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DIDÁTICA Glaucia Silva Bierwagen Revisão técnica: Simone Costa Moreira Graduada em Pedagogia Especialista em Orientação Educacional Mestre em Educação Doutora em Educação Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin – CRB 10/2147 D555 Didática [recurso eletrônico] / Vania de Souza Ferreira ... [et al.] ; [revisão técnica: Simone Costa Moreira] Porto Alegre : SAGAH, 2018. ISBN 978-85-9502-567-7 1. Pedagogia. I. Ferreira, Vania de Souza CDU 37.02 As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Identificar as principais características da relação entre professor e aluno. � Descrever a importância do conceito de professor mediador no pro- cesso de ensino e aprendizagem. � Analisar situações concretas e bem-sucedidas de ensino e aprendiza- gem em sala de aula que exemplifiquem as relações professor-aluno. Introdução Castells (2000), sociólogo espanhol, considera que as novas tecnologias de informação e comunicação definiram um novo paradigma para a atual sociedade. Para ele, os efeitos dessas tecnologias afetam diretamente todas as atividades humanas (individuais ou coletivas), tornando-as in- terconectadas, complexas e de natureza fluida. Esse cenário provocou mudanças nas relações humanas e nas formas de trabalho, demandando que o professor exerça um papel diferente nas salas de aulas e escolas. Consequentemente, as relações professor-aluno mudaram: o professor atua como mediador (orientador, facilitador) da aprendizagem do aluno e este, por sua vez, atua como o principal agente de seu conhecimento. Neste capítulo, você vai ver como a relação professor-aluno se cons- tituiu historicamente no Brasil e como ela se apresenta na sociedade contemporânea. Características da relação professor-aluno A relação entre professores e alunos sofreu muitas modificações no decorrer da história da educação. Essa relação se alterou conforme surgiram diferen- tes compreensões sobre as finalidades da educação. Por isso, é importante que você entenda que as diversas trajetórias formativas e reflexões dos professores podem levá-los a adotar determinadas práticas de ensino. Essas trajetórias e reflexões também explicam as relações que eles desenvolvem com os alunos. Além disso, a relação entre professor e aluno é influenciada pelas características gerais da educação de cada momento histórico, como você vai ver a seguir. Para Romanelli (2012) e Hilsdorsf (2003), o movimento da escola tradi- cional ou conservadora, que teve bastante destaque no final do século XIX e no início da República no Brasil (ainda existem práticas pedagógicas atuais apoiadas nesse movimento), propõe que o responsável pelo processo de ensino e aprendizagem seja o professor. Ele deve conduzir as aulas principalmente pela exposição oral, enquanto os alunos têm a função de receber passivamente os conteúdos. Portanto, nesse movimento, o professor é o detentor do conhe- cimento, e o aluno, o seu receptor. A escola tradicional teve como principais teóricos autores como Comênio, Pestalozzi e Herbart. Eles enfatizaram a organização dos processos de ensino e aprendizagem com enfoque na atuação expositiva do professor. No Brasil, por volta dos anos 1920, a partir das contribuições da psico- logia — que compreende o indivíduo como responsável pela aquisição do conhecimento e como participante no processo de construção do conhecimento —, desponta o movimento da Escola Nova. Por meio dele, passaram a ser pesquisadas e aplicadas as chamadas metodologias ativas. Essas metodologias valorizam o desenvolvimento de habilidades, sentimentos e processos de avaliação que privilegiam a participação ativa do aluno. Um dos instrumentos utilizados é a autoavaliação. Portanto, nesse movimento, o professor assume o papel de orientar e estimular o aluno na construção do seu conhecimento. As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem2 O aluno, por sua vez, possui o importante papel de ser ativo e participativo na elaboração da sua aprendizagem. Os principais influenciadores teóricos da Escola Nova no Brasil foram Anísio Teixeira, Lourenço Filho e Fernando de Azevedo, que enfatizaram o uso de metodologias ativas. É importante você notar que esse movimento já ocorria internacionalmente mediante as ideias de Jonh Dewey, no sé- culo XIX, e Freinet, no século XX (ROMANELLI, 2012; GIRALDELLI JUNIOR, 2001). O Ministério da Educação disponibiliza materiais sobre 62 teóricos e educadores que influenciaram a educação brasileira. Entre eles, encontram-se Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Comênio, John Dewey, Célestin Freinet, Johann Pestalozzi e Johann Herbart. Neste link, você pode aprender mais sobre eles. https://goo.gl/MTqwBS Na segunda metade do