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CENTRO UNIVERSITÁRIO CURITIBA, UNICURITIBA 
CHRISTOPHER AUGUSTO CARNIERI 
 
 
 
 
 
 
 
AS BRUXAS DE SALEM: 
ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Curitiba – 2019 
Agradecimento 
 
Ao professor Marcelo Bueno Mendes, pela amizade, oportunidade e confiança. 
 
“Todos nós somos um tipo de peregrino, vindo de diferentes pontos da bússola, 
compartilhando a estrada juntos por um tempo, e com tanta riqueza, podemos apenas imaginar 
para onde ela irá nos levar a partir daqui” 
Loreena McKennitt 
Índice 
 
Introdução 
1. Um pouco de magia 
 A visão antropológica 
 Magia negra 
2. A caça às bruxas 
3. Os julgamentos de Salem 
 Narrativa dos eventos 
 Interpretações 
4. Ecos de Salem 
 A bruxaria no Brasil 
 A bruxaria contemporânea 
5. O sagrado feminino 
Considerações finais 
Referências 
Anexo 1 – Cronologia dos eventos. 
Anexo 2 – Alguns personagens. 
Anexo 3 – Procedimentos usados nos julgamentos de Salem. 
Anexo 4 – Interrogatório de Tituba. 
Anexo 5 – Interrogatório de Rebecca Nurse. 
Anexo 6 - Interrogatório, Condenação e Execução de Bridget Bishop. 
 
 
 
Lista de Figuras 
 
Figura 1: Teófilo. Primeiro relato de um pacto formal com o Diabo 
Figura 2: Reverendo Samuel Parris. 
Figura 3: Cotton Mather. 
Figura 4: Mapa de Salem, 1692. 
Figura 5: Interrogatório de uma bruxa. 
Figura 6: Willian Stoughton. 
Figura 7: O enforcamento de Bridget Bishop. 
Figura 8: O julgamento de Rebecca Nurse. 
Figura 9: O enforcamento de George Burroughs. 
Figura 10: Governador William Phips. 
Figura 11: O arrependimento de Samuel Sewall. 
Figura 12: Círculo sagrado feminino. 
 
Introdução 
 
 Os eventos acontecidos em Salem ultrapassam a própria história. O que torna a caça às 
bruxas um assunto atemporal é que ele está presente, de certa forma, em todos os tempos e em 
todas as sociedades, fossem as pessoas “bruxas” ou qualquer que fosse o nome dado àqueles 
que eram diferentes. O ser humano, desde os primórdios da civilização, constrói visões de 
mundo que buscam amparar nossas incertezas sobre a vida e a morte, de tal forma que o outro 
sempre foi uma ameaça a essa frágil estrutura. 
 O foco deste estudo está no contexto da diferença. A primeira grande mudança 
vinculada a essa história acontece há muitos séculos: a mudança do matriarcado para o 
patriarcado. Seus efeitos foram sentidos, principalmente pelas mulheres, no transcorrer dos 
séculos, até o seu ápice no período de caça às bruxas, quando elas foram estereotipadas e 
perseguidas pela Inquisição. Este preconceito não acabou com o fim da Inquisição, mas 
perdurou encontrando outros nomes até que os rumos da história nos trouxeram a uma nova 
grande mudança: a luta por igualdade de direitos. Como exemplos desses acontecimentos, 
temos o movimento feminista e, posteriormente, o sagrado feminino. Este intimamente 
relacionado ao novo paradigma transdisciplinar apoiado pela UNESCO. 
 Inicialmente é apresentada uma visão antropológica sobre a magia para que possamos 
olhar os eventos estudados com mais clareza. Posteriormente, segue uma narrativa com o 
objetivo de contextualizar a história e suas possíveis interpretações. É preciso ter em mente 
para esta leitura o foco nos processos mentais e o contexto dos paradigmas em que esses 
processos estão inseridos. 
 
 
1. Um pouco de magia 
 
A visão antropológica 
 
 A antropologia estuda a diversidade cultural da humanidade. Ou seja, o ser humano. 
Contudo, se a antropologia compartilha seu objeto de estudo com outras disciplinas (por 
exemplo, psicologia, sociologia e filosofia), o que difere a antropologia dessas outras 
ciências? 
 Uma maneira de responder essa questão é que a diferença em relação a outras ciências 
é que a antropologia é um estudo integrado do ser humano. Isso se chama holismo. Em outras 
palavras, a antropologia é uma ciência holística por natureza. Por exemplo, várias ciências ou 
disciplinas estudam o casamento. Porém, um verdadeiro entendimento do casamento requer 
um estudo de todos os aspectos da sociedade. O casamento é profundamente influenciado pela 
política, pela lei, pelos costumes e pela economia, para citar apenas alguns aspectos; por sua 
vez, o casamento influencia a história, a literatura, a arte e a música. 
 A natureza holística da antropologia pode ser compreendida através dos campos de 
estudos na qual se divide: antropologia física, antropologia linguística, antropologia cultural e 
arqueologia. 
 A antropologia física é o estudo da biologia humana e sua evolução. As diferenças e 
semelhanças entre as raças e os seu relacionamentos com o meio em que vivem, primatologia, 
crescimento e desenvolvimento, adaptação humana e antropologia forense. 
 A antropologia linguística estuda como a língua influencia na cosmovisão de um 
povo. A linguagem permite a transmissão e preservação de detalhes da cultura, de geração 
para geração. Porém, esta não é a característica verdadeiramente única da nossa linguagem. 
Segundo Harari (2015), o diferencial da nossa linguagem “é a capacidade de transmitir 
informações sobre coisas que não existem. Até onde sabemos, só os sapiens podem falar 
sobre tipos e mais tipos de entidades que nunca viram, tocaram ou cheiraram”. Essa 
capacidade de falar sobre realidades imaginadas (ficções) é a característica mais singular da 
espécie humana. Em nossa história neste planeta, isso aconteceu após algo conhecido como 
Revolução Cognitiva (período entre 70 mil a 30 mil anos atrás), onde lendas, mitos, deuses e 
religiões apareceram pela primeira vez. 
 Essa capacidade de imaginar coisas nos permitiu tecer mitos partilhados, os quais 
deram aos seres humanos a capacidade sem precedentes de cooperar de modo eficaz em 
grande escala. Harari conclui seu pensamento argumentando que, 
“Toda cooperação humana em grande escala – seja um Estado moderno, uma igreja 
medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica – se baseia em mitos partilhados 
que só existem na imaginação coletiva das pessoas. [...] Mas nenhuma dessas 
coisas existe fora das histórias que as pessoas inventam e contam umas às outras. 
Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direito humanos, nem 
leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos”. (Harari, 2015, 
p.36) 
 
 Outro exemplo foi a observação de que a língua dos indígenas Hopi, do sudoeste dos 
Estados Unidos, não apresentava palavras para indicar passado, presente ou futuro. Isso fez 
com que os pesquisadores sugerissem que os Hopi possuem uma concepção única de tempo 
(Whorf, 1946). Curiosamente, os antropólogos não encontraram entre os índios Hopi 
nenhuma concepção de nostalgia e ansiedade. 
 A antropologia cultural estuda as sociedades humanas contemporâneas. Entre os 
objetos de estudo estão: aspectos identitários, mitologia, espiritualidade (principais crenças e 
visão da morte), organização social (sistema de parentesco/laços sociais, sistema econômico, 
sistema político e sistema jurídico) e rituais. Magia e religião fazem parte deste campo. 
 De acordo com a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO, 
“cultura deve ser considerada como o conjunto dos traços distintivos 
espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma 
sociedade ou um grupo social que abrange, além das artes e das letras, os 
modos de vida, as maneiras de viver juntos, os sistemas de valores, as 
tradições e as crenças” (2012). 
 
 Enfim, a arqueologia é o campo da antropologia que estuda culturas e civilizações do 
passado através das descobertas e análise de restos materiais e dados ambientais. A única 
diferençaem relação à antropologia cultural é que a arqueologia não dispõe das pessoas para 
interagir. 
 Os estudos de magia e religião ocupam um papel de destaque na antropologia. 
Contudo, quando a maioria das pessoas ouve falar em magia, é bem provável que pensem em 
um coelho sendo retirado de uma cartola ou cartas de baralho desaparecendo diante dos seus 
olhos. O que é popularmente conhecido como “magia” ou “mágica”, chamaremos aqui de 
ilusão, pois magia nesse sentido se refere a algum tipo de truque. Os mágicos ou ilusionistas 
admitem que estão manipulando não o mundo sobrenatural, mas sim a percepção humana. A 
magia, na visão antropológica, refere-se a rituais através dos quais uma pessoa pode 
manipular (ou acredita que pode) o sobrenatural a se comportar de certas maneiras. Também 
estão relacionados à magia, nesse sentido, as formas sobrenaturais de se obter informações 
sobre o desconhecido. Em outras palavras, informações sobre o futuro, sobre o que está 
acontecendo em um lugar distante ou a causa de uma doença, por exemplo. 
 Os primeiros antropólogos eram um tanto etnocêntricos em relação ao estudo da 
magia, normalmente colocando-a em uma categoria separada da religião. Atualmente, a 
maioria dos antropólogos considera a magia como parte da religião porque está associada a 
questões espirituais. Inclusive a preferência pelo termo “espiritual” ao invés de “sobrenatural” 
já demonstra uma abordagem e um tratamento mais inclusivo e igualitário. 
 O trabalho de Frazer é tido como um marco no estudo da magia no âmbito 
antropológico. Um dos seus objetivos em The Golden Bough (publicado pela primeira vez em 
1890) era o de provar que algumas características da magia são comuns em grande parte das 
sociedades humanas. Para ele, o selvagem dificilmente distinguia o natural do sobrenatural. 
Tudo está interligado, como se fosse uma amalgama. Outro ponto importante da obra é a 
definição de dois tipos gerais de magia: imitativa ou homeopática e simpática ou contagiosa. 
A primeira se baseia no princípio da similaridade, o mágico, assim, imita os atos que ele 
deseja que aconteçam como por exemplo soprar fumaça aos céus para que nuvens apareçam. 
Essa é a lei de que semelhante afeta semelhante. Por sua vez, a magia simpática reflete a ideia 
de que tudo o que se faça a um determinado objeto afetará a pessoa a quem ele pertence ou 
com quem tem ligação. De acordo com essa crença, cabelo, sangue e unha continuam ligados 
às pessoas às quais se deseja atingir com a magia. 
 Segundo Frazer a magia pressupõe uma relação de causa e efeito, pois seus atos visam 
atingir determinados fins. Essa perspectiva de estudo leva o autor a aproximar a magia da 
ciência, argumentando que ambas reconhecem uma sucessão de eventos determinados por leis 
de causalidade e que agem de acordo com elas. Portanto, a magia seria para o autor uma 
forma primitiva do que viria a ser o pensamento científico. Porém, ambas estão distantes do 
princípio religioso, pois este considera o mundo como sendo governado por forças superiores 
que podem afetar o curso dos acontecimentos através da súplica e da persuasão. Em outras 
palavras, enquanto a magia vê uma realidade opera por leis que podem ser usadas para gerar 
resultados, a religião coloca os homens à mercê da vontade dos deuses e do culto ancestral, os 
quais são considerados os únicos agentes que teriam real poder sobre o mundo. 
 Émile Durkheim, em As formas elementares da vida religiosa propõe o debate das 
origens do fenômeno religioso a partir do sistema totêmico da Austrália. Este sistema pode ser 
definido como uma relação íntima entre um grupo de indivíduos e uma espécie de ser natural 
ou imaginário que se torna o totem do grupo. Assim sendo, o totemismo é tanto uma forma de 
organização do grupo quanto um sistema de crenças. O autor defende que esse contexto 
apresenta a religião mais elementar possível, inseparável da organização social em clãs. Para 
tanto, o ponto central da sua obra é que: 
 “a religião é coisa eminentemente social. As representações religiosas são 
representações coletivas que exprimem realidades coletivas; os ritos são maneiras 
de agir que surgem unicamente no seio dos grupos reunidos e que se destinam a 
suscitar, a manter, ou a refazer certos estados mentais desses grupos.” (Durkheim, 
1989, p.38) 
 Durkheim não se preocupa em traçar uma distinção clara entre a magia e a religião. 
Para ele, onde há divisão entre sagrado e profano há a presença da religião. Aquilo que muitos 
autores consideram como mágico, o sistema totêmico por exemplo, Durkheim considera como 
religioso, uma vez que sua expressão é eminentemente social. A grande diferença é o caráter 
substancialmente social da religião, enquanto a magia é uma técnica que pertence à esfera 
individual. 
 Já Marcel Mauss e Henri Hubert, em Esboço de uma teoria geral da magia, 
consideram magia e religião como polos opostos. Enquanto a primeira age diretamente sobre 
o objeto, forçando e obrigando o efeito desejado, a segunda concilia o desejo ou necessidade 
com a vontade e a providência divina. Assim, a característica essencial do rito mágico é sua 
eficácia, sua capacidade de gerar algo mais, de realizar ou concretizar algo. Para eles a magia 
é uma classe distinta de fenômenos, compreendendo agentes mágicos, atos e representações, 
um sistema de ideias e crenças: “os ritos mágicos, e a magia como um todo, são, em primeiro 
lugar, fatos de tradição. Atos que não se repetem não são mágicos. Atos em cuja eficácia todo 
um grupo não crê, não são mágicos.” (2003, p.55-56) 
 Uma diferença significativa é o local onde a magia é realizada: 
“esta não costuma ocorrer no templo ou no altar doméstico, mas geralmente nos 
bosques, longe das habitações, na noite ou na sombra, ou nos recônditos da casa, 
isto é, num lugar isolado (...). Esses diversos sinais, na verdade, apenas exprimem a 
irreligiosidade do rito mágico; ele é anti-religioso, e as pessoas querem que assim 
seja.” (2003, p.62) 
 Outra questão importante sobre magia diz respeito ao pensamento mágico. Essa 
relação percebida entre fazer algo e o que parece ser o resultado dessa ação é a base de muitos 
comportamentos em todas as sociedades humanas, incluindo a nossa. Por exemplo, supondo 
que aconteça o seguinte: eu encontro uma moeda na calçada, coloco-a no bolso e no dia 
seguinte eu recebo um aumento. Atribuir isso à boa sorte de ter encontrado uma moeda é um 
exemplo de pensamento mágico. Em nossa sociedade, comportamentos como esse são 
chamados de superstição. 
 Jacob Boehme, filósofo do século XVIII, escreveu que magia é uma expressão da 
vontade. Sem vontade, não há magia. É uma atitude voluntária. Ao contrário da religião que 
expressa a aceitação: “seja feita a vossa vontade!”. Magia é atuação. Em outras palavras, há 
pessoas que se emocionam assistindo à uma peça de teatro porque “entram” na estória e 
outras não se afetam nenhum pouco, pois veem apenas atores e atrizes em seus papéis. No 
primeiro caso existe magia, no segundo não. 
 Individual ou social, ligada à religião ou oposta a ela, a magia parece ser uma projeção 
da capacidade que o homem tem de agir sobre a realidade por meio da vontade e do 
conhecimento adquirido pela tradição. Assim, não só a teoria sobre a magia ajudou a 
determinar a antropologia como disciplina, mas ela também tem muito a oferecer como um 
instigante problema de pesquisa. Por exemplo, nossos pensamentos realmente têm o poder de 
criar a realidade e influenciar, atrair, ou de qualquer outra forma, definir as experiências que 
vivemos? 
 
