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Autoras: Profa. Ivete Maria Soares R. Ramirez Profa. Lisienne de Morais Navarro Gonçalves Silva Profa. Mônica dos Santos Mandaji Colaborador: Prof. Adilson Camacho Geografia Integrada GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Professoras conteudistas: Ivete Maria Soares R. Ramirez / Lisienne de Morais Navarro Gonçalves Silva / Mônica dos Santos Mandaji © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) R173g Ramirez, Ivete Maria Soares Ramirez. Geografia integrada. / Ivete Maria Soares Ramirez Ramirez, Lisienne de Morais Navarro Gonçalves Silva, Mônica dos Santos Mandaji. – São Paulo: Editora Sol, 2016. 84 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXII, n. 2-027/16, ISSN 1517-9230. 1. Geografia articuladora. 2. Espaço geográfico. 3. Diversidade interdisciplinar. I. Título CDU 91 Ivete Maria Soares R. Ramirez Cientista social e geógrafa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). Possui especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor-Unicamp. Mestranda em educação e coordenadora da Unip Interativa EaD do curso de Licenciatura em Geografia. Professora de Geografia para o Ensino Médio e para o curso pré-vestibular Objetivo e assessora de coordenação do Departamento de Apoio Pedagógico Objetivo (DPG). É autora do livro Tiwanaku: um olhar sobre os Andes e de materiais didáticos para o Ensino Médio do Sistema de Ensino Objetivo e UNIP Interativa EaD. Lisienne de Morais Navarro Gonçalves Silva Doutora pela Unicamp na área de Psicologia Educacional e mestre em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo. É psicopedagoga, atuando na área de formação. Realiza cursos e palestras na área da Educação. É professora titular da Universidade Paulista (UNIP), ministrando aulas nos cursos presenciais e na educação a distância. É líder de disciplina e escreveu livros-textos para EaD, além de coautora do livro A Escola e o Aluno: Relações entre o Sujeito- aluno e o Sujeito-professor. Desenvolve projetos para atender à comunidade da região do município de Santana de Parnaíba, que faz parte da microrregião de Osasco, que congrega os municípios de Barueri, Cajamar, Carapicuíba, Itapevi, Jandira, Osasco, Pirapora do Bom Jesus e Santana de Parnaíba. Coordena os projetos: Oficinas Pedagógicas de Arte e Expressão (que trabalha com crianças com dificuldade de aprendizagem da região) e Menos Um (de alfabetização de jovens e adultos da região). Participa do grupo de pesquisa Multiletramento, na formação contínua de educadores, e é líder do grupo de linguagens pedagógicas de educação a distância Diversidade em Ação, da UNIP, ambos registrados no CNPQ. Realiza pesquisa na área e orienta trabalhos de iniciação científica. Mônica dos Santos Mandaji Doutora em Educação pela PUC-SP e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. É formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e possui ainda Licenciatura Plena pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. Entre os cursos de Especialização, destacam-se o de Mídias Interativas aplicadas à Educação, pela PUC-SP, e a pós-graduação em Formação de Professores para Educação a Distância, pela UNIP. Participou também de curso de formação para tutoria, ministrado pela Organização dos Estados Americanos. É professora da UNIP desde 2006 e atua como professora virtual na UAB, da Universidade Federal de São Carlos. É também colaboradora do Instituto Crescer para a Cidadania, onde atua em projetos educacionais voltados à formação de professores para uso de tecnologias digitais e na formação de gestores escolares para desenvolver sua liderança, e do Instituto Singularidades. Atuou também na Gestão Pública, onde foi secretária de Cultura, Esporte e Turismo na Cidade de São Vicente/SP. GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Rose Castilho Lucas Ricardi GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Sumário Geografia Integrada APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 O TEMPO, O ESPAÇO, O MUNDO E A GEOGRAFIA .............................................................................. 11 1.1 O tempo e a Geografia ....................................................................................................................... 11 1.2 A Geografia e o espaço ...................................................................................................................... 15 1.3 O espaço mundializado e a Geografia ......................................................................................... 16 1.3.1 Paisagens urbanas e a cultura ........................................................................................................... 17 2 A GEOGRAFIA ARTICULADORA E O ENEM ............................................................................................ 22 2.1 Matriz de referência de Ciências Humanas e suas Tecnologias proposta pelo Enem ....................................................................................................................................................... 22 2.2 Os eixos voltados à reflexão do espaço geográfico ................................................................ 26 2.3 Explicação da realidade para a Geografia Integrada ............................................................. 28 3 A GEOGRAFIA ARTICULADORA E OS EIXOS TEMÁTICOS ................................................................. 33 3.1 Eixos temáticos da Geografia .......................................................................................................... 33 3.2 Os temas transversais e a Geografia ............................................................................................. 40 4 UM OLHAR GEOGRÁFICO MEDIANTE NOVAS TECNOLOGIAS ........................................................ 43 Unidade II 5 CONCEITOS CONSTITUTIVOS E OPERACIONAIS ................................................................................... 49 5.1 Tempo, espaço e produção geográfica ........................................................................................ 50 6 DESAFIOS DO MAGISTÉRIO E A GEOGRAFIA INTEGRADA ...............................................................54 7 DIFERENTES LEITURAS, VISÕES CONTEXTUALIZADAS ...................................................................... 58 8 EXPLORANDO A DIVERSIDADE INTERDISCIPLINAR ............................................................................ 68 7 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 APRESENTAÇÃO Caro aluno, esta disciplina tem como objetivo trazer a possibilidade de trabalhar a Geografia de maneira a entendê-la de forma integrada a diferentes áreas de conhecimento. É importante não ignorar algumas das características humanas de interpretar, criar e refletir sobre o mundo que o cerca, auxiliando na formulação de conceitos de ser e agir em uma sociedade em constante transformação. Um ser biopsico-histórico-social que se faz pelo meio e faz o meio em que vive. Pensar sobre a especificidade profissional da Geografia e os seus conhecimentos teóricos e práticos nos leva a considerar que o ato de ensinar deve se fundamentar no domínio dos saberes formais e experienciais do ser humano. O geógrafo, bem como o pedagogo, o engenheiro e o médico, subentendendo que faz o que gosta, portanto, deve entender da sua área, deve saber transmitir seus conceitos fundamentais, bem como ensinar o aluno a contextualizá-los com outros conhecimentos. Dessa forma, é necessário acompanhar as transformações que ocorrem atribuindo status diferenciado do tradicional, fazendo conexões necessárias com as diferentes disciplinas ou áreas, estabelecendo correlações entre as produções geográficas e os distintos momentos históricos e culturais, buscando apreender conceitos básicos, gerais e específicos da ciência geográfica. A Geografia reproduz a vida social, organiza e, de certa forma, interfere em seus espaços. Ela, integrada ao mundo e aos acontecimentos, estabelece relações entre os diferentes espaços existentes, é a interligação entre espaço, tempo, sociedade e história. Ela é interdisciplinar, um diálogo entre ela e as demais áreas, integrando-as e complementando-as, trazendo para si a visão e o conceito que a permeiam. Para se efetivar essa integração, faz-se necessário discutir e refletir os espaços vividos como sendo elementos estruturantes das mudanças globais, entendendo a parte e não se esquecendo do todo, em um movimento de união no caminho de compreender o espaço e o tempo vivido na contemporaneidade. Conhecer como o todo se constitui, entrando em contato com suas particularidades, é compreender a importância de todo e qualquer elemento que compõe um determinado espaço. O que nos motiva a escrever este livro-texto é o objetivo de levar o aluno a desenvolver um pensamento geográfico, fazendo relações com as ciências que a circundam, entendendo-a como meio de reproduzir a realidade, questionar e criticar os espaços criados e recriados, conectando-nos com saberes diferentes, com fazeres diversificados e percepções singulares do mundo. A ideia é ter contato com a realidade de maneira integrada, dialogando com as disciplinas e articulando a prática pedagógica com a realidade em uma dinâmica de olhar, observar e estabelecer significados e sentidos. Nosso diálogo com você deve levá-lo a rever os conceitos geográficos, bem como sua aplicabilidade nas áreas, resgatando sua importância na compreensão do espaço brasileiro e 8 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 mundial. Esse processo se torna fundamental para que você possa entender o mapa, a carta como instrumento do trabalho de Geografia, na explicação de fatos e acontecimentos históricos sociais. Abordar o campo do saber que fundamenta a Geografia é muito importante para que esta saia do senso comum e passe a ser vista como ciência, portanto, nas referências bibliográficas indicadas no livro-texto e no plano de ensino você encontrará autores renomados que se debruçam sobre os estudos da Geografia e que embasam a presente obra. Aproveite o estudo e busque as indicações de leitura e filme para enriquecer seus conhecimentos. INTRODUÇÃO Nosso século pede que a reflexão, o conhecimento, a criação e a transformação façam parte do agir e ser cidadão. Os desafios estão presentes em toda parte, e ainda mais na educação, pois é nesse espaço que se possibilita a transformação e reflexão do ser e do fazer humano. Vivemos novos tempos. A Geografia do passado e seu arcabouço teórico foram complementados por novas informações e novos instrumentos, os quais lhe permitiram se tornar mais precisa em determinadas informações e explicações. Assim, as novas tecnologias constituem-se em ferramentas importantes no processo de construção dos conhecimentos geográficos. Os grupos humanos do passado tiveram um conhecimento prático da natureza e de sua apropriação para a sobrevivência, de acordo com suas respectivas culturas. O homem moderno alterou essas formas de viver – a urbanização e a preocupação capitalista, monetária, o levaram a níveis preocupantes em termos ambientais. O patrimônio cultural viu-se comprometido em projetos de construção e de desconstrução. Tais temas nos remetem às considerações de García Canclini, quando afirma: [...] o patrimônio cultural expressa a solidariedade que une os que compartilham um conjunto de bens e práticas que os identifica, mas também costuma ser um lugar de complexidade social. As atividades destinadas a defini-lo, preservá-lo e difundi-lo, amparadas pelo prestígio histórico e simbólico dos bens patrimoniais, incorrem quase sempre numa certa simulação ao sustentarem que a sociedade não está dividida em classes, etnias e grupos, ou quando afirmam que a grandiosidade e o prestígio acumulados por esses bens transcendem essas frações sociais (CANCLINI, 1994 apud CABRAL, 2004, p. 37). Assim sendo, a Geografia Integrada terá como pressupostos teóricos não só os argumentos e preocupações tradicionais da disciplina, mas também toda a construção que ocorrerá naquele determinado espaço antropizado. Como devemos esperar, o