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A AURORA DOS NOVOS TEMPOS 
 
Galileu Galilei, diante de um astrolábio antigo, explica a um menino a 
aurora dos novos tempos, anunciada pelas descobertas científicas do 
Renascimento. 
 
Há dois mil anos a humanidade acreditou que o Sol e as estrelas do céu 
giram em torno dela. O papa, os cardeais, os príncipes, os sábios, capitães, 
comerciantes, peixeiras e crianças de escola, todos achando que estão 
imóveis nessa bola de cristal. Mas agora nós vamos sair, Andréa, para uma 
grande viagem. Porque o tempo antigo acabou, e agora é um tempo novo. 
Já faz cem anos que a humanidade está esperando alguma coisa. 
As cidades são estreitas e as cabeças também. Superstição e peste. Mas 
agora, veja o que se diz: se as coisas são assim, assim não vão ficar. Tudo 
se move, meu amigo. 
Gosto de pensar que tudo tenha começado com os navios. Desde que há 
memória, eles vinham se arrastando ao longo da costa, mas, de repente 
deixaram a costa e exploraram os mares todos. 
Em nosso velho continente nascia um boato: existem continentes novos. E 
agora que os nossos barcos navegam até lá, a risada é geral nos 
continentes. O que se diz é que o grande mar temido é uma lagoa 
pequena. 
E surgiu um grande gosto pela pesquisa da causa de todas as coisas: saber 
por que cai a pedra se a soltamos, e como sobe a pedra que 
arremessamos. Não há dias em que não se descubra alguma coisa. Até os 
velhos e os surdos puxam conversa para saber das últimas novidades. 
Já se descobriu muita coisa, vi uma discussão de cinco minutos sobre a 
melhor maneira de mover blocos de granito: em seguida os pedreiros 
abandonaram uma técnica milenar e adotaram uma disposição nova e 
mais inteligente das cordas. Naquele lugar e naquele minuto fiquei 
sabendo: o tempo antigo passou e agora é um tempo novo. Logo a 
humanidade terá uma idéia clara de sua casa, do corpo celeste que ela 
habita. O que está nos livros antigos não lhe basta mais. 
Pois onde a fé teve mil anos de assento, sentou-se agora a dúvida. Todo 
mundo diz: é está nos livros – mas agora queremos ver com nossos olhos. 
As verdades mais consagradas são tratadas sem cerimônia: o que era 
indubitável, agora é posto em duvida. Em conseqüência, formou-se um 
vento que levanta as batinas brocadas dos príncipes e prelados, e põem à 
mostra pernas gordas e pernas de palito, pernas como as nossas pernas. 
Mostrou-se que os céus estavam vazios, o que causou uma alegre 
gargalhada. 
Mas as águas da terra fazem girar as novas rocas, e nos estaleiros, nas 
casas de cordame e de velame, quinhentas mãos se movem em conjunto, 
organizadas de maneira nova. 
Predigo que a astronomia será comentada nos mercados, ainda em 
tempos de nossa vida. Mesmo os filhos das peixeiras quererão ir a escola. 
Pois os habitantes de nossas cidades, sequiosos de tudo que é novo, 
gostarão de uma astronomia nova, em que também a terra se mova. O 
que constava é que as estrelas estão presas a uma esfera de cristal para 
que não caiam. Agora juntamos coragem, e deixamos que flutuem 
livremente, desancoradas e elas estão em grande viagem, como as nossas 
caravelas e em grande viagem. 
E a Terra rola alegremente em volta do Sol, e as mercadoras de peixe, os 
comerciantes, os príncipes e os cardeais e mesmo o papa, rolam com ela. 
Uma noite bastou para que o universo perdesse o seu ponto central; na 
manhã seguinte, tinha uma infinidade deles. De modo que agora qualquer 
um pode ser visto como centro, ou nenhum. Subitamente há muito lugar. 
Nossos navios viajam longe. As nossas estrelas giram no espaço longínquo, 
e mesmo no jogo de xadrez, agora a torre atravessa o tabuleiro de lado a 
lado. 
 
 (Bertold Brecht – A vida de Galileu)

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