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R$ 5,00R$ 5,00 ano III nœmero 17 novembro/dezembro de 2000ano III nœmero 17 novembro/dezembro de 2000 2 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento BIOTECNOLOGIA/KL3 REPETE FOTOLITO Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 3 BIOTECNOLOGIA/KL3 REPETE FOTOLITO 4 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento ENTREVISTA Entrevista concedida a Lucas Tadeu Ferreira Expediçªo Humboldt 2000 Pesquisa científica na Amazônia do Caribe ao Atlântico 4 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento Partindo da experiŒncia acumulada pelos viajantes naturalistas que percorreram a grande floresta Amazônica nos sØculos XVIII e XIX, 39 cientistas da Universidade de Brasília UnB, da Universidad Simon Bolívar, da Venezuela, e de outras instituiçıes de pesquisas brasileiras realizaram ampla coleta de material e informaçıes para o desenvolvimento de pesquisas de ponta, contribuindo assim, para o avanço do conhecimen- to científico no sØculo XXI. Defendendo os direitos dos povos indígenas e da floresta, e combatendo a biopirataria, os cientis- tas que participaram dessa expediçªo percorreram aproximadamente 10.000 km em busca de novos conhecimen- tos a partir dos achados amazônicos. Assim, espera-se que os resultados da expediçªo proporcionem contribui- çıes importantes para vÆrias Æreas do conhecimento humano, uma forma inteligente que a comunidade científica encontrou para se vincular aos problemas amazônicos contemporâneos e, principalmente, na busca de soluçıes. Para falar um pouco dessa aventura Humboldt 2000, o professor de microbiologia da Universidade de Brasília - UnB -, CØsar Martins de SÆ, que foi um dos principais coordenadores da Expediçªo, concedeu esta entrevis- ta a Lucas Tadeu Ferreira para a revista BIOTECNOLOGIA CiŒncia & Desenvolvimento. O professor CØsar Martins Ø graduado em biologia e mestre em biologia molecular pela UnB. Fez doutorado em Paris, no Instituto Jacques Monod da Universidade de Paris VII. Voltou ao Brasil em 1989; foi contra- tado e Ø professor do Departamento de Biologia Celular da UnB. Recente- mente fez Pós-Doutoramento em San Diego, Califórnia, na Ærea de biologia molecular de câncer. Fotos: Juan Pratginestós Professor CØsar na biblioteca do barco Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 5Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 5 BC&D - Quais foram os princi- pais objetivos da Expediçªo Hum- boldt -Amazônia 2000? CØsar Martins Primeiramente, gos- taria de explicar um pouco o porquŒ da escolha do nome Humboldt para nossa Expediçªo. Alexander Von Humboldt, de origem alemª, foi um dos maiores cientistas de sua Øpoca. Em meados de 1799, juntamente com seu amigo botânico, o francŒs AimØ Bonpland, chegou à AmØrica Latina, no delta do rio Orinoco, na Venezuela. Os dois cientistas tinham como objetivo estudar a Amazônia atravØs de seus rios. Acreditavam que, subindo o rio Orinoco e pas- sando pelo canal do Cassiquiare, que liga a bacia do Orinoco à bacia do Rio Negro, poderiam chegar a BelØm, no Brasil. O problema Ø que Humboldt, quando chegou à fron- teira do Brasil, foi impedido de en- trar no país. Naquela Øpoca, o Brasil era colônia portuguesa e ele ficou uns dois meses na fronteira aguar- dando um visto de entrada. Acabou sendo impedido, pois os portugue- ses pensaram que ele era um espiªo espanhol. Dessa forma, a Amazônia Brasileira deixou de ser estudada pelo grande sÆbio. Assim, a nossa expediçªo, homenageando Humbol- dt, faz um resgate histórico: - duzen- tos anos depois, fizemos o mesmo percurso que ele fez na Venezuela e, principalmente, o percurso que ele nªo fez, no Brasil, que era chegar a BelØm atravØs dos rios. Tendo como patrono Humboldt, a expediçªo obrigatoriamente deveria ser uma expediçªo científica multidisciplinar, pois Humboldt era um cientista uni- versal: geógrafo, astrônomo e com grande conhecimento em muitas ou- tras Æreas da ciŒncia. Nossa expedi- çªo teve como objetivo principal contribuir para o desenvolvimento de pesquisas voltadas para assegu- rar o futuro da Amazônia. BC&D - Qual foi o critØrio de escolha e quantos pesquisadores bra- sileiros e venezue- lanos integraram a expediçªo Hum- boldt 2000 à Ama- zônia? CØsar Martins A escolha privilegiou cientistas brasileiros. Nós começamos a desenhar a expediçªo hÆ dois anos e como íamos fazer um percurso dentro da Venezuela, que Ø a parte do rio Orinoco, fizemos contato com professores da Universidade Simon Bolívar, em Caracas. Nessa parte, a expediçªo ficou sendo bina- cional. Participaram quatro profes- sores venezuelanos, que foram es- colhidos por eles mesmos. Essa equi- pe deixou a expediçªo na fronteira com o Brasil. Do nosso lado adota- mos alguns critØrios de seleçªo: pri- meiro, os cientistas deveriam ter disponibilidade de longos períodos de tempo, jÆ que a expediçªo durou 65 dias. Segundo, esses pesquisado- res deveriam ter um certo conheci- mento do que era uma navegaçªo e convivŒncia dentro de um barco com espaço reduzido. Terceiro, o critØrio cientifico, que Ø a escolha de especialistas em diferentes Æreas. Levamos muitos pesquisadores jo- vens, inclusive estudantes, porque achamos muito importante para as geraçıes que estªo vindo conhece- ram um pouco da Amazônia. Parti- ciparam 39 cientistas ao longo de toda a expediçªo. Nem todos pude- ram ficar os 65 dias corridos. En- quanto um grupo viajava, outros iam entrando e saindo em diferentes percursos. BC&D - Quais os principais tre- chos percorridos na Amazônia brasileira e venezuelana? CØsar Martins O início da expe- diçªo foi no dia 1” de setembro de 2000. Partimos de Brasília por aviªo atØ Manaus. Daí, com destino a ...seguramente, tŒm achados biológicos que pela primeira vez serªo descritos e identificados. Encontramos, por exemplo, um microrganismo luminescente. BioluminescŒncia tem sido muito utilizada em biologia, medicina e agricultura como rastreadores moleculares Equipe trabalhando na biblioteca do barco Flor de guaranÆ 6 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento6 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento Ciudad Guayana no baixo Orinoco Venezuelano. Esse percurso foi feito por terra, atravessando o estado de Roraima, a serra de Pacara- ima e as savanas venezuela- nas. De Ciudad Guayana a Puerto Ayacucho, a viagem foi feita de barco. O segun- do trecho foi feito de Puerto Ayacucho às cidades de Es- meralda e San Carlos del Rio Negro no Cassiquiare, e Cucuí, jÆ na fronteira com o Brasil. Nós tivemos alguns problemas de segurança na travessia desse trecho por causa do recrudescimento da guerrilha na fronteira com a Colôm- bia e assim tivemos que percorrŒ-lo em helicóptero da força aØrea vene- zuelana. O terceiro trecho compre- endeu a descida, de barco, pelo rio Negro atØ Manaus, com escala de 10 dias em Sªo Gabriel da Cachoeira. Naquela cidade as atividades foram intensas graças ao apoio do ExØrcito Brasileiro. Parte da equipe subiu o rio UaupØs atØ IauaretØ próximo à fronteira colombiana; outra foi ao morro dos Seis Lagos, próximo do parque do Pico da Neblina e outra parte permaneceu pesquisando em Sªo Gabriel da Cachoeira. O quarto trecho foi de Manaus a SantarØm, passando pela foz do rio NhamundÆ, pelo ParanÆ do Ramos, baixo Trom- betas e subimos o Tapajós atØ For- dlândia e outros. O quinto trecho da expediçªo desceu o rio Amazonas, passando pelo rio Xingu e pelas cidades de Monte Alegre, Prainha, Almerim, Laranjal do Jari, Santana e chegou a MacapÆ. No AmapÆ, fomos por terra atØ o rio Oiapoque, no extremo norte do Brasil. De lÆ, al- guns pesquisadores seguiram ao norte atØ a foz do rio Oiapoque para pesquisa de microrganismos maríti- mos. A equipe de hidrólogos tam- bØm fez mediçıes importantes de vazªo e sedimentos no Estreito de Óbidos e na foz do Amazonas.De MacapÆ, fomos atØ BelØm. Passamos por quatro estados brasileiros: Rora- ima, Amazonas, ParÆ e o AmapÆ. Nossa expediçªo percorreu quase 10.000 km na Amazônia. BC&D - Quem coordenou, quan- to custou e quais foram as insti- tuiçıes que financiaram a expe- diçªo? CØsar Martins A expediçªo foi organizada pelo Nœcleo de Estudos Amazônicos da UnB e coordenada por mim e pelo historiador profes- sor Vítor Leonardi, especialista em história da Amazônia. Foi difícil le- vantar todo o recurso necessÆrio e tivemos de fazer muitos cortes. Ao todo ficou em torno de R$ 180.000,00. O principal financiador foi o Minis- tØrio do Meio Ambiente, atra- vØs da Secretaria da Amazô- nia; o Banco do Brasil, atra- vØs da BB-Tour, que nos for- neceu as passagens aØreas. O WWF, que financiou toda a parte de fotografia e a Fun- daçªo UniversitÆria de Brasi- lia-FUBRA . Contamos tam- bØm com o apoio do ExØrci- to Brasileiro atravØs do 5” Batalhªo de Infantaria de Sel- va, que nos alojou em Sªo Gabriel da Cachoeira e o Governo do AmapÆ, que forneceu veículo e o alojamento em Oiapoque. BC&D - Que Æreas do conheci- mento humano foram explora- das e investigadas na expediçªo? CØsar Martins A expediçªo con- tou com quatro microbiologistas, especialistas em ornitologia (pÆssa- ros), botânicos, mastozoologia, saœ- de pœblica, hidrologia, antropólo- gos, indigenistas e historiadores.O restante da expediçªo era composta de uma equipe de cinegrafia, foto- grafia e documentaçªo; ao todo, a expediçªo contemplou 14 Æreas es- pecíficas do conhecimento. BC&D - Poderia descrever, sucin- tamente, os principais achados que, potencialmente, permitem Parte da equipe Humboldt e o apoio dos militares do 5” Bis Equipe Humboldt navegando pelo Rio Tapajós Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 7Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 7 aprofundar os conheci- mentos sobre a floresta Amazônica? CØsar Martins Na Ærea da biologia, realizamos muitos le- vantamentos e coletas ao lon- go de nosso percurso. Todo esse material serÆ agora pro- cessado pelos pesquisadores em suas respectivas unidades de trabalho. Dizer atualmente que vamos ter descobertas novas na Ærea de biologia, em funçªo do que foi coletado, ainda Ø um pouco prematuro. Precisamos de muitas anÆlises de laboratório e anos de estudos para isso; mas, seguramen- te, tŒm achados biológicos que pela primeira vez serªo descritos e iden- tificados. Encontramos, por exem- plo, um microrganismo luminescen- te que eu nªo sei ainda sua natureza. BioluminescŒncia tem sido muito utilizada em biologia, medicina e agricultura como rastreadores mole- culares. Esse achado Ø muito pro- missor. Na parte de ciŒncias huma- nas e saœde, os pesquisadores visita- ram Instituiçıes Pœblicas de vÆrios municípios, pesquisaram arquivos, gravaram muitas entrevistas com ci- entistas da regiªo, lideranças indíge- nas e de populaçıes ribeirinhas. Certamente, o conhecimento exis- tente sobre a Amazônia vai ser am- pliado a partir dessa expediçªo. Um fato interessante ocorrido na regiªo do ParanÆ do Ramos, foi a descoberta pela equipe de arqueólogos do Museu Amazônico de um sitio arqueológico, atØ ago- ra desconhecido. Tudo in- dica que aquele sítio fora habitado por uma socieda- de estÆvel e bem estrutura- da hÆ, pelo menos, dois mil anos. Trata-se de uma des- coberta inØdita que serÆ co- municada ao IPHAN. BC&D O Senhor mencionou o achado de um organismo lumi- nescente. De que forma a carac- terística deste microrganismo poderÆ vir a ter, potencialmente, alguma aplicaçªo prÆtica? CØsar Martins O nosso interesse estÆ na utilizaçªo desses microrga- nismos em biotecnologia. Dentro Por que coletar recursos biológicos da Amazônia para pesquisar no exterior? Por que nªo fazer tudo isso aqui dentro do nosso próprio país ou com as nossas universidades e empresas, ou instalando labora- tórios, tal como se instalam empresas multinacionais? desse contexto, eu vejo gran- de chance de sucesso. Os mi- crorganismos foram coletados no solo amazônico, onde a degradaçªo da biomassa se dÆ de forma intensa e natural. Assim, seguramente esses mi- croorganismos podem tam- bØm ser utilizados na degra- daçªo da biomassa originÆria, por exemplo, do bagaço da cana-de-açœcar, do farelo de arroz, entre muitos outros, cujos produtos de hidrólise podem ser utilizados na agroindœstria. Por ou- tro lado, a bioluminescŒncia encon- trada Ø de longe a mais fascinante. Para se ter uma idØia de sua impor- tância basta verificarmos, na literatu- ra especializada, as revolucionÆrias aplicaçıes, por exemplo, do sistema luciferase isolado do vagalume e da GFP (Green Fluorecent Protein) iso- lada de jelyfish. É preciso, contudo, estudar muito bem esse potencial, que Ø muito expressivo. BC&D - Quem serªo os detento- res do conhecimento e dos acha- dos nessa expediçªo e como se darÆ a distribuiçªo do que foi encontrado? CØsar Martins Assim que come- çarmos a isolar e a classificar, todo o material coletado estarÆ disponível para quem quiser e, naturalmente, solicitar. Os estudos e as pesquisas serªo realizadas nas universidades brasilei- ras, e assim que começar- mos a conhecer o que co- letamos, tudo serÆ disponi- bilizado pelas medidas le- gais. É importante enfatizar que nªo existe nenhum de- tentor específico dos acha- dos e tudo serÆ amplamen- te publicado. BC&D - A Convençªo da Diversidade Biológica es- tabelece que a diversidade bioló- Ruinas do velho Airªo, cidade do alto Rio Negro Extraçªo e transporte de madeira na Amazônia 8 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 8 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento gica deve trazer benefícios para a humanidade e reconhece ain- da a soberania dos Estados no uso e disponibilidade dos recur- sos biológicos encontrados em seus territórios. Como conciliar entªo os interesses do Brasil com o dos outros países quanto ao uso da sua biodiversidade? CØsar Martins Esse tema Ø pouco entendido, haja visto os vÆrios pro- jetos de lei e medida provisória que tramitam no Congresso. Eu tenho uma visªo bastante pragmÆtica a respeito da autonomia da nossa bi- odiversidade. Na minha opiniªo, quem detØm a autonomia da nossa biodiversidade Ø o Estado Brasileiro; mas os conhecimentos dela gerados e de seu uso pertencem à humanida- de. É só aplicar a Convençªo. Entre- tanto, isto tem gerado muito mal- entendido, principalmente com res- peito à biopirataria. Biopirataria Ø uma atividade ilícita praticada em larga escala e, como tal, tem de ser combatida. Mas como combatŒ-la? Nªo se combate a biopirataria so- mente com a criaçªo de Leis, com as forças armadas, a polícia federal e outros instrumentos de força. A me- lhor forma de combatŒ-la Ø com ciŒncia. A biodiversidade brasileira tem que ser preservada e estudada ao mesmo tempo. AtravØs do co- nhecimento científico Ø que vamos Nªo se combate a biopirataria somente com a criaçªo de Leis, com as forças armadas, a polícia federal e outros instrumentos de força. A melhor forma de combatŒ-la Ø com ciŒncia exercer a nossa verdadeira autono- mia. BC&D - Como garantir a partici- paçªo das comunidades locais e dos povos indígenas nas deci- sıes que tenham por objetivo o acesso e a exploraçªo dos recur- sos biológicos das Æreas que ocu- pam? CØsar Martins As terras indíge- nas, em alguns estados brasileiros, como por exemplo, no AmapÆ, es- tªo praticamente todas demarcadas. O processo de demarcaçªo de terras em outros estados tem evoluído atravØs de muitas lutas. Mas, o co- nhecimento existente dos recursos biológicos , ainda nªo. Em alguns casos, principalmente o uso fitoterÆ- pico de algumas plantas, Ø, hÆ mui- tos anos, de pleno domínio dos povos da floresta, mas pouco publi- cado. VocŒ encontra alguns relatos Equipe Humboldtnavegando pelo Rio Tapajós descritos por grandes viajantes ex- pedicionÆrios e historiadores. Como garantir, por exemplo a propriedade intelectual deste conhecimento? Ago- ra, com a demarcaçªo de suas terras, a exploraçªo dos recursos biológi- cos das Æreas que ocupam fica muito mais fÆcil. É fazer parcerias e contra- tos entre as partes. Estou convicto de que nªo seremos bem sucedidos se nªo fizermos parceria entre esses povos e os pesquisadores e/ou Ins- tituiçıes envolvidas na exploraçªo dos recursos biológicos. BC&D - Recentemente, a impren- sa denunciou um acordo fir- mado entre a Organizaçªo Nªo- Governamental Bioamazônia e a multinacional NOVARTIS para a exploraçªo dos recursos biológi- cos da Amazônia. Qual a sua opi- niªo a respeito de eventos dessa natureza? CØsar Martins EstÆ aí; esses mal entendidos ocorrem. Na minha opi- niªo, esses acordos tŒm de ser clara- mente definidos para preservar os nossos interesses. Por que coletar recursos biológicos da Amazônia para pesquisar no exterior? Por que nªo fazer tudo isso aqui dentro do nosso próprio país ou com as nossas universidades e empresas, ou insta- lando laboratórios, tal como se ins- talam empresas multinacionais? Des- sa forma, criaríamos empregos e principalmente, garantiríamos a for- maçªo de recursos humanos qualifi- cados, inclusive, para a própria re- giªo. Depois, Ø só dividir os lucros. Para o amplo conhecimento da di- versidade biológica da Amazônia Ø preciso fazer parcerias e estimular os envolvidos a investirem na forma- çªo de recursos humanos. Que se instalem indœstrias e laboratórios den- tro da Amazônia. Desta forma, sim, pode vir todo mundo. E-mail do Prof. CØsar: sasa@unb.br Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 9 PORTAL WWW.BIOTECNOLOGIA.COM.BR (Repete fotolito) Obs.: Saiu na pÆgina 9 da ediçªo anterior (n”16) 10 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento Carta ao Leitor BIOTECNOLOGIA CiŒncia & Desenvolvimento KL3 Publicaçıes Fundador Henrique da Silva Castro Direçªo Geral e Ediçªo Ana Lœcia de Almeida Diretor de Arte Henrique S. Castro F” Departamento Comercial, Redaçªo e Ediçªo: SRTV/Sul - Quadra 701 Ed. PalÆcio do RÆdio II Sala 215 - CEP 70340-902 Brasília - DF Tel.: (061) 225-1512 (061) 225-0976 Fax: (061) 224-2830 E-mail kl3@biotecnologia.com.br Home-Page www.biotecnologia.com.br Projeto GrÆfico AgŒncia de Comunicaçªo IRIS www.agenciairis.com.br iris@agenciairis.com.br Assinaturas O pedido de assinatura Ø realizado atravØs da carta resposta-comercial encartada em cada revista, por telefonema ou fax diretamente à KL3 ou pela Internet atravØs dos nossos endereços eletrônicos. A revista nªo tem vendedores autorizados. ISSN 1414-4522 Nessa ediçªo entrevistamos o Professor CØsar Martins de SÆ, da Universidade de Brasília, e um dos principais coordenadores da Expediçªo Humboldt 2000. Gostaria de destacar aqui a brilhante iniciativa desse projeto que, nos dias de hoje, Ø da mais alta importância para Brasil, jÆ que o objetivo princi- pal Ø a busca de novos achados que proporci- onem novos conhecimentos, muito importante para as mais diversas Æreas. VÆrias expediçıes como essa jÆ poderiam e deveriam estar sendo feitas por todo o País, por brasileiros, para asse- gurar a nossa autonomia sobre o patrimônio genØtico do Brasil, e com isso combatendo, inclusive, a biopirataria. Acreditamos que a partir de agora o governo federal deverÆ, a exemplo dessa importante expe- diçªo, promover e incentivar outras expediçıes dessa envergadura, uma vez que, apoiando pro- jetos como esse, Ø sem dœvida nenhuma uma das melhores formas de proteger nosso patrimônio genØtico. Dr. Henrique da Silva Castro Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 11 Conselho Científico Dr. Aluízio BorØm - GenØtica e Melhoramento Vegetal Dr. Henrique da Silva Castro - Saœde; Dr. Maçao Tadano - Agricultura; Dr. Naftale Katz - Saœde; Dr. Pedro Juberg - CiŒncias; Dr. SØrgio Costa Oliveira - Imunologia e Vacinas; Dr. Vasco Ariston de Carvalho Azevedo - GenØtica de Microorganismos; Dr. William Gerson Matias - Toxicologia Ambiental. Conselho Brasileiro de Fitossanidade - Cobrafi Dr. Ivan Rud de Moraes - Toxicologia; Dr. Luís Carlos Bhering Nasser - Fitopatologia Conselho Federal de Biologia Dr. Joªo de Deus Medeiros Fundaçªo Dalmo Catauli Giacometti Dr. Eugen Silvano Gander - Engenharia GenØtica; Dr. JosØ Manuel Cabral de Sousa Dias - Controle Biológico; Dra. Marisa de Goes - Recursos GenØticos Instituto de Pesquisas EnergØticas e Nucleares - IPEN Dr. JosØ Roberto Rogero Colaboraram nesta ediçªo: Entrevista CØsar Martins de SÆ pÆg. 04 Pesquisa Plantas como Biorreatores pÆg. 12 Flavonóides pÆg. 18 Peptídeos Antimicrobianos pÆg. 30 Emissªo de gases de efeito estufa pÆg. 38 TØcnicas moleculares em sementes pÆg. 44 Desvendando o código genØtico pÆg. 50 Saœde Vacinas de BCG Recombinante - DTP pÆg. 24 BioNotícias pÆg. 48 Seçªo de Cartas pÆg. 59 Adilson Leite Alba Chiesse da Silva Aloísio da Silva Pinto AndrØa Almeida Carneiro Carlos Bloch Jœnior ClÆudia Teixeira Guimªres Denise Silvina Piccini Quintas Horton Édila de Resende Von Pinho Edilson Paiva Edson Luis Kemper Eliane Namie Miyaji Eneida Abreu Parizotto Ivan Pereira Nascimento Letícia Jungmann Luciana Cezar de Cerqueira Leite Magda Aparecida de Lima Maria das Graças Guimarªes Carvalho Vieira Maria Laene Moreira de Carvalho Maura Vianna Prates Newton Portilho Carneiro Paulo Cezar De Lucca Renato MAtos Lopes RogØrio Pietro Mazzantini Tânia Toledo de Oliveira Tanus Jorge Nagem Waldely Oliveira Dias 12 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento Plantas como Biorreatores Utilizaçªo de plantas transgŒnicas como reatores biológicos para produçªo de proteínas PESQUISA Fotos cedidas pelos autores Eneida Abreu Parizotto Doutoranda em GenØtica e Biologia Molecular (UNICAMP) eapariz@unicamp.br Paulo Cezar De Lucca Doutorando em GenØtica e Biologia Molecular (UNICAMP) pdelucca@unicamp.br Letícia Jungmann Mestranda em GenØtica e Biologia Molecular (UNICAMP) jungmann@unicamp.br Edson Luis Kemper Doutor em GenØtica (UNICAMP) Alba Chiesse da Silva Doutora em CiŒncias Biológicas (UFSCar) Pós-doc do Centro de Biologia Molecular e Engenharia GenØtica (CBMEG, UNICAMP) chiesse@unicamp.br Adilson Leite Doutor em Bioquímica Pesquisador do Centro de Biologia Molecular e Engenharia GenØtica (CBMEG, UNICAMP) aleite@unicamp.br desenvolvimento de plan- tas transgŒnicas com no- vas características Ø consi- derado uma das mais im- portantes aplicaçıes da tecnologia do DNA recombinante. Atra- vØs dessa tØcnica, as plantas podem ser geneticamente modificadas, basicamen- te com duas finalidades: a) melhora- mento de suas características agronô- micas e qualidades nutricionais; b) uso das plantas como reatores biológicos para a produçªo de biomolØculas. Inicialmente, as plantas transgŒni- cas visavam apenas ao melhoramento agronômico por meio da introduçªo de genes capazes de conferir resistŒn- cia a herbicidas e a ataques de insetos e microorganismos. Atualmente, as plantas transgŒnicas estªo sendo tam- bØm exploradas para o desenvolvi- mento de alimentos que apresentem conteœdo balanceado de aminoÆcidos, ou ainda que sejam enriquecidos em óleos insaturados e vitaminas (Gander & Marcellino, 1997; Binsfeld, 2000; Carneiro et al., 2000). As plantas, assim como os animais transgŒnicos, podem ser empregadas como biorreatores para a produçªo de proteínas, carboidratos e lipídios em larga escala. Adicionalmente, altera- çıes genØticas que determinam modi- ficaçıes em vias metabólicas das plan- tas podem ser empregadas na produ- çªo de polímeros ou compostos orgâ- nicos de baixo peso molecular.O nœmero de compostos produzidos por meio dessas abordagens tem aumenta- do consideravelmente, sendo que a viabilidade do uso das plantas como biorreatores jÆ foi demonstrada para a produçªo de carboidratos, Æcidos gra- xos, polipeptídios utilizados como fÆr- macos, enzimas de uso industrial e plÆsticos biodegradÆveis (Goddijn & Pen, 1995; Hood & Jilka, 1999). Por que usar plantas como biorreatores? As plantas apresentam vantagens em potencial em relaçªo aos sistemas baseados em fermentaçªo microbiana, cØlulas animais e animais transgŒnicos. Proteínas heterólogas expressas em bactØrias geralmente retŒm o resíduo de metionina, derivado do sistema de traduçªo, na sua extremidade amino- terminal. Nas proteínas expressas em eucariotos, entretanto, essa metionina geralmente faz parte de sinais de ende- reçamento específicos, que sªo retira- dos quando essas proteínas sªo intro- duzidas no compartimento celular para o qual foram endereçadas. AlØm disso, a fermentaçªo bacteri- ana freqüentemente resulta na produ- çªo de agregados insolœveis, e sªo necessÆrios gastos significativos para solubilizar esses agregados e recuperar a estrutura da proteína nativa. Por outro lado, o processo de fermentaçªo em si requer grandes investimentos de capital. Ao contrÆrio dos sistemas bacteria- nos de expressªo de proteínas, os sistemas eucarióticos permitem o pro- cessamento e a modificaçªo dos pro- dutos. O sistema de expressªo eucari- ótico mais antigo e mais utilizado ba- seia-se na utilizaçªo de leveduras, sen- do as espØcies Saccharomyces cerevi- sae e Pichia pastoris as mais utilizadas (Torres & Moraes, 2000). Esses siste- mas sªo tªo econômicos quanto os bacterianos, mas as proteínas sintetiza- das sªo freqüentemente hiperglicosila- das e, quando produzidas em altos níveis, sªo instÆveis e insolœveis. Outros sistemas eucarióticos utili- zados para a produçªo de proteínas Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 13 heterólogas sªo as culturas de cØlulas de insetos e de mamíferos infectadas por vírus recombinantes. Esses vírus apresentam o gene que codifica a proteína de interesse controlado por um potente promotor viral (Fraser, 1992). Esses sistemas sªo capazes de secretar proteínas corretamente eno- veladas e podem promover modifica- çıes pós-traducionais. Por outro lado, tŒm como desvantagens o requerimen- to de meios de cultura complexos, de condiçıes especiais para a manuten- çªo das cØlulas, e de reatores sofistica- dos, que encarecem bastante o proces- so. Animais transgŒnicos tambØm po- dem ser utilizados para a expressªo de proteínas heterólogas em larga escala. Um dos sistemas descritos baseia-se na secreçªo de proteínas heterólogas no leite de caprinos, ovinos e bovinos. Nesse sistema, a expressªo da proteína de interesse Ø controlada por promoto- res que atuam nas cØlulas de glândulas mamÆrias. Devido à limitaçªo da pro- duçªo em fŒmeas em fase de lactaçªo, mØtodos alternativos tŒm sido propos- tos, nos quais a proteína heteróloga Ø secretada na urina (Kerr et al., 1998) ou no fluido seminal (Dyck et al., 1999) de animais transgŒnicos. Os sistemas ba- seados em animais transgŒnicos sªo, no entanto, mais caros que os sistemas baseados em plantas, e a aceitaçªo do produto por parte do pœblico consumi- dor Ø menor quando este tem origem animal. As plantas apresentam vias de mo- dificaçªo e processamento pós-tradu- cionais, e os custos da produçªo de proteínas heterólogas em plantas ge- ralmente sªo menores que os dos de- mais sistemas. Por essas razıes, o uso de plantas como biorreatores para a produçªo de proteínas heterólogas estÆ- se tornando economicamente impor- tante. A avidina, glicoproteína encon- trada em ovos de aves, rØpteis e anfíbi- os, e utilizada na produçªo de reagen- tes para imunoensaios, constitui a pri- meira proteína heteróloga produzida em plantas jÆ comercializada (Sigma) (Hood et al., 1997). As diferentes estratØgias utiliza- das para a produçªo de proteínas heterólogas em plantas Basicamente, duas diferentes estra- tØgias podem ser utilizadas para a produçªo de proteínas heterólogas em plantas. Uma delas baseia-se na utiliza- çªo de vírus contendo RNA simples fita, que ocorrem naturalmente nas plantas. O gene que codifica a proteína de interesse Ø inserido no genoma do vírus, geralmente fusionado à regiªo estrutural de um gene que codifica uma proteína da capa viral. Depois de infectar a planta, o vírus promove sua replicaçªo e a expressªo de seus genes incluindo o gene que codifica a prote- ína heteróloga. A expressªo desse gene Ø transitória, pois ele nªo Ø integrado ao genoma da planta. Esta, por sua vez, funciona como um veículo para a am- plificaçªo das partículas virais (Fig. 1). A proteína recombinante Ø recuperada atravØs do processamento da proteína da capa viral, que Ø purificada a partir de extratos dos tecidos infectados. Op- cionalmente, as partículas virais qui- mØricas purificadas podem ser utiliza- das diretamente na formulaçªo de va Figura 1: Representaçªo esquemÆtica das diferentes estratØgias utilizadas na produçªo de proteínas heterólogas em plantas. Do lado esquerdo, estªo representadas as etapas envolvidas na produçªo de proteínas heterólogas em plantas pelo emprego de vírus carreadores. O gene que codifica a proteína de interesse Ø inserido em um vetor viral que Ø utilizado na infecçªo de plantas. Após o desenvolvimento das plantas, os tecidos infectados sªo utilizados como fonte para extraçªo de vírus recombinantes. Os extratos virais podem ser utilizados para a amplificaçªo da produçªo, atravØs da infecçªo de novas plantas. Do lado direito, estªo representadas as etapas envolvidas na produçªo de proteínas heterólogas em plantas transgŒnicas e transplastômicas. O gene que codifica a proteína de interesse Ø inserido em um vetor de transformaçªo apropriado. AlØm do gene de interesse, geralmente Ø inserido tambØm um gene seletivo, codificador de uma proteína que confere resistŒncia a um antibiótico ou a um herbicida. A integraçªo simultânea dos dois genes limitarÆ o desenvolvimento de cØlulas nªo transformadas, durante a etapa de seleçªo. A partir do tecido selecionado, sªo regeneradas plantas nas quais a integraçªo do gene de interesse Ø avaliada por meio da tØcnica de PCR e de hibridaçªo com sondas específicas. A presença do produto de expressªo do gene de interesse Ø investigada atravØs de testes bioquímicos e imunoensaios com anticorpos específicos. Essas anÆlises permitem a seleçªo das linhagens que apresentam maior rendimento, que serªo multiplicadas e utilizadas no desenvolvimento de mØtodos de extraçªo e purificaçªo, e subseqüente caracterizaçªo estrutural e funcional da proteína heteró- loga. 14 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento cinas orais e nasais (Beachy et al., 1996). A segunda estratØ- gia consiste em intro- duzir o gene que codi- fica a proteína de inte- resse no genoma da planta por meio de tØc- nicas de transformaçªo, envolvendo, portanto, a obtençªo de plantas transgŒnicas. O desen- volvimento de uma sØrie de tØcnicas de transformaçªo permi- tiu a obtençªo de plan- tas transgŒnicas da mai- oria das plantas culti- vadas. Descriçıes de- talhadas das tØcnicas mais utilizadas podem ser encontradas em Brasileiro & Carneiro (1998). A integraçªo estÆvel permite a ex- pressªo permanente do gene e sua transferŒn- cia à progŒnie da plan- ta transformada (Fig. 1). Enquanto a estratØ- gia mediada por vírus determina geralmente a expressªo apenas em folhas, a integraçªo permanente apresenta maior versatilidade, permitindo que a ex- pressªo seja direciona- da para os diversos órgªos, tecidos e com- partimentos das plan- tas. A orientaçªo da expressªo para os di- versos compartimentos das plantas transgŒni- cas Ø realizada atravØs da utilizaçªo de pro- motores tecido-especí- ficose de sinais de direcionamento intracelulares. Essa ca- pacidade tem sido explorada no de- senvolvimento de sistemas de produ- çªo capazes de simplificar o armazena- mento do material colhido e os proces- sos de extraçªo e purificaçªo das pro- teínas recombinantes. Alguns sistemas baseiam-se na inserçªo do polipeptí- dio em proteínas carreadoras. O direci- onamento da proteína sintetizada, nes- se caso, Ø realizado pelo peptídio sinal presente na proteína carreadora. Essa estratØgia foi utilizada na produçªo de encefalina inserida na albumina 2S de Arabidopsis thaliana (Vandekerckho- ve et al., 1989), e do anticoagulante hirudina inserido em oleosina (Par- menter et al., 1995). Os sinais presentes nas proteínas 2S e oleosina endereçam a expressªo das proteínas recombinan- tes para corpœsculos protØicos e lipídi- cos de sementes, respectivamente. A grande vantagem do sistema baseado no uso de oleosinas reside no fato de que os corpœsculos lipídi- cos e as proteínas associa- das, devido à sua baixa densidade, sªo facilmente purificados por flotaçªo após centrifugaçªo em baixa rotaçªo. A secreçªo de proteí- nas heterólogas em exsu- datos de raízes, a rizose- creçªo, constitui outro sis- tema especial de endere- çamento. Borisjuk et al. (1999) demonstraram a eficiŒncia desse sistema atravØs da expressªo de altos níveis da proteína verde fluorescente de Ægua viva (GFP), da fosfatase alcalina de placenta hu- mana, e de uma xilanase bacteriana. Os sistemas de rizosecreçªo permitem o desenvolvimento de pro- cessos de produçªo base- ados em cultivo hidropô- nico e cultura in vitro de raízes de plantas transgŒ- nicas. Culturas de raízes sªo especialmente œteis para a obtençªo de produ- tos naturais cujas fontes sªo plantas difíceis de cul- tivar ou que estªo em pro- cesso de extinçªo (Shanks & Morgan, 1999). A fitor- remediaçªo de solo e Ægua representa outra importan- te e promissora aplicaçªo para os sistemas de rizose- creçªo. As proteínas heterólo- gas podem ainda ser pro- duzidas em cloroplastos de plantas, transformadas atravØs da introduçªo dos genes codificadores das proteínas de interesse no próprio DNA do cloroplas- to, por meio de tØcnicas de biobalística e posterior integraçªo por recombinaçªo homóloga (Fig. 1). Para diferenciar essas plantas das plan- tas transgŒnicas com modificaçıes no DNA nuclear, as plantas assim obtidas sªo denominadas de transplastômicas. O grande nœmero de cloroplastos pre- sentes nas cØlulas das folhas (aproxi- madamente 100 por cØlula) determina grande amplificaçªo gŒnica, podendo resultar em altos rendimentos na pro- duçªo da proteína recombinante. A Figura 2: Comparaçªo da tecido-especificidade dos pro- motores PCaMV e PGKaf. Para a realizaçªo desse ensaio foram construídos plasmídios onde os promotores do gene que codifica o transcrito 35S do vírus do mosaico da couve flor (PCaMV) e do gene que codifica a γ-kafirina (proteína de reserva de sorgo) controlam a expressªo do gene repórter codificador da β-glicoronidase (GUS). Sementes de milho seccionadas longitudinalmente foram bombardeadas com os plasmídios e, após 48 horas, a atividade enzimÆtica de GUS foi revelada com a adiçªo do substrato 5-bromo-4-cloro-3-indolil-β-D-glicoronídio (Xgluc). Os pontos azuis, indicativos da atividade de GUS, aparecem nos diversos compartimentos da semente (EB, embriªo; EN, endosperma; P, pericarpo) bombardeada pelo plasmídio que apresenta o promotor P35SCaMV (imagem da esquerda), enquanto que na semente bombardeada com a construçªo contendo o promotor PGKaf, os pontos azuis sªo observados apenas na regiªo do endosperma (imagem da direita). O ensaio demonstra que, ao contrÆrio do promotor P35SCaMV, o promotor PGKaf apresenta tecido-especificidade, sendo ativo apenas no endosperma. Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 15 transformaçªo de cloroplastos apresenta ainda vantagem em relaçªo à contençªo biológica, posto que o genoma plastidial raramente Ø transmitido via pólen. Re- centemente, Staub et al. (2000) descreve- ram a obtençªo de rendimentos superio- res a 7% da proteína total solœvel para a produçªo de hormônio de crescimento humano (hGH) em cloroplastos de taba- co. Entretanto, grande parte do hGH recombinante produzido apresentou um resíduo do aminoÆcido prolina na regiªo N-terminal no lugar do resíduo de fenila- lanina presente na mesma regiªo do hormônio natural. Esse resultado indica que a estratØgia utilizada no processa- mento, catalisado pela protease específi- ca para ubiquitina, que Ø produzida si- multaneamente com a proteína de fusªo ubiquitina-hGH, nªo apresentou a efici- Œncia desejada em cloroplastos. Portan- to, apesar do alto rendimento de expres- sªo descrito, esse sistema requer aperfei- çoamento adicional na etapa de proces- samento pós-traducional das proteínas recombinantes. Plantas transgŒnicas na produçªo de peptídios e proteínas de interes- se farmacŒutico A expressªo de proteínas usadas como fÆrmacos em plantas constitui uma alter- nativa para processos, muitas vezes caros e que nem sempre sªo capazes de suprir a demanda desses produtos. Vandekerckhove et al. (1989) realiza- ram um dos trabalhos pioneiros nesse ramo, onde o neuropeptídio leu-ence- falina (um analgØsico opióide) foi pro- duzido em Brassica napus (canola), como parte de uma proteína de reser- va da semente, a albumina 2S. Outras proteínas usadas como fÆrmacos jÆ foram sintetizadas em plantas, como o fator de crescimento epidØrmico, eri- tropoietina, interferon, proteína C hu- mana, glucocerebrosidase, entre ou- tras (Goddijn & Pen, 1995; Cramer et al., 1996). As plantas transgŒnicas tambØm estªo sendo testadas para a produçªo de antígenos vacinais. Enquanto os sistemas baseados na amplificaçªo de vírus em plantas apresentam capacida- de de expressar apenas pequenos do- mínios antigŒnicos fusionados às pro- teínas da capa viral, plantas transgŒni- cas podem expressar antígenos de maior complexidade estrutural, sem perda de suas propriedades imunogŒ- nicas originais. Diversas abordagens tŒm sido usadas para obtençªo de vacinas a partir de plantas, sendo as vacinas comestíveis as mais promis- soras, pela reduçªo nos custos e faci- lidade de administraçªo, uma vez que dispensariam todos os recursos neces- sÆrios para a produçªo e distribuiçªo das vacinas (Langridge, 2000). Buscan- do demonstrar que proteínas produzi- das em plantas transgŒnicas sªo capa- zes de induzir resposta imune nos animais, Mason et al. (1992) introduzi- ram, em tabaco, o gene codificador da proteína de superfície do vírus da he- patite B (HBV), ligado a um promotor constitutivo. Imunoensaios revelaram a presença da proteína viral em extra- tos das folhas transformadas, indican- do a viabilidade da expressªo de antí- genos exógenos em plantas para uso em vacinas. Posteriormente, Thanava- la et al. (1995) demonstraram que a proteína viral obtida nos extratos das folhas transformadas era capaz de in- duzir resposta imune in vivo. A mesma estratØgia foi utilizada tambØm na produçªo dos antígenos vacinais bacterianos toxina termolÆbil (LT) de Escherichia coli enteropatogŒ- nica (Haq et al., 1995), e toxina colØrica (CT) de Vibrio cholerae (Arakawa et al., 1998). Haq et al (1995) demonstra- ram a formaçªo espontânea de estrutu- ras pentamØricas LT-B idŒnticas às na- turais, em batatas transgŒnicas. Os an- tígenos recombinantes produzidos em batatas foram capazes de produzir res- Figura 3: Expressªo de hGH em tabaco transgŒnico. (A) Representaçªo esquemÆtica do cassete utilizado na expressªo do hGH. O esquema mostra a regiªo que codifica o hGH, modificado atravØs da substituiçªo do peptídio sinal natural por um peptídio equivalente originÆrio de uma proteína de reserva de planta. A expressªo do gene modificado Ø regulada pelo promotor PGKaf e pelo sinal e sítio de poliadenilaçªodo