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Bloco Temático 1 
Módulo: Teoria e História do Restauro 
Núcleo de conteúdo: Cartas Internacionais 
T5: A CRIAÇÃO DO SPHAN E O DECRETO-LEI No. 25/37 
 
 
A criação do Sphan e a identidade nacional 
 
 
Os primórdios da atuação federal 
 
Ao longo do século XX, vimos fortalecer a consciência de que o patrimônio é de todos, 
sendo não só bem-vinda, como também essencial, a participação da sociedade civil nas 
ações para proteção e salvaguarda do patrimônio cultural. No entanto, historicamente, a 
complexa tarefa de gerir, manter, proteger, conservar, restaurar, enfim, de zelar pelo 
patrimônio cultural de cada país esteve, quase sempre, associada a uma função do 
Estado. 
 
No Brasil não foi diferente. Apenas recentemente o extenso e árduo trabalho de proteção 
ao patrimônio cultural nacional foi sendo melhor avaliado e conhecido. Seria preciso um 
longo percurso até que se constituísse uma complexa trama que, partindo da esfera 
federal em direção aos poderes estaduais e municipais, criaria novos órgãos para atender 
a uma demanda crescente, aproximando, assim, o poder público da sociedade e 
permitindo a participação da população. 
 
A seguir, contaremos um pouco da história da criação do primeiro órgão federal de 
preservação, o atual IPHAN, outrora denominado SPHAN (Serviço do Patrimônio 
Histórico e Artístico Nacional) e discutiremos a estrutura que foi, então, formatada 
visando à proteção do nosso patrimônio cultural. 
 
 
O contexto de criação do SPHAN 
 
A idéia de organizar um órgão federal para cuidar das questões referentes à preservação 
do patrimônio cultural do país não surgiu repentinamente. Ao contrário, foi sendo 
discutida e amadurecida através de anteprojetos de lei que, no entanto, entravam em 
conflito com a questão do direito de propriedade garantida pela Constituição Federal 
então em vigor e pelo Código Civil. Coube ao ministro Gustavo Capanema, do Ministério 
da Educação e Saúde (MES), instituído pelo Governo Vargas, a tarefa de impulsionar as 
novas discussões. 
 
O primeiro passo seria dado com a encomenda do Anteprojeto de Criação do Serviço do 
Patrimônio Artístico Nacional (SPAN) 1 a Mário de Andrade. A ideia inicial de mapear o 
acervo artístico da cidade do Rio de Janeiro, logo se transformou em um projeto de 
caráter mais amplo, como o próprio Capanema explica: 
 
 
1
 Para o texto integral do Anteprojeto de Mário de Andrade, v. Brasil (1980, p. 90-106). 
 2 
Nos princípios de 1936, [...], lembrou-me mandar fazer o levantamento das obras de 
pintura, antigas e modernas, de valor excepcional, existentes em poder dos particulares, 
na cidade do Rio de Janeiro. [...] Urgentemente necessário era preservar os monumentos e 
outras obras de pintura, mediante um conjunto de procedimentos que não se limitassem à 
capital federal, mas abrangessem o país inteiro. 
A idéia inicial, deste modo, se transformava num programa maior que seria organizar um 
serviço nacional, para a defesa do nosso extenso e valioso patrimônio artístico, [...]. Como 
pôr mãos à obra de empreendimento tão difícil? Como transformar o pensamento que me 
seduzia num sistema de serviço público? 
Logo me ocorreu o caminho. Telefonei a Mário de Andrade, então Diretor do Departamento 
de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Expus-lhe o problema e lhe pedi que me 
organizasse o projeto. Mário de Andrade, com aquela sua alegria adorável, aquele seu 
fervor pelas grandes coisas, aquela sua disposição de servir, queria apenas duas semanas 
para o trabalho. 
Decorrido o prazo, eis Mário de Andrade no Rio de Janeiro, trazendo o projeto (Capanema 
apud Brasil, 1980, p.21-22) 
 
Não obstante o amplo Anteprojeto realizado por Mário de Andrade, a tarefa seria árdua, 
pois era preciso, não somente, configurar a estrutura de funcionamento do novo órgão, 
estabelecer as diretrizes para tombamento, as regulamentações jurídicas para lidar com 
as restrições ao direito de propriedade impostas pelo tombamento; mas também definir o 
rol de atividades dentro do vasto território a proteger, escolher as ações que seriam 
prioritárias e proceder ao inventário sistemático dos bens culturais do país. 
 
