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einstein. 2008; 6 (Supl 1):S13-S20 Imunologia e envelhecimento Imunologia e envelhecimento Aging and immunology Irina Ewers1, Luiz Vicente Rizzo2, Jorge Kalil Filho3 RESUMO Denomina-se imunosenescência ao envelhecimento imunológico que está associado ao progressivo declínio da função imune, aumentando, assim, a suscetibilidade dos indivíduos para infecções, doenças auto-imunes e câncer, em média, após os 60 anos de idade. Esse declínio da função imune está associado a alterações que podem ocorrer em qualquer etapa do desenvolvimento da resposta imune, pois se trata de um processo complexo multifatorial que envolve várias reorganizações e mudanças no desenvolvimento regulatório, além de mudanças nas funções efetoras do sistema imune, caracterizado por ser mais do que simplesmente um declínio unidirecional de todas as funções. Descritores: Sistema imunológico/fi siopatologia; Envelhecimento; Citocinas; Auto-imunidade; Linfócitos T reguladores; Apoptose ABSTRACT Immunosenescence is the term to describe the changes associated with the progressive decrease in immune function such as increasing in the susceptibility to infectious diseases, autoimmunity and cancer of individuals after 60 years of age. This decrease in immune function is associated with changes that can occur in each step of the triggering of an immune response. The process leading to this decay is multifactorial and complex involving diverse changes and reorganization in the regulatory pathways of the immune system, as well as changes in the effectors functions rather than simply a unidirectional decline in overall functions. Keywords: Immune system/physiopathology; Aging; Cytokines; Autoimmunity; T-Lymphocytes, Regulatory; Apoptosis INTRODUÇÃO A longevidade foi uma das grandes conquistas do sé- culo 20. O crescimento da população de terceira idade é explicado por especialistas em estudos demográfi cos por meio da queda da taxa de fecundidade, aliada à queda da taxa de mortalidade, conseqüência do avanço da Medicina que, além de combater as epidemias que ceifavam vidas jovens, pôde controlar melhor doenças crônicas e degenerativas. A expectativa de vida em 1940 era de 40,5 anos; em 2007 é de 70,4 anos e em 2050 será de 81,3 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE 2007). A Imunologia é uma ciência na qual as explicações dos fenômenos imu- nológicos baseiam-se em observações experimentais e em suas conclusões. A sua evolução como disciplina experimental tem dependido de nossa capacidade em manipular a função do sistema imune sob condições controladas. Avanços nas técnicas de cultura celular, na metodologia do DNA recombinante e na bioquímica das proteínas fi zeram com que a Imunologia passasse de uma ciência descritiva a uma ciência na qual fenômenos imunes diversos podem ser unidos coerentemente e ex- plicados em termos estruturais e bioquímicos precisos. No sistema imune temos células e moléculas responsá- veis pela proteção contra as doenças infecciosas; a essa proteção chamamos imunidade. À resposta coletiva e coordenada à presença de substâncias estranhas no organismo tais como micróbios, macromoléculas (por exemplo, proteínas e polissacarídeos), denominamos resposta imune. Mecanismos de defesa para infecções estão também envolvidos na resposta à substâncias es- tranhas não-infecciosas. Esses mesmos mecanismos são capazes de causar lesão tecidual e, em algumas situa- ções, doença (Imunopatologia). O declínio da função imunológica, encontrado nos idosos, está associado a alterações que podem ocorrer em cada etapa do desen- volvimento da resposta imune. 1 Pós-graduanda do Departamento de Clínica Médica, Divisão de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP – São Paulo (SP), Brasil. 2 Professor Titular de Imunologia do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas do Departamento de Clínica Médica da Divisão de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP, São Paulo (SP), Brasil; Instituto de Investigação em Imunologia (III), Institutos do Milênio – MTC, São Paulo (SP), Brasil. 