Prévia do material em texto
Orientação educacional e pedagógica Fernanda SanSão ramoS mattoS 1ª edição Brasília/dF - 2018 Autores Fernanda Sansão ramos mattos Produção equipe técnica de avaliação, revisão Linguística e editoração Sumário Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa ..................................................................................................... 4 Introdução ............................................................................................................................................................................. 6 Aula 1 Orientação e educação ............................................................................................................................................... 9 Aula 2 A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea ............................................................................21 Aula 3 O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola ..........................37 Aula 4 As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico .......................................................51 Aula 5 Orientação vocacional e educação .......................................................................................................................63 Aula 6 Orientação vocacional na prática .........................................................................................................................82 Referências .......................................................................................................................................................................101 4 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. a seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de estudos e Pesquisa. Provocação textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. as reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 5 Organização do caderno de estudos e pesquisa Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Cuidado Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. Importante Indicado para ressaltar trechos importantes do texto. Observe a Lei Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem, a fonte primária sobre um determinado assunto. Posicionamento do autor Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. 6 Introdução olá! Seja bem-vindo à disciplina de orientação educacional e Pedagógica! É com muito entusiasmo que, ao longo deste curso, acompanharemos você através das principais discussões que constituem o campo de atuação do orientador educacional. nosso objetivo neste caderno é que você tenha contato com as principais questões teóricas relacionadas à atividade do orientador educacional e pedagógico, para que com isso seja capaz de compreender o seu papel na estrutura escolar e no bom desenvolvimento do projeto educacional. no futuro, se for seu interesse atuar no Serviço de orientação educacional, o debate iniciado nesta disciplina será muito enriquecedor para que você fundamente sua prática. da mesma forma, enquanto estiver ocupando outros postos de trabalho dentro de uma instituição de ensino em que exista o serviço do orientador, você estará bem informado a ponto de compreender o trabalho desenvolvido por esse profissional para tirar proveito dele no aprimoramento de suas próprias atividades. Bons estudos! Objetivos » entender a relação existente entre educação e orientação, contextualizando o surgimento da orientação nas instituições de ensino. » reconhecer os principais modelos de orientação educacional e Pedagógica que predominaram no cenário escolar ao longo do tempo. » reconhecer a importância do aprendizado e a prática das posturas e competências necessárias ao bom desempenho da função de orientação educacional e Pedagógica. » Compreender a importância de o orientador educacional e Pedagógico respeitar a autonomia de seus orientandos. » definir que, além de trabalhar diretamente com os alunos, cabe ao orientador educacional e Pedagógico auxiliar a equipe gestora a planejar, implementar e avaliar o projeto político-pedagógico da escola. » apresentar as atribuições privativas e participativas definidas pelo decreto nº 72.846/1973 para a atividade de orientação educacional; » discutir os principais aspectos a serem considerados na organização do Serviço de orientação educacional (Soe); 7 » refletir a respeito da orientação vocacional desenvolvida nos dias de hoje, salientando sua relação com o conceito pós-moderno de identidade. » discutir a orientação vocacional dentro do contexto educacional, salientando o fato de a escola ser um ambiente propício à oV. » Identificar a estrutura de um processo de orientação vocacional, ressaltando os elementos que fazem parte de seu início, meio e fim. 8 9 Introdução na primeira aula desta disciplina, trabalharemos a relação existente entre educação e orientação, contextualizando o surgimento da figura do orientador educacional e Pedagógico nas instituições de ensino. Veremos também os diferentes modelos de orientação que predominaram no cenário educacional ao longo dos anos, identificando a forma como cada um deles buscava priorizar o interesse social ou individual e o protagonismo oferecido ao aluno em cada um dos modelos. Por fim, deteremo-nos mais detalhadamente na análise do modelo de orientação centrado no desenvolvimento individual, que predomina no cenário educacional dos dias de hoje. Objetivos » entender a relação existente entre educação e orientação. » Contextualizar o surgimento da orientação nas instituições de ensino. » reconhecer os principais modelos de orientação educacional e Pedagógica que predominaram no cenário escolar ao longo do tempo. » Compreender o modelo de orientação centrado no desenvolvimento individual, reconhecendo o fato de ele ter trazido o aluno para o cerne do processo de orientação e dado a este o protagonismo sobre o seu próprio desenvolvimento. » Identificar a importância da interação entre o orientador educacional e Pedagógico e os demais grupos que compõem a vida escolar. 1AulAORIEntAçãO E EduCAçãO 10 AulA 1 • ORIEntAçãO E EduCAçãO Orientação e Educação a palavra ‘orientação’ significa, de forma bastante objetiva, a ação de localizar o oriente, ou seja, o lado onde o sol nasce todos os dias. Com isso, é possível dizer que a orientação consiste na definição de um ponto geográficoespecífico, associado a um fenômeno diário, que pode ser visto a olhos nus de qualquer ponto do globo para, a partir deste ponto, localizarmos todos os demais elementos espaciais que nos cercam. Se eu sei que o sol nasce todos os dias no leste e vai caminhando gradativamente pelo céu até morrer no oeste, fica fácil saber em que direção estou indo a qualquer hora do dia e para que lado devo caminhar se pretendo chegar a um local determinado! o que essa definição tem a ver com a nossa disciplina de orientação educacional e Pedagógica? Vamos tentar responder a tal pergunta nos lembrando dos tempos em que estávamos na escola e a professora pacientemente nos ensinava a respeito da orientação espacial e seus métodos. Sei que isso faz bastante tempo, mas você certamente ainda se lembra de ter colorido algumas rosas dos ventos e de ter ido até o pátio da escola para observar a posição do sol e desenhar relógios com giz no chão! naquela época, a professora provavelmente iniciou a apresentação deste conteúdo falando sobre os pontos cardeais e a forma como eles se organizam no espaço. Começamos então a pintar as tais rosas dos ventos, para memorizar que o norte fica sempre em cima, o sul embaixo, o leste do lado direito e o oeste do lado esquerdo. depois disso, aprendemos que o sol nasce sempre no leste e, quando chegamos ao pátio, munidos de nossa rosa dos ventos colorida, as coisas tomaram seu lugar como mágica! não importava mais o quanto caminhássemos para um lado ou para o outro, podíamos até rodopiar pelo espaço, e pela simples observação do sol éramos capazes de identificar novamente onde estávamos e em que direção se localizava qualquer coisa ao nosso redor. essa memória infantil nos lembra do momento em que aprendemos a orientar nosso corpo pelo espaço mediante o estabelecimento do sol como nosso ponto de referência. Se continuarmos relembrando aqueles dias, você vai perceber como, na sequência, aprendeu a aplicar este conhecimento para formas cada vez mais sofisticadas de se localizar, como a leitura de bússolas e dos mapas. a partir deste ponto, ficou mais difícil se perder, pois você entendeu que os pontos de referência estariam sempre no mesmo lugar, e a partir deles você poderia calcular a melhor rota para levar seu corpo ao local em que gostaria de estar. Atenção além da orientação espacial pela localização do sol, existem outros métodos de orientação, como a observação da lua ou das estrelas. no entanto, como nossa intenção aqui é meramente ilustrativa, vamos nos referir apenas ao sol como ponto de referência central para nos localizarmos no espaço. Se este assunto despertar a sua curiosidade, busque outras fontes para saber mais sobre ele! 11 ORIEntAçãO E EduCAçãO • AulA 1 Quando não é simplesmente o corpo que precisa chegar a algum lugar? e quando a necessidade de orientação torna-se mais subjetiva, referindo-se aos rumos que desejamos tomar em nossas vidas ou à necessidade de traçarmos uma rota para atingirmos nossos objetivos, metas e sonhos? nesta disciplina de orientação educacional e Pedagógica, veremos que, da mesma forma que é possível utilizarmos referências sólidas, planejamento, e o estabelecimento de metas e objetivos para levar o corpo até o local onde ele deseja chegar, somos capazes de utilizar convenientemente todas essas ferramentas e técnicas para auxiliar o indivíduo a se desenvolver plenamente e realizar tudo aquilo que pretenda, seja como cidadão, profissional ou pessoalmente. Isso é auxiliar a mente a chegar ao ponto em que se pretende estar, ancorar as atitudes e o pensamento em referenciais sólidos, para que, dessa forma, eles caminhem em direção ao ponto que estabelecemos como meta. Histórico da Orientação Educacional e Pedagógica orientação e educação são dois processos que sempre caminharam lado a lado. Pode-se dizer inclusive que, no sentido de guiar e aconselhar, a orientação sempre fez parte do processo educativo. mesmo quando a formação dos jovens para a vida social e o mundo do trabalho acontecia dentro da própria família ou era conduzida por um membro mais experiente da comunidade, esse processo incluía não somente o ensino de conceitos e atividades específicas, mas, também, a tarefa de orientar o pupilo pelas questões e dilemas da época, participando, assim, de sua formação integral e futura inserção na vida social. Conforme a educação de jovens e crianças foi passando das mãos da família e da comunidade local para a responsabilidade das instituições formais de ensino, esse contato próximo e quase individualizado entre mentor e aprendiz foi se tornando cada vez mais difícil. Como seria possível dedicar-se às questões de desenvolvimento integral das potencialidades de cada aluno em um contexto de grupos cada vez maiores, em que apenas um professor seria responsável por todos? É neste momento que surge a necessidade de encontrarmos um profissional específico que se ocupasse da orientação dos alunos, enquanto o professor, em sala de aula, priorizaria a transmissão dos conteúdos. Com isso, não se pretende dizer que não exista um caráter de orientação e uma preocupação permanente com a formação integral dos alunos nas atividades exercidas pelo docente. Contudo, será o orientador que terá essa preocupação como objetivo específico de suas atividades, auxiliando inclusive os professores a Sugestão de estudo no filme ‘alexandre’, é possível ver um bom exemplo de como essa dupla empreitada de orientar e educar se apresentava na relação entre o pupilo e seu mestre. o longa metragem apresenta como parte importante da formação do imperador alexandre seus estudos com o filósofo aristóteles, que não só o instruía em conteúdos específicos, tais quais medicina, política e geografia, mas o auxiliava a entender seu lugar no mundo e a construir seu projeto de vida. alexandre. direção: oliver Stone, Produção: oliver Stone. reino Unido: Warner Bross, 2005. 12 AulA 1 • ORIEntAçãO E EduCAçãO melhor trabalharem tais questões no planejamento e na execução de suas aulas, bem como em suas interações com os alunos. as autoras Giacaglia e Penteado (2015) apontam a revolução Industrial como primeiro fator decisivo para o surgimento da orientação nas escolas, porque, à medida que as fábricas se fortaleceram exigindo cada vez mais mão de obra para garantir seu funcionamento, um número cada vez maior de adultos acabou sendo afastado do convívio com os próprios filhos e com os demais jovens da comunidade. Isso ocasionou o agrupamento dos educandos em instituições formais de ensino, permitindo, desse modo, que os pais se dedicassem ao novo trabalho na indústria. Um segundo elemento indicado pelas autoras é o movimento de educação compulsória para todas as crianças, que atingiu seu auge na década de 1930, nos eUa. o crescente número de imigrantes e o aumento considerável de crianças vivendo nas cidades americanas deram origem a uma preocupação cada vez maior com a proteção desta população infantil, o que ensejou a criação de leis que tratavam sobre o trabalho infantil e a obrigatoriedade da inserção de todas as crianças na educação formal. Como destacam Giacaglia e Penteado (2015), esses dois fatores fizeram com que as escolas fossem obrigadas a aumentar muitíssimo o número de alunos que nelas se inscreviam, o que as forçou a aprimorar também a infraestrutura existente nas instituições para atender adequadamente a esse novo contingente de alunos, que não só era maior em número de pessoas como também em sua heterogeneidade. a escola se defrontava agora com uma diversidade grande de origens étnicas, religiosas, socioeconômicas e, até mesmo, de saúde mental e física, o que trouxe consigo um novo dilema para a prática educativa: como cuidar de um número tão grande de indivíduos tão diferentes? a saída mais adequada para atender a essa população escolar tão diversificada em suas especificidades e necessidades era a formação de uma equipe interdisciplinar, composta demédicos, enfermeiros, psicólogos, conselheiros, assistentes sociais, que atuariam em cada uma das escolas para garantir que as crianças fossem cuidadas e atendidas. no entanto, o investimento financeiro para a manutenção de um quadro de funcionários tão grande em cada uma das instituições de ensino era inviável. Surge, nesse contexto, o profissional de orientação como encarregado de não só auxiliar professores e alunos no desenvolvimento das atividades escolares, mas, também, como responsável por buscar o auxílio de outros especialistas sempre que necessário. ele seria, mediante a avaliação dos casos específicos e do encaminhamento, a ponte entre as necessidades da comunidade escolar e as diferentes especialidades de atendimento a essas necessidades. É importante salientar, no entanto, a dificuldade que existe em desenharmos um modelo único e inalterado que possa caracterizar a orientação educacional e Pedagógica (oeP) ao longo de toda a sua história, pois, de acordo com o contexto histórico e cultural em que se encontrava, a disciplina 13 ORIEntAçãO E EduCAçãO • AulA 1 foi assumindo diferentes formas de atuação. Segundo Giacaglia e Penteado (2015), podemos dividir essas constantes transformações em quatro modelos mais significativos: o pragmático, o terapêutico, o preventivo e, por fim, o modelo centrado no desenvolvimento individual. Orientação Educacional e Pedagógica no modelo pragmático Como vimos anteriormente, um dos principais fatores que concorreram para o surgimento da orientação educacional e Pedagógica nas escolas foi a revolução Industrial, bem como seus efeitos diretos e indiretos sobre a organização social, a educação e o trabalho. a revolução Industrial pode ser considerada um dos maiores processos de transformações socioeconômicas de nossa história, pois influenciou de maneira profunda e definitiva a vida das sociedades de todo o planeta, mesmo que de forma indireta. a partir da década de 1750, quando a revolução Industrial tomou corpo na europa, iniciou-se um processo gradativo de substituição das pequenas oficinas artesanais por grandes fábricas, as ferramentas de operação manual foram dando lugar às máquinas e as fontes de energia mais tradicionais como a água, o vento e a força muscular foram sendo trocadas pelo carvão e pela eletricidade. em sintonia com tais transformações, modificou-se também o mercado de trabalho, porque as fábricas geraram um aumento na demanda de mão de obra e um certo nível de especialização do trabalhador, que aos poucos foi deixando de participar de todo o processo de produção para tornar-se especialista em uma pequena parte dele. Se antes o artesão sapateiro era responsável desde a modelagem da peça e corte do couro até a finalização do sapato e seus ajustes finais, ao transferir-se para a fábrica de sapatos, ele passou a executar especializadamente apenas uma dessas funções repetidamente. Sendo assim, podemos dizer que o novo mercado de trabalho desenhado pela Indústria possuía uma demanda de trabalhadores muito diferente daqueles que trabalhavam anteriormente de forma artesanal, e parte significativa da responsabilidade pela formação dessa nova mão de obra especializada foi atribuída às escolas, mais especificamente ao orientador educacional e Pedagógico. em sua origem, a orientação educacional e Pedagógica possuía o objetivo absolutamente pragmático de selecionar e treinar os seus alunos para as novas formas de trabalho. Por esse motivo, o modelo de orientação praticado nas escolas nestes primeiros anos praticamente se restringia à orientação Vocacional dos alunos. Atenção Você conhece o significado da palavra “pragmático”? ao dizer que algo ou alguém é pragmático, estamos querendo dizer que seu foco está sempre direcionado à praticidade e à objetividade, sem rodeios ou desvios em seu caminho. Com isso, podemos dizer que a orientação educacional e Pedagógica que se confundia com a orientação Vocacional era pragmática, pelo fato de ela ter o objetivo muito prático de encontrar e formar pessoas para preencher as vagas de trabalho oferecidas pela indústria. 14 AulA 1 • ORIEntAçãO E EduCAçãO o modelo de orientação Vocacional adotado nesse período, que influenciava diretamente o modelo de orientação educacional e Pedagógica desenvolvido nas escolas, tinha como preocupação fundamental conhecer o indivíduo, suas capacidades e habilidades, para encontrar a ocupação profissional na qual ele teria maior sucesso. o método utilizado para esse fim ficou conhecido como estatístico psicométrico, que se baseava no conceito de que todo indivíduo possuiria aptidões inatas que poderiam ser descobertas por meio dos instrumentos psicométricos adequados. Com isso, podemos dizer que a orientação se limitava à aplicação de testes que mensuravam as aptidões de cada aluno para alocá-los na função profissional em que seriam melhor sucedidos. Perceba que em nenhum momento estamos falando sobre sonhos, metas, desejos ou inclinações do indivíduo para esta ou aquela profissão. o principal interesse da orientação educacional e Pedagógica deste período, em paralelo com os objetivos da própria orientação Vocacional, não era o de encontrar a tarefa que melhor se adequasse ao indivíduo ou aquela na qual ele poderia se realizar em nível pessoal, mas, sim, o de encontrar o candidato que teria o melhor desempenho em determinada função ou cargo. Como bem define Pimenta (1993, p. 24), “a preocupação não era com as aptidões individuais (com o indivíduo), mas com a identificação destas, para que o indivíduo pudesse ser colocado (selecionado) nos lugares onde seria mais produtivo”. Para utilizarmos um exemplo prático, imagine que a aluna maria tem o sonho de tornar-se arquiteta. ela almeja de todo coração cursar arquitetura, planeja seu futuro com base nesse sonho e está decidida a investir todos os seus recursos e esforços para concretizar tal projeto. no entanto, através dos diversos testes aplicados no processo de orientação, verificou-se que a aluna possui melhor desempenho nas disciplinas biomédicas que nas exatas. Sendo assim, maria será orientada a desistir da arquitetura para dedicar-se à medicina ou à enfermagem, visto que seu potencial para ser um bom profissional de saúde é estatisticamente maior do que o de ser uma boa arquiteta. Partindo desse exemplo, fica claro que a preocupação fundamental da orientação educacional e Pedagógica neste modelo não era o desenvolvimento do aluno ou de suas potencialidades, mas, sim, o interesse social de corrigir e adaptar o indivíduo de forma que fosse assegurado o bem-estar da sociedade como um todo, mesmo que para isso os interesses pessoais daquele aluno estivessem em segundo plano. Usando novamente o exemplo hipotético da aluna maria, poderíamos dizer que a sociedade como um todo se beneficiou do processo de orientação por ter conseguido uma profissional de saúde competente, mesmo que, para isso, maria tenha tido de abrir mão do seu desejo íntimo de ser arquiteta. outro ponto a ser destacado é a forma como, neste modelo de orientação, o aluno desempenha um papel completamente passivo no processo de orientação. ele é analisado, estudado e encaminhado de acordo com o que se acredita ser o melhor para ele e para a sociedade, mas em nenhum momento ele é chamado a opinar sobre os rumos que gostaria de dar a sua própria vida. o importante era modelar o aluno para que ele se encaixasse naquilo que o educador e a sociedade esperavam dele. 15 ORIEntAçãO E EduCAçãO • AulA 1 Orientação Educacional e Pedagógica no modelo terapêutico ou corretivo Como comentado anteriormente, a orientação educacional e Pedagógica surge no contexto escolar em um momento em que as instituições formais de ensino são obrigadas a abrir suas portas para um número cada vez maior de alunos, oriundos de realidades socioculturais das mais variadas. o resultado disso foi a criação de um ambiente com uma variedade enorme de indivíduos, todos muito diferentes entre si, queprecisavam aprender a coexistir de forma harmônica para que o processo educativo fosse bem-sucedido. Sendo assim, a orientação educacional e Pedagógica, em um segundo momento de sua existência, foi incumbida também da tarefa de adaptar os alunos ao ambiente escolar, identificando os indivíduos problemáticos e solucionando seus problemas de comportamento inadequado. este modelo de orientação foi designado por Giacaglia e Penteado (2015) como terapêutico, porquanto nele foram aplicados os conceitos da psicologia que se desenvolviam naquele período. este modelo de orientação educacional e Pedagógica, assim como o anterior, possuía uma atuação muito mais centrada no interesse social do que nas expectativas e necessidades do indivíduo, porque o intuito de adaptar os alunos ao convívio no ambiente escolar não tinha como princípio o bem-estar destes ou o aumento de sua produtividade acadêmica individual. o objetivo era o de criar um ambiente harmônico em que a coletividade fosse atendida de forma bem-sucedida e os indivíduos fossem, de certa maneira, adaptados para conviver em sociedade. Imagine, por exemplo, um aluno violento, que constantemente se envolve em brigas com colegas e professores. neste modelo de orientação, o foco seria utilizar os instrumentos psicológicos disponíveis para tratar esse quadro de agressividade, visando à adaptação deste aluno para que o bom andamento do processo educativo não fosse prejudicado. em nenhum momento existia a preocupação de auxiliar o indivíduo para que ele tivesse um aumento produtivo, melhor qualidade de vida ou autoconhecimento a ponto de trabalhar subjetivamente a questão da violência. em outras palavras, podemos dizer que tudo o que importava é que ele parasse de se comportar de determinada forma, seja por real melhora ou por coerção e imposição de conduta. da mesma forma, é importante destacar que neste modelo de orientação o aluno também era visto de forma passiva, como alguém que deveria ser moldado e encaminhado pelo orientador de acordo com as regras de normalidade e adaptação estabelecidas socialmente. o aluno visto como adaptado e normal era aquele que se configurava com facilidade ao sistema educativo, sem apresentar qualquer desvio de comportamento. enquanto o aluno problema, aquele que se comportava de maneira desviante, era visto como desajustado e precisava ser tratado e corrigido para se enquadrar ao modelo. 16 AulA 1 • ORIEntAçãO E EduCAçãO Orientação Educacional e Pedagógica no modelo preventivo durante muito tempo, o modelo de orientação educacional e Pedagógica denominado terapêutico ou corretivo foi aplicado nas instituições de ensino, fazendo com que o foco da atividade fosse identificar os alunos desviantes e problemáticos, que apresentavam qualquer tipo de inadaptação ao modelo pedagógico, para que eles fossem corrigidos e tratados a ponto de se tornarem parte do todo de forma harmônica. no entanto, percebeu-se que o esforço em remediar o problema depois que ele já havia se instaurado despendia muito mais esforços e causava muito mais transtornos do que encontrar uma maneira de impedir que os problemas de comportamento surgissem. Foi criado assim o modelo preventivo de orientação educacional e Pedagógica, no qual todos os alunos seriam doutrinados igualmente a se comportarem de forma adequada, buscando, dessa maneira, prevenir o surgimento do comportamento indesejável. mais uma vez podemos identificar o interesse social como foco essencial do processo de orientação, pois a expectativa deste modelo era garantir de forma eficaz, por meio da prevenção do surgimento do aluno desviante, que o grupo inteiro se comportasse de maneira adequada e sintonizada com os protocolos sociais. Se partirmos do mesmo exemplo apresentado no modelo anterior, em que imaginamos um aluno agressivo sendo tratado e corrigido individualmente para se adequar ao modelo, podemos dizer que, neste caso, o grupo inteiro receberia orientações a respeito da importância do controle da agressividade e da violência para impedir ou prevenir o surgimento do aluno problema no ambiente escolar. neste caso, o aluno também era entendido como elemento passivo do processo de orientação, porque, da mesma forma que no modelo anterior, o indivíduo problemático deveria ser moldado para corrigir o comportamento desviante, agora o grupo inteiro seria adequado e orientado para se adaptar ao modelo e prevenir o surgimento de elementos problemáticos. Orientação Educacional e Pedagógica centrada no desenvolvimento individual os três modelos de orientação educacional e Pedagógica analisados anteriormente são característicos de um paradigma de educação autoritário, em que se dava muito pouca atenção às necessidades individuais ou subjetivas dos alunos, focando sempre naquilo que seria melhor para a coletividade e forçando o indivíduo a se adaptar ao modelo padrão de comportamento para garantir assim o bom funcionamento da instituição escolar. não é por acaso que em todos os modelos analisados o interesse social se sobrepõe ao interesse individual e o aluno é visto como elemento passivo do processo educativo, que deve ser formatado 17 ORIEntAçãO E EduCAçãO • AulA 1 e padronizado independentemente de sua vontade. o educador, por sua vez, e neste sentido incluiremos o orientador, é tratado como hierarquicamente superior aos educandos, considerando a sua própria visão de mundo como verdade absoluta e referência a ser seguida. este é um modelo educativo que faz sentido dentro de uma lógica durkheimiana de educação, na qual a proposta do processo pedagógico é produzir uma nova geração de indivíduos exatamente igual à anterior, preocupando-se unicamente em torná-los aptos a serem funcionais dentro da sociedade, sem jamais questionar os valores e as práticas dessa sociedade. Para o sociólogo francês Émile durkheim, um dos nomes mais significativos para a sociologia da educação, a escola deveria operar na vida dos indivíduos como um local privilegiado de socialização, no qual a criança, entendida como folha de papel em branco, seria levada para receber do professor todos os conhecimentos necessários para se tornar um adulto funcional para a vida dentro da sociedade da qual faz parte. nas palavras do autor: a educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que ainda não se encontram preparadas para a vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver na criança um certo número de estados físicos, intelectuais e morais reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destina (dUrKHeIm, 1978, p. 41). a partir desse ponto de vista, a equipe pedagógica poderia ser entendida como o molde pelo qual as futuras gerações seriam formadas, sendo responsáveis pela transmissão aos pequenos dos elementos que definem o que é ser um membro da vida social, de suas atribuições e responsabilidades. neste contexto educativo, podemos dizer que somos como somos porque quando éramos crianças aprendemos com os adultos a ser como eles, e agora seria o nosso dever fazer com que os pequenos aprendam a ser como nós somos. Você percebe como nesta visão de mundo não existe espaço para a individualidade do aprendiz ou para a transformação social através da educação? a escola seria um local de mera repetição de práticas para a manutenção do status quo, ou seja, para que tudo permaneça exatamente como está. no entanto, com o desenvolvimento de uma perspectiva mais humanista para a educação, o indivíduo passou a ser olhado e valorizado por suas singularidades e não apenas como uma parte da engrenagem social que deveria funcionar adequadamente para manter assim o bom funcionamento de toda a estrutura da sociedade. Como destacam Giacaglia e Penteado (2015): Quando a sociedade e a escola passaram a ver o aluno como um ser em desenvolvimento, com características próprias, com direitos, e não mais como mera mão de obra, a corrente da Psicologia privilegiadapara fundamentar o trabalho do orientador educacional também passou a ser outra; não mais aquela interessada pelas diferenças entre as pessoas, ou aquela outra que procura medir 18 AulA 1 • ORIEntAçãO E EduCAçãO objetivamente tais diferenças, mas uma Psicologia que estuda o desenvolvimento humano para tornar o ser humano mais adaptado e feliz (GIaCaGLIa; Penteado, 2015, p. 4). Perceba que, pela fala das autoras, identificamos pela primeira vez um momento em que a felicidade do indivíduo é considerada no processo de orientação educacional e pedagógica. Pela primeira vez, o sujeito e suas especificidades se tornaram elementos de interesse para o orientador, mesmo que o interesse social nunca tenha sido deixado completamente de lado. Percebeu-se, neste modelo, que o bem-estar do aluno e o bom funcionamento da sociedade são complementares entre si, e o aluno deixou de ser visto como elemento passivo a ser moldado para tornar-se protagonista em seu próprio desenvolvimento. A Orientação Educacional e Pedagógica nos dias de hoje o orientador educacional e Pedagógico é, por lei, um profissional graduado em pedagogia ou pós-graduado em orientação educacional, que integra o quadro gestor da escola. Com isso, pretende-se garantir que esse profissional seja, antes de tudo, um educador, que compreende as nuances do processo de ensino e aprendizagem e domina os conceitos e as estratégias envolvidos no planejamento, na execução e na avaliação do projeto educacional de uma instituição de ensino. no contexto atual da educação, a orientação educacional e Pedagógica tem como preocupação central o aluno, que deixou de ser aquele que sofre o processo de ensino e aprendizagem de forma passiva e passou a ser visto como figura central da atividade pedagógica. Se antes o papel do orientador era ficar de olho nos alunos problemáticos para tentar tratá-los, corrigi-los ou adaptá-los, nos dias de hoje sua atividade passou a ter como foco a totalidade dos alunos que compõem o corpo discente, seus dilemas, dúvidas e necessidades. Como salienta mírian Grinspun (2011): a orientação não tem mais como preocupação prioritária os alunos-problema, hoje ela tenta ajudar na solução dos problemas dos alunos e de toda a comunidade escolar, numa perspectiva de melhor compreensão do sujeito e de suas relações dentro e fora da escola (GrInSPUn, 2011, p. 176). nesta busca por auxiliar os alunos a solucionarem seus problemas da melhor forma possível, o orientador precisa atuar em diversas frentes dentro das instituições de ensino. não basta que ele fique restrito ao seu gabinete esperando ser procurado. É preciso que ele caminhe pela escola, Observe a lei o exercício da profissão do orientador educacional foi provido pela Lei nº 5.564, de 21 de dezembro de 1968, e posteriormente regulamentado pelo decreto nº 72.846, de 26 de setembro de 1973. além dessa legislação específica sobre a atividade profissional da orientação educacional, o educador que se dedique a esta atividade deve basear sua prática no que preconiza a Constituição da república Federativa do Brasil de 1988 e na Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. 19 ORIEntAçãO E EduCAçãO • AulA 1 interagindo e trabalhando em conjunto com todos os envolvidos direta ou indiretamente no processo educativo, para, dessa forma, ser capaz de atender às demandas dos alunos de forma mais eficiente. Vejamos então quem são esses atores do cotidiano escolar com os quais o orientador educacional e Pedagógico interage e em relação aos quais ele deve estar preparado para atuar: Alunos: são o foco central da atividade de orientação, que tem como objetivo auxiliá-los a se desenvolver plenamente. os autores Pascoal, Honorato e albuquerque definem muito acertadamente a tarefa do orientador diante do corpo discente da escola da seguinte maneira: Para poder exercer a contento a sua função, o orientador precisa compreender o desenvolvimento cognitivo do aluno, sua afetividade, emoções, sentimentos, valores, atitudes. além disso, cabe a ele promover, entre os alunos, atividades de discussão e informação sobre o mundo do trabalho, assessorando-os no que se refere a assuntos que dizem respeito a escolhas (PaSCoaL; Honorato; aLBUQUerQUe, 2008, p. 101). Professores: são parceiros importantes do orientador, que deve atuar em conjunto com o corpo docente, intermediando o relacionamento entre professores e alunos, auxiliando os educadores a entenderem o comportamento dos estudantes e, desse modo, encontrarem as melhores estratégias para lidar com eles. míriam Grinspun (2011) salienta, ainda, que cabe ao orientador educacional e pedagógico auxiliar os professores a trabalhar as questões pedagógicas do processo educativo, especialmente no que se refere a fazer com que as reflexões contidas no Projeto Político-Pedagógico da instituição sejam postas em prática. Segundo ela: trabalhando junto dos professores, através de uma reflexão crítica da prática pedagógica, o orientador procurará contribuir para a discussão da realidade dos alunos, das finalidades do processo pedagógico, do sistema de avaliação, das questões de evasão e repetência escolar, dos recursos físicos e materiais de que a escola dispõe, das metodologias empregadas, enfim, sobre as questões técnico-pedagógicas da escola (GrInSPUn, 2011, p. 116). Gestão: o orientador educacional e pedagógico faz parte da equipe gestora da instituição, devendo trabalhar em parceria com a direção da escola para planejar, implementar e avaliar a proposta pedagógica. Cabe a ele também, enquanto parte desta equipe gestora, auxiliar no funcionamento cotidiano da escola. Colaborar com a direção significa estar junto tanto nas decisões tomadas pela direção como na obtenção de dados inerentes aos aspectos administrativos. o orientador deve participar da organização das turmas, dos horários, da distribuição dos professores em turmas, do número de alunos em sala de 20 AulA 1 • ORIEntAçãO E EduCAçãO aula, dos horários da merenda, da recreação, das atividades complementares, da matrícula, enfim, de toda a prática que organiza a infraestrutura da escola (GrInSPUn, 2011, p. 116). Funcionários: não podemos esquecer que o orientador educacional e Pedagógico é aquele indivíduo que transita entre todos os setores da escola, interagindo com todos os personagens que fazem parte do processo educativo. esta incumbência inclui também a relação com aqueles profissionais que dão apoio e suporte para que a vida da escola aconteça. Parte da função do orientador seria, então, a de dar visibilidade a esses indivíduos da importância do trabalho que desenvolvem para o bem-estar de toda a comunidade escolar. É importante ouvi- los, valorizá-los e intermediar a relação destes com alunos, professores, gestores e responsáveis. Como bem define Grinspun (2011): Colaborar na valorização de suas tarefas, considerando-os necessários ao bom desenvolvimento da organização da escola, sejam eles inspetores, funcionários da secretaria, merendeiros, serventes, trabalhadores da cantina, jardineiros, porteiros, etc. o orientador deve procurar trabalhar a autoestima, a identidade profissional, e suas atribuições para o funcionamento da escola (GrInSPUn, 2011, p. 116). Famílias: cabe ao orientador manter aberto um canal de diálogo com pais e responsáveis, para, desse modo, ser capaz de entender as vivências, os saberes e as expectativas que o aluno traz de casa para a escola e que influenciam significativamente seu processo educativo. Comunidade: estar atento ao que acontece na comunidade em que se localiza a escola é importante na prática do orientador, pois a educação não ocorre no vácuo, mas, sim, em uma realidade específica, que influencia diretamente as necessidades daquela população, os saberes ali construídos e as formas como se aprende. É possível dizer, portanto, que a atividade do orientador educacional e Pedagógico é multifacetadae assumirá aspectos variados de acordo com o contexto em que estiver inserido e as necessidades específicas da população escolar por ele atendida. na próxima aula, analisaremos algumas posturas e práticas importantes, que devem ser adotadas pelo profissional de orientação para que o seu trabalho com os alunos e com todos os demais grupos envolvidos no projeto de desenvolvimento dos educandos seja bem-sucedido. 21 Introdução na segunda aula desta disciplina, apresentaremos a noção de que não existem qualidades ou aptidões naturais para que se exerça de forma adequada e eficiente a orientação educacional e Pedagógica, sendo fundamental que todas as posturas e competências necessárias a esta atividade sejam refletidas, aprendidas e praticadas. apresentaremos em seguida algumas das principais posturas do orientador educacional e Pedagógico para o bom desenvolvimento do trabalho de orientação: a postura respeitosa diante da autonomia do aluno; a flexibilidade e imparcialidade no tratamento do aluno; a busca constante por atualização e formação continuada; e o respeito aos limites específicos da atividade de orientação educacional e Pedagógica. Por fim, apresentaremos alguns dos dilemas mais recorrentes do cotidiano escolar, sobre os quais o orientador precisa atuar. Objetivos » reconhecer a importância do aprendizado e a prática das posturas e competências necessárias ao bom desempenho da função de orientação educacional e Pedagógica. » Compreender o conceito de conteúdo atitudinal. » reconhecer a importância de que o orientador educacional e Pedagógico respeite a autonomia de seus orientandos. » entender os principais conceitos das teorias de Carl rogers e Paulo Freire, que podem ser aplicados à prática da orientação. » reconhecer a importância da atualização e da formação continuada para o trabalho do orientador educacional e Pedagógico. » entender a importância da imparcialidade e da flexibilidade ao trabalhar qualquer questão com os alunos. » Compreender e aplicar a regra de ouro de manter-se dentro dos limites profissionais da orientação educacional e Pedagógica. » reconhecer alguns dos dilemas mais recorrentes do cotidiano escolar, sobre os quais o orientador precisa atuar. 2 AulA A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA 22 AulA 2 • A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA Orientação Educacional e Pedagógica no contexto atual o modelo de orientação educacional centrado no desenvolvimento individual é compreendido nos dias de hoje como o mais interessante para ser desenvolvido nas escolas, pois seu foco não está na manipulação passiva dos alunos tendo em vista certos resultados esperados, mas, sim, no desenvolvimento pleno dos estudantes, de forma que os resultados positivos sejam uma consequência natural da prática educativa. Com isso, queremos dizer, por exemplo, que não estaremos mais preocupados em inserir nossos alunos no mercado de trabalho, mas os auxiliaremos a desenvolver suas potencialidades e a compreender seus próprios desejos e metas de forma que estejam prontos para atuar no mercado de trabalho de maneira responsável e consciente. o foco da orientação costumava ser o mundo fora dos muros da escola e as formas como deveríamos moldar nossos alunos para estarem de acordo com o que esse mundo esperava dele. agora, no entanto, os objetos centrais da orientação educacional e Pedagógica passaram a ser o próprio aluno e as formas como podemos auxiliá-lo a se desenvolver para atuar no mundo. em seu livro “orientação educacional e suas ações no contexto atual da escola”, mary rangel (2015) se questiona sobre a existência de “qualidades naturais”, que poderiam ser consideradas como requisitos para o exercício da orientação educacional. neste sentido, a autora destaca o risco deste raciocínio que defende a existência de aspectos naturais da personalidade do indivíduo que o qualifiquem para o desempenho da atividade, pois algo que nasce conosco é algo que não se aprende. assim, ficaríamos presos ao pensamento de que algumas pessoas nascem para desempenhar esta atividade e aquelas que não foram abençoadas pela natureza com as qualidades certas não poderão nunca trabalhar com orientação. Imaginemos o exemplo hipotético de duas educadoras que atuam em suas respectivas escolas como orientadoras educacionais e Pedagógicas. Carolina é ríspida no trato com os colegas, se comunica com os alunos de forma autoritária e não estabelece boas relações interpessoais na escola. amanda, por seu turno, é calma e paciente, está sempre disponível para dialogar com os alunos e recorrentemente auxilia os professores com suas dúvidas e questionamentos. o comentário geral a respeito de Carolina é que ela “não serve” para ser orientadora, porque não “tem” paciência, não “é” agradável e “tem um temperamento” autoritário. enquanto amanda é vista como uma pessoa que “nasceu para ser” orientadora, porque “é” agradável, “se dá bem” com todo mundo e “tem um temperamento” amistoso. Você percebe que todas as considerações a respeito da qualificação para o trabalho dessas duas profissionais se embasam em traços naturais da personalidade das duas? Com isso, poderíamos dizer que amanda é e sempre será uma boa orientadora enquanto Carolina não tem a menor chance de aprimorar seu trabalho. 23 A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA • AulA 2 no entanto, o próprio fato de estarmos aqui neste momento discutindo qual deve ser a forma mais adequada para lidarmos com nossos alunos é uma prova de que a postura do profissional de educação é uma prática sobre a qual refletimos e para a qual nos condicionamos de acordo com as reflexões que fazemos e os conceitos novos que aprendemos. Carolina, neste sentido, depois de estudar sobre o assunto, e percebendo a importância do relacionamento interpessoal no processo educativo, poderia aprimorar sua forma de se posicionar diante da comunidade escolar e de interagir com as pessoas com as quais trabalha. Por esse motivo, rangel (2015) salienta que, em vez de falarmos sobre qualidades ou características, devemos refletir a respeito das competências necessárias ao desempenho da orientação educacional, porque, dessa maneira, estamos dando ênfase à possibilidade de formação do profissional, que se constrói mediante a prática e o estudo continuado das questões que se apresentam no cotidiano. a literatura conceitual da área de educação nos aponta alguns modelos de comportamento fundamentais para a prática da orientação, tais quais a melhor maneira de se relacionar com os alunos, o modo adequado de atender à demanda dos professores, o olhar sensível para as questões da comunidade, etc. É o conteúdo atitudinal da disciplina, que nos indica valores, atitudes, normas e posturas que influenciam diretamente no bom desenvolvimento do trabalho e, por isso, devem ser praticados. Voltando ao exemplo hipotético apresentado, podemos dizer que Carolina, mantendo-se em constante atualização, refletindo criticamente sobre sua prática e implementando em suas atividades esses valores e posturas, obterá melhores resultados independentemente de suas características pessoais. amanda, por sua vez, precisa fazer esforço semelhante para manter-se atualizada com as reflexões da área e a prática cotidiana. Posturas e competências do Orientador Educacional e Pedagógico a seguir, vejamos algumas dessas posturas e competências que devem ser desenvolvidas e praticadas pelo profissional que atua na área de orientação educacional e Pedagógica. Postura respeitosa diante da autonomia do aluno nesta disciplina, gostaríamos de propor a você uma visão de educação que tem como objetivo o desenvolvimento pleno das potencialidades dos educandos, ou seja, que atua como uma forma de ajudá-los a se desenvolver e encontrar seus próprios caminhos para a solução de problemas e para a participação na vida social. esperamos que, em sua prática cotidiana como orientador educacional e pedagógico, vocêesteja sempre com os olhos abertos para enxergar no aluno suas potencialidades, singularidades e a forma como ele se expressa e age no 24 AulA 2 • A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA mundo, e não apenas aquilo que se convencionou ser importante que ele conheça, saiba fazer ou seja. Para construir esse olhar, apresentaremos a teoria de dois autores que nortearam sua visão de educação pela valorização da autonomia do aluno e buscaram, ao longo de suas trajetórias acadêmicas, despertar o interesse de outros educadores para a importância de empoderarmos nossos educandos para serem conscientes de suas escolhas e de seu papel no mundo. Carl Rogers e a orientação não diretiva o norte-americano Carl rogers é considerado um dos grandes nomes da psicologia no século XX, especialmente por ter se dedicado a estudar o posicionamento que deveria ser assumido pelo terapeuta diante de seus clientes dentro do consultório. Posteriormente, suas teorias foram transpostas para o campo da educação, auxiliando-nos a refletir a respeito da postura assumida pelo educador diante de seus alunos. rogers foi um importante representante da corrente humanista, que buscou construir toda a sua teoria acadêmica em torno da possibilidade de facilitar o crescimento pessoal do indivíduo. Para isso, partia de uma visão otimista do ser humano, acreditando que todos nós possuímos uma tendência natural para o aprendizado e para a construção de relações interpessoais construtivas. Veja o que defende o autor em suas próprias palavras: resta-me indicar uma lição que aprendi e que está, talvez, na base de tudo quanto venho dizendo. ela se impôs a mim ao longo desses vinte e cinco anos em que tentei ser de algum préstimo para indivíduos com perturbações pessoais. a lição é simplesmente esta: a experiência mostrou-me que as pessoas têm fundamentalmente uma orientação positiva. nos meus contatos mais profundos com indivíduos em psicoterapia, mesmo com aqueles cujos distúrbios eram mais perturbadores, cujos sentimentos pareciam muito anormais, a afirmação continua sendo verdadeira. Quando consigo afetivamente compreender os sentimentos que exprimem, quando sou capaz de aceitá-los como pessoas separadas em todo seu direito, nessa altura vejo que tendem a orientar-se em determinadas direções. e quais são essas direções que os seus movimentos subentendem? as palavras que julgo descreverem com maior veracidade essa direção são: positiva, construtiva, tendente à autorrealização, progredindo para a maturidade e para a socialização. acabei por me convencer de que quanto mais um indivíduo é compreendido e aceito, maior sua tendência para abandonar as falsas defesas que empregou para enfrentar a vida, maior sua tendência para se mover para a frente. não gostaria de ser mal compreendido. não tenho uma visão ingenuamente otimista da natureza humana. tenho perfeita consciência do fato de que, pela necessidade de se defender dos seus terrores íntimos, o indivíduo pode vir a se comportar e se comporta de uma maneira incrivelmente feroz, horrorosamente destrutiva, imatura, regressiva, antissocial, prejudicial! 25 A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA • AulA 2 mas um dos aspectos mais animadores e revigorantes da minha experiência é o trabalho que levo a cabo com indivíduos desse gênero, e a descoberta das tendências orientadas muito positivamente existentes neles todos, e em todos nós, nos níveis mais profundos (roGerS, 2001, p. 21). de acordo com rogers (2001), para obtermos sucesso em qualquer projeto em que lidemos diretamente com o outro, auxiliando-o a desenvolver-se, seria necessário transformar a forma como nos relacionamos, extinguindo o autoritarismo existente nessa interação e assumindo uma postura não diretiva, ou seja, sem interferir diretamente nas escolhas do indivíduo e na forma como ele soluciona seus problemas. É criar um ambiente propício para que a própria pessoa se desenvolva, amadureça e seja capaz de resolver seus próprios problemas, em vez de simplesmente oferecer-lhe as respostas ou dizer-lhe qual caminho seguir. essa verdade, segundo rogers, pode ser aplicada na relação entre terapeuta e paciente, professor e aluno, pai e filho, ou qualquer outra relação em que o objetivo seja auxiliar o outro a tornar-se pessoa. Por isso, suas reflexões se adéquam tão bem a nossa análise sobre a orientação educacional e pedagógica, já que, neste contexto, o orientador educacional e pedagógico seria um facilitador, responsável por auxiliar os seus orientandos a encontrarem, de forma livre e responsável, os melhores caminhos para a sua própria construção de conhecimento. Para que esse projeto educacional centrado no desenvolvimento da pessoa seja bem-sucedido, rogers aponta três características fundamentais a serem cultivadas em qualquer relação interpessoal, e que traremos aqui para a relação existente entre o orientador e seus orientandos: Consideração positiva incondicional: consiste em respeitar seu orientando acima de tudo, acolhendo-o e aceitando-o pela pessoa que ele é. É criar uma relação positiva, na qual ele se sinta à vontade para ser quem realmente é, sem se esforçar para ser ou dizer aquilo que ele acredita que o orientador espera ouvir dele. Compreensão empática: é a capacidade de o orientador colocar-se no lugar do outro para buscar compreender seus sentimentos e as motivações que o levaram a agir de determinada forma. É mediante a expressão dessa compreensão empática que o orientador é capaz de criar um ambiente de acolhimento para seu aluno, no qual ele se sinta confortável e seguro para expressar-se e desenvolver-se. Autenticidade ou congruência: esta característica diz respeito à capacidade de o orientador expressar de forma objetiva suas percepções e sentimentos a respeito do educando e de suas escolhas, para que, desse modo, ele seja capaz de refletir sobre si mesmo. É ser verdadeiro em sua forma de se comunicar com o outro. Segundo o autor, uma vez que se reúnam esses três elementos no trato com a pessoa que se pretende auxiliar – seja ela um paciente, um aluno, um filho, um funcionário, etc. – a própria relação interpessoal oferece ao indivíduo as ferramentas necessárias para que ele se torne mais 26 AulA 2 • A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA autoconfiante, maduro e apto a auxiliar a si mesmo. Carl rogers sintetiza esse ponto de vista da seguinte maneira: Se eu posso criar uma relação caracterizada da minha parte: por uma autenticidade e transparência, em que eu sou meus sentimentos reais; por uma aceitação afetuosa e apreço pela outra pessoa como um indivíduo separado; por uma capacidade sensível de ver seu mundo e a ele como ele os vê. então o outro indivíduo na relação: experienciará e compreenderá aspectos de si mesmo que havia anteriormente reprimido; dar-se-á conta de que está se tomando mais integrado, mais apto a funcionar efetivamente; tomar-se-á mais semelhante à pessoa que gostaria de ser; será mais autodiretivo e autoconfiante; realizar-se-á mais enquanto pessoa, sendo mais único e autoexpressivo; será mais compreensivo, mais aceitador com relação aos outros; estará mais apto a enfrentar os problemas da vida adequadamente e de forma mais tranquila (roGerS, 2001, p. 26). Partindo dessa importância central que o autor confere ao respeito e à aceitação que devemos ter diante daquele que auxiliamos, chegamos a outro conceito importante para a orientação educacional e pedagógica que pode ser extraído da teoria rogeriana, que é o de escuta sensível. de acordo com rogers, a escuta sensível é aquela em que não há julgamentos ou preconceitos por parte do educador com relação àquilo que é dito e à forma que é dito pelo educando. É desenvolver um ambiente em que o orientador respeita e acolhe o seu orientando, promovendo, assim, uma relação de confiança entre os dois. Imagine, por exemplo, uma situação em que o aluno utiliza-se de gírias e expressões do seu cotidianopara comunicar suas percepções e sentimentos diante de uma dada circunstância e é respondido pelo orientador com frases do tipo «fala direito», ou «isso não é jeito de falar». Você acha que esse aluno se sentirá acolhido e respeitado a ponto de se sentir motivado a continuar falando? Claro que não! Provavelmente ele se sentirá inibido a prosseguir e o diálogo, que poderia ter sido enriquecedor na busca de uma solução para o problema, extingue-se exclusivamente pela falta de uma escuta sensível por parte do orientador. Por essa razão, rogers defende a todo custo que respeitemos o outro e suas características individuais, mostrando a ele que nos importamos e que não estamos ali de forma autoritária tentando moldá-lo ou direcioná-lo, mas, sim, buscando auxiliá-lo a encontrar seu próprio caminho de maneira confiante e autônoma. dentro dessa visão rogeriana de mundo, podemos dizer que, ao oferecermos a cada um dos indivíduos a possibilidade de autonomia e completude, a relação geral do grupo torna-se mais positiva e tranquila. Paulo Freire e a educação emancipadora o pernambucano Paulo Freire foi um dos mais importantes pensadores da educação brasileira, e tornou-se conhecido, inclusive internacionalmente, por defender um modelo de educação no qual o aluno não recebe passivamente os conhecimentos transmitidos pelo professor, mas 27 A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA • AulA 2 participa ativamente da construção dos seus saberes. de acordo com Freire, o papel do educador é oferecer ao aluno as ferramentas necessárias para que ele seja capaz de ler o mundo, compreender o papel que ele mesmo desempenha na sociedade e, com isso, seja capaz de transformar a realidade em que vive. o método freireano, aplicado especialmente à alfabetização de adultos, tem como cerne o respeito e a valorização pela realidade de vida do aluno e por aquilo que ele traz para a sala de aula, ou seja, os saberes que ele constrói socialmente na prática comunitária. Freire acreditava que uma educação significativa seria aquela que compreende que o aluno não é uma conta bancária vazia na qual o professor passa todo o período letivo fazendo depósitos de conteúdo para, ao final do processo, utilizar a prova como uma espécie de extrato bancário, em que verificará se tudo aquilo que foi depositado continua lá. esse modelo educacional foi chamado por Paulo Freire de educação bancária. este autor defendia um modelo educacional em que o aluno, especialmente aquele oriundo das classes populares e oprimido por um sistema sociopolítico desigual e injusto, torna-se consciente da realidade em que vive a ponto de ser capaz de agir sobre ela, transformando-a. Para que isso seja possível, Freire aponta como elemento fundamental da pedagogia o respeito à autonomia do ser do educando. nas palavras do próprio autor: o professor que desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente, a sua sintaxe e a sua prosódia; o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que “ele se ponha em seu lugar” ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência (FreIre, 2011, p. 58). Freire reconhece, assim, que o educando – seja ele criança, jovem ou adulto – é um ser autônomo, que deve ser tratado com o devido respeito, para que o projeto educacional seja capaz de estimular o seu desenvolvimento e não somente para adestrá-lo a se comportar da maneira que se espera. Parte fundamental desse processo respeitoso de interação com o aluno reside em uma maneira diferenciada de falar com ele, na qual a comunicação se baseia em um senso de igualdade e respeito entre as duas partes. Quando o autor afirma que ensinar exige saber escutar, ele está defendendo o seguinte: Se, na verdade, o sonho que nos anima é democrático e solidário, não é falando aos outros, de cima para baixo, sobretudo, como se fôssemos os portadores da verdade a ser transmitida aos demais, que aprendemos a escutar, mas é escutando que aprendemos a falar com eles. Somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que, em certas condições, precise 28 AulA 2 • A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA falar a ele. o que jamais faz quem aprende a falar com é falar impositivamente. até quando, necessariamente, fala contra posições ou concepções do outro, fala com ele como sujeito da escuta de sua fala crítica e não como objeto de seu discurso. o educador que escuta aprende a difícil lição de transformar o seu discurso, às vezes necessário, ao aluno, em uma fala com ele (FreIre, 2011, p. 111). essa fala tão significativa de Freire nos ensina uma importante lição que todo orientador educacional e Pedagógico deve levar para a sua prática diária. É a diferença entre falar a e falar com. de acordo com o autor, o educador que fala ao aluno está se colocando diante dele em uma posição hierarquicamente superior, na qual a comunicação é autoritária e acontece de cima para baixo por subentender que o educador é o detentor da verdade absoluta e o educando deve se colocar passivamente diante dessa verdade. de outro lado, o profissional que se dispõe a falar com o aluno está propondo a ele um tipo de comunicação democrática, na qual a fala do educando é respeitada e valorizada. Freire defende ainda que a prática de escutar e falar respeitosamente com o educando pressupõe do educador o desenvolvimento da capacidade de ficar em silêncio, pois, ainda que ele tenha muito a dizer, parte de sua responsabilidade é motivar seu interlocutor a falar, a responder o que lhe foi dito. É justamente nesse processo de elaborar a resposta que o educando reflete sobre aquilo que foi apresentado, aplica o conceito a sua realidade e faz com que a fala do educador se torne verdadeiramente significativa para a sua vida. o diálogo democrático, portanto, intercala momentos de fala e de silêncio, nos quais o momento de silêncio de um é o momento de fala do outro. ao se colocar em silêncio e dar ao aluno a vez da fala, o educador demonstra que se importa, que aquilo que o educando tem a dizer é valoroso e que ele possui autonomia para construir sua própria visão de mundo. Como pudemos ver, o respeito ao aluno, aos seus sentimentos, ideais e história de vida, estão no centro das teorias de rogers e Freire. Para os dois autores, o aluno não é uma entidade meramente passiva sobre a qual o educador possa agir e manipular para fazê-lo trilhar um caminho predeterminado. É um sujeito capaz de autodirigir-se se lhes forem oferecidas as ferramentas adequadas para que ele entenda a si mesmo e ao mundo em que vive. outro ponto de encontro na fala desses dois autores diz respeito à importância que ambos atribuem à prática diferenciada de escutar o seu aluno com respeito e sem julgamentos. tanto rogers quanto Freire reconhecem que, ao impor seu discurso de forma autoritária sobre o educando, o educador está esgotando suas possibilidades de auxiliar este aluno a entender-se melhor, de construir um conhecimento verdadeiro sobre aquilo que se fala e de encontrar o caminho que faz mais sentido dentro de suas expectativas e da realidade em que vive. 29 A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA • AulA 2 transpondo o pensamento dos dois autores para a prática cotidiana do orientador educacional e pedagógico, é possível dizer que o trabalho se tornará mais eficiente à medida que deixemos de tentar nos impor diante de nossos orientandos e passemos a vê-los como responsáveis por encontrar seu próprio caminho, como indivíduos livres e autônomos com os quais devemos nos conectar de forma respeitosa e ética e não através do autoritarismo. não é por acaso que um dos principaistrabalhos de rogers se intitula «Liberdade para aprender» e um dos mais importantes livros de Paulo Freire se chama «educação como prática da liberdade». Por intermédio das propostas de Carl rogers e Paulo Freire, podemos afirmar com segurança que o papel do orientador dentro de uma instituição de ensino seria o de participar na construção de um ambiente propício ao pleno desenvolvimento dos alunos. Isso seja trabalhando diretamente com os estudantes ou dando suporte ao corpo docente para que o projeto educacional da instituição seja posto em prática de forma efetiva e baseado no respeito aos alunos e às suas características específicas de grupo e de indivíduos. Imparcialidade e flexibilidade tendo em mente a necessidade deste posicionamento respeitoso diante do aluno, compreendendo que ele é agente de sua própria vida, torna-se imprescindível salientarmos a imparcialidade como prática necessária ao processo de orientação educacional e pedagógica. Com isso, queremos dizer que o papel do orientador não é definir o caminho a ser seguido, mas indicar os caminhos possíveis, ajudando o indivíduo a avaliar suas possibilidades para escolher de forma responsável e consciente. nas palavras de mariza Lima (2007): o cliente não tem necessariamente os mesmos valores do profissional que o está atendendo: morais, pessoais, políticos e sociais. É ético que se respeitem os dele. ele pode querer trilhar caminhos que nunca seriam percorridos pelo profissional que o orienta. Favorecer para que o caminho seja delineado, sim, mas intervir no traçado deste caminho, jamais! (LIma, 2007, p. 25). dessa forma, é fundamental que o orientador vocacional tenha em mente que sua tarefa é orientar o processo, e não direcionar o orientando para aquilo que ele julga mais adequado. Como vimos anteriormente, essa era a função do orientador em um período em que o indivíduo não era o foco principal da orientação. a flexibilidade também é um traço importante para o profissional que se dedica a este ofício, porque, à medida que o viés adotado nos dias de hoje pela oeP salienta o fato de que o foco da orientação deve ser o orientando e suas demandas, temos de ter em mente as idiossincrasias e particularidades desse indivíduo ao elaborar para ele um programa eficaz de orientação. É fundamental considerar que cada caso é um caso, ou seja, cada pessoa possui certas especificidades subjetivas e uma história de vida que a tornam única, por isso as técnicas utilizadas com outra pessoa talvez não sejam adequadas para ele. 30 AulA 2 • A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA Busca constante por formação e atualização toda escola espelha, em certa medida, a realidade sociocultural em que está inserida. Com isso, podemos dizer que, no ambiente escolar, encontramos representados os valores, as normas e os comportamentos típicos daquela comunidade e do momento histórico em que se encontra. Por esse motivo, é tão importante que o educador esteja muito atento para compreender esta realidade e se adaptar para lidar com ela da melhor forma. de nada adianta nos atermos a velhas práticas e conceitos, por mais eficazes que tenham sido, se o mundo se modifica cada vez mais rapidamente e com ele nossos alunos. Quantas vezes você já ouviu dizer que os jovens e as crianças de hoje em dia já não são mais como os de antigamente? esta, infelizmente, ainda é uma reclamação recorrente em muitas salas de professores, o que causa espanto pela obviedade da afirmação. É claro que as crianças e os jovens dos dias de hoje são diferentes do que eram nas gerações passadas, pois o mundo muda – sua tecnologia, valores, padrões de consumo e de comportamentos – e com ele mudam as pessoas. o fato de os nossos alunos terem mudado não apresenta, em si, qualquer problema. a dificuldade está em querermos lidar com eles da mesma forma como costumávamos lidar com as gerações anteriores. tentar utilizar com meus alunos de hoje as mesmas estratégias de orientação que eram utilizadas há trinta anos é tão inútil quanto tentar assistir a uma fita VHS em um aparelho de blue-ray. tendo em vista a necessidade de estarmos atualizados, podemos dizer que uma característica fundamental para o orientador educacional e Pedagógico é a busca constante por formação, como afirma Lilian Chimentão (2009): Para que as mudanças que ocorrem na sociedade atual possam ser acompanhadas, é preciso um novo profissional do ensino, ou seja, um profissional que valorize a investigação como estratégia de ensino, que desenvolva a reflexão crítica da prática e que esteja sempre preocupado com a formação continuada. a nosso ver, a formação continuada passa a ser um dos pré-requisitos básicos para a transformação do professor, pois é através do estudo, da pesquisa, da reflexão, do constante contato com novas concepções, proporcionado pelos programas de formação continuada, que é possível a mudança. Fica mais difícil de o professor mudar seu modo de pensar o fazer pedagógico se ele não tiver a oportunidade de vivenciar novas experiências, novas pesquisas, novas formas de ver e pensar a escola (CHImentão, 2009, p. 3). outro ponto importante a ser destacado é a necessidade de que essa formação continuada tenha sempre um olhar multidisciplinar, pois são muitas as áreas do conhecimento que podem contribuir com o preparo do profissional de orientação para lidar com a realidade cotidiana das instituições de ensino. a sociologia, a psicologia e a neurociência são algumas das disciplinas 31 A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA • AulA 2 que, segundo rangel (2015), podem fundamentar o trabalho de orientação, informando sobre diferentes aspectos da prática cotidiana ou dando enfoques variados sobre uma mesma questão. Reconhecimento das limitações profissionais do Orientador Educacional Um último aspecto importantíssimo da postura do orientador educacional e Pedagógico é o reconhecimento dos limites de sua atuação. trata-se de compreender que, por mais que busquemos o diálogo com outras disciplinas para atualizar e tornar mais eficiente e informada a nossa conduta, ainda assim o nosso papel é o de um educador, e deve estar de acordo com as possibilidades de nossa área. tão e às vezes mais importante que saber quais são as atribuições do or.e. é conhecer quais atribuições não são da alçada dele, isto porque ele poderá vir a ser solicitado a executar funções ou tarefas não só que não lhe competem, como também que lhe são vedadas por lei. dado o caráter assistencial de sua atuação profissional, o or.e. pode ser solicitado e/ou sentir-se no dever de prestar alguns tipos de atendimento que são próprios de outros profissionais. entre tais tarefas podem-se mencionar, pela frequência com que são solicitados a fazê-lo, atendimentos de saúde, como fazer curativos, ministrar medicamentos e realizar diagnósticos e terapias de natureza psicológica. embora a recusa do or.e. em ministrar medicamentos possa ser tida como má vontade dele, sabe-se que existem sérios riscos em administrar qualquer medicamento, como possível troca, dosagem errada, reação alérgica ou de outra natureza (GIaCaGLIa; Penteado, 2015, p. 67). Com isso, pretendemos estabelecer uma regra de ouro, que você, quando estiver desempenhando a atividade de orientação em uma instituição de ensino, deverá ter em mente: apesar de trabalhar em parceria com profissionais de diferentes especialidades, o trabalho do orientador continua sendo o de um educador, que deve encaminhar para atendimento especializado os casos em que isso seja necessário, mas nunca fazendo, ele mesmo, diagnósticos ou apresentando sugestões de tratamento. essa afirmação pode parecer um tanto óbvia, uma vez que as palavras “diagnóstico” e “tratamento” nos remetem imediatamente às atribuições da área médica. no entanto, infelizmente é comum que alguns orientadores acabem ultrapassando esses limites profissionais, porque, às vezes, a experiência na atividade docente e de orientação, ocontato prolongado com os alunos e suas problemáticas, a interação com profissionais de outras áreas e mesmo os estudos que devemos realizar para estarmos atualizados e confiantes em nossa prática cotidiana nos permitem identificar certos indícios do problema enfrentado pelo aluno. no entanto, devemos ter muita clareza de que esta percepção e conhecimento prático, por mais acertados que tenham se mostrado, são benéficos apenas para que melhor encaminhemos 32 AulA 2 • A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA nossos alunos ao profissional mais adequado para cuidar do seu caso específico, sem, contudo, nos autorizar a falar por este profissional. Vejamos um exemplo prático para que você compreenda melhor sobre o que estamos falando: Janaina, orientadora educacional de um pequeno colégio municipal, acompanha o caso de alice, aluna do quarto ano do ensino fundamental que apresenta dificuldade de aprendizagem e de concentração, associadas a um comportamento agressivo, impulsividade, inquietação e irritabilidade. Janaina identifica nesses elementos a possibilidade de que a menina apresente algum tipo de transtorno que comprometa seu processo de aprendizagem e, por isso, convida os pais para uma conversa. essa interação com os responsáveis pela aluna pode ocorrer das duas formas abaixo, apenas uma delas poderia ser considerada adequada. Abordagem I: Janaina conversa com os pais da aluna a respeito das dificuldades que ela vem enfrentando na escola, enumerando todos os comportamentos descritos pelo corpo docente e seus respectivos impactos sobre o desempenho acadêmico da menina. a orientadora afirma que, a partir de suas observações, foi possível identificar o quadro da aluna como uma manifestação do transtorno do déficit de atenção com Hiperatividade, e por isso seria interessante que os pais procurassem a ajuda de um profissional da área de saúde, que poderá prescrever o uso de medicamentos e psicoterapia. Abordagem II: Janaina conversa com os pais da aluna a respeito das dificuldades que a discente vem enfrentando na escola, enumerando todos os comportamentos descritos pelo corpo docente e seus respectivos impactos sobre o desempenho acadêmico da menina. a orientadora sugere, então, que a melhor forma de auxiliar alice seria encaminhá-la para um profissional de saúde, que avaliará com cuidado o caso para apresentar aos pais um diagnóstico preciso e o melhor tratamento a ser realizado. Como você pode perceber, a diferença entre as duas abordagens é bastante sutil. nos dois casos, a orientadora conversou com os pais sobre aquilo que a equipe pedagógica percebeu a respeito do comportamento de alice, e sugeriu o encaminhamento da aluna a um profissional de saúde. no entanto, no primeiro caso, Janaina toma a liberdade de apresentar suas próprias conclusões a respeito do diagnóstico e os possíveis métodos de tratamento a serem empregados. e qual é o problema se Janaina provavelmente já se defrontou anteriormente com casos semelhantes, se ela mantém contato constante com profissionais de saúde e tem o hábito de estudar sobre o assunto para manter-se atualizada em sua prática cotidiana? ela provavelmente está certa a respeito do quadro da aluna! o problema é que a orientadora, neste caso, não possui a formação necessária para analisar o caso de alice e chegar a um diagnóstico, tampouco para opinar sobre formas de tratamento. ainda que ela estude sobre o assunto, seu papel na interação com o aluno e sua família deve se 33 A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA • AulA 2 restringir à esfera pedagógica, pois o risco de perdermos o limite em nossa prática profissional é grande e pode trazer grandes malefícios ao discente. Você já sentiu uma dorzinha qualquer e decidiu procurar por esse sintoma na Internet? todos nós já fizemos isso alguma vez e na maior parte dos casos nos deparamos com um diagnóstico terrível associado ao sintoma que estamos apresentando. Um pequeno desconforto abdominal, depois de uma consulta ao doutor Google, muitas vezes acaba se tornando uma úlcera ou coisa pior. Interiorizamos em nossa mente o tal diagnóstico de Internet e, ao chegarmos ao consultório médico, em vez de narrar o que sentimos, vamos logo dizendo o que acreditamos ter e às vezes modificamos inconscientemente nossos sintomas ao descrevê-los para o médico. Um diagnóstico feito por um profissional da escola que não possui a qualificação necessária pode funcionar da mesma forma que o diagnóstico da Internet, criando uma expectativa desnecessária, influenciando a interação da família com o médico e dificultando, assim, a análise objetiva do caso do aluno. Desafios contemporâneos da Orientação Educacional e Pedagógica elencaremos algumas das principais questões ou problemáticas para as quais o orientador educacional e Pedagógico deve estar preparado, por serem questões recorrentes no cenário escolar do país como um todo. não temos, no entanto, a intenção de estabelecer um manual sobre como solucionar esses problemas, pois eles assumirão aspectos diferenciados de acordo com o contexto em que estejam inseridos. Portanto, sua solução também deverá ser desenvolvida de acordo com cada caso, avaliando todas as variáveis e os aspectos específicos do problema como ele se apresenta na sua escola. o importante é ter em mente que a melhor solução para qualquer uma dessas situações está no olhar e na postura do orientador, na forma como ele se mantém atento aos problemas enfrentados por alunos, professores, equipe gestora e mesmo a comunidade, na maneira como ele acolhe seus orientandos e dialoga com eles para juntos encontrarem uma saída. Problemas familiares: em seu cotidiano, o orientador educacional e Pedagógico pode ter de lidar com diferentes questões familiares que influenciam, direta ou indiretamente, o comportamento e o desempenho acadêmico do aluno. a separação dos pais, os casos de doenças graves ou mortes na família, situações de desemprego dos responsáveis ou o nascimento de um novo irmão são apenas alguns exemplos das diversas circunstâncias familiares para as quais o orientador deve estar atento ao se deparar com mudanças de comportamento ou desempenho do aluno. 34 AulA 2 • A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA Quando dizemos que “nenhum homem é uma ilha”, estamos querendo dizer que ninguém pode viver isolado do mundo em que está inserido. tudo aquilo que vivemos e as pessoas com as quais nos relacionamos refletem em nossa vida como um todo. a família, dessa forma, desempenha um papel importante – com efeitos positivos ou negativos – sobre a vida escolar dos alunos. Indisciplina e violência: a questão da indisciplina é complexa dentro da atividade do orientador educacional e pedagógico, pois, em muitos contextos, esse profissional é visto como mero disciplinador, responsável por vigiar a conduta dos alunos e prescrever castigos e punições, o que não é verdade. no entanto, também não podemos dizer que seja possível ignorar a questão da indisciplina, porque ela também faz parte das atribuições do oeP. É importante destacar, nesse contexto, que, muito mais interessante do que essa perseguição ao aluno indisciplinado, é o trabalho conjunto com os professores e alunos para a construção de uma rede de significados e acordos sobre aquilo que será considerado indisciplina. assim, todos podem dialogar sobre os temas propostos – conversa em sala de aula, atraso, enfrentamento ao professor, etc. – para que se construa coletivamente o roteiro de conduta a ser seguido diante dos casos que se apresentem. no que diz respeito à violência, é importante considerarmos que ela representa uma forma de expressão e comunicação, muitas vezes a única de que o indivíduo é capaz naquele momento. Seria interessante, dessa forma, incentivar o diálogo, trabalhando com os alunos a habilidade de exprimir suas ansiedades, frustrações ou qualquer tipo de sentimento por meio de outros veículos, taiscomo o esporte, a arte, a escrita, etc. Com isso, não estamos desconsiderando o fato de que muitas escolas estão localizadas em comunidades violentas, em que, por vezes, sentimo-nos impotentes diante de uma realidade tão dura. nessas ocasiões, especialmente, cabe-nos lembrar o papel transformador da educação, Para refletir Leia com atenção o relato abaixo, em que a autora mary rangel apresenta um exemplo de problema familiar diante do qual o orientador educacional e Pedagógico pode ter de atuar. após a leitura do caso, tente se imaginar no lugar desse orientador, e reflita a respeito das estratégias que você utilizaria para auxiliar o aluno. “Vale lembrar a expressão de um aluno do 2º ano do ensino Fundamental de uma escola da rede municipal do rio de Janeiro. a expressão (a fisionomia, o olhar) desse aluno, com apenas oito anos de idade, demonstrava uma profunda tristeza. a professora, então, solicitou o auxílio da orientadora educacional e, com a mesma expressão de tristeza e medo no olhar, o aluno disse à orientadora o que já havia dito à sua professora: “Vai acontecer uma coisa muito ruim lá em casa... muito, muito ruim!” Poucos meses depois, essa “coisa muito ruim”, conforme ele percebia e lhe causava sofrimento, realmente aconteceu: os pais se separaram. o sentimento de “perda” pela desunião do casal, o sentimento de “perda do pai”, que saiu de casa, o sentimento de frustração, por “não ter ajudado, ou até ter colaborado para essa separação” compõem um cenário sombrio e confuso e ideias que invadem o pensamento dos filhos, prejudicando, inclusive, sua autoestima. o que pode fazer o orientador, a orientadora educacional? não há resposta simples, mas há um núcleo principal de atenções e atitudes que facilitam e promovem a relação de ajuda. nesse núcleo, encontram-se, essencialmente, o afeto, o diálogo, o conhecimento que esclarece o significado de família, ressaltando que ela permanece, na presença e no amor dos pais, para além da sua separação” (ranGeL, 2015, p. 16-17). 35 A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA • AulA 2 apresentando a nossos alunos outras estratégias de ação no mundo e educando-os sempre pelo exemplo. o confronto muitas vezes é a forma mais fácil de lidar com eles, mas é também a única linguagem que muitos conhecem e para a qual estão prontos para reagir. Bullying: este é um tema recorrente no cenário educacional nos dias de hoje, muitas vezes utilizado para tratar qualquer tipo de problema de interação entre os colegas, ou mesmo alguns casos isolados de indisciplina. Bullying, no entanto, é uma palavra inglesa utilizada para designar apenas os casos em que um indivíduo sofre atos repetidos e continuados de violência física ou psicológica, que podem ser desempenhados por uma pessoa ou um grupo e causam danos graves à sua autoestima, ao seu equilíbrio emocional e psicológico, bem como à sua capacidade de interação social e ao seu desempenho acadêmico. rangel (2015) salienta inclusive o fato de que os abusos que caracterizam o bullying em muitos casos podem escalar ao ponto de tornarem-se crimes e nos lembra que tais atos não ocorrem somente na relação entre alunos, mas, também, entre eles e os professores, entre eles e os funcionários ou mesmo entre os próprios membros do corpo docente ou da gestão da escola. a autora sugere que um dos caminhos possíveis para combater o bullying é a criação, em cada escola, de um grupo, comitê ou comissão que receba e investigue todas as queixas relatadas de abuso. esse grupo seria responsável por identificar os responsáveis por tais atos e promover o acompanhamento e aconselhamento das pessoas envolvidas. Respeito à diversidade e inclusão: a escola é, em sua essência, um espaço de diversidade, que reúne entre seus muros uma gama de indivíduos diferentes entre si, que devem aprender a conviver harmônica e respeitosamente a despeito de suas semelhanças e diferenças. É uma representação em menor escala da vida em sociedade, onde lidamos todos os dias com pessoas de diferentes origens, etnias, religiões, orientações sexuais, etc. Por esse motivo, é tão importante que o espaço escolar, enquanto local de experimentação da vida em sociedade, seja propício à vivência da diversidade. Um primeiro passo para tanto é trabalhar com os próprios professores e gestores a melhor maneira de receber, acolher e respeitar as diferenças, para que as situações de desrespeito e intolerância não se iniciem justamente no comportamento dos educadores. Provocação Aluno é barrado em escola municipal do Rio por usar guias do candomblé mariucha machado a rotina de ir à escola virou motivo de constrangimento para um aluno que estava se iniciando no candomblé. aos 12 anos, o estudante da quarta série do ensino fundamental da escola municipal Francisco Campos, no Grajaú, na Zona norte do rio, foi barrado pela diretora da instituição por usar bermudas brancas e guias por baixo do uniforme, segundo a família. a denúncia foi publicada nesta terça-feira (2) pelo jornal “o dia”. 36 AulA 2 • A ORIEntAçãO EduCACIOnAl E PEdAgógICA COntEmPORânEA “antes de ele entrar para o candomblé, eu avisei para a professora e ela logo disse que ele não entraria no colégio. eu expliquei que ele teria de usar branco e as guias, mas ela não aceitou”, contou indignada a mãe do estudante, rita de Cássia, ao G1. o G1 entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria municipal de educação e até o horário de publicação desta reportagem não obteve resposta. no dia 25 de agosto, depois quase um mês sem ir à escola, o jovem tentou voltar. “eu levei o meu filho e, na porta da escola, ela [diretora] não viu que eu estava atrás e colocou a mão no peito dele e disse: ‘aqui você não entra’. e eu expliquei que ele teria de usar as guias e o branco por três meses e aí ela respondeu: ‘o problema é seu’”, disse rita de Cássia. rita ressaltou que o filho se sentiu humilhado diante dos amigos do colégio e chorou muito. “Se ela estivesse esperado todo mundo entrar e me chamasse no canto para tentar encontrar uma forma para colocar ele para dentro seria uma coisa. mas, não. ela barrou ele na frente de todo mundo. eu discuti, falei palavrão feio para ela, eu admito, mas ela não poderia ter feito isso com ele. ele foi muito humilhado”, afirmou a mãe. o jovem de 12 anos foi definido pela mãe como uma criança determinada. apesar do constrangimento, rita contou que o filho em momento algum pensou em abrir mão dos ideais do candomblé. “a escolha de entrar para o candomblé foi dele. ele sabe o que quer, é muito firme nas decisões. Por nada ele larga a religião dele. Quando aconteceu isso tudo ele disse: ‘Se eu fosse muçulmano ou qualquer outra coisa eu deveria ser respeitado, isso é discriminação’”, lembrou a mãe. Segundo rita, o jovem caminhou até em casa de cabeça baixa, teve febre e perdeu o interesse de retornar à escola. “Se o meu filho estivesse com drogas, se tivesse arma, tenho certeza de que eles iam tampar os olhos”, reclamou. depois de quatro dias do episódio, ele foi transferido para a escola municipal Panamá, também no Grajaú, onde foi bem recebido pela diretoria, professores e estudantes. “depois que eu fui lá para pedir a transferência, a diretora disse que não gostaria que eu levasse ele porque ele era um ótimo aluno. mas o que ela não poderia era ter feito meu filho passar vergonha. depois que ele foi tão humilhado, meu filho foi muito bem aceito na escola nova. todo mundo me apoiou. Para quem é mãe, é muito difícil ver um filho sofrendo esse preconceito”, disse emocionada rita de Cássia. disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/09>. no exemplo anterior, fica salientada a importância de que o próprio corpo docente e a equipe gestora estejam preparados para o respeito à diversidade. Que todos estejam aptos a lidar com situações em que nossas próprias crenças, preferências e opiniões são confrontadas com o direito do outro de ter crenças, preferênciase opiniões diferentes das nossas. da mesma forma, a inclusão de alunos com deficiência, seja ela física ou intelectual, deve começar pela preparação do corpo docente para receber tais discentes de forma que eles não estejam apenas “incluídos fisicamente” no ambiente escolar, mas que, de fato, possam fazer parte do processo educativo, desenvolvendo-se plenamente e interagindo com os demais colegas. Vale ressaltar que a presença do aluno com deficiência em salas de aula do ensino regular é enriquecedora também para o restante da turma, uma vez que os alunos que têm a oportunidade de conhecer e interagir com um aluno nessas condições estarão mais aptos a reconhecer o outro pelas suas potencialidades, independentemente de suas limitações. esse é o passo mais importante para que a inclusão de fato aconteça. 37 Introdução na terceira aula desta disciplina, analisaremos de que forma o orientador educacional e Pedagógico participa do planejamento, da execução e do desenvolvimento do projeto educativo da escola. Você perceberá que, além de dedicar-se à tarefa específica de orientar os alunos, o orientador é também um personagem importante da equipe gestora, que tem como missão auxiliar a direção a cuidar de diferentes aspectos da vida escolar. Objetivos » entender a multiplicidade de tarefas desempenhadas pelo orientador em diferentes áreas da vida escolar. » definir que, além de trabalhar diretamente com os alunos, cabe ao orientador educacional e Pedagógico auxiliar a equipe gestora a planejar, implementar e avaliar o projeto político-pedagógico da escola. » Compreender que o planejamento da educação se desenvolve em diferentes âmbitos – nacional, regional, escolar e individual – que se complementam para que a visão geral se adéque às realidades específicas de cada sala de aula. » reconhecer a importância do Projeto Político-Pedagógico enquanto documento democrático, que estabelece as metas e os critérios a serem seguidos pela escola para que o pleno desenvolvimento dos alunos seja alcançado. » Compreender as principais etapas que compõem o Plano anual de educação de uma escola. » entender o papel desempenhado pelo orientador educacional e Pedagógico no desenvolvimento do PPP e do Plano anual. » Compreender o papel de mediador exercido pelo orientador educacional e Pedagógico ao longo do desenvolvimento do projeto educativo. » Perceber o caráter cíclico da avaliação, compreendendo o papel desempenhado por cada tipo de avaliação – diagnóstica, formativa e somativa – para que o projeto atinja todo o seu potencial. 3 AulA O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA 38 AulA 3 • O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA A versatilidade do Orientador Educacional e Pedagógico Por ser chamado a atuar nos mais diversos aspectos do cotidiano escolar, é fundamental que o profissional de orientação tenha uma versatilidade grande em termos de saberes teórico sobre as questões pedagógicas, conhecimentos técnicos sobre o funcionamento escolar e um bom relacionamento interpessoal com todos os personagens que fazem parte da vida da instituição. Como salienta Grinspun (2011): o cotidiano escolar tem uma organização, uma estrutura, um sistema que rege seus acontecimentos. Há uma vida cotidiana em que todos convivem na complexidade que a caracteriza, vivendo também com as vontades, preocupações, dificuldades, ambiguidades e conflitos de sua própria complexidade interior. esse espaço do cotidiano, além de privilegiado pela vivência (por ser único para cada um de nós), pode reproduzir o que os outros esperam que aconteça ou pode transformar o que os outros acreditam que não seria possível acontecer. Se o cotidiano, como diz Certeau, é um espaço estratégico de usos e táticas (arte de falar, arte de fazer, arte de silenciar), eu diria que, para a orientação, o cotidiano escolar é a arte de ouvir e de saber agir para melhor se disponibilizar para o outro e a instituição (GrInSPUn, 2011, p. 65). a orientação se realiza no encontro com o outro e, por isso, o orientador deve ir onde o outro está. Podemos dizer com isso que as atividades do orientador, por estarem relacionadas às práticas do cotidiano, se estendem por toda parte, fazendo com que ele possa ser encontrado “em sua sala, na sala de aula, nos recreios, à entrada da escola, recebendo os alunos, e até nas próprias casas dos alunos, em situações que requerem atendimento domiciliar” (ranGeL, 2015, p. 108). É um profissional que desempenha o papel de chave-mestra para o bom funcionamento da escola, de sua rotina e de suas práticas pedagógicas. muitas vezes, no entanto, por essa versatilidade em atender a diferentes demandas, o orientador educacional é chamado a desempenhar atividades que não fazem parte de suas atribuições, como substituir professores faltosos, realizar tarefas típicas do coordenador pedagógico, fiscalizar a ordem e a disciplina nas áreas comuns da escola, ou dar suporte à equipe de funcionários em atividades como distribuição de material, oferecimento de merenda, etc. diante dessa realidade, torna-se fundamental que estabeleçamos um recorte daquilo que realmente é de atribuição do orientador educacional e Pedagógico, para que possamos discutir mais detalhadamente suas atividades. Para tanto, é fundamental termos em mente que a atividade-fim do orientador educacional e Pedagógico é o pleno desenvolvimento do aluno, e ele pode buscar concretizar esse objetivo por meio de duas abordagens distintas: » auxiliando a equipe gestora a planejar, executar e avaliar o projeto pedagógico da escola, para que ele se mantenha sintonizado com a promoção do desenvolvimento pleno dos estudantes. 39 O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA • AulA 3 » trabalhando diretamente com os alunos ou dando suporte aos professores para que eles promovam este desenvolvimento em suas atividades docentes. nesta unidade, trabalharemos essas duas abordagens. nesta aula, focaremos nossa atenção na participação do orientador nas atividades que fazem parte da estruturação do projeto pedagógico e, para isso, levaremos em conta cada uma de suas etapas, a saber: » Planejamento: momento coletivo de estabelecimento da visão do grupo a respeito da realidade diante da qual se encontram e as expectativas de todos para ela. É importante seja colocado tudo aquilo que desejamos para o projeto educativo, tendo em mente o que é possível no contexto em que este projeto estará inserido. » Execução: momento em que aquilo que foi planejado é colocado em prática, seguindo sempre o roteiro estabelecido durante a elaboração do plano, mesmo que em alguma medida seja necessário criar estratégias de flexibilização para que o desenrolar do projeto não fique engessando diante de qualquer contratempo. » Avaliação: refere-se a um sistema de controle e monitoramento das ações desenvolvidas. este é o aspecto que nos permite visualizar se o projeto realmente está sendo colocado em prática de acordo com as diretrizes estabelecidas inicialmente e se os objetivos e as metas estão sendo atingidos. Planejamento o planejamento, em todas as áreas profissionais ou mesmo em nossas vidas pessoais, é uma prática importante para que atinjamos bons resultados nos projetos que estamos colocando em prática. É ao planejar que esboçamos o futuro, analisamos todos os riscos, preparamo-nos para as eventualidades e traçamos um caminho para não perdermos o rumo no decorrer dos eventos. em educação não é diferente! o planejamento, presente em todas as etapas e esferas do projeto educativo, desde a atividade coletiva de criar rumos para o sistema de ensino como um todo até o trabalho do professor em sua sala de aula, é uma ferramenta decisiva para que as ações educativas sejam implementadas com eficiência e as metas sejam atingidas. É um momento valioso em que é possível equalizar as expectativas e visõesde gestores, professores e do restante da comunidade escolar. o autor danilo Gandin (1995) defende que este planejamento, enquanto processo vivo e dependente de diferentes atores, não pode ser encarado como procedimento mecânico de preencher formulários e desenhar planilhas com metas e intenções que acabarão não sendo tiradas do papel. É fundamental que o planejamento seja feito de forma consciente, ancorado na realidade para que seja possível de ser desenvolvido da forma como foi concebido. 40 AulA 3 • O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA Vale ressaltar que o planejamento, ainda que deva ser seguido com disciplina para a obtenção de resultados, precisa ser revisitado e revisto ao longo de todo o processo, pois inúmeras vezes nos deparamos, ao longo do desenvolvimento, com situações anteriormente imprevistas que nos obrigam a repensar nossas estratégias, a recalcular o caminho que percorreremos até nosso objetivo final, que é o pleno desenvolvimento de nossos alunos. Pense no sistema de GPS do seu celular ou de seu carro, que planeja uma rota para a sua viagem e vai dando as instruções de caminho à medida que você vai se locomovendo. Se ele te orienta a entrar à direita e você ignora o comando e segue em frente, imediatamente o sistema precisa retornar à fase de planejamento e calcular uma nova rota possível para que você atinja o destino desejado. outro ponto a ser considerado é o fato de que o desenvolvimento de um projeto educativo funciona como uma cadeia de planejamentos, que se iniciam de forma muito generalizada na reflexão dos especialistas em educação e vão criando diretrizes e normas que serão refinadas até chegar ao professor e seu cotidiano em sala de aula. Sendo assim, podemos dizer que mesmo o professor solitário que pensa suas aulas individualmente tem como norteadoras as diretrizes e condutas anteriormente estabelecidas por outras esferas educativas. âmbito nacional o planejamento da educação realizado pelo governo federal tem como objetivo estabelecer metas e normas de conduta que abranjam a realidade de todo o território nacional, sendo rígidas o bastante para estabelecerem um padrão a ser seguido em todas as regiões do país, mas flexíveis o suficiente para que possam ser adaptadas diante das idiossincrasias das diferentes localidades. Perceba que, em um país com extensão territorial tão grande e com a diversidade social e cultural que se apresenta em cada região, estabelecer parâmetros norteadores que sejam comuns a todos os estados é uma tarefa realmente complexa. Por isso, nesta esfera de planejamento, são apreciadas questões mais gerais da educação, norteadas pelo que determina a Constituição Federal, a Lei de diretrizes e Bases da educação (LdB) e sistematizadas em um documento intitulado Plano nacional de educação (Pne). Saiba mais Vejamos a relação com as 20 metas estabelecidas pelo Plano nacional de educação, elaborado em 2014, para serem atingidas ao longo de uma década. meta 1: universalizar, até 2016, a educação infantil na pré-escola para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade e ampliar a oferta de educação infantil em creches, de forma a atender, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das crianças de até 3 (três) anos até o final da vigência deste Pne. meta 2: universalizar o ensino fundamental de 9 (nove) anos para toda a população de 6 (seis) a 14 (quatorze) anos e garantir que pelo menos 95% (noventa e cinco por cento) dos alunos concluam essa etapa na idade recomendada, até o último ano de vigência deste Pne. 41 O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA • AulA 3 meta 3: universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 (quinze) a 17 (dezessete) anos e elevar, até o final do período de vigência deste Pne, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para 85% (oitenta e cinco por cento). meta 4: universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica e ao atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional inclusivo, de salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados. meta 5: alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3º (terceiro) ano do ensino fundamental. meta 6: oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% (vinte e cinco por cento) dos(as) alunos(as) da educação básica. meta 7: fomentar a qualidade da educação básica em todas as etapas e modalidades, com melhoria do fluxo escolar e da aprendizagem, de modo a atingir as seguintes médias nacionais para o Ideb: 6,0 nos anos iniciais do ensino fundamental; 5,5 nos anos finais do ensino fundamental; 5,2 no ensino médio. meta 8: elevar a escolaridade média da população de 18 (dezoito) a 29 (vinte e nove) anos, de modo a alcançar, no mínimo, 12 (doze) anos de estudo no último ano de vigência deste plano, para as populações do campo, da região de menor escolaridade no País e dos 25% (vinte e cinco por cento) mais pobres, e igualar a escolaridade média entre negros e não negros declarados à Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e estatística – IBGe. meta 9: elevar a taxa de alfabetização da população com 15 (quinze) anos ou mais para 93,5% (noventa e três inteiros e cinco décimos por cento) até 2015 e, até o final da vigência deste Pne, erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% (cinquenta por cento) a taxa de analfabetismo funcional. meta 10: oferecer, no mínimo, 25% (vinte e cinco por cento) das matrículas de educação de jovens e adultos, nos ensinos fundamental e médio, na forma integrada à educação profissional. meta 11: triplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta e pelo menos 50% (cinquenta por cento) da expansão no segmento público. meta 12: elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% (cinquenta por cento) e a taxa líquida para 33% (trinta e três por cento) da população de 18 (dezoito) a 24 (vinte e quatro) anos, assegurada a qualidade da oferta e expansão para, pelo menos, 40% (quarenta por cento) das novas matrículas, no segmento público. meta 13: elevar a qualidade da educação superior e ampliar a proporção de mestres e doutores do corpo docente em efetivo exercício no conjunto do sistema de educação superior para 75% (setenta e cinco por cento), sendo, do total, no mínimo, 35% (trinta e cinco por cento) doutores. meta 14: elevar gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu, de modo a atingir a titulação anual de 60.000 (sessenta mil) mestres e 25.000 (vinte e cinco mil) doutores. meta 15: garantir, em regime de colaboração entre a União, os estados, o distrito Federal e os municípios, no prazo de 1 (um) ano de vigência deste Pne, política nacional de formação dos profissionais da educação de que tratam os incisos I, II e III do caput do art. 61 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, assegurado que todos os professores e as professoras da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam. meta 16: formar, em nível de pós-graduação, 50% (cinquenta por cento) dos professores da educação básica, até o último ano de vigência deste Pne, e garantir a todos(as) os(as) profissionais da educação básica formação continuada em sua área de atuação, considerando as necessidades, demandas e contextualizações dos sistemas de ensino. meta 17: valorizar os(as) profissionais do magistério das redes públicas de educação básica, de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos(as) demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano de vigênciadeste Pne. meta 18: assegurar, no prazo de 2 (dois) anos, a existência de planos de carreira para os(as) profissionais da educação básica e superior pública de todos os sistemas de ensino e, para o plano de carreira dos(as) profissionais da educação básica 42 AulA 3 • O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA pública, tomar como referência o piso salarial nacional profissional, definido em lei federal, nos termos do inciso VIII do art. 206 da Constituição Federal. meta 19: assegurar condições, no prazo de 2 (dois) anos, para a efetivação da gestão democrática da educação, associada a critérios técnicos de mérito e desempenho e à consulta pública à comunidade escolar, no âmbito das escolas públicas, prevendo recursos e apoio técnico da União para tanto. meta 20: ampliar o investimento público em educação pública de forma a atingir, no mínimo, o patamar de 7% (sete por cento) do Produto Interno Bruto (PIB) do País no 5º (quinto) ano de vigência desta Lei e, no mínimo, o equivalente a 10% (dez por cento) do PIB ao final do decênio. disponível em: <http://pne.mec.gov.br/images/pdf/pne_conhecendo_20_metas.pdf>. âmbito regional (Estadual e municipal) Partindo do planejamento mais amplo estabelecido pelo ministério da educação para o país como um todo, os estados e municípios realizarão um planejamento próprio para as suas redes de ensino, que busque adequar a visão geral do Pne à realidade de suas localidades. nesta etapa, é importante que o ente regional sirva como ponte para o diálogo entre as diretrizes nacionais e as necessidades cotidianas da realidade local. É reunir todas as metas estabelecidas pela federação com vistas a discuti-las com gestores e professores, para, dessa maneira, entender os pontos em que tais expectativas se encontram e aqueles em que serão necessárias a flexibilização e a adequação do planejamento de modo que todos os resultados sejam alcançados. Lembre-se de que as propostas do Pne são as mesmas para municípios ricos e pobres, para estados do Sul até o norte do país, para localidades urbanas e rurais. Partindo da realidade amplamente abrangente do Pne, o filtro estabelecido pelas redes de ensino é fundamental para que a proposta que chega às escolas esteja mais alinhada às necessidades de cada localidade regional. âmbito escolar Como vimos, o planejamento nacional para a educação é analisado, discutido e formatado em um novo planejamento realizado pelos estados e municípios de acordo com suas realidades. no entanto, as nuances existentes dentro de uma mesma rede de ensino ainda são demasiadamente numerosas para que pensemos em um único planejamento que dê conta de toda essa diversidade. Imagine, por exemplo, a realidade de uma rede estadual como a do estado de São Paulo, que contém em si regiões de extrema riqueza, de extrema pobreza, de culturas típicas de populações imigrantes, de territórios quilombolas, de instituições prisionais, etc. Você pode imaginar que um único planejamento dará conta de todas essas realidades? Para estabelecer um novo filtro e adequar as expectativas da rede à realidade da comunidade local, cada escola deve realizar o seu próprio planejamento, utilizando o Plano nacional de educação e os planos estabelecidos pelo seu estado ou município para chegar a um planejamento realista e possível de ser desenvolvido naquela instituição de ensino específica. 43 O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA • AulA 3 esse é um passo importantíssimo para que as políticas públicas de educação sejam incorporadas ao cotidiano escolar, tendo a participação de toda a equipe pedagógica – gestores, coordenadores e professores. âmbito individual de cada professor Por fim, todo esse planejamento, que teve início na esfera nacional, com especialistas das mais diversas áreas da educação refletindo sobre as metas a serem atingidas pelo país como um todo, e que foi sendo filtrado e adaptado até atingir a medida exata de cada escola, deve ser novamente interpretado e posto em prática à medida que cada professor realiza o planejamento de suas aulas. Infelizmente, esse planejamento ainda é uma tarefa encarada por muitos professores como prática mecânica de distribuir conteúdos de acordo com a quantidade de dias letivos. Uma atividade burocrática, desempenhada sem muita reflexão e com pouco interesse pelas discussões propostas pela gestão da escola. Com isso, o planejamento – tão refletido, repensado e adaptado – jamais se concretiza de fato nem surte os efeitos dele esperados, pois não é implementado no cotidiano das salas de aula. Para que o planejamento educacional como um todo atinja as metas para ele estabelecidas, é fundamental o engajamento dos professores e facilitar esse processo é uma das responsabilidades que podemos atribuir ao orientador educacional e Pedagógico. na árdua tarefa de fazer com que as reflexões e diretrizes das políticas públicas para a educação cheguem até os bancos escolares de cada sala de aula, o orientador educacional e pedagógico desempenha um papel fundamental, pois caberá a ele, enquanto membro da equipe gestora da escola, certificar-se de que as discussões pedagógicas não sejam soterradas no cotidiano por questões de ordem prática como a elaboração do quadro de horário, a divisão das turmas, etc. Cabe, portanto, ao orientador servir de elo entre as diretrizes da rede de educação e o planejamento da escola, atentando para a necessidade de elaboração e atualização democráticas de dois documentos de planejamento distintos, o Projeto Político-Pedagógico da escola e o seu Pano anual de atividades, bem como no auxílio ao professor na elaboração de seu planejamento. Projeto Político-Pedagógico o Projeto Político-Pedagógico de uma escola é o registro da identidade da própria instituição, porque nele estão registradas suas principais características, suas inclinações políticas e pedagógicas e a clientela atendida por ela e suas necessidades. esse documento deverá servir como principal guia para o estabelecimento das regras de conduta adotadas na escola, seu desenvolvimento é de tamanha importância e está descrito como obrigatoriedade pela Lei de diretrizes e Bases da educação nacional (LdB), de 1996. 44 AulA 3 • O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA Salienta-se que o Projeto Político-Pedagógico é um instrumento de planejamento democrático, o qual, portanto, deve ser discutido com toda a comunidade escolar. Sua versão final tem de estar disponibilizada em local de fácil acesso para que qualquer interessado – professores, alunos, responsáveis, membros da comunidade, pesquisadores, etc. – possa consultá-lo se assim o desejar. no entanto, muitos gestores ainda encaram este documento como mera formalidade, desenvolvem textos formatados, sem a participação da comunidade estudantil, e que pouco refletem a realidade cotidiana da escola. Infelizmente, é comum encontrarmos PPPs em que o que está escrito no papel não reflete em nada os desejos da comunidade escolar ou a realidade do que ocorre no cotidiano da instituição de ensino. Imagine, por exemplo, que o Projeto Político-Pedagógico de uma escola aponta o posicionamento laico como um dos fundamentos de identidade da escola. Isso significa que, na prática cotidiana desta instituição, não poderão ser considerados dogmas de qualquer igreja nas tomadas de decisão ou na implementação de projetos. esta escola, por exemplo, não poderá justificar a recusa em desenvolver projetos de controle de natalidade com base na reprovação que algumas igrejas fazem desta prática. no entanto, se estivermos nos referindo a uma escola confessional, que deixa claro em seu Projeto Político-Pedagógico a sua orientação dogmática e a medida em que essas referências influenciarão as práticas cotidianas da escola, o posicionamento contrário às políticas de controle de natalidade seriam perfeitamente aceitáveis. Vejamos,então, os principais elementos que devem constar em um PPP: » Clientela: descrição da comunidade em que se localiza a escola, descrevendo suas principais características e problemas enfrentados. É interessante que este tópico contemple também um perfil geral dos alunos matriculados e dos estudantes egressos, bem como de suas famílias. » Missão, visão e valores: neste tópico deve ser descrita a missão que a escola pretende desempenhar diante da comunidade por ela atendida. aqui será explicitada a visão de mundo e de sociedade à que se alinha a instituição, bem como os valores que nortearão as suas práticas. » Dados sobre a aprendizagem: é um perfil elaborado a respeito do desempenho acadêmico da escola, contemplando questões como a taxa de evasão, de fracasso escolar, o desempenho nos programas de avaliação institucional oferecidos pelo governo, como, por exemplo, o exame nacional do ensino médio (enem). » Recursos: este tópico deve incluir os recursos de que dispõe a instituição e o uso que planeja ser feito deles no processo de desenvolvimento do projeto pedagógico. neste ponto, vale ressaltar que os recursos podem ser materiais, como equipamentos e 45 O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA • AulA 3 infraestrutura, ou imateriais, como os profissionais que compõem a equipe pedagógica e o corpo docente. » Diretrizes pedagógicas: descrição da conduta educacional adotada pela escola, incluindo a corrente pedagógica que orienta suas atividades e o regulamento interno que norteará a solução de problemas e definirá as normas de comportamento a serem seguidas. Para que o PPP se mantenha condizente com a realidade da escola, de seus alunos, da comunidade e dos profissionais que nela trabalham, é importante que este documento esteja em constante processo de revisão e atualização, não sendo um documento estático para ser guardado em uma gaveta ou em arquivos isolados e inacessíveis. É um documento democrático de planejamento e gestão, que, por estar diretamente associado ao estabelecimento das metas a serem alcançadas e condutas a serem seguidas, deve servir de base para os demais planejamentos realizados na escola. Para refletir em uma instituição específica de ensino particular que tem como característica e objetivo de suas atividades pedagógicas a aprovação de alunos no vestibular, as turmas são divididas de acordo com o desempenho acadêmico dos alunos e existe um sistema de mobilidade entre turmas de um bimestre para o outro. ao final de cada bimestre, os alunos são ranqueados por suas notas e alocados na turma referente ao seu posicionamento no quadro geral de desempenho. Uma aluna recém-chegada à escola, de acordo com suas notas do primeiro bimestre do ano letivo, foi transferida da turma de desempenho B para a turma de desempenho a, o que a deixou intensamente contrariada e desmotivada por tê-la separado do grupo de amigas que acabara de formar. a mãe dessa aluna procurou então a direção da escola e o setor de orientação educacional para reclamar deste sistema de mobilidade, solicitando que a filha fosse transferida novamente para a turma em que havia iniciado seus estudos, pois seu perfil de motivação para os estudos estava muito mais associado ao ambiente de companheirismo com os colegas de turma do que com a competitividade incentivada pela escola. esta é uma situação complexa, que poderia ter sido evitada por uma leitura atenta por parte dos pais do Projeto Político- Pedagógico da escola, no qual está sistematizada a proposta educativa em todos os detalhes, inclusive o ranqueamento dos alunos por turma. esses pais, ao buscarem uma nova escola para matricular a filha, deveriam ter-se preocupado em entender a proposta da instituição para avaliar se ela estaria de acordo com o perfil de estudante da menina e tal trabalho poderia ter sido feito com o acompanhamento do orientador educacional. Plano Anual antes do início de um novo ano letivo, toda escola deve desenvolver o seu Plano anual, que conterá as metas, os objetivos e os procedimentos a serem seguidos ao longo de todo aquele ano. Para isso, a equipe gestora da escola deverá realizar uma semana pedagógica com seus professores e funcionários para que o Plano anual seja discutido e construído em conjunto. esse plano para o ano seguinte deverá ser iniciado já na conclusão do ano letivo anterior, na avaliação do Plano anual construído para o ano que está terminando. Por meio do debate, deverão 46 AulA 3 • O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA ser destacados os pontos que foram positivos e negativos, quais metas foram alcançadas, quais precisam ser revistas, que novos desafios se apresentaram ao longo do caminho e como podem ser solucionados. outro ponto que necessariamente deverá fazer parte da fundamentação do Plano anual é o Projeto Político-Pedagógico da escola, que sempre deverá ser considerado como ponto de partida para tudo o que se pretenda realizar na escola. este é um bom momento para rever e rediscutir o PPP, atualizando-o sempre que necessário. nesta semana pedagógica em que se realizará o planejamento do ano que se inicia, o orientador educacional e pedagógico assume papel fundamental, pois ele será o responsável por conduzir as atividades e orientar as discussões, abarcando os seguintes tópicos na organização deste evento: Recepcionar os novos professores que estejam ingressando na equipe docente, fazendo com que eles se sintam confortáveis para tirar todas as suas dúvidas sobre os procedimentos adotados na escola. Vale lembrar também que esses indivíduos chegam de realidades diferentes e podem trazer um olhar novo para os dilemas que a escola enfrenta, podendo, inclusive, sugerir saídas inovadoras para problemas. Facilitar o diálogo entre professores e gestores, de maneira que a apreciação de qualquer questão seja feita por diferentes ângulos e perspectivas. esse diálogo nem sempre é fácil, especialmente se a relação entre os gestores e sua equipe não for harmoniosa, mas cabe ao orientador, enquanto integrante da gestão que trabalha de forma mais próxima com os professores, criar um momento propício para que essas duas esferas conversem e troquem experiências. Propor leitura e avaliação dos resultados do ano anterior, destacando os pontos do planejamento que foram atingidos e aqueles que ainda precisam ser melhorados. ressalta-se que, em um contexto educacional em que a culpa pelo fracasso escolar é comumente atribuída ao professor, este debate sobre o desempenho do processo educativo no ano anterior deve ser conduzido de forma leve e objetiva, em que os resultados sejam analisados sem que se busquem culpados. o planejamento das atividades do ano é uma realização coletiva, que deve também ser executado coletivamente. Se algo não deu certo, a responsabilidade é de todos, inclusive dos alunos, das famílias e da comunidade! Elaborar, juntamente com a equipe, objetivos e metas que deverão ser conquistados ao final do ano letivo. Vale lembrar que metas vagas ou muito abstratas dificilmente são cumpridas, pois não se tem clareza a respeito do resultado a ser atingido. não é produtivo, por exemplo, estabelecer como meta “mudar o comportamento dos alunos”, porque, ao final do ano letivo, a discussão dos resultados será baseada na impressão pessoal de cada um, o que dificilmente gera consenso. Como fazemos isso? Como sabemos se conseguimos realizar esta meta? 47 O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA • AulA 3 Seria mais adequado, neste caso, refletir sobre quais transformações seriam indicativas da mudança que pretendo ver no comportamento dos alunos e, a partir dessas considerações, estabelecer as metas a serem atingidas, como a diminuição das ocorrências de indisciplina nas salas de aula, a diminuição dos casos de indisciplina no momento do intervalo, a diminuição dos casos de depredação de patrimônio da escola,etc. todos esses exemplos sinalizam uma mudança no comportamento dos alunos, mas, diferente da meta abstrata, a equipe será capaz de verificar objetivamente se as metas foram cumpridas. Criação de planos de ação com base nas metas e nos objetivos elaborados. depois de definir o que se pretende realizar ao longo do ano, esta etapa visa a estabelecer um roteiro a ser seguido para a concretização do planejamento. Se minha meta é diminuir o número de evasões, por exemplo, precisarei avaliar detalhadamente os motivos causadores da evasão, para, a partir deles, criar um plano de ação com estratégias que busquem aumentar o interesse do aluno pelas atividades escolares, solucionar problemas internos e externos que o levam a abandonar os estudos, encontrar medidas junto às famílias para conscientizá-los sobre a importância da permanência do aluno na escola, etc. no que diz respeito à elaboração prática dos planos de ação, é importante que estes abranjam as seguintes questões: Quadro 1. Plano de ação. tema Definição do tema geral em que está inserido o problema que você trabalhará ao longo do plano. Problema neste item, você deverá apresentar ao seu leitor o problema para o qual está buscando uma solução. Qual é exatamente a questão a ser trabalhada? diagnóstico descreva a situação causadora do problema. Justificativa A justificativa, em qualquer plano, diz respeito à fundamentação teórica necessária para que o seu leitor compreenda a importância desta temática. Convença a pessoa que está lendo de que este problema realmente precisa ser solucionado! Objetivos Estabeleça em tópicos os objetivos que se pretende alcançar com o desenvolvimento deste plano. uma forma interessante de pensar os objetivos é desmembrar em partes a solução que você imagina para o problema em questão. Ações pedagógicas descreva detalhadamente e em etapas todas as ações que serão desenvolvidas de modo que os objetivos estabelecidos sejam alcançados. Equipe responsável descreva as pessoas que farão parte do desenvolvimento desta ação, especificando as atribuições de cada uma delas. Recursos Defina os recursos que precisarão ser utilizados para o desenvolvimento desta ação, sejam eles materiais, como cartazes, material de papelaria para dinâmicas. Avaliação Estabeleça os parâmetros e as estratégias que serão utilizadas ao final da ação para mensurar se ela foi bem-sucedida ou não. Referências bibliográficas Cite todo o material utilizado por você para fundamentar teoricamente o trabalho. Fonte: Elaboração própria da autora. 48 AulA 3 • O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA Estabelecer a divisão das turmas, levando em consideração que não se trata de uma atividade meramente distributiva, mas de uma decisão político-pedagógica que influenciará diretamente o trabalho dos professores e o desempenho dos alunos. Como defende Bernardo (2013): o agrupamento de alunos em turmas homogêneas ou heterogêneas é uma medida organizativa com consequências importantes para as escolas ou redes de ensino. o agrupamento dos alunos é um dos múltiplos fatores que afetam o ambiente de aprendizagem em sala de aula, a qualidade do currículo, a instrução, a expectativa docente, clima escolar, prática pedagógica, entre outros. a questão que se coloca para as escolas não é somente como agrupar os alunos, mas como ensinar e que ambiente de aprendizagem construir para propiciar um maior e melhor aprendizado (Bernardo, 2013, p. 155). a medida de estabelecer a divisão de turmas por habilidades e desempenhos pode ser positiva por organizar grupos mais homogêneos, facilitando, assim, o planejamento do professor. e potencializando a aprendizagem dos alunos em defasagem. o que ocorre, no entanto, é uma divisão hierárquica entre as turmas em que os professores mais qualificados e experientes são alocados nas turmas de melhor desempenho e os alunos em defasagem são entregues aos professores iniciantes ou recém-chegados. Cria-se, desse modo, um sistema cruel de manutenção da diferença entre os alunos, em que dificilmente os em defasagem conseguirão alcançar o desempenho esperado. outra medida questionável é a criação das “turmas problema”, em que são colocados todos os alunos com problemas de comportamento, desvio idade-série, dificuldades de aprendizagem, etc. esta é uma decisão pedagógica pobre, pois cria um depósito de alunos vistos como sem solução, para os quais nenhum professor quer lecionar. divididas as turmas, é importante apresentar aos professores o calendário escolar para aquele ano, considerando as determinações da Secretaria de educação. a partir desse cronograma, já contendo a quantidade de dias letivos, os feriados que cairão em dias úteis e os possíveis pontos facultativos deverão ser estabelecidas as grades horárias para cada disciplina, cada turma e cada professor. este é um momento complexo, em que nem sempre é possível agradar a todos. É comum que os professores não queiram trabalhar nas sextas-feiras ou nos primeiros tempos do turno da manhã, por exemplo. Cabe ao orientador auxiliar a gestão da escola a encontrar um meio termo entre as demandas de todos os professores e as necessidades da escola. A organização física do ambiente escolar para o início do novo ano letivo também não pode ser deixada de lado. É preciso preparar as salas de aula, os espaços compartilhados, organizar os materiais que serão utilizados pelos professores e aqueles que serão entregues aos alunos. Por fim, deverá ser preparada a recepção dos alunos, que deve contar com a distribuição de tarefas entre os membros da equipe gestora, sobre quem receberá os alunos e seus responsáveis, 49 O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA • AulA 3 quem fará a acolhida dos novos alunos, como serão estabelecidos e transmitidos os combinados pedagógicos em vigor durante o ano letivo. É interessante conversar também com os professores sobre as melhores estratégias para acolher os alunos que estão chegando. Execução do projeto pedagógico o Projeto Político-Pedagógico da escola, elaborado democraticamente com a participação de todos os envolvidos no processo educativo, visa a elaborar metas coletivas e a uniformizar práticas para que se atinjam os objetivos estabelecidos. É a reunião de diretrizes e orientações que permite que a equipe pedagógica como um todo caminhe na mesma direção. no entanto, ainda que a intenção seja encontrar um padrão de conduta a ser seguido em todas as esferas da vida escolar, não podemos ignorar que esta equipe, por mais coesa e harmônica que seja, é composta de indivíduos singulares, que possuem características, valores e direcionamentos próprios e, em certas ocasiões, o encontro dessas singularidades pode gerar conflito. diante dessa diversidade de indivíduos singulares que formam o todo da vida escolar, o papel do orientador educacional e Pedagógico ao longo da execução do PPP deve ser administrar as diferenças individuais para que, respeitando as características de todos, o objetivo geral e as metas coletivas sejam atingidas. da mesma forma, ao longo do planejamento, a clientela atendida pela escola pode – e deve – ser analisada em sua totalidade para que se possa desenhar um perfil do grupo que servirá como fundamentação para planejar as ações que serão implementadas na escola. no entanto, por mais fiel que este perfil seja da realidade dos alunos enquanto grupo, não podemos perder de vista que cada aluno é um indivíduo único, que possui necessidades específicas e responde melhor a determinadas medidas e estratégias do que a outras. neste sentido, o papel do orientador educacional e pedagógico é trabalhar em parceria com os professores para que, analisando cada caso específico, as diretrizes estabelecidas no plano possam ser seguidas, mas utilizando as estratégias que melhor se adéquem ao perfil de cada aluno. Avaliação pedagógica a avaliação em educação não pode ser entendida apenascomo um evento único que ocorre ao final da execução de qualquer processo. na verdade, a avaliação deve ocorrer continuadamente, ao longo de todo o desenvolvimento do projeto educativo, para que, no caso de eventuais desalinhos entre o que foi planejado e a realidade, seja possível replanejar as estratégias e ações para que não nos distanciemos das metas e dos objetivos que buscamos alcançar. 50 AulA 3 • O PAPEl dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO nAS AtIvIdAdES gERAIS dA ESCOlA tendo em vista esse aspecto múltiplo, é interessante definirmos as três facetas do processo avaliativo que devem constar no planejamento e na execução de qualquer projeto. » Avaliação diagnóstica: aquela que antecede o planejamento e que se baseia na análise da situação ou problemática que será enfrentada. É por meio desta avaliação que o educador obterá as informações necessárias para elaborar um projeto eficiente e alinhado à realidade. » Avaliação formativa: aquela que ocorre ao longo do desenvolvimento do projeto. É por intermédio dela que o educador pode avaliar se a realidade encontrada no momento da execução está de acordo com aquilo que foi planejado, permitindo que, diante de um problema inesperado ou situação diferente da projetada, possamos retornar ao planejamento para ajustar a conduta. » Avaliação somativa: aquela que ocorre ao final do projeto. É mediante ela que analisaremos os resultados obtidos, verificando se o que foi planejado foi executado adequadamente e o que poderia ter sido feito para obter melhores resultados. Como podemos ver, a avaliação é um projeto cíclico que se inicia antes do próprio planejamento e atravessa todo o desenvolvimento do projeto. nesse sentido, cabe ao orientador auxiliar a gestão da escola a executar os diferentes momentos de avaliação, estabelecendo sempre um paralelo entre os resultados do projeto educativo da escola com os resultados do projeto de orientação educacional elaborado por ele. 51 Introdução nesta quarta aula da disciplina, você vai conhecer as atividades de responsabilidade específicas do orientador educacional e Pedagógico. em um contexto profissional de multiplicidade de demandas, discutiremos a importância da organização para o bom desempenho do trabalho e estabeleceremos um fluxo de atividades que servirá como fio condutor para que todos os aspectos de todas as atividades sejam contemplados ao longo do serviço. dessa forma, buscamos estabelecer um sistema de melhores práticas para otimizar o desempenho e os resultados do trabalho de orientação. Objetivos » estabelecer um fluxo de trabalho para que todas as etapas das atividades sejam cumpridas. » apresentar as atribuições privativas e participativas definidas pelo decreto nº 72.846/1973 para a atividade de orientação educacional. » discutir os principais aspectos a serem considerados na organização do Serviço de orientação educacional (Soe). » refletir sobre a importância do domínio teórico e prático das questões relativas ao campo de atuação do orientador educacional. » estabelecer uma sequência de atividades no tratamento das questões específicas do trabalho para otimizar o rendimento e a obtenção de resultados. » discutir a importância de que o trabalho desenvolvido nas escolas pelo orientador educacional e Pedagógico tenha visibilidade. » apresentar projetos bem-sucedidos que possam servir de inspiração para o orientador em formação. 4 AulA AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO 52 AulA 4 • AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO O trabalho específico do Orientador Educacional na aula anterior desta disciplina, discutimos a forma como o orientador educacional participa do planejamento, da execução e da avaliação do projeto educacional da escola como um todo. Vimos que ele é peça importante para a manutenção da engrenagem da escola funcionando, ou seja, seu auxílio é precioso para que a direção consiga fazer com que o cotidiano escolar funcione adequadamente. no entanto, não podemos esquecer que este profissional possui também atribuições específicas que são de sua responsabilidade e, por isso, devem ter espaço privilegiado no cronograma de atividades do orientador educacional e Pedagógico. do contrário, o trabalho desenvolvido na escola nunca atingirá todo o seu potencial, e a presença deste profissional perderá o sentido. em decorrência desse descuido no estabelecimento de um programa de orientação educacional sólido e eficiente, Heloísa Lück (2015) aponta para o fato de ainda existir nas escolas um certo grau de preconceito com relação ao Serviço de orientação educacional. Segundo a autora, por perder-se entre as demandas do cotidiano, sem conseguir delimitar as exigências de sua prática específica, o orientador educacional passa a ser visto como incapaz de contribuir de fato para a melhoria da qualidade do ensino e do desenvolvimento dos alunos. neste contexto, muitos gestores acabam não criando vagas para este profissional em suas escolas, e as instituições que contam com a presença do orientador enfraquecem seu poder de atuação, limitando seu espaço de atuação e, consequentemente, seus resultados. Lück (2015, p. 55) destaca as seguintes circunstâncias como dificultadoras do bom desenvolvimento do trabalho do orientador: » a permanência e a atuação da orientação educacional nas escolas têm sido descontínuas e seu trabalho assimétrico. » o orientador educacional é comumente solicitado a realizar múltiplas tarefas que não dizem respeito, diretamente, à orientação educacional. » alunos, pais, professores e equipe administrativa da escola desconhecem o significado da orientação educacional e as perspectivas de sua atuação. » os orientadores educacionais falham em divulgar e dar transparência a seu trabalho. diante desse quadro, traçaremos nesta aula um modelo de conduta em que cada um dos elementos contribuirá para que a prática do orientador educacional se torne mais segura e eficiente, atingindo os resultados esperados no desenvolvimento dos alunos e sendo reconhecida pela equipe pedagógica e pela comunidade escolar. É o estabelecimento inicial dos pilares que dará sustentação ao trabalho de orientação, para, a partir deles, lidar com qualquer situação específica que se apresente. 53 AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO • AulA 4 Figura 1 - Fluxo de trabalho do Orientador Educacional Fonte: Elaboração própria da autora. Fundamentação do trabalho de Orientação Educacional e Pedagógica no estágio de fundamentação do trabalho de orientação educacional e Pedagógica, que consideraremos aqui como o primeiro momento de nosso fluxo de atividades, o orientador deverá criar as bases que sustentarão a sua prática, ou seja, aquilo que lhe permitirá agir com segurança para obter os resultados esperados. Conhecer as atribuições específicas do Orientador Educacional Se em um passeio pela escola questionássemos alunos, professores, responsáveis, funcionários e até mesmo a direção sobre as tarefas desempenhadas pelo orientador educacional e Pedagógico, certamente obteríamos respostas muito variadas. algumas delas contendo inclusive tarefas que, de fato, não fazem parte das obrigações e responsabilidades do orientador. Isso ocorre devido à multiplicidade de atividades desempenhadas por este profissional, que se relacionam com todas as ocorrências do cotidiano e se estendem pelas mais variadas áreas da vida escolar. Sendo assim, torna-se necessário refletirmos a respeito das atribuições que de fato constituem o trabalho do orientador educacional e Pedagógico, porque como apontam Giacaglia e Penteado (2015): Pelo fato de ser uma profissão pouco conhecida, mesmo no ambiente escolar, é de extrema importância que o or. e. tenha pleno conhecimento de suas atribuições para que possa não só atuar com segurança, de conformidade com elas, como 54 AulA 4 • AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAlE PEdAgógICO também dar a conhecer e a respeitar seu trabalho (GIaCaGLIa; Penteado, 2015, p. 65). tanto nas redes estaduais, municipais e federal quanto nas instituições de ensino privadas existe certa flexibilidade na decisão sobre o que constará em seus regimentos internos a respeito das atribuições do orientador. Como salientam Giacaglia e Penteado (2015), as redes de ensino público podem definir as atribuições que serão conferidas a cada profissional da educação. da mesma forma, as escolas da rede particular possuem autonomia para determinar o que cada profissional por ela contratado irá desempenhar dentro das atividades da instituição. no entanto, é importante destacar que o decreto nº 72.846, de 26 de setembro de 1973, criado para regulamentar a Lei nº 5.564, de 21 dezembro 1968, define a atividade de orientação educacional, estabelecendo quais são as atribuições escolares que só poderão ser desempenhadas por este profissional (privativas) e aquelas das quais ele deverá participar juntamente com a equipe pedagógica (participativas). Observe a lei os artigos 8º e 9º do decreto nº 72.846/1973 definem as atividades privativas e participativas a serem desempenhadas pelo orientador educacional. art. 8º São atribuições privativas do orientador educacional: a) Planejar e coordenar a implantação e funcionamento do Serviço de orientação educacional em nível de: 1 - escola; 2 - Comunidade. b) Planejar e coordenar a implantação e funcionamento do Serviço de orientação educacional dos órgãos do Serviço Público Federal, municipal e autárquico; das Sociedades de economia mista, empresas estatais, Paraestatais e Privadas. c) Coordenar a orientação vocacional do educando, incorporando-o ao processo educativo global. d) Coordenar o processo de sondagem de interesses, aptidões e habilidades do educando. e) Coordenar o processo de informação educacional e profissional com vista à orientação vocacional. f) Sistematizar o processo de intercâmbio das informações necessárias ao conhecimento global do educando. g) Sistematizar o processo de acompanhamento dos alunos, encaminhando a outros especialistas aqueles que exigirem assistência especial. h) Coordenar o acompanhamento pós-escolar. 55 AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO • AulA 4 i) ministrar disciplinas de teoria e Prática da orientação educacional, satisfeitas as exigências da legislação específica do ensino. j) Supervisionar estágios na área da orientação educacional. l) emitir pareceres sobre matéria concernente à orientação educacional. art. 9º Compete, ainda, ao orientador educacional as seguintes atribuições: a) Participar no processo de identificação das características básicas da comunidade; b) Participar no processo de caracterização da clientela escolar; c) Participar no processo de elaboração do currículo pleno da escola; d) Participar na composição, caracterização e acompanhamento de turmas e grupos; e) Participar do processo de avaliação e recuperação dos alunos; f) Participar do processo de encaminhamento dos alunos estagiários; g) Participar no processo de integração escola-família-comunidade; h) realizar estudos e pesquisas na área da orientação educacional. Organizar o Serviço de Orientação Educacional o Serviço de orientação educacional, também conhecido pela sigla Soe, é o setor ou departamento da escola em que atuará o orientador educacional e pedagógico. Será neste espaço que ele reunirá seu material de trabalho e concentrará as suas atividades de atendimento aos alunos, responsáveis, professores, funcionários, etc. Sendo assim, é interessante que exista na escola uma sala de uso exclusivo deste profissional, onde será organizado o Serviço de orientação educacional (Soe) da escola. este espaço deve ser composto, sempre que possível e dadas as proporções e condições da escola, de uma área de trabalho com mesa com gavetas e espaço para acomodar um computador e/ou arquivos em que possam ser colocadas informações de consulta a respeito dos alunos e da própria escola. deve haver ainda um espaço mais reservado para o atendimento, que pode ser formado por um sofá ou uma mesa com cadeiras, na qual não devem ser organizados materiais de trabalho. este é um espaço de acolhimento e escuta sensível, que deve ser planejado para transmitir sensação de calma e tranquilidade. Vale ressaltar a importância de um aviso que possa ser colocado na porta todas as vezes que um atendimento estiver ocorrendo, de maneira que a equipe pedagógica e os funcionários saibam que o profissional não deve ser interrompido. a respeito da preparação da sala do Soe, mary rangel salienta que: a sala do orientador educacional significa mais que um espaço, um ambiente que tem um expressivo significado humano, social, do lugar de acolher, ouvir, 56 AulA 4 • AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO compreender, dialogar. nesse lugar, encontra-se alguém com quem se pode partilhar sentimentos, dificuldades, problemas, e encontrar receptividade e parceria. a ambiência é o que flui do ambiente através das relações humanas que ali se estabelecem e se constroem. Uma ambiência positiva e estimulante traz energia, ânimo, esperança. assim é a sala do orientador educacional. ali encontra-se um profissional que está disposto a atender e a ouvir (ranGeL, 2015, p. 108-109). tendo isso em mente, é fundamental que se estabeleça um limite rígido quanto à utilização da sala do Soe para finalidades que não sejam o atendimento do orientador educacional e Pedagógico. Como destacam Giacaglia e Penteado (2015, p. 68), é preciso evitar que “o Soe se transforme em refúgio de alunos que cabulam aula ou são tirados da classe por problemas com os professores, como indisciplina e falta de lição de casa ou de material”. Para refletir antes de prosseguir, gostaríamos de propor a você um pequeno teste de memória. Você se lembra do profissional de orientação educacional e Pedagógica das escolas em que estudou? Quais são as principais memórias que você possui dessa pessoa? Se o encontrasse hoje na rua, sua primeira reação seria lhe dar um abraço ou atravessar rapidamente a rua? as escolas em que você estudou possuíam uma sala específica destinada ao Serviço de orientação educacional? tente se lembrar deste espaço, das impressões que você tinha dele e das ocasiões em que esteve lá. Você é capaz de perceber alguma conexão entre as suas memórias desta sala do Soe e as memórias do orientador educacional? as autoras Giacaglia e Penteado (2015) salientam a importância de que se evite construir imagens extremas do orientador educacional e Pedagógico. de acordo com elas, o or. e. também não deve dar ensejo a que se incorpore à sua imagem o papel de “bonzinho”, “da tia”, do “protetor de alunos” ou, por outro lado, de “dedo duro”, de “disciplinador”, bem como o de “controlador” e “delator” de professores, de funcionários ou de alunos (GIaCaGLIa; Penteado, 2015, p. 68). acreditamos que o aspecto geral do espaço de trabalho do orientador se relaciona e contribui para a construção da imagem do próprio orientador. Portanto, é tão importante a criação de um espaço clean, sem excesso de informações, limpo, organizado, que transmita uma imagem profissional e acolhedora, sem ser excessivamente austera ou demasiadamente colorida e infantilizada. Possuir domínio teórico e prático da área de Orientação Educacional e Pedagógica Para o desenvolvimento de suas atividades de orientação educacional, é preciso que o orientador coloque em ação dois tipos distintos de saberes: os saberes teóricos e os saberes práticos. os saberes teóricos são aqueles que dizem respeito à reflexão sistemática acerca das questões que fazem parte do universo de atuação do indivíduo. É a reunião de construções filosóficas e científicas elaboradas através dos tempos por todos aqueles que se inquietaram e investigaram o mesmo assunto que hoje desperta nosso interesse. 57 AS AtIvIdAdESESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO • AulA 4 Se me deparo com um caso de indisciplina, por exemplo, e recorro mentalmente aos esforços teóricos do filósofo alemão Kant para compreender aquele caso e tentar buscar a melhor forma de resolvê-lo, estou acionando um saber teórico para fundamentar a minha tomada de decisão diante de uma situação real. os saberes práticos, por sua vez, são aqueles da ordem do “saber fazer”, ou seja, de empregar minhas habilidades práticas no desempenho de determinada atividade. retornando ao caso de indisciplina mencionado anteriormente, podemos dizer que, ao orientar os alunos em conflito por meio de uma técnica de respiração controlada para que eles retornem ao estado de calma necessário de maneira que possamos discutir e resolver o problema que gerou a situação de indisciplina, estou acionando um saber prático para me auxiliar nesta tarefa. ressalte-se que esses dois tipos de saberes independem um do outro. eu posso ser profunda conhecedora de Kant, mas não conhecer qualquer técnica de respiração, ou posso ser versada em diferentes estratégias para o controle da raiva, e nunca ter lido as reflexões kantianas a respeito da indisciplina. no entanto, vemos por esse exemplo que, diante de uma situação real, foi extremamente útil articular os dois tipos de saberes para a solução do problema. Com isso, ao dizer que, para a boa prática da orientação, o indivíduo deve possuir domínio sobre os saberes teóricos e práticos de sua disciplina, estamos indicando a importância de que o profissional aprofunde seus estudos a respeito das situações cotidianas com as quais costuma se deparar, e, mediante a prática e a experimentação, reúna um arcabouço de saberes que poderão ser postos em prática em um momento de necessidade. Tratamento das questões específicas da realidade escolar a partir do momento em que o profissional de orientação estabelece as bases sobre as quais sustentará a sua atividade, podemos passar ao tratamento das questões específicas da realidade escolar em que ele atuará. neste momento, utilizaremos todos os saberes e as estruturas preparados anteriormente a serviço da obtenção de resultados concretos no aprimoramento do projeto educacional da escola e do desempenho dos alunos. diagnosticar a realidade o primeiro passo a ser dado para o tratamento eficiente das questões específicas da realidade escolar na qual atua o orientador educacional e pedagógico é a elaboração de um diagnóstico realista e objetivo a respeito desta realidade. Para desempenhar um trabalho eficiente, é fundamental que o profissional conheça a comunidade em que se localiza a escola e mapeie os principais problemas a serem sanados e as demandas a serem atendidas. Uma forma eficiente para realizar este diagnóstico é através do estudo atento 58 AulA 4 • AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO das avaliações dos planejamentos dos anos anteriores realizados na escola, sejam eles o PPP, o Plano anual ou o Plano de orientação educacional. reúna todos os dados referentes ao resultado desta avaliação diagnóstica da escola e elabore um mapa contendo todos os elementos a serem considerados, as relações de causa e efeito que podem ser estabelecidas entre eles, as estratégias anteriormente implementadas em relação a esses problemas e os resultados obtidos. afixe este mapa em um local visível de sua área de trabalho, para que você possa retornar a ele sempre que estiver planejando uma ação pedagógica, replanejando uma atividade em desenvolvimento ou quando se deparar com um novo problema a ser enfrentado. Planejar a ação Partindo do mapa diagnóstico da realidade da escola, o orientador elencará todos os problemas a serem solucionados e elaborará um plano de ação para cada um deles. a princípio, este pode parecer um esforço demasiadamente elaborado, que consome muito tempo que poderia estar sendo empregado diretamente na solução dos problemas. no entanto, como defende Lück (2015), o planejamento cuidado e acurado de suas ações possibilita ao orientador educacional obter maior e melhor controle de circunstâncias e de situações, em vez se ser controlado por elas (...) tempo dedicado ao planejamento é tempo ganho ao desperdício, à ação errática, ao imobilismo e ao lugar comum (LÜCK, 2015, p. 59-61). o planejamento é, sem dúvidas, um dos elementos mais importantes para ancorar a prática profissional – em qualquer área de atuação – sobre bases sólidas, garantindo, assim, maior nível de segurança para o profissional, que passa a ter uma visão mais ampla da realidade com a qual está lidando e dos melhores caminhos para a solução dos problemas que se apresentam. nesse sentido, além de todos os planejamentos escolares em relação aos quais o oeP foi convidado a refletir, é importante que se desenvolva um planejamento geral para a área de orientação educacional e Pedagógica, dentro do qual estejam descritos todos os planos de ação individuais juntamente com os aspectos mais gerais da área. o planejamento específico das atividades do Setor de orientação educacional e Pedagógica é de extrema relevância para a instituição escolar, pois, por meio dele, não só o próprio orientador é capaz de sistematizar o seu trabalho, como outros membros da equipe docente e pedagógica podem realizar consultas a este material. Salienta-se que não existe, como em qualquer outro planejamento, um modelo único que deve ser seguido para elaborar o Plano de orientação educacional e Pedagógica, indicaremos aqui uma adaptação do modelo sugerido pelas autoras Lia Giacaglia e Wilma Penteado (2015), por ser de fácil compreensão e implementação. 59 AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO • AulA 4 Quadro 2. modelo para o Plano de Orientação Educacional e Pedagógica. Identificação e localização da escola Principais dados de identificação da escola, escritos corretamente e por extenso para que seja possível identificar rapidamente a que unidade escolar pertence o plano. Instâncias superiores às quais a escola e a Orientação Educacional e Pedagógica estão subordinadas Estas informações são úteis, especialmente nos casos de escolas da rede pública, pois será possível identificar rapidamente as instâncias superiores a serem contatadas em casos de emergências. localização e contato de entidades às quais a escola e/ou o orientador podem precisar recorrer Estes dados serão úteis nos casos de emergências envolvendo alunos ou funcionários. Em um primeiro momento, é sempre importante entrar em contato com a família do aluno ou funcionário e seguir as determinações desta para atender à pessoa acidentada ou doente, mas é sempre bom ter ao alcance da mão o contato de instituições como o posto médico mais próximo, hospitais, autoridade policial, conselho tutelar, etc. nome do diretor ou gestor da escola e de seu vice ou assistentes Esta informação é fundamental em casos em que o diretor e/ou seus substitutos estejam ausentes em um momento em que ocorra algo que só pode ser resolvido por ele. nome e contato do orientador Educacional e Pedagógico Esta é uma informação que pode facilitar o contato com o orientador em casos em que ele esteja ausente em um momento de necessidade. data do plano É importante que sejam anotadas a data do plano atualmente em vigor, bem como as datas dos planejamentos anteriores, permitindo, assim, que sejam feitas comparações entre eles. Síntese das principais características da comunidade escolar Esta seção pode ser um resumo da descrição existente no Projeto Político- Pedagógico da escola. Objetivos da escola e do Serviço de Orientação Educacional Os objetivos gerais da escola podem ser retirados do PPP e do Plano Anual e os objetivos da OEP devem estar de acordo com as expectativas deste planejamento da escola como um todo. Quadro de recursos humanos da escola, professores, conselheiros, alunos e croquis da escola Estes quadros, que normalmente seencontram no planejamento da escola, devem ser reproduzidos no planejamento da OEP e disponibilizados na sala do Serviço de Orientação Educacional para consulta rápida e para atualização imediata sempre que houver uma mudança. Estratégias descrição das estratégias de orientação a serem utilizadas em casos específicos. Neste ponto, devem ser traçadas as ações que serão desenvolvidas para atingir os objetivos especificados no início do plano. Algumas das estratégias mais comumente empregadas nas ações de Orientação Educacional são: entrevistas, reuniões, palestras e dinâmicas individuais ou em grupos. Cronograma divisão temporal das atividades a serem desenvolvidas, o que permitirá ao orientados avaliar inclusive a viabilidade de seu planejamento. Avaliação do Serviço de Orientação Educacional nos anos anteriores É fundamental que o orientador tenha clareza das estratégias anteriormente utilizadas na escola e os resultados obtidos com elas. dessa forma, ele estará melhor informado para decidir os melhores modos de atuação dentro daquela realidade educacional. Referência bibliográfica Para que fiquem registrados todos os saberes teóricos acionados por você no desenvolvimento do plano, registre todas as referências bibliográficas utilizadas. Assim você dá o devido crédito aos autores consultados e permite que qualquer pessoa que consulte seu plano possa reconstruir o trajeto intelectual que você percorreu para chegar às suas conclusões. Anexos nos anexos, você pode incluir os Planos de Ação que desenvolveu para os problemas específicos, bem como os modelos de fichas e relatórios e roteiros de entrevistas que serão utilizados no desenvolvimento do trabalho. Fonte: Elaboração da autora com dados de gIACAglIA; PEntEAdO, 2015, p. 108-112. 60 AulA 4 • AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO Avaliar a ação Como vimos anteriormente, a avaliação é um processo cíclico que deve ser implementado ao longo de todo o desenvolvimento o projeto de ação e ao final deste. assim, é possível perceber ao longo do caminho se existem pontos a serem replanejados para potencializar os resultados ou corrigir eventuais desvios com relação às metas e aos objetivos que se pretendam alcançar. neste estágio do tratamento eficiente das questões específicas da realidade escolar na qual atua o orientador educacional e pedagógico, é possível que o profissional se dê conta de que a dificuldade em solucionar determinado problema está atrelada à sua própria incapacidade em encontrar saídas para ele. nesta situação, é necessário retornar à fundamentação do trabalho, para verificar se existe algum elemento desta etapa que pode explicar a dificuldade na obtenção de resultados. analise se o orientador educacional é de fato a pessoa mais indicada para a solução deste problema e se ele faz parte de suas atribuições. Investigue se existe algum equipamento ou estrutura que pode ser adquirido para o Soe que auxilie na solução da questão. Por fim, e mais importante, retome seus estudos a respeito da problemática enfrentada, para pesquisar possíveis soluções anteriormente bem-sucedidas nesta área, ou discussões teóricas que o auxiliem a desenvolver uma saída inovadora para o problema. dar visibilidade aos resultados ao final do desenvolvimento e da avaliação de uma ação específica de orientação educacional, é importante a redação de um relatório no qual sejam apresentados os resultados obtidos. essas informações serão importantes para futuras consultas, seja na resolução de um problema semelhante ou na tentativa de utilizar as mesmas ferramentas e técnicas no enfrentamento de outras questões. Considerando que o progresso da ciência acontece a partir do momento em que o pesquisador se respalda no trabalho e nos resultados anteriormente obtidos por outros profissionais da área, é importante que as informações a respeito de determinado projeto não se percam. tenha sido ele bem ou malsucedido, as orientações de conduta e metodologias empregadas, quando defrontadas com os resultados obtidos, servem de fundamentação para novos planejamentos. ressalta-se, ainda, que, ao dar visibilidade ao trabalho desenvolvido pelo Serviço de orientação Vocacional, você estará contribuindo para tornar esta área mais interessante e compreensível para os demais membros da comunidade escolar. Como defende Lück (2015): os orientadores educacionais não se preocupam em demonstrar, objetiva e claramente, o significado da orientação educacional, o sentido de seu trabalho na escola, as perspectivas da ação que ela mantém, os resultados que promove e a relevância de suas atuações para o projeto pedagógico escolar. em síntese: se 61 AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO • AulA 4 o esforço e o seu resultado não são conhecidos, eles não são valorizados (LÜCK, 2015, p. 57). É importante, dessa forma, não perder a oportunidade de aproximar a comunidade escolar do trabalho desenvolvido pelo Soe, para que haja o entendimento dentro da equipe daquilo que está sendo realizado em prol dos alunos. estes, por sua vez, ao perceberem os bons resultados obtidos no trabalho acompanhando pelo orientador, possivelmente se sentirão mais estimulados a procurar o auxílio do setor de orientação para tirar dúvidas, buscar aconselhamento e soluções para o seu problema. Saiba mais existem atualmente diversas premiações para projetos inovadores na área de orientação educacional e Pedagógica. o evento “educador nota 10”, da Fundação Victor Civita, é um bom exemplo de premiação para projetos bem-sucedidos que tenham sido desenvolvidos por diretores, coordenadores pedagógicos e orientadores educacionais de educação Infantil, de 1º ao 9º ano do ensino Fundamental e de ensino médio (incluindo educação de Jovens e adultos – eJa). Veja abaixo alguns projetos premiados que poderão servir de inspiração para suas atividades. nem todos foram desenvolvidos exclusivamente pelo Serviço de orientação educacional, mas indicam de que forma um bom projeto elaborado pela equipe gestora pode atingir resultados surpreendentes. Edição: 2013 Profissional: Janaina oliveira Barros escola: em Professora Ivani oliveira Cidade: Seabra, Ba Projeto: narrativas do professor que ensina e aprende na escola a avaliação foi o foco do projeto de formação desenvolvido por Janaina oliveira Barros com os docentes da em Professora Ivani oliveira, em Seabra, a 456 quilômetros de Salvador. a equipe refletiu sobre os baixos índices de acertos verificados nos diagnósticos feitos no início do ano e, ao longo de um semestre, reviu suas práticas. encontros de planejamento e oficinas de estudos foram pautados pela análise do que estava no caderno dos alunos e, com base nisso, o que poderia estar nas provas. Edição: 2012 Profissional: débora del Bianco Barbosa Sacilotto escola: emeF Francisco Cardona Cidade: artur nogueira, SP Projeto: a vez e a voz dos alunos Pensadas para reduzir a indisciplina, as assembleias de classe mediadas por professores acabaram se transformando em um grande processo de democratização da gestão na emeF Francisco Cardona, em artur nogueira, a 142 quilômetros de São Paulo. a diretora, débora del Bianco Barbosa Sacilotto, esperava que a ideia da professora ariane tagliaferro molina evitasse que os alunos fossem mandados à sua sala. no entanto, uma vez aberto o canal de comunicação, as inquietações trazidas por eles foram além dos conflitos com colegas: questões como o excesso de ruído nos corredores, o destrato por parte de uma funcionária, o desperdício de alimentos e a falta de materiais estavam entre as queixas. débora, então, mobilizou a comunidade escolar e a rede de ensino para atender às demandas. Como resultado, foram providenciados colchonetes novos para a aula de educação Física, talheres, como garfo e faca, para as refeições, a reforma das torneiras e muito mais. os professores passaram a incentivar as assembleias semanais com os alunos. e débora introduziutambém reuniões semelhantes para os docentes, que têm a oportunidade de expor suas críticas e sugestões nesses encontros. 62 AulA 4 • AS AtIvIdAdES ESPECíFICAS dO ORIEntAdOR EduCACIOnAl E PEdAgógICO Edição: 2009 Profissional: amarildo reino de Lima escola: CeF 427 Cidade: Samambaia, dF Projeto: a hora é essa o diretor amarildo reino de Lima e sua equipe decidiram enfrentar a distorção idade-série buscando a aprendizagem de todos. o quadro era alarmante: 400 dos cerca de mil alunos estavam fora da turma adequada para a idade. após um diagnóstico inicial, os estudantes defasados foram agrupados em turmas de aceleração. Para atender à demanda, os professores criaram currículos enxutos e específicos, além de mudarem a forma de avaliar e dar aulas. o resultado veio em um ano e de forma consistente: mais de 90% dos estudantes das classes de aceleração foram aprovados. Edição: 2011 Profissional: maria Inês miqueleto escola: ee Professora maria aparecida dos Santos oliveira Cidade: Ibitinga, SP Projeto: Instrumentos de acompanhamento das aprendizagens dos alunos Para garantir a aprendizagem dos alunos, a coordenadora pedagógica desenvolveu uma proposta de acompanhamento das aprendizagens das turmas. o objetivo era fazer com que a escola atingisse a meta de 4,58 nas séries iniciais do ensino Fundamental, no Índice de desenvolvimento da educação no estado de São Paulo (Idesp), de 2010. Para tanto, ela usou como instrumentos de avaliação os dados dos diagnósticos em Língua Portuguesa e matemática, a observação de sala de aula e os resultados dos simulados do Saresp para implementar a formação de professores. Edição: 2015 Profissional: diego mahfouz Faria Lima escola: escola municipal darcy ribeiro Cidade: São José do rio Preto, SP Projeto: minha escola: reconstrução coletiva o diretor abraçou o desafio de transformar uma escola que era noticiada nos jornais locais e televisivos como a mais violenta, com as piores notas nas avaliações, com as maiores taxas de evasão e repetência escolar da cidade e da região, deixando os pais receosos em realizar a matrícula dos filhos. ao longo de um ano e quatro meses, ele conseguiu modificar o clima escolar, iniciando com uma grande reforma, contando com doações e ajuda de membros da comunidade escolar. depois, professores, pais, funcionários, alunos, o Conselho escolar e a associação de Pais e mestres foram convidados a elaborar coletivamente normas escolares para serem discutidas com os alunos. a gestão democrática mudou a forma como todos enxergam a instituição. nos finais de semana, acontece o Projeto Camerata Jovem Beethoven, que ensina gratuitamente música clássica aos alunos e a outros interessados, além de aulas de artes plásticas e práticas esportivas. a escola passou a ser reconhecida pela comunidade como pertencente, conservando-a e ajudando em sua manutenção. 63 Introdução Considerando que a orientação Vocacional (oV) e a orientação educacional e Pedagógica (oeP) sempre caminharam lado a lado, nesta quinta aula de nossa disciplina nos dedicaremos a uma discussão introdutória sobre a orientação vocacional. daremos início a essa reflexão desconstruindo a naturalidade da possibilidade de escolha e contextualizando historicamente os processos pelos quais se tornou possível decidir a profissão a seguir. discutiremos também os principais aspectos da orientação vocacional desenvolvida no ambiente escolar, analisando o importante papel ocupado pela instituição de ensino e seus personagens para a tomada de decisão profissional do indivíduo. Objetivos » discutir a importância da escolha profissional, contextualizando-a historicamente. » refletir a respeito da orientação vocacional desenvolvida nos dias de hoje, salientando sua relação com o conceito pós-moderno de identidade. » debater a orientação vocacional dentro do contexto educacional, salientando o fato de a escola ser um ambiente propício à oV. » analisar o papel desempenhado pelos diversos personagens da vida escolar sobre a tomada de decisão do sujeito a respeito da carreira. 5 AulA ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO 64 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO A importância da escolha profissional na sociedade em que vivemos, a importância da escolha profissional torna-se cada vez mais evidente, porque, se no princípio o trabalho garantia a sobrevivência do indivíduo e de sua família, com a crescente especialização de tarefas, o trabalho desenvolvido por uma única pessoa se tornou indispensável à sobrevivência de toda a sociedade. em outras palavras, é possível dizer que, enquanto professora, eu me dedico com exclusividade à minha tarefa, porque tenho a confiança de que outras pessoas estão se empenhando com exclusividade para a produção de alimentos, a confecção de vestimentas e sapatos, a descoberta de novas curas para as doenças que possam me afligir, entre tantas outras atividades sem as quais eu mesma não poderia viver. da mesma forma, estes profissionais se dedicam às suas atividades, pois têm certeza de que pessoas como eu garantirão a educação formal de seus filhos e deles mesmos. essa divisão de tarefas gera a interdependência social que garante a sobrevivência de toda a comunidade, mas, para que isso ocorra de forma eficiente, é preciso que cada um esteja sinceramente comprometido com a sua parte. neste ponto, a orientação vocacional apresenta seu importante papel social, à medida que contribui para que as pessoas descubram aquelas atividades com que mais se identificam, e nas quais, por consequência, seus resultados serão os melhores possíveis para todos nós. no que diz respeito aos aspectos subjetivos do trabalho, podemos dizer que a identidade profissional de uma pessoa representa, também, uma porção significativa de sua identidade pessoal, pois a vida profissional do sujeito define boa parte da vida que ele levará fora do trabalho. Quando o indivíduo decide o que fará profissionalmente, ele está definindo também o estilo de vida que terá, as atividades sociais que desempenhará e o tipo de pessoas com as quais se relacionará. Como podemos ver através do exemplo apresentado por mariza Lima (2007): alguém que opte por fazer medicina terá certamente que se submeter a plantões e atendimentos em horários não convencionais, trabalhará especialmente em ambientes hospitalares, terá que conviver com a doença e aprender a se deparar com a morte com maior frequência que outro tipo de profissional; conviverá ainda, principalmente, com outros profissionais da área de saúde e viajará para participar de congressos, entre outras coisas (LIma, 2007, p. 30). outro fator a ser considerado diz respeito à saúde mental do sujeito que, em certa medida, está diretamente relacionada aos sentimentos de prazer e de realização pessoal que ele é capaz de extrair das atividades que desempenha cotidianamente. estes sentimentos o auxiliam a dar um sentido de coerência à sua própria vida e a ver como significativo aquilo que faz. Quando visto apenas como recurso de sobrevivência, o trabalho não prazeroso passa a comprometer a saúde 65 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 mental do indivíduo, podendo inclusive comprometer a sua saúde física. Como afirma Fernando mello (2002): Uma inadequada – e portanto empobrecedora – escolha vocacional vai gerar ao longo da carreira profissional uma constante ou crescente sensação de desprazer, um sentimento de frustração intermitente ou permanente. essa frustração psicoafetiva abre caminho para o estresse, para repercussões psicossomáticas que podem comprometer a saúde mental (meLLo, 2002, p. 12). dessa forma, é possível dizer que uma escolha vocacional bem-sucedida é importante tanto para o bem-estar do sujeito, que se realizará pessoalmente por meio de sua atividade profissional, quanto para o bem-estar da sociedade, que usufruirá dos melhores resultados garantidos por um trabalho bem feito e comprometido. Contudo, apesar da importância da escolha profissional e pormais natural que ela nos pareça nos dias de hoje, nem sempre nos foi possível decidir o tipo de atividade à qual iríamos nos dedicar ao longo da vida. Por isso, é fundamental para a compreensão da atividade de orientação vocacional que aquele que se dedica a esta tarefa reflita sobre as condições que garantiram ao sujeito de nossos tempos a possibilidade de escolha. Reflexões sobre a possibilidade de escolha o trabalho sempre fez parte da vida do homem em sociedade e, no princípio dos tempos, estava estreitamente associado à necessidade de sobrevivência. os homens em seus grupos locais próximos, geralmente baseados no parentesco, aliavam-se para prover o sustento, o abrigo e a proteção contra a violência da natureza e dos demais grupos humanos. neste tipo de organização social mais simples, os homens viviam e trabalhavam em prol da comunidade e a divisão do trabalho era muito rudimentar, separando apenas as tarefas destinadas aos homens das tarefas próprias das mulheres. Com o passar do tempo e a complexificação das sociedades, passaram-se a definir também as atividades destinadas aos nobres e aquelas destinadas aos plebeus. este era um artifício importante para impedir a mobilidade social, mantendo, assim, a estrutura da sociedade inalterada. dentro desse modelo, estava garantido que todo filho de nobre seria nobre e se dedicaria a atividades restritas à sua classe social como a guerra, a caça esportiva e a cavalaria, enquanto os filhos de plebeus se manteriam plebeus, servindo à nobreza, trabalhando nos campos ou em qualquer outra atividade braçal. na baixa Idade média, contudo, a produção familiar deixou de ser autossuficiente, pois não era mais possível trabalhar nos campos e simultaneamente produzir para seu uso pessoal produtos como tecidos, instrumentos de trabalho, utensílios domésticos, entre outros. assim, alguns sujeitos, com a permissão de seus senhores, passaram a se especializar na produção artesanal de determinados produtos, como roupas, sapatos, armas e utensílios variados, dando origem aos primeiros profissionais liberais e aos primeiros comerciantes. 