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FEMINILIDADE PERDIDA E RECONQUISTADA 
 
Robert A. Johnson 
 
Tradução de Júlia Bárány Bartolomel 
 
MERCURYO 
 
 
Titulo original: Femininity Lost And Regained 
 
Robert A. Johnson - 1990 
 
1991 
 
Todos os direitos reservados à Editora Mercuryo Ltda. Al. dos Guaramomis, 1267 - CEP 
04076 Fone (011) 530.1804/531.8222 - Fax: (011) 530.3265 São Paulo - SP - BRASIL 
 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 
 
Johnson, Robert A., 1921 - 
 
Feminilidade perdida e reconquistada / Robert A. Johnson ; tradução Julia Bárány 
Bartolomel]. — São Paulo : Mercuryo, 1991. 
 
1. Damayanti (Mitologia hindu) 2. Édipo (Mitologia grega) 3. Feminilidade (Psicologia) 4. 
Nala (Mitologia hindu) I. Título. 
 
CDD-155.333 
 
-292.08 91-2544 -294.513 
 
Índices para catálogo sistemático 
 
1. Damayanti : Mitologia hindu 294.513 2. Édipo : Mitologia grega 292.08 3. 
Feminilidade : Psicologia sexual 155.333 4. Nala: Mitologia hindu 294.513 
 
Capa: Eduardo Piochi 
 
Sylvia Bolonha 
 
 
 
ÍNDICE 
 
1. O Problema Atual 09 
 
PRIMEIRA PARTE — O FEMININO NA CULTURA OCIDENTAL 
2. A Herança Grega 19 
3. A Voz de Sófocles 23 
4. A História de Édipo 29 
5. O Significado Interior do Incesto 35 
6. O Destino de Antígone 47 
7. O Legado de Édipo 53 
8. A Saga Continua 57 
 
SEGUNDA PARTE — O FEMININO NA MITOLOGIA HINDU 
9. Uma Atitude Diferente 67 
10. A História de Damayanti 71 
11. Duas Histórias de Amor 75 
 
TERCEIRA PARTE — QUE REALMENTE QUER A MULHER? 
12. A Feminilidade Perdida 87 
13. A Feminilidade Reconquistada 95 
14. A Tarefa Heróica 105 
 
APÊNDICE 113 
 
6 
 
FEMINILIDADE PERDIDA E RECONQUISTADA 
 
1 O Problema Atual 
 
A perda das qualidades e da energia femininas na sociedade de hoje constitui um 
problema psicológico premente. Aflige dolorosamente a vida emocional tanto dos homens 
quanto das mulheres. Esta perda de algo tão essencial para a mulher força-a a questionar sua 
própria feminilidade, consolidando o longo debate histórico acerca da posição das mulheres 
na sociedade. Para um homem, a perda da energia feminina é menos óbvia, porém reduz 
as profundezas emocionais de sua personalidade e é a fonte da maior parte do seu 
descontentamento, solidão, sensação de falta de sentido e mau humor. Para um homem é um 
choque descobrir que seus humores e grande parte de sua natureza sentimental são 
femininos! Ser presa de humores 
 
9 
 
é ser dominado por um aspecto interior feminino do seu caráter, e é somente ao aceitar e 
compreender esta feminilidade que ele entenderá com clareza sua natureza masculina. Perder 
ou danificar as qualidades femininas interiores afeta o nosso bem-estar emocional, 
modificando de imediato nossa felicidade e contentamento. Se as qualidades femininas 
estiverem em ordem, a pessoa se sentirá segura e protegida. 
Uma vez entendido que a feminilidade não é privilégio da mulher, nossa primeira 
tarefa consiste em aprender a considerá-la um ente que tem influência sobre a identidade 
feminina central da mulher e sobre a capacidade e a habilidade de sentir e valorizar do 
homem. 
Seria mais fácil entender esta dimensão vital se nossa língua não fosse tão 
preconceituosa e empobrecida. Faltam-nos palavras multifacetadas e ricas para expressar o 
aspecto feminino da vida. Freqüentemente as línguas possuem vários termos para descrever 
os elementos culturais altamente respeitados. Se, ao contrário, uma língua dispõe de poucos 
termos ou mesmo de um só para descrever um elemento de sua vida cultural, às vezes isto 
indica que o elemento é pouco considerado ou valorizado. Por exemplo, o sânscrito, base 
para a maioria das línguas da Índia, tem noventa e seis termos para o amor. O persa antigo 
tem oitenta, o grego tem quatro e o inglês apenas um. O inglês não possui a amplitude, o 
alcance e a diferenciação para o feminino e para o sentir como o sânscrito e o persa. Caso 
possuísse, haveria uma palavra específica para expressar nossos sentimentos com relação a 
pai, mãe, pôr-do-sol, esposa, casa, amante, Deus. Havendo uma única palavra para 
 
10 
 
estes vários níveis de experiência, torna-se difícil entender a complexidade das emoções e de 
nossa vida interior. A língua esquimó tem trinta palavras para a neve. Isto reflete a 
necessidade de clareza num complexo relacionamento com a neve. Quando o relacionamento 
e a feminilidade nos interessarem tanto quanto a neve interessa ao esquimó, 
desenvolveremos uma língua diferenciada e enfocada para essa dimensão da nossa vida. 
O estudioso de mitologia Joseph Campbell tentou ampliar nossa discussão sobre 
feminilidade evocando os seguintes termos: 
 
a esquerda — o lado do coração, o lado do escudo — tem sido símbolo tradicional em todo 
lugar das virtudes e dos perigos femininos: maternidade e sedução, os poderes da Lua sobre 
as marés e sobre as substâncias do corpo, os ritmos das estações; gestação, nascimento, 
alimentação e criação de filhos; no entanto, igualmente malícia e vingança, irracionalidade, 
fúria tenebrosa, magia negra, venenos, feitiçaria e engano; mas também encanto, beleza, 
enlevo e êxtase. A direita, assim, é do macho: ação, armas, feitos heróicos, proteção, força 
bruta, justiça cruel e justiça complacente; as virtudes e os perigos masculinos: egoísmo e 
agressão, raciocínio lúcido e luminoso, poder criativo como o Sol mas também maldade fria 
e insensível, espiritualidade abstrata, coragem cega, dedicação à teoria, força moral sóbria e 
séria.1 
 
1 Joseph Campbell, Creative Mythology (New York: Viking, 1968), pp. 288-89. 
 
11 
 
A língua molda o nosso pensamento mesmo quando pensamos que estamos sendo 
receptivos. Uma amiga minha estava preparando o trabalho final do curso preparatório para 
a ordenação sacerdotal anglicana. Arrebatada por um daimon inspirador, decidiu escrever de 
uma perspectiva inteiramente feminina — isto em face da rígida estrutura patriarcal da 
Igreja. Seus amigos aconselharam-na com veemência que não o fizesse, mas ela insistiu. E 
escreveu: 
 
Sendo uma mulher a escrever um depoimento pessoal, escolhi o termo “mulher” para 
usar neste trabalho, mas desejo que fique claro que neste trabalho o termo “mulher” 
inclui os homens também, sem nenhuma intenção de excluir o gênero masculino 
(exceto onde o contexto o indica claramente) da minha visão da antropologia 
teológica e da natureza da Igreja, e especialmente da obra de salvação de Jesus 
Cristo. Isto não é feito na mais completa inocência, é claro. Em parte, estou tentando 
inverter, para mim mesma e para os meus leitores, a experiência de ler teologia, que 
reivindica incluir meu gênero, porém, raramente o faz. 
 
Escrevendo sobre a noção de pessoa na teologia, ela diz: 
 
O que sinto da natureza humana é que a mulher é uma criatura finita (ser criado por 
Deus), racional, espiritual, imaginativa e criativa, ou, segundo formula o Livro da 
Oração Comunitária: 
 
12 
 
“abençoada... com memória, razão e habilidades”. Ela possui o livre-arbítrio 
(limitado, mas real) e o potencial para se tornar uma verdadeira filha de Deus, 
transcendendo a si mesma enquanto amadurece. Ao compreendê-la teologicamente, 
devemos lutar continuamente para manter o equilíbrio entre a sua natureza espiritual 
e a natureza material, às vezes “superespiritualizada” pelas comunidades religiosas. 
Seu objetivo é amar: a si mesma, outras mulheres e, o mais importante, a Deus....Penso que conseguimos uma imagem melhor dos propósitos para os quais a mulher 
foi criada e as possibilidades inerentes à sua natureza na pessoa de Jesus Cristo. 
Somente conseguiremos uma compreensão correta de quem a mulher é após vermos 
quem é o Cristo... porque somente à luz da cruz podemos ver o verdadeiro pecado da 
mulher, assim como o seu destino latente. 
 
...Dentre todas as criaturas criadas sobre a Terra, apenas a mulher (até onde sabemos) 
tem o poder da razão e da memória. 
 
Além disso, existe na mulher o que Karl Rahner chama de “transcendental” 
(manifestado em Jesus de maneira eminente), o salmista chama de “um pouco 
inferior que os anjos” e o Genesis chama de “à imagem de Deus.”2 
 
A palavra “homens”, significando toda a humanidade, usada nas Escrituras e em 
outros lugares 
 
2 Das respostas dadas por Jean Dalin, Clift às perguntas que lhe foram feitas durante o exame 
de ordenação. 
 
13 
 
levou-nos a distorções durante muito tempo. O peso semântico se inclina para a 
masculinidade a despeito de todos os esforços feitos para incluir as mulheres no termo 
“homem” . 
Devemos investigar esta qualidade fugaz — a feminilidade — e achar alguma coisa 
de sua história, apesar da pobreza de nossa língua. Duas atitudes, uma grega, a outra 
hindu, irão ajudar-nos a entender as raízes da feminilidade na civilização moderna. O mito de 
Édipo abrange o ponto de vista grego, nossa herança mais próxima; o mito de Nala e 
Damayanti, do Mahabharata, transmite a atitude da Índia. 
 
UMA NOVA PERSPECTIVA 
 
As atitudes ocidentais com relação à feminilidade estão tão profundamente arraigadas 
que se torna impossível olhá-las objetivamente sem nos distanciarmos totalmente de nossa 
própria cultura. Foram as viagens à Índia que me despertaram para uma visão muito diferente 
de tudo o que é feminino. A modulação do sentir, a apreciação da feminilidade ocupam 
lugares infinitamente elevados no caráter do povo hindu. Caminhar simplesmente por uma 
rua na Índia tradicional já é caminhar imbuído de um sentir válido. Experienciar como os 
hindus experienciam as cores, os ritmos, os sons, a sensualidade, a afinidade, a modéstia e a 
atemporalidade é ser lembrado do Feminino Divino. 
Nossas heróicas conquistas ocidentais causam inveja ao resto do mundo, porém, são 
ganhas à custa de nossa capacidade de calor, sentimento, contentamento e serenidade. Somos 
tão ricos em 
 
14 
 
coisas materiais e tão pobres em valores femininos! Na Índia vi paz e felicidade nos lugares 
mais inesperados! Como é que essas pessoas, não tendo quase nada para se contentar, são tão 
felizes? Em troca das modernas conquistas tecnológicas, essas pessoas conservaram seus 
valores femininos. 
O mito de Nala e Damayanti soa estranho aos ouvidos ocidentais, mas essa 
estranheza é a própria qualidade de que necessitamos para completar nosso modo de vida 
ocidental desastrosamente unilateral. Neste mito hindu as mulheres de forte identidade 
feminina evitam o desastre. Inevitavelmente, a força feminina é o herói. As histórias hindus 
simplesmente não funcionariam sem o poder de suas mulheres, ou seja, o poder do feminino, 
pois não se restringe somente às mulheres. 
Nós, os ocidentais, sabemos instintivamente que há um ingrediente essencial no 
Oriente do qual precisamos para curar a pobreza emocional de nossa cultura. Começamos a 
conhecer a filosofia e a religião orientais desde os anos sessenta, seja por intermédio dos 
radicalistas da política, ou dos cientistas eminentes. O livro de J. Robert Oppenheimer que 
descreve o desenvolvimento da primeira bomba atômica foi intitulado Brighter Than a 
Thousand Suns, uma citação do Upanishad. Obras de ficção tais como Sidarta, de Hermann 
Hesse, e O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, exploraram aspectos curativos do 
pensamento oriental. É desta maneira que podemos aprender com a história de Nala e 
Damayanti. 
15 
 
PRIMEIRA PARTE 
 
O FEMININO NA CULTURA OCIDENTAL 
 
2 
A Herança Grega 
 
Uma grande parte de nossa herança cultural e filosófica tem sua origem na Grécia 
antiga; nossa ciência, nossas idéias políticas, uma boa parte de nossa língua e muitos dos 
nossos costumes advêm daquele grande florescimento que foi a glória de Atenas por volta do 
ano 500 a.C. Muitos dos bens culturais que tanto estimamos levam nomes gregos: 
democracia, aristocracia, psicologia, política, êxtase, mistério; e numerosos termos 
médicos e científicos são de origem grega. Diz se que toda a filosofia desde a época grega 
não passou de uma nota de rodapé para Platão. 
Existe, porém, uma nota escura na nossa herança grega raramente reconhecida ou 
entendida. A glória da Grécia que ainda ilumina nossa civilização foi 
 
19 
 
comprada a um preço muito alto, um preço pago diariamente por cada um de nós e raramente 
atribuído à fonte. 
Começamos a questionar a forma patriarcal da cultura ocidental desafiando assim 
pela primeira vez a nossa herança grega. É verdade que os gregos honravam o feminino na 
figura de sete deusas correspondentes aos sete deuses; mas a vida do dia-a-dia na Grécia 
tinha uma estrutura patriarcal e a feminilidade sofreu um golpe tão doloroso que ainda não 
conseguiu recuperar-se. Grande parte de nossa vida emocional é constituída pela dor desta 
ferida ainda aberta. 
É inevitável que uma civilização “elevada” como a grega pagasse um preço 
igualmente elevado ou profundo. O feminino, desonrado em seu sofrimento, pagou o preço, 
enquanto o masculino recebia as glórias de suas conquistas. Talvez uma raça mais sábia 
tivesse pago este preço de sangue de uma maneira melhor, mas isto seria pedir o que a 
humanidade como um todo não conseguiu realizar até hoje. Cabe agora a nós, a humanidade 
no atual estágio de evolução, pagar o preço e evoluir de uma maneira mais saudável do que as 
maneiras concebidas por nossos ancestrais. 
A Grécia não era a única a degradar o feminino. O mundo hebraico também negava o 
feminino, e culturas menores mal chegaram a reconhecê-lo. Os hebreus, assim como os 
gregos, teoricamente prestigiavam o feminino. O Shekinah, a presença de Deus no mundo, 
era nada menos que a metade feminina de Deus. Mas, na prática, o judaísmo era uma 
instituição patriarcal que fazia o feminino pagar o preço pela portentosa realização 
masculina. 
 
20 
Podemos agradecer por estas conquistas, pois o nosso mundo ficaria 
consideravelmente mais pobre caso fossem destruídas. A ciência seria derrubada; a medicina 
e todas as maravilhas mecânicas da nossa época desapareceriam. Estaríamos “adubando o 
campo arado”, de acordo com Mefistófeles no Fausto de Goethe. Embora tenhamos 
começado a restabelecer o lugar da mulher no nosso mundo moderno, ainda não fizemos o 
suficiente para restaurar os valores femininos: o sentir, a paz, o contentamento e a 
perspectiva. Atualmente há vozes na nossa sociedade que — para reduzir o sofrimento e a 
alienação — pleiteiam o retorno à natureza. Gandhi, os amish, Rousseau, Thoreau, assim 
como os hz’ppies dos anos sessenta defendiam modos de vida mais simples para ficarmos 
mais próximos da mãe protetora, a Terra. 
Assim talvez aliviássemos a dor, mas perderíamos o que temos de melhor no mundo 
ocidental. Um jeito melhor seria pagar de maneira mais consciente o preço do que 
ganhamos e por esse preço consciência ganhar o que há de melhor no gênio masculino e no 
feminino. Caso venha uma era melhor, um milênio, ela emergirá desta apreciação consciente 
de ambos os valores e não do balanço violento do pêndulo de um extremo a outro. 
 
3 
A Voz de Sófocles 
 
A busca da consciência à qual aspiramos começa com uma investigaçãoda 
história do atual desequilíbrio masculino-feminino. A cultura grega registrou suas atitudes na 
história de Édipo, que exemplifica o que há de melhor e de pior na Grécia. Se pudermos 
entender esta história de trágica nobreza, estaremos melhor equipados para enxergar nosso 
próprio dilema. O mito hindu de Nala e Damayanti, embora contenha muitos elementos em 
comum, desenrola-se de maneira bem diferente: o feminino também é maltratado, mas o 
resultado é o oposto da história ocidental. Ao justapor as duas histórias, a intenção não é 
provar que uma delas seja a certa e a outra errada, e sim expandir a consciência. 
 
23 
 
O único meio de nos tornarmos mais responsáveis é adquirirmos maior consciência 
psicologicamente, através de um trabalho interior que custa muito sofrimento. Mas 
devemos pagar este preço para garantir a evolução da nossa maturidade individual e o 
florescimento intelectual e emocional de nossa cultura. A história de Édipo foi dramatizada 
nas peças tebanas por Sófocles. Nascido em 496 a.C., o dramaturgo grego viveu numa das 
épocas mais conturbadas da História: a Grécia no apogeu de seu poder, as Guerras 
Peloponesas que sangraram esta civilização avançada quase até o fim, e o início do declínio 
que logo varreu a Grécia para a guerra civil e a ruína. O tema das peças gira em torno da casa 
real de Tebas e a imposição da lei masculina à custa do amor feminino e da afinidade. Esta 
catástrofe reverbera através da História até os dias de hoje. 
De acordo com a lenda, Cadmo, o pai do império tebano, funda uma cidade, mas um 
dragão devora os primeiros cidadãos. Cadmo mata o dragão de um só golpe de sua espada e 
semeia seus dentes dentro dos muros da cidade. Os dentes imediatamente ressurgem na 
forma de gigantes tão ferozes que se põem a matar-se uns aos outros. Sobram apenas cinco, 
que serão os fundadores de Tebas. Um mito de criação puramente masculino! 
Várias gerações depois, nasce Édipo, futuro rei de Tebas. Um oráculo diz que ele 
matará seu pai e desposará sua mãe. Com isso os pais de Édipo são forçados a matá-lo, mas 
em vez disso, movidos pela bondade e humanidade, eles trespassam seus pés com uma 
agulha de ferro e ordenam a um servo que 
 
24 
 
o deixe no lugar tradicional de abandono.3 O servo, um pastor, não consegue abandonar a 
criança à morte e a entrega a um outro pastor que leva o banido a um reino vizinho. O rei 
deste reino não tem filho e adota a criança, dando-lhe o nome de Édipo, “pé inchado”. 
No início de sua juventude, Édipo fica sabendo da premonição do oráculo e foge de 
sua pátria para evitar o destino predeterminado. Após perambular por algum tempo, chega a 
Tebas, seu lugar de nascimento. Num confronto na estrada mata um homem. Este homem é 
seu pai, e a primeira parte da profecia se cumpre. Édipo se estabelece na cidade mas a 
encontra conturbada. Seu rei tinha sido morto (por Édipo) e a Esfinge, um monstro híbrido, 
apoderou se do país. A Esfinge propõe um enigma que ninguém consegue responder, e 
muitos são mortos por fracassarem. Édipo responde ao enigma, salva o país da Esfinge e 
recebe como recompensa a rainha viúva por esposa. A segunda parte da profecia assim se 
cumpre. O casal real tem dois filhos e duas filhas, e Tebas vive um período de paz. 
 
O DESTINO DA FEMINILIDADE 
 
O psicólogo suíço Jung observou que a dimensão inconsciente da nossa psique nos 
mostra a mesma face que lhe mostramos primeiro. Se fomos hostis para com ela, ela será 
hostil para conosco. Grande parte da nossa vida psicológica é um diálogo 
 
3. Era costume na Grécia Antiga deixar num lugar determinado as crianças indesejadas ou 
deformadas para que morressem abandonadas caso ninguém viesse procurá-las para adotar. 
 
25 
 
entre o nosso mundo consciente, ou seja, todas as coisas que sabemos sobre nós mesmos, e o 
inconsciente, ou seja, o embaçado mundo da nossa vida interior, que constitui um grande 
mistério para nós. 
O primeiro ato humano nessa história provoca uma resposta imediata das forças 
ctônicas* femininas do mundo interior. Quando Cadmo, o rei legendário, funda a cidade, a 
humanidade impõe a ordem masculina, que associamos com cultura e lei civil.4 Mas a 
masculinidade impõe forma e ordem ao país sem levar em conta os elementos femininos da 
matéria e terrenalidade, e a Terra contra-ataca na forma de um dragão que quase destrói a 
cidade. Cadmo mata o dragão, semeia seus dentes no solo da nova cidade, e surge a primeira 
geração de cidadãos — gigantes que imediatamente se põem a matar-se uns aos outros. Os 
cinco sobreviventes são os fundadores da cidade, que agora é povoada pelos filhos da 
ordem e da forma (o legado de Cadmo) e pelo elemento terra, na forma dos dentes de dragão. 
Restabelece-se o equilíbrio e a cidade pode continuar o seu desenvolvimento. 
Esta é uma receita maravilhosa para remediar a tensão na vida de quase todas as 
pessoas do mundo de hoje. Trabalhamos muito duro (e os ocidentais trabalham mais do que 
qualquer povo conhecido na História) para a nossa realização masculina patriarcal. Isto 
significa “fundar a cidade” e é uma conquista especificamente masculina. É o orgulho e a 
 
* Relativo aos deuses e demônios que habitam as profundezas da terra. 4. É interessante a 
receita para se fundar uma cidade grega: cave um poço que será o centro da cidade. Em 
seguida corte uma pele de boi numa tira contínua, estendendo-a em círculo ao redor do poço. 
A circunferência do círculo constituirá os limites da cidade. 
 
26 
 
alegria do mundo ocidental! Mas o mito nos diz que isto é apenas a metade da realidade e o 
feminino, esse aspecto ilimitado, sem forma, da realidade, destruirá a nova criação masculina 
se não for honrado e incluído na criação. O feminino excluído, transformado num dragão por 
ter sido ofendido, ameaça arruinar o projeto inteiro. Um amigo meu, imensamente 
orgulhoso pelo seu recente sucesso numa difícil situação de negócios, comportava-se como 
um galo de briga e vangloriava-se da sua vitória. Mas sua esposa, forçada a desempenhar o 
papel de dragão, instintivamente cutucava sua arrogância masculina. 
Cadmo usa de grande sabedoria ao fundar sua cidade com forma (o poço e a tira de 
pele de boi) e caos (os dentes de dragão). Esta sabedoria antiga é uma receita adequada para 
as nossas realizações masculinas de todo o dia. Acrescente dentes de dragão aos seus triúnfos 
para que ocorra a verdadeira criação. Homens e mulheres que acrescentam a energia 
feminina interior à realização patriarcal beiram a genialidade. O catalisador pode tomar a 
forma de uma meia hora de quietude, um presente, uma cerimônia, ou uma libação à metade 
feminina da criação patriarcal. 
 
27 
 
 
4 A História de Édipo 
 
O rufar dos tambores do destino ressoa como um fio condutor através da história de 
Édipo. O oráculo anuncia que o rei e a rainha de Tebas gerarão um filho que matará seu pai 
e desposará sua mãe. Do nosso ponto de vista, não há desastre pior. Lembremos, porém, que 
estes são um rei e uma rainha, e, o que é mais difícil, tenhamos em mente que é a história da 
consciência interior, contendo as leis e medidas de segurança necessárias para o advento 
desta consciência. Um dos heróis, Édipo, age corretamente e introduz a idade de ouro de 
Atenas. Outro, Creonte, age de maneira errada e acaba completamente só, deixando as 
mulheres da história pagarem por seu erro. 
Ao ficarem cientes da profecia, o rei e a rainha compreensivelmente tentam contornar 
o desastre. 
 
29 
 
Ninguém quer a consciência. A consciência só pode vir pelo destino, com a condição 
de participarmos do processo e pagarmos o preço integral. Eles feremo filho trespassando 
seus tornozelos com uma agulha de ferro e mandam um servo levá-lo ao local de abandono 
onde crianças indesejadas ou deformadas são deixadas para morrer. Isto é um toque sutil, 
pois deixa uma brecha por onde o destino pode falar. Eles não matam a criança, mas 
deixam-na para morrer. 
O servo não suporta deixar a criança morrer abandonada. Entrega o menino a um 
pastor, que o leva a outro país. Eis um ato bondoso e humano, uma das delgadas linhas 
femininas que se entrelaçam aos fios do destino. O rei e a rainha do novo país não têm filho e 
adotam Édipo como se fosse seu filho. Ele cresce feliz. Com o passar dos anos, surgem 
histórias perturbadoras sobre seu nascimento. Ele finalmente deixa seus pais adotivos (que 
julga serem seus pais verdadeiros) para fugir da sentença terrível, mas este ato apenas se 
torna o fio seguinte do destino. 
Uma história árabe mostra claramente como a arte da fuga é freqüentemente o fio 
seguinte do destino encaixando-se no lugar determinado. Um homem rico de Meca consultou 
uma cartomante, que ao olhar dentro da sua bola de cristal pôs-se a gritar e caiu desmaiada. 
Isto não era nada reconfortante, e o homem ficou alucinado de preocupação quando 
finalmente conseguiu reanimar a adivinha. Recuperando a fala, ela lhe informou que a Morte 
iria ao seu encontro no porto leste de Meca, ao amanhecer. O homem, usando de todo o 
poder de sua riqueza, alugou uma caravana naquela noite e estava no porto leste de Agra pela 
manhã. Lá estava a Morte, esperando 
 
30 
 
por ele. “Mas pensei que você estaria esperando por mim no porto de Meca!”, balbuciou o 
homem. “Não”, disse a Morte, “há milhares de anos está escrito que nós nos encontraríamos 
no porto de Agra esta manhã” . Usando de todo o poder de sua riqueza e por causa do 
equívoco leviano da cartomante, ele chegou ao lugar da sua morte, convencido o tempo todo 
de que estivesse fugindo dela. 
Assim fizeram o rei e a rainha de Tebas, tentando livrar-se do seu filho marcado pelo 
destino, e Édipo, procurando escapar do seu destino ao fugir de seus pais adotivos. Estas duas 
fugas apenas colocam Édipo exatamente onde deveria estar para cumprir o terrível e 
assombroso destino anunciado antes de seu nascimento. 
O peso da consciência vai caindo sobre Édipo no decurso de sua vida. Ele controla os 
detalhes, mas o destino detém os fios principais e governa com mão de ferro, assim como 
antes o ferro tinha prendido seus pés. Ele deve pagar sua dívida. Na medida em que o faz, 
surge a consciência e ele segue o caminho da nobreza para criar uma idade de ouro em 
Atenas. Sua fuga, porém, forma a escuridão e faz subir o preço. 
 
O PROFETA CEGO 
 
A história vai tecendo seu padrão enquanto Édipo foge de seu país adotivo e acaba 
sem saber tomando o rumo de Tebas, seu país natal. Ao entrar na sua verdadeira pátria, o 
gentil Édipo é desafiado por um bando de viajantes e, em defesa própria, mata o líder do 
bando. Não sabe que este homem é seu pai, Laio, rei de Tebas. 
 
31 
 
Ao chegar à cidade, Édipo encontra Tebas sob o encanto de um monstro implacável, a 
Esfinge, que destrói todos aqueles que não conseguem responder ao astuto enigma proposto 
por ela. A Esfinge tinha dominado o país porque o grande rei Laio fora morto. Ela é o estágio 
seguinte do monstro feminino que quase destruíra Tebas quando de sua fundação. O 
feminino renegado, antes um dragão devorador, se tinha transformado num teste da 
consciência. Imploram a Édipo recém-chegado que encontre a resposta ao enigma da 
Esfinge. Ele consegue e livra o país da opressão da Esfinge. O povo designa o rei e dá-lhe por 
esposa a viúva do seu antecessor. Assim se cumpre a terrível profecia de que Édipo mataria 
seu pai e esposaria sua mãe. 
Durante quinze anos reinam a paz e a harmonia sob o sábio governo de Édipo. Sob a 
superfície ilusória esconde-se, porém, a vergonha hedionda do segredo de Édipo, do qual ele 
sabe apenas uma parte. Outra tirania oprime o país, na forma de inundações e pestes, pois os 
deuses não podem permitir que tanta treva permaneça sem solução por muito tempo. 
Édipo pede aos deuses que lhe mostrem a causa do sofrimento de Tebas e o oráculo 
conta o sórdido assassinato do seu rei, Laio. É por isso que o país sofre opressão. Édipo jura 
que será feita a justiça com aquele que matara Laio para limpar o país deste ato tão tenebroso. 
Mandam chamar um profeta cego para revelar sua visão interior. De início ele se 
recusa a comentar o que sabe. “Recuso-me a expor os pesados segredos da minha alma e da 
sua.” 
 
32 
 
E prossegue: “Não me culpes; põe em ordem tua própria casa” . 
O profeta cego finalmente conta a história de Édipo, filho de Laio e Jocasta, expulso 
para um país estrangeiro, que retorna para matar seu pai e esposar sua mãe, agora acusador e 
acusado, o rei de Tebas. 
O assassino de Laio — este homem está aqui: Aparentemente um estrangeiro, um 
viajante entre nós; Mas como será esclarecido, alguém nascido em Tebas, 
Para a, sua desgraça. Chegou em plena posse da visão, mas partirá cego; Agora rico, 
depois um mendigo; bastão na mão, tateando seu caminho 
Para um país de exílio; como iremos ver, irmão e pai, ao mesmo tempo, dos filhos que 
acalenta; filho e marido da mulher que o gerou; assassino de seu pai, 
E aquele que derrubou seu pai. Vai e pensa sobre isto. Se conseguires provar que 
estou errado, chama me de cego. 
 
Jocasta é chamada e ao ser interrogada percebe que Édipo, seu marido atual, é seu 
filho. Édipo reconhece seus terríveis, porém, inconscientes atos e exige ser exilado de Tebas. 
Ao perceber sua participação involuntária na tragédia, Jocasta enforca-se redimindo 
assim sua culpa. Édipo, impulsionado por sua própria culpa, 
 
33 
arranca os broches de ouro de seu vestido e fura com eles os próprios olhos para apagar a 
visão da mulher-mãe que o revolta. Derramando o próprio sangue realiza o primeiro ato de 
redenção por sua culpa de incesto. 
Édipo é expulso de Tebas, em cumprimento de sua própria ordem, e Creonte, irmão 
de Jocasta, sobe ao trono. 
 
34 
 
5 
O Significado Interior do Incesto 
 
Para entendermos o tremendo impacto desta história devemos tornar bem claro que é 
uma história interior, que tem pouco a ver com o fato literal. Encontraremos o seu pleno 
significado ao interpretarmos os eventos como acontecimentos profundos de uma cultura e, 
se tivermos a coragem, de nossa própria história psíquica. Esta história e outras semelhantes 
que surgiram no mundo inteiro em várias épocas da História são mapas psíquicos para 
orientar a alma humana na sua perigosa aventura rumo à consciência. 
O conto não trata das proibições contra o incesto literal mas é como um sonho que 
oferece orientação e proteção para que a consciência se estabeleça. Dizendo da maneira mais 
simples possível, o 
 
35 
 
incesto é o ato psicológico de criar consciência. Criamos consciência, a capacidade do self 
em ver a si mesmo, quando revertemos o fluxo da nossa energia natural sobre nós mesmos. É 
assim que ganhamos toda a nossa consciência. Toda a vez que nos disciplinamos, 
sentamo-nos e desejamos crescer, estamos cometendo incesto num sentido interior — 
acasalando-nos conosco mesmos. Tomamos uma parte de nós mesmos, a abraçamos, e nos 
dedicamos ao divino ato de nos tornarmos conscientes. Temos um retrato impressionante 
disto no Egito dos faraós. As pessoas comuns eram terminantemente proibidas nesta cultura 
antiga de casarem-se com parentes, sob ameaça de morte imediata. Mas o faraó devia casar se 
com sua irmã! Ele não podia casar-se com nenhuma outra mulher. Isto era para forçar a 
aristocracia à conscientizaçãoe proteger o povo desta experiência tão intensa, a qual poderia 
não suportar. A maioria das culturas recomenda a consciência para sua aristocracia, mas 
estabelece proibições cuidadosas contra esta faculdade para as pessoas comuns. Portanto, a 
nossa parte aristocrática é destinada a alcançar a consciência, enquanto que a parte “plebéia” 
obedece às leis básicas e permanece dentro dos padrões convencionais. 
Toda a introversão (esta tendência psicológica que se ocupa mais com a vida interior 
que com o mundo externo) é incestuosa, razão pela qual é tão suspeita no mundo de hoje. Na 
verdade, “mórbido” e “introspecção” são muitas vezes associados no pensamento 
moderno. Foi Jung que cunhou os termos “introvertido” e “extrovertido”. Descrevem 
diferentes tipos de personalidades ou modos de 
 
36 
encarar a vida. Numa sociedade basicamente extrovertida como a dos americanos, a maioria 
dos introvertidos é considerada “fora de sintonia”. 
Quando você se retira para meditar ou simplesmente para espairecer depois do 
trabalho ou porque deseja ficar sozinho, você está acasalando-se consigo mesmo. Uma 
corrente de energia é apresentada a outra corrente de energia, e desta fusão nasce um 
rebento, que, como uma criança física, possui as características das duas energias parentais, 
sendo no entanto independente delas e freqüentemente superior a ambas. 
Submeter-se a qualquer disciplina, afastar-se do fluxo natural de energias é 
acasalar-se consigo mesmo. Há um provérbio alquímico: “Olhei para mim mesmo, 
acasalei-me comigo mesmo, gerei a mim mesmo, dei à luz a mim mesmo, eu sou eu mesmo”. 
Este é o ato da “autogeração”. 
É uma atividade extremamente perigosa, que exige muito cuidado, com o risco de 
ocorrer uma destruição especialmente maligna em vez do nascimento da consciência. O 
velho ditado “O diabo se aproveita das mãos ociosas” serve para todo aquele que não 
consegue obedecer às leis da consciência. A tomada de consciência é uma prerrogativa 
aristocrática e deve ser cercada de todos os cuidados possíveis. Desobedecer às leis naturais 
de energia exogâmica é permitido apenas aos que estão destinados à consciência superior. O 
preço pago em forma de compromisso e sofrimento psicológico é tratado pela maioria dos 
livros acerca da arte do crescimento pessoal e do amadurecimento. 
 
37 
 
Se a era na qual estamos entrando puder ser caracterizada por uma nova consciência, 
não é de surpreender que o incesto venha a ser muito importante para essa nova consciência 
como uma metáfora para o crescimento interior consciente. O uso do incesto como um ato 
simbólico, como uma metáfora para a visão interior, é tão novo para nós e nossa época que 
não enxergamos esta dimensão de criatividade. Por isso acontecem graves mal-entendidos 
sobre esta realidade psíquica. A explosão súbita do incesto na sua forma literal e crua grita 
nos meios de comunicação e abarrota nossos consultórios. Nunca antes a infiltração e 
crescente incidência do incesto chamaram tanta atenção. O incesto, o molestamento e a 
exploração do sexo são exemplos vívidos do toque dourado de uma consciência interior 
emergente, manifestando-se inconscientemente em atos patológicos e destrutivos. É 
absolutamente essencial que nossa capacidade para o “incesto” seja usada num nível 
criativo, o de criar consciência e cultura. Deveria ser protegida de expressar-se literalmente, 
o que é tão destrutivo para a psique humana. 
O cerne da história de Édipo é o custo da desobediência às leis do fluxo natural de 
energia. A busca do herói é a jornada interior em direção da crescente consciência. Aqueles 
que empreendem esta jornada contribuem para o crescimento de uma cultura. Aqueles que 
entendem mal ou trapaceiam, recusando ou deixando de pagar o preço do crescimento 
interior, em vez disso pagam com a moeda da solidão, ansiedade e alienação. O feminino é 
quem paga principalmente este preço inautêntico. 
 
38 
 
O EXÍLIO 
 
Édipo finalmente é banido do seu reino. Seus dois filhos nada fazem para ajudar o 
pai, simplesmente o repudiam. A sede de poder consome-os. Um deles, Etéocles, rebela-se 
contra Creonte, sucessor de Édipo, e tenta arrebatar-lhe a soberania do reino. O outro, 
Polinice, vai até o reino vizinho, casa-se com a filha do rei e guerreia contra sua pátria para 
conquistar o trono de Tebas. 
As duas filhas de Édipo permanecem leais. Enquanto Ismena fica em Tebas, 
procurando estabelecer a ordem, Antígone acompanha seu pai até o pequeno reino de 
Colonus, próximo a Atenas, onde eles esperam viver em paz e aliviar seu sofrimento. Édipo 
observa que “Três mestres: a dor, o tempo e o sangue real ensinaram-me a paciência”. 
Édipo fica sabendo que seus dois filhos estão lutando pelo poder, primeiro contra 
Creonte e depois um contra o outro. Travando uma batalha de morte pela pátria, os filhos 
declaram abertamente que preferem apoderar-se de Tebas a conseguir o retorno do pai. Édipo 
responde: 
 
Somente estas duas, minhas filhas, Fizeram tudo o que as mulheres podem, dando 
me o que preciso, Alimento e orientação segura e carinho afetuoso. Seus irmãos venderam o 
pai por um trono, Preferiram o cetro e o poder real. 
 
39 
 
O oráculo de Delfos tinha ordenado que Édipo fosse sepultado nos arredores de 
Atenas, para que seu poder trouxesse um grande florescimento cultural para a cidade. 
Ismena, a filha mais nova, vai a Colonus e transmite a seu pai o decreto do oráculo. Édipo 
pergunta: “Fazem de mim um homem no momento em que eu deixo de existir?”. Ismena 
responde: “Embora os deuses te derrubassem, agora te erguem”. Édipo promete seu corpo a 
Atenas. 
Creonte, que antes fizera cumprir o exílio de Édipo, agora vem exigindo o seu corpo 
para trazer a paz a Tebas. Com a recusa de Édipo, Creonte anuncia que uma das filhas de 
Édipo está em seu poder como refém e que irá seqüestrar a outra para realizar o seu plano. 
Numa cena tenebrosa, Édipo, cego, ouve indefeso enquanto Creonte rapta Antígone usando 
de força bruta. 
 
CREONTE (para seus homens): Prendei-a [Antígone]. Forçai-a se não quiser vir. 
ANTÍGONE: Oh, ajudai! Oh, ajudai-me, deuses e homens. 
CORO: Pára, senhor. 
CREONTE: O homem pertence a vós; mas ela é minha. 
CORO: Tu não tens o direito. 
CREONTE: Tenho. 
CORO: Que direito? 
CREONTE: Ela é minha. (Ele a agarra. Os guardas levam-na embora.) 
 
Creonte tenta em seguida prender Édipo. Teseu, rei de Atenas, aparece em cena, salva 
Édipo, resgata 
 
40 
 
as duas filhas dos soldados de Creonte e as traz de volta a Édipo. 
Édipo dirige a palavra às suas filhas antes de morrer: 
Este é o fim de tudo o que fui e o fim de vossa longa tarefa de cuidar de mim. Sei o 
quanto isto foi difícil. No entanto, tornou-se mais leve por causa de uma palavra — amor. 
Eu vos amei como ninguém jamais amou. 
Elas choram abraçadas. Em seguida, o silêncio, até que se ouve uma voz, uma voz 
medonha que faz todos tremerem com os cabelos em pé. “Édipo! Édipo!”, grita repetidas 
vezes. “É chegada a hora, não demores.” Édipo reconhece o chamado divino. Pede a 
presença do rei Teseu, e quando este se aproxima, Édipo dirige-lhe as seguintes palavras: 
“Caro amigo, dá-me tua mão e promete a estas crianças. Crianças, vossas mãos na dele. 
Promete nunca abandonálas por tua própria vontade, e sim fazer de boa vontade tudo o que 
achares melhor para o bem delas”. E sem nenhum lamento o nobre Teseu jura cumprir a 
vontade de seu amigo. Édipo pode morrer em paz. 
 
CORO (comentando a morte de Édipo): Foi um ato divino? Sem dor alguma? 
MENSAGEIRO: Foi um milagre. 
 
Após o enterro de Édipo, Antígone deseja ver a sepultura de seu pai, mas Teseu 
explica-lheque ninguém pode ver a sepultura de alguém que doou sua 
 
41 
 
vida pelo enriquecimento cultural de um país. Esta morte é inteiramente impessoal, sem 
nenhum valor ao nível humano comum. 
Os trechos acima desvelam o âmago da história. Um homem foi chamado pelo 
destino para criar a consciência através do ato interior de “autogeração” , e por ser um nobre, 
paga o preço. Primeiro ele assume a responsabilidade pelos seus atos, em seguida sofre as 
conseqüências. Sua cegueira, a extinção voluntária da visão para ganhar visão interior, é o 
preço principal; mas o pagamento inclui também ser exilado do seu reino anterior, perder a 
maioria dos elementos masculinos que o haviam sustentado antes e romper os laços 
hereditários tradicionais. 
A pessoa que passa por um processo de evolução da consciência é imediatamente 
assaltada por um senso de abandono e excomunhão da maioria dos valores que a 
sustentavam. O antigo reino dissolve-se sob os seus pés, restando-lhe sentir-se exilado e sem 
nenhum parâmetro para a vida. Os elementos masculinos são especialmente hostis a qualquer 
mudança de consciência. Dizia-se que Jesus não tinha problema algum com as mulheres ao 
seu redor mas a lei e a ordem dominantes na sua época deram-lhe trabalho. 
O primeiro vislumbre de esperança de que o sofrimento de Édipo não fora em vão 
advém do oráculo de Delfos. Édipo deve ser enterrado nos arredores de Atenas em favor do 
grande enriquecimento da cidade. Que toque irônico! Ele não deve ser enterrado 
cerimoniosamente dentro da cidade, e sim 
 
42 
 
à beira dela, onde seu espírito guiará Atenas rumo à idade de ouro sem as honras de um herói 
oficial. 
Eis o âmago da história. Se alguém destinado a alcançar um grau de consciência paga 
por isto, sucede um grande florescimento cultural. A conquista da consciência não eleva o 
ego a grandes alturas criativas e sim causa uma eflorescência nas proximidades. Édipo não 
faz quase nada além de sofrer; é Atenas que floresce. 
Édipo tinha jurado descobrir o culpado pela calamidade do reino de Tebas. 
Permaneceu fiel a sua palavra mesmo quando descobriu que esta pessoa era ele mesmo. 
Experimenta-se muita culpa coletiva quando se embarca na vereda individual da 
conscientização. É necessário distinguir a culpa coletiva da culpa individual. Devemos 
responsabilizar-nos por nossa própria culpa, mas recusar a culpa originária de fora. Todos 
carregamos o pesado fardo dos pecados de nossos antepassados ou da cultura na qual 
vivemos, mas não devemos responsabilizar-nos pessoalmente por isto. A teologia básica nos 
ensina claramente que somos culpados apenas das coisas que originamos. A escuridão dessa 
história não se originou com Édipo, portanto ele não precisava assumir a responsabilidade 
por isto. 
Mas Édipo provoca sua própria cegueira ao saber de sua culpa. Isto indica que a visão 
antes focalizada para fora, para o mundo cotidiano, fora transferida para o insight, 
focalizando a criatividade cultural, que é o verdadeiro significado da história. A glória de 
Atenas derivou da nobreza de um homem escolhido pelo destino para o processo cultural, um 
homem disposto a pagar o preço e cumprir a profecia. Fazendo-se uma interpretação interna, 
como é 
 
43 
 
necessário para desvelar as verdadeiras dimensões de uma história ou mito, isto significa que 
o centro do ser é enriquecido pelo trabalho realizado pela personalidade consciente. Ao ego, 
que pagou o preço para que a transformação ocorresse, atribui-se pouco valor. Atenas 
florescerá em criatividade porque um homem pagou o preço da consciência. 
 
A FUGA DA RESPONSABILIDADE 
 
Testemunhamos a nobreza de um homem destinado a ajudar as pessoas a conseguir 
entendimento e evoluir para um nível superior de consciência. Este homem sofre 
terrivelmente, mas conquista uma criatividade que vale mais que o ouro. Essa criatividade 
ultrapassa os limites de propriedade individual, pois segundo o mito, Atenas inteira se torna 
magnífica porque ele criou a consciência. A responsabilidade espiritual e emocional é o que 
causa este crescimento criativo na consciência. Édipo pagou por esta nova consciência e 
criou nele mesmo uma idade de ouro, espelhada na glória de Atenas. 
Nós ocidentais ainda temos de aprender que toda a ação provoca uma reação do lado 
oposto da balança. É como se vivêssemos em cima de uma gangorra, com seu ponto de apoio 
exatamente no centro. Qualquer ação do lado direito da gangorra no mesmo instante 
provocará uma ação contrabalanceada do lado esquerdo. Uma grande realização cultural 
gerará uma escuridão correspondente. Uma criação coloca em movimento uma destruição 
correspondente. O ato cultural ou criativo será preservado se o oposto correspondente for 
respeitado e receber consciência igual. Ignoramos tão 
 
44 
 
profundamente esta lei que nem temos palavras adequadas para isto. Como você pode dizer 
que deve destruir tanto quanto criar sem parecer que está negando o processo cultural inteiro? 
Criar sem pagar tributo à destruição é tão impossível quanto tentar inspirar sem expirar. É 
significativo que a sabedoria coloque a Sexta-Feira Santa antes do Domingo de Páscoa. 
O legado de criação deixado por Édipo é a glória de Atenas, com toda a sua nobreza 
de pensamento e sua filosofia, seus insights políticos e trabalho artístico. Não houve 
florescimento cultural maior que esse na face da Terra em nenhuma época da História. Mas 
nenhum tributo correspondente ao lado escuro da realidade o acompanhou. A falha em 
compreender este lado escuro é que causou a existência de tantas trevas desde então. A raiz 
do nosso problema está no fato de não termos palavras ou conceitos referentes à escuridão 
que lhe dêem tanta dignidade como os referentes à luz. Sentado frente ao teclado, sinto-me 
incapaz de dar beleza e nobreza à outra metade da criação. 
 
A TRANSFERÊNCIA 
 
Chegamos agora a uma passagem escura na nossa história. Édipo revela sua nobreza 
ao pagar o preço de sua evolução, mas outros três homens não pagam o preço e transferem-no 
a mulheres. Este subterfúgio propaga-se pela História e está presente em nossa época. As 
mulheres de hoje se ressentem da carga injusta de algo que não fizeram. Elas são sensíveis a 
este subterfúgio que constitui a parte escura da nossa herança grega. Um grupo de pessoas 
empreendedoras ergueu uma civilização avançada, a Idade de 
 
45 
 
Ouro de Atenas, mas não pagou o preço por ela, deixando-nos por herança tanto a 
genialidade como a feminilidade danificada. 
A história dos outros três homens é elucidativa. Creonte, que manifestou pouquíssima 
compaixo por Édipo durante o seu julgamento, aproveitou se imediatamente de seu 
sofrimento e nomeou-se rei de Tebas logo após exilar o soberano anterior. Quando o amor 
precisa competir com o poder, perece o amor. Faltou compaixão a Creonte por ele estar 
enlouquecido pelo poder. Embora arrependido no final, tentou ajudar Antígone, mas já era 
tarde. 
Os dois filhos de Édipo, mal vêem seu pai na sepultura, já brigam pelo direito ao 
trono. Eles lutam e matam-se um ao outro no espaço de um único dia. 
Cada um dos três homens fere as mulheres que estão próximas. Creonte toma um 
caminho de poder que provocará a morte de sua mulher e sua futura nora. Os dois filhos de 
Édipo negam amor ao pai e às irmãs, e matam-se um ao outro engalfinhados numa luta pelo 
poder. É neste momento que um caminho nobre degenera numa negação dos valores 
femininos. Essa negação nos persegue até os dias de hoje. A busca de poder é o perigo mais 
sério com que se defrontam os valores femininos. Creonte, Polinice e Etéocles derrubam 
Édipo e transformam nossa história nobre sobrea evolução da consciência num conto sobre 
desejo de poder que destrói o relacionamento, o amor e a devoção. 
As duas filhas fazem escolhas de vida mais sábias. Antígone se mantém 
inquestionavelmente fiel a seu pai e Ismena permanece próxima dele o quanto seu senso de 
praticidade o permite. Seguiremos estas duas mulheres enquanto modelam os valores 
femininos. 
 
46 
 
6 
O Destino de Antígone 
 
 
Como muitas vezes acontece na história humana, estoura a guerra por causa da 
disputa pelo poder. Etéocles — que deseja o trono de Tebas — defende a cidade contra 
Polinice, que tenta apoderar-se dela. Os irmãos matam-se um ao outro, deixando Creonte 
soberano incontestável de Tebas. Ele decreta que Etéocles deve ser honrado e receber um 
enterro apropriado, mas qualquer um que tentar recolher o corpo de Polinice do campo de 
batalha será morto. Polinice deve ser deixado em desonra no campo de batalha para ser 
comido pelos abutres. A cidade obedece ao decreto. 
Antígone pede a ajuda de Ismena para sepultar Polinice, seu irmão, mas esta recusa; 
não seria prático. Antígone diz: “Vive, se quiseres; vive, e despreza 
 
47 
 
as mais sagradas leis do céu”. Ismena retruca: “Que os mortos me perdoem, não posso fazer 
nada além de obedecer; mais que isso seria loucura”. 
Creonte descobre que o corpo de Polinice fora sepultado, e ordena ao mensageiro da 
notícia que descubra o perpetrador, sob pena de tortura. Antígone é pega cuidando do corpo 
de seu irmão e é trazida à presença de Creonte. 
 
CREONTE: Dize-me agora, em poucas palavras se puderes, Sabias da proibição de tal ato? 
ANTÍGONE: Sabia, naturalmente. Estava bastante claro. 
CREONTE: E mesmo assim tu ousaste transgredila? 
ANTÍGONE: Sim. Essa ordem não veio de Deus. A justiça Que mora com os deuses 
acima não tem conhecimento de tal lei. Não considerei suficientemente fortes os vossos 
editais 
Para desdizer as inalteráveis leis não escritas 
De Deus no céu, sendo que vós não passais de um homem. 
Elas não pertencem ao ontem nem ao hoje, pois são eternas, 
Embora nenhum de nós possa dizer de onde vêm. 
Ser culpada perante Deus por transgredi-las 
Não posso, por nenhum homem sobre a Terra. 
Sabia que deveria morrer, é claro, 
Com ou sem vossa ordem. Se for logo, 
 
48 
 
Tanto melhor. Viver atormentada todos os dias 
Como vivo, não ficaria contente eu em morrer? 
Este castigo não será sofrimento. 
Se eu tivesse deixado o filho de minha mãe 
Permanecer sem sepultura, eu não o suportaria. 
Isto posso suportar. É tolice o que estou dizendo? 
Ou sois vós que cometeis a tolice de me julgar assim? 
Minha conduta é partilhar o amor, não o meu ódio. 
 
CREONTE: Vai, então, e partilha teu amor entre os mortos. 
Não prevalecerá aqui nenhuma lei de mulher enquanto eu viver. 
 
Eis uma colisão direta do ponto de vista masculino dominante, o poder, e a 
capacidade feminina de amor e devoção. Houvesse prevalecido o amor, a História do 
Ocidente teria tomado um rumo muito diferente. Talvez o resultado fosse inevitável naquele 
estágio do desenvolvimento humano, quando a sede masculina pelo poder provou ser mais 
forte que a visão feminina de afinidade. Creonte decreta a morte das duas irmãs. 
No início da história Antígone tinha sido prometida em casamento a Hêmon, filho de 
Creonte. Como o destino de Antígone o afeta, Hêmon é convocado. 
 
CREONTE: Filho, penso que ouviste sobre o nosso julgamento final de tua noiva. 
Sem palavras de raiva, eu espero? 
 
49 
 
Amigos ainda, apesar de tudo, meu filho? 
HÊMON: Sou vosso filho, senhor; vossas sábias decisões 
Governam minha vida, e a estas sempre obedecerei. 
Não posso valorizar nenhum laço de casamento 
Acima de vosso bom conselho. 
CREONTE: Disseste bem. 
A vontade de teu pai deve ocupar o primeiro lugar no teu coração. 
Os pais pedem que os filhos sejam apenas isso, 
Obedientes, leais, prontos a derrubar 
Os inimigos e amar os amigos de seu pai... 
Aquele que o Estado escolheu deve ser obedecido 
Nos mínimos assuntos, sejam eles corretos ou errados. 
 
Aqui um homem fraco é coagido pela autoridade masculina e, embora discorde (e 
logo mostrará seus verdadeiros sentimentos, tarde demais), não protesta em face da 
desprezível crueldade de seu pai. É um exemplo para as gerações seguintes, inclusive a 
nossa. Este sentimento, ou a falta dele, tem sido usado muitas vezes na História recente. A 
resposta predominante dos acusados nos julgamentos de guerra de Nuremberg era: “Eu 
estava apenas cumprindo ordens”. O sentimento humano é persistentemente eclipsado 
pela autoridade. 
Creonte manda abandonar Antígone numa tumba na rocha, com suprimentos para um 
mês, para morrer à míngua. Assim é feito para que a culpa de sangue não recaia sobre o rei de 
Tebas. 
 
50 
 
Creonte consulta um oráculo, que o avisa das conseqüências de sua crueldade. Ele 
enterra o corpo de Polinice acompanhado de todo o ritual devido. Em seguida vai até a 
caverna onde tinha aprisionado Antígone, mas chegando lá descobre que ela se havia 
enforcado. Hêmon, enfurecido com a perda de sua amada, tenta matar seu pai. Não consegue 
e volta a espada contra si mesmo. A mulher de Creonte, Eurídice, tira a própria vida ao saber 
da morte de seu filho. 
A peça termina com Creonte, responsável pela morte do filho e conseqüentemente 
pela morte da mulher, em pé no centro do palco, completamente só, destruídos todos os 
elementos femininos, morta a sua família inteira e Tebas em ruínas. Ele fala: 
 
Sou nada. Não tenho vida. Levai-me embora, Eu que matei sem pensar 
Meu filho, minha mulher. 
Não sei para onde devo ir, 
Onde buscar ajuda. 
Minhas mãos cometeram falhas, minha cabeça está caída, 
Com o peso do destino pesado demais para mim. 
 
51 
 
7 
O Legado de Édipo 
 
O mito de Édipo, o mito fundamental da mitologia grega, conta-nos de uma forma 
curta e simples sobre o legado maravilhoso e terrível que herdamos do nosso progenitor 
espiritual, a Grécia. É a história de um momento crucial na vida da humanidade, quando 
aparece pela primeira vez o conjunto-mentalidade moderno. O destino decretara que o 
homem deve aprender os segredos do incesto e, pagando o preço emocional e físico por 
esse conhecimento, colocar a pedra fundamental para a glória de Atenas. O nobre Édipo 
pagou o preço e entregou sua oferenda a Atenas, Atenas que não é tanto uma cidade e sim 
um modo de vida, uma atitude, um tipo específico de consciência. Na melhor das hipóteses, 
somos cidadãos de Atenas até hoje. 
 
53 
 
Outro homem, Creonte, tivera a mesma oportunidade porém falhara. Os dois nos 
ensinam como lidar com nosso legado dual de luz e escuridão, nobre e trágico, amoroso e 
cruel. 
A grande lição que devemos aprender tem a ver com responsabilidade humana. Édipo 
pagou o preço por esta nova consciência. Creonte fez com que as mulheres e os elementos 
femininos a sua volta pagassem o preço. Nada nos parece mais desonroso ou desumano do 
que obrigar uma outra pessoa, um inocente, a pagar por nossos erros ou faltas. Seja numa 
briga familiar ou num incidente internacional, freqüentemente a questão é o preço. O homem 
tem uma falha, fatal, a não ser que ele se aperceba disso, de arrumar cuidadosamente sua 
vida de maneira que o feminino pague o preço de sua criação masculina. Ele é capaz de ter 
seu momento culminante de sexualidade e ir embora, deixando a mulher cuidar da parte 
prática, ou é capaz de usar os materiais do mundo para os seus propósitos e deixar o planeta 
devastado, desequilibrado e desordenado.O pior de tudo é que, por isto ser tão sutil, ele pode 
levar a parte superior da consciência e deixar a parte feminina dentro dele mesmo pagar o 
preço: escuridão interior e falta de sentido. Devemos investigar a última. 
Édipo reconhece sua visão interior (incesto, na nossa história) e toma a 
responsabilidade para si. Anuncia claramente que trará o responsável pelo declínio de 
Tebas perante a justiça. Quando descobre ser ele mesmo, pede para ser exilado e sofre o 
impacto todo da perda de sua pátria, isto é, da consciência que conheceu antes do insight. 
Adquirir uma nova visão exige o sacrifício da antiga. Édipo destrói 
 
54 
 
dolorosamente sua visão antiga e dirige sua energia numa nova direção, via insight. 
Se tomarmos ao pé da letra esta parte da história, perderemos o seu significado mais 
profundo. A cegueira de Édipo tem por objetivo ilustrar uma verdade interior, como o fazem 
os símbolos de um sonho. Ele é afastado do enfoque e das atitudes antigas. Fausto passa 
pelo mesmo redirecionamento próximo do final de sua história, quando a Senhora 
Preocupação o cega.5 Um dos atos mais nobres que um homem pode realizar é manter sua 
consciência e suas atitudes no nível e na direção apropriados ao seu atual estágio de 
evolução. Fingir que é mais evoluído do que realmente é resulta em rupturas psicológicas. No 
entanto, recusar-se a crescer sempre força uma outra pessoa a pagar pelas suas dívidas 
psicológicas. Como já disse, esta é uma das mais escuras capacidades humanas. 
Creonte falha exatamente onde Édipo atesta sua nobreza. Creonte deseja o poder à 
maneira antiga e dirige sua energia segundo os padrões antigos, assumindo o controle do 
reino, lutando com os dois filhos de Édipo, tomando as duas filhas como reféns. Seguindo os 
padrões desgastados pelo tempo, ele faz com que uma série de mulheres paguem o preço do 
seu erro. Um aspecto positivo é quando ele responde à voz do oráculo, mas aí já é tarde 
demais. Antígone morre no cativeiro imposto por ele; seu filho morre pela perda de 
Antígone; sua mulher morre por causa da perda de tudo o que lhe é precioso. 
Poucos momentos na mitologia feriram de maneira tão trágica os valores femininos. 
 
5. Ver meu próximo livro sobre o desenvolvimento da consciência masculina com referência 
aos vários paralelos entre Fausto e Édipo. 
 
55 
 
8 
A Saga Continua 
 
 
 
Há ilustrações na mitologia e na literatura que demarcam a contínua ausência do valor 
feminino na cultura ocidental. Esta atitude unilateral prevalece pouco desafiada até o nosso 
século. 
Tanto o cristianismo quanto o judaísmo defenderam pontos de vista extremamente 
patriarcais da natureza da humanidade. É um choque descobrir que o concílio de Mâcon (uma 
província da França ao norte de Lyon) da Igreja do século dezesseis manteve um longo 
debate sobre a questão se as mulheres possuíam ou não uma alma. Na contagem final dos 
votos a decisão foi afirmativa, por um único voto! Pouco tempo antes Santo Agostinho tinha 
dito que não se podia outorgar mais poder para as mulheres 
 
57 
 
porque elas já possuíam poder demais. Embora seja um tributo torto ao poder inato das 
mulheres, e da feminilidade, isto mostra uma incapacidade de integrar o respeito pelo valor 
feminino na vida humana do dia-a-dia. 
Outro conto sobre a perda da feminilidade é o romance de Tristão e Isolda. 
Originário do século XII, junto com o mito do Graal, é fundamental para grande parte do 
pensamento moderno. O início desta história é frio e vazio de sentimento, chegando até a ser 
desumano. 
O rei Marcos da Cornuália tinha recebido ajuda de seu amigo o rei Rivalen de 
Lyonesse, numa batalha desesperada. Marcos, por sua vez, oferece ao seu amigo sua irmã 
Branca Flor em casamento. Este é o primeiro golpe na feminilidade: ela, a flor branca, é 
doada como uma peça de propriedade numa transação política. A feminilidade sendo tão 
pouco valorizada, não é de surpreender que a história evolua para uma falha de amor. 
Qualquer troca ou início que não dê à feminilidade um lugar honrado não pode prosperar. 
Com a continuação do conto, Branca Flor descobre que seu marido fora morto em alguma 
empreitada masculina justamente um dia antes do nascimento de seu filho. Desesperada com 
estes repetidos golpes na sua dignidade e valor, Branca Flor dá a seu filho o nome de Tristão, 
que significa “o triste”, e em seguida morre de tristeza. 
A história prossegue a partir deste início errado e perpetua o erro em episódios 
infindáveis até acabar na morte sem sentido do próprio Tristão. O baixo valor conferido à 
feminilidade no início da história tem seu ponto culminante no final com a perda da vida em 
si. 
 
58 
 
O mito de Tristão e Isolda ainda exerce profunda influência sobre o nosso 
pensamento e costumes coletivos: apaixonar-se é a suprema experiência humana. Mesmo 
que uma pessoa nunca tenha ouvido esta história sobre o poder do amor romântico, seus 
valores reverberam no mais profundo do inconsciente, afetando as atitudes em relação ao 
casamento, posição, poder, riqueza. Enquanto esta busca ilusória do perfeito parceiro 
romântico não for esclarecida em nosso pensamento coletivo, não poderemos fazer as pazes 
com o lado feminino de nossa natureza.6 
Nosso exemplo seguinte de estupro da feminilidade pela masculinidade encontra-se 
em Romeu e Julieta de Shakespeare. Ali descobrimos quão pouco as coisas mudaram desde 
que Creonte afirmara: ”Não prevalecerá aqui nenhuma lei de mulher enquanto eu viver”. Não 
haverá nenhum amor enquanto preponderarem valores masculinos exclusivos. O poder é 
freqüentementeexercido à custa do amor, então o amor perece. 
 
Romeu e Julieta começa com a rixa entre duas famílias, os Montecchios e os Capuletos. 
Prevalecem os valores patriarcais de poder, domínio, prestígio e autoridade, que colocam as 
duas famílias aristocráticas uma contra a outra. A aristocracia, que deveria ser a base para a 
consciência superior, é marcada freqüentemente demais pelas mais amargas rixas e lutas pelo 
poder. 
 
6. Ver no meu livro WE (editado pela Editora Mercuryo, 1987) uma abordagem do tema de 
Tristão e Isolda. 
 
59 
 
Os dois jovens amantes, cada um representando uma das famílias oponentes, 
carregam o fardo de sanar esta contenda. O prólogo monta a cena arquetípica: 
 
Duas famílias, ambas da mesma dignidade, 
Na bela Verona, onde localizamos a nossa cena, 
Rivais antigos se lançam num novo motim, 
Onde sangue civil mancha as mãos civis. 
Do seio fatal destes dois inimigos 
Dois amantes marcados pelas estrelas tiram suas vidas; 
Suas derrotas desafortunadas e comoventes 
Com sua morte enterram a luta de seus pais. 
O tenebroso acontecimento de seu amor marcado pela morte, 
E o ódio sempiterno de seus pais, 
Que nada removia, somente o fim de seus filhos, 
Agora serão o assunto durante duas horas em nosso palco; 
Que se ouvirdes com ouvidos pacientes, 
O que faltar, procuraremos consertar com afinco. 
 
Romeu e Julieta aproximam-se um do outro com amor delicado, cercados pela maré 
de mil anos de poder, propriedade e domínio do mundo patriarcal. O jovem Mercúcio 
pronuncia enfaticamente falas perversas aconselhando Romeu a entregar-se ao prazer e 
esquecer-se do custo ou do compromisso. 
O macaco está morto, e eu devo conjurá-lo. Eu te conjuro pelos lindos olhos de 
Rosalina, Pelo seu semblante altivo e pelo seus lábios rubros, 
 
60 
 
Pelo seu pé delicado, perna esbelta, e coxa trêmula, 
E as regiões contíguas a ela, 
Que apareça tua imagem diante de nós! 
 
Mercúcio queria fazer-nos crer que o amor nada maisé do que “uma coxa trêmula, e 
as regiões contíguas a ela”. A genialidade de Shakespeare colocou esta fala degradante 
imediatamente antes da declaração de amor de Romeu a Julieta, a maior declaração de amor 
jamais escrita. 
 
Romeu fala de Mercúcio: ”Um cavalheiro, ó ama, que adora ouvir sua própria voz, e 
fala, durante um minuto, mais do que poderia fazê-lo durante um mês”. A ama de Julieta é 
uma personificação feminina mais velha da mesma opinião, pois aconselhaa a seguir o plano 
de seus pais casando-se por conveniência com Paris, a quem ela detesta. A ama diz a Julieta 
que é sábio casar-se conforme foi ordenado e ao mesmo tempo permitir-se o prazer dos 
encontros furtivos com o/ seu amado Romeu. 
Bem, fizeste uma escolha simplória; não sabes escolher um homem. Romeu! não, não 
ele. Seu rosto até que é mais bonito que o de qualquer homem, mas suas pernas suplantam as 
de todos eles; as mãos, os pés, o corpo, embora não se deva mencioná-los, estão além de 
qualquer comparação. Embora não seja a flor das boas maneiras, garanto-te, é delicado como 
um cordeiro. Vai, moça, serve a Deus. 
 
61 
 
Julieta deveria realizar um casamento político e esquecer seus sentimentos. “Serve a 
Deus”, a ama aconselha. Ela blasfema o amor de Julieta por Romeu: ”as mãos, os pés, o 
corpo, embora não se deva mencioná-los...” — Ela relata: “Teu amor fala como um 
cavalheiro honesto, e cortês, e gentil e belo e, garanto, virtuoso” — descrevendo Paris, o 
homem com quem os pais de Julieta exigem que ela se case. Na mentalidade da ama, a 
devoção não passa de uma perna, uma mão, um pé e um corpo, enquanto a conveniência é 
tudo. Não é conversa de alcova. É o assassínio de tudo o que é feminino. 
Se alguém duvidara que o feminino divino (neste caso, amor e devoção) pudesse ser 
ferido tanto pela mulher como pelo homem, eis a prova. Ouvimos a pior das blasfêmias da 
boca de uma mulher, embora Mercúcio esteja em segundo lugar. 
A peça segue seu caminho tenebroso. Romeu e Julieta levaram seu amor ao Frei 
Lourenço, e por seu intermédio mais um golpe mortal é desferido na feminilidade. Se o 
sacerdote, que deveria representar o amor e a devoção, fosse autêntico, teria honrado o 
amor existente entre os dois. Mas ele se curva ante a pressão política dominante e tenta, por 
um meio escuso, conseguir o que considera justo, dentro de sua limitada capacidade. Ele 
instrui Julieta a beber uma poção e dormir fingindo estar morta, de maneira que Romeu possa 
salvá-la da sepultura e levá-la para um país onde seu amor pudesse estar seguro. Mas outro 
personagem falha não seu papel e, amedrontado pelas possíveis conseqüências, não transmite 
as instruções necessárias a Romeu, que, chegando desinformado à sepultura da moça, 
fracassa no seu 
 
62 
 
amor cometendo suicídio. Julieta desperta para encontrar não o seu amado mas o seu 
cadáver, matando-se em seguida. Mais um fracasso no amor. 
O drama arquetípico expõe a condição psicológica da Europa conforme a visão de 
Shakespeare. Todos os envolvidos fracassam em proteger o valor feminino que poderia ter 
sanado a ruptura entre as duas famílias em guerra. Primeiro, as famílias nobres caíram na 
heresia medieval de rivalidade pelo poder. Em seguida, o amigo Mercúcio aconselha Romeu 
a seguir uma filosofia hedonística. Até a ama, que por ser mulher deveria estar mais próxima 
dos valores femininos, aconselha a duplicidade. O sacerdote deixa de defender o valor do 
amor, que deveria estar em primeiro lugar para ele. Um mensageiro falha na transmissão da 
mensagem por causa do medo. Menos culpados, mas seguindo a mesma linha de valores, os 
dois amantes falham um com o outro. 
Através da história inteira, entretanto, soa a nota da redenção: as duas casas nobres 
finalmente se reconciliam, pondo um fim à rixa no funeral dos dois amantes. Esta peça é uma 
avaliação que Shakespeare faz da interação de uma masculinidade enlouquecida pelo poder e 
uma feminilidade submersa, atuante na sua época. 
Nossas atitudes em relação à feminilidade estiveram tão profundamente enraizadas 
em nosso pensamento e em nossa língua durante os últimos três ou quatro milênios que 
perdemos de vista nosso questionamento. Mesmo questionar é um aspecto masculino que 
pode direcionar esta investigação na direção errada. 
 
63 
 
SEGUNDA PARTE 
 
O FEMININO NA MITOLOGIA HINDU 
 
9 
Uma Atitude Diferente 
 
Ao explorar outra cultura podemos adquirir uma visão mais clara de como não 
sacrificar nem a graça nem o calor humano. 
Uma história indiana semelhante ao mito de Édipo revela uma atitude bem diferente 
em relação à feminilidade. Novamente é o mito que fornece insight psicológico de uma 
atitude cultural. Mahabharata, o livro sagrado dos hindus, data aproximadamente do mesmo 
período dos nossos Antigo e Novo Testamentos. É três vezes mais extenso que os dois juntos. 
Um pequeno segmento de Mahabharata, a história de Nala e Damayanti, oferece-nos uma 
outra perspectiva do equilíbrio entre os valores masculinos e femininos. Os personagens do 
Mahabharata conseguem proteger melhor o princípio da feminilidade e a afinidade que os 
nossos heróis ocidentais. 
 
67 
 
Uma advertência: não apresento esta cultura oriental como se fosse superior à nossa. 
No entanto, podemos aprender com ela sobre o feminino. A falta do desenvolvimento 
tecnológico empurrou a sociedade da índia em direção à crise econômica e ambiental. 
Manteve no entanto uma valorização dos relacionamentos humanos que ultrapassa em 
muito a da sociedade ocidental. 
A Índia tradicional recusou-se a adotar qualquer tecnologia que direta ou 
indiretamente pudesse colocar em risco os relacionamentos humanos e os valores femininos. 
As técnicas de linhas de montagem, deslocamento das famílias para as cidades, ruptura de 
laços familiares com o envio do assalariado para um lugar de trabalho distante eram 
práticas consideradas perigosas demais. Para resguardar os valores femininos a Índia 
sacrificou o progresso industrial. Nenhum indiano tradicional desafiaria esta escolha. 
 
Nossa cultura ocidental incentiva a industrialização em detrimento dos nossos 
relacionamentos, tanto entre nós mesmos, como com o mundo ao redor. Como resultado, 
estamos num grande perigo de destruir a vida dos relacionamentos, assim como a Índia está 
em perigo de ser afogada pela pobreza e fome. A ameaça ao sentimento de afinidade 
indiano cresce na medida em que eles abandonam seus costumes tradicionais adotando 
atitudes ocidentais. As histórias de terror que se ouvem sobre a ruptura de relacionamentos 
na Índia moderna freqüentemente parecem ser atribuíveis à sua adesão aos costumes 
ocidentais. 
 
68 
 
A história terá de fornecer um veredicto sobre quem serviu melhor à humanidade: o 
Ocidente materialista ou o Oriente que dá importância ao relacionamento. Provavelmente o 
único veredicto inteligente aprovará o empenho que serve tanto aos valores masculinos 
quanto aos femininos, resguardando cada um deles. 
 
69 
 
10 
A História de Damayanti 
 
O conto de Nala e Damayanti merece ser estudado com certa reverência. Na 
qualidade de mito, esta história fala inevitavelmente da condição interior psicológica da 
cultura que a produziu. Contos sobre reis e rainhas, deuses e demônios são o meio 
consagrado pelo tempo de examinar as características psicológicas e padrões do 
comportamento humano. Não é possível reproduzir a magnificência da língua arcaica na qual 
a história foi escrita, mas um segmento de uma tradução inglesa do século dezenove está 
anexado no final deste livro para comprovar sua beleza atemporal. 
Era uma\vez um rei que era a flor da virtude maspossuía uma falha gritante: não 
conseguia resistir ao impulso de jogar. Estava tão cegado por esta sua paixão 
 
71 
 
que podia ser facilmente seduzido a jogar e igualmente a ser enganado. Finalmente, perdeu 
seu reino e foi exilado para a floresta da pobreza. Seu filho, Nala, subiu ao trono e usando de 
sua sabedoria e força restaurou o poder do reino. 
Bem, um rei vizinho tinha uma filha em idade de casar, de incomparável beleza e 
nobreza. Mensageiros e cortesãos se incumbiram de espalhar a notícia das virtudes de 
Damayanti. Logo as conversas uniram o par, Damayanti e Nala, por excelência. Não é de 
estranhar que os dois viessem a amar-se como se fossem destinados a isso, embora nunca se 
tivessem visto fisicamente. O assunto parecia impossível já que Nala não podia vê-la. Mas 
um certo dia, Nala, por acaso, capturou um cisne dourado que negociou sua liberdade em 
troca da promessa de cortejar Damayanti para ele. 
 
O pai de Damayanti anuncia um torneio, um Swayamvara, para os pretendentes de 
sua filha. Os deuses, até o próprio Indra, o deus soberano de toda a Índia, inscrevem-se no 
torneio. Indra encontra Nala na estrada a caminho do torneio e ordena-lhe que corteje 
Damayanti em seu nome. Nala, num terrível dilema entre a lealdade para com o deus e para 
com o próprio coração, corteja Damayanti abertamente para Indra mas declara em silêncio 
seu próprio amor. Damayanti revela seu amor por Nala e decide escolher Nala em público 
por ocasião do festival. 
O momento crítico chega. Os concorrentes sentam-se em círculo e ela deve 
escolher. Mas todos parecem deuses aos seus olhos! Que fazer? Alguém lhe sussurra que 
o único humano presente, Nala, 
 
72 
 
pode ser reconhecido porque é obrigado a piscar os olhos vez por outra. Damayanti 
encontra Nala desta maneira e anuncia sua escolha. Todos os deuses, mais generosos que os 
humanos, abençoam o jovem casal. 
Mas as coisas não ficam assim. Kali, o deus da ira e da destruição, ouve que um 
mero mortal havia preterido os deuses por outro mortal para ser seu cônjuge. Kali manifesta 
sua ira mas é obrigado a esperar doze anos até encontrar um ponto vulnerável no caráter de 
Nala. Um dia Nala esquece de lavar os pés antes de rezar e Kali ganha o controle sobre ele. 
Isto pode parecer um assunto de menor importância para um ocidental, mas qualquer quebra 
de forma é considerada perigosa na índia. Espionando os antepassados de Nala, Kali 
inflama-o com a necessidade insana de jogar. 
Apesar dos conselhos de seus amigos que tentam protegê-lo, Nala perde no jogo seu 
reino e até a última roupa de Damayanti. Resta a ela um pequeno pedaço de pano para se 
cobrir, e a ele nada. Nala nada pode fazer a não ser partir para a floresta com Damayanti e 
levar a vida de um mendigo asceta. 
Nala cai na depravação e rouba metade da modesta roupa de Damayanti enquanto ela 
dorme. Agora ele tem algo a colocar no jogo. Ele perde até mesmo esta última propriedade. 
Presa de terrível vergonha, ele abandona Damayanti ainda adormecida. 
Ao acordar, Damayanti fica inconsolável na sua solidão e perda. Ela é feita 
prisioneira dos anéis de uma serpente gigante, mas é salva por um jovem. Durante três dias 
vagueia sem rumo. Um bando de ascetas diz4he que logo encontrará seu marido, livre de sua 
loucura e restituído à sua dignidade real. Os ascetas desaparecem; tinha sido apenas uma 
visão. 
 
73 
 
Damayanti se junta a um bando de mercadores a caminho de Suvahu, a Cidade da 
Verdade. Acampam ao lado de um lago de lótus. No meio da noite uma manada de elefantes 
selvagens destrói o acampamento, indignados com o que o homem tinha feito ao domesticar 
seus irmãos. Damayanti viaja sozinha à Cidade da Verdade, onde a rainha a reconhece e lhe 
oferece proteção. 
Nala deu-se um pouco melhor. Ele vê um incêndio na floresta e ouve Naga, a serpente 
do mundo, gritar do meio das chamas pedindo ajuda. Nala salva a serpente, mas é 
recompensado com uma mordida. Naga explica que esta mordida é a única cura para sua 
loucura, mas o pagamento por esta cura será a perda de sua juventude, beleza e graça. Nala, 
transformado, vai à Cidade da Verdade para trocar sua habilidade em lidar com cavalos pela 
habilidade com os dados. 
Damayanti é encontrada por seus pais na Cidade da Verdade e levada para casa. Seus 
pais se põem a procurar Nala por meio de uma armadilha: eles anunciam outro Swayamvara 
para Damayanti. Ao saber disso, Nala fica agoniado. Trabalha para um homem que planeja 
competir no Swayamvara. O senhor lhe pede que lide com os cavalos e fica tão 
impressionado com a habilidade precisa de Nala que lhe oferece trocar sua própria habilidade 
com os dados pela habilidade de Nala com os cavalos. Nala pode agora expurgar sua loucura. 
No Swayamvara, ao lidar com os cavalos, Nala faz sons que são caracteristicamente 
só dele. Damayanti reconhece Nala pela audição, mas não ainda pela visão. Ao toque de 
Damayanti, Nala recebe de volta sua posição de rei. 
 
74 
 
11 
Duas Histórias de Amor 
 
Enquanto viajamos pela mitologia será instrutivo mostrarmos mais duas breves 
histórias de amor do Mahabharata. Elas ressaltam a importância central da força do amor e 
da afinidade na vida hindu. Em ambas as histórias o personagem principal é uma mulher, 
Shakuntalal e Savitri. 
 
SHAKUNTALAL E O ANEL 
 
Shakuntalal é a enteada de um sábio que mora num singelo ashram na floresta. Um 
dia, o rei vai à caça e encontra-a colhendo flores na floresta. É claro que eles se apaixonam 
imediatamente. Casam-se e o rei dá a Shakuntalal um anel com o seu selo. O rei 
 
75 
 
parte para reassumir seus deveres reais, dizendo a Shakuntalal que venha ao seu encontro 
logo que possível. Com o anel ela poderá entrar na corte. O sábio, seu padrasto, tinha estado 
ausente, e na volta descobre Shakuntalal grávida. Ele se alegra com o casamento com o rei e 
promete ajudá-la a partir quando a criança estiver em idade de viajar com segurança. Mas 
enquanto o pai de Shakuntalal esteve ausente, outro sábio veio visitá-los. Tão embevecida no 
seu amor pelo rei estava ela que ofendeu o sábio, esquecendo-se das formalidades devidas a 
um iogue visitante. Ele a amaldiçoou, dizendo que a pessoa que causava a sua distração iria 
esquecê-la. Ela implorou-lhe que assim não fosse, e então ele modificou a maldição, 
prometendo que se o homem visse o anel que estava usando, iria lembrar-se dela. Eis que 
ela perde o anel durante sua viagem até o rei. Certamente ele a esquecerá. 
Shakuntalal exprime sua fúria e angústia por ter sido esquecida. Seu monólogo na 
corte sobre a irresponsabilidade dos homens tomados pelo desejo ardente, escrito pelo 
maior dramaturgo da Índia, Kalidasa, é uma heróica defesa do domínio dos valores femininos 
no mundo: estabilidade, conforto, afinidade e amor singelo. 
Shakuntalal é levada pelos deuses ao céu para lá viver enquanto o rei pondera sobre 
o estranho curso dos fatos, este algo” que esquecera. Finalmente um pescador encontra no 
lago o anel com o selo real e o leva ao rei, que então se lembra de tudo. Parte em busca de 
Shakuntalal, encontrando-a e a seu filho numa montanha celestial, e todos se reúnem. 
 
76 
 
SAVITRI NA FLORESTA 
 
Savitri é a forma feminina de uma das muitas palavras que designam o sol em 
sânscrito. Um rei e uma rainha que não tinham filhos, depois de oferecerem um grande 
sacrifício ao sol, são recompensados com uma maravilhosa filha. Savitri cresce e se torna 
uma mulher tão esplêndida que nenhum homem ousa pedi-la em casamento. Então seu pai 
sugere que ela vá pelo mundo afora numa carruagem, acompanhada de um séquito, à procurade um marido. 
É o que ela faz. Após longas jornadas pela maravilhosa terra da Índia, ela vislumbra 
um belo jovem à beira da floresta. No mesmo instante sua vida muda. Satyavan é o filho de 
um rei exilado que vive a vida simples de um asceta na floresta, porque ao se tornar cego 
não podia mais desempenhar suas tarefas reais. 
Savitri volta ao reino de seus pais para contarlhes sua escolha. Narada, o mensageiro 
e músico divino, aparece para informar à corte reunida que Savitri fez uma perfeita escolha. 
Mas existe um problema: Satyavan morrerá transcorrido um ano após o casamento. A 
rainha fica perturbada e pede que Savitri reconsidere. Savitri, porém, insiste já ter feito sua 
escolha. O casamento se realiza e Savitri vai à floresta para viver com o seu marido e seus 
pais. Ela os serve bem e todos a amam. Continua bela e graciosa apesar da vida difícil na 
floresta. 
Com a aproximação do dia em que Satyavan deve márrer, Savitri começa a jejuar 
para ganhar força interior. O dia fatal chega e ela pede ao marido 
 
77 
 
que a leve junto para cortar lenha para o fogo. Ele concorda. Satyavan morre ao golpear o 
machado. 
A Morte se aproxima para levar sua alma enquanto Savitri segura a cabeça de 
Satyavan no colo. Incansavelmente, ela segue a Morte até o reino infernal e para livrar-se 
dela, a Morte oferece vários dons para Savitri escolher: a visão para o seu sogro cego, o 
retorno do rei para o seu lugar de direito, uma centena de filhos para ela, o que fora sua 
escolha. A admiração que nutre por Savitri faz com que a Morte esqueça que, para ela poder 
ter filhos, Satyavan deve permanecer na Terra. A Morte liberta a alma de Satyavan. Savitri, 
portanto, conquistara a morte por meio do amor. 
 
REFLEXÕES 
 
Nestas duas belas histórias, assim como na nossa história principal, é na força do 
feminino, na mulher-herói, que reside o fator da redenção. Em todas, os homens não 
conseguem por qualquer razão o enfoque da feminilidade para complementar a sua força 
externa. Ocorre assim uma crise divisora que pode ser resolvida somente pelo heroísmo 
feminino. 
A tradição ocidental oferece três contos que nos surpreendem por inverter as três 
histórias do Mahabbarata no seu trágico desfecho. O conto de Orfeu e Eurídice é uma 
inversão da busca de Savitri. Uma figura masculina usa sua força feminina, representada pela 
música, para chegar ao inferno e convencer Plutão a libertar sua mulher. Esta feminilidade, 
porém, não resiste até o fim, e ele fracassa. O problema de Medéia com Jasão é análogo ao de 
Shakuntalal 
 
78 
 
com seu rei. Mas Medeia mata seus dois filhos por vingança e o amor se perde. Romeu e 
Julieta são amantes adolescentes como Nala e Damayanti. Julieta, no entanto, cai vítima de 
um sacerdote bem intencionado mas ineficiente, e os amantes morrem. 
Todas as mitologias apresentam sempre o mesmo tema, isto é, a interação entre as 
figuras arquetípicas e/ou humanas. Passamos a maior parte de nossa vida no jogo horizontal 
entre forças oponentes, o perpétuo cabo-de-guerra entre eventos pessoais tais como eles são 
e como desejaríamos que fossem. Isto gera energia humana, fonte daquilo que fazemos na 
qualidade de humanos. Podemos chamar a isto de drama da vida. Existe ainda o jogo vertical 
que é o drama de níveis, a interação de deuses e pessoas. Este é o reino da mitologia, todo um 
nível de drama superior ao jogo humano comum. A palavra com a qual designamos esta 
dimensão de experiência é destino. 
O destino desempenha um papel igualmente poderoso no mito de Édipo e nas 
histórias hindus. Édipo cumpre um destino que lhe foi designado bem antes do seu 
nascimento e por isso não podemos culpá-lo por sua herança. O destino também figura no 
mito de Nala e Damayanti, onde as circunstâncias fazem com que eles se encontrem e onde 
os deuses intervêm e desejam modificar o comportamento humano.Somente a mitologia e o 
destino são suficientemente fortes para resolver o dilema de Nala e Damayanti quando eles 
querem se casar, mas os deuses desejam Damayanti para si. A inteligência humana comum, 
projetada para trabalhar com o jogo humano do gostar e não gostar, do bem e do mal, 
 
79 
 
não consegue lidar com esta brecha vertical, e assim a história deve continuar o seu curso 
destinado para encontrar a solução. 
Não podemos ser responsabilizados pelo destino, pois não o criamos; mas a maneira 
como prosseguimos com este destino é de nossa inteira responsabilidade. Embora a história 
tenha escapado das dimensões humanas ao fazer sua brecha vertical, ainda assim, são as 
ações nobres ou ignóbeis dos humanos que levarão a história a um final nobre ou desastroso. 
Édipo comprovou o poder da nobreza humana; Creonte provocou o desastre dele mesmo e da 
casa de Tebas. Nos limites do seu destino, Édipo agiu com humanidade e afinidade; Creonte 
jogou jogos de poder e destruiu tudo que estava ao seu alcance. Um trouxe o maior 
florescimento cultural jamais registrado na História, a Idade de Ouro de Atenas; o outro 
estabeleceu um padrão de relacionamentos deficientes, atuante até os dias de hoje. É esta 
ação humana que chama nossa atenção nos dois mitos. É esta ação que determina a nobreza 
ou o desastre da história. 
 
Primeiro, é triste ver como os homens agem mal tanto no mito grego quanto no hindu. 
As mulheres, porém, mantêm-se firmes no mito da Índia, coisa que as mulheres no mito 
grego são incapazes de fazer. Este tema de jogo entre os elementos masculino e feminino 
desafia cada um de nós. Podemos aprender com isto. Se o elemento feminino se mantiver 
firme, a história fatídica pode chegar a uma solução de afinidade positiva. Qualquer que seja 
o nosso destino, mesmo se for muito tenebroso, estaremos seguros se o feminino conseguir se 
manter firme. 
 
80 
 
Nossa história hindu fala do impacto dos deuses sobre a vida humana quando os 
indivíduos são arrebatados dos caminhos comuns de comportamento convencional. Desde o 
início o elemento masculino é engolido pelo seu lado obscuro, o jogo de dados. O jogo pode 
ser considerado como uma dimensão profundamente arraigada do comportamento 
masculino. O pai de Nala perde seu reino porque não consegue controlar sua paixão pelo 
jogo. Os deuses sabem exatamente onde atingir Nala para castigá-lo por sua interferência 
em seu reino divino. Para se ver este comportamento na nossa época, basta ouvir uma mãe 
tentando dissuadir seu filho de participar de uma perigosa corrida de motos. Uma amiga 
telefonou-me outro dia dizendo que estava tentando manter-se calma aquela tarde enquanto 
seu filho tinha ido saltar de pára-quedas. O jogo de dados possui seus equivalentes nas mais 
diferentes épocas. 
Nala e Damayanti seguem um curso normal de vida humana quando os deuses 
intervêm, um sinal seguro de evolução iminente. Nala é obrigado a suportar a tensão de estar 
dividido entre sua lealdade para com os deuses e seus próprios desejos com relação a 
Damayanti. Uma ruptura desse tipo pode ser curada somente por uma ação heróica. Nala 
finalmente realiza esta ação e traz a cura. Damayanti permanece firme na sua lealdade, 
devoção e insight, possibilitando a Nala que prossiga no seu caminho heróico. Isto 
também é heroísmo, no seu aspecto feminino. 
Damayanti é a figura-chave da história, pois é sua força e sabedoria que a levam a 
uma conclusão feliz. Primeiro, ela tem a capacidade da persistência. 
 
81 
 
Espera na casa de seu pai até que seu príncipe a encontre. Em seguida, porém, ela escolhe, 
isto é, mantém uma perspectiva humana realista quando lhe oferecem um deus por marido. 
Isto é extremamente importante e representa um momento na feminilidade (e ummomento 
na vida de uma mulher) em que uma mulher permanece fundamentada no seu aspecto 
humano. Ela evita a fantasia romântica de um amante divino. Isto requer uma sutileza bem 
sintonizada para fazer distinções psicológicas e emocionais. Ela sabe que somente o homem 
precisa piscar os olhos, característica inexistente nos deuses. Ela está ciente dos limites e 
prefere um ser humano limitado, que precisa piscar os olhos, a um divino, que seria eterno e 
imortal. Ela é capaz de ver que a condição humana é preferível à divina num momento 
específico de sua vida. 
Então Damayanti deve esperar e agüentar durante um tempo que parece não ter fim. 
Observa seu homem, Nala, mergulhar na sua loucura do jogo e mesmo assim permanece 
leal a ele. Fosse isto tomado ao pé da letra, poderíamos pensar que uma mulher deve seguir 
seu homem como uma escrava, por mais insensatas que sejam suas atividades. Estamos 
discutindo, porém, a masculinidade e feminilidade interiores, o que não deve ser tomado 
literalmente. Consiste numa total incompreensão da realidade psicológica quando uma 
sociedade ou cultura defende uma ordem patriarcal onde a mulher deve servir ao homem sem 
questionar. A feminilidade pode servir à masculinidade, mas isto deve ser entendido como 
uma dinâmica interior e não como uma mera convenção de exterior relacionamento. A 
própria 
 
82 
 
essência da feminilidade é saber quando agir baseando-se na afinidade e quando ficar em 
silêncio e agüentar. Nenhum homem pode dizer à mulher qual dessas reações é apropriada 
num dado momento, mas existe um centro de sabedoria feminina que pode guiar uma 
mulher sem erro. 
Damayanti nunca abandona seu senso de afinidade: a cada instante da história, ela é o 
princípio orientador de sua vida. Quando usa sua qualidade masculina de diferenciação, ela o 
faz a serviço de seu espírito de afinidade. É a sua capacidade de agir quando necessário e 
agüentar quando é apropriado que produz o poder de redenção. 
Próximo ao final da história, Damayanti deve reconhecer Nala na forma de um velho 
feio. Ela o faz pelo som, a única característica do passado que Nala conservou. Isto lhe basta 
para fazer a identificação correta. Nos seus relacionamentos com os homens as mulheres 
muitas vezes sentem que os homens desapareceram psicologicamente e emocionalmente. 
Esta habilidade de identificar um pequeno sinal da verdadeira natureza do homem e ligar-se a 
isto pode ajudá-lo na sua integração. 
O final da história é um grande triunfo, resultante principalmente da sabedoria de 
Damayanti. Firme, forte e silenciosa, agindo ou ficando quieta, permanentemente ligada à 
sua sabedoria feminina, leva a história à sua conclusão tipicamente indiana. Esta e outras 
histórias indianas são os exemplos mais verdadeiros que conheço do poder redentor da 
feminilidade. Quando a feminilidade se mantém livre e forte, ela propicia sabedoria e poder 
para atravessar um momento negativo do destino. 
 
83 
 
TERCEIRA PARTE 
 
QUE REALMENTE QUER A MULHER? 
 
 
12 
A Feminilidade Perdida 
 
Os ingredientes eternos da alma nunca podem ser forçados à submissão por muito 
tempo. O feminino, colocado num papel inferior tanto pelo mundo grego quanto pelo 
hebraico, fez no século vinte uma petição dramática e poderosa por um lugar ao sol da 
consciência. Uma explosão, uma onda de energia, surgiu do inconsciente coletivo e foi 
imediatamente reprimida, mas ainda ressoa em nosso inconsciente até os dias de hoje.7 O 
homem ocidental, especialmente na França, entregou-se à adoração da natureza fugaz da 
feminilidade e inventou uma expressão especialmente 
 
7. Jung chama de inconsciente coletivo” o arrimo fundamental da humanidade, a alma do 
mundo, aquilo de que todos nós compartilhamos. Freqüentemente o inconsciente coletivo é 
produzido pela alma da humanidade numa época especifica como o Renascimento, o período 
gótico, o Iluminismo. 
 
87 
 
carinhosa para isso. Cavalheirismo, amor cortês ou cortesania (ainda a honramos com a nossa 
palavra “cortesia”, originária de “cortejar”), os trovadores, os menestréis e os cantores 
surgiam como rebentos no solo ressequido, recém-irrigado pela chuva. A devoção à mulher 
tornou-se a ordem do dia. Era costume um jovem viajar de uma corte para outra de alaúde em 
punho para cortejar as damas que cativaram seu coração. Cantava trovas de amor a uma bela 
dama, talvez recebesse de suas mãos um talismã e quando este namoro sutil terminava, ia 
embora em busca de outra bela dama para dedicar-lhe sua devoção. Nesta época estava 
acontecendo uma separação dolorosa e extremada entre a dimensão mundana e a dimensão 
ideal da vida, manifestando-se na arte do amor cortês. As regras sociais não permitiam ao 
casal expressar fisicamente sua devoção. Um cavalheiro podia sitiar o coração de uma 
dama, mas não era permitido testar a ligação na prática, assumindo a forma de um 
relacionamento humano. Florescia a dimensão divina de amor, sem o compromisso da 
praticidade. Um poema de Chrétien de Troyes conta a história melancólica do amor cortês: 
 
De todos os males o meu difere; ele me alegra; eu me regozijo nele; 
Meu infortúnio é o que almejo E minha dor, meu alimento! 
Não há, portanto, de que me queixar, 
Pois meu infortúnio vem de minha própria vontade; 
É meu querer 
 
88 
 
que se torna meu infortúnio, 
Mas encontro tanta satisfação em assim querendo 
Que sofro agradavelmente, 
E há tanta alegria em minha dor, 
Que estou doente de delícias. 
 
Compreenderemos melhor este fenômeno se lembrarmos que na sua retaguarda 
estava a idade gótica. O ideal gótico permite que a matéria seja apenas uma base, a mais 
tênue possível de onde o espírito possa alçar vôo. A arquitetura gótica exige da pedra quase o 
impossível. Uma construção gótica é projetada nas proporções básicas de cinco unidades de 
altura para uma unidade de largura. Os arquitetos conseguiram moldar a pedra nesta 
proporção e aquelas grandiosas construções ainda estão em pé, para a edificação do nosso 
espírito. A alma humana, porém, talvez mais bem informada que o intelecto humano, não 
suporta esta predominância da altura sobre a largura. 
Durante cerca de cinqüenta anos de romantismo inebriante o cavalheirismo reinou 
supremo nas cortes da Europa. Servia-se à feminilidade talvez com uma nobreza nunca vista 
nem antes nem depois. Era, no entanto, um ideal tão limitado e frágil que caiu por sua própria 
falta de substância. A Igreja considerou que esta efusão muito feminina da alma humana era 
demasiado unilateral e baniu como heresia o canto do trovador: a heresia albigense, assim 
 
89 
 
chamada porque o novo culto cavalheiresco concentrava-se nas cercanias de Albi, a cidade 
do sul da França. 
Uma vez visto e experimentado, um florescimento assim não pode ser totalmente 
esquecido; por isso o cavalheirismo manteve um pequeno canto de nossa atenção desde 
aqueles dias até hoje. Há pouco tempo, fui ao meu cofre no banco e uma funcionária 
levou-me à caixa-forte. Na saída recusei-me a tomar a dianteira, e diante do impasse eu disse: 
“O cavalheirismo ainda não está totalmente morto”. Houve um sorriso: a doçura e 
cordialidade encheram aquela moderna caixa-forte de ação. Portanto, o feminino manteve 
um tênue fio nos nossos costumes desde aquela época de alaúdes e trovadores. Numa faixa 
estreita da experiência humana, o poder pode ceder ao amor. Assim, a feminilidade 
corajosamente exigiu a dignidade humana, mas suas formas eram muito delgadas e etéreas 
para que se firmasse. Deixou a brilhante luz, embora evidentemente artificial, da época 
francesa do cavalheirismo e sumiu da superfícienovamente. 
Antes mesmo de sua repressão masculina e dominação do feminino nesse momento 
histórico específico, a atitude da Igreja era clara. A Igreja cristã tem vivido com uma visão 
trinitária da realidade a maior parte da vida teológica. Do ponto de vista masculino, isto é 
bem satisfatório, já que resulta numa atitude ordenada, bem formada e predizível. Em outras 
palavras, combina bem com uma mentalidade masculina. A conseqüência inevitável de um 
ponto de vista trinitário é a exclusão do elemento feminino. No entanto, este nos persegue, 
exigindo ser incluído em nossa vida, ocupando um lugar de honra. 
 
90 
 
Jung destacou que o cristianismo ocidental construiu inconscientemente sua cruz, a 
representação pictórica de sua teologia, com um dos braços mais comprido que o outro. Já 
que o cristianismo ocidental colocou a matéria e a feminilidade numa posição abaixo do 
que merecem, foi compelido a compensar, alongando o braço inferior da cruz, resultando 
num mandala distorcido como seu símbolo fundamental. Os ramos orientais do cristianismo 
permaneceram menos presos à heresia da negação da divindade da matéria e feminilidade, e 
sua cruz recebeu braços iguais. Sentimos ainda hoje que os gregos honram as dimensões 
terrenas da vida mais que nós. Sua cruz é um testemunho eloqüente disto. 
 
CONVIDANDO A SOMBRA PARA O JANTAR 
 
Repetimos o óbvio ao dizer que a energia feminina é e foi um elemento excluído na 
cultura ocidental. O que se torna ainda mais complexo para o crescimento e entendimento 
humanos é que um elemento excluído freqüentemente parece uma energia ”escura” ou ”de 
sombra” antes de ser reintegrado. Jung perguntou certa vez: ”Se você for perseguido por um 
leão no sonho (perseguição é a forma favorita dos elementos excluídos apresentarem-se nos 
sonhos), que deverá fazer?” Ora, vire-se, é claro, e diga ao leão: ”Por favor, tenha a 
bondade de me comer”. Então o leão explica que ele é o emissário de Deus e pergunta por 
que você lhe dificultou tanto a tarefa de entregar um presente divino para você. 
 
91 
 
“Rançoso” é o termo eloqüente que a psicóloga Marie-Louise von Franz usa para uma 
qualidade degradada, sem um lugar ao sol. Negamos dignidade e consciência a uma quarta 
parte de nossa natureza, que ficou rançosa por isso. É de extrema importância entender que o 
perigo está em usar errado ou colocar num lugar errado a qualidade, e não a qualidade em 
si. Cometemos este erro psicológico e espiritual repetidas vezes em nossa vida tanto pessoal 
quanto cultural. 
Quando um elemento excluído é restituído à sua dignidade e recebe seu valor 
verdadeiro, torna-se rapidamente positivo e criativo. Um dia estava eu num estúdio de 
gravação em Hollywood com o meu cravo, dolorosamente ciente da atmosfera insensível, 
rude e competitiva dessa indústria. Parece que o sentimento se torna especialmente frágil 
quando a arte se transforma em indústria. Usando meu instrumento de transparência 
costumeiro para me proteger, tive o prazer de ouvir uma voz inglesa suave, bem modulada 
atrás de mim. O calor e a apreciação contidos inundaram minha consciência e eu disse: ”Que 
voz bonita você tem!” A jovem, tomada de surpresa, prorrompeu em lágrimas e fugiu. Nunca 
mais a vi, mas imagino que nunca esqueceremos um ao outro. Num ambiente rude, o 
sentimento e a feminilidade carregam um poder irresistível. Isto fica em nossa memória 
durante toda a vida, mesmo se for um olhar de um estranho. 
A tarefa mais profunda de nossa época é conceder esta dignidade aos elementos 
sensíveis e femininos, mesmo nas pequenas coisas, para restituir-lhes sua verdadeira 
criatividade. Quem sabe quantos de 
 
92 
 
nossos sintomas, tanto pessoais como coletivos, tornar-se-ão brilhantes se pudermos 
dar-lhes dignidade? 
Jung e von Franz encontraram nos sonhos das pessoas de nossa época o tema 
universal da mudança ”do três para o quatro”. Este tema onírico, constrangedor e poderoso, 
sinaliza a perda de um elemento essencial, o quarto faltante, e sua tentativa de retornar às 
vidas pessoais e culturais da humanidade ocidental. 
De maneira contrastante, este ”quatro escuro” ocupa um lugar de dignidade e beleza 
na teologia indiana. Há uma trindade de deuses: Brahma, o criador, Vishnu, o conservador, e 
Siva, o destruidor (que retira as velhas formas para dar lugar às novas). Estes deuses são 
retratados predominantemente masculinos, embora tenham contrapartes femininas. A 
grande alegria da concepção indiana deste assunto é que o quatro, tomando o lugar do nosso 
demônio cristão, é Krishna, o deus dançante, cheio de vida e alegria e exuberância, que 
traz felicidade a qualquer um que esteja próximo. Ele possui dezesseis mil esposas, 
diverte-se com as Gopis (ordenhadeiras, leiteiras), toca sua flauta para o eterno deleite do 
mundo e geralmente leva uma sensualidade luminosa onde quer que vá. Que prazer encontrar 
os elementos chamados satânicos tratados de uma maneira tão alegre e feliz! 
Krishna e Cristo têm muitas características em comum, a começar por seus nomes. 
Krishna nasceu numa terra hostil, onde o tirano reinante decretara que todas as crianças 
abaixo de determinada idade deveriam ser mortas para que a nova encarnação não 
 
93 
 
suplantasse o tirânico e velho rei. Krishna foi pintado de azul para protegê-lo dos soldados, 
cujos olhos maldosos não enxergavam esta cor. Assim a imagem de Krishna é geralmente 
azul, o que indica sua elevada espiritualidade. Sua cor celeste protege-o da velha ordem. 
Num país onde ao sensual-feminino é atribuído um papel alegre, pode-se esperar 
um conjunto diferente de atitudes. A Índia tradicional é um lugar onde a feminilidade e as 
dimensões sensuais da vida ganham a dignidade e nobreza que merecem. 
 
O ANSEIO FINAL 
 
A perda da energia feminina, com sua vitalidade cálida, não é difícil de ser 
documentada. É evidente nas tradições míticas de nossa cultura, na pobreza lingüística e na 
falta de sentimento pelos relacionamentos humanos, e finalmente na nossa fome de sentido. 
O sentido é o reino do feminino. Sem uma feminilidade segura em nosso mundo 
psicológico interior, não é possível nenhum contentamento ou sentido. Nós nos alienamos 
deste fato do nosso ser. Nós nos carregamos com centenas de diferentes exigências ou 
expectativas, que disfarçam nossa necessidade simples de ser e de ter um sentido. Mesmo 
assim, experimentamos momentos de paz, que nos lembram da qualidade essencial do 
sentido. A refeição mais comum merece ser lembrada por uma vida inteira se for 
portadora de sentido e de ligação humana. 
 
94 
 
13 
A Feminilidade Reconquistada 
 
Afeminilidade é uma parte tão básica e fundamental da personalidade humana que 
não pode ser esquecida por muito tempo. Pode ser relegada por um tempo, para que a 
masculinidade possa consolidar os valores patriarcais da lei, da ordem, da forma e da 
ciência. É improvável que esses valores possam ser estabelecidos e enraizados a não ser que 
recebam direitos exclusivos no palco da evolução, como foi o caso nos últimos três mil 
anos. Mas o feminino retornará e tomará seu lugar de direito tão logo a evolução masculina 
esteja assegurada. Alguns exemplos brilhantes deste retorno podem ser vistos em nossa 
época. Provavelmente a humanidade nunca tenha estado numa posição tão privilegiada 
como agora; há a disponibilidade de 
 
95 
 
uma idade de ouro de poder mecânico e a possibilidade de uma nova era no sentido dos 
valores femininos. Estabelecer uma base para o lazer, que o mundo moderno oferece a um 
grande número de pessoas, foi uma realização nobre. Acrescentar os insights femininosa 
uma mentalidade consciente é o próximo passo. Na qualidade de pessoas verdadeiramente 
modernas, estamos na crista da onda onde o melhor dos dois mundos pode ser conseguido 
se formos suficientemente sábios para escapar do preconceito moderno de unilateralidade. 
Fracassar nesta sabedoria é convidar o pior dos dois mundos, o que nos levaria de volta à 
Idade das Trevas. 
A Igreja Católica Romana está tentando do seu jeito reintegrar a dimensão feminina 
à sua teologia e à vida católica. Em 1950 um marco significativo foi alcançado com a 
doutrina da Assunção corpórea da Virgem Maria, uma afirmação audaciosa que ligou a 
Virgem Maria em seu corpo físico à Trindade exclusivamente masculina. Jung, jubiloso 
com este avanço evolucionário, comentou que este fato marcara o mais grandioso momento 
da história da Igreja desde a Reforma. Para um corpo tão tradicionalmente conservador como 
a Igreja Católica, honrar as novas dimensões femininas é sem dúvida um grande momento 
na história da civilização. O Ano Mariano veio e se foi, deixando pouco efeito aparente; 
mas a doutrina está aí, abrindo seu caminho na teologia exclusivamente masculina da 
Trindade. 
Uma lição profunda sobre o meio pelo qual esta energia feminina pode voltar à 
vida moderna é ilustrada por uma das lendas do Rei Arthur. Novamente retornamos à 
dimensão mítica da vida para 
 
96 
 
conhecermos nossa dinâmica psicológica interior. Em geral, as histórias arthurianas relatam 
a nova idéia da cavalaria e nobreza, mas recontam apenas uma libertação parcial da 
feminilidade de sua prisão. Uma história, no entanto, está bem adiantada para seu tempo 
(estaríamos tão atrasados em nossa compreensão?), aludindo à transformação das trevas em 
luz. É a história de Arthur e a pergunta intrigante: ”Que realmente quer a mulher?” 
Arthur quando jovem foi apanhado caçando ilicitamente nas florestas do reino 
vizinho, sendo aprisionado pelo rei. Ele podia ter sido morto imediatamente, pois este era o 
castigo por transgredir as leis de propriedade e posse. Mas o rei vizinho, comovido pela 
juventude e simpatia do rapaz, ofereceu-lhe a liberdade com a condição de ele encontrar a 
resposta para uma pergunta muito difícil no prazo de um ano. A pergunta: Que realmente 
quer a mulher? Isto atordoaria o mais sábio dos homens e parecia insuperável para o 
jovem. Era melhor, porém, que ser enforcado, e assim Arthur voltou para casa e se pôs a 
perguntar a todos que encontrava no caminho. Prostituta e freira, princesa e rainha, sábio e 
bobo da corte, todos foram inquiridos, mas ninguém conseguiu dar uma resposta 
convincente. Cada um deles avisou, no entanto, que havia uma pessoa que saberia a resposta, 
a velha bruxa. O custo seria muito alto, pois era proverbial no reino que a velha bruxa 
cobrava preços exorbitantes por seus serviços. 
Chegou o último dia do ano e Arthur finalmente viu-se obrigado a consultar a velha. 
Ela concordou em fornecer a resposta satisfatória, mas o preço deveria ser discutido 
primeiro. E o seu preço era 
 
97 
 
casar-se com Gawain, o cavaleiro mais nobre da Távola Redonda e o amigo mais íntimo de 
Arthur. O jovem fitou a velha bruxa horrorizado: ela era horrorosa, tinha um dente só, 
cheirava tão mal que enojaria até um bode, emitia sons obscenos e era corcunda. Enfim, a 
criatura mais detestável que já vira. Arthur tremeu diante da perspectiva de pedir a seu 
grande amigo que assumisse este terrível fardo por ele. Mas Gawain, ao saber do trato, 
assegurou a Arthur que isto não era pedir demais para salvar a vida de seu companheiro e 
ainda preservar a Távola Redonda. 
O casamento foi anunciado e a velha bruxa revelou sua sabedoria infernal: ”Sabe o 
que realmente quer a mulher? Ela quer ser senhora de sua própria vida! Todos reconheceram 
na hora a grande sabedoria feminina e o Rei Arthur estava salvo. Ao ouvir a resposta, o 
soberano vizinho sem hesitar concedeu-lhe a liberdade. 
Mas e o casamento?! A corte toda presente, e ninguém estava mais dividido entre o 
alívio e a tristeza que Arthur. Gawain portou-se com cortesia, delicadeza e respeito. A velha 
bruxa exibia o seu pior comportamento, devorava a comida do seu prato com as mãos, 
emitia horrendos grunhidos e cheiros pavorosos. Até então a corte de Arthur jamais se havia 
sujeitado a tamanha tensão. A cortesia prevaleceu e o casamento se realizou. 
Puxaremos uma cortina de prudência sobre a noite de núpcias, com exceção de um 
momento espantoso. Quando Gawain, preparado para o leito nupcial, esperava sua noiva, 
ela apareceu na forma da moça mais linda que um homem pudesse desejar! 
 
98 
 
Gawain estupefato perguntou o que tinha acontecido. A moça respondeu que como Gawain a 
tinha tratado com gentileza, ela lhe mostraria sua aparência horrenda durante a metade do 
tempo e sua aparência graciosa na outra metade: qual delas ele escolhia para o dia e qual 
para a noite? Que pergunta mais cruel a ser colocada para um homem! Gawain fez seus 
cálculos rapidamente. Será que ele queria uma linda jovem para mostrar durante o dia, 
quando todos os seus amigos a veriam, e uma bruxa horrenda à noite na privacidade do seu 
quarto, ou a queria como bruxa durante o dia e linda nos momentos íntimos? O nobre 
Gawain respondeu que preferia que sua noiva escolhesse por si mesma. Com isto, ela 
anunciou que seria a bela donzela para ele tanto durante o dia como de noite, já que ele 
demonstrara respeito por ela e concedera-lhe soberania sobre sua própria vida. 
Se a feminilidade for levada a mostrar sua face horrenda, o melhor que um homem 
pode fazer é manter o respeito e a cortesia. Esta é a magia da transformação, a mais rápida 
maneira de restituir à feminilidade sombria a sua verdadeira beleza. Esta história sobre a 
dinâmica da energia feminina interior é da mesma importância para o homem que tenta 
relacionar-se com o seu lado feminino interior como para a mulher tentando sobreviver com 
a sua identidade básica. E é um princípio que não se deve perder nos relacionamentos 
externos entre homem e mulher. 
Recentemente encontrei um exemplo de feminilidade reconquistada num lugar 
inesperado. Na obra de James Joyce, Ulysses, há um momento 
 
99 
 
culminante de sentimento e redenção. O romance é tão difícil e duro de agüentar que partes 
dele causariam indigestão até a um bode. A história se prolonga infinitamente pela ruína de 
Dublin na virada do século: a hipocrisia da Igreja, corrupção dos funcionários municipais, 
um sistema escolar que causaria pesadelos nas gerações futuras, fracasso da amizade e da 
confiança. O princípio de vida feminino foi tão destruído que até as mulheres da história 
perderam o caminho. Nosso herói está tão exaurido pelo desespero que não vê saída. Joyce, 
certamente um dos gênios do mundo moderno, encontra a redenção de todo este caos no 
lugar mais inusitado. Ele coloca, num monólogo pronunciado por uma mulher pouco 
atraente, nas páginas finais do romance, uma das mais grandiosas afirmações de vida já 
escritas. Esta afirmação torna-se mais poderosa ainda por estar colocada num ambiente tão 
lúgubre. Tive de tentar várias vezes até que consegui sobreviver à leitura do romance até o 
final. O prêmio pela persistência foi uma gloriosa afirmação de vida que somente se poderia 
localizar numa alma feminina. Vemos nossa época falida ser redimida pela genialidade de 
um profeta moderno. 
Molly Bloom, mulher de um personagem nada atraente, que pouco faz além de ir na 
onda do dia, está deitada na cama, vagando em devaneios. Ela passa em revista as pequenas 
coisas de sua vida, coisas de pouca importância. Eis que acontece um milagreno palco de 
sua simples natureza feminina. Ela pontua sua interminável sentença de devaneio com a 
palavra ”sim” cada vez com maior freqüência, até que no final essa interminável sentença 
se transforma 
 
100 
 
num grandioso grito de esperança e afirmação e fé. A poderosa repetição do ”sim” redime 
tudo que o cerca e transforma em obra de arte coisas espalhafatosas que representam o 
desespero para um olho menos perspicaz. Molly Bloom redime a vida, algo que somente o 
feminino pode conseguir em meio à ruína do mundo masculino. 
 
...ah sim eu conheço-os bem quem foi a primeira pessoa no universo antes que 
houvesse alguém que criou tudo quem ah que eles não sabem nem eu sei então aí está 
você eles bem que poderiam tentar impedir que o sol nascesse amanhã o sol brilha 
para você ele disse no dia em que estávamos deitados entre os rododendros no 
monte Howth vestido com um terno de lã cinza e seu chapéu de palha no dia em que 
eu o fiz pedir-me em casamento sim primeiro eu lhe dei um pedaço de bolo de 
cominho tirando da minha boca e era ano bissexto como agora sim há 16 anos meu 
Deus depois daquele longo beijo quase perdi meu fôlego sim ele disse que eu era 
uma flor da montanha sim então todas somos flores um corpo de mulher sim aquela 
era a única verdade que ele disse na vida e o sol brilha para você hoje sim é por isso 
que eu gostei dele porque vi que ele entendeu ou sentiu o que é uma mulher e eu 
sabia que podia sempre agradá-lo e dei-lhe todo o prazer que podia levando-o até 
que ele me pediu para dizer sim e primeiro não respondi apenas olhei para o mar e 
o céu pensava sobre tantas coisas que ele desconhecia de Mulvey e do Sr. Stanhope e 
Hester 
 
101 
 
e papai e o velho capitão Groves e os marinheiros jogando todos os pássaros voando e 
eu fiquei agachada e lavando louça eles o chamaram no cais e a sentinela na frente 
da casa do governador com a coisa em torno de seu capacete branco pobre diabo 
meio assado e as meninas espanholas dando risadas envoltas nos seus xales e seus 
pentes altos e os leilões pela manhã os gregos e os judeus e os árabes e o diabo sabe 
quem mais de todos os cantos da Europa e rua Duke e o mercado de galinhas todas 
chocando perto da casa de Larby Sharon e os pobres burros caindo de sono e os 
rapazes distraídos metidos em capas adormecidos na sombra sobre os degraus e as 
rodas grandes das carretas dos bois e o velho castelo de milhares de anos de idade 
sim e aqueles belos mouros todos de branco e turbantes como rei pedindo-lhe para 
sentar na sua pequenina loja e Ronda com as velhas janelas das pousadas olhos 
olhando furtivamente uma gelosia escondidos para que seu amante beijasse o ferro e 
as casas de vinho meio abertas de noite e as castanhetas na noite em que perdemos o 
barco em Algeciras o guarda andando sereno com sua lâmpada e Oh aquela terrível 
torrente profunda lá embaixo Oh e o mar o mar vermelho carmesim às vezes como o 
fogo e os gloriosos pores-do-sol e as figueiras nos jardins de Alameda sim e todas 
as pequenas ruas esquisitas e casas cor-de-rosa e azuis e amarelas e os jardins de 
rosas e os jasmins e gerânios e cactos e Gibraltar como uma menina onde fui uma 
Flor da montanha sim quando coloquei a rosa nos 
 
102 
 
meus cabelos como costumavam as meninas andaluzas ou devo usar uma vermelha 
sim e como ele me beijou sob o muro mourisco e pensei tanto faz ele como outro e 
então pedi-lhe com os olhos que me pedisse novamente sim e então ele me 
perguntou se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro joguei 
meus braços em torno dele sim e puxei-o para mim de maneira que ele podia sentir 
meu peito todo perfume sim e seu coração batia como louco e sim eu disse eu quero 
sim. 
 
Não se muda a corrente de quase quatro mil anos de patriarcado num momento só de 
história. Os problemas estão cada vez mais bem definidos e afetam cada parte de nossa 
sociedade. Esperemos que isto continue, o que acontecerá se todos unirmos os aventureiros 
da paisagem interior na busca heróica. 
 
103 
 
14 
A Tarefa Heróica 
 
A tarefa heróica é diferente para os homens e para as mulheres, apesar de que em 
nossa época gostaríamos de embaçar as diferenças. Este embaçamento infeliz indica um 
entendimento equivocado fundamental dos níveis da ação humana. A dificuldade reside na 
diferenciação dos níveis. A confusão dos níveis é tão comum nas atitudes psicológicas 
que poucas pessoas consideram o assunto. Algo é autêntico somente no nível onde é 
apropriado. Por exemplo: a mitologia é verdade (verdade sublime!) num nível interior, mas 
não faz sentido num nível histórico. A virilidade é um atributo físico externo de metade da 
humanidade; masculinidade é um atributo de todo o ser humano. Conclui-se que se deve ser 
extremamente cuidadoso 
 
105 
 
em como referir masculinidade ou feminilidade à personalidade. Pode-se formular uma lei 
muito poderosa com base nesta informação: se uma mulher permanecer firmemente 
plantada em sua feminilidade, pode fazer um uso excelente das características masculinas. 
Por outro lado, se as características masculinas dominarem sua personalidade básica, o 
melhor que ela poderá fazer é ser uma imitação de homem. Um homem pode fazer um 
excelente uso da feminilidade enriquecendo sua personalidade básica. Por outro lado, se for 
dominado por estas qualidades femininas, será subjugado pelos seus humores e 
comportamento irracional. Assim como o fogo, se dominadas, as virtudes do sexo oposto que 
temos dentro de nós transformam-se num maravilhoso servo; não dominadas, são um terrível 
senhor. 
O manter-se alerta às diferenças entre homens e mulheres, masculinidade e 
feminilidade e aos níveis psicológicos foi-me graficamente ilustrado durante uma visita à 
Catedral de Canterbury, na Inglaterra. Passei o primeiro dia dos dois que ia ali permanecer 
maravilhado com a grandiosidade daquela construção gótica, com seu retrato majestoso de 
Cristo na cruz. Estive empenhado em meu próprio processo analítico em Londres durante 
muitas semanas, e a construção gótica como símbolo de Cristo na cruz fora uma 
peça-chave de um longo sonho. Fiquei sabendo que a idade gótica honrou a Crucifixão de 
Cristo na sua arquitetura com o coro do edifício sendo sua cabeça, os dois transeptos como 
seus braços, a nave como seu corpo e as duas torres a oeste como seus pés. Não há entrada 
para o edifício gótico pelo coro, significando que não há acesso para a 
 
106 
 
consciência de Cristo pelo caminho da cabeça. Existem entradas em cada transepto, 
significando que é possível contatar Cristo através de suas mãos. A entrada oficial, porém, 
é pelos pés, as duas torres a oeste. A entrada oficial para uma construção gótica é por uma 
das torres oeste ou pelo portal central no meio delas. A cada dez anos o papa bate na porta 
central da Catedral de São Pedro em Roma pedindo permissão para entrar. Até ele deve vir 
humildemente aos pés de Cristo pedindo permissão para entrar. É através da parte mais 
terrena de nossa natureza que Cristo está disponível. A mentalidade medieval acreditava 
que a alma podia entrar e sair do corpo somente pela sola dos pés. É por esta razão que alma 
(sou/, em inglês) e sola (sole, em inglês) levam o mesmo significado. 
 Estive meditando o dia inteiro sobre este fato admirável e humilhante e procurando 
ver o que acontecia aos meus sentimentos e intuição quando entrava ou saía da catedral 
por um transepto ou pela porta oeste. Os transeptos sempre inspiravam um senso de 
assimetria ou unilateralidade. A porta oeste inspirava um senso de simetriae equilíbrio. As 
implicações disto em relação aos negócios práticos de minha vida fluíam por mim. Em 
seguida veio uma confirmação inesperada. Este grande edifício era sem dúvida a figura de 
Cristo estendida na cruz! Seguiu se um insight muito maior: cada pessoa que eu encontrava 
na High Street de Canterbury era uma figura viva de Cristo, em carne e osso! Saí da catedral 
e passei o resto de minha estada naquela cidade andando pela High Street, observando as 
pessoas e presenciando a Crucifixão no tempo e espaço. Ainda 
 
107 
 
amava a grandiosa construção gótica, mas ela tinha sido suplantada pelo drama vivo 
espaço-temporal na High Street. 
Foi uma profunda revelação para mim, mas o assunto ainda não estava terminado. 
Semanas mais tarde, ao contar a uma amiga o que havia acontecido comigo em Canterbury, 
ela exclamou espantada que exatamente o mesmo lhe acontecera naquele lugar, só que ao 
contrário! Ela se sentiu em casa com o drama humano na High Street. Num momento de 
perspicácia, porém, ela descobriu que a catedral gótica incorporava tudo o que ela precisava 
experimentar e que ela não necessitava mais da rua com sua vida fervilhante. 
É uma história profunda de um homem descobrindo a verdade feminina de carne e 
osso retratada no tempo e no espaço, e uma mulher encontrando sua verdade masculina na 
abstração de um símbolo. Deus permita que os homens e as mulheres, ao cruzarem seus 
caminhos no meio da jornada sagrada, encontrem-se e respeitem um ao outro. 
É certo que novas atitudes num assunto tão básico como este serão desajeitadas no 
início. Por exemplo, é fácil cair na armadilha e pensar que imitar o homem é o mesmo que 
adquirir masculinidade. No primeiro rompante de alegria, ao descobrir a ópera na minha 
adolescência, vi uma produção italiana onde um quarteto de vozes cantava uma ária 
famosa. Para harmonizar os personagens e as vozes, a voz contralto devia representar um 
homem. A mulher que cantava no papel de contralto e representava um homem exagerou 
tanto a valentia e as qualidades dominantes da masculinidade estereotipada 
 
108 
 
que fiquei horrorizado. Era esta a imagem do homem aos olhos da mulher? Naquele 
momento iniciava-se a minha indagação quanto à diferença entre o macho e o masculino. 
Poucas coisas neste mundo são tão ridículas quanto um homem ou uma mulher inseguros 
adotando os estereótipos dos respectivos papéis para compensar a deficiência. Igualmente 
ridícula é a mulher adotando estereótipos masculinos para romper a ”barreira patriarcal`; ou 
um homem adotando os estereótipos da feminilidade no seu esforço de tornar-se mais 
sensível. Nenhum dos dois soa autêntico e ambos podem criar tiranias tanto culturais 
quanto no campo dos relacionamentos. 
No seu livro The Wounded Woman, Linda Schierse Leonard8 destaca um fato 
muito importante sobre a mitologia ocidental, isto é, não há heroínas. A ausência de heroínas 
na literatura mítica do Ocidente parece estar vinculada a outro importante fato, igualmente 
espantoso. Todas as grandes histórias de amor da Índia chegam a uma conclusão 
”bem-sucedida” . Todas as grandes histórias de amor do Ocidente, por outro lado, são 
trágicas. Isto significa que no Ocidente a morte é o único meio de se chegar a uma união 
final. O Ocidente concebe a unidade como algo que pode ocorrer somente além do reino 
da realidade física. A Índia, no entanto, graças à sua intensa disciplina espiritual, não 
consegue conceber um fim trágico para o amor. 
Por que seria assim? Devemos dirigir-nos para o elemento do heroísmo feminino 
para encontrar a resposta. O heroísmo feminino é o que é exigido de 
 
8. Linda Schierse Leonard. The Wounded Woman (Boston: Shambhala Publications, 1982). 
 
109 
 
nós agora, de todos nós, homens e mulheres. Nas forças divisoras da cultura mundial 
masculinizada, devemos ater-nos às coisas básicas simples que nos mantêm unos e 
inteiros. Esta é A Grande Busca dos dias de hoje. Não temos condições mais de sermos o 
herói conquistador (masculino), que defende seu território, seus princípios, sua mulher, 
seus direitos. Devemos transformar-nos no herói compreensivo que encontra o lugar certo 
para cada relacionamento na vida, que alimenta e protege e conforta para que o crescimento 
possa acontecer, não num campo de ilusões, mas num campo de amor e integridade. 
Este heroísmo exige toda a habilidade e inteligência, toda a força e coragem do 
heroísmo que já conhecemos. Talvez mais até. Porque é menos pomposo, menos 
gratificante para o ego, não satisfaz nossos instintos básicos imediatamente. Sem ele, porém, 
o prognóstico para o futuro da humanidade neste planeta verde e perigoso é bem tenebroso. 
Pensamos que o amor é natural, que não requer nenhuma habilidade, nenhuma 
criatividade para manter. Achamos que há algo de artificial em sermos bem educados e 
gentis e esforçarino-nos a aprender a amar. Poucas atitudes na história da raça tiveram 
repercussão mais desastrosa que esta. 
Todos os grandes heróis guerreiros não têm seu tempo de treinamentó, seu 
aprendizado onde adquirem suas condutas marciais? Podemos esperar menos do amor? 
Nossa nova busca, nosso novo heroísmo não exige ao menos o mesmo, se não mais? Que 
um dos mestres deste heroísmo, Rainer Maria Rilke, fale por nós: 
 
110 
 
jovens, principiantes em tudo, ainda não sabem amar, eles devem aprendê-lo. Com todo o 
seu ser, com todas as suas forças, concentrados junto ao coração solitário, tímido, aspirante, 
eles precisam aprender a amar. O tempo de aprendizado é sempre longo, um tempo de 
isolamento, e por isso o amor que dura a vida toda é estar só, é solidão intensa e profunda 
para aquele que ama. De início, o amor não é algo que significa fundir-se, ceder e unir-se ao 
outro (pois o que seria a união de algo não esclarecido e individual), amadurecer, tornar-se 
algo de si mesmo, tornar-se mundo, tornar-se mundo para si mesmo em benefício do outro; 
é um chamado grandioso e exigente, algo que o elege para realizar coisas incomensuráveis. 
É somente neste sentido, o da tarefa de trabalhar em si mesmos (”obedecer e martelar dia e 
noite”), que os jovens poderiam usar o amor que lhes é dado. 
Talvez todos nós ainda sejamos principiantes no amor. Como Rilke diz mais adiante 
neste belo trecho: ”Fundir-se e entregar-se e todo tipo de comunhão... seja o ponto 
culminante, seja talvez aquilo para o qual o homem, com seu tipo de vida, ainda não esteja 
suficientemente preparado” .9 
Portanto, talvez não devêssemos nos entristecer demais com nossos fracassos numa 
tarefa tão exigente. É uma tarefa que devemos assumir com seriedade, ou seja, recolocar a 
verdadeira feminilidade na 
 
9. Ranier Maria Rilke, Letter to a Young Poet (New York: W. W. Norton, 1934), p.54. 
 
111 
 
posição de dignidade, poder e respeito, aprender a amar, se quisermos que nosso planeta e 
nossa civilização sobrevivam à presente época. 
 
UM PENSAMENTO FINAL 
 
Foi muito mais fácil falar de feminilidade perdida que de feminilidade reconquistada. 
O que perdemos nos é tão doloroso que sempre está presente; o que ansiamos reconquistar é 
vago e existe apenas na forma de dor interior, tristeza e desassossego; porém, persegue-nos 
constantemente. Estamos apenas iniciando a tarefa de recuperar a preciosa qualidade 
feminina da humanidade, tão infinitamente valiosa para nós. Nosso descontentamento e 
nosso sofrimento sutil brotam da perda de valores femininos, e nos defrontamos com 
obstáculos formidáveis para recuperar estes valores. No presente momento fazemos 
frágeis tentativas para conseguir igualdade de sexos no sentido de obterremuneração igual 
para o mesmo trabalho, obter respeito e dignidade — nome, título e propriedade — para 
coisas especificamente femininas. Resta porém uma tarefa muito mais sutil: conquistar 
tempo e dignidade iguais para os valores sentimentais que são as dimensões sutis da 
feminilidade. O lazer, a espontaneidade e o trabalho artístico requerem dignidade e respeito 
iguais aos das atividades relacionadas a dinheiro e segurança, consagradas pelo tempo. 
Estas tarefas estão por fazer e aguardam a nossa atenção. 
 
112 
 
Apêndice 
 
Segue-se uma transcrição fiel de um breve trecho da história de Nala e Damayanti 
para mostrar a beleza primitiva do original. Embora tenha perdido muito ao ser traduzido do 
sânscrito para o inglês, um pouco dessa beleza original ainda transparece. Cito a referência 
do texto traduzido para o inglês, caso o leitor deseje conferir a sutileza poética da história. 
1° 
E Damana, satisfeito, concedeu ao rei e sua consorte um presente na forma de uma 
jóia de filha, e três filhos dotados de almas sublimes e grande fama. Receberam 
respectivamente os 
 
10 The Mahabharata, traduzido por Kishavi Mohan Ganguli (New Delhi: Munshivan 
Monoharial Publishers, 54 Rani Jhansi Rd. 110055). 
 
113 
 
nomes Damayanti, Dama e Danta, e ilustre Damana. E os três filhos eram dotados de todos os 
talentos e retidão e coragem ardente. E a esbelta Damayanti, na beleza e inteligência, no bom 
nome e graça e sorte, era celebrada pelo mundo inteiro. E enquanto crescia, centenas de 
atendentes, e servas, vestidas ricamente, serviam-na como à própria Sachi. E a filha de 
Bhima de aparência imaculada, com vestes muito ornamentadas, brilhava em meio às suas 
atendentes, como o luminoso relâmpago das nuvens. E a donzela de olhos grandes era dotada 
de rara beleza como a da própria Sree. E nem dentre os celestiais nem dentre os yakshas ou 
dentre os homens jamais houvera alguém com tal beleza. E a bela moça preenchia de 
alegria todos os corações, até dos deuses. E aquele tigre dentre os homens, Nala, também 
não tinha par nos três mundos; pois em beleza ele se igualava ao próprio Kandarpa na sua 
forma encarnada. E movidos pela admiração, os mensageiros celebravam repetidas vezes as 
qualidades de Nala diante de Damayanti e as de Damayanti diante do soberano dos 
nishadhas. E ouvindo falar dais virtudes um do outro tantas vezes, eles conceberam uma 
ligação entre si que não fora criada pela visão. E esta ligação, ó filho de Kunti, começou a 
crescer em força. E então Nala não conseguia mais controlar o amor que estava em seu 
peito. E ele começou a passar boa parte de seu tempo solitário nos jardins de seus aposentos 
no seu palácio. E ali havia vários cisnes dotados de asas douradas a vagar por aquelas 
florestas. E, dentre 
 
114 
 
eles, capturou um com suas próprias mãos. E imediatamente aquele que voa pelos céus 
disse a Nala: ”Não mereço ser morto por ti, ó Rei. Farei algo que seja do teu agrado. Ó rei 
dos nishadhas, falarei de ti para Damayanti de tal maneira que ela jamais desejará outra 
pessoa”. Ao ouvir isto o rei libertou aquele cisne, que se ergueu sobre suas asas douradas. 
 
115 
 
 
Em FEMINILIDADE PERDIDA E RECONQUISTADA ,_Robert 
 
A. Johnson usa o mito de Edipo e o mito hindu de Nala como exemplos da energia 
feminina. Ele mostra também a dinâmica dessa energia e como ela age dentro da 
personalidade do homem e da mulher. 
 
De acordo com Johnson, recuperar o poder feminino de sentir e conseguir avaliar todas as 
coisas da vida é essencial para a evolução da humanidade. Para que o ser humano consiga 
atingir uma maior consciência, que vai levá-lo à Paz que tanto almeja. 
 
Como reintegrar os valores femininos em nossa atual sociedade, é o objeto dessa obra. 
 
Na sua meta para esclarecer o ser humano na direção de sua individuação, Johnson escreveu 
mais um livro, TRANSFORMATION, ainda sem título em Português, que leva o homem a 
entender os três níveis da consciência masculina. 
 
Para isso, o autor usa os arquétipos literários de Don Quixote, Fausto e Hamlet. Cada uma 
dessas figuras representaria o simples, ou o bidimensional; o complexo, ou o 
tridimensional e o redentor, ou o quadridimensional. 
 
Johnson também reescreveu HE e SHE, enriquecendo seus estudos da psicologia 
masculina e feminina, que serão brevemente republicados por esta Editora. 
 
 
Robert A. Johnson, o autor de HE, SHE, WE e 
 
A CHAVE DO REINO INTERIOR — INNER WORK, agora aborda o que sucede 
quando os valores do feminino são relegados a segundo plano. Uma das 
conseqüências é a posição da mulher na sociedade. Mas não só, pois também tem 
seus reflexos no mais íntimo da personalidade tanto do homem quanto da mulher. 
Temos de levar em conta também que o homem tem dentro de si a anima, ou seja, o 
aspecto feminino de sua personalidade, ou seja, a parte que o faz sentir e lhe dá a 
capacidade para reconhecer os valores da vida. Na verdade, se o feminino é 
responsável por tantas coisas na existência do ser humano, ele não pode ser perdido. 
E se foi perdido, tem de ser resgatado, para que a qualidade da vida no planeta seja 
melhor. 
 
 
BIBLIOTECA BRAILLE JOSÉ ÁLVARES DE AZEVEDO 
GOIÂNIA, 23 DE DEZEMBRO 2014 
DIGITALIZADO E CORRIGIDO POR: FÁBIO PEREIRA

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