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Trabalho Final da Disciplina “Temas Clássicos de Antropologia” no formato de fichamento. Marcela Géa da Silva – Noturno Saulo Adib – Matheus – STRATHERN, M. Sem natureza, sem cultura: o caso Hagen, In: “O efeito etnográfico e outros ensaios.” São Paulo, Cosac Naify – 2014 Araraquara, 27 de Junho de 2017 “Ao descrevermos alguns dos símbolos encontrados nos adornos e encantamentos dos Hagen, habitantes das terras altas da Papua-Nova Guiné, afirmamos que esse povo estabetece uma associação entre dois pares de contrastes: as coisas selvagens e as coisas domésticas; masculino e feminino.” (p23) “Parece óbvio que a distinção entre o doméstico e o selvagem [ ... ] seja amplamente difundida nas terras altas da Nova Guiné (Bulmer 1967; Newman 1964; A. & M. Strathern 1971). Talvez ela seja uma dicotomia universal (Lévi-Strauss 1969). Porém, a despeito de ser universal, será que ela possui a importância simbólica que ora lhe atribuímos? Será que é tão simbólica para "eles" quanto para "nós"? [ ... ]Mesmo que soubéssemos que a dicotomia selvagem-doméstico ou natureza-cultura é universal, e que ela sempre tivesse tido alguma importância simbólica, o que dizer de outros símbolos que não parecem estar diretamente associados a ela? [Langness 1976: 103; ênfase minha).” (p23) “ "A 'Cultura' não fornece um conjunto distintivo de objetos para manipular a 'Natureza'" (1975: 194-95; ênfase minha). Isso apresenta uma espécie de problema no que diz respeito à cognição.[...] Qual será, pois, a fonte de sua equação? Por que extrapolar de selvagem-doméstico para natureza-cultura? Os autores oferecem algumas pistas. Os comentários de Langness surgem no contexto das discussões sobre as relações masculino-feminino nas terras altas,e ele observa o relato de Lindenbaum sobre os Fore (1976) em particular. Esses habitantes do leste das terras altas estabelecem uma conexão explícita entre gestão de recursos e controle social: A oposição [fore] entre o doméstico e o selvagem[ ... ] tem a ver com o controle ; a segurança que resultam da regulamentação e da gestão, contrastando com o perigo que reside no incontrolável, no imprevisível e no não regulamentado. Os grupos fore do sul dependem de um acesso regular aos recursos da floresta tanto quanto de um acesso regular a mulheres. [ ... ]A sexualidade feminina é o "selvagem" perigoso que os homens precisam controlar. [1976: 56) ” (p24) “O segundo caracteriza a área do feminismo que se ocupa da relação entre a biologia e o antrópico, uma preocupação que ressoa o modo como as idéias de masculino e feminino são articuladas, na nossa própria cultura, com as idéias de natureza e cultura.” (p25) “Esses dois pontos de vista se afetam e se apóiam mútua e substancialmente. De fato, eu resolveria o problema colocado por Langness e Barth sugerindo que uma dicotomia selvagem-doméstico não ocidental desencadeia uma interpretação em termos de "natureza-cultura" na presença dos temas explícitos do controle do ambiente ou do simbolismo masculino-feminino. É possível até mesmo argumentar que uma distinção masculino-feminino presente em sistemas de pensamento ocidental exerce um papel crucial como operador simbólico em certas transformações entre os termos "natureza-cultura". O fato de apresentarmos as categorias selvagem-doméstico Hagen em associação direta com seus próprios símbolos de gênero explica, penso eu, a extrapolação plausível - mas fundamentalmente absurda, nesse contexto - à qual nos referíamos em relação a natureza-cultura.” (p26) “A natureza diz respeito tanto à natureza humana como ao ambiente não social. Atribuímos uma série de avaliações a essas imagens do mundo "real", de modo que uma seja ativa e outra, passiva; uma sujeito e outra objeto; uma criação e outra recurso; uma estimule e a outra limite.” (p28) “Em dado momento, a cultura pode ser uma força criativa e ativa que produz forma e estrutura a partir de uma natureza passiva, dada. Em outro, pode ser o produto