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INTRODUÇÃO Homem sempre refletiu sobre si mesmo e a sociedade em que participava. No entanto apenas no fim do séc. 18 surge na Europa a Antropologia como um saber científico (a exemplo das ciências naturais) tendo o homem como objeto de estudo submetido a métodos científicos. Essa nova área começa a adquirir legitimidade entre outras disciplinas científicas a partir da segunda metade do século 19, quando a antropologia toma como objeto de estudo “as sociedades então ditas ‘primitivas’, isto é, exteriores às áreas de civilização europeia ou norte-americana”. Essas sociedades são consideradas “de dimensões restritas, que tiveram poucos contatos com grupos vizinhos, tecnologia pouco desenvolvida em relação à nossa, menor especialização das atividades e funções sociais”. Por serem ‘simples’, permitiriam a compreensão da organização de sociedades complexas como numa situação de laboratório. No início do séc. 20 nasce a Etnografia (antropologia social e cultural), pondo fim à repartição entre observador e pesquisador erudito. O uso de pesquisas de campo foi inaugurado por Franz Boas e Malinowski. No entanto, a Antropologia entra em crise pois o objeto de estudo escolhido (as sociedades primitivas) está desaparecendo por conta da evolução social. Diante disto, a Antropologia se volta para a sociologia comparada, o camponês e reafirma a especificidade de sua prática não através de um objeto empírico, mas através de uma abordagem epistemológica: ”a antropologia não é senão um certo olhar, um certo enfoque que consiste em: a) o estudo do homem inteiro, em todas as suas dimensões; b) o estudo do homem em todas as sociedades, sob todas as latitudes em todos os seus estados e em todas as épocas”. A nova abordagem antropológica representou uma revolução epistemológica, rompendo com a ideia de que existe um centro do mundo. “A antropologia não é apenas o estudo de tudo que compõe uma sociedade. Ela é o estudo de todas as sociedades humanas (a nossa inclusive), ou seja, das culturas da humanidade como um todo em suas diversidades históricas e geográficas”. Unidade do homem seria em inventar modos de vida e organizações sociais extremamente diversas. A Antropologia nos permite perceber que os homens têm diferentes costumes, jogos, línguas, instituições (etc.) decorrentes de escolhas culturais e particularidades. Modo de conhecimento: observação direta, por impregnação em grupos humanos com os quais mantém-se uma relação pessoal. A ideia de alteridade Somente quando entramos em contato com grupos diferentes dos nossos, percebemos que o que tomávamos como natural em nós é, na verdade, cultural. Quando somos confrontados com novas culturas, rompemos a naturalização do social (como se nosso comportamento não fosse adquirido no contato com a cultura em que nascemos) e aceitamos a diversidade de outras culturas. “Disso decorre a necessidade, na formação antropológica, daquilo que não hesitarei em chamar de ”estranhamento” (depaysement), a perplexidade provocada pelo encontro das culturas que são para nós as mais distantes, e cujo encontro vai levar a uma modificação do olhar que se tinha sobre si mesmo. De fato, presos a uma única cultura, somos não apenas cegos à dos outros, mas míopes quando se trata da nossa. A experiência da alteridade leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos ”evidente”. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente nada de ”natural”. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não única”. “A descoberta da alteridade é a de uma relação que nos permite deixar de identificar nossa pequena província de humanidade com a humanidade, e correlativamente deixar de rejeitar o presumido "selvagem“ fora de nós mesmos. Confrontados à multiplicidade, a priori enigmática, das culturas, somos aos poucos levados a romper com a abordagem comum que opera sempre a naturalização do social (como se nossos comportamentos estivessem inscritos em nós desde o nascimento, e não fossem adquiridos no contato com a cultura na qual nascemos)”. ANTROPOLOGIA EVOLUCIONISTA Séc. 18: Rev. Industrial e Rev. Francesa provocam na Europa uma nova conjuntura, novos modos de vida e relações sociais. Enquanto essas transformações ocorrem, há um enigma colocado pela existência de sociedades que não foram tocadas pelos progressos da civilização. Séc. 19: Evolucionismo foi dominante no mundo científico da época. Representou a fé dos estudiosos na capacidade do homem de fazer uma história cada vez mais grandiosa. Conquista colonial (partilha da África). É do movimento dessa conquista que se constitui a Antropologia moderna, com o antropólogo acompanhando os passos do colono. Nessa época, a África, a Índia, a Austrália, passam a ser povoadas por imigrantes europeus em grande quantidade (não mais missionários e sim administradores). Uma rede de informações se instala – questionários são enviados por pesquisadores das metrópoles e suas respostas servem de material para as primeiras obras de antropologia. Objetivo destas é estabelecer um corpus etnográfico da humanidade. Antropologia como disciplina autônoma – ciência das sociedades primitivas em todas as suas dimensões (biológica, técnica, econômica, política, religiosa, linguística, psicológica). Antropologia Evolucionista “O indígena das sociedades extra-europeias não é mais o selvagem, tornou-se primitivo, ancestral do civilizado, destinado a reencontrá-lo”. Antropologia fica ligada ao conhecimento da origem do homem; formas simples de organização social e mentalidade evoluindo p/ formas mais complexas das nossas sociedades. Existe uma espécie humana idêntica, mas que se desenvolve (tanto em suas formas tecnoeconômicas como nos seus aspectos sociais e culturais) em ritmos desiguais, de acordo com as populações, passando pelas mesmas etapas, para alcançar o nível final que é o da “civilização”. Problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade das técnicas, das instituições, dos comportamentos e das crenças, comparar as práticas sociais de populações infinitamente distantes uma das outras tanto no espaço como no tempo. Seu mérito e de ter extraído (...) essa hipótese mestra sem a qual não haveria antropologia, mas apenas etnologias regionais: a unidade da espécie humana, ou, como escreve Morgan, da "família humana". Apesar do etnocentrismo, os antropólogos dessa época “mostraram pela primeira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos não eram de forma alguma a consequência de predisposições congênitas, mas apenas o resultado de situações técnicas e econômicas. Assim, uma das características principais do evolucionismo – será que isso foi suficientemente destacado? – é o seu anti-racismo”. Grandes temas da Antropologia Evolucionista - Aborígenes australianos: considerados a população mais arcaica do mundo; pode-se aprender a origem absoluta das instituições da sociedade civilizada. - Estudo dos sistemas de “parentesco”: pesquisadores evidenciaram a anterioridade histórica dos sistemas de filiação matrilinear sobre os patrilineares. Imagina-se que os sistemas matriarcais são primitivos. - Estudo da religião: antropólogos acreditavam que há um processo universal que conduz a magia (fase + grosseira) à religião e essa à ciência (fase + civilizada – pensadores da época são confiantes na racionalidade científica, agnósticos). Críticas ao pensamento Evolucionista - Outras sociedades são estudadas como se devessem alcançar o Ocidente, tido como fase final do progresso técnico e econômico da Europa do séc. 19 e prova da evolução histórica, da qual procura-se simultaneamenteacelerar o processo e reconstituir os estágios. - Evolucionismo aparece como a justificativa para o colonialismo; pesquisador indica a civilização europeia como em estágio superior e com o objetivo de elevar as partes mais degradas da humanidade (extraindo leis universais do desenvolvimento da humanidade). “Etnografia é frequentemente mobilizada apenas para ilustrar o processo grandioso que conduz as sociedades primitivas a se tornarem sociedades civilizadas”. - Etnocentrismo: raramente o antropólogo recolhe ele próprio os materais que estuda e quando o faz, não está tão preocupado com a etnografia e as particularidades de uma determinada cultura, mas com a compreensão de todas as culturas, em especial as mais primitivas. Autores - Lewis Morgan (1818- 1881) “Sociedade Antiga” - Edward Tylor (1832-1917) “Cultura Primitiva” - James Fraser (1854-1941) “Ramo de Ouro” FUNDADORES DA ETNOGRAFIA Primeiro terço do séc. 20: Etnografia surge quando percebe-se que o pesquisador deve efetuar sua própria pesquisa no campo, e que o trabalho de observação direta e íntima é parte integrante da pesquisa – fim da repartição de tarefas do observador (viajante) e pesquisador erudito (que permanece na metrópole). Pesquisador passa a viver intimamente com os povos que estuda, atentando-se a seus costumes, sua língua, emoções e formas de vida => TRABALHO DE CAMPO. Boas - Preocupação com a precisão na descrição de fatos observados, conservação do patrimônio recolhido. - Microssociologia: “No campo, ensina Boas, tudo deve ser anotado: desde os materiais constitutivos das casas até as notas das melodias cantadas pelos Esquimós, e isso detalhadamente, e no detalhe do detalhe. Tudo deve ser objeto da descrição mais meticulosa, da retranscrição mais fiel (por exemplo, as diferentes versões de um mito, ou diversos ingredientes entrando na composição de um alimento)”. - Sociedades como totalidades autônomas: consideradas em si e para si mesmas. Os costumes só têm significado se forem relacionados ao contexto particular da sociedade em que aparecem. A cultura tem uma unidade que se expressa em seus materiais. - Etnociências: não há objeto nobre nem indigno da ciência. Todo o patrimônio cultural e social do grupo é importante. A maneira pela qual as sociedades tradicionais, na voz dos mais humildes, classificam suas atividades mentais e sociais, deve ser levada em consideração. - Importância do acesso à língua da cultura estudada: pois as tradições que estuda não podiam ser traduzidas sem que ele recolhesse e entendesse a língua dos interlocutores. - Não formou uma teoria. “A generalização apressada parecia-lhe o que há de mais distante do espírito científico”. Malinowski - Antropologia vira as costas ao Evolucionismo e se dedica ao estudo das lógicas particulares características de cada cultura. Os costumes de uma cultura – embora diferente da nossa – têm significado e coerência. - Importante pois significa que sociedades com sistemas lógicos diferentes da nossa não implicam em sociedades primitivas, atrasadas. Na época isso foi revolucionário. - Aberração não está mais do lado das sociedades primitivas, e sim do lado da sociedade ocidental. - Primeiro a viver com as populações em que estudava e recolher seus materiais, rompendo ao máximo o contato com o mundo europeu (despersonalização: compreender de dentro o que as pessoas de uma outra cultura sentem). “A partir de um único costume, ou mesmo de um único objeto (por exemplo, a canoa trobriandesa) aparentemente muito simples, aparece o perfil do conjunto de uma sociedade”. - Sociedades devem ser estudadas como totalidade: quer saber o que é uma sociedade dada em si mesma e o que a torna viável para os que a ela pertencem, observando-a no presente através da interação dos aspectos que a constituem. - É preciso dedicar-se à observação de fatos sociais aparentemente minúsculos e insignificantes, cuja significação só pode ser encontrada ao considerar suas suas posições no interior de uma totalidade mais ampla. - Tripla articulação do Social, Psicológico e Biológico: para ele, a sociedade funciona como organismo. As relações biológicas devem ser consideradas como modelo epistemológico pra pensar as relações sociais. Além disso a ciência da sociedade deve incluir o estudo dos senhor, desejos e comportamentos dos indivíduos. “Ele procura reviver nele próprio os sentimentos dos outros, fazendo da observação participante uma participação psicológica do pesquisador, que deve "compreender e compartilhar os sentimentos“ destes últimos "interiorizando suas reações emotivas". FUNCIONALISMO Teoria elaborada por Malinowski. Baseado nas ciências da natureza; Indivíduo sente necessidades, e cada cultura tem como função satisfazer à sua maneira essas necessidades fundamentais. Elas realizam isso elaborando instituições (econômicas, políticas, jurídicas, educativas...), fornecendo respostas coletivas organizadas, que constituem, cada uma a seu modo, soluções que permitem atender a essas necessidades. Sociedades tradicionais são estáveis e sem conflito, visando um equilíbrio natural através de instituições capazes de satisfazer às necessidades dos homens. Para essa teoria, toda sociedade é tão boa quanto pode ser, pois suas instituições estão aí para satisfazer a todas as necessidades dos membros. ESTRUTURALISMO Estruturalismo como um refinamento do funcionalismo, já que existem mais pontos de convergência que divergência entre as duas. - Ambas permitam explicar o aspecto sincrônico da cultura: defendem a possibilidade de explicação da cultura e da sociedade sem uma incursão necessária na história. - Pressupõem que a sociedade e cultura formam uma totalidade e desta devemos procurar a explicação das partes componentes (aspecto sistêmico). - Tradição francesa: positivismo, explicação sociológica, propensão a estudar mais a cultura não material do que a material, etc. Estrutura não quer dizer algo estável. Estrutura: arcabouço, armação ordenada, disposição sistemática de elementos. Radcliffe-Brown: estrutura social corresponde à rede de relações sociais padronizadas de uma sociedade. Saussure: língua é um sistema de sinais, cujas partes devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica. O todo permite obter os elementos que ele engloba. Parte do todo para obter, por análise, os elementos que ele engloba. Lévi-Strauss: refinou a abordagem sistemática na antropologia cultural, chegando a conclusão de que o fundamental nas relações estruturais ou sistêmicas permanece de maneira latente. Para ele, as estruturas apenas se mostram a uma observação feita de fora. Sua noção de estrutura é baseada na realidade estudada. Estrutura social: modelo de análise construído a partir da observação empírica da realidade social. - Estrutura tem caráter de sistema: uma modificação em um de seus elementos acarreta modificações em todos os outros. - O modelo deve levar em conta transformações (regulares), de modo que caso seus elementos mudem, possamos prever de que modo o modelo todo reagirá. Não são as partes que explicam o todo, mas o todo que permite a explicação das partes. Cultura/sociedade não é uma estrutura social única: sistemas possuem subsistemas menores e mais simples. Em Lévi-Strauss há dois tipos de dinâmica na realidade social, uma previsível (é prevista no próprio sistema ou estrutura) e outra imprevisível (imponderável por se dever a acasos e circunstancias exógenas às estruturas). Estrutura é importante p/ prever o rumo das transformações (embora não dê pra prever quais podem ser as transformações). Assim, a realidade social tem três níveis: - Funcionamento, - Modificações estruturais e - Modificações exógenas Reciprocidade é a estrutura fundamental da organização social dos homens, manifesta em todas as culturas, até entre primitivos. Determinismo psicológico: para ele, as diferenças entre cultuas particulares são apenas superficiais. As estruturas mentais inconscientes seriam universais e estariam por trás de todas as culturas.Elas são responsáveis pelas formas particulares assumidas em cada cultura (aproximação com Evolucionistas). Acredita que o Funcionalismo pode detectar modelos conscientes, normas e padrões de comportamento da sociedade. Seu método novo quer captar os modelos inconscientes, responsáveis pelos modelos conscientes (que são efeitos dos primeiros). - Modelos conscientes: normas – perpetuam crenças e usos, mais do que expõem suas causas. Pensamento consciente socializado. Inconsciente seria o caráter comum e específico dos fatos sociais. São causas dos modelos conscientes. “Quanto mais nítida a estrutura aparente, mais difícil torna-se apreender a estrutura profunda, por causa dos modelos conscientes e deformados que se interpõem entre o observador e seu objeto”. “A objetividade do comportamento humano está em se considerar e levar em conta o inconsciente camuflado; isto contudo pode levar a um outro subjetivismo, o do pesquisador, que ao construir seus modelos de análise pode, simplesmente, fazer uso de seus modelos pré-fabricados pelo próprio inconsciente”. - Se nós não conhecemos o inconsciente, como basear nele os fundamentos da cultura? Para Lévi-Strauss é mais fácil detectar as estruturas mentais inconscientes básicas a partir de sociedades simples do que no seio das sociedades complexas. Lévi-Strauss preocupou-se muito em descobrir as constantes do pensamento humano, supervalorizando-o. Para ele, as sociedades frias (simples) tem uma ordem natural, boa, que vai se perdendo com a evolução da humanidade. “Na aparência de harmonia das sociedades simples, há uma intolerância acentuada, que proíbe o meio termo. Inversamente, numa sociedade complexa há, aparentemente, desarmonia e desordem mas há lugar para mais tolerância e respeito à pessoa”. Fenômeno universal e culturas particulares. ETNOCENTRISMO Etnocentrismo como o fato humano: problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. Envolve relações de poder. “Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc”. O etnocentrismo passa por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. Etnocentrismo nasce da experiência do choque cultural. De um lado, conhecemos um grupo do “eu”, o “nosso” grupo, que come igual, veste igual, gosta de coisas parecidas, conhece problemas do mesmo tipo, acredita nas mesmas coisas, empresta à vida significados em comum e procede, por muitas maneiras, semelhantemente. Aí, então, nos deparamos com um “outro”, o grupo do “diferente” que, às vezes, nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma que não reconhecemos como possíveis. E, mais grave ainda, este “outro” também sobrevive à sua maneira, gosta dela. O choque gerador do etnocentrismo nasce na constatação das diferenças (como aquele mundo pode funcionar? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado!). A diferença parece ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. O grupo do “eu” faz, então, da sua visão a única possível, ou a melhor, a natural, a superior, a certa. O grupo do “outro” fica, nessa lógica, como sendo absurdo, anormal. Este processo resulta num reforço da identidade do “nosso” grupo, representado como espaço da cultura e da civilização por excelência, onde existe o saber, o trabalho, o progresso. A sociedade do “outro” é atrasada, são os selvagens, os bárbaros (estereótipos), qualquer coisa menos humanos, pois estes somos nós. O “outro” é o “aquém” ou o “além”, nunca o “igual” ao “eu”. Grande parte das vezes, o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta: colocá-lo como “primitivo”, como “algo a ser destruído”, como “atraso ao desenvolvimento”. Existe, paralelo à violência da atitude etnocêntrica, o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. O “outro” e sua cultura (da qual falamos na nossa sociedade) são apenas uma representação, uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. Aqueles que são diferentes do grupo do eu, por não poderem dizer algo de si mesmos, acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. Na nossa chamada “civilização ocidental”, nas sociedades complexas industriais contemporâneas, existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro” (a “indústria cultural” e nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos, com estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com a diferença). RELATIVISMO Contraposição ao etnocentrismo é o relativismo. Se define mais pela posição social do que pela “essência”. Relativizar é não ver a diferença na sua dimensão de riqueza. Ver as coisas do mundo como uma relação entre elas, capaz de ter tido um nascimento, um fim ou uma transformação. Quando vemos que as verdades da vida são mais uma questão de posição, estamos relativizando. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta, mas no contexto em que acontece, estamos relativizando. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos, estamos relativizando. Antropologia social: ciência sobre as diferenças entre os seres humanos – como eles deram soluções diversas a limites existenciais comuns. Nasce com o compromisso de superar o Etnocentrismo. CULTURA Constituição da Antropologia está profundamente associada à noção de cultura. O final do século XV e início do século XVI inicia a busca dos modelos explicativos da diferença. Destes encontros, entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”, o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. Ali esboçava-se algo que seria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas, um esforço de compreensão da diferença, de comparação entre as sociedades. O primeiro destes pensamentos é conhecido como Evolucionismo (séc. 19). O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. O resultado disso, é claro, vai ser a permanência do etnocentrismo agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado. Mas restava ainda um problema teórico: a escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estádio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso. Antes de Tylor opunha-se cultura (coisas espirituais das sociedades – ligado à tradição) e civilização (Ocidente – ligado ao progresso). Para Tylor, cultura e civilização como sinônimos, universais. “Cultura ou civilização é este todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, leis, moral, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. -> Transparece uma espécie de princípio geral dentro da cultura, como se os problemas colocados aos seres humanos fossem, em toda parte, os mesmos. Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que, mais cedo ou mais tarde, os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. O que fosse importante para a sociedade do “eu” seria importante para todas as demais sociedades do “outro”. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos.