais. Aspirando a tais princípios, talvez seja possível compreender o momento atual, encontrando e melhor decidindo pelas oportunidades de investimento, legislação e planejamento. Para que as instituições (políticas, educacionais etc.) possam seguir as mudanças, será necessário que seus membros não só resistam a elas como por elas se entusiasmem, antecipando-se em compreendê-las e utilizá-las. Esta é a tarefa das organizações, sejam elas empresas, universidades, governos, partidos etc. Quanto mais se sabe que as teorias sobre organização e administração, talvez não mais que outras áreas do conhecimento, ainda cultivam a cultura da sociedade industrial enquanto a sociedade informacional emerge, mais avaliações serão necessárias sobre as bases de um conjunto de valores e verdades cuja validade vai ficando no passado. Esta não é, nem será, uma tarefa indolor. Naturalmente, as possibilidades de uma inserção bem sucedida à sociedade informacional dependerão da disposição das elites políticas, despertada num ambiente democrático de pressões sociais, para o que o princípio axial da participação, indicado por Bell, deverá ser um importante fator de peso contra a exclusão social no interior de cada sociedade. Mas esta sociedade, não somente por meio de indicativas institucionais, mas através dos mecanismos de participação, terá de promover um razoável esforço em torno da necessidade de compreender as atuais mudanças, o que parece depender de um amadurecimento político e cultural. Terá de aprender a resistir ante os processos de homogeneização cultural neste contexto internacional, tanto quanto precisará perceber as vantagens existentes neste processo. Trata-se mesmo de um esforço coletivo para criar um ambiente favorável à aceitação das invenções tecnológicas, o que requer o desgarramento de valores tradicionais. Não obstante, o princípio axial do desejo de realização dos indivíduos parece ter uma relevância ímpar, e a necessidade de gerar as condições para tanto, exigirá desenvoltura de instituições responsáveis como as universidades, onde os recursos tecnológicos informacionais precisam ser usados de forma não apenas didática e criativa, mas, sobretudo, crítica e construtiva. TÓPICO 1 | SOCIEDADE INFORMACIONAL: UM NOVO PARADIGMA 131 3.4 MUDANÇA TECNOLÓGICA E PROCESSOS SOCIAIS Bijker (1995), através de sua teoria da mudança sociotécnica, entende que as inovações técnicas, ou tecnológicas, se preferirmos, não podem ser entendidas, nem concebidas, senão como resultantes de processos sociais. Qualquer que seja a inovação, segundo ele, não surgirá repetidamente como resultado de um “ato singular de invenção heroica”; ao contrário, é tenuamente construído através de interações sociais constantes, sobretudo no interior das relações entre o que ele denomina relevant social group ou na tradução, grupos de relevância social. Observa Bijker (1995) que o desenvolvimento tecnológico é uma contingência em nexo com as liberdades de escolha – leiam-se, iniciativas – num contexto de constrangimentos, valores e alianças. Daí entendermos que ambientes de mudanças são possíveis a partir de interferências na estrutura cultural de uma sociedade.Seja por ausência de alternativas, seja por um realismo histórico indicativo de que este é o caminho natural, os governos das sociedades economicamente menos relevantes têm normalmente realizado esforços de adaptação ao ambiente da globalização. E, para dar voz a Castells, compreendendo a inovação tecnológica como o “motor da história”, importa criar um ambiente social favorável a tais inovações, em relação a sua aceitação, tanto quanto a sua produção. As vantagens da utilização de recursos da tecnologia informacional aparecem como visíveis não apenas no campo da economia, mas poderão ser crescentemente úteis no campo da política, onde certa lógica própria com frequência agride a racionalidade da democracia, como a do governo eficiente. O uso dos “artefatos” tecnológicos naturalmente interfere não somente na estrutura propriamente tecnológica, mas acaba reorientando a dinâmica de outras. Para lembrar Bijker (1995, p. 272), “uma particular combinação entre sociedade e tecnologia pode resultar no desenvolvimento de uma nova ordem social” e se pensarmos nos benefícios que a racionalidade embutida nos programas de informática vem trazendo no campo da administração pública, podemos esperar que isto interfira construtivamente na governança, modificando o comportamento de agentes públicos e das instituições políticas. Diante do quadro geral, enuncia-se a necessidade de esforços adaptativos das sociedades periféricas. A capacidade organizativa de cada sociedade tem demonstrado, historicamente, a necessidade de estabelecer alguns consensos a respeito dos caminhos trilhados para o desenvolvimento. Reformas, substituições, mudanças de modalidade, são elementos entre outros que têm significado rupturas criativas e que são facilmente aceitas quando não bem compreendidas. Neste sentido, porém, é preciso perceber antes que as dificuldades de acesso aos meios que permitem tais mudanças por parcelas significativas da sociedade é o que realmente têm impedido ou dificultado processos de mudanças sociais. É uma manifestação de exclusão social interna que por si só permite compreender, sem maiores esforços interpretativos, a exclusão de uma sociedade no cenário mundial. Sugerir o esforço adaptativo talvez motive críticas denunciativas da própria ausência de crítica em relação ao processo de avanço do capitalismo internacional, com sua eterna e excludente divisão do trabalho entre centro e periferia. Contudo, UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 132 é possível compreender que as soluções de cada sociedade dependem muito de esforços internos, apesar dos condicionantes externos. E nessa direção o modelo de uma sociedade “informacional” parece conter ferramentas indispensáveis; trata-se de saber utilizá-las. Bijker (1995) sugere que as inovações tecnológicas são proporcionadas por grupos socialmente relevantes e que dependem da transposição de constrangimentos, muitos dos quais motivados por valores. Podendo sugerir um viés interpretativo elitista, nos leva, todavia, a supor que o estabelecimento de um ambiente socialmente favorável às inovações tecnológicas depende dos resultados da disputa dos grupos sociais com interesses contraditórios, disputa esta que acontece de certo modo isolada dos interesses da maioria da sociedade e que, mesmo impulsionada por interesses, é instrumentalizada por valores. Implica perceber, enfim, que a sociedade como um todo é menos resistente às inovações do que alguns grupos “politicamente” relevantes. Cabe à sociedade identificar os grupos socialmente relevantes imbuídos do desejo de mudanças e capazes de promovê-las, naturalmente num ambiente democrático. As mudanças têm caracterizado os destinos das sociedades, para o bem ou para o mal, dependendo das escolhas corretas. Porém, elas dependem de uma disposição humana que pode se manifestar coletivamente: a de caminhar ao invés de ficar parado. Os rumores nunca estão bem esclarecidos, e isto incorre em riscos, mais ou menos previsíveis. E, para tanto, o uso eficiente do conhecimento produzido será sempre útil. 133 Neste tópico, vimos que: ● As transformações sociais motivadas pelos avanços tecnológicos no campo da comunicação desenharam um novo cenário social no mundo através da reorganização das noções de tempo e espaço dos agentes produtivos que se utilizam progressivamente dos recursos telemáticos e dissimulam a clássica divisão socioeconômica através da distinção entre aqueles que têm acesso e aqueles que não dispõem de recursos. ● Existem diferenças sociais crescentes entre indivíduos, grupos sociais e as economias nacionais em um contexto internacional em amplo e aparentemente irreversível processo de globalização por meio de redes de comunicação virtual que não tem volta. RESUMO DO TÓPICO 1 134 Caro acadêmico, faça uma “leitura”, com suas palavras, da importância dos incentivos do Estado para o acesso à informação. AUTOATIVIDADE 135 TÓPICO 2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO 2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL 2.1 DESENVOLVENDO AS QUESTÕES Caro(a) acadêmico(a)! Neste tópico, vamos demonstrar elementos da sociedade da informação, no que concerne ao caso brasileiro, seus exemplos e suas propostas. Da mesma maneira, vamos pincelar alguns aspectos da economia na sociedade da informação. Nessa direção, nosso objetivo é mostrar como nossas ações não estão descoladas, sendo sempre conectadas com a economia, com a política e assim por diante. Optamos por manter o jogo socrático de pergunta-resposta para apresentar de modo pragmático, isto é, prático, sem nos ater a conceitos de sociedade e de informação como vimos anteriormente nem sobre os ventos que fizeram surgir a sociedade da informação (como modernidade e pós-modernidade, sociedade industrial e sociedade pós-industrial, hipermodernidade e modernidade líquida). O paradigma na sociedade da informação se aplica a países em desenvolvimento como o Brasil? Em geral, todos os países participam do processo, e no Brasil não seria diferente. “O novo paradigma também perpassa o território brasileiro, marcado pelas transformações tecnológicas que permitem novas formas de relação entre a economia e a sociedade”. (WERTHEIN, 2000, p. 72). 