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ALGUMAS ATIVIDADES DE REVISÃO LIII 
 
 
1. Com base no fragmento textual a seguir, discorra sobre a proposta da análise de 
discurso de linha francesa para os estudos de linguagem, abordando as noções de 
discurso, sujeito e ideologia nessa perspectiva teórica. 
 
“A escola francesa de análise do discurso (de agora em diante AD) se apresenta como sendo 
uma teoria crítica da linguagem, constituindo uma disciplina que, por se situar no entremeio 
das ciências sociais humanas, encontra-se sempre reinvestigando os fundamentos de seu 
campo de conhecimento: as relações entre a linguagem, a história, a sociedade e a ideologia, 
a produção de sentidos e a noção de sujeito.” (MARIANI, B.S.C. O PCB e a imprensa: os 
comunistas no imaginário dos jornais (1922-1989). Rio de Janeiro: Revan; Campinas-SP: 
Unicamp, 1998. p. 23). 
 
Como afirma Bethania Mariani, no fragmento textual apresentado, a análise de 
discurso de linha francesa constitui-se como ciência no entremeio, entre a linguística 
estruturalista e as ciências sociais, interessando-se pelo modo como a linguagem 
produz sentidos. Assim, a análise de discurso é uma disciplina de interpretação, que 
coloca em cena a relação entre a linguagem, a história e os sujeitos. O seu objeto de 
estudos é o discurso, compreendido, conforme Pêcheux, como “efeitos de sentido entre 
interlocutores”. A análise de discurso entende que os sentidos estão sempre em curso e 
se constituem em relação à língua, aos sujeitos e às condições sócio-históricas em que o 
dizer se inscreve. Ao tratar dos sujeitos, essa perspectiva teórica o concebe não como 
um indivíduo, mas como uma posição discursiva, um “lugar” determinado pela 
ideologia. A ideologia, por sua vez, também é compreendida de um modo bem 
particular na análise de discurso de linha francesa: como um mecanismo de produção 
de evidências, de naturalização dos sentidos. É também a ideologia que promove a 
interpelação dos indivíduos em sujeitos. 
 
2. Utilize as duas capas da revista Cláudia expostas a seguir, que circularam na década de 
1960 e no ano de 2008, respectivamente, para responder às questões a e b: 
 
a) Apresente a noção teórica de condições de produção na análise de discurso de linha 
francesa, mostrando o seu funcionamento na constituição de sentidos nas duas capas 
de revista. 
 
b) Explique o que são as formações imaginárias e comente sobre a formação 
imaginária da mulher presente nas duas capas, apontando as marcas textuais que 
sustentam a sua análise. 
 
 
 
 
 
 
 
a) As condições de produção do discurso compreendem tanto as circunstâncias 
imediatas do dizer (o aqui-agora enunciativo) como o contexto sócio-histórico 
que o determina. Também compõem as condições de produção, o sujeito 
enquanto uma posição discursiva e a memória do dizer (o interdiscurso). As 
duas capas da revista feminina Cláudia, apresentadas para análise, são um 
exemplo de como diferentes contextos históricos determinam diferentes efeitos 
de sentido, no caso, sobre a mulher e o feminino em nossa sociedade. Na 
primeira capa, com circulação na década de 1960, os dizeres sobre a mulher 
tematizam a sua relação com o lar (o que se observa pela expressão “O lar dos 
seus sonhos”, em destaque na capa) e com a moda (marcada na expressão “A 
moda de Cláudia”). Esse efeito de sentido de proximidade entre a mulher e a 
cena doméstica é decorrente das posições sociais atribuídas à mulher naquele 
momento histórico: uma mulher que, de um modo geral, tinha as suas 
atribuições restritas ao cuidado do lar e da família. Outros efeitos de sentido 
podem ser observados na capa da mesma revista, com circulação no ano de 
2008. Nesse caso, a menção a “doenças sexualmente transmissíveis”, por 
exemplo, e o título “Xô, homem errado”, em destaque na página, apontam para 
outras posições femininas, na relação com a sexualidade e na possibilidade de 
troca de parceiros nos relacionamentos afetivos. Esses outros efeitos de sentido 
são possíveis porque a posição da mulher não é mais a mesma nesse novo 
período histórico. 
 
