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TEORIA CONTÁBIL AVANÇADA AULA 6 Prof. Me. Tassiani Aparecida dos Santos CONVERSA INICIAL Olá alunos, vamos iniciar nossa última aula da disciplina de Teoria Avançada de Contabilidade! O objetivo dessa aula é introduzi-los em aspectos normativos que sofreram alterações recentemente, como é o caso da norma de receita (CPC 47). A mudança normativa requer uma imersão nas novas regras que sustentam o reconhecimento, a mensuração e a divulgação das informações contábeis. Mas, principalmente, um aprofundamento conceitual para compreender o funcionamento e natureza das relações econômicas. Portanto, relembrar os conceitos primordiais de receita, despesa, ganhos e perdas é relevante para compreender as mudanças no ambiente normativo introduzidas pelo CPC 47. Nessa aula iremos tratar de tópicos avançados das normas contábeis. Iniciaremos pelos aspectos conceituais da receita, despesa, ganhos e perdas. Em seguida discorreremos sobre a nova norma para mensuração e reconhecimento de receitas, esta que foi alterada em 2018 e introduzida pelo CPC 47, respectivo IFRS 15. O tema 02 desse material versa sobre os aspectos conceituais do reconhecimento de receitas. Em seguida o tema 03 tratará dos aspectos conceituais da mensuração da receita. O tema 04 aborda os custos do contrato e divulgação. Por fim, o tema 05 discorre sobre a contabilização de receitas e despesas com variações cambiais e ganhos e perdas com itens monetários. UFA!! Muito assunto, não? Então, mãos a obras! CONTEXTUALIZANDO A mudança normativa do CPC 47 veio para acomodar a demanda normativa de unificação e simplificação das normas contábeis que tratavam do reconhecimento e mensuração das receitas. Assim, o IASB (International Accounting Standards Boards) optou por modificar a estrutura normativa da contabilização das receitas, fato este que acarretou na publicação do IFRS 15. No Brasil, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e o CPC (Comitê de Pronunciamentos Contábeis) emitiram o CPC 47, correspondente do IFRS 15 no Brasil. Diante disso, sugerimos que vocês, caros alunos, reflitam sobre os seguintes pontos: O que muda com a nova estrutura normativa para a mensuração e reconhecimento das receitas? Essa norma impacta diferentemente os tipos de empresa? O que difere no caso de empresas de 3 serviço? E como é a melhor tratativa operacionalizar essa nova estrutura normativa, ou seja, o que muda na prática das organizações? São muitos questionamentos, mas essa reflexão inicial auxiliará os nossos queridos alunos no andamento dessa primeira aula. Para tanto, sugerimos que leiam os artigos “O impacto do CPC 47 nas empresas de capital aberto”, de autoria de Lorenna Freitas Vasconcelos e Editinete Andre da Rocha Garcia, publicado no ano de 2018. Link para acesso: http://www.periodicos.ufc.br/eu/article/view/36567/83879; “Reconhecimento da Receita nos Contratos de Construção Civil com a Adoção do CPC 47: Percepção dos contadores sobre a implementação da norma”, de autoria de Rafaella Duarte Miranda, Luiza Monique de Castro Faria, José Roberto de Souza Francisco e Laura Edith Taboada Pinheiro. Link para acesso: http://adcont.net/index.php/adcont/adcont2018/paper/view/2944/925. TEMA 1 – CARACTERIZAÇÕES DE RECEITAS, DESPESAS, GANHOS E PERDAS Caros alunos, nessa última aula da disciplina de Teoria Avançada da Contabilidade iremos discutir aspectos conceituais e normativos da contabilidade. Nesse tema 01, em específico, iremos discorrer sobre os conceitos de receita, despesa, ganhos e perdas. Receita Os conceitos e definições de receita são diversos na literatura contábil e, inclusive, dentre os diferentes órgãos normativos (Iudícibus, 2010). Em geral, a definição de receita está associada a entrada de elementos no ativo, em contraprestação à venda de mercadorias, produtos e serviços. As receitas são os fluxos de benefícios da empreitada da entidade. A seguir, iremos apresentar algumas definições utilizadas por pesquisadores e pelo órgão normativo: Receita é a expressão monetária, validada pelo mercado, do agregado de bens e serviços da entidade, em sentido amplo, em determinado período de tempo e que provoca um acréscimo concomitante no ativo e no patrimônio líquido, considerado separadamente da diminuição do ativo (ou do acréscimo do passivo) e do patrimônio líquido provocados pelo esforço em produzir tal receita. (Iudícibus, 2010). 4 Em seu nível mais fundamental, receita é um aumento de lucro. Tal como o lucro, trata-se de um fluxo – a criação de bens ou serviços por uma empresa durante um período. (Hendriksen e Van Breda, 1999). Receitas são aumentos nos benefícios econômicos durante o período contábil, sob a forma da entrada de recursos ou do aumento de ativos ou diminuição de passivos, que resultam em aumentos do patrimônio líquido, e que não estejam relacionados com a contribuição dos detentores dos instrumentos patrimoniais. (CPC 00 – R1 – 2011). A primeira definição é feita pelo pesquisador brasileiro Iudícibus (2010). A sentença evidencia a visão do autor na qual a receita é a expressão monetária do valor pago pelo mercado por um determinado produto ou serviço oferecido pela empresa. Alunos, vamos pensar que a empresa Alfa vende chinelos. O modelo de chinelo X custa 22,00. Um determinado cliente resolve comprar dois pares de chinelo X, totalizando 44,00. A expressão monetária unitária de 22,00 é a receita unitária do produto chinelo X. Transportando esse caso para a discussão teórica, teremos que a receita do chinelo é a expressão do valor que o mercado aceita pagar por esse produto. Complementarmente, essa receita causa aumento no ativo ou patrimônio líquido da empresa e aumenta seu passivo derivado do esforço de produzir tal receita (conceito de despesa, que será discutido na próxima seção). Agora, ao analisarmos o conceito de Hendriksen e Van Breda (1999), dois autores estrangeiros, verificaremos que a definição se refere ao aumento do lucro. Portanto, os autores colocam uma definição líquida que, assim como no caso anterior, causa um aumento no ativou ou patrimônio líquido. Assim, se formos considerar essa definição, a receita da empresa Alfa é o valor líquido da venda do chinelo X, 22,00, e do esforço de venda e produção desse produto. Supondo que o esforço de venda e produção é um montante de 15,00, assim teremos a receita no valor de 7,00. Ou seja, a receita é o valor da venda (22,00) menos o esforço de venda e produção desse produto (15,00). Já a definição de receita do CPC estabelece a receita como um aumento de beneficio econômico, ou seja, aumento do ativo ou diminuição do passivo, quando causarem impacto no patrimônio sem serem derivados de operações com sócios (por exemplo, aporte de capital, emissão de ações, etc.). Portanto, em relação ao exemplo anterior, a receita equivale ao montante de 22,00. 5 Por tanto, conforme discutido nessa seção do tema 01, a definição de receita efetuada pelos diferentes agentes é caracterizada pela ausência a partir de sua natureza. Assim, o enfoque recai no momento do reconhecimento e da mensuração. Como por exemplo, quando ocorre a entrega de bens e serviços ao cliente, ou ainda, quando existe um efeito da receita no patrimônio ou nos ativos líquidos. Despesa O conceito de despesa é visto, de forma geral, como recursos sacrificados para a obtenção dos benefícios. Ou seja, os recursos gastos no decorrer da atividade da entidade para obter receitas. A seguir vamos apresentar os conceitos de despesa com base no entendimentode pesquisadores e do órgão normativo. Despesa, em sentido estrito, representa a utilização ou o consumo de bens e serviços no processo de produzir receita. (...) o que caracteriza a despesa é o fato de ela tratar de expirações de fatores de serviços, direta ou indiretamente relacionados com a produção e a venda do produto (ou serviço) da entidade. (Iudícibus, 2010). Tal como o termo receita, o termo despesa também é um conceito de fluxo. As despesas, porém, representam as variações desfavoráveis dos recursos da empresa, ou