processo de educação está automaticamente vinculado a esses “espaços” ou “lugares”. A Unesco (organismo da Organização das Nações Unidas responsável pelo patrimônio artístico e cultural) vem apresentando documentos interessantes que mostram a educação vigente como ainda 9 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 atrasada, chamando o educador a se revisitar e a preparar seu olhar para a complexidade que se apresenta no mundo de hoje. Um olhar mais sensível e cuidadoso, respeitando a multidimensionalidade que emerge integrando o homem ao mundo e colocando o mundo no homem. É necessário reduzir a visão individualista, integrando, cooperando, solidarizando, respeitando e garantindo a integração nas relações que são estabelecidas no decorrer das inter-relações, como aponta Fazenda (1993). Para que a Geografia não se separe dos diferentes olhares que compõem o mundo, é imprescindível que se conheça o mundo e compreenda as transformações ocorridas ao longo da história. A sintonia com o mundo requer do profissional uma ligação entre o tempo e o espaço sempre presentes no fazer do geógrafo atuante e comprometido. A Geografia não se preocupa apenas com o hoje, mas analisa o ontem e prevê o amanhã. Entretanto, para que a preocupação se efetive em ações é necessário que se aproxime da visão sistêmica e transdisciplinar, uma visão que transcende o aqui e agora, que tenha uma concepção crítico-histórico- social do espaço que mostra a influência do ser humano na transformação do mundo e do espaço social pelas suas atitudes. Quando se fragmenta o olhar ignorando o todo, fica quase impossível compreender a dinâmica do construir-se junto, na complexidade do mundo. Portanto, tem-se como um grande desafio da humanidade e do profissionalformado em Geografia o entender e o trabalhar com os componentes que se apresentam na subjetividade do fazer: o psicológico, o afetivo e o mitológico. Morin (2000) aponta para a inteligência humana, que está acostumada a fragmentar o todo, separando-o e dificultando a compreensão do complexo e a resolução de problemas que requerem um olhar amplo da situação. Ao fragmentarmos, perdemos a dimensão do problema ou do espaço ocupado, tornando-nos incapazes de analisar as partes levando em consideração o contexto em que ela se apresenta. A disciplinaridade guarda vantagem e desvantagem para o mundo do saber. Enquanto vantagem há a divisão de trabalho e a especialização em um determinado assunto desenvolvendo olhar especialista para a situação. Quanto à desvantagem, encontra-se a excessiva especialização tirando a visão do todo e perdendo o conhecimento das partes. Quando se torna o conhecimento em pedaços, o olhar adoece e fica míope, reduzindo o ver complexo, o todo com suas nuances, em pequenos objetos, sem interligá-los, deixando-os na superficialidade. Morin (2000) ressalta a existência do déficit demográfico devido aos crescentes problemas causados pelos aumentos das especializações que deixam a visão do todo deturpada, mas alerta que integrar o olhar da Geografia requer trabalhar a inteligência no sentido que o pensar e o fazer estejam ligados com a dúvida, com o questionamento, com a criticidade. 10 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Desta forma, repensar o que se pensa é permitir-se duvidar, argumentar e discutir o que acredita ser verdade naquele momento. Integrar as partes que compõem o todo é abrir caminhos para a transformação. Neste caminhar da revolução do pensar e do ver-se como profissional da Geografia, nos leva a entender a importância do contato com a história, com o antepassado, com a evolução do ser humano e, portanto, da sociedade. Esse diálogo que se inicia neste livro-texto objetiva formar em você, aluno, uma consciência humana, ética e solidária das relações estabelecidas no universo terrestre. Temos que ter consciência que nossa obrigação não está no campo da transmissão e, sim, desenvolver no aluno o desejo de transformar-se mentalmente, de desenvolver a resiliência, resistência às frustrações, a capacidade de autoformar-se, a se ver e portar como cidadão participativo, com noção do seu papel dentro da sociedade à qual está inserido. Estabelecer um diálogo entre o pensar pedagógico e o pensar como profissional da Geografia não é fácil e nem se limita a apenas dominar o conhecimento. Esta relação necessita saber elaborar uma leitura do mundo, do espaço ao qual pertence e ao que não pertence, atribuindo um sentido para o que se vê e se lê, traçando relações entre conceito, território, espaço, paisagem e outros aspectos que auxiliem no entender. Portanto, integrar a Geografia é se conectar com as áreas nas quais ela transita. É viajar entre os espaços de tempo, na construção da visão do todo geográfico holístico. Desenvolver ferramentas que levem ao comprometimento das mudanças necessárias para a educação contemporânea, olhando o problema ou a situação que se apresenta de maneira antagônica, tanto na sua simplicidade quanto na complexidade que se apresenta, é o que se pretende com este livro-texto. Bom trabalho! 11 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA Unidade I 1 O TEMPO, O ESPAÇO, O MUNDO E A GEOGRAFIA 1.1 O tempo e a Geografia Iniciamos nossas considerações estabelecendo uma relação que consideramos pertinente entre a Geografia e o conceito de tempo, que para os geógrafos apresenta dupla conotação: o tempo histórico, que representa o transcorrer dos fatos e da vivência da sociedade, e o tempo atmosférico. Portanto, o tempo nos remete ao relacionamento que ocorre entre posições e sequências de acontecimentos, as quais são transmitidas no interior das sociedades com imagens que se referem às experiências vividas. Partimos da evolução do pensamento geográfico e da controvérsia que paira acerca da definição do seu objeto de estudo e das relações que se permitem a partir dele. Sim, há toda uma polêmica sobre o que estuda a Geografia e qual a relação entre ela e os grupos humanos. As propostas tradicionais vinculam a Geografia ao estudo do espaço. A ciência geográfica tem como competência descrever todos os fenômenos manifestados na superfície terrestre, caracterizando-se, assim, como uma síntese de todas as ciências, concepção que seria advinda do pensamento de Immanuel Kant. Seria ela então apenas sintética e descritiva? Apesar das controvérsias a respeito do tema discutido, prevalece a ideia, em termos de correntes de pensamento, de que a Geografia descreve a superfície da Terra. Os distintos grupos humanos convivem com a natureza de seu habitat de origem, adaptando-se e organizando-se de acordo com suas características naturais. Pensamos aqui no sentido de etnocentrismo, aquele analisado pela Antropologia, que estabelece a relação entre os indivíduos e a natureza, uma vez que certos estudos etnográficos consideram a natureza como um organismo vivo, com funções vitais, e composta por elementos que interagem entre si. Claro que, aqui, estamos pensando em sociedades com modos de vida mais naturais – no caso do homem moderno, do ambiente capitalista urbano ou rural ligado aos agronegócios, as condições são outras, bem como a sua organização de espaço e preocupações econômicas. Devemos destacar que, sob o ponto de vista etnográfico, as relações entre homem e natureza, ou ambiente natural, existem desde os primórdios da humanidade, tendo por finalidade localizar os lugares, gerando, ao longo do tempo, a partir das observações in loco (em seu ambiente natural) as representações cartográficas e explicações sobre elas, sistematizando as informações. Desde as grandes navegações, no século XVI, o trabalho geográfico evoluiu, para a identificação das coordenadas (latitude e longitude). A partir dessas informações, estudiosos como Alexander von Humboldt, entre outros, puderam realizar observações e descrições mais aprimoradas sobre a natureza, o que denota a importância dos conhecimentos geográficos integrados a outros. 12 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Caberia, então, à Geografia o papel de articuladora entre os fenômenos dotados de qualidades distintas que coabitam um determinado espaço terrestre, o “lugar“, em seu caráter singular. No artigo de Claval (2005, p. 11), podemos ler que A reflexão sobre problemas de riqueza e de produção se desenvolveu desde o século XVII. Nasceu da observação da paisagem e da realidade geográfica. No final do século XVII, economistas como William Petty, na Inglaterra, e Vauban, na França, já sabiam que as atividades produtivas estavam geralmente concentradas ao longo dos litorais, dos rios navegáveis e dos canais, nas tiras de duas léguas de largo Portanto, em distintos momentos históricos, desde Heródoto e Estrabão, entre outros estudiosos, o conhecimento e a observação geográfica de maneira integrada vem sendo realizada. É interessante recordar a obra de Adam Smith, datada de 1776, A Riqueza das Nações, na qual já apresentava uma observação de ordem geográfica, uma vez que demonstrou que a especialização do trabalho era limitada pela extensão apresentada pelo mercado. No segundo capítulo de sua obra, considera que a riqueza das nações é resultante da vontade dos indivíduos, de suas iniciativas, do seu empreendedorismo, além do livre funcionamento dos mercados, expresso pela sua frase: “deixa fazer, deixa passar”. A Geografia Renovada, embora amplie as correlações entre aGeografia, seu objeto de estudo e as demais ciências, continua vinculada ao pensamento geográfico tradicional. Sabemos que o uso do termo “Geografia” remonta à Antiguidade Clássica e ao pensamento grego, mas também sabemos que o seu uso foi sendo variado de acordo com os conteúdos abordados. Podemos exemplificar com as colocações de Tales e Anaximandro, os quais privilegiaram a medição do espaço e a discussão sobre a forma da Terra (o que hoje seria definido, na linguagem geográfica, como Geodésia), ou ainda com Heródoto, que se preocupava com a descrição dos lugares, pensando em termos regionais, isso sem falar em Hipócrates, que escreveu a obra Dos Ares, dos Mares, dos Lugares, e em Aristóteles, que também teve preocupações de ordem geográfica, sem, no entanto, identificá-las como tal, mas nas obras Física, Política e Meteorologia chega a termos bem geográficos, como a relação homem-natureza e clima. Desta forma, pode-se dizer que o conhecimento geográfico se encontrava disperso. Por um lado, as matérias apresentadas com essa designação eram bastante diversificadas, sem um conteúdo unitário. Por outro lado, muito do que se entende por Geografia não era apresentado com esse rótulo. Esse quadro vai permanecer inalterado até o final do século XVIII. Isso não quer dizer que não existiam autores expressivos, no decorrer deste enorme período da história da humanidade, que tenham dado esta rotulação a seus estudos. Basta pensar em Cláudio Ptolomeu, que escreve a obra Síntese Geográfica que, principalmente em sua versão árabe Almagesto, vai constituir-se num dos principais veículos que resgatam 13 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA as descobertas do pensamento grego clássico durante a Idade Média. Ou, ainda, em Bernardo Varenius, cuja obra Geografia Generalis vai ser um dos fundamentos da obra de Newton (MORAES, 2005, p. 11). No século XVIII, a ciência estava a serviço do Estado, legitimando a sua intervenção em distintas áreas do mundo. O soberano era responsável pela felicidade e bem-estar social, moral e econômico dos seus súditos. Saiba mais Para saber mais sobre o tema, leia: DOMINGUES, A. Para um melhor conhecimento dos domínios coloniais: a constituição de redes de informação no Império português em finais do Setecentos. Hist. cienc. saúde, Rio de Janeiro, v. 8, supl., p. 823-838, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v8s0/a02v08s0.pdf>. Acesso em: 4 jan. 2016. No entanto, foi somente no século XIX que o conhecimento geográfico foi sistematizado, após longo período de descrições e relatos de viagens em seus múltiplos aspectos, geralmente feitas em tom literário. A dispersão dos conhecimentos passa a ter um caráter de identificação de territórios e do próprio planeta Terra, em suas dimensões, com objetivos ligados aos interesses capitalistas, o que já havia tido seus primórdios no período das grandes navegações e, posteriormente, durante a Idade Média. O interesse dos Estados nacionais levaria à fundação de institutos nas metrópoles, nos quais as sociedades geográficas e escritórios coloniais reuniriam o material já coletado de conhecimento dos lugares e suas características. A descoberta das técnicas de impressão e a possibilidade de se registrar as informações estimularam os estudos cartográficos, servindo para calcular rotas de navegação, para orientar sobre condições atmosféricas e até para localizar os portos e cidades importantes. A Filosofia contribuiu muito para a sistematização de um pensamento geográfico, bem como para sua valorização, para explicar os fenômenos do real, ou seja, propor uma explicação sobre o mundo não religiosa. Novos temas, como diziam, parafraseando Herder, para ver a Terra como “teatro da humanidade”. Os exemplos desse modo de pensar filosófico-geográfico ficam evidenciados em obras como a de Rousseau, discutindo as formas de exercício de poder do Estado e extensão territorial de uma sociedade, até a de Montesquieu, O Espírito das Leis, na qual discute, de maneira determinista, a ação do meio no caráter dos povos. Outra forma de sistematizar o pensamento de caráter geográfico também pode ser observada na área de Economia Política, com autores como Adam Smith e Thomas Malthus. 14 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Saiba mais Para saber mais sobre Adam Smith e Thomas Malthus, leia: ADAM Smith. Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 6 jan. 2011. Disponível em: <http://www.institutoliberal.org.br/biblioteca/galeria-de-autores/adam- smith/>. Acesso em: 12 fev. 2016. THOMAS Robert Malthus. UOL Educação, São Paulo, 2016. Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/biografias/thomas-robert-malthus.htm>. Acesso em: 12 fev. 2016. A Geografia ganha outro status em termos de legitimação científica com o Evolucionismo de Charles Darwin e Lamarck, haja vista que, com essas teorias, as condições ambientais vão ser priorizadas, com as propostas de uma metodologia naturalista. As bases de uma ciência moderna estariam assentadas. As ciências naturais haviam constituído um cabedal de conceitos e teorias, dos quais a Geografia lançaria mão, para formular seu método. E, principalmente, os temas geográficos estavam legitimados como questões relevantes, sobre as quais cabia dirigir indagações científicas (MORAES, 2005, p. 14). Dessa forma, a Geografia, no decorrer do tempo, no sentido histórico, cronológico, como área de conhecimento, foi sendo consolidada teoricamente como uma ciência que busca conhecer e explicar as múltiplas interações que podemos estabelecer entre a sociedade e a natureza, o que permite estabelecer, em termos de conhecimento, a integração com as outras áreas do saber científico, no sentido de obter uma compreensão dinâmica da realidade. O ser humano, de maneira distinta à de outras espécies, sente a necessidade de interpretar o mundo e cria, para tanto, um mundo próprio, uma vez que questiona e reflete sobre a sua condição enquanto ser e tem a capacidade de planejar suas ações, de simbolizar e de também construir sua própria cultura. Portanto, ao reproduzir a sua vida social, também organiza e interfere no espaço no qual vive. Aqui entra a ideia de Geografia Integrada, a ideia de descrição da superfície terrestre, mas, dessa vez, associada a outras formas de saber, que difere da ideia alimentada por muitos pensadores, como uma mera descrição de paisagens ou ciência de síntese dos conhecimentos sobre a natureza. Segundo Rocha (2007, p. 23), [...] os geógrafos humanistas assumem como objetivo em seus estudos, ou melhor, “(...) sua pretensão é de relacionar de uma maneira holística o homem e seu ambiente ou, mais genericamente, o sujeito e o objeto, fazendo uma ciência fenomenológica que extraia das essências a sua matéria-prima” (HOLZER, 1997, p. 77). 15 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA No entanto, foi com Kant que o estudo da Geografia, juntamente com o da História, passou a ser analisado, associando a História à Geografia Física, disciplina que ministrou, culminando com a publicação de suas notas de aula em 1802, pouco antes de sua morte. Para ele, a História difere da Geografia em termos de tempo e espaço. Além disso, existe o aspecto cartográfico típico dos estudos geográficos, na representação do espaço, e as suas decorrentes leituras. Destacamos que a História ordena os fenômenos no tempo e a Geografia, no espaço, ambas contrastando com outras disciplinas e integrando entre si fenômenos que são heterogêneos. 1.2 A Geografia e o espaço Segundo Kant, a Geografia é uma ciência que trabalha de forma interdisciplinar ou integrada com outrasciências, não só descrevendo, mas também analisando de forma ampla distintos aspectos da Terra e seus habitantes. Já David Harvey (1992, p. 7) afirma que [...] o espaço vivido ou espaço do cotidiano é palco das repercussões de um mundo globalizado em constante processo de transformação, pois vem ocorrendo uma mudança abissal nas práticas culturais, bem como político- econômicas vinculada à emergência de novas maneiras dominantes pelas quais experimentamos o tempo e o espaço. Outra definição vem com Santos (2004, p. 115), para quem “cada coisa nada mais é que parte da unidade, do todo, mas a totalidade não é uma simples soma das partes. As partes que formam a totalidade não bastam para explicá-la”. Mediante essas considerações, o conhecimento integrado da Geografia e dos seus objetos de estudo somente poderão ser conhecidos mediante o conhecimento das partes e estas somente poderão ser conhecidas através do conhecimento do todo. A ideia é promover a integração teórica e prática do conhecimento linguístico-textual e das relações que se permitem estabelecer entre os distintos conteúdos teóricos, assim como a sua relação com os estudos geográficos. A Geografia, em termos de espaço e tempo, estabelece um diálogo entre as disciplinas afins na explicitação de conteúdos e, ao mesmo tempo, constitui-se como eixo articulador da prática pedagógica integrada na realidade total. A proposta é enfatizar a Geografia como uma ciência na qual o espaço pode ser visto como integrado à realidade em sua totalidade, envolvendo a rede de relações do ser humano com o meio, da sociedade com a natureza, e, no sentido social, as relações que se estabelecem dos seres humanos entre si (SANTOS, 2004, p. 114). Assim, um espaço geográfico é marcado por uma identidade, ele tem múltiplas dimensões, sendo constituído por ações, conflitos e contradições. A Geografia deve possibilitar a leitura das paisagens e de mapas, como metodologia de ensino, para que o aluno observe, descreva, compare e analise fenômenos que compõem a realidade do espaço. 16 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I É de grande relevância que o professor de Geografia transmita aos seus alunos a capacidade de fazer uma leitura do seu espaço e amplie essa capacidade também para outros espaços, abrangendo, dessa forma, o espaço mundial. O ensino da Geografia é uma combinação entre conceitos e saberes e a educação geográfica requer o desenvolvimento de um modo de pensar estruturado em princípios filosóficos, metodológicos e pedagógicos (BRASIL, 2006). Ao pensar a Geografia nas relações que se permite estabelecer com outras ciências e consigo mesma, assim como nas partes em que se compõe, observamos que o espaço, enquanto conceito, é dinâmico e historicamente construído como parte de uma totalidade social, com características não só determinadas como também determinantes de sua interação com o todo. Ou seja, constatamos que a Geografia, enquanto disciplina, tem um amplo diálogo com outras. Tempo, espaço e mundo são realidades históricas que devem ser mutuamente conversíveis, se a nossa preocupação epistemológica é totalizadora. Em qualquer momento, o ponto de partida é a sociedade humana em processo, realizando-se. Essa realização se dá sobre uma base material: o espaço e seu uso; o tempo e seu uso; a materialidade e suas diversas formas; as ações e suas diversas feições (SANTOS, 2004, p. 54). O espaço deve ser compreendido em suas múltiplas dimensões, contradições, conflitos, “como um conjunto de objetos e ações que revela práticas sociais dos diferentes grupos que vivem num determinado lugar, interagem, sonham, produzem, lutam e o (re)constroem”, de acordo com Castrogiovanni, Callai e Kaercher (2003, p. 7). Observamos que o convívio social ocorre não só entre os grupos sociais e comunidades entre si, mas também destes com a natureza e seu entorno, seja local, regional, nacional ou mundialmente. 1.3 O espaço mundializado e a Geografia Reafirmamos que é evidente que os grupos humanos, em sua interação, convivem com os aspectos ambientais, tanto de modo amistoso como o agredindo e o transformando. Portanto, nos estudos geográficos, existem objetivos dispostos à compreensão da dinâmica social e espacial e da produção e reprodução do espaço em distintas escalas em termos locais, regionais, nacionais e mundiais. Devemos considerar que o local é influenciado pelo global, bem como cada um deles também apresenta suas particularidades e singularidades em seus respectivos lugares, considerando o processo histórico. Ao valorizar o espaço vivido, a Geografia, em articulação com as demais ciências, favorece a compreensão da realidade e de uma possível transformação dela. Como afirmam Castrogiovanni et al. (2003b apud HAMMES, 2007, p. 19): 17 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA [...] o saber da Geografia não é apenas evocar nomes. É reconhecer as influências, as interações que lugares e paisagens têm com nosso cotidiano. É importante incluir-se no globo, sentir e agir no planeta como alguém capaz de modificar o lugar onde vive, de (re)construí-lo e não apenas de ali estar como um personagem num palco. Dessa forma, para sabermos Geografia, precisamos ser alfabetizados na leitura dos lugares, sejam eles próximos ou distantes de nós. Isso passa necessariamente pelo uso de globos e mapas. Observação Segundo os Parâmetros Nacionais Curriculares, “[...] o estudo da paisagem local/global não deve se restringir à mera constatação e descrição dos fenômenos que a constituem. Será de grande valia pedagógica explicar e compreender os processos de interações entre a sociedade e a natureza, situando-as em diferentes escalas espaciais e temporais, comparando-as, conferindo-lhes significados” (BRASIL, 1998a, p. 32). 1.3.1 Paisagens urbanas e a cultura A Constituição Brasileira de 1988, no seu artigo 216, define o que é patrimônio cultural ou, de acordo com seu parecer, os bens de natureza material e imaterial interessantes para acompanhar os estudos geográficos integrados a outras áreas do conhecimento. Estamos pensando aqui na produção humana. Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. Os bens culturais de uma comunidade assumem formas distintas, desde as suas edificações herdadas do passado histórico, os costumes e tradições vinculados ao respectivo período até as obras contemporâneas, seus estilos e adaptações, como podemos exemplificar a seguir: 18 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Figura 1 – Imagem da cidade de Praga, República Tcheca Os países da antiga área de influência soviética mantêm as suas estruturas e organização do espaço que nos remetem ao passado socialista, com centralização de atividades e de espaço. Figura 2 – Rio Sena em Paris, França 19 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA Um aspecto que chama a nossa atenção nos países e cidades do Velho Continente é a preocupação em preservaros seus recursos naturais e a memória. Sendo o Rio Sena navegável e com satisfatórias condições hídricas, acaba se constituindo em um importante atrativo turístico de Paris. Figura 3 – Torre Eiffel: símbolo da cidade de Paris A memória é expressa por uma obra de engenharia. Pensar na França, pensar em Paris, reporta-nos diretamente à Torre Eiffel, por exemplo. O espaço vivido é o princípio da Geografia escolar, ponto de partida para comparar, refletir e ampliar seu conhecimento. O espaço vivido tem seu início no local, mas o conhecimento adquirido amplia os domínios do local e nos conduz a lugares distantes. É um dos pressupostos do ensino geográfico ensinar o aluno a conhecer e caracterizar o seu “lugar” de vivência, em seus aspectos múltiplos, naturais, humanos, econômicos, e a partir dele ampliar para o país em que vive ou em que nasceu e daí para o reconhecimento do mundo. O interessante é que o aluno apreenda os conceitos e os aplique. Podemos citar como exemplo os fenômenos naturais, como vulcanismo, terremotos, deslizamentos de terra, desertificação, assoreamento de rios e enchentes, tsunamis, e explicar o que são e como ocorrem e depois extrapolar para o mundo e verificar o que é ou não pertinente ao Brasil. 20 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Figura 4 Complementando, dentro dos estudos geográficos, destacamos ainda a questão do espaço econômico, o espaço da produção, associado ao tempo e ao lugar – no caso da imagem anterior, a região do Oceano Pacífico, no litoral do Chile, país pesqueiro em potencial, grande produtor de vinhos, frutas, minérios, entre outros produtos. O Chile tem na produção pesqueira e produtos agrários sua principal pauta de exportações, destacando-se sua logística em transporte marítimo para exportar seus produtos. Sua localização é privilegiada, como observamos na imagem do porto de Valparaiso, destacada porta de entrada e saída de produtos. A posição estratégica permite estabelecer comunicação entre os espaços da América, Ásia e Oceania em tempos de globalização. Outro aspecto a ser destacado é a participação do país em blocos econômicos, dentro do contexto da ordem multipolar ou da globalização. Ele é associado ao Mercosul (portanto, parceiro comercial do Brasil), à Ásia e à Região do Pacífico e também é membro da Apec, entre outros blocos, o que lhe permite amplas relações comerciais, ressaltando a importância da sua maritimidade. Portanto, observamos a maneira integrada de estudos geográficos, em termos de localização, maritimidade, função portuária e econômica. São vários os aspectos que podem ser objetos de estudo. Dessa forma, observamos que os estudos geográficos combinam duas escalas espaço-temporais, uma universal (global) e outra local (particular). De acordo com Floriani (2004, p. 14), “essa combinação é contraditória, no mesmo sentido que o é o Sistema-Mundo, como expressão da complexidade de um sistema que se expande, mas que hierarquiza os seus elementos, em base à lógica de funcionamento do capital”. A Geografia está presente nesse contexto, uma vez que participa ativamente da contextualização dos espaços em tempos de globalização, em amplas áreas que abrangem os aspectos do quadro natural, humano, econômico, político, cultural, ambiental e geopolítico. No que concerne à globalização, pode-se afirmar que o ritmo de produção foi acelerado, assim como a distribuição e o consumo, incluindo-se a informação, o que nos remete ao espaço de fluxos, que é 21 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA avaliado por Manuel Castells, ao relacionar espaço e tempo, afirmando que constituem as principais dimensões materiais da vida humana. Já que o espaço e o tempo estão interligados na natureza e na sociedade, também o estarão em minha análise, embora, para maior clareza, enfoque sequencialmente primeiro o espaço [...] e depois o tempo [...]. Tanto o espaço quanto o tempo estão sendo transformados sob o efeito combinado do paradigma da tecnologia da informação e das formas e processos sociais induzidos pelo processo atual de transformação histórica (CASTELLS, 1999, p. 403). Essa complexidade coincide com a interação praticada pela Geografia quando nos referimos ao seu papel integrador, unindo-se à tecnologia, à sociedade e ao espaço, tanto ao espaço de fluxos de informações quanto ao espaço de lugares, entendendo-se por lugares não só as cidades, mas também o campo e os seus respectivos componentes. Em sua obra, Castells (1999) também se refere a uma outra categoria hierárquica de cidades, as cidades globais, o que, para os estudos geográficos, representa o papel ou raio de influência polarizador das cidades e o fortalecimento de suas estruturas hierárquicas. Figura 5 – Mapa das cidades globais As cidades globais representam um amplo papel polarizador de funções dentro do cenário do mundo globalizado, vinculadas à emergência de novas formas que experimentamos enquanto grupos humanos e em nossa vivência no tempo e no espaço. As cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, no Brasil, são comparadas, em termos de status (hierarquia urbana), com as cidades de Londres, Paris, Nova Iorque e Tóquio, pela importância de caráter internacional. De acordo com Castellar e Moraes (2010 apud SACRAMENTO, 2010, p. 5): [...] o ensino da Geografia deve analisar as interações que a sociedade busca e estuda para controlar e modificar a natureza, como forma de articular as ações realizadas no espaço em diferentes períodos, uma vez que as 22 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I contextualizações são importantes para fazer o aluno entender as diversas contradições existentes em cada cultura, estabelecendo uma diferenciação espacial e a percepção dos lugares. Isso ocorre devido ao fato de a sociedade ser dinâmica e de que o espaço geográfico absorve as contradições do sistema. Como estamos caracterizando a Geografia em seus aspectos articuladores, nesse caso, associada ao mundo, nada mais interessante do que estabelecermos sua interação com a proposta de trabalho docente, seguindo a matriz de referência de Ciências Humanas e suas Tecnologias proposta pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e suas contextualizações. Partimos do princípio que a Geografia vem tomando, nas últimas décadas, um novo rumo, com aprofundamento de metodologias e tecnologias de representação do espaço e sistemas geográficos de informação, cartografia automatizada, sensoriamento remoto, além de estudos ecológicos, culturais, econômicos e políticos, planejamento rural e urbano. Dessa forma, devemos acreditar que os novos desafios para os estudos geográficos como campo de conhecimento apresentam desafios para a formação, tanto do geógrafo-pesquisador quanto do geógrafo-professor, em todos os níveis: fundamental, médio e superior. Essa dinâmica, que ocorre mundialmente, com novas tecnologias e novas propostas de recortes do espaço e do tempo, em esferas locais e globais, apresenta os principais objetos de estudo e de trabalho docente da Geografia. Apresentamos a seguir a proposta para o ensino das competências e habilidades do Enem. 2 A GEOGRAFIA ARTICULADORA E O ENEM O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), proposto na década de 1990 pelo então ministro da Educação Paulo Renato, ganhou força após 2009, quando passou a ser usado como critério para ingresso em universidades e faculdades tanto públicas, federais e estaduais quanto privadas, com pontuação completa, redação ou em uma das fases da avaliação, de acordo com a deliberação da instituição de ensino. Para esse fim, propôs conteúdos que são apresentados a seguir. No caso deste material,demos um enfoque particular à área de pertencimento teórico da Geografia. O Enem trabalha com uma proposta que articula competências e habilidades, como veremos a seguir. 2.1 Matriz de referência de Ciências Humanas e suas Tecnologias proposta pelo Enem É importante destacarmos os eixos cognitivos considerados comuns a todas as áreas de conhecimento, a saber (BRASIL, 2012): • Dominar linguagens. 23 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA • Compreender fenômenos. • Enfrentar situações-problema. • Construir argumentação. • Elaborar propostas. Quanto à matriz de referência das Ciências Humanas e suas Tecnologias, temos: Competência de área 1 – Compreender os elementos culturais que constituem as identidades H1: Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura. H2: Analisar a produção da memória pelas sociedades humanas. H3: Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos. H4: Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura. H5: Identificar as manifestações ou representações da diversidade do patrimônio cultural e artístico em diferentes sociedades. Competência de área 2 – Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações socioeconômicas e culturais de poder H6: Interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos. H7: Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações H8: Analisar a ação dos estados nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômico-social. H9: Comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial. H10: Reconhecer a dinâmica da organização dos movimentos sociais e a importância da participação da coletividade na transformação da realidade histórico-geográfica. 24 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Competência de área 3 – Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais H11: Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço. H12: Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades. H13: Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa pelo poder. H14: Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas. H15: Avaliar criticamente conflitos culturais, sociais, políticos, econômicos ou ambientais ao longo da história. Competência de área 4 – Entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social H16: Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social. H17: Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção. H18: Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações socioespaciais. H19: Reconhecer as transformações técnicas e tecnológicas que determinam as várias formas de uso e apropriação dos espaços rural e urbano. H20: Selecionar argumentos favoráveis ou contrários às modificações impostas pelas novas tecnologias à vida social e ao mundo do trabalho. Competência de área 5 – Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade H21: Identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social. H22: Analisar as lutas sociais e conquistas obtidas no que se refere às mudanças nas legislações ou nas políticas públicas. 25 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA H23: Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades. H24: Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades. H25: Identificar estratégias que promovam formas de inclusão social. Competência de área 6 – Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos H26: Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem. H27: Analisar de maneira crítica as interações da sociedade com o meio físico, levando em consideração aspectos históricos e(ou) geográficos. H28: Relacionar o uso das tecnologias com os impactos socioambientais em diferentes contextos histórico-geográficos. H29: Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico, relacionando-os com as mudanças provocadas pelas ações humanas. H30: Avaliar as relações entre preservação e degradação da vida no planeta nas diferentes escalas. Fonte: Brasil (2012, p. 11-13). Figura 6 - Pablo Neruda 26 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I O poeta chileno Pablo Neruda se destaca na cultura mundial pelas suas obras, como Confesso que Vivi, tendo recebido o prêmio Nobel de literatura. Foi exilado do Chile e viveu na Itália, onde foi homenageado, mais tarde, com o filme O Carteiro e o Poeta. O Enem contextualiza diferentes temas e disciplinas, como Artes e Literatura, com História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Figura 7 – Abaporu, de Tarsila do Amaral (Museu Malba, em Buenos Aires) Outro exemplo é a autora da obra Abaporu, entre outras, Tarsila do Amaral, que se destaca como representante da Semana de Arte Moderna, importante movimento artístico brasileiro, e cujas obras já foram solicitadas nas avaliações do Enem. 2.2 Os eixos voltados à reflexão do espaço geográfico Falamos em Enem para a avaliação do Ensino Médio, mas, ao nos questionarmos a respeito da existência de uma proposta para os anos iniciais da Educação Básica, encontramos um texto escrito coletivamente pelos supervisores e APs da disciplina Teoria Pedagógica e Produção do Conhecimento em Geografia (Proesf/FE/Unicamp), dando ênfase à sociedade em geral, mas com enfoque nas instituições escolares públicas da Região Metropolitana de Campinas, em particular (OLIVEIRA JR. et al., [s.d.]). No texto, os autores especificam cinco eixos que consideram significativos para o trabalho docente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, tomando como base o conhecimento geográfico. Cada um dos professores enumerou três pontos entre assuntos, conceitos, temas, habilidades, conteúdos, raciocínios etc. Após reuniões, os autores foram chegando a um consenso até sistematizarem os cinco eixos mencionados, sem que fosse estabelecida uma hierarquia em termos de importância. A seguir, apresentamos a proposta: 27 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA • As diversas identidades sociais: deslocamento do individual para o social. • Trabalho: a realização e os sentidos do trabalho estão no jogo coletivo, o mundo é fruto dos trabalhos. • Lugar: reconhecimento do lugar como espaço geográfico complexo e resultado do cruzamento de forças, tanto naturais quanto sociais; reconhecimento de que o lugar se apresenta em inúmeras camadas de tempo.