final amansado e refinado de um processo que depende da energia proveniente de recursos externos a ela. A cultura é tanto o sujeito criativo como o objeto acabado; a natureza é tanto recurso como limitação, passível de alterações e operando segundo suas próprias leis. É como um prisma que gera diferentes padrões ao ser girado - por meio dele, natureza e cultura podem por vezes ser vistas como o elemento circunscrito ou circunscritivo.” (p28-9) “Em outras palavras, eu diria que percebo uma intenção ideológica - presente desde o início, de acordo com os Bloch (1980: 39) - no desejo de produzir uma dicotomia (natureza versus cultura) a partir de um conjunto de combinações (todos os significados que natureza e cultura têm em nossa cultura, rica em ambiguidades semânticas). Trata-se da mesma lógica que cria a "oposição" a partir da "diferença" (Wilden 1972).” (p29) “Um segundo modelo é por vezes empregado por quem se interessa pelas relações entre os sexos como a história de uma luta por poder: percebe-se na associação entre artefatos culturais e criatividade masculina um processo que teria privado a mulher de identidade social ao relegá-la a um estado natural. A questão da "natureza humana", com seus problemas de consciência, identidade e dualismo mente-corpo, é central aqui.” (p30) “A equação "feminista" da cultura como feita pelo homem pode inverter os valores por vezes implícitos nessa posição. (Em argumentos feministas do tipo "expressivo" (Glennon 1979), a criação é masculina, artificial, colonial, enquanto as mulheres permanecem um recurso "humano" não contaminado.) Cada modelo estabelece, pois, uma oposição dinâmica. Enquanto um deles considera que a sociedade primitiva se debate com as mesmas preocupações com o controle sobre o ambiente que ocupam o Ocidente industrial, o outro demonstra o modo pérfido como o controle dos homens sobre as mulheres se imbrica com uma noção de controle da cultura sobre a natureza, de razão sobre a emoção, e assim por diante.” (p31) “As imagens que as outras pessoas fazem da natureza e da cultura são consideradas um reflexo do grau de controle que as sociedades reais têm sobre os seus ambientes reais. A mesma imagética de controle é reiterada na convicção "feminista" de que a sociedade deve ser entendida como uma imposição sobre o indivíduo (autêntico/natural), assim como os homens dominam as mulheres. Nos conceitos que atribuímos aos outros, buscamos a confirmação de nossas próprias oposições motivadas, e isso é desencadeado por questões que têm a ver com o "controle" (do ambiente, das pessoas).” (p32) “Se a adaptação, como tema dos empreendimentos de outras culturas, desencadeia em nós noções sobre natureza-cultura, a ordenação simbólica das relações masculino-feminino também nos sugere noções de natureza- -cultura.” (p33) “Nossas próprias filosofias estabeleceram relações deliberadas entre os contrastes masculino-feminino e natureza-cultura. A descrição que Simone de Beauvoir faz da mulher como "objeto privilegiado por meio do qual [o homem] subjuga a Natureza" (1972: 188) - objeto de seu sujeito, outra em relação a seu eu e, ao mesmo tempo, "a imagem fixa de seu destino animal" (1972: 197)- apresenta de modo brilhante um dos modos como enredamos natureza-cultura, masculino-feminino, com todos os elementos de competição e subjugação (cf. Harris 1980: 70). Trata-se de um paradigma constitutivo: a cultura é feita de pedaços da natureza, e contemos dentro de nós mesmos uma natureza que é anterior à cultura. O simbolismo masculino-feminino pode servir de base à mesma oposição formada por essas noções de "controle" e (em contrapartida) "adaptação", que estabelecem uma relação sujeito-objeto entre cultura e natureza. Assim, usamos "masculino" e "feminino" em um sentido dicotômico. Eles representam uma entidade (a espécie humana) dividida em duas metades, de modo que cada uma delas é definida pelo que a outra não é. Essa divisão tem um impacto mais claro sobre os termos reprodutivos biológicos, de modo