século XX, o movimento tecnicista, influenciado pela aceleração da industrialização no Brasil, passou a orientar os modelos de formação de professores, as práticas pedagógicas e as políticas de educação. Nesse movimento, os processos metodológicos eram extremamente importan- tes para que se formassem alunos produtivos e capazes de atuar nas grandes indústrias que se criavam ou se instalavam no País. Assim, os professores não eram responsáveis pelo próprio planejamento, mas uma equipe técnica era quem o realizava. A avaliação era feita por meios sofisticados e técnicos (ROMANELLI, 2012; GIRALDELLI JUNIOR, 2001). Nessa perspectiva tecnicista, o professor assumia o papel de um técnico da educação, devendo aplicar avaliações para verificar a produtividade do aluno. Este, por sua vez, precisava ser produtivo e reproduzir em uma avaliação todos os conhecimentos adquiridos em aula. A partir da década de 1980, com a redemocratização do Brasil, surge um movimento relacionado com as teorias críticas e progressistas, que contestava o sistema capitalista e apresentava o educador como agente de transforma- ção, além de orientador e interventor do conhecimento. A prática educativa estava alicerçada no seu contexto social. O aluno, nessa perspectiva, tem o 3As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem papel ativo e construtivo na elaboração de seu conhecimento, além de ser um agente propositor de mudanças. Essa perspectiva educacional tem como influenciadores teóricos Paulo Freire, Piaget e Vygostsky (GIRALDELLI JUNIOR, 2001; ROMANELLI, 2012). Paulo Freire foi um educador brasileiro que se preocupou com a educação das classes populares. Ele tinha como princípio valorizar o cotidiano do aluno e, por meio do diálogo problematizador, buscava despertar a consciência crítica dos estudantes, tornando-os sujeitos de sua própria história e possíveis transformadores da sua realidade (FREIRE, 1996). Já Lev Vygostsky foi o teórico inspirador do sociointeracionismo, que postula que a construção do conhecimento se dá por meio das interações sociais. Dois dos conceitos mais importantes que desenvolveu foram o da zona de desenvolvimento proximal (ZDP) e o de mediação simbólica, que você vai conhecer melhor adiante (VYGOSTSKY, 1986; 1993). Jean Piaget foi o pesquisador e teórico que postulou o construtivismo — a cons- trução do conhecimento ocorre quando o sujeito interage com o seu meio. Ele propôs a existência de estágios de desenvolvimento cognitivo no ser humano e influenciou a educação de maneira profunda (CASTORINA, 1990). Como você sabe, nos últimos anos houve o advento da sociedade da in- formação e das tecnologias de informação e comunicação (TIC). Nesse ce- nário, se modificaram as exigências do mercado de trabalho e os modos de atuação nessa sociedade dinâmica, conectada e complexa. Assim, está sendo exigido um processo educativo que prepare o indivíduo para as constantes transformações. Desse modo, as metodologias ativas têm sido retomadas e ganhado destaque, colocando o aluno como centro do aprendizado. Nessas metodologias, o papel do professoré o de mediador (orientador, facilitador) da aprendizagem do aluno. Por sua vez, o aluno tem o papel de ser o principal agente de sua aprendizagem. No Quadro 1, a seguir, você pode ver como a relação professor-aluno se deu em cada um dos momentos históricos da educação no Brasil. As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem4 Movimento Relação professor-aluno Escola tradicional e conservadora (século XVII ao século XX) O professor é o detentor do conhecimento, e o aluno, o seu receptor. O professor é autoritário e o aluno pode até mesmo receber castigos. Escola Nova (século XX, a partir de 1920) O professor assume o papel de orientar e estimular o aluno no percurso da construção do seu conhecimento, enquanto o aluno tem direito a uma postura ativa e participativa na elaboração da sua aprendizagem. Escola tecnicista (século XX, a partir de 1960) O professor é o “técnico da educação”, devendo aplicar avaliações para verificar a produtividade do aluno. Este, por sua vez, precisa ser produtivo e reproduzir em uma avaliação todos os conhecimentos que o professor passou a ele. Teorias críticas e progressistas (século XX, a partir de 1980) O educador e a prática educativa devem transformar o contexto social. O professor atua como orientador e interventor do conhecimento. O aluno, por sua vez, tem papel ativo na elaboração de seu conhecimento, além de poder ser agente propositor de mudanças sociais, culturais, políticas e econômicas. Metodologias ativas (século XXI) O papel do professor é de mediador (orientador, facilitador) da aprendizagem do aluno, que deve ser o principal agente de sua aprendizagem. Quadro 1. A relação professor-aluno ao longo da história da educação brasileira O professor mediador Como você pôde ver no tópico anterior, em muitos momentos na história da educação brasileira, o trabalho do professor esteve associado à aula expositiva seguida da proposição de exercícios aos alunos. Na sociedade contemporânea, exige-se que o professor atue com o papel de mediador (orientador, facilitador) da aprendizagem. 