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TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 0
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA
Organização do material:
A disciplina contempla a apresentação dos fundamentos históricos e epistemológicos da
teoria psicanalítica de Sigmund Freud. Serão transmitidos os pressupostos da teoria, da
técnica e da investigação científica no campo da Psicanálise, assim como serão
estudados os conceitos articulados ao método psicanalítico e à ética da psicanálise. Com
isto, visa-se a compreensão das experiências humanas contemporâneas à luz da
produção psicanalítica atual.
O material poderá ser utilizado como orientação para seu estudo e como complemento
das atividades realizadas nas aulas presenciais.
O programa da disciplina está distribuído em 8 módulos, que devem ser estudados ao
longo do semestre letivo. Alguns tópicos serão objeto de avaliação na NP1 (Módulos 1 a
4) e outros serão avaliados na NP2 (Módulos 5 a 8).
Sugerimos que você siga a ordem abaixo apresentada, ao planejar seu estudo, uma vez
que os temas mantêm entre si uma relação lógica.
Modulo 1:
O nascimento da Psicanálise e a constituição de seu objeto de estudo.
Insuficiência do modelo médico no tratamento da histeria.
Os primórdios da psicanálise – do trauma à fantasia, da hipnose à associação livre e da
catarse à elaboração psíquica.
Módulo 2:
A descoberta do inconsciente: repressão; resistência e formação de sintomas.
A teoria dos sonhos e a psicopatologia da vida cotidiana.
A primeira tópica freudiana - sistemas: Inconsciente, Pré-Consciente e Consciente.
Módulo 3:
A segunda tópica freudiana: id, ego e superego.
Teoria das Pulsões - Pulsões e sexualidade.
Pulsão de vida e pulsão de morte
Módulo 4:
A teoria da sexualidade.
A evolução da libido.
As zonas erógenas e as pulsões.
Módulo 5:
A teoria da sexualidade: o complexo de Édipo e a sua dissolução.
Módulo 6:
A psicanálise na clínica.
O surgimento da transferência.
A descoberta do Narcisismo.
Módulo 7:
Psicanálise na clínica: a atitude frente à castração: neuroses, psicoses, perversões.
O trabalho analítico - Considerações sobre o objetivo e o final de uma análise.
Módulo 8:
Psicanálise e sociedade: a psicologia das massas; a identificação; o ideal do ego.
A compreensão da vida em grupo a partir do referencial psicanalítico.
Cada Módulo contempla a apresentação do tema a ser estudado, as leituras necessárias
e exercícios de verificação da aprendizagem. Os temas só poderão ser minimamente
apreendidos em sua complexidade se forem realizadas as leituras indicadas, pois este
material servirá como um roteiro para organizar seus estudos e permitir que avance em
sua formação acadêmica.
Nos textos apresentados em cada conteúdo, você encontrará exercícios que tem como
função auxiliá-lo na compreensão do tema.
O presente conteúdo, por se tratar da apresentação do curso, não inclui exercícios.
Bibliografia:
A Bibliografia apresentada a seguir relaciona as obras consideradas importantes para o
estudo dos temas, assim como indicações de fontes eletrônicas que serão úteis em seus
estudos. Em cada módulo, serão indicados os trechos específicos que devem ser lidos.
Bibliografia Básica:
FREUD, S. Edição Standard das Obras Completas. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969.
KEHL, M. R. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras,
2002.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Ed.
Jorge Zahar, 1998.
Bibliografia Complementar:
GAY, P. Uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
MEZAN, R. Psicanálise e Psicoterapia. In: A Vingança da Esfinge, Ensaios de
Psicanálise. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.
QUINODOZ, J. M. Ler Freud: guia de leitura da obra de S. Freud. Porto
Alegre: Artmed, 2007.
ROUDINESCO, E. A sociedade depressiva, In: ROUDINESCO, E. Por que a
psicanálise? São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2000.
SOUZA, P. C. As palavras de Freud: o vocabulário freudiano e suas
versões. São Paulo: Cia das Letras, 2010.
Endereços eletrônicos para pesquisa na área:
Scielo: http://www.scielo.br/scielo.php/script_sci_home/lng_pt/nrm_iso
Pepsic: http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php/lng_pt
SBPSP: http://www.sbpsp.org.br
TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 1
O nascimento da Psicanálise e a constituição de seu
objeto de estudo.
A insuficiência do modelo médico no tratamento da
histeria.
Os primórdios da psicanálise – do trauma à fantasia,
da hipnose à associação livre e da catarse à
elaboração psíquica.
Bibligrafia:
BRENNER, C. Duas hipóteses fundamentais. In:
Noções Básicas de Psicanálise. Rio de Janeiro: Ed.
Imago, 1975.
FREUD, S. História do Movimento Psicanalítico (1914).
In: Obras Completas de S. Freud. (volume XIV) Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda, 1969.
______. Cinco Lições de Psicanálise: Primeira Lição
(1912). In: Obras Completas de S. Freud (volume XI),
Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda.GAY, P. Freud, uma
vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das
Letras, 1989.
QUINODOZ, J. M. Ler Freud: guia de leitura da obra
de S. Freud. Porto Alegre: Artmed, 2007.
ROUDINESCO, E. ; PLON, M. Dicionário de
Psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1998.
______. A sociedade depressiva. In: Por que a
psicanálise? São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2000.
A Psicanálise constitui-se como um método de
investigação dos processos inconscientes e foi criada no
final do século XIX por Sigmund Freud. A construção,
história e percurso desta teoria se mantêm ligada à vida
de Freud, já que foi este neurologista austríaco o
responsável por sua invenção e desenvolvimento
(QUINODOZ, 2007).
Sua origem é decorrente de um momento histórico e
social em que as circunstâncias permitiram o surgimento
de uma teoria e de uma prática que tentasse abarcar os
aspectos especificamente psicológicos de determinados
fenômenos, dada a insuficiência de outras tentativas
para explicá-los, ou seja, os fenômenos da conversão
histérica representavam um desafio à ciência, já que a
medicina não conseguia explicar sua origem, sendo de
extrema importância compreender e tratar os fenômenos
psicopatológicos.
E, se estamos aqui fazendo uma constante ligação entre
fenômenos históricos, sociais, culturais e psicológicos,
há que se tomar como ponto pacífico o fato de a histeria,
ou mesmo qualquer afecção, não ser considerada como
um suposto mau funcionamento de um organismo,
tomado isoladamente (é justamente de uma perspectiva
organicista que se pretende distanciar-se). As oposições
ou divergências entre um mundo interno (objeto de
estudo da Psicanálise) e um externo não se restringem a
buscar um argumento que justifique e comprove a
supremacia de um sobre o outro, como em certas
disputas estéreis sobre o que determinaria a vida
humana: o dado objetivo ou o subjetivo.
O que se propõe aqui para pensar a questão da
constituição de um conhecimento (investigação e
tratamento) que tem como objeto o mundo interno será
talvez algo mais próximo de uma constante reflexão,
dado que no que diz respeito à condição humana o
objeto, ao ser apreendido pela percepção, é
transformado em realidade vivida subjetivamente e seria
necessário elucidar que processos e elementos
psíquicos estão em jogo nesta transformação. O que se
coloca como ponto de partida para as investigações
psicanalíticas é a ausência de uma compreensão dos
aspectos especificamente psíquicos que permeiam a
relação sujeito/objeto (ROUDINESCO, 2000).
A histeria faz parte de um grupo de acepções que estão
diretamente ligadas ao nascimento da Psicanálise, pois
a investigação e o tratamento deste tipo de neurose, a
partir de uma compreensão dos fatores psíquicos, foi o
ponto de partida de Freud na construção de um
arcabouço teórico que permitisse escutar as histéricaspara além dos sintomas que tanto alarde causavam.
Pela escuta das histéricas, Freud criou a psicanálise e
desenvolveu a teoria que a sustenta, por meio de uma
prática clínica que vai delineando seu método
terapêutico e, assim, define sua ética.
Ao pensar a questão do mundo interno estamos às
voltas com o problema da dicotomia sujeito/objeto, que é
tema ainda de discussões em diversas disciplinas,
desde o século XVI com Descartes.
A perspectiva científica que pretende colocar seus
objetos de estudo como tendo uma realidade em si
mesmos, constituídos como objetos da natureza,
pensará o sujeito como aquele que é dotado de uma
consciência e de uma razão que lhe conferem o poder
de dominar e controlar (consciente e racionalmente) a
Natureza e seus objetos e inclusive a si mesmo.
No entanto, como explicar quando este sujeito mostra
falhas, justamente, nesta capacidade de dominar e
controlar a realidade externa e a si mesmo? E mais: o
que fazer quando os recursos científicos disponíveis
(físico-químicos e anátomo-patológicos) não conseguem
nem oferecer uma explicação, nem uma ação
condizente com os problemas surgidos da relação de um
dado sujeito com o mundo externo?
Será a partir de uma preocupação com os conflitos e
sofrimentos que adquiriram uma conotação patológica
que surgirá a Psicanálise, enquanto uma terapêutica e
uma teorização capazes de oferecer uma nova visão
sobre o homem, seu psiquismo e suas relações com o
mundo externo.
A Psicanálise se colocará como um campo de
conhecimento dedicado exclusivamente aos fenômenos
psíquicos (o que não exclui as relações deste com o
mundo externo), asseverando sempre a importância de
se buscar uma explicação para aquelas manifestações
propriamente humanas – comportamentos, afetos e
pensamentos – que pareciam contradizer certa noção de
homem como ser racional, capaz de dominar a si
mesmo e ao mundo única e exclusivamente através da
consciência (ROUDINESCO, 2000).
É deste confronto entre uma concepção de homem dono
e senhor de si mesmo e o que a experiência clínica com
as histéricas mostrava sobre a fragilidade da condição
humana, que tem origem o primeiro dos alicerces da
teoria psicanalítica: o conceito de inconsciente.
Com isto, Freud lança uma das primeiras polêmicas que
a Psicanálise terá com o mundo científico e filosófico,
pois aquilo sobre o que se julgava ter domínio, os
próprios pensamentos, idéias e comportamentos e que
serviam como instrumento para controlar o incontrolável
– os afetos, afinal de contas, estaria determinado pelo
inconsciente, por algo fora do controle consciente.
Assim o psíquico não coincide, para a Psicanálise, com
o consciente; a vida mental ou o mundo interno ganham
uma nova acepção e uma nova dimensão, que exigiu
uma teorização e abordagem dos fenômenos
psicológicos específicas.
As idéias de Freud, desenvolvidas entre final do século
19 e início do século 20 marcaram o pensamento
contemporâneo.
EXERCÍCIO
O trecho abaixo foi retirado do livro “Por que a
Psicanálise?” de Elisabeth Roudinesco (2000):
“Os cientistas sempre consideraram a
psicanálise uma hermenêutica. Longe
d e c o n s t r u i r u m m o d e l o d o
comportamento humano, a doutrina
freudiana seria, a acreditarmos neles,
apenas um sistema de interpretação
literária dos afetos e dos desejos.
Conviria, portanto, quer excluí-la do
campo da ciência, junto com as outras
disciplinas que não dependem da
experimentação, quer repensar a
organização de todos esses campos
(antropologia, sociologia, história,
lingüística, etc.) em função de uma
“ciência cognitiva”, a única capaz de
fazê-los entrar na categoria de
“ciência verdadeira” (ROUDINESCO,
2000; P. 113)
Podemos dizer que a psicanálise:
A. É uma especialidade da medicina, uma vez que
surgiu como tratamento alternativo para a cura da
histeria.
B. É uma especialidade da psicologia, uma vez que
surgiu como uma das técnicas possíveis de
psicoterapia na área da psicologia clínica.
C. É uma teoria e uma prática sem caráter científico,
uma vez que seus pressupostos não são
comprováveis por pesquisas.
4. É uma teoria e uma prática que só poderá ser
confiável quando seus pressupostos forem
comprovados por pesquisas que incluam um
número significativo de sujeitos.
5. É uma teoria construída a partir da experiência
clínica e, ao mesmo tempo, uma prática de
investigação e uma terapêutica, que encontra
também um lugar como um saber que pode ser útil
na leitura do social.
Resposta E.
A Psicanálise é a primeira teoria sobre o psiquismo que
se originou diretamente da prática clínica, fazendo
coincidir investigação e tratamento. Foi com a
descoberta da linguagem como instrumento primordial
para a abordagem dos conflitos psíquicos e seus
sintomas que dá à Psicanálise mais este caráter
inovador na compreensão dos fenômenos psíquicos: ao
oferecer a possibilidade de dar palavras ao afeto e, com
isto, propondo que os sintomas poderiam ser
substituídos por outras saídas, a Psicanálise propicia o
surgimento de um novo objeto e campo de atuação para
a Psicologia: o mundo interno e o trato com sofrimento
psicológico, a partir de uma perspectiva estritamente
psicológica sem intermediação de quaisquer recursos
objetivos, contando explicitamente com as interações
psíquicas humanas (GAY, 1989).
Isto ocorre a partir de 1882 quando Freud estimulado
pelo trabalho de Breuer interessa-se pela sugestão e
hipnose no tratamento da sintomatologia atribuída à
histeria. Joseph Breuer teve um papel fundamental no
nascimento da psicanálise e forneceu a Freud a técnica
que este utilizaria em sua clientela. Contudo, o espírito
investigativo de Freud, fez com que logo se afastasse
desta técnica, bem como do método catártico,
substituindo-as pela técnica de associação livre.
Os “Estudos sobre a histeria” (1895) é o resultado de 10
anos de trabalhos clínicos desenvolvidos de Freud e
Breuer; neste trabalho os autores fazem descrição
detalhada do tratamento de cinco pacientes. Com esta
publicação encerra-se colaboração entre estes autores,
em que o fator precipitante para o encerramento da
parceria foi a discordância de Breuer em relação a
Freud, já que este último insistia na importância de
fatores sexuais na etiologia da histeria (QUINODOZ,
2007).
O que contribuiu, em grande parte para que a
Psicanálise pudesse ser compreendida como um
instrumento que pode explicar fenômenos psicológicos
ditos normais foi o trabalho de análise dos sonhos. É
com a “Interpretação dos sonhos”, publicada em 1900,
que Freud com a sua Psicanálise pode pensar em
chamar a atenção de pessoas interessadas não mais só
em tratar neuroses, mas de todos que tivessem algum
interesse na alma humana, agora vista sob uma
perspectiva dos fenômenos psíquicos enquanto um
campo aberto à investigação científica. Nesta obra Freud
promove uma grande ruptura na forma de abordar e
compreender o homem, pois a ciência apenas se
preocupava com o homem em sua dimensão consciente.
O próprio Freud refere o conceito de inconsciente e a
formulação de que “o homem não é senhor em sua
p róp r ia morada” equ ipa rando-a às quebras
parad igmát icas decor rentes da mudança do
teocentrismo ao heliocentrismo e ao choque da teoria
evolucionista darwiniana.
Um conceito central e seu correlato no campo da prática
clínica - a transferência - junto com o conceito
psicanalítico que articula num só termo o psíquico e o
somático - a pulsão - formam as bases do pensamento
freudiano que se construiu ao longo de quarenta anos de
produção e sempre reconhecendo a necessidade de
constantes revisões e ampliações. Podemos dizer que
Freud descortinou um horizonte a partir do qual puderam
surgir outras teorias psicológicas que, emdiferentes
graus, procuraram rever, ampliar e mesmo modificar
radicalmente (a ponto de não mais poderem ser
designadas como psicanálise) os pressupostos teóricos
e as técnicas que deles podem surgir. Os oponentes ou
dissidentes da Psicanálise podem ser agrupados como
aqueles que romperam formalmente com um ou mais
dos alicerces da Psicanálise (inconsciente, transferência
e pulsão), no entanto buscavam e ainda buscam
confirmar a existência de um mundo interno, passível de
investigação e intervenção.
Como podemos depreender de nossas afirmações, ao
tomarmos o enfoque teórico psicanalítico enveredamos
à invest igação do fenômeno psicológico em
profundidade, indo além das explicações físico-químicas
ou anátomo-patológicas para os fenômenos psíquicos,
pelo reconhecimento de uma dimensão específica - a de
mundo interno – desconhecido do próprio homem e não
idêntica a si mesmo, em constante interação com o
mundo externo, de forma que sujeito e objeto não mais
se constituem isolados, mas suplementares.
EXERCÍCIO
Anna O. era uma jovem de 21 anos, com altos dotes
intelectuais, manifestou no curso de sua doença, que
durou mais de dois anos, uma série de perturbações
físicas e psíquicas mais ou menos graves, entre eles:-
paralisia espástica de ambas as extremidades do lado
direito; perturbações dos movimentos oculares e várias
alterações da visão; tosse nervosa intensa; repugnância
pelos alimentos e impossibilidade de beber durante
várias semanas; redução da faculdade de expressão
verbal, que chegou a impedi-la de falar ou entender a
língua materna; e estados de “absence” (ausência),
estados confusionais, delírios e alteração total da
personalidade.
O quadro histérico de Anna O. (Breuer, 1895) abriu
caminhos para uma nova compreensão da histeria, pois
por meio de seu quadro observou-se que:-
I. O quadro mórbido encontrado em Anna O. revelava
que os órgãos vitais internos (coração, rins etc.)
tinham um funcionamento anormal, conseguindo ser
detectados em exames objetivos.
II. A sintomatologia apresentada por Anna O. não
mantinha correspondência a qualquer anormalidade
orgânica, mas relacionava-se aos violentos abalos
emocionais que vivera.
III. Breuer observa que depois de relatar certo número
de fantasias a paciente experimentara sentimentos de
alívio e se reconduzia à vida normal.
IV. A hipnose e o método catártico impediram Breuer
de melhorar sua compreensão a cerca do quadro de
Anna O.
V. O saber médico torna-se fundamental na
compreensão e estudo das lesões cerebrais
orgânicas, mas diante da histeria o médico não sabe
o que fazer, pois seu método objetivo, assentado em
bases biológicas, carece de recursos para
compreender e tratar tais quadros.
ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA
A. São corretas as afirmações I, II e IV.
B. São corretas as afirmações I, II, III e IV.
C. São corretas as afirmações II, III e V.
D. São corretas as afirmações II, III e IV.
E. São corretas as afirmações I, II, III e V.
Resposta C.
Apesar de sua evolução, a psicanálise tinha em sua
construção e desenvolvimento uma tendência
transgressora, que comportava em sua natureza uma
inevitável e sofrida oposição, já que feria os preconceitos
da humanidade c iv i l izada em alguns pontos
especificamente sensíveis. (FREUD, 1924)
Em termos geográficos, a Psicanálise expandiu seus
domínios e isto não se faz sem que, ao mesmo tempo
em que produza modificações na concepção de homem,
de relações e de tratamento para males psíquicos nos
lugares onde é (ou parece ser) aceita, também “sofre”
modificações, pois é um conhecimento dependente das
possibilidades que cada cultura oferece em termos de
assimilação de uma teoria que toca num dos pontos
nevrálgicos da imagem “ilibada” que a humanidade
pretende ter de si mesma: a sexualidade. Este ponto de
apoio da teoria psicanalítica é tanto mal compreendido
quanto rejeitado.
Mal compreendido porque se toma o termo sexual como
sinônimo de genital, dando importância e ênfase ao
aspecto puramente biológico, como se para o homem a
sexualidade estivesse presa à anatomia, sendo que esta
é justamente a subversão fundamental da Psicanálise: o
sexual é redefinido como uma disposição psíquica
propriamente humana, desligada de seu fundamento
biológico ou anatômico. E, para pensar esta nova
concepção de sexualidade, e de toda atividade humana
a ela ligada, são construídos conceitos e teorias que irão
representar esta realidade: a pulsão, a libido, o apoio e a
bissexualidade.
Freud não inventou uma terminologia particular para
distinguir os dois grandes campos da sexualidade: a
de te rminação anatômica , por um lado , e a
representação social ou subjetiva, por outro. Não
obstante, por sua nova concepção, ele mostrou que a
sexualidade tanto era uma representação ou uma
construção mental, quanto o lugar de uma diferença
anatômica. Em conseqüência disso, sua doutrina
transformou totalmente a visão que a sociedade
ocidental tinha da sexualidade e da história da
sexualidade em geral. (ROUDINESCO, 1998).
A rejeição tanto produziu movimentos dissidentes dentro
da Psicanálise (Adler, Jung), quanto produziu uma
infinidade de leituras distorcidas pelos preconceitos que
tentavam minimizar a importância do conceito-chave – o
inconsciente, supervalorizando o ego em função de seu
papel de mediador entre o mundo externo e o interno,
em detrimento das outras regiões do psiquismo (id e
superego). É uma leitura da teoria psicanalítica que se
mantém fiel às necessidades do homem de controle dos
próprios conflitos, buscando meios de adaptá-lo à
realidade externa. O mais curioso é buscar isto numa
teoria que tem como objetivo expresso a confrontação
do sujeito (do inconsciente) com seu desejo, com sua
falta, com a necessidade imposta a cada um de resolver
a interdição do incesto, tema representado na
conceituação do complexo de Édipo.
Se, num primeiro momento, o inconsciente surge como
uma abertura para as ciências psicológicas, encabeçada
pela Psicanálise, a partir das décadas de 30-40 do
sécu lo XX , com sua expansão geog rá f i ca ,
principalmente para os Estados Unidos, este mesmo
conceito passará a ser um divisor de águas entre a
Psicanálise e as Psicologias da Consciência. Estas,
mobilizadas pela necessidade de fortalecer o “pobre”
ego diante das exigências do mundo externo e do
mundo interno, colocando como meta do tratamento a
busca de uma relação harmônica, não conflituosa com o
meio, do qual o terapeuta/analista seria a figura
exemplar, criaram um novo campo de conhecimento,
com novas teorias sobre o mundo interno, já não mais
vinculado à idéia de inconsciente, com novas técnicas,
agora mais atentos ao trabalho com os afetos, com a
comunicação não-verbal, através de uma prática clínica
em que a relação dual, interpessoal (não mais
transferencial) entre paciente e terapeuta seria o norte
do trabalho, o terapeuta buscando sempre uma aliança
com o lado saudável do paciente para ajudá-lo a
integrar-se psíquica e socialmente.
Lembrando que, se para a Psicanálise o psíquico só
ganha consistência de mundo interno a partir da noção
de inconsciente, que mantém relação com as três
instâncias – id, ego e superego – em maior ou menor
grau; para as Psicologias da Consciência o importante
será como a pessoa, identificada ao seu ego, centro de
sua personalidade, já destituído de qualquer conotação
inconsciente, enfrentará a luta pelo controle e dissolução
de seus conflitos. A Psicanálise também espera que o
ego possa ser um aliado na luta contra a neurose, no
entanto isto não estaria a serviço de uma adaptação ao
contexto social, só porque este coloca a “doença mental”
como um desvio que não coincide com seus desígnios. A
idéia principalé recolocar a noção de doença mental no
âmago da condição humana e não fora dela, buscando
responder antes quem é este que sofre e adoece, e
esperando que a noção de mundo interno, que não
precisa ser psicanalítica, possa oferecer um espaço de
liberdade para o homem na sua relação com o mundo
externo.
EXERCÍCIO
Freud ao dissertar sobre a História do Movimento
Psicanalítico comenta:-
“Considerava minhas descobertas
contribuições normais à ciência e
esperava que fossem recebidas com
esse mesmo espírito. Mas o silêncio
p r o v o c a d o p e l a s m i n h a s
comunicações, o vazio que se formou
em torno de mim, as insinuações que
me foram dirigidas, pouco a pouco me
f i z e r a m c o m p r e e n d e r q u e a s
a f i rmações sobre o pape l da
sexualidade na etiologia das neuroses
não podem contar com o mesmo tipo
de tratamento dado ao comum das
comunicações. Compreendi que
daquele momento em diante eu
passara a fazer parte do grupo
daqueles que “perturbaram o sono
do mundo”, como diz Hebbel e que
não poderia contar com objetividade e
tolerância.” (FREUD, 1914; p.31)
A frase destacada em negrito, representa que:
A. O autor ficou isolado por muito tempo, e as
reações às suas descobertas estavam permeadas
por pré-conceitos.
B. Os opositores do autor ergueram severas
resistências internas ao contato com as ideias
apresentadas.
C. O autor tem consciência da força de suas
palavras, leva em consideração a opinião externa,
adequando-se ao meio no qual se encontrava.
D. O autor estaria sendo punido por ousar
c o n t r a d i z e r a q u i l o q u e , a t é e n t ã o , e r a
inquestionável.
E. O autor sempre foi apoiado por ousar contradizer
aquilo que, até então, era inquestionável.
Resposta C.
A hipnose teve grande importância no início da
psicanálise, pois pelo uso da hipnose Breuer favorecia a
revivência de algumas cenas que estavam esquecidas
pelo paciente, esta revivência provoca a "ab-reação",
que consistia numa descarga afetiva emocional (reações
com expressão de grande comoção, choro, lágrimas e
sentimentos intensos) e desta forma inaugura o método
catártico ou catarse.
Para condução do método catártico Breuer supõe a ideia
da ocorrência de um evento de grande força e impacto
emocional, não manifesto em ações ou comportamentos
verbais, que por fim eclodiria no trauma psíquico, este
trauma desencadeia o mal psíquico (sintoma),
originando-se da emoção reprimida, presente no
inconsciente, sem o conhecimento consciente do sujeito
sobre o evento traumático e, para lembrá-lo, conduz-se
o paciente à hipnose.
Anna O. a famosa paciente de Breuer denominou este
método de trabalho como chimney sweeping ("limpeza
de chaminé") ou talking cure ("cura pela fala").
Resumidamente, método catártico ou catarse é o
processo em que o paciente em estado hipnótico, fala
tudo que lhe vem à mente e obtém grande alívio
emocional.
A hipnose desperta o interesse de Freud por meio de um
relato de Breuer, mas é com Charcot que busca
melhorar seu aprendizado. Sua incredulidade com os
métodos científicos o impulsionaram ao emprego da
hipnose com suas pacientes histéricas, considerando a
hipótese da sedução sexual. Pelo fato de ser um mau
hipnotizador resolveu experimentar que a mesma
liberdade em associar ideias, obtidas pela hipnose
acontecesse com os pacientes despertos. A paciente
Elizabeth Von R. foi a paciente que solicitou a Freud a
liberdade para associar livremente, sem pressão,
permitindo-lhe compreender que as barreiras contra o
recordar provinham de forças mais profundas.
Freud no início da construção da psicanálise concebe a
ocorrência do trauma sexual real acontecendo nos
primórdios da infância, como uma forma de abuso
sexual e que se mantinha reprimido no inconsciente.
Aos poucos o autor vai se convencendo de que havia
distorções importantes no relato de suas histéricas, que
seriam decorrentes de suas “fantasias inconscientes”.
Desta forma, na medida em que a “teoria do trauma” não
dava conta de explicar a complexidade do sofrimento
neurótico, Freud envereda para a teoria inicial da
sedução e da importância das fantasias na produção do
adoecimento psíquico.
O questionamento de Freud às dificuldades decorrentes
da hipnose e método catártico faz entrar em cena a
elaboração psíquica. Elaboração psíquica consiste no
trabalho de integração das experiências vividas,
independente de sua origem (excitações somáticas,
estímulos externos ou informações, aspectos do mundo
mental). O trabalho de elaboração possibilita a
transformação da energia livre em energia ligada,
abrindo caminho para o processo secundário e,
consequentemente, o adiamento da descarga da tensão.
Se o evento traumático supera a capacidade de
assimilação e integração deste à mente, o processo de
elaboração possibilita a “compreensão” interna que
integra à vida do sujeito, contribuindo para integrar o que
antes se mantinha dissociado, fora da consciência.
TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 2
A descoberta do inconsciente: repressão;
resistência e formação de sintomas.
A teoria dos sonhos e a psicopatologia da vida
cotidiana.
A primeira tópica freudiana - sistemas: Inconsciente,
Pré-Consciente e Consciente.
Bibliografia:
FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise: Segunda Lição
(1912). In: Obras Completas de S. Freud. Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda, 1969.
______. Cinco Lições de Psicanálise: Terceira Lição
(1912). In: Obras Completas de S. Freud. Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda, 1969.
______. Estudos sobre a Histeria – Caso Elizabeth Von
R. (1895). In: Obras Completas de S. Freud. Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda, 1969.
______. O esquecimento de nomes próprios – O Caso
Signorelli. (1901) In: Obras Completas de S. Freud. Rio
de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1969.
______. Novas Conferências Introdutórias: Revisão da
Teoria dos Sonhos (1932). In: Obras Completas de S.
Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1969.
GARCIA ROZA, L.A. Freud e o Inconsciente. Rio de
Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2009. (pg 76 - 81)
MEZAN, R. Freud, A Trama dos Conceitos. São Paulo:
Editora Perspectiva; 2001.
QUINODOZ, J. M. Ler Freud: guia de leitura da obra
de S. Freud. Porto Alegre: Artmed, 2007.
A descoberta do inconsciente
Na Segunda Lição, Freud explica o porquê de seu
distanciamento de Charcot e Janet; enquanto Freud
concebia o fator psicológico e processos psíquicos
envolvidos na histeria, Charcot rejeitava esta concepção
e etiologia e Janet atribuía o fenômeno da histeria ao
caráter degenerativo do sistema nervoso nas histéricas.