que um esforço constante é realizadopara que as diferenças de comportamento sejam reduzidas a aspectos biológicos. No entanto, na medida em que não concebemos a natureza e a cultura simplesmente como opostas, mas também estabelecemos várias relações entre elas (de contínuo, processo, hierarquia), essas relações são redirecionadas à dicotomia masculino-feminino para produzir uma série de afirmações não dicotômicas sobre os homens e as mulheres. Daí que a partir de uma equação entre feminino e natureza possa afluir a noção de que: 1) as mulheres são "mais naturais" do que os homens (em determinado ponto de um contínuo); 2) suas faculdades naturais podem ser controladas por estratégias culturais (assim como o mundo natural pode ser domesticado, o que é uma questão de processo); 3) elas são consideradas inferiores (hierarquia de valor); e 4) elas têm potencial para feitos gerais. Na cultura ocidental, o gênero pode de fato ser a metáfora fundamental que nos permite passar de um contraste entre o cultivado e o selvagem para um contraste entre a sociedade e o indivíduo e imaginar que ainda estamos falando da mesma coisa (cultura e natureza). Ambos podem ser interpretados em termos de um contraste masculino-feminino - os homens são sociais e criadores/ as mulheres são biológicas e infrassociais. Como escreve Mathieu, "[um] aspecto absolutamente fundamental das[ ... ] no- ções de 'masculino' e 'feminino' [em nossa sociedade] é o fato de que elas não implicam uma relação simples de 'complementaridade'[ ... ], mas sim uma oposição hierárquica" (1978a: 4).” (p33-4) “Certamente, em nossa cultura, para fazer o simbolismo masculino- -feminino "funcionar" e embasar a dicotomia cultura-natureza, temos de modificar constantemente os termos de referência dessas oposições,característica que Jordanova (1980) já contextualizou historicamente. Assim; pode-se pensar que os homens estão em sintonia com as necessidades culturais e as mulheres, com as biológicas - também invertemos essa equação na imagem dos homens como espontâneos, capazes de mostrar uma natureza mais vulgar em relação à sociabilidade e ao artifício da mulher, voltada para o outro. Dizemos que as mulheres, por estarem mais próximas de um estado pré-cultural de natureza do que os homens, representam o geral em comparação com as realizações particulares masculinas.” (p34-5) “Por fim, arriscaria conjecturar que na relação entre o masculino e o feminino também antecipamos a combinação entre posição social/ recursos econômicos que informa noções de classe. Wagner e Sahlins consideram que a busca da produção é o projeto "ocidental". Segundo esse ponto de vista, talvez possamos explicar o fato de que o equacionamento da mulher com a natureza se mostra particularmente relevante sempre que empregamos o simbolismo masculino -feminino.” (p35) “As proposições de Ortner desenvolvem diretamente a noção de um contraste entre cultura e natureza cuja constituição resulta de um processo. Todas as culturas [ ... ] estão envolvidas no processo de geração e manutenção de sistemas de formas dotadas de significado (símbolos, artefatos etc.), por meio dos quais a humanidade transcende os dados da existência natural [ ... ] Por meio do ritual [ ... ] todas as culturas afirmam que, para que existam relações adequadas entre a existência humana e as forças naturais, é necessário que a cultura empregue suas faculdades específicas de modo a regular os processos do mundo e da vida como um todo [ ... ] Todas as culturas reconhecem e afirmam implicitamente uma distinção entre a operação da natureza e a operação da cultura[ ... ] a especificidade da cultura reside precisamente no fato de que ela é capaz de [ ... ] transcender as condições naturais e transformá-las de acordo com seus propósitos. Assim, a cultura (isto é, todas as culturas), em algum nível de consciência, afirma-se não apenas como distinta, mas como superior à natureza [ ... ] O projeto da cultura é sempre subsumir e transcender a natureza. [ 1974: 72-73].” (p37) “Ortner prossegue sugerindo que a posição das mulheres na ordem simbólica deve ser interpretada como uma indicação de que elas são "menos transcendentes em relação à natureza" do que os homens (1974: 73). As mulheres são "vistas" como mais próximas da natureza; elas "representam" uma ordem inferior, são "símbolos" de algo desvalorizado por todas as culturas. Embora Ortner observe (1974: 75) que essa percepção pode ser inconsciente, fica patente que a "associação" das mulheres com o doméstico e sua "identificação" com a ordem inferior (1974: 79), bem como sua ambiguidade simbólica, devem ser tomadas como índices de uma hierarquia entre natureza e cultura cujos termos são visíveis o suficiente para serem descritos como parte da autoconsciência das pessoas.” (p37-8) “Eu teceria os seguintes comentários: 1) As considerações de Ortner ignoram a natureza polivalente de nossas próprias categorias de natureza e cultura, confinando efetivamente seus campos semânticos, cujas fronteiras são móveis, no interior de uma cerca. Assim, Ortner consegue nos apresentar uma dicotomia entre natureza e cultura. 2) Essa dicotomização é logicamente necessária porque Ortner quer que nos concentremos na noção de que a natureza é uma "força" sobre a qual a cultura age, ou seja, há aqui uma relação específica entre sujeito e objeto que é, como observa Gillison (1980), sempre representada em termos hierárquicos: "Em todas as culturas humanas, a universalidade do ritual denota uma afirmação da capacidade especificamente humana de agir sobre os dados da existência natural e regulá-los, em vez de deixar-se levar e ser afetado por eles passivamente" (1974: 72). O controle - a regulamentação - é a essência da relação entre os dois termos. 3) Ela supõe que as conceitualizações de uma interação entre natureza e cultura são feitas por "todas as culturas" e correspondem ao que nós reconhecemos como natureza e cultura. 4) Dada a maneira como ela se refere ao entendimento de que as mulheres são "vistas" como mais próximas da natureza, como "símbolos" do que a cultura desvaloriza, deveríamos presumir que essas noções são construtos relativamente acessíveis dos próprios sistemas de pensamento das pessoas. A implicação geral disso é que todas as culturas têm uma autoconsciência "da" relação entre natureza e cultura. Finalmente, ela sugere que os símbolos realmente utilizados são sempre os mesmos - a saber, as relações entre masculino e feminino. Além disso, independentemente do que nós mesmos podemos querer dizer com natureza ou cultura, existe um nível em que atribuímos a outros povos noções comparáveis a essas.” (p38) “De acordo com Lévi-Strauss, o contraste entre natureza e cultura "deve ser visto como uma criação artificial da cultura, uma muralha de defesa que ela teria cavado ao redor de si" (1949 1969: xxix). Ardener diz ainda que os homens, em nome desse esforço intelectual, "têm de se distinguir tanto das mulheres como da natureza [ ... ] Se os homens tomam conhecimento de 'outras culturas' com mais frequência do que as mulheres, é bem possível que eles tenham uma propensão a desenvolver metaníveis de categorização que lhes permitam, no mínimo, considerar a necessidade de verem a si próprios e a suas mulheres como separados de outros homens e mulheres". As fronteiras entre as sociedades compreendem, assim, uma das etapas da demarcação aborígene da cultura em relação à natureza.” (p39) “O antropólogo acaba tendo um acesso mais imediato ao modelo dominante. Para Ardener, "se a percepção masculina produz uma estrutura dominante, a estrutura feminina é silenciada. O fato de que as realizações imanentes de estruturas silenciadas são frequentemente equiparadas a um fundo nulo, à 'natureza', é uma contingência empírica" (1977: 124). Em outras palavras, o modelo dominante incorpora uma definição de seus próprios limites como modelo, abrindo espaço para uma articulação subjugada de outros modelos como um de seus próprios termos (manifestações da natureza).” (p41)