3 Professor Titular de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP, São Paulo (SP), Brasil; Diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração – INCOR, São Paulo (SP), Brasil; Coordenador do Instituto de Investigação em Imunologia (III), Institutos do Milênio – MCT, São Paulo (SP), Brasil. Autor correspondente: Jorge Elias Kalil Filho – Avenida Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 44 – 9º andar – bloco II – Cerqueira César – CEP 05403-000 – São Paulo (SP), Brasil – Tel.: 11 3069-5900 – e-mail: jkalil@usp.br einstein. 2008; 6 (Supl 1):S13-S20 S14 Ewers I, Rizzo LV, Kalil Filho J ALTERAÇÕES DA RESPOSTA IMUNE NO IDOSO Durante toda a vida do ser humano, seu sistema imu- nológico sofre continuamente mudanças morfológicas e funcionais que atingem o pico da sua função imuno- lógica na puberdade e um declínio gradual no enve- lhecimento. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera idoso o indivíduo com idade superior a 65 anos. Em seres humanos, a função imune parece estar alterada, de modo geral, em indivíduos após os 60 anos de idade. Sabe-se que há uma grande interação entre o sistema imune e o sistema nervoso e essa interação de- sempenha papel na exacerbação de afecções de cunho imunológico e na depressão das funções normais do sis- tema imune(1). Aparentemente, indivíduos idosos estão ainda mais sujeitos a esses efeitos(2). Em idosos subme- tidos a quadros de estresse emocional e/ou depressão observa-se maior incidência de infecções, de doenças auto-imunes e de neoplasias(3). Já em indivíduos idosos que não apresentam quadro depressivo ou estresse emo- cional observa-se que o número de linfócitos T CD4+ e CD8+, respectivamente, pode estar diminuído(4-5). Além disso, a capacidade funcional dessas células fi ca alterada, como se evidencia pela baixa resposta ao estí- mulo com mitógenos, por exemplo, a fi tohemaglutinina (PHA) e ao estímulo com IL-2(6-7). Essa diminuição na resposta se deve à defi ciência e/ou diminuição na pro- dução de IL-2 por alterações ou defeitos na transdução de sinais mitogênicos vindos do receptor do linfócito T (TCR)(8). Essa alteração na sinalização pode ser a mais importante causa do declínio da resposta imune celular mediada em idosos. Eventos seqüenciais levam a uma sinalização perfei- ta da célula T que se manifesta como ativação, diferen- ciação, apoptose, anergia e desenvolvimento de funções efetoras ou de memória. Todas essas manifestações são moduladas por uma relativa proporção de subpopula- ções de células T, de receptores co-estimulatórios, de composição da membrana celular, de tipo de célula apresentadora de antígeno ou de equilíbrio entre as citocinas. Quando há uma ruptura nessa cascata de si- nalização causada por mudanças fi siológicas como o en- velhecimento, patológicas como o câncer ou ainda por doenças auto-imunes, existe uma alteração da resposta imune. Como os indivíduos idosos estão mais sujeitos a essas alterações patológicas do sistema imune, somam- se a isso alterações inerentes à idade, o que resulta em um comprometimento importante das funções do siste- ma imunológico. Linfócitos T e o envelhecimento As células T são ativadas pelo reconhecimento de de- terminantes antigênicos apresentados pelas células que possuem antígenos (CAA) para o receptor do linfóci- to T no contexto de moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (MHC). Assim, linfócitos T CD4+ reconhecem antígenos apresentados em asso- ciação com o MHC classe II e linfócitos T CD8+ re- conhecem antígenos em associação com o MHC classe I. A esse reconhecimento exclusivo dá-seo nome de restrição, isto é, os linfócitos T CD4+ têm restrição ao MHC classe II e os linfócitos CD8+ têm restrição ao MHC classe I. A ativação da proteína tirosinoquinase (PTK) e a mobilização de cálcio intracelular são os primeiros eventos bioquímicos que podem ser detectados após essa ligação ao TCR. O LCK, um membro da família das PTK, é crucial na transdução desse sinal, ele fosfo- rila as seqüências contendo tirosina do complexo CD3 e o dímero zeta. ZAP 70 é recrutada pelo dímero zeta e fosforilada pelo LCK. A ZAP 70 ativada fosforila o LAT, que é uma proteína para o recrutamento de