Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

MATERIAL DIDÁTICO 
 
 
BASES SOCIOANTROPOLÓGICAS 
DOS AFRODESCENDENTES 
 
 
 
 
 
 
 
 
CREDENCIADA JUNTO AO MEC PELA 
PORTARIA Nº 2.861 DO DIA 13/09/2004 
 
0800 283 8380 
 
www.portalprominas.com.br 
2 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 3 
UNIDADE 1 – ENTENDENDO A ANTROPOLOGIA .................................................. 5 
1.1 Conceitos e ramificações ...................................................................................... 5 
1.2 Dos primórdios da Antropologia ao século XIX ..................................................... 8 
UNIDADE 2 – FORMAÇÃO DO SUJEITO BRASILEIRO – AS NOSSAS RAÍZES . 11 
2.1 A nossa formação étnico-racial ........................................................................... 17 
UNIDADE 3 – MIGRAÇÕES - FOCO NO BRASIL ................................................... 24 
3.1 Movimentos migratórios e a xenofobia ................................................................ 26 
3.2 Imigrantes ............................................................................................................ 28 
3.3 Migrantes brasileiros ........................................................................................... 35 
UNIDADE 4 – ETNIA, RAÇA E MULTICULTURALISMO ........................................ 38 
4.1 Classificação de cor e raça do IBGE ................................................................... 38 
4.2 Etnia e raça ......................................................................................................... 41 
4.3 Multiculturalismo: definições e surgimento .......................................................... 43 
4.4 Currículo, etnia e diversidade cultural ................................................................. 47 
UNIDADE 5 – QUILOMBOLAS ................................................................................ 51 
5.1 As comunidade quilombolas ................................................................................ 51 
5.2 Como identificar uma pessoa de origem quilombola ........................................... 52 
5.3 Identificando a terra e localizando comunidades quilombolas ............................. 52 
5.4 As dificuldades encontradas pelos municípios para cadastrar famílias 
quilombolas ............................................................................................................... 53 
5.5 O Programa Brasil Quilombola (PBQ) ................................................................. 53 
UNIDADE 6 – POPULAÇÕES INDÍGENAS ............................................................. 56 
6.1 A realidade, os direitos dos povos indígenas no Brasil e as Terras Indígenas 
(TIs) ........................................................................................................................... 56 
6.2 Proteção social – direito dos povos indígenas .................................................... 59 
6.3 O Cadastramento das famílias indígenas............................................................ 59 
UNIDADE 7 – REVISITANDO A HISTÓRIA DAS RELIGIÕES AFRICANAS .......... 63 
7.1 A religião na África .............................................................................................. 63 
7.2 As religiões afro-brasileiras ................................................................................. 66 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 70 
3 
 
INTRODUÇÃO 
 
Não faz muito tempo que a Antropologia encontrou seu espaço e lugar nas 
ciências. Já passou como parte da história natural e até mesmo física do homem e, 
por conseguinte, do seu processo evolutivo. 
Como diz Buzzi (1988), na antropologia se expõe os conhecimentos de 
filosofia a respeito do ser humano e assim ela, a filosofia, mostra o conhecimento 
que o homem faz do ser, tanto que ela traduz uma antropologia. 
Estudar o homem como ser biológico, social e cultural são os principais 
objetivos da Antropologia e em cada uma dessas dimensões encontramos os mais 
variados desdobramentos, portanto, podemos dizer que o conhecimento 
antropológico geralmente é organizado em áreas que indicam uma escolha prévia 
de certos aspectos a serem privilegiados como: 
• a “Antropologia Física ou Biológica” (aspectos genéticos e biológicos do 
homem); 
• a “Antropologia Social” (organização social e política, parentesco, instituições 
sociais); 
• a “Antropologia Cultural” (sistemas simbólicos, religião, comportamento); e, 
• a “Arqueologia” (condições de existência dos grupos humanos 
desaparecidos). 
Além disso, podemos utilizar termos como Antropologia, Etnologia e 
Etnografia para distinguir diferentes níveis de análise ou tradições acadêmicas. 
Claude Lévi-Strauss (1970, p. 377) explica que: 
• a etnografia corresponde aos primeiros estágios da pesquisa – observação e 
descrição, trabalho de campo; 
• a etnologia, com relação à etnografia, seria um primeiro passo em direção à 
síntese; 
• a antropologia, uma segunda e última etapa da síntese, tomando por base as 
conclusões da etnografia e da etnologia. 
4 
 
Apoiando-nos nesses breves conceitos, centraremos nossos estudos neste 
módulo, justamente nas bases antropológicas dos descendentes africanos e povos 
indígenas, povos estes que somados aos europeus dão a ‘forma’ à nossa 
população. 
Duas observações se fazem necessárias: 
Em primeiro lugar, sabemos que a escrita acadêmica tem como premissa 
ser científica, ou seja, baseada em normas e padrões da academia. Pedimos licença 
para fugir um pouco às regras com o objetivo de nos aproximarmos de vocês e para 
que os temas abordados cheguem de maneira clara e objetiva, mas não menos 
científicos. 
Em segundo lugar, deixamos claro que este módulo é uma compilação das 
ideias de vários autores, incluindo aqueles que consideramos clássicos, não se 
tratando, portanto, de uma redação original. 
Ao final do módulo, além da lista de referências básicas, encontram-se 
muitas outras que foram ora utilizadas, ora somente consultadas e que podem servir 
para sanar lacunas que por ventura surgirem ao longo dos estudos. 
5 
 
UNIDADE 1 – ENTENDENDO A ANTROPOLOGIA 
 
Ao prefaciar o livro “Aprender Antropologia” de François Laplantine (2003), 
Queiroz nos mostra que uma das maneiras mais proveitosas de se dar a conhecer 
uma área do conhecimento é traçar-lhe a história, mostrando como foi variado o seu 
colorido através dos tempos, como deitou ramificações novas que alteraram seu 
tema de base ampliando-o. Fazemos dessas nossas palavras e para início de 
conversa seguiremos esse viés, o da história, mesmo que sejamos breves. 
 
1.1 Conceitos e ramificações 
Etimologicamente, Antropologia vem de antrhopos – homem ou pessoa; e 
logos – razão ou pensamento. Por essa decomposição podemos inferir que 
Antropologia é a ciência que estuda ou se preocupa com o ser humano e suas 
relações. Não é, pois, uma ciência exata e se liga emaranhadamente a outras 
ciências sociais, tendo, portanto, um campo de atuação muito vasto. 
No entendimento de Batalha (2005), a definição mais simples e completa de 
Antropologia é a de Haviland, que a define como 
o estudo da humanidade em toda a parte e através do tempo, feito com a 
intenção de produzir conhecimento fiável sobre as populações humanas e o 
seu comportamento, tendo em conta o que as torna simultaneamente iguais 
e diferentes. 
 
Para Salzano (2009), no seu sentido estrito, o termo Antropologia refere-se 
ao estudo da história natural da espécie humana, isto é, da Antropologia Física ou 
Biológica. Já no seu sentido lato, a palavra tem um âmbito mais abrangente, que 
inclui a Antropologia Cultural ou Social, a Arqueologia e a Linguística, além daAntropologia Biológica. Este é o chamado enfoque dos quatro campos, 
particularmente adotado nos Estados Unidos da América (Spencer, 1997 apud 
SALZANO, 2009). 
Tradicionalmente, a Antropologia no Brasil tem seguido um rumo diverso, os 
Departamentos de Antropologia, concentrando primariamente cultores da 
Antropologia Cultural, com grupos geralmente menores de arqueólogos. A 
participação de linguistas e antropólogos biológicos nessas unidades é praticamente 
nula. 
6 
 
Santos (2008) explica que para podermos analisar as sociedades globais 
como super-sistemas, teremos de ter em conta que existem, dentro delas, 
subsistemas próprios e seus respectivos grupos elementares (parentesco, sexo, 
idade) que interagem entre si e com o resto da sociedade, em forma de cadeia, 
direta ou indiretamente, criando a sua própria unidade e originalidade social. 
Ao procurar saber quando, como e onde surgiram as populações humanas e 
como e porque variam entre si física e culturalmente, a Antropologia acabou por se 
especializar em áreas científicas, fazendo uma divisão principal entre: 
• Antropologia física – estuda o homem sob o seu aspecto puramente biológico; 
ou seja, estuda as características físicas do homem (fisionomia, cor da pele, 
estatura, fisiologia, entre outras) tanto no espaço como no tempo, para 
identificar e distinguir os grupos étnicos (raças, povos). Procura compreender 
a relação entre o meio geográfico e os aspectos físicos do homem e como 
esses aspectos podem influenciar a sua cultura; 
• Antropologia social e cultural – tem relações estreitas com a etnologia e com 
a sociologia (COLLEYN, 2005, p. 48). 
No início do século XX, a distinção entre Antropologia social e Antropologia 
cultural constituía uma diferenciação epistemológica que, ao longo dos últimos anos, 
tem vindo a perder fundamento. 
Vejamos outras ramificações: 
• Antropologia Linguística – procura entender a vida do homem, seus 
pensamentos e sentimentos, através do estudo da literatura escrita e da 
tradição oral (provérbios, cantigas, adivinhas, canções, entre outras); 
• Antropologia Pré-histórica – estuda o homem a partir dos vestígios materiais e 
outros testemunhos da sua atividade passada, com o objetivo de 
compreender a cultura de sociedades já desaparecidas; 
• Antropologia Psicológica – estuda os comportamentos conscientes de cada 
indivíduo para compreender o homem no geral. 
Ainda falando sobre a Antropologia Social e Cultural, temos que ela estuda o 
modo de vida (forma de trabalhar, hábitos, costumes, crenças, língua, religião) de 
um conjunto de indivíduos que fazem parte de um determinado grupo ou sociedade 
7 
 
e analisa a forma como esses indivíduos se relacionam com indivíduos de outros ou 
sociedades. 
Apesar de interligados, a Antropologia Social pode ser distinguida da 
Antropologia Cultural. Antropologia Social estuda um grupo ou uma sociedade como 
um conjunto, na sua totalidade, enquanto a Antropologia Cultural estuda o 
comportamento individual das pessoas de uma determinada comunidade. Analisa a 
forma como cada indivíduo vive numa sociedade. 
A Antropologia Cultural estuda a cultura das sociedades humanas: língua, 
religião, normas de conduta, crenças, artefatos (ferramentas, utensílios, obras 
artísticas), hábitos, forma de pensar, de agir, de manifestar sentimentos, entre 
outros. Analisa todos os aspectos que fazem parte da cultura do Homem 
Enfim, essa ciência caracteriza-se, assim, como um repositório de saberes 
que emerge de diversas disciplinas acadêmicas. Este comportamento de mudança 
observou-se, também, com outras ciências sociais, nomeadamente a Sociologia. 
Inicialmente, convencionou-se que a Sociologia estudava as sociedades industriais e 
a Etnologia estudava as sociedades ditas “primitivas”, apoiando-se nos dados que 
lhe eram fornecidos pela Etnografia, no seu trabalho “de campo”. 
Ao recorrer à observação participante (métodos menos diretos), as duas 
disciplinas cruzam-se inevitavelmente. As semelhanças entre essas Ciências são 
mais evidentes do que as suas diferenças, embora elas existam ao nível dos: 
métodos e técnicas utilizados, percursos históricos, objetos científicos específicos, 
escolas de pensamento diferenciadas e sociedade e cultura de origem dos próprios 
antropólogos. 
Ao partilhar com outras Ciências Humanas as formas e modos de 
organização social do ser humano, a Antropologia está também elencada ao campo 
científico histórico, dada a sua necessidade de compreender como funciona uma 
sociedade no presente e as relações sincrônicas entre os seus respectivos 
elementos. Desta forma, utiliza os fatos históricos identificáveis que ao serem 
analisados pelo arqueólogo, em determinado solo geográfico, corroboram a ciência 
antropológica (SANTOS, 2008). 
 
8 
 
1.2 Dos primórdios da Antropologia ao século XIX 
Desde Sócrates, o conhecimento de si mesmo é a mais alta meta da 
indagação filosófica “conhece-te a ti mesmo”. 
Embora o termo antropologia como “ciência do homem” esteja em uso desde 
o século XVI, somente depois do Iluminismo desenvolveu-se uma antropologia 
filosófica e teológica no sentido restrito. 
O Homem era compreendido a partir da cosmovisão. 
Os filósofos foram aprimorando seus entendimentos e em Aristóteles (384-
322 a.C.) encontramos o homem como um ser social que, pela razão e pela 
linguagem, é capaz de orientar-se, na convivência com os outros, em princípios 
éticos para manter justiça e ordem no Estado. Sua busca é pela felicidade. 
A partir do Humanismo e Renascimento, o homem passa a ser visto como 
um ser que participa tanto do mundo espiritual como do material, enquanto corpo e 
mente formam uma unidade única. 
Ocorre a afirmação do valor e da dignidade da pessoa humana. E mais: 
acontece livre indagação da natureza física pelo homem, sem os limites impostos 
pela autoridade, não mais se fundamentando a dignidade humana na “imagem e 
semelhança de Deus”, mas derivando sua especificidade da própria natureza 
humana. 
No século XIX e começo do século XX, a pesquisa antropológica voltou-se 
para o estudo das condições físicas, mudando o objeto. 
Vejamos: 
• não mais interessava a questão da autorreflexão sobre a essência humana, 
mas a pesquisa da constituição corpórea, suas condições naturais e sua 
formação histórico natural; 
• as atitudes passam a ser antifilosófica e antirreligiosa; 
• separação entre antropologia física e antropologia filosófica-teológica; 
• concentrava-se na pesquisa da Physis humana. 
No século XX é instituída a antropologia como disciplina científica. Enquanto 
a antropologia física busca as origens e a natureza biológica do homem na 
9 
 
perspectiva da ciência empírica, a antropologia filosófica e teológica buscam o 
consenso – deve-se buscar o diálogo com as antropologias do momento para 
estabelecer uma relação entre elas. 
Assim, no século XX nasce uma antropologia da relação transformadora da 
filosofia para com as outras ciências. 
Max Scheler (1874-1928) nos oferece grandes contribuições, sendo seu 
grande mérito mostrar que a antropologia transcende os limites do método científico: 
• a questão da antropologia extrapola as ciências singulares e, por isso, migrou 
para a filosofia e a teologia; 
• antropologia biológica seria o homem = animal; e na antropologia filosófica: 
homem ≠ animal; 
• os animais estão vinculados ao seu ambiente enquanto o homem é aberto ao 
mundo; 
• com inteligência o homem compensa suas carências biológicas; 
• sua conduta é marcada profundamente por tradições e instituições culturais e 
menos por instintos herdados; 
• o homem é o único vivente que indaga sobre sua própria natureza, que se 
torna um problema para si mesmo; 
• somente ele é consciente de si (ZILLES, 2011; REALE, 2003). 
 
Como diz Salzano (2009), a Antropologia, em seusprimórdios, foi 
basicamente interdisciplinar e integradora. Com o acúmulo de novas informações, 
de caráter diverso, tem havido uma tendência cada vez maior para a especialização 
em determinada subárea, de todo modo, ela vem adquirindo importância cada vez 
maior no mundo moderno, onde o isolamento cultural é quase impossível e onde os 
contatos são inevitáveis e se multiplicam, levando muitas vezes a situações 
conflitantes. 
A antropologia empenha-se na solução dessas situações, procurando 
minimizar os desequilíbrios e tensões culturais e tentando fazer com que as culturas 
atingidas sejam menos molestadas e seus valores e padrões respeitados. Aplica 
conhecimentos antropológicos, físicos e culturais na busca de soluções para os 
10 
 
modernos problemas sociais, políticos e econômicos, dos grupos simples e das 
sociedades civilizadas. 
 
Guarde... 
A finalidade da antropologia é o fornecimento do maior número possível de 
estudos sobre grupos humanos, uma vez que cada um deles é o produto de uma 
experiência cultural particular. 
11 
 
UNIDADE 2 – FORMAÇÃO DO SUJEITO BRASILEIRO – AS 
NOSSAS RAÍZES 
 
Esta unidade tem o objetivo de adentrar especificamente no âmbito da 
discussão sobre a formação do sujeito brasileiro, traçando uma genealogia do 
assunto com o ponto de partida da constituição de nossa sociedade brasileira 
embasado na obra de BUARQUE DE HOLANDA (1995) e também abarcando outras 
leituras da sociologia clássica. 
Pensar nesta constituição de sociedade é importante, tendo em vista que 
somos um país de extremas desigualdades e multiculturalidades, a dança do 
hibridismo existe com muita força em nossa forma de ser, pensar e agir no dia a dia, 
deste modo, faz-se necessário compreender, mesmo que brevemente, um pouco 
desta formação de sociedade. 
A nossa sociedade está calcada sobre bases rígidas, se bem que, 
ultimamente vivemos em paisagens de instabilidades quando vemos o levante de 
vários grupos tidos como minoritários perante os modelos vigentes e dominantes de 
nossa sociedade indo para as ruas, fazendo barulho, reivindicando e fazendo os 
seus direitos, porém, ainda há uma massa densa, um concreto duro, datado de anos 
de construção e endurecido pela ação do tempo e do sol forte que brilha e ilumina a 
pele negra de uma significativa parcela que forma este Brasil da multiculturalidade, 
das multiracialidade que nos significa e difere de tantos países mundo afora. 
Partindo do ponto de que Buarque de Holanda (1995) está embasado na 
exploração dos conceitos polares, seu livro Raízes do Brasil, é construído sobre uma 
admirável metodologia dos contrários, que alarga e aprofunda a velha dicotomia da 
reflexão latino-americana. O autor aproveita o critério tipológico da dialética 
weberiana, mas ele modifica-o, na medida dinâmica, ressaltando, principalmente, a 
sua interação no processo histórico. 
Mas nem por isso há uma concordância a respeito dos elementos de 
dualidade, o que fundamentaria uma dialética do conflito, porém cremos ser mais 
uma dialética ideológica, do que propriamente material, não que não haja esta 
segunda, até porque o que caracteriza nossa desigualdade é justamente a 
espoliação material da qual sofremos até hoje enquanto Estado precarizado, 
12 
 
principalmente por resquícios da colonização e cultura dual que cristalizou a 
estrutura de benefícios e regalias desta colonização. 
O que podemos perceber, no entanto, são os equívocos de uma elite 
perdida entre a cordialidade e modernidade, tendo em vista a ascensão mais 
perceptível do brasileiro fazendo com que a questão de classe seja mais transitável, 
talvez menos no campo material, porém maior no discurso disseminado de 
mobilidade social. Onde o sujeito seja ele proveniente de qualquer classe 
“pertencente” pode apropriar-se do discurso da elite para também dominar dentro do 
seu ciclo de “iguais”, tornando essa prática de usurpação de linguagem e bordões 
condenada e criticada pela elite, que infere como vulgaridade a assimilação 
“indevida” de determinado linguajar, bem como o alcance econômico que hoje, em 
pleno século XXI, o brasileiro tem podido alcançar com o começo, porém, incipiente 
da diluição de concentração da renda. 
É importante lembrarmos que este uso de linguajar nem sempre é 
apropriado para fins pacíficos numa alienação massificada, mas com o intuito de 
reivindicação e gozação da vulgaridade que a elite comete com seus excessos por 
parte daqueles sujeitos que não obtêm o mesmo privilégio, e desejam poder 
alcançar este status. 
Buarque de Holanda (1995) mostra a sociedade brasileira como sendo 
marcada pelo apreço e diferença, na qual o apreço pela diferença se enraíza em 
como ser uma pessoa de classe, enfatizando apenas uma ponta dos extremos, que 
soa melhor com a colônia dos trópicos onde, desde o começo a hierarquia lusa, se 
fez firmar pela divisão social. Desta forma então, a cordialidade de Buarque de 
Holanda veio num amálgama como uma marca a abrandar essa dialética de conflito 
material, onde o trabalhador é passível de cooptação pelo chefe, ou qualquer papel 
hierárquico que estenda seu cordialismo tendencioso no intuito da eterna 
submissão. Numa relação de provir onde o trabalhador servirá sempre aos 
propósitos da ostentação do patrão. Ora consciente dessa submissão ou 
completamente alienado através da cooptação. 
Esta submissão está casada com o imaginário social como mecanismo da 
aceitação e esta vem por meio do catolicismo, com sua moral cristã. O catolicismo 
veio como instrumento de unidade territorial que os lusos ibéricos lançaram sobre o 
13 
 
recente achado Brasil e que tão significativamente “amarrou” a unidade brasileira de 
norte a sul. 
Entretanto, ocorre uma divergência na modernidade, a configuração por uma 
não existência da moral religiosa na esquematização de práticas modernas. Embora, 
o Brasil já preza por uma sociedade fundamentada por essa moral religiosa, pois na 
falta da estrutura legalizada no sentido de um novo Estado regimentado por redes 
físicas, como ocorreu com a Família Real Portuguesa, existia uma estrutura que se 
perpetuou na colônia pela figura do sacerdote / Padre. 
Na América, como continente de novos ricos, ou numa nomenclatura 
condizente com a modernidade brasileira, os “emergentes”, existe uma cooptação 
do nosso imaginário social pelo atrativo norte americano, pelo sonho americano. 
Pela incrível propensão da imitação do que é externo a nós, neste caso dos nossos 
primos ricos do norte e por incrível que pareça a qual damos mais valor do que a 
nossa própria cultura, e esta imitação e endeusamento é tanto existente pela nossa 
elite, quanto pelos marginalizados alienados. 
Aliás, é através desta valorização exacerbada que deixamos de lado de 
valorizar nossos antepassados, nossa raiz imigrante e africana, ora, como explicar 
que sejamos mais propensos a valorizar uma cultura que nem é a nossa de origem, 
mas sim que nos foi imputada por um mecanismo ideológico capitalista? 
Parece-nos que a força deste modelo cultural, desse consumo cultural nos 
coloca em uma situação de alienação dentro do nosso país pelas nossas raízes, 
bem como também nos põe em total sentimento antifraterno com nossas raízes 
latino-americanas. Não é raro ouvirmos de nossos vizinhos argentinos, chilenos, 
bolivianos, paraguaios, entre outros, que somos uma sociedade que se acha 
diferente, individualista pelo fato de nunca falarmos/nos considerarmos como latino-
americanos. Somos brasileiros, mas ora, ser brasileiro é ser latino-americano não? 
Nosso habitus marginalizado ainda tende a submeter-se ao norte. Este 
talvez seja a explicação do porque na troca de “favores” internacionais somos quem 
oferece mais e em detrimento ao que nos é oferecido, ou seja, somos submissos 
numa colonização ideológica, por habitus coletivo que muitos ainda não percebemde tão forte que é essa construção ideológica que é histórica. 
14 
 
Caracterizamo-nos como uma sociedade exógena da modernidade e as 
promessas ficaram ou ainda são prometidas enquanto a vulgaridade ficou para nos 
indignarmos com os exageros da nossa elite. A nossa cordialidade de povo tropical 
se transforma em violência, pois com o avanço da democracia a cordialidade tende 
a diminuir aguçando os conflitos entre classes. E a aproximação entre as 
extremidades pobreza e riqueza tem por vezes se estreitado, mesmo que de uma 
forma fictícia. 
No Brasil, a configuração de povo e burguesia advém da nossa colonização, 
é só pensarmos no quesito da economia que fomos e que ainda continuamos sendo 
uma empresa de colonos brancos acionada pelo braço de raças estranhas, 
dominadas, mas ainda não fundidas na sociedade moderna, no caso somos hoje 
sujeitos pseudo inseridos numa modernidade nacional na qual tudo indica que ainda 
ocorre uma diminuição de um cordialismo para as relações mais individuais inclusive 
um “depender por si mesmo”. 
 É uma forma de revoltar-se com suas mazelas, o que sinaliza essa 
cordialidade no aspecto do revoltar-se, mas num viés de violência cordial, de 
apontamento de causas, de corpo a corpo, crime cordial que ocorre muitas das 
vezes pela necessidade da elite em se gabar ostentando o luxo perante a quem não 
têm o que por na mesa, comida para seus filhos (as), tornando-se o crime do pobre 
uma conotação ordinária, moderna e banal. 
O pobre, em sua grande maioria negra no Brasil, nem mesmo compreende 
os motivos de ser tão marginalizado, o motivo de tanto ódio contra a cor negra. 
Logo, que talvez este nem mesmo entenda do porque o crime, ou a criminalização 
de uma cor, de uma marginalidade que de tão incoerente chega a ser alienante, sem 
explicação que a única saída fica entre a resignação de continuar a ser a base 
explorada e injustiçada desta pirâmide social, este é o ônus de viver num país de 
tamanha desigualdade social. 
Se pensarmos bem, veremos que não é devido à chegada da família 
Imperial e independência do Brasil, ou seja, por meio deste marco histórico, que as 
relações de hierarquia e lógica cultural se diluíram, pelo contrário, não apenas 
perpetuou-se no tempo como por vez tornou-se implícita sob a camuflagem da 
camaradagem de forma a iludir o povo através de uma cordialidade muito mais 
apropriada pela elite numa modernidade favorável a perpetuação da elite brasileira. 
15 
 
A tônica da cordialidade acabou se constituindo de forma dúbia, pois ao 
mesmo tempo em que Buarque de Holanda (1995) pautado na dialética Weberiana 
afirma essa característica como sendo própria de nós habitantes dos trópicos, em 
detrimento a racionalidade do povo anglo-saxão, não podemos esquecer-nos das 
inúmeras batalhas que nós pessoas “cordiais” estivemos envolvidos e massacrando 
milhares de vidas latinas, bem como dentro do próprio Brasil, através dos confrontos 
internos, batalhas nas quais o pobre negro, os índios, ativistas e militantes diversos 
tiveram suas vidas ceifadas pela intolerância fomentada por uma elite racista, 
homofóbica, burguesa e totalmente indiferente com as diferenças, pois, estas só 
servem para sustentá-los no poder enquanto massa de manobra e mão de obra para 
as ainda suspensas famílias elitistas deste país. Não são poucas as famílias nem 
mesmo são invisíveis como se creem muitos desavisados em nosso país. 
Eles estão aí, espreitando os movimentos da massa, com seus canais de 
televisão antidemocráticos, monopolizantes da vida midiática brasileira, estão no 
comando dos bancos, no comando das grandes empresas, no comando de grandes 
tradições como as militares e até mesmo educacionais. 
Este aspecto, traço dúbio, incoerente de nós brasileiros é apontado por 
Buarque de Holanda (1995), que, aliás, nunca inferiu o termo cordialidade como 
sendo algo próprio de bondoso, e gentil, longe disso, o termo foi cunhado por ele 
mais no sentido de denotar uma qualidade de esperteza e malícia do brasileiro no 
jogo de corpo a corpo dos trópicos, e neste sentido não é absurdo pensar batalhas e 
lutas onde no jogo de interesse político e de “soberania” o Brasil sim mostrou sua 
verdadeira face de gigante hierárquico. 
A preocupação, ou complexidade que hoje a elite brasileira sente em relação 
à mutualidade e permeabilidade que se configura no Brasil, é a distinção de 
posições e classe como uma ameaça a “legitimidade” de quem sempre se pautou 
pelo direito de ordenar. Pois à medida que a modernidade vai diluindo a dialética 
cristalizada de elite x povo, ela possibilita a insurgência de problemáticas, 
incômodos e fissuras que até então ficavam exposta apenas no âmbito das 
dualidades de luta histórica sendo que há outros aspectos que gritam por espaço na 
sociedade como da luta pela conquista de direitos devassados da hibridização do 
sujeito. 
16 
 
 Hoje não se reivindica apenas direito de classe, mas sim vários outros 
direitos que fazem parte de um mundo híbrido do sujeito, ou seja, se busca sanar as 
especificidades de lutas como de homossexuais, das mulheres, negros (as), entre 
outras. 
Um ponto que julgamos importante pontuar também nesta análise é a 
maneira como o sujeito negro(a) se constituiu em nosso país, como um sujeito 
dotado de desqualificações como vagabundo, indolente, preguiçoso, entre outros. 
Ora, este é um discurso que favorece uma dominação de um sujeito sobre o outro, 
então, a utilização deste tipo de discurso desfavorável ajuda a manter as coisas no 
lugar, ou seja, as raças em seu devido local sociais. 
O indivíduo de uma família abastarda, mantida através de uma esfera 
política e cultural (Imperial, branca, patriarcal, burguesa e monogâmica) que veio 
enraizado no Brasil desde o momento em que fomos “descobertos”, configurou-se 
como o sujeito nobre de pertença por excelência. 
E, sendo o negro arrancado de sua pátria mãe para servir a esta ordem, ele 
não necessariamente teria como hipótese elaborada por um discurso dominante um 
habitus constituído desde a sua origem para poder “vencer na vida”. Neste caso, ele 
estaria então a mercê de uma cultura externa que lhe foi compulsoriamente imposta, 
enterrando este sujeito negro num habitus1 de total submissão que o branco impôs a 
este através, principalmente, do cristianismo que muitas das vezes veio de encontro 
a crença tribal que muitos possuíam em sua terra natal, neste caso, não se trata de 
uma submissão herdada de geração para geração, mas sim de uma guinada de uma 
vida de liberdade e tradição local, para a submissão de trabalho compulsório, uma 
guinada forçada, um habitus forçado. 
A constituição do Brasil ocorreu e ainda ocorre sob o crivo de uma 
subcidadania no que diz respeito a um patamar de espoliação que o país acabou se 
constituindo, e nesta situação é fácil a proliferação cultural da inveja, e ostentação 
 
1
 Os condicionamentos associados a uma classe particular de condições de existência produzem 
habitus, sistemas de disposições duráveis e transponíveis, estruturas estruturadas predispostas a 
funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como princípios geradores e organizadores de 
práticas e de representações que podem ser objetivamente adaptadas ao seu objetivo sem supor a 
intenção consciente de fins e o domínio expresso das operações necessárias para alcançá-los, 
objetivamente “reguladas” e “regulares” sem em nada ser o produto da obediência a algumas regras 
e, sendo tudo isso, coletivamente orquestradas sem ser o produto da ação organizadora de um 
maestro (BOURDIEU, 2009, p. 87). 
17 
 
de sujeito para sujeito no intuito de esmagar. E quem é a ralé que acaba sendo a 
camada enfocada dessa humilhação? O pobre branco e negro, e sua condição 
híbrida de ser sujeito. A falta de condição de vida que marca nossa sociedade éresponsável pela baixa alta estima desses sujeitos, tanto materialmente quanto 
simbolicamente. 
É importante salientar que no Brasil, o racismo se afirma pela negação, é 
negando a cor da pele, a cultura negra, as raízes que ajudaram a constituir a 
sociedade brasileira. 
As práticas discriminatórias ocorrem de modo a imputar ao outro, no caso ao 
negro, as características de um sujeito de baixa moral, de vagabundo, ocioso, 
características vistas pela nossa sociedade como sendo algo ruim, esta 
característica no nosso país diz muito do homem brasileiro, que é marcado por 
essas duas características, dois tipos de sujeitos: o aventureiro e o trabalhador. 
Neste sentido, embora saibamos que existe muito do suor e sangue negro 
na constituição de nossas cidades, de nossas construções arquiteturais, é ele quem 
é colocado no limbo da valorização humana na nossa sociedade. 
Como aponta Buarque de Holanda (1995, p. 44): 
Existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura. Assim, o 
indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que 
sente ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e detestáveis, 
irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem – tudo, enfim, quanto se 
relacione com a concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. 
 
2.1 A nossa formação étnico-racial 
Como bem apontou DaMatta (1986, p. 37), lembrando a fala de Antonil no 
século VXIII, “O Brasil é um inferno para os negros, um purgatório para os brancos e 
um paraíso para os mulatos”. Para as teorias racistas europeias, o grande problema 
que ocorria em território brasileiro, e isto era visto com bastante horror para eles era 
o processo de miscigenação que aqui se dava. 
Para eles, existia um escalonamento entre raças e obviamente que a raça 
branca se situava no patamar mais alto, no topo da hierarquia social vigente, a 
ordem valorativa máxima. Este pensamento de ordem hierárquico racial pode ser 
percebido na obra do antropólogo quando este cita as ideias do Conde de Gobineau 
18 
 
que viveu na cidade do Rio de Janeiro e pensou de modo racista e hierárquico a 
divisão das raças em três critérios. 
De acordo com DaMatta (1986, p. 38-39): 
Gobineu, entretanto, não realiza um exercício simplista, no sentido de dizer 
que a “raça” branca era superior em tudo. Há muita inteligência nos 
preconceitos e nos autoritarismos. Muito ao contrário, ao comparar, por 
exemplo, brancos e amarelos no que diz respeito às suas “propensões 
animais”, ele situa os primeiros abaixo dos segundos. Quem não se salva, 
porém, como infelizmente acontece até hoje na nossa sociedade, são os 
negros, sempre e em tudo situados abaixo de brancos e amarelos. 
 
O conde, segundo o antropólogo, via nossa miscigenação como algo 
totalmente revoltante, e, escrevia para sua terra natal contando os horrores que era 
a mistura no Brasil. 
O grande problema visto pelo conde, e que talvez não era tão diferente de 
outros olhares estrangeiros no Brasil, era a mistura entre diferentes raças, pois, se 
as orgias e misturas insanas como ele percebia ficasse entre a mesma raça, daí não 
haveria nenhum problema. 
Logo, DaMatta (1995, p. 39) diz que: 
Gobineau, como se vê, foi o pai, ou melhor, o verdadeiro genitor de um dos 
valores mais caros ao preconceito racial de qualquer sociedade 
hierarquizada. Referimos-nos ao fato de que ele não se colocou contra a 
hierarquia que governava, conforme supunha a diversidade humana no que 
diz respeito aos seus traços biológicos, mas foi terminantemente contrário 
ao contato social íntimo entre elas. E é precisamente isso, conforme sabe 
(mas não expressa) todo racista, que implica a ideia de miscigenação, já 
que ela importa contato (e contato íntimo, posto que sexual) entre pessoas 
que, na teoria racista, são vistas e classificadas como pertencendo a 
espécies diferentes. Daí a palavra “mulato”, que vem de mulo, o animal 
ambíguo e híbrido por excelência; aquele que é incapaz de reproduzir-se 
enquanto tal, pois é o resultado de um cruzamento entre tipos genéticos 
altamente diferenciados. 
 
