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� BIOGRAFIA Araquém Alcântara, o fotógrafo viajante Por Giselle em Perfis - 08 / nov Araquém Alcântara é um caiçara que não se dobrou às maravilhas do desenvolvimento. Ele anda, anda pela floresta; movido pelo interesse na vida, na matéria orgânica, nos bichos e árvores. Alienado da realidade urbana? De forma nenhuma. Natural de Florianópolis e criado no litoral de São Paulo, o fotógrafo nasceu em 16 de janeiro de 1951 e, com quatro décadas de trabalho, é um dos precursores e dos maiores expoentes dafotografia ecológica no Brasil. Obstinado a combater as ameaças ao ecossistema, destaca-se pela tentativa e mérito de produzir “uma fotografia totalmente engajada“, como ele próprio define. Suas imagens, de cunho antropológico, colocam observador a um só tempo diante da magnitude da natureza e da tragédia dos danos ambientais, apontam para a integridade dos seres vivos e para degradação dos recursos naturais de muitas partes do país. “Meu trabalho é a crônica da beleza e do extermínio. Retratos de uma país que breve não veremos mais. Coleciono rostos, paisagens, movimentos, brilhos com a esperança de que não estarão condenados a viver apenas na memória e no papel. Cada imagem que capturo conduz à fé de que a natureza e o homem humilde do sertão e das matas resistirão, apesar de tanta invasão, inconsciência, devastação e morte. O genocídio dos povos primitivos, a miséria, a violentação impune dos ecossistemas – de um lado, de outro a fertilização imensa deste país amazônico, verdadeira sinfonia de belezas. Meu canto é cumplicidade e reverência. Minha fotografia é oxigênio” – Araquém Alcântara Linguagem: da palavra à foto Aos 14 anos de idade, tudo que Araquém queria era ser escritor. Fascinado pelos livros de J. D. Salinger, Lima Barreto, Machado de Assis e Guimarães Rosa, em 1970 prestou a Faculdade de Comunicação de Santos sem saber que, de jornalista, logo passaria à fotojornalista – mudança que só veio a acontecer depois de descobrir o filme A Ilha Nua, de Kaneto Shindo. Quase sem história, o filme retrata a história de um casal que vive em uma ilha, rodeado pela fauna e flora local. A força daquele primeiro encontro com a natureza foi tamanha que, no dia seguinte, quando a amiga Marinilda mostrava as fotos caseiras que havia tirado com a câmera Yachica, Araquém pediu a câmera emprestada (mesmo sem qualquer conhecimento técnico), comprou três filmes em preto e branco e saiu naquela noite mesmo para fotografar no porto de Santos. “Passei a noite inteira com uma Yachica elétrica 35mm na zona portuária. Não consegui tirar foto nenhuma. De manhã, havia uma prostituta cansada no ponto de ônibus. Me aproximei, bem inibido, e perguntei: “Posso fotografá-la?” Ela levantou a saia e respondeu: ‘Fotografa aqui, seu filho-da-puta!’ e eu fiz a minha primeira foto“. Depois do episódio, passou a fotografar tudo e todos buscando formas, experimentando técnicas, tomado por uma apreensiva sensibilidade que já beirava à pulsão vital, se é que não era a própria: “aos poucos fui percebendo que tinha nos olhos e nas mãos uma poderosa arma de encontrar o mundo, uma poderosa forma de expressão. O texto ficou proscrito, sucumbiu diante da nova linguagem”. A aventura de Araquém Já para o primeiro ensaio, Araquém escolheu como tema os urubus de Santos. Com o título Os urubus da sociedade, sua primeira exposição aconteceu em janeiro de 1973, no Clube XV de Santos. A exposição foi tachada de comunista e o fotógrafo, questionado a respeito da escolha por fotografar urubus, que supostamente “não vendiam”. A polêmica apenas fortaleceu sua determinação: “Fui prosseguindo. Já tinha uma espécie de lema. Escolher, sempre, com o coração. Prosseguir e não me arrepender de começar apostando no urubu”. Deu certo: o fotógrafo passou a fazer ensaios e reportagens para revistas como Veja, National Geographic, Geo, Viajes Espãna, Isto É, Icaro, Globo Ciência, Vacances, Classe, Elle, Marie Claire, Super Interessante, Horizonte Geográfico, Viaje Bem, Família Aventura, Espírito de Aventura – entre outras publicações – e, em 1979, a convite do vereador de Itanhaém, Ernesto Zwarg Jr., Araquém Alcântara foi à Jureia, na Mata Atlântica, para fazer fotografias que falassem sobre a depredação da região por madeireiros e caçadores. Nesta época, ao ser escalado para fotografar uma inauguração de uma revenda de pneus, soube que uma onça rondava a região e optou por deixar um amigo fotografando o evento para procurar pelo bicho na mata: “Nos metemos no meio dos igarapés. Quando olhei para o lado, vi a onça brincando com um galho”. Com o dinheiro recebido pelo trabalho, Araquém comprou um tripé e uma Nikon. Era o início de sua incursão na fotografia de natureza. Pouco depois, na década de 1980, Araquém clicou outra foto emblemática para a sua carreira. A foto lendária do velho Queco – como chamava o pai – foi tirada no dia 1º de abril de 1981, quando Manuel Alcântara se dispôs a acompanhar o filho em um protesto contra a construção de usinas nucleares numa região entre Peruíbe e Iguape, litoral sul de São Paulo. Saíram de Peruíbe, andaram 35 km à pé e foi ali, na praia de Grajaúna, que Araquém fotografou o pai portando a imagem que mostrava ossos humanos empilhados, retirada de um livro sobre os ataques nucleares à cidade japonesa de Hiroshima. Foi tamanha a repercussão dessa fotografia que hoje a praia de Grajaúna faz parte da reserva ecológica de Jureia. Para Araquém, mais do que clicar paisagens bonitas ou animais em poses inusitadas, fotografar é um exercício de contemplação e uma forma de encontro com o eterno: “meu barato é fotografar o que me comove. A minha natureza é feita de bichos e homens”. E foi para fotografar esses bichos e homens que Araquém decidiu, em 1985, que chegara a hora de entrar de vez para a vida de freelancer: pôs a mochila nas costas e caiu na estrada. Onça brincando com um galho (1979), de Araquém Alcântara Criança olhando para o urubu O Velho Queco (1981), Araquém Alcântara �