múltiplos parceiros, incluindo proteínas adaptadoras GADs, Grb2 e enzimas para o metabolismo de fosfo- lípide como PI3K e PLCy1. Posteriormente à ativação do TCR, surge um sinal essencial de células T (pri- meiro sinal) que somente permite a proliferação e a diferenciação na presença concomitante de um sinal secundário (segundo sinal) que é advindo por meio da ligação com o CD28(9). Na Figura 1 exemplifi camos os eventos bioquímicos da sinalização no linfócito T a partir de uma apresentação peptídica pela célula que apresenta antígenos. Figura 1. Fatores de ligação nuclear e de ativação de linfócitos T. Após a apresentação de antígenos por um CAA profissional, com a inserção dos dois sinais necessários, o linfócito T será ativado por uma rede de proteínas intracelulares que traduzem os sinais recebidos pelos receptores de membrana para o núcleo da célula e levam à expressão de um conjunto de genes que resulta primariamente na expressão de novos receptores e na secreção de citocinas einstein. 2008; 6 (Supl 1):S13-S20 Imunologia e envelhecimento S15 Células T virgens (naïve), isto é, aquelas que ain- da não encontraram o antígeno de sua especifi cidade, requerem a co-estimulação via engajamento da molé- cula de superfície CD28 pelas moléculas da classe B7 (CD80 e CD86) na superfície da CAA para amplifi car a sinalização do TCR. Como contraste, nas células T efetoras ou nas de memória, a sinalização pode ocorrer na ausência da co-estimulação do CD28. Atualmente, está bem estabelecido que o envelhecimento associa-se a um declínio na ativação e, conseqüentemente, na pro- liferação de células T com um declínio na expressão de CD28, mas não de TCR. Vários estudos demonstraram defeitos nos eventos precoces na cascata de sinalização de células T de idosos (primeiro sinal)(10-11). Esses defei- tos podem ser fosforilação da tirosina; mobilização do cálcio; ativação dos caminhos, com os termos em inglês, mitogen actived protein kinase (MAPK) e c-Jun N-termi- nal kinase (JNK); translocação no núcleo, com o termo em inglês nuclear factor of activated T-cells (NF-ATC); produção de IL-2 e proliferação de células T. Existe ain- da uma queda na porcentagem de linfócitos T CD8+ que são CD28+ e, em média, o comprimento do telôme- ro é menor em linfócitos T CD28-, indicando que essas células sofreram um grande número de divisões celula- res. Esse tipo de proliferação pode ser responsável pelo acúmulo de populações oligoclonais CD28- em idosos. Podemos notar que muitas dessas alterações ocorrem em doenças auto-imunes, em especial, na artrite reu- matóide e no lupus eritematoso sistêmico, incluindo o aumento de auto-anticorpos, diminuição da diversidade de células T virgens com aumento da oligoclonalidade, aumento de células T de memória CD8+CD28-, encur- tamento do telômero e alterações nos sinais de trans- dução sem, contudo, observarmos, necessariamente, o surgimento de tais doenças auto-imunes nos idosos. Por essas razões, os níveis de expressão de CD28 podem até ser considerados marcadores de senilidade do sistema imune. Citocinas e o envelhecimento As citocinas são os principais mediadores da resposta imune e controlam diferentes funções celulares que incluem proliferação, diferenciação, morte celular (apoptose ou necrose), sobrevivência e migração, seja diretamente, por meio de eventos que se seguem ao en- gajamento de seus receptores específi cos na superfície celular, ou indiretamente, pela indução da expressão de numerosos genes(12). Elas são sintetizadas tanto por células do sistema imune como por células não imunes como o endotélio vascular, os adipócitos, os neurônios, entre outras. Agem, geralmente, de maneira autócrina ou parácrina e podem ser secretadas já em sua forma ativa ou necessitarem de ativação extra-celular. Para efeitos didáticos, podemos classifi car algumas das cito- cinas como pró-infl amatórias, derivadas principalmente de células da resposta imune inata e de células Th1 e Th17, tais como interferon-gama (IFN-γ), fator de ne- crose tumoral alfa (TNF-α), interleucinas (IL) IL-1, IL-6, IL-12, e IL-18 ou podemos classifi cá-las como antiinfl amatórias, sintetizadas principalmente por Th2, Th3 e família de células T regulatórias (TREGs): fator de transformação e crescimento beta (TGF-β), IL-10, e IL-5). Essas diferentes citocinas atuam em seus res- pectivos receptores e esses receptores utilizam várias combinações de mediadores intracelulares para induzir suas funções, mormente os da família Janus de poteí- no quinases (JAKs) e as da família dos sinais ativadores e tradutores de transcrição (STATs). A produção das citocinas pró-infl amatórias IL-1, IL-6 e TNF-α está aumentada nos idosos, refl etindo uma alteração no pa- drão de regulação destas citocinas, que podem estar as- sociadas com os mecanismos desencadeadores de mui- tas das doenças típicas da idade como a aterosclerose, a demência e doenças auto-imunes(13). Uma perda do equilíbrio entre as citocinas do padrão Th1 e Th2 tam- bém foi descrita(14) e essa perda pode ser responsável, pelo menos em parte, pelo aumento da suscetibilidade desses indivíduos a infecções causados por vírus e por bactérias extracelulares. Esses defeitos na regulação da resposta imune também podem levar a um aumento das doenças auto-imunes(7,15). O ENVELHECIMENTO E A AUTO-IMUNIDADE A principal conseqüência da exposição crônica aos an- tígenos parece ser a progressiva ativação de macrófa- gos e células relacionadas em muitos órgãos e tecidos do organismo. Contudo, a contínua mudança antigêni- ca pode ser responsável pelo progressivo estado pró- infl amatório existente; qual aparenta ser a principal característica do processo de envelhecimento. A indu- ção e a manutenção de tolerância antígeno-específi ca é crítica na prevenção de auto-imunidade, na proteção contra microorganismos e na manutenção do equilí- brio imune, mas, se por um lado, resulta na efi cácia com que o sistema imune atua, por outro, pode ser fon- te de erros que resultam em respostas deletérias com a inconveniente destruição de tecidos sadios. Seja por uma resposta mal regulada a um patógeno, em proces- sos alérgicos ou de auto-imunidade, os mecanismos de controle da resposta imune podem falhar e voltar-se contra o organismo que deveriam proteger. Recepto- res específi cos na superfície de linfócitos, interagindo com antígenos, induzem os linfócitos à ativação, o que resulta na resposta imune específi ca, na inativação ou na eliminação, o que dá origem à tolerância imunoló- gica, o antígeno também pode ser ignorado pelo linfó- einstein. 2008; 6 (Supl 1):S13-S20 S16 Ewers I, Rizzo LV, Kalil Filho J cito, não havendo resposta imune. O desenvolvimento das moléculas de reconhecimento do sistema imune, receptores de linfócitos T (TCR) e receptores de lin- fócitos B (BCR), é de natureza aleatória e a possibi- lidade de geração de receptores capazes de reconhe- cerem auto-antígenos e a possibilidade de causarem danos é um risco inerente ao sistema. Defi nimos como autotolerância a capacidade que o sistema imune tem de distinguir entre antígenos estranhos ao sistema e auto-antígenos; respondendo somente aos primeiros. A autotolerância é mantidapreservando-se a matura- ção e a ativação de clones de linfócitos auto-reativos. Por meio de mecanismos principais, é feito o controle das possíveis respostas auto-imunes pelo sistema imu- nológico, que a seguir denominados: 1. seleção clonal em órgãos linfóides primários (tole- rância central): este é o processo que elimina lin- fócito T com TCR potencialmente reativo no timo, impedindo que o mesmo migre para os órgãos lin- fóides periféricos; 2. inativação periférica de clones potencialmente au- to-imunes; 3. presença de sítios de privilégio imunológico: locais isolados do sistema imunológico nos quais os antíge- nos contidos nesses compartimentos são protegidos dos elementos do sistema imune por uma barreira órgão-sangue, como as barreiras hematorretiniana e hematoencefálica. Acredita-se que algumas carac- terísticas particulares do sistema nervoso central, da córnea, da retina, das cartilagens, do fígado, da placenta, dos ovários, dos testículos, da próstata, da câmara anterior do olho e do córtex da supra-renal, possam criar um ambiente no qual a resposta imune não se desenvolva da mesma maneira que em outras partes do