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Universidade do Estado do Pará Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica Pró-Reitoria de Graduação Centro Ciências Sociais e Educação Curso de Pedagogia COLETÂNEA DE TEXTOS DA DISCIPLINA: GEOGRAFIA DO BRASIL E SEU ENSINO Professor Organizador: Belém-Pará 2017.2 Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica – PARFOR Material organizado para desenvolvimento da disciplina (Geografia do Brasil e seu Ensino) no Curso de Licenciatura em (Pedagogia), a ser ofertado por meio de convênio firmado entre o Ministério da Educação - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – MEC/CAPES e a Universidade do Estado do Pará – UEPA. Universidade do Estado do Pará Reitor Prof. Dr. Juarez Antônio Simões Quaresma Vice-Reitor Prof. Dr. Rubens Cardoso da Silva Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD) Profª. Ms. Ana da Conceição Oliveira Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPESP) Hebe Morganne Campos Ribeiro Pró-Reitoria de Gestão e Planejamento (PROGESP) Prof. Ms. Carlos Jose Capela Bispo Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) Prof. Dra. Mariane Cordeiro Alves Franco Diretora do Centro de Ciências Sociais e Educação Prof. Anderson Mdson Maia Coordenador Geral do PARFOR-UEPA Kátia Maria dos Santos Melo Coordenador Adjunto do Parfor Antonio Sérgio Silva de Carvalho Coordenadora do Curso de Pedagogia Maria Celia Barros Virgolino Pinto SUMÁRIO Pag. APRESENTAÇÃO PLANO DE ENSINO 1. A PROPÓSITO DA QUESTAO TEORICO-METODOLOGICA SOBRE O ENSINO DE GEOGRAFIA 2. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE GEOGRAFIA: GEOGRAFIA NO ENSINO FUNDAMENTAL 3. A GEOGRAFIA NO INICIO DA ESCOLARIDADE 4. APRENDENDO A LER O MUNDO: A GEOGRAFIA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL 5. FUNDAMENTOS DA ALFABETIZAÇÃO CARTOGRÁFICA NO ENSINO DE GEOGRAFIA 6. ATIVIDADES NÃO PRESENCIAIS - EAD 1 2 4 9 28 39 53 72 1 APRESENTAÇÃO A Geografia escolar vem nas últimas décadas passando por um processo de transformações, buscando romper com as práticas de um ensino tradicional. No entanto, apesar desse esforço ainda percebemos uma prática escolar geográfica, que ainda reflete um ensino eminentemente enfadonho e mnemônico, se aproximado do que nos lembra Yves Lacoste (1987), de uma “geografia dos professores”. As transformações no ensino da geografia são decorrentes das mudanças paradigmáticas por que passa a ciência geográfica e refletem diretamente na prática da geografia escolar. As transformações social-econômicas e espaciais dos últimos anos impulsionaram um olhar crítico antes ausente na ciência geográfica. Transpor esta nova roupagem da Geografia no ensino aprendizagem ainda é um complexo trabalho a ser praticado. A ciência geográfica possui um amplo potencial em seus campos epistemológicos que até então foram pouco explorados e de forma e não adequadamente. Seus conceitos - como o espaço geográfico, lugar, território, região, entre outros. Além da necessidade da alfabetização cartográfica, tornam-se elementos centrais para a produção do conhecimento geográfico escolar. Assim nosso interesse na elaboração dessa coletânea de texto para a disciplina Geografia do Brasil e seu ensino é apresentar para os discentes do curso de Pedagogia as transformações que passa a Geografia escolar nos últimos anos e a necessidade de se pensar um ensino mais significativo no Ensino Fundamental. Os textos que compõem essa coletânea foram retirados de artigos disponíveis on line1, no entanto, algumas formatações foram parcialmente modificadas para atender as exigências de formatação do PT e Parfor/UEPA, sem, no entanto, alterar conteúdos e analises dos autores que aqui emprestaram suas idéias para compor esse material pedagógico. 1 O site do MEC tem uma ampla coletânea de material voltado para o Ensino Fundamental, Educação Infantil, além desse site outros, como: capes (link periódicos), domínio público, Google acadêmico, etc. podem ser pesquisado para ampliar o conhecimento acerca da problemática do Ensino Fundamental e Educação Infantil. 2 PLANO DE ENSINO I – IDENTIFICAÇÃO CURSO: PEDAGOGIA DISCIPLINA: GEOGRAFIA DO BRASIL E SEU ENSINO PROFESSOR(A): SEMESTRE: PERÍODO: TURMA: II – EMENTA O desenvolvimento da disciplina Geografia do Brasil e seu Ensino, tem como cerne a discussão acerca das concepções teórico-metodológicas que fundamentam seu ensino e o estudo do processo de formação do território brasileiro. A discussão de suas concepções teórico-metodológica pauta-se na abordagem das correntes do pensamento geográfico em interrelação com as concepções de ensino da geografia, assim como no desenvolvimento de temas como o uso metodológico da cartografia e do livro didático na educação infantil e das séries iniciais do ensino fundamental. O estudo do processo de formação do território brasileiro permite o tratamento de categorias geográficas como: formação territorial, fronteira, organização do espaço urbano e agrário, e divisão regional, buscando sempre o estabelecimento do elo entre espaço, tempo e sociedade e entre a ciência e seu ensino. III. OBJETIVOS a) Proporcionar ao discente a discussão acerca das concepções teórico-metodológica que fundamentam o ensino da geografia na educação infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental. b) Compreender a construção do pensamento geográfico brasileiro. c) Analisar o processo de formação do território brasileiro, tendo como referência os cortes históricos que determinaram as transformações na organização espaço-territorial do país. d) Compreender a organização do espaço brasileiro a partir das reordenações espaciais e econômicas nos diversos momentos históricos do país. IV. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO 1. A EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO E O SEU OBJETO DE ESTUDO. 1.1 A Geografia Tradicional: Determinismo e o Possibilismo Geográfico; 1.2. A Nova Geografia ou Quantitativa: a Geografia do Planejamento e dos institutos; 1.3. A Geografia Crítica e a renovação conceitual do pensamento geográfico 2. A FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO 2.1. A questão: o território e sua interação com outras categorias geográficas 2.2. Do meio natural ao meio técnico-científico-informacional 2.3. O Brasil arquipélago: a mecanização incompleta; 2.4. O meio técnico da circulação mecanizada e dos inícios da industrialização; 2.5. A formação da Região Concentrada e a urbanização interior; 2.6. As divisões regionais do Brasil 3. A APLICAÇÃODAS CATEGORIAS E CONCEITOS GEOGRÁFICOS NA EDUCAÇÃO: TEORIA E PRÁTICA 3.1. Trabalhando o espaço, o território e a paisagem; 3.2. Orientação espacial; 3.3. O uso de mapas. 3 V. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS a) Aulas expositivas-dialogadas. b) Debates. c) Seminário. d) Apresentação de vídeo. e) Realização de oficina voltada para a produção e aplicação de recursos didáticos. VI. RECURSOS DIDÁTICOS a) Quadro magnético / pincel. b) Retroprojetor. c) Vídeo cassete / DVD. d) Textos. e) Mapas. VII. AVALIAÇÃO Critérios: a) Produção de conhecimento (qualidade na expressão, tanto oral quanto escrita, capacidade de crítica, análise e síntese).b) Participação nas atividades desenvolvidas. c) Assiduidade. Instrumentos: a) Avaliação escrita; b) Seminários; c) A produção de recursos didáticos quando da realização das oficinas programadas. VIII. BIBLIOGRAFIA BÁSICA ALMEIDA, R. D. e PASSINI, E. Y. O espaço geográfico: ensino e representação. São Paulo: Contexto, 1989. ALMEIDA, R. D. A propósito da questão teórico-metodológica sobre o ensino de geografia. In: Revista Terra Livre – Prática de Ensino em Geografia, Nº 8. São Paulo: Ed. Marco Zero/AGB, abr. 1991: 83-90. ANDRADE, M. C A Questão do Território no Brasil. São Paulo: Hucitec. 1995. __________. A federação brasileira: uma análise geopolítica e geosocial. São Paulo: Contexto, 1999. (Col. Repensando a Geografia). ANTUNES, A. R. et. al. Estudos sociais: teoria e prática. Rio de Janeiro: ACCESS Editora, 1993. CALLAI, H. C. (Org.). O ensino em estudos sociais. 2 ed. Ijuí: Unijuí Ed., 2002. _______________. Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do Ensino Fundamental. In: Cadernos Cedes, Campinas, vol. 25, n. 66, p. 227-247, maio/ago. 2005 227. Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br> CASTROGIOVANI, A. C. et al. (orgs). Geografia em sala de aula: práticas e reflexões. 2ª ed. Porto Alegre: editora da Universidade/UFRGS/AGB, 1999. CAVALCANTI, L. S. Geografia, escola e construção de conhecimentos. Campinas (SP): Papirus, 1998. _____________ . Geografia e práticas de ensino. Goiânia: Alternativa, 2002. CORRÊA, R. L. Região e organização espacial. 2 ed. São Paulo: Ática,1986. KOSEL, Salete & FILIZOLA, Roberto. didática da geografia: memórias da terra – o espaço vivido. São Paulo: FTD, 1996. (conteúdo e metodologia). LACOSTE, Y. A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 3 ed. Campinas (SP): Papirus, 1993. MORAES, A.C. R. Geografia: pequena história crítica. São Paulo: Hucitec. 7 ed. 1987. OLIVEIRA, A. U. Para onde vai o ensino da Geografia. São Paulo: Contexto. Coleção Repensando o Ensino. 1989. RUA, J. et. al. Para ensinar geografia. Rio de Janeiro: ACCESS Editora, 1993. 4 A PROPÓSITO DA QUESTAO TEORICO-METODOLOGICA SOBRE O ENSINO DE GEOGRAFIA Rosângela Doin de Almeida Texto extraído de: Revista Terra Livre – Prática de Ensino em Geografia, Nº 8. São Paulo: Ed. Marco Zero/AGB, abr. 1991: 83-90. Sem querer definir metas absolutas ou caminhos predeterminados, pretendemos neste trabalho considerar alguns suportes teóricos que nos parecem necessários e essenciais para o ensino de geografia. E, em seguida, apresentaremos exemplos de soluções praticas de como ensinar geografia. Nossa contribuição básica é levar aos professores uma contribuição não somente útil, mas elucidativa de como se pode ensinar geografia na escola sem adotar os meios tradicionais. Porém, buscando novas praticas que permitam evidenciar o que é mais peculiar à geografia, a interpretação crítica da organização do espaço. Segundo nos parece, os eixos que devem nortear a pratica de ensino referem-se a duas questões básicas: o que ensinar em geografia? E como ensinar geografia? O Que Ensinar em Geografia? “Apesar de parecer intrigante que os professores de geografia façam esta pergunta, ela e constantemente colocada em conversas das salas dos professores e até em encontros e congressos de alto nível. A resposta parece óbvia: em geografia deve-se ensinar geografia! Mas não é tão óbvia quando não está claro que geografia ensinar. A falta de clareza quanto a esta questão deve-se ao fato de que nas ultimas décadas a ciência geográfica evoluiu muito no que se refere à abordagem teórico-metodológica de seu objeto de ensino. E os professores atuantes nas redes de ensino não acompanharam essa evolução, permanecendo presos aos conteúdos dos antigos planos e aos livros didáticos. No entanto, as publicações dos últimos anos sobre o assunto têm confrontado esses conteúdos.” De outro lado, a discussão sobre conteúdo e método de ensino não pode dissociar-se da reflexão mais profunda sobre teoria e pratica; “o conteúdo a ser abordado não se desvincula do método, que lhe dá sustentação” (1), portanto quando se questiona o que ensinar em geografia questiona-se também como ensinar geografia. Por isso passaremos a considerar essas questões conjuntamente. Sem pretender levantar discussões teóricas muito profundas, vamos fazer uma rápida analise sobre essas questões e suas implicações para o ensino de geografia. A geografia encontrada na maioria dos livros didáticos e que é ensinada, geralmente, nas escolas apresenta uma analise descritiva – ou apenas uma descrição – do que se vê hoje no mundo. Essa geografia escolar consiste, portanto, em uma “visão de mundo”: inicia-se pela descrição e explicação do espaço próximo “vivido”, passando, depois, para o estudo de espaços mais distantes. Nessa abordagem os fenômenos aparecem como ocorrências parceladas, desvinculadas do todo, sem conexão com o processo social no qual estão inseridos, tanto a natureza quanto a sociedade, são vistas como ocupantes de um espaço herdado cuja organização foi predeterminada por forças externas e alheias a sua dinâmica atual. 5 Dessa forma, apresentando uma abordagem estática e a-histórica do processo de ocupação das áreas e da apropriação das áreas naturais, a geografia pouco valor terá na formação das novas gerações. Ao contrario, ela levará a sérias deformações quanto a sua visão de homem e de mundo. No ensino de geografia no 1º grau encontramos uma tendência mais moderna, porém não tão conscientizadora, que consiste no estudo da geografia ao nível da realidade objetiva – daquilo que é observado e vivido - o qual prende-se à aparência do observável, a qual é constatada através da percepção. No entanto, deve-se ter presente que a percepção não nos coloca em contato com a realidade, mas com o que ela aparenta. Por exemplo, a percepção do espaço através da temperatura, umidade, elementos visuais como as cores, as formas, a distribuição e posição dos elementos, etc. podem ser úteis apenas para a identificação de uma área como rural ou urbana. Isso quando o ensino se destina a crianças das series iniciais do 1º grau. Porém mesmo nessas séries é desejável que o ensino permaneça no nível da mera constatação daquilo que a criança pode perceber por si mesma. Outra tendência que encontramos no ensino atual refere-se à exploração da vivência do aluno, a qual está seivada de aspectos geográficos. Coloca-se que o saber do aluno deve ser o ponto central do programa de estudos em lugar de um saber “cientifico”, porém alheio à cultura das classes sociais de origem dos alunos. Como exemplo dessa proposta podemos citar a experiência de Resende (2). Advertimos, no entanto, que o saber do aluno, apesar de concreto, pode ser o ponto de partida do estudo geográfico. Mas de nenhuma maneira deverá permanecer como ponto de chegada, sob pena de se continuar reproduzindo na escola as diferenças entre as classes sociais quanto ao domínio do conhecimento institucionalizado. Parece-nos que a escola deve ser um elemento de democratização desse conhecimento. O ponto em que queremos chegar na relação entre método e conteúdo refere-se ao fato de que a geografia ensinada pode apresentar estudos sobre a relação homem-meio, ou estudo da organização do espaço pelo homem, omitindo, no entanto, que a relação homem-meio ocorre em uma determinada forma de organização espacial porque essa relação é uma relação de trabalho. Explicando melhor, a sociedade produz uma forma de organização que é observável no espaço; assim há uma forma concreta e visível da sociedade no espaço: essa e a organização espacial que a geografia deve analisar. Trata-se do estudo de uma sociedadede classes cuja aparência – organização espacial – depende da forma como o trabalho, durante um processo histórico, a organizou. Nas palavras de Ruy Moreira: “O processo do trabalho tem a sua materialidade em formas que ao mesmo tempo que dele derivam a ele revertem, e são geradas com esse fim. Em se tratando da geografia, esta materialidade dialeticamente articulada ao processo do trabalho é o espaço geográfico. Espaço e trabalho estão numa relação de aparência e essência: o espaço geográfico é a aparência de que o processo historicamente concreto do trabalho (a relação homem-meio concreta) é a essência” (3). Ensinar geografia implica desenvolver o mesmo método que ela usa na construção do conhecimento geográfico que está em continua transformação. Ensinar geografia significa dar conta do processo que levou à atual organização do espaço, e este é adequado à realização do 6 trabalho, sendo modificado com a finalidade de atender essa exigência. Portanto, o ensino não pode ocorrer através da transmissão de conteúdos programados e subdivididos por séries. Mas Afinal, Como Ensinar Geografia? Partindo do conhecimento adquirido através da observação do meio circundante, conhecimento este ainda não sistematizado, o aluno deve ter oportunidade de contribuir para a elaboração de um arcabouço formado por idéias, conceitos e categorias que lhe permitam interpretar, de forma cada vez mais profunda, a realidade que o cerca. Nesse esforço, professor e alunos devem trabalhar juntos, sempre em cooperação. O professor, ao invés de expor o conteúdo ou de apresentar uma planilha pronta com as etapas da “pesquisa” que espera que os alunos cumpram, deverá ser o coordenador das atividades a serem realizadas por eles. Nessa função o professor organiza o trabalho, orienta a sua seqüência, fornece informações, demonstra técnicas, provê recursos, discute idéias, levanta duvidas, avalia resultados. Enfim, envida todos os esforços para que os alunos atinjam os objetivos de seu trabalho. (4) No desenvolvimento do trabalho, o aluno precisa aprender a observar, a coligir dados, a compará-los e classificá-los, a estabelecer generalizações e inferir explicações. Todas essas operações fazem parte do pensamento cientifico, e precisam ser desenvolvidas na escola. Através da busca e manipulação de informações e dados o aluno começa a apropriar-se das formas de produção do conhecimento cientifico. No que se refere ao conhecimento geográfico é necessário que o aluno aprenda também a mapear. Apenas copiar e colorir mapas não consiste uma tarefa adequada para levar o aluno a pensar e tomar decisões. Mapear significa dar ao aluno oportunidade para definir critérios para representar classificações e correlações de forma gráfica nos mapas. A aquisição desses conhecimentos e habilidades por parte do aluno dependera de fatores como seu nível de desenvolvimento cognitivo, seu meio sócio-cultural e seu nível de segurança afetiva. A reação dos alunos nas relações que se estabelecem na sala de aula depende desses fatores e de sua interação com o grupo e com o professor.este seria o momento em que o professor deveria recorrer aos seus conhecimentos em psicologia para poder lidar melhor com seus alunos, fazendo-o com habilidade e sensibilidade. Não é fácil lidar com adolescente! Apesar de não acreditarmos em receitas pedagógicas para o ensino, salientaremos a seguir alguns pontos que nos parecem relevantes para a organização do trabalho do professor: Partir da reflexão sobre os alunos: quem são, onde moram, como é sua vida escolar, quais são seus anseios e dificuldades, como é sua família, qual sua condição social; Procurar saber que conhecimentos específicos de geografia os alunos possuem; Propor metas claras quanto ao ensino de geografia a serem atingidas durante o período letivo – bimestral, semestral ou anual; Elaborar um plano de trabalho juntamente com os alunos, tendo em vista as metas propostas; Avaliar os alunos quanto ao seu desempenho e em função do processo desenvolvido. Quando se deseja desenvolver atitudes a mera verificação da assimilação de conteúdos é insuficiente e inadequada. 7 Através de sua própria prática, cada professor deverá buscar os caminhos que atendam às peculiaridades de sua realidade escolar, procurando soluções mais eficazes para lidar com os problemas próprios da situação, tornando-se um verdadeiro profissional na arte de educar. Neste ponto ressaltaremos alguns procedimentos que nos parecem fundamentais para o ensino crítico e cientifico. Inicialmente, é necessário que o aluno aprenda a observar. A observação pode iniciar-se na escola e em seus arredores. Pode ser orientada pelo professor, que dá indicações a esse respeito, como por exemplo, o professor pode solicitar aos alunos que observem a variação de tonalidades em um perfil de solo. Nesse caso, trata-se da observação de aspectos da realidade in loco. Contudo, não se deve esquecer que os alunos também podem observar aspectos apresentados em fotos ou gravuras, em croquis ou em mapas. Na observação é importante o aluno notar itens de caracterização de determinados fenômenos, como, por exemplo, ao observarem a foto de uma localidade urbana, podem identificar a distribuição do casario, as vias de circulação, as áreas comerciais, etc. Para chegar a conhecimentos geográficos pela observação, o aluno deve partir da identificação dos elementos observados (no exemplo acima: residências, ruas, avenidas, lojas, etc.); assim poderá, depois, questionar a ocorrência desses elementos e a sua localização na cidade. A partir da observação do aluno deve ser levado a estabelecer comparações, relacionando elementos de diversas ordens. Neste momento, ele deverá ser levado a definir critérios de classificação: aproximando ou agrupando fatores que influem sobre os fenômenos e processos em estudo. Em uma etapa mais avançada o aluno deve fazer uma analise dos fatos e fenômenos. Nesse ponto será necessário que ele tome conhecimento de modelos teóricos de interpretação para que possa ter elementos para analisar de forma fundamentada e crítica a realidade em estudo. Como ultima etapa, o aluno deve chegar a uma síntese, prevendo implicações ou conseqüência dos processos que influem nos fenômenos estudados. O desenvolvimento desse trabalho, do ponto de vista didático, pode-se se dar através de procedimentos como projetos, estudo do meio, reportagens e entrevistas, estudo bibliográfico, excursões e outros. Sugerimos a leitura do livro de Nildecoff (5) pois apresenta e discute detalhes sobre a prática desses procedimentos. O trabalho pedagógico que estamos propondo baseia-se no aprofundamento de noções e conceitos e não na seriação de aspectos a serem estudados. A direção a ser seguida é de integração dos assuntos entre si e com outras áreas e disciplinas (ciências, história, língua portuguesa, etc.). No entanto, recomendamos que seja observada uma gradação nos procedimentos, atendendo as dificuldades que forem sendo vencidas pelos alunos no processo de desenvolvimento: Partir da percepção da realidade através da observação, relatos de vivências, etc.; Expressar esse conteúdo através de depoimentos orais ou escritos; pode-se também usar a encenação, expressão corporal, musical ou poética; Representar graficamente o conteúdo através de desenhos, plantas, roteiro esquemático, maquetes mapa e gráfico; 8 aprofundar os conceitos em estudos através de leituras, pesquisas, debates, etc., para que o aluno passe a conhecê-los e usá-los de forma crítica, com interpretação pessoal, porém fundamentada Para QueEnsinar Geografia? As respostas às duas questões colocadas no início deste trabalho – o que ensinar e como ensinar geografia? – foram dadas em função de uma questão mais abrangente: para que ensinar geografia? Neste momento os professores deveriam paras para refletir como têm respondido a esta questão em suas aulas. Pois o que ensinamos e como o fazemos reflete os objetivos que colocamos para nossa práxis. Para que serve o ensino de geografia em uma sociedade na qual a informação sobre as diferentes partes do mundo é apresentada em detalhes através de sofisticados meios de comunicação? E para que serve esse ensino se poucos cidadãos dessa sociedade podem usá-la para seu bem estar? Yves Lacoste afirma que “a geografia serve antes de mais nada para fazer a guerra” (6), isto é, o conhecimento que se desenvolve que se desenvolve relativo ao espaço é um “saber estratégico, um poder”. Além disso, atualmente o conhecimento geográfico tem funções ideológicas e políticas, pois as grandes potências desenvolvem sua influência através de argumentos de tipo geográfico como as relações de “centro” e “periferia, do “ocidente” e do “oriente”. Acrescentamos ainda que em nosso país a análise geográfica serviu de base para planos de desenvolvimento econômicos após 1964. Ignorar o caráter ideológico e político do conhecimento, seja em que área for, perece-nos só uma atitude ingênua, mas comprometida com a alienação social. Os professores precisam perceber que seu papel no processo de democratização de nossa sociedade consiste em, principalmente, desenvolver uma prática pedagógica não alienante, mas conscientizadora. E o ensino da geografia serve para isso. Antes de concluirmos este texto gostaríamos de transcrever para reflexão dos leitores o seguinte comentário de Milton Santos: “A educação tem como objeto real armar o cidadão para uma guerra, a da competição com os demais. Sua finalidade, cada vez menos buscada e menos atingida, é a tornar gente capaz de se situar corretamente no mundo e de influir para que se aperfeiçoe a sociedade humana como um todo. A educação feita mercadoria reproduz e amplia as desigualdades, sem extirpar as mazelas da ignorância. Educação apenas para a produção setorial, educação apenas profissional, educação apenas consumista, cria, afinal, gente deseducada para a vida.” (7) Sem pretendermos esgotar as questões colocadas, levantamos algumas pistas sobre o que ensinar e como ensinar geografia. Pretendemos que as orientações e sugestões apresentadas neste artigo sejam úteis aos professores que desejam ensinar geografia para que seus alunos caracterizem melhor a realidade e, portanto, se tornem mais conscientes do espaço em que vivem. 9 Bibliografia (1) VLACH, V. R. F. “Fragmentos para uma discussão: Métodos e Conteúdos no Ensino de Geografia de 1º e 2º Graus” In: TERRA LIVRE – O Ensino de Geografia em Questão. Nº 2, São Paulo, AGB – Marco Zero, 1987, p. 53. (2) RESENDE, M. S. A Geografia do Aluno Trabalhador. São Paulo, Loyola, 1986. (3) MOREIRA, Ruy. O que é Geografia? São Paulo, Brasiliense, 1985, p. 85. (4) Sobre isto ver MIZUKAMI, M. G. N. Ensino: As Abordagens do Processo, São Paulo, EPU, 1986, pp. 85 a 103. (5) NIDELCOFF, M. T. A Escola e a Compreensão da Realidade. São Paulo, Brasiliense, 1982. (6) LACOSTE, Y. A Geografia Serve Antes de Mais Nada Para Fazer a Guerra. Tradução. AGB, s.d. (7) SANTOS, M. O Espaço do Cidadão, São Paulo, Nobel, 1987, p. 126. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE GEOGRAFIA Geografia no ensino fundamental 2 A produção acadêmica em torno da concepção de Geografia passou por diferentes momentos, gerando reflexões distintas acerca dos objetos e métodos do fazer geográfico. De certa forma, essas reflexões influenciaram e ainda influenciam muitas das práticas de ensino. Em linhas gerais, suas principais tendências podem assim ser apresentadas. As primeiras tendências da Geografia no Brasil nasceram com a fundação da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo e do Departamento de Geografia, quando, a partir da década de 40, a disciplina Geografia passou a ser ensinada por professores licenciados, com forte influência da escola francesa de Vidal de La Blache. Essa Geografia era marcada pela explicação objetiva e quantitativa da realidade que fundamentava a escola francesa de então. Foi essa escola que imprimiu ao pensamento geográfico o mito da ciência asséptica, não-politizada, com o argumento da neutralidade do discurso científico. Tinha como meta abordar as relações do homem com a natureza de forma objetiva, buscando a formulação de leis gerais de interpretação. Essa tendência da Geografia e as correntes que dela se desdobraram foram chamadas de Geografia Tradicional. Apesar de valorizar o papel do homem como sujeito histórico, propunha-se, na análise da produção do espaço geográfico, estudar a relação homem-natureza sem priorizar as relações sociais. Por exemplo, estudava-se a população, mas não a sociedade; os estabelecimentos humanos, mas não as relações sociais; as técnicas e os instrumentos de trabalho, mas não o processo de produção. Ou seja, não se discutiam as relações intrínsecas à sociedade, abstraindo assim o homem de seu caráter social. Era baseada, de forma significativa, em estudos empíricos, articulada de forma fragmentada e com forte viés naturalizante. 2 Esse texto foi retirado do PCN de Geografia do Ensino Fundamental. O documento na integra está disponível no site do MEC (www.mec.gov.br). 10 No ensino, essa Geografia se traduziu, e muitas vezes ainda se traduz, pelo estudo descritivo das paisagens naturais e humanizadas, de forma dissociada do espaço vivido pela sociedade e das relações contraditórias de produção e organização do espaço. Os procedimentos didáticos adotados promoviam principalmente a descrição e a memorização dos elementos que compõem as paisagens sem, contudo, esperar que os alunos estabelecessem relações, analogias ou generalizações. Pretendia-se ensinar uma Geografia neutra. Essa perspectiva marcou também a produção dos livros didáticos até meados da década de 70 e, mesmo hoje em dia, muitos ainda apresentam em seu corpo idéias, interpretações ou até mesmo expectativas de aprendizagem defendidas pela Geografia Tradicional. No pós-guerra, a realidade tornou-se mais complexa: o desenvolvimento do capitalismo afastou-se cada vez mais da fase concorrencial e penetrou na fase monopolista do grande capital; a urbanização acentuou-se e megalópoles começaram a se constituir; o espaço agrário sofreu as modificações estruturais comandadas pela Revolução Verde, em função da industrialização e da mecanização das atividades agrícolas em várias partes do mundo; as realidades locais passaram a estar articuladas em uma rede de escala mundial. Cada lugar deixou de explicar-se por si mesmo. Os métodos e as teorias da Geografia Tradicional tornaram-se insuficientes para apreender essa complexidade e, principalmente, para explicá-la. O levantamento feito por meio de estudos apenas empíricos tornou-se insuficiente. Era preciso realizar estudos voltados para a análise das relações mundiais, análises essas também de ordem econômica, social, política e ideológica. Por outro lado, o meio técnico e científico passou a exercer forte influência nas pesquisas realizadas no campo da Geografia. Para estudar o espaço geográfico globalizado, começou-se a recorrer às tecnologias aeroespaciais, tais como o sensoriamento remoto, as fotos de satélite e o computador como articulador de massa de dados: surgem os SIG (SistemasGeográficos de Informações). A partir dos anos 60, sob influência das teorias marxistas, surge uma tendência crítica à Geografia Tradicional, cujo centro de preocupações passa a ser as relações entre a sociedade, o trabalho e a natureza na produção do espaço geográfico. Ou seja, os geógrafos procuraram estudar a sociedade por meio das relações de trabalho e da apropriação humana da natureza para produzir e distribuir os bens necessários às condições materiais que a garantem. Critica-se a Geografia Tradicional, do Estado e das classes sociais dominantes, propondo-se uma Geografia das lutas sociais. Num processo quase militante de importantes geógrafos brasileiros, difunde-se a Geografia Marxista. Essa nova perspectiva considera que não basta explicar o mundo, é preciso transformá-lo. Assim a Geografia ganha conteúdos políticos que são significativos na formação do cidadão. As transformações teóricas e metodológicas dessa Geografia tiveram grande influência na produção científica das últimas décadas. Para o ensino, essa perspectiva trouxe uma nova forma de se interpretar as categorias de espaço geográfico, território e paisagem, e influenciou, a partir dos anos 80, uma série de propostas curriculares voltadas para o segmento de quinta a oitava séries. Essas propostas, no entanto, foram centradas em questões referentes a explicações econômicas e a relações de trabalho que se mostraram, no geral, inadequadas para os alunos dessa etapa da escolaridade, devido a sua complexidade. Além disso, a prática da maioria dos professores e de muitos livros didáticos conservaram a linha tradicional, descritiva e descontextualizada herdada da Geografia Tradicional, mesmo quando o enfoque dos assuntos estudados era marcado pela Geografia Marxista. 11 Tanto a Geografia Tradicional quanto a Geografia Marxista ortodoxa negligenciaram a relação do homem e da sociedade com a natureza em sua dimensão sensível de percepção do mundo: o cientificismo positivista da Geografia Tradicional, por negar ao homem a possibilidade de um conhecimento que passasse pela subjetividade do imaginário; o marxismo ortodoxo, por tachar de idealismo alienante qualquer explicação subjetiva e afetiva da relação da sociedade com a natureza. Uma das características fundamentais da produção acadêmica da Geografia desta última década é justamente a definição de abordagens que considerem as dimensões subjetivas e, portanto, singulares que os homens em sociedade estabelecem com a natureza. Essas dimensões são socialmente elaboradas — fruto das experiências individuais marcadas pela cultura na qual se encontram inseridas — e resultam em diferentes percepções do espaço geográfico e sua construção. É, essencialmente, a busca de explicações mais plurais, que promovam a interseção da Geografia com outros campos do saber, como a Antropologia, a Sociologia, a Biologia, as Ciências Políticas, por exemplo. Uma Geografia que não seja apenas centrada na descrição empírica das paisagens, tampouco pautada exclusivamente na interpretação política e econômica do mundo; que trabalhe tanto as relações socioculturais da paisagem como os elementos físicos e biológicos que dela fazem parte, investigando as múltiplas interações entre eles estabelecidas na constituição de um espaço: o espaço geográfico. As sucessivas mudanças e debates em torno do objeto e método da Geografia como ciência, presentes no meio acadêmico, tiveram repercussões diversas no ensino fundamental. Positivas de certa forma, já que foram um estímulo para a inovação e a produção de novos modelos didáticos. Mas também negativas, pois a rápida incorporação das mudanças produzidas pelo meio acadêmico provocou a produção de inúmeras propostas didáticas, descartadas a cada inovação conceitual e, principalmente, sem que existissem ações concretas para que realmente atingissem o professor em sala de aula, sobretudo o professor das séries iniciais que, sem apoio técnico e teórico, continuou e continua, de modo geral, a ensinar Geografia apoiando-se apenas na descrição dos fatos e ancorando-se quase que exclusivamente no livro didático. Mas não apenas a prática do professor se encontra permeada por essa indefinição e confusão muitas propostas de ensino também o estão. Segundo a análise feita pela Fundação Carlos Chagas, observa-se, sobretudo nas propostas curriculares produzidas nas últimas décadas, que o ensino de Geografia apresenta problemas tanto de ordem epistemológica e de pressupostos teóricos como outros referentes à escolha dos conteúdos. No geral, são eles: • abandono de conteúdos fundamentais da Geografia, tais como as categorias de nação, território, lugar, paisagem e até mesmo de espaço geográfico, bem como do estudo dos elementos físicos e biológicos que se encontram aí presentes; • são comuns modismos que buscam sensibilizar os alunos para temáticas mais atuais, sem uma preocupação real de promover uma compreensão dos múltiplos fatores que delas são causas ou decorrências, o que provoca um “envelhecimento” rápido dos conteúdos. Um exemplo é a adaptação forçada das questões ambientais em currículos e livros didáticos que ainda preservam um discurso da Geografia Tradicional e não têm como objetivo uma compreensão processual e crítica dessas questões, vindo a se transformar na aprendizagem de slogans; • há uma preocupação maior com conteúdos conceituais do que com conteúdos procedimentais. O objetivo do ensino fica restrito, assim, à aprendizagem de fenômenos e conceitos, 12 desconsiderando a aprendizagem de procedimentos fundamentais para a compreensão dos métodos e explicações com os quais a própria Geografia trabalha; • as propostas pedagógicas separam a Geografia humana da Geografia física em relação àquilo que deve ser apreendido como conteúdo específico: ou a abordagem é essencialmente social e a natureza é um apêndice, um recurso natural, ou então se trabalha a gênese dos fenômenos naturais de forma pura, analisando suas leis, em detrimento da possibilidade exclusiva da Geografia de interpretar os fenômenos numa abordagem socioambiental; • a memorização tem sido o exercício fundamental praticado no ensino de Geografia, mesmo nas abordagens mais avançadas. Apesar da proposta de problematização, de estudo do meio e da forte ênfase que se dá ao papel dos sujeitos sociais na construção do território e do espaço, o que se avalia ao final de cada estudo é se o aluno memorizou ou não os fenômenos e conceitos trabalhados e não aquilo que pôde identificar e compreender das múltiplas relações aí existentes; • a noção de escala espaço-temporal muitas vezes não é clara, ou seja, não se explicita como os temas de âmbito local estão presentes naqueles de âmbito universal e vice-versa, e como o espaço geográfico materializa diferentes tempos (da sociedade e da natureza). O ensino de Geografia pode levar os alunos a compreenderem de forma mais ampla a realidade, possibilitando que nela interfiram de maneira mais consciente e propositiva. Para tanto, porém, é preciso que eles adquiram conhecimentos, dominem categorias, conceitos e procedimentos básicos com os quais este campo do conhecimento opera e constitui suas teorias e explicações, de modo a poder não apenas compreender as relações socioculturais e o funcionamento da natureza às quais historicamente pertence, mas também conhecer e saber utilizar uma forma singular de pensar sobre a realidade: o conhecimento geográfico. Conhecimento geográfico: características e importância social A Geografia estuda as relações entre o processo histórico que regula a formação das sociedades humanas e o funcionamento da natureza, por meio da leitura do espaço geográfico e dapaisagem. A divisão da Geografia em campos de conhecimento da sociedade e da natureza tem propiciado um aprofundamento temático de seus objetos de estudo. Essa divisão é necessária, como um recurso didático, para distinguir os elementos sociais ou naturais, mas é artificial, na medida em que o objetivo da Geografia é explicar e compreender as relações entre a sociedade e a natureza, e como ocorre a apropriação desta por aquela. Na busca dessa abordagem relacional, a Geografia tem que trabalhar com diferentes noções espaciais e temporais, bem como com os fenômenos sociais, culturais e naturais que são característicos de cada paisagem, para permitir uma compreensão processual e dinâmica de sua constituição. Identificar e relacionar aquilo que na paisagem representa as heranças das sucessivas relações no tempo entre a sociedade e a natureza é um de seus objetivos. Nesse sentido, a análise da paisagem deve focar as dinâmicas de suas transformações e não a descrição e o estudo de um mundo estático. A compreensão dessas dinâmicas requer movimentos constantes entre os processos sociais e os físicos e biológicos, inseridos em contextos particulares ou gerais. A preocupação básica é abranger os modos de produzir, de existir e de perceber os diferentes espaços geográficos; como os fenômenos que constituem as paisagens se relacionam com a vida que as anima. Para tanto, é preciso observar, buscar explicações para aquilo que, numa determinada paisagem, permaneceu ou foi transformado, isto 13 é, os elementos do passado e do presente que nela convivem e podem ser compreendidos mediante a análise do processo de produção/organização do espaço. O espaço geográfico é historicamente produzido pelo homem enquanto organiza econômica e socialmente sua sociedade. A percepção espacial de cada indivíduo ou sociedade é também marcada por laços afetivos e referências socioculturais. Nessa perspectiva, a historicidade enfoca o homem como sujeito construtor do espaço geográfico, um homem social e cultural, situado para além e através da perspectiva econômica e política, que imprime seus valores no processo de construção de seu espaço. Assim, o estudo de uma totalidade, isto é, da paisagem como síntese de múltiplos espaços e tempos deve considerar o espaço topológico — o espaço vivido e o percebido — e o espaço produzido economicamente como algumas das noções de espaço dentre as tantas que povoam o discurso da Geografia. Pensar sobre essas noções de espaço pressupõe considerar a compreensão subjetiva da paisagem como lugar: a paisagem ganhando significados para aqueles que a vivem e a constroem. As percepções que os indivíduos, grupos ou sociedades têm do lugar nos quais se encontram e as relações singulares que com ele estabelecem fazem parte do processo de construção das representações de imagens do mundo e do espaço geográfico. As percepções, as vivências e a memória dos indivíduos e dos grupos sociais são, portanto, elementos importantes na constituição do saber geográfico. No que se refere ao ensino fundamental, é importante considerar quais são as categorias da Geografia mais adequadas para os alunos em relação à sua faixa etária, ao momento da escolaridade em que se encontram e às capacidades que se espera que eles desenvolvam. Embora o espaço geográfico deva ser o objeto central de estudo, as categorias paisagem, território e lugar devem também ser abordadas, principalmente nos ciclos iniciais, quando se mostram mais acessíveis aos alunos, tendo em vista suas características cognitivas e afetivas. O conceito de território foi originalmente formulado nos estudos biológicos do final do século XVIII. Nessa definição inicial, ele é a área de vida de uma espécie, onde ela desempenha todas as suas funções vitais ao longo do seu desenvolvimento. Portanto, para animais e plantas, o território é o domínio que estes têm sobre porções da superfície terrestre. Foi por meio dos estudos comportamentais que Augusto Comte incorporou o conceito de território aos estudos geográficos, como categoria fundamental para as explicações geográficas. Na concepção ratzeliana de Geografia 3 esse conceito define-se pela propriedade, ou seja, o território para as sociedades humanas representa uma parcela do espaço identificada pela posse. É dominado por uma comunidade ou por um Estado. Na geopolítica, o território é o espaço nacional ou área controlada por um Estado nacional: é um conceito político que serve como ponto de partida para explicar muitos fenômenos geográficos relacionados à organização da sociedade e suas interações com as paisagens. O território é uma categoria importante quando se estuda a sua 3 A Geografia ratzeliana valoriza o homem abrindo frentes de estudo referentes à história e ao espaço, tais como a formação do território, as migrações e a colonização. Seus estudos, no entanto, privilegiaram a visão das influências naturais sobre a evolução das sociedades; portanto, a Geografia ratzeliana mantém uma visão naturalista da sociedade. O principal livro de Ratzel, publicado em 1882, denomina-se AntropoGeografia — fundamentos da aplicação da Geografia à História. 14 conceitualização ligada à formação econômica e social de uma nação. Nesse sentido, é o trabalho social que qualifica o espaço, gerando o território. Território não é apenas a configuração política de um Estado-Nação, mas sim o espaço construído pela formação social. Para estudar essa categoria é necessário que os alunos compreendam que os limites territoriais são variáveis e dependem do fenômeno geográfico considerado. Hoje, por exemplo, quando se estudam os blocos econômicos, o que se entende por território vai muito além do Estado-nacional. Além disso, compreender o que é território implica também compreender a complexidade da convivência em um mesmo espaço, nem sempre harmônica, da diversidade de tendências, idéias, crenças, sistemas de pensamento e tradições de diferentes povos e etnias. É reconhecer que, apesar de uma convivência comum, múltiplas identidades coexistem e por vezes se influenciam reciprocamente, definindo e redefinindo aquilo que poderia ser chamado de uma identidade nacional. No caso específico do Brasil, o sentimento de pertinência ao território nacional envolve a compreensão da diversidade de culturas que aqui convivem e, mais do nunca, buscam o reconhecimento de suas especificidades, daquilo que lhes é próprio. A categoria território possui uma relação bastante estreita com a de paisagem. Pode até mesmo ser considerada como o conjunto de paisagens contido pelos limites políticos e administrativos de uma cidade, estado ou país. É algo criado pelos homens, é uma instituição. A categoria paisagem, porém, tem um caráter específico para a Geografia, distinto daquele utilizado pelo senso comum ou por outros campos do conhecimento. É definida como sendo uma unidade visível, que possui uma identidade visual, caracterizada por fatores de ordem social, cultural e natural, contendo espaços e tempos distintos; o passado e o presente. A paisagem é o velho no novo e o novo no velho! Assim, por exemplo, quando se fala da paisagem de uma cidade, dela fazem parte seu relevo, a orientação dos rios e córregos da região, sobre os quais se implantaram suas vias expressas, o conjunto de construções humanas, a distribuição da população que nela vive, o registro das tensões, sucessos e fracassos da história dos indivíduos e grupos que nela se encontram. É nela que estão expressas as marcas da história de uma sociedade, fazendo, assim, da paisagem uma soma de tempos desiguais, uma combinação de espaços geográficos. A categoria paisagem,por sua vez, está relacionada à categoria de lugar. Pertencer a um território e sua paisagem significa fazer deles o seu lugar de vida e estabelecer uma identidade com eles. Nesse contexto, a categoria lugar traduz os espaços com os quais as pessoas têm vínculos mais afetivos e subjetivos que racionais e objetivos: uma praça, onde se brinca desde menino, a janela de onde se vê a rua, o alto de uma colina, de onde se avista a cidade. O lugar é onde estão as referências pessoais e o sistema de valores que direcionam as diferentes formas de perceber e constituir a paisagem e o espaço geográfico. Além disso, espaço geográfico, paisagem, território e lugar, atualmente, estão associados à força da imagem, tão explorada pela mídia. Pela imagem, a mídia traz à tona valores a serem incorporados e posturas a serem adotadas. Retrata, por meio da paisagem, as contradições em que se vive, confundindo no imaginário aquela que é real e a que se deseja como ideal; toma para si a tarefa de impor e inculcar um modelo de mundo, de reproduzir o cotidiano por meio da imagem massificante repetida pelo bombardeamento publicitário, sobrepondo-se às percepções e interpretações subjetivas e/ou singulares por outras padronizadas e pretensamente universais. A Geografia estaria, então, identificada como a ciência que busca decodificar as imagens presentes 15 no cotidiano, impressas e expressas nas paisagens e em suas representações, numa reflexão direta e imediata sobre o espaço geográfico e o lugar. Nessa abrangência, a Geografia contribui para que se compreenda como se estabelecem as relações locais com as universais, como o contexto mais próximo contém e está contido em um contexto mais amplo e quais as possibilidades e implicações que essas dimensões possuem. No mundo atual, o meio técnico-científico informacional adquiriu um papel fundamental e, em meio ao processo de globalização e massificação, o mundo convive com novos conflitos e tensões, tais como o declínio dos estados-nações, a formação de blocos comerciais, as novas políticas econômicas, a desterritorialidade e outros temas que recuperam a importância do saber geográfico. Há uma multiplicidade de questões que, para serem entendidas, necessitam de um conhecimento geográfico bem estruturado. O estudo de Geografia possibilita, aos alunos, a compreensão de sua posição no conjunto das relações da sociedade com a natureza; como e por que suas ações, individuais ou coletivas, em relação aos valores humanos ou à natureza, têm conseqüências — tanto para si como para a sociedade. Permite também que adquiram conhecimentos para compreender as diferentes relações que são estabelecidas na construção do espaço geográfico no qual se encontram inseridos, tanto em nível local como mundial, e perceber a importância de uma atitude de solidariedade e de comprometimento com o destino das futuras gerações. Além disso, seus objetos de estudo e métodos possibilitam que compreendam os avanços na tecnologia, nas ciências e nas artes como resultantes de trabalho e experiência coletivos da humanidade, de erros e acertos nos âmbitos da política e da ciência, por vezes permeados de uma visão utilitarista e imediatista do uso da natureza e dos bens econômicos. Desde as primeiras etapas da escolaridade, o ensino da Geografia pode e deve ter como objetivo mostrar ao aluno que cidadania é também o sentimento de pertencer a uma realidade na qual as relações entre a sociedade e a natureza formam um todo integrado — constantemente em transformação — do qual ele faz parte e, portanto, precisa conhecer e sentir-se como membro participante, afetivamente ligado, responsável e comprometido historicamente. Aprender e ensinar geografia no ensino fundamental Independentemente da perspectiva geográfica, a maneira mais comum de se ensinar Geografia tem sido pelo discurso do professor ou pelo livro didático. Este discurso sempre parte de alguma noção ou conceito chave e versa sobre algum fenômeno social, cultural ou natural que é descrito e explicado, de forma descontextualizada do lugar ou do espaço no qual se encontra inserido. Após a exposição, ou trabalho de leitura, o professor avalia, pelos exercícios de memorização, se os alunos aprenderam o conteúdo. Abordagens atuais da Geografia têm buscado práticas pedagógicas que permitam apresentar aos alunos os diferentes aspectos de um mesmo fenômeno em diferentes momentos da escolaridade, de modo que os alunos possam construir compreensões novas e mais complexas a seu respeito. Espera-se que, dessa forma, eles desenvolvam a capacidade de identificar e refletir sobre diferentes aspectos da realidade, compreendendo a relação sociedade-natureza. Essas práticas envolvem procedimentos de problematização, observação, registro, descrição, documentação, 16 representação e pesquisa dos fenômenos sociais, culturais ou naturais que compõem a paisagem e o espaço geográfico, na busca e formulação de hipóteses e explicações das relações, permanências e transformações que aí se encontram em interação. Para tanto, o estudo da sociedade e da natureza2 deve ser realizado de forma conjunta. No ensino, professores e alunos deverão procurar entender que ambas — sociedade e natureza4 — constituem a base material ou física sobre a qual o espaço geográfico é construído. É fundamental, assim, que o professor crie e planeje situações nas quais os alunos possam conhecer e utilizar esses procedimentos. A observação, descrição, experimentação, analogia e síntese devem ser ensinadas para que os alunos possam aprender a explicar, compreender e até mesmo representar os processos de construção do espaço e dos diferentes tipos de paisagens e territórios. Isso não significa que os procedimentos tenham um fim em si mesmos: observar, descrever, experimentar e comparar servem para construir noções, espacializar os fenômenos, levantar problemas e compreender as soluções propostas, enfim, para conhecer e começar a operar com os procedimentos e as explicações que a Geografia como ciência produz. A paisagem local, o espaço vivido pelos alunos deve ser o objeto de estudo ao longo dos dois primeiros ciclos. Entretanto, não se deve trabalhar do nível local ao mundial hierarquicamente: o espaço vivido pode não ser o real imediato, pois são muitos e variados os lugares com os quais os alunos têm contato e, sobretudo, que são capazes de pensar sobre. A compreensão de como a realidade local relaciona-se com o contexto global é um trabalho que deve ser desenvolvido durante toda a escolaridade, de modo cada vez mais abrangente, desde os ciclos iniciais. Além disso, o estudo da paisagem local não deve se restringir à mera constatação e descrição dos fenômenos que a constituem. Deve-se também buscar as relações entre a sociedade e a natureza que aí se encontram presentes, situando-as em diferentes escalas espaciais e temporais, comparando-as, conferindo-lhes significados, compreendendo-as. Estudar a paisagem local ao longo dos primeiro e segundo ciclos é aprender a observar e a reconhecer os fenômenos que a definem e suas características; descrever, representar, comparar e construir explicações, mesmo que aproximadas e subjetivas, das relações que aí se encontram impressas e expressas. Nos ciclos subseqüentes, o ensino de Geografia deve intensificar ainda mais a compreensão, por parte dos alunos, dos processos envolvidos na construção do espaço geográfico. A territorialidade e a temporalidade dos fenômenos estudados devem ser abordadas de forma mais aprofundada, pois os alunos já podem construir compreensões e explicações mais complexas sobre as relações que existem entre aquilo que acontece no dia-a-dia, no lugar no qualse encontram inseridos, e o que acontece em outros lugares do mundo. Os problemas socioambientais e econômicos — como a degradação dos ecossistemas, o crescimento das disparidades na distribuição da riqueza entre países e grupos sociais, por exemplo — podem ser abordados a fim de promover um estudo mais amplo de questões sociais, econômicas, políticas e ambientais relevantes na atualidade. O próprio processo de globalização pelo qual o mundo de hoje passa demanda uma compreensão maior das relações de interdependência que existem entre os lugares, bem como das noções de espacialidade e territorialidade intrínsecas a esse processo. 4 O conceito de natureza deve ser compreendido tanto como o de primeira natureza — os elementos biofísicos de uma paisagem — como o de segunda natureza — a natureza transformada pelo trabalho humano. 17 Tal abordagem visa favorecer também a compreensão, por parte do aluno, de que ele próprio é parte integrante do ambiente e também agente ativo e passivo das transformações das paisagens terrestres. Contribui para a formação de uma consciência conservacionista e ambiental, na qual se pensa sobre o ambiente não somente em seus aspectos naturais, mas também culturais, econômicos e políticos. Para tanto, as noções de sociedade, cultura, trabalho e natureza são fundamentais e podem ser abordadas por meio de temas nos quais as dinâmicas e determinações existentes entre a sociedade e a natureza sejam estudadas de forma conjunta. Porém, para além de uma abordagem descritiva da manifestação das forças materiais, é possível também nos terceiro e quarto ciclos propor estudos que envolvam o simbólico e as representações subjetivas, pois a força do imaginário social participa significativamente na construção do espaço geográfico e da paisagem. A Geografia, ao pretender o estudo dos lugares, suas paisagens e território, tem buscado um trabalho interdisciplinar, lançando mão de outras fontes de informação. Mesmo na escola, a relação da Geografia com a Literatura, por exemplo, tem sido redescoberta, proporcionando um trabalho que provoca interesse e curiosidade sobre a leitura do espaço e da paisagem. É possível aprender Geografia desde os primeiros ciclos do ensino fundamental pela leitura de autores brasileiros consagrados — Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, entre outros — cujas obras retratam diferentes paisagens do Brasil, em seus aspectos sociais, culturais e naturais. Também as produções musicais, a fotografia e até mesmo o cinema são fontes que podem ser utilizadas por professores e alunos para obter informações, comparar, perguntar e inspirar-se para interpretar as paisagens e construir conhecimentos sobre o espaço geográfico. A Geografia trabalha com imagens, recorre a diferentes linguagens na busca de informações e como forma de expressar suas interpretações, hipóteses e conceitos. Pede uma cartografia conceitual, apoiada numa fusão de múltiplos tempos e numa linguagem específica, que faça da localização e da espacialização uma referência da leitura das paisagens e seus movimentos. Na escola, assim, fotos comuns, fotos aéreas, filmes, gravuras e vídeos também podem ser utilizados como fontes de informação e de leitura do espaço e da paisagem. É preciso que o professor analise as imagens na sua totalidade e procure contextualizá-las em seu processo de produção: por quem foram feitas, quando, com que finalidade, etc., e tomar esses dados como referência na leitura de informações mais particularizadas, ensinando aos alunos que as imagens são produtos do trabalho humano, localizáveis no tempo e no espaço, cujas intencionalidades podem ser encontradas de forma explícita ou implícita. O estudo da linguagem cartográfica, por sua vez, tem cada vez mais reafirmado sua importância, desde o início da escolaridade. Contribui não apenas para que os alunos venham a compreender e utilizar uma ferramenta básica da Geografia, os mapas, como também para desenvolver capacidades relativas à representação do espaço. A cartografia é um conhecimento que vem se desenvolvendo desde a pré-história até os dias de hoje. Por intermédio dessa linguagem é possível sintetizar informações, expressar conhecimentos, estudar situações, entre outras coisas — sempre envolvendo a idéia da produção do espaço: sua organização e distribuição. As formas mais usuais de se trabalhar com a linguagem cartográfica na escola é por meio de situações nas quais os alunos têm de colorir mapas, copiá-los, escrever os nomes de rios ou 18 cidades, memorizar as informações neles representadas. Mas esse tratamento não garante que eles construam os conhecimentos necessários, tanto para ler mapas como para representar o espaço geográfico. Para isso, é preciso partir da idéia de que a linguagem cartográfica é um sistema de símbolos que envolve proporcionalidade, uso de signos ordenados e técnicas de projeção. Também é uma forma de atender a diversas necessidades, das mais cotidianas (chegar a um lugar que não se conhece, entender o trajeto dos mananciais, por exemplo) às mais específicas (como delimitar áreas de plantio, compreender zonas de influência do clima). A escola deve criar oportunidades para que os alunos construam conhecimentos sobre essa linguagem nos dois sentidos: como pessoas que representam e codificam o espaço e como leitores das informações expressas por ela. PRIMEIRO CICLO: Ensino e aprendizagem de Geografia no primeiro ciclo No primeiro ciclo, o estudo da Geografia deve abordar principalmente questões relativas, presença e ao papel da natureza e sua relação com a ação dos indivíduos, dos grupos sociais e, de forma geral, da sociedade na construção do espaço geográfico. Para tanto, a paisagem local e o espaço vivido são as referências para o professor organizar seu trabalho. O estudo das manifestações da natureza em suas múltiplas formas, presentes na paisagem local, é ponto de partida para uma compreensão mais ampla das relações entre sociedade e natureza. É possível analisar as transformações que esta sofre por causa de atividades econômicas, hábitos culturais ou questões políticas, expressas de diferentes maneiras no próprio meio em que os alunos estão inseridos. Por exemplo, por meio da arquitetura, da distribuição da população, dos hábitos alimentares, da divisão e constituição do trabalho, das formas de lazer e inclusive por suas próprias características biofísicas pode-se observar a presença da natureza e sua relação com a vida dos homens em sociedade. Do mesmo modo, é possível também compreender por que a natureza favorece o desenvolvimento de determinadas atividades e não de outras e, assim, conhecer as influências que uma exerce sobre outra, reciprocamente. Quando se estuda a paisagem local, deve-se procurar estabelecer relações com outras paisagens e lugares distantes no tempo ou no espaço, para que elementos de comparação possam ser utilizados na busca de semelhanças e diferenças, permanências e transformações, explicações para os fenômenos que aí se encontram presentes. Inicia-se, assim, um processo de compreensão mais ampla das noções de posição, sítio, fronteira e extensão, que caracterizam a paisagem local e as paisagens de forma geral. É fundamental também que o professor conheça quais são as idéias e os conhecimentos que seus alunos têm sobre o lugar em que vivem, sobre outros lugares e a relação entre eles. Afinal, mesmo que ainda não tenham tido contato com o conhecimento geográfico de forma organizada, os alunos são portadores de muitas informações e idéias sobre o meio em que estão inseridos e sobre o mundo, têm acessoao conhecimento produzido por seus familiares e pessoas próximas e, muitas vezes, às informações veiculadas pelos meios de comunicação. Esses conhecimentos devem ser investigados para que o professor possa criar intervenções significativas que provoquem avanços nas concepções dos alunos. O principal cuidado é ir além daquilo que já sabem, evitando estudos restritos às idéias e temas que já dominam e pouco promovem a ampliação de seus conhecimentos e hipóteses acerca da presença e do papel da natureza na paisagem local. 19 Desde o primeiro ciclo é importante que os alunos conheçam alguns procedimentos que fazem parte dos métodos de operar da Geografia. Observar, descrever, representar e construir explicações são procedimentos que podem aprender a utilizar, mesmo que ainda o façam com pouca autonomia, necessitando da presença e orientação do professor. Por exemplo, em relação à observação, o professor pode levá-los a compreender que não se trata apenas de olhar um pouco mais detidamente, mas sim de olhar intencionalmente, em busca de respostas, nem sempre visíveis de imediato, disparadas pelo assunto ou problema em estudo. A descrição, por sua vez, não deve ser apenas uma listagem aleatória do que se observa, mas sim a seleção das informações que sugerem certas explicações e possuem relação com as hipóteses daquele que observa e descreve. Vale lembrar que esse ciclo é, na maioria das vezes, o momento de ingresso da criança na escola. Ensinar os alunos a ler uma imagem, a observar uma paisagem ou ainda a ler um texto — mesmo que a leitura não seja realizada diretamente por eles — para pesquisar e obter informações faz parte do trabalho do professor desse ciclo. Do mesmo modo, cabe a ele estimular e intermediar discussões entre os próprios alunos, para que possam aprender a compartilhar seus conhecimentos, elaborar perguntas, confrontar suas opiniões, ouvir seus semelhantes e se posicionar diante do grupo. Assim, mesmo os alunos estando em processo de alfabetização5, fontes escritas devem estar presentes nos estudos realizados, da mesma forma que o conhecimento construído expresso por meio de textos. Propor que os alunos registrem por escrito, individual ou coletivamente, aquilo que observaram ou aprenderam é uma maneira de aproximá- los de procedimentos essenciais — ler e escrever — não apenas para o campo da Geografia, mas também para o desenvolvimento de procedimentos importantes na vida de todo estudante. A imagem como representação também pode estar presente. Desenhar é uma maneira de se expressar característica desse segmento da escolaridade e um procedimento de registro utilizado pela própria Geografia. Além disso, é uma forma interessante de propor que os alunos comecem a utilizar mais objetivamente as noções de proporção, distância e direção, fundamentais para a compreensão e uso da linguagem cartográfica. O trabalho com a construção da linguagem cartográfica, por sua vez, deve ser realizado considerando os referenciais que os alunos já utilizam para se localizar e orientar no espaço. A partir de situações nas quais compartilhem e explicitem seus conhecimentos, o professor pode criar outras nas quais possam esquematizar e ampliar suas idéias de distância, direção e orientação. O início do processo de construção da linguagem cartográfica acontece mediante o trabalho com a produção e a leitura de mapas simples, em situações significativas de aprendizagem nas quais os alunos tenham questões a resolver, seja para comunicar, seja para obter e interpretar informações. E como na construção de outras linguagens mesmo inicialmente não se deve descaracterizá-la nem na produção, nem na leitura. É importante, assim, que o professor desse ciclo trabalhe com diferentes tipos de mapas, atlas, globo terrestre, plantas e maquetes — de boa qualidade e atualizados —, mediante situações nas quais os alunos possam interagir com eles e fazer um uso cada vez mais preciso e adequado deles. O estudo do meio, o trabalho com imagens e a representação dos lugares são recursos didáticos interessantes pelos quais os alunos poderão construir e reconstruir, de maneira cada vez 5 Ver concepção de alfabetização definida no documento de Língua Portuguesa. 20 mais ampla e estruturada, as imagens e as percepções que têm da paisagem local, conscientizando-se de seus vínculos afetivos e de identidade com o lugar no qual se encontram inseridos. Além disso, a interface com a História é essencial. A Geografia pode trabalhar com recortes temporais e espaciais distintos dos da História, embora não possa construir interpretações de uma paisagem sem buscar sua historicidade. Uma abordagem que pretende ler a paisagem local, estabelecer comparações, interpretar as múltiplas relações entre a sociedade e a natureza de um determinado lugar, pressupõe uma inter-relação entre essas disciplinas, tanto nas problematizações quanto nos conteúdos e procedimentos. Com a área de Ciências também há uma afinidade peculiar nos conteúdos desse ciclo, uma vez que o funcionamento da natureza e suas determinações na vida dos homens devem ser estudados. Sem perder de vista as especificidades de cada uma das áreas, o professor pode aproveitar o que há em comum para tratar um mesmo assunto sob vários ângulos. Objetivos de Geografia para o primeiro ciclo Espera-se que ao final do primeiro ciclo os alunos sejam capazes de: • reconhecer, na paisagem local e no lugar em que se encontram inseridos, as diferentes manifestações da natureza e a apropriação e transformação dela pela ação de sua coletividade, de seu grupo social; • conhecer e comparar a presença da natureza, expressa na paisagem local, com as manifestações da natureza presentes em outras paisagens; • reconhecer semelhanças e diferenças nos modos que diferentes grupos sociais se apropriam da natureza e a transformam, identificando suas determinações nas relações de trabalho, nos hábitos cotidianos, nas formas de se expressar e no lazer; • conhecer e começar a utilizar fontes de informação escritas e imagéticas utilizando, para tanto, alguns procedimentos básicos; • saber utilizar a observação e a descrição na leitura direta ou indireta da paisagem, sobretudo por meio de ilustrações e da linguagem oral; • reconhecer, no seu cotidiano, os referenciais espaciais de localização, orientação e distância de modo a deslocar-se com autonomia e representar os lugares onde vivem e se relacionam; • reconhecer a importância de uma atitude responsável de cuidado com o meio em que vivem, evitando o desperdício e percebendo os cuidados que se deve ter na preservação e na manutenção da natureza. Blocos temáticos e conteúdos: O estudo da paisagem local São muitos e variados os temas que podem ser pesquisados a partir do estudo da paisagem local. Embora cada unidade escolar e cada professor possa propor os seus, a depender das necessidades e problemáticas que julgarem importantes de serem abordadas, aqueles selecionados devem tratar da presença e do papel da natureza e sua relação com a vida das pessoas — seja em sociedade, coletiva ou individualmente — na construção do espaço geográfico. 21 Seguem sugestões de blocos temáticos que podem ser estudados com os alunos, apresentados de modo amplo, pois se configuram como sugestões e não devem ser compreendidos como uma seqüência de assuntos a serem aprendidos ou ainda como blocos isolados que não se comunicam entre si. O professor pode, por exemplo, trabalhar com um ou mais blocos ao mesmo tempo, reunidos no estudo da paisagem local. TUDO É NATUREZA A principal noção a ser trabalhada por estetema é a presença da natureza em tudo que está visível ou não na paisagem local. Por meio da observação e descrição, os alunos podem reconhecer essa presença em seus hábitos cotidianos, na configuração e localização de seu bairro e de sua cidade ou ainda nas atividades econômicas, sociais e culturais com as quais têm contato direto ou indireto. Essa percepção pode ser ampliada mediante a comparação com a presença da natureza em outros bairros, em diferentes regiões do Brasil e em outros lugares do mundo. A visão global de natureza expressa na paisagem local pode ser realizada por meio dos hábitos de consumo, pesquisando os produtos que participam da vida cotidiana, como são feitos e qual a origem dos recursos naturais que estão envolvidos em sua produção. É possível, ainda, aproximar os alunos do papel do trabalho na transformação da natureza, investigando como pessoas de diferentes espaços e tempos utilizam técnicas e instrumentos distintos de trabalho na apropriação e transformação dos elementos naturais disponíveis na paisagem local. Entretanto, a dimensão utilitária da natureza como recurso natural pode ser ultrapassada ao se abordarem também suas características biofísicas e as relações afetivas e singulares que as pessoas estabelecem com ela e manifestam por meio das artes e das formas de lazer, por exemplo. CONSERVANDO O AMBIENTE Este tema proporciona a compreensão das diferentes relações que indivíduos, grupos sociais e sociedades estabelecem com a natureza no dia-a-dia. Por meio de problematizações de situações vividas no lugar no qual os alunos se encontram inseridos — seja ele o bairro, a cidade ou o país — pode-se discutir o comportamento social e suas relações com a natureza. Devem ser estudados o modo de produzir e fazer do cotidiano, as tecnologias e as possibilidades de novas formas de se relacionar com a natureza, como as atitudes conservacionistas em relação ao lixo, saneamento básico, abastecimento de água, produção e conservação de alimentos, por exemplo. É possível ainda introduzir os modos de produzir considerados alternativos, como a produção de energia solar e as técnicas agrícolas alternativas. Pode-se também abordar a categoria território ao se tratar da questão ambiental como política de conservação e apresentar aos alunos o conceito de Áreas Protegidas e Unidades de Conservação6 por meio da pesquisa sobre suas tipologias e seus objetivos, identificando como elas estão próximas ou distantes de seu cotidiano e quais as suas implicações na vida das pessoas. TRANSFORMANDO A NATUREZA: DIFERENTES PAISAGENS Este tema proporciona um estudo sobre os motivos, as técnicas e as conseqüências da transformação e do uso da natureza. Pode-se integrá-lo ao estudo da História no que se refere às relações sociais, culturais e econômicas. Por meio da leitura de imagens, pode-se conhecer a trajetória da constituição da paisagem local e compará-la com a trajetória de diferentes paisagens e lugares, enfocando as múltiplas relações e determinações dos homens em sociedade com a natureza nessa trajetória. Este tema evoca também pesquisas sobre como diferentes grupos 6 Ver definição apresentada no documento de Meio Ambiente. 22 sociais — índios, negros, imigrantes, caiçaras, dentre os muitos que fazem parte da sociedade brasileira — relacionaram-se ao longo de suas trajetórias com a natureza na construção do lugar e da paisagem onde vivem, podendo-se inclusive eleger como objeto de estudo grupos sociais inseridos em paisagens distintas daquelas características do Brasil. O LUGAR E A PAISAGEM Este tema trata das relações mais individualizadas dos alunos com o lugar em que vivem. Quais foram as razões que os fizeram morar ali (vínculos familiares, proximidade do trabalho, condições econômicas, entre outras) e quais são as condições do lugar em que vivem (moradia, asfalto, saneamento básico, postos de saúde, escolas, lugares de lazer, tratamento do lixo). Pode- se aprofundar a compreensão desses aspectos a partir da forma como percebem a paisagem local em que vivem e procurar estabelecer relações entre o modo como cada um vê seu lugar e como cada lugar compõe a paisagem. Outro ponto a ser discutido são as normas dos lugares: como é que se deve agir na rua, na escola, na casa; como essas regras são expressas de forma implícita ou explícita nas relações sociais e na própria paisagem local; como as crianças percebem e lidam com as regras dos diferentes lugares. É importante discutir tentando encontrar as razões pelas quais elas são estabelecidas dessa forma e não de outra, sua utilidade, legitimidade e como alteram e determinam a configuração dos lugares. Esses blocos temáticos contemplam conteúdos de diferentes dimensões: conceituais, procedimentais e atitudinais que, segundo esta proposta de ensino, são considerados como fundamentais para atingir as capacidades definidas para esse segmento da escolaridade. A seguir, são apresentados em forma de lista, de modo a destacar suas dimensões e as principais relações que existem entre eles: • observação e descrição de diferentes formas pelas quais a natureza se apresenta na paisagem local: nas construções e moradias, na distribuição da população, na organização dos bairros, nos modos de vida, nas formas de lazer, nas artes plásticas; • identificação de motivos e técnicas pelos quais sua coletividade e a sociedade de forma geral transforma a natureza: por meio do trabalho, da tecnologia, da cultura e da política, no passado e no presente; • caracterização da paisagem local: suas origens e organização, as manifestações da natureza em seus aspectos biofísicos, as transformações sofridas ao longo do tempo; • conhecimento das relações entre as pessoas e o lugar: as condições de vida, as histórias, as relações afetivas e de identidade com o lugar onde vivem; • identificação da situação ambiental da sua localidade: proteção e preservação do ambiente e sua relação com a qualidade de vida e saúde; • produção de mapas ou roteiros simples considerando características da linguagem cartográfica como as relações de distância e direção e o sistema de cores e legendas; • leitura inicial de mapas políticos, atlas e globo terrestre; • valorização de formas não-predatórias de exploração, transformação e uso dos recursos naturais; • organização, com auxílio do professor, de suas pesquisas e das conquistas de seus conhecimentos em obras individuais ou coletivas: textos, exposições, desenhos, dramatizações, entre outras. 23 SEGUNDO CICLO: Ensino e aprendizagem de Geografia no segundo ciclo No segundo ciclo, o estudo da Geografia deve abordar principalmente as diferentes relações entre as cidades e o campo em suas dimensões sociais, culturais e ambientais e considerando o papel do trabalho, das tecnologias, da informação, da comunicação e do transporte. O objetivo central é que os alunos construam conhecimentos a respeito das categorias de paisagem urbana e paisagem rural, como foram constituídas ao longo do tempo e ainda o são, e como sintetizam múltiplos espaços geográficos. A paisagem local pode conter elementos fundamentais para os alunos observarem, compararem e compreenderem essas relações. É possível, a partir de um estudo nessa escala, perceber como as paisagens urbanas e rurais foram se configurando e estão profundamente interligadas. Entretanto, outras escalas podem ser abordadas e analisadas, já não apenas como fator de comparação — tal como foi proposto para o primeiro ciclo — mas sim como conteúdos a serem aprendidos. Diferentes paisagens regionais devem ser apresentadas e trabalhadas com os alunos, de modo que venham a construir uma noção mais ampla sobre o territóriobrasileiro, suas paisagens, regiões e, de modo geral, sobre as determinações político-administrativas que o caracterizam. É importante ressaltar que o urbano e o rural são tradicionalmente trabalhados na escola. Entretanto, costuma-se estudar apenas suas características de forma descritiva e isolada, sem aprofundar temáticas que explicitem as relações de interdependência e de determinação que existem entre eles e enfocando-se quase que exclusivamente seus aspectos econômicos. Atualmente, o urbano e o rural são compreendidos para além de seus aspectos econômicos ou da descrição compartimentada dos fenômenos sociais e naturais que os caracterizam. As múltiplas dinâmicas existentes entre as cidades e o campo; as semelhanças e diferenças entre os modos de vida que aí se constituem; as formas de trabalho e a produção e percepção do espaço e da paisagem; os relógios naturais e mecânicos que controlam a vida nas cidades e no campo e impõem ritmos de vida diferentes tornaram-se temas de investigação da própria Geografia e, na escola, se mostram interessantes e pertinentes de serem trabalhados, inclusive ao longo do segundo ciclo. A configuração territorial igualmente pode ser tratada, pois as relações entre as paisagens urbanas e rurais estão permeadas por decisões político-administrativas promovidas não apenas por instâncias regionais, mas sobretudo federais, explicitando-se a predominância do urbano sobre o rural. Questões relativas à posição, localização, fronteira e extensão das paisagens são, assim, retomadas, o que garante a possibilidade de os alunos ampliarem as noções e conhecimentos que haviam anteriormente construído a respeito. O estudo das tecnologias permite compreender como as sociedades, em diferentes momentos de sua história, buscaram superar seus problemas cotidianos, de sobrevivência, transformando a natureza, criando novas formas de organização social, política e econômica e construindo paisagens urbanas e rurais. As possibilidades advindas do desenvolvimento tecnológico e do aprimoramento técnico para o processo de urbanização, agrarização e industrialização e as transformações ocorridas no próprio conceito de trabalho devem ser apresentadas aos alunos desse ciclo. Assim, o conceito de trabalho pode ser construído por eles mediante compreensões mais amplas do que aquela comumente presente nessa etapa da escolaridade: a do trabalho apenas como profissão. Nesse sentido, é importante promover também situações nas quais os alunos percebam e compreendam a tecnologia em seu próprio cotidiano, pela observação e comparação da presença 24 dela em seu meio familiar e em seu dia-a-dia de forma geral. Os instrumentos, os modos de fazer, as tecnologias que os alunos conhecem e/ou dominam podem gerar temas de estudo, e até mesmo as vivências diretas ou indiretas que possuem com o mundo do trabalho compartilhadas a fim de ampliar seus conhecimentos sobre o seu papel na estruturação do espaço, do tempo e da sociedade na qual se encontram inseridos. Nas escalas regional e nacional, é possível ainda estudar como diferentes grupos sociais se valeram de tecnologias singulares na construção e definição de seu espaço: como grupos indígenas, caiçaras, ribeirinhos, imigrantes japoneses — entre outros — construíram, no passado, técnicas singulares e as utilizaram como instrumentos de trabalho na estruturação de seu espaço geográfico; e, no presente, como se encontram esses mesmos grupos diante do avanço tecnológico, como incorporam outras técnicas em seu dia-a-dia de trabalho e de lazer. O estudo da informação, da comunicação e do transporte, por sua vez, ao superar uma abordagem descritiva de seus meios — televisão, rádio, automóvel, trem, etc. — permite uma compreensão dos processos, intenções e conseqüências das relações entre os lugares, em escala regional, nacional e até mesmo mundial. Quando abordado por meio da escala local e do território, permite aproximar os alunos das dinâmicas existentes entre as paisagens urbanas e rurais. A preocupação fundamental é que os alunos construam as primeiras noções sobre o papel da informação, da comunicação e dos transportes na constituição dessas paisagens e nas múltiplas relações que existem entre o local, o regional e o mundial. No segundo ciclo, as possibilidades de aprendizagem dos alunos ampliam-se em vários aspectos. A maior autonomia em relação à leitura e à escrita e o domínio crescente dos procedimentos de observação, descrição, explicação e representação permitem que eles sejam capazes de consultar e processar fontes de informação com maior independência e construam compreensões mais complexas, realizando analogias e sínteses mais elaboradas, expressas por meio de trabalhos mais completos, escritos ou apoiados em múltiplas linguagens — como ilustração, mapas, maquetes, seminários, por exemplo. Além disso, a familiaridade com a rotina escolar e com o conhecimento escolarizado também torna possível desenvolver estudos e pesquisas mais complexos, e permite que os alunos trabalhem de forma mais independente da mediação do professor, embora este ainda deva atuar como intermediário entre o conhecimento dos alunos e o conhecimento geográfico, criando situações significativas de aprendizagem que aproximem os alunos das categorias de espaço geográfico, território, paisagem e lugar e dos procedimentos básicos do fazer geográfico. Essas situações de aprendizagem, como no ciclo anterior, podem estar apoiadas em diferentes fontes de informação e recursos didáticos — como os estudos do meio, os relatos, as entrevistas, a narrativa literária, a pintura, a música, o estudo de diferentes culturas, a cartografia —, promovendo uma compreensão mais ampla e crítica da realidade, bem como um posicionamento mais propositivo perante questões relativas às condições de vida (saúde, meio ambiente, transporte, educação, lazer, etc.) da coletividade. O estudo sobre a representação do espaço segue de modo semelhante ao primeiro ciclo, embora seja possível abordar de forma mais aprofundada as noções de distância, direção e orientação e iniciar um trabalho mais aprofundado com as noções de proporção e escala. Já se pode esperar que os alunos compreendam que para representar o espaço é preciso obedecer a certas regras e convenções postuladas pela linguagem cartográfica e comecem a dominá-las na produção de mapas simples, relacionados com o espaço vivido e outros mais distantes. Atividades nas quais os alunos tenham que refletir, questionar, comunicar e compreender informações expressas por meio dessas regras e convenções — e não apenas descrevê-las e memorizá-las — 25 podem ser planejadas pelo professor para que as conheçam e aprendam a utilizá-las. Os referenciais de localização, os pontos cardeais, as divisões e contornos políticos dos mapas, o sistema de cores e legendas podem e devem ser trabalhados. Também no que se refere à leitura, a prática do professor deve favorecer uma autonomia crescente na consulta e obtenção de informações por meio de mapas, atlas, globo terrestre e até mesmo de maquetes, plantas e fotos aéreas. Nesse sentido, os diferentes tipos de mapas, os múltiplos temas que são representados por meio dessa linguagem e as razões que determinam a relevância de seu mapeamento podem ser temas de discussão e estudo. Estudar conceitos fundamentais, tradicionalmente representados pela linguagem cartográfica — como relevo, vegetação, clima, população, tamanho, distribuição —, não só passa a ser pertinente como também fundamental para que os alunos ampliem seus conhecimentos sobre essa linguagem. Nesse momento da escolaridade passa a ser interessante também discutir com os alunos a linguagem cartográfica como uma produção humana,marcada pelos alcances e limites dos recursos técnicos e das intenções dos sujeitos e das épocas que dela se valem para representar o espaço geográfico. Estudar a história da cartografia é uma forma adequada de aproximar a História e a Geografia num estudo sobre como diferentes sociedades em tempos e espaços distintos percebiam e representavam seu entorno e o mundo: as técnicas e os conhecimentos, o imaginário, as intenções políticas e econômicas, os medos e desejos. Continua sendo papel fundamental do professor considerar os conhecimentos que os alunos já possuem para planejar situações de ensino e aprendizagem significativas e produtivas. Para isso, é preciso conhecer os avanços e os problemas de seus alunos, bem como a adequação de suas propostas, de modo a aperfeiçoar sua ação pedagógica. A interface com as demais disciplinas também deve ser observada, de modo a proporcionar estudos mais completos sobre um tema cuja compreensão, por parte dos alunos, tanto a Geografia, como a História, as Ciências, a Arte e a Matemática podem ampliar, por meio de suas abordagens e explicações. Objetivos de Geografia para o segundo ciclo Espera-se que ao final do segundo ciclo os alunos sejam capazes de: • reconhecer e comparar o papel da sociedade e da natureza na construção de diferentes paisagens urbanas e rurais brasileiras; • reconhecer semelhanças e diferenças entre os modos de vida das cidades e do campo, relativas ao trabalho, às construções e moradias, aos hábitos cotidianos, às expressões de lazer e de cultura; • reconhecer, no lugar no qual se encontram inseridos, as relações existentes entre o mundo urbano e o mundo rural, bem como as relações que sua coletividade estabelece com coletividades de outros lugares e regiões, focando tanto o presente e como o passado; • conhecer e compreender algumas das conseqüências das transformações da natureza causadas pelas ações humanas, presentes na paisagem local e em paisagens urbanas e rurais; • reconhecer o papel das tecnologias, da informação, da comunicação e dos transportes na configuração de paisagens urbanas e rurais e na estruturação da vida em sociedade; • saber utilizar os procedimentos básicos de observação, descrição registro, comparação, análise e síntese na coleta e tratamento da informação, seja mediante fontes escritas ou imagéticas; 26 • utilizar a linguagem cartográfica para representar e interpretar informações em linguagem cartográfica, observando a necessidade de indicações de direção, distância, orientação e proporção para garantir a legibilidade da informação; • valorizar o uso refletido da técnica e da tecnologia em prol da preservação e conservação do meio ambiente e da manutenção da qualidade de vida; • adotar uma atitude responsável em relação ao meio ambiente, reivindicando, quando possível, o direito de todos a uma vida plena num ambiente preservado e saudável; • conhecer e valorizar os modos de vida de diferentes grupos sociais, como se relacionam e constituem o espaço e a paisagem no qual se encontram inseridos. Blocos temáticos e conteúdos: as paisagens urbanas e rurais, suas características e relações São muitos e variados os temas que podem ser pesquisados a partir do estudo de paisagens urbanas e rurais, suas características e relações. Embora cada unidade escolar e cada professor possa propor os seus, a depender das necessidades e problemáticas relevantes para os alunos, a escola ou a comunidade na qual se encontram inseridos, aqueles selecionados devem abordar as dimensões sociais, culturais e ambientais que aí se encontram presentes, bem como o papel do trabalho, das tecnologias, da informação, da comunicação e do transporte. Até mesmo o território no qual essas paisagens se inserem deve ser considerado, a fim de que possam ser abordadas as determinações político-administrativas que aí se encontram presentes. Seguem sugestões de blocos temáticos que podem ser estudados com os alunos e, como no primeiro ciclo, são apresentados de modo amplo, pois se configuram como sugestões e não devem ser compreendidos como uma seqüência de assuntos a serem aprendidos ou ainda como blocos isolados, que não se comunicam entre si. O professor pode aqui, também, trabalhar com um ou mais blocos ao mesmo tempo, reunidos no estudo de paisagens urbanas e rurais. O PAPEL DAS TECNOLOGIAS NA CONSTRUÇÃO DE PAISAGENS URBANAS E RURAIS Este tema enfoca o papel das tecnologias na configuração das paisagens urbanas e rurais. Pelo estudo comparativo de como diferentes grupos sociais utilizam e elaboram técnicas e tecnologias para superar seus problemas cotidianos e garantir sua sobrevivência, os alunos podem compreender como o trabalho humano e as diferentes formas de apropriação da natureza constituem e diferenciam espaços geográficos. O trabalho e as tecnologias influem nos ritmos da cidade e do campo, nas suas formas, na sua organização. Como se relacionam com a vida cotidiana, qual seu papel: o conforto e desconforto que trazem, os benefícios e malefícios. É possível comparar técnicas e tecnologias antigas e modernas — como, por exemplo, o martelo e a serra elétrica, a colheita manual e a industrializada — e avaliar se o que é mais moderno é realmente melhor. Pode-se estudar como as tecnologias aparecem distribuídas nas paisagens e nas diferentes atividades: onde estão, por quem são utilizadas, quem tem acesso a elas. Por exemplo, que mudanças ocorreram com a invenção da geladeira ou da energia elétrica. Como diferentes setores da sociedade usam e abusam das tecnologias e quais suas responsabilidades perante o meio ambiente, nos desmatamentos, no lançamento de poluentes para a atmosfera. Quem são os atores sociais que definem quais e como se utilizam as tecnologias e quem sofre os prejuízos de seu uso indevido. 27 INFORMAÇÃO, COMUNICAÇÃO E INTERAÇÃO Este tema refere-se às alterações que o fluxo de informações fez e faz na vida em sociedade. É possível estudar a história dos meios de comunicação, sua criação e seu significado social; como a invenção do rádio, da TV, do telefone, do jornal modificaram a vida das pessoas; como podem criar novas e múltiplas relações entre os lugares. É possível analisar as alterações que o uso dos computadores trouxe na relação entre os lugares, nas relações sociais e econômicas e nos hábitos culturais. Como expressam as paisagens urbanas e rurais, como as paisagens são influenciadas umas pelas outras por meio das imagens veiculadas na televisão, nos jornais, nas revistas, etc. Uma abordagem crítica, analisando a descaracterização que os meios de comunicação podem ocasionar, principalmente no comportamento, na fala, no estímulo ao consumo é fundamental para uma compreensão mais ampla deste tema. Analisá-lo a partir das diferenças entre os meios de comunicação, sua influência no mundo urbano e no mundo rural — que lugares a mídia trata, quais ignora e por que são formas interessantes de discutir com os alunos a informação e a comunicação como fruto do trabalho humano, permeado por decisões político-administrativas. DISTÂNCIAS E VELOCIDADES NO MUNDO URBANO E NO MUNDO RURAL Este tema diz respeito ao transporte e sua influência na vida em sociedade, as alterações que imprimem nas paisagens. Também as semelhanças e as diferenças entre o urbano e o rural podem ser aqui tratadas: discutir o espaço que alguns meios de transporte ocupam, como, por exemplo, o automóvel, e as implicações de seu uso na configuração das cidades mediante a construção de vias, viadutos, pontes, túneis, etc.; em contraposição, o papel dos transportes coletivos no passado e no presente. Pode-se estudar a utilização do automóvel sob o pontode vista do trabalho, da indústria ou da comunicação, assim como dos meios de transporte fluviais, predominantes em muitas regiões do Brasil. Nesse sentido, é interessante discutir e comparar as permanências e transformações dos meios de transporte em regiões diferentes: lugares onde se anda a cavalo, de barco ou a pé; lugares onde existem problemas sociais ligados aos meios de transporte, tais como trânsito, acidentes, atropelamentos, de saúde e ambientais; ou ainda abordar a questão energética, estudando-se os combustíveis utilizados pelo transporte. URBANO E RURAL: MODOS DE VIDA Através deste tema é possível organizar estudos nos quais os alunos pesquisem e comparem como as paisagens urbanas e rurais definem e possibilitam diferentes modos de vida. No entanto, os mundos urbano e rural não devem ser focados sem seus sujeitos: os grupos sociais que neles se encontram presentes devem também ser abordados. Afinal, o modo de vida dos habitantes da região da floresta amazônica, por exemplo, não pode ser definido segundo um único padrão: ribeirinhos vivem de forma distinta dos grupos indígenas, embora ambos possam ser localizados em zonas rurais dessa região. Questões relativas ao trabalho, às tecnologias e até mesmo à comunicação que existe entre os modos de vida dos grupos sociais estudados podem ser enfocadas, tanto do ponto de vista do presente como do passado. Esses blocos temáticos contemplam conteúdos de diferentes dimensões: conceituais, procedimentais e atitudinais que, segundo esta proposta de ensino, são considerados como fundamentais para atingir as capacidades definidas para esse segmento da escolaridade. A seguir, são apresentados em forma de lista, de modo a destacar suas dimensões e as principais relações que existem entre eles: 28 • identificação de processos de organização e construção de paisagens urbanas e rurais ao longo do tempo; • caracterização e comparação entre as paisagens urbanas e rurais de diferentes regiões do Brasil, considerando os aspectos da espacialização e especialização do trabalho, a interdependência entre as cidades e o campo, os elementos biofísicos da natureza, os limites e as possibilidades dos recursos naturais; • comparação entre o uso de técnicas e tecnologias por meio do trabalho humano nas cidades e no campo, envolvendo modos de vida de diferentes grupos sociais, aproximando-se do debate entre o moderno e o tradicional; • reconhecimento do papel das tecnologias na transformação e apropriação da natureza e na construção de paisagens distintas; • reconhecimento do papel da informação e da comunicação nas dinâmicas existentes entre as cidades e o campo; • compreensão das funções que o transporte assume nas relações entre as cidades e o campo, observando seu papel na interdependência que existe entre ambos; • comparação entre os diferentes meios de transporte presentes no lugar onde se vive, suas implicações na organização da vida em sociedade e nas transformações da natureza; • levantamento, seleção e organização de informações a partir de fontes variadas, como fotografias, mapas, notícias de jornal, filmes, entrevistas, obras literárias, músicas, etc.; • representação em linguagem cartográfica das características das paisagens estudadas por meio da confecção de diferentes tipos de mapas, observando a necessidade de indicar a direção, a distância, a proporção para garantir a legibilidade das informações; • leitura e compreensão das informações expressas em linguagem cartográfica e em outras formas de representação do espaço, como fotografias aéreas, plantas maquetes, entre outras; • organização de pesquisas e reapresentação dos conhecimentos adquiridos em obras individuais ou coletivas: textos, exposições, desenhos, dramatizações, seminários, etc.; • valorização do uso refletido da técnica e da tecnologia em prol da reabilitação e conservação do meio ambiente e da manutenção da qualidade de vida; • respeito e tolerância por modos de vida e valores de outras coletividades distantes no tempo e no espaço. A GEOGRAFIA NO INICIO DA ESCOLARIDADE Educación y enseñanza de la geografía Helena Copetti Callai UNIJUI-RS-Brasil helena@unijui.edu.br O texto ora apresentado é parte de uma investigação maior sobre o ensino de geografia na Educação Básica. E nesta reflexão procura-se caracterizar como é o ensino de Geografia nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Como decorrência intrínseca é importante entender como o professor trabalha com a Geografia nesse nível da escolaridade. A par disso é 29 também premente reconhecer como acontece a formação dos docentes para essas séries. Essas informações são importantes para caracterizar como é o ensino de Geografia nas series iniciais para que seja possível encontrar os caminhos para uma aprendizagem consequente deste componente curricular. Para conhecer como é a realidade da escola no que diz respeito ao ensino da Geografia nas Series Iniciais do Ensino Fundamental a investigação envolve o curso de Pedagogia, o curso de Geografia, e os alunos respectivos. E de outra parte os professores que atuam nesse nível da escola. Como já salientado esse texto se utiliza de parte dessa busca para construir o entendimento a respeito do que representa a Geografia para crianças que estão iniciando a sua aprendizagem na instituição escolar. Como não é o relato completo da pesquisa, apenas alguns aspectos são aqui apresentados daquilo que está sendo o conjunto da investigação. Paralelamente à realização das entrevistas com aqueles que atuam nas Series Iniciais, e com os docentes dos cursos de formação e coordenação dos respectivos cursos, outras formas de investigação também foram realizadas: reuniões com o grupo dos estudantes que estão em formação para debater a respeito do seu entendimento da questão; levantamento e análise do material didático usado pelos professores para trabalhar a Geografia nos cursos de formação docente referidos; e caracterização dos livros textos utilizados nas series iniciais do Ensino Fundamental. Pautaram as discussões nas reuniões desses grupos referidos, o entendimento de quais os referenciais teóricos que fundamentam as propostas dos cursos, a coerência com o tipo de atividades propostas e com o conteúdo abordado. Como é a Geografia nas series iniciais. A forma como está sendo trabalhada a Geografia nos anos iniciais do Ensino Fundamental, permite constatar a grande distancia do que é preconizado pela Geografia escolar e pela Educação Geográfica diante da realidade da escola. A legislação que trata da educação, através dos PCNs- Parâmetros Curriculares Nacionais, considera que “Adquirir conhecimentos básicos de Geografia é algo importante para a vida em sociedade, em particular para o desempenho das funções da cidadania: cada cidadão, ao conhecer as características sociais, culturais e naturais do lugar onde vive, bem como de outros lugares, pode comparar, explicar, compreender e espacializar as múltiplas relações que diferentes sociedades em épocas variadas estabeleceram e estabelecem com a natureza na construção do seu espaço geográfico.” Mas constata-se que Geografia (como conteúdo escolar) na realidade da escola atualmente inexiste, pois o pouco que é trabalhado se insere dentro dos Estudos Sociais que genericamente aborda temáticas que dizem respeito História e à Geografia. As dificuldades de trabalhar com os conteúdos são acentuadas pelas características decorrentes do tipo de formação do professor que atua nesse nível de ensino. No caso das habilidades e competências constata-se que são trabalhadas aquelas que dizem respeito à aquisição dasnoções de espaço e de tempo, mas não há orientação de como trabalhar os conteúdos específicos, e nem de como trabalhar com estes conceitos. Como decorrência observa-se que as bases para desenvolver os conteúdos são bem precárias, pois prevalece a dimensão técnica do desenvolvimento da habilidade em si, e não desta como instrumento para desenvolver os conteúdos. Essa constatação pode ser feita nos livros didáticos e nas propostas de planejamento das atividades. E mais ainda, constata-se que não há preocupação 30 com as habilidades básicas de localizar, orientar, comparar, interpretar, capacidades importantes para fazer a analise geográfica. Percebe-se também que não há consideração com a aprendizagem geográfica, pois assim como não são trabalhadas as habilidades que sustentariam a competência para aprender a analisar o espaço e para ampliar os conhecimentos geográficos não são também abordados os conteúdos específicos da Geografia escolar. Acadêmicos da licenciatura em Geografia ao observarem nas escolas, o trabalho que é realizado nas series iniciais, constatam que não há consideração coma aprendizagem geográfica, que não são abordados os conteúdos e nem trabalhadas as habilidades necessárias para aprender geografia. Como a formação docente para o professor das series iniciais está mais centrada na discussão pedagógica e didática, seria de acreditar que esta dimensão seria o forte dos professores que ali atuam. A partir das observações realizadas a constatação é de que nos documentos escolares, nos planos pedagógicos e no discurso tudo se apresenta como construtivista e com o incentivo ao aluno para pensar e que o conhecimento é construído na interrelação professor e aluno, mas na realidade, não é isso o que acontece. As aulas são extremamente teóricas, quer dizer expositivas e com o aluno fazendo pesquisas. Estas são feitas com um determinado tema, que o aluno deve procurar para aprender, mas que na pratica significa fazer cópia de livros e em alguns casos, cada vez mais freqüentes na internet. E outro tipo de atividade é fazer mapas, quer dizer copiar o mapa do livro e muitas vezes a mão-livre. Outra constatação é de que a geografia ainda é dada de maneira tradicional levando sempre em conta o currículo, através dos círculos concêntricos. Os conteúdos são pré- estabelecidos considerando-se a dimensão do espaço absoluto, partindo sempre do mais próximo e seguindo com a ampliação dos espaços cada vez mais distantes. A escala de análise não é considerada em sua complexidade na/da vida real. A idéia de espaço absoluto predomina mascarando o entendimento das questões da vida que são dinâmicas e muitas vezes cheias de contradições que precisam ser administradas. Sobre trabalhar com os conceitos, de um modo geral consideram-se que esses são pouco trabalhados. Na maior parte das vezes eles são apresentados como prontos e acabados, sem levar em conta o que o aluno já conhece e nem com a possibilidade de construí-los. Os professores dizem que os conceitos são utilizados de forma teórica, não estabelecendo relações com o mundo real e nem problematizando as questões do cotidiano. Na prática é passada a definição do termo ao aluno, que deve memorizá-lo. Em geral os professores argumentam que trabalham com os conceitos de Grupo, espaço e tempo, mas tem dificuldade de interligá-los com os temas da Geografia. Decorre disso a necessidade de decorar os conceitos, o que não representa aprendizado e nem permite entende-los como ferramentas para a aprendizagem e para compreender o mundo em que vivem. Segundo os professores entrevistados, o trabalho com conceitos permite que o aluno realize aprendizagens significativas, fazendo a interligação com o real, com o ambiente que o cerca. De acordo com os professores esta é a oportunidade de elaborar os conhecimentos que ele (o aluno) tem decorrentes da sua própria vivência, teorizando e compreendendo a realidade. Permite desenvolver atitude indagadora, questionando o que existe na realidade em que vive, desenvolvendo a capacidade de analise e critica da mesma, conhecendo e se reconhecendo como sujeito que interfere nesse mundo em que vive. Isso é o que os 31 professores dizem, e acrescentam que ao trabalhar com diferentes escalas de analise o estudante pode elaborar o conhecimento da realidade e contextualizar os fatos e fenômenos que ai acontece, articulando com os demais níveis: regional, do nacional, do global. Isso reporta a afirmar que o aluno pode entender que o que acontece no lugar em que ele vive, não é resultado apenas do voluntarismo das pessoas do lugar, mas muito mais que isso é um jogo de relações centradas em interesses, muitas vezes nem manifestos, que, todavia interferem significativamente na vida e na organização do espaço. No entanto na prática desenvolvida nas aulas, nada disso acontece, pois os conteúdos fragmentados em tempos e espaços considerados em sua dimensão absoluta, tem primazia no cotidiano da sala de aula. Fato esse que acontece na formação docente e na prática da sala de aula na Educação Básica. O importante na Geografia escolar é realizar o aprendizado para desenvolver as noções de espacialidade, e as habilidades especificas para aprender a interpretar o espaço, para entender o lugar, o mundo, a vida enfim. Diante disso pode-se considerar para que serva ensinar e aprender a Geografia nas Series Iniciais do Ensino Fundamental. Quem são e como é a formação dos professores que trabalham nas Series Iniciais Os professores que atuam nas Séries Iniciais têm a formação centrada nos aspectos pedagógicos que dizem respeito ao ensino-aprendizagem de crianças que estão dando início ao seu processo de escolarização e formalmente aprendendo a ler e a escrever. O espaço e o tempo dedicado ao ensino das matérias como Geografia, mas também História, Ciências, matemática, nos seus cursos é restrito ao pouco tempo que cabe para abordar todas as disciplinas especificas, o que ocorre tanto na formação docente como na atuação na escola básica. Constata-se, portanto que os professores que atuam nas Séries Iniciais não tem conhecimento significativo do que seria importante trabalhar na Geografia; não conseguem trabalhar com os conceitos da Geografia por falta de conhecimento de seu significado; que as habilidades necessárias para trabalhar com geografia são precariamente construídas e que não constituem no seu conjunto a competência necessária para tornar a Geografia um conteúdo significativo para as crianças; Essas constatações são feitas pelos próprios professores que tem grandes dificuldades para realizar o trabalho, pois são habilitados em sua formação através dos cursos de magistério (nível de Ensino Médio) e na Graduação de Pedagogia, que tem as características acima referidas. E os documentos mostram que a disciplina especifica, no caso de Historia e Geografia, trata-se de Estudos Sociais. Perguntado a uma coordenadora de um curso de Pedagogia sobre Como acontece o Ensino de Geografia no curso ela responde assim: “Através do componente curricular Fundamentos e Metodologia do Ensino de Estudos Sociais nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, oferecido no 5º semestre, sob carga horária de 90 hs.” Mesmo com a orientação de que as disciplinas especificas devem ser trabalhadas como tal, nesse nível de ensino ainda se tem convencionado os Estudos Sociais como o componente curricular que atende a área tanto na formação docente como na escola. A seguir perguntada sobre qual a ementa a resposta é: “Visa conhecer e analisar os fundamentos teóricos metodológicos envolvidos nos processos de ensino e aprendizagem nas Ciências Sociais nos Anos Iniciais do ensinoFundamental, bem como, compreender seu lugar no currículo escolar, propondo alternativas pedagógicas comprometidas com a construção das 32 noções de tempo, espaço e relações sociais articuladas à compreensão da realidade histórica e cultural”. Constata-se diante disso que a atenção é voltada para os aspectos pedagógicos em especial, pois a referência que se poderia ter com os conteúdos diz respeito apenas à construção das noções de tempo, espaço e relações sociais, o que é corroborado com a informação de como acontece o ensino nos estágios que os alunos da Pedagogia realizam. Diz: “O acadêmico escolhe um tema referente ao Ensino de Estudos Sociais (ex. tempo, espaço, etc.) e desenvolve este em sala de aula nos anos iniciais do ensino Fundamental. Ao final do estágio o acadêmico apresenta um relatório contando a experiência realizada.” A articulação dessas noções para compreender a realidade histórica e cultural também demonstra que a especificidade da Geografia não é considerada nesse contexto. Ela será trabalhada em certos casos, na perspectiva da educação ambiental ou ecologia. Se o professor que ministra esse componente curricular no curso de Pedagogia tem a formação na área pode fazer a diferença. No caso de um professor que tem licenciatura curta em Estudos Sociais, plena em Geografia e mestrado e doutorado em Educação, a operacionalização dessa ementa proposta passa por atividades significativas, expressa na intenção: “Mostrar ao professor como a criança constrói os conceitos espaciais na dimensão do espaço físico, para que o professor também entenda a criança e faça-a conhecer, refletir e atuar nesse espaço, tornando-se um sujeito cidadão”. Para conduzir o ensino e efetivar o aprendizado especifico pode-se considerar que os acadêmicos têm acesso à bibliografia que trata da questão e inclusive operacionalizam o conhecimento através da realização da analise de “planos elaborados por professores dos primeiros anos do ensino fundamental, discutidos e redimensionados segundo estudos teórico—metodológicos.” Percebe-se aqui a intenção de teorizar as questões e de fazer as referências que possam dar as explicações para o fazer especifico dos Estudos Sociais. Essa constatação pode ser reforçada pela forma de encaminhamento que é proposto, expresso através do seguinte, que é apresentado pela referida professora, com base nos documentos do curso e nos planos de aula que ministra: “Propor estudos de referenciais considerados básicos e necessários para a construção do conhecimento sobre o ensino de Estudos Sociais destacando como objeto de estudo as ações dos homens em suas múltiplas dimensões espaciais e temporais.” “Compreender o significado do trabalho de Estudos Sociais (Historia e Geografia) no contexto da organização do currículo escolar, como um componente que se articula aos demais de forma integrada e interdisciplinar” “Destacar a importância do estudo da construção conceitual pela criança, apresentando os conceitos referentes às noções de espaço, de tempo, de grupo social, articulados à dimensão teórica e metodológica.”. Observam-se aqui as referências explicitas à Geografia, o que é significativo na formação dos professores que irão atuar nos anos iniciais do Ensino Fundamental. No entanto ao serem questionados sobre as suas capacidades de trabalhar com os conteúdos específicos se mostram todas as duvidas, que devem ser consideradas pelos pesquisadores e 33 professores dos cursos de formação no sentido de encontrar possibilidades alternativas que resultem na eficiência pedagógica na formação e na construção de bases solidas para realizar o ensino. Como os professores se sentem atuando nas Séries Inicias, ensinando Geografia Considerando o tipo de formação dos professores que atuam nesse nível de ensino, é difícil que os mesmos tenham os conhecimentos básicos específicos para desenvolver a sua tarefa de ensinar Geografia. São professores que tiveram em sua formação generalidades a respeito dos conteúdos específicos de cada componente curricular que deve ser atendido. Para os professores não está claro o que possa ser uma educação geográfica, até porque é acentuadamente referido que nos anos iniciais é importante capacitar os alunos para a leitura, escrita, e realização das quatro operações. Dos depoimentos é expressiva a ressalva de que a Geografia se restringe a umas poucas atividades de fazer maquetes, construir trajetos, desenhar plantas da sala, da escola, do quarto. E mais sério é a afirmação que não necessariamente precisa-se levar em conta os tamanhos e as distâncias, que o importante é fazer os desenhos. Não há, portanto atenção com a escala, com a legenda e nem com as questões sociais que podem advir das constatações feitas. Afirmam também que o material existente não está adequado e que na maioria dos casos inexistem de forma organizadas as informações necessárias para realizar o planejamento do ensino; Embora na legislação esteja definido que são conteúdos importantes de serem trabalhados há muita dificuldade em dar conta de maneira significativa para o trabalho com os referidos conteúdos. Os PCNs definem que para o primeiro ciclo, “o estudo da Geografia deve abordar principalmente questões relativas à presença e ao papel da natureza e sua relação com a ação dos indivíduos, dos grupos sociais e, de forma geral, da sociedade na construção do espaço geográfico. Para tanto, a paisagem local e o espaço vivido são as referências para o professor organizar seu trabalho.” (p. 127) “No segundo ciclo, o estudo da Geografia deve abordar principalmente as diferentes relações entre as cidades e o campo em suas dimensões sociais, culturais e ambientais e considerando o papel do trabalho, das tecnologias, da informação, da comunicação e do transporte. O objetivo central é que os alunos construam conhecimentos a respeito das categorias de paisagem urbana e paisagem rural, como foram constituídas ao longo do tempo e ainda o são, e como sintetizam múltiplos espaços geográficos.” (p. 139) Observa-se que a partir dos documentos que orientam o ensino são ressaltados para o componente curricular de Geografia nos Anos Iniciais tanto conteúdos quanto conceitos e categorias, expressos através de: papel da natureza e sua relação com a ação dos indivíduos e dos grupos sociais; da sociedade em geral na construção do espaço geográfico, relações entre cidade e campo, nas suas dimensões sociais, culturais, e ambientais, papel do trabalho, das tecnologias, da informação, da comunicação, dos transportes. Os professores reportam-se a esses temas como questões ocasionais que podem ser abordadas, mas em momento algum como conteúdos próprios a serem trabalhados com os alunos que exijam planejamento e operacionalização para serem incorporados na aprendizagem. Ao ser considerado o é apenas através de informações e descrições, o que 34 não contribui para fazer a análise geográfica. Alias falta aos professores, como eles afirmam o conhecimento do que seja uma análise geográfica. Os conceitos referidos acima de: paisagem local, espaço vivido, paisagem urbana, paisagem rural e múltiplos espaços geográficos também não são considerados de modo a se constituírem ferramentas para interpretar a realidade. Quando são abordados, novamente a dimensão da informação e da descrição prevalece. Como os graduados em Geografia percebem este nível de ensino para realizar a sua atuação No conjunto dessas constatações se percebe que muito embora na legislação esteja definido que são conteúdos importantes de serem trabalhados há muita dificuldade em dar conta de maneira significativapara trabalhar com os mesmos. Isso se deve também ao fato de que nos cursos de Graduação em Geografia esse nível de ensino na maioria das vezes é desconsiderado, não havendo, portanto, o conhecimento adequado referente ao trato com alunos dessa idade. De um modo geral os graduandos da Geografia têm suas preocupações voltadas para o ensino da disciplina destinada as séries finais do Ensino Fundamental. Alguns cursos introduziram créditos destinados a estudar a Geografia para as Series Iniciais, muitos deles com a clara intenção de informar que existe Geografia a ser ensinada também para as crianças de 6 a 10 anos. Além de faltar a discussão a respeito dos conteúdos desse nível de ensino também é restrita a aprendizagem do tratamento pedagógico com crianças dessa idade. Os docentes nos cursos de formação de professores de Geografia têm maior preocupação e atenção com os conteúdos específicos e nas suas especialidades muitas vezes desconhecem que estão ensinando Geografia para o acadêmico ser professor de Geografia. Torna-se mais grave então a falta de atenção com a iniciação geográfica, nos anos iniciais, o que vai refletir nos anos finais quando os alunos não conseguem ter desenvolvidas as habilidades e competências básicas para estudar Geografia. A geografia como campo do conhecimento Diante dessas constatações podem-se delinear as bases que esbocem caminhos para fazer da Geografia neste nível de ensino uma ferramenta para compreender o mundo, para que o aluno se reconheça como sujeito que constrói os espaços e que os limites que lhe são postos o são no sentido da vivência em sociedade e da convivência necessária para existir equilíbrio social e ambiental. E é preciso também entender que há interesses fortes que ordenam as relações entre os homens e desses com a natureza nos processos de construção dos espaços. Não é uma tarefa tranquila, e fácil de realizar, pois os professores têm carências que dificultam a efetivação de um ensino consequente com aquilo que seria o ideal. Mas também não se pode ficar imobilizado e o esforço pode render alguma coisa interessante. Como ponto de partida é adequado ter a clareza de que a Geografia enquanto campo do conhecimento tem a preocupação de buscar as explicações para entender como se espacializam os fenômenos sociais. Como definir a Geografia diante das demandas do mundo contemporâneo pode ser uma tarefa difícil, pelo risco de se levar em conta apenas determinados aspectos para fazer essa definição. No entanto delineando o que se está 35 entendendo por Geografia, pode-se dizer que é aquela ciência que se debruça em estudar a configuração espacial resultante das relações sociais que acontecem em determinados tempo e espaços. Se é assim pode-se considerar a afirmação de Santos (1996) ao dizer que: “A configuração territorial, ou configuração geográfica, tem pois uma existência material própria, mas sua existência social, isto é, sua existência real, somente lhe é dada pelo fato das relações sociais.”(p.51) Mas pensar em tempos e espaços significa dar atenção às formas de organização das sociedades ao longo de suas historia. “No começo da historia do homem, a configuração territorial é simplesmente o conjunto dos complexos naturais. A medida que a historia vai fazendo-se, a configuração territorial é dada pelas obras dos homens: estradas, plantações, casas, depósitos, portos, fabricas, cidades, etc; verdadeiras próteses. Cria-se uma configuração territorial que é cada vez mais o resultado de uma produção histórica e tende a uma negação da natureza, natural, substituindo-a por uma natureza inteiramente humanizada.”(Santos, p. 51) Atualmente diante do intenso processo de globalização que interliga todos os lugares, não se pode correr o risco de estudar determinado lugar sem considerar o contexto em que se insere. As novas dimensões de tempo e espaço que interferem na organização das populações exigem novas formas de interpretar o mundo e cada lugar. Se considerarmos que o espaço e o tempo são dimensões materiais fundamentais da vida humana, e tanto o espaço como o tempo tem sido transformados sob o efeito combinado do paradigma da tecnologia da informação é necessário que se considere no estudo da Geografia, esses elementos. Isso remete a um espaço de fluxos e a um tempo atemporal (Castells, 1997) cujas combinações daí decorrentes precisam ser consideradas para estudar Geografia. Os processos de globalização criam novos espaços, definem outros tempos e a velocidade se constitui como um novo parâmetro. Isso tudo se expressa através de novas formas de viver, de entender o mundo, de novas culturas, novas identidades, novas territorialidades. Então como a Geografia se situa nesse contexto? (Cavalcanti 2008) afirma que... ”a Geografia nesse contexto tem se desenvolvido, tornando-se uma ciência mais plural.” E a Geografia escolar A Geografia se constitui como um componente do currículo escolar, e o seu ensino se caracteriza, como a possibilidade de que o aluno reconheça a sua identidade e pertencimento num mundo em que a homogeneidade proposta pelos processos de globalização tenta tornar tudo igual. Temos ai duas dimensões da importância de estudar a Geografia, que é compreender o mundo e se entender como sujeito nesse mundo. Entender a espacialidade dos fenômenos sociais pode ser um caminho para conhecer e compreender o mundo e para isso são necessários instrumentos que encaminhem a iniciação do aluno na interpretação dos fenômenos e fatos que acontecem na sociedade e que se materializam através das formas de organização que o espaço assume. Para construir um conjunto de referências gerais e básicas que possibilitem fazer a leitura do espaço, há um longo caminho que pode ser percorrido no contexto da geografia escolar, fazendo aquilo que estamos entendendo por educação geográfica. E nessa perspectiva pode-se questionar como acontece a articulação entre a Geografia como campo do conhecimento e a Geografia escolar. Para Cavalcanti, (2008, p. 27 e 28) as 36 diferenças entre a Geografia acadêmica e a geografia escolar são significativas e precisam ser respeitadas, fato que está sendo considerado pelos pesquisadores da didática, e do ensino e das metodologias da Geografia. Diz ela, “A Geografia escolar não se ensina, ela se constrói, ela se realiza. Ela tem um movimento próprio, relativamente independente, realizado pelos professores e demais sujeitos da prática escolar que tomam decisões sobre o que é ensinado efetivamente.” Aceitando essa interpretação pode-se colocar como questionamento como construir a Geografia escolar a partir das séries Iniciais do Ensino Fundamental. Considera-se que a alfabetização cartográfica e a iniciação geográfica permitirão que o aluno desde o inicio da sua presença na escola, aprenda a ler o espaço a partir do entendimento do lugar em que ele vive. No entanto não se restringindo a trabalhar simplesmente com aquilo que existe no lugar, mas para construir a partir daí as referências que lhe auxiliem na teorização do que se observa no cotidiano. E nesse caminho é fundamental construir um quadro de referências gerais que lhe permitam assegurar-se das ferramentas adequadas para interpretar, analisar e exercitar a critica das configurações territoriais que lhe dizem respeito, considerando a complexidade da vida e contextualizando nas diversas escalas de analise. No inicio da escolarização a Geografia se apresenta com um conteúdo significativo para a criança conhecer o espaço em que vive e perceber a sua contextualização em escalas diversas, como a região, o pais e o mundo (escalas local, regional, nacional e global). Estudaro lugar, conhecer os espaços de convivência, saber como realizar a observação, aprender a fazer a representação desses espaços são conteúdos significativos e dizem respeito ao desenvolvimento de habilidades específicas da Geografia, que tem uma função no conjunto do currículo escolar. Para além da contextualização da Geografia no conjunto dos conteúdos escolares nesse nível de escolaridade há outro ponto importante que é o de estabelecer as bases para estudar a geografia nos anos seguintes do Ensino Fundamental e Médio. Nesse momento em que as crianças assumem o seu lugar na escola, instituição formal, que trabalha com o conhecimento cientifico e que tem inicio o processo de socialização e de formação, é importante reconhecer qual o papel da Geografia como um dos componentes curriculares. É nesse nível de ensino que os conceitos correntes da Geografia podem ser desenvolvidos, dando inicio ao processo de conhecimento, que pode subsidiar a formação dos sujeitos. Estabelecem-se as bases do conhecimento a partir desse nível da escolaridade e do desenvolvimento dos conceitos que a cada ano podem ser mais complexos. “Compreender o lugar em que se vive encaminha-nos a conhecer a historia do lugar e, assim, a procurar entender o que ali acontece. Nenhum lugar é neutro, pelo contrario, os lugares são repletos de historia e situam-se concretamente em um tempo e em um espaço fisicamente delimitado. As pessoas que vivem em um lugar estão historicamente situadas e contextualizadas no mundo. Assim, o lugar não pode ser considerado/entendido isoladamente. O espaço em que vivemos é o resultado da historia de nossas vidas. Ao mesmo tempo em que ele é o palco onde se sucedem os fenômenos, ele é também ator/autor, uma vez que oferece condições, põe limites, cria possibilidades.” (Callai, 2005: 236.) Estudar o lugar significa conhecer a realidade em que o aluno vive identificar o que existe, quais os processos que são desencadeados, como se materializa a vida do conjunto da sociedade no espaço concreto que se vislumbra.Olhar o lugar, entender o que acontece, exige necessariamente que o aluno consiga abstrair desta realidade do lugar, aprendendo a teorizar. 37 Isto requer que o aluno abstraia e contextualize os fenômenos, construindo o quadro de referencial mais amplo que lhe permita avançar para uma analise mais critica, entendendo que o lugar reflete o mundo globalizado. Com base em Santos (1996): “Cada lugar é a sua maneira o mundo” (252); “Cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo dialeticamente”. (p.273). Essas citações nos remetem a reafirmar a importância de não trabalhar com os espaços fragmentados, que deslocam a possibilidade de entendimento do que está sendo considerado. Para Cavalcanti é fundamental que: “Para que os alunos entendam os espaços de sua vida cotidiana, que se tornaram extremamente complexos, é necessário que aprendam a olhar, ao mesmo tempo, para um contexto mais amplo e global, do qual todos fazem parte, e para os elementos que caracterizam e distinguem seu contexto global” (2008: 43) Avançando nessa linha de argumentação pode-se afirmar que ao estudar a Geografia nas Series Iniciais abre-se o caminho para estabelecer as bases de aprendizado dessa disciplina. Essas bases podem ser identificadas pelas habilidades desenvolvidas de observar, descrever, analisar e enunciar um espírito crítico a respeito da realidade em que o aluno vive. Também as habilidades de orientação, localização e representação que são funções importantes na vida de qualquer sujeito para se situar no mundo em que vive. O ensino de Geografia na escola deve ser pautado pelo acesso dos alunos ao conhecimento produzido pela humanidade para que possam entender o mundo em que vivem. Saber a informação, conseguir entendê-la e contextualizar os fenômenos no conjunto do mundo globalizado, entendendo o lugar como a reprodução desses processos em determinados tempos e espaços é um objetivo. Mas tem outro que é importante que diz respeito ao aluno se compreender como sujeito nesse processo de construção do espaço tendo condições de construir a sua identidade e pertencimento. Assim reafirmo que estudar o lugar considerando as escalas de analise, tendo como suporte o desenvolvimento de habilidades específicas, e construindo os conceitos, pode ser a alternativa de aprender Geografia e se construir como sujeito de sua historia ao tempo em produz o espaço como sujeito social. E para finalizar recorre a uma citação que diz: “Ao ler o espaço, desencadeia-se o processo de conhecimento da realidade que é vivida cotidianamente. Constrói-se o conceito, que é uma abstração da realidade em si, formada a partir da realidade em si, a partir da compreensão do lugar concreto, de onde se extraem elementos para pensar o mundo (ao construir a nossa historia e o nosso espaço). Nesse caminho, ao observar o lugar especifico e confrontá-lo com outros lugares, tem inicio um processo de abstração que se assenta entre o real aparente, visível, perceptível e o concreto pensado na elaboração do que está sendo vivido.” (Callai, 2005: 241) Estudar o lugar para compreender o mundo pode ser a alternativa para estudar Geografia no inicio da escolarização, mas o caminho para se chegar é sinuoso assim como são os meandros dos rios ou o ondular das coxilhas do Rio Grande do Sul. Mas é o caminho que deve ser perseguido por nós que trabalhamos com a Geografia e neste nível de ensino, seja como docentes seja como pesquisadores, e a possibilidade de fazer com que o professor seja ele o estudioso dessa questão pode ser a alternativa mais eficaz. Afinal educação geográfica não é para a escola, ou para os professores, mas é com certeza para que cada um se entenda como sujeito da sua historia ao viver a sua vida e produzir o seu espaço. 38 Bibliografia Ab’SABER, Aziz. A Geografia do bairro. www.novaescola.com.br BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: historia e geografia/ Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1997. CALLAI, Helena Copetti. Estudar o lugar para estudar o mundo. In.: Castrogiovanni, Antonio Carlos. (Org.). Ensino de geografia, práticas e textualizações no cotidiano Porto Alegre: Editora Mediação, 2002. p.83-134. _____________________Aprendendo A ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental. In: Educação Geográfica e as teorias de aprendizagens. Caderno CEDES 66. Campinas, vol25, n.66, p. maio/ago. 2005. p. 227-247 CALLAI, Helena Copetti & CALLAI, Jaime Luiz. Grupo, espaço e tempo nas Séries Iniciais. Espaços da Escola. Ijuí, ano 3, n° 11, Jan./Mar. 1994. p. 5-8. CASTELLS, Manuel. La era de La información - Economía, Sociedad y Cultura. Vol. 1 La Sociedad Red. Madrid, 1997. CAVALCANTI, Lana de Souza. A geografia escolar e a cidade - ensaios sobre o ensino de Geografia para a vida urbana cotidiana. Campinas: SP- Papirus. 2008. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia - saberes necessários a prática educativa, Paz e Terra, 1996 e 2001. HERRERO FABREGAT, Clemente. Madrid visto por los niños. Madrid: Centro Madrileño de Investigaciones Pedagógicas, 1992. ____________________La Formación del Profesorado en Ciencias Sociales, Ijuí-RS ed. UNIJUI, 2005. SANTOS, Milton. A natureza do espaço, técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: HUCITEC, 1996. ___________ Por uma outra globalização, do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000. 39 APRENDENDO A LER O MUNDO: A GEOGRAFIA NOS ANOSINICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL7 Helena Copetti Callai8 A história não se escreve fora do espaço, e não há sociedade a-espacial. O espaço, ele mesmo, é social. (Milton Santos) Há uma pedagogia indiscutível na materialidade do espaço. (Paulo Freire) É por isso que, hoje, seja qual for a escala, o território constitui o melhor revelador de situações não apenas conjunturais, mas estruturais e de crise. (Milton Santos) RESUMO: Este artigo discute a possibilidade e a importância de se aprender geografia nas séries iniciais do ensino fundamental, a partir da leitura do mundo, da vida e do espaço vivido. Para tanto, aborda o papel da geografia nesse nível do ensino e a necessidade de se iniciar, nessa fase, um processo de alfabetização cartográfica. Considera também os conteúdos da geografia presentes nos currículos escolares como uma das maneiras de contribuir na alfabetização da criança. Tendo em vista esse objetivo, discute as exigências teóricas e metodológicas da geografia para referenciar o ensino e a aprendizagem. Palavras-chave: Geografia. Ensino. Aprendizagem. Séries iniciais e espaço. LEARNING TO READ THE WORLD: GEOGRAPHY IN THE FIRST YEARS OF BASIC SCHOOLING ABSTRACT: This paper discuss the possibility and the importance of learning geography at elementary school, based on the reading of the world and life and of the space in which one lives. It thus explores the role of geography at elementary school and the need to start a cartographic alphabetization. Considering considers the geographic subjects taught in the early school years as one of the ways to contribute to such child alphabetization, it then discusses the theoretical and methodological requirements of geography related to the teaching-learning process. Key words: Geography. Teaching. Learning. Elementary School and Space. Este texto trata da possibilidade de a criança estudar a geografia no início de sua escolarização. A educação no Brasil passa por profundas mudanças, talvez não tantas quanto a sociedade atual exigiria, mas sem dúvida significativas. Nesse contexto, a geografia, como componente curricular (tradicional) na escola básica, também se modifica, seja por força das políticas públicas (PCNs, por exemplo), seja por exigências da própria ciência. Assim, pensar o papel da geografia na educação básica torna-se significativo, uma vez que se considera o todo 7 Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 66, p. 227-247, maio/ago. 2005 227. Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br> 8 Doutora em geografia e professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências (mestrado) da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). E-mail: jcallai@unijui.tche.br 40 desse nível de ensino e a presença de conteúdos e objetivos que envolvem, inclusive, as suas séries iniciais e a educação infantil. Consideramos que a leitura do mundo é fundamental para que todos nós, que vivemos em sociedade, possamos exercitar nossa cidadania. Queremos tratar aqui sobre qual a possibilidade de aprender a ler, aprendendo a ler o mundo; e escrever, aprendendo a escrever o mundo. Para tanto, buscamos refletir sobre o papel da geografia na escola, em especial no ensino fundamental, no momento do processo de alfabetização. Uma forma de fazer a leitura do mundo é por meio da leitura do espaço, o qual traz em si todas as marcas da vida dos homens. Desse modo, ler o mundo vai muito além da leitura cartográfica, cujas representações refletem as realidades territoriais, por vezes distorcidas por conta das projeções cartográficas adotadas. Fazer a leitura do mundo não é fazer uma leitura apenas do mapa, ou pelo mapa, embora ele seja muito importante. É fazer a leitura do mundo da vida, construído cotidianamente e que expressa tanto as nossas utopias, como os limites que nos são postos, sejam eles do âmbito da natureza, sejam do âmbito da sociedade (culturais, políticos, econômicos). Ler o mundo da vida, ler o espaço e compreender que as paisagens que podemos ver são resultado da vida em sociedade, dos homens na busca da sua sobrevivência e da satisfação das suas necessidades. Em linhas gerais, esse é o papel da geografia na escola. Refletir sobre as possibilidades que representa, no processo de alfabetização, o ensino de geografia, passa a ser importante para quem quer pensar, entender e propor a geografia como um componente curricular significativo. Presente em toda a educação básica, mais do que a definição dos conteúdos com que trabalha, é fundamental que se tenha clareza do que se pretende com o ensino de geografia, de quais objetivos lhe cabem. Tendo em vista que as reordenações da educação básica (no quadro das políticas públicas para a educação) consideram aspectos significativos de várias ciências, traduzidos em componentes curriculares absorvidos na complexidade da aula de forma integrada, na busca de um objetivo que é o primeiro – aprender a ler e a escrever; considerando também o que efetivamente acontece na sala de aula, realidade que se conhece intermédio de várias publicações, pesquisas, diagnósticos e inclusive da observação direta, particularmente por conta de uma pesquisa realizada (“O ensino de estudos sociais na pré-escola e nas séries iniciais”); levando em conta ainda os avanços da geografia como ciência e sua história como disciplina escolar, buscamos vislumbrar o que é possível fazer com esse componente curricular nos anos iniciais da escolaridade. E isso nos remete a uma questão que poderia ensejar definir o papel da geografia nessa etapa da educação básica. Qual é o lugar da geografia nas séries iniciais? Aprender a pensar o espaço. E, para isso, é necessário aprender a ler o espaço, “que significa criar condições para que a criança leia o espaço vivido” (Castelar, 2000, p. 30). Fazer essa leitura demanda uma série de condições, que podem ser resumidas na necessidade de se realizar uma alfabetização cartográfica, e esse “é um processo que se inicia quando a criança reconhece os lugares, conseguindo identificar as paisagens” (idem, ibid.). Para tanto, ela precisa saber olhar, observar, descrever, registrar e analisar. Como fazer isso? É certo que, da forma como a geografia tem sido tratada na escola tradicionalmente, ela não tem muito a contribuir. Aquela geografia chamada tradicional, caracterizada pela enumeração de dados geográficos e que trabalha espaços fragmentados, em 41 geral opera com questões desconexas, isolando-as no interior de si mesmas, em vez de considerá-las no contexto de um espaço geográfico complexo, que é o mundo da vida. Uma prática tradicional na Escola Fundamental, adotada nas aulas de estudos sociais, mas desenvolvida não apenas sob sua égide, é o estudo do meio considerando que se deve partir do próprio sujeito, estudando a criança particularmente, a sua vida, a sua família, a escola, a rua, o bairro, a cidade, e, assim, ir sucessivamente ampliando, espacialmente, aquilo que é o conteúdo a ser trabalhado. São os Círculos Concêntricos, que se sucedem numa seqüência linear, do mais simples e próximo ao mais distante. Na realidade, esse procedimento constitui mais um problema do que uma solução, pois o mundo é extremamente complexo e, em sua dinamicidade, não acolhe os sujeitos em círculos que se ampliam sucessivamente do mais próximo para o mais distante. Num mundo em que a informação é veloz e atinge a todos, em todos os lugares, no mesmo instante, não se pode fechar as possibilidades em um estudo a partir de círculos hierarquizados. Ainda com relação à velocidade da informação,deve-se considerar que não é a distância o que vai impedir ou retardar o acesso à informação, mas condições econômicas e/ou culturais, inscritas num processo social que exclui algumas (ou muitas) pessoas. A superação dessa lógica de que a criança aprende por níveis hierarquizados – no caso do espaço, por níveis espaciais que vão se ampliando sucessivamente – requer o estabelecimento, pelo menos, de uma clareza de termos. Não estamos considerando que o estudo do meio é inócuo e desligado da realidade. Pelo contrário, ele pode constituir uma interessante possibilidade de ensino e aprendizagem. O que se está questionando é uma postura teórica que dá a referência, a forma de encaminhamento, postura que considera um espaço fragmentado e circular, o qual se amplia sucessivamente. Partindo do “eu”, da família, cria-se uma proposição antropocêntrica – ou melhor, egocêntrica – ao redor do “eu”. O problema não é partir do “eu”, mas sim fragmentar os espaços que se sucedem e que passam a ser considerados isoladamente, como se tudo se explicasse naquele e por aquele lugar mesmo. A dinâmica do mundo é dada por outros fatores. E o desafio é compreender o “eu” no mundo, considerando a sua complexidade atual. A referência teórica é buscada tanto na geografia – a qual considera que o espaço é socialmente construído pelo trabalho e pelas formas de vida dos homens – como na Pedagogia – a qual considera que a aprendizagem é social e acontece na interlocução dos sujeitos (estejam eles presentes fisicamente, ocupando um espaço próximo, estejam eles distantes, mantendo contatos virtuais, ou sob a hegemonia de determinada condução política, econômica). Como superar o positivismo da geografia e da educação, em um mundo que está mudado e continua mudando aceleradamente? O que seria possível fazer para engendrar uma nova forma de “ensinar o mundo”? Se os estudos do meio, considerados a partir do princípio dos círculos concêntricos, não se mostram apropriados para fazer a leitura do espaço – que deveria conter a possibilidade de perceber o movimento, perceber a cotidianidade da vida dos vários sujeitos e a sua expressão por meio dos grupos de que participam, construindo o seu espaço – quais as alternativas possíveis? Quais os referenciais teóricos que nos permitiriam construir métodos de análise do espaço geográfico capazes de permitir que os alunos se reconheçam no interior desse espaço? E que se sintam efetivamente produzindo esse espaço? E, nesse sentido, quais as práticas sociais (em especial as escolares) que se apresentariam como eficazes? 42 O pedagógico e/na geografia Para romper com a prática tradicional da sala de aula, não adianta apenas a vontade do professor. É preciso que haja concepções teórico-metodológicas capazes de permitir o reconhecimento do saber do outro, a capacidade de ler o mundo da vida e reconhecer a sua dinamicidade, superando o que está posto como verdade absoluta. É preciso trabalhar com a possibilidade de encontrar formas de compreender o mundo, produzindo um conhecimento que é legítimo. O professor, as suas concepções de educação e de geografia, é que podem fazer a diferença. E é a interlocução dos saberes (Marques, 1993) que pode permitir esse avanço. “O conhecimento geográfico produzido na escola pode ser o explicitamento do diálogo entre a interioridade dos indivíduos e a exterioridade das condições do espaço geográfico que os condiciona” (Rego, 2000, p. 8). A clareza teórico-metodológica é fundamental para que o professor possa contextualizar os seus saberes, os dos seus alunos, e os de todo o mundo à sua volta. E, no nível de ensino em que a criança está processando a sua alfabetização, o ideal seria que houvesse “uma unidade em que se supere a fragmentação das disciplinas e das responsabilidades, em práticas orientadas por e para linhas e eixos temáticos e conceituais interdisciplinares, não apenas uma justaposição de disciplinas enclausuradas em si mesmas, mas de uma maneira que, em cada uma se impliquem as demais regiões do saber” (Marques, 1993). Nesse caminho em que tudo leva a aprender a ler e a escrever, acreditamos que seja fundamental a interligação de todos os componentes curriculares, se somando na busca do objetivo. Mas numa trajetória em que o conteúdo seja, em especial, o mundo da vida dos sujeitos envolvidos, reconhecendo a história de cada um e a história do grupo, combinando “a cadeia dos conceitos e categorias de análise com a trama das experiências e da cultura mesma do grupo envolvido” (Marques, 1993, p. 111). É nesse contexto que a “possibilidade desse cruzamento entre geografia e educação torna- se sobremodo importante num mundo em crise, crise expressa, entre outros modos, nas concretudes do espaço vivido através dos quais as relações sociais se geografizam” (Rego, 2000, p. 8). Nos demais níveis de ensino, a questão de entrelaçar geografia e educação pode não aparecer com tamanha relevância, mas, nos anos iniciais, é impossível ela não ser considerada. E se, no exercício de pensar e procurar caminhos da geografia para as crianças, fosse encontrada a chave para desvendar as possibilidades de construção de uma geografia escolar mais conseqüente? Seria uma reflexão interessante. Como fazer, então, para superar um ensino tradicional, e um professor igualmente tradicional, trabalhando com conteúdos alheios ao mundo da vida? Como trabalhar com a realidade sem seguir de forma linear as escalas, mas superpondo-as, interligando- as, para conseguir dar conta da complexidade do mundo? Como olhar o local com os olhos do mundo, como ver o lugar do/no mundo? Partindo dos pressupostos teóricos que balizam nossas concepções de educação e de geografia, como proceder para ensinar geografia nas séries iniciais passa a ser o desafio. E, sendo fiéis a esses referenciais, a busca deve estar centrada no pressuposto básico de que, para além da leitura da palavra, é fundamental que a criança consiga fazer a leitura do mundo. 43 Alfabetização e alfabetização espacial Como realizar a leitura da palavra por meio da leitura do mundo? E como fazer a leitura do mundo por meio da leitura da palavra? Esse pode ser o desafio para pensar um aprendizado da alfabetização que seja significativo. Partindo do fato de que a gente lê o mundo ainda muito antes de ler a palavra, a principal questão é exercitar a prática de fazer a leitura do mundo. E pode-se dizer que isso nasce com a criança. Desde que a criança nasce, os seus contatos com o mundo, seja por intermédio da mãe, seja pelo esforço da própria criança, buscam a conquista de um espaço. Um espaço que não é mais o ventre materno onde ela está protegida, mas um espaço amplo, cheio de desafios e variados obstáculos, e que, para ser conquistado, precisa ser conhecido e compreendido. E isso a criança vai fazendo, superando os desafios e ampliando cada vez mais a sua visão linear do mundo. Quer dizer, em termos absolutos, ela consegue ir avançando a sua capacidade de reconhecimento e de percepção. Ao caminhar, correr, brincar, ela está interagindo com um espaço que é social, está ampliando o seu mundo e reconhecendo a complexidade dele. Ao chegar à escola, ela vai aprender a ler as palavras, mas qual o significado destas, se não forem para compreender mais e melhor o próprio mundo? A par do prazer de saber ler a palavra e saber escrevê-la, podemos acrescentar o desafio de ter prazer em compreender o significado social da palavra – o que significa ler para além da palavra em si, percebendo o conteúdo social que ela traz, e, mais ainda, aprender a produzir o próprio pensamento que será expresso por meio da escrita. E se, quando se lê apalavra, lendo o mundo, está-se lendo o espaço, é possível produzir o próprio pensamento, fazendo a representação do espaço em que se vive. Compreender a escrita como o resultado do pensamento elaborado particularmente por cada pessoa é diferente de simplesmente escrever copiando. E aprender a representar o espaço é muito mais que simplesmente olhar um mapa, uma planta cartográfica. Saber como fazer a representação gráfica significa compreender que no percurso do processo da representação, ao se fazerem escolhas, definem-se as distorções. As formas de projeção cartográfica e o lugar de onde se olha o espaço para representar não são neutros, nem aleatórios. Trazem consigo limitações e, muitas vezes, interesses, que importa manter ou esconder. O espaço não é neutro, e a noção de espaço que a criança desenvolve não é um processo natural e aleatório. A noção de espaço é construída socialmente e a criança vai ampliando e complexificando o seu espaço vivido concretamente. A capacidade de percepção e a possibilidade de sua representação é um desafio que motiva a criança a desencadear a procura, a aprender a ser curiosa, para entender o que acontece ao seu redor, e não ser simplesmente espectadora da vida. “O exercício da curiosidade convoca a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser” (Freire, 2001, p. 98). O aprendizado da criança é também complexo e amplo. Interessa-nos pensar como ela aprende e que significados dá ao espaço, como desenvolve essa noção, a partir da sua vivência e do desenvolvimento do seu pensamento. Importa aqui compreender o significado de saber ler o espaço, e “toda informação fornecida pelo lugar ou grupo social no qual a criança vive é altamente instigadora de novas descobertas” (Castelar, 2000, p. 32). Tais descobertas poderão se relacionar com as questões de sua própria vida, as relações entre as várias pessoas do lugar, ou a questões específicas do ambiente. O importante é poder trabalhar, no momento da alfabetização, com a capacidade de ler o espaço, com o saber ler a aparência das paisagens e desenvolver a capacidade de ler os significados que elas expressam. Um lugar é sempre cheio de história e 44 expressa/mostra o resultado das relações que se estabelecem entre as pessoas, os grupos e também das relações entre eles e a natureza. Por exemplo, “Por que não aproveitar a experiência que têm os alunos de viver em áreas da cidade descuidadas pelo poder público para discutir, por exemplo, a poluição dos riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estar das populações, os lixões e os riscos que oferecem à saúde das gentes?” (Freire, 2001, p. 33). Se os alunos vivem essa situação ou vivem em locais que apresentam esse tipo de problema, é a partir de tais problemas que devem ser feitas a leitura, a representação, e que deve ser instigada a curiosidade para avançar na investigação e compreender o que ocorre. Mas não é preciso restringir a discussão à questão social, pode-se discutir questões que são específicas do conteúdo da disciplina Geografia, por exemplo, em vez de “ditar para o aluno”, ou mesmo ler em um livro, ou responder a perguntas a partir de um texto, realizar a leitura do espaço. E a partir daí trabalhar com os conceitos envolvidos – no caso, rio, riacho, córrego, lençol freático, lixo, poluição, degradação ambiental, degradação urbana, cidade, riscos ambientais. A leitura do espaço permite que se faça o aprender da leitura da palavra, aprendendo a ler o mundo. A partir daí a geografia pode trabalhar com os conceitos que são próprios do seu conteúdo. Pois bem, se esse é o sentido que supomos para o processo de alfabetização, cabe-nos, além de constatar, avaliar o envolvimento da geografia como um dos componentes curriculares, reconhecendo o sentido de sua presença nas séries iniciais. Como ler o mundo da vida? Sem dúvida, partindo do lugar, considerando a realidade concreta do espaço vivido. É no cotidiano da própria vivência que as coisas vão acontecendo e, assim, configurando o espaço, dando feição ao lugar. Um lugar que “não é apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. A existência naquele espaço exerce um papel revelador sobre o mundo” (Santos, 2000, p. 114). Ao partir de uma concepção de lugar, deve-se considerar que ele não se restringe aos seus próprios limites, nem do ponto das fronteiras físicas, nem do ponto de vista das ações e suas ligações externas, mas que um lugar comporta em si o mundo. “Os lugares, são, pois, o mundo, que eles reproduzem de modos específicos, individuais, diversos. Eles são singulares, mas também são globais, manifestações da totalidade-mundo, da qual são formas particulares” (idem, ibid. p. 112). Do ponto de vista da geografia, esta é a perspectiva para se estudar o espaço: olhando em volta, percebendo o que existe, sabendo analisar as paisagens como o momento instantâneo de uma história que vai acontecendo. Essa é a leitura do mundo da vida, mas que não se esgota metodologicamente nas características de uma geografia viva e atual, assentada em categorias de análise que supõem a história em si, o movimento dos grupos sociais e a sua interligação por meio da ação ou até de interesses envolvidos. Há que se pensar também no paradigma de educação capaz de acolher, ou de referenciar, esse tipo de análise. “Exige-se, em todos os estágios da prática educativa, que se combine a cadeia dos conceitos e categorias de análise com a trama das experiências e da cultura mesmo do grupo envolvido” (Marques, 1993, p. 111). Nesse processo de aprender a ler, lendo o espaço, não há uma regra, um método estabelecido a priori, nem a possibilidade de elencar técnicas capazes de dar conta de cumprir o exigido: “articulam-se a teoria e a prática, os pressupostos ético-políticos da educação, os 45 conteúdos conceituais e técnicas do ensino, com as características grupais e pessoais dos sujeitos em interação, nas condições concretas, conjunturais, de operacionalização” (idem, ibid.). Pedagogicamente, portanto, o que importa é o estabelecimento e o exercício contínuo do diálogo – com os outros (professor, colegas, pessoal da escola, família, pessoas do convívio); com o espaço (que não é apenas o palco, mas também possui vida e movimento, uma vez que atrai, possibilita, é acessível ao externo); com a natureza e com a sociedade, que se interpenetram na produção e geram a configuração do espaço. Essa capacidade de interlocução (de saber ouvir, falar, observar, analisar, compreender) pode ser desenvolvida desde a educação infantil, e tornar-se assim um método de estudo – de fazer a leitura do mundo. Ao partir da vivência concreta, busca-se a ampliação do espaço da criança com a aprendizagem da leitura desses espaços e, como recurso, desenvolve-se a capacidade de “aprender a pensar o espaço”, desenvolvendo raciocínios geográficos, incorporando habilidades e construindo conceitos. Compreender o lugar em que se vive encaminha-nos a conhecer a história do lugar e, assim, a procurar entender o que ali acontece. Nenhum lugar é neutro, pelo contrário, os lugares são repletos de história e situam-se concretamente em um tempo e em um espaço fisicamente delimitado. As pessoas que vivem em um lugar estão historicamente situadas e contextualizadas no mundo. Assim, o lugar não pode ser considerado/entendido isoladamente. O espaço em que vivemos é o resultado da história de nossas vidas. Ao mesmo tempo em que ele é o palco onde se sucedem os fenômenos,ele é também ator/autor, uma vez que oferece condições, põe limites, cria possibilidades. Cada lugar combina variáveis de tempos diferentes. Não existe um lugar onde tudo seja novo ou onde tudo seja velho. A situação é uma combinação de elementos com idades diferentes. O arranjo de um lugar, através da aceitação ou da rejeição do novo, vai depender da ação dos fatores de organização existentes nesse lugar, quais sejam, o espaço, a política, a economia, o social, o cultural. (Santos, 1988, p. 98). Esse é o meio em que vivemos, em que nosso aluno começa a ter a sua vivência fora da sua casa e da família. Não é naturalmente constituído, é construído no dia-a-dia. O lugar é o ponto de encontro de lógicas que trabalham em diferentes escalas, reveladoras de níveis diversos, e às vezes contrastantes, na busca da eficácia e do lucro, no uso de tecnologias do capital e do trabalho. O lugar é o ponto de encontro de interesses longínquos e próximos, locais e globais. (Santos, 1994, p. 18-19) Como considerar o desafio de, ao estudar o lugar, poder compreender o mundo? Como dar conta de tecer a trama de relações no plano da compreensão, assim como está tecida a trama de interesses e de lógicas que orientam e estruturam os espaços à nossa volta? Quais as possibilidades de, superando as concepções tradicionais, encontrar a forma de entender a palavra em todo o seu significado, e compreender o mundo que rodeia a criança? É importante que se considere, na educação, a nova realidade do mundo atual, cujas características implicam que a velocidade da informação supera qualquer distância, e que todos os problemas do cotidiano se entrelaçam em níveis complexos. Não se espera que uma criança de sete anos possa compreender toda a complexidade das relações do mundo com o seu lugar de convívio e vice-versa. No 46 entanto, privá-las de estabelecer hipóteses, observar, descrever, representar e construir suas explicações é uma prática que não condiz mais com o mundo atual e uma Educação voltada para a cidadania. (Straforini, 2001, p. 56-57) O olhar espacial Fazer a análise geográfica significa dar conta de estudar, analisar, compreender o mundo com o olhar espacial. Esta é a nossa especificidade – por intermédio do olhar espacial, procurar compreender o mundo da vida, entender as dinâmicas sociais, como se dão as relações entre os homens e quais as limitações/condições/possibilidades econômicas e políticas que interferem. O olhar espacial supõe desencadear o estudo de determinada realidade social verificando as marcas inscritas nesse espaço. O modo como se distribuem os fenômenos e a disposição espacial que assumem representam muitas questões, que por não serem visíveis têm que ser descortinadas, analisadas através daquilo que a organização espacial está mostrando. (Callai, 2000, p. 94) A observação e a análise dos espaços construídos encaminha para compreender como a materialização/concretização das relações sociais configuram um lugar, bem como este coloca limitações ou possibilidades à sociedade. Portanto a contribuição da geografia no nível inicial do ensino, no qual a criança passa pelo processo de alfabetização, não se dá como acessória, mas como um componente significativo (assim como as demais áreas) na busca do ler e do escrever. Ao ler o espaço, a criança estará lendo a sua própria história, representada concretamente pelo que resulta das forças sociais e, particularmente, pela vivência de seus antepassados e dos grupos com os quais convive atualmente. A complexidade do mundo da vida, que se estrutura e se torna visível por meio das suas arrumações no espaço, exige certos critérios para que seja feita a análise. Tais critérios decorrem dos referenciais adotados, considerando-se a educação e a geografia, ambas em sua dimensão epistemológica. Desenvolver o olhar espacial, portanto, é construir um método que possa dar conta de fazer a leitura da vida que estamos vivendo, a partir do que pode ser percebido no espaço construído. “O olhar espacial supõe desencadear o estudo de determinada realidade social verificando as marcas inscritas nesse espaço” (idem, ibid.). Essas marcas refletem toda uma história, e escondem atrás de si as relações e o jogo de forças que foi travado para finalmente assumirem estas feições. A organização espacial representa muitas coisas que, por não estarem visíveis, precisam ser descortinadas. A leitura da paisagem São as paisagens que mostram, por meio de sua aparência, “a história da população que ali vive, os recursos naturais de que dispõe e a forma como se utiliza de tais recursos” (idem, ibid., p. 97). A paisagem “não é formada apenas de volumes, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc. (...) e a percepção é sempre um processo seletivo de apreensão” (Santos, 1988, p. 62). Importa então considerar as características culturais dos povos e os interesses envolvidos para a realização da leitura da paisagem. E esta será, portanto, sempre a apreensão que o sujeito faz, e não a verdade absoluta, neutra. Assim como a paisagem está cheia de historicidade, o sujeito que a lê também tem o seu processo de seleção do que observa. São verdades construídas, mas enraizadas nas histórias das 47 pessoas, dos grupos que ali vivem. Desse modo, fazer a leitura da paisagem pode ser uma forma interessante de desvendar a história do espaço considerado, quer dizer, a história das pessoas que ali vivem. O que a paisagem mostra é o resultado do que aconteceu ali. A materialização do ocorrido transforma em visível, perceptível o acontecido. A dinamicidade das relações sociais e das relações do Homem com a Natureza, desencadeia um jogo de forças, cujos resultados são concretos e visíveis. Descrever e analisar estas paisagens supõe, portanto, buscar as explicações que tal “retrato” nos permite. Os objetos, as construções, expressos nas ruas, nos prédios, nas praças, nos monumentos, podem ser frios e objetivos, porém a história deles é cheia de tensão, de sons, de luzes, de odores, e de sentimentos. Portanto ler a paisagem exige critérios a serem considerados e seguidos. Escala de análise A escala de análise é um cuidado que requer toda a atenção. Partindo de que “É impossível esconder das crianças o mundo, quando as informações lhes são passadas no exato instante do acontecimento” (Straforini, 2001, p. 56), nenhum estudo pode ficar restrito ao âmbito espacial em que está acontecendo. Pois nada acontece de forma isolada. Ou tem alguma relação com a natureza ou tem interferências de outras dimensões de escala que não estão próximas fisicamente (em termos de espaço absoluto), mas que poderão estar muito mais intensamente relacionadas por conta da origem e dos motivos do acontecimento. Já a definição/delimitação de que recorte do espaço considerar é um motivo de escolha da escala. Considerando então que a escala não é algo dado, mas resultado de opções/escolhas, elas estão estreitamente ligadas aos objetivos que temos para o ensino, para a pesquisa no/do lugar. Buscar as explicações para aquilo que o espaço está mostrando requer, portanto, que se tenha o cuidado de não simplificar as questões, mas ao contrário, tentar situá-las em um contexto de investigação e estabelecer as interrelações. Assim, nos referimos a uma escala social, que traz em si uma dimensão histórica e que permite que sejam evidenciadas as motivações, explicitadas ou não, de cada um dos eventos. Nesse movimento é importante perceber que os fenômenos da natureza se configuram em outra escala, que é da natureza mesmo e que vai pautar os acontecimentos, ao contrário de uma escala histórica, intrinsecamente ligada ao tempo e ao espaço denossas vidas. Sob a interferência dos interesses humanos, a natureza é também alterada, muitas vezes de maneira extremamente rápida. Nosso entendimento de que essa é uma questão social é fundamental para não nos submetermos às idéias de destino, ou de azares ambientais, como se a natureza não sofresse alterações a partir dos interesses da sociedade. Enfim, são necessárias interligações dos vários níveis de análise, para que se possa compreender que nada acontece por acaso, e que os motivos de muitos acontecimentos podem estar, às vezes, próximos, mas podem estar também muito distantes. O estudo do lugar “Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, as suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não a de transferir conhecimento” (Freire, 2001, p. 520). O mundo, na Era da Informação, está totalmente globalizado. Mas essa globalização, por meio das questões que são globais, se concretiza-nos diversos lugares, em cada lugar em especial, e com diferentes formas de apresentação. Daí a “força do lugar” (Milton Santos), pois cada lugar tem sua história, seus homens e suas capacidades de se organizar e pensar alternativas para si. “Essa é 48 uma realidade tensa, um dinamismo que se está recriando a cada momento, relação permanentemente estável, e onde globalização e localização, globalização e fragmentação são termos de uma dialética que se refaz com freqüência” (Santos, 1996, p. 252). Assim, ler o mundo a partir do lugar é o desafio. Como desenvolver a curiosidade na criança para que ela possa avançar na sua leitura do mundo? Freire nos diz que “O exercício da curiosidade a faz mais criticamente curiosa, mais metodicamente ‘perseguidora’ do seu objeto. Quanto mais a curiosidade espontânea se intensifica, mas, sobretudo se ‘rigoriza’, tanto mais epistemológica ela vai se tornando” (Freire, 2001, p. 97). A partir dos interesses da criança, podem-se desencadear diversas atividades para buscar e realizar o exercício da palavra e o esforço de ler o mundo. Poderíamos apontar para o estudo de determinadas realidades, que, se consideradas como uma situação geográfica, seriam desenvolvidas a partir do reconhecimento do lugar, pode ser da rua, da casa da família, pode ser do bairro, ou da escola, ou mesmo da cidade. O fundamental é saber do que se pode partir, e se a curiosidade for exercitada na sala de aula, as crianças mesmas podem definir o que estudar. Na verdade, o conteúdo que será considerado não é de modo algum o mais importante. O mais significativo é saber de parte do professor o que se quer. Aprender a ler, por meio do componente curricular da geografia, lendo o mundo. Ler o lugar, para compreender o mundo em que vivemos. Pode-se partir de temáticas, de problemas e, a partir daí, aguçar a curiosidade infantil, traçando os caminhos a seguir. Essas problemáticas devem ser formuladas a partir da realidade do que acontece e do que existe no mundo e, ao serem analisadas, devem considerar as dimensões de espaço e de tempo. Quer dizer, precisam ser situadas em um espaço que terá as suas características internas e uma contextualização, as quais lhe darão marcas específicas. E precisam ainda ser situadas em um tempo, porque todas as ações dos homens são históricas e, como tal, carregam as marcas de seu tempo. Os conceitos Os conceitos são fundamentais para que se possam analisar os territórios em geral e os lugares específicos, e vão sendo construídos ao longo do processo de análise. Quais são, então, os conceitos imprescindíveis para se fazer a análise geográfica? E como trabalhá-los? “Seja como ciência, seja como matéria de ensino, a geografia desenvolveu uma linguagem, um corpo conceitual que acabou por constituir-se numa linguagem geográfica” (Cavalcanti, 1998, p. 88). Ao se apropriar dessa linguagem, a criança desencadeará um processo de leitura do mundo, com o “olhar espacial” a que já nos referimos. Cavalcanti coloca ainda que “Essa linguagem está permeada por conceitos que são requisitos para a análise dos fenômenos do ponto de vista geográfico” (idem, ibid.). Essa linguagem será incorporada pelo aluno à medida que ele consiga operar racionalmente com os conceitos próprios da geografia. Ao ler o espaço, desencadeia-se o processo de conhecimento da realidade que é vivida cotidianamente. Constrói-se o conceito, que é uma abstração da realidade, formado a partir da realidade em si, a partir da compreensão do lugar concreto, de onde se extraem elementos para pensar o mundo (ao construir a nossa história e o nosso espaço). Nesse caminho, ao observar o lugar específico e confrontá-lo com outros lugares, tem início um processo de abstração que se assenta entre o real aparente, visível, perceptível e o concreto pensado na elaboração do que está sendo vivido. 49 As habilidades As habilidades devem ser desenvolvidas ao longo das atividades que vão sendo realizadas. Algumas habilidades são gerais, que todo sujeito precisa desenvolver para viver e construir suas aprendizagens. Outras expressam a especificidade de “ler o espaço”. Desenvolver essas habilidades é fundamental, pois, sem elas, torna-se difícil fazer abstrações. Elas são desenvolvidas desde que a criança entra para o convívio escolar e, mesmo assim, de um modo geral, os alunos apresentam grandes dificuldades para dar conta delas. As hipóteses que explicam tais dificuldades variam, mas parece que elas estão centradas no modo como se realizam as atividades que permitiriam a sua exercitação durante a vida escolar, em especial nos primeiros anos. Assim como é importante ter claro quais os conceitos fundamentais na geografia, é também necessário saber quais as habilidades básicas para a análise geográfica. A respeito desse aspecto, deve-se considerar que existe uma linguagem específica, que consideramos demandar uma alfabetização cartográfica. A cultura A cultura de cada povo, de cada sociedade apresenta suas marcas e tem ligações com a possibilidade de os sujeitos concretos dessas sociedades possuírem uma identidade, no sentido de pertencimento ao lugar. Uma identidade que se dá entre os próprios homens e com o lugar – o território em que estão. “A questão da identidade cultural, de que fazem parte a dimensão individual e a de classe dos educandos cujo respeito é absolutamente fundamental na prática educativa progressista, é problema que não pode ser desprezado” (Freire, 2001, p. 46). Pensar o próprio espaço encaminha a exercitar a análise e a crítica constante sobre as formas de vida e as condições que existem. E possibilita ao sujeito efetivamente se situar no mundo. Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos (...). (idem, ibid.) Reconhecer, enfim, a sua identidade e o seu pertencimento é fundamental para qualquer um entender-se como sujeito que pode ter, em suas mãos, a definição dos caminhos da sua vida, percebendo os limites que lhe são postos pelo mundo e as possibilidades de produzir as condições para sua vida. Nesse sentido, estudar o lugar, como contrapartida ao movimento de homogeneização produzido pela mídia e pela ação concreta das grandes empresas, pode ser interessante por dois motivos. Primeiro, pelo fato de que, mesmo em um mundo globalizado, as idéias universais só se concretizam nos lugares, e não no global, no geral. Depois, porque assim sepode perceber que nossa ação pode ser efetiva e eficaz, dependendo do jogo de forças em que se insere, e que os homens podem não ser apenas cobaias ou partes de uma estrutura na qual não têm o direito de pensar e de tomar atitudes que lhes pareçam adequadas. Ao se reconhecer o lugar como parte de nossa vida, como um dado que nos permite criar uma identidade e termos a idéia de pertencimento, será possível agir para o grupo, e não apenas para servir a interesses externos. O espaço retrata a nova realidade de supressão de fronteiras, de criação de regionalidades específicas para promover o desenvolvimento, ou para o aumento das condições efetivas a se 50 colocar nos mercados. Espacialmente, essa realidade se expressa tanto no que tange aos povos com seus territórios, quanto aos espaços segregados nas cidades. É um fenômeno de exclusão que se expressa no espaço de forma muito marcante; seja nos lugares em que as pessoas, despojadas de tudo que lhes seja essencial para ter uma vida digna, vivem em condições humilhantes; seja onde as pessoas, embora vivendo com dignidade, não têm condições de se fazer ouvir, de decidir os seus caminhos. Nessa perspectiva, torna-se interessante investigar qual é a identidade desses lugares, a partir dos interesses das pessoas que ali vivem. Reconhecer os valores, as crenças, as tradições e investigar os significados que têm para as pessoas que vivem ali. A cultura, que dá esse conjunto de características às pessoas e aos povos, se expressa no espaço por meio de marcas que configuram as paisagens. Cada lugar tem uma força, uma energia que lhe é própria e que decorre do que ali acontece. Ela não vem de fora, nem é dada pela natureza. É resultado de uma construção social que se dá na vivência diária dos homens que habitam o lugar, resultado do grau de consciência das pessoas como sujeitos do mundo onde vivem e dos grupos sociais que constituem ao longo de sua trajetória de vida. É resultado do somatório de tempos curtos e de tempos longos que deixam marcas no espaço. A cartografia na leitura do espaço Para ler o espaço, torna-se necessário um outro processo de alfabetização. Ou talvez seja melhor considerar que, dentro do processo alfabetizador, além das letras, das palavras e dos números, existe uma outra linguagem, que é a linguagem cartográfica. “Ao ensinar geografia, deve-se dar prioridade à construção dos conceitos pela ação da criança, tomando como referência as suas observações do lugar de vivência para que se possa formalizar conceitos geográficos por meio da linguagem cartográfica” (Castelar, 2000, p. 31). Será isso possível? Seria o início do processo de escolaridade ou é uma questão que pode permear todo o ensino da geografia? Independentemente da resposta que encontrarmos, parece-nos claro que a alfabetização cartográfica é base para a aprendizagem da geografia. Se ela não ocorrer no início da escolaridade, deverá acontecer em algum outro momento. Nas aulas de geografia é preciso estar atento a isso. A capacidade de representação do espaço vivido, se esta for desenvolvida assentada na realidade concreta da criança, pode contribuir em muito para que ela seja alfabetizada para saber ler o mundo. “Quando parte do processo de alfabetização utilizando a linguagem cartográfica, o ensino de geografia se torna mais significativo, pois se criam condições para a leitura das representações gráficas que a criança faz do mundo” (idem, ibid., p. 35). Uma das formas possíveis de ler o espaço é por meio dos mapas, que são a representação cartográfica de um determinado espaço. Estudiosos do ensino/aprendizagem da cartografia consideram que, para o sujeito ser capaz de ler de forma crítica o espaço, é necessário tanto que ele saiba fazer a leitura do espaço real/concreto como que ele seja capaz de fazer a leitura de sua representação, o mapa. É, inclusive, de comum entendimento que terá melhores condições para ler o mapa aquele que sabe fazer o mapa. Desenhar trajetos, percursos, plantas da sala de aula, da casa, do pátio da escola pode ser o início do trabalho do aluno com as formas de representação do espaço. São atividades que, de um modo geral, as crianças dos anos iniciais da escolarização realizam, mas nunca é demais lembrar que o interessante é que as façam apoiadas 51 nos dados concretos e reais e não imaginando/fantasiando. Quer dizer, tentar representar o que existe de fato. Assim, não basta saber ler o espaço. É importante também saber representá-lo, o que exige determinadas regras. Para fazer um mapa, por mais simples que ele seja, a criança poderá realizar atividades de observação e de representação. Ao fazer um desenho de um lugar que lhe seja conhecido ou mesmo muito familiar, ela estará fazendo escolhas e tornando mais rigorosa a sua observação. Poderá, desse modo, dar-se conta de aspectos que não eram percebidos, poderá levantar novas hipóteses para explicar o que existe, poderá fazer críticas e até encontrar soluções para as quais lhe parecia impossível contribuir. A capacidade de o aluno fazer a representação de um determinado espaço significa muito mais do que estar aprendendo geografia: pode ser um exercício que permitirá a construção do seu conhecimento para além da realidade que está sendo representada, e estimula o desenvolvimento da criatividade, o que, de resto, lhe é significativo para a própria vida e não apenas para aprender, simplesmente. Para saber ler o mapa, são necessárias determinadas habilidades, tais como reconhecer escalas, saber decodificar as legendas, ter senso de orientação. “A capacidade de entender um espaço tridimensional representado de forma bidimensional, aliado à concepção de que a terra é redonda e, portanto, não há ‘em cima’ nem ‘em baixo’, poderá ser desenvolvida a partir da realização de diversas atividades de mapeamento” (Callai, 2000, p. 105-106). Essas habilidades são adquiridas a partir da exercitação continuada em desenvolver a lateralidade, a orientação, o sentido de referência em relação a si próprio e em relação aos outros, além do significado de distância e de tamanhos. Elas podem ser simplesmente exercitadas, procurando-se alcançar o seu domínio. Mas o que nos interessa não é simplesmente ter domínios, que o capacitem a viver no mundo, é claro, mas poder, por meio dessa exercitação, dar conta de aprender a ler e viver o mundo. Aprender a pensar e reconhecer o espaço vivido. Não simplesmente como espaço que pode ser neutro, ou estranho a si próprio, mas pensar um espaço no sentido de se apropriar das capacidades que lhe permitirão compreender o mundo, reconhecer a sua força, e a força do lugar em que vive. Aprender para viver, mas aprendendo a buscar a transformação capaz de tornar o espaço mais justo, pelo acesso aos bens do mundo e da vida. Aprender a construir a sua cidadania. Aprender a observar, descrever, comparar, estabelecer relações e correlações, tirar conclusões, fazer sínteses são habilidades necessárias para a vida cotidiana. Por intermédio da geografia, que encaminhe a estudar, conhecer e representar os espaços vividos, essas habilidades poderão ser desencadeadas. Mas sempre como caminhos, como instrumentos para dar conta de algo maior. Por meio da geografia, nas aulas dos anos iniciais do ensino fundamental, podemos encontrar uma maneira interessante de conhecer o mundo, de nos reconhecermos como cidadãos e de sermos agentes atuantes na construção do espaço em que vivemos. E os nossos alunos precisam aprender a fazer as análises geográficas. E conhecer o seu mundo, o lugar em que vivem, para poder compreender o que são os processos de exclusão social e a seletividade dos espaços. Compreender o lugar da diferençaneste mundo, que se diz e se quer globalizado e tende a homogeneizar a todos e a tudo, é um passo para perceber que ainda há o que fazer, e não se pode, nem precisa, ficar só esperando que as ditas determinações aconteçam. É curioso notar que, nas análises e estudos em geral, até bem pouco tempo, as determinações advinham 52 basicamente da natureza. Hoje se quer fazer crer que a globalização define tudo, inclusive o desrespeito para com a natureza. Construir os referenciais básicos para a análise espacial é ter clareza epistemológica da nossa ciência. E, para saber fazer uma educação com sentido de aprender para ser sujeito da sua vida, é necessário fundamentar epistemologicamente a pedagogia. Aprender a ler, aprendendo a ler o mundo da vida, e usando para tanto as possibilidades metodológicas da geografia, é pretender que nesse movimento se consiga construir uma metodologia para estudar esse componente curricular, e também que o aluno consiga usar esse aprendizado metodológico para estudar, além do seu espaço vivido – o lugar em que está – outros lugares, que podem ser distantes de sua vida diária, mas que estão interferindo na dinâmica geral das sociedades e, ao mesmo tempo, na sua vida ou de seu grupo em particular. Enfim, a geografia, nos anos iniciais da escolarização, pode, e muito, contribuir com o aprendizado da alfabetização, uma vez que encaminha para aprender a ler o mundo. Recebido em maio de 2005 e aprovado em julho de 2005. Referências bibliográficas CALLAI, H. Estudar o lugar para compreender o mundo. In: CASTROGIOVANNI, A. C. (Org.). Ensino de geografia: práticas e textualizações no cotidiano. Porto Alegre: Mediação, 2000. CALLAI, H.; CALLAI, J. Grupo, espaço e tempo nas séries iniciais. Espaços da Escola, Ijuí, v. 3, n. 11, p. 9-18, jan./mar. 1994. CASTELLAR, S.M.V. A alfabetização em geografia. Espaços da Escola, Ijuí, v. 10, n. 37, p. 29-46, jul./set. 2000. CAVALCANTI, L.S. Geografia, escola e construção do conhecimento. Campinas: Papirus, 1998. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 18. ed. São Paulo: Paz & Terra, 2001. MARQUES, M.O. Conhecimento e modernidade em reconstrução. Ijuí: UNIJUÍ, 1993. PISSANATI, M. C.; ARCHELA, R. S. Fundamentos da alfabetização cartográfica no ensino de geografia. Geografia - v. 16, n. 1, jan./jun. 2007 – Universidade Estadual de Londrina, Departamento de Geociências. 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RESUMO Entendermos o mapa para podermos nos localizar no espaço não é uma tarefa fácil, visto que nós somos habituados à visão da realidade tridimensional, composta por altura, largura e comprimento, e o mapa, por sua vez, sendo um produto bidimensional, tem o elemento altura suprimido. A alfabetização cartográfica entra em cena para nos habilitar a fazer as conexões entre a teoria e a prática apresentadas pelos mapas. Portanto, para que o aluno possa compreender o mapa, o professor deve ter bem assimilados os fundamentos nos quais estão calcadas as primeiras noções relacionadas à Cartografia. O presente artigo tem o objetivo de dar esse suporte ao professor. Palavras-chave: Alfabetização Cartográfica; Mapa; Localização. FOUNDATIONS OF CARTOGRAPHIC LITERACY IN THE TEACHING OF GEOGRAPHY ABSTRACT Understanding the map so that we are able to locate ourselves in the space is not an easy task, since we are accustomed to the three-dimensional vision of reality, composed by height, width and length, and the map, in turn, being a bidimensional product, has the element of height suppressed. Cartographic literacy enters into the scene to enable us to make connection between theory and practice presented by maps. Therefore, so that the student can understand the map, the teacher must have well assimilated the foundations on which are built the first ideas related to Cartography. The present article has the objective to give this support to the teacher Key-word: Cartographic literacy; Map; Location. INTRODUÇÃO Mesmo de forma inconsciente, as pessoas utilizam a geografia em todo e qualquer momento. Só o fato de o indivíduo estar sentado no sofá, assistindo ao programa da TV, já nos remete a duas instâncias da geografia: o espaço ocupado e usufruído pelo telespectador e o espaço que está sendo apresentado na tela. O que dirá, então, do local de trabalho deste indivíduo – um espaço contendo relacionamentos sociais dirigidos por objetivos políticos e econômicos? Contudo, levar uma pessoa a entender a presença da geografia em sua vida, a notar que as circunstâncias vividas são aquelas descritas pelos livros didáticos, exige um longo período de tempo. 9 Pissinati, M. C.; ARCHELA, R. S. Fundamentos da alfabetização cartográfica no ensino de geografia. Geografia - v. 16, n. 1, jan./jun. 2007 – Universidade Estadual de Londrina, Departamento de Geociências. 54 Se a geografia é tida por muita gente como uma disciplina sem conexão e, conseqüentemente, sem valor para a vida prática, pior é a opinião sobre a cartografia. Mesmo extraindo as informações necessárias de alguns mapas de uso cotidiano, como os rodoviários, os mapas sobre a previsão do tempo ou o mapa da cidade habitada, a noção de que essas informações estão ligadas a uma área da ciência denominada Cartografia é vaga. A falta de habilidades cartográficas leva as pessoas a se verem em situações como: ficar girando o mapa da cidade até conseguir se localizar na mesma, dizer que o norte fica para cima e o sul para baixo, ter dificuldade para entender como pode o rio São Francisco nascer em Minas Gerais e “subir” para o Nordeste do país, ou não conseguir dimensionar os espaços com base na escala. Portanto, é fundamental que o ensino da Geografia e, aqui mais especificamente da Cartografia, tenha início nos primeiros anos escolares da criança. Ao observar e assimilar as informações do espaço vivido e conseguir visualizar estas mesmas informações em uma representação gráfica bidimensional, a criança estará adquirindo todo um saber científico que trará mais luz para as atividades da sua vida diária. Atividades estas que dependem do ato de deslocar- se de um lugar para o outro, dando todo sentido ao estudo da orientação espacial, da localização. Aliás, não são somente as crianças que precisam ser introduzidas ao estudo da cartografia. Considerando os problemas existentes na área da Educação, em nosso país, não é segredo o fato de que muitos brasileiros concluem o ensino fundamental sem compreenderem os conceitos que envolvem o mapa. Mesmo para as pessoas de mais idade, que começam ou voltam a cursar as séries do ensino fundamental, através de programas de períodoreduzido, como o EJA (Educação de Jovens e Adultos), o ensino do mapa deve partir dos conceitos mais elementares. Em outras palavras, a consciência sobre o ponto de partida, o trajeto percorrido e o ponto de chegada é um dos objetivos que a Cartografia pretende alcançar para contribuir tanto com a formação de uma visão crítica, quanto com a agilidade de nossas ações, principalmente nesta era histórica, que exige das pessoas o raciocínio rápido, a iniciativa e a eficiência. Sendo assim, o presente artigo visa contribuir com o professor de Geografia no seu trabalho de conscientizar os alunos sobre a importância de compreenderem os mapas e de adquirirem a habilidade de se localizarem no espaço. Embora seja consenso que a Cartografia deva ser trabalhada com crianças, ainda no início do Ensino Fundamental, muitos alunos de idades superiores nunca passaram pela iniciação cartográfica. Desta forma, o artigo é direcionado para qualquer faixa etária, mesmo as atividades mais simples. Apresentamos, aqui, a Geografia como a ciência que estuda a relação existente entre a sociedade e o meio e a Cartografia como uma das ferramentas utilizadas para esse estudo. Em outras palavras, expomos a Cartografia como um instrumento de uso da Geografia. Todas as pessoas, independentemente da idade, têm o direito de compreender o espaço no qual estão inseridas. A Geografia vem ao encontro desse objetivo, levando as pessoas a terem uma visão crítica do seu contexto e a poderem atuar mais conscientemente sobre o mesmo. A alfabetização cartográfica, por sua vez, leva cada indivíduo a compreender o espaço físico conhecido, facilitando a análise geográfica. Neste texto a alfabetização cartográfica foca mais o estudo da localização, visto que é uma das primeiras habilidades que o ser humano adquire em sua vida e que tem sido cada vez mais exigida para o deslocamento do indivíduo no seu espaço vivido e para o conhecimento de lugares que ele ainda não pisou. 55 RELAÇÃO ENTRE A GEOGRAFIA E A CARTOGRAFIA Geralmente, pessoas de diferentes idades resumem a disciplina de geografia como algo chato, sem sentido e difícil de decorar. Para estas pessoas, é muito difícil conceber que a geografia é dinâmica, extremamente presente em nossas vidas e uma das poucas ciências que conseguem relacionar os conhecimentos de diferentes áreas de estudo. Ao ouvirem falar da geografia sob esse prisma, estas pessoas ficam surpresas porque não foi desta forma que a viram na escola. É como se estivéssemos falando de uma disciplina nova, contemporânea, até então desconhecida de qualquer estudante. Elas não assimilaram nem as noções básicas da geografia como parte integrante da sua vida cotidiana, pois não foram levadas a pensar sobre as informações que os livros didáticos lhes traziam, nem tampouco fazer as conexões entre as informações. Nas palavras de Weisz (2002, p. 71), “o conhecimento avança quando o aprendiz enfrenta questões sobre as quais ainda não havia parado para pensar”. O ato de pensar resgata conhecimentos adquiridos anteriormente e acumulados ao longo do tempo. No entanto, nenhum ser humano consegue pensar sem um mínimo de informações, conceitos, enfim, sem um mínimo de conhecimentos, como escrevem Souza e Katuta (2001, p. 43): “Pensar significa refletir sobre algo, ou algum objeto pleno de representações e significados”. Se o valor de se estudar geografia já não foi bem trabalhado na vida destas pessoas, enquanto alunos de uma escola formal, menor ainda foi o valor da cartografia, que acabou se limitando a cópias de desenhos artísticos com localização de cidades, de capitais e de aspectos físicos do nosso planeta. Aliás, quando se fala em mapas, geralmente a idéia concebida pela maioria das pessoas é a de que a cartografia é uma técnica utilizada pela Geografia Física, inexistindo qualquer interação com a Geografia Humana. Neste caso, o estudo dos mapas trará um novo olhar para estas pessoas. Elas notarão que o mapa pode “dizer” qualquer tipo de informação geográfica, de forma até mais clara do que a escrita. Ora, a compreensão do mapa por si mesma já traz uma mudança qualitativamente superior na capacidade do aluno pensar o espaço e nesse sentido, Almeida e Passini (1994, p. 13) escrevem: “o mapa funciona como um sistema de signos que lhe permite usar um recurso externo à sua memória, com alto poder de representação e sintetização” Quando uma pessoa aprende a “ler” mapas, é como se estivesse abrindo novas janelas da vida. Ela consegue raciocinar com mais rapidez e ver mais oportunidades de uso do seu espaço, principalmente quando adquire a habilidade de sobrepor informações e analisá-las em conjunto. Por exemplo: relacionar a ocupação humana ao relevo e à rede hidrográfica da cidade. Francischett (1997a, p. 72) afirma que “o uso do mapa desenvolve a percepção e principalmente o pensamento, pois para seu entendimento é necessária a compreensão e a decodificação dos signos, razões que levam a desenvolver a cognição como operação mental”. Em contrapartida, a falta de consciência sobre a presença da geografia e da cartografia na vida cotidiana impede que as pessoas consigam relacionar a teoria dos livros didáticos às suas experiências diárias. Em decorrência disto, embora haja uma utilização inconsciente dessas áreas da ciência na vida de todas as pessoas, de todos os povos do mundo, de todas as gerações da história da humanidade, a reflexão crítica sobre o espaço fica bastante limitada. Nossos alunos, nossos colegas de trabalho, nossos familiares e amigos ou nossos vizinhos precisam entender que, enquanto os animais são orientados por seus instintos, o ser humano vai mais além, uma vez que é dotado de uma inteligência superior. É esta capacidade que o leva a fazer descobertas, a gerar idéias e a informá-las para outros seres da sua espécie. Logo, a comunicação é o princípio para o desenvolvimento das potencialidades de uma geração e a base 56 para estudos e realizações de gerações futuras. Considerando que a ciência não surgiu e nem é realizada por apenas uma pessoa, conclui-se que a comunicação sempre foi e continua sendo primordial para o seu avanço. Cada pesquisador repassa suas descobertas para outras pessoas, assim contribuindo com a ascensão do conhecimento. Em resumo, a comunicação é fruto de um relacionamento social entre pessoas que dividem o mesmo espaço, seja ele escolar, profissional, familiar ou outro. É nesse quadro que está inserida a Geografia, uma vez que é seu o papel de estudar a relação existente entre os seres humanos - uns com relação aos outros - e a relação destes com o meio em que vivem. A Cartografia vem auxiliar a Geografia no que diz respeito à comunicação sobre os eventos ocorridos nesse quadro, por meio da espacialização das informações, permitindo que essas sejam visualizadas no mapa. Enquanto a Geografia analisa a organização dos elementos físicos e biológicos no espaço, a Cartografia pesquisa e averigua a disposição desses elementos. Nas palavras de Oliveira (1978, p. 22), “as funções do mapa são: representar a superfície terrestre, expressar o pensamento do mapeador, e atuar socialmente como meio de comunicação”. Não se desenha um mapa simplesmente por passatempo. Sempre há um objetivo para que ele seja traçado: guardar informações, comunicá-las para alguém, traçar um plano estratégico, etc. Segundo Oliveira (1978, p.19), “a necessidade de localizar-se e orientar-se se manifesta em termos de defesa, segurança e movimentação”. É por isso que existem tantos mapas na história da humanidade. Inclusive, a imagem é mais antiga do que a escrita. Os estudiosos dizem que os mapas são imagens elaboradas para registrar um nível deinformações que a escrita teria dificuldades em fazê-la. É mais fácil desenhar e falar do que escrever. A descoberta de áreas com bom potencial para a sobrevivência ou de trilhas para lugares interessantes, ou até mesmo o planejamento e a administração de idéias sobre o espaço vivido, fizeram com que o homem primitivo elaborasse as mais variadas formas de representar esse espaço. Não se pode negar a importância que os mapas representaram na orientação dos mais variados povos, estando sempre presentes nos grandes momentos da história da humanidade, como instrumento de planejamento e de administração. Além disso, os mapas também podem ser vistos sob a ótica da ideologia, como instrumento de dominação (DUARTE, 2002, p. 17). Mais tarde, tanto o uso da escrita, quanto de signos, cores, orientação espacial e cálculos matemáticos, foram enriquecendo os traçados, facilitando ainda mais a comunicação entre o mapeador e o leitor do mapa. Tudo para que as informações pudessem ser transmitidas com o menor número possível de distorções. Aliás, retomando a relação entre a teoria e a realidade, vemos que a cartografia serve, inclusive, para provar que a matemática tem sentido de existir (cálculo de distâncias e altitudes escala, geometria, coordenadas, etc). Com a associação de todos esses elementos, o resultado é um recurso altamente comunicativo. De todas as representações cartográficas, o mapa, desde a Antigüidade, foi, é e continuará sendo o principal instrumento de trabalho para o geógrafo; como escreve Oliveira (1978, p. 17), “ele se destaca pela sua eficácia, disponibilidade e flexibilidade de aplicação”. Desde então, a criatividade, a responsabilidade e o empenho dos mapeadores têm se aliado a estudos mais específicos e aprofundados, instrumentos de medição mais precisos e equipamentos mais eficientes para que a confecção dos mapas traga resultados cada vez mais confiáveis. Assim, a geografia continuou fazendo descobertas e a cartografia a acompanhou, representando essas descobertas. 57 O QUE É E PARA QUE SERVE O MAPA? Entre os muitos autores, a Cartografia é conceituada de várias formas. Por isso, transcrevemos aqui a definição que ficou estabelecida pela Associação Cartográfica Internacional, durante o 20º Congresso Internacional de Geografia, realizado em Londres, em 1964. Para os membros da Associação, a Cartografia é o “Conjunto de estudos e operações científicas, artísticas e técnicas baseado nos resultados de observações diretas ou de análise de documentação, com vistas à elaboração e preparação de cartas, planos e outras formas de expressão, bem como sua utilização” (apud DUARTE, 2002, p. 15). A partir dos anos de 1990, a definição passou a considerar também as formas analógicas, digitais e táteis (ARCHELA, 2000). Em outras palavras, a fim de representar um território real em um plano, a Cartografia utiliza-se da arte e da ciência. A arte facilita a inserção e a visualização das informações, enquanto que a ciência é a responsável pela coleta, pela análise e pela justificativa da inserção dessas informações, assim como pelos cálculos técnicos necessários para que a representação tenha o mínimo possível de distorções do real. Da Cartografia, como ciência, para o mapa, como objeto resultante de pesquisas, Almeida (2003, p. 13) diz que “para os cartógrafos, o mapa é uma representação da superfície da Terra, conservando com ela, relações matematicamente definidas de redução, localização e de projeção no plano”, ou seja, o mapa é a representação gráfica de uma área ou de toda a superfície terrestre sobre uma superfície plana e reduzida. É a representação bidimensional - que considera apenas a largura e o comprimento - de elementos tridimensionais - que possuem largura, comprimento e altura. Passar um elemento tridimensional para uma representação bidimensional é uma tarefa tão difícil para o desenhista quanto para o leitor do desenho. A princípio, há que se considerar que as pessoas em geral apresentam dificuldades para ver um mesmo objeto sob diferentes pontos de vista, diferentes ângulos. A situação é ainda pior quando o objeto é bem maior que o nosso corpo, como um prédio ou uma montanha, e temos que imaginá-lo visto de cima, ou seja, em ângulo vertical. Só quem reside ou trabalha nos andares mais altos dos edifícios, costuma viajar de avião ou tem a curiosidade de ficar olhando fotografias aéreas é que tem essa realidade como parte do seu dia-a-dia. Dessa forma, é compreensível que as pessoas não consigam entender os mapas logo de início, uma vez que eles usam o ponto de vista vertical no trabalho de representar o espaço. Com esse enfoque, Oliveira (1978, p. 25) escreve que “o espaço convencionalmente representado no mapa é contínuo, isotrópico e bidimensional, mas o homem realmente não se movimenta num espaço com essas propriedades. O espaço humano é descontínuo, ansiotrópico e tridimensional, e sofre mudanças em termos, principalmente, de tempo e custo”. Em segundo lugar, é necessário que se tenha um mínimo de conhecimentos sobre orientação espacial, escala e simbologia para que se compreenda como uma grande porção territorial pode estar desenhada em um espaço tão pequeno - como uma folha de sulfite, uma placa rochosa, uma tábua de madeira, etc. - sem que se perca as informações essenciais do real. Esses conhecimentos envolvem parâmetros e convenções padronizados a nível internacional para que, em qualquer parte do planeta, possamos extrair a mesma interpretação. Como parte integrante do espaço real, nós, seres humanos, cotidianamente usamos os conceitos de lateralidade para indicar a disposição dos elementos. Contudo, a orientação espacial no plano bidimensional exige que esses termos sejam substituídos pelos pontos cardeais, como diz Oliveira: 58 [...] o mapa, como superfície plana, é bidimensional, não apresentando as três direções de alguns sólidos geométricos. Assim, as direções espaciais direita- esquerda, frente-atrás, e cima-baixo, que podem ser definidas num sólido, são determinadas em um plano, em uma folha de papel, como duas direções: direita- esquerda e acima-abaixo, correspondendo no mapa a leste-oeste e norte-sul, respectivamente (1978, p. 36). Considerando esta orientação, vale dizer que a disposição do mapa, diante dos nossos olhos, é fundamental para que não percamos o sentido da localização espacial. Para tanto, ressaltamos mais uma vez que as convenções cartográficas determinaram regras a fim de que a confecção e a leitura dos mapas sejam padronizadas. Para orientar-se no espaço cartográfico, a folha ocupada pelo mapa, não importando o tipo de material, exige uma transformação das três dimensões do espaço físico em duas, e a escolha das direções nessa superfície plana. Atualmente, a direita da folha do mapa corresponde, por convenção, ao leste, e a esquerda ao oeste. Estas relações corporais são baseadas no ponto de vista do “map maker” e do “map user”. O norte corresponde à parte de cima e o sul à de baixo; quando isso não ocorre, haverá sempre no mapa uma seta indicando a direção norte (OLIVEIRA, 1978, p. 63). Com relação à representação da área real, é a escala que determina a variação de proporcionalidade, ou seja, quantas vezes um elemento foi reduzido, e as distorções são evitadas ou minimizadas graças a alguns cálculos matemáticos que a compõem. É por isso que a escala é o primeiro fator que temos que considerar quando vamos desenhar ou quando vamos consultar um mapa. Quando informações do plano real desaparecem ou são generalizadas no mapa, dizemos que a escala é pequena. No caso de haver riqueza de detalhes no mapa, cuja área representada é pequena, dizemos que a escalaé grande. A Cartografia possui duas formas diferentes de representar a escala: a numérica, composta só por números, e a gráfica, composta por números sob ou sobre uma barra métrica. Quanto à simbologia, formada pelos signos e pelas cores, podemos dizer que é a parte que dá vida ao mapa, que o faz parecer uma obra artística, encantando até mesmo quem não consegue fazer sua leitura, mas também que descreve um relatório de informações para os leitores da cartografia. Simielli (1999, p. 100) coloca que o ponto, a linha e a área são os elementos que constituem o que ela chama de alfabeto cartográfico. É a partir destes elementos que, no plano bidimensional, podemos representar, por exemplo, a montanha (ponto), a estrada (linha) e a lagoa (área). Daí acrescentamos as cores e outras variáveis visuais da semiologia gráfica (tamanho, valor, forma, orientação, granulação e cor) que são esclarecidos pela legenda. Logo, a legenda é a responsável pela comunicação das informações do mapa para o seu leitor. Sem ela, cada leitor pode extrair uma interpretação diferente da representação. É a legenda que coloca, por escrito, o significado de cada símbolo usado no mapa. Fazendo uma alusão à comunicação humana, podemos dizer que, sem a legenda, o mapa fica mudo, como se sua expressão se baseasse apenas em mímicas. O título é outro elemento que não pode ser desprezado, pois é ele que mostra o objetivo do mapa em questão, a que assunto ele se refere. Para que o objetivo seja visto instantaneamente, a melhor posição para o título é na borda de cima do mapa. Não há como fugir do fato de que muitas pessoas têm dificuldades para extrair informações do mapa, simplesmente porque não conseguem compreender que ele retrata informações e eventos que influenciam a sua própria vida. Embora ele esteja presente diariamente na vida dessas 59 pessoas é como se a sua ausência não fizesse falta. Elas nem tomam consciência de que sair do seu quarto e ir para o banheiro já exige um mapa mental para que elas não errem o caminho. Depois há situações como: a localização dos eventos quando da previsão do tempo, a rota rodoviária para uma viagem, a localização de ruas pelo mapa da cidade, etc. Isto só no que se refere a dados essencialmente geográficos, pois várias outras áreas do conhecimento também se utilizam desse recurso. O mapa tem sido e será, sempre, um instrumento básico para geógrafos, historiadores, ecólogos, cartógrafos, planejadores, professores e para todos aqueles que estudam e se preocupam com a representação da superfície da Terra, em suas partes ou em sua totalidade. Toda ciência tem seu avanço por meio de pesquisas e todo pesquisador científico teve, um dia, que começar a adquirir conhecimento e habilidades na escola. Quão eficaz é a bagagem que é colocada na mochila e na mente do aluno desde a sua mais tenra infância! Portanto, já que a cartografia faz parte da vida de todo ser humano, seria muito interessante que todos nós aprendêssemos a decifrá-la ainda enquanto pequenos. A CARTOGRAFIA NA VIDA DO ALUNO Desde bebê, o ser humano se interessa em conhecer e usufruir do espaço que ele ocupa, seja para suprir suas necessidades básicas, seja para se divertir. Os primeiros rabiscos feitos numa folha de papel, mesmo que ilegíveis pelos adultos, já retratam os elementos que a criança confere mais estima e que lhe estão mais próximos: a família, os animais de estimação, o carro do papai, o quintal da casa, etc. No avanço dos traçados, conforme vai aumentando a idade, vão surgindo espaços maiores e com mais detalhes. Enfim, a criança sente necessidade de experimentar e conhecer bem seu espaço geográfico e o que ele contém. Portanto, seus desenhos já são uma representação gráfica do espaço, ou seja, a cartografia e a geografia se manifestam juntas, desde cedo, no desenvolvimento mental infantil. Os próprios jogos ou brincadeiras infantis também projetam essa evolução, que deve ser trabalhada desde as primeiras séries escolares do ser humano, para que este compreenda a construção do seu meio e possa se adaptar a ele, gradativamente. Os jogos infantis, como: amarelinha, roda, bola, esconde-esconde, casinha, ou ‘cavernas’, são universais. Todos estes brinquedos são atividades que exigem uma série de requisitos espaciais: representação gráfica concreta ou imaginária; local- ização absoluta ou relativa; orientação em termos de distância e direção; estabe- lecimento de relações espaciais, tanto topológicas como projetivas ou euclidianas; enfim, um processo e um padrão espacial de comportamento. A nosso ver, todos esses brinquedos e outros mais que aqui não mencionamos, mas que poderiam também ser incluídos, revelam preocupações em traçar linhas, determinar pontos e limitar áreas (OLIVEIRA, 1978, p. 40). Em seu desenvolvimento cognitivo, a criança vai aprendendo a situar objetos de acordo com referenciais. Inconscientemente, ela está adquirindo noções do sistema de coordenadas (distâncias entre os objetos) e perspectivas (pontos de vista, como longe/perto, em cima/embaixo, direita/esquerda, frente/atrás). Portanto, é fundamental que as primeiras noções de cartografia sejam levadas à criança, ainda enquanto pequena, para que ela possa compreender a geografia que lhe é passada na escola. Afinal, ensinar o aluno a visualizar o espaço geográfico sob vários ângulos, escalas e interpretações é um grande objetivo da Geografia. 60 Quanto ao como ensinar sobre o mapa, os objetivos não serão completamente alcançados se o aluno - agora considerando também o adulto - não participar ativamente do processo de construção de um mapa. Só entendemos plenamente aquilo que experenciamos. Em outras palavras, para que o aluno se torne um eficaz decodificador de mapas, tem, antes, que aprender a codificá-los. É no processo de coleta e de uso das informações que se desenvolve o raciocínio sobre a confecção do mapa. A partir daí, a escola estará conduzindo o aluno à reflexão sobre os fenômenos que acontecem a sua volta, uma vez que é função da escola preparar o aluno para compreender a organização espacial da sociedade, o que exige o conhecimento de técnicas e instrumentos necessários à representação gráfica dessa organização (ALMEIDA, 2003, p. 17). Cabe esclarecer que os fenômenos que se manifestam diante dos olhos do aluno fazem parte da sua vida diária e pertencem ao seu espaço vivido. Nas palavras de Almeida e Passini (1994, p. 26), “o espaço vivido refere-se ao espaço físico, vivenciado através do movimento e do deslocamento”. Além de fatos corriqueiros ou daqueles que surgem espontaneamente, no ir e vir, dentro desse espaço vivido, as novas descobertas também são desencadeadas pela curiosidade. Mediante o conjunto de todas essas experiências que vão se acumulando na vida do indivíduo, ele vai tomando consciência do que é o meio físico e social. Enquanto criança, os próprios jogos e brincadeiras realizados já manifestam algo de cunho cartográfico. O espaço vivido, como espaço da experiência, do manipulado, movimentado, deslo- cado, é apreendido quase que espontaneamente pela criança através de suas brin- cadeiras, interesses e exploração do próprio corpo e espaço que a rodeia, fazendo com que em sua ação natural construa o espaço da representação, que será iniciado na preocupação de imitar o real (TUMA, 2004, p. 41). Ao compreender o funcionamento e o uso desse espaço, sob a ótica da Cartografia, qualquer outro espaço de escala maior será mais facilmente assimilado pelo aluno. Qualquer indivíduo, de qualquer idade, teria dificuldades para ou realizar algo que não lhe tem nada de familiar. Desta forma, conforme os conceitos, elementos e atividades vão sendo mais facilmenteassimilados pelo aluno, mais apto ele estará para aprender coisas mais complexas, além de que seu próprio interesse para isto será maior. O papel da Geografia, no ensino fundamental e médio, deveria ser o de ensinar ao aluno o entendimento da lógica que influencia na distribuição territorial dos fenômenos. Para isso, faz-se necessário que o discente tenha se apropriado e/ou se aproprie de uma série de noções, habilidades, conceitos, valores, atitudes, conhecimentos e informações, básicos para que o pensamento ocorra ou para que o entendimento e o pensamento sobre o território ocorra. Esse conjunto citado é pré-requisito para que o aluno construa um entendimento geográfico da realidade (SOUZA; KATUTA, 2001, p. 50). Mediante a reflexão e a compreensão do seu espaço, o educando estará mais à vontade para estudar a sua representação. Quanto a espaços ainda não conhecidos, é somente na pré- adolescência (11-12 anos de idade) que o abstrato começa a fazer sentido, mas ainda não é possível que esse estudante consiga relacionar muitas informações diferentes. Então, logicamente que os primeiros mapas a serem construídos pelos alunos devem ter temas motivantes e não conter um número exaustivo de informações. Na etapa da apresentação da Cartografia aos discentes, o essencial é que eles entendam que o mapa, antes de tudo, serve para representar localizações. 61 A ORIENTAÇÃO ESPACIAL Todas as nossas atitudes são comandadas e dependem diretamente da orientação espacial, ou seja, da relação de localização entre os elementos que compõem o espaço. É necessário ter uma noção da distância, da altura ou da profundidade e da posição dos objetos relacionados à tarefa que queremos cumprir no momento. Mesmo para pessoas com deficiências visuais – ou principalmente para estas - tomar consciência da disposição dos elementos é fundamental para elaborar mentalmente o plano de ação antes do primeiro movimento corporal. Movimentar-se no espaço é algo irracional. Não é necessário que o bebê saiba o conceito de lado direito para girar seu corpo e apanhar o brinquedo que está à sua direita. Contudo, a partir do momento em que há uma comunicação entre ele e a mãe, é praticamente impossível deixar de mencionar os termos frente / atrás ou do lado de cá / do lado de lá. É nesse tipo de situação que devem começar a ser introduzidas as palavras direita / esquerda, que dão uma direção muito mais exata do que os do lado de cá / do lado de lá. Sendo assim, é imprescindível que, desde cedo, o ser humano assimile os conceitos de lateralidade: direita / esquerda, frente / atrás, em cima / embaixo. Em primeira instância, o espaço é visto a partir da disposição do corpo do indivíduo em relação ao mesmo, como dizem Almeida e Passini (1994, p. 28), “o esquema corporal é a base cognitiva sobre a qual se delineia a exploração do espaço que depende tanto de funções motoras, quanto da percepção do espaço imediato”. Ao se levantar da cama, logo de manhã, e caminhar para outra parte da casa, o indivíduo vai usando o conhecimento sobre lateralidade para não bater nas paredes e não tomar o rumo errado. Contudo, a localização no espaço é uma prática bastante inconsciente. A própria utilização das referências não é constatada com consciência. Saber que a porta da sala é a terceira à direita é tão mecânico quanto indicar que o açougue fica duas quadras à frente da padaria. Assim se justifica o fato de que, ao pensarmos um trajeto curto que deve ser percorrido, como dentro de um bairro ou de uma cidade, a imagem mental que geralmente se faz é na posição horizontal, marcando lugares e objetos como pontos de referência (uma praça, um prédio de aspectos marcantes ou bem conhecido de todos os moradores do bairro, uma rua principal, um monumento público, dentre outros). Raramente imaginamos um trajeto visto de cima, uma vez que não faz parte do nosso cotidiano ver as paisagens em posição vertical. Daí vem a grande dificuldade de compreendermos a projeção cartográfica, essa transposição do tridimensional para o bidimensional. Neste caso, não basta estabelecer uma relação espacial entre os objetos - é necessário ter também uma visualização vertical dos mesmos. Mais uma vez, o esquema corporal entra em cena, pois a pessoa precisa olhar, de cima, objetos menores que o seu próprio corpo e assimilar a idéia de que o ponto de vista vertical traz um aspecto muito diferente do objeto visto na horizontal. Ao relacionar os aspectos horizontal e vertical de um copo, por exemplo, fica mais fácil entender ambos os aspectos de um edifício. Afinal, quando vistos de cima, a altura praticamente perde o seu valor, uma vez que só serão observados o comprimento e a largura (visão bidimensional). Daí a importância do uso da maquete no estudo da Cartografia. Nesse sentido, o uso de maquetes tem servido como forma inicial de representação, a qual permite discutir questões sobre localização, projeção (perspectiva), proporção (escala) e simbologia. [...] O uso da maquete permite a operação de fazer sua projeção sobre o papel e discutir essa operação do ponto de vista cartográfico, o que envolve: representar em duas dimensões o espaço tridimensional, representar toda 62 a área sob um só ponto de vista e guardar a proporcionalidade entre os elementos representados (ALMEIDA, 2003, p. 18) A maquete nada mais é do que a representação do espaço real em um espaço bastante reduzido. Nessa tarefa, o primeiro problema que surge é a proporção. Os mesmos elementos do real devem estar na representação, evitando ou minimizando deformações, mas isso jamais será possível se não for usada a escala. De acordo com a idade dos confeccionadores da maquete, a proporcionalidade pode ser trabalhada apenas mediante uma noção mental das medidas (tamanho dos elementos e distância entre eles), deixando a exatidão dos cálculos matemáticos para estudantes de idades mais avançadas. Independente da proporcionalidade aplicada, a localização não tem alterações, uma vez que o elemento vizinho, no plano real, será o mesmo vizinho na representação. Em sua vida diária, o ser humano nem toma consciência do quanto usa a proporcionalidade. Ora, as fotografias, a tela do cinema ou da TV, os brinquedos (como carrinhos e bonecas) ou os quadros artísticos de paisagens nos conectam com os elementos de tamanho real, mas nem refletimos sobre isso. Aliás, ao se falar em escala, a correlação entre esta e a proporcionalidade nem é imediata, em nossas mentes. Também usamos a proporcionalidade no momento de inserir um objeto dentro de outro, já vendo de antemão que isso será possível. Além da lateralidade e da proporcionalidade, há ainda a posição e a distância (perspectiva) entre alguns elementos do espaço com relação a outros. Neste sentido, somos remetidos aos pontos de referência. A referência cartográfica é a comparação de distâncias entre um determinado objeto e os demais, que estão inseridos em um mesmo contexto. Por exemplo: o quadro da sala de aula é a referência que determina a posição das carteiras, de primeiras às últimas, de centrais às laterais. Neste caso, a composição da sala (o contexto) tem o quadro como ponto de referência. Para quem está encostado no quadro, a perspectiva fará com que as primeiras carteiras pareçam ser maiores que as últimas, o que não é a verdade. O aparecimento da perspectiva traz uma alteração qualitativa na concepção espacial da criança, que passa a conservar a posição dos objetos e a alterar o ponto de vista até atingir as Relações Espaciais Projetivas. Isso ocorre juntamente com o surgi- mento da noção de coordenadas que situam os objetos uns em relação aos outros e englobam o lugar do objeto e seu deslocamentoem uma mesma estrutura. Isto cor- responde às Relações Espaciais Euclidianas (ALMEIDA; PASSINI, 1994, p. 38). Em outras palavras, a projeção (perspectiva) diz respeito ao ponto de vista sobre uma determinada área, enquanto que a relação espacial euclidiana (coordenadas) situa os elementos da área uns em relação aos outros, sem decodificar a estrutura geral. A partir do momento em que o aluno consegue entender que os objetos não se transformam (não mudam suas características) quando vistos por outros ângulos, ele tem maior facilidade para também relacionar a disposição de dois ou mais elementos entre si, sem precisar do esquema corporal. Aí está o conceito de coordenadas e a compreensão dos pontos de referência no plano real. A partir de então, o aluno consegue elaborar mapas mentais, só imaginando a disposição das carteiras da sala de aula ou até a disposição de alguns imóveis de uma parte do bairro que ele não está vendo no momento. Assim, a maquete é um recurso que contribui muito para que o estudante assimile, com mais facilidade, essas novas informações. Mas, o mais importante quanto ao domínio sobre o espaço é que o uso da maquete projeta o 63 observador fora do contexto espacial no qual ele se insere, permitindo-lhe estabelecer, inicialmente, relações espaciais topológicas entre a sua posição e a dos elementos da maquete (ALMEIDA, 2003, p. 78). Em resumo, a localização no espaço depende de conhecimentos básicos que toda criança vai adquirindo durante o seu crescimento. Como já foi dito antes, diariamente temos experiências cartográficas, mas a consciência sobre a existência e o melhor uso das informações, oferecida pela escola, contribui para que alcancemos metas mais rapidamente. E tudo começa com as relações espaciais topológicas. A localização geográfica constrói-se à medida que o sujeito se torna capaz de esta- belecer relações de vizinhança (o que está ao lado), separação (fronteira), ordem (o que vem antes e depois), envolvimento (o espaço que está em torno) e continuidade (a que recorte do espaço a área considerada corresponde), entre os elementos a serem localizados (ALMEIDA; PASSINI, 1994, p. 33). Seja no plano real, seja na representação, os pontos de referência são fundamentais para a localização. Dessa forma, salientamos o quanto é importante a aprendizagem da lateralidade, da proporcionalidade e da perspectiva. Localizamos um fenômeno relacionando-o à localização de outros fenômenos que se destacam na estrutura geral. Hoje, principalmente onde há maior aglomeração de construções humanas, é comum tomarmos uma loja, uma praça ou uma rua como referência para localizar um lugar. Em áreas naturais usamos montanhas, cursos hidrográficos ou outros acidentes geográficos de grande porte. O ponto de referência, nestes casos, nos orienta para chegarmos a um lugar que está próximo dele. Um edifício, cuja cobertura pode ser vista de qualquer lugar distante, serve de orientação para chegarmos em um certo estabelecimento que fica ao seu lado. Quando o trabalho envolve alunos com idades baixas, segundo Tuma (2004, p. 42), as primeiras relações espaciais assimiladas são as topológicas. Por isso, é a partir dessas relações que se caminha para situações mais complexas. A criança distingue contornos retilíneos dos curvos, corpos fechados (bola), dos abertos (tubo), as fronteiras ou separações, o interior e o exterior, a vizinhança, o envolvimento e a continuidade, mas ainda não estabelece relações espaciais com referenciais precisos de localização, tendo em suas ações e representações espaciais a predominância da análise intuitiva sobre a operatória. Contudo, em lugares planos e uniformes, como um deserto ou um oceano, ou em meio à vegetação fechada, não há qualquer ponto de referência horizontal para nos orientarmos no espaço. Daí a importância das bases naturais primárias – o Sol, a Lua e as estrelas – como era comumente feito no passado. A direção da marcha aparente do Sol no firmamento permitiu ao homem considerar um primeiro eixo estável, com um ponto fixo correspondendo ao lado em que o Sol aparece no horizonte, e outro ao lado em que ele desaparece. A partir desse eixo leste-oeste, não foi difícil estabelecer outro eixo em sentido norte-sul. No hemisfério norte, o homem, durante o período de ausência do Sol – a noite – considerou a posição da estrela Polar, da constelação da Ursa Menor, como um ponto fixo, e a estrela de Magalhães do Cruzeiro do Sul, como ponto fixo no hemisfério meridional (OLIVEIRA, 1978, p. 36). 64 Em qualquer lugar da superfície terrestre podemos utilizar os astros como referência, uma vez que são permanentes no céu e cumprem a mesma trajetória aparente todos os dias. Logo, o parâmetro de orientação mais confiável é aquele que se baseia nos astros: os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais. Os pontos cardeais são assim determinados: • Este (E) - ou leste / nascente / oriente - horizonte onde o Sol nasce; • Oeste (O) - ou poente / ocidente - horizonte onde o Sol se põe; • Norte (N) - ou setentrional / boreal -horizonte perpendicular ao eixo leste-oeste, onde está o pólo magnético da Terra (não confundindo com o pólo geográfico, que é o que marca com mais exatidão o Norte do planeta); • Sul (S) - ou meridional / austral - horizonte oposto ao Norte. Cabe esclarecer que o termo “Este” tem o mesmo significado que “Leste”, aparecendo ambas as formas na cartografia brasileira. Contudo, destacamos o termo “Este” porque é ele quem empresta a letra inicial (E) para os símbolos dos pontos colaterais, subcolaterais e assim por diante. Em inglês, o termo é “East”, assim como “Oeste” é “West”, cujo símbolo (W) pode aparecer em alguns mapas brasileiros, mas não achamos adequado usá-lo nas escolas de língua portuguesa. Já para os outros pontos cardeais, não há alterações de símbolo, uma vez que o termo “Sul”, em inglês, é “South”, e “Norte” é “North”, ou seja, as iniciais são as mesmas. Os pontos colaterais são os intermediários entre os pontos cardeais: nordeste (NE), sudeste (SE), noroeste (NO), sudoeste (SO). Os pontos subcolaterais são os intermediários dos colaterais. Para nos orientarmos no espaço através dos pontos cardeais, usamos um equipamento chamado bússola, cuja agulha aponta sempre para o pólo magnético da Terra, ou seja, o Norte. Na ausência da bússola, basta encontrar a nascente aparente do Sol ou alguma estrela de referência do hemisfério onde estamos situados. Se, no plano horizontal, o fator “altura” é bastante utilizado como referência, no plano vertical – projeção cartográfica – ele é ocultado. Então, os pontos cardeais e as coordenadas geográficas passam a ter maior valor. Se o aluno já assimilou todos os conceitos referidos até aqui, ao ver um mapa de escala pequena, ele compreenderá mais facilmente que “uma projeção cartográfica é a base para a construção dos mapas, pois ela se constitui numa rede de paralelos e meridianos, sobre a qual os mapas poderão ser desenhados. [...] sendo a Terra uma esfera, esta, ao ser colocada numa folha de papel, deverá adaptar-se à forma plana” (DUARTE, 2002, p. 85). Ao compreender o que são os paralelos e os meridianos, essas linhas imaginárias que formam a rede geográfica e que nos ajudam a localizar fenômenos sobre a superfície da Terra, o estudante terá base para compreender a latitude e a longitude, as quais exigem cálculos matemáticos mais complexos. Os meridianos são linhas que vão de um pólo geográfico da Terra ao outro, formando semicírculos com extremidades convergentes. Os paralelos, por sua vez, são perpendiculares aos meridianos, e suas linhas nunca se encontram. O meridiano-base que determina a separação do planeta em hemisfériosleste e oeste ou oriental e ocidental, assim como a contagem da longitude, é o que passa sobre Greenwich, uma região da cidade de Londres, e o Equador é o paralelo cujo plano é perpendicular ao eixo da Terra e está eqüidistante dos pólos geográficos, dividindo o globo terrestre em dois hemisférios: norte e sul, ou setentrional e meridional. Seja pelo esquema corporal, seja pela projeção, tendo todos esses conceitos bem assimilados e uma rota bem traçada, qualquer pessoa, situada em qualquer lugar do planeta, pode se localizar no espaço para sair de um ponto e rumar para seu destino, sem se perder. No entanto, 65 com um mapa (a projeção) na mão, a trajetória se torna bem mais fácil de ser realizada do que apenas com o esquema corporal. A ALFABETIZAÇÃO CARTOGRÁFICA Assim como acontece na escrita, a descoberta dos significados que existem no mapa iluminam e encantam a mente dos alunos. Cada vez que o estudante descobre algo novo, seja através de aulas formais, seja por iniciativa própria, novos horizontes surgem e geram curiosidade para que ele avance mais em suas pesquisas. O aprofundamento do conhecimento vai mostrando que sempre há algo mais a descobrir e que cada nova descoberta vai ficando mais rica e interessante. Nesse sentido, descobrir que o mapa é o desenho de uma área vista de cima já é algo fantástico. É como descobrir que “abóbora” e “azar” começam com a mesma letra, mesmo tendo significados tão diferentes. Daí defendermos a expressão alfabetização cartográfica, que consiste no processo de ensino/aprendizagem para que a pessoa consiga compreender todas as informações contidas no mapa. Segundo Simielli (1999, p. 98), Essa alfabetização supõe o desenvolvimento de noções de: • visão oblíqua e visão vertical; • imagem tridimensional, imagem bidimensional; • alfabeto cartográfico: ponto, linha e área; • construção da noção de legenda; • proporção e escala; • lateralidade / referências, orientação. Ao assimilar esses conceitos, o aluno se sentirá à vontade diante de um mapa, conseguindo extrair informações ou compôr, ele mesmo, outro mapa, baseado nestas e/ou outras informações. O estudante terá consciência do quanto a Cartografia faz parte da sua vida cotidiana e não a verá mais como algo abstrato e preso aos livros escolares. Segundo Francischett (1997a, p. 106), “’cobrar’ a leitura de um mapa é o mesmo que exigir de uma pessoa não alfabetizada, que leia fluentemente, sob pena de ser ridicularizada”. Assim, registramos aqui o grande problema encontrado em muitas salas de aula, cujas paredes possuem mapas dependurados como objetos de arte, sem que alguém tenha a habilidade necessária para utilizá-los. Ler mapas, como se fossem um texto escrito, ao contrário do que parece, não é uma atividade tão simples assim; para que isso ocorra, faz-se necessário aprender, além do alfabeto cartográfico, a leitura propriamente dita, entendida aqui não apenas como mera decodificação de símbolos. As noções, as habilidades e os conceitos de orientação e localização geográficas fazem parte de um conjunto de conhecimentos necessários, juntamente com muitos outros conceitos e informações, para que a leitura de mapas ocorra de forma que o aluno possa construir um entendimento geográfico da realidade (SOUZA; KATUTA, 2001, p. 51). Essa construção de conhecimento requer métodos e técnicas de ensino/aprendizagem que facilitem a compreensão do estudante. Basta apresentar um mapa da cidade habitada pelo mesmo e fazer-lhe algumas perguntas sobre sua localização nesse espaço, para que se possa constatar algumas dificuldades. Mesmo os alunos das faculdades de Geografia apresentam essas dificuldades, principalmente com relação aos cálculos da escala. Grande parte dos universitários 66 conclui o curso sem dominar esses cálculos. Logo, como estes formandos são os professores que entram no mercado de trabalho – as escolas – é compreensível que não ensinem tal conteúdo aos seus alunos. Em outras palavras, é grande o número de professores que contorna as atividades com mapas, justamente porque não sabem trabalhar com eles. Como dizem Souza e Katuta (2001, p. 128), “ensinamos apenas aquilo que sabemos, e é pouco provável que alguém que tenha uma formação cartográfica deficiente ensine a ler mapas”. Aprópria professora Elza Yasuko Passini, numa experiência com alunos de 3ª série do ensino fundamental, desabafou: “Sentia que era um erro encorajar crianças a memorizarem conceitos sem significado” (PASSINI, 2001, p. 173). Para a professora, a melhor forma de ensinar os conceitos é colocando os alunos em contato direto com o real, vendo, tocando e sentindo os elementos do espaço. Esta experiência consistiu em sair com os alunos para alguns trabalhos de campo, o que nem sempre é possível de se realizar, devido a alguns entraves que surgem e barram os planos do professor. Contudo, temos, basicamente, a sala de aula, a área da escola e o seu entorno (os quarteirões vizinhos) para utilizarmos e desenvolvermos boas atividades de cunho cartográfico. O professor é o motivador dos seus alunos. Ele deve gerar a curiosidade e instigar os alunos a refletirem sobre os conceitos e a importância do mapa, como ele é feito, por quem, etc. O professor deve estar preparado sobre o assunto, para cumprir sua tarefa com segurança, confiança e capricho, desmistificando a abstração da cartografia. Como diz Vesentini (apud FRANCISCHETT, 1997a, p. 29), “integrar o educando no meio significa deixá-lo descobrir que pode tornar-se sujeito na história”. Por isso, a cartografia deve ser trazida à sala de aula como algo prazeroso. Segundo Weisz (2002, p. 42), “o que move as crianças é o esforço para acreditar que atrás das coisas que elas têm de aprender existe uma lógica”. Alfabetizar é ensinar uma prática desde os seus princípios mais elementares. É um processo que não pode queimar etapas. E a melhor estratégia para que nenhum princípio seja difícil de entender é partir das experiências diárias. Todo desafio sobre coisas novas gera insegurança. Portanto, ao partir do espaço concreto e presente na vida do aluno, o professor consegue mostrar que a cartografia realmente existe na vida de todas as pessoas e que, para usá- la melhor, vale a pena estudá-la. Além disso, o raciocínio lógico vai se tornando mais rápido. Para dar início à alfabetização cartográfica, o professor deve estar ciente das capacidades que a idade trabalhada possui e a experiência escolar e de vida que os alunos em questão já trazem. Alguns conceitos já podem ter sido assimilados pelos alunos nas séries anteriores, bastando apenas um reforço, enquanto outros ainda precisem ser introduzidos. Contudo, o professor jamais deve desprezar a bagagem que seus alunos têm e o esforço que eles fazem para compreender o conteúdo novo. A cartografia é algo que desperta a curiosidade e o interesse das crianças, quando ensinada sob esses prismas, pois a sua teoria pode ser facilmente vista na prática, quando da “construção” de um mapa. Aliás, aquilo que vemos e ouvimos como algo muito abstrato ao nosso cotidiano, é facilmente esquecido, mas o que fazemos com nossas próprias mãos e com nosso próprio raciocínio tem menor probabilidade de cair no esquecimento. Segundo Almeida e Passini (1994, p.22) a ação para que o aluno possa entender a linguagem cartográfica não está em pintar ou copiar contornos, mas em “fazer o mapa” para que, acompanhando metodologicamente cada passo do processo – reduzir proporcionalmente, estabelecer um sistema de signos ordenados, obedecer a um sistema de projeções para que haja coordenação de pontos de vista (descentralização espacial) -, familiarize-se com a linguagem cartográfica.Segundo Passini (2001, p. 177), tanto a introdução quanto o desenvolvimento do conteúdo devem ser colocados em forma de perguntas, para que os alunos pensem. A dúvida deve ser o 67 “carro condutor” que motiva os alunos a buscarem, eles mesmos, as repostas. O professor não precisa se colocar como o descrevedor do meio. Essa postura que antecede a observação mata a curiosidade e a possibilidade de crescimento do aluno, principalmente o nascimento da atitude investigativa. A autora acrescenta ainda que “aprender o caminho da investigação, certamente é a ferramenta mais preciosa que um aluno pode conquistar para que, com autonomia, trace o seu próprio caminho de pesquisa” Weisz concorda com este pensamento, defendendo que: Quando o professor desconsidera o esforço de seu aluno, dizendo apenas que o que ele fez não está correto, sem lhe devolver uma questão, algo sobre o que pensar, acaba, mesmo sem querer, desvalorizando sua tentativa, seu esforço. E, se cada investimento que o aluno fizer não tiver seu valor reconhecido, ele provavelmente vai acabar pensando duas vezes antes de investir de novo (WEISZ, 2002, p. 40). Visto que os alunos devem trabalhar como pesquisadores e não como repetidores do que lhes é imposto, tomamos a imagem como o primeiro material para a alfabetização cartográfica. Segundo Simielli (1999, p. 97), as crianças já têm um interesse natural pelas imagens, o que justifica gostarem tanto de desenhos animados da TV ou de revistas em quadrinhos. Dessa forma, principalmente no caso de crianças, mas também com adultos, o professor deve trazer para a sala de aula o maior número possível de imagens que possam conectar os conceitos cartográficos às experiências vividas pelos alunos. Recursos como: fotografias, maquetes, jogos, mapas, imagens de satélite ou os próprios desenhos dos alunos já os familiarizam com a linguagem visual. Simielli (1999) também coloca que há duas formas de se trabalhar com a alfabetização cartográfica. Na primeira, o aluno terá contato com produtos cartográficos já elaborados enquanto que, na segunda, os produtos serão feitos por suas próprias mãos. Para cada uma das formas de se trabalhar com a cartografia em sala de aula, os resultados são diferentes: aluno leitor crítico ou mapeador consciente. Ressalta-se que tanto um eixo de trabalho quanto o outro eliminam a possibilidade do aluno copiador de mapa. Em ambos os casos – o leitor crítico e o mapeador consciente – deve-se começar o trabalho com duas ou três variáveis/fenômenos e ir aumentando a complexidade gradativamente, à medida que as atividades vão se tornando fáceis de serem realizadas pelos alunos. A pergunta “onde fica?”, referente à localização, é sempre a primeira que toda pessoa faz diante de um mapa. Por isso, o professor pode partir dela, analisando os motivos que geraram a localização de determinado fato ou objeto. Geralmente, quando os alunos de Geografia são colocados diante de um mapa, não sabem responder mais que isso – onde fica? – porque não foram motivados a pensar na correlação existente entre a localização, os aspectos físicos, a história de ocupação sócio-econômica, etc. da área representada. O aluno leitor crítico terá habilidades para fazer essas correlações e ainda sintetizar as informações extraídas. Contudo, ele terá mais facilidade para ler mapas, cartas e plantas de grande escala, as quais não apresentam muitas ocorrências diferentes. Um produto de escala menor trará um pouco mais de dificuldade para esse aluno, justamente porque apresenta muitas informações juntas. O aluno mapeador consciente segue uma linha de atividades totalmente diferente e mais aprofundada. Ele conhecerá a cartografia a partir da sua “raiz”. Enquanto o aluno leitor crítico trabalha só com o plano bidimensional, o aluno mapeador consciente parte do tridimensional para chegar ao bidimensional. Simielli (1999) propõe a confecção de maquetes (produto tridimensional) e de croquis (produto bidimensional), enquanto Almeida e Passini (1994) propõem o mapeamento 68 do corpo da criança (produto bidimensional), acreditando que a compreensão do espaço tem início no esquema corporal. Na presente pesquisa, abordamos ambas as propostas. Para Simielli (1999), a confecção da maquete leva o aluno a observar os detalhes do espaço real para poder representá-los, dando a possibilidade de o aluno ver as diferentes formas topográficas, as diferentes altitudes de um determinado espaço e, em função disso, poderá trabalhar várias outras informações correlacionando com estas formas topográficas. Na observação do espaço que está sendo representado, o aluno tem a chance de analisar também a ação antrópica sobre esse meio, tendo mais uma variável para correlacionar com as anteriores. Já o croqui, por sua vez, é o esboço de uma área real, representando os elementos sem muita preocupação com as medidas e as distorções. O que importa é mostrar os elementos que estão sendo observados no local, seu grau de importância e a disposição dos mesmos, uns com relação aos outros. Quanto ao uso dos croquis, Simielli (1999, p. 105) coloca que há vários tipos de croquis cartográficos e em termos de ensino o que vai nos interessar é o croqui cujas informações são representadas de forma mais simplificada, estilizada. Os alunos trabalharão, com as informações essenciais, pois eles selecionam essas informações e fazem sua representação por meio de croquis, tendo assim maior liberdade que na carta convencional. No croqui, a consciência do mapeador será formada devido ao trabalho que ele tem de observar o espaço real e selecionar as informações mais importantes, tendo que correlacioná-las e sintetizá-las na representação bidimensional. Desta forma, o trabalho com o croqui desenvolve na criança a sua percepção, a interpretação do espaço, a criatividade e dá impulso ao seu processo de cognição. Simielli (1999, p. 107) ainda coloca que, associado ao croqui, há o mapa mental, que é a imagem do espaço que nós fazemos apenas mentalmente, memorizando os elementos de valor pessoal ou de acordo com nosso nível intelectual. É o mapa mental que “mede” o nível de percepção que uma pessoa possui e a capacidade que ela tem de transpor as informações para o papel. Os mapas mentais nos analisar todos os elementos que são básicos em uma representação cartográfica. Eles nos possibilitam analisar a representação oblíqua e a sua representação vertical, o desenho pictórico ou abstrato, a noção de proporção, a legenda, as referências utilizadas (particular, local, internacional e inexistente) e o título. Quando o professor utiliza o mapa mental como atividade para seus alunos, não pode desprezar o nível intelectual da faixa etária com a qual está trabalhando. Na avaliação, ele deve tomar cuidado tanto com o rigor quanto com um possível descaso com que examina os resultados dos seus alunos. Quanto à proposta de Almeida e Passini (1994, p. 47) para a formação do aluno mapeador consciente, como já foi dito anteriormente, as autoras partem do esquema corporal. Para elas, como o espaço vivido é ocupado primeiramente pela própria criança, as primeiras noções espaciais devem ser ensinadas através do desenho do próprio corpo do aluno. Entendemos, portanto, que através de um trabalho com o esquema corporal, explorando as noções de lateralidade e proporcionalidade através do mapa do próprio corpo, a criança constrói a ligação concreto x representação e se prepara para a utilização dessas noções em outras representações. Certamente, o desenho do corpo é uma transposição do tridimensional para o bidimensional, como é o caso do croqui. Porém, este tipo de exercício favorece mais a assimilação da lateralidade e da proporcionalidadeporque o corpo humano é algo que o aluno vê a todo momento e, ao desenhar a si mesmo, seu ego embute maior interesse na aprendizagem. Segundo Almeida e Passini (1994, 69 p. 30), “a análise do espaço, deve ser iniciada com a criança primeiramente com o corpo, em seguida apenas com os olhos e finalmente com a mente”. Do corpo para o espaço externo – processo de descentralização – o aluno vai deixando de se colocar como “centro do universo”, no qual todos os objetos são vistos a partir da sua própria localização, e passa a relacionar os objetos uns em relação aos outros, até que ele mesmo se identifique como simplesmente um elemento integrante do todo. Segundo Almeida e Passini (1994, p.42). O referencial que, a princípio, é egocentrista – característica da criança que está nos seus primeiros anos escolares - gradualmente vai passando para qualquer outro elemento do espaço analisado, até que o aluno consiga ver esse espaço independente de ele fazer parte do mesmo ou não. No entanto, é somente a partir dos 11 ou 12 anos que a criança será capaz de situar os objetos independentemente de sua própria posição. Por exemplo: a janela está à direita da. Todas essas propostas – maquete, croqui, mapa mental, mapa do corpo – são válidas e eficientes para formar o aluno mapeador consciente, desde que direcionem os conceitos elementares que todo mapa deve conter, como: título, legenda, escala e orientação espacial. Partindo do pressuposto de que deve ser trabalhado o espaço vivido, o primeiro espaço que pode ser representado pelos alunos é a sala de aula, por ser comum a todos eles e ao professor. Seja mediante o desenho da planta, seja pela confecção de uma maquete, o primeiro problema que surge é a proporção (escala). Como representar algo tão grande em um espaço tão pequeno, sem deixar nenhum elemento de fora? Neste momento, o professor levará os estudantes a refletirem sobre o número de vezes que a área deverá ser reduzida. Uma estratégia clara e simples é o uso do barbante, com o qual os alunos medem as paredes da sala, as carteiras, a porta, as janelas, dentre outros elementos ali existentes. Então é só pedir para que dobrem o barbante sempre ao meio até que ele caiba no espaço da folha de papel, em seguida corte nas duas pontas e conte quantas partes de barbante foram obtidas. O número de pedaços de barbante representa o denominador em uma escala, ou seja, o mesmo que o número de vezes que o real precisou ser reduzido para ser representado (ULLER; ARCHELA, 2005, p. 81). Como exemplo, tomamos uma sala que tenha 10 metros de comprimento (1.000 cm) e deva ser representada em um espaço de 20 cm. Usando a fórmula abaixo, onde “D” é a distância real da sala, “d” é a distância que a sala terá na representação e “T” é o denominador da escala, o cálculo efetuado para determinar quantas vezes a sala deverá ser reduzida para caber no papel será a seguinte: Para a sala de 10 metros de comprimento ser representada numa quadrícula de 20 centímetros de comprimento, deve haver uma redução de 50 vezes (o número de pedaços de barbante que teríamos no final). Como já foi dito anteriormente, a escala pode ser representada de duas formas - a numérica e a gráfica – ambas tendo o mesmo valor de uso. Resolvido o problema da escala, partimos para a construção da legenda, que tornará mais claro para os alunos os elementos do alfabeto cartográfico – ponto, linha e área. O trabalho com alunos com idade até 11 anos ainda deve ser baseado no uso das cores; após essa faixa etária, eles já 70 conseguem compreender mapas contendo variáveis visuais monocromáticas. Para os pontos (localização das carteiras da sala de aula, da escola no bairro, das cidades, etc.), os alunos podem começar com desenhos pictográficos e gradualmente ir passando para as formas geométricas, cujos traços são mais parecidos com os elementos reais, quando vistos de cima. Em seguida, deve ser colocada no trabalho a orientação espacial. O aluno observa a posição da área representada com relação aos pontos cardeais e a associa à representação em si, inserindo a indicação em algum canto do trabalho, sendo, de preferência, próximo à legenda e à escala. Quanto ao título, trata-se do objetivo do trabalho. É o primeiro elemento do mapa que os alunos devem pensar, mas que pode ser o último inserido no trabalho, sem nenhum problema. Se a sala de aula for o primeiro espaço representado pelos alunos, quando lhes for proposto o desenho do caminho da casa até a escola, certamente haverá dúvidas, mas vários conceitos cartográficos já terão sido assimilados. Daí em diante, é só aumentar a área de observação e de representação. Seja produzindo um aluno leitor crítico, seja o aluno mapeador consciente, ambos os casos são eficientes para libertar os educandos de uma visão abstrata do mapa. O que importa é que o professor esteja bem familiarizado à técnica escolhida e capacitado para conduzir todo o processo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Saber usar um mapa facilita o dia-a-dia de qualquer pessoa. Além de servir de base para informar a localização do próprio indivíduo, o mapa informa a localização de fenômenos e eventos, assim como a relação existente entre os mesmos – coisas que influem na vida da humanidade, mesmo que indiretamente. Portanto, saber dizer onde se está localizado no espaço é uma habilidade indispensável para todo ser humano. Alguns conseguem desenvolver melhor essa habilidade por conta própria, mas é uma das responsabilidades da escola introduzir todos os estudantes à alfabetização cartográfica, levando-os a conhecer e assimilar os conceitos mais elementares da representação gráfica bidimensional. Na sala de aula ou em conversa informal com estudantes, podemos constatar que eles acham os mapas bonitos, mas não conseguem compreender muito bem como podem ser usados e tudo o que eles podem informar. Os conceitos elementares - título, legenda, escala e orientação espacial – ainda deixam muitas dúvidas na mente dos alunos. A escala, devido à complexidade dos cálculos matemáticos, continua sendo o maior “vilão” para que alguns professores contornem ou apresentem superficialmente o estudo do mapa na sala de aula. Neste artigo não nos atemos à escala, mas sabemos que há muitas pesquisas já realizadas sobre o assunto. A busca de material ou de alguém que possa ajudar a compreender tal conteúdo pode romper a tendência de os estudantes de então perpetuarem a ignorância de seus professores em algo que parece ser de pouca importância. Ora, um mapa sem escala deixa de ser confiável quando a informação mais solicitada no momento é sobre dimensões e distâncias. Em resumo, nenhum elemento do mapa pode ser desprezado quando o assunto é alfabetizar cartograficamente. Com esse artigo, esperamos ter contribuído para que dúvidas freqüentes de alguns professores possam ser sanadas. Acreditamos que, sem a teoria, a prática não gera resultados satisfatórios. Se o nosso trabalho atingiu o objetivo de participar do crescimento do professor, podemos dizer que estamos realizados. 71 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Rosângela Doin. Do desenho ao mapa: iniciação cartográfica na escola. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2003. – (Caminhos da Geografia) ALMEIDA, Rosângela Doin; PASSINI, Elza Yasuko. O espaço geográfico: ensino e representação. 5. ed. São Paulo: Contexto, 1994. – (Repensando o ensino) ARCHELA, Rosely Sampaio. Análise da cartografia brasileira – Bibliografia da cartografia na geografia no período de 1935-1997. 2000. Tese (Doutorado em Geografia Física) – Universidade de São Paulo, São Paulo. DUARTE, Paulo Araújo. Fundamentos de Cartografia. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2002. FRANCISCHETT,Mafalda Nesi. A Cartografia no ensino da Geografia: construindo os caminhos do cotidiano. 1997a. 148 p. Dissertação (Mestrado em Educação) - UNICENTRO/UNICAMP, Guarapuava. FRANCISCHETT, Mafalda Nesi. A Cartografia como um sistema de signos. In: Faz Ciência: Revista de Ciências Humanas, Fundação Faculdade de Ciências Humanas de Francisco Beltrão, v. 1, n. 1, p. 67-74, 1997b. OLIVEIRA, Lívia. Estudo metodológico e cognitivo do mapa. São Paulo: IGEOG-USP, 1978. PASSINI, Elza Yasuko. Geografia: ver, tocar, sentir. In: Boletim de Geografia, Universidade Estadual de Maringá, v. 1, n. 1, p. 173-179, 2001. SIMIELLI, Maria Elena Ramos. Cartografia no ensino fundamental e médio. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri (org.). A Geografia na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1999. – (Repensando o ensino). p. 92-108. SOUZA, José Gilberto de; KATUTA, Ângela Massumi. Geografia e conhecimentos cartográficos: A cartografia no movimento de renovação da geografia brasileira e a importância do uso de mapas. São Paulo: Editora UNESP, 2001. TUMA, Magda Madalena Peruzin; SOARES, Maria Lúcia Amorim. Topologia e o ensino de mapas: avaliação da caminhada. In: ASARI, Alice Yatiyo; ANTONELLO, Ideni Terezinha; TSUKAMOTO, Ruth Youko (org.). Múltiplas Geografias: ensino – pesquisa – reflexão, São Paulo: Humanidades, 2004. p. 39-57. ULLER, Adriana Salviato; ARCHELA, Rosely Sampaio. A educação cartográfica na Geografia do ensino fundamental. In: ANTONELLO, Ideni Terezinha; MOURA, Jeani Delgado Paschoal; TSUKAMOTO, Ruth Youko (org.). Múltiplas Geografias: ensino – pesquisa – reflexão, São Paulo: Humanidades, 2005. p. 67-86. WEISZ, Telma. O diálogo entre o ensino e a aprendizagem. São Paulo: Ática, 2002. – (Palavra de Professor) 72 ATIVIDADE A DISTÂNCIA – PARFOR E PTP GEOGRAFIA DO BRASIL E SEU ENSINO 1. No texto da professora Rosangela Doin de Almeida “propósito da questão teórico-metodológica sobre o ensino de geografia” a autora explica a necessidade de promover mudanças no ensino de geografia, para isso, é importante que a mudança no conteúdo da disciplina seja acompanhada também pela mudança na metodologia do ensino, caso contrário, não haverá mudanças significativas na maneira de ensinar geografia. Explique por que é necessário estabelecer mudanças no conteúdo e na metodologia do ensino de geografia para a Educação Infantil e Séries Iniciais? 2. “A apropriação da natureza se dá pelo processo de trabalho, que é o ato social. Portanto, dado que é pelo trabalho social que se estabelece a relação sociedade/natureza, é fundamental o entendimento da sociedade para a natureza, já que esta é apropriada historicamente” (OLIVEIRA, Ariovaldo. Educação e ensino de geografia na realidade brasileira. In: __________ (Org.). Para onde vai o ensino da geografia? São Paulo: Contexto, 1994, p. 143). As imagens abaixo mostram a cidade de Belém, em dois momentos de sua transformação urbana (Início do Século XX e hoje). Assim é possível entender como a sociedade belemense transformou a paisagem urbana em um período de aproximadamente um século. Com base nessas informações e nos conceitos de trabalho, espaço geográfico e tempo, explique as motivações que justificam essas transformações na paisagem urbana. 73 3. A partir da leitura dos fragmentos dos textos abaixo, determine qual é a escola do pensamento geográfico predominante nos mesmos, justifique sua resposta. Texto 01 Cada imagem e idéia sobre o mundo é composta de experiência pessoal, aprendizagem, imaginação e memória. Os lugares em que vivemos, aqueles que visitamos e percorremos, os mundos sobre os quais lemos e vemos em trabalho de arte, e os domínios da imaginação e de cada fantasia, contribuem para as nossas imagens da natureza e do homem. Todos os tipos de experiências, desde os mais estreitamente ligados com o nosso mundo diário até aqueles que parecem remotamente distanciado, vêm juntos compor o nosso quadro individual da realidade. Texto 02 Como são produzidos por sociedades desiguais, os espaços também são desiguais: campo/cidade, regiões metropolitanas/cidades médias/cidades pequenas, etc. Em base territorial, que as sociedades vão transformando e construindo historicamente, também se diferencia quanto ao elemento da natureza e quanto à existência de recursos, que são desigualmente distribuídos. Texto 3 “Campo e cidade, cidade e campo formam uma unidade contraditória. Uma unidade em que as diferenças entre os setores da atividade econômica (a agricultura, a pecuária e outros, em um, e a indústria, o comércio, etc., em outro) vai ser soldada pela presença na cidade do trabalhador bóia- fria do campo. As greves dos trabalhadores do campo são feitas nas cidades.” 74 4. Compreender o conceito de espaço é entender como o homem transforma a natureza por meio do trabalho, produzindo o chamado “espaço geográfico”. Nesse sentido, só se pode falar do espaço como algo dinâmico, indo além de seu conteúdo natural ou físico para questionar como surgiu e por que é o que é, ou seja, ir além das aparências. Fragmento texto acima nos mostra a importância da compreensão do entendimento das transformações no espaço geográfico a partir da ação humana. Portanto, é necessário entender o espaço como processo continuo de transformação pelo trabalho. Logo as crianças desde as séries iniciais deveriam ganhar aptidão para compreender e analisar essas transformações, tornando assim, o ensino da geografia mais significativo para as mesmas. Com base na leitura do texto e nas discussões em sala de aula descreva uma atividade que poderia contribuir para a percepção das transformações do espaço geográfico por uma criança na escola