seja, são as reduções de lucro. (Hendriksen e Van Breda, 1999). Despesas são decréscimos nos benefícios econômicos durante o período contábil, sob a forma da saída de recursos ou da redução de ativos ou assunção de passivos, que resultam em decréscimo do patrimônio líquido, e que não estejam relacionados com distribuições aos detentores dos instrumentos patrimoniais. (CPC 00 – R1 – 2011). Alunos, importante perceber que, o conceito de despesa é caracterizado a partir do próprio conceito de receita. De maneira ampla, as duas definições dos pesquisadores apresentam o conceito de despesa como sendo a utilização de recursos na produção e na venda de produtos ou serviços e que permitirão a obtenção de benefícios econômicos (as receitas). O órgão normativo foca na definição de despesa como sendo uma redução dos benefícios econômicos da entidade. Em ambos os casos podemos exemplificar da seguinte maneira: a empresa Alfa vende chinelo do modelo X por 22,00 e utiliza recursos para a 6 produção e venda desse produto no montante de 15,00. Assim, o valor da despesa é de 15,00, isso porque é o quanto a empresa utiliza de recursos para obter sua receita de 22,00 para o chinelo X. Ganhos Os ganhos são entradas de recursos geralmente desvinculados das atividades normais da empresa. Vamos analisar as definições apresentadas pela literatura e pelo órgão normativo: Muitos dizem que é necessário distinguir receitas de ganhos. (...) Os autores deste livro preferem distinguir entre as atividades produtoras de riqueza da empresa e as transferências inesperadas de riqueza decorrentes de doações ou eventos imprevistos. Em outras palavras, todas as atividades, sejam importantes ou não, relacionadas às atividades produtoras de riqueza da empresa, seriam incluídas na categoria geral de receita. (Hendriksen e Van Breda, 1999). 4.29. A definição de receita abrange tanto receitas propriamente ditas quanto ganhos. A receita surge no curso das atividades usuais da entidade e é designada por uma variedade de nomes, tais como vendas, honorários, juros, dividendos, royalties, aluguéis. 4.30. Ganhos representam outros itens que se enquadram na definição de receita e podem ou não surgir no curso das atividades usuais da entidade, representando aumentos nos benefícios econômicos e, como tais, não diferem, em natureza, das receitas. Consequentemente, não são considerados como elemento separado nesta Estrutura Conceitual. (CPC, 00 – R1) Alunos, como vimos nas definições acima, os ganhos são entradas de recursos geralmente desvinculados das atividades normais da empresa e são, portanto, definidos com base na definição de receita. Os ganhos são um tipo de receita, contudo, tem essa designação para diferenciar as entradas de recursos derivadas das atividades fim da empresa e as entradas de recursos de itens extraordinários. Ambos os itens, receitas e ganhos, são caracterizados pelo seu aumento nos benefícios econômicos da entidade, diferindo, por tanto, a origem desses recursos. O quadro abaixo exemplifica essa discussão: 7 Descrição Fonte ou Origem Prazos de Ocorrência RECEITAS Resultam das atividades normais da empresa Rotineiras e repetitivas Sempre presentes na DRE GANHOS Geralmente desvinculados das atividades normais da empresa Não fazem parte da rotina operacional e, portanto, não são repetitivos (eventuais) Nem sempre aparecem na DRE Referências: COELHO e LINS (2010) Perdas As perdas são definidas com base no conceito de despesa, sendo compreendidas como o resultado líquido desfavorável que não surge das operações normais da empresa. A seguir apresentamos a definição utilizada pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis: 4.33. A definição de despesas abrange tanto as perdas quanto as despesas propriamente ditas que surgem no curso das atividades usuais da entidade. As despesas que surgem no curso das atividades usuais da entidade incluem, por exemplo, o custo das vendas, salários e depreciação. Geralmente, tomam a forma de desembolso ou redução de ativos como caixa e equivalentes de caixa, estoques e ativo imobilizado. 4.34. Perdas representam outros itens que se enquadram na definição de despesas e podem ou não surgir no curso das atividades usuais da entidade, representando decréscimos nos benefícios econômicos e, como tais, não diferem, em natureza, das demais despesas. Consequentemente, não são consideradas como elemento separado nesta Estrutura Conceitual. (CPC 00 – R1). Assim como no caso dos ganhos, as perdas são definidas pelo CPC como uma categoria de despesas. Portanto, as perdas são um tipo de despesa que surge de maneira extraordinária, no curso das atividades da empresa ou não. Como por exemplo, um incêndio na fábrica que ocorre durante uma atividade fim da empresa, ou um alagamento na fábrica que decorre de fatores climáticos. TEMA 2 – ASPECTOS CONCEITUAIS CPC 47 – RECEITA DE CONTRATO COM CLIENTE (MENSURAÇÃO) 8 Em junho de 2016 foi aprovado o CPC 47 no Brasil, que tem correlação com a IFRS 15, norma do IASB sobre reconhecimento de receitas. A norma entrou em vigência no ano de 2018. O novo modelo normativo de receitas é uma mudança de paradigma e, portanto, constitui um importante objeto a ser estudado pela Teoria Avançada da Contabilidade. De acordo com a nova norma, as entidades devem reconhecer a receita pela transferência de bens ou serviços para o cliente e o montante deve refletir a contraprestação que elas esperam receber em troca desses bens ou serviços. Para a aplicação do CPC 47 podemos vislumbrar esse processo em 5 etapas: (1) Identificar o contrato; (2) Identificar a obrigação de desempenho; (3) Determinar o preço da transação; (4) Alocar o preço da transação e (5) atender a obrigação de desempenho. O modelo de 5 etapas é ilustrado na figura abaixo e tem como objetivo auxiliar a entidade a determinar quando reconhecer a receita e por qual valor: Fig. 1 Modelo de 5 etapas Nesse tema 02 da última aula da disciplina de Teoria Avançada da Contabilidade trataremos da etapa de mensuração da receita com cliente. Esse processo abrange as fases 1, 2, 3 e 4. Fase 1: identificar o contrato. Para identificar a existência de um contrato é necessário (1) exista uma essência comercial, (2) o acordo esteja aprovado e as partes comprometidas com suas obrigações, (3) a existência da contraprestação é provável, (4) os direitos aos produtos ou serviços e a condição de pagamento podem ser identificados. Assim, de maneira geral, um contrato é um acordo entre duas ou mais partes que cria direitos e obrigações exigíveis. E a exigibilidade dos direitos e obrigações é matéria legal. Eles podem ser escritos, verbais ou sugeridos pelas 9 práticas usuais de negócios da entidade. A figura abaixo sintetiza as características necessárias para a identificação de um contrato que irá gerar receita. Fig. 2 Características para identificação de um contrato Fase 2. Identificação das obrigações de desempenho.Em primeiro lugar, alunos, vamos definir o que seja uma obrigação de desempenho. Segundo o CPC 47, o termo “obrigação de desempenho” diz respeito à obrigação da entidade vendedora desempenhar a sua obrigação de repassar o controle do bem ou serviço à entidade compradora. Por exemplo, existindo um contrato, a empresa Alfa tem a obrigação de entregar x pares do chinelo X para a empresa Beta. Portanto, uma obrigação de desempenho constitui uma promessa de entregar um bem ou prestar um serviço. Por fim, para determinarmos se existe uma obrigação de desempenho os seguintes critérios devem ser atendidos: (1) o cliente pode se beneficiar do bem ou serviço por conta própria ou juntamente com outros recursos que estão prontamente disponíveis para ele; (2) a promessa da entidade de transferir o bem ou o serviço para o cliente é separadamente identificável de outras promessas no contrato (KPMG, 2016). Fase 3. Determinar o preço das transações. O preço da transação é o valor da contraprestação à qual a entidade espera ter direito em troca da transferência dos bens ou serviços prometidos aos clientes (CPC 47). Assim, 10 para uma empresa determinar qual o valor que ela tem direito, decorrente de um contrato, é preciso considerar os seguintes fatores: (1) Contraprestação a pagar a um cliente: esse item pode ser uma redução de um preço de uma transação, um pagamento de um bem ou serviço ou combinação de ambos. Por exemplo: se a empresa Alfa precisa pagar um montante x para o cliente, decorrente de negociações anteriores, pode realizar um acordo para pagar em entrega de bem ou prestação de serviço. Ou, a contraprestação pode ser realizada em valores monetários. Ainda, ou em uma combinação de ambos (KPMG, 2016). (2) Contraprestação não monetária: esse item é mensurado ao valor justo, se for passível de ser estimado. Se não for possível, o preço de venda é decorrente do bem ou serviço que foi prometido em troca da contraprestação não monetária. Por exemplo: a empresa X vende um terreno para o Senhor João. João decide realizar o pagamento com a contraprestação de 3 apartamentos. Ambos entram em acordo. Como determinar o preço da transação? A primeira tentativa é pelo valor justo do bem. Caso não seja possível, uma opção é identificar o valor de mercado do terreno e dos apartamentos para identificar o preço da transação (KPMG, 2016). (3) Valor da contraprestação variável: primeiro questionamento é em relação ao que é uma contraprestação variável. Consideramos os seguintes itens: descontos, créditos, concessões de preço devoluções ou bônus / penalidades por desempenho. Quando existe esse valor, a empresa deve atuar da seguinte maneira: apenas incluirá na determinação do preço se for altamente provável que uma reversão do valor da receita para baixo não acontecerá. Por exemplo: o valor da contraprestação a pagar foi identificado no montante de 1.200,00 e o valor da contraprestação variável foi identificado no valor de 200,00 positivo, decorrente de uma penalidade. Assim, o valor total do preço da transação é de 1.400,00. A empresa deverá considerar os 200,00 apenas se for altamente provável que esse valor não diminuirá, ou seja, que o valor da receita não será menor que 1.400,00. Portanto, a empresa deverá avaliar (1) a probabilidade 11 de um estorno da receita ocorrer por um evento incerto e (2) a magnitude do estorno, se esse evento incerto ocorrer (KPMG, 2016). (4) Componente de financiamento significativo: Se o contrato possui um componente de financiamento significativo, ou seja, contraprestações em um longo período de tempo, que tragam distorções do valor presente do contrato; deve-se ajustar o valor das contraprestações. Por exemplo, a empresa X venda uma máquina no valor de 300.000,00 à vista. Contudo, em um contrato com o cliente Alfa Peças, decide vender essa máquina em contraprestações de 5 anos. O valor presente dessa máquina poderá sofrer impacto do tempo no valor presente do dinheiro. Se isso ocorrer, a empresa X precisará ajustar os valores das contraprestações de 5 anos para que elas reflitam, no valor presente, os 300.000,00. Mas como identificar se há um componente de financiamento significativo? A norma dá o seguinte direcionamento: esse cálculo pode ser complexo, contudo, de forma simplificada, se a empresa espera receber esses valores em até 12 meses após a transferência do bem ou prestação do serviço, considera-se que não há componente de financiamento significativo (KPMG, 2016). Assim, para determinar o preço das transações, a empresa deverá considerar os 4 aspectos apontados acima: se a contraprestação será monetária, não monetária ou uma combinação de ambas; se existe uma contraprestação variável e se existe um componente de financiamento significativo. Fase 4. Alocar o preço das transações. A fase 4 permite a empresa mensurar de fato o valor da receita. Nessa etapa, ela alocará o preço das transações para cada obrigação de desempenho individual. Mas e se o valor não for diretamente observável, seguindo os passos anteriores? A empresa deve estima-lo da seguinte maneira: (1) avaliação de mercado ajustada ou (2) custo esperado mais uma margem (KPMG, 2016). TEMA 3 – ASPECTOS CONCEITUAIS CPC 47 – RECEITA DE CONTRATO COM CLIENTE (RECONHECIMENTO) 12 Alunos, o modelo de 5 etapas irá direcionar os aspectos essenciais para a mensuração da receita (etapas de 1 a 4) e reconhecimento da receita (etapa 5). Após a fase de mensuração da receita, a empresa deve proceder ao reconhecimento desse valor na contabilidade. Mas em qual momento deve-se reconhecer a receita? Fase 5. Reconhecimento de receita. A receita deve ser reconhecida no momento em que (à medida que) o controle de um bem ou serviço é transferido para o cliente. Importante salientar que o controle pode ser transferido em um momento do tempo ou ao longo do tempo e o reconhecimento deve respeitar essa característica. Portanto, o aspecto primordial para atender à quinta etapa do modelo de 5 etapas é o reconhecimento do momento da transferência de controle, em especial, se ocorre ao longo do tempo ou não. Como identificamos se o a transferência do controle ocorre ao longo do tempo? (1) o cliente recebe e consome simultaneamente os benefícios gerados, por exemplo, serviço de consultoria; (2) o cliente tem seu ativo criado ou melhorado a medida que o produto ou serviço é transferido, por exemplo, construção de um anexo na fábrica do cliente X, à medida que essa construção acontece, o ativo do cliente é melhorado / criado; (3) a empresa transfere ao cliente um serviço ou produto específico, ou seja, que só esse cliente pode utilizar. Assim, a entidade deve utilizar um método que melhor reflita a transferência de controle para o cliente. Essa transferência será o direcionador do reconhecimento da receita. Por fim, quando a empresa deve aplicar o CPC 47? A figura 3 ilustra o caminho que deve ser percorrido para obter essa resposta, visto que outros CPCs dão tratativas para reconhecimento de receitas, de maneira específica. 13 Fig. 3 – Decisões do modelo de 5 etapas. Fonte: KPMG, 2016 Assim, se o contrato seguir o workflow de decisão para aplicação dessa norma, então a empresa deve seguir o modelo de 5 etapas apresentados acima. Contudo, quais são os casos específicos que o CPC 47 não se aplica? Arrendamento mercantil, tratado pelo CPC 06; Seguros, tratado pelo CPC 11; Instrumentos financeiros, por exemplo derivativos, tratado pelo CPC 38, 39 e 48; Importante salientar que os itensacimas constituem-se como exemplos. A empresa deve verificar se sua operação está sendo regida por outra norma contábil. Entretanto, de maneira geral, o CPC 47 é o pronunciamento contábil utilizado para regular a mensuração e reconhecimento de receitas a partir do ano de 2018. 14 TEMA 4 – ASPECTOS CONCEITUAIS CPC 47 – RECEITA DE CONTRATO COM CLIENTE (CUSTOS DO CONTRATO E DIVULGAÇÃO) Alunos, nos temas 02 e 03 dessa aula, aprendemos os aspectos fundamentais do CPC 47, no que tange a mensuração e reconhecimento das receitas, a partir de 2018. O tópico 04 desse material, irá discorrer sobre aspectos adicionais: custos do contrato e divulgação. O que são custos do contrato? Para o CPC 47, é necessário identificar e contabilizar os custos incrementais para obtenção de um contrato, ou seja, de uma receita, e os custos relacionados ao cumprimento do contrato, ou seja, transferência do controle do bem ou serviço (obrigação de desempenho). Custos para obtenção de um contrato. Esses custos estão relacionados ao esforço de venda ou prestação de serviço da empresa, como por exemplo, comissão de venda. Esse custo só pode ser contabilizado ao longo do tempo de execução de um contrato, se a empresa espera recuperar esse custo. Para fins de praticidade, o CPC 47 permite a contabilização em um único período se o período de amortização do ativo (bem ou serviço) for inferior a 12 meses, como ocorre no caso de componente de financiamento significativo (KPMG, 2016). Para exemplificar a contabilização do custo para obtenção de um contrato, imagine a seguinte situação: Contrato de prestação de consultoria por período de 36 meses. O custo para obtenção desse contrato foi estimado pela empresa em 2.600,00 reais. A contabilização desse custo deve ser amortizada em período de 36 meses e não em um único período contábil. Custos para cumprir um contrato. Esses custos são identificados e reconhecidos atendendo aos seguintes critérios: (1) se relacionam diretamente a um contrato existente; (2) geram ou aumentam os recursos da entidade para a efetivar a obrigação de desempenho do contrato; (3) espera-se que sejam recuperados. Exemplos de custos que podem e não podem ser capitalizados são apresentados na figura 4 abaixo (KPMG, 2016). 15 Fig. 4 – Custos que podem (ou não) serem capitalizados. Fonte: (KPMG, 2016) De maneira geral, os custos que podem ser capitalizados são aqueles diretamente relacionados a uma obrigação de desempenho e que não existiriam se o contrato não fosse celebrado entre as partes. Amortização e capitalização dos custos capitalizados. O método de amortização dos custos capitalizados deve seguir uma base sistemática, de acordo com o padrão de transferência do bem ou serviço ao qual o ativo se refere (KPMG, 2016). A capitalização dos custos relacionados a obrigação de desempenho é uma mudança de paradigma para as empresas, que estavam habituadas a lançarem esses montantes como despesas do período. Portanto, constitui-se como um importante aspecto a ser analisado pela Teoria da Contabilidade. Alunos, agora vamos falar da divulgação desses itens de acordo com o CPC 47? Para cumprir a nova norma, a empresa deverá divulgar um número maior de informações sobre as receitas. A principal mudança refere-se a receita desagregada por obrigações de desempenho, que visa mostrar como os fatores econômicos podem afetar a natureza do contrato, o valor, o 16 momento de reconhecimento e as incertezas do fluxo de caixa relativos aquela obrigação de desempenho. Assim, as seguintes categorias devem ser divulgadas pelas empresas: Contratos com clientes: desagregação das receitas por obrigações de desempenho; as alterações nos ativos, passivos e custos contratuais e preço das transações alocadas a obrigação de desempenho (etapa 4) (KPMG, 2016); Julgamentos significativos ou mudanças nos julgamentos: método de determinar o momento e valor das obrigações de desempenho (KPMG, 2016); Ativos reconhecidos pelos custos de obtenção ou cumprimento de um contrato com um cliente. TEMA 5 – CONTABILIZAÇÃO DE RECEITAS E DESPESAS COM VARIAÇÕES CAMBIAIS (CPC 02) E GANHOS E PERDAS COM ITENS MONETÁRIOS Por fim, vamos tratar no último tema da nossa disciplina de Teoria Avançada de Contabilidade sobre a contabilização de receitas e despesas com variações cambiais e os ganhos e perdas com itens monetários. Bora lá? Antes de tratarmos sobre a contabilização de receitas e despesas com variações cambiais, precisamos definir o que é variação cambial. A variação cambial é definida como a diferença resultante da conversão de um número específico de unidades em uma moeda para outra moeda, a diferentes taxas cambiais (CPC 02). Vamos verificar o exemplo a seguir: Uma empresa brasileira adquire um ativo em moeda estrangeira (US) em X1. O valor em dólar é 500.000,00. E a taxa de câmbio é de 3,50. Portanto, o valor é registrado em reais no montante de 1.750.000,00. Ao pagar essa dívida em X2 a taxa cambial aumentou para 4,00. Assim, o valor da dívida em moeda local foi para 2.000.000,00, valor em dólar (500.000,00) multiplicado pela taxa de câmbio em X2 (4,00). Essa operação gera uma variação cambial. Nesse caso foi de 250.000,00 reais. E como houve o aumento da dívida em moeda estrangeira corresponde a uma despesa de variação cambial. Agora, vamos considerar que em X2 houvesse uma valorização do real e a taxa de cambio fosse de 3,25. Qual seria o valor da variação cambial? Seria uma despesa ou uma receita? 