Deste modo, se pensarmos que o Brasil é um país marcado por esta intensa 
miscigenação, provavelmente fomos o grande celeiro de observações e interesses 
estrangeiros pelo exótico país que se constituía. 
E mais, compreender o significado das palavras como mulato, é um modo de 
vermos como o racismo se encarna nas palavras, termos usados no modo de 
tratamento do negro e pessoas oriundas de relações mestiças em nosso país. 
19 
 
Dentre os vários teóricos do racismo, apontado por DaMatta (1995), temos 
Buckle, Couty e Agassiz. Esses e mais tantos outros tinham em suas observações 
que era pavorosa a miscigenação. Acreditavam que do resultado da miscigenação, 
não poderia sair nada de bom, nada de positivo ou de melhor, em outras palavras, 
que a concepção de um sujeito por diferentes raças só poderia desdobrar em 
fracasso. 
A constituição do racismo brasileiro, ocorreu de modo muito diferente de 
outros tipos de racismos pelo mundo afora, e, sobre esta comparação extremamente 
importante, DaMatta (1995, p. 40-41) diz o seguinte: 
Noto, primeiramente, que Antonil não fala de branco, negro e mulato numa 
equação biológica. Ao contrário, com eles constrói uma associação social 
ou normal, pois que relaciona o branco com o purgatório, o negro com o 
inferno e o mulato com o paraíso. Creio ser a primeira vez que se 
estabelece um triângulo para o entendimento da sociedade brasileira e isso, 
sustento, é significativo e importante. Significativo porque eu mesmo tenho 
repetido seguidamente que o Brasil não é um país dual onde se opera 
somente com uma lógica do dentro ou fora; do certo ou errado; do homem 
ou mulher; do casado ou separado; de Deus ou Diabo; do preto ou branco. 
Ao contrário, no caso de nossa sociedade, a dificuldade parece ser 
justamente a de aplicar esse dualismo de caráter exclusivo; ou seja, uma 
oposição que determina a inclusão de um termo e a automática exclusão do 
outro, como é comum no racismo americano ou sul-africano, que nós 
brasileiros consideramos brutal porque no nosso caso tudo se passa 
conforme Antonil maravilhosamente intuiu. Isto é, entre o preto e o branco 
(que nos sistemas anglo-saxão e sul-africano são termos exclusivos), nós 
termos um conjunto infinito e variado de categorias intermediárias em que o 
mulato representa uma cristalização perfeita. 
 
De acordo com DaMatta (1995), o nosso preconceito é muito mais refinado, 
pois é algo que ultrapassa a binaridade branco-negro, que é no caso a binaridade 
existente em países como os Estados Unidos, país que possui as marcas de um 
período de apartheid muito latente em sua população. Aliás, tais traços não são 
apenas roteiro de filmes e sim realidade que se percebe quem observa a realidade 
norte-americana. 
É comum encontrarmos nos Estados Unidos da América, casos do tipo: 
poucos negros cursando uma universidade; estes morando em bairros afastados do 
grande centro, local onde moram os brancos. Ou seja, a segregação ainda 
permanece de alguma forma existindo mesmo em um país que se considera modelo 
de economia, civilidade e modernidade. 
20 
 
O preconceito no Brasil é algo muito mais sofisticado, pois existem discursos 
velados sobre as raças encobertos pelo manto das relações de intimidade, 
sociabilidade, aquelas piadas que se faz e que se naturaliza, que se vê nos 
programas de comédia ou novelas e que pouco paramos para pensar no real 
significado daquelas piadas carregadas de um histórico racista. 
Em nome do parentesco se exclui, em nome da amizade se exclui tudo 
utilizando piadas racistas, mas que por se tratar de um amigo, de um parente, pela 
intimidade que se cria, então é preciso que se aceite, pois, caso contrário, torna-se 
careta ou radical demais o repúdio a tal brincadeira. 
Ora, o racismose alimenta é justamente por essa veia cômica que existe 
nas relações sociais, sobretudo as brasileiras que incorpora bordões, frases e 
piadas de modo muito passivo. Aliás, fazemos uso desses discursos sem maiores 
embaraços ou preocupações. 
De acordo com Antonil dito por Buarque de Holanda (1995): 
em sociedades protestantes como os Estados Unidos, tudo que é 
intermediário é fadado ao extermínio. O intermediário representa tudo que 
deve ser excluído da sociedade, só aí, percebemos como a miscigenação é 
vista como um verdadeiro horror pelos primeiros europeus que aqui 
estiveram. E, até hoje ainda é visto, pois, não podemos negar que a relação 
de distinção social e de raça ainda é o grande motivo de comparação por 
estrangeiros. 
 
O motivo de esta sociedade protestante olhar de forma horrorizada para uma 
sociedade em que a miscigenação acontece é descrita por Buarque de Holanda 
(1995, p. 43-44): 
Dentro de uma sociedade que tentou eliminar a tradição imemorial das leis 
implícitas, aquelas que podiam ser aplicadas ou não, que podiam ser 
lembradas ou não, o mulato, o intermediário, representava a negação viva 
de tudo aquilo que a lei estabelecia positivamente. Ele mostrava o pecado e 
o perigo da intimidade entre camadas sociais que deveriam permanecer 
diferenciadas, mesmo que fossem teoricamente consideradas iguais. Além 
disso, ele indicava a presença objetiva de uma relação entre camadas que 
não podiam comunicar-se sexual ou afetivamente. 
 
Se nos Estados Unidos o negativo é o que está entre as pessoas, no Brasil, 
o “racismo a brasileira” como aponta DaMatta (1986, p. 46), segue um modelo de 
hierarquia de raças para brancos, negros e índios. Como aponta o autor: O fato 
contundente de nossa história é que somos um país feito por portugueses brancos e 
21 
 
aristocráticos, uma sociedade hierarquizada e que foi formada dentro de um quadro 
rígido de valores discriminatórios. Os portugueses já tinham uma legislação 
discriminatória contra judeus, mouros e negros, muito antes de terem chegado ao 
Brasil; e quando aqui chegaram, apenas ampliaram essas formas de preconceito. 
No Brasil, a escravidão tomou uma roupagem econômica e racial que se fez 
desde a época do país colônia e que hoje não é difícil você leitor, perceber onde se 
encontra a negritude em nosso país, não está na senzala, mas está nos campos de 
obras das construções, estão na periferia, nas favelas, estão nas empregadas 
domésticas, nos muitos usuários de drogas que superpovoam as grandes cidades e 
são cada vez mais o chamariz para as reportagens midiáticas e sensacionalistas 
com o cunho higienista, bem como estão nas prisões, superpovoando os sistemas 
carcerários. 
Ora, não parece que há aí algo de errado? Como assim, lugares de negros, 
quem os colocou lá? Quem senão uma sociedade racista que enxerga o negro como 
carne barata, como uma mão de obra natural para servidão. Não é a toa que a 
música/letra de Elza Soares exemplifica muito bem a nossa sociedade brasileira. 
 
Carne Negra2 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
 
Que vai de graça pro presídio 
E para debaixo do plástico 
Que vai de graça pro subemprego 
E pros hospitais psiquiátricos 
 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
 
Que fez e faz história 
Segurando esse país no braço 
O cabra aqui não se sente revoltado 
 
2
 Disponível em: http://letras.mus.br/elza-soares/281242/ 
22 
 
Porque o revólver já está engatilhado 
E o vingador é lento 
Mas muito bem intencionado 
E esse país 
Vai deixando todo mundo preto 
E o cabelo esticado 
 
Mas mesmo assim 
Ainda guardo o direito 
De algum antepassado da cor 
Brigar sutilmente por respeito 
Brigar bravamente por respeito 
Brigar por justiça e por respeito 
De algum antepassado da cor 
Brigar, brigar, brigar 
 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
 
Neste sentido, como forma de camuflar a “vergonha” de sermos um país 
hierarquizado por racialmente, é mais fácil dizer que somos um país democrático 
onde a mistura de raças que nos faz este país democrático, é o grande legado da 
“união” das três raças. 
DaMatta (1986) nos coloca uma problemática social, pois, ele diz de um 
paradoxo em que vivemos já que: Como podemos apostar, credibilizando com 
nossas ações cotidianas de preconceito e racismos uma sociedade de 
desigualdades sociais e raciais e ao mesmo tempo querermos ser vistos como um 
país que agrega a todos? Ora, que tipo de democracia é esta? Certamente não é um 
país que respeita a miscigenação da qual nossas raças se constituíram e muito 
menos respeita os aspectos étnicos e raciais de nossa sociedade. Como ele diz: 
 
É claro que podemos ter uma democracia racial no Brasil. Mas ela, 
conforme sabemos, terá que estar fundada primeiro numa positividade 
jurídica que assegure a todos os brasileiros o direito básico de toda a 
igualdade: o direito de ser igual perante a lei! Enquanto isso não for 
descoberto, ficaremos sempre usando a nossa mulataria e os nossos 
mestiços como modo de falar de um processo social marcado pela 
desigualdade. Como se tudo pudesse ser transcrito no plano do biológico e 
do racial. 
 
23 
 
Na nossa ideologia nacional, temos um mito de três raças formadoras. Não 
se pode negar o mito. Mas o que se pode indicar é que o mito é precisamente isso: 
uma forma sutil de esconder uma sociedade que ainda não se sabe, hierarquizada e 
dividida entre múltiplas possibilidades de classificação. Assim, o “racismo à 
brasileira”, paradoxalmente, torna a injustiça algo tolerável, e a diferença, uma 
questão de tempo e amor. Eis, numa cápsula, o segredo da fábula das três raças. 
Racismo e desinformação caminham sempre de mãos dadas e não há lugar 
social em que este dueto maléfico não apresente sua faceta cruel e discriminatória. 
24 
 
UNIDADE 3 – MIGRAÇÕES - FOCO NO BRASIL 
 
Além de DaMatta (1995), Freitas (2014) também ressalta que dificilmente 
existe uma nação com tão complexa e variada composição étnica de sua população. 
Tentaremos, neste momento, ser um pouco mais suaves nas discussões acerca da 
formação populacional brasileira que advém de basicamente cinco distintas fontes 
migratórias, são elas: 
a) Os nativos, que se encontravam no território antes da chegada dos 
portugueses. Esses povos eram descendentes de homens que chegaram às 
Américas através do Estreito de Bering. 
b) Os portugueses, que vieram para o Brasil a fim de explorar as riquezas da 
colônia. 
c) Os negros africanos, que foram trazidos pelos europeus para trabalhar nos 
engenhos na produção do açúcar a partir do século XVI. 
d) A intensa imigração europeia no Brasil, sobretudo no sul do país. 
e) A entrada de imigrantes oriundos de várias origens, especialmente vindos da 
Ásia e Oriente Médio. 
Com base nessas considerações, a população brasileira ficou com a 
seguinte composição étnica: 
a) Brancos: a grande maioria da população branca tem origem europeia (ou são 
descendentes desses). No período colonial vieram para o Brasil: espanhóis, 
holandeses, franceses, além de italianos e eslavos. A região sul abriga 
grande parte dos brancos da população brasileira, pois esses imigrantes 
ocuparam tal área.b) Negros: essa etnia foi forçada a migrar para o Brasil, uma vez que vieram 
como escravos para atuar primeiramente na produção do açúcar e mais tarde 
na cultura do café. O Brasil é um dos países que mais utilizou a mão de obra 
escrava no mundo. Hoje, os negros se concentram principalmente em áreas 
nas quais a exploração foi mais intensa, como é o caso das regiões nordeste 
e sudeste. 
25 
 
c) Indígenas: grupo étnico que habitava o território brasileiro antes da chegada 
dos portugueses. Nesse período, os índios somavam cinco milhões de 
pessoas. Os índios foram quase disseminados, restaram somente 350 mil 
índios, atualmente existem 170 mil na região Norte e no Centro-Oeste 100 
mil. 
d) Pardos: etnia formada a partir da junção de três origens: brancos, negros e 
indígenas, formando três grupos de miscigenação. 
e) Mulatos: correspondem à união entre brancos e negros, esse grupo 
representa 24% da população e ocorre com maior predominância no 
Nordeste e Sudeste. 
f) Caboclos: representa a descendência entre brancos e indígenas. No país 
respondem por 16% da população nacional. Esse grupo se encontra nas 
áreas mais longínquas do país. 
g) Cafuzos: esse grupo é oriundo da união entre negros e índios, essa etnia é 
restrita e corresponde a 3% da população. É encontrado com maior 
frequência na Amazônia, Centro-Oeste e Nordeste. 
É verdade, tudo isso aprendemos em História do Brasil lá na educação 
básica. É o básico que precisamos saber para mais adiante entendermos as 
relações étnico-raciais e suas implicações. 
O Brasil pode ser apontado como um exemplo de que o conceito de raça é 
uma construção social, e que o entendimento de raça pode variar em diferentes 
sociedades. 
Desde os séculos XIX e XX, a cultura brasileira vem promovendo uma 
integração e miscigenação racial. No entanto, como já vimos nas falas de DaMatta, 
as relações raciais no Brasil não têm sido harmônicas, especialmente em relação ao 
papel de desvantagem dos negros brasileiros e indígenas, grupos fortemente 
explorados no período colonial do país, que tendem a ocupar posições menos 
prestigiadas na sociedade brasileira moderna, além das questões de choque cultural 
e dificuldade de preservação étnico-racial no país (ZALUAR, 2004). 
26 
 
3.1 Movimentos migratórios e a xenofobia 
Migrações internacionais são movimentos de saída e chegada de pessoas 
entre países que podem ser subdivididas em emigração (refere-se a pessoas que 
saem do país) e imigração (refere-se a pessoas que entram no país). 
Os impulsos migratórios são, geralmente, motivados por questões 
econômicas: de um lado, ligados a fatores de repulsão de emigrantes (crises 
econômicas, guerras, conflitos em geral, fome, entre outros); e, de outro, a fatores 
de atração (oportunidades de emprego, sonhos de enriquecimento rápido, melhoria 
na qualidade de vida, entre outros) (SILVA, 2009). 
Evidentemente que o processo migratório na atualidade forma um elo com a 
globalização por vários motivos, dentre eles a eficácia dos meios de transporte, as 
desigualdades sociais e econômicas entre os países e muitos outros. Igualmente 
como algumas consequências são positivas, temos outras negativas como é o caso 
da xenofobia (palavra derivada do grego xénos – estrangeiro e phóbos – medo) 
(ALMEIDA, 2013). 
As migrações geram vários encontros de povos de diferentes culturas, raças, 
credos e religiões. No geral, é algo positivo. O Brasil, por exemplo, é um país rico em 
diversidade cultural e étnica. Entretanto, quando os nativos passam a não aceitar os 
imigrantes há um grave problema social. 
A história recente da humanidade nos dá vários exemplos de como a 
xenofobia é algo grave. No Holocausto, ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, 
na Alemanha, os nazistas exterminaram aproximadamente 6 milhões de judeus. Isso 
porque acreditavam que os judeus eram uma raça inferior e manchavam o nome da 
Alemanha de Hitler, e, logo, deveriam ser exterminados. 
Ainda na atualidade, até barreiras físicas alguns países adotaram como 
medidas para conter a imigração. 
A xenofobia ocorre frequentemente nos países mais ricos e desenvolvidos, 
principalmente na Europa. Os nativos acreditam que os imigrantes são responsáveis 
pelo desemprego, criminalidade e todos os problemas sociais do país. Na Europa, 
alguns grupos xenófobos são conhecidos entre nós, como os Skinheads, na 
Inglaterra, e os Neonazistas, na Alemanha. Outros grupos não são tão conhecidos 
27 
 
assim, como os Bloc Identitaire (França), CasaPound (Itália) e English Defence 
League (Reino Unido) (ALMEIDA, 2013). 
A xenofobia pode ocorrer também dentro de um mesmo país, como 
acontece no Brasil e nos Estados Unidos, por terem dimensões territoriais enormes. 
Nos Estados Unidos há uma discriminação histórica contra negros, considerados 
como “lixos” e inferiores aos brancos. 
No caso do Brasil, tem-se o exemplo das discriminações sofridas pelos 
nordestinos no sudeste brasileiro. Geralmente, são atribuídos estereótipos de forma 
pejorativa, tais como “cabeça chata”, “baianos”, “paraíbas”, entre outros. Essas 
pessoas preconceituosas são, no mínimo, desinformadas a respeito da constituição 
do território, da história e da economia brasileira. 
A xenofobia, portanto, trata-se de um racismo, um preconceito cultural, uma 
discriminação racial, econômica e social ao estrangeiro. O encontro de diversos 
povos, religiões, sotaques, classes econômicas e sociais, no geral, é positivo. 
Contribuem para a riqueza cultural e econômica de uma nação (ALMEIDA, 2013). 
O grande desafio entre os países ricos e pobres, mais do que construir 
muros e elaborar leis que impeçam a entrada de migrantes, talvez seja a construção 
de um mundo mais justo e igualitário no século XXI, pois, como dizia o geógrafo 
Milton Santos (1978), apenas o acontecer próprio a um lugar não é indiferente ao 
acontecer próprio a um outro lugar, exatamente pelo fato de que qualquer que seja o 
acontecer é um produto do movimento da sociedade total. 
Meados do século XIX e início do século XX, como veremos adiante, foram 
os períodos que mais tivemos chegada de europeus ao Brasil. Nessa época, a 
Europa passava por uma explosão demográfica (devido ao desenvolvimento de 
técnicas médico-sanitárias e o consequente aumento da natalidade) que, aliada à 
crise na produção agrícola e à fome (motivadas por sucessivas guerras), 
impulsionaram a saída de muitos europeus em direção a países do continente 
americano, movidos pelos sonhos do acesso à terra e do enriquecimento rápido. 
Foi justamente com esses e outros tantos sonhos que, entre 1884 e 1933, 
quase 4 milhões de imigrantes desembarcaram no Brasil (alemães, espanhóis, 
portugueses, italianos, japoneses, turcos, sírios, entre outros), com destaque para os 
italianos, que somavam algo em torno de 1,5 milhão de pessoas (SILVA, 2009). 
28 
 
Embora pareça fugir um pouco aos propósitos de base da apostila, vamos 
falar dos principais grupos de imigrantes que por aqui aportaram ao longo de nossa 
história. 
 
3.2 Imigrantes 
O sítio na internet do Museu da Imigração do Estado de São Paulo nos 
conta de forma clara, rápida e plausível a história da imigração de cidadãos de 
diversos países. Abaixo estão algumas destas histórias: 
Movimentos migratórios para o Brasil 
 
a) Japão 
O processo de modernização do Japão iniciou-se a partir da Restauração 
Meiji, em 1868, e se estendeu até as primeiras décadas do século XX. Durante esse 
processo, muitos trabalhadores foram enviados para diferentes partes do mundo, 
como Ásia e Oceania, e, mais tarde, para as Américas, por uma política adotada 
pelo governo japonês, a fim de minimizar a pressão populacional no território. O 
deslocamento, a princípio interno e posteriormente para outros países, se deu 
principalmente devido à questão do acesso à terra, visto que, grande parteda 
população nesse período era composta por trabalhadores rurais. O desenvolvimento 
acelerado das grandes cidades provocou disparidades entre os novos núcleos 
urbanos e as cidades do interior que conservavam os modos de vida tradicional. 
A imigração dos japoneses para o Brasil foi amparada desde o início por 
ambos os países, recebendo orientações e ajuda dos representantes do governo 
japonês para que a fixação desses imigrantes fosse bem-sucedida. 
29 
 
Por meio dessa política de incentivo, em 1908, o primeiro grupo de 
japoneses partiu do porto de Kobe e chegou ao Brasil, a bordo do navio ‘Kasato 
Maru’. Posteriormente, os navios sairiam também dos portos de Yokohama e 
Nagasaki. 
O fluxo imigratório de japoneses ganhou relevo em 1930, após a imigração 
de italianos e espanhóis reduzir significativamente. A maior parte era proveniente do 
sul, nordeste e noroeste do Japão, regiões interioranas e tradicionalmente agrícolas. 
A província de Okinawa contribuiu com o maior grupo de imigrantes, seguida de 
Kumamoto, Fukuoka, Hokkaido, Fukushima, Kagoshima, Kochi, entre outras. Nesse 
mesmo período, os japoneses se dirigiram ao interior do estado de São Paulo para 
trabalhar na lavoura de café, destacando-se como o grupo de imigrantes que 
permaneceu por maior período nas atividades rurais e na produção dos 
hortifrutigranjeiros. Entre 1908 e 1975, estima-se que tenham entrado no Brasil 
cerca de 250 mil japoneses. Na cidade de São Paulo, esses imigrantes fixaram-se, a 
princípio, no bairro da Liberdade e, posteriormente, na Aclimação, Saúde, Ipiranga, 
Jabaquara e Vila Carrão. 
b) Alemanha 
A unificação dos Estados Alemães, que incluía a Alsácia-Lorena, 
Luxemburgo, Suíça, Áustria, Hungria, Romênia, Polônia, Rússia e suas Províncias 
Bálticas, ocorreu em 1891. Somente a partir dessa data, a Alemanha passou a ser 
uma nação como conhecemos hoje. Todos os imigrantes oriundos desses estados, 
isto é, todos que falavam a língua alemã, eram chamados de “alemães” pelos 
brasileiros. Os imigrantes de língua alemã chegaram ao Brasil na primeira metade 
do século XIX. A primeira colônia agrícola foi fundada na Bahia por volta de 1818 e 
recebeu o nome de Leopoldina, em homenagem à imperatriz brasileira, que era de 
origem austríaca. Em 1819, cem famílias de suíços foram instaladas em Nova 
Friburgo, no Rio de Janeiro. Em 1824, foi fundada a colônia de São Leopoldo, no Rio 
Grande do Sul. 
Ao longo de mais de um século, saindo dos portos de Bremen e Hamburgo, 
entraram no Brasil cerca de 250 mil imigrantes num fluxo anual pequeno, mas 
contínuo, que teve seu momento de maior intensidade em 1920, por conta da crise 
econômica relacionada ao fim da Primeira Guerra Mundial. Embora não tenha sido 
30 
 
tão expressiva quanto a italiana, espanhola e portuguesa, a imigração alemã 
influenciou a composição étnica do país, nos hábitos e costumes. 
Os imigrantes de língua alemã fixaram residência nas regiões Sudeste e Sul 
do país, principalmente nos estados de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do 
Sul. Assim, São Paulo figura entre os estados com maior número de imigrantes 
alemães, em virtude das ofertas de trabalho na produção e exportação de café e 
pelo crescimento da indústria decorrente dessa atividade. Na cidade, a principal 
colônia de imigrantes alemães foi fundada em 1829, no bairro de Santo Amaro. 
No Sul do país, a presença da população oriunda dos Estados Alemães foi 
intensa, nas primeiras décadas do século XX. Em algumas cidades da região, a 
língua alemã era mais falada que a portuguesa. Além disso, foram fundadas 
inúmeras colônias nos estados do Paraná, Santa Catariana e Rio Grande do Sul 
pelos alemães e seus descendentes. 
c) Árabe 
Conflitos políticos e sociais decorrentes das dominações dos Impérios 
Turco-Otomano e Britânico e crises econômicas levaram milhares de pessoas a 
saírem de países do Oriente Médio a partir do fim do século XIX. O contexto 
imigratório favorável do Brasil naquele momento propiciou a vinda dessa importante 
leva populacional. 
A maioria era proveniente da Síria, Palestina e Líbano, sendo os libaneses o 
grupo mais expressivo em terras brasileiras. Embora de países diferentes, 
compartilhavam traços de uma mesma cultura, como hábitos alimentares, tradições 
e a língua árabe. 
Uma característica importante da história dessa imigração é que, 
contrariando as expectativas dos governos, brasileiro e paulista, de que a vinda de 
trabalhadores estrangeiros suprisse a falta de mão de obra na agricultura, os árabes 
dedicaram-se principalmente ao comércio. Negociantes de objetos domésticos e 
tecidos a café e outros produtos agrícolas, desenvolviam suas atividades como 
caixeiros ou como proprietários de lojas de importantes centros urbanos. Na capital 
paulista, concentraram-se na região da rua 25 de Março, nos bairros do Brás, Pari e 
Belenzinho. 
31 
 
d) China 
A imigração chinesa no Brasil data do século XIX, quando fazendeiros e 
produtores agrícolas, em busca de mão de obra, optaram pela contratação de 
trabalhadores desse país. Os habitantes da região de Cantão, Sul da China, foram 
os primeiros a chegar e a dedicar-se basicamente às atividades agrícolas, ao plantio 
de chá, à mineração e à construção civil. 
É importante ressaltar que a chegada dos chineses provocou diversas 
discussões. Nesse sentido, dois temas se tornaram centrais: a denúncia dos 
abolicionistas sobre a continuidade do regime de escravidão, tendo em vista que o 
interesse dos proprietários de terras pela mão de obra chinesa era pagar o valor 
mais baixo possível pelo serviço, sujeitando-os condições análogas as dos 
africanos. 
O outro ponto relevante diz respeito às fortes diferenças culturais entre os 
dois países, que ia ao encontro do projeto político brasileiro de europeizar a 
população. 
Nos últimos anos, um grande número de imigrantes chineses chegou ao 
Brasil, onde se dedicam principalmente ao comércio. Atualmente, o número de 
chineses e descendentes no Brasil é estimado em cerca de 200 mil, sendo que a 
maioria está localizada no estado de São Paulo. 
e) Espanha 
A difícil situação que a Espanha vivia no fim do século XIX, por conta de sua 
economia agrária ser insuficiente para suprir as demandas internas, gerou 
desemprego e fome. O Brasil, vivendo um momento de pujança e com políticas de 
fomento populacional foi, então, o destino de milhares de famílias espanholas. Esse 
movimento é considerado a terceira maior leva que imigrou para o Brasil, depois dos 
italianos e portugueses, entre a segunda metade do século XIX até o início dos anos 
1970. 
Espanhóis das províncias da Galícia, Catalunha, Valência, Navarra e das 
cidades de Sevilha, Cadiz, Córdoba, Almeria, Granada e Málaga formam o principal 
grupo de imigrantes que se dirigiram ao Brasil. Partiam dos portos espanhóis de 
Vigo, La Coruña, Barcelona, Valência, Sevilha, Cadiz, Malaga e Gibraltar. Há 
32 
 
também muitos registros de espanhóis que partiram do porto de Leixões, na cidade 
do Porto, em Portugal. 
Concentraram-se principalmente no estado de São Paulo, atraídos pelas 
oportunidades de trabalho nas lavouras de café. Mais de 750 mil espanhóis 
entraram no Brasil a partir do fim do século XIX até os anos 1960. A primeira e mais 
numerosa leva de imigrantes espanhóis, até os anos 1930, dirigiu-se principalmente 
para o campo, mas os que vieram depois da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e 
da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) encontraram nas cidades e nas indústrias 
as maiores oportunidades para refazer sua vida. O envolvimento, vale frisar, de 
espanhóis em movimentos operários é bastante significativo: foram participantes 
ativos nas greves de 1917, em São Paulo. 
Na capital paulista, os espanhóis fixaram-se principalmente nos bairros da 
Mooca, Ipiranga, Cambuci e Brás. Municípios como São Bernardo, São Caetano eSantos também possuem importantes núcleos de imigrantes dessa nacionalidade. 
f) Itália 
Durante mais de um século, os italianos desembarcaram no Brasil e 
formaram a maior colônia de imigrantes no país. Diversos fatores impulsionaram 
esse deslocamento, como a grave crise política das décadas de 1860 e 1870, que 
levou a conflitos armados e culminou na unificação das então províncias 
independentes, dando origem ao que conhecemos hoje como Itália. Outro fator é de 
ordem econômica, tendo como principais motivos os conflitos armados supracitados 
e a crise agrária, que levou milhares de famílias a abandonar suas pequenas 
propriedades rurais em direção às cidades. A conjuntura desse período levou o 
governo a implementar políticas de fomento à emigração, que encontraram no 
contexto imigratório favorável do Brasil um importante ponto de convergência. 
Vêneto, Lombardia, Campania, Basilicata, Calábria, Sicília, Abruzzo, Molise, 
Lazio e Umbria são as principais regiões de origem das populações que escolheram 
o Brasil como destino. O maior e mais importante porto marítimo da Itália, de onde 
partiam os navios com os emigrados, entre 1876 a 1901, foi o porto de Gênova. 
Entre 1901 e 1905, o porto de Nápoles passou a transportar a maioria dos 
emigrantes, e, a partir de 1905, os portos de Palermo e Messina partilham com os 
demais o grande fenômeno emigratório. 
33 
 
É importante destacar que esse processo migratório iniciou-se concomitante 
à unificação da Itália, em 1871, razão pela qual uma identidade nacional desses 
imigrantes se forjou, em grande medida, no Brasil. 
Os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais foram os 
principais destinos dos italianos. No período de 1880 a 1970, grande parte ingressou 
no país pelo estado de São Paulo, atraídos pela possibilidade de trabalho nas 
fazendas de café. Nas cidades paulistas, trabalharam também em outras atividades, 
principalmente como operários da construção e da indústria têxtil. Na capital, bairros 
como Bixiga, Brás e Mooca são tradicionalmente relacionados à colônia italiana. 
g) Portugal 
As relações entre Brasil e Portugal tiveram início no período colonial, e o 
diálogo cultural entre os dois países se tornou determinante para a formação 
histórica e social de ambos. Entre o fim do século XIX e o início do XX, a imigração 
lusitana tomou força, milhares de homens, mulheres e crianças chegaram ao Brasil 
devido às dificuldades econômicas no país de origem e atraídos pelas afinidades 
linguísticas. 
No início, a maioria dos imigrantes portugueses que migrou para o Brasil era 
da província do Minho, na região norte de Portugal. Posteriormente, o país recebeu 
imigrantes de outras províncias, como Trás dos Montes, Douro, Beira Alta, Beira 
Litoral, dos distritos do Porto, Braga, Viana do Castelo, Vila Real, Vizeu, Bragança, 
Leiria, Aveiro e Coimbra. 
Em geral, partiam dos portos da cidade de Lisboa, de Leixões, no distrito do 
Porto e de Funchal, na Ilha da Madeira. 
Embora muitos imigrantes portugueses tenham sido encaminhados para o 
trabalho nas lavouras de café e para a agricultura em geral, a imigração portuguesa 
teve uma característica predominantemente urbana, com maior concentração 
principalmente nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Salvador, 
desempenhando um importante papel nos pequenos e grandes comércios, assim 
como na indústria. Alguns portugueses vieram diretamente para a cidade e outros 
após passarem pela lavoura, migravam à procura de melhores perspectivas de 
ganho, novas oportunidades abertas pelo intenso florescimento da capital paulista. 
34 
 
h) Coreia 
A imigração coreana é considerada recente pela historiografia, sobretudo, 
em relação à europeia. Teve início com a chegada ao Brasil de pequenos grupos de 
coreanos entre 1923 e 1926, fugidos da repressão japonesa sobre a Coreia ou na 
qualidade de japoneses naturalizados. Durante os anos 1950, período em que 
ocorreu a Guerra da Coreia, grupos que haviam sido presos no conflito também 
chegaram ao país. A corrente migratória coreana se intensificou no Brasil no fim da 
década de 1960, início dos anos 1970, quando o ministro da saúde da Coreia 
começou a traçar a política de emigração e a embaixada coreana iniciou as 
negociações para formalizar a imigração no Brasil. Foi estabelecido então um 
acordo de aquisição de terras e colonização agrícola para os coreanos que 
chegavam ao país. 
Cerca de 90% dos imigrantes coreanos que vivem em São Paulo, direta ou 
indiretamente, desenvolvem atividade econômica ligada ao comércio de confecção 
de roupas, especialmente no setor atacadista dos bairros do Bom Retiro e Brás. A 
maioria reside nos bairros da Liberdade, Aclimação e Higienópolis. 
i) Lituânia 
O primeiro registro da entrada de imigrantes lituanos no Brasil é do fim do 
século XIX, no Rio Grande do Sul. Depois disso, entre os anos de 1920 e 1939, uma 
grande leva migrou para o país, vinda de territórios ocupados pela Polônia ou de 
outras regiões da Europa, em busca de trabalho no campo e na indústria. É difícil 
saber exatamente o número de imigrantes lituanos que entraram no país, pois era 
comum entrarem com passaporte russo, já que a Lituânia fez parte do Império 
Czarista. Por outro lado, muitos lituanos que portavam visto para o Brasil eram 
procedentes de diferentes regiões da Rússia, Estônia e da Letônia. 
A maioria dos imigrantes lituanos foi encaminhada para as fazendas de café 
e cana no estado de São Paulo, onde as condições de trabalho eram precárias. 
Diante dessas condições, muitos imigrantes fugiram das fazendas procurando 
melhores oportunidades junto às indústrias da capital paulista. Em São Paulo, 
concentravam-se nos bairros industriais, como Bom Retiro, Vila Anastácio e Mooca. 
Hoje, a segunda maior colônia lituana do mundo localiza-se no bairro da Vila Zelina, 
zona leste da capital paulista. 
35 
 
j) Rússia 
Os primeiros grupos de imigrantes russos começaram a chegar ao Brasil no 
início da década de 1870. Eram, em sua maioria, camponeses que decidiram 
emigrar por motivos econômicos, políticos ou, até mesmo, religiosos. 
Os imigrantes russos, incluindo ucranianos e bielo-russos, foram 
direcionados principalmente para os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio 
Grande do Sul, além da região Sudeste. 
No fim do século XIX e início do XX, esses imigrantes ajudaram a compor a 
mão de obra nos centros industriais, em regiões de construção de ferrovias e 
principalmente na lavoura. Na cidade de São Paulo, as comunidades russa e 
ucraniana estão presentes de forma significativa nos bairros da Vila Alpina, Vila 
Prudente, Vila Zelina, Pedreira, Ipiranga e Moema, além de São Caetano do Sul e 
Osasco, na grande São Paulo. 
k) Colombianos, Bolivianos e Haitianos 
Oriundos desses países vizinhos afetados por fatores ambientais, 
econômicos, humanitários e sociopolíticos, a entrada desses imigrantes ilegais no 
país vem aumentando conforme alguns regimes políticos; tornam-se mais instáveis, 
principalmente no Caribe e na América do Sul. Por esse aspecto, no Brasil, observa-
se grande contingente populacional oriundo de países como Haiti, Bolívia e 
Colômbia, que mesclam diferentes fatores e geram emigrações cada vez mais 
difíceis de serem impedidas em cada um dos âmbitos nacionais. 
Segundo Oliveira e Moreira (2013), essa condição de imigração ilegal 
acarretou a criação de toda uma rede facilitadora de entrada no Brasil, o que ainda é 
agravada pelos índices positivos de estabilidade política e econômica do país, que 
somados a uma natureza geográfica que reduz a possibilidade de tragédias naturais, 
faz com que o país seja chamariz para seus vizinhos. 
 
3.3 Migrantes brasileiros 
A migração de brasileiros de outros estados, sobretudo do nordeste do país 
para São Paulo foi contemporânea à entrada de imigrantes europeus. Há registros 
deentrada desses migrantes na Hospedaria de Imigrantes do Brás já em 1888. 
36 
 
Tratava-se de um grupo de cearenses enviado para uma fazenda de café no interior 
do Estado de São Paulo. 
Vejamos a ilustração a seguir: 
 
Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/geografia/pratica-pedagogica/gente-chega-gente-sai-
488822.shtml 
 
Desde o fim do século XIX até os anos 1930, o movimento de trabalhadores 
das regiões Norte e Nordeste para o Sul era feito por navios conhecidos como 
vapores Ita. Dos portos de Cabedelo (PB), Recife (PE), Salvador (BA), Natal (RN) e 
Maceió (AL), milhares de nordestinos embarcavam rumo aos portos do Rio de 
Janeiro e Santos. Havia ainda aqueles que tinham como ponto de partida, estações 
ferroviárias de outras cidades, como Montes Claros e Pirapora, em Minas Gerais, 
com destino à estação Roosevelt, em São Paulo. Muitos trabalhadores também se 
deslocavam em caminhões conhecidos como ‘pau de arara’. 
A inserção dos trabalhadores nacionais em São Paulo não foi mais fácil que 
a dos imigrantes oriundos de outros países, embora falassem a mesma língua e 
compartilhassem aspectos da cultura da sua nova terra, como a religião, por 
exemplo. Esses trabalhadores vindos de regiões como Pernambuco, Bahia, Ceará, 
Piauí, Paraíba, Alagoas, Maranhão, Sergipe, entre outras, foram recebidos como 
37 
 
estrangeiros, numa realidade que procurava negar seus laços com o próprio país. 
Igualmente aos milhares de imigrantes que vieram para a região sul, também foram 
utilizados como mão de obra na cafeicultura nas fazendas no interior do Estado e 
também auxiliaram no desenvolvimento econômico da cidade de São Paulo. 
38 
 
UNIDADE 4 – ETNIA, RAÇA E MULTICULTURALISMO 
 
4.1 Classificação de cor e raça do IBGE 
Antes de discutirmos a questão do multiculturalismo e promover algumas 
relações entre currículo e diversidade cultural, vamos apresentar a classificação do 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2006) que acontece de acordo 
com cor ou raça e encontra-se dividido nas seguintes categorias: brancos, pardos, 
pretos, amarelos e indígenas. Os negros correspondem ao somatório das 
populações pardas e pretas. O IBGE verifica a composição brasileira através de um 
Censo realizado a cada 10 anos. A composição por cor ou raça é verificada pela 
autodeclaração. 
a) Brancos 
Os brancos autodeclarados compõem cerca de 45,9% da mesma, somando 
cerca de 93 milhões de indivíduos. Estão espalhados por todo o território brasileiro, 
embora a maior concentração esteja no Sul e Sudeste do Brasil. Consideram-se 
brancos os descendentes diretos ou predominantes de europeus e de outros povos 
de cor branca. 
Uma pesquisa realizada com mais de 32 milhões de brasileiros, dos quais 
quase vinte milhões se declaram brancos, perguntou a origem étnica dos 
participantes de cor ou raça branca. A maioria apontou origem brasileira (45,53%). 
15,72% apontou origem italiana, 14,50% portuguesa, 6,42% espanhola, 5,51% 
alemã e 12,32% outras origens, que incluem africana, indígena, judaica e árabe. 
Os números condizem fortemente com o passado imigratório no Brasil como 
vimos anteriormente. 
É notório, porém, que quase metade dos brancos pesquisados declararam 
ser de origem brasileira. É explicável pelo fato de a imigração portuguesa no Brasil 
ser bastante antiga, remontando mais de quinhentos anos, fato que muitos 
brasileiros brancos desconhecem tais origens por já terem suas famílias enraizadas 
no Brasil há séculos, assim como, por exemplo, muitos estadunidenses se declaram 
americanos, mas sendo de origem inglesa. 
Deve ser salientado que as classificações raciais no Brasil são fluídas e 
influenciadas por diversos fatores. Existe uma histórica tendência ao 
39 
 
“branqueamento” na hora de ser classificado racialmente. Dessa forma, riqueza, 
relações de família ou talentos pessoais podem fazer com que pessoas “de cor” 
sejam classificadas como brancas. 
Atualmente, a quantidade de brasileiros que se dizem brancos está em 
rápido declínio. 
b) Pardos 
Estados de acordo com a percentagem de Pardos em 2009 
 
 
Segundo a definição do IBGE, pardos são pessoas que se declaram mulata 
(canção)s, caboclas, cafuzas, mamelucas ou mestiças de negro com pessoa de 
outra raça. No censo de 2010, 43,1% da população nacional se autodeclarou como 
sendo parda. 
Ao contrário do que muitos pensam, o termo pardo não foi criado 
censitariamente como uma categoria de cunho “étnico-racial” distinto ou como 
sinônimo de miscigenado: o termo passou a ser utilizado no censo do ano de 1872, 
com o intuito único de contabilizar de forma separada os negros (não importando se 
puros ou miscigenados) ainda cativos, e os negros (não importando se puros ou 
miscigenados) nascidos livres ou forros. 
40 
 
c) Negros 
Estados de acordo com a percentagem de negros em 2009 
 
Os negros autodeclarados compõem 6,3% da população brasileira, somando 
cerca de 11 milhões de indivíduos. Estão espalhados por todo o território brasileiro, 
embora a maior proporcionalidade esteja na Bahia e no Rio de Janeiro. Consideram-
se pretos todos os descendentes dos povos africanos trazidos para o Brasil e que 
têm o fenótipo característico africano. 
A escravidão no Brasil durou cerca de 350 anos e trouxe para o país cerca 
de 4 milhões de africanos – 37% de todos os escravos trazidos às Américas. 
Atualmente, com a crescente imigração de haitianos, a porcentagem de brasileiros 
pretos e negros sobe rapidamente. 
Pesquisas genéticas, já de alguns anos atrás, sugeriram que a grande 
maioria dos brasileiros teria mais de 10% de marcadores genéticos africanos, mas 
foram confessados que seus limites de confiança são amplos e foram feitos por 
extrapolação: “Obviamente estas estimativas foram feitas por extrapolação de 
resultados experimentais com amostras relativamente pequenas e, 
consequentemente, têm limites de confiança bastante amplos” (PENA; BORTOLINI, 
2004). 
d) Povos indígenas 
Os índios autodeclarados compõem 0,3% da população brasileira, somando 
cerca de 519 mil indivíduos. Populações indígenas podem ser encontradas por todo 
o território brasileiro, embora mais da metade esteja concentrada na Região 
41 
 
amazônica do Norte e Centro-Oeste. Consideram-se índios todos os descendentes 
puros dos povos autóctones do Brasil e/ou que vivem no ambiente cultural 
tradicional dos mesmos. 
Recentes estudos genéticos comprovaram que muitos brasileiros possuem 
ascendência de povos indígenas extintos há séculos. Os brasileiros que carregam 
esta carga genética de forma majoritária são predominantes no norte do Brasil. 
Quando os primeiros portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, a população 
indígena girava em torno de 3 a 5 milhões de indivíduos. 
No final do século XX, eram cerca de 300 mil. O desaparecimento da 
população nativa brasileira se deve principalmente a quatro fatores: a dizimação 
promovida pelos colonizadores, as doenças europeias que se espalharam como 
epidemias, a miscigenação racial e, principalmente, a perda dos valores e da 
identidade indígenas ao longo dos séculos. 
e) Amarelos – de origem asiática. 
 
4.2 Etnia e raça 
Segundo Silva e Silva (2006), o conceito de etnia vem ganhando espaço 
cada vez maior nas ciências sociais a partir das crescentes críticas ao conceito de 
raça e, em alguns casos, ao conceito de tribo. 
Apesar disso, é ainda considerado por muitos uma noção pouco definida. O 
termo etnia surgiu no início do século XIX para designar as características culturais 
próprias de um grupo, como a língua e os costumes. Foi criado por Vancher de 
Lapouge, antropólogo que acreditava que a raça era o fator determinante na história. 
Para ele, a raça era entendida como as características hereditárias comuns a um 
grupo de indivíduos. Elaborou então o conceito de etnia parase referir às 
características não abarcadas pela raça, definindo etnia como um agrupamento 
humano baseado em laços culturais compartilhados, de modo a diferenciar esse 
conceito do de raça (que estava associado a características físicas). 
Já Max Weber (1994), por sua vez, fez uma distinção não apenas entre raça 
e etnia, mas também entre etnia e Nação. Para ele, pertencer a uma raça era ter a 
mesma origem (biológica ou cultural), ao passo que pertencer a uma etnia era 
42 
 
acreditar em uma origem cultural comum. A Nação também possuía tal crença, mas 
acrescentava uma reivindicação de poder político. 
A etnia é um objeto de estudo da Antropologia, e se caracterizou desde cedo 
como tema principal da Etnologia, ciência que se propõe a estudar diferentes grupos 
étnicos, constituindo-se em torno da própria noção de etnia. Durante o século XX, 
essas duas disciplinas multiplicaram as conceituações sobre o termo. Autores como 
Nadel e Meyers Fontes afirmam que uma etnia é um grupo cuja coesão vem de seus 
membros acreditarem possuir um antepassado comum, além de compartilharem 
uma mesma linguagem. Para essa definição, baseada em Weber, uma etnia seria 
um conjunto de indivíduos que afirma ter traços culturais comuns, distinguindo-se, 
assim, de outros grupos culturais (SILVA; SILVA, 2006). 
Nesse sentido, não importa se o grupo realmente descende de uma mesma 
comunidade original: o que importa é que os indivíduos compartilhem essa crença 
em uma origem comum. Uma crença confirmada, a seu ver, pelos costumes 
semelhantes. 
Assim, uma etnia se sente parte de uma mesma comunidade que possui 
religião, língua, costumes – logo, uma cultura – em comum. Notemos que nesse 
conceito não importa somente o fato de as pessoas que compõem uma etnia 
compartilharem os mesmos costumes, mas, sobretudo, o fato de elas acreditarem 
fazer parte de um mesmo grupo. Nesse sentido, a etnia é uma construção artificial 
do grupo, e sua existência depende de seus integrantes quererem e acreditarem 
fazer parte dela (SILVA; SILVA, 2006). 
Toda etnia se identifica como um grupo distinto, considerando-se diferente 
de outros grupos, e baseia sua identidade em uma religião e rituais específicos. 
Assim, os judeus e muçulmanos dentro das atuais Nações europeias são, cada um 
por seu lado, etnias, por se identificarem como grupos distintos e reivindicarem 
identidades próprias baseadas em religiões e costumes diferentes das sociedades 
em que estão inseridos. 
No caso dos muçulmanos, a construção artificial desse conceito é mais 
nítida, pois quase sempre oriundos de migrações recentes para a Europa, seus 
integrantes são originários de diferentes países e culturas distintas, mas ao se 
instalarem em lugares como a França e a Inglaterra, em geral, se identificam como 
43 
 
uma mesma etnia, independentemente do país de origem. Tal situação pode ser 
percebida, sobretudo, com relação aos descendentes dos primeiros imigrantes, e a 
construção de uma identidade comum “árabe” ou “muçulmana” vem tanto do fato de 
possuírem uma mesma religião quanto do fato de a sociedade os tratar em geral 
como um grupo homogêneo. 
Guarde... 
Raça e etnia são dois conceitos relativos a âmbitos distintos. 
Raça refere-se ao âmbito biológico; referindo-se a seres humanos, é um 
termo que foi utilizado historicamente para identificar categorias humanas 
socialmente definidas. As diferenças mais comuns referem-se à cor de pele, tipo de 
cabelo, conformação facial e cranial, ancestralidade e genética. 
Portanto, a cor da pele, amplamente utilizada como característica racial, 
constitui apenas uma das características que compõem uma raça. 
Etnia refere-se ao âmbito cultural; um grupo étnico é uma comunidade 
humana definida por afinidades linguísticas, culturais e semelhanças genéticas. 
Essas comunidades geralmente reclamam para si uma estrutura social, política e um 
território (SANTOS et al., 2010). 
 
4.3 Multiculturalismo: definições e surgimento 
Segundo Chiappini (2001), podemos entender o multiculturalismo de várias 
maneiras, com vários olhares. Ele pode ser visto como: 
� um sintoma de transformações sociais básicas, ocorridas na segunda metade 
do século XX, no mundo todo pós-segunda guerra mundial; 
� uma ideologia, a do politicamente correto; 
� uma aspiração, desejo coletivo de uma sociedade mais justa e igualitária no 
respeito às diferenças. 
Consequência de múltiplas misturas raciais e culturais provocadas pelo 
incremento das migrações em escala planetária, pelo desenvolvimento dos estudos 
antropológicos, do próprio direito e da linguística, além das outras ciências sociais e 
humanas, o multiculturalismo é, antes de qualquer coisa, um questionamento de 
fronteiras de todo o tipo, principalmente da monoculturalidade e, com esta, de um 
44 
 
conceito de nação nela baseado. Visto como militância, o multiculturalismo implica 
em reivindicações e conquistas por parte das chamadas minorias. Reivindicações e 
conquistas muito concretas: legais, políticas, sociais e econômicas. 
Para a maior parte dos governos, grupos ou indivíduos que não conseguem 
administrar a diferença e aceitá-la como constitutiva da nacionalidade, ela tem de 
estar contida no espaço privado, em guetos, com maior ou menor repressão, porque 
é considerada um risco à identidade e à unidade nacionais. Mas não há como negar 
que, cada vez mais, as identidades são plurais e as nações sempre se compuseram 
na diferença, mais ou menos escamoteada por uma homogeneização forçada, em 
grande parte artificial (CHIAPPINI, 2001). 
Contextualizando histórica e temporalmente, Moreira (2001) pondera que 
vivemos já desde os anos 2000 em um mundo marcado pelas nefastas 
consequências de um processo de globalização excludente, resultado não de uma 
fatalidade econômica, mas de uma política consciente e proposital que busca liberar 
os determinismos econômicos de todo controle e submeter governos e cidadãos às 
forças assim liberadas. 
Esse processo constitui, como afirma Bourdieu (2001, p. 90), 
[...] a máscara justificadora de uma política que visa universalizar os 
interesses e a tradição particulares das potências econômicas e 
politicamente dominantes, sobretudo os Estados Unidos, e estender ao 
conjunto do mundo o modelo econômico e cultural mais favorável a essas 
potências, apresentando-o ao mesmo tempo como norma, um tem-que ser 
e um fatalismo, destino universal, de modo a obter adesão ou, pelo menos 
resignação universais. 
 
Entre as consequências imediatamente visíveis da globalização podem-se 
mencionar: o aumento das desigualdades econômicas entre os países e no interior 
de cada um deles, o desemprego crescente, o desaparecimento progressivo de 
universos autônomos de produção cultural pela imposição de valores comerciais, 
assim como a destruição das instâncias coletivas capazes de fazer frente aos efeitos 
do que Bourdieu (1998) denomina de máquina infernal. 
Os atos terroristas nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, 
mostraram os conflitos que essa máquina pode causar e tornaram claro que, em 
tempos de crise, o neoliberalismo parece não ter soluções a oferecer. Sem entrar 
nos méritos da questão e noutras histórias de horror, o processo de globalização 
45 
 
nessa sua faceta cruel e negativa, além de provocarem desastrosos efeitos na 
economia mundial e de intensificarem o arbítrio, a perseguição, o racismo e a 
xenofobia, os acontecimentos de setembro levaram países do Primeiro Mundo a se 
articularem para evitar novos atentados, garantir a segurança no mundo ocidental e 
preservar os atuais arranjos sociais e econômicos. 
Entretanto, represálias e outras medidas, mais ou menos violentas, que 
venham a ser tomadas, serão muito pouco eficazes se, como bem afirmou Beck 
(2001), não forem levadas em conta, com muito mais seriedade, a dignidade 
humana, a identidadecultural e a diferença. Para este autor, há que se atentar para 
as desigualdades econômicas e se distribuir os frutos da globalização com mais 
justiça. 
Há também que se reconhecer a pluralidade cultural que cada vez mais se 
expressa no mundo de riscos globais em que vivemos, tanto nos setores 
beneficiados pela globalização como nos que ela tem ajudado a marginalizar. 
Nossas sociedades contemporâneas são inegavelmente multiculturais. 
Nelas, as diferenças derivadas de dinâmicas sociais como classe social, gênero, 
etnia, orientação sexual, cultura e religião, expressam-se nas distintas esferas 
sociais. 
O termo multiculturalismo, todavia, pode indicar diversas ênfases: 
a) Atitude a ser desenvolvida em relação à pluralidade cultural. 
b) Meta a ser alcançada em um determinado espaço social. 
c) Estratégia política referente ao reconhecimento da pluralidade cultural. 
d) Corpo teórico de conhecimentos que buscam entender a realidade cultural 
contemporânea. 
e) Caráter atual das sociedades ocidentais (CANEN; MOREIRA, 2001). 
É essa última perspectiva, adotada por Kincheloe e Steinberg (1997), que 
Moreira (2001) vê como mais apropriada para expressar os complexos fenômenos 
culturais contemporâneos. Multiculturalismo representa, em última análise, uma 
condição inescapável do mundo ocidental, à qual se pode responder de diferentes 
formas, mas não se pode ignorar. Multiculturalismo refere-se à natureza dessa 
46 
 
resposta. Educação multicultural, consequentemente, refere-se à resposta que se 
dá, a essa condição, em ambientes educacionais. 
Segundo Canen (1998): 
� pode-se promover a educação multicultural, para desenvolver sensibilidade 
para a pluralidade de valores e universos culturais, decorrente do maior 
intercâmbio cultural no interior de cada sociedade e entre diferentes 
sociedades; 
� pode-se também empregá-la para resgatar valores culturais ameaçados, 
visando-se garantir a pluralidade cultural; 
� pode-se, ainda, buscar reduzir os preconceitos e as discriminações; 
� pode-se, com o auxílio da educação multicultural, destacar a responsabilidade 
de todos no esforço por tornar o mundo menos opressivo e injusto. 
Como acentuou Beck (2001, p. 4), não sem certo tom de cinismo, “ajudar os 
que foram excluídos não é mais uma tarefa humanitária. É do próprio interesse do 
Ocidente: a chave de sua segurança”. 
Com o apoio da educação multicultural pode-se, por fim, propiciar a 
contextualização e a compreensão do processo de construção das diferenças e das 
desigualdades, enfatizando-se que elas não são naturais e que, portanto, 
resistências são possíveis. 
A educação multicultural pode também ser usada, em outro enfoque, para 
integrar grupos que contestem valores e práticas dominantes, celebrar 
manifestações culturais dominantes, garantir a homogeneidade e tentar apagar (ou 
esmaecer) as diferenças, bem como evitar que a compreensão da constituição das 
diferenças questione hierarquias estabelecidas. 
A decisão relativa à resposta a ser dada demanda a explicitação do que está 
sendo chamado de diferença. 
Com base em McCarthy (1998), Moreira (2001) concebe diferença como o 
conjunto de princípios organizadores de seleção, inclusão e exclusão que informam 
o modo como mulheres e homens marginalizados são posicionados e constituídos 
em teorias sociais dominantes, políticas sociais e agendas políticas. No âmbito da 
47 
 
diferença incluem-se, então, os atos que têm classificado e oprimido indivíduos e 
grupos, desautorizando e silenciando suas vozes e histórias. 
Diferença refere-se, portanto, mais à distribuição desigual de pessoas na 
organização social, decorrente de aspectos que “centralmente” as distinguem, do 
que à ideia de grupos e indivíduos distintos partilhando aspectos comuns a uma 
única raça - a humana. Nessa perspectiva, a produção da diferença é um processo 
social, não algo natural ou inevitável. A diferença pode e deve ser desafiada, em 
movimento que vise promover a aceitação do imperativo transcultural proposto por 
Santos (1997 apud MOREIRA, 2001): as pessoas têm direito a ser iguais sempre 
que a diferença as tornar inferiores; contudo, têm também direito a ser diferentes 
sempre que a igualdade colocar em risco suas identidades. 
 
4.4 Currículo, etnia e diversidade cultural 
Concordamos com Silva (2011), ao afirmar que dentre as formas através das 
quais o racismo aflora em nossa sociedade, as instituições de ensino, sejam elas 
escolas da educação básica e/ou instituições de ensino superior, são ambientes nos 
quais manifestações de racismo e as várias discriminações, que fazem parte da 
cultura da sociedade brasileira acontecem. 
Logo, reconhecendo que as ideologias raciais colaboram para a manutenção 
de situações de privilégio de um grupo sobre o outro, o Estado brasileiro institui, em 
9 de janeiro de 2003, a Lei Federal nº 10.639/03, que altera a Lei de Diretrizes e 
Bases da Educação Nacional (LDB, nº 9.394/96), e torna obrigatório em 
estabelecimentos de ensino público e privado, o ensino da história e cultura afro-
brasileira e africana, no âmbito de todo o currículo. 
A lei convida o currículo para a discussão, direcionando-nos a pensá-lo 
como importante ferramenta para o enfrentamento de questões étnico-raciais, na 
busca de uma educação antirracista. 
Essa lei será discutida em outro momento. Neste, temos a intenção de fazer 
alguns comentários iniciais e pontuais sobre o currículo, etnia e diversidade cultural. 
Currículo é uma palavra originada do latim Scurrere (correr, refere-se a 
curso), o currículo é um curso a ser seguido, 
48 
 
nesta visão, contexto e construções sociais não constituem problema, 
porquanto, por implicações etimológicas o poder de ‘definição da realidade’ 
é posto firmemente na mão daqueles que ‘esboçam’ e definem o curso 
(GOODSON, 1995, p. 31). 
 
Essa definição sobreviveu e se fortaleceu por muito tempo. 
De acordo com Sacristán (2000, p. 36), a definição de currículo se apresenta 
da seguinte forma: 
um projeto seletivo de cultura, cultural, social, política e administrativamente 
condicionado, que preenche a atividade escolar e que se torna realidade 
dentro das condições da escola tal como se acha configurada. 
 
Sacristán (2000, p. 173) diz ainda que o currículo é muitas coisas ao mesmo 
tempo: ideias pedagógicas, estruturação de conteúdos de uma forma particular, 
detalhamento dos mesmos, reflexo de aspirações educativas mais difíceis de moldar 
em termos concretos, estímulo de habilidades nos alunos, entre outras. 
O currículo é o centro da ação educativa, pois irá influenciar diretamente a 
qualidade do ensino. Sua função inclui delimitar atividades, bem como os conteúdos 
a serem desenvolvidos pela escola somando as experiências transmitidas pelos 
discentes e docentes envolvidos. Tendo como bases, a sociedade, as políticas, a 
escola, o professor e o aluno (FREITAS, 2011). 
Na atualidade, estudiosos do currículo, sobretudo aqueles filiados às teorias 
críticas e pós-críticas, são unânimes em afirmar que o currículo vai para além da 
seleção de conhecimentos e informações retiradas do “estoque” da nossa cultura. 
Isso significa que além da aplicação dos conteúdos, é importante considerar as 
pessoas, suas histórias de vida, referências culturais, o contexto social no qual esse 
currículo está inserido e transitando, entre outros. 
O currículo que desconsidera a multiplicidade de referências identitárias, e 
insiste em uma identidade hegemônica transforma-se em um “dos artefatos 
educacionais dos mais iluministas, autoritários e excludentes” (MACEDO, 2008, p. 
15) que, perpassado por relações ideologicamente organizadas, funciona para 
manter e naturalizar relações sociais desiguais e hierarquizantes. 
E é justamente esse formato estruturalista, metafísico e opressor de 
currículo, que a lei10.639/03 ajuda-nos a problematizar (SILVA, 2011). 
49 
 
Ela faz o currículo ser pensando na perspectiva da diversidade e, portanto, 
da construção de processos identitários que, por sua vez, ocorrem na convivência e 
negociação com o outro, com aquele que é diferente de nós. Incluir as questões 
étnico-raciais no currículo é reconhecer a diferença, mais que isso, reconhecer que 
somos nós quem fabricamos identidades e diferenças no contexto de relações 
culturais e sociais. 
Sendo a diversidade do ponto de vista cultural, como a construção histórica, 
cultural e social das diferenças, essa construção ultrapassa as características 
biológicas e leva a escola a se desafiar! 
Em outras palavras, o desafio da escola e dos projetos educativos que 
orientam nossa prática está no fato de que, para compreender a cultura de um grupo 
ou de um indivíduo que dela faz parte, é necessário olhar a sociedade onde o grupo 
ou o indivíduo estão e vivem. 
É aqui que as diferenças ganham sentido e expressão como realidade e 
definem o papel da alteridade nas relações entre os homens. 
Nesse sentido, a dimensão cultural coloca-se como fator que não pode ser 
desconsiderada ao tentarmos avançar na garantia da educação escolar como um 
direito social e na compreensão da sua relação com o universo simbólico e com o 
mundo do trabalho. Ao falar da diversidade étnica, cultural e escolar, estamos dando 
visibilidade às diferenças dos sujeitos desse espaço, das vivências no processo 
sociocultural. Levando em consideração que o processo educativo é complexo e 
marcado por variáveis pedagógicas e sociais, esse processo não pode ser analisado 
fora da interação dialógica entre escola e vida, considerando o conhecimento e a 
cultura (SANTANA; SANTANA; MOREIRA, 2013). 
Enfim, a escola deve assumir a diversidade e posicionar-se contra as 
diversas formas de dominação, exclusão e discriminação. Como diz Gomes (2007, 
p. 41), ela deve entender a educação como um direito social e o respeito à 
diversidade no interior de um campo político. 
Em se tratando da questão racial no currículo, as mudanças advindas da 
obrigatoriedade do ensino de História da África e das culturas afro-brasileiras nos 
currículos das escolas da educação básica só poderão ser consideradas como um 
dos passos no processo de ruptura epistemológica e cultural na educação brasileira 
50 
 
se esses não forem confundidos com “novos conteúdos escolares a serem 
inseridos” ou como mais uma disciplina. Trata-se, na realidade, de uma mudança 
estrutural, conceitual, epistemológica e política (GOMES, 2012). 
51 
 
UNIDADE 5 – QUILOMBOLAS 
 
5.1 As comunidade quilombolas 
As comunidades quilombolas são grupos com identidade cultural própria e se 
formaram por meio de um processo histórico que começou nos tempos da 
escravidão no Brasil. 
As comunidades quilombolas são grupos étnico-raciais, segundo critérios de 
auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais 
específicas e com ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão 
histórica sofrida, conforme Decreto nº 4887/03. Essas comunidades possuem direito 
de propriedade de suas terras consagrado desde a Constituição Federal de 1988 
(MDS, 2014). 
Um levantamento da Fundação Cultural Palmares (FCP) mapeou 3.524 
comunidades quilombolas no Brasil. Há outras fontes, no entanto, que estimam 
cerca de 5 mil comunidades. Partindo dessa perspectiva, foi criada a Agenda Social 
Quilombola (ASQ). O objetivo é articular as ações no âmbito do Governo Federal, 
por meio do Programa Brasil Quilombola3 (PBQ). 
A ASQ atua em eixos relacionados ao acesso a terra, infraestrutura e 
qualidade de vida, inclusão produtiva e desenvolvimento local e direitos de 
cidadania. A gestão da ASQ é estruturada a partir do Comitê Gestor Interministerial 
e tem caráter deliberativo e executivo composto por Ministérios e Secretarias 
Especiais. 
No âmbito do PBQ, no que se refere às políticas universais de segurança 
alimentar e nutricional, o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) estabeleceu 
metas de atendimento aos quilombolas no Programa de Aquisição de Alimentos 
(PAA) e no Programa Cisternas. O objetivo é atender mais de 6 mil famílias. 
O MDS também desenvolve projetos-piloto de Cozinhas Comunitárias em 
comunidades quilombolas. O projeto irá beneficiar os estados da Bahia, Maranhão, 
Minas Gerais, Pará e Pernambuco. Também nessas localidades estão sendo 
realizadas capacitações do PAA para que as comunidades que receberem as 
Cozinhas apresentem projetos ao programa. 
 
3
 Explicado ao final da unidade. 
52 
 
Apoia-se ainda a consolidação de Arranjos Produtivos Locais (APL) das 
cadeias de produtos da sociobiodiversidade. Esses APLs são direcionados aos 
estados da Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Pará por possuírem maior 
concentração de famílias quilombolas. Os produtos apoiados são piaçava, babaçu, 
castanha, açaí, andiroba e frutos do cerrado. 
Além das ações de segurança alimentar e nutricional, o MDS compôs o grupo 
de órgãos federais que organizou os Seminários Integrados de Políticas para 
Comunidades Quilombolas, nos cinco estados brasileiros com maior concentração 
de quilombolas (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Maranhão e Pará). O objetivo foi 
fortalecer a implementação do PBQ, com ênfase para o controle social (BRASIL, 
2011). 
 
5.2 Como identificar uma pessoa de origem quilombola 
As famílias quilombolas têm o direito de serem corretamente identificadas no 
Formulário Principal do Cadastro Único, por meio de campo específico e isso é muito 
importante porque pela identificação se possibilita sua seleção para programas 
sociais. 
É considerada quilombola aquela pessoa que se autodetermina pertencente a 
esse grupo, sendo um processo de reflexão da pessoa que pertence a um grupo 
historicamente constituído e que reivindica sua identidade como membro do grupo. 
Dentre as denominações dadas às áreas onde residem estes grupos, temos: 
quilombo, terra de preto, mocambos, terra de santo e comunidades negras rurais. 
O termo quilombola além de garantido pela Constituição Federal – CF/88, é 
reconhecido pelos Decretos nº 4887/03 e 6040/07 e por tratados internacionais de 
direitos humanos ratificados pelo Brasil. 
 
5.3 Identificando a terra e localizando comunidades quilombolas 
A estes grupos é garantido o direito à terra, o que significa garantir a 
existência das comunidades e de sua cultura, uma vez que elas têm forte ligação 
com seu território. A posse desse território é coletiva e isso quer dizer que qualquer 
título de posse emitido por órgão competente é em nome da comunidade. 
Compreende as seguintes etapas: identificação, reconhecimento, delimitação, 
demarcação e titulação. O processo é longo e a responsabilidade de organizar e 
53 
 
fiscalizar os procedimentos para titulação do território quilombola está a cargo do 
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), órgão pertencente ao 
Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). 
A estimativa atual do MDS aponta a existência de aproximadamente 100 mil 
famílias quilombolas vivendo em cerca de 3 mil comunidades distribuídas em todas 
as regiões do Brasil. 
O gestor municipal pode contribuir com o mapa brasileiro, constatando por 
meio de visitas domiciliares, a existência de comunidades quilombolas no seu 
município. 
 
5.4 As dificuldades encontradas pelos municípios para cadastrar famílias 
quilombolas 
Dentre as dificuldades encontradas temos: 
� desconhecimento a respeito do que são comunidades quilombolas; 
� desconhecimento sobre a localização das comunidades quilombolas; 
� dificuldade de acesso às comunidades devido a distância destas das sedes 
dos municípios e às características geográficas da região; 
� conflitos fundiáriosque podem interferir no contato com as comunidades; 
� falta de documentação civil básica por parte das famílias quilombolas. 
 
5.5 O Programa Brasil Quilombola (PBQ) 
O Programa Brasil Quilombola (PBQ) reúne ações do Governo Federal para 
as comunidades remanescentes de quilombos. A SEPPIR, para fins de aplicação do 
PBQ, considera o levantamento da Fundação Cultural Palmares, do Ministério da 
Cultura, que mapeou 3.524 dessas comunidades – dentre as quais 1.342 são 
certificadas pela Fundação. 
Porque falamos tanto da questão do cadastro das comunidades quilombolas, 
alguns devem estar se perguntando? 
A resposta é simples: é por meio desse programa (PBQ) que as metas e 
recursos envolvendo 23 ministérios e órgãos federais poderão ser atingidas. Elas 
são: 
54 
 
� garantia do acesso à terra; 
� ações de saúde e educação; 
� construção de moradias, eletrificação; 
� recuperação ambiental; 
� incentivo ao desenvolvimento local; 
� pleno atendimento das famílias quilombolas pelos programas sociais, como o 
Bolsa Família; e, 
� medidas de preservação e promoção das manifestações culturais 
quilombolas. 
 
O Programa já realizou as seguintes ações: 
a) Regularização fundiária – desde 2005, 81 Relatórios Técnicos de 
Identificação e Delimitação (RTDIs) foram publicados, totalizando uma área de 516 
mil hectares e beneficiando 10.625 famílias quilombolas. No mesmo período outras 
3.755 famílias foram beneficiadas por meio da publicação de 40 portarias de 
reconhecimento, totalizando 216 mil hectares reconhecidos. 
b) Certificação – entre 2004 e 2008, 1.342 comunidades foram certificadas 
como remanescentes de quilombos pela Fundação Cultural Palmares. 
c) Luz para Todos – o programa de eletrificação coordenado pelo Ministério 
das Minas e Energia chegou à marca de 19.821 domicílios atendidos em áreas 
quilombolas, investindo R$ 99 milhões no período entre 2004 e 2008. 
d) Bolsa Família – o programa de renda mínima, sob a responsabilidade do 
MDS, alcançou 19 mil famílias quilombolas ao final de 2008. 
e) Desenvolvimento local – projetos de desenvolvimento local, fruto de 
parcerias entre SEPPIR, Eletrobrás, Petrobrás, Caixa Econômica Federal, Fundação 
Universidade de Brasília e MDS destinaram R$ 13 milhões a projetos de 
desenvolvimento econômico sustentável em comunidades quilombolas de oito 
estados brasileiros. 
f) Desenvolvimento agrário – através do Programa Territórios da Cidadania, 
o Ministério do Desenvolvimento Agrário destinou em 2008 R$ 82 milhões para 
55 
 
ações específicas de desenvolvimento regional e garantia de direitos sociais em 
comunidades quilombolas. Também em 2008, outros 12 projetos de 
desenvolvimento agrário foram apoiados com R$ 1.9 milhão, beneficiando 59 
comunidades em nove estados (http://www.seppir.gov.br/acoes/pbq). 
Quanto às questões educacionais, sabemos e os quilombolas sabem melhor 
que nós, que eles enquanto grupos excluídos que nunca tiveram seus valores 
culturais e socioambientais ressaltados, encontram nos programas governamentais 
um caminho para a promoção de sua cultura. 
Na Primeira Conferência Estadual de Educação para as relações Étnico-
Raciais – debate gestão democrática e desafios de escolas para indígenas e 
quilombolas (2013), Luiz Marcos de França Dias, professor da comunidade 
quilombola de São Pedro, no Vale do Ribeira, salientou a importância da educação 
familiar no contexto da educação quilombola, uma vez que considera ser 
fundamental valorizar os saberes apreendidos com a família, em casa. “O aluno 
precisa manter seu idioma, seu dialeto. Não se trata de esquecer física, química ou 
inglês”, pontuou. “O ‘e’ que deve ser ensinado na escola quilombola não é o ‘e’ de 
elefante, mas o ‘e’ de enxada, instrumento que seu pai utiliza todo dia para trabalhar 
na roça”, finalizou. 
A Educação Escolar Quilombola, além de contar com os aspectos 
normativos que regem a educação brasileira, deverá incluir em seus currículos 
a conceituação de quilombo; a articulação entre terra e território; os avanços 
e os limites do direito dos quilombolas na legislação brasileira; a memória; a 
oralidade; o trabalho e a cultura (BRASIL, 2011, p. 8). 
 
O Parecer do CNE/CEB nº 7/2010 define a Educação Escolar Quilombola 
como modalidade da educação escolar e institui que deve ser desenvolvida em [...] 
unidades educacionais inscritas em suas terras e cultura, requerendo pedagogia 
própria em respeito à especificidade étnico-cultural de cada comunidade e formação 
específica de seu quadro docente, observados os princípios constitucionais, a base 
nacional comum e os princípios que orientam a Educação Básica brasileira. Na 
estruturação e no funcionamento das escolas quilombolas, deve ser reconhecida e 
valorizada sua diversidade cultural (BRASIL, 2011). 
56 
 
UNIDADE 6 – POPULAÇÕES INDÍGENAS 
 
O termo “índio” foi usado como designação genérica para as populações que 
habitavam a América quando os europeus chegaram. Foi um nome atribuído pelos 
colonizadores e não existia nenhum povo com essa autodenominação habitando o 
território que viria a se chamar Brasil. Hoje esses povos têm consciência de que 
compartilham uma história comum e vêm se organizando e atuando de forma 
conjunta, sem, contudo, deixarem de lado suas especificidades étnicas. Ser 
Kaingang, Tikuna, Tapeba ou Makuxi tem significado concreto diferente, pois implica 
participar de culturas distintas. Porém, significa também compartilhar uma condição 
comum: a de povos indígenas (BRASIL, 2010, p. 8). 
 
6.1 A realidade, os direitos dos povos indígenas no Brasil e as Terras 
Indígenas (TIs) 
Os povos indígenas têm direitos específicos garantidos pela CF/88 (Capítulo 
VIII – Dos Índios, artigos 231 e 232) e legislações complementares. Elas 
reconhecem que esses povos possuem organização social, costumes, línguas, 
crenças e tradições. Expressam-se em suas línguas maternas e processos próprios 
de aprendizagem, bem como são reconhecidos seus direitos originários sobre as 
terras que tradicionalmente ocupam. 
Além da legislação nacional, dentre outros instrumentos importantes para a 
garantia dos direitos indígenas temos a Convenção nº 169/89 da Organização 
Internacional do Trabalho (OIT). 
Para garantir tais direitos, vários órgãos executam ações junto aos povos 
indígenas: 
a) FUNAI – Fundação Nacional do Índio – responsável por coordenar a 
política indigenista do Estado Brasileiro, desenvolvendo ações referentes à 
demarcação de terras indígenas, promoção e proteção social e desenvolvimento 
comunitário. 
b) FUNASA – Fundação Nacional de Saúde – responsável pela saúde dos 
povos indígenas. 
57 
 
c) MEC – Ministério da Educação e Cultura – coordenador da política de 
educação escolar voltada aos povos indígenas, em regime de colaboração com os 
estados e municípios. 
d) MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – 
desenvolve ações visando à superação de situações de insegurança alimentar e 
nutricional e vulnerabilidade social da população brasileira em geral e promove 
ações específicas junto aos povos indígenas. 
No Censo 2010, o IBGE aprimorou a investigação sobre a população 
indígena no país, averiguando o pertencimento étnico e introduzindo critérios de 
identificação internacionalmente reconhecidos, como a língua falada no domicílio e a 
localização geográfica. Foram coletadas informações tanto da população residente 
nas terras indígenas (fossem indígenas declarados ou não) quanto indígenas 
declarados fora delas. Ao todo, foram registrados 896,9 mil indígenas, 36,2% em 
área urbana e 63,8% na área rural. O total inclui os 817,9 mil indígenas declarados 
no quesito cor ou raça do Censo 2010 (e que servem de base de comparações com 
os Censos de 1991 e 2000) e também as 78,9 mil pessoas que residiam em terras 
indígenas e se declararam de outracor ou raça (principalmente pardos, 67,5%), mas 
se consideravam “indígenas” de acordo com aspectos como tradições, costumes, 
cultura e antepassados. 
Também foram identificadas 505 terras indígenas, cujo processo de 
identificação teve a parceria da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) no 
aperfeiçoamento da cartografia. 
Essas terras representam 12,5% do território brasileiro (106,7 milhões de 
hectares), onde residiam 517,4 mil indígenas (57,7% do total). Apenas seis terras 
tinham mais de 10 mil indígenas, 107 tinham entre mais de mil e 10 mil, 291 tinham 
entre mais de cem e mil e em 83 residiam até cem indígenas. A terra com maior 
população indígena é Yanomami, no Amazonas e em Roraima, com 25,7 mil 
indígenas. 
Foi observado equilíbrio entre os sexos para o total de indígenas (100,5 
homens para cada 100 mulheres), com mais mulheres nas áreas urbanas e mais 
homens nas rurais. Porém, percebe-se um declínio no predomínio masculino nas 
58 
 
áreas rurais entre 1991 e 2010, especialmente no Sudeste (de 117,5 para 106,9) 
Norte (de 113,2 para 108,1) e Centro-Oeste (de 107,4 para 103,4). 
O Censo 2010 investigou pela primeira vez o número de etnias indígenas 
(comunidades definidas por afinidades linguísticas, culturais e sociais), encontrando 
305 etnias, das quais a maior é a Tikúna, com 6,8% da população indígena. 
Também foram identificadas 274 línguas indígenas. Dos indígenas com 5 anos ou 
mais de idade 37,4% falavam uma língua indígena e 76,9% falavam português. 
Mesmo com uma taxa de alfabetização mais alta que em 2000, a população 
indígena ainda tem nível educacional mais baixo que o da população não indígena, 
especialmente na área rural. Nas terras indígenas, nos grupos etários acima dos 50 
anos, a taxa de analfabetismo é superior à de alfabetização. 
Entre os indígenas, 6,2% não tinham nenhum tipo de registro de nascimento, 
mas 67,8% eram registrados em cartório. Entre as crianças indígenas nas áreas 
urbanas, as taxas são próximas às da população em geral, ambas acima dos 90%. 
A análise de rendimentos comprovou a necessidade de se ter um olhar 
diferenciado sobre os indígenas: 52,9% deles não tinham qualquer tipo de 
rendimento, proporção ainda maior nas áreas rurais (65,7%); porém, vários fatores 
dificultam a obtenção de informações sobre o rendimento dos trabalhadores 
indígenas: muitos trabalhos são feitos coletivamente, lazer e trabalho não são 
facilmente separáveis e a relação com a terra tem enorme significado, sem a noção 
de propriedade privada. 
Em 2010, 83,0% das pessoas indígenas de 10 anos ou mais de idade 
recebiam até um salário mínimo ou não tinham rendimentos, sendo o maior 
percentual encontrado na região Norte (92,6%), onde 25,7% ganhavam até um 
salário mínimo e 66,9% eram sem rendimento. Em todo o país, 1,5% da população 
indígena com 10 anos ou mais de idade ganhava mais de cinco salários mínimos, 
percentual que caía para 0,2% nas terras indígenas. 
Somente 12,6% dos domicílios eram do tipo “oca ou maloca”, enquanto que, 
no restante, predominava o tipo “casa”. Mesmo nas terras indígenas, ocas e 
malocas não eram muito comuns: em apenas 2,9% das terras, todos os domicílios 
eram desse tipo e, em 58,7% das terras, elas não foram observadas (IBGE, 2012). 
 
59 
 
6.2 Proteção social – direito dos povos indígenas 
Os povos indígenas devem ser atendidos por meio de políticas de proteção 
social, mas de forma diferenciada. O maior desafio para o atendimento às famílias 
indígenas é garantir os seus direitos por meio de ações que respeitam as diferenças 
e especificidades culturais de cada povo. 
Seus direitos são de natureza coletiva. Assim, qualquer decisão que tenha 
impacto na comunidade deve ser tomada com a participação de todos, inclusive 
lideranças tradicionais e comunitárias, homens, mulheres, jovens e crianças. 
 
6.3 O Cadastramento das famílias indígenas 
O Cadastro Único é uma ferramenta de identificação e caracterização das 
famílias brasileiras de baixa renda que: 
� tenham rendimento mensal de até meio salário mínimo por pessoa; ou, 
� toda família receba até três salários mínimos. 
Ele é usado para seleção de beneficiários e integração de programas sociais 
do Governo Federal. 
Constitui-se de uma base de dados, formulários, procedimentos e sistemas 
eletrônicos, sendo que suas informações podem ser usadas pelos governos 
municipais, estaduais e federal para obter um perfil socioeconômico das famílias 
cadastradas. 
A questão do cadastramento das famílias indígenas não é privilégio, mas sim, 
o fato de muitas passarem por situações de insegurança alimentar e nutricional e 
vulnerabilidade social que tem suas origens no passado colonial da sociedade 
brasileira. Superar esse quadro exige participação direta do Estado Brasileiro, por 
meio da colaboração entre Governo Federal, estaduais, municipais e sociedade civil 
organizada. 
Isso não quer dizer que todas as famílias devam ser cadastradas, somente 
aquelas que possam pelas dificuldades faladas acima. Para tanto é preciso 
conhecer a realidade desses povos, como estão organizados, divididos os grupos 
familiares, quais suas atividades produtivas e como estão inseridos no mercado de 
consumo. 
60 
 
Como possuem hábitos alimentares e formas de viver diferentes do restante 
da população brasileira, é importante saber como vivem e quais seus projetos de 
futuro antes do cadastramento de inclusão. 
As situações em que devem ser cadastradas são: 
1. Grupo em situação de insegurança alimentar e nutricional, ou seja, não ter a 
alimentação diária garantida. 
2. Apresentar altos índices de desnutrição e mortalidade infantil. 
3. Apresentar altos índices de problemas de saúde entre jovens, adultos e 
idosos. 
4. Impossibilidade de desenvolver atividades autossustentáveis e/ou de 
desenvolvimento comunitário local. 
5. Adesão espontânea do povo indígena a programas sociais e avaliação 
positiva do grupo quanto às condições para recebimento dos benefícios 
sociais, como os de transferência de renda. 
Pode-se concluir que o cadastramento é recomendável para famílias 
indígenas que necessitam de políticas públicas para sua sobrevivência física e 
cultural. 
Conhecendo a quantidade, a localização e as necessidades socioeconômicas 
dessas famílias, é possível contribuir para a elaboração de políticas públicas e 
programas sociais específicos (BRASIL, 2010). 
61 
 
Vejamos os quadros do IBGE. 
 
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010. 
 
 
 
 
62 
 
Reservas Indígenas 
UF MUNICÍPIO RESERVA INDÍGENA 
AC Mancio Lima Reserva Indígena Payanawa Barão Ipiranga 
AP Oiapoque Reserva Indígena do Uaçá 
GO Aruanã Reserva Indígena de Buridina 
MG Bertópolis Reserva Indígena Maxakali 
MG São João das Missões Reserva Indígena Xacriaba Barreiro Preto 
MS Caarapó Reserva Indígena Te Ýikue 
MS Dourados Reserva Indígena Dourados 
MS Ponta Porã Reserva Indígena Kokuey 
MT Água Boa Reserva Indígena Areões 
MT Barra do Garça Reserva Indígena São Marcos 
MT Paranatinga Reserva Indígena Bakairi 
MT Peixoto de Azevedo Reserva Indígena do Xingu 
MT Porto Espiridião Reserva Indígena Chiquitano 
MT Bom Jesus do Tocantins Reserva Indígena Mãe Maria BR222Km25 
PA Pau D`Arco Reserva Indígena Kayapó 
PA São Félix do Xingu Reserva Indígena Kayapó Aldeia Moxkarakô 
 PA Tomé-Açu Reserva Indígena Tembé Mariquita 
PR Diamante D`Oeste Reserva Indígena Itamara 
PR Mangueirinha Reserva Indígena 
RO Porto Velho Reserva Indígena Kaxarari Aldeia Pedreira 
RS Planalto Reserva Indígena de Pinhalzinho 
SC Ipuaçu Reserva Indígena Xapecó 
SC José Boiteux Reserva Indígena Bugiu 
SC José Boiteux Reserva Indígena Aldeia Toldo 
 
Fonte: MEC – EducaCenso (2009). 
63 
 
UNIDADE 7 – REVISITANDO A HISTÓRIA DAS RELIGIÕES 
AFRICANAS 
 
7.1 A religião na África 
De acordo com Gaarder, Hellerne Notaker (2005, p. 97), são três as 
religiões que dominam a África moderna: o cristianismo que se encontra, sobretudo 
no sul e ao longo dos litorais leste e oeste. O centro do islã fica na África setentrional 
árabe, mas historicamente essa religião sempre teve penetração também ao sul do 
Saara. Há, por fim, as religiões primais, ou tribais, ou tradicionais, as mais difundidas 
antes da invasão cultural ocidental e árabe. Na África moderna, a estrutura 
tradicional baseada na aldeia está desaparecendo e, juntamente com ela, o 
fundamento das antigas religiões, que era a vida familiar e tribal. 
Segundo os autores acima, as religiões africanas tradicionais são pouco 
conhecidas, pois, não existem registros a respeito dos ritos e manifestações, 
apenas, relatos de observações europeus que são tanto os colonizadores como 
missionários. Logo, é um conhecimento que vem de fora, que está vendo através de 
outra cultura como pano de fundo, no caso à europeia. 
Mesmo com o passar do tempo, antropólogos e etnólogos passaram a fazer 
os registros, porém, também da mesma maneira, a religião é conhecida por um olhar 
de fora, estrangeiro. 
De acordo com os autores, uma fonte de conhecimento sobre as religiões 
africanas são os mitos que sobreviveram por meio da tradição oral, mas também se 
deve considerar que o conteúdo das histórias contadas pode ter se alterado ao 
longo das gerações. As religiões primais, assim como todas as outras, são 
influenciadas por fatores externos, e muitas adotaram elementos do islã ou do 
cristianismo. Uma característica das religiões africanas mais recentes são os 
milhares de movimentos sincretistas que surgiram em torno das missões cristãs. Ao 
agrupar as religiões africanas sob um só rótulo, deve-se ter em mente que seu 
número equivale ao de povos existentes na África. Cada uma tem seu próprio nome 
para Deus, seus próprios rituais de culto, suas idiossincrasias. Por outro lado, elas 
apresentam também muitos traços em comum, pois os africanos não viveram uma 
existência estática, isolada. Sua história fala de diversas migrações, dos contatos 
64 
 
que cruzaram as divisões tribais e da formação de grandes Estados. É necessário 
notar ainda que a maioria dos africanos não urbanos são agricultores e criadores de 
gado. Há apenas alguns grupos de caçadores-coletores. 
O termo tribo, segundo os autores, é de suma importância para 
entendimento da religião entre os povos africanos, isto pelo fato de que tribo ou clã é 
a família do africano, logo, o respeito por este coletivo é mais importante do que pelo 
indivíduo. 
Os descendentes aprendem desde tenra idade a respeitar e honrar o espírito 
do ancestral, e, com as observações feitas, as crianças aprendem os costumes e 
seguem como uma nova geração para perpetuar as tradições da tribo – clã. 
Como apontam os autores: o dever dos vivos é assegurar a preservação 
dessa organização da sociedade, o que se consegue obedecendo cuidadosamente 
a todas as regras e, acima de tudo, fazendo sacrifícios aos espíritos dos ancestrais 
(GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2005). 
Nessas tribos africanas, o maior infortúnio que pode ocorrer com um 
indivíduo pertencente ao grupo é o fato desta pessoa não poder gerar um 
descendente, pois, a família também é composta por aqueles ainda não nascidos. 
No caso, os descendentes. 
O chefe tribal é uma pessoa mítica e responsável por várias decisões 
importantes que devem ser tomadas à frente de seu grupo, assim, o chefe ou o rei é 
um guardião, um líder da justiça, enfim, lhe cabem vários comandos e, como 
apontam os autores: o motivo pelo qual o rei acumula todas essas diferentes 
funções é que não há uma demarcação clara entre política, religião, lei e moral. 
Cada uma dessas formas é parte do princípio – o costume – sobre o qual aquela 
sociedade tribal está construída. 
Nas religiões africanas, existe a crença num deus supremo, que, embora 
haja muitos nomes para este deus, este é associado ao céu e a ele são convertidos 
os rituais a fim de pedir pela fertilidade da terra. De modo geral, as pessoas não 
recorrem a este deus, apenas em último caso, mas sim recorrem no seu cotidiano a 
deuses e espíritos menores. 
Assim, Gaarder, Hellern e Notaker (2005, p. 100) dizem que esses outros 
deuses, forças e espíritos se encontram nas florestas, nas planícies e nas 
65 
 
montanhas, nos rios e nos lagos. São intimamente associados a fenômenos naturais 
distintos: o raio e o trovão, as grandes cachoeiras, uma primavera quente, alguma 
árvore enorme ou uma rocha com formato estranho. A religião ganda, praticada pelo 
povo Baganda, de Uganda, tem um deus supremo chamado Katonda, porém o culto 
mais importante se dirige a uma constelação de divindades menores. Uma delas é o 
deus da água, Mukasa, o qual governa a fertilidade e a saúde. Há ainda o deus da 
guerra, Kibuka, que no passado exigia sacrifícios humanos. Também é costumeiro 
tratar os espíritos dos mortos com respeito; o culto aos antepassados é um dos 
aspectos mais típicos da religião africana. 
É importante dizer que os africanos em sua concepção de religião, não 
possuem divisão entre corpo e alma, o que significa que não acreditam que a alma 
sobreviva, segundo eles, os mortos são capazes de estar em vários lugares ao 
mesmo tempo: no túmulo, no mundo dos mortos ou em fenômenos próximos ao 
homem. 
Segundo os autores: o culto aos antepassados é uma expressão que implica 
interação entre os vivos e os mortos. Os vivos obtêm força e socorro de seus 
ancestrais; ao mesmo tempo, os mortos dependem das oferendas de seus 
descendentes: é por meio desses sacrifícios que adquirem sua força e potência. Se 
não receberem oferendas, irão “morrer”, isto é, cessar completamente de existir 
(GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2005, p.101). 
Embora, fazer um sacrifício a um ancestral não seja uma tarefa difícil, muito 
pelo contrário, trata-se de algo aparentemente simples como levar um prato de 
comida, flores ao túmulo como oferendas, é o chefe da família que costuma fazer 
oferendas a nível maior no sentido de oferenda coletiva como algo para o bem de 
sua família. 
Assim como é o chefe da família que faz as oferendas coletivas, é ele o 
responsável também por fazer as homenagens aos chefes já falecidos, no caso, é 
uma honra pra este homem de família poder fazer o ritual de homenagem aos 
velhos chefes da tribo – família. 
Apesar de haver a figura do chefe ou rei que inclui as funções de um 
sacerdote no grupo em que ele está inserido, existem outros especialistas religiosos 
como curandeiros, adivinhos, oráculos, profetas e magos fazedores de chuva. 
66 
 