5As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem Para compreender a importância do papel do professor como mediador, é importante que você saiba o que são competências. Segundo Perrenoud (2000), a competência é a capacidade de utilizar os saberes para agir em uma situação. Para o autor, o professor que é mediador da aprendizagem do aluno tem a competência de organizar e dirigir as situações de aprendizagem do estudante. Mas o que é organizar e dirigir as situações de aprendizagem? Perrenoud (2000, p. 25) explica que se trata de “[...] despender energia e tempo e dispor de competências profissionais necessárias para imaginar e criar tipos de situações de aprendizagem diferentes das tradicionais”. Para organizar e dirigir situações de aprendizagem, mobilizam-se algumas competências específicas, segundo Perrenoud (2000, p. 26): - conhecer, para determinada disciplina, os conteúdos a serem ensinados e sua tradução em objetivos de aprendizagem; - trabalhar a partir das representações dos alunos; - trabalhar a partir dos erros e dos obstáculos à aprendizagem; - construir e planejar dispositivos e sequências didáticas; - envolver os alunos em atividades de pesquisa, em projetos de conhecimento. Com relação ao conhecimento dos conteúdos a serem ensinados, é indispen- sável que os professores dominem os saberes. Entretanto, eles devem dominar o conteúdo a ponto de construir situações de aprendizagem abertas e tarefas complexas. A ideia é que aproveitem os interesses dos alunos, explorem os acontecimentos, favoreçam a apropriação ativa e a transferência de saberes, ou seja, transmitam o saber identificando os conceitos mais importantes do conteúdo a ser ensinado (PERRENOUD, 2000). Quando o professor trabalha a partir das representações dos alunos, dá-lhes regularmente direitos em sala de aula — direitos de expressarem-se. Além disso, abre espaço para discussão e não censura imediatamente as analogias falaciosas, as explicações simples e os raciocínios espontâneos que apresentam. O professor deve colocar-se no lugar dos aprendizes, sabendo que a maioria dos conhecimentos científicos contrariam a intuição, as concepções e as representações das crianças, bem como as próprias concepções que algumas sociedades do passado apresentaram. Desse modo, a competência do profes- sor é reconhecer e fundamentar-se nas representações prévias dos alunos, usando-as como ponto de entrada para o sistema cognitivo dos estudantes (PERRENOUD, 2000). Para o professor trabalhar a partir dos erros e dos obstáculos à apren- dizagem, é necessário estimular os alunos a reestruturarem seu sistema de compreensão de mundo. Transpor um obstáculo acontece mediante As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem6 uma aprendizagem inédita, que pode ser apresentada por meio de uma situação-problema. Nesse processo, é importante que o professor aceite os erros como etapas importantes do esforço do aluno em compreender. Por meio desses erros, o professor pode proporcionar a tomada de consciência dos estudantes, identificando a origem dos equívocos e transpondo-os (PERRNOUD, 2000). Construir e planejar dispositivos e sequências didáticas demanda do profes- sor a ideia de que uma situação de aprendizagem é gerada por um dispositivo que coloca os alunos diante de uma tarefa, uma trajetória ou um problema para resolver. Ao professor cabe orientar (sem ser o especialista que transmite o saber) e criar situações, dando auxílio para que os alunos solucionem o problema ou a tarefa, ou cumpram a trajetória (PERRENOUD, 2000). Envolver os alunos em atividades de pesquisa, em projetos de conhecimen- tos, traz a ideia de que o professor deve ter a capacidade fundamental de tornar acessível a sua própria relação com o saber. Nessa perspectiva, a competência do professor é saber reconhecer quando os alunos estão entediados diante de uma tarefa com aparência lúdica. Fazer os alunos envolverem-se em atividades de pesquisa é compreender que, como professor, não é possível envolver-se no lugar dos alunos, mas se pode direcionar as tarefas, resgatar o interesse dos estudantes e instigar questionamentos (PERRENOUD, 2000). Um dos teóricos que contribuiu bastante para o aprofundamento e a análise da formação e do desenvolvimento do processo de aprendizagem nos indivíduos foi Vygostsky. Ele dedicou-se