2.1.1 Sociedade da informação no Brasil Especificamente no caso brasileiro? No Brasil, o primeiro movimento com relação à sociedade da informação, em sentido mais brando, tem fisionomia a partir da década de 1990 com o desenvolvimento maciço global de tecnologias de informação. “O Brasil passou a fazer parte das plataformas e complexas redes de interação”. (RAMOS, 2010, p. 25). No início do século XXI (2002), o Brasil, a partir da perspectiva estatal lança um conjunto de propostas vinculadas (no chamado Livro verde da sociedade da informação) à sociedade da informação, propostas estas que tinham por meta 136 UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE abarcar a totalidade da sociedade. Em outras palavras, o papo passou a ser o de inclusão digital, na direção de não ficar na periferia do globo, isto é, de permanecer no mapa da sociedade da informação. Especificamente falando, o Livro verde reunia um conjunto de propostas oriundas de diversos pesquisadores e estudiosos e tinha por objetivo contemplar as seguintes áreas (RAMOS, 2010, p. 25): ● Mercado. ● Os serviços ofertados para o cidadão. ● A educação. ● A cultura. ● A disponibilização da infraestrutura do governo para a população em geral. ● O desenvolvimento de novas tecnologias. ● A criação de uma estrutura de redes e serviços para incluir toda a população nos processos informacionais. Ainda, olhando com mais profundeza para o Livro verde podemos ver certas propostas e sugestões de medidas muito importantes, entre elas (TAKAHASHI, 2002, p. 8-10): ●Comércio eletrônico: a “pedra de toque” da nova economia. ● PME: oportunidades na nova dinâmica, para pequenas e médias empresas, possibilidades de propagandas. ● Empreendedorismo: inovação e capital intelectual como base dos novos negócios e conhecimento como a grande vantagem competitiva. ● Oportunidades de trabalho para todos: mais e melhores empregos. ● Universalização do acesso: combatendo desigualdades e promovendo a cidadania. ● Educação e aprendizado ao longo da vida: desenvolvendo competência. ● Valorização de conteúdos e identidade cultural, vide domínio público. ● Administração transparente e centrada no cidadão: governo ao alcance de todos. ● Quadro regulatório: diminuindo riscos e incertezas do mundo virtual. ● Pesquisa e desenvolvimento: o conhecimento é a riqueza das nações. ● Desenvolvimento sustentável: a preservação do futuro. TÓPICO 2 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL 137 ● Desenvolvimento e integração: valorizando vocações e potencialidades regionais. ● Integração e cooperação latino-americana. Se muitos avanços positivos advieram da sociedade da informação, quais deles são mais perceptíveis? Werthein (2000, p. 73) nos apresenta algumas, que enumeramos a seguir: 1) [...] a substituição de insumos baratos de energia por informação como fator- chave do novo paradigma representa, para a sociedade, uma saída inesperada para a questão estrutural da degradação do meio ambiente. 2) Porque permite implementar materialmente a lógica de redes, a tecnologia permite modelar resultados imprevisíveis da criatividade que emana da interação complexa, desafio quase intransponível no padrão tecnológico anterior. Se isso dá vazão aos sonhos mais delirantes no âmbito das ciências básicas, das aplicações tecnológicas avançadas e da estratégia, não deixa também de alimentar sonhos mais prosaicos – e não menos significantes – como o de finalmente permitir a integração ensino/aprendizagem de forma colaborativa, continuada, individualizada e amplamente difundida. 3) A flexibilização que caracteriza a base do novo paradigma é, talvez, o elemento que mais fortemente fundamenta as especulações positivas da sociedade da informação. É ela que incorpora, na essência do paradigma, a ideia de ‘aprendizagem. A capacidade de reconfiguração do sistema refere-se à maior disponibilidade para incorporação da mudança [múltiplo simultâneo]. A noção de ‘aprendizagem’ passa a ser empregada em vários níveis, sendo o organizacional sua aplicação de maior significado na reestruturação capitalista no novo paradigma. Quais seriam os exemplos mais pertinentes, exemplos que usufruímos no cotidiano? Podemos oferecer diversos exemplos, dos quais os que podemos perceber diariamente: 1 Educação a distância. 2 Bibliotecas digitais. 3 Videoconferência. 4 Correio eletrônico (e-mail). 5 Grupos de bate-papo. 6 Redes sociais. 7 Voto eletrônico. 8 Trabalho a distância. 138 UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE Mas, sendo pertinente com relação ao tema da internet, qual sua importância para a sociedade da informação? Depois de um período de aperfeiçoamento, a internet, da virada do 2000 para cá, passou a tomar dimensão sem igual, notadamente [...] por meio do crescimento acelerado da base de usuários de banda larga em praticamente todo o mundo. Com acesso mais rápido e mais barato, indivíduos e organizações veem multiplicarem-se os recursos disponíveis na internet para inúmeras atividades, do mero envio de e-mails a uma lista crescente de ferramentas voltadas para os mais diversos fins, inserindo-se na vida das pessoas de tal forma que se torna essencial para a compreensão do mundo de hoje. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 8). Esta virada estaria colocando a sociedade da informação como era digital? As últimas tendências têm demonstrado que estaríamos passando uma verdadeira revolução em níveis de compreensão da realidade e em níveis de relacionamento com o mundo, bem como em níveis de produção. [...] estamos nos primórdios do que devemos chamar de era digital – como evolução da era industrial – marcada pelas tecnologias digitais, que revolucionam a percepção e a atuação humanas sobre o mundo, criando uma nova e impressionante dimensão ‘virtual’ a partir da qual o ‘real’ passa a ser revisto (‘visto de outra ótica’), repensado e reformulado. Ou seja, [...] [a Sociedade da Informação] é, hoje, determinada pela crescente onipresença e influência das novas tecnologias e da internet, que devemos contemplar para entender o presente e o futuro da humanidade. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 8-9). Se estamos na era digital, o que significa a inclusão digital? A inclusão digital assume novo sentido, sendo este mais amplo, não sendo apenas a FIGURA 26 – EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA FONTE: Disponível em: <http://www.mundodastribos.com/uniasselvi-cursos-ead.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. TÓPICO 2 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL 139 possibilidade de acesso à grande rede (ao computador, a internet), “[...], mas a capacidade de compreendermos, absorvermos e vivermos sob a influência de uma nova cultura – a cultura digital, com seus paradigmas, idiossincrasias e implicações em nossas vidas ‘reais’ e ‘virtuais’”. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 9). Que importância tem os negócios eletrônicos na sociedade da informação? No plano dos negócios eletrônicos, para a sociedade da informação, estes são pilares fundamentais, pois revisam a maneira pela qual pensamos os setores da economia, revisando as práticas do século passado (século XX). “A emergência de novas operações tecnológicas muda a dinâmica da produção e muda a dinâmica do trabalho, produzindo novos arranjos”. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 9). Teríamos com a sociedade da informação a digitalização da sociedade e por extensão o Brasil, já que inserido na globalização? Este é o ponto forte. Por vivermos esse processo em curso, nos cabe compreender a digitalização da sociedade, para se servir da mesma, de forma abrangente e estratégica, como possibilidade de (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 09): a) Modernização de processos de gestão. a) Melhor eficiência. b) Transparência. c) Inovação. d) Produtividade. e) Competitividade. “Desta maneira, quanto mais incluídas as culturas e as práticas, do ponto de vista digital, melhor capacitadas estarão as organizações, sejam elas públicas ou privadas, para os desafios futuros”. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 9). Nesta mesma medida: [...] passa pela compreensão proativa dessas questões o ritmo de desenvolvimento que diferenciará empresas, organizações e países nos próximos anos. Quanto mais entendermos o impacto do digital, melhores serão nossas estratégias de sinergia entre o on e o off-line de nossos empreendimentos. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 9). Quais são de fato os efeitos na economia, na sociedade da informação? A economia, que podemos chamar de convencional, chamou, cada vez mais para si, as novas tecnologias, se convertendo numa economia digital. Isso permite a ela processos mais complexos, dinâmicos, em que os sempre esperados ganhos de produtividade e otimização de recursos, juntamente com plataformas inovadoras de comunicação, tornando-se itens norteadores de competitividades, quiçá, se tornando itens fundamentais. Desta forma, o que está em jogo – e seria muito reducionista pensar desta maneira – não é apenas comprar e vender, mas “[...] articular diferentes formas de relacionamento, ampliando o nível de interação com funcionários, parceiros, representantes, consumidores, clientes, mercado, instituições e sociedade em geral”. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 9). 140 UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE Vale ressaltar que a internet se tornou veículo chave na formação de opinião, e a reputação de uma empresa, do poder público, dependee muito da relação e habilidade que os agentes possam ter com o domínio da cultura digital. Desta maneira, a internet passa a ser decisiva também em processos off-line e on- line. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 9). Vejamos em dados: Embora à primeira vista pareça paradoxal, a internet continuará impactando, ainda por um bom tempo, muito mais os negócios off-line do que os negócios on-line. Ou seja, mesmo que o comércio eletrônico tenha crescido anualmente, em média, no Brasil, mais de 50% nos últimos cinco anos, a internet influencia o fechamento de mais negócios em outros canais, principalmente o presencial, em escritórios, lojas e estabelecimentos comerciais, nas ruas, edifícios e shoppings do País. Para cada operação comercial efetivamente realizada em uma loja virtual, a internet é diretamente responsável por pelo menos cinco outros negócios decididos on-line, mas fechados de outra forma. Nos Estados Unidos, o índice é ainda mais alto, chegando a nove para um. Isso quer dizer que, em 2006, no mercado brasileiro, enquanto as vendas eletrônicas de bens e serviços (incluindo bens de consumo, passagens aéreas, automóveis, produtos financeiros e outros) ao consumidor final movimentaram mais de R$ 15 bilhões, a internet foi diretamente responsável por negócios off-line, no varejo, de pelo menos R$ 75 bilhões, aqui sem incluirmos os chamados B2B, e-Gov, e-Banking e outras áreas de grande desenvolvimento nos últimos tempos. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 14). Contemporaneamente, o que está em debate sobre a sociedade da informação? Podemos apontar quatro itens que vêm sendo discutidos acerca da sociedade da informação: 1 Conhecimento digital nas empresas: trata-se de pensar (e repensar) o conhecimento e o conhecimento digital a serviço das empresas. Nesta medida, temos discussões sobre a revolução digital e seus impactos, a magnitude e importância da internet (e de suas variáveis como a Web 2.0). Como os negócios eletrônicos afetam o mercado? “A ideia do trabalho em rede, mediante a participação de diversos colaboradores, numa rede que envolva fornecedores, parceiros e clientes. Também se discutem convergências tecnológicas”. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 14). 2 Contribuição da tecnologia e da informação para o desenvolvimento nacional: o debate neste segundo tópico gira em torno do papel do Estado, o papel da “governamentalidade” no processo. Nesta medida, teríamos a ideia de governo eletrônico. O debate em questão gira em torno “[...] de como constituir o ambiente de integração ao conceituar o governo eletrônico com a aplicação de tecnologia da informação para o desenvolvimento nacional”. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 14). Esta visão permite discutir o papel do Estado, e de como ele pode fomentar a participação dos cidadãos (inclusão). Não obstante, TÓPICO 2 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL 141 3 À GUISA DE CONCLUSÃO Em síntese, nosso exercício nesta primeira seção foi o de apresentar questões teóricas sobre a sociedade da informação, como filha de mudanças advindas da globalização. Daí o fato de ela estar incluída dentro do processo de passagem da modernidade para pós-modernidade, da passagem da sociedade industrial para sociedade pós-industrial e os efeitos captados pelos termos: hipermodernidade e modernidade líquida. É neste oceano que navega a nau da sociedade da informação. Até aqui, o nosso debate tinha por meta apresentar alguns elementos fundamentais, daí o exercício de apresentar algumas fontes (relicários, autores) conceituais, num primeiro momento, para cair numa seção de temas práticos (perguntas e respostas). Nas próximas seções iremos aprofundar as questões que concernem à sociedade da informação, partindo para profundezas não exploradas nesta primeira parte. [...] também o uso de tecnologias digitais para as funções típicas de governo como o controle do orçamento, governo em rede com aplicação de governo para governo (G2G), [...], apoio [e desenvolvimento] aos programas sociais de inclusão digital, [em suas] experiências nacionais e internacionais. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 14). 3 Desafios legais da Sociedade da Informação: a discussão em pauta também gira em torno das bases legais requeridas pela sociedade digital, sendo que esta discussão não fica de fora do território brasileiro. As mudanças na sociedade da informação envolvem direitos sobre a produção e uso do conhecimento com uma velocidade inédita, novas demandas são colocadas na elaboração de contratos, no reconhecimento das obrigações de patentes e nas questões de governança. A constante inovação de produtos e serviços gera novos temas para o debate jurídico como os impactos dos processos de contratação on-line, a confiança para a realização de negócios na web, a responsabilidade civil no ambiente digital, o respeito ao consumidor no comércio eletrônico, as novas tendências na área de direito autoral e propriedade intelectual na sociedade da informação. (POLIZELLI; OZAKI, 2008, p. 14). 142 UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE LEITURA COMPLEMENTAR O BRASIL E A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Ronaldo Mota Sardemberg Há mais de cento e cinquenta anos, Tocqueville, em sua obra Da Democracia na América, nos dizia: cada novo método que conduza por um caminho mais curto para a prosperidade, cada máquina que poupe trabalho, cada instrumento que reduza o custo da produção, cada descoberta que facilite a satisfação ou a intensifique, é fruto maior do intelecto humano. É principalmente por essas razões que um povo democrático se dedica à busca científica, que a entende e a respeita. Assim também é em nossos dias. Persistem os ideais, embora ainda não os tenhamos alcançado de forma plena. A sociedade da informação permitirá o avanço na direção de se colocar a ciência em prol do bem-estar da sociedade. Neste sentido, o cinema é provavelmente o maior exemplo disso. Cada filme futurista que vemos, de alguma maneira precipita, ou no mínimo antecipa boa parte do que teremos no futuro. O programa sociedade da informação, no Brasil, resulta de trabalho iniciado em 1996 pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia – o CCT. Sua finalidade é lançar os alicerces de um projeto estratégico, de amplitude nacional, para integrar, coordenar o desenvolvimento e a utilização de serviços avançados de computação, comunicação e informação e de suas aplicações na sociedade, de forma a alavancar a pesquisa e a educação, bem como assegurar que a economia brasileira tenha condições de competir no mercado mundial. Consolidando-se como instrumento de crescimento econômico, a internet alcançou dimensões dificilmente previsíveis anos atrás, seja como novo meio de organização das empresas, seja como mecanismo de universalização do acesso da população a bens culturais. A internet, a exemplo do que ocorre em outros países, deverá permitir a elevação média da produtividade da economia, ao passo que essa universalização irá conformando, progressivamente, o novo direito do indivíduo à informação. No curso da revolução da informação, a internet, em menos de uma década, saiu do âmbito restrito dos laboratórios de pesquisa e de grandes universidades nos países desenvolvidos para interligar, nesta virada de século, quase cem milhões de usuários em todo o mundo. O crescimento projetado é igualmente expressivo. O número de assinaturas individuais na internet chegou, em 2005, a 378 milhões; em 2010, a 720 milhões, em termos mundiais e em 2020 provavelmente estará ao alcance de 3 bilhões de pessoas, o que significa a metade da população do planeta, atualmente. O comércio eletrônico via internet deverá capitanear o uso da rede, estimando-se que no TÓPICO 2 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL 143 próximo quinquênio duplicará a cada ano, e movimentará mais de US$ 4 trilhões em 2015 – em contrastecom os US$ 40 bilhões que já movimentava em 1998. O Brasil está atento às tendências rumo à sociedade da informação, como desdobramento natural de uma visão estratégica, de futuro, da área de informática, que remonta à década de 70. Ainda em 1988, sob a coordenação do Ministério da Ciência e Tecnologia, iniciou-se no país a implantação da internet para uso da comunidade de ensino e pesquisa. Em 1995, a internet brasileira foi regulamentada, conjuntamente pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo Ministério das Comunicações, como um serviço aberto a todos os interessados, marcando o início da expansão que, em cinco anos, permitiu o acesso à rede a cinco milhões de pessoas. Para a adequada condução dessa estratégia, a constituição de um Comitê Gestor revelou-se instrumento fundamental. Reflexo do êxito dessa política é o próprio número de hosts conectados à internet no Brasil, que subiu de cerca de 18 mil unidades em 1996 para mais de 300 mil em 1999, alçando o país ao 14º lugar no mundo. De maneira geral, os números da internet no Brasil representam cerca de metade dos números totais da América Latina. A prioridade que o Governo atribui à implantação da sociedade da informação e da Internet2 no país é vivamente reafirmada, haja vista sua inclusão entre os programas estruturantes do Avança Brasil, com recursos de todas as fontes de R$ 3,4 bilhões para os próximos quatro anos. Esses recursos serão aplicados em ações destinadas à manutenção da Rede Nacional de Pesquisa e implantação da internet2; pesquisa e desenvolvimento em tecnologia da informação; produção e exportação de software; aplicações de processamento de alto desempenho; desenvolvimento de componentes eletrônicos e microestruturas; inovação no setor de telecomunicações; sistemas de bibliotecas digitais; incentivos fiscais; e estudos do impacto das tecnologias da informação na sociedade. Não seria exagero considerar que, em termos estratégicos, este é o mais importante dos programas do Ministério da Ciência e Tecnologia no Avança Brasil, pois envolve ampla articulação do Governo com toda a sociedade. Somente o aprimoramento da sinergia entre o Governo – em suas três esferas de atuação, federal, estadual e municipal – a academia e o setor privado permitirá ao país dar um novo salto. As implicações socioeconômicas desse salto precisam ser avaliadas e discutidas por todos os setores envolvidos e a adequada realização desse debate é missão da sociedade da informação. Um elemento essencial para a construção de uma sociedade da informação no Brasil é a implantação de sólida plataforma de telecomunicações, na qual possam difundir-se e florescer as aplicações em áreas de alto conteúdo e retorno social, como educação, saúde, meio ambiente, agricultura, indústria e comércio. Essas metas também estão a requerer a instalação e o fortalecimento de adequada infraestrutura de escolas, bibliotecas e laboratórios, a fim de que uma nova geração de brasileiros se prepare para o futuro. Não poderia deixar de referir as funções do próprio Ministério da Ciência e Tecnologia nesse processo: nossas ações serão destinadas a incentivar 144 UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE a capacitação tecnológica do país na área de redes de alta velocidade; formar parcerias, como a que fizemos com o Ministério da Educação, na nova Rede Nacional de Pesquisas; fomentar e financiar o desenvolvimento de novos aplicativos; criar um ambiente de pesquisa que utilize e, ao mesmo tempo, amplie o papel da internet2; e maximizar os benefícios do desenvolvimento da área de redes na Política Nacional de Informática. No entanto, a internet no Brasil não seria possível sem o extraordinário esforço realizado pelo Ministério das Comunicações na expansão e consolidação da infraestrutura de comunicações do país e sem a competente atuação da Anatel na regulação do setor. Desejaria também registrar a incorporação do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio a esse esforço. Ainda muito temos a fazer em proveito do setor e do país – em conjunto com os representantes dos diversos segmentas da sociedade com assento no Comitê Gestor, e que, cada vez mais, deverão desempenhar funções empreendedoras nesse novo mundo digital. Tornou-se indispensável que possamos – governo, comunidade acadêmica e comunidade empresarial, oferecer à sociedade a possibilidade de beneficiar-se do novo ambiente tecnológico, para alcançarmos um novo ciclo de crescimento que desponta. E o Programa Sociedade da Informação será um fator de mobilização do país rumo ao desenvolvimento social e economicamente sustentável. FONTE: SARDEMBERG, Ronaldo Mota. O Brasil e a sociedade da informação. Disponível em: <https://www.rnp.br/noticias/imprensa/2002/not-imp-020410.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. 145 De principal, acerca da sociedade da informação no Brasil, o(a) acadêmico(a) pôde conferir: ● Quando se inicia o caso brasileiro: no Brasil, o primeiro movimento com relação à sociedade da informação, em sentido mais brando, tem fisionomia a partir da década de 1990, a partir do desenvolvimento maciço global de tecnologias de informação. O Brasil passou a fazer parte das plataformas e complexas redes de interação (RAMOS, 2010). ● Início a partir da perspectiva estatal: no início do século XXI (2002), o Brasil, a partir da perspectiva estatal lança um conjunto de propostas vinculadas (no chamado Livro verde da sociedade da informação) à sociedade da informação, propostas estas que tinham por meta abarcar a totalidade da sociedade. ● Especificamente falando, o livro reunia um conjunto de propostas oriundas de diversos pesquisadores e estudiosos e tinha por objetivo contemplar as seguintes áreas (RAMOS, 2010, p. 25): • Mercado. • Os serviços ofertados para o cidadão. • A educação. • A cultura. • A disponibilização da infraestrutura do governo para população em geral. • Desenvolvimento de novas tecnologias. • Criação de uma estrutura de redes e serviços para incluir toda população nos processos informacionais. ● Avanços com a sociedade da informação: se muitos avanços positivos advieram da sociedade da informação, quais deles são mais perceptíveis? Werthein (2000, p. 73) nos apresenta algumas, que enumeramos a seguir: 1) [...] a substituição de insumos baratos de energia por informação como fator-chave do novo paradigma representa, para a sociedade, uma saída inesperada para a questão estrutural da degradação do meio ambiente. 2) Porque permite implementar materialmente a lógica de redes, a tecnologia permite modelar resultados imprevisíveis da criatividade que emana da interação complexa, desafio quase intransponível no padrão tecnológico anterior. Se isso dá vazão aos sonhos mais delirantes no âmbito das ciências básicas, das aplicações tecnológicas avançadas e da estratégia, não deixa também de alimentar sonhos mais prosaicos – e não menos significantes – como o de finalmente permitir a integração ensino/aprendizagem de forma colaborativa, continuada, individualizada e amplamente difundida. 3) A flexibilização que caracteriza a base do novo paradigma é, talvez, RESUMO DO TÓPICO 2 146 o elemento que mais fortemente fundamenta as especulações positivas da sociedade da informação. É ela que incorpora, na essência do paradigma, a ideia de aprendizagem. A capacidade de reconfiguração do sistema refere-se a maior disponibilidade para incorporação da mudança [múltiplo simultâneo]. A noção de ‘aprendizagem’ passa a ser empregada em vários níveis, sendo o organizacional sua aplicação de maior significado na reestruturação capitalista no novo paradigma. ● Exemplos da sociedade da informação: quais seriam exemplos mais pertinentes, exemplos que usufruímos no cotidiano? Podemos oferecer diversos exemplos, dos quais dispostas diariamente:1 Educação a distância. 2 Bibliotecas digitais. 3 Videoconferência. 4 Correio eletrônico (e-mail). 5 Grupos de bate-papo. 6 Redes sociais. 7 Voto eletrônico. 8 Trabalho a distância. 147 AUTOATIVIDADE Faça uma redação sobre inclusão digital. 148 149 TÓPICO 3 A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Na Europa do século XIX, havia grande preocupação entre os pensadores sociais, filósofos, sociólogos e economistas, entre outros, sobre a sobrevivência dos indivíduos. Os economistas ingleses, especialmente, se debruçaram e debateram sobre o problema. Um deles, chamado Thomas Malthus, tinha uma previsão matematicamente catastrófica. Dizia o autor que, em função do crescimento geométrico da população, comparado à capacidade aritmética de produção de alimentos, não os haveria para todos. Na mesma perspectiva, havia muita dúvida e receio quanto ao fato de que, já no contexto da sociedade industrial, a substituição da mão de obra humana por máquinas traria miséria e falta de perspectivas para os trabalhadores. Cada vez que uma nova técnica de produção, uma nova máquina, melhorava o processo produtivo no interior de uma fábrica, os trabalhadores sentiam-se ameaçados. Muitas foram as revoltas e quebradeiras. Muitas foram as greves, enfim, muitos os conflitos entre trabalhadores e capitalistas, cada vez que uma nova máquina era inventada para acelerar o processo produtivo, dispensando parte da mão de obra empregada. As previsões mais agudas, o pessimismo expresso pelo Romantismo, mas também as esperanças de um mundo melhor geraram ideais políticos e utopias, entre elas o anarquismo e as variações do socialismo. A descrença no status quo era geral. Mais ou menos 150 anos depois, e a despeito da cegueira de nossos céticos contemporâneos (em pleno século XXI), podemos constatar que o medo escatológico não se confirmou. Não sejamos por demais simplórios e admitamos: aquele tempo não foi fácil para a maioria, como outros tempos também não foram. Muitas pessoas viveram mal, passaram fome e morreram cedo. Nessa direção, as descrições do cenário da Inglaterra de Revolução Industrial foram amplamente descritos, seja pelas tintas de Marx e Engels, respectivamente em “O Capital” e “A situação da classe operária na Inglaterra”, seja pelas mãos de Charles Dickens em “Bleak house” (Casa abandonada). Mas as previsões agudas e o pessimismo romântico deram lugar a alternativas, tentativa e erro, equilíbrios precários, aos trancos e barrancos e, às vezes, a largos passos, sobretudo, no século seguinte. Ainda no século XIX, e pelos olhos e reconhecimento dos próprios inspiradores da utopia revolucionária operária, Marx e Engels, a Revolução Industrial destronava, para a consolidação do ideal humanista, a velha crença da submissão do homem às leis da natureza divina. As grandes transformações movidas pelo capitalismo mostraram o contrário, isto é, provaram que o homem podia submeter a natureza aos seus interesses. UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 150 Assim, podemos dizer, com tudo que foi reconhecido aqui, os agentes culturais e políticos em meados do século XIX subestimaram um aspecto de fundamental importância na história humana. Nessa direção, trata-se do mesmo fator humano gerador de desenvolvimento das técnicas e da riqueza consequente: a inteligência humana. É claro que qualquer filósofo, sociólogo ou historiador, seria tentado a dizer que foram as lutas políticas que desbravaram novos caminhos. Isso não está errado, ao contrário, permitiu que a inteligência humana e o conhecimento decorrente avançassem. Não obstante, trata-se de reconhecermos que foi a potencialização da formação humana, através da educação, da instrução, do esforço cognitivo e, sobretudo, da crença humana de reconhecer em si a capacidade de entender o mundo à sua volta e de resolver problemas, nossa principal herança humanista-renascentista e depois iluminista. Nesse ponto, alguém poderia legitimamente nos perguntar: mas não foi essa crença, esse otimismo desenfreado na razão – e na ciência, sua filha primogênita – que, no século XX redundou nas duas grandes guerras mundiais, afetando seriamente a crença e a autoconfiança dos utópicos da razão, de que seríamos capazes de resolver nossos problemas através da ciência e do diálogo racional? É verdade. Ensaio e erro. Essa história de que somos perfeitos porque cria do criador ou qualquer coisa que o valha sempre demonstrou seus limites racionais e morais. O mesmo aconteceu com o otimismo do positivismo evolucionista e sua aposta na razão. Não estamos aqui para uma defesa incondicional do ser humano, nem mesmo de oferecer um otimismo contrário aos fatos. Mas não é difícil reconhecer algo empiricamente, estatisticamente, demonstrável no percurso histórico desses aproximadamente últimos 150 anos: resolvemos muitos problemas e, afinal, melhoramos muito de vida. E o fator básico para essa mudança, foi o investimento geral em educação. Os países que fizeram isso se deram bem. É incrível como essa obviedade ainda precisa ser dita. Veja-se o exemplo da Inglaterra, berço da Revolução Industrial, país cuja história demonstrou isso nesse percurso sesquicentenário. A partir de meados do século XIX, depois de muita literatura e filosofia denunciando os problemas sociais criados pelo capitalismo sem regras, o Estado inglês passou a investir, progressiva e continuadamente, em educação de massa. Também, progressiva e continuadamente, como que pela condução de uma “mão invisível”, a Inglaterra, seus empresários, mas também seus trabalhadores, foram melhorando de vida. Fruto de pressões, lutas e da circulação de ideias que levaram a decisões políticas, os ingleses apostaram no investimento educacional. Não sem contestação, a preocupação reinante entre políticos e empresários ingleses era a de corrigir os erros da economia “sem subverter, contudo, a ordem social”. (NASAR, 2012, p. 50). Entre esses políticos e empresários, estiveram legiões de leitores dos economistas Adam Smith, Stuart Mill e David Ricardo, além do jornalista Henry Mayhew e do já mencionado literato Charles Dickens, (autor de Oliver Twist, que originou o filme homônimo, de Roman Polanski, 2005). Em algum momento de seus escritos, eles reconheceram na educação uma saída, ao contrário de Marx, Engels e outros socialistas, que apostavam na revolução armada a partir da organização da classe operária. Ao contrário dessa aposta, a Inglaterra preservou a propriedade, TÓPICO 3 | A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO 151 a liberdade, e investiu em educação. Ao longo dos anos, isso tornou os homens comuns mais instruídos, qualificou a mão de obra, tornou trabalhadores mais criativos e gerou mais empreendedores. O sociólogo alemão, Max Weber, reconheceu, já no início do século XX, o valor do conhecimento para a organização da sociedade alemã. Segundo o sociólogo norte-americano Richard Sennett (2008), foi Weber quem sacou que, ao adotarem o modelo burocrático racional do exército prussiano no século XIX, as empresas privadas e os governos tornaram-se mais organizados, menos instáveis, mais previsíveis e prósperos, o que de modo geral, salvou o capitalismo. Foi também Sennett (2006) que afirmou em seu belo ensaio a respeito do “novo capitalismo”, mencionando a Inglaterra, que foi o aumento da instrução que elevou rapidamente a partir da metade do século XIX os índices de produção e os sociais. 2 O CONHECIMENTO NO SÉCULO XX E o que podemos dizer, nesses termos, do século XX? Perguntemos em outras palavras: o que explica o desenvolvimento econômico, político e social dos países? E perguntemos ainda de maneira invertida: o que, afinal, explica a falta de desenvolvimento de muitos países? Ora, para uns e para outros, o eixo estrutural da resposta é o mesmo: educação. Sua prioridadelevou países ao desenvolvimento. Sua displicência explica o atraso. Com todo o respeito a tudo que já se disse acerca do desenvolvimento das sociedades, tudo o mais que se disse é periférico. Nessa direção, podemos elencar as principais potências mundiais, podemos incluir os emergentes, entre eles os BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. Se fizermos as perguntas precedentes, o eixo da resposta será o mesmo para todos. Se, por exemplo, o Brasil foi um país atrasado há cinquenta anos e hoje alcança condições promissoras de entrar no Clube dos Grandes, isso dependeu e dependerá basicamente dos índices educacionais. Serão, portanto, os índices de educação, o nível de instrução, a qualidade do sistema educacional, incluindo as universidades e, por extensão, seu grau de inserção da sociedade informacional, que determinarão nossas condições futuras e os destinos de todos nós. Não haverá qualquer outra explicação mais plausível. Mas não será qualquer educação que nos assegurará, acadêmico(a), o ambiente favorável à potenciação de nossas condições de promoção do desenvolvimento. Isso dependeu do estabelecimento de consensos nacionais nos países desenvolvidos e dependerá também da capacidade política da sociedade brasileira de estabelecer esse consenso. Dependerá de suas elites políticas, econômicas e intelectuais, tanto quanto de seus segmentos mais organizados e esclarecidos, incluindo os meios de comunicação, e da capacidade de esclarecer e convencer a parte menos instruída da sociedade. Um país como o Brasil não pode ao mesmo tempo querer ser uma potência mundial, ostentando índices educacionais e resultados pífios em português e matemática, classificados no último quadrante do ranking mundial da educação, em 2012. UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 152 Nesse aspecto, sem a pretensão de uma proposta pedagógica, cabe apenas reconhecer um princípio geral, norteador universal, da boa educação, e o denominemos de um princípio estético, ao mesmo tempo ético, através da ideia de “fazer a coisa certa”. Essa simples ideia norteadora, para aquém ou para além de todas as teorias pedagógicas, não é difícil de entender, principalmente ao nos reconhecermos como integrantes da civilização ocidental, cujas categorias morais e racionais são amplamente difundidas e por nós conhecidas. É claro que essa ideia ética e estética não é uma exclusividade ocidental, mas teve desdobramentos peculiares no Ocidente, na forma de categorias e valores. E, tendo que enunciá-las, reconheçamo-las logo, admitindo seu caráter também norteador: o pensamento racional e a liberdade, princípios que, ao longo do tempo, constituíram o desejo pelo desenvolvimento, uma característica ocidental de tendência universalizante. Esse é o desejo de indivíduos e sociedades e, para tanto, o princípio geral do “fazer a coisa certa” é também universal, com todo o respeito e sem agressão às especificidades culturais de cada povo. Então estamos entendidos de que esse princípio geral, compreensível a qualquer povo ocidental, está vinculado ao conceito de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que é, ou pode ser, o norte de valores e de pressupostos de qualquer sistema educacional numa sociedade que almeja o desenvolvimento e precisa construir consensos sociais em torno da educação. E, em se tratando de valores, demos razão, ainda uma vez, ao sociólogo Anthony Giddens (1991), mencionado no primeiro tópico desta unidade, quando sugere a força do papel social dos valores numa sociedade que almeja o desenvolvimento e sua inserção na sociedade informacional. Esta é também a posição do engenheiro e sociólogo holandês, Wiebe Bijker (1995), ao afirmar que o desenvolvimento tecnológico depende de um contexto de liberdades e não constrangimentos ao exercício intelectual e à busca da inovação. Portanto, se uma sociedade almeja o desenvolvimento tecnológico, seus indivíduos devem ser moralmente favoráveis, desimpedidos e estimulados ao exercício intelectual, investigativo, na busca de descobertas, da inovação e do espírito empreendedor. Nessa direção, nos parece plenamente possível e desejável reconhecer que os sistemas educacionais de uma sociedade, do ensino fundamental ao superior, sejam encarados como os ambientes onde as redes de transmissão dos valores mais adequados à inovação e ao espírito empreendedor, como ao próprio espírito informacional, nas palavras de Castells (2001), sejam estabelecidas. Portanto, recorrendo ao sociólogo Giddens (1991, p. 176), é através dos sistemas educacionais, queremos sugerir, que podemos difundir “um processo simultâneo de transformação da subjetividade e da organização social global”. E, é ainda nessa perspectiva que o mesmo autor entende que certos indivíduos e sociedades estariam em melhores condições de se apropriar de conhecimento e informação do que outros e outras. Nessa direção, é possível compreender e admitir que o esforço intelectual de qualquer sociedade, principalmente de seus intelectuais e especialistas em educação, pode muito bem redundar em estratégias nacionais de disseminação de valores. Mais do que isso, dependendo evidentemente das possibilidades de TÓPICO 3 | A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO 153 estabelecer um razoável consenso nacional, é possível disseminar um etos do desenvolvimento, um “espírito informacional”, aludindo novamente ao sociólogo espanhol. E a principal rede de difusão desse etos, desse “espírito informacional”, é o sistema educacional nacional, dadas as condições institucionais-legais, tecnológicas e de capital humano existentes. Éthos’, «costume», é palavra grega, das áreas da antropologia e da sociologia, aportuguesada para etos, sendo o «conjunto das características distintivas de um povo, grupo ou comunidade, nomeadamente no que diz respeito a atitudes, hábitos e crenças» (in Grande Dicionário da Porto Editora). Não obstante, para não fugirmos da nossa proposição ético-estética inicial, retomemos a ideia do “fazer a coisa certa”, entendendo-a relacionada a um etos do desenvolvimento, propondo-o equivalente ao “espírito informacional”. Nesse sentido, tratemos esse etos do desenvolvimento na perspectiva do sociólogo alemão Max Weber (1985). Max Weber (1985) dizia que é possível compreender sociologicamente a sociedade a partir e através do conceito de “ação social”. Segundo Weber (1985), uma ação é social quando quem age orienta a sua ação tomando os outros como referência para decidir como será a sua ação. Por isso Weber (1985) afirmava que era possível pensar sociologicamente e que a sociologia era uma ciência viável, já que além do método científico de investigação, a sociologia tinha um objeto próprio de investigação: as ações sociais. E ao agirmos, orientando nossas ações pelos outros, isto é, tomando os outros em consideração, tentando prever como os outros agirão em determinadas situações ou reagirão ante as nossas ações, estamos conferindo sentido, isto é, significado às nossas ações. Esses significados, que nós atribuímos às nossas ações, Weber (1985) os inseriu em quatro categorias de ação social. Portanto, as ações sociais poderiam ser de ordem afetiva, tradicional, valorativa e racional com vistas aos fins últimos. Dizia também o autor que é praticamente impossível que nossas ações sejam de apenas um tipo, puramente uma dessas quatro categorias. Com a maior frequência possível, os significados de nossas ações são afetivas, racionais com relação a fins, racional com relação a valores ou de tipo tradicional. O que nos interessa aqui é insistir nos significados das ações. Muitos dos significados que conferimos às nossas ações são coincidentes, convergentes com os significados que outros conferem às suas ações. Isso é resultado do convívio social, da influência que seres humanos exercemos e sofremos o tempo todo porvivermos em comum, numa mesma cidade, região, país ou mesmo num continente etc. esse é o grande produto das culturas humanas. Acontece através das religiões, das leis, da ciência e, por que não, pela educação. E é por essa via, fundamentalmente, que as sociedades contemporâneas podem difundir um etos da valorização do NOTA UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 154 conhecimento, do “fazer a coisa certa”, o que contemporaneamente significa estudar muito. Todas as sociedades que almejam o desenvolvimento necessitarão construir esse consenso em torno do conhecimento. Fazer a coisa certa, estudar muito, valorizar o conhecimento: é esse o significado. No caso do Brasil, por exemplo, com os recursos institucionais-legais, além do capital humano e das tecnologias informacionais, é plenamente possível fazê-lo. Admitindo essa possibilidade, pensemos um pouco mais sobre como é possível promover o múltiplo desenvolvimento de uma sociedade. Ora, o desenvolvimento, que nos parece um conceito tão caro e desejado, está repleto de significados. E o significado que proponho aqui é cultural, isto é, de que o desenvolvimento é, em grande medida, um produto endógeno e carregado de fatores culturais que são intersubjetivados pelos indivíduos de uma sociedade. Em outras palavras, quando, ao longo do tempo, indivíduos produzem significados às suas ações, os trocam e compartilham, trata-se então desse processo intersubjetivo. Assim, quando, ao longo do tempo, muitos indivíduos conferem o mesmo significado às suas ações, eles tendem a agir da mesma maneira em certas situações, produzindo resultados semelhantes, gerando um etos, isto é, um espírito coletivo. Isso permite identificar a ação social, que não é outra coisa do que o elo de reprodução cultural do espírito coletivo, seja ele de um país ou de uma cidade. Essas ações sociais podem muito ter a ver com o desenvolvimento, como Max Weber (1985) percebeu genialmente, cruzando religião e economia, mas Tocqueville já o havia feito oitenta anos antes, cruzando religião e política. Os dois demonstraram que sempre que muitos indivíduos atribuem racionalmente o mesmo significado ético às suas ações, isso terá resultados muito expressivos ao desenvolvimento político e econômico de uma sociedade. A religião foi, e continua sendo, uma fantástica via de transmissão de valores intersubjetivados que permitem que, nalgumas circunstâncias, muitos indivíduos ajam do mesmo modo, produzindo resultados sociais importantes. Mas a hegemonia da religião abriu espaços para outros canais. E, sobretudo no século XX, a Educação formal, esse fato social contemporâneo e democrático, multiplicador de ações sociais, passou a ser a via de transmissão de certos significados nas sociedades que optaram pelo desenvolvimento. É isso que podemos esperar que os sistemas educacionais possam fazer no Brasil e nada impede que isso comece pelas cidades, por iniciativas de agentes políticos, com o apoio de agentes culturais e econômicos. Repita-se: escola e universidade são os grandes emissores e transmissores de fatos sociais [valores] atrelados à ciência, ao pensamento racional, ao conhecimento, enfim, à cultura do desenvolvimento. O elo é sempre uma ação social. E o desafio dos agentes culturais, professores, pesquisadores, escritores e jornalistas, entre outros, não está somente em concordar com isso, mas em compreender o seu significado. Noutras palavras, na sociedade da informação, repleta de redes de comunicação e com os recursos institucionais, humanos e informacionais, é tão necessária quanto viável à compreensão e à difusão de um espírito informacional, um etos do desenvolvimento. Dessa maneira, propomos um entendimento sobre TÓPICO 3 | A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO 155 este desafio e a identificação de um elo, isto é, de uma ação social, viável, com significado relacionado à valorização do conhecimento, da informação, factível e em direção ao desenvolvimento, pela Educação. 3 O ELO: UM ESPÍRITO INFORMACIONAL, ETOS DO DESENVOLVIMENTO O desafio, grandioso e alcançável, está na conexão entre a identificação de um elo entre as aspirações humanas e sociais e uma ação social, transmissora dos valores atrelados à cultura do desenvolvimento. Nessa direção, cabe perguntar: qual o significado, atrelado a um tipo de ação social, que podemos identificar nas sociedades dos países e das cidades desenvolvidas? Pois é justamente essa ideia estética do “fazer a coisa certa”, mencionada anteriormente, que pode ser introduzida e difundida nos sistemas educacionais dos municípios, dos estados federativos e, se quisermos, por diretrizes nacionais do governo federal. Será o resultado de um poderoso debate nacional, a gerar ações coordenadas, entre ministérios como os da Educação e da Ciência e Tecnologia. Será por meio da cooperação entre os agentes das esferas nacional, estaduais, até as instâncias regionais e locais, país a fora, a partir do elenco de um conjunto de conhecimentos que dê corpo a essa ideia-força. “Fazer a coisa certa”: esse é o princípio, o elo entre a vontade de um povo e a ação, coletiva e consciente. E esse princípio está intimamente relacionado com a noção de estética. Em outras palavras, o seu significado é puramente estético. Reflete o ato consciente, preenchido de significado, o mesmo que faz com que o cristão, o homem civilizado ou o aluno educado, sigam as orientações que lhes são indicadas. Não o fazem simplesmente por obrigação ou temor, mas porque atribuem um significado a essas orientações, sobretudo estético, desenhando o ato, causando-lhes prazer no cumprimento das orientações, para a beleza das coisas do Universo. Nesse sentido, vale a pena perguntar se é por acaso, por obra divina, pelo fator climático ou pelos significados que os homens atribuem às suas ações, que aparecem os gênios da música, os prêmios Nobel, os inventores, os líderes políticos, os empreendedores econômicos, os artistas e os grandes atletas. Não. É pelo significado estético que conferem às suas ações, que povos conseguem ultrapassar as barreiras da ignorância. O resultado geral é o orgulho de ser, que depois passa a ser a base de tudo, como dizia Montesquieu: primeiro é o esforço humano de produzir as grandes instituições (os valores, as regras); dali para frente, são as instituições que produzem os grandes homens. Acadêmico(a)! Aprenda com os outros. Observe as noções de imagens, a combinação de cores, de sons, de formas, de palavras, linhas e traços. O desenvolvimento está nesses detalhes, mais que isso, no significado deles. Nos filmes de Stanley Kubrick, de Spielberg, na 40ª de Mozart, na revolucionária obra de Stravinski, de Vila Lobos, de Chico Buarque, no Ipod de Steve Jobs, no Facebook, UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 156 no Google, nas façanhas de Bill Gates ou na literatura infantil de Monteiro Lobato, que disse que um país se faz com homens e livros, e não com telenovelas. A propósito, é sugestivo recorrer a uma preocupação que parece simbolizar o teor da redação deste tópico. Trata-se de fazê-lo através de um relato particular do autor: já proferi algumas palestras a jovens do ensino médio sobre a importância de estudar e sobre a importância do português e da matemática. No dia seguinte à primeira palestra que proferi sobre o assunto, tomo conhecimento de uma matéria de capa, da Revista Veja, cuja manchete dizia: “quem fala bem e escreve bem, ganha os melhores salários”. Quero crer que a apreensão estética da língua pátria e seu uso regular correto tem uma enorme contribuição ao desenvolvimento de uma sociedade. Não se trata de entender o uso correto da língua meramente como forma de comunicação. Bem mais do que isso, está ligado ao significado estético do “fazer a coisa certa”. E a sua devida consideraçãotem um efeito absolutamente negligenciado no Brasil de hoje. A causa disso está relacionada a uma equivocada preocupação, fruto de nossa tardia cultura democrática, de respeito às minorias e as suas formas não oficiais de expressão, mas essa já é outra história. Voltando ao uso do “bom português”, estou querendo dizer que o uso correto da linguagem produz uma importante noção de beleza da ordem das coisas e de sistematização do pensamento. Quero crer que isso tenha ao menos quatro efeitos importantes na formação das crianças. O primeiro é esse procedimento; insisto, de significado estético, aumenta a inteligência das crianças. Segundo, produz nelas uma importante noção de ordenamento das coisas que se refletem nos outros afazeres e esferas de relações e ações. Terceiro, aumenta a sua autoestima (quem faz a coisa certa, tende a desenvolver o orgulho próprio). E, em quarto, abre portas e oportunidades, como sugere a reportagem da revista que mencionei. Por extensão, inclui principalmente as crianças mais pobres que, sugere o Professor Ederson Motta, da UnC, lembrando o linguista Evanildo Bechara, da UnB: tem direito a acesso à norma culta. Nesse sentido, me pareceu sempre um enorme equívoco a ideia de aceitar as falas erradas. Tendo a concordar, até certo ponto, com os que afirmam que ao invés de incluir, produz exclusão. Afinal, sempre houve elites em qualquer sociedade e, nas desenvolvidas, o uso correto da linguagem sempre foi uma forma de distinção, mas também de inclusão dos que a assimilam. Além disso, receio que o incentivo ao erro só ajude a disseminar a estupidez. E isso nada tem a ver com o futuro que esperamos. Portanto, digamos sim à beleza das coisas, ao apreço pelo conhecimento e ao desenvolvimento do potencial humano e das sociedades que constituímos. Lá na frente, o resultado que vislumbro é o feito histórico e político do significado estético da ação social: “fazer a coisa certa”, ideia-força capaz de interferir no desenvolvimento que, insisto, reside nos detalhes. Por fim, vale uma boa lembrança sobre a importância fundamental e contemporânea, mais do que nunca, da pesquisa para o desenvolvimento da ciência, da tecnologia, para a inovação e o empreendimento, na economia, na política e na TÓPICO 3 | A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO 157 cultura. O século XXI é muito desafiante, e quem não negligenciar a importância e as oportunidades do conhecimento, na sociedade informacional, perderá o bonde. Uma advertência talvez desnecessária ao leitor é a de que já não estamos sob a égide do modo de produção fordista, caracterizado por um sistema hierárquico rígido de mando e obediência, isto é, de cumprimento de funções específicas relacionadas ao cargo. O modo de produção no capitalismo do século XXI é flexível, ajustável às demandas dos indivíduos, que são também consumidores. E uma característica bastante contemporânea dos indivíduos na sociedade informacional é que são mais instruídos e mais autônomos, isto é, relativamente mais independentes. Isto significa que, na perspectiva da relação entre produtor e consumidor, não são mais os agentes produtivos que determinam as regras da oferta e procura. O engenheiro Henry Ford dizia, no início do século XX, que o consumidor podia escolher a cor do carro, desde que fosse preto. Essa frase simbolizava o fato de que era o agente produtor quem determinava as escolhas do consumidor. Na sociedade informacional, essa relação se inverteu. Indivíduos consumidores mais autônomos e instruídos passaram a ter o poder de escolha. Fundamentalmente, isso tem a ver com a democracia que, da política, logo transbordou para a consciência do consumidor. E o que isso tem a ver com a nossa insistência pelo apreço ao conhecimento? É que esse consumidor, mais instruído e ciente de seus direitos e de sua liberdade, forçou a flexibilidade do modo de produção capitalista, inclusive pelo viés da terceirização. O efeito disso, para o mundo do trabalho, é que os profissionais precisam estar muito mais preparados, mais informados e, por isso mesmo, criativos. Essa é condição no interior de uma organização privada ou pública que precisa de profissionais com formação ampla e interdisciplinar, a fim de resolver problemas que abranjam a diversidade e a complexidade das demandas de um público mais exigente e, com frequência, de livres escolhas. Não obstante, é também a condição dos indivíduos profissionais que melhor aproveitam as oportunidades, seja pela identificação sociológica das demandas dos consumidores, seja pela capacidade de empreenderem de forma autônoma, independente de uma condição empregatícia. Nessa direção, é preciso advertir: a economia do século XXI é bastante mais terceirizada. Nessa condição, as micro e pequenas empresas são cada vez mais necessárias, o que leva a formação profissional cada vez mais direcionada à capacidade de empreender. Se isto vale para o leitor, vale para qualquer cidade, território, região ou país. Não há mais escapatória. Só o conhecimento trará as respostas necessárias. Mesmo os recursos naturais, sobretudo as commodities agrícolas, não terão grande utilidade se não forem usadas com inteligência. E, se pensarmos nos recursos esgotáveis do planeta, é melhor que alguém já esteja pensando no sentido de responder aos problemas de falta de água, entre outras necessidades vitais. E isso só se faz com muita pesquisa, para inovar, criar tecnologia e garantir nosso sustento e nosso desenvolvimento. O que somos? Somos Homo sapiens. UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 158 LEITURA COMPLEMENTAR DESAFIOS DA EDUCAÇÃO I (PEGA, PEGA) Walter Marcos Knaesel Birkner O cenário é o seguinte: primeiro dia de aulas, crianças no pátio da escola, mais um ano de esperanças e preocupações. Com a enorme tarefa de preparar as crianças para o futuro do gigante acordado e zonzo, nosso sistema escolar continua sem rumo. Faltam professores, lucidez governamental, participação cívica, critérios de seleção e incentivo meritocráticos, além da falta estética, ética, de erudição, método e filosofia correspondentes às necessidades nacionais. A tarefa é urgente. Sabemos que o principal problema da educação brasileira está na falta de qualidade, não obstante ainda tenhamos oito por cento de crianças entre 4 e 17 anos fora da escola. E, pasmem, metade dos jovens entre 15 e 17 fora do ensino médio. A tarefa é enorme e espera de nós, acostumados a esperar dos outros. Outros tempos, no primeiro dia de aula do meu tempo de moleque, a preocupação da diretora era aquietar os alunos que brincavam de pegar – verbo que hodiernamente mudou de sentido. A velhinha metia medo. Ouvir o nome dela provocava curto-circuito e o chão do pátio tremia aos seus passos; a chamávamos de General e, pelas costas, fazíamos a saudação nazi – aquilo me rendeu um puxão de orelha e uma suspensão. O bicho pegava. Não obstante, lembro que no primeiro dia cantávamos o Hino Nacional e o Hino à Bandeira. Praxe. Já no primeiro dia letivo deste ano, caminhada matinal numa cidade catarinense, ouço, distante, música cuja lírica abusa do verbo pegar no sentido erótico contemporâneo. Lembrou outro “hino”. Nada contra. Pensei comigo: o cara acordou inspirado. Mas o som não vinha de onde imaginava comum. Vinha do pátio de uma escola. Não me atenho ao caso específico. Desconheço o contexto. Mas, na mesma manhã, liguei pra escola da minha filha, de onde me acalmaram, garantindo não haveria tal programação estética para agradar certo número de alunos e desrespeitar o gosto e a educação familiar de outros. No mesmo dia de volta às aulas, a capa do Jornal de Santa Catarina dizia que somente na grande Blumenau faltavam mais de 200 professores. Como é possível que, governo após governo, não haja resposta efetiva a isso? Primeiramente, porque há um gap entre a urgênciae o consenso nacionais sobre a educação. O país urge, mas a sociedade não clama. Em segundo lugar, pelo gap entre necessidade e possibilidade de investimentos nas instâncias federativas subnacionais. A maioria não tem recursos suficientes. Mas a União tem. E o que faz grande parte de nossos parlamentares e governadores? Curva-se, vergonhosamente, aos interesses fisiológicos de seus partidos, deixando a futuros heróis iletrados a grandeza da tarefa presente. Nessa direção, merece muita atenção a proposta do Senador Cristovam Buarque, cujo teor gostaria de discutir em espaço próximo futuro neste jornal. TÓPICO 3 | A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO 159 O episódio da escola me fez enumerar essas preocupações, cuja reflexão requer um espaço aditivo que me proponho a ocupar neste jornal, nas próximas edições. Mas, no geral, fica a impressão de que a escola precisa de ajuda, entre tudo porque, no específico, faltam critérios a definir o que é conveniente à educação dos alunos. O primeiro passo é o engajamento cívico, o que aumenta o conhecimento social e alivia o papel da sobrecarregada escola. Logo em seguida, é preciso discutir a meritocracia, que premia os melhores no exercício da liderança escolar, assuntos que me proponho a discutir em um dos próximos artigos. DESAFIOS DA EDUCAÇÃO II (O ENGAJAMENTO SOCIAL) No artigo homônimo anterior, neste jornal, expus um pequeno conjunto de preocupações sobre a educação. Naturalmente, o universo dos desafios educacionais é bem maior do que o ali anunciado. Isso não me tira, porém, o ímpeto de refleti-las aqui. Concluí o artigo chamando à atenção para o engajamento social e a meritocracia na educação. A primeira questão não é um problema de ausência, mas de insuficiência. É dela que tratarei aqui, reconhecendo que a meritocracia é tão urgente quanto dependente do engajamento, exigindo tratamento especial no artigo subsequente a este. Não há novidade em afirmar que a escola funciona melhor quando sente o interesse da comunidade, desde os pais até outros atores sociais. Pode-se dizer que o bom funcionamento de uma escola passa pelo engajamento social. É uma lei de ferro da democracia. Podemos dizer, aliás, que a democracia tão bem faz à escola quanto dela precisa, porque a lei de ouro da república é que ela não existe sem cidadãos instruídos. Todavia, chamo à atenção do leitor para dois aspectos da insuficiência do engajamento cívico. O primeiro é mais notório e tem a ver literalmente com a insuficiência. Isso quer dizer que, em cada escola, a presença de todos aqueles que possam realmente ajudá-la é muito bem vinda e necessária. Esses agentes, a quem as escolas parecem abertas, são atores intelectuais (professores, pesquisadores, escritores e líderes religiosos), econômicos (empresários, funcionários e profissionais liberais), e também políticos (o executivo, o legislativo, as lideranças comunitárias e os agentes judiciários). Em tese, todos têm algo de importante a dizer ou relatar e que interferirá na formação das nossas crianças. O segundo aspecto tem a ver com o tipo de engajamento. Reconheço que seria triste, só de imaginar, uma escola em que pais e professores não estivessem empenhados na organização do bingo, da festa junina ou do dia das crianças. Seria frio e desastroso que uma empresa privada fosse encarregada disso, selando a morte do engajamento cívico no mais egoísta e perigoso dos mundos. Aliás, não sei se seria pior ou menos gélido no “admirável mundo novo” de Orwel, em que tudo estaria a cargo e sob controle do Big Brother. No mundo real, ambos os modelos já foram testados e a lição é sempre a mesma: é o envolvimento humano e seu calor correspondente que dá vida a tudo, que semeia os campos floridos e enche de felicidade as cidades. UNIDADE 3 | A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 160 Assim, as escolas precisam do engajamento civil, com todos os atores acima mencionados, para o enfrentamento da questão crucial: a qualidade do sistema educacional. Sim, não se negue, isso passa pela meritocracia e pelo incentivo salarial, não há dúvida. Mas como esperar que isso aconteça sem o engajamento civil e a cobrança de uma sociedade organizada e instruída? Santa Catarina, por exemplo, passou pela maior greve dos professores do atual século. E qual o resultado? Inócuo, ante uma sociedade apática e a grande imprensa descomprometida. Até agora ninguém sabe por que nossos professores recebem a metade do que paga o estado vizinho. E ninguém sabe por que os recursos da União destinados à educação são parcialmente usados para outros fins. Pois, deixar essa tarefa em mãos de governantes, legisladores e magistrados autistas? Está claro que não. A política, caixa de ressonância da sociedade, transformou-se na caixa preta que guarda as respostas às perguntas acima. Mas foi torcendo o nariz para as “sujeiras” da política e se enclausurando na vida privada que a sociedade mesma permitiu isso. Só se esqueceu de que a educação de qualidade dos seus filhos também faz parte de seus interesses privados. DESAFIOS DA EDUCAÇÃO III (O HÁBITO DA LEITURA) “Um país se faz com homens e livros”, disse o irrequieto e patriótico Monteiro Lobato, incansável fazedor do seu país. Deixou inesquecível contribuição ao formar milhões de leitores com seus fabulosos livros e personagens infantis, parte deles reunidos no maravilhoso “Sítio do pica-pau amarelo”. Isso contrasta com pesquisa recente da Fundação Pró-livro e Instituto Ibope Inteligência, de que o brasileiro está lendo menos e menos brasileiros estão lendo, embora a interpretação dos resultados não seja simples. Nessa direção, nosso sistema escolar precisa externar obcecada e incansavelmente a sua preocupação com isso. A célebre frase de Lobato é tão simples quanto grandiosa. Responde com facilidade porque razão vários países figuram entre os desenvolvidos e o Brasil mantenha incertezas quanto à sua grandeza e ingresso nesse clube. Incerteza, sim, porque o clube dos desenvolvidos é, invariavelmente, um clube de leitores e o Brasil não figura nesse quadro. Pior, parece distanciar-se dele. É o que diz a mencionada pesquisa. Com amostra de 5.315 pessoas acima de cinco anos em todo o país, a pesquisa revela que, no curto período de 2007 a 2011, caiu de 4,7 para 4 o número de livros lidos anualmente pelos que leem no país. E o número dos que leem caiu de 95,5 mi para 88,2 mi no mesmo período. Na contrapartida, aumentou o número de espectadores de TV, vídeos e usuários de lazer e entretenimento de internet. Reconheçamos que há muitas variáveis nessa pesquisa, impossíveis de consideração neste breve espaço. É Assim que faz lembrar o presidente do Ibope Inteligência, Hélio Gastaldi, que a maioria dos leitores é jovem e que o aumento da expectativa de vida – idosos que não leem – interfere na estatística. De todo modo, o número total de leitores caiu e, de resto, já sabemos que o brasileiro é quem passa mais horas na frente da TV, que somos ruins de matemática e falamos errado, TÓPICO 3 | A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO 161 conquanto paradoxalmente sejamos os mais otimistas do planeta e que há mais coisas entre o céu e a terra do que conhece nossa vã filosofia. Na dúvida, entretanto, cabe uma defesa ao nobre hábito da leitura e de dirigi-lo aos estimados professores. Sem rodeios, não me parece descabido adverti-los, meus colegas de profissão, pela simples razão apontada pela pesquisa, e lembrada pela presidente do Instituto Pró-livro, Karina Pansa: a principal influência no hábito do brasileiro leitor é o professor, do ensino fundamental ao superior. Karina Pansa analisa que “se você vê o prazer que o seu professor tem pela leitura, vai se perguntar por que. E terá a inquietude de querer saber por que ele gosta tanto daquele livro”. A tarefa é simples. Não há método. Tudo consiste em dar oexemplo, é o que não cansam de dizer psicólogos infantis: uma criança vê um adulto lendo e, desde que esse adulto seja uma boa referência – pai, mãe, irmão ou professor – a criança o imitará, e o maior passo ao seu futuro, para a sua felicidade, terá sido dado. Você leitor, entre os quais quero crer professores, já sabe disso. Sabe, porque já passou pela fantástica experiência de quem, ao ler, desperta enormemente a sua imaginação. E isso está longe de ser um privilégio exclusivo às crianças. Ao lermos, fazemos vários intervalos reflexivos, pensamos nos fatos e em nossas intenções, fazemos relações, produzimos sinapses, encontrando soluções aos problemas do trabalho, da vida e, como fosse mágica, ficamos mais espertos e autoconfiantes. Assim, de sobra ativamos nossa serotonina, dormimos mais satisfeitos e acordamos mais dispostos. Agora me desculpe o leitor pelo otimismo, mas, noves fora, justamente na “era da informação”, não é justamente esse comprovado efeito da leitura prazerosa a cachaça da vida que todos procuramos? FONTE: Disponível em: <http://www.polisemdebate.com.br/sala_d.php?id=47>. Acesso em: 30 jul. 2012. 162 Neste tópico, tratamos: ● Das questões do avanço do conhecimento em nossa sociedade ocidental. Desde Malthus e sua teoria pessimista de crescimento populacional, até Marx e Engels, demonstrando a importância do saber e do conhecimento para o desenvolvimento técnico-científico e social de um país. ● Também do desenvolvimento no século XX assim como o não desenvolvimento de tantos outros países e o motivo desse fato. ● Do fator predominante para o desenvolvimento que é a educação das nações, sendo afirmado que a escola e a universidade são os grandes emissores e transmissores de fatos sociais atrelados à ciência, ao pensamento racional, ao conhecimento. RESUMO DO TÓPICO 3 163 A partir da leitura atenta do texto – Desafios da Educação – na leitura complementar da Unidade 3, desenvolva um texto que aponte os desafios enfrentados pela educação no Brasil e na escola em que atua. AUTOATIVIDADE 164 165 REFERÊNCIAS ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. ALVES, Ana Paula Andrade. Resenha do livro: A Galáxia Internet: Reflexões sobre Internet, Negócios e Sociedade de Manuel Castells (2004). 2006. Disponível em: <http://edrev.asu.edu/reviews/revp49.pdf>. Acesso em: 6 mar. 2012. AURÉLIO, Daniel Rodrigues. Zygmunt Bauman em foco. Filosofia – Conhecimento Prático, São Paulo, n. 21, p. 58-60, mensal, 2010. BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. BELL, Daniel. O advento da sociedade pós-industrial. São Paulo: Cultrix, 1973. BENÍCIO, Sergio; PAIVA, Fernando. 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