No texto Freud mostra que as divergências com Janet
advieram do trabalho prático desenvolvido na clínica,
enquanto seu opositor desenvolvia seu trabalho no
laboratório. Para Freud e Breuer interessava não só a
origem, mas a melhora de seus pacientes, e para isso,
apoiaram-se no método catártico propondo que, ao invés
de haver degenerescência e falta de capacidade nas
histéricas, há sim, uma divisão da consciência.
Apesar de ser um avanço, Freud identifica limitações
nesta técnica, em decorrência da impossibilidade de
hipnotizar alguns pacientes, desencantando-se
definitivamente após uma experiência de Berheim (este
estúdio mostra que pessoas em sonambulismo hipnótico
aparentemente perdiam a memória, mas, de fato, não
perdiam e se forçando a memória lembrariam o ocorrido
durante a hipnose). Passou então a de não mais
hipnotizar os pacientes, considerando que seus
pacientes não precisavam ser hipnotizados para lembrar
dos eventos traumáticos causadores da histeria, embora
esta técnica tenha sido exitosa, também a abandona.
Apesar de abandonado o método catártico, passa a
verificar que seus pacientes esquecempor completo o
conteúdo traumático, tais recordações se mantinham em
algum lugar. Assim, entende que uma força detinha o
conteúdo fora da consciência e mantinha essas
lembranças inconscientes. Esta força foi chamada -
resistência.
Com esta nova forma de funcionamento psíquico –
resistência - formula o conceito de repressão. Pensa ele
que, assim como existe uma força que mantém
inconsciente a lembrança, pela força da resistência,
deveria haver uma força que retirara esta mesma
lembrança da consciência; para esta força inicial que,
num primeiro momento, impede um conteúdo ascender
à consciência dá o nome de repressão.
O conceito de Inconsciente
O conceito de Inconsciente ganha força com estas
descobertas, expandindo aquilo que é psíquico para
além da consciência. Os conteúdos de nossa
consciência ocupam agora uma dimensão bem menor,
com várias lacunas, não comportando mais a ideia de
que tudo que acontece na mente deve ser conhecido
pela consciência.
No texto Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901)
Freud descreve o quanto os deslizes e lapsos do nosso
dia a dia, sejam de linguagem, escritos, de memória
entre outros acontecimentos, são atribuídos ao acaso,
mas não têm nada de acaso e, embora os chamemos de
acidentes, tais atos psíquicos estão, para sua realização,
além de nossa capacidade consciente. Estes atos falhos
ou parapraxias são como os sonhos e sintomas, revelam
um processo inconsciente, que se desenvolve sem que
o percebamos, a partir de conteúdos latentes que
escapam ao controle consciente, apresentando-se em
contradição à nossa consciência.
Repressão (ou Recalque)
Repressão e recalque são conceitos utilizados por
Freud, mas sua tradução perpetuou no campo
psicanalítico divergências de significado e utilização
desta terminologia. Mezan (2001) sobre esta questão,
comenta que “repressão” (unterdrückung) refere-se ao
processo que mantém as pulsões no pré-consciente,
enquanto “recalque” (verdrängung) seria aquele que
mantém as pulsões no inconsciente. Nesta perspectiva
seriam lugares diferentes da constituição da psique,
contudo este autor prefere o termo “repressão” já que
em português o termo pode ter uma variedade de
significados que engloba a violência implícita no conceito
freudiano, ao invés de “recalque” que significa pisar os
pés, calcar de novo.
A repressão tem como principal finalidade evitar que
uma ideia inconcebível, decorrente de desejos proibidos
conflite com aspirações morais, se torne consciente.
Entretanto este mecanismo não é o bastante para
exterminar a ideia, fazê-la desaparecer por completo,
pois como ela representa um instinto, permanecerá
neste reservatório inconsciente produzindo efeitos e
eventualmente tentará contornar a barreira repressiva a
fim de atingir a consciência, insistindo para possibilitar a
satisfação da pulsão.
.EXERCÍCIO
Ao estabelecer o conceito de repressão/recalque, Freud
coloca este processo na gênese das neuroses, e a partir
deste conceito central da psicanálise, delimita o
funcionamento psíquico, a formação dos sintomas.
Sobre a forma como o recalque atua, identifique a
alternativa correta:
A. O objetivo da repressão/recalque é extinguir
do inconsciente as representações perigosas
originais.
B. Um mecanismo que opera no sentido de
afastar da consciência uma idéia da ordem do
insuportável às aspirações morais.
C. O recalque está na base dos sintomas
neuróticos, que se formam independente da
representação recalcada.
D. O recalque é um mecanismo que só se
manifesta nos casos patológicos.
E. O objetivo da repressão/recalque é manter
no consciente as representações perigosas
originais.
Resposta B.
A interpretação dos sonhos
Em A interpretação dos sonhos (1900), a obra mais
importante de Freud com as ideias mais inovadoras de
sua obra, desenvolve a explicação do funcionamento do
pensamento e linguagem, bem como a concepção geral
do funcionamento do psiquismo normal e patológico,
estabelecendo os fundamentos clínicos, teóricos e
técnicos e conferindo à interpretação dos sonhos um
caráter científico.
Nesta obra, o sonho é remontado à uma atividade
psíquica organizada e diferente do que ocorre na vigília,
abrindo caminho à uma nova forma de interpretação,
que não a previsão do futuro, mostrando que o sonho é
uma produção própria de quem sonha, provinda de uma
fonte estranha ao próprio homem (QUINODOZ, 2007).
Para Freud, os sonhos são projeções do inconsciente,
que expressam a vontade e o desejo humano, remetem,
portanto ao desejo, revelando algo do passado e não a
uma projeção do futuro. Nele dá-se a satisfação de
desejos reprimidos no nosso inconsciente.
Contrariando alguns dos cientistas contemporâneos de
sua época, que atribuíam somente uma função
biológica, Freud buscava compreender seu significado
psicológico, algo que só se tornou possível pelo “método
da associação livre”, permitindo-lhe descobrir o sentido
que o sonho tem para quem sonha, da mesma forma
que os sintomas histéricos, as fobias, as obsessões e os
delírios.
Freud introduz e ideia de conteúdo manifesto e latente, o
primeiro refere-se ao sonho tal como é relatado e, por
vezes, de sentido obscuro; o conteúdo latente só
aparece claramente depois de decifrado nas
associações do paciente. Denomina como “trabalho do
sonho” o conjunto de operações psíquicas que
transformam o conteúdo latente em manifesto a fim de
disfarçá-lo e “trabalho de análise” a operação inversa,
que busca o sentido oculto a aprtir do conteúdo
manifesto. Para Freud “O sonho é a realização
( d i s s i m u l a d a ) d e u m d e s e j o ( r e p r i m i d o ,
recalcado)” (FREUD, 1900, p. 145).
Freud aponta os mecanismos que entram em ação na
formação do sonho, como segue:
• Condensação – é um mecanismo psíquico
fundamental que permite a reunião de vários
elementos num único elemento: sejam imagens,
pensamentos, eventos ou outro, pertencentes a
diferentes cadeias associativas. Pode ocultar ou
combinar algum acontecimento ou fragmento do
sonho latente no manifesto.
• Deslocamento – Mecanismo que permite substituir
os conteúdos mais significativos de um sonho por
um menos importante, desfocando e dissimulando a
realização do desejo.
• Representabilidade – Operação que permite
transformar os pensamentos dos sonhos em
imagens visuais, construções oníricas.
• Elaboração secundária – Permite a apresentação do
conteúdo onírico num cenário coerente e inteligível,
principalmente em estado de vigília.
• Dramatização – Permite a transformação de um
pensamento numa dada situação do sonho.
Os sonhos se valem dos restos diurnos, ocorrências de
nosso dia a dia e que mantêm alguma relação com o
desejo inconsciente que se realiza no sonho.
Para Freud, as deformações dos sonhos originam-se da
censura, que se situa na fronteira entre consciente e
inconsciente, permitindo passar somente o que lhe for
agradável, retendo o resto sob repressão, constituindo o
reprimido. O aprofundamento da análise de um sonho
incidirá no conteúdo latente que revelam a realização de
desejos eróticos.
Os sonhos também se valem dos símbolos, pois permite
ao sonhador driblar a censura ret irando das
representações sexuais sua inteligibilidade, desta forma
distingue dois tipos de símbolos – universais e
individuais.
Exercício
Mariana (17 anos) acorda muito assustada e
culpabilizada com algo que sonhara, sonhou com sua
irmã e sente-se envergonhada, levanta-se e vai pedir
desculpas à irmã mais velha... Esta reação de Mariana
pode ser explicada de acordo com o que aprendemos
com a Teoria dos Sonhos em Freud, como:
A. Os sonhos geram sentimentos de culpa e
remorso em Mariana em funçãode seu conteúdo
manifesto.
B. A culpa gerada em Mariana está ligada aos
seus desejos proibidos associados a figura de sua
irmã, como pessoa real que se mostra no sonho.
C. Podemos afirmar que, caso Mariana
estivesse em análise, o mecanismo psíquico
da resistência interferiria em seus relatos, apesar
de algumas de suas lembranças.
D. O sonho de Mariana ao ser lembrado sofrerá
interferências da elaboração secundária.
E. A lembrança imediata de Mariana indica que
a versão lembrada de seu sonho não está sujeita
às distorções da elaboração secndária.
Resposta C.
A primeira tópica freudiana - sistemas: Inconsciente,
Pré-Consciente e Consciente.
Para explicar o fenômeno da não consciência, Freud
elabora uma concepção do aparelho psíquico,
explicando o funcionamento mental, normal e patológico,
a partir de suas observações clínicas, seus estudos
sobre os sonhos e neuroses. Para isso, utiliza a palavra
“aparelho” a partir de um modelo espacial, onde
identifica uma organização psíquica, dividida em três
sistemas ou instâncias, com funções específicas,
interligadas entre si, num dado lugar na mente.
Este “modelo tópico” designa um modelo de lugares.
Esta primeira tópica ficou conhecida como Teoria
Topográfica. Nesta primeira tópica Freud divide o
aparelho psíquico em três sistemas: o inconsciente, o
pré-consciente e o consciente.
O consciente ou sistema percepção-consciência
representa apenas uma pequena parte da mente, em
que se inclui tudo aquilo que conhecemos, isto é, que
temos consciência. Enquanto localização o sistema
percepção-consciência situa-se na periferia do aparelho
psíquico, recebe simultaneamente informações do
mundo exterior e do interior, sem, contudo, conservar
nenhuma marca duradoura.
O pré-consciente articula-se com o consciente e
funciona como uma espécie de barreira seletiva que
elege o que pode ou não passar para o consciente. Do
ponto de vista tópico, o pré-consciente seria uma parte
do inconsciente, que, entretanto, pode recuperar seus
conteúdos armazenados pela evocação da memória, ou
seja, seus conteúdos tornam-se acessíveis, isto é,
conscientes, com maior facilidade podem ser trazidos à
consciência. O que caracteriza o pré-consciente é a
possibilidade voluntária de se acessar seus conteúdos.
O sistema inconsciente representa a parte mais arcaica
do aparelho psíquico. Nele incluem-se, por herança
genética, as pulsões e a energia correspondente a elas,
que não são acessíveis à consciência; também todo
conteúdo que foi excluído da consciência pelos
processos psíquicos de censura e repressão, em que o
conteúdo censurado, que não pode ser lembrado, não
se perde, mas permanece abrigado no inconsciente.
Freud refere que a maior parte do aparelho psíquico é
inconsciente, onde situam-se os determinantes da
personalidade, as fontes da energia psíquica e as
pulsões (instintos).
No inconsciente situam-se as “representações coisa” ou
“traços mnêmicos”, que são fragmentos de reproduções
de antigas percepções, dispostas e inscritas como se
fosse um arquivo sensorial, formando nossos contornos
psíquicos. Este conjunto que se refere às vivências,
sentimentos, percepções, eventos provenientes de
nossos sentidos (auditivo, gustativo, olfativo, tátil e
visual) foram vividos num momento em que se
prescindia da palavra, formando um arsenal de
representações fantasmáticas carregadas de energia
pulsional, que continuam habitando nosso universo
inconsciente.
EXERCÍCIO
Freud concebeu sua teoria como uma forma específica
de acesso a determinados conteúdos. Dentro desta
perspectiva, o que podemos acessar em um processo
de análise?
A. As lacunas que faltavam para o preenchimento
das falhas de memórias, na medida em que a
narrativa baseia-se no modelo: percepção-registro-
evocação.
B. Os registros derivados de experiências reais
vividas na infância.
C. O passado vivido tal como está narrado.
D. As profundezas do inconsciente que ficou retido
e encapsulado na mente, independente de outras
internalizações.
E. A forma como o sujeito internalizou suas
experiências.
Resposta E.
TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 3
A segunda Tópica freudiana: id, ego e superego.
Pulsões e sexualidade; pulsão de vida e pulsão de
morte.
Bibliografia:
FREUD, S. Repetir, recordar e elaborar (1914). IN
FREUD, S., Obras Completas de S. Freud, Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
______. O Ego e o Id (1923) . IN FREUD, S., Obras
Completas de S. Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora
Ltda; 1969.
______. Além do princípio do prazer (1920) . IN FREUD,
S., Obras Completas de S. Freud, Rio de Janeiro:
Imago Editora Ltda; 1969.
LAPLANCHE, Jean & PONTALIS, J.-B. Vocabulário da
Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
QUINODOZ, J. M. Ler Freud: guia de leitura da obra de
S. Freud. Porto Alegre: Artmed, 2007.
ROUDINESCO, E, Dicionário de Psicanálise. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
A partir de 1920 a conceituação freudiana sofre uma
mudança, o psiquismo passa a ser concebido como
três lugares (topos = lugar) que definiriam o aparelho
psíquico e, consequentemente, o modo como se vai
investigar, entender e trabalhar. Embora o nascimento
desta nova tópica date do ano supracitado, sua
elaboração surge de novas exigências teóricas e
práticas; o subsistema defensivo ganha então muita
importância nas observações de Freud em seu trabalho
clínico pois, sendo o ego o responsável pela efetivação
do subsistema defensivo e as defesas produtos
inconscientes, torna-se necessário estender a amplitude
do ego considerando-o não só equivalente à pré-
consciência e consciência, mas também com alguma de
suas partes inconscientes.
Esta nova designação - conhecida como segunda
tópica – inclui as instâncias: id, ego e superego e vem
substituir a primeira, sem, contudo, eliminá-la, onde
figuravam as denominações: inconsciente, pré-
consciente e consciente, s.
A diferença mais importante entre as duas tópicas é a de
que, nesta segunda, não encontramos uma separação
radical entre os diferentes lugares ora designados, ou
seja, os limites entre id, ego e superego estarão na
estrita dependência dos movimentos pulsionais, o que
implicará uma nova forma de pensar as relações entre
elas e do sujeito com a realidade.
Id
Conceito utilizado por Freud (1923), cuja origem é o
pronome alemão neutro da terceira pessoa do singular
(Es), para designar uma das três instâncias da segunda
tópica freudiana, ao lado do ego e do superego. O id é
concebido como um conjunto de conteúdos de natureza
pulsional e de ordem inconsciente. Assim, o id irá ocupar
o lugar do inconsciente na tópica anterior. Este conceito
foi introduzido na teoria psicanalítica pela primeira vez
no texto freudiano O ego e o id (1923) considerando
absolutamente apropriado para definir o que seria uma
vivência passiva do indivíduo, que se veria, assim,
confrontado com forças desconhecidas e impossíveis de
dominar.
A experiência clínica de Freud foi decisiva para que ele
chegasse à conclusão que considerável porção tanto do
ego quanto do superego era inconsciente, o que traz
consequências importantes para o próprio estatuto e
identidade do ego, não mais visto como correlato da vida
consciente, assim como a identidade exclusiva entre
inconsciente e recalcado seria colocada em xeque. Esta
movimentação teórica exigiu uma revisão das relações
entre a vida consciente e a dinâmica inconsciente; o id,
associado às formações inconscientes será melhor
de l im i t ado como um rese rva tó r i o pu l s i ona l
desorganizado, sede de um verdadeiro “caos”ou de
“paixões indomadas” que, sem a intervenção do ego,
seria um joguete de suas aspiraçõespulsionais e
caminharia inelutavelmente para sua perdição.
Com isto, o ego perde sua autonomia pulsional, já que
será reservada ao id a designação de sede das pulsões
- de vida e de morte. Esta abordagem dinâmica da
segunda tópica representa uma fluidez maior nos limites
entre as instâncias: os limites do id deixaram de ter a
precisão dos que marcavam a separação entre o
inconsciente e o sistema consciente-pré-consciente, e o
ego deixou de ser estritamente diferenciado do id no
qual o superego mergulha suas raízes.
Ego
Este termo tem suas origens na filosofia e na psicologia
para designar o ser humano consciente de si e objeto do
pensamento.
Ao retomá-lo na primeira tópica, Freud também o
tomará como sede da consciência, mas será a partir de
1920, com a representação da segunda tópica que o ego
mudará de estatuto, tornando-se também, em grande
parte, inconsciente, posto que seus limites com as
outras instâncias já não será o mesmo.
“Agora vemos o ego com sua força e
suas fraquezas. Ele é encarregado de
funções importantes e, em virtude de
sua relação com o sistema perceptivo,
estabelece a ordenação temporal dos
processos psíquicos e os submete à
prova de realidade. Intercalando os
processos de pensamento, consegue
adiar as descargas motoras e domina
os acessos à motilidade. Esta última
dominação, entretanto, é mais formal
do que efetiva, tendo o ego em sua
relação com a ação, por assim dizer, a
postura de um monarca constitucional
s e m c u j a s a n ç ã o n a d a p o d e
transformar-se em lei, mas que reflete
longamente antes de opor seu veto a
uma proposta do parlamento. (...)
vemos esse mesmo mecanismo como
uma pobre criatura que tem que servir
a três perigos, por parte do mundo
externo, da libido, do id e da severidade
do superego” . (FREUD, 1923; p. 67)
O ego assume assim a instância central da
personalidade, cuja origem remonta a parte do id que se
mantém em contato com o mundo exterior, que além das
funções pré-consciente e consciente, acumula também
em sua constituição uma grande parte inconsciente com
a responsabilidade de ser o centro defensivo da
personalidade, e nesta perspectiva dinâmica torna-se o
responsável por acionar seus mecanismos de defesa
ante à percepção de um afeto desagradável.
Além disso, o ego atua na conciliação das reivindicações
do id, imperativos do superego e exigências da
realidade. Enquanto fator econômico surge como um
elemento de ligação dos processos psíquicos, atuando
como uma organização que tende à unidade, permitindo
a estabilidade e identidade ao sujeito.
EXERCÍCIO
Na segunda tópica freudiana as funções do ego no
aparelho psíquico são apresentadas com algumas
diferenças quando comparadas à primeira tópica.
Identifique abaixo qual das afirmativas representa as
funções do ego...
:
A. A resistência - processo resistencial na
clínica - é uma das evidências que Freud
observa, conduzindo-o e orientando-o aos
processos defensivos inconscientes do ego
cont ra a emergênc ia dos conteúdos
inconscientes que ameaçam a estabilidade
psíquica.
B. Os acontecimentos externos, quando
excessivamente intensos, são evitados pelo
ego, produzindo modificações convenientes
ao mundo externo, sem, contudo, obter
benefícios ao próprio ego.
C. Quanto aos estímulos internos, o Ego
controla absolutamente as exigências dos
instintos, decidindo se podem ou não ser
satisfeitas, adiando eventuais satisfações e
suprimindo completamente suas excitações,
inclusive aquelas posteriores.
D. A busca do ego é pela manutenção do
desprazer, já que é função do superego
manter a “ordem” e reprimir o Id e suas
influências na busca do prazer.
E. O ego em sua origem não mantém
relação com o id, mas sim do suprerego.
Resposta A.
Superego
É terceira instância da segunda tópica que exercerá as
funções de juiz e censor em relação ao ego. Este
conceito servirá para designar uma instância que age de
maneira implacável: num primeiro tempo de sua
instauração ele é representado pela autoridade parental
que dá ritmo à evolução infantil, alternando as provas de
amor com as punições, geradoras de angústia; num
segundo tempo, quando a criança renuncia à satisfação
edipiana, as proibições externas são internalizadas e
esse é o momento em que o superego vem substituir a
instância parental por intermédio de uma identificação. O
que pode se destacar aqui é o fato de que esta
instância, a despeito de sua ligação intrínseca com os
modelos oferecidos pelos genitores, ele - o superego -
constrói-se fundamentalmente pela identificação do
superego dos pais, ou seja, pela transmissão dos
valores e das tradições que perpetua-se, dessa maneira,
por intermédio dos superegos, de uma geração para
outra e, não, uma simples interiorização dos pais. O
superego é particularmente importante no exercício das
funções educativas.
A nova instância passou a ser a sede da auto-
observação, o depositário da consciência moral;
tornando-se a instância que resguarda em si os
aspectos mais desejados do “ego ideal”, que assumidos
por herança pelo “ideal do ego”, torna-se o guardião
destes ideais, com os quais o ego se compara, aspira e
se esforça para atender/cumprir as demandas de
aperfeiçoamento do movimento identificatório.
Compõe-se quase que totalmente de elementos
inconscientes, guiado por objetos internos, tendo como
principal efeito a culpa, com subsequentes de angústias
e medo. É a instância modelo, o pólo psicossocial da
personalidade e de fundamental importância para
compreensão da conduta e da psicopatologia do
indivíduo.
EXERCÍCIO
De acordo com Freud, ao id cabe desejar (independente
de qualquer aspecto), ao ego cabe mediar desejos e
proibições entre as instâncias, enquanto ao superego
cabe...
I. Desejar, mas proibir, visto que sua
dimensão considera os valores éticos implícitos
na cultura que se propagam pelo superego dos
pais.
II. A formação de ideais almejados
pelo id.
III. Substituir a instância parental e suas
interdições por meio da identificação.
IV. Acordos complacentes para com o
ego.
V. Desejar, independente, dos valores
éticos implícitos na cultura.
ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA
A. São corretas as afirmações I, II e V.
B. São corretas as afirmações I, II, III e IV.
C. São corretas as afirmações I, II e III.
D. São corretas as afirmações II, III e IV.
E. São corretas as afirmações II, III e V.
Resposta C.
Pulsão
Se até aqui falamos da nova maneira de conceituar o
aparelho psíquico a partir das três instâncias - id, ego e
superego - não é menos importante aquilo que diz
respeito à teoria pulsional de Freud, já que esta se
insere na compreensão do funcionamento psíquico do
ponto de vista dinâmico.
Freud afirma que o aparelho psíquico está à mercê, sob
impacto e pressionado por estímulos externos e interno,
dos quais o aparelho psíquico pode, mediante atividade
muscular afastar-se dos estímulos externos, sem
contudo exercer qualquer afastamento dos internos.
Estas excitações internas denominam-se como pulsões
ou instintos; o autor prefere o termo pulsão (trieb) por
exprimir a ideia subjacente de urgência para
descarregar, situando-se mais adequada ao psicológico,
enquanto inst into ( inst inkt ) restr ingi r -se- ia a
comportamentos hereditários, fixos de cada espécie.
Pulsão será definida, já em 1905, como:
“... a representação psíquica de uma
fonte endossomática de estimulações
que fluem continuamente, em contraste
com a estimulação produzida por
excitações esporádicas e externas. A
pulsão, portanto,é um dos conceitos da
demarcação entre o psíquico e o
somático” (FREUD, 1905; p. 159).
.
Assim, pulsão difere radicalmente de instinto e não se
reduz às simples atividades sexuais que costumam ter
bem delimitado tanto seus objetivos, quanto seus
objetos; é um impulso, e a libido constitui-se em sua
energia.
Além desta diferença em relação ao instinto, a pulsão é
formada, em seu caráter sexual, como um conjunto
de pulsões parciais, cuja soma constitui a base da
sexualidade infantil. Encontra inicialmente apoio em
atividades somáticas, ligadas a determinadas zonas do
corpo, as quais, dessa maneira, adquirem o estatuto
de zonas erógenas. Este início da constituição pulsional
é o que significa seu caráter limítrofe - seu limite está
entre psíquico e o somático, sendo, assim, a pulsão é o
representante psíquico das excitações provenientes do
corpo e que chegam ao psiquismo.
São quatro as características da pulsão: a fonte, a força,
o alvo e o objeto.
· Fonte – A fonte das pulsões é o processo
somático, localizado numa parte do corpo ou num
órgão, cuja excitação é representada no psiquismo
pela pulsão.
· Força – Força ou pressão constitui a própria
essência da pulsão e a situa como o motor da
atividade psíquica.
· Alvo – Alvo ou satisfação, pressupõe a
eliminação da excitação que se encontra na
origem da pulsão; esse processo pode comportar
alvos intermediários ou até fracassos, ilustrados
pelas pulsões - chamadas de pulsões “inibidas
quanto ao alvo” - que se desviam parcialmente de
sua trajetória e, por último, o objeto da pulsão é o
meio de ela atingir seu alvo, e nem sempre lhe
está originalmente ligado, o que significa dizer que
em termos de pulsão, o objeto é contingente.
· Objeto - As pulsões sexuais podem ter quatro
destinos: a inversão, a reversão para a própria
pessoa, o recalque e a sublimação.
No início de sua obra Freud define dois grupos de
pulsões – as sexuais e as de autoconservação –
considerando que elas não se opõem, mas colaboram
entre si, sendo que as pulsões sexuais se apóiam nas
funções de autoconservação para descarga e
extravasamento. Um exemplo é aquele em que o
pequeno bebê depois de saciar sua fome (que enquanto
pulsão de autoconservação refere-se à uma
necessidade, que após satisfeita por um objeto
específico – o leite/alimento - torna-se saciada)
demonstra existir um excedente de energia, que
continua existindo, mas não se sacia com o leite – objeto
específico – por isso continua sugando, garantindo o
extravasamento da excitação oral, e simultaneamente
“sexualiza” ou “erotiza”, isto é “subverte” a função
associada a esta.
Pulsão de vida e pulsão de morte
No texto Além do princípio de prazer (1920), Freud
delimitou um novo dualismo pulsional, opondo as
pulsões de vida às pulsões de morte.
Seguindo Freud, trata-se justamente de um processo
inconsciente no qual o sujeito se sente compelido a
repetir atos, idéias, pensamentos e sonhos que, na sua
origem, foram geradores de sofrimento e ao serem
repetidos não perdem esta conotação, mas também não
é possível abandoná-los por força da vontade.
E é particularmente no texto de 1914, Recordar, repetir e
elaborar que podemos ver explicitada uma trama que
liga repetição e transferência, na medida em que coloca
que a repetição é a forma de o paciente recordar, ainda
que sob o signo da resistência, daquilo que lhe é mais
difícil, dado que está ligado às conotações sexuais que
não passam pelo crivo da censura e, portanto, não
podem ser rememoradas. E, assim, será o manejo da
transferência que permitirá que se transforme a
compulsão à repetição num motivo para recordar; é a
partir da observação desta compulsão à repetição que
Freud teorizou aquilo a que chamou pulsão de morte.
Este processo, no entanto, não pode ser observado em
estado puro, já que não é possível eliminar o vestígio
que carrega de satisfação libidinal, mas, ao mesmo
tempo, não é mais possível explicar tais ocorrências pelo
simples princípio de prazer.
Assim, a dualidade pulsional se manifestará como uma
briga renhida entre uma força que puxaria para um
estado de não-vida, buscaria um retorno do que está
vivo ao estado inorgânico - definida, assim, grosso-modo
como pulsão de morte; e as pulsões que antes estavam
sob a denominação de pulsões sexuais e pulsões do
ego, agora sob a égide de Eros – pulsão de vida. Uma
“luta de titãs” que estará na origem de todas as
mani festações humanas, t i rando-as de certo
maniqueísmo de vida ou morte.
EXERCÍCIO
No início de seu trabalho (1895-1906), Freud concebia o
conjunto da vida mental como constituída pela dualidade
entre as pulsões sexuais e autoconservação.
Posteriormente, englobou-as como pertencendo ao
mesmo grupo, em oposição à pulsão de morte, este
grupo foi denominado de:
A. Pulsões sexuais, uma vez que estas visam a
preservação da espécie.
B. Pulsões de autoconservação, visto que tendem a
preservação do indivíduo.
C. Pulsões de vida, que visam a integração e a
união.
D. Pulsões de morte, que visam o retorno ao estado
anorgânico.
E. Pulsões eróticas, que visam a satisfação da
pulsão sexual.
Resposta C.
Chegamos neste percurso a uma redefinição da
sexualidade, proposta por Freud que teria a tarefa de
traduzir, nomear ou até construir aquilo que os cientistas
do final do século XIX já afirmavam sobre a
determinação sexual da atividade humana. Através de
sua teoria pulsional, Freud efetuou uma verdadeira
ruptura teórica (ou epistemológica) com a sexologia,
estendendo a noção de sexualidade a uma disposição
psíquica universal e extirpando-a de seu fundamento
biológico, anatômico e genital, para fazer dela a própria
essência da atividade humana. Portanto, é menos a
sexualidade em si mesma que importa na doutrina
freudiana do que o conjunto conceitual que permite
representá-la: a pulsão, a libido, o apoio e a
bissexualidade.
TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 4
A teoria da sexualidade.
A evolução da libido.
