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MAISA TAVARES DI MARTINI Reflexão sobre: CORES E BOTAS FACULDADE MATO GROSSO DO SUL Curso de Pedagogia Campo Grande/MS – 2016 Cores e Botas O curta metragem “Cores e Botas” discute os padrões estéticos estabelecidos pela mídia e sua influência na formação das crianças. Joana, a protagonista, é uma menina negra que sonha em ser “Paquita”. Sonho comum entre as meninas na década de 80 devido à influência do programa da Xuxa. Sua família é bem sucedida e apoia o sonho da menina, porém ela não se encaixa no padrão estético e fenotípico que caracterizam as Paquitas. É na escola que a trama do filme se desenrola. Haveria um evento e a escola onde Joana estuda organizou um evento que selecionou algumas meninas para representar as Paquitas. “Será que teremos uma Paquita ‘Exótica’?” – é a frase da professora que realiza as inscrições das meninas. Essa frase sintetiza estereotipia que circula na sociedade brasileira. Caberia à escola o reforço da identidade positiva do negro enquanto grupo etnicamente singularizado dentro da sociedade plurirracial brasileira através do resgate e valorização da história do negro e da quebra dos estereótipos negativos do negro. Já os pais de Joana incentivam a filha na busca seus sonhos e objetivos pelo esforço individual (“querer é poder”, frase entoada pela mãe de Joana), entretanto, enfrentam um conflito interno na tentativa de negar o fato que sua filha não pode ser Paquita, não por incapacidade, e sim unicamente por não atender o padrão estético-racial determinado pela mídia brasileira. O irmão, mais velho, não é incentivador desse sonho, porém não a desanima e surpreende ao final do filme com sua atitude em confortar a pequena irmã. Joana, visto que não poderia ser Paquita, resolve o “problema” se desfazendo de suas botas coloridas, as mesmas que faziam referência ao seu sonho, ou seja, ela entende que esse sonho não seria alcançado por ser negra e desiste. Ela, na verdade, não entende o ato de discriminação que sofreu, mas parte para outro sonho: ser fotógrafa. O irmão, vendo a cena da pequena jogando fora suas tão amadas botas, dá-lhe a devida atenção, mostra-lhe que existem outros ídolos e a apresenta Raul Seixas com a música: Carimbador Maluco (exibida no programa Plut Plat Zum - especial infantil exibido na Rede Globo de televisão). O Brasil é um país multirracial dada a sua formação étnica diversificada. No entanto, os meios de comunicação não refletem essa diversidade, e quando o faz, tem a tendência de priorizar características de determinado grupo social em detrimento de outros. Sendo assim, o que a mídia transmite diariamente é o reflexo de um modelo de identidade nacional que mais se aproxima do indivíduo de fenótipo e valores europeus a medida em que se afasta da realidade do miscigenado povo brasileiro. É inegável os reflexos da influência da mídia na formação do imaginário nacional, interferindo na interação social e atuando como um elemento externo para construção e identificação de jovens e crianças que, na maioria das vezes, arquitetam pressupostos equivocados de se olhar a negritude. (ROSA, 2012) Assumir a identidade racial negra em um país como o Brasil é um processo extremamente difícil e doloroso, considerando-se que os modelos “bons”, “positivos” e de “sucesso” de identidades negras são restritos e o respeito à diferença em meio à diversidade de identidades raciais/étnicas inexiste. A escola brasileira se fecha a possíveis influências corretivas dessa estereotipia. Se recusam em afirmar o negro como co-construtor da história brasileira e adotar uma literatura de autores negros que ajudassem a desnudar a iniquidade do sistema racial brasileiro. Cabe a escola o reforço da identidade positiva do negro enquanto grupo etnicamente singularizado dentro da sociedade plurirracial brasileira através do resgate e valorização da história do negro e da quebra dos estereótipos negativos do negro.