ao estudo das funções psicológicas superiores, tais como atenção, memória, imaginação, pensamento e linguagem. Segundo o autor, esses processos não são inatos, mas se originam nas relações entre as pessoas e se desenvolvem ao longo do processo de internalização de formas culturais de comportamento. Portanto, Vygotsky indica que essas funções psicológicas superiores são distintas dos processos elementares (reações automáticas, ações reflexas e associações simples), que têm origem biológica. As funções psicológicas superiores originam-se na relação do sujeito com seu contexto cultural e social, ou seja, na interação dialética do homem com o seu meio sociocultural. Esse autor defende que o desenvolvimento mental (inclusive processos psicológicos mais complexos) ocorre a partir do contexto social. Por meio dos seus estudos, Vygotsky chegou a importantes conceitos — processo de mediação simbólica e zona de desenvolvimento proximal. Esses conceitos ajudam a entender os processos de aprendizagem nas crianças e adolescentes, mostrando que estão correlacionados com cultura, história e linguagem. 7As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem Para tal pesquisador, é por meio da mediação simbólica que ocorre o desen- volvimento das funções psicológicas superiores. Existem dois elementos básicos na mediação simbólica: o instrumento e o signo. O instrumento determina as ações sobre os objetos. Um instrumento pode ser um computador, a internet,uma rede social, um livro; e o signo pode ser a linguagem, por exemplo. No decorrer de suas experiências, o indivíduo pode ter dois tipos de de- senvolvimento. Um deles é o desenvolvimento real, que é aquele que já foi consolidado. Por meio dele, o sujeito é capaz de resolver situações utilizando seu conhecimento de forma autônoma. Mas o indivíduo também pode atingir um desenvolvimento potencial, que é construído com o auxílio de outros (um adulto ou uma criança mais experiente). Entre esses dois desenvolvimentos, o real e o potencial, existe o que o autor chama de zona de desenvolvimento proximal (VYGOTKSY, 1993). A criação e o uso dos instrumentos linguísticos e signos são exclusivos da espécie humana e fundamentais para que haja interação com a cultura e a sociedade. Segundo Vygotsky (1993), as relações sociais como as que ocorrem entre os alunos e os professores são processos educativos muito importantes. Afinal, essas relações transmitem a história e a cultura dos antepassados para que as crianças e os adolescentes se desenvolvam por meio de suas experiências, hábitos, atitudes, valores, comportamentos, linguagem e trocas com quem interagem. Nesse processo, o indivíduo participa ativamente, interagindo, modificando e transformando. Assim, você pode considerar que a escola tem potencial para ser um im- portante espaço de desenvolvimento das relações sociais, utilizando instru- mentos e signos historicamente construídos, como a linguagem, a cultura e as experiências midiáticas. Além disso, ela pode ser um importante espaço de mediação simbólica para crianças e adolescentes que a frequentam. O professor mediador administra a progressão das aprendizagens dos alunos por ajustar as situações-problema ao nível e às possibilidades dos estudantes. Para isso, ele deve: � ter uma visão de longo prazo dos objetivos do ensino; � pensar constantemente por si mesmo e em função dos alunos do momento; � observar continuamente os alunos e avaliá-los em situações de aprendizagem — conforme uma abordagem que tenha por objetivo a formação dos estudantes (PERRENOUD, 2000; VYGOSTSKY, 1986; 1993). As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem8 Relações professor-aluno: situações concretas de ensino e aprendizagem Paulo Freire (1996) defendia que, para substituir o pensamento ingênuo pelo pensamento crítico, seria necessário o diálogo problematizador em sala de aula. Para que esse tipo de diálogo seja possível, os educadores precisam instigar e possibilitar a formação de estudantes ativos e participativos, ou seja, estudantes que participem do seu processo de ensino e aprendizagem por meio do diálogo com o outro (que pode ser um outro aluno, professor ou outros profissionais). Dessa forma, o aluno não age como um mero receptor de conhecimento, mas pode construir, produzir, compartilhar e divulgar o saber. Freire compreende o diálogo como um elemento muito importante para problematizar o conhecimento. Contudo, é fundamental você notar que ele não se refere a um diálogo para nada ou a uma simples conversação, mas a uma modalidade que questiona os saberes mútuos (professor e aluno) e que pode resultar na compreensão da realidade e na sua transformação. Para isso, o professor precisa atuar em uma realidade escolar que favoreça o diálogo com o aluno e com a comunidade a que ele pertence. O educador também deve ter possibilidades de refletir sobre a sua prática e sobre o conte- údo, para que possa propor transformações. Ele deve ainda realizar o trabalho coletivo, mediar as relações de grupo, lidar com conflitos, trabalhar com ajuda mútua e incentivar o respeito à diversidade dos membros de cada grupo (FREINET, 1996). O professor tem a missão de agir buscando uma ação e um pensamento críticos, não como mero reprodutor de conteúdos. Na relação de ensino em que o professor tem o papel de detentor do conhe- cimento e o aluno o de receptor, podem-se encontrar as seguintes situações. 1. O professor solicitar cópias de palavras ou textos aos alunos de séries iniciais (1º ao 5º ano) por meio de um quadro, uma lousa ou mesmo um livro. Nesse caso, a função do aluno é copiar da melhor forma possível e depois mostrar ao professor como realizou o trabalho. A habilidade de cópia das palavras ou textos do aluno será avaliada pelo professor. 2. O professor solicitar a leitura e a seguir interpretações de um texto de literatura a uma turma de adolescentes do ensino médio, mas não dar oportunidades para os alunos expressarem suas reais interpretações. Assim, as interpretações são centradas na visão do professor; é ele quem diz quais são as interpretações corretas do texto. 9As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem Como você viu, em ambos os casos não foram dadas chances aos alunos de elaborar hipóteses sobre o objeto de conhecimento. Sua curiosidade não foi instigada e eles não expressaram suas reais opiniões. Foi dada a eles apenas a função de escutar, ouvir as instruções do professor e realizar as atividades soli- citadas. Isso não significa que não possam existir situações de aprendizagem em que os alunos necessitem copiar palavras ou textos. Também não significa que o professor não possa expor suas próprias interpretações sobre um tema ou texto. Quando o professor assume o papel de orientar e estimular o aluno na cons- trução do seu conhecimento, e o aluno possui o importante papel de ser ativo e participativo na elaboração da sua própria aprendizagem, é possível encontrar situações como a seguinte: um professor de ciências busca apresentar aos seus alunos de 13 e 14 anos do ciclo II do Ensino Fundamental o princípio de Arqui- medes de forma menos abstrata. Para isso, traz a eles a reflexão sobre a matéria sem fazer referência à fase líquida. Pergunta a eles: entre o pão e o açúcar, qual é o mais pesado? Entre o ferro e o plástico, qual é o mais pesado? A madeira ou o concreto, qual é o mais pesado? Possivelmente, as primeiras respostas serão as de senso comum: “o plástico é mais leve”, “a madeira é mais leve”, sem que um conceito tenha sido construído. Posteriormente, constata-se que não se pode saber, pois depende de quanto de matéria se toma (PERRENOUD, 2000). O princípio de Arquimedes explica por que certos corpos flutuam. Um corpo total ou parcialmente imerso em um líquido sofre um empuxo que é igual ao peso (densidade) do volume do líquido deslocado pelo corpo. Esse princípio quantifica o valor da força. Então: (1) os corpos cujo peso é superior àquele do líquido afundarão; (2) aqueles que tiverem peso igual permanecerão em equilíbrio (como um submarino imerso e estabilizado); aqueles cujo peso é inferior ao do líquido subirão à superfície e flutuarão (caso dos barcos) (PERRENOUD, 2000). Como o professor pode levar os alunos a construir esse conhecimento? Ele pode pôr à disposição dos alunos pedaços de madeira, ferro e plástico de volumes, formas e pesos diversos. Tais não se prestam nem a uma comparação direta por peso nem a um recorte fácil em volumes iguais. São utilizados para construir o conceito de peso da unidade de volume (PERRENOUD, 2000). Em outro momento, o professor pode dividir a classe em grupos e dar a cada um deles um pedaço de massa de modelar, pedindo que os alunos meçam As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem10 a massa e o volume, tendo à disposição balanças e tubos de ensaio graduados cheios de água e nos quais podem mergulhar os pedaços. Após a pesagem e a mensuração do volume por imersão, se pode chegar ao Quadro 2. Fonte: Adaptado de Perrenoud (2000). Equipe 1 Equipe 2 Equipe 3 Equipe 4 Equipe 5 Massa (gramas) 22 42 90 50 150 Volume (milímetros) 15 30 150 35 100 Quadro 2. Valores de massa e volume do pedaço de massa de modelar fornecido a cada equipe Por meio do quadro comparativo, a turma de alunos pode chegar a formu- lações como esta: quando se divide a massa por volume, o resultado é sempreo mesmo. Os alunos podem compreender que não se pode comparar senão os pesos da unidade de volume igual e que essa pode ser uma das funções da