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Educação, Corpo e Movimento 2008 Ana Cristina Arantes Max Gunther Haetinger Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br © 2008 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Todos os direitos reservados. IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482 • Batel 80730-200 • Curitiba • PR www.iesde.com.br H136 Haetinger, Max Gunther; Arantes, Ana Cristina. / Educação, Corpo e Movimento. / Max Gunther Haetinger; Ana Cris- tina Arantes. — Curitiba : IESDE Brasil S.A. , 2008. 164 p. ISBN: 978-85-7638-928-6 1. Corpo e mente. 2. Educação – Métodos e técnicas. 3. Educa- ção moderna. 4. Movimento. 5. Psicologia. I. Título. II. Arantes, Ana Cristina. CDD 128.2 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Sumário Atividade física, Educação Física: conceitos e histórico .....................................................7 Movimentos iniciais .................................................................................................................................7 A divisão de função e os movimentos ....................................................................................................8 A Educação Física: conceito e história ...................................................................................................8 Por que entender, praticar e implementar os conteúdos da Educação Física? .........................................10 Bebês e humanidade: uma história paralela .........................................................................13 Movimento humano: aspectos introdutórios ...........................................................................................13 A ontogênese repete a filogênese: um pouco de história do corpo e de suas modificações ...................13 Definição do processo de crescimento humano ......................................................................................16 Definição sobre o processo de desenvolvimento humano ......................................................................16 Fatores intervenientes .............................................................................................................................17 Fundamentos do desenvolvimento motor ............................................................................21 Habilidades motoras básicas ...................................................................................................................23 O corpo e o movimentona Educação Infantil ......................................................................31 Fatores físicos das atividades motoras infantis ........................................................................................31 A criança da atualidade ............................................................................................................................36 Psicomotricidade .................................................................................................................41 Entendendo a Psicomotricidade ...............................................................................................................41 A dimensão multidisciplinar da Psicomotricidade ................................................................................45 Sedentarismo e incapacidade motora ......................................................................................................47 Fatores das atividadesmotoras infantis ................................................................................51 As múltiplas inteligências e o movimento ..............................................................................................51 Visão construtivista do desenvolvimento motor .....................................................................................56 A dança e a música na Educação Infantil ............................................................................61 A dança na escola ...................................................................................................................................61 A música no universo infantil .................................................................................................................64 Retomando a dança na escola ..................................................................................................................67 Recreação e lazer .................................................................................................................71 Recreação e lazer na Educação ...............................................................................................................71 A escola contemporânea ..........................................................................................................................75 O espaço físico para as atividades da Educação Infantil .........................................................................77 Criatividade e sua importância para a Educação .................................................................81 A criatividade e o brincar .........................................................................................................................81 Criatividade: a revolução na sala de aula ................................................................................................85 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A avaliação na Educação Infantil .........................................................................................91 Avaliação: um desafio à mudança ............................................................................................................91 Avaliação das habilidades motoras na infância .......................................................................................93 A função da escola e da Educação Física .............................................................................99 O sistema escolar brasileiro e as aulas de Educação Física para as séries iniciais ..................................100 Considerações sobre as aulas de Educação Física e os temas ou eixos transversais ...............................102 Possíveis blocos de conteúdos para as aulas de Educação Física ............................................................103 Características dos alunos da escolarização inicial e as aulas de Educação Física .............107 Alunos entre 6 e 10 anos de idade segundo a teoria piagetiana ...............................................................108 Objetivos da Educação Física para os alunos das primeiras séries da escolarização básica segundo os PCN (1997) ....................................................................................................................................... 110 Desenvolvimento do conhecimento e controle do corpo (esquema corporal) ........................................112 Os alunos do ensino fundamental e as aulas de Educação Física ........................................117 Características dos alunos ........................................................................................................................117 As aulas de Educação Física Escolar e o processo de inclusão e integração .......................125 As funções das agências de Educação Infantil ........................................................................................125 O atendimento segundo as classes sociais ou o que se deliberou para as crianças .................................125 Definição de gênero .................................................................................................................................128A co-educação nas aulas de Educação Física ..........................................................................................129 Sugestões e orientações para a elaboração de programas ou atividades destinadas às crianças .............134 A Educação Física e a interdisciplinaridade ........................................................................137 A visão legal acerca do componente curricular Educação Física ............................................................137 O movimento é o início de tudo ..............................................................................................................137 A questão do movimento e a sua relação com a construção dos conceitos ............................................138 As sensações, a motricidade e a formação de conceitos ..........................................................................139 Dos primeiros passinhos ao jogo e ao esporte ........................................................................................140 O significado do movimento para os idosos: uma prática cuja idéia se inicia na escola .........................140 Movimento e cultura ................................................................................................................................141 A nova Educação Física: participante do Projeto Escolar .......................................................................141 Avaliação: definição, importância, interfaces e outras considerações .................................147 Ação docente e a avaliação ......................................................................................................................148 Abordagens ou correntes pedagógicas aplicáveis às aulas de Educação Física .....................................148 Referências ...........................................................................................................................159 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Apresentação Oi, amigos e colegas! H oje, iniciamos uma nova caminhada. Nossa meta é a compreensão do desenvolvimento motor infantil e do modo como ele contribui para o desenvolvimento integral da criança. Vamos estudar conceitos, realizar atividades e agregar nossas experiências de magistério para que juntos possamos explorar o universo da criança e do movimento. A cada passo de nosso percurso, aprofundaremos o tema por meio de textos específicos e práticas em grupo. Também vamos abordar alguns assuntos relacionados à educação escolar na in- fância. Estaremos sempre buscando entender que a sala de aula transcende o educar e representa um prolongamento do lar das crianças, sendo uma experiência decisiva para o desenvolvimento de meninos e meninas. Como educadores, precisamos ter em mente que a aprendizagem está fundamentada em um processo de troca no qual todos os agentes da Educação (professores, alunos, funcionários, pais e comunidade) devem compartilhar seus conhecimentos sem preconceitos, nem pré-conceitos, estabe- lecendo uma “avenida de duas mãos”, destacada por Paulo Freire como a essência do ato de educar. Assim, aprendemos e ensinamos ao mesmo tempo. Portanto, vamos compartilhar nossos saberes e nos entregar à aventura de uma educação interativa, que promove a integração, o conhecimento, o brincar e a alegria em todos os cantos da sala de aula. Procurem aproveitar o máximo as experiências proporcionadas por nossa disciplina, pois elas representam uma grande oportunidade para vocês construírem novos conhecimentos. Como diz Ed- gar Morin, o aprender constante é um meio de percebermos os problemas do complexo mundo em que vivemos. Ana Cristina Arantes Max Gunther Haetinger Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Atividade física, Educação Física: conceitos e histórico Ana Cristina Arantes* O movimento é uma característica dos seres humanos vivos. Entretanto, ele pode ser estudado e compreendido sob vários aspectos que se relacionam, favore- cendo seu entendimento de maneira articulada. Historicamente falando, o movimento é considerado como uma atividade humana muito importante e tem recebido a atenção de estudiosos das mais di- ferentes áreas do conhecimento: medicina, antropologia, educação física, entre outras. Praticado e investigado pelo homem desde as primeiras civilizações, o movimento tem por fim último a sobrevivência – pessoal e da espécie humana. Movimentos iniciais Nos primórdios da civilização o homem era nômade. Caminhava pelos campos em busca de alimento e de um lugar melhor para se instalar, visando à proteção para seu clã. O movimento ou a atividade física exercida por ele consistia na caça, na pesca, na obtenção de alimentos disponíveis nas árvores, uma vez que era, em princípio, um ser extrativista. Naquela época – é interessante que se esclareça – não havia divisão de fun- ções tal como conhecemos hoje. Entretanto, sabe-se que à medida que o grupo se desenvolvia os homens assumiram funções externas, tornando-se responsáveis por trazer a caça e a pesca para os seus. À mulher coube, além do plantio das sementes (feito nas proximidades da moradia), a organização do espaço interno, a confecção do vestuário, o preparo dos alimentos e o cuidado com a prole. Pouco a pouco, a organização humana foi sendo ampliada, gerando muitas outras funções. Quando o ser humano deixou de ser nômade e criou vínculo com o lugar em que vivia, passou a defendê-lo de outros clãs. A partir dessa situação, surgiram os guerreiros, cuja atribuição era a de lutar e defender seu núcleo. Por isso havia a necessidade de sempre estarem fisicamente preparados para os eventuais ataques de outros grupos. Havia, portanto os que caçavam e pescavam; as mulheres que cuidavam da casa e das crianças; os guerreiros protegiam o núcleo humano; e havia o sacerdo- te, pagé ou xamã, cuja função era a de aconselhar, orar, cumprir e orientar rituais para as diferentes necessidades do grupo, as celebrações da vida e da morte, da semeadura e da colheita, pedidos e invocações para todas as urgências dos ho- mens. Muitas vezes, essas celebrações, pedidos e invocações eram praticados sob Doutora em Histór ia e Fi losofia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Mes - t re em Educação Fís ica pela USP. Pedagoga e especial is ta em Admi- nis t ração e Supervisão Escolar (FFCL-Tibir içá , SP) . Licenciada em Edu - cação Fís ica pela USP. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 8 a forma de dança individual e coletiva. Infere-se então que o movimento – ativi- dade física – está envolvido em todas as práticas humanas. Seja na caça, na pesca, na construção do abrigo, nas atividades caseiras como semear, fazer a panela de barro, preparar o alimento e as infusões, costurar as roupas, defender o território (o vigor físico decorrente da prática da atividade física mais intensa favorecia a vitória) e dançar reverenciando os deuses. Tudo indica que essa ampliação de funções gerava um significativo aumento das demandas, aumentando as necessidades e criando novos produtos para o seu sustento. E por certo isso favoreceu o aumento do acervo cultural humano. A divisão de função e os movimentos A fixação dos grupos humanos na terra fez com que surgisse a agricultura planejada. Assim, o ser humano passou a planificá-la tendo em vista as caracte- rísticas das estações do ano; estabeleceu o tempo de colheita e armazenamento das sementes, e para essa tarefa tratou de domesticaros animais, que passaram a executar os serviços pesados. Ao mesmo tempo, ocorria o aprimoramento das habilidades físicas para otimização dos gestos cotidianos, ou ainda para a cons- trução de vários objetos e ferramentas. Com o aumento do acervo cotidiano, também aumentaram as situações de expressão corporal mais específicas. Vale ressaltar que o ser humano também possuía, desde o início, um tempo dedicado ao trabalho e outro – por certo menor, mas não menos importante – para seu descanso e recreação, tendo como estraté- gia as danças e os rudimentos dos jogos. Portanto, a atividade física e o movimento passaram a apresentar formas va- riadas, possuindo também objetivos específicos. Importante salientar que embora houvesse intencionalidade no gesto, na ação física, essas atividades não podem ainda ser consideradas como Educação Física. A Educação Física: conceito e história A gênese do movimento e sua relação com a cultura O movimento corporal humano é uma necessidade instintiva, que busca solu- cionar um problema. Pode representar também uma prática que se adapta perma- nentemente, uma vez que o homem sofre influência da seleção natural, da herança genética, dos fatores ligados ao processo biológico e da própria evolução cultural. Em poucas palavras, ao longo do tempo o ser humano passou por processos de ajuste e adaptação para que se chegasse àquilo que somos e como nos movi- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Atividade física, educação física: conceitos e histórico 9 mentamos na atualidade. Se pensarmos que somos um produto histórico, muitos dos nossos gestos foram refinados ao longo do tempo, podendo dizer que esses gestos podem ser entendidos como um traço cultural que varia de acordo com o grupo social. A atividade física e a macroestrutura Nos primórdios, além do sentido utilitário do movimento, a atividade física também podia ser entendida como uma linguagem, uma vez que expressava e comunicava uma idéia ou um sentimento humano. Assim, progressivamente, foi se adequando de maneira a tornar-se ao mesmo tempo um poderoso instrumento de expressão e um eficiente, eficaz e econômico meio de construção de inúmeros artefatos, entre outros fins. Valendo-se da utilização e da observação cotidiana, o movimento humano foi paulatinamente alterado e ampliado, tendo finalidades mais complexas. Assim sendo, estabeleceu-se alguns princípios e critérios para a sua execução. Propósitos do movimento humano: idéias iniciais Historicamente, no tocante da intenção, pode-se afirmar que o movimento foi gradualmente se caracterizando por uma prática com vários objetivos, válidos inclusive para os dias atuais: visa ao bem-estar, a prevenção de doenças, a manutenção da saúde; prepara o indivíduo para disputas; e desenvolve aptidão física específica para determinados fins, como a guerra. Quanto a sua nomenclatura (atividade física ou Educação Física), o movi- mento apresenta importante distinção. Pode-se afirmar que é a partir da elaboração e da divulgação das escolas ou dos cinco métodos ginásticos europeus, a partir de 1800 (LANGLADE; LAN- GLADE, 1970, p. 23), que o conhecimento acumulado desde a Grécia antiga foi revisto, ampliado e analisado, por assim dizer, formando a essência desta impor- tante área de conhecimento, de pesquisa e de prática profissional. A Educação Física atual se fundamenta nos estudos da filosofia, da psicolo- gia, da sociologia e da fisiologia, além dos aspectos didático-pedagógicos propria- mente ditos (FONSECA, 1987, p. 12). Portanto, para o professor que irá orientar um adequado programa para seus alunos, ou uma pessoa que deseja praticar exer- cícios físicos com segurança, é indispensável observar, informar-se, conhecer e estudar os tópicos de filosofia, psicologia, sociologia e fisiologia demandados pela área da atividade física e da Educação Física. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 10 Por que entender, praticar e implementar os conteúdos da Educação Física? A prática saudável dos exercícios físicos pode levá-lo ao bem-estar e ao prazer. Se você até agora não pensou na contribuição que eles podem oferecer para você e seus alunos viverem melhor e com mais saúde, pense nos aspectos abaixo. As profundas mudanças no sistema de vida, o aumento das horas de tra- balho sobre as atividades de lazer, as atribulações cotidianas e o excesso de preocupações da vida moderna nos tornam pessoas mais sobrecarre- gadas (física e psiquicamente), apresentando a cada dia questões mais complexas e de mais difícil solução. A especialização no trabalho faz com que todos nós pratiquemos tarefas quase sempre na mesma posição (em pé ou sentados) e quase sempre utilizando os mesmos grupos musculares, causando dores, encurtamento dos grupos musculares, degenerações e alterações posturais muito des- confortáveis. Em muitos casos, passamos muitas horas em situações de confinamento, fechados em salas, em frente a computadores, aparelhos eletrônicos ou eletrodomésticos; dentro de casa ou do apartamento; em apertadas cadei- ras ou em transportes coletivos superlotados; dentro de automóveis; em ruas de trânsito congestionado. Enfim, estamos quase sempre enfrentando situações semelhantes às de uma punição imposta ou de grande imo- bilidade, o que pode gerar significativos conflitos internos, insatisfação e inquietação pessoal e coletiva – sempre crescentes. Então, a prática de exercícios físicos faz bem, traz uma compensação que chamamos de catarse, que pode servir como uma forma de equilíbrio diante das ten- sões do mundo atual. Assim, esses exercícios físicos podem ser pratica- dos sob a forma de ginástica, da capoeira e dos esportes individuais e coletivos, para aqueles que gostam de competir. Por certo, um corpo saudável facilita a nossa aproximação com as outras pessoas, em termos de estética, do juízo do bom e do belo – afinal, o corpo se expressa e possui uma linguagem própria, que deve ser entendida e respeitada. Os exercícios físicos podem possuir o sentido de uma prática compensató- ria para os desvios posturais, para os períodos de crescimento físico, gra- videz, convalescença, contribuindo para a longevidade de seu praticante. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Atividade física, educação física: conceitos e histórico 11 A escola dos animais (REAVIS, 1995) Certa vez, os animais decidiram que deveriam fazer algo heróico para resolver os problemas de “um novo mundo”. Assim, organizaram uma escola. Adotaram um currículo de atividades que compreendia corrida, alpinismo, natação e vôo. Para ministrar o currículo mais facilmente, todos os animais teriam todas as matérias. O pato era excelente em natação, na verdade era até melhor que o seu instrutor, mas teve apenas notas satisfatórias em vôo e era bem ruim na corrida. Como era lento na corrida, precisou treinar depois das aulas e também abandonar a natação para praticar corrida. Continuou fazendo isso até seus pés palmados ficarem gravemente feridos e passou a ter um aproveitamento apenas regular em natação. Mas como regular era aceitável na escola, ninguém se preocupou com isso, a não ser o próprio pato. O coelho começou como o melhor da classe em corrida, mas teve um colapso nervoso por causa de tantos treinos de natação. O esquilo era excelente em alpinismo até ficar frustrado com seu aproveitamento nas aulas de vôo, quando sua professora mandou que partisse do chão para cima, e não do topo da árvore para baixo. Além disso, desenvolveu cãibras devido a uma estafa e então tirou um C em alpinismo e um D emcorrida. A águia era uma criança problema e foi severamente disciplinada. Na aula de alpinismo, ven- ceu todos os outros em direção ao topo da árvore, mas insistiu em utilizar seu próprio caminho para chegar lá. Ao final do ano, uma excepcional enguia que sabia nadar extremamente bem, além de correr, subir e voar um pouco, obteve a melhor média e foi a melhor da turma. As marmotas ficaram fora da escola e protestaram contra as mensalidades, porque a admi- nistração não quis incluir escavação e construção de tocas no currículo. Matricularam seus filhos como aprendizes de um texugo e mais tarde juntaram-se aos porcos-da-terra e aos geômios para fundarem uma bem-sucedida escola particular. Qual a moral da estória? Platão, grande filósofo grego, sobre a educação das crianças, recomendava “Música para a alma e ginástica para o corpo”. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 12 1. Você já havia pensado sobre a história do movimento humano, como ele foi utilizado e quais as transformações por que passou ao longo da história? Comente. 2. Você agora está convencido que a prática da Educação Física é muito importante e que para favorecer a sua compreensão é necessário conhecimento sobre seu conteúdo? Comente sua res- posta. OLIVEIRA, Vitor Marinho de. O que é Educação Física. São Paulo: Brasiliense, 1989. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Bebês e humanidade: uma história paralela Ana Cristina Arantes Movimento humano: aspectos introdutórios Sabe-se que somos um ótimo exemplo de um extenso processo de ajuste e evolução permanente iniciado há milhares de anos. Hoje, podemos nos sentir orgulhosos com a nossa evolução biológica e espiritual, e também com todo o acervo cultural que, ao longo do tempo, criamos e utilizamos tanto na nossa vida recreativa e anímica como para resolver os nossos problemas cotidianos. Entretanto, esse longo processo de adequação biológica, psíquica e social foi acompanhado por importantes alterações corporais que são, em escala menor, repetidas por todo ser humano desde o seu nascimento. A ontogênese repete a filogênese: um pouco de história do corpo e de suas modificações O ser humano, à semelhança de um animal quadrúpede, apoiava seu corpo em quatro pontos: duas pernas e dois braços igualmente desenvolvidos. A sua coluna vertebral possuía pequenas curvas, a sua cabeça era sempre voltada para o chão, para que os seus olhos observassem principalmente os objetos do solo. Com o passar do tempo, o homem tornou-se um ser que se apóia em apenas dois pés e essa posição impôs a seu corpo modificações que são muito importantes e repercutiram inclusive na sua relação com o mundo. Quando o homem assumiu a posição bípede, a força da musculatura dos seus membros inferio- res aumentou, para ele se sustentar sobre duas pernas. A sua coluna precisou alterar-se, passando paulatinamente a apresentar o que hoje denomi- namos curvaturas secundárias: curvatura cervical, dorsal, lombar e a sacroilíaca. Essas curvaturas possibilitaram uma significativa mobilidade para as tarefas de sobrevivência, tais como as longas caminhadas, as corridas, os saltos e as atividades aquáticas – todas com caráter de sobrevivência pessoal e da espécie. As adaptações da coluna vertebral também favoreceram o distanciamento da crista ilíaca, de modo que fosse obtido um melhor equilíbrio na posição vertical. A liberação dos membros superiores para outras e novas funções fez com que as mãos se tornassem instrumentos para a colheita e para a caça, auxiliando também a escalada do homem nas árvores e nos planos mais altos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 14 Ao elevarem-se os braços para atirar objetos, recolher plantas, dependurar- se, ampliaram a visão periférica e a visão macular (visão discriminativa ou pon- tual, centrada em um foco), muito necessária em atividades finas como a escrita e a costura. As mãos, por sua vez, foram redesenhadas com o polegar opositor, o que permitiu a execução do movimento de pinça, favorecendo a preensão, a constru- ção e a obtenção de objetos muito pequenos. Cabe lembrar que há um grande refinamento de gesto e da coordenação olhos-mãos, favorecendo uma exata focalização do objeto – o que, por sua vez, contribui para o aumento da habilidade para lançar, tecer e costurar, por exemplo. Nesta descrição do processo evolutivo humano, também é preciso registrar que ocorreu o distanciamento entre os olhos, modificação que favoreceu a am- pliação da área de observação do ambiente – a chamada visão periférica, muito importante para a tomada de posição, para o controle do território, por exemplo. Tanto a visão macular quanto a visão periférica foram aprimoradas gradu- almente. O processo de crescimento dos bebês: uma história paralela Você já parou para pensar no processo de crescimento de um bebê? Um bebê recém-nascido apresenta uma curvatura chamada cifose inicial. Assim como a humanidade as curvaturas secundárias as curvaturas cervical, dor- sal, lombar e sacroilíaca aparecerão à medida que o bebê cresce e inicia o seu deslocamento pelo espaço. Partindo da posição de decúbito ventral (barriga para baixo) ele gradativamente arrasta-se pelo quarto, explorando tudo a sua volta. Em pouco tempo a musculatura de suas pernas já está fortalecida, favorecendo a am- pliação de horizontes por meio da quadrupedia. Essa posição possibilita o apare- cimento da curvatura secundária, assim como uma melhor visão do mundo a sua volta, enquanto os músculos do pescoço também se fortalecem ao sustentarem a cabeça e os olhos tudo percebem. Em poucos meses, a criança senta-se e põe-se de pé com ajuda. Esse processo termina quando ela experimenta a marcha inicial efetuada com os braços lateralmente, o que proporciona o equilíbrio necessário para uma locomoção ainda muito rudimentar (cf. GESELL, 1942). Quanto ao processo de comunicação, a linguagem utilizada pelo bebê nos primeiros meses de vida é a não-verbal, a dos movimentos reflexos, que, por sua natureza, não necessitam de alta organização metal ou aprendizado. Por movimentos reflexos entendem-se aqueles como o de agarrar um objeto (reflexo palmar); quando o bebê crispa os dedos ao perceber-se tocado na planta dos seus pés (reflexo plantar); ou o movimento de sugar realizado pela boca (utili- zado para mamar o leite). Esses são alguns exemplos de respostas não aprendidas e que muitas vezes aparecem em situações de desconforto ou de sede, de fome ou dor, pois a linguagem articulada e inteligível ainda não está desenvolvida. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Bebês e humanidade: uma história paralela 15 Esses movimentos corporais são, em última análise, uma forma de comuni- cação e de expressão que a criança recém-nascida estabelece com o mundo. Os movimentos reflexos são manifestações humanas que, embora muito ru- dimentares, evidenciam ao outro as sensações, comunicam algo que o bebê está sentindo e, por conseqüência, favorece o pronto atendimento por parte dos entes queridos. Como comunicação com o mundo externo, o bebê pode ainda simular um pequeno sorriso quando percebe uma figura familiar, como a mãe, pois desde mui- to pequeno a reconhece pelo olfato e pelo tom de voz. Paulatinamente, o cérebro e o aparelho fonador deixam os sons guturais (assim como fez o homem primitivo) e passam a processar e repetir os sons produzidos pelo meio. Entre dois e quatro anos de idade, afirma Wadsworth (1989), a criança aumenta significativamentea linguagem falada: os balbucios dão lugar às primeiras palavras. As crianças imitam os sons dos animais ou dos objetos que estão à sua vol- ta: au-au, miau, fon-fon e piuiiiiii. As palavras proferidas virão como resposta de um aprendizado baseado na imitação e, conforme o meio cultural em que se vive, serão em maior ou menor quantidade. No tocante ao processo de aprimoramento dos gestos que envolvem a co- ordenação olhos-mãos ou óculo-manual, recrutada por exemplo para a escrita, o movimento de pinça – com o polegar opositor – vai se aperfeiçoando à medida que as estruturas físicas e o processo de amadurecimento neuromotor se ampliam. Concomitantemente, ocorre o fortalecimento da coordenação próximo-dis- tal (da região peitoral para as mãos) propriamente dita, que também é influenciada pela prática e pela exaustiva repetição ou o jogo do exercício (ARANTES, 1996). Essa movimentação se refina gradualmente e o gesto, que é guiado sobretudo pela imensa necessidade de conhecer, de explorar e de varrer o mundo a sua volta, amplia-se. Esta fase do processo de crescimento e desenvolvimento humano possui a missão de favorecer o reconhecimento do ambiente e recolher a maior quantidade de informações concretas do meio circundante (WADSWORTH, 1989). Quanto à formação de conceitos, o processo humano de obtenção de infor- mação passou por situação semelhante àquela da criança na primeira infância. Nos primórdios da civilização a compreensão dos fatos e o estabelecimento de causa e efeito eram carregados de significação anímica: tal como a criança pe- quena o faz, o ser humano atribuía os fatos a fatores externos, figuras mitológicas e mágicas assentadas sobre uma lógica muito particular que desaparece quando crescemos. O processo de crescimento está intimamente relacionado ao processo de desenvolvimento humano. Entretanto, embora sejam interdependentes não devem ser entendidos como sinônimos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 16 Definição do processo de crescimento humano O processo de crescimento representa algo diretamente mensurável: o au- mento do peso e da estatura de uma pessoa. Essa alteração pode ser vista a olho nu, pois mesmo sem a utilização de instrumento sabemos que uma criança cresceu (aumentou seu tamanho) ou engordou (aumentou sua massa corporal) valendo-nos apenas da observação cotidiana. Cabe aqui a ressalva de que esse aumento da massa corporal pode se dar por duas maneiras: pelo aumento do número de células; pelo aumento do tamanho das células – gerando o peso excessivo, por exemplo. A compleição física pode ser definida como a quantidade de massa corporal distribuída pela estatura. Observa-se que, muitas vezes, uma pessoa tem o mesmo peso e a mesma estatura que outra e, no entanto, a massa se distribui de forma diferente, dando a falsa impressão que a primeira é mais magra que a segunda ou vice-versa (ARANTES, 1990, p. 3). Definição sobre o processo de desenvolvimento humano O processo de desenvolvimento humano está ligado a aspectos indiretamen- te mensuráveis, tais como os intelectuais e os de ordem socioafetiva. Em ambos os casos, será indispensável criar instrumentos de medida que nos ofereçam indicati- vo de que houve alteração de entendimento ou de comportamento. Fazem parte desse conjunto as provas, testes, fichas de observação, análise objetiva do comportamento, chamadas orais, provas escritas, trabalhos em grupo etc. O processo de crescimento e o processo de desenvolvimento são interde- pendentes e se apóiam mutuamente, favorecendo o desenvolvimento integral do indivíduo. Esse fato se dá principalmente nos dois primeiros anos de vida ou no período sensório-motor (WADSWORTH, 1989), cuja tônica é a da sensação, a da impressão que o corpo oferece pelos órgãos dos sentidos. Nos dois primeiros anos de vida, a criança recolhe informações do meio e as leva ao cérebro, gerando dados e conhecimento sobre o mundo físico – em uma progressão infindável. Esse desejável processo dá à criança a enorme pos- sibilidade de pertencer ao grupo dos indivíduos que não apresentam necessidades especiais. O contrário também ocorre e é importante ressaltar que, se uma criança nasce destituída dos órgãos dos sentidos, se não é capaz ou não se movimenta, por Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Bebês e humanidade: uma história paralela 17 certo deixa de recolher as informações do meio em que vive e certamente sofrerá ausência de repertório para expressar e comunicar as suas idéias, podendo ser entendida como uma pessoa imatura ou ainda deficiente, carecendo de assistência profissional diferenciada. Assim, na medida em que o movimento é um importante instrumento de cres- cimento físico e desenvolvimento cognitivo e afetivo, conter a criança, não deixá-la brincar pode dificultar o bom desenvolvimento global do ser humano em formação, o que irá se refletir negativamente nas aulas e nas tarefas que preparamos. Fatores intervenientes Atualmente, sabemos que somos fruto da hereditariedade1 que determina o nosso fenótipo: cor dos olhos, cor do cabelo, estatura, peso, compleição física, e nascemos com a capacidade de realizar certas tarefas descritas por Froebel como “dons”, tais como sermos capazes de aprender a ler e escrever, de observar a na- tureza, cuidar de nosso corpo e desenvolver as habilidades manuais (ARANTES, 1997, p. 116; ARANTES et al., 2001). Um segundo fator é representado pelo meio ambiente que nos molda, muitas vezes agindo de maneira positiva ou negativa, ampliando ou inibindo as nossas capacidades, transformando-as em habilidades (MAGILL, 2000). Quanto ao patrimônio genético, não podemos intervir, mas como educa- dores talvez possamos alterar alguns aspectos da vida de nossos alunos para que ocorram mudanças que os auxiliem a compreender os saberes escolares. Aqui os fatores intervenientes não são provenientes da herança genética. Assim postulando, todas as condições não hereditárias, aquelas ligadas ou de- pendentes do nível socioeconômico e a tudo que for “externo” ao sujeito, estão inseridas nos fatores do meio ambiente. Meio socioeconômico: quando a família possui condições, seus filhos dor- mem em quartos ventilados e limpos, a água servida é tratada, filtrada e fervida, evitando a contaminação por doenças. A família com condições econômicas fa- voráveis alimenta seus entes de forma equilibrada, com carne (alimento plástico responsável pelo crescimento e a reparação de células), vegetais (legumes e verdu- ras); oferece condições para o desfrute das horas de estudo, de trabalho, ocupação e de lazer (importante elemento de descarga psíquica), dando oportunidade para prática de atividade física (elemento de autotestagem, autoconhecimento, sociali- zação e formação de conceitos do mundo concreto). Uma família interessada em um bom e adequado processo de crescimento e de desenvolvimento de seus filhos também deve nutrir seus familiares com afeto e segurança espiritual, fazendo com que todos se sintam acolhidos por um ben- querer recíproco. 1 Hereditariedade: herança genética dos nossos ante- passados. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 18 A relação entre aspectos de hereditariedade e meio ambiente e as aulas de Educação Física: considerações importantes Com esta formação e expectativa a criança chega à escola de Educação Infantil e posteriormente ao Ensino Fundamental por volta de seis/sete anos de idade. Cabe ao docente conhecer a história pregressa das crianças e, na condição de herdeiro do pai (GUSDORF, 1970), darcontinuidade ao processo de educação, iniciando formalmente a escolarização dos estudantes sob a sua responsabilidade. A criança que chega à escola possui uma história de vida e a cultura da comuni- dade, e esses aspectos devem ser conhecidos e avaliados em nome de uma apren- dizagem adequada e significativa, tanto para docentes como para estudantes, in- clusive nas aulas de Educação Física, nas quais as experiências anteriores servem como importantes dados para a estruturação dos programas futuros. Rousseau, sobre a educação das crianças: “Cultivai a inteligência de vossos alunos, mas cultivai antes de tudo seu físico porque é ele que vai orientar o desenvolvimento intelectual: fazei primeiro vosso aluno são e forte para vê-lo inteligente e sábio.” Reúna seus colegas e procure responder as questões propostas. 1. Por que as adaptações corporais foram necessárias para o desenvolvimento humano? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Bebês e humanidade: uma história paralela 19 2. O que o movimento de pinça favorece e amplia? Cite dois exemplos. 3. Qual é a relação entre as adaptações pelas quais a humanidade passou e o processo de desenvol- vimento do bebê? TANI, Go et al. Educação Física Escolar: uma abordagem desenvolvimentista. São Paulo: Edusp, 1980. OLIVEIRA, Vitor Marinho de. Educação Física Humanista. Rio de Janeiro: Livro Técnico, 1985. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 20 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Fundamentos do desenvolvimento motor Max Gunther Haetinger* A primeira linguagem que a criança compreende é a linguagem do corpo, a linguagem da ação. Jean Piaget O corpo e o movimento são elementos relevantes para a socialização e a aprendizagem das crianças, desde seus primeiros anos de vida. O desen-volvimento motor infantil está vinculado ao corpo, ao movimento e ao desenvolvimento integral do homem, podendo ser observado a partir das interações entre nossa biologia, nosso comportamento, as tarefas que realizamos e as condições do ambiente em que vivemos. Essas idéias talvez pareçam óbvias, mas no passado o estudo do desenvolvi- mento motor funda men tou-se nos processos cognitivos e afetivos do ser humano. Diversos autores e educadores enfatizavam somente as dimensões cognitiva e afetiva da aprendizagem. Nos anos 1970, as pesquisas voltadas para o desenvolvimento motor passaram a considerar as atividades físicas, abarcando diferentes áreas do conhecimento, como a fisiologia do exercício, a biomecânica, a psicologia desenvolvimentista e social, a aprendizagem e o controle motor. No entanto, o desenvolvimento motor foi aborda- do a partir de modelos que separavam o corpo humano de sua afetividade e de sua cognição. Atualmente, entendemos o desenvolvimento motor como um processo dinâmi- co que se concretiza ao longo de nossa vida, uma ecologia que relaciona o indivíduo, suas ações e seu ambiente, como no quadro a seguir. (G A L L A H U E ; O Z M U N , 20 01 , p . 6 ) Individual Hereditariedade Biologia Natureza Crença Fatores intrínsecos Ambiente Experiência Aprendizado Encorajamento Vivências Tarefa Fatores físicos e mecânicos * Doutor em Informá-tica na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Educação pela American World Universiy - Esta- dos Unidos. Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Candido Mendes e em Informá- tica na Educação pela UFRGS. Graduado em Educação Física pela UFRGS. As aulas do professor Max tiveram como colaboradores os professores Daniela Ha- etinger e Luis Lucini. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 22 Outro fator importante para a abordagem do desenvolvimento motor é a clas- sificação das fases da vida humana, pois as habilidades motoras estão associadas à idade dos indivíduos. Segundo Gallahue e Ozmun (2001), existe uma correspondên- cia entre o período da vida e a idade cronológica, o que é destacado pelos autores no quadro abaixo. Período Idade aproximada (G A L L A H U E ; O Z M U N , 2 00 1, p . 1 5) 1. Vida pré-natal a) período de zigoto b) período embrionário c) período fetal (concepção ao nascimento) concepção – 1 semana 2 semanas – 8 semanas 8 semanas – nascimento 2. Primeira infância a) período neonatal b) início da infância c) infância posterior (nascimento aos 24 meses) nascimento – 1 mês 1 – 12 meses 12 – 24 meses 3. Infância a) período de aprendizado b) infância precoce c) infância intermediária/avançada (2 – 10 anos) 24 – 36 meses 3 –5 anos 6 – 10 anos 4. Adolescência a) pré-pubescência b) pós-pubescência (10 – 20 anos) 10 – 12 anos (f); 11 – 13 anos (m) 12 – 18 anos (f); 14 – 20 anos (m) 5. Idade adulta jovem a) período de aprendizado b) período de fixação (20 – 40 anos) 20 – 30 anos 30 – 40 anos 6. Meia-idade a) transição para a meia-idade b) meia-idade (40 – 60 anos) 40 – 45 anos 45 – 60 anos 7. Idade terciária a) início da terceira idade b) período intermediário da terceira idade c) sensibilidade (a partir dos 60 anos) 60 – 70 anos 70 – 80 anos a partir dos 80 anos O desenvolvimento motor pode ser tratado pelos educadores e pesquisadores como um processo ou um produto. Como produto, ele é visto apenas sob a perspectiva do desempenho das habilidades motoras do sujeito. Mas visto sob uma óptica mais am- pla, como um processo, ele é definido pela observação das aptidões humanas ( relações entre o homem, seu ambiente, seu comportamento e suas habilidades motoras). Esta última abordagem abrange, então, o desenvolvimento integral do indivíduo. O desenvolvimento motor é uma alteração contínua do comportamento motor ao longo do ciclo da vida. Pode ser estudado tanto como processo quanto como produto. Como um pro- cesso, o desenvolvimento motor envolve as necessidades biológicas subjacentes, ambien- tais e ocupacionais, que influenciam o desenvolvimento motor e as habilidades motoras do indivíduo desde o período neonatal até a velhice. Como produto, o desenvolvimento motor pode ser considerado como descritivo ou normativo, sendo analisado por fases (período ne- onatal, infância, adolescência e idade adulta), que refletem o real interesse do pesquisador. (GALLAHUE; OZMUN, 2001, p. 22) Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Fundamentos do desenvolvimento motor 23 Ainda abordando conceitos básicos para o estudo do desenvolvimento motor in fantil, destacamos alguns termos que precisam estar esclarecidos antes de avançar- mos no assunto. Motor: aspectos biológicos e mecânicos que propiciam e influenciam os movimentos. Aprendizado motor: variações do comportamento motor em função das ex- periências vividas pelo indivíduo. Comportamento motor: expressão do desenvolvimento e do aprendizado motor. Abrange a aprendizagem motora e os processos maturacionais do indivíduo. Controle motor: observação e análise dos mecanismos responsáveis pelo movimento. Desenvolvimento motor: variações do comportamento motor que ocorrem ao longo da vida, conforme as relações entre indivíduo, ambiente e tarefas. Habilidade motora: padrão de movimento baseado na precisão, no controle e na acuidade do indivíduo. Habilidades esportivas: habilidades motoras específicas, utilizadas para a prática de um esporte.Movimento: alteração na(s) posição(ões) de quaisquer partes do corpo. Padrão de movimento: série de movimentos correlacionados. Habilidades motoras básicas O corpo é o meio para se conhecer a realidade. Platão Quando observamos os adultos praticando um esporte, dançando ou cami- nhando, podemos fazer comentários como: “Olha como ele dança fora do ritmo”, “O João não consegue nem chutar a bola em movimento”, “Veja como ela caminha desajeitada.” Essas frases representam uma forma popular de análise das habilidades motoras demonstradas em inúmeros atos cotidianos. Estamos constantemente expressando nossas habilidades motoras, adquirindo novas habilidades ou retomando algumas aprendidas durante a infância. Por isso, um amplo desenvolvimento motor na infância acaba qualificando o comportamento motor do adulto e até mesmo influenciando a sua vida social. Na Educação Infantil, devemos nos preocupar em colaborar para o desenvolvi- mento de três habilidades motoras fundamentais. Locomoção – quando a criança explora os potenciais motores de seu corpo, movimentando-se em relação aos espaços onde se encontra. Estabilidade – é a batalha travada diariamente contra a força da gravidade. Essa habilidade dá maior controle sobre a musculatura e permite que o indi- víduo fique em pé, contrariando a força da gravidade. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 24 Manipulação – engloba a progressão dos atos de alcançar, segurar e soltar objetos, até que a criança atinja maior controle e precisão na manipulação de objetos da vida cotidiana. Habilidades básicas como correr, pular, arremessar, apanhar e chutar são adquiridas na infância e determinarão as habilidades esportivas e a execução de tantas outras tarefas na adolescência, na idade adulta e na terceira idade. O domínio das habilidades motoras é um fator fundamental no desenvolvimento da criança e na vida adulta. Portanto, desde os primeiros anos de vida, é preciso explorar as habili- dades motoras. O educador infantil tem um papel de destaque nesse processo. Ele deve propiciar o ambiente e os estímulos necessários para que a criança desenvolva seus potenciais motores. Vejamos então, detalhadamente, as habilidades motoras básicas e seus res- pectivos padrões de movimento. Assim, fica mais fácil identificar e entender as ações motoras realizadas por crianças de seis meses a seis anos. Esses padrões são classifi cados para fins de estudo e análise, indicando-se a idade aproximada em que acontecem. No entanto, esse parâmetro da idade serve apenas como uma indicação e não como regra – afinal, cada pessoa tem um ritmo de desenvolvimento. Habilidades de estabilidade A habilidade de estabilidade é expressa por três padrões de movimento. Movimentos axiais – são os movimentos como inclinação, alongamento, giros, rotações, entre outros, que a criança executa a partir da postura cor- poral estática. Esses movimentos evoluem a partir dos dois meses de idade e, posteriormente, influenciam os padrões de movimentos manipula tivos como lançar, aparar, chutar e bater. Equilíbrio estático – engloba ações corporais de equilíbrio. A criança co- meça a apresentar essa habilidade a partir dos dez meses, ao ficar em pé. Também se manifesta no equilíbrio em um pé (aproximadamente aos cinco anos) ou nos apoios invertidos (equilíbrio com a cabeça virada para baixo). Equilíbrio dinâmico – compreende ações que a criança pratica para manter o seu equilíbrio usando o próprio corpo ou um objeto. Engloba atos como ca- minhar em linhas retas e circulares, equilibrar-se em cima de objetos ( traves ou cadeiras) ou alternar os pés sobre objetos – ações realizadas por crianças a partir dos três anos. Já aos seis anos, inclui as atividades de rolamento do corpo para a frente. Habilidades locomotoras As habilidades locomotoras aparecem dos 13 meses aos seis anos de idade e estão distribuídas em seis padrões de movimento. Caminhada – deslocamento de um pé e outro, alternadamente, mantendo sempre um deles em contato com o chão. Começa aos 13 meses, quando a criança já fica em pé e dá os seus primeiros passos, progredindo para a ação de andar para trás (18 meses), até subir e descer escadas (2 anos). Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Fundamentos do desenvolvimento motor 25 Corrida – é uma caminhada veloz. A pessoa chega a perder o contato com o chão durante seu deslocamento. A caminhada rápida surge por volta de um ano e meio. Porém, a corrida começa aos dois ou três anos e fica mais eficiente somente aos cinco. Salto – movimento que envolve um impulso a partir de um ou dois pés, mas o pouso final é feito necessariamente com os dois pés. Em termos espaciais, os saltos podem ser em distância (horizontal), em altura (vertical) e a partir de uma altura fixa (do alto de um objeto, por exemplo). A criança apresenta esse comportamento a partir dos 18 meses, ao subir e descer de objetos. O salto com os dois pés começa aos 28 meses. Aos cinco e seis anos, a criança efetiva os saltos em distância e altura. Saltito – é a ação de saltar e pousar com o mesmo pé. A criança apresenta esse movimento a partir dos três anos. Nessa idade, geralmente ela consegue saltar e cair até três vezes com o mesmo pé. Aos quatro anos, amplia para até seis vezes. Aos cinco anos, já consegue alguma distância em um saltito. Mas somente aos seis anos ela está apta a executar saltitos com alternância rítmica. Galope – movimento que as crianças executam quando alternam caminha- das e saltos, traçando uma rota. Este padrão motor demonstra-se a partir dos quatro anos de idade, tornando-se eficiente aos seis anos. Skipping – é a habilidade de executar movimentos alternando passadas e saltos com a elevação dos joelhos, de modo ritmado. Essa combinação de movimentos requer um grau de maturidade só alcançada aos quatro anos e será eficiente somente aos seis. Habilidades manipulativas As habilidades manipulativas são fundamentais para o desenvolvimento motor desde os primeiros momentos de vida, pois representam uma condição básica para a interação com os objetos (aqui se entendendo objeto como qualquer coisa que não seja o próprio sujeito). Elas podem ser apresentadas desde os dois meses de idade e estão classificadas nos padrões de movimento a seguir. Alcançar, segurar e soltar objetos – a criança apresenta essa habilidade des- de os dois meses, quando começa a segurar os dedos da mãe, por exemplo. O ato de pegar com a mão inteira acontece aos cinco meses. Já o pegar e soltar com controle ocorre somente depois de um ano. Pegar – corresponde a receber um objeto em movimento com as mãos. Quando esse domínio motor evolui, a criança consegue receber e controlar objetos menores. Aos dois anos, a criança tende a perseguir uma bola para pegá-la, por exemplo. Com dois e meio, responde a bolas aéreas, mas ain- da não coordena a ação do corpo para pegá-las. Por volta dos cinco anos, consegue apanhar uma bola em movimento usando somente as mãos. Lançar – ato de imprimir força a um objeto, lançando-o na direção desejada. Essa é uma ação mais elaborada e requer maior desenvolvimento motor. Por Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 26 isso, apresenta-se geralmente a partir dos dois ou três anos. Nessa idade, a criança consegue ficar parada e lançar algo em direção de outro objeto (por exemplo, lançar uma bolinha na cabeça de um boneco). Entre quatro e cinco anos, ela já pode realizar um lançamento combinado com o movimento de seu corpo (por exemplo,dar um passo ou girar o corpo e lançar o objeto). Chutar – significa imprimir força sobre um objeto com o pé para que esse objeto se desloque. Essa ação começa com a criança empurrando a bola com o pé, com 18 meses de idade. Aos dois anos, ela chuta com a perna reta e poucos movimentos corporais. Com três anos, começam a se esboçar mo- vimentos mais elaborados (flexão da perna e balanço do corpo). Somente aos cinco anos é realizado um chute mais definido e equilibrado. Bater – ação realizada para efetivar um contato súbito do braço com objeto(s), ou entre objetos, batendo-os com as mãos. A partir dos dois anos de idade, esse movimento acontece no plano vertical. Aos quatro anos, a criança consegue mover os braços horizontalmente para bater. Já aos cinco anos, gira o tronco e o quadril, projetando o peso de seu corpo. Lembramos que os padrões motores descritos representam um potencial mé- dio das crianças. O desenvolvimento dessas habilidades depende das características físico-biológicas e biomecânicas do indivíduo, das tarefas que realiza, do ambiente em que vive e dos aspectos afetivos e sociais vivenciados. Os conceitos apresentados servem de referência para você observar e compre- ender a realidade de seus alunos, sem avaliá-los por suas performances motoras ou cobrar padrões de habilidade incompatíveis com o nível de desenvolvimento dos edu- candos. Considerar o ser integralmente, sua cultura, seu ambiente e suas expe riências é uma tarefa essencial para todo educador que pretende colaborar na aprendizagem de seus alunos. Destacamos o texto do professor João Luiz Martins, um educador preocupado com as relações entre movimento e aprendizagem. Seu artigo aborda a importância do brinquedo no universo infantil e a relação da criança com o ato de brincar. O lúdico e o aprendizado (MARTINS, 2003, p. 123-134) O brinquedo: a essência da infância Brincar não constitui perda de tempo, nem é simplesmente uma forma de preencher o tempo. A crian ça que não tem oportunidade de brincar está como um peixe fora da água. O brinquedo possibilita o desenvolvimento integral da criança, já que ela se envolve afetiva- mente, convive socialmente e opera mentalmente; tudo isso de uma maneira envolvente, em que a Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Fundamentos do desenvolvimento motor 27 criança despende energia, imagina, constrói normas e cria alternativas para resolver os imprevis- tos que surgem no ato de brincar. O brinquedo facilita a apreensão da realidade e é muito mais um processo do que um pro- duto. Não é o fim de uma atividade ou o resultado de uma experiência. É, ao mesmo, a atividade e a experiência, envolvendo a participação total do indivíduo. Exige movimentação física, envol- vimento emocional, além do desafio mental que provoca. E neste contexto, a criança só ou com companheiros integra-se ou volta-se contra o ambiente em que está. Por ser essencialmente dinâmico, o brinquedo possibilita a emergência de comportamentos espontâneos e improvisados. Os padrões de desempenho e as normas podem ser criados pelos participantes; há liberdade para se tomar decisões. A direção que o brinquedo assume é determinada pelas variáveis de personalidade da crian- ça, do grupo e do contexto social em que as crianças vivem. O brinquedo é a essência da infância; é o veículo do crescimento, é um meio extremamen- te natural que possibilita à criança explorar o mundo, tanto quanto o adulto, possibilitando-lhe descobrir-se e entender-se, conhecer os seus sentimentos, as suas idéias e a sua forma de reagir. Através da atividade lúdica e do jogo, a criança forma conceitos, seleciona idéias, estabelece relações lógicas, integra percepções, faz estimativas compatíveis com o seu crescimento físico e o seu desenvol vimento. E, o fundamental, a criança vai se socializando. Que fatores influenciam o comportamento de brincar? Muitos seres vivos brincam, mas somente os seres humanos organizaram a brincadeira em forma de jogo. A capacidade de jogar surgiu nas mais antigas civilizações, em todos os recantos do globo. Os jogos e os brinquedos desempenham papéis relevantes no desenvolvimento infantil e na transmissão da cultura, de geração em geração. Originariamente, muitos jogos tinham um sentido religioso ou supersticioso. Jogos de azar, de tabuleiro e dados tais como ludo remontam há pelo menos cinco mil anos. O xadrez da Índia, o go do Japão e o wan da África são jogos de estratégia muito antigos que aguçam a capacidade de planejar e de calcular. Faz-de-conta, vestir-se de gente grande, para imitar os adultos, fazer o que o manda o mestre (mestre mandou), esconde-esconde, pegador, pique, e jogos de adivinhação estão entre os muitos passatempos que desenvolvem a capacidade infantil em qualquer parte do mundo. No que diz respeito a jogos e brinquedos, as crianças de famílias de recursos menores po- dem, em certos casos, ser mais bem servidas do que as crianças privilegiadas. Os brinquedos que elas próprias confeccionam com barro, palha, madeira, pregos e restos de materiais disponíveis envolvem criatividade e destreza, ao passo que os jogos eletrônicos, de plástico, produzidos em larga escala e comercializados de forma agressiva, muitas vezes promovem uma brincadeira soli- tária e passiva. A obsessão com a violência em muitos desses jogos, por sua vez, tem despertado preocupação a nível internacional. De acordo com vários autores e pedagogos, que estudam o comportamento de brincar da criança, o brinquedo é influenciado pela idade, sexo, presença de companheiros e de outras pesso- as, além dos aspectos ligados à novidade, surpresa, complexidade e variabilidade. Portanto, cabe ao educador valorizar o brinquedo para encorajá-lo nos educandos, sem ter a sensação que está perdendo tempo; reconhecer as limitações do elemento competitivo no brinquedo infantil; equilibrar o brinquedo diretivo e espontâneo; Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 28 observar o brinquedo infantil para conhecer melhor as crianças e para que possa avaliar até que ponto a atividade está oferecendo prazer à criança; estimular os brinquedos sociais que favorecem os comportamentos interativos entre as crianças. A criança pode brincar só, brincar perto de um companheiro, brincar sem conseguir um grau elevado de cooperação e pode conseguir brincar a partir de uma divisão de tarefas para atingir um objetivo comum. O brinquedo pode prever uma diferenciação de papéis, pode ser cooperativo, compe titivo ou impregnado de momentos de cooperação e de competição. Muitas são as habilidades sociais reforçadas pelo brinquedo: cooperação, comunica- ção eficiente, competição honesta, redução da agressividade. O brinquedo permite às crianças progredirem até atin girem um nível de proficiência formidável. As brincadeiras permitem às crianças identificar, generalizar, classificar, agrupar, ordenar, seriar, simbolizar, combinar e estimar. E, juntamente com estas operações, a atenção está sendo desenvolvida, o mesmo ocorrendo com respeito às relações espaciais e temporais. A expressão corporal e todo o desenvolvimento de gestos, posturas, a relação que se estabelece entre o corpo e a mente da criança e o ambiente em que se encontra, tudo isso se reveste de uma enorme importância ao desenvolvimento infantil. Há uma infinidade de brinquedos e brincadeiras que seduzem a criança e a envolvem inte- gralmente. Quanto mais o brinquedo possibilitar a exploração livre da criança, melhor. Quanto menos isso ocorrer, mais a criança estará na condição de mera espectadora. Ela se envolve afe- tivamente, com o mundo, tanto quanto o adulto, possibilitando-lhedescobrir-se e entender-se, conhecer os seus sentimentos e forma de reagir. Através da atividade lúdica e do jogo, a criança forma conceitos, seleciona idéias, melhora a sua parte motora e se prepara para o aprendizado futuro. O esporte é em muitas ocasiões intensamente trabalhado, o que gera tanto interesse como a apatia por parte daquelas crianças que não conseguem adquirir habilidades rapidamente e, conse- qüentemente, não se destacam como atletas, por isso devemos trabalhar principalmente atividades interativas, que são atividades em que o papel do grupo e das habilidades individuais é ressaltado. Vamos agora compartilhar um texto sobre o Tempo. Pode parecer que isso não importa para a edu- cação, mas lembre-se: o tempo está presente em tudo, em todos os processos de desenvolvimento huma- no, no ensino e na aprendizagem. O aluno precisa de tempo, assim como o professor, a escola e os pais. O texto de Débora Dias Gomes abaixo apresentado sintetiza a importância do tempo em nosso cotidiano, com a precisão e a sensibilidade que só existe no coração dos poetas. Tempo (Débora Dias Gomes) Imagine que você tenha uma conta corrente e a cada manhã você acorde com um saldo do dia para o dia seguinte. Todas as noites o seu saldo é zerado. Mesmo que você não tenha conseguido gastá-lo durante o dia, o que você faz??? Irá gastar cada centavo, é claro! Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Fundamentos do desenvolvimento motor 29 Pois bem, todos nós somos clientes deste banco de que estamos falando. Ele se chama tempo. Todas as manhãs, são creditados na sua conta 86 400 segundos, porém todas as noites esse saldo é debitado, como perda. Não é permitido acumular esse saldo para o dia seguinte. Todas as manhãs a sua conta será reinventada e todas as noites as sobras do dia se evaporam. Não há volta. Você precisa viver o momento presente, gastando o seu tempo com inteligência e vontade, selecionando apenas ações essenciais. Utilize o seu depósito diário. Não desperdice. Invista no que for melhor, na sua saúde, felicidade e sucesso e na daqueles que estiverem ao seu alcance. O relógio está correndo. Doe-se ao momento presente com entusiasmo. Faça o melhor para o seu dia-a-dia e para o dos outros que estão ao seu redor. Você acredita? Para você perceber o valor de um Ano, pergunte a um estudante que repetiu a série. Para você perceber o valor de um Mês, pergunte a uma mãe que teve o seu bebê prematura- mente. Para você perceber o valor de uma Semana, pergunte a um editor de um jornal semanal. Para você perceber o valor de uma Hora, pergunte aos amantes que estão esperando um grande encontro. Para você perceber o valor de um Minuto, pergunte a uma pessoa que perdeu um trem. Para você perceber o valor de um Segundo, pergunte a uma pessoa que conseguiu evitar um acidente terrível. Para você perceber o valor de um Milésimo de segundo, pergunte a quem venceu a medalha de prata de uma olimpíada. Valorize cada minuto de sua vida. Que você possa dividir todos os momentos da sua vida com pessoas especiais o suficiente para você gastar o seu tempo com sentimento de prazer por estar sendo útil. Lembre-se: o tempo não espera por ninguém. O ontem pertence a uma ciência chamada história. O amanhã é um mistério que não deve causar ansiedade. O hoje é dádiva. Por isso é chamado de presente!!! 1. A tarefa agora é explorar e refletir sobre o dia-a-dia com os alunos, sob a perspectiva do desen- volvimento motor. Formulamos um quadro que relaciona as principais habilidades motoras, seus respectivos padrões de movimento, as atividades abrangidas nesses movimentos, e a idade da criança que os realiza. Reunidos em grupos de três, vocês deverão preencher a tabela abaixo. Descrevam uma atividade pedagógica para cada um dos padrões de habilidades motoras apresentados, indicando a idade dos alunos que participaram dessas práticas propostas em sua sala de aula. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 30 Habilidades de estabilidade Descrição da atividade Idade Movimentos axiais Equilíbrio estático Equilíbrio dinâmico Habilidades locomotoras Descrição da atividade Idade Caminhada Corrida Salto Satito Galope Skipping Habilidades manipulativas Descrição da atividade Idade Alcançar, segurar e soltar Pegar Lançar Chutar Bater Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil Max Gunther Haetinger* Fatores físicos das atividades motoras infantis A s habilidades motoras e seus padrões são elementos fundamentais para o estudo do desenvolvimento motor infantil. Devemos sempre respeitar a pro-gressão dessas habilidades quando propomos atividades para nossos alunos. Agora, vamos conhecer os fatores físicos e mecânicos relacionados com o de- senvolvimento motor. Os fatores mecânicos estão vinculados a três aspectos inter- relacionados: os fatores estabiliza dores; os fornecedores de força; os receptores de força. O fator de estabilidade relaciona-se com o fator força, pois todos estamos su- jeitos à lei da gravidade. E isso representa uma influência no centro e na linha de gravidade do corpo e na base de apoio do indivíduo. Já os fornecedores de força são as leis da física que alteram os movimentos de pessoas e objetos, como a inércia, a aceleração e a ação-reação. Por essa razão, os fatores mecânicos acabam relacionando-se também com os espaços, as superfícies e as distâncias percorridas no meio ambiente, e variam conforme a interação entre sujeitos, objetos e meio. Para melhor compreensão desses conceitos, vamos considerar as habilidades motoras (locomotoras, de estabilidade e manipulativas) e observar o diagrama apre- sentado por Gallahue e Ozmun (2001). * Com a colaboração de Daniela Haetinger e Luis Lucini. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 32 (G A L L A H U E ; O Z M U N , 2 00 1, p . 8 8. )Fatores físicosHabilidades motorasFatores mecânicos Fatores estabilizadores Centro de gravidade Linha de gravidade Base de apoio Inércia Aceleração Ação-reação Área de superfície Distância Fase reflexiva Fase rudimentar Fase especializada Fase reflexiva Fase rudimentar fundamental Fase especializada Fase reflexiva Fase fundamental Fase especializada Força Resistência aeróbica Flexibilidade Composição corporal Velocidade Agilidade Coordenação Equílibrio Energia Fatores fornecedores de força Fatores receptores de força Habilidades locomotoras Habilidades manipulativas Habilidades estabilizadoras Fatores de aptidão física Fatores de aptidão motora Esse diagrama demonstra as relações existentes entre fatores mecânicos e físi- cos e habilidades motoras. Os fatores físicos abrangem as propriedades necessárias à execução das habilidades motoras, influenciando os fatores mecânicos e sendo in- fluenciados por eles. Os fatores físicos agrupam as aptidões físicas e motoras. As aptidões físicas incluem a força muscular, a resistência aeróbia, a flexibilidade e a composição cor- poral do indivíduo. Já as aptidões motoras refere-se a características da execução de movimentos: velocidade, agilidade, coordenação, equilíbrio e energia. Ou seja, as aptidões motoras relacionam-se constantemente com as aptidões físicas durante a realização de um movimento. Agora, vamos definir cada um dos fatores físicos, pois é preciso reconhecê-lospara propor atividades adequadas às capacidades físicas e motoras do indivíduo, co- laborando para um desenvolvimento sadio na infância. Fatores de aptidão física Força muscular – habilidade de nossos músculos para exercer força. As crianças devem desenvolver esse fator de forma natural, por meio de ati- vidades rotineiras como andar de triciclo ou bicicleta, correr, caminhar, balançar-se nas barras do parquinho, erguer objetos etc. Resistência aeróbia – é a capacidade dos músculos para executar um traba- lho com numerosas repetições, fatigante, que requer amplo uso do sistema circulatório e respiratório. Flexibilidade – está relacionada às habilidades de movimento das articu- lações do corpo. Divide-se em dois tipos: estática e dinâmica. A flexibili- dade estática ocorre quando alongamos lentamente uma articulação até o seu limite. A flexibilidade dinâmica envolve o movimento rápido das ar- ticulações. Os exercícios físicos de alongamento são recomendados para trabalhar a flexibilidade. Durante a infância, o ser humano tende a ser mais flexível, mas isso não significa que a criança deve praticar atividades físicas que sobrecarreguem suas articulações. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na educação infantil 33 Composição corporal – refere-se à massa corporal magra e à massa cor- poral adiposa. A análise deste fator depende de medições executadas por profissionais da área da saúde (médicos, professores de Educação Física e fisioterapeutas). Fatores de aptidão motora Velocidade – habilidade para o percurso de distâncias no menor tempo pos- sível. A velocidade é impactada pelo tempo de reação (chamado também de tempo motor), que é o tempo entre o início e o término de um movimento corporal. E esse tempo, por sua vez, relaciona-se com a velocidade das rea- ções neurais (tempo que o cérebro leva para responder a um estímulo). Agilidade – habilidade de movimentar o corpo com rapidez e precisão. É fun damental para várias ações cotidianas, como atravessar uma rua movi- mentada, correr e desviar-se de obstáculos. A agilidade das crianças pode ser aprimorada com atividades que envolvam interação com objetos, desvio de obstáculos, subir e descer de objetos e carregar objetos. Equilíbrio – habilidade de manter a postura corporal inalterada ao trocar de posição. O equilíbrio é um fator elementar para a execução dos movimentos e para a estabilidade. Os estímulos visuais, cinéticos, táteis e vestibulares alteram o equilíbrio. Quando a criança apresenta continuamente problemas de equilíbrio, isso pode indicar alguma disfunção. Nesse caso, oriente os pais para um acompanhamento médico. Coordenação – habilidade de reunir simultaneamente as ações de diferen- tes sistemas motores (por exemplo, encostar o dedo polegar no indicador, mexer o braço e a perna ao mesmo tempo). A coordenação vai aprimorando- se à me dida que aumenta o grau de dificuldade das tarefas executadas. Ou seja, quanto mais elaborado for o movimento executado, maior é o nível de coordenação exigido. O equilíbrio, a velocidade e a agilidade são elemen- tos relacio nados à coordenação. As crianças desenvolvem sua coordenação com movimentos seqüenciais, ritmados e simultâneos. Existem a coordena- ção fina (de monstrada em movimentos de pouca amplitude, como escrever, desenhar, recortar, encostar os dedos ao ritmo de uma música) e a coordena- ção ampla (engloba movimentos corporais mais amplos, como dançar, bater palmas, jogar futebol). Energia (ou força explosiva) – habilidade de desempenho de um esforço físico e muscular máximo, no menor tempo possível. Ela envolve a força, a velocidade e a coordenação dos músculos. A criança desenvolve essa habili- dade com práticas físicas como jogar, pular, bater, rebater, arremessar etc. A atividade física é sempre recomendada para o desenvolvimento integral da criança. Porém, não vamos confundir atividade física com atividade formal e regra- da. O desenvolvimento motor da criança ocorre em função das práticas corporais usuais da infância, como brincar na pracinha, caminhar e jogar. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 34 Aquisições-chave do desenvolvimento motor (MIR, 2004, p. 33-52) Segundo McGraw, na atividade motora podem se diferenciar: Um primeiro momento de atividade motora difusa e generalizada, que corresponde aos primeiros meses da existência. A atividade está sob a orientação dos centros subcorticais. A criança se move sem que seus movimentos respondam a um comportamento intencio- nal, sem um objetivo concreto. A partir do quarto mês, inicia-se a atividade motora coordenada, dado que já se põe em marcha a intervenção da influência diretiva e inibidora do córtex cerebral. Por exemplo, os movimentos de abrir e fechar as mãos, na criança, já não têm o caráter mecânico e automático, mas mostram uma tentativa de utilização instrumental, embora sua eficácia ainda não seja mui to boa. Até o final do primeiro ano, a participação ativa do córtex permite que a atividade motora tenha coordenação suficiente para possibilitar atividades de manipulação e deslocamento com uma eficácia adaptativa significativa. A criança é capaz de engatinhar, às vezes an- dar, segurar objetos, pô-los e tirá-los de determinados recipientes. Em torno dos dois anos, a atividade cortical alcança níveis de funcionamento conside- ráveis e a criança já dispõe de seus mecanismos perceptivo-motores em possibilidades de utilização plena. A precisão, a desenvoltura, a eficácia e a flexibilidade com que os utiliza dependerá da influência ambiental e das oportunidades que seu meio lhe tenha proporcionado para deslocar-se, manipular. Já é capaz de correr, subir e descer escadas, por exemplo. Desenvolvimento postural Dentro deste item podemos distinguir: sustentação da cabeça; posição sentado; posição de pé. [...] em todas as aprendizagens que a criança deve realizar, é muito importante dar-lhe o oportunidade de experimentar e vivenciar, sem forçar a aquisição. As escolas infantis devem, entre uma de suas tarefas fundamentais, criar ambientes enriquecidos que proporcionem a maior quanti dade possível de oportunidades. Nosso texto em destaque aborda as habilidades motoras estudadas até o momento sob o ponto de vista prático. A autora, Gloria Medrano Mir, fornece-nos dicas muito interessantes sobre como trabalhar essas habilidades na Educação Infantil. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na educação infantil 35 Formas de deslocamento anteriores à marcha As crianças utilizam diversas formas de deslocamento antes de chegar à posição bípede e ao domínio da marcha. Primeiro arrastam-se sobre a barriga, dando impulso com os braços e as pernas, em um mo- vimento de reptação, para depois, em torno dos oito ou nove meses, engatinhar ou deslocarem-se sentadas com pequenos saltos, dando impulso com os braços. O passo intermediário entre enga- tinhar e andar costuma ser caminhar como um urso, braços e pernas estendidos e mãos e pés no chão. Domínio da marcha Sustentando-se com uma mão, é capaz de fazer os movimentos da marcha, para deslocar-se, aos nove meses. Aos 11, caminha com certa desenvoltura se tiver ajuda e entre os 12 e os 14 meses caminha sozinha. Manipulação É de considerável importância, visto que está relacionada ao desenvolvimento afetivo e cog- nitivo. Constituirá uma das condutas instrumentais básicas para a adaptação da criança ao meio e à descoberta e estruturação do espaço. Para que possa ser efetivada com orientação intencionale eficácia, é necessário um processo de maturação e treinamento com relação a duas funções básicas, preensão e visão, e coordenação entre ambas. [...] Ao longo da infância, a criança deverá adquirir o progressivo controle e o domínio de sua capacidade de manipulação para realizar aprendizagens básicas como rasgar, cortar, desenhar, escrever, entre outras. Lateralidade A base orgânica da motricidade e da percepção é constituída pelo sistema nervoso. Neste, cada hemisfério cerebral é responsável pelo controle da atividade de uma parte do organismo. O hemisfério esquerdo controla a atividade da parte direita do corpo e o direito, da parte esquerda. Existe um hemisfério dominante. As pessoas cujo hemisfério dominante é o esquerdo são destras e aquelas nas quais domina o direito são canhotas. Existem pessoas sem uma dominância definida, que podem ser ambidestras. Parece, inclusive, que há diferenças sexuais quanto à domi- nância hemisférica ou lateralidade: as mulheres são menos lateralizadas do que os homens. [...] No caso dos homens destros, a linguagem, o manejo dos números, a solução de problemas lógicos, o processamento de materiais seqüenciais, entre outros, dependem fundamentalmente da atividade do hemisfério esquerdo. O desenho, a imaginação, o gosto musical, por exemplo, dependem do direito. No caso dos homens canhotos e das mulheres, a especialização não está tão definida. Entretanto, ainda não há um acordo entre os pesquisadores sobre se a dominância hemisférica funciona também de maneira especia lizada com relação às emoções. Apesar da espe- cialização, os dois hemisférios atuam de maneira conjunta e complementar. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 36 A criança da atualidade Na Educação Infantil, as crianças são o foco, a razão, a motivação, a causa e o efeito de nosso trabalho. Por isso, é tão importante entendermos a criança que faz parte da nossa realidade, reconhecendo-a em um sentido mais amplo, considerando todas as nuances de seu universo. As crianças da atualidade fazem parte de uma geração nascida em uma épo- ca de intensa revisão de paradigmas. Na Educação, estamos reavaliando nossas práticas pedagógicas e centrando o processo de aprendizagem no aluno (e não mais no professor). No campo filosófico, revê-se o conceito de verdade (já não existem certezas absolutas) e as relações entre homens, tempo e espaço, as quais se encon- tram em plena transformação por causa do avanço tecnológico. No âmbito social, são adotados novos valores, comportamentos, meios de produção, de informação e de comunicação. Refletindo sobre esses aspectos, destacamos a relação das crianças com a mí- dia. Mesmo com a crescente difusão das novas tecnologias de informação e comu- nicação (computadores em rede, ferramentas digitais, realidades virtuais etc.), a te- levisão ainda é a ferramenta comunicativa e informativa que mobiliza a maior parte da população. Nas últimas décadas, a tevê foi responsável pela formação cultural de milhares de pessoas, o que também afeta a Educação Infantil. Segundo o professor José Manuel Moran, A criança também é educada pela mídia, principalmente pela televisão. Aprende a informar- se, a conhecer – os outros, o mundo, a si mesma –, a sentir, a fantasiar, a relaxar, vendo, ouvindo, “tocando” as pessoas na tela, pessoas estas que lhe mostram como viver, ser feliz e infeliz, amar e odiar. A relação com a mídia eletrônica é prazerosa – ninguém obriga que ela ocorra; é uma relação feita através da sedução, da emoção, da exploração sensorial, da narrativa – aprendemos vendo as histórias dos outros e as histórias que os outros nos con- tam. Mesmo durante o período escolar a mídia mostra o mundo de outra forma – mais fácil, agradável, compacta – sem precisar fazer esforço. Ela fala do cotidiano, dos sentimentos, das novidades. A mídia continua educando como contraponto à educação convencional, educa enquanto estamos entretidos. (MORAN, 2005) Das crianças que reproduziam pequenos adultos antigamente, hoje convivemos com crianças ativas e críticas, capazes de lidar com uma enorme quantidade de in- formação – algo nunca sonhado pelas gerações anteriores. São meninos e meninas que dominam os controles remotos e deslizam seus dedinhos sobre botões com ma- estria e coordenação inigualáveis. Elas já não se contentam em serem meros espec- tadores sociais e cumpridores de ordens: desde muito cedo, apresentam uma postura ativa e seus questionamentos são cada vez mais constantes nas salas de aula, desde o jardim-de-infância. Também parece que as pessoas têm estilos hemisféricos, isto é, dão preferência a um ou a ou- tro hemis fério em suas atuações. As analíticas e verbais parecem preferir o hemisfério dominante e as intuitivas e globais, o hemisfério menor. Importa conhecer a realidade da diferença hemisférica e da lateralidade para atuar adequa- damente com as crianças, especialmente nas primeiras etapas da vida. É necessário respeitar a late ralidade infantil. Deve-se observar as preferências da criança nesse sentido. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na educação infantil 37 As crianças da atualidade são bem diferentes daquelas do passado. Em menos de dez anos, por exemplo, elas mudaram seu comportamento em função do advento do uso do computador em casa e na escola. Desse modo, ampliaram-se os objetos e meios para suas interações. Elas fazem suas pesquisas, contam com acesso a todo tipo de informação e constroem conhecimentos a partir de seus próprios interesses. A criança já não compartimenta os conhecimentos em áreas estanques, nem atua com os conteúdos de forma linear. Demonstra-se um ser complexo e multiface- tado, com grande facilidade de relacionamento com seus semelhantes e com a tec- nologia. Exige o seu lugar de agente na sociedade e, conseqüentemente, requer uma nova postura dos pais, da escola e de seus educadores. Lembramos que As crianças, e as crianças dentro de nós, preferem aprender pela excitação da descoberta e da participação [...] os alunos aprendem da mesma maneira, por métodos tecnológicos menos sofisticados [...] a tecnologia por si não acelera automaticamente o processo de aprendizagem por mais futurista que pareça. (DERTOUZOS, 1998) Os educadores precisam se adequar ao novo contexto social, reconhecendo sua própria experiência, sua capacidade de atuação e sua necessidade de mudança. Afi- nal, eles planejam atividades pedagógicas embasados nessa avaliação. Para saber o que real mente motiva uma criança da atualidade, devemos ingressar em seu univer- so, evitando os erros de julgamento e o distanciamento dos conteúdos e das práticas de real interesse dos alunos. Também é preciso estar atento para não utilizar como referencial um modelo de infância ultrapassado, nem propor práticas defasadas, an- tigas, quase folclóricas em termos pedagógicos. Mas como fazer isso? Como mergulhar nesse universo infantil e entender o que se passa na mente de crianças tão diferentes das que fomos? Com certeza, a resposta para essas perguntas está no ato de escutar as crianças. Escutá-las com um ouvido atento e desarmado, sem usar o papel de educador como uma forma de dominação ou imposição de idéias. Isso significa facilitar em vez de dirigir, mediar em vez de mandar, e prestar atenção a tudo que se passa ao seu redor, de maneira aberta e madura. Para encerrar esta aula, homenageamos um profissional brilhante, tão cheio de histórias enri- quecedoras para contar: o professor Celso Antunes. No texto a seguir, ele aborda a importância da Educação Física escolar, do corpo e do movimento no desenvolvimento integral do ser humano, tra- çandoum paralelo entre os atuais hábitos das pessoas e os defasados hábitos da escola. A praça e a escola (ANTUNES, 2003, p. 34-37) A Educação Física, muitas vezes, é a mais desrespeitada entre as disciplinas escolares. Olha- da como irmã enjeitada, o espaço de sua aula é invadido sem a menor cerimônia por qualquer um a qualquer horário. Mas será que uma parte desse descaso não cabe aos professores que aceitam se submeter a um currículo antiquado que visa mais aos músculos que à mente? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 38 Uma das mais significativas mudanças comportamentais entre os tempos de agora e a manei- ra como se encarava o corpo humano e a saúde há cerca de 30 ou 40 anos pode ser percebida em qualquer lugar. O hábito de correr, movimentar-se, fazer musculação, andar de bicicleta e princi- palmente caminhar, que representava atitude exótica de alguns poucos, transformou-se em ver- dadeira febre, incontestável paixão nacional. Não existe município brasileiro, por menor que seja, no qual não se depare logo cedo ou ao entardecer com pessoas de todas as idades caminhando, exercitando-se, “malhando” enfim. A ideologia desse movimento cresceu de tal forma a ponto de transformar-se em verdadeiro valor, e os que ainda resistem a essa ação não o fazem sem um certo sentimento de culpa. E é bom que assim seja. Sabemos hoje que reconectar a mente com o corpo é essencial para a qualidade de vida e que buscar boa saúde corporal e mental passa necessariamen- te pela atividade física. Pena que essas idéias da praça ainda não tenham chegado às escolas! Nas escolas vigora com intensidade a visão convencional da aprendizagem, centrada no es- tímulo e aplauso para os saberes lingüísticos, lógico-matemáticos ou eventualmente naturalistas. A Educação Física está no currículo, mas poucas vezes valorizada pelo significado de sua imen- sa dimensão. As aulas são vistas pelos demais como pausa no aprender, o sucesso do aluno em seus desafios raramente são conectados à visão de progresso que se busca, e a “sala de aula” do professor de Educação Física é invadida quase sem cerimônia e a todo instante pelos alunos de outras séries, professores distraídos ou, quando não, pelos inspetores de alunos ou seguranças em atividade ou até mesmo cachorros vadios à cata da preguiça. Talvez o involuntário responsável pela contradição entre a praça e a escola seja mesmo Descartes, que, ao separar a alma do corpo, criou duas realidades para a escola: a essencial, que combinava a mente com a alma, e a supérflua, que via o corpo como máquina muscular. Devido a essa concepção, a educação não se volta para ensinar a saúde do corpo e a validade dos sentimentos, quando muito admite que aquela necessita de eventual descanso e estes de controle, ainda que sem plena compreensão disso. Essa visão de educação se pode mudar? É evidente que pode e, mais ainda, que deve ser mudada. O que hoje se sabe sobre o cére- bro, o corpo e o movimento impõe que se rasgue literalmente a maior parte dos programas de Educação Física vigentes, centrados na construção dos músculos e se produza outro que pense o desenvolvimento integral da pessoa humana, incentivando tanto o crescimento intrapessoal como a valorização do aluno inspirada na busca por um desenvolvimento integrado entre seus aspectos cognitivo e espiritual, físico e psicológico, emo cional e intelectual. Esse novo currículo pode ser esperado inutilmente de um órgão diretivo central, emanando- se de Brasília para as escolas do país, ou criado pragmaticamente na própria escola por professores idealistas que se cercam de boas referências bibliográficas e não se importam em gastar algumas horas em reflexões e reuniões. Basta para isso começar com o objetivo de considerar todo aluno como fonte de aprendizagem integral e transformação e com o conceito de equilíbrio que deve marcar a integração entre o corpo e a mente, cognição e emoção, entre o valor da razão e o não menor valor da intuição. A Educação Física poderia simbolizar nesse currículo o elo do aluno com a comunidade, com o mundo dentro do qual necessita aprender a viver, com outras culturas que deve reverenciar e admirar e com seu próprio corpo, que importa cada vez mais aprender a construir. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na educação infantil 39 1. Sabemos que o universo lúdico e as brincadeiras fundamentam as ações do educador infantil. Nossa atividade propõe uma reflexão sobre o lúdico e a criança da atualidade. Vamos trabalhar em grupos de cinco ou seis pessoas. Para realizar a tarefa, cada grupo usará uma folha de cartolina ou um pedaço de papel kraft (pardo), um jogo de canetas hidrocor ou giz de cera (aconselhamos este último). Cada grupo vai fazer uma lista com dez características da criança contemporânea, conside- rando a realidade de seus alunos. Procurem apontar os aspectos positivos em primeiro lugar. Depois, cada grupo vai desenhar essa criança ao seu modo, ou seja, não precisa ser um desenho aprimorado ou uma representação fiel do corpo físico: o importante é demonstrar as caracterís- ticas levantadas. Terminados os desenhos, os grupos apresentarão suas obras e explicarão para os demais colegas as características apontadas em conjunto. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 40 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade Max Gunther Haetinger* Entendendo a Psicomotricidade N esta disciplina, visamos a um entendimento mais amplo do corpo e do mo-vimento. A aprendizagem humana é influenciada por aspectos motores, cognitivos, expressivos, afetivos e ambientais. E por isso não poderíamos deixar de falar da Psicomo tricidade. A Psicomotricidade estuda as habilidades motoras relacionadas aos fatores psi- cológicos e ambientais. Esse objeto de estudo passou a ser pesquisado na década de 1960, mas popularizou-se no universo científico e acadêmico ao longo dos anos 1970 e 1980. Antes disso, o movimento humano era analisado pelos pesquisadores apenas nos âmbitos físico e motor. O desenvolvimento corporal e motor faz parte do desenvolvimento global da criança. Justamente por isso, a Psicomotricidade passou a integrar o movimento aos aspectos psíquicos e sociais dos indivíduos, dando um caráter holístico a sua abor- dagem e proporcionando novas descobertas para o tratamento das dificuldades de aprendizagem. Assim, a Psicomotricidade e as práticas psicomotoras passaram a ser valorizadas mundialmente. A Psicomotricidade não prioriza ações motoras descontextualizadas, pois considera as habilidades e expres sões corporais associadas às vivências do sujeito em determinado ambiente. Relaciona os gestos, as atitudes, as atividades, os comportamentos e as posturas da criança. A educação psicomotora tem grande relevância para a aprendizagem e a socia- lização. E também facilita a aquisição da leitura e da escrita e o desenvolvimento do pensamento lógico-matemático. Nos primeiros anos de vida, é ainda mais importante, pois nessa fase da vida podemos perceber desvios nas capacidades motoras da criança e evitar futuras dificuldades de aprendizagem. A prática psicomotora respeita, então, as potencialidades de cada indivíduo e seu direito de ter um lugar na sociedade. De acordo com esse marco, a criança pode se expressar por meio de uma grande variedade de canais de comunicação, expressão e criação, entre os quais a motricidade é o principal. (SÁNCHEZ; MARTINEZ; PEÑALVER, 2003, p. 14) Imagem corporal A imagemdo corpo é um aspecto de destaque na relação do ser com o seu desenvolvimento completo. É a partir da imagem corporal que reconhecemos nossa movimentação no tempo e no espaço, e aprendemos a lidar com objetos e pessoas que nos cercam, com o meio em que vivemos. * Com a colaboração de Daniela Haetinger e Luis Lucini Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 42 As relações psicomotoras contribuem para o esquema corporal, pois valorizam a percepção do corpo, o equilíbrio, a lateralidade, a independência dos membros em sua relação com o tronco e entre si, o controle muscular e o controle da respiração. No momento em que o indivíduo compreende e controla seu corpo, sua consciência corporal se estrutura e ele passa a ampliar as possibilidades de relação com o meio. Todas as experiências da criança (o prazer e a dor, o sucesso e o fracasso) são sempre vividas corporalmente. Se acrescentarmos valores sociais que o meio dá ao corpo e a certas partes, este corpo termina por ser investido de significações, sentimentos e de valores muito particu- lares e absolutamente pessoais. (VAYER apud ALVES, 2003, p. 48). O esquema corporal advém do desenvolvimento psicomotor na infância. Wallon destaca-o como o “resultado e a condição da justa relação entre o indivíduo e o próprio ambiente” (apud ALVES, 2003, p. 47). Por meio de seu corpo e de suas in- terações, a criança descobre o mundo, experimenta diferentes sensações e situações e acaba conhecendo a si mesma e aos objetos e pessoas que fazem parte de sua rea- lidade. Segundo Le Boulch (1988), um dos principais objetivos da educação psicomo- tora é ajudar a criança a reconhecer seu corpo como um instrumento que serve para ela se relacionar com seus semelhantes e com seu ambiente. Fases do desenvolvimento psicomotor O desenvolvimento psicomotor não deve ser analisado apenas em função da maturação cronológica do ser, mas também como um processo relacional e complexo. Na infância, podemos caracterizar quatro grandes fases psicomotoras. Primeira fase – ao nascer, o bebê já possui condições anatômicas e fisiológicas de reflexos (modalidades assimiladoras), mas para manifestá-los ele precisa de um meio estimulador que provoque suas reações. Nessa fase, destaca-se a organização da estrutura motora e da percepção. Segunda fase – este é um período de aperfeiçoamento das relações espaciais e temporais. O ser desenvolve novas possibilidades de movimentação espacial, conhe cimento e relacionamento social. A principal característica dessa fase é a organização do plano motor. Terceira fase – o desenvolvimento motor fica mais evidente, pois a criança começa a automatizar suas aquisições motoras e seus movimentos tornam- se mais fluentes. Quarta fase – esta é uma etapa de transição no desenvolvimento psicomotor, passando de um estágio global para um estágio de diferenciação e análise. É quando se aperfeiçoam as habilidades motoras. A criança chega a essa fase aproximadamente com cinco anos. O desenvolvimento psicomotor revela a relação da criança com seu corpo e o mundo a sua volta, não apenas o mundo físico, mas também o universo das sensa- ções e significações, ampliando progressivamente sua percepção do ambiente, dos objetos e dos seres com os quais interage. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 43 No âmbito educacional, o trabalho psicomotor assume funções específicas. Vitor da Fonseca (2003, p. 12) define algumas finalidades da Psicomotri ci dade na Educação: mobilizar e reorganizar as funções psíquicas emocionais e relacionais do indivíduo em toda a sua dimensão experiencial, desde bebê até a velhice; aperfeiçoar a conduta consciente e o ato mental (input, elaboração e output) em que emerge a elaboração e a execução do ato motor; elevar as sensações e as percepções a níveis de conscientização, simboliza- ção e conceitualização (da ação aos símbolos e vice-versa, passando pela verbalização); harmonizar e maximizar o potencial motor, afetivo-relacional e cognitivo, ou seja, o desenvolvimento global da personalidade, a capacidade de adap- tação social e a modificação estrutural do processamento da informação do indivíduo; fazer do corpo uma síntese integradora da personalidade, reformulando a harmonia e o equilíbrio das relações entre a esfera do psíquico e a esfera do motor, por meio do qual a consciência, aqui encarada como dado imediato e intuitivo do corpo, edifica-se e manifesta-se, com a finalidade de promover a adaptação a novas situações. Transcrevemos um texto da professora Fátima Alves, que ressalta os pensamentos de Arnold Gesell sobre o desenvolvimento perceptivo e motor da criança, desde seu nascimento. O trecho aqui apresentado foi extraído de Psicomotricidade: corpo, ação e emoção (Wak Editora, 2003, p. 27-30). Desenvolvimento perceptivo e motor segundo Arnold Gesell (ALVES, 2003, p. 27-30) Até a quarta semana Durante a vigília, o bebê apresenta uma atitude denominada de reflexo tônico-cervical, que se caracteriza por extensão do braço para onde está voltada a cabeça e flexão do outro braço. Às vezes, o bebê apresenta reações bruscas levantando momentaneamente a cabeça. Algu- mas vezes, pode mover os braços, mais ou menos simetricamente, porém a atitude assimétrica do reflexo tônico-cervical é a base da maior parte de sua postura. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 44 Visão – Permanece com a vista imóvel durante longos períodos. É capaz de acompanhar um estímulo colocado em seu campo visual com um movimento combinado de olhos e cabeça. A apreensão ocular precede a preensão manual. Atividade manual – A preensão manual pode ser observada pelo toque da mão com um objeto; a atividade do braço aumenta e a mão se fecha e se abre. Até 16 semanas A reação tônico-cervical começa a perder sua preponderância. A cabeça ocupa com maior freqüência a linha média. A musculatura do tronco vai se organizando; senta-se com apoio e levanta a cabeça. Visão – O desenvolvimento crescente de redes neuronais permite uma maior atuação da mus- culatura ocular. É capaz de olhar um objeto colocado em seu redor; olha preferencialmente para as suas mãos como, também, para as do adulto. Atividade manual – É capaz de tocar o objeto. Ante o estímulo visual, sua mão livre se apro- xima do objeto como se esti vesse também envolvida na manipulação. Até 28 semanas Aperfeiçoamento da posição sentada. Somente necessita de um pequeno apoio dos braços da cadeira ou do adulto. Visão – A acomodação ocular é mais avançada que a manual. Segura uma bolinha que rola, mas quando a quer apanhar coloca a mão levemente sobre ela e não consegue pegá-la. Olhos e mãos funcionam em estreita relação, reforçando-se e guiando-se mutuamente. Atividade manual – A criança inclina-se para o objeto, segurando-o com um movimento de preensão de toda a mão, com o lado radial, que prepara a oposição do polegar. Até 40 semanas As pernas já sustentam o peso do corpo, mas ainda necessita de apoio. Domina o equilíbrio na posição sentada. Visão – Manifesta grande interesse tátil e visual pelos detalhes. Atividade manual – É capaz de pegar uma bolinha em movimento de pinça, de tipo inferior. Com um ano Engatinha com grande agilidade, podendo fazê-lo de joelhos ou na planta dos pés. Pode erguer-se e parar sem ajuda, mas ainda é falho o seu equilíbrio estático. Com 18 meses Caminha com maior facilidade e desenvoltura. Sobe uma cadeira, sobe escada com auxílio, para descer o faz só, engatinhando ou sentando-sea cada degrau. Pode caminhar arrastando um brinquedo de rodas (coordenação entre as condutas posturais e manuais). Percepção – Alguns comportamentos já demonstram uma discriminação de espaço e forma. Sonda a terceira dimensão com o dedo indicador ou um objeto, isto é, introduzindo objetos em espaços. O sentido da vertica lidade é presente, já empilha dois ou três cubos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 45 Preensão – Seu “soltar” é exagerado, o que dificulta a manipulação de elementos consecu- tivos. É capaz de arremessar uma bola. O cotovelo é mais livre, o que permite virar folhas de um livro, de duas a três de uma só vez. Com dois anos Maior flexibilidade dos joelhos e calcanhar permite um equilíbrio superior. Pode andar mais rapidamente sem perder o equilíbrio, mas não pode correr, efetuar voltas rápidas ou parar brus- camente. Percepção – Pode-se, nesta ocasião, observar a estreita interdependência entre o desenvolvi- mento mental e o motor. A criança parece pensar com seus músculos. Interpreta motoramente o que vê e ouve. Preensão – Vira as páginas de um livro uma a uma. Constrói torre de seis cubos, corta com a tesoura, enfia contas com uma agulha. Com três anos Gosta de atividade motora ampla, mas pode permanecer em uma brincadeira sentada por um período maior. Demonstra uma maior capacidade de inibir e delimitar movimentos. Pode cons- truir torres de até dez cubos. Maior domínio da direção vertical, mas ainda grande inabilidade nos planos oblíquos. Pode dobrar um papel ao largo e ao comprido, mas não o faz na diagonal, mesmo com molde. Maior coordenação na marcha e corrida, aumentando ou diminuindo a velocidade, dando voltas ou parando, com maior facilidade. Sobe escadas, alternando os pés; salta do último degrau com os dois pés. Salta com os dois pés de uma altura de 30 centímetros. Pedala velocípede. Com quatro anos Pode manter-se sobre um pé durante segundos e aos seis é capaz de saltar em um só pé. Percebe-se uma maior independência da musculatura das pernas e dos membros superiores. A criança já abotoa roupas sozinha, dá laços em cordões de sapatos, além de outras atividades sim- ples e habituais. A dimensão multidisciplinar da Psicomotricidade A Psicomotricidade está diretamente ligada ao desenvolvimento integral do ser, pois estuda o movimento humano associado ao ambiente, à cognição, à emoção e às significações. Enfim, relaciona cada movimento com o seu contexto. Por isso é uma área de estudo multidisciplinar. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 46 Quando pensamos em mediar as experiências de nossos educandos, devemos observar as múltiplas dimensões existentes em cada expressão, gesto, ato, movimento, em cada interação social, assim abarcando o indivíduo de modo global: Corpo + Mente + Movimento + Expressão + Afetividade Essas múltiplas dimensões devem ser valorizadas nos ambientes escolares. Cabe ao educador infantil promover a educação psicomotora (voltada ao movimento contex tualizado) para colaborar no desenvolvimento integral de seus alunos. Um bom trabalho nesse sentido facilitará futuramente a aquisição das habilidades de leitura, escrita e raciocínio lógico-matemático, e a formação de adultos socialmente integrados, com boa auto-estima e boa auto-imagem. A aquisição da escrita, por exemplo, começa quando a criança tem suficiente domínio motor para segurar o lápis, coordenar a relação visomotora entre o lápis, o papel e as linhas e controlar as relações de força e velocidade. Ou seja, a escrita é um aprendizado motor. A percepção espacial e a representação mental necessárias à escrita e à leitura estão associadas à Psicomotricidade. Esses aspectos são responsáveis pela visuali- zação e a fixação de formas. As letras e os números escritos correspondem a formas (ou símbolos) que visualizamos (imagem dos caracteres) e aos quais atribuímos sig- nificações (oriundas do plano social e individual). A lateralidade também influencia a aquisição da leitura. Nas línguas ociden- tais, por exemplo, lemos as palavras e frases da esquerda para a direita. O texto pode ser visualizado de cima para baixo e vice-versa. Em função disso, o desenvolvimento motor é muito importante na fluência da leitura. A respeito das habilidades lógico-matemáticas, sabemos que desde cedo a criança reproduz e cria imagens por meio de seus desenhos ou com o próprio corpo, seja imitando animais e pessoas ou desenhando formas geométricas básicas. Sua noção espacial (adquirida em virtude de seus movimentos e pela manipulação de objetos) aprimora sua percepção. As relações psicomotoras infantis favorecem a pas- sagem da percepção para a representação (sendo esta mais complexa, pois abrange noções espaciais e temporais). Todo educador infantil deve promover o desenvolvimento psicomotor de seus educandos. Isso significa estabelecer uma prática escolar voltada para o mo- vimento, os jogos e brincadeiras, a socialização e a afetividade, sempre adequada às necessidades específicas de cada aluno para que ele sinta a segurança emocional necessária ao seu desenvolvimento. Para que a escola possa criar esse clima, principalmente na etapa da educação infantil, é ne- cessário (e queremos insistir nisso) que os profissionais que nela trabalham sejam receptivos ao momento maturativo e psicoafetivo da criança. Essa capacidade de acolhida requer uma formação que contemple a observação, a reflexão e a compreensão das necessidades afetivas e dos comportamentos emocionais dos alunos, fundamentados nos princípios que sustentam a formação de adultos na prática psicomotora. A criança descobrirá no educador formado nessa prática um adulto com disponibilidade para escutar e acolher suas manifestações emocio- nais, aceitando-as, contendo-as e fazendo-as evoluir através de sua tecnicidade. (SÁNCHEZ; MARTINEZ; PEÑALVER, 2003, p. 13) Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 47 Sedentarismo e incapacidade motora Quando falamos em Psicomotricidade, outra questão que vem à tona é a inca- pacidade motora, ou seja, a negação ou impossibilidade de movimento. O movimento faz parte da natureza humana. Andar, correr, pular, mexer os braços, as pernas, mani- pular objetos, escrever – enfim, atuar com o corpo é uma ação cotidiana. Inclusive, o movimento vai muito além de nossas ações externas. A respiração, o batimento cardíaco e o fluxo sangüíneo também envolvem movimento e ritmo. Do ponto de vista holístico, podemos considerar esses aspectos como o ritmo vital do ser (o biorritmo). Para se desenvolver integralmente, o homem precisa trabalhar com seu corpo, usá-lo como um instrumento de experimentação, vivência, descoberta, percepção e relação com o mundo. A atividade motora deve estar presente ao longo de toda a vida, desde a infância e a juventude, quando estamos cheios de energia, até a terceira idade. Entender a importância do movimento é também ter consciência dos problemas causados pela negação ou incapacidade motora. Quando não nos movimentamos, estamos contribuindo para a ocorrência de doenças ou sintomas como obesidade, sensações de preguiça, apatia, estresse e tristeza. Quem opta pelo exercício das habilidades motoras se torna uma pessoa mais disposta e ativa. As atividades físicas e desportivas sistemáticas são de grande importância para desenvolver as relações do homem com seu corpo e seus movimentos. Por meio delas, ele constrói sua consciência corporal, isto é, a forma como visualiza seu corpo e, conseqüentemente, o modo como percebe suas habilidades e limitações.O atual avanço tecnológico gera um modelo de vida sedentária. Controles remotos, computadores, carros e máquinas automatizadas, entre tantos outros obje- tos, favorecem as posturas corporais estáticas. Muitas vezes, as pessoas preferem ficar sentadas a praticar esportes, jogar, correr e caminhar. Acostumadas ao conforto, até mesmo as caminhadas curtas (uma ou duas quadras) tornaram-se saídas de carro. Nesse contexto, o sedentarismo parece um mal comportamental, mas assume proporções complicadoras para a saúde dos indivíduos. Os maiores problemas causados nesse sentido surgem pela associação entre sedentarismo e hábitos alimentares desre- gulados e pouco saudáveis (refeições não balanceadas). Diferente do sedentarismo, a incapacidade motora é definida por patologias ou limitações físicas que causam a impossibilidade de vivências específicas. Em algu- mas pessoas, essas limitações não se referem apenas aos aspectos físicos, mas tam- bém propiciam desânimo, rancor, irritabilidade e inveja, entre outros sentimentos. Já em outros indivíduos, a incapacidade motora leva-os a uma superação extrema na busca de uma auto-imagem positiva. Com tal esforço, eles conseguem ter um lugar em uma sociedade que muito exclui essas pessoas. A auto-estima está relacionada com as habilidades motoras. Ao se movimentar, o homem conhece melhor a si mesmo, transgride seus limites, estipula e alcança obje- tivos e obtém prazer. Nossa sociedade tende a aceitar os indivíduos que se movimen- tam e se exercitam, pois isso demonstra que eles podem ser socialmente produtivos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 48 Ah! A cada passo uma incerteza. A cada momento um medo, uma confusão. Mas que cada um construa sua própria embarcação. O mar é sempre igual aos olhos dos que comungam a mesma percepção. Mas ele é muito mais amplo, profundo e surpreendente do que se pode imaginar... A percepção do oceano é mutante para quem se atreve a navegar. Mas use modelos apenas como referência para o seu barco... Mas construa sua própria nau sem medo de ela não ser igual... Igual à estética das outras embarcações. A diferença tem todo o direito de navegar. Cada um de nós tem amplo direito de possuir seu próprio meio de expressar. O barco da diferença corta o oceano... Podendo reinventar o próprio mar. Todos os aspectos aqui abordados servem para refletirmos sobre a função da escola na promo- ção de um desenvolvimento integral dos educandos, abrangendo os fatores físicos, motores, cogniti- vos e afetivos. Formar pessoas com auto-estima positiva e saudáveis em todos os sentidos é também um dever dos educadores infantis. Sendo assim, sempre procure desenvolver práticas pedagógicas que trabalhem a Psicomo tricidade e, além disso, incluam noções de saúde preventiva, alimentação saudável, hábitos de higiene e práticas físicas. Apresentamos agora um escrito do educador e psicólogo Eduardo Simonini Lopes, que demonstra grande interesse e preocupação com a construção de um ambiente escolar que valorize a diversidade. Este trecho foi extraído da apostila do curso A vez do mestre a distância, de Simonini, pela Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro, 1999. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 49 Desta vez, teremos um trabalho em grupo bem lúdico e agradável. Para realizar a tarefa, reú- nam-se em grupos de cinco ou seis integrantes e discutam as questões abaixo. 1. Como estamos trabalhando nosso próprio corpo no dia-a-dia? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 50 2. Como temos colaborado para o desenvolvimento psicomotor de nossos alunos? Depois de conversar sobre essas questões, façam um cartaz (com papel kraft ou cartolina e giz de cera) sintetizando as idéias levantadas. Explorem sua criatividade – incluam desenhos, figuras e outros elementos que lhes pareçam interessantes! A seguir, todos os grupos apresentarão seus cartazes e suas idéias aos demais colegas. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Fatores das atividades motoras infantis Max Gunther Haetinger* As múltiplas inteligências e o movimento F oi na Grécia antiga que o homem começou a cultuar o corpo e a mente. A civi-lização grega preocu pava-se em ocupar o tempo e o espaço de forma graciosa e inteligente. Por isso, buscou desenvolver a forma física, o equilíbrio, a simetria e os diferentes aspectos da inteligência. As artes, as ciências e os esportes foram mani- festações que confirmaram esse desejo de harmonia entre o corpo e a mente. Alguns séculos mais tarde, os romanos retomaram essas preocupações e mani- festaram a cultura da “mente sadia em um corpo sadio”: não basta sermos apenas inteligentes ou dotados de boa forma e coordenação física – é preciso conjugar as habilidades do corpo e da mente. Isso nos faz pensar sobre as relações entre as inteligências humanas e o desen- volvimento motor. Sabemos que o ser humano possui qualidades muito específicas, chamadas de habilidades, competências ou inteligências. Cada indivíduo desenvolve essas habilidades de maneira diferente, aprimorando mais umas que outras ao longo de sua vida. No universo escolar, também percebemos que cada aluno tem certas habilidades mais desenvolvidas que outras. Vejamos os exemplos abaixo. – Viu como o Roberto tem facilidade para manipular objetos? – O filho do Carlos tem um ouvido! Já sabe até tocar violão sem nunca ter estudado música. – A Cláudia tem grande desenvoltura com as palavras. – O João parece uma calculadora: faz todas as contas de cabeça. Nessas considerações, percebemos a manifestação de diferentes tipos de in- teligência. Essas distintas capacidades de aprendizagem são caracterizadas por Howard Gardner (2002) como inteligências múltiplas. Esse autor define sete tipos de inteligência usados em ações específicas. Vejamos quais são elas no diagrama apresentado a seguir. * Com a colaboração de Daniela Haetinger e Luis Lucini Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esportes Dança Mecânica Trabalhos manuais Passatempos Literatura Poesia Comunicação Rádio Teatro Escrita Cálculo Ciência Quantificação Música Ritmo Composição Artes visuais Escultura Decoração Filmes Diagramas Imaginação Independência Privacidade Autoconhecimento Cooperação Liderança Trabalho em grupo Interação Linguística Lógico- matemática Visuoespacial Música Interpessoal Intrapessoal Quinestésico-corporal As sete inteligências (G A R D N E R a pu d FO N SE C A , 2 00 4, p . 2 7. ) Apesar de ter caracterizado essas sete inteligências, Gardner destaca que podem existir muitos outros tipos ainda não estudados. O autor também reitera que não podemos encará-las como entidades isoladas: é preciso considerar o conjunto das inteligências de um indivíduo e observar como umas se sobrepõem às outras em função das vivências experimentadas. A inteligência quinestésico-corporal (cinestésico-corporal ou simplesmente corporal), identificada no diagrama de Gardner, fundamenta-se nas relações entre o corpo e o movimento. Ela é requerida para tarefas que conjugam habili dades motoras e corporais. Um bailarino ou um atleta, por exemplo, são indivíduos com a inteligên- cia cinestésico-corporal altamente desenvolvida. Também um cirurgião e um piloto de automóveis precisam da inteligência corporalpara, respectivamente, manusear com habilidade os instrumentos cirúrgicos e dirigir um veículo. Para ampliar essa perspectiva de Gardner, apresentamos um importante con - ceito do cientista e educador Sternberg (apud FONSECA, 2004), relacionado à Psicomo tri cidade. Sternberg destaca a motricidade humana como a base das relações psico mo to ras e do indivíduo com o seu contexto. Também define um intenso inter- câmbio entre a subteoria multicomponencial (que corresponde ao mundo interior do homem), a subteoria multiexperiencial (socialização e vivências) e a subteoria multi- contextual (o contexto em que o homem está inserido), conforme o quadro a seguir. Educação, Corpo e Movimento 52 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Subteoria multicomponencial Tonicidade + postura + lateralização + somatognosia + espaço-tempo + praxia global + praxia fina Subteoria multiexperiencial bebê + criança adolescente adulto idoso Subteoria multicontextual família + hospital creche + jardim-de-infância pré-escola + escola trabalho + cultura ecossistemas (F O N SE C A , 2 00 4, p . 2 9) Frente a esses argumentos, entendemos que a escola deve enfatizar o desenvol- vimento psicomotor de seus alunos. A fala, a escrita, as relações sociais e o desloca- mento do corpo e de objetos no espaço são fatores que dependem de uma educação motora continuada. Nesse sentido, o educador infantil precisa qualificar-se para lidar com o desen- volvimento psicomotor e propor aos alunos um trabalho corporal e motor de forma consciente e fundamentada em parâmetros científicos. Isso porque A psicomotricidade na sua essência não é só a chave da sobrevivência, como se observa no animal e na espécie humana, mas é, igualmente, a chave da criação cultural. Em síntese, é a primeira e a última manifestação da inteligência. (FONSECA, 2004, p. 25) Destacamos um artigo da professora Tânia Ramos Fortuna ressaltando o jogo e o brincar como atividades que contribuem para o desenvolvimento motor e, conseqüentemente, para as inteligências humanas. O jogo (FORTUNA, 2003, p. 397-406) Diz Kishimoto que brincadeira é a ação que a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo, ao mergulhar na ação lúdica, é o lúdico em ação. Já o brinquedo supõe uma relação ínti- ma com a criança e uma indeterminação quanto ao uso, portanto, sem regras fixas; sendo suporte da brincadeira, pode ser entendido segundo a dimensão material, cultural ou técnica. O jogo, por sua vez, inclui uma intenção lúdica do jogador e caracteriza-se pela não-literalidade (por exemplo, urso não é, literalmente, o filho, mas é como se fosse), efeito positivo (alegria, prazer), flexibilida- Fatores das atividades motoras infantis 53 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br de (ensaio de novas idéias e combinações mais do que em atividades, não recreativas), prioridade do processo (mais importante do que os efeitos dos resultados do jogo é o fato de estar jogando), livre escolha (adesão livre espontaneamente à proposta) e controle interno (são os próprios joga- dores que determinam o desenvolvimento dos acontecimentos). [...] Como se joga? Vários autores tentaram estabelecer uma “tipologia do jogo”, da qual ex- traímos aqui algumas categorias, considerando os diferentes aspectos por eles salientados. Para Piaget, os jogos dividem-se em jogos de exercício, simbólicos e de regras, além dos jogos de construção, presentes ao longo do desenvolvimento. A finalidade dos jogos de exercício é o próprio prazer do funcionamento. Dividem-se em sensório-motores e de exercício do pensamento. Embora típicos dos primeiros 18 meses, reaparecem durante toda a infância e acham-se presen- tes em muitas atividades lúdicas praticadas por adultos. Os jogos simbólicos têm como função a compensação, realização de desejos e liquidação de conflitos, e expressam-se no faz-de-conta e na ficção. São característicos da fase que vai do aparecimento da linguagem até aproximadamente os seis/sete anos. Os jogos de regras são aqueles cuja regularidade é imposta pelo grupo, resultado da organização coletiva das atividades lúdicas. As regras podem ser transmitidas ou espontâneas e passam de uma condição inicial motora e individual, depois egocêntrica, de cooperação até a codificação. Caillois, por sua vez, classifica os jogos em jogos de azar (envolvem a idéia de acaso), com- petição (fazem intervir uma situação de competição ou de desafio contra o adversário ou para si mesmo, em uma situação que supõe igualdade de oportunidades no começo), vertigem (preten- dem destruir, ainda que por um instante, a estabilidade da percepção e impor à consciência uma espécie de pânico voluptuoso) e simulacro (ou jogos dramáticos ou de ficção, em que o jogador, os objetos ou a situação de jogo aparentam ser outra coisa – diferente do que são – na realidade). Maudry e Nekula estipulam os jogos segundo o tipo de interação que oportunizam, identificando jogos solitários, paralelos, de cooperação e de grupo. Nos jogos solitários a crian- ça brinca sozinha, sendo típicos do primeiro ano. Os contatos entre as crianças desta idade são permeados por curiosidade e explosões agressivas. Os jogos paralelos surgem em geral entre o segundo e terceiro ano, caracterizando-se pelo fato de as crianças brincarem “lado a lado”. Os jogos de cooperação manifestam-se nas atividades lúdicas envolvendo outras crianças de forma organizada, com definição de papéis e, por isso, com reconhecimento e disputa da liderança. São cooperativos porque estes papéis, muitas vezes, significam uma “participação especial” no brin- quedo paralelo, sem que haja estabilidade nesta participação. Os jogos de grupo, em que quatro ou cinco crianças já conseguem brincar juntas, supõe objetivos comuns, são mais duradouros – podem se estender por vários dias, repetirem-se em várias ocasiões – e não implicam somente empréstimo de brinquedos, mas também troca de fantasias, isto é, identificação dos elementos do grupo entre si. Já Margoulis salienta o aspecto material do brinquedo, dividindo-o em brinquedo comple- tamente pronto, simples ou mecânico, (por exemplo, carrinho, boneca), feito aos poucos (como loteria, quebra-cabeça) e material de jogo (argila, ligue-ligue). Erikson vislumbra o espaço e a interação através do jogo, através de conceitos como autos- fera (jogo consigo mesmo, no domínio do próprio corpo), microsfera (jogos solitários envolvendo objetos) e macrosfera (jogos que implicam relações interpessoais). Educação, Corpo e Movimento 54 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Contudo, para quem brinca/joga, brinca-se por brincar, brinca-se por prazer, brinca-se por- que de que outro modo far-se-ia amigos (e inimigos)? E para o educador, quais os efeitos desta tomada de consciência sobre o brincar em seu trabalho? Em princípio todos os adultos, de algum modo e em algum momento de suas vidas, brincaram. Porém muitos parecem esquecidos disso, mantendo divorciadas suas lembranças de brincadeiras infantis da realidade escolar que protagonizam diariamente. [...] mas aqui basta que saibamos que para ser educador a reconciliação com essas e outras lembranças relativas à infância é necessária, como condição e expressão de nossa capacidade de compreender os alunos e assim intervir peda- gogicamente [...] [...] Na verdade, os adultos parecem sentir-se ameaçados pelo jogo devido à sua aleatoriedade e aos novos possíveis que constantemente se abrem. Seu papel no brincar foge à habitual centrali- zação onipotente e o professor não sabe o que fazer enquanto seus alunos brincam.[...] Por outro lado, os brinquedos e jogos podem experimentar uma existência perversa na sala de aula, isto é, ao mesmo tempo muito perto e muito longe. É o que se vê em salas de aula cuja visualidade lúdica é excessiva, chegando ao ponto de ser invasiva, distanciando as crianças do brincar. Com tantas ofertas de brinquedos e situações lúdicas as crianças não conseguem assimilar as propostas aí contidas, e acabam não interagindo com este material. Quem não recorda a caixa de papelão ou a embalagem do brinquedo que fez mais sucesso que o próprio objeto que continha? [...] Em linhas gerais, é necessário que o educador insira o brincar em um projeto educativo, o que supõe intencionalidade, ou seja, ter objetivos e consciência da importância de sua ação em relação ao desenvolvimento e à aprendizagem infantil. Contudo, é preciso renunciar ao controle e à centralização e onisciência do que ocorre com as crianças em sala de aula. [...] A simples oferta de certos brinquedos já é o começo do projeto educativo. O Guia dos Brin- quedos e do Brincar (Abrinq, s.d.) sugere brinquedos em função dos aspectos do desenvolvimento e da aprendizagem estimulados. Faixa etária Atividade principal Brinquedos sugeridos 0 a 18 meses Manipular objetos (atividade oral ou manual) Chocalhos, brinquedos para martelar e empilhar, brinquedos flutuantes, blocos com ilustrações, brinquedos com guizo interno. Explorar (apertar botões e mover alavancas) Móbiles, brinquedos de puxar e empurrar, quadro colorido e sonoro de engrenagens com botões e manivelas. Encaixar objetos Copos e caixas que se encaixam umas nas outras, blocos e argolas para empilhar. Compreender situações Livros de rima, ilustrações e estribilhos, brinquedos musicais e com guizo. Telefone de brinquedo. (A da pt ad o do G ui a do s B ri nq ue do s e d o Br in ca r, Fu nd aç ão A br in q) Fatores das atividades motoras infantis 55 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Faixa etária Atividade principal Brinquedos sugeridos 18 a 36 meses Dirigir veículos Cavalinho-de-pau, triciclos, carrinho de mão, carrinho de boneca. Manipular objetos Objetos para caixa de areia (baldes, pás, formas etc.), blocos de formas e tamanhos diferentes, bolas. Organizar cenários para as brincadeiras Caixa de areia, água, mobiliário e utensílios domésticos proporcionais ao tamanho da criança. Imitar outros seres ou pessoas Fantasias, animais de pelúcia, fantoches. Solucionar problemas Quebra-cabeças simples, jogos de construção com peças grandes. Representar Argila e massa de modelar, giz de cera grande, quadro-negro e giz, tinta para pintar com os dedos, instrumentos musicais. Construir objetos/relacionar objetos semelhantes Trens, carrinhos, serviços de chá, blocos. 3 a 6 anos Cenários para brincar e ambientes Fantasias, fantoches e teatrinhos. Telefone e relógio de brinquedo. Casinha de brinquedo e brinquedos para brincar de casinha. “Homenzinhos” (soldados, heróis etc.). Garagem, autorama e ferrorama simples. Lego. Movimentar-se no espaço Triciclos maiores, equipamentos de ginástica para playground. Compreender os meio de comunicação Discos e toca-discos, livros para cobrir, cadernos de desenho, livros de história. Visão construtivista do desenvolvimento motor Após destacarmos os conceitos apresentados por Gardner, Sternberg e Tânia R. Fortuna, abordaremos a contribuição da escola construtivista para o desenvolvi- mento motor e da inteligência. Jean Piaget dedicou a maior parte de sua obra à pesquisa do desen volvimento da inteligência na criança. A partir de suas experiências, classificou esse desenvol- vimento em quatro estágios: sensório-motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório formal. Mesmo que o autor tenha enfatizado os aspectos cognitivos da inteligência, ele também considerou os fatores ambientais, sociais e afetivos que en- volvem a aprendizagem. Educação, Corpo e Movimento 56 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Nesse sentido, observamos a importância das ações educacionais voltadas para jogos e brincadeiras, pois elas funcionam como elementos facilitadores do de- senvolvimento da inteligência. A partir da perspectiva de Piaget, Maria G. Seber (2002) destaca as atividades a serem usadas pelos educadores infantis para facili- tar a aprendizagem de seus educandos. Considerando as contribuições dessa autora, apresentamos algumas práticas que promovem as vivências corporais e motoras. Brincadeiras simbólicas – são atividades que usam os objetos como suporte para o diálogo da criança. Acontecem quando a criança brinca livremente, dramatiza histórias, constrói narrativas para depois expressá-las, conversa com seus colegas. Imitação de sons e gestos – imitar significa expressar um modelo visuali- zado ou interiorizado. As atividades de imitação expressam-se em brinca- deiras como estátua, caminhadas imitando os animais e seus sons, mímica, coreografias, rodas cantadas, entre outras. Imitação de arranjos feitos com objetos – é a imitação de composições de objetos. Essas imitações incluem atividades como reproduzir composições de objetos com o corpo, ou criar e representar movimentos para objetos estáticos. Brincadeira sensório-motora – esse tipo de brincadeira ajuda na forma- ção dos modelos necessários à fase sensório-motora do desenvolvimento da inteligência. São atividades como bater, pular, acertar em alvos, soprar, pegar e soltar objetos, fazer recortes, pinturas, desenhos, e trabalhos com sucatas, massa de modelar e colagem, brincar com cordas e bolas, amassar papéis, entre outras. Classificação e seriação – é a capacidade de classificar, ordenar e seriar diferentes objetos e ações em função de suas características comuns. As atividades motoras que colaboram para esse aspecto da inteligência são o esporte, os jogos que trabalham movimentos em grupos distintos e todo tipo de atividade que requer a inter-relação de gestos, falas, grupos ou objetos em função de suas diferenças ou semelhanças. Quantificação – expressa a relação entre elementos, quantidades e/ou pro- porções. Entre as atividades psicomotoras que destacam essa capacidade, indicamos os jogos e brincadeiras com contagem, atividades em circuitos (pois prevêem fases inter-relacionadas), dança, ritmo e coreografias. Apresentamos hoje neste espaço uma homenagem que o escritor, médico e professor gaúcho Moacyr Scliar fez a todos os mestres e educadores. Em seu texto, o autor fala-nos sobre a sabedoria e a importância dos mestres na vida de seus alunos e discípulos. Fatores das atividades motoras infantis 57 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Aos mestres, com carinho (SCLIAR, 2004) Queridos alunos, leiam com atenção o texto que segue. “Ah, o nosso Mestre. É impossível esquecer o nosso Mestre. Nós, os seus discípulos, o adorávamos. O nosso Mestre era sábio, mas não usava a sabedoria como sinal de superioridade. O nosso Mestre tinha autoridade, mas não era autoritário. O nosso Mestre era enérgico, mas era generoso também. Sobretudo, o nosso Mestre sabia como nos ensinar. Nós bebíamos suas palavras, porque sentíamos que nasciam da experiência – da experiência dele próprio e da ex- periência dos Mestres que o haviam precedido. O nosso Mestre podia ser retórico, mas também podia nos ensinar contando uma boa história, uma simples e curta narrativa que, no entanto, fazia com que pensássemos. O nosso Mestre às vezes era categórico; mas muitas vezes substi- tuía asafirmações por interrogações: perguntas cujas respostas deveríamos encontrar em nós mesmos. Um grande mestre, o nosso Mestre.” Leram? Então respondam: de quem fala este emocionado discípulo? a) De Sócrates, que fazia do diálogo um método de ensino? b) De Jesus, que com suas parábolas expressava verdades fundamentais sob a forma de historietas? c) De Confúcio, o expoente da sabedoria oriental? Qualquer uma das respostas acima serviria: estamos falando de mestres que marcaram nosso mundo. Mas eu aconselharia vocês, caros alunos, a lembrarem outros mestres, mestres que estão mais próximos de vocês no espaço e no tempo: os anônimos professores e professoras, que, em condições muitas vezes precárias e com baixos salários, dão o melhor de si por seus alunos. Mestres que são sábios, mas que não usam a sabedoria como sinal de superioridade; mestres que têm autoridade, mas não são autoritários. Mestres que sabem ensinar seja explican- do, seja contando histórias, seja desafiando os alunos com perguntas adequadas. Mestres cuja importância às vezes não é reconhecida, mas que nem por isso fica menor: graças a eles, aquilo que a humanidade aprendeu através dos tempos, as lições dos grandes mestres – e dos grandes artistas, e grandes cientistas – chega a vocês. Pensem nisto, queridos alunos... 1. A tarefa em grupo desta aula vai ser um pouco diferente, pois vamos trabalhar com a mímica, uma atividade que representa o uso simultâneo de diversas inteligências. Para realizá-la, reú- nam-se em grupos de cinco ou seis integrantes. Procurem trabalhar em novos grupos, evitando a formação de “panelinhas”. Cada grupo terá de escolher três títulos de filmes famosos. Depois, os integrantes criarão uma mímica para representar cada um dos títulos escolhidos. Quando todos estiverem prontos, cada grupo apresentará suas mímicas aos demais colegas, contando com 30 segundos por título. A Educação, Corpo e Movimento 58 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br turma deverá adivinhar o título do filme em questão. Com o auxílio de um relógio, o professor vai coordenar a atividade. Ao final das apresentações, levantem as dificuldades de comunicação que acontecem quando usamos somente nosso corpo para expressar idéias e conceitos. Para orientar o debate, indica- mos algumas questões, como: a) Quais as idéias que conseguimos efetivamente expressar por meio de nossos corpos? b) Como cada um se sentiu ao usar somente o corpo para se comunicar? c) Como o grupo recebeu as apresentações? d) Todos conseguiram decifrar os títulos dos filmes? e) As relações existentes entre os integrantes da turma colaboraram na expressão pela mímica? f) Quais os aspectos que facilitaram o entendimento dos títulos? Fatores das atividades motoras infantis 59 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 60 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil Max Gunther Haetinger* A dança na escola Eu só acredito num Deus que dança. Nietzsche D urante muito tempo, a dança escolar esteve relacionada a dois estereótipos: a apresentaçãode coreografias (executadas principalmente por meninas) e a dança folclórica. No entanto, fora do ambiente escolar, poucos estilos de dança valorizam mais as mulheres em detrimento dos homens – veja-se o exemplo de famo- sos bailarinos conhecidos mundialmente. Diversos tipos de dança estão presentes no cotidiano de diferentes sociedades. A dança é uma manifes tação cultural e social. Especialmente entre nós, brasileiros, com a marcante característica do “saber gingar”, ela representa um importante modo de expressão. A dança na escola e na vida deve ser uma atividade para ambos os sexos, pois visa à promoção de vivências corporais e experimentações com o ritmo. O ato de dançar também é muito positivo no ambiente escolar, porque requer o uso de diferentes habilidades motoras, contribuindo para o desenvolvimento integral das crianças. A música, naturalmente associada à dança, é um elemento constantemente in- serido no contexto da escola infantil. Vocês devem conhecer algumas canções como “Bom dia” e tantas outras com as quais trabalhamos diariamente em sala de aula. É por meio desse tipo de prática que inserimos a dança no universo infantil. Então, parece-nos evidente a exploração desse estímulo quando buscamos facilitar o desen- volvimento das capacidades motoras e da criatividade de nossas crianças. A dança é uma das formas de expressão fundamentais para o desenvolvimento psicomotor. Isso porque, quando alguém dança, está necessariamente controlando e coordenando seus movimentos corporais associados ao pensamento. O resultado dessa atividade é o exercício físico e mental relacionado ao prazer e à alegria. Na escola infantil, podemos trabalhar com quatro tipos de dança: dança criativa; dança figurativa; iniciação na dança folclórica; rodas cantadas. * Com a colaboração de Daniela Haetinger e Luis Lucini Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Dança criativa A dança criativa está presente em muitas circunstâncias da realidade escolar. As próprias crianças, em suas brincadeiras no pátio da escola, inventam “coreo- grafias” e dançam as músicas da moda ao seu jeito. Naquele momento, elas estão dançando livremente e explorando sua criatividade. A observação do universo infan- til é sempre a maior fonte de dados para um educador consciente de sua função. No mundo ocidental, a “dança criativa” ao lado da “dança educativa” ou da “dança- educação”, são quase que consensualmente aceitas como modalidades similares de educação para crian- ças na área de dança no contexto escolar. (MARQUES, 2003, p. 130) A dança criativa é uma dança não coreográfica, realizada a partir de estímulos sonoros (músicas e/ou ruídos). Ao praticá-la, a criança cria movimentos livremente ou a partir da provocação de um mediador. Desse modo, a dança criativa parte de uma brincadeira infantil e se manifesta quando a criança usa seu próprio corpo para brincar e se movimentar ao ritmo de uma música ou um som. Nos ambientes de Educação Infantil, o educador pode trabalhar a dança criativa provocando reações e interpretações por parte das crianças. Por meio de brincadeiras que envolvem situações e sons específicos, o professor estimula a criança a dançar e usar sua imaginação. Por exemplo: – Estamos agora no circo e cada um vai dançar como um personagem desse circo. – Agora somos uma tribo de índios e cada um se movimenta como um índio. Segundo Marques, a dança criativa “sugere que as aulas de dança devem per- mitir e incentivar os alunos a experimentar, explorar, expandir, colocar seu eu no pro- cesso de configurações de gestos e movimentos” (MARQUES, 2003, p. 140). Assim, essa prática representa um meio para a criança manifestar e explorar suas habilidades motoras, sua afetividade e sua cognição. Entretanto, para propor a dança na escola infantil, o educador precisa sempre considerar as fases do desenvolvimento motor relacionadas a este tipo de atividade. Primeira fase (dos primeiros passos até os dois anos) – o corpo se movimen- ta no ritmo que a música sugere, de modo mais agitado ou mais lento. Segunda fase (dos dois aos três anos) – o corpo imitativo começa a fazer movimentos a partir de referências visuais. Terceira fase (após os três anos) – a criança já domina algumas habilidades motoras básicas e pode trabalhar a dança criativa. Dança figurativa As danças figurativas ou com imagens estão presentesno universo infan- til a partir dos dois anos de idade. São aquelas que integram ritmos e imagens às habilidades motoras. A criança pratica este tipo de dança ao usar seu corpo para expressar imagens e ações indicadas na letra de uma música. Um exemplo de dança figurativa é quando a criança escova seus dentes com o seguinte estímulo musical: – O ursinho pequenino pega a escova e escova assim, assim, assim... Educação, Corpo e Movimento 62 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ou quando o dia começa na escola e os pequenos alunos movimentam-se ao som de – Bom dia, bom dia, espreguiça o corpo todo, gira e diz bom dia... Agora mexe a perna, mexe o braço e diz bom dia... Esse tipo de música que orienta a dança figurativa é também bastante usado nas apresentações infantis em datas comemorativas do calendário escolar (Dia das Mães, Dia dos Pais, Páscoa, Natal etc.). Na Educação Infantil, a dança figurativa é muito importante não somente para promover a relação do corpo com o ritmo, mas também para trabalhar a imaginação, as associações mentais, a coordenação, o controle corporal, a lateralidade, a dicção e a vocalização. Sendo assim, essa atividade abrange as quatro dimensões da apren- dizagem (cognitiva, afetiva, psicomotora e a dimensão de fé e crenças) e deve ser sempre valorizada. Porém, cabe aos educadores ter o devido cuidado para não transformar a dança figurativa em uma prática regrada e com movimentos predefinidos. É preciso deixar a criança criar seus próprios movimentos e expressar livremente as associações feitas a partir das imagens sugeridas pela música. No universo infantil, toda dança deve desconsiderar os estereótipos e ser tratada com alegria, descontração, e sem a rigidez que inibe, exclui, desestimula e desagrega as crianças. Iniciação na dança folclórica A diversidade cultural presente em nosso país oferece a todos os educadores grandes possibilidades de trabalhar os aspectos culturais e regionais na escola. Nos ambientes educacionais, as atividades de dança folclórica geralmente estão ligadas a datas comemorativas do calendário escolar e variam conforme a região do país. São as danças típicas das festas de São João, da Semana Farroupilha, da Folia de Reis, entre outras comemorações. Na Educação Infantil, sugerimos a iniciação na dança folclórica. Dizemos iniciação porque as crianças pequenas ainda não conseguem assimilar coreografias complexas e regradas. Por isso, na infância as danças folclóricas sempre devem ter um caráter lúdico e motivador, assim como devem ser coreografias bem simples, que permitam uma expres são mais autêntica da criança e o entendimento dos aspectos culturais envolvidos em sua dança. Nesse sentido, o educador não deve transformar a dança folclórica escolar em uma apresentação formal, em que os alunos não podem cometer erros nem fugir de uma coreografia imposta. Lembrem que só a alegria, a descontração e a espontanei- dade fazem a criança ter prazer em dançar. Rodas cantadas As rodas cantadas são uma variação da dança figurativa. Caracterizam-se pela expressão de movimentos coletivos associados às imagens musicais, sendo o grande grupo mais importante que a manifestação individual. Além de promoverem as rela- ções entre movimento, ritmo e imagens, as rodas cantadas favorecem a coordenação, a observação, a lateralidade, o equilíbrio, a dicção, a fluência verbal e a vocalização. A dança e a música na educação infantil 63 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A professora Lu Chamusca (2004), uma grande amiga e defensora das rodas cantadas, afirma que o brinquedo cantado na infância é como o leite materno para o recém-nascido: é algo fundamental para o desenvolvimento das relações interpes- soais das crianças, valorizando a descoberta individual e a descoberta coletiva, a imaginação, a fantasia e o potencial criativo. Indicamos alguns passos a serem seguidos pelos educadores que pretendem usar as rodas cantadas na sala de aula infantil: selecione músicas conhecidas pelos alunos, ou, caso eles desconheçam, tra- balhe a música com as crianças antes de propor a dança; para brincar de roda cantada, proponha que as crianças posicionem-se em um grande círculo – assim, umas poderão ver as ações das outras; explique lentamente cada movimento ou gesto a ser realizado em função da música, combinando a coreografia, mas não exija demais – as crianças pequenas têm condições de fazer poucos movimentos diferenciados; repasse a coreografia com a música, bem devagar, promovendo uma brinca- deira alegre; inicie a roda cantada pra valer e agora é só brincar, cantar, dançar e se diver- tir. Finalmente, lembramos que a dança faz parte das nossas vidas, o ritmo está sempre presente em nosso cotidiano. Na escola, isso não é diferente, principalmente na Educação Infantil, onde as crianças estão fazendo suas primeiras desco bertas e desenvolvendo suas habilidades motoras e, felizmente, ainda não possuem certos condicionamentos que as impeçam de participar dessas atividades. A música no universo infantil Ao falar sobre a dança, não podemos deixar de considerar a música, pois as atividades de dança partem de estímulos sonoros. Na Educação Infantil, a dança con- jugada à música colabora para um desenvolvimento integrado da mente e do corpo, facilitando a aprendizagem e o desenvolvimento motor. E quem não se emociona ao ver uma criança que acabou de aprender a caminhar embalando-se ao ritmo de uma música? Gardner (2002) define que a primeira inteligência humana demonstrada na vida social é a inteligência musical, pois ao sairmos do útero materno descobrimos o mundo pelos sons do ambiente em que vivemos, pela voz da mãe e demais familiares. Em função disso, a educação usa a música como estímulo ao desenvolvimento de várias habilidades e competências humanas. O educador infantil não deve abrir mão dos jogos musicais, das rodas cantadas, da exploração e produção de ritmos – enfim, da presença da música nas ações peda- gógicas diárias. A música tem sido amplamente utilizada na escola como um objeto lúdico e expressivo e também por representar um meio de estabelecermos vínculos interpessoais e fomentar a socialização. Educação, Corpo e Movimento 64 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ao cantar em grupo, por exemplo, as crianças compartilham sua energia, sua expressão, sua espontaneidade e sua alegria. O ato de cantar ou produzir sons com instrumentos, coletivamente, potencializa a integração do ritmo com as habilidades psicomotoras individuais, assim como promove a sociabilidade. Toda ação musical (seja cantar, bater palmas com ritmo ou produzir sons por meio de instrumentos improvisados e sucatas) colabora para o desenvolvimento in- fantil. São práticas muito simples, porém de grande valor, pois possibilitam a desco- berta do ritmo e o exercício da coordenação motora. As atividades musicais são sempre bem-vindas em sala de aula. Mas às vezes ficamos em dúvida sobre o tipo de música a ser utilizada nas brincadeiras infantis. Se usarmos somente as músicas de roda, podemos nos afastar da realidade das crianças porque hoje elas escutam os mais variados gêneros musicais. E se adotamos apenas as músicas veiculadas na mídia corremos o risco de introduzir temas inadequados para as crianças (em função do conteúdo das letras). Esse dilema só pode ser administrado por meio do bom senso. Para tomar uma decisão em relação às músicas destinadas a práticas pedagógicas, o educador deve considerar o gosto das crianças, os hábitos e valores vigentes em sua formação e os propósitose objetivos da ação escolar. Nesta unidade, destacamos as palavras da professora Dionísia Nanni, que aborda as relações existentes entre movimento, dança, história da humanidade e ritos. O movimento na dança (NANNI, 1998, p. 14-17) A evolução dos comportamentos motores, desde os primórdios da existência do homem, teve seu aporte a partir dos movimentos naturais, hoje padrões básicos essenciais à existência do homem. [...] Desenhos, gravuras, esculturas, pinturas em diferentes épocas materializaram e delinearam a intencionalidade de práticas corporais (gestos e movimentos) nos diferentes ciclos da existência do homem com gestos e idéias específicas de cada cultura. [...] O movimento, em sua gênese, caracterizou-se em caráter puramente emocional – permitir ao homem ter experiências de êxtase e comunhão com os deuses em suas danças, em que a essência das mesmas possibi litou a comunicação do homem consigo ou com entidades superiores. A partir de dado momento o movimento evolui de descarga emocional involuntária para os estados frenéticos e codificados durante os ritos cerimoniais; passa a dança para o domínio ritu- alístico. Portanto, o homem primitivo na luta pela sobrevivência dançou para aplacar a fúria dos deu- ses ou para homenageá-los; expressava e se comunicava por gestos e movimentos estruturados em sua experiência consciente e utilitária – nasce a dança ritual. A dança e a música na educação infantil 65 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br [...] Harrow analisa a importância do movimento ao reconhecer que a utilização eficaz e eficiente da motricidade humana depende de tomada de consciência do corpo instrumental, de compre- ensão do valor significado e do efeito de uma diferenciação gestual através do jogo dinâmico do movimento, do equilíbrio estabelecido entre o corpo e as relações espaciais. Esses parâmetros estabelecem para o homem a apreen são e utilização de suas necessidades básicas necessárias ao ser “aqui e agora”. Isso porque o homem no desempenho de seus movimentos intencionais coordena durante o desempenho de uma habilidade motora a inter-relação de movimentos dos domínios psicomoto- res, cognitivos e socioafetivos. Esse consenso é explicado pela autora devido a fatores internos e externos do movimento. A explicação dada pela mesma é a seguinte: internamente o movimento é contínuo, e externamente sofre uma constante modificação provocada pela aprendizagem anterior, pelo meio ambiente, e pela situação imediata em que o indivíduo se encontra. Esta perspectiva ressalta a importância da dança/educação nas escolas de 1.º e 2.º graus (prin- cipalmente) como responsável pelo desenvolvimento desses domínios no processo ensino–apren- dizagem e confirma a importância de uma efetiva e eficaz estratégia metodológica para a ação inter e multidisciplinar. Dois fatores exerceram e exercem total e efetiva importância à dimensão histórica do homem em seu processo de desenvolvimento: o tempo e o espaço. Espaço e tempo Desde os primórdios da existência do homem que os fatores tempo e espaço expressavam as diferentes dimensões socioculturais e os diferentes aspectos políticos da evolução dos estágios de civili zação em que o mesmo se encontrava. [...] O domínio do movimento pesquisado por Laban e auxiliares, a princípio, se voltou para as manifestações simples dos esforços em animais selecionados e escolhidos dentre os milhões de combinações de esforço ao longo de muitas gerações. Laban selecionou uma série restri- ta de combinações de esforço cujos componentes [...] das qualidades e diferenças de esforço resultam de uma atitude interior (consciente ou inconsciente) em relação aos seguintes fatores do movimento: peso, espaço, tempo e fluência. Esses fatores básicos do movimento, entretanto, no homem primitivo ou civilizado, têm a capacidade de compreender a natureza das qualidades e de reconhecer nos ritmos e nas estruturas de suas seqüências a possibilidade e vantagem de treinamento consciente. Isso permite ao homem alterar e enriquecer condições positivas ou desfavoráveis. Só ao homem é dado o poder de acrescentar quantitativa e qualitativamente característi- cas intrínsecas do esforço aos seus gestos e movimentos pela energia nervosa liberada pelas diferentes qualidades do esforço. Segundo Laban, as qualidades dos movimentos introduzem a idéia de pensar por movimentos. Isso faculta ao homem modificar sua conduta de esforço tornando-os mais hu- manos e refinar seus hábitos de movimentos ao desenvolvimento de modalidades diferentes de configurações de esforço selecionadas e aprimoradas durante os períodos da história até final- mente se tornarem expressivas; a partir daí se transfomam em atividades rítmicas orientadas pelos impulsos interiores se constituindo em dança. Educação, Corpo e Movimento 66 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Retomando a dança na escola Durante muito tempo, as instituições de ensino desconsideraram a dança, man- tendo-a reservada às apresentações em datas comemorativas e às atividades lúdicas dos anos iniciais. Por preconceito ou ignorância, a dança foi distanciada das práticas pedagógicas ao longo da vida escolar. Como educadores, precisamos considerar a dança em todos os seus aspec- tos. O ato de dançar abarca a relação do homem com seu corpo; a coordenação de habilidades motoras; a expressão de sentimentos, sensações, códigos e conhecimen- tos interna lizados; a ativação da memória. A dança também promove a auto-estima e a criatividade ao proporcionar um trabalho de consciência corporal. A qualidade dinâmica da dança beneficia o corpo do indivíduo na medida em que requer movimentos e esforços múltiplos, os quais variam conforme o uso da flexibilidade, da coordenação, da força e da amplitude físicas. A consciência corporal engloba a respiração consciente, a percepção dos gestos, o equilíbrio, a coordenação dos membros e a noção espacial. Dançar é fazer o corpo e a mente explorarem o ritmo, as habilidades motoras e as associações mentais, é trans- formar emoções e pensamentos em formas. Extrapolando o âmbito individual, a dança também é capaz de reunir as pes- soas, fazendo com que elas se sintam mais integradas e aceitas socialmente. Em todas as sociedades, as danças expressam a cultura vigente e as inter-relações dos indivíduos, representando uma forma de comunhão. Em função dos fatores citados, a dança pode ser usada na Educação Infantil para colaborar no desenvolvimento psicomotor, pois engloba as expressões físicas, motoras, afetivas e cognitivas das crianças. Dançando, os pequenos experimentam novas descobertas, ações e gestos, combinando-os, revendo-os, aprimorando-os, sem medo de errar. Por outro lado, juntos eles vivenciam as primeiras experiências socializadoras. A dança ainda pode ser vista pela escola como um jogo que mobiliza as crianças e suas diferentes inteligências. Dançar diverte, relaxa e alegra, assim como estimula a cognição, a operação mental com símbolos e figuras e o exercício da imaginação. Retomar a dança na escola, abrangendo todas suas nuances e implicações no processo de ensino–aprendizagem, é atitude fundamental para os educadores da atu- alidade. A dança é um antigo meio de expressão humana que só vem a enriquecer as práticas pedagógicas contemporâneas. Destacamos um texto em que o professor Rubem Alves aborda uma nova concepção de escola em função de uma visita feita a Escola da Ponte (inovadora e renomada instituição de ensino portu- guesa). A dança e a música na educação infantil 67 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Mesmo não tratandoespecificamente da dança, as brilhantes idéias desse educador proporcio- nam uma importante reflexão sobre as práticas diariamente difundidas nos ambientes educacionais. Muitas vezes, acreditamos que nossa escola não é capaz de mudar para melhor. E, em função desse pensamento, acomodamos-nos e não buscamos saídas mais eficientes para resolver os proble- mas enfren tados no cotidiano escolar, inclusive os que dizem respeito às ações pedagógicas. “A Escola da Ponte (3)” vem justamente ilustrar como é possível adotarmos novas posturas e métodos para qualificar o processo de ensino–aprendizagem. A Escola da Ponte (3) (ALVES, 2003, p. 51-55) Contei sobre a escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. Mas existia, em Portugal... Quando a vi, fiquei alegre e repeti, para ela, o que Fernando Pessoa havia dito para uma mulher amada: “Quando te vi, amei-te já muito antes...” Gente de boa memória jamais entenderá aquela escola. Para entender é preciso esquecer qua- se tudo o que sabemos. A sabedoria precisa de esquecimento. Esquecer é livrar-se dos jeitos de ser que se sedimentaram em nós, e que nos levam a crer que as coisas têm de ser do jeito como são. Não. Não é preciso que as coisas continuem a ser do jeito como sempre foram. Como são e têm sido as escolas? Que nos diz a memória? A imagem: uma casa, várias salas, crianças separadas em grupos chamados turmas. Nas salas, os professores ensinam saberes. Toca uma campainha. Terminou o tempo da aula. Os professores saem. Outros entram. Começa uma nova aula. Novos saberes são ensinados. O que os professores estão fazendo? Estão cumprindo um programa. Programa é um cardápio de saberes organizados em seqüência lógica, estabelecido por uma autoridade superior invisível, que nunca está com as crianças. Os saberes do cardápio “programas” não são “respostas” às perguntas que as crianças fazem. Por isso as crianças não entendem por que têm de aprender o que lhes está sendo ensina- do. Nunca vi uma criança questionar a aprendizagem do falar. Uma criancinha de oito meses já está doidinha para aprender a falar. Ela vê os grandes falando entre si, falando com ela, sente que falar é uma coisa divertida e útil, e logo começa a ensaiar a fala, por conta própria. Faz de conta que está falando. Balbucia. Brinca com os sons. E quando consegue falar a primeira palavra, sente a alegria dos que a cercam. E vai aprendendo, sem que ninguém lhe diga que ela tem de aprender a falar e sem que o misterioso processo de ensino e aprendizagem da fala esteja submetido a um pro- grama estabelecido por autoridades invisíveis. Ela aprende a falar porque o falar é parte da vida. Nunca ninguém me disse que eu deveria aprender a descascar laranjas. Aprendi porque via meu pai descascando laranjas com uma mestria ímpar, sem arrebentar a casca e sem ferir a laranja, e eu queria fazer aquilo que ele fazia. [...] Vamos começar do começo. Imagine o homem primitivo, exposto à chuva, ao frio, ao vento, ao sol. O corpo sofre. O sofrimento faz pensar: “Preciso de abrigo”, ele diz... Aí, forçada pelo sofrimen to, a inteligência entra em ação. Pensa para deixar de sofrer. Pensando, conclui: “Uma caverna seria um bom abrigo contra a chuva, o frio, o vento, o sol...” Instruídos pela inteligência, os homens procuram uma caverna e passam a morar nela. Resolvido o sofrimento, a inteligência volta a dormir. Educação, Corpo e Movimento 68 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Mas aí, forçados ou pela fome ou por um grupo armado que lhes toma a caverna, eles são obrigados a se mudar para uma planície onde não há cavernas. O corpo volta a sofrer. O sofrimento acorda a inte li gência e faz com que ela trabalhe de novo. A solução original não serve mais: não há cavernas. A inteligência pensa e conclui: “É preciso construir uma coisa que faça as vezes de caver- na. Essa coisa tem de ter um teto, para proteger do sol e da chuva. Tem de ter paredes, para pro- teger do vento e do frio. Com que se pode fazer um teto?” A inteligência se põe então a procurar um material que sirva para fazer o teto. Folhas de palmeira? Capim? Pedaços de pau? Mas o teto não flutua no ar. Tem de haver algo que o sustente. Paus fincados? Sim. Mas para fincar um pau é preciso descobrir uma ferramenta para cortar o pau. Depois, uma ferramenta para fazer o buraco na terra. E assim vai a inteligência, inventando ferramentas e técnicas, à medida que o corpo se defronta com necessidades práticas. [...] Um exercício fascinante a se fazer com as crianças seria provocá-las para que elas imaginassem o nascimento dos vários objetos que existem numa casa. Todos os objetos, os mais humildes, têm uma história para contar. Que necessidade fez com que se inventassem pa- nelas, facas, vassouras, o fósforo, a lâmpada, as garrafas, o fio dental? Quais poderiam ter sido os passos da inteligência, no processo de inventá-los? Quem é capaz de, na fantasia, reconstruir a história da invenção desses objetos fica mais inteligente. Depois de inventados, eles não precisam ser inventados de novo. Quem inventou passa a pos- suir a receita para sua fabricação. E é assim que as gerações mais velhas passam para seus filhos as receitas de técnicas que tornam possível a sobrevivência. Esse é o seu mais valioso testamento: um saber que torna possível viver. As gerações mais novas, assim, são poupadas do trabalho de inventar tudo de novo. E os jovens aprendem com alegria as lições dos mais velhos: porque suas lições os fazem participantes do processo de vida que une a todos. A aprendizagem da linguagem se dá de forma tão eficaz porque a linguagem torna a criança um membro do grupo: ela participa da conversa, fala e os outros ouvem, ri das coisas engraçadas que se dizem. O mesmo pode ser dito da aprendizagem de técnicas: o indiozinho que aprende a fabricar e a usar o arco e a flecha, a construir canoas e a pescar, a andar sem se perder na floresta, a construir ocas está se tornando um membro do seu grupo, reconhecido por suas habilidades e por sua contribuição à sobrevi- vência da tribo. O que ele aprende e sabe faz sentido. Ele sabe o uso dos seus saberes. 1. Esperamos que os trabalhos em grupo propostos nesta disciplina representem uma oportunidade para todos realmente compartilharem seus saberes e experiências. Às vezes, o trabalho colabo- rativo pode parecer aborrecido ou mesmo difícil de ser equacionado em certos grupos. Mas isso não pode ser pretexto para desconsi derarmos o grande valor desse tipo de atividade. Lembremos que é preciso vivenciar os conteúdos para um aprendizado significativo e duradouro. A dança e a música na educação infantil 69 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Portanto, reúnam-se em grupos de cinco ou seis integrantes e mãos à obra! Nossa tarefa será sobre a dança na escola. Cada grupo deverá produzir uma coreografia figurativa a partir de uma música infantil. Vocês escreverão a letra da música em um cartaz (para que todos os colegas possam ver) e ensaiarão os movimentos de suas coreografias. Quando todos estiverem prontos, cada grupo vai mostrar o seu cartaz aos colegas, descrever os passos da coreografia criada e colocar toda a turma para dançá-la. Assim, todos conhecerão diferentes opções de coreografia e música para trabalharem com seus alunos. Educação, Corpo e Movimento 70 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Recreação e lazer Max Gunther Haetinger* Recreação e lazer na Educação Não é do trabalho que nasce a civilização: ela nasce do tempo livre e dos jogos. Alexandre Koyré A gora vamos conversar sobre duas palavras fundamentais para a educação:a recreação e o lazer. A primeira está diretamente ligada ao processo de ensino–aprendizagem infantil. Já a segunda refere-se a uma prática voltada à qualidade de vida ou, como alguns chamam, qualidade na vida. Durante muito tempo, pensava-se que a recreação e o lazer eram praticamente a mesma coisa. Talvez porque, popularmente, esses termos estejam relacionados ao pe- ríodo em que não se trabalha, quando as pessoas podem fazer “o que bem entendem”. A palavra lazer tem origem latina e significa “ser permitido”, referindo-se à oposição ao trabalho e se relacionando com ócio e passatempo. Recreação igual- mente vem do latim, significando “restabelecimento, restauração, recuperação”. No entanto, a literatura educacional apresenta uma certa confusão entre essas palavras, veiculando-as como sinônimos. Então, o primeiro passo para nosso estudo é resgatar- mos algumas referências sobre o lazer e a recreação, a fim de definir tais conceitos. A professora Lenea Gaelzer (1979), que foi uma das grandes pioneiras e in- centivadoras do desen volvimento da recreação e da promoção do lazer na escola, fornece algumas definições importantes. Recreação: uma experiência na qual o indivíduo participa por escolha, pelo prazer e pelasatisfação pessoal que dela obtém diretamente. Atividade recreativa: aquela que não é conscientemente executada com o propósito de obter recompensa além dela mesma, proporcionando ao ho- mem um escape para as forças físicas, criadoras, e na qual ele participa por desejo íntimo e não por compulsão. Lazer: é a harmonia individual entre a atitude, o desenvolvimento integral e a disponibilidade de si mesmo. É um estado mental ativo associado a uma situa ção de liberdade, de habilidade e de prazer. Analisando esses conceitos, podemos destacar alguns pontos que nos ajudam a entender a recreação e o lazer como práticas da escola infantil. A recreação é uma atividade de lazer, ou seja, está dentro do lazer. As atividades recreativas são ações práticas da recreação. Tanto a recreação quanto o lazer relacionam-se ao ato de ter prazer. Os dois estão ligados à liberdade de expressão e à escolha do ser humano. * Com a colaboração de Daniela Haetinger e Luis Lucini Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Sem dúvida, os conceitos são semelhantes. Mas observe que o lazer contém a recreação e esta engloba as atividades recreativas. Lazer Recreação Atividades Recreativas Na realidade escolar, esses termos adquirem significados mais específicos. As ativi dades recreativas e de lazer têm enfoques e diferenças muito importantes, apesar de as principais teorias sobre o assunto não demonstrarem isso. Sem dúvida, esses conceitos são alterados em virtude das práticas pedagógicas e de suas distintas cir- cunstâncias. Na escola, a recreação abrange as atividades lúdicas de cunho divertido e pra- zeroso, possibilitando o desenvolvimento de fatores como socialização, colabo ração, vivências corporais e emocionais para crianças e jovens, além de aprimorar as com- petências e habilidades dos educandos. As práticas de recreação escolar podem ser livres (justamente como expres- sam os conceitos vistos anteriormente), ou dirigidas – o que geralmente acontece nos ambientes de ensino. A recreação é uma atividade mediada pelos professores e recrea cionistas, os quais não costumam permitir a participação livre ou opcional do aluno. Então, isso significa que a recreação escolar não é recreação? O cotidiano escolar não é tão rígido como as palavras e os conceitos teóri- cos. Assim, a recreação escolar pode ser definida como atividades e brincadeiras desenvolvidas dentro de um ambiente escolar, mediadas por professores ou recre- acionistas e voltadas para a expressão humana com prazer e alegria, para o desen- volvimento de habilidades motoras e para a promoção da afetividade e das trocas sociais. Notem que esse conceito inclui uma palavra muito importante: alegria. A recreação escolar deve sempre promover a alegria e gerar o prazer, a motivação e a integração dos participantes. A recreação fundamenta-se em atividades ou jogos recreativos. Você já sabe como os jogos são importantes para as ações educacionais, não é mesmo? O jogo recreativo tem um caráter essencial na Educação Infantil: ele trabalha a cognição, a afetividade, a motricidade e a criatividade da criança, colaborando para seu desen- volvimento integral. Em virtude dessa abrangência, as atividades recreativas devem embasar as prá- ticas pedagógicas na escola infantil. Esse tipo de atividade não apenas contribui para um desenvolvimento sadio na infância como também pode ser usado em todas as fases do processo educativo. Educação, Corpo e Movimento 72 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Curiosidade 1: nos Estados Unidos, as primeiras iniciativas no sentido da recreação surgiram em 1853, quando o poder público de Nova York adquiriu uma grande área verde, chamada hoje de Central Park. Curiosidade 2: em 1886, surgiu o primeiro jardim-de-infância, no qual a doutora Zakrzorvska trabalhava com crianças em um jardim com uma caixa de areia, baseando-se nas idéias alemãs do “jardim de crianças”. Educação para o lazer Como vimos anteriormente, o lazer expressa uma situação de liberdade e pra- zer. Mas não é uma atividade mediada – isso é recreação escolar! Mas mesmo que os professores não devam interferir diretamente no lazer de seus alunos, eles preci- sam educá-los para o lazer. O lazer amplia a qualidade de vida, gera prazer e alegria, corresponde ao bom uso do tempo livre. Além disso, os momentos de lazer colaboram para o desenvol- vimento do senso crítico, da criatividade e da autonomia para a tomada de decisão. Nesse sentido, as experiências recreativas escolares podem proporcionar uma educa- ção para o lazer. Educar as crianças para o lazer é prepará-las para o melhor aproveitamento de seu tempo livre durante a infância – o que também servirá de base para suas escolhas na vida adulta. É mostrar parâmetros de atividade que podem ser interessantes nos momentos de lazer, quando as ações dos alunos não estão sendo mediadas por seus professores. Atualmente, a escola deve justamente ressaltar a importância do tempo livre, pois todo ser humano necessita de lazer para ser mais feliz e criativo. É preciso des- mistificar a idéia industrial e positivista de que o ócio é um pecado ou mesmo um sinônimo de vagabundagem. Modernamente, essa visão foi superada. Sabemos o quanto o tempo livre é necessário para qualificar o trabalho, a aprendizagem e tantas outras atividades humanas. Segundo Camargo, Vivemos em uma civilização do tempo livre, em que este já é quase igual, às vezes maior do que o tempo de trabalho. Mas ainda estamos longe de uma civilização do Lazer, em que as pessoas saibam ocupar esse tempo livre com atividades que efetivamente lhes divirtam e contribuam para o seu desenvolvimento pessoal. (1999, p. 33) Esse pensamento é a mais pura verdade. Não fomos educados para entender o nosso tempo livre. Geralmente, os adultos andam do trabalho para casa. E, ao chegarem em casa, tendem a continuar trabalhando, mesmo quando não estão exe- cutando tarefas profissionais. Essa falta de momentos de pausa, de escape, de livre movimentação, eleva o nível de estresse do organismo (um mal tipicamente moder- no) e dificulta o desenvolvimento pessoal, a vida afetiva e o convívio social. Por esses motivos, faz-se necessária uma ocupação adequada e prazerosa do tempo livre, seja por parte das crianças ou dos adultos. O mundo contemporâneo, além de demonstrar significativos avanços tecnológicos, propõe a evolução pessoal do homem, a qual requer a consciência e a educaçãopara o uso do tempo livre dentro e fora da escola. Recreação e lazer 73 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Profeta do ócio (DE MASI, 2000, p. 15-17) Professor De Masi, há quem fale do senhor como profeta do ócio. E há quem chegue a dizer que preconiza o advento de um mundo parecido com o país do chocolate, do famoso filme com Gene Wilder. Rótulos irritantes, imagino. Que relação têm com o seu verdadeiro modo de pensar? Eu me limito a sustentar, com base em dados estatísticos, que nós, que partimos de uma sociedade em que uma grande parte da vida das pessoas adultas era dedicada ao trabalho, esta- mos caminhando em direção a uma sociedade na qual grande parte do tempo será, e em parte já é, dedicada a outra coisa. Essa é uma observação empírica, como a que foi feita pelo sociólogo americano Daniel Bell quando, em 1956, nos Estados Unidos, ao constatar que o número de cola- rinhos-brancos ultrapassava o de operários, advertiu: “Que poder operário que nada! A sociedade caminha em direção à predominância do setor de serviços.” Aquela ultrapassagem foi registrada por Bell. Ele não a adivinhou ou profetizou. Da mesma maneira, eu me limito a registrar que estamos caminhando em direção a uma sociedade fundada não mais no trabalho, mas no tempo vago. Além disso, sempre com base nas estatísticas, constato que, tanto no tempo em que se trabalha quanto no tempo vago, nós, seres humanos, fazemos hoje sempre menos coisas com as mãos e sempre mais coisas com o cérebro, ao contrário do que acontecia até agora, por milhões de anos. Mas aqui se dá mais uma passagem: entre as atividades que realizamos com o cérebro, as mais apreciadas e mais valorizadas no mercado de trabalho são as atividades criativas. Porque mesmo as atividades intelectuais, como as manuais, quando são repetitivas, podem ser delegadas às máquinas. A principal característica da atividade criativa é que ela praticamente não se distingue do jogo e do aprendizado, ficando cada vez mais difícil separar estas três dimensões que antes, em nossa vida, tinham sido separadas de uma maneira clara e artificial. Quando trabalho, estudo e jogo coincidem, estamos diante daquela síntese exaltante que eu chamo de ócio criativo. Assim sendo, acredito que o foco desta nossa conversa deva ser esta tríplice passagem da espécie humana: da atividade física para a intelectual, da atividade intelectual de tipo repetitivo à atividade intelectual criativa, do trabalho-labuta nitidamente separado do tempo livre e do estudo ao ócio criativo, no qual estudo, trabalho e jogo acabam coincidindo cada vez mais. Essas três trajetórias conotam a passagem de uma sociedade que foi chamada de industrial a uma sociedade nova. Podemos defini-la como quisermos. Eu, por comodidade, a chamo de pós- industrial. Quer uma imagem física desta mudança? Nós, nestes milhões de anos, desenvolvemos um corpo grande e uma cabeça pequena. Nos próximos séculos, provavelmente reduziremos o corpo Escolhemos um trecho da entrevista concedida a Maria Serena Palieri pelo professor e so ció - logo Domenico De Masi. Durante essa conversa, Masi expõe suas idéias sobre o ócio, o trabalho e o tempo livre. O trecho apresentado abaixo foi extraído do livro O Ócio Criativo (Sextante, 2000, p. 15-17), de De Masi. Educação, Corpo e Movimento 74 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br ao mínimo e expandiremos o cérebro. Um pouco como já acontece através do rádio, da televisão, do computador – a extraordinária série de próteses com as quais aumentamos o poder da nossa cabeça e ampliamos o seu raio de ação. O resultado disso tudo não é o dolce far niente. Com freqüência, não fazer nada é menos doce do que um trabalho criativo. O ócio é um capítulo importante nisso tudo, mas para nós é um conceito que tem um sentido sobre tudo negativo. Em síntese, o ócio pode ser muito bom, mas somente se nos colocamos de acordo com o sentido da palavra. Para os gregos, por exemplo, tinha uma conotação estritamente física: trabalho era tudo aquilo que fazia suar, com exceção do esporte. Quem trabalhava, isto é, suava, ou era um escravo ou era um cidadão de segunda classe. As atividades não físicas (a polí- tica, o estudo, a poesia, a filosofia) eram “ociosas”, ou seja, expressões mentais, dignas somente dos cidadãos de primeira classe. A escola contemporânea Nos últimos 20 anos, temos presenciado mudanças lentas, mas constantes, nos ambientes escolares. Antes disso, as instituições de ensino encaravam o ato de apren- der como um sinônimo de memorização. Hoje, elas percebem que a transformação é fundamental. Felizmente, significativas mudanças podem ser observadas atualmente, como a preocupação dos educadores em se manterem continuamente reciclados, aprimo- rando seus métodos e ações pedagógicas. O educador já sabe que, se não buscar sua reci cla gem, terá cada vez mais dificuldades para se comunicar com seus alunos e para qualificar o processo de ensino–aprendizagem. Nesse contexto, também percebemos uma sensível evolução da recreação. As atividades e jogos recreativos estão evoluindo na Educação Infantil, sendo cada vez mais valorizados. De brincadeiras ultrapassadas, como “atirei o pau no gato” e “es- cravos de Jó”, estamos promovendo práticas que possibilitam vivências específicas para facilitar o desenvolvimento psicomotor dos educandos. Já em relação ao lazer, talvez as instituições de ensino ainda precisem se dedicar mais à promoção da educação para o lazer. O ambiente escolar é um lugar propício para as crianças aprenderem a fazer boas escolhas para os momentos de ócio. O uso qualitativo do tempo livre não está associado ao nível socioeconômico do indivíduo, mas à educação para tal. Como alguém – criança, jovem ou adulto – poderá aproveitar conscientemente e criticamente o seu tempo de folga quando não é educado para isso? Algumas pesquisas revelam que os executivos, por exemplo, têm dificuldade para separar a atividade profissional do tempo livre, assim prolongando a jornada de trabalho em todos os momentos de suas vidas. Apesar de a atual sociedade oferecer mais tempo livre (férias remuneradas, direito ao descanso semanal etc.) do que no passado, e inúmeras opções de lazer, nem sempre sabemos identificar a melhor forma de aproveitar esses períodos. E assim a vida torna-se um círculo vicioso de trabalho. Recreação e lazer 75 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Camargo (1999) ilustra os problemas ocasionados pela opção de um estilo de vida com pouco espaço para os verdadeiros momentos de lazer: O custo desse estilo de vida é alto e será cobrado a longo e a curto prazo. A curto prazo, ele pagará com a própria mutilação cultural e com a diminuição da variedade de interes- ses existenciais, além do sacrifício do necessário equilíbrio entre família, trabalho e lazer. A longo prazo, ele pagará o preço, quem sabe, com o estresse e, certamente, com um sen- timento indefinível de perda existencial ao constatar que os filhos cresceram sem que ele sequer percebesse, ao ver os problemas do lar que o trabalho o impediu de cuidar. (p. 87) Nós, educadores, devemos oportunizar uma educação abrangente, voltada para o desenvolvimento pessoal e social. Educar não é fazer o aluno decorar, reproduzir ou imitar, nem somente estimular a cognição ou a psicomotricidade: é também edu- car para o lazer e para a vida. Educar é preparar o indivíduo para a vida! Educar para o lazer é colaborar para a felicidade das pessoas! Os projetos de aprendizagem Uma ótima prática pedagógica que tem sido difundida na educação contem- porânea é o desenvolvimentode projetos de aprendizagem. Esse tipo de atividade baseia-se nos interesses e na curiosidade dos alunos e requer uma intensa negociação entre os atores do processo educacional. Atualmente, muitas escolas estão valorizando os projetos de aprendizagem porque esses projetos constituem uma metodologia eficiente para a abordagem de conteúdos de forma lúdica, instigadora, multidisciplinar e integrada à vida cotidiana. Um trabalho pedagógico baseado em projetos serve para estimular o espírito investigativo e colaborativo, a descoberta em grupo, a autonomia e a atitude para a tomada de decisão e a busca de respostas, sempre aproximando os objetos de conhe- cimento da realidade vigente na comunidade. Ao incitar a atitude crítica e investigadora, esse tipo de atividade acaba cola- borando para a educação em todos os sentidos. Os projetos de aprendizagem contri- buem inclusive na educação para o lazer, pois os educandos aprendem a investigar diferentes hipóteses e fazer determinadas escolhas – atitudes que serão colocadas em prática nas diversas situações do cotidiano. Para desenvolver projetos de aprendizagem em sua escola, é preciso adotar pro- cedimentos fundamentais para que eles integrem não somente os conteúdos, mas tam- bém vivências múltiplas e enriquecedoras para os alunos. Observe as dicas a seguir. Todo projeto deve nascer de um tema relevante e aceito por toda a comunidade escolar, não só pelos professores. Devemos elaborar os projetos de forma multidisciplinar e interdisci plinar, in- tegrando professores e conteúdos das mais diversas áreas do conhecimento. Os projetos devem ter começo, meio e fim bem determinados. Educação, Corpo e Movimento 76 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, os projetos devem estar embasados em atividades lúdicas. Qualquer projeto requer o gosto pela inovação, pela pesquisa e pelo trabalho. O espaço físico para as atividades da Educação Infantil Quando falamos de crianças e movimento, uma das coisas mais importantes a ser discutida e pensada é o espaço físico disponível para suas atividades, sua convivência e sua aprendizagem. A escola de Educação Infantil deve ter espaços funcionais, a fim de atender à diversidade de ações pedagógicas e às necessidades do seu público-alvo. O ideal seria que toda escola infantil tivesse salas-dormitório, salas de estar, refeitório, locais fechados e abertos para jogos e brincadeiras que exigem espaços mais amplos, salas para o trabalho com brinquedos e livros, salas para as atividades artísticas, áreas verdes, horta e playground. No entanto, nem todas as instituições possuem esses ambientes. Por sinal, o espaço da escola parece estar diminuindo em vez de aumentar. A minimização do espaço escolar afeta o desenvolvimento integral das crian- ças à medida que implica a restrição de movimentos físicos e de certas atividades pedagógicas. Na infância, o movimento é fundamental para o desenvolvimento da inteligência e de habilidades motoras específicas. Outro aspecto a ser destacado é a segurança dos ambientes da escola infantil. São espaços realmente apropriados às crianças? São seguros? Possuem escadas? O chão é desnivelado ou feito de materiais muito rígidos? As janelas têm redes de proteção? Esses são alguns questionamentos pertinentes para o devido preparo dos espaços escolares. Lembrem que um lugar inseguro limita a atuação e a movimen- tação das crianças. Mas também não deixe que o cuidado excessivo passe a ser um elemento limitador das explorações do ambiente por parte dos alunos. Quando organizamos os espaços da escola infantil, também é preciso pensar na saúde dos educandos. As atividades ao ar livre e as áreas verdes são bastante saudáveis. Porém, devem ser evitadas as plantas venenosas, exóticas ou com espi- nhos e folhas e galhos pontiagudos. A famosa caixa de areia do playground requer cuidado e higienização constantes. Na dúvida, procure o auxílio de órgãos munici- pais e estaduais responsáveis pela defesa sanitária. Além de todos esses cuidados, os espaços da escola infantil devem ser neces- sariamente lúdicos. Os objetos, as paredes e as áreas de circulação podem ter uma proposta decorativa que estimule a imaginação e a criatividade das crianças. Inclu- sive, é muito importante que os próprios alunos contribuam para a decoração e a manutenção dos espaços, pintando painéis, murais, cuidando de flores etc. Recreação e lazer 77 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Enfim, devemos pensar com muito carinho e atenção sobre como distribuir e otimizar os espaços da escola infantil. Não existem fórmulas para isso, pois todas as estratégias e ações pedagógicas requerem uma adequação às realidades locais. No entanto, contamos com interessantes sugestões de pesquisadores deste assunto. Nesse sentido, destacamos as idéias da professora Maria Jaume (2004) sobre a configuração e a distribuição dos espaços destinados às atividades pedagógicas e recreativas na infância. A autora indica a organização dos espaços confor me a idade do público escolar, com ambientes distintos para o atendimento de crianças de zero a três anos de idade e de três a seis anos. Complementando essa sugestão e considerando o desenvolvimento motor in- fantil e o tipo de atividade apropriada a cada fase, indicamos a criação de diferentes espaços para as seguintes faixas etárias: zero a dois, dois a quatro e cinco a seis anos. Por exemplo: as crianças deslocam-se pouco na primeira fase. Já na última, elas cor- rem, conversam e se agitam fisicamente, exigindo áreas mais amplas. A professora Maria Jaume também ressalta algumas necessidades específicas da criança, as quais devem ser consideradas durante a organização dos espaços da escola. Cada necessidade requer um tipo de ambiente. Necessidades afetivas – ambientes interligados que sugiram segurança e estabilidade para a criança. Necessidade de autonomia – ambientes onde a criança possa interagir livremente. Necessidade de movimento – espaços que sejam apropriados às atividades corporais e proponham desafios para o desenvolvimento de habilidades motoras. Necessidade de socialização – ambientes para a convivência, a comunica- ção e o relacionamento entre as crianças. Necessidades fisiológicas – locais específicos para dormir e comer, banheiros adequados a cada faixa etária. Necessidades de descoberta e exploração – espaços ricos em estímulos e objetos. Finalmente, selecionamos dois tipos de distribuição de ambientes para ilustrar a adequação do espaço físico da escola infantil. As plantas apresentadas a seguir são indicadas por Maria Jaume (2004). Educação, Corpo e Movimento 78 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br (A R R IB A S e t a l., 2 00 4, p . 3 78 ) Tipologia A: os espaços são organizados a partir de um eixo longitudinal G4 G5 G6 G1 G2 G3 Sala comum de jogos Pátio/jardim Espaço verde Entrada Cozinha Refeitório Refeitório G - grupo Área de serviço ofi cin a de art es plá stic as sal a d e psi com o- tric ida de Sala comum de jogos (A R R IB A S e t a l., 2 00 4, p . 3 79 ) G4 G5 G6 G1 G2 G3 En tr ad a Refeitório 1 e 2 anos Cozinha Á rea de serviço Refeitório 3 e 4 anos Pátio/jardim Espaço verde SALA COMUM DE JOGOS O fic in a de ar tes pl ás tic as Sa la de ps ico mo tri cid ad e TipologiaB: os espaços são organizados de forma radial a partir de um espaço central Recreação e lazer 79 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 1. Agora, vamos propor um desafio muito importante para que vocês aprofundem os estudos desta unidade: criar uma paródia (música conhecida com letra adaptada) para falar sobre o lazer e a recreação de forma descontraída. Reúnam-se em grupos de cinco ou seis integrantes para realizar a tarefa proposta. Após a con- clusão, todos os grupos vão apresentar aos colegas suas produções criativas. Posteriormente, cada grupo encaminhará uma cópia escrita da sua paródia aos tutores, indicando o nome dos participantes e o nome da música original. Organização, colaboração, cooperação e criatividade são elementos fundamentais para a reali- zação deste trabalho. Educação, Corpo e Movimento 80 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação Max Gunther Haetinger* A criatividade e o brincar C riatividade é a capacidade humana de gerar novas idéias ou ações, o que independe do nível ou classe social, mas depende do meio no qual o sujeito está inserido. Esse conceito pode ser mais bem entendido a partir das quatro categorias definidas por Rodhes (apud KNELLER, 1978). Do ponto de vista da pessoa que está criando, a ação criativa é fisiológi- ca e tem como base os tem pe ramentos humanos, os hábitos e as atitudes criativas. Os processos mentais criativos englobam a percepção, a motivação, o pen- samento, a aprendizagem e a comunicação. A criatividade está associada com as relações entre os homens e com os fatores ambientais e culturais. Portanto, é fruto da interação entre homens, objetos e meio. A criatividade pode ser definida em virtude de seus produtos: pinturas, con- ceitos, teorias, invenções, esculturas, poemas, filmes etc. Mas essas são as formas estereotipadas das ações criativas. Kneller lembra ainda que as distintas definições de criatividade estão sempre relacionadas com o conceito de novidade ou inovação. Assim, a ação criativa é a própria essência da transformação e das mudanças, tanto as exteriores ao ser quanto as internas. Mas também é possível compreender a criatividade como a base do ato de liberdade, ou melhor, da ação libertadora, pois a criação associa-se à formação do senso crítico. No contexto escolar, a criatividade pode transformar a relação do sujeito com o conhecimento. As atitudes e as ações criativas correspondem a meios para a compre- ensão e a alteração da realidade. Todo ato criativo expressa a percepção de alguém acerca do mundo, acerca de uma idéia ou situação. Inevitavelmente, o indivíduo usa o seu entendimento da dimensão real para criar algo novo. A criatividade potencializa a imaginação humana e, conseqüentemente, mo- difica o método pelo qual as pessoas lidam com a informação e o processamento da informação. A importância da criatividade como método é ressaltada por Rogers * Com a colaboração de Daniela Haetinger e Luis Lucini Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br quando afirma que “a sobrevivência dos povos depende da capacidade criadora do homem” (apud KNELLER, 1978, p. 19). Analisando a criatividade sob o ponto de vista educacional e considerando o processo ensino–aprendizagem, observamos distintas formas para a abordagem desse fenômeno. Nesse sentido, as professoras Dinah Campos e Mirian Weber (1987) clas si ficaram alguns conceitos de criatividade de acordo com diferentes escolas. Escola Behaviorista – vê a criatividade como o ato de produzir novas idéias a partir de outras pregressas, caracterizando as associações por ensaio e erro e dando a impressão de que quanto mais associações um sujeito faz, mais criativo será. Desse modo, a criatividade está associada à quantidade de informação e ao seu processamento. Modernamente, os behavioristas rela- cionam o ato criador com os processos de estímulo e resposta. Gestalt – conceitua a criatividade como uma reorganização das estruturas cognitivas. Para Max Wertheimer, o criador da Gestalt, uma descoberta não significa necessariamente algo novo, mas representa uma situação percebi- da de maneira diferente, implicando a ampliação do campo perceptivo do indivíduo. Escola Psicanalítica – destaca o desempenho do inconsciente como base do pensamento criativo. O consciente e o ego são aspectos secundários, pois o caráter criador e criativo é determinado pelo inconsciente. Mas muitos psicanalistas se opõem a essas idéias. Kneller, por exemplo, afirma que “a pessoa cria apesar da neurose e não por causa dela”. Humanistas ou Fenomenologistas – como Rogers, outros teóricos dessa cor- rente pensam que o indivíduo cria por estar aberto a todo tipo de experiência. Um sujeito pode confiar na sua criatividade como essência construtiva. Nos ambientes educacionais, a criatividade deve ser potencializada pelas ações pedagógicas. Como define Novaes, é fundamental favorecer “a mobilização do potencial criativo em todas as disciplinas e assuntos, dando valor ao pensamento produtivo, uma vez que a criatividade estará presente em várias situações e diversi- dade de assuntos” (1980, p. 13). O brincar O brincar é a essência do pensamento lúdico e caracteriza as atividades execu- tadas na infância. As brincadeiras são uma forma de expressão cultural e um modo de interagir com diferentes objetos de conhecimento, implicando o processo de aprendi- zagem. Tendo em vista esse conceito, percebemos que o ato de brincar acompanha o desenvolvimento da inteligência, do ser humano, das sociedades e da cultura. O psicanalista Winnicott (1975) afirma que a criança, quando brinca, manipula fenômenos externos que estão a serviço do sonho. Ela recobre esses fenômenos com significados e sentimentos oníricos e isso representa uma operação do imaginário e a exploração da criatividade. De acordo com o autor, “é no brincar, e somente no brin- car, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral; e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu eu”. Educação, Corpo e Movimento 82 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Essa citação demonstra a relação imprescindível entre o criar e o brincar. É fun da mental para entendermos que a criatividade está associada às atividades lúdi- cas e às brincadeiras e não às tarefas formais e racionais. A brincadeira possibilita a livre associação de idéias, pensamentos, impulsos e sensações. Brincar também tem a ver com o prazer. Uma brincadeira, sendo ou não criativa, deve sempre proporcio- nar prazer ao participante. As experiências do brincar na escola auxiliam a formação de vínculos entre alunos e professores e certamente facilitam a aprendizagem. Brincar faz parte do desenvolvimento sadio e pleno dos indivíduos. Na educação, a brincadeira funciona como uma vivência ou uma simulação de experiências e conteúdos, aproximando-os do universo dos alunos. Independentemente da idade dos participantes, as brincadei- ras criativas resgatam o caráter lúdico, o prazer, a alegria, o poder de imaginar e criar próprios do ser humano. Criatividade (PIAGET, 2001, p. 11-20) Existem dois problemas envolvidos em uma discussão sobre a criatividade. O primeiro pro- blema é o das origens ou causas da criatividade. O segundo é o do mecanismo: como ela acontece? Qual o processo de um ato criativo? Como alguém cria algo novo? Sem existir antes, como algo novo pode surgir? Gostaria primeiramente de dizer algumas palavras sobre asorigens ou causas da criatividade. Está muito claro que a sua origem ainda é coberta de mistérios. De fato, alguns indivíduos são visivelmente mais criativos do que outros, mas isso com certeza não é apenas uma questão de ge- nialidade. Na verdade, a origem da criatividade permanece misteriosa, mesmo que esteja presente em todos nós. Agora é moda entre alguns psicólogos, quando eles se deparam com algo que é difícil de ex- plicar, chamá-lo de inato ou hereditário, como se esta fosse uma explicação. Mas absolutamente não é uma explicação, e desse modo só transferem o problema para o campo da biologia. E, na biologia, estamos muito longe de ser capazes de explicar qualquer tipo de atitude mental, que dirá a criatividade. Criatividade não é apenas uma questão de precocidade em indivíduos que se torna- ram muito criativos. Os indivíduos não são sempre precoces. Mozart, é claro, é um dos melhores exemplos de uma alma precoce e criativa. Mas muitos outros se tornaram criativos muito mais tarde em suas vidas, foi bem mais tarde que tiveram as idéias mais originais. O melhor exemplo disso é Kant. Por muitos anos, ele não foi um kantiano. A maior parte de sua vida passou como um discípulo de Wolf, e foi só nos seus últimos anos que sua própria origi- nalidade emergiu. Então, a princípio, a origem da criatividade para mim permanece um mistério e não é explicável. Mas, como disse um momento atrás, todo indivíduo que realiza um trabalho e tem idéias novas, mesmo que modestas, cria-as no curso de seus esforços. Para ampliar nossa visão sobre a criatividade, selecionamos uma importante contribuição de Jean Piaget a respeito do tema. Criatividade e sua importância para a educação 83 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Algumas palavras a mais sobre a origem da criatividade. No percurso da minha vida, tenho criado uma ou duas idéias e quando reflito sobre suas origens penso que existem três condições. A primeira é trabalhar sozinho, ignorar qualquer um e suspeitar de qualquer influência de fora. Quando era estudante, tive um professor de física que dizia: “Sempre que você começar a tra- balhar em um novo problema, não leia nada. Em vez disso, vá tão longe quanto puder por conta própria. Depois de, sozinho, ter ido tão longe quanto pôde e ter chegado à sua solução, então leia e leve em conta o que tem sido escrito sobre o assunto, fazendo as correções que julgar necessárias.” Temo ter levado o conselho muito a sério, isto é, devo ter lido muito pouco. Mas para me consolar, ou deixar de lado qualquer sentimento de culpa que possa ter, gosto de pensar na fala de Freud: “A maior punição que a divindade envia para alguém que escreve é ter de ler os trabalhos de outros.” A segunda condição que acho necessária é ler uma grande quantidade de coisas em outras áreas, e não apenas ler trabalhos da própria área. Para um psicólogo, por exemplo, é importante ler biologia, epistemologia, lógica, para que se possa promover uma visão interdisciplinar. Não ler somente no seu próprio campo, mas ler muito nas áreas próximas e relacionadas. E um terceiro aspecto, e aí penso em meu caso, é que sempre tive na cabeça um adversário, isto é, uma escola de pensamentos cujas idéias algumas pessoas consideram erradas. Talvez co- meta injustiças e as deforme tornando-as adversárias, mas sempre tomo as idéias de alguém como um contraste. [...] Agora gostaria de continuar com o segundo aspecto que mencionei, que é o mecanismo da criatividade. Acho que o estudo da psicologia da inteligência pode nos ensinar muito sobre esta questão. O desenvolvimento da inteligência é uma criação contínua. Cada estágio do desenvolvi- mento produz algo radical mente novo, muito diferente do que existia antes. Desse modo, todo o desenvolvimento é caracterizado pelo aparecimento de estruturas totalmente novas. Inteligência não é uma cópia da realidade, não está representada nos objetos. É uma construção do sujeito que enriquece os objetos externos. O sujeito “adiciona” essa dimensão aos objetos externos ao invés de extrair essa dimensão dos objetos. Consideremos, por exemplo, a noção de número ou a noção de grupo. Elas nos possibilitam entender os objetos de diferentes modos, mas não são extraídas dos objetos. São adicionadas aos objetos. Isso revela que a inteligência é de fato um ato de assimilação num sentido realmente biológico. O externo é incorporado às estruturas do sujeito do conhecimento, isto é, nos termos das estruturas do sujeito é que o mundo externo é entendido. Essa criação da novidade acontece, é claro, em cada geração, mas também em cada indivíduo. Cada criança reconstrói a sua própria inteligência e o seu próprio conhecimento. Por exemplo, contar ou recitar os nomes dos números, certamente, para a criança, vem do mundo ex- terno. Porém aprender a noção de número é algo muito diferente de aprender a recitar os nomes dos números. A noção do número é construída pela criança como um ato criativo, como uma multiplicidade de atos criativos. [...] Só gostaria de terminar repetindo as palavras de um pesquisador que trabalha conosco em Genebra fazendo experiências sobre o pensamento das crianças na área da física. Ele disse o que distingue o físico criativo do não criativo: o físico criativo, apesar do seu conhecimento, em uma parte de si tem uma criança com a curiosidade e a candura da descoberta que caracterizam a maioria das crianças até serem deformadas pela sociedade adulta. Educação, Corpo e Movimento 84 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Criatividade: a revolução na sala de aula A importância de uma educação mais abrangente tem mobilizado os educadores em uma busca de alternativas que supram as carências encontradas em alguns métodos de ensino. Atualmente, buscamos um ensino mais humano, voltado para os reais interesses dos alunos e propício para a atuação dos educandos como verdadeiros agentes do processo educacional. Considerando esse contexto, propomos as atividades e jogos criativos como uma das saídas viáveis para a qualificação do processo ensino–aprendizagem, maior inte gração entre as diferentes áreas do conhecimento e desenvolvimento de algumas valências comumente esquecidas pela escola. O processo criativo está intimamente relacionado com o exercício da imagi- nação. Os jogos e brincadeiras que estimulam a auto-expressão, a descoberta e o poder de imaginação exploram a criatividade e permitem que alunos e professores se expressem de modo global e potencializem suas habilidades e capacidades. Ao desenvolver sua própria criatividade, o educador também passa a compreendê-la e adquire parâmetros para proporcionar experiências criativas aos seus educandos. A importância da expressão criativa para a educação Um dos instrumentos da atividade criativa é a relação entre as pessoas. Quando trabalhamos em grupo, a imaginação e a curiosidade de cada participante são res- saltadas e compartilhadas. E quem consegue se expressar junto aos outros se adapta melhor às circunstâncias e à troca de experiências. Por isso, é muito importante possibilitarmos vivências coletivas na escola. Elas oportunizam que o educando revele-se aos outros e a si mesmo. Com a expressão criativa em grupo, o aluno conta com um meio de expressão espontânea e reformula constantemente seus pensamentos, o que possibilita novas atitudes e idéias. Tanto o mundo do faz-de-conta das crianças quanto o poder imaginativo dos jovens e adultos vêm à tona com os jogos criativos. Essas práticas incenti- vam o interesse por todo tipo de conhecimento e favorecem o aprimoramento da coordenação motora e da expressão verbal. Quando são aproveitadas as potencialidades dos jogos criativos por meio dediferentes atividades, todos participam para o mesmo fim criativo. Particularmente nos jogos que englobam a dramatização, o educando experimenta personagens sem deixar de ser ele mesmo. O exercício da flexibilidade para atuar como outra pessoa e em grupo colabora para a adaptação do aluno às contingências da vida em sociedade. Dentro do universo escolar, a prática de jogos criativos leva professores e alunos a compreenderem e aceitarem as formas e os padrões de comportamento Criatividade e sua importância para a educação 85 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br pessoal e social; a terem autoconfiança; a resolverem situações inéditas, aplicando conhecimentos e habilidades adquiridas anteriormente; a analisarem, avaliarem e reavaliarem seu comportamento como indivíduos em um grupo. Retomando a criatividade A criatividade está presente em cada um de nós. Todos temos a mesma capacidade criadora. Mas essa capacidade é potencializada ou minimizada de acor- do com nossas interações com o meio cultural, que pode ou não oferecer estímulos às atitudes e aos atos criativos. E a idade é um fator de influência? O que potencializa a criatividade são as nossas vivências. Geralmente, um indivíduo mais velho possui maior bagagem de vida, mas isso não é uma regra. Nem sempre a passagem do tempo fornece um feedback criativo. Sendo assim, o modo e a qualidade de nossas interações são bem mais relevantes que o tempo transcorrido. Nesse sentido, um sujeito pode reagir a estímulos de maneira criativa ou apenas ficar reproduzindo velhos padrões. Os processos criativos estão relacionados com a inteligência. Mais especifica- mente, eles se originam nos pensamentos divergentes. Para entendermos esse conceito, é preciso analisar o pensamento humano. Segundo Guilford, “é possível organizar os fatores psicomotores que conhecemos numa espécie de sistema. Torna-se cada vez mais claro que as dimensões do intelecto também podem ser organizadas numa estrutura sig- nificativa” (apud CUNHA, 1977, p. 20). O diagrama abaixo reproduz a caracterização das principais habilidades intelectuais, conforme elaboração de Guilford. Intelecto Memória Cognição Avaliação Intelecto Convergente Divergente Pensamento O Pensamento Humano (H A E T IN G E R , 1 99 8, p . 1 4) Esse diagrama ilustra o funcionamento da inteligência humana. Nosso intelec- to abrange o pensamento (uma idéia em si) e o seu backup, ou seja, a memória que armaze na experiências, informações e conceitos registrados desde a vida intra-ute- Educação, Corpo e Movimento 86 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br rina. O pensamento abrange a cognição (o entendimento de uma idéia), a produção (idéia global e sua execução prática), e a avaliação (que reúne parâmetros críticos que influenciam nossa auto-imagem e nossa auto-estima). A cada exercício do pensamento, o ser humano está sempre se avaliando – um processo permanente, quer a gente queira ou não. No entanto, as constantes avalia- ções podem às vezes nos prejudicar em vez de ajudar, principalmente quando são negativas, tendendo a inibir a ação e a expressão. A produção intelectual é feita por meio de pensamentos convergentes e pen- samentos diver gentes. Convergente é o pensamento direto, é a saída lógica e padrão para os problemas com os quais nos deparamos. Já o pensamento divergente ou late- ral é um modo único e cria tivo de pensar. A criatividade surge justamente no âmbito do pensamento divergente e se desenvolve a cada vez que procuramos saídas alterna- tivas e inovadoras para deter minadas ações. A ilustração abaixo sugere a necessidade de equilíbrio para o desenvolvimento do pensamento lateral. Ela representa a dinâmica formada pela relação entre pensa- mento divergente, avaliação (senso crítico) e criatividade. SENSO CRÍTICO CRIATIVIDADE PENSAMENTO LATERAL OU DIVERGE NTE (H A E T IN G E R , 1 99 8, p . 1 6) O pensamento divergente, a criatividade e o senso crítico estão associados sob a forma de um triângulo equilátero (todos os lados são iguais e de igual responsabilidade perante o todo). Assim, a criatividade só se aprimora quando exploramos nosso pen- samento lateral e nosso senso crítico simultaneamente. Portanto, ser criativo requer o discernimento da realidade e daquilo que é importante para cada um de nós. Também é preciso olhar o mundo a nossa volta com muito interesse e curiosidade, levantando novas idéias e possibilidades. Em virtude desses fatores, é muito importante proporcionar experiências cria- tivas aos alunos. As práticas que associam arte, elementos lúdicos, movimento e Criatividade e sua importância para a educação 87 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br vivências coletivas contribuem para a criatividade e o desenvolvimento do senso crí- tico. Os jogos criativos e suas sistemáticas lúdicas recriam a realidade, aproximam- nos e fazem-nos reagir perante novas situações. Todo tipo de atividade criativa só acontece em um ambiente de liberdade, no qual todos têm as condições ideais para se expressarem autenticamente, sem restri- ções ou imposições. Sobre esse aspecto e também destacando a postura da escola frente ao processo de desenvolvimento da criatividade, Maria H. Novaes afirma: É preciso reforçar a certeza de que a formação integral da personalidade do educando será incompleta sempre que se relegar a um segundo plano a expressão criadora, portanto, é pre- ciso que a escola esteja aparelhada ideologicamente e materialmente para proporcionar aos alunos técnicas, meios e ambientes de liberdade, onde possam desenvolver sua capacidade expressiva, construtiva e criadora. (1980, p. 118). Aos educadores infantis cabe lembrar que a criança não aprende nem cria por imitação. Promover práticas criativas não significa estabelecer regras para a realiza- ção de brincadeiras ou tarefas. Você pode colaborar para o processo criativo de seus educandos oferecendo um ambiente de aceitação, integração e liberdade, deixando- os realizarem livremente suas atividades e brincadeiras e sempre permitindo que eles expressem sua imaginação e o seu próprio mundo de faz-de-conta. Sua função é organizar o meio, os recursos e os instrumentos didáticos para a criação; criar um ambiente favorável em que a criança sinta-se segura e acolhida para atuar; estimular a expressão da subjetividade dos alunos, sem indicar-lhes possíveis erros ou o melhor modo de fazer as coisas. Eles descobrirão por si mesmos, explo- rando objetos e vivendo diferentes situações. O importante é deixar o aluno brincar, imaginar, relacionar-se, expressar-se e divertir-se. 1. Para esta aula, nossa proposta é que vocês desenvolvam um projeto pedagógico para a Educação Infantil no qual o movimento e os jogos lúdicos sejam fatores relevantes para a aprendizagem. O conteúdo desta disciplina e os exemplos práticos de sua realidade escolar fornecerão os subsídios necessários para o desenvolvimento de seus projetos. Vejam alguns passos a serem seguidos. a) Reúnam-se em grupos de, no máximo, quatro integrantes. b) Escolham um tema gerador e, a partir dele, desenvolvam um projeto, utilizando o movimen- to e os jogos lúdicos nas ações pedagógicas previstas. c) Não se esqueçam dos itens que geralmente constam em todos os projetos: Educação, Corpo e Movimento 88 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br capa – identifica a instituição, a disciplina, o título do projeto, os criadores, o local e a data;introdução – introduz o assunto e descreve a relevância do tema para a Educação Infantil e para a comunidade em que o projeto será aplicado; objetivos – descreve os objetivos (metas) a serem alcançados com a aplicação do projeto; público-alvo – especifica as características do público que será atingido; fundamentação teórica – apresenta os conceitos teóricos e os autores que fundamentam as ações pedagógicas previstas no projeto; descrição do projeto – detalha cada etapa ou fase do projeto para que o leitor possa enten- der as ações a serem implementadas; plano de aula – descreve as atividades previstas para cada aula; resultados da aplicação (opcional) – caso o grupo consiga aplicar seu projeto em alguma escola infantil, deverá descrever o resultado obtido; conclusão – relevância do trabalho realizado e considerações finais; bibliografia; anexos – tabelas, fotos, materiais produzidos pelas crianças etc.; o projeto deve ser entregue ao monitor em 30 dias. É muito importante que vocês realmente planejem e discutam coletivamente os objetivos, a fundamentação teórica e as ações de seu projeto. Procurem elaborar um projeto que possa ser aplicado em sua realidade escolar e que seja relevante para o seu trabalho diário de educador infantil. Criatividade e sua importância para a educação 89 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 90 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A avaliação na Educação Infantil Max Gunther Haetinger* Avaliação: um desafio à mudança Uma idéia a ser explorada: para educar bem-te-vi preciso gostar de bem-te-vi, respeitar seu gosto, não ter projeto de transformá-lo em urubu. Rubem Alves O processo de avaliação não faz parte somente da realidade escolar: é algo presente em diversas dimensões de nossas vidas. Avaliar é uma ação que praticamos continuamente. Consciente ou inconscien temente, estamos sempre avaliando gestos, ações, escolhas, pensamentos e valores, sejam nossos ou de outros. Naturalmente, as atividades humanas são permeadas pelos processos avaliativos. A avaliação levanta dados para o planejamento e a qualificação das ações, dos com- portamentos, das performances e das produções individuais e coletivas. Nas corpo- rações e instituições, na Educação e também na vida social, a prática da avaliação é necessária e indispensável para melhor conhecer as pessoas, suas capacidades e habi- lidades, e os processos nos quais elas estão inseridas. Portanto, a vida em sociedade pressupõe atitudes avaliativas. Na Educação, a avaliação é um tema constantemente levantado e discutido, pois esse procedimento fornece os subsídios necessários para a compreensão do resultado e da eficácia do processo ensino–aprendizagem. Esse tipo de avaliação abrange a análise dos conteúdos, as metodologias pedagógicas utilizadas e a perfor- mance dos atores educacionais. Assim como os métodos e instrumentos de ensino, a avaliação escolar também evoluiu. Atualmente, muitas instituições têm adotado formas mais eficientes e par- ticipativas para avaliar os processos de ensino e aprendizagem. Segundo Maria T. P. Silva (1991), uma avaliação eficaz usa critérios voltados para a inclusão e a par- ticipação do aluno e representa um processo de cooperação que envolve todos os “beneficiários”. A função do educador no processo avaliativo não é a de um juiz que prescreve sentenças como “o aluno acertou ou errou”, “sabe ou não sabe”. Não existe uma ver- dade absoluta em termos de observação e avaliação de ações ou pessoas. Isso porque a avaliação e a aprendizagem são processos tão dinâmicos e adaptáveis como os próprios seres humanos. * Com a colaboração de Daniela Haetinger e Luis Lucini Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 92 Atualmente, a discussão sobre a avaliação escolar gira em torno de uma questão elementar: como podemos fazer avaliações que dêem preferência a uma análise mais ampla de cada sujeito envolvido no processo? Na prática, a resposta para essa pergunta corresponde a uma avaliação que observa e inclui cada educando, destaca suas qualidades e respeita seu ritmo indivi- dual. Porém, usar esse tipo de parâmetro é algo mais complexo do que adotar avalia- ções padronizadas por meio de provas e testes ou traçar padrões de performance a serem alcançados por todos os alunos de uma mesma série. Uma avaliação mais ampla valoriza as experiências e a caminhada de cada indivíduo, pois são os educandos que fornecem os dados para a descoberta de novos métodos de ensino e aprendizagem. Em qualquer processo avaliativo, devemos con- siderar o aluno, suas necessidades, qualidades e limitações. O principal objetivo não é atribuir uma nota ao educando, mas sim descobrir o modo pelo qual ele aprende e os fatores e estímulos necessários para facilitar sua aprendizagem. Na Educação Infantil, a avaliação está basicamente vinculada à observação do educador. O educando ainda não tem condições de participar ativamente do pro- cesso avaliativo. E, felizmente, também não há provas, testes ou trabalhos a serem realizados para a obtenção de uma nota. Justamente por essa razão, o professor deve estar ainda mais atento e organizar relatórios que acompanhem o desenvolvimento da criança. A avaliação é extremamente importante, seja na escola infantil ou em outros níveis de ensino. É um processo tão relevante quanto o planejamento e a execução das atividades pedagógicas. Nossa tarefa como educadores é estruturar métodos e ações que possam revelar e valorizar o nível de desenvolvimento de cada criança. Uma avaliação adequada desde a Educação Infantil auxilia na formação global do indivíduo porque contribui para a identificação de problemas que futuramente poderão influenciar a aprendizagem do aluno. Assim, avaliar uma criança requer respeito por seus limites, sua idade, suas condições para realizar determinadas atividades. Exige também a proposição de ações que, vindas do educador, forneçam dados e parâmetros relevantes para o pro- cesso avaliativo, não servindo como um modo de inibir ou castrar o aluno. O educador infantil deve sempre potencializar as habilidades e as experiências da criança e desenvolver práticas pedagógicas que não priorizem a negação. Usar o não como resposta – “não faça isso”, “não pegue aquilo”, “não corra”, “não fale”, “não é hora” – torna a criança muito dependente da avaliação do adulto e cria um clima desfavorável à iniciativa e à autonomia. A avaliação é um processo de compreensão do indivíduo, da sua relação com seus semelhantes e com o conhecimento. Portanto, valorize seus alunos e observe atentamente o progresso de cada um deles, sempre evitando a provocação de senti- mentos de derrota, incapacidade ou rejeição entre os educandos. Como canta Caetano Veloso, “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Na Educação, essa frase serve de metáfora para ressaltar o quanto precisamos nos Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A avaliação na educação infantil 93 concentrar na verdadeira descoberta e valorização do ser humano, de suas qualida- des individuais, de suas interações com seus semelhantes e o meio que o cerca. Avaliar é acompanhar o ser humano integralmente. É ouvir, ver, sentir, tocar, interagir. Claro que há respostas certas e erradas. O equívoco está em ensinar ao aluno que é disto que a ciência, o saber, a vida são feitos. E com isto, ao aprender as respostas certas, os alunos desaprendem a arte de se aventurar e de errar, sem saber que, parauma respos- ta certa, milhares de tentativas erradas devem ser feitas. Espero que haverá um dia em que os alunos serão avaliados também pela ousadia de seus vôos!... Pois isto também é conhecimento. (ALVES, 1994, p. 29). Avaliação das habilidades motoras na infância Foi pelo movimento (como aprendizagem) que o homem atingiu o bipedismo para libertar as mãos para o trabalho, terreno concreto onde veio a descobrir e edificar a linguagem, com a qual, por sua vez, pode assimilar o saber teórico e prático da própria sociedade. Wallon Agora vamos tratar da sistematização para a observação e a avaliação do movimento infantil. O primeiro passo é preparar o seu olhar. Quando observa- mos algo, a primeira tendência é realizarmos um juízo de valor a partir de nossas expectativas. Portanto, esteja atento e não crie expectativas que vão além das possibilidades de cada aluno. O educador infantil deve observar a criança inte- gralmente, considerando suas habilidades e competências, seu meio, sua história, suas relações. No âmbito do desenvolvimento motor (o principal objeto de estudo desta disciplina), o processo avaliativo requer muita atenção para o nível de maturação orgânica da criança. Wallon (apud ALVES, 2003) destaca alguns estados que re- lacionam a maturação infantil e os aspectos motores. Estado de impulsividade motora – as ações da criança são fruto de refle- xos ou impulsos. Estados emocionais – a criança demonstra sua emoção por meio do tônus muscular. Sendo assim, suas emoções são expressas pela agitação corporal. Estado sensitivo-motor – envolve a coordenação perceptiva, tipicamente veiculada em atos como caminhar e falar. Estado projetivo – a criança possui intencionalidade em seus movimentos. Fátima Alves (2003) destaca a função do educador infantil no desenvolvi- mento motor dos educandos. Ao proporcionar a vivência de atividades motoras, o Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 94 educador auxilia a criança a descobrir o seu corpo e suas possibilidades de movimen- to, a aprimorar sua imagem corporal e percepção rítmica, a experimentar as trocas afetivas e a explorar formas de expressão e comunicação. Mas como sistematizar a avaliação na escola infantil? Para ajudá-lo nessa ta- refa, elaboramos duas fichas que poderão orientar uma observação mais apurada de seus educandos. A primeira destina-se à obtenção de dados de identificação e a segunda serve para levantar informações específicas sobre o desenvolvimento motor da criança. Ficha de identificação Nome Idade Data de nascimento Sexo Nacionalidade Endereço Telefone e e-mail dos pais Nome do pai Nome da mãe Nomes dos irmãos Profissão do pai Profissão da mãe Tem algum problema de saúde? Faz algum tipo de tratamento clínico? Toma alguma medicação sistemática? Observações gerais sobre a saúde e os hábitos da criança Até que idade mamou? Com que idade engatinhou? Com que idade começou a caminhar? Com que idade começou a falar? Qual mão predominantemente usada (peça para a criança pegar um lápis e desenhar) Qual pé predominantemente usado (peça para chutar uma bola) A ficha apresentada a seguir deve ser usada continuamente, a fim de observar- mos a progressão do desenvolvimento motor da criança por meio das ações que ela executa na escola. Esta tabela considera três faixas etárias, que geralmente corres- pondem aos momentos de avanços significativos no desenvolvimento motor. Os valores de 1 a 3 servem para vocês identificarem o quanto a criança domina cada uma das habilidades motoras elencadas. 1 = domínio mínimo 2 = domínio médio 3 = domínio máximo Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A avaliação na educação infantil 95 Habilidade motora Linha da criança 6 meses – 2 anos 2 – 4 anos 5 – 6 anos 1 2 3 1 2 3 1 2 3 Movimentos axiais Equilíbrio estático Equilíbrio dinâmico Caminhada Corrida Salto Saltito Galope Skipping Alcançar, segurar e soltar Lançar Pegar Chutar Bater Destacamos algumas considerações de Pilar Sánchez, Marta Martinez e Iolanda Peñalver rela- tivas aos parâmetros para a avaliação psicomotora infantil. Como nesta unidade estamos estudando a avaliação, certamente as contribuições dessas pesquisadoras serão muito úteis e contribuirão para a observação de nossas crianças. A observação dos parâmetros psicomotores (SÁNCHEZ; MARTINEZ; PEÑALVER, 2003, p. 45-54) A observação é um exercício complexo, que requer do observador uma série de competên cias, de estratégias, de condições e de ferramentas que deverá experimentar e praticar para torná-las operativas. Converteu-se em uma atividade prioritária no sistema educativo e a utilizamos para projetar, analisar e avaliar os processos de aprendizagem. Na formação do psicomotricista é atribuído um lugar prioritário ao exercício da observação, entendido como um treinamento, um adestramento, uma aprendizagem dentro do processo formativo. [...] São salientados três aspectos importantes a serem levados em consideração antes de iniciar a observação: 1. Aprender a ter um olhar tranqüilo e não muito direto sobre as produções da criança; poder vê-la em sua globalidade e anotar aqueles aspectos de sua ação que forem mais significativos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 96 2. Colocar-se com empatia, isto é, descentrar-se de suas próprias emoções e tentar captar sua afetividade, não se deixando invadir por ela. A partir desse posicionamento, não ha- verá juízos de valor, mas uma atitude de compreensão do outro. 3. Deriva-se do ponto anterior e consiste em tentar controlar as próprias projeções e não colocar no outro os próprios sentimentos ou emoções. Por exemplo: “Juan está triste porque ficou sozinho brincando de pirata.” É primordial tomar consciência das possíveis projeções que depositamos sobre as crianças e reconhecer os possíveis sentimentos de simpatia ou rechaço que algumas atitudes ou comportamentos provocam no observador. Sabemos que observar sempre supõe um filtro cognitivo e também afetivo; costumamos ob- servar “aquilo que já temos dentro” e, em algumas ocasiões, nossas valorações estão em função das expectativas que formamos, expectativas que, às vezes, atuam como “sentenças”. E muito importante conhecer a influência dessas expectativas, uma vez que contribuem na configuração da imagem que a criança terá de si mesma. [...] De acordo com García Olalla, a observação psicomotora tem alguns desafios pendentes quanto aos níveis de observação e unidades ou formatos para proceder à observação da interação, por exemplo: como captar a bidirecionalidade adulto–criança que caracteriza os processos interativos e repensar os parâmetros psicomotores com os quais trabalhamos habitualmente, a partir dessa perspectiva bidirecional; encontrar unidades de análise capazes de dar conta da mútua interdependência das con- tribuições da criança e do adulto à construção conjunta da interação a partir de uma perspectiva de co-gestão e de co-participação; analisar dimensões referentes ao tipo de participação que a criança e o adulto trazem para a interação; criar um marco para a metodologia observacional, coerente com o marco da prática psi- comotora como uma prática interativa. Por todo o exposto anteriormente, fica explícito que a metodologia observacional tem prin- cípios dinâmicos que devem estar expostos à revisão e à atualização permanente em prol de uma melhora e de um enriquecimento da mesma. Como em qualquer outro aspecto educativo, a pes- quisa e a formação são permanentes.[...] Movimento Os itens através dos quais podem ser estudadas as características do movimento são: Tipos de movimentos que a criança realiza. [...] Qualidade dos movimentos. [...] Nível de mobilidade das diferentes partes do corpo. [...] Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A avaliação na educação infantil 97 Postura e tônus muscular O tônus sempre está na base da relação e na comunicação com os demais, permitindo que, atra- vés de sua observação, se possa obter informação relativa à vida instintiva e afetiva da criança. Tipos de posturas mais freqüentes: a postura está diretamente relacionada com o tônus, cons- tituindo uma unidade tônico-postural, cujo controle facilita a possibilidade de canalizar a energia tônica necessária para realizar os gestos, prolongar uma ação ou levar o corpo a uma posição de- terminada. Destacaremos aquelas que as crianças utilizam com mais freqüência. [...] Qualidade do tônus Tônus é o grau de tensão dos músculos de nosso corpo. É uma função que não se pode con- ceber como algo estático, mas como algo dinâmico. Mesmo em estado de repouso, o tônus reflete um estado de vigilância, de disponibilidade para executar, em um dado momento, um movimento, um gesto, ou manter uma postura. Como dissemos anteriormente, tônus, emoção e relaxamento andam juntos. [...] O sujeito em relação aos objetos A criança joga com todo o seu corpo e, através desse jogo corporal, mediante manipula- ções, construções, deslocamentos etc., entra em contato com os objetos do mundo exterior e com suas qualidades perceptivas de cor, tamanho, forma, peso, textura, volume etc. Observar como a criança utiliza os objetos e como o faz quando se relaciona com os outros (crianças e adultos) é altamente informativo sobre sua maneira de ser. Assim sendo, mostra-nos se os objetos que utiliza estão de acordo ou não com sua idade, se são adequados ao jogo que realiza, quais são seus objetos preferidos, de que forma os utiliza, se os compartilha ou não com os outros. Conseqüentemente, tais dados nos ajudam a conhecer a etapa evolutiva ou a idade de desen- volvimento em que a criança se encontra. [...] O sujeito e o espaço Os aspectos a serem considerados na observação do espaço podem ser: Ocupação do espaço [...] Tipos de espaço que ocupa [...] Maneiras de ocupar o espaço [...] Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 98 A idade de ser feliz Mário Quintana Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo novo, de novo e de novo, e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se presente e tem a duração do instante que passa. Propomos uma mensagem do poeta Mário Quintana. Seu texto (disponível em: <www.parale- repensar.com.br/m_quintana.htm/>) fala sobre viver o momento presente e estar sempre aberto para superar os desafios que a vida nos propõe. Escolhemos este poema porque acreditamos que nossa existência só vale a pena se nos entregarmos diariamente à aventura da descoberta, do crescimento, da aprendizagem colaborativa. Hoje vamos continuar o trabalho em grupo iniciado na unidade anterior. Então, dediquem-se à formatação de seus projetos de aprendizagem. Trabalhem realmente em equipe, escutando e considerando cada um de seus colegas de grupo. Aproveitem esta oportunidade para experimentar, errar e acertar. Afinal, a aprendizagem requer inte- ração, experimentação, erros e acertos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A função da escola e da Educação Física Ana Cristina Arantes Você já se deu conta que, no Brasil, o primeiro degrau de um processo que tem a duração de 14 anos denomina-se Educação Infantil e que os outros segmentos denominam-se Ensino Fundamental? Você já pensou na diferença entre estes dois termos: educação e escolarização? Educar significa transmitir valores, crenças, atitudes, orientar alguém ou inserir esse alguém por meio dos hábitos, em um grupo social. Ela é primordial nos primeiros anos de vida, quando a criança sai do núcleo familiar e vai dividir um espaço com outras crianças com a mesma idade. Assim sendo, o compromisso da instituição destinada às crianças com até seis anos de idade é o de sociali- zar, o de introduzi-las em um outro e novo grupo social, levando-a gradativamente à compreensão das regras de convivência democrática além de introduzi-las nas competências e nas habilidades iniciais que serão muito úteis neste e nos próximos períodos de escolarização (NICOLAU, 1990). E quanto à palavra escolarizar? A palavra escolarizar é entendida como o ato de divulgar os saberes escolares acumulados pelo homem ao longo do processo de civilização. Ensinar a ler, contar, escrever, cantar, fazer exercícios físicos, praticar a dança, tocar um instrumento – entre muitas atividades que são, por sua vez, orga- nizadas de forma a cumprir um programa ou uma proposta dentro de um determinado tempo e com um grau de organização bastante grande. Para realizarmos tal proeza é necessário ser um professor, ser portador de um saber que a sociedade reconhece como adequado. No entanto, a função de professor não se restringe apenas a tarefa de dis seminar informações. É interessante pensar que um bom docente possui as duas funções: a de edu- cador, que orienta (de maneira implícita) a prática dos valores e da ética no cotidiano escolar; e além dessa tarefa, a cada dia o docente revela novos itens aos estudantes de modo a perpassar desde a mais tenra idade um cidadão com formação integral. E aqui formação integral se refere à obtenção e ao de- senvolvimento dos aspectos intelectuais, afetivos sociais e, do não menos importante, aspecto motor. No tocante ao aspecto motor – movimento – item específico das aulas de Educação Física, convém lembrar que ele representa um ótimo canal de comunicação e de expressão, sobretudo nos primeiros anos de idade e de escolarização. O movimento praticado sob o clima do jogo possui uma intenção, um objetivo mesmo que seja visto como uma atividade lúdica. Aprender por meio das propostas desafiadoras, que o magister ludi (“mestre do jogo”, “professor da diversão” ou “professor da alegria”) apresenta, deve levar os seus alunos a uma constante construção dos conceitos sobre si mesmo, sobre o mundo físico que os rodeia e sobre o mundo social a sua volta. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 100 O sistema escolar brasileiro e as aulas de Educação Física para as séries iniciais As aulas de Educação Física estão previstas no processo de escolarização inicial desde 1961 quando foi publicada a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei 4.024/61. Naquela época a escola era para poucos e as aulas dessa prática educativa (expressão da época) compunham-se de atividades recreativas sem a fundamentação que hoje possuímos. O programa consista na realizaçãodos jogos tradicionais brasileiros, tais como os jogos de correr, de aten- ção, o jogo do passa-anel, por exemplo, além de algumas práticas de competição chamadas estafetas. Durante aproximadamente meia hora, a professora regente se dispunha a ministrar as atividades para os seus alunos de modo que eles tivessem um tempo livre, organizado e em espaço aberto. Embora houvesse interesse e empenho, ao que tudo indica a formação do- cente centrava-se principalmente nos processos de alfabetização propriamente dita. Assim sendo, muitas vezes a professora não percebia o maravilhoso recurso de que dispunha para fazer a articulação entre as experiências vividas pelos alu- nos e os conteúdos desenvolvidos na sala de aula. Nas décadas de 1970 e 1980, nos estudos da psicomotricidade, a escola fran- cesa de Jean Le Boulch, de Pic e Vayer, a argentina de Dalila Costalat, além dos estudos de Vitor da Fonseca no Brasil, deram suporte àquela prática auxiliando os docentes na compreensão de que os gestos poderiam estar vinculados a um fazer e sentir, sendo que muitos erros cometidos pelos alunos – tal como o espelhamento de letra e a inversão de números, até então entendidos como um grave problema – poderiam ser cuidados a partir de uma situação que envolvesse o pensar e fazer, ou seja, os exercícios psicomotores. Os novos estudos forneceram ao docente grande ajuda no sentido de explicar que, entre tantas outras, essa ocorrência se dava pelo desconhecimento do próprio corpo e da falta de noção espacial (direita e esquerda) por parte do aprendiz, que, por isso, projetava essa ausência no papel. Com isso, o foco das aulas mudou, os exercícios psicomotores consistiram na tônica do curso. Retiraram-se das aulas o caráter recreativo, sem fundamento, ou as atividades eminentemente competitivas, muitas vezes desaconselhadas pelos teóricos (ARANTES, 1990). A partir dos anos 1990, um novo impulso ocorreu quando houve a divul- gação de teorias inéditas. O estado da arte das aulas de Educação Física para as séries iniciais foi alterado profundamente, deixando de lado a fundamentação médica e militarista que também caracterizou a área até os anos 1980, passando a discutir e experimentar as novas tendências provenientes de Estados Unidos, Inglaterra e Japão. A partir disso, com a difusão das novas idéias, possuímos atualmente inúmeras formas de se trabalhar com esse componente curricular. Essas também denominadas correntes pedagógicas vão das tradicionais, em que o co- mando do professor dirige todos os procedimentos, até os modelos centrados na Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A função da escola e da Educação Física 101 figura do aprendiz, passando pelas orientações socioconstrutivistas, desenvolvi- mentistas ou ainda pelas referências humanistas, tais como a linha da fenomeno- logia e a corrente da cultura corporal observada nos documentos dos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (1998) e nos Parâmetros Cur riculares Nacionais (1997), sugeridos pelos órgãos governamentais para os alunos do Ensino Fundamental e Médio. No artigo 7.o da Lei 5.692/1971, observam-se a questão da disciplina e da mo- ral, a forte referência à manutenção da saúde como máximo de resistência orgânica e o fortalecimento da vontade como características das raízes da Educação Física brasileira, que muitas vezes é aplicada aos estudantes sem haver adequação. Esse artigo foi escrito durante o regime militar (1964-1985), que de certa forma resgatou, sob a forma de lei, a história da Educação Física brasileira, sem- pre orientada por um caráter higienista e militar. Assim sendo, observa-se com clareza a tendência militar que por muitos anos (senão séculos) foi ou serviu como fonte de inspiração para a educação escolar, tanto a da criança de tenra idade como a do jovem. Ora, o processo de treinamento para fins bélicos não é o mesmo que a edu- cação ou o processo de escolarização, que possui outro objetivo: formar cidadãos – portanto, uma função que não é a de um treinamento semelhante ao de soldados. A Educação Física inserida no contexto escolar destina-se à formação dos estudantes com o objetivo de prevenção e manutenção da saúde, além do exercício da cidadania plena, valendo-se de conteúdos como jogo, ginástica, lutas, dança e esportes. [...] o programa de Educação Física constituir-se-á em um conjunto de ginástica, jogos, desportos, danças e recreação capaz de promover o desenvolvimento harmonioso do corpo e do espírito e, de modo especial, fortalecer a vontade, formar e disciplinar hábitos sadios, adquirir habilidades, equilibrar e conservar a saúde e incentivar o espírito de equipe de modo que seja alcançado o máximo de resistência orgânica e de eficiência individual [...] (SÃO PAULO, 1985, p. 158). Atualmente, espera-se que as aulas de Educação Física contribuam efeti- vamente para o desenvolvimento do acervo cultural e motor de todos os alunos. Essa prática oferece a eles uma real oportunidade de conhecerem, sistematizarem e adquirirem informações de modo que futuramente possam escolher, a partir dos conteúdos vivenciados, alguma modalidade ou prática de atividade física de forma permanente e autônoma gerando um estilo de vida ativa. Para tanto, as aulas de Educação Física, mormente nos anos iniciais da Educa- ção Básica, devem assumir a feição da alfabetização motora (FREIRE, 1988, p. 77). Assim, os planos de ensino e de aula não podem obrigatoriamente ser mais uma prática destituída da teoria e levada a efeito sob o égide da repetição. Além disso, as atividades propostas pelo docente sempre devem estar articuladas ao projeto escolar, considerando o nível de maturidade dos alunos, sua expectativa, seu repertório anterior e a cultura da comunidade. Por conseqüência, os conteúdos estabelecerão um forte vínculo com a vida dos estudantes, podendo ser praticados dentro e fora da escola, na hora da aula ou como lazer. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 102 As aulas de Educação Física que desejamos são aquelas em que o aluno e seu movimento sejam considerados como centro do processo. Os conteúdos desti- nados a todos os estudantes devem ser muito diversificados. Ginástica, jogo, luta, dança (em conjunto com a Educação Artística) e os esportes serão apresentados de maneira integrada às outras disciplinas e de acordo com o nível de maturidade dos alunos, devendo ser praticados por todos, sem a preocupação do rendimento ou da execução do gesto perfeito. Nesse sentido, o texto da Lei de Diretrizes e Bases vigente (Lei 9.394/96) evidencia claramente que a intenção da escola e das aulas de Educação Física possui um outro compromisso assim expresso: A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da educação básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa no curso noturno. (SÃO PAULO, 2001, p. 50) Na qualidade de um componente curricular de Educação Física da/na escola, deve participar, dentro da sua especificidade, do projeto pedagógico da instituição. A partir do levantamento dos dados da clientela, organizam-se os planos de curso e os conteúdos tendo em vista a quantidade de aulas previstas no plano escolar; as condições físicas da escola; a temperatura e as situações climáticas que impõem adaptações; quadras cobertas, descobertas; espaços livres; material necessário em quantidade e diversidade; recursos humanos de apoio (auxiliares e/ou alunos de curso de magis- tério, por exemplo). Um outro ponto muito importante é articular os conteúdos das aulas com os eixos ou temas transversais de modo a se estabelecera desejável integração com os outros componentes curriculares e as demais disciplinas do currículo da Educação Básica. Considerações sobre as aulas de Educação Física e os temas ou eixos transversais Pensar nos conteúdos de maneira a favorecer o desenvolvimento dos aspectos socioafetivos, intelectuais e motores é favorecer a formação integral do aluno, é considerar a aulas de Educação Física mais uma oportunidade para se praticar a cidadania. Então, quando o professor propõe – por exemplo – um jogo e o tema transversal ética, será estabelecido com os alunos as regras da atividade. Além da Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A função da escola e da Educação Física 103 tarefa motora, será favorecida a compreensão progressiva da hierarquia, a noção de papéis e a pertinência a um grupo além dos aspectos motores inerentes ao jogo propriamente dito. Possíveis blocos de conteúdos para as aulas de Educação Física Para as séries de escolarização inicial, os Parâmetros Curriculares Nacio- nais (BRASIL, 1997), recomendam que os conteúdos já citados sejam organiza- dos em três blocos: conhecimento e controle do corpo; atividades rítmicas e expressivas; conhecimento sobre os jogos, esportes, danças, lutas e a ginástica. Essa divisão didática deve fazer com que, gradualmente, os alunos conhe- çam as suas características e a dos demais, estabeleçam relações equilibradas e construtivas com os outros e possam participar de todas as atividades corporais de forma supervisionada ou com autonomia, individual ou coletivamente, exer- citando-se com ou sem material. Conhecimento e controle do corpo Reúne as tarefas cujo eixo é o conhecimento do esquema corporal e abran- gem as atividades com a utilização de movimentos globais, segmentares, inter- dependentes, movimentos que utilizam a percepção dos órgãos dos sentidos e a expressão corporal – atividades que requerem a imitação, a dramatização, a mímica e a interpretação dos gestos e a comunicação dos sentimentos. Neste item, cabem ainda os movimentos de orientação espacial – direita/ esquerda, à frente/ao lado/atrás, longe/perto –, os movimentos de orientação tem- poral, de velocidade – mais rápido/lento – e os de curso regular. A testagem das capacidades físicas de força, resistência, flexibilidade, co- ordenação (global e seletiva), velocidade, agilidade e equilíbrio pode ser expe- rimentada sob a forma de ginástica e luta como um “movimento” em que tais tópicos estão presentes sem que sejam apresentados explicitamente: esses itens não devem ser solicitados tal como vemos na mídia ou na prática dos adultos, com refinamento de gestos. O que se recomenda é que haja por parte do docente a preocupação de apresentar tais tópicos sob a forma lúdica, sem exigir gesto perfeito, limpo. Por exemplo, para trabalhar a força dos braços, tal como os halterofilistas fazem no treinamento para as provas competitivas, o professor deverá trabalhar a mesma força de braços solicitando que seus alunos se dependurem em uma corda amarrada em um galho de árvore, que se sustentem e subam por essa corda até seu ponto mais alto. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 104 Para que os alunos entendam os conceitos de resistência e velocidade, deve- se pedir a eles que corram os quatro ângulos da quadra para a prática da resistên- cia ou da velocidade (atividade cardiorrespiratória), coordenando os braços e as pernas em uma atividade de saltar sucessivamente uma corda estendida ou ainda andar sobre a mesma corda no chão, entre outras. Essa organização didática pode ser praticada sob a forma de exercícios sim- ples ou inserida nas atividades dos outros blocos, mas sempre se deve buscar uma teoria articulada à prática, à alfabetização motora e sem refinamento, principal- mente nas primeiras séries da escolarização fundamental. Atividades rítmicas e expressivas As atividades rítmicas e expressivas são constituídas pelas rodas e brinque- dos cantados, pelas cantigas e danças do repertório infantil e pelas ladainhas de pular corda, tão apreciadas pelas crianças. Jogos e esportes Incluem-se os jogos de imitação, os jogos simbólicos, nos quais a criança recria a realidade a sua volta, os jogos de construção, nos quais são estabelecidas conjuntamente com os alunos as regras a serem praticadas por todos e, finalmen- te, os jogos de regras com elaboração mais refinada, de certa forma preparando os alunos para os jogos pré-desportivos, que por sua vez serão progressivamente vivenciados a partir da 5.ª série do Ensino Fundamental. Cabe ao professor das séries iniciais a grande tarefa de ampliar o conheci- mento da criança acerca de si mesma, acerca do mundo físico e das relações sociais que se estabelecem a partir da vivência democrática de todos os conteúdos propos- tos de modo a favorecer sistematização dos movimentos sob a forma dos esportes individuais ou de equipe nas séries subseqüentes da aprendizagem formal. Aos olhos da criança (GUSDORF, 1995, p. 8) Aos olhos da criança, os pais serão como deuses tutelares, onipotentes e oniscientes, cujos favores importa saber captar por meios apropriados. Mas, a partir de certa altura, essa vaga vene- ração dá lugar a uma atitude em que a crítica e a perspicácia vão pouco a pouco intervindo para desacreditar os ídolos de outrora. Descobre-se que os pais não são infalíveis, que às vezes mentem, que outras não são inteiramente leais nas suas relações com os filhos. Esta capital diminuição que, pouco a pouco, também afeta todos os adultos em geral vai fazer a criança crescer, vai simultane- amente fazê-la sentir-se desprotegida, pois que um a um foi duvidando do todos aqueles em quem confiava, e que eram os naturais protetores do seu espaço vital. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A função da escola e da Educação Física 105 O homem só pode tornar-se homem pela educação. Ele é aquilo que a educação faz dele. Para tanto, o homem necessita não só de cuidados mas também de cultura. Immanuel Kant 1. Organize no grupo de colegas uma dinâmica em que os participantes relembrem as atividades físicas praticadas na sua infância, em que apareçam tanto a cultura local como as possíveis va- riações decorrentes da pluralidade da cultura. GUSDORF, Georges. Professores para quê?: para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 1995. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 106 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Características dos alunos da escolarização inicial e as aulas de Educação Física Ana Cristina Arantes Uma das principais mensagens da moderna educação escolar é o princípio da aprendizagem significativa: o aluno raciocina, forma o conhecimento acerca dos objetos, dos fatos e das relações fí- sicas e sociais quando as atividades que lhe são proporcionadas são úteis (ARANTES, 2005). Portan- to, ao pensar em elaborar um plano de ensino, o professor sempre deve ter em mente os seus alunos, suas características, sua cultura, por exemplo, de modo a tornar a sua ação eficaz e eficiente. Partindo desse princípio, serão descritas as características gerais das crianças com idade compreendida entre seis e oito anos. Cabe a você perceber quanto os seus alunos se aproximam ou se distanciam da descrição teórica apresentada. Todos somos fruto da hereditariedade e do meio ambiente. Assim sendo, a organização dos processos de crescimento e de desenvolvimentohumanos possuem, segundo a escola desenvolvimen- tista de Gallahue (1982), corroborada por Tani et al. (1988), duas premissas fundamentais, conforme abaixo. Primeira premissa – todos os períodos, estágios ou fases do crescimento e do desenvolvimento humanos são universais e preestabelecidas. A primeira infância se inicia no primeiro ano e termina por volta do sexto ano de vida. A segunda infância corresponde ao período de 6 a 12 anos de vida. A puberdade é a idade entre a segunda infância e a adolescência. A adolescência se inicia aos 13 anos e termina por volta dos 19. Depois há a juventude, a idade adulta propriamente dita e a terceira idade, por volta dos 80 anos. Ou ainda, segundo Piaget (apud WADSWORTH, 1987), passamos por algumas fases de desen- volvimento cognitivo: sensório-motor (nascimento aos 2 anos de idade); pré-operacional (2 aos 7 anos); operacional concreto (7 aos 11 anos); formal ou hipotético-dedutivo (11 anos em diante). Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 108 Segunda premissa – para crescer e nos desenvolver, dependemos da qualidade e da quantidade dos estímulos do meio. Essas duas premissas justificam plenamente o fato de as pessoas aprende- rem em velocidades diferentes. Nem sempre a idade biológica representa algo im- portante: com certa freqüência, observamos alunos com maior desenvolvimento intelectual tendo a mesma idade biológica que outro. O professor deve pensar nisso ao programar as atividades para seus alunos. Alunos entre 6 e 10 anos de idade segundo a teoria piagetiana Características cognitivas ou intelectuais A criança desta fase já consegue perceber diferenças entre situações reais e fictícias, consegue perceber que uma mesma quantidade pode assumir formas e estruturas diferentes sem perder as suas características intrínsecas: um litro de água pode estar em um prato fundo ou uma garrafa. Embora se apresente sob di- ferentes formas, possui a mesma quantidade. A maneira de resolver esse problema centra-se em um julgamento mais fundamentado, próximo da lógica do adulto e não mais no julgamento por aparência, tal como na idade anterior. A criança desta idade vale-se das operações lógicas desenvolvidas e aplica- das em problemas concretos. Domina os processos de seriação e de classificação de objetos, podendo organizá-los segundo critérios de cor, tamanho, forma etc. Possui reversibilidade de pensamento (tal como a dupla face de um casaco – que pode ser usado de duas formas), consegue solucionar todos os problemas que en- volvam as transformações, pois possui a idéia de conservação (1 litro). Seu raciocínio fundamenta-se nas coisas do mundo concreto e por isso não possui recursos para solucionar problemas verbais complexos ou situações do mundo abstrato que envolvam um pensamento mais amplo, que lida com hipótese e com o futuro. O pensamento da criança entre 6 e 10 anos de idade está estreitamente vin- culado – mas não dominado – pela percepção, como na fase anterior. Por isso, as aulas de movimento que utilizam o corpo concreto é um recurso imprescindível para a ampliação do mundo conceitual infantil, estabelecendo o arco do fazer e compreender, que de alguma forma aplicam-se às situações teóri- cas da aprendizagem da matemática, por exemplo. O aluno com idade entre 9 e 11 anos já consegue organizar seu pensamento com uma estrutura mais lógica. Seu argumento possui uma visão maior sobre a relação entre ato e conseqüência; planifica suas ações com início, meio e fim; se Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Características dos alunos da escolarização inicial e as aulas de Educação Física 109 estimulado, pode perceber-se nos outros, na situação do outro, entretanto, sem que haja vivência da problemática alheia. Isso significa que o período lógico formal ou hipotético-dedutivo já está se iniciando e que esse tipo de pensamento poderá ampliar seu mundo por sua capacidade de abstrair, generalizar os dados e as in- formações que não estejam presas ao mundo concreto. Características socioafetivas A criança de 6 a 8 anos de idade está vivenciando uma fase muito delicada, pois sai do primeiro núcleo social (a família) e depara-se com outras crianças que estão passando pela mesma situação e vêem em seu professor um valoroso aliado de justiça e de proteção. Entretanto, com alguma freqüência essa criança precisa disputar a atenção e o amor do docente com outras crianças que possuem seme- lhante expectativa. Muitas vezes, sente-se acolhida; em outras oportunidades, por sentir-se rejeitada ou preterida, ela se encolhe em um canto e decide não praticar as atividades, fica amuada, choraminga e se entristece. O inverso também pode ocorrer, a criança demonstrando comportamento desafiador, contestador, exibi- cionista, buscando chamar a atenção do docente. Muitos alunos apresentam temperamentos introvertidos, querem fazer as atividades segundo seu próprio julgamento e de forma individualista. Embora te- nham raciocínio pré lógico no cotidiano, na hora da atividade – em que estão em jogo as tarefas, certas contendas – agem de forma retrocedida, podendo agredir e melindrar-se com situações não suficientemente importantes. Portam-se muitas ve- zes de maneira colaborativa ou despótica ao mesmo tempo, que, logo em seguida, cumprem pequenas tarefas e apreciam auxiliar o professor. Alguns (justamente por não terem ainda o espírito de classe e de grupo e por ser individualista) querendo ajudar o seu professor assumem o papel de dedo-duro, não percebendo que essa atitude pode gerar no futuro um sentimento de infidelidade para com o grupo. O aluno das primeiras séries do Ensino Fundamental precisa, portanto, de um professor que haja de maneira equânime, que seja um bom mediador, perceba os fatos e as situações e crie mecanismos de ponderação e de diálogo, encontrando (juntos, professor e alunos) respostas ou soluções para os problemas cotidianos. Esse aluno possui certa dificuldade em trabalhar ou em permanecer no mesmo grupo. Muitas disputas e comportamentos pouco altruístas podem surgir durante as atividades. Os desentendimentos são freqüentes, mas muitas vezes há conciliação e, posteriormente, voltam os desentendimentos, pois predomina a ati- vidade auto-referenciada – na qual o professor deve intervir, buscando uma forma adequada de conciliação entre as crianças. Não há ainda forte intervenção do meio na escolha de papéis com padrões socialmente aceitos: todos brincam juntos e o desempenho não sofre intervenção do meio, apesar de gostarem de histórias de contos de fadas e de aventuras. Assim, gradualmente os alunos (naturalmente) autocentrados praticarão as atividades lado a lado, depois em pequenos grupos, chegando à 4.ª série sem perder sua individualidade, possuir a justa noção de per- tinência de equipe, cumprindo as regras estabelecidas pela classe. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 110 Características físico-motoras Os seus gestos são ainda imprecisos, mas estão a caminho de um refinamento maior. Isso pode ser comprovado pela escrita, que no início do ano é bastante irre- gular, mas pouco a pouco – com a melhoria do controle olhos-mãos, do movimento de punho e do tônus muscular– o gesto fino vai se refinando paulatinamente. Os grandes músculos, ao contrário, possuem boa coordenação e lhes propiciam condi- ção para uma prática de atividade vigorosa. A resistência cardiorrespiratória pode não favorecer a prática de atividades muito prolongadas. Às vezes, as crianças se cansam ou perdem o interesse, e é por isso que o professor devevariar as atividades, sem necessariamente alterar a substância dessas atividades. Os alunos desta faixa de idade apresentam grande entusiasmo para executar qualquer tarefa proposta. O tempo que eles permanecem atentos, entretanto, pode variar na direta medida do envolvimento e da significância do exercício proposto. As crianças desta idade também não possuem dimensão do perigo: gostam das atividades de contato, dos jogos em que a fantasia esteja presente, apreciam a autotestagem e é por isso que os super-heróis sobem nos muros, nas árvores e nas escadas. Essa realidade faz com que o professor precise manter-se muito atento de modo que as atividades sejam praticadas com grande segurança. Todos os alunos indistintamente têm interesse e necessidade de aprimora- mento físico, portanto, o desafio e a curiosidade podem ser grandes aliados do docente no sentido de levar a classe à execução de tarefas mais complexas, com- binadas, ou com regras gradualmente mais elaboradas. No final deste período, em alguns alunos pode ser observado certo grau crí- tico, de antagonismo, de predileção pelos colegas em decorrência da observação mais acurada do desempenho que seus colegas demonstram nos jogos, atividades coletivas ou ainda naquelas em que ficam em evidência ao praticarem o exercício enquanto outras esperam, observam até chegar a sua vez de jogar – por exemplo, esperam para entrar, pular corda e sair. É um exercício em que um executa en- quanto os demais esperam, cantam, batem palmas, mas não deixam de observar a realização do colega, e daí a crítica, o riso. Objetivos da Educação Física para os alunos das primeiras séries da escolarização básica segundo os PCN (1997) Espera-se que, ao final do processo, o aluno possa: participar das atividades corporais por meio de relações equilibradas e construtivas; reconhecer e respeitar as características físicas e o desempenho de si próprio e dos outros, sem discriminação de qualquer natureza; Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Características dos alunos da escolarização inicial e as aulas de Educação Física 111 adotar atitudes de respeito mútuo, de dignidade e de solidariedade em todas as situações, repudiando toda e qualquer situação de violência; conhecer e valorizar, respeitar e desfrutar da pluralidade das manifesta- ções da cultural corporal esportiva humana; adotar hábitos saudáveis de higiene, alimentação e atividades corporais, relacionando-as com a manutenção e a recuperação da saúde – pessoal e do grupo; organizar as atividades e/ou solucionar os problemas de ordem corporal nos diferentes contextos. Aos objetivos elencados podemos acrescentar os da Coordenadoria de Estu- dos e Normas Pedagógicas (CENP), instância da Secretaria de Estado da Educa- ção de São Paulo que é responsável pela elaboração de propostas curriculares para todas as disciplinas e/ou componentes curriculares das escolas da rede oficial. Pela proposta curricular de Educação Física (SÃO PAULO, 1991), para a 1.ª e a 2.ª séries do Ensino Fundamental se espera do aluno que: desenvolva sua capacidade de pensar, representando corporalmente o seu mundo imaginário (relação entre as linguagens verbais e não-verbais); execute os movimentos corporais compreendendo-os e utilizando-os de forma adequada e em segurança; enfrente os desafios e resolva-os dentro as suas possibilidades; organize atividades de lazer individualmente e em grupo (autonomia); compreenda e assuma o seu papel nas atividades de grupo, sentindo-se integrado na aula e na escola; afirme a sua dominância lateral; desenvolva noções de classificação, similaridade e conhecimento físico; desenvolva a atenção, a concentração, a atitude de solidariedade e de cooperação; desenvolva hábitos de atitude postural correta; compreenda a necessidade da utilização de regras nas atividades; amplie o seu conhecimento sobre as manifestações corporais pertencen- tes à cultura corporal, assegurando sua preservação; identifique e acompanhe os diversos ritmos; desenvolva a criatividade; desenvolva as noções de lateralidade e noções temporo-espaciais; desenvolva as capacidades físicas e as habilidades motoras. É recomendável desenvolver os conteúdos considerando a visão teórica e a realidade do aluno. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 112 Desenvolvimento do conhecimento e controle do corpo (esquema corporal) Seguindo a orientação do citado órgão, apresentamos um elenco de possí- veis recomendações para a 1.a e a 2.a séries do Ensino Fundamental. Conhecimento e controle do corpo (esquema corporal) Indicar, nomear pessoas e objetos de diferentes tamanhos, cores, posi- ções e lugares, tendo como referência a posição do próprio corpo e do companheiro. Reconhecer o corpo no seu todo e seus segmentos executando movimen- tos globais interdependentes e independentes. Reconhecer a dominância e a preferência lateral em si próprio e no outro. Deslocar-se e discriminar localização, direção e dimensão do corpo e dos objetos utilizando variadas trajetórias (linha reta, sinuosa, de frente, de costas e lateral com passo cruzado) com diferentes intensidades e dife- rentes durações (maior/menor). Exercitar-se em diferentes planos – alto (em pé), médio (quatro apoios) e baixo (deitado decúbito dorsal e ventral) –, utilizar flexões e extensões, alongamentos do próprio corpo. Atividades rítmicas e expressivas Atividades de roda, cantiga de roda ou rodas cantadas. Brinquedos cantados. Danças folclóricas nacionais e com coreografias simples, danças criativas. Ladainhas de pular corda. Conhecimento sobre os jogos, esportes, lutas e a ginástica Jogos Imitação dos animais, das atividades cotidianas, das cores do farol de rua. Jogo simbólico ou de faz-de-conta, jogo de representação ou de simu- lação de papéis, jogo de casinha, de circo, de escolinha. Atividades pequenas em duplas, com ou sem material, em que haja trabalho de força, agilidade, resistência e equilíbrio de forma aplicada e lúdica. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Características dos alunos da escolarização inicial e as aulas de Educação Física 113 Participar dos contestes ou “Quem é capaz de...?” Tarefas em que haja inicialmente a discussão e a construção de regras para a posterior aplicação e retomada das mesmas, visando ao ajuste da atividade, ao juízo moral do que se pode ou não praticar. Jogos inventivos mesclando duas ou mais atividades que tenham sido propostas e praticadas isoladamente. Jogo de regras no qual o professor traz a regra pronta, uma regra sim- ples que os alunos deverão praticar e avaliar em situações pertinentes (ou não) com o auxílio do professor. Esporte e luta Não é recomendável a prática do esporte e tampouco de lutas individuais ou grupais, bem como qualquer atividade cujo gesto seja muito controlado, específi- co, especializado, como o balé e a ginástica artística, pois atividades assim reque- rem muito controle corporal, de todas as estruturas mentais/cognitivas, psíquicas e físico-motoras de alunos com menos de dez anos de idade. Essa afirmação vai ao encontro do papel e da função da escola, corroboran- do a função das aulas de Educação Física no ambiente formativo. Estudiosos da área consideram que este é um importante período de explo- ração, de obtenção da maior quantidade de experiências a partir do gesto sem re- finamento (ou genérico). Encaminhar a construção do conhecimento pela prática supervisionada e livre do movimento proporciona ao aluno o conhecimento desuas possibilidades no período em que está se alfabetizando corporalmente e por isso a educação deve ser integral e com a participação de todos, sem exclusão. Em relação ao esporte e à luta, é recomendável que seja divulgada sua im- portância e que esporte e luta sejam explicados como manifestações humanas construídas ao longo da história, algo que deve ser aprendido à medida que cres- cem e se desenvolvem as estruturas físicas psíquicas e sociais. Assim, são reco- mendáveis as vivências das tarefas das habilidades simples e que depois irão se compondo e combinando, conforme abaixo. Atividades de locomoção, tais como andar, correr, saltar, saltitar, galo- par, deslizar, arrastar-se, como uma prática pessoal ou em duplas, com ou sem material, visando obter a informação e a construção do conhe- cimento, podendo ser combinadas ou articuladas ao grupo, com conhe- cimento e controle do próprio corpo ou aplicadas nos jogos já citados. Atividades de manipulação (inclui-se a noção espaço-temporal), tam- bém aplicadas aos esportes e às lutas, são entendidas como aquelas que necessitam ou se utilizam da coordenação olhos-pés (oculopo- dal) ou olhos-mãos (oculomanual), esta última também utilizada nos processo de escrita e de leitura. Possuem intrínseca relação com a noção de tempo e de espaço, com organização espacial, com a noção de peso e de força aplicada, com a projeção e recepção dos objetos, muito necessária para atividades em grupo, os jogos com bola, por Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 114 exemplo. Consistem nas atividades que trabalham com materiais, tais como bolas de diferentes tamanhos, cordas individuais ou elásticas, petecas, raquetes, tamboréu1, folhas de jornal, barbantes, bastões e toda a gama de materiais alternativos, como embalagens de pizza ou pratinhos de bolo – para a execução do lançar, receber etc. Atividades de equilíbrio ou de não-locomoção, muito necessárias para atividades ou posições estáticas ou de alteração de planos (alto mé- dio e baixo), e também valorosas nas tarefas de confronto individual, como as lutas de capoeira e de judô. Podem ser praticadas com ou sem material valendo-se somente do corpo – por exemplo, equilibrar-se como um avião, uma estátua, em plano invertido (cabeça para baixo e as mãos no chão). As atividades de não-locomoção podem ser classi- ficadas como torcer, girar sobre o próprio eixo transferindo o peso do próprio corpo para ântero-posterior ou lateralmente, por exemplo. Ginástica Inserida no grupo do conhecimento do próprio corpo ou trabalhada como esporte. A partir do que aqui é sugerido, as possibilidades são infinitas. São sugestões iniciais, que você pode ampliar muito, conforme a realização dos seus alunos. Como você observou, as aulas possuem inúmeras possibilidades, que vão desde uma atividade simples (como a de imitação), passando pelas atividades rít- micas da cultura popular (por exemplo), chegando a atividades um pouco mais elaboradas (como um jogo que pode envolver um grande grupo de alunos, o que torna necessária a discussão conjunta da regras). Todas são muito interessantes, as danças, as rodas cantadas que recordam nossa infância (e que também podem ser trabalhadas em sala de aula) e trazem as crianças para a prática lúdica e integralmente formativa. Todas elas podem facili- tar o processo de integração de reconhecimento de sua cultura e das tradições, de modo a favorecer o respeito pelo que é nosso, impulsionando o processo de cida- dania e a idéia de pertinência histórica, além de serem muito estimulantes tanto para quem propõe como para quem executa. 1 Jogo praticado com pan-deiro e peteca. Jogando e aprendendo a jogar, Jogando e aprendendo a jogar, Nem sempre ganhando, Nem sempre perdendo Mas aprendendo a jogar. (Guilherme Arantes) Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Características dos alunos da escolarização inicial e as aulas de Educação Física 115 1. A partir das idéias do texto, responda individualmente às questões abaixo. a) Como podemos avaliar se um aluno desenvolveu a capacidade de pensar sobre a atividades propostas? Que estratégia você usaria? b) Em que medida o conhecimento sobre o corpo pode favorecer a escrita e a leitura? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 116 c) Como as aulas de Educação Física e as suas atividades contribuem para a compreensão das regras sociais? CAPARROZ, Francisco. Entre a Educação Física na Escola e a Educação Física da Escola: a Edu- cação Física como componente curricular. Vitória: CEFD/UFES, 1997. ARANTES, Ana Cristina et al. História e memória da Educação Física na Educação Infantil. Revista Paulista de Educação Física, n. 4, 2001, p. 76-82. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Os alunos do ensino fundamental e as aulas de Educação Física Ana Cristina Arantes Se vamos apresentar as características dos alunos com idade entre nove e dez anos, precisamos ter presente que as divisões por aspectos são meramente didáticas, pois os processos de crescimento e de desenvolvimento são concomitantes. Convém ressaltar que, conforme a Proposta Curricular de Educação Física (SÃO PAULO, 1991, p. 48), as atividades intensamente lúdicas, tão característica das séries anteriores, não devem ser abandonadas, mas, como recomenda o referido documento, a essa forma de se trabalhar devem ser acrescentadas outras estratégias que, mais elaboradas, são destinadas e adequadas aos alunos das 3.a e 4.a série do Ensino Fundamental. Características dos alunos Aspectos socioafetivos da criança de 9 a 10-11 anos de idade. Os alunos da 3.ª série do Ensino Fundamental já possuem noção de equipe e de grupo. São capazes de praticar ações com maior autonomia que nas séries anteriores. Socialmente explicando apreciam estar em pequenos grupos, pois já desenvolveram sentimentos de pertinência e de predile- ção mais estáveis. Alguns são “paneleiros” (nas diferentes atividades, buscam manter ou manter-se sempre com os colegas semelhantes a eles), o que muitas vezes pode gerar sentimentos de exclusão por parte daqueles colegas que não são escolhidos, ao mesmo tempo em que deixam de vivenciar novas e ricas experiências e ampliar o espírito de cooperação e de tolerância, tão necessário em uma sociedade plural. Muitas vezes, por possuírem senso crítico, inibem-se ou fazem chacota de outros menos hábeis ou mais lentos, pois já reconhecem suas próprias habilidades e gostos. Os alunos desta série já fazem julgamentos a partir do que observam ou do desempenho dos colegas nas tarefas teóricas (conceitu- ais), ou nas realizações em que as habilidades (situações envolvendo as destrezas manuais – práticas, por exemplo) estejam presentes (PERRENOUD, 2001). Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 118 Possíveis intervenções nas tarefas: a situação de gênero e a expectativa social do meio ambiente As meninas de nove a dez anos podem apresentar certas características so- cialmente “impostas”. Algumas já se espelham no comportamento feminino que a comunidade reconhece como bom e belo, e muitas vezes preferem estar somente com as suas amigas preterindo os seus colegas de classe. É o tempo das coleções de papel de carta, das figurinhas de representação feminina ou, por parte dos meninos, do álbum com figurinhas de jogadores de futebol; é tempo do reconhecimento das atividades sob a divisão de gênero– ati- vidades que revelem controle e beleza e certo recato, tais como o balé e a ginástica para meninas ou atividades vigorosas como as lutas, capoeira ou ainda o futebol para os meninos. Algumas meninas podem desenvolver interesse pelos assuntos relacionados ao outro sexo (e por isso tanto segredo dividido com as colegas). Entretanto, o menino escolhido quase sempre é de uma série posterior. Ao final da 4.a série, as meninas gostam de bailes, de ídolos da música po- pular, mas também conciliam com os jogos de correr (pegador, agacha-agacha, duro e mole, esconde-esconde, corre cotia), característicos das séries anteriores. As meninas também apreciam rever ou ampliar as atividades com ritmo – pular corda, pular elástico, brincar de mãe da rua e outros jogos da cultura popular, tais como barra manteiga, pique bandeira, jogo do alerta, ou jogo das bases, e ainda a queimada ou queima, este muito praticado por todos indistintamente. Por sua vez, os garotos apreciam os jogadores do esporte nacional – o fute- bol – e neles se espelham. Também continuam a apreciar os jogos vigorosos que daqui por diante serão praticados sob a forma coletiva, tais como o bobinho, pique bandeira, chute a gol e dois toques, como explicita os Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física (BRASIL, 1997, p. 50). Aspectos físico-motores O aluno desta fase apresenta refinamento dos padrões fundamentais, enca- minhando-se para as formas maduras de execução. Possue maior fluidez e harmo- nia de gestos para a execução de movimentos combinados, inclusive de categorias diferentes – por exemplo, correr, quicar a bola, salta uma corda e, concomitante- mente, quicar ou lançar a bola para o alto enquanto salta a corda. A Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, instância da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, é responsável pela elaboração de propostas curriculares no estado e recomenda alguns objetivos para a 3.a e a 4.a série (ou se- gundo ciclo do Ensino Fundamental). Espera-se que o aluno desta fase pratique as atividades lúdicas e formativas (SÃO PAULO, 1991, p. 50), de maneira que: desenvolva a criatividade; explore e supere de modo progressivo suas capacidades físicas e habili- dades motoras; Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Os alunos do ensino fundamental e as aulas de Educação Física 119 assuma o controle corporal, demostrando movimentos com economia de esforço; amplie as noções de lateralidade, espaço e tempo; demonstre habilidade no manuseio de diferentes materiais; assuma seu papel no grupo e participe com lealdade das atividades; manifeste e defenda o seu ponto de vista; modifique as regras do jogo; acompanhe diferentes ritmos, demonstre adaptação do ritmo individual do grupo; expresse corporalmente as suas emoções; utilize as horas de lazer; demonstre aquisição de hábitos posturais corretos. (SÃO PAULO, 1991, p. 50) A mesma página do mesmo documento indica, para a realização desses objetivos, que os seus conteúdos sejam organizados em blocos: possibilidades corporais; atividades rítmicas e expressivas; jogos; fundamentos esportivos; recreação e atividades complementares. (SÃO PAULO, 1991, p. 50) O primeiro bloco de atividades é composto por possibilidades corporais, conforme abaixo. Orientação espaço-temporal. Capacidades físicas, envolvendo a ampliação e o refinamento progres- sivo da coordenação, velocidade, agilidade, equilíbrio, força, resistência e flexibilidade. Ampliação e refinamento progressivo das habilidades motoras de: locomoção – andar, correr, saltar, saltitar, galopar, deslizar, com inten- sidade, direção, sentido, de maneira variada, de forma individual, em duplas ou pequenos grupos, por exemplo; manipulação – quicar, bater e rebater, lançar com a utilização de fora, coordenação olhos-mãos, chutar, receber, podendo expressar-se com variados materiais, tais como bolas, arcos, cordas, bexigas, bolas de variados tamanhos, pesos e materiais, com execução individual ou em duplas, pequenos grupos ou mesmo grandes grupos, como na queima- da ou queima; equilíbrio – atividades que envolvam gestos corporais de girar, torcer, balancear, molejar, rolar, equilibrar-se sobre um apoio, dois, de forma Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 120 invertida, sobre uma trave ou um banco sueco1, andar com progressão simples, com mudança de direção, seqüência de exercícios de solo com utilização de colchão, cambalhota, roda ou rodante, seqüência de exercícios simples com pequenas coreografias, com a utilização de plinto, saltos, subir e saltar. (SÃO PAULO, 1972, p. 57) Esses elementos ainda podem ser combinados com elementos das outras categorias de locomoção e de manipulação. De certa maneira, prepara-se o aluno para um trabalho ginástico-desportivo mais intenso, visando às séries subseqüen- tes – 5.a a 8.a série do Ensino Fundamental, nas quais o trabalho deve ser voltado para as atividades esportivas competitivas, tão apreciadas pelos adolescentes. O segundo bloco de atividades é composto de atividades rítmicas e expressi- vas – expressão corporal – adaptadas segundo o contexto e o grau de maturidade do grupo: danças folclóricas, tais como brincadeiras de roda, cirandas, escravos de jó, danças coreografadas associadas a manifestações musicais (bumba-meu-boi, escolas de samba, trios elétricos, blocos de afoxé, olodum, timbalada) ou ainda as lengalengas ou ladainhas iniciadas nas fases anteriores, entre outras. Também se recomendam as pequenas coreografias criadas pelo grupo e os movimentos combinados em ritmos diferentes (cf. SÃO PAULO, 1991, p. 50, e BRASIL, 1997, p. 53). Quanto ao terceiro bloco relativo a 3.a e 4.a série, recomendam-se as ativi- dades abaixo. Jogos A proposta da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (SÃO PAULO, 1991, p. 50) recomenda que esses jogos sejam os de regra pela idade e as melhores possibilidades que os alunos possuem para avaliar, refletir sobre as atividades propostas pelo docente. Os grandes jogos, assim como os jogos pré- desportivos, estão em condições de serem incluídos, desde que o professor perce- ba as suas possibilidades, bem como as possibilidades de seus alunos. Exemplos de jogos com regras: queimada, pique bandeira, alerta, jogo de bases (preparatório para o beisebol). Exemplos de jogos pré-desportivos: atletismo (corrida de revezamen- to ou estafeta, corrida com obstáculos, de revezamento, utilizando a resistência e a velocidade, saídas e chegadas, salto em altura, exten- são, arremesso de peso, de disco ou de dardo adaptado). Fundamentos esportivos Desde que elas sejam adequadas ao nível do grupo, pode ocorrer a sistema- tização das tarefas motoras praticadas de maneira isolada, buscando o refinamen- 1 Banco de madeira medin-do 5 metros de compri- mento por 20cm de largura, com altura também de 20cm. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Os alunos do ensino fundamental e as aulas de Educação Física 121 2 Jogo semelhante ao tê-nis: em uma quadra, os adversários usam raquetes para enviar uma peteca sobre uma rede. 3 Jogo praticado com pan-deiro e peteca. to dessas tarefas e envolvendo inclusive as noções espaço-temporais e os aspectos socioafetivos para a prática conjunta das atividades propostas. Exemplos de atividades coletivas: futebol de campo, beisebol, volei- bol, basquetebol e handebol (todos adaptados). Exemplos de atividades com a utilização de rodas: ciclismo, patins sobre rodas e on-line. Exemplos de atividades com raquetes ou com aparatos:tênis, tênis de mesa, pingue-pongue, badminton2, peteca, tamboréu3. Exemplos de atividades da cultura popular: bocha, malha e boliche. Exemplos de atividades individuais: atividades ginásticas, preparação para as atividades de dança, preparação para as lutas, para as ginásti- cas artística ou olímpica, rítmica, desportiva, ou ainda a estética ou de manutenção, musculação e aeróbica (cf. BRASIL, 1997, p. 51). No quarto bloco destinado a 3.a e 4.a série, temos as práticas de recreação e atividades complementares. Com base na Proposta Curricular de Educação Física (SÃO PAULO, 1991, p. 50), podemos afirmar que todas essas atividades aprendidas em aula com o profes- sor poderão ser ampliadas e implementadas pelo grupo de alunos na hora do recreio, no intervalo, ou mesmo em uma excursão, visita técnica, acampamento ou acanto- namento – ou seja, nas horas de lazer do grupo, de maneira livre ou dirigida. Todas essas atividades irão requerer uma atitude de permanente avaliação do desempenho dos alunos. É necessário que todos pratiquem, gostem das atividades, formem con- ceitos do mundo concreto e do mundo abstrato, como a formação moral – o que é possível e o que não se deve praticar. As atividades propostas devem sempre ir ao encontro do grupo. Sempre pense nisso. “Seja imparcial. Você tem a ciência e o gosto. Se, além disso, você for justo, Eu lhe predigo um sucesso duradouro.” (Voltaire, “Conselhos”, Gazette Littéraire de l’ Europe, 1764) Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 122 1. Após a leitura desta aula, pense sobre as atividades apresentadas e responda às perguntas de maneira individual. Depois, leve a sua contribuição para um debate com seus colegas. a) Que fatores podem influir na execução dos exercícios propostos para os alunos de 3.a e 4.a série do Ensino Fundamental? b) Por que devemos oferecer atividades coletivas para os estudantes de 3.a e 4.a série do Ensino Fundamental? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Os alunos do ensino fundamental e as aulas de Educação Física 123 c) O que estamos querendo enfatizar com as atividades de expressão rítmica? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 124 d) O que a implementação de regras oferece aos seus alunos tendo em vista o exercício da cidadania? SILVA, João Batista Freire da. Métodos de confinamento e engorda (como fazer render mais porcos, galinhas e crianças). In: Educação Física e Esporte: perspectiva para o século XXI. 2. ed. Campinas: Papirus, p. 109-122. WADSWORTH, Barry. Piaget para o Professor da pré-escola e do 1.o Grau. São Paulo: Thomson Pioneira, 1989. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br As aulas de Educação Física Escolar e o processo de inclusão e integração Ana Cristina Arantes Qual a função da escola? Para que existe a escola? A escola deve ser considerada como o maior programa de qualidade de vida dos estudantes. É o berço da prática da cidadania, responsável pela disseminação da informação, construtora do conhecimento e do acervo cultural do aluno. É na escola que se constroem os hábitos e exercita-se a autonomia. (ARANTES, 2006, p. 4). As funções das agências de Educação Infantil Com o fim da Monarquia e a Proclamação da República, em 1889, o Brasil tentou se alinhar aos novos ditames e conceitos sobre a educação formal e, inspirado nos ideais franceses de fraternidade, ensino laico e igualdade de oportunidades – inclusive para estudar –, inaugurou numerosos estabele- cimentos de ensino público e gratuito. Vencendo resistências de toda sorte, os legisladores favoreceram a inclusão de um maior núme- ro de crianças nas poucas escolas existentes no país, sobretudo na região Sudeste. Assim sendo, os pequenos brasileiros passaram a receber instrução formal gratuita oferecida pelos governos dos estados. Entretanto, cabe a ressalva: até a segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 5.692/71), as agências de atendimento correspondiam às exigências das clas- ses sociais mais favorecidas. O atendimento segundo as classes sociais ou o que se deliberou para as crianças Por determinadas exigências de classes sociais, definiu-se que os menores socialmente des- favorecidos seriam abrigados nos asilos, nas creches ou nos serviços cuja ação assentava-se em um atendimento calcado na visão assistencialista. Nesses serviços filantrópicos estava incluída a ação da Igreja e das senhoras piedosas, que juntavam seus esforços e, em grupo, educavam ou incutiam os hábitos socialmente desejáveis nas casas dos expostos (cf. KISCHIMOTO, 1998). Esses asilos infantis ofereciam alimentação, alguma recreação e talvez o necessário abrigo físico e espiritual. Por volta de 1935, para os filhos de operários, Mário de Andrade – o grande escritor de Ma- cunaíma –, na condição de secretário municipal da Cultura de São Paulo, formulou e implementou quatro parques infantis que tinham por missão divulgar a cultura brasileira (ARANTES et al., 2001). Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 126 Por meio das atividades voltadas às crianças com até 12 anos de idade, o cotidia- no dessas instituições realizava uma série de atividades ligadas a artes plásticas, danças e jogos da cultura popular – atividades implementadas pelos primeiros professores civis de educação physica do estado de São Paulo. Na capital de São Paulo, para a elite, entretanto, o ensino público ou preocu- pação com a formação de crianças alfabetizadas se deu objetivamente a partir de 1889, quando foi fundado o Jardim-de-infância da Praça da República – Caetano de Campos –, uma escola cujo cotidiano e cujo currículo eram semelhantes aos que temos hoje em dia. Nessa escola, para ambos os sexos eram oferecidas aulas de idioma pátrio, noções de aritmética, atividades ao ar livre e aulas de gynástica, ministradas por professoras formadas e competentes, mas essa oferta se destinava apenas aos meninos e meninas da elite paulistana (ARANTES et al., 2001). A partir dessa informação, podemos perceber a maneira velada pela qual se praticava a diferenciação? De certa forma, podemos pensar na possibilidade de exclusão social baseada na classe econômica ou no gênero? Por certo a resposta é afirmativa. Porém, embora de maneira morosa e ain- da não completa, o processo de educação formal no Brasil, a partir da década de 1960, tem buscado atender a todas as classes. Esse movimento pela democrati- zação do ensino público deu um salto significativo a partir dos anos 1970, com a promulgação da Lei 5.692/71. Com a implementação dessa segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, ocorreu a ampliação do contingente de crianças na escola. No entanto, falando em exclusão, essa lei não considerava a Educação Infantil como parte da responsabilidade do Estado – portanto, excluindo da educação formal todos os brasileiros com menos de seis anos de idade. Atualmente, estamos na vigência da terceira Lei de Diretrizes e Bases, a Lei 9.394, publicada em dezembro de 1996. A partir dela, o processo de escolarização da criança brasileira inicia-se quando ela nasce e é “abrangida” pela Educação Infantil (a creche e a pré-escola). Aos seis ou sete anos de idade, esse aluno em estágio inicial passa a ser atendido pelo Ensino Fundamental. Aos 14 anos, ele segue para o Ensino Médio, composto de três ou quatro séries. No final da ado- lescência, escolhe o curso de graduação– Ensino Superior – nas diferentes áreas do conhecimento. Temos então o que os especialistas chamam de integração vertical do en- sino e que representa um ganho, pois favorece a articulação e a integração dos diferentes níveis de escolarização, além de reparar os equívocos cometidos em sé- culos passados, quando não se incluía a criança da primeira infância no processo de Educação Básica. No entanto, precisamos fazer algumas indagações. Será que estamos realmente atendendo todas as crianças, em especial aquelas que não estão dentro do padrão de normalidade esperado? Como têm sido analisados tópicos, tais como os ligados ao gênero e às deficiências física e mental? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br As aulas de Educação Física e o processo de inclusão e integração 127 Como a escola tem visto a política de inclusão e de integração e que tipo de providência tem tomado para cumprir as determinações legais? Como a escola tem apoiado e incentivado o professor na prática inclusi- va e integrativa dos alunos sob a sua responsabilidade? Que tipo de informação o docente possui para atender todos os alunos e particularmente os especiais? Que ações poderiam ser empreendidas de modo a oferecer uma educação integral a todos os alunos indistintamente? Que providências a sociedade, os pais e a escola têm tomado em prol de uma escolarização para todos? As construções escolares favorecem a livre movimentação dos alunos? O que dizem os especialistas e os legisladores sobre como romper os preconceitos e estereótipos, os dados históricos e a própria cultura que, muitas vezes, perpetua valores inadequados ou mesmo ultrapassados? E a legislação? O que reza? No artigo “Meninos e meninas: expectativas corporais e implicações na Educação Física escolar”, Sousa e Altmann (1999, p. 1) afirmam que A partir do século XIX existe um movimento de educadores para que a escola reencontre os vínculos perdidos entre a educação e a humanização, assuma a formação do cidadão para sua intervenção na vida pública e fortaleça a concepção democrática, na revitaliza- ção do pensamento pedagógico. No entanto, essa prática, ao que sabemos, não tem sido cumprida, apesar de todos os esforços empreendidos pela sociedade até o presente momento. De acordo com os autores, a partir de 1989, com a publicação das Diretrizes Curriculares do Ensino Fundamental, o Brasil adotou como princípio da educação a garantia dos direitos e deveres da cidadania, a política da igualdade, a solidarie- dade e a ética da identidade. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), instrumento oficial do siste- ma da escola pública brasileira, também reforça, fomenta e favorece as discussões sobre projetos educativos que se encaminhem na direção de uma escola plural, sugerindo metodologias inclusivas, conclamando o pensamento dos interessados para uma instituição mais democrática, cooperativa – sobretudo quando apresenta os eixos ou temas transversais ética, saúde, orientação sexual, trabalho e consumo (o que é próprio de cada comunidade e gênero) e a pluralidade cultural historica- mente determinada. Entretanto, as recomendações legais e dos estudiosos precisam tornar-se uma prática mais consistente. Essa prática só poderá ocorrer quando todas as pessoas estiverem comprometidas com um projeto cuja tônica esteja centrada no processo de ensino–aprendizagem fundamentado no respeito às diferenças, na solidariedade e na real compreensão da visão de totalidade (sentir, pensar e ex- pressar-se), além de considerar como um dado relevante a história dos indivíduos Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 128 abarcando as questões de gênero, que muitas vezes não têm sido avaliadas com a devida atenção. Sobre a ação educativa e as oportunidades segundo o gênero, é interessante refletir sobre o parágrafo escrito pelo Núcleo de Estudos da Mulher e das Rela- ções Sociais de Gênero (Nemge), órgão vinculado à Universidade de São Paulo e coordenado pela professora Dulcília H. S. Buitoni: [...] mulheres e homens possuem, é evidente, diferentes bagagens biológicas. O uso do corpo, suas possibilidades e limitações, não obstante, têm sido e são objeto de condiciona- mentos de gênero. Estes condicionamentos chegam a confundir o cultural com o “natural” (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 1996, p. 14). Definição de gênero Gênero, segundo Scott (apud SOUSA; ALTMANN, 1999, p. 2), é “uma construção social que uma cultura estabelece, elege, em relação a homens e mu- lheres”. Essa relação parece reger e ao mesmo tempo refletir e/ou reforçar a cons- trução social entre homens e mulheres que se estabelece ao longo do tempo. Didaticamente, é uma forma usual para identificar comportamentos e com- preender as complexas conexões que se estabelecem a partir da visão dos papéis que as pessoas devem cumprir, de forma a ir ao encontro do papel socialmente aceito – por exemplo, menina usa cor-de-rosa e brinca com boneca, enquanto me- nino usa azul e joga bola desde cedo. Assim sendo, desde que nascemos, escutamos os familiares e professores dizendo, dando conselho sobre o modo de ser e de agir, incluindo nessas recomen- dações o código de comportamento corporal que vai da percepção e da apreciação à ação. Bourdieu (apud SOUSA; ALTMANN, 1999, p. 2) explicita que “as dife- renças socialmente construídas acabam sendo consideradas naturais, inscritas no biológico e legitimadoras de uma relação de dominação”. Para reforçar essa afirmação, soma-se a de Bordo (apud SOUSA; ALT- MANN, 1999, p. 2), que, escrevendo sobre esse tema, explicita: por meio da organização e da regulamentação de nossas vidas, nossos corpos são treina- dos, moldados e marcados pelo cunho das formas históricas predominantes de individua- lidade, desejo, masculinidade e feminilidade. Uma sociedade é formada por indivíduos que passam por indivíduos que passam por esses crivos, expectativas e submissões de ordem política, religiosa, socioeconômica etc. Podemos arriscar a pergunta: alguém pode (ou não) fazer parte de um grupo porque possui ou não determinados atributos? É possível redi- recionar essa forma de pensar por meio da atuação do professor? Por certo a escola reflete a ideologia sexual que é dominante na sociedade ou é praticada na comunidade. Essa ideologia aparece nas diferentes situações da escola de maneira velada. Mas muitas vezes, nas aulas de Educação Física, as atividades propostas podem produzir e reforçar preconceitos e discriminações, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br As aulas de Educação Física e o processo de inclusão e integração 129 inviabilizando o trabalho de co-educação pretendido pelo docente e pelo proje- to pedagógico da escola. Se a essa situação se somarem atividades em que haja exibição de força, de excessiva destreza, os traços de agressividade e os desem- penhos acentuadamente característicos dos sexos, talvez a idéia de um programa cooperativo se torne inviável. A co-educação nas aulas de Educação Física Essa situação de perceber e de negar-se trabalhar com o outro sexo inicia- se nos alunos por volta dos nove anos de idade, quando surgem os primeiros sinais claros das questões de gênero, comportamento e desempenho nas aulas de Educação Física. Cabe lembrar que, a partir dessa faixa de idade, o movimento e os gestos já se apresentam mais refinados e precisos, por certo evidenciando um nível de habilidade até então não revelado aos colegas. Apesar das diferenças advindas da própria natureza ou dos estímulos do meio, não se pode excluir ou deixar de realizar a atividade planejada somente porqueo exercício privilegia uns ou porque a tarefa a ser realizada é vista como inadequada aos olhos da comunidade, ou ainda porque os pais irão intervir forte- mente de modo a retirar o conteúdo pensado pelo docente. De acordo com Sousa e Altmann (1999), as aulas de Educação Física, na concepção atual, devem ser oferecidas a todos. Ainda que existam fortes traços culturais, as aulas de Educação Física, na versão da co-educação, devem estar a serviço de uma nova forma de pensar, sentir e praticar o movimento, tendo em vista uma sociedade plural, solidária, tolerante, que respeita e compreende as diferenças, mas nem por isso deixa de ampliar por meio das diversas atividades o acervo motor, ao mesmo tempo em que dissemina aspectos ligados aos valores de ordem socioafetiva: [...] não se pode concluir que as meninas são excluídas de jogos apenas por questões de gênero, pois o critério de exclusão não é exatamente o fato de elas serem mulheres, mas por serem consideradas mais fracas e menos habilidosas que seus colegas. (SOUSA; ALT- MANN, 1999, p. 4) Mais adiante, os mesmo autores completam: [...] ademais, as meninas não são as únicas excluídas, pois os meninos mais novos e con- siderados fracos ou maus jogadores freqüentam bancos de reserva durante as aulas e re- creios, e em quadras recebem a bola com menor freqüência até mesmo do que algumas meninas. (SOUSA; ALTMANN, 1999, p. 4) Apesar do movimento em prol de atitudes menos excludentes e preconcei- tuosas, essas afirmações, ao que os fatos sócio-históricos e da própria Educação Física escolar indicam, parecem dar continuidade às práticas reconhecidas, apesar das novas teorizações. Se assim for, o que se estará fazendo é dar continuidade à história da visão biologizante e positivista do século XIX e início do XX, que reproduzia nas qua- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 130 dras as diferenças e as desigualdades que presenciamos no cotidiano. (cf. SOA- RES, 1994) Se os conteúdos das aulas derem preferência às atividades coletivas e com- petitivas nas quais os alunos deverão apresentar um ótimo desempenho individual visando à vitória coletiva, os que não são maduros, os inábeis, os de baixa estatu- ra, os obesos ou os que usam óculos, por exemplo, estarão por certo sentados nos bancos, esperando por uma outra atividade menos intensa ou que de certa forma não o estigmatize ou exclua. É igualmente importante que se escreva que essa visão – a da diferença bio- lógica – pode ocultar relações de poder marcadas pela dominação masculina, que hierarquizou (para seu benefício) homens e mulheres, mesmo depois da criação da escola mista nas primeiras décadas do século XX. Para a ideologia de então, a mulher é um ser dotado de fragilidade e emoções, e o homem tem sido visto como “força e razão” (SOUSA; ALTMANN, 1999). Arantes (2004), estudando saúde, representação do corpo e as atividades físicas praticadas pelas jovens senhoras da sociedade paulistana, encontrou seme- lhante enfoque. Estudando a história social da atividade física relativa ao gênero na cidade de São Paulo no final do Segundo Império e na belle époque, a autora afirma que os papéis sociais esperados pela elite paulistana deveriam ser reprodu- zidos na prática ginástico-desportiva. Assim sendo, para cumprir o papel socialmente designado, recomendava-se às mulheres (da elite) o exercício da natação, da dança e da ginástica (individuais) visando ao refinamento expressivo e ao corpo contido. Para os rapazes, entretan- to, indicavam-se a ginástica e as práticas coletivas que, ao mesmo tempo, fossem amáveis, cordiais e viris – como o futebol e o remo, exercitados nos clubes da elite paulistana (ARANTES, 2004). Essas atividades eram praticadas e levadas a efeito nos gramados e nos rios, facilitando o estreitamento das relações pessoais, que poderiam ser estendidas aos escritórios e aos negócios de família. Ambas as visões e atividades, é bom que se registre, formaram ou são vigentes para a cons- trução das identidades feminina e masculina. Porém, também é bom registrar que o contrário vale igualmente: mulheres jogando modalidades historicamente masculinas, tais como futebol, judô ou bas- quetebol, por exemplo, ou rapazes praticando ginástica rítmica desportiva ou mes- mo ondulando os quadris ou dançando podem ser vistos como prova incontestável da alteração das expectativas sociais. A partir de sugestão do livro do Nemge (UNIVERSIDADE DE SÃO PAU- LO, 1996, p. 14), transcrevemos o que julgamos ser interessante e pertinente para a sua reflexão: devemos criar um clima de cooperação entre meninos e meninas, elimi- nando monopolizações dos meninos e desenvolvendo potencialidades; devemos despertar nas meninas e nos meninos o interesse por todos os conteúdos, pois todos eles são atividades criativas que devem ser prati- cados de forma saudável; Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br As aulas de Educação Física e o processo de inclusão e integração 131 estimular a prática do esporte por todas as pessoas, destacando sua im- portância para a saúde do corpo e da mente. Ainda sobre a inclusão e a integração, há uma outra população a ser atendi- da: o aluno portador de necessidades especiais. A inclusão é definida por Sasaki (2001) como o processo pelo qual a socie- dade se adaptará para incluir o portador de necessidades educacionais especiais (PNEE), que, por sua vez, deverá preparar-se para assumir suas posições na so- ciedade. Assim, o processo de inclusão é bilateral e nele os excluídos buscam uma igualdade de oportunidades (SATO; CARDOSO; TOLOCKA, 2002, p. 3). Sobre o tratamento democrático das oportunidades, os autores ainda afir- mam que o princípio da inclusão [...] apela à educação inclusiva [...] onde todos os alunos sem ou com necessidades educativas especiais, em particular os portadores de deficiência, possam interagir em um mesmo ambiente em congruência com os interesses, as características e necessidades para um aprendizado global. (SATO; CARDOSO; TOLOCKA, 2002, p. 3) Sobre a integração ou ação integradora, o referido estudioso escreve que o aluno é o único responsável por suas dificuldades na escola, sendo integrado aquele que consegue adaptar-se à sala regular. Assim, esses autores, ao que tudo indica, justificam a existência da modalida- de Educação Especial (todo seu entorno, salas especiais, serviços de apoio, serviços educacionais e demais providências) somente àqueles que não conseguem seguir ou ajustar-se ao processo de ensino e aprendizagem comum. Considerando esgotadas todas as tentativas de inclusão e de integração com os colegas, a escola e o docente, esses alunos deveriam ser encaminhados para essa modalidade de escolarização. Desse modo, entende-se que a Educação Especial tem sido percebida como uma modalidade de atendimento escolar, como um sistema paralelo cuja base é o déficit apresentado pelo aluno no curso de aprendizagem regular. Esse sistema paralelo fomenta e perpetua ou cria uma série de providências e/ou serviços educacionais que se alimentam mutuamente: classes especiais, salas de apoio, escolas ou instituições de ensino formando uma teia consistente de di- fícil desarticulação. Essa organização pode estar ferindo o processo de inclusão e de integração, nova forma de pensar e agir que poderia retirar o estigma da crian- ça que não possui um ritmo normal de aprendizagem. Mas antes de recomendar aos pais que conduzam seu filho a essa modalida- de de atendimento a equipe escolar deve munir-se de instrumentos de análise para não indicar alternativas para a família de maneira precoce. A recomendação da Educação Especial deve ser o último ato dentro da ação educativa deexclusão da criança do grupo. Antes disso, a avaliação diagnóstica deve apontar soluções para a equipe de professores, de modo a adequar os serviços a partir dessa avaliação. Isso porque: a sociedade é plural e deve aceitar o convívio com a diversidade humana, sabendo respeitar as características, os interesses e as necessidades, além de cicatrizar os estigmas e quebrar o paradigma diferente/deficiente; Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 132 a preparação do profissional da educação deve oferecer subsídios para que ele possa realizar uma ação que inclua todos os seus alunos; a cooperação de todo o sistema escolar e a formação de recursos físicos e humanos deve ser uma preocupação constante de toda política educa- cional; a organização dos recursos e do espaço da escola (biblioteca, rampas, escadas, elevadores, salas ambientes, salas de aula, ateliês, bancadas para aulas de laboratório, salas de educação musical, sanitários, locais de educação física e refeitórios) deve ser adequada para receber todos os alunos – e isso é muito mais um direito que uma conquista dos alunos cidadãos. Quanto às aulas de Educação Física na escolarização incial, conforme o capítulo 5.o da Lei 9.394/96, a Educação Especial deve oferecer aos alunos com necessidades educativas especiais o ensino preferencialmente regular, prevendo serviços de apoio especializado e escolas especiais caso não seja possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular. Uma resolução do Conselho Nacional de Educação (2001), que instituiu as diretrizes e bases para os alunos que apresentem necessidades educacionais espe- ciais e estejam inseridos na Educação Básica, considerando todas as modalidades de educação previstas na Lei de Diretrizes e Bases (incluindo-se a modalidade Educação Especial), delibera que em todas as séries do sistema de ensino nacional (Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio e Superior) devem ser matricu- lados todos os alunos, cabendo à escola organizar-se para o atendimento do estu- dante cujas condições sejam tidas como educacionais especiais. Essa resolução estende-se às aulas de Educação Física porque esse compo- nente curricular faz parte do cotidiano da escola, favorece a educação integral, au- menta a socialização dos alunos, incide na compreensão de uma sociedade plural. Além disso, atualmente não se justifica a exclusão de nenhum aluno, pois essas aulas contêm atividades muito diversificadas (indo da ginástica, passando pela luta, pelo jogo, e chegando ao esporte) que tanto podem como devem ser pratica- das por todos os estudantes. Sobre as aulas de Educação Física, ainda é bom registrar que a opção de facultar ao aluno ausência ou presença – prática existente em épocas passadas – já não se sustenta no exercício docente atual. O docente cuidadoso deve estabelecer seu programa de modo a ir ao encontro das expectativas do grupo e de cada aluno, inclusive aqueles portadores de necessidades educacionais especiais. Os conteúdos das aulas que não visam ao rendimento nem à busca da exce- lência podem ser praticados por um significativo número de alunos que, interagin- do mutuamente, praticam ginástica, jogo, luta, dança e esportes, incluindo aqueles alunos anteriormente excluídos, aqueles com dificuldade de aprendizagem ou por- tadores de necessidades especiais. Além disso, como esclarecem Silva e Neves em seu artigo “A integração de alunos com necessidades educativas especiais nas aulas de Educação Física: um estu- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br As aulas de Educação Física e o processo de inclusão e integração 133 do de caso” (2007, p. 1), segundo a perspectiva ecológica de Bronfenbrenner, comen- tando o processo de crescimento e as oportunidades de aprender e de conviver, O crescimento e aprendizagem dependem de uma constante ligação do indivíduo com os diversos sistemas de relação que rodeiam, que se encaixam uns nos outros estabelecendo directa ou indirectamente fluxos de interação entre si, influenciando todo o desenvolvi- mento da criança. Mas antes de se estabelecerem as importantes relações interpessoais, há que se pensar que o comportamento inadequado, por exemplo, pode ter se originado no campo informacional, ou seja, na organização do comportamento exibido, ou no campo energético – qual seja, na capacidade de metabolizar a energia (ARAN- TES, 2004, p. 56). Embora a escola tenha o compromisso de disseminar as informações e am- pliar o acervo cultural de todos os alunos, há que se pensar no nível de maturidade em que esses alunos se encontram, bem como compreender suas particularidades e dificuldades. Tomando por base essa premissa, concordamos com a afirmação de Will- goose (apud ARANTES, 2004, p. 57): sobre a ação educativa inclusiva e integrati- va, recomenda o autor que “não devemos apressar a criança, mas sim reforçar sua atual etapa de desenvolvimento tanto quanto possível, de tal forma que ela possa entrar na próxima etapa fácil e, naturalmente, quando isso se tornar possível”. Ainda sobre o valor das interações interpessoais, Silva e Neves (2007, p. 1) acrescentam que “compreende-se a importância do grupo, uma vez que faz parte do microssistema que abrange as experiências e vivências em relação direta com a criança, implicando uma interação desta com o meio”. Quanto ao critério para a organização do grupo, visando ao bom aprovei- tamento das atividades propostas, o professor deve valer-se dos recursos disponí- veis, tais como as recomendações clínicas e psicológicas, fichas contendo dados dos anos anteriores, relatos orais e observação informal do discente. A esses dados podem ser acrescidos os resultados das avaliações sobre ap- tidão física, desempenho das habilidades motoras amplas, atitude postural, toni- cidade muscular, grau de compreensão da instrução dada, e o aspecto relacional propriamente dito. A partir da anamnese1 e das avaliações praticadas, o professor pode orientar os pais da criança no sentido de se estabelecer uma linha de conduta cujo objetivo é a mais adequada e possível forma de incluir e integrar a criança por meio de um cuidadoso processo de ensino–aprendizagem. Visando à educação dos alunos, de acordo com os autores pesquisados, a atitude educativa inclusiva deve se valer do jogo e, se houver espaço, favorecer a competição entre iguais. Assim sendo, no grupo-turma os alunos têm oportunidade de experienciar situações diversas que im- plicam a cooperação, competição e jogo com parceiros em situação semelhante no que se refere a objetivos, motivações e desejos ligados por exigências idênticas que a sociedade lhes impõe (SILVA; NEVES, 2007, p. 2). 1 Em medicina, anamnese é um histórico que vai desde os sintomas iniciais até o momento da observação clínica, realizado com base nas lembranças do paciente. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 134 Sugestões e orientações para a elaboração de programas ou atividades destinadas às crianças Cada aula deve ser cuidadosamente preparada em termos de conteúdo e estratégia, além de estar ligada às aulas anteriores. Em todas as aulas, introduzir e manter os procedimentos organizacionais de modo a favorecer a segurança física e espiritual de todos os alunos. As tarefas motoras e as habilidades devem ser detalhadamente planeja- das e, se necessário, devem conter a demonstração dos exercícios. Devem ser oferecidas situações concretas nas quais os alunos percebam o seu progresso. Oferecer atividades com atendimento individualizado, introduzindo pos- síveis variações quepermitam a experimentação por parte do educando. Possibilitar a inclusão e a integração de todos os alunos com trabalhos em duplas ou em pequenos grupos. O importante é que o professor realize o seu trabalho, embora saiba que existam fatores externos que muitas vezes não favorecem o planejado processo de ensino–aprendizagem. Além disso, há que se pensar nos antecedentes do aluno e na cultura em que ele está inserido. Se, por um lado, a cultura limita por interferir fortemente nas condutas ou programas que a escola pretende realizar, por outro não se pode negar a missão desse tipo de estabelecimento: educar as pessoas para formar uma sociedade mais justa e equilibrada. A escola constrói a cultura e é possível criar propostas políti- co-pedagógicas que vinculem a aprendizagem escolar a uma cultura externa. Acredita-se que o aprimoramento da qualidade do ensino regular e a adição de pesquisas educacionais, válidos para todos os alunos, que resultará naturalmente na inclusão escolar dos deficientes e que conseqüentemente a educação especial adquira uma nova significa- ção tornando-se uma modalidade de ensino dedicada à pesquisa e ao desenvolvimento de novas maneiras de ensinar compatíveis com as idéias de uma educação para todos. (MANTOAM apud SATO; CARDOSO; TOLOCKA, 2002, p. 10) Brincadeiras e brinquedos são práticas muito sérias, pois funcionam como ensaios gerais da vida adulta. Precisamos entender que as atividades lúdicas, além de agradáveis, possibilitam que a criança e/ou o adolescente, de forma prazerosa, incorpore atitudes positivas quanto às relações de gênero. (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 1996, p. 20) Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br As aulas de Educação Física e o processo de inclusão e integração 135 Pense nas questões abaixo (baseadas em UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 1996, p. 20). Desencorajo a competição, como grupos, entre as meninas e os meninos? Propicio oportunidades de práticas esportivas para meninos e meninas em igualdade de con- dições? Reforço nos meninos e nas meninas os sistemas de valores e justiça? Intervenho quando as meninas, ao trabalharem em grupo com os meninos, são relegadas a papéis estereotipados, tais como secretárias e empregadas? Oriento as meninas para a prática de todas as atividades, incluindo os esportes? Chamo a atenção para o fato de que meninos e meninas não devem formar grupos monolíticos? O trabalho que tenho realizado com os alunos e alunas tem sido cooperativo? 1. Proponha uma atividade física em que haja a discussão dos papéis definidos por gênero (por exemplo, o futebol): que características são socialmente aceitas para os homens e são necessá- rias para a prática do futebol – virilidade, força física, espírito de competição e de grupo, por exemplo? Agora, escolha uma atividade para meninas – por exemplo, a dança. O que se observa na reali- zação da atividade e o que de fato é esperado socialmente – graça, leveza, suavidade, controle de movimentos? Seria possível inverter as atividades propostas? Quais seriam os pontos positivos e os pontos negativos? Seria possível alterar esse perfil? ARANTES, Ana Cristina. Corpo Feminino: ideário e atividade física na São Paulo modernista. 2006. Disponível em: <www.anacrisarantes.pro.br>. _____. Os conteúdos das aulas de educação física para portadores de necessidades especiais. In: _____. Educação Física: alguns textos selecionados sobre o estado da arte. 2005. Disponível em: <www.anacrisarantes.pro.br>. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 136 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A Educação Física e a interdisciplinaridade Ana Cristina Arantes A visão legal acerca do componente curricular Educação Física A Educação Física na escolarização básica é definida como um componente curricular obrigató- rio e tem a sua presença justificada legalmente pelo Artigo 205, Capítulo III da Constituição Nacional, que assegura a educação integral de todos os brasileiros, e por integral se entende o desenvolvimento dos aspectos cognitivos, afetivos e motores. Em uma visão sistêmica a estrutura vertical do processo de escolarização bem como o Artigo 26, inciso 3.º, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, esclarecem que “A educação física integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da educação básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar” (LDB, 1996, p. 19). Embora seja reconhecido como um conteúdo muito importante, mormente nas séries iniciais do processo de educação formal, as aulas de Educação Física, constituídas por ginástica, dança, luta, jogo e esporte, tem sido visto como uma atividade recreativa por excelência. Destituída do necessário vínculo com o processo de alfabetização, no cotidiano escolar as aulas que possuem a motricidade humana como foco de estudo têm dado vez aos conteúdos (de sala de aula), nos quais as crianças precisam de reforço, ou ainda este espaço na matriz escolar tem servido como recompensa ou castigo, balizando comportamentos dos estudantes nas situações teóricas – em sala de aula. Somado a esse fator, por causa da ausência de especificação legal – quanto à atribuição de aulas –, em muitos estabelecimentos a Educação Física escolar tem ficado a cargo da boa vontade dos do- centes. Esse fato parece dar continuidade ao equívoco histórico descrito por Gonçalves (2004, p. 47): “a prática e/ou vivência legal de movimentos na educação física por parte das crianças é incluída por força de lei apenas a partir da 5.ª série do Ensino Fundamental, com professor especializado”. Essa maneira de pensar, além de ferir os princípios legais norteadores do processo brasileiro de educação formal, parece dificultar o progresso das habilidades requeridas para a leitura e a escrita, além de não favorecer a ampliação de conceitos ligados ao processo de alfabetização propriamente dito. O movimento é o início de tudo Quando o aluno chega à escola, em linhas gerais, o sistema de ensino oficial o percebe como um ser plenamente estruturado sob o ponto de vista orgânico – apto, portanto, a construir processos de abstração de conceitos para a análise da realidade. Assim, como escreve Gonçalves (2004, p. 53), ele pode realizar tarefas valendo-se das palavras e da linguagem sem necessitar do movimento. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 138 Segundo o autor, “nesta etapa da vida, esta criança divide-se entre um cor- po que apenas lhe sustém a sobrevivência, através do movimento, e uma mente que trabalha com os processos cognitivos” (GONÇALVES, 2004, p. 53). A partir dessa afirmação, parece não haver preocupação em considerar que o processo de crescimento não se dá dissociado do processo de desenvolvimento humano. Ao se tratar de forma dicotômica – aulas teóricas em classe e aulas práticas, como as de Educação Física ou Educação Artística, o professor concorre para que não ocorra a promoção do autoconhecimento, da auto-organização, da interação com o ambiente e o desenvolvimento das capacidades e habilidades requeridas pela escola. Diga-se de passagem que, quanto menos idade tiver o estudante, pela própria natureza da estrutura de seu pensamento, mais precisará do movimento corporal para a construção do referencial pessoal, para a formação do conceito do mundo físico e para o estabelecimento de conceitos sobre as relações sociais. A questão do movimento e a sua relação com a construção dos conceitos O movimento é característico de todoser vivo. O movimento é praticado pelo bebê desde antes de nascer. Entretanto, a razão, a necessidade e a inten- ção que norteia o exercício motor, variam em função de inúmeros fatores que se iniciam com os aspectos macroestruturais, históricos e sociais e terminam, por assim dizer, no indivíduo. Sob o ponto de vista macroestrutural e sob o ponto de vista histórico, o homem movimentava-se em última análise para sobreviver. Fugindo das feras, construindo abrigos, buscando alimento nas árvores, dançando para reverenciar e cultivar os deuses, pedir-lhes proteção e agradecer-lhes pelas colheitas. A huma- nidade iniciou o movimento e o refinou com o passar dos tempos. Em um sentido pessoal, o ser humano movimenta-se quando pequeno para obter informações sobre o meio físico, “varrendo” com as mãos e levando a boca as coisas do berço e do seu pequeno mundo; ao mesmo tempo em que se esforça para caminhar de modo a obter o reconhecimento e a aprovação do primeiro nú- cleo político que é a família. Nesse sentido, há, por parte da criança, uma intenção, que é a de explorar o meio e, simultaneamente, promover a interação (aspecto social) com sua família. O pequeno ser ao mesmo tempo em que explora, recolhe e varre o ambiente ao seu redor, dele recebe as primeiras impressões, as primeiras sensações do mun- do concreto. Esses primeiros movimentos que pertencem ao período sensório- motor, também favorecem a formação do tônus muscular, o autoconhecimento e o aprimoramento das estruturas neurais da criança. A partir desses dados, a criança produz as primeiras impressões sobre o seu “eu”. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A Educação Física e a interdisciplinaridade 139 As questões: tenho um corpo ou sou um corpo? O que faço com ele? O que ele me permite praticar? Aonde este corpo me leva? também são favorecidas pela atividade motora – ou seja, pelo movimento. As sensações, a motricidade e a formação de conceitos No segundo período (pré-operatório) e no terceiro (operatório concreto – cf. PIAGET, 1972), a criança possui alguns dados arquivados a partir das experiências anteriores. O conhecimento acerca da característica dessas fases é muito impor- tante, pois elas correspondem respectivamente ao período da Educação Infantil e aos quatro primeiros anos do Ensino Fundamental – ou seja, o nosso aluno, objeto da nossa ação educativa. Não possuir o conhecimento necessário significa, muitas vezes, agir ou tentar ensinar assuntos com estratégias inadequadas. Assim sendo, os aspectos conceituais são muito importantes e apóiam a nossa prática cotidiana. Percebendo o mundo e estabelecendo as relações dessa maneira, a criança – nosso aluno – chega à instituição de Educação Infantil e posteriormente ao Ensino Fundamental. Os estudantes das primeiras séries chegam às nossas mãos possuin- do o que Le Boulch (1986, p. 69) denominou corpo vivido ou, conforme a proposta de Gallahue, fase rudimentar do movimento humano. Para ambos os autores, o aluno de Educação Infantil com idade entre quatro e seis anos possui algumas e importantes referências sobre a sua identidade. Possui também uma maneira ainda bem tosca de solucionar todos os problemas, incluindo os de ordem motora. O pequeno acervo de informações advindas da experiência irá se ampliando gradualmente e, se a criança receber estímulos adequados – que lhe proporcionam o meio ambiente, a família, a escola e os poucos amigos –, esse conjunto de conheci- mentos poderá, a cada dia, ampliar a sua rede de conhecimentos de maneira infinita. É o corpo humano (e o movimento), mormente na primeira infância, que facilita a obtenção de informações acerca do mundo ao redor. A partir do movi- mento, a criança desenvolve e amplia o conhecimento formado pelos conceitos do mundo concreto. Concomitantemente, inicia-se o processo de estruturação das noções espaço-temporais, tão importantes para a organização do seu eu como ser participante do mundo. Esse mundo físico que a rodeia favorece o processo seguinte e, em uma infinita acumulação de informações, faz a criança chegar à adolescência e ao pensamento abstrato (ARANTES, 2005, p. 37). Portanto, a partir das experiências que o corpo proporciona, a criança testa, avalia e toma consciência de seus limites e capacidades e essa realidade é válida para todas as situações, inclusive para o tempo em que permanece na escola com seu professor. Observe a grande integração intrínseca entre o movimento e a es- truturação do pensamento. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 140 Dos primeiros passinhos ao jogo e ao esporte A locomoção progressivamente estruturada levará o bebê e depois o estudan- te a novos mundos – espaços certamente mais amplos que o berço e a sala de aula. A marcha e os movimentos locomotores, bem como a progressiva liberação das mãos, ampliam ainda mais o repertório de informações e, por conseqüência, favorece a formação de conceitos do mundo físico que rodeia a criança. Gonçalves (2004), citando Dennett (1997), escreve que “é possível que a liberação dos membros assumida pela postura bípede tenha possibilitado que os objetos fossem trazidos para frente dos olhos, e, ao concentrar-se neles, o ser hu- mano tenha iniciado o processo de reflexão” (p. 51). Essa afirmação acerca do desenvolvimento humano pode ser aplicada ao processo de crescimento e desenvolvimento individual, pois à medida que o cres- cimento físico ocorre também há o desenvolvimento das estruturas mentais, esta- belecendo-se também a expressão e a comunicação entre as pessoas. Esse processo apoiado principalmente nas informações que o corpo arma- zena e proporciona, desenvolve desde o balbucio até a fala compreensível, que todos os humanos apresentam. Dando continuidade ao processo de crescimento e de desenvolvimento hu- mano e já nos anos finais do Ensino Fundamental (a partir da 5.ª série), o adoles- cente necessita do movimento, agora mais bem estruturado (e, por que não dizer, realizado dentro das expectativas socialmente aceitas para o seu gênero) para sen- tir-se pertencente a um grupo humano – igual a ele, com as mesmas indefinições, conflitos e esperanças. Na adolescência distanciando-se simbolicamente da família, as moças e os rapazes buscam o reconhecimento, a ascensão, a popularidade e a aproximação com os seus pares. Nesse sentido, além de dar continuidade ao processo de crescimento e desenvolvimento humanos, as práticas motoras individuais e coletivas, podem ofe- recer ao jovem o necessário refrigério à sua alma e a um corpo que apresenta muitas alterações, mudanças físicas e de humor, as quais muitas vezes não são suficiente- mente compreendidas pelos seus pais e professores (ARANTES, 2005, p. 38). O significado do movimento para os idosos: uma prática cuja idéia se inicia na escola Para as pessoas da terceira idade, o movimento representa uma forma de manutenção da tão propalada qualidade de vida. Particularmente nesse período, as pessoas se movimentam sobretudo para se aproximarem dos demais, fugindo da solidão e do isolamento. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A Educação Física e a interdisciplinaridade 141 As atividades ginástico-desportivas, as danças de salão, as atividades de hidroginástica representam para elas uma forma de preservar a saúde, mantendo essas pessoas ativas. É interessante pensar que as modalidades escolhidas têm a ver com os recursos econômicos e a oferta de atividades, assim como a cultura que, de certa forma, incide sobre as práticas motoras. Essa influência tem início por volta dos nove ou dez anos de idade, quando osestudantes praticam as aulas de Educação Física. Movimento e cultura Exercitado nas diversas fases da vida humana, o movimento pode ser apren- dido e sistematizado. Pode assumir feições e expressões que a cultura determina e valoriza; assim sendo, uma prática é ou não adequada e aconselhável a este ou àquele gênero ou classe social. Dessa maneira, o jogo, a dança, a ginástica, a luta e o esporte têm sido considerados manifestações culturalmente construídas pela humanidade. Como produto histórico, sendo uma criação coletiva socialmente elaborada e manifesta, devem ser respeitados tal como se apresentam – o que cabe também para as prá- ticas planejadas e exercitadas inclusive na educação formal, uma questão de ética e de pluralidade cultural. A nova Educação Física: participante do Projeto Escolar (ou de como não se trata de formar máquinas em busca da performance) A prática antiga ou visão tradicional Até a promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Na- cional (Lei 9.394/96), cada disciplina ou atividade (cf. PAR/CFE 853/71) tinha a responsabilidade de planejar, implementar, criar as estratégias e os processos de avaliação próprios ou de forma isolada. Assim sendo, a maioria das disciplinas trabalhava de forma paralela, enquanto as atividades (Educação Artística, Educa- ção Física e Línguas Modernas – Inglês – até a 7.a série do Ensino Fundamental) podiam nem serem vistas como pertencentes à grade curricular dado o seu caráter muitas vezes meramente instrumental, isto é, as atividades de cunho prático, do “saber fazer” sem necessariamente saber explicar bem o seu porquê. Quanto à Educação Física, além deste tratamento isolado ou muito particu- larizado – distanciado dos demais integrantes da matriz curricular –, com muita freqüência ela foi implementada de forma reducionista. Os planos de curso e de Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 142 ensino deste componente curricular, além de não se articularem aos demais, ao que tudo indica consistiam em uma rígida instrução de seqüências pedagógicas das atividades motoras – recreação para os alunos dos anos iniciais ou esportes coleti- vos (futebol, voleibol, handebol e basquetebol) para os adolescentes. Para os alunos de 1.ª a 4.ª série, resumia-se em atividades de cunho recreativo (pular corda, jogar queimada) ou de liberação de tensão, como descreve Arantes (1990, p. 120). Na condição de atividade (PAR/CFE 853/71), utilizada até 1996, nem sem- pre foi considerada a cultura, a história, a memória, o nível de habilidade, o inte- resse e a motivação dos alunos. Ministrava-se o recomendado pela academia, pela literatura específica – sem, entretanto, articular-se a um possível projeto da escola, facilitando o entendimento dos conteúdos por parte dos estudantes tal como os Parâmetros Curriculares Nacionais recomendam. A história e a missão das aulas de Educação Física escolar Segundo Gonçalves (2004), à Educação Física coube a prática de educar o físico ou de educar o corpo e ou o movimento (apenas no aspecto biológico). Entretanto, o que se deve buscar além de uma formação integral, é uma boa ar- ticulação dos itens trabalhados pela escola e na escola. As aulas de Educação Física não poderiam se distanciar desse processo, inclusive porque a avaliação deve buscar referências fidedignas sobre o desenvolvimento integral do aluno em todas as séries. De certa forma, cumprindo as orientações da época, ministrava-se o que se julgava importante e necessário. No Brasil, até as décadas de 1970 e 1980, repetí- amos as lições cuja orientação: era proveniente de outros países; carecia de fundamentação científica apoiando-se muitas vezes no senso comum; tinha a difusão das idéias escassa. Muitas vezes, praticava-se o senso comum com visão reducionista invia- bilizando uma análise mais ampla que a realidade já apontava. Dessa maneira, uniformizavam-se e transformavam-se situações complexas em elementos sim- plistas (GONÇALVES, 2004). O movimento e as aulas de Educação Física na concepção atual Somos, em última análise, produto de um longo processo histórico. Alguns aspectos desse processo referem-se aos nossos organismos, corpos, movimentos, adaptações e atos de exploração. Essa realidade tão evidente nos dias de hoje, de- veria ter sido considerada por todas as disciplinas escolares, mormente nas aulas de Educação Física. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A Educação Física e a interdisciplinaridade 143 É muito importante que o professor reconheça e faça, por extensão, com que seus alunos percebam que são uma síntese, que sua estrutura física, sua con- figuração corporal representa um produto que deu certo após muitos processos de ajuste e de adaptação que levaram milhares de anos. Sendo esse um longo e importante processo evolutivo, é necessário que se- jam respeitadas as características individuais, as inclinações pessoais, as dificul- dades ou as capacidades de cada um. Enfim, que esse conhecimento favoreça e justifique a história e o desenvolvimento humanos nos aspectos gerais (filogênese) e particulares (ontogênese). Embora as aulas sejam programadas para todos os alunos, há que se compre- ender que podem haver diferenças advindas da estrutura corporal do estudante, do nível de maturidade do aluno, de certas diferenças provenientes das expectativas sociais – a questão do gênero, por exemplo. Além disso, entre os alunos podem haver alterações de resposta por fatores motivacionais, experiências anteriores e que, portanto, a proposição das tarefas e dos conteúdos a serem praticados deve prever algumas adaptações em nome da eficácia e da adequação visando à prática dos exercícios pensados por um docente muito reflexivo e cuidadoso. Ao contrário das décadas passadas, os programas de Educação Física de- senvolvidos atualmente devem respeitar a história pregressa das pessoas, o nível de maturidade apresentado – inclusive no movimento –, as atividades, bem como as práticas motoras culturalmente aceitas que, além serem adequadas a todos os alunos, devem ser variadas e lúdicas, de modo a favorecer a prática permanente, a construção e a ampliação do acervo cultural e motor dos estudantes. Portanto, o conteúdo das aulas de Educação Física é imprescindível para todos os alunos sob a responsabilidade do professor: [...] ao deixarmos o movimento fora das estratégias de aprendizagem e desenvolvimento na escola, estamos mutilando a natureza filogenética das crianças que, feridas em sua ontogenia, tornar-se-ão adultos mutilados. Entende-se que assim o movimento, pela sua natureza e complexidade, participa ativa- mente de nossas construções mentais (GONÇALVES, 2004, p. 55 – grifo nosso). Mas para saber sobre o valor e a contribuição do movimento agora trans- formado e organizado sob a forma de jogo, dança, esporte, luta e ginástica faz-se necessário que se tenha um espaço de apreensão, de discussão e de análise. Esse espaço é sem dúvida, representado pela escola – instituição de educação formal, que congrega a maior quantidade de cidadãos em formação. É por meio do projeto escolar que os temas ou eixos transversais (meio am- biente, trabalho e consumo, orientação sexual, ética e saúde – PCN, 1997), que os tópicos relevantes e escolhidos pela comunidade são tratados de maneira inter e transdisciplinar. Sendo a Educação Física uma disciplina teórico-prática, pode, dentro da sua especificidade, favorecer a construção de conceitos sobre: o esquema e a imagem corporal, incluindo a dominância e preferência lateral; Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.brEducação, Corpo e Movimento 144 noção espaço-temporal, lateralidade, posição, sentido, tamanho, quanti- dade; o entendimento e a transferência dos conceitos experenciados pelo corpo vivido (cf. LE BOULCH, 1986, p. 69) para as situações que envolvam o processo de ortografização e a alfabetização ou leitura do mundo (cf. FREIRE apud ARANTES, 1990, p. 75). E sob o ponto de vista da abordagem desenvolvimentista (cujo foco de es- tudo é o movimento humano), os programas de Educação Física na escola devem também desenvolver as capacidades físicas e a habilidades motoras. Somente pensando de maneira articulada e inserida no projeto escolar as aulas de Educação Física poderão favorecer um processo de crescimento e de- senvolvimento que objetiva a construção da identidade pessoal do conhecimento, levando à progressiva autonomia por parte do aluno. As aulas de Educação Física e os demais componentes curriculares Para Clézio Gonçalves, “no caso das relações do ser humano com o próprio corpo, há um paradoxo a resolver, ou seja, procura-se encerrar dentro de uma linguagem escrita (sinais) a dimensão da experiência de uma vivência corporal” (GONÇALVES, 2004, p. 58). Isso se aplica também quando nos movimentamos para nos comunicar e nos fazer entender, quando expressamos a experiência vivi- da aos demais em um processo infinito de multiplicação. Sem abandonar os eixos ou temas transversais, o conteúdo das aulas de Educação Física implementadas segundo as estratégias utilizadas por um profes- sor com atitude investigativa, auxilia o aluno na compreensão dos aspectos liga- dos a Língua Portuguesa, a Matemática, Ciências e Programas de Saúde, Estudos Sociais e Educação Artística. Tanto a Educação Física como a Língua Portuguesa e a Educação Artística, são diferentes formas de linguagem. A Educação Física expressa e comunica uma idéia, o sentimento daquele corpo que pensa e se movimenta. O entendimento do idioma pátrio compreende o processo de ortografização e de alfabetização do mundo. Fazer-se entender por meio de símbolos (e de signos) inclui, amplia, retifica e ratifica a linguagem oral e escrita. Essa é também a missão da escolarização inicial. A articulação entre o processo de aprendizagem dos sinais digitais (mão ou voz) da escrita e do cálculo deve ser antes mediada pelo corpo. A fase da organização inicial da escrita (e do cálculo) coincide com aquela em que criança percebe as situações transferindo e sistematizando os conceitos trabalhados em sala de aula a partir daqueles advindos de uma prática corporal organizada e supervisionada principalmente pelo professor de Educação Física em conjunto com o docente da sala de aula. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A Educação Física e a interdisciplinaridade 145 Pelo mesmo motivo, as importantes noções temporo-espaciais, requisitadas pela Matemática (aritmética e geometria), pedem a exercitação de tarefas motoras que incluam e vinculem a teoria à prática. As noções de alto, baixo, acima, abaixo e ao lado, menor, maior e igual a, por exemplo, fazem parte desse repertório que deve ser internalizado pelo estudante. Isso pode ser praticado quando docentes planejam e avaliam o programa conjuntamente. Com relação aos tópicos relativos à corporeidade e a saúde física, psíquica e social, tanto os programas de Educação Física quanto o de Ciências e Programas de Saúde, preocupam-se em introduzir noções de organismos vivos, formação da vida e meio ambiente. Quanto à idéia de ética e de cidadania, que na escola básica pode ser en- tendida como o exercício do juízo moral, é desenvolvido nas aulas de Educação Física nas atividades que é possível a reflexão sobre o papel e os limites de cada um dos alunos da classe. A compreensão das regras construídas ou prontas, da hierarquia, dos valo- res e da segurança pessoal deve ser promovida e buscada pelo grupo sob a ação de um docente interessado no crescimento dos seus alunos. Na realização interdisciplinar observa-se que a Educação Artística (artes plásticas, educação musical, expressão corporal e dança) é muito afeita à imple- mentação da história, da cultura e da linguagem estética do belo e do bom. A ela se vincula os conteúdos de Educação Física não somente devido a sua própria história constitutiva com a criação do método ginástico de Laban (LAN- GLADE; LANGLADE, 1970, p. 72), mas também pela utilização das noções de corpo, de espaço, de tempo e de ritmo, comuns aos dois campos (LANGLADE; LANGLADE, 1970, p. 80). Assim, as aulas de Educação Física oferecem ao aluno muito além daquilo que pode parecer. Trabalhando nos três domínios do desenvolvimento humano, dá-se ao aprendiz o conhecimento de si mesmo, de suas capacidades e de suas limitações. A prática de seus conteúdos precisa ser articulada aos dos outros componen- tes curriculares e assim cumprir com a propalada formação integral do estudante. Mais do que cumprir os ditames legais e as novas orientações, o aluno com o auxílio do professor poderá estabelecer ligações e inferências entre as situações teóricas e a vida cotidiana. Se assim for, disseminam-se as práticas do movimento e da motricidade construídas ao longo dos séculos. As aulas de Educação Física escolar também podem fortalecer a cooperação, a inclusão e a integração social entre todos os membros da escola e da comunidade. Além da tolerância, há que se favorecer o espírito de investigação, da crítica fundamentada, da busca de solução de proble- mas e da liderança, tão carentes no dias atuais. Portanto, cabe a nós – professores, alunos e especialistas na educação for- mal de crianças, jovens e de adultos – divulgar e praticar essas idéias. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 146 1. Pense em uma atividade articulada aos outros componentes curriculares e tente ligá-la também aos temas ou eixos transversais. Observe o exemplo a seguir. Jogo da amarelinha (jogo em grupo). Procedimentos Riscar o chão em quadrados, numerando-os em ordem crescente. Serão utilizados os temas transversais abaixo. Geometria e noção espacial de tamanho – forma da figura de modo a caber o pé ou os pés no salto. Matemática – ordem crescente de numeração. Aspecto cognitivo – onde iremos riscar o chão e com quê? Tema transversal – meio ambiente (respeito às condições locais). Estudos sociais – eleição de quem jogará e como se jogará (viver em grupo, aceitar as regras do coletivo). Ética – respeitar a hierarquia. Língua portuguesa – ao saltar, a criança poderá recitar um versinho popular (pluralidade cultural). Prática da atividade propriamente dita Serão utilizados os temas transversais abaixo. Educação física – noção espaço-temporal (ritmo para pular, dominância ou preferência lateral, alternância dos pés). Saúde – ativação cardiorrespiratória. Agora escolha a atividade com seus pares e veja como é possível e rico um tratamento interdis- ciplinar! BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. A educação física como cultura corporal. In: _____. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. Brasília: MEC /SEF, 1997, p. 26- 31. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Avaliação: definição, importância, interfaces e outras considerações Ana Cristina Arantes Quando falamos em avaliar, no fundo estamos pensando em mecanismos de retenção e/ou de promoção dos nossos estudantes. Embora muita gente não se dê conta, o critério de aprovação está intimamente ligado a aspectos que quase sempre são considerados irrelevantes. No entanto, a partir da análise dos textos de Darido (1998) e de Freire (1999), pode-sein- ferir que a pedagogia informal e a formal, a propagação, a transferência das idéias e, em última instância, a modificação das condutas humanas sofrem influências provenientes de uma multipli- cidade de valores – a qual pode ser considerada sob dois pontos de vista. O primeiro desses pontos de vista está ligado aos itens relativos aos aspectos macroestrutu- rais, que têm como centro irradiador a filosofia, a economia da sociedade e o momento histórico que a comunidade e o aluno estão vivendo, por exemplo. O segundo está ligado aos assuntos e à percepção de ordem microestrutural, ao pedagogo, ao professor e sua característica maneira de pensar sobre sua existência, sobre a formação pesso- al e profissional, sobre a sua função – a de professar a fé e o seu trabalho. E o docente também é marcado por sua maturidade pessoal e profissional – a maneira como o docente percebe a formação das pessoas sob a sua responsabilidade, como ele se percebe nesse extenso processo de educar e de aprender. Com alguma constância, o professor se indaga: – Por quê? – Para quê? – Como eu faço para ensinar ou desenvolver esse item do programa? – De que tipo de parâmetro filosófico posso me valer para embasar os meus planos de ensi- no e implementar as minhas aulas? Todos esses questionamentos, cada um por si, podem representar um tipo de ação, uma escolha de estratégias diferentes e essas estratégias por certo levarão o estudante a valorizar aspectos diferenciados em situação semelhantes. Portanto, se esses tópicos e a forma de ação docente que os acompanha não fossem relevan- tes aclarados no plano de ensino do professor e discutidos por todo o corpo docente, sem dúvida todos os aprendizes exibiriam comportamento semelhante, pois haveria uma única receita para ensinar e aprender e, evidentemente, isso não ocorre. Dessa maneira, corroboramos Freire (1999, p. 72), que, a respeito da intencionalidade e da clareza de propósitos, escreve que “cada escola [e seus professores] deve ter os seus princípios para a comunidade interna, e para a rede se [a escola] for pública”. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 148 Ação docente e a avaliação Assim sendo, este texto pretende fazê-lo refletir sobre a importância de se conhecer, fazê-lo pensar que as ações pedagógicas – ao contrário do que se pensava – não são neutras e tampouco se pode considerar somente o que o senso comum nos ensinou: “A aprendizagem e o processo de avaliação nada mais são do que a ação do mais velho sobre o mais jovem. O julgamento do comportamento do aluno parte do critério estabelecido pelo mais experiente e recai sobre o indivíduo ou a geração mais nova.” Educar, escolarizar ou instruir constitui uma ação deliberada e, como tal, possuem uma meta, um objetivo, um tempo para a realização do conteúdo. Assim, tal ação pode ser filosoficamente fundamentada e quase sempre per- cebida por meio do comportamento manifesto do pedagogo, do professor de Educação Física. Mas convém ressaltar que, ainda que não saibamos, todos os atos são fundamentados em bases filosóficas. Essas bases são apresentadas a seguir. Abordagens ou correntes pedagógicas aplicáveis às aulas de Educação Física Abordagem tradicional ou mecanicista A primeira e mais antiga abordagem ou corrente pedagógica é a tradi- cional ou mecanicista, que trabalha com o ensino diretivo. Essa corrente é entendida como uma linha que defende o rigor e a máxi- ma disciplina para que se aprenda. Aliás, ela se vale da contenção física, como exemplificado pelo Referencial Curricular Nacional (RCN, 1988, p. 17), para que todo o conteúdo transmitido pelo professor seja apreendido pelo aluno. Essa maneira de pensar tem em Locke a sua figura de síntese. Entende essa corrente que as pessoas são como recipientes vazios ou virgens, como um disquete de computador a ser preenchido pelo meio (escola ou professor). Assim, quanto mais tarefas executar de forma repetida, quanto mais for treinado, mais dados serão inseridos no arquivo pessoal – no caso, o próprio aluno. Na psicologia, essa abordagem é representada pela escola comportamen- talista de Pavlov e Skinner (lei do efeito e do exercício). Segundo essa teoria, o professor é uma fonte sapiente, o centro do processo, e por isso é o melhor modelo a ser copiado. Cabe ao aluno seguir a referência. Por decorrência, quanto melhor for a cópia maior será a nota. Trata-se de um ensino de estilo diretivo, com pouca ou nenhuma adequação do plano de ação por parte daquele que ensina, de modo que todos compreendem o que está sendo ensinado. Via de regra, essa teoria não tem explicação para aqueles Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Avaliação: definição, importância, interfaces e outras considerações 149 estudantes cuja aprendizagem “deixa a desejar”: as dificuldades individuais recaem sobre o aprendiz. A maturidade que o educando demonstra no cotidia- no parece não ser preocupação por parte do docente. As relações pessoais ficam restritas na medida em que não há momento de troca e de interação entre os pares e tampouco entre aprendiz e pedagogo. A preocupação está em acumular uma grande quantidade de tarefas ministra- das ou solicitadas. Nas sessões ou nas aulas de Educação Física, o professor deve ser um exímio executor, explicando detalhadamente os exercícios prati- cados, muitas vezes de forma parcial, solicitando à classe que repita com ele, muitas e muitas vezes, todos os exercícios propostos. A prova (medida) segue o mesmo modo de execução muito treinada ou praticada. No momento, na prova de maneira formal, exige-se aquilo que foi (tão bem) desenvolvido, muitas vezes durante um período. A mudança de atitude, a aprendizagem, deve-se à introjeção – muitas vezes por decoração, por repetição, por cópia indiscriminada – do conteúdo praticado durante um ciclo de aulas. O aspecto socioafetivo, é importante que se diga, parece não merecer relevância para o professor que segue essa linha de conduta. Abordagem humanista Com o passar dos séculos, os estudos sobre a pedagogia revelaram ou- tras tantas formas para os atos de ensinar e de aprender, dando origem a novas abordagens – entre outras, as denominadas humanistas, que são centradas no ensino não diretivo. As diversas abordagens humanistas apóiam-se nas correntes que per- cebem o ser humano como dotado de inteligência, sensibilidade e história. Seu grande inspirador é Rousseau, que – defendendo a natureza intrínseca da criança – escreveu que seria melhor formar um homem antes de formar um profissional cuja vida e cuja importância ficassem restritas apenas ao exercício da profissão. Infere-se que o papel da educação, incluindo a escolar, é o de ampliar o acervo cultural das pessoas e do aluno, respeitando o seu processo de desenvolvimento. Corrente maturacionista ou inatista Jean-Jacques Rousseau pertence à corrente maturacionista ou inatista, em que a psicologia é representada por Freud, Froebel e Carl Rogers, entre outros. Froebel, o criador dos jardins-de-infância, escreveu sobre educação for- mal afirmando que cabe ao professor perceber o nível de maturidade dos alu- nos e despertar-lhes os seus dons, talentos ou capacidades naturais (ARAN- TES et al., 2001, p. 80). Essa forma de pensar e de praticar a educação formal (e – por que não dizer? – em todas as relações humanas) vale-se da troca entre pedagogo e aprendiz, algo muito valorizado e preservado. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 150 Entende-se que somos fruto da hereditariedade e que, em nome de um processo adequado, oprofessor deve sempre – na elaboração de um bom plano de ensino, na escolha das estratégias e no processo de avaliação – considerar todas as informações e meios de que dispõe. Isso parece muito importante, de modo a estabelecer uma relação interessante e um ensino significativo, e emitir um juízo de valor sobre o comportamento de seu aluno, resultante de um processo de avaliação suficientemente adequado. Corrente construtivista-interacionista Esta abordagem se opõe à linha tradicional, cujo mote é representado pelo desempenho máximo por parte do aprendiz. A corrente construtivista valoriza os aspectos cognitivos, motores e afetivos dos alunos – e tais aspectos são provenien- tes das experiências significativas anteriormente praticadas. Assim, consideram- se as diferenças individuais, sem, entretanto, classificar ou selecionar os mais há- beis – daí a possibilidade da inclusão e da integração de todos os indivíduos nas atividades propostas pelo professor. No ambiente formal, a instituição que adota esta vertente preocupa-se com a apreensão do conhecimento e, se possível, faz com que essas informações trans- formadas em conhecimento sejam uma aquisição permanente e em contínuo pro- cesso de assimilação e acomodação (PIAGET, 1978) do sujeito frente ao mundo físico e social. Essa postura é adotada por se entender que a inteligência e o pen- samento processam a informação de forma continuada, formando “redes neurais” (MACHADO, 1994, p. 17). Dessa forma, as experiências devem ser adequadamente “provocativas”, de modo que o aprendiz seja continuamente levado a constatar a veracidade dos fa- tos, a investigar e estar sempre buscando solução para o problema proposto pelo docente em atitude de pesquisa. Essa forma de pensar e de agir por analogia pode ser estendida para todas as situações da vida. O comportamento inadequado ou que ainda não é maduro deve ser pecebi- do como algo que faz parte do processo de ensinar e de aprender e que, de certa forma, revela o grau de desenvolvimento daquele que aprende. Assim percebida, a aprendizagem pode ser considerada um constante ir e vir, um processo de cons- trução permanente, pois a todo momento o aluno está aprendendo e, portanto, pode ampliar, refazer, retomar, reformular e apresentar um comportamento mais elaborado, mais completo ou amadurecido. Dessa maneira, a avaliação não deve se restringir a provas centradas ape- nas no resultado e na medida expressa em números cujo valor é extrínseco ao indivíduo por ser um valor-padrão proveniente de estudos mais amplos. As novas tendências recomendam que, para se emitir um juízo de valor, a avaliação deve ser ampla e processual, como observa a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96). Sobre esse tema, o seu artigo 24: “a avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais” (SÃO PAULO, 1996, p. 18). Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Avaliação: definição, importância, interfaces e outras considerações 151 Os estilos de ensino e as aulas de Educação Física na perspectiva humanista Na tentativa de se construir um processo significativo e permanente, mesmo que seja uma figura muito importante, o professor não deve assumir atitude refra- tária frente às dificuldades dos alunos. Em última análise, tanto os alunos como o professor estão aprendendo. Ainda que seja do docente a responsabilidade de planificar o curso e im- plementar esse plano – escolhendo as atividades segundo as características dos alunos, as experiências anteriores e as condições do meio e da escola –, ele deve ser um bom interlocutor e se entender com os demais. Na qualidade de mediador, o docente estabelece a ponte entre a teoria e a prática, entre os aspectos eruditos e a vida real dos alunos sob a sua responsa- bilidade, sempre tendo em mente que não se constrói o conhecimento do aluno sem a participação desse aluno, o que em parte depende do estilo de ensino que o professor adota. O estilo de ensino e a avaliação dependem da forma como o professor esta- belece o plano de ensino e a sua realização. Em uma visão tradicional, pode ser o centro do processo: ele planeja, escolhe as atividades, demonstra os exercícios, não dá chance de o aluno se expressar, aplica a prova e atribui a nota que consi- dera justa. Quando o ensino é diretivo, centrado no docente, não há diálogo nem chance de perceber onde houve o erro. Nas abordagens humanistas, os estilos de ensino não são diretivos, pois se valem da descoberta orientada e da solução de problemas praticados na Educação Física (MOSSTON, 1978). No estilo de ensino denominado descoberta orientada, o professor vai dan- do pistas para que o aluno, por si só, chegue ao comportamento desejado. É um ensino caracterizado pelo permanente diálogo entre o docente e os seus alunos. No estilo denominado solução de problemas, o professor propõe uma situação na qual o aluno deverá responder valendo-se de sua bagagem pessoal ou do grupo. Quanto ao comportamento do professor durante o processo de avaliação, recomenda-se que ele observe enquanto seus alunos executam a tarefa pedida. Vi- sando à educação integral do aluno, também se recomenda que o docente observe atentamente todos os aspectos exibidos pelo aluno. Aspectos cognitivos Como ele se expressa? De que tipo de vocabulário se utiliza? Como constrói a sua comunicação com os outros? Apresenta uma linguagem adequada e inteligível? Compreende as tarefas solicitadas com facilidade? Precisa de muitos exemplos e explicações para executar as tarefas? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 152 Aspectos socioafetivos Concorda em dividir tarefas? Aceita liderança? Aceita opiniões que lhe são contrárias? Discute as idéias sem agredir os outros? Aceita ajuda alheia? Demonstra ser uma pessoa cooperativa ou competitiva quando o traba- lho deve ser feito em grupo? Entende e pratica a hierarquia de funções? Oferece ajuda a quem necessita? Aspectos motores Os exercícios estão dentro do nível da classe? As tarefas são executadas com facilidade ou dificuldade? Assume com entusiasmo os riscos propostos? Cria novas formas a partir dos dados que possui? Consegue combinar duas ou mais formas de execução? Apresenta adequada autonomia durante a prática ou precisa de ajuda constante? A avaliação integral do aluno na visão interdisciplinar As aulas de Educação Física servem também como suporte para outras disciplinas. Se assim avaliamos o nosso aluno, o processo de ensinar e de apren- der se dá durante o percurso e não fica restrito ao aspecto motor. Como o professor estará atento a todas as manifestações dos alunos e coti- dianamente os conhece, parece não haver necessidade de se marcar um dia para a prova dos discentes. Visando a uma educação integral, os estudantes estarão sendo avaliados em todos os momentos e em todos os aspectos (cognitivo, so- cioafetivo e motor), como propõe a Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9.394/96). Corrente crítico superadora Dentro da visão humanista, tanto o plano de ensino como a avaliação pro- cessual podem passar por adequaçõe, de modo a atenderem o alunado. Apesar de se conhecer o movimento como um conteúdo formalmente estudado pela Educação Física, inclusive na escola, ele pode ter seu entendimento ampliado por ser utilizado para se fazerem compreender, em outros tantos itens e no- ções, tais como as lógico-matemáticas ou a reparação do autoconhecimento, por exemplo. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDEBRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Avaliação: definição, importância, interfaces e outras considerações 153 Então, não se aprende somente sobre o movimento (apreciação), mas por meio dele. Essa prática pode gerar uma enorme gama de atividades que se apre- sentam como linguagens corporais. Essa abordagem ou linha considera o indivíduo como foco (microssiste- ma), ainda que o meio físico e social seja, de certa forma, considerado um ins- trumento que pode dar explicações para os comportamentos manifestos. Na área da Educação Física, essa linha pode ser observada nas Propostas Curriculares de Educação Física elaboradas pela Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (SÃO PAULO, 1991). Sobre a visão articulada dos conte- údos, há a tese de Arantes (1996), em que se discute a interdisciplinaridade na escola elementar. A abordagem ou corrente crítica superadora afirma que o indivíduo é fru- to das oportunidades que a sociedade oferece às pessoas. Preocupa-se em ex- plicar que as diferenças populacionais e/ou individuais decorrem da oferta e/ ou disseminação da informação, bem como da apropriação dos bens cultural e historicamente construídos pela humanidade ao longo da história. Volta-se mais para o macrotecido (sociedade) do que para o micro (indivíduo). Busca a identificação e o diagnóstico da realidade estabelecendo um juízo de valor. A propagação da cultura como um bem a ser conhecido, valorizado e ampliado pelas pessoas é algo a ser almejado. Assim, a proposta possui e é revestida por um projeto político-pedagógico de intervenção, reflexão e superação por parte dos que se reconhecem como culturalmente desfavorecidos. Na Educação Física é importante o estudo da cultura corporal, da relevân- cia e adequação dos conteúdos, bem como sua contemporaneidade (caracterís- ticas sociais e cognitivas). O confronto do senso comum com o conhecimento científico deve ampliar o rol de conhecimentos do aprendiz. Assim sendo, percebe-se o estudante como um ser histórico: as diferença de comportamento podem ser devidas ao nível maturacional, mas por certo também são devidas à herança cultural e ao meio do qual o indivíduo provém. Então, a forma de se dançar, de se jogar, de se lutar, de “esportivar” e de “ginasticar” pode assumir diferentes maneiras de se manifestar, sem que essas diferentes formas sejam excludentes ou erradas – apenas são diferentes, e sua explicação está no local, no tempo e na sua forma de transmissão. Assim pensando, o processo de ensinar e de aprender, bem como a ava- liação, deve considerar a tradição, mas também compromissar-se em oferecer novas aprendizagens (acesso à universalidade). Nessa visão teórica, o pedagogo é um investigador centrado em dissemi- nar informações, considerando e explicando a história social da corporiedade dos alunos. O estilo é não diretivo, como descrito anteriormente, e o processo de avalia- ção deve orientar-se para a emissão de um juízo de valor fundamentado na histó- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 154 ria do grupo, no nível de maturidade e nas experiências do indivíduo, de maneira a também adequar as práticas, tornando-as significativas e permanentes. Na Educação Física, essa abordagem é representada pelos estudos de Cas- tellani Filho (1988), Medina (1991) e Daolio (1993), entre outros. O modelo desenvolvimentista Fundamentada nas linhas da psicologia experimental, a abordagem de- senvolvimentista busca o “enquadramento” individual dentro de um padrão. A partir de um patamar teórico e sob sua égide, experimentam-se (valendo-se de protocolo defensável), analisam-se e se estabelecem níveis esperados de com- portamento (somente) motor para a idade (reflexo, rudimentar, fundamental, combinado e culturalmente determinado). Assim como os degraus de uma escada, as habilidades devem se tornar progressivamente mais complexas conforme o grau de maturidade e a expe- riência vivida. Há intensa preocupação por parte do educador em estabelecer programas e planos adequados à aprendizagem do movimento e, para tan- to, devem-se incluir as avaliações formais e processuais, como indica a Lei 9.394/1996, para aquilatar a aprendizagem das habilidades motoras de loco- moção, estabilidade e manipulação (GALLAHUE, 1982; TANI et al., 1988). O desenvolvimento das capacidades físicas e motoras também represen- ta algo importante quando se planeja a ação pedagógica. Para que o objetivo seja atingido, o educador pode se valer de conteúdos tais como a ginástica, o jogo, a luta, a dança e o esporte. O treinamento ou a automatização, como explicam Grecco e Benda em Iniciação ao Esporte Universal (1990), é visto como uma estratégia para aqueles alunos já inseridos e respondendo segundo as características do período operatório formal, alunos a partir da 5.a série do Ensino Fundamental. Na Educação Física escolar, para as séries iniciais, a variabilidade de ex- periências – incluindo materiais, intensidade, duração e freqüência das tarefas – deve ser uma situação cotidiana. O professor deve atuar como um investi- gador atento. O estilo de ensino pode ser assumido dependendo do momento (da instrução ou comando até a solução de problemas). Entretanto, o mais adequado é que, sem tolher a iniciativa dos educandos, favoreça ou veja ser favorecida e valorizada a iniciativa da prática do movimento com segurança. Quanto ao processo de inclusão e integração que deve fazer parte dos anseios do docente, esse modelo não tem a preocupação de explicar como isso Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Avaliação: definição, importância, interfaces e outras considerações 155 se dará, apenas afirma que existem níveis de aprendizagem e que o professor deve adequar seu plano segundo esses níveis, uma vez que o aluno é um “sis- tema aberto”, podendo aprender em ritmos ou velocidades diferentes. Para a teoria desenvolvimentista, centrada no desenvolvimento (motor) individual, admitem-se os vários níveis de maturação expostos e refletidos nos movimentos e em suas situações particulares e sistematizadas. Essas opções podem ser realizadas sob a forma de jogo, luta, dança, ginástica e todos os esportes (uma lista interminável), uma vez que autores como Gallahue (1982), Tani et al. (1988) e Freire (1999) percebem que o indivíduo é fruto da here- ditariedade e do meio, os quais atuam fortemente sobre as pessoas, de certa maneira definindo os comportamentos. Seja qual for a linha escolhida para a elaboração do seu plano de ensi- no e avaliação, procure levar em conta se ela é adequada aos seus princípios filosóficos e se ela se integra ao projeto escolar, se atende ao que o grupo e a comunidade pretendem. Perceba os prós e contras da sua escolha. A combinação de linhas dife- rentes também merece reflexão em nome de um plano de curso e de planos de aula coesos, eficazes e eficientes. É importante que todos se sintam confortá- veis, felizes e com um acervo cultural e motor significativo para a sua vida. Bom trabalho! E muito sucesso! 1. Faça um quadro mapeando as abordagens ou correntes pedagógicas e as for- mas de avaliação, com foco nos modelos e seus pontos positivos e negativos. 2. Marque a alternativa que melhor representa a sua realidade. Você faz parte do corpo docente de uma escola que tem por meta ou projeto escolar a) aumentar o acervo cultural do aluno. b) favorecer uma educação integral. c) aumentar a ética e o respeito pelas diferenças entre as crianças. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 156 3. Escolha uma das duas propostas e respondaàs perguntas: I - Você deve oferecer uma atividade de jogo com grupos pequenos para a 2.ª série. II - Você deve oferecer uma atividade de jogo coletivo para a 4.ªsérie. a) Que aspectos que você consideraria para avaliar seus alunos? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Avaliação: definição, importância, interfaces e outras considerações 157 b) Como faria quando um aluno domina a atividade e não permite a participação dos demais? Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Educação, Corpo e Movimento 158 Observação: Julgue o seu procedimento e o procedimento do aluno segundo o modelo escolhi- do. Defenda sua idéia e a justifique à luz da teoria. TYLER, Ralph W. Princípios Básicos para Currículo e Ensino. Porto Alegre: Globo, 1986. FREIRE, João Batista. Educação de Corpo Inteiro: teoria e prática da educação física. São Paulo: Scipione, 1989. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Referências ALVES, Fátima. Psicomotricidade: corpo, ação e emoção. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2003. ALVES, Rubem. 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Dos �lhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil! Parte II Deitado eternamente em berço esplêndido, Ao som do mar e à luz do céu profundo, Fulguras, ó Brasil, �orão da América, Iluminado ao sol do Novo Mundo! Do que a terra, mais garrida, Teus risonhos, lindos campos têm mais �ores; “Nossos bosques têm mais vida”, “Nossa vida” no teu seio “mais amores.” Ó Pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve! Brasil, de amor eterno seja símbolo O lábaro que ostentas estrelado, E diga o verde-louro dessa �âmula – “Paz no futuro e glória no passado.” Mas, se ergues da justiça a clava forte, Verás que um �lho teu não foge à luta, Nem teme, quem te adora, a própria morte. Terra adorada, Entre outras mil, És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos �lhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil! Atualizado ortogra�camente em conformidade com a Lei 5.765, de 1971, e com o artigo 3.º da Convenção Ortográ�ca celebrada entre Brasil e Portugal em 29/12/1943. Hino Nacional Poema de Joaquim Osório Duque Estrada Música de Francisco Manoel da Silva Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br