• Mapa: pensemos em quatro elementos constituidores (escala/ proporção, simbologia/legenda, ponto de vista/projeção e orientação/ localização), pensemos em sua produção, nas escolhas feitas pelo autor e no entendimento/leituras. • Raciocínio por escala (espacial e temporal): suas relações com processos sociais (OLIVEIRA JR., [s.d.], p. 8, grifo do autor). Os eixos foram escolhidos mediante a carga horária disponibilizada para o trabalho docente nos primeiros quatro anos do Ensino Fundamental e na Educação Infantil para a disciplina Geografia. A ideia é elaborar uma metodologia pedagógica que permita, mediante uma transparência teórico-conceitual, levar o aluno a apreender os conteúdos apresentados com interesse pelo seu entorno e poder ampliá-los para outros espaços enquanto cidadãos do mundo. Saiba mais O Inep, instituto que elabora o Enem, também tem uma proposta para avaliar a Educação Básica, o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Para saber mais sobre essa avaliação, acesse: INEP (INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA). Inclusão de Ciências no Saeb: documento básico. Brasília: Inep, 2013. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/ prova_brasil_saeb/menu_do_professor/matrizes_de_referencia/livreto_ saeb_ciencias.pdf>. Acesso em: 13 jan. 2016. ___. Saeb. Brasília: Inep, [s.d.]. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/ web/saeb/aneb-e-anresc>. Acesso em: 13 jan. 2016. 28 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I 2.3 Explicação da realidade para a Geografia Integrada O artigo “As Fronteiras da Geografia como Ciência Social”, de Mikesell (1977), baseava-se na descrição de uma Geografia complexa, dicotômica, no sentido de permear tanto a área da ciência social quanto da ciência natural. O autor se referia a ela como um mosaico, revelando-se em seu caráter moderno, com padrões de relações com outros conteúdos de forma interdisciplinar. Mikesell (1977) reconhece que a origem dos estudos geográficos não estava relacionada ao campo das Ciências Sociais ou do comportamento, mas que, no entanto, existia uma corrente humanista, embora nos Estados Unidos ela tenha se iniciado como uma ciência da Terra, na Alemanha, com a cosmografia do século XVIII, e na França, relacionada à História e aos interesses do país no exterior. Na verdade, a Geografia passou a transitar entre o natural e o social, relacionando o homem e a natureza. A concepção de uma Geografia em posição intermediária entre a ciência natural e a social atraiu a primeira geração de geógrafos americanos, cuja maioria era de geólogos com a intenção de aplicar os estudos no gênero humano. No entanto, de modo geral, a Geografia tem sido tratada como sendo uma Ciência Social, a partir do pressuposto que seu modo atuante estabelece relações entre os grupos humanos e a natureza, com o decorrente processo de produção do espaço. As mudanças que foram acontecendo ao longo da história, com a busca e conquista de lugares e de povos, criaram a necessidade de um novo olhar sobre a realidade, exigindo uma construção que contemplasse uma outra forma de ver a relação dos grupos humanos com o meio natural e social. A Geografia se permite essa amplitude do saber, ela abrange um leque bastante diversificado de fatos e lugares que devem ser desvendados em seus múltiplos aspectos, envolvendo conhecimentos de distintos campos que se interlaçam e elucidam o conhecimento. Para entendermos as características dos lugares, sejam eles locais ou mundiais, partimos da premissa que a relação entre homem e natureza se apresenta associada. A Geografia Integrada cumpre esse papel, uma vez que se apoia em aspectos naturais, sociais, políticos e econômicos e envolve distintos campos do saber. É essencial, de acordo com Santos (2004), que a disciplina possa ser autônoma e, ao mesmo tempo, integrada à realidade total, pois o mundo é um só. A ideia é promover a integração teórica e prática do conhecimento linguístico-textual e das relações intercursos. Nosso objetivo seria, então, compreender a Geografia nas suas relações com as demais ciências e com o corpo de conteúdos que a compõem. Os estudos geográficos abrangem várias áreas que se estendem por aspectos dos quadros natural (relevo, clima, vegetação, hidrografia, pedologia, geomorfologia), humano (demografia, estudos rurais e urbanos, distribuição populacional, movimentos migratórios), econômico (produção rural e 29 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA atividades urbanas, indústria, transportes, serviços, energia, mineração), além do político e geopolítico, apoiados pela cartografia e seus distintos instrumentais. Para explicitar determinados fatos, é preciso associar a paisagem, o lugar, a cultura e os aspectos geográficos. Assim, temos a Geografia integrando várias ciências: Geografia Cartografia Geografia política Geografia física • Geomorfologia • Hidrografia • Climatologia • BioGeografia • População • Urbana • Comércio • Rural • Indústria • Energia Biologia Física Astronomia Geologia Química Sociologia História Estatística Matemática Geografia Humana Economia Geopolítica Política Figura 8 Como podemos constatar, os estudos geográficos são contextualizados com distintos campos do conhecimento. Mencionamos a seguir alguns deles. • A Geografia e a Filosofia: corpo de pensamentos que contribuíram para construir o pensamento geográfico e dar sustentação à ciência. • A Geografia e a Matemática: base para construção dos conhecimentos cartográficos. • A Geografia e a Sociologia: a Geografia, o estudo do espaço, do lugar, não pode estar desvinculado da organização social e da apropriação desse espaço pelos grupos humanos que o habitam, daí o vínculo com a Sociologia, ou melhor, com as Ciências Sociais. • A Geografia e a Biologia: relação fundamental para a compreensão da biodiversidade, dos aspectos naturais associados às atividades econômicas, da influência da genética na constituição 30 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I dos grupos humanos, das condições satisfatórias para uma adequada qualidade de vida e, consequentemente, da expectativa de vida dos grupos, das doenças decorrentes da falta de saneamento e qualidade da água, da questão da potabilidade, entre outras associações que poderíamos enumerar. • A Geografia, a Literatura, a Língua Inglesa, o Espanhol: extremamente integrados e solicitados em exames como o Enem, vestibulares, concursos públicos e para obtenção de bolsas de estudo, daí sua integração com os estudos geográficos, que estão atrelados a textos literários, como Os Sertões, de Euclides da Cunha, poemas, como Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, obras de Jorge Amado, como São Jorge dos Ilhéus, letras de música, charges e tirinhas, como as de Quino e sua personagem Mafalda etc. Textos literários e jornalísticos com temas variados são utilizados em avaliações geográficas a respeito de pessoas e lugares em distintos aspectos. Assim sendo, devemos levar nossos alunos a pensar a Geografia nas suas relações com as demais ciências e com os distintos estudos que a compõem: a geologia, a geomorfologia, o clima, a vegetação, a demografia, a economia, a política, a geopolítica, a hidrologia, os estudos regionais, o planejamento, entre outros. O texto a seguir apresenta alguns conceitos sobre o ensino da Geografia: Saber ler o mundo para compreender a realidade e entender o contexto em que as relações sociais se desenvolvem implica não só se ater na percepção das formas, mas tambémno significado de cada uma delas. É a partir do cotidiano que os alunos perceberão os diversos lugares que compõem a Geografia, ampliando a dimensão limitada que às vezes se tem dela. Essa compreensão permite a construção de vários eixos temáticos e sua relação com o mundo. Em tais contextos, aprender a cidade significa aprender que ela não é estática, mas portadora de uma Geografia dinâmica, na qual fluem, por exemplo, informações e cultura. Devemos destacar que o ensino da Geografia deve preparar o aluno para localizar, compreender e atuar no mundo complexo, problematizar a realidade, formular proposições, reconhecer as dinâmicas existentes no espaço geográfico, pensar e atuar criticamente em sua realidade tendo em vista a sua transformação. Adaptado de: Brasil (2006). 31 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA No quadro a seguir, podemos mencionar competências e habilidades para o ensino da Geografia no Ensino Médio: Quadro 1 – Competências e habilidades para a Geografia no Ensino Médio Competências Habilidades • Capacidade de operar com os conceitos básicos da Geografia para análise e representação do espaço em suas múltiplas escalas. • Articular os conceitos da Geografia com a observação, descrição, organização de dados e informações do espaço geográfico, considerando as escalas de análise. • Capacidade de articulação dos conceitos. • Reconhecer as dimensões de tempo e espaço na análise geográfica. • Capacidade de compreender o espaço geográfico a partir das múltiplas interações entre sociedade e natureza. • Analisar os espaços considerando a influência dos eventos da natureza e da sociedade. • Observar a possibilidade de predomínio de um ou de outro tipo de origem do evento. • Verificar a inter-relação dos processos sociais e naturais na produção e organização do espaço geográfico em suas diversas escalas. • Domínio de linguagens próprias à análise geográfica. • Identificar os fenômenos geográficos expressos em diferentes linguagens. • Utilizar mapas e gráficos resultantes de diferentes tecnologias. • Reconhecer variadas formas de representação do espaço: cartográfica e tratamentos gráficos, matemáticos, estatísticos e iconográficos. • Capacidade de compreender os fenômenos locais, regionais e mundiais expressos por suas territorialidades, considerando as dimensões de espaço e tempo. • Compreender o papel das sociedades no processo de produção do espaço, do território, da paisagem e do lugar. • Compreender a importância do elemento cultural, respeitar a diversidade étnica e desenvolver a solidariedade. • Capacidade de diagnosticar e interpretar os problemas sociais e ambientais da sociedade contemporânea. • Estimular o desenvolvimento do espírito crítico. • Capacidade de identificar as contradições que se manifestam espacialmente, decorrentes dos processos produtivos e de consumo. Fonte: Brasil (2006, p. 45). Figura 9 – Viña del Mar, no Chile. Localizada no litoral do Pacífico, temos aqui um exemplo de lugar, de uma paisagem situada em um determinado território, destacando-se pela sua função turística 32 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Da mesma forma que as competências e habilidades, devemos priorizar os conceitos considerados estruturantes e suas articulações: Quadro 2 – Conceitos estruturantes e articulações Conceitos Articulações Espaço e tempo • Principais dimensões materiais da vida humana. • Expressões concretizadas da sociedade. • Condicionam as formas e os processos de apropriação dos territórios. • Expressam-se no cotidiano, caracterizando os lugares e definindo e redefinindo as localidades e regiões. Sociedade • Consideradas as relações permeadas pelo poder, apropria-se dos territórios (ou de espaços específicos) e define a organização do espaço geográfico em suas diferentes manifestações: território, região, lugar etc. • Os processos sociais redimensionam os fenômenos naturais, o espaço e o tempo. Lugar • Manifestação das identidades dos grupos sociais e das pessoas. • Noção e sentimento de pertencimento a certos territórios. • Concretização das relações sociais vertical e horizontalmente. Paisagem • Expressão da concretização dos lugares, das diferentes dimensões constituintes do espaço geográfico. Pelas mesmas razões já apontadas, não limitaria a paisagem apenas ao lugar. • Permite a caracterização de espaços regionais e territórios considerando a horizontalidade dos fenômenos. Região • Região se articula com território, natureza e sociedade quando essas dimensões são consideradas em diferentes escalas de análise. • Permite a apreensão das diferenças e particularidades no espaço geográfico. Território • O território é o espaço apropriado. • Base da região. • Determinação das localizações dos recursos naturais e das relações de poder. • A constituição cotidiana de territórios tem como base as relações de poder e de identidade de diferentes grupos sociais que os integram, por isso eles estão inter-relacionados com conceitos de lugar e região. Fonte: Brasil (2006, p. 53-54). Lembrete Vale lembrar a relação que estabelecemos anteriormente entre a Geografia e o conceito de tempo, que para os geógrafos apresenta dupla conotação: o tempo histórico, que representa o transcorrer dos fatos e da vivência da sociedade, e o tempo atmosférico. 33 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA 3 A GEOGRAFIA ARTICULADORA E OS EIXOS TEMÁTICOS O conceito de “lugar”, para a Geografia, assume conotações distintas, pois os autores o definem de formas diversas. Giddens (1990 apud HALL, 2003, p. 72) faz uma separação entre o espaço e o lugar. Para o autor, o lugar é específico, concreto, conhecido, familiar, delimitado: o ponto de práticas sociais específicas que nos moldaram e nos formaram e com as quais nossas identidades estão estreitamente ligadas: Nas sociedades pré-modernas, o espaço e o lugar eram amplamente coincidentes, uma vez que as dimensões espaciais da vida social eram, para a maioria da população, dominadas pela presença – por uma atividade localizada [...] A modernidade separa, cada vez mais, o espaço do lugar, ao reforçar relações entre outros que estão “ausentes “, distantes (em termos de local), de qualquer interação face a face. Nas condições da modernidade [...], os locais são inteiramente penetrados e moldados por influências sociais bastante distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente aquilo que está presente na cena; a “forma visível” do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza (GIDDENS, 1990 apud HALL, 2003, p. 72). Quando tratamos da sociedade, da modernidade e das mudanças ambientais, sem dúvida nos aproximamos da Geografia. 3.1 Eixos temáticos da Geografia Por meio da indicação dos Parâmetros Curriculares (BRASIL, 2006), chegamos à proposta para organizar o conhecimento geográfico, para fins didáticos, através de eixos temáticos relacionados aos conceitos. Observação No Ensino Médio, a proposta é trabalhar em termos teórico-metodológicos, com eixos temáticos articulados com os conteúdos, e no Ensino Fundamental, com temas transversais. A seguir estão os eixos temáticos sugeridos (BRASIL, 2006): • Formação territorial brasileira: processo geo-histórico de mundialização. • Estrutura e dinâmica de diferentes espaços urbanos e o modo de vida na cidade, o desenvolvimento da Geografia urbana mundial. • O futuro dos espaços agrários, a globalização, a modernização da agricultura no período técnico-científicoinformacional e a manutenção das estruturas agrárias tradicionais como 34 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I forma de resistência. Uma situação que evidenciamos como eixo articulador com as propostas contextualizadas pelo Enem refere-se aos temas ambientais, como observado na imagem da seca, o flagelo que assola o Sertão do Nordeste e que compromete a sociedade. Uma gestão inadequada da água, aliada a mudanças climáticas e redução dos índices pluviométricos, também pode levar a situações similares em outras regiões do Brasil, assim como para outras áreas do mundo. No caso brasileiro, e particularmente do semiárido nordestino, como proposta para amenizar os problemas da seca, surgiu o Projeto da Transposição do Rio São Francisco como uma das metas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), pelo Governo Federal. O projeto levantou polêmica devido à previsão, por alguns teóricos, como Aldo Rebouças e Aziz Ab’Saber, entre outros, a respeito de futuros problemas de impacto ambiental. Figura 10 – Açude da Pista, que abastecia moradores da comunidade Engano, no distrito de Riacho Verde, em Quixadá, sertão central do Ceará Figura 11 – Transposição do Rio São Francisco 35 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA • Organização e distribuição mundial da população, os grandes movimentos migratórios atuais e os movimentos socioculturais e étnicos, as novas identidades territoriais. Um dos grandes problemas sociais no contexto da ordem global, refere-se aos deslocamentos humanos, as migrações de caráter diverso, geralmente de áreas pobres e problemáticas, para áreas emergentes ou ricas. Os motivos são os mais diversos: conflitos, governos ditatoriais, guerras, ordem climática ou natural, más condições de vida, entre outros, que levam milhares de pessoas a fugirem e se refugiarem. Figura 12 – Apresentação da página MigrationsMap, um mapa mundial dos movimentos migratórios • As diferentes fronteiras e a organização da Geografia política do mundo atual, estado e organização do território. As distintas fronteiras limitam a livre circulação, comprometem o direito de ir e vir, em nome da Segurança Nacional, e são responsáveis pela coibição de atentados, contrabando, evasão de pessoas etc. • As questões ambientais, sociais e econômicas resultantes dos processos de apropriação dos recursos naturais em diferentes escalas, grandes quadros ambientais do mundo e sua conotação geopolítica. Aos eventos naturais, somam-se episódios catastróficos, como o ocorrido em Mariana e seu entorno, em Minas Gerais, decorrente do rompimento de barragens em áreas de mineração, comprometendo o ambiente e causando perdas materiais e humanas. 36 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Figura 13 – Tragédia causada pelo rompimento de barragens em Mariana (MG), em 2015 • Produção e organização do espaço geográfico e mudanças nas relações de trabalho, inovações técnicas e tecnológicas e as novas geografias, a dinâmica econômica mundial e as redes de comunicação e informações. As novas tecnologias da informação estão associadas às ferramentas disponibilizadas pelos satélites, os radares, o GPS, aliadas à informatização. Figura 14 – Destacamos, no Brasil, o sistema disponibilizado pelo Cepetec e Inpe, situado no Vale do Paraíba, em São José dos Campos (SP), utilizado para detecção de queimadas no País Os temas propostos são referências para a realização das análises geográficas e estão articulados aos objetivos da disciplina e às competências atribuídas a ela. Observamos alguns exemplos que contextualizam os eixos temáticos. 37 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA A Geografia também se relaciona à qualidade de vida, à questão ambiental e ao “princípio da precaução”, o que expõe uma tendência contemporânea do que poderíamos chamar de acautelamento, ou seja, em última instância, desenvolver mecanismos de administração de riscos, no sentido de instituir um diálogo público sobre mudanças tecnológicas e suas consequências. Observemos essa problemática: Diante de ameaças surgidas com a engenharia genética dos alimentos, vários grupos da sociedade civil conceberam o chamado “princípio da precaução”. O fundamento desse princípio é: quando uma tecnologia ou produto comporta alguma ameaça à saúde ou ao ambiente, ainda que não se possa avaliar a natureza precisa ou a magnitude do dano que venha a ser causado por eles, deve-se evitá-los ou deixá-los de quarentena para maiores estudos e avaliações antes de sua liberação (SEVCENKO, 2001 apud INEP, 2015, p. 2). O texto se reporta à questão do “princípio da precaução”, relacionado com a engenharia genética dos alimentos e possíveis ameaças à saúde e ao ambiente, como tendências do pensamento social, e com a criação de mecanismos preventivos aos riscos possíveis. Trata-se, portanto, de estabelecer um diálogo público acerca das mudanças empreendidas pelo uso de tecnologias científicas e suas decorrentes consequências. Dentro do sistema capitalista de produção, os segredos tecnológicos sempre suscitaram processos de espionagem industrial. Com o advento da sociedade da informação, a espionagem se tornou exacerbada, levando os países e corporações a impor restrições na circulação de informações. A questão é proteger os dados. Não vamos esquecer que, durante o período da Guerra Fria, houve uma disputa desenfreada entre as superpotências EUA e URSS, com ampla atuação de espiões de ambas as partes, como mecanismos de prevenção em defesa. Complementemos o tema com o texto de Schiller (apud INEP, 2015, p. 5): Atualmente, as represálias econômicas contra as empresas de informática norte-americanas continuam. A Alemanha proibiu um aplicativo dos Estados Unidos de compartilhamento de carros; na China, o governo explicou que os equipamentos e serviços de informática norte-americanos representam uma ameaça, pedindo que as empresas estatais não recorram a eles. Outra questão que envolve temas transversais e a Geografia pode ser vista na temática relativa à alteridade (o ato de pensar em si mesmo), quando nos deparamos com uma situação que nos leva a confiar ao governo a situação de sacrifício ao qual a população se propõe enfrentar, como as consequências desastrosas de uma guerra, abandonando o próprio interesse. Nos deparamos com um desafio cultural, apelos patrióticos e situações de sobrevivência, não havendo simetria de pensamento. Quanto ao “choque de civilizações”, é bom lembrar a carta de uma menina americana de sete anos cujo pai era piloto na Guerra do Afeganistão: ela 38 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I escreveu que – embora amasse muito seu pai – estava pronta a deixá-lo morrer, a sacrificá-lo, por seu país. Quando o presidente Bush citou suas palavras, elas foram entendidas como uma manifestação “normal” de patriotismo americano; vamos conduzir uma experiência mental simples e imaginar uma menina árabe maometana pateticamente lendo para as câmeras as mesmas palavras a respeito do pai que lutava pelo Talibã – não é necessário pensar muito sobre qual teria sido a nossa reação (ZIZEK, 2003 apud INEP, 2015, p. 4). O trecho mencionado esteve em uma questão proposta no Enem 2015, constituindo-se em um desafio cultural: dois mundos diferentes, lugares distintos. Observação O termo “choque de civilizações” está associado à obra de Samuel Huntington, tema bastante polêmico. Outro exemplo interessante de uma Geografia integradapode ser observado com o texto de Lopes (2011 apud INEP, 2015, p. 13), também utilizado em uma questão do Enem 2015: “O Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia ensina indígenas, quilombolas e outros grupos tradicionais a empregar o GPS e técnicas modernas de georreferenciamento para produzir mapas artesanais, mas bastante precisos, de suas próprias terras”. A existência desse tipo de projeto cartográfico valorizou as identidades coletivas no sentido de reconhecimento do seu lugar de moradia, do seu espaço habitado. Outra questão relativa ao espaço e sua preservação, em termos culturais, pode ser observada quanto à ação de grupos islâmicos armados e a destruição de cidades históricas, vestígios arqueológicos e monumentos em países do Oriente Médio, como a antiga capital assíria de Nimrod, no Iraque, pelo Estado Islâmico, o que foi condenado pela Unesco, que considerou o ato como um crime de guerra. O grupo iniciou um processo de demolição em vários sítios arqueológicos em uma área conhecida como um dos berços da civilização, incluindo ruínas na Síria, como Palmira. O seu patrimônio histórico está sendo dilapidado (INEP, 2015). A Geografia também destaca questões relativas à cidadania e à defesa étnica, como apresentado no poema Voz do Sangue, do líder angolano Agostinho Neto, conclamando os povos negros de todo o mundo a apoiarem as lutas por igualdade e independência. 39 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA Saiba mais Você pode ler o poema completo de Agostinho Neto em: NETO, A. A voz do sangue. Luanda: Fundação Agostinho Neto, 1948. Disponível em: <http://www.agostinhoneto.org/index.php?option=com_ content&view=article& id=550:explicacao&catid=65:renuncia- impossivel&Itemid=233>. Acesso em: 8 jan. 2016. Dessa forma, a Geografia fala e estuda o local e o global. Nas últimas décadas, verificamos a intensificação do fenômeno da globalização, que, entre outras consequências, tem gerado certa homogeneização no modo de vida local em diversos pontos do planeta. Tal padronização da vida cotidiana ocorre em razão dos fluxos imperativos globais, que, paulatinamente, reduzem ou até chegam a eliminar as particularidades locais. Entretanto, esta homogeneização não conduz a uma melhor distribuição de riquezas, haja vista o aumento da desigualdade social em muitos países, e, tampouco, leva a uma intensificação das relações afetivas presenciais, considerando que o avanço da tecnologia gera, de modo especial, um aumento das relações virtuais, mediadas pela internet, Facebook e outras formas permitidas pela informatização. Ocorre uma padronização da vida cotidiana. A globalização pode assim ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção inversa às relações muito distanciadas que os modelam. A transformação local é tanto uma parte da globalização quanto a extensão lateral das conexões sociais através do tempo e espaço. Assim, quem quer que estude as cidades hoje em dia, em qualquer parte do mundo, está ciente de que o que ocorre numa vizinhança local tende a ser influenciado por fatores — tais como dinheiro mundial e mercados de bens — operando a uma distância indefinida da vizinhança em questão (GIDDENS, 1991 apud IANNI, 1994, p. 151). Na obra A Globalização e as Ciências Sociais, organizado por Santos (2002), Pedro Hespanha avalia o mal-estar e o risco social num mundo globalizado e afirma que as oportunidades para melhorar os padrões de vida são cada vez mais inacessíveis à maioria da população, tanto para os países do Norte quanto para os do Sul, com empregos cada vez mais precários, descontínuos e informais, denominando de fenômeno de polarização social. Menciona também a violência, o “apartheid social“ e o “espacial”, com os condomínios fechados. O agravamento do risco social na contemporaneidade relaciona-se com a emergência de novos fatores de incerteza e de imprevisibilidade que reduzem inelutavelmente a capacidade de resposta no quadro dos sistemas institucionalizados. Sociedades de risco, como passaram a ser designadas 40 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I por Beck, distinguem-se pela presença crescente de consequências não esperadas, nem desejadas, do processo de modernização e pela generalização da insegurança (SANTOS, 2002, p. 164). 3.2 Os temas transversais e a Geografia Os temas transversais apresentam um papel importante no sentido de preparar o aluno para a cidadania, uma vez que abordam assuntos que estão diretamente ligados à realidade do cotidiano e seus problemas. A ideia é desenvolver projetos conjuntos, no ensino de 5ª a 8ª séries, preocupados com a conduta e a formação da cidadania. Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Básico – terceiro e quarto ciclos – apresentaram os Objetivos Gerais do Ensino Fundamental (BRASIL, 1998b): • Ética: ética e sociedade; ética e moral; ética e cidadania; a ética na educação escolar; respeito mútuo; justiça; solidariedade; e diálogo. • Saúde: definição do conceito; educação para a saúde; saúde e educação; drogas; e vida coletiva. • Meio ambiente: a questão ambiental; ensinar e aprender em educação ambiental; esfera local e global; relação entre a comunidade e a escola; a natureza; a sociedade e o ambiente; manejo e conservação ambiental; e debates sobre educação ambiental. • Orientação sexual: concepção do tema; o trabalho de orientação sexual na escola; postura dos educadores; relação escola-famílias; e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. • Pluralidade cultural: caracterização do tema; contribuições da Geografia, História, Sociologia, Antropologia, Psicologia e Pedagogia; e direitos humanos, de cidadania e pluralidade. • Trabalho e consumo: escola, trabalho e consumo; tributação, distribuição de renda e justiça social; os jovens, a escola e a inserção no trabalho; trabalho, consumo, saúde e meio ambiente; consumo, meios de comunicação de massas, publicidade e vendas. Uma vez que estamos nos referindo à Geografia Integrada, em termos de avaliação, é interessante nos reportarmos à proposta do Exame Nacional do Ensino Médio, a fim de estabelecermos um diálogo entre as disciplinas e a explicitação dos conteúdos, apresentando a Geografia como um eixo articulador da prática pedagógica integrada na realidade total, envolvendo a rede de relações dos grupos humanos com o meio, com a natureza e entre as pessoas. Devemos ensinar o aluno a desenvolver uma postura crítica, analítica e reflexiva frente aos problemas que envolvem a disciplina Geografia e suas interações com outras disciplinas. Assim, apresentamos os eixos cognitivos, comuns a todas as áreas do conhecimento propostos na matriz de referência para o Enem, de acordo com o Ministério da Educação, por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP, [s.d.]): • Dominar linguagens: dominar a norma culta da língua portuguesa e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica e das línguas espanhola e inglesa. 41 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA • Compreender fenômenos: construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas. • Enfrentar situações problema: selecionar, organizar, relacionar e interpretar dados e informações representadosde diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema. • Construir argumentação: relacionar informações, representadas em diferentes formas, conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente. • Elaborar propostas: recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural. No entanto, talvez você esteja se questionando: quais são os motivos que justificam fazer bem o Enem? Ele tem como prerrogativas que justificam sua realização: • Servir como autoavaliação. • Realizar seleção para ingresso em instituições de Ensino Superior de maneira parcial ou integral. • Possibilitar um indicador de qualidade de escolas. • Avaliar internamente as escolas. • Medir a qualidade do Ensino Médio. • Solicitar uma bolsa de estudos no Prouni. • Simular vestibulares. • Gerar critério para obtenção de empregos. • Solicitar bolsa de estudo para o exterior. Lembrete O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), proposto na década de 1990 pelo então ministro da Educação Paulo Renato, ganhou força após 2009, quando passou a ser usado como critério para ingresso em universidades e faculdades tanto públicas, federais e estaduais quanto privadas, com pontuação completa, redação ou em uma das fases da avaliação, de acordo com a deliberação da instituição de ensino. 42 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I A Geografia, dentro desse contexto, tem um papel muito significativo como conteúdo integrado a outras áreas do conhecimento, associada a muita atenção, leitura, interpretação de enunciados e domínio dos conteúdos programáticos propostos pelos PCN. Os Parâmetros Curriculares Nacionais foram elaborados procurando, de um lado, respeitar diversidades regionais, culturais, políticas existentes no país e, considerar a necessidade de construir referências nacionais comuns ao processo educativo em todas as regiões brasileiras. Com isso, pretende-se criar condições, nas escolas, que permitam aos nossos jovens ter acesso ao conjunto de conhecimentos socialmente elaborados e reconhecidos como necessários ao exercício da cidadania (BRASIL, 1998b, p. 5). Outras temáticas também são abordadas e devem ser contempladas na educação, inclusive em estudos populacionais na Geografia, aproximando-se, dessa forma, de outras disciplinas. O parecer CNE/CP nº 3/2004, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, procura [...] oferecer uma resposta, entre outras, na área da educação, à demanda da população afrodescendente, no sentido de políticas de ações afirmativas [...]. Nesta perspectiva, propõe a divulgação e a produção de conhecimentos, a formação de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial – descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos – para interagirem na construção de uma nação democrática, em que todos, igualmente, tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada (BRASIL, 2004, p. 2). Observamos que a política adotada pelo governo federal nas últimas décadas teve por objetivo proporcionar aos afrodescendentes meios de se identificarem com seu passado histórico e cultural, resgatando uma identidade que tem sido pouco valorizada, bem como aponta os indígenas, descendentes de europeus e asiáticos como tendo igualmente direito aos benefícios de sua valorização étnico-cultural, com a finalidade de consolidar uma democracia racial. Outro aspecto interessante que denota a Geografia Integrada se refere à questão do espaço como objeto de estudo. Para tanto, devemos reconhecer a importância do meio no qual vivemos e a manutenção da natureza. O espaço geográfico como objeto de estudo vai além da dinâmica do espaço físico e, hoje, o grande desafio que se coloca é compreender a inter-relação entre sociedade e natureza. Esta categoria deve ser analisada como transformada, criada e produzida pela sociedade, à medida que o homem se apropria da natureza, que guarda a especificidade de ser permanentemente 43 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA (re)elaborada pelo fazer humano. Assim, de acordo com o PCN: [...] “O espaço geográfico é historicamente produzido pelo homem, enquanto organiza econômica e socialmente sua sociedade.“ (2000, p. 109). Nesta perspectiva, o espaço geográfico deve ser entendido em sua totalidade dinâmica em que interagem fatores naturais, socioeconômicos e políticos (GIOMETTI, PITTON, ORTIGOZA, 2006, p. 7). 4 UM OLHAR GEOGRÁFICO MEDIANTE NOVAS TECNOLOGIAS Um texto publicado na revista Veja, intitulado “A Descoberta de uma Nova Amazônia”, oferece uma sugestiva imagem sobre o uso de novas tecnologias no reconhecimento do espaço, objeto característico do campo de estudo geográfico. Podemos reforçar, por meio da leitura de um trecho da reportagem, a noção de estudo dos lugares mediante o uso de tecnologias: O novo mapeamento da Amazônia, que custará 80 milhões de reais, usa radares transportados por aviões. Ao contrário do que ocorre com as câmeras fotográficas, mesmo aquelas instaladas em satélites, os radares conseguem enxergar além das nuvens e das árvores. Os aparelhos funcionam em duas frequências de ondas eletromagnéticas. A primeira, chamada de banda X, reflete-se na copa das árvores. A segunda, a banda P, atravessa a vegetação e chega ao solo. O cruzamento das informações colhidas pelas duas bandas fornece as curvas de nível do solo, o tamanho das árvores e outros dados necessários para elaborar um mapa preciso. Essa tecnologia foi desenvolvida por uma empresa privada brasileira, a OrbiSat, usando como base equipamentos militares americanos. Os pilotos utilizam um GPS para percorrer linhas retas de 180 quilômetros, captando as ondas dos radares. Soldados do Exército complementam o trabalho em terra, instalando refletores no meio da floresta. Esses refletores garantem a precisão da localização geográfica do trecho do mapeamento. Depois de processadas em computadores, as informações produzem imagens com resolução de 1 para 50.000 – contra uma resolução de 1 para 100.000 dos mapas feitos com fotografias. “Ao olhar a Amazônia do alto, a impressão que se tem é a de um grande tapete verde, mas as alterações topográficas são enormes e só agora serão dimensionadas”, diz o general Pedro Ronalt, responsável pelo projeto de mapeamento. O novo levantamento cartográfico da Amazônia deverá ficar pronto em quatro anos. Com ele, será possível evitar equívocos como o ocorrido na construção da hidrelétrica de Balbina, no Amazonas. Como não se sabia ao certo a topografia da região, uma área maior que a necessária foi inundada. O conhecimento detalhado do curso dos rios vai ajudar a prevenir enchentes como a que inundou Manaus no ano passado. “Conhecer em detalhes a hidrografia também é importante para estancar os vazamentos de óleo, comuns na região, porque é possível prever por onde ele vai se espalhar”, diz o engenheiro João Moreira Neto, que desenvolveu os radares usados no projeto. O Ministério de Minas e Energia também vai utilizar a nova cartografia da Amazônia. O 44 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I objetivo será fazer o mapeamento geológico da região. Sensores instalados em aviões vão medir a densidade, o magnetismo e a radioatividade das rochas, estimando que tipo de minério existe no subsolo. Fonte: Ming (2010, p.131-133). Dessa forma, como podemos observar, as novas tecnologias contribuem de maneira positiva para ampliar os conhecimentos geográficos e a identificação do território e seus recursos disponíveis. Observamos, até agora, o quanto a Geografia, como campo de estudo, está articulada a outras áreas do conhecimento e como se justifica como disciplina enquanto conteúdo teórico para envolver esses distintos campos do saber. Talvez esteja aí a grande importância da Geografia integrada, ela traz em si o passado em seus primórdios, ainda não formalizada, mas apresenta os fatos presentes e prognostica o futuro, em seus campos notadamente humanísticos, urbanísticos e até mesmo econômicos. A Geografia é construída em nosso cotidiano. As mudanças no espaço e nas relações estabelecidas entre os grupos humanos e ele são constantes, bem como a imprevisibilidade dos acontecimentos. Eles atuam conjuntamente. Dificilmente encontraremos, no campo das ciências, outra que se altere com tanta frequência, em termos de dados ou informações, quanto os estudos geográficos. Eles são constantes, tanto no que se refere aos aspectos do quadro natural quanto aos demográficos, econômicos, políticos ou geopolíticos. Seu dinamismo é constante. Você há de constatar mudanças que ocorrem de forma natural e outras resultantes de ações antrópicas, produto do trabalho ou de intervenções humanas, sejam elas no meio rural ou no urbano. Assim, o aporte geográfico é uma constante no campo do saber construído cotidianamente, oferecendo conhecimentos sistemáticos e assistemáticos que devem ser considerados por nós em âmbito escolar e fora dele. O grande desafio, portanto, para o ensino da Geografia escolar está no papel do professor, que, para um satisfatório desempenho, deverá estar constantemente se preparando e atualizando os seus conhecimentos, uma vez que a prática pedagógica dessa disciplina exige não só os conhecimentos teóricos, mas, acima de tudo, as suas experiências e informações cotidianas e conhecimentos assistematizados. Para tanto, existe uma regra que deve ser seguida: ampliar os espaços para os questionamentos, para a formulação de conceitos que permitam, nas mentes dos alunos, um pensamento crítico, aberto e autônomo para o exercício da cidadania. Para que esse propósito seja atingido em sua plenitude, é necessário indagar: como trabalhar com a ideia de natureza? Como construir o mundo atual em termos de raízes culturais? Que tipo de desafios teremos que enfrentar? 45 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA Pensando sob o ponto de vista histórico, inserido ao processo de globalização, observamos um enfraquecimento gradual da diversidade cultural no espaço geográfico, transformando os indivíduos em consumidores no contexto capitalista, o homo economicus, e os valores morais, sociais, em valores ditados pelo consumo de massas ou de mercado. Interpretando de outra forma, temos os cidadãos sentindo-se felizes, em sua plenitude, com o ato de consumir. Em termos de direitos fundamentais dos cidadãos e seu bem-estar pessoal e coletivo, considera-se bem-atendido ao ter seus direitos de consumidores satisfeitos ao mesmo tempo que vê reduzida a dependência em relação ao Estado. Falamos, ao mesmo tempo, em ganho do cidadão ao reconhecer as ações cotidianas, sua função social e o bem-estar coletivo. A ideia de sociedade de consumo pode ser observada sob dois momentos, diretamente relacionados à dinâmica do capitalismo e seus instrumentos baseados na circulação de mercadorias: um momento em que os indivíduos constituem-se em uma massa de consumidores, indistintamente ao tipo de consumo, e outro relativo às empresas, de acordo com as suas estratégias utilizadas no campo do marketing, com o intuito de criar medidas para ampliar o consumo, utilizando, para tanto, de símbolos atrativos, personalidades ou celebridades que motivem os consumidores a comprar, usar, comer ou vestir os produtos. A Geografia interage com esse aspecto por meio da produção, da atividade econômica e do aproveitamento do espaço, e também de acordo com os lugares. Como podemos observar, o campo geográfico é efetivamente vasto e integrado à produção e à dinâmica do modelo econômico neoliberal e nós, consumidores, somos envolvidos por ela. Assim, quando trabalhamos com nossos alunos, devemos acompanhá-los até atingirem uma percepção dessa sociedade, mostrando-lhes um caminho diferenciado daquele consumismo motivado por falsas necessidades, criando demandas efetivas e necessárias. O pensamento crítico deve ser, então, estimulado, uma vez que nos encontramos envolvidos pela mídia e sociedade em rede, em uma cultura de massa, interligados e reforçados pelo sistema econômico vigente. Os alunos devem ser conduzidos para um pensamento pessoal e analítico dentro do mundo globalizado. Para exemplificar esse domínio amplo da Geografia, temos a seguinte citação: O domínio da Geografia abraça tudo isto [lagos, mangues, bancos de areia fluviais, plantas marinhas, penhascos, fontes, árvores etc.], e o professor, que há de educar o pensamento das crianças, deve acompanhá-las em todo este mundo de outro tempo onde se revelam nossas origens. Mas semelhantes excursões pelo passado não se fazem sem muito trabalho, sem observações paralelas nas ciências naturais, históricas, sociológicas; em uma palavra, obrigariam o aluno a pensar, fazendo dele um homem que raciocina e que induz (RECLUS; KROPOTKIN, 2014, p. 31). 46 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Resumo Trabalhamos com as temáticas tempo, espaço, mundo e Geografia, com propostas que vinculam, de maneira tradicional, a Geografia ao estudo do espaço, descrevendo lugares e articulando sua singularidade. No entanto, nem sempre foi assim. Em termos de historicidade, a sistematização do pensamento geográfico ocorreu no século XIX, com relatos de viagens e a contribuição da Filosofia. Também foram importantes as técnicas de impressão e a possibilidade de registrar as informações. Pensadores como Thomas Malthus e Adam Smith deram seu aporte a alguns dos estudos geográficos. A Geografia ganha outro status com Darwin e Lamarck, em termos de estudos ambientais. Estabelecemos a relação possível entre o tempo, o espaço, o mundo e a Geografia, explicando a realidade da Geografia Integrada. Demos ênfase de acordo com a proposta do MEC, dentro da escala federal, das avaliações articuladas, como o Enem e a prova para a educação básica, o Saeb. Estudamos as propostas de eixos temáticos para a Geografia no Ensino Fundamental. Destacamos um olhar geográfico mediante o uso de novas tecnologias e ferramentas cartográficas. Também relacionamos a Geografia e o espaço, descrevendo e interpretando os lugares, por meio de um diálogo com outras disciplinas e o papel integrado de conteúdos programáticos com a realidade do aluno. Assim, enfatizamos o fato da Geografia estudar o local e o global, na sua dinâmica, articulando sempre com outras ciências. Essa é a proposta do Enem: a Geografia articuladora, construindo identidades e compreendendo as transformações do espaço. Exercícios Questão 1. Desde os primeiros meses de vida do ser humano, delineiam-se as impressões e percepções referentes ao domínio espacial, as quais se desenvolvem por intermédio de sua interação com o meio. ALMEIDA, R. Espaço geográfico: ensino e representação. São Paulo: Contexto, 2002 (com adaptações). 47 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 GEOGRAFIA INTEGRADA A construção da noção de espaço em Geografia (Geografia científica) requer longa preparação e estímulo por parte do indivíduo. Trata-sede aprendizado que se inicia no(a): A) Série adiantada do Ensino Fundamental, já que o professor dos anos iniciais pouco aprende em seu curso de formação sobre como levar o aluno a dominar conceitos espaciais. B) Trabalho da Geografia como ciência voltada para a análise da realidade social quanto à sua configuração espacial, social, política e sociológica. C) Escola, onde deve ocorrer a aprendizagem espacial organizada para a compreensão das formas pelas quais a sociedade constrói e organiza o seu espaço. D) Análise geográfica da organização social do trabalho, que se faz por meio de um ato social e leva a transformações territoriais. E) Trabalho de orientação, localização e representação, que deve partir do espaço distante para o espaço próximo. Resposta correta: alternativa C. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: logo da entrada na escola é preciso estimular e desenvolver a orientação espacial. B) Alternativa incorreta. Justificativa: nesta fase já deve estar consolidado o aprendizado das noções elementares. C) Alternativa correta. Justificativa: é logo no ingresso da vida escolar que a criança deve aprender. D) Alternativa incorreta. Justificativa: há inversão do plano de complexidade do aprendizado. Primeiramente, aprendem-se as noções espaciais; depois, a analisar as formas espaciais. E) Alternativa incorreta. Justificativa: é o contrário. 48 GE O - Ro se - D ia gr am aç ão : F ab io - 1 8/ 02 /2 01 6 Unidade I Questão 2. Observe a figura a seguir: Legenda Hotel Banco do Estado Banco do Brasil Biblioteca Galeria Rodoviária Hospital Supermercado Parada de ônibus Estacionamento Mercado central PraçaY Foro Câmara dos vereadores Prefeitura Igreja Praça X Rua M Rua N Rua V Rio Ru a X Av en id a P Av en id a H Ru a G Ru a A Ru a B Figura 15 Considerando seu uso em uma aula de Cartografia na 5ª série do Ensino Fundamental, a figura: A) Proporciona a leitura da linguagem cartográfica e a noção de distância espacial, de coordenada geográfica e de projeção. B) Apresenta os pontos cardeais e colaterais, proporcionando uma localização precisa dos lugares no mapa. C) Proporciona ao aluno a decodificação de legenda e de sua representação do cotidiano, desenvolvendo a habilidade de leitura de semiologia gráfica. D) Pode ser utilizada para explorar a noção de escala e desenvolver habilidades de leitura de mapas. E) Capacita o aluno a manipular os principais conceitos da cartografia de base e a noção de distância espacial, de coordenada geográfica e de projeção. Resolução desta questão na plataforma.