unidade de volume, que é um volume fictício, que não se recorta fisicamente (PERRENOUD, 2000). Outra situação que sugere ao professor ser mediador do conhecimento, possibilitando aos alunos construírem sua aprendizagem na leitura, é apresentar a uma turma de alfabetização enredos de livros. O professor pode ler em voz alta algum livro da biblioteca escolar. No momento dedicado à leitura, ele pode sentar-se com os alunos em uma roda e apresentar o título do livro, bem como, de modo sucinto, a biografia do autor e o resumo da história. Dessa forma, os alunos vão incorporar elementos de leitura ligados à identificação do livro. A seguir, o professor pode sugerir que cada aluno escolha um livro e leia conforme suas habilidades, sozinho ou com a ajuda de algum colega. Após a primeira leitura, a turma pode voltar a sentar em roda e contar o que leu. O professor pode pedir para os alunos levarem os livros para casa e, após a realização da leitura, solicitar que escrevam um parágrafo sobre o que leram (BRASIL, 2012). Outro exemplo em que o professor orienta e conduz a aprendizagem dos educandos de forma mediadora, incentivando-os a pensar, é a seguinte: apre- sentação de cartazes educativos da área de saúde e leitura desse material para uma turma de alunos. Em um primeiro momento, o professor pode questionar 11As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem os alunos sobre a função dos cartazes. As crianças vão responder, por exemplo, que eles servem para ensinar a cuidar da saúde. A partir da fala do aluno, o professor pode chamar a atenção para os usos e contextos educativos do cartaz, destacando que a sua função é educar, ensinar alguma ação, ou seja, mostrar algo para diversas pessoas. O professor também pode questionar onde os cartazes educativos são encontrados. Algumas crianças vão se lembrar de que podem ser encontrados em postos de saúde, hospitais, consultórios médicos ou talvez no mural da escola. Essa prática é importante porque leva o aluno não só a entender o porquê de estar fazendo uma dada produção e a se sentir motivado ao realizar essa atividade, mas também para mostrar que na vida as pessoas escrevem sempre com alguma finalidade social (BRASIL, 2012). Vickery (2016) sugere que uma aprendizagem ativa é aquela que propõe discutir com as crianças a própria aprendizagem, o ambiente em que ela se dá e as expectativas dos alunos com relação ao professor. É importante que as crianças se envolvam no planejamento e em sua própria avaliação. Tal autora considera importante ainda que o espaço físico de sala de aula estimule a aprendizagem das crianças. Para ela, as disciplinas dos anos iniciais do Ensino Fundamental têm caráter de questionamento e indagação, o que deve ser realizado de modo colaborativo (alunos e alunos, alunos e professores). BRASIL. Ministério da Educação. O trabalho com gêneros textuais na sala de aula: unidade 5, ano 2. Brasília: MEC, 2012. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000. CASTORINA, J. A. (Org.) Piaget-Vygostsky: novas contribuições para o debate. São Paulo: Editora Ática, 1990. FREINET, C. Para uma escola do povo: guia prático para a organização do material, técnica e pedagógica da escola popular. São Paulo: Martins Fontes, 1996. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GIRALDELLI JUNIOR, P. Introdução à educação escolar brasileira. São Paulo: Cortez, 2001. HILSDORF, M. L. S. História da educação brasileira: leituras. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. PERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000. As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem12 ROMANELLI, O. O. História da educação no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. VICKERY, A. Aprendizagem ativa nos anos iniciais do ensino fundamental. Porto Alegre: Penso, 2016. VYGOTSKY, L. S. Formação social da mente: os processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1986. VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993. Leituras recomendadas AVELATO, H. Escola básica e suas revoluções necessárias: desafios à formação do- cente. In: PARENTE, C. M. D.; VALLE, L. E. R.; MATTOS, M. J. V. M. (Org.) A formação de professores e seus desafios frente as mudanças sociais, políticas e tecnológicas. Porto Alegre: Penso, 2015. BRASIL. Portal domínio público. [2018]. 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Disponível em: <http://linguagem.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/eventos/simfop/ artigos_v%20sfp/Rosani_Junckes.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2018. ZABALA, A.; ARNAU, L. Como aprender e ensinar competências. Porto Alegre: Artmed, 2010. 13As relações entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem Conteúdo: