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ESPAÇO CIENTÍFICO Revista do CEUL de Santarém Vol. 14 – Nº2 – 2013 ISSN 1518-5044 ESPAÇO CIENTÍFICO Indexador: Latindex Comissão Editorial Celso Shiguetoshi Tanabe Maria Sheyla Cruz Gama Maria Viviani Escher Antero Comissão Científica Carmen Tereza Velanga – UNIR Damião Pedro Meira Filho – IFPA Felipe Schaedler de Almeida – UFRGS Francisco dos Santos Rocha – CEULM/ULBRA Gilbson Santos Soares – CEULS/IFPA Izabel Alcina Evangelista Soares – CEULS/UEPA José Ricardo Geller – CEULS/OAB Lidiane Nascimento Leão – UFOPA Luiz Fernando Gouveia e Silva – UEPA Maria Lilia Imbiriba Sousa Colares – UFOPA Maria Marlene Escher Furtado – UFOPA Marialina Corrêa Sobrinho – CEULS/IESPES Paula Chistina Figueira Cardoso – USP Robinson Severo – UFOPA Rosângela Maria Lima de Andrade CEULS/ ULBRA/IESPES Sylviane Beck Ribeiro – UNIR Troy Patrick Beldini – UFOPA Wallinhgton de Araujo Gabler – UFOPA Correspondência Av. Sergio Henn, 1787, Bairro Diamantino CEP: 68025-000 – Santarém/PA Fone/Fax: (93) 3524.1055 E-mail: pesquisa.stm@ulbra.br EDITORA DA ULBRA Diretor: Astomiro Romais Coord. de periódicos: Roger Kessler Gomes Capa: Everaldo Manica Ficanha Editoração: Isabel Kubaski PORTAL DE PERIÓDICOS DA ULBRA Gerência: Agostinho Iaqchan Matérias assinadas são de responsabilidade dos autores. Direitos autorais reservados. Citação parcial permitida, com referência à fonte. COMUNIDADE EVANGÉLICA LUTERANA SÃO PAULO Presidente Adilson Ratund Vice-Presidente Jair de Souza Junior Reitor Marcos Fernando Ziemer Pró-Reitor de Planejamento e Administração Romeu Forneck Pró-Reitor Acadêmico Ricardo Willy Rieth Pró-Reitor Adjunto de Ensino Presencial Pedro Antonio González Hernández Pró-Reitor Adjunto de Ensino a Distância Pedro Luiz Pinto da Cunha Pró-Reitor Adjunto de Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação Erwin Francisco Tochtrop Júnior Pró-Reitor Adjunto de Extensão e Assuntos Comunitários Valter Kuchenbecker Capelão Geral Pastor Lucas André Albrecht CENTRO UNIVERSITÁRIO LUTERANO DE SANTARÉM Diretor Geral Ildo Schlender Capelão Rev. Maximiliano Wolfgramm Silva Coordenador de Ensino Celso Shiguetoshi Tanabe Coordenadora de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão Maria Viviani Escher Antero Setor de Processamento Técnico da Biblioteca Martinho Lutero – ULBRA/Canoas E77 Espaço Científico : revista do Centro Universitário Luterano de Santarém / Universidade Luterana do Brasil. – N. 1 (jan./jun. 2000)- . – Canoas : Ed. ULBRA, 2000- . v. ; 27 cm. Semestral. ISSN 1518-5044 1. Pesquisa científica – periódicos. 2. Ciência e tecnologia – periódicos. I. Universidade Luterana do Brasil. II. Instituto Luterano de Ensino Superior de Santarém. CDU 5/6(05) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Sumário 3 Editorial 4 Revestimentos cerâmicos de fachadas e juntas de movimentação: caracterização e prevenção de patologias Amanda Neves Lima, Paulo Henrique Lobo Neves 18 Produzir para transformar: a horticultura como forma de recuperação e profissionalização de condenados Paulo Henrique Dias Barbosa 33 A percepção de alunos do ciclo básico universitário sobre as estratégias de produção de resumo: um estudo de caso em Santarém-PA Paula Cristina Galdino de Oliveira, Maria Sheyla Gama (Orientadora) 43 Mídias tecnológicas na educação: o uso do laptop na Escola Municipal de Ensino Fundamental Irmã Leodgard Gausepohl Lúcia Maria Maia Pimentel, Rosângela Maria Lima de Andrade 65 Aconselhamento pastoral: Apontamentos sobre o uso da “Terapia Breve com foco na Solução” no cuidado de pessoas em estado depressivo Maximiliano Wolfgramm Silva 81 O novo modelo de gestão pública brasileira: uma análise do terceiro setor Izabel Evangelista, Mara Jeane Dantas da Silva Costa 105 Disponibilidade de P no solo e na solução do solo em diferentes tipos de uso na região do planalto santareno no ano de 2012 Renata de Andrade Coelho, Juliano Gallo, Raimundo Cosme de Oliveira Junior, Celso Tanabe, Paulo Henrique Barbosa, Isabel Cristina Tavares Martins, Edson Reis, Gilbson Soares, Daniel Rocha de Oliveira, Ellen Pinon 122 Normas editoriais Editorial O Centro Universitário Luterano de Santarém – CEULS busca com mais um número da Revista Espaço Científico a “qualidade e constância, os caminhos que devem e podem levar ao desenvolvimento regional sustentável, com responsabilidade ambiental e equidade social”. Como Instituição de Ensino Superior entende-se que a dinâmica da investigação deve ser socializada e que estas levem conhecimentos as mais distantes comunidades. Neste sentido a revista oportuniza a comunidade acadêmica e científica apresentar suas pesquisas e revisões em diferentes áreas do conhecimento. Nesta edição o leitor encontra sete artigos que expressam de forma relevante resultados de trabalhos que possam enriquecer as suas leituras. Sejam bem vindos e convidados para apresentar seus relatórios de pesquisa neste espaço aberto à publicação. Comissão Editorial Espaço Científico Santarém v.15, n.2 p.4-17 2014 Revestimentos cerâmicos de fachadas e juntas de movimentação: caracterização e prevenção de patologias Amanda Neves Lima Paulo Henrique Lobo Neves RESUMO Ao longo dos tempos, o revestimento cerâmico tornou-se mais que um item de decoração ou acabamento. Com novas tecnologias aplicadas à técnica milenar da produção da cerâmica, obteve- se um elemento que passou a ser, na maioria das vezes, indispensável na construção civil. A alta resistência às mais diversas condições ambientais, tem sido uma das principais razões pela qual os edifícios têm utilizado este tipo de material. Apesar das inúmeras qualidades que o uso do sistema de revestimento cerâmico de fachadas pode apresentar, a incidência das manifestações patológicas tem sido cada vez mais comum, onerando os custos até mesmo em edifícios recentes. Estas ocorrências preocupam os construtores e as grandes empresas de fabricação de cerâmica. Neste trabalho são apresentadas ações que podem eliminar ou ao menos minimizar a incidência desses problemas, os quais exigem uma adequada tecnologia de produção que resulte em um revestimento com maior capacidade de absorver deformações, o que vem sendo obtido principalmente pelo emprego de materiais mais adequados e de detalhes construtivos, tais como juntas de movimentação e telas de reforço. Palavras-chave: Revestimentos cerâmicos. Fachadas. Patologias. Juntas de Movimentação. ABSTRACT Throughout the ages, the ceramic coating has become more than a decorative item or finish. With new technologies applied to the ancient technique of ceramics production, we obtained a factor which has become, in most cases, indispensable in construction. The high resistance to various environmental conditions, has been one of the main reasons why the buildings have used this type of material. Despite numerous qualities that the use of ceramic tile façade system can provide, the incidence of pathological manifestations have been increasingly common , burdening costs even in newer buildings. These occurrences concern to builders and major companies manufacturing ceramic. In this work actions that can eliminate or at least minimize the incidence of these problems requires adequate production technology that results in a coating with a higher capacity to absorb deformation , which has been achieved mainly by the use of suitable materials and construction details are presented such as movement joints and screens reinforcements . Keywords: Ceramic Coatings. Facades. Pathologies. Together Movement. Amanda Neves Lima é Especialista e Engenheira Civil. Paulo Henrique Lobo Neves é Engenheiro Civil, IFPA, Professor do CEULS ULBRA. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 5 1 INTRODUÇÃO O desempenho do sistema de revestimento cerâmico de fachadade um empreendimento depende da relação de todos os materiais e suas técnicas de aplicação específica para aquela situação de projeto. Todavia, a NBR 13529 diz que o sistema de revestimento é o “conjunto formado por revestimento de argamassa e acabamento decorativo, compatível com a natureza da base, condições de exposição, acabamento final e desempenho, previstos em projeto.” Conforme Ribeiro e Barros (2010), o revestimento de fachada complementa as funções da vedação vertical, da qual faz parte, juntamente com as alvenarias e as esquadrias. Além destas, também desempenha funções de proteção contra a ação de agentes de deterioração, contribuindo para a estanqueidade da água e para o isolamento termoacústico; e constitui o acabamento, exercendo funções estéticas, de durabilidade e de valorização econômica. Para garantir a eficiência dos revestimentos cerâmicos, é necessário considerar-se vários fatores: a apropriação dos materiais ao tipo de uso, a qualidade e o planejamento dos serviços de assentamento e a manutenção após a aplicação de acordo com o uso a que se destina (REBELO, 2010). O objetivo deste trabalho é analisar a vantagem do uso dos revestimentos cerâmicos, que apresentam grande durabilidade e menor necessidade de manutenção e identificar as patologias associadas às fachadas, principalmente quando estes revestimentos põem em risco a vida de pessoas, por exemplo, no caso de descolamentos de placas. 2 METODOLOGIA Este estudo está fundamentado em trabalhos publicados disponíveis sobre o assunto, que enfocam o uso dos revestimentos cerâmicos nas fachadas das edificações e os cuidados para as possíveis ocorrências patológicas, assim como as ações para minimizar tais problemas. 3 REVESTIMENTOS CERÂMICOS DE FACHADAS 3.1 Origem e características da matéria-prima A indústria cerâmica possui um contexto histórico milenar, em vista da facilidade da extração da matéria-prima (argila). Desde a antiguidade, o homem utiliza a argila para confecção de potes, tendo descoberto que o aquecimento tornava rígida essa argila, originando o metódo do cozimento, utilizado até hoje nas indústrias cerâmicas. Espaço Científico v.15, n.2, 20146 O revestimento cerâmico também vem sendo utilizado há muitos séculos para revestir paredes e pisos. Utilizado apenas pela nobreza, os antigos artesãos ceramistas fabricavam as placas para decorar os grandes palácios e construções nobres. Segundo a ABCERAM (Associação Brasileira de Cerâmica), a abundância de matérias-primas naturais, fontes alternativas de energia e disponibilidade de tecnologias práticas embutidas nos equipamentos industriais, fizeram com que as indústrias cerâmicas brasileiras evoluíssem rapidamente. As placas cerâmicas são obtidas basicamente da moldagem, secagem e queima da argila ou alguma mistura contendo argila. Além disso, em seu processo de fabricação é feita a esmaltação e sua decoração. 3.2 Funções e classificação dos revestimentos As principais vantagens de utilização de revestimentos cerâmicos em fachadas são: a durabilidade do material; facilidade de limpeza e manutenção; qualidade do acabamento final; proteção dos elementos de vedação; isolamento térmico e acústico; estanqueidade à água e aos gases; segurança ao fogo; e aspecto visual e estético agradável. A qualidade e durabilidade de uma superfície com revestimento cerâmico está fundamentada em conceitos relacionados ao planejamento e escolha do revestimento; qualidade do material de assentamento; qualidade da construção e do assentamento e manutenção. É fundamental que o consumidor esteja ciente de que a absorção de água, bem como as resistências mecânicas (impacto, compressão, flexão), a abrasão, a gretagem, os choques térmicos, o frio intenso e a formação de manchas por ataques químicos variam de forma acentuada, de um produto para outro. É preciso ter especial cuidado com a escolha da cerâmica a ser aplicada, especialmente no que se refere à absorção de água. Observado o seguinte quadro, os produtos cerâmicos estão enquadrados em cinco grupos principais. TABELA 1 – Classificação dos Revestimentos Cerâmicos quanto à absorção de água. PRODUTO ABSORÇÃO DE ÁGUA ( % ) CARACTERÍSTICA DA ABSORÇÃO PORCELANATO 0 a 0,5 quase nula GRÉS (“PASTILHA”) 0,5 a 3 baixa SEMI - GRÉS 3 a 6 média SEMI - POROSO 6 a 10 média alta POROSO 10 a 20 alta Fonte: NOGUEIRA, Sylvio. 2010. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 7 O ladrilho porcelânico de grés ou pastilha e o porcelanato apresentam-se como os melhores produtos, sob o ponto de vista da absorção de água, obviamente que os demais quesitos, citados na tabela, devam ser considerados, atenta e cuidadosamente, na escolha final do produto. As funções dos revestimentos cerâmicos de fachadas são proteger a edificação das ações de chuvas, sol e vento, preservando-se assim sua estrutura, alvenaria, bem como dar um acabamento arquitetônico ao conjunto. A escolha do revestimento cerâmico para fachadas deve ocorrer no projeto arquitetônico da edificação, levando-se em conta vários aspectos da construção e sua localização geográfica. A localização geográfica é um fator importante na hora de escolher o revestimento correto. Se for uma região chuvosa, deverá ser aplicado um revestimento de maior resistência à água, com as características que já foram citadas acima, mesmo que seja em uma região com pouca chuva a escolha deve seguir a norma técnica brasileira NBR 13755/1996. Devem também ter fácil limpeza e não podem perder sua coloração original com a ação da luz solar. O vento também é um importante fator, pois sua ação, levando-se em consideração principalmente em cidades com maior índice de poluição, pode causar a oxidação dos revestimentos cerâmicos em maior intensidade, atuando em conjunto com as chuvas. 3.3 Execução de revestimento cerâmico de fachadas No presente estudo, avalia-se os revestimentos aplicados em fachadas, que para maior aproveitamento do uso, deve-se respeitar as normas de colocação. O revestimento cerâmico deve possuir juntas especiais, segundo a NBR-13755, também chamadas juntas de movimentação ou de dessolidarização. Para Nogueira (2010), tais juntas devem ser abertas, no corpo da parede, até o plano dos tijolos, formando painéis de apropriadas dimensões, de acordo com projeto específico ou catálogo do fabricante. O objetivo fundamental do emprego de juntas no sistema de revestimento cerâmico de fachada está relacionado principalmente ao aumento da capacidade de absorver deformações. Porém, além dos quesitos funcionais, este elemento necessariamente precisa ser estanque e manter a integridade física do revestimento, contribuindo assim para a manutenção da estética ao longo da vida útil do edifício. Espaço Científico v.15, n.2, 20148 FIGURA 1 – Representação esquemática do sistema de revestimento cerâmico. (1) representa o substrato; (2) é a argamassa de preparo do substrato, usualmente denominada chapisco; (3) corresponde à argamassa de regularização, denominada emboço; (4) é a argamassa colante industrializada de fixação das placas cerâmicas e (5) corresponde ao conjunto formado pelas peças cerâmicas e a argamassa de preenchimento das juntas de assentamento. Fonte: Mansura, A. P.; Nascimento, O. L.; Mansura, H. S., 2012. p.19. O assentamento deverá ser efetuado com argamassa pré-fabricada, do tipo colante, para superfícies externas, observando-se, com extremo rigor, as instruções do fabricante, inclusive as condições climáticas durante o trabalho, quantidades de massa em função da velocidade de aplicação, formação de película, ferramental próprio, tempos de cura, etc. Os rejuntes, entre as peças, também devem ser pré-fabricados, de alta adesividade e aditivados com polímeros, para que possam exercer sua função em cada painel formado pelas juntas, sem sofreresmagamento. Após completa cura dos assentamentos e rejuntes, as superfícies devem ser hidrofugadas, ou seja, devem receber vedação ou impermeabilização especial, incolor Espaço Científico v.15, n.2, 2014 9 e penetrante, com preferência para produtos à base de silano ou siloxano. Vale advertir contra o uso de repelentes superficiais siliconados, formadores de película, pois estes são fotossensíveis e desagregam sob ação do sol, podendo ocasionar, no futuro, graves problemas para as fachadas. Por fim, as juntas de movimentação devem ser limpas, desengorduradas, usando-se metiletilcetona e evitando-se o thinner; e vedadas com mástique de silicone, pigmentado, de elasticidade permanente. Além das etapas, anteriormente descritas, devem ser observados, na contratação do colocador, os seguintes requisitos: a) firma especializada, com fartas referências de clientes anteriores; b) responsável técnico (CREA), integrando o contrato social da empresa; c) adequados equipamentos de proteção individual e de segurança; d) comprovação de seguros (vida e danos), para empregados e terceiros; e) transcrição, no corpo do contrato, de todas as especificações, tanto de produtos como dos procedimentos técnicos anteriormente descritos. 4 PATOLOGIAS As patologias dos revestimentos cerâmicos são anomalias que podem surgir logo após o assentamento, ou após algum tempo de uso. As anomalias mais comuns são o descolamento e as fissuras. Conforme Chaves (2009). Para diminuir o aparecimento desses problemas, deve-se conhecer a origem e identificar esses defeitos. Assim, as patologias são classificadas em: • Congênitas - Originárias na fase de projeto em decorrência do desrespeito às tecnologias normatizadas pela ABNT, de falhas de especificações de material e no detalhamento e especificação inadequada dos revestimentos. • Construtivas - Quando os assentadores não dominam a tecnologia e os responsáveis pela obra não controlam corretamente os procedimentos produtivos. • Adquiridas - Ocorrem durante a vida útil dos revestimentos, resultam de agressões do meio ambiente, ou decorrentes de falta de manutenção ou manutenção inadequada, ou ainda, de agressões ao revestimento, em função de instalação de outros sistemas nas edificações danificando as placas, rejuntamentos e por via de consequência desencadeando patologias. • Acidentais - Caracterizadas situações não previstas que causem impactos que o revestimento não seja capaz de suportar, tais como incêndio e movimentações estruturais não previstas. Espaço Científico v.15, n.2, 201410 4.1 Principais manifestações patológicas Dentre as principais patologias dos revestimentos cerâmicos de fachadas podem-se destacar os destacamentos de placas; as trincas, gretamento e fissuras; as eflorescências e deterioração das juntas. 4.1.1 Destacamentos Segundo Fontenelle e Moura (2004), os destacamentos são caracterizados pela perda de aderência das placas cerâmicas do substrato ou da argamassa colante, quando as tensões surgidas no revestimento cerâmico ultrapassam a capacidade de aderência das ligações entre a placa cerâmica e argamassa colante e/ou emboço. O primeiro sinal desta patologia é a ocorrência de um som oco nas placas cerâmicas, ou ainda nas áreas em que se observa o estufamento da camada de placas cerâmicas e rejuntes, seguido do destacamento destas áreas, que pode ser imediato ou não. Devido à maior probabilidade de acidentes envolvendo os usuários e os custos para seu reparo, esta patologia é considerada mais séria. Geralmente, estas patologias ocorrem nos primeiros e últimos andares do edifício, devido ao maior nível de tensões observados nestes locais. As principais causas destas manifestações patológicas são: a) ausência de detalhes construtivos em projeto específico, no caso, contravergas e juntas de dessolidarização; b) deformação lenta da estrutura de concreto armado, variações de umidade e de temperatura; c) instabilidade do suporte, devido à acomodação do edifício como um todo; d) utilização da argamassa colante já aberta, após o vencimento delimitado pelo fabricante; e) assentamento sobre superfície contaminada; f) imperícia ou negligência da mão-de-obra na execução e/ou controle dos serviços (assentadores, mestres e engenheiros). Uma outra forma de se evitar a ocorrência deste tipo de patologia, além de corrigir todos os passos mencionados anteriormente, seria evitar a execução dos revestimentos cerâmicos em uma fase da construção em que o suporte ainda esteja recém executado, evitando-se assim as retrações que podem ocasionar tensões não consideradas no projeto do revestimento cerâmico. A recuperação desta patologia é extremamente trabalhosa e, na maior parte das vezes, cara também, já que o reparo localizado nem sempre é suficiente para acabar com o problema, que volta a ocorrer em outras áreas do revestimento cerâmico. Muitas Espaço Científico v.15, n.2, 2014 11 vezes, a solução é a retirada total do revestimento, podendo-se chegar até ao emboço e refazer todas as camadas. 4.1.2 Trincas, gretamento e fissuras Estas patologias aparecem por causa da perda de integridade da superfície da placa cerâmica, que pode ficar limitada a um defeito estético, no caso de gretamento, ou pode evoluir para um destacamento, no caso de trincas (FONTENELLE e MOURA, 2004). As trincas são rupturas da placa cerâmica provocadas por esforços mecânicos, que causam a separação destas placas em várias partes; podem ter aberturas superiores a 1 mm. As fissuras são rompimentos nas placas cerâmicas, com aberturas menores que 1 mm e que não causam a ruptura total das placas. Já o gretamento é uma série de aberturas inferiores a 1 mm e que ocorre na superfície esmaltada dos revestimentos cerâmicos, dando a ele uma aparência de teia de aranha. Estas patologias também ocorrem normalmente nos primeiros e últimos andares do edifício, geralmente pela falta de especificação de juntas de movimentação e detalhes construtivos adequados. A inclusão destes elementos no projeto de revestimento e o uso das argamassas bem dosadas ou colantes podem evitar o aparecimento destes problemas. O Quadro 1, a seguir, aponta as principais causas das ocorrências deste tipo de deformação, inclusive suas principais características. QUADRO 1 – Causas das trincas, gretamento e fissuras . Causas das trincas, gretamentos e fissuras Descrição Dilatação e retração das placas cerâmicas Este problema ocorre quando há variação térmica e/ou de umidade (a expansão por umidade é uma característica limitada em 0,6 mm/m pela NBR 13818). Estas variações geram um estado de tensões internas que, quando ultrapassam o limite de resistência da placa cerâmica, causam trincas e fissuras e, quando ultrapassam o limite de resistência da camada de esmalte, causam gretamento. Deformação estrutural excessiva Esta deformação do edifício pode criar tensões na alvenaria que, quando não são completamente absorvidas, podem ser transferidas aos revestimentos. Estes, por sua vez, podem não resistir ao nível de tensões, rompendo -se e, muitas vezes, destacando -se do substrato. Ausência de detalhes construtivos A falta de alguns detalhes construtivos, tais como vergas, contravergas nas aberturas de janelas e portas, pingadeiras nas janelas, platibandas e juntas de movimentação, podem ajudar a dissipar as tensões que chegam até os revestimentos. Espaço Científico v.15, n.2, 201412 Causas das trincas, gretamentos e fissuras Descrição Retração da argamassa de fixação Este problema ocorre quando se usa argamassa de fixação dosada em obra em vez de argamassa colante industrializada. A retração da argamassa causada pela hidratação do cimento podem causar um aperto ou “beliscão” na placa cerâmica que, por estarfirmemente aderente à argamassa, pode tornar a superfície convexa e tracionada, causando gretamento, fissuras ou mesmo trincas nas placas cerâmicas. Fonte: Campante; Baía (2003, apud FONTENELLE; MOURA; 2004, p.8). 4.1.3 Eflorescência Esta manifestação patológica é evidenciada pelo surgimento, na superfície do revestimento, de depósitos cristalinos de cor esbranquiçada, comprometendo a aparência do revestimento. Estes sais em contato com o ar solidificam, causando depósitos. Segundo Fontenelle e Moura (2004), estes depósitos surgem quando os sais solúveis nas placas de cerâmicas, nos componentes da alvenaria, nas argamassas de emboço, de fixação ou de rejuntamento são transportados pela água utilizada na construção ou vinda de infiltrações, através dos poros dos componentes de revestimento (placas cerâmicas não esmaltadas, rejuntes). Em algumas situações, como em ambientes constantemente molhados e com alguns tipos de sais de difícil secagem, estes depósitos apresentam-se como uma exsudação na superfície. Não haverá ocorrência deste problema, quando eliminado qualquer um desses fatores: sais solúveis, presença de água ou porosidade do componente de revestimento. Algumas precauções podem ser tomadas para evitar a eflorescência: a) reduzir o consumo de cimento Portland na argamassa de emboço ou usar cimento com baixo teor de álcalis; b) utilizar placas cerâmicas de boa qualidade, ou seja, queimadas em altas temperaturas, que elimina os sais solúveis de sua composição e a umidade residual; c) garantir o tempo necessário para secagem de todas as camadas anteriores à execução de revestimento cerâmico. Para a remoção dos depósitos nas áreas já comprometidas com a ocorrência deste problema, pode-se recorrer a uma simples lavagem da superfície do revestimento, o que geralmente é suficiente para a eliminação dos depósitos, mas eles podem voltar a ocorrer, principalmente se as condições continuarem propícias. Com o passar do tempo, porém, o problema tende a diminuir, na medida em que os sais forem eliminados. Para Espaço Científico v.15, n.2, 2014 13 Fontenelle e Moura (2004), durante a limpeza do revestimento cerâmico, deve-se evitar o uso de ácido muriático. Caso seja necessário seu uso, fazê-lo em concentrações baixas e em pequena quantidade, enxaguando muito bem a superfície após seu uso. 4.1.4 Deterioração das juntas de assentamento Este problema, apesar de afetar diretamente as argamassas de preenchimento das juntas de assentamento (rejuntes) e de movimentação, compromete o desempenho dos revestimentos cerâmicos como um todo, já que estes componentes são responsáveis pela estanqueidade do revestimento cerâmico e pela capacidade de absorver deformações. Os sinais de que está ocorrendo uma deterioração das juntas são perda de estanqueidade da junta e envelhecimento do material de preenchimento. A perda da estanqueidade pode iniciar-se logo após a sua execução, através de procedimentos de limpeza inadequados. Estes procedimentos de limpeza podem causar deterioração de parte do material aplicado, como ácidos e bases concentrados, que, somados aos ataques de agentes atmosféricos agressivos e/ou solicitações mecânicas por movimentações estruturais, podem causar fissuração ou trincas, bem como infiltração de água. O envelhecimento das juntas entre componentes, por serem preenchidas com materiais à base de cimento, normalmente não representa grandes problemas, já que o cimento é um material de excelente durabilidade, desde que bem executado. Sua deterioração é observada quando na presença de agentes agressivos, como a chuva ácida ou aparecimento de fissuras. Quando estes rejuntes possuem uma quantidade grande de resinas, deve -se considerar que estas são de origem orgânica e podem envelhecer, além de perder a cor, caso sejam responsáveis pela coloração das juntas de assentamento. As juntas de movimentação são preenchidas com selantes à base de poliuretano, polissulfetos, silicone, dentre outros. Estes materiais de origem orgânica apresentam durabilidade variadas, geralmente em torno de 5 anos, embora existam materiais no mercado que possuem garantia de 20 anos. Sua deterioração é causada também por microorganismos, razão pela qual, após o período de garantia, devem ser inspecionados e trocados. As maneiras de se evitar a ocorrência desta patologia estão diretamente ligadas ao controle da execução do rejuntamento ou preenchimento das juntas de movimentação, bem como à escolha de materiais de preenchimento que atendam aos requisitos de projeto. 4.2 As juntas de movimentação – recuperação e prevenção para as patologias Tratando-se de tecnologia da construção, o termo junta tem o conceito além de união, sobretudo, tem o sentido de separação. É com esse sentido que a junta é definida Espaço Científico v.15, n.2, 201414 por Filho Neto (2005, apud RIBEIRO e BARROS, 2010, p.61) como sendo uma “abertura estreita, fenda ou rebaixo que se deixa longitudinalmente entre duas pecas ou elementos construtivos, com a finalidade de separá-los” Segundo Ribeiro e Barros (2010), as juntas constituem-se em elementos construtivos que devem ser dotados de mecanismo de funcionamento e desempenho determinados. Quando considerado seu aspecto funcional, as juntas podem ser consideradas um elemento construtivo presente entre dois outros elementos paralelos, cuja função é proporcionar a união entre estes e o acabamento da sua junção. Ou podem ser concebidas com a função de acomodar os movimentos diferenciais entre os dois elementos paralelos. Nesse caso, são denominadas juntas de movimentação. Em revestimentos aderidos de fachadas, a função principal das juntas de movimentação é minimizar a propagação de esforços neles atuantes e que provêm, geralmente, dos elementos com os quais se conectam (estrutura, parede, revestimento) e do seu comportamento intrínseco diante das ações do meio ambiente (variação de temperatura e umidade, por exemplo). Nesse caso, é função das juntas minimizar as tensões introduzidas no revestimento. O emprego desse detalhe construtivo objetiva evitar patologias, como o aparecimento de fissuras ou até mesmo o destacamento de partes do revestimento. Para Ribeiro e Barros (2010), a constituição de cada tipo de junta de movimentação varia de acordo com sua função no sistema de revestimento cerâmico, e os principais elementos que podem estar presentes na junta são o limitador de profundidade ou a fita isoladora e o selante, os quais, de uma maneira ou de outra, interagem com o substrato. “Pode-se dizer que as superfícies laterais da junta de movimentação, nas quais o selante vai aderir, constituem seu substrato, que é constituído pelas diversas camadas que compõem o sistema de revestimento e podem ser porosas ou não” (RIBEIRO e BARROS, 2010, p.67). Quanto à função, as juntas de movimentação podem ser classificadas em: • Junta de trabalho - interrompe a superfície do revestimento nas regiões em que houver descontinuidades no substrato, com a função principal de acomodar os movimentos da sua base suporte, sobretudo aqueles resultantes da interação vedação-estrutura. • Junta de transição - interrompe as camadas de acabamento e fixação e tem como função principal permitir a transição entre materiais com diferentes características térmicas na fachada. • Junta de contorno - a função é separar as interfaces entre o revestimento cerâmico e outros elementos construtivos adjacentes. • Junta de dessolidarização - a função é dessolidarizar a camada de acabamento da base. Além disso, permite dissipar de tensões pela subdivisão de áreas extensas de revestimentos. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 15 As juntas de movimentação são classificadas, quanto ao seu tratamento, em juntas seladas e juntas pré-formadas. • Juntas seladas - sãopreenchidas por selante em um estado não-curado. Os selantes de poliuretano e de silicone são os mais recomendados para uso em revestimentos cerâmicos de fachadas, sobretudo por serem mais resistentes ao intemperismo e apresentarem melhor capacidade de deformação que os selantes acrílicos. • Juntas pré-formadas - são preenchidas por material celular comprimido dentro da junta. Podem ser feitas com material selante pré-formado extruturado ou com selante pré-formado moldado, sendo a segunda opção bastante utilizada para recuperação de juntamente deterioradas. Como são parte do subsistema de revestimentos cerâmicos de fachadas, as juntas de movimentação devem satisfazer aos requisitos de desempenho relacionados à durabilidade, dissipação de tensões, estanqueidade e estética. Há uma tendência de fazer as juntas de movimentação bem estreitas e de aumentar as distâncias entre elas, a fim de reduzir o impacto visual na arquitetura do edifício. Essa tendência pode causar conflitos na função de acomodação dos movimentos e resistência às tensões. Para Ribeiro e Barros (2010), as falhas mais comuns nas juntas de movimentação são a perda de adesão; falha de coesão; escorrimento; dobramento e intrusão; deformação excessiva; ataque químico; desgaste precoce e desagregação. Existem diversos fatores que podem ocasionar essas falhas nas juntas selantes, como deficiência de projeto e especificação das juntas; escolha incorreta do selante; aplicação sobre o susbstrato contamidado ou úmido; temperatura inadequada para aplicação; defeitos na preparação da superfície ou aplicação do selante; ocorrência de movimentações não previstas, etc. O conhecimento existente sobre tecnologia de produção de juntas de movimentação seladas destaca a importância da realização de um criterioso projeto de revestimentos de fachadas e dimensionamento das juntas. A fase inicial do projeto de revestimentos é constituída por um conjunto de informações sobre a obra objeto do projeto de revestimento. O projetista de revestimentos deve reunir informações que possibilitem o seu entendimento acerca dos fatores que originam movimentos na fachada do edifício e que lhe permita fazer a previsão do comportamento potencial das camadas de revestimento em razão daqueles fatores e, por consequência, o comportamento da própria junta. O dimensionamento de juntas consiste na definição do posicionamento e das dimensões da abertura da junta (largura e profundidade). Recomenda-se que sejam feitas juntas horizontais a cada pavimento, coincidindo com o fundo da laje ou da viga, na região de fixação da alvenaria à estrutura; as juntas verticais também são localizadas preferencialmente nos encontros entre a alvenaria e a estrutura. Tanto as juntas horizontais, quanto as verticais, podem ser empregadas às juntas de trabalho ou Espaço Científico v.15, n.2, 201416 juntas de dessolidarização. A escolha deverá ser feita pelo projetista, que deverá levar em consideração a melhor opção para o edifício em análise. O selante é o material responsável pelo cumprimento da maior parte das funções da junta; assim, sugere-se iniciar a seleção dos materiais pela sua determinação e, em seguida, escolhe-se os demais, que deverão ser compatíveis com ele. Para a escolha do selante, deve-se levar em consideração os catálogos dos materiais, informações de fornecedores, verificação de edificações vizinhas, ensaios laboratoriais, etc. Essas informações ajudam na definição do material a ser utilizado. Após a definição do tipo de selante, o projetista deve fornecer ao executor as informações necessárias para a aquisição e aplicação do selante, as quais consistem em informações gerais sobre os produtos, propriedades necessárias durante a aplicação e propriedades de uso. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do estudo sobre revestimentos de fachada, fica evidenciada a necessidade de uma série de procedimentos que influenciam na durabilidade e desempenho das placas cerâmicas. Mesmo nos edifícios mais recentes, vários tipos de patologias podem ser identificados; isso se deve à corrente falta de qualificação e certificação de mão de obra, além da verificação do material a ser utilizado para o assentamento das placas. Outro motivo para o surgimento de patologias é a falta de projeto específico de fachada. Este trabalho também proporcionou maior conhecimento sobre as principais manifestações patológicas, e ainda enfatizou a prevenção destas patologias, a partir de cuidados específicos para cada anomalia e a introdução de juntas de movimentação, para o melhor desempenho da função dos revestimentos de fachada e diminuição das anomalias. Afirma-se ainda que uma das considerações mais importantes a que se pode chegar após a conclusão deste trabalho é a importância de fiscalização adequada e a presença do responsável técnico especializado na obra, pois são fundamentais para atender a qualidade, o desempenho e o custo final determinado para cada projeto. 6 REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CERÂMICA. Informações Técnicas. Disponível em: <http://www.abeceram.org.br>. Acesso em: 23 abr 2014. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 13817: Placas cerâmicas para revestimento - Classificação. 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Espaço Científico Santarém v.15, n.2 p.18-32 2014 Produzir para transformar: a horticultura como forma de recuperação e profissionalização de condenados PauloHenrique Dias Barbosa RESUMO O sistema carcerário brasileiro passa por um momento muito delicado, resultado de processos de desleixo da administração pública e de pré-conceitos da sociedade.Assim sendo, a laborterapia, sendo ela baseada na agricultura ou não, é uma alternativa para reduzir a situação trágica encontrada nos presídios e outras instituições carcerárias brasileiras, através de atividades que busquem a recuperação, transformação e profissionalização do condenado. O objetivo do projeto de extensão foi trabalhar junto aos reclusos da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) visando à instalação e manejo de uma horta comunitária para o consumo interno, buscando a valorização do recuperando e de seu trabalho, ao mesmo tempo em que se promove a discussão e práticas de educação ambiental. O projeto foi realizado por meio de aulas expositivas, dinâmicas e práticas em campo.Os impactos do trabalho foram positivos, tendo aumentado o número de participantes do projeto ao longo do ano, além do gasto com verduras e alguns legumes diminuir consideravelmente, reduzindo em até 90% o gasto da associação com compra de verduras folhosas. Palavras-chave: Extensão, valorização humana, horta comunitária. ABSTRACT The Brazilian prison system passes through a very delicate moment, there sultof carelessness processes of public administration and the society preconception. Thus, the work therapy, being base donagricultureornot, is an alternative toreducethetragic situation found in other Brazilian prisons and penitentiary institutions through activities that seek recovery, transformation and professionalization of the condemned. The purpose of the extension project was to work with the inmatesof the Association for the Protection and Assistanceto Condemned ( APAC ) for the installation and management of a community garden for domestic consumption , seeking convicts recovery and their work , while that promotes discussion and practice of environmental education . The project was actualized by expository classes, dynamic and practical lessons on the field. The impacts of the project were positive, with increased number of project participants throughout the year, in additiontospending some vegetable sand legumes decreased considerably, reducingupto 90 % of the expense associated with buy ingleafy greens. Keywords: extension, humanenhancement, communityGarden . Paulo Henrique Dias Barbosa é Engenheiro Agrônomo do INCRA/SR30 e Professor Assistente do curso de Agronomia do Centro Universitário Luterano de Santarém – CEULS/ULBRA - Av. Marechal Rondon, 3438, casa B, Santarém, PA. CEP 68040-328. E-mail: phdbarbosa@hotmail.com. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 19 INTRODUÇÃO Comecei a trabalhar na laborterapia da APAC sem muito interesse. Aos poucos fiz um pequeno barco e fui descobrindo como eu era importante, que podia fazer muito mais e melhor. Que podia ser feliz e fazer minha família feliz. As idéias de vingança e de ódio que tinha anteriormente foram cedendo espaço à criatividade e à paz. A serenidade passou a ser meu lema. O trabalho me modificou inteiramente, dando-me o sentido da responsabilidade. Descobri que não tenho vocação para viver atrás das grades e que o trabalho engrandece o ser humano. Tudo isso foi descoberto nas mesas de laborterapia.” (Depoimento de um recuperando – R.D.C – descrito no Livro “Vamos matar o Criminoso?” de Mário Ottoboni) O objetivo de iniciar a discussão do projeto com a passagem acima é mostrar, já de início, a importância da laborterapia na recuperação e transformação do indivíduo. O sistema carcerário brasileiro passa por um momento muito delicado, resultados de processos de desleixo da administração pública e de pré-conceitos da sociedade. Atualmente, segundo o Ministério da Justiça (BRASIL, 2010), estão registradas 473.626 pessoas em cárcere no Brasil, sendo que a capacidade máxima seria de 294.684 pessoas. Esse quadro mostra a total falta de estrutura e de qualidade de vida dentro dos presídios, como superlotação das celas, falta de assistência médica, social, profissional, jurídica e educacional, alimentação e condições higiênicas precárias, entre outros. Assim sendo, a laborterapia, sendo ela baseada na agricultura ou não, é uma alternativa para reduzir a situação trágica encontrada nos presídios e outras instituições carcerárias brasileiras, através de atividades que busquem a recuperação, transformação e profissionalização do condenado (CEZARIO et al., 2009). O trabalho como elemento transformador Seguindo essa linha atuação, o projeto foi realizado junto à Apac, uma entidade civil dedicada à recuperação e reintegração social dos condenados a penas privativas de liberdade, cujo trabalho baseia-se em um método de valorização humana vinculada à evangelização. Procuram também, em uma perspectiva mais extensa, a proteção da sociedade e a promoção da justiça. A Associação é amparada pela Constituição Federal para atuar nos presídios e age como entidade auxiliar na execução e administração do cumprimento das penas nos regimes fechado, semi-aberto e aberto (FBAC, 2010). O objetivo da Apac é promover a humanização das prisões, sem perder de vista a finalidade punitiva da pena. Seu propósito é evitar a reincidência no crime e oferecer alternativas para o condenado se recuperar. A Apac distingue-se do sistema carcerário comum sob vários aspectos, especialmente na co-responsabilidade do condenado em sua recuperação e nas assistências espiritual, médica, psicológica, educacional e jurídica prestadas a ele pela comunidade. Outro importante diferencial do Método, segundo Alvim (2009) é o Espaço Científico v.15, n.2, 201420 estabelecimento de uma disciplina rígida, caracterizada por respeito, ordem, trabalho e o envolvimento da família do sentenciado. O Método Apac é composto por doze elementos, que devem ser adotados de forma conjunta e articulada para obtenção de êxito no trabalho de recuperação dos condenados, sendo o trabalho um deles. No regime fechado tem-se a função de recuperação; no semi-aberto, profissionalização e, regime no aberto, de inserção social (ALVIM, 2009). Perspectivas do Trabalho Prisional no Brasil O trabalho prisional como um todo se insere em um contexto atual e amplamente discutido em diversas áreas do conhecimento científico, principalmente nas ciências sociais aplicadas e na saúde. Porém, as atividades laborterápicas com ênfase na agricultura são pouco discutidas no ambiente prisional, havendo diversas lacunas sobre a influência dessas práticas na recuperação de condenados. Segundo Carvalho e Baldin (2005) o trabalho prisional, da forma que é aplicado hoje na maioria dos centros de detenção do Brasil, não possui um viés que busca a profissionalização e ressocialização do condenado, sendo necessária uma reorganização de todo sistema carcerário brasileiro. De acordo com as autoras, as modificações seriam pautadas a partir de deficiências endógenas, ou seja, os projetos partiriam das necessidades dos presidiários e não as necessidades se enquadrariam nos projetos que são impostos. Junior (2008), em seu trabalho sobre a dignidade da pessoa humana, também enfatiza essa questão da reformulação do sistema, porém tratando de outro problema, que é o trabalho prisional influenciando a perda da dignidade da pessoa. O autor mostra que as condições de reclusão do sistema penitenciário não promovem a recuperação do condenado, além de contribuírem para derrocar ainda mais a pessoa. A dignidade da pessoa humana é um dos direitos a todos os brasileiros descritos na constituição, inclusive àqueles em estado de reclusão (Art.1º, inciso III; art.5º, inciso XLIX, da CF/88). Outro enfoque que se dá ao trabalho prisional pelas atividades de laborterapia, são as atividades com o objetivo de realizar terapias com os condenados visandoà transformação e ressocialização dos mesmos e de profissionalizá-los para atuarem no mercado de trabalho (CEZARIO et al., 2009). Segundo o Código Penal Brasileiro, “A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condição para a harmônica integração social do condenado e do internado.” (artigo 1º da Lei nº 7.210/84 da lei de execução penal) Porém, o que se vê na realidade é muito distante dessa descrição. Segundo Adorno (1993), o sistema penitenciário brasileiro é muito precário e não oferece, quase sempre, qualquer tipo de possibilidade do indivíduo ali inserido se recuperar e se reintegrar à sociedade. Diversos problemas, presentes em grande parte dos presídios brasileiros, podem ser citados como superlotação das celas, falta de assistência médica, social, profissional, jurídica e educacional, alimentação e condições higiênicas precárias, entre outros. Esse emaranhado de problemas gera como consequências fugas, Espaço Científico v.15, n.2, 2014 21 rebeliões, agressões entre os condenados, transmissão de doenças (causadas por más condições de higiene, por insetos e roedores, sexualmente transmissíveis, etc.), tráfico de drogas, exploração humana e outros. Dessa forma, o indivíduo que é sentenciado a uma pena, além de não se recuperar, fica exposto a todas as condições ideais para se “especializar na criminalidade”, visto que não há, praticamente, programas educacionais e profissionalizantes dentro dos presídios, sendo esses uma forma eficiente de diminuir todos esses problemas. Cezario et al. (2009) em seu trabalho sobre a relação entre queixas de cansaço e dores pelos condenados da Penitenciária Estadual de Maringá e as atividades laborterápicas desenvolvidas, chegou à conclusão de que as mesmas tinham relação com as posições ergonômicas durante as atividades, devido à falta de estrutura e espaço para a realização das atividades, e não com as atividades, pois, todos os condenados preferiam participar das mesmas a ficarem ociosos. De acordo com as conclusões desse trabalho e de vários outros relacionados ao tema é perceptível a unanimidade em relação à utilização de estruturas apropriadas ao desenvolvimento adequado das práticas laborterápicas, a fim de proporcionarem os objetivos esperados, ou seja, promover a transformação e profissionalização do indivíduo (COSTA e BRATKOWSKI, 2007). Além de estruturas apropriadas à realização das atividades laborterápicas, são necessários articuladores e interventores que saibam atuar adequadamente no ambiente prisional, buscando a partir das necessidades do grupo a formulação das atividades (CARVALHO E BALDIN, 2005). Porém, Presno Amodeo (2007), em seu trabalho sobre as armadilhas na participação, mostra a complexidade e a multidimensionalidade dos processos participativos, ou seja, como alguns processos ditos participativos podem apresentar como formas de evidenciar e aumentar relações de poder dentro de grupos sociais, sendo muito importante a preparação do agente responsável pelas atividades no grupo. Trabalho prisional, laborterapia e recuperação A utilidade e a produtividade do trabalho, ao longo da história, passaram a ser em grande parte das relações, uma medida de valor financeiro e de troca de serviços (CARVALHO E BALDIN, 2005), porém, aplicado de forma adequada, é uma solução para diminuir os problemas sociais presentes nos presídios e outros centros de detenção de todo o país, efetivando sua função o seu valor social (LEAL, 2004). O trabalho prisional pode ser ou não remunerado, caracterizando-se, geralmente, por atividades internas como limpeza, manutenção de máquinas, organização de documentos e livros, lavagem de roupas, etc, e, em alguns centros de reclusão, são prestados serviços para instituições terceirizadas, como empresas e órgãos públicos (CEZARIO et al., 2009). Segundo Dejours (1992), o trabalho traz ao recluso um sentimento de valorização do seu esforço aumentando sua auto-estima, além de capacitar e habilitar os condenados Espaço Científico v.15, n.2, 201422 em atividades variadas, sendo uma forma a mais de inclusão no mercado profissional. O trabalho como laborterapia (ou terapia ocupacional) pode ser exercitado através do artesanato, música, agricultura e outros trabalhos manuais, sendo muito importante no processo de recuperação do indivíduo, principalmente, quando o mesmo está ainda em regime totalmente fechado. Nesse período, de acordo com Guimarães Júnior (2005) é necessário que o condenado descubra primeiramente seus próprios valores como ser humano, que aumente sua auto-estima e que transforme todos os seus sentimentos negativos, como raiva, vingança e ódio em sentimentos positivos, como compaixão, tolerância e bondade, sendo a laborterapia uma forma de incentivar essa transformação. Após essa fase, o recuperando estará mais preparado para se reintegrar à comunidade local e às atividades que serão desenvolvidas na mesma. Como mencionado anteriormente, a laborterapia é qualquer atividade com o objetivo terapêutico e profissional ao mesmo tempo. Dessa forma, as atividades relacionadas à agricultura também podem desempenhar um papel laborterápico, pois, auxiliam na recuperação e profissionalização do indivíduo, através de atividades de jardinagem, arborização, ornamentação, horticultura entre outros. Essas práticas permitem que o recuperando tenha contato com a terra e com seres vivos, instigando nele mesmo o sentido de ser útil e de valorização da vida (BINKOWSKI; NICOLAUD, 2007) Partindo de todas as premissas anteriores, o objetivo geral desse projeto de extensão foi trabalhar junto aos reclusos da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), visando à instalação e manejo de uma horta comunitária para o consumo interno, buscando a valorização do recuperando e de seu trabalho, ao mesmo tempo em que se promove a discussão e práticas de educação ambiental. Os objetivos específicos foram os seguintes: pesquisar fontes de material didático para a realização das atividades descritas; elaborar, organizar e preparar materiais de simples compreensão, no intuito de facilitar e aumentar o interesse dos recuperandos aos temas abordados; instalar e manejar uma horta comunitária; abordar temas relacionados à sustentabilidade ambiental, como reaproveitamento de resíduos, uso da água, importância da fauna e flora, tendo como aplicação prática as atividades relacionadas à horta comunitária; facilitar as atividades em equipe, através de dinâmicas e atividades de campo que promovam a importância da cooperação e do trabalho em grupo; capacitar os recuperandos, por meio de atividades práticas e palestras, para os manejos de horta, utilizando procedimentos e manejos sustentáveis; articular os resultados obtidos com a sociedade e a comunidade acadêmica através de simpósios, mostras e outros tipos de eventos. MATERIAIS E MÉTODOS Inicialmente foi feita uma pesquisa entre os recuperandos sobre o conhecimento á respeito dos temas propostos pelo projeto. Essa pesquisa foi realizada através Espaço Científico v.15, n.2, 2014 23 de conversas informais e dinâmicas de grupo, suscitando a familiarização entre os estudantes participantes e os recuperandos. A próxima fase consistiu em levantar e organizar os materiais didáticos que foram utilizados nas palestras, atividades práticas, e dinâmicas. A abordagem do tema relacionado à educação ambiental foi feita através de palestras, dinâmicas e aplicação prática durante a realização das atividades na horta comunitária. Os recursos utilizados foram cartilhas informativas, fotografias, gravuras, desenhos, revistas específicas e gerais, livros e jogos. Todo o material didático foi formulado de acordo com grau de escolaridade dos condenados, visando gerar mais interesse dos mesmos pelos temas propostos,bemcomo mais participação do grupo durante as atividades. Os temas inicialmente escolhidos para serem abordados nas palestras e nas dinâmicas, de forma prática na horta comunitária, foram meio ambiente e sociedade; o ser humano como agente de modificação do ambiente; meio ambiente e políticas públicas; agricultura sustentável; recursos hídricos e utilização consciente da água; produção e reutilização do lixo e outros resíduos domésticos para a utilização na agricultura; olericultura (cultivo de hortaliças) básica; produção de adubos orgânicos através de resíduos caseiros; preparação e utilização de caldas; plantio de hortaliças por sementes e mudas; tratos culturais em hortaliças (poda, replantio, transplantio, etc.); irrigação; colheita e pós- colheita de hortaliças. As dinâmicas, que tiveram o cunho de estimular e facilitar o trabalho em grupo e cooperação entre os recuperandos foram feitas sempre em grupos, sejam eles menores ou maiores. As palestras e algumas dinâmicas foram realizadas e discutidas em grupos grandes, pois, essas objetivaram promover a interação e articulação entre todos os indivíduos. Já para as atividades práticas na horta e algumas palestras foram formados grupos menores, no intuito de não ocorrer dispersão e consequentemente favorecer o aprendizado. A abordagem dos temas relacionados especificamente à implantação e manejo de hortas foi feitas em duas etapas: 1) Durante as palestras e dinâmicas como citado anteriormente, onde foram apresentadas, de uma forma simplificada e interativa, informações teóricas sobre as culturas, sua implantação, manejo e cuidados na colheita, pós-colheita, etc.; 2) Atividades práticas (LUZ, 1998): Nessa etapa, os temas abordados nas palestras e dinâmicas foram colocados em prática, além da discussão de outros aspectos que foram abordados somente em campo, como tipos de solos e umidade, interpretação do ambiente, desenvolvimento das plantas (raízes e parte aérea) e outras abordagens que aconteceram durante a realização do projeto . A fase seguinte consistiu em definir quais culturas seriam implantadas na horta comunitária. Inicialmente, foram utilizadas as seguintes variedades (EPAMIG, 2007), que foram modificadas ao longo do projeto por sugestões dos recuperandos: Horta: Cebolinha (Alliumschoenoprasum), Salsa (Petroselinumcrispum), Cenoura (Daucuscarota), Alface (Lactuca sativa), Almeirão (Cichoriumintybus), Couve-flor (Brassicaoleraceavar.botrytis), Couve-comum (Brassicaoleraceavar.acephala), Repolho (Brassicaoleraceavar.capitata), Abóbora (Cucurbita moschata), Beterraba (Beta vulgarisvar. crassa) Espaço Científico v.15, n.2, 201424 As sementes e as mudas foram adquiridas através de compra (utilização da bolsa de extensão) em estabelecimentos especializados e de doações desses próprios estabelecimentos ou de setores relacionados ao tema da Universidade Federal de Viçosa ou de produtores rurais. A próxima fase consistiu em manejar de forma sustentável a produção, com utilização de caldas, adubos de resíduos orgânicos produzidos na própria Apac, tratos culturais, irrigação, colheita, conservação pós-colheita, como já descrito. As fases foram colocadas de forma cronológica somente para efeito de entendimento, porém todas as fases aconteceram simultaneamente ou de forma intercalada. DISCUSSÃO Inicialmente a proposta era trabalhar a implantação de uma horta comunitária através de práticas ambientalmente sustentáveis com todos os recuperandos da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), porém, ao começar o trabalho foram encontrados alguns contratempos (parte intrínseca da extensão) que tiveram que ser contornada. Dentro da Apac existem três modelos de sistema: o regime fechado, onde o recluso não tem contato fora da instituição e é privado de alguns espaços dentro da própria Apac; o regime semi-aberto (extra e intramuros) onde o recluso tem algum contato fora da instituição e liberdade de utilizar todos os espaços dentro da instituição; e o regime aberto, onde o recluso fica na Apac somente à noite e finais de semana. De acordo com a metodologia utilizada na associação, os reclusos de diferentes regimes devem manter o mínimo possível de contato, então o projeto teve que ser realizado somente um grupo, visto que o espaço para a horta era pequeno. Foi definido trabalhar com o regime semi-aberto,pois o mesmo recebe um número bem menor de voluntários do que o fechado e também pelo fato do projeto ter um caráter profissionalizante, sendo, a curto prazo, mais urgente para regime semi-aberto. Como os reclusos do regime semi-aberto poderiam a qualquer momento serem liberados para trabalharem fora da Apac, percebeu-se desinteresse por parte da maioria deles durante as atividades. Além do fato de estarem na expectativa de saírem, eles estavam acompanhando o projeto porque eram obrigados. A regularidade nas aulas também era um problema, pois, alguns reclusos trabalhavam também na marcenaria e na padaria da Associação, ocorrendo, algumas vezes, presença de apenas dois reclusos nas atividades. Em uma reunião com o coordenador da Apac, alguns pontos no projeto foram modificados: 1) Os reclusos do regime fechado que se interessassem pelo projeto poderiam participar das atividades. Para o projeto tomar forma de curso sem perder o seu objetivo, foram utilizados materiais doados pelo Centro de Produções Técnicas Espaço Científico v.15, n.2, 2014 25 (CPT) sobre implantação e cultivo de hortas caseiras e mais alguns materiais à parte. Utilizando esse material, ao final do curso os reclusos receberiam um certificado de conclusão do mesmo (após realização de uma prova); 2) A carga horária presencial na Apac para a realização do curso não poderia exceder seis horas semanais, pois, existem vários outros projetos (voluntários ou não) sendo realizados na Associação que também precisavam ser executados. Como o planejado eram 12 horas semanais, as demais horas foram utilizadas para preparo das atividades e para a leitura de bibliografias pertinentes ao tema. Em relação à estrutura de trabalho, todo material requisitado para a realização da horta (esterco, sementes, pá, enxada, etc.) e das aulas (quadro-negro, giz, DVD, televisão, sala de aula e materiais escolares) foram adquiridos pela própria Apac, através de doações ou de recurso financeiro próprio. O esterco para adubação foi doado pelo Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, as mudas de couve com os funcionários do Campo Experimental do curso de Agronomia (Departamento de Fitotecnia) e os demais produtos foram comprados pela instituição. Foram adquiridas, para a implantação da horta, sementes de Alface, Almeirão, Mostarda, Abóbora, Moranga, Salsa, Cebolinha, Beterraba, Cenoura, Couve-flor e Repolho. Como o espaço da horta não era muito grande as espécies foram cultivadas de forma intercalada, sendo que os recuperandos escolheram quais hortaliças seriam cultivadas primeiro. Após nove semanas que a horta foi implantada,os recuperandos começaram a colher algumas verduras, como alface, almeirão e mostarda, cebolinha e salsa. As hortaliças produzidas foram utilizadas no consumo interno da associação e o pouco excedente foi doado para algumas famílias carentes. Quando se iniciou o projeto não havia nada plantado no terreno destinado a horta, havendo somente muitos entulhos e pedras por toda a área. Ao final do mesmo estavam cultivados dois canteiros com alface, um com couve, um com beterraba e cenoura, um com e mostarda, um com salsinha, cebolinha e azedinho e alguns pés de berinjela. Os impactos do projeto foram positivos, pois, as atividades se iniciaram com poucos recuperandos (cinco) e no final doze estavam participando e mais três estavam interessados em participar. Além disso, o gasto com verduras e alguns legumes diminuiu consideravelmente, pois, a hortaproduzia constantemente, diminuindo em 90% os gastos com folhosas e até 60% com as outras hortaliças. Pouco antes do encerramento do projeto a Apac passou a ter uma barraca na Feira que acontece todo sábado em Viçosa, onde os produtores rurais da região comercializam seus produtos. Nessa barraca seriam vendidos todos os artigos produzidos na padaria (pães recheados, salgadinhos, bolo, biscoitos, etc.), na marcenaria (mesas, cadeiras, enfeites, etc.) e na parte de artesanato (enfeites de madeira, papel, cera, vidro, etc.). Antes de encerrar o projeto alguns recuperandos já estavam cultivando algumas plantas ornamentais e chás e temperos em vasos para comercializarem na barraca também. Espaço Científico v.15, n.2, 201426 CONCLUSÕES Durante a graduação, na maioria das vezes, os alunos são preparados somente para atuar na pesquisa ou só no ensino, sendo que a extensão e a interação entre os três pilares acabam não sendo abordados. Porém, projetos como esse são uma forma se ter essa interação, pois, ao mesmo tempo que ocorre a atuação extensionista, é necessária a interação com a pesquisa científica e com métodos de ensino. Nesse aspecto, o projeto da Apac foi excepcional. O aprendizado foi extremamente amplo, tanto na extensão quanto na pesquisa e no ensino. No entanto, o maior aprendizado desse projeto foi entender um pouco o significado da expressão valorização da pessoa humana. É importante não somente aprender, mas também viver, experiência essa vivenciada na troca de sentimentos, na quebra de preconceitos e na construção de um novo paradigma. O projeto poderia ter continuidade, mas não seria necessário. Em teoria (e logicamente o que deve ser colocado em prática), um projeto de extensão não é um projeto assistencialista, visto que, o objetivo da extensão é auxiliar na construção dos meios e não levar aos fins. Ao longo dos onze meses algumas sementes foram plantadas e é completamente possível acreditar que os conhecimentos sobre a implantação e manejo sustentável da horta foram e continuarão sendo construídos entre os recuperandos, mantendo continuamente a produção da mesma. Como extensão é feita de elos e parcerias, não se pode deixar de agradecer a todos os recuperandos da Apac (Senhor Carlito, Juscelino, Nandino, Marcos, Sidnei, Eduardo, Leacir, Jacinto, Guilherme, Willian e Senhor Aristides, João Carlos, Senhor Antônio) pela paciência, compreensão e, principalmente, por dar uma aula prática sobre o verdadeiro sentido da frase de Mário Ottoboni que diz: “Todo homem é maior que seu erro”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, S. Sistema penitenciário no Brasil: problemas e desafios. Revista do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, Brasília, 1(2): 63-87, jul/dez 1993. ALVIM, W. B. A ressocialização do preso brasileiro. Buscalegis, América do Norte, 0 7 07 2009. APAC, Associação de Proteção e Assistência aos Condenados. www.apacitauna.com.br BINKOWSKI, P.; NICOLAUD, B. Horta agroecológica terapêutica. Revista Brasileira de Agroecologia, v.2, n.1, fev. 2007. BRASIL. Constituição (1988). 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APÊNDICES FIGURA 1 – Terreno destinado à horta no início do projeto. Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. Espaço Científico v.15, n.2, 201428 FIGURA 2 – Início das atividades na horta. Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. FIGURA 3 – Organização da horta em canteiros. Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 29 FIGURA 4 – Organização e demarcação dos canteiros. Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. FIGURA 5 – Plantio de mudas de cebolinha no canteiro. Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. Espaço Científico v.15, n.2, 201430 FIGURA 6 – Crescimento das hortaliças (Alface e Cebolinha em destaque). Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. FIGURA 7 – Recuperandos em atividades de manejo da horta (8 semanas de projeto). Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 31 FIGURA 8 – Recuperandos Eduardo, Sr.Carlito, Edilson, Sidnei, Marcos e Willian (Direita para esquerda). Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. FIGURA 9 – Canteiro de alface no ponto de colheita. Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. Espaço Científico v.15, n.2, 201432 FIGURA 10 – Recuperando Nadino colhendo beterrabas. Fonte: Paulo Henrique Dias Barbosa. Espaço Científico Santarém v.15, n.2 p.33-42 2014 A percepção de alunos do ciclo básico universitário sobre as estratégias de produção de resumo: um estudo de caso em Santarém-PA Paula Cristina Galdino de Oliveira Maria Sheyla Gama (Orientadora) RESUMO O presente estudo visou abordar as predisposições de alunos do ciclo básico de uma instituição particular, de Santarém-PA, com o foco na efetivação do processamento de leitura, mais especificamente as estratégias em geral, conforme pressupostos teórico-práticos constantes em Solé, 1998; Kleiman, 1999; Dias (2006); Machado, Lousada e Abreu-Taderlli (2004). A metodologia constitui-se de uma abordagem quali-quantitativa, visto que o intento foi verificar as estratégias metacognitivas de leitura utilizadas pelos discentes para produção de resumo, procurando identificar aquelas que necessitam de maior investimento pedagógico. Para isso, foi desenvolvido como instrumento de coleta de dados um questionário semiestruturado, que permitiu um estudo exploratório. Os resultados mostram que, no geral, aproximadamente a metade dos alunos investigados conhece ou faz uso de estratégias metacognitivas indispensáveis à produção de resumo, como a visualização do texto por completo, a identificação de título, subtítulos, autor, gênero textual, data de publicação. Verifica-se que boa parte dos alunos realiza uma leitura geral para confirmação das hipóteses, bem como a observância de cada parágrafo, buscando identificar seus tópicos síntese. Por outro lado, notou-se também que há dificuldade na identificação das ideias principais, visto que a grande maioria, no destaque das ideiasprincipais, afirmam frisar exemplos, justificativas, informações facilmente deduzíveis, ou seja, dão relevo a ideias secundárias e não principais. Percebeu-se ainda o conhecimento, por uma parte significativa de alunos, de outras estratégias metacognitivas, como buscar explicitar a relação estabelecida entre as ideias principais e ainda identificar os atos verbais do autor do texto lido, que, por sua vez, é um indicativo de uma leitura adulta, acadêmica de fato. O estudo, ainda em andamento, busca cruzar os dados, mediante a atuação das variáveis que os condicionaram. Palavras-chave: Estratégias de leitura; Percepção acadêmica; Produção de resumo. ABSTRACT The present study aimed to address the predispositions of students in the basic cycle of a particular institution, Santarém-PA, with a focus on effective processing of reading, specifically the strategies in general, as the theoretical-practical constants in Solé, 1998; Kleiman, 1999; Dias (2006); Machado, Lousada-Taderlli and Abreu (2004). The methodology consists of qualitative and quantitative approach, since the intent was to verify the metacognitive reading strategies used Paula Cristina Galdino de Oliveira é Especialista em Metodologia do Ensino Superior (CEULS/ULBRA), Graduada em Letras E-mail: paula.oliveyra@gmail.com. Maria Sheyla Gama é Profa. Msc. e Coordenadora dos Cursos de Letras – Habilitação em Letras-Língua Portuguesa e Habilitação em Letras-Língua Inglesa no Centro Universitário Luterano de Santarém - CEULS/ ULBRA. E-mail: sheylagama@yahoo.com.br. Espaço Científico v.15, n.2, 201434 by students to produce short, trying to identify those who need further educational investment. Therefore, it was developed as a tool for data collection, a semi-structured questionnaire, which allowed an exploratory study. The results show that, overall, about half of the students surveyed know or makes use of metacognitive strategies essential for the production of short, as the text display altogether, identifying title, subtitle, author, genre, release date . It appears that most of the students held a general reading for confirmation of hypotheses, and observance of each paragraph in order to identify their topics synthesis. Moreover, it was noted that there is also difficulty in identifying the main ideas, since the vast majority, the highlight of the main ideas, examples stress claim, justifications, easily derivable information, in other words, emphasize the main ideas and not secondary. It was noticed even knowledge, for a significant portion of students from other metacognitive strategies, such as seeking to clarify the relationship between the main ideas, and identify the verbal acts of the author of the text read, which, in turn, is a indicative of an adult reading, academic apparel. The study, still in progress, looking across the data, by operating variables that conditioned. Keywords: Reading strategies; Perception academic; Production summary. 1 INTRODUÇÃO O ato de ler, após passar por diversas percepções, é compreendido atualmente não apenas como uma atividade linguística e cognitiva, em que nesta se realiza operações mentais/interpretativas, e naquela se mobiliza conhecimentos sobre o léxico, a morfossintaxe e a semântica. O processamento de um texto, seja em termos de produção textual ou de leitura, constitui-se também uma atividade sociointerativa, visto se ativar todo um conhecimento de mundo e um conhecimento sociointeracional. Segundo Koch (1998), tais conhecimentos compreendem os objetivos verbalizados nos diversos gêneros textuais e mesmo do próprio objetivo de leitura em um dado momento; englobam ainda as normas gerais de comunicação, denominadas em Grice (1969 apud Koch, 1998) de máximas – quantidade de informação necessária, gênero textual e linguagem adequada ao contexto de interação etc.; o conhecimento da estrutura composicional do gênero textual que se está lendo ou produzindo; e o conhecimento de diversos recursos para assegurar a compreensão e a aceitação do texto. Assim, no processo de interação entre leitor e texto, mobiliza-se não apenas conhecimentos linguísticos e textuais, mas psicossociais e interacionais. Kleyman (1989), ao discorrer sobre a complexidade dos processos envolvidos na leitura, afirma que o processo de leitura não é “linear e serial, passo a passo, desde o olho até a memória [...]” (1989, p.17). Mas, pelo contrário, o leitor é engajado, antecipa o material até a formação de uma imagem, porque sua decisão de pausar ou fixar em determinado fragmento, pauta-se não apenas pelo que acaba de ler na página, porém inclui seu conhecimento sobre os recursos linguísticos, o assunto e tantos outros sistemas de conhecimentos. Pode-se inverter no caminho, e partir do todo, “da síntese” para a análise das unidades, a fim de se verificar hipóteses. E, deste modo, a leitura é vista como um “processo interativo”, visto que os diversos conhecimentos do leitor se imbricam em todo momento com o explícito e implícito no material sociolinguístico para chegar à compreensão. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 35 Nesta interação complexa entre leitor e texto, entram em ação as estratégias de leitura, que, segundo Solé (1998, 71), são “procedimentos de ordem elevada que envolvem o cognitivo e o metacognitivo”. As estratégias cognitivas dizem respeito às ações inconscientes no ato de leitura, como ativação do conhecimento de mundo, do conhecimento linguístico e textual. As metacognitivas implicam controlar e regular ações, isto é, explicitar objetivos da leitura, ações para detectar e corrigir falhas na compreensão, lembrar o que se lê, entre outros objetivos. Solé (1998) ainda propõe estratégias metacognitivas para antes – estabelecer objetivos e previsões, ativar conhecimento prévio...-, durante - fazer novas previsões, relacionar a nova informação ao conhecimento prévio; resumir as ideias do texto...- e após a leitura - identificar ideia principal, elaboração de resumo, e formulação e resposta de perguntas. Como se observa, e Solé (1998) também salienta, é difícil delimitar precisa e claramente o que vem antes, durante e depois, visto que estas estratégias se relacionam intimamente, sendo de grande orientação, na escolha e uso delas, o(s) objetivo(s) específico(s) que o leitor possui. Na educação superior, pode-se dizer que o objetivo geral da leitura é estudar/ aprender/construir conhecimento. Neste intuito, desdobram-se os específicos, isto é, lê-se, em geral, para fazer um resumo, uma resenha, um debate, um seminário, uma socialização, uma avaliação escrita ou oral que, por sua vez, atendem a objetivos outros, específicos ao domínio de cada componente curricular de um curso superior, que pode ir ao encontro do saber comparar, atribuir valor, identificar, caracterizar, posicionar-se criticamente, etc. A linguagem é por si mediadora, na concepção de Vygotsky e tantos outros. Rojo (2004), por exemplo, afirma: [...] ser letrado e ler na vida e na cidadania é muito mais que isso: é escapar da literalidade dos textos e interpretá-los, colocando-os em relação com outros textos e discursos, de maneira situada na realidade social; é discutir com os textos, replicando e avaliando posições e ideologias que constituem seus senti-dos; é, enfim, trazer o texto para a vida e colocá-lo em relação com ela. A partir dessa compreensão é que podem ser validadas quaisquer estratégias de leitura, as quais devem superar o nível da compreensão e atingir o posicionamento interdiscursivo. A universidade, ou a escola, reveste-se dessa valorosa condição, a de promover a troca de ideias, as contraposições e a constituição da subjetividade ancorada na mediação, via ato de ler, escrever, falar, ouvir. Nesse sentido, ressaltamos que o objetivo da leitura no âmbito escolar diz respeito à produção própria do conhecimento, a partirdo diálogo com aquele (s) que escreve(m). Realizar um resumo, compreendemos, é importante, não apenas para identificar a ideia principal, mas fundamentalmente realizamos resumos para confrontá-los com outras ideias e, assim, valorá-las, com o intuito de buscar o posicionamento próprio, a resposta própria. Espaço Científico v.15, n.2, 201436 É na concepção de leitura descrita acima, é que este trabalho focaliza a leitura com o fim de auxiliar na elaboração do gênero resumo acadêmico. Esse gênero textual é frequentemente solicitado do estudante universitário e, muitas vezes, também se constitui em uma das estratégias de compreensão ou da leitura para aprender, a qual faz parte da vida escolar e acadêmica. Além disso, a sua produção envolve diversas capacidades e estratégias, como compreensão global do texto, identificação e reformulação das ideias centrais, apagamento de informações secundárias, identificação de atos verbais do autor do texto, entre outras (KLEIMAN, 1989; MACHADO; LOUSADA, 2004). Portanto, é fato que o domínio de diversas estratégias de leitura, mesmo quando se trata de apenas resumir um texto, é relevante ao acadêmico de qualquer curso, especialmente àqueles que estão ingressando. Parte-se da hipótese de que, em geral, a maioria desses alunos tem dificuldades em leitura e, por conseguinte, para produzir um resumo. Embora tenham produzido resumos na educação básica e predominantemente tenham lido no intuito de estudar/aprender, possivelmente ainda não o façam de maneira satisfatória, visto que essas finalidades implicam diversas habilidades. Acredita-se também que essa dificuldade se deve ao rarefeito tratamento didático emprestado à leitura na educação básica, em que possivelmente estratégias de compreensão leitura não tenham sido elucidadas, ignorando-se os diversos parâmetros condicionantes – gênero textual, objetivo de leitura etc. Além disso, por outro lado, a pesquisa constituiu-se relevante também ao docente universitário, especialmente àquele que é responsável pelas disciplinas básicas, denominadas, em geral, de Comunicação e Expressão (ou Língua Portuguesa) e Instrumentalização Científica (ou Metodologia Científica), visto que nestas tem-se o dever de propiciar aos acadêmicos iniciantes o desenvolvimento da leitura e da produção textual de gêneros do âmbito acadêmico. Assim, a partir dessas considerações, e trazendo-as para o contexto universitário do município de Santarém, focaram-se as estratégias metacognitivas de leitura utilizadas pelos acadêmicos para a elaboração do gênero resumo; e também, implicitamente, quais estratégias de leitura metacognitivas ainda necessitavam adquirir ou desenvolver neste propósito comunicativo. Assim, a pesquisa teve como objetivo geral verificar quais estratégias metacognitivas de leitura aplicadas à elaboração de resumos acadêmicos necessitavam de maior atenção do professor universitário que tem a função de trabalhar a leitura e a produção de textos acadêmicos. E especificamente visou identificar as estratégias de leitura voltadas à elaboração de resumo e as utilizadas por acadêmicos ingressantes; verificar quais estratégias metacognitivas de leitura voltadas à elaboração de resumo precisam ser adquiridas e/ou desenvolvidas por acadêmicos ingressantes. 2 PROCEDIMENTOS METODOLóGICOS DA PESqUISA A pesquisa foi realizada no primeiro semestre de 2012, em uma Instituição de Ensino Superior – IES - particular, localizada no município de Santarém, Pará. Assim, uma pesquisa de campo, na qual, segundo Teixeira (2011, p. 118), as perguntas Espaço Científico v.15, n.2, 2014 37 direcionam-se aos atores, neste caso, acadêmicos no 1º semestre de graduação, cursando disciplina(s) do Ciclo Básico. A pesquisa contou com 67(sessenta e sete) acadêmicos ingressantes, correspondendo a uma amostra de aproximadamente 15% (quinze por cento). O número de sujeitos voluntários atendeu aos critérios da pesquisa, visto que a mesma é exploratória e não determinística. O estudo procedeu a uma abordagem quali-quantitativa, visto que seu intento foi verificar as estratégias metacognitivas de leitura utilizadas pelos discentes na leitura para produção de resumo, bem como as que necessitavam de aprimoramento. Para isso, teve como instrumento de coleta de dados um questionário semiestruturado, caracterizado por conter questões fechadas de uma opção e de múltiplas escolhas e questões discursivas abertas que permitem ao entrevistador captar a perspectiva dos participantes (TEIXEIRA, 2011). As questões objetivas foram analisadas estatisticamente, sendo apresentadas em forma de gráficos, e estudadas e interpretadas a partir do marco teórico adotado. Quanto às discursivas, foram analisadas qualitativamente através da técnica de “análise ídeo- central” de TEIXEIRA (2011), que, sendo uma modalidade de análise do conteúdo, visa evidenciar ideias nucleares, ou melhor, “ideias-chave” dos discursos. Assim, após reunir as ideias-chave, podem-se ressignificá-las, reagrupando-as em outros núcleos de sentido (TEIXEIRA, 2011). 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO: A PERCEPÇÃO DE DISCENTES DO CICLO BÁSICO SOBRE AS ESTRATÉGIAS DE LEITURA PARA A PRODUÇÃO DE RESUMO No intuito de investigar o conhecimento dos discentes sobre as estratégias de leitura voltadas a produção do resumo acadêmico, a parte específica do questionário foi dividida em três subpartes, compreendendo questões sobre a percepção dos discentes quanto aos fatores influenciadores na escolha de estratégias de leitura; a familiaridade com o gênero resumo e textos do universo acadêmico; e as estratégias de leitura utilizadas no objetivo de produzir um resumo acadêmico antes, durante e depois da leitura; e ainda, por fim, uma questão aberta sobre como o/a docente poderia elucidar estas estratégias para eles. Tendo em vista o enfoque deste artigo nas estratégias para a produção de resumo, destacaremos apenas os dados relativos ao uso das estratégias de compreensão para antes, durante a após a leitura, propostas em Solé (1998), e mais a observação de outros aspectos próprios do resumo, baseados sobretudo em Machado, Lousada e Abreu-Tardelli (2004). No que diz respeito às estratégias antes da leitura, na questão 2.3.1.1. “Você visualiza o texto por completo (isto é, passa os olhos pelo texto) a fim de levantar ideias sobre a temática/o conteúdo?”, os resultados mostram que um número expressivo o faz Espaço Científico v.15, n.2, 201438 com certa frequência, 30%, sempre e 46%, quase sempre. Observa-se que, no geral, um percentual significativo já realizava esta estratégia, mesmo não tendo consciência, até então, do ato como estratégia de leitura. Ainda relacionada a essa estratégia, perguntou- se se o discente visualizava o texto buscando observar/identificar o gênero de texto, época de produção, título(s) e subtítulo(s), imagens e os demais aspectos expostos, a qual mostra que os itens mais notados referem a aspectos linguísticos/textuais (Koch, 1998): gênero textual (14%), título(s) e subtítulos (15%), as imagens – se houver (15%), a linguagem (14%), e a extensão do texto(15%); e os menos notados compreendem sobretudo aspectos interacionais: autor e seu papel social (5%), o meio de circulação do texto (6%), e data de publicação de texto (5%). Percebe-se, assim, que ainda se está na superfície do texto – mesmo em se tratando de uma breve análise - e pouco se nota as condições subjacentes de produção e circulação, as quais também influenciam na compreensão e mais ainda na percepção da intenção do autor do lido, dando pistas neste sentido. Essas questões compreendem o sistema/conhecimento linguístico descrito em KOCH (1998), em que cada sistema de conhecimento implica um conjunto de ações, sejam inconscientes – quando se classifica apenas como estratégia cognitiva - sejam de modo consciente, controlando acompreensão - quando se classifica apenas como estratégia metacognitiva -, e o gráfico aponta que quase metade dos sujeitos faziam uso de modo metacognitivo desta estratégia. Os dados confirmam o consenso entre os autores sobre a leitura não ser linear e sequencial, mas que muitas vezes se parte do todo para as unidades, fazendo primeiro um levantamento de predições, hipóteses e depois de confirmação, verificação das inferências levantadas. Das estratégias durante a leitura, questionados se primeiro faziam uma leitura geral para ter uma compreensão global do texto: 37%, “sempre”; e 28%, “quase sempre”, observando-se, portanto, um reconhecimento das habilidades de verificação de hipóteses. Questionou-se ainda se, após essa compreensão global do texto, liam cada parágrafo atentamente, buscando destacar as ideias principais, sublinhando e fazendo alterações, ao que assinalaram: 42%, “sempre”; 28%, “quase sempre”; 23%, “raramente”; 5%, “nunca, logo faço o resumo”; e 2% não marcaram nenhuma das alternativas. Os dados mostram que a maioria busca executar esta estratégia de identificar tópicos frasais. Por outro lado, questionados sobre o que sublinhavam e anotavam no destaque das ideias principais, processo este denominado por alguns autores de sumarização - em que se buscam as ideias principais, ignorando-se exemplos, justificativas... -, apenas 12% assinalaram unicamente a assertiva “destaco (grifando, anotando...) somente as ideias principais, excluindo/ignorando informações facilmente deduzíveis, fragmentos que indicam explicação, exemplos, justificativas...”. Deste modo, um número quase insignificante, 12% (doze por cento), domina esta estratégia. Apesar de vários sujeitos terem marcado a alternativa “5”, cerca de 20% (vinte por cento), estes marcaram também outra(s) alternativa(s), contradizendo-se, portanto. Isto nos permite inferir que um número significativo dos sujeitos tem ciência Espaço Científico v.15, n.2, 2014 39 desta estratégia, porém muitos destes ainda não sabem identificar a ideia principal, distinguindo-as das secundárias. Ou seja, a maioria não domina esta estratégia, apenas a conhece, mas não sabe como executá-la. Somando-se a essa necessidade de perceber as ideias centrais, é preciso ainda, para se fazer um resumo, identificar na leitura do texto as relações de sentido entre elas (isto é, de causa/consequência, de explicação, conclusão etc.), sobretudo observando as palavras-conectivo que as ligam (pois, mas, também...), ao que obteve-se: 19% assinalou “sempre”; 48%, “quase sempre”; 27%, “raramente”; e 6%, “nunca”. Percebe-se que a maioria tem o cuidado de buscar perceber as relações de sentido, o que também indica um conhecimento textual, linguístico e uma maturidade em perceber os efeitos de sentido provocado pelos recursos linguísticos empregados pelo autor. Investigou-se ainda se o acadêmico “na leitura do texto, busca identificar os atos verbais do autor (isto é, identifica se o autor afirma, nega, define, classifica, enumera, argumenta, enfatiza, acredita, duvida...)”, assinalaram: 17%, “sempre”; 53%, “quase sempre”; 27%, raramente, e 3% nunca. Essa estratégia de leitura, segundo Kleiman (1996), revela uma maturidade do “leitor adulto”, visto envolver análise dos verbos, dos tópicos discursivos... Assim, os dados nos mostram que um significativo percentual se encontra numa fase amadurecimento, pois, mesmo que esses sujeitos ainda não executem satisfatoriamente esta estratégia, o fato é que eles mostram ter o conhecimento da importância desta ação. A complexidade da ação nos permite inferir também que tal conhecimento foi elucidado no ensino superior, visto que já haviam estudado o gênero resumo na disciplina Comunicação e Expressão quando o questionário foi aplicado. Sobre as estratégias para após a leitura do texto do autor (SOLÉ, 1998), perguntou- se se reliam o texto do autor para confirmar se os grifos, as anotações, reformulações etc. expressavam fielmente o que o autor expunha no texto, ao que assinalaram: 34%, “sempre”; 34%, “quase sempre”, 29% “raramente” e 3% “nunca”. Ou seja, esta estratégia de revisar o texto para confirmar os sentidos construídos é utilizada com frequência pela maioria dos discentes. Isso também é um indicativo de certa maturidade no ato de ler, pois se trata de uma avaliação do próprio texto, em que tendo em vista as características do gênero resumo, faz-se necessário revisá-lo considerando o texto lido para a produção resumo. Ao analisar os resultados, percebemos que os discentes dão relevo aos fatores linguísticos e textuais, estes, de fato, são os primeiros a serem percebidos, como divulgam Kleiman (2002) e Solé (1998) em suas pesquisas. Esses aspectos também são assinalados na questão discursiva sobre os fatores condicionantes na leitura e na questão fechada sobre as dificuldades que mais sentiam ao resumir um texto, onde as mais perceptíveis foram a linguagem, a identificação da intenção do autor e a relação / comparação das informações do texto com as de outros autores. Nota-se, então, que há um avanço no ensino de algumas das estratégias antes da leitura – estabelecimento das relações de sentido entre as ideias, identificação dos atos Espaço Científico v.15, n.2, 201440 verbais do autor - mas ainda é muito necessário trabalhar o aprimoramento delas. O que também se evidencia nas estratégias durante a leitura, em que vale chamar a atenção ao fato da maioria assinalar fazer leitura geral para ter uma compreensão global do texto, bem como ler atentamente cada parágrafo para perceber os tópicos frasais. O que é um bom caminho para qualidade da compreensão. Entretanto, no destaque das ideias-chave do texto, a maioria se contradisse afirmando destacar “só as ideias principais”, ao mesmo tempo em que assinalavam o destaque de informações facilmente inferíveis, exemplos, explicações..., informações consideradas secundária no texto e, por isso, excluídas no processo de sumarização (Machado, Lousada e Abreu-Tardelli, 2004). Assim, é preciso o docente do ensino superior explicitar ainda mais o processo de sumarização, visto que a educação básica não deu conta de ensiná-los eficazmente, como constatam algumas pesquisas (Solé, 1999; Kleiman, 2002). 4 CONCLUSÃO Conforme discutido nesta pesquisa, compreender texto não é simples identificação de significados, muito menos memorização de informações, nem um “jogo de adivinhação”. Para além disso, é um processo complexo que compreende notar ideias centrais, estabelecer relações entre várias informações, relacionando à outras leituras e conhecimentos já possuídos, levantar, confrontar e confirmar hipóteses, perceber a intenção do autor etc. Kleiman (1989), contundentemente, afirma ser a compreensão um ato complexo de “caráter multi-facetado, multi-dimensionado”, envolvendo o engajamento de muitos fatores, linguísticos e extralinguísticos. Os resultados mostram que, no geral, aproximadamente uma metade conhece ou faz uso de estratégias metacognitivas de leitura indispensáveis à produção de resumo, em que se verificou a realização de ações importantes para a produção de resumo, como: visualizar o texto por completo, buscando observar título, subtítulos, autor, gênero textual, data de publicação, para ativar o conhecimento prévio sobre a temática do texto expressa no título e sob que ideologia; realizar uma leitura geral para confirmação das hipóteses, bem como a observância de cada parágrafo, buscando identificar seus tópicos frasais. Por outro lado, notou-se também que há dificuldade na identificação das ideias principais, visto a grande maioria assinalar que, no destaque das ideias principais, destacava exemplos, justificativas, informações facilmente deduzíveis, ou seja, dão relevo a ideias secundárias e não principais, conforme as classificam as autoras Machado, Lousada eAbreu-Taderlli (2004). Assim, conclui-se que sabem da importância de identificar as ideias principais, entretanto pouquíssimos (12%) sabem quais são essas ideias principais a destacar. Portanto, é preciso que o docente as elucide ainda mais no ensino superior, principalmente, os que atuam no Ciclo Básico. Contudo, percebeu-se ainda o conhecimento de outras estratégias metacognitivas que, em geral, são elucidadas somente no ensino superior, como buscar explicitar a relação estabelecidas entre as ideias principais, e, ainda identificar os atos verbais do autor do texto lido, que, por sua vez, é um indicativo de uma leitura adulta, acadêmica Espaço Científico v.15, n.2, 2014 41 de fato. Além disso, acresce-se ainda a releitura do texto pela maioria dos discentes (34% afirmou fazê-lo sempre e outros 34% a fazê-lo quase sempre), para confirmar os grifos, enfim a construção dos sentidos a partir do texto. Conclui-se, assim, que há um conhecimento das estratégias de leitura a serem realizadas para a produção de resumos no âmbito acadêmico, porém é possível progredir ainda mais no domínio de algumas delas, por exemplo, saber distinguir informações centrais de secundárias, identificar os atos verbais do autor entre outras. Contudo, esse avanço um tanto incipiente é compreensível, visto que a aprendizagem é um processo, cujo domínio leva tempo e prática. Além disso, representa um avanço desses discentes no ensino superior, visto que em geral são poucos os que entram na educação superior conhecendo e dominando tais estratégias. Pode-se inferir, logo, que tal conhecimento foi adquirido, sobretudo nas disciplinas do Ciclo Básico, visto que têm essa função de “nivelar”. No entanto, faz-se necessário que os docentes do ensino superior continuem elucidando tais estratégias, criando situações para exercitá-las, pois como é sabido, o aprimoramento da leitura e da escrita é um processo que vem com a prática constante dessas atividades. REFERÊNCIAS BAKHTIN, Mikail. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. – São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 261-306. HEERDT, Mauri Luiz; LEONEL, Vilson. Metodologia científica. Palhoça: Unisul Virtual, 2005. KATO, Mary Aizawa. O aprendizado da leitura. – 5. ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999. – (Texto e linguagem) KLEIMAN, Ângela. Leitura: ensino e pesquisa. - 2. ed. - Campinas, SP: Pontes,1989. _________________. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. – 8ª ed. – Campinas, SP: Pontes, 2002. KOCH, Ingedore Vilaça. O texto e a construção dos sentidos. 2. Ed. – São Paulo: Contexto,1998. – (Caminhos da Linguística) MACHADO, Anna Raquel; LOUSADA, Eliane Gouvêa; ABREU-Tardelli, Lília Santos. 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Verificou-se que a maioria dos professores que participaram da formação continuada do Programa Um Computador por Aluno (PROUCA) utilizam o computador UCA como um recurso de apoio pedagógico em suas aulas, duas vezes por semana. Consideram importante a utilização das mídias tecnológicas em prol da melhoria da qualidade de ensino, relatando a necessidade da continuação de sua formação no PROUCA. O impacto da implantação do programa foi positivo, visto que o uso do computador UCA fez com que os alunos adquirissem habilidades e competências, como senso crítico, autonomia, socialização, criatividade, entre outros. As dificuldades da implantação do programa devem-se aos problemas de fornecimento de energia elétrica e à rede de acesso a internet. 95% dos alunos não têm computadores em sua residência, tendo acesso ao equipamento somente na escola para fazer os trabalhos escolares. 90% já utilizaram o laptop do PROUCA, aprendendo jogos matemáticos, produção de textos, tirar fotografias e a acessar a internet. Relataram como dificuldade, o acesso aos programas e ao próprio laptop. Consideram que a aula com o laptop é boa, favorecendo o aprendizado dos conteúdos. Porém, para melhorar as aulas, seria necessário que aumentassem o tempo de duração das aulas com o laptop. Concluiu-se, portanto, que a implantação do PROUCA na Escola Irmã Leodgard é de muita relevância, visto que possibilitou acesso aos alunos e professores ao mundo digital. Palavras-chave: PROUCA. Inclusão digital. Aprendizado. ABSTRACT This study aimed to analyze the use of technological media in education, through the use of the laptop in Sister School Leodgard Gausepohl. Was used as a methodology to bibliographic and field, through the application of questionnaires to teachers and students of the 5th year. Research has found that most teachers participated in continuing education of PROUCA using the UCA computer as a resource teaching support in their classes, twice a week. Important to consider the use of technological media in order to improve the quality of teaching, reporting the need for further training in PROUCA. The impact of the implementation of the program was positive, since the use of the computer meant that UCA students acquire skills and competencies, exemplifying the critical sense, autonomy, socialization, creativity, among others. The difficulties of implementing the program is due to problems of electricity supply and internet access network. 95% of students Lúcia Maria Maia Pimentel é Professora da Rede Municipal de Ensino, Especialista em Informática e as Novas Tecnologias Educacionais. Rosângela Maria Lima de Andrade é Socióloga, Mestre, Professora do Ceuls Ulbra. Espaço Científico v.15, n.2, 201444 do not have computers at home, having access to the equipment only in school, using to do their homework. 90% have used the laptop PROUCA, learning mathematical games, writing papers, taking pictures, and access the internet. Reported as difficulty, access to programs and the laptop itself. Consider that the class with the laptop is good, favoring the learning of content. However, to enhance lessons, it would be necessary to increase the duration of the classes with the laptop. It was concluded, therefore, that the implementation of the School Sister PROUCA Leodgard is very relevant,since allowed access to students and teachers to the digital world. Keywords: PROUCA. Digital inclusion. Learning. 1 INTRODUÇÃO Desde a sua descoberta e em seu processo de evolução, os recursos tecnológicos são utilizados, com a intenção de aprimorar a capacitação profissional de mão-de-obra produtiva na sociedade. No contexto educacional, ressalta-se que essa ferramenta vem sendo cada vez mais aplicada como estratégia e instrumento no processo de ensino- aprendizagem. Através do computador, alunos e professores podem visualizar, pesquisar, contextualizar, construir e ter acesso a novos conhecimentos, além de exercitar e relacionar os conteúdos vistos em sala de aula com o seu cotidiano. O uso de tais recursos não se limita a centros de excelência, como nas regiões brasileiras economicamente mais desenvolvidas. Em cidades do interior da Amazônia, a inserção dessa ferramenta tecnológica já se faz presente, embora de maneira tímida. Estudar a realidade da inserção do computador como recurso pedagógico em instituições de ensino formal localizados na Amazônia é necessário e urgente enquanto diagnóstico que possibilita a construção de futuras políticas educacionais, nas diferentes esferas (Federal, Estadual e Municipal). Neste contexto, considera-se de grande relevância realizar este estudo sobre o PROUCA – Programa Um Computador por Aluno, em Santarém – Pará, especificamente na Escola Municipal de Ensino Fundamental Irmã Leodgard Gausepohl, tendo-se por objetivo maior analisar a utilização de mídias tecnológicas na educação, através do uso do laptop na escola acima citada. 2 MÉTODOS Utilizou-se como metodologia, a pesquisa bibliográfica em obras de autores consagrados na temática, e a de campo, através de aplicação de questionários a dez professores e a setenta alunos, estudantes do 5º Ano do Ensino Fundamental dos turnos matutino e vespertino. A Escola Municipal de Ensino Fundamental Irmã Leodgard Gausepohl encontra-se localizada na área urbana, aproximadamente a 50 metros do Rio Tapajós, no Bairro do Uruará, no Município de Santarém no Estado do Pará, situada na Rua Uruará S /N. Foi inaugurada no dia 03 de março de 2003. É uma escola da Rede Municipal de Ensino, Espaço Científico v.15, n.2, 2014 45 mantida pela Prefeitura Municipal de Santarém através da Secretaria Municipal de Educação e Desporto – SEMED. Quanto à natureza dos dados a pesquisa teve enfoque quanti-qualitativo. É considerada uma pesquisa quantitativa, pois utilizou como instrumento de coleta de dados a aplicação de questionário, com questões fechadas. Segundo Teixeira (2007, p. 136), a pesquisa quantitativa “utiliza a descrição matemática como uma linguagem, ou seja, a linguagem matemática é utilizada para descrever as causas de um fenômeno, as relações entre as variáveis, etc.”. No enfoque qualitativo, segundo Teixeira (2007, p. 124) “o pesquisador procura reduzir a distância entre a teoria e os dados, entre o contexto e a ação, usando a lógica da análise fenomenológica, isto é, da compreensão dos fenômenos pela sua descrição e interpretação”. 3 UTILIZAÇÃO DAS MÍDIAS TECNOLóGICAS NA EDUCAÇÃO Segundo Silva (2008), a inserção da Informática na Educação chegou como uma sugestão de mudança no contexto educacional e nas práticas pedagógicas. Ao fazermos a analogia da educação com outros setores da sociedade, constatamos que a escola é a única onde as inovações, por vezes, demoram a acontecer. Foi exatamente pensando nestas inovações que o Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo) em parceria com o Ministério de Educação e Cultura (MEC) e a Secretaria de Educação a Distância (SEED) idealizaram a proposta de introdução da Informática na Educação, com o objetivo de que os computadores sejam utilizados como ferramentas educativas de suporte ao trabalho docente, visando à construção de novos ambientes de aprendizagem e, simultaneamente, a melhoria da qualidade da educação (SILVA, 2008, p. 68) Quanto à educação, dependendo da maneira como a informática é utilizada, pode ser concebida como modo sistemático ou como abordagem sistêmica. O primeiro consiste em modos de aplicação, instrução que provoca estímulos de inovação de modo convencional (apenas repetindo aquilo que de algum modo já é desenvolvido sem ao auxilio da informática), um meio de reprodução de conhecimento, de resolução de práticas do cotidiano, em menos espaços e menos tempo, sendo deste modo uma utilização Instrucionista. Segundo Chaves (1998), a preparação do professor deve leva-lo a assumir um novo papel no ensino, como pesquisador adaptado à sociedade da informação, que vê a informática, especialmente o computador, como meio de facilitar a aprendizagem. Essa ferramenta provoca, desafia, contagia o aluno a aprender e saber mais, criando ambientes e possibilidades de aprendizagem. Espaço Científico v.15, n.2, 201446 O computador é um exemplo desses recursos tecnológicos, é um meio que dissemina não somente informações, mas também progresso, além de trazer prazer ao homem, contribuindo para solução de problemas nos diversos ramos da sociedade (econômico, social, científico). No caso do Brasil, a implantação de uma política pública de informatização teve início na década de setenta, em pleno período de ditadura militar. Tal processo ocorreu em meio a interesses políticos e econômicos, que associou a informática a uma “questão de segurança nacional e desenvolvimento” (ANDRADE; LIMA, 1993, p.32). Para isso, foi assegurada uma reserva de mercado para a indústria de computadores, cuja política era controlada pela Secretaria Especial de Informática- SEI. A partir da década de 80, foram realizadas ações que visavam a levar os computadores para as escolas públicas de Educação Básica, cujo marco inicial foi o “I Seminário de Informática na Educação”, realizado em Brasília no ano de 1981, caracterizado por atividades de pesquisas relacionadas ao uso do computador no processo educativo. Como resultados desse seminário, foram feitas recomendações para a introdução da informática na Educação: a) as atividades da informática educativa devem ser balizadas por valores culturais, sociopolíticos e pedagógicos da realidade brasileira; b) os aspectos técnico-econômicos devem ser equacionados não em função das pressões de mercado, mas dos benefícios socioeducacionais; c) não se deve considerar o uso dos recursos computacionais como nova panacéia para enfrentar os problemas da educação; d) deve haver a criação de projetos-piloto de caráter experimental com implantação limitada, objetivando a realização de pesquisa sobre a utilização da informática no processo educacional (BRITO; PURIFICAÇÃO, 2008, p. 71). Em dezembro de 1981, o Ministério da Educação e Cultura (MEC), assim denominado à época, divulgou um documento intitulado “Subsídios para implantação da informática na Educação”, gerando instrumentos legais para a criação de uma Comissão Nacional de Informática na Educação. O documento foi aprovado pela Presidência da Republica, no entanto, a comissão só veio a ser criada em dezembro de 1983. Segundo Azevedo (2009), em março de 1983, o Ministério da Educação (MEC) criou o Centro de Informática Educativa (CEINFOR) sob responsabilidade da Fundação de Televisão Educativa (FUNTEVE), um órgão que como o Secretaria de Informática (SEINFOR) criada em 1981, possuía funções semelhantes, tais como, fornecer subsídios para implantação e fiscalização de programas de informática na educação. Mas, em julho de 1983, o Comitê Executivo da Comissão Especial Informática Educativa nº 11/1983 aprovou o Projeto Brasileiro de Informática na Educação (EDUCOM) com objetivo de “(...) realizar estudos e experiências de Informática na Educação, formar Espaço Científico v.15, n.2, 2014 47 recursos humanos para o ensino e pesquisa e criar programas de informáticapor meio de equipes multidisciplinares” (AZEVEDO, 2009, p.63). A informatização da educação foi e continua sendo irreversível, isso possibilita o acesso, sem sair de casa ou da escola, às mais diversas culturas, possibilitando-se uma autonomia educacional mediada pela tecnologia e os diversos benefícios que a informática tem oferecido para o ensino no mundo todo, como, por exemplo, o auxílio nas etapas iniciais da vida escolar e acesso a pesquisas realizadas no mundo inteiro. Desde a criação da máquina de imprimir não houve tão grande impulso no potencial para encorajar a aprendizagem tecnicizada. Há, porém, outro lado: paradoxalmente, a mesma tecnologia possui o potencial de destecnicizar a aprendizagem. Se isto ocorresse, eu contaria como uma mudança muito maior do que o surgimento, em cada carteira, de um computador programado para conduzir o estudante através dos passos do mesmo velho currículo. Contudo, não é necessário sofismar sobre que mudança tem o maior alcance. O que é necessário é reconhecer que a grande questão no futuro da Educação é se a tecnologia fortalecerá ou subverterá a tecnicidade do que se tornou o modelo teórico e, numa grande extensão, a realidade da Escola. (PAPERT, 2008, p. 55) O computador e seus recursos possibilitam colocar os alunos em uma posição ativa de descobridores e construtores do seu próprio conhecimento e um ambiente de aprendizagem que respeita suas diferenças individuais, na medida em que utiliza diferentes meios e formatos no tratamento e apresentação da informação. Chaves e Papert citados por Gonçalves (2011) relatam que foram criados vários programas para utilização da informática na educação: o primeiro é a Instrução Programada (CAI); o segundo Simulação e Jogos; o terceiro, Pacotes e Aplicativos e o quarto, o LOGO. Tornou-se um consenso entre todos os pesquisadores e acabou gerando conflitos. A partir deste programa, surgiram outros, conforme informa a autora. Em meados dos anos de 1990 surge uma nova forma de trabalho, o kidlink, como se fosse a internet. Trata-se de uma rede mundial de crianças e adolescentes até 15 anos, feita por voluntários que no Brasil era coordenado pela Professora da PUC – Rio Maria Lucena, da Rede Nacional de Pesquisas (RNP), do CNPq (GONÇALVES, 2011, p. 365-66). Através desta ferramenta, a professora busca incentivar as crianças e adolescentes a utilizarem a internet como fonte de educação, e não só de entretenimento. No século XXI, a internet e o computador deixaram de ser somente uma máquina de realizar as etapas de processamento de informações ou somente dispositivos que Espaço Científico v.15, n.2, 201448 executam tarefas. A informação, a tecnologia e o conhecimento passaram a caminhar juntos em função da manipulação das informações voltadas para o bem-estar social. No ensino, a informática passa a ser vista como uma nova expressão humana, permitindo ao aluno a possibilidade de conhecer diferentes obras, em diversas partes do mundo através das redes e de conexões. Essa visão abriu espaço para vários estudos, como de Valente (2006), entre outros, referentes aos diferentes processos de ensino e aprendizagem, podendo ser desenvolvidos nos sistemas de ensino. O resultado é caracterizado pelo surgimento de tendências de ensino, tais como o Instrucionismo e o Construcionismo. 4 A INSERÇÃO DAS MÍDIAS TECNOLóGICAS NA ESCOLA IRMÃ LEODGARD GAUSEPOHL As ações pedagógicas, sua previsão, construção e aplicação, considerando a realidade do programa UCA, estão pautadas, segundo o Ministério da Educação - Brasil (2010), em seu relatório de sistematização do projeto pré-piloto, em conhecimento da ferramenta (Laptop), planejamento de atividades com foco na interdisciplinaridade e no projeto político pedagógico (PPP) da escola. Dentro das inovações que o currículo e o planejamento escolar ganham nesse cenário tecnológico/educativo, percebe-se uma mudança nas competências, que agora agregam valores como a cibertextualidade, logicidade, sensorialidade, sociabilidade, entre outros. 4.1 Percepção dos professores sobre o PROUCA Participaram da pesquisa dez professores, todos do gênero feminino, na faixa etária de 36 a 58 anos, com formação em Pedagogia, exercendo o Magistério há mais de dez anos. Foram escolhidos estes professores por atuarem no 5º Ano do Ensino Fundamental. Indagou-se aos professores se participaram da formação continuada do PROUCA, verificando-se que 80% dos docentes afirmaram ter recebido essa formação. Porém, 20% informaram não ter recebido, conforme descrito no gráfico 01. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 49 GRáFICO 1 – Formação continuada para os professores do PROUCA. 80% 20% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% Sim Não Fonte: as autoras. Indagou-se se o professor já trabalhava na Escola Irmã Leodgard quando o Projeto UCA foi implantado, verificando-se que 60% dos docentes já trabalhavam na instituição durante a implantação do projeto e 40%, não trabalhavam, conforme descrito no gráfico 02. GRáFICO 2 – Professores trabalhavam na escola durante a implantação do PROUCA. 60% 40% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% Sim Não Fonte: as autoras. A respeito de o professor utilizar o computador UCA como um recurso de apoio pedagógico em suas aulas, observou-se que todos (100%) utilizam este recurso pedagógico em sala de aula, conforme descrito no gráfico 03. Espaço Científico v.15, n.2, 201450 GRáFICO 3 – Professores utilizam o UCA como recurso pedagógico 100% 0% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Sim Não Fonte: as autoras. A respeito da frequência com o professor utiliza o computador UCA na sala de aula, verificou-se que 60% dos docentes utilizam até 02 vezes por semana e 40%, 01 vez por semana, conforme descrito no gráfico 04. GRáFICO 4 – Frequência do uso do UCA como recurso pedagógico. 40% 60% 0% 0% 0% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 01 vez por semana Até 02 vezes por semana Até 03 vezes por semana Até 04 vezes por semana Todos os dias Fonte: as autoras. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 51 Indagados a respeito de outras mídias tecnológicas que o professor usa na sala de aula, além do laptop, verificou-se que 40% dos docentes utilizam o computador; 30%, o Microsystem; 20%, TV, e 10%, DVD, conforme descrito no gráfico 05. GRáFICO 5 – Outras mídias tecnológicas utilizadas como recurso pedagógico. 40% 30% 20% 10% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% Computador Microsystem TV DVD Fonte: as autoras. Solicitou-se que os professores citassem alguma atividade que fizeram com uso das mídias digitais, obtendo-se como respostas: Com os alunos, uso o computador para reforçar o que eles estão estudando. Eu uso o computador para fazer pesquisas, máquina digital e o celular para registrar as atividades desenvolvidas em sala de aula (Professor 01). Utilizo vídeos educativos e músicas (Professor 02). Uso jogos, digitação de texto, continhas, entre outros (Professor 03). Para pesquisa e produção textual (Professor 04). Aulas em vídeos, aulas com músicas, pesquisas na internet e no laboratório (Professor 05). Pode-se observar que os professores utilizam as mídias tecnológicas para auxiliar no desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem em sala de aula, aumentando o interesse dos alunos nas matérias ensinadas. Indagou-se se o professor acha importante o uso das mídias digitais na sua prática educativa, obtendo-se como respostas: Espaço Científico v.15, n.2, 201452 Sim, porque hoje no mundo não tem como ficar alheio a essas tecnologias, e mesmo as crianças tem mais interesse para aprender (Professor 06). Acho importante, sim, pois observo que com o uso das mídias, as aulas tornam-se mais atraentes e prazerosas, e comisso auxiliando no aprendizado dos nossos alunos (Professor 07). Sim, porque estimula o aluno a pensar, ele tem mais vontade de descobrir, pesquisar. (Professor 08). Sim, porque os alunos ficam mais motivados para realizarem as atividades propostas (Professor 09). Sim, pois as aulas ficaram mais dinâmicas e atraentes, o aluno fica mais motivado em aprender (Professor 10). A importância da utilização das mídias tecnológicas fica evidente nas respostas apresentadas pelos professores, visto que buscam a utilização das ferramentas em prol da melhoria da qualidade de ensino e como forma de prender a atenção dos alunos no que está sendo ensinado. A respeito de como o professor vê a formação dos professores na escola, referente ao PROUCA, estes responderam que: No meu ponto de vista acredito que é bom, apesar de ser um pouco complexo para aqueles que ainda não conseguem dominar bem os aplicativos (Professor 01). Acredito que deve ter sido muito bom, porém eu não tive a oportunidade de participar, pois estava ausente da escola. Mas minha opinião é de que possa ter continuidade essas formações (Professor 02). A formação é boa, pois colabora com a nossa formação profissional e pessoal (Professor 03). Vejo a formação como algo importante para o desenvolvimento e enriquecimento das aulas com os alunos (Professor 04). Foi muito importante, porém não se deu mais continuidade, apenas ocorrendo oficinas sobre os aplicativos (Professor 05). A formação continuada dos professores, principalmente em se tratando do PROUCA, é de muita relevância, como pode ser constatado pelas respostas recebidas, porém, os docentes afirmam que é necessário continuar essa formação para que não se perca a utilidade desta ferramenta. Quanto aos impactos causados na escola com a efetivação do PROUCA, os professores responderam que: Espaço Científico v.15, n.2, 2014 53 Logo que começou foi muito difícil, pois quase todos nós, professores, não sabíamos mexer, já para os alunos ficaram cercados de curiosidade, pois nem todos tinham contato com um computador (Professor 06). Observo que causou um impacto pelo lado positivo, pois quebrou um pouco a rotina da escola, motivando a linguagem tecnológica e motivou até o professor a ir mais a fundo nos conhecimentos tecnológicos (Professor 07). No primeiro momento, foi a falta de uma formação adequada aos professores que até então não tinham nenhuma formação em relação ao programa (Professor 08). Em primeiro lugar, a preocupação dos professores em dominar os programas tecnológicos a fim de repassarem com segurança às informações aos seus alunos (Professor 09). Os principais impactos foram na mudança das rotinas de sala de aula; quebra no modelo de ensino, agora temos o laptop como recurso pedagógico; alunos mais motivados e o surgimento da linguagem digital (Professor 10). Na percepção dos professores, o impacto do PROUCA foi muito positivo, pois possibilitou a utilização de uma ferramenta presente na rotina diária das grandes cidades e atualmente se torna realidade também nas comunidades mais afastadas destes grandes centros. Indagados se o uso do computador UCA fez com que os alunos adquirissem habilidades e competências, verificou-se que todos (100%) concordam com essa afirmativa, conforme descrito no gráfico 06. GRáFICO 6 – Os alunos adquiriram habilidades e competências. 100% 0 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Sim Não Fonte: as autoras. Espaço Científico v.15, n.2, 201454 A respeito de quais habilidades e competências foram adquiridas com o uso do computador UCA, verificou-se que 21% dos docentes consideram que foi o senso crítico; 18%, autonomia. Para outros 18%, socialização; 15%, criatividade. Para outros 15%, linguagem digital e para 13%, colaboração, conforme descrito no gráfico 07. GRáFICO 7 – Habilidades e competências adquiridas com o uso do computador UCA. 15% 18% 13% 15% 21% 18% 0% 5% 10% 15% 20% 25% Criatividade Autonomia Colaboração Linguagem digital Senso crítico Socialização Fonte: as autoras. Indagados se houve uma evolução efetiva na aprendizagem dos alunos tendo em vista o uso do laptop do PROUCA, os professores relataram que: Sim, pois com os computadores os alunos passaram a fazer suas pesquisas com frequência e com rapidez e puderam ter acesso a outros conhecimentos que eram encontrados apenas em livros e como não gostam de ler, ficava oculto. Hoje é diferente (Professor 01). Acredito que sim, pois o PROUCA tem como ferramenta o laptop que é um recurso que desperta no aluno o interesse em manusear, até porque ele tem a oportunidade de ter um laptop por aluno (Professor 02). Houve uma evolução, mas não foi muito, até pelo fato do computador não ser usado todos os dias, pois a estrutura física da escola (energia) não colabora para o uso do laptop (Professor 03). Sim, pois o programa oferece o laptop como recurso didático que desperta o interesse de aprendizagem nos alunos, através da pesquisa e visualização dos assuntos, principalmente dos jogos didáticos (Professor 04). Espaço Científico v.15, n.2, 2014 55 Sim, uma vez que os alunos são curiosos e vão aos poucos adquirindo habilidades, através do computador, com os jogos, os aplicativos são fundamentais no processo ensino aprendizagem (Professor 05). Os professores opinaram que a evolução foi efetivada através da melhoria do conhecimento dos alunos, visto que puderam adentrar em um novo universo, que é o mundo globalizado, tendo acesso a programas de computadores, e também à internet, que possibilitou o acréscimo de novos saberes ligados ao que estavam aprendendo em sala de aula. O Projeto UCA tem por objetivo promover a inclusão digital. Indagou-se sobre o que o professor considera inclusão digital, obtendo-se as seguintes respostas: É incluir na prática pedagógica atividades onde o professor possa estar usando computador, datashow, DVD, TV, microsystem, ao invés de usar somente o quadro e o giz (Professor 06). Para mim, inclusão digital é como já diz o nome, é incluir e oportunizar a tecnologia às diferentes camadas sociais. Mas entendemos que ainda existem milhões de pessoas que ainda não tem essa oportunidade de desfrutar desse recurso tecnológico (Professor 07). A inclusão digital é a acessibilidade das pessoas às tecnologias de informação e comunicação – TICs, para melhorar a sua qualidade de vida, possibilitando as condições de acesso a todos os lugares, seja físico ou virtual (Professor 08). Inclusão digital é o conhecimento que o indivíduo deve ter a respeito dos recursos tecnológicos que fazem parte do seu dia-a-dia (Professor 09). É inserir a sociedade na era digital, dar oportunidade a quem não tem acesso ao uso do computador em sua rotina diária (Professor 10). Na percepção dos professores, inclusão ocorre quando todos podem ter acesso ao que está sendo oferecido, oportunizando ao aluno a se envolver com a realidade do mundo atual, que é um mundo digital. Solicitados que comentassem sobre o que dificulta o PROUCA na escola, desde a sua implantação e outros aspectos que considerar importante, os professores responderam: Acredito que o que dificulta o PROUCA na escola é a falta de estrutura na sala de aula, pois as tomadas não prestam e mesmo as instalações elétricas não são adequadas (Professor 01). Espaço Científico v.15, n.2, 201456 Vejo que o PROUCA é um bom projeto dentro da escola, porém vejo que a ausência de internet ainda deixa muito limitada a utilização desse recurso tecnológico (Professor 02). As oportunidades de formação continuada de professores são poucas nas mídias digitais e a falta de uso do laptop nas aulas. O uso do laptop é insuficiente nas aulas (Professor 03). Apoio da SEMED, além da falta de infra-estrutura,como por exemplo, energia elétrica (Professor 04). Os principais problemas são a falta de internet para pesquisas; formação docente que deve ser continuada na escola; quedas de energia; falta de infraestrutura nas salas; apoio da SEMED para o programa; falta de acompanhamento da Secretaria de Educação (Professor 05). Na opinião dos professores, as dificuldades são de ordem estrutural, já que o prédio da escola não está totalmente estruturado para receber uma tecnologia como o PROUCA, visto que há constantes oscilações de energia, a rede elétrica ainda é antiga, e a internet não funciona como deveria. 4.2 Percepção dos alunos sobre o PROUCA Quanto ao perfil dos alunos do 5º Ano, dos turnos matutino e vespertino da Escola Irmã Leodgard, que participaram da pesquisa, verificou-se, quanto ao sexo, que 55% dos participantes são do sexo masculino e 45%, do sexo feminino, conforme descrito no gráfico 08. GRáFICO 8 – Sexo dos alunos participantes da pesquisa. 55% 45% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% Masc Fem Fonte: as autoras. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 57 Quanto à faixa etária, verificou-se que 37% dos alunos estão na faixa etária de 11 a 12 anos; 23%, entre 09 a 10 anos; 22%, de 13 a 14 anos e 18%, de 15 anos e acima, conforme descrito no gráfico 09. GRáFICO 9 – Faixa etária dos alunos participantes da pesquisa. 23% 37% 22% 18% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 09 a 10 anos 11 a 12 anos 13 a 14 anos 15 anos e acima Fonte: as autoras. Indagados se utilizam computadores em sua residência, verificou-se que 95% dos alunos relataram que não utilizam e somente 5% relataram ter acesso ao computador em sua residência, conforme descrito no gráfico 10. GRáFICO 10 – Utilizam computador em sua residência. 5% 95% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Sim Não Fonte: as alunas. Espaço Científico v.15, n.2, 201458 Indagou-se em que local o aluno tem acesso ao computador, verificando-se que 75% dos alunos utilizam computador somente na escola; 20%, no cyber e 5%, em sua casa, conforme descrito no gráfico 11. GRáFICO 11 – Local onde utilizam o computador. 75% 5% 20% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% Na escola Em casa No cyber Fonte: as autoras. Ao serem indagados sobre o motivo para usarem o computador, verificou-se que 70% dos alunos utilizam para trabalhos escolares; 20%, para pesquisas na internet e 10% utilizam para jogos/diversão, conforme descrito no gráfico 12. GRáFICO 12 – Motivo para utilizar o computador. 20% 10% 70% 0% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% Pesquisas na internet Jogos/diversão Trabalhos escolares Outros Fonte: as autoras. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 59 Indagou-se aos participantes da pesquisa se já utilizaram os laptops na escola, verificando-se que 90% dos alunos já utilizaram o laptop, porém, 10% relataram não ter utilizado o laptop até o presente momento, conforme descrito no gráfico 13. GRáFICO 13 – Utilização do laptop na escola. 90% 10% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% Sim Não Fonte: as autoras Indagou-se a respeito do que o aluno já aprendeu a fazer com o uso dos laptops na sala de aula, obtendo-se como resposta: A fazer textos, e os jogos de matemática, aprendendo a conhecer as operações (Aluno 01). A digitar os textos e também utilizar para pesquisar na internet (Aluno 02). Eu já aprendi os jogos de matemática, e outros jogos que a professora mostrou (Aluno 03). Eu aprendi os jogos de matemática e também a abrir a produção do texto e a fechar o computador (Aluno 04). A fazer produção textual, jogos de matemática, tirar fotos e entrar na internet (Aluno 05). Participaram da pesquisa, 70 alunos do Ensino Fundamental, porém, devido às respostas serem muito parecidas elencaram-se somente cinco respostas de cada tópico para expressar as afirmações dos alunos. Pode-se observar que os discentes aprenderam os jogos de matemática, a produzir textos, tirar fotografias e acessar a internet. Espaço Científico v.15, n.2, 201460 A respeito da dificuldade no manuseio do laptop, os alunos responderam: Eu tenho dificuldade para jogar, pois os números aparecem muito rápido (Aluno 06). Minha dificuldade é achar o que preciso na internet, porque aparece muita coisa que não é o que o professor pediu (Aluno 07). Eu ainda não sei entrar na internet, e tirar foto no laptop (Aluno 08). Eu tenho dificuldade de salvar os textos e a entrar na internet (Aluno 09). A minha dificuldade é quando o computador trava (Aluno10). As dificuldades apresentadas pelos alunos se devem ao fato de a maioria não ter acesso anteriormente ao computador e por isso apresentam alguns problemas no acesso aos programas e ao próprio laptop. Indagou-se como o aluno vê a aula com o laptop, verificando-se que para 65% dos docentes é uma aula boa. Para 20%, regular e para 15%, é uma aula cansativa, conforme descrito no gráfico 14. GRáFICO 14 – Aula com o laptop. 65% 15% 20% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% Boa Cansativa Regular Fonte: as autoras. Indagados se as atividades nos laptops favorecem o aprendizado dos conteúdos, verificou-se que 85% dos alunos responderam que favorece, porém 15% responderam que somente às vezes, conforme descrito no gráfico 15. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 61 GRáFICO 15 – As atividades no laptop favorece as aulas. 85% 0% 15% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% Sim Não Às vezes Fonte: as autoras. A respeito do que falta para melhorar as aulas com os laptops, verificou-se que 70% dos alunos consideram que é mais tempo de duração das aulas. Para 20%, acesso a outros aplicativos e 10%, acesso à internet, conforme descrito no gráfico 16. GRáFICO 16 – O que falta para melhorar as aulas com laptop. 10% 70% 20% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% Acesso a internet Mais tempo de duração das aulas Outros aplicativos Fonte: as autoras. Espaço Científico v.15, n.2, 201462 Para finalizar, indagou-se sobre a relação dos alunos com a professora de informática, verificando-se que 70% dos docentes consideram boa e 30% consideram ótima, conforme descrito no gráfico 17. GRáFICO 17 – Relação com a professora de informática. 70% 0% 30% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% Boa Regular Ótima Fonte: as autoras. 5 CONCLUSÃO A adoção das mídias tecnológicas em sala de aula traz para os educandos muitos caminhos a percorrer e para isso é preciso a presença do professor, pois é ele quem vai dinamizar todo este novo processo de ensino-aprendizagem por intermédio dessa ferramenta, explorando-a ao máximo com criatividade, conseguindo o intuito maior da Informática Educativa: mudança, dinamização, envolvimento, por parte do aluno na aprendizagem. Nos resultados obtidos na pesquisa de campo com os professores, pode-se perceber que todos os participantes da pesquisa utilizam o computador UCA como um recurso de apoio pedagógico em suas aulas, porém somente duas vezes por semana. Também utilizam computador, Microsystem, TV e DVD, visando ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem em sala de aula. Consideram importante a utilização das mídias tecnológicas em prol da melhoria da qualidade de ensino. Os docentes consideram importante a formação continuada, principalmente no PROUCA. Todos os professores concordam que o uso do computador UCA fez com que os alunos adquirissem habilidades e competências, como o senso crítico, autonomia, socialização, criatividade, linguagem digital e colaboração. Relataram que a evolução foi efetivada Espaço Científico v.15,n.2, 2014 63 através da melhoria do conhecimento dos alunos, visto que puderam adentrar em um novo universo, que é o mundo globalizado. Estes docentes consideram que a inclusão ocorre quando todos podem ter acesso ao que está sendo oferecido, oportunizando ao aluno a se envolver com a realidade do mundo atual, que é um mundo digital. Porém, relataram que as dificuldades da implantação do programa na escola são de ordem estrutural, devido aos problemas de energia elétrica e internet. Os alunos que participaram da pesquisa são do 5º Ano, dos turnos matutino e vespertino da Escola Irmã Leodgard, a maioria do sexo masculino, na faixa etária de 09 a 15 anos. 95% dos discentes não têm computadores em sua residência, tendo acesso ao equipamento somente na escola, utilizando para fazer os trabalhos escolares. 90% já utilizaram o laptop do PROUCA, aprendendo os jogos matemáticos, produção de textos, tirar fotografias, e acessar a internet. Relataram como dificuldade o acesso aos programas e ao próprio laptop. Consideram que a aula com o laptop é boa, favorecendo o aprendizado dos conteúdos, porém, para melhorar as aulas, seria necessário que aumentassem o tempo de duração das aulas com o laptop. Concluiu-se, portanto, que a implantação do PROUCA na Escola Irmã Leodgard é de muita relevância, visto que possibilitou acesso aos alunos e professores ao mundo digital, auxiliando na construção de um sujeito autônomo e livre, porém é necessário que os cursos de formação dos professores, para atuarem na disciplina, formem os futuros docentes levando-os a refletir sobre a necessidade de usar este instrumento como uma metodologia capaz de criar condições de reflexão e, ainda, capaz de fazer com que o aprender se torne mais prazeroso. REFERÊNCIAS ANDRADE, Pedro Ferreira; LIMA, Maria Cândida Moraes. Projeto EDUCOM. Brasília: MEC/OEA, 1993. AZEVEDO, João Vanderley. O uso das salas de tecnologias educacionais no ensino de geografia: desafios e perspectivas. 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Espaço Científico Santarém v.15, n.2 p.65-80 2014 Aconselhamento pastoral: Apontamentos sobre o uso da “Terapia Breve com foco na Solução” no cuidado de pessoas em estado depressivo Maximiliano Wolfgramm Silva RESUMO O presente artigo tem como objetivo apontar para os principais pressupostos da abordagem denominada Terapia Breve com Foco na Solução, enfatizando suas potencialidades na atividade de aconselhamento pastoral cristão. Ele parte do pressuposto de que o exercício da atividade de aconselhamento pastoral não deve ser confundido com a atividade profissional da psicoterapia, mas entende que a natureza do ofício pastoral também envolve o cuidado com as pessoas num sentido que vai além do espiritual, de maneira que o ministro religioso também pode ser um promotor de saúde psicológica e emocional. Para explicitar-se os pressupostos da Terapia Breve com Foco na Solução no aconselhamento pastoral, abordar-se-á de maneira sucinta o cuidado com pessoas em estado depressivo, uma das condições que mais levam pessoas a buscar aconselhamento. Palavras-chave: aconselhamento pastoral – terapia breve – foco na solução – depressão ABSTRACT The present essay intends highlight the main assumptions of the approach known as Solution- focused Brief Therapy, emphasizing its potentialities for the Christian pastoral counseling activity. It presupposes that the exercise of the pastoral office must not be confused with professional psychotherapy, but at the same time, it understands that the nature of the pastoral office also involves caring for people in a sense that goes beyond spiritual needs, so in that way the religious minister can also promote psychological and emotional health. In order to give a framework to the presuppositions of the Solution-focused Brief Therapy, the article will briefly work on its use on the treatment of those in a depressive condition, especially because that is one of the most common reasons that make people look for counseling. Key words: pastoral counseling – brief therapy – focus on solution – depression INTRODUÇÃO Aconselhamento é o tipo de atividade pastoral da qual não se pode fugir. Por sua função de cura d`almas, o pastor não faz uma escolha entre o aconselhar e o não aconselhar, “mas entre aconselhar de maneira disciplinada e hábil ou aconselhar de modo indisciplinado e inábil” (Collins, 1998, p.11). Sendo assim, o ministro de Deus que quer ser encontrado fiel (1 Coríntios 4.2) deve dedicar-se de maneira consciente e intencional a esta área de sua atividade. Maximiliano Wolfgramm Silva é Doutorando em Teologia pelo Concordia Seminary de St. Louis, EUA. Capelão e Professor do CEULS ULBRA Espaço Científico v.15, n.2, 201466 Mesmo que cada vez mais pastores evangélicos possuam formação de nível superior, abordagens baseadas em modelos freudianos exigem formação acadêmica específica e disponibilidade de tempo para atendimento, condições não existentes para a maioria dos pastores. Diante disto, o presente trabalho tem como objetivo refletir sobre o papel da Terapia Breve com Foco na Solução (doravante, TBFS) no aconselhamento pastoral, com especial foco no cuidado com pessoas em estado depressivo, situação que, frequentemente, leva pessoas a buscarem auxílio pastoral. É importante ressaltar que não se tem aqui a intenção de reduzir as abordagens ao aconselhamento pastoral a uma opção, mas apresentar uma alternativa que encara de maneira espontânea e natural o amadurecimento do cristão (Kollar, 1997, p. 7). Também não se pretende esgotar toda a abrangência da TBFS, trabalhar em exaustão suas implicações ou deixar transparecer que não existem críticas à abordagem. Almeja- se, sim, contribuir para que esta abordagem se torne mais conhecida entre pastores, o que irá provocar um maior estudo e reflexão sobre a mesma em meios religiosos brasileiros. Também reconhece-se o fato de que pastores não são psicólogos ou terapeutas (a não ser aqueles, o que não é incomum, que dispõem desta formação específica), mas ministros, servos, que possuem como fundamento de sua compreensão de mundo e de sua ação pastoral a fé em Cristo e que devem ser competentes para reconhecer seus próprios limites, especialmente encaminhando para especialistas aqueles que necessitam de cuidadoprofissional específico. Portanto, não se confunde aqui o aconselhamento pastoral que acontece nas milhares de comunidades cristãs espalhadas pelo país com o exercício profissional da psicoterapia. Com o objetivo de explicitar os pressupostos da TBFS, este artigo irá refletir, mesmo que de maneira sucinta, sobre o seu uso no cuidado de pessoas em estado depressivo. Acredita-se que a importância contemporânea do tema depressão é inegável, o que faz dele um excelente veículo para abordagem da TBFS. Que o bondoso Deus ilumine e capacite a todos seus pastores nesta importante tarefa, para que todos sejam “bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4.10b). 1 TERAPIA BREVE COM FOCO NA SOLUÇÃO – REFLEXÕES INTRODUTóRIAS E PRESSUPOSTOS BÁSICOS1 1.1 Mudando paradigmas De maneira geral, o ser humano opera dentro de valores morais que diferenciam o certo do errado, o bom do ruim, o aceitável do não aceitável, o eficaz do ineficaz. As 1 Grande parte do que segue nos próximos capítulos é uma exposição resumida do trabalho de Charles Allen Kollar respaldada por outros estudos/obras. Kollar soube articular de maneira habilidosa os pressupostos e a Espaço Científico v.15, n.2, 2014 67 conceptualizações mentais que fundamentam estes valores morais, os valores em si e as regras e normas internas que deles brotam podem ser chamados de paradigmas. São estes paradigmas que estabelecem aquilo que cada um considera apropriado ou inapropriado, servindo de base para as decisões que cada pessoa precisa tomar diariamente. Apesar de seu óbvio papel positivo, o fato é que muitas pessoas aprisionam a si mesmas em paradigmas que limitam sua visão de mundo e realidade, impedindo que percebam e façam bom uso de novas alternativas que podem ser tão ou mais eficazes do que as já conhecidas. A história está repleta de evidências de como paradigmas podem limitar a compreensão humana de mundo e realidade. A oposição experimentada por Galileu ao tentar expor sua teoria do heliocentrismo é um exemplo disto. Obviamente, sua teoria também era limitada, mas abria caminho para uma compreensão mais ampla do universo e de nosso lugar nele. Muitos estudiosos temem que pastores, em seu trabalho como conselheiros dentro de suas congregações, estejam presos a paradigmas que limitam sua atuação enquanto conselheiros (Kollar, 1997, p. 17). Isto porque a prática do aconselhamento pastoral tem muitas vezes sido reduzida a um método que põe em foco o problema. Nesta prática busca-se a raiz do problema, não importando o quanto isto custe emocionalmente ou quanto tempo leve. Sem negar a validade do modelo freudiano, é importante afirmar que existem outras maneiras de lidar com desafios emocionais e psicológicos. A esta altura torna-se importante esclarecer algo: não se nega aqui a compreensão cristã que afirma que a raiz dos males humanos está no maior de todos os seus problemas, o pecado, o afastamento de Deus. Para o cristianismo bíblico, o reconhecimento do pecado (problema) é o primeiro passo ao arrependimento. No entanto, só o reconhecimento do pecado não é suficiente. Do ponto de vista do Cristianismo a solução para este problema (o pecado) não está em compreendê-lo em todas as suas minúcias, mas sim na Nova Vida oferecida por Cristo, no perdão que Ele dá, no seu amor incondicional, os quais se manifestam na possibilidade de viver esta Nova Vida em Cristo já agora, e de maneira plena na eternidade. Aqui está presente a dinâmica Lei e Evangelho, tão marcante na teologia luterana e fundamental para a prática pastoral confessional. A Lei de Deus mostra qual é o problema, mas a solução para o mesmo não se encontra na Lei em si, mas no doce Evangelho de Jesus. O que a TBFS propõe é uma mudança do paradigma que afirma que a solução de um problema passa, necessariamente, pela compreensão de todas as suas raízes passadas. Aponta-se, então, para uma abordagem que enfatiza o futuro sem o problema e que mantém o foco nas ferramentas presentes que contribuirão para a construção desta realidade futura que carrega em si a poderosa motivação característica da esperança, especialmente quando se tem em vista a problemática da depressão. Isto porque “[h]ope is an antidote to depression. The future doorway helps counselees to project their faith onto the future, thus creating a more hopeful expectation. prática da TBFS com a atuação do pastor enquanto conselheiro. Dr. Kollar é conselheiro profissional, terapeuta familiar e de casais e pastor da Innovation Church in Cresco, CA. Espaço Científico v.15, n.2, 201468 Solution oriented brief pastoral counseling makes them more sensitive to God’s view of the future; this new vision produces hope. The past takes on a new meaning as counselees begin to view it as a part of life’s learning process. It is instructive rather than shameful, educational rather than traumatic. (Kollar, 1999, p. 62)”2 O que Kollar propõe aqui é uma mudança de paradigmas, a qual tem o poder de transformar a maneira como cada um compreende a sua própria realidade. Quando o assunto é mudança de paradigmas, a palavra metanoia (do grego bíblico, normalmente traduzida para o português por arrependimento – Mateus 3.8, por exemplo) traz uma comparação, no mínimo, interessante. O sentido original, mais literal da palavra metanoia, é mudança de mente. Conceito presente na retórica, religião e psicologia, metanoia refere-se a processos de mudança vivenciados pelo ser humano, seja na expressão de seus pensamentos ou em sua relação consigo mesmo. A ideia básica presente é de mudança. Portanto, metanoia pode ser compreendida como entender as coisas de uma maneira diferente. Do ponto de vista cristão é deixar de lado o foco em si próprio e focar em Deus e seu amor revelado em Cristo Jesus. Foi justamente por vivenciar esta mudança de paradigma em sua própria vida que o ateu convertido C. S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia (entre outros), afirmou: “I believe in Christianity as I believe that the sun has risen: not only because I see it but because by it I see everything else” (Lewis, 1952, p. 215). 3 Mudança de paradigma está fortemente presente no relato bíblico. A história bíblica é um constante dizer de Deus: “Não é do teu jeito, é do meu”. Em 2 Coríntios, por exemplo, Paulo fala a respeito de uma maneira completamente nova de perceber a vida, uma mudança extraordinária de paradigma. Diz ele: “E ele (Jesus) morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou... e, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas (2 Coríntios 5.15, 17 ARA).” A mensagem de Jesus muda a maneira como se encara a vida, muda paradigmas pessoais, e aqui se percebe o quanto é importante o papel do pastor enquanto conselheiro. É num conselheiro cristão comprometido com a verdade cristã que aquele que busca 2 “Esperança é um antídoto para depressão. A visão do futuro ajuda o aconselhando a projetar sua fé para o futuro, criando desta maneira uma expectativa mais esperançosa. Aconselhamento pastoral orientado para a solução torna as pessoas mais sensíveis para a visão de Deus do futuro; e esta nova visão produz esperança. O passado assume um novo significado a medida em que o aconselhando começa a vê-lo como uma parte do processo de aprendizado da vida. Ele é instrutivo ao invés de vergonhoso, educacional ao invés de traumático.” 3 “Eu acredito no cristianismo assim como eu acredito que o sol nasceu: não apenas porque eu o vejo mas por que por meio dele eu vejo todo o resto.” Espaço Científico v.15, n.2, 2014 69 ajuda encontrará orientação no amadurecimento de sua fé, amadurecimento este que influenciará o seu processo de mudança de paradigmas. 1.2 Linguagem deficiente e a mudança de paradigma A atuaçãode muitos conselheiros está fortemente enraizada numa cultura psicopatológica. Pode-se entender psicopatologia como a área do conhecimento que lida com as doenças da mente (psico: alma/ser; patologia: estudo, tratado sobre o sofrimento). Apesar de sua popularização, esta abordagem apresenta, com certa frequência, o que pode ser chamado de linguagem deficiente. Kollar explica isto ao afirmar que a linguagem patológica com frequência falha em identificar as capacidades e os objetivos daqueles que estão passando por estados depressivos, apresentando abordagens que focam em traços negativos e em problemas (Kollar, 1997, p. 33). Desta maneira, uma abordagem puramente psicopatológica pode muito facilmente levar ao rótulo. Assim, desenvolve-se a tendência de focar o problema. A dificuldade, então, é que muitas vezes a vida da pessoa que busca ajuda acaba se voltando para o problema em si. Isto se torna mais evidente quando se tem em mente abordagens que valorizam grandemente a necessidade de se reconhecer e vivenciar emoções, por mais fortes, intensas e até mesmo angustiantes que elas sejam. A este respeito, alertam Cade e O’Hanlon: “It is our belief that, while an acknowledgment of the existence of a variety of strong emotions can be highly therapeutic in helping people feel validated and understood, it may not be helpful or therapeutic to encourage the continued expression of emotions, particularly those that have been ‘labeled’ in ways that perpetuate a sense of hopelessness or helplessness. (Cade & O’Hanlon. 1993, p. 48)”4 Em sua pesquisa, Huber caminha nesta mesma direção, questionando as bases empíricas de abordagens tradicionais. Ele afirma que “A common assumption of many traditional approaches to counseling is that there are deep, underlying causes not readily perceivable to the untrained eye that cause client complaints. Presenting complaints are seen as ‘symptoms’ – only the tip of the iceberg. Indeed, the very word symptom implies that what clients complain of is not the ‘real issue’ but only the outward manifestation of some underlying dysfunction. This iceberg theory comes from medicine, where treating symptoms can be inadequate or even dangerous. This, however, has been 4 “Nós acreditamos que, enquanto que um reconhecimento da existência de uma variedade de emoções fortes pode ser altamente terapêutico no ajudar pessoas a se sentirem validadas e compreendidas, possa não ser útil ou não terapêutico encorajar a expressão continuada de emoções, particularmente aquelas que têm sido ‘rotuladas’ em maneiras que perpetuam um senso de desespero ou desamparo.” Espaço Científico v.15, n.2, 201470 transferred to counseling based on tradition, not empirical evidence (Huber & B., 1993, p. 46).5 Reconhecer o problema é parte integrante do processo, mas a solução para o mesmo pode estar fora deste problema. Por isso Kollar fala da necessidade de reconhecer-se as pressuposições que subjazem perguntas comuns em abordagens terapêuticas tradicionais. A TBFS entende que a solução não está, necessariamente, numa compreensão profunda do problema ou nos padrões que o mantém. Por isto, ao invés de perguntar “Qual é a raiz do problema?” ou “O que mantém o problema?”, uma abordagem com foco na solução irá perguntar “Como podemos criar soluções trabalhando junto com o aquele que aconselhamos?”. Obviamente, perguntas que buscam criar soluções também revelam pressuposições, mas estas pressuposições não levam a uma linguagem deficiente (Kollar, 1997, p. 44). 1.3 Significado é percepção De maneira geral, as pessoas estão engajadas num processo de busca pelo sentido das coisas, da vida, de sua própria existência. O ser humano anseia por compreender sua realidade existencial. No entanto, esta compreensão da realidade passa, necessariamente, por um processo mental. Tal processo está intrinsicamente ligado à maneira como nosso corpo, através dos sentidos, transforma a realidade em informações e a como o cérebro interpreta estas informações. O cérebro não apenas registra informação nua e crua. Ao receber os mais variados “dados” colhidos pelos sentidos, o cérebro também os interpreta, especialmente construindo conexões com experiências anteriores. Neste processo, o que é interpretado da realidade é o que se torna realidade. Com base nesta compreensão, Cade e O’Hanlon falam a respeito da necessidade de diferenciar-se evento de significado. De acordo com eles, “Things and events are limited to sensory-based observations and descriptions of what we perceive, or remember perceiving, through our various senses; what is happening, or has happened. Meanings are interpretations, conclusions, beliefs, and attributions that are derived from, imposed upon, or related to these perceived things and events. (Cade & O’Hanlon. 1993, p. 31)”6 5 “Uma pressuposição comum de muitas das abordagens ao aconselhamento é de que existem causas imersas e profundas que não são prontamente percebidas por olhos destreinados, as quais causam as queixas do cliente. As queixas apresentadas são vistas como ‘sintomas’ – apenas a ponta do iceberg. Certamente, a própria palavra sintoma implica que a queixa do cliente não é realmente o que está em questão, mas é apenas a manifestação externa de alguma disfunção imersa. Esta teoria do iceberg vem da medicina, onde tratar os sintomas pode ser inadequado ou até mesmo perigoso. Isto, contudo, foi transferido para o aconselhamento baseado na tradição, e não na evidência empírica.” 6 “Coisas e eventos são limitados a observações e descrições sensoriais daquilo que percebemos, ou lembramos perceber, através de nossos diversos sentidos; o que está acontecendo, ou aconteceu. Significados e interpretações, conclusões, crenças e atribuições são derivadas de, impostas sobre e relacionadas a estas coisas e eventos percebidos.” Espaço Científico v.15, n.2, 2014 71 O que se sabe do mundo é o que se experiencia dele/nele bem como a maneira como esta experiência é mentalmente processada. A memória humana não guarda apenas fatos de um evento, mas também os significados e sentimentos que são adjacentes a eles. A cultura, a educação familiar, a história de vida de cada um, a situação econômica/ social, tudo contribui para a maneira como as pessoas dão significado à realidade (externa e interna), o que as torna muito diferentes umas das outras. Cada ser humano é único, com vivências e experiências únicas, e o conselheiro precisa reconhecer e respeitar esta unicidade. Ao mesmo tempo, precisa estar ciente que percepções da realidade podem ser recriadas à medida que se está ciente do processo mental envolvido. Neste processo de busca de compreensão da realidade, muitos paradigmas são criados e muitos deles podem atrapalhar ou até mesmo impedir que a pessoa viva a vida em toda sua potencialidade. Aqui, a mudança de paradigmas se torna necessária. Mudar paradigmas é mudar a percepção de mundo e, consequentemente, mudar o significado que é dado a este mundo e às experiências que nele são vividas. A percepção que um indivíduo tem dos eventos define o que é realidade para ele. Portanto, uma nova percepção de realidade pode ser criada ou, com a ajuda de um conselheiro, co-criada. Muito da alegria da vida depende de como a vida é percebida/compreendida, e até mesmo de como percebe-se/compreende-se o significado de “ser alegre”. 1.4 Pressupostos norteadores À medida em que este capítulo aproxima-se de sua conclusão, torna-se necessário afirmar quais pressupostos sustentam a TBFS. Kollar, cujo trabalho é base para este artigo, instrui o conselheiro cristão a ter em mente os seguintes pressupostos norteadores, quando engajado numa abordagem baseada na TBFS (Kollar, 1997, p. 69-89). 1. Deus já está em atividade na vida daquele que busca orientação e ajuda no aconselhamento pastoral. Deus já esteve e está envolvido navida dele antes que ele venha ao pastor. Quando a realidade da atividade de Deus é assumida, começa-se a procurar por pistas desta atividade. Mudanças recentes, a fé, bênçãos recebidas, força em momentos difíceis, exceções ao problema em questão – tudo isto ajuda a descobrir o que o Espírito tem feito. 2. Problemas complexos não necessariamente exigem soluções complexas. Uma simples mudança se foco pode trazer solução para os problemas que são apresentados (ver ponto 3, abaixo). 3. É necessário encontrar exceções ao problema, pois isto ajuda a criar soluções. Ao serem encontradas, estas exceções precisam ser enfatizadas e valorizadas, de maneira que se tornem significativas para aquele que busca ajuda. Deve-se valorizar a exceção ao problema, mas também a capacidade que aquele que busca ajuda tem em fazer as coisas de uma maneira diferente. 4. As pessoas estão sempre num processo de mudança. Se uma sessão de aconselhamento é conduzida na perspectiva de que uma mudança irá ocorrer, Espaço Científico v.15, n.2, 201472 aquele que busca ajuda será positivamente influenciado. Aqui é importante lembrar que mudanças pequenas geram mudanças maiores. Quando um pai muda a maneira como ele expressa seu amor, ele pode estar mudando a vida de seu filho por completo. 5. Aquele que busca ajuda do pastor é o expert a respeito de sua própria vida, é ele quem define onde ele quer chegar. Objetivos definidos por conselheiros podem, por vezes, permanecer obscuros ao que busca orientação e apoio pelo simples fato de não terem sido definidos por ele mesmo. Sendo assim, ele poderá não se dedicar tanto a alcançar estes objetivos por estes não serem dele, mas sim do conselheiro. Quando a pessoa é reconhecido como o expert em sua vida, os recursos que há nela são valorizados, bem como suas habilidades. Quando o objetivo é definido por ela, e quando ela e o conselheiro trabalham juntos neste objetivo, as chances de sucesso são grandes. Aquele que busca ajuda define seus objetivos, mas é importante que o pastor conselheiro o ajude a clarificar estes objetivos. 6. O pastor e aquele que ele aconselha buscam soluções juntos. Juntos eles devem criar um perspectiva da realidade que possibilite a mudança. 7. A pessoa que busca ajuda não é o problema, o problema é que é. Novamente percebe-se a dificuldade causada pela linguagem deficiente. Há uma diferença enorme entre se dizer “Você é uma pessoa depressiva” e “Você está em um estado depressivo”. O cristão não é inimigo de si mesmo, mas do pecado, que habita nele (Romanos 7.11, 15-17, 20). 8. A pessoa que busca auxílio precisa estar desejando a mudança. O conselheiro necessita buscar maneiras de encorajar esta pessoa a tornar-se um participante no processo de aconselhamento. Isto se consegue em grande parte trabalhando os objetivos manifestos pela pessoa e valorizando qualquer nível de cooperação que esteja sendo demonstrado. No entanto, é importante lembrar que, por vezes, quando não há nenhuma cooperação, outras atitudes devem ser tomadas, como encaminhar aquele que busca ajuda a um outro pastor ou a um especialista. 9. O foco do conselheiro está direcionado às soluções. Para que isto aconteça, Kollar sugere três regras para que o conselheiro se mantenha concentrado na solução: Primeira Regra: “Se não está quebrado, não concerte!” Esta regra lembra que se deve procurar trabalhar em direção daquilo que a pessoa quer. O conselheiro não pode cair na armadilha de tentar definir os objetivos. Aquele que busca ajuda e orientação é o especialista em sua própria vida. Segunda regra: “A partir do momento em que se sabe o que está funcionando, faz-se mais disto!” É a maximização do positivo. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 73 Terceira Regra: “Se não está funcionando, pare e faça algo diferente!” Ações que não trazem resultados acabam, na maioria das vezes, reforçando o problema. Aqui não vale o ditado popular “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” Tendo então sido construída uma visão geral da TBFS, é tempo de refletir sobre o seu uso no cuidado de pessoas em estado depressivo. É do que trata o próximo capítulo. 2 TBFS, DEPRESSÃO E ACONSELHAMENTO PASTORAL Apesar da grande preocupação manifesta nos dias de hoje em relação à depressão, ela não é novidade desta geração. Já no século IV a. C. o médico grego Hipócrates a diagnosticou, denominando-a melancolia. No entanto, fatores específicos de nossa geração parecem ter agravado seus efeitos, tornado-a mais comum. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que aproximadamente 350 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão.7 No Brasil, estudos indicam que mais de 10 milhões de brasileiros sofrem de depressão, sendo que ela é a segunda causa de incapacidade para o trabalho.8 Pesquisa feita com base nas informações registradas no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) indica que nos últimos 16 anos o número de mortes causadas por depressão cresceu 700%.9 Os números aqui relatados nos dão uma ideia da importância do tema. Numa perspectiva geral, a depressão caracteriza-se por um tom de tristeza acompanhado de sentimentos de desamparo e pouca auto-estima. Envolve insegurança, incapacidade para enfrentar problemas e desespero. Todos os aspectos da vida emocional, cognitiva, fisiológica, comportamental, social e espiritual podem ser afetados. Nos estados depressivos moderados ou em fase inicial, o indivíduo tenta ativamente aliviar seu sofrimento, solicitando por vezes a ajuda de outras pessoas. À medida que a depressão se torna mais profunda, o indivíduo se entrega por sentir-se incapaz de superar sua dificuldade. “O deprimido não só sente-se mal como é também, tipicamente, seu pior inimigo, podendo servir-se dessa frase específica ao descrever a si próprio. Tendências auto-destruidoras ou masoquistas, assim como depressivas, coexistem com frequência no mesmo indivíduo (Macknnon, 1992, p. 150).” 7 Acessado em 26/01/2015. < http://veja.abril.com.br/noticia/saude/mais-de-350-milhoes-de-pessoas-tem- depressao-diz-oms> 8 Acessado em 26/01/2015. <http://www.senado.gov.br/senado/portaldoservidor/jornal/jornal90/comportamento_ carreira.aspx> 9 Acessado em 26/01/2015. <http://www.senado.gov.br/senado/portaldoservidor/jornal/jornal90/comportamento_ carreira.aspx> Espaço Científico v.15, n.2, 201474 Um sombrio estado de ânimo se faz presente na vida. O desconforto em ter outros à volta, frequentemente, leva a pessoa em estado depressivo a atividades socialmente isoladas ou passivas. Tal comportamento contribui para crises em relacionamentos, as quais intensificam o estado de depressão. “A pessoa depressiva almeja o amor dos outros, mas falha em corresponder de modo a compensar o companheiro ou em reforçar a relação” (Macknnon, 1992, p. 150). São comportamentos comuns a pessoas depressivas: “Mudança no apetite e no peso (em geral diminuição); alteração nos hábitos relacionados com o sono: insônia, ou desejo de dormir exagerado; fadiga ou falta de energia; perda de interesse pelas atividades cotidianas; diminuição do desejo sexual; incapacidade de concentração, dificuldade para recordar coisas ou tomar decisões; sentimentos de extrema tristeza, desespero, culpa, auto-reprovação ou falta de auto-estima; idéias de suicídio. (Como Superar a Depressão. Cristo Para Todas as Nações, p. 4.)” Depressão é também apontada como uma das piores formas de sofrimento, por causa do imenso sentimento de vergonha, indignidade e falta de esperança que ela acarreta. Para muitos, a depressão “can seem worse than terminal cancer, because most cancer patients feel loved and they have hope and self-esteem. Many depressed patients have told me, in fact, that they yearned for death and prayed every night that they would get cancer, so they could die in dignitywithout having to commit suicide. (Burns, 1999, p. XXX)”10 Em diferentes níveis, todos passam por estados depressivos. A intensidade está ligada a situações específicas de vida bem como à maneira como as pessoas lidam com estas situações. As causas da depressão são variadas, indo de problemas genéticos a traumas não resolvidos. No entanto, muitos especialistas concordam que o atual estilo de vida contribui de maneira significativa para o desenvolvimento de estados depressivos. “O grande crescimento urbano que rompe os laços familiares leva à perda de senso comunitário e do mútuo entendimento, e produz efeitos indesejados, como o ruído, a contaminação ambiental, a intensidade do tráfego e a tensão... a depressão 10 “pode parecer pior do que câncer terminal, porque a maioria dos pacientes com câncer se sentem amados e eles têm esperança e auto-estima. Muitos pacientes depressivos já me contaram, em fato, que eles queriam morrer e que oravam todas as noites para ficarem com câncer, pois assim eles poderiam morrer com dignidade sem ter que cometer suicídio.” Espaço Científico v.15, n.2, 2014 75 é a forma mais comum de dor emocional... (Como Superar a Depressão. Cristo Para Todas as Nações, p. 3)” Pessoas em estado depressivo têm se tornado tão comuns que ministros religiosos precisam estar fortemente preparados para lidar com elas. Mesmo que sessões de terapia já estejam sendo realizadas e até mesmo o uso de drogas tenha sido indicado por especialistas, um acompanhamento pastoral apropriado é uma ferramenta importantíssima para lidar-se até mesmo com a depressão mais severa. Isto porque a visão cristã e os conceitos ontológicos nela presentes contribuem para a construção de uma visão madura da realidade, a qual reconhece as mazelas do mundo e da vida, mas fundamenta-se numa esperança edificante e numa fé libertadora. 2.1 Foco no futuro – Uma mensagem de esperança A depressão está intimamente ligada ao sentimento de desespero. Por outro lado, a mensagem bíblico-cristã é uma mensagem de esperança. A Bíblia diz: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Esta mensagem de esperança, que aponta para uma realidade onde “o” problema não mais existe, é um poderoso instrumento para lidar com pessoas sem esperança. Como parte essencial de seu ministério, pastores manuseiam a Palavra de Deus, uma Palavra de esperança que traz o consolo do próprio Deus. Portanto, sendo uma terapia baseada na solução, que olha com acuro para o presente e orientada para o futuro, em muitos aspectos a TBFS se identifica com o que o Cristianismo ensina e confessa. Aos que se sentem rodeados por um passado de sofrimentos, Jesus dá um conforto atual com sua presença, bem como uma perspectiva futura sem o problema. Ele diz, “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11.28). As church counselors, our task is to cocreate with the counselee a reality in which there is an opportunity for positive change. We can do this by recognizing the writing of the Spirit in his past or present situation, or through cocreating a future in which the problem does not dominate. We minister through what God has already been doing and seek to move the counselee forward toward his goal… any change in how the counselee perceives the problem may result in a reevaluation of the experience of the problem. (Kollar, 1997, p. 82)”11 11 “Enquanto conselheiros cristãos, nossa tarefa é co-criar juntamente com o aconselhando uma realidade na qual há uma oportunidade para uma mudança positiva. Nós podemos fazer isto reconhecendo as marcas do Espírito no seu passado ou no seu presente, ou co-criando um futuro no qual o problema não mais domina. Nós ministramos através do que Deus já tem feito e procuramos mover o aconselhando em direção deste objetivo... qualquer mudança em como o aconselhando percebe o problema pode resultar em uma re-avaliação da experiência do problema.” Espaço Científico v.15, n.2, 201476 Não se pode deixar o passado definir quem se é ou quem se irá ser. Na perspectiva cristã todos são simul justus et peccator. Contudo, o aconselhamento pastoral deve levar as pessoas a criar um senso de quem elas são e de quem elas podem ser em Cristo. Ao caminhar-se nesta direção, é preciso estar ciente de que, em grande parte, o cuidado pastoral não implica na eliminação do sofrimento de alguém, mas em ajudar a pessoa a interpretar seu sofrimento à luz da cruz de Jesus (Eyer, 1994, p. 24). “Suffering puts us at the foot of the cross, beside parishioners, where together both sufferers discover the meaning of the cross and the peace that does ‘pass all human understanding.’ Defeat is the way of the cross, but ironically, defeat acknowledged in faith becomes victory (Eyer, 1994, p. 33).”12 2.2 Ouvidos atentos O ensinar de Jesus é um constante convite a amar. Amar ao que procura por orientação e ajuda é aceitá-lo e valorizá-lo pelo que ele é e, algumas vezes, desconsiderando o que ele faz. O bom conselheiro pode ser um instrumento de transformação à medida que ele transparece empatia e o firme desejo de estar ao lado, orientando e ajudando. Os fundamentos da TBFS estão num conselheiro comprometido no cuidado com aquele que necessita e busca orientação e ajuda. Portanto, o pastor está com o necessitado sempre e, especialmente, em seu sofrimento. Ele faz isto ouvindo-o com acuro e atenção. Apesar de a TBFS procurar mudar o foco para uma abordagem baseada na solução, deve-se sempre dar importância ao que as pessoas têm a dizer. Isto porque “[l]istening carefully is important for validating clients’ feelings and personal reality as well as for establishing rapport. Solution-focused therapists, however, listen with a type of ‘third ear’ approach. That is, they listen for things not emphasized by client, such as times that the client’s life is going well and the problem is absent. They also listen for strengths and resiliencies clients may not notice in themselves. They then proceed to direct the conversation toward strengths and solutions. (Franklin & Moore, 1999, p. 34)”13 Neste processo de ouvir é muito importante dar ao que busca orientação e ajuda a certeza de que ele está sendo ouvido. Resumir o que foi dito e pedir por detalhes 12 “O sofrimento nos coloca ao pé da cruz, ao lado dos congregados, onde juntos descobrimos o significado da cruz e a paz que ‘excede todo entendimento humano.’ Derrota é o caminho da cruz, mas ironicamente, derrota reconhecida em fé se transforma em vitória.” 13 “Ouvir com atenção é importante por validar os sentimentos do cliente e sua realidade pessoal, bem como por estabelecer uma relação. Terapeutas focados na solução, ouvem com um tipo de ‘terceiro ouvido’. Isto é, eles ouvem coisas não enfatizadas pelo cliente, tais como tempos em que a vida do cliente esta bem e o problema ausente. Eles também ouvem as forças e resiliências que os clientes podem não ter notado em si mesmos. Eles então procedem de maneira a dirigir a conversa em direção das forças e soluções.” Espaço Científico v.15, n.2, 2014 77 e esclarecimentos ajuda muito neste processo. No aconselhamento e em qualquer relação somente ouvir o outro não é suficiente. Aquele que procura conselho no pastor precisa saber que ele está sendo ouvido, e o conselheiro precisa deixar isto claro, conscientemente (Cade & O’Hanlon, 1993, p. 43). Sharp sugere seis posturas para uma linguagem corporal intencional que facilita um ouvir atento: sorriso, postura/atitude de aceitação ao que é dito, corpo inclinado para frente, toque, contato visual e aceno com a cabeça. Ele afirma que “utilizing these intentional postures and gestures strengthens the cords of rapport and stimulates a positive interaction in thecounseling relationship. As rapport is established, the caregiver introduces solution based counseling methods to draw the emphasis away from problems and toward solutions. (Sharp, 1999, p. 75)” 14 O pastor conselheiro precisa estar consciente de que a comunicação estabelecida entre e ele e aquele que procura sua orientação vai muito além das palavras que são ditas. Na verdade, muitas vezes os significados mais profundos são transmitidos de maneira não verbal. Tal consciência contribuirá para um aconselhamento propositivo e pró-ativo, características essenciais na TBFS. 2.3 É importante agir em direção à solução O objetivo da TBFS é promover uma crescente funcionalidade o mais rápido possível. Para alcançar isto, aqueles que procuram ajuda pastoral precisam ter objetivos presentes e futuros. O aconselhamento precisa associar recursos presentes a atividades/ tarefas futuras, rever falhas percebidas e prover sugestões para um sucesso futuro. Ao mesmo tempo em que se respeita as ideias e decisões daquele que busca ajuda, é necessário ajudá-lo a definir o que ele quer em vez do que ele não quer. Sentimentos são e devem ser respeitados, mas precisa-se enfatizar a ação. Isto porque a TBFS entende que demanda menos esforço agir em direção à construção de um sentimento do que sentir-se disposto para esta ou aquela ação (Kollar, 1999, p. 125). A ação irá representar de maneira visível a realidade da mudança, e isto ajuda a manter o foco no futuro. E então, quando uma mudança acontecer, por menor que ela seja, ela precisa ser valorizada. Isto porque pequenas mudanças contribuem na necessária mudança de paradigmas que consegue perceber que o futuro pode ser diferente, não necessariamente porque o problema será extirpado da mente, mas também porque é possível aprender-se a lidar com ele de maneiras diferentes. Em seu sucessso de vendas “Feeeling Good: The New Mood Therapy,” David Burns explica conceitos de terapia cognitiva de 14 “utilizar estas posturas e gestos intencionais fortalece o relacionamento e estimula uma interação positiva no aconselhamento. Na medida em que a relação é estabelecida, o conselheiro introduz métodos baseados na solução para colocar a ênfase longe do problema e em direção das soluções.” Espaço Científico v.15, n.2, 201478 maneira popular, e lá ele também fala da importância de valorizar-se qualquer mudança alcançada. Questiona ele “Do you know why virtually any meaningful activity has a decent chance of brightening your mood? If you do nothing, you will become preoccupied with the flood of negative, destructive thoughts. If you do something, you will be temporarily distracted from that internal dialogue of self-denigration (Burns, 1999, p. 94).”15 2.4 É necessário buscar exceções ao problema No cuidado de pessoas em estado depressivo, encontrar exceções ao problema é uma ferramenta poderosa. O fato de que há exceções mostra que é possível viver sem o problema (ou viver de maneira satisfatória apesar do desafio que a vida apresenta). Uma agradável viagem com o filho adolescente não é apenas uma folga para as brigas, mas é uma prova de que é possível viver sem elas. No entanto, algumas vezes pessoas não serão capazes de encontrar exceções. Nestes casos pode-se, momentaneamente, concordar com seus sentimentos para depois perguntar a respeito do que elas têm feito para evitar que as coisas piorem. “Such questions ask counselees to go inside themselves and evaluate how they have been able to keep things from deteriorating further. When asked what they are doing to manage when things are so bad, counselees may be able to identify some reasons even when they are just getting by. Once they respond with an example of how they have managed, or why things are not worse, pastoral counselors can follow up with clarifying questions: How has that been helpful to you? What will it take to make that happen more often? (Kollar, 1999, 64)”16 Portanto, aconselhamento também é descobrimento. É trazer para a vida das pessoas conceitos/realidades que elas não conhecem ou são incapazes de reconhecer. É apontar para aquilo que está oculto aos olhares dominados por paradigmas limitadores ou embaçados pelas cicatrizes de inúmeros fracassos. É apontar para o fato de que há vida, e onde ela existe há esperaça. 15 “Você sabe porque virtualmente qualquer atividade significativa tem uma boa chance de melhorar o seu humor? Se você não faz nada, você ficará ocupado com a enchente de pensamentos negativos e destruidores. Se você faz algo, você estará temporariamente distraído daquele diálogo interno de auta-degeneração.” 16 “Perguntas como estas fazem os aconselhando irem para dentro de si mesmos e avaliar o quanto eles têm sido capazes de impedir que as coisas deteriorassem mais. Quando são perguntados pelo que eles têm feito para se conduzir quando as coisas estavam tão ruins, aconselhandos podem ser capazes de identificar algumas razões mesmo quando eles estão apenas ‘sobrevivendo’. Quando eles então respondem com um exemplo de como eles tem se conduzido, ou do porque de as coisas não estão pior, conselheiros pastorais podem apresentar perguntas que esclareçam o que foi dito: Como isto tem ajudado você? O que é necessário para que isto aconteça com mais freqüência?” Espaço Científico v.15, n.2, 2014 79 CONCLUSÃO O aconselhamento deve auxiliar pessoas a viver de maneira independente. Pastores não criam pessoas dependentes do conselheiro, mas dependentes de Deus. Na perspectivia cristã, é em Deus que estão todos os recursos para a vida emocional, física e espiritual. Portanto, o pastor conselheiro capacita pessoas a cuidarem de suas próprias vidas sabendo que todas as coisas estão nas mãos de Deus. Pastores, enquanto cura d`almas, ajudam pessoas em sua caminhada de maturidade na fé. Momentos de alegria e contentamento bem como situações de insatisfação e tristeza são vivências intrínsecas à natureza humana (O’Hanlon & Weiner-Davis, 1989, p. 178), portanto, sua existência deve ser encarada de maneira natural. Neste sentido parece caminhar a Oração da Serenidade: “Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras.” Também neste sentido caminha a TBFS, reconhendo os desafios intrínsecos à realidade humana, mas com um foco na real possibilidade de vivermos vidas satisfatórias. Este é o testemunho deixado por Paulo, cuja profunda mudança de paradigma pela qual passou em sua conversão possibilitou que ele construísse, sob a ação do Espírito Santo, uma visão existencial serena, que reconhecia os desafios da vida e os vivia sob cruz de Cristo, focando naquilo que lhe dava sentido de vida e consequente satisfação interior (Filipenses 4.11-13). Isto nos mostra que a serenidade concedida pelo Evangelho de Criso é algo essencial para a vida e para o aconselhamento pastoral. A TBFS partilha dos mesmos pressupostos que sustentam esta perspectiva de vida. Obviamente, esta abordagem não é a espada salvadora que irá superar todos os desafios presentes no aconselhamento pastoral, mas o estudo e uso desta abordagem com certeza representarão uma importante ferramenta nas mãos daqueles que cuidam das filhas e dos filhos de Deus a eles confiados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BURNS, David D. Feeling Good: The New Mood Therapy. New York: Avon Book, 1999. 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Analisaram-se os novos rumos da gestão pública brasileira e o papel do terceiro setor dentro dessa nova gestão, onde se procura estimular a inserção dos diversos segmentos sociais no processo de tomada de decisão e da implementação das políticas sociais. Inicialmente, as reflexões foram realizadas em relação às questões conceituais de Política Pública, a seguir refletimos sobre questões ideológicas presentes na tarefa do estado decidir e executar as políticas públicas, no que se refere à sociedade, política e estado; depois, enveredamos por definições e explanações sobre o terceiro setor e esboçamos o novo modelo de gestão das políticas públicas no contexto brasileiro; finalmente, trouxemos as contribuições que Organizações Não-Governamentais como Asas de Socorro trazem a esse novo modelo de gestão das políticas públicas. Utilizamos a pesquisa explicativa, tendo como procedimento a pesquisa bibliográfica, pesquisa documental, bem como a pesquisa de levantamento. Fez-se uma coleta de dados através de estudo e análise de referencial teórico, reflexões e avaliação de programas e projetos do terceiro setor, na ONG Asas de Socorro. Palavras - chave: Estado. Sociedade Civil. Terceiro Setor. Asas de Socorro. ABSTRACT This present summary has as its objective to promote reflection about the different configurations assumed by the State in the context of the new management model of Brazilian public policies that was put into place after its regulations in the Federal Constitution of 1988, in what is referred to as confronting social issues. The new directions of Brazilian public management were analyzed and the role of third sector organizations within this new management, which seeks to encourage the integration of various social groups in the decision-making process and in the implementation of these social policies. Initially these reflections were realized in regard to conceptual issues of Public Policy, following which we reflect on the ideological issues present in the task of the State to decide and implement public policies, as it relates to society, politics and the state, after which we will endeavor to define and explain the third sector. We will then outline the new model of public policy management in the Brazilian context and finally we will bring in the contributions that Non-Governmental Organizations such as Wings of Help (Asas de Socorro) bring to this new management model of public policies. We will use explanatory research and using procedures of bibliographic research, documentary research, and survey research. A collection of Izabel Evangelista é Docente do Centro Universitário Luterano de Santarém/ CEULS/ULBRA. E-mail: izalcina@ bol.com.br Mara Jeane Dantas da Silva Costa é Assistente Social, aluna da Pós-Graduação em Gestão de Políticas Públicas no Centro Universitário Luterano de Santarém/PA CEULS/ULBRA. E-mail: mara.dantas@asasdesocorro.org.br Espaço Científico v.15, n.2, 201482 data was made through study and analysis of the theoretical framework, reflection and evaluation of programs and projects in the third sector, with the NGO Wings of Help(Asas de Socorro). Keywords: State. Civil Society. Third Sector. Wings of Help(Asas de Socorro). INTRODUÇÃO Analisar sobre os novos rumos da Gestão Pública Brasileira e o papel do Terceiro Setor nesse novo modelo tendo como apoio ao estudo a Organização Não-Governamental (ONG) Asas de Socorro, inserida nesse contexto, é a pretensão desse trabalho, não no sentido de esgotar o assunto, mas o texto é essencialmente provocativo. O nosso estudo quer identificar se é possível conjugar os modelos da gestão governamental e da sociedade civil no sentido de contribuir para uma maior compreensão do processo de ampliação da participação da população nos assuntos públicos e ao mesmo tempo refletir algumas questões ideológicas que estariam por traz da iniciativa governamental de dividir com os segmentos da população a tarefa de decidir e executar políticas públicas, além de mostrar as mudanças institucionais trazidas para esse novo modelo de gestão pública brasileira e analisar como o Terceiro Setor e a ONG Asas de Socorro têm contribuído nessa nova política de gestão pública brasileira. 1 POLÍTICA PÚBLICA 1.1 Definindo conceitos Políticas Públicas são as respostas, muitas vezes resultado de coerção, que o sistema político entrega para a sociedade para atender as necessidades sociais da população – Assistência Social, Saúde, Educação, Habitação entre outras. Por diversas vezes, o processo de configuração de uma política pública é apresentado por atores sociais ou políticos que estejam interessados, direta ou indiretamente, na tomada de alguma decisão pública para responder a uma situação específica. Assim, percebemos que o interesse público é pressuposto da legitimidade de toda política pública. As políticas públicas não-governamentais são condição cada vez mais usual nas sociedades onde o Estado é neoliberal. São políticas que atendem ao interesse público, tendencionam responder a necessidades sociais, são submetidas ao debate e participação popular, porém são propostas, formuladas e executadas por organizações não pertencentes ao aparelho de Estado. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 83 2 qUESTÕES IDEOLóGICAS NA REDEFINIÇÃO ESTATAL NA TAREFA DE DECIDIR E EXECUTAR POLÍTICAS PÚBLICAS 2.1 Sociedade, política e estado O Estado é uma sociedadeque se constitui de um grupo de indivíduos unidos e organizados permanentemente para realização de um objetivo comum. Assim, ela é também uma sociedade política porque sua organização é determinada por leis próprias que obedecem a uma hierarquia que podemos chamar de governantes e governados para fins de um bem público ou comum (AZAMBUJA, 1998, p. 2). O Estado, para atingir o bem público, emprega diversos meios que variam conforme as épocas, os povos, os costumes e as culturas. Por consequência, esse Estado terá que ter autoridade e poder, cuja manifestação concreta é a força (ibid, p. 21). Existem entendimentos de que foi no início do Século XVII que se deu o surgimento da sociedade civil. Os primeiros teóricos simpatizantes da teoria liberal defendiam a liberdade civil e religiosa e a não-intervenção do Estado na economia. Na sociedade burguesa, ou seja, no capitalismo da época, o Estado que é a representação do poder político, e a sociedade civil, representando o conjunto das relações econômicas, eram separados. É, porém, na sociedade civil em que há os conflitos para o Estado administrar, pois a sociedade civil representa a esfera das relações entre os indivíduos, grupos e classes (ARANHA e MARTINS, 1993, p. 260). O conceito de Estado e sociedade civil sofreu modificações ao longo do tempo. A distinção entre Estado e sociedade civil, formulada no começo do século XVII, é restabelecida por Hegel (1770-1831), segundo o qual era o Estado que fundava a sociedade civil. Mais tarde, Marx vai afirmar que é a sociedade civil que orienta o Estado, desde sua formação à criação e consolidação de suas leis (GONÇALVES, 2006, p. 43). Na visão marxista, é a estrutura econômica que determina o Estado e não o contrário, e o Estado é parte essencial dessa estrutura porque a garante. Assim, da mesma forma como o Estado escravista garantiu a reprodução da escravatura, o Estado capitalista garantirá o domínio das relações de produção capitalistas, a reprodução ampliada do capital e a acumulação. Portanto, a crise do Estado afeta a economia (GONÇALVES, 2006, p.43). A Crise do modelo capitalista de produção ocorre com a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929, quando novas medidas foram tomadas para encaminhar o liberalismo Espaço Científico v.15, n.2, 201484 a uma nova tendência, que pode ser chamado de liberalismo social, onde o papel do Estado na economia é revisto. A partir daí o Estado começa a sua intervenção de forma decisória na produção e distribuição de bens, apontando-se para uma forte tendência em direção ao Welfare State, ou seja, ao Estado de Bem-Estar social, que “pode ser definido como sendo aquele Estado que garante tipos mínimos de renda, alimentação, saúde, habitação, educação, assegurados a todos os cidadãos, não como caridade, mas como direito político” (DRAIBE ,1988, p. 52) Neste modelo de Estado, figurava em seu projeto a busca de uma sociedade equitativamente mais justa, diminuindo as distorções de um mercado regido por suas próprias regras e delineamentos, mesmo sendo capitalista e com características liberais. No Brasil, o Estado de Bem-Estar Social não foi o Estado da classe trabalhadora, mesmo que beneficiando grande parte dos trabalhadores assalariados, através da melhoria das condições de vida. Esse Estado combinou medidas de caráter social, porém sem perder seu caráter paternalista. O Estado Social assumiu para BRESSER PEREIRA “três formas: a do Estado do Bem-Estar nos países desenvolvidos, principalmente na Europa, a do Estado Desenvolvimentista nos países em desenvolvimento, e a do Estado Comunista nos países em que o modo de produção estatal tornou-se dominante” (BRESSER PEREIRA,1999, p.11). O Estado brasileiro transformou-se em um Estado Social-Burocrático na medida em que, para promover o bem-estar social e o desenvolvimento econômico, contratou diretamente, como seus funcionários públicos, profissionais técnicos como professores, médicos, enfermeiras, assistentes sociais, artistas, etc. BRESSER PEREIRA (1999, p. 15-16), diz que O Brasil como a maioria dos países do mundo apresentam diminuição progressiva e acentuada do papel dos Governos Nacionais, como provedores de bem-estar social em decorrência da incapacidade destes em conseguir suportar o cada vez mais pesado ônus da proteção social generalizada. Muitos foram os fatores que contribuíram, portanto, para que o modelo de produção do Estado de Bem Estar Social, perdesse força e descentralizasse suas funções, direcionando para dividir com a sociedade civil organizada esta responsabilidade. A decadência do Estado do Bem Estar Social faz com que surja o Estado Regulado como um novo modelo. Diante do novo quadro, a proposta Neoliberal é de uma manutenção de um Estado forte que seja capaz de romper com o poder sindical e controlar a emissão de dinheiro. Esta nova proposta também almeja a redução drástica Espaço Científico v.15, n.2, 2014 85 nos gastos sociais e a sua saída das questões econômicas que defende a idéia de que deveriam ser reguladas pelo próprio mercado. FIGUEIREDO (2004, p. 55) afirma que [...] neste modelo de Estado que vem sendo implantado no Brasil desde a década de 1990, o Governo deixa de intervir em áreas importantes da economia nacional e delega a prestação de serviços públicos a empresas privadas. De provedor, o Estado passa a Regulador, estabelecendo-se uma nova relação entre os cidadãos e o Governo. O Estado, portanto, deixa de ser o único executor de políticas públicas, especialmente as sociais e começa a priorizar o seu papel de Articulador, Fomentador e Regulador destas políticas. Conseqüentemente, cresce a participação de outros atores da sociedade, tais como a Iniciativa Privada e a Sociedade Civil Organizada, conhecido como Terceiro Setor. Assim, o Primeiro Setor (Estado) passa a descentralizar suas atividades fundamentais, no que diz respeito às políticas sociais, delegando esta função ao Segundo Setor (mercado) e ao Terceiro Setor (sociedade civil organizada). FIGUEIREDO (2004, p. 78) complementa dizendo que: Desde que o Estado se deu conta que não tem recursos para os investimentos necessários, conduziu a execução de serviços públicos, processo de transferência para o setor privado da execução de serviços públicos. Mas o fato de determinados serviços ou atividades públicas serem prestados por empresas privadas e pelo Terceiro Setor não modifica a sua natureza pública. O Estado conserva responsabilidade e deveres em relação a sua prestação adequada desses serviços ou atividades. Este novo modelo regulatório de Estado propõe que concepções desenvolvidas na atividade econômica privada estendam-se ao setor dos serviços públicos, incumbindo ao Estado, portanto, desempenhar atividades diretas apenas nos setores em que a atuação da iniciativa privada colocar em risco valores coletivos, ou for insuficiente para propiciar sua plena realização. Justem Filho (2003, p. 59) contribui dizendo que “O Estado deve manter a participação no âmbito da segurança, da educação e da seguridade social, evitando a mercantilização de valores fundamentais.” Espaço Científico v.15, n.2, 201486 2.2 O terceiro setor e suas definiçoes O Terceiro Setor é uma força iniciada nas bases da sociedade civil, com propostas concretas, capacidade mobilizadora e de pressão junto às diferentes esferas de poder, visando suprir demandas que o Estado não consegue mais atender. Podemos, portanto conceituar o Terceiro Setor como “O conjunto de organismos, organizações ou instituições sem fins lucrativos dotados de autonomia e administração própria que apresentam como função e objetivo principal atuar voluntariamente junto à sociedade civil visando ao seu aperfeiçoamento” (GONÇALVES, 2006, p. 101). Não se pode negar a importância do terceiro setor na prestação de serviçospúblicos. Os entes que integram o terceiro setor são entes privados, não vinculados à organização centralizada ou descentralizada da Administração Pública, e não almejam, entre seus objetivos sociais, o lucro e que prestam serviços em áreas de relevante interesse social e público (ibd, p. 50). Simone de Castro Carvalho Coelho (apud GONÇALVES, 2006, p. 101) conceitua terceiro setor como sendo: [...] as organizações da sociedade civil que não objetivam lucratividade, tendo a sua base material separada do aparelho estatal, de quem mantêm certo grau de autonomia e são organizadas em torno de um objetivo comum. A elas podem ser atribuídas também a flexibilidade e a eficiência do mercado com a equidade e uma certa previsibilidade do Estado. José Eduardo Sabo Paes (2003, p. 88) também traz preciosa contribuição à definição do terceiro setor: [...], o terceiro setor é aquele que não é público e nem privado, no sentido convencional desses termos; porém, guarda uma relação simbiótica com ambos. Ou seja, o Terceiro Setor é composto por organizações de natureza “privada” (sem o objetivo do lucro) dedicadas à consecução de objetivos sociais ou públicos, embora não sejam integrantes do governo (Administração Estatal). Quando se caracteriza o terceiro setor como “aquilo que não é público nem privado”, podemos entender que há organizações que podem ser consideradas como de utilidade pública com capacidade de auxiliar o Estado no cumprimento de seus deveres e, ao mesmo tempo, com atuação efetiva em ações sociais buscando benefícios Espaço Científico v.15, n.2, 2014 87 coletivos públicos, com atenção, contudo, para as grandes desigualdades vigentes no país e para a incapacidade do Estado em desempenhar com eficiência as atividades que lhe são atribuídas. Há uma necessidade de fazer a diferenciação entre os benefícios coletivos que caracterizam o Terceiro Setor, dos benefícios públicos, e os autores Silva e Aguiar (apud GONÇALVES, 2006, p.102), chamam a nossa atenção para isso: [...] Muitas organizações do terceiro setor visam promover benefícios coletivos privados. Este caso corresponde ao de organizações visando ajuda mútua que pretendem defender interesses de um grupo restrito de pessoas, sem considerável alcance social. As organizações de caráter público, de outro lado, estão voltadas para o atendimento de interesses mais gerais da sociedade, produzindo bens ou serviços que tragam benefícios para a sociedade como um todo. É importante destacar, porém que, as organizações de benefícios mútuos ou privados assumem um caráter público, quando suas interferências na sociedade buscam um bem coletivo, de acordo com Fernado Tenório (2001, p. 7): [...] Essas Organizações não fazem parte do Estado, nem a ele estão vinculadas, mas se revestem de caráter público na medida em que se dedicam a causas e problemas sociais e em que, apesar de serem privadas, não têm como objetivo o lucro, e sim o atendimento das necessidades da sociedade. Apresentar o terceiro setor (PAES, 2003, p. 88) é entender que estas instituições que o compõe são conseqüências de novos grupos da sociedade civil e dos movimentos sociais. Assim, além de interlocutores, são instrumentos para a efetivação de uma nova dinâmica social e democrática, onde as relações são orientadas pelos laços de solidariedade entre os indivíduos, o espírito de voluntariado e o consenso na busca do bem comum. COSTA (2004 apud GONÇALVES 2006, p. 104) contribui dizendo que o terceiro setor: [...] São organizações que atendem demandas sociais e atuam em diversos segmentos da sociedade, concentrando certo grau de organização e trabalho voluntário. Podem atuar diretamente na prestação de serviços ou na defesa de direitos, funcionando normalmente como associações, sindicatos, fundações, ONGs diversas, igrejas, dentre outros. Então, este Setor compreende desde as instituições mais simples até aquelas que movimentam milhões de reais e têm grande repercussão nacional em suas ações. Espaço Científico v.15, n.2, 201488 É fato inequívoco que a presença do terceiro setor no cenário brasileiro é ampla e diversificada, com organizações variando em tamanho, grau de formalização, volume de recursos, objetivo institucional e forma de atuação. Com representações de organizações não-governamentais, fundações de direito privado, entidades de assistência social e de benemerência, entidades religiosas, associações culturais, educacionais, etc. Tal diversidade é resultante da riqueza e pluralidade da sociedade brasileira e dos diferentes marcos históricos nas relações entre o Estado e o mercado (GONÇALVES; 2006, p. 104). Tal diversidade do terceiro setor o torna complexo e heterogêneo, recheado de organizações sem fins lucrativos e com fins públicos, do qual fazem parte tanto associações comunitárias como fundações que se articulam com redes locais, nacionais e internacionais. As suas ações vão desde os direitos humanos, quanto questões ambientais, desenvolvimento local e até implementação de programas e serviços da Política da Assistência Social, educação etc. Estudos de Lester Salamon (1997 apud GONÇALVES, 2006, p. 108) dizem que o terceiro setor é: [...] um setor variado e complexo que engloba grandes universidades e pequenas entidades filantrópicas, cantinas de distribuição de sopas aos sem-teto e respeitáveis instituições culturais, organizações de direitos humanos e associações profissionais, entre muitas outras. E abrange entidades não governamentais que expressam a sociedade civil organizada em busca de soluções próprias para suas necessidades e problemas, objetivando o interesse público em diversas áreas e segmentos (sejam elas associações, fundações de direito privado, ONGs, entidades religiosas) trata-se de um novo arranjo institucional que foge da lógica do Estado e do mercado e, que determina uma nova relação entre a Sociedade e o Estado, tem se mostrado capaz de ser determinante para a mobilização social e de transformação da realidade em que está inserida, não importando o nome a que se faz referência, seja Terceiro Setor, setor sem fins lucrativos, setor da sociedade civil, setor do voluntário, setor do social-econômico, setor ONG, setor de caridade, etc. Considera-se ainda que (FISHER, 2002 apud GONÇALVES, 2006, p. 108) o terceiro setor está relacionado de forma tênue com as instituições estrangeiras – fundações, agências multilaterais e escritórios locais das ONGs internacionais. A ajuda filantrópica emergencial externa tem uma presença absolutamente marginal na economia brasileira, ao contrário do que ocorre em muitas nações em desenvolvimento. Porém, A importância de sua atuação é ressaltada pela introdução de conhecimentos inovadores, produção de informação, formação e capacitação de pessoas, que alavancam ações diferenciadas de desenvolvimento. Embora a atuação de ajuda Espaço Científico v.15, n.2, 2014 89 direta às populações em situação de exclusão social seja localizada e pontual, não se pode negar que contribuem para a redução dos déficits sociais e para o fortalecimento da atuação de entidades locais. Queremos ainda salientar que, conforme Salamon e Anheier (1997 apud GONÇALVES, 2006, p. 109), pode-se afirmar que o terceiro setor é composto por entidades de interesse social sem fins lucrativos (associações e fundações de direito privado), as quais possuem algum grau de institucionalização organizacional, com autonomia e administração próprias, isto é autogovernadas, e possuem quase sempre participação voluntária. Entendendo assim, as organizações que fazem parte deste setor apresentam as cinco características seguintes: a) organizadas: são estruturadas, pois possuem certo nível de formalização de regras e procedimentos, ou algum grau de organização permanente. Ficam, portanto,excluídas as organizações sociais que não apresentam uma estrutura interna formal; b) privadas: estas organizações não têm nenhuma relação institucional com governos, embora possam dele receber recursos; c) não distribuidoras de lucros: nenhum lucro gerado pode ser distribuído entre seus proprietários ou dirigentes. O que importa é o destino dado aos fins lucrativos que porventura possam existir, os quais deverão ser empregados na atividade fim da entidade; d) autônomas: possuem os meios para controlar sua própria gestão, não sendo controladas por entidades externas; e) voluntárias: envolvem um grau significativo de participação voluntária (trabalho não-remunerado). A participação de voluntários pode variar entre organizações e de acordo com a natureza da atividade por ela desenvolvida (ibid, p. 109). Sobre a questão do voluntariado, preciosa é a contribuição de SELMA FROSSARD COSTA (2003 apud GONÇALVES, 2006, p. 109) quando diz: [...] O voluntariado já vem dando a sua contribuição significativa no âmbito das políticas sociais. O que tem mudado, nesse novo contexto conjuntural,é a forma de exercer e de compreender a ação voluntária. Percebemos que muitos ainda não têm clareza das mudanças conjunturais e determinantes de um novo perfil de voluntário. Defendemos a idéia de que ele necessita ser treinado e preparado para o exercício do voluntariado, frente às peculiaridades da atual conjuntura social, econômica e política, seja em qual frente for o trabalho a ser desenvolvido. Espaço Científico v.15, n.2, 201490 Da mesma forma que ao funcionário que atua nessas instituições devem ser proporcionados espaços de capacitação e atualização, o voluntário também necessita ser alvo de processos de desenvolvimento de competências. 3 O NOVO MODELO DE GESTAO DE POLÍTICAS PÚBLICAS BRASILEIRO Entendemos como necessária uma reflexão crítica dos processos de gestão que vem sendo desenhado no campo das políticas públicas e sociais, principalmente no que se refere à parceria do Estado com o as entidades do terceiro setor. Importantes mudanças ocorreram com a redemocratização do País, no fim da década de 80, dentre estes a instituição da nova Constituição, em 1988, também conhecida como a Constituição Cidadã, e o movimento da sociedade brasileira. Neste novo quadro, as políticas sociais vão se direcionar para a universalização e garantia dos direitos sociais, para a descentralização político-administrativa e para a participação popular. De acordo com Cunha (2002, p. 11) “As elites econômicas, passaram a admitir, os limites do mercado como regulador natural e fizeram um resgate do papel do Estado como mediador civilizador, ou seja, com poderes políticos de interferência nas relações sociais”. A Constituição Brasileira de 1988, refletindo a ampla mobilização social que a precedeu, instituiu oficialmente o sistema de seguridade social, baseado no tripé - previdência, saúde e assistência social. No artigo 195, da Constituição Brasileira, ficou definido que financiamento da seguridade social seria feito por toda a sociedade, através de recursos orçamentários da União, dos Estados e dos Municípios, além das contribuições sociais de empregadores (folhas de salários, faturamento e lucros), de trabalhadores e de receitas de concursos e prognósticos (loterias). Essa normatização, para Cunha (ibid, p. 14) teve grande importância no que se refere às políticas que integram o sistema, pois, a partir da Constituição de 1988, foi reconhecido o direito à proteção social, devida pelo Estado como universal (a todo cidadão), independentemente de contribuição prévia ao sistema e estabeleceu estruturas organizativas de caráter democrático para seu funcionamento (conselhos, fundos, comissões, conferências etc). A proteção social passa a ser incondicional, independente de contribuições pessoais que caracterizavam o sistema até então vigente. Importante destacar ainda que os novos direitos constitucionais regulamentados em 1988 garantiram novos direitos sociais para a população em diversas áreas como saúde, educação, assistência social etc. na medida em que inseriu a participação da sociedade civil, através dos conselhos gestores, na sua formulação e controle. Esses Espaço Científico v.15, n.2, 2014 91 conselhos, passaram a ser considerados canais de participação, com a abertura de novos padrões de interação entre governo e sociedade na gestão de políticas públicas. A década de 1990 foi uma década marcada pelo conflito entre os diversos atores que representavam segmentos sociais como as áreas da criança e do adolescente, da seguridade social, da saúde, da assistência social, da educação e da previdência social e que lutavam pela implementação de políticas públicas que concretizassem os direitos sociais conquistados e assegurados em lei e combatiam as restrições políticas e econômicas impostas para sua implementação. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu vários objetivos a serem alcançados, que podem ser vislumbrados no art. 3º: Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (BRASIL, 1988). Estes objetivos devem ser perseguidos e concretizados, devendo, toda a estrutura de Estado servir à obtenção destes preceitos regulatórios. A nova lei regulamenta que o Estado deve criar as condições necessárias para que os indivíduos tenham desenvolvidas as suas aptidões físicas, morais e intelectuais, vivendo de forma harmônica e solidariamente em sociedade. Várias são as teorias sobre a questão de qual é competência do Estado: algumas entendem que o Estado deve fazer quase tudo, outras afirmam que o Estado deve reduzir sua atividade ao mínimo e deixar aos indivíduos o máximo de atribuições. Para Gonçalves (2006, p. 79), pode-se afirmar que, As políticas públicas no Brasil se desenvolvem em duas frentes: políticas públicas de natureza social e de natureza econômica, ambas com um sentido complementar e uma finalidade comum, que é de impulsionar o desenvolvimento da Nação, através da melhoria das condições gerais de vida de todos os cidadãos. Políticas Públicas e Políticas governamentais são formas divergentes de interlocução e de práticas, por isso é muito importante compreender o papel que a sociedade civil deve assumir no estado democrático moderno. Espaço Científico v.15, n.2, 201492 Potyara Pereira (2001, p. 222) nos dá uma dica: [...] A palavra ‘pública’, que acompanha a palavra ‘política’, não tem identificação exclusiva com o Estado, mas sim com o que em latim se expressa como res publica, isto é, coisa de todos, e, por isso, algo que compromete simultaneamente, o Estado e a sociedade. É, em outras palavras, ação pública, na qual, além do Estado, a sociedade se faz presente, ganhando representatividade, poder de decisão e condições de exercer o controle sobre a sua própria reprodução e sobre os atos e decisões do governo e do mercado. É o que preferimos chamar de controle democrático exercido pelo cidadão comum, porque é controle coletivo, que emana da base da sociedade, em prol da ampliação da democracia e da cidadania. As Políticas Públicas expressam e incorporam as necessidades e interesses gerais da população. Elas são traduzidas em demandas e problemas sociais que se constituem em objetos das decisões na esfera pública e que dão origem a programas e projetos de atenção às reivindicações, na direção da cidadania. As Políticas governamentais revelam pouca preocupação com a igualdade dos cidadãosno acesso à qualidade do atendimento a direitos universais, quando os países são orientados por traços sólidos do neoliberalismo, este caracterizado pelas desigualdades sociais. É observada muitas vezes a incapacidade desses governos transformarem as políticas governamentais em políticas públicas. Muitas vezes as políticas governamentais, formam um desenho fragmentado, burocratizado e centralizado, revelando-se mais como uma estratégia de governo do que em uma política públicas. E até que essa política alcance o cidadão que realmente necessita das políticas do governo, este é obstruído pela burocracia e mediação de técnicos que muitas vezes podem desvirtuar os objetivos previstos. Essa obstrução está associada à ausência de vontade política dos governos ou de pessoas que estão em posição de poder, para atender as reivindicações que não são, necessariamente, aquelas ligadas aos seus interesses. Ou mesmo aquelas que foram feitas apenas para produzir e consolidar uma marca de governo, pouco valorizando as demandas das forças populares (GONÇALVES, 2006, p. 80). Foi a partir da Constituição de 1988 que as políticas públicas no Brasil inscreveram princípios e práticas mais democráticas, e a questão social e as políticas sociais ganharam novos contornos na sua dimensão pública, embora haja ainda um longo caminho a se percorrer a fim de evitar que essas políticas públicas sejam reduzidas à dimensão das contingências de governo e das políticas de momento. Com a Carta Magna de 1988, o País ganhava garantias de direitos sociais: é quando o terceiro setor brasileiro emergiu, mesmo que, paradoxalmente, a política neoliberal divulgasse um discurso do Estado Mínimo e uma ação de sucateamento das políticas sociais. Foram enfatizadas ações prioritárias na busca de novas formas de articulação Espaço Científico v.15, n.2, 2014 93 com a sociedade civil e o mercado, envolvendo a participação das ONG’s, comunidade organizada e setor privado na execução de serviços públicos e na introdução de novas formas de gestão nas organizações do estado, para garantir agilidade e efetividade, na busca da superação da burocratização e hierarquia dos processos de decisão. Gonçalves (ibid, p. 147) nos acrescenta que “O Estado passou, então, a incentivar gradativamente a ação voluntária e a ascensão das organizações da sociedade civil para assumirem o enfrentamento da questão social.” Temos, porém que ressaltar que esse processo foi implantado de fora para dentro, gerando interpretações equivocadas acerca da atuação do terceiro setor na área social e tendo como conseqüência deturpações que comprometem a legalidade, o protagonismo e a competência de suas ações. Estas interpretações equivocadas fazem com que o terceiro setor seja visto como aquele que pretende substituir o Estado no enfrentamento da questão social. Além do problema conceitual e de delimitação, o terceiro setor no Brasil também enfrenta uma carência de pesquisas. Poucos são os dados que informam o número de pessoas ocupadas, beneficiadas, recursos investidos e número de parcerias realizadas. A Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais – ABONG descreve o que as organizações da sociedade civil se propõem a realizar: [...] Acreditam que frente à atual incompetência do Estado, alguém tem que fazer alguma coisa. No entanto, é necessário abrir espaço para outro tipo de enfoque que vem sendo construído há anos sem a visibilidade que merece na mídia e no debate público. São ações realizadas no campo da educação popular, formação e assessoria de movimentos sociais. Trabalhos de entidades que não se propõem a assumir o papel do Estado, nem a realizar ações superficiais e momentâneas, mas sim a atuar na esfera pública, fortalecendo iniciativas e esforços de lideranças comunitárias em se fazer ouvir, na reivindicação frente ao poder público por direitos sociais e não por benesses (ABONG – Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais, Boletim da Cidadania, de 05/05/2004). Além disso, a Norma Operacional Básica - NOB esclarece que, “ao Estado cabe, manter relações com a sociedade civil organizada na busca da ampliação da oferta de bens transferidos à população, não se eximindo de suas responsabilidades e nem se revestindo de caráter autoritário e antidemocrático, desconsiderando a atuação destas organizações na sociedade”. (NOB/99 – Norma Operacional Básica). O Papel do Terceiro Setor nada mais é do que atuar na área social, buscando o fortalecimento de direitos, não retirando o papel do Estado no cumprimento da execução dos direitos sociais. Merege e Barbosa (2001, p. 56), afirmam que o terceiro setor representa uma parceria com o Estado, ou seja, uma forma de participação popular na gestão administrativa. GONÇALVES (2006, p. 95), citando valiosa contribuição de PAES, nos diz que: Espaço Científico v.15, n.2, 201494 No Brasil, estudos sobre o fortalecimento da sociedade civil organizada, especificamente sobre a participação de novos atores na formulação e execução de políticas públicas, ainda são muito recentes. Contudo, a expansão e o trabalho realizado por esses grupos indicam que os padrões tradicionais de articulação e diferenciação da sociedade civil tiveram, nas últimas décadas, um grande impulso e mudança dos padrões tradicionais. Importante se faz destacar que o terceiro setor no Brasil vem se consolidando como reflexo direto da ação, da generosidade, da solidariedade da própria sociedade civil. Apesar de tantas incertezas sobre as organizações de terceiro setor, há sentimento de que há um espaço que se diferencia do governamental e do privado e que está crescendo de forma acentuada, ganhando maior atenção da mídia, dos núcleos e centros de estudos e de profissionais em busca de uma colocação no mercado de trabalho. O crescimento das entidades não governamentais e o compartilhamento da gestão das políticas públicas refletem espaços democráticos de controle social dessas políticas, como também o lugar dos gestores das políticas públicas tanto no âmbito municipal como estadual, porém é muito importante uma verificação se esse compartilhamento está realmente a serviço dos direitos sociais, da eficiência na operação, da equidade que os usuários tanto almejam nos serviços prestados entre tantos outros aspectos. Pesquisar e indagar esse novo modelo de gestão é reconhecer o papel dessas entidades na implementação e desenvolvimento das políticas públicas brasileiras. 4 O PAPEL DA ONG ASAS DE SOCORRO NO NOVO MODELO DE GESTAO As organizações sem fins lucrativos são extremamente diversificadas. Sérios problemas conceituais aliados ao tratamento jurídico que essas organizações recebem das estruturas legais nacionais fazem com elas sejam difíceis de serem identificadas em cada lugar. Durante muitas décadas, políticos tanto de esquerda quanto da direita foram tendenciosos a minimizar o papel destas instituições. Os da esquerda queriam justificar a expansão do Estado de Bem-Estar social e os da direita, para justificar ataques ao Estado como o destruidor de instituições mediadoras privadas. É difícil se saber, portanto se o rápido crescimento destas instituições é algo novo, ou foi simplesmente um setor longamente ignorado (SALAMON,1998, P. 6). A evidência do aumento das instituições do terceiro setor pelo mundo é incontestável. SALAMON (ibid,p.6) prossegue: [...] uma pesquisa de 1982 junto a organizações sem fins lucrativos provedoras de serviços sociais em 16 comunidades norte-americanas indicou que 65% haviam Espaço Científico v.15, n.2, 2014 95 sido criadas após 1960. O número de associações privadas disparou de modo semelhante na frança, com mais de 54 mil criadas somente em 1987.[...]esse fenômeno é ainda mais marcante nos países em desenvolvimento, em que cerca de 4.600 organizações voluntárias de países desenvolvidosestão em atividade, apoiando cerca de 20 mil organizações não-governamentais nativas[...]cerca de 100 mil comunidades eclesiais de base, erguidas sobre grupos locais de ação, eram identificadas no Brasil, na década de 80. Tomamos a Associação Asas de Socorro que foi fundada no Brasil em 1955 e estruturada em 1964, como uma associação sem fins lucrativos, com prazo de duração indeterminado, de caráter beneficente, filantrópico, cultural, educativo, religioso, de assistência social, e de direitos humanos, regida por um estatuto social e pela legislação aplicável, com seus atos constitutivos registrados. A organização teve início no ano de 1945 nos Estados Unidos, logo após a Segunda Guerra Mundial. Com a denominação de “Missionary Aviation Fellowship” (MAF) ela se desenvolve como uma ONG de cunho religioso e caracteriza-se pelo uso de aeronaves em seus trabalhos de evangelização e desenvolvimento social, hoje, principalmente nas comunidades tradicionais da Amazônia brasileira, especialmente nos estados de Roraima, Amazonas, Rondônia e Pará. Na sua estratégia de estruturar a Missão MAF - Asas de Socorro em território brasileiro, algumas atitudes foram tomadas. Asas de Socorro estrutura sua sede em Anápolis/GO, onde estava o final da estrada de ferro e havia algumas estradas de acesso; ao norte do país, onde quase não havia nada, constitui-se numa área central em relação à operação dos aviões das diversas organizações que precisassem trazer seus aviões para manutenção; também, havia naquela cidade o Hospital Evangélico Goiano, que em parceria com Asas de Socorro, planejava criar um trabalho na área de assistência social com os norte-americanos, fato este que nunca se concretizou. Em 1985, inicia um trabalho na área social, denominado “AMDE” (Assistência Médico-Dentária e Evangelística), que tinha como objetivo intensificar o trabalho na região Amazônica e interior de Goiás. Este projeto “desenvolve-se entre grupos étnicos, comunidades ribeirinhas e comunidades Kalungas”. (ano e página). Os trabalhos iniciados privilegiam grupos que tiveram pouco ou quase nenhum contato com órgãos governamentais e pesquisadores, como por exemplo Tinhanha (GO). Segundo informações documentais da instituição, na pesquisa de campo realizada em maio de 1998, as informações relatavam, por exemplo, que não havia luz elétrica. As pessoas viviam da agricultura de subsistência, e o único meio de transporte era o cavalo. Eram pessoas que não viviam tão distantes assim da cidade grande, mas que, devido ao seu isolamento, não receberam ou não se enquadraram nos costumes citadinos. Uma vez por ano, eles recebiam a Equipe do AMDE. Pessoas de todos os cantos vinham para serem atendidos. Algumas pessoas andavam o dia todo, com seus filhos para receberem atendimento. Em um local improvisado, a céu aberto, recebiam noções de Espaço Científico v.15, n.2, 201496 educação bucal, por exemplo, como escovar os dentes (noções dadas principalmente para as crianças), tratamento dentário, medição da pressão, etc. era uma clínica móvel. Esta comunidade é uma entre vários casos no Brasil, que vivem em condições de “carência” reforçando a idéia do abandono do governo local em amparar através de assistência social e benfeitorias estas comunidades, passando, pois, a tutela aos órgãos não-governamentais, como é o caso de Asas de Socorro. O Projeto AMDE caminha através de pessoas voluntárias, membros de igrejas variadas, formadas na área de saúde (médicos, enfermeiros, odontólogos, etc.) que se unem para atender várias comunidades tradicionais pelo Brasil. Este projeto ampliou suas ações ao longo dos seus 29 anos de trabalho se transformando numa Superintendência de Projetos Sociais, onde as ações buscam além dos atendimentos básicos de saúde uma inserção em ações de Cidadania para com os comunitários. Atualmente, Asas de Socorro está presente na região norte com bases de operações aéreas com a finalidade de assistir as áreas isoladas e remotas. Também a organização desenvolve ações de saúde, socorro emergencial e apoio no desenvolvimento de comunidades no estado do Amazonas e Pará, com o objetivo de facilitar o acesso de ações de promoção social em áreas remotas para a garantia de direitos fundamentais destas comunidades isoladas, com atenção especial a criança e ao adolescente. Em seu quadro de colaboradores, trabalhando de forma integral no departamento de Projetos Sociais, existem enfermeiros, pedagogos, odontólogos, administradores, assistentes sociais e outros. Há uma preocupação com a verificação de dados das comunidades, antes mesmo da primeira ação acontecer, através de diagnósticos e acordos de parcerias com as lideranças comunitárias locais, igrejas ou mesmo organizações governamentais presentes. Dentre os trabalhos atualmente planejados para ações de asas de socorro, estão incluídos: Relatório dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) de controle de doenças crônicas, Relatório de monitoramento dos encaminhamentos, realização e relatório da clínica móvel - atendimentos odontológicos e CPO-D(Dentes Cariados, Perdidos e Obturados), Busca de informações de saúde da comunidade na Secretaria Municipal de Saúde, Visitas domiciliares pela equipe do Projeto em conjunto com os ACS, relatório de resolutividade dos casos encaminhados, relato e criação de comitês, reuniões comunitárias e atas das reuniões dos líderes, diagnóstico rápido participativo no início do ano comparado ao do final do ano, Oficinas CLAVES (Trabalho de Prevenção aos maus tratos e violência sexual contra crianças e adolescentes), Oficinas Ciranda Cidadã, Consulta ao Conselho Tutelar e ao Comitê Comunitário de Proteção a Criança e ao Adolescente e diversas outras ações. No ano de 2013, 280 profissionais voluntários de saúde participaram dessas “clínicas móveis de saúde”, nas comunidades tradicionais do Estado do Pará e Amazonas, e 800 outros voluntários também estiveram presentes em mais de 20 viagens por esses estados onde o projeto Asas de Socorro tem atuado. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 97 O que se observa é que a interlocução com a gestão pública do município onde comunidade está inserida ainda é um desafio para Asas de Socorro. Nas últimas viagens realizadas por comunidades tradicionais da Amazônia, entre os estados do Pará e Amazonas, entre os meses de junho a setembro de 2014, observamos (empiricamente) que as ações entre a gestão pública e a ONG Asas de Socorro se dão sob uma espécie de disputa “velada”. Há posicionamentos críticos e preconceituosos em ambos os lados. A gestão pública “defende” que as ações de ONG’s são pontuais e, portanto, não geram mudanças significativas, principalmente no que se refere às ações de saúde, por outro lado, ONG’s como Asas de Socorro percebem algumas ações públicas, escassas, assim como técnicos que não se envolvem com a população. Assim, os “beneficiários” da assistência social continuam sendo tratados a partir das suas carências, submetidos a procedimentos burocráticos e de controle, que, mais uma vez, reforçam a distância entre pobres e cidadãos em nossa sociedade. Para se construir uma cidadania, são necessárias práticas sociais que representam a possibilidade de construção de um espaço para cultivar a responsabilidade pessoal, a obrigação mútua e a cooperação voluntária, redefinindo as relações entre Estado e Sociedade. O desafio será compreender que, apesar de as ações do terceiro setor se mostrarem relevantes, como alternativa para o atendimento às necessidades sociais coletivas, ele não deve ser visto como a única via possível para satisfação dessas necessidades. Isso porque é impossível pensar numa total isenção do Estado nas questões sociais. Em várias das ações pode-se unir a gestão pública e a sociedade civil organizada, rendendo aos cidadãos das comunidades tradicionais da Amazônia riqueza nasatenções e, principalmente, ações que propiciam transformação. A necessidade da inclusão dos vários atores sociais no processo de deliberação na gestão pública brasileira é “gritante” e será fato que a inclusão deste novo modelo de gestão ganhará novos contornos e dimensões, pois se contraporá à forma centralizadora e autoritária que por vários anos evidenciou-se na estrutura política brasileira (ROCHA, 2009). CONCLUSÃO A gestão das políticas públicas brasileira precisa ser compreendida a partir de um novo modelo de intervenção e do enfrentamento da questão social. Os atores que a operam precisam de conhecimentos e competências para intervir e gerir de forma crítica e inovadora, pois político e público são relações contraditórias e conflituosas, principalmente no que se refere a políticas sociais. A questão social sempre foi desempenhada pelo Estado, utilizando-se de políticas públicas com o objetivo de controlar e desmobilizar a sociedade. Neste novo modelo de gestão de política pública brasileira, o terceiro setor poderia influenciar para o desenvolvimento de uma cidadania ativa, se inserido nos conselhos, como garante a constituição de 1988, para defender os interesses coletivos através da participação crítica Espaço Científico v.15, n.2, 201498 e efetiva. É possível, portanto, que neste novo modelo de gestão de políticas públicas, o Estado e a sociedade civil possam andar lado a lado para execução de cidadania. O crescimento e fortalecimento do terceiro setor na economia não anula e nem substitui o papel do Estado. É necessário que as políticas públicas quer sejam executadas pelo setor público, ou pelo terceiro setor, como a ONG Asas de Socorro, contemplem todos os cidadãos, desorganizados ou não, pois estes não podem ser punidos pela ausência da oferta dos bens públicos. REFERÊNCIAS AZAMBUJA, Darcy. Teoria geral do Estado. 38. ed. São Paulo: Globo, 1998. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos e GRAU, Nuria Cunill (org.). O público não estatal na reforma do Estado. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999. (p. 15-16) BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. 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Fonte: arquivo pessoal. FIGURA 6 – Formação de Comitês Comunitários. Fonte: arquivo pessoal. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 103 FIGURA 7 – Entrega, Instalação e Treinamento de Bio-Filtros de Areia p/ comunidades s/ água potável. Fonte: arquivo pessoal. FIGURA 8 – Saúde da Mulher. Fonte: arquivo pessoal. Espaço Científico v.15, n.2, 2014104 FIGURA 9 – Oficinas com Adolescentes. Fonte: arquivo pessoal. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 105 Disponibilidade de P no solo e na solução do solo em diferentes tipos de uso na região do planalto santareno no ano de 2012 Renata de AndradeCoelho Juliano Gallo Raimundo Cosme de Oliveira Junior Celso Tanabe Paulo Henrique Barbosa Isabel Cristina Tavares Martins Edson Reis Gilbson Soares Daniel Rocha de Oliveira Ellen Pinon RESUMO A disponibilidade de fósforo no solo é um fator que interfere diretamente na sua absorção pelas plantas. O objetivo deste estudo foi analisar a disponibilidade de P na solução do solo e no solo, no ano de 2012, no planalto santareno, em quatro diferentes tipos de uso e em diferentes profundidades. Para coleta da solução do solo, utilizaram-se 48 lisímetros instalados em quatro profundidades distintas sendo em 10, 20,40 e 90 cm de profundidade, em diferentes tipos de uso sendo área de agricultura mecanizada cultivada com soja, área manejada como “roça de toco” cultivada com milho, área manejada como “roça de toco” cultivada com mandioca e área de pousio com vegetação secundária em estágio médio o avançado de regeneração, também denominada de capoeira Em cada área foram dispostos aleatoriamente 12 lisímetros sendo três repetições de cada profundidade. As coletas foram realizadas em quatro campanhas com inicio em abril e término em agosto de 2012. Para identificar a disponibilidade do Fósforo no solo foram realizadas coletas de quatro amostras simples de solos nas mesmas áreas, próximas aos locais de coleta da solução do solo, resultando em amostras compostas das profundidades de 10, 20, 40 e 90 cm. Para análise Renata de Andrade Coelho é Engenheira agrônoma, Empresa Agrosanta, Rod. BR 163 km 20, Santarem-PA. Juliano Gallo é Engenheiro agrônomo, INCRA, professor do curso de Agronomia do CEULS, Santarem-PA. Raimundo Cosme de Oliveira Junior é Engenheiro agrônomo, coordenador do curso de Agronomia do CEULS, pesquisador da Embrapa Amazonia Oriental, NAPT Medio Amazonas, Santarem-PA. Celso Tanabe é Engenheiro agrícola, professor do CEULS, Santarem-PA. Paulo Henrique Barbosa é Engenheiro agrônomo, INCRA, professor do curso de Agronomia do CEULS, Santarem- PA. Isabel Cristina Tavares Martins é Engenheira mecânica, professora do curso de Agronomia do CEULS e coordenadora adjunta, Santarem-PA. Edson Reis é Engenheiro agrônomo, BASA, professor do curso de Agronomia do CEULS, Santarem-PA. Gilbson Soares é Biólogo, professor do curso de Agronomia do CEULS, Santarem-PA. Daniel Rocha de Oliveira é Médico veterinário, ADEPARá, professor do curso de Agronomia do CEULS, Santarem-PA. Ellen Pinon é Engenheira agrônoma, IFPA campus Santarem, professora do curso de Agronomia do CEULS, Santarem-PA. Espaço Científico v.15, n.2, 2014106 do solo foi utilizado e extrator Melhich - 1. Posteriormente os resultados obtidos mostram que a disponibilidade de fosforo na solução do solo é muito inferior ao fósforo extraído do solo. Palavras-chave: Solução do solo. Análises de Fósforo. Disponibilidade de P. ABSTRACT The availability of soil phosphorus is a factor that directly interferes with its absorption by plants. The aim of this study was to analyze the availability of P in soil solution and soil, in the year 2012, on the Santarem plateau in four different types of uses and at different depths. To collect soil solution was used 48 lisímeter installed at four different depths and at 10, 20.40 and 90 cm depth in different use being mechanized area cultivated with soybeans, managed area as “fields of play with corn, managed area as” fields of play with cassava and fallow area with secondary vegetation at the intermediate stage to advanced regeneration, also called capoeira In each area were randomly arranged 12 lisímeters with three replicates of each depth. Samples were collected in four campaigns with start in April and finish in August 2012. Multiparameter Photometer. To identify the availability of phosphorus in the soil samples were taken from four single samples of soils in the same areas, close to the sites of collection of soil solution, resulting in composite samples from depths of 10, 20, 40 and 90 cm. For soil analysis was used and extractor Melhich 1.Subsequently the results show that the availability of phosphorus in the soil solution is much lower than phosphorus soil. Keywords: Soil solution. Analysis of phosphorus. availability of P. INTRODUÇÃO O fósforo é um dos componentes essenciais e um dos elementos mais críticos para a nutrição dos seres vivos, logo após o nitrogênio. A quantidade disponível de fósforo no solo é muito baixa, não atendendo as necessidades das plantas. Em particular, o Brasil apresenta um dos solos mais velhos do mundo, contendo altos teores de componentes que retêm fósforo, competindo assim com as raízes das plantas. Como consequência, muitas vezes, quantidades em excesso de adubos fosfatados devem ser aplicadas ao solo para satisfazer as necessidades das plantas (NAHAS, 1991). Com o aumento do uso dos fosfatos naturais reativos e outros tipos de fosfatos como de esterco ou matéria orgânica, a avaliação da eficiência da aplicação do fertilizante é importante no manejo da adubação fosfatada (NOVAIS, R.F. et al., 2007). Diferentes grupos de microrganismos participam da transformação dos nutrientes, tornando-se disponíveis nas plantas. Um grupo de microrganismos, constituído por bactérias e fungos, tanto favorecem a solubilização de compostos insolúveis de fósforo como atua no transporte dele para dentro das plantas (NAHAS, 1991). O fósforo (P) é essencial para as plantas, nenhum outro nutriente pode substituí- lo. É considerado um dos três nutrientes primários, juntamente com o Nitrogenio (N) e o Potássio (K). Seu papel é imprescindível na produção de energia (ATP) para o metabolismo das plantas, na respiração e na fotossíntese (NOVAIS, R.F. et al., 2007). É também componente estrutural dos ácidos nucléicos de genes e cromossomos, assim como de muitas coenzimas, fosfoproteínas e fosfolipídeos. As limitações na Espaço Científico v.15, n.2, 2014 107 disponibilidade de P no início do ciclo vegetativo podem resultar em restrições no desenvolvimento, das quais a planta não se recupera posteriormente, mesmo aumentando o suprimento de P a níveis adequados. O suprimento adequado de P é, pois, essencial desde os estádios iniciais de crescimento da planta (MENGEL & KIRKBY, 1987). É o segundo elemento critico, de alta demanda no tecido vivo; é de carência geral, constituindo-se em preocupação a manutenção das safras agrícolas para o futuro, devido ao esgotamento das jazidas (NAHAS, 1991). Em virtude disso, diversas formas químicas de fosforo no solo, que contribuem para a nutrição das plantas, dificultam a obtenção de métodos de laboratório para a avaliação de sua disponibilidade. O fosforo no solo se apresenta na forma mineral e orgânica, fazendo parte de compostos com cálcio, ferro e alumínio, em solução, adsorvido de forma trocável aos coloides e grande parte pode ser adsorvido também de forma não trocável (não disponível às plantas ). A fração que se encontra adsorvida de forma reversível é liberada de forma muito lenta em comparação com os cátions trocáveis (Robinson & Syers, 1990;Sanyal & Datta, 1991). No Brasil, dois extratores são empregados, dependendo da região: o Mehlich e a Resina. O método do extrator de Mehlich 1 já foi estudado por Rheinheimer et al. (2004) e é conhecida pela CFS-RS/SC (1994), pois no enquadramento dos teores de fósforo em classes de disponibilidade, separa os grupos de solos em função dos teores de argila, atribuindo aos mais argilosos menor valor para o nível crítico. Porém, observa-se que este extrator também é sensível à depleção do fósforo disponível. A água é um componente dinâmico e sensível às trocas ambientais, funcionando como um solvente e como um agente de transporte para outros elementos presentes no solo (RANGER; NYS, 1994). Ela auxilia de forma decisiva na descrição dos processos atuais de formação do solo e no monitoramento de alterações naturaise/ou induzidas, o que nem sempre é possível pela análise da fase sólida (BARTOLI et al., 1981; VEDY; BRUCKERT, 1982; UGOLINI et al., 1987, 1988; JAMET et al., 1996; QUIDEAU; BOCKHEIM, 1996). As soluções de solos são coletadas de diversas maneiras, a exemplo daquelas que se realizam por técnicas destrutivas ou por alguma forma de lisímetro, as quais vão gerar composições químicas diferenciadas (ROSS; BARTLETT, 1990). Lisímetros constituem o método mais comum para a coleta de soluções do solo no campo (estudos in situ). Embora a instalação de lisímetros provoque um certo grau de perturbação do solo, é assumido que com o tempo este solo retornará para as condições da pré-instalação desses lisímetros. O período de tempo necessário para isso não pode ser definido de forma generalizada. Shepard e outros (1990) registraram que os efeitos das perturbações podem durar dois anos ou até mais. O que vai definir esse tempo é o tipo de solo, os cuidados tomados e o tipo de lisímetro. A palavra lisímetro, como definida pelo Merriam-Webster Collegiate Dictionary (1996), refere-se apenas a dispositivos capazes de coletar a água de percolação que passa através do solo. Nos estudos de solução do solo, o conceito é ampliado, incluindo Espaço Científico v.15, n.2, 2014108 também água presa ao solo a tensões maiores que o potencial matricial de água no solo. Por isso, na profusão de nomes recebidos por instrumentos construídos com o intuito de coletar solução de solo in situ, todos são aqui denominados de lisímetros, de tensão ou de tensão-zero (COLE, 1958; HAINES et al., 1982; NEARY; TOMASSINI, 1985; ZABOWSKI; UGOLINI, 1990; MILLER et al., 1992; TITUS et al., 2000). O solo é uma massa porosa, com parte dos espaços vazios normalmente ocupados pela água. Na realidade, não se trata de água pura, mas de uma solução que contém diversos solutos que influem no desenvolvimento das plantas. Mesmo em um ecossistema em estado natural, ocorrem modificações de umidade e temperatura em decorrência de variações climáticas que influenciam os processos físico-químicos e biológicos do solo, modificando algumas características, tais como: umidade do solo, atividade microbiológica, teor e composição da matéria orgânica, complexo argilo- húmico, capacidade de troca catiônica e lixiviação de nutrientes (CHAVES, et al., 1991). O fosforo movimenta-se muito pouco na maioria dos solos, ele geralmente permanece onde é colocado pela intemperização dos minerais ou pela adubação. Quase todo fosforo movimenta-se no solo por difusão, um processo lento e de pouca amplitude, que depende de humidade do solo. Condições de seca reduzem drasticamente a difusão (NOVAIS, R.F.et al.,2007.). (Segundo SILVA, et al., 1996), outros fatores que afetam a disponibilidade do fosforo é a quantidade de argila pois elas fixam mais fosforo, como o tipo de solo da Região do Planalto Santareno que possui altas concentração de óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio e é uma região com alta pluviosidade e altas temperaturas fazendo que a disponibilidade de P seja afetada. Em virtude disso, este trabalho tem por objetivo analisar a disponibilidade de P na solução do solo do Planalto Santareno nas diversas profundidades do solo e em quatro áreas diferentes, sendo de suma importância para se verificar a distribuição, as fases, os fatores e a disponibilidade para os vegetais, e além de seu valor intrínseco, serão de utilidade para o estimulo a pesquisa nessa área. MATERIAL E MÉTODOS Localização da área A área de estudo está localizada no Município de Santarém, comunidade Morada Nova, em uma propriedade rural denominada de Sítio Paraiso e sua sede está sob as coordenadas geográficas latitude -01 47’10” e longitude -52 56’ 17”. Toda área da propriedade caracteriza-se como ambiente de terra firme, também denominada de Planalto Santareno. O solo que ocorre na área é denominado de Latossolo Amarelo Distrófico (Segundo SILVA, et al, 1995). Nas áreas de coleta da solução do solo apresenta-se quatro situações distintas, sendo: área de agricultura mecanizada cultivada com soja sendo 42 hectares onde foram dois anos seguidos da mesma cultura e no ultimo ano foi feita calagem com calcário dolomítico, área com “roça de toco” cultivada com Espaço Científico v.15, n.2, 2014 109 milho 1.5 hectares área de primeiro ano onde utilizou-se a queima , área com “roça de toco” cultivada com mandioca 1hectare também área de primeiro ano com queima e área de pousio cinco anos, com vegetação secundária em estágio médio a avançado de regeneração, também denominado de capoeira 10 hectares. Coleta do Material As coletas da Solução do solo foram realizadas por meio de lisímetros (tubo de PVC rígido acoplado a uma capsula porosa (PARIZEK & LANE, 1970) Figura 1a e b) em profundidade de 10, 20, 40 e 90 cm com três repetições, no período de março de 2012 a agosto do mesmo ano. Em cada área foram distribuídos, aleatoriamente, 12 lisímetros, somando 48 extratores no total. FIGURA 1 – (a) Lisímetro de sucção; (b) – Lisímetros instalados. Fonte: PARIZEK & LANE, 1970. Toda a solução presente em cada lisímetro fora retirada e acondicionada em frascos de 100 ml, devidamente identificados com nome da área (milho, mandioca, soja ou capoeira), profundidade de coleta (10, 20, 40 ou 90 cm) e o numero do frasco para sua devida identificação, posteriormente enviada ao laboratório de química para ser submetida à analise e verificação do fosforo. O equipamento, os reagentes, os materiais utilizados e o procedimento foram realizados no laboratório de Quimica do Ceuls Ulbra Santarém. Para a análise da solução do solo foi utilizado o equipamento Photometer Multiparameter HI83200 (Figura 2) e o reagente HI 93713-0. Espaço Científico v.15, n.2, 2014110 FIGURA 2 – Solução analisada por Photometer Multiparameter HI83200 e equipamentos utilizados. Fonte: Renata de Andrade Coelho. Após todo esse procedimento obteve-se o resultado do fosforo na solução do solo de cada área sendo que todos os dados gerados foram armazenados em planilhas e digitalizados para posterior análise dos resultados de disponibilidade. Após as coletas da solução do solo, voltou-se ao campo para coletar amostras compostas de solo nos mesmos locais de uso, próximo dos lisímetros nas profundidades de 10, 20, 40 e 90 cm, para cada amostra composta foram quatro amostras simples. Foi utilizado trado Holandês para a retirada de solo. Após coletadas as amostras foram secas ao ar, homogeneizadas e peneiradas em peneira de 0,2 m. De cada área foi coletada uma amostra de 0,5 kg de solo (Figura 3) e posteriormente realizada análise para verificação do ter de P por extração com Solução de Mehlich-1, após o procedimento realizou-se a leitura do P por Espectrofotômetro 600 Plus (figura 4). O experimento foi conduzido por dois dias. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 111 FIGURA 3 – Amostras acondicionadas em sacos plásticos. Fonte: Renata de Andrade Coelho. FIGURA 4 – Espectrofotômetro 600 Plus para analisar P no solo. Fonte: Renata de Andrade Coelho. Espaço Científico v.15, n.2, 2014112 A disponibilidade de P na solução do solo foram submetidos a análise de variância quando o experimento obteve no mínimo dois resultados para assim fazermos a média das soluções do solo por Teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade que são realizadas pelo programa ASSISTAT Versão 7.6 beta (2011). As médias seguidas pela mesma letra não diferem estatisticamente entre si TABELA 1 – Media obtida por teste de Tukey a 5% na capoeira. Médias e medidas capoeira Prof Médias n° de amostra 10 cm 0.022 anr = 5 20 cm 0.012 a nr = 4 40 cm 0.022 a nr = 5 90 cm 0.014 a nr = 9 P*- Fosforo na solução TABELA 2 – Media obtida por teste de Tukey a 5% na mandioca. Médias e medidas mandioca Prof Médias n° de amostra 10 cm 0.038 a nr = 5 20 cm 0.015 a nr = 4 40 cm 0.020 a nr = 2 90 cm 0.021 a nr = 6 P*- Fosforo na solução TABELA 3 – Media obtida por teste de Tukey a 5% na soja. Médias e medidas soja Prof Médias n° de amostras 10 cm 0.035 a nr = 2 20 cm 0.018 a nr = 5 40 cm 0.017 a nr = 8 90 cm 0.023 a nr = 8 P*- Fosforo na solução Espaço Científico v.15, n.2, 2014 113 RESULTADOS E DISCUSSÕES Os resultados obtidos neste experimento são discutidos em dois subitens. O primeiro (Tabela 1) trata dos resultados referentes à disponibilidade de P na solução do solo durante abril a agosto de 2012, coletados por lisímetros. O segundo (Tabela 2) refere-se à disponibilidade de P no solo obtidos por extrator de Mehlich 1, coleta realizado em setembro de 2012, onde se verificou a diferença da disponibilidade de fósforo no solo em relação a solução do solo Disponibilidade de P na solução do solo Os resultados da disponibilidade de P na solução do solo durante os cinco meses de coleta nas quatro áreas de produção e em profundidade diferentes mostram que não há grande diferença quanto à resposta de disponibilidade do fosforo. Nas áreas, não foram aplicadas doses de fosforo e nem houve algum tratamento diferente nas culturas. A Tabela 1 mostra os valores disponíveis da solução do solo obtidos em campo. Observa-se que na cultura de milho não se pode realizar análise estatística, pois, na profundidade de 10 cm, foi obtida apenas uma amostra da solução do solo não sendo o suficiente para se realizar a media para o resultado. Já nas culturas de soja e mandioca observou que a disponibilidade não ultrapassa 0,07mg.dm³, na capoeira, essa disponibilidade chega apenas a 0,06mg.dm³. TABELA 4 – Teores de fósforo na solução do solo, em mg.dm³, extraídos por lisimetros nas camadas de 10, 20, 40 e 90 cm de profundidade do solo durante abril a agosto de 2012. Análise estatística. Espaço Científico v.15, n.2, 2014114 Nas condições em que foram feitas os experimentos, nas Figuras 5 e 6, verifica- se que os resultados da disponibilidade de P na solução do solo não ultrapassam 0,04 mg.dm³. Nas culturas observou-se que na primeira profundidade de 10 cm a disponibilidade é mais acentuada e na profundidade de 20 cm essa disponibilidade tem um decréscimo. A cultura de milho e na capoeira na camada de 40 cm a disponibilidade de P faz um retorno, já na soja esse retorno só ocorre na camada de 90 cm. A capoeira se mostrou a menor disponibilidade não chegando nem a 0,025 mg.dm³; apesar dessa cultura apresentar o maior numero de amostras coletadas no campo, suas disponibilidades são as menores não ultrapassando 0,06mg.dm³ verificado na Tabela 1. FIGURA 5 – Disponibilidade de P na solução do solo na cultura da soja e do milho. FIGURA 6 – Disponibilidade de P na solução do solo na cultura da mandioca e capoeira. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 115 Na Figura 7 observaram-se todas as disponibilidades de P na solução do solo das quatro áreas. FIGURA 7 – Disponibilidade de P na solução do solo nas quatro áreas de produção. O ânion fosfato (H2PO4-2) se encontra na solução do solo em baixíssimas concentrações. A extração da solução do solo não é uma tarefa fácil de realizar, pois a retirada da água presente no sistema que está em equilíbrio com as outras fases envolve a aplicação de uma grande força ou utilização de uma grande massa de solo, pois o volume de solução envolvido é muito pequeno e é necessária a extração de um volume razoável para a quantificação dos íons (MALAVOLTA e KLIEMANN, 1984). Espaço Científico v.15, n.2, 2014116 O caso da capoeira, que se mostrou com a menor disponibilidade de P, pode ser explicado. Segundo Neptune et al. (1975), como a concentração de matéria orgânica é muito mais intensa o Po (P orgânico) lábil é utilizado por organismos e plantas devido à carência de Pi (P inorgânico) lábil no solo, acarretando a sua imobilização. Disponibilidade de P no solo Na Tabela 2 são apresentados os teores de fósforo disponível no solo, estimados pelos extratores Mehlich 1. As amostras foram coletadas no mesmo local próximo dos lisímetros nas profundidades de 10, 20, 40 e 90 cm. Para cada amostra composta foram quatro amostras simples. Os resultados obtidos mostram que os teores de P no solo são muito mais superiores que na solução comparando a sua quantidade Q com sua disponibilidade. TABELA 5 – Teores de fósforo no solo, em (ppm) , extraídos pelo método Mehlich 1, nas camadas de 10, 20, 40 e 90 cm de profundidade do solo em setembro de 2012 obtendo 4 amostras compostas e 16 amostras simples de cada área em cada profundidade. Cultura Prof. (cm) P(ppm)* Soja 10 2,76 20 3,24 40 3,00 90 1,76 Milho 10 2,25 20 2,00 40 3,98 90 4,46 Mandioca 10 3,76 20 3,49 40 5,20 90 3,00 Capoeira 10 2,49 20 1,76 40 1,51 90 2,25 *- Extração por Melhich 1. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 117 Pelos resultados é possível observar que os teores de fósforo total no solo em todas as áreas de cultivo são semelhantes. Nas Figuras 8 e 9 no caso da soja observa-se que houve um aumento da disponibilidade de P nas três primeiras profundidades de 10, 20 e 40 cm havendo um decréscimo na última camada de 90 cm. Já no milho, ocorreu o inverso da soja na última camada de 90 cm, onde o teor de P chega a 4,46 ppm.. Na cultura da mandioca houve uma disponibilidade acentuada nas quatro profundidades chegando à profundidade de 40cm ate 5,20 ppm. Embora o fósforo não seja extraído em grandes quantidades pela mandioca, maior importância adquire sua aplicação, pois os solos brasileiros em geral, e em particular os cultivados com mandioca, normalmente classificados como marginais, são pobres nesse nutriente. Por esta razão, é grande a resposta da cultura à adubação fosfatada (MALAVOLTA e KLIEMANN, 1984). A capoeira se mostrou com a menor disponibilidade. FIGURA 8 – Disponibilidade de P no solo na cultura da soja e do milho. Fonte: Eng. Agro. Juliano Gallo. Espaço Científico v.15, n.2, 2014118 FIGURA 9 – Disponibilidade de P no solo na cultura da mandioca e capoeira. Fonte: Eng. Agro. Juliano Gallo. FIGURA 10 – Disponibilidade de P no solo nas quatro áreas de produção extraídas por Mehlich. Fonte: Eng. Agro. Juliano Gallo. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 119 Na Figura 10, observaram-se todas as disponibilidades de P no solo das quatro áreas. O extrator de Melhich 1 (H2SO4 0,0125 molLˉ¹ + HCL 0,05 mol Lˉ¹ ) age solubilizando a fração P. A presença de SO4²ˉ no extrator desloca o H2PO4ˉ facilmente trocável e reduz sua readsorção na superfície dos colóides do solo durante o processo de extração, além de solubilizar as formas recém precipitadas de P com Ca, Fe e Al. Já na solução, os teores de P encontrados se referem apenas à fase liquida aquosa do solo retirada que são extremamente pequenas não ocorrendo nenhum fator para a sua solubilização (ALVAREZ V. et al., 1999). Por este fato pode-se verificar uma das grandes diferenças de P nos dois casos. CONCLUSÕES A disponibilidade de P na solução do solo, tanto nas áreas de soja, mandioca e capoeira nas diferentes profundidades (10, 20, 40 e 90 cm) não apresentaram diferença estatística significativa. REFERÊNCIAS ALVAREZ V., V.H.; NOVAIS, R.F.; BARROS, N.F.; CANTARUTTI, R.B. & LOPES, A.S. Interpretação dos resultados das analises de solos. Viçosa, Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas Gerais, 1999.p. 25-32. BARTOLI, F.; JEANROY, E.; VEDY, J. C. Transfert et redistribution du silicum, de l’aluminium et du fer dans ler podzols: role des composes organiques et des supports mineraux. Paris, FR, 1981. (Colloques Internationaux du Centre National de la Recherche Scientifique, 303,p. 281-289). COLE, D. W. Alundum tension lysimeter. Soil Science, Baltimore, MD, v. 85, p. 293- 296, 1958. CHAVES, C.D.; PAVAN, M.A. & MIYAZAWA, M. 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Composição química da Solução de Solo sob diferentes coberturas vegetais e analise de carbono orgânico solúvel no deflúvio de pequenos cursos de Espaço Científico v.15, n.2, 2014120 água - Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), Ponte Nova- Oratórios,MG. Disponivel em http://www.cetesb.sp.gov.br/solo/areas_contaminadas/ anexos/download/6300.pdf MILLER, E. K.; HUNTINGTON, T. G.; JOHNSON, A. H.; FRIEDLAND, A. J. Aluminum in soil solutions from a subalpine spruce-fir forest at Whiteface Mountain, New York. Journal Environmental Quality, Madison, USA, v. 21, p. 345-352, 1992. NAHAS, E. Ciclo do Fósforo: transformações microbianas. Jaboticaba, FUNEP, 1991. 67 p. 1. Ciclo do fósforo. 2. Microbiologia. 3. Solo. I-A. II-T. NOVAIS, R.F. et al. Fertilidade do solo. Viçosa, MG: Sociedade Brasileira de Ciências do Solo. 1017p. 2007. NEARY, A. J.; TOMASSINI, F. Preparatium of alumdum/ceramic plate tension lysimeters for soil water collection. 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APRESENTAÇÃO DOS ORIGINAIS Os trabalhos devem ser enviados em dois arquivos, um no formato doc ou docx (Microsoft Word) e outro no formato PDF (Adobe Acrobat) com as seguintes formatações, de acordo com a NBR 14.724/2005 da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT: Letra: Times New Roman 9 Tamanho da letra: 12 9 Formato do papel: A4 (21,0 x 29,7cm) 9 Margem superior e esquerda: 3cm 9 Margem inferior e direita: 2cm 9 Espaçamento entre linhas: 1,5 linhas 9 Quantidade de páginas: no mínimo 10 e no máximo 20 laudas de elementos 9 textuais (corpo do texto, citações, notas, tabelas, quadros, figuras). Resenhase informes poderão ter uma extensão máxima de 5 laudas. As páginas devem ser numeradas a partir da página de rosto, no canto superior direito. Os manuscritos poderão ser escritos em português, inglês ou espanhol. Trabalhos escritos em inglês e espanhol também deverão se submeter às normas da ABNT. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 123 ESTRUTURA DOS TRABALHOS - Ficha de identificação: devem ser enviadas em um arquivo separado do restante do artigo, a fim de garantir o anonimato no processo de apreciação dos trabalhos pelos avaliadores, contendo as seguintes informações: título do trabalho, nome do autor, instituição principal à qual o autor se vincula, cargo ou função que exerce, título e/ou formação acadêmica, endereço, telefone, e-mail e/ou outras formas de contato. - Título (com tradução para o inglês). No caso de o trabalho ser redigido em inglês ou em espanhol, deverá constar a tradução do título para o português; - Resumo do trabalho, com no máximo 250 palavras, seguido de palavras-chave (com no máximo cinco palavras ou expressões) padronizadas de acordo com a NBR 6028/2003 da ABNT sobre resumos. - Abstract, com no máximo 250 palavras, seguido de keywords. - Tabelas: devem ser numeradas na ordem de aparecimento no texto, com um título sucinto, porém explicativo, o qual deverá constar sobre a tabela. Todas as explicações devem ser apresentadas em notas de rodapé e não no cabeçalho, indicadas por asterisco (*). A formatação das tabelas deve utilizar apenas comandos de tabulação (“tab”) e nova linha (“enter”). Não usar funções de criação de tabelas, sublinhar ou desenhar linhas dentro das mesmas, usar espaços para separar colunas, comandos de justificação, nem tabulações decimais ou centralizadas; - Figuras (fotografias, desenhos, gráficos): devem ser enviados no formato JPG, alta resolução gráfica, numeradas de acordo com a ordem que aparecem no texto, sendo que todas as explicações devem ser colocadas nas legendas. O Conselho Editorial se dá ao direito de suprimir ilustrações excessivas ou redundantes. A expressão “gráfico” não deve ser utilizada. Gráficos devem ser denominados como “figuras” e apresentados em preto e branco ou coloridos, em duas ou três dimensões. - Citações: citações literais curtas (até três linhas) são integradas ao texto, entre aspas; citações longas (transcrições com mais de três linhas) vão em parágrafo próprio, sem aspas, com entrelinha simples, fonte Times New Roman, tamanho 10. Toda e qualquer citação, seja formal (transcrição), seja conceptual (paráfrase), deve obedecer ao sistema Autor-Data (conforme NBR 10520/2002 da ABNT), pelo qual as citações são indicadas pelo sobrenome do autor seguido da data de publicação, separados por vírgula e entre parênteses. Quanto for necessário especificar a página da obra consultada, esta deverá seguir a data, separada por vírgula. - Referências: a lista de referências, por ordem alfabética de sobrenome de autor, deve vir no final do texto, e seguir as orientações da NBR 6023/2002, da ABNT. Nas referências com mais de três autores, cita-se o primeiro seguido da expressão et al., respeitando-se uma só orientação em todo o artigo. Até três autores, citam-se os três. O título do periódico, do livro, da dissertação/tese deve estar em itálico. Os títulos dos periódicos deverão ser abreviados de acordo com os critérios da norma ISO 4 – List of Espaço Científico v.15, n.2, 2014124 serial title word abbreviations (Abreviação de títulos de periódicos) – 1984. Todas as referências devem ser alinhas à margem esquerda do texto. ALGUNS EXEMPLOS DE REFERÊNCIAS Livro CORMEN, Thomas H. Algoritmos: teoria e prática. Traduzido por Vandenberg D. de Souza. Rio de Janeiro: Elsevier, 2002. 916p. Capítulo de livro DUTRA, Loreni Bruch. O papel do pedagogo na atualidade In: COLARES, Maria Lília Imbiriba Sousa (Org.). Colóquios temáticos em educação: polêmicas da atualidade. Campinas, SP: Alínea, 2005, p.61-68. Meio eletrônico BONENTE, Daniele; COSTA, Rosana Gisele C. P. da; RESQUE JÚNIOR, Felipe. Análise do padrão de desmatamento no município de Rurópolis, na área de influência da BR-163, utilizando o mapeamento participativo. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE SENSORIAMENTO REMOTO, 13, 2007, Florianópolis. Anais eletrônicos… Florianópolis: INPE, 2007. Disponível em: <http://marte.dpi.inpe.br/col/dpi.inpe.br/ sbsr@80/2006/11.15.22.01.46/doc/3763-3769.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2007. Monografia em meio eletrônico SOARES FILHO, B. S. Modelagem da dinâmica de paisagem de uma região de fronteira de colonização Amazônica. 1998. 299f. Tese (Doutorado em Engenharia). Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Departamento de Engenharia de Transporte, 1998. Disponível em: <http://www.dpi.inpe.br/cursos/tutoriais/modelagem/ referencias/tese_britaldo/tese.html>. Acesso em: 20 ago. 2008. Periódico GRINOVER, Ada Pelegrini. A defesa penal e sua relação com a atividade probatória. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, ano 10, n.40, p.91- 104, out./dez. 2002. Espaço Científico v.15, n.2, 2014 125 Tese TANABE, Celso Shiguetoshi. Viabilidade da análise exergética na elaboração de tarifas de energia elétrica. 1997. 72f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Agrícola) – Curso de Engenharia Agrícola, Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 1998. OBSERVAÇÕES - O trabalho recebido passa por um processo de revisão por especialistas. Após receber os pareceres, o Conselho Editorial avalia-os e decide pela aceitação do artigo sem modificações, pela recusa ou pela devolução aos autores com sugestões de modificações. Conforme a necessidade, um determinado artigo pode retornar várias vezes aos autores para esclarecimentos e, a qualquer momento, pode ter sua recusa determinada. Mas cada versão é sempre analisada pelo Conselho Editorial, que detém o poder da decisão final. - As opiniões emitidas nos trabalhos são de inteira responsabilidade de seus autores. - Podem ser aceitos para análise, além do português, artigos em espanhol e inglês. - A comissão editorial enviará um e-mail de confirmação de recebimento do artigo em até 72 horas após a chegada do mesmo com o trabalho original enviado pelo(s) autor(es). - Se após o prazo de 72 horas não receber o e-mail de confirmação, favor entrar em contato com a Coordenação de Pesquisa do Centro Universitário Luterano de Santarém por telefone ou por e-mail. Endereço para submissão/contato Os trabalhos científicos enviados para a publicação por e-mail, bem como a correspondência a eles pertinente, devem ser encaminhados para o e-mail: espacocientifico.stm@ulbra.br.