Magia negra 
 
 Segundo Gerald Gardner em O significado da bruxaria: 
“Eu entendo magia como a arte de obter resultados. Considere um exemplo 
simples: se euproduzir um boneco de cera de um homem de modo apropriado, e 
passar a espetar alfinetes nesse boneco, e assá-lo da maneira tradicional, e contar 
para esse homem o que estou fazendo, e ele morrer de pavor, eu posso afirmar que 
sua morte foi o resultado de um ato de magia” (Gardner, 2004, p.98) 
 
 Dito isso, uma questão pertinente à magia é a seguinte: devemos temer a magia 
negra?1 Segundo Harvey Spencer Lewis, em sua obra Como evitar o envenenamento mental, 
as estranhas mortes de exploradores ao entrarem na tumba do Rei Tut chamaram à atenção o 
 
1 Para um estudo mais detalhado: Canal Realidade Fantástica – Devemos temer a magia negra? A visão 
esotérica. Disponível em: https://youtu.be/5dc4R-Qfndk Acesso em: 06/12/2018. 
tema da magia negra e maldições. Após discorrer sobre algumas teorias, ele conclui seu 
pensamento dizendo que: 
“há trinta e dois séculos, quando os sábios cujo dever era proteger as tumbas 
de seus bem-amados reis, esculpiram nas paredes do Rei Tut a advertência, 
o comando, de que quem violasse deliberadamente as leis sagradas do Egito, 
forçando a entrada na câmara selada, sofreria a maldição dos deuses e 
morreria, administraram uma dose de veneno mental a vítimas 
desconhecidas do futuro, as quais, tendo lido a advertência após violarem o 
túmulo, aceitaram a sugestão e permitiram que o veneno ali instalado se 
tornasse uma lei e um comando para elas, levando-as inclusive à morte.” 
(2015, p.68) 
 
 Vale lembrar que as pessoas que abriram e entraram na tumba estavam entrando em 
um ambiente selado por séculos, ou seja, respiraram um ar contaminado de bactérias. Isso 
somado à sugestão mental de uma maldição é que levou aquelas pessoas à morte. 
 Para todos os efeitos, define-se magia negra como a possibilidade do ser humano 
prejudicar outros por meios imateriais ou sutis, canalizando para isso energias destruidoras e 
enviando-as através do espaço, não importando a distância, quer a vítima saiba ou não. Se isso 
fosse possível já não existiria mais humanidade. O ser humano pratica o mal por meios 
materiais apenas, fruto do seu livre-arbítrio e sujeito às suas consequências. Se sofremos 
algum mal acreditando que ele provém da intenção alheia, nós sofremos devido à 
autossugestão de que isso é possível e não porque outras pessoas possuem algum tipo de 
poder para fazê-lo. Por isso, não devemos temer a magia negra, devemos temer a ignorância. 
A origem de todo o sofrimento humano. 
 Embora não exista consenso em relação ao conceito de bruxaria, no passado a 
antropologia considerava bruxaria como a capacidade e a intenção de uma pessoa em fazer o 
mal (veremos a visão sobre bruxas contemporâneas mais adiante). Em linhas gerais, um bruxo 
ou uma bruxa não depende de rituais para fazer o mal, ele ou ela tem a habilidade de praticá-
lo apenas pela sua vontade. Em algumas culturas a bruxaria pode ser inconsciente e não-
intencional, ou seja, uma pessoa pode ser um bruxo ou uma bruxa sem saber. Esta foi uma das 
características marcantes durante os julgamentos de Salem: as pessoas eram acusadas de 
supostamente praticar algo do qual não tinham consciência ou sequer intenção. 
2. A caça às bruxas 
 
 As bruxas realmente existiram? De certa forma, sim. Porém, como uma construção 
social de uma época. Especificamente, a construção e negação do “outro”. Essa construção é, 
em outras palavras, o processo em que um grupo dominante (ou que pretende ser) estabelece 
as fronteiras sociais entre “nós” e “eles”. 
 Vamos começar pela formação do “nós”. Para que exista coesão social em um grupo 
humano eu preciso basicamente de dois elementos: pertencimento (um lugar no mundo) e 
propósito (fé, crença, identidade, razão de viver etc.). Uma vez estabelecidos esses dois 
elementos, o resultado será a expectativa de um comportamento compartilhado: eu preciso 
saber o que esperar dos membros de um grupo, caso contrário eu não tenho uma coesão 
social. Por sua vez, os outros são aqueles que não fazem parte dessa equação simplesmente 
porque não compartilham dos mesmos propósitos nem do mesmo sentimento de lugar no 
mundo. Normalmente essa classificação de “outros” se refere a estrangeiros ou viajantes 
(porque estão de passagem ou mesmo que fiquem, demonstram pertencimento a outro lugar), 
bruxas, hereges e outras classificações que não se enquadrem dentro da “normalidade” 
construída e convencionada por determinado grupo. Em outras palavras, infelizmente na 
história da Humanidade, o outro sempre foi visto como uma ameaça. Todas as épocas tiveram 
suas “bruxas”. O que faz com que, de certa forma, falar de “caça às bruxas” seja um termo 
atemporal. Fossem as pessoas bruxas ou apenas algum outro nome dado para “outros”. 
 Conforme Françoise Laplantine, 
“a identidade é um enunciado performativo que expressa pertencimento e origem 
de hereditariedade, raça, solo, nação, família, crença etc. A reivindicação 
identitária proclama autenticidade. Em outras palavras, é a reivindicação de um 
refluxo. É o passado comandando o presente e atribuindo-lhe legitimidade 
retroativa: um processo de reativação de origem.” (2011, p. 38) 
 
 A identidade convencional nasce de respostas condicionadas, ou seja, a identidade é 
uma configuração artificial: muda-se a realidade construída e, por sua vez, muda-se a 
configuração identitária. A identidade é sempre uma construção contrastiva em relação aos 
nossos “outros”. Estamos sempre dançando um jogo de espelhamento, classificação, inclusão 
e exclusão. 
 Nesse contexto, o discurso identitário cristão na Idade Média foi construído como um 
discurso legitimador dos dogmas cristãos frente a outros grupos de forma impositiva como a 
única e verdadeira religião. O auge dessa autoafirmação foi a estigmatização da bruxaria com 
a publicação de manuais de inquisição2 nos séculos XIV e XV. 
 A demonização da mulher está diretamente relacionada à transgressão sexual como 
transgressão da fé, pois elas são expressão e manifestação dos desejos do corpo. Outro motivo 
foi o preconceito de certas práticas ancestrais, que até então eram relativamente aceitas. Essas 
práticas estavam relacionadas ao paganismo, um contato direto com a natureza e a 
espiritualidade sem intermediários e discursos salvacionistas, como no caso da Igreja. Nesse 
sentido, as mulheres foram vistas como uma forma de ameaça porque normalmente em 
culturas pagãs lidavam com ervas medicinais, higiene, sexo, partos e saúde em geral. 
 
Figura 1: Teófilo. Primeiro relato de um pacto formal 
com o Diabo.3 
 
 Um elemento essencial da caça às bruxas foi o pacto. Assim, um maleficus passa a ser, 
por definição, alguém que faz um pacto com o demônio. É importante considerar que, na 
visão da Igreja, o pacto representa um ato voluntário. 
 A lógica do pacto é que se alguém rendeu culto ao demônio, segue-se que acreditava 
poder ser salvo por ele da justiça de Deus, o que é heresia. A escolástica consolidou a noção 
de existir um intercurso ritual entre as bruxas e o demônio, incluindo a ideia de orgia. 
Segundo a Inquisição, os quatro pontos essenciais da bruxaria eram a renúncia da fé católica, 
 
2 O mais Famoso deles foi o Malleus Maleficarum, publicado em 1486 com a aprovação papal e tendo a bula de 
1484 como prefácio. 
3 Fonte: The Psalter of Queen Ingeborg of Denmark, Musée Condé, Chantilly, conforme manuscrito de 1695, f. 
35 verso. Photo Giraudon. 
a devoção integral (corpo e alma) ao serviço do Mal, o sacrifício de crianças não batizadas e a 
prática de relações sexuais com o demônio. Nesse contexto, a Inquisição na Europa 
continental, predominantemente católica, via o crime debruxaria, como um crime religioso 
(uma heresia). Sua punição era a morte na fogueira. Enquanto isso, na Inglaterra, a bruxaria 
estava mais associada à feitiçaria do que à heresia. A diferença é que o feitiço, nesse sentido, 
é visto como uma forma de se atingir “vantagens” que vão contra uma suposta ordem 
“natural” das coisas. Em outras palavras, um ato voluntário de se atingir objetivos que não 
segue uma convenção social e moral previamente estabelecida. Assim, na Inglaterra, a 
bruxaria era vista como um crime civil e não religioso. Sua punição era a morte na forca. 
 
 
 
3. Os julgamentos de Salem 
 
 Conforme a Europa caminhava para o Século das Luzes, a caça às bruxas diminuía e 
as fogueiras acabaram desaparecendo. Foi então que surgiram na Nova Inglaterra os primeiros 
casos de possessão, relatados em Salem, em 1692. 
 Salem foi fundada em 1629 por um grupo de mercadores e pescadores que 
comerciavam com a Inglaterra. A vila foi beneficiada por uma carta que lhe conferiu grande 
independência, ao contrário de outras colônias inglesas. Foi fundada por puritanos decididos a 
criar uma nova sociedade, já que a Igreja Anglicana que não respondia às suas exigências 
teológicas e éticas. No início do século XVII, muitos se exilaram na margem americana para 
fundar a “sociedade dos santos”: uma pequena sociedade igualitária, espécie de pequena 
república com uma magistratura, um governo e igrejas independentes. 
 Havia entres esses imigrantes muitos pastores formados em Cambridge, membros da 
pequena nobreza inglesa e comerciantes. Em 1692, a cidade de Salem já contava com uma 
bela igreja chamada de meeting house, lugar para reuniões e orações, e muitas casas 
confortáveis feitas de tijolos. As ricas terras da região haviam sido distribuídas, e nos 
arredores formou-se o vilarejo de Salem, onde, no final do século XVII, reinava a disputa 
entre dois grupos: de um lado, os mais urbanizados que iam rezar na cidade aos domingos; de 
outro, os puritanos da “velha guarda”, donos de terras menos ricas e desconfiados com 
crescimento de Salem, cidade portuária próspera que exibia cada vez menos interesse pela 
bíblia. 
 No trabalho, na virtude, no rigor, e também na educação, a dinâmica protestante 
influía de forma direta na rotina diária de seus habitantes. A faculdade de Harvard foi fundada 
em 1636, entre Boston e Salem. Entre os puritanos, era dada ênfase à felicidade no seio 
familiar, célula primeira da sociedade. Na segunda metade do século XVII chegaram à Nova 
Inglaterra novos imigrantes, que não eram puritanos, os quakers. Eles eram, na época, muito 
extravagantes e tinham má reputação na Inglaterra. Quando chegaram, foram mal recebidos 
tanto pela magistratura como pela Igreja, menos por questões de heresia do que por terem 
levado o caos para a cidade. Agindo mais por gosto pela ordem do que por questões de fé, os 
puritanos passaram a persegui-los: em 1658, uma lei condenou os quakers ao degredo (exílio) 
sob pena de morte. 
 Nos anos que precederam 1692, aumentou a apreensão por toda a Nova Inglaterra 
devido à insegurança reinante. Insegurança a princípio física, pois durante o verão de 1690 
haviam eclodido as guerras indígenas. Insegurança política, também, pois Massachusetts 
perdeu a carta que lhe havia sido concedida em 1629. Em 1685, havia subido ao trono na 
Inglaterra um católico, Jaime II. A chegada de Guilherme III de Orange e de Maria em 1688 
tranquilizou a Nova Inglaterra, mas levaria algum tempo até que seus habitantes recebessem 
garantias sólidas. Quando surgiram os primeiros casos de possessão, a população foi 
convencida de que se tratava de um ataque de Satanás contra os eleitos de Deus. E, em 1692, 
o Diabo se manifestou na aldeia de Salem. 
 
Narrativa dos eventos4 
 De junho a setembro de 1692, dezenove homens e mulheres, todos condenados por 
feitiçaria, foram levados para a colina Gallows, uma encosta árida perto da vila de Salem, 
para serem enforcados. Outro homem de mais de oitenta anos foi pressionado até a morte sob 
pedras pesadas por se recusar a se submeter a um julgamento por bruxaria. Centenas 
enfrentaram acusações de feitiçaria. Dezenas ficaram na cadeia por meses sem julgamento. 
Então, quase tão rápido quanto começou, a histeria terminou. 
 Por que essa paródia da justiça ocorreu? Por que isso ocorreu em Salem? Nada sobre 
essa tragédia era inevitável. Somente uma infeliz combinação de uma guerra de fronteira em 
curso e ciúmes pessoais podem explicar as acusações, julgamentos e execuções que ocorreram 
na primavera e no verão de 1692. Atitudes estas nada “sobrenaturais” e bem humanas por 
sinal. 
 
 
4 Tradução do autor. Fonte: The Witchcraft Trials in Salem: An Account. 
Disponível em: http://famous-trials.com/salem/2078-sal-acct Último acesso em: 06/12/2018. 
 
Figura 2: Rev. Samuel Parris.5 
 
 Em 1688, John Putnam, um dos anciões mais influentes da vila de Salem, convidou 
Samuel Parris, ex-comerciante bem-sucedido em Barbados, para pregar na igreja de Salem. 
Um ano depois, após negociações sobre salário, Parris aceitou o cargo de ministro da 
comunidade. Ele se mudou para Salem com sua esposa Elizabeth, sua filha, Betty, sua 
sobrinha, Abigail Willians, e sua escrava, Tituba, adquirida por Parris em Barbados 
 A Salem que se tornou o novo lar de Parris estava no meio de um processo de 
mudança: uma elite mercantil estava começando a se desenvolver, pessoas proeminentes 
estavam se tornando menos dispostas a assumir posições como líderes de cidades, dois clãs 
(os Putnams e os Porters) estavam competindo pelo controle da vila e seu púlpito, e existia 
ainda um debate agressivo sobre a independência de Salem em relação às regiões agrícolas do 
interior para se tornar um centro de comércio marítimo. 
 Em algum momento do rigoroso inverno de 1692, a jovem Betty Parris ficou 
estranhamente doente. Ela correu pela casa se batendo na mobília, contorcendo-se de dor e 
febre. A causa de seus sintomas pode ter sido uma combinação de estresse, asma, culpa, tédio, 
abuso infantil, epilepsia e psicose delirante. Os sintomas também poderiam ter sido causados, 
como argumentou Linda Caporael em um artigo publicado em 1976 pela revista Science, por 
uma doença chamada ergotismo convulsivo proveniente da ingestão de centeio em cereais e 
pães infectados com ergot (fungo que invade o cultivo de grãos de centeio, espacialmente sob 
condições quentes e úmidas, como existira na colheita anterior em Salem). Ergotismo 
convulsivo provoca ataques violentos, uma sensação de formigamento na pele, vômitos e 
 
5Fonte: Imagem encontrada em 1982 entre documentos não catalogados da Sociedade Histórica de 
Massachusetts. https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso em: 07/05/2019. 
alucinações. A droga alucinógena LSD é um derivado do ergot. Muitos dos sintomas parecem 
coincidir com aqueles atribuídos a Betty Parris, mas não há como confirmar se ela de fato 
sofria da doença e a teoria não explica as aflições sofridas por outros em Salem no final do 
ano. 
 
Figura 3: Cotton Mather.6 
 
 Na época, entretanto, havia outra teoria para explicar os sintomas das meninas. Cotton 
Mather havia publicado pouco tempo antes um livro popular chamado “Memorable 
Providences”. Nele era descrito a suspeita de feitiçaria de uma mulher em Boston, e o 
comportamento de Betty coincidia com o da pessoa afligida descrita no livro. Era fácil 
acreditar em 1692, com uma guerra indígena a menos de cem quilômetros de Salem (com 
muitos refugiados na área) que o diabo estava por perto. Mortes súbitas e violentas se 
tornaram uma paisagem mentalcomum. 
 O assunto bruxaria aumentou quando outros amigos de Betty, incluindo Ann Putnam, 
Mercy Lewis e Mary Walcott começaram a exibir um comportamento incomum. Quando as 
primeiras tentativas de cura falharam, William Griggs, o médico chamado para examinar as 
meninas, sugeriu que o problema poderia ter origem sobrenatural. A crença generalizada de 
que as bruxas visavam crianças fazia com que o diagnóstico do médico parecesse cada vez 
mais provável. 
 Uma vizinha, Mary Sibley, propôs uma forma de contra-magia. Ela disse a Tituba para 
assar um bolo de centeio com a urina da vítima aflita e alimentar um cachorro com o bolo 
 
6 Fonte: Cortesia da American Antiquarian Society, 1727. https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso 
em: 07/05/2019. 
(acreditava-se que os cães eram usados pelas bruxas como agentes para executar seus 
comandos diabólicos). A essa altura, as suspeitas já começaram a se concentrar em Tituba, 
que era conhecida por contar às meninas histórias de presságios, vodu e feitiçaria de seu 
folclore nativo. Sua participação no episódio do bolo de urina fez dela um bode expiatório 
ainda mais óbvio para o inexplicável. 
 Enquanto isso, o número de meninas afetadas continuou a crescer, subindo para sete 
com a adição de Ann Putnam, Elizabeth Hubbard, Susannah Sheldon e Mary Warren. De 
acordo com o historiador Peter Hoffer, as meninas “passaram de um círculo de amigas para 
uma gangue de delinquentes juvenis” (muitas pessoas de época reclamavam que os jovens não 
tinham a piedade e o senso de propósito da geração dos fundadores da vila). As meninas se 
contorceram em poses grotescas, caíram no chão e reclamaram de sentirem mordidas e 
beliscões no corpo. Em uma aldeia onde todos acreditavam que o diabo era real, a suspeita de 
aflição das meninas se tornou uma obsessão. 
 
Figura 4: Mapa de Salem, 1692.7 
 
7 Fonte: https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso em: 07/05/2019. 
 
 Pouco depois de 25 de fevereiro, quando Tituba assou o bolo de bruxa, e 29 de 
fevereiro, quando os mandados de prisão foram emitidos contra Tituba e duas outras 
mulheres, Betty Parris e Abgail Willians nomearam os seus malfeitores e a caça às bruxas 
começou. A consistência das acusações das duas garotas sugere fortemente que as garotas 
elaboraram suas histórias juntas. Em pouco tempo Ann Putnam e Mercy Lewis também 
estavam relatando a visão de “bruxas voando através da névoa do inverno”. A proeminente 
família Putnam apoiou as acusações das meninas colocando um considerável ímpeto por trás 
dos processos. 
 As três primeiras mulheres a serem acusadas de feitiçaria foram Tituba8, Sarah Good e 
Sarah Osborn. Tituba foi uma escolha óbvia. Sarah Good era uma mendiga e desajustada 
social que vivia onde quer que alguém a abrigasse. Sarah Osborn era velha, briguenta e não 
frequentava a igreja havia mais de um ano. Os Putnam apresentaram a queixa contra as três 
mulheres aos magistrados do condado Jonathan Corwin e John Hathorne, que agendou 
interrogatórios às bruxas suspeitas em 1º de março de 1692 na taverna Ingersoll. Quando 
centenas apareceram, os interrogatórios foram transferidos para uma casa apropriada a 
reuniões da comunidade. 
 Nos interrogatórios, as meninas descreveram os ataques dos espectros das três 
mulheres e caíram em seus padrões de contorções. Elas aumentavam a intensidade desse 
comportamento quando na presença de uma das suspeitas. Outros aldeões se apresentaram 
para oferecer histórias de queijo e manteiga misteriosamente ruins ou animais nascidos com 
deformidades após visita de uma das suspeitas. Os magistrados, na prática comum da época, 
faziam as mesmas perguntas às suspeitas várias vezes: vocês são bruxas? Vocês viram Satã? 
Se vocês não são bruxas, como podem explicar as contorções aparentemente causadas por 
suas presenças? O estilo e a forma das perguntas indicam que os magistrados já as 
consideravam culpadas. 
 
8 Ver interrogatório no anexo 4. 
 
Figura 5: Interrogatório de uma bruxa.9 
 
 O assunto poderia ter terminado com advertências e repreensões se não fosse por 
Tituba. Depois de negar inflexivelmente qualquer culpa com medo de se tornar um bode 
expiatório, Tituba afirmou que ela foi abordada por um homem alto de Boston – obviamente 
Satanás – que às vezes aparecia como um cão ou um porco e que lhe pedia para assinar seu 
livro e fazer seu trabalho. Sim, Tituba declarou que ela era uma bruxa e, além disso, que ela e 
quatro outras bruxas, incluindo Good e Osborn, voaram pelo céu em suas vassouras. Ela 
tentou procurar o reverendo Parris, disse ela, mas o diabo bloqueara o seu caminho. A 
confissão de Tituba conseguiu transformá-la de um possível bode expiatório em uma figura 
central no desenvolvimento dos processos. Sua confissão também serviu para silenciar a 
maioria dos céticos. Após isso, Parris e os outros ministros locais começaram a caça às bruxas 
com zelo e determinação. 
 De acordo com seus próprios relatos, as formas espectrais de outras mulheres 
começaram a atacar as meninas aflitas. Martha Corey, Rebecca Nurse, Sarah Cloyce e Mary 
Easty foram acusadas de bruxaria. Dorca Good, filha de 4 anos de Sarah Good, tornou-se a 
primeira criança a ser acusada de bruxaria quando as três meninas reclamaram que foram 
mordidas pelo espectro dela. 
 
9Fonte: Thompkins H. Matteson, 1853. https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso em: 07/05/2019. 
 Presas na cadeia e com o testemunho condenatório das meninas afetadas amplamente 
aceito, as suspeitas começaram a ver a confissão como uma maneira de evitar a forca. 
Deliverance Hobbs tornou-se a segunda mulher a confessar, admitindo beliscar três das 
meninas sob o comando do Diabo e voar em sua vassoura durante um Sabbath. As cadeias se 
aproximaram da capacidade máxima e a colônia estava à beira do caos quando o governador 
Phips retornou da Inglaterra. 
 
Figura 6: Willian Stoughton.10 
 
 Phips criou um novo tribunal, o “Tribunal de Oyer e Terminer”, para ouvir os casos de 
bruxaria. Cinco juízes, incluindo três amigos próximos de Cotton Mather, foram nomeados 
para o tribunal. O chefe de justiça, e membro mais influente da corte, era um caçador de 
bruxas chamado Willian Stoughton. Mather pediu a Stoughton e aos outros juízes que 
creditassem confissões e admitissem a “evidência espectral” (testemunho das pessoas afetadas 
de que elas haviam sido visitadas pelo espectro de um suspeito). Os ministros foram 
procurados para receber orientação dos juízes, que geralmente não possuíam treinamento 
legal em assuntos de bruxaria. 
 O conselho de Mather foi atendido. Além disso, os juízes também decidiram permitir 
o chamado “teste do toque” (foi pedido aos réus que tocassem nas pessoas aflitas para ver se o 
seu toque, como geralmente se supunha do toque das bruxas, pararia suas contorções) e o 
exame dos corpos dos acusados em busca de “marcas de bruxas”. Evidências que seriam 
excluídas dos tribunais modernos – rumores, fofocas, conjecturas – eram facilmente 
admitidas. Muitas das proteções e garantias que os réus modernos têm eram ausentes em 
Salem: bruxas acusadas não tinham conselho legal, não podiam ter testemunhas sob 
 
10 Fonte: Artista desconhecido, 1700. https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso em: 07/05/2019. 
juramento em seu nome e não tinham vias formais de apelação. Os réus, no entanto, podiam 
falar por si mesmos, produzir provas e interrogar seus acusadores.O grau em que os acusados 
conseguiram tirar proveito de suas modestas proteções variou consideravelmente, dependendo 
de sua própria intensidade e de sua influência na comunidade. 
 A primeira bruxa acusada a ser levada a julgamento foi Bridget Bishop11. Com quase 
sessenta anos de idade, dona de uma taverna onde os clientes podiam beber sidra e jogar 
“shuffeboard”, ela era alvo de críticas de seus vizinhos e clientes relutantes em pagar suas 
contas. Nesse contexto, Bishop era uma provável candidata à acusação de bruxaria. O fato de 
Thomas Newton, promotor especial, ter escolhido Bishop como seu primeiro processo, sugere 
que ele acreditava que esse caso tinha os elementos mais favoráveis à condenação do que 
qualquer outra bruxa suspeita. 
 No julgamento de Bishop em 2 de junho de 1692, uma pessoa testemunhou que vira a 
imagem de Bishop roubando ovos e depois a viu se transformar em um gato. Deliverance 
Hobbs e Mary Warren, ambas bruxas confessas, testemunharam que Bishop era uma delas. 
Um aldeão chamado Samuel Gray disse ao tribunal que Bishop visitou sua cama à noite e o 
atormentou. Várias das meninas aflitas testemunharam que o espectro de Bishop as afligia. 
Outros moradores da vila descreveram que Bishop era responsável por vários tipos de azar 
que lhes tinham acontecido. Houve até testemunho de que, enquanto estava sendo 
transportada sob guarda, ao passar pela casa de reunião de Salem, ela olhou para o prédio e 
fez uma parte cair no chão. O júri apresentou o veredito de culpa. Um dos juízes, Nathaniel 
Saltonstall, horrorizado com a condução do julgamento, demitiu-se do tribunal. O presidente 
do Supremo Tribunal, Stoughton, assinou a sentença de morte de Bishop e, em 10 de junho de 
1692, Bishop foi levada à colina Gallows e enforcada. 
 
11 Ver Interrogatório, condenação e execução no anexo 6. 
 
Figura 7: O enforcamento de Bridget Bishop.12 
 
 Quando o verão de 1692 se aqueceu, o ritmo dos julgamentos aumentou. Nem todos os 
réus eram tão desonrosos quanto Bridget Bishop. Rebecca Nurse13 era considerada uma 
mulher piedosa e respeitada, cujo espectro, segundo Ann Putnam e Abigail Willians, as 
atacou em meados de março. Nurse era uma das três irmãs Towne, todas identificadas como 
bruxas, as quais tinham uma longa briga com a família Putnam. Em 19 de julho de 1692, 
Nurse foi levada junto com quatro outras bruxas condenadas à colina Gallows. 
 
 
Figura 8: O julgamento de Rebecca Nurse.14 
 
 
12Fonte: Joseph Boggs Beale, 1885. https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso em: 07/05/2019. 
13 Ver interrogatório no anexo 5. 
14 Fonte: Salem Witch Museum, 1999. https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso em: 07/05/2019. 
 Pessoas que zombavam das acusações de bruxaria corriam o risco de se tornar alvo de 
acusações. Um homem que fora abertamente crítico dos julgamentos pagou por seu ceticismo 
com sua própria vida. John Proctor era um proprietário de taverna que denunciou abertamente 
a caça às bruxas. Testemunhando contra Proctor estavam Ann Putnam, Abigail Willians, o 
índio John (escravo de Samuel Parris que trabalhava em uma taverna concorrente) e Elizabeth 
Booth. Proctor protestou exigindo que seu julgamento fosse transferido para Boston. Os 
esforços mostraram-se fúteis. Ele foi enforcado. Sua esposa Elizabeth, que também foi 
condenada por bruxaria, foi poupada da execução devido a sua gravidez. 
 Nenhuma execução causou mais desconforto em Salem do que a do ex-ministro da 
aldeia, George Burroughs, que vivia no Maine em 1692 e foi identificado por vários de seus 
acusadores como líder das bruxas. Ann Putnam afirmou que Burroughs enfeitiçou soldados 
durante uma fracassada campanha militar contra os índios Wabanakis em 1688-89, a primeira 
de uma série de desastres militares que poderiam ser atribuídos a uma aliança índio-demônio. 
A historiadora Mary Beth Norton, em seu livro “Na armadilha do diabo”, argumenta que o 
grande número de acusações contra Burroughs e sua ligação com a guerra de fronteira é a 
chave para entender os julgamentos de Salem. Norton alega que o entusiasmo de Salem em 
processar os casos de bruxaria deveu em grande parte ao desejo dos juízes de mudar a culpa 
por sua própria defesa inadequada da fronteira. Muitos dos juízes, aponta Norton, 
desempenharam papéis principais em um esforço de guerra que havia sido marcadamente 
malsucedido. 
 Entre os trinta acusadores de Burroughs estava Mercy Lewis, de dezenove anos, 
refugiada das guerras de fronteiras. Lewis ofereceu um testemunho extraordinariamente 
vivido contra Burroughs. Ela disse à corte que Burroughs a levara até o topo de uma 
montanha e, apontando para a terra circundante, prometeu a ela todos os reinos se ela 
assinasse seu livro (uma história muito semelhante à encontrada em Mateus 4:8). 
 Em uma execução era esperado que o réu confessasse e assim salvasse a sua alma. 
Quando Burroughs, já na colina Gallows, continuou a insistir em sua inocência e recitou 
perfeitamente a oração do senhor (algo que as bruxas foram consideradas incapazes de fazer), 
a multidão teria ficado muito emocionada. A agitação da multidão fez com que Cotton Mather 
interviesse e lembrasse à multidão que Burroughs havia passado o dia no tribunal e havia sido 
condenado. 
 
Figura 9: O enforcamento de George Burroughs.15 
 
 Uma vítima da caça às bruxas de Salem não foi enforcada, mas esmagada sob pedras 
pesadas até sua morte. Tal foi o destino do octogenário Giles Corey que, após passar cinco 
meses acorrentado em uma prisão, com sua esposa também acusada, não teve nada além de 
desprezo pelo processo. Vendo a inutilidade de um julgamento e na esperança que sua 
fazenda fosse destinada a seus dois genros (de outra forma seria destina ao Estado), Corey 
recusou-se a ser julgado. A penalidade por tal recusa foi peine et fort ou esmagamento. Três 
dias após a morte de Corey, em 22 de setembro de 1692, mais oito mulheres condenadas por 
bruxaria, incluindo a esposa de Giles, Martha, foram enforcadas. Elas foram as últimas 
vítimas da caça às bruxas em Salem. 
 No início do outono de 1692, o desejo de sangue em Salem estava diminuindo. 
Dúvidas aumentaram sobre como tantas pessoas respeitáveis poderiam ser culpadas. A elite 
educada da colônia começou a se esforçar para acabar com a histeria de caça às bruxas. 
Increase Mather, pai de Cotton, publicou o que ficou conhecido como o “primeiro tratado da 
América sobre evidências”, um tratado intitulado Cases of Conscience, o qual argumentava 
que “era melhor que dez bruxas suspeitas pudessem escapar do que uma pessoa inocente fosse 
condenada”. 
 Increase Mather pediu ao tribunal para excluir as provas baseadas em espectros. 
Samuel Willard, um ministro de Boston altamente respeitado, acrescentou que o diabo 
poderia criar o espectro de uma pessoa inocente. As obras de Mather e Willard foram dadas 
ao governador Phips. Esses escritos provavelmente influenciaram a decisão de Phips de 
ordenar que a corte excluísse provas espectrais e exigisse prova de culpa por evidência clara e 
 
15Fonte: F. C. Yohan, Boston Herald, 1930. https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso em: 
07/05/2019. 
convincente. Com a evidência espectral não mais aceita, vinte e oito dos últimos trinta e três 
julgamentos de bruxaria terminaram em absolvições. As três bruxas condenadas foram mais 
tarde perdoadas. Em maio de 1693, Phips libertou da prisão todos os acusados restantes ou 
bruxas condenadas. 
 
Figura 10: Governador William Phips.16 
 
 No momento que a caça às bruxas terminou,dezenove bruxas condenadas foram 
executadas. Pelo menos quatro bruxas acusadas tinham morrido na prisão, e um homem, Giles 
Corey, tinha sido pressionado por pedras em seu peito até a morte. Cerca de cem a duzentas 
pessoas foram presas e encarceradas por bruxaria. 
 Os estudiosos notaram diferenças significativas entre os acusados e os acusadores em 
Salem. A maioria dos acusados vivia no Sul e, em geral, estava melhor financeiramente do 
que a maioria dos acusadores. Em vários casos, as famílias acusadoras ficaram com a 
propriedade das supostas bruxas acusadas. Além disso, os acusados e os acusadores 
geralmente estavam em lados opostos de uma cisma congregacional que dividira a 
comunidade de Salem antes do início da histeria. A conclusão que muitos estudiosos extraem 
desses padrões é que as disputas de propriedade e as disputas congregacionais 
desempenharam um papel importante na determinação de quem viveu e quem morreu em 
1692. 
 
16 Fonte: Cópia de Gertrude Hill do original de Thomas Child, 1691. Mane State Museum. 
https://www.mainememory.net/artifact/28846 Acesso em: 07/05/2019. 
 
Figura 11: O arrependimento de Samuel Sewall.17 
 
 Um período de expiação começou na colônia após a liberação das bruxas acusadas 
sobreviventes. Samuel Sewall, um dos juízes, emitiu uma confissão pública de culpa e um 
pedido de desculpas. Vários jurados se apresentaram para dizer que estavam tristemente 
iludidos e enganados em seus julgamentos. O reverendo Samuel Parris admitiu erros de 
julgamento, mas principalmente transferiu a culpa para os outros. Parris foi então substituído 
por Thomas Green, que dedicou sua carreira a reunir sua congregação despedaçada. O 
governador Phips culpou Willian Stoughton, o qual, mais culpado do que qualquer um pelo 
trágico episódio, recusou-se a se desculpar ou se explicar. Ele criticou Phips por interferir 
justamente quando estava prestes a “limpar a terra” das bruxas. Stoughton tornou-se o 
próximo governador de Massachusetts. 
 As bruxas desapareceram, mas a caça às bruxas na América não. Cada geração deve 
aprender as lições da história ou correr o risco de repetir seus erros. Salem deveria nos alertar 
para pensar na melhor forma de salvaguardar e melhorar nosso sistema de justiça. Isso serve 
não só para os Estados Unidos da América, mas para todo o mudo. 
 
Interpretações 
 Só há uma coisa nos julgamentos de Salem com que todos concordam: a histeria 
começou com as convulsões de algumas meninas. Foram esses sintomas físicos que 
justificaram os fatos terríveis que se sucederam. Há três séculos cientistas e historiadores 
 
17Fonte: Albert Herter, 1942. https://famous-trials.com/salem/2077-sal-pho Acesso em: 07/05/2019. 
procuram as causas dos sintomas das meninas e da loucura que isso gerou. Segundo Richard 
Trask18, arquivista do Museu de Salem, cada nova geração aparece com uma teoria nova. E o 
mais interessante, do ponto de vista cultural, é que essas teorias novas geralmente têm mais a 
ver com a visão que essa geração tem do passado do que com o passado em si. 
 No século XIX, a teoria corrente era de que as meninas fingiram e os juízes 
condenaram os supostos bruxos e bruxas para que o Estado pudesse pegar suas terras. Mas 
essa teoria não é referendada pelos documentos da época. Quando alguém era acusado e 
condenado por bruxaria os bens móveis podiam ser confiscados, mas os bens imóveis não 
eram confiscados. O arquivista Richard Trask encontrou provas disso em dois acusados de 
bruxaria. Tanto Giles Corey quanto John Proctor, enquanto estavam presos, escreveram 
testamentos nos quais deixaram suas terras para seus filhos. Depois que eles morreram as 
crianças as herdaram. 
 Outra teoria especula que as meninas de Salem, confinadas em casas escuras durante o 
inverno, podem ter ficado histéricas devido a um desequilíbrio químico causado pela falta de 
Sol. Porém, não havia nada de diferente nas casas ou no clima de Salem. Se a falta de luz 
solar fosse a causa, todos os habitantes da Nova Inglaterra ficariam histéricos durante o 
inverno. Mas existia outra possibilidade, alguma coisa oculta nos alimentos. Como já descrito 
anteriormente, a teoria do ergo (fungo tóxico que ataca o centeio e pode causar alucinações) 
foi apresentada para explicar os sintomas do comportamento anormal das meninas de Salem. 
Essa teoria apareceu pela primeira vez cerca de trinta ou quarenta anos atrás, 
coincidentemente no auge da contracultura estadunidense, onde o uso de drogas como o LSD 
era muito comum. A questão importante aqui é que o ergo causa vaso constrição, 
interrompendo a circulação nas extremidades do corpo. Isso causa formigamento dos dedos 
dos pés e das mãos, e com o tempo pode causar gangrena. Embora muitos dos sintomas 
descritos pelas meninas sejam semelhantes ao de envenenamento por ergo, não houve nenhum 
caso de gangrena em Salem. As pesquisas demonstram que algumas meninas podem ter sido 
envenenadas por ergo no começo e isso talvez tenha dado início à histeria, mas o ergo não 
pode ter contaminado toda a cidade durante o ano inteiro. O que remete à possibilidade de 
outra causa, não proveniente da biologia, mas da mente humana. 
 
18 Documentário: O julgamento das bruxas de Salem, Discovery Civilization. 
Disponível em: https://youtu.be/tqglUjbjuXg Acesso em: 26/11/2018. 
 A teoria mais aceita sobre os eventos de Salem está no fator imaginário e, 
consequentemente, na autossugestão, conforme explicado anteriormente por Harvey Spencer 
Lewis. A imaginação rapidamente preencheu as lacunas estimuladas pelos comportamentos 
bizarros iniciais e legitimada por um diagnóstico médico (que na verdade foi gerado pela 
ausência de uma explicação). O restante foi uma mistura de sugestão mental, vingança, medo, 
afirmação religiosa e disputa política. 
 
4. Ecos de Salem 
 
 Os acontecimentos de Salem exercem grande influência sobre o imaginário mundial. 
Seus ecos podem ser percebidos em formas de expressão social como a arte, a literatura e o 
cinema. O exemplo mais conhecido é a peça de teatro “As bruxas de Salem”19 (1953) de 
Arthur Miller. Ao construir uma memória a partir da representação de Salem, o autor 
estabelece um diálogo com as perseguições aos acusados de comunismo pelo macarthismo20. 
 Após a Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética passaram a 
disputar a hegemonia mundial no que ficou conhecido como Guerra Fria. A tensão entre as 
grandes potencias mundiais promoveu algumas medidas internas e externas nos E.U.A.. Uma 
dessas medidas foi a criação da Comissão de Atividades Antiamericanas da Câmara dos 
Deputados, a qual foi um meio de expressão do macarthismo. O termo “caça às bruxas”, 
muito utilizado durante esse período histórico, é uma alusão óbvia à perseguição sofrida pelas 
pessoas acusadas de bruxaria em Salem. 
 
A bruxaria no Brasil 
 Normalmente os relatos de bruxaria estão vinculados aos Estados Unidos e Europa. 
Porém, ocorreram alguns casos no Brasil entre os séculos XVI e XVIII. Segundo matéria 
apresentada pela página da internet Bastidores da Informação21, no brasil um total de 1076 
pessoas foram investigadas, sendo que 19 foram levadas à fogueira, homens e mulheres. 
 As acusações foram fundamentadas em práticas relacionadas à sabedoria popular que 
lidavam com ervas naturais no tratamento e cura de doenças. Considerando que 
historicamente o Brasil é um país multicultural onde estão em contato diversas crenças 
espirituais, em destaques o xamanismo, crenças de matrizes africanas e o catolicismo, foi, de 
certa forma,uma benção que os casos de condenação à morte por bruxaria tenham sido 
poucos. 
 
19 Título original: “The Crucible”. 
20 Prática política que se caracteriza pelo sectarismo, notadamente anticomunista, inspirada no movimento 
dirigido pelo senador Joseph Raymond McCarthy (1909-1957), durante os anos 1950 nos Estados Unidos. 
21 Disponível em: https://bastidoresdainformacao.com.br/saiba-tudo-sobre-o-historico-de-bruxas-no-brasil/ 
Acesso em: 30/05/2019. 
 Embora o Santo Ofício tenha visitado o Brasil três vezes, o tribunal nunca foi 
instaurado no nosso país. Assim, a caça às bruxas ficou a cargo do clero local. Um dos casos 
mais conhecidos foi o de Mima Renard, que em 1692 (coincidência?), se mudou da França 
para a Vila de São Paulo. Mima era considerada uma mulher muito bonita e que despertava a 
cobiça dos homens. O seu marido foi assassinado por um desses pretendentes, o que, pelo que 
contam as histórias, levou Mima a ter que se prostituir para sobreviver. 
 Mima acabou sendo acusada pelas demais mulheres de enfeitiçar os homens com sua 
beleza. Dois de seus clientes acabaram entrando em conflito, o que resultou na morte de um 
deles. Ela então foi denunciada ao padre da paróquia local pelas mulheres de seus clientes sob 
a acusação de bruxaria. Em data desconhecida, Mima foi julgada, condenada e morta em uma 
fogueira na praça pública. Breve análise: o “outro” na forma de estrangeiros, ciúmes e inveja. 
 No ano de 1750 foi aberto um processo contra Isabel Pedrosa de Alvarenga, acusando-
a de bruxaria. A acusação partiu de um dos familiares do Santo Ofício. Segundo esta pessoa, 
Isabel carregava um saco contendo umbigo de crianças, entre outras coisas bizarras. 
Entretanto, Isabel era apenas uma mulher pobre que vivia às custas de esmolas. Mesmo assim, 
sem nunca ter confessado a prática de bruxaria, foi condenada à morte. Breve análise: o 
“outro” na forma de um “inconveniente” para a sociedade local. 
 Outro caso aconteceu em 1754 com Ursulina de Jesus. Ela foi acusada pelo seu 
próprio marido de praticar “bruxaria”. Segundo Sebastião, o qual tinha uma posição de 
alguma importância na sociedade, a esposa o enfeitiçara para lhe retirar a virilidade e assim 
evitar que tivessem filhos. À época, ele estava tendo um caso com uma mulher chamada 
Cesária, a qual confirmou o testemunho no tribunal. Ursulina foi considerada culpada por 
bruxaria e executada na fogueira em praça pública. Breve análise: traição e projeção de culpa. 
 Maria da Conceição foi acusada de bruxaria em São Paulo no ano de 1978. Ela era 
conhecida em São Paulo pela habilidade em preparar poderosos remédios para o tratamento 
de doenças. Por razões desconhecidas, ela gerou a antipatia de um padre chamado Luís. Ele 
acusou-a de bruxaria, a qual foi considerada culpada e executada na fogueira em praça 
pública. Breve análise: provavelmente inveja. 
 O mais recente caso de bruxaria no país, talvez o mais popular, é o caso que ficou 
conhecido como “As bruxas de Guaratuba”, pois supostamente a vítima teria morrido em um 
ritual de magia negra. Segundo matéria da revista ISTOÉ22, no primeiro júri do “caso 
Evandro”, realizado em 1998, mãe e filha sentaram-se no banco dos réus e foram absolvidas. 
Ficou conhecido como o júri mais longo da história do Brasil com 34 dias de duração. 
Também ficou marcado na história o júri de Beatriz e Celina o suicídio de um dos peritos, 
com um tiro na cabeça sobre o túmulo de seu pai, à véspera de ele depor. Em 1999, o júri foi 
anulado. Em 2011 foi realizado um novo julgamento e Beatriz Abagge foi condenada a 21 
anos de prisão. Em 2016, o Tribunal de Justiça concedeu perdão de pena para Beatriz Abagge. 
Um dos argumentos foi o fato que houve uma onda de desaparecimentos de crianças no 
começo dos anos 1990 no Paraná. O caso nunca foi solucionado. 
 
A bruxaria contemporânea 
 Já que nos aproximamos dos anos recentes, uma questão pertinente é a seguinte: como 
está a bruxaria hoje em dia? Em primeiro lugar, aqueles estereótipos do passado (velhas feias, 
verruga no nariz, vassoura e chapéu pontudo) já não correspondem ao contexto atual. As 
bruxas contemporâneas são pessoas comuns como eu e você. As mudanças vieram como 
reflexo da pós-modernidade, onde o sujeito ganha mais liberdade de expressão em detrimento 
da falência das grandes narrativas da modernidade. Isso desenvolveu um contexto cultural no 
qual uma das palavras-chave passa a ser a inclusão (no sentido de buscar aquilo que lhe 
convém, ao invés de seguir algo imposto), logo, para se sentirem incluídas, as pessoas 
passaram a buscar seu “lugar no mundo”, o lugar onde se sentem bem. Lembrando do que já 
foi exposto anteriormente sobre cultura e identidade: necessidade de propósito, necessidade 
de pertencimento e, por sua vez, expectativa de comportamento compartilhado. 
 A bruxaria contemporânea responde pelo nome de Wicca. Esta ramificação da 
bruxaria foi criada pelo antropólogo Gerald Gardner nos anos 1950 e reconhecida como 
religião em 1986. Segundo Andréa Osório (2004), 
“Em sua cosmologia, a wicca professa a crença em um par divino, chamados a 
Deusa e o Deus. A Deusa teria dado origem ao Deus e ambos teriam criado o 
universo e todas as coisas nele – ou seriam o próprio universo, a própria natureza. 
Sendo a primeira, ela teria preeminência sobre o Deus, visto como seu filho e 
consorte, e essa preeminência se reflete nas práticas da wicca. Por isto, nos rituais, 
o lugar de destaque e liderança deve ser, tradicionalmente, da mulher” 
 
22 Disponível em: https://istoe.com.br/133790_AS+BRUXAS+DE+GUARATUBA/ Acesso em: 30/05/2019. 
“Encarnando princípios da natureza, esse par se torna doador de vida. A deusa é 
associada à terra, às águas e à lua. O Deus é associado ao sol e ao céu, algumas 
vezes aos animais e outras à vegetação. Eles representam princípios opostos, mas 
complementares. [...] Os ritos das bruxas relativos ao percurso do sol durante o ano 
são chamados sabás. Mas como a lua representa igualmente a divindade feminina, 
toda lua cheia deve guardar também um rito próprio também chamado esbá.” 
 
 Em suma, wicca é um religião orientada para o feminino que serve tanto como um 
caminho de busca como de transformação. Esta acontece através de uma mudança 
proveniente do autoconhecimento e conexão com a natureza, tendo como elementos 
facilitadores ou indutivos, a magia e os rituais. 
 A mídia desempenha um papel importante de atração e manutenção das identidades 
construídas no contexto da bruxaria contemporânea. Alguns filmes como Da Magia à 
Sedução, Jovens Bruxas e Harry Potter apresentam enredos típicos da jornada do herói ou 
heroína. Essas histórias nos atraem porque tratam da história de todos nós, seres humanos: a 
história da expansão da consciência. 
 Conforme Joseph Campbell (2007), em O herói de mil faces, os mitos clássicos de 
muitas culturas seguem um roteiro básico, o qual o autor chamou de monomito. A sua 
estrutura é dividida essencialmente em três etapas: partida, iniciação e retorno. Em outras 
palavras, a estrutura lida com a expansão da consciência partindo do mundo conhecido, 
enfrentando a iniciação das provas e testes, normalmente começando pelo autoconhecimento 
através do qual se adquire os elementos necessários para vencer obstáculos externos, e, por 
fim, o retorno para casa para compartilhar o conhecimento e experiência conquistada. Os 
elementos da estrutura podem variar, como por exemplo, a jornada pode ser apenas interior ou 
psicológica (sem um deslocamento geográfico) ou mista (psicológica e com um deslocamento 
geográfico). De qualquer forma, essa transição essencial entre o conhecidoe o desconhecido é 
que transforma a consciência humana, pois o herói ou heroína que retorna dessa jornada 
nunca é o mesmo que a iniciou. 
 Fazendo uma breve análise do filme Harry Potter e a pedra filosofal, o mundo 
conhecido é representado pela vida monótona na casa dos tios. Porém, existe uma quebra 
dessa rotina: o momento em que ele recebe o convite para ingressar na escola de magia de 
Hogwarts. Campbell identifica essa etapa como “o chamado à aventura”. Inicialmente há uma 
tentativa de bloqueio dos tios, mas ele acaba indo. O momento no qual a aventura de fato 
começa é presisamente quando ele atravessa a parede da plataforma 9,3/4. Campbell 
identifica essa etapa como “travessia do limiar”, a qual representa a fronteira entre o 
conhecido e o desconhecido, pois a partir desse ponto tudo é novo para o herói. Ainda no trem 
ele faz novas amizades as quais serão seus aliados nessa aventura. Logo em seguida, 
chegando à Hogwarts, ele conhece o seu primeiro adversário e, um pouco depois, o seu 
mentor. A trama apresenta como iniciação o enfrentamento dos próprios medos e bloqueios 
para que o herói possa superar seus adversários e conquistar seu objetivos. Por fim, a vida no 
retorno à casa nunca mais será a mesma, pois o herói não é mais o mesmo. 
 Assim, todos nós nos reconhecemos no herói porque, na verdade, é o enredo da nossa 
história. A aventura humana pela vida, os chamados, as provas, as derrotas, o aprendizado, as 
conquistas... A magia é inerente a esse processo, pois, como já dito, é uma relação entre 
vontade e realização. 
 
5. O sagrado feminino 
 
 Há muito tempo, antes do patriarcado, existiu um culto à Grande Mãe. A relação com 
a natureza era de reverência ao ciclo das estações e fases da lua, sendo a mulher, sua 
representante humana, a geradora da vida. Tudo indica que era um tempo pacífico, pois não 
há registros arqueológicos de fortificações e sinais de destruição através da conquista armada. 
 Segundo Mirella Faur (2017), “acompanhando a mudança no cenário político e 
profissional, as mulheres começaram a procurar um amparo religioso que promovesse os 
valores rejeitados pelo patriarcado e permitisse o fortalecimento e a expressão do poder 
espiritual feminino” (p. 42). Assim, o sagrado feminino tem como premissa o contato da 
mulher com o próprio ventre, a própria essência, da qual emerge um poder interno, sobre si 
mesma, e não sobre os outros. 
 Os livros da antropóloga Margaret Mead, Coming to age in Samoa, em 1928; de 
Simone de Beauvoir, O segundo sexo, 1949, e de Betty Friedan, The feminine mystique, 1963, 
catalisaram o descontentamento das mulheres em relação à sua condição de inferioridade, 
dando início a um processo de grandes mudanças sociais. 
 As primeiras vertentes da espiritualidade feminina surgiram com os coven (grupos 
ritualísticos de tradição wicca); os livros sobre a Deusa; neopaganismo; o renascimento das 
tradições celtas, nórdicas e xamânicas; os estudos e as práticas de magia natural e a 
celebração pública dos solstícios, equinócios e plenilúnios. 
 A espiritualidade feminina encontra, nesse contexto, ressonância com o movimento 
chamado Nova Era, que teve seu apogeu nos anos 1980 e 1990. Esse movimento caracterizou-
se pelo respeito ao pluralismo das manifestações de retorno ao sagrado. A Nova Era apresenta 
como principal característica a ausência de templos. Assim, é possível afirmar que a 
experiência do sagrado nas manifestações religiosas de pessoas que frequentam círculos 
místico-esotéricos passa, necessariamente, pela corporalidade. 
 Existe uma ênfase constante no experenciar corporalmente o sagrado. O corpo é visto 
não só como veículo do sagrado, mas seu próprio guardião, pois o sagrado manifesta-se em 
sensações corporais e a emoção se torna uma linguagem da espiritualidade. Existe, portanto, 
um resgate da importância do corpo na espiritualidade humana, algo rebaixado à categoria de 
veículo da impureza e do pecado pela antiga tradição judaico-cristã. 
 
Figura 12: Círculo sagrado feminino.23 
 
 O objetivo principal dos participantes desses círculos não é mais sufocar, dominar e 
subjugar o corpo. Esta relação com o corpo não está vinculada aos padrões impostos pela 
indústria da beleza, a representação do corpo das antigas deusa realça a capacidade criadora e 
nutriz da mulher, dom intrínseco e inato que independe da idade ou da perfeição física. O 
respeito pelo corpo feminino, como fonte de poder, saúde, prazer, beleza e arquivo de 
experiências passadas, em muito contribuiu para que as mulheres aceitassem e afirmassem 
suas verdadeiras identidades, redescobrindo que o corpo físico é a manifestação da força vital 
criativa, com atributos inerentes à sua essência e uma ligação com a Mãe Natureza. 
 Ao longo da história da Humanidade, nos fala Mirella Faur, 
“as mulheres de várias culturas e tradições se reuniram em círculos, para orar, 
reverenciar, celebrar e comemorar, para honrar sua feminilidade, marcar estágios e 
mudanças nas suas vidas, para se apoiar e se curar, compartilhar histórias, alegrias, 
tristezas, força e sabedoria” (2017, p. 74) 
 Já no seu contexto espiritual, 
“a reunião em círculo, [...] satisfaz os anseios da alma pelo sagrado, favorece a 
conexão com valores elevados e preenche a vida com novos significados e 
objetivos valiosos. Participamos assim na regeneração da nossa cultura e na própria 
expansão de consciência. Ao recriar a conexão com o todo e reconhecer cada parte 
como uma expressão e forma peculiar da sagrada teia universal da vida, o círculo 
favorece a contribui para a integração e cura, pessoal e grupal” (2017, p. 75) 
 
 
23 Fonte: Edward Bourne-Jones, “Green Summer”, 1868. 
Disponível em: https://www.somostodosum.com.br/clube/artigos/autoconhecimento/o-poder-do-circulo-de-
mulheres-30252.html Acesso em: 02/06/2019. 
 O sagrado feminino é um movimento que está inserido no contexto do paradigma 
transdisciplinar. Considerado pela UNESCO como o paradigma educacional para o século 
XXI, a transdisciplinaridade resgata as formas de conhecer naturais do ser humano: a razão, a 
intuição, o sentimento e a sensação. 
 Na cultura ocidental temos a dimensão científica (razão) e a dimensão religiosa (fé), as 
quais em muitos sentidos estão em oposição. Em outras culturas existe uma integração entre a 
religião e a ciência: uma visão holística da realidade. No saber tradicional não há separação 
entre ciência e religião, existe uma amálgama. Em linhas gerais, é isto que a 
transdisciplinaridade busca: a conciliação entre ciência e religião, já com uma preferência 
pelo termo espiritualidade24, o qual remete à consciência e inclui tradições que não são 
consideradas religiões (dogmas). Em outras palavras, é o diálogo entre opostos aparentes, os 
quais não são excludentes, mas complementares. É uma busca pela integração de todas as 
dimensões do ser humano e da realidade em que vivemos. Talvez assim possamos aprender a 
lição que Salem nos deixou. 
 
 
24 Em poucas palavras, espiritualidade significa estar no mundo, mas ter consciência de que não pertence a ele. 
Considerações Finais 
 
 Pensem um pouco sobre a história de todos nós: o desejo de realizar nossos sonhos, 
saciar nossas vontades, afastar o sofrimento... Embora devamos essencialmente ter 
consciência de que a única certeza na vida é a impermanência, o fato é que, no fundo, 
acreditando ou não, nossa alma anseia por magia. As crianças adoram, mas quando crescemos 
somos “ensinados” a não acreditar, e mesmo assim muitos ainda acreditam. As histórias sobre 
um mundo mágico invisível ou secreto são atraentesporque possuem em sua narração os 
velhos arquétipos que vivemos na jornada de nossas vidas (a jornada do herói ou da heroína). 
Em outras palavras, a aventura da expansão da consciência. 
 A magia está em tudo que nos cerca. Renunciar a ela é renunciar uma boa parte de nós 
mesmos e de nossas possibilidades. Esquecemos de ver a magia na vida porque passamos a 
viver para resolver problemas e pagar boletos, entre outras preocupações. Na vida adulta 
passamos a sobreviver, enquanto viver se torna um sonho, ou melhor, um sonho transformado 
em produto, para o qual, a maioria de nós irá trabalhar para conquistar sendo que na verdade 
viver é apenas ser. A boa notícia é que é possível criar uma visão mágica das pequenas coisas. 
Tudo é um processo mental. 
 Ninguém consegue buscar beleza no exterior se não for capaz de vê-la dentro de si 
mesmo. Tudo começa com um sonho, uma visão, uma ideia. A diferença entre aqueles que 
acreditam em si mesmos e os que não é que os primeiros são capazes de dar um passo além do 
que suas forças alcançam. É nesse ponto que acontece um milagre, a magia, em que essas 
pessoas se veem alcançando realizações que nunca imaginaram. 
 Há magia ao nosso redor, nas coisas mais simples que nos acompanham diariamente: a 
gota de chuva no vidro de um carro em movimento, o pôr-do-sol, o céu estrelado, o canto dos 
pássaros, a brisa do mar ou o abraço de uma pessoa amada. Ver a magia nas coisas que nos 
rodeiam significa reconhecer e agradecer pelas maravilhas que emolduram a nossa existência. 
Busque a magia nas coisas simples e todo o resto será revelado... 
“Aqueles que não acreditam em magia nunca irão encontrá-la” 
Roald Dahl (1916-1990) 
Referências 
 
• Na Internet 
 
Devemos temer a magia negra? A visão esotérica: 
https://youtu.be/5dc4R-Qfndk 
 
Documentário: Os julgamentos de Salem: 
https://youtu.be/tqglUjbjuXg 
 
Famous Trials / Salem Witch Trials (by professor Douglas O. Linder): 
http://famous-trials.com/salem 
 
Salem Witch Museum: 
https://salemwitchmuseum.com/ 
 
Salem Witch Trials: documentary archive and transcription project. 
University of Virginia: 
http://salem.lib.virginia.edu/home.html 
 
• Em livros 
 
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento, 2007. 
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na 
Austrália. São Paulo: Edições Paulinas, 1989. 
FAUR, Mirella. Círculos sagrados para mulheres contemporâneas. São Paulo: Pensamento, 
2011. 
FRAZER, James G. The golden bough: a study in Magic and religion. London: The 
MacMillan Press, 1976. 
GARDNER, Gerald. O significado da bruxaria: uma introdução ao universo da magia. São 
Paulo: Madras, 2004. 
HARARI, Yuval. Sapiens: uma breve história da Humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015. 
LAPLANTINE, Françoise. Identità e meticciato. Milano: Eleuthera, 2011. 
LEWIS, H. Spencer. Como evitar o envenenamento mental. Curitiba: AMORC-GLP, 2015. 
MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril Cultura, 
1978. 
MALINOWSKI, Bronislaw. Magic, science and religion. Nwe York: Anchor Books, 1954. 
MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. In: Sociologia e 
Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 
OSÓRIO, Andréa. Bruxas modernas: um estudo sobre identidade feminina entre praticantes 
de wicca. Revista Campos 5(2): 157-172, 2004. 
ROACH, Marilynne K. The Salem witch trials: a day-by-day chronicle of a community under 
siege. Taylos Trade Publications, 2004. 
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga, traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro: Zahar, 2019. 
 
 
 
Anexo 1 
 
Cronologia dos eventos em Salem25 
 
1629 Fundação de Salem. 
1641 A lei inglesa faz da bruxaria um crime capital. 
1684 A Inglaterra declara que as colônias não podem se 
autogovernar. 
1688 Após uma discussão com a lavadeira Goody Glover, Martha 
Goodwin, de 13 anos, começa a demonstrar um 
comportamento bizarro. Dias depois seu irmão mais novo e 
duas irmãs exibem um comportamento semelhante. Glover é 
presa e julgada por enfeitiçar os filhos de Goodwin. O 
reverendo Cotton Mather se encontra duas vezes com Glover 
após sua prisão na tentativa de persuadi-la a se arrepender de 
sua feitiçaria. Glover é enforcada. Mather leva Martha 
Goodwin para sua casa, porém seu comportamento bizarro 
continua e piora. 
1688 Mather publica “Memorable Providences, Relating to 
wichcrafts and Possessions”. 
Novembro, 1689 Samuel Parris é nomeado o novo ministro de Salem. 
20 de janeiro de 1692 Abigail Willians, de 11 anos, e Elizabeth Parris, de 09 anos, 
começam a se comportar como as crianças Goodwin agiram 
quatro anos antes. Logo Ann Putnam Jr. E outras garotas de 
Salem começam a agir de maneira semelhante. 
Meados de fevereiro de 1692 O doutor Griggs atende as meninas “aflitas” e sugere que a 
feitiçaria pode ser a causa dos comportamentos estranhos. 
25 de fevereiro de 1692 Tituba, a pedido da vizinha Mary Sibley, faz um “bolo de 
bruxa” e alimenta um cachorro com ele. De acordo com uma 
crença popular inglesa, alimentar um cachorro com esse tipo 
de bolo (que continha urina das meninas “aflitas”) 
neutralizaria o feitiço colocado sobre Elizabeth e Abigail. A 
razão pela qual o bolo é dado para um cachorro comer é 
porque o cachorro é considerado um “familiar” do diabo. 
Final de fevereiro de 1692 Pressionada por ministros e moradores da cidade para dizer 
quem causou seu comportamento estranho, Elizabeth 
identifica Tituba. As meninas, mais tarde, acusam Sarah 
Good e Sarah Osborne. 
29 de fevereiro de 1692 Mandados de prisão são emitidos para Tituba, Sarah Good e 
Sarah Osborne. 
1º de março de 1692 Tituba confessa praticar bruxaria e confirma que Good e 
Osborne são suas co-conspiradoras. 
11 de março de 1692 Ann Putnam Jr. Mostra sintomas de aflição por feitiçaria. 
 
25 Tradução do autor. Disponível em: https://famous-trials.com/salem/2075-asal-ch Acesso em: 30/05/2019. 
12 de março de 1692 Ann Putnam Jr. acusa Martha Cory de feiticeira. 
19 de março de 1692 Abigail Willians denuncia Rebecca Nurse como uma bruxa. 
21 de março de 1692 Os magistrados Hathorne e Corwin interrogam Martha 
Corey. 
24 de março de 1692 Corwin e Hathorne interrogam Rebecca Nurse. 
26 de março de 1692 Hathorne e Corwin interrogam Dorcas. 
28 de março de 1692 Elizabeth Proctor é acusada de bruxaria. 
2 de junho de 1692 Bridget Bishop é a primeira a ser julgada e condenada à 
morte por feitiçaria. 
10 de junho de 1692 Bridget Bishop é enforcada na colina Gallows. 
29 e 30 de junho de 1692 Rebecca Nurse, Susannah Martin, Sarah Wildes, Sarah Good 
e Elizabeth Howe são julgadas, declaradas culpadas e 
sentenciadas à morte. 
19 de julho de 1692 Rebecca Nurse, Susannah Martin, Elizabeth Howe, Sarah 
Good e Sarah Wildes são enforcadas na colina Gallows. 
5 de agosto de 1692 George Jacobs, Martha Carrier, George Burroughs, John 
Willard e John Proctor são enforcados na colina Gallows. 
Elizabeth Proctor não é enforcada porque ela está grávida. 
9 de setembro de 1692 Martha Corey, Mary Easty, Alice Parker, Ann Pudeator, 
Dorcas Hoar e Mary Bradbury são declaradas culpadas e 
sentenciadas à morte. 
17 de setembro de 1692 Margaret Scott, Wilmott Redd, Samuel Wardwell, Mary 
Parker, Abigail Faulkner, Rebecca Earns, Mary Lacy, Ann 
Foster e Abigail Hobbs são julgadas e condenadas à morte. 
22 de setembro de 1692 Martha Corey, Margaret Scott, Mary Easty, Alice Parker, 
Ann Pudeator, Willmott Redd, Samuel Wardwell e Mary 
Parker são enforcadas. Dorcas Hoar confessa a prática de 
bruxaria e escapa do enforcamento.8 de outubro de 1692 O governador Phips ordena que a evidência espectral não 
seja mais admitida nos julgamentos de bruxaria. 
29 de outubro de 1692 Phips proíbe mais prisões e dissolve a Corte de Oyer e 
Terminer. 
25 de novembro de 1692 O Tribunal Geral cria um Tribunal Superior para julgar as 
bruxas remanescentes. 
3 de janeiro de 1693 O juiz Stoughton ordena a execução de todas as bruxas 
suspeitas que foram isentadas pela gravidez. Phips negou a 
execução da ordem fazendo com que Stoughton deixasse o 
cargo. 
Janeiro de 1693 49 das 52 pessoas sobreviventes levadas ao tribunal por 
acusações de feitiçaria são libertadas porque as suas 
detenções foram baseadas em evidências espectrais. 
1693 Tituba é libertada da prisão e vendida para um novo mestre. 
Maio de 1693 Phips perdoa aqueles que ainda estão na prisão sob a 
acusação de bruxaria. 
14 de janeiro de 1697 O tribunal Geral ordena um dia de jejum e reflexão pela 
tragédia em Salem. Samuel Sewall confessa publicamente 
erro e culpa. 
1697 O ministro Samuel Parris é destituído como ministro em 
Salem e substituído por Joseph Green. 
1702 O Tribunal Geral declara os julgamentos de Salem ilegais. 
1706 Ann Putnam Jr., uma das principais acusadoras, pede 
publicamente desculpas por suas ações em 1692. 
1711 A colônia aprova um projeto de lei restaurando os direitos e 
os bons nomes doas acusados de feitiçaria e concede 600 
libras em restituição a seus herdeiros. 
1752 A vila de Salem é renomeada como Danvers. 
1957 Massachusetts pede desculpas formalmente pelos eventos de 
1692. 
1992 No 300º aniversário dos julgamentos, um memorial de 
feitiçaria projetado por James Cutter é dedicado às vítimas 
de Salem. 
 
 
Anexo 2 
 
Alguns personagens26 
 
George Burroughs: 42 anos, charmoso e livre-pensador, sucedeu Bayley no púlpito da aldeia, 
e de 1679 a 1683. Foi embora repentinamente, e em 1692 era pastor na fronteira do Maine. 
Pai de sete filhos, combativo e controlador. 
Samuel Parris: 39 anos, clérigo no núcleo da invasão diabólica. Pai e tio das primeiras 
meninas enfeitiçadas, professor da primeira bruxa confessa, no púlpito de Salem de 1688 a 
1696. Ávido, inflexível, sem tato. 
Thomas Putnam: 40 anos, sargento da milícia, veterano de guerra do Rei Felipe. Relator dos 
julgamentos, escriturário da paróquia, sólido apoiador de Parris. Mora com quatro vítimas de 
bruxaria. Fez as primeiras acusações e dá início a praticamente metade das restantes. 
Ann Putnam (filha): 12 anos, a mais velha de seis irmãos. Consegue prever acontecimentos e 
se lembra de outros que assolaram seu nascimento. Única acusadora a viver em casa com pai 
e mãe. 
Bridget Bishop: Cinquenta e poucos anos. Viúva residente na cidade de Salem, beligerante, 
provocadora, impetuosa. No julgamento foi confundida com Sarah Bishop, da aldeia de 
Salem. 
Sarah Good: 38 anos, mendiga mal-humorada e combativa. A primeira a ser interrogada por 
suspeita de bruxaria. Mão de uma acusada de cinco anos. 
George Jacobs: velho fazendeiro animado a analfabeto. 
Rebecca Nurse: 71 anos, bisavó quase surda. Doente e sensível. Representa o maior desafio à 
corte de julgamento. 
Sarah Osborne: Cerca de cinquenta anos, frágil, estava entre as três primeiras suspeitas. 
Envolvida em uma prolongada disputa com seus parentes Putnam. 
John Hathorne: 51 anos, próspero magistrado local, arbitrário, intimidante. Originário de uma 
das primeiras famílias da cidade de Salem, é parente dos Putnam. 
William Phips: 41 anos, capitão do mar, aventureiro e empreendedor sem instrução. Foi 
nomeado governador de Massachusetts. 
William Stoughton: 60 anos, juiz principal do grande júri. Homem corpulento, engomado, de 
olhos miúdos, tem alto discernimento e requintado conhecimento de teologia. É a autoridade 
 
26 Fonte: (SCHIFF, 2019, p. 09-18) 
judicial mais confiável da Nova Inglaterra. Especulador de propriedades e solteirão a vida 
inteira. 
Cotton Mather: 29 anos, filho de Increase Mather e pastor assistente da Segunda Igreja de 
Boston. Estudante de Harvard aos onze anos, mestre em Teologia aos dezoito, é a estrela 
ascendente do clero da Nova Inglaterra, presidiu o Harvard College de 1685 a 1701. É o 
procurador da nova Carta da colônia. 
 
Anexo 3 
 
Procedimentos usados nos julgamentos de Salem27 
 
1. A pessoa afligida faz uma reclamação ao Magistrado sobre uma bruxa suspeita. A denúncia 
é feita às vezes através de uma terceira pessoa. 
2. O magistrado emite um mandado de prisão contra a pessoa acusada. 
3. O acusado é levado em custódia e examinado por dois ou mais magistrados. Se, depois de 
ouvir o testemunho, o magistrado acredita que a pessoa acusada é provavelmente culpada, o 
acusado é enviado para a prisão por possível interrogatório e para aguardar julgamento. 
4. O caso é apresentado ao Grande Júri. Depoimentos relativos à culpa ou inocência do 
acusado são registrados como prova. 
5. Se o acusado for indiciado pelo Grande Júri, ele ou ela é julgado perante o Tribunal de 
Oyer e Terminer. Um júri, instruído pelo Tribunal, decide a culpa do réu. 
6. O réu condenado recebe sua sentença do Tribunal. Em cada caso em Salem, o réu 
condenado foi sentenciado a ser enforcado em uma data específica. 
7. O xerife e seus adjuntos executam a sentença de morte na data especificada. 
 
 
 
 
 
 
27 Tradução do autor. Fonte: https://famous-trials.com/salem/2067-salemprocedure Acesso em: 30/05/2019. 
Anexo 4 
 
Interrogatório de Tituba (01 de março de 1692)28 
 
Por que você fere essas pobres crianças? Que mal elas lhe fizeram? 
Tituba: Elas não me fizeram nenhum mal, eu não feri ninguém. 
Por que você fez isso? 
T: Eu não fiz nada; não sei dizer quando o demônio trabalha. 
O que o demônio lhe diz para machucá-las? 
T: Ele não me diz nada. 
Você nunca o viu aparecer em alguma forma? 
T: Eu nunca vi nada. 
Qual familiaridade você tem com o demônio? O que vocês conversam? Diga a verdade, quem 
as machuca? 
T: O demônio, pelo que eu sei. 
Em qual aparência ele aparece para machucá-las? Qual a forma dele? Como ele aparece? 
T: Como um homem eu acho. Ontem eu estava em Lentoe Chamber e vi algo parecido com 
um homem, o qual me pediu para servi-lo e eu disse que não, eu não iria fazer tal coisa. (nota 
do escrivão: ela acusa Good Osborne e Sarah Good como sendo as pessoas que machucam as 
crianças) 
Elas fizeram você machucar as crianças na noite passada? 
T: Sim, mas eu me arrependi e disse que não faria mais isso. Eu disse que iria temer a Deus. 
Mas por que você não fez isso antes? 
 
28 Tradução do autor. Disponível em: https://famous-trials.com/salem/2050-asa-titx Acesso em 29/05/2019. 
T: Porque elas me disseram que eu já tinha feito e precisava continuar. Eram quatro mulheres 
e um homem. (nota do escrivão: ela conhecia apenas Good Osborne e Sarah Good, os outros 
eram de Boston) 
Comecemos com eles, como eles apareceram para você e como a obrigaram a fazer as coisas 
que queriam? 
T: Aquele parecido com um homem apareceu para mim quando eu estava indo dormir, foi a 
primeira vez que as crianças foram machucadas, ele disse que iria matá-las, elas nunca iriam 
se curar, e ele disse 
Que se eu não o servisse ele iria fazer a mesma coisa comigo. 
O homem que disse isso para você noite passada é o mesmo que apareceu antes? 
T: Sim. 
De que outras formas ele apareceu para você? 
T: Às vezes como um porco, às vezes como um grande cão preto, quatro vezes. 
Mas o que eles falaram para você? 
T: Eles me disserampara servi-lo, que aquilo era o melhor jeito, eu disse que tinha medo do 
cão, ele me falou que seria pior do que o cão para mim. 
E o que você falou para ele depois disso? 
T: Eu disse que não iria mais servi-lo e ele me disse que iria me machucar então. 
Qual outras criaturas você viu? 
T: Um pássaro. 
Qual pássaro? 
T: Um pequeno pássaro amarelo. 
Onde ele é mantido? 
T: Com o homem que tem coisas bonitas. 
Qual outras coisas bonitas? 
T: Ele não as mostrou para mim, mas ele disse que iria me mostrar amanhã, e ele me falou 
que se eu o servisse eu poderia ficar com o pássaro. 
Quais outras criaturas você viu? 
T: Eu vi dois gatos, um vermelho e o outro preto, grande como um cachorro. 
O que esses gatos fizeram? 
T: Eu não sei, eu os vi duas vezes. 
O que eles disseram? 
T: eles me disseram para servi-lo. 
Quando você os viu depois disso? 
T: Eu os vi na noite passada. 
Eles lhe fizeram algum mal ou a ameaçaram? 
T: Eles me arranharam. 
Quando? 
T: Depois da oração, porque eu não iria servi-los e então eles se afastaram, eu não consegui 
ver mas eles estavam parados diante do fogo. 
Quais serviços eles queriam de você? 
T: Eles queriam machucar mais as crianças. 
Como você as beliscou para machucá-las? 
T: O outro me puxou e me obrigou a machucar as crianças. Eu sinto muito por isso. 
O que você tinha com você quando foi procurada? O que tinha lá? 
T: Eu não tinha nada. 
Aqueles gatos não te sugaram29? 
 
29 Nota do autor/tradutor: provavelmente o significado se refere à atração, ao fato de se deixar seduzir, ser 
influenciada. 
T: Não, nunca, e nunca os deixaria fazer isso, mas eles quase me atraíram para o fogo. 
Como você machucou aqueles que você arranhou? Você usou esses gatos? Ou outras coisas30 
para fazerem por você? Conte-nos como isso é feito. 
T: O homem envia seus gatos para mim e pede para que eu arranhe as vítimas com eles, eu 
acho que fui até a casa do sr. Grigg e fiz os gatos arranhá-lo nesse dia pela manhã. 
Você alguma vez saiu com essas mulheres? 
T: Elas são muito fortes, me puxaram e me fizeram ir com elas. 
Onde vocês foram? 
T: Até a casa do senhor Putnams, elas me fizeram ir com elas. 
Onde vocês foram? 
T: Até a casa do senhor Putnams, elas me fizeram machucar a criança. 
Quem foram aqueles que a fizeram ir? 
T: O homem que é muito forte e aquelas duas mulheres, Good e Osborne, mas eu sinto muito 
por isso. 
Como você foi? No que você estava montada? 
T: Eu montei em um pedaço de pau ou galinha, Good e Osborne estavam atrás de mim, 
tomando conte um dos outros, não sei como chegamos lá, eu não vi nenhuma árvore, nenhum 
caminho, eu apenas estava lá. 
Quando tempo você levou beliscando as crianças do sr. Parris 
T: Eu não as belisquei de início, mas ele me obrigou depois. 
Você viu Good e Osborne montadas em uma galinha? 
T: Sim, estavam juntas de mim, eu não fui à casa do sr. Grigg de uma vez, [...] na última noite 
eles queriam que matasse alguém com uma faca. 
Quem foram aqueles que lhe disseram isso? 
 
30 Nota do autor/tradutor: provavelmente se refere a criaturas ou objetos enfeitiçados. 
T: Sarah Good e Osborne, elas queriam que eu matasse a criança de Thomas Putnam noite 
passada [...]. 
Quem disse para você fazer isso? 
T: O homem, Sarah Good, Sarah Osborne, Goody veio a mim noite passada com o seu mestre 
[...] Good tinha um daqueles pássaros, o amarelo [...]. 
O que você tinha que fazer com ele? 
T: Dá-lo às crianças, o pássaro amarelo foi visto muitas vezes com as crianças, eu vi Sarah 
Good com ele na mão, quando ele veio para a ponta do seu dedo sobre a mão direita. 
Você nunca praticou bruxaria no seu país de origem? 
T: Não, nunca. 
Você viu essas pessoas fazendo isso? 
T: Sim, hoje pela manhã. 
Mas você viu essas pessoas fazendo isso enquanto você está sendo interrogada? 
T: Não, não as vi, mas as vi fazendo isso outras vezes. Eu vi Good com um gato ao lado do 
pássaro amarelo. 
O que Osborne tem a ver com ela? 
T: Algo que eu não sei dizer o que é, não posso dar um nome para isso, eu não sei como se 
parece, um deles têm asas e duas pernas [...] as crianças viram a mesma coisa mas ontem se 
transformou em um mulher. 
O que era essa outra coisa que Good e Osborne tinham? 
T: Algo peludo, por toda a face, nariz longo, eu não sei o que era, eu não sei com o que se 
parecia, ela tinha dois deles, um deles tinha asas e duas pernas, é alto, tem o porte de um 
homem, e ontem à noite ficou parado diante do fogo na sala do senhor Parris. 
Que roupa o homem vestia quando apareceu para você? 
T: Roupas pretas às vezes, às vezes casaco de sarja. 
Qual tipo de roupas elas vestiam? 
T: Uma capa de seda negra sobre um capuz branco de seda, [...] eu vi isso em Boston quando 
morei lá. 
E as roupas do pequeno homem? 
T: Um casaco de sarja com chapéu branco, eu acho [...]. 
 
Anexo 5 
 
Interrogatório de Rebecca Nurse (24 de março de 1692)31 
 
Mr. Harthorn: O que você diz (falando com uma aflita)? Você viu esta mulher lhe fazer mal? 
Abigail: Sim, ela me mordeu esta manhã. 
H: Você foi ferida por esta mulher? 
A: Sim. 
(Ann Putnam, em um ataque de dor grita que ela a machucou) 
H: Querida Nurse, aqui temos Ann Putnam filha e Abigail Willians declarando que você as 
machucou. O que você tem a dizer? 
Nurse: Eu posso dizer diante do meu Pai Eterno que eu sou inocente e Deus irá limpar a 
minha inocência. 
H: Aqui não há ninguém nesta Assembleia que não deseje isso, mas se você for culpada Deus 
irá descobrir. 
(Kenny levantou-se para falar) 
Goodm: Kenny, o que você diz? 
Ele então apresentou sua queixa e disse que Nurse apareceu em sua casa em plenas 
condições.32 
Aqui não são apenas estes, mas aqui está a esposa do sr, tho: Putnam que a acusa com 
informações confiáveis, e que tanto a tentam a iniquidade quanto a magoa muito. 
N: Não, eu sou inocente, estou limpa, não consegui sair de casa por 8 ou 9 dias. 
Sr. Putnam: Entregue logo o que você tem a dizer. 
 
31 Tradução do autor. Disponível em: https://famous-trials.com/salem/2051-asa-nurx Acesso em: 30/05/2019. 
32 Nota do autor/tradutor: Rebecca Nurse era uma senhora de 71 já muito frágil. Ver anexo 2. 
O senhor Edward Putnam faz o seu relato. 
H: Isso é verdade querida Nurse? 
N: Eu nunca enfeiticei nenhuma criança em minha vida. 
H: Você vê que estas as acusam, isso é verdade? 
N: Não. 
H: Você é uma pessoa inocente em relação a bruxaria? 
A esposa de Putnam grita, você alega que não trouxe o homem vestido de preto com você? 
[...] e as aflitas ficaram contrariadas. 
Você não vê em que condições elas estão? Quando suas mãos estão soltas elas ficam aflitas. 
Então Mary Walcot (que muitas vezes até então disse que a tinha visto, mas nunca poderia 
dizer ou disse que ela a mordeu ou a beliscou ou as machucou) disse: Hubbard sob as mesmas 
circunstâncias, ambas a acusaram abertamente de machucá-las. 
H: Aqui estão essas duas pessoas adultas que agora lhe acusam, o que você tem a dizer? Você 
não vê essas pessoas aflitas ou as ouve acusá-la? 
N: O Senhor sabe que eu não as machuquei, eu sou uma pessoa inocente. 
H: É horrível para todos aqui ver essa agonias e você, uma velha professora, assim acusada de 
pactuar com o demônio e ainda ver você ficar com os olhos secos quando existem tantos 
molhados. 
N: Você não conhece meu coração. 
H: Você faria bem se confessasse e desse a glória ao Senhor. 
N: Eu sou tão pura quanto a criança não nascida. 
H: Quais incertezas podem existir em aparições eu não sei, mas isso pesasobre você, que 
você está aqui no presente momento acusada com espíritos familiares: essa é a pessoa física 
coma qual falam, elas dizem que agora veem esses espíritos familiares em seu corpo, o que 
você tem a dizer? 
N: Eu não tenho nada a dizer senhor. 
H: Se você confessar e glorificar a Deus, eu vou orar para que Deus esclareça se você é 
inocente ou que descubra se você é culpada. E agora me dê uma resposta direta: você tem 
alguma familiaridade com esses espíritos? 
N: Não, eu não tenho nenhum, mas apenas com Deus. 
H: Como você ficou doente, considerando que há um discurso estranho na boca de muitos 
sobre isso. 
N: Eu estou com dor no estômago. 
H: Você não tem feridas? 
N: Eu não tenho nada além de velhice. 
H: Você sabe até onde é culpada, você tem familiaridade com o demônio, [...] o que você tem 
a dizer? 
N: É tudo falso, eu sou pura. 
H: Possivelmente você pode apreender que não é uma bruxa, mas você não se deixou levar 
pelas tentações? 
N: Não. 
H: Que triste é ver um membro da igreja, aqui e agora, sendo acusado e condenado. 
(A senhora Pope cai em um ataque violento, gritando coisas tristes, e então muitos caíram em 
lamentáveis ataques) 
H: Diga-nos que você não teve aparições visíveis mais do que é comum na natureza? 
N: Eu não tenho e nunca tive em minha vida. 
H: Você acha que elas sofrem de forma voluntária ou involuntária? 
N: Eu não sei dizer. 
H: Isso é estranho, todos podem ver. 
N: Eu prefiro ficar em silêncio. 
H: Elas te acusam de machucá-las, e se você acha que não é contra a vontade, mas pelo 
desígnio, você deve olhar para elas como assassinas. 
N: eu não sei dizer o que pensar sobre isso. 
(depois de breve momento ela disse que não entendeu corretamente o que foi dito) 
H: Bem, então dê uma resposta agora, você acha que elas sofrem contra suas vontades ou 
não? 
N: Eu não acho que elas sofrem contra suas vontades. 
H: Por que você nunca visitou essas pessoas aflitas? 
N: Porque eu tive receio de ficar chocada. 
(nesse momento houve muitas reclamações) 
H: Não é um caso inexplicável que quando você é interrogada essas pessoas ficam aflitas? 
N: Eu não tenho ninguém para olhar senão Deus. 
(mais uma vez, ao mexer as suas mãos, as pessoas afligidas foram tomadas por ataques de 
tortura) 
H: Você acredita que essas pessoas afligidas estão enfeitiçadas? 
N: Sim, eu acredito que estão. 
 
Anexo 6 
 
Interrogatório e condenação de Bridget Bishop33 
Resumo escrito por Sarah Nell Walsh 
Tradução de Christopher Augusto Carnieri 
 
 Bridget Bishop era uma mulher autoconfiante que havia sido acusada de feitiçaria já 
antes de 1692. A experiência lhe ensinara a negar alegações de feitiçaria a todo custo. 
Infelizmente, em 1692 a situação era diferente e sua única salvação estava na falsa confissão, 
o que ela se recusou a fazer. Bridget Bishop era casada com Edward Bishop quando foi 
acusada de feitiçaria em Salem. Ela ficara viúva duas vezes antes de se casar com Edward. 
Seu segundo marido Thomas Oliver acusou-a de bruxaria, afirmando que “ela era uma má 
esposa... O diabo apareceu encarnado para ela... E ela sentou-se durante toda a noite com o 
diabo”. Essa acusação anterior de bruxaria, em 1680, foi lembrada e provavelmente explica 
sua prisão e sentença em 1692. 
 John Hathorne e Jonathan Corwin presidiram o interrogatório de Bridget em 19 de 
abril de 1692. Muitos de seus acusadores estavam presentes no interrogatório, incluindo 
Elizabeth Hubbard, Ann Putnam, Abigail Williams, Mercy Lewis e Mary Walcott. Segue um 
resumo do interrogatório realizado no tribunal. 
 Assim que Bridget Bishop entrou no tribunal, as meninas aflitas caíram em fúria. O 
juiz Hathorne perguntou com quais feitiços ela estava envolvida, e ela respondeu: “eu declaro 
às presentes testemunhas de que eu sou inocente”. Então, Hathorne perguntou às meninas se 
elas tinham sido afligidas por Bishop, ao que Elizabeth Hubbard, Ann Putnam, Abigail 
Williams e Mercy Lewis afirmaram que sim. As meninas aflitas acusaram-na de tê-las 
machucado de várias maneiras e tentando-as a assinar o livro do diabo. Ann Putnam chegou a 
dizer que Bishop chamava o diabo de seu deus. Bishop continuou a proclamar sua inocência 
dizendo que “nunca viu essas pessoas antes, nem nunca esteve nesse lugar antes”. Ela alegou 
ser tão “inocente quanto um feto”. 
 
33 Transcrição original do interrogatório, julgamento e condenação (em inglês) disponível em: 
http://salem.lib.virginia.edu/texts/tei/swp?div_id=n13 Acesso em: 07/12/2018. 
 
 Nesse ponto, Mary Walcott disse que seu irmão Jonathan tinha rasgado o casaco de 
Bishop enquanto lutava contra seu espectro. Quando examinaram o casaco de Bishop, 
encontraram o rasgo exatamente no mesmo local. Hathorne continuou o ataque a Bishop 
acusando-a de enfeitiçar seu primeiro marido até a morte. Ela balançou negativamente a 
cabeça em resposta à pergunta, o que colocou as meninas aflitas em ataques (contorções no 
chão e gemidos de dor). Sam Braybook afirmou que, embora ela tenha dito a ele que foi 
acusada da bruxaria há dez anos, “ela não era bruxa e o diabo não pode machucá-la”. 
 Bridget Bishop ficou visivelmente frustrada com o contínuo ataque de Hathorne ao seu 
caráter e sua descrença em sua inocência. Sua atitude de respeito logo deu lugar à raiva 
quando lentamente percebeu que a negação não era uma estratégia eficaz. O seguinte diálogo 
entre Bishop e Hathorne é muito memorável e frequentemente citado. 
 
(B) Bishop afirma firmemente: “Eu não sou bruxa”. 
(H) Ao que Hathorne responde: “Como você não escreveu no livro?”, “até onde você foi? 
“Você não tem familiaridade com os espíritos?” 
(B) “Eu não tenho familiaridade com o diabo” 
(H) “Como, então, a sua presença machuca estas meninas?” 
(B) “Eu sou inocente” 
(H) “Por que você pratica a feitiçaria diante de nós, pelo movimento do seu corpo, que parece 
ter influência sobre os aflitos?” 
(B) “Eu não sei nada disso”, “Eu sou inocente”, “Eu não sei o que é uma bruxa” 
(H) “Como você sabe então que você não é uma bruxa?” 
(B) “Eu não entendo o que você diz” 
(H) “Como você pode saber que não é uma bruxa, e ainda não sabe o que é uma bruxa?” 
(B) “Eu vou se clara: se eu fosse essa pessoa, você deveria saber disso”, “Você pode me 
ameaçar, mas não pode fazer mais do que lhe é permitido”, “Eu sou inocente de ser uma 
bruxa” 
 
 Depois desse comentário, Bridget aparentemente virou seus olhos para o céu. 
Imediatamente, todas as meninas viraram seus olhos também, e pareceu à corte que um 
demônio estava à solta. Depois desse interrogatório, Bishop foi perguntada se ela não estava 
preocupada em ver as meninas afligidas tão atormentadas. Ela respondeu que não. Quando 
perguntada se ela achava que elas estavam enfeitiçadas, ela respondeu que não sabia o que 
pensar sobre elas. 
 Cotton Mather, usando os registros da corte, escreveu sobre o julgamento de Bridget 
Bishop em seu livro Wonders of the invisible world. O julgamento foi realizado em 2 de junho 
de 1692 no Tribunal de Oyer e Terminer. Até mesmo Mather admitiu que era difícil provar a 
feitiçaria, mesmo que “fosse evidente e notória para todos os observadores”. Durante o 
interrogatório de Bishop perante os magistrados, as meninas afligidas se comportavam como 
se fossem torturadas. Parecia que Bishop podia atacá-las apenas lançando os olhos sobre elas. 
A única coisa que impediria esses ataques era o toque da mão dela nas meninas. Abigail 
Hobbs, uma mulher que confessara ser bruxa, representou esse drama testemunhando que o 
espectro de Bishop a atormentava por causa de sua confissão. Ela também afirmou que 
Bishop esteve presente em uma reuniãode bruxas, em um campo na vila de Salem, e 
participou de um sacramento diabólico. 
 Além dessas evidências, evidências de outras bruxarias anteriores foram trazidas à luz. 
Bishop foi acusada de assassinar crianças, enfeitiçar porcos e importunar vários moradores da 
cidade durante a noite. Em mais provas, poppets foram encontrados na parede de seu porão. 
Esses bonecos eram feitos de trapos e cerdas de porco, com alfinetes sem cabeça neles. A 
última prova foi quando um júri de mulheres encontrou uma “marca sobrenatural” em seu 
corpo. Dentro de três horas, a marca havia desaparecido, aumentando a intriga. 
 O caso de Bridget Bishop serviu de modelo para futuros caos, seguindo um padrão 
bastante previsível. As meninas afligidas faziam acusações, as quais eram negadas pelos(as) 
acusados(as); um ou mais confessores validavam as acusações dos acusadores; e membros da 
comunidade relatavam atos passados de feitiçaria realizados pelo(a) acusado(a). O tribunal 
usou provas espectrais como única base legal para condenar Bridget Bishop. Declarada em 10 
de junho, sua sentença de morte enfatizava apenas o dano causado a seus acusadores, 
principalmente no dia do seu interrogatório, como a justificativa legal para sua execução. 
Bridget Bishop foi a primeira pessoa a ser enforcada como resultado dos infames julgamentos 
de bruxaria em Salem. 
 
Mandado de execução de Bridget Bishop 
Tradução de Christopher Augusto Carnieri 
 
8 de junho de 1692 
Para George Corwin, xerife do Condado de Essex, Saudações. 
Considerando que Bridget Bishop, anteriormente com o sobrenome Oliver, esposa de Edward 
Bishop de Salem, no Condado de Essex Sawyer, na Corte Especial de Oyer e Termine 
realizada em Salem, no segundo dia de junho para os condados de Middlesex e Suffolk, 
perante William Stoughton e seus associados da dita corte, foi indicada e denunciada pelo 
prática e exercício, no nono dia de abril passado, antes e depois, de atos de bruxaria sobre os 
corpos de Abigail Willians, Ann Puttnam, Mercy Lewis, Mary Walcott e Elizabeth Hubbard, 
solteiras da vila de Salem, em que seus corpos foram feridos, afligidos por alfinetes, 
consumidos e atormentados, ao contrário do estatuto neste caso, feito e providenciado, para o 
qual Bridget Bishop se declarou não culpada e sob julgamento se colocou perante Deus e seu 
Condado, onde ela foi considerada culpada por envolvimento e prática de bruxaria e 
consequentemente condenada à morte, a qual deve ser executada como a lei determina, em 
nome de suas majestades William e Mary, agora Rei e Rainha da Inglaterra, vos comanda 
que, na próxima sexta-feira, décimo dia do mês de junho, entre as oito e doze horas do mesmo 
dia, Bridget Bishop seja conduzida para o lugar da execução, onde deve ser enforcada pelo 
pescoço até que ela esteja morta, [...] e esta é sua ordem sobre minha mão e o selo de Boston, 
aos oito de junho do quarto ano do reinado do nosso soberano Senhor (e Senhora) William & 
Mary, agora Rei & Rainha da Inglaterra: 1692; 
Wm Stoughton 
 
10 de junho de 1692 
De acordo com o preceito escrito, eu tomei o corpo de Bridget Bishop e a conduzi ao lugar 
previsto para sua execução. Ela foi enforcada pelo pescoço até sua morte e enterrada no local. 
Tudo ocorreu dentro do tempo determinado e assim feito eu retornei. 
Por mim, xerife George Corwin. 
 
(Arquivos da Comarca de Essex, Salem-Witchcraft, vol.1, nº71)

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