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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ESCOLA DE ENGENHARIA Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental ESTAÇÃO DE TRATAMENTO DE ESGOTOS ITUMIRIM - MG BENNIE BARRETO PEREIRA DE OLIVEIRA JOÃO PEDRO OLIVEIRA EMERICH NATÁLIA DA CRUZ SOARES RICARDO SILVA QUEIROZ BELO HORIZONTE 2023 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO.....................................................................................................................3 2. ÁREA DE ESTUDO............................................................................................................. 4 3. PROJEÇÃO POPULACIONAL........................................................................................... 5 3.1. METODOLOGIA APLICADA.......................................................................................5 3.2. DADOS POPULACIONAIS......................................................................................... 6 3.3. RESULTADOS OBTIDOS........................................................................................... 7 4. CARACTERÍSTICAS DOS ESGOTOS............................................................................. 10 5. TECNOLOGIAS DE TRATAMENTO DOS ESGOTOS......................................................12 5.1. ÁREA DISPONÍVEL PARA IMPLANTAÇÃO.............................................................13 5.2. EFICIÊNCIA REQUERIDA NO TRATAMENTO........................................................ 14 5.3. TECNOLOGIAS DE TRATAMENTO DISPONÍVEIS................................................. 17 5.4. PRÉ SELEÇÃO DAS TECNOLOGIAS DE TRATAMENTO...................................... 18 5.4.1. Tratamento preliminar...................................................................................... 18 5.4.2. UASB + Wetland vertical descendente............................................................ 19 5.4.3. UASB + Lagoa aerada..................................................................................... 20 5.4.4. Lagoa anaeróbia + Wetland vertical descendente........................................... 21 5.4.5. Tratamento terciário......................................................................................... 21 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................... 22 ANEXO F1 - Sede municipal e distritos de Itumirim/MG.................................................. 24 ANEXO F2 - Mapa hipsométrico e cursos d’água de Itumirim/MG..................................25 ANEXO F3 - Tipo de solo - Itumirim/MG.............................................................................26 ANEXO F4 - Uso e ocupação do solo - Itumirim/MG........................................................ 27 ANEXO F5 - Zonas climáticas - Itumirim/MG.....................................................................28 ANEXO F6 - Direção e velocidade dos ventos (2019 a 2022) - INMET São João del Rei e Varginha................................................................................................................................ 29 ANEXO F7 - Custo médio para desapropriação - Itumirim/MG........................................30 ANEXO F8 - Características gerais de Itumirim/MG e Proposta de Área para ETE....... 31 1. INTRODUÇÃO Historicamente, a falta de tratamento de esgoto estava diretamente associada a epidemias e doenças transmitidas pela água, como cólera, febre tifoide e disenteria. Durante o século XIX e início do século XX, a urbanização crescente nas cidades ocidentais, juntamente com a falta de infraestrutura adequada, resultou em condições insalubres de vida. Foi apenas com avanços na engenharia sanitária e na compreensão da relação entre saneamento básico e saúde que o tratamento de esgoto começou a ser implementado sistematicamente. No contexto do Brasil, a história do tratamento de esgoto remonta ao período colonial, quando as primeiras redes de esgoto foram construídas no Rio de Janeiro e em Salvador. No entanto, a expansão significativa das redes de esgoto ocorreu principalmente no século XX, especialmente a partir da década de 1970, quando programas de saneamento foram implementados em várias cidades do país. Esses esforços visavam melhorar as condições de vida da população, reduzir a poluição dos corpos d'água e promover o desenvolvimento econômico. O acesso a sistemas de esgoto tratado é fundamental para a saúde das comunidades, a preservação dos recursos hídricos, a proteção da biodiversidade aquática e a mitigação das mudanças climáticas. Além disso, o tratamento adequado de esgoto contribui para a promoção do turismo, para a melhoria da qualidade de vida e para a valorização de áreas urbanas. No entanto, apesar dos avanços ao longo da história, ainda existem desafios significativos a serem enfrentados, como a expansão de sistemas de tratamento para áreas rurais e comunidades remotas, a modernização de infraestruturas antigas e a garantia de que o tratamento de esgoto seja realizado de forma sustentável, minimizando o impacto ambiental. Com o objetivo de aprimorar o setor de saneamento no país, este projeto se propõe a realizar um estudo de concepção para definir o processo de tratamento de esgoto ideal a ser implementado em Itumirim, um município de pequeno porte localizado no sul de Minas Gerais. O estudo visa desenvolver e dimensionar processos de tratamento de acordo com as características do município, buscando otimizar o sistema de esgotamento sanitário da região em termos de eficiência e economia, considerando horizonte de projeto de 20 anos e início de operação em 2026. 