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DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 1 DIREITO EMPRESARIAL DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 2 1 - Considerações iniciais ..................................................................................................... 5 2 - Histórico do Direito Empresarial no Brasil .......................................................................... 5 2.1 Origem do Direito Comercial .................................................................................... 6 2.2 Evolução Histórica .................................................................................................. 7 2.3 Autonomia ........................................................................................................... 11 2.4 Fontes ................................................................................................................. 14 2.5 Características do Direito Comercial ........................................................................ 14 2.6 Os quatro perfis de Asquini – a empresa como fenômeno econômico poliédrico ............ 15 3 - Empresário ................................................................................................................... 17 3.1 Conceito de empresário ................................................................................................. 17 3.2 - Requisitos para o exercício da atividade empresarial ....................................................... 19 3.3 - Obrigações do empresário ............................................................................................ 22 3.3.1 - Registro – art. 967 do CC .......................................................................................... 22 3.3.2 - Escrituração dos livros comerciais .............................................................................. 24 3.3.3 - Demonstrativos contábeis ......................................................................................... 26 4 - Estabelecimento empresarial ........................................................................................... 26 4.1 - Conceito de estabelecimento – art. 1142 do CC .............................................................. 26 4.2 - Ponto Comercial ......................................................................................................... 28 5 - Nome empresarial ......................................................................................................... 33 5.1 - Firma ........................................................................................................................ 33 5.2 - Denominação ............................................................................................................. 34 5.3 - Nome empresarial X marca .......................................................................................... 34 5.4 - Princípios do nome empresarial .................................................................................... 36 5.4.1 - Bens patenteáveis .................................................................................................... 38 5.4.2 - Bens registráveis ..................................................................................................... 41 6 - Direito Societário ........................................................................................................... 47 6.1 - Elementos específicos de uma sociedade ....................................................................... 47 6.2 - Visão geral das sociedades ........................................................................................... 48 6.3 - Sociedades não personificadas ..................................................................................... 48 6.3.1 - Sociedade em Comum .............................................................................................. 48 6.3.2 - Responsabilidade do sócio na Sociedade em Comum .................................................... 49 6.3.3 - Características especiais ........................................................................................... 49 6.3.4 - Sociedade em conta de participação ........................................................................... 50 6.3.5 - Modalidades de sócios nas Soc. em Conta de Participação ............................................. 51 6.3.6 - Impossibilidade de registro da Soc. em Conta de Participação ....................................... 51 6.4 - Sociedades personificadas............................................................................................ 52 6.4.1 - Sociedade empresária – art. 982 do CC ...................................................................... 52 6.4.2 - Sociedade simples .................................................................................................... 52 DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 3 6.4.3 - Classificação das sociedades personificadas ................................................................. 54 6.4.4 - Sociedade em Nome Coletivo (art. 1.039) ................................................................... 55 6.4.5 - Sociedade em Comandita Simples (art. 1.045 do CC) ................................................... 55 6.4.6 - Sociedade Limitada .................................................................................................. 56 6.4.7 - Sociedade Anônima .................................................................................................. 72 6.4.8 - Reorganização societária ........................................................................................... 88 6.4.9 - Sociedades coligadas (“ligações societárias”) ............................................................... 93 6.4.10 - Sociedade dependente de autorização ...................................................................... 94 7 - Títulos de crédito ........................................................................................................... 96 7.1 - Conceito .................................................................................................................... 97 7.2 - Função dos títulos de crédito ........................................................................................ 99 7.3 - Princípios do Direito Cambiário ................................................................................... 100 7.4 - Natureza da obrigação cambial ................................................................................... 102 7.5 - Classificação dos títulos de crédito .............................................................................. 104 7.5.1 - Títulos cambiais e títulos cambiariformes .................................................................. 105 7.6 - A informática e o futuro do Direito Cambiário ............................................................... 106 7.7 - Rigor cambiário ........................................................................................................ 106 7.8 - Títulos de crédito em espécie ..................................................................................... 107 7.8.1 - Letra de Câmbio .................................................................................................... 107 7.8.2 - Nota promissória .................................................................................................... 117 7.8.3 - Duplicata ..............................................................................................................119 7.8.4 - Cheque ................................................................................................................. 123 7.9 - Títulos de crédito e financiamento rural, industrial, comercial e imobiliário ....................... 128 7.10 - Protesto ................................................................................................................. 131 7.10.1 - Conceito de protesto (art. 1º, da Lei nº 9.492/1997) ................................................ 131 7.10.2 - Finalidade do Protesto ........................................................................................... 131 7.10.3 - Documentos protestáveis ...................................................................................... 133 7.10.4 - Competência funcional do Protesto ......................................................................... 134 7.10.5 - Competência Territorial ......................................................................................... 135 7.10.6 - Natureza jurídica do Protesto ................................................................................. 136 7.10.7 - Motivos do protesto .............................................................................................. 138 7.10.8 - Prazo para o protesto ........................................................................................... 139 7.10.9 - Prática do protesto ............................................................................................... 140 7.10.10 - Prazo para pagamento/sustação/desistência .......................................................... 143 7.11 - Ação Cambial ......................................................................................................... 145 8 - Nova Lei de Falências – Lei nº 11.101/2005 .................................................................... 151 8.1 - Noções introdutórias ................................................................................................. 151 8.2 - Recuperação de empresas ......................................................................................... 153 8.3 - Recuperação judicial ................................................................................................. 153 8.3.1 - Legitimidade ativa .................................................................................................. 154 DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 4 8.3.2 - Petição inicial do pedido de recuperação judicial......................................................... 155 8.3.3 - Questões genéricas ................................................................................................ 165 8.4 - Recuperação especial – microempresas e empresas de pequeno porte ............................ 165 8.5 - Recuperação Extrajudicial .......................................................................................... 167 8.6 - Falência ................................................................................................................... 167 8.6.1 - Conceito de Falência ............................................................................................... 168 8.6.2 - Legitimidade ativa na Falência ................................................................................. 168 8.6.3 - Pressupostos da Falência ........................................................................................ 170 8.6.4 - Princípios informadores do processo falimentar .......................................................... 170 8.6.5 - Legitimidade passiva na Falência ............................................................................. 171 8.6.6 - Juízo competente da Falência .................................................................................. 172 8.6.7 - Fases do processo falimentar ................................................................................... 173 8.6.8 - Fundamentos jurídicos do pedido de falência ............................................................. 173 8.6.9 - Insolvência do devedor ........................................................................................... 174 8.6.10 - Hipóteses de manifestação do devedor após sua citação ........................................... 174 8.6.11 - Decisão judicial .................................................................................................... 176 8.6.12 - Atos ineficazes ..................................................................................................... 179 8.6.13 - Atos revogáveis ................................................................................................... 180 8.6.14 - Efeitos da sentença declaratória ............................................................................. 181 7.6.15 - Arrecadação dos bens ........................................................................................... 183 7.6.16 - Da realização do ativo ........................................................................................... 184 8.6.17 - Aspectos criminais na Falência ............................................................................... 187 8.7 - Disposições transitórias da NLFR ................................................................................. 194 9 - Microempresa e empresa de pequeno porte – LC 123/2006 .............................................. 195 9.1 - Caracterização das microempresas e empresas de pequeno porte ................................... 196 9.2 - Do pequeno empresário ............................................................................................. 201 9.3 - Enquadramento e desenquadramento ......................................................................... 201 9.4 - Tratamento jurídico diferenciado – art. 179 da CRFB ..................................................... 202 9.5 - Deliberações sociais nas ME e EPP .............................................................................. 203 9.6 - ME ou EPP na Justiça do Trabalho ............................................................................... 204 9.7 - ME ou EPP podem ter o benefício dos Juizados Especiais (comum ou federal) ................... 204 9.8 - Protesto e as ME ou EPP ............................................................................................ 204 9.9 - Regras especiais de participação em licitações .............................................................. 206 8.9.1 - A comprovação de regularidade fiscal e outros requisitos formais de habilitação ............ 206 10 - Contratos mercantis ................................................................................................... 211 10.1 - Contratos de troca .................................................................................................. 213 10.1.1 - Compra e venda mercantil ..................................................................................... 213 10.1.2 - Alienação fiduciária em garantia ............................................................................. 228 10.1.3 - Arrendamento mercantil ........................................................................................ 247 10.2 - Contratos de colaboração ......................................................................................... 250 DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 5 10.2.1 - Comissão Mercantil ............................................................................................... 252 10.2.2 - Representação comercial (ou AGÊNCIA) .................................................................. 256 10.2.3 - Concessão comercial.............................................................................................261 10.2.4 - Franquia (franchising) ........................................................................................... 263 10.2.5 - Distribuição ......................................................................................................... 264 10.2.6 - Faturização (factoring) .......................................................................................... 266 10.3 - Contratos de prevenção de riscos .............................................................................. 268 10.3.1 - Contrato de seguro ............................................................................................... 268 10.4 - Contratos bancários ................................................................................................ 287 10.4.1 - Cofres de aluguel ................................................................................................. 291 10.4.2 - Depósitos especiais .............................................................................................. 291 10.4.3 - Desconto e repasse .............................................................................................. 292 10.5 - Contrato de cartão de crédito ................................................................................... 294 10.6 - Contrato de conta corrente ....................................................................................... 295 1 - CONSIDERAÇÕES INICIAIS Olá, prezados alunos! Conforme combinado, segue um “resumão” de Direito Empresarial para facilitar os estudos. Para quem tiver tempo, minha sugestão é a leitura integral! Àqueles que estiverem com o tempo escasso, estudem os pontos com maior deficiência, seguindo o nosso combinado em aula: dispositivos legais marcados na lei e resolução de questões. Tenho certeza que ajudará na aprovação de vocês para o XXVII Exame da OAB! Prontos? Bons estudos! 2 - HISTÓRICO DO DIREITO EMPRESARIAL NO BRASIL O Código Comercial de 1850 foi dividido em três partes: Parte I – “Do Comércio em Geral”. Teoria dos Atos de Comércio (origem francesa). COMERCIANTE e SOCIEDADE COMERCIAL. Comerciante era a pessoa física. Sociedade comercial era a pessoa jurídica. Era necessário observar a DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 6 atividade desempenhada. A análise era objetiva, ou seja, verificava-se a atividade realizada pela pessoa física ou pessoa jurídica. PROBLEMA: os atos de comércio estavam elencados no Regulamento 737/1850. Esse regulamento trazia poucas situações de “atos de comércio” (exemplos: atividade de transporte, atividade de indústria, contratos marítimos, fretamentos de navios, espetáculos públicos, títulos de crédito em geral, etc.). A problemática maior era que a empresa, à época (antes do NCC), só podia pedir concordata se sua atividade estivesse elencada no Regulamento citado. Art. 2045 do CC: revogou apenas a Parte I do Código Comercial. Assim, a Parte II – que trata do Comércio Marítimo – ainda está em vigor. “Art. 2.045. Revogam-se a Lei no 3.071, de 1o de janeiro de 1916 - Código Civil e a Parte Primeira do Código Comercial, Lei no 556, de 25 de junho de 1850.” QUESTÃO DE PROVA: ainda é cobrada a questão da arribada forçada. O que é esse instituto? Quando o navio sai do porto, seu trajeto deve estar pré- definido. Se o navio para em um porto que não estava definido, essa parada é chamada de “arribada forçada”. A arribada forçada só é admitida quando presente uma justa causa (art. 741 do Código Comercial) - temor fundado de ataque pirata. Parte II – “Do Comércio Marítimo” Parte III – “Das Quebras” (em relação à falência) revogada pelo DL 7661/1945 revogado pela Lei 11101/2005 (LRE). Com a revogação da Parte I do Código Comercial, passamos a adotar a Teoria da Empresa (origem italiana). Nessa teoria, chama-se de empresário a pessoa física e de sociedade empresária (= empresário coletivo) a pessoa jurídica. A análise agora não é meramente objetiva. Deve-se observar, também, quem pratica a atividade. 2.1 ORIGEM DO DIREITO COMERCIAL Intuitivamente, poder-se-ia afirmar que o Direito Comercial é o direito do comércio, entendido nas palavras de Joaquin Garrigues: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 7 “Comércio é o conjunto de atividades que efetuam a circulação dos bens entre produtores e consumidores.” 1 Já nas palavras de João Eunápio Borges, o comércio é “o ramo da atividade humana que tem por objeto a aproximação de produtores e consumidores, para a realização ou facilitação de trocas” 2. Embora o comércio já existisse, o Direito Comercial surge como sistema na Idade Média, por meio do desenvolvimento das “corporações de ofício”, formadas pela burguesia que vivia do comércio junto aos feudos, e que estipulava regras jurídicas mais dinâmicas e próprias de suas atividades - diferente das regras do Direito Romano e Canônico. 2.2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA São três as fases da evolução do Direito Empresarial: Sistema subjetivista: Corporações de ofício - jurisdição própria e regras baseadas nos usos e nos costumes. O Direito comercial é o direito aplicável aos integrantes de uma específica corporação de ofício. Possuía o caráter classista e corporativo. Numa primeira fase era o direito dos comerciantes (atos de comércio subjetivos). Havia o chamado critério corporativo, pelo qual se o sujeito fosse membro de determinada corporação de ofício, o direito a ser aplicado seria o da corporação. Tratava-se de “um direito criado pelos mercadores para regular as suas atividades profissionais e por eles aplicado”3. Fala-se aqui em sistema subjetivo, porquanto havia a aplicação do chamado critério corporativo, pelo qual se o sujeito fosse membro de determinada corporação de ofício, o direito a ser aplicado seria o da corporação, vale dizer, era a matrícula na corporação que atraía o direito costumeiro e a jurisdição consular. Entretanto, não era suficiente o critério corporativo, era 1 GARRIGUES, Joaquin. Curso de Derecho Mercantil. 7ª. Ed. Bogotá: Temis, 1987, v. 01, p. 09. 2 BORGES, João Eunápio. Curso de Direito Comercial Terrestre. Rio de Janeiro: Forense, 1959, v. 01, p. 11. 3 ABREU, Jorge Manuel Coutinho de. Curso de Direito Comercial. Coimbra: Almedina, 1999, v. 01, p. 03. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 8 necessário que a questão também fosse ligada ao exercício do comércio 4 . Tratava-se de um direito eminentemente profissional5. Sistema objetivista: iniciado com o liberalismo econômico preconizado pela burguesia, consolida-se com o Código Comercial francês, que influencia a criação do Código Comercial brasileiro. Com o decorrer do tempo os comerciantes passaram a praticar atos acessórios, que surgiram ligados à atividade comercial, mas logo se tornaram autônomos (títulos cambiários). Já não era suficiente a concepção de direito comercial como direito dos comerciantes; era preciso estender seu âmbito de aplicação para disciplinar as relações que não envolviam comerciantes. Desenvolve-se a partir desse momento o sistema objetivista, o qual desloca o centro do direito comercial para os chamados atos de comércio. Sistema francês (atos de comércio) – houve “a objetivação do direito comercial, isto é, a sua transformação em disciplina jurídica aplicável a determinados atos e não a determinadas pessoas, relacionando-se não apenas com o princípio da igualdade dos cidadãos,mas também com o fortalecimento do estado nacional ante os organismos corporativos” (Curso de Direito Comercial, Fábio Ulhoa Coelho, pg. 14). "Qualquer cidadão pode exercer a atividade mercantil e não apenas ao aceitos em determinada associação profissional (a corporação de ofício dos comerciantes)" (Idem, pg. 14). As corporações de ofício foram extintas durante este período - implicou na abolição do corporativismo, pois deixou de ficar restrito a determinado grupo. O sistema francês é baseado nos atos de comércio – grupo de atos, sem que entre eles se possa encontrar qualquer elemento interno de ligação, o que acarretaria indefinições no tocante a natureza mercantil de algumas delas. Implicou um fracionamento nas atividades civis e comerciais pela natureza do objeto. Analisando o conjunto de atos, o comercialista Alfredo Rocco identificou a intermediação ou interpolação como elemento comum. Entre o produtor e o consumidor, haveria a interposição do comerciante que buscaria o lucro. 4 FRANCO, Vera Helena de Mello. Manual de direito comercial. São Paulo: RT, 2001, v. 01, p. 19. 5 ROCCO, Alfredo. Princípios de Direito Comercial. Tradução de Ricardo Rodrigues Gama. Campinas: LZN, 2003, p. 21. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 9 Estariam excluídas as atividades imobiliárias (bens imóveis ou de raiz) diante do caráter sacro da propriedade. OBS: Essa visão não é compartilhada por Fábio Ulhoa, conforme demonstra a seguinte passagem: “A teoria dos atos de comércio resume-se, rigorosamente falando, a uma relação de atividades econômicas, sem que entre elas se possa encontrar qualquer elemento interno de ligação, o acarreta indefinições no tocante à natureza mercantil de algumas delas” (Idem, pág. 15). Embora o Código Comercial brasileiro de 1850 se baseasse no sistema francês, não adotou expressamente a nomenclatura atos de comércio, utilizando-se do vocábulo “mercancia” (art. 4º do Código Comercial). Em complemento a este diploma, foi editado o Regulamento 737 (art. 19) que enumerou atividades consideradas como mercancia: Compra e venda ou troca de bens móveis ou semoventes, no atacado ou varejo, para revenda ou aluguel; operações de câmbio, banco, corretagem, expedição, consignação e transporte de mercadorias; espetáculos públicos; indústrias, seguro, fretamento e quaisquer contratos relacionados a comércio marítimo, além de armação e expedição de navios. O professor Alexandre Gialucca destaca uma problemática ainda maior: a empresa, à época, só podia pedir concordata se sua atividade estivesse elencada no Regulamento citado6. A Teoria dos atos de Comércio não conseguiu acompanhar a dinâmica econômica, porque surgiu uma série de atividades que não se enquadrariam no seu conceito como a prestação de serviços em massa e as atividades agrícolas. Sistema subjetivo moderno (=período correspondente ao Direito Empresarial): em evolução e abraçado pelo novo Código Civil, leva em conta a organização e efetivo desenvolvimento de atividade econômica organizada (vide Enunciado n. 54 do CJF citado acima). 6 “FALÊNCIA. EMPRESA PRESTADORA. SERVIÇOS. Em retificação à notícia do REsp 198225 (v. Informativo n. 137), leia-se: no caso, a empresa ré é uma empresa prestadora de serviço organizada como sociedade por cotas de responsabilidade limitada, com seus atos arquivados na Junta Comercial, ou seja, como sociedade comercial. Não se trata, portanto, de sociedade civil que, mesmo adotando a forma estabelecida no Código Comercial, está inscrita no registro civil, como determina o art. 1.364 do CC. Assim sendo, é eficaz o pedido de falência instruído com duplicatas de prestação de serviços, que preenchem todos os requisitos previstos em lei para legitimar a ação executiva, quais sejam, o protesto e a comprovação da prestação de serviços. Prosseguindo o julgamento, a Turma, por maioria, não conheceu do recurso. Precedentes citados: REsp 160.914-SP, DJ 1º/3/1999, e REsp 214.681-SP, DJ 16/11/1999.” REsp 198.225, Rel. originário Min. Ari Pargendler, Rel. para acórdão Min. Carlos Alberto Menezes Direito, julgado em 6/6/2002. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 10 A concepção passa a ser centrada em um sujeito, o empresário (que é aquele que exerce atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens e serviços para o mercado). Daí falar-se em Direito Empresarial hoje em dia. É oportuno ressaltar que toda essa evolução tem um traço de continuidade, na medida em que em todas as fases foram duas as exigências constantes do direito mercantil. A primeira exigência diz respeito à tutela do crédito, e a segunda à melhor alocação dos recursos, que se faz presente com a facilitação da circulação dos bens e da conclusão dos negócios. Sistema italiano (teoria da empresa) - O foco passa do ato para a atividade. “Vista como a consagração da tese da unificação do direito privado, essa teoria, contudo, bem examinada, apenas desloca a fronteira entre os regimes civil e comercial. No sistema francês, excluem-se atividades de grande importância econômica – como a prestação de serviços, agricultura, pecuária, negociação imobiliária – do âmbito de incidência do direito mercantil, ao passo, que, no italiano, cria-se um regime geral para o exercício da atividade economia, excluindo-se determinadas atividades de menor expressão, tais as dos profissionais liberais ou dos pequenos comerciantes” (Idem, pg. 17). A consagração legislativa da “Teoria da Empresa” ocorreu com a promulgação do Códice Civile em 1942. “Conceitua-se empresa como sendo atividade, cuja marca essencial é a obtenção de lucros com o oferecimento ao mercado de bens ou serviços, gerados estes mediante a organização dos fatores de produção (força de trabalho, matéria-prima, capital e tecnologia)” (Idem, pg. 18). O empresário é identificado levando-se em conta a atividade por ele desempenhada. Portanto, o foco do direito comercial atual é a empresa, entendida esta como uma atividade profissional, econômica e organizada, voltada à obtenção de lucros. Para tanto, o empresário ou a sociedade que a desenvolvem assumem riscos e colocam à disposição do consumidor produtos ou serviços. “A ‘Teoria da Empresa’, que inspirou a reforma legislativa comercial de diversos países, teve sua efetiva inserção no ordenamento nacional somente com o advento do Código Civil de 2002. A Primeira Parte do Código Comercial de 1850 foi expressamente derrogado pelo Código Civil (art. 2045), que em seu Livro II tratou do “direito de empresa” (arts. 966 a 1195). Atualmente, somente DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 11 a parte referente ao comércio marítimo (arts. 457 a 796) continua vigente no Código Comercial. O Novo Código Civil, então, revogando parcialmente o Código Comercial, consagrou o regime jurídico do empresário e da sociedade empresária. Além disso, cuidou também de contratos comerciais e títulos de crédito (arts. 887 a 926). Antes mesmo da sua efetiva incorporação ao sistema pátrio, o direito brasileiro já vinha se aproximando gradualmente da teoria da empresa através da edição de alguns diplomas legislativos: CDC – definiu fornecedor independente do gênero de atividade econômica desenvolvida; Lei nº 8.245/1991 (Lei de Locações) – dispôs sobre a renovação compulsória independentemente da qualidade de empresário ao estendê-loàs sociedades civis com fim lucrativo (§ 4º do art. 51), eliminando o privilégio que a Lei de Luvas havia estabelecido em favor apenas dos exercentes de atividade comercial Lei nº 8.934/1994 (Registro Público de Empresas Mercantis e atividade Afins) – Art. 2º Os atos das firmas mercantis individuais e das sociedades mercantis serão arquivados no Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins, independentemente de seu objeto, salvo as exceções previstas em lei. 2.3 AUTONOMIA O fato de grande parte da disciplina do direito comercial encontrar-se inserida no Código Civil não significa que houve confusão ou unificação do direito comercial ao civil. Tais ramos do direito são autônomos e independentes, com regras, princípios e estrutura próprios. A divisão do direito privado se deu em virtude da necessidade de uma regulamentação especial da matéria mercantil, tendo em vista que as características peculiares ao direito civil não se prestavam a atender os fins ligados especificamente ao direito comercial. Este exige um reforço ao crédito, uma disciplina mais célere dos negócios, a tutela da boa fé, e a simplificação da movimentação de valores, tendo em vista a realização de negócios em massa. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 12 Em função disso, não podemos negar a autonomia do direito empresarial, o qual possui princípios e características próprias, além de possuir um método próprio e de ser vasto o suficiente para merecer um estudo adequado e particular. O Direito comercial é dotado de autonomia: legislativa – CF/88, Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: (...) I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho; científica ou profissional – o direito comercial detém algumas características que lhe são peculiares, possuindo princípios próprios, o que lhe confere um campo de atuação profissional específico; didática – constitui uma disciplina curricular autônoma e essencial nas Faculdades de Direito “Note-se que não compromete a autonomia do direito comercial a opção do legislador brasileiro de 2002, no sentido de tratar a matéria correspondente ao objeto desta disciplina no Código Civil (Livro II da Parte Especial), já que a autonomia didática e profissional não é minimamente determinada pela legislativa” (Idem, pg. 27). Enunciado 75 do CJF – Art. 2.045: a disciplina de matéria mercantil no novo Código Civil não afeta a autonomia do Direito Comercial. Para Fábio Ulhoa Coelho, “o Direito Comercial (Mercantil, Empresarial ou de Negócios) é área especializada do conhecimento jurídico. Sua autonomia, como disciplina curricular ou campo de atuação profissional específico, decorre dos conhecimentos extrajurídicos que professores e advogados devem buscar, quando o elegem corno ramo jurídico de atuação. Exige-se do comercialista não só dominar conceitos básicos de economia, administração de empresas, finanças e contabilidade, como principalmente compreender as necessidades próprias do empresário e a natureza de elemento de custo que o direito muitas vezes assume para este. Quem escolhe o Direito Comercial como sua área de estudo ou trabalho deve estar disposto a contribuir para que o empresário alcance o objetivo fundamental que o motiva na empresa: o lucro. Sem tal disposição, será melhor — para o estudioso e profissional do direito, DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 13 para os empresários e para a sociedade — que ele dedique seus esforços a outra das muitas e ricas áreas jurídicas. No Brasil, a autonomia do Direito Comercial é referida até mesmo na Constituição Federal, que, ao listar as matérias da competência legislativa privativa da União, menciona "direito civil" em separado de "comercial" (CF, art. 22,1). Não compromete a autonomia do Direito Comercial a opção do legislador brasileiro de 2002 no sentido de tratar a matéria correspondente ao objeto desta disciplina no Código Civil (Livro II da Parte Especial). A autonomia didática e profissional não é minimamente determinada pela legislativa. Afinal, Direito Civil não é Código Civil; assim como Direito Comercial não é Código Comercial. À forma considerada mais oportuna de organizar os textos e diplomas legais não corresponde necessariamente a melhor de estudar e ensinar o direito. Também não compromete a autonomia da disciplina a adoção, no direito privado brasileiro, da Teoria da Empresa. Como visto, a bipartição dos regimes jurídicos disciplinadores de atividades económicas não deixa de existir, quando se adota o critério da empresarialidade para circunscrever os contornos do âmbito de incidência do Direito Comercial. Aliás, a Teoria da Empresa não importa nem mesmo a unificação legislativa do direito privado. Na Espanha, desde 1989, o Código do Comércio incorpora os fundamentos desta teoria, permanecendo diploma separado do Código Civil. A demonstração irrespondível de que a autonomia do Direito Comercial não é comprometida nem pela unificação legislativa do direito privado nem pela Teoria da Empresa encontra-se nos currículos dos cursos jurídicos de faculdades italianas. Já se passaram 60 anos da unificação legislativa e da adoção da Teoria da Empresa na Itália, e Direito Comercial continua sendo tratado lá como disciplina autónoma, com professores e literatura especializados. Até mesmo em reformas curriculares recentes, como a empreendida na Faculdade de Direito de Bolonha a partir do ano letivo de 1996/1997, a autonomia do Direito Comercial foi amplamente prestigiada.” (Idem, pg. 24) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 14 2.4 FONTES O Direito Empresarial representa o conjunto de regras que regula a atividade empresarial e os atos singulares que compõem essa atividade. Essas regras que formam o direito empresarial podem advir de várias fontes. As fontes são os diversos modos pelos quais se estabelecem as regras jurídicas. Considerando que as fontes do direito empresarial são as formas pelas quais se manifestam as regras jurídicas que regulam a atividade empresarial, entende-se que são fontes primárias do Dir. Empresarial as leis e são fontes secundárias os costumes, a analogia e os princípios gerais de direito. Jurisprudência e doutrina não são formas de manifestação das regras jurídicas, mas formas de interpretação ou aplicação destas. Para Alfredo ROCCO, a atividade dos juristas não tem, na verdade, por fim a criação de novas normas jurídicas, mas o estudo, a interpretação e a aplicação do direito vigente. Pode-se afirmar que seriam fontes do Dir. Empresarial a CRFB, as leis em sentido estrito, as medidas provisórias, os regulamentos – desde que contenham regras que se apliquem à atividade empresarial. A título meramente exemplificativo, pode-se indicar como fontes do Direito Empresarial o Código Civil, a lei de falências, a LUG, a lei das SA, dentre outras. Não se deve mais falar em distinção entre leis civis e comerciais, na medida em que não importa a natureza da lei, mas sim o âmbito de sua aplicação. Se a norma se aplica à atividade empresarial ela é fonte do direito empresarial, não tendo qualquer influência o nome que se dá à lei. 2.5 CARACTERÍSTICAS DO DIREITO COMERCIAL Enquanto ramo com natureza e estrutura de direito privado, o direito comercial detém algumas características que são peculiares, destacando-se, dentre elas: “cosmopolitismo” – porquecriado e renovado constantemente pela dinâmica econômica mundial. Por essa razão, a legislação comercial esta repleta de leis e convenções internacionais. Por exemplo, em relação à propriedade industrial, o Brasil é unionista, signatário da Convenção de Paris para a Proteção da Propriedade Industrial, em vigor desde 1883, Leis Uniformes de Genebra sobre letra de câmbio, nota promissória e cheque (Decretos n.º 57.595/66 e 57.663/66) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 15 “menos formal” ou informalismo – é mais simples sem ser, contudo, simplista. Decorre da própria natureza do comércio atual realizado através de operações em massa (contratos de adesão), transações eletrônicas e globalizadas que não admitem o sistema seja lapidado com formalismo e exigência excessivas. mais “elástico” – exige maior dinâmica ante as inovações que diuturnamente se operam no comércio, seu objeto fragmentarismo – não é composto por um sistema fechado de normas [a semelhança do Código Civil de 1916 que possuía as características de centralidade, completude e exclusividade], mas sim por com um complexo de leis. A matéria não está reunida num único Código. onerosidade – busca do lucro. Os atos se presumem onerosos (ex.: mandato comercial é presumivelmente oneroso e não gratuito, como no mandato civil). Essa característica não impede, contudo, que as empresas pratiquem atos gratuitos no contexto da responsabilidade social. Art. 154, Lei n. 6404/1976. O administrador deve exercer as atribuições que a lei e o estatuto lhe conferem para lograr os fins e no interesse da companhia, satisfeitas as exigências do bem público e da função social da empresa. § 4º O conselho de administração ou a diretoria podem autorizar a prática de atos gratuitos razoáveis em benefício dos empregados ou da comunidade de que participe a empresa, tendo em vista suas responsabilidades sociais. 2.6 OS QUATRO PERFIS DE ASQUINI – A EMPRESA COMO FENÔMENO ECONÔMICO POLIÉDRICO A empresa, do ponto de vista econômico, nada mais é que o conjunto organizado de meios ou fatores de produção ou intermediação (capital, mão de obra, insumos e tecnologia) direcionada para a criação ou troca de bens ou serviços objetivando um fim lucrativo. Tal conceito, outrora relegado pelo Direito, serviu de base para a definição de empresário no Código Civil Brasileiro, conforme a dicção do artigo 966 DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 16 (“considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção de bens ou de serviços”). Esta redação foi resgatada da doutrina italiana, de onde surgiu um dos expoentes da Teoria da Empresa, Alberto Asquini, que viveu em uma época em que os conceitos de empresa, empresário e estabelecimento eram confusos e imprecisos, variando conforme a teoria ou escola adotada. Com o objetivo de compilar os diversos entendimentos da época, sem fugir à definição dada pela Ciência Econômica, uma das principais fontes do Direito Comercial, Asquini passou a entender a empresa como um fenômeno econômico poliédrico. Desta forma, a empresa é o conceito multifacetado, o qual tem quatro perfis em relação aos diversos elementos que a integram. As definições de empresa podem, portanto, ser diversas, segundo o diferente perfil, pelo qual o fenômeno econômico é encarado (Alberto Asquini in Perfis da Empresa, tradução de Fábio Comparato, Revista de Direito Mercantil). A partir desta visão poliédrica, Asquini definia os quatro perfis para a empresa como sendo subjetivo, objetivo (ou patrimonial), funcional e corporativo. Pelo perfil subjetivo, a empresa é vista como sujeito de direito, ou seja, o próprio empresário, aquele que exerce a atividade econômica, de forma habitual, em nome próprio, assumindo os riscos desta atividade, independente de se tratar de pessoa física (singular) ou jurídica (plural). A empresa, neste perfil, confunde-se com o conceito de empresário, que se encontra definido no art. 966 do Código Civil Brasileiro. É utilizada neste sentido quando ouvimos alguém falar “a empresa faliu” ou “a empresa está contratando um gerente”. O perfil objetivo, também conhecido como patrimonial, está relacionado aos bens da empresa, sejam estes materiais ou imateriais. O Direito Empresarial pátrio o reconhece como sendo o estabelecimento definido no art. 1.142 do Código Civil Brasileiro (“considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária”). Neste sentido, ouvimos as pessoas falarem: “a empresa está pegando fogo!” ou “a empresa está fechada”. Asquini reconhece neste perfil um “patrimônio especial distinto, por seu escopo, do restante patrimônio do empresário”. Esta afirmação, entretanto, só vale para o empresário individual, já que na sociedade empresária, o patrimônio deverá DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 17 sempre estar vinculado à atividade econômica organizada (patrimônio afetado à empresa). Pelo perfil funcional, a empresa confunde-se com a própria atividade econômica, sendo um sinônimo de empreendimento que objetiva um lucro, utilizando-se, para tanto, de uma organização de diversos fatores de produção ou circulação. Asquini a chama de “força em movimento (...) dirigida para um determinado escopo produtivo”. O conceito pode ser deduzido pela própria redação do art. 966 do Código Civil Brasileiro. Na linguagem do dia-a- dia, ouvimos as pessoas utilizarem este sentido quando falam: “a empresa está dando lucro” ou “a sociedade optou por continuar a empresa”. Por fim, o perfil corporativo vê na empresa uma instituição, tal como a família, que busca reunir o empresário e empregados com objetivos comuns. Pela teoria asquiniana, “o empresário e os seus colaboradores dirigentes, funcionários, operários, não são de fato, simplesmente, uma pluralidade de pessoas ligadas entre si por uma soma de relações individuais de trabalho, com fim individual; mas formam um núcleo social organizado, em função de um fim econômico comum, no qual se fundem os fins individuais do empresário e dos singulares colaboradores: a obtenção do melhor resultado econômico na produção”. É importante ressaltar que este último perfil é oriundo de uma ideologia fascista, predominante em 1943, de forma que não encontra paralelo no direito positivado brasileiro. Com o fim de adaptar o conceito ao ordenamento jurídico vigente, desvirtuando um pouco do sentido original, este perfil também é chamado de hierárquico, considerando-se a empresa como uma estrutura piramidal, na qual o empresário ocupa o topo, seguido pelos demais prepostos, conforme a hierarquia definida nos quadros funcionais da empresa. 3 - EMPRESÁRIO 3.1 CONCEITO DE EMPRESÁRIO (Art. 966 do CC) Aplicável à pessoa física, bem como à pessoa jurídica. *Pessoa física = empresário individual. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 18 *Pessoa jurídica = sociedade empresária. ATENÇÃO: o empresário individual tem CNPJ com o objetivo de receber o mesmo tratamento fiscal de uma pessoa jurídica. Não significa que possuir CNPJ implica ser sociedade empresária. Os sócios da sociedade empresária não são empresários individuais, mas SÓCIOS DE UMA SOCIEDADE EMPRESÁRIA. “Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividadeeconômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.” - profissionalmente é necessário que seja habitual. Imprescindível o requisito da habitualidade. - exerce uma atividade econômica a atividade econômica deve ser organizada. Atividade econômica está relacionada com a finalidade lucrativa. ORGANIZAÇÃO para Fábio Ulhoa Coelho: “organização é a reunião dos quatro fatores de produção, quais sejam: a) mão de obra; b) matéria-prima; c) capital; d) tecnologia.” Na ausência de um dos fatores de produção, não há se falar em organização. Assim, não havendo organização, não podemos falar em empresário individual ou sociedade empresária. - para a produção ou circulação lembrar que empresário/sociedade empresária não é apenas aquele que produz bens ou serviços, mas, também, circula bens ou serviços. - de bens ou serviços *Não se considera empresário: par. único do art. 966 do CC. “Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa.” (grifei) Profissão intelectual: de natureza científica, literária ou artística. “Profissional liberal”. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 19 CIENTÍFICA – é o caso do médico (ciências médicas). É a mesma situação do contador (ciências contábeis), do arquiteto, do engenheiro, do advogado, e outras tantas profissões. LITERÁRIA – escritor. E o jornalista (TJRJ)? É, também, produção intelectual literária. ARTÍSTICA – desenhista, artista plástico, cantor, ator, dançarino. Obs.: o mesmo do que foi descrito acima se aplica às sociedades empresárias. IMPORTANTE: clínica veterinária formada por dois veterinários sociedade de veterinários. Não é pelo simples fato de se utilizar um “nome fantasia” que a clínica veterinária será considerada uma atividade empresária. Ainda analisando o par. único do art. 966 do CC: “... salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa.” A parte final do par. único do art. 966 do CC está relacionada com o exercício de outras atividades. Exemplo: quando a clínica médica instala uma UTI (serviço de hospedagem); quando uma clínica odontológica vende planos de saúde, etc. Quando a clínica veterinária possui pet shop, pode-se falar, também, em exercício de atividade empresária. 3.2 - REQUISITOS PARA O EXERCÍCIO DA ATIVIDADE EMPRESARIAL “Art. 972. Podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos.” Pleno gozo da capacidade civil Não for legalmente impedido Observação: legalmente impedido juiz, promotor, delegado, servidor público e militar na ativa -- não pode ser empresário individual, MAS pode ser sócio de uma sociedade empresária, DESDE QUE não exerça a administração. *Art. 31 da LOMAN. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 20 *STJ: quem está exercendo a atividade de farmacêutico não pode exercer a atividade de médico concomitantemente, e vice-versa (REsp 7965607). CAPACIDADE CIVIL – pode o menor ser empresário individual? Se o menor estiver enquadrado em uma das hipóteses de emancipação, estará em pleno gozo da capacidade civil, podendo, assim, exercer atividade empresarial. Contudo, se o menor não estiver enquadrado nas hipóteses de emancipação, a situação é diferente. O menor, em casos que tais, não poderá iniciar a atividade empresarial. Situação diversa: o pai do menor tem uma distribuidora de bebidas e vem a falecer. Pergunta-se: pode o menor continuar a atividade? SIM! Pode o menor continuar uma empresa antes exercida por seus pais ou por autor de herança. Isso não é questão de proteção ao menor, MAS preservação da empresa. E se o menor já possuía bens antes de continuar a atividade empresarial? O art. 974 do CC, em seu parágrafo 2º, traz certa “proteção” a esses bens. Temos, portanto, uma exceção ao Princípio da Unidade Patrimonial. “§ 2o Não ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens que o incapaz já possuía, ao tempo da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao acervo daquela, devendo tais fatos constar do alvará que conceder a autorização.” ATENÇÃO: “Princípio da Unidade Patrimonial” – tanto a pessoa física, quanto a pessoa jurídica só possuem um patrimônio. Assim, o empresário individual, na qualidade de pessoa física, só possui um patrimônio, sendo vedada a sua diferenciação entre patrimônio pessoal e patrimônio destinado à 7 “ADMINISTRATIVO – CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA - LEGITIMIDADE PARA FISCALIZAR O CUMPRIMENTO OU APLICAR PENALIDADES BASEADAS NO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA – INAPLICABILIDADE DO ART. 16, ALÍNEA "H", DO DECRETO 20.931/32. 1. Não se conhece de recurso especial para exame de supostas violações a dispositivos constitucionais. 2. É inviável o recurso especial articulado sob alegação de ofensa a Resolução do Conselho Federal de Farmácia, uma vez que não se enquadra no conceito de lei federal, conforme disposto no permissivo constitucional. 3. O Conselho Regional de Farmácia é entidade com atribuição legal para fiscalizar o registro do profissional de farmácia na hipótese de ocorrência do exercício concomitante das profissões de médico e de farmacêutico. 4. Nos termos do no art. 16, alínea "h", do Decreto 20.931/32, é vedado o exercício concomitante das profissões de médico e de farmacêutico, devendo o interessado fazer a opção por uma dessas profissões, solicitando o seu licenciamento ou o cancelamento de seu registro perante o conselho profissional respectivo. 5. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido.” REsp 796560, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 14/08/2007. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 21 atividade empresarial. Concurso MPSP: os bens individuais do empresário respondem pela dívida empresarial? SIM! Nesses casos não se pode separar bens pessoais e bens da atividade empresarial. Não se pode falar, assim, em desconsideração da personalidade jurídica para o empresário individual. Primeiramente, o empresário não é pessoa jurídica. Além disso, não existe separação (ou divisão) de bens (bens do empresário e bens da empresa). INCAPACIDADE SUPERVENIENTE – mesma regra que se aplica ao menor (art. 974, caput, do CC). “Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança.” OBS.: para que o menor ou incapaz continuem a empresa é necessário: a) Que esteja devidamente assistido ou representado, e b) Autorização judicial (art. 974, §1º, do CC8). QUESTÃO IMPORTANTE: empresário casado precisa de autorização do cônjuge para alienar bens da empresa? A regra geral é do artigo 1647 CC. EXCEÇÃO - não precisa de autorização do cônjuge para vender ou gravar com ônus real bem imóvel que integre patrimônio da empresa, qualquer que seja o regime de bens. “Art. 978. O empresário casado pode, sem necessidade de outorga conjugal, qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa ou gravá-los de ônus real.” O art. 1647 do CC é utilizado parao Direito Civil. No Dir. Empresarial aplica-se a regra do art. 978. Ainda sobre a figura do empresário casado divisão de imóvel (parte da frente é exercida atividade empresarial e nos fundos tem-se a residência 8 § 1o Nos casos deste artigo, precederá autorização judicial, após exame das circunstâncias e dos riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser revogada pelo juiz, ouvidos os pais, tutores ou representantes legais do menor ou do interdito, sem prejuízo dos direitos adquiridos por terceiros. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 22 familiar). Pode-se penhorar esse imóvel? STJ: se o imóvel estiver registrado em nome do empresário individual, não se pode falar em penhora (Lei nº 8.009/1990). Contudo, se estivermos diante de uma sociedade empresária (constituída pelos cônjuges), e o imóvel se encontrar registrado em nome da pessoa jurídica, o imóvel em questão é penhorável. 3.3 - OBRIGAÇÕES DO EMPRESÁRIO 3.3.1 - Registro – art. 967 do CC “Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade.” Registro público de empresas mercantis – Lei nº 8.934/1994. => SINREM (Sistema Nacional de Registro de Empresas Mercantis). O SINREM está dividido em dois órgãos, quais sejam: -DREI (Departamento de Registro Empresarial e Integração). O DREI é um órgão federal. É órgão normatizador e fiscalizador. -Junta Comercial. A Junta Comercial é um órgão estadual. Cada unidade da federação possui uma Junta Comercial. É órgão executor. É na Junta Comercial que se faz o registro do empresário. *OBS.: e se o empresário não se registra? CONSEQUÊNCIAS DA AUSÊNCIA DE REGISTRO: - não poderá pedir falência de terceiros (pode sofrer pedido de falência); - não poderá pleitear recuperação judicial, nem autofalência; - não pode participar de licitação; - tratando-se de sociedade, a responsabilidade dos sócios será ilimitada. *Qual a natureza jurídica do registro do empresário comum? Enunciado 198 do CJF – é meramente declaratório; não possui natureza constitutiva (vide, também, Enunciado 199 do CJF). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 23 “Enunciado 198 do CJF – Art. 967: A inscrição do empresário na Junta Comercial não é requisito para a sua caracterização, admitindo-se o exercício da empresa sem tal providência. O empresário irregular reúne os requisitos do art. 966, sujeitando-se às normas do Código Civil e da legislação comercial, salvo naquilo em que forem incompatíveis com a sua condição ou diante de expressa disposição em contrário.” “Enunciado 199 do CJF – Art. 967: A inscrição do empresário ou sociedade empresária é requisito delineador de sua regularidade, e não da sua caracterização.” Exceção para a obrigação do registro: art. 971 do CC. “Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode, observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro.” Para o empresário rural o registro é de caráter facultativo, e não obrigatório (questão do pequeno produtor e a agroindústria). Se o empresário rural fizer o registro, as regras de Dir. Empresarial serão válidas para ele (= se o empresário rural fizer o registro será considerado empresário, pois terá as mesmas obrigações do empresário). Aqui, o registro tem natureza jurídica distinta! Para o empresário rural, o registro tem natureza jurídica constitutiva. “Enunciado 202 do CJF 202 – Arts. 971 e 984: O registro do empresário ou sociedade rural na Junta Comercial é facultativo e de natureza constitutiva, sujeitando-o ao regime jurídico empresarial. É inaplicável esse regime ao empresário ou sociedade rural que não exercer tal opção.” Pergunta: cabe MS contra ato de Presidente de Junta Comercial? Sim, é cabível MS nesses casos. E de quem é a competência para apreciar o pedido da impetração? Junta Comercial – duas subordinações. São elas: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 24 i) Administrativa, e ii) Técnica. No âmbito administrativo, a Junta está subordinada à unidade federativa. No âmbito técnico, a Junta está subordinada ao DREI. Analisando o que foi dito, o MS deverá ser impetrando junto à Justiça Federal (RExt 199.7939). 3.3.2 - Escrituração dos livros comerciais Pergunta-se: ¿qual é o livro obrigatório comum (livro que todo empresário, a princípio, deve escriturar)? Art. 1180 do CC. “Art. 1.180. Além dos demais livros exigidos por lei, é indispensável o Diário, que pode ser substituído por fichas no caso de escrituração mecanizada ou eletrônica. Parágrafo único. A adoção de fichas não dispensa o uso de livro apropriado para o lançamento do balanço patrimonial e do de resultado econômico.” Há alguma exceção quanto à obrigatoriedade de escrituração? SIM! Art. 1179, §2º, do CC. “Pequeno empresário”. “Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico. § 1o Salvo o disposto no art. 1.180, o número e a espécie de livros ficam a critério dos interessados. § 2o É dispensado das exigências deste artigo o pequeno empresário a que se refere o art. 970.” 9 EMENTA – “Juntas Comerciais. Órgãos administrativamente subordinados ao Estado, mas tecnicamente à autoridade federal, como elementos do sistema nacional dos Serviços de Registro do Comércio. Consequente competência da Justiça Federal para o julgamento de mandado de segurança contra ato do Presidente da Junta, compreendido em sua atividade fim.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 25 E o que é o pequeno empresário? Art. 3º da LC 126/2003 (empresário individual, sociedade empresária, sociedade civil): - Se o faturamento anual é igual ou inferior a 240 mil reais microempresa. - Se o faturamento anual é superior a 240 mil reais, porém inferior ou igual a dois milhões e quatrocentos mil reais empresa de pequeno porte. E o pequeno empresário? Art. 68, da LC nº 123/2006. SÓ PODE SER PEQUENO EMPRESÁRIO A PESSOA FÍSICA. A sociedade não pode ser classificada como pequeno empresário. O que acontece se o empresário não escriturar os livros? Art. 78, da LRE. Se estivermos diante de uma situação de falência, será caso de crime falimentar (omissão dos documentos contábeis obrigatórios). “Art. 178. Deixar de elaborar, escriturar ou autenticar, antes ou depois da sentença que decretar a falência, conceder a recuperação judicial ou homologar o plano de recuperação extrajudicial, os documentos de escrituração contábil obrigatórios: Pena – detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos, e multa, se o fato não constitui crime mais grave.” Qual é o princípio que rege a escrituração dos livros empresariais? Princípio da Sigilosidade – art. 1190 do CC. “Art. 1.190. Ressalvados os casos previstos em lei, nenhuma autoridade, juiz ou tribunal, sob qualquerpretexto, poderá fazer ou ordenar diligência para verificar se o empresário ou a sociedade empresária observam, ou não, em seus livros e fichas, as formalidades prescritas em lei.” Os livros do empresário são sigilosos. São exceções ao Princípio da Sigilosidade: a) EXIBIÇÃO PARCIAL DOS LIVROS – é possível em qualquer hipótese; em qualquer ação judicial. “260, STF: O exame de livros comerciais, em ação judicial, fica limitado às transações entre os litigantes.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 26 b) EXIBIÇÃO TOTAL DOS LIVROS – o juiz só poderá ordenar a exibição total nos casos do art. 1191 do CC: Em caso de sucessão; Sociedade/Comunhão; Administração/Gestão à conta de outrem, e Falência. c) Art. 1193 do CC – não se aplica a sigilosidade às Autoridades Fazendárias quando do exercício da arrecadação tributária. 3.3.3 - Demonstrativos contábeis *Balanço patrimonial (art. 1188 do CC) *Balanço de resultado econômico (art. 1189 do CC) 4 - ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL Estabelecimento empresarial (= estabelecimento comercial) – arts. 1142 ao 1149 do CC. 4.1 - CONCEITO DE ESTABELECIMENTO – ART. 1142 DO CC “Art. 1.142. Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária.” CONJUNTO DE BENS – bens materiais (utensílios, mercadorias, veículo, imóvel) e bens imateriais (ponto comercial, marca, patente, nome empresarial). Exemplo: estabelecimento de um supermercado => IMÓVEL, PRATELEIRAS, CARRINHOS DE COMPRAS, CAMINHÕES PARA ENTREGA, CAIXA REGISTRADORA, ETC. O estabelecimento é o complexo de bens. O estabelecimento é indispensável para o exercício da atividade empresarial. Os bens só serão elementos integrantes do estabelecimento se estiverem diretamente ligados ao exercício da atividade. TRF5ª: valores recebidos a título de aluguéis e aplicados no ativo patrimonial da sociedade empresária – o imóvel destinado à locação não faz parte do estabelecimento, DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 27 pois não está diretamente relacionado à atividade empresarial. Esse imóvel faz parte do patrimônio, mas não do estabelecimento. Pergunta: por ser um conjunto de bens, o estabelecimento é uma universalidade? SIM, o estabelecimento é considerado uma universalidade. É uma universalidade de fato ou universalidade de direito? CUIDADO: há autores que defendem ser uma universalidade de direito, pois o estabelecimento está previsto de forma expressa no Código Civil (art. 1142). Contudo, a posição majoritária é oposta. Afirma a corrente majoritária que o estabelecimento é uma universalidade de fato, pois decorre da vontade do empresário. A universalidade de direito é quando a reunião de bens decorre de uma imposição legal (da vontade do legislador). Estabelecimento é sujeito de direito? NÃO! Quem é sujeito de direito é a sociedade empresarial ou o empresário. O estabelecimento é objeto de direito (pode ser vendido, arrendado, dado como usufruto). Quem explora a atividade é o empresário ou a sociedade empresária (art. 1143 do CC). Alienante-----Adquirente *Contrato: trespasse (compra e venda de estabelecimento empresarial) Art. 1144, CC – para que o contrato de trespasse produza efeitos perante terceiros é necessária sua averbação diante a Junta Comercial e publicação na Imprensa Oficial. “Art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem da inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de Empresas Mercantis, e de publicado na imprensa oficial.” Pergunta-se: ¿o contrato que não tem averbação na Junta Comercial produz efeitos? SIM! Produz efeitos perante as partes. A averbação é necessária para a produção de efeitos perante terceiros. Da realização do contrato em diante, todas as dívidas do estabelecimento são de responsabilidade do adquirente. Pergunta-se: ¿e as dívidas anteriores? O adquirente responde pelas dívidas anteriores? Art. 1146, CC. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 28 “Art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento.” OBS.: se a dívida não estiver devidamente contabilizada, o adquirente não responderá pela sua solvência. OBS.1: dívida trabalhista arts. 10 e 448 da CLT. OBS.2: dívida tributária art. 133 do CTN. Pergunta-se: ¿e o alienante? Não responde? O alienante responderá de forma solidária pelo prazo de 1 (um) ano. -Vencida 1 (um) ano contado da data da publicação. -Vincenda 1 (um) ano contado da data do vencimento. *concorrência: antes do NCC não havia previsão legal quanto a isso. Era necessária a inclusão de uma cláusula no contrato de trespasse proibindo que o alienante fizesse concorrência (cláusula de não restabelecimento). E atualmente? Art. 1147, CC. A cláusula de não restabelecimento está implícita aos contratos de trespasse. “Art. 1.147. Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subseqüentes à transferência. Parágrafo único. No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a proibição prevista neste artigo persistirá durante o prazo do contrato.” 4.2 - PONTO COMERCIAL Proteção ao ponto comercial – OBS.: freguesia X clientela - freguês é aquele que procura o empresário em razão de sua localização (ex.: lanchonete no aeroporto). Cliente é aquele que procura o empresário em razão de suas qualificações. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 29 No aspecto prático não há diferença alguma. Cliente e freguês possuem o mesmo tratamento. *O ponto comercial faz diferença à vida do empresário, por isso a lei o protege. *Ação renovatória (Lei nº 8.245/1991) – finalidade: é a renovação compulsória do contrato de locação empresarial. Para ajuizar a ação renovatória faz-se necessário o preenchimento de determinados requisitos. Art. 51 da Lei 8245/1991 (requisitos cumulativos). “Art. 51. Nas locações de imóveis destinados ao comércio, o locatário terá direito a renovação do contrato, por igual prazo, desde que, cumulativamente: I - o contrato a renovar tenha sido celebrado por escrito e com prazo determinado; II - o prazo mínimo do contrato a renovar ou a soma dos prazos ininterruptos dos contratos escritos seja de cinco anos; III - o locatário esteja explorando seu comércio, no mesmo ramo, pelo prazo mínimo e ininterrupto de três anos. 1º O direito assegurado neste artigo poderá ser exercido pelos cessionários ou sucessores da locação; no caso de sublocação total do imóvel, o direito a renovação somente poderá ser exercido pelo sublocatário. 2º Quando o contrato autorizar que o locatário utilize o imóvel para as atividades de sociedade de que faça parte e que a esta passe a pertencer o fundo de comércio, o direito a renovação poderá ser exercido pelo locatário ou pela sociedade. 3º Dissolvida a sociedade comercial por morte de um dos sócios, o sócio sobrevivente fica sub - rogadono direito a renovação, desde que continue no mesmo ramo. 4º O direito a renovação do contrato estende - se às locações celebradas por indústrias e sociedades civis com fim lucrativo, regularmente constituídas, desde que ocorrentes os pressupostos previstos neste artigo. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 30 5º Do direito a renovação decai aquele que não propuser a ação no interregno de um ano, no máximo, até seis meses, no mínimo, anteriores à data da finalização do prazo do contrato em vigor.” REQUISITOS CUMULATIVOS: -contrato escrito e por prazo determinado. Concurso: e o contrato verbal com duas testemunhas? Também não é válido. -o contrato, ou a soma ininterrupta dos contratos, tem que totalizar prazo contratual mínimo de 5 (cinco) anos. Concurso: NÃO é requisito da renovatória - prazo do último contrato de 5 anos. Na questão é cabível a renovatória, mas isso não é requisito do art. 51 da Lei 8245/1991. -é necessário que o locatário esteja explorando o mesmo ramo de atividade nos últimos 3 (três) anos. *fundo de comércio: a posição minoritária da doutrina entende que fundo de comércio é diferente de estabelecimento (Fábio Ulhoa Coelho). A doutrina majoritária entende que fundo de comércio é o mesmo que estabelecimento. *aviamento (“goodwill”) – potencial de lucratividade do estabelecimento. Oscar Barreto Filho diz que aviamento é atributo do estabelecimento. Esse autor cita o seguinte exemplo: o aviamento está para o estabelecimento, assim como a saúde está para o corpo. O ramo de atividade está relacionado ao ponto comercial. O ponto comercial que é protegido na Lei 8245/1991. Assim, se a atividade não é a mesma nos últimos três anos, não se pode falar em ação renovatória. *na contestação da renovatória o proprietário pode arguir exceção de retomada. Hipóteses de exceção de retomada (art. 52 c/c art. 72 da Lei 8245/199110): 10 “Art. 52. O locador não estará obrigado a renovar o contrato se: I - por determinação do Poder Público, tiver que realizar no imóvel obras que importarem na sua radical transformação; ou para fazer modificações de tal natureza que aumente o valor do negócio ou da propriedade; II - o imóvel vier a ser utilizado por ele próprio ou para transferência de fundo de comércio existente há mais de um ano, sendo detentor da maioria do capital o locador, seu cônjuge, ascendente ou descendente. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 31 quando o poder público solicitar reforma no imóvel que implique em sua radical transformação; quando o próprio locador realizar reforma no imóvel que resulte em sua valorização; proposta melhor de terceiro. O terceiro tem que dar uma declaração por escrito com firma reconhecida. O terceiro, ainda, tem que designar qual é a atividade desenvolvida por ele. Não pode estar no mesmo ramo de atividade econômica. Se for para o mesmo ramo, o locatário tem direito a uma indenização (são devedores dessa indenização o proprietário e o terceiro interessado). 1º Na hipótese do inciso II, o imóvel não poderá ser destinado ao uso do mesmo ramo do locatário, salvo se a locação também envolvia o fundo de comércio, com as instalações e pertences. 2º Nas locações de espaço em shopping centers , o locador não poderá recusar a renovação do contrato com fundamento no inciso II deste artigo. 3º O locatário terá direito a indenização para ressarcimento dos prejuízos e dos lucros cessantes que tiver que arcar com mudança, perda do lugar e desvalorização do fundo de comércio, se a renovação não ocorrer em razão de proposta de terceiro, em melhores condições, ou se o locador, no prazo de três meses da entrega do imóvel, não der o destino alegado ou não iniciar as obras determinadas pelo Poder Público ou que declarou pretender realizar. “Art. 72. A contestação do locador, além da defesa de direito que possa caber, ficará adstrita, quanto à matéria de fato, ao seguinte: I - não preencher o autor os requisitos estabelecidos nesta lei; II - não atender, a proposta do locatário, o valor locativo real do imóvel na época da renovação, excluída a valorização trazida por aquele ao ponto ou lugar; III - ter proposta de terceiro para a locação, em condições melhores; IV - não estar obrigado a renovar a locação (incisos I e II do art. 52). 1° No caso do inciso II, o locador deverá apresentar, em contraproposta, as condições de locação que repute compatíveis com o valor locativo real e atual do imóvel. 2° No caso do inciso III, o locador deverá juntar prova documental da proposta do terceiro, subscrita por este e por duas testemunhas, com clara indicação do ramo a ser explorado, que não poderá ser o mesmo do locatário. Nessa hipótese, o locatário poderá, em réplica, aceitar tais condições para obter a renovação pretendida. 3° No caso do inciso I do art. 52, a contestação deverá trazer prova da determinação do Poder Público ou relatório pormenorizado das obras a serem realizadas e da estimativa de valorização que sofrerá o imóvel, assinado por engenheiro devidamente habilitado. 4° Na contestação, o locador, ou sublocador, poderá pedir, ainda, a fixação de aluguel provisório, para vigorar a partir do primeiro mês do prazo do contrato a ser renovado, não excedente a oitenta por cento do pedido, desde que apresentados elementos hábeis para aferição do justo valor do aluguel. 5° Se pedido pelo locador, ou sublocador, a sentença poderá estabelecer periodicidade de reajustamento do aluguel diversa daquela prevista no contrato renovando, bem como adotar outro indexador para reajustamento do aluguel. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 32 proposta insuficiente; para transferência de fundo de comércio (estabelecimento empresarial) existente há mais de um ano, sendo detentor da maioria do capital o locador, seu cônjuge, ascendente ou descendente. uso próprio. OBS.: os dois últimos casos são os mais cobrados em concursos. OBS.2: posso ajuizar ação renovatória contra shopping center? SIM! O shopping pode alegar exceção de retomada? SIM! Contudo, só poderá alegar a exceção com base nas 4 (quatro) primeiras hipóteses. *prazo de ajuizamento da ação renovatória – é prazo decadencial (art. 51, §5º, da Lei 8245/1991). É preciso saber o início e o término do contrato de locação. Faltando um ano para o fim do contrato já é possível ajuizar a ação renovatória. Mas atenção: faltando 6 meses para o término do contrato não se pode falar em renovatória! “Art. 51. Nas locações de imóveis destinados ao comércio, o locatário terá direito a renovação do contrato, por igual prazo, desde que, cumulativamente: (...) 5º Do direito a renovação decai aquele que não propuser a ação no interregno de um ano, no máximo, até seis meses, no mínimo, anteriores à data da finalização do prazo do contrato em vigor.” OBS.: sublocação – para ser feita é necessária a anuência do proprietário. Exemplo: o locatário tinha uma locadora de vídeo. Retira-se do imóvel para que um sublocatário explore atividade de lan house. Pergunta-se: ¿cabe ação renovatória? SIM! Se o sublocatário preencher todos os requisitos ele poderá ajuizar a ação renovatória - é o sublocatário, pois a ação visa proteger quem temo ponto remoto (art. 51, §1º, da Lei 8245/1991). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 33 5 - NOME EMPRESARIAL É elemento de identificação do empresário ou da sociedade empresária. A proteção ao nome empresarial tem previsão constitucional (art. 5º, XXIX, da CF/1988): “XXIX - a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País;” *Modalidades de nome empresarial – art. 1155, CC. -Firma (a firma será individual ou social). *Razão social é o mesmo que firma social. -Denominação. 5.1 - FIRMA a. Individual – só se aplica para o empresário individual (só a pessoa física - art. 1156 CC11). É o nome do empresário, que pode ser completo ou abreviado. É facultado ao empresário acrescentar uma designação mais precisa de sua pessoa ou do gênero de atividade. Exemplo: André Barreto; A. Barreto; A. Barreto, o Gigante. b. Social ou razão social – somente para as sociedades empresariais. Só se aplica para a sociedade que tem sócio ou sócios com responsabilidade ilimitada (art. 1157 CC). Ex. sociedade em comandita simples e a sociedade em nome coletivo. É composta pelo nome (s) do (s) sócio (s). O nome poderá ser completo ou abreviado. Firma social é utilizada para sociedades com sócio respondendo ilimitadamente (só os que possuem responsabilidade ilimitada é que podem estar no nome empresarial). 11 “Art. 1.156. O empresário opera sob firma constituída por seu nome, completo ou abreviado, aditando- lhe, se quiser, designação mais precisa da sua pessoa ou do gênero de atividade.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 34 Quando o sócio tem responsabilidade limitada, será o caso de aplicação de denominação (SA e LTDA). 5.2 - DENOMINAÇÃO Somente para as sociedades. Aplicada para sociedades que têm responsabilidade limitada. Na denominação é possível utilizar o nome de um sócio como forma de homenagem. Na designação é obrigatória a descrição do ramo explorado. Exemplos de soc. empresárias que usam denominação: sociedade anônima e sociedade limitada. EXCEÇÃO – art. 1158, CC12 – sociedade limitada pode ter também firma social, desde que tenha a palavra limitada abreviada na parte final, por extenso ou abreviado. A proteção ao nome empresarial decorre automaticamente do registro do empresário ou da sociedade empresária na junta comercial. 5.3 - NOME EMPRESARIAL X MARCA NOME EMPRESARIAL X MARCA – o nome identifica um empresário ou uma soc. empresária. A marca identifica o produto ou o serviço. A marca, para ser protegida, precisa de registro no INPI, ao passo que o nome empresarial precisa de registro na Junta Comercial. Por vezes, determinadas marcas são idênticas ou muito similares a nomes empresariais, havendo um conflito, cuja solução demanda certa dificuldade, na medida em que são bens registrados em órgãos diferentes, e com fins diversos. 12 “Art. 1.158. Pode a sociedade limitada adotar firma ou denominação, integradas pela palavra final "limitada" ou a sua abreviatura. § 1o A firma será composta com o nome de um ou mais sócios, desde que pessoas físicas, de modo indicativo da relação social. § 2o A denominação deve designar o objeto da sociedade, sendo permitido nela figurar o nome de um ou mais sócios. § 3o A omissão da palavra "limitada" determina a responsabilidade solidária e ilimitada dos administradores que assim empregarem a firma ou a denominação da sociedade.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 35 Em primeiro lugar, há que se indagar se a marca é notória ou de alto renome. Em caso afirmativo, prevalece a marca, não importando o ramo de atuação do titular do nome comercial conflitante, ou até mesmo de outra marca conflitante. Nesse caso, a notoriedade da marca traz consigo uma boa reputação e um prestígio, que não podem ser colocados em jogo. Não se tratando de uma marca notória, incide o Princípio da Especificidade, vale dizer, deve-se determinar o ramo de atuação das empresas litigantes, e caso não haja confusão permitir a convivência. Conforme já afirmou o STJ, “se distintos, de molde a não importar confusão, nada obsta possam conviver concomitantemente no universo mercantil.” Caso atuem no mesmo ramo, havendo uma confusão pela convivência da marca e do nome, prevalece o princípio da novidade, ou seja, prevalece a anterioridade do registro. OBS.: esse mesmo princípio tem sido adotado para o conflito entre marcas e nomes de domínio. Qual é o âmbito de proteção do nome empresarial? Como o nome é registrado na Junta - órgão estadual -, a proteção é regional, e não federal (art. 1166, CC). Vide REsp 758.59713: 13 “MARCA. ALTO RENOME. PROTEÇÃO. DENOMINAÇÃO. ASSOCIAÇÃO. A recorrente, associação civil sem fins lucrativos voltada para a defesa dos ex-distribuidores de conhecida montadora de automóveis, buscava, com o especial, ver mantida, em sua denominação social, a marca utilizada por aquela sociedade. Diante disso, a Turma, ao prosseguir o julgamento, após o voto de desempate do Min. Jorge Scartezzini (convocado da Quarta Turma), entendeu, por maioria, não conhecer do especial. O Min. Ari Pargendler, Relator para o acórdão, aduziu que, sendo a marca objeto de propriedade, seu titular tem o direito exclusivo de seu uso quando, registrada no país, for considerada de alto renome (art. 125 da Lei n. 9.279/1996) ou for de notório conhecimento em seu ramo de atividade (art. 126 do mesmo diploma), tal como se dá na hipótese. Assim, desinfluente apurar se o uso por terceiro desautorizado deu-se com objetivos comerciais ou não, pois, em qualquer dos casos, o uso é resguardado. O Min. Jorge Scartezzini, por sua vez, anotou que há a extensão da proteção denominativa às sociedades simples, associações e fundações frente a quaisquer sociedades, empresárias ou não (art. 5º, XXIX, da CF/1988 e art. 1.155, parágrafo único, do CC/2002). Assim, em respeito ao princípio constitucional da isonomia, é forçoso reconhecer-se a veracidade da recíproca, o imprescindível resguardo legal do nome das sociedades empresárias frente à denominação de uma sociedade simples, associação ou fundação. Asseverou, também, que, quanto às marcas notórias, há que se resguardar, também, sua reputação (GOODWILL), elemento essencial que pode ser violado pelas atividades associativas da recorrente, mesmo que desprovidas de caráter lucrativo. REsp 758.597-DF, Rel. originário Min. Castro Filho, Rel. para acórdão Min. Ari Pargendler, julgado em 18/4/2006.” (Info 281) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 36 “MARCA. USO INDEVIDO, POR ASSOCIAÇÃO DE EX-REVENDEDORES, DA MARCA “FORD”. Sendo a marca objeto de propriedade, seu titular tem o direito exclusivo ao respectivo uso em qualquer âmbito, sempre que, registrada no Brasil, for considerada de alto renome (Lei nº 9.279/96, art. 125) ou for notoriamente conhecida em seu ramo de atividade (art. 126); quem a usa para reunir forças contra o seu titular viola a proteção que a lei confere à marca. Recurso especial não conhecido.” 5.4 - PRINCÍPIOS DO NOMEEMPRESARIAL Veracidade e novidade. Veracidade (art. 1163, CC) TJMG: autenticidade. Impõe que a firma individual, ou firma social, seja composta a partir do nome do empresário ou do sócio. OBS.: em caso de falecimento do sócio, o nome do sócio falecido tem que ser retirado do nome empresarial (art. 1165, CC). A jurisprudência tem proibido nome empresarial que não corresponde à verdade dos fatos (objeto social explorado). Isso tudo objetiva a proteção do consumidor (evitar o induzimento do consumidor a erro). Pergunta-se: ¿o nome empresarial é alienável? Não! O nome empresarial é inalienável (art. 1164, CC). OBS.: nome empresarial não é o “apelido comercial” do estabelecimento. Exemplo: CIA Brasileira de Distribuição é nome empresarial. Pão de Açúcar é o Título de Estabelecimento. OBS.: propriedade industrial – a propriedade industrial está prevista na Lei 9279/1996. Da mesma forma, a CF/1988 prevê sua proteção no art. 5º, XXIX, CF/1988 (“privilégio temporário”). A prop. intelectual está dividida em direito autoral (matéria de Direito Civil) e propriedade industrial. Objetivo da Lei de Prop. Industrial: garantir a exclusividade de uso. Pergunta-se: garantir a exclusividade de uso de quê? Quais os bens protegidos por essa lei? SÃO BENS MÓVEIS. Frase mnemônica: “Pa/re! Ih, me dei mal. Caiu propriedade industrial.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 37 I- Invenção PATENTE M- Modelo de utilidade D- Desenho industrial REGISTRO M- Marca ATENÇÃO: programa de computador é protegido por Direitos Autorais, e não propriedade industrial. Tanto a patente, quanto o registro, só serão obtidos no INPI – Instituto Nacional de Propriedade Industrial. *Prazo da exclusividade: INVENÇÃO (‘invenção, cadê você? Vim te ver, vim te ver!’ 20 ANOS) MODELO (‘via de regra, com quantos anos uma modelo começa sua carreira?’ 15 ANOS) DESENHO e MARCA – 10 ANOS *Todos os prazos (20, 15 e 10 anos – invenção, modelo e desenho industrial) são contados da data do depósito. O prazo da marca é contado da concessão. Invenção e modelo são improrrogáveis. PATENTE é IMPRORROGÁVEL. Exemplo: quebra de patente de remédio. O REGISTRO admite PRORROGAÇÃO. O desenho industrial pode ser prorrogado por até 3 (três) vezes. Cada vez que se prorroga, equivale a 5 anos de prorrogação. Após a terceira prorrogação, “cai em domínio público”. A MARCA não tem limite de prorrogação. A prorrogação será, sempre, por igual período (de dez em dez anos). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 38 5.4.1 - BENS PATENTEÁVEIS BENS PATENTEÁVEIS Invenção - requisitos da invenção (art. 8º): a)NOVIDADE b)ATIVIDADE INVENTIVA c)APLICAÇÃO INDUSTRIAL d) NÃO IMPEDIMENTO NOVIDADE: art. 11 da Lei 9279/199614. É aquilo que não está compreendido no estado da técnica. ATIVIDADE INVENTIVA: art. 13 da Lei 9279/199615. Sempre que para um especialista no assunto não decorra, de maneira óbvia e evidente, do estado da técnica. Exemplo: liquid paper. Não existia nada parecido, apenas a borracha. APLICAÇÃO INDUSTRIAL NÃO IMPEDIMENTO: art. 18 da Lei 9279/199616. 14 “Art. 11. A invenção e o modelo de utilidade são considerados novos quando não compreendidos no estado da técnica. § 1º O estado da técnica é constituído por tudo aquilo tornado acessível ao público antes da data de depósito do pedido de patente, por descrição escrita ou oral, por uso ou qualquer outro meio, no Brasil ou no exterior, ressalvado o disposto nos arts. 12, 16 e 17. § 2º Para fins de aferição da novidade, o conteúdo completo de pedido depositado no Brasil, e ainda não publicado, será considerado estado da técnica a partir da data de depósito, ou da prioridade reivindicada, desde que venha a ser publicado, mesmo que subseqüentemente. § 3º O disposto no parágrafo anterior será aplicado ao pedido internacional de patente depositado segundo tratado ou convenção em vigor no Brasil, desde que haja processamento nacional.” 15 “Art. 13. A invenção é dotada de atividade inventiva sempre que, para um técnico no assunto, não decorra de maneira evidente ou óbvia do estado da técnica.” 16 “Art. 18. Não são patenteáveis: I - o que for contrário à moral, aos bons costumes e à segurança, à ordem e à saúde públicas; II - as substâncias, matérias, misturas, elementos ou produtos de qualquer espécie, bem como a modificação de suas propriedades físico-químicas e os respectivos processos de obtenção ou modificação, quando resultantes de transformação do núcleo atômico; e (evitar bomba atômica) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 39 OBS.: Decreto 6108/2007 – “quebra de patente”. É errado utilizar essa expressão. O correto é: “licença compulsória”, com previsão no art. 71 da Lei 9279/1996. Invenção: -Requisitos da invenção: a) novidade – art. 11 da L. 9279/1996. É aquilo que não está compreendido no estado da técnica. “Art. 11. A invenção e o modelo de utilidade são considerados novos quando não compreendidos no estado da técnica. § 1º O estado da técnica é constituído por tudo aquilo tornado acessível ao público antes da data de depósito do pedido de patente, por descrição escrita ou oral, por uso ou qualquer outro meio, no Brasil ou no exterior, ressalvado o disposto nos arts. 12, 16 e 17. § 2º Para fins de aferição da novidade, o conteúdo completo de pedido depositado no Brasil, e ainda não publicado, será considerado estado da técnica a partir da data de depósito, ou da prioridade reivindicada, desde que venha a ser publicado, mesmo que subseqüentemente. § 3º O disposto no parágrafo anterior será aplicado ao pedido internacional de patente depositado segundo tratado ou convenção em vigor no Brasil, desde que haja processamento nacional. b) atividade inventiva – sempre que, para um especialista do assunto, não decorra de maneira óbvia, ou evidente, do estado da técnica. c) aplicação industrial – só quando é possível a industrialização. III - o todo ou parte dos seres vivos, exceto os microorganismos transgênicos que atendam aos três requisitos de patenteabilidade - novidade, atividade inventiva e aplicação industrial - previstos no art. 8º e que não sejam mera descoberta. Parágrafo único. Para os fins desta Lei, microorganismos transgênicos são organismos, exceto o todo ou parte de plantas ou de animais, que expressem, mediante intervenção humana direta em sua composição genética, uma característica normalmente não alcançável pela espécie em condições naturais.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 40 d) não pode ter impedimento legal – os impedimentos para a invenção estão no art. 18 da L. 9279/1996. “Art. 18. Não são patenteáveis: I - o que for contrário à moral, aos bons costumes e à segurança, à ordem e à saúde públicas; II - as substâncias, matérias, misturas, elementos ou produtos de qualquer espécie, bem como a modificação de suas propriedades físico-químicas e os respectivos processos de obtenção ou modificação, quando resultantes de transformação do núcleo atômico; e (evitar a criação de armas atômicas) III- o todo ou parte dos seres vivos, exceto os microorganismos transgênicos que atendam aos três requisitos de patenteabilidade - novidade, atividade inventiva e aplicação industrial - previstos no art. 8º e que não sejam mera descoberta. (microorganismo transgênico pode ser patenteável) Parágrafo único. Para os fins desta Lei, microorganismos transgênicos são organismos, exceto o todo ou parte de plantas ou de animais, que expressem, mediante intervenção humana direta em sua composição genética, uma característica normalmente não alcançável pela espécie em condições naturais.” ATENÇÃO: QUEBRA DE PATENTE DE REMÉDIO - está correta essa expressão? NÃO! O que ocorre, na verdade, é a chamada licença compulsória – previsão no art. 71 da L. 9279/1996. (ver D. 6108/2007) “Art. 71. Nos casos de emergência nacional ou interesse público, declarados em ato do Poder Executivo Federal, desde que o titular da patente ou seu licenciado não atenda a essa necessidade, poderá ser concedida, de ofício, licença compulsória, temporária e não exclusiva, para a exploração da patente, sem prejuízo dos direitos do respectivo titular. (Regulamento) Parágrafo único. O ato de concessão da licença estabelecerá seu prazo de vigência e a possibilidade de prorrogação.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 41 -> Outro laboratório pode produzir, uma vez que aquele que possuía a patente não estava conseguindo atender a demanda (interesse público ou emergência nacional). -> A licença compulsória é não-exclusiva. -> Declaração por ato do Poder Executivo Federal. -> Não haverá prejuízo do titular da patente. *Modelo de utilidade: Art. 9º da L. 9279/1996: “Art. 9º É patenteável como modelo de utilidade o objeto de uso prático, ou parte deste, suscetível de aplicação industrial, que apresente nova forma ou disposição, envolvendo ato inventivo, que resulte em melhoria funcional no seu uso ou em sua fabricação.” Algo é criado para melhorar um invento já existente (= melhoria funcional). 5.4.2 - BENS REGISTRÁVEIS BENS REGISTRÁVEIS *Desenho Industrial: Art. 95 da L. 9279/1996: “Art. 95. Considera-se desenho industrial a forma plástica ornamental de um objeto ou o conjunto ornamental de linhas e cores que possa ser aplicado a um produto, proporcionando resultado visual novo e original na sua configuração externa e que possa servir de tipo de fabricação industrial.” (grifos) A doutrina chama o desenho industrial de “desenho fútil”. É o que convencionalmente se chama de design. O desenho industrial não traz uma utilidade. É referente à estética. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 42 *Marca: Art. 122 da L. 9279/1996 “Art. 122. São suscetíveis de registro como marca os sinais distintivos visualmente perceptíveis, não compreendidos nas proibições legais.” A marca está relacionada com diferenciação. A finalidade da marca é provocar a distinção entre produtos e serviços. A marca é um sinal distintivo visualmente perceptível! Assim, um sinal sonoro não pode ser registrado como marca. -Requisitos da marca: a) novidade – é novidade relativa, e não absoluta. b) não colidência com marca notória. ¿O que é marca notória? É aquela de reconhecimento de todos; dotada de reconhecimento internacional. OBS.: da mesma forma que no Processo Civil, no Dir. Empresarial a marca notória independe de registro. A marca notória independe de registro no país. Isso porque o Brasil é signatário da Convenção da União de Paris (art. 6º da Convenção – os países signatários devem proteger as marcas notórias). Art. 126 da L. 9279/1996: “Art. 126. A marca notoriamente conhecida em seu ramo de atividade nos termos do art. 6º bis (I), da Convenção da União de Paris para Proteção da Propriedade Industrial, goza de proteção especial, independentemente de estar previamente depositada ou registrada no Brasil. § 1º A proteção de que trata este artigo aplica-se também às marcas de serviço. § 2º O INPI poderá indeferir de ofício pedido de registro de marca que reproduza ou imite, no todo ou em parte, marca notoriamente conhecida.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 43 ATENÇÃO: marca de alto renome – art. 125 da L. 9279/1996. “Art. 125. À marca registrada no Brasil considerada de alto renome será assegurada proteção especial, em todos os ramos de atividade.” MARCA NOTÓRIA X MARCA DE ALTO RENOME: Marca notória Alto renome -Internacional -Nacional -Só para o ramo de atividade -Em todos os ramos de atividade -Não precisa de registro -Precisa de registro c) não impedimento – art. 124 da L. 9279/1996. “Art. 124. Não são registráveis como marca: I - brasão, armas, medalha, bandeira, emblema, distintivo e monumento oficiais, públicos, nacionais, estrangeiros ou internacionais, bem como a respectiva designação, figura ou imitação; (é possível utilizar para o marketing) II - letra, algarismo e data, isoladamente, salvo quando revestidos de suficiente forma distintiva; III - expressão, figura, desenho ou qualquer outro sinal contrário à moral e aos bons costumes ou que ofenda a honra ou imagem de pessoas ou atente contra liberdade de consciência, crença, culto religioso ou ideia e sentimento dignos de respeito e veneração; IV - designação ou sigla de entidade ou órgão público, quando não requerido o registro pela própria entidade ou órgão público; (v.g.: curso jurídico STF) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 44 V - reprodução ou imitação de elemento característico ou diferenciador de título de estabelecimento ou nome de empresa de terceiros, suscetível de causar confusão ou associação com estes sinais distintivos; VI - sinal de caráter genérico, necessário, comum, vulgar ou simplesmente descritivo, quando tiver relação com o produto ou serviço a distinguir, ou aquele empregado comumente para designar uma característica do produto ou serviço, quanto à natureza, nacionalidade, peso, valor, qualidade e época de produção ou de prestação do serviço, salvo quando revestidos de suficiente forma distintiva; VII - sinal ou expressão empregada apenas como meio de propaganda; VIII - cores e suas denominações, salvo se dispostas ou combinadas de modo peculiar e distintivo; IX - indicação geográfica, sua imitação suscetível de causar confusão ou sinal que possa falsamente induzir indicação geográfica; (v.g.: não posso chamar um perfume de Santo André, de perfume francês) X - sinal que induza a falsa indicação quanto à origem, procedência, natureza, qualidade ou utilidade do produto ou serviço a que a marca se destina; XI - reprodução ou imitação de cunho oficial, regularmente adotada para garantia de padrão de qualquer gênero ou natureza; XII - reprodução ou imitação de sinal que tenha sido registrado como marca coletiva ou de certificação por terceiro, observado o disposto no art. 154; XIII - nome, prêmio ou símbolo de evento esportivo, artístico, cultural, social, político, econômico ou técnico, oficial ou oficialmente reconhecido, bem como a imitação suscetível de criar confusão, salvo quando autorizados pela autoridade competente ou entidade promotora do evento; XIV - reprodução ou imitação de título, apólice, moeda e cédula da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios, dos Municípios, ou de país; DIREITOEMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 45 XV - nome civil ou sua assinatura, nome de família ou patronímico e imagem de terceiros, salvo com consentimento do titular, herdeiros ou sucessores; XVI - pseudônimo ou apelido notoriamente conhecidos, nome artístico singular ou coletivo, salvo com consentimento do titular, herdeiros ou sucessores; XVII - obra literária, artística ou científica, assim como os títulos que estejam protegidos pelo direito autoral e sejam suscetíveis de causar confusão ou associação, salvo com consentimento do autor ou titular; XVIII - termo técnico usado na indústria, na ciência e na arte, que tenha relação com o produto ou serviço a distinguir; XIX - reprodução ou imitação, no todo ou em parte, ainda que com acréscimo, de marca alheia registrada, para distinguir ou certificar produto ou serviço idêntico, semelhante ou afim, suscetível de causar confusão ou associação com marca alheia; XX - dualidade de marcas de um só titular para o mesmo produto ou serviço, salvo quando, no caso de marcas de mesma natureza, se revestirem de suficiente forma distintiva; XXI - a forma necessária, comum ou vulgar do produto ou de acondicionamento, ou, ainda, aquela que não possa ser dissociada de efeito técnico; XXII - objeto que estiver protegido por registro de desenho industrial de terceiro; e XXIII - sinal que imite ou reproduza, no todo ou em parte, marca que o requerente evidentemente não poderia desconhecer em razão de sua atividade, cujo titular seja sediado ou domiciliado em território nacional ou em país com o qual o Brasil mantenha acordo ou que assegure reciprocidade de tratamento, se a marca se destinar a distinguir produto ou serviço idêntico, semelhante ou afim, suscetível de causar confusão ou associação com aquela marca alheia.” *Formas de extinção da propriedade industrial: 1) Expiração do prazo de vigência; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 46 2) Caducidade 17 – (muito cobrado em concurso). Se o titular da marca deixar de usá-la por mais de 5 anos, há configuração de caducidade da marca; 3) Falta de pagamento de retribuição anual; 4) Renúncia; 5) Inobservância do art. 217 (“A pessoa domiciliada no exterior deverá constituir e manter procurador devidamente qualificado e domiciliado no País, com poderes para representá-la administrativa e judicialmente, inclusive para receber citações.”) OBS.: aspectos processuais – PATENTE -nulidade no âmbito administrativo – prazo de 06 meses da concessão da patente. -nulidade no âmbito judicial – enquanto a patente for vigente. DESENHO INDUSTRIAL -nulidade no âmbito administrativo – prazo de 05 anos da concessão. -nulidade no âmbito judicial – enquanto for vigente o desenho industrial. MARCA 17 “PROPRIEDADE INTELECTUAL, INDUSTRIAL E PROCESSUAL CIVIL. MARCAS E PATENTES . "JUEGO DEL MILLION" X "JOGO DO MILHÃO". FATO SUPERVENIENTE. ART. 462 DO CPC. CADUCIDADE. ARTS. 142 E 143 DA LEI DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL. SISTEMA DECLARATIVO. CADUCIDADE. EFEITOS EX TUNC. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PROVIDO. 1. Após a propositura da ação, se algum fato constitutivo, modificativo ou extintivo do direito influir no julgamento do litígio, compete ao magistrado apreciá-lo, até de ofício, no momento do julgamento (art. 462 do Código de Processo Civil). 2. O detentor da marca registrada perderá o registro, por caducidade, se a requerimento de qualquer pessoa com legítimo interesse e decorridos 5 (cinco) anos da sua concessão, o uso da marca não tiver sido iniciado no Brasil ou se o uso tiver sido interrompido por mais de 5 (cinco) anos consecutivos, ou, ainda, se, no mesmo prazo, a marca tiver sido usada com modificação, que implique alteração de seu caráter distintivo original, tal como constante do certificado de registro (Lei de Propriedade Industrial, art. 143, incisos I e II). 3. Vige no Brasil o sistema declarativo de proteção de marcas e patentes, que prioriza aquele que primeiro fez uso da marca, constituindo o registro no órgão competente mera presunção, que se aperfeiçoa pelo uso. 4. Recurso especial conhecido e provido.” (STJ, REsp 964780, Min. Rel. Hélio Quaglia Barbosa, T4, DJU 24 SET 2007) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 47 -anulação no âmbito administrativo – 180 dias (art. 169 da L. 9279/1996) da expedição do certificado de registro. -nulidade no âmbito judicial – 05 anos a contar da data da concessão. IMPORTANTE: *Competência da Justiça Federal para analisar o pedido de nulidade de patente. Se o INPI não for o autor da ação, deverá intervir no processo. *Prazo de contestação de uma ação de nulidade de patente: 60 dias. 6 - DIREITO SOCIETÁRIO 6.1 - ELEMENTOS ESPECÍFICOS DE UMA SOCIEDADE (art. 981 CC): “Art. 981. Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. Parágrafo único. A atividade pode restringir-se à realização de um ou mais negócios determinados.” i. Pluralidade de sócios – só pode ter sociedade com dois ou mais sócios. EXCEÇÃO – sociedade unipessoal (1 sócio): Unipessoalidade originária – art. 251 S/A – subsidiária integral – 1 acionista necessariamente brasileiro. Unipessoalidade incidental – prazo de 180 dias para colocar outro sócio em uma limitada. Na SA é entre uma assembleia e outra. (art. 1033, IV, CC e art. 206 SA). ii. Affectio societatis – ajuste de vontade entre os sócios. iii. Partilha dos resultados (art. 1008 CC) – é nula a cláusula que exclui um dos sócios da partilha dos lucros e perdas. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 48 iv. Os sócios devem contribuir com a formação do capital social – valor destinado para a exploração da atividade eocnomica da sociedade, provindo dos sócios. 6.2 - VISÃO GERAL DAS SOCIEDADES *Sociedades personificadas – possuem personalidade jurídica. Ao adquirir pers. jurídica, a sociedade passa a ter 03 (três) atributos, quais sejam: i) Titularidade negocial – realizar negócio jurídico; ii) Titularidade processual, e iii) Autonomia patrimonial – patrimônio próprio, distinto do patrimônio dos sócios. *Sociedades não personificadas – não possuem personalidade jurídica. 6.3 - SOCIEDADES NÃO PERSONIFICADAS 6.3.1 - SOCIEDADE EM COMUM É aquela que não teve inscrito seu ato constitutivo; não foi levada a registro. “Art. 986. Enquanto não inscritos os atos constitutivos, reger-se-á a sociedade, exceto por ações em organização, pelo disposto neste Capítulo, observadas, subsidiariamente e no que com ele forem compatíveis, as normas da sociedade simples. Art. 987. Os sócios, nas relações entre si ou com terceiros, somente por escrito podem provar a existência da sociedade, mas os terceiros podem prová-la de qualquer modo. Art. 988. Os bens e dívidas sociais constituem patrimônio especial, do qual os sócios são titulares em comum. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 49 Art. 989. Os bens sociais respondem pelos atos de gestão praticados por qualquer dos sócios, salvo pacto expresso limitativo de poderes, que somente terá eficácia contra o terceiro que o conheça ou deva conhecer. Art. 990. Todos os sócios respondem solidáriae ilimitadamente pelas obrigações sociais, excluído do benefício de ordem, previsto no art. 1.024, aquele que contratou pela sociedade.” 6.3.2 - RESPONSABILIDADE DO SÓCIO NA SOCIEDADE EM COMUM A responsabilidade é ilimitada e solidária: “Art. 990. Todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais, excluído do benefício de ordem, previsto no art. 1.024, aquele que contratou pela sociedade.” ATENÇÃO: Responsabilidade do SÓCIO perante a SOCIEDADE – a responsabilidade, aqui, é subsidiária. É essa a regra do art. 1024 do CC (“Os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dividas da sociedade, senão depois de executados os bens sociais”). Responsabilidade do SÓCIO perante os demais SÓCIOS – a responsabilidade, aqui, é solidária. 6.3.3 - CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS Patrimônio especial – art. 988 do CC. Os bens e dívidas sociais constituem patrimônio especial, do qual os sócios são titulares em comum. “Art. 988. Os bens e dívidas sociais constituem patrimônio especial, do qual os sócios são titulares em comum.” Possibilidade de posterior registro – art. 985 do CC. “Art. 985. A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscrição, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos constitutivos (arts. 45 e 1.150).” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 50 6.3.4 - SOCIEDADE EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO “Art. 991. Na sociedade em conta de participação, a atividade constitutiva do objeto social é exercida unicamente pelo sócio ostensivo, em seu nome individual e sob sua própria e exclusiva responsabilidade, participando os demais (sócios participantes) dos resultados correspondentes. Parágrafo único. Obriga-se perante terceiro tão-somente o sócio ostensivo; e, exclusivamente perante este, o sócio participante, nos termos do contrato social.” “Art. 992. A constituição da sociedade em conta de participação independe de qualquer formalidade e pode provar-se por todos os meios de direito.” “Art. 993. O contrato social produz efeito somente entre os sócios, e a eventual inscrição de seu instrumento em qualquer registro não confere personalidade jurídica à sociedade. Parágrafo único. Sem prejuízo do direito de fiscalizar a gestão dos negócios sociais, o sócio participante não pode tomar parte nas relações do sócio ostensivo com terceiros, sob pena de responder solidariamente com este pelas obrigações em que intervier.” “Art. 994. A contribuição do sócio participante constitui, com a do sócio ostensivo, patrimônio especial, objeto da conta de participação relativa aos negócios sociais. § 1o A especialização patrimonial somente produz efeitos em relação aos sócios. § 2o A falência do sócio ostensivo acarreta a dissolução da sociedade e a liquidação da respectiva conta, cujo saldo constituirá crédito quirografário. § 3o Falindo o sócio participante, o contrato social fica sujeito às normas que regulam os efeitos da falência nos contratos bilaterais do falido.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 51 “Art. 995. Salvo estipulação em contrário, o sócio ostensivo não pode admitir novo sócio sem o consentimento expresso dos demais.” “Art. 996. Aplica-se à sociedade em conta de participação, subsidiariamente e no que com ela for compatível, o disposto para a sociedade simples, e a sua liquidação rege-se pelas normas relativas à prestação de contas, na forma da lei processual. Parágrafo único. Havendo mais de um sócio ostensivo, as respectivas contas serão prestadas e julgadas no mesmo processo.” 6.3.5 - MODALIDADES DE SÓCIOS NAS SOC. EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO Sócio ostensivo – é o único que exerce o objeto social. Possui responsabilidade exclusiva. Age em seu nome individual. Somente o sócio ostensivo responde perante terceiros. -Sócio participante (a doutrina também chama de sócio oculto) – é aquele que participa dos resultados correspondentes. Não tem nenhum tipo de responsabilidade. ATENÇÃO – quem figura no polo passivo ou ativo é o sócio ostensivo, que pode ser pessoa física ou pessoa jurídica. 6.3.6 - IMPOSSIBILIDADE DE REGISTRO DA SOC. EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO Art. 993 do CC: “Art. 993. O contrato social produz efeito somente entre os sócios, e a eventual inscrição de seu instrumento em qualquer registro não confere personalidade jurídica à sociedade. Parágrafo único. Sem prejuízo do direito de fiscalizar a gestão dos negócios sociais, o sócio participante não pode tomar parte nas relações do sócio ostensivo com terceiros, sob pena de responder solidariamente com este pelas obrigações em que intervier.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 52 Observações: -O contrato social produz efeito somente entre os sócios. -Eventual inscrição de seu instrumento em qualquer registro não confere personalidade jurídica à sociedade. 6.4 - SOCIEDADES PERSONIFICADAS 6.4.1 - SOCIEDADE EMPRESÁRIA – ART. 982 DO CC É aquela que tem por objeto o exercício da atividade própria de empresário sujeito a registro. ORGANIZAÇÃO - art. 966 do CC – reunião dos quatro fatores de produção (mão de obra, matéria prima, tecnologia e capital). 6.4.2 - SOCIEDADE SIMPLES É a sociedade tida por não empresária. Aqui, por exclusão, devemos observar a organização empresarial já citada no item acima. Art. 966, p. único do CC: “Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa.” De acordo com o art. 983 do CC, a sociedade empresária deve constituir-se segundo um dos seguintes tipos: 1) Sociedade em nome coletivo 2) Sociedade em comandita simples 3) Sociedade em comandita por ações 4) Sociedade Anônima DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 53 5) Sociedade Limitada “Art. 983. A sociedade empresária deve (norma cogente) constituir-se segundo um dos tipos regulados nos arts. 1.039 a 1.092; a sociedade simples pode constituir-se de conformidade com um desses tipos, e, não o fazendo, subordina-se às normas que lhe são próprias. Parágrafo único. Ressalvam-se as disposições concernentes à sociedade em conta de participação e à cooperativa, bem como as constantes de leis especiais que, para o exercício de certas atividades, imponham a constituição da sociedade segundo determinado tipo.” A redação do art. 983, caput, in fine, do CC traz que a soc. simples pode constituir-se de qualquer um dos tipos. Mas CUIDADO, pois as sociedades por ações serão sempre empresárias (art. 982, p. único, CC). Sociedade simples 1) Sociedade em nome coletivo 2) Sociedade em comandita simples 3) Sociedade limitada 4) Cooperativas 5) Sociedade simples pura (é aquela que observa as regras das soc. simples) Se a soc. simples não escolher uma das formas acima, atenderá aos dispostos do Capítulo das Sociedades Simples (art. 997 e seguintes do CC). OBS.: as regras da sociedade simples são chamadas pela doutrina de “Teoria Geral do Direito Societário” (ver art. 1040 e art. 1053 do CC). *Art. 1150 do CC – registro das sociedades. Se for uma sociedadeempresária, o registro tem que ser na junta comercial. Se for uma sociedade simples, o registro deve ser no Registro Civil de Pessoa Jurídica. EXCEÇÕES: sociedade de advogados – o registro deve ser feito na OAB. A cooperativa, mesmo sendo soc. simples, deve ser registrada na Junta Comercial. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 54 6.4.3 - CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES PERSONIFICADAS 1) Sociedade de pessoa ou sociedade de capital – critério: Leva-se em conta o grau de dependência da sociedade em relação às qualidades subjetivas dos sócios. *capital *affectio societatis 2) Sociedade contratual ou sociedade institucional – critério: Regime de constituição e dissolução do vínculo societário. CONTRATO SOCIAL - LTDA ESTATUTO SOCIAL - S/A *Estatuto social - aplicação da L. 6404/1976. *Contrato social - aplicação dos princípios contratuais do Código Civil. 3) Sociedade com responsabilidade ilimitada, soc. com respons. limitada e soc. com respons. mista – critério: Responsabilidade do sócio pelas obrigações da sociedade. *Ilimitada – o sócio responderá de forma ilimitada (responde com seu patrimônio pessoal pelas dívidas da pessoa jurídica). *Limitada – o patrimônio pessoal do sócio não responde pelas dívidas sociais. *Mista – são tipos societários em que alguns sócios têm responsabilidade ilimitada e outros sócios têm responsabilidade limitada. 4) Sociedade nacional ou estrangeira – critério: Art. 1126 do CC - requisitos cumulativos para caracterizar a sociedade nacional. i) A sociedade tem que ser organizada de acordo com a lei brasileira DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 55 ii) A sede de administração tem que ser no país. OBS.: pouco importa a nacionalidade dos sócios. “Art. 1.126. É nacional a sociedade organizada de conformidade com a lei brasileira e que tenha no País a sede de sua administração. Parágrafo único. Quando a lei exigir que todos ou alguns sócios sejam brasileiros, as ações da sociedade anônima revestirão, no silêncio da lei, a forma nominativa. Qualquer que seja o tipo da sociedade, na sua sede ficará arquivada cópia autêntica do documento comprobatório da nacionalidade dos sócios.” 6.4.4 - SOCIEDADE EM NOME COLETIVO (ART. 1.039) “Art. 1.039. Somente pessoas físicas podem tomar parte na sociedade em nome coletivo, respondendo todos os sócios, solidária e ilimitadamente, pelas obrigações sociais.” Todos os sócios respondem de forma ilimitada e solidária. São dois os tipos de responsabilidade: perante os sócios e a sociedade, tal como ocorre na sociedade em comum. Esta do art. 1.039 é entre os sócios. Só pode ser sócio ‘pessoa física’. É rara no Brasil, em razão da responsabilidade dos sócios. Em 2004 havia apenas três delas (razões de ordem familiar e superstição). 6.4.5 - SOCIEDADE EM COMANDITA SIMPLES (ART. 1.045 DO CC) “Art. 1.045. Na sociedade em comandita simples tomam parte sócios de duas categorias: os comanditados, pessoas físicas, responsáveis solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais; e os comanditários, obrigados somente pelo valor de sua quota.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 56 Existem, assim, os sócios comanditados e comanditários. O sócio comanditado tem responsabilidade ilimitada e só pode ser pessoa física (pessoa jurídica não pode ser sócio comanditado). O sócio comanditário tem responsabilidade limitada e pode ser tanto pessoa física como pessoa jurídica. 6.4.6 - SOCIEDADE LIMITADA Mais de 90% das sociedades empresárias registradas nas juntas comerciais são limitadas. Daí, a grande importância nos concursos públicos. É uma sociedade contratual, ou seja, o seu ato constitutivo é um contrato social. Tal sociedade contratual tem como legislação aplicável o CC, arts. 1.052 e seguintes. Alguns temas, entretanto, não são tratados nestes dispositivos, como, p.ex., deliberações da sociedade, responsabilidades do administrador, etc. O art. 1.053, então, determina que, nas omissões da lei, se aplique as regras das sociedades simples. É possível, entretanto, que a sociedade limitada estabeleça, no contrato social, a regência supletiva da Lei da S/A. No silêncio do contrato aplicam-se, supletivamente, as regras das sociedades simples (atenção). Requisitos de Validade do Contrato Social da Ltda Agente capaz: tanto a pessoa física, bem como a pessoa jurídica, pode figurar como sócio de sociedade LTDA. Pergunta-se: ¿pode o menor pode ser sócio de LTDA? Sim! O STF (RE 82.433) já decidiu que pode. Para que o menor seja sócio de LTDA são necessários três requisitos, quais sejam: i) deve estar devidamente assistido ou representado; ii) não pode exercer administração, e iii) o capital social deve estar totalmente integralizado. Objeto lícito: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 57 Forma legal: o contrato social pode ser lavrado por meio de instrumento público (escritura pública lavrada no cartório de notas) ou particular (minuta contratual = instrumento particular). Observação: de acordo com a L. 8.906/1994, tanto um como outro necessitam de visto de advogado, sob pena de nulidade (= é NULO o ato constitutivo). Exceção: quando se tratar de microempresa ou empresa de pequeno porte. Requisitos especiais do contrato social Contribuição dos Sócios Suponha uma LTDA, cujo objeto seja uma farmácia, com capital social de R$ 100.000,00. A – 40%; B – 30%; C – 20% e D – 10%. O ato de comprometimento do sócio de contribuir para o contrato social é chamado de subscrição. Quando efetivamente ele contribui com o valor ajustado, dá-se a integralização. Subscrição => comprometimento. Integralização => pagamento. Definição de capital social = é o valor destinado para a exploração da atividade econômica provindo da contribuição dos sócios. São os sócios que vão contribuir para a formação do capital social. Distribuição dos Resultados Todo sócio tem que participar da distribuição dos resultados! “Art. 1.008. É nula a estipulação contratual que exclua qualquer sócio de participar dos lucros e das perdas.” É possível a limitação, mas não a exclusão. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 58 Pressupostos de existência da LTDA Pluralidade de Sócio: A sociedade, para sua existência, precisa de dois ou mais sócios. É uma sociedade pluripessoal. Quando a sociedade possui uma única pessoa como sócio, é chamada de unipessoal. Pergunta-se: ¿a LTDA pode ser sociedade unipessoal? A unipessoalidade, dentro da LTDA, pode ser originária ou incidental. Na soc. LTDA não é possível unipessoalidade LTDA. Não se admite a constituição da LTDA com um único sócio. Lembre-se, antes, que a unipessoalidade pode ser originária ou incidental. Na Ltda, não é possível a unipessoalidade originária, ou seja, constituí-la com apenas um sócio. Exemplo: agora, suponha uma LTDA com dois sócios A e B; falecendo este último, a sociedade passará a ser unipessoal (unipessoalidade incidental é possível). Essa hipótese é admitida pelo prazo de 180 dias. Ultrapassado esse prazo, a sociedade será encerrada (dissolução total). Isso ocorre com frequência nas sociedades entre marido e mulher, após a separação judicial. Pergunta-se: ¿é possível sociedade entre cônjuges (sociedademarital)? SIM! Art. 977 do CC. Em duas situações, o legislador não a admite, ou seja, quando se tratar de comunhão universal de bens e regime de separação obrigatória. “Art. 977. Faculta-se aos cônjuges contratar sociedade, entre si ou com terceiros, desde que não tenham casado no regime da comunhão universal de bens, ou no da separação obrigatória.” Em relação ao regime da comunhão universal de bens, o impedimento se justifica porque o bem de um é também de outro, e vice-versa. Assim, tanto um como outro são donos da totalidade, ou seja, não se identifica o patrimônio DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 59 de cada um dos sócios. Da mesma forma, há confusão patrimonial, também, em relação ao patrimônio da empresa (= confusão de patrimônio). Já na separação obrigatória, o impedimento ocorre para se evitar o ‘golpe do baú’. Exemplo: casamento de homem maior de 60 anos (separação obrigatória) com jovem de 20 anos. Ele constitui a sociedade com 99% dos bens e ela com 1%. Falecido o homem, após 180 dias, a sociedade se dissolve e a mulher fica com todo o patrimônio da sociedade. Affectio societatis: É a disposição dos sócios em formar e manter a sociedade uns com os outros. Quando não existe ou desaparece esse ânimo, a sociedade não se constitui ou deve ser dissolvida (FUC). Cláusulas contratuais Essenciais: são aquelas indispensáveis para a constituição da sociedade (art. 997 do CC). “Art. 997. A sociedade constitui-se mediante contrato escrito, particular ou público, que, além de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará: I - nome, nacionalidade, estado civil, profissão e residência dos sócios, se pessoas naturais, e a firma ou a denominação, nacionalidade e sede dos sócios, se jurídicas; II - denominação, objeto, sede e prazo da sociedade; III - capital da sociedade, expresso em moeda corrente, podendo compreender qualquer espécie de bens, suscetíveis de avaliação pecuniária; IV - a quota de cada sócio no capital social, e o modo de realizá-la; V - as prestações a que se obriga o sócio, cuja contribuição consista em serviços; VI - as pessoas naturais incumbidas da administração da sociedade, e seus poderes e atribuições; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 60 VII - a participação de cada sócio nos lucros e nas perdas; VIII - se os sócios respondem, ou não, subsidiariamente, pelas obrigações sociais. Parágrafo único. É ineficaz em relação a terceiros qualquer pacto separado, contrário ao disposto no instrumento do contrato.” Pergunta-se: ¿vimos que pessoa jurídica pode ser sócia de LTDA, mas pode ser também administrador? 1ª corrente: sim, pois não há vedação legal expressa (minoritária). 2ª corrente: não é possível em razão do inc. VI do art. 997 do CC e também em razão do art. 1.062, §2º (majoritária). “Art. 1.062. O administrador designado em ato separado investir-se-á no cargo mediante termo de posse no livro de atas da administração. § 1o Se o termo não for assinado nos trinta dias seguintes à designação, esta se tornará sem efeito. § 2o Nos dez dias seguintes ao da investidura, deve o administrador requerer seja averbada sua nomeação no registro competente, mencionando o seu nome, nacionalidade, estado civil, residência, com exibição de documento de identidade, o ato e a data da nomeação e o prazo de gestão.” As características acima grifadas não são compatíveis com a pessoa jurídica, que, de acordo com a 2ª parte do inc. I do art. 997, se identificam por firma ou denominação e nacionalidade. Logo, somente pessoa física poderá administrar a Ltda. Acidentais: não são necessárias para sua constituição. Ex. cláusula que estabelece recebimento de pro labore. Pro labore é diferente de lucro. Todo sócio tem direito de participar dos lucros, mas nem todos recebem pro labore. *Pro labore: remunera o trabalho pela administração da sociedade. Já o lucro remunera o investimento feito pelo sócio. Responsabilidade dos sócios na LTDA DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 61 A regra está no art. 1.052 do CC. Na LTDA, a responsabilidade do sócio está restrita ao valor de suas cotas, mas todos os sócios respondem de forma solidária pelo que falta para a integralização do capital social. “Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social.” Suponha que a sociedade tenha uma dívida de R$ 150.000,00 junto a um banco e seu capital social seja de apenas 100.000. O banco, a princípio, terá um prejuízo de R$ 50.000, pois não poderá alcançar os bens particulares dos sócios. Hipótese diversa ocorre quando um dos sócios não tenha integralizado o capital social subscrito. Ainda utilizando o caso acima, suponhamos que um dos sócios não tenha integralizado R$ 20.000,00 que havia subscrito. Neste caso, todos os sócios responderão de forma solidária pelos R$ 20.000,00 faltantes da integralização do capital social. A solidariedade, portanto, é tão somente em relação ao valor do capital social não integralizado (isso não ocorre na S/A). **Exceções (o sócio deixa de ter responsabilidade limitada e passa a ter responsabilidade ilimitada): Dívida trabalhista: repercutem no patrimônio particular dos sócios independentemente do tipo societário. Se a sociedade não for levada a registro: Violação da regra do art. 977 do CC: é possível sociedade entre cônjuges desde que não seja sob o regime da comunhão universal ou separação obrigatória. Caso essa regra seja violada a responsabilidade será ilimitada. Já as sociedades entre marido e mulher, casados no regime da comunhão universal de bens, constituídas antes do CC (era possível), prevalece a posição adotada no Parecer no 125/03 do extinto DNRC (substituído pelo DREI), que entende que as sociedade constituídas antes do CC permanecerão como estão em razão do ato jurídico perfeito e do direito adquirido (não há necessidade de se adaptar ao NCC). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 62 Desconsideração da personalidade jurídica: Observação: Enunciado 229 do CJF: Art. 1.080. A responsabilidade ilimitada dos sócios pelas deliberações infringentes da lei ou do contrato torna desnecessária a desconsideração da personalidade jurídica, por não constituir a autonomia patrimonial da pessoa jurídica escudo para a responsabilização pessoal e direta. Foi criada para evitar que houvesse abuso de direito da forma ou fraude, que são os seus pressupostos. Sempre que a pessoa jurídica fosse utilizada para fraude contra os credores ou abuso de direito de forma poderia afastar-se a personalidade jurídica, para alcançar os bens dos sócios. A teoria é episódica porque ela não acaba com a personalidade, somente a afasta naquele momento. Sempre que couber responsabilização civil, não se aplica a teoria da desconsideração; ex.: sócio praticou ato de sonegação, não é desconsideração, mas, sim responsabilidade civil. A teoria está positivada: CDC, Lei Ambiental, na Lei de Concorrência e CC/02 (artigo 50). O CC/02 estabelece dois pressupostos para aplicação da teoria: Desvio da finalidade (abuso de direito da forma). Confusão patrimonial (como forma de exteriorização da fraude, já que a fraude é muito difícil de comprovar; há confusão patrimonial entre os bens da sociedadee os dos sócios). Dívida com o INSS: era uma exceção (art. 13 da Lei 8.620/93), mas tal dispositivo foi revogado (MP 449/2008) e essa hipótese deixou de ser uma exceção. Débito Tributário (art. 135, III, CTN): são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes às obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. Assim, mesmo que a sociedade tenha 5 sócios, apenas o administrador terá responsabilidade solidária. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 63 OBS.: diz o STJ que há duas situações diversas: Inadimplência: sociedade deixa de pagar impostos porque a empresa não possui condições de fazê-lo. Sonegação: a sociedade tinha o dinheiro, mas não pagou o imposto para fazer investimentos diversos. Nessa última hipótese (sonegação) o administrador responderá de forma solidária pelos débitos tributários e não todos os sócios. O mesmo não ocorre com a inadimplência. Art. 1080 do CC: as deliberações infringentes do contrato ou da lei tornam ilimitada a responsabilidade dos que expressamente a aprovaram. “Art. 1.080. As deliberações infringentes do contrato ou da lei tornam ilimitada a responsabilidade dos que expressamente as aprovaram.” O sócio que resolve deixar a sociedade (art. 1003, p. único, do CC) ainda será responsável pelo prazo de 2 anos pelas obrigações que tinha na qualidade de sócio. Tal prazo é contado a partir da averbação da saída no contrato social. ATENÇÃO: o sócio que ingressa em pessoa jurídica não se exime das dívidas anteriores à sua admissão (art. 1025 do CC). Eventual cláusula em contrário será ineficaz, porque essa norma do art. 1025 é de ordem pública. Cotas Sociais A sociedade limitada é uma sociedade cujo capital social está dividido em cotas sociais, que conferem ao seu titular direito de sócio da Ltda. Natureza Jurídica das Cotas Sociais Segundo Rubens Requião, a cota social é um direito de duplo aspecto, porque confere um direito patrimonial e um direito pessoal. Direito patrimonial: Identificado como um crédito consistente em percepção de lucros durante a existência da sociedade e em particular na partilha da massa residual, decorrendo de sua liquidação final. Direito Pessoal: os direitos pessoais estariam revelados como aqueles que decorrem do status de sócio. Nessa ordem, poderíamos alinhar o direito de DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 64 participar nas deliberações sociais, fiscalização dos atos da administração, preferência na subscrição de cotas do aumento de capital social, etc. OBS.: as cotas sociais são bens móveis. Formas de integralização da cotas Dinheiro; bens móveis ou imóveis; créditos (ex. nota promissória, duplicata, etc.). Não é possível, na sociedade LTDA, a integralização do capital social com a prestação de serviços. Quem integraliza com bens responde pela evicção e quem integraliza com créditos responde pela solvência (= pagamento - art. 1005, CC). Capital aguado: os sócios supervalorizam os bens utilizados como forma de integralização; é aquele que não corresponde com o efetivo aporte patrimonial efetivado pelos sócios. Assim, o capital social não é real (questão cobrada no TJMG). Dispositivo legal de proteção ao “capital aguado” – o art. 1055, §1º, diz que os sócios responderão solidariamente pela exata estimação dos bens. “Art. 1.055. O capital social divide-se em quotas, iguais ou desiguais, cabendo uma ou diversas a cada sócio. § 1o Pela exata estimação de bens conferidos ao capital social respondem solidariamente todos os sócios, até o prazo de cinco anos da data do registro da sociedade. § 2o É vedada contribuição que consista em prestação de serviços.” ATENÇÃO: na transferência de imóveis incide sobre a operação o ITBI (art. 156, II, CF). Tal imposto não incide sobre a transmissão de bens ou direitos incorporados ao patrimônio de pessoa jurídica em realização de capital. Dessa forma, em relação ao imóvel objeto de integralização de capital social, o sócio não precisa recolher ITBI. **Holding: pode ser uma LTDA, uma S/A. Não é tipo societário, mas uma sociedade que tem como objeto social participar de outras sociedades (= “ser sócia de outras sociedades). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 65 A holding pode ser pura (só tem por objeto a participação em outras sociedades) ou mista (tem também uma atividade empresarial, além de participar de outras sociedades). É muito comum a chamada holding familiar. Os pais transferem seus bens para uma pessoa jurídica e colocam os filhos como sócios. Caso um deles venha a falecer, o único imposto a ser pago é aquele referente à transmissão das cotas. OBS.: as cotas sociais podem ser iguais ou desiguais, diz o art. 1055, caput, CC. É possível, portanto, uma ltda com cotas de valores nominais específicos. Ex. cota com valor de R$ 1,00 e de R$ 2,00. Normalmente, na prática, as cotas possuem um único valor nominal. Transferência de cotas Ocorre por meio de cessão de cotas. A efetivação dessa transferência deve ser prevista no contrato social. Há contratos sociais em que não se permite transferência de cotas para herdeiros. E isso é muito comum. Se o contrato for omisso, aplica-se a regra do art. 1057 do CC. “Art. 1.057. Na omissão do contrato, o sócio pode ceder sua quota, total ou parcialmente, a quem seja sócio, independentemente de audiência dos outros, ou a estranho, se não houver oposição de titulares de mais de um quarto do capital social. Parágrafo único. A cessão terá eficácia quanto à sociedade e terceiros, inclusive para os fins do parágrafo único do art. 1.003, a partir da averbação do respectivo instrumento, subscrito pelos sócios anuentes.” Se a transferência das cotas for para quem já é sócio não há necessidade de anuência dos demais. Agora, se a transferência for para terceiros, só será possível se não houver a oposição de mais de ¼ do capital social (= aprovação de ¾ do capital). Pergunta-se: ¿é possível penhora de cotas sociais? Atenção, pois a doutrina diz que vai depender se a sociedade é de pessoa (não é possível) ou de capital (é possível). Normalmente, nas sociedades de pessoas, há cláusula DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 66 no contrato social dizendo que as cotas são impenhoráveis ou que não é possível a cessão a terceiros estranhos. É que a penhora vai a leilão e um terceiro estranho poderá arrematá-las, passando a ser sócio da sociedade. Contudo, prevalece o entendimento do STJ. Assim, tanto faz se a sociedade é de pessoas ou de capital, pois a cota sempre será penhorável. Isso porque, não há vedação legal. Dos deveres dos sócios na LTDA Contribuição com a formação do capital social: esse é o principal dever do sócio. É dever do sócio integralizar o capital subscrito. Quando um sócio deixa de pagar total ou parcialmente o valor de suas cotas, é considerado sócio remisso. O sócio remisso poderá (art. 1004, p. ú, CC): ser excluído, executado (os demais sócios podem ser indenizados) ou ter suas cotas reduzidas (=> reduzir quota significa que ele só ficará na sociedade com o percentual que foi por ele integralizado). “Art. 1.004. Os sócios são obrigados, na forma e prazo previstos, às contribuições estabelecidas no contrato social, e aquele que deixar de fazê-lo, nos trinta dias seguintes ao da notificaçãopela sociedade, responderá perante esta pelo dano emergente da mora. Parágrafo único. Verificada a mora, poderá a maioria dos demais sócios preferir, à indenização, a exclusão do sócio remisso, ou reduzir-lhe a quota ao montante já realizado, aplicando-se, em ambos os casos, o disposto no § 1o do art. 1.031.” Dever de lealdade: segundo FUC, é dever do sócio colaborar com o desenvolvimento da sociedade, abstendo-se de praticar atos que possam prejudicar a sociedade. Ele deve portar-se, em outras palavras, com lealdade em relação à Ltda. Não pode, por exemplo, tumultuar o ambiente de trabalho, desautorizar atos de gerência ou, de modo geral, concorrer com a sociedade. Direitos dos sócios da LTDA Participação nos lucros: (art. 1008, CC). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 67 Participar das deliberações sociais: na LTDA, as decisões são tomadas em assembléia ou em reunião (art. 1072 do CC). “Art. 1.072. As deliberações dos sócios, obedecido o disposto no art. 1.010, serão tomadas em reunião ou em assembléia, conforme previsto no contrato social, devendo ser convocadas pelos administradores nos casos previstos em lei ou no contrato. § 1o A deliberação em assembléia será obrigatória se o número dos sócios for superior a dez. § 2o Dispensam-se as formalidades de convocação previstas no § 3o do art. 1.152, quando todos os sócios comparecerem ou se declararem, por escrito, cientes do local, data, hora e ordem do dia. § 3o A reunião ou a assembléia tornam-se dispensáveis quando todos os sócios decidirem, por escrito, sobre a matéria que seria objeto delas. § 4o No caso do inciso VIII do artigo antecedente, os administradores, se houver urgência e com autorização de titulares de mais da metade do capital social, podem requerer concordata preventiva. § 5o As deliberações tomadas de conformidade com a lei e o contrato vinculam todos os sócios, ainda que ausentes ou dissidentes. § 6o Aplica-se às reuniões dos sócios, nos casos omissos no contrato, o disposto na presente Seção sobre a assembléia.” Quadro dos quoruns para deliberações na LTDA IMPORTANTE - LTDA: em geral, os sócios deliberam por maioria de votos dos sócios (art. 1076, CC) presentes à assembleia ou reunião, computados proporcionalmente ao valor das quotas que titularizam. Quem subscrever maior parte do capital social, portanto, tem maior poder de interferência nas decisões de interesse da sociedade. Em certos casos, porém, a maioria do capital social não é suficiente para aprovar a matéria, devendo observar-se, então, o quorum deliberativo exigido por lei. Se a Ltda é formada por mais de 10 sócios, é obrigatória a realização de assembleia. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 68 As formalidades da assembleia estão todas no CC. É possível, entretanto, simplificar essas formalidades, nos casos de reunião (até 10 sócios) desde que conste as respectivas regras no contrato social (art. 1079 do CC). “Art. 1.079. Aplica-se às reuniões dos sócios (até 10 sócios), nos casos omissos no contrato, o estabelecido nesta Seção sobre a assembléia, obedecido o disposto no § 1o do art. 1.072.” Formalidades da Assembléia Edital de Convocação: deve ter publicação na imprensa oficial e em jornal de grande circulação. Deve ser publicado três vezes. Entre a data da 1ª publicação e a data da assembleia deve ter um prazo mínimo de 8 dias, sob pena de nulidade. Pouco importa a data da 2ª e 3ª publicações. Deve-se atender, ainda, ao quorum de instalação, que é a presença de ¾ (três quartos) do capital social. Sem a presença de ¾, será necessário uma 2ª convocação. Repetem-se as publicações exatamente na forma acima, com apenas uma diferença: entre a data da 1ª publicação e a data da realização da assembleia deve ter um prazo mínimo de 5 dias. Na 2ª convocação, o quorum de instalação é por qualquer número de presentes. IMPORTANTE: o §2º do art. 1.072, diz que as formalidades de convocação podem ser dispensadas quando todos os sócios comparecerem ou se declararem cientes do local, data, hora e ordem do dia. “Art. 1.072. § 2o Dispensam-se as formalidades de convocação previstas no § 3o do art. 1.152, quando todos os sócios comparecerem ou se declararem, por escrito, cientes do local, data, hora e ordem do dia.” Decisões da Assembléia: as decisões da assembleia são tomadas nos termos do art. 1072, caput, CC, que nos remete ao art. 1010. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 69 “Art. 1.010. Quando, por lei ou pelo contrato social, competir aos sócios decidir sobre os negócios da sociedade, as deliberações serão tomadas por maioria de votos, contados segundo o valor das quotas de cada um. § 1o Para formação da maioria absoluta são necessários votos correspondentes a mais de metade do capital. § 2o Prevalece a decisão sufragada por maior número de sócios no caso de empate, e, se este persistir, decidirá o juiz. § 3o Responde por perdas e danos o sócio que, tendo em alguma operação interesse contrário ao da sociedade, participar da deliberação que a aprove graças a seu voto.” Direito de Fiscalização: o conselho fiscal na LTDA é facultativo (art. 1066), diferente da S/A, onde é obrigatório. “Art. 1.066. Sem prejuízo dos poderes da assembléia dos sócios, pode o contrato instituir conselho fiscal composto de três ou mais membros e respectivos suplentes, sócios ou não, residentes no País, eleitos na assembléia anual prevista no art. 1.078.” Caso o contrato social preveja o conselho fiscal, será composto de três ou mais membros e respectivos suplentes, sócios ou não, residentes no país. São eleitos em assembleia anual. Direito de Preferência (art. 1081 do CC): caso a LTDA resolva aumentar o capital social, deve-se dar preferência a quem já é sócio. Direito de Retirada (art. 1.02918 do CC): possibilidade que o sócio tem de se retirar da sociedade. 18 “Art. 1.029. Além dos casos previstos na lei ou no contrato, qualquer sócio pode retirar-se da sociedade; se de prazo indeterminado, mediante notificação aos demais sócios, com antecedência mínima de sessenta dias; se de prazo determinado, provando judicialmente justa causa. Parágrafo único. Nos trinta dias subseqüentes à notificação, podem os demais sócios optar pela dissolução da sociedade.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 70 Soc. por prazo determinado => JUSTA CAUSA COMPROVADA JUDICIALMENTE. Soc. por prazo indeterminado => NOTIFICAÇÃO DOS DEMAIS SÓCIOS COM ANTECEDÊNCIA MÍNIMA DE 60 DIAS. Administrador: art. 1060 do CC. “Art. 1.060. A sociedade limitada é administrada por uma ou mais pessoas designadas no contrato social ou em ato separado. Parágrafo único. A administração atribuída no contrato a todos os sócios não se estende de pleno direito aos que posteriormente adquiram essa qualidade.” Nomeado por contrato social ou em ato separado. Obs.: art. 1061 do CC: “Art. 1.061. Se o contrato permitir administradores não sócios, a designação deles dependerá de aprovação da unanimidade dos sócios, enquanto o capital não estiver integralizado, e de dois terços, no mínimo, após a integralização.” No caso de administrador não sócio, faz-se necessária a comunhão de dois requisitos de forma cumulativa. Vejamos: -previsão em contrato social; -aprovação dos sócios. - QUORUM: seo capital social está totalmente integralizado, são necessários 2/3 do capital social. Caso o capital social não esteja integralizado, será necessária a aprovação por unanimidade. Obs.: “Teoria Ultra Vires” = pergunta-se: ¿o CC adotou a Teoria Ultra Vires? Ato ultra vires é aquele praticado pelo administrador, além das forças a ele atribuídas pelo contrato social, ou seja, com extrapolação dos limites. Segundo esta teoria, não é imputável à sociedade o ato ultra vires. O CC adotou a Teoria dos atos ultra vires, conforme se verifica da redação do par. único do art. 1015: “Art. 1.015. No silêncio do contrato, os administradores podem praticar todos os atos pertinentes à gestão da sociedade; não constituindo DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 71 objeto social, a oneração ou a venda de bens imóveis depende do que a maioria dos sócios decidir. Parágrafo único. O excesso por parte dos administradores somente pode ser oposto a terceiros se ocorrer pelo menos uma das seguintes hipóteses: I - se a limitação de poderes estiver inscrita ou averbada no registro próprio da sociedade; II - provando-se que era conhecida do terceiro; III - tratando-se de operação evidentemente estranha aos negócios da sociedade.” Em oposição à Teoria Ultra Vires, temos a teoria da aparência19. Destaque, nesse ponto, que essa é a teoria adotada pela jurisprudência pátria (a sociedade é que responde pelos atos praticados pelo administrador; culpa in eligendo). Dissolução da soc. LTDA PARCIAL => a sociedade será preservada. TOTAL => extinção da sociedade. São hipóteses de dissolução parcial: i) Direito de retirada; ii) Falecimento do sócio; iii) Falência do sócio (OBS.: falência da soc. é caso de dissolução total), e iv) Exclusão20 de sócio. 19 Para o Prof. Sérgio Campinho, a Teoria Ultra Vires é aplicada para fornecedores e instituições financeiras. Ex.: banco que realiza empréstimo bancário para um restaurante. No momento da abertura da conta, será necessária a apresentação do contrato social. O mesmo doutrinador afirma que nas relações de consumo é aplicada a Teoria da Aparência. 20 A exclusão pode ser judicial ou extrajudicial. Exemplo de exclusão extrajudicial pode ser visualizado no art. 1030, p. único do CC (“Será de pleno direito excluído da sociedade o sócio declarado falido, ou aquele cuja quota tenha sido liquidada nos termos do parágrafo único do art. 1.026.”). Outra forma de exclusão extrajudicial tem previsão no art. 1085 do CC (“Ressalvado o disposto no art. 1.030, quando a maioria dos sócios, representativa de mais da metade do capital social, entender que um ou mais sócios estão pondo DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 72 Hipóteses de dissolução total: i) Vontade dos sócios; ii) Decurso do prazo (se a soc. continuar em atividade e nenhum sócio pedir o encerramento, a soc. será prorrogada por prazo indeterminado); iii) Falência da sociedade; iv) Extinção de autorização para funcionamento21; v) Unipessoalidade por mais de 180 dias; vi) Inexequibilidade do objeto social (concurso da PFN = exaurimento do objeto social; TJSE = de forma errada cobrou como exaustão do objeto social). Exemplo de inexequibilidade: ausência de mercado. vii) Anulação do ato constitutivo. 6.4.7 - SOCIEDADE ANÔNIMA L. 6404/1976 – disciplina as S/A. Conceito de S/A: é a sociedade cujo capital social está dividido em ações. Características das Soc. Anônimas: -A S/A sempre será uma sociedade empresária. em risco a continuidade da empresa, em virtude de atos de inegável gravidade, poderá excluí-los da sociedade, mediante alteração do contrato social, desde que prevista neste a exclusão por justa causa. ... A exclusão somente poderá ser determinada em reunião ou assembléia especialmente convocada para esse fim, ciente o acusado em tempo hábil para permitir seu comparecimento e o exercício do direito de defesa.”) – grifos. Há doutrinadores que admitem, como forma de exclusão extrajudicial, os casos de sócio remisso. Crítica: isso não é unânime na doutrina. Exclusão judicial: a) ausência de requisito do art. 1085 do CC – sócio minoritário; b) sócio majoritário, e c) falta grave no cumprimento de suas obrigações ou por incapacidade superveniente - caput do art. 1030 do CC. 21 “Art. 1.037. Ocorrendo a hipótese prevista no inciso V do art. 1.033, o Ministério Público, tão logo lhe comunique a autoridade competente, promoverá a liquidação judicial da sociedade, se os administradores não o tiverem feito nos trinta dias seguintes à perda da autorização, ou se o sócio não houver exercido a faculdade assegurada no parágrafo único do artigo antecedente. Parágrafo único. Caso o Ministério Público não promova a liquidação judicial da sociedade nos quinze dias subseqüentes ao recebimento da comunicação, a autoridade competente para conceder a autorização nomeará interventor com poderes para requerer a medida e administrar a sociedade até que seja nomeado o liquidante.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 73 -A S/A é institucional (não tem contrato social; seu ato constitutivo é um estatuto social). Os sócios não podem definir direitos e obrigações por meio de contrato social. Atenção: ante o falecimento de um sócio, os herdeiros automaticamente passam a ser sócios. A DENOMINAÇÃO é o nome empresarial de uma S/A. Espécies de Soc. Anônimas (art. 4º da LSA) “Art. 4o Para os efeitos desta Lei, a companhia é aberta ou fechada conforme os valores mobiliários de sua emissão estejam ou não admitidos à negociação no mercado de valores mobiliários. (Redação dada pela Lei nº 10.303, de 2001) § 1o Somente os valores mobiliários de emissão de companhia registrada na Comissão de Valores Mobiliários podem ser negociados no mercado de valores mobiliários. (Redação dada pela Lei nº 10.303, de 2001) § 2o Nenhuma distribuição pública de valores mobiliários será efetivada no mercado sem prévio registro na Comissão de Valores Mobiliários. (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 3o A Comissão de Valores Mobiliários poderá classificar as companhias abertas em categorias, segundo as espécies e classes dos valores mobiliários por ela emitidos negociados no mercado, e especificará as normas sobre companhias abertas aplicáveis a cada categoria. (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 4o O registro de companhia aberta para negociação de ações no mercado somente poderá ser cancelado se a companhia emissora de ações, o acionista controlador ou a sociedade que a controle, direta ou indiretamente, formular oferta pública para adquirir a totalidade das ações em circulação no mercado, por preço justo, ao menos igual ao valor de avaliação da companhia, apurado com base nos critérios, adotados de forma isolada ou combinada, de patrimônio líquido contábil, de patrimônio líquido avaliado a preço de mercado, de fluxo de caixa descontado, de comparação por múltiplos, de cotação das ações no mercado de valores mobiliários, ou com base em outro critério aceito pela Comissão de Valores Mobiliários, assegurada a revisão do valor da DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 74oferta, em conformidade com o disposto no art. 4o-A. (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 5o Terminado o prazo da oferta pública fixado na regulamentação expedida pela Comissão de Valores Mobiliários, se remanescerem em circulação menos de 5% (cinco por cento) do total das ações emitidas pela companhia, a assembléia-geral poderá deliberar o resgate dessas ações pelo valor da oferta de que trata o § 4o, desde que deposite em estabelecimento bancário autorizado pela Comissão de Valores Mobiliários, à disposição dos seus titulares, o valor de resgate, não se aplicando, nesse caso, o disposto no § 6o do art. 44. (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 6o O acionista controlador ou a sociedade controladora que adquirir ações da companhia aberta sob seu controle que elevem sua participação, direta ou indireta, em determinada espécie e classe de ações à porcentagem que, segundo normas gerais expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários, impeça a liquidez de mercado das ações remanescentes, será obrigado a fazer oferta pública, por preço determinado nos termos do § 4o, para aquisição da totalidade das ações remanescentes no mercado. (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001)” -CIA aberta – é aquela em que seus valores mobiliários são admitidos à negociação no mercado de valores mobiliários. -CIA fechada – é aquela em que seus valores mobiliários NÃO são admitidos à negociação no mercado de valores mobiliários. Importante: não existe S/A mista! Isso é muito cobrado em concursos. ¿O que são valores mobiliários? São títulos de investimento que a sociedade anônima emite para a obtenção dos recursos que necessita. Exemplo típico: ações. ¿O que é um mercado de valores mobiliários? O mercado de valores mobiliários está dividido em bolsa de valores e mercado de balcão. A bolsa de valores pode ser uma associação civil ou uma S/A. Sua finalidade é aumentar o fluxo de negociação de valores mobiliários. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 75 Mercado de balcão é onde se realiza operações que não são feitas na bolsa (instituições financeiras e sociedade corretora). Exemplo: entrar no sítio do BB e compra ações da Petrobrás. *Mercado primário e mercado secundário => a compra direta de ações da CIA é chamada de mercado primário. Em caso de já ser acionista e a relação é tomada com investidor, temos caso de mercado secundário. ATENÇÃO: na bolsa de valores ocorre o mercado secundário22 (acionistas e investidores). Para se comprar diretamente da S/A é preciso mercado de balcão. Constituição da S/A -Requisitos preliminares: art. 80 da LSA. “Art. 80. A constituição da companhia depende do cumprimento dos seguintes requisitos preliminares: I - subscrição, pelo menos por 2 (duas) pessoas, de todas as ações em que se divide o capital social fixado no estatuto; II - realização, como entrada, de 10% (dez por cento), no mínimo, do preço de emissão das ações subscritas em dinheiro; III - depósito, no Banco do Brasil S/A., ou em outro estabelecimento bancário autorizado pela Comissão de Valores Mobiliários, da parte do capital realizado em dinheiro. Parágrafo único. O disposto no número II não se aplica às companhias para as quais a lei exige realização inicial de parte maior do capital social.” a) pluralidade de sócios (2 ou mais sócios para sua constituição). Poderá ser unipessoal nos casos de empresa pública e subsidiária integral => necessariamente uma soc. brasileira (art. 251 da LSA); 22 Bolsa de valores só tem mercado de balcão. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 76 b) entrada de 10%, no mínimo, do preço de emissão das ações subscritas, em dinheiro. ATENÇÃO: tratando-se de instituição financeira, o percentual é aumentado para 50%. c) depósito no Banco do Brasil, ou em outro estabelecimento bancário autorizado pela CVM, do valor realizado em dinheiro. -Constituição propriamente dita (etapa posterior ao preenchimento dos requisitos preliminares). Nessa etapa é importante observar se é CIA aberta ou CIA fechada. Na CIA aberta, essa constituição propriamente dita é chamada de subscrição pública (= subscrição sucessiva). São etapas da constituição: 1) Registro das ações na CVM; 2) Contratação de instituição financeira para colocar as ações em mercado, e 3) Realização de assembleia de fundação. Na CIA fechada, a constituição propriamente dita é chamada de subscrição particular (= simultânea). 1) Assembleia de fundação, ou 2) Escritura pública (feita por um tabelião de notas). Obs.: nos casos de CIA fechada, o ato é único. Valores Mobiliários de uma S/A -ações; -debêntures; -commercial paper; -bônus de subscrição, e -partes beneficiárias. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 77 *AÇÕES = são frações do capital social que conferem ao seu titular direito de sócio de uma S/A. Integralização das ações: dinheiro, bens e créditos. Não é possível a integralização com prestação de serviços (exatamente como ocorre com a LTDA). São espécies de ações: a)ordinárias, b)preferenciais e c)de gozo e fruição. ORDINÁRIAS - conferem direitos comuns ao acionista (direito de fiscalização, direito de participação nos lucros, etc.). As ações ordinárias dão, sempre, direito de voto (art. 110 da LSA23). V Ordinária T O Obs.: a emissão de ações ordinárias é obrigatória para todas as S/A, diferentemente do que ocorre com as ações preferenciais. PREFERENCIAIS - são traduzidas em vantagens econômicas e vantagens políticas (exemplo de vantagem econômica é a prioridade de recebimento – insculpida no art. 17 da LSA). A ação preferencial pode trazer como vantagem ao seu titular um mínimo de 10% a mais que nas ações ordinárias. Nas ações preferenciais não há direito ao voto, ou o seu exercício será limitado. Obs.: ¿qual é o número máximo de ações preferenciais sem voto que uma CIA pode emitir? 50% do total de ações. Obs.2: vantagens políticas nas ações preferenciais => grande importância no caso de desestatização. 23 “Art. 110. A cada ação ordinária corresponde 1 (um) voto nas deliberações da assembléia-geral. § 1º O estatuto pode estabelecer limitação ao número de votos de cada acionista. § 2º É vedado atribuir voto plural a qualquer classe de ações.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 78 Antes das privatizações, o Estado possuía o controle. Com a desestatização, o controle foi alienado. Contudo, o ente desestatizante possui preferenciais de classe especial, que refletem caráter político (art. 17, §7º, da LSA). “§ 7o Nas companhias objeto de desestatização poderá ser criada ação preferencial de classe especial, de propriedade exclusiva do ente desestatizante, à qual o estatuto social poderá conferir os poderes que especificar, inclusive o poder de veto às deliberações da assembléia- geral nas matérias que especificar.(Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001)” As ações preferenciais com vantagem política recebem o nome de golden share (= ação com poder político de veto). Tais ações constituem instrumento de defesa dos interesses nacionais efetivamente relevantes, possibilitando, desta forma, a retirada do Estado da atuação direta na atividade econômica. Questão prática:A 30% de ações ordinárias B 20% de ações ordinárias C 40% de ações preferenciais D 10% de ações preferenciais Quem é o acionista majoritário? C. Quem é o acionista controlador? A, pois tem o maior poder de voto. DE GOZO E FRUIÇÃO art. 44, §5º, da LSA. “Art. 44. O estatuto ou a assembléia-geral extraordinária pode autorizar a aplicação de lucros ou reservas no resgate ou na amortização de ações, determinando as condições e o modo de proceder-se à operação. (...) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 79 § 5º As ações integralmente amortizadas poderão ser substituídas por ações de fruição, com as restrições fixadas pelo estatuto ou pela assembléia-geral que deliberar a amortização; em qualquer caso, ocorrendo liquidação da companhia, as ações amortizadas só concorrerão ao acervo líquido depois de assegurado às ações não a amortizadas valor igual ao da amortização, corrigido monetariamente.” Palavra chave das ações de gozo e fruição = amortização. Amortização: é antecipação de pagamento. Quando a companhia passa por uma dissolução total, ou seja, encerramento de suas atividades, ela passará por processo denominado de LIQUIDAÇÃO. Será nomeando um LIQUIDANTE, que deverá arrecadar todos os bens da S/A, com a finalidade de vendê-los. Com a venda, o próximo passo é pagar os credores. Se tiver ativo superior ao passivo, o patrimônio remanescente se chama ACERVO. O acervo será repartido entre os acionistas, de acordo com a participação de cada um. Atenção: isso só ocorrerá se a S/A encerrar as suas atividades. No entanto, a S/A pode fazer o seguinte: com a ocorrência de lucro inesperado, há “sobra” de dinheiro. Em casos que tais, poderá ocorrer uma reunião - com as operações narradas acima -, em suposição, para fazer uma divisão em forma de prêmio aos acionistas (seria um pagamento de forma antecipada aos acionistas; recebimento daquilo que só receberiam ao final). Atenção: deve ficar claro que certas ações já participaram do acervo e que quando a companhia passar realmente pelo processo de encerramento, não receberão novamente, senão após as demais ações. Haverá substituição da ação ordinária ou preferencial em ação de gozo ou fruição. *Direitos essenciais do acionista: nem a Assembleia Geral, nem o estatuto social, podem privar o acionista dos direitos essenciais. Art. 109 da LSA: i) Participação nos lucros da CIA; ii) Participação no acervo da CIA em caso de liquidação; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 80 iii) Direito de preferência (= na subscrição de novas ações, debêntures conversíveis em ações, partes beneficiárias conversíveis em ações e bônus de subscrição); iv) Direito de retirada, e v) Direito de fiscalização. Obs.: para se haver estabilidade entre os acionistas é possível a vinculação por um contrato/acordo. “Art. 118. Os acordos de acionistas, sobre a compra e venda de suas ações, preferência para adquiri-las, exercício do direito a voto, ou do poder de controle deverão ser observados pela companhia quando arquivados na sua sede.(Redação dada pela Lei nº 10.303, de 2001) § 1º As obrigações ou ônus decorrentes desses acordos somente serão oponíveis a terceiros, depois de averbados nos livros de registro e nos certificados das ações, se emitidos. § 2° Esses acordos não poderão ser invocados para eximir o acionista de responsabilidade no exercício do direito de voto (artigo 115) ou do poder de controle (artigos 116 e 117). § 3º Nas condições previstas no acordo, os acionistas podem promover a execução específica das obrigações assumidas. § 4º As ações averbadas nos termos deste artigo não poderão ser negociadas em bolsa ou no mercado de balcão. § 5º No relatório anual, os órgãos da administração da companhia aberta informarão à assembléia-geral as disposições sobre política de reinvestimento de lucros e distribuição de dividendos, constantes de acordos de acionistas arquivados na companhia. § 6o O acordo de acionistas cujo prazo for fixado em função de termo ou condição resolutiva somente pode ser denunciado segundo suas estipulações. (Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 7o O mandato outorgado nos termos de acordo de acionistas para proferir, em assembléia-geral ou especial, voto contra ou a DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 81 favor de determinada deliberação, poderá prever prazo superior ao constante do § 1o do art. 126 desta Lei.(Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 8o O presidente da assembléia ou do órgão colegiado de deliberação da companhia não computará o voto proferido com infração de acordo de acionistas devidamente arquivado.(Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 9o O não comparecimento à assembléia ou às reuniões dos órgãos de administração da companhia, bem como as abstenções de voto de qualquer parte de acordo de acionistas ou de membros do conselho de administração eleitos nos termos de acordo de acionistas, assegura à parte prejudicada o direito de votar com as ações pertencentes ao acionista ausente ou omisso e, no caso de membro do conselho de administração, pelo conselheiro eleito com os votos da parte prejudicada.(Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 10. Os acionistas vinculados a acordo de acionistas deverão indicar, no ato de arquivamento, representante para comunicar- se com a companhia, para prestar ou receber informações, quando solicitadas.(Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001) § 11. A companhia poderá solicitar aos membros do acordo esclarecimento sobre suas cláusulas.(Incluído pela Lei nº 10.303, de 2001)” ATENÇÃO: o acordo, para ser observado e respeitado, deverá ser arquivado na sede da CIA. * DEBÊNTURES = são títulos representativos em que a CIA é a mutuaria e o debenturista é o mutuante. As debêntures são consideradas títulos executivos extrajudiciais. As debêntures conferem direito de crédito. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 82 “Art. 52. A companhia poderá emitir debêntures que conferirão aos seus titulares direito de crédito contra ela, nas condições constantes da escritura de emissão e, se houver, do certificado.” A Lei não delimita prazo de debênture. Ocorre que ela só cumprirá sua função se for reembolsada a um médio ou longo prazo. Na debênture, pode-se estipular condições e encargos do pagamento (juros, correção) e período de reembolso, se será conversível ou não. Cuida-se, na verdade de um empréstimo, de um mútuo. Ocorre que na debênture, é a S/A quem estipula prazo, juros, correção monetária; e não um banco. Debênture é titulo executivo extrajudicial. Em suma, é um direito de crédito e se não pagar no tempo pode ser executado. A debênture PODERÁ ser convertida em ações. Isso não significa que toda debênture é convertida em ação. Debênture x “Commercial paper”: na debênture a lei não delimita prazo (mas é a longo ou médio prazo). Na “commercial paper”, conforme instrução normativa da CVM (134), a companhia deve fazer o reembolso no prazo de 30 a 180 dias, se CIA aberta, ou de 30 a 360 dias, se CIA fechada. A “commercial” não é debênture, é um título específico. * BÔNUS DE SUBSCRIÇÃO: direito de preferência na aquisição de novas ações. “Art. 75. A companhia poderá emitir, dentro do limite de aumento de capital autorizado no estatuto (artigo 168), títulos negociáveisdenominados "Bônus de Subscrição". Parágrafo único. Os bônus de subscrição conferirão aos seus titulares, nas condições constantes do certificado, direito de subscrever ações do capital social, que será exercido mediante apresentação do título à companhia e pagamento do preço de emissão das ações.” A sociedade de capital autorizado que pode emitir bônus de subscrição (= direito de preferência; direito dos titulares de subscrever ações do capital social, exercido mediante apresentação do título e pagamento do valor das ações). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 83 E o acionista, já não tem direito de preferência? E o detentor do bônus, também não tem preferência? Qual é o mais forte? Na S/A, é mais forte o direito de preferência do detentor do bônus de subscrição. A S/A terá que, primeiro, oferecer o bônus de subscrição aos seus acionistas, para depois oferecê-los a não-acionistas. “Art. 109. Nem o estatuto social nem a assembléia-geral poderão privar o acionista dos direitos de: I - participar dos lucros sociais; II - participar do acervo da companhia, em caso de liquidação; III - fiscalizar, na forma prevista nesta Lei, a gestão dos negócios sociais; IV - preferência para a subscrição de ações, partes beneficiárias conversíveis em ações, debêntures conversíveis em ações e bônus de subscrição, observado o disposto nos artigos 171 e 172; V - retirar-se da sociedade nos casos previstos nesta Lei. § 1º As ações de cada classe conferirão iguais direitos aos seus titulares. § 2º Os meios, processos ou ações que a lei confere ao acionista para assegurar os seus direitos não podem ser elididos pelo estatuto ou pela assembléia-geral. § 3o O estatuto da sociedade pode estabelecer que as divergências entre os acionistas e a companhia, ou entre os acionistas controladores e os acionistas minoritários, poderão ser solucionadas mediante arbitragem, nos termos em que especificar.” *PARTES BENEFICIÁRIAS: são títulos negociáveis, sem valor nominal, e estranhos ao capital social, que conferirão ao seu titular direito de crédito eventual contra a CIA, consistente na participação dos lucros anuais por um determinado tempo. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 84 Qual a diferença entre parte beneficiária e ação? A diferença reside justamente na expressão “estranhos ao capital social”. Há participação nos lucros, MAS NÃO É ACIONISTA (não terá direito de voto, de preferência, de participação de acervo. É direito de crédito é eventual: o lucro é incerto! Assim, se tem lucro recebe, mas se não tiver não recebe nada. Órgãos da S/A Órgãos da S/A: (A.C. D.C.) i) Assembléia Geral ii) Conselho de Administração iii) Diretoria iv) Conselho Fiscal i) É o órgão deliberativo máximo da S/A. As principais decisões são tomadas na Assembléia Geral. -Assembléia Geral ordinária = art. 132 da LSA. a) destinação de lucros; b) eleição de administradores e membros do Conselho Fiscal; c) tomar as contas dos administradores; d) aprovação da correção da expressão monetária do capital social. Obs.: todo e qualquer tema que não for um dos itens listados acima, será discutido na assembléia geral extraordinária. ii) Conselho de Administração é o órgão mais cobrado em prova. Isso se justifica pelo fato de ser órgão facultativo. O Cons. de Administração será obrigatório nas seguintes ocasiões: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 85 a) Quando se tratar de uma CIA aberta (art. 138 da LSA24) b) Quando se tratar de uma sociedade de capital autorizado25 (art. 138 da LSA) c) Soc. de economia mista (art. 238 da LSA) Obs.: nas três hipóteses acima, a obrigatoriedade se justifica pelo interesse público. Competência do Cons. de Administração: art. 142 da LSA: “Art. 142. Compete ao conselho de administração: I - fixar a orientação geral dos negócios da companhia; II - eleger e destituir os diretores da companhia e fixar-lhes as atribuições, observado o que a respeito dispuser o estatuto; III - fiscalizar a gestão dos diretores, examinar, a qualquer tempo, os livros e papéis da companhia, solicitar informações sobre contratos celebrados ou em via de celebração, e quaisquer outros atos; 24 “Art. 138. A administração da companhia competirá, conforme dispuser o estatuto, ao conselho de administração e à diretoria, ou somente à diretoria. § 1º O conselho de administração é órgão de deliberação colegiada, sendo a representação da companhia privativa dos diretores. § 2º As companhias abertas e as de capital autorizado terão, obrigatoriamente, conselho de administração. 25 “Art. 168. O estatuto pode conter autorização para aumento do capital social independentemente de reforma estatutária. § 1º A autorização deverá especificar: a) o limite de aumento, em valor do capital ou em número de ações, e as espécies e classes das ações que poderão ser emitidas; b) o órgão competente para deliberar sobre as emissões, que poderá ser a assembléia-geral ou o conselho de administração; c) as condições a que estiverem sujeitas as emissões; d) os casos ou as condições em que os acionistas terão direito de preferência para subscrição, ou de inexistência desse direito (artigo 172). § 2º O limite de autorização, quando fixado em valor do capital social, será anualmente corrigido pela assembléia-geral ordinária, com base nos mesmos índices adotados na correção do capital social. § 3º O estatuto pode prever que a companhia, dentro do limite de capital autorizado, e de acordo com plano aprovado pela assembléia-geral, outorgue opção de compra de ações a seus administradores ou empregados, ou a pessoas naturais que prestem serviços à companhia ou a sociedade sob seu controle.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 86 IV - convocar a assembléia-geral quando julgar conveniente, ou no caso do artigo 132; V - manifestar-se sobre o relatório da administração e as contas da diretoria; VI - manifestar-se previamente sobre atos ou contratos, quando o estatuto assim o exigir; VII - deliberar, quando autorizado pelo estatuto, sobre a emissão de ações ou de bônus de subscrição; VIII - autorizar, se o estatuto não dispuser em contrário, a alienação de bens do ativo não-circulante, a constituição de ônus reais e a prestação de garantias a obrigações de terceiros; IX - escolher e destituir os auditores independentes, se houver. § 1o Serão arquivadas no registro do comércio e publicadas as atas das reuniões do conselho de administração que contiverem deliberação destinada a produzir efeitos perante terceiros. § 2o A escolha e a destituição do auditor independente ficará sujeita a veto, devidamente fundamentado, dos conselheiros eleitos na forma do art. 141, § 4o, se houver.” Obs.: órgão de administração = Conselho de Administração e Diretoria; ou somente a Diretoria. Composição do Cons. de Administração: mínimo de três membros (todos devem ser pessoal natural e acionista). iii) Diretoria – os atos de administração são praticados pela diretoria. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 87 Composição da diretoria – mínimo de 2 membros (admite-se a possibilidade do não acionista integrar a diretoria). Deve ser residenteno país. iv) Conselho Fiscal – a CIA terá um conselho fiscal e o estatuto disporá sobre seu funcionamento, de modo permanente ou nos exercícios sociais em que for instalado a pedido de acionista. “Art. 161. A companhia terá um conselho fiscal e o estatuto disporá sobre seu funcionamento, de modo permanente ou nos exercícios sociais em que for instalado a pedido de acionistas. § 1º O conselho fiscal será composto de, no mínimo, 3 (três) e, no máximo, 5 (cinco) membros, e suplentes em igual número, acionistas ou não, eleitos pela assembléia-geral. § 2º O conselho fiscal, quando o funcionamento não for permanente, será instalado pela assembléia-geral a pedido de acionistas que representem, no mínimo, 0,1 (um décimo) das ações com direito a voto, ou 5% (cinco por cento) das ações sem direito a voto, e cada período de seu funcionamento terminará na primeira assembléia-geral ordinária após a sua instalação. § 3º O pedido de funcionamento do conselho fiscal, ainda que a matéria não conste do anúncio de convocação, poderá ser formulado em qualquer assembléia-geral, que elegerá os seus membros. § 4º Na constituição do conselho fiscal serão observadas as seguintes normas: a) os titulares de ações preferenciais sem direito a voto, ou com voto restrito, terão direito de eleger, em votação em separado, 1 (um) membro e respectivo suplente; igual direito terão os acionistas minoritários, desde que representem, em conjunto, 10% (dez por cento) ou mais das ações com direito a voto; b) ressalvado o disposto na alínea anterior, os demais acionistas com direito a voto poderão eleger os membros efetivos e suplentes que, em qualquer caso, serão em número igual ao dos eleitos nos termos da alínea a, mais um. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 88 § 5º Os membros do conselho fiscal e seus suplentes exercerão seus cargos até a primeira assembléia-geral ordinária que se realizar após a sua eleição, e poderão ser reeleitos. § 6o Os membros do conselho fiscal e seus suplentes exercerão seus cargos até a primeira assembléia-geral ordinária que se realizar após a sua eleição, e poderão ser reeleitos. § 7o A função de membro do conselho fiscal é indelegável.” O Cons. Fiscal é órgão de existência obrigatória, mas de funcionamento facultativo. A principal função do Cons. Fiscal é fiscalizar as contas da administração. 6.4.8 - REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA 1) Transformação = a transformação é a operação pela qual uma sociedade modifica seu tipo societário, sem que com isso haja dissolução e liquidação (NÃO HÁ EXTINÇÃO DA PESSOA JURÍDICA). Ex.: Soc. LTDA S/A Ocorre quando há mudança de tipo societário, ou seja, de uma S/A para LTDA ou vice-versa. Também há transformação caso haja alteração de aberta para fechada ou vice-versa. Não ocorre a dissolução ou liquidação da sociedade (extinção), já que permanece a mesma pessoa jurídica, porém, submetida ao regime do novo tipo adotado. Não há qualquer prejuízo ao direito dos sócios. Em regra, depende do consentimento de todos os sócios, salvo se for previsto no ato constitutivo, caso em que o sócio dissidente terá o direito de retirada ou recesso da sociedade. CC/02, Art. 1.113. O ato de transformação independe de dissolução ou liquidação da sociedade, e obedecerá aos preceitos reguladores da constituição e inscrição próprios do tipo em que vai converter-se. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 89 CC/02, Art. 1.114. A transformação depende do consentimento de todos os sócios, salvo se prevista no ato constitutivo, caso em que o dissidente poderá retirar-se da sociedade, aplicando-se, no silêncio do estatuto ou do contrato social, o disposto no art. 1.031. CC/02, Art. 1.115. A transformação não modificará nem prejudicará, em qualquer caso, os direitos dos credores. Parágrafo único. A falência da sociedade transformada somente produzirá efeitos em relação aos sócios que, no tipo anterior, a eles estariam sujeitos, se o pedirem os titulares de créditos anteriores à transformação, e somente a estes beneficiará. 2) Fusão = É a operação pela qual duas ou mais sociedades se unem, dando origem a uma nova sociedade, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações. (SURGIMENTO DE UMA NOVA SOCIEDADE – EXTINÇÃO DE TOAS AS SOCIEDADES QUE SE UNEM) Ocorre quando duas ou mais sociedades se fundem para formar uma NOVA sociedade. Se gerar concentração de mercado, haverá apreciação do CADE (20% do mercado relevante) - vide Enunciado 232 do CJF26. CC/02, Art. 1.119. A fusão determina a extinção das sociedades que se unem, para formar sociedade nova, que a elas sucederá nos direitos e obrigações. CC/02, Art. 1.120. A fusão será decidida, na forma estabelecida para os respectivos tipos, pelas sociedades que pretendam unir-se. § 1o Em reunião ou assembléia dos sócios de cada sociedade, deliberada a fusão e aprovado o projeto do ato constitutivo da nova sociedade, bem como o plano de distribuição do capital social, serão nomeados os peritos para a avaliação do patrimônio da sociedade. 26 “NAS FUSÕES E INCORPORAÇÕES ENTRE SOCIEDADES REGULADAS PELO CÓDIGO CIVIL, É FACULTATIVA A ELABORAÇÃO DE PROTOCOLO FIRMADO PELOS SÓCIOS OU ADMINISTRADORES DAS SOCIEDADES; HAVENDO SOCIEDADE ANÔNIMA OU COMANDITA POR AÇÕES ENVOLVIDA NA OPERAÇÃO, A OBRIGATORIEDADE DO PROTOCOLO E DA JUSTIFICAÇÃO SOMENTE A ELA SE APLICA.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 90 § 2o Apresentados os laudos, os administradores convocarão reunião ou assembléia dos sócios para tomar conhecimento deles, decidindo sobre a constituição definitiva da nova sociedade. § 3o É vedado aos sócios votar o laudo de avaliação do patrimônio da sociedade de que façam parte. CC/02, Art. 1.121. Constituída a nova sociedade, aos administradores incumbe fazer inscrever, no registro próprio da sede, os atos relativos à fusão. 3) Incorporação = as sociedades incorporadas serão absorvidas pela sociedade incorporadora. Diferentemente do que ocorre na fusão, na incorporação não há o surgimento de uma nova sociedade. “A sociedade incorporadora será ‘aumentada’”. É a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações. **Apenas uma sociedade que incorpora as demais. Uma ou mais sociedades desaparecem para integrar uma sociedade que já existente, vale dizer, uma sociedade (incorporada) é absorvida pela outra (incorporadora). Ex.: Nestlé incorporando a Garoto. Se houver concentração de mercado, haverá apreciação do CADE (20% do mercado relevante). CC/02, Art. 1.116. Na incorporação, uma ou várias sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações, devendo todas aprová-la, na forma estabelecida para os respectivos tipos. CC/02, Art. 1.117. A deliberação dos sócios da sociedade incorporada deverá aprovar as bases da operação e o projeto de reforma do ato constitutivo. § 1o A sociedade que houver de ser incorporada tomará conhecimento desse ato, e, se o aprovar, autorizará os administradores DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 91 a praticar o necessário à incorporação, inclusive a subscrição em bens pelo valor da diferença que se verificar entre o ativo e o passivo. § 2o Adeliberação dos sócios da sociedade incorporadora compreenderá a nomeação dos peritos para a avaliação do patrimônio líquido da sociedade, que tenha de ser incorporada. CC/02, Art. 1.118. Aprovados os atos da incorporação, a incorporadora declarará extinta a incorporada, e promoverá a respectiva averbação no registro próprio. Enunciado 232 do CJF – Arts. 1.116, 1.117 e 1.120: Nas fusões e incorporações entre sociedades reguladas pelo Código Civil, é facultativa a elaboração de protocolo firmado pelos sócios ou administradores das sociedades; havendo sociedade anônima ou comandita por ações envolvida na operação, a obrigatoriedade do protocolo e da justificação somente a ela se aplica. 4) Cisão = há duas formas de ocorrer a cisão, quais sejam: PARCIAL ou TOTAL. Obs.: na prova do concurso, identifica-se a cisão pela expressão venda de patrimônio. A venda de uma parcela do patrimônio é cisão parcial. Por seu turno, a venda total do patrimônio é uma cisão total. Na cisão parcial não ocorre extinção. Contudo, na cisão total (venda integral do patrimônio) há extinção da sociedade cindida. Operação pela qual a sociedade transfere parcelas do seu patrimônio para uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, podendo ocorrer ou não a sua extinção. Se for total, a sociedade desaparece formando duas ou mais sociedades. Se for parcial, a sociedade continua existindo, mas, parte dela ou se incorpora à outra sociedade que já existe ou forma uma nova sociedade. Embora prevista no Título do Capítulo X (“Da Transformação, da incorporação, da fusão e da cisão das sociedades), a cisão não foi regulada expressamente no Código Civil, aplicando-se a disciplina prevista na Lei 6.404/76. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 92 Enunciado 231 do CJF – Arts. 1.116 a 1.122: A cisão de sociedades continua disciplinada na Lei n. 6.404/76, aplicável a todos os tipos societários, inclusive no que se refere aos direitos dos credores. Interpretação dos arts. 1.116 a 1.122 do Código Civil. Lei 6.494/76, Art. 233. Na cisão com extinção da companhia cindida, as sociedades que absorverem parcelas do seu patrimônio responderão solidariamente pelas obrigações da companhia extinta. A companhia cindida que subsistir e as que absorverem parcelas do seu patrimônio responderão solidariamente pelas obrigações da primeira anteriores à cisão. Parágrafo único. O ato de cisão parcial poderá estipular que as sociedades que absorverem parcelas do patrimônio da companhia cindida serão responsáveis apenas pelas obrigações que lhes forem transferidas, sem solidariedade entre si ou com a companhia cindida, mas, nesse caso, qualquer credor anterior poderá se opor à estipulação, em relação ao seu crédito, desde que notifique a sociedade no prazo de 90 (noventa) dias a contar da data da publicação dos atos da cisão. Observação: Como a fusão, a incorporação e a cisão podem prejudicar os direitos dos credores, o art. 1122 do CC assegura aos credores o direito de pedir a anulação destes atos. Trata-se de um prazo decadencial. Caso a sociedade deposite o seu valor ou garanta a sua execução, fica obstada a pretensão anulatória, prosseguindo a ação de cobrança, pois a sociedade pode reputar a dívida indevida. Art. 1.122. Até noventa dias após publicados os atos relativos à incorporação, fusão ou cisão, o credor anterior, por ela prejudicado, poderá promover judicialmente a anulação deles. § 1o A consignação em pagamento prejudicará a anulação pleiteada. § 2o Sendo ilíquida a dívida, a sociedade poderá garantir-lhe a execução, suspendendo-se o processo de anulação. § 3o Ocorrendo, no prazo deste artigo, a falência da sociedade incorporadora, da sociedade nova ou da cindida, qualquer credor DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 93 anterior terá direito a pedir a separação dos patrimônios, para o fim de serem os créditos pagos pelos bens das respectivas massas. Transformação não há extinção. Incorporação há extinção da incorporada. Cisão na cisão parcial não há extinção. Na cisão total, por outra banda, há extinção. Fusão extinção de todas as sociedades. 6.4.9 - SOCIEDADES COLIGADAS (“LIGAÇÕES SOCIETÁRIAS”) Arts. 1097 e ss. do Código Civil. “Art. 1.097. Consideram-se coligadas as sociedades que, em suas relações de capital, são controladas, filiadas, ou de simples participação, na forma dos artigos seguintes. Art. 1.098. É controlada: I - a sociedade de cujo capital outra sociedade possua a maioria dos votos nas deliberações dos quotistas ou da assembléia geral e o poder de eleger a maioria dos administradores; II - a sociedade cujo controle, referido no inciso antecedente, esteja em poder de outra, mediante ações ou quotas possuídas por sociedades ou sociedades por esta já controladas. Art. 1.099. Diz-se coligada ou filiada a sociedade de cujo capital outra sociedade participa com dez por cento ou mais, do capital da outra, sem controlá-la. Art. 1.100. É de simples participação a sociedade de cujo capital outra sociedade possua menos de dez por cento do capital com direito de voto. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 94 Art. 1.101. Salvo disposição especial de lei, a sociedade não pode participar de outra, que seja sua sócia, por montante superior, segundo o balanço, ao das próprias reservas, excluída a reserva legal. Parágrafo único. Aprovado o balanço em que se verifique ter sido excedido esse limite, a sociedade não poderá exercer o direito de voto correspondente às ações ou quotas em excesso, as quais devem ser alienadas nos cento e oitenta dias seguintes àquela aprovação.” a) Sociedade filiada – art. 1.099 do CC. CUIDADO: a sociedade coligada pode ser gênero ou então a filiada, conforme disposição no Código Civil. Ocorre quando uma sociedade participa do capital social da outra, com 10% ou mais, sem controle. b) Sociedade de simples participação – art. 1.100 do CC. Ocorre quando uma sociedade participa do capital social da outra com menos de 10% com voto. c) Sociedade controladora – art. 1.098 do CC. Maioria de votos da outra sociedade E o poder de eleger a maioria dos administradores da outra sociedade. Mnemônica: Filiada MARIDO Simples participação ESPOSA Controladora SOGRA 6.4.10 - SOCIEDADE DEPENDENTE DE AUTORIZAÇÃO “Art. 1.123. A sociedade que dependa de autorização do Poder Executivo para funcionar reger-se-á por este título, sem prejuízo do disposto em lei especial. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 95 Parágrafo único. A competência para a autorização será sempre do Poder Executivo federal.” Além da sociedade estrangeira (Art. 1.134 do CC/02), necessita de autorização: Operadora de Plano de Assistência à Saúde (autorizada pela ANS – Art. 8º da Lei 9.656/98 com alterações da MP n.º 2.177-44, de 2001)), Instituição financeira (autorizada pelo Banco Central - Art. 10, X da Lei 4595/64), Sociedades seguradoras (autorizada pela SUSEP – Art. 36, al. “a” do DL 73/66) “Art. 1.124. Na falta de prazo estipulado em lei ou em ato do poder público, será considerada caduca a autorização se a sociedade não entrar em funcionamento nos doze meses seguintes à respectiva publicação.” “Art. 1.125. Ao Poder Executivo é facultado, a qualquer tempo, cassar a autorização concedidaa sociedade nacional ou estrangeira que infringir disposição de ordem pública ou praticar atos contrários aos fins declarados no seu estatuto.” “Art. 1.134. A sociedade estrangeira, qualquer que seja o seu objeto, não pode, sem autorização do Poder Executivo, funcionar no País, ainda que por estabelecimentos subordinados, podendo, todavia, ressalvados os casos expressos em lei, ser acionista de sociedade anônima brasileira.” “Art. 1.137. A sociedade estrangeira autorizada a funcionar ficará sujeita às leis e aos tribunais brasileiros, quanto aos atos ou operações praticados no Brasil. Parágrafo único. A sociedade estrangeira funcionará no território nacional com o nome que tiver em seu país de origem, podendo acrescentar as palavras "do Brasil" ou "para o Brasil”. “Art. 1.138. A sociedade estrangeira autorizada a funcionar é obrigada a ter, permanentemente, representante no Brasil, DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 96 com poderes para resolver quaisquer questões e receber citação judicial pela sociedade. Parágrafo único. O representante somente pode agir perante terceiros depois de arquivado e averbado o instrumento de sua nomeação.” “Art. 1.139. Qualquer modificação no contrato ou no estatuto dependerá da aprovação do Poder Executivo, para produzir efeitos no território nacional.” 7 - TÍTULOS DE CRÉDITO -Legislação aplicável: a) Letra de câmbio e nota promissória – Decreto 57663/1966 (“Lei Uniforme”); b) Cheque – Lei 7357/1985, e c) Duplicata – Lei 5474/1968. Pergunta-se: ¿e as regras do Código Civil? A aplicação do CC aos títulos de crédito é subsidiária (art. 903 do CC27). Representam obrigações de natureza pecuniária. Não se confundem com a própria obrigação. As obrigações representadas em um título de crédito ou têm origem extracambial, como é o caso das originadas de contratos, ou têm origem exclusivamente cambial, como na obrigação do avalista. O credor de uma obrigação representada por um título de crédito tem direitos, de conteúdo operacional, diversos do que teria se a mesma obrigação não se encontrasse representada por um título de crédito. Além do título de crédito possibilitar uma negociação mais fácil do crédito decorrente da obrigação representada, sua cobrança judicial é mais eficiente e célere. A estas circunstâncias especiais costuma a doutrina se referir como os atributos dos 27 “Art. 903. Salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 97 títulos de crédito, chamados, respectivamente, de negociabilidade, (facilidade de negociação), e executividade (maior eficiência na cobrança). Ou seja, há um regime jurídico-cambial, que estabelece regras que dão à pessoa que detém inicialmente o crédito (ou para quem o crédito é transferido), maiores garantias do que as do regime civil. Quatro são as fases do Direito Cambiário: Período Italiano – até 1650: mercadores das cidades italianas / necessidade de operar com moedas diferentes em praças diversas (letras de câmbio); Período francês: (1650 até 1848): surge o endosso / a letra de câmbio deixou de ser instrumento de pagamento para instrumento de crédito Período Germânico: (1848=1930): codificadas as normas disciplinadoras da cambial, separando-as das normas de direito comum / proteção especial ao terceiro adquirente de boa-fé, como forma de garantir a circulação do título. Período Uniforme: aprovação, em 1930, das leis uniformes genebrinas sobre letras de câmbio e notas promissórias, e, em 1931, sobre cheques. 7.1 - CONCEITO "Documento necessário para o exercício do direito literal e autônomo nele contido ou mencionado.” (Vivante) VER ART. 887 CÓDIGO CIVIL “Art. 887. O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei.” Obs.: O CC/02 não está valendo para: letra de câmbio, nota promissória, cheque e duplicata, porque o artigo 903 fala que estão ressalvadas as leis especiais. As regras do CC/02 são supletivas às leis especiais. Exemplo: aval parcial é dito que no CC/02 não é possível, mas a lei especial permite. Entendemos, ainda, que as normas do CC, de 2002, aplicam-se: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 98 a) aos títulos de crédito cuja legislação de regência não determine a aplicação subsidiária da legislação sobre letra de câmbio e nota promissória ou de qualquer outra lei sobre determinado título; b) aos títulos nominados, quando a lei de regência for silente sobre determinada matéria, como, por exemplo, título escritural (art. 889, § 3º). Comentando o art. 903 do CC, Gustavo Tepedino (Código Civil Interpretado), afirma que há duas possibilidades para interpretação do presente artigo: 1) o CC pretendeu regular os chamados títulos de crédito atípicos ou inominados, isto é, aqueles que não encontram regulamentação expressa nas leis, fixando requisitos mínimos dos títulos de crédito (na realidade quer o autor referir-se aos títulos não regulados, na conceituação de Fabio Ulhoa Coelho); 2) o CC quis estabelecer uma teoria geral dos títulos de crédito, de modo que, quando não são aplicáveis as normas constantes da legislação especial, seriam aplicáveis as normas do CC. Crítica: quase todas as matérias que o CC regula já se encontram previstas em leis especiais; regulou de forma contraditória em relação, por exemplo, à proibição de aval parcial. Fabio Ulhoa Coelho sustenta que as normas sobre títulos de crédito encontradas no CC aplicam-se apenas aos títulos que não possuírem na lei específica a definição das regras a aplicar (art. 903). È o que ele chama de título de crédito não regulado. Observa, contudo, que não há atualmente no direito brasileiro nenhum título em tais condições. Para alguns tecnólogos (continua Fabio Ulhoa Coelho), encontra-se no art. 903 do CC a disciplina dos títulos de crédito atípicos ou inominados. Ocorre que referidos títulos são os criados pelos particulares independentemente de específica previsão em lei, como o FICA ou vaca-papel. A maior dificuldade que a tese da introdução dos títulos atípicos no direito positivo nacional enfrenta é a da identificação desses títulos. Como saber, diante da declaração de vontade de pagar quantia líquida, se o instrumento que a materializa é um título de crédito DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 99 atípico ou um contrato atípico? A cláusula cambiária identifica o documento como título de crédito, nomeando-o; mas, para os títulos de crédito inominados, é evidente que não se pode estabelecer uma formalidade equivalente, porque eles costumam surgir de hábitos informais na prática cotidiana dos negócios. O CC não introduziu a disciplina dos títulos de crédito inominados. Eles continuam regidos pelas respectivas normas consuetudinárias. As normas do CC sobre títulos de crédito diferem-se das aplicáveis às letras de cambito quanto ao seguinte: 1) proibição das cláusulas de juros, “não á ordem”, e exoneração de despesas; 2) admissibilidade de títulos ao portador, se autorizado pela lei específica; 3) não-vinculação do endossante ao pagamento do título como regra; 4) não cabimento de avalparcial; 5) títulos nominativos são os emitidos em favor de pessoa cujo nome conste do registro do emitente (art. 921), não se cuidando de identificação do credor no próprio título, como ocorre com a letra de cambito, mas sim em assentamento externos à cártula. 7.2 - FUNÇÃO DOS TÍTULOS DE CRÉDITO A função primordial dos títulos de crédito é a mobilização do crédito. Sua finalidade é a circulação. O título de crédito só é verdadeiramente tal quando circula. Fora daí ele deve ser visto mais como documento, do que como título propriamente dito. Essa visão, aliás, vem sido tida pela jurisprudência, que não mais aceita o documento formal, como meio de o credor se beneficiar de uma situação de abstração ou autonomia. Assim é que em muitos casos, demonstrado que o título foi criado não para atender sua função primordial de circulação e mobilização do crédito, tem-se deixado de aplicar certos princípio favoráveis ao credor. São conhecidos acórdãos que veem em notas promissórias emitidas unicamente como garantia de certos contratos de financiamento, ou de abertura de crédito, não mais um título abstrato, mas um documento representativo de um direito, para cujo exercício se impõe a demonstração da origem do débito. Por exemplo: as notas promissórias emitidas em branco pelos titulares de contas com cheque especial, modalidade do contrato de abertura de crédito. A cártula é preenchida pela instituição financeira (tal prática é vedada – ver Súmula 60 do STJ), englobando todos os débitos constantes da conta, com os encargos contratuais. Ao executar apenas o título, está na verdade o banco não se utilizando do mesmo em sua função, mas com forma de impedir ou DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 100 dificultar ao extremo a defesa do executado, pois se executasse o contrato teria de anexar os demonstrativos contábeis. Por isso, muitos comercialistas não veem como incorretas decisões que não aceitam o título para execução, exigindo a comprovação dos débitos mediante a anexação do contrato e dos demonstrativos contábeis. 7.3 - PRINCÍPIOS DO DIREITO CAMBIÁRIO Cartularidade (ou documentalidade) (cártula = documento = título) - “O que importa é a cártula!” O exercício dos direitos representados por um título de crédito pressupõe sua posse. Quem não se encontra com o título em sua posse, não se presume credor. O princípio da cartularidade é garantia de que o sujeito que postula a satisfação do crédito é mesmo o seu titular (é uma garantia de que o credor não negociou o seu crédito). Cópias autênticas não conferem a mesma garantia. Um exemplo de sua aplicação é a exigência da exibição do original do título na petição inicial de execução. Obs.: mais recentemente, algumas exceções ao princípio da cartularidade: - nos negócios mercantis, necessidade de maior informalidade: possível executar o crédito representado pela duplicata, em alguns casos, mesmo sem apresentação da cártula; - informática, disseminação dos títulos de crédito não cartularizados – NCC admite o título de crédito virtual: art. 889, §3º - O título poderá ser emitido a partir dos caracteres criados em computador ou meio técnico equivalente e que constem da escrituração do emitente, observados os requisitos mínimos previstos neste artigo. Literalidade Somente produzem efeitos jurídicos-cambiais os atos lançados no próprio título de crédito. A quitação deve estar representada por título. Atos documentados em instrumentos apartados, ainda que válidos e eficazes entre os sujeitos diretamente envolvidos (ex. aval concedido fora do título poderá ser tido como fiança), não produzirão efeitos perante o portador do título. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 101 Obs.: algumas exceções: ex. a quitação da duplicata pode ser dada em documento em separado. Autonomia (Abstração e inoponibilidade de exceções a terceiros de boa- fé). Quando um único título representa mais de uma obrigação (do emitente, do avalista, do endossante e outros) a eventual invalidade de qualquer delas não prejudica as demais. Assim, por exemplo, a obrigação do avalista subsiste ainda que seja nula a obrigação do avalizado, salvo se a nulidade decorrer de vício de forma, porque o avalista não tem a mesma obrigação do avalizado mas obrigação autônoma, com existência própria. As implicações do princípio da autonomia representam a garantia efetiva de circulabilidade do título de crédito. O terceiro descontador não precisa investigar as condições em que o crédito foi transacionado. O princípio da autonomia desdobra-se em dois sub-princípios: Abstração – O título de crédito se desvincula da relação fundamental que lhe deu origem. Se houve algum vício na causa que originou o título, não haverá prejuízo às obrigações nele constantes. A abstração somente se verifica quando o título circula para um terceiro de boa-fé, que não tem ciência do defeito existente no negócio que originou o título. Obs.: Relação causal e cartular não se confundem, embora coexistam harmonicamente porque a criação do título de crédito não implica novação no que se refere à relação causal, vez que esta não se extingue. A relação causal enseja uma ação extracambiária, ao passo que a relação cartular enseja uma ação cambiária. Obs.: todos os títulos são autônomos. Mas, alguns títulos não são abstratos: determinados títulos de crédito podem resultar de qualquer causa, mas dela se libertam após a sua criação, o que não ocorre com os títulos causais (duplicata), que, embora circulem, mantêm vínculo com a causa que os gerou. Inoponibilidade de Exceções a Terceiros de Boa-fé – O executado em virtude de um título de crédito não pode alegar matéria de defesa estranha à sua relação direta com o exeqüente, salvo, provando a má-fé dele. Ou seja, não DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 102 pode lhe opor exceções pessoais (que tinha contra o antigo credor), salvo se o terceiro for adquirente de má-fé. Não pode ser oposto vício da relação causal contra o terceiro de boa-fé. Se o título não circular, ele está preso à relação causal. Mas pode ser oposto o vício formal. 7.4 - NATUREZA DA OBRIGAÇÃO CAMBIAL A obrigação cambiária resulta de declaração unilateral de vontade por parte do subscritor do título e não de contrato celebrado com o beneficiário. Os devedores de um título de crédito são solidários. Esta regra encontra-se no artigo 47 da Lei Uniforme de Genebra. O devedor solidário que paga ao credor a totalidade da dívida pode exigir, em regresso, dos demais devedores a quota-parte cabível a cada um. Na obrigação cambial há, todavia, hierarquia entre os devedores de um mesmo título. Em relação a cada título, a lei irá escolher um para a situação jurídica de devedor principal, reservando aos demais a de codevedores. Mesmo os codevedores só terão direito de cobrar dos codevedores que lhes antecederam. Várias teorias tentam explicar a natureza dos títulos de crédito. Ex. teorias contratualistas (existem contratos entre os envolvidos na relação cambiária) vs. teorias da declaração unilateral de vontade (A fonte da obrigação cambiária reside na mera declaração unilateral de vontade de quem apõem sua assinatura no título). Teoria do Contrato com Incerta Pessoa: Esta teoria foi adotada por Savigny, seguido por Jolly, Goldschmidt e Unger. Conforme seu enunciado, se contrata com alguém que não se sabe quem é, só o vindo a saber no momento da apresentação do título,ou seja, quando da sua exigibilidade. Nesse momento se descobrirá quem é o credor do título. Parte Savigny da ideia de que quem emite o título geralmente o faz em massa, estando a posse de fato sempre unida à presunção de propriedade. Teoria do Germe: enunciada pelo famoso jurista Von Ihering, para esta teoria, o título seria como um germe que surge em mãos do devedor, mas que DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 103 se formava quando circulava, essa era o momento da concepção do germe. O título só tem sentido para circular, é esse o seu objetivo, sua razão. O credor é o último portador. Rubens Requião, ao comentar a teoria do germe, afirma: “a declaração de vontade do emissor produz imediatamente um vínculo passivo da obrigação, porém não o direito de crédito correspondente; durante a circulação este existe em germe, em potencial, não pertence, porém, ao patrimônio de ninguém. Amadurece quando deixa de circular. Vivante a classificou como artificiosa, e pergunta: os milhões de títulos nas Bolsas, objeto do comércio, não existem?”. Teoria da Personificação do Título: formulada por Schweppe e Bekker, declara que o título é bastante em si, como se ele mesmo fosse o credor. Quando se assina um título, o devedor passa para ele um pouco de si, de sua personalidade, credibilidade, imagem. Como o título personifica o credor, quem vai pagá-lo, paga a ele mesmo, ou seja, quando se paga o título é porque se quer resgatá-lo, não importando nas mãos de quem ele esteja. A pessoa se reintegrava com a aquisição do título que emitiu. Essa teoria foi contestada sob o argumento de que não pode haver crédito sem credor, uma vez que as coisas materiais não podem ser sujeito de direitos. Teoria da Promessa Unilateral: segundo essa teoria, que tem como precursores Einnert e Kuntze, o devedor promete sozinho, unilateralmente. Essa teoria inspirou um pouco o pensamento moderno no sentido de que o título não é simples documento probatório: a) é veículo de promessa; b) a promessa de pagamento é abstrata; independe da relação fundamental; c) não se trata de contrato, mas de promessa unilateral. Assim, surgiu a dúvida se o título é válido quando é emitido ou quando é criado, pois ele poderia ser extorquido. As próximas teorias são as mais expressivas: Teoria da Emissão: abraçada por Stobbe e Windscheid, preconiza que o emitente do título se desvincula do mesmo quando o põe em circulação. Só após o abandono voluntário da posse, seja por ato unilateral, seja por tradição, é que nasce a obrigação do subscritor. Sem emissão voluntária não se forma o vínculo. Teoria da Criação: formulada por Siegel e Kuntze, defende que o direito deriva da criação do título. A vontade do devedor já não importa para tal efeito obrigacional. É o título que cria a dívida. Observa Rubens Requião que “a DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 104 consequência da teoria da criação é severa e grave. O título roubado ou perdido, antes da emissão, mas após a criação, leva consigo a obrigação do subscritor”. Teoria do duplo sentido da vontade: segundo Vivante, autor desta teoria, há dois mundos, que não se comunicam: o mundo dos contratos e o mundo dos títulos. O devedor fica no meio dos dois. Não se pode trazer o fato de um contratante ter deixado de cumprir sua obrigação (no mundo dos contratos) para não pagar aquele que lhe apresentou o título (no mundo dos títulos). Assim, em relação ao seu credor, o devedor do título se obriga por uma relação contratual, motivo por que contra ele mantém intatas as defesas pessoais que o direito comum lhe assegura; em relação a terceiros, o fundamento da obrigação está na sua firma (do emissor), que expressa sua vontade unilateral de obrigar- se, e essa manifestação não deve defraudar as esperanças que desperta em sua circulação. Direito Brasileiro: O Código Civil Brasileiro incluiu os títulos ao portador entre as Obrigações por Declaração Unilateral de Vontade. Resta saber se foi adotada a sub-teoria da emissão (exige para a perfeição do vínculo cambiário que o título saia voluntariamente das mãos do subscritor) ou da criação (obrigação cambiária do sacador nasce no momento em que apõe sua assinatura no título). O art. 896 do CC reza que “o título de crédito não pode ser reinvindicado do portador que o adquiriu de boa-fé e na conformidade das normas que disciplinam a sua circulação. Essa norma adota a teoria da criação porque considera legitimado o portador ainda que o título tenha sido posto em circulação sem ou contra a vontade do emitente, dispondo da mesma maneira que o artigo 26, al.2a da LUG 7.5 - CLASSIFICAÇÃO DOS TÍTULOS DE CRÉDITO a) Quanto ao Modelo: - Livre: podem dispor dos requisitos da melhor forma que aprovem. Ex.: nota promissória no caderno. - Vinculado: além dos requisitos, existe padronização (padrão normativamente estabelecido). Ex.: cheque, duplicata. b) Quanto à Estrutura: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 105 - Ordem de Pagamento: ordem dada por uma pessoa (sacador) para que outro (sacado) pague ao beneficiário (tomador). Ex.: letra de câmbio. - Promessa de Pagamento: relação direta entre o emitente e o beneficiário. Ex.: nota promissória. c) Quanto à hipótese de emissão: - Causal: somente pode ser emitido para documentar determinadas operações. Duplicata (prestação de serviço e compra e venda). - Não-Causal (ou abstratos): pode ser emitido por qualquer causa. Ex.: cheque. d) Quanto à Circulação: - Ao Portador: transmitidos por mera tradição - Nominativo: - à ordem (transmitidos por endosso) ou - não à ordem (transmitidos por cessão de crédito) 7.5.1 - TÍTULOS CAMBIAIS E TÍTULOS CAMBIARIFORMES Títulos cambiais, genuínos, são a letra de câmbio e a nota promissória. Todos os demais títulos de créditos, como o cheque, a duplicata etc., são considerados apenas assemelhados ou cambiariformes, conforme leciona Pontes de Miranda. Contudo, as regras da letra de câmbio e da nota promissória aplicam-se aos títulos cambiariformes, em tudo que lhes for adequado, inclusive a ação de execução. No direito brasileiro, leis especiais regulam os títulos de crédito, alguns usados em larga escala, outros sem grande utilização nas práticas comerciais. Podem ser mencionados: a letra de câmbio; a nota promissória; o cheque; a duplicata; os títulos de crédito rural (nota promissória rural, duplicata rural, cédula rural pignoratícia, cédula rural hipotecária, cédula rural pignoratícia e hipotecária e nota de crédito rural); os títulos de crédito industrial (cédula de crédito industrial e nota de crédito industrial); as debêntures; o warrant; o conhecimento de transportes; as ações; os títulos da dívida pública; a letra imobiliária; e a cédula hipotecária. Alguns destes são civis e outros empresariais. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 106 7.6 - A INFORMÁTICA E O FUTURO DO DIREITO CAMBIÁRIO O meio magnético vem substituindo paulatina e decisivamente o meio papel como suporte de informações. O registro da concessão, cobrança e cumprimento do crédito comercial não fica, por evidente, à margem desse processo, ao qual se refere a doutrina pela noção de desmaterialização do título de crédito. É certo que as informações arquivadas em banco de dados magnéticos são a base para a expedição de alguns documentos (em papel) relativos à operação (os bancosemitem documentos de quitação de dívida; os cartórios de protesto geram intimação ao devedor e lavram o instrumento de protesto). Contudo, nenhum desses papéis é título de crédito. Diante desse quadro, vale a pena conferir se são compatíveis os princípios do direito cambiário com o processo de desmaterialização do título de crédito. O princípio da cartularidade: se o documento nem sequer é emitido, não há sentido algum em se condicionar a cobrança de crédito à posse de um papel inexistente. O princípio da literalidade: não se pode prestigiá-lo, na medida em que não existe mais o papel, a limitar fisicamente os atos de eficácia cambial. O princípio da autonomia das obrigações cambiais: apresenta-se compatível. Será a partir dele que o direito poderá reconstruir a disciplina da ágil circulação do crédito, quando não existirem mais registros de sua concessão em papel. 7.7 - RIGOR CAMBIÁRIO A lei enumera os requisitos que devem constar de cada título. Os títulos de crédito para valerem como tal devem obedecer a certos requisitos legais. A Súmula 387 do Supremo Tribunal Federal diz que “a cambial emitida ou aceita com omissões, ou em branco, pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do protesto.” ART. 891 CCIVIL DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 107 O Novo Código Civil adotou o princípio da liberdade de criação e emissão de títulos atípicos ou inominados, resultantes da criatividade da praxe empresarial, com base no princípio da livre iniciativa, pedra angular da ordem econômica (Constituição de 1988, arts. 1º e 170), visando a atender às necessidades econômicas e jurídicas do futuro, tendo em vista a origem consuetudinária da atividade mercantil. 7.8 - TÍTULOS DE CRÉDITO EM ESPÉCIE 7.8.1 - LETRA DE CÂMBIO É um título de crédito clássico e comporta todas as características dos títulos de crédito. É mais utilizada em negócios internacionais (comércio exterior) e no Brasil é substituída pela duplicata. Está prevista no Decreto 57663/1966 (Lei Uniforme de Genebra). ATENÇÃO: ler a lei com calma, ler o anexo I que está em vigor, sendo que o anexo II estabelece as reservas do que não vige no Brasil, devendo ser aplicado o Decreto 2044/1908. Conceito Ordem dada, por escrito, a uma pessoa, para que pague a um beneficiário indicado, ou à ordem deste, uma determinada importância em dinheiro. Saque – é a criação da letra de câmbio Aceite – na época do saque, o ato ainda não vincula o sacado, vincula somente o sacador. O aceite é o ato que vincula o sacado. É o ato formal segundo o qual o sacado se obriga a efetuar, no vencimento, o pagamento da ordem que lhe é dada (art. 28). O aceite é formalizado com a assinatura do sacado no título (art.25). Aceite é o ato de vinculação do sacado à letra de câmbio. Quando o sacado aceita pagar, ele passa a ser o devedor principal, denominado de aceitante, o sacador continua sendo devedor, mas não o principal. O aceite pode ser parcial ou total. O aceite parcial equivale a uma recusa parcial. O aceite parcial pode ser limitativo (do valor constante do título) ou modificativo (aceita pagar mas modifica alguns requisitos, ex.: dia de pagamento, também pode condiciona-lo DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 108 a algum fato). O sacado pode recusar o aceite, que na LC é facultativo, podendo ser uma recusa total ou parcial. Isso vai gerar o vencimento antecipado da LC, podendo o tomador cobrar tudo imediatamente do devedor (sacador), mesmo com o aceite parcial. Mas, no caso de aceite parcial, o credor não tem que se submeter a condições, restando ao sacador cobrar do sacado, nos termos do seu aceite. O credor não tem que ficar submetido a condições impostas pelo sacado. A recusa do aceite deve ser comprovada pelo protesto do título (art.14). Aceite por procuração – cláusula-mandato – Código de Defesa do Consumidor, art. 51, VIII (São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: VIII - imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo consumidor). O ato de submeter a letra ao reconhecimento do sacado chama-se apresentação. Se o sacado reconhecê-la, assinando a letra, torna-se aceitante, obrigado principal pelo pagamento. O sacado somente vai assinar a letra se houver uma relação jurídica entre ele e o sacador. Vencida a letra, a apresentação não se faz mais para o aceite, mas simplesmente para o pagamento, se o portador não decaiu de seus direitos. A recusa total ou parcial do aceite acarreta o vencimento antecipado da letra, provado pelo protesto (artigo 43 da Lei Uniforme). Neste caso, o portador do título pode se voltar contra o sacador, é dizer, contra o emitente da letra. O sacador, destarte, ao emiti-la, pode proibir a apresentação do título para aceite. Se o portador não pode apresentá-la para aceite (e, conseqüentemente, não pode protestar por falta de aceite), fica afastada a possibilidade de vencimento antecipado. A letra sacada à vista se vence no ato em que o portador a apresenta ao sacado. Ao sacado é lícito pedir ao portador ou detentor que a letra lhe seja reapresentada uma segunda vez no dia seguinte ao da primeira apresentação. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 109 Limitação do aceite - o aceite, em princípio, é puro e simples, mas admite que o sacado o limite a uma parte da importância sacada. Assim, se o sacado aceita uma letra pela metade de seu valor, a limitação resulta em recusa do aceite, mas o aceitante se vincula cambiariamente ao pagamento da importância reduzida. É o aceite parcial, e o sacador é o responsável pelo saldo não aceito. Cancelamento – a Lei Uniforme admite o cancelamento do aceite, antes da restituição da letra, o que é considerado, então, aceite recusado. Prisão – é inconstitucional a prisão prevista no artigo 885 do Código de Processo Civil, onde se determina a citada medida para os casos de recusa na entrega da letra. Aceite por intervenção – a Lei Uniforme admite que, em certas condições, um estranho à relação cambiária nela intervenha, para firmar o aceite pelo sacado. Esclareçamos a utilidade da intervenção: é que a recusa do aceite pelo sacado pode criar embaraçosas situações para o sacador e os endossadores, pois o portador, em consequência da recusa do aceite pelo sacado, tem o direito de usar do regresso contra o sacador ou endossantes, exigindo deles o pagamento da letra, antes mesmo do vencimento. Prorrogação do prazo de apresentação para aceite – a decadência ou perda de certos direitos cambiários decorrem da não apresentação ou da tardia apresentação da letra. A Lei Uniforme admite, assim, que, havendo caso fortuito ou força maior, possa ser prorrogado o prazo de apresentação para aceite. Cessado o caso fortuito ou força maior, o portador deve apresentar sem demora a letra para aceite, ou para pagamento. Elementos pessoais da Letra de Câmbio o SACADOR - eminente da letra de câmbio / quem dá a ordem de pagamento; o SACADO - quem recebe a ordem de pagamento; o TOMADOR - o beneficiário da ordem de pagamento. Requisitos da Letra de Câmbio DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 110 A letra de câmbio é um título de crédito de modelo livre, isto é, pode ser emitida em qualquer papel, de todos os tamanhos, porquanto não há modelode padronização previsto na legislação de regência. Basta, portanto, o cumprimento dos requisitos legais para a transformação de um simples papel em letra de câmbio. Os requisitos ou elementos da letra de câmbio estão arrolados no artigo 1º da L.U.: “Art. 1º - A letra contém: 1 - A palavra "letra" inserta no próprio texto do título é expressa na língua empregada para a redação desse título; 2 - O mandato puro e simples de pagar uma quantia determinada; 3 - O nome daquele que deve pagar (sacado); 4 - A época do pagamento; 5 - A indicação do lugar em que se deve efetuar o pagamento; 6 - O nome da pessoa a quem ou a ordem de quem deve ser paga; 7 - A indicação da data em que, e do lugar onde a letra é passada; 8 - A assinatura de quem passa a letra (sacador).” A doutrina divide os requisitos em: -Essenciais; -Não Essenciais. Formas de vencimento da Letra de Câmbio - art. 33 a) à vista: Vence contra a apresentação b) a dia certo: no dia que consta no título, que já está ali fixado. c) a tempo certo da data (DO SAQUE): a data do vencimento será contada a partir do saque (emissão) d) a tempo certo da vista (DO ACEITE): o marco inicial é o aceite DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 111 A letra de câmbio deve ser apresentada para pagamento no dia do seu vencimento. Se for apresentada depois do vencimento ocorrerão as seguintes consequências (Decreto não está vigendo nesse sentido): Protesto extemporâneo – dois dias úteis seguintes ao pagamento. Para execução dos co-obrigados é necessário o protesto do título. Se o protesto não for feito nesse prazo, o credor perde o direito de cobrança em relação aos co- obrigados, na verdade, hoje em dia, o protesto assumiu um papel muito maior de meio de coerção extrajudicial. Mas, juridicamente a sua finalidade é permitir a cobrança principal não precisa de protesto. Artigo 70, da lei uniforme, estabelece 03 prazos prescricionais: a) 03 anos contra o devedor principal, o aceitante e seu analista ; senão houver aceite, será o sacador. Prazo contado do vencimento da letra. b) 01 ano contra o sacador, endossantes e avalistas, contando do protesto. c) 06 meses para o regresso entre endossantes e sacador, contados de quando foi efetuado o pagamento. Endosso O endosso é ato unilateral de vontade de transferência dos direitos referentes aos títulos de crédito à ordem (artigo 14, primeiro parágrafo, da LU). Não obstante, a transferência por endosso só é completa quando há a tradição do título (artigo 910, §2º, do CC). Ato cambiário que opera a transferência e vinculação dos direitos inerentes ao título de crédito. Não pode ser parcial. Não existe endosso parcial. O endosso deve sempre constar do título (cartularidade - art.13, Lei Uniforme). O local próprio é o verso do título, não precisando de indicação do ato. Se for feito na frente tem que constar como endosso. Endossante – aquele que transfere por endosso. Endossatário – aquele que recebe o título por endosso. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 112 O endosso pode ser em preto (indicando a pessoa a quem é transferido o título) ou em branco (não indicando a pessoa a quem é transferido o título). Responsabilidade do endossante – o endossante é responsável pelo aceite e pagamento do título, salvo se registrar que endosso é sem garantia – art. 15, da Lei Uniforme. O endosso vincula o endossante ao pagamento do título de crédito, pois ele também vincula o endossante ao pagamento; existe uma solidariedade cambial, que consiste no fato de quem paga poder cobrar tudo do devedor principal, não participação da obrigação. Endosso pleno – transferência e vínculo. Endosso sem garantia – transferência, mas sem o vínculo do pagamento, que consta no título: “pague-se sem garantia”. Endossos impróprios: Endosso caução – títulos de crédito dados em garantia a outro negócio. Não há a transferência do crédito. Trata-se de garantia. “Pague-se em garantia” Endosso mandato – quando o credor não tem disponibilidade para exigir o crédito, então ele transfere para outra pessoa a titularidade para receber em seu nome: “Pague-se por procuração”; o mandatário somente vai receber o valor e passar para o credor. Não houve transferência do crédito. O endossatário-mandatário não tem legitimidade para ingressar em juízo cobrando o crédito. O protesto é ato necessário para garantir o direito de regresso contra os endossantes e seus avalistas. O endosso é o meio pelo qual se processa a transferência do título de um credor para outro. “A transferência do título de crédito implica a de todos os direitos que lhe são inerentes” (Art. 893 CC). Não se confunde com a cessão de crédito, tendo em vista apresentarem as seguintes distinções: a) o endosso é ato unilateral de declaração de vontade, enquanto a cessão é um contrato bilateral; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 113 b) a nulidade de um endosso não afeta os endossos posteriores; na cessão, a nulidade de uma acarreta a das posteriores; c) o endossatário não pode opor exceção senão diretamente contra o endossante que lhe transferiu o título; na cessão, o devedor pode opor ao cessionário a mesma defesa que teria contra o cedente (de acordo com o art. 294 do Código Civil, o devedor pode opor tanto ao cessionário como ao cedente as exceções que lhe competirem no momento em que tiver conhecimento da cessão). Aval Obrigação cambiária assumida por alguém no intuito de garantir o pagamento de título de crédito nas mesmas condições de outro obrigado. Ato cambial de garantia. Somente há em título de crédito; em contratos, a garantia é a fiança. Avalista – aquele que oferece a garantia. Avalizado – aquele que recebe a garantia, é o devedor original do título de crédito. Aval pode ser total ou parcial (art.30). Pode-se indicar a quem é dada a garantia – aval em preto (identifica o avalizado) – ou não – aval em branco (não identifica o avalizado). O aval em branco deve ser lançado na frente do título e é oferecido em favor do sacador (art.31). O local apropriado é na frente da LC. Se for no verso deve identificar o ato. Sendo feito em branco na frente do título, o sacador é o avalizado. Para avalizar o sacado, deve ser em preto. O avalista responde da mesma forma que o avalizado (art.32). Características do aval DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 114 a. Equivalência – o avalista é obrigado nos mesmos termos que o avalizado (exceto se o aval for parcial). Não há benefício de ordem e pode ser acionado isoladamente. b. Autonomia – a obrigação do avalista independe da obrigação do avalizado. Mesmo que a relação do avalizado for nula, a do avalista permanece, mesmo que a do avalizado não. AVAL FIANÇA É autônomo. A obrigação do avalista persiste mesmo com a nulidade do avalizado. É acessória. A nulidade da obrigação do afiançado abrange a obrigação do fiador. Não há benefício de ordem. Há benefício de ordem (fiador indica bens livres e desembaraçados do afiançado). Não era necessária a outorga uxória. Com o novo CC/02 exige a outorga, exceto se houver o regime de separação de bens. Antes existia a necessidade de outorga uxória. Com o novo CC/02 permanece a exigência da outorga uxória. Art. 897 CC: O pagamento de título de crédito, que contenhaobrigação de pagar soma determinada, pode ser garantido por aval. Súmula nº 26 do Superior Tribunal de Justiça – “O avalista do título de crédito vinculado a contrato de mútuo também responde pelas obrigações pactuadas, quando no contrato figurar como devedor solidário”. O aval é a garantia de pagamento da letra de câmbio, dada por um terceiro ou mesmo por um de seus signatários. O aval é materialmente autônomo, mas formalmente dependente. O avalista, se executado, não pode se opor ao pagamento, fundado em matéria atinente à origem do título. Recorde-se que nenhum obrigado pode DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 115 opor ao exeqüente as exceções pessoais de outro devedor. O Supremo Tribunal Federal já afirmou que “não cabe ao avalista defender-se com exceções próprias do avalizado, esclarecendo que sua defesa, quando não se funda em defeito formal do título, ou em falta de requisito para o exercício da ação, somente pode assentar em direito pessoal seu” (RE nº 67.378, in RTJ 57/474). Observe-se, ainda, a seguinte ementa, constante da Revista dos Tribunais: “Execução proposta contra o avalista – Pagamento parcial da dívida alegado em embargos – Exceção respeitante às condições objetivas e materiais do direito de crédito – Oposição admissível, eis que equiparado ao coobrigado – Incomunicabilidade apenas das que respeitem à pessoa do avalizado. (...) Se isso lhe fosse vedado [ao avalista], ficaria em posição inferior ao do avalizado”. Mulher casada e embargos de terceiro em defesa de sua meação – aval prestado pelo marido: a meação da mulher não responde pela dívida contraída pelo marido, salvo se avalizada era a empresa deste e se o empréstimo reverteu em benefício da família. Da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: aval prestado com infringência do contrato social – Validade perante terceiros de boa fé. (...) A proibição de prestar aval, estabelecida no contrato, é válida somente entre sócios e obrigados, não sendo oponível a terceiros de boa-fé. Aval antecipado – o aval pode anteceder o aceite ou o endosso, ainda não lançados no título. A respeito do aval aposto antes do aceite, cumpre salientar que a recusa total ou parcial do aceite nenhuma influência exercerá sobre a responsabilidade do avalista, que independentemente do aceite assumiu a obrigação de garantir o pagamento do título. Diferentemente ocorre com o avalista antecipado de endosso: se o endosso não se realizar, nenhuma obrigação se originou para o avalista do endossante. Pagamento da Letra de Câmbio A letra de câmbio é uma obrigação quérable por natureza, pois o devedor, no dia do vencimento, não sabe nas mãos de quem e onde se encontra o título. O portador deve ir ao devedor apresentar o título para pagamento. A Lei Uniforme dispõe que a letra deve ser apresentada para pagamento no dia do vencimento ou em um dos dois dias subseqüentes. O Brasil, todavia, DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 116 usou da reserva, razão pela qual, em relação às letras pagáveis em seu território, deverá o portador fazer a apresentação no próprio dia do vencimento. Tal regra, evidentemente, não se aplica às letras à vista, as quais podem ser apresentadas em qualquer momento, no prazo de um ano. Efeitos da não-apresentação – O portador que não apresentar a letra para pagamento, seja qual for a modalidade de prazo de vencimento, na época determinada, perde, em consequência, o direito de regresso contra o sacador, endossadores e respectivos avalistas. Expirado o prazo de apresentação para pagamento, o portador somente terá direito de ação contra o aceitante (e respectivo avalista). Em consequência de o título ser documento essencial para o exercício do direito, a sua posse em mãos do devedor presume o pagamento. Tal presunção, contudo, admite prova em contrário (pode ser que haja o título sido roubado ou extraviado). O portador não pode recusar o pagamento que se lhe queira efetuar, seja total ou parcial, se for oferecido no dia do vencimento (no direito civil, o credor pode recusar o pagamento parcial). Art. 902, § 1°, CC: no vencimento, não pode o credor recusar pagamento, ainda que parcial. O pagamento antecipado, seja total ou parcial, pode ser recusado. Art. 902 CC: não é o credor obrigado a receber o pagamento antes do vencimento do título, e aquele que o paga, antes do vencimento, fica responsável pela validade do pagamento. Verificação dos endossos – Aquele que paga a letra é obrigado a verificar a regularidade da sucessão dos endossos, mas não a assinatura dos endossantes. A cadeia de endossos em preto deve estar perfeita, com as assinaturas dos endossantes se encadeando, um a um. Supremo Tribunal Federal – Somente se caracteriza a recusa do pagamento de título cambial pela sua apresentação ao devedor, demonstrada pelo protesto. Até este momento, o devedor não é culpado pelo atraso na liquidação da dívida (até porque pode nem saber quem é o portador do título). Não se olvide que a cambial é um título de apresentação. Lugar do pagamento – Na falta de menção no título, prevalece o lugar que constar ao lado do nome do sacado. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 117 Aquele que paga a letra antes do respectivo vencimento fica responsável pela validade desse pagamento. Assim é porque pode ocorrer que o título tenha sido extraviado, e se encontre na posse ilegítima do portador. Art. 902 CC: não é o credor obrigado a receber o pagamento antes do vencimento do título, e aquele que o paga, antes do vencimento, fica responsável pela validade do pagamento. O credor pode fazer uma oposição ao pagamento, nos casos em que o título estiver na posse ilegítima de outra pessoa. Esta oposição deve ser dirigida ao devedor por carta registrada. Efeitos do pagamento – Há que se distinguir duas situações: a) o pagamento efetuado pelo aceitante (obrigado principal) ou pelos respectivos avalistas desonera da responsabilidade cambial todos os coobrigados; b) o pagamento feito pelo sacador, endossantes ou respectivos avalistas desonera da responsabilidade apenas os coobrigados posteriores. Pagamento por intervenção: o que paga por intervenção (a intervenção é sempre voluntária) fica sub-rogado nos direitos emergentes da letra. Se a apresentação da letra ou o seu protesto não puder ser feito dentro dos prazos indicados por motivo insuperável (caso fortuito ou força maior), esses prazos serão prorrogados. É a mesma regra da apresentação para aceite. 7.8.2 - NOTA PROMISSÓRIA Está prevista na mesma legislação da letra de câmbio, por isso haverá várias regras em comum. Contudo, deve-se observar que a nota promissória é promessa de pagamento. Emitente ou subscritor – quando emite a nota, já está se obrigando. É o devedor. Beneficiário – é o credor Como o devedor já está se submetendo diretamente ao pagamento, não é necessário o aceite, pois é ele que emite o próprio título. Legislação aplicável à Nota Promissória DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 118 Decreto 57663/1966 – Lei Uniforme de Genebra Conceito de Nota Promissória Promessa de pagamento de certa quantia em dinheiro feita, por escrito, por uma pessoa, em favor de outra ou à sua ordem. Elementos pessoais da Nota Promissória o EMITENTE ou SUBSCRITOR – aquele que faz a promessa de pagamento; o BENEFICIÁRIO – o favorecido na promessa de pagamento.Aplicação das regras da Letra de Câmbio à Nota Promissória Artigo 77 Endosso (ato de transferência dos direitos inerentes ao título de crédito). Somente o títular do crédito pode endossar, ou seja, o credor ou beneficiário. Quem endossa é o endossante, quem recebe e endossatário. O novo credor pode cobrar de todos os anteriores, até do endossante, que não é o devedor principal, mas também é devedor. Aval (ato de garantia cambial) quem presta o aval é o avalista, quem é garantido é o avalizado. Os dois são equiparados, pois, respondem da mesma forma, não há benefício de ordem; ou seja, tanto um, quanto outro pode ser cobrado indistintamente. As duas obrigações são distintas, mesmo que haja nulidade na relação jurídica do avalizado em relação ao credor, não implicará na nulidade da obrigação do avalista; são obrigações autônomas. As exceções pessoais do avalizado, também não alcançam o avalista. Somente o devedor pode ser avalizado, na NP são devedores: o emitente e os endossantes. Vencimento e pagamento da Nota Promissória Seguem as mesmas regras da letra câmbio, somente retirando a existência do vencimento até certo termo da vista, pois, não existe aceite. O prazo do protesto também é de 02 dias úteis subseqüentes ao vencimento, para garantir a possibilidade de cobrança dos co-obrigados. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 119 Prazos prescricionais da nota promissória são os mesmos da letra de câmbio, com a única diferença a de que no lugar do aceitante entra o eminente e é retirada a figura do sacado. a) 03 anos contra o devedor principal, o eminente e seu avalista, a partir do vencimento da promissória b) 01 ano contra endossantes e seus avalistas, contado do protesto. c) 06 meses para regresso entre endossante, contados de quando foi efetuado o pagamento. 7.8.3 - DUPLICATA É título príncipe do direito brasileiro e é muito utilizada em substituição à letra de câmbio. É um título causal que somente pode ser emitido por: compra e venda (empresários) e prestação de serviço. É uma ordem de pagamento sempre vinculada ao contrato de compra e venda ou de prestação de serviços. Existe o sacador ou emitente (é o que emite a duplicata; ele é o vendedor) e o sacado (que é o comprador), que paga para o beneficiário, que é o próprio vendedor. Sacado é o devedor Beneficiário é credor Sacador é credor Observação: a duplicata praticamente não é emitida, sendo substituída pelo boleto bancário. Trata-se de criação brasileira. O motivo real de implantação da duplicata de fatura foi o interesse tributário do Governo (à época em que o imposto sobre DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 120 vendas mercantis cabia à União). Era título de emissão obrigatória, porquanto constituía o veículo de arrecadação e fiscalização do imposto. Hoje, sua emissão é uma faculdade do credor. É um título emitido juntamente com a fatura. A fatura não é, evidentemente, título representativo de mercadorias, mas é o documento do contrato de compra e venda mercantil, que enseja a emissão da duplicata, esta sim um título de crédito. O Prof. Waldemar Ferreira se refere à duplicata como “título de crédito, representativo da venda de mercadorias efetivamente entregues”. A jurisprudência não aceita a emissão de nova duplicata apenas para correção monetária e juros de mora. Uma duplicata só pode corresponder a uma única fatura (artigo 2°, § 2°, da Lei). Legislação aplicável à Duplicata Lei 5474/1968 (alterada pelo D.L. 436/1969). Características das Duplicatas Título causal. Título de crédito que emerge de uma compra e venda mercantil ou prestação de serviço. Ordem de pagamento. Título de modelo vinculado. Elementos pessoais das Duplicatas a) SACADOR - quem dá a ordem de pagamento/aquele que vende a mercadoria ou serviço; b) SACADO - quem recebe a ordem de pagamento/aquele que compra a mercadoria ou serviço; A Duplicata e o Princípio da Cartularidade O regramento da duplicata em alguns momentos não age em observância ao princípio da cartularidade. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 121 Após a emissão da duplicata pelo sacador/vendedor, ela deveria ser remetida para o sacado/comprador para o lançamento do aceite. Veja as regras no art. 6o e seguintes da Lei das Duplicatas. Esse procedimento gera um risco para o sacador/vendedor, pois a duplicata pode extraviar ou não ser devolvida pelo sacado/comprador. Ocorrendo uma dessas hipóteses, ficaria o sacador/vendedor impossibilitado de fazer a cobrança, por não possuir o título, se a Lei das Duplicatas não tivesse criado alternativas para substituí-la. Em caso de perda ou extravio da duplicata, poderá o sacador/vendedor emitir triplicata para substituí-la (art. 23 da Lei das Duplicatas). Em caso de retenção da duplicata pelo sacado/comprador, poderá ser protestado o título por simples indicações do portador do título. O aceite e a recusa O aceite na duplicata é obrigatório, por tratar-se de título causal. O aceite só poderá ser recusado de acordo com os arts. 8o e 21: a) Defeito na mercadoria b) Mercadoria entregue diferentemente do que foi acertado c) Avaria d) Divergência nos prazos e nos preços ajustados. Em função do seu caráter obrigatório, o aceite da duplicata mercantil pode ser discriminado em três categorias: a) aceite ordinário – aquele em que o sacado lança sua assinatura no título; b) aceite por comunicação – aquele em que o sacado retém o título e expressa o aceite em carta/comunicado apartado; c) aceite por presunção – caracteriza aceite presumido quando o sacado/ comprador recebe a mercadoria e não reclama e quando o título é protestado, sem que haja obstáculo – art. 15 da Lei das Duplicatas (ver item 7.6) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 122 Princípio do suprimento do aceite – Ainda que não haja aceite, o título pode ser utilizado para ação executiva (constitui título executivo, portanto) nas seguintes hipóteses legais: a) quando o sacado, recebendo a duplicata, a retém com o consentimento do credor, tendo comunicado por escrito que a aceitou e a reteve (esta comunicação seria o título executivo); b) quando a duplicata ou triplicata não aceita, mas protestada, vem acompanhada de qualquer documento comprobatório da remessa ou da entrega da mercadoria (artigo 15). O título executivo seria a duplicada acompanhada da prova da remessa ou entrega da mercadoria; c) quando a duplicata ou triplicata não é aceita nem devolvida, mas o protesto (por falta de aceite ou de devolução) é tirado mediante indicações do credor, o qual deve provar que o devedor recebeu o título. Neste caso, como na situação de ‘b’, deve-se comprovar a remessa ou entrega da mercadoria. O título executivo seria o instrumento do protesto tirado mediante indicações, acompanhado da prova de remessa ou entrega da mercadoria. Observe-se que há um abrandamento do princípio da cartularidade. Se a duplicata não é aceita, mas o credor não dispõe de prova da remessa ou entrega da mercadoria, deverá mover ação de cobrança (ação de rito ordinário; não poderá se valer de ação executiva). O protesto da Duplicata Tem a mesma finalidade que dos outros títulos de crédito, ou seja, poder cobrar os demais co-obrigados. A duplicatapode ser protestada - por falta de aceite; - por falta de devolução; - por falta de pagamento. - PROTESTO POR INDICAÇÃO (art. 13, parágrafo 1o da Lei das Duplicatas) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 123 O protesto da duplicata pode ser solicitado sem que o sacador a tenha em mãos. Se a duplicata foi remetida para aceite e não foi devolvida, poderá haver protesto mediante simples indicações dos dados do título (retirados do livro de emissão de duplicatas – obrigatório para os empresários que emitem tais títulos) ao Cartório de Protestos. - Para garantir o direito de regresso contra os endossantes e seus avalistas, o protesto deve ser feito até 30 dias após o vencimento do título. – art. 13, par. 4o Lei das Duplicatas. A execução da Duplicata – art. 15 Título Executivo 1) duplicata aceite, protestado ou não 2) duplicata não aceita (triplicata ou por indicação) + protesto + documento de comprovação da entrega da mercadoria – recusa justificada pode ser feita quando for duplicata ou triplicata (cópia da duplicata em caso de perda ou extravio) aceita, protestada ou não. Em caso de aceite ordinário ou por comunicação. Também pode ser executada a duplicata não-aceita (não teve o aceite ordinário e nem por comunicação), que inicialmente pensou-se em aceite por presunção, que não foi confirmado pelo pagamento. Nesse caso são requisitos cumulativos: a) protesto (até contra o devedor principal; mesmo que o protesto seja por indicação) b) comprovante de entrega da mercadoria. Que o sacado não tenha comprovadamente recusado o aceite. 7.8.4 - CHEQUE Está na lei 7357/85 Cheque é uma ordem de pagamento à vista (artigo32). Quem ordena é a emitente ou devedor. A ordem é dirigida ao DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 124 banco (instituição financeira) que é o sacado, é o que cumpre a ordem de pagamento. Aquele que recebe o cheque é o beneficiário, o credor da importância. O banco não tem qualquer responsabilidade pelo pagamento imediato de cheques pós-datados. Foi elaborada, também na Convenção de Genebra, uma Lei Uniforme apenas para a disciplina dos cheques, a qual foi inserida no ordenamento jurídico brasileiro através do Decreto nº 57.595, de 7 de janeiro de 1966. O Brasil, todavia, posteriormente, editou sua própria lei sobre cheques – a Lei nº 7.357, de 2 de setembro de 1985. Referida lei, no entanto, respeitou as normas da Lei Uniforme; seu escopo foi apenas de assegurar uma redação mais condizente com as peculiaridades da legislação interna e de melhor harmonizar certos dispositivos a outros existentes na praxe doméstica. Alguns levantam dúvidas quanto à sua caracterização como título de crédito. O cheque – é bem verdade – é um instrumento de pagamento, na sua forma mais simples. Todavia, ele também toma a feição de título de crédito, quando se apresenta com endosso e aval, pondo-se em circulação. Aplicam-se- lhe, portanto, os institutos próprios aos títulos de crédito. Visto – Aposto pelo sacado, obriga-o a debitar à conta do emitente a quantia indicada no cheque e a reservá-la em benefício do portador legitimado, durante o prazo de apresentação, sem que fiquem exonerados o emitente, endossante e demais coobrigados. Visto não é aceite. Provisão de fundos – O emitente deve ter fundos disponíveis em poder do sacado (artigo 4°). A infração deste preceito não acarreta a nulidade do cheque; este, todavia, não é pago pelo sacado. Quanto aos cheques “pós-datados” (os chamados pré-datados), deve ser feita a seguinte observação: o artigo 28 da Lei Uniforme determina que “o cheque apresentado a pagamento antes do dia indicado como data de emissão é pagável no dia da apresentação”. A data futura, ou a pré-data, é pela Lei Uniforme considerada como inexistente, e o beneficiário pode apresentá-la imediatamente ao sacado. Assim, não havendo provisão, caracteriza-se o cheque sem fundos. Desapossamento – o artigo 24 da Lei Uniforme esclarece que desapossado alguém de um cheque, o novo portador legitimado não está obrigado a restituí- lo, se não o adquiriu de má-fé. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 125 Legislação aplicável ao Cheque Lei 7357/1985. Conceito de Cheque Ordem de pagamento, à vista, dada a um banco ou instituição assemelhada, por alguém que tem fundos disponíveis no mesmo, em favor próprio ou de terceiro. Elementos pessoais do Cheque a) EMITENTE ou SACADOR – aquele que dá a ordem de pagamento; b) BENEFICIÁRIO ou TOMADOR– o favorecido da ordem de pagamento; c) SACADO – aquele que recebe a ordem de pagamento – o banco. Tipos de Cheque a) Cheque Cruzado – Recebe na frente (anverso) dois traços paralelos e transversais. O cruzamento do cheque faz com que ele só possa ser pago a um banco, para tanto deverá ser depositado em um conta. Há cruzamento em branco (quando não se indica em que banco deve ser depositado) e em preto (quando, entre os traços, é feita indicação do banco em que deve ser depositado). – art.44 da Lei do Cheque. b) Cheque Para Ser Levado Em Conta – Quando o emitente proíbe o pagamento do título em dinheiro exigindo que seja depositado em conta. Não tem utilização atualmente, pois o cheque cruzado é mais conhecido e atende ao mesmo objetivo. – art. 46 da Lei do Cheque. c) Cheque Administrativo – É o emitido pelo banco. Será necessariamente nominal. É usado em casos em que se quer ter certeza de que tem fundos. – art. 9o , III da Lei do Cheque. d) Cheque Visado – Aquele em que o banco, a pedido do emitente, declara no verso a existência de fundos. Cabe ao banco reservar o valor visado na conta do emitente para que não sirva ao pagamento de outro cheque. – art. 7o Lei do Cheque DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 126 Prazo para apresentação do Cheque – Art. 33 da Lei do Cheque não é o prazo prescricional do cheque. A perda tem uma consequência, mas que não são as mesmas da prescrição: - 30 dias – mesma praça. - 60 dias – praças diversas. A não apresentação do cheque no prazo de apresentação acarreta a perda do direito de regresso contra os endossantes e seus avalistas. Continua podendo cobrar do emitente. Obs.: por conta da CPMF, o legislador estabeleceu que o cheque somente pode ser endossado uma única vez. A apresentação no prazo de pagamento deve ser comprovada para que permaneça o direito de regresso contrato endossantes e seus avalistas. Quando se tratar de cheque a comprovação pode ser feita alternativamente: a) protesto; b) declaração do sacado, escrita e datada, com indicação do dia de apresentação (carimbo de devolução do cheque). Ver art. 47 da Lei do Cheque. Obs.: Protesto – não precisa para cobrar de co-obrigados, por que basta o carimbo do banco de que o cheque não tinha fundos, para suprir a necessidade de protesto. Se o cheque, por falta de fundos, voltar por duas vezes, não podem mais ser emitidos cheques e o nome do emitente vai para o rol dos emitentes de cheques sem fundos. Sustação do Cheque Objetiva impedir a liquidação do cheque pelo banco sacado. a) Revogação ou Contra-ordem – art. 35 da Lei do Cheque Ato exclusivo do emitente. Somente pode ser manifestada após o fim do prazo de apresentação. Deverá o emitente apresentar as razões motivadoras do ato. b) Oposição – art. 36 da Lei do Cheque DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégicopara o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 127 Ato de emitente ou portador legitimado. Pode ser manifestada mesmo antes do término do prazo de apresentação. Deverá apresentar relevante razão de direito. Não cabe ao banco julgar a relevância da razão invocada para a oposição. Prescrição – o prazo é de 6 meses após o prazo de apresentação do cheque; uns dizem que seria após o término do prazo e outros que seria a partir do dia da apresentação (essa é majoritária na jurisprudência), tendo como marco final os trinta ou sessenta dias. Este é o dies a quo para quando o cheque não for apresentado. Se for apresentado e não pago, por qualquer motivo, inclusive falta de provisão de fundos, a prescrição começa a contar a partir do dia da primeira apresentação. Ações cabíveis para cobrança do cheque: a) Execução (prescrição de 6 meses) b) Ação de enriquecimento ou locupletamento indevido – está prevista na lei de cheque (artigo 61); é uma ação de conhecimento e somente pode ser ajuizada depois de prescrito o cheque. Ela somente é cabível no prazo de 2 anos após a consumação da prescrição. Sobre a discussão da causa do cheque, há divergência jurisprudencial. c) A monitória (para qualquer título de crédito) Aspectos criminais envolvendo o Cheque Fraude no pagamento por meio de cheque (art. 171, §2°, VI, CP): - o cheque é do emitente - a consumação ocorre com a recusa do pagamento - o foro competente é o do local onde se deu a recusa do pagamento pelo sacado (Súmula 521 STF) - se o pagamento ocorre antes do recebimento da denúncia, a pena será reduzida de um a dois terços, em face do arrependimento posterior (art. 16 do CP, após reforma de 1984) - antes da reforma não existia tal instituto e nos termos da Súmula 554 do STF, o pagamento efetuado antes do recebimento da denúncia retirava a justa DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 128 causa para a ação penal (554 - O pagamento de cheque emitido sem provisão de fundos, após o recebimento da denúncia, não obsta ao prosseguimento da ação penal. (D. Pen .)) Estelionato comum mediante falsificação de cheque (art. 171, “caput”): - o cheque não é do emitente - a consumação ocorre no momento em que o agente obtém a vantagem ilícita - compete ao juízo do local da obtenção da vantagem ilícita processar e julgar (Súmula 48 STJ) 7.9 - TÍTULOS DE CRÉDITO E FINANCIAMENTO RURAL, INDUSTRIAL, COMERCIAL E IMOBILIÁRIO Além dos títulos de crédito próprios já estudados, há outros títulos de crédito também importantes para o mercado. Costumam-se denominar tais instrumentos pela expressão “títulos de crédito impróprios”, da qual são espécies: - título de financiamento - título de legitimação - títulos representativos - títulos de investimentos Título de financiamento são títulos que asseguram ao seu portador a prestação de um serviço ou acesso a prêmios em certame promocional ou oficial. Ex.: bilhete do metrô, passe de ônibus, ingresso em cinema, volante sorteado de loteria. Aplicam-se os princípios da cartularidade, da literalidade e da autonomia, mas não são títulos executivos. Títulos de investimento destinam-se à captação de recursos pelo emitente. Representam-se a parcela de um contrato de mútuo celebrado entre o sacador do título e os seus portadores. Ex.: letras imobiliárias; certificado de depósito bancário. Há alguns tipos de títulos com esse perfil econômico DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 129 (captação e investimento), mas enquadrados em conceito jurídico distinto. É o caso das debêntures, que são valores imobiliários. Títulos representativos representam a titularidade de mercadorias custodiadas por terceiro não-proprietário. Podem tais instrumentos exercer, além dessa função meramente documental, a de título de crédito, na medida em que possibilitam ao proprietário da mercadoria custodiada a negociação dela, sem prejuízo da custódia. Ex.: conhecimento de frete; warrant e conhecimento de depósito. Títulos de financiamento. Há alguns instrumentos cedulares representativos de crédito decorrente de financiamento aberto por uma instituição financeira. Se houver garantia de direito real do pagamento do valor financiado, por parte do mutuário, esta garantia é constituída no próprio título, independentemente de qualquer outro instrumento jurídico. Os títulos de financiamento são, também, importantes meios de incrementos de atividades econômicas, sendo também utilizados para financiamento da aquisição da casa própria. Tais títulos costumam chamar-se “Cédula de Crédito” quando o pagamento do financiamento a que se referem é garantido por hipoteca ou penhor (direito real de garantia sobre bom imóvel ou móvel). Inexistindo garantia de direito real, o título é comumente denominado “Nota de Crédito”(apenas gozam de privilégio especial sobre bens livres do devedor, em caso de sua insolvência ou falência). Os títulos de financiamento não se enquadram, completamente, no regime jurídico-cambial, por força de algumas particularidades: - possibilidade de endosso parcial, e - aplicação do princípio da cedularidade (estranho ao direito cambiário), segundo o qual a constituição dos direitos reais de garantia se faz no próprio instrumento de crédito, na própria cédula. Nesta categoria de títulos de crédito impróprios se esquandram: a) cédula e nota de crédito rural (D.L. 167/1967), relacionadas com o financiamento de atividades agrícolas e pecuárias; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 130 Os títulos de crédito rural são vários. Em primeiro lugar, temos a cédula de crédito rural e a nota de crédito rural, disciplinadas pelo D.L. 167/1967. Trata-se de títulos causais, de natureza civil, resultantes de financiamento a cooperativa, empresa ou produtor rural. Outros títulos de crédito rural são a nota promissória rural e a duplicata rural, também disciplinadas pelo mesmo D.L.. São títulos causais, fundados em operações de compra e venda de natureza rural, contratadas a prazo, não constitutivas de financiamento no âmbito do crédito rural. Por fim, há também a cédula de produto rural, disciplinada pela L. 8924/1994. Trata-se de título de natureza causal, emitido por produtor ou cooperativa rural, como promessa de entrega de produtos rurais, podendo conter garantia hipotecária, pignoratícia ou fiduciária. b) cédula e nota de crédito industrial (Dec.Lei 413/1969), referentes ao financiamento da indústria; c) cédula e nota de crédito comercial (Lei 8.640/1980), destinadas ao financiamento de atividade comercial ou de prestação de serviços; Dentre os títulos de crédito comercial, destacam-se o conhecimento de depósito e o warrant, disciplinados pelo D. 1102/1903. Trata-se de títulos emitidos pelos armazéns gerais, referentes d) cédula e nota de crédito à exportação (Lei 6.313/1975), pertinentes ao financiamento de produção de bens para exportação, da própria exportação e de atividades complementares; e) cédula hipotecária (Dec Lei 70/1966), destinada ao financiamento da casa própria pelo Sistema Financeiro da Habitação; f) cédula e letra de crédito imobiliário (Lei 10.931/2004); g) cédula de crédito bancário (Lei 10.931/2004); Súmulas STJ: 16 - A legislação ordinária sobre crédito rural não veda a incidência da correção monetária. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 13193 - A legislação sobre cédulas de crédito rural, comercial e industrial admite o pacto de capitalização de juros. 7.10 - PROTESTO (Lei nº 9.492/1997) - O protesto constitui elemento fundamental para o exercício do direito de regresso. 7.10.1 - CONCEITO DE PROTESTO (ART. 1º, DA LEI Nº 9.492/1997) É o ato formal e solene pelo qual se prova a inadimplência e o descumprimento de obrigação originada em títulos e outros documentos de dívida. “Art. 1º Protesto é o ato formal e solene pelo qual se prova a inadimplência e o descumprimento de obrigação originada em títulos e outros documentos de dívida.” Crítica: quando se trata de letra de câmbio (ordem de pagamento), onde se tem o sacador (quem dá a ordem), o sacado (quem recebe a ordem) e o tomador/beneficiário (credor), o sacado, caso concorde com a ordem de pagamento, dará o ato cambial chamado de aceite – que é ato de concordância (o aceite é facultativo). Dessa forma, quando o sacado não dá o aceite, ele não está descumprindo nenhuma obrigação, pois o aceite, nessas situações, é facultativo. Daí, pergunta-se: ¿como fica o protesto por falta de aceite? O sacado, que não dá o aceite, não estará descumprindo obrigação alguma. Observação: cláusula “sem protesto” (ou “sem despesa”) – é possível inseri-la no título. Caso o seja, o portador pode exercer o seu direito de ação contra os coobrigados independentemente de protesto do título. Conceito de Protesto para F.U.C. Protesto é o ato praticado pelo credor, perante o competente cartório, para fins de incorporar ao título de crédito a prova de fato relevante para as relações cambiais. 7.10.2 - FINALIDADE DO PROTESTO DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 132 Da jurisprudência do STF – Para o credor exigir judicialmente do aceitante ou do seu avalista a dívida cambiária, não é necessário o prévio protesto do título. O protesto é exigido “só para os casos de ação regressiva do portador contra o sacador, endossador e avalista” (in RTJ 57/469). -Comprovar a falta de pagamento; -Comprovar a falta ou recusa do aceite; -Art. 202, inciso III, do CC (“o protesto interrompe o prazo prescricional” – não se aplica mais a Súmula 153 do STF28); -‘Constranger’ legalmente o devedor. -O protesto é o termo inicial da incidência de juros, em não havendo outro prazo assinado (art. 40 da Lei nº 9.492/199729). -É necessário para fins falimentares (art. 94, inciso I, da NLFR) – ‘impontualidade injustificada’ só é válida se o título for protestado. -Constituir em mora o devedor de alienação fiduciária (art. 2º, §2º, do D.L. 911/1969) – “a mora decorre do simples vencimento do prazo para pagamento e poderá ser comprovada por carta registrada expedida por intermédio de Cartório de Títulos e Documentos ou pelo protesto do título, a critério do credor.” -Importante para definir o efeito do endosso póstumo (é aquele dado após o vencimento do título). Se o endosso é dado após o protesto ou quando expirado o prazo do protesto, o endosso terá efeitos de cessão civil. -Fixação do termo legal da falência (=termo legal é o lapso temporal que antecede a falência. Os atos praticados pelo falido dentro do termo legal serão considerados ineficazes pelo magistrado). Da data do primeiro protesto é que se conta o termo legal. 28 “Simples protesto cambiário não interrompe a prescrição.” 29 “ART. 40. NÃO HAVENDO PRAZO ASSINADO, A DATA DO REGISTRO DO PROTESTO É O TERMO INICIAL DA INCIDÊNCIA DE JUROS, TAXAS E ATUALIZAÇÕES MONETÁRIAS SOBRE O VALOR DA OBRIGAÇÃO CONTIDA NO TÍTULO OU DOCUMENTO DE DÍVIDA.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 133 7.10.3 - DOCUMENTOS PROTESTÁVEIS -contrato de aluguel -contrato de alienação fiduciária -cheque -confissão de dívida -certidão de dívida ativa -contrato de locação -contrato de mútuo -contrato de prestação de serviços -duplicatas -letra de câmbio -sentença judicial -termo de acordo -termo de conciliação da Justiça Laboral Obs.: tanto o título, como o documento de dívida levado a protesto, deve ser certo, líquido e exigível. **Título em moeda estrangeira e emitido fora do Brasil pode ser protestado? SIM! O art. 10 da Lei nº 9.492/1997 diz que pode, desde que o documento de dívida esteja acompanhado de tradução elaborada por tradutor/intérprete juramentado (“Art. 10. Poderão ser protestados títulos e outros documentos de dívida em moeda estrangeira, emitidos fora do Brasil, desde que acompanhados de tradução efetuada por tradutor público juramentado.”). Vide art. 148 da L.R.P. (L. 6015/1963) o documento deve ser registrado no Cartório de Títulos e Documentos e, posteriormente, levado ao Tabelionato de protestos. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 134 Pergunta-se: ¿é possível o protesto de boleto bancário? O STJ entende que boleto bancário não é título de crédito (REsp 36980830 e REsp 827856). ATENÇÃO: alguns estados não admitem o protesto da C.D.A. Contudo, existem outros que já editaram leis admitindo o protesto da C.D.A. (ex.: lei 13160/2008, de São Paulo). Para os estados que admitem, a fundamentação jurídica encontra-se no D. 3048/1999 (art. 245). Obs.: Portaria 321/2006 da PGFN – recomendação de protesto da C.D.A. Cheque: há cheque que não pode ser protestado: furtado, extraviado, cancelamento de conta, etc. (motivos XX, XXV, XXVIII, XXX e XXXV). Obs.: motivo XXI de devolução do cheque ‘desacordo comercial’: o STJ entende que é admissível o protesto de cheque por desacordo comercial. Cheque prescrito: ¿é possível o protesto de cheque prescrito? Luiz Emygdio entende que não é possível, pois o título prescrito não é mais exigível. Contudo, a posição majoritária (seguida pelo STJ) é que o título prescrito não pode ser objeto de execução, mas é exigível por ação monitória, cabendo, dessa forma, o protesto de título prescrito (REsp 671.486). Há, ainda, um posicionamento intermediário, qual seja: o cheque prescrito perde a característica cambial, mas passa a ser documento de dívida. Assim, como o documento de dívida é protestável, o cheque prescrito pode ser protestado (não como cheque, mas como documento de dívida), atendendo o prazo de prescrição da relação causal. 7.10.4 - COMPETÊNCIA FUNCIONAL DO PROTESTO 30 “FALÊNCIA – DUPLICATA MERCANTIL – COMPROVAÇÃO – REMESSA PARA ACEITE - PROTESTO DE BOLETOS BANCÁRIOS – IMPOSSIBILIDADE – EXTRAÇÃO DE TRIPLICATAS FORA DAS HIPÓTESES LEGAIS. I – Para amparar o pedido de falência, é inservível a apresentação de triplicatas imotivadamente emitidas, eis que não comprovados a perda, o extravio ou a retenção do título pelo sacado. II – A retenção da duplicata remetida para aceite é condição para o protesto por indicação, inadmissível o protesto de boletos bancários. Recurso não conhecido.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 135 “Art. 3º Compete privativamente ao Tabelião de Protesto de Títulos, na tutela dos interesses públicos e privados, a protocolização, a intimação, o acolhimento da devolução ou do aceite, o recebimento do pagamento, do título e de outros documentos de dívida, bem como lavrar e registrar o protesto ou acatar a desistência do credor em relação ao mesmo, proceder às averbações, prestar informações e fornecer certidõesrelativas a todos os atos praticados, na forma desta Lei.” É de competência privativa do Tabelião de Protesto de Títulos. É serviço de caráter privado, por delegação do Poder Público, e fiscalizado pelo Judiciário. 7.10.5 - COMPETÊNCIA TERRITORIAL Regra geral: local do pagamento do título ou do documento de dívida. Na ausência do lugar de pagamento, será competente o lugar do domicílio do devedor. Exemplo: sentença condenatória transitada em julgado como, via de regra, não traz o local de pagamento, será competente o domicílio do devedor. **Competência para o protesto de cheque - art. 6º, da Lei nº 9.492/1997: “Art. 6º Tratando-se de cheque, poderá o protesto ser lavrado no lugar do pagamento ou do domicílio do emitente, devendo do referido cheque constar a prova de apresentação ao Banco sacado, salvo se o protesto tenha por fim instruir medidas pleiteadas contra o estabelecimento de crédito.” **E se em uma determinada comarca tiver mais de um Tabelionato de Protesto? É necessário o chamado “Cartório Distribuidor” (redação do p. único do art. 7º): “Art. 7º Os títulos e documentos de dívida destinados a protesto somente estarão sujeitos a prévia distribuição obrigatória nas localidades onde houver mais de um Tabelionato de Protesto de Títulos. Parágrafo único. Onde houver mais de um Tabelionato de Protesto de Títulos, a distribuição será feita por um Serviço instalado e mantido DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 136 pelos próprios Tabelionatos, salvo se já existir Ofício Distribuidor organizado antes da promulgação desta Lei.” Pergunta-se: o que ocorre se eu levar para um Cartório sem ser o distribuidor? Caso o Tabelião receba o título, ele cometerá o crime de prevaricação. 7.10.6 - NATUREZA JURÍDICA DO PROTESTO O protesto tem natureza jurídica probatória e de pressuposto processual. Obs.: só é possível a execução de codevedor de título de crédito se o título for protestado EM TEMPO HÁBIL. A doutrina, ao classificar o protesto, diz que o protesto pode ser: Necessário: é aquele protesto na sua concepção mais ampla, ou seja, protesto com natureza jurídica de ato probatório e de pressuposto processual. É o protesto indispensável para que o portador assegure o seu direito de regresso contra todos os codevedores do título, desde que apresentado de forma legal, regular e tempestiva. Facultativo: é aquele tirado para outra finalidade que não a de promover a ação regressiva contra os codevedores. O protesto é facultativo quando o credor pode exigir o cumprimento da obrigação, sem ele, em juízo. Obs.: se se pretende executar o devedor principal de um título, não há necessidade de protesto (o protesto, aqui, é facultativo). Exemplos: -Letra de câmbio sacador sacado – emite o aceite tomador beneficiário Quando o sacado dá o aceite, ele se torna o devedor principal do título. O protesto será facultativo se a intenção é executar o sacador. Será necessário, DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 137 contudo, se a intenção é executar o sacador ou endossante. O avalista do sacado fica na mesma situação: facultativo. O avalista do sacador/endossante é, por sua vez, necessário. -Duplicata sacador sacado – emite o aceite (é devedor principal) tomador Será facultativo para se executar o sacado. Contudo, se a intenção for de executar os demais, o protesto será necessário. -Nota promissória emitente (promete pagar a nota) tomador/beneficiário (pode realizar endosso) O emitente é o devedor principal. O credor, se quiser, pode endossar (no caso de transferência do título). O protesto será facultativo se a intenção for de executar o emitente. Se a vontade for de executar o endossante, o protesto será necessário. -Cheque sacador (é o correntista) sacado (é o banco) tomador/beneficiário (é o credor) O devedor principal é o sacador. Se o credor quiser, poderá dar endosso do cheque. O protesto será facultativo se a intenção for de executar o sacador- emitente. Pergunta-se: ¿será o protesto necessário para executar o endossante? O art. 47, inciso II, da Lei de Cheques (L. 7357/1985) diz que não é obrigatório. O protesto, no cheque, até para o endossante é facultativo: “Art. 47. Pode o portador promover a execução do cheque: (...) DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 138 II - contra os endossantes e seus avalistas, se o cheque é apresentado em tempo hábil e a recusa do pagamento é comprovada pelo protesto ou por declaração do sacado, escrita e datada sobre o cheque, com indicação do dia de apresentação, ou, ainda, por declaração escrita e datada por câmara de compensação.” Obs.: L. 10931/2004, art. 44 – cédula de crédito bancário. O protesto sempre será facultativo. Observe a leitura do dispositivo: “Art. 44. Aplica-se às Cédulas de Crédito Bancário, no que não contrariar o disposto nesta Lei, a legislação cambial, dispensado o protesto para garantir o direito de cobrança contra endossantes, seus avalistas e terceiros garantidores.” 7.10.7 - MOTIVOS DO PROTESTO -Protesto por falta de aceite -Protesto por falta de devolução -Protesto por falta de pagamento -Protesto para fins falimentares (i) Por falta de aceite. Requisitos: - o título deve admitir o aceite. Exemplo: letra de câmbio e duplicata. Cheque não admite aceite, da mesma forma que a nota promissória. - deve ser feito antes do vencimento. Após o vencimento do título, o único protesto cabível é aquele “por falta de pagamento”. - decurso do prazo para o aceite. (ii) Por falta de devolução. É também chamado de protesto por indicações, pois não há mais a duplicata, que foi retida. Serão “indicados” os elementos mais relevantes da duplicata para o Tabelionato de Protestos. O protesto por indicações só é admissível para a duplicata. A letra de câmbio não admite o protesto por indicações, uma vez que é possível a emissão de segunda via. Vide a redação do art. 21, §3º, da Lei nº 9.492/1997. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 139 “§ 3º Quando o sacado retiver a letra de câmbio ou a duplicata enviada para aceite e não proceder à devolução dentro do prazo legal, o protesto poderá ser baseado na segunda via da letra de câmbio ou nas indicações da duplicata, que se limitarão a conter os mesmos requisitos lançados pelo sacador ao tempo da emissão da duplicata, vedada a exigência de qualquer formalidade não prevista na Lei que regula a emissão e circulação das duplicatas.” E a segunda via da duplicata? Só é possível nos casos de furto ou extravio (é a chamada “triplicata”). Obs.: cédula de crédito bancário também admite protesto por indicações (art. 41 da L. 10931/2004): “Art. 41. A Cédula de Crédito Bancário poderá ser protestada por indicação, desde que o credor apresente declaração de posse da sua única via negociável, inclusive no caso de protesto parcial.” (iv) Para fins falimentares – art. 23, p. único, da Lei nº 9.492/1997: “Somente poderão ser protestados, para fins falimentares, os títulos ou documentos de dívida de responsabilidade das pessoas sujeitas às consequências da legislação falimentar.” Só é admissível se o devedor principal puder ter sua falência decretada (o devedor deve ser empresário ou soc. empresária). 7.10.8 - PRAZO PARA O PROTESTO A observância do prazo parao protesto é importante como pressuposto processual, nos casos de execução contra o co-devedor. Do prazo para o protesto por falta de pagamento: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 140 Título Prazo -Letra de câmbio - 02 (dois) dias úteis seguintes ao vencimento do título (art. 44 do D. 57663/1966) – Fran Martins e F.U.C. Concurso TJMG: o prazo era aquele do 1º dia útil após o vencimento (Rubens Requião, Luiz Emygdio, Dilson Doria, Amador Paes de Almeida – entendem que o art. 44 do D. não foi recepcionado pelo Brasil, devendo prevalecer, portanto, o art. 28 do D. 2044/1908 – ‘Lei Saraiva’. Essa é a posição majoritária da doutrina! -Nota promissória -o prazo é o mesmo da letra de câmbio (art. 77 do D. 57663/1966). -Duplicata -30 (trinta) dias contados do vencimento (art. 13, §4º, da L. 5474/1968. -Cheque -antes do prazo de apresentação – 30 dias se na mesma praça, ou 60 se em praça diferente (art. 48 da L. 7357/1985). Se a apresentação ocorrer no último dia do prazo, o protesto pode ser feito no primeiro dia útil seguinte. 7.10.9 - PRÁTICA DO PROTESTO DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 141 O título, inicialmente, é protocolizado. Após, o Tabelião de Protesto, na posse do título, deve analisar o título ou o documento da dívida (art. 9º da Lei nº 9.492/1997): “Art. 9º Todos os títulos e documentos de dívida protocolizados serão examinados em seus caracteres formais e terão curso se não apresentarem vícios, não cabendo ao Tabelião de Protesto investigar a ocorrência de prescrição ou caducidade. Parágrafo único. Qualquer irregularidade formal observada pelo Tabelião obstará o registro do protesto.” Pergunta-se: ¿pode o Tabelião fazer protesto de título que não seja de sua ‘competência territorial’? Não, mas se isso ocorrer o protesto é anulável a pedido da parte interessada. Após a análise dos caracteres formais do título, o Tabelião providenciará a intimação do devedor: “Art. 14. Protocolizado o título ou documento de dívida, o Tabelião de Protesto expedirá a intimação ao devedor, no endereço fornecido pelo apresentante do título ou documento, considerando-se cumprida quando comprovada a sua entrega no mesmo endereço. § 1º A remessa da intimação poderá ser feita por portador do próprio tabelião, ou por qualquer outro meio, desde que o recebimento fique assegurado e comprovado através de protocolo, aviso de recepção (AR) ou documento equivalente. § 2º A intimação deverá conter nome e endereço do devedor, elementos de identificação do título ou documento de dívida, e prazo limite para cumprimento da obrigação no Tabelionato, bem como número do protocolo e valor a ser pago.” Quem apresenta o título para protesto deve informar onde o devedor se encontra. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 142 Obs.: pela leitura do art. acima, verifica-se que é suficiente a comprovação da entrega no endereço. Porém, no caso de protesto para fins falimentares, observando-se o teor da Súmula 361, STJ percebe-se que é necessário se comprovar que entregou no endereço e demonstrar quem recebeu a identificação. Pergunta-se: ¿é possível a intimação via eletrônica? Para o doutrinador Carlos Henrique Abrão é possível a intimação eletrônica. Porém, a doutrina majoritária (Walter Cene Viva) entende que mesmo não havendo impedimento legal, a intimação eletrônica só seria possível se houvesse previsão legal. Obs.: intimação por edital (art. 15 da Lei nº 9.492/1997) – Hipóteses que permitem a intimação por edital: (a) Se a pessoa indicada for desconhecida; (b) Se a sua localização foi certa ou ignorada; (c) Se ninguém se dispuser a receber a intimação no endereço fornecido, e (d) Se a pessoa indicada for domiciliada fora da competência territorial do Tabelionato. A jurisprudência, principalmente nos casos de contrato de alienação fiduciária, só entende possível a intimação por edital nos casos de competência territorial, quando o Tabelião esgotou todos os meios de intimação (TJRJ – ‘Agravo de Instrumento 20040020428431). “Art. 15. A intimação será feita por edital se a pessoa indicada para aceitar ou pagar for desconhecida, sua localização incerta ou ignorada, for residente ou domiciliada fora da competência territorial do Tabelionato, ou, ainda, ninguém se dispuser a receber a intimação no endereço fornecido pelo apresentante. § 1º O edital será afixado no Tabelionato de Protesto e publicado pela imprensa local onde houver jornal de circulação diária. § 2º Aquele que fornecer endereço incorreto, agindo de má-fé, responderá por perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções civis, administrativas ou penais.” 31 “Alienação fiduciária. Comprovação da Mora. Protesto. Requisitos. Em se tratando de DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 143 Quem deve ser indicado para ser intimado? No caso de protesto por falta de aceite, deverá ser indicado o sacado. No protesto por falta de devolução, também deverá ser indicado o sacado. Já no protesto por falta de pagamento, é o devedor principal do título quem deve ser indicado. 7.10.10 - PRAZO PARA PAGAMENTO/SUSTAÇÃO/DESISTÊNCIA “Art. 12. O protesto será registrado dentro de três dias úteis contados da protocolização do título ou documento de dívida. § 1º Na contagem do prazo a que se refere o caput exclui-se o dia da protocolização e inclui-se o do vencimento. § 2º Considera-se não útil o dia em que não houver expediente bancário para o público ou aquele em que este não obedecer ao horário normal.” “Art. 13. Quando a intimação for efetivada excepcionalmente no último dia do prazo ou além dele, por motivo de força maior, o protesto será tirado no primeiro dia útil subseqüente.” O protesto é feito no 3º dia útil após a protocolização do título ou do documento de dívida. Nesse prazo, da data do protocolo até o protesto (tríduo legal), o Tabelião faz a intimação do devedor. Porém, se a intimação foi feita no último dia útil, o protesto será feito no primeiro dia útil seguinte (redação do artigo 13 da Lei nº 9.492/1997). O prazo da data do protocolo até o protesto é para se pagar ou ajuizar uma ação de sustação de protesto (ação declaratória de inexigibilidade de título ou medida cautelar de sustação de protesto). Após o protesto, só é cabível ação de cancelamento de protesto. Obs.: pagamento deve ser feito diretamente no Tabelionato de Protestos, lembrando que cada estado tem um tratamento distinto. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 144 Obs.2: sustação de protesto art. 17 da Lei nº 9.492/1997: “Art. 17. Permanecerão no Tabelionato, à disposição do Juízo respectivo, os títulos ou documentos de dívida cujo protesto for judicialmente sustado.” O título do documento de dívida, cujo protesto tiver sido sustado judicialmente, só poderá ser pago, protestado ou retirado com autorização judicial: “§ 1º O título do documento de dívida cujo protesto tiver sido sustado judicialmente só poderá ser pago, protestado ou retirado com autorização judicial.” Obs.3: é possível a desistência do protesto – deve ser feita pelo apresentante, que não será, necessariamente, o credor. Vejaa redação do artigo 16: “Art. 16. Antes da lavratura do protesto, poderá o apresentante retirar o título ou documento de dívida, pagos os emolumentos e demais despesas.” Obs.4: cancelamento do protesto – com o protesto registrado, só é possível seu cancelamento. É necessário o pagamento do valor da dívida, bem como dos emolumentos administrativos. Qualquer outra forma de protesto que não seja pelo pagamento da dívida, só pode ser feito por ordem judicial. “Art. 26. O cancelamento do registro do protesto será solicitado diretamente no Tabelionato de Protesto de Títulos, por qualquer interessado, mediante apresentação do documento protestado, cuja cópia ficará arquivada. § 1º Na impossibilidade de apresentação do original do título ou documento de dívida protestado, será exigida a declaração de anuência, com identificação e firma reconhecida, daquele que figurou no registro de protesto como credor, originário ou por endosso translativo. § 2º Na hipótese de protesto em que tenha figurado apresentante por endosso-mandato, será suficiente a declaração de anuência passada pelo credor endossante. § 3º O cancelamento do registro do protesto, se fundado em outro motivo que não no pagamento do título ou documento de dívida, será DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 145 efetivado por determinação judicial, pagos os emolumentos devidos ao Tabelião. § 4º Quando a extinção da obrigação decorrer de processo judicial, o cancelamento do registro do protesto poderá ser solicitado com a apresentação da certidão expedida pelo Juízo processante, com menção do trânsito em julgado, que substituirá o título ou o documento de dívida protestado. § 5º O cancelamento do registro do protesto será feito pelo Tabelião titular, por seus Substitutos ou por Escrevente autorizado. § 6º Quando o protesto lavrado for registrado sob forma de microfilme ou gravação eletrônica, o termo do cancelamento será lançado em documento apartado, que será arquivado juntamente com os documentos que instruíram o pedido, e anotado no índice respectivo.” Emolumentos: valor destinado ao estado e valor destinado ao Tabelião. Quando o cancelamento é pelo pagamento, há os valores do estado e do Tabelião. Nos casos de cancelamento por ordem judicial, não há cobrança de valores do estado, mas apenas do Tabelião (art. 26, §3º). 7.11 - AÇÃO CAMBIAL É, no direito brasileiro, uma ação executiva típica. O portador pode acionar qualquer obrigado, sem estar adstrito à ordem, ou pode mover a ação contra todos, citando-os solidariamente. O prazo para o protesto é decadencial; o da ação, prescricional. Prescrição da ação cambial: a) contra o aceitante – prescreve em três anos a contar do vencimento; b) do portador contra os endossantes e contra o sacador – prescreve em um ano, a contar do protesto feito em tempo útil, ou da data do vencimento, se fora aposta a cláusula “sem protesto”; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 146 c) dos endossantes contra os outros e contra o sacador – prescreve em seis meses, a contar do dia em que o endossante pagou a letra ou, se for o caso, do dia em que ele foi acionado. A prescrição pode ser interrompida, mas só produz efeitos em relação à pessoa contra quem foi dirigida (artigo 71 da Lei Uniforme). Ação de enriquecimento ilícito (ação de in rem verso) – o próprio artigo 15 do Anexo II da Convenção de Genebra facultou aos países signatários a previsão da citada ação. Baseia-se na eqüidade, e não no direito creditório, que já está prescrito. A sua causa de pedir não é a existência do crédito (que já prescreveu), mas o locupletamento ilícito. Segundo o § 3° do art. 206 do CC, o prazo é de 3 anos. Em tais ações, há julgados que se contentam com a juntada do título, entendendo caracterizado o prejuízo. Há, todavia, controvérsias a este respeito. -Legislação aplicável: a) Letra de câmbio e nota promissória – Decreto 57663/1966 (“Lei Uniforme”) b) Cheque – Lei 7357/1985 c) Duplicata – Lei 5474/1968 Pergunta-se: e as regras do Código Civil? A aplicação do CC aos títulos de crédito é subsidiária (art. 903 do CC32). -Princípios dos títulos de crédito: a) Cartularidade – cártula = pequeno papel. Pelo pcp. da cartularidade, o crédito deve estar materializado (representado) em um documento (título). Para a transferência do crédito, é 32 “Art. 903. Salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 147 necessária a transferência do título. Não há que se falar em exigibilidade do crédito sem a apresentação do documento. **hear Obs.: há uma presunção de que o portador do título será o credor (aquele que tem o título é o credor) – presunção juris tantum. Pergunta-se: o pcp. da cartularidade está mitigado? SIM! A regra do art. 889, §3º, do CC traz essa mitigação, senão vejamos: “§ 3o O título poderá ser emitido a partir dos caracteres criados em computador ou meio técnico equivalente e que constem da escrituração do emitente, observados os requisitos mínimos previstos neste artigo.” Para Luiz Emydio Franco da Rosa Junior, o pcp. da cartularidade é chamado de Princípio da Incorporação (o crédito deve ser “incorporado” em um documento; não necessariamente em um “pequeno papel”). Ao se adotar o pcp. da incorporação, não há se falar em mitigação. b) Literalidade – pelo princípio da literalidade, só terá validade para o Direito Cambiário aquilo que está literalmente escrito no título de crédito. TJMG – promissória sem espaço para colocar endosso => realizar o prolongamento do título de crédito para fazer o endosso. c) Autonomia – as relações jurídico-cambiais são autônomas e independentes entre si. O devedor não poderá opor exceções pessoais a terceiros de boa-fé. Exemplo: João resolve vender seu celular para Maria. Maria emite nota promissória para João. A causa da nota foi uma compra e venda de celular (é a CAUSA DEBENDI ou CAUSA SUBJACENTE – a causa que deu origem). Se o celular estiver quebrado, poderá não pagar a nota provisória, já que tem uma exceção que abrange essa relação (primeira relação jurídica cambial – para o credor primitivo é possível se apresentar uma exceção pessoal); aqui há relação CAUSAL e CARTULAR. Caso João transfira a NP para um terceiro de boa-fé, nessa segunda relação jurídico-cambial não será possível que Maria oponha exceções pessoais contra o terceiro. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 148 Pergunta-se: se o título foi emitido para negócio jurídico ilícito? Pouco importa a causa que deu origem! F.U.C. entende que a autonomia tem um subprincípio, qual seja a abstração (= ao ser colocado em circulação, o título se desprende de sua causa de origem). Obs.: quando a nota promissória está vinculada a contrato, ela não goza de autonomia. Obs.2: possibilidade de assinatura de título em branco 387, STF: “A cambial emitida ou aceita com omissões, ou em branco, pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do protesto.” Obs.3: quando se tratar de nota promissória, vinculada a contrato de abertura de crédito, essa nota não goza de autonomia 258, STJ: “A nota promissória vinculada a contrato de abertura de crédito não goza de autonomiaem razão da iliquidez do título que a originou.” -Conceito de título de crédito: art. 887 do CC. “Art. 887. O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei. Vivante conceito de título de crédito: é o documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado. Mnemônica: CC Contido. Vivante nele mencionado. -Classificações dos títulos de crédito: 1) Quanto ao modelo: 1.1) vinculado – é aquele cuja forma/formatação está definido em legislação (padronização obrigatória que deve ser observada). Ex.: duplicata e cheque. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 149 1.2) livre – é aquele cuja forma não precisa seguir uma padronização obrigatória. Exemplo: nota promissória (“qualquer pedaço de papel pode ser uma nota promissória”). 2) Quanto às hipóteses de emissão: 2.1) causal – é aquele que só pode ser emitido mediante a ocorrência de uma causa específica definida em lei. Exemplo: duplicata (só pode ser emitida em compra e venda mercantil ou prestação de serviços). 2.2) não causal – é aquele que não necessita de uma causa específica para sua emissão. Exemplo: cheque. 3) Quanto à sua circulação: 3.1) ao portador – é aquele que não identifica o beneficiário. O título ao portador circula por mera tradição (simples entrega). 3.2) nominativo – é aquele que identifica o beneficiário. A circulação vai depender se o título nominativo é “à ordem” ou “não à ordem”. Se o titulo for “à ordem”, circulará por endosso. Se for “não à ordem”, circulará por cessão civil. Quem transfere por endosso, responde pela existência do título e pela sua solvência. No título transferido por cessão civil não se fala em solvência, mas apenas na sua existência. 3.3) nominativo – (classificação mais moderna, usada em concursos federais) arts. 921 e 922 do CC. Livro de registro do emitente. A transferência é mediante termo. Nessa classificação moderna, tem-se: AO PORTADOR, NOMINAL e NOMINATIVO. Obs.: no Brasil, não se admite mais título ao portador, exceto se houver previsão expressa em lei especial (art. 69 da L. 9069/1995 => cheque até R$ 100,00). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 150 Obs.2: presunção que os títulos são “à ordem”. ATENÇÃO: não basta riscar a expressão “à ordem” para que o título seja não à ordem. É necessária a menção expressa no título: “NÃO À ORDEM”. Obs.3: o CC trata o endosso de outra forma. No CC, o efeito do endosso é idêntico ao da cessão civil. 4) Quanto à estrutura: 4.1) ordem de pagamento – duplicata, cheque e letra de cambio. i) Dá a ordem, ii) recebe a ordem, iii) tomador/beneficiário. 4.2) promessa de pagamento – a nota promissória é o único título que é promessa de pagamento. Promitente e tomador/beneficiário. Obs.: o título de crédito é uma obrigação querable ou portable? O título de crédito é quesível (QUERABLE), pois cabe ao credor dirigir-se ao devedor para exigir o pagamento. Obs.2: o título de crédito, geralmente uma NP, pode ser pro solvendo ou pro soluto. Qual a diferença entre título pro solvendo e título pro soluto? O primeiro significa “para pagamento”. O segundo significa “em pagamento”. HÁ UMA PRESUNÇÃO QUE OS TÍTULOS SÃO PRO SOLVENDO. ASSIM, PARA QUE O TÍTULO SEJA PRO SOLUTO É NECESSÁRIA MENÇÃO EXPRESSA NO TÍTULO DE CRÉDITO. TJMG compra e venda de imóvel paga com nota promissória. Qual a diferença do pagamento feito pro solvendo e pro soluto? No pagamento pro solvendo, a entrega da nota promissória não provoca a novação. Assim, a relação causal de compra e venda não será extinta com a entrega da nota promissória. Só haverá extinção da relação de compra e venda quando o devedor efetuar o pagamento da nota promissória. Se o pagamento é pro soluto, a entrega da nota promissória opera novação (a obrigação de pagar a compra e venda foi extinta). Em casos que tais, o vendedor só poderá executar a nota, não podendo rescindir o contrato como no caso do pagamento pro solvendo. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 151 8 - NOVA LEI DE FALÊNCIAS – LEI Nº 11.101/2005 8.1 - NOÇÕES INTRODUTÓRIAS O instrumento legislativo é a L. 11.101, de 09/02/05. Seu prazo de vacatio é de 120 dias – vigência a parir de 09/06/2005. Note- se que a lei antiga é aplicável ainda aos processos em que tenha sido decretada a falência com base nela, ou seja, a lei nova não será aplicada aos processos em curso. Obs.: Até 09/06/05, podia-se pedir concordata. Se, nesse período, houvesse uma concordata em trâmite (não irá se transformar em recuperação), ela continuaria sendo regida pelo DL 7661. É possível se convolar A CONCORDATA EM FALÊNCIA, ou seja, será decretada a falência. QUESTÃO: a falência que for decretada depois da vigência da lei nova será por ela regulada, isto é, todas as falências decretadas depois de 09/06/05 obedecerão à lei nova, mesmo que resultante de uma convolação de concordata em falência. Obs.2: a importância da lei (mídia e Executivo) se justifica pela defasagem e problemas da legislação anterior. Problemas da antiga: Decretação de falência em duas hipóteses: IMPONTUALIDADE (artigo 1o33) e ATOS DE FALÊNCIA (artigo 2o) (enumerados em lei). Pela impontualidade era 33 “Art. 1º Considera-se falido o comerciante que, sem relevante razão de direito, não paga no vencimento obrigação líquida, constante de título que legitime a ação executiva. § 1.º Torna-se líquida, legitimando a falência, a obrigação provada por conta extraída dos livros comerciais e verificada, judicialmente, nas seguintes condições: I - a verificação será requerida pelo credor ao juiz competente para declarar falência do devedor (art. 7º) e far-se-á nos livros de um ou de outro, por dois peritos nomeados pelo juiz, expedindo-se precatória quando os livros forem de credor domiciliado em comarca diversa; II - se o credor requerer a verificação da conta nos próprios livros, estes deverão achar-se revestidos das formalidades legais intrínsecas e extrínsecas e a conta comprovada nos têrmos do art. 23, nº 2, do Código Comercial; se nos livros do devedor, será êste citado para, em dia e hora marcados, exibí- los em juízo, na forma do disposto no art. 19, primeira alínea, do Código Comercial; III - a recusa de exibição ou a irregularidade dos livros provam contra o devedor, salvo a sua destruição ou perda em virtude de fôrça maior; IV - os peritos apresentarão os laudos dentro de três dias e, julgado por sentença o exame, os respectivos autos serão entregues ao requerente, independentemente de traslado, não cabendo dessa sentença recurso algum; V - as contas assim verificadas consideram-se vencidas desde a data da sentença que julgou o exame. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 152 entendido o seguinte: quando o empresário não paga no vencimento a obrigação é considerado falido. Não pagamento no vencimento, há a falência técnica. Isso é complicado, pois poucos empresários, no Brasil, não têm alguma dívida sem pagamento no vencimento; isso significaria a quebra de todo mundo, inclusive dos pequenos e médios empresários. Assim, a aplicação na íntegra do DL traria um sério problema social e econômico; não há interesse público ou socialna quebradeira geral. EXEMPLO: cidade inteira que girava em torno de uma única indústria, não interessa para a cidade, nem para o próprio credor. O credor somente pediu a falência para pressionar porque é muito mais séria a falência (possibilidade de decretação da quebra) ou a execução (somente penhora de bens). Isto é, tecnicamente a falência não interessa, ela somente é um instrumento de pressão para determinar o pagamento. Inclusive, por conta dessa situação de fato, houve a construção de uma corrente jurisprudencial defendendo que a falência não seria meio de cobrança de dívida; a falência somente poderia ser utilizada quando a empresa não tinha condições de se sustentar, protegendo-se a economia (esse credor somente está querendo receber a sua dívida). Os tribunais passaram a acolher essa teoria para justificar o afastamento da falência nos casos em que o interesse público ou social não a justificassem. O sistema anterior é LIQUIDATÓRIO, ou seja, tinha o objetivo de liquidar a empresa: fechar a porta e vender o patrimônio. Atualmente, isso já não se justifica. O importante é a RECUPERAÇÃO DA EMPRESA e não a sua liquidação, porque assim, permanece uma unidade produtiva, um centro de pagamento de tributos e produção de empregos. Tanto que a nova lei traz na sua introdução: regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária. A CONCORDATA (benefício que os empresários têm, que consiste em ter até 02 anos34 para pagar as dívidas quirografárias, uma parcela no final do § 2º Ainda que líquidos, não legitimam o pedido de falência os créditos que não se possam na mesma reclamar. § 3º - Para os efeitos desta Lei, considera-se obrigação líquida, legitimando o pedido de falência, a constante dos títulos executivos extrajudiciais mencionados no art. 15 da Lei nº 5.474, de 18 de julho de 1968. (Incluído pela Lei nº 6.458, de 1º.11.1977)” 34 Se escolhesse o pagamento à vista, o devedor teria um desconto de 50%. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 153 primeiro ano = 40% e no final do segundo ano 60%), de uma certa forma, era um meio de recuperação, mas estava longe de atingir o objetivo de recuperação da atividade empresarial. ¿Quem foi que disse que quem pede concordata irá conseguir pagar em até 02 anos? Não se atingia os objetivos da recuperação, por que: se a empresa estivesse em dificuldades econômicas deveria ser “tratada” (localizada a causa do problema e ataque à causa do problema). Normalmente, os credores quirografários eram os fornecedores, que possivelmente não eram os causadores do problema. O problema poderia ser: carga tributária, má administração e outros. A concordata correspondia ao seguinte: um único remédio aplicado a qualquer doença. Quando a empresa pedia concordata, o fornecedor simplesmente parava de fornecer. Ao fim do primeiro ano, se não houvesse pagamento, o juiz poderia, até mesmo de ofício, decretar a falência, ou por pedido do MP ou do interessado. A concordata era um instrumento totalmente ineficaz. 8.2 - RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS É o instituto que substituiu a concordata (que não existe mais). A recuperação pode ser: judicial ou extrajudicial. 8.3 - RECUPERAÇÃO JUDICIAL A concordata era considerada como ante-sala da falência, já que, ao invés de ajudar o empresário, só fazia piorar a sua situação. Se o empresário estava em crise, e buscava o benefício da concordata, ele só podia pagar os créditos quirografários. Assim, por meio de concordata, o empresário não podia pagar crédito trabalhista, crédito com garantia real. Se o empresário buscasse concordata, havia apenas duas hipóteses: (i) remissão parcial da dívida (exemplo: pago 50% à vista se perdoar o restante); e (ii) dilação de prazo (parcelamento da dívida). Não havia outra hipótese de superação da crise. A doutrina denominava a concordata de “favor legal” (o credor não participava da concordata). Se o empresário fizesse pedido de concordata, e preenchesse todos os requisitos legais, o juiz concedia a concordata ainda que DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 154 os credores não concordassem com ela. Os credores, portanto, nem eram consultados sobre a concordata. Histórico: a concordata iniciou-se na Idade Média. O pai de família que morresse com dívidas “não ia para o céu”. Os familiares próximos procuravam os credores a fim de pagar, para deixar que a alma fosse para o céu. Fazendo uma análise econômica do instituto, conclui-se que está sendo dividido o risco com os credores. Assim deve haver muito cuidado com essa possibilidade, para evitar a sua utilização para fim de prazos. Está prevista no artigo 47 da NLFR: “Art. 47. A recuperação judicial tem por objetivo viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica.” 8.3.1 - LEGITIMIDADE ATIVA Previsão no artigo 48: “Art. 48. Poderá requerer recuperação judicial o devedor que, no momento do pedido, exerça regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos e que atenda aos seguintes requisitos, cumulativamente: I – não ser falido e, se o foi, estejam declaradas extintas, por sentença transitada em julgado, as responsabilidades daí decorrentes; II – não ter, há menos de 5 (cinco) anos, obtido concessão de recuperação judicial; III – não ter, há menos de 8 (oito) anos, obtido concessão de recuperação judicial com base no plano especial de que trata a Seção V deste Capítulo; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 155 IV – não ter sido condenado ou não ter, como administrador ou sócio controlador, pessoa condenada por qualquer dos crimes previstos nesta Lei. Parágrafo único. A recuperação judicial também poderá ser requerida pelo cônjuge sobrevivente, herdeiros do devedor, inventariante ou sócio remanescente.” Quem pode pedir a recuperação: EMPRESÁRIO que preencha os seguintes requisitos: o Ser REGULAR HÁ MAIS DE 02 ANOS. Ou seja, todo empresário para ser regular deve estar registrado na Junta Comercial. O prazo de 02 anos de atividade regular se justifica pelo exercício que demande uma recuperação. o Não ter sido CONDENADO POR CRIME FALIMENTAR, mas, se já se reabilitou não há problema. o NÃO TER UTILIZADO A RECUPERAÇÃO nos últimos 05 anos (recuperação normal) e 08 anos (recuperação de pequena e micro empresa) o Não pode ter falido, ou se foi, as dívidas devem estar extintas. Na concordata, havia mais um requisito que não existe na lei nova: relação entre ATIVO e PASSIVO, pelo menos, 50% das dívidas quirografárias deveriam estar garantidas pelo patrimônio. 8.3.2 - PETIÇÃO INICIAL DO PEDIDO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL Está prevista no artigo 51, com vários requisitos e documentos que devem ser juntados. “Art. 51. A petição inicial de recuperação judicial será instruída com: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 156 I – a exposição das causas concretas da situação patrimonialdo devedor e das razões da crise econômico-financeira; II – as demonstrações contábeis relativas aos 3 (três) últimos exercícios sociais e as levantadas especialmente para instruir o pedido, confeccionadas com estrita observância da legislação societária aplicável e compostas obrigatoriamente de: a) balanço patrimonial; b) demonstração de resultados acumulados; c) demonstração do resultado desde o último exercício social; d) relatório gerencial de fluxo de caixa e de sua projeção; III – a relação nominal completa dos credores, inclusive aqueles por obrigação de fazer ou de dar, com a indicação do endereço de cada um, a natureza, a classificação e o valor atualizado do crédito, discriminando sua origem, o regime dos respectivos vencimentos e a indicação dos registros contábeis de cada transação pendente; IV – a relação integral dos empregados, em que constem as respectivas funções, salários, indenizações e outras parcelas a que têm direito, com o correspondente mês de competência, e a discriminação dos valores pendentes de pagamento; V – certidão de regularidade do devedor no Registro Público de Empresas, o ato constitutivo atualizado e as atas de nomeação dos atuais administradores; VI – a relação dos bens particulares dos sócios controladores e dos administradores do devedor; VII – os extratos atualizados das contas bancárias do devedor e de suas eventuais aplicações financeiras de qualquer modalidade, inclusive em fundos de investimento ou em bolsas de valores, emitidos pelas respectivas instituições financeiras; VIII – certidões dos cartórios de protestos situados na comarca do domicílio ou sede do devedor e naquelas onde possui filial; IX – a relação, subscrita pelo devedor, de todas as ações judiciais em que este figure como parte, inclusive as de natureza trabalhista, com a estimativa dos respectivos valores demandados. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 157 § 1o Os documentos de escrituração contábil e demais relatórios auxiliares, na forma e no suporte previstos em lei, permanecerão à disposição do juízo, do administrador judicial e, mediante autorização judicial, de qualquer interessado. § 2o Com relação à exigência prevista no inciso II do caput deste artigo, as microempresas e empresas de pequeno porte poderão apresentar livros e escrituração contábil simplificados nos termos da legislação específica. § 3o O juiz poderá determinar o depósito em cartório dos documentos a que se referem os §§ 1o e 2o deste artigo ou de cópia destes.” Requisitos mais importantes na recuperação judicial -Demonstrar para o juiz a dificuldade econômica (na lei antiga, isso não era necessário, ou seja, não era preciso tocar nesse assunto); -Instrumentos de natureza contábil: balanços contábeis dos últimos 03 exercícios – balanço anual; balanços de determinação – é o balanço compreendido desde 01/01 até a data que se está pedindo a recuperação, é um balanço especial fechado durante o ano; relação nominal dos credores e qual o valor dos seus créditos; Obs.: requisitos novos: *relação nominal dos bens particulares dos administradores da sociedade em recuperação; a princípio o patrimônio do sócio não tem correlação com o patrimônio da empresa, mas, é para garantir mais transparência. Essa exigência é muito defendida por aqueles que defendem a interpretação econômica do direito, já que permite maior transparência para os credores, que afinal de contas está dividindo a responsabilidade para recuperação da empresa; também facilita a possibilidade de desconsituição da personalidade jurídica; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 158 *extrato de todas as contas correntes e das aplicações financeiras, ou seja, há a quebra do sigilo bancário. Como se pode constatar, com a exigência dos documentos acima, afasta- se a possibilidade de fraude, garantido maior lisura ao procedimento. Se o empresário levar algum documento falso estará submetido à pena prevista no artigo 171, da lei. Indeferimento da petição inicial na Falência A ausência de algum dos requisitos ocasiona o indeferimento liminar da petição inicial, com a prolação de sentença terminativa. Com efeito, trata-se de sentença terminativa, porquanto a hipótese não se enquadra no art. 73 da NLFR, quando há a prolação de decisão interlocutória (agravável) de decretação de falência, em razão da convolação da recuperação judicial, por improcedência da mesma (art. 72, p. único). No caso sob comento, todavia, não há convolação da recuperação em falência, mas, sim, mera extinção do processo de recuperação judicial por carência da ação, com prolação de sentença. Da sentença cabe apelação. Diante da natureza terminativa da sentença, nada impede a propositura de nova ação de recuperação judicial, tão logo esteja satisfeito o requisito formal antes ausente. Despacho que autoriza o prosseguimento Está previsto no artigo 52 e permite o seguimento da recuperação judicial. “Art. 52. Estando em termos a documentação exigida no art. 51 desta Lei, o juiz deferirá o processamento da recuperação judicial e, no mesmo ato: I – nomeará o administrador judicial, observado o disposto no art. 21 desta Lei; II – determinará a dispensa da apresentação de certidões negativas para que o devedor exerça suas atividades, exceto para contratação com o Poder Público ou para recebimento de benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, observando o disposto no art. 69 desta Lei; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 159 III – ordenará a suspensão de todas as ações ou execuções contra o devedor, na forma do art. 6o desta Lei, permanecendo os respectivos autos no juízo onde se processam, ressalvadas as ações previstas nos §§ 1o, 2o e 7o do art. 6o desta Lei e as relativas a créditos excetuados na forma dos §§ 3o e 4o do art. 49 desta Lei; IV – determinará ao devedor a apresentação de contas demonstrativas mensais enquanto perdurar a recuperação judicial, sob pena de destituição de seus administradores; V – ordenará a intimação do Ministério Público e a comunicação por carta às Fazendas Públicas Federal e de todos os Estados e Municípios em que o devedor tiver estabelecimento. § 1o O juiz ordenará a expedição de edital, para publicação no órgão oficial, que conterá: I – o resumo do pedido do devedor e da decisão que defere o processamento da recuperação judicial; II – a relação nominal de credores, em que se discrimine o valor atualizado e a classificação de cada crédito; III – a advertência acerca dos prazos para habilitação dos créditos, na forma do art. 7o, § 1o, desta Lei, e para que os credores apresentem objeção ao plano de recuperação judicial apresentado pelo devedor nos termos do art. 55 desta Lei. § 2o Deferido o processamento da recuperação judicial, os credores poderão, a qualquer tempo, requerer a convocação de assembléia-geral para a constituição do Comitê de Credores ou substituição de seus membros, observado o disposto no § 2o do art. 36 desta Lei. § 3o No caso do inciso III do caput deste artigo, caberá ao devedor comunicar a suspensão aos juízos competentes. § 4o O devedor não poderá desistir do pedido de recuperação judicial após o deferimento de seu processamento, salvo se obtiver aprovação da desistência na assembléia-geral de credores.” No despacho, o juiz irá: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OABProf. Renato Borelli 160 a) Determinar liminarmente a suspensão de todos os processos de execução, EXCETO: as execuções fiscais. Isso se justifica porque, se as execuções não forem suspensas, os credores continuam executando, daí, a recuperação seria ineficaz. É UMA LIMINAR COM NATUREZA CAUTELAR, que irá garantir a eficácia da futura sentença. b) Nomear o ADMINSITRADOR JUDICIAL. Na falência, existia o SÍNDICO (administrador da massa falida). Na concordata, o COMISSÁRIO (não administra a empresa, que é administrada pelo próprio empresário, o comissário somente fiscaliza a administração da empresa em concordata). A nova lei não fala mais nem em síndico ou em comissário, trata-se somente do ADMINISTRADOR JUDICIAL tanto para a falência quanto para a recuperação, mas NOTE-SE que as funções permanecem distintas entre si e idênticas às antigas atribuições. Entretanto houve a modificação do critério de escolha, na lei antiga era: a ordem de maiores credores do primeiro ao terceiro, depois a nomeação de uma pessoa de confiança do juiz35. Atualmente, será escolhido pelo juiz, não tem que ser credor, mas deve ter formação, PREFERENCIALMENTE, em uma dessas áreas: DIREITO, ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO ou CONTABILIDADE. NOVIDADE: há a possibilidade de nomeação de PESSOA JURÍDICA ESPECIALIZADA (artigo 21). “Art. 21. O administrador judicial será profissional idôneo, preferencialmente advogado, economista, administrador de empresas ou contador, ou pessoa jurídica especializada. Parágrafo único. Se o administrador judicial nomeado for pessoa jurídica, declarar-se-á, no termo de que trata o art. 33 desta Lei, o nome de profissional responsável pela condução do processo de falência ou de recuperação judicial, que não poderá ser substituído sem autorização do juiz.” ATENÇÃO: intimação do Ministério Público – isso é importante. CONCURSO PÚBLICO: qual é a função do MP no processo de falência, que provocou grande discussão no Congresso Nacional, tendo sido o artigo 4o vetado, que dizia que a 35 Havia uma discussão muito grande na lei antiga, inclusive, com corrente que exigia concurso público para ser síndico ou comissário. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 161 participação do MP era obrigatória em todos os atos no processo de falência? O PR vetou por pressão do MP, que fundamentou no seguinte: retardamento do processo; ausência de pessoal suficiente; desnecessária a atuação do MP. Assim, o MP somente será intimado: da recuperação ou da decretação da falência. Desta forma, o MP PODE intervir, salvo nos casos em que a lei estabelece a obrigatoriedade de participação do MP. Art. 4o (VETADO) Verificações de crédito e plano de recuperação Com a publicação do despacho, o processo será bifurcado: D E S P A C H O VERI FICAÇÕE S DE CRÉDITO S 1 5 di as Hab ilitações de crédito Ad ministra dor Judicial 4 5 dia s Publica ção 1 0 dias impu gnação Q uadro geral de credor es PLAN O DE RECUPER AÇÃO 60 dias O posiç ão 3 0 di as As sembléi a Geral de Credore s 1 50 dias C ND S enten ça I – VERIFICAÇÕES DE CRÉDITO: consistem nos procedimentos necessários para a verificação do passivo do empresário. Comportam os procedimentos realizados desde as habilitações de crédito até o momento de elaboração do Quadro Geral de Credores. HABILITAÇÕES DE CRÉDITO: é o ato pelo qual o credor se apresenta e requer o pagamento do seu crédito. Houve grave alteração com a nova legislação. Pela lei anterior, era feita por meio da protocolização de uma petição DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 162 com comprovante de crédito. Atualmente, é feita por meio extrajudicial junto ao ADMINISTRADOR JUDICIAL, que terá o prazo de 45 dias para publicar a relação de credores (os que constavam com a relação que veio na inicial e publicada no despacho e os demais credores que se habilitaram no prazo). **PUBLICAÇÃO = CREDORES DA INICIAL + CREDORES HABILITADOS DÚVIDA: se é extrajudicial não tem protocolo, o credor entrega para o administrador e se some? A lei não obriga a entrega de contra-recibo, mas é interessante pedir o protocolo. Feitas as habilitações abre o prazo de 10 dias para as IMPUGNAÇÒES DE CRÉDITO, que são as ações judiciais interpostas contra as habilitações de crédito. Podem impugnar: i. qualquer credor; ii. o MP, iii. o administrador, iv. o próprio devedor. Julgadas essas ações de impugnação, será formado o QUADRO GERAL DE CREDORES. II – PLANO DE RECUPERAÇÃO – o devedor definirá qual o benefício que terá com a recuperação. Na verdade, no plano, o devedor analisa as suas dificuldades e apresenta as soluções. O correto seria que o plano fosse apresentado na petição inicial, porque não é razoável que o indivíduo venha a juízo pedir a recuperação e somente depois apresente o plano. A lei deixou de ser um empecilho para a recuperação. Para a recuperação é importantíssimo que seja feito um bom plano de recuperação. O plano de recuperação NÃO é um documento jurídico, deve ser elaborado por uma equipe multidisciplinar. Limites impostos ao Plano de Recuperação: i. Possibilidade de mexer nos valores e prazos dos débitos, o que será analisado pelos credores; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 163 ii. Impossibilidade de modificação dos débitos tributários; iii. Possibilidade alteração dos créditos trabalhistas que já existiam no momento do pedido da recuperação. Pode deixar de pagar em até 01 ano (há ADI questionando esse dispositivo). O empresário tem o prazo de 30 dias para pagar até 05 SM por trabalhador se tiver com os salários atrasados. Os novos débitos trabalhistas não entram na recuperação, devem ser cumpridos normalmente; iv. Impossibilidade de afetação de alguns créditos com natureza real: ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA, RESERVA DE DOMÍNIO, LEASING e CONTRATO DE COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA. Algumas das medidas com nítido interesse de recuperação dos bancos No prazo de 30 dias, os credores podem apresentar OPOSIÇÃO (peça que não demanda justificativa ou motivação). Se não for apresentada a oposição será homologado o plano. Se for apresentada oposição, o juiz irá convocar uma ASSEMBLÉIA GERAL DE CREDORES, no prazo de 150 dias. CONCORDATA PREVENTIVA RECUPERAÇÃO JUDICIAL Benefício do empresário é definido: 02 anos para pagamento Benefício será escolhido pelo empresário: depois de verificada a real situação de risco, propõe a solução no plano de recuperação. Não era uma concordância, não tem natureza jurídica contratual. Somente ocorrerá se os credores concordarem, tem natureza jurídica contratual. Não há possibilidade de concordância dos credores, o devedor pede e o juiz defere. É uma ORDEM JUDICIAL. O juiz não defere a recuperação, quem defere são os credores. ASSEMBLÉIA GERAL DE CREDORES será presidida pelo ADMINISTRADOR JUDICIAL, a assembléia é ato extra-judicial. Todos os credores irão comparecer, DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 164 exceto os que estejam fora da afetação do plano de recuperação. Os credores serão divididos em 03 grupos:GRUPO DOS CREDORES TRABALHISTAS GRUPO DOS CREDORES COM GARANTIA REAL GRUPO DOS CREDORES QUIROGRAFÁRIO S FOR MAÇÃO Os empregados Normalmente, os bancos Normalmente, os fornecedores VOT AÇÕES Por cabeça Por cabeça Por valor do crédito O plano estará aprovado nas 05 votações com mais da metade dos votos. Se ocorrer a homologação, o plano valerá para todos. Se uma das classes NÃO aprova, o juiz de ofício DECRETA A FALÊNCIA DO DEVEDOR, em princípio. Dependendo das circunstâncias de não aprovação do plano, o juiz poderá adotar uma medida que BRINCAS denominou de um PLANO QUASE APROVADO, para o plano estar nessa situação deve obedecer aos seguintes requisitos: a) duas classes aprovaram; b) na classe que não aprovou, o plano teve votos favoráveis de pelo menos 1/3, ou seja, de 1/3 a ½; c) os credores que representam mais da metade dos créditos tenham aprovado o plano. Se isso tudo ocorreu, a lei diz que o plano “quase aprovado” vai para a decisão do juiz. O juiz PODE ou DEVE deferir o plano? A lei diz que o juiz PODE. ATENÇÃO: em que pese a lei dizer isso, o juiz não tem escolha, ele DEVE aprovar. O juiz tem qualificação técnica para avaliar o PLANO DE RECUPERAÇÃO? É evidente que não, o juiz não tem formação técnica. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 165 Depois de aprovado o plano, antes de o juiz dar a sentença homologando- o, há uma etapa no processo, que foi objeto de muita discussão no CN, qual seja: apresentação das CND federal, estadual, municipal e INSS. Isso é um absurdo, pelo seguinte motivo: quando o empresário está em situação difícil, a primeira dívida que deixa de pagar é a do fisco. 8.3.3 - QUESTÕES GENÉRICAS Não cumprimento das obrigações previstas no plano; o juiz decreta a falência. Relação definitiva de credores está no quadro definitivo de credores, que sairá somente depois da assembléia geral de credores. Prevendo isso, a lei proibiu, em seu artigo 40, que a assembléia está impedida de ocorrer antes de o quadro ficar pronto. “Art. 40. Não será deferido provimento liminar, de caráter cautelar ou antecipatório dos efeitos da tutela, para a suspensão ou adiamento da assembléia-geral de credores em razão de pendência de discussão acerca da existência, da quantificação ou da classificação de créditos.” Obs.: se o credor entrou no plano, não fica inibido de cobrar dos fiadores e dos avalistas (fiadores e avalistas não se submetem ao plano de recuperação). 8.4 - RECUPERAÇÃO ESPECIAL – MICROEMPRESAS E EMPRESAS DE PEQUENO PORTE As microempresas e empresas de pequeno porte podem utilizar-se da recuperação geral ou da recuperação específica, que consiste na possibilidade de pagamento dos débitos no prazo de 36 meses. Essa modalidade “especial” é muito parecida com a concordata. O artigo 71 afirma que a recuperação judicial especial só abrangerá os créditos quirografários. Segue o mesmo procedimento da recuperação judicial comum. Peculiaridades: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 166 (i) a relação de credores e a habilitação de novos credores só abrangem os quirografários; (ii) o plano já está pré-pronto, ou o credor adere ao plano, ou busca o benefício de uma recuperação comum. (iii) Não tem assembléia nessa recuperação Plano: pagamento em até 36 parcelas mensais, iguais e sucessivas, com correção e juros de 12% ao ano, sendo que a primeira parcela deverá ser paga em até 180 dias. Os credores podem apresentar objeção. Na comum, o juiz convoca Assembléia Geral de Credores. Na especial, apresentada objeção, o juiz não convoca Assembléia. Ao invés de convocação de Assembléia, o juiz concede a recuperação ainda que os credores não tenham concordado com o plano. Mas CUIDADO, pois no caso de mais da metade dos créditos quirografários apresentarem objeção, o juiz decretará a falência (art. 72, p. único, da NLFR). O juiz deverá julgar improcedente a recuperação judicial e decretar a falência se houver objeções de credores titulares de mais da metade dos créditos quirografários. Se decretada a falência, pior para os credores quirografários (art. 72). A doutrina critica: será que a recuperação judicial especial atende ao princípio da conservação da empresa, será que ela realmente favorece a microempresa e a empresa de pequeno porte?36 Art. 192, §2º - mesmo se está em concordata anterior, a lei determina que pode pedir recuperação. Vedado contudo o pedido baseado no plano especial de recuperação. É vedado pois é igual a concordata. Ao deferir a recuperação extingue a concordata. Formas de convolação em falência (artigo 73): 1 – por deliberação da assembléia geral de credores (quorum geral do artigo 42). 36 A Lei viola a necessidade de tratamento diferenciado ao exigir requisito prazo superior a oito anos para se ajuizar a recuperação especial (artigo 48). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 167 2 – se perder o prazo improrrogável de 60 dias para apresentar o plano. 3 – quando houver sido rejeitado o plano pela Assembléia. 4 – por descumprimento de qualquer obrigação assumida no plano. 8.5 - RECUPERAÇÃO EXTRAJUDICIAL A recuperação extrajudicial é o processo no qual o empresário individual ou a sociedade empresária em crise econômico-financeira busca a homologação judicial do plano de recuperação proveniente de prévia negociação extrajudicial com os respectivos credores, a fim de que as dívidas possam ser pagas em prol dos credores, mas em condições também favoráveis ao devedor. É um procedimento muito semelhante à CONCORDATA BRANCA (devedor negocia diretamente com os credores). O devedor elabora um plano de recuperação, no qual não podem entrar: Créditos tributários e Créditos trabalhistas O devedor chama os credores em uma assembléia, mas a regra é diferente. Os credores que concordarem irão aderir ao plano que terá validade para eles, entretanto, os credores que não concordarem não terão aplicado o plano para si. Se mais de 3/5 dos credores aderirem, o devedor leva o plano para ser homologado judicialmente, nessa hipótese, o plano passa a ter efeito erga omnes, inclusive para o 1/5 que discordou. 8.6 - FALÊNCIA É chamada pelos doutrinadores de “execução coletiva” ou “execução concursal”. ‘Par conditio creditorum’ – é a igualdade de condições entre os credores. Igualdade de tratamento entre os credores. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 168 Todos os credores irão concorrer com uma parcela do patrimônio do falido. 8.6.1 - CONCEITO DE FALÊNCIA É o processo de execução coletiva, no qual todo o patrimônio de um empresário declarado falido (pessoa física ou jurídica) é arrecadado, visando o pagamento da universalidade de seus credores, de forma completa ou proporcional. É um ato judicial complexo, que compreende arrecadação dos bens, sua administração e conservação, bem como a verificação e o acertamento dos créditos, para posterior liquidação dos bens e rateio entre os credores. Compreende também a punição de atos criminosos praticados pelo devedor falido (conceito para Ricardo Negrão). 8.6.2 - LEGITIMIDADE ATIVA NA FALÊNCIA 1. Autofalência – o próprio empresário pede sua falência. Art. 105 da NLFR. “Art. 105. O devedor em crise econômico-financeira(PRESSUPOSTO DA INSOLVÊNCIA) que julgue não atender aos requisitos para pleitear sua recuperação judicial (O OBJETIVO DA NOVA LEI DE FALÊNCIA É PRESERVAR A EMPRESA, HAJA VISTA A SUA FUNÇÃO SOCIAL – MANUTENÇÃO DA FONTE PRODUTORA, DE EMPREGO, RECOLHIMENTO DE IMPOSTOS E DESENVOLVIMENTO DA ATIVIDADE EMPRESARIAL NA REGIÃO) deverá (É OBRIGATÓRIO, E NÃO FACULDADE) requerer ao juízo sua falência, expondo as razões da impossibilidade de prosseguimento da atividade empresarial, acompanhadas dos seguintes documentos: I – demonstrações contábeis referentes aos 3 (três) últimos exercícios sociais e as levantadas especialmente para instruir o pedido, confeccionadas com estrita observância da legislação societária aplicável e compostas obrigatoriamente de: a) balanço patrimonial; b) demonstração de resultados acumulados; c) demonstração do resultado desde o último exercício social; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 169 d) relatório do fluxo de caixa; II – relação nominal dos credores, indicando endereço, importância, natureza e classificação dos respectivos créditos; III – relação dos bens e direitos que compõem o ativo, com a respectiva estimativa de valor e documentos comprobatórios de propriedade; IV – prova da condição de empresário, contrato social ou estatuto em vigor ou, se não houver, a indicação de todos os sócios, seus endereços e a relação de seus bens pessoais; V – os livros obrigatórios e documentos contábeis que lhe forem exigidos por lei; VI – relação de seus administradores nos últimos 5 (cinco) anos, com os respectivos endereços, suas funções e participação societária.” **A INSOLVÊNCIA PODE SER CONFESSADA OU PRESUMIDA. NO CASO DA AUTOFALÊNCIA, TEM-SE INSOLVÊNCIA CONFESSADA. 2. Sócio ou acionista 3. Empresário individual – se o empresário individual estiver em crise, e vier a falecer, é possível que o cônjuge sobrevivente, herdeiro ou inventariante peçam a falência. 4. Qualquer credor, empresário ou não. Duas observações: a) se o credor for empresário, deverá estar devidamente registrado. A sociedade em comum, assim, não pode pedir a falência de outrem (pode pedir apenas sua autofalência). b) se o credor não tiver domicílio no país, poderá pedir falência de sociedade empresária ou de empresário individual, desde que preste caução. Vide artigo 101 da Lei. Art. 101. Quem por dolo requerer a falência de outrem será condenado, na sentença que julgar improcedente o pedido, a indenizar o devedor, apurando-se as perdas e danos em liquidação de sentença. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 170 § 1o Havendo mais de 1 (um) autor do pedido de falência, serão solidariamente responsáveis aqueles que se conduziram na forma prevista no caput deste artigo. § 2o Por ação própria, o terceiro prejudicado também pode reclamar indenização dos responsáveis. Pergunta-se: ¿A SOCIEDADE EM COMUM (ANTIGA SOCIEDADE DE FATO) PODE PEDIR AUTOFALÊNCIA? VIDE ARTIGO 105, IV. A SOCIEDADE EM COMUM PODE SIM PEDIR AUTOFALÊNCIA, DESDE QUE INDIQUE TODOS OS SÓCIOS, SEUS ENDEREÇOS E A RELAÇAO DE SEUS BENS PESSOAIS. Atenção: não poderá pedir falência de terceiro, pois não está registrada. 5. Pedido de falência do espólio (somente para o empresário individual). Só podem pedir a falência do espólio o cônjuge sobrevivente, o herdeiro e o inventariante – prazo de um ano da morte. Obs.: e se o credor não tem domicílio no país? Só pode pedir a falência se prestar caução. EXPLICAÇÃO: questão do dolo no pedido de falência. 8.6.3 - PRESSUPOSTOS DA FALÊNCIA A) CRISE ECONÔMICO-FINANCEIRA. B) JULGUE NÃO ATENDER OS REQUISITOS DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL. C) DEVERÁ PEDIR A AUTOFALÊNCIA (EMPRESÁRIO OU SOCIEDADE EMPRESÁRIA). 8.6.4 - PRINCÍPIOS INFORMADORES DO PROCESSO FALIMENTAR Artigo 75, parágrafo único: CELERIDADE e ECONOMIA PROCESSUAL. “Art. 75. A falência, ao promover o afastamento do devedor de suas atividades, visa a preservar e otimizar a utilização produtiva dos bens, ativos e recursos produtivos, inclusive os intangíveis, da empresa. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 171 Parágrafo único. O processo de falência atenderá aos princípios da celeridade e da economia processual.” 8.6.5 - LEGITIMIDADE PASSIVA NA FALÊNCIA O artigo 1º: “Art. 1o Esta Lei disciplina a recuperação judicial, a recuperação extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária, doravante referidos simplesmente como devedor.” Não é possível falência de sociedade simples, por exemplo, já que é tida como não empresária. O artigo 982, parágrafo único, do CC: as cooperativas sempre serão sociedades simples, de modo que não podem falir. Alguns empresários estão excluídos do processo falimentar (artigo 2º). “Art. 2o Esta Lei não se aplica a: I – empresa pública e sociedade de economia mista; SÃO OS TOTALMENTE EXCLUÍDOS. II – instituição financeira pública ou privada, cooperativa de crédito, consórcio, entidade de previdência complementar, sociedade operadora de plano de assistência à saúde, sociedade seguradora, sociedade de capitalização e outras entidades legalmente equiparadas às anteriores. SÃO OS PARCIALMENTE EXCLUÍDOS. EXCLUÍDOS TOTALMENTE: empresa pública e sociedade de economia mista. O artigo 193 traz mais uma hipótese: Câmara ou prestadora de serviço de compensação bancária. “Art. 193. O disposto nesta Lei não afeta as obrigações assumidas no âmbito das câmaras ou prestadoras de serviços de compensação e de liquidação financeira, que serão ultimadas e liquidadas pela câmara ou prestador de serviços, na forma de seus regulamentos.