organismo(15). O reconhecimento de subpopulações de linfóci- tos T é defi nido por diferenças no seu padrão de se- creção de citocinas e nas suas atividades indutoras e efetoras, na mesma resposta imune. Essa regulação é, em parte, antígeno-específi ca, uma vez que a ati- vação da célula T depende do reconhecimento do antígeno-alvo, e em parte, antígeno-inespecífi ca, pois é mediada por citocinas secretadas pelo linfócito T que, no microambiente onde a resposta imune está se processando, atuam em qualquer célula que expresse o receptor apropriado, independentemente da espe- cifi cidade antigênica. É possível, então, que linfócitos T de fenótipos diferentes, ao reconhecerem o mesmo antígeno, possam manter-se mutuamente inibidos, o que impediria a sua expansão. Existem linfócitos co- nhecidos como TREG que têm a função única de re- gular a resposta imune, esta família é composta por uma população de linfócitos T com mecanismos su- pressivos distintos, linfócitos TREG CD4+CD25+, célula T helper tipo 3 e célula TREG tipo1. A Figura 2 exemplifi ca a população de linfócitos T reguladores e as citocinas que são secretadas com suas ações de estímulo e inibição. Figura 2. Rede de citocinas responsáveis pela diferenciação e ativação de células T efetoras e reguladoras. Citocinas secretadas por linfócitos e células apresentadoras de antígeno infl uenciam o desenvolvimento das células T por meio da expressão ou supressão de genes. Células T precursoras podem, mediante diferentes estímulos, tornarem-se células Th1 ou Th17 (não apresentada nesta fi gura) que secretam um padrão pró-infl amatório de citocinas IFN-gama, TNF- α, IL-2, entre outras. Mediante estímulos diferentes elas podem se desenvolver em células Th2 que secretam algumas citocinas antiinfl amatórias, mas que têm como principal função mediar a produção de IgE e algumas subclasses de IgG. Já um outro conjunto de estímulos, resulta na geração de células com capacidade de diminuir a resposta imune (Th3, Tr1 e outras TREGs) e que secretam citocinas com função supressora como o TGF-β e a IL-10 CÉLULAS DENDRÍTICAS E O ENVELHECIMENTO As células apresentadoras de antígeno mais impor- tantes são as células dendríticas (DCs) que tem o papel fundamental de fazer a ponte entre a resposta imune inata e a adquirida(16-19). Ainda mais impor- tante é o fato dessas células poderem induzir uma potente resposta antígeno-específi ca e mediarem tolerância(20). Essas células estão localizadas em di- versos pontos do organismo, notadamente naqueles em que a evolução determinou serem de maior expo- sição a microrganismos invasores. São responsáveis por iniciar e amplifi car a resposta imune por meio de uma rede que inclui outras células apresentadoras de antígenos, de fagócitos e de células do endotélio vas- cular. Sob circunstâncias “não-infl amatórias” essas células mantêm-se imaturas e através de, entre outras coisas, amostragem de antígenos oriundos de células próprias em apoptose, induzem a tolerância perifé- rica nos auto-antígenos. Existem diferentes popula- ções de DCs e suas interações com os diversos tipos de linfócitos T ajudam a determinar (muitas vezes einstein. 2008; 6 (Supl 1):S13-S20 Imunologia e envelhecimento S17 sendo o fator mais importante) o caminho no qual uma resposta imune irá trilhar. Inicialmente conheci- das como DCs mielóides e linfóides, DC1 e DC2, ou mais convencionalmente, MDC e DC plasmocitóide (PDC). Cada uma dessas subpopulações regula de maneira diferente imunidade, tolerância, equilíbrio Th1/Th2/TREG(21-22). Existem ainda as células den- dríticas foliculares (FDC) que, durante o envelhe- cimento, parecem perder a capacidade de estimular linfócitos B. Além de terem menor capacidade de captação e retenção de imunocomplexos, a diminui- ção no número de receptores para a cadeia FC gama de anticorpos (FcγRII) resulta em menor capacidade em estimular a produção de novos centros germinati- vos e, consequentemente, menor resposta humoral a antígenos recém-encontrados(23). Estudos, principal- mente em camundongos e ratos, sugerem não haver uma diminuição generalizada no número de DCs do organismo. Entretanto, alguns estudos demonstraram diminuições numéricas em alguns órgãos ou tecidos, como os linfonodos e a mucosa oral. Também há descrições de diminuições no número de DCs de origem mielóide no sangue em humanos, assim como uma diminuição no número de DCs ima- turas, o que ajudaria a explicar o aumento de auto- imunidade nessa faixa etária. Há trabalhos controver- sos sobre a expressão das moléculas co-estimulatórias CD80 e CD86. A maioria dá conta de um aumento da expressão dessas, o que, pela sua maior interação com o ligante CTLA-4, associado à diminuição da ex- pressão de CD28 discutida acima, poderia explicar a perda de ativação e maior apoptose de linfócitos T naïve nesses indivíduos, comprometendo ainda mais a resposta primária. Na Figura 3 estão demonstradas as vias de sinalização no linfócito T a partir do estí- mulo de uma célula apresentadora de antígenos e os caminhos que estas sinalizações podem levar. CÉLULAS NATURAL KILLER (NK) NO ENVELHECIMENTO Além de sua atividade citotóxica elas também regulam a resposta imune pela produção de citocinas e quimocinas que participam diretamente na eliminação de patógenos ou na atividade de outras células componentes da imu- nidade. Há controvérsias quanto ao número de células NK no sangue de indivíduos idosos; enquanto certos estudos apontam para uma diminuição, outros estudos apontam para a manutenção(24-25) e até aumento de nú- mero e atividade, medida indiretamente por marcadores de superfície CD16 e CD57(26). Alguns autores sugerem, então, que valores persistentemente baixos de número e de atividade citotóxica de células NK em idosos não são uma constante e sim, marcadores de morbidade e mortalidade nesse grupo de indivíduos(13). Somando-se a isso, sabe-se que a atividade NK está correlacionada com níveis séricos de vitamina D, portanto, a qualidade da nutrição é fator importante nos idosos, assim como as atividades físicas e o controle hormonal(27). Logo, essas variáveis também devem ser levadas em conta quando analisamos esse parâmetro imunológico no idoso. LINFÓCITOS B, NUTRIÇÃO, ATIVIDADE FÍSICA E ENVELHECIMENTO O envelhecimento está associado a mudanças qualitati- vas e quantitativas na imunidade humoral. A diminuição no repertório de células B, exceto em uma subpopula- ção, pode desencadear uma leucemia crônica B que é mais comum em idosos(13), pode desencadear também mudanças nos mecanismos de mutação somática as- sociados a afi nidade dos anticorpos. Imunoglobulinas IgG e IgA estãonormalmente aumentadas enquanto IgM permanece inalterada. IgG1, IgG2 e IgG3 estão signifi cativamente aumentadas enquanto IgG4 não. É interessante notar que IgG1 e IgG3 estão relacionadas com resposta humoral a vírus e bactérias; IgG2 e IgM a respostas a polissacarídeo (cápsula e/ou parede bacte- riana); IgG4 e IgE resposta a parasitas. Defeitos na ativação celular também têm sido des- critos como conseqüência do envelhecimento do sistema imune. A enzima c-jun N-terminal quinase (JNK) que é ativada quando linfócitos T são estimulados via seu re- ceptor para antígeno (TCR) e, além disso pela molécula CD28, que contribui para a produção de IL-2 pela fosfo- rilação dos seus fatores de transcrição, tem sua atividade diminuída em até duas vezes em camundongos idosos(28- 29). Um defeito na síntese de algumas metaloproteinases de matriz extracelular (MMP) evidenciado pela “frouxi- dão” ao redor do reparo cirúrgico de deslocamento de bacia em pacientes idosos, sugere que as MMP podem estar diminuídas de forma sistêmica(30). Essas enzimas são importantes controladoras da resposta imune e mais Figura 3. Diferentes tipos de apresentação antigênica levam a diferentes respostas nos linfócitos T. Assim, a apresentação na ausência de segundo sinal (painel da esquerda) leva à anergia que é um importante mecanismo de manutenção da tolerância aos antígenos próprios na periferia do organismo e pode estar diminuída na terceira idade. A apresentação completa (painel do meio) que leva à ativação e à apresentação de um super-antígeno que leva à eliminação dos clones respondedores (painel da direita) einstein. 2008; 6 (Supl 1):S13-S20 S18 Ewers I, Rizzo LV, Kalil Filho J um marcador das alterações vistas no sistema imune resultantes do envelhecimento. Como já mencionado pontualmente acima, o estado nutricional tem um papel crucial na manutenção da função imune, independente da idade do indivíduo. A qualidade da nutrição e a re- alização de atividade física em muito podem contribuir para a preservação da atividade do sistema imune(31-32). O declínio em ambos os parâmetros específi cos e não específi cos da imunidade tem sido associado à desnutri- ção e à defi ciência de proteínas. Sendo esse declínio um fator contribuinte para o aumento da mortalidade em idosos, especialmente quando relacionada ao câncer e a doenças infecciosas(33). Defi ciências de alguns microele- mentos e de vitaminas estão associadas ao decréscimo na função imune(34). Vários desses micronutrientes, in- cluindo anti-oxidantes, modulam fatores de transdução e transcrição gênica, envolvendo células do sistema imune e ou produção de citocinas. Um desses micrcoelemen- tos, o zinco, tem papel importante na resposta humoral pela restauração da atividade do hormônio timulina, que requer a sua presença para se expressar e, além disso, está envolvido na proliferação de timócitos. O zinco está defi ciente na maioria dos idosos, independente do esta- do nutricional(35). Os indivíduos idosos que mantêm ati- vidade física continuada apresentam níveis de linfócitos T CD4 + e T CD8+ semelhantes aos de indivíduos mais jovens(36). Esses indivíduos também não apresentam de- feitos comuns de recrutamento de linfócitos para os sítios infecciosos que são vistos em idosos sedentários(36). ASPECTOS MOLECULARES DO ENVELHECIMENTO O sucesso e a longevidade de um organismo requerem um equilíbrio nos recursos que mantenham e reparem as suas funções. Ao nível celular, mecanismos enzimáticos exis- tem para prevenir e reparar danos mantendo a integrida- de genômica. No caso do sistema imune, esses mecanis- mos são especialmente importantes na manutenção das células de memória(37). A opção da renovação de tecidos por mitose celular traz o risco de doenças proliferativas e, em casos extremos, de um crescimento celular descontro- lado que é característico de doenças malignas. Um meca- nismo importante que limita o potencial proliferativo de células é a erosão dos telômeros, estruturas de cromatina que encapam e protegem o fi nal dos cromossomos(38). O resultado dessa erosão é instabilidade e morte celular. Como o sistema imune é particularmente dinâmico e contem elementos insubstituíveis (células de memória), esses eventos são particularmente importantes para sua manutenção durante o envelhecimento(39). Todas as célu- las do sistema imune são derivadas de células tronco he- matopoiéticas que podem dividir-se e diferenciar-se ao longo da vida. Possuem um alto nível de atividade da te- lomerase, um complexo enzimático multimolecular com capacidade de alongar o DNA telomérico(38). A atividade da telomerase é particularmente evidente em tipos celu- lares que dependem de replicação e de auto-renovação, como as células tronco ou os linfócitos ativados, contudo, esse complexo enzimático tem a capacidade de diminuir, mas não compensar completamente, a perda do telôme- ro, com exceção para gametas e células tumorais. O siste- ma imune é, provavelmente, o principal exemplo de um sistema celular dinâmico para o qual a manutenção da atividade de telomerase é fundamental. A competência imunológica é dependente da expansão clonal de linfó- citos T e B antígeno-específi cos e a perda de telômero pode contribuir para uma diminuição da função imune. A renovação de linfócitos T é particularmente complexa, pois inclui atividade tímica e, esta atividade, decai pro- gressivamente com o envelhecimento, apresentando-se como um processo complexo e ainda relativamente obs- curo. Nos timócitos existe um alto grau de atividade da telomerase e o comprimento do telômero pode ser au- mentado ou mantido. O encurtamento do telômero tem sido descrito em indivíduos com doenças infl amatórias crônicas, como, por exemplo, a artrite reumatóide, a es- clerodermia, o lupus eritematoso sistêmico, a dermatite atópica, entre outras. Estudos em pacientes com artrite reumatóide