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Programa de Pós-Graduação EAD UNIASSELVI-PÓS FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Autoras: Daniela Viviani Rosimar Bizello Müller CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Dr. Malcon Tafner Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Coordenador da Pós-Graduação EAD: Prof. Norberto Siegel Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Profa. Hiandra B. Götzinger Montibeller Profa. Izilene Conceição Amaro Ewald Profa. Jociane Stolf Revisão de Conteúdo: José Constantino Sommer Revisão Gramatical: Tereza Pfiffer Franco Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci Copyright © Editora Grupo UNIASSELVI 2009 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. 370 V859f Viviani, Daniela. Fundamentos da Educação Ambiental / Daniela Viviani [e] Rosimar Bizello Müller. Centro Universitário Leonardo da Vinci. – Indaial: Grupo UNIASSELVI, 2009.x ; 137 p.: il. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7830-213-9 1. Educação Ambiental 2. Meio Ambiente I. Centro Universitário Leonardo da Vinci. II. Núcleo de Ensino a Distância III. Título É mestranda pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialista em Educação Ambiental (2007) pela Faculdade do SENAC - FATEC (Florianópolis - SC). Possui graduação (licenciatura plena) em Geografia (2001) pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), bacharelado em Geografia (2003) também pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atualmente, atua como Tutora do Curso de Geografia do NEAD (Núcleo de Ensino a Distância) do Centro Universitário Leonardo da Vinci (UNIASSELVI). Rosimar Bizello Müller Possui graduação em Ciências Biológicas, pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (2004) e mestrado em Biologia Vegetal, pela Universidade Federal de Santa Catarina (2007). Atualmente, atua como Tutora do Curso de Ciências Biológicas do NEAD (Núcleo de Ensino a Distância) do Centro Universitário Leonardo da Vinci (UNIASSELVI). Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Ecofisiologia Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: micropropagação vegetal e germinação de pteridófitas. Daniela Viviani Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................ 7 CAPÍTULO 1 Fundamentos da Ecologia ............................................................ 9 CAPÍTULO 2 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico .... 31 CAPÍTULO 3 A Crise Ambiental ......................................................................... 67 CAPÍTULO 4 Histórico da Educação Ambiental ............................................. 99 APRESENTAÇÃO Olá, vamos iniciar mais uma disciplina! Contaminação dos cursos de água, poluição atmosférica, devastação de florestas, caça indiscriminada, uso excessivo de agrotóxicos, falta de gerenciamento adequado para o excesso de lixo produzido... Você já notou alguns desses exemplos de agressões ao meio ambiente em sua cidade ou região? Provavelmente, sim! E as soluções para essas questões ambientais, são percebidas com a mesma facilidade? Nosso relacionamento com a natureza, que teve início com um mínimo de interferência nos ecossistemas, hoje está baseado numa forte pressão exercida sobre os recursos naturais. Assim, é indispensável nossa mudança de comportamento em relação à natureza, sendo que a Educação Ambiental (EA) surge como uma ferramenta e/ou estratégia para enfrentarmos a crise ambiental, e, por que não dizer, social e cultural que estamos vivendo. Durante nosso estudo sobre os Fundamentos da Educação Ambiental, no primeiro capítulo você terá a oportunidade de relembrar e/ou conhecer os conceitos básicos da Ecologia para, ao longo do estudo desta disciplina, avaliar o alto grau de interdependência que existe entre os diversos componentes da biosfera. E, dessa forma, valorizar o papel da Educação Ambiental para a manutenção de um ambiente de suporte para os recursos naturais e, consequentemente, para nós. No segundo capítulo, veremos o processo evolutivo das relações entre sociedade e a natureza, verificando como o conceito de natureza foi sendo produzido, principalmente a partir dos avanços da ciência, resultando em significativas rupturas nas relações sociais e na relação sociedade-natureza. Entre outros aspectos, também analisaremos as transformações socioambientais aliadas ao desenvolvimento econômico, percebendo as razões que conduzem as empresas e o setor público a investirem em gestão ambiental e responsabilidade socioambiental. No terceiro capítulo, estudaremos as configurações da crise ambiental na atualidade e as razões que levaram a este confronto entre meio ambiente e desenvolvimento. Vamos conhecer a amplitude desta crise, através dos problemas ambientais globais, e verificar a urgência de um processo contínuo de Educação Ambiental (EA), envolvendo todos os setores sociais. Para finalizar, no quarto e último capítulo desta disciplina, você conhecerá os princípios básicos da Educação Ambiental e a evolução dos movimentos ambientalistas, bem como suas diferentes formas de manifestação. Analisaremos, ainda, as tendências da Educação Ambiental no que tange, principalmente, à sustentabilidade, como uma nova perspectiva para conduzir as relações sociedade-natureza. Bons estudos!! As autoras CAPÍTULO 1 Fundamentos da Ecologia A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo, você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 9 Definir Ecologia e conhecer os principais conceitos relacionados ao tema. 9 Identificar as relações existentes entre os seres vivos e entre eles e o ambiente natural. 9 Compreender a complexidade dessas relações e reconhecer a interdependência que existe entre os componentes de um ecossistema. 11 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 Contextualização Ao começarmos nossos estudos, gostaríamos de fazer-lhe uma pergunta: Você conhece a origem da palavra ecologia? Derivada de duas palavras gregas: óikos (casa) e logos (estudo), ecologia significa literalmente o “estudo da casa”. Preocupada em estudar as relações existentes entre os seres vivos e destes com o meio ambiente, a Ecologia é uma área que está em pleno desenvolvimento e torna- se cada vez mais importante, devido à interferência humana sobre os ecossistemas. Entender a complexidade das relações que existem entre o meio biótico (seres vivos) e destes com o meio abiótico (fatores que atuam sobre os seres vivos, tais como: luz, temperatura, tipo de solo, salinidade, variações de pressão da água e do ar, entre outros, é uma ferramenta fundamental para gerar mudança de atitude diante dos problemas ambientais que nos cercam. Vamos fazer uma pausa e refletir sobre os problemas ambientais! Na sua região, quais problemas ambientais são mais inquietantes? A coleta do lixo? A ausência de programas de reciclagem? Excesso de poluição? Você sabe a dimensão do desequilíbrio ecológico que a ausência de um programa de coleta seletiva e reciclagem, por exemplo, pode trazer para o meio ambiente? Os desequilíbrios ecológicos, observados nos últimos tempos, podem ser amenizados à medida em que passamos a conhecer a estrutura e o funcionamento dos ecossistemas e nos tornamos capazes de adotar procedimentos racionais de utilização dos recursos naturais. Você lembra do conceito de ecossistema? Ecossistema é uma unidade ecológica importante, pois equivale à somatória dos componentesbióticos e os componentes abióticos. Assim, neste capítulo, você terá a oportunidade de relembrar e/ou conhecer os conceitos básicos da Ecologia para, ao longo do estudo desta disciplina, avaliar o alto grau de interdependência existente entre os diversos componentes da biosfera. E, dessa forma, valorizar o papel da Educação Ambiental para a manutenção de um ambiente de suporte para os recursos naturais e, consequentemente, para nós. 12 Fundamentos da educação ambiental O meio ambiente e a ecologia passaram a ser uma preocupação em todo o mundo, em meados do século XX. Porém, foi ainda no século XIX , por volta de 1869, que o biólogo alemão, Ernst Haeckel, propôs pela primeira vez o termo ecologia. (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006). Segundo Pinto-Coelho (2000, p. 12): Apesar de seu desenvolvimento rápido, a ecologia ainda pode ser considerada uma soft science, assim como a economia, para a qual ainda não existe uma fundamentação teórica rígida. Não é de se estranhar, portanto, que a ecologia seja definida de diferentes formas, segundo diferentes autores. O termo soft science, segundo Pinto-Coelho (2000), refere-se a uma ciência juvenil ainda sem corpo teórico rigidamente determinado. Contudo, tendo em vista que o objetivo deste capítulo é trazer a você uma noção básica sobre esta ciência, vamos defini-la, de acordo com o que foi proposto pelo próprio fundador do termo. Parafraseando Ernest Haeckel, podemos descrever ecologia como o estudo científico das interações entre organismos e deles com o ambiente (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006). Assim, a importância de conhecermos os fundamentos desta ciência consiste em entendermos que fazemos parte do meio ambiente. Somos seres participantes de todas essas interações, sejam elas com outros organismos ou, principalmente, com o meio físico. Atualmente, temos ouvido e lido muito sobre problemas ambientais e, com certeza, neste momento você deve ter se lembrado de vários, certo? Porém, pouco se tem feito efetivamente para solucionar, ou pelo menos amenizá-los. Precisamos mudar nossas atitudes e entender que a preservação dos ecossistemas e dos recursos naturais está intimamente ligada à nossa sobrevivência. E a condição sine qua non para isto se resume em educação; precisamos urgentemente de educação ambiental para todos. Segundo Fernandez (2004, p. 13), “Mais do que nunca, é preciso conhecer e entender para conservar. Mas para conservar é preciso também amar”. Sob esta ótica, vamos compreender que exercemos um papel importante sobre os ecossistemas, seja como agentes transformadores ou conservadores dos recursos naturais. Por volta de 1869, que o biólogo alemão, Ernst Haeckel, propôs pela primeira vez o termo ecologia. Parafraseando Ernest Haeckel, podemos descrever ecologia como o estudo científico das interações entre organismos e deles com o ambiente. Somos seres participantes de todas essas interações, sejam elas com outros organismos ou, principalmente, com o meio físico. 13 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 Você já leu o livro “O poema imperfeito: crônicas de Biologia, conservação da natureza e seus heróis”? Seu ponto de partida é o de que só se pode conservar a natureza se isto for feito para o bem da própria natureza. Esta obra apresenta, em textos independentes, mas relacionados, reflexões sobre o papel do homem nas extinções pré-históricas e sobre a vida de importantes cientistas subestimados ao longo da história da ciência. (FERNANDEZ, F. A. dos Santos. O poema imperfeito: crônicas de Biologia, conservação da natureza, e seus heróis. 2. ed. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2004.) Níveis de Organização A Ecologia, assim como as demais ciências, subdivide seu objeto de estudo para, dessa forma, facilitar a compreensão das partes que compõem o todo. Para Odum e Barret (2007), talvez a melhor maneira de delimitar a ecologia moderna seja considerar o conceito de níveis de organização. Em cada nível, ocorrem interações com o ambiente físico, formando sistemas funcionais característicos. Podemos entender nível como um conjunto de entidades, sejam elas moléculas, genes, células, tecidos, órgãos, ou mesmo, espécies agrupadas, de forma hierárquica com uma escala crescente de complexidade. Para Ricklefs (2003, p. 2), “Cada sistema ecológico menor é um subconjunto de um próximo maior e, assim, os diferentes tipos de sistemas ecológicos formam uma hierarquia de tamanho”. Observe a figura 1 e veja um exemplo de níveis de organização biológica. Figura 1 – Níveis de organização biológica Fonte: Disponível em: <http://www.editorasaraiva.com.br/EDDID/CIENCIAS/ explorando/images/7_niveis_org.jpg>. Acesso em: 8 maio 2009. Cada sistema ecológico menor é um subconjunto de um próximo maior, e assim, os diferentes tipos de sistemas ecológicos formam uma hierarquia de tamanho”. 14 Fundamentos da educação ambiental A ecologia preocupa-se, principalmente, com os níveis de organização situados acima do organismo: população – comunidade – ecossistema - biosfera (ODUM; BARRET, 2007). Porém, “estudos de natureza ecofisiológica ou compartamental estão frequentemente voltados ao acompanhamento individual dos organismos dentro de uma população”. (PINTO-COELHO, 2000, p. 14). Neste tópico, vamos analisar os níveis de organização a partir dos que são considerados os principais objetos de estudo da Ecologia e conceituar alguns termos importantes. Se você parar por alguns instantes para observar a natureza à sua volta, poderá perceber que os organismos não existem de forma isolada. Além de estabelecerem uma série de relações entre si, os indivíduos relacionam- se também com o meio em que vivem. O conjunto desses indivíduos da mesma espécie e que vivem em uma determinada área forma uma população. Esta população, por sua vez, também não se encontra totalmente isolada de outras, sendo que, um conjunto de populações forma uma comunidade. Essas comunidades interagem com fatores físicos, químicos e climáticos do meio onde vivem, para formar os ecossistemas. Por fim, o conjunto de todos os ecossistemas forma a biosfera. Vamos recordar a definição de espécie: trata-se um conjunto de indivíduos capazes de se reproduzirem, gerando descendentes férteis. Ricklefs (2003) considera a biosfera o sistema ecológico final, no qual os ecossistemas estão todos interligados. Podemos concluir, então, que a biosfera, lugar onde encontramos vida no planeta, é o maior sistema biológico. Você conhece a teoria de Gaia? James Lovelock e Lynn Margulis formularam a teoria de Gaia que, na mitologia grega, quer dizer deusa Terra. Segundo esta teoria, os organismos, além de interagirem entre si e com o meio abiótico, são capazes de modificar o meio, tornando-o mais adequado a sua sobrevivência. Ou seja, a Terra seria um grande organismo vivo, capaz de produzir energia para seu perfeito funcionamento e de se autorregular. 15 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 Acesse: http://www.if.ufrgs.br/public/ensino/vol6/n3/v6_n3_ a4.htm. Neste site, você vai encontrar um artigo, cujo título é “Um olhar epistemológico sobre a transposição didática da teoria Gaia”. Este texto, que estará disponível também no material de apoio da disciplina, faz uma abordagem sobre a cientificidade da teoria de Gaia e contribui para uma apreciação crítica do papel que esta teoria poderia desempenhar no ensino de Biologia e no tratamento do tema transversal “meio ambiente”. Componentes Estruturais de um Ecossistema Ao estudarmos a organização do mundo vivo, por meio dos níveis de organização, percebemos que a biosfera é formada pelo conjunto dos ecossistemas. O ecossistema é, portanto, uma unidade de estudo, em Ecologia,em que se busca entender como esse sistema ecológico funciona e de que maneira se mantém em equilíbrio. Um ecossistema pode apresentar dimensões muito variáveis. Podemos citar, como exemplo de sistema ecológico, a Floresta Amazônica ou uma lagoa. Independente do tamanho, fatores bióticos e abióticos são os componentes estruturais básicos de qualquer ecossistema e estão intimamente inter-relacionados. Em todos eles ocorre troca de matéria e energia. Além disso, cada ecossistema faz intercâmbio de matéria e energia com ecossistemas vizinhos. Para Ricklefs (2003, p. 3) A importância da troca de matéria entre os ecossistemas dentro da biosfera é acentuada pelas consequências globais das atividades humanas. Por exemplo, os rejeitos agrícolas e industriais se espalham para bem longe dos seus pontos de origem, afetando todas as regiões da terra. Na seção a seguir, veremos os componentes estruturais que compõem os ecossistemas. Fatores bióticos e abióticos são os componentes estruturais básicos de qualquer ecossistema e estão intimamente inter-relacionados. 16 Fundamentos da educação ambiental Componentes Bióticos Os componentes bióticos em um ecossistema são formados por todos os seres vivos que ali se encontram. Podemos dividir esses componentes em dois grandes grupos, de acordo com o modo pelo qual se alimentam ou obtêm energia: • autótrofos: representados pelos seres fotossintetizantes e quimiossintetizantes, sendo considerados os produtores dos ecossistemas; • heterótrofos: representados pelos consumidores e decompositores. Você se lembra do termo quimiossintetizante? Este termo refere- se aos organismos que sintetizam seu alimento orgânico a partir de energia obtida em reações de oxirredução de substâncias minerais. Para saber mais sobre essas reações, acesse o site: http://educar. sc.usp.br/quimapoio/nox.html. Assim, os componentes bióticos de um ecossistema em equilíbrio são produtores, consumidores e decompositores. Os seres vivos precisam de energia para manter seu organismo em funcionamento e é por meio dos alimentos que conseguem essa energia. Os produtores (na sua maioria vegetais) são seres vivos que conseguem produzir seu próprio alimento, a partir de compostos inorgânicos obtidos do meio ambiente. Você lembra o processo da fotossíntese? É por este processo que as plantas sintetizam seu próprio alimento orgânico, a partir de compostos inorgânicos simples (gás carbônico, água e sais minerais), na presença de luz (fonte de energia). E de quebra, ainda absorvem o gás carbônico em excesso no ar. Os consumidores, seres heterotróficos, não possuem essa capacidade de produzir seu próprio alimento. Assim, eles se alimentam de produtores ou então de outros consumidores. Os componentes bióticos de um ecossistema em equilíbrio são produtores, consumidores e decompositores. 17 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 Os consumidores podem ser: - primários, quando se alimentam de produtores, como é o caso dos herbívoros; - secundários, quando se alimentam de consumidores primários, como os carnívoros; - terciários, quando se alimentam de consumidores secundários, constituindo o terceiro nível trófico e, assim, sucessivamente (figura 2). Os decompositores, importantes componentes dos ecossistemas, são consumidores que se nutrem de animais e plantas mortos. Representados por organismos microscópicos (bactérias e fungos), sua função é a reciclagem da matéria orgânica através da decomposição. Por meio deste processo, esses recicladores da natureza restituem compostos inorgânicos ao meio ambiente, tornando-os novamente disponíveis para os produtores. Figura 2 – Componentes bióticos e níveis tróficos Fonte: As autoras Os níveis tróficos, mostrados na figura 2, representam os elos de uma cadeia alimentar. Esta classificação (em I, II, III, e assim por diante) está diretamente relacionada segundo a fonte de energia assimilada. Os componentes abióticos são fatores químicos e/ou físicos que atuam diretamente sobre os seres vivos. 18 Fundamentos da educação ambiental O termo trofismo ou trófico é de origem grega (trophe) e significa alimentação. Voltaremos a falar sobre níveis tróficos quando abordarmos cadeia alimentar e fluxo de energia. Componentes Abióticos Os componentes abióticos são fatores químicos e/ou físicos que atuam diretamente sobre os seres vivos. Podemos citar, como exemplos: água, temperatura, salinidade, luminosidade, tipo de solo, pH, etc. Em resumo, são os fatores “sem vida”, presentes no meio ambiente. Ricklefs (2003, p. 23) afirma a respeito: Frequentemente falamos do vivo e do não-vivo como opostos. Mas, embora possamos facilmente distinguir entre esses dois grandes reinos do mundo natural, eles não existem isoladamente um do outro. A vida depende do mundo físico. Os seres vivos também afetam o mundo físico: solo, atmosfera, lagos e oceanos, e muitas rochas sedimentares devem suas propriedades em parte às atividades das plantas e animais. Nesta interdependência, que ocorre entre os componentes bióticos e abióticos, os seres vivos vivem em uma busca constante das condições adequadas à sua sobrevivência. É necessário, muitas vezes, tolerar extremos de temperatura, luminosidade e outros fatores físicos que influenciam seu crescimento, reprodução, características, além de sua distribuição por diferentes locais. Para aprofundar o conteúdo relacionado aos fatores abióticos, sugerimos a leitura do capítulo 2, do livro A economia da natureza. Este capítulo traz informações sobre o ambiente físico e explora os atributos do ambiente que trazem mais consequências para a vida. (RICKLEFS, R. E. A economia da natureza. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003). Atividade de estudo Analise a importância de conhecermos a estrutura e o funcionamento dos ecossistemas. 19 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Cadeia, Teia Alimentar e Fluxo de Energia A energia e a matéria (necessárias para que um ser vivo realize suas atividades vitais) são basicamente obtidas através dos alimentos. Assim, a “[...] sequência das relações tróficas pela qual a energiapassa através do ecossistema é chamada de cadeia alimentar”. (RICKLEFS, 2003, p. 118). O fluxo energético que ocorre em uma cadeia alimentar é sempre no sentido: A “[...] sequência das relações tróficas pela qual a energia passa através do ecossistema é chamada de cadeia alimentar”. (RICKLEFS, 2003, p. 118). 20 Fundamentos da educação ambiental Isso porque são os produtores os únicos capazes de produzir alimento, conforme vimos anteriormente. Você deve estar pensando: “... essas relações alimentares que ocorrem na natureza não são tão simples assim”. Seu pensamento está correto! Em um ecossistema, existem várias cadeias alimentares que se interconectam, formando uma verdadeira rede complexa de transferência de matéria e energia, a qual chamamos de teia alimentar (figura 3). Perceba que as relações tróficas que ocorrem na natureza correspondem à teia; a cadeia alimentar só existe como uma parcialidade da teia para fins didáticos. Lembrando: níveis tróficos são os elos que compõem uma cadeia alimentar. Assim, se tomarmos, como exemplo, uma cadeia alimentar simples, composta por produtores, herbívoros e carnívoros, os produtores ocupam o primeiro nível trófico. Os herbívoros, que são os consumidores primários, formam o segundo nível trófico e os carnívoros (consumidores secundários) formam o terceiro nível trófico. Observe novamente a figura 2. Figura 3 - Teia alimentar Fonte: Disponível em: <http://www.rainhadapaz.com.br/projetos/ciencias/ecologia/ bonito/Cap%20II/Ex%20de%20Teia%20alimentar.JPG>. Acesso em: 10 maio 2009. 21 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 A cada transferência que ocorre, ou a cada passagem de nível trófico, parte da energia perde-se sob a forma de calor e parte é utilizada pelo organismo na realização dos processos vitais. Assim, quanto menor a cadeia alimentar, ou quanto mais próximo o organismo estiver do início da cadeia, maior será a energia disponível à população (ODUM, 1988). Seguindo este pensamento, podemos concluir que o fluxo de energia é decrescente (diminui a cada nível trófico) e unidirecional já que essa energia liberada não é reaproveitada. Veja na figura 4 como Odum representou o fluxo de energia através de um diagrama, mostrando três níveis tróficos. Segundo Ricklefs (2003, p. 118): Para cada nível trófico, este diagrama mostra uma caixa representando a biomassa (ou seu equivalente energético) de todos os organismos que compõem aquele nível trófico num determinado momento. Por exemplo, uma caixa poderia representar todas as plantas ou todos os herbívoros em um dado ecossistema. Sobrepostas a estas caixas estão as vias que representam o fluxo de energia através daquele nível trófico. Figura 4 – Modelo universal de E. P. Odum do fluxo de energia ecológico. Fonte: Ricklefs (2003, p. 119) Fique atento ao observar a figura 4, que apresenta: (a) um único nível trófico; (b) representação de uma cadeia alimentar. Quanto menor a cadeia alimentar, ou quanto mais próximo o organismo estiver do início da cadeia, maior será a energia disponível à população o fluxo de energia é decrescente (diminui a cada nível trófico) e uni-direcional já que essa energia liberada não é reaproveitada. 22 Fundamentos da educação ambiental Através deste fluxograma, percebemos a maneira pela qual o fluxo de energia diminui a cada nível trófico sucessivo. Como vimos, a energia segue um caminho unidirecional, não podendo mais ser reutilizada pelos organismos. Porém, a matéria sempre é reaproveitada através dos ciclos biogeoquímicos, que possibilitam este caminho cíclico da matéria na natureza. Podem ser considerados alguns dos principais ciclos: o da água, do carbono, do oxigênio e do nitrogênio. Não iremos adentrar no campo destes ciclos, porém, segue uma dica do Leo para que a construção do seu conhecimento não fique limitada a estas páginas. Acesse o site: http://www.iqsc.usp.br/iqsc/servidores/docentes/ pessoal/mrezende/arquivos/EDUC-AMB-Ciclos-Biogeoquimicos.pdf. Neste endereço eletrônico, você encontrará um material de estudo intitulado “A importância da compreensão dos ciclos biogeoquímicos para o desenvolvimento sustentável”. O objetivo deste material é propiciar ao leitor conhecimento básico a respeito dos ciclos biogeoquímicos. O arquivo estará disponível também no material de apoio da disciplina. Atividade de estudo: Construa duas cadeias alimentares. De uma delas você participa como consumidor primário, e da outra, como consumidor terciário. Responda: em qual delas você obtém maior quantidade de energia e por que isso ocorre? 1ª cadeia (você como consumidor primário): ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 23 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 2ª cadeia (você como consumidor terciário): ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Relações Ecológicas Desde o início deste capítulo, temos ressaltado a importância de compreendermos as relações existentes entre os seres vivos e destes com o meio onde vivem. É fato que os organismos não vivem de maneira isolada nos 24 Fundamentos da educação ambiental ecossistemas, muito pelo contrário, estabelecem uma série de relações. Neste tópico, vamos conhecer importantes interações que podem ser observadas entre os seres vivos. Para Odum (1988, p. 233): Uma população muitas vezes afeta o crescimento ou a taxa de mortalidadede outra população. Assim, os membros de uma população podem alimentar-se de membros de outra população, competir por alimento, excretar dejetos nocivos ou interferir de alguma outra forma com a outra população. Igualmente, as populações podem ajudar uma à outra, a interação sendo ou unidirecional ou recíproca. Essas interações podem ser classificadas em harmônicas, quando não há prejuízo para nenhum dos indivíduos da associação; ou desarmônicas, nas quais pelo menos um indivíduo da associação sofre algum tipo de desvantagem. Além desta classificação, percebemos que essas relações ocorrem entre indivíduos da mesma espécie, classificadas como intraespecíficas, ou, entre indivíduos de espécies diferentes, classificadas como interespecíficas. Acompanhe como essas relações estão esquematizadas, na figura 5. Figura 5 – Relações ecológicas Fonte: As autoras Vejamos, de uma maneira simplificada, o que ocorre em cada uma dessas relações (LOPES; ROSSO, 2005): Essas interações podem ser classificadas em harmônicas, quando não há prejuízo para nenhum dos indivíduos da associação, ou desarmônicas, onde pelo menos um indivíduo da asso-ciação sofre algum tipo de desvantagem. Além desta classificação, podemos perceber que essas relações podem ocorrer entre indivíduos da mesma espécie, classificadas como intra- específicas, ou, entre indivíduos de espécies diferentes, classificadas como interespecíficas. 25 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 a) Harmônicas entre espécies diferentes • Mutualismo: ambos os organismos se beneficiam e mantêm uma relação de dependência. Exemplo: liquens (fungos e algas). • Inquilinismo: um indivíduo geralmente obtém proteção quando está associado a outro, sem lhe causar prejuízo. Exemplo: plantas epífitas (bromélias e árvores). • Protocooperação: assim como no mutualismo, nesta associação ambos os organismos se beneficiam, entretanto, podem viver separadamente. Exemplo: pássaros que pousam sobre o gado nas pastagens para se alimentar dos carrapatos. • Comensalismo: nesta associação, assim como no inquilinismo, apenas um organismo se beneficia, sem causar prejuízo ao outro. A diferença é que o comensalismo sempre ocorre em busca de alimento. Exemplo: o tubarão e a rêmora, que se aproveita dos restos da presa atacada pelo tubarão. Atenção, para não confundir! As plantas epífitas, como as bromélias, não podem ser confundidas com as plantas parasitas, como o cipó-chumbo, que você verá adiante. No epifitismo (inquilinismo), que é uma relação harmônica, uma das espécies se fixa e/ou se abriga na outra sem lhe causar prejuízo. b) Harmônicas dentro da mesma espécie • Colônias: associação de indivíduos da mesma espécie unidos anatomicamente. Exemplo: corais. • Sociedades: associação de indivíduos da mesma espécie, separados anatomicamente. Exemplo: insetos sociais, como abelhas, formigas, cupins. c) Desarmônicas entre espécies diferentes • Competição Interespecífica: nesta relação, duas ou mais populações de espécies diferentes apresentam nichos ecológicos semelhantes e disputam os mesmos recursos do meio, quando ele não é suficiente para todos. Exemplo: diferentes espécies que disputam pelo mesmo alimento. • Predação: ocorre quando um indivíduo captura e mata o outro, de outra espécie, para se alimentar. Exemplo: gaviões, que comem cobras. • Parasitismo: o parasita vive no corpo de um hospedeiro (indivíduo de outra 26 Fundamentos da educação ambiental espécie), do qual retira seu alimento. Exemplo: cipó-chumpo; vírus e vermes, em humanos. • Amensalismo: nesta relação, os indivíduos de uma população secretam substâncias que inibem o crescimento de indivíduos de outras espécies. Exemplo: ação antibiótica de certos fungos, que impedem o crescimento de bactérias (penicilina). d) Desarmônicas dentro da mesma espécie • Competição intraespecífica: assim como na competição interespecífica, nesta relação os indivíduos da mesma espécie competem por recursos naturais (alimento, luz, espaço) não disponíveis em quantidades suficientes no seu habitat. • Canibalismo: o indivíduo mata o outro da mesma espécie para se alimentar. Algum termo lhe pareceu estranho neste tópico? Vamos esclarecer dois conceitos importantes da Ecologia: - habitat é o lugar específico onde uma determinada espécie pode ser encontrada; - nicho ecológico é o conjunto de atividades que um organismo desempenha no ecossistema, ou seja, seu papel no sistema ecológico (relações alimentares, como se reproduz, seus hábitos, estratégias de sobrevivência, etc) (RICKLEFS, 2003). • As mais raras espécies. Nesta obra, a autora focaliza as espécies e os habitats raros, exóticos e ameaçados de extinção. Apresenta o mico-leão-dourado, das florestas brasileiras, as focas-monjas, no Pacífico, e as borboletas monarcas, entre outras. Analisa os ecossistemas em extinção da Amazônia, da Flórida e o do Japão. (ACKERMAN, Diane. As mais raras espécies. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2002.) • A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Neste livro, Capra propicia uma síntese de descobertas científicas recentes, como a teoria da complexidade, a teoria Gaia, a teoria do caos e outras explicações das propriedades de organismos, sistemas sociais e ecossistemas. Abandonando um 27 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 pouco as análises metafísicas, Capra apresenta uma inspirada descrição dos processos biológicos, químicos, físicos e até sociais, que regem a intrincada teia da vida. Com casos simples, exemplifica a complexa dinâmica envolvida nos processos de todos os seres vivos, inclusive o homem. (CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. 6. ed. São Paulo: Cultrix, 2001). Atividade de estudo: Em um passeio pela zona rural, você pode observar muitas relações ecológicas acontecendo simultaneamente. Ao longo deste passeio, procure anotar suas observações. Veja suas anotações: - bois e gafanhotos alimentando-se de capim; - orquídeas, liquens e erva-de-passarinho, em troncos de árvores; - lagartos caçando insetos; - ao lado de vários cupinzeiros, aves retirando carrapatos do dorso dos bois; Com base no que acabamos de estudar e no que você observou em seu passeio, identifique: a) Exemplos de parasitismo: _______________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 28 Fundamentos da educação ambiental b) Exemplos de relação interespecífica, em que ambas as espécies se benefici-am: __________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ c) Exemplos de relação harmônica intraespecífica: ______________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 29 Fundamentos da EcologiaCapítulo 1 Algumas Considerações Neste capítulo, resgatamos os principais conceitos da Ecologia, partindo do início da utilização do termo, até chegar às relações que ocorrem entre os organismos. Vimos que o mundo vivo se organiza através de níveis e que o ecossistema, unidade básica no estudo da Ecologia, é constituído por componentes bióticos (seres vivos) e abióticos (fatores químicos e físicos que atuam diretamente sobre os seres vivos). Você também pode observar, durante o estudo deste capítulo, que as relações alimentares que ocorrem entre os organismos são bastante complexas, formando verdadeiras teias alimentares. E que, enquanto o fluxo de matéria é cíclico na natureza, o de energia é decrescente e unidirecional. O estudo da Ecologia não se esgota com as informações e conhecimentos tratados neste capítulo. Tópicos, como: ciclos biogeoquímicos, transferência de matéria e energia, dinâmica das populações, são alguns exemplos do que você vai encontrar no estudo aprofundado desta ciência. Se esta introdução ao estudo despertou seu interesse, busque mais conhecimento! Veja as bibliografias que foram citadas e leia mais sobre o assunto. No próximo capítulo, você acompanhará a evolução socioambiental e o desenvolvimento econômico. Neste âmbito, analisaremos o processo evolutivo das relações entre sociedade e natureza e você terá a oportunidade de perceber, entre outras coisas, as transformações socioambientais recentes aliadas ao desenvolvimento econômico atual. Referências FERNANDEZ, F. A. dos S. O poema imperfeito: crônicas de Biologia, conservação da natureza, e seus heróis. 2. ed. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2004. LOPES, S.; ROSSO, S. Biologia. São Paulo: Saraiva, 2005. ODUM, E. O. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. ODUM, E. P.; BARRET, G. W. Fundamentos de ecologia. São Paulo: Thomson, 2007. 30 Fundamentos da educação ambiental PINTO-COELHO, R. M. Fundamentos em ecologia. Porto Alegre: Artmed, 2000. RICKLEFS, R. E. A economia da natureza. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. TOWNSEND, C. R.; BEGON, M.; HARPER, J. L. Fundamentos em Ecologia. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. CAPÍTULO 2 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo, você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 9 Compreender o processo evolutivo das relações entre sociedade e a natureza. 9 Verificar como o conceito de natureza foi sendo produzido, principalmente a partir dos avanços da ciência, resultando em significativas rupturas nas relações sociais e na relação sociedade-natureza. 9 Identificar as razões que contribuíram para o surgimento da Revolução Industrial. 9 Identificar a relação existente entre o desenvolvimento industrial, o crescimento exponencial do uso dos recursos naturais e a degradação ambiental. 9 Analisar as transformações socioambientais aliadas ao desenvolvimento econômico. 9 Perceber as razões que conduzem as empresas e o setor público a investirem em gestão ambiental e responsabilidade socioambiental. 32 Fundamentos da educação ambiental 33 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 Contextualização Antes de tentar compreender o desenvolvimento do ser humano, faremos primeiramente, algumas considerações sobre a formação do nosso planeta. A idade da Terra, como já sabemos, é calculada em cerca de 4,5 bilhões de anos. Se compararmos o tempo de existência do ser humano, aproximadamente 1,5 milhões de anos, com a idade da Terra, verificaremos que a nossa presença, no que tange ao tempo geológico é “insignificante”. Por outro lado, ambientalmente falando, as ações promovidas pelo ser humano, ao longo de seu processo evolutivo, são indubitavelmente significativas. Precisamos ter em mente que o espaço geográfico que conhecemos atualmente é resultado de um longo e intenso processo de transformações que ocorreram e continuam ocorrendo. Você saberia identificar algumas? Pense um pouco sobre as transformações. Agora vejamos. O planeta Terra, ao longo da sua idade geológica, sofreu várias transformações e/ou acontecimentos. Podemos citar, por exemplo, as mudanças climáticas, as atividades vulcânicas, a presença de terremotos, alteração do nível do mar, glaciações, separação dos continentes, entre outras. Na verdade, são ocorrências cíclicas, que acontecem de “tempos em tempos” (bilhões, milhões e/ou milhares de anos), as quais evidenciam que o planeta Terra é um planeta dinâmico, ou que a “Terra é viva”. Esses acontecimentos, sem dúvida, interferiram na formação e/ ou transformação da superfície terrestre, como também influenciaram a origem e a distribuição dos seres vivos. Assim, ao longo do processo evolutivo da Terra, muitas espécies surgiram, se transformaram, se adaptaram às mudanças climáticas ou simplesmente desapareceram. Por outro lado, apesar de sabermos da ciclicidade natural do nosso planeta, não podemos negligenciar a ação antrópica (ação do homem), que também influencia na antecipação e/ou intensidade de determinados fenômenos, como é o caso do aquecimento global. A ciência geológica, para obter uma melhor compreensão dos acontecimentos e/ou transformações que ocorreram no planeta, divide a história da Terra em eras geológicas, que correspondem a grandes intervalos de tempo divididos em períodos que, por sua vez, são subdivididos em épocas e idades. Cada uma dessas subdivisões corresponde a algumas importantes alterações ocorridas no processo evolutivo da Terra. A ciência geológica, para obter uma melhor compreensão dos acontecimentos e/ ou transformações que ocorreram no planeta, divide a história da Terra em eras geológicas, que correspondem a grandes intervalos de tempo divididos em períodos que, por sua vez, são subdivididos em épocas e idades. Cada uma dessas subdivisões corresponde a algumas importantes alterações ocorridas no processo evolutivo da Terra. 34 Fundamentos da educação ambiental Na sua opinião, a atuação do ser humano, enquanto agente modificador e/ou transformador, é recente? O Desenvolvimento do Ser Humano A partir do momento que o ser humano estabeleceu-se no planeta, há aproximadamente1,5 milhões de anos, passou a interferir na natureza de forma completamente diferente das demais espécies. Como vimos anteriormente, a presença do homem no planeta é muito recente, representando aproximadamente 0,001% do tempo geológico. Todavia, os seres humanos geraram impactos significativos na natureza, principalmente quando deixaram de ser nômades e tornaram-se sedentários; ou seja, fixaram território. Enquanto nômades, não geravam impactos significativos no ambiente, pois se alimentavam principalmente de raízes, sementes, caça e pesca; ademais, estavam em constante processo migratório. Contudo, a descoberta das técnicas de cultivo e a domesticação de alguns animais possibilitaram sua sedentarização e ampliação da produção do espaço geográfico. Vejamos. Os pôlderes, encontrados na Holanda, podem ser considerados um dos casos mais conhecidos de domesticação e/ou dominação da paisagem natural. Para você ter uma ideia, em meados do século XI, diques e canais de escoamento da água foram construídos na região. Inicialmente, o intuito era proteger as áreas litorâneas dos efeitos das inundações durante o período de maré alta. Séculos depois, principalmente a partir do século XIX, vários pôlderes, cercados por diques, foram construídos, visando também à formação de planícies de terra seca e fértil, o que ampliaria a área cultivável da região. Este processo continua até os dias atuais. De acordo com o dicionário Geológico-Geomorfológico de Guerra e Guerra (1997), pôlderes é a denominação dada aos solos lamacentos da costa baixa da Holanda, que foram conquistados ao mar. Através das descobertas de fósseis, chegou-se a uma provável teoria de que a origem e a disseminação dos grupos humanos iniciaram na África Oriental 35 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 (ver figura 6) e, a partir daí, tenham migrado para outras regiões. As migrações ocorreram em várias direções, associadas a vários fatores, como as secas prolongadas e as glaciações. Aproximadamente 9,5 ou 10 mil anos atrás, os oceanos se elevaram, atingindo níveis similares aos atuais (POP, 2004). Assim, muitas populações ficaram isoladas. Neste período, a disseminação dessas populações já tinha atingido a Europa, Ásia, Oceania e América. O isolamento das populações ocasionou não só um desenvolvimento muito diferenciado das demais espécies, mas também, possibilitou uma diferenciação cultural. Observe no mapa as rotas de migração do Homo sapiens. Veja que da África o Homo sapiens migra para o continente europeu, continente asiático e a Oceania. Figura 6 - Rotas de migração do Homo Sapiens desde a África e a migração máxima do Homo Erectus. Fonte: Gassós (2007, p.12) Gradativamente as populações nômades tornaram-se sedentárias; podemos dizer que foi uma fase de transição “cultural”. Segundo alguns historiadores, esta fase corresponde à passagem do período Paleolítico (caracterizado pelas sociedades nômades) para o período Neolítico (caracterizado pelas sociedades sedentárias). Neste último período, o homem passou a interferir decisivamente no meio ambiente. Diversas mudanças ocorreram, entre as quais se destaca a 36 Fundamentos da educação ambiental concentração de algumas inovações, o que caracterizou a chamada Revolução Neolítica (GASSÓS, 2007). Neste período, o homem conseguiu controlar melhor o uso do fogo (ver figura 7), assim como aprendeu a transformar argila em cerâmica. Mais tarde, aprendeu a fundir metais e a utilizá-los como ferramentas mais resistentes e eficientes para a realização de possíveis tarefas que asseguravam a sua sobrevivência. A agricultura e a domesticação dos animais também foram gradativamente aprimoradas. Figura 7 - Veja o que aconteceu quando o homem controlou o fogo Fonte: Gassós (2007, p.10) O período Neolítico é comumente demarcado entre 8.000 e 3.700 a.C. (GASSÓS, 2007). A figura a seguir procura explicar os vários fatores que permitiram a Revolução Neolítica. Observe. 37 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 Figura 8 - Fatores que favoreceram a Revolução Neolítica Fonte: Gassós (2007, p.14) Não podemos deixar de ressaltar que a invenção da cerâmica surgiu como consequência direta do desenvolvimento da agricultura, pois os excedentes das colheitas necessitavam ser armazenados em recipientes. As técnicas para a produção da cerâmica exigiam um tempo maior para a secagem do material, e as sociedades nômades não dispunham desse tempo; ademais, era difícil o transporte dos alimentos nesses recipientes, pois eram passíveis de se quebrar e pesados para serem levados em seus deslocamentos. No que concerne à agricultura, acreditamos que as atividades tenham surgido nos vales e várzeas, principalmente do rio Nilo, no Egito, nos rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia, nos rios Amarelo e Azul, na China e nos rios Indo e Ganges, na Índia. (POINTING, 1995). Aliás, as civilizações estabelecidas nestas áreas eram denominadas de civilizações fluviais (ARANHA, 2006). Essas áreas eram consideradas privilegiadas para a fixação do homem e o consequente desenvolvimento da agricultura, visto que as inundações frequentes auxiliavam na fertilidade do solo. Podemos concluir que a sedentarização de grupos humanos está diretamente associada ao desenvolvimento da agricultura. Assim, o ser humano passou a 38 Fundamentos da educação ambiental ampliar a produção do seu espaço, necessitando cada vez mais de áreas para o cultivo de produtos agrícolas e também para a criação de animais e/ou o desenvolvimento da pecuária. Dessa forma, a natureza selvagem, ou natureza primeira, formada por objetos naturais, foi sendo substituída ou transformada pelas novas técnicas que surgiram com a evolução do ser humano, fazendo emergir a natureza artificial e/ ou natureza segunda. Neste contexto: a promoção do homem animal a homem social deu-se quando ele começou a produzir. Produzir significa tirar da natureza os elementos indispensáveis à reprodução da vida. A produção, pois, supõe uma intermediação entre o homem e a natureza, através das técnicas e dos instrumentos de trabalho inventados para o exercício desse intermédio. (SANTOS, 2004, p.202). É claro que, a partir do momento em que os grupos humanos evoluíram em suas formas de produção, ocorreu também uma mudança na relação da sociedade com a natureza. Esta era vista de maneira diferenciada em cada período histórico. Para você ter uma ideia, as sociedades nômades viam a natureza como algo sagrado, na qual todos os seres vivos pertenciam ao mesmo mundo; não havia separação entre espírito e matéria, entre natureza animada e inanimada (POINTING, 1995). De acordo com este autor, essa ideia corresponde ao que denominamos, hoje, de visão sacralizada da natureza. Algumas dessas sociedades, ainda que submetidas ao ritmo da natureza, provocaram uma mudança fundamental na maneira de se relacionarem com ela. Isso significou uma mudança no modo de pensar, e assim, uma outra ideia de natureza passou a ser construída, a partir, principalmente, do momento em que se tornaram sedentários. Assista ao filme “A guerra do fogo”, dirigido por Jean-Jacques Annaud, 1981. O filme refere-se a dois grupos de hominídeos pré- históricos: um que cultuava o fogo como algo sobrenatural e outro que dominava a tecnologia de fazer o fogo. 39 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 A Revolução Científica e sua relação com a Natureza As sociedades primitivas viam a natureza como algo sagrado. À medida que estas evoluíam e, principalmente. com o avanço das técnicas de produção utilizadas, a relação com a natureza também era alterada. O perído do Renascimento pode ser considerado um exemplo de mudança sócio-culturale econômica de algumas sociedades. Caso você não lembre, o Renascimento é o nome que se dá a um movimento e/ou período de grande mudanças culturais e científicas, que se intensificou na Europa. entre os séculos XIV e XVI. Não podemos deixar de ilustrar algumas obras de arte magníficas de grandes pintores italianos do Renascimento, como Michelangelo Buonarroti, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio e Sandro Botticelli. Antes, é importante destacar que as cidades italianas, a exemplo de Gênova, Veneza e Florença, durante os séculos XIV e XVI, acumularam grandes riquezas oriundas do comércio. Os ricos comerciantes italianos começaram a investir nas artes, incentivando o desenvolvimento artístico e cultural. Posteriormente este movimento cultural espalhou-se por vários países da Europa, como por exemplo, a Inglaterra, Espanha, Portugal, França e Países Baixos. Contemple algumas das obras de arte do Renascimento. Figura 9 - Nascimento de Vênus. Obras de Sandro Botticelli Fonte: Obras do Renascimento. Disponível em: <http://www.grupoescolar.com/a/b/981ED.jpg>. Acesso em: 17 set. 2009. 40 Fundamentos da educação ambiental Figura 10 - À esquerda, temos o quadro de Mona Lisa de Leonardo da Vinci. À direita a obra de Michelangelo, escultura de Pietá. Fonte: Disponível em: <http://www.girafamania.com.br/artistas/personalidade_ leonardo.html>. e <https://goo.gl/0ZVYVg>. Acesso em: 17 set. 2009. Gostou? Pesquise outras obras, e saiba mais sobre estes e outros grandes pintores do Renascimento, acessando o site: http://www.suapesquisa.com/renascimento/pintores_renascentistas.htm Dando continuidade ao que falávamos sobre o Renascimento, este período é caracterizado pela retomada dos valores da cultura greco-romana, ou seja, da cultura clássica. O Renascimento é considerado um importante período de transição, envolvendo as estruturas feudo capitalistas. De acordo com Aranha (2006), o retorno às fontes da cultura greco- romana, sem a intermediação dos comendadores medievais, foi uma maneira de secularizar o saber, ou seja, desvinculá-lo da parcialidade religiosa, para torná-lo mais humano. Assim: o olhar humano desvia-se do céu para a terra, ocupando-se mais com as questões do cotidiano. A curiosidade, aguçada para a observação direta dos fatos, redobrou o interesse pelo corpo e a natureza circundante. Nos estudos de medicina, ampliaram-se os conhecimentos de anatomia com a prática de dissecação de cadáveres humanos, até então proibidos pela Igreja. O sistema heliocêntrico de Copérnico construiu uma nova imagem de mundo. Nas artes em geral [...] houve criação intensa, e a Itália se destacou como centro irradiador 41 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 da nova produção cultural. Ainda quando persistiam assuntos religiosos, a visão adquiria um viés humanista, prevalecendo temas tipicamente burgueses (ARANHA, 2006, p.124). Na Renascença, acentuou-se a busca pela individualidade, caracterizada pela confiança no poder da razão para estabelecer os próprios caminhos. Segundo Aranha (2006, p. 164), “o espírito de liberdade e crítica opunha-se ao princípio da autoridade”. Este maior senso crítico, exigido pelo humanismo, possibilitou ao homem uma observação mais detalhada dos fenômenos naturais, ao invés de renegá-los à interpretação da Igreja. “O individualismo, como nova forma de viver, deu um vigoroso impulso à oposição sociedade-natureza.” (BRÜGGER, 1994, p. 57). As transformações econômicas que vinham ocorrendo, desde o final da Idade Média, com o desenvolvimento das atividades artesanais e comerciais dos burgueses, influenciaram a maneira de pensar do humanismo (ARANHA, 2006). Segundo a mesma autora, a Revolução Comercial do século XVI caracterizou- se pelo novo modelo de produção capitalista, o que alavancou a decadência do feudalismo (riqueza baseada na posse de terras) e, de certa forma, alterou a relação homem-natureza. De acordo com Aranha (2006, p.124-125): por exemplo, ao destruir as fortalezas do castelo, a pólvora fragilizou ainda mais a nobreza feudal; a imprensa e o papel ampliaram a difusão da cultura; a bússola permitiu aumentar as distâncias com maior segurança: o caminho para as Índias e a conquista da América, no século XV, alargaram o horizonte geográfico e comercial e possibilitaram o enriquecimento da burguesia. O período do Renascimento é marcado pelas invenções e viagens ultramarinas, decorrentes da grande necessidade de ampliar os negócios da burguesia europeia. Observe, no mapa, o percurso das viagens ultramarinas. Veja que o Brasil era uma das rotas das viagens ultramarinas. 42 Fundamentos da educação ambiental Figura 11 - Viagens Ultramarinas. Fonte: Disponível em: <http://www.curso-objetivo.br/vestibular/roteiro_ estudos/imagens/re_500anos_1.jpg>. Acesso em: 17 set. 2009. É claro que, com as conquistas de novos horizontes e a ampliação das riquezas, o espaço geográfico gradativamente sofreu alterações nas suas paisagens, ou seja, a natureza foi sendo substituída pela paisagem cultural e/ou humanizada. É preciso considerar ainda que as inovações durante o período do Renascimento influenciaram até mesmo a religião, com a crítica à estrutura autoritária da Igreja, centrada no poder papal. “Interesses políticos nacionalistas e de natureza econômica sustentavam os movimentos de ruptura representados pelo luteranismo, pelo calvinismo e pelo anglicanismo”. (ARANHA, 2006, p. 125). Para muitos, a obra de Nicolau Copérnico (século XVI), foi considerada um impulso para a Revolução Científica. Em sua obra, Copérnico defende matematicamente um modelo de cosmo, em que o Sol é o centro do universo (teoria Heliocêntrica) e a Terra, um astro que girava em torno do Sol. A teoria Heliocêntrica de Copérnico rompeu com a teoria Geocêntrica de Cláudio Ptolomeu do século II, para quem a Terra era o centro do universo. Tal mudança representou uma das rupturas mais marcantes daquele período, o que culminou com o início da modernidade, pois a nova teoria estabelecida era contrária a uma teoria que reinava, aproximadamente, há vinte séculos e constituía a maneira do homem medieval pensar e ver o mundo. É preciso considerar ainda que as inovações durante o período do Renascimento influenciaram até mesmo a religião, com a crítica à estrutura autoritária da Igreja, centrada no poder papal. “Interesses políticos nacionalistas e de natureza econômica sustentavam os movimentos de ruptura representados pelo luteranismo, pelo calvinismo e pelo anglicanismo”. (ARANHA, 2006, p. 125). 43 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 A figura a seguir ilustra as duas teorias, observe-as. Figura 12 - Teoria Geocêntrica e Teoria Heliocêntrica Fonte: Obras do Renascimento. Disponível em: <http://www.escolas.trendnet. com.br/sjosesbc/renascimento/obras.htm>. Acesso em: 17 set.2009. Foi o astrônomo grego Aristarco de Samos que apresentou pela primeira vez, no século III a.C., a teoria Heliocêntrica. Foi o astrônomo Nicolau Copérnico ( século XVI) e, posteriormente, Galileu Galilei ( século XVII), que desenvolveram e deram sustentação científica para a teoria heliocêntrica. Muitos foram os pensadores, astrônomos, teólogos, filósofos, matemáticos, que contribuíram com várias e diferentes ideias, responsáveis por profundas mudanças, no que tange à visão científica do séc. XVII. Podemos dizer que duas grandes transformações determinaram a Revolução Científica: a primeira pode ser relacionada à cosmologia, com a qual Galileu conseguiu provar a teoria heliocêntrica de Copérnico, graças às observações feitas com o uso do telescópio; bem como a ideia deum universo infinito (de Nicolau de Cusa e Giordano Bruno) e a concepção de que os corpos celestes estão em movimento, inclusive, que a Terra gira em torno do Sol. A segunda transformação refere-se à ideia de ciência prática, ativa, oposta à ciência observadora dos antigos. Nesta, a matemática se fazia presente como linguagem da física, proposta por Galileu sob inspiração de Platão e Pitágoras, e contrária à concepção de Aristóteles. Posteriormente, Isaac Newton “aprimora” uma ciência físico-matemática em um sistema mais teórico. Assim, muitas das teorias revolucionárias influenciaram e representaram profundas modificações na forma do homem “ver” a natureza. Foi o astrônomo grego Aristarco de Samos que apresentou pela primeira vez, no século III a.C., a teoria Heliocêntrica. Foi o astrônomo Nicolau Copérnico ( século XVI) e, posteriormente, Galileu Galilei ( século XVII), que desenvolveram e deram sustentação científica para a teoria heliocêntrica. 44 Fundamentos da educação ambiental No período do Renascimento Cultural e Científico (séculos XVI e XVII), a Igreja Católica ainda controlava a produção cultural e científica, e defendia a teoria do Geocentrismo. Galileu Galilei, por defender a teoria do Heliocentrismo, foi condenado à Inquisição. Para se livrar da morte, Galileu negou o Heliocentrismo diante do tribunal. Porém, não deixou de defender essa teoria e continuou fazendo suas pesquisas. Para você ter uma ideia, o antropocentrismo (homem é o centro e modelo do mundo) influenciou a ciência nos séculos XVI e XVII. Para os renascentistas, o homem era a mais bela e perfeita obra da natureza. Podemos exemplificar tal concepção a partir da figura do “Homem Vitruviano”, de Leonardo da Vinci, que representa a divina proporção através do raciocínio matemático, sendo considerado um modelo ideal para todo o ser humano. As proporções do “Homem Vitruviano” são perfeitas e inserem o conceito clássico e divino de beleza. Leonardo da Vinci procurou unir, nesta figura, a ciência e a arte. Atente para os detalhes da figura do “Homem Vitruviano”. Figura 13 – Homem Vitruviano. Fonte: Disponível em:<http://hugolapa.files.wordpress. com/2009/07/vitruviano.jpg>.Acesso em: 17 set. 2009. No período do Renascimento Cultural e Científico (séculos XVI e XVII), a Igreja Católica ainda controlava a produção cultural e científica, e defendia a teoria do Geocentrismo. Galileu Galilei, por defender a teoria do Heliocentrismo, foi condenado à Inquisição. Para se livrar da morte, Galileu negou o Heliocentrismo diante do tribunal. Porém, não deixou de defender essa teoria e continuou fazendo suas pesquisas. 45 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 O ser humano já não era igual à natureza, mas, oposto a ela, ou seja, passou a dominá-la, principalmente com o uso de técnicas e máquinas, como sugere o pensamento do filósofo Francis Bacon: [...] se os homens tivessem empreendido os trabalhos mecânicos unicamente com as mãos, sem o arrimo e a força dos instrumentos, do mesmo modo que, sem vacilação atacaram as empresas do intelecto, com quase apenas as forças nativas da mente, por certo muito pouco se teria alcançado, ainda que dispusessem para seu labor de seus extremos recursos. (BACON, 1979, p.6). Na verdade, Francis Bacon defende o uso de máquinas e técnicas para a dominação da natureza, o que, sem esses meios, para ele seria praticamente impossível. A natureza existia para servir o ser humano, e, com o desenvolvimento da ciência, este poderia dominá-la. Descartes (1998, p. 80) considerava que: [...] conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos misteres de nossos artífices, poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são adequados, e, assim, tornar-nos como que senhores e possuidores da natureza. As revoluções científicas não se limitaram às ciências aplicadas, mas também atingiram várias outras ciências, como por exemplo, a Biologia (seleção das espécies), Geologia (idade da Terra), Astronomia (o Sol é o centro do universo), entre outras. De acordo com Perri (2002), a Revolução Científica substituiu a cosmologia medieval e estabeleceu o método (a observação e experimentação rigorosa e sistemática) como uma maneira essencial de “revelar” os segredos da natureza. “No Ocidente, um número crescente de pensadores sustentava que a natureza era um sistema mecânico, governado por leis que podiam ser expressas matematicamente.” (PERRI, 2002, p. 282). Podemos dizer que, a partir do renascimento, “se consolidaram mais do que nunca as ‘leis da natureza’, que existem independentemente das paixões humanas. A natureza pode ser então tratada com objetividade e o homem se tornou o sujeito absoluto, em oposição à natureza, o objeto”. (BRÜGGER, 1994, p. 57). É importante destacar que, no século XVIII, uma nova corrente de pensamento começou a tomar conta da Europa. Esta corrente defende novas formas de conceber o mundo, a sociedade, a ciência e as instituições. O As revoluções científicas não se limitaram às ciências aplicadas, mas também atingiram varias outras ciências, como por exemplo, a Biologia (seleção das espécies), Geologia (idade da Terra), Astronomia (o Sol é o centro do universo), entre outras. 46 Fundamentos da educação ambiental chamado movimento iluminista aparece, nesse período, como um desdobramento de concepções já desenvolvidas no Renascimento, quando os princípios de individualidade e razão ganharam espaço, nos séculos iniciais da Idade Moderna. Assim, a noção de natureza foi se alterando nas diferentes culturas e períodos. Na verdade, a relação entre a sociedade e a natureza são construções sociais e históricas. Atividade de estudo: Após este estudo, como você justificaria a mudança da relação entre a sociedade e a natureza? No início do capítulo, vimos que, a partir do momento em que o homem deixou de ser nômade e se tornou sedentário, passou a ocasionar transformações significativas na natureza. Estudaremos agora outros momentos que ocasionaram profundas mudanças no espaço geográfico. A Revolução Industrial e a Subordinação da Natureza O espaço geográfico, produzido e organizado pela sociedade humana, estabelece relações sociais, culturais, políticas e econômicas. Três momentos importantes modificaram profundamente o espaço geográfico natural no decorrer da história humana. O primeiro, já mencionado anteriormente, quando o homem desenvolveu a agricultura e a domesticação dos animais, abandonando o nomadismo, tornando-se sedentário, estabelecendo novas relações sociais (você acompanhou esta alteração no início do capítulo). O segundo momento deu-se com a Revolução Industrial, marcada por profundas transformações no espaço, pois, próximo às fábricas, surgiram bairros operários, abertura de ruas para o escoamento de matérias-primas e mercadorias. E um terceiro momento, associado ao segundo, quando acontece o desenvolvimento de novas tecnologias disponíveis no mercado mundial nas diversas atividades econômicas, alterando assim, cada vez mais, as relações sócio-espaciais. A partir disso: [...] a sociedade se transforma em espaço através de sua redistribuição sobre as formas geográficas, e isto ela o faz em benefício de alguns e em detrimento da maioria; ela também 47 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 o faz para separar os homens entre si, atribuindo- lhes um espaço segundo um valor comercial: e o espaço-mercadoria vaiaos consumidores como uma função de seu poder de compra. (SANTOS, 2004, p.262). A distribuição e a redistribuição da sociedade no espaço geográfico exigem cada vez mais estudos que possibilitem compreender e reconhecer os agentes transformadores e transformados no contexto sócio-espacial. Essa mesma sociedade pode, então, identificar “o lugar que cabe a cada um, seja como organizador da produção e donos dos meios de produção, seja como fornecedor de trabalho” . (SANTOS, 2004, p.262). O modo de produção capitalista, segundo Mamigonian (1982) teve início com a manufatura, cujos prenúncios ocorreram por volta dos séculos XIV e XV, nas cidades italianas e, posteriormente, flamengas; porém, a era capitalista data do século XVI, com o surgimento das manufaturas, na Inglaterra. De acordo com o autor, o que diferenciava a manufatura do artesanato era a organização do processo de produção, que consistia na divisão do trabalho manual. Por alguns séculos, a manufatura manteve-se como único fator de progresso econômico. Observe as duas figuras abaixo. Figura 14 – Artesões confeccionando violinos. Fonte: Disponível em: <http://s3.amazonaws.com/lcp/palyndrome/myfiles/lutheria.jpg>. Acesso em: 17 set. 2009. A distribuição e a redistribuição da sociedade no espaço geográfico exigem cada vez mais estudos que possibilitem compreender e reconhecer os agentes transformadores e transformados no contexto sócio-espacial. Essa mesma sociedade pode, então, identificar “o lugar que cabe a cada um, seja como organizador da produção e donos dos meios de produção, seja como fornecedor de trabalho”. (SANTOS, 2004, p.262). 48 Fundamentos da educação ambiental Figura 15 – Tecelões confeccionando tecidos. Fonte: Disponível em: <http://www.planetaeducacao.com.br/novo/imagens/artigos/ historia/revolucao_industrial_03.jpg>. Acesso em: 17 set. 2009. Observou as figuras? O que diferencia uma imagem da outra? Na primeira imagem, temos o trabalho puramente artesanal e, na segunda imagem, a manufatura. Posteriormente, com “a maciça expropriação de camponeses independentes, a acumulação interna e externa de capital e a abertura de mercados mundiais (século XVI e XVIII) permitiram ao capitalismo inglês realizar a revolução industrial” .(MAMIGONIAN, 1982, p.38-39). Os camponeses transformados em operários, embora recebendo salários, eram submetidos a regimes de exploração extremada, trabalhando em média 16 por dia. O que você sabe e/ou lembra sobre a primeira Revolução Industrial? Qual a relação da Primeira Revolução Industrial com as questões ambientais? Pense um pouco. 49 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 A primeira Revolução Industrial deu-se por volta de 1750, e teve como emblemas a máquina a vapor, a indústria têxtil e as ferrovias. Com o surgimento das fábricas, ocorreram profundas modificações nas relações de produção e de trabalho, assim como, nas relações sócio, econômico-ambientais. Com a invenção da máquina a vapor, as fábricas, que se situavam anteriormente às margens dos rios (força hidráulica), passaram por um novo estágio, deixaram de ser uma simples fábrica de manufatura, para se tornarem maquinofaturas. São as chamadas indústrias, cuja produção sofreu uma grande ampliação, assim como a localização industrial ganhou novos horizontes. Para você ter uma ideia, a atividade industrial iniciada na Inglaterra difundiu- se por outros países europeus, atingindo, posteriormente, os EUA e o Japão. Esta fase do capitalismo foi marcada pela indústria e a livre concorrência. “A concorrência entre as empresas capitalistas, as lutas operárias por aumentos salariais, a escassez de mão de obra assalariada (como nos EUA até a guerra civil), as guerras entre os países capitalistas determinaram os avanços tecnológicos.” (MAMIGONIAN, 1982, p.39). Neste processo, a natureza primeira e/ou natural, como diria Milton Santos (2004), vai gradativamente sendo substituída pela natureza segunda e/ou cultural. Para Milton Santos (2004), a mecanização possibilitou que a ciência assumisse a feição de força produtiva, separada do trabalho e a serviço do capital. Ademais, de acordo com o mesmo autor, à medida que a indústria foi descobrindo que a ciência podia ser cada vez mais uma força produtiva, foi submetendo a produção de conhecimentos à mesma divisão de trabalho a que estava sujeita a produção de mercadorias. Para Rosenberg (2006), o papel da ciência foi determinante no ritmo do progresso técnico. Nesse contexto, a natureza passou a ser vista como um “objeto” de exploração capitalista. No que concerne ainda ao período da primeira Revolução Industrial, Rosenberg e Birdzell Júnior (1986) destacam que, entre 1750 e 1880, ocorreram mudanças revolucionárias na indústria e nos transportes ocidentais, e estas foram atribuídas a um fenômeno organizacional e a dois fenômenos tecnológicos. Perceba que o primeiro foi a mudança na organização da produção, da oficina do artesão para a fábrica, assumindo formas diferentes, conforme a indústria. Com relação aos dois fenômenos tecnológicos, o primeiro “foi o aumento enorme do uso do vapor e da energia hidráulica na produção fabril e a aplicação do transporte em terra e na água” (ROSENBERG; BIRDZELL, 1986, p.154). Nas indústrias de ferro e tecido, a Revolução Industrial foi marcada pela produção de bens, com emprego de energia tirada do carvão e aplicada através de motores e maquinaria movida a vapor. A segunda mudança tecnológica “foi a substituição da madeira pelo Nas indústrias de ferro e tecido, a Revolução Industrial foi marcada pela produção de bens, com emprego de energia tirada do carvão e aplicada através de motores e maquinaria movida a vapor 50 Fundamentos da educação ambiental ferro e o aço na fabricação de maquinaria e outros produtos. Essa substituição mudou o tamanho, duração, precisão e complexidade mecânica de larga variedade de produtos, desde máquinas de costura a navios” (ROSENBERG; BIRDZELL, 1986, p.154). Como você pode perceber, realmente foram mudanças revolucionárias na indústria e nos transportes ocidentais, e, consequentemente, na sociedade em geral. Por outro lado, à medida que a manufatura cedia lugar às fábricas, estas eram organizadas de acordo com os princípios empresariais. Os produtos desenvolvidos nas fábricas abasteciam um extenso mercado, por vezes incerto, firmando livremente contratos a longo prazo, exigindo investimentos pesados de capital fixo e usando dinheiro emprestado em escala liberal. Assim, as dificuldades financeiras tornavam-se cada vez maiores no círculo das empresas afetadas. À medida que a Revolução Industrial e as modificações concomitantes na organização do comércio e transporte se espalhavam para outros países, estes passaram a apresentar o fenômeno dos ciclos econômicos, já familiar na Inglaterra. Além do mais, à medida que as indústrias e o comércio se tornavam dependentes dos mercados financeiros e de investimentos, as crises começavam a ser seguidas de períodos de liquidação nos círculos industriais e mercantis (MITCHELL, 1984). O processo de industrialização ocasionou um aumento da população urbana, e as cidades foram gradativamente sofrendo modificações. A mão de obra operária amontoava-se em quartos e porões desconfortáveis, em subúrbios sem condições sanitárias. As cidades tornavam-se cada vez mais sujas e envoltas numa atmosfera “cinzenta”. Tente imaginar essa situação deprimente. Os problemas não param por aí. Veja que, em decorrência da industrialização, o processo de urbanização foi intenso, o que resultou num “caos social”. Doençascomo a peste negra e a cólera alastraram-se por toda Inglaterra, oriundas da poluição das águas dos rios e do ar. A expectativa de vida variava muito nas cidades industrializadas do século XVIII, na Inglaterra e França. Para Perry (2002), a proliferação das doenças era tão intensa, devido aos esgotos a céu aberto, à fumaça das fábricas, à água poluída e à sujeira nas ruas, que muitas crianças não chegavam aos 5 anos de idade. Para muitos adultos, a expectativa de vida era em média de 36 anos. A figura que segue ilustra a pobreza de um dos bairros de Londres, no século XVIII. Observe-a. 51 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 Figura 16 – Rua de um Bairro pobre de Londres. Fonte: Benévolo (1999). Disponível em: <http://urbanidades.arq.br/ imagens/2007/46ababa5573c_8E67/LondresRevolucaoIndustrial.jpg>. Acesso em: 17 set. 2009 Assim, emergem as primeiras preocupações com as transformações do espaço geográfico e as questões ambientais. Um exemplo típico de poluição, oriundo da Revolução Industrial, foi a poluição do rio Tâmisa, que atravessa Londres (Inglaterra). Até o começo do século XX, o Tâmisa era um dos rios mais poluídos do mundo. Atualmente, é um modelo de despoluição. O processo de despoluição teve início em 1952. Nesse contexto de desenvolvimento industrial, não só o meio ambiente passou por profundas transformações, mas também afetou a própria população. A falta de políticas de urbanização e a falta de um modelo econômico (capitalismo) justo comprometiam a dignidade dos trabalhadores e sua possibilidade de uma vida digna. O filósofo Aristóteteles (IV a.C.) afirmou que no dia em que as máquinas trabalhassem sozinhas não precisaríamos de escravos. Contudo, o desejo de que a tecnologia libertaria o ser humano da exploração do trabalho não ocorreu. Na sua opinião, que motivos justificam tal fracasso? Um exemplo típico de poluição, oriundo da Revolução Industrial, foi a poluição do rio Tâmisa, que atravessa Londres (Inglaterra). Até o começo do século XX, o Tâmisa era um dos rios mais poluídos do mundo. Atualmente, é um modelo de despoluição. O processo de despoluição teve início em 1952. 52 Fundamentos da educação ambiental Continuando nosso estudo, não podemos deixar de falar que a agricultura, segundo Perry (2002), gradativamente tornou-se uma empresa capitalista, cuja produção passou a ser destinada ao mercado (agricultura empresarial), e não mais ao consumo da família (agricultura de subsistência). Uma nova estrutura econômica formava-se: as terras não eram mais “comunais”, o que ocasionou um exército de desempregados dependentes (PERRY, 2002). Segundo o mesmo autor, o crescimento populacional e o aumento da produtividade agrícola também auxiliaram no desenvolvimento do processo de industrialização. O enorme crescimento populacional da Europa no século XVIII forneceu à indústria mais consumidores e também mão de obra para o trabalho. O uso comunal da natureza remonta às origens do homem. Ninguém era, no sentido jurídico da palavra, dono da terra. O homem retirava dela tudo o que necessitava (produtos da caça, pesca, coleta, etc) sem que se considerasse seu proprietário. As terras comunais eram de uso comum, ou seja, não existia dono, todos podiam fazer uso dela. Como sabemos, a fase pré-industrial é caracterizada pelo equilíbrio demográfico, ou seja, elevadas taxas de mortalidade e de natalidade (nasciam muitos e morriam muitos). A fase transicional (Revolução Industrial) é marcada pela redução da mortalidade devido principalmente ao avanço da medicina, que favoreceu a diminuição das epidemias e as melhores condições de higiene e saúde. A fase evoluída ou chamada de terceira fase é um período de transição (pós Revolução Industrial), com a retomada do equilíbrio demográfico, principalmente nos países desenvolvidos, com baixas taxas de natalidade e mortalidade. Atividade de estudo: Agora que você já sabe um pouco mais sobre a Primeira Revolução Industrial, descreva algumas das mudanças ocorridas no espaço geográfico e suas respectivas consequências ao meio ambiente. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 53 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Será que tais consequências ambientais poderiam ter sido evitadas? Indicamos a leitura do texto intitulado “Transição demográfica e o crescimento populacional” disponível no site: http://educacao. uol.com.br/geografia/ult1701u12.jhtm, para que você possa estudar um pouco mais sobre as fases demográficas ao longo dos últimos séculos (atreladas principalmente ao processo de industrialização), assim como a teoria de Thomas Malthus. A partir da metade do século XIX, novas tecnologias e formas de produção foram sendo rapidamente descobertas e incorporadas pelos países industrializados, marcando a segunda Revolução Industrial. A produção industrial passou a crescer em ritmo acelerado, a fim de atender os prósperos mercados consumidores em expansão, nos centros urbanos, assim como a demanda por recursos naturais, fonte de matéria-prima para os diferentes segmentos industriais que começavam a emergir. O surgimento do automóvel, no final do século, foi outro elemento importante, criando uma nova cultura industrial, social e ambiental. 54 Fundamentos da educação ambiental Outro momento importante para a economia global e expansão do capitalismo foi a chamada Revolução Técnico-científica, que corresponde ao período de maior índice de modernização da atividade industrial pós-Segunda Guerra Mundial. Na década de 1950, americanos e russos lançaram uma verdadeira corrida espacial. Esta, por sua vez, induziu à busca de novas tecnologias, muitas delas criadas para fins militares. Foram adaptadas ao setor civil, desencadeando uma proliferação de produtos desenvolvidos em outros setores, como a biotecnologia, microeletrônica, química fina e informática. A Revolução Técnico-científica acentuou o processo de modernização da produção calcada nas inovações. É importante ressaltar que a expansão do capitalismo, com as chamadas revoluções industriais, ocorreu de maneira diferenciada em todo o mundo, como também em períodos diferentes. A consolidação da Revolução Industrial e do sistema capitalista no mundo ocidental constituiu, assim, a imposição de novas relações entre ser o humano, natureza e produção. Para Polanyi (1985, p. 180): a produção é a interação do homem e da natureza; se este processo deve ser organizado pela intermediação de um mecanismoregulador de troca, é necessário então que o homem e a natureza acompanhem este funcionamento; eles devem ser submetidos à oferta e à demanda, isto é, eles devem ser tratados como mercadorias, como bens produzidos para a venda. Do homem (sob o nome de trabalho), da natureza (sob o nome de terra) tudo poderia ser feito para ser negociado. Nesse contexto de industrialização, a natureza deveria seguir o ritmo da produção, e não o contrário. Com os avanços em todas as áreas de conhecimento, foi possível consolidar, no plano econômico, a ideia de que natureza era aquilo que seria útil e passível de ser transformado pelos diferentes processos de produção. No fim do século XIX, as críticas ao modo industrial de exploração deram origem ao que hoje conhecemos como Ecologia (você estudou no capítulo 1). Não deixe de assistir ao filme “Tempos modernos” do diretor Charlin Chaplin. O filme refere-se à vida na sociedade industrial e urbana dos Estados Unidos, nos anos 1930, caracterizada pela produção, com base no sistema de linha de montagem e especialização do trabalho. É uma crítica à “modernidade” e ao capitalismo, representado pelo modelo de industrialização, em que o operário é engolido pelo poder do capital, cujo objetivo é o lucro. O filme trata também das desigualdades entre a vida dos pobres e da burguesia. Procura 55 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 mostrar que uma sociedade capitalista, que explora o proletariado, alimenta também todo conforto e diversão para burguesia. É uma ótima crítica ao sistema capitalista e ao seu respectivo modelo de produção. Qual o seu posicionamento sobre os avanços técnico- científicos e sua relação com a natureza? É possível que haja um desenvolvimento econômico sem comprometer a natureza? A Sociedade Pós-Moderna: Globalização e Meio Ambiente Você conseguiu entender e compreender o estudo que fizemos até o presente momento com relação à produção e/ou transformação do espaço geográfico? Lembre-se de que o espaço geográfico contemporâneo é resultado, principalmente, das transformações promovidas pela Revolução Industrial em suas diferentes etapas, assim como o modo de vida atual é reflexo direta e indiretamente das inovações tecnológicas. A indústria foi responsável pelas grandes transformações urbanas, pela multiplicação de diversos ramos de serviços que caracterizaram a sociedade moderna e pelo desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação, que atualmente interligam o espaço mundial. Também foi responsável pelo aumento da produção agrícola. Com a Revolução Industrial, criou-se um novo modo de vida, com novos hábitos de consumo, ocorrendo assim uma nova estratificação da sociedade e uma mudança significativa de sua relação com a natureza. Neste contexto, emerge o chamado processo de globalização, que trouxe diversas mudanças de paradigmas para as sociedades contemporâneas e provocou transformações nos diversos segmentos da vida humana e na economia mundial. Mas, a final, o que é a globalização. Você saberia conceituá-la? Tente. Conseguiu? Vamos tentar conceituar. A globalização é um fenômeno social 56 Fundamentos da educação ambiental que atinge a escala global. Consiste principalmente na integração econômica, social, cultural e política entre vários países. Sua origem é atrelada às várias transformações e/ou evoluções dos modos de produção. Os avanços dos meios de transporte e as telecomunicações contribuíram para a “redução” de distâncias entre pessoas e o acesso às mercadorias ou produtos, bem como a rapidez ao acesso das informações no mundo todo, estreitando as relações comerciais entre os países e as empresas. As multinacionais ou transnacionais contribuíram fortemente para a efetivação do processo de globalização, por ampliarem o desenvolvimento de atividades em diferentes territórios, como por exemplo, a Coca-Cola, NiKe, McDonald´s, Citröen, entre outras. Mas, será que a globalização abarca todas as classes sóciais? Preste atenção na charge. Figura 17 – Festa da Globalização. Fonte: Disponível em: <http://portaldoestudante.files.wordpress.com/2008 /07/louisarmstrong1.jpg>. Acesso em: 16 set. 2009. A que conclusão você chegou? Podemos dizer que a globalização é uma fase avançada do capitalismo. E, como sabemos, o capitalismo visa lucros. A globalização emergiu justamente para atender e ampliar as necessidades do sistema capitalista, principalmente nos países desenvolvidos, nos quais o consumo interno já estava saturado. Uma característica importante da globalização é a busca pelo barateamento do processo produtivo pelas indústrias. Muitas delas produzem suas mercadorias em vários países, com o objetivo de reduzir os custos. As indústrias instalam-se em países onde a mão de obra, a matéria-prima e a energia são mais baratas. Um tênis, por exemplo, pode ser projetado nos EUA, mas produzido na China, com matéria-prima do Brasil, e comercializado em diversos países do mundo. 57 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 Atualmente, vivemos em uma sociedade extremamente consumista, onde todos (ou quase todos) têm acesso a tudo (quase tudo). Quando você realizar o estudo do caderno de Gestão Ambiental, conhecerá sobre a Pegada Ecológica, que trará uma abordagem sobre o quanto de área (hectares) o ser humano precisaria para produzir e processar o que ele consome e descarta. Será que a globalização ocasiona consequências negativas ao meio ambiente? Pense um pouco. Os efeitos da globalização no meio ambiente, sem dúvida, são muitos. A ampliação da economia mundial tem causado à natureza sérias consequências, como por exemplo, a super exploração dos recursos naturais renováveis e não renováveis, o aumento de todo tipo de resíduos, a perda da biodiversidade e um aumento do consumo energético devido ao sistema de transporte a longas distâncias levando bens e mercadorias, a poluição dos rios, o aquecimento global (você verá no próximo tópico), entre outros. A problemática ambiental acrescenta novos e importantes elementos para a análise crítica dos efeitos da globalização. Daly (apud ROMEIRO,1999, p.148) chama a atenção para: duas ordens de problemas: a primeira se refere aos impactos sócio-ambientais locais (degradação ambiental e/ ou esgotamento precoce de recursos naturais) que podem resultar das diferenças entre países em termos do grau de internalização dos custos sociais e ambientais. Países com baixo grau de internalização desses custos teriam vantagens comparativas inaceitáveis, o que justificaria a introdução de tarifas protetoras compensatórias. As multinacionais, por seu turno, escaparam das obrigações comunitárias, tornando-se internacionais o que, dado a inexistência de uma comunidade internacional, as torna praticamente isentas de qualquer compromisso comunitário. Seria necessário, portanto, criar um governo internacional capaz de controlá-las ou renacionalizar o capital, colocando-o novamente sob controle das comunidades nacionais. A segunda ordem de problemas provocada pela expansão excessiva do comércio internacional diz respeito à escala das atividades econômicas, além dos limites geográficos de cada país. Contudo, à medida que ocorrem os avanços tecnológicos e a ampliação da economia mundial, mais se fará necessário produzir em nosso espaço geográfico para, assim, atingir as necessidades da economia mundial. Isso significa que a natureza vai se transformando em natureza segunda e/ou natureza cultural, como 58 Fundamentos da educação ambiental já mencionamos anteriormente. Não há dúvida de que as inovações tecnológicas, uma das condições da globalização, possibilitam uma constante renovação e tambéminovação de produtos no mercado mundial. Isso desperta o desejo das pessoas para o novo - o produto moderno. É claro que o mesmo avanço tecnológico que produz conforto e praticidade à sociedade global (principalmente para quem dispõe de maiores recursos financeiros) também produz a degradação ambiental, a ponto de comprometer a sociedade vigente e as sociedades futuras. Veja alguns exemplos que podem ser citados em decorrência das profundas transformações ocorridas no meio ambiente, associadas ao intenso processo de globalização: a poluição da atmosfera e o aumento da liberação de gás carbônico (CO2), oriundo principalmente dos combustíveis fósseis, a exemplo do petróleo, que ainda hoje é a principal fonte energética utilizada no mundo; o chamado aquecimento global, que está associado à emissão dos combustíveis fósseis; o acentuado desmatamento para ampliação das áreas urbanas e a ampliação das atividades agropecuárias, como ó caso da Floresta Amazônica; as enchentes, os deslizamentos, associados à ocupação irregular do solo, e as áreas impróprias para moradia, entre vários outros exemplos. Para refletir sobre a questão do consumismo, do mercado global, a formação de identidade e o marketing, leia o poema de Carlos Drummond de Andrade “Eu, etiqueta”. Você pode conferir o poema no site: http://projetos.educacional.com.br/paginas/ pp/47080001/3854/t132.html Atividade de estudo: Verifique na sua região e/ou cidade a ocorrência de problemas ambientais. Investigue a gênese dos problemas, as consequências, as ações que têm sido realizadas no intuito de amenizá-los. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 59 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ A Gestão Ambiental e a Responsabilidade Socioambiental Você sabe o que é responsabilidade socioambiental? A responsabilidade surge como derivação de uma obrigação anterior, que o responsável deixou de observar. É noção peculiar a todas as relações jurídicas. Visa assegurar a observância de alguma obrigação existente, seja porque se assumiu tal obrigação, ou em decorrência de um fato ocorrido ou praticado. (AGNOL, 2009). Etimologicamente, o termo responsabilidade deriva de responsável, que se origina do latim responsus, particípio passado do verbo respondere, que significava na época responder, afiançar, prometer e pagar (AGNOL, 2009). Ainda, de acordo com o autor, num contexto geral, a responsabilidade exprime a obrigação de responder por alguma coisa, revelando o dever Etimologicamente, o termo responsabilidade deriva de responsável, que se origina do latim responsus, particípio passado do verbo respondere, que significava na época responder, afiançar, prometer e pagar (AGNOL, 2009). 60 Fundamentos da educação ambiental jurídico em que se coloca a pessoa, seja em virtude de contrato, seja em face de fato ou omissão que lhe sejam imputáveis, para satisfazer a prestação convencionada ou para suportar as sanções legalmente previstas. Com a percepção de que os recursos naturais poderiam se esgotar com a ação predadora do ser humano, emerge a Responsabilidade socioambiental. Isso, porque ocorriam com frequência muitos acidentes industriais, cuja intensidade não só colocava a vida dos trabalhadores em risco, como, também, gerava degradação dos recursos naturais, que eram fontes de matéria-prima para a própria indústria. Estudos revelaram a nocividade de gases poluentes e seu efeito sob as condições de vida da população. Podemos citar vários exemplos de acidentes industriais e/ou ambientais, tais como: o acidente nuclear de Chernobyl (1986), na Ucrânia; o acidente de Bophal (1984), na Índia; o acidente de Cubatão (1984), em São Paulo; e o acidente com o Césio -137 (1987), em Goiânia; e outros. Você provavelmente já ouviu falar do maior acidente nuclear da história, o acidente de Chernobyl, ocorrido em 26 de abril de 1986, por falha humana. O acidente produziu uma gigantesca nuvem radioativa, que atingiu a antiga União Soviética, Europa Oriental, Escandinávia e Reino Unido. Saiba mais sobre este acidente nuclear acessando o seguinte site: http://www.oarquivo.com.br/portal/ index.php/polemica/ historia/52-o-acidente-nuclear-de-chernobyl Acesse também o site: http://www.library.com.br/Filosofia/ acidindu.htm, cujo artigo aborda alguns dos acidentes industriais significativos na história da humanidade. Outra indicação de leitura é o livro Acidentes industriais: o custo do silêncio, de Michell LLory. O autor faz uma análise inovadora dos maiores acidentes industriais dos últimos anos. Atividade de estudo: Propomos que você pesquise e descreva (tipo, origem, consequências, área de abrangência, etc) algum tipo de acidente industrial ocorrido na 61 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 sua região e/ou estado. Se não houver, você pode optar por algum tipo de acidente industrial nacional e/ou internacional. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Assim, a responsabilidade socioambiental corresponde a um compromisso de empresas que atuam na vanguarda, atendendo à crescente conscientização da sociedade, principalmente nos mercados mais sólidos e/ou desenvolvidos. Diz respeito à necessidade de revisar os modos de produção e padrões de consumo vigentes, de tal modo que o sucesso empresarial não seja alcançado a qualquer preço, mas ponderando-se os impactos socioambientais decorrentes da atuação administrativa de cada indústria e/ou empresa. Para melhor entendermoso conceito de responsabilidade socioambiental, precisamos compreender os conceitos de responsabilidade social (lembra do caderno de Responsabilidade Social?) e responsabilidade ambiental, pois foi da junção destes dois conceitos que emergiu a Responsabilidade Socioambiental. Sendo assim, a Responsabilidade Social é entendida como aquela que cuida dos interesses das pessoas em sentido amplo. Comumente, essa responsabilidade tem a forma de distribuição de renda feita como filantropia. As motivações que levam os sócios das empresas a praticar a filantropia são suas convicções morais ou religiosas. A responsabilidade ambiental se originou com a percepção de que os recursos naturais podem se esgotar com a ação devastadora do ser humano. O Conselho Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCDS ou CEBDS, no Brasil – www.cebds.org.br), primeiro organismo Comumente, essa responsabilidade tem a forma de distribuição de renda feita como filantropia. As motivações que levam os sócios das empresas a praticar a filantropia são suas convicções morais ou religiosas. 62 Fundamentos da educação ambiental internacional puramente empresarial com ações voltadas à sustentabilidade, em 1998, definiu responsabilidade socioambiental como o compromisso permanente dos empresários em adotar um comportamento ético e contribuir para o desenvolvimento econômico, melhorando, simultaneamente, a qualidade de vida de seus empregados e de suas famílias, da comunidade local e da sociedade como um todo (LEME, 2006). Pode também ser entendida como um sistema de gestão, adotado por empresas públicas e privadas, cujo objetivo é promover a responsabilidade social e a preocupação com a responsabilidade ambiental. Com a internacionalização do capital, as indústrias passaram a utilizar intensamente os recursos naturais, sem a menor preocupação com as eventuais consequências. A partir dos anos 1970, surgem os movimentos ambientalistas (veremos no capítulo 4), na tentaviva de evitar essa excessiva exploração dos recursos naturais. Algumas indústrias, no intuito de continuar competitivas no mercado e ganhar a credibilidade da população mundial, procuraram adaptar- se às novas exigências ou tendências de responsabilidade socioambiental, implantando programas de Gestão Ambiental. A exemplo disso, muitas delas optaram pela escolha de programas, como a ISO 14001, ou a norma britânica BS 7750, que têm, como um dos principais objetivos, a busca pelo “desenvolvimento sustentável”. Ei, vejam, novamente eu preciso aparecer... É muita informação, certo? Então, para você não ter dúvidas, entenda um pouquinho mais sobre as normas ISO 14001 e BS 7750. A Norma BS 7750 especifica os requisitos para o desenvolvimento, implantação e manutenção de sistemas de gestão ambiental, que visem garantir o cumprimento de políticas e objetivos ambientais definidos e declarados. A ISO 14001 é uma norma, internacionalmente aceita, que define os requisitos para estabelecer e operar um Sistema de Gestão Ambiental. O programa BS 7750 ou ISO 14001, após implantado, concede à empresa um selo de padrão internacional (ISO 14001) e designa várias normas de Gestão Ambiental, que devem ser rigidamente seguidas pelas empresas que, de tempos em tempos, são auditadas pelos órgãos competentes. Podemos citar, como exemplo, o caso da empresa Electrolux do Brasil, que substituiu a pintura líquida (de seus refrigeradores e lavadoras) para a pintura a pó (para não agredir a 63 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 camada de ozônio). Desenvolveu também um projeto de recuperação de um lago que pertence ao seu parque fabril. Outras empresas também podem ser citadas, como a Boticário, que desenvolve projetos ambientais; a Petrobrás, que investe no desenvolvimento de programas ambientais; a Vale do Rio Doce, entre tantas outras. Atividade de estudo: Você conhece e/ou já ouviu falar de alguma empresa e/ou instituição que desenvolve a responsabilidade ambiental? Descreva a mudança adotada pela empresa e/ou instituição. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Algumas Considerações Compreender a “produção” do espaço geográfico mundial significa entender as formas de organização econômica, política e social, que orientam as relações da sociedade com a natureza e as relações entre os homens. No mundo contemporâneo, nenhum elemento da natureza ficou imune à interferência das 64 Fundamentos da educação ambiental atividades humanas. A degradação ambiental tornou-se cada vez mais evidente ao longo do processo evolutivo do ser humano, principalmente a partir das revoluções industriais. A dicotomia entre o meio ambiente e a economia é cada vez maior, ou seja, a economia tem pressa e a natureza necessita de paciência. Assim, temos assistido recentemente à incorporação, por parte de diversas empresas, da responsabilidade socioambiental, a fim de evitar tragédias, como as que exemplificamos anteriormente. Na verdade, a responsabilidade socioambiental deve ser um compromisso permanente, não somente dos empresários, mas de toda a sociedade, no que tange à adoção de um comportamento ético, que contribua para o desenvolvimento sócioeconômico, o qual, por sua vez, garanta qualidade de vida para todos, inclusive para o meio ambiente. Referências AGNOL, A. J. D. A responsabilidade ambiental. Disponível em: <//www.advogado. adv.br/artigos/2005/alencarjoaodallagnol/responsabilidadeambiental.htm>. Acesso em: 2 jul. 2009. ARANHA, M. L. A. Filosofia da educação. 3 ed. São Paulo: Moderna, 2006 BACON, Francis. Novum organum. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979 BRÜGGER, P. Educação ou adestramento ambiental. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1994. DESCARTES, R. Discurso do método. Brasília: EDUNB, 1998. GASSÓS, D. Atlas básico de explorações e descobrimentos. São Paulo: Escala Educacional, 2007. GUERRA, A.T.; GUERRA, A. J. T. Novo dicionário geológico-geomorfológico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. LEME, K. D. Responsabilidade socioambiental no sistema financeiro. 2006. 96f. Monografia (Graduação em Geografia) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. MAMIGONIAN, A. Tecnologia e desenvolvimento desigual no centro do sistema capitalista - E.U.A. e Japão. In: ANAIS - AGB, Porto Alegre, 1982. 65 Evolução Socioambiental e Desenvolvimento Econômico Capítulo 2 MITCHELL, W. C. Os ciclos econômicos e suas causas. São Paulo: Abril Cultural, 1984. PERRI, M. Civilização ocidental:uma história concisa. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. POINTING, C. História verde do mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. POLANYI, K. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1985. POP, J.H. Geologia Geral. 5. ed. Rio de Janeiro: JC Editora, 2004. ROMEIRO, A.R. Globalização e meio ambiente. Texto para discussão, n. 91, nov. 1999. Unicamp, 1999. Disponível em: <http://www.eco.unicamp.br/ Downloads/Publicacoes/TextosDiscussao/texto91.pdf>. Acesso em: 03 jul. 2009. ROSENBERG, N. R.; BIRDZELL JÚNIOR, L. E. J. A história da riqueza do Ocidente: a transformação Econômica no Mundo Industrial. Rio de Janeiro: Record, 1986. SANTOS, M. Por uma geografia nova. 6. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004. 66 Fundamentos da educação ambiental CAPÍTULO 3 A Crise Ambiental A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo, você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 9 Compreender as múltiplas razões da crise ambiental da atualidade, associadas às inter-relações das condições socioespaciais, políticas, econômicas e culturais. 9 Conhecer a amplitude da crise ambiental através dos problemas ambientais globais. 9 Verificar a urgência da Educação Ambiental como uma ação e/ou medida para amenizar os problemas ambientais. 68 Fundamentos da educação ambiental 69 A Crise AmbientalCapítulo 3 Contextualização Grande parte da degradação ambiental e, consequentemente, da crise ambiental que estamos vivenciando estão diretamente relacionadas ao desrespeito às leis, à falta de conscientização e de punição para quem comete algum crime ambiental e à maneira irresponsável com que o ser humano vem utilizando os recursos naturais. Como, enfim, poderemos nos comportar para conseguirmos viver em harmonia e equilíbrio em prol de um mundo “sustentável”? Pensando no planeta como um organismo vivo, onde os diversos ecossistemas vivem e têm a necessidade de serem equilibrados, como você percebe a atual crise ambiental? Que atitudes devem ser adotadas para alcançarmos um estágio onde as sociedades possam ser ditas sustentáveis? Assim, ao longo deste capítulo, estudaremos as configurações da crise ambiental na atualidade e as razões que levaram a este confronto entre meio ambiente e desenvolvimento. Vamos conhecer a amplitude desta crise através dos problemas ambientais globais e verificar a urgência de um processo contínuo de Educação Ambiental (EA) envolvendo todos os atores sociais. Ao término deste estudo, veremos que este processo deve ser globalizado e tem papel fundamental na tomada de ações e/ou medidas para amenizar os problemas ambientais já instalados, bem como promover uma transformação profunda no modo de pensar e agir da humanidade. Configurações da Crise Ambiental na Atualidade No capítulo 2, você pôde compreender o processo evolutivo das relações entre sociedade e natureza, verificando que o conceito de natureza foi sendo produzido, principalmente, a partir dos avanços da ciência, resultando em significativas rupturas nas relações sociais e na relação sociedade-natureza. Observamos também, neste estudo, a relação existente entre o desenvolvimento industrial, o crescimento exponencial do uso dos recursos naturais e a degradação ambiental. Traçadas essas relações, percebemos que a crise ambiental tem suas origens na ilusão de domínio sobre a natureza e na cultura exacerbada do ter sobre o ser. Foi baseada nesta concepção que a humanidade conduziu sua relação com o meio ambiente e com Traçadas essas relações, percebemos que a crise ambiental tem suas origens na ilusão de domínio sobre a natureza e na cultura exacerbada do ter sobre o ser. Foi baseada nesta concep-ção que a humanidade conduziu sua relação com o meio ambiente e com seus próprios seme-lhantes. 70 Fundamentos da educação ambiental seus próprios semelhantes. O conhecimento adquirido pelos homens ao longo dos tempos certamente trouxe importantes avanços científicos, tecnológicos e econômicos. Porém, ao mesmo tempo, ocorreu o aumento dos problemas socioambientais, resultantes do uso irracional e inconsequente dos recursos naturais. Em Santos e Machado (2004, p. 81) lemos: Indubitavelmente a sociedade atual caracteriza-se pelo avanço técnico-científico e informacional que lhe confere peculiaridades nunca antes imaginadas. É predominantemente urbana, da comunicação instantânea, das distâncias reduzidas, da robótica, da cibernética. Em contrapartida, é a sociedade do ter em detrimento do ser, da rapidez frenética, da competição acirrada, e, porque não dizer, marcada por profundas crises. A crise ambiental, foco de nossa conversa, repercute e se impõe de forma cada vez mais concreta perante a sociedade que, aos poucos, vem se conscientizando deste grave problema que põe em risco a sobrevivência de todas as espécies. Franco (2005, p. 25) relata que: o mundo desperta, repentinamente, assustado diante de alarmantes catástrofes naturais e de previsões ainda mais assustadoras. Toma consciência de que o desenvolvimento, a todo custo perseguido, apresenta efeitos colaterais distintos daqueles conhecidos. Você já observou que algumas catástrofes naturais não ocorrem mais tão longe de nós? Procure lembrar-se de eventos que até pouco tempo nunca ocorriam na sua região e que começaram a se tornar frequentes. Para quem é de Santa Catarina, o início pode ser o Furacão Catarina que atingiu o Sul do Estado em março de 2004 e deixou um rastro de destruição em 40 cidades catarinenses. Franco (2005) traz uma nota interessante a respeito de como nossa Civilização percebe o desenvolvimento. Observe: o termo “desenvolvimento”, em nossa Civilização, costuma ser tradicionalmente utilizado sob um enfoque eminentemente capitalista, cujo indicador normalmente está vinculado ao crescimento econômico ou, quando muito, tecnológico; e mesmo neste, considerado somente se estiver voltado à produção de riquezas. Franco (2005, p. 25) relata que “o mundo desperta, repentinamente, assustado diante de alarmantes catástrofes naturais e de previsões ainda mais assustadoras. Toma consciência de que o desenvolvimento, a todo custo perseguido, apresenta efeitos colaterais distintos daqueles conhecidos”. 71 A Crise AmbientalCapítulo 3 Assim, veiculados por todos os meios de comunicação, os problemas ambientais e as agressões ao meio ambiente tornaram-se cada vez mais frequentes e visíveis nas últimas décadas, o que pode ter contribuído para este processo aparente de conscientização da “questão ambiental”. Desmatamentos, queimadas, descarte de lixo (doméstico, hospitalar, industrial, entre outros), diariamente depositados em locais impróprios e sem qualquer tipo de tratamento, uso excessivo de agrotóxicos, são alguns exemplos de como o homem vem se relacionando, ao longo da história, com o meio ambiente. E por falar em lixo...veja a seguinte manchete: Brasil investiga contêineres de lixo enviados da Grã-Bretanha. Parece mentira, mas não é! A solução para o excesso de lixo produzido pelos países “ricos” e a falta de gerenciamento ambiental adequado para seus resíduos sólidos é a exportação! Leia a reportagem no site da BBC Brasil. Nele você encontrará outras reportagens relacionadas. Acesse: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/07/090717_ lixotoxicobrasilbg.shtml Se fizéssemos uma analogia das relações que acontecem entre os organismos, nos ecossistemas, com a relação do homem e o meio ambiente, poderíamos dizer que o homem, ao longo de sua história, estabeleceu com o meio ambiente uma relação desarmônica de parasitismo, na qual atua como parasita.Extrai dele o que deseja sem se preocupar com a saúde de seu hospedeiro, ou seja, do sistema que sustenta a sua vida (ODUM; BARRET, 2007). Como vimos em outros momentos, no decorrer desta disciplina, a crise ambiental não surgiu de uma hora para outra e, sim, há muito tempo. E se agravou especialmente no período da Revolução Industrial, quando começaram de fato as agressões ao meio ambiente. Este quadro de degradação ambiental, que caracteriza a crise, nada mais é do que o conjunto de ações danosas que nós mesmos viemos cometendo ao longo de nossa existência. Indiscutivelmente, não se trata somente de uma crise ambiental, mas de uma crise da sociedade no ambiente, uma crise de valores, de percepção. Para Santos e Machado (2004), a sociedade do século XXI tem dois grandes desafios: o primeiro deles é conseguir produzir de forma sustentável, lembrando que existe o dever ético de garantir o abastecimento para as futuras gerações; neste caso, trata-se de investir em pesquisas e novas Se fizéssemos uma analogia das relações que acontecem entre os organismos, nos ecos-sistemas, com a relação do homem e o meio ambiente, poderíamos dizer que o homem, ao longo de sua história, estabeleceu com o meio ambiente uma relação desarmônica de parasitismo, na qual atua como parasita. 72 Fundamentos da educação ambiental tecnologias, colocando-as a serviço da conservação, recuperação e preservação dos recursos naturais. O segundo desafio consiste em distribuir de forma equitativa a produção, tendo a necessidade de desenvolver mecanismos eficientes para acabar com a miséria de cerca de 20% da população mundial. Observe a comparação que Miller (apud BRAGA et al., 2002, p. 2) faz a respeito de nosso planeta: Nosso planeta pode ser comparado a uma astronave, deslocando-se a cem mil quilômetros por hora pelo espaço sideral, sem possibilidade de parada para reabastecimento, mas dispondo de um eficiente sistema de aproveitamento de energia solar e de reciclagem de matéria. Existem atualmente, na astronave, ar, água e comida suficientes para manter seus passageiros. Tento em vista o progressivo aumento do número desses passageiros, em forma exponencial, e a ausência de portos para reabastecimento, pode-se vislumbrar, a médio e longo prazos, problemas sérios para a manutenção de sua população. Atividade de estudo: Qual a sua opinião frente a esta comparação de Miller? Reflita sobre isso! ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 73 A Crise AmbientalCapítulo 3 ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Esta analogia proposta por Miller parece bastante pertinente, tendo em vista os dados que temos a respeito do crescimento populacional. No entanto, deixaremos este assunto para o próximo tópico, no qual o aumento da população é apontado como um dos problemas ambientais globais. Para Braga et al. (2002), os principais componentes da crise ambiental estão representados na figura 18. São eles: população, recursos naturais e poluição. Figura 18 – Relação entre os principais componentes da crise ambiental. Fonte: Adaptado de Braga et al. (2002) Desta forma, o nível da qualidade de vida que temos depende, diretamente, do equilíbrio entre os vértices do triângulo que acabamos de observar. Um aumento na população, sem qualquer tipo de controle, por exemplo, certamente causará um desequilíbrio neste sistema. A demanda por recursos naturais será maior para suprir as necessidades vitais dessa população que, inevitavelmente, acabará gerando algum tipo de poluição. Como seres integrantes do meio ambiente que somos, temos o dever de utilizar todo o avanço tecnológico e científico que conquistamos ao longo das gerações e aproveitar esta era da informação globalizada em que vivemos para criar formas efetivas de promover um meio ambiente equilibrado. Superar a crise ambiental implica não somente conciliar desenvolvimento econômico e social com a proteção do meio ambiente. É necessário, acima de tudo, mudança verdadeira no modo de pensar e agir da humanidade. No próximo tópico abordaremos, de forma isolada, alguns dos problemas ambientais que se apresentam em escala global. 74 Fundamentos da educação ambiental Dica de leitura! Escrito por Jean Dorst, a obra “Antes que a natureza morra”, lançada em 1998, continua a ser uma leitura básica para os que querem compreender as causas da crise ambiental do século XX. Trata do meio de vida e de como a sociedade foi educada para o trabalho e para a super-produção, resquícios da Revolução Industrial, aflorando a preocupação com a preservação do meio ambiente e a discussão sobre a qualidade de vida, e os efeitos causados pelas políticas de industrialização e produção de bens, adotados pelos países da Europa . DORST, J. Antes que a natureza morra. São Paulo: Edgard Blucher, 1998. Atividade de estudo: Como você descreveria a relação entre os componentes apresentados na figura 18: população, poluição e recursos naturais? ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 75 A Crise AmbientalCapítulo 3 Problemas Ambientais Globais Como vimos no tópico anterior, começamos a perceber que a crise ambiental tem suas origens no modo de vida que adotamos, no qual, valorizamoso ter em relação ao ser. Essa mudança do modo de vida e de valores adotados é muito bem relatada por Franco (2005, p. 27): O modo de vida e valores adotados encontram clara explicação diante da história da Civilização Ocidental, remontando a eras mais remotas, quando o homem via-se como parte da natureza, adotando outras formas de relacionamento com esta, considerando-a, em alguns casos, como sagrada e sua transição para uma concepção eminentemente antropocêntrica, onde o homem passa a entender-se como elemento externo e mais, para o qual tudo foi criado. A partir desse momento, em que passamos a não nos enxergarmos mais como parte integrante da natureza, inicia-se um processo de degradação ambiental e cultural. Cabe dizer nesse momento que, embora essa percepção das origens da crise comece a ser compreendida pela humanidade, a crise ambiental que estamos vivendo normalmente é atribuída a fatores externos, como: [...] excesso de emissões gasosas, poluição das águas e do solo por efluentes e por resíduos provenientes, dentre outros, do crescente processo de produção e de consumo, poluição do ar pela emissão excessiva de poluentes gasosos, [...] explosão demográfica e da necessidade de aumento de áreas urbanas e rurais – para plantio ou pecuária – bem como da crescente demanda de matéria-prima necessariamente extraída da natureza, acarretando, portanto, dizimação de grandes áreas de vegetação nativa e o desaparecimento de grande quantidade de animais e vegetais (FRANCO, 2005, p. 27). Conscientes do processo histórico que levou à crise ambiental que hoje vivemos, vamos analisar alguns aspectos causais relevantes que contribuíram e vem contribuindo para aumentar a crise. Os vértices do triângulo que você acabou de ver no tópico anterior, como causas da crise ambiental, serão tratados isoladamente agora. Além, é claro, das “mudanças climáticas” que temos presenciado em todo planeta. O Aumento Da População No topo do triângulo, como um dos componentes da crise ambiental, está a população. Como dissemos anteriormente, o crescimento populacional está diretamente relacionado ao aumento da demanda de recursos naturais e à geração de resíduos lançados no meio ambiente. Como dissemos anteriormente, o crescimento populacional está diretamente relacionado ao au-mento da demanda de recursos naturais e à geração de resíduos lançados no meio ambiente. 76 Fundamentos da educação ambiental De acordo com dados da ONU (apud BRAGA et al., 2002, p. 2), “a população mundial cresceu de 2,5 bilhões em 1950 para 6 bilhões no ano 2000 e, atualmente, a taxa de crescimento está em aproximadamente 1,3 por cento ao ano”. Lembrando a analogia da astronave que vimos anteriormente, isso significa que, a cada ano, milhões de novos passageiros embarcam nela e, como você lembra, não há paradas para reabastecimento, o que torna esse aumento populacional preocupante. Os dados da ONU, apresentados no parágrafo anterior, são do documento Revison of the World Population Estimates and Projections. Acesse o endereço eletrônico http://www.undp.org/ e veja outras informações do United Nations Development Programme (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). A ONU tem ainda o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), responsável por catalisar a ação internacional e nacional para a proteção do meio ambiente no contexto do desenvolvimento sustentável. Acesse o site e leia mais sobre este programa: http:// www.onu-brasil.org.br/agencias_pnuma.php Desastres ecológicos, extinções de espécies, perda irreparável da biodiversidade, surgimento de novas doenças, mudanças climáticas, poluição do ar, água e solo, escassez de alimentos, ecossistemas em desequilíbrio, são fatores que levam à diminuição da qualidade de vida. Os fatores que o Leo acabou de nos mostrar podem se agravar com o crescimento exponencial da população. Dados da ONU (apud SANTOS; MACHADO, 2004, p. 82) revelam que: [...] a população mundial, em 2050, poderá atingir 10,9 bilhões de pessoas, ou seja, um aumento real de 78% sobre o número atual de habitantes. Além disso, o número de pessoas com mais de 60 anos deve triplicar nesse mesmo período, chegando a 25% da população mundial. Este crescimento populacional é maior nos países menos desenvolvidos, os chamados países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. Devido às altas taxas de crescimento nessas nações, a situação de desequilíbrio tende a se agravar ainda mais (BRAGA et al., 2002). 77 A Crise AmbientalCapítulo 3 Para calcularmos o aumento da população, observamos a diferença entre a taxa de natalidade e a taxa de mortalidade. Um fator muito importante relacionado ao aumento populacional observado ao longo dos últimos tempos é, justamente, a redução considerável das taxas de mortalidade. Para Braga et al. (2002, p. 3): A partir da Revolução Industrial, a tecnologia proporcionou uma redução da taxa de mortalidade, responsável pelo aumento da taxa de crescimento populacional anual, apesar de a taxa de natalidade estar se reduzindo desde aquela época até os dias atuais. Se traçarmos uma linha, ao longo da história das civilizações, perceberemos que as pressões exercidas sobre o meio ambiente se intensificaram, tornando-o cada vez mais frágil. Diante desses dados e dessa perspectiva de crescimento populacional, a situação pode se agravar ainda mais. Será que os recursos naturais disponíveis serão suficientes para garantir a sobrevivência dos “passageiros da astronave” que aumentam a cada ano? Se pensarmos a longo prazo, a redução da taxa de crescimento populacional é imprescindível para garantir a sobrevivência e restabelecer o equilíbrio necessário. A Exploração dos Recursos Naturais Vamos ver agora alguns aspectos relacionados à exploração dos recursos naturais. Ao longo de todo estudo, você leu muitas vezes esta expressão: “uso inadequado dos recursos naturais”, “preservação dos recursos naturais”, “disponibilidade dos recursos naturais”. Mas o que isto significa realmente? Braga et al. (2002, p. 4) definem recurso natural como “[...] qualquer insumo de que os organismos, populações e ecossistemas necessitam para sua manutenção. Portanto, recurso natural é algo útil”. Assim, o termo está diretamente relacionado a desenvolvimento e economia, como concebidos pelo sistema sócio- econômico. Quando algo é chamado de recurso é porque pensamos na sua utilidade e não na sua importância intrínseca (como natureza, ser vivo, entre outros). Sendo assim, água, ar, minerais, biomassa, vento, combustíveis, entre outros, são exemplos de recursos naturais. Recurso natural como “[...] qualquer insumo de que os organismos, populações e ecossistemas necessitam para sua manutenção. Portanto, recurso natural é algo útil”. A partir da Revolução Industrial, a tecnologia proporcionou uma redução da taxa de mortalidade, responsável pelo aumento da taxa de crescimento populacional anual, apesar de a taxa de natalidade estar se reduzindo desde aquela época até os dias atuais. 78 Fundamentos da educação ambiental Relembrando novamente o capítulo 2, você pode compreender o processo evolutivo das relações entre sociedade e natureza e as rupturas que aconteceram nessas relações ao longo da história. O homem deixou de ser nômade para tornar-se sedentário e, a partir disso, aprendeu a cultivar a terra e passou a acumular uma quantidade cada vez maior de riquezas e de bens. Esta cultura do acúmulo de riqueza e de um consumo cada vez maior de bens e serviços hoje faz parte dos costumes de qualquer sociedade e economia no mundo. Acompanhando o aumento da produção e o crescimento econômico, vieram os impactosnegativos da humanidade sobre o meio ambiente. Se conseguirmos transpor nosso pensamento imediatista e projetarmos essa situação para algumas décadas à frente, estes impactos negativos podem levar a uma deterioração irreversível das reservas de recursos naturais, prejudicando desta forma o desempenho e a prosperidade das economias. Porém, isso não quer dizer que não possa existir “harmonia” entre os recursos naturais e o desenvolvimento econômico. Recursos naturais e economia interagem de modo bastante evidente, uma vez que algo é recurso na medida em que sua exploração é economicamente viável. Exemplo dessa situação é o álcool, que antes da crise do petróleo de 1973 apresentava custos de produção extremamente elevados ante os custos de exploração de petróleo. Hoje, no Brasil, apesar da diminuição do Proálcool, o álcool ainda pode ser considerado um importante combustível para automóveis e um recurso natural estratégico e de alta significância, devido a sua possibilidade de renovação e consequente disponibilidade. Sua utilização efetiva depende de análises políticas e econômicas que poderão ser revistas sempre que necessário. (BRAGA et al., 2002, p. 5). Assim, podemos dizer que atrás do conceito de recurso natural temos intrinsecamente relacionados o meio ambiente, a economia e a tecnologia. A questão ambiental reside no fato de que, nas últimas décadas, o uso irracional e inadequado desses recursos provocou uma série de problemas ambientais agravando a atual crise. É por isso que o nível de degradação dos recursos naturais e o nível de crescimento econômico de uma nação estão intimamente relacionados. Na disciplina de Gestão Ambiental, você verá, no capítulo 4, os principais problemas associados à exploração dos recursos naturais frente aos modelos econômicos tradicionais e perceberá que a conservação de recursos naturais envolve várias questões políticas, econômicas, culturais, entre outras. Neste mesmo capítulo, o autor abordará a questão da Pegada Ecológica, através da qual é possível mensurar a quantidade de recursos naturais que precisamos para sustentar nosso estilo de vida, o que inclui a cidade e a casa onde moramos, os A questão ambiental reside no fato de que, nas últimas décadas, o uso irracional e inadequado desses recursos provocou uma série de problemas ambientais agravando a atual crise. O homem deixou de ser nômade para tornar-se sedentário e, a partir disso, aprendeu a cultivar a terra e passou a acumular uma quantidade cada vez maior de riquezas e de bens. Impactos negativos podem levar a uma deterioração irreversível das reservas de recursos naturais, prejudicando desta forma o desempenho e a prosperidade das economias. 79 A Crise AmbientalCapítulo 3 móveis que temos, as roupas que usamos, o transporte que utilizamos, aquilo que comemos, o que fazemos nas horas de lazer, os produtos que compramos, e assim por diante. Assim, a pegada ecológica corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar, necessárias para gerar produtos, bens e serviços que sustentam determinados estilos de vida (mas também para dar conta dos descartes). E, como podemos perceber, a demanda e, consequentemente, o consumo dos recursos naturais podem variar muito entre países, cidades, e, até mesmo, entre pessoas. Acesse o site da WWF – Brasil, e leia mais sobre a pegada ecológica: http://www.wwf.org.br/wwf_brasil/pegada_ecologica/. Os recursos naturais podem ser classificados em renováveis e não- renováveis, como você pode observar na figura 19. Figura 19 – Classificação dos recursos naturais Fonte: Adaptado de Braga et al. (2002) Um fato interessante a ser ressaltado, neste momento, é que o uso inadequado desses recursos pode tornar um recurso renovável em não-renovável, “[...] quando a taxa de utilização supera a máxima capacidade de sustentação do sistema”. (BRAGA et al., 2002, p. 5). É nesse momento que a exploração destes recursos naturais se torna um dos problemas ambientais globais, tratados nesse tópico: quando o homem não respeita o tempo natural e necessário de renovação dos recursos na natureza. 80 Fundamentos da educação ambiental Em várias ocasiões deste estudo, você leu a expressão “questão ambiental”. O que você entende por essa expressão? A questão ambiental são os problemas relacionados ao intenso processo de degradação do meio ambiente e dos recursos naturais. Estes problemas e situações estão, em grande parte, atrelados às atividades humanas, devido à intensificação do desenvolvimento econômico e crescimento populacional observados nos últimos tempos. Atividade de estudo: 1) Com relação aos recursos naturais, que acabamos de estudar no tópico anterior, faça uma pesquisa, a fim de identificar e relacionar as vantagens e desvantagens na utilização de dois tipos de recursos naturais: o petróleo (recurso natural não-renovável) e o álcool combustível (recurso natural renovável). ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 2) Faça uma pesquisa sobre os recursos naturais que são usados como fontes de energia limpa. Conceitue o termo energia limpa, apresente quais são os principais tipos existentes e de que forma é 81 A Crise AmbientalCapítulo 3 utilizada. Através desta pesquisa, faça uma análise sobre a utilização dessas fontes de energia, apontando seus prós e contras. Como dica, construa uma tabela, organizando essas informações. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ __________________________________________________ A Poluição Ambiental Ao passo que fazemos uso dos recursos naturais, automaticamente geramos algum tipo de poluente. Ao escutar ou ler o termo “poluição”, o que lhe vem à mente? Quais são as imagens que você automaticamente produz ao pensar em um ambientepoluído? A poluição pode ser conceituada como alterações, de ordem antrópica, nas características físicas, químicas ou biológicas da atmosfera, litosfera ou hidrosfera. Essas alterações causam ou podem causar prejuízos à saúde, afetar a sobrevivência ou as atividades dos seres humanos e outras espécies (BRAGA et al., 2002). Mas, como essa poluição é quantificada? A poluição está ligada à quantidade ou à concentração de um determinado poluente. Assim, são estabelecidos padrões e indicadores de qualidade do ar, água e solo, para que seja possível o controle da poluição de acordo com a legislação ambiental. A poluição pode ser conceituada como alterações, de ordem antrópica, nas características físicas, químicas ou biológicas da atmosfera, litosfera ou hidrosfera. A poluição está ligada à quantidade ou à concentração de um determinado poluente. Assim, são estabelecidos padrões e indicadores de qualidade do ar, água e solo, para que seja possível o controle da poluição de acordo com a legislação ambiental. 82 Fundamentos da educação ambiental Figura 20 – Classificação das fontes poluidoras Fonte: Adaptado de Braga et al. (2002) Como podemos perceber, a partir da análise da figura 20, os efeitos da poluição podem ser localizados, regionais ou globais. Os mais conhecidos e fáceis de serem percebidos são os de efeito local ou regional, que normalmente ocorrem em lugares onde a concentração de pessoas é maior, ou então, em áreas com grande atividade industrial. Veremos agora alguns efeitos globais em virtude do excesso de poluição no ambiente. a) Chuvas Ácidas As chuvas ácidas são um dos maiores problemas ambientais da atualidade. Desde a Revolução Industrial, com o aumento da emissão de gases poluentes na atmosfera, este fenômeno vem aumentando devido à solubilização de alguns gases cuja hidrólise seja ácida. Vale lembrar que as chuvas normais possuem um pH levemente ácido, em torno de 5,6 unidades. Essa acidez é causada pela dissociação do CO2 em água, formando um ácido fraco, conhecido como ácido carbônico, mas também de outros gases. Assim, chuva ácida é toda chuva que possui um valor de pH abaixo de 4,5 unidades (BENETTI, 2009). Os efeitos da poluição mais conhecidos e fáceis de serem percebidos são os de efeito local ou regional, que normalmente ocorrem em lugares onde a concentração de pessoas é maior, ou então, em áreas com grande atividade industrial. A camada de ozônio é um escudo natural da Terra que nos protege dos efeitos nocivos dos raios solares, em especial os raios ultravioleta (UV). 83 A Crise AmbientalCapítulo 3 Este fenômeno provoca o desequilíbrio nos ecossistemas. Um exemplo disso é o aumento do pH da água, modificado pelas chuvas ácidas. Esta alteração do meio aquático é nociva às mais diversas formas de vida, sendo que algumas espécies de peixe, por exemplo, não são tolerantes a esta diminuição do pH. Vegetais também sofrem as consequências da chuva ácida e muitos microrganismos, presentes no solo e responsáveis pela sua fertilidade, são destruídos em virtude do aumento da acidez, além de problemas econômicos e sociais. b) Destruição da Camada de Ozônio A camada de ozônio é um escudo natural da Terra que nos protege dos efeitos nocivos dos raios solares, em especial os raios ultravioleta (UV). Situada entre 10 e 50 km de altitude, a camada de ozônio é uma região onde se concentra o ozônio molecular (O3). A redução acelerada desta área da atmosfera ficou conhecida como “buraco na camada de ozônio”. O gás CFC (Cloro Flúor Carbono) é o grande responsável pela degradação do ambiente em escala global e pela destruição da camada de ozônio. Ao atingir a faixa de concentração da camada de ozônio, as moléculas de CFC rompem-se sob a ação dos raios ultravioleta e liberam cloro, que reage com o ozônio, formando oxigênio comum. Acesse o site http://videoseducacionais.cptec.inpe.br/ e assista a um vídeo que mostra como ocorre a destruição da camada de ozônio. Este vídeo é um dos que estão na lista do tema Mudanças Climáticas. Navegue neste site e assista a outros vídeos relacionados às mudanças ambientais globais. Ainda sobre a camada de ozônio: O buraco na camada de ozônio sobre a Antártida estabilizou-se desde 2000, mas ainda demorará décadas para se regenerar e fechar, o que pode ocorrer a partir de 2065. Apesar da estabilização, ainda não há sinais de uma recuperação sobre o pólo sul, embora o climatólogo americano David J. Hofmann, da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA), afirme que, caso continue a tendência atual, o buraco poderia começar a se fechar a partir do ano 2030. (FOLHA ONLINE, 2009). O gás CFC (Cloro Flúor Carbono) é o grande responsável pela degradação do ambiente em escala global e pela destruição da camada de ozônio. Ao atingir a faixa de concentração da camada de ozônio, as moléculas de CFC rompem-se sob a ação dos raios ultravioleta e liberam cloro, que reage com o ozônio, formando oxigênio comum. 84 Fundamentos da educação ambiental Com o objetivo de amenizar este problema ambiental global, diversos países, inclusive o Brasil, assinaram o Protocolo de Montreal, em que todos se comprometeram em reduzir e deixarem de produzir e consumir os CFCs, em um determinado prazo pré-estipulado (COIMBRA; TIBURCIO, 2006). Este protocolo surgiu diante do aumento do buraco na camada de ozônio e suas consequências para a vida na Terra. Assim, a humanidade vai tentando, ao longo de sua existência, remediar os problemas ambientais que ela mesma cria. Sugestão de leitura! O Instituto Brasil PNUMA, como Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, tem como uma de suas atividades a promoção e participação em atividades de educação e conscientização ambiental. Leia o texto Camada de Ozônio, escrito por Ricardo Daher - Secretário Executivo do PNUMA. Basta acessar: http://www.brasilpnuma.org.br/pordentro/ saibamais_ozonio.htm. c) Mudanças Climáticas - Aquecimento Global Para iniciarmos nosso diálogo, precisamos entender que o clima é um conjunto de condições meteorológicas (temperatura, umidade, chuvas, pressão e ventos) que mantêm características comuns em uma determinada região. Além disso, as variações no clima fazem parte da dinâmica ambiental do planeta. As causas reais das mudanças climáticas não são unanimidade perante a comunidade científica. Embora não haja unicidade entre os discursos, estudos apontam a ação antrópica, associada às variações cíclicas naturais, como um dos principais fatores relacionados às mudanças climáticas. Segundo Souza e Camargo (2006), as mudanças climáticas já afetam o cotidiano de bilhões de pessoas de forma impossível de ser ignorada: Para iniciarmos nosso diálogo, precisamos entender que o clima é um conjunto de condi- ções meteorológicas (temperatura, umidade, chuvas, pressão e ventos) que mantêm característi-cas comuns em uma determinada região. Além disso, as variações no clima fazem parte da dinâ- mica ambiental do planeta. Com o objetivo de amenizar este problema ambiental global, diversos países, inclusive o Brasil, assinaram o Protocolo de Montreal, em que todos se comprometeram em reduzir e deixa-rem de produzir e consumir os CFCs, em um determinado prazo pré- estipulado (COIMBRA; TI-BURCIO, 2006). 85 A Crise AmbientalCapítulo 3 Pela primeira vez desde que começaram as medições, no século XIX, o termômetro chegou aos 40 graus em diversas regiões temperadas da Europa e dos Estados Unidos. A Somália foi castigada pelas enchentes mais devastadoras do últimomeio século. A calota gelada do Ártico ficou 60 400 quilômetros quadrados menor – ou seja, uma área equivalente a duas vezes o estado de Alagoas virou água e ajudou a elevar o nível dos oceanos. Na China, segundo o relatório, a pior temporada de ciclones em uma década resultou em 1 000 mortes e 10 bilhões de dólares em prejuízos. Na Austrália, o décimo ano seguido de seca impiedosa agravou o processo de desertificação do solo e desencadeou incêndios florestais com virulência nunca vista. Sabe-se que o relatório final da Organização Meteorológica Mundial, a ser divulgado em fevereiro, prevê o desaparecimento total do gelo no Ártico durante os meses de verão já a partir de 2040. Isso pode significar a extinção do urso-polar em seu habitat. Se pensarmos que todas essas catástrofes acontecem em decorrência do aumento de apenas 1 grau na temperatura média do planeta, nos últimos 100 anos, é, no mínimo, assustador imaginarmos as consequências do aumento previsto para o ano de 2100, que, segundo o relatório do Intergovernmental Panel on Global Climate, financiado pelas Nações Unidas, terá um acréscimo de até 5,8ºC (KERR apud KRÜGER, 2001). Se analisarmos a história da vida de nosso planeta, realmente veremos que em 4,5 bilhões de anos ocorreram mudanças climáticas radicais, com períodos de estabilidade seguidos de glaciações. Assim, essas mudanças climáticas de causas geológicas são normais e cíclicas. Porém, não podemos esquecer que a composição química da atmosfera também influencia o clima e que, desde a Revolução Industrial, a emissão de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, vem aumentando consideravelmente, como já vimos em outros momentos desta disciplina. Veja o que diz Eerola (2003, p. 7): Os dados de medições meterológicas de temperaturas existentes cobrem um período de apenas aproximadamente cem anos, ou seja, parte do período industrial. Porém, cem anos é um período completamente desprezível do ponto de vista geológico. Vivemos atualmente em um período posterior à glaciação que terminou somente há 10.000 anos. Estamos caminhando rumo a uma nova glaciação que ocorrerá daqui a 23.000 anos. Portanto, estamos em um período interglacial, quando as temperaturas podem oscilar ciclicamente entre mais altas e mais baixas. Esta alternância é completamente natural. Porém, levando-se em conta estas medições, existem dois fatos sobre as mudanças climáticas: a temperatura média e o teor de dióxido de carbono estão em ascensão mundialmente. [...] Ao não se conhecer outras fontes naturais de dióxido de Se analisarmos a história da vida de nosso planeta, realmente veremos que em 4,5 bilhões de anos ocorreram mudanças climáticas radicais, com períodos de estabilidade seguidos de gla- ciações. 86 Fundamentos da educação ambiental carbono ativas ao mesmo tempo, a conclusão lógica ao que os pesquisadores chegaram, foi que estes aumentos dever ser provocados pelo homem. [...] Mesmo assim, existem evidências de que estes teores em ascensão não são devidos apenas à atividade antrópica. Existe uma correlação forte com algumas outras fontes de dióxido de carbono e o aumento de temperaturas globais, como oceanos e atividade vulcânica, por exemplo. Nos últimos tempos temos ouvido muito sobre o aumento da temperatura média mundial, aumento do efeito estufa e a expressão “aquecimento global”. Na certa, você já deve ter lido alguma manchete ou reportagem a respeito deste fenômeno. Este aumento da temperatura da atmosfera é causado pela excessiva emissão de gases poluentes, principalmente dióxido de carbono, que formam uma espécie da “capa” em torno da Terra. Esses gases absorvem parte da radiação solar; consequentemente, o calor fica retido, não sendo liberado para o espaço, ocasionando o chamado efeito estufa. Não podemos nos esquecer de que o efeito estufa é um fenômeno natural e vital para a manutenção da vida na Terra. Ele é responsável por temperaturas mais amenas e adequadas que permitem esta grande biodiversidade do nosso Planeta. Se não fosse ele, a Terra seria aproximadamente 33ºC mais fria! Os gases de estufa, assim chamados por serem os intensificadores deste fenômeno são, principalmente: dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O), CFC`s (clorofluorcarbonetos). Dessa forma, medidas de preservação dos ecossistemas e uso de energias que não poluam o meio ambiente devem fazer parte dos programas de desenvolvimento de todas as Nações. Este aumento da temperatura da atmosfera é causado pela excessiva emissão de gases poluentes, principalmente dióxido de carbono. Medidas de preservação dos ecossistemas e uso de energias que não poluam o meio ambiente devem fazer parte dos programas de desenvolvimento de todas as Nações. 87 A Crise AmbientalCapítulo 3 Acesse o site: http://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/meio_ ambiente_brasil/clima/painel_intergovernamental_de_mudancas_ climaticas/ e leia os relatórios divulgados sobre as mudanças climáticas. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC – sigla em inglês) é o órgão das Nações Unidas responsável por produzir informações científicas sobre as mudanças climáticas. Benetti (2009) relata algumas consequências do aquecimento global: • derretimento das calotas polares, acarretando o aumento do nível dos oceanos, o que causará inundações em cidades litorâneas; • alterações no regime das chuvas (menor pluviosidade em determinadas regiões e maior em outras); • doenças que hoje são típicas de uma determinada região, como a malária e a febre amarela, poderão atingir regiões onde hoje não são encontradas; • desertificação de áreas que hoje são campos ou florestas; • extinção de espécies; • grandes incêndios. Torna-se evidente que, para não piorar ainda mais a situação, precisaríamos parar de lançar na atmosfera gases como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, resultantes da atividade humana. Cabe à intensificação do efeito estufa a maior responsabilidade pelo aumento da temperatura global. Nesta batalha pela redução da emissão de gases poluentes temos, de um lado, países desenvolvidos e altamente industrializados, detentores de um grande poderio econômico; porém, os maiores poluidores. Do outro lado, países em desenvolvimento, que poluem em uma escala menor, mas sofrem igualmente as consequências da emissão excessiva de gases poluentes. Você verá, no capítulo 4 desta disciplina, detalhes sobre o Tratado de Quioto, que propôs a redução das emissões de gases causadores da intensificação do efeito estufa. Segundo Coimbra e Tiburcio (2006, p.163): O Tratado de Quioto entrou em vigor em fevereiro de 2005, reconhecido por 55 países industrializados. Porém, o maior poluidor do mundo, os Estados Unidos, ficou fora do tratado, alegando que teria consequências negativas em seu desempenho econômico caso diminuísse suas emissões em 7%. 88 Fundamentos da educação ambiental Essa postura é uma prova de que, embora exista uma”frágil”consciência da humanidade sobre a crise ambiental instalada no planeta, indicando que iniciamos o processo de mudança de pensamento, verdadeiramente ainda não mudamos nossa forma de agir. Precisamos consolidar a ideia de que o desenvolvimento econômico está altamente ligado às políticas de preservação do meio ambiente e a uma gestão planejada de nossos recursos naturais. Sessão de cinema! Assista ao filme “Uma Verdade Inconveniente”, de Albert Gore. Neste filme, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, apresenta uma análise da questão do aquecimento global, mostrando os mitos e equívocos existentes em torno do tema e também possíveis saídas para que oplaneta não passe por uma catástrofe climática nas próximas décadas. Atividade de estudo: “Uma Verdade Inconveniente, o documentário protagonizado pelo ex-vice-presidente dos EUA se agarra a clichês e pouco acrescenta ao debate sobre aquecimento global. Diante desse problema, que perturba, incomoda e preocupa, entrar no cinema para assistir a Uma verdade inconveniente, do diretor Davis Guggenheim, gera expectativas de que o filme contribua para ampliar a questão, multiplicar suas nuances e produzir novas percepções e sensibilidades. Mas as opções de Uma verdade inconveniente pouco contribuem nessa direção. Um filme-palestra, repleto de clichês, tais como a ideia de que o aquecimento global é um problema moral e não político; a apresentação da ciência como conhecimento superior a outras formas de conhecimento, que nos oferecerá sempre as alternativas certas; o mito da natureza intocada; e a noção de consenso sobre o problema. Ao repetir esses chavões, que há mais de dez anos povoam as discussões ambientais sem acrescentar muito, aproveita pouco do que a arte do cinema possibilita. O filme provocou reações de cientistas, que o consideram pouco confiável e alarmante; de cineastas, especialmente documentaristas, que o avaliaram como pobre, nas relações entre realidade-ficção-verdade, além de ficarem indignados com o Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que o documentário 89 A Crise AmbientalCapítulo 3 recebeu; e ambientalistas que atacaram a visão reducionista, que o filme apresenta, da complexidade sociopolítica da questão”. Fonte: DIAS, Susana. Uma verdade inconveniente. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico. Disponível em: <http://www.comciencia.br/comciencia/handler. php?section=8&edicao=22&tipo=resenha>.Acesso em: 17 set. 2009. 1) Você concorda com a crítica apresentada? Reflita e expresse a sua opinião sobre o filme! ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 2) O que é e como acontece o chamado “efeito estufa”? Qual a relação entre efeito estufa e aquecimento global? ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 90 Fundamentos da educação ambiental O meio ambiente em debate. Nesta obra, o autor aborda vários assuntos pertinentes ao nosso estudo, como por exemplo: ecologia, meio ambiente, poluição, chuva ácida, efeito estufa, buraco na camada de ozônio, poluição urbana, impactos sociais e culturais, entre outros. Veja a referência completa: BRANCO, S. M. O Meio Ambiente em Debate. São Paulo: Moderna, 1999. É inegável a contribuição do homem no aumento dos níveis de dióxido de carbono e outros gases poluentes na atmosfera. Sabemos que, ao longo da história, ocorreram muitas mudanças no meio ambiente, na paisagem e no clima, e, em decorrência dessa evolução, a paisagem que vemos hoje não será a mesma do futuro. Assim também o nível de desenvolvimento, com uma economia baseada no uso de combustíveis fósseis e outros recursos não renováveis, não será mais possível. É bastante arriscado continuarmos com nossos hábitos, sem preocupação com as consequências de nossas ações sobre o meio ambiente. Enquanto vivemos e “aguardamos” novas transformações ambientais globais, temos o dever de usar toda inteligência e tecnologia alcançadas ao longo de nossa evolução, para atenuar nossa influência sobre essas mudanças climáticas. De que forma poderemos fazer isso? Aprendendo a reciclar, reduzindo o consumo de combustíveis fósseis, buscando fontes alternativas de energias, aproveitando recursos naturais renováveis, como a energia eólica, respeitando o meio ambiente e promovendo Educação Ambiental para todos de forma interdisciplinar, como veremos no próximo tópico. Acesse o site http://veja.abril.com.br/301206/p_138.html e leia a reportagem 7 megassoluções para um megaproblema. Boa leitura! Do nicho ao lixo: ambiente, sociedade e educação. Este volume apresenta ampla discussão de um assunto de grande atualidade: a questão ambiental. Os autores fazem uma exposição dos problemas ambientais - chuva ácida, inversão térmica, camada de ozônio, É inegável a contribuição do homem no aumento dos níveis de dióxido de carbono e outros gases poluentes na atmosfera. É bastante arriscado continuarmos com nossos hábitos, sem preocupação com as con-sequências de nossas ações sobre o meio ambiente. Enquanto vivemos e “aguardamos” novas transformações ambientais globais, temos o de-ver de usar toda inteligência e tecnologia alcançadas ao longo de nossa evolução, para atenuar nossa influência sobre essas mudanças climáticas. 91 A Crise AmbientalCapítulo 3 efeito estufa, aterros sanitários, desmatamentos - e discutem a possibilidade do processo de evolução técnica, econômica e social que tantas modificações impõe à vida do planeta. SCARLATO, F. C.; PONTIN, J. A. Do nicho ao lixo: ambiente, sociedade e educação. São Paulo: Atual, 1992. d) A Perda da Biodiversidade O grande desequilíbrio ecológico gerado pelo homem, através de suas ações, afeta não somente a si, como às diversas outras formas de vida. A atual crise ambiental está diretamente relacionada também a uma crise da biodiversidade, uma vez que a harmonia entre os componentes bióticos e abióticos de um ecossistema é fundamental para permitir e manter a vida no nosso planeta. Os componentes bióticos e abióticos de um ecossistema foram estudados no capítulo 1 desta disciplina – Fundamentos da Ecologia. Se necessário, retorne a ele e relembre os conceitos. Segundo Franco (2005, p. 21): O grande desafio, atualmente enfrentado, reside exatamente em proteger a diversidade da vida, através de adequada interpretação dos instrumentos legais existentes calcados nos conhecimentos científicos disponíveis. Grande parte dessa diversidade concentra-se em áreas florestais, representando um dos principais focos de biodiversidade do planeta, tendo, portanto, sua proteção, especial importância na busca de uma solução para a crise ambiental. O termo biodiversidade pode ser entendido em vários níveis, desde gens atéecossistemas, assim como toda a diversidade biológica existente, ou seja, a diversidade da vida. Isso inclui todos os seres vivos, desde os organismos microscópicos mais simples, até os mais complexos, como os seres humanos. Segundo o Decreto 2.519/98, o termo biodiversidade está conceituado em seu art. 2º como: A variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos O grande desafio, atualmente enfrentado, reside exatamente em proteger a diver-sidade da vida, através de adequada interpretação dos instrumentos legais exis-tentes. A atual crise ambiental está diretamente relacionada também a uma crise da biodiversidade, uma vez que a harmonia entre os componentes bióticos e abióticos de um ecossistema é fundamental para permitir e manter a vida no nosso planeta. 92 Fundamentos da educação ambiental ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas. Para entendermos a importância e o tempo do homem na história evolutiva da biodiversidade, precisamos fazer uma rápida análise, desde o surgimento da Terra há 4,5 bilhões de anos atrás até os dias atuais. Aproximadamente um bilhão de anos após o surgimento da Terra foi que gradualmente se estabeleceram as condições ambientais favoráveis ao surgimento das primeiras células, como pode ser observado na figura 21. Figura 21 – Eras geológicas condensadas em 24 horas. Fonte: Disponível em: <http://www.jornaljovem.com.br/edicao13/ images/13_eras_geologicas01_000.jpg>. Acesso em: 03 ago. 2009. Diante da análise desta figura e conforme você estudou no capítulo 2 desta disciplina, podemos perceber que a participação do homem na história, se pensarmos no tempo geológico, é praticamente insignificante em relação ao período e processo evolutivo da vida na Terra. Entretanto, não se pode dizer o mesmo em relação à sua participação para a rápida perda da biodiversidade, que presenciamos na atual crise. Dentre os fatores que se encontram diretamente relacionados à crise da biodiversidade, e que são causa direta de sua deterioração, podemos citar ações 93 A Crise AmbientalCapítulo 3 antrópicas, como: poluição do solo, da água e da atmosfera; alterações climáticas; introdução de espécies exóticas; exploração de espécies vegetais e animais; devastação ou alteração de ambientes naturais; entre outros (FRANCO, 2005). Alguns problemas ambientais já estudados neste capítulo, como por exemplo, chuva ácida e aquecimento global, são consequências da ação danosa humana sobre o meio ambiente e responsáveis por parte da degradação da biodiversidade. A devastação e a fragmentação de florestas, por meio de desmatamentos e queimadas, também acarretam o desaparecimento de um grande número de espécies. Franco (2005, p. 38) ressalta que “A fragmentação dos habitats constitui, juntamente com a destruição destes, uma das principais causas da perda da biodiversidade no planeta, por tornar inviável a perpetuação, condenando à extinção um incontável número de espécies animais e vegetais”. Na disciplina de Gestão Ambiental, no capítulo 4, o professor autor abordará a questão da valoração ambiental como uma alternativa de preservação. Se forem atribuídos valores monetários aos recursos naturais, capazes de refletir sua escassez, sua preservação será mais provável. O descaso com que o ser humano vem tratando do recurso natural água também é fator de preocupação e responsável pela perda da diversidade biológica. Interferências nos ciclos hidrológicos e, principalmente, inúmeras formas de poluição desse recurso, são ações que afetam não somente o ser humano, mas também todos os demais seres vivos, tendo em vista que a água é um elemento indispensável à sobrevivência de todas as espécies da biosfera. Quando se diz que água é essencial à vida, é porque sem ela não existe respiração, reprodução, fotossíntese, quimiossíntese, habitats e nichos ecológicos para a maioria das espécies existentes. A sua ausência ou contaminação implica (em) forma de poluição cujas consequências não são outras senão degradar diretamente a própria vida (FIORILLO; RODRIGUES apud FRANCO, 2005, p. 133). Dessa forma, a perda contínua da biodiversidade é um forte indicador do desequilíbrio existente entre as necessidades humanas e a capacidade de suporte da natureza. Como vimos em outro momento deste capítulo, o crescimento populacional e o uso proporcional e excessivo dos recursos naturais tornam evidentes os limites de sustentabilidade dos processos naturais. 94 Fundamentos da educação ambiental Estamos vivendo um momento de extrema importância diante da crise ambiental, quando temos a opção de seguir dois caminhos: podemos continuar a utilização desenfreada dos recursos naturais para atender nossas necessidades imediatas, acarretando danos talvez irreversíveis, ou podemos implementar medidas alternativas para a conservação da biodiversidade e utilizá-la de forma sustentável, o que pode ser alcançado através de um processo emergente de Educação Ambiental, como veremos no próximo tópico. A Emergência da Educação Ambiental Diante dos fatos apresentados e da crise ambiental abordada neste capítulo, quando falamos na emergência da Educação Ambiental (EA), estamos dando a esse processo de educação o grande desafio de transformar cidadãos passivos e alheios à situação, em grandes defensores do meio ambiente. A mudança no modo de pensar e agir, fundamentais para reverter a desarmonia entre homem e meio ambiente, será, em grande parte, conseguida através de um processo efetivo de EA. Você terá a oportunidade de acompanhar, no capítulo 4, o surgimento da EA (como resposta à preocupação da sociedade com o futuro) e analisar as tendências deste processo educativo na busca da sustentabilidade, como uma nova perspectiva nas relações sociedade- natureza. Vendo a EA como uma das possíveis estratégias para o enfrentamento da crise social e cultural que estamos vivendo, Sorrentino et al. (2005, p. 287) relatam: A urgente transformação social de que trata a educação ambiental visa à superação das injustiças ambientais, da desigualdade social, da apropriação capitalista e funcionalista da natureza e da própria humanidade. [...] A educação ambiental, em específico, ao educar para a cidadania, pode construir a possibilidade da ação política, no sentido de contribuir para formar uma coletividade que é responsável pelo mundo que habita. Essa emergência da conscientização “ecológica”, em que sociedade e natureza não sejam mais vistas como dissociáveis e sim, como partes intrinsecamente relacionadas do todo, e como responsabilidade de cada indivíduo perante o coletivo, é condição importante a ser alcançada através da EA. Diante dos fatos apresentados e da crise ambiental abordada neste capítulo, quando falamos na emergência da Educação Ambiental (EA), estamos dando a esse processo de educação o grande desafio de transformar cidadãos passivos e alheios à situação, em grandes defensores do meio ambiente. A educação ambiental, em específico, ao educar para a cidadania, pode construir a possibilidade da ação política, no sentido de contribuir para formar uma coletividade que é responsável pelo mundo que habita. 95 A Crise AmbientalCapítulo 3 Dada a complexidade dos problemas socioambientais, a EA se apresenta como um grande desafio, o que implica utilizar novas estratégias de ação e novos padrões de conduta, baseados em uma nova relação ética, com enfoque ambiental (BENETTI, 2009).Na disciplina de “A Inserção Curricular da EA e a Formação de Professores”, que você verá mais adiante, estudaremos a importância da EA dentro do contexto do ensino formal. Porém, seja a EA desenvolvida no âmbito dos currículos escolares, ou de maneira não-formal, através de ações de natureza educativa que visem à capacitação dos indivíduos, tornando-os aptos a agir em defesa da qualidade ambiental, nós a temos como uma arma importante a ser utilizada contra a crise ambiental. Neste momento, sugerimos que você faça a leitura da “Carta do Chefe Seattle”. Em 1854, “O Grande Chefe Branco” em Washington fez uma oferta por uma grande área de território indígena e prometeu uma “reserva” para os índios. A resposta do Chefe Seattle, reproduzida na íntegra neste endereço, tem sido considerada uma das declarações mais belas e profundas já feitas sobre o meio-ambiente. Acesse: http://boasaude.uol.com.br/lib/ShowDoc. cfm?LibDocID=3981&ReturnCatID=1773. Este documento estará disponível também no material de apoio da disciplina. Consulte-o! Em busca da dimensão ética da educação ambiental. Esse livro defende o resgate da humildade, do respeito e do diálogo com a Natureza, para a compreensão dos problemas ambientais que estamos vivenciando. Ao longo dos últimos 300 anos, a Natureza foi transformada em mero objeto de manipulação à disposição da razão humana. A visão das paisagens e dos lugares de modo mecânico e sem vida levaram a uma completa separação entre seres humanos e meio ambiente. Atento a esses problemas, o autor desenvolve nessa obra uma ética de parceria com a Natureza, em educação ambiental, uma simbiose na qual os elementos se combinam num regime de co- participação e integração. GRUN, M. Em busca da dimensão ética da educação ambiental. Campinas: Papirus, 2007. Temos como uma arma importante a ser utilizada contra a crise ambiental. 96 Fundamentos da educação ambiental Algumas Considerações Uma possibilidade real de reversão da crise ambiental consiste em promovermos uma profunda transformação no pensar e no agir da humanidade, sendo a Educação Ambiental a força propulsora desta transformação. Quando percebermos que os recursos naturais são parte integrante da nossa vida, e não apenas algo que utilizamos como mercadoria para satisfazer nossas necessidades, muitas vezes imediatistas, talvez consigamos reduzir em muito nossos impactos negativos sobre o meio ambiente. A espécie humana, pela primeira vez na história, pode ter o poder de contribuir de forma significativa às mudanças globais. Independente dos causadores reais das mudanças climáticas, as consequências da crise ambiental, como aquecimento global, mudanças climáticas promovendo grandes períodos de estiagem ou chuva excessiva, aumento das doenças, o perigo eminente da falta de água potável, perda da biodiversidade, entre tantos outros, podem ser minimizadas. Para tanto, é necessário a mudança também globalizada de pensamento e atitude por parte da humanidade. Só assim será possível amenizar os problemas, a ponto de garantir a nossa sobrevivência e assegurar para as gerações futuras um ambiente saudável. Para concluir nossa reflexão, reescrevemos algumas linhas extraídas da “Carta do chefe Seattle”: “[...] Tudo o que acontece à Terra – acontece aos filhos da Terra. O homem não teceu a teia da vida – ele é meramente um fio dela. O que quer que ele faça à teia, ele faz a si mesmo [...]”. Pense nisso e seja um ator social consciente de suas responsabilidades perante o coletivo. Referências CARTA do chefe Seattle”. Disponível em: <http://boasaude.uol.com.br/lib/ ShowDoc.cfm?LibDocID=3981&ReturnCatID=1773>. Acesso em: 17 set. 2009. BENETTI, L. B. Recursos naturais, meio ambiente e desenvolvimento. Indaial: Asselvi, 2009. BRAGA, B. et al. Introdução à engenharia ambiental. São Paulo: Prentice Hall, 2002. BRASIL. Decreto Lei n. 2.519, de 16 de março de 1998. Promulga a Convenção sobre Diversidade Biológica, assinada no Rio de Janeiro, em 05 de junho de 97 A Crise AmbientalCapítulo 3 1992. Disponível em: <http://www.lei.adv.br/2519-98.htm>. Acesso em: 03 ago. 2009. BURACO da camada de ozônio pode fechar a partir de 2065. Folha Online, 21 abr. 2004. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ ult10007u553819.shtml>. Acesso em: 01 jul. 2009. COIMBRA, P. J.; TIBÚRCIO J. A. M. Geografia: uma análise do espaço geográfico. 3. ed. São Paulo: Harbra, 2006. EEROLA, T. T. Mudanças Climáticas Globais: passado, presente e futuro. 2003. Disponível em: <http://homologa.ambiente.sp.gov.br/proclima/artigos_ dissertacoes/artigos_portugues/mudancasclimaticasglobaispassadopresen teefuturo.pdf>. Acesso em: 30 jun. 2009. FRANCO, J. G. de O. Direito ambiental matas ciliares. Curitiba: Juruá, 2005. KRÜGER, E. L. Uma abordagem sistêmica da atual crise ambiental. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 4, p. 37-43, jul./dez. 2001. Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/made/article/viewFile/3038/2429>. Acesso em: 05 jun. 2009. ODUM, E. P.; BARRET, G. W. Fundamentos de ecologia. São Paulo: Thomson, 2007. SANTOS, V. L. dos; MACHADO, L. M. C. P. A crise ambiental na sociedade atual: uma crise de percepção. Estudos Geográficos, Rio Claro, v. 2, n. 2, p. 81-86, dez. 2004. Disponível em:<http://cecemca.rc.unesp.br/ojs/index.php/estgeo/ article/viewFile/248/204>.Acesso em: 25 abr. 2009. SORRENTINO, M. et al. Educação ambiental como política pública. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 285-299, maio/ago. 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n2/a10v31n2.pdf.>. Acesso em: 26 abr. 2009. SOUZA, O. de.; CAMARGO, L. Sete megassoluções para um megaproblema. Veja on-line, ed. 1989, 30 dez. 2006. Disponível em: <http://veja.abril.com. br/301206/p_138.html>. Acesso em: 30 jun. 2009. 98 Fundamentos da educação ambiental CAPÍTULO 4 Histórico da Educação Ambiental A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo, você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 9 Conhecer os princípios básicos da Educação Ambiental. 9 Compreender a evolução dos movimentos ambientalistas, bem como as diferentes formas de manifestação. 9 Compreender o surgimento da Educação Ambiental como resposta à preocupação da sociedade com o futuro. 9 Analisar as tendências da Educação Ambiental, no que tange principalmente à sustentabilidade, como uma nova perspectiva para conduzir as relações sociedade-natureza. 100 Fundamentos da educação ambiental 101 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 Contextualização A maioria dos problemas ambientais, poderiam ser evitados se a Educação Ambiental (EA) e a consequente conscientização ecológica fizessem parte da formação das gerações passadas. O conhecimento do contexto histórico e cultural da visão homem-natureza torna-se importante, pois nos permite compreender as evoluções empíricas e, posteriormente, cientificas da representatividade da natureza. Como vimos no capítulo 2, o homem foi produzindo, transformando e construindo o espaço geográfico. Os interesses e as necessidades dos seres humanos não foram sempre os mesmos em todos os lugares e em todos os tempos. Conforme as sociedades foram se modificando, criando novas e mais complexas formas de sobrevivência, novos espaços foram construídos. Muitos deles eram relacionados com os tipos de paisagens e o pensamento sobre as mesmas nos diferentes séculos. Tendo por base o estudo que já efetuamos, você consegue traçar uma linha do tempo com os principais momentos e/ ou acontecimentos responsáveis pelas mudanças no espaço geográfico e, consequentemente, os problemas ambientais? Tente fazer isso. Lamentavelmente, a ausência da EA no contexto histórico cultural dahumanidade nos coloca hoje em uma exponencial crise ambiental. Uma das mais importantes consequências dessa crise ambiental é a percepção de que a vulnerabilidade da natureza à ação do homem exige inesperadas dimensões de responsabilidade socioambiental, não presentes anteriormente pelo campo da ética (GRÜN, 1996). De acordo com esse autor, com a ampliação ética, criam-se condições para os seres humanos se sentirem moralmente responsáveis pelo seu comportamento em relação à natureza. Nesse contexto, a EA é um componente essencial, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, no que diz respeito à preservação e à conservação do meio ambiente. Vamos então ao estudo sobre a EA. Neste capítulo, inicialmente, estudaremos os conceitos e princípios da E A; a seguir, veremos o surgimento da EA, os movimentos ambientalistas, os eventos importantes realizados sobre o meio ambiente. Finalizaremos nosso estudo com a EA e a sustentabilidade. 102 Fundamentos da educação ambiental Conceitos e Princípios da Educação Ambiental Você saberia conceituar o que é Educação Ambiental? Pense um pouco. Existem várias definições sobre a Educação Ambiental. Vamos compreender e tentar conceituar a EA do ponto de vista de alguns autores, eventos que ocorreram sobre o meio ambiente e/ou órgãos responsáveis pelo assunto. Em 1975, no Seminário Internacional sobre EA, que aconteceu em Belgrado, promovido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), foi produzido um documento, A carta de Belgrado, que define como meta da EA o desenvolvimento de uma população mundial consciente do meio ambiente e dos problemas ambientais. Uma população que disponha de conhecimento, habilidade, criatividade, atitude e compromisso, na busca por soluções para os problemas ambientais. Um trabalho que deve acontecer coletivamente. Pensar na EA coletivamente, sem dúvida seria o ideal para tentarmos amenizar e/ou solucionar os problemas ambientais. Você concorda? Vejamos como a EA foi definida na Conferência sub-regional de EA para a Educação Secundária, realizada em Chosica, no Peru, em 1976. Nesta conferência, ficou definido que a EA assume a posição de promover conhecimento dos problemas ligados ao meio ambiente, associados a uma visão global; preconiza também a ação educativa permanente, em que a comunidade educativa toma consciência de sua realidade global, do tipo de relações que os seres humanos estabelecem entre si e com a natureza, dos problemas derivados das ditas relações e suas causas. E ainda, a EA desenvolve, mediante uma prática educativa dos educandos com a comunidade, valores e atitudes que promovem um comportamento dirigido à transformação socioambiental. Atualmente, será que ocorre uma prática educativa eficaz no que concerne a essa transformação socioambiental? Em 1977, na Conferência Intergovernamental sobre Educação para o Ambiente, realizada em Tbilisi (Geórgia), a EA foi definida como um processo de reconhecimento de valores e conceitos, objetivando o desenvolvimento das habilidades e modificando as atitudes em relação ao meio, para entender e apreciar as inter-relações entre os seres humanos, suas culturas e seus meios biofísicos. A EA ficou entendida como uma prática de tomada de decisões e ética, que conduzem a uma qualidade de vida melhor para todos. É importante você saber, embora abordaremos este assunto mais adiante, que esta conferência foi decisiva para a ampliação da EA. 103 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 Você provavelmente já ouviu falar da Agenda 21. Caso não saiba o que é, não se preocupe. Estudaremos sobre isto mais adiante. Vejamos como a EA é definida no capítulo 36 da Agenda 21. A EA é um processo que tem como meta o desenvolvimento de uma população consciente e preocupada com o meio ambiente e com os problemas que lhes são associados. De acordo com a Lei n° 9.795, de 27 de abril de 1999, que dispõe sobre a EA no Brasil, entende-se por EA os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. Ainda, de acordo com a mesma, a EA é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal. Indubitavelmente, a EA deveria atingir todos os níveis educacionais; contudo, no caso do Brasil, será que isso ocorre efetivamente? Ou a EA é competência exclusiva da educação formal? Reflita. Atividade de estudo: Verifique, na sua na cidade e/ou região, o desenvolvimento de práticas educativas voltadas à EA, que abarcam todos os níveis de educação (formal e não-formal). ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 104 Fundamentos da educação ambiental ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Você saberá mais sobre a lei n° 9.795 no caderno de Inserção Curricular da Educação Ambiental e a Formação de Professores. Contudo, caso queira antecipar o estudo e saber na íntegra sobre esta lei, acesse o site: http://www.planalto.gov.br/ccivil/Leis/L9795.htm Para o CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), a EA é definida como um processo de formação e informação orientado para o desenvolvimento da consciência crítica sobre as questões ambientais, e de atividades que levem à participação das comunidades na preservação do equilíbrio ambiental. CONAMA é o órgão consultivo e deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), instituído pela Lei nº 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, regulamentada pelo Decreto 99.274/90. Vejamos como a EA é entendida na opinião de alguns autores; depois, gostaríamos de saber a sua opinião. Para Gonçalves (1990), a EA não deve ser entendida como um tipo especial de educação. Refere-se a um longo e contínuo processo de aprendizagem, com a qual todos os indivíduos e instituições (escola, família, e comunidade) devem estar envolvidos. Este processo de aprendizagem precisa ser crítico, criativo e político, com a preocupação de transmitir conhecimentos a partir da discussão e avaliação feitas pelo aluno, da sua realidade individual e social, na comunidade em que vive. Ainda de acordo com Gonçalves (1990), a EA é um processo de 105 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 aprendizagem que visa esclarecer conceitos e fomentar valores éticos, com o intuito de desenvolver atitudes racionais,responsáveis e solidárias entre os seres humanos e o meio ambiente. A EA pode ser definida, de acordo com Guimarães (1995), como uma ação interdisciplinar, conduzida para a resolução de problemas locais. [...] a EA é participativa, comunitária, criativa e valoriza a ação. É uma educação crítica da realidade vivenciada, formadora da cidadania. É transformadora de valores e atitudes através da construção de novos hábitos e conhecimentos, criadora de uma nova ética, sensibilizadora e conscientizadora para as relações integradas ser humano/sociedade/natureza objetivando o equilíbrio local e global, como forma de obtenção da melhoria da qualidade de todos os níveis de vida. (GUIMARÃES, 1995, p.28). Na visão de Keim (1984), em nível interdisciplinar e extraescolar, a EA visa estimular vivências que, provavelmente, poderão nortear as reações futuras da população mundial, desenvolvendo ações favoráveis à vida e não apenas aos interesses econômicos. Lima (1984) ressalta o paradoxo da EA, diante de uma educação voltada para os objetivos essencialmente econômicos, segundo a qual será preciso substituir a competitividade pela solidariedade. Para a mesma autora, a EA necessita de uma postura crítica e um conhecimento a partir de uma reflexão da realidade vivenciada pelo indivíduo. O objetivo maior da EA é a promoção de um comportamento adequado à proteção ambiental, com novos valores, dos quais a participação do indivíduo é o princípio fundamental. (LIMA, 1984). Para Leonardi (1997), a definição de EA é muito influenciada pelas diversas formas de se compreender o próprio meio ambiente (a questão biológica, cultural, política e econômica). Como você pôde perceber, muitas são as definições sobre a EA. Podemos dizer, ainda, que há diferentes abordagens da questão ambiental na educação. Para Brügger (1994, p. 32), por exemplo, “por trás dessas abordagens ou tendências, existem diferentes pressupostos filosóficos e práticas pedagógicas” no que se refere às questões ambientais. Contudo, não resta dúvida da importância da EA. Por isso, é fundamental a participação da comunidade (ONGs, instituições públicas e privadas, dentre outros.) no que concerne à construção de valores sociais (moral, ética, dignidade, respeito, solidariedade), capazes de transformar o comportamento humano em relação ao ambiente em que vive. A disseminação de conhecimentos e experiências e o engajamento das comunidades em atividades práticas podem ser meios de construir ou reconstruir a cidadania, principalmente no âmbito ambiental. 106 Fundamentos da educação ambiental O esquema a seguir sintetiza importantes fatores que a EA procura contemplar e/ou estão inseridos no seu contexto. Observe. Figura 22 – Educação Ambiental em rede. Fonte: DELEVATTI, D. Sociedade e Meio Ambiente. Disponível em: <http://www. comitepardo.com.br/images/dionei_organograma.gif>. Acesso em: 16 set. 2009. Você conseguiu compreender que a EA corresponde a uma interdependência entre os fatores econômicos, políticos, ambientais, sociais e espaciais? Assim, concluímos esta seção, destacando que a EA pode ser considerada como: - uma ação política, no intuito de promover uma transformação social através da reflexão crítica sobre os problemas ambientais; - uma ação mobilizadora de conhecimentos técnico-científicos que envolvam várias disciplinas, como forma de compreender as relações sócionaturais; - uma maneira de privilegiar as diferenças étnico-culturais dos povos, bem como, seus conhecimentos sobre o meio onde estão inseridos; - uma forma de possibilitar o desenvolvimento de uma consciência ética e participativa dos indivíduos no que concerne à preservação e à conservação do meio ambiente. Atividade de estudo: Como você definiria a Educação Ambiental? ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 107 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ O Surgimento da Educação Ambiental Podemos dizer que a educação para o meio ambiente está atrelada à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972. Para Reigota (1994), desta conferência emerge a EA, pois uma das resoluções deixava claro que o cidadão deve ser educado para a solução dos problemas ambientais. Segundo Brügger (1994), a partir dessa conferência, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), em 1975, lançaram o PIEA (Programa Internacional de Educação Ambiental). Dentre as atividades do PIEA que mais contribuíram para uma conscientização internacional sobre a EA, destacaram-se uma série de reuniões internacionais e regionais que culminaram na Conferência Intergovernamental de Tbilisi (URSS), em 1977. Atualmente o PIEA encontra-se desativado. Embora algumas tentativas de promover uma educação para o meio ambiente antecedem a este período, a EA surge oficialmente, nesse contexto, como uma forma de resolver os chamados problemas ambientais (BRÜGGER, 1994). 108 Fundamentos da educação ambiental Percebe-se a presença de estudos sobre a EA já em 1864, com a publicação do livro “O homem e a natureza: ou geografia física modificada pela ação do homem”, do autor George Perkin Marsh (DIAS, 2004). Na obra, o autor faz uma abordagem sobre o esgotamento dos recursos naturais realizados pelo homem, e acrescenta que, se estes recursos não dispusessem de cuidados quanto ao seu uso excessivo, logo a sociedade poderia desaparecer, como aconteceu com outras civilizações mais antigas, por exemplo, a civilização maia. Cinco anos depois, Ernst Haeckel propõe o termo ecologia (você estudou no capítulo 1) para definir os estudos que são realizados sobre as relações entre as espécies e seu ambiente. Alguns exemplos evidenciam, embora bastante embrionária, a EA já na segunda metade do século XIX. Você, muito provavelmente, já ouviu falar do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. Saiba que sua criação data de 1872 e foi o primeiro parque nacional do mundo a ser criado. Duas décadas depois, em 1896, o Brasil cria seu primeiro parque estadual, o “Parque da Cidade” em São Paulo. Em 1937, surge a criação do Parque Nacional de Itatiaia e do Parque Nacional do Iguaçu, em 1939, também no Brasil. Todavia, essa preocupação com as questões ambientais não foram levadas em conta, uma vez que as atenções estavam voltadas ao crescimento e desenvolvimento econômico capitalista. Assim quando, em 1952, a cidade de Londres enfrentou uma de suas maiores crises ambientais, houve uma retomada das questões ambientais na Inglaterra (DIAS, 2004). Segundoo mesmo autor, nesta crise ambiental, o ar da cidade se tornou tão denso devido à poluição, que cerca de 1.600 pessoas morreram. A imagem a seguir nos dá uma ideia da poluição atmosférica na cidade de Londres. Observe. Figura 23 – Poluição atmosférica – Londres Fonte: Disponível em: <http://www.abae.pt/programa/JRA/concursos/ concurso09/uploads/A1/image/Smog-3.bmp>. Acesso em: 16 set. 2009. 109 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 Após este período, passou a ocorrer uma sensibilização com as questões ambientais e também com a qualidade de vida, sendo aprovada a lei do Ar Puro, pelo Parlamento Inglês, o que gerou vários questionamentos também em outros países, inclusive fazendo surgir, nos Estados Unidos, na década de 1960, os movimentos ambientalistas (estudaremos mais adiante). Como vimos no capítulo 2, a Revolução Industrial surgiu na Inglaterra. Assim, os problemas ambientais passaram a ser enfatizados com mais frequência, e a humanidade começou a sentir as consequências do desenvolvimento econômico, principalmente durante a década de 1960, quando houve um grande aumento dos índices de poluição atmosférica, uma grande quantidade de rios envenenados, devido aos pesticidas e resíduos oriundos das grandes indústrias, como, por exemplo, o rio Tâmisa (Londres); o acentuado processo erosivo dos solos e perda da fertilidade da terra. Segundo Oliveira (2008), nessa época, a imprensa mundial começava a divulgar, com manchetes catastróficas, os danos ambientais que estavam se consolidando. Esse contexto, para muitos, marca a história da educação ambiental, principalmente no início dos anos de 1960, com a publicação do livro Primavera silenciosa, de Rachel Carson (ver figura 24). A autora denuncia a ação destruidora do homem em relação ao meio ambiente. Após o lançamento do livro, várias conferências e encontros foram realizados. Destacamos a já citada Conferência Intergovernamental sobre a EA, realizada em 1977, em Tbilisi (Geórgia), promovida pela UNESCO, em cooperação com o PNUMA, pois foi considerado um dos encontros mais importantes e decisivos para a EA, no mundo. Não se esqueça disso. Figura 24 - A jornalista e bióloga Rachel Carson e sua obra mais importante, o livro “Primavera Silenciosa”. Fonte: RUY, R. A. V. A Educação Ambiental na Escola. Disponível em: <http://www.cdcc.usp.br/ciencia/ artigos/art_26/eduambiental.html>. Acesso em: 17 set. 2009. 110 Fundamentos da educação ambiental No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, o movimento hippie manifesta- se a favor da natureza. Em 1970, em virtude da poluição gerada e o alerta do esgotamento dos recursos naturais, esses fatos passaram a gerar preocupações aos governantes. De acordo com Guimarães (1995), na década de 1980, o termo “Educação Ambiental” popularizou-se definitivamente no mundo. Atualmente, tornou-se uma necessidade global. Vimos, no capítulo 2, que o ser humano ao longo de seu processo evolutivo passou a se comportar de forma diferenciada, no que tange à sua relação com a natureza. A separação entre o homem e a natureza reflete-se em toda a produção humana, em particular no conhecimento produzido por esse modelo de sociedade. Essa separação resultou numa postura antropocêntrica, sem considerar as relações de interdependência entre os elementos existentes no meio ambiente. Tal postura de dominação da natureza pelo homem, segundo Guimarães (1995), faz parte da lógica do modelo de sociedade moderna, que apresenta como caminho o crescimento econômico baseado na extração ilimitada de recursos naturais, renováveis ou não, na acumulação contínua de capitais, na produção ampliada de bens, sem levar em conta as interações entre essas intervenções e o ambiente em que se realizam. Você concorda com o radicalismo do autor em relação ao modelo de sociedade moderna? Neste contexto de dominação, apenas uma pequena parcela da população planetária tem acesso aos benefícios do crescimento econômico. Essa dominação criou uma sociedade consumista de recursos, capitais e bens. Assim, passou a gerar profundas transformações nos seus espaços e uma intensa demanda de recursos naturais. Neste contexto, a EA emerge com enfoque no equilíbrio dinâmico do ambiente. Apresenta-se como uma dimensão do processo educativo, voltada para a participação de seus atores, educandos e educadores, na construção de um novo paradigma, que contemple as aspirações populares de melhor qualidade de vida socioeconômica e um mundo ambientalmente saudável (GUIMARÃES, 1995). Reflita sobre a fala de um ancião norte-americano, citada por Vandana Shiva, em sua obra Ecodesenvolvimento, em 1989. “Apenas quando você tiver cortado a última árvore, pescado o último peixe e poluído o último rio, vai descobrir que não se pode comer dinheiro.” Neste contexto de dominação, apenas uma pequena parcela da população planetária tem acesso aos benefícios do crescimento econômico. 111 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 Atividade de estudo: Você se enquadra nesta sociedade consumista, da qual falávamos anteriormente? Propomos que faça uma lista de produtos que tenha comprado no decorrer deste ano. Nesta mesma lista, identifique os produtos que você realmente tinha necessidade de comprar. Após esta atividade, você terá a resposta à pergunta inicial. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ A EA tem o importante papel de fomentar a percepção da necessária integração do ser humano com o meio ambiente. Uma relação harmoniosa, consciente do equilíbrio dinâmico na natureza, possibilitando, por meio de novos caminhos, valores e atitudes, a inserção do educando e do educador como 112 Fundamentos da educação ambiental cidadãos no processo de transformação do atual quadro ambiental no nosso planeta. A EA é um meio de conscientizar os indivíduos dos problemas ambientais, visando a uma participação ativa dos mesmos. (GUIMARÃES, 1995). Você sabia que, no Brasil, durante muito tempo, a EA foi confundida com Ecologia? Para Dias (1994), o equívoco consolidou-se a partir da desconsideração dos aspectos políticos, sociais e da preocupação restrita à ecologia, no que concerne a uma dada questão ambiental. Para você ter uma ideia, os cursos de treinamento, antes da décadade 1990, eram em sua maioria escassos e alguns professores tinham dificuldade em acessar a informações sobre a EA. (DIAS, 1994). Foi principalmente a partir da RIO-92 ou ECO-92, que a EA no Brasil ganhou um incentivo, ou seja, as instituições governamentais passaram a adotar, como prioridade, o investimento no treinamento e formação de profissionais na área de Educação Ambiental (DIAS, 1994). Assim, houve uma forte demanda institucional no que concerne à elaboração de projetos na EA. A EA foi pela primeira vez citada na Constituição Brasileira em 1988 (inciso VI do artigo 225, do capítulo VI do Meio Ambiente). Contudo, ela foi tratada apenas no capítulo de Meio Ambiente, dissociada de sua dimensão pedagógica, o que poderia induzir a uma percepção restrita, excluindo uma visão holística da EA (PEDRINI, 1997). Segundo este autor, a EA, foi formalmente referenciada no Brasil pela lei federal de nº 6.938, sancionada em 31 de agosto de 1981, quando foi criada a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA). Esta lei foi um marco histórico na institucionalização de defesa da qualidade ambiental brasileira. Foi também criado o Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), para possibilitar organicidade e todas as instâncias de ação, principalmente governamentais. E, finalmente, em 1999, foi instituída a Lei n° 9.795, de 27 de abril, que dispõe sobre a EA no Brasil. A partir daí a EA, tanto pode ser formal (âmbito escolar), quanto não formal (fora do âmbito escolar). Esta deve ser realizada desde a infância e prosseguir por toda a vida do indivíduo. Assim, se fortalecerá a relação entre o indivíduo e o ambiente no qual está inserido, desenvolvendo valores e uma responsabilidade ambiental mais eficaz, possibilitando uma ampliação mais qualitativa na transmissão de informações referentes às questões ambientais. Esta lei foi um marco histórico na institucionalização de defesa da qualidade ambiental brasileira. Foi também criado o Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), para possibilitar organicidade e todas as instâncias de ação, principalmente governamentais. 113 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 Os Movimentos Ambientalistas A década de 1980 marcou a popularização da questão ambiental; porém, o movimento ecológico, enquanto movimento social global, data da década de 1960 e, ao que parece, não emergiu exclusivamente em virtude das questões ambientais. De acordo com Brügger (1994), no caso brasileiro, o movimento ecológico emergiu na década de 1970, no contexto da ditadura militar. Segundo a mesma autora, os partidos de esquerda acreditavam que o subdesenvolvimento do Brasil se devia à ação imperialista, aliada à oligarquia latifundiária e que deveríamos lutar por uma revolução anti-imperialista, de caráter popular, com o apoio da burguesia nacional. Todavia, a burguesia nacional declarava que a pior poluição é a da miséria e se preparava para articular justamente o contrário. A burguesia queria atrair capitais estrangeiros para o país, sob o pretexto de que esses capitais gerariam um maior desenvolvimento econômico. Concomitantemente, cresce, mundialmente, a pressão em torno da questão ambiental. Assim, muitas instituições estrangeiras viam-se obrigadas a colocar exigências para a realização de investimentos em outros países; ou seja, sem preservação não há dinheiro (BRÜGGER, 1994). Neste contexto, julga a mesma autora, antes que houvesse enraizado em território brasileiro um movimento ecológico, o Estado tratou de criar diversas instituições para gerir o meio ambiente, com o intuito de viabilizar a entrada de investimento. Assim, surgem no Brasil várias teorias e práticas ecológicas (divergentes na sua origem), formando um suposto “movimento ecológico”. Como você pode perceber, o interesse inicial pelas questões ambientais, no Brasil, por parte do governo, é puramente econômico. Embora muitos movimentos ecológicos tenham emergido na década de 1970, eles são muitas vezes associados aos movimentos de contracultura dos anos 1960. Tais movimentos estiveram radicalmente envolvidos na crítica das sociedades industriais e dos costumes racionalizados da vida moderna. Enfatizavam os limites do progresso com relação à exploração capitalista, tanto na exploração dos recursos naturais, como também, do trabalho humano. Os movimentos de contracultura correspondem aos movimentos dos pacifistas, hippies, feministas, punks, estudantis, beatniks (movimento socio-cultural dos anos 50 e princípios dos anos 60, que subscreveram um estilo de vida antimaterialista), entre outros. A burguesia queria atrair capitais estrangeiros para o país, sob o pretexto de que esses capitais gerariam um maior desenvolvimento econômico. 114 Fundamentos da educação ambiental Assim, tanto o crescimento do consumo de matérias-primas, como da própria população humana, foram entendidos como desencadeadores de sérios problemas futuros às condições de vida no planeta. Esses discursos, divulgados amplamente pela contracultura ecológica, foram interpretados como promotores da ideia de uma catástrofe ambiental, sendo necessária uma mudança radical dos valores e atitudes, no que concerne ao estilo de vida e aos hábitos consumistas dos seres humanos. Uma tentativa de salvar o planeta. As obras Primavera Silenciosa (de Rachel Carson) e Antes que a natureza morra (de Jean Dorst) tornaram-se marcos da contracultura ecológica. Podemos citar ainda o Negócio é ser pequeno (E.F. Schumacher) Podemos dizer que os movimentos ecológicos, ao surgirem associados a um conjunto amplo de outros movimentos contestatórios, inauguram, em relação aos discursos de proteção da natureza de épocas anteriores, uma disseminada crítica global à sociedade industrial e aos estilos de vida dela derivados. Atualmente, em virtude da ampliação da esfera pública e política (através das lutas por direitos, em batalhas travadas, também, no campo jurídico) exige-se uma maior institucionalização dos movimentos nas chamadas Organizações Não-Governamentais (ONGs). Não podemos deixar de destacar, que o termo ONG, ao que parece, é utilizado na década de 1940, pela ONU, para designar diferentes entidades executoras de projetos humanitários ou de interesse público que, posteriormente, ganharam um papel consultivo em várias agências e fundos das Nações Unidas. No Brasil, a expressão ONG se referia, principalmente, às organizações de cooperação internacional, formada pelas igrejas católicas e protestantes (francesa, alemã, holandesa e inglesa). Essas organizações procuravam priorizar a ajuda às organizações e movimentos sociais nos países do sul, com o intuito de consolidar a democracia. É neste contexto que os centros de assessoria a movimentos sociais e populares na década de 1970, encontram nessas ONGs/agências internacionais uma fonte de financiamento para suas atividades, focada na politização, conscientização e formação política. A partir do final da década de 1980, essa conjuntura muda. Momento em que há uma verdadeira explosão das ONGs. O foco das atividades também começa a mudar, ou seja, já não estão mais comprometidas com os movimentos sociais. Não podemos deixar de destacar, que o termo ONG, ao que parece, é utilizado na década de 1940, pela ONU, para designar diferentes entidades executoras de projetos humanitários ou de interesse público que, posteriormente, ganharam um papel consultivo em várias agências e fundos das Nações Unidas. 115 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 As ONGs passaram a atuar em nível mundial. O número de ONGs ambientais no Brasil é de aproximadamente 3.000. No que se refere às questões ambientais, dentre as várias ONGs destacamos: a) Greenpeace:ONG internacional de proteção ao meio ambiente, mantida por uma rede de sócios, que somam aproximadamente 3 milhões de pessoas. Esta organização desenvolve pesquisas, denuncia problemas ambientais, propõe alternativas de progresso que não ocasionam danos ecológicos, luta pela preservação de maneira direta, com protestos e manifestações. b) Fundo Mundial para a Natureza (WWF): ONG internacional autônoma que desenvolve projetos de conservação dos recursos naturais em todas as regiões do Brasil, principalmente no Cerrado, na Amazônia e no Pantanal. c) Fundação SOS Mata Atlântica, cujo objetivo é defender as áreas remanescentes da mata atlântica e o patrimônio cultural e histórico indígena. d) Conselho Nacional de Defesa Ambiental (CNDA): ONG que estimula e apóia ações direcionadas à proteção de ecossistemas e da biodiversidade. e) Instituto Socioambiental (ISA), cujo objetivo é propor soluções que integrem questões sociais e ambientais. Consideramos importante a leitura do artigo intitulado As ONGs: origens e (des) caminhos, da Drª Joana Coutinho, para você compreender a gênese e evolução das ONGs, bem como suas respectivas atuações. Acesse o site: http://www.pucsp.br/neils/ downloads/v13_14_joana.pdf Atividade de estudo: Você conhece alguma ONG? Na cidade onde você reside há a presença de ONGs? Propomos que você investigue e relate o trabalho desenvolvido por ela. Caso não exista em sua cidade, selecione uma ONG de seu interesse e pesquise sobre a atuação da mesma. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 116 Fundamentos da educação ambiental ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Importantes Eventos Realizados Sobre o Meio Ambiente No capítulo 3, você estudou sobre a crise ambiental. Assim, diante da crise ambiental, surgiu a necessidade da elaboração de políticas e programas que abarcassem as preocupações com as questões ambientais. Para isso, foram promovidos vários eventos e acordos internacionais. Alguns desses eventos já comentamos anteriormente. Veremos agora os principais eventos internacionais relacionados ao meio ambiente. a) Conferência de Estocolmo A Organização das Nações Unidas (ONU) realizou em 1972, em Estocolmo, na Suécia, o primeiro grande evento sobre Meio Ambiente Humano, com a participação de 113 países. O tema principal foi a importância de se estabelecer uma visão holística da realidade e princípios comuns, que servissem como orientação para a preservação e conservação do nosso planeta. O foco do evento foram os problemas ambientais ocasionados pelo uso excessivo dos recursos naturais. Neste mesmo ano, porém, antes da Conferência de Estocolmo, segundo Pacheco (2009), uma entidade chamada Clube de Roma encomendou ao Massachussettes Institute of Tecnology (MIT), dos Estados Unidos, um estudo que ficou conhecido como Desenvolvimento Zero, o qual apontava que o congelamento do crescimento econômico seria a única maneira de evitar que o aumento dos impactos ambientais ocasionasse ao mundo uma tragédia ambiental. É claro que para os países subdesenvolvidos isso impediria o respectivo desenvolvimento econômico. O Clube de Roma reúne economistas, industriais, banqueiros, chefes de estado, líderes políticos e cientistas, de vários países, para analisar a situação mundial e apresentar previsões e soluções para o futuro, desde 1968. 117 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 A Conferência foi marcada pela polêmica entre os que defendiam a implantação do Desenvolvimento Zero, na maioria representantes de países desenvolvidos, e do outro lado, representantes de países subdesenvolvidos, que defendiam o desenvolvimento econômico a qualquer preço. Dessa maneira, alguns membros dos países subdesenvolvidos acusavam os países desenvolvidos de impedirem o seu crescimento econômico, usando as políticas ambientais como forma de inibirem a sua capacidade de competir no mercado internacional. Tente imaginar o que aconteceria com o meio ambiente se todos os países subdesenvolvidos e/ou grande parte deles atingissem um desenvolvimento econômico pleno. Teríamos um equilíbrio ambiental, afinal estes países teriam condições de investir em tecnologias limpas, ou teríamos um colapso ambiental? Não podemos deixar de destacar que, nesta Conferência, foi criado o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). Também foram definidos 26 princípios sobre as questões socioambientais, econômicas e políticas. Destacamos o princípio 19: [...] é indispensável um esforço para a educação em questões ambientais, dirigida tanto às gerações mais jovens como aos adultos e que preste a devida atenção ao setor da população menos privilegiado, para fundamentar as bases de uma opinião pública bem informada, e de uma conduta dos indivíduos, das empresas e das coletividades inspirada no sentido de sua responsabilidade sobre a proteção e melhoramento do meio ambiente em toda sua dimensão humana. É igualmente essencial que os meios de comunicação de massa evitem contribuir para a deterioração do meio ambiente humano e, ao contrário, difundam informação de caráter educativo sobre a necessidade de protegê-lo e melhorá-lo, a fim de que o homem possa desenvolver-se em todos os aspectos. Para ter acesso a todos os princípios que compõem a declaração formulada na Conferência de Estocolmo, acesse o site: http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/doc/estoc72.htm Será que, no Brasil, essa conferência gerou algum resultado positivo? Pense um pouco. 118 Fundamentos da educação ambiental No Brasil, o resultado desta Conferência, segundo Oliveira (2008), foi a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA), sendo considerada, na visão de Dias (2004), o primeiro organismo brasileiro de ação nacional para a gestão integrada do ambiente. Para Oliveira (2008), a criação dessa secretaria foi pressionada pelo Banco Mundial e pelas instituições ambientais, e, como na época estava instaurada no país a ditadura militar, a SEMA era composta por apenas três funcionários e tinha tudo para não dar certo. Contudo, segundo o mesmo autor, o que ocorreu foi justamente o contrário, pois ela foi reconhecida internacionalmente e deixou grandes contribuições no que diz respeito à legislação ambiental. b) Conferência de Belgrado Em 1975, foi realizada, em Belgrado, a Conferência Internacional sobre Educação Ambiental. Nesta, os objetivos para a EA já estavam explícitos, pois o princípio básico seria a atenção com o meio natural e artificial, considerando os fatores ecológicos, políticos, sociais culturais e estéticos. A EA deveria ser contínua, multidisciplinar, integrada às diferenças regionais, voltada para os interesses nacionais e centrada no questionamento sobre o tipo de desenvolvimento. A meta principal era a formação de uma consciência coletiva nos indivíduos, que se tornassem capazes de discernir sobre a importância da EA na preservação do ser humano e também estimular um comportamento cooperativo nos diferentes níveis territoriais (LIMA, 1984). O resultado dessa Conferência foi a elaboração da Carta de Belgrado. É importante destacar que, neste documento, questionam-se os avanços econômicos e os problemas socioambientais, assim como, a reivindicação do fim da pobreza, da miséria, das desigualdades sociais. Também foram definidos, nesta carta, seis objetivos para a EA. Vejamos quaissão eles: • Conscientização: contribuir para que os indivíduos e grupos sociais adquiram consciência e sensibilidade em relação ao ambiente como um todo e a problemas a ele relacionados. • Conhecimento: propiciar aos indivíduos e grupos sociais uma compreensão básica sobre o ambiente como um todo e os problemas a ele relacionados, e sobre a presença e o papel de uma humanidade criticamente responsável em relação a esse ambiente. • Atitudes: possibilitar aos indivíduos e grupos sociais a aquisição de valores sociais, fortes vínculos afetivos com o ambiente e motivação para participar ativamente na sua proteção e melhoria. • Habilidades: propiciar aos indivíduos e aos grupos sociais condições para adquirirem as habilidades necessárias à solução dos problemas ambientais. 119 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 • Capacidade de avaliação: estimular os indivíduos e os grupos sociais a avaliarem as providências relativas ao ambiente e aos programas educativos, quanto aos fatores ecológicos, políticos, econômicos, estéticos e educacionais. • Participação: contribuir com os indivíduos e grupos sociais, no sentido de desenvolverem senso de responsabilidade e de urgência com relação aos problemas ambientais, para assegurar a ação apropriada para solucioná-los. Indubitavelmente, os seis objetivos definidos para a EA, na carta de Belgrado, são importantíssimos. Contudo, sabemos que atualmente estes objetivos, na maioria das vezes, não estão integrados uns aos outros; ou seja, nem todos são colocados em prática. Assim, destes seis objetivos, qual você consideraria como primordial? É difícil responder, pois todos estão interligados. Leia o texto completo da Carta de Belgrado, acessando o site. http://www.ufpa.br/npadc/gpeea/DocsEA/A%20Carta%20de%20 Belgrado.pdf c) I Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental de Tbilisi A Unesco, em cooperação com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), organizou a Primeira Conferência Intergovernamental em Educação Ambiental, em Tbilisi (Geórgia), no período de 14 a 26 de outubro de 1977. É considerado um dos principais eventos sobre a EA do Planeta. Inclusive os princípios tratados nessa conferência tornaram-se um referencial para a EA. Podemos dizer que esta Conferência constituiu-se como ponto de partida para precisar a natureza da EA, definindo seus objetivos e suas características, bem como as estratégias pertinentes ao plano nacional e internacional da EA. Esta conferência foi um marco para a EA. Em 1980, a Unesco publicou “La Educacion Ambiental: las Grandes Orientaciones de La Conferência de Tbilisi”, importante fonte de pesquisas para as ações a serem desenvolvidas em EA, com quarenta e uma recomendações, em que são citados: sua concepção, finalidades, objetivos e princípios. Essas recomendações (41) primam pela união internacional dos esforços para o A conferência de Tbilisi foi um marco para a EA. 120 Fundamentos da educação ambiental bem comum, constituem um verdadeiro plano de ação, tendo a EA como fator primordial para que a riqueza e o desenvolvimento dos países sejam atingidos mais igualitariamente. (PEDRINI,1997). De acordo com o mesmo autor, essa Conferência foi a culminância de um movimento ético e histórico de transformação do pensamento e das atitudes do homem contemporâneo diante da ameaça de destruição do planeta. Vejamos um dos objetivos estabelecidos na recomendação nº 1, considerada fundamental para a Educação Ambiental: [...] lograr que os indivíduos e a coletividade compreendam a natureza complexa do meio ambiente natural e do meio criado pelo homem, resultante da integração de seus aspectos biológicos, físicos, sociais, econômicos e culturais, e adquiram os conhecimentos, os valores, os comportamentos e as habilidades práticas para participar responsável e eficazmente da prevenção e solução dos problemas ambientais, e da gestão da questão da qualidade do meio ambiente. (CONFERÊNCIA DE TBILISI, UNESCO, 1980) Ainda, de acordo com a recomendação nº, 1 o propósito fundamental da EA é: também mostrar, com toda clareza, as interdependências econômicas, políticas e ecológicas do mundo moderno, no qual as decisões e comportamentos dos diversos países podem ter consequências de alcance internacional. Neste sentido, a educação ambiental deveria contribuir para o desenvolvimento de um espírito de responsabilidade e de solidariedade entre os países e as regiões, como fundamento de uma nova ordem internacional que garanta a conservação e a melhoria do meio ambiente. (CONFERÊNCIA DE TBILISI, UNESCO, 1980) Confira todas as recomendações tratadas na Conferência de Tibilisi, no site: http://www.aipa.org.br/ea-trat2-tiblisi-parcial-1977.htm Lembre-se de que esta conferência foi um dos mais importantes eventos internacionais em favor da EA realizados até então. Inspirada pela Carta de Belgrado, a conferência foi responsável pela elaboração de princípios, estratégias e ações orientadoras em EA, que são adotados até os dias atuais, em todo o mundo. Essa conferência, na verdade, foi a culminância de um movimento ético e histórico de transformação do pensamento e das atitudes do homem contemporâneo, frente às ameaças de destruição do planeta. Como vimos anteriormente, este movimento teve início nos anos de 1960, com a efervescência da mobilização de vários grupos pelos direitos humanos, entre eles, o ambientalista. 121 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 Atividade de estudo: Na sua opinião, em relação à recomendação nº1, correspondente ao propósito fundamental da EA, citado anteriormente, é possível uma nova ordem internacional que garanta a conservação e a melhoria do meio ambiente? ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ d) II Conferência Mundial sobre Educação Ambiental de Moscou Em 1987, a Unesco organizou em Moscou a II Conferência Mundial para tratar de EA. Nesta, foram também reforçados os princípios traçados na I Conferência de Tbilisi. Vejamos alguns dos princípios, de acordo com Guimarães (1995): • A EA resulta de uma dimensão do conteúdo e da prática da educação orientadora para a resolução dos problemas concretos, embasados pelo 122 Fundamentos da educação ambiental meio ambiente, graças ao enfoque interdisciplinar e a uma participação ativa responsável de cada indivíduo e da coletividade. • Atualmente sabe-se quea chave dos problemas ambientais está atrelada aos fatores sociais, econômicos e culturais que os provocam e que não será possível preveni-los ou resolvê-los com meios exclusivamente tecnológicos. • A EA se concebe como um processo permanente, em que os indivíduos e a coletividade tomam consciência de seu meio e adquirem os conhecimentos, os valores, as competências, as experiências e, também, a vontade capaz de fazê-los atenuar individualmente e coletivamente, para resolver os problemas atuais e futuros do meio ambiente. • Entre os elementos que contribuem para a especificidade da EA, talvez o mais importante seja o enfoque orientado para a solução de problemas concretos do meio ambiente humano. Neste evento, chegou-se à conclusão de que a EA deveria preocupar-se com a promoção da conscientização e transmissão de informações, desenvolvimento de critérios e padrões, orientações para a resolução de problemas e tomada de decisões. A meta era apontar um plano de ação para a década de 90, considerando que houve um processo de conscientização gradual, principalmente após a conferência de Tbilisi, no âmbito mundial e individual, do papel da educação em compreender, prevenir e resolver problemas ambientais. e) Conferência da ONU sobre Meio ambiente e Desenvolvimento – RIO-92 O que você sabe sobre esta conferência? Certamente, já ouviu falar sobre ela, afinal de contas, ocorreu em território nacional. Conseguiu esboçar algumas informações? Então vejamos. Em 1992 realizou-se, na cidade do Rio de Janeiro, a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), mais conhecida como Rio- 92 e/ou Eco-92. A Conferência foi a maior reunião de chefes de Estado já realizada na história da humanidade, com a presença de aproximadamente 172 governos, incluindo 108 chefes de Estado e de Governo, que procuravam buscar soluções para o desenvolvimento sustentável das populações mais carentes do planeta. Essa Conferência foi considerada a maior reunião internacional até então realizada pelas Nações Unidas. Um dos resultados desta Conferência foi a elaboração do Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. Vejamos alguns dos princípios da EA definidos neste Tratado: 123 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 A educação é um direito de todos; somos todos aprendizes e educadores; a EA deve ter como base o pensamento crítico e inovador, em qualquer tempo ou lugar, em seus modos, formal, não formal e informal, promovendo a transformação e a construção da sociedade; a EA é individual e coletiva. Tem o propósito de formar cidadãos com consciência local e planetária, que respeitem a autodeterminação dos povos e a soberania das nações; a EA não é neutra, mas ideológica. É um ato político, baseado em valores para a transformação social; a EA deve envolver uma perspectiva holística, enfocando a relação entre o ser humano, a natureza e o universo de forma interdisciplinar; a EA deve estimular a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de estratégias democráticas e interação entre as culturas. Indicamos a leitura do Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. Para efetuá-la, uma das opções é acessar o site http://www.ufpa.br/ npadc/gpeea/DocsEA/TratadoEA.pdf Atividade de estudo: Vimos que um dos princípios da EA, definido no Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, é estimular a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de estratégias democráticas e interação entre as culturas. Na sua opinião, para que isso realmente ocorra, que estratégias poderiam ser desenvolvidas? ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 124 Fundamentos da educação ambiental ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Também na Rio-92 iniciou-se o processo de criação da Carta da Terra, documento em permanente construção e que foi um marco ético para a Agenda 21, igualmente fruto da conferência Rio-92. Vejamos um trecho da Carta da Terra. Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que, nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade de uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações. Você lembra que o caderno de Responsabilidade Social também citou a Carta da Terra? Se quiser ler este documento na íntegra, acesse o site: http://www.mma.gov.br/estruturas/agenda21/_arquivos/carta_terra.doc 125 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 O objetivo da Rio-92 foi, também, aumentar os esforços no que concerne à aquisição de informações sobre o meio ambiente, capazes de promover a conscientização ambiental, além de possibilitar um treinamento maior de profissionais, com o intuito de ampliar as informações sobre as questões ambientais. Durante a Rio-92, o governo federal promoveu um workshop, no qual foi aprovado um documento denominado Carta Brasileira para a Educação Ambiental. Uma das prioridades seria a implantação da EA em todos os níveis de educação. Reafirmando o que falamos no início do capítulo, a partir desta conferência a EA no Brasil ganhou incentivo, principalmente no que tange à formação e ao treinamento de profissionais na área de EA. A partir desse momento, houve um aumento considerável de teses de doutorado,dissertações de mestrado, monografias de especialização, livros publicados por editoras de renome, e cresceu a procura por cursos de Educação Ambiental. Em 1994, por exemplo, o ministro do Meio Ambiente determinou ao IBAMA que elaborasse o primeiro Programa Nacional de Educação Ambiental – PRONEA. A primeira versão da proposta foi aperfeiçoada por alguns técnicos do MEC e da UNESCO. Em 1996, as diretrizes de operacionalização foram publicadas pelo IBAMA e já podem ser otimizadas. Conheça o texto da Carta Brasileira para a EA na íntegra. Basta acessar: http://www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./educacao/ index.php3&conteudo=./educacao/artigos/carta_ea.html f) Agenda 21 É importante você conhecer a Agenda 21. É um programa de ação firmado na Rio 92. A Agenda 21 convoca os governos a adotarem estratégias nacionais para o desenvolvimento sustentável. Ela prevê ações que deverão ser implementadas tanto pelos governos, bem como pela sociedade civil, abarcando todas as esferas: federal, estadual e local. É constituída em 40 capítulos. Pode-se dizer que é a mais ousada e abrangente tentativa, já realizada, de promover, em escala planetária, um novo padrão de desenvolvimento econômico, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica. Refere-se a um documento consensual, que teve a contribuição dos governos e instituições da sociedade civil de 179 países participantes. Para você ter uma ideia, o processo A partir desse momento, houve um aumento considerável de teses de doutorado, dissertações de mestrado, monografias de especialização, livros publicados por editoras de renome, e cresceu a procura por cursos de Educação Ambiental. 126 Fundamentos da educação ambiental preparatório do documento durou dois anos e culminou com a realização da Conferência Rio-92. Seria interessante você fazer a leitura dos 40 capítulos, principalmente o capítulo 36, que faz uma abordagem da promoção do ensino, da conscientização e do treinamento da EA. Para isso, acesse o site do Ministério do Meio Ambiente: http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&id Estrutura=18&idConteudo=575&idMenu=9065. Da Agenda 21, destacamos o capítulo 28. Ele estabelece que as autoridades de cada país implementem uma Agenda 21 Local, tendo como base de ação a construção, operacionalização e manutenção da infraestrutura econômica, social e ambiental local, estabelecendo políticas ambientais locais e prestando assistência na implementação política. A Agenda 21 Local é um instrumento de planejamento de políticas públicas que deve envolver tanto a sociedade civil como também o governo. Destacamos ainda a Agenda 21 Brasileira, que é um processo e instrumento de planejamento participativo para o desenvolvimento sustentável, cujo eixo central é a sustentabilidade, compatibilizando a conservação ambiental, a justiça social e o crescimento econômico. O documento é o resultado da consulta realizada entre grande parte da população brasileira, e tem como base as diretrizes da Agenda 21 Global. Saiba mais sobre a Agenda 21 Local e a Agenda 21 Brasileira, acessando o site a seguir: http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&id Estrutura=18&idConteudo=575&idMenu=9065 127 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 Agora que você sabe da existência destes documentos, é importante fazer uma leitura completa dos mesmos, para assim ampliar seu conhecimento sobre a promoção e/ou implantação da EA no Brasil, bem como conhecer maneiras de desenvolver práticas educativas pautadas na solução e/ou amenização das questões ambientais. g) Conferência Internacional sobre ambiente e sociedade: educação e conscientização pública para a sustentabilidade Destacamos também a Conferência Internacional de Tessalônica. Esta foi realizada entre os dias 8 e 12 de dezembro de 1997, em Tessalônica, na Grécia, com representantes de organizações governamentais, intergovernamentais e não-governamentais (ONG) e sociedade civil, de mais de 83 países. A preparação para a Conferência de Tessalônica, em 1997, incentivou muitos encontros regionais, nacionais e internacionais, em países como a Índia, Tailândia, Canadá, México, Cuba, Brasil e Grécia, bem como na região do Mediterrâneo. Nesta conferência, foi reafirmada a importância da EA e a conscientização pública para alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável. Foi também destacada a importância da educação em suas diferentes modalidades, como [...] meio indispensável para dar a todos os homens e mulheres do mundo a capacidade para conduzir suas próprias vidas, exercitar suas opções pessoais, e a responsabilidade para viver uma vida sem fronteiras, sejam políticas, geográficas, culturais, religiosas, lingüísticas ou de gênero. Reiterou-se, nesta conferencia, a necessidade de reorientar a educação para os valores da sustentabilidade, abarcando todos os níveis do ensino, assumindo que a sustentabilidade é “um imperativo moral e ético, que compreende meio ambiente, população, a pobreza, saúde, segurança alimentar, democracia, direitos humanos e paz”. Sem dúvida, essa reorientação educacional é necessária, para que tenhamos resultados positivos com relação à sustentabilidade. Você concorda? h) Conferência sobre o Desenvolvimento Sustentável - Rio+10 Trinta anos após a Conferência das nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (desenvolvimento Humano), em Estocolmo, e dez anos após a Rio– 92, no Rio de Janeiro, acontece a Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável. Finalizamos esta seção, apresentando alguns aspectos desta Conferência sobre o Desenvolvimento Sustentável, também chamada de Rio+10. A Rio+10 foi A preparação para a Conferência de Tessalônica, em 1997, incentivou muitos encontros regionais, nacionais e internacionais, em países como a Índia, Tailândia, Canadá, México, Cuba, Brasil e Grécia, bem como na região do Mediterrâneo. Saiba que no mundo temos uma população de aproximadamente 6,5 bilhões de habitantes. 128 Fundamentos da educação ambiental realizada entre 26 de agosto e 4 de setembro de 2002, em Joanesburgo, África do Sul. Teve como objetivos principais o fortalecimento de acordos firmados na Rio 92, especialmente a Agenda 21. Das reuniões oficiais da Cúpula da Terra, resultaram dois documentos principais: uma declaração política, que expressa os compromissos e os rumos para implementação do desenvolvimento sustentável; e um plano de ação, que estabelece metas e ações de forma a orientar a implementação dos compromissos assumidos pelos países. Contudo, para muitos, o resultado deste encontro não foi satisfatório, pois, poucas foram as ações concretas para resgatar centenas de milhões de pessoas da fome, das epidemias e da falta de acesso a saneamento básico e serviços de saúde. Os governos concordaram em garantir, até 2015, a redução para a metade dos 1,2 bilhões de pessoas que, atualmente, não têm acesso a água potável e saneamento básico. Podemos dizer que esta conferência foi um retrocesso, se comparada com a Rio 92. Saiba que no mundo temos uma população de aproximadamente 6,5 bilhões de habitantes. Vimos que na Rio + 10 os governos concordaram em garantir até 2015 a redução para a metade dos 1,2 bilhões de pessoas que atualmente não têm acesso a água potável e saneamento básico. Na sua opinião, essa redução realmente irá acontecer? Será que até 2015 teremos ainda água potável? Reflita Saiba mais sobre o plano de ação definido na Rio+10, acessando o site: http://www.dec.feis.unesp.br/mauricio/joanesburgo.pdf Fazendo uma análise de todos os eventos e/ou conferências já realizadas ao longo dosúltimos 50 anos, gostaríamos de destacar a importância que esses eventos mundiais trouxeram para a tutela do meio ambiente e a EA, tanto no cenário internacional como para o Brasil, embora saibamos que muito precisa ser feito em prol do meio ambiente e a efetivação da EA. Em países, como a Inglaterra e os Estados Unidos, a EA não é considerada um tema novo. Na Inglaterra, por exemplo, há mais de 20 anos a EA vem ganhando importância nas escolas e na sociedade em geral. Nos Estados Unidos, há mais de 25 anos o governo recomendou a implantação da EA nos planos de ensino e nos currículos escolares. 129 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 É importante que você busque leituras mais aprofundadas sobre esses eventos e/ou conferências, bem como os acordos ambientais firmados até o presente momento. Atividade de estudo: Como atividade, propomos que você elabore uma linha do tempo, classificando o período de realização de cada evento e/ou conferencia, o que foi definido sobre as questões ambientais e a EA, bem como os resultados de cada evento. Tente fazê-lo de forma clara e simplificada. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 130 Fundamentos da educação ambiental ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Educação Ambiental e Sustentabilidade Segundo Paula (2007), sustentabilidade significa atender às necessidades do presente, sem comprometer as possibilidades das futuras gerações de atenderem às suas próprias necessidades. Esta é uma das definições de sustentabilidade. Para ser sustentável, qualquer empreendimento humano deve ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito. Contudo, esses conceitos, infelizmente, ainda estão longe da prática cotidiana das pessoas e instituições. Vimos, no capítulo 2, que a responsabilidade socioambiental corresponde a um compromisso de empresas que atuam na vanguarda, atendendo à crescente conscientização da sociedade. Diz respeito à necessidade de revisar os modos de produção e padrões de consumo vigentes, de tal modo que o sucesso empresarial não seja alcançado a qualquer preço, mas ponderando-se os impactos socioambientais decorrentes da atuação administrativa de cada indústria e/ou empresa. A sustentabilidade vai além da responsabilidade socioambiental; ou seja, para ser sustentável, qualquer empreendimento humano deve ser, como já mencionamos anteriormente, ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito. Atingir essa sustentabilidade não é tão simples assim, pois toda sociedade precisa (re) educar suas ações, estabelecer limites de consumo, e isso envolve não só os consumidores, mas também as empresas, que devem desenvolver produtos ecologicamente corretos. Além disso, esse fato influencia a economia. Algumas empresas perderão muito dinheiro em nome da conservação ambiental. Sustentabilidade não significa somente reciclar o lixo, ou simplesmente apoiar uma instituição não governamental (ONG). Refere-se a um processo cíclico de melhorias (sociais, culturais, econômicas, ambientais), e à elaboração e implantação de projetos de sustentabilidade ambiental, para que realmente seja possível a sustentabilidade sem sobrecarregar os recursos utilizados. Observe a figura. 131 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 Figura 25 – Ciclo contínuo da sustentabilidade Fonte: Disponível em: http://www.consultoriaambiental.com.br/Projetos- De-Sustentabilidade-Ambiental.asp. Acesso em: 16 set 2009. A figura mostra a sustentabilidade como um ciclo contínuo, no qual precisamos considerar todos os fatores, sejam eles sociais, econômicos ou ecológicos. Com referência à realização de projetos de sustentabilidade, podemos exemplificar os projetos de compensação de créditos de carbono. Nestes projetos, comunidades e empreendimentos das mais diversas áreas podem neutralizar as suas emissões de carbono, através de negociações que levem ao estabelecimento de compensações para captação desse carbono emitido. Assim, uma indústria que tem um alto índice de emissões de carbono pode vender /“comprar créditos” de projetos sociais ou empresariais, que visem retirar esse carbono do ambiente, como, por exemplo, os empreendimentos de reflorestamento. Para você ter uma ideia, em 2006, as transações envolvendo créditos de carbono atingiram US$ 25 bilhões, sendo que os principais negociadores foram países da Europa e o Japão (MARTINEZ, 2007). Para facilitar as transações, foi criada uma moeda, o crédito de carbono. Segundo Martinez (2007), uma tonelada métrica de CO2 (dióxido de carbono) equivale a um crédito de carbono, que pode ser negociado, no mercado internacional, como qualquer ação de uma empresa. Talvez você tenha ficado confuso em relação à compensação de créditos de carbono. Não se preocupe, pois o Caderno de Gestão Ambiental trará informações detalhadas sobre este tema. Para facilitar as transações, foi criada uma moeda, o crédito de carbono. Segundo Martinez (2007), uma tonelada métrica de CO2 (dióxido de carbono) equivale a um crédito de carbono, que pode ser negociado, no mercado internacional, como qualquer ação de uma empresa. 132 Fundamentos da educação ambiental Diante da problemática ambiental, podemos dizer que um dos princípios da EA é proporcionar a toda a sociedade a consciência de adotar comportamentos e atitudes ambientalmente adequados, possibilitando o desenvolvimento de estratégias que estejam voltadas para a construção de uma sociedade sustentável; ou seja, estabelecendo padrões que proporcionem uma melhor qualidade de vida. O Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, assinado pelas ONGs em reunião paralela à Rio-92, sem dúvida, foi muito importante na valorização da Educação Ambiental. Neste tratado, de acordo com Guimarães (1995, p. 28): a EA para uma sustentabilidade equitativa é um processo de aprendizagem permanente, baseado no respeito a todasas formas de vida. Tal educação afirma valores e ações que contribuem para a transformação humana e social e para a preservação ecológica. Ela estimula a formação de sociedades socialmente justas e ecologicamente equilibradas, que conservam entre si relações de interdependência e diversidade. Isso requer responsabilidade individual e coletiva em níveis local, nacional e planetária. A reflexão sobre as práticas sociais, com relação à degradação dos ecossistemas, envolve uma articulação necessária da EA. Não há dúvida da importância da EA, como instrumento da adoção de práticas que visem à sustentabilidade ambiental e social. Será que é possível a sustentabilidade ambiental e social a nível global? Observe a charge. Figura – 26 - Degradação ambiental. Fonte: Disponível em: <http://miriamsalles.info/ wp/?cat=63&paged=2>. Acesso em: 17 set. 2009. 133 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 A que conclusão você chegou? Para que essa sustentabilidade ocorra, teríamos que oferecer uma EA mais adequada, melhor para todos, sem discriminações. Deveríamos pensar em todos os componentes da pirâmide social, desde o topo até a base (AB’ SABER, 2005). Teríamos que pensar em todos os componentes da sociedade. Assim, o papel da EA, além de proporcionar a conservação e a preservação do meio ambiente, é promover a integração saudável do ser humano com ele. Promover a sustentabilidade ambiental de maneira eficaz e urgente, levando em conta a atual gravidade ambiental. E, ainda, o papel da EA é fazer a interação socioambiental, não apenas na tentativa de salvar o planeta, mas de conscientização dos valores éticos. De acordo com Ab’Saber (2005), temos que pensar em todos os componentes socioambientais para promover uma EA vital. Levando em conta o estilo de vida da sociedade atual, com valores e atitudes consumistas, é possível que ocorra a sustentabilidade ambiental? Reflita. Queremos chamar a atenção sobre o nosso papel no que tange à efetivação de uma EA eficaz e vital. Devemos nos questionar se nossas atitudes diárias contribuem para que tenhamos um planeta saudável. O que você tem feito para preservar e conservar os recursos naturais? Atente para as charges abaixo. Figura 27 - Sustentabilidade...? Fonte: Disponível em: <http://arrastao.apostos.com/rico%20 sustentabilidade.jpg>.Acesso em: 17 set 2009. Atividade de estudo: 1) A que conclusões você chegou? O que estamos fazendo para salvar o nosso planeta? 134 Fundamentos da educação ambiental ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 2) Como atividade final, propomos que liste suas atitudes e/ou hábitos que contribuem para a preservação e conservação do meio ambiente, assim como ações que não estão contribuindo. Depois, tente elaborar outra lista com o que você poderá fazer para contribuir, a fim de conquistarmos uma qualidade de vida socioambiental. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ Algumas Considerações Neste capítulo, vimos várias definições sobre a EA. Todas elas convergem para a promoção de uma EA qualitativa e eficaz, a fim de que possamos conservar e preservar o meio ambiente. Assim, a EA é uma educação crítica, transformadora de valores e atitudes, formadora da cidadania, criadora de uma nova ética, sensibilizadora e conscientizadora da importância do equilíbrio entre a sociedade e a natureza. Estudamos também que o ponto de partida para precisar a natureza da EA, quanto a seus objetivos e características, bem como as estratégias pertinentes ao plano nacional e internacional, está relacionado com a Conferência 135 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 de Tbilisi, realizada em 1977. Vimos que, diante da problemática ambiental, um dos princípios da EA é proporcionar a toda a sociedade a consciência de adotar comportamentos e atitudes ambientalmente adequados, possibilitando o desenvolvimento de estratégias que estejam voltadas para a construção de uma sociedade sustentável. Chegamos ao término do estudo do caderno de Fundamentos da Educação Ambiental, contudo, esperamos que seja apenas o início de uma busca constante por mais conhecimento a respeito dos temas abordados, principalmente no que concerne à EA. Indubitavelmente, a EA é um processo de aprendizagem permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. A EA deve ser contínua, a fim de estimular a formação de sociedades mais justas e ecologicamente equilibradas. Lembre-se de que você, a partir de agora, exerce um papel mais importante na sociedade, o de promotor da EA. Lembre-se de que educar para a EA é educar para a vida. Acesse o site do Ministério do Meio Ambiente e veja o acervo de vídeos produzidos que poderão dar suporte para trabalhar a EA: h t t p : / / w w w. m m a . g o v. b r / s i t i o / i n d e x . p h p ? i d o = c o n t e u d o . monta&idEstrutura=16&idConteudo=5321&idMenu=4728 Indicamos a leitura da obra “Educação Ambiental: Princípios e Práticas, do autor Genebaldo Freire Dias. Esta obra aborda informações básicas conceituais sobre a EA, faz um histórico de suas atividades pelo mundo, sugere mais de cem atividades para sua prática, bem como fornece subsídios para a ampliação dos conhecimentos sobre EA e expõe as diferentes formas legais de ação individual e comunitária que possibilitam um exercício de cidadania, visando uma melhor qualidade de vida. 136 Fundamentos da educação ambiental Referências AB’SABER. A. Educação Ambiental. Revista SENAC. Rio de Janeiro. n.1, p.14 jan./abr. 2005 BRASIL. Lei n. 9795, de 27 de abril de 1999 que institui a Política Nacional de Educação Ambiental. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/sdi/ea/ Lei%20 9795.cfm>. Acesso em: 20 jul. 2009. BRÜGGER, P. Educação ou adestramento ambiental. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1994. UNESCO, 1980. Conferência de Tibilisi. Disponível em: http://www.aipa.org.br/ ea-trat2-tiblisi-parcial-1977.htm. Acesso em: 20 jul. 2009. DIAS, G. F. Atividades interdisciplinares de educação ambiental. São Paulo: Global/Gaia 1994. ______. Educação ambiental: princípios e práticas. 9. ed. São Paulo: Gaia, 2004. GONÇALVES, D. R. P. Educação ambiental e o ensino básico. Florianópolis: Ed. UFSC. 1990. GRÜN, M. Ética e educação ambiental: a conexão necessária. Campinas: Papirus, 1996. GUIMARÃES, M. A dimensão ambiental na educação. São Paulo: Papirus, 1995 KEIM, E. J. Abordagens das relações entre os componentes ambientais nos livros didáticos de 1º grau. 1984. 114 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,1984. LEONARDI,M. L. A educação ambiental como um dos instrumentos de superação da insustentabilidade da sociedade atual. In: CAVALCANTI, C. (Org.). Meio ambiente, desenvolvimento sustentável e políticas públicas. São Paulo: Cortez, 1997.p. 391-408. LIMA. M. A.J. Ecologia humana. Petrópolis: Vozes, 1984. 137 Histórico da Educação AmbientalCapítulo 4 MARTINEZ, E. Créditos de Carbono, 08 out.2007.Disponível em: <http:// educacao.uol.com.br /atualidades/credito-de-carbono.jhtm>. Acesso em: 16 set. 2009. PAULA, C. de. O futuro a gente faz agora. Planeta Sustentável, 19 abr.2007. Disponível em: <http://planetasustentavel.abril.uol.com.br/noticia/ sustentabilidade/conteudo_226382.shtml>. Acesso em: 16 jun. 2009. PACHECO, F. Educação Ambiental. Disponível em: <http://gestaoambiental.catolica-to.edu.br/documentos/0202128/Matriz%202.ppt. ppt#270,15,...carta de Belgrado>. Acesso em: 20 jul. 2009. PEDRINI, A. G. (Org.). Educação ambiental: reflexões e práticas contemporâneas. Petrópolis (RJ): Vozes, 1997. 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