66 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO Contudo, é importante ressaltar que, mesmo que a possibilidade de escolha profissional tenha surgido neste momento da história, ela só alcançava um número muito reduzido de pessoas e não se estendia aos seus descendentes. nessa época, o que existia eram empresas familiares em que todos os membros da família deviam trabalhar juntos para vender produtos nos mercados e perpetuar o ofício familiar. assim, da mesma forma que o filho de nobre seria nobre e o filho de plebeu seria plebeu, o filho do ferreiro seria ferreiro e o filho do alfaiate também se tornaria um alfaiate. de acordo com norbert elias (1994), é apenas quando as funções relativas à proteção e ao controle deixam de estar nas mãos dos pequenos grupos, como a família, o feudo ou a paróquia, e se tornam responsabilidade dos estados, cada vez mais centralizados e urbanizados, que o indivíduo pode começar a se desprender das escolhas predefinidas para tomar suas próprias decisões. nas palavras do autor: Seu envolvimento com a família, o grupo de parentesco, a comunidade local e outros grupos dessa natureza, antes inescapável pela vida inteira, vê-se reduzido. elas têm menos necessidade de adaptar seu comportamento, metas e ideais à vida de tais grupos, ou de se identificar automaticamente com eles. dependem menos deles no tocante à proteção física, ao sustento, ao emprego, à proteção de bens herdados ou adquiridos, ou à ajuda, orientação e tomada de decisão. Isso acontece, a principio, em grupos limitados e especiais, mas se estende gradativamente, ao longo dos séculos, a setores mais amplos da população, até mesmo nas áreas rurais. e, à medida que os indivíduos deixam para trás os grupos pré-estatais aparentados, dentro de sociedades nacionais cada vez mais complexas, eles se descobrem diante de um número crescente de opções. mas também têm que decidir muito mais por si. não apenas podem como devem ser mais autônomos. Quanto a isso, não têm opção (eLIaS, 1994, p. 102). dentro desse processo gradativo, em que os indivíduos se afastaram das decisões preestabelecidas pelo grupo e se tornaram cada vez mais autônomos, mariza Lima (2007) destaca dois momentos fundamentais que possibilitaram o surgimento da orientação Vocacional: a revolução Francesa e a revolução Industrial. A Revolução Francesa a revolução Francesa foi um conjunto de acontecimentos que se desenrolaram no final do século XVIII, e que tiveram o poder e o alcance de transformar o mundo de forma definitiva. esta revolução pôs fim ao regime absolutista e possibilitou que o capitalismo se consolidasse, lançando, assim, as bases do mundo em que vivemos atualmente. no antigo regime, a sociedade francesa era juridicamente dividida em três ordens ou estamentos sociais: o clero, a nobreza e o restante da população, que incluía a burguesia, os camponeses e os sans-culotte. 67 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 Liderado pela burguesia, este terceiro estamento social deu início à revolução com o objetivo de acabar com os privilégios de nascimento da nobreza, que impediam a mobilidade social. Seu lema era “liberdade, igualdade e fraternidade”, que culminou com a declaração dos direitos do Homem e do Cidadão em 1789. essa conquista é fundamental para o surgimento da orientação vocacional, mesmo que ela só tenha acontecido de fato muito tempo depois, pois, com o fim dos direitos de nascimento e a maior liberdade de escolha dos cidadãos, surge com a revolução Francesa a possibilidade de que o indivíduo decida a sua própria profissão. Revolução Industrial a partir de 1750, desenvolveu-se na europa um processo de grandes transformações socioeconômicas, que influenciaram profundamente a vida de milhões de pessoas em quase todas as regiões do planeta. esse processo ficou conhecido como revolução Industrial, pois, a partir dele, as pequenas oficinas dos artesãos foram sendo substituídas pelas fábricas, as ferramentas perderam seu lugar para as máquinas e as tradicionais fontes de energia como a água, o vento, a força muscular e a tração animal deram lugar ao carvão e à eletricidade. essa transição de uma economia agrária para uma economia industrial surtiu efeito principalmente sobre o mundo do trabalho, pois as fábricas modernas exigiam uma mão de obra cada vez maior, que devia estar preparada para desempenhar as atividades apresentadas pelo novo modo de produção. neste período, surge, também, maior especialização do trabalho que faz com que um único indivíduo não seja mais responsável por todo o processo de produção de determinado bem, mas seja especialista em uma das etapas deste processo. Isso fez com que se ampliasse consideravelmente o número de ocupações existentes, tornando, assim, a escolha profissional mais difícil. Breve Histórico da Orientação vocacional a história da orientação vocacional até os dias de hoje pode ser dividida em dois momentos principais, que se distinguem fundamentalmente pelo foco dado à orientação. no primeiro momento, que perdurou até a década de 50, a preocupação da orientação vocacional estava nas características da profissão, e seu objetivo era, mediante o método estatístico-psicométrico, identificar o homem certo para ocupar determinado cargo. Saiba mais estavam enquadrados na categoria sans-culotte artesãos, aprendizes de ofícios, assalariados e desempregados marginalizados, ou seja, toda a camada social urbana. eles receberam esse nome, porque a nobreza da época utilizava um tipo de calça justa denominada culotte, enquanto o povo vestia calças largas. daí o nome sans- culotte, que quer dizer literalmente “sem culotte”. 68 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO a partir da década de 50, no entanto, o foco da orientação vocacional se transferiu das características da profissão para as necessidades e expectativas do próprio indivíduo,e seu objetivo passou a ser, mediante o método clínico-operativo, auxiliá-lo a encontrar a profissão que melhor se adequaria a ele. O método estatístico-psicométrico Como vimos anteriormente, a revolução Francesa fez surgir a possibilidade de escolha profissional, ao passo que a revolução Industrial ofereceu um novo leque de opções profissionais para serem escolhidas. Por meio da combinação desses dois fatores, foram criados os primeiros serviços de orientação vocacional. em 1908, Frank Parsons fundou em Boston, nos estados Unidos, o Serviço de orientação Profissional na associação Cristã de moços, primeiro Centro de orientação Profissional oficialmente reconhecido. a partir das experiências ali desenvolvidas, Parsons publicou, em 1909, as bases de seu modelo de orientação profissional que se pautava na combinação harmônica das aptidões e características do indivíduo com as exigências específicas da ocupação. nos anos seguintes, foram criados por toda a europa escritórios de orientação profissional semelhantes ao de Parsons, como o de Binet na França, o de Claparède na Suíça, o de myra y Lopes na espanha, o de meyers na Inglaterra e o de Gemelli na Itália. no ano de 1917, com o início da participação dos estados Unidos na 1ª Guerra mundial, tornou-se fundamental selecionar homens para o exército norte-americano. Com esse objetivo, foi iniciada a aplicação dos testes coletivos de inteligência Army Alfa e Army Beta, cujos resultados levaram à composição do “Informes da academia nacional de Ciências”, o primeiro trabalho publicado a analisar as diferentes aptidões vocacionais a partir dos traços de inteligência. ao longo da década de 30, durante a recessão que assolou o mundo, e principalmente os estados Unidos, o nível de desemprego chegou a um ponto alarmante e, na tentativa de minimizar o problema, o Instituto de Investigação para a estabilização de desempregos de minnesota deu início a um programa de escolha e adaptação vocacional, no qual uma equipe de psicólogos se dedicou a desenvolver novos testes de aptidões profissionais. ainda durante esse período de crise econômica, foi organizado, em 1933, o Serviço de empregos dos eUa, com o objetivo de funcionar como uma “bolsa de empregos”, que procurava estabelecer um equilíbrio entre a oferta e a procura de trabalho. Para que isso fosse possível, uma série de medidas tiveram de ser tomadas, entre elas a investigação das necessidades apresentadas pelos cargos e as características necessárias para que os candidatos preenchessem essas vagas de forma adequada. tais investigações forneceram informações preciosas para que os testes se tornassem ainda mais completos e específicos. 69 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 Posteriormente, com a participação dos eUa na 2ª Guerra mundial, mais uma vez se fez necessário selecionar e classificar homens para as forças armadas. essa necessidade fez com que a orientação vocacional crescesse rapidamente na tentativa de verificar quais as capacidades e as principais aptidões que cada um possuía e quais os requisitos que uma ocupação exigiria para que esta escolha fosse a mais adequada. É importante notar que, até este ponto, o principal interesse da orientação vocacional estava centrado nas características da ocupação e seu objetivo não era encontrar a tarefa que melhor se adequasse a determinado indivíduo, mas encontrar o candidato que melhor preencheria determinada vaga de emprego. Como bem define Pimenta (1993, p. 24), “a preocupação não era com as aptidões individuais (com o indivíduo), mas com a identificação destas, para que o indivíduo pudesse ser colocado (selecionado) nos lugares onde seria mais produtivo”. Sendo assim, podemos dizer que, até a década de 50, não é possível falar em orientação vocacional, e sim em determinismo vocacional. o método utilizado então era o estatístico-psicométrico, que defendia que as aptidões eram inatas e que bastaria criar instrumentos psicométricos precisos (testes) para identificar essas aptidões e colocar o homem certo no lugar certo. dentro desse projeto, o indivíduo não tinha qualquer participação em sua escolha profissional. O método clínico-operativo Com o final da 2ª Guerra mundial, a orientação vocacional passou a ser vista a partir de um novo enfoque, que colocava em segundo plano os testes psicométricos que até então tinham sido o ponto central desta prática, e passava a considerar com maior cuidado as características subjetivas do indivíduo durante seu processo de escolha. Um dos maiores incentivadores para essa transformação foi Carl rogers e sua “terapia Centrada no Cliente”, que defendia que o processo psicoterapêutico deveria ser constituído por um trabalho de cooperação entre o psicólogo e o cliente, para, dessa forma, liberar, por meio de técnicas facilitadoras, o potencial de crescimento que toda pessoa possui. Uma das ideias mais importantes na obra de rogers é a de que a pessoa é capaz de controlar seu próprio desenvolvimento e de que isso ninguém mais pode fazer por ela. Baseando-se nesta nova tendência da psicologia, no início da década de 50, eli Ginzberg e seus colaboradores começaram a formular a teoria desenvolvimentista, que definia a escolha vocacional como um processo de desenvolvimento que se iniciava no final da infância e só chegava ao fim na idade adulta. esta nova teoria mudou completamente os rumos da orientação vocacional, pois, no lugar de enxergar a escolha vocacional como um dado fixo que bastava ser mensurado, ela definia esta escolha como um processo contínuo que deveria ser identificado e compreendido. a orientação vocacional de nossos tempos começa a ser delineada justamente neste momento em que o foco de suas preocupações se desloca das características da ocupação para as 70 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO características do sujeito, tendo como principal elemento o método clínico-operativo, que visava a instrumentalizar o indivíduo para a escolha. de acordo com esse método, a orientação vocacional é um processo no qual o orientador escuta e dialoga com seu cliente para ajudá-lo a “escutar-se e a dialogar consigo mesmo, promovendo a reflexão e elaboração de suas questões” (LIma, 2007, p. 18). ainda de acordo com Lima (2007), é possível afirmar que a orientação vocacional, segundo o método clínico-operativo, possui quatro objetivos específicos, que devem ser o foco de preocupação de qualquer um que se dedique a esta tarefa: » promover o autoconhecimento; » promover o conhecimento das oportunidades ocupacionais; » preparar para a tomada de decisão em relação à escolha profissional; » evitar o gasto desnecessário de tempo, energia e dinheiro oriundos de uma escolha profissional malfeita. assim, podemos dizer que, onde antes se praticava o determinismo vocacional, no qual o orientador direcionava a escolha do indivíduo, temos agora a verdadeira orientação, ou aconselhamento vocacional. Sob esse enfoque, o papel do orientador vocacional passou a ser ajudar o orientando a conhecer a si mesmo e as diversas possibilidades de escolha que ele possui, com vistas a tomar uma decisão consciente e responsável. A Orientação vocacional nos dias de hoje no final do século XX, a maioria dos cientistas sociais percebeu uma mudança considerável nas sociedades ocidentais, que fez com que o momento histórico em que vivemos passasse a ser conhecido como pós-modernidade. o ritmo acelerado do crescimento científico, a aproximação de pessoas e culturas em todo o mundo por intermédio das novas tecnologias de comunicação, o desenvolvimento vertiginoso da informática e a reorientação econômica do sistema político mundial ocasionaram uma transformação significativa, tanto na relação entre os estado, quanto na mente dos indivíduos. neste contexto, a questão da identidade pessoal vem sendo extensamente discutida na teoria social com base no argumento de que, com as transformações advindas da pós-modernidade, a identidade, que anteriormenteera vista como algo fixo, que acompanhava o sujeito do nascimento até a sua morte, teriam entrado em declínio dando lugar a um novo tipo de identidade que possui as seguintes características: » Múltipla: o indivíduo não possui mais uma única identidade que se mantém permanentemente inalterada, mas diversas identidades que são construídas e reconstruídas ao longo da vida; 71 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 » Relacional: a identidade se constrói na interação que se estabelece com os outros; » Contextual: as múltiplas identidades de uma pessoa se manifestam alteradamente de acordo com o contexto específico em que estão inseridas. Uma mesma pessoa, por exemplo, pode ser liberal e flexível no ambiente de trabalho, ao relacionar-se com seus funcionários, e extremamente rígido e autoritário no ambiente doméstico, ao lidar com seus filhos; » Dinâmicas: estas identidades são constantemente construídas e reconstruídas, sem nunca serem formadas definitivamente; » Incoerentes: as múltiplas identidades de um indivíduo não precisam ser necessariamente coerentes entre si. Como vimos no exemplo de contextualidade, flexibilidade e inflexibilidade, que são características antagônicas, podem estar presentes em uma mesma pessoa. Segundo Stuart Hall (2004), as mudanças estruturais e institucionais ocorridas na pós-modernidade fizeram com que “as identidades que compunham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as “necessidades” objetivas da cultura” (HaLL, 2004, p. 12) entrassem em colapso. em decorrência disso, o próprio processo de identificação do sujeito com as múltiplas identidades culturais se tornou provisório, variável e problemático. Para Hall, com a multiplicação dos sistemas de significação e representação cultural, os indivíduos se depararam com uma gama imensa e desconcertante de identidades possíveis com as quais podem se identificar, mesmo que seja de forma temporária. assim, (...) a identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas (HaLL, 2004, p. 12-13). Um dos elementos que mais contribuíram para a multiplicidade que encontramos nos dias de hoje é a possibilidade de escolha oferecida pela pós-modernidade. Como vimos no início desta aula, a orientação vocacional está diretamente relacionada à possibilidade de escolha presente em uma dada sociedade, e na pós-modernidade essa possibilidade alcançou seu ponto mais alto. Como salienta o autor Colin Campbell (2006), a ênfase dada nos dias de hoje ao individualismo e à ideologia a ele associada, fez surgir todo um aparato ideológico e legal, que transformou o sujeito no ponto central das instituições e das situações, fazendo com que a sociedade opere de acordo com vontades e não mais de necessidades, ou seja, aquilo que importa é o que a pessoa quer ou deseja, e não aquilo de que ela necessita. 72 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO este é um fator importante, pois transfere toda a responsabilidade da escolha ao próprio indivíduo. Lembre-se de que os especialistas das diversas áreas de nossas vidas, como médicos, advogados, economistas, professores, podem nos dizer o que nós precisamos para atingir determinado resultado, mas nenhum deles pode nos dizer o que nós queremos e desejamos. esta é uma escolha profundamente pessoal. Orientação vocacional e educação no Brasil, a história da orientação vocacional sempre esteve profundamente ligada à educação e ao ambiente escolar. no início, seu fundamento básico era a Psicologia aplicada que ganhava cada vez mais espaço no país, mas, em pouco tempo, seu principal lócus de atuação se tornou as escolas, onde as teorias psicológicas passaram a dialogar largamente com a pedagogia e a orientação educacional. Um bom sinalizador desta tendência é o fato de a orientação Vocacional em nosso país ter-se desenvolvido em um período em que o Brasil passava a se preocupar cada vez mais com a educação voltada para o trabalho, criando iniciativas voltadas ao ensino profissional. Basta lembrar que seu grande marco fundador foi a criação do Serviço de Seleção e orientação Profissional destinado aos alunos do Liceu de artes e ofícios de São Paulo (SParta, 2003). esta instituição “era uma das poucas escolas que procuravam atender às exigências da produção fabril, oferecendo ensino de tornearia mecânica e de eletricidade (aranHa, 2006, p. 308). a formação desta união entre orientação Vocacional e escola aconteceu em 1942, durante a ditadura Vargas, quando o então ministro da educação, Gustavo Capanema, promulgou as leis orgânicas do ensino, também conhecidas como reforma Capanema. Com isso, tornou-se obrigatória a atividade de orientação nas unidades escolares e foi atribuída ao orientador educacional a tarefa de auxiliar os estudantes a escolherem suas futuras profissões. em 20 de dezembro de 1996, no entanto, através da Lei nº 9.394, a escola perdeu seu caráter profissionalizante, sem, contudo, deixar de lado o ideal de preparar o indivíduo para o mercado de trabalho. a principal mudança, nesse sentido, diz respeito à visão de trabalho muito mais ampla, que não leva em conta apenas a preparação técnica do aluno para o desempenho de uma atividade profissional específica e sim toda a formação moral e ética necessária ao desempenho cidadão e responsável de qualquer atividade profissional. Vejamos como exemplo dessa preocupação uma das finalidades estabelecidas pela LdB de 1996 para o ensino médio: II. a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores. 73 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 Como demonstra essa passagem, a preocupação para o ensino médio deixou de ser preparar o aluno para desempenhar uma atividade específica, passando a ser orientá-lo a se mover com desenvoltura no mercado de trabalho, independente da profissão escolhida. em alguns aspectos, essa transformação trouxe grandes perdas, principalmente para as camadas mais populares que tiravam proveito do caráter profissionalizante do ensino médio e hoje são obrigados a recorrer a instituições específicas para a profissionalização. no entanto, como salienta mônica Sparta (2003), tal mudança de foco na organização da educação brasileira foi extremamente benéfica no que diz respeito à orientação vocacional dos alunos, por permitir a criação de uma série de novos projetos nesta área, integrados ao próprio currículo da escola. nas palavras da autora, esta ideia está em conformidade com a tendência internacional dos programas de educação de Carreira, programas de cunho pedagógico realizados pela escola que pretendem capacitar os estudantes para a transição entre a escola e o mundo do trabalho dentro de uma nova ordem socioeconômica mundial (SParta, 2003, p. 7). essa nova ordem socioeconômica mundial citada por Sparta é responsável pela criação de um mercado de trabalho cada vez mais diversificado, competitivo e cheio de especificidades, para as quais o indivíduo que entra na vida adulta deve estar preparado. Isso leva a uma necessidade premente de instrumentalizar este jovem em vias de escolher a sua ocupação profissional, para que ele possa tomar esta decisão de forma mais consciente e responsável possível. Por que fazer isso nas escolas? o que torna o ambiente escolar propício a esse debate sobre a escolha profissional? A escola enquanto ambiente propício a Orientação vocacional Quandofalamos sobre a importância da orientação Vocacional na escola, não estamos nos referindo exclusivamente a um espaço físico, mas, também, a um espaço social que, em certa medida, reproduz os principais aspectos da sociedade a que pertence. Como defende nelson Piletti, a escola não está isolada em relação à comunidade em que está inserida. a escola é, até certo ponto, reflexo das condições e das exigências estabelecidas pela sociedade, em seu sentido mais amplo, e pela comunidade, no sentido mais restrito (PILettI, 2003, p. 252). a escola é o local onde são feitos os primeiros contatos fora da família, as principais interações com crianças da mesma idade, bem como a introdução do indivíduo a uma série de regras e normas sociais que orientarão sua conduta ao longo de toda a vida. de acordo com Claude rivière (1997), existe no cotidiano escolar uma variedade de ritos importantes que auxiliam na construção da identidade e das práticas cotidianas do indivíduo, como os ritos de chegada e saída, o controle do tempo, os ritos de ordem, a organização das atividades, a familiarização com o conteúdo das disciplinas e tantos outros elementos de socialização que, 74 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO depois de interiorizados pelo indivíduo, passarão a nortear a forma como ele interage com o mundo à sua volta, bem como a percepção que ele possui de si mesmo. Pense a respeito dos diversos ritos presentes na sua escola e tente pensar sobre as formas como esses elementos preparam o aluno para a vida em sociedade. Você vai ver que tudo o que acontece no interior da escola pode ser transportado para o cotidiano fora dela! no que diz respeito ao desenvolvimento cognitivo, devemos levar em consideração a teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner (1995), de acordo com a qual todos os indivíduos possuem diferentes tipos de inteligência que estão ligadas, cada uma delas, a diferentes áreas do cérebro. Segundo o autor, existe uma certa dominância de umas inteligências em relação às outras, que faz com que cada pessoa possua um endereçamento cognitivo distinto, ou seja, um arranjo específico destas inteligências. neste sentido, o papel da escola é de fundamental importância no processo de desenvolvimento cognitivo do sujeito, pois é o local privilegiado para que ele desenvolva e estimule suas inteligências, identificando aos poucos aquelas atividades e disciplinas nas quais não só tem um bom desempenho como também se sente realizado ao desenvolvê-las. além dos aspectos biopsicológicos relevantes para o desenvolvimento do indivíduo, devemos considerar também a importância dos aspectos sociais presentes no cotidiano escolar que colaboram para o pleno desenvolvimento do aluno. Como ressalta Yves de La taille (1992): [...] o homem é um ser essencialmente social, impossível, portanto, de ser pensado fora do contexto da sociedade em que nasce e vive. em outras palavras, o homem não social, o homem considerado como molécula isolada do resto dos seus semelhantes, o homem visto como independente das influências dos diversos grupos que frequenta, o homem visto como imune aos legados da história e da tradição, este homem simplesmente não existe (La taILLe, 1992, p. 11). de acordo com o pensamento de Vygotsky (La taILLe, 1992), mesmo enquanto espécie biológica, o ser humano só se desenvolve no interior de um grupo social. de acordo com o autor, mesmo que o desenvolvimento psicológico do indivíduo possua bases biológicas, ele só se dá na interação com o outro, momento em que vários processos neuronais são postos em movimento, produzindo, assim, o desenvolvimento mental. Partindo dessa reflexão, torna-se visível a importância tanto dos fatores biopsicológicos quanto dos fatores socioculturais na escolha vocacional do sujeito, pois é a interação deles que produz o conhecimento e a interpretação que o indivíduo faz do mundo ao seu redor. Por isso, a subjetividade e o pertencimento social do orientando devem ser considerados, ao longo do processo de orientação, de forma equilibrada e conectada, para que ele possa refletir sobre todos os aspectos de sua vida e tomar uma decisão mais consciente e realista. 75 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 assim sendo, podemos dizer que a importância da escola está justamente no fato de ela ser um espaço que incentiva simultaneamente a autodescoberta e a integração social do aluno. em outras palavras, a escola é um ambiente que abarca as duas dimensões da escolha vocacional: a subjetiva e a social. O papel de cada personagem do ambiente escolar na escolha vocacional do sujeito a escolha vocacional não é orientada por um único fator. apesar da importância dos aspectos psicológicos e subjetivos, não podemos desconsiderar que o homem é um ser social, que interage constantemente com uma imensa quantidade de informações que chegam a ele por diversos meios. através da família, da mídia, dos colegas e dos professores, o jovem recebe informações, dados e opiniões variadas que colaboram para que ele forme o seu próprio juízo sobre as diversas opções de escolha que se apresentam a ele. tendo definido a importância da escola ao influenciar tanto os aspectos sociais quanto os subjetivos da escolha vocacional, torna-se fundamental estabelecer de que forma cada um dos personagens presentes no ambiente escolar são significativos para a tomada de decisão do indivíduo. Os colegas Com base nos estudos de arnold Van Gennep (1997) sobre os ritos de passagem, é possível dizer que este momento de ruptura existente entre a infância e a idade adulta pode ser visto como um estado de liminaridade, em que não se é jovem o suficiente para manter algumas das regalias reservadas às crianças, mas ainda se é muito jovem para usufruir de determinados benefícios próprios da idade adulta. Gennep (1997) salienta que, dentro de uma multiplicidade de formas conscientes ou meramente implícitas, existe, nos ritos de passagem, um padrão típico recorrente, que consiste em um primeiro momento de separação do indivíduo e um último momento de incorporação que, inevitavelmente, são intercalados por uma fase de liminaridade, ou seja, um estado intermediário, fronteiriço, marginal, paradoxal e ambíguo, em que o sujeito ritual se encontra destituído dos atributos próprios de sua antiga condição, mas ainda possui aquelas características particulares de sua condição futura. essa noção, proposta por Gennep (1997), do estado liminar existente nos ritos de passagem foi largamente discutida entre os antropólogos e levou outros autores a criarem novas teorias, sendo a noção de communitas desenvolvida por Victor turner (1974) e a distinção entre pureza e perigo apresentadas por mary douglas (1966) duas das mais significativas. Para turner (1974), a noção de communitas define o tipo de interação que se estabelece entre os indivíduos que se encontram no estado liminar e é caracterizada por um modo de vida que 76 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO se opõe à vida ordinária, ou seja, um tipo de interação não estruturada, em que indivíduos igualmente ambíguos se submetem em conjunto à autoridade dos “anciãos rituais”. douglas (1966), por sua vez, percebia a liminaridade como um momento especial de ambiguidade classificatória que, em seu limite, tornava-se perigoso por desafiar um sistema de classificação previamente concebido como fixo, inquestionável e construído por categorias isoladas que não permitiam meio termo. tanto o afastamento do indivíduo que constitui o momento liminar descrito por Gennep (1997) quanto o modo de vida singular percebido por turner (1974) e a ambiguidade salientada por douglas podem ser exemplificados pelos estudos de norbert elias (1994) acerca do processo civilizador. de acordo com esse autor, quando as sociedades tornam-se mais complexas e centralizadas e os sujeitos tornam-se mais individualizados, como aconteceu na sociedade ocidental moderna, a especialização profissional aumenta e as possibilidadesde carreira se diversificam fazendo com que a preparação necessária para o desempenho das tarefas adultas, também, torne-se mais prolongada e complexa. durante esse período de liminaridade, os jovens são afastados do ambiente infantil onde é permitido o comportamento espontâneo incivilizado sem, contudo, serem aceitos nos círculos adultos. os adolescentes são isolados em institutos especialmente organizados para a preparação dos moços, como as escolas, internatos e universidades, e passam a levar “uma vida social distinta, tendo uma “cultura jovem” – um mundo próprio, que diverge marcantemente do dos adultos” (eLIaS, 1994, p. 104). neste contexto, a escola desempenha um papel importante, pois é o lócus onde se desenvolve esta cultura jovem, e onde estes indivíduos começam a questionar os juízos dos pais, anteriormente vistos como detentores da verdade e, portanto, inquestionáveis, e passam a dar especial valor à opinião de seus pares. essa construção de mundo em parceria com seus iguais, também chamada de socionomia, é um momento fundamental do desenvolvimento moral do sujeito apresentado por Piaget (1994), em que o indivíduo aos poucos desenvolve o controle lógico e moral de seus sentimentos e pensamentos. esta valorização da opinião dos pares é uma etapa intermediária importante entre o estado inicial de anomia, em que a criança não possui juízo próprio sobre o mundo e é incapaz de compreender normas e regras coletivas, até o estado final de autonomia, no qual o sujeito é capaz de utilizar o raciocínio hipotético-dedutivo para construir seu próprio juízo moral sobre a realidade em que está inserido. Os professores mantendo o foco de sua atividade na transmissão de conteúdos, alguns professores não se dão conta da influência que exercem diante de seus alunos. Como defende Henry Giroux (1997), 77 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 atualmente os professores são vistos de forma pejorativa e simplista, como técnicos administrativos que servem apenas como intermediário entre um conteúdo pronto e o aluno, quando na verdade deveriam ser vistos como intelectuais que refletem a respeito de sua área de atuação e produzem conhecimentos. Como reflete Said (2005, p. 26) a respeito de sua própria prática, “(...) como intelectual, apresento minhas preocupações a um público ou auditório, mas o que está em jogo não é apenas o modo como eu as articulo, mas também o que eu mesmo represento”. ao ter consciência do alcance e das consequências sociais, éticas e políticas de sua prática, o professor torna-se muito mais apto a desempenhar a função que vem sendo cada vez mais delegada pelos pais à escola, de formar aprendizes da cidadania e sujeitos críticos, que saibam conviver e respeitar as diferenças, além, é claro, de desempenhar seu papel no mercado de trabalho e na sociedade da melhor forma possível. no que diz respeito à orientação vocacional, esta influência exercida pela figura do professor diante de seus alunos é de fundamental importância, pois o professor passa a atuar como embaixador da disciplina que leciona. de acordo com mariza Lima (2007): [...] mesmo não querendo, o professor representa o curso ou a profissão de sua própria escolha. o professor de História “é” a História, o professor de Biologia “é” a Biologia, etc. Como representante, o professor deve ter cuidado para assumir o lugar que lhe é atribuído. assim, mais do que um transmissor de conteúdos teóricos, o professor dissemina a seus alunos uma visão do que são e como são os cursos e as profissões, e é provável o aluno apreciar ou depreciar um curso ou uma profissão na decorrência do que lhe apresenta o professor (LIma, 2007, p. 66). tendo em vista o importante papel que desempenha, o professor deve estar sempre aberto ao diálogo com seus alunos sobre as possibilidades de carreira e sobre os interesses que eles apresentam, sem, contudo, deixar-se levar pela vaidade ou mesmo pelas frustrações que possua. Certa vez, por exemplo, por ocasião da minha pesquisa de doutorado, me foi contado o caso de um professor de biologia que se ressentia imensamente em não ter sido aprovado no exame vestibular para o curso de medicina. Quando sua melhor aluna disse animada que pretendia cursar biologia, ele reagiu de forma negativa dizendo que não fazia sentido cursar biologia sendo capaz de cursar medicina. de acordo com ele, a menina era boa demais para ser bióloga. a menina sentiu-se desmotivada por ouvir tal afirmação daquele que era a sua imagem de biólogo, mas felizmente não se deixou influenciar por isso e hoje é uma bióloga competente e realizada em sua carreira. esse exemplo é emblemático sobre a forma como o desânimo e as frustrações do professor podem influenciar negativamente seus alunos. Contudo, o oposto também é um risco, à medida que a descrição romantizada e enaltecida da própria carreira pode levar o aluno a uma grande decepção ao deparar-se com a realidade do curso. Como defende Lima (2007), é importante o professor transmitir ao aluno a realidade da sua área de atuação, revelando com clareza e sem 78 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO exageros o que é positivo e o que é negativo em sua profissão. É essencial haver diálogo entre professor e aluno de forma a esclarecer as dúvidas relacionadas a esses aspectos. Sendo assim, podemos dizer que, para que a escola cumpra o dever que lhe foi atribuído pela LdB de preparar o indivíduo para o trabalho e a cidadania, é fundamental que seu corpo docente esteja consciente de que tudo o que transmite aos seus estudantes reflete na percepção que eles terão das carreiras à disposição para sua escolha. o entusiasmo ou desinteresse com que se relacionam com a própria disciplina influenciam de forma significativa a imagem construída pelo aluno da matéria que ele leciona e das carreiras a ela associadas. A família a família é sempre o ponto de partida para a escolha vocacional do indivíduo, pois é a partir dela que ele receberá sua primeira socialização, que, por ocorrer na primeira infância, torna-se mais arraigada e, portanto, muito mais difícil de ser desconstruída. esta é a primeira instituição social com a qual o indivíduo estabelecerá relação e será ela a responsável pela transmissão de ideias, valores, crenças e significados que, posteriormente, serão encontrados pelo indivíduo nos demais contextos sociais em que estará inserido. no que diz respeito à escolha profissional feita pelo jovem ou adulto, Silva (2006) afirma que: É na relação precoce da criança com seus pais que se inicia o processo de aprendizagem para as experiências do mundo adulto em que o trabalho representa fator fundamental. É no teatro lúdico e no brincar que a criança aprende com os atores familiares a interagir no mundo adulto. ela prende, também, as mensagens que esse teatro lhe repassa sobre o que representa o mundo do trabalho para o adulto (SILVa, 2006, p. 18). Utilizando os estudos de Bohoslavsky (2003) como referência, Silva (2006) defende que devemos considerar a família como principal grupo de referência do jovem ao escolher a carreira que seguirá, pois, mesmo de forma inconsciente, as primeiras orientações recebidas dos pais e parentes, os conflitos vividos no interior da família e mesmo as diversas identificações estabelecidas com as atividades profissionais de seus familiares emergem no momento de escolha influenciando de forma significativa a tomada de decisão do indivíduo. dado o importante papel da família na escolha profissional do indivíduo, o leitor pode se perguntar o porquê da inclusão da família entre os personagens que compõem o ambiente escolar. esta preocupação está de acordo com o crescente debate que vem sendo travado no campo educacional sobre a importância de integrar a escola e a família em prol do desenvolvimento emocional, social e intelectual do estudante. no entanto, como salienta Viviane Klaus (2004), a aliança estabelecida entre a família e a escola não é algo natural e que, portanto,aconteceria de forma definitiva e tranquila. na verdade, esta relação se estabelece em um “campo de lutas onde significados são impostos, negociados e renegociados constantemente” (KLaUS, 2004, p. 170). 79 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 a integração entre família e escola nem sempre é simples, mas apresenta vantagens significativas ao desenvolvimento do aluno. no caso da orientação vocacional, vimos como a família é uma influência significativa no momento de escolha profissional do aluno, e isso faz com que a empreitada de trazê-la para mais próximo da escola seja válida. O orientador educacional e pedagógico o orientador educacional é um personagem de fundamental importância no cotidiano escolar, pois é função dele garantir que o aluno se desenvolva de forma global e equilibrada. Cabe ao orientador educacional trabalhar em cooperação com a equipe pedagógica e gestora da escola, transitando por todas as áreas do currículo escolar para que o corpo de alunos possa desenvolver-se em todos os aspectos, considerando no processo educativo tanto o intelecto do estudante como a sua participação social, a consciência política e cidadã, o desenvolvimento físico e os valores morais. Quanto à orientação vocacional do aluno, este caráter integrador da ação do orientador educacional se confirma, porque, como vimos anteriormente, a escolha profissional do aluno sofre influência de uma série de fatores internos e externos ao indivíduo, que se manifestam de maneira significativa no ambiente escolar. Cabe ao orientador educacional auxiliar o aluno a organizar todas essas informações dando sentido a elas, bem como garantir para que todos os demais personagens analisados nesta aula colaborem da melhor forma possível para a escolha consciente e responsável do aluno. Vejamos, então, os cuidados que devem ser tomados pelo orientador educacional em relação aos diversos atores sociais com quem interage ao longo do processo de orientação vocacional dos alunos: O aluno muitas vezes, a figura do orientador educacional é associada pelos alunos apenas a questões disciplinares, e isso acaba criando uma barreira na comunicação com o orientador. Para isso, é preciso que o profissional esteja sempre atento para possuir autoridade diante dos alunos, sem, contudo, ser autoritário e com isso eliminar as possibilidades de diálogo. em relação à orientação vocacional, esta acessibilidade do orientador educacional aos alunos é um elemento decisivo para o sucesso do projeto, pois, mesmo que sejam elaboradas atividades coletivas nas salas de aula em parceria com o corpo discente, ou nos momentos específicos de orientação vocacional determinados pela instituição, muitas vezes o grande passo rumo ao esclarecimento do estudante se dá nos atendimentos individuais, quando o próprio aluno toma a iniciativa de apresentar suas dúvidas e questionamentos. Como vimos na primeira aula do caderno, o momento de escolha profissional, principalmente nas séries que antecedem o Vestibular, é uma etapa de grande ansiedade para o indivíduo, e em 80 AulA 5 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO muitas ocasiões este fator influencia todas as esferas de sua vida. Portanto, enquanto responsável por acompanhar a vida estudantil do aluno, o orientador educacional deve estar sempre atento a eventuais discrepâncias no rendimento, alterações no comportamento e problemas de disciplina, que podem, em algumas circunstâncias, estar atrelados a este momento tenso em que se encontra o aluno. nunca podemos perder de vista que a escolha final é sempre do indivíduo, mas cabe ao orientador apresentar caminhos e facilitar a compreensão das opções, para que esta decisão não seja traumática ou aleatória, mas sim consciente e responsável, visando o bem-estar e a plena realização das potencialidades do aluno. A família Como vimos anteriormente, a família é a primeira referência vocacional do indivíduo. Contudo, ela pode representar também um elemento complicador importante na escolha profissional, pois, em diversas situações, encontramos pais que tentam impor sua vontade sobre a dos filhos para que elas escolham aquela que, de acordo com eles, seria a melhor opção de carreira. neste sentido, faz parte do papel ético do orientador vocacional auxiliar seu orientando a descobrir o seu próprio caminho, desconstruindo determinadas inclinações que de fato não são suas, mas impostas de forma mais ou menos consciente pelos familiares. o melhor caminho para isso, no entanto, não é o enfrentamento direto com pais e responsáveis, nem mesmo a desqualificação de seu julgamento diante do aluno. É preciso trabalhar em parceria com a família em prol do aluno, conscientizando a todos sobre os efeitos nocivos que uma escolha malfeita pode trazer à saúde mental do jovem. esta orientação familiar deve ser feita ao longo de todo o processo, seja nas reuniões bimestrais próprias do calendário escolar, seja em reuniões individuais agendadas com o intuito específico de discutir o desempenho do aluno para trabalhar colaborativamente o seu processo de orientação vocacional. muitas vezes, as dificuldades de escolha do aluno ultrapassam o alcance da atuação da orientação educacional, e nestes casos, cabe ao orientador um diálogo franco com os familiares sobre o encaminhamento do aluno a um profissional de psicologia que possa acompanhá-lo. Os professores em sua relação com os professores, é fundamental que o orientador educacional compartilhe as informações coletadas sobre o perfil vocacional da turma, propondo atividades que possam auxiliar o conhecimento destes sobre o mercado de trabalho e as opções profissionais. É de extrema importância que o orientador desperte sempre o interesse do seu corpo discente em fazer com que a informação dos alunos sobre as carreiras faça parte do cotidiano de suas salas de aula. a informação é o principal elemento da escolha vocacional e por isso é fundamental que a equipe pedagógica esteja, ela própria, bem informada sobre o que está acontecendo em 81 ORIEntAçãO vOCACIOnAl E EduCAçãO • AulA 5 termos profissionais em nossa sociedade para que os professores possam compartilhar estes conhecimentos com seus educandos e buscar sanar suas dúvidas da melhor forma possível. Vale lembrar, ainda, que, para o professor estar bem informado, não representa apenas conhecer de uma forma geral os rumos do mercado de trabalho, mas principalmente buscar o máximo de dados sobre as profissões às quais sua matéria está associada. anteriormente, analisamos o papel desempenhado pelo professor enquanto embaixador de sua disciplina e figura de referência diante de seus alunos. Sendo assim, o orientador deve estimular esta consciência de si nos professores, propondo que seja sempre realizado um paralelo entre os conteúdos ministrados e a prática das profissões a eles relacionados. o trabalho de orientação educacional na escola deve ser encarado como um trabalho de equipe, e, neste sentido, o orientador educacional deve atuar como técnico, criando estratégias, planejando ações e, principalmente, preparando sua equipe de professores para o desempenho de tais atividades. Para isso, todas as ocasiões devem ser aproveitadas, como reuniões de professores, conselhos de classe, reuniões de curso, eventos da escola e assim por diante. 82 Introdução nesta aula final da disciplina de orientação educacional e Pedagógica, apresentaremos a você algumas questões práticas a respeito da orientação Vocacional, discutindo temas específicos dos diferentes tipos e momentos de orientação e sugerindo atividades que podem ser desenvolvidas em sua prática. no entanto, é importante salientar que a real preparação para o desenvolvimento de projetos de orientação vocacional que obtenham bons resultados com os alunos dependerão de maior aprofundamento e muitas experimentações práticas a este respeito. encare esta aula como um ponto de partida para suas reflexões a respeito do desenvolvimento da orientação vocacionaldesenvolvida pelo Serviço de orientação educacional. Objetivos » apresentar as principais modalidades de orientação vocacional. » Identificar a estrutura de um processo de orientação vocacional, salientando os elementos que fazem parte de seu início, meio e fim. » Compreender que cada processo de orientação vocacional precisa levar em conta determinados aspectos que delimitarão as diferenças do trabalho. » analisar questões referentes à orientação de grupos típicos, que podem ser encontrados no ambiente escolar. 6 AulA ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA 83 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 modalidades de Orientação vocacional a orientação Vocacional é um processo de grande importância na vida dos indivíduos, pois a pessoa que a busca normalmente está passando por um momento de vida em que a tomada de decisão fará toda a diferença, e a nossa participação nessa escolha pode tornar todo o processo mais suave, consciente e informado. Por esse motivo, é tão importante compreendermos melhor como se dividem as modalidades que podem ser utilizadas para a elaboração de uma orientação. Será por meio das modalidades que cada orientador delimitará seu perfil de trabalho, definindo suas técnicas e seu direcionamento. modalidade Estatística nesta modalidade, o profissional deverá, em um primeiro momento, conhecer as aptidões e os interesses do orientando, para depois elaborar um trabalho que correlacione os gostos desse indivíduo com as chances existentes no mercado. Vamos ver as principais características dessa modalidade: » Papel do Orientador: ativo, direcionado. nesta modalidade, o profissional utiliza os testes como principal instrumento, buscando resultados específicos. Pode-se entender o orientador como alguém que caminha pelo sujeito; » Papel do Orientando: apresenta um papel mais passivo; sendo direcionado pelo orientador, realizando as atividades estabelecidas; » Recursos: os testes são os principais materiais utilizados, mas as dinâmicas também têm espaço neste processo. » Aptidões: para os profissionais que trabalham com a modalidade estatística, as aptidões são entendidas como inatas, ou seja, o sujeito já nasce com elas; » Interesse: neste caso, o cliente ainda não possui muita noção de seus gostos. Precisa começar a se conhecer; » Mercado de trabalho: a modalidade estatística baseava-se em uma estagnação do mercado para reconhecer positivamente os resultados dos testes. Seria por meio da estabilidade do perfil profissional procurado pelo mercado que os resultados dos testes seriam válidos, pois seriam baseados nestas características específicas. Hoje em dia utilizam-se as dinâmicas para confirmar a validade do processo. modalidade Clínica na modalidade clínica, o profissional poderá auxiliar o orientando à proporção que as responsabilidades da escolha sejam assumidas por este. Para que o orientador conheça melhor 84 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA o seu cliente, a entrevista acaba sendo utilizada como um dos principais instrumentos. Sem dúvida, a autonomia é sempre enfatizada. a seguir, veremos os principais conceitos: » Papel do Orientador: ele deverá caminhar junto com o orientando, buscando ajudar a sanar suas dúvidas e incentivar sua autonomia; » Papel do Orientando: o cliente desempenhará um papel ativo somente ele conhece sua vida e compreende o que é melhor para si mesmo. ele será o grande protagonista do processo de orientação vocacional; » Recursos: as atividades irão basear-se, principalmente, em dinâmicas e material informativo (filmes, livros, folders...). os testes são utilizados de forma diferenciada, em que seus resultados são considerados em conjunto com os demais recursos; » Aptidões/Interesses: durante o processo, o sujeito passa a se conhecer melhor e a compreender seus interesses. nesse processo, a vocação surge como um movimento interno específico daquele momento; » Mercado de trabalho: como considera o mercado de trabalho em constante mudança, cada orientação não é compreendida para a vida toda, e sim relacionada ao momento que está sendo vivido. Estrutura de um processo de Orientação vocacional todo processo de orientação vocacional possui uma estrutura com determinados itens que sempre estarão presentes e deverão ser definidos através dos encontros com os clientes. Uma boa delimitação, tendo consciência das principais características destes tópicos, determinará um bom caminhar no processo de orientação vocacional. Vamos ver os principais itens. Início Enquadre: Quando falamos de enquadre, nos remetemos à “cara” que o processo vai apresentar. em todo serviço de orientação vocacional, precisamos delimitar o que será oferecido. Quando sabemos qual o foco, fica mais fácil acertar o processo, e esse foco será definido de acordo com determinadas questões que precisam ser respondidas, tais como: o que, para que, como, com quem, onde, com o que e quando. Modalidade de Trabalho: neste ponto, o orientador deve buscar conhecer como será desenvolvido o seu trabalho, se de maneira individual, em grupo, na escola, no consultório, na clínica, em uma onG, em organizações, em instituições, entre outras. devemos lembrar que não existem melhores formas de se trabalhar, em todas elas cabe ao profissional pesar os pontos positivos e negativos que estarão diretamente relacionados ao contexto de cada uma. 85 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 Entrevista Inicial: durante a entrevista inicial, procura-se conhecer qual a demanda do orientando. Buscamos compreender o que espera o orientando ou quem está contratando nosso serviço. Quando atuamos em uma instituição, como a escola, esta entrevista não se faz necessária, pois a demanda já está definida, por exemplo: orientação vocacional com alunos do 3° ano do ensino médio: voltados para o vestibular. Delineamento: Cabe aqui definir as etapas do processo de orientação, como o número de encontros, a duração, quantas pessoas participarão por grupo, se existirá ou não sessão de reposição, o que será aceito em relação a atrasos e faltas, quais os materiais que serão utilizados e como será realizada a entrevista de devolução e a entrega do laudo. meio a partir do momento em que o orientador já estabeleceu um perfil de seu cliente – individual ou grupo – ele poderá optar por determinados materiais que serão mais bem aproveitados durante todo o processo. esses materiais são inúmeros e aqui veremos alguns dos mais utilizados: material Informativo todo e qualquer tipo de orientação utiliza materiais básicos para desenvolver-se. Será por intermédio deste material que o profissional possibilitará ao orientando estabelecer contato maior com o mundo das profissões. o material informativo pode ser utilizado enquanto: » Ferramenta: ele é inserido no processo de orientação Vocacional, no qual o orientando pode se conhecer melhor. Um exemplo deste tipo de material é o manual de estudante. » Processo: É uma forma mais independente que necessita de um tempo maior para acontecer. em orientações que são realizadas em escolas, utilizar o material informativo como processo só tem a acrescentar, pois será por meio de filmes, palestras e visitas a empresas e universidades que o orientando compreenderá melhor como as profissões atuam. Quadro 3. Sugestão de atividades. técnica de relações-ocupacionais (R-O) Objetivos: Estimular um contato ativo com a informação profissional, por meio de um exercício lúdico, de modo a estabelecer as possíveis relações existentes entre as ocupações e a situar as próprias identificações profissionais. Material: Conjunto de cartões nos quais são escritas as diversas profissões/ocupações surgidas ao longo do processo de Orientação vocacional. Proposta: Apresentar ao orientando uma quantidade de cartões em que cada um tem o nome de um curso ou profissão. 1ª etapa: entregar os cartões ao cliente, pedindo a ele: “Faça de conta que cada cartão representa uma pessoa. O que você deve fazeré estabelecer relações entre as diferentes pessoas, como se se tratasse de definir quais são as famílias a que elas pertencem”. 2ª etapa: pedir ao cliente que faça uma apresentação das famílias; descrevendo de maneira detalhada as características de cada uma. 86 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA 3ª etapa: fornecer a seguinte instrução: “Imagine que você dê uma festa em sua casa, para a qual não pode convidar todas as pessoas. Quais você convidaria com certeza, quais não convidaria, e em relação a quais ficaria em dúvida?” Essa sugestão da festa é para o orientando utilizar a fantasia com vistas a imaginar possíveis relações entre as profissões. 4ª etapa: pode-se solicitar ao orientando que crie conversas entre os possíveis profissionais; para que o orientador consiga perceber os pensamentos do sujeito em relação a interesses, gostos, características pessoais, simpatias e antipatias. Desenvolvimento: Nesta etapa, o orientando terá conhecimento do valor que atribui às profissões. O orientador deverá observar como o orientando se posiciona com relação ao meio profissional, percebendo suas possíveis distorções, estereótipos e identificações do mesmo com as carreiras. Fonte: Elaboração da autora com dados de BOHOSlAvSKY, 2003, apud lImA, 2007, pp. 118-120. técnicas lúdicas Correspondem a atividades que promovem um levantamento de dados sobre cada sujeito frente a determinadas situações e sobre o grupo. entre as possíveis técnicas, temos: » Dinâmicas: as dinâmicas, de forma geral, são utilizadas para observar habilidades, competências e preferências de cada orientando. Por meio delas, o orientador pode perceber e traçar um perfil, ainda que superficial se for apenas baseado na dinâmica, de cada sujeito. Como existem inúmeras dinâmicas que podem ser utilizadas (apresentação, aquecimento, desenvolvimento, conclusão ou fechamento), elas precisam ser estudadas de forma cuidadosa e atenciosa, tendo sempre em vista o foco principal de cada encontro. » teatro: a utilização de conceitos advindos do teatro pode facilitar o entrosamento do orientando com as profissões. Sugerir que ele tente assumir o lugar e a postura de determinadas profissões que lhe agradam cria um momento de experiência, de conhecimento da carreira e do próprio sujeito. Quadro 4. Sugestão de atividades. Técnicas Auxiliares: jogos dramáticos e simulações Objetivos: Explorar e/ou elaborar temáticas que podem surgir durante as entrevistas ou sessões. Material: Espaço reservado com cadeiras, almofadas, papéis coloridos, canetas e outros itens que o orientador perceba serem necessários para a representação. Proposta: O orientador pode propor ao aluno debater temas como: 1 conversação entre colegas que se encontram anos após haverem concluído seus estudos no ensino médio; 2 pedido de informação na universidade; 3 conversas entre pais e filhos sobre seu futuro; 4 busca de um emprego; 5 o primeiro dia de aula na faculdade; 6 um dia no trabalho. Desenvolvimento: O orientador propõe um cenário simulado, ajudando o grupo ou o sujeito a estabelecer os papéis, facilitando depois para que ele(s) relate(m) seus sentimentos e percepções da vivência, elaborando sua parte. Fonte: Elaboração da autora com dados de lImA, 2007, pp. 126-127. 87 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 Entrevistas São os principais recursos utilizados para conhecer o orientando e entender quais seus gostos e interesses. Será pelas entrevistas que o orientador conseguirá auxiliar o sujeito a conhecer suas capacidades e saber lidar com suas dúvidas. as entrevistas apresentam resultados subjetivos, com características específicas do momento vivido pelo orientando. Quadro 5. Sugestão de atividades. Momento de conhecimento Objetivos: Investigar as capacidades do orientando, proporcionando um momento para que este possa perceber o que espera de si mesmo e de seu futuro profissional. Material: Folha de papel ofício, caneta e, se o orientador achar pertinente, gravador. Proposta: O orientador deverá formular questões abertas e fechadas, facilitando o momento de reflexão do orientando. Perguntas como as que estão abaixo, são algumas que podem ser utilizadas durante a entrevista: 1 quais profissões você se vê exercendo no futuro? 2 como se sente em relação ao trabalho de seus pais? 3 você já decidiu que carreira quer seguir? 4 quais suas dúvidas em relação às profissões? Desenvolvimento: Cabe ao orientador proporcionar ao orientando um momento de tranquilidade, sem expectativas para que o sujeito consiga elaborar suas respostas da melhor maneira possível. Fonte: Elaboração própria da autora. testes São os instrumentos utilizados para que o orientador possa conhecer um pouco mais sobre a personalidade do orientando. não existem testes específicos de orientação vocacional, eles devem ser utilizados de maneira consciente. Quanto mais o orientador conhecer o orientando, melhor poderá determinar o uso de testes específicos. Quadro 6. Sugestão de atividades. Frases Incompletas Objetivos: Investigar possíveis conflitos, aspirações e projeções envolvendo as escolhas profissionais. Material: Ficha com as questões a serem completadas pelo orientando. Proposta: Apresentar ao aluno as seguintes frases para que ele as complete: 1 Sempre gostei de...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 Acho que, quando for maior, poderei..... . . . . . . . . . . . . . . . 3 não consigo me ver fazendo...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 meus pais gostariam que eu...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 Se estudasse...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 Escolher sempre me fez...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Quando era criança queria...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 Os rapazes da minha idade preferem....... . . . . . . . . . . . . 88 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA 9 O mais importante na vida é...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 Comecei a pensar no futuro...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 nesta sociedade, vale mais a pena..... do que ..... 12 Os professores acham que eu...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Quanto às profissões, a diferença entre moças e rapazes é ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 minha capacidade...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 As garotas da minha idade preferem....... . . . . . . . . . . . 16 Quando fico em dúvida entre duas coisas...... . . . . . . 17 A maior mudança na minha vida foi..... . . . . . . . . . . . . . . 18 Quando penso na universidade...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 Sempre quis...... mas nunca poderei fazê-lo ..... . . 20 Se eu fosse...... . . . . . . . . . . . poderia ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 minha família...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 meus colegas pensam que eu...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Estou certo de que...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24 Eu...... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Desenvolvimento: Observar as respostas do orientando e procurar conversar com ele sobre suas projeções, aspirações e conflitos que surgem com as respostas das questões acima. Fonte: Elaboração da autora com dados de BOHOSlAvSKY, 2003, p. 92. Questionários São ferramentas que complementam o processo, acrescentando informações importantes sobre o orientando. não existe obrigatoriedade em utilizar os questionários, mas, se o profissional decidir por sim, deverá formular tópicos bem direcionados e objetivos. Quadro 7. Sugestão de atividades. Desiderativo Vocacional Objetivos:Investigar as possíveis identificações presentes nas escolhas profissionais. Material: Folha impressa com cinco questões indicadas a seguir, lápis ou caneta, borracha. Proposta: As questões abaixo devem ser apresentadas ao orientando: 1- Quem você gostaria de ser se não fosse quem é? Por quê? 2- Que pessoa (personagem) da Antiguidade você gostaria de ser? Por quê? 3- Que pessoa do sexo oposto você gostaria de ser? Por quê? 4- Que tipo de pessoa você gostaria de ser dentro de dez anos? Por quê? 5- Quem você não gostaria de ser se não fosse quem você é? Por quê? Desenvolvimento: Solicitar que o orientando responda às questões da melhor maneira possível. Assim que o orientando acabar, pedir a ele que explique suas respostas, investigando cada uma das pessoas que ele citou. Também deve ser observada a vida profissional de cada uma das pessoas citadas nas respostas, onde o orientando poderá refletir o que o vincula a cada uma dessas pessoas. Através desses diversos materiais coletados ao longo do desenvolvimento da orientação, o trabalho poderá ser delineado e cada orientando será capaz de reagir aos que melhor provocarem seu interior; em busca de seu melhor conhecimento sobre si mesmo. Fonte: Elaboração da autora com dados de mullER apud lImA, 2007, p. 115. 89 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 Final após todo o processo, o orientador estará com diversas informações referentes ao perfil profissional de seu orientando. Caberá ao orientador perceber qual a melhor maneira de dar um retorno ao cliente sobre seu resultado. nesta etapa do processo de orientação vocacional, dependendo da modalidade escolhida, o profissional pode utilizar a entrevista de devolução e/ou a elaboração de laudo. Entrevista de devolução a entrevista de devolução pode ser realizada de forma individual ou em grupo. Quando a primeira opção é escolhida, as questões pessoais do orientando podem ser abordadas. normalmente, a modalidade estatística centra sua devolução nos resultados dos testes, enquanto a modalidade clínica opta por discutir questões mais subjetivas do processo. laudo o laudo é um dos itens que podem estar presentes no processo de devolução e o orientador deve voltar sua atenção a ele. todo profissional deve ter cuidado ao elaborar o laudo para seu cliente, pois o documento apresentará informações específicas que deverão ser explicadas cuidadosamente, evitando interpretações erradas. Cada laudo deve apresentar determinados dados específicos: identificação do orientando; identificação do orientador; a demanda; o procedimento adotado; análise e conclusão. o profissional precisa estar atento para desenvolver um laudo da forma mais ampla possível, procurando não rotular o orientando com aptidão apenas para determinadas profissões. deve-se mostrar ao cliente que ele possui determinadas áreas de interesse, que podem direcioná-lo a diferentes carreiras. Pontos importantes da orientação vocacional Cada processo de orientação vocacional precisa levar em conta determinados aspectos que delimitarão as diferenças do trabalho. o orientando está sujeito a sofrer diversas influências e determinados fatores podem agir diretamente no momento de escolha. o orientador precisa estar atento para diversos aspectos como: histórico escolar – o rendimento do orientando irá demonstrar algumas de suas preferências; história familiar – a partir dela o orientador poderá compreender inclinações para profissões específicas; e maturidade – cabe ao profissional perceber em que grau de maturidade está seu orientando. Segundo Bohoslavsky (2003, p. 91), cada profissional precisa basear-se em alguns questionamentos para melhor delimitar o perfil de seu orientando. Seriam perguntas como: » o orientando tem capacidade de assumir sua escolha profissional sem mudar sua personalidade? 90 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA » ele já apresenta maturidade para tomar uma decisão quanto ao seu futuro profissional? » Consegue prever possíveis dificuldades, tolerar frustrações e alcançar sínteses? » Sou a pessoa mais indicada para ajudá-lo? » esse é o melhor momento para que ele inicie sua orientação vocacional? Por essas essas perguntas, o profissional poderá entender melhor a situação que se apresenta e agir corretamente com seu cliente. outro ponto que sempre deve ser observado atentamente pelo profissional é que tipo de informações, como e a quem devem ser transmitidas. Seus clientes geralmente apresentarão conhecimentos sobre as carreiras e sobre o meio científico. este contato durante o processo escolar proporciona uma absorção de conhecimento de maneira passiva, em que muitas vezes o orientando não consegue perceber todas as informações que já adquiriu. Sendo assim, caberá ao orientador fornecer informações ao seu cliente da forma mais clara e objetiva possível, apresentando as diferentes atividades profissionais. ainda de acordo com Bohoslavsky (2003, p. 147), existem quatro recomendações básicas que todo orientador deve estar atento ao trabalhar com cada orientando. São elas: » a informação deverá ser passada de maneira completa, visando a mostrar ao orientando quais os objetos das profissões, quais seus papéis sociais, técnicas e instrumentos utilizados e a real demanda da sociedade para aquela profissão. » o orientando precisa entender que as atividades interagem como um todo, contribuindo para um trabalho em equipe. » Caberá ao orientador estar atento ao nível profissional a que o orientando almeja chegar. Cada cliente possui um ideal de como gostaria de trabalhar e o orientador precisa estar atento para passar as informações adequadas ao perfil de cada orientando. » todas as informações devem centrar-se nas carreiras, demonstrando os ramos das atividades técnicas, científicas e profissionais. A orientação de grupos típicos o objeto da orientação vocacional é a relação homem-trabalho, e isso gera um grande leque de possibilidade de atuação para aquele que se dedique a esta tarefa. no entanto, como salienta maria da Conceição Uvaldo (1995), no Brasil, o trabalho do orientador vocacional está ligado quase exclusivamente aos alunos de classe média e alta que estão concluindo o ensino médio e, portanto, se encontram em vias de escolher um curso de graduação. 91 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 a autora questiona: mas é apenas para isso que serve a orientação Profissional? Será que este campo não seria mais amplo? Particularmente parece-me extremamente limitante encarar a área de orientação Profissional como: teorias, técnicas, programas para ajudar o aluno de 3º colegial a escolher uma faculdade. Com isso não considero desnecessário ou sem valor este tipo de trabalho, mas é apenas uma das possibilidades de intervenção do orientador (UVaLdo, 1995, p. 216). ampliando a discussão da autora, acho importante salientar que, nem mesmo quando desempenhado dentro da escola, o projeto de orientação vocacional pode centrar-se apenas nas turmas de terceiro ano ou pré-vestibular. É fundamental que este projeto se inicie o quanto antes e abarque todos os grupos presentes na escola, para que acompanhe todo o processo de amadurecimento e desenvolvimento vocacional dos alunos. Vale lembrar ainda que, apesar de representativo em nossa sociedade, o vestibular não é o único momento de escolha profissional que se apresenta ao jovem, pois o desempenho de uma atividade profissional não está necessariamente atrelado a um curso de nível superior. outro ponto importante, e que deve ser observado com muita atenção pelo orientador vocacional, é estar atento aos meios e instrumentos utilizados em cada contexto, pois, como discutimos na primeira aula deste caderno, não existe uma fórmula mágica que funcione igualmente bem com todos os orientandos. Cada projeto de orientação, tendo em vista as idiossincrasias e especificidades do sujeito ou grupo orientado, torna-se único. a seguir, veremos alguns grupos típicos com os quais o orientador vocacionalque atua no ambiente escolar pode se deparar. discutiremos suas principais características e sugeriremos atividades interessantes que podem ser utilizadas em cada caso. Vale ressaltar, no entanto, que tais atividades não são exclusivas para estes grupos específicos. Você pode utilizá-las em outros contextos, desde que isso seja coerente e sejam feitas as devidas adaptações quando necessário. Orientação vocacional com crianças a idade pré-escolar é um momento bastante frutífero para a orientação vocacional, pois, como salientam Pasqualini, Garbulho e Schut (2004), é quando a criança começa a reproduzir em seus jogos as funções sociais e as atividades desempenhadas pelos adultos. o jogo, suas regras e os papéis a serem desempenhados nele, em certa forma, reproduzem a vida social e suas possibilidades, oferecendo à criança a possibilidade de vivenciar as atividades que percebe ao seu redor. nas palavras de andrade, [...] enquanto brinca com bonecas e animais, caminhões e aviões, jogos de construção, kits de médico, as crianças fantasiam sobre estas atividades, explorando, com prazer, como é ser um bombeiro ou caminhoneiro, um piloto 92 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA ou astronauta, experimentando imaginativamente possíveis papéis adultos (andrade apud PaSQUaLInI; GarBULHo; SCHUt, 2004, p. 74). a partir dessa prática, a criança dá início ao processo de desvendar a realidade social em que está inserida, e isso deve ser feito com o auxílio de ações educativas que estimulem as facetas positivas da realidade reproduzidas nos jogos e desencorajando as interpretações de mundo vistas como negativas. de acordo com Pasqualini, Garbulho e Schut (2004), é justamente esta possibilidade de intervenção precoce na interpretação e representação que a criança faz do mundo que indica a importância da orientação vocacional nesta faixa etária. Segundo as autoras, a orientação vocacional combinada com ações educativas sistemáticas poderiam evitar a apropriação dos papéis adultos de forma estereotipada, com vistas a favorecer “a desconstrução de preconceitos e estereótipos relacionados às diferentes atividades profissionais” (PaSQUaLInI; GarBULHo; SCHUt, 2004, p. 74). a visão do trabalho em si, também, deve ser construída com a criança para que ela compreenda esta atividade como algo prazeroso e realizador e não como algo imposto e sacrificante, que desqualifica e anula o sujeito sendo desempenhado apenas para garantir a subsistência material do indivíduo. essa visão é recorrente principalmente entre as camadas populares da sociedade e é outra representação estereotipada que precisa ser desconstruída no imaginário infantil para que a criança se torne um adulto que busque prazer e realização em sua atividade profissional, seja ela qual for. Paralelo a isso, a orientação vocacional com crianças tem também o benefício de preparar o indivíduo para lidar de forma positiva com a escolha. ainda consoante Pasqualini, Garbulho e Schut (2004, p. 75), “escolher (com maior ou menor autonomia) supõe a oportunidade de viver situações no cotidiano que favoreçam a aprendizagem da escolha. ela não acontece de repente, descolada da história do indivíduo, como um fato isolado”. assim sendo, é importante propiciar ao indivíduo oportunidades de escolha diversas ao longo de seu desenvolvimento, de maneira que, depois de vivenciar essa situação em diferentes momentos da vida, ele desenvolva a habilidade de tomar decisões. Quanto maior for esta socialização do sujeito, melhor ele lidará com o momento de escolha profissional. Quadro 8. Sugestão de atividades. O lugar onde eu moro Objetivos: Auxiliar a criança a se identificar no contexto de vida mais próximo e fazer com que ela reflita sobre as atividades profissionais com que convive. Material: Papel, revistas, tesoura, cola, lápis de cor, giz de cera ou hidrocor. Proposta: Pedir aos alunos que desenhem ou façam uma colagem sobre o local onde moram e as pessoas com quem eles convivem neste local como sua família, os vizinhos, o carteiro, o funcionários do mercado. Desenvolvimento: Durante a elaboração dos desenhos, é importante dar liberdade à criança para desenhar aquelas pessoas que para ela sejam importantes em sua redondeza. depois dos trabalhos prontos, o orientador vocacional deve pedir à criança para apresentar sua produção, identificando cada uma das pessoas retratadas e as atividades desempenhadas por elas. 93 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 Preocupe-se em enfatizar a importância de cada uma dessas atividades, seja a do médico do posto de saúde ou a do varredor de rua, para a vida na comunidade. Assim, pretende-se desconstruir representações estereotipadas ou preconceituosas, salientando a interdependência dos indivíduos e a importância das partes para o bom funcionamento do todo. Fonte: Elaboração própria da autora. Orientação vocacional com os alunos que finalizam o ensino fundamental devido ao fato de a escolha profissional se dar neste período da vida, o adolescente é o cliente mais comum da orientação vocacional. no entanto, muitas vezes olhamos com tanta atenção para os alunos que estão finalizando o ensino médio e se preparando para ingressar na universidade, que acabamos negligenciando outros momentos importantes de escolha com os quais o jovem se depara. o término do ensino Fundamental é uma etapa importante na vida escolar do aluno, pois a entrada no ensino médio traz com ela o contato com novas disciplinas, como a química, a física e a biologia, que podem ter grande impacto sobre a escolha de carreira do adolescente. nesta etapa, apresenta-se também um novo leque de modalidades de estudo e instituições de ensino que anteriormente não estavam disponíveis ao sujeito. Como sinaliza Fabiano Silva (1995), neste período muitos alunos apresentam dúvidas sobre ingressar ou não em cursos técnicos. Para alguns, esta seria uma especialização de nível médio que lhe garantiria uma atividade profissional; para outros, o curso profissionalizante é visto como uma espécie de preparação para a universidade, no qual o indivíduo começa a se familiarizar com as questões próprias da área de atuação a que pretende se dedicar. o mais importante a ser considerado, aqui, é que nos dois casos apresentados já existe uma demanda de escolha muito forte, que precisa ser levada em consideração, desmistificando a ideia largamente disseminada no senso comum de que a opção profissional só é feita ao final do ensino médio. o orientador vocacional, neste caso, deve estar preparado para: » transmitir as informações que esse tipo específico de orientando necessita como os tipos de cursos técnicos, as instituições que os oferecem e os possíveis efeitos desta modalidade de ensino em um futuro curso superior. » Conscientizar os alunos de que a tomada de decisão é um processo que requer reflexão e, por isso, deve ser iniciado o quanto antes. mostre a eles que uma decisão tomada às pressas ao final do ensino médio tem maiores possibilidades de ser uma decisão equivocada. 94 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA Quadro 9. Sugestão de atividades. Exercício de tomada de decisão Objetivos: Promover a reflexão sobre as etapas do processo decisório. Material: lápis, borracha ou caneta e uma folha impressa com os seguintes itens: 1 Falta absoluta de energia elétrica por seis meses. 2 Falta absoluta de água no planeta durante três meses. 3 greve geral de todos os meios de transporte por um mês. 4 Falta absoluta de frutas e legumes por dois anos. 5 greve total de médicos por seis meses. 6 greve total de policiais e bombeiros por oito meses. 7 Falta absoluta de todo e qualquer anestésico por quatro meses. 8 greve geral da imprensa falada, escrita e televisionada por dez meses. 9 Falta absoluta de petróleo por três anos. 10 Proibição total à prática de qualquer religião por cinco anos. Proposta: Solicitar ao orientando que escolha, entre as dez catástrofes listadas, as cinco que causariammaiores danos à humanidade, ordenando-as em ordem decrescente de gravidade, da mais grave para a menos grave. marcar aproximadamente dez minutos para que o cliente resolva o problema apresentado. no caso de orientações individuais, saia da sala durante os dez minutos. no caso de orientações em grupo, impeça as conversas paralelas e mantenha-se distante e inacessível. Depois, justifique-se, dizendo que a tomada de decisão é uma atitude solitária e implica toda reflexão possível. Desenvolvimento: Concluída a produção, questionar os passos seguidos para a tomada de decisão. Por meio de perguntas, favorecer para que o sujeito perceba as etapas da realização da atividade. Ajudá-lo a refletir que: 1 teve de se confrontar com o problema e equacioná-lo – disposição para a tomada de decisão. 2 necessitou de esclarecimentos e informações sobre o assunto – importância das informações para a elaboração da tomada de decisão. 3 Baseou-se em critérios gerais e específicos/ individuais – importância do autoconhecimento. 4 Teve que refletir em busca de soluções alternativas para escalonar suas escolhas – necessidade das informações + autoconhecimento. 5 Empenhou-se no encontro da melhor alternativa para a tomada de decisão – realização da escolha. Esclarecer que a “tomada de decisão” é, na verdade, uma consequência de todo um processo de elaboração e questionar em qual momento o cliente pensa se encontrar: está-lhe faltando informações? Seus critérios são claros? Que ajuda acredita necessitar ainda para sua tomada de decisão? Fonte: Elaboração da autora com dados de lImA, 2007, p. 121. Orientação vocacional com vestibulandos o Vestibular, exame pelo qual devem passar todos aqueles que estão pleiteando uma vaga no ensino superior, é um momento crucial na vida desses alunos. neste período, o indivíduo sente-se pressionado não só pela necessidade de escolher uma carreira, mas também por provar seu valor sendo aprovado no exame. Como salientam Geruza d´avila e dulce Soares (2003, p. 114), “[...] os motivos levantados como geradores de ansiedade, o medo da reprovação, o excessivo número de matérias para estudar e o medo de decepcionar alguém, elevado número de candidatos por vaga são os mais indicados pelos vestibulandos”. 95 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 destarte, podemos dizer que, ao elaborar um projeto de orientação vocacional direcionado aos alunos do 3º ano do ensino médio ou do pré-vestibular, é preciso não só utilizar todas as técnicas discutidas ao longo deste módulo para auxiliar o aluno a escolher uma opção de carreira, mas, também, ficar atento para lidar com a ansiedade característica deste momento da vida. Para que isso seja feito, é importante frisar ao aluno que a tomada de decisão vocacional não é definitiva, podendo ser mudada ou reorientada ao longo da vida. Isso ameniza o fardo que muitos jovens vivenciam ao pensar que estão definindo de forma permanente aquilo que serão ao longo de toda vida. Quadro 10. Sugestão de atividades. Dobradura Objetivos: A dobradura é uma técnica expressiva. Pode ser usada como objeto intermediário que facilite ao cliente verbalizar necessidades, receios, conclusões. É mais apropriado que seja usado em uma fase de conclusão do trabalho de Orientação vocacional. Material: Folhas de papel de tamanhos, tipos e texturas diferentes (pelo menos cinco folhas), tesoura e cola. Proposta: Espalhar as folhas sobre a mesa de forma que o cliente possa ver pelo menos uma parte de cada uma delas. dizer: “você vai escolher um desses PAPÉIS (enfatizar essa palavra) e fazer com ele um objeto, uma dobradura ou montagem qualquer. Esse objeto deverá representar o que foi para você este trabalho ou o que você está sentindo neste momento final do processo de OV ou a que conclusão você chegou a partir dele”. Desenvolvimento: terminada a produção, o orientador solicitará ao cliente que explique o que ele executou. Perguntas podem ser feitas para facilitar a verbalização e as conclusões. É importante que seja investigada a questão da escolha de papel e o sentido do objeto confeccionado, relacionando-os à escolha do curso/profissão (a questão da escolha do papel profissional, motivos, objetivos, expectativas). O orientador deve facilitar a reflexão por meio do questionamento com perguntas tais como: - Por que você escolheu este “papel”? - Quando o escolheu, sabia o que iria fazer com ele? - Sabe o que está escolhendo em relação à sua vida profissional, qual será o seu papel profissional, o que vai desempenhar? Fonte: Elaboração da autora com dados de lImA, 2007, p. 125. Quadro 11. Folha de finalização Objetivos: Verificar se o orientando concluiu o processo fazendo a sua escolha profissional. Caso não tenha sido feita uma escolha profissional, verificar os motivos e os possíveis encaminhamentos. Por esta atividade, deve-se também avaliar a condução do atendimento e os efeitos do processo no orientando. Material: Folha impressa com o seguinte enunciado e questões: Estamos chegando ao final de nosso trabalho de Orientação Vocacional, reflita sobre as questões a seguir e responda- as por escrito. Caso o espaço não seja suficiente, complete as respostas no verso da folha ou em uma folha anexa. 1 Você já se decidiu sobre qual curso/profissão seguirá? 2 Em caso negativo, o que você acha que lhe falta para decidir-se? 3 Em que consistia, ou consiste, sua dúvida quando da escolha profissional e por que era difícil para você decidir-se? 4 Se você ainda não concluiu sua escolha, tente descobrir o que lhe falta para decidir. Pense se sua dificuldade é por: - Questões pessoais; - Problemas que a orientação vocacional suscitou; - Outros motivos (Quais?). 96 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA Proposta: Solicite ao orientando que leia atentamente cada questão, respondendo-as em seguida. Desenvolvimento: Solicitar ao orientando que comente as suas respostas e avaliar, com ele, a sua escolha profissional. Caso a escolha profissional não tenha sido concluída, avaliar os possíveis motivos para isso e o encaminhamento do aluno a um profissional de psicologia caso seja necessário. Fonte: Elaboração da autora com dados de lImA, 2007, p. 124. Orientação vocacional com adultos retomando o que discutimos ao tratar da orientação vocacional de vestibulandos, é importante termos em mente que a escolha profissional não é definitiva. ela pode ser repensada e reorientada ao longo de sua vida para melhor se adequar aos desejos, aptidões e expectativas próprios daquele momento específico. durante muito tempo, a reorientação de carreiras foi vista pela sociedade como uma demonstração de instabilidade e inconstância daquele que decidia seguir um novo rumo. no entanto, estamos nos deparando cada vez mais com uma realidade em que a mudança de rumo profissional é vista como um aspecto positivo do currículo do indivíduo que, através desta iniciativa, demonstra não só flexibilidade como a vontade de ampliar suas experiências. Como salienta mariza Lima (2007): entre outras características, criatividade, flexibilidade, adaptabilidade, diversificação de experiências, competência e talento são valores importantes no mundo do trabalho nos dias atuais. tais exigências vêm plenamente ao encontro da pessoa que procura redirecionar sua vida profissional e constituem- se como encorajadoras à atitude da busca pela reorientação profissional (LIma, 2007, p. 100). o orientador vocacional que atua na escola se depara com esta situação de reopção vocacional ao lidar com os alunos do supletivo que, depois de um percurso de vida determinado, decidem retomar seus estudos para reorientar suas vidas. ao lidar com esses casos, o orientador vocacional deve considerar que, na maior parte das vezes, esses adultos são desempregados, subempregados, ocupacionalmente instáveis ou insatisfeitos com a atividade profissional que desempenham. Sendo assim, o processo de orientação vocacional deve seguir os procedimentos usuais tendo como preocupaçãoadicional identificar as causas que o levaram a esta situação profissional instável. de acordo com Fernando mello (2002, p. 147), o orientador vocacional nestes casos deve sempre se perguntar se esta nova escolha “se deve apenas a condições adversas de mercados de trabalho ou se deve também a uma opção ocupacional inadequada”. Quadro 12. Sugestão de atividades. Satisfação no trabalho Objetivos: levantar a questão da satisfação e da motivação no trabalho e relacionar esses conceitos com os aspectos sociais, culturais e pessoais. 97 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 Material: lápis e borracha ou caneta e folhas impressas com as seguintes questões: 1 Quem você gostaria de ser se não fosse quem é? Por quê? 2 Que pessoa (personagem) da Antiguidade você gostaria de ser? Por quê? 3 Que pessoa do sexo oposto você gostaria de ser? Por quê? 4 Que tipo de pessoa você gostaria de ser dentro de dez anos? Por quê? 5 Quem você não gostaria de ser se não fosse quem você é? Por quê? Proposta: Solicitar aos alunos que busquem em revistas imagens de profissionais. Em uma folha de papel dividida ao meio, pedir a eles que colem do lado direito os profissionais que parecem satisfeitos com o trabalho e do lado esquerdo os que não estão. Desenvolvimento: Pedir ao aluno que explique, pormenorizadamente, a escolha de cada uma das figuras e a inclusão dela em um ou outro lado da folha. na exploração da técnica, o orientador deve atentar para os detalhes mencionados a seguir: 1 Que fatores levaram o aluno a escolher a imagem como a de um profissional? 2 Que aspectos fizeram com que ele identificasse esta imagem como a de alguém satisfeito ou insatisfeito com a sua profissão? 3 Essas respostas estão, de alguma forma, conectadas com a atual situação profissional do aluno? 4 Essas respostas refletem as expectativas dele com relação ao futuro profissional? 5 Tendo discutido tais questões, reflita junto com os alunos o que pode ou deve ser feito para que as pessoas alocadas no lado dos insatisfeitos possam migrar para o dos satisfeitos. Fonte: Elaboração própria da autora. Orientação com pessoas com algum tipo de deficiência na sociedade em que vivemos, as pessoas com algum tipo de deficiência são comumente vistas como incapazes, que devem viver condenadas a depender da boa vontade e da produtividade das pessoas “normais”. no entanto, esta é uma visão preconceituosa e equivocada, que não considera toda a contribuição que pode ser dada por estes indivíduos à sociedade, bem como a necessidade que possuem de fazer parte ativamente do mundo que os cerca de forma útil e digna. Certamente, a orientação vocacional dos portadores de necessidades especiais tem como base um leque reduzido de opções, em virtude de suas limitações específicas, sejam elas auditivas, visuais, físicas, neurológicas ou intelectuais. o importante, no entanto, é estar consciente e conscientizar o próprio orientando de que, apesar de ser limitado para algumas atividades, ele é plenamente capaz de desempenhar uma série de outras. ao conduzir um projeto de orientação vocacional com essas características, mello (2002) afirma que o orientador deve ter as seguintes preocupações: » Utilizar os procedimentos habituais da orientação vocacional para identificar aquelas atividades que se adaptam a interesses, aptidões e inteligência do orientando. neste estágio, é fundamental que se leve em consideração aquelas atividades que se tornam inviáveis devido a sua limitação ou deficiência. 98 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA » definir de que forma o indivíduo pode se preparar educacionalmente para desempenhar a atividade profissional escolhida. » Pesquisar as instituições e empresas que admitam estes indivíduos em seus recrutamentos e processos seletivos. Como em qualquer outro caso de orientação vocacional, o foco é fornecer ao indivíduo todas as informações de que necessita para encontrar a atividade ideal para ele. no entanto, em algumas circunstâncias, deparamo-nos com aqueles indivíduos portadores de deficiências físicas ou mentais mais severas e restritivas, que tornam inviável uma vida de trabalho formal, contínuo e em horário integral. nessas situações, como defende Fernando mello (2002), cabe ao orientador identificar atividades ocupacionais não profissionais, mas que associem os interesses e as capacidades do orientando em prol de seu bem-estar e realização. nas palavras do autor, “o importante será que essa pessoa sinta satisfação no que faz, assegure ou restaure seu sentimento de dignidade e utilidade, supere qualquer tendência ao vazio existencial, ao tédio, a não encontrar sentido na sua vida (meLLo, 2002, p. 148). Quadro 13. Sugestão de atividades. Técnica do Gosto e Faço (Adaptado de lima, 2007, p. 111) Objetivos: Fazer um levantamento das atividades que a pessoa gosta de executar, se as executa ou não, por quê; discutir os sentimentos relacionados a essas atividades e os vínculos estabelecidos com elas; estender a reflexão que está sendo feita pelo sujeito e os fatores que estão sendo considerados para a escolha da atividade profissional. Material: lápis e borracha ou caneta; folha de papel A4 ou ofício dividida em quatro partes iguais, no topo das quais o aluno escreverá “gosto e faço”, “gosto e não faço”, “não gosto e faço” e “não gosto e não faço”, como indicado no modelo abaixo: Gosto e faço Gosto e não faço Não gosto e faço Não gosto e não faço Proposta: Solicitar que o orientando preencha os quadrantes com as atividades que realiza em seu dia a dia, procurando lembrar-se do maior número possível delas. vale salientar que geralmente a pessoa lista atividades da vida diária e não apenas aquelas que podem ter conexão com atividades profissionais. OBS.: Esta tarefa pode ser realizada em casa e trazida pronta para a discussão durante a sessão. Desenvolvimento: Ouvir a exposição feita pelo aluno, auxiliando-o a perceber em qual dos quadrantes se concentra um maior número de atividades. Quanto mais atividades nos quadrantes “gosto e faço” e “não gosto e não faço”, tanto melhor. Enfatize o quanto isso pode estar tornando a pessoa feliz, por estar fazendo aquilo de que gosta em detrimento daquilo que não gosta. Caso o maior número de atividades esteja nos outros dois quadrantes, ajude seu orientando a refletir sobre como pode fazer para mudar a situação. É possível mudar as atividades de quadrante e passar a fazer o que gosta ou deixar de fazer o que não gosta? Favoreça para que a pessoa pense o que isso pode estar significando em sua vida e o ajude a refletir sobre o que a atividade profissional que está selecionando para si envolverá em termos de tarefas e atividades a serem desenvolvidas. Este é um bom momento para verificar os conhecimentos do orientando sobre informações profissional/ ocupacional. Fonte: Elaboração da autora com dados de lImA, 2007, p. 111. 99 ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA • AulA 6 Orientação vocacional em camadas populares as emoções são a matéria-prima para os projetos de vida juntamente com uma combinação única de fatores sociológicos, psicológicos e históricos que agem sobre a biografia pessoal do indivíduo tornando-a única e impossível de ser repetida. dessa forma, o projeto individual passa a ser uma forma consciente e emocional de atribuir sentido a uma experiência de vida que é fragmentadora, permitindo que o sujeito a vivencie como algo coerente e único. Contudo, mesmo que os projetos sejam vivenciados pelos indivíduos como algo profundamente pessoal, é preciso ter em mente que eles são elaborados dentro de um campo de possibilidades que é definido pelo contexto social e histórico no qual está inserido. Como exemplifica Gilberto Velho (2004): Posso me inspirar em algum varão de Plutarco, mas tenho de levar basicamente em conta os meus contemporâneos com quem terei de lidar para procurar atingir meus objetivos. Serão aliados, inimigos ou indiferentes, mas serão seus projetos e condutas que darão os limitesdos meus. Uns serão mais importantes do que outros, mais relevantes e significativos. Por mais esotérico e particular que seja, um projeto tem de se basear em um nível de racionalidade cotidiana em que expectativas mínimas sejam cumpridas (VeLHo, 2004, p. 28). essa questão da adequação dos projetos ao contexto de racionalidade histórico e sociocultural no qual eles estão inseridos possui implicações bastante significativas, pois é preciso considerar que os projetos individuais são reconhecidos como legítimos ou “naturais” de acordo com o contexto em que está inserido e em cada segmento de uma sociedade complexa, os temas valorizados, as escalas de valores, as vivências e as preocupações não são necessariamente as mesmas. É preciso ter em mente que, à medida que os valores e as expectativas dos indivíduos de classes diferentes são distintos, as motivações que norteiam a elaboração de um projeto individual e, consequentemente, a escolha profissional, também são distintas. Como argumenta Gilberto Velho (2004, p. 22) a esse respeito, “Para uma família que vive em situação de penúria pode ser relativamente pouco importante a reprovação do filho na escola comparada com sua necessidade de dispor de mão de obra para atender às necessidades mais elementares de sobrevivência”. não está sendo defendido um “fatalismo sociológico” pelo qual, uma vez que o indivíduo nasce em uma classe social determinada, seu desenvolvimento intelectual e emocional estaria definido e marcado de uma vez por todas. Contudo, devemos apresentar todas as opções de carreira ao aluno sem ignorar a influência representativa da questão de classe na escolha profissional do indivíduo. a partir dessa reflexão, podemos dizer que, ao iniciar um projeto de orientação vocacional com camadas populares, o orientador vocacional deve ter atenção às seguintes questões, que podem parecer ambíguas, mas são fundamentais para este tipo de atuação: 100 AulA 6 • ORIEntAçãO vOCACIOnAl nA PRátICA » desmistificar a ideia disseminada pelo senso comum de que a universidade é destinada apenas às elites e incluir o curso superior ao leque de opções do aluno. » não ater o projeto de orientação vocacional à escolha de um curso universitário, pois essa não é a única maneira de ingresso no mercado de trabalho. nos dois casos, a informação será o principal veículo para instrumentalizar o aluno para a escolha. Por isso, o orientador vocacional deve se manter a par dos programas de auxílio universitário, bem como dos programas de formação técnica e profissionalizante que estejam à disposição do aluno. Quadro 14. Sugestão de atividades. Exercício de Introspecção Objetivos: Promover a introspecção, levando o indivíduo a pensar sobre as atividades que executa, as que desejaria executar e sobre o que lhe falta para que isso aconteça. Com isso, pretende-se favorecer a elaboração de um plano de ação para o alcance de objetivos. Material: lápis e borracha ou caneta e folhas impressas com as seguintes questões: 1 O que eu faço bem? 2 O que eu gostaria de fazer melhor? 3 do que eu não gosto, mas tenho que fazer em minha situação atual? 4 Que aspiração ainda não transformei em ação? 5 O que me falta para transformá-la em realidade? 6 O que depende de mim e o que não depende de mim para que isso ocorra? A folha deve ser dobrada de tal forma (sanfonada) que o sujeito só veja uma questão de cada vez, partindo da primeira à última, o que favorecerá uma reflexão organizada. Proposta: Solicitar ao cliente que leia atentamente todas as questões, respondendo-as a seguir. Desenvolvimento: terminado o registro das respostas, o orientador deverá lê-las silenciosamente. A seguir, pedirá ao orientando que comente cada resposta com detalhes, solicitando que, se possível, amplie suas colocações. Enfatizar os aspectos positivos apontados, procurando ajudar o cliente a buscar soluções para suas dificuldades e limitações. Fonte: Elaboração da autora com dados de lImA, 2007, p. 113. 101 Referências aranHa, m. L. de a. História da Educação e da Pedagogia: geral e Brasil. – 3ª ed. – São Paulo, SP: moderna, 2006. Bernardo, e. da S. organização de turmas: uma prática de gestão escolar em busca de uma escola eficaz. Revista Educação e Cultura Contemporânea, nº 10, v. 21, 2013, p. 154-181. BoHoSLaVSKY, r. Orientação Vocacional: estratégia clínica. São Paulo, SP: martins Fontes, 2003. CamPBeLL, C. eu compro, logo sei que existo: as bases metafísicas do consumo moderno. In: BarBoSa, L.; CamPBeLL, C. (orgs.). Cultura, consumo e identidade. rio de Janeiro, rJ: editora FGV, 2006. CHImentão, L. K. o significado da formação continuada docente. In: ConGreSSo norte-ParanaenSe de edUCaÇão FÍSICa eSCoLar 4, 2009. d’ÁVILa, G. t.; SoareS, d. H. P. Vestibular: fatores geradores de ansiedade na “cena da prova”. Revista Brasileira de Orientação Profissional, nº 1-2, v. 4, dez./2003. doUGLaS, m. Pureza e Perigo. São Paulo, SP: Perspectiva, 1966. dUrKHeIm, e. Educação e sociologia. São Paulo, SP: melhoramentos, 1978. eLIaS, n. A sociedade dos indivíduos. – 1ª ed. – rio de Janeiro, rJ: Jorge Zahar editor, 1994. FreIre, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, SP: editora Paz e terra, 2011. GandIn, d. A prática do planejamento participativo. Petrópolis, rJ: editora Vozes, 1995. Gardner, H. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto alegre, rS: artes médicas, 1995. GenneP, a. Os ritos de passagem. Petrópolis, rJ: editora Vozes, 1997. GIaCaGLIa, L. r. a.; Penteado, W. m. a. Orientação educacional na prática: princípios, histórico, legislação, técnicas, instrumentos. São Paulo, SP: Cengage Learning, 2015. GIroUX, H. a. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto alegre, rS: artmed, 1997. GrInSPUn, m. P. S. Z. A orientação educacional: conflito de paradigmas e alternativas para a escola. São Paulo, SP: Cortez editora, 2001. HaLL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. rio de Janeiro, rJ: dP&a, 2004. KLaUS, V. A família na escola: uma aliança produtiva. 2004. 263 p. dissertação (mestrado em educação) – Faculdade de educação, Universidade Federal do rio Grande do Sul, Porto alegre. La taILLe, Y. de. o lugar da interação social na concepção de Jean Piaget. In: La taILLe, Y. de et al. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo. SP: Summus, 1992. LIma, m. t. Orientação profissional: princípios teóricos, práticas e textos para psicólogos e educadores. São Paulo, SP: Vetor, 2007. LÜCK, H. Planejamento em orientação vocacional. Petrópolis, rJ: editora Vozes, 2015. meLLo, F. a. F. O desafio da escolha profissional. Campinas, SP: Papirus, 2002. PaSCoaL, m.; Honorato, e. C.; aLBUQUerQUe, F. a. de. o orientador educacional no Brasil. Educ. rev., nº 47, 2008. PaSQUaLInI, J. C.; GarBULHo, n. de F.; SCHUt, t. orientação profissional com crianças: uma contribuição à educação infantil. Revista Brasileira de Orientação Profissional, nº 1, v. 5, jun./2004. PIaGet, J. O juízo moral na criança. São Paulo, SP: Summus, 1994. PILettI, n. Sociologia da educação. – 18ª ed. – São Paulo, SP: editora Ática, 2003. 102 Referências PImenta, S. G. Orientação vocacional e decisão: um estudo crítico da situação no Brasil. São Paulo, SP: Summus, 1993. ranGeL, m. Orientação educacional e suas ações no contexto atual da escola. Petrópolis, rJ: editora Vozes, 2015. rIVIÈre, C. Os ritos profanos. Petrópolis, rJ: editora Vozes, 1997. roGerS, C. r. Tornar-se pessoa. São Paulo, SP: martins Fontes, 2001. SaId, e. Representações do intelectual. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2005. SILVa, F. F. da. o atendimento em orientação Profissional numa instituição pública. In: BoCK, a. m. B. (org.). A escolha profissional em questão. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 1995. SILVa, J. J. da. O papel da família na escolha profissional. São Caetano do Sul, SP: Yendis editora, 2006. SParta, m. o desenvolvimento da orientação profissionalno Brasil. Revista Brasileira de Orientação Profissional, nº 4, 2003. tUrner, V. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis, rJ: editora Vozes, 1974. UVaLdo, m. da C. C. relação homem-trabalho: campo de estudo e atuação da orientação Profissional. In: BoCK, a. m. B. (org.). A escolha profissional em questão. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 1995. VeLHo, G. Projeto, emoção e orientação em Sociedades Complexas. In: VeLHo, Gilberto. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. rio de Janeiro, rJ: Jorge Zahar editor, 2004. _GoBack Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Introdução Aula Orientação e educação Aula A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea Aula O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola Aula As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico Aula Orientação vocacional e educação Aula Orientação vocacional na prática Referências