3. b) As formações imaginárias são compreendidas na análise de discurso como 
projeções no discurso das posições sociais ocupadas pelos sujeitos. As formações 
imaginárias são as imagens que o sujeito faz de si mesmo, do outro a quem se 
dirige e daquilo sobre o que fala, e que não decorrem de uma impressão particular 
do sujeito, mas de enunciações anteriores. Nas duas capas da revista Cláudia, 
podemos observar diferentes formações imaginárias para a mulher, em contextos 
sócio-históricos distintos (na década de 1960 e na atualidade). Uma marca que 
podemos tomar para análise são as mulheres retratadas em cada capa. Enquanto 
na capa com circulação na década de 1960 temos uma ilustração de uma mulher, 
maquiada, de unhas feitas, e com vestes recatadas, na capa do ano de 2008, temos 
uma fotografia de uma artista famosa, que olha diretamente para a câmera, com o 
ombro nu em destaque. Os efeitos de sentido produzidos em cada caso são 
diferentes. No primeiro, o olhar que não “encara” o leitor e a roupa que não deixa 
o corpo à mostra apontam para a formação imaginária de uma mulher recatada, 
que se dedicada ao cuidado de si e dos seus familiares (o que se marca na 
expressão “O lar dos seus sonhos”). No segundo, o olhar direto da cantora Ivete 
Sangalo e a exibição de seu corpo marcam a imagem de uma mulher decidida e 
poderosa (o que se observa, por exemplo, no título “O verdadeiro poder das 
mulheres”), na lateral da capa. Mas também podemos observar que, apesar dessas 
diferenças, a formação imaginária da mulher permanece a mesma em alguns 
pontos: o interesse pela beleza e pela moda, e o cuidado com a família, por 
exemplo, estão presentes nas duas capas, mantendo-se como um domínio do 
feminino, o que indica que a formação imaginária da mulher feita pela revista 
Cláudia não mudou tanto assim em quase cinco décadas. 
 
4. Utilize a tirinha a seguir para discorrer sobre o funcionamento do discurso, com base 
nos processos de paráfrase e polissemia, conforme proposto pela análise de discurso de 
orientação francesa. 
 
 
Níquel Náusea – Tiras do baú (n° 14) 
 
De acordo com a perspectiva teórica da análise de discurso, todo discurso funciona na 
relação entre dizeres que se repetem e dizeres outros, que promovem deslizamentos de 
sentidos. Na paráfrase, temos o domínio da repetição dos dizeres, da reiteração dos 
sentidos. Já na polissemia, o que vemos é o deslizamento, a ruptura, a possibilidade do 
comparecimento de sentidos outros. É na tensão entre paráfrase e polissemia que os 
sentidos se constituem, uma vez que não há sentido sem a retomada; do mesmo modo, 
o sujeito não está condenado à mera repetição: os sentidos se movimentam, são 
(re)significados. No caso da tirinha do Níquel Náusea, podemos observar a retomada 
de ditados populares bastante conhecidos (como: “Em terra de cego, quem tem um 
olho é rei” e “Mais vale um pássaro na mão que dois voando”), (re)significados para o 
contexto da barata, personagem da tirinha. No caso desses dois provérbios, no entanto, 
há uma tendência à paráfrase, pois os sentidos se mantêm. É no terceiro quadro da 
tirinha que a polissemia se marca, na expressão “filosofia barata”, que tanto pode se 
referir aos devaneios filosóficos da barata, em sua retomada dos provérbios, como 
qualificar o tipo de filosofia em questão, como bastante ordinária. É na relação entre 
paráfrase e polissemia que a tirinha produz o seu efeito de humor. 
 
5. Leia o fragmento textual a seguir, extraído do livro de Eni Orlandi, As formas do 
silêncio. Depois observe alguns dos versos da música Você só pensa em grana, de Zeca 
Baleiro e responda: como se pode depreender, na materialidade linguística da música, o 
funcionamento da interdição ao dizer? Aponte ao menos dois exemplos de marcas 
linguísticas que permitem constatar o funcionamento do silêncio local neste fragmentoanalisado. 
 
“A censura tal como a definimos é a interdição da inscrição do sujeito em formações 
discursivas determinadas, isto é, proíbem-se certos sentidos porque se impede o sujeito de 
ocupar certos lugares, certas posições. (...) Desse modo, impede-se que o sujeito, na relação 
com o dizível, se identifique com certas regiões do dizer pelas quais ele se representa como 
(socialmente) responsável, como autor.” (ORLANDI, 2007, p. 104) 
 
Você só pensa em grana – Zeca Baleiro 
Você só pensa em grana meu amor 
você só quer saber 
quanto custou a minha roupa 
custou a minha roupa 
você só quer saber quando que eu vou 
trocar meu carro novo 
por um novo carro novo 
um novo carro novo meu amor 
você rasga os poemas que eu te dou 
mas nunca vi você rasgar dinheiro 
você vai me jurar eterno amor 
se eu comprar um dia o mundo inteiro [...] 
 
Na análise de discurso, uma das formas de se considerar o silêncio em sua relação com 
a linguagem é pelo que Eni Orlandi nomeia silêncio local. O silêncio local funciona 
pela censura, pela interdição ao dizer. Interditar o dizer significa impedir que certos 
sentidos apareçam, o que tanto pode se dar pelo impedimento a um dizer específico, 
como pela insistência em um único dizer, já que, como nos diz Orlandi, ao dizer “x”, o 
sujeito fica impedido de dizer “y”. No fragmento da letra da música “Você só pensa 
em grana”, de Zeca Baleiro, podemos observar um exemplo da interdição ao dizer. 
Nos versos, temos o eu lírico que atribui ao outro a quem se dirige a produção de um 
único sentido, o que se marca no termo “só”, no verso que dá título à canção. No fio do 
discurso, temos marcas como “trocar meu carro novo/ por um novo carro novo”, que 
apontam a identificação desse sujeito com uma formação discursiva consumista. Ao 
insistir nesses sentidos, o sujeito impede que outros sentidos apareçam, como a relação 
romântica, por exemplo, como podemos observar no verso: “você rasga os poemas que 
eu te dou”. 
 
 
5- Faça uma breve análise da charge a seguir, explicando a relação entre ideologia e 
discurso. Em seu texto, apresente a noção de ideologia na Análise de Discurso e utilize 
marcas da superfície textual da charge para explicar o seu funcionamento discursivo. 
 
 
 
A análise de discurso compreende a ideologia enquanto produção de evidências dos 
sentidos e dos sujeitos. A ideologia é um mecanismo de produção de evidências, que 
diz aos sujeitos como as coisas são e que se materializa nas práticas sociais, dentre elas, 
na linguagem. A análise de discurso entende, assim, que o discurso é um lugar 
privilegiado de manifestação da ideologia, uma vez que os sentidos dependem das 
posições ideológicas que estão em jogo em um determinado dizer. Podemos entender 
então que o sentido não está colado às palavras, ele não está dado de antemão, mas ele 
é construído no dizer, embora o sujeito tenha a nítida impressão de que ele está 
sempre já-lá. 
Na charge em questão, uma marca linguística que nos permite depreender o 
funcionamento da ideologia está no emprego do termo “machismo”, que não possui o 
mesmo sentido para as duas mulheres que se encontram em diferentes condições sócio-
históricas. Vemos que, para cada uma delas, a palavra “machismo” ganha um sentido, 
que se constitui a partir de determinadas evidências. Se para uma delas deixar 
somente os olhos à mostra torna uma cultura “evidentemente” machista, para a outra, 
deixar todo o resto do corpo descoberto e cobrir somente os olhos é o que compõe essa 
mesma evidência (de uma cultura machista). Essas “evidências” que parecem ser 
dadas de antemão ocorrem por conta do funcionamento da ideologia, que possibilita a 
produção de diferentes sentidos para o termo “machismo”, a partir do que é dito sobre 
o modo como se vestem as duas mulheres retratadas na charge.