demonstraram que o encurtamento do te- lômero não é só encontrado em células T de memória, mas também em células T naïve. Este fenômeno parece ser geneticamente determinado e associado ao haplótipo HLA-DR4 que é um dos principais marcadores de risco para a artrite reumatóide. De outra maneira, constantes infecções ou infecções crônicas também contribuem para a erosão dos telômeros e, mais uma vez, se associam com o envelhecimento, simplesmente, pela maior exposição. Entretanto, as razões pelas quais o encurtamento de te- lômeros pode levar à auto-imunidade em idosos não são tão claras. Pode-se supor que, a despeito da diminuição de repertório, assim como de fatores como IL-2 e fatores co-estimuladores, o que ocorra é que as células poten- cialmente autopatogênicas, nesses indivíduos, mante- nham-se sufi cientemente abaixo dos níveis de reconhe- cimento de auto-agressão do sistema, justamente por causa desses fatores e, assim, consigam causar uma lesão inicial que se retroalimenta positivamente. Essas seriam as causas, então, não a ausência de células reguladoras T ou NK, conforme sugerido acima(39). MORTE CELULAR POR APOPTOSE E O ENVELHECIMENTO A morte por apoptose desempenha um papel importan- te na embriogênese, na homeostase celular, na atrofi a tecidual e na remoção de células tumorais ou danifi ca- das. No sistema imune a apoptose tem um papel crucial na seleção do repertório de linfócitos T no timo, na de- einstein. 2008; 6 (Supl 1):S13-S20 Imunologia e envelhecimento S19 leção de linfócitos T e B autoreativos, na regulação da memória imunológica e das células NK. Durante o envelhecimento, existe uma linfopenia progressiva de células T, tanto CD4+ como CD8+, cau- sada pelo decréscimo de precursores na medula óssea, pela redução do potencial proliferativo e/ou aumento da apoptose, que pode estar relacionada com um aumento na expressão de CD95 e aumento na produção de TNF- α ou, simplesmente,pelo aumento da susceptibilidade de CD4+ e CD8+ de idosos a apoptose induzida por esta citocina. Não está claro, porém, se existe algum tipo de impacto do aumento da apoptose de células T no repertó- rio específi co de linfócitos(40). Parece contra intuitivo que um aumento na apoptose esteja temporalmente associa- do a um aumento nas doenças auto-imunes, entretanto, duas hipóteses podem ser levantadas. A primeira seria um aumento preferencial na morte de células T regula- doras, a segunda, a perda progressiva de linfócitos T que respondem contra antígenos nominais e que permitiria o desenvolvimento de clones auto reativos, pois abriria “es- paço” na periferia para o desenvolvimento dessas células, como é visto no modelo de timectomia neonatal em ca- mundongos, que leva a auto-imunidade. O que é certo, apenas, pelos dados disponíveis, é que há um aumento na atividade apoptótica no sistema imune do idoso. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em resumo, ainda que vários estudos tenham demons- trado modifi cações importantes na resposta imune em pacientes idosos, alguns outros sugerem que essas altera- ções indicam apenas imunosenescência e não são acom- panhadas pela perda de função. Parece-nos ainda que a resposta imune inata é menos sensível que a resposta imune adquirida aos efeitos do envelhecimento. Portan- to, são necessários estudos mais detalhados e melhor con- trolados com pacientes idosos para se determinar as reais conseqüências do envelhecimento sobre o sistema imu- ne, quais são os marcadores dessas possíveis alterações e quem são os pacientes em risco de desenvolvê-las mais rapidamente e de maneira mais proeminente. Enquanto esses estudos não surgem, é importante considerar que todo indivíduo acima de 60 anos tem seu sistema imune sob suspeita e deve ser tratado de maneira a contemplar essa peculiaridade, minimizando o uso de intervenções que possam comprometer ainda mais as funções efetoras e ou reguladoras da sua resposta imune. REFERÊNCIAS 1. McEwen BS. Physiology and neurobiology of stress and adaptation: central role of the brain. Physiol Rev. 2007;87(3):873-904. 2. Graham JE, Christian LM, Kiecolt-Glaser JK. 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