As zonas erógenas e as pulsões.
Bibliografia:
FREUD, S. Cinco lições de Psicanálise. (1912) IN
FREUD, S., Obras Completas de S. Freud, Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
_ _ _ _ _ _ . T r ê s E n s a i o s s o b r e a t e o r i a d a
sexualidade. (1905) IN FREUD, S., Obras Completas
de S. Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
______. A Pulsão e seus destinos. (1915) IN FREUD,
S., Obras Completas de S. Freud, Rio de Janeiro:
Imago Editora Ltda; 1969.
ROUDINESCO, E, Dicionário de Psicanálise. IN
FREUD, S., Obras Completas de S. Freud, Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda.
Sexualidade
Foi com a introdução da palavra libido que S. Freud
construiu sua teoria da sexualidade, percurso teórico
iniciado em 1905 com a publicação dos Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade (1905). É preciso enfatizar
que este ponto de partida de sua teoria sobre a
sexualidade sofreu várias modificações ao longo do
tempo, seja a partir da reformulação teórica advinda em
1914 a partir da conceituação sobre o narcisismo, seja à
luz da teoria sobre o dualismo pulsional e da instauração
da segunda tópica, em 1920, no texto Além do princípio
de prazer, e, por último, em torno do texto Psicologia de
grupo e análise do ego (1921). Isto quer dizer que a
teoria sobre a sexualidade e o conceito que lhe é
correlato - a libido - são construções realizadas ao longo
do tempo, marcadas ou ritmadas pelas mudanças que a
experiência clínica e o debate teórico impuseram ao
pensamento freudiano.
O termo libido designa a manifestação da pulsão sexual
na vida psíquica e, por extensão, definindo a
sexualidade humana em geral e a infantil em particular,
entendidacomo causalidade psíquica (neurose),
disposição polimorfa (perversão), amor próprio
(narcisismo) e sublimação.
Esta reordenação das coisas, jogando luz sobre a vida
psíquica (e não sobre a anatomia) faz da libido o
componente básico e essencial da sexualidade, fonte
do conflito psíquico. Isto permite que, ao longo do
tempo, como dito anteriormente, seja possível integrar
libido e pulsão, libido e objeto (na medida em que a
energia é direcionada a e fixa-se em diferentes objetos)
e, por fim, pode encontrar uma identidade narcísica (a
libido do eu). A libido, identificada com a pulsão sexual
tornou-se a pulsão de vida (Eros), em oposição à pulsão
de morte (Thanatos) e com isto, a libido torna-se o
principal determinante da psique humana.
Exercício
A primeira e a segunda tópica são assuntos que
compõem a chamada metapsicologia freudiana.
Correspondem a tentativas de sistematizar o aparelho
psíquico, sugerindo a idéia de uma certa organização,
onde cada sistema tem sua função. Tendo como base a
primeira e a segunda tópica freudiana, julgue os itens
abaixo:
I. Com referência aos estímulos internos, o Ego ante
as exigências das pulsões é inoperante na satisfação
ou adiamento das exigências provenientes destas
excitações.
II. Entre o inconsciente e o pré-consciente não existe
barreira que impeça os conteúdos inconscientes
ascender ao caminho para a consciência.
III. O superego tem a função de juiz para o ego,
apesar desta função específica, não podemos atribuir
ao mesmo qualquer participação no surgimento do
sentimento de culpa.
IV. Na primeira tópica; Freud divide o aparelho
psíquico em inconsciente, pré–consciente e
consciente. Estes três sistemas corresponderão
respectivamente ao Id, Ego e Superego, propostos na
segunda tópica.
ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA
1. É correto o que se afirma em III e IV.
2. É correto o que se afirma em IV.
3. É correto o que se afirma em II e III.
4. É correto o que se afirma em I, II e III.
5. É correto o que se afirma em II.
Resposta B.
Libido
No início de sua teorização, Freud deu a esta libido um
sentido psíquico, tornando-se, após o abandono da
teoria da sedução, no motor do conflito psíquico que
estaria na origem das neuroses: o histérico sofria de
reminiscências e, depois, de fantasias e sonhos, cujo
conteúdo seria explorado pela psicanálise, através do
retorno à infância e, portanto, às primeiras experiências
sexuais do sujeito. Com a publicação dos Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade (1905) este conceito
tornou-se o eixo da sexualidade humana.
Primeiro a libido é uma “energia”, uma manifestação
dinâmica, na vida psíquica, do impulso (ou pulsão)
sexual e, se o que pesava, a partir de então, era a
dimensão psíquica, redefine-se o estatuto da libido: não
mais constituía uma atividade somática, mas era um
desejo sexual que procurava satisfazer-se, fixando-se
em objetos. É também neste tempo de sua teorização
que se institui a noção de monismo sexual: a libido seria
de natureza masculina, quer sua manifestação seja no
homem ou na mulher.
Esta libido - dimensão fundamental da pulsão - fixa-se
em objetos e pode se deslocar em seus investimentos,
mudando de objeto e de objetivo. É então sublimada, ou
seja, derivada para objetivos não sexuais, investe em
objetos socialmente valorizados: a arte, a literatura,
atividades intelectuais, etc.
Esta maleabilidade libidinal, sua capacidade intrínseca
de mudar tanto de objetos quanto de objetivos, permite
igualmente um outro tipo de trânsito: também pode
diversificar-se quanto à fonte de excitação. Há uma
diversificação das zonas erógenas, que se distribuem
por quatro regiões do corpo: oral, anal, uretro-genital e
mamária. Dessa descrição da libido capaz de se
diversi f icar em zonas erógenas decorreu um
desdobramento teórico - a teoria dos estádios ou fases,
tão central na reformulação freudiana quanto na relação
objetal. Cada idade ou, cada fase, tem um tipo de
relação de objeto que serão definidas em quatro: a fase
oral, a fase anal, a fase fálica e a fase genital.
Fase Oral
É o momento em que o prazer sexual se dá,
predominantemente, pela excitação da zona bucal e
lábios, estando associado à alimentação. Neste
momento precoce do desenvolvimento o bebê só espera
a satisfação de suas necessidades, que asseguram a
sobrevivência, assim quando tem fome ou sede busca a
satisfação e à medida que esta necessidade é satisfeita,
a pulsão a ela associada acaba por ser reduzida, com
isto vivencia e sente prazer, o que restitui ao organismo
o retorno ao seu estado de equilíbrio.
O objeto da fase oral é o seio ou seu substituto, não só
enquanto alimentação, nem como elemento anatômico,
mas como objeto que permitirá as várias vivências e
sensações de aconchego que envolve o acalento do
colo materno.
Nesta fase se dá a formação do ego, a princípio o bebê
não percebe nem sente-se como separado do exterior, a
não satisfação imediata da necessidade, conjugada à
espera pelo alimento, a faz sentir-se como separado do
ambiente e, neste espaço se dá o início da formação do
ego, que ocorrerá durante o primeiro ano de vida.
Fase Anal
Por volta dos 12 meses de vida inicia-se a fase anal, que
durará até os 36 e, apesar desta região anal estar em
funcionamento desde o início da vida, será somente
mediante o amadurecimento neurofisiológico aliado às
demandas do ambiente, que incidirão para que
musculatura voluntária torne-se o centro dos
investimentos libidinais.
Assim, as crianças começam a desenvolver o controle
muscular ligado aos esfíncteres – anal/defecação e
uretral/controle urinário, em complementaridade às
preocupações dos pais acerca do estabelecimento dos
hábitos de higiene. Nesta fase, retenção ou expulsão
tornam-se fontes de prazer, já que região anal é a zona
erógena. O aprendizado da higiene e a consequente
necessidade de controle esfincteriano são possíveis,
pois o ego está caminhando à sua formação, permitindo
à criança ser capaz de adiar a satisfação das pulsões. O
objeto desta fase ainda é a mãe, contudo numa
perspectiva de objeto total.
Fase Fálica
É o momento em que o prazer sexual se dá pela
curiosidade e manipulação dos genitais. A obtenção de
prazer se dá pela manipulação, masturbação infantil.
Embora a criança tenha este interesse pelos genitais,
ainda não se trata da verdadeira genitalidade, seu
sentido é ambíguo, pois a criança ainda não sabe
discriminar sobre a diferença sexual anatômica e
considera que todos os seres são dotados de pênis –
homens e mulheres. Após o período de negação das
diferenças entre os sexos, meninos e meninas terão que
conviver com o produto deste reconhecimento, cada um
a sua maneira.
A sexualidade, até aqui, é auto-erótica, mas começa a
ser investida nos pais, porquanto o desejo libidinoso dos
filhos é dirigido para o genitor do sexo oposto,
resultando numa verdadeira batalha que estruturará o
psiquismo do ser humano.
Período de Latência
Depois da turbulência decorrente da renúncia
produto do complexo de Édipo e com um superego
já formado, a criança entra num período de
acalmamento e diminuição da atividade sexual. Esta
etapa inicia-se por volta dos 5/6 anos e estende-se
até à puberdade.
Pela impossibilidade de efetivar se intento da
satisfação das pulsões sexuais, a criança renuncia
ao seu desejo incestuoso e volta-se para objetos
não pertencentes à sua estrutura familiar primária.
Há uma repressão das pulsões sexuais e sua
energia é canalizada para atividades e interesses
sociais.
Nesta fase são erigidos sentimentos contentores da
sexualidade, entre eles a vergonha, o pudor, o nojo,
a repugnância.
Fase Genital
Para Freud, na adolescência, éreativada toda
sexualidade adormecida durante o período de latência; o
reaparecimento dos impulsos sexuais reprimidos os
dirige para o sexo oposto, numa perspectiva de
sexualidade adulta e madura. Neste estágio o
adolescente reativa seu Édipo e desencadeia-se uma
maior independência e autonomia dos adolescentes em
relação aos pais idealizados da infância, redundando em
escolhas sexuais fora do mundo familiar e num processo
de adaptação às exigências socioculturais.
Este modo de conceber a sexualidade e a vida psíquica
amplia a noção de sexualidade, até então vista pelos
sexólogos, reduzida ao sentido genital. A libido, ligada
que está à pulsão sexual, inscreve-se como componente
c e n t r a l d e u m E r o s e n f i m r e e n c o n t r a d o ,
simultaneamente desejo, sublimação e sexualidade em
todas as suas formas humanas.
Em 1920, com Mais-além do princípio de prazer, o
dualismo pulsional se realinha em torno de Eros (pulsão
de vida) e Thânatos (pulsão de morte) e a libido foi,
assim, assimilada a Eros: “A libido de nossas pulsões
sexuais coincide com o Eros dos poetas de filósofos,
que mantém a coesão de tudo aquilo que vive” (1920).
E, no Esboço de psicanálise, os dois termos se
fundiram: “toda energia de Eros, que doravante
denominaremos de libido”.
“Freud fez da libido o móbil de um escândalo, que
apareceria, a partir de 1910, nas múltiplas resistências à
psicanálise em todos os países, sendo ela sempre e por
toda parte qualificada de doutrina pansexualista:
“germânica” demais aos olhos franceses, “latina” demais
para os escandinavos, “judaica” demais para os nazistas
e “burguesa” demais, enfim, para o comunismo, ou seja,
sempre “sexual” em demasia” (Roudinesco, 1998).
EXERCÍCIO
Cada uma das fases descritas por Freud tem uma
importância à constituição do sujeito psíquico, mas uma
delas é marcada pela reativação da sexualidade, de
forma organizada para a realização da sexualidade
genital plena (adulta). Que momento é este e no que
implica sua consecução?
A. Fase fálica, que implica no reconhecimento anatômico
do órgão sexual e aceitação das diferenças entre os
sexos.
B. Fase oral, anal e fálica que pressupõem uma
organização pré-genital.
C. Fase genital, que é um equivalente da fase fálica em
seus desdobramentos mais específicos.
D. Período de latência, que é o grande preparador à
genitalidade adulta.
E. Fase genital, que implica na renúncia do desejo
incestuoso, na plenitude fisiológica, na escolha sexual
fora do mundo familiar, na assunção do sujeito
autônomo. .
Resposta E.
TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 5
O complexo de Édipo e a sua dissolução
Bibliografia:
FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise: Quarta Lição
(1912). IN FREUD, S. Obras Completas de S. Freud,
Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
______. A dissolução do complexo de Édipo (1924). IN
FREUD, S. Obras Completas de S. Freud, Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
MEZAN, R. A querela das interpretações. IN: A
Vingança da Esfinge, Ensaios de Psicanálise: Editora
Brasiliense; 1988.
Complexo de Édipo
O complexo de Édipo (ou Édipo simplesmente, para
abreviar) designa o complexo definido por Freud, assim
como é um mito fundador, pois a partir deste conceito a
teoria psiacanalítica procura elucidar as relações do ser
humano com suas origens e sua genealogia familiar e
histórica.
O Édipo responde a duas questões:
1. Como se forma a identidade sexual de um homem e
uma mulher;
2. Como uma pessoa torna-se neurótica.
Serve-nos, assim, para compreender como um prazer
(de ordem sexual) toma conta de uma criança - na
idade entre 3 e 5 anos - e se transforma em um
sofrimento neurótico que atormentará o sujeito na vida
adulta.
Foi na escuta de seus pacientes neuróticos, adultos, que
Freud, inicialmente, criou a teoria da sedução que, em
seguida, foi substituída pela teoria da fantasia e no
escopo desta movimentação teórica surge a invenção do
complexo de Édipo (o mito de Édipo surge na teoria
psicanalítica no exato momento do nascimento da
psicanálise, consecutivo ao abandono da teoria da
sedução). O que é relevante, apesar da mudança - da
teoria da sedução para a da fantasia - é que o
acontecimento, real ou fantasiado, é que tenha sido
recalcado. A histeria é principalmente uma doença do
esquecimento, já que não se quer lembrar do que foi
doloroso.
No entanto, a posição do sujeito é diferente no
acontecimento real e no fantasiado: no primeiro, a
criança da cena de sedução é vítima; no segundo, a
criança da cena edipiana/fantasiada é atormentada entre
o desejo de ser seduzida e o medo de sê-lo, entre o
medo de sentir prazer e o medo de experimentá-lo.
A identidade sexual de todo homem ou mulher tem como
ponto de partida o complexo de Édipo e é por isto que o
que se encontra na clínica, sob esta ótica, são pessoas
adultas sofrendo, não raras vezes, pelas vicissitudes de
um complexo não liquidado e que retorna à consciência,
de forma compulsiva e repetitiva, delineando-se, assim,
um sofrimento neurótico.
O Édipo é um esquema teórico que permite ao
psicanalista esclarecer e compreender uma gama
infindável de conflitos e sofrimentos psíquicos; é, do
ponto de vista clínico, uma fantasia que atua desde o
âmago de ser e o toma por inteiro. Quanto ao mito, sua
força na cultura se explica porque através de uma fábula
que traz à cena personagens familiares, o faz de tal
forma que estes personagens verdadeiramente
encarnam as forças do desejo humano e os seus
interditos, suas proibições necessárias.
Fantasia ou mito, o complexo edipiano é um conceito
central, nuclear (acha-se presente em toda obra
freudiana, desde 1897 até 1938), indispensável à
consistência da teoria e à eficácia da prática
psicanalítica.
EXERCÍCIO
Uma das grandes contribuições de Freud em relação ao
desenvolvimento do ser humano se refere à
sexualidade, tomada aí numa dimensão muito mais do
que a dimensão reprodutiva. Assinale a alternativa
que corresponde aos achados de Freud sobre este
tema.
A. A vida sexual dos seres humanos começa na
puberdade, o que ocorre logo após ao nascimento
d e v e s e r e n t e n d i d a n u m a p e r s p e c t i v a
desenvolvimentista sem associação à sexualidade.
B. Após o nascimento a única manifestação de
sexualidade se refere ao ato de sugar o seio da
mãe, portanto esta ação liga-se não a sexualidade,
mas a al imentação como ação voltada a
sobrevivência.
C. A vida sexual inclui a noção de que diferentes
partes do corpo são reconhecidas como zonas
erógenas, capazes de produzir prazer.
D. O conceito de sexual é um conceito amplo que
inclui atividades têm que ver com os órgãos
genitais.
E. O primeiro órgão a surgir como zona erógena e a
fazer exigências libidinais à mente é, da época do
nascimento em diante, os genitais.
Resposta C.
Dissolução do Complexo de Édipo
O complexo de Édipo é a representação inconsciente
pela qual se exprime o desejo sexual ou amoroso da
criança pelo genitor do sexo oposto e sua hostilidade
para com o genitor do mesmo sexo. Essa representação
pode se inverter e exprimir o amor pelo genitor do
mesmo sexo e o ódio pelo do sexo oposto.
O complexo de Édipo está ligado à fase fálica da
sexualidade infantil e surge quando o menino (por volta
dos 2 ou 3 anos) começa a sentir sensações prazerosas
e, apaixonado pela mãe, quer possuí-la, colocando-se
como rival do pai, antes admirado. Uma posição inversa
é adotada: ternura em relação ao pai e hostilidade em
relação à mãe. Há, ao mesmo tempo, o complexo de
Édipo e um complexo de Édipo invertido; estas duas
posições - positiva e negativa - no contato com os pais
são complementares e constituem o Édipocompleto.
Será, por volta dos cinco anos, com o complexo de
castração que, no menino, o complexo desaparecerá: o
menino reconhece a partir de então na figura paterna o
obstáculo à realização de seus desejos, abandona o
investimento na mãe e passa para uma identificação
com o pai, que lhe permitirá, na vida adulta, uma outra
escolha de objeto e novas identificações: ele se desliga
da mãe (desaparecimento do complexo de Édipo) para
escolher seu próprio objeto de amor. Seu declínio marca
a entrada num período chamado de latência, e sua
resolução após a puberdade concretiza-se num novo
tipo de escolha de objeto.
A tese da tese da libido única, de essência masculina,
está ligada ao complexo de Édipo. O menino sai do
Édipo através da angústia de castração, por seu lado, a
menina ingressa nele pela descoberta da castração e
pela inveja do pênis e, nela, o complexo se manifesta
pelo desejo de ter um filho do pai. A dessimetria se
apresenta no tocante ao fato de a menina desligar-se de
um objeto do mesmo sexo (a mãe) por outro de sexo
diferente (o pai). Não há um paralelismo exato entre o
Édipo masculino e seu homólogo feminino, mas
encontramos uma simetria: nos dois sexos a mãe é o
primeiro objeto de amor, o elemento comum e primeiro.
EXERCÍCIO
Sobre o Complexo de Édipo na teoria de Freud, pode-se
dizer que:
I. A ameaça de castração é o principal fator que
leva a dissolução do Complexo de Édipo e
encontra-se na base do processo civilizatório.
II. O Complexo de Édipo é considerado um
processo universal, que desempenha um papel
estruturante no desenvolvimento do indivíduo.
III. A elaboração do Complexo de Édipo inclui o
abandono dos aspectos mais passionais em relação
aos pais e a consequente identificação com os
progenitores.
IV. A ameaça de castração é uma teoria sexual
infantil para explicar a diferença anatômica entre os
sexos e só ocorre em casos extremos de confusão
de identidade.
V. O Complexo de Édipo nunca se dissolve, e é
predominante nos meninos.
Identifique qual das alternativas está correta:
A. É correto o que se afirma em I, II e, V.
B. É correto o que se afirma em II, III e IV.
C. É correto o que se afirma em I, II e III.
D. É correto o que se afirma em II, IV e V.
E. É correto o que se afirma em II e V.
Resposta C.
O complexo de Édipo liga-se desde o começo à dupla
questão do desejo incestuoso e de sua proibição
necessária, a fim de que nunca se transgrida o
encadeamento das gerações.
Mantém uma ligação estreita com o complexo de
castração e com a existência da diferença sexual e das
gerações.
Freud viu a tragédia Édipo rei (Sófocles) a revelação ou,
em outras palavras, a simbolização, do universal do
inconsciente que vinha disfarçado em destino, a lenda
grega apoderou-se de uma compulsão que todos
sentiram, por isto reconhecem-se, inconscientemente,
na dramatização e se assombram diante da realização
do sonho transposto para a realidade.
A s s i m t a m b é m o c o r r e c o m o d r a m a
de Hamlet (Shakespeare) que era, para Freud, o drama
do recalcamento, através da história de uma
subjetividade culpada.
Esta aproximação de ficções pode ser relacionada ao
afã de Freud por entender as questões relativas ao
destino, àquilo que a vida reserva e que se ignora. a isto
podemos correlacionar o próprio conceito de
inconsciente, ninguém o conhece e, igualmente, dele
não pode se desvencilhar. O complexo de Édipo é, como
foi dito inicialmente, a representação psíquica do desejo
inconsciente e, como consequência, traz em seu bojo a
iniciação em uma experiência de perda e de luto,
referente aos pais como parceiros sexuais.
EXERCÍCIO
Um dos efeitos do complexo de Édipo na criança por
volta dos 5 (cinco) ou 6 (seis) anos está relacionado com
atitudes morais e regras que devem ser seguidas e que
es tão su je i tas a pun ição, a lém de susc i ta r
arrependimento que vem de dentro de si própria e não
de outra pessoa, exigindo comportamento de
obediência. Com base nestas afirmações identifique de
que fase do desenvolvimento psicossexual trata-se este
momento descrito e escolha a alternativa correta:
A. O período descrito é o de latência e demonstra a
formação do superego.
B. A fase descrita é a anal e demonstra o contato do
ego com o ambiente.
C. A fase descrita é a oral e os primórdios do princípio
de prazer.
D. A fase descrita é a fálica e mostra a estruturação
do superego, pela dissolução do Édipo.
E. A fase descrita é a fálica e mostra o início do
complexo de Édipo.
Resposta D.
TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 6
A psicanálise na clínica
O surgimento da transferência
A descoberta do narcisismo.
Bibliografia:
FREUD, S. A dinâmica da transferência (1912). IN
FREUD, S. Obras Completas de S. Freud, Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
______. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914). IN
FREUD, S. Obras Completas de S. Freud, Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
______. Fragmentos da análise de um caso de histeria –
O Caso Dora – Epílogo (1905). IN FREUD, S. Obras
Completas de S. Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora
Ltda; 1969.
______. Recordar, repetir e elaborar - Novas
recomendações sobre a técnica da Psicanálise II (1914).
IN FREUD, S. Obras Completas de S. Freud, Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
LAPLANCHE, J. Vocabulário da psicanálise -
Laplanche e Pontalis. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
A Psicanálise na clínica e a transferência
Quando Freud (1915[1914]) diz que só o analista pode
tratar a neurose que, do contrário, sem o tratamento
adequado (psicanalítico) está fadada a se repetir em
seus sintomas ‘ad infinitum’, afirma que o psicanalista
deve saber fazer algo que nenhum outro profissional ou
pessoa terá condições de fazer. Este algo a ser feito
depende de quem o faz, precisa ser feito no
enfrentamento da neurose, e para isto é preciso que seja
um psicanalista e refere-se diretamente à sua formação.
E este deve estar capacitado a suportar o peso da
repetição. E, o faz, através do manejo da transferência.
A associação livre abre caminho para a investigação e
para o tratamento psicanalíticos e coloca para o analista
um novo horizonte a partir do qual poderá trabalhar e
que diz respeito ao manejo da transferência. Para Freud,
em seu texto Recordar, repetir e elaborar (1914), há uma
relação estreita entre a compulsão à repetição e a
transferência, afirmando uma estreita proximidade entre
as duas: a transferência seria um fragmento da repetição
e esta é uma transferência do passado, seja para o
analista seja para diferentes aspectos da vida atual do
paciente.
Mas o que se repete? Seguindo Freud nos textos citados
trata-se justamente de um processo inconsciente no qual
o sujeito se sente compelido a repetir atos, ideias,
pensamentos e sonhos que, na sua origem, foram
geradores de sofrimento e ao serem repetidos não
perdem esta conotação, mas também não é possível
abandoná-los por força da vontade. E, como analistas, o
que nos convoca a pensar, desde Freud, é justamente o
caráter enigmático (ou sinistro) desta necessidade de
repetição ao ser confrontada com o princípio de prazer.
E é particularmente no texto de 1914, Recordar, repetir e
elaborar que podemos ver explicitada uma trama que
liga repetição e transferência, na medida em que coloca
que a repetição é a forma de o paciente recordar, ainda
que sob o signo da resistência, daquilo que lhe é mais
difícil, dado que está ligado às conotações sexuais que
não passam pelo crivo da censura e, portanto, não
podem ser rememoradas. E, assim, será o manejo da
transferência que permitirá que se transforme a
compulsão à repetição num motivo para recordar: A
transferência cria,assim, uma região intermediária entre
a doença e a vida real, através da qual a transição de
uma para outra é efetuada (Freud, 1914, p.201).
EXERCÍCIO
O processo transferencial ocorrido durante a análise
pode ser concebido como uma reatualização de
experiências significativas da vida do paciente. Com
base nas observações de Freud acerca da transferência,
escolha a alternativa correta, assinalando-a.
A. A transferência é a forma mais clara em análise
da superação da resistência, pois viabiliza uma
transmissão consciente de conteúdos reprimidos de
um sujeito para o analista.
B. A resistência transferencial cria a possibilidade de
uma manifestação menos crítica do sujeito durante a
análise, especialmente pelo fato de que a relação
com o terapeuta tem sempre referência do real.
C. A transferência torna-se recurso fundamental da
análise, pois torna manifesto os impulsos eróticos
esquecidos pelo paciente.
D. A transferência é um fenômeno que prejudica o
desenvolvimento favorável na análise, pois
apresenta significativa resistência, impedido clareza
da dinâmica psíquica por parte do analista.
E. Sentimentos amistosos como confiança e
amizade podem caracterizar uma forma de
transferência positiva, que são sempre vistos como
muito positivos.
Resposta C.
No entanto, transferência e repetição não são uma e
mesma coisa, ainda que se refiram exatamente àquilo
que está na visada principal do analista, a saber, o
inconsciente. A primeira como uma técnica que serve de
contrapeso ao que é própr io das formações
inconscientes, a compulsão à repetição. E também está
na visada do analista e da direção da análise trabalhar
como isso pode ser “acolhido” na situação analítica de
tal forma que, ao propiciar uma experiência abrandada
de seus efeitos, aquilo que era um movimento repetitivo
dê lugar a algo, se não radicalmente novo, pelo menos
uma criação própria do sujeito na sua relação com seu
inconsciente.
Transferência não é repetição e esta não aparece de um
só jeito. Mas na transferência o lugar ocupado pelo
analista revigora o status ficcional da transferência na
medida em que, ao encarnar uma abertura, o analista
remete o sujeito à sua própria errância, à suas
infindáveis tentativas de criar algo a partir do nada, ou
melhor, da falta – falta de sentido, falta de norte ou de
rumo, que não se cansa de se repetir. A técnica que
serve de contrapeso a esta exigência pulsional de
repetição não exclui este movimento, mas permite que
algo se produza, se crie nas movimentações possíveis a
cada momento, para cada um e chega-se a um pouco
de verdade.
A descoberta do narcisismo
As primeiras considerações de Freud sobre o narcisismo
surgem por volta de 1909, época da segunda edição
dos Três Ensaios..., em cartas (junho de 1913) e no
artigo sobreLeonardo da Vinci (1910). Mas é somente
com o texto de 1914 que a discussão sobre as relações
entre o eu e os objetos externos culmina numa
diferenciação entre duas formas dist intas de
investimento libidinal: uma voltada para o próprio eu e
outra voltada para os objetos. São desta mesma época
também as indagações de Freud sobre a escolha da
neurose e será em 1914 que afirmará o narcisismo como
um conceito à parte, capaz de esclarecer uma forma de
investimento libidinal que não diz respeito somente ao
que podemos ver nas perversões, estendendo-se à
totalidade do curso regular do desenvolvimento sexual
humano, ou seja, passa a ser considerado como um
estágio necessário entre o auto-erotismo e o amor
objetal. Então, podemos situar o narcisismo como um
conceito que auxilia tanto na compreensão da etiologia
das neuroses, das psicoses e das perversões quanto na
reformulação das noções anteriores sobre o curso dos
investimentos libidinais.
Os dois narcisismos: primário e secundário
É certo que, num primeiro momento das investigações
psicanalíticas, o narcisismo surge associado às
disposições patológicas, porém ao longo do tempo e dos
progressos teóricos, o narcisismo encontrado nas
disposições patológicas seria mais adequadamente
explicado como um fenômeno posterior a um ‘narcisismo
primário’, este sim etapa necessária no desenvolvimento
da vida psíquica. A partir disto pode-se falar numa
relação diferente entre esta nova acepção de narcisismo
e a constituição do psiquismo, pois com o texto de 1914,
há um primeiro abalo nas construções psicanalíticas no
que diz respeito à clássica oposição entre pulsões
sexuais e pulsões do eu.