17 O cálculo é o mesmo: em X1 a dívida foi adquirida em dólares no montante de 500.000,00 e a taxa cambial era de 3,50. Registrando em X1 uma dívida de 1.750.000,00 reais. Em X2 a taxa de câmbio foi de 3,25. Assim, o valor da dívida a ser pago em X2 em moeda local foi de 1.625.000,00 reais. A dividida diminui devido a variação cambial, portanto, temos que registrar uma receita de variação cambial. Agora vamos falar dos itens monetários? Bom, os itens monetários são definidos pelo CPC 02 como aqueles “representados por dinheiro ou por direitos a serem recebidos e obrigações a serem liquidadas em dinheiro”. As ganhas ou perdas com itens monetários, que podem ser variações cambiais, devem ser registrados no período em que ocorrem. Vamos considerar que a variação do item monetário em análise é um instrumento financeiro adquirido em dólar. No período de X1 um investidor adquire um instrumento financeiro por 10.000,00 dólares e nessa data a taxa cambial era de 2,25. Portanto, o seu desembolso foi de 22.500,00 reais. Portanto, na data de balanço de X1 o ativo será registrado pelo valor de 22.500,00 reais. Em X2 o instrumento tem seu valor em dólar mantido, contudo, a taxa cambial cai para 1,90. Nesse momento o valor do ativo em reais é de 19.000,00. Assim, a empresa deve registrar em X2 uma perda com itens monetários no valor de 3.500,00 reais, que se refere a diferença entre o valor em reais em X1 e o valor em reais em X2. Alunos, importante perceber que a variação nesse item monetário foi decorrente na variação do preço da moeda. No caso de o valor da moeda ter se desvalorizado, teríamos uma alta do dólar e consequentemente um reconhecimento de ganho com item monetário. TROCANDO IDEIAS Alunos, estamos caminhando para o final da nossa última aula! Vamos agora trocar ideias com os colegas sobre os principais aspectos tratados nessa aula? Para consolidar os conhecimentos adquiridos vamos realizar uma atividade de fórum. Você deverá refletir sobre os conceitos aprendidos nessa aula sobre as alteraçõesadvindas do CPC 47 para a mensuração e reconhecimento de receitas. Para tanto, apresente um setor que será 18 fortemente impactado devido as mudanças ocorridas na mensuração e reconhecimento de receitas do CPC 47. Argumente com base nas alterações do CPC 47. FINALIZANDO Olá alunos, agora sim, estamos finalizando nossa disciplina de Teoria Avançada de Contabilidade. Espero que as discussões e tópicos apresentados no decorrer dessas seis aulas tenham sido importante para complementar e atualizar o conhecimento desenvolvido nesse curso. Para isso, essa disciplina apresentou as principais discussões existentes no campo teórico e prático da contabilidade atualmente. O primeiro tema dessa aula apresentou os principais conceitos e definições de receita, despesa, ganhos e perdas, tanto considerando os pesquisadores brasileiros e estrangeiros, quanto o mundo prático dos normatizadores contábeis, IASB e CPC. Ao tema 01, que serviu de base para a discussão posterior, se seguiu a apresentação do CPC 47, que passou a figurar no cenário brasileiro em 2018. Assim, o tema 02 discorreu sobre o modelo de 5 etapas para aplicação da norma de receita, CPC 47, no que tange as etapas de mensuração da receita (valor). O tema 03 discorreu sobre a quinta etapa do modelo, que se refere ao reconhecimento da receita (momento). O tema 04 tratou das novas especificidades da norma de receitas, em especial no que tange aos custos contratuais e ao modelo de divulgação. Por fim, o tema 05 dissertou sobre o CPC 02, itens monetários (perdas e ganhos) e variação cambial (receitas e despesas). REFERÊNCIAS COELHO e LINS (2010) Iudícibus, 2010 Hendriksen e Van Breda, 1999 CPC 00 – R1 19 CPC 02 CPC 06 CPC 11 CPC 38 CPC 39 CPC 47 CPC 48 IFRS 15 KPMG 2016 “O impacto do CPC 47 nas empresas de capital aberto”, de autoria de Lorenna Freitas Vasconcelos e Editinete Andre da Rocha Garcia, publicado no ano de 2018. Link para acesso: http://www.periodicos.ufc.br/eu/article/view/36567/83879; “Reconhecimento da Receita nos Contratos de Construção Civil com a Adoção do CPC 47: Percepção dos contadores sobre a implementação da norma”, de autoria de Rafaella Duarte Miranda, Luiza Monique de Castro Faria, José Roberto de Souza Francisco e Laura Edith Taboada Pinheiro. Link para acesso: http://adcont.net/index.php/adcont/adcont2018/paper/view/2944/925.