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U N O PA R M ETO D O LO G IA D O EN SIN O D A A RTE Metodologia do ensino da arte Laura Célia Sant’Ana Cabral Cava Metodologia do ensino de arte Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Cava, Laura Célia Sant’Ana Cabral ISBN 978-85-8482-170-9 1. Arte – Estudo e ensino. 2. Arte – Metodologia de ensino. I. Título CDD 707 C376m Metodologia do ensino da arte / Laura Célia Sant’Ana Cabral Cava. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S. A., 2015. 166 p. : il. © 2015 por Editora e Distribuidora Educacional S.A Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente: Rodrigo Galindo Vice-Presidente Acadêmico de Graduação: Rui Fava Diretor de Produção e Disponibilização de Material Didático: Mario Jungbeck Gerente de Produção: Emanuel Santana Gerente de Revisão: Cristiane Lisandra Danna Gerente de Disponibilização: Nilton R. dos Santos Machado Editoração e Diagramação: eGTB Editora 2015 Editora e Distribuidora Educacional S. A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041 -100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Unidade 2 | Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Seção 1 - Arte como conhecimento 1.1 | Papel da arte na vida do ser humano 1.2 | Campos conceituais da arte 1.3 | A arte e a criança Seção 2 - Didática do ensino de Arte 2.1 | Encaminhamentos metodológicos 2.2 | Educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental 2.3 | Educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental 2.4 | Sugestão de conteúdos e objetivos das artes visuais Unidade 3 | Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais Seção 1 - Inter-relação entre arte, cultura e educação 3.1 | Educação formal, informal e não formal Seção 2 - Fundamentos estéticos no ensino de artes visuais 3.1 | A estética e o ensino de artes visuais 3.2 | Cultura visual 3.3 | Datas comemorativas 3.4 | O ensino de artes visuais e a estética Unidade 1 | Tendências do ensino de arte no Brasil Seção 1 - Barroco: primeiro produto cultural brasileiro 1.1 | Missão jesuítica 1.2 | Barroco no Brasil Seção 2 - Aspectos históricos do ensino de Arte no Brasil 2.1 | Missão artística francesa 2.2 | Arte neoclássica 2.3 | Tendências do ensino de arte no Brasil 2.3.1 | Pedagogia liberal 2.3.1.1 | A pedagogia liberal tradicional 2.3.1.2 | A pedagogia liberal renovada 2.3.1.3 | A pedagogia liberal tecnicista 2.3.2 | Pedagogia progressista Sumário 7 11 11 16 23 23 27 30 31 31 32 33 34 45 49 49 52 53 63 63 70 72 74 87 91 91 101 101 104 118 124 Unidade 4 | Políticas públicas para a educação em artes visuais Seção 1 - Artes visuais e as políticas públicas 4.1 | Artes visuais e políticas públicas 4.2 | Políticas públicas no Brasil Seção 2 - Proposta Contemporânea para o Ensino de Artes Visuais 2.1 | Ensino multicultural 2.1.1 | Arte indígena 2.2 | Uma porta para projetos 137 141 141 142 153 153 154 158 Apresentação Caro aluno leitor! É com muita alegria que apresento a você este livro, que fará parte da disciplina Metodologia do Ensino da Arte, do Curso de Artes Visuais, que tem como objetivo formar professores da Educação Básica, ou seja, Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Sou a professora Laura e convido você a conhecer e refletir sobre o ensino de Arte, com ênfase nas Artes Visuais, pois quando o professor trabalha de maneira adequada, promove uma aprendizagem significativa e possibilita experiências estéticas, a percepção do mundo e de si mais aguçada. Este livro foi elaborado com muita pesquisa, dedicação e carinho, com o objetivo de oferecer subsídios metodológicos e conhecimento científico, contribuindo assim para que você avance na compreensão do ensino e aprendizagem da Arte e, também, provocá-lo no sentido de refletir acerca desta disciplina e compreender que ela possibilita o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e estético, portanto, de extrema relevância no contexto escolar. Consta no Brasil (1997) que é limitada a experiência de quem não tem contato algum com a arte. Pensamos este livro de forma a possibilitar a você um encontro significativo com as artes visuais. Pontuamos algumas questões que consideramos relevantes e as organizamos da seguinte maneira: Na primeira unidade: Tendências do Ensino de Arte no Brasil, falaremos sobre o ensino de arte no Brasil com as Missões Jesuíticas, que tinham por objetivo a catequização indígena, para ensiná-los a doutrina da Igreja Católica. Conheceremos a arte barroca brasileira. Em seguida abordaremos sobre a Missão Artística Francesa, um grupo de artistas, arquitetos e artífices franceses, que vieram ao Brasil, a convite de D. João VI, para fundarem uma escola do ensino superior, Academia Imperial de Belas Artes e nela serem professores; veremos a Arte Neoclássica e, por fim, conheceremos as tendências pedagógicas do ensino de Arte. Na segunda unidade: apresentaremos os aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na Educação Básica, estudaremos a arte como conhecimento, pois ela é uma área do conhecimento tão importante quanto as demais e deve ser entendida e aprendida desta forma. Apresentaremos também os campos conceituais ou vertentes da Arte na Proposta Triangular trazida por Ana Mae Barbosa. Abordaremos como a criança se relaciona com a arte e, por fim, apresentaremos a Didática do Ensino de Arte, com orientações sobre o trabalho na sala de aula e certas especificidades desta disciplina. Por fim, apresentaremos conteúdos de artes visuais na Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Na terceira unidade: abordaremos propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em Artes Visuais. Nesta unidade conheceremos e conceituaremos espaços formais, que dizem respeito ao ensino sistematizado; informais, que são os saberes relacionados à língua materna, tarefas domésticas, normas de comportamento, orar ou rezar, caçar, ou seja, sobreviver, sem horários ou currículos, isto é, escola da vida; e não formais, muito próximos da educação formal que inclui o estudo de línguas estrangeiras, informática, pintura e outros, com horários e períodos letivos bem definidos. Também, dando continuidade nesta seção, diferenciaremos museu de galeria, pois o ensino não formal pode acontecer nestes espaços. Apresentaremos alguns museus, com sugestões de links e a possibilidade de conhecê-los virtualmente. Também falaremos e conceituaremos a cultura visual, falaremos como os professores de Arte lidam com o conflito de trabalhar ou não as datas comemorativas e qual a melhor solução para este trabalho, e em seguida apresentaremos algumas sugestões de conteúdos para serem trabalhados no Ensino Fundamental I. Na quarta unidade: apresentaremos as Políticas públicas para a educação em Artes Visuais, refletiremos sobre as políticas públicas e suas ações com relação ao ensino de Arte, conheceremos os documentos oficiais sobre o ensino de Arte: Proposta Curricular Nacional de Arte (PCN Arte) – Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil – Artes Visuais (RCNEI – Artes Visuais) e as Diretrizes Curriculares Nacionais de Arte (DCN – Arte). Apresentaremos a Proposta Contemporânea do Ensino de Arte, fazendo articulação entre o ensino de Arte e o ensinomulticultural, como trabalhar com as artes visuais de forma interdisciplinar, a metodologia de Projetos em Artes Visuais, conheceremos a proposta de Reggio Emilia, uma região na Itália onde os Centros de Educação Infantil públicos são modelo mundial de educação e a ênfase gira em torno de projetos de artes visuais. Unidade 1 TENDÊNCIAS DO ENSINO DE ARTE NO BRASIL Nesta seção falaremos sobre o ensino de Arte no Brasil iniciando com a Missão Jesuítica, também denominada de Companhia de Jesus, uma ordem religiosa composta por padres, que tinha por objetivo a catequização indígena, para ensinar-lhes a doutrina da Igreja Católica, e o ensino de Arte foi um dos caminhos encontrados por eles. Conheceremos também a Arte Barroca brasileira, este estilo de arte foi trazido ao Brasil pelas mãos dos colonizadores, sobretudo portugueses. Falaremos nesta seção sobre a Missão Artística Francesa, um grupo de artistas, arquitetos e artífices franceses, que vieram ao Brasil, a convite de D. João VI, para fundarem uma escola do ensino superior, Academia Imperial de Seção 1 | Barroco: primeiro produto cultural brasileiro Seção 2 | Aspectos históricos do ensino de Arte no Brasil Objetivos de aprendizagem: • Compreender como se organizava a Missão Jesuítica no Brasil, qual seu objetivo e como se dava o ensino de arte nas Missões; • Conhecer a Arte Barroca; • Estudar sobre a Missão Artística Francesa e seu objetivo no Brasil; • Compreender a Arte Neoclássica; • Conhecer as tendências pedagógicas de arte no Brasil. Laura Célia Sant’Ana Cabral Cava Tendências do ensino de arte no Brasil U1 8 Belas Artes, e nela serem professores; veremos sobre a Arte Neoclássica, que foi trazida por eles, e por fim conheceremos as tendências pedagógicas do ensino de Arte no Brasil. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 9 Introdução à unidade Olá, caro aluno! Nesta unidade estudaremos sobre o início do ensino de Arte no Brasil. Talvez você esteja se perguntando: a arte se ensina? Quais foram os primeiros a ensinar arte? Sim, tanto a arte de forma geral como também a disciplina de Arte se ensinam, pois desde a Pré-história o homem primitivo usava a arte para compreender aquele mundo em que vivia, e a arte foi um dos caminhos que possibilitou este entendimento de mundo. Ela foi passada de pai para filho e ultrapassou a barreira do tempo, ou seja, acompanhou o homem desde a Pré- história até a Contemporaneidade, e no contexto da educação ela é uma área do conhecimento tão relevante quanto as demais, com conteúdos, objetivos, e contribui, por meio da mediação do professor, para que o aluno consolide seu conhecimento artístico, estético e contextualizado. Para entendermos melhor quem foram os primeiros habitantes brasileiros a aprender sobre arte, nesta unidade faremos uma viagem no tempo, que se inicia no século XVI, com a chegada dos jesuítas no Brasil, cujo objetivo era a catequização indígena para a doutrina católica. Estudaremos também um pouco do Barroco brasileiro, trazido por estes jesuítas, até chegarmos à Missão Artística Francesa, composta por um grupo de artistas e artífices franceses que chegam ao Brasil no início do século XIX, a convite de Dom João VI, com o objetivo de fundarem a Academia Imperial de Belas Artes, onde seriam professores. A Academia Imperial de Belas Artes era um sistema de ensino superior acadêmico que fortalecia o estilo artístico Neoclassicismo, trazido por eles da Europa. Acreditamos que este estudo acerca das origens do ensino de Arte no Brasil o ajudará a compreender melhor o porquê de tantas distorções sobre como ensinar Arte, e conhecer melhor as tendências pedagógicas de cada época, suas influências e como estas perduram até os dias atuais. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 10 Tendências do ensino de arte no Brasil U1 11 Seção 1 Barroco: primeiro produto cultural brasileiro Prezado aluno! Vamos iniciar nosso estudo fazendo uma viagem na história para conhecermos as primeiras iniciativas do ensino de Arte no Brasil, a chegada dos jesuítas, de D. João VI e a família real no Brasil, as ações realizadas em solo brasileiro, a chegada da Missão Artística Francesa, os estilos Barroco e Neoclássico, e as tendências pedagógicas do ensino de Arte. Portanto, convido você a viajar no tempo comigo para entendermos melhor esta disciplina, Metodologia do Ensino de Arte, e o porquê de tantos equívocos acerca do ensino de Arte. 1.1 Missão jesuítica A partir da expansão do protestantismo e a perda de muitos fiéis da Igreja Católica, em toda a Europa, surge no século XVI a Missão Jesuítica, denominada também como Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola e por São Francisco Xavier. Esta Missão era uma ordem religiosa composta por padres jesuítas e tinha um cunho evangelizador, cujo objetivo era proclamar a religião católica e trazer de volta seus fiéis. Esta reação católica ficou conhecida como Contrarreforma e foi o pontapé necessário para mudar o estilo de vida das pessoas e alterar a forma de fazer arte, pois as produções artísticas perderam o caráter liberal do Renascimento, tendo como princípio uma forte ligação a conceitos religiosos. A Companhia de Jesus foi introduzida em Portugal no ano de 1521 por D. João III. Lá, estes religiosos receberam o Colégio das Artes e o Controle da Universidade de Coimbra. Por sua organização, sua forma dinâmica de ser e pelo preparo teológico e cultural dos membros da Missão Jesuítica, aos poucos esta foi se fortalecendo. Neste livro, quando nos refererirmos à arte de forma geral, grafaremos com letra minúscula, e quando nos referirmos à disciplina de Arte, grafaremos com letra maiúscula. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 12 Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Victor_ Meirelles04.jpg>. Acesso em: 02 abr. 2015. Figura 1.1 | Obra do artista Victor Meirelles representando a Primeira Missa no Brasil dos jesuítas Na América elas também eram chamadas de Reduções, pois tratavam-se de aldeamentos indígenas que eram organizados e administrados pelos padres jesuítas. No Brasil os jesuítas chegaram em 1549 e o seu objetivo era catequizar os índios à religião católica, para isso familiarizaram-se com os costumes e ritos indígenas, aprenderam a língua tupi, com o objetivo de conquistar a confiança deles e convertê-los ao catolicismo. Os dois tipos de ensino que se estabeleceram no Brasil foram: em colégios e em aldeias, onde ensinavam aos filhos de colonos a ler e escrever e aos índios. Neste contexto a arte foi entendida como apropriada para a educação, pois de acordo com os jesuítas, ela estava acessível a todos. A arquitetura e a escultura serviram como estratégia, assim como o uso das linguagens artísticas: música, dança e teatro, facilitando o sincretismo cultural ea adaptação do índio ao sistema civilizado europeu cristão. O jesuíta, além de psicologicamente ativo pela ideia de catequese, é dotado de um aparato intelectual notável: sabia construir com terra, madeira ou pedra, conhecia desenho e geometria, falava duas ou três línguas europeias, além do latim, e se movia tão à vontade nos trâmites dos negócios da Corte quanto no convés de um navio (SALA, 2002, p. 17). É bom enfatizar que antes dos jesuítas aqui chegarem, já existiam práticas educativas no Brasil pelos habitantes que aqui viviam. Mesmo que fosse de uma forma diferente, havia estas práticas. Ou seja, embora tenhamos começado a falar sobre ensino de Arte a partir dos jesuítas, é importante ressaltar que estes não foram os primeiros a introduzir processos educativos no Brasil, pois antes da chegada dos portugueses havia uma população ameríndia que possuía suas próprias ações educativas, embora a educação portuguesa as tenha anulado.Isto nos remete a Tobias (1986, p. 21-22), que diz: [...] desde o início, tanto na Terra de Santa Cruz, quanto no Brasil, houve educação brasileira, porque as aulas eram ministradas na terra brasileira, para gente brasileira, embaixo de um sol brasileiro, para crianças da gente brasileira. Aliás, nunca foi e Tendências do ensino de arte no Brasil U1 13 jamais será tão genuinamente brasileira a educação ministrada no Brasil, uma vez que, nesses primeiros séculos, a escola educava os curumins, os filhos dos indígenas do Brasil, os mais brasileiros de todos os brasileiros. De acordo com Priore (2004, p. 10), “até 1580 os jesuítas tiveram exclusividade na ação religiosa no Brasil, como missionários ‘oficiais’ da Coroa”. Com a vinda de outras ordens religiosas, o atendimento às necessidades espirituais dos colonos e o processo de urbanização das cidades foram supridos, porém, a educação, principalmente a catequese indígena, ficou como responsabilidade quase total dos jesuítas, até a sua expulsão no século XVIII. As Reduções tornaram-se grandes empresas industriais e agropecuárias, pois tinham todos os equipamentos e eram independentes. Nesse processo chegaram a constituir verdadeiras cidades, muitas com milhares de habitantes, compostas por um núcleo urbano principal com as habitações, igreja, colégio, presídio, mercado e oficinas diversas, e grandes áreas em torno com lavouras e criações de gado. E quando não conseguiam se autossustentar, eram sustentadas em parte pelos rendimentos que a Companhia de Jesus obtinha em outras atividades ou com doações da nobreza. Para compreender melhor sobre a Missão Jesuítica, assistam ao filme "A Missão", de 1986, sob a direção de Roland Joffe e tendo em seu elenco Robert de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson, que retrata um importante período de nossa história e promove um resgate cultural fabuloso. Embora o objetivo principal desta ordem religiosa tenha sido a catequese, o processo demonstrou-se extremamente rico no que tange à construção da história artística brasileira. O envolvimento dos jesuítas na cultura indígena, de modo a conhecer suas lendas, crenças e histórias nativas, forneceu subsídio para a utilização deste material na realização de festas, montagem de peças teatrais no intuito de convencer os indígenas da existência de um Deus e de um Demônio, do céu e do inferno. Fonte: Disponível em: <http://maniacolorida.blogspot. com.br/2010/03/os-jesuitas-e-sua-influencia-no-ensino_28.html>. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 14 Não havia um modelo único de redução, pois com a diversidade de contextos geográficos, culturais e econômicos, isto se tornou impossível. Houve reduções modestas e outras não. O envolvimento dos jesuítas na cultura indígena fez com que se iniciasse, silenciosamente, uma espécie de “reescrita” da cultura indígena, a ponto de os jesuítas tentarem eliminar alguns costumes considerados impróprios, como a pintura corporal, os corpos nus, a poligamia e a antropofagia. Este processo de educação dos índios perdurou por cerca de dois séculos e meio. Neste período foram construídos colégios destinados à educação de professores, padres e de uma elite que seria de suma importância na disseminação do modelo cultural europeu na nova terra. De acordo com Amsberg D. (2014), esta prática: A mesma autora faz um paralelo desta afirmação com a fala da arte-educadora Ana Mae Barbosa em sua vivência com relação à elaboração de currículos de arte contemporâneos, é possível perceber nitidamente a herança cultural que permeia o ensino desta área do conhecimento: Voltando às Missões Jesuíticas: e a arte, como foi se desenvolvendo? A arte dramática brasileira se deve principalmente ao padre José de Anchieta. A música e a dança nativas, por atraírem os jesuítas, se fundiram com a música europeia. Foram produzidas grandes quantidades de artesanato, como tapetes, luminárias, móveis, utensílios de cozinha, moringas e outros artefatos. A arquitetura das igrejas, seu estilo e imagens presentes tinham destaque. Coloridas, deram origem à pintura brasileira. fez com que sempre se desprezasse a cultura popular, influenciada pelos indígenas e negros e que permaneceu marginal e condenada à expectativa de homogeneização, uma vez que a cultura erudita e europeizada era o modelo a ser seguido. No que diz respeito à cultura local, pode-se constatar que quase sempre apenas o nível erudito dessa cultura é admitido na escola. As culturas de classes sociais economicamente desfavorecidas continuam a ser ignoradas pelas instituições educacionais, mesmo pelos que estão hoje envolvidos na educação dessas classes. (BARBOSA, 2008a, p. 19-20). Tendências do ensino de arte no Brasil U1 15 Por volta do século XVII inicia-se um considerável público, que tinha posses e era voltado às produções artísticas, isto porque configurou-se uma nova classe social. Houve um crescimento dos povoados, uma larga produção de ouro, com isto surgiu um grande número de comerciantes, artesãos, pequenos empresários. Estes faziam saraus, usavam instrumentos musicais e tinham residências ricas. Neste período, a arte vinda da Europa era a Barroca. Desta forma, como as irmandades eram ricas, cada uma procurava se destacar mais do que a outra, com isto, investiam muito dinheiro na ornamentação dos templos. Isto contribuiu para o crescimento do patrimônio de arquitetura barroca religiosa, o que posiciona o Brasil no quadro de importante grandeza internacional. Outro fato relevante que enriqueceu o panorama artístico brasileiro, neste mesmo período, foi a invasão de Pernambuco pelos holandeses. Recife, neste contexto, é remodelada e sua paisagem é enriquecida por palácios, pontes, canais, lojas, oficinas e até um certo clima de tolerância religiosa. Isto porque o príncipe Maurício de Nassau tinha Dentro das missões, os indígenas aprenderam técnicas de trabalhos manuais e ofícios destinados à sua mantença e subsistência. As artes integravam grande parte de suas atividades cotidianas. O canto, a manipulação de instrumentos musicais, bem como a fabricação dos mesmos, ficavam a cargo dos índios. O resultado desta atividade, embora totalmente voltada aos preceitos cristãos, enriqueceu consideravelmente a cultura local e contribuiu para a configuração de nossa produção de arte ao longo da história. Fonte: Disponível em: <http://maniacolorida.blogspot.com. br/2010/03/os-jesuitas-e-sua-influencia-no-ensino_28.html>. Seria esta uma mistura ou sobreposição de culturas? Fonte: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/Albert_Eckhout#/ media/File:Albert_Eckhout_Mameluca_woman_circa_1641-1644.png>; <https://commons.wikimedia.org/wiki/Albert_Eckhout#/media/File:Mulher_ Africana.jpg>; <https://commons.wikimedia.org/wiki/Albert_Eckhout#/media/File:India_tupi. jpg>. Acesso em: 25 mar. 2015. Figura 1.2 | A tupinambá, a mameluca e a negra Tendências do ensino de arte no Brasil U1 16 uma comitiva de arquitetos, artistas e intelectuais, dentre eles Albert Eckhout, que em cenas do cotidiano retratou negros e índios, inclusive com os corpos nus. Com isto estabelece-se uma cultura local diferente da dos jesuítas, favorecendo a abertura e descentralização da produção artística, até então focada no sagrado. No período que compreende os séculos XVII e XVIII, surgiram grandes obras primas da arte religiosa brasileira. Dentre os artistas desta época destacou-se Manuel Dias de Oliveira Brasiliense, conhecido como “o Romano”, pintor retratista da família real. Os jesuítas foram expulsos pelo Marquês de Pombal no século XVIII, mais precisamente 1759, deixando para trás um trabalho de grande relevância artística, um legado cultural que permanece até os dias de hoje. Por outro lado, é evidente que toda esta construção foi a responsávelpela extinção de uma cultura originalmente brasileira e anterior a esta, sendo assim, podemos dizer que a origem de nossa arte recebeu influência de outros povos, influência europeia, e, em contrapartida, talvez outros povos receberam influência da arte indígena brasileira. Já que falamos sobre o estilo Barroco trazido pelos jesuítas, faz-se necessário recordar sobre este estilo. O Barroco foi uma tendência artística que se desenvolveu primeiramente nas artes plásticas e depois se manifestou na literatura, no teatro e na música. O berço do Barroco foi a Itália, ele iniciou-se no século XVII, espalhou-se por vários países europeus e encerrou-se no século XVIII. O Barroco se desenvolve após o processo de reformas religiosas, ocorrido no século XVI, em que a Igreja Católica havia perdido muito espaço e poder. A Arte Barroca surge neste contexto e expressa todo o contraste deste período: a espiritualidade e teocentrismo da Idade Média com o racionalismo e antropocentrismo do Renascimento. 1.2 Barroco no Brasil Cem anos após o surgimento do Barroco na Europa, este chegou ao Brasil, trazido pelas mãos dos colonizadores, sobretudo portugueses. Sendo assim, este foi o nosso primeiro produto cultural de origem erudita, assumindo diversas características ao longo de seu tempo e, mais que um estilo artístico, era um estilo de vida. A Arte Barroca era profundamente católica e foi usada como forma de expressão da mensagem religiosa da Contrarreforma. Os artistas barrocos foram patrocinados pelos monarcas, burgueses e pelo clero. As obras de pintura e escultura deste período são rebuscadas, detalhistas e expressam as emoções da vida e do ser humano. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 17 A palavra “barroco” tem um significado que representa bem as características deste estilo. Significa "pérola irregular" ou "pérola deformada" e representa de forma pejorativa a ideia de irregularidade. Diego Rodríguez de Silva y Velázquez foi um importante pintor espanhol do século XVII. Destacou-se na pintura de retratos, principalmente de integrantes da nobreza espanhola. Fez parte do movimento artístico conhecido como Barroco. FONTE: <http://www.suapesquisa.com/biografias/velasquez.htm>. Fonte: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Las_Meninas_01.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 24 mar. 2015. Figura 1.3 | As Meninas - Velázquez Tendências do ensino de arte no Brasil U1 18 Devido à situação econômica brasileira frente à sofisticação europeia, o Barroco brasileiro tornou-se uma produção tecnicamente inferior. A função da Arte Barroca no Brasil foi para fins religiosos, ou seja, conversão à fé católica dos negros, índios e, com o passar do tempo, os artesãos populares. Principais características do estilo Barroco: • acentuado contraste de claros-escuros, contrastes; • expressão dos sentimentos – era um recurso que visava intensificar a sensação de profundidade; • linhas curvas; • emoção e intensidade dramática. Emoção sobre razão, seu propósito é impressionar os sentidos do observador. Escolha de cenas no seu momento de maior intensidade dramática; • estilo dinâmico; • narrativo; • composição assimétrica, em diagonal –que se revela num estilo grandioso, monumental, retorcido, substituindo a unidade geométrica e o equilíbrio da arte renascentista; • entrelaçamento entre a arquitetura e a escultura; • busca de efeitos decorativos e visuais, através de curvas, contracurvas, colunas retorcidas; • efeitos de luz – luz de holofote; • pintura com efeitos ilusionistas, dando-nos às vezes a impressão de ver o céu, tal a aparência de profundidade conseguida; • paisagem/natureza morta/cenas da vida cotidiana; • realista, abrangendo todas as camadas sociais. Representantes: Caravaggio (1573-1610), Velázquez (1599-1660), Rubens (1577-1640), Rembrandt (1606- 1669), Vermeer (1632-1675), Bernini (1598-1680), Mansart (1646-1708), Van Dyck e Frans Hals. Fonte: Disponível em: <http://www.jornaldastribos.com.br/barroco-resumo-historico-artes-e-cultura/>. Acesso em: 24 mar. 2015. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 19 Em comparação com as obras renascentistas, o Barroco rompe com o equilíbrio entre o sentimento e a razão ou entre a arte e a ciência dos artistas renascentistas, pois neste tipo de arte predominam as emoções e não o racionalismo da arte renascentista. Há no estilo Barroco uma tentativa de conciliar forças antagônicas: bem e mal; Deus e Diabo; céu e terra; pureza e pecado; alegria e tristeza; paganismo e cristianismo; espírito e matéria. No Brasil, a maior produção de obras barrocas foi em Minas Gerais, no século XVIII, isto porque as cidades eram ricas e possuíam uma intensa vida cultural e artística em pleno desenvolvimento. O artista que mais se destacou no Brasil, no estilo Barroco, foi o escultor e arquiteto Antônio Francisco de Lisboa, também conhecido como Aleijadinho. Suas obras eram feitas em madeira e pedra-sabão e tinham um forte teor religioso. Vejam a seguir "Os Doze Profetas" e "Cristo carregando a cruz", Santuário de Congonhas, em Congonhas do Campo (MG), esculpidas por Aleijadinho. O Barroco iniciou-se com uma grande produção sacra de estátuas, disseminada por todo o litoral e em algumas regiões do interior do Brasil. Este tipo de arte encontrava espaço tanto no templo como no domicílio privado. As primeiras peças barrocas vieram com os missionários, mas a partir do século XVII começaram a se formar escolas conventuais locais de escultura, compostas principalmente por religiosos franciscanos e beneditinos, mas com alguns artesãos laicos, que trabalhavam principalmente o barro. Já os jesuítas esculpiam na madeira. Os índios das Reduções, tanto do Sul como Fonte: Disponível em: <http://www.jornalwebminas.com.br/interior_noticia.php?noticia=116508>. Acesso em: 26 mar. 2015 Figura 1.4 | Barroco no Brasil Tendências do ensino de arte no Brasil U1 20 do Nordeste, também esculpiram santos, apresentando muitas vezes traços étnicos índios no rosto das imagens. O pintor mineiro Manuel da Costa Ataíde e o escultor carioca Mestre Valentim também se destacaram neste estilo de arte. Em Salvador (BA), o Barroco destacou-se na decoração das igrejas, por exemplo, a de São Francisco de Assis e a da Ordem Terceira de São Francisco. A partir do século XVI foram construídos alguns edifícios sacros que foram considerados importantes, por exemplo, em Olinda e Salvador. A técnica utilizada era muito simples, do pau-a-pique, eram cobertas com folhas de palmeira. Já os jesuítas se preocupavam com o aspecto, a durabilidade e solidez dos edifícios, preferindo sempre edificar com pedra e cal, embora muitas vezes, por circunstâncias variadas, foram obrigados a usar a taipa de pilão ou o adobe. Realizadas sobre pranchas de madeira, em um estilo proto-barroco ou maneirista, e subsidiárias à decoração em talha, as primeiras pinturas brasileiras barrocas surgiram. Fonte: Disponível em: <http://cean2c.blogspot.com.br/2011/11/ os-profetas-e-os-doze-passos-da-paixao.html>. Acesso em: 26 mar. 2015. Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia. org/wiki/Escultura_dos_Sete_Povos_das_ Miss%C3%B5es>. Acesso em: 26 mar. 2015. Figura 1.5 | Apóstolos – Congonhas do Campo-MG Figura 1.6 | Escultura dos Sete Povos das Missões Fonte: Disponível em: <http://bar-roco. blogspot.com.br/>. Acesso em: 26 mar. 2015. Figura 1.7 | Igreja de S. Francisco Tendências do ensino de arte no Brasil U1 21 Fonte: Disponível em: <http://bar-roco. blogspot.com.br/>. Acesso em: 26 mar. 2015. Fonte: Disponível em: <http://abstracaocoletiva.com. br/2013/05/02/manuel-da-costa-ataide-biografia/>. Acesso em: 26 mar. 2015 Figura 1.8 | Primeiras pinturas brasileiras barrocas Figura 1.9 | Ascensão de Cristo,de Mestre Ataíde 1. O Barroco se contrapõe à arte renascentista. Apresente algumas características opostas entre o Barroco e a arte renascentista. 2. Qual era a missão da Companhia de Jesus no Brasil? Tendências do ensino de arte no Brasil U1 22 Tendências do ensino de arte no Brasil U1 23 Seção 2 Aspectos históricos do ensino de arte no Brasil Falaremos nesta seção sobre a Missão Artística Francesa, um grupo de artistas, arquitetos e artífices franceses, que vieram ao Brasil, a convite de D. João VI, para fundarem uma escola do ensino superior, a Academia Imperial de Belas Artes, e nela serem professores. Veremos sobre a Arte Neoclássica, que foi trazida por eles, e por fim conheceremos as tendências pedagógicas do ensino de Arte no Brasil. Caros alunos, vimos na seção anterior as primeiras manifestações artísticas realizadas no Brasil, conhecemos algumas obras de arte do estilo Barroco brasileiro, e agora daremos continuidade neste breve retorno histórico para compreendermos melhor a trajetória do ensino de Arte no Brasil, o porquê de tantas distorções acerca desta disciplina e a forma de ser trabalhada. Para isto, convido você, prezado aluno, a juntos refletirmos sobre estas questões e começarmos a mudar o rumo desta história no sentido de, como professores, darmos o verdadeiro valor e significado à disciplina de Arte, tão importante no contexto escolar. 2.1 Missão artística francesa Para melhor entendimento sobre a disciplina de Arte, antiga Educação Artística, faz-se necessário um breve retorno histórico para, também, compreendermos alguns equívocos com relação à sua importância e ao conteúdo, que até hoje perduram nas escolas brasileiras. Desta forma, iniciaremos nossa conversa com a vinda de D. João VI e a família real de Portugal ao Brasil em 1808. Chegaram aqui em 14 navios. Além da família real, vieram também centenas de funcionários, criados, assessores e pessoas ligadas à Corte portuguesa. Trouxeram muito dinheiro, obras de arte, documentos, livros, bens pessoais e outros objetos de valor. Com a chegada de D. João VI e sua comitiva, este inicia uma série de ações para acomodar a Corte. Vieram com a família real mais ou menos 15 mil pessoas, e após 1822, muitos destes voltaram a Portugal. Das ações econômicas e culturais que favoreceram o desenvolvimento brasileiro, podemos citar: estímulo ao estabelecimento de indústrias no Brasil, construção de estradas, cancelamento da lei que não permitia a criação de fábricas no Brasil, reformas Tendências do ensino de arte no Brasil U1 24 em portos, criação do Banco do Brasil e instalação da Junta de Comércio. Foram criados o Museu Nacional, a Biblioteca Real, a Escola Real de Artes e o Observatório Astronômico. Vários cursos, como agricultura, cirurgia, química, desenho técnico, dentre outros, foram criados nos estados da Bahia e Rio de Janeiro. Desta forma, a família real acomodou-se e deslocou definitivamente o eixo da vida administrativa da Colônia para o Rio de Janeiro, mudando também as fisionomias da cidade. Entre outros aspectos, esboçou-se uma vida cultural. Em setembro de 1808 veio a público o primeiro jornal editado na Colônia, Gazeta do Rio de Janeiro, com as notícias: “abriram-se teatros, bibliotecas, academias literárias e científicas”. Foram construídos chafarizes, para que houvesse fornecimento de água, pontes e calçadas, ruas e estradas, e a iluminação pública foi instalada. D. João VI não tinha uma imagem muito boa para os brasileiros, pois assim que chegou ao Rio de Janeiro, com a comitiva, obrigou muitos moradores a cederem seus imóveis privados para que a Coroa abrigasse todos. Os que o acompanhavam podiam escolher a residência que quisessem. Feita a escolha, as casas eram marcadas com as letras P. R. (Príncipe Regente), e os moradores tinham um tempo determinado para desocuparem os imóveis. Com tantas inovações e construções realizadas por D. João VI, estes moradores que cederam suas casas podiam arranjar emprego, foi este o intuito. Uma das ações de D. João VI foi convidar um grupo de artistas franceses, que era composto por artistas de reconhecido talento; estes pintavam, desenhavam, esculpiam no estilo Neoclássico, ou seja, à moda europeia. Este grupo foi denominado de Missão Artística Francesa, e eles vieram com o objetivo de fundar a Academia Imperial de Belas Artes, uma escola de ensino superior de Arte, onde os alunos aprenderiam as artes e os ofícios artísticos, onde eles seriam os professores. Sendo assim, em 26 de março de 1816 aportam no Rio de Janeiro, liderados por Joachim Lebreton, o pintor histórico Debret, o paisagista Nicolas Taunay e seu irmão, o escultor Auguste Marie Taunay, o arquiteto Grandjean de Montigny e o gravador de medalhas Charles-Simon Pradier, dentre outros. De acordo com Marcelo O. Uchoa: Composta por importantes nomes das artes francesas, veio para ser o marco inicial do ensino de arte no Brasil. Por ser uma empreitada grandiosa formada por um número grande de profissionais, 18 no total e contando com artistas de reconhecido talento e merecida estima, sempre suscitou desconfianças sobre como realmente surgiu a ideia de sua criação e de que forma ocorreram as negociações entre os artistas e os representantes da Coroa portuguesa que culminaram com a partida para o Brasil deste grande número de imigrantes franceses. Foram os franceses realmente convidados pela Coroa portuguesa Tendências do ensino de arte no Brasil U1 25 A Academia Imperial de Belas Artes foi fundada dez anos mais tarde, em 1826. Com relação à vinda da Missão Artística Francesa, há algumas versões: a de autoexílio, pois com a derrota de Bonaparte na Batalha de Waterloo e da restauração da monarquia na França, os antigos partidários de Napoleão passam a sofrer perseguições e perder cargos públicos, dentre eles, muitos artistas, sendo assim, estes se integram à Missão Artística Francesa. Há também a versão de que a organização da Missão Artística Francesa foi ideia do Marquês de Marialva, embaixador português em Paris, com o intuito de auxiliar o seu círculo de amizades, constituído de artistas e intelectuais franceses. Há a versão de que o Conde de Barca foi quem deu a sugestão para Dom João VI para fazer o convite. Outros ainda afirmam que os próprios franceses solicitaram ao governo português o exílio no Brasil, em busca de tranquilidade e prosperidade financeira. para criarem uma escola de artes no Brasil? Ou, pelo contrário, diante da desestruturação da sociedade francesa abalada por fortes acontecimentos políticos e sociais, procuraram estes, sendo seu representante o senhor Lebreton, a Coroa portuguesa e ofereceram seus préstimos e talentos? Fonte: <http://www. historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=963>. Fonte: Disponível em: <http://www.raulmendesilva.pro.br/projetobrasil/images/034.jpg>. Acesso em: 26 mar. 2015. Figura 1.10 | Estilo Barroco - G. F. Guercino, Anjos velando o Cristo morto, 1618 Tendências do ensino de arte no Brasil U1 26 Nesse meio tempo, da chegada até a construção da Academia Imperial, os artistas franceses realizaram trabalhos para a Corte portuguesa. Montigny, Debret e Auguste Taunay participaram da organização dos cerimoniais da chegada da Imperatriz Leopoldina em 1817, aclamação de D. João VI em 1818 e a coroação de D. Pedro I em 1822. Enquanto a arte brasileira era a barroca, a Missão Artística Francesa trazia o estilo Neoclássico. O Brasil, especialmente em Minas Gerais, vivia naquele tempo a explosão do estilo Barroco, que defendia a ideia de beleza baseada no contraste, no exagero e na emocionalidade, e esse Neoclassicismo foi incorporado pelas elites brasileiras e classes dirigentes. A arte adquiriu a conotação de “luxo”, privilegiando a elite e desmerecendo as manifestações artísticas que nãose enquadravam nesses padrões, que seguiam os padrões do estilo Barroco. Vejamos a seguir duas pinturas, uma no estilo Barroco e outra no estilo Neoclassicista. Fonte: Disponível em: <http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2012/06/01/939488/conheca-morte- marat-jacques-louis-david.html>. Acesso em: 26 mar. 2015. Figura 1.11 | A Morte de Marat, de Jacques-Louis David - 1793 Caso queira conhecer mais o estilo Barroco: <http://arte-barroca.info/>. Agora conheça o estilo Neoclássico: <http://www.coladaweb.com/artes/neoclassicismo>. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 27 2.2 Arte neoclássica Características: • formalismo na composição refletindo racionalismo dominante; • exatidão nos contornos; • harmonia do colorido; • retorno ao passado, pela imitação dos modelos antigos greco-latinos; • academicismo nos temas e nas técnicas, ou seja, sujeição aos modelos e às regras ensinadas nas escolas ou academias de belas-artes; • arte entendida como imitação da natureza, um verdadeiro culto à teoria de Aristóteles; • os pintores deveriam seguir algumas regras da pintura, tais como: inspirada nas esculturas clássicas gregas e na pintura renascentista italiana, sobretudo em Rafael, mestre inegável do equilíbrio da composição e da harmonia do colorido. A Arte Neoclássica surgiu no final do século XVIII e nas três primeiras décadas do século XIX, tratava-se de uma nova tendência estética que predominou nas criações dos artistas europeus. Neoclassicismo (neo+novo), que expressou os valores próprios de uma nova e fortalecida burguesia, que assumiu a direção da sociedade europeia após a Revolução Francesa e, principalmente, com o Império de Napoleão. Fonte: <http://goo.gl/JPmE9u<>. Acesso em: 26 mar. 2015. Figura 1.12 | Igreja de Santa Genoveva Tendências do ensino de arte no Brasil U1 28 A arquitetura Neoclássica, tanto nas construções civis quanto nas igrejas, seguiu o modelo dos templos greco-romanos ou o das edificações do Renascimento italiano. Veja a seguir a Igreja de Santa Genoveva, transformada depois no Panteão Nacional, em Paris: Conheça mais sobre o pintor Jacques-Louis David <http://abstracaocoletiva.com.br/2012/10/26/jacques-louis-david- biografia/>. Conheça um pouco mais sobre Jean-Baptiste Debret <http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=688>. Fonte: Disponível em: <https://www.epochtimes.com.br/jacques-louis-david-representante-estilo-neoclassico-parte-1/#. VTAvefnF87c>.. Acesso em: 26 mar. 2015. Figura 1.13 | Jacques-Louis David Tendências do ensino de arte no Brasil U1 29 Fonte: <http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/Ficheiro:Debretarruda.jpg>. Acesso em março / 2015 Fonte: Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/obras/melancolia_ld.htm>. Acesso em: 26 mar. 2015. Figura 1.14 | Vendedor de Arruda Figura 1.15 | Negra tatuada vendendo caju Tendências do ensino de arte no Brasil U1 30 Jean-Baptiste Debret foi um pintor francês de grande importância para a história da arte no Brasil. Viveu durante 15 anos no Brasil e desenvolveu uma intensa relação pessoal e emocional com o território brasileiro. Seu trabalho é considerado de grande importância para o Brasil, na medida em que se dedicou a retratar o cotidiano e a sociedade do século XIX, especialmente no Rio de Janeiro. Mesmo sendo considerado um pintor neoclássico, aluno e seguidor de seu primo David, Debret está numa posição de transição entre o neoclassicismo e o romantismo. Suas representações dos indígenas apresentam condições idealizadas, há um privilégio da emoção valorizando o individualismo, o sofrimento amoroso, a religiosidade cristã, a natureza e os temas do passado. Fonte: <http://www.infoescola.com/biografias/jean-baptiste-debret/>. 2.3 Tendências do ensino de arte no Brasil Dando continuidade a este retorno histórico, nossa conversa agora será sobre o ensino de Arte no Brasil. Conheceremos as tendências pedagógicas, pois o professor precisa conhecê-las para poder entendê-las e compreender o porquê de algumas distorções acerca da disciplina de Arte. Muitos arte-educadores, ao longo da história, lutaram para uma melhora no ensino de Arte nas últimas décadas. É importante sabermos como a Arte vem sendo ensinada, suas relações com a educação escolar e com o processo histórico- social. A partir dessas noções poderemos nos reconhecer na construção histórica, esclarecendo como estamos atuando e como queremos construir essa nossa história. (FUSARI e FERRAZ, 1992, p. 20-21). Vamos conhecer as tendências pedagógicas pelas quais o ensino de Arte passou. Para isto, nos baseamos em Libâneo (1989, p. 21), que propõe a seguinte classificação: Pedagogia liberal * tradicional * renovadora progressista * renovadora não diretiva * tecnicista Tendências do ensino de arte no Brasil U1 31 2.3.1 Pedagogia liberal 2.3.1.1 A pedagogia liberal tradicional Na pedagogia tradicional, o professor, elemento principal desse processo, transmite informações aos seus alunos e estes são agentes passivos, aos quais não é permitida nenhuma forma de manifestação. Esta tendência ficou marcada pela preocupação com a universalização do conhecimento, do treino intensivo, da repetição e da memorização. Dissociados da vivência dos alunos e de sua realidade social, os conteúdos na pedagogia tradicional são verdades absolutas. Os métodos se pautam na exposição verbal dos conteúdos, que são apresentados de forma linear e numa progressão lógica, sem levar em consideração as características próprias dos alunos. O professor é detentor do saber e deve avaliar o seu aluno por meio de provas escritas, orais, exercícios e trabalhos de casa. A avaliação se estabelece com ameaças, punições e até mesmo redução de notas em função do comportamento do aluno durante as aulas. Na questão do ensino e da aprendizagem da Arte, na tendência tradicional, esta continua restringindo-se à cópia e à repetição de modelos propostos pelo professor, com o objetivo de desenvolver a coordenação motora e a percepção visual do aluno, que se exercita ao copiar fielmente, o mais completo possível, do modelo original. Valorizavam as habilidades manuais, os “dons artísticos”, os hábitos de organização, precisão, coordenação motora, de limpeza, mostrando uma visão utilitarista e imediatista da arte, voltada essencialmente para o domínio técnico e na reprodução de modelos. Os trabalhos deveriam preparar para a vida profissional, servindo à ciência e à produção industrial, utilitária. Essa concepção está presente na maioria dos cursos de arte espalhados pelo país ainda hoje. Dando continuidade, vamos entrar no século XX. Em meados dos anos 50, a música começou a fazer parte do currículo, iniciam-se também disciplinas como “artes domésticas”, “trabalhos manuais” e “técnicas industriais”. A disciplina de Desenho era considerada mais pelo seu aspecto funcional, isto é, uma qualificação para o trabalho, do que uma experiência em arte. As atividades de teatro e dança só apareciam em festividades escolares, com uma finalidade única de ser apresentada, coisa que equivocadamente ainda perdura em muitas escolas contemporâneas. Em música, a tendência tradicionalista teve seu representante máximo no Canto Pedagogia progressista * libertadora * libertária * crítico-social dos conteúdos Tendências do ensino de arte no Brasil U1 32 Orfeônico, projeto preparado pelo compositor Heitor Villa-Lobos. Esse projeto foi uma referência importante, por ter levado a linguagem musical a todo o país. O Canto Orfeônico difundia ideias de coletividade e civismo, princípios condizentes ao momento político de então. Entre as décadas de 50 e 60, surge a influência de um movimento denominado Escola Nova, já presente na Europa e nos Estados Unidos desde o final do séculoXIX. Fortemente sustentado pela estética modernista e com base na escolanovista, o ensino da Arte volta-se para o desenvolvimento natural do aluno, centrado no respeito às suas necessidades e aspirações, valorizando suas formas de expressão e compreensão do mundo. A ênfase nesse momento volta-se para os processos de desenvolvimento do aluno e de sua criação. Dessa forma, o ensino direciona-se para a livre expressão, refletindo, muitas vezes, uma concepção espontaneísta e a valorização do processo de trabalho. A pedagogia é centrada no aluno, o professor é um mero espectador, seu papel é dar oportunidades para que o aluno se expresse de forma espontânea, pessoal, tendo como máxima a valorização da criatividade no ensino de Arte. Como todo processo artístico deveria vir do aluno, o conteúdo dessas aulas era quase exclusivamente um “deixar fazer” e acrescentava muito pouco ao aprendizado em Arte. 2.3.1.2 A pedagogia liberal renovada De acordo com Libâneo, a tendência renovada manifesta-se por meio de duas versões: "renovada progressista ou renovada programática”, que tem em Anísio Teixeira seu principal expoente, e "renovada não diretiva”, com Carl Roger como elemento de destaque, o qual enfatiza também a igualdade e o sentimento de cultura como desenvolvimento de aptidões individuais. Com relação às concepções: renovada progressista e renovada não diretiva, na primeira, cabe à escola adequar os conteúdos à vida do aluno, ao seu contexto, ou seja, as necessidades do indivíduo ao meio social em que está inserido; já a segunda - renovada não diretiva, se preocupava com os aspectos psicológicos, ao invés dos aspectos pedagógicos ou sociais, pois passa à escola o papel de formar atitudes. A pedagogia renovada é também conhecida como Escola Nova ou Escolanovismo. Este movimento buscava reformas educacionais urgentes, e aconteceu paralelamente com a pedagogia tradicional. "Por educação nova entendemos a corrente que trata de mudar o rumo da educação tradicional, intelectualista e livresca, dando-lhe sentido vivo e ativo. Por isso se deu também a esse movimento o nome de `escola ativa´" (LUZURIAGA, 1980, p. 227). A Escola Nova rompe com as "cópias de modelos", e parte para a criatividade e a livre expressão. A estética moderna privilegia a inspiração e a sensibilidade, acentuando o respeito à individualidade do aluno, pois ele é o centro. Na concepção escolanovista, Tendências do ensino de arte no Brasil U1 33 2.3.1.3 A pedagogia liberal tecnicista cabia à educação adaptar os estudantes ao seu ambiente social. Os educadores que adotam essa concepção acreditam em uma sociedade mais justa e igualitária. "Do ponto de vista da Escola Nova, os conhecimentos já obtidos pela ciência e acumulados pela humanidade não precisariam ser transmitidos aos alunos, pois acreditava-se que, passando por esses métodos, eles seriam naturalmente encontrados e organizados" (FUSARI e FERRAZ, 1992, p. 28). Sem dúvida alguma, a pedagogia escolanovista teve sua importância, pois rompeu com os padrões estéticos e metodológicos tradicionais, no entanto, criou-se uma postura não diretiva, onde tudo em arte era permitido em nome da livre expressão. Com isso, houve também um entendimento equivocado quanto às concepções da Escola Nova, a preocupação em Artes Visuais passa a ser com o "desenho livre" e o conhecimento é deixado de lado, gerando um espontaneísmo. Seu objetivo principal é o desenvolvimento da criatividade. Assim como a pedagogia tradicional, ela também está presente em nossos dias, influenciando as aulas de Arte. A educação passa por um período de estagnação, com a ditadura militar. A Escola Nova é afastada do poder e, consequentemente, o ensino-aprendizagem da arte fica adormecido por mais um tempo, até que surge outro movimento, contrapondo-se à pedagogia tradicional, que origina a Educação pela Arte, propondo a livre expressão, onde a arte é considerada essencialmente expressiva, portanto "não se ensina, se expressa". Na década de 60, com a redemocratização, após a ditadura, tenta-se recuperar algumas características da Escola Nova, que infelizmente não retoma seu enfoque verdadeiro e original, pois interesses políticos desvirtuam sua proposta inicial. Mesmo assim, essa década caracteriza-se pelas tentativas de mudanças nas áreas social, educacional e cultural. Neste movimento Educação pela Arte, Augusto Rodrigues é elemento fundamental, isto porque ele criou a Escolinha de Arte do Rio de Janeiro (1948). Na união entre a arte e a educação, o intuito era transformar a educação e os professores, ou seja, unir arte com a educação, com isso acreditavam que conseguiriam o respeito integral à livre expressão das crianças. Este sonho foi concretizado e a criança pôde exercer sua capacidade de criar em liberdade, tendo ao seu lado o professor que lhe facilitava o acesso aos materiais e lhe possibilitava a autoexpressão. Esse movimento restringe-se ao ensino não formal, extracurricular e extraescolar, pois a escola de visão tradicional só mais tarde recebe o reflexo de seus ensinamentos. A preocupação é com as técnicas, e o conhecimento também é deixado de lado. Introduzida no Brasil entre 1960 e 1970, a Pedagogia Liberal Tecnicista, que surgiu nos Estados Unidos na segunda metade do século XX, pregava que o homem era Tendências do ensino de arte no Brasil U1 34 um produto do meio. É uma consequência das forças existentes em seu ambiente. A consciência do homem é formada nas relações acidentais que ele estabelece com o meio ou controlada cientificamente através da educação. A Pedagogia Liberal Tecnicista visava a um acréscimo de eficiência da escola, objetivando a preparação de indivíduos mais “competentes” e produtivos, conforme a solicitação do mercado de trabalho com o processo de industrialização e desenvolvimento econômico. Sendo assim, visava adequar o sistema educacional com a proposta econômica e política do regime militar, preparando, dessa forma, mão de obra para ser aproveitada pelo mercado de trabalho. O professor passa a ser considerado como um “técnico” responsável por um competente planejamento dos cursos escolares. No ensino de Arte a tendência tecnicista elimina fundamentos teóricos em detrimento do "saber construir" e "saber exprimir-se". Nessa fase, percebe-se grande ênfase no uso de materiais alternativos, conhecidos na maioria das escolas como sucata e lixo limpo. O professor de Arte busca socorro para suas dúvidas nos livros didáticos que estão no mercado para serem consumidos desde o final dos anos 70. Em 1971, com a Lei nº 5692, foi criado o componente curricular “Educação Artística”. A lei determinava que fossem abordados conteúdos de música, teatro, dança e artes plásticas nos cursos de 1º e 2º graus (Ensino Fundamental e Ensino Médio), com um único professor para dominar todas as linguagens. Em apenas dois anos, em cursos de Licenciatura Curta (mais tarde Plena), poderiam ser contratados ou prestar concurso para assumir a área de Educação Artística. Tais cursos visavam à polivalência em arte. Colocavam no mercado de trabalho profissionais totalmente distanciados da arte e da prática educacional. É banido das escolas o espírito crítico e reflexivo, e a tendência tecnicista firma- se nos anos 70, alicerçada no princípio da otimização: racionalidade, eficiência e produtividade. Com sua organização racional e mecânica, visava corresponder aos interesses da sociedade industrial. Os professores de Desenho, Música, Trabalhos Manuais, Canto Coral e Artes Aplicadas, que vinham atuando segundo os conhecimentos específicos de suas linguagens, viram esses saberes repentinamente transformados em "meras atividades artísticas". Desde a sua implantação, observa-se que a Educação Artística é tratada de modo indefinido, o que fica patente na redação de um dos documentos explicativosda lei, ou seja, o Parecer nº 540/77: "Não é uma matéria, mas uma área bastante generosa e sem contornos fixos, flutuando ao sabor das tendências e dos interesses" (FUSARI e FERRAZ, 1992, p. 37-38). 2.3.2 Pedagogia progressista A partir da inquietação de professores na década de 60, surge a tendência Tendências do ensino de arte no Brasil U1 35 progressista, pois estes estavam angustiados com relação ao rumo que vinha tomando a educação. Desta forma, iniciam discussões e questionamentos relacionados à educação, com ênfase na escola pública, no que diz respeito à real contribuição desta para a sociedade. Já em meados dos anos oitenta, professores de Educação Artística começaram a se reunir em seminários, grupos de estudos, congressos e outros, para discutir questões relacionadas ao ensino de Arte. Desses encontros constituiu-se um movimento denominado Arte-Educação, inicialmente com a finalidade de conscientizar e organizar profissionais de Educação Artística. O movimento Arte-Educação ampliou discussões sobre a valorização e o aprimoramento deste profissional. As ideias e princípios multiplicaram-se em diversas regiões do Brasil. O objetivo dessas reuniões era formar associações que discutissem questões referentes aos cursos de Educação Artística, desde a Educação Infantil até a universidade, pois a situação em que as aulas vinham sendo ministradas era caótica. Havia muita distorção com relação à disciplina e aos seus conteúdos. Ainda hoje é comum as aulas de Arte serem confundidas como lazer, terapia, descanso das aulas “sérias”, o momento para fazer a decoração da escola, preparar as festas, comemorar determinada data cívica e muitas outras posturas e ações equivocadas em torno da disciplina. Estes encontros e congressos do Movimento Arte-Educação geraram concepções e novas metodologias para o ensino e a aprendizagem de Arte nas escolas. Eles contribuíram para uma pequena mudança, conquistando, assim, um espaço no cenário nacional, se bem que ainda há muito a percorrer. Qual foi o objetivo do Movimento Arte-Educação? Finalmente, nos anos 90, a disciplina de Arte, antiga Educação Artística, é reconhecida como disciplina, consta na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/96), aprovada em 20 de dezembro de 1996, em seu artigo 26, parágrafo 2º: “O ensino da Arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”. Com relação à nomenclatura dessa disciplina, em janeiro de 2006, no Artigo 26 da LDBEN nº 9394/96 e a Resolução nº 01/2006 – CNE/CEB informam que as escolas municipais que ofertam o Ensino Fundamental de 1ª à 4ª e de 5ª à 8ª séries, terão suas matrizes curriculares alteradas, a nomenclatura da disciplina de “Educação Artística” (0701) para “Artes” (0725). Desta forma, oficialmente, até 2010, Tendências do ensino de arte no Brasil U1 36 passou a ser chamada de ARTES (no plural). Houve na época uma grande polêmica quanto a esta nomenclatura, pois na LDB 9.394/96 o nome da disciplina vinha no singular “ARTE”. Infelizmente, o Conselho cometeu um equívoco na época, de acordo com Sueli Mello, funcionária do MEC/ DCOCEB/COEF, porque deveria acompanhar a LDB Nº 9.394/96, já promulgada e que designava a área como "Arte" - e não "Artes". Com a atualização das Diretrizes em 2010 (Parecer e Resolução Nº 7/2010), o que ficou em vigor foi a nomenclatura "Arte", no singular. Sendo assim, a nomenclatura que está em vigor até o momento é ARTE. Outra questão relevante envolvendo a disciplina de Arte diz respeito à Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003: Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Art. 1º A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 26-A, 79-A e 79-B: Art. 26- A. Nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. §1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. §2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Licenciatura e História Brasileiras. Art. 79-B O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”. Art.2º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 9 de janeiro de 2003 (BRASIL, 1996). Em 1997 os Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte já apresentavam uma proposta de ensino multicultural, o conhecimento e apreciação de obras de arte diversas, seus produtores e manifestações artísticas em geral. A sugestão era a realização de leituras de obras de arte de origem: Europeia, Americana, Africana, Asiática e da Oceania, dentre outros, sem direcionamentos e sem preconceitos a esta ou aquela obra e seu produtor. As leituras são sugeridas tanto de obras de arte eruditas como também as de cultura popular, as renomadas, como as pouco conhecidas (do bairro, cidade, regionais, nacionais e internacionais), as antigas e as contemporâneas e assim Tendências do ensino de arte no Brasil U1 37 por diante, portanto, quando mencionamos “obras de arte diversas”, subentende-se que a escolha aconteça sem distinção de época, cultura e etnia. Outra alteração, em relação à disciplina de Arte, diz respeito ao projeto de lei que o Senado aprovou e que inclui o aprendizado de música nas grades curriculares das escolas. A Lei n.º 11.769, publicada no dia 18/08/08 no Diário Oficial da União, inclui na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira o ensino de música como conteúdo obrigatório. A proposta altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB - nº 9.394/96), que já determina o aprendizado de arte nos ensinos Fundamental e Médio, mas sem especificar o conteúdo. Pelo projeto, o ensino musical deveria ser conteúdo obrigatório, mas não exclusivo do ensino de Arte no currículo regular da educação básica. Os sistemas de ensino terão três anos letivos para se adaptar às exigências estabelecidas. Embora tantas décadas se passaram, permanecem norteando a prática de grande parte dos professores as tendências tradicionais – escolanovista e tecnicista, nas escolas brasileiras, tanto na educação básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio), bem como no Ensino Superior. Em um artigo publicado em 1981, Saviani descreveu com muita propriedade certas confusões que se emaranham na cabeça de professores [...]. Ele escreveu: "Os professores têm na cabeça o movimento e os princípios da Escola Nova. A realidade, porém, não oferece aos professores condições para instaurar a escola nova, porque a realidade em que atuam é tradicional" [...]. A essa contradição se acrescenta uma outra [...], o professor se vê pressionado pela pedagogia oficial que prega a racionalidade e a produtividade do sistema e do seu trabalho, isto é, ênfase nos meios (tecnicismo) [...] (LIBÂNEO, 1989, p. 20). 1. Percebe-se que na Educação Básica, em escolas brasileiras, a influência, referente ao ensino de Arte, persiste em seguir algumas tendências pedagógicas. Quais as tendências mais utilizadas pelos professores? Assinale a alternativa correta. a. ( ) Tradicionais – contemporânea e moderna. b. ( ) Tradicionais - escolanovista e tecnicista. c.( ) Moderna - tradicional e tecnicista. d. ( ) Contemporânea - escolanovista e tecnicista. e. ( ) Tradicionais - escolanovista e Escola Nova. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 38 2. Com relação à metodologia do ensino de Arte, os Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte (BRASIL, 1997) se baseiam em qual proposta? a. ( ) Triangular de Ana Mae Barbosa. b. ( ) Quadrangular dos PCNs. c. ( ) Tendência Pedagógica Tradicional. d. ( ) Na metodologia de projetos. e. ( ) triangular de Mirian Celeste Martins. A partir dessas tendências pedagógicas estudadas, em qual você acha que se enquadram suas aulas de Arte ou Educação Artística? Tradicional, Escolanovista, Tecnicista? Linha do tempo do ensino de Arte no Brasil 1816 Durante o governo de Dom João VI, chega ao Rio de Janeiro a Missão Artística Francesa e é criada a Academia Imperial de Belas Artes. Seguindo modelos europeus, é instalado oficialmente o ensino de Arte nas escolas. 1900 Até o início do século 20, o ensino do Desenho é visto como uma preparação para o trabalho em fábricas e serviços artesanais. São valorizados o traço, a repetição de modelos e o desenho geométrico. 1922 Apesar da efervescência das manifestações da Semana de Arte Moderna, o ensino segue as tendências da escola tradicional, que defende a necessidade de copiar modelos para treinar habilidades manuais. 1930 O compositor Heitor Villa-Lobos, no governo de Getúlio Vargas, institui o projeto de canto orfeônico nas escolas. São formados corais, que se desenvolvem pela memorização de letras de músicas de caráter folclórico e cívico. 1935 O escritor Mario de Andrade, então diretor do Departamento de Cultura do município de São Paulo, promove um concurso de desenho para crianças Tendências do ensino de arte no Brasil U1 39 com tema livre. O ganhador recebe uma quantia em dinheiro. 1948 É criada no Rio de Janeiro a primeira "Escolinha de Arte", com a intenção de propor atividades para o aluno desenvolver a autoexpressão e a prática. Em 1971, chega a 32 o número de instituições particulares desse tipo no país. 1960 As experimentações que marcam a sociedade, como o movimento da Bossa Nova, influenciam o ensino de Arte nas escolas de todo o país. É a época da tendência da livre expressão se expandir pelas redes de ensino. 1971 Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a Educação Artística (que inclui artes plásticas, educação musical e artes cênicas) passa a fazer parte do currículo escolar do Ensino Fundamental e Médio. 1973 Criação dos primeiros cursos de licenciatura em Arte, com dois anos de duração e voltados à formação de professores capazes de lecionar música, teatro, artes visuais, desenho, dança e desenho geométrico. 1989 Desde 1982 desenvolvendo pesquisas sobre três ideias (fazer, ler imagens e estudar a história da arte), Ana Mae Barbosa cria a Proposta Triangular, que inova ao colocar obras como referência para os alunos. 1996 A LDB passa a considerar a Arte como disciplina obrigatória da Educação Básica. Os Parâmetros Curriculares Nacionais definem que ela é composta de quatro linguagens: artes visuais, dança, música e teatro. Fonte: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/conhecer- cultura-soltar-imaginacao-427722.shtml?page=4>. Acesso em: 03 abr. 2015. As principais questões trabalhadas na unidade levaram os alunos a conhecerem, refletirem e compreenderem: • a Missão Jesuítica no Brasil, também denominada de Companhia de Jesus, cujo objetivo era a catequização indígena, utilizando o ensino de Arte como um dos caminhos encontrados por eles. Sua influência na cultura da época e no ensino de Arte e o legado deixado; • o Barroco brasileiro, um estilo de arte que foi trazido ao Brasil Tendências do ensino de arte no Brasil U1 40 pelas mãos dos colonizadores, sobretudo portugueses, suas principais características, os artistas brasileiros que mais se destacaram; • a Missão Artística Francesa, um grupo de artistas, arquitetos e artífices franceses, que vieram ao Brasil, a convite de D. João VI, para fundarem uma escola do ensino superior, a Academia Imperial de Belas Artes, e nela serem professores. Quais artistas se destacaram neste grupo e qual enfoque era dado ao ensino de Arte; • a arte Neoclássica, trazida pela Missão Artística Francesa, suas principais características; • as tendências pedagógicas do ensino de Arte no Brasil e a proposta contemporênea para este ensino. Chegamos ao final desta unidade, esperamos tê-los provocado no sentido de instigá-los a pesquisar, a querer saber mais sobre o ensino de Arte no Brasil, sobre as influências sofridas, o porquê de tantas distorções e como você, prezado aluno, pode contribuir para melhorar o ensino de Arte, mais especificamente, artes visuais em espaços educativos. 1. Leia com atenção as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta de acordo com as afirmações. I. A atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/96), aprovada em 20 de dezembro de 1996, estabelece em seu artigo 26, parágrafo 2º: o ensino da arte poderá constituir componente curricular obrigatório, portanto é facultativo ter este complemento educacional nas escolas. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 41 II. A Missão Jesuítica era uma ordem religiosa composta por padres jesuítas e tinha um cunho evangelizador, cujo objetivo era proclamar a religião católica e trazer de volta seus fiéis. III. Em 1808, com a vinda da família real de Portugal para o Brasil, inicia-se uma série de ações para acomodar a Corte, e uma dessas ações foi a vinda de um grupo de artistas franceses, em 1816, a pedido de Dom João VI. Esse grupo ficou conhecido por Missão Artística Francesa. a. ( ) Apenas as alternativas I e III estão corretas. b. ( ) Todas as alternativas estão corretas. c. ( ) Apenas as alternativas II, III estão corretas. d. ( ) Todas as alternativas estão incorretas. e. ( ) Apenas as alternativas I e II estão corretas. 2. Assinale a alternativa correta: Em 1816, a pedido de Dom João VI, chega ao Brasil a Missão Artística Francesa. a. A tarefa desse grupo no Brasil era fundar a Academia Imperial de Belas Artes, na qual eles atuariam também como professores. Um dos destaques deste grupo era Jean-Baptiste Debret, que retratou, por intermédio de suas aquarelas, cenas do cotidiano do Rio de Janeiro. b. A tarefa desse grupo no Brasil era ensinar arte para os índios. Um dos destaques deste grupo era Jean-Baptiste Debret, que retratou, por intermédio de suas aquarelas, cenas do cotidiano do Rio de Janeiro. c. A tarefa desse grupo no Brasil era introduzir a arte barroca. Um dos destaques deste grupo era Jean-Baptiste Debret, que retratou, por intermédio de suas aquarelas, cenas do cotidiano do Rio de Janeiro. d. A tarefa desse grupo no Brasil era fundar um jornal. Um dos destaques deste grupo era Jean-Baptiste Debret, que retratou, por intermédio de suas aquarelas, cenas do cotidiano do Rio de Janeiro. e. A tarefa desse grupo no Brasil era incrementar a vida cultural brasileira fundando jornais, museus e escolas. Um dos destaques deste grupo era Jean-Baptiste Debret, que retratou, por intermédio de suas aquarelas, cenas do cotidiano do Rio de Janeiro. Tendências do ensino de arte no Brasil U1 42 3. A Missão Jesuítica era uma ordem religiosa composta por padres jesuítas e tinha um cunho evangelizador. Quando chegaram os jesuítas no Brasil e qual era o objetivo? a. ( ) No Brasil os jesuítas chegaram em 1749 e o seu objetivo era catequizar os índios à religião protestante. b. ( ) No Brasil os jesuítas chegaram em 1849 e o seu objetivo era catequizar os índios à religião católica. c. ( ) No Brasil os jesuítaschegaram em 1949 e o seu objetivo era catequizar os índios à religião católica. d. ( ) No Brasil os jesuítas chegaram em 1549 e o seu objetivo era catequizar os índios à religião católica. e. ( ) No Brasil os jesuítas chegaram em 1549 e o seu objetivo era catequizar os índios à religião protestante. 4. A arte vinda da Europa era a Barroca, desta forma, como as irmandades eram ricas, cada uma procurava se destacar mais do que a outra. Com isto, investiam muito dinheiro em ornamentação dos templos. Marque a alternativa que apresenta todos os ítens como características do estilo Barroco. a. Composição simétrica, em diagonal – entrelaçamento entre a arquitetura e escultura – equilíbrio. b. emoção e intensidade dramática – unidade geométrica - emoção e intensidade dramática – pintura abstrata. c. linhas curvas – equilíbrio, simetria – formas geométricas - emoção e intensidade dramática. d. jogos claros-escuros, contrastes – simetria – pintura abstrata – equilíbrio – estilo dinâmico. e. jogos claros-escuros, contrastes – emoção e intensidade dramática – estilo dinâmico – composição assimétrica, em diagonal. 5. Atualmente, percebe-se nas escolas brasileiras de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio, bem como no Ensino Superior, a influência persistente de algumas tendências pedagógicas. Assinale a alternativa correta. f. ( ) tradicionais – contemporânea e moderna g. ( ) moderna – tradicional e tecnicista h. ( ) contemporânea – escolanovista e tecnicista i. ( ) tradicionais – escolanovista e tecnicista j. ( ) tradicionais – escolanovista e Escola Nova U1 43Tendências do ensino de arte no Brasil Referências AMSBERG, D. Os jesuítas e sua influência no ensino e na arte brasileira. O Ensino dos jesuítas. Disponível em: <http://maniacolorida.blogspot.com.br/2010/03/os-jesuitas- e-sua-influencia-no-ensino_28.html>. Acesso em: 27 jun. 2014. BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2008a. _________. Ensino da arte: memória e história. São Paulo: Perspectiva, 2008b. _________. Inquietações e mudanças no ensino da arte. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2008c. CAVA, Laura Célia Sant’Ana Cabral. Ensino das artes: pedagogia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2009. FUSARI, Maria F. R.; FERRAZ, Maria H. C. T. Arte na educação escolar. São Paulo: Cortez, 1992. LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública: a pedagogia crítica-social dos conteúdos. 8. ed. São Paulo: Loyola, 1989. 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Seção 1 | Arte como conhecimento Objetivos de aprendizagem: • refletir a arte como conhecimento; • os campos conceituais da Arte sugeridos pela Proposta Triangular trazida ao Brasil por Ana Mae Barbosa, e que tipo de conhecimento eles promovem; • compreender o que seja uma aula contextualizada; • saber a didática do ensino de Arte; • apresentar conteúdos de artes visuais na Educação Infantil e Ensino Fundamental I. • organizar o espaço da sala de aula, a disposição dos móveis e materiais e possibilitar o manuseio de diferentes materiais, ferramentas e técnicas; • saber fazer um planejamento e avaliar em artes visuais. Laura Célia Sant’Ana Cabral Cava Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 46 Nesta seção refletimos sobre a didática do ensino e aprendizagem de artes visuais, sobre a organização do espaço na sala de aula e na composição artística, sobre a diversidade de materiais oferecidos e como utilizá-los, e também sobre alguns procedimentos metodológicos nas aulas de artes visuais; falaremos da importância do desenho na vida da criança, como trabalhar com propostas de desenhos que não possibilitem a criação de modelos estereotipados. Por fim, apresentaremos conteúdos de artes visuais na Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Seção 2 | Didática do ensino de Arte Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 47 Introdução à unidade Caro aluno! Você já conheceu o histórico do ensino de Arte no Brasil, recordou sobre duas tendências artísticas: Barroco e Neoclássica. Agora, nesta unidade, vamos refletir sobre a arte como conhecimento, vamos refletir um pouco mais sobre as distorções com relação aos conteúdos e objetivos do ensino de Arte, a metodologia sugerida na contemporaneidade e sobre a didática do ensino de Arte. Existem muitos entendimentos equivocados sobre: por que ensinar Arte, o que ensinar e como ensinar. Sendo assim, será sobre estes assuntos e tantos outros que apresentaremos. Vamos compreender também como a arte é entendida pela criança, pois vocês se formarão professores da educação básica, para trabalhar na Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Sendo assim, torna-se relevante pensar no ensino de Arte desde a Educação Infantil. Acredito que esta disciplina, Metodologia do Ensino de Arte, provocará você, prezado aluno, a querer melhorar o ensino de Arte neste cenário educacional brasileiro, lecionando a Arte, mais especificamente, as artes visuais, da melhor maneira possível, como tantos outros arte-educadores o fizeram e lutaram para que houvesse mudanças. E algumas aconteceram, embora haja muito ainda a mudar. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 48 Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 49 Seção 1 Arte como conhecimento Vamos iniciar a primeira seção refletindo sobre a arte desde a Pré-história até nossos dias. Pensando no contexto escolar, sua importância e também seu aspecto lúdico para a criança. Estudaremos a arte como conhecimento, embora ela mexa com emoções e sentimentos. Desta forma, prezado aluno, espero que com esta leitura você consolide seus conhecimentos e compartilhe comigo experiências sensíveis. 1.1 Papel da arte na vida do ser humano A arte comunica? Existem pessoas que se expressam por meio da palavra, outras por meioda escrita e tantas outras por meio dos sons, dos movimentos, dos gestos, das imagens, enfim, se expressam por intermédio da arte. Martins (1998) nos diz: “Quando um homem quer falar ao coração de outros homens, ele o faz pela linguagem da arte”. Arte, uma palavra pequena, com relação à quantidade de letras, porém intensa, que mexe com emoções e sentimentos, comunica, provoca, encanta e ultrapassa as barreiras do tempo, da distância e da cultura. Basta observarmos que os primeiros registros de arte surgem lá na Pré-história, muito antes de a escrita ser inventada, e acompanham o homem desde lá até a contemporaneidade. Segundo Martins (1998, p. 34), O homem primitivo tinha necessidade de compreender aquele mundo em que vivia, de se comunicar, e a arte preencheu essa necessidade. As imagens impressas nas paredes das cavernas pré-históricas revelavam um conhecimento de mundo que o homem primitivo construiu. Aquele homem primitivo, ao se expressar, dava sentido à sua existência e às formas artísticas de expressão: pinturas, esculturas, dança, sons, que eram carregados de significado; neste sentido, entendemos que o homem é um ser simbólico. A capacidade simbólica está presente na constituição cognitiva do Antes mesmo de saber escrever, o homem expressou e interpretou o mundo em que vivia pela linguagem da arte. A caverna, com sua umidade rochosa, foi o ateliê do homem pré-histórico. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 50 ser humano, o que, por sua vez, é o fundamento para a conceituação psicológica da arte e para a análise de seus elementos, sendo um destes a percepção. De acordo com Argan (1992), a arte sempre esteve presente no mundo, desde que o homem se tornou humano. Conforme este vai organizando o mundo ao seu redor, dá sentido à vida. Por meio das percepções e interpretações, o que lhe é externo passa a ser mapeado no sistema mental, interno. Neste processo a arte é entendida como linguagem, produto da relação entre o homem e o mundo. Fonte: Disponível em: <http://www.alunosonline.com.br/educacao-artistica/arte-rupestre.html>. Acesso em: 27 mar. 2015 Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_rupestre#mediaviewer/File:Lascaux_painting.jpg>. Acesso em: 28 mar. 2015. Figura 2.1 | Cavalo pintado em parede da caverna de Altamira, na Espanha Figura 2.2 | Animais pintados na Gruta de Lascaux, um dos sítios de arte rupestre mais famosos do mundo Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 51 E nos dias atuais, com que frequência a arte está presente em nossas vidas? A arte permeia nossas vidas, o nosso dia a dia, e às vezes não percebemos sua presença. Ela aparece nas apresentações artísticas de rua ou em locais próprios, nas apresentações circenses, no design dos diversos objetos, nos bordados, nos entalhes, na arquitetura, na interferência urbana, nas paredes, nos prédios, em muros, em praças, igrejas e também nas revistas, jornais, outdoors, fotografias, cartazes, televisão, cinema, computadores e tantos outros. Enfim, vivemos rodeados de arte. E a partir destas constatações, outra reflexão torna-se pertinente: o que é arte? Definir arte é uma tarefa difícil, pois a palavra arte possibilita inúmeras interpretações, depende do contexto a que se refere e varia de acordo com a sociedade e a época. Mas pensando na arte como atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita a partir de percepções, experimentações, busca, pesquisa, levantamento de hipóteses e de ideias, com o objetivo de mexer com emoções e sentimentos de um ou mais espectadores e também pensando na arte como conhecimento, como necessidade do ser humano de criar, recriar, transformar a matéria e se expressar, nos remetemos a Pareyson apud Martins (1998, p. 32). Segundo ele, no jogo da criação, “a arte é um tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer”. A arte nos possibilita “dialogar com o mundo”, expressão esta que Paulo Freire (1996) já mencionava ao referir-se à leitura. Para ele, a leitura é bem mais que decodificar palavras: é ler o mundo. Sendo assim, podemos também dizer que a arte propicia essa leitura de mundo, ela nos faz compreender de forma mais crítica, sensível e aguçada, as cores, as formas, as texturas, outras culturas, a natureza, os objetos, os fatos, as pessoas, o mundo e a nós mesmos. Compreendida como área de conhecimento, a arte apresenta relações com a cultura por meio das manifestações expressas em bens materiais (bens físicos como: pintura, escultura, desenhos, dentre outros) e bens imateriais (práticas culturais coletivas como: música, teatro, dança etc.). Olhando a arte por uma perspectiva Percepção: ato, efeito ou faculdade de perceber; recepção, pelos centros nervosos, de impressões colhidas pelos sentidos. É a maneira como nós vemos, julgamos, conceituamos, qualificamos as coisas no mundo e em nós mesmos. Fontes: <http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index. php?lingua=portugues-portugues&palavra=percep%E7%E3o http://www.dicionarioinformal.com.br/percep%C3%A7%C3%A3o/>. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 52 antropológica, é possível considerar que toda produção artística e cultural é um modo pelo qual os sujeitos entendem e marcam a sua existência no mundo. A arte é conhecimento construído pelo homem através dos tempos, portanto, importante na escola. Ela é um patrimônio cultural da humanidade e todo ser humano tem direito ao acesso a esse saber. Sendo assim, tratar a arte como conhecimento é ponto fundamental e condição indispensável para o enfoque contemporâneo do ensino e aprendizagem de Arte. Consta nos PCN de Arte (BRASIL, 1997) que: A arte é linguagem, portanto, uma forma de expressão e comunicação humana, ela tem um papel fundamental, envolvendo os aspectos cognitivos, sociais, estéticos, sensíveis e culturais, e isso já é suficiente para que se justifique sua presença na vida escolar. Por ser uma linguagem, é uma forma de expressar emoções, ideias, vivências, entre outros. É, também, uma forma de comunicação. Quando dizemos comunicação, pressupõe que não seja isolada, que exista um outro para que haja essa comunicação. E a compreensão dessa comunicação só se torna possível se o outro decodificar a mensagem. Sendo assim, tornamos a enfatizar a importância da arte na escola, propiciando à criança que ela se expresse e compreenda certos códigos artísticos. Para Martins (1998, p. 43), “[...] a linguagem da arte propõe um diálogo de sensibilidades, uma conversa prazerosa entre nós e as formas de imaginação e formas de sentimento que ela nos dá”. Quando nos referirmos à disciplina de Arte, a comunicação se dá por intermédio de formas, cores, texturas, volumes, sons, movimentos, gestos, expressões, dentre outros. No percurso criador específico da arte, os alunos estabelecem relações entre seu conhecimento prévio na área artística e as questões que um determinado trabalho desperta entre o que querem fazer e os recursos internos e externos de que dispõem entre o que observam nos trabalhos dos artistas, nos trabalhos dos colegas e nos que eles mesmos vêm realizando [...] (BRASIL, 1997). 1.2 Campos conceituais da arte O conhecimento em Arte, segundo Brasil (1997), que se baseia na Proposta Triangular de Ana Mae Barbosa , apresenta a articulação de três vertentes ou campos conceituais ou então eixos, conforme consta nos PCNs de Arte (1997) e nos RCNEIs 1Aqui no Brasil, a professora Ana Mae Barbosa adaptou a teoria DBAE (Discipline-BasedArtEducation, proposta inglesa e norte-americana) ao nosso contexto, denominando-a Proposta Triangular, por envolver três vertentes: o fazer artístico, a leitura da imagem (obra de arte)e a história da arte. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 53 (1998), que envolvem: fazer artístico, apreciação estética e contextualização histórica, isto é, em uma aula de Arte, esses três eixos ou campos conceituais deverão se articular, não importando a ordem. A pesquisadora Ana Mae Barbosa, em 1987, desenvolveu, em sua "proposta triangular", o primeiro programa educativo, ainda hoje a base da maioria dos programas em Arte-educação no Brasil. Consiste no apoio do programa de ensino de Arte em três abordagens para efetivamente construir conhecimentos em arte. Ela apresenta esses campos conceituais da seguinte forma: o Fazer artísco, a Leitura de imagem (obra de arte) e a História da Arte. Nos PCN de Arte (1997) os eixos vêm como: (produzir/fazer, fruir/apreciar e refletir). No entanto, também contemplam a contextualização, que está inserida na reflexão. A reflexão articula-se com o conhecimento contextualizado, pois envolve o contexto histórico (político, econômico e sociocultural) dos objetos artísticos e contribui para a compreensão de seus conteúdos explícitos e implícitos. Apesar de suas especificidades, esses campos conceituais são interdependentes e articulam entre si, abrangendo todos os aspectos do objeto de estudo. Veja a seguir os eixos ou campos conceituais da arte. I – Produzir / Fazer: diz respeito à produção do aluno e de produtores de arte em geral, é o fazer, a criação, é a prática, por exemplo: fazer uma pintura, fazer uma escultura, fazer uma colagem, dentre outros. Esse fazer é fundamental em relação à arte, pois uma escultura só se torna escultura depois de materializada, de feita. Na educação, esse fazer está relacionado ao conhecimento artístico do aluno e está ligado ao seu processo criativo. II – Fruir / Apreciar: diz respeito à apreciação significativa, fruir origina-se da palavra usufruir, ou seja, oportunizar o aluno a ver, ouvir, sentir, assistir manifestações artísticas diversas (ver obras de arte, assistir peças teatrais, espetáculos de dança, concertos musicais e outros). Essa apreciação significativa está relacionada ao conhecimento estético ou experiência estética, que, por sua vez, está relacionado à apreensão do objeto artístico em seus aspectos sensíveis e cognitivos. III – Refletir: diz respeito a pensar sobre o trabalho artístico pessoal, pensar sobre o trabalho artístico dos colegas e pensar sobre o trabalho artístico de produtores de arte em geral, refletir sobre as formas encontradas na natureza e em culturas diversas, e também, é a compreensão da arte como processo cultural e histórico. A reflexão articula-se com o conhecimento contextualizado, pois envolve o contexto histórico (político, econômico e sociocultural) dos objetos artísticos e contribui para a compreensão de seus conteúdos explícitos e implícitos, possibilitando um aprofundamento na investigação desse objeto. Segundo Martins, O mais importante é que fique clara a necessidade da contextualização histórica e cultural da produção artístico-estética da humanidade Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 54 no processo do ensinar/aprender arte, assim como a necessidade da percepção e construção de conceitos artísticos que fundamentem esse contexto. Desde a escola de Educação Infantil, deve ser garantido às crianças o direito a esse conhecimento que amplia e aprofunda seu saber artístico-estético, geralmente relegado apenas ao fazer arte, sem informação alguma além da técnica. Um fazer no qual nem sempre a criança se reconhece, pois falta ali a sua marca de autor e a do seu tempo/ espaço. Acabam sendo a marca da professora, cuja marca era a da sua professora [...] (MARTINS, 1998, p. 81-82). Ao mencionarmos produtores de arte, estamos nos referindo a pessoas que produzem arte, de uma forma geral, de qualquer linguagem artística, por exemplo: artistas plásticos, escultores, artistas de televisão, cinema, de teatro, dançarino, músico, dentre outros. Quando o professor faz uma ligação entre o assunto abordado, por exemplo: “família”, com uma obra de arte que também aborda a mesma temática, como: “mãe e filho”, de Paul Klee, propiciando a leitura da obra e nesta leitura ele diz o título da obra de arte, o nome do artista que a fez, que técnica utilizou, quem o influenciou na sua trajetória de artista plástico etc., e em seguida, utilizando a obra de arte como suporte interpretativo, lança uma proposta artística de, por exemplo, colagem ou desenho ou pintura ou outra, este professor estará possibilitando uma aula contextualizada e trabalhando os eixos (Produzir/Fazer) – (Apreciar/Fruir) e (Refletir juntamente com a contextualização). Esse professor partiu do contexto da sala de aula e foi lá no contexto da obra apresentada e trouxe informações da obra para o contexto da sala de aula. Isto nos remete a Antunes (2005). Segundo ele, quando o professor traz para o contexto do aluno os conteúdos a serem apreendidos, conectando esses conteúdos com sua sala de aula e com o cotidiano dos alunos, ele estará explorando contextos, certamente estará contribuindo para transformar informação em conhecimento. Fonte: Disponível em: <http://carpinejar.blogspot. com.br/2010/04/fardo-dos-dentes.html>. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 2.3 | Mãe e filho Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 55 1.3 A arte e a criança A criança estabelece uma relação entre arte e brincadeira, pois, para ela, as propostas artísticas são como se fossem um jogo, uma brincadeira. Desta forma, para a criança, a arte tem um aspecto lúdico. Existe um tipo de comentário que certamente você já tenha ouvido ou então falado: As crianças adoram fazer arte! A palavra arte tem muitos significados. Ao elaborarmos esta afirmativa, pensamos em dois deles: a arte como algo peculiar à infância e à criança, que é a travessura, que em certas situações deixa alguns adultos muito irritados, pois estes, algumas vezes, se esquecem de que um dia também foram crianças; e a outra, a arte como atividade humana, ligada a manifestações de ordem estética, feita a partir de percepções, experimentações, busca, pesquisa, levantamento de hipóteses, uso da imaginação e de ideias. Geralmente, este tipo de arte está ligado a produtores de arte em geral (pintor, escultor, gravador, músico, dançarino, ator etc.). De certa forma, tanto uma quanto a outra têm alguns aspectos em comum: ambas são prazerosas para quem as faz (crianças, adultos/artistas), e estas pessoas geralmente são curiosas, inovadoras, gostam de transformar as coisas, trabalham com a imaginação, inventividade e a criatividade. De acordo com Feist, Travessura envolve imaginação, criatividade: para aprontar uma boa mesmo é preciso pensar, dar asas à fantasia, inventar. Porque não tem graça nenhuma ficar repetindo sempre as mesmas molecagens. Também é preciso ter coragem, coragem de inventar e de fazer, de quebrar a rotina, de ser diferente, ao menos por alguns instantes. E o prazer que isso dá é enorme [...] (FEIST, 2003, p. 6). Recordar as travessuras de quando éramos crianças é muito bom, nos remete a um tempo de faz de conta, curiosidade e muito encantamento. No entanto, abordaremos outro tipo de arte, que também permeia a cultura lúdica e propicia conhecimento, emoção, prazer e encantamento. Basta observarmos uma criança recortando papéis, desenhando, mexendo com tinta, fazendo construções tridimensionais, cantando, dançando, imitando um adulto e muito mais. A criança utiliza a arte como forma de expressão. É através de suas brincadeiras que a criança irá se conhecer e terá a oportunidade de seconstituir socialmente. Ela poderá expressar as diferentes impressões vivenciadas em seu contexto familiar e social, por intermédio da espontaneidade do brincar. As brincadeiras passaram a ser objeto de estudo entre alguns teóricos que dedicaram suas pesquisas às representações mentais. Isto se inicia a partir da primeira metade do século XX. Surgem, então, as contribuições de autores como Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 56 Piaget, Vygotsky, Leontiev, Elkonin, Chateau, Brougère, Huizinga e tantos outros que mostram a importância e o valor das brincadeiras no desenvolvimento infantil e na aquisição de conhecimentos. As pesquisas desses teóricos influenciaram e influenciam diretamente o campo educacional. As atividades lúdicas são indispensáveis para apreensão dos conhecimentos artísticos e estéticos, pois possibilitam o desenvolvimento da percepção, imaginação, fantasia e dos sentimentos. O aspecto de brincadeira que proporciona a aula de Arte pode ser uma maneira de o aluno experimentar novas situações, ajudando-o a compreender e assimilar mais facilmente o mundo cultural e estético. Antes de relacionarmos o aspecto lúdico que as aulas de Arte nos conferem, vejamos como alguns teóricos pensam sobre o lúdico, mais especificamente sobre jogos, brinquedos e brincadeiras: Na concepção de Brougère (1998, p. 20), a brincadeira é vista como atividade aprendida, ele atribui à brincadeira o resultado de relações interindividuais, a qual pressupõe uma aprendizagem social, complementando: “[...] brincar não é uma dinâmica interna do indivíduo, mas uma atividade dotada de uma significação social precisa que, como outras, necessita de aprendizagem”. Fonte: O autor (2012) Fonte: O autor (2012) Figura 2.4 | Brincadeiras de infância 1 Figura 2.5 | Brincadeiras de infância 2 Para este mesmo autor, a brincadeira assimila e destrói qualquer distância de cultura. Ela aparece como fator de assimilação de elementos culturais, cuja heterogeneidade desaparece em proveito de uma homogeneidade construída pela criança no ato lúdico. Para ele, a brincadeira, ao manipular e se apropriar dos códigos Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 57 sociais, manipula valores (o Bem e o Mal), brinca com o medo e o monstruoso. Já nos dizeres de Chateau (1987), perguntar por que a criança brinca é perguntar por que é criança. “A infância serve para brincar e para imitar”. Sendo assim, Chaparède (apud CHATEAU, 1987) diz ser uma aprendizagem necessária à idade adulta. Huizinga (1971) faz uma analogia entre o jogo e a música. Ele enfatiza ser natural a tendência de conceber a música como pertencente ao domínio do jogo, pois a interpretação musical possui desde o início todas as características formais do jogo propriamente dito. Isto, por ser uma atividade que inicia e termina dentro de estreitos limites de tempo e de lugar, é passível de repetição. Consiste essencialmente em ordem, ritmo e alternância, transporta tanto o público como os intérpretes para fora ou além da vida cotidiana, para uma região corpórea fundada na alegria e serenidade, conferindo à música – ao jogo – um caráter extremo de um sublime prazer. Portanto, o jogo nunca é caso acabado, ele é inacabado. Vygotsky (1998) diz que ao brincar e criar uma situação imaginária, a criança assume diferentes papéis: ela pode tornar-se um adulto, outra criança, um animal, um herói; pode mudar o seu comportamento, agir e se comportar como se fosse mais velha do que realmente é, pois ao representar o papel de “mãe”, ela irá seguir as regras de comportamento maternal. É no brinquedo que a criança consegue ir além do seu comportamento habitual, atuando num nível superior ao que ela realmente se encontra. Para Kishimoto (apud SABINI; LUCENA, 2004), os jogos e brincadeiras estimulam na criança o desenvolvimento de capacidades relevantes, como a atenção, a imitação, a memória, a imaginação, favorecendo, dessa forma, a socialização por meio da interação, da utilização e da experimentação de regras e papéis. Em todas as concepções teóricas relacionadas ao desenvolvimento infantil, a brincadeira aparece como importante recurso na construção de conhecimento e desenvolvimento integral da criança, por isso reforçamos a relevância da arte em suas vidas, pois trabalhar com propostas artísticas possibilita um momento de ludicidade. Esta característica lúdica da arte propicia à criança o conhecimento de regras, o desenvolvimento da criatividade, originalidade e habilidades que envolvem identificação, análise, síntese, comparação, ajudando-a a conhecer suas próprias possibilidades e limitações. Quando uma criança brinca, está mergulhando de corpo e alma no mundo que a rodeia, é na situação do faz de conta que se relaciona com o real e se prepara para o desempenho de papéis sociais futuros. Benjamim (1987, p. 246), ao relatar sobre a capacidade e facilidade da criança em criar um brinquedo a partir de um pedaço de pau, isto porque tanto a arte como as brincadeiras permeiam no campo da imaginação, criatividade e do faz de conta, nos diz: Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 58 [...] nada é mais próprio da criança que combinar imparcialmente em suas construções as substâncias mais heterogêneas [...] ninguém é mais sóbrio com relação aos materiais que a criança: um simples fragmento de madeira, uma pinha ou uma pedra reúnem na solidez e na simplicidade de sua matéria toda uma plenitude das figuras mais diversas (BENJAMIM, 1987, p. 246). O brincar nas aulas de Arte pode ser uma maneira prazerosa de a criança experienciar novas situações e ajudá-la a compreender e assimilar mais facilmente o mundo cultural e estético [...] a prática artística é vivenciada pelas crianças como uma atividade lúdica, onde o fazer se identifica com o brincar, o imaginar com a experiência da linguagem ou da representação (FUSARI, 1992, p. 84). O brincar propicia à criança a abertura de um campo onde aspectos da subjetividade se encontram com os elementos da realidade externa para oportunizar uma experiência criativa com o conhecimento. Segundo Scarfe (apud BONAMIGO; KUDE, 1991), o brincar é tão necessário para a saúde mental como o alimento para a saúde física. Brincando, a criança está aprendendo a aprender e está descobrindo como se harmonizar com o mundo, como encarar as tarefas que a vida apresenta, como dominar habilidades e adquirir confiança. Em nossa reflexão em torno da relevância do brincar na vida da criança e que esta concebe as propostas artísticas como se fosse um jogo, uma brincadeira, nos remetemos a Ferraz e Fusari (1992, p. 84), que nos mostram o aspecto lúdico de uma aula de Arte, em seus dizeres: Muitos teóricos contribuíram e ainda contribuem com inúmeras pesquisas nesse campo, portanto, cabe a nós, como educadores ou ligados à educação, diante desta semelhança estabelecida pela criança entre arte e lúdico, proporcionarmos momentos onde a imaginação e a criatividade aflorem, com espaços bem organizados, tanto para arte como para as brincadeiras, propiciando assim aulas prazerosas, que possibilitem o desenvolvimento integral da criança. Então, ambas: “lúdico e arte”, são de extrema relevância para o desenvolvimento pleno das crianças. Quando dizemos que a arte permeia a vida da criança, e ela é importante no processo de construção e aquisição do conhecimento, abordamos a arte de forma geral, todas as linguagens artísticas, como: teatro, música, dança e artes visuais. Pensando nas artes visuais, estas têm uma presença constante no cotidiano das Aspectos metodológicos do ensino dasartes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 59 Quando a criança está na praia, por exemplo, e pega uma varinha e desenha no chão, as artes visuais estão presentes, porque o desenho pertence às artes visuais. Em seguida, se ela faz um castelo de areia e modela a areia, as artes visuais estão presentes, porque modelagem pertence às artes visuais. Quando a criança constrói um carrinho, pega uma caixa, prega uma tampa para fazer de roda, utiliza caixas de papelão e outros materiais, as artes visuais estão presentes, porque construções tridimensionais (sucatas) pertencem às artes visuais. E quando ela pinta com tinta a parede de sua casa, as artes visuais também estão presentes, porque pintura pertence às artes visuais, e assim por diante. Todas as linguagens artísticas são vivenciadas pelas crianças como jogo e brincadeira, mas os teóricos dão maior ênfase ao desenho infantil, por sua importância no fazer artístico e seu aspecto lúdico. Derdyk (1994, p. 50) diz que enquanto a criança desenha ou cria objetos, brinca de faz de conta e experimenta sua capacidade imaginativa, ampliando sua forma de pensar o mundo no qual está inserida. Em seus dizeres: crianças. Consta nos Referenciais Curriculares de Educação Infantil que As Artes Visuais estão presentes no cotidiano da vida infantil. Ao rabiscar e desenhar no chão, na areia e nos muros, ao utilizar materiais encontrados ao acaso (gravetos, pedras, carvão), ao pintar os objetos e até mesmo seu próprio corpo, a criança pode utilizar-se das Artes Visuais para expressar experiências sensíveis (BRASIL, 1998, p. 85). A criança desenha, entre outras tantas coisas, para divertir-se. É um jogo onde não existem companheiros, a criança é dona de suas próprias regras. Neste jogo solitário, ela vai aprender a estar só, ‘aprender a ser só’. O desenho é o palco de suas emoções, a construção de seu universo particular. O desenho manifesta o desejo da representação, mas também o desenho, antes de tudo, é medo, é opressão, é alegria, Fonte: Thiago Sant’Ana Cabral Cava (2010) Figura 2.6 | Artes Visuais e a Criança Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 60 é curiosidade, é afirmação, é negação. Ao desenhar, a criança passa por um intenso processo vivencial e existencial (DERDYK, 1994, p. 50). Por intermédio do desenho é que a criança sente sua existência. Tanto o desenho como o jogo reúnem o aspecto operacional e o imaginário, promovendo o projetar, pensar, idealizar e imaginar situações. Durante a realização de propostas artísticas, principalmente o desenho, a criança brinca, canta, conversa sozinha, desenvolve narrativas, dentre outros, e estas ações promovem o desenvolvimento da oralidade, imaginação, criatividade, inventividade, e ainda, propiciam que a criança crie estratégias diante de possíveis imprevistos, faça experimentações, utilize agrupamentos, combinações, construa e reconstrua. Essa manipulação de materiais diversos afronta a criança a pensar, repensar, criar, transformar, provocando-a sempre a experimentar ao ficar diante de materiais artísticos. A criança sente-se convidada a manipulá-los e isso nos remete a Bachelard (1986). Para ele, “o próprio papel, com seu grão e sua fibra, provoca a mão sonhadora para a rivalidade da delicadeza. A matéria é, assim, o primeiro adversário do poeta da mão. Possui todas as multiplicidades do mundo hostil, do mundo a dominar”. De acordo com Derdyk (1994), por meio de suportes variados, como muro, areia, chão, papel, etc., por sua natureza específica, o desenho possui um jeito particular de comunicar ideias, imagens, signos. Como eram suas aulas de Arte ou Educação Artística quando você estava na Educação Infantil ou nos anos iniciais do Ensino Fundamental? Você acredita que suas aulas de Arte acrescentaram algo de positivo no seu percurso escolar? De acordo com os RCNEIs, As Artes Visuais expressam, comunicam e atribuem sentido a sensações, sentimentos, pensamentos e realidade por meio da organização de linhas, formas, pontos, tanto bidimensional como tridimensional, além de volume, espaço, cor e luz na pintura, no desenho, na escultura, na gravura, na arquitetura, nos brinquedos, bordados, entalhes etc. O movimento, o equilíbrio, o ritmo, a Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 61 Tanto as artes visuais como as demais linguagens artísticas são formas importantes de expressão e comunicação humanas, o que, por si só, justifica sua presença no contexto escolar. harmonia, o contraste, a continuidade, a proximidade e a semelhança são atributos da criação artística. A integração entre os aspectos sensíveis, afetivos, intuitivos, estéticos e cognitivos, assim como a promoção de interação e comunicação social, conferem caráter significativo às Artes Visuais (BRASIL, 1998, p. 85). Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 62 Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 63 Seção 2 Didática do ensino de arte Prezado aluno! Você verá nesta seção que, independente de ter os materiais adequados em mãos e o suporte, ela irá se expressar. A criança, por exemplo: se não tem lápis de cor, giz de cera, tinta ou outro material para desenhar, ela fará seus desenhos ou garatujas com batom, pedra, carvão, enfim, o que encontrar, e também utilizará o suporte que estiver na sua frente: o sofá de sua casa, a parede, o próprio corpo. Lembrando que neste caso o suporte é a base, a superfície onde é realizado o trabalho. Na pintura em tela o suporte é a tela; quando a criança utiliza o próprio corpo para desenhar, o corpo é o suporte; na escultura o suporte poderá ser a pedra, a madeira, a argila, a areia, o gelo e assim por diante. Nesta seção refletiremos sobre a didática do ensino e aprendizagem de artes visuais, sobre a organização do espaço na sala de aula e na composição artística, sobre a diversidade de materiais oferecidos e como utilizá-los, e também sobre alguns procedimentos metodológicos nas aulas de artes visuais; falaremos da importância do desenho na vida da criança, como trabalhar com propostas de desenhos que não possibilitem a criação de modelos estereotipados. 2.1 Encaminhamentos metodológicos Existem professores especializados em Arte na maioria das escolas públicas do Brasil? Como o professor sem formação específica lida com a disciplina de Arte? São muitas as indagações, talvez nem tenhamos respostas a elas, no entanto, fazem-se necessárias algumas reflexões acerca deste assunto. Comecemos então pensando naquele professor regente, sem formação específica da área. O ideal, ao se falar no ensino de Arte, é ter um profissional específico da área e um local adequado. Mas não é essa a nossa realidade, a grande maioria das escolas públicas brasileiras trabalha com a falta de material, salas numerosas, ambientes e móveis não adequados, dentre outros. Porém, o professor não deve desanimar e nem deixar de ministrar suas aulas de Arte, pois é uma área do conhecimento tão importante quanto as outras, além de ser um direito dos alunos em tê-las, pois consta em lei. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 64 Os professores necessitam de espaços e tempos próprios para a pesquisa e reflexão, pois é por meio desses momentos que os mesmos se atualizarão em relação às novas tendências e abordagens produzidas na área da educação. Com relação às artes visuais, vejamos, a seguir, alguns procedimentos metodológicos que auxiliarão a práxis do professor. Comecemos entãopela questão do comportamento, da disciplina e as estratégias adequadas para o bom andamento das aulas. Para isto, nos reportamos a Delamont, em seus dizeres: Entendemos que estas estratégias consistem na franqueza, no diálogo e no respeito mútuo. A partir desta reflexão, transportamo-nos à aula de Artes Visuais, esta não pode se realizar em um clima muito rígido, com crianças imóveis, como se fossem “soldadinhos de chumbo”. Por outro lado, não pode ser muito livre, em um ambiente de “vale tudo”, onde o que conta é a expressividade da criança, sem parâmetros, sem ordem, sem objetivos, fazendo do professor um mero espectador. O professor precisa compreender que ele deve ser um mediador entre os conteúdos e a criança. Há um grande equívoco em achar que nas aulas de artes visuais não precisa de planejamento, que aulas são soltas, é apenas um momento de lazer onde tudo é válido, tudo é bonito, tudo é certo, o professor não pode fazer intervenções, nem dar explicações, que a disciplina está apenas ligada ao fazer, à espontaneidade e à expressividade. A aula de Artes Visuais deve ser planejada, com conteúdos e objetivos e o professor deve ter bem claro o que irá propor e quais os objetivos pretende atingir. Geralmente as crianças da Educação Infantil se organizam em grupos, e isto é muito bom! O trabalho em grupo propicia a integração do grupo, o respeito mútuo, a troca de experiências, a tolerância (falar e esperar sua vez), a autonomia, dentre outros. É muito importante realizar aulas em grupo, não apenas na Educação Infantil, mas também no Ensino Fundamental e Médio. Além da importância do trabalho em grupo, ter uma sala especial para estas aulas, um ateliê, mas como isso não acontece na grande maioria das escolas brasileiras, o professor poderá organizar, pensando na Educação Infantil ou anos iniciais do Ensino Fundamental, a sala de aula das seguintes formas: em grupos, sentados nas suas mesinhas ou organizar “cantos”, que poderão ser: canto da modelagem, do desenho, da pintura, das construções com sucatas. Esses cantos deverão ser reorganizados, mais ou menos em um prazo de uma ou duas semanas, não ficando muito tempo os mesmos. A estratégia do professor consiste em começar por explicar as suas expectativas e em formulá-las frequentemente. As suas tentativas para dominar, quer o conteúdo, quer o comportamento dos alunos são feitas, em primeiro lugar, por afirmações diretas a respeito dos padrões que deseja alcançar (DELAMONT, 1987). Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 65 A criança precisa ter espaço, na mesinha ou carteira, para realizar as propostas artísticas, os materiais devem estar ao alcance dela, em um lugar seguro. Na Educação Infantil, de preferência, guardados em potes transparentes, para que sejam de fácil identificação e para que ela faça suas escolhas, sem precisar do auxílio de um adulto, propiciando assim o desenvolvimento de sua autonomia. A criança deverá ter espaço também para se locomover na sala de aula, a sala deverá ser arejada, ampla, clara e limpa. Ainda pensando na Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental, no término de seus trabalhos as crianças deverão, junto com o professor, organizar a sala de aula, guardar os materiais. O professor deverá auxiliá-las na organização, guardando também os materiais junto com a criança, pois, se a sala estiver muito desorganizada e o professor deixar toda a arrumação para as crianças, elas se desanimarão e não farão. O professor não pode se esquecer de que ele é um modelo, um referencial, para as crianças, sendo assim, deverá executar essas ações junto com elas. No Fundamental II e no Ensino Médio também deverão organizar a sala de aula ao final das atividades propostas. Após realizarem as atividades, é muito importante que todos os trabalhos sejam expostos em painéis, paredes, varais, rodas de apreciação ou outros. Todos os trabalhos deverão ser expostos, inclusive os que, supostamente, saíram fora da proposta lançada, e os alunos deverão fazer a leitura de seus trabalhos. Cantos dizem respeito a espaços organizados na sala de aula, com materiais e atividades diferenciadas e relacionadas aos cantos propostos. Por exemplo: canto da modelagem, com massinha de modelar, argila, forminhas, pás, colheres etc., contemplando assim diversas modalidades artísticas. Fonte: O autor (2012) Figura 2.7 | Varal de exposição Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 66 Na sua época de Ensino Fundamental os professores propiciavam trabalhos para serem realizados em grupos? Qual é sua opinião em relação ao trabalho em grupo? É muito importante a leitura do próprio trabalho. Essa leitura diz respeito à apreciação estética, isto é, os alunos, após o término de seus trabalhos, irão apresentá- los aos demais alunos e ao professor e falarão sobre eles. Fazer a leitura do trabalho é comentar sobre o trabalho, o que fez, por que fez, que materiais e procedimentos utilizou, como se sentiu ao realizá-lo, enfim, descrever o seu processo de criação. A criança poderá fazer sua leitura indo à frente da sala de aula, em seu lugar ou em círculo, que é chamado de roda de apreciação, dentre outros. Todos os trabalhos deverão ser expostos e lidos, isto é, apresentados, até os que, supostamente, “fugiram” da proposta lançada, pois será nesse momento que o professor se certificará se realmente o aluno fugiu da proposta ou se pensou de forma diferente, pois a lógica do pensamento infantil é diferente da lógica do pensamento adulto. E também, será o momento de reflexão para o aluno que fugiu da proposta pensar por que fugiu, repensar seu trabalho, fazer analogia com os outros trabalhos e tentar melhorar as próximas atividades. Com relação à diferença entre adultos e crianças, buscamos em Duarte Junior (1988) essa análise. De acordo com o autor: Fazer a leitura dos próprios trabalhos é extremamente relevante. Será nesse momento que a criança refletirá sobre o que fez, aprenderá a falar e ouvir, a esperar sua vez, ela será ouvida tanto pelos colegas como pelo professor, estimulando, dessa forma, o desenvolvimento de sua autoestima, pois, ao ouvi-la, o professor estará respeitando e valorizando o que fez e como fez, também aprenderá a respeitar o trabalho de seu colega; e o professor, por sua vez, terá a oportunidade de conhecer melhor seu aluno e, consequentemente, estabelecer um vínculo afetivo com ele. Outra questão relevante é com relação ao repertório imagético da criança. É [...] a arte produzida pelo adulto apresenta fins e parâmetros distintos da arte infantil. Enquanto a arte adulta visa à concretização de sentimentos, segundo determinadas regras e códigos estéticos, a arte infantil não se pauta por padrões a ela exteriores. Nela, a criança se exprime de acordo com seus processos de sentir, pensar e perceber, que são diversos dos processos adultos e sofrem uma variação e evolução segundo seu crescimento (DUARTE JUNIOR, 1988, p. 106). Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 67 preciso nutri-la com imagens, pois ninguém cria “nada do nada”, precisamos ter referências. Ernert Gombrich (1993 apud MARTINS; PICOSQUE; GUERRA, 1998, p. 25) nos diz que, Este repertório ao qual nos referimos deverá ser o mais próximo possível do real, por exemplo: fotografias, vídeos e outros, pois, se o assunto é sobre “peixes”, quanto mais imagens próximas do real de peixes que apresentarmos à criança, mais conhecimento em relação aos diferentes tipos, tamanhos e cores de peixes ela terá, isto é, terá mais repertório, mais referências para realizar seu trabalho artístico. É importanteque o professor apresente imagens diversas e possibilite uma conversa, uma reflexão acerca do assunto estudado. Outra observação é em relação às imagens não reais, como desenhos, personagens. Estas, muitas vezes, não são de boa qualidade estética, e também podem apresentar informações visuais incorretas, como: uma aranha apenas com quatro patas, formiga com dente etc. Outro aspecto é que este tipo de abordagem possibilita uma aprendizagem equivocada e criação de desenhos estereotipados. Quando vamos desenhar uma árvore, por exemplo, mesmo diante de um modelo da natureza, teremos em nossas mentes todas as árvores que já vimos, também desenhadas, pintadas, esculpidas, com nossa percepção e emoção frente a elas. Com esses modelos internos é que criamos [...]. Certa ocasião, uma professora relatou que em um passeio com sua filhinha de três anos, ela mostrou um pássaro (pica-pau) para a criança e falou: - Olha, filha, o pica-pau! A criança na mesma hora retrucou: - Não é. A mãe insistiu que era, mas a criança não concordou várias vezes, mesmo com a insistência de sua mãe, isto porque a única referência que ela tinha sobre pica-pau era de um personagem de desenho animado, que ela assistia todos os dias. Por isso a necessidade de mostrar o real, mesmo que no momento em que ela for desenhar não fique próximo do real, para que ela não seja privada de conhecer o real e de ter um repertório de imagens, para realizar suas propostas artísticas com maiores possibilidades de expressão possível. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 68 Tanto a criança como os professores precisam ter familiaridade com os materiais que serão utilizados. Essa familiaridade faz com que se sintam seguros diante do que irão fazer. Portanto, caso o professor seja de Educação Infantil ou anos iniciais do Ensino Fundamental, deverá ensinar como segurar a tesoura, como utilizar a cola, lavar os pincéis quando for mudar de cor, dentre outros procedimentos. O professor, como mediador entre os conteúdos de artes visuais e a criança, deve fazer suas intervenções nos momentos oportunos, quando necessário. O que o professor não deve fazer é interferir no trabalho de seu aluno, independente da idade, apagar desproporções, ditar as cores que deverá utilizar, direcionar o trabalho, segundo o seu gosto e padrão de beleza, e muito menos retocá-lo, para ficar mais “bonitinho”, pois fará parte de uma exposição! O professor deve propiciar o manuseio de diferentes materiais, como: pincéis, giz de cera, lápis de cor, carvão, tinta, canetinhas etc. E também realizar os trabalhos em diferentes suportes, como: papéis, papelão, muro, tecido, chão, quadro de giz etc., e de diferentes tamanhos e formas – papéis circulares, retangulares, quadrados, pequenos, grandes, médios, de variadas cores e texturas – lisos, ásperos, enrugados, dentre outros. O material a ser utilizado deve estar ao alcance das crianças, para que estas tenham autonomia em pegá-lo e escolher o que mais se adequar ao seu trabalho. Suporte nas artes visuais: Diz respeito à superfície onde será realizado um trabalho, por exemplo, um desenho ou pintura podem ser feitos em um suporte de papel, no muro, no chão, na tela, no corpo, entre outros. É de fundamental relevância que o professor esteja motivado para poder estimular os alunos com seu dinamismo e entusiasmo, mesmo sabendo que os materiais utilizados, por si só, já os motivam. A alegria de mexer com tintas, pincéis, cola, fantasias, instrumentos musicais, dentre outros, já é bastante estimuladora. Outra questão relevante é em relação a situações aparentemente “problemáticas”, geralmente encontradas nos desenhos infantis, principalmente quando a criança utiliza cores escuras, como: preto, marrom, roxo e outras, ou então, acalcam muito o lápis, até rasgar o papel. Nem sempre a temática, as cores, a intensidade dos traços utilizados, significam “problemas”. Existem inúmeros motivos para uma criança abordar determinadas temáticas, formas de realizar o desenho e cores. Não é função do professor resolver essas situações e sim detectá-las e encaminhá-las à direção ou ao pedagogo da instituição. Diante de um suposto problema, isto é, depois de várias observações, depois de ouvir o que a criança tem a dizer e, com a persistência Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 69 Não é a quantidade de técnicas que determinará se um educador desempenha bem ou não o seu trabalho, mas sim seu envolvimento, conhecimento e compromisso com relação à educação e, mais especificamente, às artes visuais. A técnica não pode ser entendida como um fim em si mesma, ela é um meio, um instrumento. Enfim, o que faz uma proposta artística ser interessante e contribuir para a aquisição de conhecimento é o professor ter claros os seus objetivos quanto ao que pretende ensinar, é a estratégia utilizada para instigar essa criança a sentir curiosidade, se envolver, refletir, pesquisar, levantar hipóteses, promover rodas de conversa, entre outros. Com relação à avaliação, ela é um feedback para que o professor faça uma retrospectiva quanto à metodologia utilizada, conteúdos, alguns procedimentos de suas aulas e esteja melhorando sua práxis. Certos professores cometem o erro de avaliar o trabalho do aluno segundo seu gosto e padrão de beleza. O trabalho não do possível problema, o professor deverá encaminhar o caso ao pedagogo ou supervisor ou coordenador, que tomará as devidas providências, conversando com a família, orientando a levá-la a um profissional da área, um psicólogo, por exemplo, se for o caso. Constantemente ouvimos, por parte dos professores, lamentações pelo fato de desconhecerem técnicas artísticas. Muitos professores acreditam que para ministrar aulas de artes visuais precisam saber inúmeras técnicas. Para ensinar artes visuais é necessário que o professor tenha segurança no que faz. Para que isso aconteça, ele precisa vivenciar certas situações práticas, como: saber fazer um trabalho de colagem, pintura, desenho, dentre outros, saber alguns procedimentos, principalmente diante de imprevistos, saber como manusear determinadas ferramentas e, também, ter boas ideias ou procurar boas fontes para elaborar as propostas artísticas, não deve dar atividades prontas, que não exigem reflexão e planejamento por parte do aluno. Este professor deverá também planejar suas aulas, ter embasamento teórico. Para isso, são importantes cursos de formação continuada, leituras, grupos de estudos e outros, ou seja, articular teoria e prática. É fundamental que esse educador se sinta seguro ao lançar uma proposta artística, para melhor auxiliar a criança e transmitir-lhe confiança. Esse procedimento é necessário, não só em artes visuais, como também em todas as outras linguagens artísticas e áreas do conhecimento. Sugerimos a leitura do livro: COSTA, Cristina. Questões de Arte: Ed. Moderna, São Paulo, 2004. É muito prazerosa e esclarecedora, sugerimos a leitura desta obra, principalmente na abordagem sobre estética. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 70 deve ser medido segundo estes padrões de “beleza” que se pautam no aspecto do trabalho, suas cores e formas e também a conceitos preestabelecidos, que não são verdadeiros. O professor precisa ter muita sensibilidade, conhecimento e postura ética ao avaliar. Para Martins; Picosque; Guerra (1998): Dessa forma, algumas questões devem ser consideradas na avaliação, como, por exemplo, o conteúdo a ser trabalhado deve estar de acordo com a idade da criança, com os conhecimentos prévios que ela traz, seu envolvimento com as propostas lançadas, os objetivos traçados, as possibilidades deste aluno. Avaliação, paraMartins; Picosque; Guerra (1998, p. 142), é um assunto polêmico. Em seus dizeres: “Palavras como avaliação, autoavaliação, processo, produto, valor, nota, julgamento, etc. envolvem pessoas, sonhos, projetos de vida e, ainda, questões éticas”. Sugestão de Avaliação: O que devemos avaliar em artes visuais? O aluno... Elementos formais, a matéria-prima para produção artística, ou seja, os recursos empregados numa obra: a. elementos formais da música – altura, duração, timbre, intensidade, densidade; b. elementos formais das artes visuais – os elementos visuais constituem a substância básica daquilo que vemos, e seu número é reduzido: o ponto, a linha, a forma, a direção, o tom, a cor, a textura, a dimensão, a escala e o movimento; c. elementos formais do teatro – personagem (expressões corporais, vocais, faciais), ação e espaço cênico; d. elementos formais da dança – movimento corporal, tempo e espaço; e. Composição é o processo de organização e desdobramento dos elementos formais que constituem uma produção artística. Na verdade, uma avaliação é uma bússola de excelente qualidade para o professor se orientar. Ela é um diagnóstico dos alunos, do professor e do assunto tratado, fornecendo um mapa claríssimo dos interesses e necessidades da turma. É ponto de chegada e de partida, é meio, começo, fim e retorno (MARTINS; PICOSQUE; GUERRA, 1998, p. 141). 2.2 Educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 71 • Cria formas artísticas demonstrando algum tipo de capacidade? • Estabelece relação do seu trabalho artístico e de outras pessoas sem discriminações estéticas, artísticas, étnicas e de gênero? • Identifica alguns elementos da linguagem visual (linhas, pontos, formas, etc.) que se encontra em múltiplas realidades? • Utiliza o pensamento visual, simbolizando seu sentir/pensar através das diversas modalidades (desenho, pintura, colagem, modelagem, construções tridimensionais, etc.) expressivas das artes visuais? • Como experimenta os códigos da linguagem visual? • Como organiza o espaço? • Utiliza-se tanto do bidimensional como do tridimensional? • Realiza os trabalhos com cuidado, atenção? • Utiliza seu tempo destinado ao trabalho de forma satisfatória? • De que forma trabalha as cores? • Cria cores novas? • Elabora novas formas? • Elabora novas texturas? • Como utiliza o material? • Participa das rodas de conversas? • Utiliza o material solicitado? • Faz experimentações? • Demonstra interesse pelas propostas artísticas lançadas? • Consegue lidar com o imprevisto? • Tenta acrescentar outros elementos no trabalho, inovar, ousar, de forma satisfatória? • Valoriza as fontes de documentação, preservação e acervo da produção artística? O professor precisa ter cuidado com a forma que se refere ao receber um trabalho infantil. Não deve elogiar exageramente, pois, ao dizer “está lindo”, eleva Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 72 o trabalho da criança a um patamar de beleza altíssimo, a criança acredita que não precisa atingir mais nada, com isto, corre o risco de estacionar em seu processo de desenvolvimento, de pesquisa e de curiosidade em tentar outras formas de desenhar, ou então querer repetir sempre o mesmo trabalho, para agradar seu professor, que para ela é um referencial importante. Também não deve criticá-la de forma rude, pejorativa; uma crítica construtiva pode ajudá-la a crescer, e uma negativa pode marcá-la para o resto de sua vida. Quem de nós não teve uma história traumática de quando éramos alunos? Mas também, em contrapartida, como é bom lembrarmos com carinho de certos professores e de como gostávamos de suas aulas. Cada criança revela seus interesses, sua capacidade, seus recursos, de acordo com sua etapa de desenvolvimento. Ressaltamos novamente que o adulto precisa ter muita sensibilidade, conhecimento e postura ética ao avaliar. Conteúdos de artes visuais Diante das contribuições que as propostas artísticas possibilitam, vamos conhecer os conteúdos das artes visuais, oportunizando às crianças serem capazes de: • Realização de trabalhos bidimensionais e tridimensionais, como: desenho, colagem, pintura, gravura, fotografia, histórias em quadrinhos, infografia (trabalhos no computador), modelagem, esculturas, construções com sucatas, instalações, dentre outros. • Compreensão de alguns elementos básicos da linguagem visual: ponto, linha, cor, forma, textura. Análise destes elementos básicos da linguagem visual dentro de imagens diversas, mais especificamente as obras de arte. • Utilização de materiais, procedimentos e técnicas diversas, como: pincéis, lápis de cor, giz de cera, tintas, argila, colas, tesouras e papéis de cores, formas, tamanhos e texturas variadas, e também, caso seja possível, utilizar os meios tecnológicos disponíveis (máquinas fotográficas e computadores). • Leitura de imagens diversas: obras de arte (originais e reproduzidas) de diferentes épocas, estilos e culturas (do bairro, cidade, regional, nacional e internacional). Análise, reflexão e contextualição das imagens e obras de arte. A leitura de obra de arte pode ser também na ida a museus, galerias, exposições etc. Caso a escola não tenha disponibilidades e/ou condições para fazer essas visitas extraclasse, o professor pode levar para sala de aula, como material de apoio e/ou alternativo: fitas de vídeos, DVDs, TV, cartazes, cartões, convites, recorte de jornais e outros. Essa proposta deve estar de acordo com a realidade da escola, com suas possibilidades. 2.3 Educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 73 • Fala, escrita e outros registros (gráfico, audiográfico, pictórico, sonoro, dramático, videográfico) sobre as questões trabalhadas na apreciação de imagens. • Releitura – Refazer, recriar, mas de outra forma, não é cópia; • Identificação de produtores de artes visuais como agentes sociais de diferentes épocas e culturas. • Reconhecimento da importância das artes visuais na sociedade e na vida dos indivíduos. • Frequência e utilização das diversas fontes de informações nas quais poderão obter informações em relação às artes visuais, para pesquisa e conhecimento: museus, galerias, exposições, ateliês, oficinas, livros, revistas, DVDs, televisão, internet, entre outros. Arte Naïf Arte naïf (arte ingênua, como é chamada) é o estilo a que pertence a pintura de artistas sem formação sistemática. É a arte do fazer artístico sem escola nem orientação, portanto é instintiva e onde o artista expande seu universo particular. O artista naïf busca como fonte de inspiração a iconografia popular das ilustrações dos velhos livros, das folhinhas suburbanas ou das imagens de santos. O artista naïf não se preocupa em preservar as proporções naturais nem os dados anatômicos corretos das figuras que representa. Concluímos pensando naquela criança que tem a oportunidade, desde a Educação Infantil, de conhecer diferentes tipos de manifestações artísticas, de vivenciar momentos culturais diversos, fazendo visitas a museus, galerias, exposições, assistindo a apresentações circenses, espetáculos de teatro, de dança, concertos musicais e outros, e também, aprender sobre os produtores de arte em geral (local, regional, nacional e internacional). Quando chegar à idade adulta, não será uma pessoa excluída do contexto cultural em que vive, provavelmente esta criança será uma pessoa com um leque de conhecimentos maior, será uma pessoa mais criativa, original, e principalmente mais sensível diantedos fatos, das situações, dos objetos, das pessoas, da natureza e da vida, enfim. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 74 1. Andresa pintou um coelho da Páscoa fotocopiado (xerox), ou seja, um desenho pronto para colorir que sua professora Olga, em sua aula de Arte, entregou. Escreva sobre este tipo de atividade. 2. No planejamento da aula de Arte, que Cássia está fazendo para trabalhar esta disciplina, na Educação Infantil e Fundamental I, ela propõe uma atividade de colagem, em seguida de modelagem. Com relação aos materiais, suportes e modalidades artísticas, como a professora deve proceder? A disciplina de Arte tem certas especificidades que a diferem de outras disciplinas, uma delas diz respeito aos conteúdos, pois são quase os mesmos, principalmente do 1º ao 5º ano do Eensino Fundamental, o que vai mudar é o grau de complexidade. O professor trabalhará com as modalidades das artes visuais (desenho, colagem, pintura, modelagem, gravura, construções tridimensionais com materiais alternativos e outras), mas o foco, a exigência, os temas, as reflexões serão diferentes. A cada ano as atividades deverão ser mais complexas, de acordo com a idade, a curiosidade e a maturidade dos alunos. Por exemplo: o professor pode lançar propostas de pintura do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental, só que com exigências e expectativas diferentes com relação ao processo, às reflexões, às hipóteses levantadas, ao encaminhamento, ao tempo, à conclusão, a forma de avaliar, dentre outros, dos trabalhos realizados. Sugerimos ainda que utilizem trabalhos que explorem os sentidos (tato, audição, paladar e olfato), aulas interdisciplinares, rodas de conversas e o trabalho com projetos etc. A seguir apresentaremos sugestões do trabalho de artes visuais da Educação Infantil e do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. EDUCAÇÃO INFANTIL – EI6 ARTES VISUAIS SUGESTÃO DE CONTEÚDOS HISTÓRIA DAS IMAGENS: produções artísticas diversificadas, de diferentes espaços e tempos, dos primeiros tempos à contemporaneidade, perpassando 2.4 Sugestão de conteúdos e objetivos das artes visuais Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 75 diferentes culturas. ELEMENTOS VISUAIS (linhas, formas, pontos, volume, espaço, textura, cor, luz, movimento, equilíbrio, ritmo, harmonia, contraste, semelhança, planos, proporção); COMPOSIÇÃO BIDIMENSIONAL (utilização de duas dimensões: largura e altura) e TRIDIMENSIONAL (utilização de três dimensões: largura, altura e comprimento/ profundidade); TÉCNICAS/MODALIDADES: desenho, pintura, gravura (xilogravura, em metal, linóleo, litografia, isopor etc.), escultura (em madeira, argila, massa de modelar etc., dentre outros), construções com materiais alternativos (sucatas) e materiais artísticos; APRECIAÇÃO ESTÉTICA apreciar, analisar, interpretar objetos e manifestações artísticas diversas, como: obras de arte, esculturas, instalações e outros; CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA contextualizar o produto artístico estudado em relação à técnica, produtor, local e época, sem o objetivo de memorização de datas e outros. EIXO 1º ANO 2º ANO 3º ANO 4º ANO 5º ANO PRODUZIR / FAZER O FAZER ARTÍSTICO EM ARTES VISUAIS Elementos básicos das artes visuais; Composições bidimensionais e tridimensionais. O FAZER ARTÍSTICO EM ARTES VISUAIS Elementos básicos das artes visuais. Composições bidimensionais e tridimensionais. Criação de personagens e de histórias em quadrinhos. O FAZER ARTÍSTICO EM ARTES VISUAIS Elementos básicos das artes visuais. Composições bidimensionais e tridimensionais. Criação de personagens e de histórias em quadrinhos. O FAZER ARTÍSTICO EM ARTES VISUAIS Elementos básicos das artes visuais. Composições bidimensionais e tridimensionais. Criação de personagens e de histórias em quadrinhos. O FAZER ARTÍSTICO EM ARTES VISUAIS Elementos básicos das artes visuais. Composições bidimensionais e tridimensionais. Criação de personagens e de histórias em quadrinhos. FRUIR / APRECIAR APRECIAÇÃO ESTÉTICA EM ARTES VISUAIS Conhecimento da diversidade de modalidades artísticas. Apreciação estética dos tra- balhos artísticos. APRECIAÇÃO ESTÉTICA EM ARTES VISUAIS Conhecimento da diversidade de modalidades artísticas. Apreciação estética dos tra- balhos artísticos. APRECIAÇÃO ESTÉTICA EM ARTES VISUAIS Conhecimento da diversidade de modalidades artísticas. Apreciação estética dos tra- balhos artísticos. APRECIAÇÃO ESTÉTICA EM ARTES VISUAIS Conhecimento da diversidade de modalidades artísticas. Apreciação estética dos tra- balhos artísticos. APRECIAÇÃO ESTÉTICA EM ARTES VISUAIS Conhecimento da diversidade de modalidades artísticas. Apreciação estética dos tra- balhos artísticos. REFLETIR - CONTEXTU- ALIZA REFLEXÃO EM ARTES VISUAIS Contextual- ização histórica em artes visuais. REFLEXÃO EM ARTES VISUAIS Contextual- ização histórica em artes visuais. REFLEXÃO EM ARTES VISUAIS Contextual- ização histórica em artes visuais. REFLEXÃO EM ARTES VISUAIS Contextual- ização histórica em artes visuais. REFLEXÃO EM ARTES VISUAIS Contextual- ização histórica em artes visuais. Fonte: Adaptada de CAVA, Laura Célia Sant’ Ana Cabral. Orientações Curriculares: Arte. In: SME/PML – Londrina. Proposta Pedagógica do Município de Londrina. Londrina: Secretaria Municipal de Educação, 2009. Disponível em: <http://www. londrina.pr.gov.br/dados/images/stories/Storage/sec_educacao/edu_fundamental/artes.pdf>. Quadro 2.1 | Sugestão de conteúdos de artes visuais - Ensino Fundamental I Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 76 Artes Visuais EIXO: PRODUZIR / FAZER Elementos da linguagem visual: Os elementos das artes visuais são: linha, ponto, forma, textura, cor, volume, plano, luz, ritmo, movimento, equilíbrio). Sugestão: trabalhar com experimentações diversas, utilizando variados materiais e suportes de tamanhos, cores, formas e texturas diversas. Fazer trabalhos com tintas, giz de cera, carvão, lápis de cor, colagens, dentre outros. Explorar os sentidos (audição, tato, paladar e visão), por exemplo, para sentir diferentes texturas, nada melhor do que utilizar o tato para percebê-las, e assim por diante. Explorar, aprofundar e utilizar as possibilidades oferecidas pelos materiais artísticos diversos (pincéis, giz de cera, lápis de cor, tinta, tesoura, cola, entre outros). Utilizar suportes variados (papéis de diferentes tamanhos, formas, cores e texturas). • Composições Visuais: Diz respeito a trabalhos artísticos relativos às artes visuais (desenho, pintura, gravura, colagem, modelagem, construções com sucatas, trabalhos com imagens fotográficas, televisivas, cinematográficas, virtuais, etc). • Trabalhos Bidimensionais: Composições que tenham duas dimensões. São trabalhos que têm comprimento e largura, que são vistos geralmente de frente, como o desenho, a pintura, fotografia etc. • Trabalhos Tridimensionais: Composições que tenham três dimensões: comprimento, largura e altura. São trabalhos que têm altura, largura, profundidade, volumes, côncavos, convexos, partes vazadas, que podem ser vistos por todos os ângulos, como a escultura, modelagem, construções com sucata, instalação etc. Desenhos: • Desenhos Espontâneos: O aluno é quem determina o que vai realizar graficamente (desenhar), segundo interesses e preocupações; • Desenhos de História: O professor lê uma história para a criança e pede para que ela simbolize a história por intermédio do desenho; • Desenhos de Vivência: Desenho como registro de experiênciaé uma atividade que possibilitará à criança documentar vivências; • Desenhos com Tema: A partir de um tema predeterminado pelo professor, por exemplo: o circo, o aluno fará seu trabalho; • Desenhos de Memória: Representar algo, um objeto, que não esteja servindo de modelo, representá-lo por intermédio da lembrança, por exemplo, desenhe o Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 77 quintal de sua casa; • Desenhos de Observação: Colocar um objeto sobre uma mesa, cadeira ou outro lugar e pedir que os alunos o observem e o copiem. Os desenhos ficarão diferentes, pois estarão em ângulos diferentes; • Desenho Cego: Em duplas, uma criança copia a outra, primeiro uma serve de modelo e a outra copia, depois se invertem os papéis, quem serviu de modelo, copia, e quem copiou serve de modelo. O detalhe é que no desenho cego a criança não pode tirar o lápis do papel, nem apagar o desenho, ela olha para o contorno do seu par e vai conduzindo o lápis conforme percebe o contorno. É um desenho rápido, que deve acontecer sem a preocupação da cópia fiel e do erro. Pinturas: • Experiências com cor: Confeccionar tintas com elementos diversos da natureza e/ou industrializados, como: condimentos, pigmentos, folhas, terra, flores, coloral, chá, beterraba e outros. OBS.: Nas primeiras aulas de pintura, ao realizar uma atividade, o aluno estará mais interessado na experimentação, no manuseio, na novidade, do que no trabalho em si, o professor não deve ter grandes expectativas em relação a essa primeira aula. Deixe-o explorar à vontade, ter familiaridade com o material, para depois lançar sua proposta. Ensine seus alunos a manusearem de forma correta os materiais. • Cores Primárias: São cores puras que combinadas entre si, de duas em duas, dão origem às demais cores (vermelho/magenta, amarelo e azul). Conhecer cores primárias. O professor pode propor que façam um desenho e/ou pintura só utilizando cores primárias, apresentar obras onde o pintor só utilizou cores primárias. O artista abstracionista Piet Mondrian utilizava em seus trabalhos cores primárias contornadas de preto. Apresentar obras para os alunos e pedir que eles classifiquem quais cores predominam mais, as primárias ou as secundárias? • Cores Secundárias: Compreender as cores secundárias e realizar trabalhos artísticos utilizando-as. As cores secundárias se dão na mistura de duas cores primárias. Por exemplo: • (fazer uma tabelinha disto, mais ou menos do jeito que estou sugerindo abaixo) • azul + vermelho= roxo • azul + amarelo= verde • vermelho + amarelo= laranja. • Releitura: Fazer releitura de obras de arte: Releitura é ler novamente. Fazer uma Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 78 releitura de obra de arte é refazê-la, segundo a visão de quem a refaz, segundo seu estilo (seu jeito). Reler uma obra de arte é reinterpretá-la, é refazê-la, releitura é criação, não é cópia. • História em quadrinhos: Criação de personagens por intermédio do desenho, pintura, massinha de modelar, papel machê, etc. e criação de histórias em quadrinhos. Outra sugestão é entregar uma tira (charge) curta de no máximo quatro quadrinhos, retirar o final e deixar que o aluno invente e desenhe um final para ela. EIXO: APRECIAR / FRUIR • Apreciar: Conhecer e apreciar diversidade de modalidades artísticas, como: desenhos, pinturas, gravura, instalações, esculturas, fotografias, colagens, cinema, dentre outros. A apreciação em artes visuais diz respeito às leituras de imagens diversas (cartazes, cartões, outdoors, revistas, obras de arte, imagens televisivas, cinematográficas, computadorizada, etc). O professor deve eleger imagens variadas e que sejam significativas às crianças, onde elas estabeleçam relações com o seu universo. Em relação às obras de arte deve ser levado em conta o sentido narrativo que os alunos atribuem a elas. É aconselhável que os alunos sejam livres nas suas leituras, que possam tecer os comentários que quiserem e, também, que todos do grupo participem. • Entrevistas: Elaborar (com auxílio do professor), principalmente nos anos iniciais, entrevistas com artistas visuais – locais ou regionais ou nacionais ou internacionais – (pintores, escultores, ceramistas, gravadores, fotógrafos entre outros). • Mural Cultural: Confeccionar para apreciação, conhecimento e reflexão um mural cultural, com recortes de jornal, revista, convites, catálogos e outros, onde o aluno trará de casa ou pesquisará na biblioteca eventos culturais que estão acontecendo em sua cidade ou estado, sobre eventos artísticos em geral: espetáculos de dança, concertos musicais, espetáculos de teatro, exposições, apresentações circenses, dentre outros. • Espaços: Conhecer os espaços culturais da cidade, como galerias, salões de exposições, museus, teatros, dentre outros. • Fio condutor: Fazer a leitura de duas ou mais obras de arte, estabelecer um paralelo entre elas, isto é, trabalhar com algumas obras simultaneamente, fazer analogias entre elas procurando encontrar um fio condutor, algo que elas têm em comum, por exemplo: obras que abordam a mesma temática, como: mulher – em estilos e épocas diferentes, para que os alunos possam fazer associações e refletirem sobre os diferentes estilos, épocas e culturas. • Aulas extraclasse: A leitura de obra de arte ou apreciação estética pode ser também na ida a museus, galerias, exposições etc. Essa proposta deve estar de acordo com a realidade da escola, com suas possibilidades. Caso a escola não Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 79 tenha disponibilidade e/ou condições para fazer essas visitas extraclasse, o professor pode trazer manifestações artísticas diversas para a sala de aula e apresentá-las por intermédio de: fitas de vídeos, DVDs, TV, cartazes, cartões, convites, recortes de jornais e outros. Dessa forma, o professor possibilita que seus alunos saibam sobre os eventos culturais de sua cidade, os locais onde esses eventos acontecem, inserindo-os, assim, em seu contexto cultural. • Leitura do Trabalho: apreciação do próprio trabalho, diz respeito à leitura desses trabalhos, isto é: o aluno mostra seu trabalho à turma, comenta como o fez, quais materiais utilizou, se foi prazeroso ou não, por que escolheu determinado tema, enfim, descreve seu processo de criação. Todos os trabalhos deverão ser expostos e lidos, mesmo os que “fugiram” da proposta lançada. Esse será o momento de reflexão sobre o trabalho, sobre o fazer artístico, principalmente para aquele aluno que fugiu da proposta, e também, do professor constatar se realmente ele “fugiu” ou não da proposta, pois a criança tem uma lógica, um jeito de pensar diferente da lógica dos adultos, muitas vezes ele não fugiu do tema, apenas o interpretou de forma diferente dos demais. É também uma oportunidade rica de o professor conhecer melhor seu aluno e estabelecer um vínculo afetivo entre professor e alunos. Para que a leitura dos trabalhos aconteça, o professor, ao final das atividades, deverá expor os trabalhos em algum local ou então pedir que apresentem os trabalhos indo à frente da sala, no próprio lugar ou em rodas de conversas, que são chamadas de rodas de apreciação. EIXO: REFLETIR • Reflexão: Durante o fazer artístico e a leitura dos próprios trabalhos e de obras de arte, o professor deve provocar seus alunos, no sentido de refletirem sobre a obra de arte, seu produtor, o contexto em que este artista viveu, dentre outras. A abordagem do professor deve despertar a curiosidade em seu aluno e não forçá-lo ao acúmulo de informações históricas, pois o objetivo de umaleitura de obra, nessa fase, é estimular a fruição, a apreciação e a percepção, de diferentes formas, cores, texturas, tamanhos, oportunizando-os, desta forma, a ter contato com a arte, enfim, apresentar obras de arte para conhecimento, apreciação e reflexão. Leia a citação a seguir e reflita sobre ela. De acordo com Bosi (2001), [...] o trabalho de arte passa pela mente, pelo coração, pelos olhos, pela garganta, pelas mãos; e pensa e recorda e sente e observa e escuta e fala e experimenta e não recusa nenhum momento essencial do processo poético (p. 71). Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 80 Vimos nesta unidade: • a arte como conhecimento. • os campos conceituais ou vertentes da arte na Proposta Triangular. • como a arte é compreendida pela criança, seu aspecto lúdico e a importância do lúdico na vida da criança. • didática do ensino e aprendizagem de artes visuais, sobre a organização do espaço na sala de aula e na composição artística, sobre a diversidade de materiais oferecidos e como utilizá-los. • alguns procedimentos metodológicos nas aulas de artes visuais. • importância do desenho na vida da criança, como trabalhar com propostas de desenhos que não possibilitem a criação de modelos estereotipados. Espero que os assuntos abordados nesta seção tenham aguçado seu gosto pelo ensino de Arte, o tenham instigado a querer saber mais, a querer ler as unidades 3 e 4. Espero também que a disciplina de Metodologia do Ensino da Arte contribua para a consolidação dos seus conhecimentos e o teu desejo de ser professor! 1. A professora Sarah levou seus alunos de Educação Infantil ao museu para que conhecessem obras de arte de um artista. Em seguida ela possibilitou uma roda de conversa, informando questões relativas às obras apreciadas e ouviu as crianças relatarem o que sentiram e perceberam em relação às obras Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 81 3. Aqui no Brasil, a professora _____________________ adaptou a teoria DBAE (Discipline-BasedArtEducation, proposta inglesa e norte-americana) ao nosso contexto, denominando-a Proposta Triangular, por envolver três vertentes: o fazer artístico, a leitura da imagem (obra de arte) e a história da arte. Marque a alternativa correta que preenche a lacuna. a. ( ) Leda Catunda. 2. Nos anos______, a disciplina de Arte, antiga Educação Artística, é reconhecida como disciplina, consta na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº ________), aprovada em _________________, em seu artigo 26, parágrafo 2º que: “O ensino da Arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”. Quando a Arte, antiga Educação Artística, torna-se disciplina: a. ( ) Nos anos 90, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/96) em em 20 de dezembro de 1996. b. ( ) Nos anos 90, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/99), em em 11 de dezembro de 1999. c. ( ) Nos anos 80, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/86), em 15 de dezembro de 1986. d. ( ) Nos anos 70, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 5.692/75), em em 20 de dezembro de 1975. e. ( ) Nos anos 70, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 5.692/71), em 15 de dezembro de 1971. de arte. Em um segundo momento, a professora Sarah pediu que as crianças representassem, por intermédio do desenho, a obra que mais lhes chamou a atenção. A professora Sarah articulou quais campos conceituais ou vertentres? a. refletir/criar – sonhar/realizar – imaginar/fruir b. refletir/contextualizar- criar/copiar – fruir/realizar c. fruir/apreciar – criar/copiar – apreciar/realizar d. fazer/produzir – fruir/apreciar – refletir/contextualizar e. fazer/produzir – realizar/criar – refletir/apreciar Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 82 b. ( ) Ana Mae Barbosa. c. ( ) Maria Heloisa Ferraz Fusari. d. ( ) Cesar Coll. e. ( ) Mirian Celeste Martins. 4. Marque a alternativa correta: I. Quando o professor faz uma ligação entre o assunto abordado, por exemplo, “brinquedos”, com uma obra de arte cuja temática também seja “brinquedos”, propiciando desta forma a leitura da obra, dizendo seu título, o nome do artista que a fez, que técnica utilizou etc., este professor estará possibilitando uma aula contextualizada. II. Os desenhos prontos para serem coloridos em nada contribuem no desenvolvimento da criança. Além do próprio nome já dizer “pronto”, não há o que acrescentar, não há elaboração, pesquisa, criação e originalidade, pelo contrário, inibem o potencial criativo de quem os colore e possibilitam a representação e repetição de modelos estereotipados. III. O professor de Arte de Educação Infantil e Fundamental I deverá variar os tipos de materiais (tesouras, colas, tinta, giz de cera etc), variar os suportes (papéis, tecido, areia, chão etc.), variar as cores, os tamanhos e texturas (suportes pequenos, médios, grandes – lisos, ásperos, enrugados etc.) e também variar as modalidades artísticas (desenho, pintura, colagem, construções com sucatas, modelagem, dentre outros). a. Estão corretas as afirmativas I e III. b. Está correta apenas a afirmativa II. c. Estão corretas as afirmativas II e III. d. Estão corretas as afirmativas I, II e III. e. Está correta a afirmativa III. 5. Marque a alternativa correta: I. A educação em Arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico, ampliando, assim, a sensibilidade, a criatividade, a percepção, a originalidade, a flexibilidade, a reflexão, a imaginação, a inventividade, o senso crítico e o senso estético. Possibilita também, ao aluno, um grande Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 83 aumento de sua capacidade de visualização e memória visual. Essa disciplina possibilita ainda uma compreensão mais significativa das questões sociais. II. Suporte é a superfície onde é realizado um trabalho. Por exemplo: na pintura em tela o suporte é a pintura, em um desenho feito com batom em um espelho o suporte é o batom. III. A professora Bernadete lançou uma proposta tridimensional de Artes Visuais com argila a seus alunos do terceiro ano do Ensino Fundamental. A modelagem é uma modalidade das artes visuais. a. Estão corretas as afirmativas I e III. b. Está correta apenas a afirmativa II. c. Estão corretas as afirmativas II e III. d. Estão corretas as afirmativas I, II e III. e. Está correta a afirmativa III. Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 84 Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica U2 85 Referências ANTUNES, Celso. A antiga escola moderna. In: Revista Profissão Mestre, 2008. Disponível em: <http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=979>. Acesso em: 07 jun 2008. ARGAN, G. C. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. BENJAMIM, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. BONAMIGO, R. M. E.; KUDE, M. M. V. Brincar: brincadeira ou coisa séria. Revista Veritas: Porto Alegre, v. 36, n. 143, p. 367 – 369, 1991. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria e Ensino Fundamental. Parâmetros Curriculares nacionais: artes. Brasília, 1997. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria deEducação Fundamental. 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Aspectos metodológicos do ensino das artes visuais na educação básica Unidade 3 PROPOSTAS PEDAGÓGICAS EM ESPAÇOS DE EDUCAÇÃO FORMAL E NÃO FORMAL DE EDUCAÇÃO EM ARTES VISUAIS Nesta seção conheceremos e conceituaremos espaços formais, que dizem respeito ao ensino sistematizado; informais, que são os saberes relacionados à língua materna, tarefas domésticas, normas de comportamento, orar ou rezar, caçar, ou seja, sobreviver, sem horários ou currículos, isto é, escola da vida; e não formais, muito próximos da educação formal que inclui o estudo de línguas estrangeiras, informática, pintura e outros, com horários e períodos letivos bem definidos. Também, dando continuidade nesta seção diferenciaremos museu de galeria, pois o ensino não formal pode acontecer nestes espaços. Apresentaremos alguns museus, com sugestões de links e a possibilidade de conhecê-los virtualmente. Seção 1 | Inter-relação entre arte, cultura e educação Objetivos de aprendizagem: • conceituar educação formal, informal e não formal; • refletir sobre museu e galeria; • conhecer fundamentos estéticos do ensino de Arte; • conceituar e refletir sobre cultura visual. Laura Célia Sant’Ana Cabral Cava Nesta seção falaremos e conceituaremos a cultura visual, falaremos como os professores de Arte lidam com o conflito de trabalhar ou não as datas comemorativas e qual a melhor solução para este trabalho. Seção 2 | Fundamentos estéticos no ensino de artes visuais Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 89 Introdução à unidade Prezados alunos! Chegamos à Unidade 3, nela estudaremos sobre espaços de ensino formal, informal e não formal, conheceremos alguns museus, com sugestões de links e a possibilidade de conhecê-los virtualmente. É importante que o ensino de Arte aconteça em variados espaços artísticos e culturais, principalmente em museus ou galerias, como nos apresenta a Proposta Triangular de Ana Mae Barbosa e a Proposta de Curadoria Educativa. Neste sentido, convidamos você, caro aluno leitor, a conhecer um pouco mais sobre este universo da arte e refletir questões relacionadas ao ensino desta diciplina, pois acredito ser de grande relevância o estudo de questões relativas à arte, mais especificamente as artes visuais. Desta forma, convido você a junto comigo percorrermos as páginas deste livro em um exercício contínuo de conhecimento, emoção e envolvimento. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 90 Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 91 Seção 1 Inter-relação entre arte, cultura e educação Nesta unidade você conhecerá algumas propostas de ensino de Arte na educação formal e não formal, poderá refletir acerca de alguns projetos de arte, a articulação de diferentes linguagens artísticas, que também poderão fazer parte do ensino formal, transpondo já para o contexto escolar. 3.1 Educação formal, informal e não formal Prezados alunos! Iniciamos nossa conversa conceituando o que seja educação não formal, mas antes disso vamos lembrar sobre o que seja a educação formal e educação informal: Educação Formal: é a educação com reconhecimento oficial, em todos os níveis da educação básica, ensino superior e pós-graduações, em sistemas formais, como: escolas, faculdades, universidades etc., que ofertam diploma, em uma sequência regular de períodos letivos, com progressão hierárquica estabelecida de um nível a outro (Sistema formal de ensino – Ensino Regular). Fonte: Disponível em: <https://www.google.com.br/search?q=albert+anker&biw=1366&bih=667&source=lnms& tbm=isch&sa=X&ei=Y20gVdXyNdfZsATw8YC4DA&sqi=2&ved=0CAYQ_AUoAQ#imgdii=_&imgrc=nO7y0ff7DUu VjM%253A%3Bc2v8huxdGsJ4cM%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.repro-tableaux.com%252Fkunst%252Falbert_ anker%252Fdorfschule.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.repro-tableaux.com%252Fa%252Falbert-anker. html%3B600%3B351>. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.1 | Sala de aula Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 92 Educação Informal: os saberes relacionados à língua materna, tarefas domésticas, normas de comportamento, orar ou rezar, caçar, pescar, cantar e dançar, ou seja, sobreviver está e sempre esteve presente em muitas civilizações, pois a vida cotidiana sempre exigiu muito mais do que o conhecimento dos saberes apresentados formalmente nas disciplinas escolares. Esta sempre existiu, sem horários ou currículos, podemos chamá-la de escola da vida, onde os conhecimentos são partilhados a partir de uma interação, uma educação espontânea, que pode acontecer sem que os participantes tenham consciência. Educação não Formal: há também, além da educação formal e da educação informal, outras formas de transmissão cultural originárias da nossa civilização, algumas muito próximas da educação formal, denominada de educação não formal. Nesta inclui-se o estudo de línguas estrangeiras, informática, pintura, corte e costura e outros, oferecido presencialmente em escolas com horários e períodos letivos bem definidos, ou à distância. Ela também pode ocorrer em espaços específicos, em centros culturais, museus de arte ou de ciências, ou ainda, ao ar livre, em praças, feiras, estações de metrô e outros. Fonte: Disponível em: <https://www.google.com.br/search?q=almeida+j%C3%BAnior+-+fam%C3%ADlia&espv= 2&biw=1366&bih=667&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ei=2_EVVazdL63nsAS5jIGQCw&ved=0CAYQ_AUoAQ#i mgdii=_&imgrc=GXdv26T7zLwf6M%253A%3BYhB_Yfsl0x40SM%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.dezenovevinte. net%252Fbios%252Fbio_aj_arquivos%252Faj_1891_retrato.jpg%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.dezenovevinte. net%252Fobras%252Fretratos_familia.htm%3B907%3B763>.Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.2 | Cena de família Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 93 Encontramos outras terminologias para educação não formal na literatura acadêmica, como: apoio socioeducativo, contraturno escolar, contraturno social, atividade no contraturno, atividades complementares, entre outras. Experiências dessa natureza visam ao atendimento da oferta de atividades educativas, com o objetivo de oferecer suporte a uma parcela da população considerada em situação de vulnerabilidade social. Existem muitos projetos importantes, de educação não formal, sendo desenvolvidos no Brasil nas áreas artística, esportiva, tecnológica, científica e outras. Alguns com proponentes e educadores formados em licenciaturas diversas, mas há também aqueles que contam com educadores leigos e atuação de voluntários. Há uma hierarquização com relação aos projetos desenvolvidos no Brasil, colocando os não formais no final desta escala de importância. De acordo com Gohn (1999), a educação não formal sempre foi considerada um campo de menor importância, e enfatiza que, quando são elaborados projetos de intervenção nessa linha, objetiva-se, em última instância, apenas certo tipo de enquadramento social dos jovens. Esse aspecto acaba por contribuir para que a educação não formal seja ainda mais desvalorizada. Pensando no ensino de Arte, podemos destacar como ambientes não formais os museus, as galerias, entre outros. Antes de continuarmos nossa conversa, você Fonte: Disponível em: <http://www.macvirtual.usp.br/mac/templates/projetos/percursos/percursos_mod_tarsila.asp>. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.3 | Costureiras Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 94 sabe qual a diferença entre museu e galeria? Vamos então à definição. Para Falcão (2009), museu é uma palavra de origem latina proveniente do termo museum, este deriva do grego mouseion, fazendo referência inicialmente ao “templo ou morada das musas, ou seja, um local de inspiração divina e de onde provinham aquelas que estimulavam a criativade dos artistas e intelectuais”, dedicado às nove musas, filhas de Zeus com Mnemosine, a deusa da Memória. O primeiro prédio a receber esta denominação foi a Biblioteca de Alexandria, destruída em 640 d. C. No Renascimento este termo passou a ser aplicado com relação a coleções de objetos de valor histórico e artístico, sendo que os primeiros museus iniciaram a partir de coleções privadas de pessoas, famílias ou instituições detentoras do poder, porém eram acessíveis apenas para uma minoria restrita de pessoas. O primeiro museu público foi o Museu do Louvre, que surgiu após a Revolução Francesa, permitindo acesso livre às antigas coleções da realeza francesa, de pessoas de todos os níveis sociais. A partir daí o museu passou a ser visto como instrumento de educação, podendo contribuir para o processo de formação. Figura 3.4 | Biblioteca de Alexandria Fonte: Disponível em: <https://www.google.com.br/search?q=Biblioteca+de+Alexandria+destru%C3%ADda+em+64 0+d.+C.&biw=1600&bih=799&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ei=ULUVVdqLEtXasASH3oCQAQ&ved=0CAYQ_AUoA Q#imgdii=_&imgrc=zsIrCouegErvHM%253A%3BqbToyJMpN0vkHM%3Bhttp%253A%252F%252Fimage.slidesharecdn. com%252Fdiadabe-121025161433-phpapp02%252F95%252Fdia-da-biblioteca-escolar-friso-cronolgico-4-638.jpg%25 3Fcb%253D1351199910%3Bhttp%253A%252F%252Fpt.slideshare.net%252Flucipicareta%252Fdia-da-biblioteca-escolar- friso-cronolgico%3B638%3B479>. Acesso em: 02 abr. 2015. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 95 E a galeria, qual é a definição? A “Galeria de Arte” pode ser definida como um espaço destinado a produções artísticas como: pinturas, esculturas, instalações e outras formas de expressão das artes visuais. Uma galeria de arte pode funcionar estruturalmente de maneira independente, mas também pode fazer parte de um museu. O principal diferencial é a possibilidade de comercialização das obras que se dá em uma galeria. De acordo com o Sistema Brasileiro de Museus, a definição de museu é: casas que guardam e apresentam sonhos, sentimentos, pensamentos e intuições que ganham corpo através de imagens, cores, sons e formas. Os museus são pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes. Os museus são conceitos e práticas em metamorforse. Fonte: Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/cultura/2010/01/ instituto-brasileiro-de-museus-apoia-trabalho-das-instituicoes>. Acesso em: 05 abr. 2015. Você conhece a Pinacoteca de São Paulo? Pinacoteca é um museu que contém um acervo de pinturas. A origem desta palavra, que significa «sala que contém uma coleção de quadros», é o latim "pinacotheca", derivado do grego antigo "pinacothêkê”: pinax - akos quadro et thêké caixa. Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Pinacoteca>. Acesso em: 5 abr. 2015. Os museus geralmente são construídos em espaços amplos ou construções arquitetônicas já pensadas para esse fim, acabam por denominar suas salas de exposições como galerias, as quais recebem o nome de um artista de notória significância dentro das artes, apresentando exposições sem caráter de comercialização das obras ali expostas, como é o caso do Museu Oscar Niemeyer, Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 96 em Curitiba. Também os museus possuem um acervo grande e contribuem para a formação cultural do cidadão. Museu Oscar Niemeyer - em Curitiba. Figura 3.5 | Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 97 Lembramos que a proposta contemporânea do ensino de Arte sugere trabalhar com cultura visual, leitura de imagens, curadoria educativa, novos meios tecnológicos, o ensino multicultural, articulação das vertentes produção artística, apreciação estética e contextualização histórica; e o professor, neste trabalho, atua como mediador entre conteúdos de arte e alunos. O professor, quando atua como mediador, instiga, de forma provocadora, seu aluno a fazer leituras de obra de arte de maneira criteriosa, curiosa, sensível e crítica, promovendo assim que este estabeleça sentido. Mas para que esta leitura aconteça com qualidade, o professor deverá levar em conta os conhecimentos prévios de seu aluno, partindo de seu contexto, para articulá-los aos conceitos a serem aprendidos. No caso da aula de Arte, contextualizar período, obra, técnica e autor, de acordo com a faixa etária do aluno, seu tempo de concentração e sua curiosidade, para que essa leitura vá além de uma leitura superficiial, que ela mexa com sua curiosidade, criticidade e seu olhar estético, ou seja, seu olhar subjetivo, carregado de significado e sensível. Embora o espaço escolar seja diferente do espaço de galerias e museus, existem pontos de interseção entre estes, como, por exemplo, são espaços culturais únicos, uma vez que apresentam objetivos particulares na formação do cidadão. Nestes espaços, como museus e galerias, há um trabalho voltado a propostas educacionais, possibilitando que escolas os visitem. Segundo Araújo (2006, p. 1), a apresentação interdisciplinar de temas é o primeiro motivo que comumente leva os professores a incentivar a visitação a museus, seguido da interação com o cotidiano dos estudantes e, por fim, da possibilidade de ampliação cultural proporcionada pela visita. Estes espaços no contexto atual são propícios ao desenvolvimento e fruição cultural, logo, de experiências estéticas, uma vez que possibilitam o acesso a novas linguagens, a conhecimentos de valores teóricos e também o estímulo à curiosidade, tornando-se um instrumentoa favor do aprendizado. A Proposta Triangular de Ana Mae Barbosa, que articula as vertentes: fazer artístico; leitura de obra de arte e contextualização histórica, trabalha com a possibilidade de visitas a museus e galerias. Segundo Santos (2008, p. 328): A riqueza da Proposta Triangular perpassa pelas possibilidades de construção de uma metodologia por parte dos professores que passaram a considerá-la, mostrando-se, a nosso ver, adequada ao ensino-aprendizagem das Artes Visuais nessa contemporaneidade – decididamente marcada pelas inovações tecnológicas. Isto porque se faz necessário valer-se de vários conceitos para compreender a produção, veiculação, fruição e novas possibilidades como fazer e como saber fazer, por exemplo, nesse contexto. Assim, utilizando-se como referencial teórico a “Proposta Triangular” (BARBOSA, 2005). Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 98 Lembremos que a mediação não é imposição de ideias, e sim provocação, mas no sentido de levar o aluno a questionar-se, a desconstruir certezas, levá-lo a perceber ângulos inusitados com diferentes perspectivas de pensamento, estimulando e ressignificando o conhecimento (MARTINS, 2005, p. 76). A escola não é o único espaço para que haja o conhecimento em arte. Precisamos nutrir nossos alunos com repertórios, isto é, no caso da arte, com imagens, principalmente as obras de arte, para que este tenha referências na hora em que for fazer suas produções artísticas, pois ninguém cria "nada do nada". Temos que ter repertório, e quanto mais os alunos conhecem a história da arte, de diferentes tempos, contextos, etnias e estilos, em diferentes espaços, como sala de aula, museus, galerias, por meio de documentários, filmes, viagens e outros, mais conhecimento e repertório acerca da arte eles terão, sendo assim, mais condições de produzirem trabalhos bem elaborados, originais e de boa qualidade estética terão. Para que este trabalho com qualidade aconteça, o professor deverá ampliar o leque de conhecimentos de seus alunos, propondo não apenas o conhecimento de obras de arte renomadas e ocidentais, mas, além destas, as obras de arte orientais, africanas, dentre outras, locais, regionais, nacionais e internacionais, e também obras contemporâneas. Podemos, como professores mediadores, propiciar a nossos alunos um trabalho que contemple os lugares de suas origens — e de suas famílias. Nesta proposta, trazer imagens que são ricas em informação cultural que favoreçam discursos e reflexões acerca da diversidade, da pluralidade cultural e da importância social da imagem. Estas imagens poderão ser: fotografias, filmes, convites, desenhos e outros, que atestam a importância do registro de acontecimentos, cerimônias, costumes, ou seja, os vários modos de registrar momentos que revelam questões sociais, culturais e antropológicas. A partir deste registro, propor um trabalho onde o aluno possa estabelecer relações entre sua produção e o que está nas galerias, nos museus, nos catálogos de exposições ou em outros dispositivos, produzindo trabalhos artísticos que façam sentido a eles, que promovam um exercício rico de conhecimentos consistentes e, principalmente, a valorização do ensino-aprendizagem de Arte que, consequentemente, exige do professor reflexões acerca de sua própria formação (SANTOS, 2008, p. 331). Quais obras de arte o professor deverá utilizar para criar um repertório de seus alunos? Que tipos de obras de arte escolher? Que critérios utilizar? Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 99 1. Defina o que é galeria. 2. O que é educação formal? Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 100 Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 101 Seção 2 Fundamentos estéticos no ensino de artes visuais Caro aluno leitor, como é bom nos atualizarmos em relação à educação, às propostas contemporâneas do ensino de Arte. E é isto que propomos nesta seção, refletir sobre questões bem pertinentes ao momento em que vivemos, sendo assim, convidamos você a refletir sobre a cultura visual, sobre os conflitos que os professores de Arte sentem com relação às datas comemorativas, e também apresentaremos alguns conteúdos de artes visuais sugeridos no Ensino Fundamental I. Nesta seção falaremos e conceituaremos a cultura visual, falaremos como os professore de Arte lidam com o conflito de trabalhar ou não as datas comemorativas e qual a melhor solução para este trabalho, e em seguida apresentaremos algumas sugestões de conteúdos para serem trabalhados no Ensino Fundamental I. 3.1 A estética e o ensino de artes visuais Para iniciar esta seção buscamos em Magritte e sua pintura paradoxal, como uma provocação, para começarmos nossa reflexão. Isto não é um cachimbo, a obra do artista surrealista René Magritte nos faz pensar. Mas antes de comentarmos sobre a obra, vamos recordar brevemente do que se trata o surrealismo. Surrealismo, palavra que significa “o que está acima do realismo”, é o nome dado ao movimento artístico e literário de origem francesa, na década de 1920. O surrealismo foi um movimento de vanguardas que definiriam o modernismo nas duas décadas entre as guerras mundiais. No âmbito da arte, o pintor catalão Salvador Dalí é um dos nomes mais conhecidos do surrealismo. Na primeira fase do movimento foram seguidas noções do dadaísmo, como os pré-julgamentos, que criaram objetos fora do contexto, ou objetos surrealistas. Muitos artistas usavam meios técnicos tradicionais da pintura, e representavam mitos, fábulas e sonhos, que seguiam as normas surrealistas criadas em 1924 por Breton. Algumas dessas normas eram a exaltação dos processos Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 102 oníricos e da imaginação, assim como demonstrações da paixão erótica e do humor corrosivo, que eram manifestações opostas à cultura tradicional burguesa e aos valores morais definidos na sociedade. Você poderá saber mais acessando ao link: <http://www.significados.com.br/surrealismo/>. Na pintura de Magritte, logo abaixo, está escrito: Ceci n'est pas une pipe, que em português significa Isto não é um cachimbo. O pintor nega aquilo que estamos a ver. O que lhem vem à cabeça? Você pode me dizer por que não é um cachimbo? Que lembranças esta imagem lhe provoca? Fonte: Disponível em: <http://www.carlosmuller.com.br/?id=62&PHPSESSID=2da9772239392a8e02539a313d1e9560>. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.6 | Ceci n'est pas une pipe Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 103 A uma primeira análise, o significado desta negação torna-se claro, pois aquilo que estamos a ver não é um cachimbo verdadeiro, mas sim a representação de um cachimbo. Uma coisa é certa, seja qual for a ideia, tanto esta primeira impressão, quanto as posteriores, serão influenciadas pelos seus conhecimentos anteriores, sobre o objeto cachimbo. O entendimento de ser um cachimbo só poderá acontecer se a pessoa sabe o que seja um cachimbo e já o tenha visto, caso contrário, poderá ser qualquer outra coisa. Por trás de todo nosso conhecimento sobre algo estão internalizadas nossas percepções, lembranças e experiências. De acordo com Martins, Piscoque e Guerra (1998): A Traição das Imagens (em francês: La trahison des images) é uma pintura do pintor surrealista belga René Magritte. Este quadro, uma das obras-primas surrealistas do artista, está atualmente no Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA), Califórnia, e é considerado um ícone da arte moderna. O quadro, pintado em 1929, fazparte de uma série, na qual a imagem realista é acompanhada pela inscrição Ceci n'est pas une pipe, que em português significa Isto não é um cachimbo. Fortemente influenciado pela psicologia freudiana, o surrealismo representou uma reação contra o "racionalismo". A Traição das Imagens desafia a convenção linguística de identificar uma imagem de algo como a coisa em si. A princípio, o ponto de Magritte aparece simplista, quase ao ponto de uma provocação: "Uma pintura de um cachimbo não é um cachimbo". Na verdade, este trabalho é extremamente paradoxal. O seu estilo realista e o subtítulo remete para um anúncio publicitário, uma área em que Magritte teria trabalhado. René Magritte nega aquilo que estamos a ver. A uma primeira análise, o significado desta negação torna-se claro, pois aquilo que estamos a ver não é um cachimbo verdadeiro, mas sim a representação de um cachimbo. Deparamo-nos com um desafio àquilo que se convencionou chamar de "cachimbo", pois a nossa imagem de cachimbo está negada. Magritte como que esvaziou de sentido aquilo que entendemos como sendo a palavra "cachimbo". Não podemos identificar esta representação com aquilo que o objeto é, gerando-se, assim, um conflito de mensagens. Este quadro pode, portanto, tratar-se de um exemplo de paródia, na medida em que até à leitura da legenda, o espectador não tem dúvida de que É como se cada pessoa fosse gerando um "repertório" individual, um conjunto de valores, conceitos, ideias, sentimentos e emoções que vão tecendo uma rede de significações para si. Nessa rede, mesmo sem dar conta, estão os fios da filosofia, ética, estética, ideologia, política e cultura presentes na pessoa e no grupo ao qual pertence. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 104 se trata de um cachimbo. Este objeto que reconhecemos como sendo, então, a representação de um cachimbo, afinal não é o que estamos a pensar. A associação que fazemos entre a ideia de cachimbo e aquilo que entendemos como sendo um cachimbo está negada. A imagem, aqui, é o "ícone" de um cachimbo, já que realmente "se parece" com um cachimbo e, portanto, permite uma "excitação análoga na mente" de quem vê. A questão impele-nos a pensar que imagens diferentes evocam diferentes analogias na mente de quem vê, analogias que variam conforme o grau de excitação provocada pela imagem. Concluindo esta reflexão ou provocação inicial, vamos conversar acerca da cultura visual, assunto bem presente quando falamos de artes visuais. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Trai%C3%A7%C3%A3o_das_Imagens 3.2 Cultura visual Hernandez (2007), em seu livro Catadores da Cultura Visual, faz uma retrospectiva sobre a educação escolar, iniciando com o Iluminismo na perspectiva da educação escolar que deveria ensinar os indivíduos a ‘sujeitar-se’ para que deixassem de ser súditos e se convertessem em cidadãos. Nesta visão o Estado era o responsável pela educação, junto com a Igreja. Já na contemporaneidade, a narrativa é a do mercado, os alunos e as famílias são clientes, e o Estado deve fornecer os recursos mínimos para que a população seja atendida. Com isto, quem pode comprar ‘educação’ terá acesso a determinados serviços, quem não pode receberá o mínimo das instituições públicas. Neste século XXI, o que predomina em nossas escolas é a gerada pela colonização europeia desde o século XVI, ou seja, um dos resultados desta narrativa é a construção de uma visão do ‘nós’ e dos ‘outros’ determinada pela hegemonia do homem branco, cristão e ocidental (europeu e agora norte-americano). O outro é apresentado em posição de subordinação. As reformas educativas que são propostas pelos governos adaptam-se a responderem às narrativas dominantes. Mas por não responderem a algumas questões básicas, como, por exemplo, abandono escolar, todas as reformas ficam apenas na superfície, obcecadas com os sintomas, sem alcançar a raiz dos problemas. Neste sentido, a educação escolar deverá ser uma educação para indivíduos em transição, que construam e participem de experiências vivenciadas de aprendizagem, pelas quais aprendam a resolver questões que possam dar sentido ao mundo em que vivem, de suas relações com os outros e consigo mesmos. Nesta perspectiva, a pluralidade deve ser enfatizada, contrapondo-se à Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 105 homogeneização, isto é, aproveitar as diferenças ao invés de considerá-las um problema. Para que o aluno seja um participante ativo, é preciso encontrar formas de compreendê-lo, ou seja, mediante relações de reciprocidade, pois ensinar é um ato performativo. Os professores ou a educação como um todo, que está em crise, precisam criar novas narrativas e experiências de aprendizagem que venham estabelecer sentido aos alunos. Os professores precisam repensar suas práxis pedagógicas e criar novas estratégias de conhecer e de relacionar-se com o conhecimento de seus alunos, ultrapassando os limites do que parece aceitável. Quase tudo o que sabemos sobre o conhecimento produzido nos chega pelos meios de informação e comunicação. Estes, por sua vez, também constroem imagens do mundo. Imagens para deleitar, entreter, vender, sugerindo o que devemos vestir, comer, aparentar, pensar. Em nossa sociedade contemporânea discute-se a necessidade de uma alfabetização visual, que se expressa em várias designações, como leitura de imagens e compreensão crítica da cultura visual. Fonte:Disponível em: <http://www.robertocardosofreire.com.br/noticia/1/memoria___explica_preferencia_por_pepsi_ou_ coca-cola__>. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.7 | Propaganda Cientistas investigando a preferência das pessoas pelos refrigerantes Coca-Cola ou Pepsi disseram que a predileção tem mais a ver com influências culturais presentes na memória, como propagandas, do que com o gosto das bebidas. <http://www.robertocardosofreire.com.br/noticia/1/memoria___ explica_preferencia_por_pepsi_ou_coca-cola__>. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 106 Esta reflexão nos remete à "Cultura visual", que em alguns contextos também é chamada de estudos visuais. Trata-se de um campo de estudos recente em torno de trabalhar com questões que nos aproximam de nossos alunos, que façam parte de seus contextos e que são pertinentes ao momento em que vivemos. Precisamos alfabetizar visualmente nossos alunos, isto quer dizer que devemos enfrentar o desafio de: adquirir um ‘alfabetismo visual crítico’ que permita aos alunos analisar, interpretar, avaliar e criar a partir da relação entre os saberes que circulam pelos textos orais, auditivos, visuais, escritos, corporais, e pelos vinculados às imagens que saturam as representações tecnologizadas nas sociedades contemporâneas, pois vivemos em um mundo inundado por imagens, novas tecnologias, e quando utilizamos destes aparatos em prol da educação, nos aproximamos mais dos contextos de nossos alunos. São muitas as maneiras de aprender e ensinar, e, em meio a essa diversidade de interesses e abordagens, a cultura visual, como espaço de significados provisórios, nos impulsiona a buscar compreender as experiências e artefatos visuais que nos projetam no mundo ou que nos colocam em diálogo com o mundo. Os temas e questões que este livro levanta e problematiza apontam para a relevância que imagens e artefatos visuais têm para a reflexão contemporânea e, sobretudo, para o ensino de arte, como elementos propulsores de novas perspectivas que impactam as práticas pedagógicas. As narrativas contidas neste volume são abertas e se desdobram em linhas que atravessam, tematicamente, temporalidades e espacialidades pedagógicas com a expectativa de colocar em diálogoestudos de cultura visual e ensino de arte. Código: 978-85-7192-952-4 Autor: Raimundo Martins e Alice Fátima Martins Categorias: Arte, Ensino. Fonte: <http://wp.ufpel.edu.br/editoraufpel/livro/cultura-visual-e- ensino-de-arte-concepcoes-e-praticas-em-dialogo/>. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 107 Nossa finalidade deveria ser a de facilitar experiências reflexivas críticas, experiências que permitam aos estudantes terem a compreensão de como as imagens influem em seus pensamentos, em suas ações e sentimentos, bem como refletir sobre suas identidades e contextos sócio-históricos. A partir da relação que cada ser humano estabelece com seu contexto social e cultural desde seu nascimento, derivam e interagem as representações visuais. Estas formas de relação contribuem para dar sentido à sua maneira de sentir e de pensar, de olhar-se e de olhar. Pensando na educação, há uma distância entre a ‘pedagogia cultural’ (influência da cultura popular fora da escola) e a ‘pedagogia escolar’. Portanto, há que se pensar em uma aproximação entre ambas. Neste sentido, as artes visuais mostram-se cada vez mais dependentes da cultura dos meios de comunicação da vida cotidiana e tecnologias novas. Sendo assim, esta disciplina torna-se muito importante nesta tarefa. Pensando nesta problemática, pois os conteúdos e as formas de ensino encontram-se em crise, temos que nos apropriar de novos saberes e de maneiras alternativas de explorar e de interpretar a realidade, em comparação às atuais disciplinas escolares. A "alfabetização visual" dará ao aluno condições de conhecer melhor a sociedade em que vive, interpretar a cultura de sua época e tomar contato com a de outros povos. Mais: ele vai descobrir as próprias concepções e emoções ao apreciar uma imagem. Qual é o papel do professor diante desta alfabetização visual? Cultura visual é um campo de estudos que aborda os processos culturais: hábitos, costumes visuais, referentes a um ou vários povos. Área que, sobretudo, procura entender os aspectos visuais como fonte de transmissão cultural e as relações e interferências que os sistemas culturais acarretam ao processo visual de identificação e entendimento do mundo e da realidade. Por essas razões, geralmente inclui alguma combinação de estudos culturais, história da arte e antropologia, enfocando aspectos da cultura que se apoiem em imagens. Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura_visual>. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 108 O que fazer neste sentido? Primeiramente, trabalhar em sala de aula com a Cultura Visual, pois este trabalho nos permite a aproximação com estas novas realidades na perspectiva de reconstrução das próprias referências culturais e das maneiras das pessoas olharem- se e serem olhadas. É um olhar mais atento ao mundo. É promover uma aproximação destes ‘lugares’ culturais com os alunos, para que estes encontrem suas referências para construir suas experiências de subjetividade. Todo saber que não faz parte do currículo, a escola exclui. Desta forma, a proposta é representar os objetos e os usos cotidianos que a escola exclui, que são marginalizados, no entanto, que estão contribuindo para construir as subjetividades de crianças e jovens. Neste sentido, as artes visuais se propõem a ter como base a cultura visual. Experimente contar quantas imagens você vê diariamente. São construções em diversos estilos, carros de vários modelos, pessoas vestidas cada uma a seu gosto. Há ainda a poluição visual das cidades, com propagandas e pichações, a televisão, a internet, as fotos de jornais e revistas... Alunos e alunas usam adereços nos cabelos e enfeitam cadernos com ilustrações de todo tipo. Muitas vezes isso passa despercebido e parece não ter sentido. Ledo engano. Esses elementos visuais estão carregados de informações sobre nossa cultura e o mundo em que vivemos. Portanto, têm muito a ensinar. A cultura visual – nome desse novo campo de estudo - propõe que as atividades ligadas à arte passem a ir além de pinturas e esculturas, incorporando publicidade, objetos de uso cotidiano, moda, arquitetura, videoclipes e tantas representações visuais quantas o homem é capaz de produzir. Trata-se de levar o cotidiano para a sala de aula, explorando a experiência dos estudantes e sua realidade. Essa "alfabetização visual" dará ao aluno condições de conhecer melhor a sociedade em que vive, interpretar a cultura de sua época e tomar contato com a de outros povos. Mais: ele vai descobrir as próprias concepções e emoções ao apreciar uma imagem. "O professor tem de despertar o olhar curioso, para o aluno desvendar, interrogar e produzir alternativas frente às representações do universo visual", afirma Fernando Hernández, professor da Faculdade de Belas Artes de Barcelona, na Espanha. FONTE: http://revistaescola.abril.com.br/arte/fundamentos/mundo-imagens-ler-426380.shtml A arte/educação, hoje, integra as artes visuais, a cultura visual, a comunicação visual e a educação no modelo de Lindström, que Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 109 Em segundo lugar, outra possibilidade de aproximar a ‘pedagogia cultural’ à ‘pedagogia escolar’ é ter compreensão crítica da representação visual, das funções sociais e das relações de poder às quais se vincula a cultura visual, pois esta ocupa uma parte significativa da experiência cotidiana das pessoas. Uma proposta, no sentido de repensar a partir de outro ângulo alguns problemas deste momento cultural em que vivemos, acontece com o surgimento da cultura visual como um campo de investigação transdisciplinar. Um exemplo desta proposta de cultura visual é fazer exercícios que possam relacionar o mundo da arte com o imaginário popular, com base em um tema ou em um problema comum, transitar do conhecido em direção ao desconhecido, e também construir pontes, em termos de apropriações, entre a cultura visual popular e as artes visuais tidas como tradicionais, mas que, em situações de intertextualidade, produzem novas representações e significados. ‘Alfabetismos múltiplos’ ou ‘novos alfabetismos’, propõem uma perspectiva onde os educadores, junto com os alunos, organizem experiências de aprendizagem que permitam: - aprender a relacionar meios de comunicação tradicionais e emergentes; - fazer apreciações criativas e expressá-las de diferentes formas; - comunicar-se utilizando linguagens e formas de compreensão multiculturais; - ter um bom domínio dos diferentes alfabetos (multimídia, oral, visual, escrito, performativo, etc.) e da numeração (aprender a pensar matematicamente). Neste sentido, professor e aluno devem aprender a ser (multi)alfabetizados, levando o professor a criar condições apropriadas para a aprendizagem e leve em conta o universo de experiências dos estudantes. Levantamos o fato de que os repertórios para o ensino do passado são insuficientes e, com frequência, inapropriados para trabalhar com os estudantes do presente e do futuro. Não existe um caminho preestabelecido e predeterminado. REPERTÓRIO: Numa simplificação conceitual, repertório ou subcódigo é o arquivo dinâmico de experiências reais ou simbólicas de uma pessoa ou grupo social […] tem recorrência no conceito de memória, de imaginação e, em corresponde exatamente ao universo de integração com o qual trabalho. Fonte: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/ viewFile/9288/6778>. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 110 última instância, no de conhecimento. Mas é importante ter sempre presente o aspecto dinâmico desses conceitos. Assim como repertório, a memória, a imaginaçãoe o conhecimento não são arquivos mortos, passivos. (MESERANI 1986: 17-8, apud MARTINS, PISCISQUE E GUERRA, 1998). Em terceiro lugar, para desenvolver uma perspectiva de uma compreensão crítica e performativa da cultura visual, várias questões devem ser consideradas: - as experiências de vida dos estudantes, referentes às manifestações da cultura visual, não são para serem pedagogizadas, mas para se fazerem relações com questões de investigação; - a satisfação que os estudantes sentem com a cultura visual ou que esta lhes propicia em suas vidas, não é um aspecto a ser recriminado ou reprimido, mas a ser transformado em questões sobre o papel que desempenha na construção de suas subjetividades; - sobre as interpretações que os estudantes estabelecem relacionadas à cultura visual, não se pode definir que ‘vale tudo’ e que qualquer coisa que seja dita ou representada por eles seja motivo de aplausos; - cuidar para que os estudantes aprendam a fundamentar suas interpretações, que tenham suporte para uma análise crítica da cultura visual, de modo que possam conviver com diferentes manifestações visuais a partir de posições que lhes possibilitem assumir novos desafios, fazer contestações e diferentes relações. O objetivo é a reflexão dos alunos acerca das manifestações da cultura visual e sua relação com o poder. Por exemplo: A boneca Barbie é um bom exemplo de uma poderosa influência das mídias da cultura popular e da cultura visual sob a construção da identidade de gênero nos jovens, tanto das moças como dos rapazes, pois estes podem ver as meninas e moças como Barbies ou esperar que elas sejam como Barbies. A partir do que é veiculado na mídia, criar momentos de criticidade onde o professor trabalhará, por exemplo, o significado de homem e mulher em relação à leitura interpretativa de situações como esta da cultura popular. Propiciando, assim, condições de nos inserirmos na perspectiva de educação crítica e performativa da cultura visual. Em quarto lugar, assumirmos uma ‘metodologia visual crítica e performativa’ que pressupõe: - pensar a respeito do visual em termos de significado cultural, das práticas sociais e das relações de poder em que estejam implicadas as imagens e as práticas de visualidade, ou seja, as maneiras de olhar e de produzir olhares. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 111 - refletir sobre as relações de poder que se estabelecem e articulam-se por meio das imagens. - considerar as representações da cultura visual como discursos que refletem práticas culturais. Partir de temas pertinentes ao momento em que vivemos e que, ao mesmo tempo, tenham relação com seus contextos, com suas vidas, suas inquietudes, representando desafios, promovendo, desta forma, uma aprendizagem com significado, dando-lhes a oportunidade de construírem experiências de subjetividade. Temas e problemas que ajam como formadores de atitudes, crenças e valores – discursos. A primeira tarefa é propor um tema ou problema em torno do qual se desenvolve a investigação. O passo seguinte é coletar evidências (de imagens, artefatos, eventos, textos, documentos, arquivos etc.). A seguir, pode-se explorar o conteúdo das representações da cultura visual, sua retórica e seu simbolismo cultural. No fim do trajeto, decide-se o que fazer para dar conta do que foi aprendido, com a finalidade de divulgar, com os outros e para os outros, as experiências e descobrimentos que cada um realizou. Os professores deixam de ser transmissores de informações a uma audiência passiva, para se transformarem em atores, junto com os alunos, em um processo de reelaboração de suas próprias experiências. Por fim, em quinto lugar, trabalhar na perspectiva educativa dos projetos de trabalho (PdT). Esta é uma proposta de que a escola pode ser um espaço para o favorecimento da igualdade e da emancipação dos indivíduos. Algo que só poderá acontecer se a aprendizagem tiver por base as experiências dos próprios sujeitos que constituem o centro do processo educativo. Os PdTs se caracterizam por: - ser um formato para a indagação que nos permite estruturar e contar uma história (uma história que tem a ver conosco). - não se construir a partir da certeza de quem sabe, mas a partir da inquietude de quem tem e reconhece seu desejo de saber e de se conhecer. - ter por base a construção de um relato que não se articula de maneira fragmentada, linear e descontextualizada. - levar em conta a necessidade de abordar múltiplos alfabetismos. - ser tarefa do docente fazer perguntas que desafiem os alunos a examinar suas suposições caso as considere conceitualmente inadequadas. Um projeto de trabalho pode começar: Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 112 a. Por uma pergunta ou uma situação relevante, no sentido de sua conexão com problemas emergentes b. Por um tema que faça parte das inquietudes das crianças Por exemplo: que significados meninos e meninas dão às imagens do corpo? VEJA UM EXEMPLO DE AULA QUE APRESENTA A CULTURA VISUAL Dados da aula O que o aluno poderá aprender com esta aula: • Pesquisar a influência da cultura visual na vida cotidiana dos adolescentes. • Investigar os hábitos cotidianos em sua relação com a cultura visual e o consumismo. • Analisar de forma crítica o fenômeno do consumismo na vida cotidiana dos jovens. Duração das atividades Cinco aulas de 50 minutos cada. Conhecimentos prévios trabalhados pelo professor com o aluno Dispensa conhecimentos prévios. Estratégias e recursos da aula Aula 1 1-Iniciar a aula mostrando aos alunos as seguintes imagens: Fonte: Disponível em: <http://agenciapontocom.wordpress. com/tag/propaganda/>. Acesso em: 11 jun. 2013. Fonte: Disponível em: <http://www.prograd.uff.br/sensibiliza/emissoras- de-televis%C3%A3o-no-brasil-dever%C3%A3o- ter-audiodescri%C3%A7%C3%A3o-para-pessoas- com-defici%C3%AAncia-at%C3%A9-2011>. Acesso em: 11 jun. 2013. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 113 2- Explicar aos alunos o conceito de cultura visual e sua relação com o consumismo. Apresente algum texto complementar para leitura. 3- Lançar uma série de perguntas (no quadro ou impressas) aos alunos para que discutam aos pares. O objetivo desse primeiro momento é despertar-lhes a curiosidade e o interesse no tema: 1- O que é propaganda? (Dê exemplos). 2- Quais são os seus objetivos? 3- Quem paga a propaganda? 4- O que é publicidade? (Dê exemplos). 5- Quais são os seus objetivos? 6- Quem paga a publicidade? Permitir aos alunos que manifestem suas opiniões. Finalizar esta breve introdução explicando ao grupo que, apesar de algumas pessoas entenderem os termos publicidade e propaganda como sinônimos, há autores que diferenciam propaganda de publicidade. Para eles, a propaganda é entendida como um meio de propagar ideias religiosas ou políticas, sem necessariamente apresentar um cunho comercial. O objetivo Fonte: Disponível em: <http://msgdeluz.blogspot.com.br/2012/09/consumismo.html>. Acesso em: 12 jun. 2013. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 114 seria o de convencer o interlocutor a aderir a um sistema ideológico e quem paga é o Estado. Já a publicidade consistiria, especificamente, em produções imagéticas utilizadas com o objetivo de obter lucro na venda de produtos ou serviços. Quem paga a publicidade, nesse caso, é o próprio produto. A proposta de fazer tal diferenciação junto aos alunos é a de sensibilizá- los quanto aos objetivos implícitos de muitas imagens que lhes são impostas pela mídia, de forma que eles possam compreender as mensagense se posicionarem criticamente diante delas. Contudo, o professor poderá acordar com os alunos que durante as aulas será feita a utilização do termo propaganda, compreendendo-a de maneira geral, o que engloba a publicidade e a utilização de imagens com objetivo comercial e ideológico. Aula 2: 1-Introduzir os conceitos de mensagens explícitas e mensagens implícitas nas propagandas. Explicar aos alunos que por mensagens explícitas compreendem-se as informações claras que a propaganda demonstra, ou seja, o objetivo explícito de determinada propaganda. Já as mensagens implícitas correspondem aos conteúdos ideológicos mais ocultos, como, por exemplo, quando a imagem de um produto é associada a uma qualidade de quem o consome, como a imagem de um carro pode ser associada à detenção de poder; ou a imagem da cerveja associada à virilidade; assim como perfumes e elegância, etc. O professor poderá recorrer a dois exemplos de propagandas analisadas no artigo “A imagem em sala de aula: cultura visual e a formação de consumidores”, nas páginas 461 a 464, disponível em: <http://www.uel.br/eventos/eneimagem/anais2011/trabalhos/pdf/ Bruna%20Carolini%20Barbosa.pdf>. 2-Formar grupos de quatro a cinco alunos, entregar revistas aos grupos e solicitar que recortem imagens de propagandas e publicidades, elaborando um painel com cartolina ou papel pardo para apresentarem à turma. O painel deverá conter: - As imagens de propagandas e publicidade afixadas. -Explicações dos alunos contendo o que eles pensam sobre as imagens e quais as mensagens explícitas e implícitas apresentadas pela propaganda. 3- Apresentações dos grupos (10 minutos para cada). Orientar aos alunos que expliquem por que escolheram tais imagens, que descrevam cada uma para a turma e expliquem as mensagens explícitas e implícitas apresentadas. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 115 Aula 3 1- Para sensibilizar os alunos, preparando-os para assistirem ao vídeo, explicar que será apresentado um vídeo sobre consumismo infantil, mas que antes eles deverão escrever em seus cadernos a seguinte afirmação: “A publicidade leva o aluno a pensar que somente fará parte da sociedade se ele comprar determinados produtos, será alegre, aceito e é levado a acreditar e concordar com conceitos e valores que muitas vezes nem são os seus (...)” (BARBOSA, 2011, p. 459). 2-Solicitar a alguns alunos que comentem oralmente a afirmação. Após os comentários, explicar que o vídeo tratará deste tema e orientar para que cada aluno eleja e registre pelo menos uma frase interessante ou marcante do vídeo. 3- Apresentar o vídeo: Criança, a alma do negócio. Duração do vídeo: 49 minutos e 5 segundos. Fonte: <http://www.youtube.com/watch?v=49UXEog2fI8>. Aulas 4 e 5 1- Formar grupos de quatro a cinco alunos e orientar para que cada um compartilhe uma frase escolhida a partir do vídeo e explique para o grupo o motivo pelo qual escolheram tal frase. 2- Disponibilizar uma folha para os alunos e explicar que, em grupo, deverão utilizá-la para a elaboração de uma redação coletiva. Orientações para a redação coletiva: O tema da redação será o Consumismo Infantil, mas os alunos terão a liberdade de escreverem conforme o que mais lhes chamou a atenção no vídeo. Assim, o professor marcará o tempo para que a folha seja rodada no grupo, podendo estipular um minuto por vez para cada aluno escrever um pouco, procurando sempre dar continuidade ao que foi escrito anteriormente pelos colegas. A condição da redação é que ela tenha coesão e não seja apenas um recorte sem sentido de frases. Na redação deverão constar também as frases escolhidas por cada aluno, que deverão estar concatenadas com o vídeo. Assim, os alunos deverão redigir o texto em caráter colaborativo e buscarão encaixar as frases de forma que o texto tenha coesão. Este trabalho pode ser feito em 20 minutos. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 116 3 - Em seguida, o professor organizará uma apresentação em que cada grupo lerá a sua redação coletiva. Uma vez que os alunos fizeram as redações, preparar a turma para realizar entrevistas durante o recreio, na qual eles se reunirão em grupos de quatro a cinco alunos e cada grupo fará entrevistas com cinco alunos. Seguem sugestões de perguntas: a) Você tem ou já teve algum “sonho de consumo” (desejo de consumir algum produto ou serviço)? Qual? b) O que você acha que o influenciou para ter vontade de comprar o produto ou serviço que representa esse sonho de consumo? c) Alguma propaganda já influenciou para que você desejasse adquirir algum produto? Descreva a propaganda. Orientar aos alunos para que eles registrem as respostas e busquem analisá-las a partir de elementos que encontrarem em comum entre elas, além de destacarem três aspectos que mais chamaram a atenção do grupo sobre os dados coletados por eles. Por fim, os alunos deverão relacionar o trabalho com o vídeo apresentado na aula, a partir das seguintes perguntas: -As respostas que encontraram nos questionários são de acordo com o que vocês viram no vídeo? Por quê? -O que vocês encontraram em comum entre as respostas dos alunos e o vídeo assistido? -Houve diferença entre o que foi analisado nas respostas dos alunos e as ideias transmitidas a partir do vídeo? Em qual sentido? Os alunos deverão entregar o trabalho por escrito na próxima aula e preparar uma apresentação de dez minutos sobre a pesquisa realizada. Para a apresentação, recomendar aos alunos que elaborem uma apresentação criativa, utilizando diferentes linguagens, como música, desenho, poesia, dentre outras. A apresentação poderá ser filmada, fotografada e juntamente com a redação coletiva e o trabalho escrito divulgada, socializada por meio do site da escola ou por outro meio. Professor, faça parceria com outros professores para realizar uma Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 117 campanha contra o consumismo infantil, de modo que sejam aproveitadas as apresentações dos alunos na hora do recreio da escola. Esta iniciativa poderá promover a divulgação de um tema tão importante de ser debatido nos dias atuais. Recursos Complementares BARBOSA, Bruna Carolini. A imagem em sala de aula: cultura visual e a formação de consumidores. III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 - Londrina – PR. Disponível em: <http://www.uel.br/eventos/eneimagem/anais2011/trabalhos/pdf/ Bruna%20Carolini%20Barbosa.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2013. MARTINS, Raimundo. Hipervisualização e territorialização: questões da cultura visual. Educação & Linguagem, v. 13, n. 22 • 19-31, jul.-dez. 2010. Disponível em: <http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache: T0q9sdScwekJ:https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/EL/ article/download/2437/2391+hipervisualiza%C3%A7%C3%A3o+e+territorializa %C3%A7%C3%A3o&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br>. Acesso em: 13 jun. 2013. PEREZ, Karine Gomes. Considerações Sobre a Cultura Visual e Sua Influência no Imaginário Adolescente: Um Estudo a Partir da Construção Plástica e do Conceito de Apropriação. Revista Nupeart, v. 8, 2010. Disponível em: <http:// www.revistas.udesc.br/index.php/nupeart/article/view/3070/2266>. Acesso em: 11 jun. 2013. Avaliação A avaliação será feita mediante a participação e envolvimento nas atividades desenvolvidas nas aulas, através do conteúdo dos trabalhos escritos produzidos e pela argumentação apresentada a respeito da relação entre cultura visual e consumismo. Fonte: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula. html?aula=49937>. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal deeducação em artes visuais U3 118 Sugestão de leitura: artigo A cultura visual antes da cultura visual - Ana Mae Tavares Bastos Barbosa Fonte: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/ viewFile/9288/6778>. 3.3 Datas comemorativas O professor de Arte (artes visuais, música, dança e teatro), em sua práxis pedagógica, precisa ter embasamento teórico com relação à arte, mas também precisa saber fazer a transposição didática, ou seja, propiciar a seus alunos momentos de produção artística, de reflexão, de conhecimento histórico e, principalmente, de apreciação estética, ou seja, levá-los a conhecer arte e manifestações artísticas de diversas épocas, lugares e contextos, aproximando-os do legado artístico e cultural da humanidade. Enfim, provocá-los a realizar trabalhos artísticos, a conhecerem da arte na humanidade e, principalmente, a terem experiências estéticas. Existem muitos equívocos com relação ao ensino de Arte. Esta área do conhecimento é pensada de forma descontextualizada, estanque, com reproduções (cópia) de modelos prontos (cartões de datas comemorativas, reproduções em série de trabalhos com sucatas, desenhos prontos para serem coloridos e outros), enfim, minimizam uma área tão relevante do conhecimento, reduzindo-a apenas ao fazer, e, geralmente, um fazer sem boa, ou melhor, totalmente desprovida de qualidade estética, de contextualização histórica. Não há o entendimento das mudanças da arte de acordo com o tempo e a cultura, da arte como manifestação cultural, e que deva ser valorizada tanto a arte popular como também a arte erudita, e a compreesão dos produtores de arte como agentes construtores da história e a importância desta na vida do ser humano. Com relação às datas comemorativas, estas foram e continuam sendo um dos problemas enfrentados pelo professor de Arte, pois festejar nas escolas brasileiras tais datas é algo muito comum, que faz parte da cultura escolar. No entanto, para o professor de Arte, e acredito também que para o professor de História, seja extremamente complicado, e faremos uns parênteses, para abordarmos rapidamente esta questão. Organizar festas e pensar em modelos de cartões e lembrancinhas são solicitações constantes por parte de diretores, pedagogos ou professores colegas, aos professores de Arte. Digo isto com bastante segurança, pois cabe aqui um relato meu: estive lecionando na Educação Infantil, Ensino Fundamental I e II, em sala de Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 119 aula por 16 anos, ministro cursos de formação continuada a professores de Educação Infantil e Fundamental I há 17 anos, há 11 anos trabalho com o Ensino Superior em licenciaturas e trabalho na Secretaria Municipal de Educação de Londrina há 13 anos. Sendo assim, conheço muito de perto o contexto escolar e tenho muita segurança em comentar sobre este assunto, que às vezes é evitado. Inúmeras vezes, imagino que passei por situações complicadas, tanto como professora, como também como Assessora de Arte, onde minha postura talvez não tenha agradado muito, ao recusar fazer pastas com modelos de cartões, trabalhar datas comemorativas e outros. Mas o que me manteve e fez com que este público acadêmico e docente me respeitasse foi a minha postura, vivência e a fundamentação teórica que tenho, por isso a importância de nos envolvermos com o que nos propusemos a fazer, sermos professores e constantes pesquisadores. De acordo com Ana Maria Petraitis Liblik, Isoldi Ciscato e Thais Gralik (2012): Diante deste dilema que sofre o professor de Arte, entre realizar atividades que sempre foram contestadas por teóricos e também criticadas pelos seus docentes durante o período em que estavam na academia e se entregar aos costumes que fazem parte da cultura escolar, proponho para uma solução que talvez amenize tal situação, sem fugir de suas convicções. Não podemos esquecer que as escolas são laicas, sendo assim, há que se pensar em uma forma respeitosa, em determinadas datas comemorativas, como, por exemplo, a Páscoa, de como procedermos. Não podemos nos esquecer da O profissional do ensino de Arte passou por diversas fases – desde a mais completa isenção sobre o assunto até a participação obrigatória neste cotidiano. Neste vai-e-vem de tendências podemos ver de tudo. É comum ainda hoje encontrar pelos corredores das escolas “enfeites” feitos pelos alunos sob a batuta da professora e que se referem a datas específicas, tais como Páscoa, Dia das Mães, Festas Juninas e outras mais que todos conhecemos. Coelhinhos mimeografados, com um pompom de algodão, quem pode dizer que nunca viu? Cartões para comemorar o Natal com bastante purpurina como se isso desse um brilho especial à data... Cocares empertigados nas cabeças das crianças para comemorar o Dia do Índio, ou uma profusão de corações vermelhos para festejar o Dia das Mães são alguns dos exemplos que fazem parte deste universo. De um lado, o professor que acredita que deva fazer algo nestas datas e do outro a instituição escolar que pressiona e até obriga o profissional a participar. Outros que não acreditam e outros que não querem fazer. Quem está certo? Será que há uma única verdade? O que fazer frente a este impasse? Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 120 liberdade de escolha de cada família, nestes momentos é que exercitamos a beleza da diversidade cultural que compõe o contexto escolar, política e religiosa, que cada um crê e propaga. E ao abordarmos estas datas comemorativas, deveremos fazer sem dogmas e doutrinas únicos, senão não haveria como lidar com as diferenças e semelhanças que tanto contribuem para que sejamos mais tolerantes e renovados. As datas comemorativas são abordadas nos currículos, portanto podemos encontrar outras maneiras para que tornemos estes momentos de comemoração ou a forma como conduzimos estas datas em uma situação pedagógica rica, que é resgatar as origens, histórias e as diferentes culturas para construir ideias sobre o tema respeitando a faixa etária e as ideias acerca do assunto que todas as crianças têm já construído, para partir para outros conceitos. Também devemos tomar cuidado no sentido de não destruir fantasias por parte dos alunos, que cada família escolheu para viver essa data. Sendo assim, entendemos que alguns cuidados e procedimentos poderão ser tomados, como: o professor deve contextualizar esta comemoração, ou seja, desenvolver um projeto que trabalhe o verdadeiro sentido da Páscoa, desvinculá-la do consumismo que há em torno desta comemoração, ou então levá-los a pensar de forma crítica. Como mencionamos há pouco, este consumismo, o professor poderá, neste momento, puxar um link com a Pop Art, que demonstra com suas obras a massificação da cultura popular capitalista. FONTE: Disponível em: <http://carolina.lasindias.com/cocinar-como-eleccion>. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.8 | Sopa Campbells - Andy Warhol Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 121 Ainda pensando na Páscoa, o professor deverá evitar os estereótipos e mostrar a imagem verdadeira. Figura 3.9 | Coelhos Figura 3.10 | Estereótipo Pop art (ou Arte pop) é um movimento artístico surgido na década de 50 na Inglaterra, mas que alcançou sua maturidade na década de 60 em Nova York. O nome desta escola estético-artística coube ao crítico britânico Lawrence Alloway (1926-1990). A Pop art propunha que se admitisse a crise da arte que assolava o século XX, desta maneira pretendia demonstrar com suas obras a massificação da cultura popular capitalista. Procurava a estética das massas, tentando achar a definição do que seria a cultura pop, aproximando-se do que costuma chamarde kitsch (estilo). Diz-se que a Pop art é o marco de passagem da modernidade para a pós-modernidade na cultura ocidental. Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, nos anos 40, cunharam o termo Indústria cultural. O conceito analisa a produção e a função da cultura no capitalismo e relaciona cultura como mercadoria para satisfazer a utilidade do público. A defesa do popular traduz uma atitude artística adversa ao hermetismo da arte moderna. Nesse sentido, esse movimento se coloca na cena artística como uma das mãos que não se movia. Com o objetivo da crítica tônica ao bombardeamento da sociedade capitalista pelos objetos de consumo da época, ela operava com signos estéticos de cores inusitadas massificados pela publicidade e pelo consumo, usando como materiais principais: gesso, tinta acrílica, poliéster, látex, produtos com cores intensas, fluorescentes, brilhantes e vibrantes, reproduzindo objetos do cotidiano em tamanho consideravelmente grande, como de uma escala de cinquenta para um, objeto pequeno, e depois ao tamanho normal. Um nome expressivo da Pop Art americana foi: Andy Warhol. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 122 Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Textura#mediaviewer/>. Acesso em: 27 mar. 2015. Fonte: Disponível em: <http://esporteregionalvgpta.blogspot.com.br/2014/03/jornal-da-usp-ano-xxiv-n849-de-20-26- de_1406.htm>html. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.11 | Dürer - Lebre jovem Figura 3.12 | Leda Catunda Enfim: não trabalhar com estereótipos, encontrar links entre a comemoração e a arte (manifestações artísticas, obras de arte), isto é, fazer alguma ligação com um período artístico, uma obra ou algo relacionado à arte. Veja a seguir como podemos deixar a Páscoa muito bonita possibilitando, além do conhecimento sobre o verdadeiro espírito da Páscoa, outras aprendizagens e uma forma de trabalhar datas comemorativas livres de “dor na consciência”, onde o aluno possa realizar um trabalho de boa qualidade estética. Figura: A arte de Leda catunda, Sérgio Niculitcheff e Ciro Cozzolino: recordações dos desafios da arte há 30 anos Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 123 Fonte: Disponível em: <http://obviousmag.org/archives/2011/04/pessankas_a_arte_de_colorir_ovos_de_pascoa.html>. Acesso em: 27 mar. 2015. Fonte: Disponível em: <http://www.cutedrop.com.br/2012/04/o-que-fazer-com-cascas-de-ovos-na-pascoa/>. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.13 | Pessankas: a arte de colorir ovos de Páscoa Figura 3.14 | Mosaico Sugestão de leitura: Ana Maria Petraitis Liblik, Isoldi Ciscato e Thais Gralik. Datas comemorativas: fazendo arte ou não? In Arte na Escola – Instituto Ioshi. Disponível em: <http://artenaescola.org.br/sala-de-leitura/art igos/art igo. php?id=69366>. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 124 Fonte: Disponível em: <https://quadroseretratos.wordpress.com/2012/04/05/a-verdadeira-pascoa-crista/>. Acesso em: 27 mar. 2015. Figura 3.15 | La Pietá de Villeneuve “Ele não está aqui, mas ressuscitou” (Lucas, 24,6). …E o sepulcro vazio está, porque Ele vive! Fonte: <https://quadroseretratos. wordpress.com/2012/04/05/a- verdadeira-pascoa-crista/>. 3.4 O ensino de artes visuais e a estética Conforme vimos na unidade anterior, o ensino de Arte passou por várias tendências pedagógicas e até nossos dias muitas perduram. Precisamos nos posicionar como professores de artes visuais, a partir de uma proposta contemporânea que tenha por objetivo o estudo da cultura visual, o conhecimento e trabalho realizado em espaços artísticos e culturais diversos, o ensino multicultural a articulação entre a arte e a tecnologia, a democracia da arte, isto é, arte para todos, e não apenas para um grupo seleto. O ensino de Arte só será valorizado no meio acadêmico e também no mercado Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 125 de trabalho quando as pessoas perceberem que, para ensinar Arte, é preciso ser um profissional da área e não apenas ter habilidades artísticas. O ensino em Arte amplia o repertório cultural do aluno a partir dos conhecimentos estéticos, artísticos e contextualizados, aproximando-o do universo cultural da humanidade nas suas diversas representações. Com relação às concepções de estética, faz-se necessário abordamos novamente este assunto, embora em outras disciplinas já tenha sido abordado. Devido à complexidade do assunto, torna-se interessante que diferentes professores, em diferentes momentos e de diferentes formas, expliquem sobre estética, já que esta permeia o estudo da arte. Quando um mesmo assunto é abordado de diferentes formas, no nosso caso: aula expositiva, imagens, vídeos, texto escrito, há uma probabilidade de que o ensino e a aprendizagem em Arte aconteçam de forma eficaz. De acordo com a psicologia cognitiva, a aprendizagem envolve a produção de significados. O aluno aprende um conteúdo, um conceito, um determinado procedimento, um valor a respeitar, quando consegue lhe atribuir significados. Quando ele aprende de modo puramente memorístico, não atribui significado ao conteúdo (COLL, 2002). Esse exemplo de aprendizagem com variados modos instrucionais nos remete ao conceito de multimodos, que significa ensinar um mesmo conteúdo de diferentes modos, pois há, nessa ação instrucional, uma maior probabilidade de que a aprendizam aconteça. Muitos autores aproximam os multimodos à aprendizagem significativa de Ausubel (AUSUBEL; NOVAK; HANESIAN, 1980). A linha de pesquisa em multimodos e múltiplas representações vem, atualmente, inspirando ações instrucionais na educação científica. Múltiplos modos de representação referem-se à prática de representar um mesmo conceito de várias maneiras ou em diferentes linguagens, sejam elas descritivas (verbal, gráfica, tabular, diagramática, fotográfica, por mapas ou cartas), experimentais e matemáticas, figurativas (pictórica, analógica e metafórica), gestuais ou corporais. David Best (1985), escultor americano de renome internacional, diz que em muitos casos, os julgamentos artísticos envolvem julgamentos estéticos, por isso a necessidade de um profissional, com formação, para realizar uma avaliação ou fazer um julgamento de uma produção artística. Ao analisarmos uma obra de arte, por exemplo, podemos ter muitas apreciações estéticas, ter uma experiência estética, pois esta depende da nossa história de vida, do conhecimento que temos com relação à obra de arte, seu produtor e o contexto em que foi criada, o contexto em que estamos, nossa idade, o momento em que vivemos e muito mais, é semelhante à leitura de um livro: a cada leitura, mesmo que seja do mesmo livro, temos impressões e entendimentos diferentes. A estética não diz respeito apenas à arte, ela está presente em outras áreas do conhecimento. O estético em arte está relacionado com beleza, organização e sensibilidade, ou seja, à compreensão sensível, cognitiva do objeto artístico, inserido Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 126 em um contexto sociocultural. A arte apresenta três funções principais: a pragmática ou utilitária, a naturalista e a formalista. Vamos conhecer cada uma delas. Função pragmática ou utilitária: esta arte não tem uma finalidade artística, estas finalidades poderão ser: pedagógicas, religiosas, políticas ou sociais. Não interessa aqui se a obra tem ou não qualidade estética, o que importa é sua utilidade. Quando o comportamento, a produção intelectual ou artística de um povo são determinados por sua utilidade, esta cultura pode ser chamada pragmática. Fonte:Disponível em: <http://www.eba.ufmg.br/alunos/kurtnavigator/arteartesanato/origem.html>. Figura 3.16 | Vaso de barro sem asa As primeiras cerâmicas de que se tem notícia são da Pré-história: vasos de barro, sem asa, que tinham cor de argila natural ou eram enegrecidos por óxidos de ferro. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 127 Função naturalista: é a representação mais natural possível da realidade, é uma arte naturalista que retrata objetos, pessoas ou lugares. Para a função naturalista o que importa é a correta representação (perfeição da técnica) para que possamos reconhecer a imagem retratada. Função formalista: A função formalista trabalha com os princípios que determinam a organização da imagem – os elementos e a composição da imagem. Esta função atribui maior qualidade na forma de apresentação da obra, preocupando- se com seus significados e motivos estéticos. Com o formalismo nas obras, o estudo e entendimento da arte passaram a ter um caráter menos ligado às duas funções anteriores, importando-se mais em transmitir e expressar ideias e emoções através de objetos artísticos. Foi só a partir do séc. XX que a função formalista predominou nas produções artísticas através da arte moderna, com novas propostas de criação. O conceito de arte que temos hoje em dia é derivado desta função. Fonte: <http://pt.slideshare.net/gjrdesign/apostila-de-arts-visuais-revisada-e-ampliada-2014>. Fonte: Almeida Júnior Figura 3.17 | Caipira Picando Fumo Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 128 O Abaporu. Tarsila do Amaral São Paulo. Brasil. 1927 Figura 3.18 | Abaporu Esta pintura a óleo marca o início nas artes visuais do movimento cultural conhecido como Modernismo no Brasil. Ela simboliza elementos regionais (Sol, mandacaru) com cores vivas e figuras estilizadas e distorcidas, sem se preocupar com a anatomia perfeita e sim com a forma de apresentação estética da arte em si. O nome “Abaporu” significa na língua tupi-guarani “o homem que come”, relacionado ao “antropofagismo cultural” como proposta artística do Modernismo. Arte Figurativa ou Figurativismo: é aquela que retrata e expressa a figura de um lugar, objeto, pessoa ou situação de forma que possa ser identificado, reconhecido. Abrange desde a figuração realista (parecida com o real) até a estilizada (sem traços individualizadores). O figurativismo segue regras e padrões de representação da imagem retratada. <http://pt.slideshare.net/gjrdesign/apostila-de-arts-visuais-revisada-e-ampliada-2014>. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 129 A leiteira. Jan Vermeer. Holanda. 1660 Figura 3.19 | Vermeer Figura 3.20 | Mondrian Composition II in Red, Blue, and Yellow, 1930 Fonte: <http://pt.slideshare.net/gjrdesign/apostila-de-arts-visuais-revisada-e-ampliada-2014>. Nesta pintura a óleo, feita durante o período artístico chamado Renascimento, o artista explorou a representação de uma cena do dia a dia de modo realista, retratando com perfeição a naturalidade figurativa das formas, iluminação, cores e texturas, criando toda uma atmosfera que nos faz mergulhar na cena. Esta obra de arte pode ser classificada como Naturalista, segundo sua função original quando foi criada. Arte Abstrata ou Abstracionismo: termo genérico utilizado para classificar toda forma de arte que se utiliza somente de formas, cores ou texturas, sem retratar nenhuma figura, rompendo com a figuração, com a representação naturalista da realidade. Podemos classificar o abstracionismo em duas tendências básicas: a geométrica e a informal. Aqui o artista reduz a imagem aos seus elementos básicos visuais: formas, cores, direção e movimento. Esta obra faz parte do movimento Expressionista Alemão na Arte Moderna, que evitava a representação da natureza tal qual a vemos. Para estes artistas, a arte era a simplicidade e organização geométrica do espaço. Nesta pintura a óleo, o artista não se preocupou em criar algo identificável, mas, sim, transmitir valores e significados estéticos nas formas básicas, por isso pode ser classificada como sendo da função Formalista. Fonte: <http://pt.slideshare.net/gjrdesign/apostila-de-arts-visuais-revisada-e-ampliada-2014>. A palavra estética vem do grego aisthesis e significa “faculdade de sentir”, “compreensão pelos sentidos”, “percepção totalizante”. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 130 Quando observamos uma obra de arte ou uma imagem qualquer, ela primeiro é sentida (percepção pelos sentidos), depois ela é analisada (interpretação simbólica do mundo) e, por fim, entendida e apreciada (conhecimento intuitivo). Para apreciarmos algo “belo” não usamos imediatamente nossa razão, mas os sentimentos, nossa intuição, nossa imaginação. Desta maneira é que temos uma experiência estética com a obra de arte ou imagem. O conceito de beleza teve várias modificações ao longo dos tempos. O que uma cultura pode considerar como feio outra cultura pode considerar como belo. Portanto, torna-se difícil definir o que seja belo, pois existem muitas diferenças nos contextos de espaço e tempo das variadas culturas e etnias. A beleza pode ser algo objetivo, isto é, que pertence ao objeto, suas características físicas e de conteúdo; ou algo subjetivo, ou seja, que pertence ao sujeito, àquele que observa. Não existe a ideia de um valor estético único, como se fosse um padrão onde pudéssemos julgar todas as obras de artes visuais. Cada objeto artístico vai estabelecer seu próprio tipo de beleza. Para os estudiosos de arte, o belo, a beleza é uma qualidade que atribuímos aos objetos para exprimir certo estado da nossa subjetividade, não havendo, portanto, uma ideia de belo nem regras para produzi-lo. 1. Defina Arte Figurativa. 2. Explique uma forma adequada para trabalhar uma data comemorativa na disciplina de Arte. • Nesta unidade conceituamos educação formal, informal e não formal. • Distinguimos museu de galeria. • Conhecemos fundamentos estéticos sobre o ensino de Arte. • Refletimos acerca da cultura visual. • Propusemos conteúdos de artes visuais do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 131 1. Marque a alternativa correta: I. Além da educação formal e da educação informal, há outras formas de transmissão cultural originárias da nossa civilização, algumas muito próximas da educação formal, denominadas de educação não formal. Nesta inclui-se o estudo de línguas estrangeiras, informática, pintura, corte e costura e outros, oferecido presencialmente em escolas com horários e períodos letivos bem definidos, ou a distância. Ela também pode ocorrer em espaços específicos, em centros culturais, museus de arte ou de ciências, ou ainda, ao ar livre, em praças, feiras, estações de metrô e outros. II. A cultura visual diz respeito apenas à leitura imagética de obras de arte ocidental, e possibilita que o aluno compreenda os códigos artísticos da arte. III. O primeiro museu público foi o Museu do Louvre, que surgiu após a Revolução Francesa, permitindo acesso livre às antigas coleções da realeza francesa, de pessoas de todos os níveis sociais. A partir daí o museu passou a ser visto como instrumento de educação, podendo contribuir para o processo de formação. IV. A “Galeria de Arte” pode ser definida como um espaço destinado a produções artísticas como: pinturas, esculturas, instalações e outras formas de expressão das artes visuais. Prezado aluno, é muito bom refletirmos sobre estas questões que foram levantadas nesta unidade, pois quando vocêestiver na sala de aula, no contexto escolar, certamente terá a oportunidade de trabalhar com a cultura visual, se encontrará nesta situação de trabalhar datas comemorativas, e esperamos que esta disciplina contribua para consolidar seus conhecimentos e contribua para que você realize um trabalho com qualidade e propicie experiências estéticas a seus alunos. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 132 Uma galeria de arte pode funcionar estruturalmente de maneira independente, mas também pode fazer parte de um museu. O principal diferencial é a possibilidade de comercialização das obras, que se dá em uma galeria. a. Estão corretas as afirmativas I e III. b. Está correta apenas a afirmativa II. c. Estão corretas as afirmativas II e III. d. Estão corretas as afirmativas I, III e IV. e. Está correta a afirmativa III. 2. Vivemos em um mundo imagético, sonoro, sinestésico, dentre outros. A proposta de um trabalho com a cultura visual abarca estas visualidades, ou seja, quando falamos em visualidade englobamos arte, mídia e imagens do cotidiano. Sendo assim, a proposta contemporânea para o ensino de Arte tem enfocado o diálogo entre estas criações e interpretações críticas da arte, da imagem no cotidiano e os artefatos culturais. Nesse sentido, de acordo com Hernández (2007), a proposta da cultura visual é questionar e construir um conhecimento que coloque em perspectiva a relevância que as representações visuais e as práticas culturais têm dado ao ‘olhar’ em termos das construções de sentido e das subjetividades no mundo contemporâneo. As abordagens mencionadas no texto buscam: a. Questionar e construir um conhecimento sobre as representações visuais e as práticas culturais nas construções de sentido e nas subjetividades do mundo contemporâneo. b. Questionar e realizar uma análise do percurso gerativo da significação nos textos literários. c. Apenas realizar uma análise sobre a mediação exercida pelas mídias e a arte, delimitando fronteiras entre a arte e as mídias. d. Apenas realizar uma análise do percurso gerativo da significação nos textos literários. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 133 3. Quase tudo o que sabemos sobre o conhecimento produzido nos chega pelos meios de informação e comunicação. Estes, por sua vez, também constroem imagens do mundo. Imagens para deleitar, entreter, vender, sugerindo o que devemos vestir, comer, aparentar, pensar. Em nossa sociedade contemporânea discute-se a necessidade de uma alfabetização visual. Quando mencionamos a alfabetização visual, a que estamos nos referindo? Marque a alternativa correta. a. Estamos nos referindo à arte Naïf. b) Estamos nos referindo à Cultura Visual. c) Estamos nos referindo à Curadoria Educativa. d) Estamos nos referindo à Arte-Educação. 4. Marque a alternativa correta. I – Espaços formais, que dizem respeito ao ensino sistematizado; informais, que são os saberes relacionados à língua materna, tarefas domésticas, normas de comportamento, orar ou rezar, caçar, ou seja, sobreviver, sem horários ou currículos, isto é, escola da vida; e não formais, muito próximos da educação formal que inclui o estudo de línguas estrangeiras, informática, pintura e outros, com horários e períodos letivos bem definidos. Também dando continuidade nesta seção, diferenciaremos museu de galeria, pois o ensino não formal pode acontecer nestes espaços. II - A “Galeria de Arte” é o mesmo que museu, pode ser definida como um espaço destinado a produções artísticas como: pinturas, esculturas, instalações e outras formas de expressão das artes visuais. Galeria e museu são sinônimos. III - A cultura visual - nome desse novo campo de estudo - propõe que as atividades ligadas à arte estejam ligadas às datas comemorativas. a. ( ) Estão corretas as alternativas I e III. b. ( ) Estão corretas as alternativas I e II. c. ( ) Estão corretas as alternativas II e III. d. ( ) Todas as alternativas: I, II, III, estão corretas. e. ( ) Está correta apenas a alternativa I. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 134 5. A "alfabetização visual" dará ao aluno condições de conhecer melhor a sociedade em que vive, interpretar a cultura de sua época e tomar contato com a de outros povos. Mais: ele vai descobrir as próprias concepções e emoções ao apreciar uma imagem. Qual é o papel do professor diante desta alfabetização visual? a. O professor deve despertar o olhar curioso, para o aluno desvendar, interrogar e produzir alternativas frente às representações do universo visual. b. O professor deve esclarecer sobre cultura visual, aplicar um questionário, para posteriormente o aluno realizar atividades relacionadas a obras de arte clássicas. c. O professor deve despertar o olhar curioso, para que o aluno estabeleça relação entre as obras de arte Renascentista e do estilo Barroco. d. O professor deve realizar aulas expositivas e lançar uma proposta sobre datas comemorativas, criando pastas com modelos de coelhos, corações e outros. e. O professor não deve despertar o olhar curioso, pois seu aluno precisa memorizar os conteúdos referentes às artes visuais. Propostas pedagógicas em espaços de educação formal e não formal de educação em artes visuais U3 135 Referências AUSUBEL, D.; NOVAK, J.; HANESIAN, H. Psicologia educacional. Rio de Janeiro: Interamericana, 1980. ARAÚJO, H. M. M. Memória e produção de saberes em espaços educativos não formais. In: Usos do Passado: XII Encontro Regional de História ANPUH-RJ. 2006: 6. Rio de Janeiro: ANPUH, 2006. BARBOSA, A. M. A Imagem no ensino da arte. São Paulo: Perspectiva, 2005. BEST, David. Sport is not art. Journal of the Philosophy of Sport. 1985. 12 (1):25-40. 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Didática do ensino de arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998, p. 197. SANTOS, M. L. Arte-educação e tecnologia no ensino médio: reflexões a partir da proposta triangular. 2006. 162f. Dissertação (Mestrado em Arte) – Instituto de Artes, Universidade de Brasília, Brasília. Disponível em: <http://www.vis.ida. unb.br/ posgraduacao/disserta_tese/dissertacao_moiseslucas.pdf> Acesso em: 6 fev. 2011. ______. Fazer artístico no ensino médio: reflexões a partir da Proposta Triangular de Ana Mae Barbosa. In: 9º Encontro de Pesquisa em Educação da Anped Centro-Oeste, 2008, Taguatinga DF. 9º Encontro de Pesquisa em Educação da Anped Centro-Oeste. Taguatinga: UCB, 2008. p. 320-335. POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EDUCAÇÃO EM ARTES VISUAIS Nesta seção iremos refletir sobre as políticas públicas e suas ações com relação ao ensino de Artes Visuais. Conheceremostambém os documentos oficiais sobre o ensino de Arte: Proposta Curricular Nacional de Arte (PCN Arte) – Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil – Artes Visuais (RCNEI) e as Diretrizes Curriculares Nacionais de Arte (DCN – Arte). Seção 1 | Artes visuais e as políticas públicas Objetivos de aprendizagem: • Refletir sobre as políticas públicas e suas ações com relação ao ensino de Artes Visuais. • Conhecer os documentos oficiais sobre o ensino de Arte: Proposta Curricular Nacional de Arte (PCN Arte) – Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil – Artes Visuais (RCNEI – Artes Visuais) e as Diretrizes Curriculares Nacionais de Arte (DCN – Arte). • Conhecer a Proposta Contemporânea do Ensino de Arte. • Fazer a articulação entre o ensino de Arte e o ensino multicultural. • Realizar uma Proposta Interdisciplinar em Arte. • Saber a Metodologia de Projetos em Arte. • Conhecer a proposta de Reggio Emilia, uma região na Itália onde os Centros de Educação Infantil públicos são modelo mundial de educação e a ênfase gira em torno de projetos de artes visuais. Laura Célia Sant’Ana Cabral Cava Unidade 4 Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 138 Nesta segunda seção apresentaremos a articulação entre o ensino de Arte e o ensino multicultural, como trabalhar com as artes visuais de forma interdisciplinar, a metodologia de Projetos em Artes Visuais, e, por fim, conheceremos a proposta de Reggio Emilia, uma região na Itália onde os Centros de Educação Infantil públicos são modelo mundial de educação e a ênfase gira em torno de projetos de artes visuais. Seção 2 | Proposta Contemporânea para o Ensino de Artes Visuais Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 139 Introdução à unidade Que bom, estamos chegando ao final da nossa leitura. Fico feliz por você, prezado aluno leitor, ter chegado até aqui e espero que conclua esta unidade, pois ela enriquecerá ainda mais seus conhecimentos acerca do ensino de Arte e possibilitará sua reflexão sobre a importância desta disciplina. A arte é uma forma de criação de linguagens, portanto fundamental na educação básica, onde os alunos desde muito cedo aprenderão a linguagem visual, a linguagem musical, cênica, da dança, cinematográfica e tantas outras. Espero que nestas unidades você tenha se encontrado e se motivado a querer ser um professor comprometido com o ensino e aprendizagem de Arte, mais especificamente, as artes visuais. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 140 Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 141 Seção 1 Artes visuais e as políticas públicas 4.1 Artes visuais e políticas públicas Agora vamos iniciar nossa seção, definindo o que sejam políticas públicas, desde quando se fala nestas ações governamentais, como são formuladas, quem está envolvido e para que elas servem. Agradeço a você, caro aluno leitor, por compartilhar comigo esta reflexão e espero que este livro tenha contribuído para enriquecer seus conhecimentos. Iniciaremos nossa conversa definindo o que sejam políticas públicas. Trata-se da soma das atividades do governo, que agem diretamente ou através de delegação, e que influenciam a vida dos cidadãos. As políticas públicas são um conjunto de ações que o governo decide fazer ou não fazer, frente a situações socialmente problemáticas e que buscam a resolução ou amenização destas. Estas ações desencadeadas pelo Estado - no caso brasileiro, nas escalas federal, estadual e municipal – atendem a determinados setores da sociedade civil. Elas podem ser desenvolvidas em parcerias com organizações não governamentais e, como se verifica mais recentemente,com a iniciativa privada. Elas se baseiam em quatro elementos centrais: • dependem do envolvimento do governo; • da percepção de um problema; • da definição de um objetivo; e • da configuração de um processo de ação. Mas, será que sempre foi assim? Sempre tivemos estas ações das políticas públicas? Não, pois durante os séculos XVIII e XIX, as principais funções do Estado eram a segurança pública e a defesa em caso de embate externo. No entanto, com a expansão da democracia, houve muitas mudanças com relação às responsabilidades do Estado perante a sociedade. Atualmente, pode-se dizer que a sua principal Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 142 função é proporcionar o bem-estar desta sociedade. Sendo assim, para que estas ações aconteçam, há que se atuar em diferentes campos, como educação, saúde, segurança, meios de transporte públicos, meio ambiente etc. E as políticas públicas são o caminho de que o governo se utiliza. Como são formuladas as políticas públicas? As políticas públicas podem ser formuladas principalmente por iniciativa dos poderes Executivo ou Legislativo, de forma separada ou conjuntamente, a partir de demandas e propostas da sociedade, em seus diversos segmentos. A participação da sociedade na formulação, acompanhamento e avaliação das políticas públicas em alguns casos é assegurada na própria lei que as institui. Assim, no caso da educação e da saúde, a sociedade participa ativamente mediante os Conselhos em nível municipal, estadual e nacional. Audiências públicas, encontros e conferências setoriais são também instrumentos que vêm se afirmando nos últimos anos como forma de envolver os diversos segmentos da sociedade em processos de participação e controle social. Fonte: <http://www.meioambiente.pr.gov.br/arquivos/File/coea/ pncpr/O_que_sao_PoliticasPublicas.pdf>. 4.2 Políticas públicas no Brasil Até a década de 70, o Brasil tinha uma economia forte na agricultura, pois grande parte de sua população vivia no campo, mas a partir daí houve uma mudança, que foi a migração em massa para a cidade, fazendo do Brasil um país importante na área industrial. Sendo assim, houve uma grande transformação na sociedade brasileira, mas o governo não acompanhou tal mudança. O Estado não desempenhava um papel regulador e participativo, mas criava um governo autoritário que também refletia de maneira autoritária nas políticas brasileiras, e também dava maior importância ao processo de industrialização. Havia um grande problema com relação à forma como a política brasileira lidava com questões sociais, pois atendia a interesses específicos, não levando em conta a diversidade de problemas relacionados a cada região. Com isso, nem sempre a solução tomada para determinado problema foi a melhor, pois eram todas tratadas de forma igual, sem perceber suas especificidades. Ao invés delas garantirem qualidade de vida aos brasileiros, como moradia, vestuário, educação, saúde, segurança e lazer, ou seja, distribuir de forma igualitária os recursos de caráter individual e social, isso não se via. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 143 Na década de 30 e daí por diante, o país se modernizou e cresceu o número de direitos sociais, criando em 1930 o Ministério do Trabalho e mais tarde a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Nesta mesma década surgiram programas voltados aos pagamentos de aposentadorias e pensões em diversas profissões. Foram criados o Instituto de Previdência Social (INPS) e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), e na década de 70 foi criado o Ministério da Previdência, que atuava na área de saúde e na área social. Houve muitos programas sociais voltados ao assistencialismo, muita corrupção e ineficiência desses processos. Os recursos eram desviados e, com isso, o investimento passou a ser no sistema privado (educação e saúde privada). Cresceram a desigualdade social, a pobreza e a exclusão, e a partir da Constituição de 1988 o Brasil passou a investir menos nas políticas públicas, com o aumento da dependência internacional. Para a população pobre foramcriadas políticas compensatórias, com o objetivo de "distrair" dos verdadeiros problemas. Nesse período a população necessitava de mais recursos e mostrava sinais de crescimento, mas era impedida pelos problemas econômicos em um país refém da inflação. Muitos programas sociais de caráter municipal, estadual e federal, no início da década de 90, surgiram, e o papel do Governo Federal neste contexto foi de fiscalizar e não mais prover, e estes projetos muitas vezes eram incompatíveis uns com os outros, propiciando, desta forma, uma desvantagem para a população que necessitava dessa ajuda. Educadores e governantes vêm, há muito tempo, contribuindo no desenvolvimento de concepções de organização política e pedagógica da escola brasileira. Já existem alguns consensos explicitados nas leis que regem a Educação Nacional e em publicações que definem os eixos norteadores de uma prática docente competente e emancipadora, como veremos nos princípios norteadores da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância; V – coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI – gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 144 VII – valorização do profissional da educação escolar; VIII – gestão democrática do ensino público, na forma desta lei e da legislação dos sistemas de ensino; IX – garantia de padrão de qualidade; X – valorização da experiência extraescolar; XI – vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. Estes princípios normatizados têm concretizado avanços na oferta e implementação da Educação Básica que expressam o resultado das lutas históricas pela democratização do ensino. A partir desta reflexão, algumas indagações tornam- se presentes, como: e o ensino da arte? De que forma a dimensão da cultura incorporada ao currículo escolar pode gerar movimentos capazes de induzir mudanças significativas na formação de professores e alunos? Faz sentido ensinar arte? Como e em que condições devemos trabalhar o ensino da arte nas escolas? Quais são os instrumentos que compõem as políticas públicas? As políticas públicas normalmente estão constituídas por instrumentos de planejamento, execução, monitoramento e avaliação, encadeados de forma integrada e lógica, da seguinte forma: 1. Planos 2. Programas 3. Ações 4. Atividades. Os planos estabelecem diretrizes, prioridades e objetivos gerais a serem alcançados em períodos relativamente longos. Por exemplo, os planos decenais de educação têm o sentido de estabelecer objetivos e metas estratégicas a serem alcançados pelos governos e pela sociedade ao longo de dez anos. Os programas estabelecem, por sua vez, objetivos gerais e específicos focados em determinado tema, público, conjunto institucional ou área geográfica. O Programa Nacional de Capacitação de Gestores Ambientais (PNC) é um exemplo temático e de público. Ações visam ao alcance de determinado objetivo estabelecido pelo programa, e a atividade, por sua vez, visa dar concretude à ação. Fonte: <http://www.meioambiente.pr.gov.br/arquivos/File/coea/ pncpr/O_que_sao_PoliticasPublicas.pdf>. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 145 No relatório da UNESCO – que ficou conhecido como Relatório Jacques Delors – estão sintetizados os resultados dos trabalhos realizados pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Esta comissão considera a educação um fator decisivo tanto para o desenvolvimento do indivíduo como para as mudanças na sociedade, no que se refere à coesão social. O relatório propõe que o processo de escolarização seja desenvolvido a partir de quatro pilares básicos: aprender a apreender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Educadores de todo o mundo civilizado defendem a reestruturação da educação pública, a partir destes pilares. O conhecimento, neste século XXI, deverá transformar-se no instrumento fundamental, a base sobre a qual as nações se inserem ou não no conjunto das relações internacionais. O principal capital – o bem mais precioso. Portanto, há um investimento enorme na formação das pessoas por parte das forças políticas. Esta preocupação com o desenvolvimento de políticas/ações para que os níveis de formação se elevem são de todos os países do planeta. Sendo assim, a consolidação da Educação Básica, para que nossos jovens, agora pensando no Brasil, desenvolvam seus estudos e avancem na direção da universidade ou do mundo profissional e, acima de tudo, que se preparem para a vida em sociedade, formando cidadãos. A Educação Básica a que nos referimos, a partir do relatório de Delors, diz respeito a processos formativos que deem significado ao conhecimento acumulado pela humanidade, que permitam aos jovens aprender e enriquecer os primeiros conhecimentos e se adaptarem a um mundo em mudança. Vejam como a Arte (artes visuais e música) aparece no Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil-RCNEI. • Um documento Introdução, que apresenta uma reflexão sobre creches e pré- escolas no Brasil, situando e fundamentando concepções de criança, de educação, de instituição e do profissional, que foram utilizadas para definir os objetivos gerais da Educação Infantil e orientaram a organização dos documentos de eixos de trabalho que estão agrupados em dois volumes relacionados aos seguintes âmbitos de experiência: Formação Pessoal e Social e Conhecimento de Mundo. • Um volume relativo ao âmbito de experiência Formação Pessoal e Social que contém o eixo de trabalho que favorece, prioritariamente, os processos de construção da Identidade e Autonomia das crianças. • Um volume relativo ao âmbito de experiência Conhecimento de Mundo que contém seis documentos referentes aos eixos de trabalho orientados para a construção das diferentes linguagens pelas crianças e para as relações que estabelecem com os objetos de conhecimento: Movimento, Música, Artes Visuais, Linguagem Oral e Escrita, Natureza e Sociedade e Matemática. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 146 OBJETIVOS Crianças de zero a três anos O trabalho com música deve se organizar de forma a que as crianças desenvolvam as seguintes capacidades: • ouvir, perceber e discriminar eventos sonoros diversos, fontes sonoras e produções musicais; • brincar com a música, imitar, inventar e reproduzir criações musicais. Crianças de quatro a seis anos Para esta fase, os objetivos estabelecidos para a faixa etária de zero a três anos deverão ser aprofundados e ampliados, garantindo-se, ainda, oportunidades para que as crianças sejam capazes de: • explorar e identificar elementos da música para se expressar, interagir com os outros e ampliar seu conhecimento do mundo; • perceber e expressar sensações, sentimentos e pensamentos, por meio de improvisações, composições e interpretações musicais. Artes visuais OBJETIVOS Crianças de zero a três anos A instituição deve organizar sua prática em torno da aprendizagem em arte, garantindo oportunidades para que as crianças sejam capazes de: • ampliar o conhecimento de mundo que possuem, manipulando diferentes objetos e materiais, explorando suas características, propriedades e possibilidades de manuseio e entrando em contato com formas diversas de expressão artística; • utilizar diversos materiais gráficos e plásticos sobre diferentes superfícies Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 147 para ampliar suas possibilidades de expressãoe comunicação. Crianças de quatro a seis anos Para esta fase, os objetivos estabelecidos para a faixa etária de zero a três anos deverão ser aprofundados e ampliados, garantindo-se, ainda, oportunidades para que as crianças sejam capazes de: • interessar-se pelas próprias produções, pelas de outras crianças e pelas diversas obras artísticas (regionais, nacionais ou internacionais) com as quais entrem em contato, ampliando seu conhecimento do mundo e da cultura; • produzir trabalhos de arte, utilizando a linguagem do desenho, da pintura, da modelagem, da colagem, da construção, desenvolvendo o gosto, o cuidado e o respeito pelo processo de produção e criação. O ensino de Arte deverá organizar-se de modo que, ao final do Ensino Fundamental, os alunos sejam capazes de: • expressar e saber comunicar-se em artes mantendo uma atitude de busca pessoal e/ou coletiva, articulando a percepção, a imaginação, a emoção, a sensibilidade e a reflexão ao realizar e fruir produções artísticas; • interagir com materiais, instrumentos e procedimentos variados em artes (Artes Visuais, Dança, Música, Teatro), experimentando-os e conhecendo-os de modo a utilizá-los nos trabalhos pessoais; • edificar uma relação de autoconfiança com a produção artística pessoal e conhecimento estético, respeitando a própria produção e a dos colegas, no percurso de criação que abriga uma multiplicidade de procedimentos e soluções; • compreender e saber identificar a arte como fato histórico contextualizado nas diversas culturas, conhecendo, respeitando e podendo observar as Fonte: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/volume3.pdf>. Os PCN, voltados ao Ensino Fundamental de 1º ao 5º ano, foram divididos em áreas conforme a função instrumental de cada uma, possibilitando uma integração entre elas. Há os parâmetros para a Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Naturais, Arte, Educação Física, História e Geografia, todos separados em livros. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 148 produções presentes no entorno, assim como as demais do patrimônio cultural e do universo natural, identificando a existência de diferenças nos padrões artísticos e estéticos; • observar as relações entre o homem e a realidade com interesse e curiosidade, exercitando a discussão, indagando, argumentando e apreciando arte de modo sensível; • compreender e saber identificar aspectos da função e dos resultados do trabalho do artista, reconhecendo, em sua própria experiência de aprendiz, aspectos do processo percorrido pelo artista; • buscar e saber organizar informações sobre a arte em contato com artistas, documentos, acervos nos espaços da escola e fora dela (livros, revistas, jornais, ilustrações, diapositivos, vídeos, discos, cartazes) e acervos públicos (museus, galerias, centros de cultura, bibliotecas, fonotecas, videotecas, cinematecas), reconhecendo e compreendendo a variedade dos produtos artísticos e concepções estéticas presentes na história das diferentes culturas e etnias. O ensino de Arte deverá organizar-se de modo que, ao longo do Ensino Fundamental, os alunos sejam capazes de: • experimentar e explorar as possibilidades de cada linguagem artística; • compreender e utilizar a arte como linguagem, mantendo uma atitude de busca pessoal e/ou coletiva, articulando a percepção, a imaginação, a emoção, a investigação, a sensibilidade e a reflexão ao realizar e fruir produções artísticas; • experimentar e conhecer materiais, instrumentos e procedimentos Fonte: <http://cptstatic.s3.amazonaws.com/pdf/cpt/pcn/volume-06-arte.pdf>. Para você conhecer melhor os PCN de Arte, acesse o link: http://cptstatic.s3.amazonaws.com/pdf/cpt/pcn/volume-06-arte.pdf Agora vamos conhecer os PCN de Arte do Ensino Fundamental II – (5ª a 8ª séries) – (6º ao 9º ano). Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 149 COMPETEÊNCIAS E HABILIDADES A SEREM DESENVOLVIDAS EM ARTE: Como etapa final da Educação Básica, o Ensino Médio deve oferecer, de forma articulada, uma educação equilibrada, com funções equivalentes para Fonte: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/arte.pdf>. Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio estabelecem, como competências a serem desenvolvidas pelo ensino de Arte: • realizar e compreender produções artísticas; • apreciar e compreender produtos de arte; • analisar, conhecer e compreender manifestações artísticas em sua diversidade histórico-cultural. artísticos diversos em arte (Artes Visuais, Dança, Música, Teatro), de modo que os utilize nos trabalhos pessoais, identifique-os e interprete-os na apreciação e contextualize-os culturalmente; • construir uma relação de autoconfiança com a produção artística pessoal e conhecimento estético, respeitando a própria produção e a dos colegas, sabendo receber e elaborar críticas; • identificar, relacionar e compreender a arte como fato histórico contextualizado nas diversas culturas, conhecendo, respeitando e podendo observar as produções presentes no entorno, assim como as demais do patrimônio cultural e do universo natural, identificando a existência de diferenças nos padrões artísticos e estéticos de diferentes grupos culturais; • observar as relações entre a arte e a realidade, refletindo, investigando, indagando, com interesse e curiosidade, exercitando a discussão, a sensibilidade, argumentando e apreciando arte de modo sensível; • identificar, relacionar e compreender diferentes funções da arte, do trabalho e da produção dos artistas; • identificar, investigar e organizar informações sobre a arte, reconhecendo e compreendendo a variedade dos produtos artísticos e concepções estéticas presentes na história das diferentes culturas e etnias; • pesquisar e saber organizar informações sobre a arte em contato com artistas, obras de arte, fontes de comunicação e informação. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 150 todos os educandos: - A formação da pessoa, de maneira a desenvolver valores e competências necessárias à integração de seu projeto individual ao projeto da sociedade em que se situa; - O aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; - A preparação e orientação básica para a sua integração ao mundo do trabalho, com as competências que garantam seu aprimoramento profissional e permitam acompanhar as mudanças que caracterizam a produção no nosso tempo; - O desenvolvimento das competências para continuar aprendendo, de forma autônoma e crítica, em níveis mais complexos de estudos. OBJETIVOS Art. 2º Estas Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica têm por objetivos: I – sistematizar os princípios e as diretrizes gerais da Educação Básica contidos na Constituição, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e demais dispositivos legais, traduzindo-os em orientações que contribuam para assegurar a formação básica comum nacional, tendo como foco os sujeitos que dão vida ao currículo e à escola; II – estimular a reflexão crítica e propositiva que deve subsidiar a formulação, a execução e a avaliação do projeto político-pedagógico da escola de Educação Básica; III – orientar os cursos de formação inicial e continuada de docentes e demais profissionais da Educação Básica, os sistemas educativos dos <http://www.cpt.com.br/pcn/pcn-parametros-curriculares-nacionais-do-ensino-medio#ixzz3WJ60DX1B>. As novas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica estabelecem a base nacional comum, responsável por orientar a organização, articulação, o desenvolvimento e a avaliação das propostas pedagógicas de todas as redes de ensino brasileiras. Políticas públicas para a educaçãoem artes visuais U4 151 <http: file:///C:/Users/casasbahia/Downloads/diretrizes_curiculares_nacionais_2013%20(3).pdf>. diferentes entes federados e as escolas que os integram, indistintamente da rede a que pertençam. Art. 14. A base nacional comum na Educação Básica constitui-se de conhecimentos, saberes e valores produzidos culturalmente, expressos nas políticas públicas e gerados nas instituições produtoras do conhecimento científico e tecnológico; no mundo do trabalho; no desenvolvimento das linguagens; nas atividades desportivas e corporais; na produção artística; nas formas diversas de exercício da cidadania; e nos movimentos sociais. § 1º Integram a base nacional comum nacional: a) a Língua Portuguesa; b) a Matemática; c) o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e política, especialmente do Brasil, incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro- Brasileira e Indígena, d) a Arte, em suas diferentes formas de expressão, incluindo-se a música; 68 e) a Educação Física; f) o Ensino Religioso. No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/96) estabeleceu em seu artigo 26, parágrafo 2º que: • "O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos". • "A arte é um patrimônio cultural da humanidade, e todo ser humano tem direito ao acesso a esse saber". Você acha que as pessoas, de forma geral, têm noção da dimensão desta afirmativa: "promover o desenvolvimento cultural dos alunos"? Na sua opinião, é dada a devida importância a esta disciplina? Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 152 Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 153 Seção 2 2.1 Ensino multicultural É importante que, desde a Educação Infantil, o professor trabalhe com o ensino multicultural, pensando em termos legais, entender que seus alunos são todos iguais e têm os mesmos direitos e deveres na sala de aula; no entanto, em termos de valores, cultura, costumes, jeito de ser, organização familiar, orientação sexual, religião e outros são singulares, são diferentes, e estas diferenças deverão ser respeitadas. É sobre o trabalho de Arte e o ensino multicultural que abordaremos a seguir. Entendemos que lidamos constantemente com a diversidade étnico-cultural, ela está presente diariamente no contexto brasileiro, expressando-se na música, na religião, na dança, na culinária, na nossa língua portuguesa e, entre inúmeras atividades, somos um povo com muitas caras! Diante dessa realidade, esperamos que o espaço escolar configure-se como um espaço legítimo de socialização, o ambiente no qual mais se discute a questão da diversidade – cultural, étnica e social. Para que este processo aconteça, é necessário o convívio multicultural que implica o respeito ao outro. Pensando nos aspectos legais, que, a nosso ver, não deveriam estar em forma de lei, mas na consciência das pessoas, observamos a possibilidade que o professor tem para trabalhar, por meio da Arte, questões tão relevantes quanto o ensino multicultural. Falamos da Lei nº 10.639 (BRASIL, 2003), que altera a Lei nº 9.394 (BRASIL, 1996), Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e inclui, no currículo oficial da rede de ensino, a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro- Brasileira”. Cabe aqui ressaltarmos que, antes mesmo desta lei existir, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN de Arte) Brasil (1997) já indicavam, como um dos objetivos gerais para o ensino da Arte, que os alunos fossem capazes de “conhecer características fundamentais do Brasil, nas suas dimensões sociais, materiais e culturais, como meio de construir progressivamente a noção de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinência ao país” (BRASIL, 1997, p. 7), “adotando no dia a dia atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si mesmo o respeito”. (BRASIL, 1997, p. 7). Ora, vimos no ensino de Arte uma possibilidade de tratar dessas questões, pois Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 154 o Brasil é um país multiétnico e pluricultural. No entanto, nas histórias infantis, contadas desde a Educação Infantil, predominam os heróis com características europeias: brancos, loiros, de olhos azuis. Não estamos aqui querendo criticar os clássicos da literatura, abominar os contos de fadas, Cinderela ou Rapunzel, por exemplo, e sim destacar o fato de que, na formação do repertório lúdico e mágico da criança, cabem heróis de todos os povos, principalmente os que contribuíram para a formação da miscigenada identidade étnica e cultural brasileira. A rara presença de protagonistas negros nas histórias produz efeito negativo na construção da identidade das crianças de etnia não branca, pois estas se deparam com padrões de beleza que não são os seus, tomados como paradigma estético pela sociedade. Essa situação é grave, principalmente se considerarmos que a essas crianças não é dada a oportunidade da convivência com o diferente, nos livros de histórias. Assim, elas se apropriam de conceitos discriminatórios em um momento de formação da personalidade. Pela ausência de referenciais positivos que lhes elevem a autoestima, muitas acabam envergonhando-se da própria origem, rejeitando-a para evitar a discriminação, e passam a considerar como modelo apenas os valores da cultura branco-europeia impostos pela escola. De acordo com Boaventura de Souza Santos (2001, p. 56), “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza”. Pensando no ensino de Arte, há várias propostas interessantes que podem trabalhar com a cultura indígena, a cultura negra e outros. Vejamos a seguir uma sugestão interessante para o Ensino Médio. 2.1.1 Arte indígena SÉRIE: 3ª série do Ensino Médio. DURAÇÃO PREVISTA: três aulas para leitura e interpretação, seis aulas para criação e produção. Pesquisa e Interpretação de imagens Inicie seu trabalho solicitando uma pesquisa sobre arte indígena (pintura corporal, cerâmica, arte plumária). Essa pesquisa pode ser a criação de um hipertexto, que poderá ser realizada no computador, ou mesmo um texto escrito ou digitado com imagens e textos escritos. Exponha estes trabalhos em painéis e faça a leitura das imagens e apresentação do trabalho, que poderá ser realizado em equipe. Nesse Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 155 processo, que inclui observação, análise, interpretação e construção de sentidos, os alunos poderão responder a algumas perguntas, como: 1. O que conhecemos sobre os índios? 2. Como você vê a arte indígena na atualidade? 3. A arte indígena está presente em nosso cotidiano? 4. Qual a importância de manter a arte e a cultura indígena? 5. Como é a inserção do índio em nossa sociedade? 6. O que pensamos a respeito dos índios? Sugestão de textos: Texto 1 - O CONCEITO DE ARTE E OS ÍNDIOS <http://cpd1.ufmt.br/proind/?operacao=verdestaque&cod=1>. Texto 2 - LINGUAGEM VISUAL <http://pt.slideshare.net/gjrdesign/linguagem-visual-parte07elementosbasicosgarc iajunior>. Texto 3 - ÍNDIOS <http://www.survivalinternational.org/povos/indios-brasileiros>. Texto 4 - ALTERIDADE <http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/anpedsul/9anpedsul/paper/ viewFile/472/860>. Texto 5 - MUITA TERRA PARA POUCO ÍNDIO? <http://www.jpoantropologia.net/pdfs/CL_PT_1995_01.pdf>. <https://www.youtube.com/watch?v=wAh2nokq-iM>. Produção e criação: 1. Pesquisa, coleta e análise das padronagens simbólicas e geométricas utilizadas Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 156 pelos índios,na produção de objetos de seu cotidiano. 2. Estudo das possibilidades de uso das mesmas aos produtos de uso cotidiano dos alunos. 3. Execução: 3.1. Escolha da padronagem. 3.2. Estudo das possibilidades, analisando as dificuldades e praticidades na aplicação das padronagens no objeto escolhido. (ex.: estamparia de camisetas, uso dos desenhos em skates, confecção de adornos etc). 3.3. Produção e criação das estampas no objeto escolhido, com a técnica escolhida (bordado, pintura, aplicação, serigrafia, impressão com tinner). 4. Exposição dos trabalhos. FONTE: Disponível em: <http://historiadaartemarciocarneiro.blogspot.com.br/2011_11_01_archive.html >. Acesso em: 03 abr. 2015. Figura 4.1 | Pintura corporal Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 157 Sugestão de leitura Revista Nova Escola. Jan. fev. 2004, ed. 1969. Arte no Brasil. São Paulo. Ed. Nova Cultural. 1986. CDs: Canções dos índios Suruí: Marlui Miranda: “Ihu – todos os sons” (Pau-Brasil Som Imagem e Editora, s.d.). Vídeos: Caramuru (minissérie). Sites: <http://www.socioambiental.org/pib/portugues/comovivem/artes>. <http://www.arteducação.pro.br/historia/prebrasil.htm>. <http://www.itaucultural.org.br>. <http://www.geocites.yahoo.com.br/vinicrashbr/artes>. <http://www.funai.gov.br>. <http://www.iphan.gov.br>. <http://www.pegue.com/indio/kadiweu.htm>. <http://www.ibmcomunidade.com/lv/renove/ip>. <http://www.redestv.com.br/acervo>. SUGESTÃO DE LIVROS: BRANDÃO, C. R. Identidade e etnia. São Paulo: Brasiliense, 1986. EUSEBI, Luigi. A barriga morreu: o genocídio dos Yanomami. São Paulo: Loyola, 1990. GARCEZ, L. e OLIVEIRA, J. Explicando a arte brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. MELATTI, J. C. Índios do Brasil. São Paulo: Hucitec, 1993. VIDAL, L. Grafismo indígena: Estudos de Antropologia Estética. São Paulo: Studio Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 158 Nobel / Edusp / Fapesp, 1992. ZANINI, W. (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. 2.2 Uma porta para projetos Um assunto muito abordado em nossos dias em educação diz respeito aos projetos. Muito se fala, porém pouco se faz, uns por não se interessarem, outros por temerem o novo ou por acharem ser essa uma questão de modismo ou, mesmo, por não saberem ou não acreditarem na aprendizagem significativa que eles proporcionam quando bem estruturados, e ainda, por se preocuparem em não conseguir aplicar todo o conteúdo planejado. Contudo, isso não deve ser motivo para preocupações, pois, conforme o projeto vai se desenvolvendo, questões que fazem parte do conteúdo vão surgindo e o educador atento vai articulando esses conteúdos ao projeto. O que certos educadores não perceberam ainda é que fazemos projetos constantemente em nossas vidas e não precisamos de ensinamentos para isso, porque nossas ações, nossos planejamentos diários, são semelhantes a eles. Portanto, desenvolver um projeto não é nenhum “bicho-de-sete-cabeças”. Por exemplo, uma viagem, uma festa, um passeio, tudo exige planejamento, pesquisa, envolvimento, prováveis imprevistos, flexibilidade caso aconteçam, decisão, experiência, conhecimento, integração e prazer, enfim, todos os aspectos que permeiam um projeto. Sendo assim, o professor precisa ser inovador, ousado, apesar da provável insegurança de uma situação nova. Mas um projeto quando bem elaborado, e do interesse dos alunos, traz uma relação aluno professor / professor aluno muito intensa, de confiança e cooperação, pois ambos pesquisam juntos, ambos aprendem juntos e o resultado é tão gratificante que vale a pena o trabalho inicial, que, com o tempo, torna-se semelhante à preparação de uma aula, com a vantagem de ser muito mais prazeroso, inovador e rico no aspecto da construção e aquisição de conhecimentos. Esse assunto nos remete aos Centros Públicos de Reggio Emilia, que são centros de educação infantil, situados em uma região da Itália, e eles são modelos mundiais de ensino. O ensino de Artes Visuais é um dos pontos fortes de lá e este é desenvolvido por meio de projetos. Em Reggio, segundo Malaguzzi (apud GANDINI, 1999), o trabalho em projeto tem como objetivo ajudar crianças pequenas a extrair um sentido mais profundo e completo de eventos e fenômenos de seu próprio ambiente e de experiências que Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 159 mereçam sua atenção. Nos projetos as crianças são encorajadas a tomarem suas próprias decisões e a fazerem suas próprias escolhas, geralmente em integração com seus colegas, sobre o trabalho a ser realizado. Um outro valor é que os estudos prolongados sobre determinados fenômenos dão às crianças uma experiência precoce, no sentido de conhecerem e entenderem um tópico em profundidade. Para Malaguzzi (apud GANDINI, 1999), a maioria das crianças de três a quatro anos ainda não é capaz de representar muito bem seus pensamentos e observações por escrito, aí é que utilizam as linguagens gráficas para registrarem suas ideias, observações, recordações, sentimentos, assim por diante. Além disso, quando o tema é familiar à criança, esta contribui com seus próprios conhecimentos e sugere questões a serem refletidas, bem como linhas de investigação a seguir, oportunidade em que elas próprias podem assumir a liderança no planejamento. Segundo Malaguzzi (apud GANDINI, 1999, p. 41), Lá, as linguagens visual e gráfica oferecem uma alternativa para conhecer, explorar o mundo e expressar seus entendimentos. As artes visuais são integradas no trabalho como linguagem. Para eles, os indivíduos não podem apenas se relacionar uns com os outros: eles precisam relacionar-se uns com os outros acerca de algo, os relacionamentos precisam conter interesse ou envolvimento mútuo. Em Reggio a extensão do conteúdo do relacionamento entre professor-aluno é focalizado sobre o próprio trabalho. A mente dos adultos e das crianças está direcionada a questões de interesse de ambos. Uma vez que não existem lições pré-especificadas lá, o professor pode criar atividades que contribuam para o desenvolvimento, são atividades mais apropriadas sobre o tema abordado. Portanto, esse relacionamento é rico, com a formulação e solução de problemas. O trabalho com projetos oferece amplos textos, pretextos e contextos para conversas genuínas e extensas entre adultos e crianças. Nas palavras de Hawkins (apud GANDINI, 1999, p. 35): “Um professor tem um papel único [...] Este não é o papel de uma mãe ou de um terapeuta ou de um colega, mas de alguém que valoriza os aprendizes e a aprendizagem profissionalmente”. Ao elaborarmos um projeto educacional, precisamos ser flexíveis, pois possíveis imprevistos poderão surgir. Pensemos, então, num espaço físico adequado, num ambiente acolhedor, num assunto que seja do interesse de nossos alunos e, consequentemente, em momentos prazerosos. As crianças pequenas dependem dos adultos em muitos aspectos de suas vidas e de suas experiências de aprendizagem; entretanto, o trabalho em projetos é à parte do currículo na qual seus próprios interesses, ideias, preferências e escolhas podem ter rédeas relativamente soltas. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 160 Num projeto artístico, por exemplo, o professor, quando tem clareza no objetivo que pretende, poderá ter maior qualidade na sua ação educativa, garantindo aos alunos o conhecimento e a diversidade de suas produções artísticas, possibilitando o uso de diferentes materiais e suportes, ouvindo e respeitando seus pontos de vista, proporcionando troca de experiências, gerando um momento lúdico no processo de produção e proporcionando a compreensão da arte como linguagem, expressão e conhecimento. Ao produzir algo, há um envolvimento do alunocom sua ação, suas construções, pesquisas, reflexões, com a sua capacidade inventiva, suas escolhas, abrindo dentro de si uma área de desenvolvimento onde a liberdade poderá se expandir. Para o sucesso de um bom projeto, o professor necessita de uma meta, onde a observação, o registro, a pesquisa e o olhar sempre vigilante, sensível e atento, deverão estar presentes transmitindo seriedade e credibilidade. Um projeto tem como característica uma visão do todo, envolvendo os alunos, professores, instituição, podendo se estender para a comunidade e, também, uma outra característica seria a não fragmentação das diferentes áreas do conhecimento, onde uma se articula com a outra. Hoje tanto se fala em interdisciplinaridade. Esta forma de trabalhar tornou- se um novo paradigma curricular, passando do modelo multidisciplinar para o interdisciplinar, um aspecto importante e presente nos projetos. Como na vida, as várias facetas se complementam, assim também acontece com o conhecimento, onde o processo de aprendizagem dá-se através de associações com aquilo que já foi adquirido. O ser humano nasce com o potencial para aprender, porém essa capacidade só se desenvolverá em sua integração com o mundo, na experimentação com o objeto de conhecimento, na reflexão sobre a ação. É preciso promover reflexões e diálogos para que o saber se construa. A velha forma tradicional, onde alunos ficavam fechados em si mesmos, produzindo sozinhos, deve ser modificada, abrindo espaço para o trabalho coletivo, para os projetos, para as ações significantes dos alunos. O professor que trabalha com projetos e de forma interdisciplinar é aquele que sabe montar uma rede na qual as diferentes disciplinas se dialogam. As diferentes áreas do conhecimento são vistas, por esse educador, como um todo e não de froma fragmentada. Há um fio condutor que perpassa pelos conteúdos a serem aplicados, articulando-os, propiciando um ensino-aprendizagem significativo. Portanto, trabalhar em equipe é ser responsável por algo. Todos têm informações preciosas, há uma troca de experiências, todos com um olhar em comum. Quanto mais se acelera a produção do saber humano, mais se necessita de uma visão do todo. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 161 Precisamos pensar de forma interdisciplinar, vendo o todo, vendo que tudo está inserido em tudo, articulando um diálogo entre as diversas áreas do saber. A realização de aulas interdisciplinares necessita de envolvimento, prazer e comprometimento, não só dos docentes como também dos alunos e da escola como um todo. Concluímos essa nossa abordagem em torno dos projetos, e, consequentemente, aprendizagem significativa, com a seguinte reflexão: Se acaso alguém me houvesse alertado o interesse, se antes de cada matéria lesse um prefácio estimulante, que me despertasse a inteligência, me oferecesse fantasias em lugar de fatos, me divertisse e intrigasse com o malabarismo dos números, romantizasse mapas, me desse um ponto de vista a respeito da história, e me ensinasse a música da poesia, talvez eu tivesse sido um erudito. Charlie Chaplin (apud Texto de Arte S.M.E. de Londrina, 2002). Nesta unidade o aluno: • Refletiu sobre as políticas públicas e suas ações com relação ao ensino de Artes Visuais. • Conheceu os documentos oficiais sobre o ensino de Arte: Proposta Curricular Nacional de Arte (PCN Arte) – Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil – Artes Visuais (RCNEI – Artes Visuais) e as Diretrizes Curriculares Nacionais de Arte (DCN – Arte). • Aprendeu a fazer a articulação entre o ensino de Arte e o ensino multicultural. • Refletiu sobre a Metodologia de Projetos em Arte e como realizar uma proposta Interdisciplinar. • Conheceu a proposta de Reggio Emilia, uma região na Itália onde os Centros de Educação Infantil públicos são modelo mundial de educação e a ênfase gira em torno de projetos de artes visuais. Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 162 Prezado aluno! Chegamos ao final de nossa leitura, que bom! Neste livro você conheceu um pouco de nossa história sobre o ensino de Arte no Brasil, as tendências pedagógicas por que ele passou até chegar em nossos dias, conheceu a proposta contemporânea do ensino de Arte, nela a Proposta Triangular de Ana Mae Barbosa, onde três campos conceituais são articulados, propiciando assim momentos de produção artística, apreciação estética e contextualização histórica; conheceu um pouco sobre cultura visual, o ensino multicultural, a metodologia de projetos e outros. Sendo assim, imagino que seus conhecimentos acerca do ensino de Arte se consolidaram e espero que eles tenham lhe provocado no sentido de querer ser professor. 1. Quais das imagens a seguir propiciam um trabalho interdisciplinar, com, no mínimo, as disciplinas de Língua Portuguesa, Arte, Ciências, entre outras, nos anos/séries iniciais do Ensino Fundamental? a. ( ) Chocalho b. ( ) Clave de sol Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 163 2. Marque apenas a alternativa verdadeira. a. O professor que trabalha de forma interdisciplinar é aquele que segue o livro didático, respeita as fronteiras das outras disciplinas e utiliza, às vezes, alguma disciplina como ilustração, para complementar o seu conteúdo. b. A diversidade étnico-cultural não está presente diariamente no contexto brasileiro; por ser um povo homogêneo, há harmonia em relação à música, à religião, à dança, à culinária e outros, isto porque não somos um povo com muitas caras! Não somos preconceituosos. c. A interdisciplinaridade tem como objetivo construir um conhecimento da totalidade, rompendo com as fronteiras das disciplinas. d. Os professores não devem levar em conta os conhecimentos prévios de seus alunos sobre o conteúdo que está sendo aplicado. e. A educação multicultural salienta as diferenças entre grupos étnicos e não reconhece as similaridades entre estes mesmos grupos. c. ( ) Cachorro e. ( ) Célula d. ( ) Ttabela de química Políticas públicas para a educação em artes visuais U4 164 3. . Leia com atenção as afirmativas e marque (V) se for verdadeira e (F) se for falsa. a. O aluno que sempre aprende de forma fragmentada, isto é, que durante toda a sua escolaridade e processo de aprendizagem toma contato com as disciplinas sempre divididas em segmentos, forçosamente desenvolverá uma percepção igualmente fragmentada dos conhecimentos de cada área. b. A interdisciplinaridade tem como objetivo construir um conhecimento das partes separadamente, respeitando as fronteiras das disciplinas. c. Ao mencionarmos o ensino multicultural, estamos falando apenas de igualdades, estamos nos referindo à lei, aos direitos e deveres de cada um. d. Somos resultado de um hibridismo, pois o Brasil se caracteriza pela mistura de etnias, e desta mistura de negros, brancos, indígenas, dentre outros, é que nós surgimos. Abrigamos diversas culturas, no entanto, não lidamos com naturalidade ou facilidade com as diferenças. Quando temos consciência das diferenças entre as pessoas, da individualidade de cada um, falamos de multiculturalismo. e. Arte naïf (arte ingênua, como é chamada) é o estilo a que pertence a pintura de artistas sem formação sistemática. É a arte do fazer artístico sem escola nem orientação, portanto é instintiva e onde o artista expande seu universo particular. O artista naïf busca como fonte de inspiração a iconografia popular das ilustrações dos velhos livros, das folhinhas suburbanas ou das imagens de santos. O artista naïf não se preocupa em preservar as proporções naturais, nem os dados anatômicos corretos das figuras que representa. a. V, V, V, F, F. b. F, V, F, V, V. c. V, V, V, V, F. d. V, F, F. V, V. e. F, V, F, F, V. U4165Políticas públicas para a educação em artes visuais Referências BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília, 2010. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria e Ensino Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: artes. Brasília, 1997. BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília, 1998. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Brasília: Presidência da República, 1996. CAVA, Laura Célia Sant’Ana Cabral. Ensino das artes: pedagogia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2009. DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir – relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. 6. ed. São Paulo/Brasília: Cortez/ Unesco/MEC, 2001. FAZENDA, Ivani C. Interdisciplinaridade: um projeto em parceria. Loyola, São Paulo, 1993. FELDMANN, M. G. Formação de Professores e o Ensino de Arte na Escola Brasileira. 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