2. ÁREA DE ESTUDO O local onde será realizado o estudo para a concepção do projeto da Estação de Tratamento de Esgotos é o município de Itumirim, situado na zona Sul de Minas Gerais. O município é dividido entre a sede municipal de Itumirim bem como os outros dois distritos de Macuco de Minas ao leste e Rosário do Rio Grande ao norte. No Anexo F1 é possível observar a divisão bem como a classificação de cada setor censitário ao longo da extensão territorial do município. Os principais cursos d'água que atravessam o território de Itumirim são o Rio Grande, na divisa norte do município, e o Rio Capivari, que corta a região de sul para norte, predominantemente ao longo da fronteira oeste da área. A região possui uma declividade moderada, com altitudes variando entre 800 e 1150 metros. A região sudeste do município apresenta as maiores declividades. O Anexo F2 apresenta o mapa hipsométrico da região, assim como os cursos d'água da área. No Anexo F3, encontram-se os tipos de solos presentes na região de Itumirim. A área da sede municipal está predominantemente localizada em regiões classificadas como afloramentos rochosos. Quanto ao uso do solo (Anexo F4), a maior parte do município é composta por áreas de pastagem, seguidas por lavouras temporárias dispostas na região central do município. O clima na região de Itumirim (Anexo F5) é predominantemente classificado como subquente, com temperaturas variando de 15 a 18°C em pelo menos um mês do ano. No entanto, sua região mais ao sul apresenta um clima mesotérmico brando, com temperaturas variando de 10 a 15°C em pelo menos um mês. No que diz respeito aos padrões de ventos (Anexo F6) observados na região, não há uma estação de monitoramento automático com dados disponíveis na área. Portanto, a estimativa dos padrões de ventos foi feita com base nas estações INMET A514 - São João del Rei, localizada aproximadamente 70 quilômetros a nordeste da sede municipal, e INMET A515 - Varginha, situada cerca de 65 quilômetros a sudoeste. Em geral, os ventos predominantes observados nessas duas estações seguem na direção sudeste - noroeste, e também há ventos no sentido nordeste - sudoeste para a estação de Varginha. As velocidades médias observadas variam predominantemente entre 0,5 e 2,1 m/s, com velocidades máximas mais intensas na região de São João del Rei e mais moderadas na região de Varginha. 3. PROJEÇÃO POPULACIONAL A realizaçãode um estudo de projeção populacional desempenha um papel fundamental no dimensionamento de um sistema de tratamento de esgoto sanitário. Esse estudo permite que os projetistas prevejam as necessidades futuras de tratamento de esgoto com base no crescimento populacional previsto. Com base nas projeções, é possível dimensionar as instalações de tratamento de forma a atender não apenas às demandas atuais, mas também às futuras, garantindo que o sistema seja eficiente e sustentável ao longo do tempo. Para prever o cálculo de projeção populacional, costumam ser empregados dois métodos populacionais básicos: o método aritmético e o geométrico. 3.1. METODOLOGIA APLICADA O método aritmético baseia-se em uma taxa de crescimento constante ao longo de um período específico. Primeiro, calculamos a taxa média de crescimento anual (Ka) com base nos dados populacionais históricos da cidade. Essa taxa média é então aplicada ao ano inicial da projeção para estimar a população futura. As fórmulas de Ka e da População total (Pt) são apresentadas a seguir. Equação 1 e Equação 2 𝐾 𝑎 = 𝑃 2 −𝑃 0 𝑡 2 −𝑡 0 𝑃 𝑡 = 𝑃 0 + 𝐾 𝑎 (𝑡 − 𝑡 0 ) Já o método geométrico leva em consideração a taxa de crescimento relativo anual (r), que é a variação percentual da população de um ano para o próximo. Para aplicar esse método, calculamos a taxa de crescimento anual a partir dos dados históricos da cidade. Em seguida, multiplicamos essa taxa pelo tamanho da população no ano anterior para obter a projeção para o próximo ano. As fórmulas de r e da População total (Pt) são apresentadas a seguir. Equação 3 e Equação 4 𝑟 = 𝑛 𝑃 𝑡 𝑃 0( )⎡ ⎢ ⎢ ⎣ ⎤ ⎥ ⎥ ⎦ 𝑃 𝑡 = 𝑃 𝑡−1 · 1 + 𝑟( ) O crescimento populacional geométrico também pode ser calculado a partir das seguintes equações, sem a necessidade do ano anterior como referência. Equação 5 e Equação 6 𝐾 𝑔 = 𝑙𝑛(𝑃 2 ) − 𝑙𝑛(𝑃 0 ) 𝑡 2 −𝑡 0 𝑃 𝑡 = 𝑃 0 · 𝑒 𝐾 𝑔 (𝑡−𝑡 0 ) Ambos os métodos têm suas vantagens e limitações. Cada cidade tem suas particularidades e seu crescimento populacional pode se aproximar mais de um método do que de outro. Para verificar qual método se adequa mais à cidade em estudo, pode ser feita a estimativa da população por ambos os métodos e calculados seus respectivos erros, pela soma dos quadrados da diferença entre a população estimada (Pe) e a população observada (Po). Essa fórmula utiliza o quadrado dos dados para não fazer diferenciação entre resultados negativos e positivos. A fórmula do erro é apresentada a seguir. Equação 7 𝐸𝑟𝑟𝑜 = ∑ 𝑃 𝑒 − 𝑃 𝑜( )2 3.2. DADOS POPULACIONAIS Para a projeção populacional da cidade de Itumirim (MG), serão utilizados os dados de população total dos anos 1970, 1980, 1991, 2000, 2010 e 2022 de respectivamente 4.795, 5.059, 6.127, 6.391, 6.139 e 6.635 habitantes (IBGE, 2022). Com a ausência de dados da população urbana e rural para cada censo do IBGE, mas ainda buscando uma projeção que represente de forma mais adequada a população da cidade em estudo, será utilizado o percentual estimado das populações urbana e rural de 76,62 e 23,38% (IBGE, 2021). Como se trata de uma única porcentagem, não será feita a projeção populacional separada para as populações urbanas e rural, essa porcentagem será aplicada apenas após a projeção da população total. Finalmente, a porcentagem de cobertura de atendimento de coleta de esgoto utilizada nos cálculos, foi de 85,8% para 2021 (SNIS), e irá aumentar aos poucos até atingir 100% ao final do plano. A cobertura total da ETE será igual à porcentagem de cobertura de atendimento e coleta de esgoto multiplicada pela população urbana, que se trata da população atendida pela coleta de esgoto. 3.3. RESULTADOS OBTIDOS A Tabela 1 apresenta as populações totais referente aos censos do IBGE desde 1970 até 2022. A mesma tabela contém as taxas de crescimento aritmético e geométrico de cada ano, com referência no censo anterior. Tabela 1 - População e taxa de crescimento estimadas a partir de censos do IBGE POPULAÇÃO TOTAL E TAXAS DE CRESCIMENTO Ano População total (IBGE) Taxa crescimento geométrico (r) Taxa crescimento aritmético (hab/ano) 1970 4.795 - - 1980 5.059 0,54% 27 1991 6.127 1,76% 98 2000 6.391 0,47% 30 2010 6.139 -0,40% -26 2022 6.635 0,65% 41 Fonte: Autores, 2023. Em uma breve análise, podemos observar que a população da cidade de Itumirim apresentou certa taxa de crescimento ao longo dos anos, com exceção entre os anos de 2000 e 2010, em que a população decresceu. A taxa volta a ser positiva entre 2010 e 2022. A Tabela 2 apresenta as projeções populacionais da cidade em estudo pelos métodos aritmético e geométrico para os anos de 2026 a 2046, usando como referência as taxas calculadas entre os anos de 2010 e 2022 (0,65% e 41 hab). Tabela 2 - Projeção população pelo método geométrico e aritmético PROJEÇÃO POPULACIONAL Ano Projeção Geométrica Projeção Aritmética 2010 2026 6.809 6.800 2027 6.853 6.842 2028 6.898 6.883 2029 6.943 6.924 2030 6.988 6.966 2031 7.033 7.007 2032 7.079 7.048 2033 7.125 7.090 2034 7.171 7.131 2035 7.218 7.172 2036 7.265 7.214 2037 7.312 7.255 2038 7.359 7.296 2039 7.407 7.338 2040 7.455 7.379 2041 7.504 7.420 2042 7.552 7.462 2043 7.601 7.503 2044 7.651 7.544 2045 7.700 7.586 2046 7.750 7.627 Fonte: Autores, 2023. A Tabela 3 apresenta os resultados para a regressão linear e os erros para os métodos de projeção aritmético e geométrico para os anos em que foram feitos os censos do IBGE. Tabela 3 - Erro observado em cada regressão REGRESSÃO LINEAR E ERRO Ano Aritmético Geométrico IBGE ERRO método aritmético ERRO método geométrico 1.991 5.354 5.428 6.127 597.529 488.601 2.000 5.726 5.754 6.391 442.225 405.769 2.010 6.139 6.139 6.139 0 0 2.022 6.635 6.635 6.635 0 0 Fonte: Autores, 2023. Como o somatório dos erros do método geométrico (897.604) é menor do que o do método aritmético (1.161.041), podemos afirmar que o método geométrico se aproxima mais ao crescimento populacional da cidade de Itumirim (MG). Por comparação, também podemos observar que todos os erros geométricos são menores que os aritméticos quando comparados um a um. É importante frisar que os erros se tornam 0 em 2010 e 2022 já que esses anos foram utilizados como referência para os métodos escolhidos. A Tabela 4 apresenta as populações total, urbana e rural calculadas pelo método geométrico. Também é apresentada a cobertura do atendimento, bem como a população atendida. Portanto, a população de início e final de projeto são 4.648 e 5.952, com a população final de plano igual à população urbana final, já que foi considerado que ao final o índice de coleta de esgoto é 100%. Tabela 4 - População urbana e rural atendida POPULAÇÃO URBANA, RURAL ATENDIDA Ano População total População urbana População rural Cobertura do atendimento (%) População atendida 2026 6.809 5.220 1.595 89,0 4.648 2027 6.853 5.254 1.606 89,6 4.707 2028 6.898 5.289 1.617 90,1 4.768 2029 6.943 5.324 1.628 90,7 4.828 2030 6.988 5.359 1.639 91,2 4.890 2031 7.033 5.394 1.650 91,8 4.951 2032 7.079 5.430 1.661 92,3 5.014 2033 7.125 5.466 1.672 92,9 5.077 2034 7.171 5.502 1.683 93,4 5.141 2035 7.218 5.538 1.694 94,0 5.205 2036 7.265 5.574 1.706 94,5 5.269 2037 7.312 5.611 1.718 95,1 5.335 2038 7.359 5.648 1.730 95,6 5.401 2039 7.407 5.685 1.742 96,2 5.467 2040 7.455 5.722 1.754 96,7 5.534 2041 7.504 5.760 1.766 97,3 5.603 2042 7.552 5.798 1.778 97,8 5.671 2043 7.601 5.836 1.790 98,4 5.741 2044 7.651 5.874 1.802 98,9 5.810 2045 7.700 5.913 1.814 99,5 5.881 2046 7.750 5.952 1.826 100,0 5.952 Fonte: Autores, 2023. É importante lembrar que as projeções populacionais são apenas estimativas e devem ser utilizadas como orientações para o planejamento urbano. Outros fatores, como migração, taxas de natalidade e políticas de desenvolvimento, também podem influenciar o crescimento populacional real. Portanto, revisar e ajustar periodicamente essas projeções é crucial para garantir um planejamento eficaz esustentável para a cidade de Itumirim e outras comunidades semelhantes em Minas Gerais. 4. CARACTERÍSTICAS DOS ESGOTOS O esgoto sanitário é composto, em sua maioria, por cerca de 99,9% de água e apenas 0,1% de impurezas de natureza orgânica e inorgânica, constituída de sólidos suspensos, dissolvidos e microorganismos. Sua formação ocorre basicamente pela combinação das águas residuais provenientes de usos domésticos, comerciais e institucionais. No projeto de uma estação de tratamento de esgoto (ETE), é comum o interesse em determinar parâmetros indiretos que possam refletir o caráter ou o potencial poluente do despejo em questão. Esses parâmetros podem ser divididos em três categorias: físicos, químicos e biológicos (SPERLING, 1996). Portanto, a caracterização dos esgotos de Itumirim terá como foco a análise das cargas e concentrações de indicadores de matéria orgânica (DBO5 e DQO), nitrogênio (NH4 +) e indicadores de contaminação fecal (E. coli). Para caracterizar o esgoto gerado no município de Itumirim, primeiramente foram utilizados os dados disponíveis no SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) referentes ao ano de 2021. As informações não contempladas neste levantamento foram adquiridas com base na NBR 9.646/1986, que recomenda valores para o projeto de redes coletoras de esgoto. Além disso, para determinar a vazão de infiltração, foi estimado o comprimento da rede com base nos logradouros da região da sede municipal da cidade. Na Tabela 5, é apresentado resumidamente os valores considerados na caracterização da área. Tabela 5 - Valores de referência para esgoto sanitário - Itumirim/MG VALORES DE REFERÊNCIA - ESGOTO Parâmetro Valor Referência CPC (L/hab.dia) 159,29 SNIS, 2021 Coeficiente de Retorno 0,80 NBR 9.649/1986 Tx,inf (L/s.km) 0,10 NBR 9.649/1986 L (km) 23,79 Levantamento GIS Q,inf (L/s) 2,38 - k1 1,20 NBR 9.649/1986 k2 1,50 NBR 9.649/1986 k3 0,50 NBR 9.649/1986 Em relação às características do despejo de esgoto, foram utilizados dados de geração per capita para determinar as cargas e concentrações dos poluentes. A Tabela 6 apresenta os valores médios de geração. Tabela 6 - Geração per capita de esgoto doméstico para países em desenvolvimento GERAÇÃO PER CAPITA - ESGOTO Parâmetro Valor Referência DBO5 (g/hab.dia) 50 VON SPERLING, 1996 DQO (g/hab.dia) 100 VON SPERLING, 1996 NH4 + (g/hab.dia) 4,5 VON SPERLING, 1996 E.coli (NMP/hab.dia) 109 VON SPERLING, 1996 Para a análise das características de esgoto de Itumirim, foi considerada tanto a população da área urbana individualmente como a área urbana e rural simultaneamente, visto que existe uma tendência da população rural em migrar para áreas urbanas ao longo dos anos. Na Tabela 7, é possível observar os valores de vazões mínimas e máximas, bem como os valores de vazão média no início do plano e o máximo ao longo do período de projeto. Além disso, os valores de carga e concentrações dos quatro poluentes analisados, tanto no início quanto o valor máximo observado ao longo de todo o plano. Tabela 7 - Características gerais de esgoto sanitário - Itumirim/MG CARACTERÍSTICAS GERAIS - ESGOTO Parâmetro Urbana Total (urbana + rural) Início Máxima Início Máxima Vazão mínima (L/s) 6,13 7,27 Vazão máxima (L/s) 17,89 22,96 Vazão média (L/s) 10,06 11,00 12,42 13,81 CARGA DE ESGOTO Parâmetro Urbana Total (urbana + rural) Início Máxima Início Máxima DBO5 (kg/dia) 260,53 292,20 340,45 387,52 DQO (kg/dia) 521,07 584,40 680,91 775,05 NH4 + (kg/dia) 23,45 26,30 30,64 34,88 E.coli (NMP/dia) 5,21×1012 5,84×1012 6,81×1012 7,75×1012 CONCENTRAÇÃO DE ESGOTO Parâmetro Urbana Total (urbana + rural) Início Máxima Início Máxima DBO5 (mg/L) 299,61 307,49 317,21 324,77 DQO (mg/L) 599,22 614,98 634,43 649,54 NH4 + (mg/L) 26,96 27,67 28,55 29,23 E.coli (NMP/L) 5,99×106 6,15×106 6,34×106 6,50×106 Fonte: Autores, 2023. Devido às baixas variações de vazões e cargas ao longo do estudo, tanto para a análise considerando apenas a população urbana quanto para a análise considerando a população total do município, não se faz necessária uma implementação em etapas para a ETA de Itumirim no horizonte de projeto analisado. Portanto, é possível realizar sua construção em uma única fase. 5. TECNOLOGIAS DE TRATAMENTO DOS ESGOTOS Segundo Marcos Von Sperling (1996), o tratamento de esgoto é classificado como preliminar, primário, secundário e terciário. Sendo selecionados a depender das características do efluente e a qualidade desejada para lançamento no corpo receptor. O tratamento preliminar tem como finalidade a eliminação apenas de partículas grandes em suspensão, enquanto o tratamento primário se concentra na remoção de partículas sedimentáveis e de uma parte da matéria orgânica em suspensão. Ambos dependem principalmente de processos físicos para eliminar poluentes. No entanto, no tratamento secundário, onde predominam os processos biológicos, o objetivo principal é remover a matéria orgânica e, ocasionalmente, nutrientes como nitrogênio e fósforo. O tratamento terciário tem como alvo a remoção de poluentes específicos, que podem ser substâncias tóxicas ou compostos não biodegradáveis, ou ainda a remoção adicional de poluentes que não foram suficientemente eliminados nos estágios anteriores (VON SPERLING, 1996). Nesse sentido, na seção atual serão analisados os principais pontos que devem ser levados em consideração para definir as tecnologias e tipologias de tratamento mais adequadas para o município de Itumirim, como área disponível para implantação, eficiência requerida no tratamento, viabilidade técnica, operacional e financeira das tecnologias de tratamento existentes, entre outros. 5.1. ÁREA DISPONÍVEL PARA IMPLANTAÇÃO Para a escolha da área de implantação, necessita-se de uma análise minuciosa de diversos fatores como as áreas disponíveis e o custo delas, a proximidade dos assentamentos, a distância e a qualidade do curso d’água. Também é imprescindível a análise física da região como o regime de ventos, relevo e qualidade do solo. A determinação do custo médio de desapropriação foi realizada com base no levantamento da EMATER-MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais), que fornece dados de VTN (Valor de Terra Nua). A partir desses valores, foi estabelecida uma relação considerando o uso do solo na região de Itumirim, conforme consta no MapBiomas para o ano de 2022. A Tabela 8 apresenta a discretização adotada para a elaboração do mapa no Anexo F7. Tabela 8 - Relação Valor de Terra Nua (VTN) e Uso do Solo VALOR DE TERRA NUA x USO DO SOLO - ITUMIRIM/MG Tipo de uso Custo (R$/ha) Relação - Uso Solo Lavoura aptidão regular 12.000,00 Café Silvicultura ou Pastagem Natural 7.024,35 Formação Florestal; Formação Savânica; Silvicultura; Formação Campestre; Pastagem plantada 7.800,00 Pastagem; Mosaico de Usos; Lavoura aptidão restrita 9.600,00 Outras Lavouras Temporárias; - N/A Área Urbanizada; Outras Áreas não Vegetadas; Rio, Lago e Oceano; Fonte: Autores, 2023; Fonte de Dados: MapBiomas 2022 e EMATER-MG, 2022; De acordo com o Anexo F8, é possível observar que a região situada ao norte-noroeste da sede municipal oferece boas condições para a implementação da ETA, tanto em termos de área disponível quanto em custo para a sua instalação, que, neste caso, ficaria entre 7.800,00 e 7.024,35 R$/ha. Além disso, devido ao regime de vento observado, com predominância de ventos na direção sudeste-noroeste, em caso de tratamentos anaeróbios, o odor liberado será direcionado para longe da ocupação urbana. Quanto à captação de água para o abastecimento da cidade, a localização sugerida anteriormente não a afetará, dada a sua posição geográfica. Por fim, o local na direção norte-noroeste também apresenta a vantagem da possibilidade de alocação da ETA próxima à margem do Rio Capivari, o que facilitará a disposição final do esgoto tratado. 5.2. EFICIÊNCIA REQUERIDA NO TRATAMENTO A eficiência requerida é o quanto é necessário remover deum determinado poluente após o processo de tratamento dos esgotos, considerando sua concentração no efluente bruto e tratado. Para verificar a eficiência necessária no tratamento de esgotos, primeiramente, deve-se avaliar o objetivo do tratamento, que pode ser para despejo em corpo hídrico, infiltração no solo, reúso, entre outros. No atual estudo, o tratamento a ser empregado na ETE tem a finalidade de minimizar os impactos ambientais do despejo de efluentes domésticos em mananciais superficiais. Ainda, vale salientar que os parâmetros de qualidade da água que serão avaliados nesta seção são os seguintes: DBO5, DQO, E. coli e NH4 +. Nesse sentido, além de avaliar a eficiência mínima de tratamento e os padrões de lançamento empregados na legislação vigente, será analisada a capacidade do corpo hídrico em receber a carga de poluentes do esgoto tratado. Para o estado de Minas Gerais, a Deliberação Normativa Conjunta COPAM-CERH 08/2022 dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes. Tal deliberação estabelece os seguintes valores para lançamento de esgotos sanitários, sendo necessário atender ao critério mais restritivo: ● DBO: até 60 mg/L ou 70% de eficiência de remoção ● DQO: até 180 mg/L ou 65% de eficiência de remoção ● Nitrogênio amoniacal: inferior a 20 mg/L A legislação não menciona a eficiência necessária para a remoção de E. coli, mas estabelece o limite máximo deste parâmetro nos mananciais, que será abordado a seguir. O corpo d’água escolhido para ser o receptor do efluente tratado do município é o Rio Capivari, que, de acordo com o Enquadramento dos Rios da Bacia do Alto Rio Grande (IDE-SISEMA, 2019), é um manancial classe 2 no trecho definido para a implantação da ETE. Assim sendo, abaixo estão apresentados os valores máximos permitidos de concentrações de poluentes nesse tipo de manancial, de acordo com a DN COPAM-CERH 08/2022. ● DBO: até 5 mg/L ● Nitrogênio amoniacal: ○ 3,7mg/L N, para pH 8,5 ● E. coli: 1000 NMP/100 mL A legislação não especifica o limite de DQO nos rios, logo, esse parâmetro será avaliado somente pela eficiência de remoção mínima exigida na deliberação, que já foi mencionada anteriormente. Dessa forma, para analisar a eficiência necessária no tratamento e a capacidade do rio Capivari em receber as concentrações dos poluentes presentes no esgoto tratado, será aplicada a seguinte relação: 𝐶 𝑗𝑢𝑠 = 𝐶 𝑒𝑠𝑔 𝑥 𝑄 𝑒𝑠𝑔 +𝐶 𝑚𝑜𝑛 𝑥 𝑄 𝑚𝑜𝑛 𝑄 𝑒𝑠𝑔 + 𝑄 𝑚𝑜𝑛 Onde, = concentração a jusante do ponto lançamento; = concentração no esgoto;𝐶 𝑗𝑢𝑠 𝐶 𝑒𝑠𝑔 = concentração a montante do ponto de lançamento; = vazão de esgoto e =𝐶 𝑚𝑜𝑛 𝑄 𝑒𝑠𝑔 𝑄 𝑚𝑜𝑛 vazão do corpo d’água receptor. O termo foi isolado para calcular o valor limite de𝐶 𝑒𝑠𝑔 determinado poluente no esgoto tratado. Para aplicar a equação acima, é necessário conhecer as características do efluente, já calculadas anteriormente, e as características do corpo hídrico receptor, o rio Capivari. Foi considerado o cenário mais crítico para as características do esgoto, sendo a vazão e as concentrações de poluentes, aquelas estimadas no final de plano para a área urbana e rural. A vazão de referência Q7,10 do rio foi obtida através do estudo de regionalização de vazão no estado de Minas Gerais (Igam e UFV, 2019). Já os parâmetros de qualidade da água foram obtidos na base de dados do IGAM (2021) para a estação de qualidade de água BG009, situada no rio Capivari, a jusante do município em estudo. Na Tabela 9 abaixo é possível visualizar os valores utilizados e os resultados encontrados para a concentração limite de cada parâmetro no esgoto tratado (Cesg,tr). Tabela 9 - Concentração limite de poluentes no esgoto tratado. CONCENTRAÇÃO LIMITE NO ESGOTO TRATADO Parâmetro Cmon Cjus Cesg,tr DBO (mg/L) 2 5 1826 DQO (mg/L) - - - E. coli (NMP/L) 62 10000 6040834 NH4+ (mg/L) 0,1 0,5 243 Qesg (m³/s) 0,016 Qmon (m³/s) 9,485 Fonte: Autores, 2023. Com isso, foi calculada a eficiência mínima necessária no processo de tratamento. Na Tabela 10 estão apresentados os resultados de acordo com a carga poluidora do esgoto e a capacidade do rio em recebê-la, de acordo com o exigido pela legislação. Tabela 10 - Eficiência de remoção necessária. EFICIÊNCIA DE REMOÇÃO NECESSÁRIA Carga poluidora Parâmetro Cesg,br Cesg,tr Eficiência min DBO (mg/L) 324 1826 -464% DQO (mg/L) - - - E. coli (NMP/L) 6480000 6040834 7% NH4+ (mg/L) 29 243 -734% DN COPAM/CERH 08/2022 Parâmetro Cesg,br Cesg,tr Eficiência min DBO (mg/L) 324 60 81% DQO (mg/L) 648 180 72% E. coli (NMP/L) - - - NH4+ (mg/L) 29 20 31% Eficiências adotadas Parâmetro Eficiência min DBO (mg/L) 81% DQO (mg/L) 72% E. coli (NMP/L) 7% NH4+ (mg/L) 31% Fonte: Autores, 2023. É possível visualizar, pela análise de carga poluidora, que o único parâmetro que precisa de remoção é a concentração de E. coli, sendo esta de 7%. Isso ocorre uma vez que a vazão de referência do rio é muito grande em relação à vazão do efluente, ou seja, o manancial tem uma alta capacidade de diluir o despejo de esgotos. No entanto, a DN COPAM/CERH 08/2022, estabelece que todo esgoto deve ser tratado antes de ser despejado em corpo hídrico e define os limites de cada poluente no esgoto tratado, os quais serão adotados como as eficiências mínimas no processo de tratamento da ETE que será projetada. 5.3. TECNOLOGIAS DE TRATAMENTO DISPONÍVEIS Dependendo do processo a ser utilizado, várias unidades podem atuar separadamente ou simultaneamente na remoção dos poluentes. Na Tabela 11 a seguir exemplifica as principais. Tabela 11 - Principais processos de tratamento de esgotos. Poluente Operação, processo ou sistema de tratamento Sólidos em suspensão - Gradeamento - Remoção da areia - Sedimentação - Disposição no solo Matéria orgânica biodegradável - Lagoa de estabilização e variações - Lodos ativados e variações - Filtro biológico e variações - Tratamento anaeróbio - Disposição no solo Patogênicos - Lagoas de maturação - Disposição no solo - Desinfecção com produtos químicos - Desinfecção com radiação ultravioleta Nitrogênio - Nitrificação e desnitrificação biológica - Disposição no solo - Processos físico-químicos Fósforo - Remoção biológica - Processos físico-químicos Fonte: VON SPERLING, 1996. Os critérios para escolha da tecnologia variam dependendo da necessidade de área, o capital de implantação e operação do município, bem como a eficiência mínima, sustentabilidade e confiabilidade do sistema (VON SPERLING, 1996). Municípios de pequeno porte como o de Itumirim, que geralmente possuem acesso limitado a mão de obra especializada e tecnologias mais recentes, além de pouca disponibilidade orçamentária para grandes obras de infraestrutura, necessitam de um tipo de tratamento eficaz mas que tenha um baixo custo de implantação e pouca complexidade operacional. Ademais, por ser uma cidade pouco populosa, mas com grande disponibilidade de área, se torna viável para implantação de tecnologias que demandam em grande quantidade este requisito. 5.4. PRÉ SELEÇÃO DAS TECNOLOGIAS DE TRATAMENTO Ao se considerar os aspectos discutidos anteriormente, serão elencadas algumas possíveis tecnologias e tipologias de tratamento que possuem viabilidade, até o momento, se serem implantadas no município. É importante salientar que para Itumirim, um município de pequeno porte, existe uma possível dificuldade de contratação de mão de obra especializada, ou seja, é importante que as tecnologias propostas apresentem facilidade operacional para que o tratamento ocorra de forma adequada. Ademais, as tecnologias de elencadas devem oferecer viabilidade financeira com um bom custo benefício, além de atender as eficiências mínimas de remoção exigidas pela legislação. Nesse sentido, serão priorizadas tecnologiascom baixo custo de implantação e operação, baixa complexidade operacional e eficiências que atendam a legislação vigente, mesmo que essas tecnologias demandem uma grande área de implantação. Também, em todas as tipologias propostas no tratamento secundário, haverá pelo menos uma etapa anaeróbia e uma etapa aeróbia. A primeira é importante para remover grandes cargas de DBO e a segunda é importante para a remoção de nitrogênio amoniacal. Comumente, processos aeróbios apresentam uma maior eficiência na decomposição de matéria orgânica que os anaeróbios. No entanto, na maioria das vezes esses sistemas necessitam de equipamento mecânicos para aeração e, consequentemente, possuem um custo operacional elevado devido ao gasto de energia elétrica. Por esse motivo, é interessante adicionar uma etapa anaeróbia antes da aeróbia, para que a elevada carga inicial de poluentes seja tratada de forma anaeróbia, que é mais barata, e assim diminuir os gastos com o tratamento aeróbio, por exemplo, com menos horas de funcionamento dos sopradores. 5.4.1. Tratamento preliminar O tratamento preliminar consiste principalmente nas etapas de gradeamento e desarenação. O gradeamento atua na remoção dos sólidos grosseiros (maiores que 1cm) com dimensões superiores ao espaçamento entre as barras. Enquanto as caixas de areia ou desarenadores são parte do sistema responsável pela remoção da areia nos esgotos, através do processo de sedimentação simples (VON SPERLING, 2014). Dessa forma, independente do tipo de tecnologia proposta para os tratamentos primário e secundário, serão adotados sistemas de tratamento preliminar, dado que estes são sistemas simples, com baixo valor de implantação e são responsáveis por proteger os equipamentos e infraestruturas a jusante, garantindo um bom funcionamento da ETE. 5.4.2. UASB + Wetland vertical descendente Os reatores UASB são utilizados no tratamento de esgoto, empregando o lodo formado por colônias de microorganismos anaeróbios. Estes microrganismos desempenham um papel crucial na decomposição da matéria orgânica presente no esgoto. (BARBOSA,2004) Diferentemente dos métodos aeróbios tradicionais de tratamento, os reatores UASB são notavelmente compactos, econômicos e requerem áreas significativamente menores para operar. Além disso, eles demonstram maior eficiência em comparação com outros reatores anaeróbios de baixa taxa, como o tanque séptico (VON SPERLING, 1996). De acordo com Von Sperling (2014), os reatores UASB representam a tendência predominante no tratamento de esgoto no Brasil, podendo ser implantados como unidades independentes ou seguidos por etapas de pós-tratamento. São adaptáveis tanto em grande como em pequena escala, geram pouca quantidade de lodo e têm custos de implantação e operação relativamente baixos. Uma vantagem adicional é que não requerem decantação primária, simplificando ainda mais o processo na estação de tratamento. Entretanto, é importante destacar que esses reatores não podem ser utilizados isoladamente para um tratamento completo do esgoto, uma vez que não são capazes de remover patógenos nem alguns nutrientes, como nitrogênio e fósforo. Por outro lado, os sistemas alagados Wetland são sistemas biológicos que se instalam no solo, nos quais a microbiota natural presente no leito é responsável pela decomposição da matéria orgânica nos esgotos (WETLAND CONSTRUÍDOS, 2020). Esses sistemas são tecnologicamente avançados e econômicos, podendo ser associados a sistemas individuais para melhorar a qualidade dos efluentes destinados a corpos d'água ou à reutilização na irrigação de jardins, campos e culturas (SILVA, 2007). A reutilização na irrigação pode ser uma vantagem econômica significativa para pequenos agricultores. Para alcançar a nitrificação dos efluentes, a fim de torná-los adequados para a fertirrigação, é necessário garantir a aeração do solo, um processo que ocorre sob condições aeróbias. Nesse sentido, os sistemas de fluxo vertical descendente com intermitência de carga são preferíveis, pois promovem a aeração necessária. Além disso, o tratamento é mais eficaz nas camadas iniciais do solo, onde as raízes das plantas absorvem os nutrientes do esgoto, enquanto os microrganismos rizosféricos desempenham um papel fundamental no processo (SILVA, 2007). A aplicação dessas tecnologias no Brasil pode ser ampliada devido ao clima tropical, que favorece o desempenho dos microrganismos responsáveis pela purificação das águas residuais. No entanto, é importante destacar que o sucesso não depende apenas dos microrganismos, mas também da interação entre o substrato, os microrganismos e as plantas (Silveste e Pedro-de-Jesus, 2002 et al SILVA, 2007). Além da alta eficiência dos wetlands, o emprego dessa tecnologia é especialmente interessante por ser um dos poucos tratamentos biológicos aeróbios que não necessitam de equipamentos mecânicos para aeração. Apesar de o município ter grande disponibilidade de área, o reator UASB, que é uma tecnologia de tratamento compacta, foi elencado como uma alternativa pois a segunda etapa do tratamento secundário, a wetland, já demanda uma área consideravelmente grande. Dessa forma, a tipologia apresentada visa garantir uma boa eficiência de remoção, com baixo custo e complexidade operacionais, e evitar que a área total para a implantação da ETE seja exacerbadamente grande. 5.4.3. UASB + Lagoa aerada A lagoa aerada é caracterizada pela utilização de equipamentos de aeração, geralmente aeradores superficiais, que fornecem oxigênio ao meio líquido. Esses aeradores superficiais criam a turbulência necessária para permitir que o oxigênio atmosférico penetre no meio líquido, garantindo a oxigenação essencial para os microrganismos presentes na lagoa. (VON SPERLING, 1996) Além disso, os aeradores superficiais desempenham um papel importante na mistura entre os microrganismos e os sólidos em suspensão, resultando em uma maior concentração de bactérias no meio líquido. Isso, por sua vez, melhora a eficiência da lagoa aeróbia e possibilita uma redução no volume necessário para o tratamento. (ALÉM SOBRINHO, 1981) A lagoa aerada opera de forma semelhante ao processo de lodos ativados, com exceção do sistema de recirculação de lodo (sólidos), que não está presente nas lagoas aeróbias. Devido à ausência dessa recirculação, a concentração de sólidos dentro das lagoas é consideravelmente menor, cerca de 20 a 30 vezes menor do que em sistemas de lodos ativados. Esse sistema leva vantagem em comparação aos lodos ativados com relação a complexidade operacional. (VON SPERLING, 1996) No entanto, apesar da boa eficiência na remoção de matéria orgânica, as lagoas aeradas costumam produzir um efluente com qualidade insatisfatória para o lançamento em corpos hídricos. Isso ocorre porque a biomassa permanece em suspensão em todo o volume da lagoa, sendo liberada no efluente tratado. Porém, a qualidade do esgoto que vem da lagoa aerada não é adequada para lançamento direto, pelo fato de conter uma grande quantidade de sólidos. Por isso, são geralmente seguidas por lagoas de decantação para remoção dos sólidos. (SABESP, 2023) Combinando o sistema UASB já explicado anteriormente, que se trata de um processo anaeróbio, com um sistema de lagoas aeradas permite-se que o nitrogênio amoniacal seja removido. Além disso, caso haja limitação de área, a combinação entre esses dois tipos de tratamento se torna mais viável. 5.4.4. Lagoa anaeróbia + Wetland vertical descendente Nas lagoas anaeróbias, a matéria orgânica passa por metabolismo por microrganismos na ausência de oxigênio. Esse processo resulta na produção de metano e diversos subprodutos, como amônia e ácidos sulfídricos, entre outros compostos. (VON SPERLING, 1996). Segundo Von Sperling (2014), essas lagoas são amplamente reconhecidas como excelentes para a remoção de poluentes orgânicos. No entanto, elas devem ser consideradas apenas como a primeira etapa do tratamento. Isso se deve ao fato deque não são capazes de degradar completamente o efluente. Portanto, é necessário incluir etapas subsequentes no processo, tais como filtros biológicos, lagoas aeradas, entre outras, para garantir a completa remoção de poluentes e o tratamento eficaz do efluente. Dessa forma, opta-se por combinar essa tecnologia com o sistema de wetland explicado anteriormente para um cenário de redução de custo e grande disponibilidade de área, uma vez que as tecnologias possuem baixo custo de implantação e operação, possuem construção simples que demandam materiais de fácil acesso, não demandam equipamentos mecânicos e possuem operação simples. 5.4.5. Tratamento terciário Dado que na análise de impacto ambiental da carga poluidora do esgoto tratado a eficiência necessária de remoção de E. coli foi de 7%, já que o rio receptor possui uma vazão alta que é capaz de absorver o despejo do esgoto, na proposta da ETE não será implantado tratamento terciário para fins de desinfecção. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALÉM SOBRINHO, P., Rodrigues, M. R.: Lagoas aeradas aplicadas ao tratamento de esgotos domésticos. XI Congresso Brasileiro de Engenharia e Ambiental, ABES, Fortaleza, 1981. ALOS PALSAR. PALSAR_Radiometric_Terrain_Corrected_high_res 2023. Disponível em: ASF DAAC, https://search.asf.alaska.edu/#/. Acesso em: 08 out. 2023. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9649: Projeto de redes coletoras de esgoto sanitário. Rio de Janeiro - RJ, 1986. 7 p. BARBOSA FILHO, Olavo; COSTA, Ernani S. ; GIORDANO, Gandhi. Reatores anaeróbios de manta de lodo (UASB): uma abordagem concisa. Rio de Janeiro: COAMB/FEN/UERJ, 2014. BRASIL, Resolução CONAMA n°357, de 17 de março de 2005. Classificação de águas, doces, salobras e salinas do Território Nacional. Publicado no D.O.U. BRASIL. Deliberação Normativa Conjunta COPAM/CERH-MG n° 8, de 21 de novembro de 2022. Dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes, e dá outras providências. Diário Executivo de Minas Gerais, Belo Horizonte, 02/12/2022. Disponível em: http://www.siam.mg.gov.br/sla/download.pdf?idNorma=56521. Acesso em: 08 out. 2023. EMATER-MG. Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais. 2023. Disponível em: https://www.emater.mg.gov.br/portal.cgi?flagweb=novosite_pagina_interna&id=19167. Acesso em: 08 out. 2023. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Brasileiro de 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. IDE-SISEMA. Infraestrutura de Dados Espaciais do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, 2023. Disponível em: https://idesisema.meioambiente.mg.gov.br/. Acesso em: 08 out. 2023. IGAM. Estudo de regionalização de vazão para o aprimoramento do processo de outorga no Estado de Minas Gerais/Grupo de Pesquisas em Recursos Hídricos da UFV. Instituto Mineiro de Gestão das Águas. Belo Horizonte, 2012. MAPBIOMAS. Coleção 8 da Série Anual de Mapas de Cobertura e Uso da Terra do Brasil, 2023. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/colecoes-mapbiomas/. Acesso em: 08 out. 2023. SABESP. Tratamento de esgotos. Tipos de tratamento. Disponível em: https://www.sabesp.com.br/site/interna/Default.aspx?secaoId=61. Acesso em: 06 de outubro de 2023. SILVA, S. C. (2007). “Wetlands Construídos” de Fluxo Vertical com Meio Suporte de Solo Natural Modificado no Tratamento de Esgotos Domésticos. Tese de Doutorado em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos, Publicação PTARH.TD-003/07, Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, Universidade de Brasília, Brasília, DF, 205p. Silvestre, A. e Pedro-de-Jesus, M. (2002). Tratamento de Águas Residuais Domésticas em Zonas Húmidas Artificiais. Monografia de Final de Curso, Instituto Superior Técnico, Departamento de Engenharia Biológica e Química. SNIS - Sistema Nacional De Informações Sobre Saneamento. Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos. Ministério das Cidades, 2010. Acesso em: 08 out. 2023. VON SPERLING, M. Introdução à Qualidade das Águas e ao Tratamento dos Esgotos. Vol. 1. 2 ed. Belo Horizonte, UFMG, 243 p. 1996. WETLANDS CONSTRUÍDOS. Wetlands para tratamento de esgotos: uma solução para efluentes sanitários. Disponível em: https://www.wetlands.com.br/post/wetlands-para-tratamento-de-esgotos-uma-solucao-para- efluentes-sanitarios#:~:text=Os%20wetlands%2C%20assim%20como%20outras,mat%C3% A9ria%20org%C3%A2nica%20presente%20nos%20esgotos. 22 de jan. de 2020. Acesso em: 07 de outubro de 2023. ANEXO F1 - Sede municipal e distritos de Itumirim/MG Fonte: Autores, 2023; ANEXO F2 - Mapa hipsométrico e cursos d’água de Itumirim/MG Fonte: Autores, 2023; ANEXO F3 - Tipo de solo - Itumirim/MG Fonte: Autores, 2023; ANEXO F4 - Uso e ocupação do solo - Itumirim/MG Fonte: Autores, 2023; ANEXO F5 - Zonas climáticas - Itumirim/MG Fonte: Autores, 2023; ANEXO F6 - Direção e velocidade dos ventos (2019 a 2022) - INMET São João del Rei e Varginha Fonte: Autores, 2023; Fonte de Dados: INMET A514 e A515 (2019 a 2022); ANEXO F7 - Custo médio para desapropriação - Itumirim/MG Fonte: Autores, 2023; ANEXO F8 - Características gerais de Itumirim/MG e Proposta de Área para ETE Fonte: Autores, 2023;