7.2 As religiões afro-brasileiras 
Além de um grupo de matriz cristã como o catolicismo e protestantismo, 
existe no Brasil ainda um grupo que se destaca pela posição que ocupa da cultura 
brasileira que é o grupo das religiões afro-brasileiras (GAARDER; HELLERN; 
NOTAKER, 2005). 
De acordo com os autores, os cultos afro-brasileiros são assim chamados 
por causa da origem de seus principais portadores, os escravos traficados da África 
para o Brasil, mas também porque até meados do século XX funcionavam 
exclusivamente como ritos de preservação do estoque cultural dos diferentes grupos 
étnicos negros que compunham a população dos antigos escravos e seus 
descendentes. Até hoje essas religiões são reconhecidas pelas lideranças do 
Movimento Negro como religiões negras, autênticas expressões culturais da 
negritude, embora seja cada vez maior o número de brancos, e até mesmo de 
descendentes de japoneses e coreanos, que estão aderindo ao candomblé e, mais 
ainda, à umbanda. 
Ainda segundo os autores, os negros escravos com o final da escravidão, 
foram assentados nas cidades, nas quais eles puderam vivenciar uma “pseudo” 
liberdade, ao menos suficiente para se organizarem em grupos e vivenciarem suas 
crenças conjuntamente.Como não é o intuito aqui aprofundar na discussão das várias religiões 
negras, vamos nos deter a apenas duas, as mais conhecidas: Candomblé e a 
Umbanda. 
O Candomblé, não é uma religião que se aproxima do cristianismo, isto 
devido a ela possuir diferenças que a afasta dos princípios básicos da primeira. O 
candomblé não é uma religião ética, como o cristianismo. É uma religião mágica e 
ritual. Nas religiões mágicas não há ideia de salvação de corrupção do pecado, não 
há espaço para a negação deste mundo terreno em prol da busca necessária de um 
“outro mundo”, de uma vida eterna no Além. No candomblé o que se busca é a 
interferência concreta do sobrenatural “neste mundo” presente, mediante a 
manipulação de forças sagradas, a invocação das potências divinas e os sacrifícios 
oferecidos às diferentes divindades, os chamados orixás. O candomblé, portanto, 
como todas as outras religiões afro-brasileiras, acredita na existência de uma 
67 
 
pluralidade de deuses, com diferentes poderes e diferentes funções na vida humana, 
além de diferentes exigências a seus adeptos. (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 
2005, p. 312-313). 
O mais interessante das religiões afro-brasileiras é o caráter não ético como 
o existe no cristianismo, permite que seus deuses sejam totalmente desprovidos de 
moralidade, isto permite que não haja um julgamento por parte dessas religiões de 
cunho punitivo, censura ou mesmo de controle do sujeito. Logo, este talvez seja um 
dos maiores atrativos destas religiões africanas brasileiras. 
Os orixás não são divindades moralistas, que exigem e recompensam que é 
bom, ou condenam e castigam quem faz o mal. Diferentemente das grandes 
religiões mundiais surgidas da palavra e da ação extraordinária de grandes 
personalidades proféticas, religiões moralizadoras cuja mensagem visa 
regulamentar princípios éticos gerais e sanções morais bem definidas a conduta 
cotidiana dos seguidores, e diferentemente sobretudo do cristianismo, com a sua 
noção de pecado individual e seu ideal de uma vida santificada no arrependimento 
sincero dos pecados, a ênfase do candomblé é ritual (GAARDER; HELLERN; 
NOTAKER, 2005, p. 313). 
Como no Candomblé, cada um é responsável pela ligação com seu deus 
pessoal, não há uma relação de pecado até porque o pecado não é como em outras 
religiões onde existe uma regra, norma de conduta da carne para servir para um 
coletivo. 
Neste sentido, a relação é de cada sujeito com seu orixá, o que estabelece 
uma relação de pessoalidade na qual, o próprio indivíduo vai descobrindo o que é 
pecado ou não, já que para cada orixá essa noção é relativa. O que para um é 
pecado para outro já não é. 
De acordo com Gaarder, Hellern e Notaker (2005, p. 314), os orixás vieram 
da África com os escravos. Só que, enquanto na África há registro de culto a cerca 
de quatrocentos orixás, apenas uns vinte deles sobreviveram no Brasil. A cada orixá 
cabe reger e controlar as forças da natureza assim como certos aspectos da vida 
humana e social. 
68 
 
A pessoa que segue um orixá costuma se identificar e tentar ser o mais 
próximo possível de sua representação, tanto em vestimenta quanto em 
personalidade e traços. 
A umbanda, segundo os autores, surgiu na década de 1920, no Rio de 
Janeiro. E quando em seguida começou a aparecer aqui e ali, nas décadas de 30 e 
40, desde logo se propagando no tecido urbano do Brasil, pelas cidades mais 
desenvolvidas da região mais desenvolvida, o Sudeste, especialmente na cidade 
mais visível do Brasil – o Rio de Janeiro, então Capital Federal –, a umbanda se 
comportou como uma “religião universal”. 
Um dado interessante a ser falado a respeito desta religião, é que ela 
prefere pensar suas raízes como sendo “brasileiras” e não “africanas”. Ela é afro, 
porém, um afro-brasileira. 
Como ela é uma religião nascida no Brasil, ela se considera uma religião 
brasileira por excelência e não é para menos já que ela se configura como uma 
religião totalmente sincrética. 
Nascida no Brasil, a umbanda pode ser chamada de religião brasileira 
primeiro por esse fato. Mas a umbanda também pode ser dita “religião brasileira” 
porque é a resultante de um encontro histórico único, que só se deu no Brasil: o 
encontro cultural de diversas crenças e tradições religiosas africanas com as formas 
populares de catolicismo, mais o sincretismo hindu-cristão trazido pelo espiritismo 
kardecista de origem europeia. Eis aí a umbanda, um sincretismo religioso 
originalmente brasileiro. 
Conhecer um pouco da cultura religiosa africana nos ajuda a compreender 
também muito das religiões africanas no Brasil e, como estas religiões são em 
muitas das vezes, invisibilizadas sendo alvos de críticas e exclusão pelas pessoas 
por desconhecimento, por achar que se trata de macumba, logo, se trata de uma 
intolerância religiosa 4para com outro povo, outra cultura. 
No Brasil, as religiões de matriz africanas não possuem apoio, e os que 
praticam as religiões são vistos com desdém, com desconfiança e, logo, são 
estereotipados e são atacados pelo fato de existir um mercado religioso, no qual, 
 
4
 Um debate interessante sobre a intolerância religiosa pode ser visto e ouvido no programa Sala 
Debate do canal futura, disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=9IQvxqvJzjM e 
http://www.youtube.com/watch?v=vOjlM_qkUvk acesso em 12 out de 2014. 
69 
 
cada liderança tenta angariar novos fieis para suas igrejas e neste contexto, parece 
valer os ataques infundados sobre as religiões brasileiras de matriz africana. 
A disputa religiosa no Brasil vem por parte de grandes religiões 
institucionalizadas no país, do cristianismo no começo e agora mais fortemente 
ainda com os evangélicos. 
Não é novidade que a expansão das religiões evangélicas no Brasil, de 
forma inclusive desenfreada, ocupando todos os cantos vagos em bairros, periferias, 
entre outros, muito devido a uma falta de planejamento do espaço público, uma falta 
de investimento em parques, museus, e outros espaços públicos para 
entretenimento, fazendo com que as igrejas evangélicas se espalhem 
desenfreadamente e se transformem em entretenimentos muitas das vezes, únicos 
espaços como encontro de fiéis, cooptados pelo discurso de salvação em detrimento 
de qualquer outra relação de cuidado com o público existente naquele espaço. 
Tampouco respeitando qualquer outra crença que venha a coexistir no mesmo 
território. 
70 
 
REFERÊNCIAS 
 
AÇÃO EDUCATIVA. Primeira Conferência Estadual de Educação para as 
relações Étnico-Raciais – debate gestão democrática e desafios de escolas 
para indígenas e quilombolas (2013). Disponível em: 
http://www.acaoeducativa.org.br/index.php/educacao/49-diversidade-raca-e-
participacao/10004811-1o-conferencia-estadual-de-educacao-para-as-relacoes-
etnico-raciais-debate-gestao-democratica-e-desafios-de-escolas-para-indigenas-e-
quilombolas 
ALMEIDA, Regis Rodrigues de. Migração e Xenofobia (2013). Disponível em: 
http://www.mundoeducacao.com/geografia/migracao-
xenofobia.htmhttp://www.mundoeducacao.com/geografia/migracao-xenofobia.htm 
BATALHA, Luís. Antropologia - Uma perspectiva holística. Lisboa: Universidade 
Técnica, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. 2005. 
BECK, Ulrich. Terror e Estado mínimo são o Chernobyl da globalização. Folha de S. 
Paulo, São Paulo, 8 nov. 2001, Caderno B, p.4. 
BORDIEU, Pierre. Escritos de Educação. Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani 
(org), Petrópolis, RJ: vozes, 1998. – (Ciências sociais da educação). 
BORDIEU, Pierre. O senso prático. Tradução de Maria Ferreira: revisão da 
tradução, Odaci Luiz Coradini – Petrópolis. RJ: Vozes, 2009 – (Coleção Sociologia). 
BOURDIEU, Pierre. A máquina infernal. Folha de S. Paulo, São Paulo,12 jul. 1998, 
Caderno Mais!, p.7. 
BOURDIEU, Pierre. Contrafogos 2. Rio de Janeiro: JorgeZahar, 2001. 
BRASIL. LDB, n. 9.394/96. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm 
BRASIL. Lei Federal n. 10.639/03. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 
1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no 
currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura 
Afro-Brasileira", e dá outras providências. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm 
BRASIL. MDS/SNAS. Caderno de Orientações Técnicas Gestão do Programa de 
Erradicação do Trabalho Infantil no SUAS. Brasília: MDS, 2010. 
BRASIL. Texto referência para elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais 
da Educação Escolar Quilombola. CNE/CEB, Brasília, DF, 2011. 
BRASIL. Ministério da Educação / Secretaria da Educação Continuada, 
Alfabetização e Diversidade. Orientações e Ações para Educação das Relações 
Étnico-Raciais. Brasília: SECAD, 2006. 
71 
 
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Quilombolas (2014). Disponível em: 
http://www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/seguranca-alimentar-e-
nutricional/povos-e-comunidades-
tradicionais/quilombolas/quilombolas/?searchterm=relações étnico raciais 
BRASIL. Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial. Programa 
Brasil Quilombola e outros. Disponível em: http://www.seppir.gov.br/acoes/pbq 
BUZZI, A. Introdução ao pensar. 17 ed. Petrópolis: Vozes, 1988. 
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Situação dos índios no Brasil: indicadores sociais e 
acesso a serviços públicos - Bloco 4. Disponível em: 
http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/REPORTAGEM-
ESPECIAL/435654-SITUACAO-DOS-INDIOS-NO-BRASIL-INDICADORES-
SOCIAIS-E-ACESSO-A-SERVICOS-PUBLICOS-BLOCO-4.html 
CANEN, Ana, MOREIRA, Antônio Flavio B. Reflexões sobre o multiculturalismo na 
escola e na formação docente. In: CANEN, A., MOREIRA, A. F. B., (orgs.). Ênfases 
e omissões no currículo. Campinas: Papirus, 2001. 
CANEN, Ana. Educação multicultural, identidade nacional e pluralidade cultural: 
tensões e implicações curriculares. Trabalho apresentado na 21ª Reunião Anual 
da ANPEd, Caxambu, MG, 1998. 
CHIAPPINI, Ligia. Multiculturalismo e identidade nacional (2001). Disponível em: 
http://www.celpcyro.org.br/joomla/index.php?option=com_content&view=article&Itemi
d=0&id=754 
COLLEYN, Jean-Paul. Elementos de Antropologia Social e Cultural. Lisboa: 
edições 70, 2005. 
DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986. 
FREITAS, Eduardo de. As etnias no Brasil (2014). Disponível em: 
http://www.mundoeducacao.com/geografia/as-etnias-no-brasil.htm 
FREITAS, Elaine Ferreira de. O currículo escolar. Revista Partes, 2011. Disponível 
em: http://www.partes.com.br/educacao/curriculoescolar.asp 
GAARDER, Jostein, HELLERN Victor, NOTAKER, Henry. O livro das religiões. 
Tradução: Isa Mara Lando; revisão técnica e apêndice Antônio Flávio Pierucci. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2005. 
GOMES, Nilma Lino. Diversidade e Currículo. In: BEAUCHAMP, Janete; PAGEL, 
Sandra Denise; NASCIMENTO, Aricélia Ribeiro. Indagações sobre currículo: 
diversidade e currículo. Brasília: Ministério da Educação; Secretaria de Educação 
Básica: 2007. 
GOMES, Nilma Lino. Relações étnico-raciais, educação e descolonização dos 
currículos. Currículo sem fronteiras, v.12, n.1. p. 98-109, jan./abr. 2012. Disponível 
em: <http://www.curriculosemfronteiras.org/articles.htm>. 
72 
 
GOODSON, Ivor F. Currículo: teoria e história. Trad. Attílio Brunetta. Petrópolis, RJ: 
Vozes, 1995, p. 29-43. 
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Editora: Companhia das Letras 26 
Edição. São Paulo, 1995. 
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). 
Características étnico raciais da população: um estudo das categorias de 
classificação de cor ou raça (2008). Rio de Janeiro: IBGE, 2011. 
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2010: 
população indígena é de 896,9 mil, tem 305 etnias e fala 274 idiomas (2012). 
Disponível em: 
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/caracteristicas_gerais
_indigenas/default_caracteristicas_gerais_indigenas.shtm 
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de 
povoamento. Rio de Janeiro, 2000. 
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. Tradução Marie Agnès Chauvel. 
São Paulo: Brasiliense, 2003. 
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo 
Brasileiro, 1970. 
MACEDO, Roberto Sidnei. Currículo: campo, conceito e pesquisa. 2ª Ed. Petrópolis, 
RJ: Vozes, 2008. 
MARCONI, Marina de Andrade, PRESOTTO, Zélia Maria Neves. Antropologia, 
uma introdução. 3 ed. capítulos 1 e 2. São Paulo: Editora Atlas, 
MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa. Recente produção científica sobre currículo 
e multiculturalismo no Brasil (1995-2000): avanços, desafios e tensões. Revista 
Brasileira de Educação, Set/Out/Nov/Dez 2001 Nº 18. Disponível em: 
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n18/n18a07 
OLIVEIRA, Julvan Moreira. Perspectivas epistemológicas de matrizes africanas 
e educação. In. OLIVEIRA, Julvan Moreira (org). Interfaces das Africanidades em 
educação nas Minas Gerais. Juiz de Fora - Editora UFJF, 2013. 
OLIVEIRA, Ana Carolina Vieira de; MOREIRA, Paula Gomes. Os imigrantes ilegais 
da Colômbia, Bolívia e Haiti no Brasil: considerações do ponto de vista da 
Segurança Internacional. Mural Internacional, v.4, n.2, jul-dez, 2013. 
PENA, Sérgio D.J.; BORTOLINI, Maria Cátira. Pode a genética definir quem deve se 
beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas?. Estud. av. [online]. 
2004, vol.18, n.50, pp. 31-50. Disponível em: 
http://www.scielo.br/pdf/ea/v18n50/a04v1850.pdf 
REALE, Giovanni. História da filosofia. São Paulo: Paulus, 2003. (vol. 1 a 7) 
73 
 
SACRISTAN, J. Gimeno. O Currículo, uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: 
Editora Artmed, 2000. 
SALZANO, Francisco M. A Antropologia no Brasil: é a interdisciplinaridade possível? 
Amazônica - Revista de Antropologia, Vol. 1, No 1 (2009). Disponível em: 
http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/amazonica/article/view/133/197 
SANTANA, José Valdir Jesus de; SANTANA, Marise de; MOREIRA, Marcos Alves. 
Cultura, currículo e diversidade etnicoraciao: algumas proposições. Práxis 
Educacional. Vitória da Conquista v. 9, n. 15 p. 103-125 jul./dez. 2013. Disponível 
em: http://periodicos.uesb.br/index.php/praxis/article/viewFile/1945/1686 
SANTOS, Armindo. Antropologia geral Etnografia, Etnologia, Antropologia 
Social. Lisboa: Universidade Aberta, 2002. 
SANTOS, Diego Junior da Silva et al. Raça versus etnia: diferenciar para melhor 
aplicar. Dental Press J Orthod 121 2010 May-June;15(3):121-4. Disponível em: 
http://www.scielo.br/pdf/dpjo/v15n3/15.pdf 
SANTOS, Eunice. Definição de Antropologia (2008). Disponível em: 
http://www.academia.edu/5531481/_Defini%C3%A7%C3%A3o_de_Antropologia 
SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. São Paulo: HUCITEC, 1978. 
SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de Conceitos 
Históricos. São Paulo: Contexto, 2006. 
SILVA, Ricardo. Migrações e xenofobia: Motivação política e econômica (2009). 
Disponível em: http://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/migracoes-e-
xenofobia-motivacao-politica-e-economica.htm 
SILVA, Tássia Fernanda de Oliveira. Questões étnico-raciais e currículo: uma 
abordagem reflexiva. Itabaiana: GEPIADDE, Ano 5, Volume 9, jan-jun de 2011. 
Disponível em: 
http://200.17.141.110/periodicos/revista_forum_identidades/revistas/ARQ_FORUM_I
ND_9/FORUM_V9_08.pdf 
WEBER, Max. Economia e sociedade. 3 ed. Brasília: Ed. da UnB, 1994. 
ZALUAR, Alba. Integração perversa: pobreza e tráfico de drogas. Rio de Janeiro: 
FGV Editora, 2004. 
ZILLES, Urbano. Antropologia Teológica. São Paulo: Paulus, 2011. (Coleção 
EstudosAntropológicos).

Mais conteúdos dessa disciplina