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 172 EXCLUÍDOS PARCIALMENTE: instituição financeira pública ou privada; cooperativa de crédito; consórcio; entidade de previdência complementar; operadora de plano de saúde; sociedade de capitalização; e outras entidades legalmente equiparadas (exemplo: sociedade de arrendamento mercantil/leasing). A princípio, nenhuma dessas entidades do inciso II pode passar pelo procedimento de falência. Entretanto, todas podem passar por liquidação extrajudicial, em que será nomeado liquidante, que, ele sim, poderá pedir a falência. Completando os pressupostos: Insolvência (confessada ou presumida). Condição de empresário ou de sociedade empresária. 8.6.6 - JUÍZO COMPETENTE DA FALÊNCIA Não é na Justiça Federal! É na Justiça comum estadual “Art. 3o É competente para homologar o plano de recuperação extrajudicial, deferir a recuperação judicial ou decretar a falência o juízo do local do principal estabelecimento do devedor ou da filial de empresa que tenha sede fora do Brasil.” Pergunta-se: ¿qual critério é usado para se definir o estabelecimento principal? Três correntes: a) sede estatutária ou contratual. b) sede administrativa (Miranda Valverde). c) critério econômico – é corrente majoritária (defendida por Oscar Barreto Filho). É o estabelecimento que possui maior complexo de bens (é a posição que procura evitar fraudes). A finalidade da falência é justamente arrecadar os bens, vendê-los, e pagar os credores. É a posição defendida também por Fábio Ulhoa Coelho. É o que se chama de domicílio real (centro vital das principais atividades do empresário ou da sociedade empresária). CORRENTE ADOTADA PELO STJ. DIREITO EMPRESARIALResumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 173 8.6.7 - FASES DO PROCESSO FALIMENTAR 1ª fase – fase pré-falimentar. Início: pedido de falência. Término: sentença declaratória. 2ª fase – fase falimentar. Início: sentença declaratória. Término: sentença de encerramento. 3ª fase – fase de reabilitação. Início: sentença de extinção das obrigações do falido. 8.6.8 - FUNDAMENTOS JURÍDICOS DO PEDIDO DE FALÊNCIA a) Art. 94, inciso I, da L. 11101/200537 – é o que a doutrina chama de ‘impontualidade injustificada’. b) Art. 94, inciso II, da L. 11101/200538 – chamado de execução frustrada ou “tríplice omissão”. Ocorre quando o devedor é executado por qualquer quantia líquida (QUALQUER QUANTIA), e não paga, não deposita e nem nomeia bens suficientes para a penhora dentro do prazo legal. c) Art. 94, inciso III, da L. 11101/200539 – são os “atos de falência”. 37 “Art. 94. Será decretada a falência do devedor que: I – sem relevante razão de direito, não paga, no vencimento, obrigação líquida materializada em título ou títulos executivos protestados – PROTESTO ESPECIAL PARA FINS FALIMENTARES, DO ARTIGO 94, §3º - (NÃO SÓ QUANDO SE TRATAR DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL; NADA IMPEDE O PEDIDO DE FALÊNCIA COM BASE EM SENTENÇA TRANSITADA EM JULGADO, mesmo que oriunda da Justiça do Trabalho, desde que o título seja protestado) cuja soma ultrapasse o equivalente a 40 (quarenta) salários-mínimos na data do pedido de falência (A LEI PERMITE LITISCONSORTES, A FIM DE SOMAR O VALOR – ARTIGO 94, §1º);” 38 “II – EXECUTADO POR QUALQUER QUANTIA LÍQUIDA, NÃO PAGA, NÃO DEPOSITA E NÃO NOMEIA À PENHORA BENS SUFICIENTES DENTRO DO PRAZO LEGAL;” 39 “III – pratica qualquer dos seguintes atos, exceto se fizer parte de plano de recuperação judicial: a) procede à liquidação precipitada de seus ativos ou lança mão de meio ruinoso ou fraudulento para realizar pagamentos; É O CASO DA LIQUIDAÇÃO PRECIPTADA. É QUANDO O EMPRESÁRIO SE DESFAZ DOS SEUS BENS, SEM REPOSIÇÃO (“a mercadoria vai sumindo aos poucos”). DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 174 São atos, condutas, comportamentos que estão previamente elencados na Lei. Há presunção de que estão em estado de insolvência. Caso do art. 94, III, ‘g’ A NOVA LEI DE FALÊNCIA PREVÊ QUE NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL SE TEM O PRAZO DE DOIS ANOS PARA CUMPRI-LA (ARTIGO 61). SE O DESCUMPRIMENTO DA OBRIGAÇÃO ASSUMIDA OCORREU DENTRO DESSE PRAZO DE DOIS ANOS (ARTIGO 73, IV), HAVERÁ A CONVOLAÇÃO (A RECUPERAÇÃO JUDICIAL SERÁ CONVOLADA EM FALÊNCIA). SE O PRAZO DA RECUPERAÇÃO FOR DE CINCO ANOS (PODERÁ TER PRAZO SUPERIOR A DOIS ANOS, DESDE QUE OS CREDORES ACEITEM), E O DESCUMPRIMENTO OCORREU DEPOIS DO PRAZO DE DOIS ANOS, MAS DENTRO DO PRAZO DE CINCO, O JUIZ NÃO DECRETARÁ A FALÊNCIA (A NÃO SER QUE O CREDOR PREJUDICADO PROPONHA AÇÃO DE FALÊNCIA, QUE PODE TER FUNDAMENTO NO ARTIGO 94, III, “g”). 8.6.9 - INSOLVÊNCIA DO DEVEDOR A L. 11101/2005 não exige um passivo maior que ativo. Trata-se de insolvência jurídica, e não econômica. Ocorrendo qualquer um dos casos em lei (insolvência confessada ou presumida), o juiz decretará a falência. 8.6.10 - HIPÓTESES DE MANIFESTAÇÃO DO DEVEDOR APÓS SUA CITAÇÃO A citação na falência é realizada tanto por oficial de justiça quanto por edital. b) realiza ou, por atos inequívocos, tenta realizar, com o objetivo de retardar pagamentos ou fraudar credores, negócio simulado ou alienação de parte ou da totalidade de seu ativo a terceiro, credor ou não; c) transfere estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o consentimento de todos os credores e sem ficar com bens suficientes para solver seu passivo; d) simula a transferência de seu principal estabelecimento com o objetivo de burlar a legislação ou a fiscalização ou para prejudicar credor; e) dá ou reforça garantia a credor por dívida contraída anteriormente sem ficar com bens livres e desembaraçados suficientes para saldar seu passivo; f) ausenta-se sem deixar representante habilitado e com recursos suficientes para pagar os credores, abandona estabelecimento ou tenta ocultar-se de seu domicílio, do local de sua sede ou de seu principal estabelecimento; g) deixa de cumprir, no prazo estabelecido, obrigação assumida no plano de recuperação judicial.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 175 Distribuída a ação de falência, o devedor é citado para se manifestar. “Art. 98. Citado, o devedor poderá apresentar contestação no prazo de 10 (dez) dias. Parágrafo único. Nos pedidos baseados nos incisos I e II do caput do art. 94 desta Lei, o devedor poderá, no prazo da contestação, depositar o valor correspondente ao total do crédito, acrescido de correção monetária, juros e honorários advocatícios, hipótese em que a falência não será decretada e, caso julgado procedente o pedido de falência, o juiz ordenará o levantamento do valor pelo autor.” Além da contestação, poderá o devedor apresentar o depósito elisivo (significa impedir). Se o devedor apresentar depósito elisivo, o juiz está impedido de decretar a falência. Requisitos do depósito elisivo: OBS. 1: o depósito elisivo deve ser efetuado dentro do prazo de contestação. OBS. 2: artigo 98, parágrafo único 40: o depósito elisivo é o valor principal, acrescido de correção monetária, juros e honorários advocatícios. OBS. 3: só é possível do depósito elisivo nos casos dos incisos I e II do artigo 94. Assim, não cabe o depósito quando a falência tiver fundamento nos atos de falência (resposta de primeira fase de concurso). Acontece que a doutrina é majoritária no sentido de que também é pertinente depósito elisivo, mesmo quando se tratar de atos de falência. Não há incompatibilidade, de modo que deve ser aceito (resposta de segunda fase de concurso). O devedor poderá, além de depositar, apresentar a contestação. 40 “PARÁGRAFO ÚNICO. NOS PEDIDOS BASEADOS NOS INCISOS I E II DO CAPUT DO ART. 94 DESTA LEI, O DEVEDOR PODERÁ, NO PRAZO DA CONTESTAÇÃO, DEPOSITAR O VALOR CORRESPONDENTE AO TOTAL DO CRÉDITO, ACRESCIDO DE CORREÇÃO MONETÁRIA, JUROS E HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS, HIPÓTESE EM QUE A FALÊNCIA NÃO SERÁ DECRETADA E, CASO JULGADO PROCEDENTE O PEDIDO DE FALÊNCIA, O JUIZ ORDENARÁ O LEVANTAMENTO DO VALOR PELO AUTOR.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 176 O art. 95 da NLFR traz, ainda, a possibilidade de, dentro do prazo de contestação, o devedor pedir recuperação judicial. 8.6.11 - DECISÃO JUDICIAL Na prática, todo juiz marca audiência de conciliação. É um modo de fugir da falência. O juiz homologa o acordo que, uma vez descumprido, dá ensejo à execução de seu teor, sem que tenha sido decretada a falência. O juiz proferirá sentença: a sentença pode ser PROCEDENTE (denomina- se declaratória) ou IMPROCEDENTE (denomina-se denegatória). Pergunta-se: ¿quais são os recursos cabíveis para cada uma dessas sentenças? (Artigo 100 da L. 11101/2005). Se a sentença for declaratória, comportará recurso de AGRAVO DE INSTRUMENTO. Se a sentença for denegatória, comportará recurso de APELAÇÃO. Pergunta-se: ¿o devedor tem interesse em apelar? Sim! Nos casos de autofalência, o devedor tambémtem interesse em apelar. Esquematização: pedido da falência juiz sentencia Declaratória, decreta a falência Posteriormente, haverá outra sentença, de encerramento. Artigo 102 da L. 11101/2005: quando o juiz decretar a falência, o empresário fica inabilitado para exercer atividade empresarial. A reabilitação ficará dependente de outra sentença, denominada de sentença de extinção das obrigações do falido. O agravo de instrumento pode ser interposto pelo devedor, pelo MP (fiscal da lei) e também pelo credor. Diante de sentença denegatória, a apelação pode ser interposta pelo credor, pelo MP e também pelo devedor (quando o devedor pedir a autofalência). SENTENÇA DECLARATÓRIA: Requisitos: artigo 99 da Lei. “Art. 99. A sentença que decretar a falência do devedor, dentre outras determinações: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 177 I – conterá a síntese do pedido, a identificação do falido e os nomes dos que forem a esse tempo seus administradores; II – fixará o termo legal da falência, sem poder retrotraí-lo por mais de 90 (noventa) dias contados do pedido de falência, do pedido de recuperação judicial ou do 1o (primeiro) protesto por falta de pagamento, excluindo-se, para esta finalidade, os protestos que tenham sido cancelados; III – ordenará ao falido que apresente, no prazo máximo de 5 (cinco) dias, relação nominal dos credores, indicando endereço, importância, natureza e classificação dos respectivos créditos, se esta já não se encontrar nos autos, sob pena de desobediência; IV – explicitará o prazo para as habilitações de crédito, observado o disposto no § 1o do art. 7o desta Lei; V – ordenará a suspensão de todas as ações ou execuções contra o falido, ressalvadas as hipóteses previstas nos §§ 1o e 2o do art. 6o desta Lei; VI – proibirá a prática de qualquer ato de disposição ou oneração de bens do falido, submetendo-os preliminarmente à autorização judicial e do Comitê, se houver, ressalvados os bens cuja venda faça parte das atividades normais do devedor se autorizada a continuação provisória nos termos do inciso XI do caput deste artigo; VII – determinará as diligências necessárias para salvaguardar os interesses das partes envolvidas, podendo ordenar a prisão preventiva do falido ou de seus administradores quando requerida com fundamento em provas da prática de crime definido nesta Lei; VIII – ordenará ao Registro Público de Empresas que proceda à anotação da falência no registro do devedor, para que conste a expressão "Falido", a data da decretação da falência e a inabilitação de que trata o art. 102 desta Lei; IX – nomeará o administrador judicial, que desempenhará suas funções na forma do inciso III do caput do art. 22 desta Lei sem prejuízo do disposto na alínea a do inciso II do caput do art. 35 desta Lei; X – determinará a expedição de ofícios aos órgãos e repartições públicas e outras entidades para que informem a existência de bens e direitos do falido; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 178 XI – pronunciar-se-á a respeito da continuação provisória das atividades do falido com o administrador judicial ou da lacração dos estabelecimentos, observado o disposto no art. 109 desta Lei; XII – determinará, quando entender conveniente, a convocação da assembléia-geral de credores para a constituição de Comitê de Credores, podendo ainda autorizar a manutenção do Comitê eventualmente em funcionamento na recuperação judicial quando da decretação da falência; XIII – ordenará a intimação do Ministério Público e a comunicação por carta às Fazendas Públicas Federal e de todos os Estados e Municípios em que o devedor tiver estabelecimento, para que tomem conhecimento da falência. Parágrafo único. O juiz ordenará a publicação de edital contendo a íntegra da decisão que decreta a falência e a relação de credores.” **Art. 99, inciso II – termo legal CARVALHO DE MENDONÇA CHAMA TERMO LEGAL DE “PERÍODO SUSPEITO”. É LAPSO TEMPORAL QUE ANTECEDE A FALÊNCIA. SE O EMPRESÁRIO FALIDO PRATICAR ATOS ELENCADOS NO ARTIGO 129 NO PERÍODO SUSPEITO, ESSES ATOS SERÃO CONSIDERADOS INEFICAZES. FÁBIO UHOA COELHO CHAMA DE INEFICÁCIA OBJETIVA (NÃO SE APURA A INTENÇÃO DO DEVEDOR). O TERMO LEGAL É FIXADO DENTRO DA SENTENÇA DECLARTÓRIA. O TERMO LEGAL NÃO PODE RETROTRAIR POR MAIS DE 90 DIAS. CONTA-SE 90 DIAS A PARTIR OU DO PEDIDO DA FALÊNCIA, OU DO PEDIDO DA RECUPERAÇÃO JUIDICIAL, OU DA DATA DO PRIMEIRO PROTESTO. ARTIGO 94, III – PEDIDO A PARTIR DA FALÊNCIA. ARTIGO 94, I E II – DATA DO PRIMEIRO PROTESTO. CASO DE CONVOLAÇÃO DA RECUPERÇÃO JUDICIAL EM FALÊNCIA - DATA DO PEDIDO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 179 **Art. 99, IX nomeação de administrador judicial. O juiz, diretamente, nomeia o administrador judicial, que representa a massa falida e serve como “auxiliar do juízo”. Vide art. 21 da L. 11101/2005: -preferência e ordem obedecidas- “Art. 21. O administrador judicial será profissional idôneo, preferencialmente advogado, economista, administrador de empresas ou contador, ou pessoa jurídica especializada. Parágrafo único. Se o administrador judicial nomeado for pessoa jurídica, declarar-se-á, no termo de que trata o art. 33 desta Lei, o nome de profissional responsável pela condução do processo de falência ou de recuperação judicial, que não poderá ser substituído sem autorização do juiz.” Cuidado: questão de prova CESPE – art. 22, inciso III, letra ‘d’: “Art. 22. Ao administrador judicial compete, sob a fiscalização do juiz e do Comitê, além de outros deveres que esta Lei lhe impõe: (...) III – na falência: (...) d) receber e abrir a correspondência dirigida ao devedor, entregando a ele o que não for assunto de interesse da massa; (...)” Obs.: a doutrina critica esse dispositivo – alegação de inconstitucionalidade. 8.6.12 - ATOS INEFICAZES “Art. 129. São ineficazes em relação à massa falida, tenha ou não o contratante conhecimento do estado de crise econômico-financeira do devedor, seja ou não intenção deste fraudar credores: DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 180 I – o pagamento de dívidas não vencidas realizado pelo devedor dentro do termo legal, por qualquer meio extintivo do direito de crédito, ainda que pelo desconto do próprio título; II – o pagamento de dívidas vencidas e exigíveis realizado dentro do termo legal, por qualquer forma que não seja a prevista pelo contrato; III – a constituição de direito real de garantia, inclusive a retenção, dentro do termo legal, tratando-se de dívida contraída anteriormente; se os bens dados em hipoteca forem objeto de outras posteriores, a massa falida receberá a parte que devia caber ao credor da hipoteca revogada; IV – a prática de atos a título gratuito, desde 2 (dois) anos antes da decretação da falência; V – a renúncia à herança ou a legado, até 2 (dois) anos antes da decretação da falência; VI – a venda ou transferência de estabelecimento feita sem o consentimento expresso ou o pagamento de todos os credores, a esse tempo existentes, não tendo restado ao devedor bens suficientes para solver o seu passivo, salvo se, no prazo de 30 (trinta) dias, não houver oposição dos credores, após serem devidamente notificados, judicialmente ou pelo oficial do registro de títulos e documentos;VII – os registros de direitos reais e de transferência de propriedade entre vivos, por título oneroso ou gratuito, ou a averbação relativa a imóveis realizados após a decretação da falência, salvo se tiver havido prenotação anterior. Parágrafo único. A ineficácia poderá ser declarada de ofício pelo juiz, alegada em defesa ou pleiteada mediante ação própria ou incidentalmente no curso do processo.” A doutrina afirma que o juiz pode, de ofício, decretar a ineficácia dos atos, pois não se apura a intenção do devedor. 8.6.13 - ATOS REVOGÁVEIS DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 181 Fábio Ulhôa Coelho chama de atos de ineficácia subjetiva, pois só serão revogados se verificada a intenção do devedor (apura-se o ânimo do devedor – conluio fraudulento). “Art. 130. São revogáveis os atos praticados com a intenção de prejudicar credores, provando-se o conluio fraudulento entre o devedor e o terceiro que com ele contratar e o efetivo prejuízo sofrido pela massa falida.” ATENÇÃO: a ineficácia subjetiva não pode ser decretada de ofício pelo juiz – tem que ser por ação própria. Por seu turno, a eficácia objetiva pode ser declarada de ofício (art. 129, p. único, da L. 11101/2005). Obs.: F.U.C. diz que a ação própria é inominada (A LEI NÃO DEU NOME). NOS CASOS DO ARTIGO 130, A AÇÃO SE DENOMINA REVOCATÓRIA. É POSIÇÃO MINORITÁRIA. DOUTRINA MAJORITÁRIA: TANTO OS CASOS DO ARTIGO 129 QUANTO OS CASOS DO ARTIGO 130, A AÇÃO É REVOCATÓRIA. POSIÇÃO DE RICARDO NEGRÃO, AMADOR PAES DE ALMEIDA, SÉRGIO CAMPINHO. “Art. 132. A ação revocatória, de que trata o art. 130 desta Lei, deverá ser proposta pelo administrador judicial, por qualquer credor ou pelo Ministério Público no prazo de 3 (três) anos contado da decretação da falência.” O PRAZO FOI AMPLIADO DE UM PARA TRÊS ANOS, A CONTAR DA DECRETAÇÃO DA FALÊNCIA. O MP NÃO TINHA LEGITIMIDADE – AGORA PASSOU A TER. A ação revocatória deve observar o rito ordinário. ATENÇÃO: o termo legal não poderá RETROTRAIR por mais de 90 (noventa) dias. 8.6.14 - EFEITOS DA SENTENÇA DECLARATÓRIA DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 182 Efeitos da sentença declaratória quanto ao falido Vide art. 102: “Art. 102. O falido fica inabilitado para exercer qualquer atividade empresarial a partir da decretação da falência e até a sentença que extingue suas obrigações, respeitado o disposto no § 1o do art. 181 desta Lei. Parágrafo único. Findo o período de inabilitação, o falido poderá requerer ao juiz da falência que proceda à respectiva anotação em seu registro.” -O empresário fica inabilitado para exercer a atividade empresarial. Só após a sentença de extinção das obrigações do falido é que o empresário pode exercer atividade empresarial. Pergunta-se: ¿e se for uma sociedade empresária? Se a soc. for LTDA ou se for uma S.A., somente a sociedade terá a inabilitação decretada, e não a pessoa dos sócios. Obs.: se o juiz decretar a falência das concessionárias de serv. públicos, deve haver extinção da concessão (art. 195 da NLFR41). Efeitos da sentença declaratória quanto aos credores Constituição da massa falida – só há que se falar em massa falida após uma sentença declaratória. Pergunta-se: ¿o que é massa falida? Há doutrina que divide a massa falida em objetiva e subjetiva. Esta seria a reunião dos credores, ao passo que aquela se configuraria como o patrimônio reunido do devedor. Com a decretação da falência, deve haver o vencimento antecipado da dívida. 41 “ART. 195. A DECRETAÇÃO DA FALÊNCIA DAS CONCESSIONÁRIAS DE SERVIÇOS PÚBLICOS IMPLICA EXTINÇÃO DA CONCESSÃO, NA FORMA DA LEI.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 183 Há, também, ao se decretar a falência, a suspensão da fluência de juros e a suspensão de todas as ações e execuções contra o falido. O juízo da falência é o juízo universal, ou seja, atrai para si todas as ações e execuções contra o falido (vis attrativa). Haverá um único processo de falência para o mesmo devedor, o que além de evitar repetição de atos (economia processual) e decisões contraditórias, dá tratamento isonômico aos credores que venham a ostentar uma mesma condição jurídica em relação aos bens que compõem a massa, assegurando maior celeridade e eficiência ao processo falimentar. Obs.: exceções ao juízo universal – a) Ação trabalhista; b) Ações fiscais; c) Ações que demandem quantia ilíquida; d) Ações em que o falido for autor ou litisconsorte ativo, e e) Os casos do art. 109, inciso I, da CRFB42. Com a decretação de falência, há ainda a suspensão do curso da prescrição das obrigações do falido (encerra com o trânsito em julgado da sentença de encerramento). Pergunta-se: ¿qual é a natureza jurídica da sentença declaratória de falência? É constitutiva (constitui a massa falida, nomeia administrador judicial, provoca o vencimento antecipado da dívida, etc.). 7.6.15 - ARRECADAÇÃO DOS BENS Serão arrecadados todos os bens que estão na posse do falido, não necessitando o administrador judicial de verificar quais são realmente os bens do falido. 42 “I - AS CAUSAS EM QUE A UNIÃO, ENTIDADE AUTÁRQUICA OU EMPRESA PÚBLICA FEDERAL FOREM INTERESSADAS NA CONDIÇÃO DE AUTORAS, RÉS, ASSISTENTES OU OPONENTES, EXCETO AS DE FALÊNCIA, AS DE ACIDENTES DE TRABALHO E AS SUJEITAS À JUSTIÇA ELEITORAL E À JUSTIÇA DO TRABALHO;” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 184 Como deve proceder o proprietário? O proprietário vai habilitar o crédito na falência? Não! O credor tem a seu favor o pedido de restituição (artigo 85). “Art. 85. O proprietário de bem arrecadado no processo de falência ou que se encontre em poder do devedor na data da decretação da falência poderá pedir sua restituição. Parágrafo único. Também pode ser pedida a restituição de coisa vendida a crédito e entregue ao devedor nos 15 (quinze) dias anteriores ao requerimento de sua falência, se ainda não alienada.” Os bens são arrecadados para posterior avaliação. Após a avaliação dos bens, será realizado o ativo (‘venda judicial dos bens’). 7.6.16 - DA REALIZAÇÃO DO ATIVO É a venda judicial de bens. Findas a arrecadação e a avaliação de bens, e juntados o auto de arrecadação e o laudo de avaliação aos autos do processo falimentar, tem início a realização do ativo, com a alienação dos bens arrecadados e o pagamento dos credores (art. 139 da NLFR). Modalidades de realização do ativo a) Leilão, b) Proposta fechada, e c) Pregão. O pregão é modalidade híbrida, pois mistura o leilão e a proposta fechada. Obs.: qualquer uma das modalidades acima necessita de intimação do MP, sob pena de nulidade. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 185 Obs.2: dívida tributária, dívida trabalhista e dívida de acidente de trabalho – o arrematante fica livre de qualquer ônus43. Pagamento dos credores Sentença declaratória publicação da sentença em Edital arrecadação dos bens r. do ativo 15 dias para o credor habilitar crédito Obs.: a habilitação de créditos deve ser encaminhada ao administrador judicial. A relação dos credores deve ser publicada no prazo de 45 dias. Com a publicaçãoda relação de credores, é aberto prazo de 15 dias para a impugnação dessa relação. ATENÇÃO: só haverá pagamento de credores, nos casos de impugnação, após o trânsito em julgado da última impugnação. Após o trânsito em julgado da última impugnação, é formado o quadro geral de credores. Com a realização do ativo, deve ocorrer o pagamento dos credores. O pagamento dos credores deve obedecer a seguinte ordem: 1- Despesas da administração da falência (Art. 150 da NLFR). 2- Créditos trabalhistas de natureza estritamente salarial vencidos três meses anteriores à decretação da falência (art. 151 da NLFR). Obs: os créditos acima são pagos tão logo haja disponibilidade de caixa. 3- Restituições (art. 149 da NLFR). 4- Crédito extraconcursal (art. 84 da NLFR). A dívida é da massa falida. 5- Art. 83 da NLFR (ordem de classificação dos créditos na falência). São créditos do falido. 43 “Art. 141. Na alienação conjunta ou separada de ativos, inclusive da empresa ou de suas filiais, promovida sob qualquer das modalidades de que trata este artigo: (...) II – o objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, as derivadas da legislação do trabalho e as decorrentes de acidentes de trabalho.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 186 a) crédito trabalhista até 150 SM por credor e acidente de trabalho (todo crédito trabalhista que exceder a 150 SM será considerado crédito quirografário44); Obs.: a comissão do representante comercial é equiparada a crédito trabalhista para fins falimentares. b) crédito com garantia real; c) crédito tributário (obs.: excetuadas as multas tributárias); d) crédito com privilégio especial; e) crédito com privilégio geral (caso do art. 965 do CC); f) crédito quirografário (títulos de crédito e contratos em geral); g) multas (inclusive as multas de natureza tributária), e h) subordinados. Reabilitação O empresário só estará reabilitado com a sentença de extinção das obrigações do falido. “Art. 158. Extingue as obrigações do falido: I – o pagamento de todos os créditos; II – o pagamento, depois de realizado todo o ativo, de mais de 50% (cinqüenta por cento) dos créditos quirografários, sendo facultado ao falido o depósito da quantia necessária para atingir essa porcentagem se para tanto não bastou a integral liquidação do ativo; III – o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contado do encerramento da falência, se o falido não tiver sido condenado por prática de crime previsto nesta Lei; IV – o decurso do prazo de 10 (dez) anos, contado do encerramento da falência, se o falido tiver sido condenado por prática de crime previsto nesta Lei.” 44 ATENÇÃO: todo crédito trabalhista cedido a terceiro é considerado quirografário. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 187 8.6.17 - ASPECTOS CRIMINAIS NA FALÊNCIA Condição objetiva de punibilidade As mudanças processuais penais foram muitas. “Art. 180. A sentença que decreta a falência, concede a recuperação judicial ou concede a recuperação extrajudicial de que trata o art. 163 desta Lei é condição objetiva de punibilidade das infrações penais descritas nesta Lei.” **Condição objetiva de punibilidade: é a condição exterior à conduta delituosa, não abrangida pelo elemento subjetivo do agente, que, como regra, está fora do tipo penal, tornando-se requisito para a punição efetivar-se. Ela não necessita ser coberta pelo dolo do autor da infração penal. Por isso, a generalização empregada no art. 180 desta Lei não compreende à realidade dos seus tipos penais. Pode ser, em algumas situações. Noutras, não. Tomemos exemplos: a) se o empresário pratica atos fraudulentos, em prejuízo de credores, obtendo vantagem indevida para si, antes da falência, não pode ser processado pelo crime descrito no art. 168, devendo se aguardar a condição objetiva de punibilidade, consistente no advento da sentença de quebra, para que o fato se torne penalmente relevante; b) entretanto, ainda no contexto do art. 168, se o empresário falido, portanto, com sentença de quebra existente, pratica ato fraudulento, em detrimento de credores, beneficiando-se, comete automaticamente o crime, sem necessidade de nenhuma condição objetiva de punibilidade. Nesse caso, a existência de falência foi somente um pressuposto para o seu ato criminoso, mas não funciona como condição objetiva para punição. Aliás, se o empresário assim age, é natural que o dolo envolva o seu estado de falido, outra razão pela qual não se pode considerar a decisão de quebra como condição objetiva de punibilidade. Na primeira situação, ao cometer atos fraudulentos em seu benefício, o empresário não necessita nem mesmo imaginar que tal conduta poderá levar sua empresa à falência. Por isso, a decisão de quebra está fora do seu dolo e funciona, agora sim, como condição objetiva de punição. A sentença de falência é uma condição genérica da ação: possibilidade jurídica do pedido. Muitos doutrinadores afirmam que se trata de uma CONDIÇÃO OBJETIVA DE PUNIBILIDADE por EQUIPARAÇÃO LEGAL. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 188 Condição objetiva de punibilidade é a condição exigida em DIREITO PENAL, para que o fato se torne punível (ciência penal). A sentença de falência não é da ciência criminal, sempre foi CONDIÇÃO DE PROSSEGUIBILIDADE. Assim, a natureza jurídica desse artigo 180 é de CONDIÇÃO OBJETIVA DE PUNIBILIDADE POR EQUIPARAÇÃO LEGAL, porque não é um instituto de natureza penal, é processual penal, mas que o legislador equiparou à condição objetiva de punibilidade. JAIME WALMER FREITAS: As sentenças de quebra, concessiva de recuperação judicial ou extrajudicial homologada (LFRE, art. 163) são pressupostos da ação penal por crime falimentar. A discussão sobre sua natureza jurídica: condição específica de procedibilidade, condição objetiva de punibilidade ou elemento constitutivo do tipo falimentar fez com que o legislador tentasse por fim à controvérsia, optando por defini-la como condição objetiva de punibilidade. Contudo, se é condição de punibilidade quanto aos crimes ante-falimentares ou ante-recuperação judicial, qual será sua natureza em face dos crimes pós-falimentares ou pós-recuperação judicial? Sem dúvida, constituirá elemento constitutivo do tipo. Prescrição dos crimes falimentares Na lei antiga o prazo era BIENAL. Duas súmulas do STF tratavam do assunto e deverão ser canceladas (147), por conta da nova redação da LEI DE FALÊNCIA. “147 - A prescrição de crime falimentar começa a correr da data em que deveria estar encerrada a falência, ou do trânsito em julgado da sentença que a encerrar ou que julgar cumprida a concordata.” De relevo acrescentar que o legislador falimentar deixou de criar regras de direito material sobre os crimes falimentares, remetendo o aplicador do direito ao CP, o que deve ser elogiado, porquanto as diversas interpretações geradas por Súmulas do STF tornavam o tema sempre polêmico. Para espancar dúvidas, quanto ao termo a quo da fluência do lapso temporal da prescrição, foi categórico no art. 182 da LFRE. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 189 “Art. 182. A prescrição dos crimes previstos nesta Leireger-se-á pelas disposições do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, começando a correr do dia da decretação da falência, da concessão da recuperação judicial ou da homologação do plano de recuperação extrajudicial. Parágrafo único. A decretação da falência do devedor interrompe a prescrição cuja contagem tenha iniciado com a concessão da recuperação judicial ou com a homologação do plano de recuperação extrajudicial.” Significa que o lapso prescricional é regulado pelos prazos e regras constantes dos arts. 109 e seguintes do CP. Se assim é, a contagem se inicia na data do fato e, em não sendo apurada, começará a fluir do dia da decretação da falência, da concessão da recuperação judicial ou da homologação do plano de recuperação extrajudicial. Caso tenha o devedor, a princípio, se beneficiado com a concessão da recuperação judicial ou de homologação do plano de recuperação extrajudicial e, posteriormente, é decretada sua quebra, temos dois marcos prescricionais, aquele e este como causas interruptivas. Não se olvide que as demais causas interruptivas previstas no art. 117 do CP incidem nos crimes falimentares, conforme Súmula 592 do STF, em especial o recebimento da denúncia e a data de publicação da sentença condenatória por crime falimentar. “592 - Nos crimes falimentares, aplicam-se as causas interruptivas da prescrição, previstas no Código Penal.” A sentença penal Reza o art. 181 da LFRE que os efeitos da condenação são os seguintes: “Art. 181. São efeitos da condenação por crime previsto nesta Lei: I – a inabilitação para o exercício de atividade empresarial; DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 190 II – o impedimento para o exercício de cargo ou função em conselho de administração, diretoria ou gerência das sociedades sujeitas a esta Lei; III – a impossibilidade de gerir empresa por mandato ou por gestão de negócio. § 1o Os efeitos de que trata este artigo não são automáticos, devendo ser motivadamente declarados na sentença, e perdurarão até 5 (cinco) anos – pode o juiz impor prazo menor que esse, desde que entenda de pouca gravidade o delito cometido – após a extinção da punibilidade, podendo, contudo, cessar antes pela reabilitação penal. § 2o Transitada em julgado a sentença penal condenatória, será notificado o Registro Público de Empresas para que tome as medidas necessárias para impedir novo registro em nome dos inabilitados.” I – inabilitação para o exercício de atividade empresarial; II – o impedimento para o exercício de cargo ou função em conselho de administração, diretoria ou gerência das sociedades sujeitas à Lei de Falências; III – impossibilidade de gerir empresa por mandato ou por gestão de negócio. Tais efeitos não são automáticos, devendo ser declarados motivadamente na sentença, pois perdurarão por cinco anos após a extinção da punibilidade, salvo se anteriormente foi o condenado beneficiado por reabilitação criminal. **Obs.: embora o magistrado deva impor, expressamente, na sentença, tais efeitos, justificando e motivando sua decisão, pode haver cumulação. Guilherme de Souza Nucci entende que o juiz deve impor, na maioria das vezes, todos os efeitos cumulados, evitando-se qualquer dúvida ou falsa interpretação. Lembre-se que transitada em julgado a sentença penal condenatória, deve o juiz determinar notificação ao Registro Público de Empresas para que tome as providências cabíveis de molde a impedir novo registro em nome dos inabilitados. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 191 O procedimento penal “Art. 183. Compete ao juiz criminal da jurisdição onde tenha sido decretada a falência, concedida a recuperação judicial ou homologado o plano de recuperação extrajudicial, conhecer da ação penal pelos crimes previstos nesta Lei. Art. 184. Os crimes previstos nesta Lei são de ação penal pública incondicionada. Parágrafo único. Decorrido o prazo a que se refere o art. 187, § 1o, sem que o representante do Ministério Público ofereça denúncia, qualquer credor habilitado ou o administrador judicial poderá oferecer ação penal privada subsidiária da pública, observado o prazo decadencial de 6 (seis) meses. Art. 185. Recebida a denúncia ou a queixa, observar-se-á o rito previsto nos arts. 531 a 540 do Decreto-Lei no 3.689, de 3 de outubro de 1941 - Código de Processo Penal. Art. 186. No relatório previsto na alínea e do inciso III do caput do art. 22 desta Lei, o administrador judicial apresentará ao juiz da falência exposição circunstanciada, considerando as causas da falência, o procedimento do devedor, antes e depois da sentença, e outras informações detalhadas a respeito da conduta do devedor e de outros responsáveis, se houver, por atos que possam constituir crime relacionado com a recuperação judicial ou com a falência, ou outro delito conexo a estes. Parágrafo único. A exposição circunstanciada será instruída com laudo do contador encarregado do exame da escrituração do devedor. Art. 187. Intimado da sentença que decreta a falência ou concede a recuperação judicial, o Ministério Público, verificando a ocorrência de qualquer crime previsto nesta Lei, promoverá imediatamente a competente ação penal ou, se entender necessário, requisitará a abertura de inquérito policial. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 192 § 1o O prazo para oferecimento da denúncia regula-se pelo art. 46 do Decreto-Lei no 3.689, de 3 de outubro de 1941 - Código de Processo Penal, salvo se o Ministério Público, estando o réu solto ou afiançado, decidir aguardar a apresentação da exposição circunstanciada de que trata o art. 186 desta Lei, devendo, em seguida, oferecer a denúncia em 15 (quinze) dias. § 2o Em qualquer fase processual, surgindo indícios da prática dos crimes previstos nesta Lei, o juiz da falência ou da recuperação judicial ou da recuperação extrajudicial cientificará o Ministério Público. Art. 188. Aplicam-se subsidiariamente as disposições do Código de Processo Penal, no que não forem incompatíveis com esta Lei.” **Juízo competente – o correto e ideal é, sem dúvida o juízo criminal ser o competente para processar e julgar os delitos ligados a falências, recuperações judiciais e extrajudiciais. Ele tem melhor técnica e instrução penal especializada suficientes para analisar os elementos do tipo penal (objetivo e subjetivo), aplicando e individualizando, corretamente, a pena. NOTA: não se compreende, pois, a insistência, ao menos no Estado de São Paulo, de manter o juízo cível, onde se decreta a falência (ou se concede a recuperação), como competente para apreciar os feitos criminais. O STF já considerou válida essa disposição, valendo-se do argumento de que cabe ao Estado-membro a fixação das suas próprias e peculiares normas de organização judiciária. **Ação pública incondicionada – o MP é o titular da ação penal no tocante à ocorrência de qualquer das figuras típicas do art. 168 a 178 da NLFR. Não haveria nem mesmo necessidade de constar essa norma, pois em todos os casos, inclusive quando aos delitos previstos no CP, quando nada se excepciona, a ação é pública incondicionada. **Ação privada subsidiária da pública – aplica-se o disposto no art. 29 do CPP, com a diferença de que não se trata de ação proposta, necessariamente, pela vítima do crime cometido, uma vez que a legitimação,no caso da NLFR, recai sobre o administrador judicial e em relação a qualquer credor habilitado. Logo, não pode ser qualquer pessoa que se julgue credora do falido ou devedor, DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 193 mas as que forem reconhecidas pelo administrador judicial como tal (art. 7º, §2º) ou, posteriormente, reconhecidas pelo juiz (art. 10). **Procedimento – seguia-se o rito previsto para os crimes apenados com detenção, o que se afigurava incompreensível, pois os delitos descritos na NLFR são quase todos (exceto o crime do art. 178) apenas com reclusão. A alteração implementada pela L. 11719/2008 prevê o procedimento comum, pelo rito ordinário, para os delitos cuja sanção máxima cominada seja igual ou superior a quatro anos de pena privativa de liberdade (art. 394, §1º, I, CPP). É o caso da maioria dos crimes falimentares. Por outro lado, prevê-se, ainda, o procedimento comum, pelo rito sumário, aos delitos cuja sanção máxima cominada seja inferior a quatro anos de pena privativa de liberdade (art. 394, §1º, II, CPP) – é o caso do crime previsto no art. 178 da NLFR. **Atuação do MP – art. 187 da NLFR. Qualquer denúncia deve ser instruída com provas pré-constituídas, legalmente colhidas. Portanto, na ausência de IP, o órgão acusatório pode valer-se de provas documentais e outros elementos. NOTA: Guilherme de Souza Nucci entende que, cientificado da falência ou da recuperação judicial, o membro do MP deve sempre aguardar o relatório do administrador judicial, pois dificilmente terá, em outra fonte, elementos para a propositura imediata de ação penal. Por outro lado, como o referido relatório tem um prazo de 40 dias para ser apresentado, pode o órgão acusatório, desde logo, requisitar a abertura de IP. Juizado Especial Criminal O crime de omissão de documentos contábeis consiste em: “Art. 178. Deixar de elaborar, escriturar ou autenticar, antes ou depois da sentença que decretar a falência, conceder a recuperação judicial ou homologar o plano de recuperação extrajudicial, os documentos de escrituração contábil obrigatórios: Pena – detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos, e multa, se o fato não constitui crime mais grave.” Sem discutir seu aspecto subsidiário, é o único apenado com detenção e cuja pena o coloca no patamar das infrações de menor potencial DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 194 ofensivo, consoante os ditames da Lei 9099/95, já que todos os demais possuem pena máxima superior a um biênio e reclusiva. Entendemos que a infração em tela dificilmente permanecerá no JECrim, eis que o processo que origina a quebra ou a recuperação judicial ou extrajudicial é de razoável complexidade, o que contraria os critérios da celeridade e da simplicidade preconizados nos Juizados (Lei 9099/95, arts. 3º e 62). Assim, afigura-se adequada a modificação da competência se o Juiz competente decidir, a pedido do MP, pela remessa dos autos à Justiça Comum (Lei 9099/95, art. 77, § 2º). Obs.: susbsidiariedade explícita (art. 178 da NLFR) => o tipo penal se auto-intitula “tipo de reserva”, vale dizer, somente se utiliza o disposto no art. 178, caso não se encontre outro delito, previsto na NLFR, mais grave. Exemplo: se não se anota determinado negócio para acobertar o envolvimento do juiz da falência, que adquiriu bem da massa falida, deve-se usar o disposto no art. 177, deixando-se de lado o mencionado no art. 178. 8.7 - DISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS DA NLFR Pergunta-se: ¿se houver concordata em andamento, pode-se pedir recuperação judicial (concurso da magistratura/PR)? O artigo 192, §2º, diz que a existência de concordata não obsta o pedido de recuperação judicial, exceto se for recuperação judicial especial, já que na prática é a mesma coisa (mesmo efeitos). Artigo 192, §3º: se deferido o processamento da recuperação judicial, o processo de concordata será extinto. ATENÇÃO: pedido anterior à nova lei de falências, e sentença declaratória também anterior à nova lei, todo o processo observará o D.L. 7661/1945. Se o pedido foi distribuído antes da nova lei de falências, mas a sentença declaratória é posterior, do momento da decretação em diante se observa a nova lei. O que é importante, nessas situações, é o momento da sentença declaratória. DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 195 Pergunta-se: ¿como fica o pedido de concordata preventiva feito na vigência do antigo DL 7661/45, mas ainda não analisado? Nessas situações, poderia haver migração para a recuperação judicial, com base no que dispõe o art. 192, §2º, da NLFR45? Embora a redação não ajude, parte da doutrina entende que a resposta deve ser afirmativa! A concordata é instituto ultrapassado. Assim, se o devedor preencher os requisitos para a obtenção da recuperação judicial, deve o juiz admitir a migração. 9 - MICROEMPRESA E EMPRESA DE PEQUENO PORTE – LC 123/2006 “Art. 1o Esta Lei Complementar estabelece normas gerais relativas ao tratamento diferenciado e favorecido a ser dispensado às microempresas e empresas de pequeno porte no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, especialmente no que se refere: I – à apuração e recolhimento dos impostos e contribuições da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, mediante regime único de arrecadação, inclusive obrigações acessórias; II – ao cumprimento de obrigações trabalhistas e previdenciárias, inclusive obrigações acessórias; III – ao acesso a crédito e ao mercado, inclusive quanto à preferência nas aquisições de bens e serviços pelos Poderes Públicos, à tecnologia, ao associativismo e às regras de inclusão. § 1o Cabe ao Comitê Gestor de que trata o inciso I do caput do art. 2o desta Lei Complementar apreciar a necessidade de revisão dos valores expressos em moeda nesta Lei Complementar. 45 “Art. 192. Esta Lei não se aplica aos processos de falência ou de concordata ajuizados anteriormente ao início de sua vigência, que serão concluídos nos termos do Decreto-Lei no 7.661, de 21 de junho de 1945. (...) § 2o A existência de pedido de concordata anterior à vigência desta Lei não obsta o pedido de recuperação judicial pelo devedor que não houver descumprido obrigação no âmbito da concordata, vedado, contudo, o pedido baseado no plano especial de recuperação judicial para microempresas e empresas de pequeno porte a que se refere a Seção V do Capítulo III desta Lei.” DIREITO EMPRESARIAL Resumão Estratégico para o XXVII Exame da OAB Prof. Renato Borelli 196 § 2o (VETADO).” 9.1 - CARACTERIZAÇÃO DAS MICROEMPRESAS E EMPRESAS DE PEQUENO PORTE “Art. 3º Para os efeitos desta Lei Complementar, consideram-se microempresas ou empresas de pequeno porte, a sociedade empresária, a sociedade simples, a empresa individual de responsabilidade limitada e o empresário a que se refere o art. 966 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), devidamente registrados no Registro de Empresas Mercantis ou no Registro Civil de Pessoas Jurídicas, conforme o caso, desde que: I - no caso da microempresa, aufira, em cada ano-calendário, receita bruta igual ou inferior a R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais); e II - no caso de empresa de pequeno porte, aufira, em cada ano- calendário, receita bruta superior a R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais) e igual ou inferior