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Do trauma à fantasia O conceito de trauma, no início da psicanálise, estava diretamente ligado a acontecimentos externos reais, que sobrepujavam a capacidade do indivíduo de processar a angústia e a dor psíquica provocados por um evento traumático. De modo geral, o trauma psicológico é o resultado de uma experiência de dor ou sofrimento emocional/físico que, como um dano emocional, pode acarretar a exacerbação de emoções negativas e envolver mudanças físicas no cérebro, além de também afetar o comportamento e até mesmo o pensamento da pessoa, que fará de tudo para afastar qualquer lembrança do evento traumático. O termo trauma apareceu pela primeira vez nas obras de Freud por volta de 1893, enquanto fazia seus estudos com pacientes histéricas, relacionando-o a uma primitiva sedução sexual perpetrada pelo pai contra a paciente. Posteriormente, reconheceu também o trauma do “nascimento”, do “impacto da cena primária”, da “angústia da castração” e, em 1926, reconheceu o trauma representado pelas perdas precoces, como a perda do amor da mãe ou de outras pessoas significativas. Trauma, que em grego quer dizer ferida, é um conceito essencialmente econômico em relação à energia psíquica, pois indica uma frustração na qual o ego sofre uma injúria que não consegue processar, recaindo num estado de desamparo e atordoamento, além de gerar também angústia excedente que será escoada por meio de sintomas corporais. Múltiplos traumas podem ser precocemente impingidos às crianças, tanto sob a forma de separações traumáticas quanto de modo invasivo e decorrente de violências de várias naturezas, os quais podem repercutir seriamente no psiquismo da criança, ficando impressos sob a forma de vazios, isto é, como uma vivência de desamparo e de feridas abertas. A teoria do trauma foi importante no nascimento da psicanálise, pois Freud considerou que a causa dos sintomas da histeria estaria na lembrança de um trauma não ab-reagido, isto é, que não tivesse sido devidamente simbolizado pela linguagem e integrado ao sistema simbólico do sujeito. Em seus primeiros textos, o trauma foi abordado como um incremento da excitação no sistema nervoso, mediante o qual não se tinha ação ou palavras que permitissem sua dissipação, ainda se ligado a um fato real. Ao tentar promover a simbolização do evento traumático pelo método hipno-catártico, Freud chegou à associação livre, abandonando posteriormente a hipnose no tratamento da histeria devido ao retorno dos sintomas em consequência de um provável deslocamento da causa. Foi justamente o deslocamento da causa que levou Freud a levantar a hipótese de que o evento traumático não era suficiente para explicar o surgimento dos sintomas e que tal evento não era necessariamente real, isto é, não teria realmente ocorrido, mas poderia ser causado por fantasias da paciente na tentativa de chamar a atenção sobre a figura paterna. De qualquer forma, um trauma, mesmo se real, tende a ser utilizado de forma defensiva, servindo como álibi para explicar as perturbações presentes, obstruindo o caminho para identificar a causa verdadeira e limitando as possibilidades de questionamento e transformação. Assim, Freud logo se deu conta de que, por trás das histórias contadas por seus pacientes, havia muita fantasia, e passou a se interessar mais pelo significado do que era trazido do que pelo contexto real como relatado. Ele também já tinha passado a supor que a temporalidade do trauma era posterior à ocorrência da impressão relatada, a qual não podia ser significada no momento da percepção, mas era fixada e retornava posteriormente em outros eventos. De 1905 a 1920, Freud começou a elaborar os conceitos da metapsicologia psicanalítica a partir do desenvolvimento sexual infantil, no qual o paradigma da situação traumática passou a ser as fantasias originárias, isto é, aquelas que envolvem angústias de sedução e castração, são relativas à cena primária etc. Com isso, o trauma, surgido como decorrente de um fator ambiental saturado de energia libidinal que não tinha como ser descarregado, passou a ser compreendido em função da urgência e da pressão das pulsões sexuais. A sedução sexual apresentou-se como um paradigma para a situação traumática. No entanto, tendo percebido a falta de eficácia do tratamento a longo prazo, Freud também estranhou a alta frequência com que cenas com a situação traumática eram relatadas com semelhança por suas pacientes, levantando a hipótese de que talvez os relatos não tivessem realmente acontecido, o que o