Para que o plano inicial, quase emergencial, fosse posto em prática era preciso 
conformar um quadro técnico à altura do desafio a enfrentar. Para liderar o grupo foi 
sugerido, por Mário de Andrade, o nome de Rodrigo Melo Franco de Andrade que, ao 
aceitar, começou a compor a pioneira equipe técnica do SPHAN, formalizado através do 
Decreto-lei n.25, de 30 de novembro de 1937. 
 
 
A fase heróica e os primeiros trabalhos da equipe técnica do SPHAN 
 
O SPHAN seria estruturado a partir de duas divisões técnicas: a Divisão de Estudos e 
Tombamento (D.E.T.), sob a chefia de Lucio Costa; e a Divisão de Conservação e 
Restauração (D.C.R.). Não faltavam desafios para a equipe pioneira e, para a realização 
de suas primeiras atividades, o SPHAN contaria muito mais com o ânimo e o com o 
empenho de seus colaboradores, técnicos e diretor do que, propriamente, com uma 
experiência prévia de trabalho. 
 
Por todas as dificuldades que se colocavam, pela carência de recursos financeiros e 
humanos, e pela ausência de uma experiência anterior, no país, na qual pudessem se 
basear, este período inicial de funcionamento da instituição ficou conhecido como “fase 
heróica”. Cavalcanti (1996, p.114) recorda ainda o “‘romantismo’ das viagens para 
desvendar a realidade brasileira tão exótica e desconhecida no próprio país; [...e a] 
escassez de recursos e número de funcionários para a hercúlea tarefa”. Sobre estes 
primeiros anos, é bem ilustrativa a lembrança do arquiteto Luis Saia: 
 
Quando o governo criou o SPHAN, em 1937, a experiência brasileira nessa matéria era, no 
mínimo, de validade discutível. Continha, é certo, muito amor, mas era também de pouco 
respeito. Muito amor por romantismo, pouco respeito por desconhecimento. [...] Tão 
grande foi esse trabalho e tão pouca era a gente disponível que não poderia ser levado a 
 3 
cabo sem a ajuda de amadores da velha guarda que desde a primeira hora se acostaram 
ao SPHAN e aí acolheram nova orientação, prestando um serviço admirável e 
insubstituível: 
a) inventariar o que existia de amostragem mais significativa da formação brasileira; 
b) socorrer urgente, e salvar alguns monumentos que estavam profundamente atingidos 
pela ruína e ameaçavam perecimento completo; 
c) introduzir na normalidade nacional, inclusive e principalmente no campo jurídico, não 
apenas a figura do „tombamento‟ e suas conseqüências, especialmente aquelas que 
representavam um gravame caindo sobre a propriedade privada. 
A fim de enfrentar tamanha tarefa era indispensável ao SPHAN municiar-se de estudos e 
colocar corajosamente em segundo plano tudo o que pudesse ser feito mais tarde, com 
mais experiência e mais gente: controle do comércio de arte, tombamento paisagístico, 
inventário de artes menores, aproveitamento e revalorização de monumentos cuja função 
se tornara obsoleta, tombamento de conjuntos urbanos, etc. (Saia apud Brasil, 1980, p.28-
29). 
 
Do grupo inicial de colaboradores, sete eram arquitetos: Lucio Costa, Oscar Niemeyer, 
Carlos Leão, José de Sousa Reis, Paulo Thedim Barreto, Renato Soeiro e Alcides da 
Rocha Miranda. Carlos Drummond de Andrade trabalharia com Lucio Costa na Divisão 
de Estudos e Tombamentos, até sua aposentadoria. Entre outros intelectuais, eram 
presença constante nas reuniões ao final da tarde, na sala de Rodrigo Melo Franco de 
Andrade: Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda, Vinícius de 
Moraes e Joaquim Cardoso. Entre os arquitetos, Lucio Costa logo se destacaria e, com 
sua erudição e seu conhecimento aprofundado acerca da arquitetura brasileira, firmar-se-
ia como mentor do grupo. 
 
Por si só, o levantamento das obras de valor excepcionaljá se configurava como uma 
enorme tarefa, tendo em vista o tamanho do território brasileiro. Mas o inventário dos 
bens culturais constituía apenas um primeiro passo na trajetória para a preservação que 
culminava com sua inscrição em um dos quatro Livros de Tombo. 
 
Havia ainda os distritos regionais, tais como o de Minas Gerais (3º DR), a cargo de Sylvio 
de Vasconcellos, e o de São Paulo (4º DR-Sul), dirigido por Mário de Andrade. A estes 
delegados regionais era solicitado, pelo diretor Rodrigo M. F. de Andrade, que fossem 
encaminhadas propostas de tombamento de edificações ou obras de arte 
 
instruídas pelo histórico da obra, sua descrição pormenorizada (técnica quando possível, 
sic), informações sobre seu estado atual de conservação, assim como as alterações que 
tiver sofrido, referências bibliográficas que houver a seu respeito e documentação 
fotográfica. (Andrade apud Fonseca,1997, p.122). 
 
Pesquisa histórica e avaliação técnica minuciosas garantiriam não só que a proteção aos 
bens de valor notável fosse legal, no que tangia aos aspectos jurídicos, mas também 
socialmente legitimada; a intenção era, pois, que as decisões para o ato do tombamento 
se fundamentassem em critérios rigorosos. Para tombar era preciso muito estudar, 
inventariar, por fim, documentar exaustivamente os bens em questão. 
 
Talvez em função da carência de informações sistematizadas a respeito do próprio 
patrimônio que se começava a descobrir, tenha se desenvolvido uma das preocupações 
iniciais do órgão: a de difundir o conhecimento teórico dentro da instituição, através da 
publicação de artigos e pesquisas produzidas pelo seu corpo técnico. 
 4 
 
A Revista do Patrimônio, cujo primeiro exemplar data de 1937, seria um dos principais 
canais de informação técnica. A leitura de seus primeiros exemplares revela tanto o 
caráter pioneiro de seus artigos, como o apuro e o rigor de seus ensaístas, figurando, 
muitos de seus textos, como importantes referências até os dias de hoje. 
 
 
O SPHAN e a questão da identidade nacional 
 
Esta equipe foi, em grande medida, responsável pela configuração do perfil da instituição 
que acabara de se formar e pelo seu discurso estruturador. Segundo Rodrigues (1996, 
p.195) “a estruturação do pensamento preservacionista no Brasil confunde-se com o 
ideal de parte da intelectualidade dos anos 20 e 30 em definir uma identidade moderna 
para a Nação”, ou seja, a preocupação com a constituição de uma nova identidade para 
o país moldou os contornos e as diretrizes de trabalho do órgão recém criado. Na mesma 
direção, Fonseca (1997, p.98) aponta: 
 
...uma peculiaridade do modernismo brasileiro: o fato de serem os mesmos intelectuais 
que se voltaram, simultaneamente, para a criação de uma nova linguagem estética – no 
sentido de ruptura com o passado – e para a construção de uma tradição – no sentido de 
buscar a continuidade. 
A temática do patrimônio surge, portanto, no Brasil, assentada em dois pressupostos do 
Modernismo, enquanto expressão da modernidade: o caráter ao mesmo tempo universal e 
particular das autênticas expressões artísticas e a autonomia relativa da esfera cultural em 
relação às outras esferas da vida cultural. A atuação dos modernistas no SPHAN vai 
mostrar como eles puseram em prática, num campo cultural e político específico, e sob um 
regime autoritário, esses pressupostos. 
 
A participação maciça dos arejados arquitetos e intelectuais modernistas foi, como 
muitos autores já destacaram, a grande especificidade do caso brasileiro, na trajetória 
inicial de organização e institucionalização da preservação do patrimônio da nação, e 
teve reflexos significativos também na definição das propostas de restauração do 
patrimônio arquitetônico do país. 
 
Entre os vários procedimentos adotados, durante os primeiros anos de atuação do órgão 
– que incluíam trabalhos de inventário, produção de estudos e pesquisas, realização de 
levantamentos –, o tombamento e as obras de restauração foram as principais atividades 
realizadas pelo SPHAN. 
 
Segundo Silvana Rubino (1996, p.97) é possível mapear historica e geograficamente o 
Brasil que se buscou preservar: 
 
Descobrir, viajar, recensear e tombar foram com freqüência um único ato e momento. Foi 
nesse descobrimento do país que se inventou e inventariou um Brasil histórico e artístico, 
mas também etnográfico, arqueológico e _ porque não? _ geográfico. O país que foi 
passado a limpo formando um conjunto de bens móveis e imóveis tombados tem lugares e 
tempos privilegiados. Este conjunto documenta fatos históricos, lugares hegemônicos e 
subalternos, mapeando não apenas um passado, mas o passado que essa geração tinha 
olhos para ver e, assim, deixar como legado. 
 
 5 
Mas a avaliação positiva dos resultados não foi, sempre, uma unanimidade. No 
aniversário de vinte anos da criação do antigo SPHAN - desde 1946 transformado em 
Diretoria sob a sigla DPHAN -, o escritor Rubem Braga lembra da reprimenda que os 
funcionários levaram de Rodrigo M. F. de Andrade, ao destacar, não a glória por tudo 
aquilo que haviam realizado, mas, sim, ao enumerar tudo o que não haviam conseguido 
salvar: 
 
Rodrigo mandou chamar alguns dos seus funcionários, e eu me meti no meio deles. Não 
houve docinhos nem beberete; nem sequer uma flor. O que os funcionários ouviram foi um 
grave e delicado „pito‟ e um apelo para que trabalhassem mais. Nenhum se queixou 
depois; todos ficaram comovidos porque o funcionário que Rodrigo mais censurou foi ele 
mesmo, o chefe. O chefe que viveu estes 20 anos exclusivamente para o serviço, a ele se 
entregou com um total carinho, uma completa humildade e uma extraordinária devoção. 
Depois de historiar, com áspera modéstia, o que o serviço fez nestes 20 anos, Rodrigo fez 
a lista das coisas que se devia ter feito e não se fez e acusou disso em primeiro lugar a 
ele, o chefe. (Braga apud Andrade, 1986, p.23) 
 
Podemos dizer que o esforço deste grupo destinava-se não somente a salvaguardar o 
patrimônio histórico e artístico do país, mas também construir uma ideia de Nação 
ancorada no seu modo de compreender a História, na sua experiência estética, 
resgatando o passado com os olhos voltados ao futuro. O discurso sobre o patrimônio 
espelhava a sua forma de enxergar a cultura e a sociedade brasileira. 
 
Este discurso orientador resultou em uma ação efetiva de preservação que teve, entre 
seus erros e acertos, entre tudo o que foi salvo e o que desapareceu, uma contribuição 
fundamental: o fato de começar; gerando, assim, uma experiência de procedimentos de 
trabalho que cabe a nós reavaliar e dar prosseguimento. 
 
 
 
 
Referências bibliográficas 
 
ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. Rodrigo e seus tempos. Rio de Janeiro: Ministério 
da Educação e Cultura/ Fundação Nacional próMemória, 1986. 
 
BRASIL, Ministério da Educação e Cultura/ Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico 
Nacional/ Fundação Nacional próMemória. Proteção e Revitalização do patrimônio cultural 
no Brasil: uma trajetória. Brasília: MEC, 1980. 
 
CAVALCANTI, Lauro. O Cidadão moderno. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico 
Nacional. Rio de Janeiro: 1996, n. 24, p. 106-115. 
 
FONSECA, Maria Cecília Londres. O Patrimônio em processo: trajetória da política federal 
de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/IPHAN, 1997. [2ª ed. rev. ampl. 
Rio de Janeiro: Editora UFRJ; MinC – IPHAN, 2005] 
 
RUBINO, Silvana. O mapa do Brasil passado. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico 
Nacional, Rio de Janeiro: 1996, n. 24, p. 96-105.

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