Antes de formular esta sua teoria sobre o narcisismo,
acreditava-se que os investimentos no eu eram tão
somente relacionados às necessidades de auto-
conservação, ficando reservada a libido para as relações
objetais. Porém as invest igações poster iores
demonstraram que esta ‘libido do eu’ estava sendo
ocultada por esta pressuposição. A importância destas
formulações acerca do narcisismo concentra-se no fato
de estar diretamente vinculado à própria constituição do
eu, pois num primeiro momento – anterior ao
descobrimento do narcisismo como etapa necessária na
formação da vida psíquica – acreditava-se que as
pulsões do eu eram exclusivamente não-sexuais e que o
auto-erotismo, enquanto estágio inicial da sexualidade,
não teria nenhuma finalidade de sobrevivência, assim
como seria anterior à formação do eu como uma
unidade. Reconhecer que há um investimento libidinal
no eu leva à ideia de que estão presentes na
constituição deste diferentes energias psíquicas e que a
passagem do estado do auto-erotismo para o narcisismo
se dá quando se acrescenta ao auto-erotismo o eu, ou
seja, quando este último passa a ser o objeto de amor.
Assim é que o narcisismo ganha o estatuto de primário,
perde sua conotação patológica e passa a ser um
elemento fundamental na constituição da vida psíquica.
Porém esta libido dirigida ao eu é a mesma energia que
se dirige para os objetos, trata-se nos dois casos da
manifestação da mesma pulsão sexual, só que agora
compreendida como capaz de investir em diferentes
objetos: o próprio eu e os objetos externos. O eu seria
então constituído por esta energia, estaria investido,
desde o princípio da sua constituição, de pulsões de
auto-conservação e de pulsões sexuais, o que significa
dizer que é um ‘reservatório’ destas pulsões: dele tanto
partem quanto retornam os investimentos sexuais.
O retorno e o represamento da libido no eu, num grau
mais elevado, são experimentados como desagradáveis
pelo sujeito, impelindo-o a ultrapassar os limites deste
narcisismo e ligar-se a outros objetos – é assim que se
processaria a transformação da libido narcísica em libido
objetal ou, a passagem do narcisismo primário para a
relação objetal propriamente dita. Portanto, o aparelho
psíquico teria como tarefa elaborar as excitações para
que não se tornem aflitivas, o que pode ocorrer tanto na
sua relação com objetos reais quanto com imaginários.
Esta libido do eu, ou mais especificamente este
narcisismo primário, é um conceito que ajudará na
reformulação das disposições patológicas no tocante ao
investimento do eu nele mesmo ou nos objetos, ou em
outras palavras no modo como as relações do eu com
os objetos ficam comprometidas quando há um retorno a
um investimento no próprio eu que substitui o
investimento objetal. Falar de narcisismo primário
remete necessariamente à teoria da libido, podendo ser
considerado como uma extensão desta última.
Poderíamos assim considerar a palavra ‘retorno’ como
tendo um duplo sentido: primeiro porque a libido
desloca-se dos objetos para o próprio eu - se o seu
destino natural e normal deve ser os objetos, a ideia de
retorno tanto estaria ligada à noção de patologia (uma
perversão, por exemplo) quanto de um caminhar para
trás, retorno igual a movimento nadireção contrária e
esta conotação se referiria ao narcisismo secundário.
Um segundo sentido tomaria a palavra retorno
focalizando o eu não só como seu ponto de partida, mas
como também alvo inicial (original) deste investimento,
este seria o narcisismo primário. A distinção
entre narcisismo primário e secundário está relacionada
com a necessidade de se distinguir entre o que seria um
investimento no eu com ou sem conotação patológica,
assim como com questões referentes ao próprio estatuto
destes conceitos ao longo da obra freudiana e de alguns
de seus seguidores, mais especificamente no que diz
respeito à demarcação de modos de investimentos no
eu, anteriores ou posteriores ao estabelecimento de
relações de objeto.
No que concerne à primeira tópica, Freud adota uma
concepção de narcisismo primário comportando uma
dose de relação intersubjetiva, pois na medida em que o
narcisismo dos pais é reavivado na relação com ‘sua
majestade, o bebê’, pode-se afirmar que este narcisismo
incipiente e contemporâneo da constituição do eu, não
está situado nem no interior da criança, nem no interior
dos pais, exclusivamente. Ele seria mais bem definido
n e s t e m o m e n t o d a t e o r i a f r e u d i a n a c o m o
uma identificação (narcísica) com o objeto e, por parte
dos pais, uma projeção de seu próprio narcisismo
decaído.
Mas esta concepção não se mantém assim ao longo da
obra f reud iana - e mesmo os ps icana l is tas
contemporâneos estão divididos quanto a esta questão –
pois com a segunda tópica o narcisismo primário seria
descrito como uma fase anobjetal, referindo-se a total
ausência de intercâmbios com o meio e de
indiferenciação entre o eu e o isso. Aqui, as analogias
mais pertinentes a este estado da vida psíquica seriam a
vida intra-uterina e o sono.
A confluência destes dois fatores – a imagem unificada
que a criança passa a ter do próprio corpo e a revivência
do narcisismo dos pais incidindo sobre a criança – é que
inaugura a constituição do Eu Ideal (Ideal Ich). É a
imagem idealizada do eu, é a experiência de um eu real
que tem exatamente os mesmos atributos que são
percebidos pelos objetos de amor, no caso os pais.
Esta imagem unificada do próprio corpo tem o valor de
passagem de um estado em que reinavam as pulsões
parciais, para um estado mais organizado, que coincide
com a constituição do eu enquanto entidade autônoma,
e isto só se dá com a entrada no estágio do narcisismo,
o narcisismo infantil que logo sofre um abalo, sua
duração enquanto modo de ligação com os objetos é
limitada e o fator principal de sua ‘queda’ provém do
complexo de castração e também de outras situações
que lhe são correlatas. A imagem idealizada de si
mesmo não se mantém nos intercâmbios com o meio, a
percepção de si como totalmente adequada ao desejo
do outro e o objeto reconhecido na justa medida da
identidade com o eu tem como destino, do ponto de vista
psíquico, um refúgio, que ao mesmo tempo em que
perpetua esta representação, desloca-a para o que vem
a se chamar instância ideal.
EXERCÍCIO
O narcisismo não é um vilão da história do sujeito, mas
um elemento que abre o caminho para a constituição do
sujeito psíquico. Nesta perspectiva identifique a
alternativa correta:
A. O narcisismo primário resguarda em si certo grau
de patologia.
B. O narcisismo secundário é produto do investimento
libidinal dos pais na criança.
C. A descoberta do narcisismo como etapa
necessária na formação da vida psíquica reforça a
ideia de seu aspecto patológico.
D. No narcisismo primário a criança toma a si mesma
como objeto de amor, ao invés de escolher objetos
exteriores.
E. No narcisismo secundário a criança investe sua
libido nos objetos exteriores.
Resposta D.
TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 7
A psicanálise na clínica: a atitude frente à castração -
neuroses, psicoses, perversões
Considerações sobre o objetivo e o final de uma
análise
Bibliografia:
FREUD, S. A perda da realidade na neurose e na
psicose (1924). IN FREUD,S. Obras Completas de S.
Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda.
______. Construções em Psicanálise (1937). IN FREUD,
S. Obras Completas de S. Freud, Rio de Janeiro:
Imago Editora Ltda; 1969.
MEZAN, R. Psicanálise e Psicoterapia. In A Vingança
da Esfinge, Ensaios de Psicanálise. Editora
Brasiliense, 1988.
Castração
Tanto quanto o complexo de Édipo é a representação
psíquica de uma experiência, o complexo de castração
também diz respeito a uma experiência psíquica vivida
inconscientemente pela criança, por volta dos seus cinco
anos de idade e que tem peso decisivo no tocante à
identidade sexual, ou em outras palavras, à escolha de
objeto de amor. É neste momento que a criança
reconhece, tomada pela angústia, a diferença sexual, ou
seja, que o mundo é composto por homens e mulheres e
que o corpo tem seus limites e, para o menino, isto
significa que, apesar de possuir o pênis, este não lhe
permitirá realizar seus sonhos e desejos sexuais com
sua mãe, pois até então vivia na ilusão da onipotência.
Apesar da ênfase atribuída à castração enquanto etapa
da evolução da sexualidade infantil, é importante lembrar
que sua relevância transcende o que seria uma
significação cronológica, na medida em que é uma
experiência re-vivida - inconscientemente - ao longo de
toda a existência. A psicanálise - como prática clínica - é
uma oportunidade para reativar esta experiência,
possibilitando assim que, na vida adulta, retome-se o
curso da vida sem desconsiderar os limites do corpo em
relação à vastidão dos desejos, experiência vivida e
sofrida desde tenra infância.
O complexo de castração para o menino assinala a
saída do complexo de Édipo e a identificação com o pai
(ou seu substituto) no núcleo do superego. A
consequência da constatação da diferença sexual está
relacionada à rememoração ou atualização de ameaça
de castração - ouvida ou fantasiada - quando por
ocasião de atividades masturbatórias e é o pai o agente
desta ameaça.
O complexo de castração na menina passa-se de
maneira distinta, pois é sob o efeito deste complexo que
ela entrará no complexo de Édipo e se afastará da mãe,
pois a esta última é atribuída a culpa pela privação do
pênis. Afasta-se do objeto materno e orienta-se para o
dese jo do pên is pa te rno e de sua p róp r ia
heterossexualidade.
Além da importância deste conceito para a clínica - no
que diz respeito ao diagnóstico e à direção de um
tratamento psicanalítico -, o complexo de castração tem
sua implicação na ordem cultural e social na medida em
que nele estão representadas, junto com o complexo de
Édipo, questões sobre a instituição das leis e proibições
que regulam as relações e organizações humanas.
EXERCÍCIO
A submissão à “castração” simbólica é sinônimo de
crescimento e evolução psíquica, que repercute na
dimensão da sociedade e cultura, pois a ela estão
implícitos:
A. O reconhecimento da diferença sexual que
supõe o abandono de nossa ilusão de impotência
infantil.
B. A irreverência aos limites de nosso corpo
rumo a realização de nossos desejos.
C. Um elemento fundante da vida em
sociedade, pois funciona como regulador das
relações sociais.
D. O desconhecimento da diferença sexual que
nos mantém no patamar da onipotência infantil.
E. Por meio desta experiência vivida e sofrida
desde a infância reagimos e podemos nos abster
de submetermos a ela, mantendo-nos donos de
nossas escolhas.
Resposta C.
Neurose, psicose e perversão
Neurose
Freud emprega o termo neurose para falar de uma
doença nervosa, na qual os sintomas representam
simbolicamente um conflito psíquico recalcado, de
origem infantil e causa sexual. Em termosde uma
classificação, designam-se os seguintes registros
freudianos: neurose histérica, neurose obsessiva,
neurose atual (neurose de angústia e neurastenia) e a
psiconeurose (neurose de transferência e neurose
narcísica).
A neurose advém como resultante de um mecanismo de
defesa contra a angústia e de uma formação de
compromisso, entre esta defesa e a possível realização
de um desejo. Este desejo - e sua proibição - é aquele à
que se refere o complexo de Édipo e o complexo de
castração. Na neurose há um conflito entre o ego e o id,
coexistindo, interna e inconscientemente, tanto impulsos
que exigem satisfação quanto moções que levam em
conta a realidade.
Psicose
Freud julgava a psicose quase sempre incurável e este
era um dos motivos pelos quais não se dedicava ao seu
tratamento. Definiu, inicialmente, em sua obra, a psicose
como um distúrbio entre o ego e o mundo externo; no
contexto da segunda tópica e com o desenvolvimento da
teoria do narcisismo, a psicose foi explicada a partir da
reconstrução de uma realidade alucinatória na qual o
sujeito fica unicamente voltado para si mesmo, numa
situação sexual auto-erótica em que toma literalmente o
próprio corpo (ou parte deste) como objeto de amor
(sem alteridade possível). Portanto aqui a castração,
enquanto experiência psíquica, não pode ser
experienciada.
Perversão
Tanto quanto na psicose, Freud caracterizou a perversão
a partir de uma clivagem do ego, em que coabitam duas
realidades distintas: a recusa e o reconhecimento da
ausência do pênis na mulher. Assim, a perversão surge
como renegação ou desmentido da castração, aliada à
fixação da sexualidade infantil; trata-se dos efeitos sobre
o sujeito da confrontação com a diferença sexual,
existindo tanto no homem quanto na mulher.
EXERCÍCIO
O que faz com que cada uma das organizações –
neurótica, perversa e psicótica – exija uma maneira de
condução do trabalho psicanalítico, decorre das suas
especificidades, o que equivale a dizer...
I. Que a forma com que foi experienciada a castração,
faz do perverso alguém rendido ao peso da realidade.
II. Que o conflito do psicótico consiste na fixação de
uma sexualidade peverso-polimorfa e na rejeição do
reconhecimento anatômico do órgão e consequente
negação das diferenças.
III. Que censura no neurótico é tão intensa que só
consegue “viver” seu desejo pela via do sintoma.
IV. Que em cada uma das três organizações reside
uma forma de funcionamento da mente, que
determina um modo de relação do sujeito com o outro
e seu desejo.
Identifique as alternativas e verifique a correta:
A. É correto o que se afirma em I, II e III.
B. É correto o que se afirma em III e IV.
C. É correto o que se afirma em II e III.
D. É correto o que se afirma em II, III e IV.
E. É correto o que se afirma em I e III.
Resposta B.
Considerações sobre o objetivo e o final de uma
análise
Uma análise se inicia e se mantém ao longo do tempo
quando e se aquele que a procura apresente uma
queixa (ou mais de uma), é preciso que se mostre,
enfim, queixoso quanto ao sofrimento que seus
sintomas lhe trazem e que aspire a algum tipo de
mudança. Esta mudança, sonhada, mais ou menos
explicitada nas entrevistas/consultas com um analista/
terapeuta são, por força da tradição e das origens,
quase sempre associadas à ideia de cura, ideia esta que
está ligada ao modelo médico e do qual o analista
terapeuta deve fazer um esforço constante no sentido de
se diferenciar.
Entende-se que, para a psicanálise, os sintomas são a
expressão de um conflito inconsciente, uma luta entre o
ego e um sofrimento inconsciente, por isto qualquer
noção de cura que carregue a expectativa de eliminação
ou desaparecimento dos sintomas não se justifica numa
perspectiva psicanalítica. Mas, como os sintomas são a
forma encontrada pelos sujeitos de enfrentar algo que
pareceria insuportável - a dor e o sofrimento
inconscientes - será através da relação transferencial,
em que o analista/terapeuta será incluído como
tes temunha des te so f r imento que se pode ,
psicanaliticamente falando, trabalhar para que as
mudanças nas relações subjetivas com o mundo e
consigo mesmo possam ocorrer.
Trabalha-se para dissipar a dor inconsciente, mas isto
não pode ser feito pensando em eliminar sintomas,
atitude mais relacionada a um “orgulho terapêutico” que
acaba por privilegiar a figura do analista/terapeuta e
seus sucessos ou fracassos. O objetivo de uma análise
pode ser pensado como Freud o colocou em termos de
uma reorganização ou ampliação do ego em benefício
do id, na medida em que a escuta analítica, através da
relação transferencial, serve de palco para o jogo de
forças pulsionais que não desaparecerão ao fim de uma
análise, mas se poderá dizer de uma experiência mais
abrandada de seus efeitos na vida dos sujeitos.
EXERCÍCIO
Luís busca a análise em função dos sentimentos de
confusão e vazio que vem vivenciando nos últimos
meses e que o fazem sofrer muito, chegando a pensar
em fugir de todas as suas obrigações. Neste caso,
consideraríamos como principal objetivo de seu
processo psicanalítico...
A. A urgente necessidade de eliminação
do sintoma.
B. A eliminação dos efeitos do jogo
pulsional de seu psiquismo.
C. A dissipação da dor inconsciente e
consequente eliminação do sintoma.
D. O abrandamento dos efeitos do jogo
pulsional de seu psiquismo.
E. O reconhecimento de suas dificuldades
e a medicalização de seus sintomas.
Resposta D.
TEORIA PSICANALÍTICA
MÓDULO 8
Psicanálise e sociedade: a psicologia das massas, a
identificação, o ideal do ego.
A compreensão da vida em grupo a partir do
referencial psicanalítico.
Bibliografia:
FREUD, S. A Psicologia das Massas e a Análise do Ego,
cap. IV a VIII e XII (1921). IN FREUD, S., Obras
Completas de S. Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora
Ltda; 1969.
______. Mal estar na civilização, cap I (1930[1929]). IN
FREUD, S., Obras Completas de S. Freud, Rio de
Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969.
Psicanálise e Sociedade
Depois de Mais-além do princípio de prazer (1920), o
texto que trata das relações entre psicanálise e
sociedade - Psicologia das massas e Análise do ego
(1921) - é um outro marco importante na reformulação
teórica freudiana, conhecida como a segunda tópica.
Trata-se de um texto que explora os caminhos que vão
da compreensão do indivíduo para a da sociedade.
Freud refutou em seu texto uma oposição categórica
entre uma psicologia do indivíduo e uma psicologia
social e, seu ponto de partida para isto, é o fato inegável
de que todo indivíduo está sempre referido a um outro
na constituição mesma de seu psiquismo, o que leva à
conclusão que toda psicologia individual é, desde
sempre, social, por causa deste laço inerente à própria
constituição do humano, ainda que uma não se
confunda com a outra, na medida em que os efeitos de
um narcisismo sempre presente, em que não há lugar
para a diferença ou para a alteridade, não deixam de
existir enquanto possibilidades individuais que se
diferenciam de atos sociais.
Quais são e como se definem as relações dos indivíduos
com a massa, foram as questões que nortearam as
investigações freudianas neste texto, pensando nas
mudanças evidenciadas nos indivíduos quando estão
sós e quando estão fazendo parte de uma organização
que os transcende.
Freud associa os movimentos de massa a partir do que
definiu em sua teorização sobre o psiquismo individual
como a fonte energética das pulsões - a libido - e que é
o que move as relações amorosas e que será concebido
também como o que estará operando nos movimentos
de massa, inclusive quanto à relaçãoda massa com um
líder. Neste aspecto, Freud irá diferenciar os
agrupamentos sem e com líder, sendo estes últimos
representados em seu texto pela igreja e pelo exército,
instituições nas quais é possível identificar tanto as
relações da massa com o líder, quanto as relações dos
membros entre si, evidenciando estes laços como de
natureza amorosa.
No entanto será a relação - ou o investimento libidinal -
com o líder uma espécie de protótipo das relações dos
membros entre si e disto resulta um aspecto
fundamental deste momento no pensamento freudiano,
a saber, o desenvolvimento da teoria da identificação.
De um lado tem-se a teorização de como a relação entre
os membros se dá justamente pela identificação com o
líder e, por outro lado, surge a distinção entre o ego e o
ideal do ego (predecessor do superego). Os indivíduos
têm no líder um objeto externo que ocupa o lugar de
ideal do ego, assim como, identificam-se entre si por
causa desta identificação ao líder, na qual a dimensão
sexual seria sublimada.
Como este texto trata das relações entre o indivíduo e as
organizações, não escapou à análise de muitos
comentadores, as implicações do que Freud expõe com
a própria institucionalização da psicanálise, dado que os
psicanalistas não estão a salvo das mesmas vicissitudes
pelas quais os indivíduos passam em seus embates
mais ou menos conflituosos com as instituições.
EXERCÍCIO
A presença inequívoca do outro na constituição do
psiquismo leva Freud à suas investigações sobre as
relações entre psicologia individual e social, sobre este
aspecto podemos afirmar que para Freud:
A. A psicologia de grupo é uma categoria distinta da
psicologia individual, não podem ser equiparadas.
B. A psicologia individual refere-se somente aos
indivíduos, enquanto que a psicologia social não
considera os indivíduos, mas apenas os aspectos
dinâmicos das interações sociais.
C. A psicologia social é individual na medida em
que os grupos são basicamente constituídos de
indivíduos.
D. Não há oposição entre a psicologia individual e a
psicologia social, pois a constituição do sujeito
psíquico advém da trama que é tecida a partir do
outro.
E. A tarefa dos pais é a de cuidar de seus filhos, o
abandono destes cuidados iniciais gera um
narcisismo pessoal e futuramente coletivo.
Resposta D.
Ego ideal e ideal do ego
As instâncias ego ideal e ideal do ego, tais como são
conhecidas hoje em psicanálise, não se encontram de
forma alguma claras e evidentes na obra de Freud.
Remontam desde 1895 e desembocam na constituição
do superego, porém a distinção clara entre estes dois
conceitos só será proposta por sucedâneos do
pensamento freudiano.
Apesar da não diferenciação no texto sobre o narcisismo
(1914) entre as duas instâncias ideais - ego ideal e ideal
do ego - é possível lá entrever a ideia de substituição do
narcisismo como modo de ligação com os objetos pelo
surgimento do ego ideal, que seria aquela imagem
i d e a l i z a d a d e s i m e s m o q u e s e m a n t é m
inconscientemente no psiquismo. Através das trocas
com o mundo, particularmente da relação da criança
com a mãe e desta com outros, a criança percebe que a
mãe deseja algo fora dela. Isto leva a uma experiência
em que a criança é atingida e ferida em seu narcisismo
primário, sentindo uma importante frustração no que diz
respeito à sua necessidade de ser amada pelo outro de
forma absoluta: para voltar a ter o amor total do outro é
preciso corresponder àquilo que o preencheria de tal
forma que não precisaria amar outros. O ego bastaria e
isto seria chegar à perfeição narcísica, esta
corresponderia ao ego ideal.
Porém o desenvolvimento do ego só se dará a partir de
um distanciamento do narcisismo primário e do
estabelecimento de relações objetais; para se chegar a
este seu objetivo é preciso que aquele desejo totalizante
de ser amado leve em conta, por sua vez, as
representações e os imperativos culturais, sociais e
éticos que são transmitidos pelas figuras parentais e que
funcionam como mediadores, representantes externos,
constituídos pelo discurso dos pais. Ao assumir de uma
certa forma como seus os valores e ideais que fariam
parte de uma suposta demanda do outro e do desejo de
satisfazê-la, inaugura o surgimento de uma outra
instância ideal, o ideal do ego, que comporta uma
imagem do objeto e uma imagem do eu, mantendo sua
relação com a libido.
Na constituição do ego há, portanto, elementos tanto do
ego ideal quanto do ideal do ego, devido a um
deslocamento da libido em relação ao narcisismo
primário, a partir do momento em que algo é imposto de
fora - este ‘fora’ aqui se refere a fora do imaginário,
refere-se à passagem da imagem para a ideia, mediada
pela linguagem.
EXERCÍCIO
Freud no texto Psicologia de Grupo e Análise de Ego
parte do fato fundamental de que o indivíduo num grupo
está sujeito, através da influência deste, ao que com
frequência constitui profunda alteração em sua atividade
menta l . Sua submissão à emoção to rna-se
extraordinariamente intensificada, enquanto que sua
capacidade intelectual é acentuadamente reduzida, com
ambos os processos evidentemente dirigindo-se para
uma aproximação com os outros indivíduos do grupo.
Este fato só pode ser alcançado devido:
A. A coerção apresentada pelo grupo; e a falta de
convicção das crenças de inclinações pessoais.
B. A resignação das expressões de inclinações
pessoais; e a remoção das inibições aos instintos
que são peculiares a cada indivíduo.
C. A valorização dos valores sociais em detrimento
dos valores peculiares de cada indivíduo.
D. A dificuldade de desenvolvimento psíquico; e à
necessidade de apoiar-se em um grupo para a
manutenção de sua existência.
E. A personalidade impulsiva; e um déficit
intelectual que não permite o controle dos impulsos.
Resposta B.
Sobre a identificação
Uma teoria da identificação, tal como a encontramos em
Freud, é um esforço conceitual para se compreender as
formações inconscientes constitutivas da vida do sujeito,
os conflitos que podem advir desta sua condição e em
que situações estas identificações podem desempenhar
um papel patológico.
No início de ‘A Identificação’ já encontramos uma
referência a esta operação como um mecanismo que
marca os primeiros passos da vida afetiva de um sujeito,
ela é um modo de pensamento constituinte da vida
psíquica e há uma importância particular no fato de estar
relacionada ao complexo de Édipo. A ênfase das
i n v e s t i g a ç õ e s d e v e r e c a i r m a i s s o b r e o s
modos como ela se processa nas diferentes formações
psíquicas, sem se prender na busca de suas causas.
A identificação da qual se trata em psicanálise refere-se
à situação em que o sujeito confunde-se com outra
pessoa, mas esta confusão não é percebida
conscientemente pelo sujeito, na medida em que não
tem o mesmo caráter de uma imitação ou de um
disfarce. Nestes casos - da imitação ou do disfarce -
sabe-se que se parece com um outro, mas isto não se
confunde com o que se é. No caso da identificação
propriamente dita - inconsciente - há um completo
desconhecimento por parte do sujeito de que se atribuiu
características de outro(s).
Estamos falando sobre as identificações de modo
bastante generalizado, no entanto, existem algumas
nuances que lhe são próprias, como por exemplo, se
estão referidas a identificações com objetos ou com
traços destes e que dizem respeito a modos
diferenciados de se estabelecer laços afetivos ao longo
do desenvolvimento da vida psíquica.
No desenvolvimento do conceito de identificação dentro
da teoria psicanalítica, desde Freud até seus
sucessores, distinguem-se principalmente três tipos de
identificação, a histérica, a primária e a secundária.A
identificação histérica, a primeira a ser delineada, é
aquela que se encontra mais visível no sintoma, isto
porque através das manifestações histéricas exprime-se
o elemento inconsciente a partir do qual ocorreu a
identificação e o sintoma funciona como uma defesa
contra os impulsos e fantasias sexuais que lhes são
correlatos.
A identificação primária é aquela que antecede, em
termos de estruturação do psiquismo, o estabelecimento
de relações de objeto, e está relacionada aos primeiros
investimentos no objeto, do qual o sujeito se torna
dependente. Ela está estreitamente ligada à fase oral de
incorporação, realçando aí a não diferenciação entre
sujeito e objeto. Assim como no narcisismo primário,
também cabe aqui ressaltar que é difícil conceber tal
modo de ligação como totalmente indiferenciado ou
anobjetal, mesmo sendo um momento em que não é
possível para o sujeito conceber que o objeto exista
independentemente dele.
Todas as outras identificações que se sobrepõem a esta
identificação primária e têm sua ocorrência posterior ao
estabelecimento de uma relação objetal, são chamadas
identificações secundárias. O que as diferencia
radicalmente é o fato de que na identificação primária
ocorre uma modalidade de ligação com o objeto que
supõe uma total alienação do sujeito neste, de tal forma
que a imagem de um deveria ilusoriamente corresponder
à imagem do outro. Na identificação secundária este tipo
de ligação é abandonado a partir das trocas com o meio,
nas quais o sujeito substitui a identificação e o desejo de
posse do objeto pela identificação com alguns traços do
objeto, que vão formando sua personalidade.
Um dos aspectos mais importantes das identificações,
que se manifesta essencialmente pelo desejo de ser
como o objeto, é a ambivalência. Há tanto intensos
sentimentos de amor e admiração pelo objeto, que
convergem para um ou outro traço deste, quanto há
desde o princípio uma boa dose de agressividade, na
medida em que, em certo sentido, identificar-se com
alguém ou com algo significa querer incorporar em si
mesmo este alguém ou algo, portanto destruí-lo ou
despojá- lo de seu lugar. Nos pr imórdios do
desenvolvimento psíquico, naquilo que é denominado
sua fase oral, as identificações são precedidas por este
desejo de incorporação, que é reconhecido como o
protótipo primitivo das identificações.
O palco onde estas representações mostram-se
evidentes é o das relações interpessoais, em que o
sujeito ao identificar-se com um objeto desaparece sob a
‘sombra’ deste, mas sem que possa, conscientemente,
aperceber-se disto.
A fase ou momento das primeiras identificações marca o
início de um processo que transcorrerá ao longo de toda
a vida, e que também estará ligado à formação dos
sintomas, através das sucessivas identificações que vão
sendo substituídas ao longo do tempo com maior ou
menor êxito; como situação exemplar teríamos a própria
formação e resolução do complexo de Édipo.
Neste processo, as identificações vão se sucedendo,
elas mesmas não se mantêm, mas algum traço é
mantido e quase poderíamos dizer que se trata de um
jogo, onde se alternam momentos em que ocorrem as
identificações e momentos em que algumas se
desfazem e, ao se desfazerem, vão dando origem à
própria constituição do ego.
EXERCÍCIO
Os povos primitivos acreditavam que ao devorar um
animal (ou um outro homem, no caso dos canibais)
incorporavam as características deste animal,
características essas almejadas por eles (força, bravura,
inteligência). Freud trará este exemplo para falar sobre
relações objetais e sobre um conceito fundamental da
psicanálise, a identificação. Sobre este tema, está
correto o que se afirma em:
I. A identificação com o mesmo sexo ou com o sexo
oposto é um elemento do complexo de Édipo. Ao
eleger um dos genitores como investimento objetal,
a criança, concomitantemente, identifica-se com o
outro.
II. A identificação é um processo de escolha de
objeto, que se realiza de modo consciente na vida
infantil do sujeito.
III. Poderíamos dizer que o processo de construção
do ego tem na identificação um dos seus pilares.
IV. Em casos normais o menino sempre se
identificará com o pai e a menina com a mãe. Em
casos de homossexualidade, vemos a identificação
ocorrer de modo invertido.
Identifique as alternativas e verifique a correta:
A. É correto o que se afirma em I, II e III.
B. É correto o que se afirma em III e IV.
C. É correto o que se afirma em II e III.
D. É correto o que se afirma em II, III e IV.
E. É correto o que se afirma em I e III.
Resposta E.