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ABENUR ANTUNES RODRIGUES “SÍNDROME DE ESTOCOLMO”: SUA IMPORTÂNCIA NO GERENCIAMENTO DE CRISES. Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Administração em Segurança Pública, no curso de Pós- graduação “latu Sensu” em Administração em Segurança Pública, da Universidade do Sul de Santa Catarina. FLORIANÓPOLIS, 1999 ABENUR ANTUNES RODRIGUES “SÍNDROME DE ESTOCOLMO”: SUA IMPORTÂNCIA NO GERENCIAMENTO DE CRISES. Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Administração em Segurança Pública, no curso de Pós- graduação “latu Sensu” em Administração em Segurança Pública, da Universidade do Sul de Santa Catarina. Orientador: professor Ms José Luiz Gonçalves da Silveira. Florianópolis, 1999 ABENUR ANTUNES RODRIGUES “SÍNDROME DE ESTOCOLMO”: SUA IMPORTÂNCIA NO GERENCIAMENTO DE CRISES. Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Administração em Segurança Pública, no Curso de Pós- graduação “latu Sensu” em Administração em Segurança Pública, da Universidade do Sul de Santa Catarina, pela Banca formada pelos professores: Orientador: --------------------------------------------------- CAP PM José Luiz Gonçalves da Silveira Chefe da Divisão de Pesquisa - DE/PMSC --------------------------------------------------- Professora Ms Vanessa Francalacci UFSC ---------------------------------------------------- TEN CEL PM Nilo Sérgio Campos Florianópolis, 27 de setembro de 1999 RESUMO O presente trabalho monográfico foi desenvolvido de forma a definir, com base na literatura especializada, o que é a “Síndrome de Estocolmo”, em que situações ela ocorre e como ela contribui para o gerenciamento de crises. “Síndrome de Estocolmo” é uma perturbação de ordem psicológica, paralela à chamada “transferência”, termo que a psicologia usa para se referir ao relacionamento que se desenvolve entre um paciente e o psiquiatra, e que permite que a terapia tenha sucesso. A transferência psicológica ocorre em ambas as direções. Tanto o tomador de refém como os reféns desenvolvem afinidades entre si, devido ao alto grau de estresse originado nessas situações. As pessoas quando estão vivendo momentos cruciais costumam se apegar a qualquer coisa que lhe indique a saída. Crise é uma resposta a uma situação ansiogênica e desagradável que é experimentada como um estado doloroso. Por isso, tende a mobilizar reações poderosas, para ajudar a pessoa a aliviar o desconforto e retornar ao estado de equilíbrio emocional existente anteriormente. A “Síndrome de Estocolmo” é um poderoso fator na resolução de situações críticas na medida em que contribui para que não ocorra um desfecho trágico. Quando as pessoas envolvidas no gerenciamento da crise conhecem seus efeitos e aplicam esses conhecimentos de forma a possibilitar seu desenvolvimento, aumentam, em muito, a possibilidade do sucesso na operação. DEDICATÓRIA À minha esposa Jaira Maria, aos filhos Kátia Júlia e Alexandre, como reconhecimento pelo apoio e aos colegas de turma pela satisfação de suas companhias durante o curso. SUMÁRIO CAPÍTULOS I - Introdução..................................................................................................... 1 1.1 - Problema.................................................................................................. 1 1.2 - Justificativa.............................................................................................. 1 1.3 - Objetivo do estudo.................................................................................. 1 1.3.1 - Objetivo geral....................................................................................... 2 1.3.2 - Objetivo específico............................................................................... 2 1.4 - Metodologia............................................................................................ 3 II - Revisão da Literatura.................................................................................. 4 2.1 - Crise......................................................................................................... 4 2.2 - Gerenciamento de crises........................................................................... 7 III - Interpretação Doutrinária........................................................................... 9 3.l - Características doutrinárias........................................................................ 9 3.1.1 - Origem................................................................................................. 9 3.1.2 - Bilateralidade...................................................................................... 12 3.1.3 -Unilateralidade..................................................................................... 13 3.1.4 - Posição do FBI.................................................................................... 14 3.1.5 - Afeição ao Carrasco........................................................................... 15 3.1.6 - Dualidade.......................................................................................... 15 3.1.7 - Instalação............................................................................................ 16 3.1.8 - Período de instalação........................................................................... 18 3.1.9 - Estocolmização do negociador............................................................. 18 3.1.10 Troca de reféns.................................................................................... 19 3.1.11 Substituição do negociador................................................................. 20 3.1.12 Exemplos de instalação da síndrome................................................... 23 IV - Interpretação Psicológica.......................................................................... 26 V - Apresentação de casos............................................................................. 29 5.1 - Caso “France Air Lines”.......................................................................... 29 5.2 - Caso Banestado...................................................................................... 30 5.3 - Caso Flávia............................................................................................. 30 Considerações Finais....................................................................................... 32 Referências Bibliográficas............................................................................... 33 Bibliografia..................................................................................................... 34 I - INTRODUÇÃO Nas situações críticas o fator tempo é o maior aliado da polícia na busca da solução negociada e pacífica. Na medida em que o tempo for passando uma série de acontecimentos atuam positivamente em apoio à atividade policial.Após alguns minutos de extenuante pressão, com a tomada de reféns, os causadores do evento começam a raciocinar e perceber a realidade que os circunda. Com isso diminui o perigo de ocorrer mais violência contra aqueles que estão no cativeiro. O instinto de sobrevivência faz com que cada um dos reféns considere a própria vida como a mais importante. O estabelecimento da conversa com o negociador faz fluir a agressividade dos primeiros momentos e quanto mais tempo passar neste primeiro contato, melhor para o ambiente. O favorecimento da instalação da Síndrome de Estocolmo é o exemplo mais clássico do que o tempo pode fazer na mente, não somente nos tomadores de reféns, mas também em suas vítimas. 1.1 - PROBLEMA A “Síndrome de Estocolmo” constitui fator que favoreça o gerenciamento da crise? A indagação descreve claramente o problema que consistiu em pesquisar na bibliografia especializada o que é a “Síndrome de Estocolmo”, em que situações ela ocorre e em que contribui para a resolução de situações críticas. 1.2 - JUSTIFICATIVA A pesquisa visa demonstrar a importância do conhecimento do assunto por parte daqueles que têm por obrigação constitucional enfrentar situações críticas, tais como policiais civis, federais e militares, bem como integrantes das forças armadas dentro de suas esferas de atribuições e competências. Parte-se do pressuposto que a missão dos órgãos encarregados de enfrentar essas situações são preservar vidas e cumprir a lei. Hoje não mais se admite a improvisação, o jeitinho ou a habilidade pessoal da autoridade encarregada de solucionar tais situações, até bem pouco tempo um tanto quanto esporádicas dentro da realidade criminal brasileira. 1.3 - OBJETIVO DO ESTUDO O trabalho monográfico é desenvolvido de forma a definir, com base na literatura especializada: a) O que é a “Síndrome de Estocolmo”; b) Em que situações ela ocorre; c) Como ela contribui para o gerenciamento de crises. 1.3.1 - OBJETIVO GERAL a) Demonstrar a importância do assunto; b) Difundir nos meios policiais e acadêmicos o resultado de investigações sobre o estudo do relacionamento interpessoal entre os protagonistas de situações críticas. 1.3.2 - OBJETIVO ESPECÍFICO Possibilitar aos policiais que terão que enfrentar situações críticas a oportunidade de entender e aplicar estes conhecimentos de forma a obter o melhor resultado possível. 1.4 - METODOLOGIA Este trabalho se caracteriza como um estudo exploratório, de caráter informativo, dentro de uma abordagem qualitativa e quantitativa, onde para verificar a problemática realizou-se pesquisa bibliográfica. II - REVISÃO DA LITERATURA 2.1 - CRISE A palavra crise, originária do latim “crisis”, conforme FERREIRA (1987), possui várias definições, dentre elas destacamos: a) Manifestação violenta e repentina de ruptura de equilíbrio; b) Manifestação violenta de um sentimento; c) Estado de dúvidas e incertezas; d) Fase difícil, grave, na evolução das coisas, dos fatos, das idéias; e) Momento perigoso ou decisivo; f) Lance embaraçoso; g) Tensão, conflito. MONTEIRO (1995 ), dá a seguinte definição para crise: “Evento ou situação crucial que exige uma resposta especial da polícia a fim de assegurar uma solução aceitável” Observa-se que na definição de crise foi ressaltada a expressão “da polícia”, numa clara alusão ao fato de que a responsabilidade de gerenciar e solucionar as situações de crise é exclusivamente da polícia. A utilização de religiosos, psicólogos, elementos da mídia e outros na condução e resolução de crises é inteiramente inconcebível, apesar de inúmeros precedentes, principalmente na recente crônica policial brasileira. Fazendo uso da definição acima pode-se dizer que crise é uma situação que exige uma ação policial especial e fora dos padrões gerais, ou seja, necessita o emprego de técnicas e táticas especializadas. MONTEIRO (1995), Delegado da Polícia Federal e instrutor da Academia Nacional de Polícia, estabelece as seguintes características da crise: a) Imprevisibilidade; b) Compressão de tempo; c) Ameaça de vida; d) Postura organizacional não rotineira; e) Planejamento analítico especial e capacidade de implementação; f) Considerações legais especiais. Assim compreendidas: a) Imprevisibilidade: A crise ocorre inesperadamente e o gerente do evento crítico na maioria das vezes é pressionado por circunstâncias súbitas. b) Compressão de tempo: Os eventos críticos sempre terão como característica a exiguidade de tempo para a tomada de decisões. O evento pode se prolongar por semanas ou até meses, mas as decisões do gerente na maioria dos casos deverão ser tomadas de imediato. c) Ameaça à vida: Nos eventos críticos, a ameaça à vida diz respeito a todos os envolvidos nestes, ou seja, reféns, tomadores de refém, populares e policiais. d) Postura organizacional não rotineira: As situações de crise fogem da rotina profissional, são situações excepcionais na vida dos envolvidos, obrigando a Polícia a desenvolver padrões operacionais especiais para estes eventos. e) Planejamento analítico especial e capacidade de implementação: Os eventos críticos exigem do gerente um planejamento tático e técnico diferenciado, sendo este o motivo de ter-se dentro dos organismos policiais pessoas especializadas no atendimento desse tipo de ocorrência. Além da preparação humana especial, é necessário organização logística voltada para o evento crítico, ou seja, uma capacidade de implementação do planejado. f) Considerações legais especiais: As situações de crise exigirão do gerente tomada de decisões imediatas, dentre elas, por exemplo, o emprego de “força letal” (uso do grupo especializado em ações táticas), o que pode ou não ser concedido aos tomadores de refém, o direito ou não de intervenção de pessoas leigas no assunto (juizes, promotores de justiça, advogados, familiares, religiosos e etc.) Tais decisões deverão ser tomadas sempre dentro da legalidade, porém nunca esquecendo da situação especialíssima do caso. As situações mais comuns de crise na esfera policial são: a) Seqüestro; b) Rebelião em estabelecimento carcerário; c) Roubo a banco; d) Invasão de terra. Nas situações acima apontadas, a existência de reféns é um fato, sendo nestas ocasiões em que podemos identificar ou não, o surgimento da “Síndrome de Estocolmo”. CABRAL (1996) sintetiza aspectos gerais sobre a crise e sua evolução. “Evoluem assustadoramente as crises. Esse fato e, de modo especial, a prática de manter pessoas como reféns, obriga-nos a avaliar de maneira mais profunda o assunto e leva-nos a tomar providências voltadas para o combate a esse tipo de delito, já que é um problema que em todo o país a todos aflige. Este problema não é privilégio do Brasil e vem ocorrendo nas mais diversas partes do mundo.” Considerando o apresentado conclui-se que para a solução aceitável de uma crise é fundamental a elaboração de um plano, onde estejam presentes normas com vistas à implementação de medidas que abordem o atendimento de eventos críticos, evitando-se assim, interferências impulsivas e amadoras. 2.2 - GERENCIAMENTO DE CRISESConhecendo-se o que seja crise no sentido “latu sensu” e “strictu sensu” passa-se agora a discorrer sobre o gerenciamento da mesma, analisando a doutrina do gerenciamento de crises universalmente aceita e utilizada pelas unidades policiais mais bem preparadas do mundo. MONTEIRO (1995) define gerenciamento de crise como sendo: “O processo de identificar, obter, aplicar os recursos necessários à antecipação, prevenção e resolução de uma crise” O gerenciamento de crises pode ser descrito como um processo racional e analítico de resolver problemas baseados em probabilidades. O gerenciamento de crises são princípios que obrigatoriamente lidam, sob compressão de tempo, com os mais complexos problemas sociais, econômicos, políticos, ideológicos e psicológicos do homem, no momento e que tais sentimentos se manifestam de forma destrutiva. THOMÉ (1998), em sua obra “A Solução Policial e Gerenciada das Situações Críticas” com grande propriedade sintetiza o ato de gerenciar em quatro pontos: a) Ter a exata conotação de dirigir e regular a crise, possibilitando que sejam convergentes todos os pontos surgidos durante o processo; b) Tornar realidade coletiva todas as maneiras de pensar que surgem durante o episódio; c) Considerar os aspectos legais presentes para justificar a ação policial; d) Executar planejamento com o superior objetivo e interesse de preservar a vida. O gerenciamento de uma crise tem início com as medidas tomadas pelo policial que primeiro tomar conhecimento da situação crítica, daí a necessidade de todo policial ter noções básicas sobre o assunto. Caberá a este policial: a) Comunicar a ocorrência da situação crítica aos seus superiores; b) Isolar o ponto crítico em dois perímetros; c) Colher a maior quantidade de dados possíveis sobre o evento crítico (número de reféns, número de tomadores de refém, armamento, condições de saúde dos reféns, e etc.); d) Impedir qualquer tentativa de ação violenta por parte de policiais, populares ou dos próprios tomadores de refém; e) Repassar todos os dados e informações escolhidas ao gerente da crise. Como foi citado anteriormente, o policial que primeiro tomar conhecimento do evento crítico, dentre outras medidas, providenciará o isolamento do local em dois perímetros, que serão chamados de interno e externo. Entre o perímetro interno e o local da crise tem-se uma área chamada zona estéril, tendo acesso a esse local apenas as pessoas diretamente envolvidas no gerenciamento, que necessitem adentrar ao local, como exemplos pode-se citar: médicos, grupo especializado em ações táticas e, excepcionalmente, os negociadores. Entre o perímetro interno e o externo existe a área restrita. Nessa área estarão instalados os comandos do grupo de negociações e do grupo especializado em ações táticas, além do gerente da crise. III - INTERPRETAÇÃO DOUTRINÁRIA 3.1 - CARACTERÍSTICAS DOUTRINÁRIAS 3.1.1 - ORIGEM Segundo o Capitão BOLZ JÚNIOR (1987), do Departamento de Polícia de Nova Iorque, essa Síndrome nada mais é do que “um mecanismo de tolerância, tão involuntário quanto respirar”. Ainda segundo o mesmo autor, a expressão “Síndrome de Estocolmo”, foi criada pelo Dr. Harvey Schlossberg, um detetive policial que mais tarde se tornou psicólogo clínico. Tal denominação ocorreu, segundo Frank Bolz, de uma crise ocorrida em Estocolmo, na Suécia. Uma pessoa armada entrou no Banco de Crédito de Estocolmo e tentou praticar um roubo. Com a chegada da polícia, o assaltante tomou três mulheres e um homem como reféns e entrou com eles no caixa-forte do banco, exigindo da polícia que trouxesse ao local um antigo cúmplice, que se encontrava na prisão. Atendido nessa exigência, o assaltante e o seu companheiro mantiveram os reféns em seu poder durante seis dias, no interior da caixa-forte, tendo ao final desse tempo se entregado sem resistência. Ao saírem da caixa-forte, os quatro reféns usaram seus próprios corpos como escudos para proteger os dois bandidos de qualquer tiro da polícia, ao mesmo tempo em que pediram aos policiais para não atirarem. Mais tarde, ao ser entrevistada pela mídia, uma das jovens que estivera como refém expressou seu sentimento de muita simpatia para com um dos tomadores de reféns, chegando a dizer que esperaria até o dia que ele saísse da cadeia para se casarem. Muitas pessoas ficaram chocadas ao ouvirem isso, chegando mesmo a imaginar que tivesse havido algum envolvimento sexual entre aquela moça e o tomador de refém, durante o tempo em que ficaram confinados no interior da caixa-forte. Mas, na verdade, não ocorrera nenhum contato sexual ou relacionamento amoroso. Muito pelo contrário, por várias vezes, durante a crise, o tomador de refém exibira a referida moça com uma arma sob o queixo, aos policiais. Soube-se, também que, a certa altura, ao desconfiarem que a polícia pretendia jogar gás lacrimogêneo no interior da caixa-forte, os tomadores de reféns amarraram o pescoço dos reféns aos puxadores das gavetas de aço dos cofres ali existentes. Com isso pretendiam responsabilizar a polícia por algum virtual enforcamento dos reféns, causado pelo pânico que adviria com o lançamento do gás no interior da caixa-forte. Apesar de todas essas ações violentas, a jovem desenvolveu sentimentos de profunda amizade para com um dos tomadores de reféns, fato esse que até mesmo ela considerou inexplicável. Havia, portanto, outras razões que motivaram aquele inesperado sentimento de amor e simpatia da jovem para com o seu ex-algoz. Com a repetição desses fenômenos em vários outros casos semelhantes, os estudiosos do assunto chegaram à conclusão de que a “Síndrome de Estocolmo” era uma perturbação de ordem psicológica, paralela à chamada “transferência”, termo que a Psicologia usa para se referir ao relacionamento que se desenvolve entre um paciente e o psiquiatra, e que permite que a terapia tenha sucesso. O paciente precisa acreditar que o médico pode ajudá-lo a fim de que o tratamento tenha êxito, e como resultado desse esforço, o paciente desenvolve o fenômeno da “transferência”. As pessoas, quando estão vivendo momentos cruciais, costumam se apegar a qualquer coisa que lhe indique a saída, e é exatamente isso que ocorre com os reféns e os tomadores de reféns. Por ocasião de um evento crítico, tanto uns como outros estão sob forte tensão emocional. Por essa razão, os reféns passam conscientemente a desejar que tudo dê certo para os tomadores de reféns, isto é, que eles consigam o dinheiro do resgate, que lhes sejam satisfeitas todas as exigências e que, afinal, possam fugir em paz, deixando os reféns com vida. Nesse processo mental, os reféns passam a considerar como totalmente indesejável toda e qualquer intervenção policial e, freqüentemente, os próprios valores sedimentados ao longo da vida costumam ser questionados e até mudados por essas pessoas. Dessa ânsia desesperada pelo bom sucesso dos tomadores de reféns para a simpatia, a admiração, e até mesmo o amor ou bem- querer, é um passo. Trata-se de um fenômeno através do qual tomadores de reféns e reféns passam a ter relacionamento amistoso e, com o tempo, criam em torno do incidente um campo de amizade que dificulta a ação policial, mas, ao mesmo tempo, diminui o risco dos tomadoresde reféns matarem os reféns. O termo “Síndrome de Estocolmo” foi criado pelo Dr. HARVEY SCHLOSSBERG em virtude de um assalto praticado em agosto de 1973, contra o Banco de Crédito de Estocolmo, pelos assaltantes Jan Erick Olson e Clark Olofsson que ficaram seis dias trancafiados no cofre do referido banco com quatro reféns ( um homem e três mulheres). Ao final do sexto dia, os marginais se renderam sem resistência e, em juízo, para surpresa geral, os reféns depuseram em favor de seus captores que, mesmo assim, foram condenados e, mais tarde, já cumprindo pena, um dos meliantes veio a contrair matrimônio com uma de suas reféns. Pode-se dizer que não existe qualquer divergência quanto ao fato da “Síndrome de Estocolmo” ser função direta do tempo decorrido durante o contato meliante-refém. Segundo FUSELIER e NOESNER (1990), agentes do FBI especializados no gerenciamento de crises, o tempo é o melhor consolidador da proteção psicológica conferida aos reféns pela referida Síndrome. 3.1.2 - BILATERALIDADE Essa Síndrome não atinge apenas reféns. Também os causadores do evento crítico, pelo fato de serem seres humanos vivendo um momento crucial, estão sujeitos aos seus efeitos. Para os tomadores de reféns, os reféns são a sua tábua de salvação, o seu passaporte para a liberdade e o grande anteparo que os protege das balas da polícia. Nessas condições é inevitável que os tomadores de reféns passem a desenvolver sentimentos de proteção, de cuidado, e até de amor e carinho para com os reféns. Como resultado disso, os reféns passam a gozar de uma proteção psicológica cuja principal conseqüência é o não cumprimento de prazos fatais por parte dos tomadores de reféns. Instalada a Síndrome, é quase impossível que algum dos reféns venha a ser executado simplesmente porque as autoridades não estão atendendo essa ou aquela exigência. Entretanto, alguma divergência existe quanto ao fato da “Síndrome de Estocolmo” ser bilateral, ou seja, será que a Síndrome realmente criaria um campo de amizade entre as partes (tomador de refém-refém) ou este fenômeno verifica-se apenas sobre as vítimas em cativeiro (reféns)? De um modo geral, a doutrina do mundo ocidental, principalmente a inglesa, admite a bilateralidade da Síndrome. A Scotland Yard chega a citar o exemplo de uma tomada de reféns onde negociou-se por quarenta e dois dias consecutivos obtendo-se êxito absoluto no final desse último dia. Isso significa dizer que não existe limite de tempo para uma negociação. Na verdade, deve-se estendê-la ao máximo a fim de se atingir metas tais como a completa instalação da Síndrome, o cansaço e a desmotivação dos tomadores de reféns no que concerne à conquista de seus objetivos. 3.1.3 - UNILATERALIDADE Porém, a polícia israelense discorda dessa doutrina, basicamente por dois motivos: a) Nem sempre é possível estender as negociações indefinidamente, por isso exigiria o isolamento de áreas que, muitas vezes, se traduzem em centros vitais da economia de uma cidade, de um estado e, até mesmo do país, inviabilizando, portanto, o congelamento prolongado de suas atividades; b) A Polícia Israelense acredita que se após noventa e seis horas de negociações não for possível vislumbrar um resultado favorável para a situação, deverá ocorrer o assalto. Entretanto, existem outras inúmeras considerações que devem ser levadas em conta na tomada dessa decisão. Segundo ZOLTAK (1990), chefe superintendente da Unidade de Negociações da Polícia de Israel, também formado em psicologia, a partir da nonagésima sexta hora de negociação a “Síndrome de Estocolmo” passa a se manifestar de forma tão intensa que ela acaba se transformando num verdadeiro transtorno à ação policial, principalmente quando se opta pelo assalto (última alternativa tática), pois, segundo os israelenses, ao contrário do que se pensa, a “Síndrome de Estocolmo” é unilateral, ou seja, não passa de um sentimento de gratidão do refém para com o seqüestrador em razão do meliante ter em suas maõs o poder de vida ou morte sobre os reféns resolvendo, contudo, pela preservação das vidas em questão, o que faz com que os reféns passem a encarar o seqüestrador como uma pessoa boa, amável e gentil que, na verdade, não passa de mais uma vítima de sua sociedade opressora. 3.1.4 - POSIÇÃO DO FBI De acordo com o FBI, na cabeça dos reféns, sua libertação depende do atendimento às exigências dos tomadores de reféns. Por essa razão os reféns passam a desejar que tudo dê certo para os tomadores de reféns a fim de que aqueles logrem êxito em seu intento de liberdade. Em conseqüência, os reféns passam a considerar totalmente indesejável toda e qualquer intervenção policial, pois em suas mentes começa a se processar uma inversão de valores onde a ação policial ( ou de qualquer outra autoridade envolvida no conflito) é a única responsável pela situação constrangedora e de alto risco vivenciada pelos reféns. O FBI também defende a idéia da bilateralidade da Síndrome quando afirma que a mesma atinge tanto os reféns como os tomadores de reféns, pois para estes os reféns são a sua tábua de salvação, o seu passaporte para a liberdade e o grande anteparo que os protege das armas da polícia. Portanto, sob estas condições, é inevitável que os tomadores de reféns passem a desenvolver sentimentos de proteção, cuidado e carinho para com os reféns. A maior desvantagem da Síndrome seria o fato dos reféns transformarem-se num grande óbice para a ação policial, principalmente se for necessária a atuação do time tático de assalto (empreendimento da última alternativa tática), ou seja, os reféns poderão agir contrariamente às orientações dos policiais no momento do assalto, podendo, inclusive, investirem contra os agentes da lei, em defesa dos meliantes. Idêntica posição assume os Departamentos de Polícia da Unidades Confederadas dos Estados Unidos da América, especialmente suas Special Weapons and Tactics - SWAT (armas e táticas especiais). 3.1.5 - AFEIÇÃO AO CARRASCO Segundo SYMONDS (1984), psiquiatra nova-iorquino expert em vítimas do terrorismo, a vítima de um seqüestro normalmente conclui: “ele poderia ter me matado, mas não o fez. Portanto, sou-lhe grato. É precisamente neste instante que nasce a “Síndrome de Estocolmo”, ou seja, o afeto da vítima por seu carrasco. 3.1.6 - DUALIDADE Frente a tantas colocações, surge a seguinte pergunta: Qual a doutrina a seguir? A Israelense ou a ocidental? Na verdade, ambas estão corretas, se analisadas sob a ótica individual de cada um dos segmentos. Entretanto, a tese mais defendida é aquela segundo a qual a unilateralidade ou a bilateralidade da Síndrome será determinada por uma avaliação criteriosa de três variáveis: a) Houve contato entre as partes (contato pós-captura)? b) Qual a intensidade desses contatos? c) O número de reféns e o número de seqüestradores. Obviamente, toda e qualquer análise, não poderá desprezar os chamados fatores impeditivos do estabelecimento da Síndrome, bem como o fato do criminoso ou do grupo criminoso enquadrar-se como profissional ou amador. Também é importante frisar que a bilateralidade da Síndrome não é motivo para se acreditar que os reféns estarão totalmente livres de qualquer tipo de violência por parte dos meliantes. Num determinado momento crítico pode ocorrer, por exemplo, uma simples hesitação momentânea quanto à execuçãodireta ou quanto ao cumprimento de uma ordem de execução de um refém. Todavia, esta simples hesitação, por si só, pode ser a diferença entre a vida e a morte de um refém. 3.1.7 - INSTALAÇÃO Logicamente, os reféns reagem diferentemente quando encaram a realidade de terem sido pegos como reféns, mas com o tempo, menos que maltratados rudemente pelos assaltantes, os reféns tendem a desenvolver um conjunto comum de sentimentos: a) Os reféns começam a ter um sentimento positivo em relação ao tomador de refém; b) Os reféns começam a desenvolver sentimentos negativos em relação às autoridades; c) O tomador de refém começa a ter sentimentos positivos em relação aos reféns; d) Todos os reféns não serão afetados no mesmo grau, mas certamente a Síndrome irá paulatinamente se estabelecer. No estabelecimento da “Síndrome de Estocolmo ocorre definitivamente uma aproximação física entre o tomador de refém e a vítima, onde a eminência do risco de vida promove o estado crítico supracitado. Conforme SYMONDS (1984), psiquiatra nova-iorquino, o estabelecimento da Síndrome, sob sua visão, segue a linha da unilateralidade, ou seja, a vítima desenvolve um afeto de trânsito único dirigido ao agressor. Utiliza mecanismos de defesa adaptáveis. Não vislumbra processo patológico em si. Focando a pessoa de um tomador de refém, podemos inferir, pela prática, que aspectos narcisistas de personalidade são evidentes e que a supervalorização do poder projetada neste núcleo narcísico do tomador por parte do refém proporciona combinação importante para o desencadeamento e manutenção desta Síndrome, assim estabelecendo uma equação necessária para o desenvolvimento da mesma. Nos estudos realizados para o esclarecimento e resolução da Síndrome ficaram lapsos de entendimento que, ainda hoje, merecem um melhor aprofundamento. Cabe atentar-se aos equívocos ocorridos frente à busca de entendimentos para o aprofundamento deste fenômeno, pois não podemos nos basear em alguns desfechos ocorridos após o estabelecimento desta Síndrome, como o caso de Patrícia Hearst, a herdeira de uma das maiores cadeias de jornal e revistas dos Estados Unidos, onde psiquicamente já havia, certamente, o desenvolvimento de uma estrutura de personalidade comprometida que se incrementou com o ocorrido. Pode-se inferir que em várias situações de tomada de reféns houve a utilização de mecanismos, entre eles o da negação, com o objetivo de aplacar a ansiedade gerada pela situação crítica, conseqüentemente regredindo defensivamente a estágios anteriores, vivenciando conflitos primitivos e deslocando o poder paterno ao tomador, nesta situação com o agressor. Assim, o tipo de relação transferencial e já intensidade com a qual a mesma irá se estabelecer, dependerá dos traços de caráter particulares de cada um. E os desfechos adaptáveis a situações ou os patológicos estarem referenciados no exposto acima. 3.1.8 - PERÍODOS DE INSTALAÇÃO E a partir de quando se instala a “Síndrome de Estocolmo”? A experiência tem demonstrado que o fenômeno leva de 15 a 45 minutos para começar a se manifestar, tendendo a crescer e a se sedimentar num determinado patamar, logo nas primeiras horas de evolução. Esse lapso de 15 a 45 minutos iniciais representam o tempo necessário para que os causadores da crise consigam obter o total controle da situação no interior do ponto crítico, dominando todos os reféns, posicionando-os da forma mais conveniente e neutralizando possíveis reações ou resistências por parte de alguém mais afoito ou desesperado. A “Síndrome de Estocolmo” é uma constante em toda e qualquer crise, embora apresente graus de intensidade que variam de caso a caso, a depender dos seguintes fatores: a) Grau de risco ou ameaça (quanto maior o risco, mais rápida e intensamente se desenvolve a Síndrome); b) Estado de saúde mental dos tomadores de reféns. Está comprovado que os psicopatas e os fanáticos religiosos dificilmente desenvolvem a Síndrome, daí a razão da letalidade dos eventos que envolvem esse tipo de pessoas; c) Condicionamento mental das pessoas. Quem intencionalmente se condiciona a não desenvolver a Síndrome, geralmente obtém êxito; d) A proximidade física entre as pessoas. Quanto mais exíguo for o ambiente, melhor se desenvolve o fenômeno. 3.1.9 - ESTOCOLMIZAÇÃO DO NEGOCIADOR Até mesmo o negociador é suscetível de ser contagiado por essa Síndrome, sendo comum os casos de negociadores que se envolveram emocionalmente com os tomadores de reféns, a tal ponto que chegaram a se tornarem autênticos defensores das exigências daqueles e empedernidos adversários da opção de uso da força letal. Cabe ao gerente da crise o cuidado de diagnosticar a tempo esse contágio e providenciar a imediata substituição do negociador. 3.1.10 - TROCA DE REFÉNS A troca de reféns é uma idéia que deve ser abolida, pois ela contribui para a quebra da proteção psicológica oferecida pela Síndrome. Essa quebra se deve à entrada. no ponto crítico, de um “extraneus”, isto é, alguém que não estava ali desde os primeiros momentos. Esse “extraneus” passa então a inspirar desconfiança a todos os que ali se encontram, por serem desconhecidos os seus planos e intenções, ao aceitar passar à difícil condição de refém. Não somente os tomadores de reféns, mas também os reféns não costumam aceitar os novatos com muita simpatia, pois geralmente se sentem na condição de preteridos, por não terem sido os escolhidos para serem trocados. A lei da sobrevivência faz com que cada um dos reféns considere a própria vida como a mais importante. A negociação, como vimos, é um processo que se desenvolve durante todo o curso da crise. Ela é um fenômeno espontâneo, sendo uma necessidade imperiosa tanto para as autoridades policiais como para os causadores do evento crítico. Estes últimos, particularmente, sentem uma carência absoluta de que o processo de negociação não tenha solução de continuidade. 3.1.11 - SUBSTITUIÇÃO DO NEGOCIADOR Somente para exemplificar, durante a rebelião de presos ocorrida no dia 13 de novembro de 1989, na Penitenciária Central do Estado do Paraná, houve um determinado momento em que os bandidos estavam muito agitados, pressionando para que as exigências fossem atendidas imediatamente, a tal ponto que estava se tornando impossível qualquer diálogo entre eles e as autoridades. Surgiu então a idéia de se cortar as comunicações , retirando-se os “plugs” das tomadas dos dois telefones internos que estavam sendo utilizados para as negociações. Esse corte de ligações foi mantido por aproximadamente 15 minutos. Resultado: ao se religarem os telefones, retomando-se os contatos com os tomadores de reféns, observou-se que eles ficaram apavorados com a interrupção, tornando-se mais sucetíveis e maleáveis a partir de então. Essa necessidade de continuidade das negociações, imperiosa tanto para as autoridades como para os tomadores de reféns, faz com que determinadas cautelas sejam tomadas, quando for preciso realizar a substituição do negociador. A substituição do negociador, seja por motivo de cansaço, de incompatibilidade, ou qualquer outro, deve ser cercada de muita habilidade, dando-se disso clara ciência aos tomadores de reféns, podendo ser alegados problemas de saúde, sono, doença ou qualquer outro havido com o negociador.Essa troca será bem menos traumática se, desde o início da negociação, o negociador e seu substituto atuarem conjuntamente nos contatos com os tomadores de reféns. Isso, com certeza, dispensará maiores cautelas na hora da substituição, além de proporcionar uma continuidade do fluxo de informações, o que não ocorreria tão naturalmente se a função de negociador fosse assumida por um policial que “pegou o bonde andando”. Não deve o comandante da cena de ação esquecer que, quando as negociações estão fluindo sem maiores obstáculos, isso é um bom sinal de que os causadores do evento crítico estão contraindo os efeitos da “Síndrome de Estocolmo” com relação aos negociadores, condição essa que pode ser prejudicada com uma troca abrupta de negociador. Nessa abordagem desenvolvida sobre a negociação, ao longo deste capítulo, resta-nos ainda tratar do chamado negociador não-policial. Segundo FUSELIER (1988), “a menos que haja razões específicas em contrário, os negociadores devem ser recrutados dentre policiais com treinamento apropriado”. É justamente dessas “razões específicas em contrário”, referidas acima, que vamos nos ocupar agora. Existem, efetivamente, situações em que a figura do negociador não policial não somente é inafastável, como aparece como sendo a única alternativa viável de negociação. Geralmente, isso ocorre nos casos de extorsão mediante seqüestro, em que a família do seqüestrado é a primeira a ser contatada pelos seqüestradores. Esses contatos iniciais, quase sempre feitos por telefone, contêm invariavelmente a exigência preliminar de que a polícia se mantenha afastada do caso. Tal situação praticamente inviabiliza o exercício da negociação por parte da polícia, porquanto aos tomadores de reféns só interessa que ela se mantenha afastada do evento. Nessas situações, a doutrina recomenda aos organismos policiais que adotem a postura de se afastarem do caso, desde que formalmente solicitados pela família da vítima. Esse afastamento, todavia, deve ser realizado mediante o esclarecimento explícito de duas condições aos familiares: em primeiro lugar, que a polícia se manterá afastada somente enquanto durar o cativeiro do ente seqüestrado e, em segundo lugar, que a polícia põe à disposição da família todos os seus recursos para viabilizar o bom êxito da crise, orientando os negociadores não-policiais, para evitar que eles sejam vítimas de golpes de espertalhões (que se aproveitam do evento para se passarem pelos seqüestradores e abocanharem o resgate), e preparando o terreno para que uma possível entrega do resgate ocorra sem incidentes ( que podem ser causados involuntariamente pela própria polícia, se estiver completamente desinformada sobre o assunto. Essa assessoria da polícia aos negociadores não-policiais, em casos dessa natureza, é indispensável, sendo também uma boa estratégia para desmascarar seqüestros forjados por ricaços inescrupulosos, que simulam tais situações com o objetivo de sanearem as suas finanças, uma prática hediorna, que, infelizmente, tem começado a se difundir no Brasil. O problema da “Síndrome de Estocolmo” vem quando a negociação se quebra e a unidade tática tem que entrar em ação. Qualquer informação vinda dos reféns pode ser falsa. Essa falsa informação pode ser delineada ou ser dada de forma inconsciente. Quando o grupo especializado em ações táticas coloca um plano de ação em movimento esses planos podem não contar com nenhuma assistência (ajuda) dos reféns. A Síndrome pode fazer com que os reféns se oponham a qualquer comando dados pelos policiais de resgate.. No evento em que os reféns foram maltratados, qualquer informação obtida deles pode ser exagerada, tais como as armas usadas ou intenções estabelecidas pelos assaltantes. É importante que tais informações não sejam aceitas como um fato, mas sim como uma possibilidade. Informação exagerada poderia causar uma reação exagerada por parte dos membros da equipe, porque eles poderiam esperar muito mais ameaça do que realmente existe. Um outro ponto para se manter em mente é que o próprio negociador não é totalmente imune a Síndrome. Por esta razão é importante que o negociador não seja integrante da unidade de assalto. Toda e qualquer comunicação entre o negociador e esses grupos devem ocorrer através do posto de comando. Explorada, inteligentemente, a “Síndrome de Estocolmo” pode realmente ajudar a atingir o último objetivo, que é a liberação segura dos reféns. O conhecimento do fenômeno para a gerência da crise é muito importante, principalmente para o negociador. Bem aproveitada, a Síndrome poderá ser instrumento poderosíssimo e poderá ser fator determinante para o resultado. Deve-se conhecer os seus efeitos que são fortes e impressionantes. Há uma sensibilidade muito grande, criando um sentimento de querer bem, querer proteger, que se desenvolve principalmente entre o causador e a vítima. O negociador, por vezes, consegue instalar a Síndrome com maior rapidez ao estimular contatos entre tomadores de reféns e reféns. A Síndrome é tão involuntária quanto o batimento cardíaco, transformando-se na maior proteção psicológica que pode ocorrer numa situação crítica. Através desse fenômeno as pessoas que encontram-se no ponto crítico conquistam certa estabilidade o que é muito importante para a resolução da crise. As pessoas, de uma forma geral, não conhecem a Síndrome, daí decorre sua instalação com tranqüilidade. Todas as pessoas que estão envolvidas direta ou indiretamente poderão se contaminar, inclusive aquelas que acompanham o processo através dos meios de comunicação. O primeiro indício de que o negociador está estocolmizado é quando ele começa a advogar a favor do tomador de refém e reagir às determinações do Gerente da crise. 3.1.12 EXEMPLOS DE INSTALAÇÃO DA SÍNDROME Um comovente relato de instalação da Síndrome é apresentado pelo doutor Frank Oschberg quando narra a experiência de um refém dos South Mollucans, em dezembro de 1975, Gerard Vaders, editor de jornal, na faixa de 50 anos de idade. “Na segunda noite, ele me amarrou novamente para ser um escudo vivo e deixou-me naquela posição por 7 horas. O mais psicopata ficava me dizendo: tua hora chegou. Faz tuas orações. Eles tinham me escolhido para a terceira execução... Pela manhã, quando soube que ia ser executado, pedi para falar com Prins (um outro refém) para dar-lhe uma mensagem destinada a minha família. Eu queria explicar minha situação familiar. Meu filho adotivo, cujos pais tinham sido mortos, não se dava bem com minha mulher e naquela época eu passava por uma crise no casamento. Havia outras coisas também. De alguma forma, achava que tinha falhado como se humano. Expliquei tudo isto e os terroristas fizeram questão de ouvir-me. Quando o Senhor Vaders terminou sua conversa com o Senhor Prins e se disse pronto para morrer, o terrorista disse: Não, um outro vai primeiro” O Doutor Oschberg notou que o senhor Vaders não era mais um símbolo sem face. Era humano. Na frente de seus executores, ele se transformou de um símbolo a ser executado em um ser humano respeitado. Tragicamente, eles selecionaram outro passageiro. O senhor Vaders continua a explicar os efeitos da Síndrome sobre ele: “temos que lutar contra um certo sentimento de piedade pelos Mollucans. Sei que não é natural, mas de alguma maneira eles se tornam humanos. Davam-nos cigarros e cobertores. Mas também tínhamos noção que leram assassinos.Tenta- se sufocar isto em nosso consciente e eu sabia disto. Ao mesmo tampo eles também eram vítimas. Com o tempo eles seriam tão vítimas quanto nós, até mais. Víamos que o moral deles desmoronava. Vivenciávamos a desintegração de suas personalidades. O crescimento do desespero. As coisas fugindo por seus dedos. Não podíamos ajudar. Só sentir pena. Com pessoas que começaram sentindo-se deuses invencíveis, inexpugnáveis, acabaram diminuídos, desesperados, sentindo que tudo foi em vão.” Através do estudo desse fenômeno compreende-se como o tomador de refém encontra mais facilidade em causar dor nas suas vítimas quando as mesmas permanecem desumanizadas. Quando vítimas e algozes ficam juntos em um local, um prédio, um trem ou um avião desenvolve-se um processo de humanização. Quando um refém consegue criar empatia, mantendo sua dignidade, pode diminuir a agressividade do tomador de refém. Com o passar do tempo e o desenvolvimento de acontecimentos positivos, aumentam as chances de sobrevivência dos reféns. Outro exemplo clássico da instalação da Síndrome ocorreu nos campos de concentração da II Guerra Mundial, nos quais prisioneiros desumanizados identificavam-se com os guardas nazistas a ponto de imitar seus uniformes e suas ações opressivas (Kapos). Estes casos foram descritos por BETTLEREIN (1964), um psicanalista que foi prisioneiro de um destes campos. IV - INTERPRETAÇÃO PSICOLÓGICA Segundo ZANI e LEMOS (1996), “Síndrome de Estocolmo” é uma perturbação de ordem psicológica, paralela à chamada “transferência” que é o termo que a psicologia usa para se referir ao relacionamento que se desenvolve entre um paciente e o psiquiatra, e que permite que a terapia tenha sucesso. O paciente precisa acreditar que o médico pode ajudá-lo a fim de que o tratamento tenha êxito, e como resultado desse esforço, o paciente desenvolve o fenômeno da “transferência”. A “Síndrome de Estocolmo” parece ser uma resposta emocional e automática, provavelmente inconsciente ao trauma de ter sido uma vítima. Este fenômeno pode servir de várias maneiras ao negociador. A transferência psicológica ocorre em ambas as direções. Isto é, o tomador de refém pode desenvolver afinidades pelos reféns. Devido ao alto grau de estresse originado em uma situação crítica, laços emocionais podem se desenvolver rapidamente. As pessoas quando estão vivendo momento cruciais, costumam se apegar a qualquer coisa que lhe indique a saída, e é exatamente isso que ocorre com os reféns e os tomadores de reféns. Por ocasião de um evento crítico, tanto uns como outros estão sob forte tensão emocional. Por essa razão os reféns passam conscientemente a desejar que tudo dê certo para os tomadores de reféns, isto é, que eles consigam o dinheiro do resgate, que lhes sejam satisfeitas todas as exigências e que, afinal, possam fugir em paz, deixando os reféns com vida. Nesse processo mental, os reféns passam a considerar como totalmente indesejável toda e qualquer intervenção policial e, freqüentemente, os próprios valores sedimentados ao longo da vida costumam ser questionados e até mudados por essas pessoas. Dessa ânsia desesperada pelo bom sucesso dos tomadores de reféns para a simpatia, a admiração, ou bem-querer, é um passo. Sabe-se que no processo de desenvolvimento psíquico humano são esperadas situações de crise, as quais podem-se classificar em evolutivos e acidentais. A “Síndrome de Estocolmo” seria considerada acidental. Por definição, crise é uma resposta a uma situação ansiogênica e desagradável que é experimentada como um estado doloroso. Por isso, tende a mobilizar reações poderosas, para ajudar a pessoa a aliviar o desconforto e retornar ao estado de equilíbrio emocional existente anteriormente. Se isto acontece, a crise pode ser superada mas, além disso, a pessoa poderá desenvolver o aprendizado adaptativo que o habilite a utilizá-lo no futuro. Com este objetivo, a psique lança mão de defesas efetuadas pelo Ego perante os perigos advindos do Id, do Superego e da realidade externa. Denomina-se defesas como uma série de ações reativas, carregadas de ansiedade, que objetivam o alívio do perigo e procuram manter a homeostase intrapsíquica. Entende-se que tais mecanismos de defesa classificam-se de duas formas: as chamadas defesas bem sucedidas, que produzem a cessação daquilo que se rejeita e as chamadas defesas ineficazes que provocam a repetição do processo de rejeição, buscando proteger-se de estímulos internos e externos impedindo o afloramento dos impulsos rejeitados. Não se deve perder de vista que os mecanismos de defesa não representam por si processo patológico por excelência. Eles intervêm, habitualmente, na busca do ajustamento, adaptação e equilíbrio da personalidade. Contudo, verificam-se estruturas defensivas típicas em determinados quadros psicopatológicos. Atenta-se que as diferenças entre o normal e o patológico estão assentadas no grau de intensidade, variedade e a freqüência com que se utilizam os mecanismos de defesa, ocorrendo uma ligação entre a conduta defensiva e o contexto situacional onde ela acontece. V - APRESENTAÇÃO DE CASOS 5.1 - CASO “FRANCE AIR LINES” Como exemplo cita-se o seqüestro de um avião da France Air Lines, em 1976, que, ao decolar do aeroporto de Atenas, foi desviado para Entebe, em Uganda, por terroristas da Frente Popular para a Libertação da Palestina. No momento em que a SAVAT (unidade especializada do exército israelense) iniciou o assalto tático, ainda na parte externa ao local de cativeiro, o terrorista que vigiava os reféns mais de perto, virou-se em direção aos mesmos com sua metralhadora como se fosse atirar. Entretanto, a primeira pessoa com a qual o terrorista se deparou foi o refém que, momentos antes, havia travado um diálogo com ele sobre qual seria a diferença entre o referido terrorista, que era alemão, e os seus antepassados nazistas, pois apesar do terrorista ter alegado estar defendendo uma causa nobre, ele era, como na época da Segunda Grande Guerra, mais um alemão com uma arma na mão exterminando judeus. Tais colocações por parte do refém provocaram uma certa confusão na cabeça do terrorista que acabou hesitando no seu intento de execução dos reféns. Tal hesitação, que não durou mais que cinco segundos, foi o suficiente para que o SAVAT penetrasse no cativeiro e alvejasse o terrorista alemão sem que o mesmo tivesse tempo de, sequer, ferir um único refém. Nota-se, portanto, que não se está lidando com uma ciência exata, mas com emoções e sentimentos diversos que, por sua própria natureza, são extremamente subjetivos, razão pela qual acredita-se ser extremamente imprudente e perigoso estabelecer conceitos definitivos e perfeitamente mensuráveis. 5.2 - CASO BANESTADO Em 1987, durante um assalto à agência do banco BANESTADO, em Londrina/PR, os assaltantes, com a chegada inopinada da polícia, fizeram como reféns dezenas de pessoas que se encontravam no interior do bando. Ao final da crise, que durou quase três dias, os assaltantes lograram fugir, levando consigo todo o produto do roubo. Todos os reféns liberados sofreram os efeitos da “Síndrome de Estocolmo”, tendo feito muitos elogios aos assaltantes, descrevendo-os como pessoas “muito simpáticas,, educadas e inteligentes”.Um capitão da PM/PR que, juntamente com uma jovem foi levado como refém durante a fuga, narrou-nos que durante o trajeto da fuga, no interior do veículo, a jovem pôs de lado toda a pudícia e ofereceu-se a um dos bandidos, dizendo-lhe que se apaixonara por ele e que gostaria de fazer amor com ele, ali ou em qualquer lugar, pois temia que ele viesse a morrer e ela não pudesse realizar esse desejo. 5.3 - CASO FLÁVIA Mais recentemente, em junho de 1991, a estudante carioca Flávia de Oliveira Teixeira foi seqüestrada na ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Liberada após três dias de cativeiro e mediante o pagamento de milhares de dólares como resgate, ela apresentou sintomas bastante evidentes de que desenvolveu o fenômeno da “Síndrome de Estocolmo”. Segundo noticiado na mídia, a ex-refém não estava revoltada pela violência que sofreu e, ao contrário, fez defesa apaixonada de seus seqüestradores, que, segundo ela, eram “gente de bom coração, fruto de uma sociedade gananciosa”. A referida jovem, desenvolveu até uma especial relação de carinho para com um dos seqüestradores, de nome Jorge, que, como ela própria narra, ficou apaixonado e chegou a se deitar ao seu lado, no tapete, e lhe acariciou os cabelos durante o cativeiro. Segundo ela, foi também esse seqüestrador que lhe deu um anel de prata, que ela agora usa na mão direita e não pretende mais tirar. CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente monografia visou demonstrar que a “Síndrome de Estocolmo” é um fator importantíssimo no gerenciamento de crises. O gerente, os negociadores, o pessoal do grupo especializado em ações táticas, enfim, todos aqueles que de uma forma ou de outra efetivamente contribuem para que as situações críticas tenham um desfecho favorável, contam com esses preciosos conhecimentos que, se bem aplicados, podem contribuir em muito para a preservação da vida dos reféns, bem como da dos tomadores de reféns e policiais. A justificativa desta monografia foi o de demonstrar a importância do conhecimento do assunto por parte daqueles que têm por obrigação constitucional enfrentar situações críticas. No desenvolvimento do trabalho monográfico pôde-se concluir que o refém e o tomador de refém, quando em situações críticas, adquirem mudanças comportamentais evidentes, mudanças essas denominadas como sendo “Síndrome de Estocolmo”. Por ser, em decorrência da conclusão de nossos estudos, uma manifestação bilateral, ou seja, que atinge tanto o tomador de refém como o refém, consideramos que a manifestação da referida Síndrome em uma situação de crise é fator favorável ao seu gerenciamento. Através dessas circunstâncias conclui-se que o trabalho dos policiais envolvidos é facilitado na medida em que conhecem os efeitos da Síndrome e aplicam esses conhecimentos na resolução de ocorrências com reféns. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASSET, DONALD . Tactical concepts., Quantico, VA, FBI Nacional Academy, SOARU, nov 1983. BOLZ JÚNIOR, FRANK . How to be a Hostage and live. Lyle Stuart Inc., Secaucus, New Jersey, 1987. FUSELIER, DWAYNE. The tactical role of the negotiator. Washington, FBINA, SOARU, Crisis Management Handout, 1988. FUSELIER, DWAYNE & NOESNER, GARY W. Confronting the terrorist hostage taker. FBI law Enforcemente Bulletin, FBI, v 59, n.9, july 1990. KUPPERMAN, ROBERT. M. et al. 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