levou à compreensão do mecanismo de repressão e da importância da fantasia para a vida psíquica. Então, os conflitos e as vivências traumáticas passaram a ser compreendidos a partir das fantasias inconscientes e da realidade psíquica interna, chegando ao ponto de ser possível afirmar que a única realidade válida tanto para o paciente como para o analista seria a realidade psíquica. A partir de 1920, Freud começou a reformular sua concepção do aparelho psíquico e extraiu da Embriologia a metáfora de “vesícula viva”, cuja camada mais externa se transformaria em um escudo protetor, argumentando que os estímulos traumáticos seriam aqueles que conseguiriam atravessar o escudo protetor devido à falta de preparo do eu e a fatores diversos como surpresa ou susto, e o trauma adquiriu uma dimensão essencialmente intersistêmica e pulsional. Posteriormente, por volta de 1925, Freud propôs uma nova teoria da angústia que relacionava o trauma à perda de um objeto de afeto, fazendo distinção entre as situações traumáticas: uma automática enquanto sinalização sobre situações de perigo e aproximação do trauma; e outra relacionada com a ideia da angústia que, diante de uma experiência de desamparo, proporcionava excesso de excitação. Já em torno de 1934, é possível encontrar uma descrição mais pormenorizada do trabalho do trauma, definido como impressões primitivas da infância, da época em que a criança começa a falar e o conteúdo se relaciona principalmente a impressões de natureza sexual e agressiva, como experiências sobre o próprio corpo ou percepções dos sentidos, de algo visto e ouvido, as quais provocam alterações comparáveis a cicatrizes no psiquismo. Como a criança estaria começando a falar, a linguagem ainda não estaria plenamente desenvolvida, não deixando lembranças no inconsciente, mas apenas traços, não percebidos na superfície, mas registrados em uma camada mais profunda. Em 1940, no livro “Esboço de psicanálise”, Freud comparou o efeito de um trauma psicológico ao de uma agulha perfurando um embrião humano, pois, se uma agulhada em um organismo desenvolvido é inofensiva, numa massa de células em divisão celular poderá promover relevantes alterações naquele ser em desenvolvimento. Tirou ainda conclusões sobre a universalidade do trauma e sobre as repressões originadas pelo evento traumático. Depois de abandonar a perspectiva da sedução como algo realmente acontecido, Freud passou a considerar os relatos de sedução como provenientes da fantasia, como uma forma mítica, a nível individual, de abordar a questão da origem dos transtornos. Além disso, observou também que a criança em crescimento, durante suas brincadeiras, substituía os objetos reais pela fantasia, construindo castelos no ar e criando o que foi chamado de devaneio, propondo que, como no sonho, a fantasia expressaria a realização de um desejo, fornecendo ao sujeito uma satisfação independente da realidade. Freud percebeu que a fantasia, assim como o sonho, o lapso, o sintoma e os atos falhos, seria uma produção do inconsciente e, portanto, sua lógica de funcionamento não seria determinada nem pela racionalidade nem pelo tempo cronológico, mas insubordinada a qualquer ordenação, coexistindo passado, presente e futuro enlaçados no devaneio pelo desejo como um fio condutor. Portanto, no psiquismo, a conexão de uma experiência passada com uma situação atual teria condições de produzir o “por vir”, sempre a serviço do desejo, e assim, as fantasiasseriam motivadas pelas frustrações impostas pela vida cotidiana, funcionando como um modo natural de aceitar e enfrentar as próprias frustrações. Contudo, a possibilidade de fantasiar não é idêntica em todas as pessoas. Freud (2006) aponta, por exemplo, que os homens adultos se envergonham de suas fantasias e que apresentam muita dificuldade de revelá-las fora da situação terapêutica. Portanto, a fantasia pode ser considerada como uma válvula de escape para as pulsões inconscientes. Contudo, diante da impossibilidade de fantasiar, seja por qualquer motivo, podem ocorrer outras possibilidades menos saudáveis, e o adoecer está entre elas. Mas doença é um termo muito genérico que implica o conhecimento exato dos mecanismos envolvidos e suas causas, e como em psiquiatria e em psicologia apenas em poucos quadros clínicos mentais todas as características biológicas e funcionais são conhecidas, os termos ‘transtornos’, ‘perturbações’, ‘disfunções’ ou ‘distúrbios’ são mais usados, até porque o conceito de ‘transtorno’ foge à norma do conhecimento e se associa a um comportamento desviante, ‘anormal’.