transcrito 35S do vírus do mosaico da couve flor (335S). (B) Western blot de extratos protØicos de diferentes tecidos de tabaco transgŒnico. Amostras de extratos dos tecidos indicados, contendo 50 µg de proteína solœvel, foram submetidas a eletroforese em gel de poliacrilamida 14% na presença de dodecil sulfato de sódio (SDS). Após a eletroforese, as proteínas foram transferidas para a membrana, onde a presença de hGH foi revelada pela utilizaçªo de anticorpo específico. Para indicar a posiçªo da migraçªo do hGH, foram utilizados 50 ng de Saizen, hGH comercial da Serono. A presença de banda indicadora de hGH apenas no extrato de semente confirma a tecido-especificidade nesse sistema de produçªo do hormônio recombinante. (C) Western blot de extrato protØico obtido a partir de sementes de milho transgŒnico. O rendimento na produçªo de hGH recombinante (0,6% da proteína solœvel) foi estimado pela comparaçªo das quantidades do hormônio presentes em diferentes alíquotas do extrato de semente com diferentes quantidades do hGH padrªo (Saizen). O extrato foi preparado a partir de 100 mg de farinha de sementes maduras em 1,0 ml de tampªo de extraçªo. 16 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento posta imune e proteçªo parcial em camundongos (Mason et al., 1998) e no homem (Tackett et al., 1998). Anticorpos ou imunoglobulinas sªo proteínas multimØricas complexas, que requerem, para a sua produçªo, siste- mas eucarióticos de expressªo. A pro- duçªo de anticorpos em plantas pode ter aplicaçıes in situ ou ex situ (White- lam & Cockburn, 1996). As aplicaçıes in situ compreendem aquelas em que o anticorpo age como um reagente na própria cØlula, modulando a atividade de um antígeno, ou ainda, promovendo imunizaçªo intracelular contra patóge- nos. Os anticorpos apresentam uma grande variedade de aplicaçıes ex situ, tais como controle de poluiçªo ambien- tal, produçªo de reagentes industriais, sensores moleculares, reagentes para diagnósticos, soros contra toxinas e venenos, imunizaçªo passiva contra agentes infecciosos, contraceptivos, te- rapias contra câncer, entre outras. A maioria dessas aplicaçıes requer gran- des quantidades de anticorpos, sendo sua utilizaçªo limitada pelo rendimento dos sistemas de produçªo. As plantas transgŒnicas, alØm de apresentarem al- tos rendimentos de produçªo, constitu- em atØ o momento, o œnico sistema de expressªo capaz de produzir anticorpos completos funcionais. Esse fato foi efe- tivamente comprovado atravØs da pro- duçªo de um anticorpo do tipo IgA em tabaco (Ma et al., 1995). Com esse objetivo, esses pesquisadores produzi- ram quatro diferentes plantas de tabaco transgŒnicas, cada uma expressando uma das quatro cadeias polipeptídicas que compıem um anticorpo monoclo- nal do tipo IgA. AtravØs de cruzamentos sucessivos entre essas plantas, obtive- ram plantas capazes de expressar, si- multaneamente, as quatro cadeias poli- peptídicas e de produzir uma imuno- globulina funcional. Devido à capacida- de de ligaçªo do anticorpo original com uma adesina da bactØria Streptococcus mutans, o anticorpo recombinante, pro- duzido em larga escala em plantas, deverÆ ser utilizado na imunizaçªo pas- siva contra cÆrie, pela sua adiçªo em dentifrícios. Produçªo de hormônio do crescimento humano em sementes de plantas transgŒnicas As proteínas recombinantes, de ma- neira geral, devem ser processadas ime- diatamente após a colheita, devido à alta atividade proteolítica da maioria dos tecidos vegetais. As sementes, por sua vez, apresentam tecidos especiali- zados que permitem o armazenamen- to de proteínas por longos períodos, sem a ocorrŒncia de degradaçªo. AlØm disso, o emprego de promotores se- mente-específicos impede que haja ex- pressªo generalizada da proteína na planta, de modo que seus processos metabólicos bÆsicos nªo sªo significa- tivamente afetados. Com o objetivo de explorar as vantagens da produçªo em sementes, foi desenvolvido, em nosso laborató- rio um, cassete de expressªo onde a expressªo do gene codificador da pro- teína de interesse Ø controlada pelo promotor de γ-kafirina. A γ-kafirina, uma proteína de reserva de sorgo, acumula-se em grande quantidade na semente, onde constitui fonte de nitro- gŒnio e enxofre durante a germinaçªo (Leite et al., 1999). Conforme demons- tram os experimentos de expressªo transiente mostrados na Figura 2, en- quanto o promotor constitutivo deriva- do do transcrito 35S do vírus do mosai- co da couve flor (P35ScaMV) dirige a expressªo do gene repórter gus para os diversos compartimentos da semente de milho, o promotor de γ-kafirina estimula essa expressªo especificamen- te no tecido de reserva, o endosperma. O cassete de expressªo baseado no promotor de γ-kafirina foi inicialmente testado na produçªo de hormônio do crescimento humano (hGH) em se- mentes de tabaco transgŒnico (Leite et al., 2000). Com essa finalidade, a se- qüŒncia de cDNA codificadora do hGH foi inserida na extremidade 3’ da se- qüŒncia promotora (Fig. 3A). Na hipó- fise, o hGH Ø produzido na forma de um prØ-hormônio que apresenta um peptídio sinal em sua extremidade amídica. O peptídio sinal Ø responsÆ- vel pelo endereçamento da proteína para o retículo endoplasmÆtico (RE) determinando, dessa forma a secreçªo do hormônio. Apesar da existŒncia de evidŒncias de que sinais de endereça- mento de animais sªo funcionais em plantas, no intuito de maximizar seu processamento na semente o peptídio sinal original do hGH foi substituído por um peptídio sinal equivalente ori- ginÆrio de uma proteína de reserva de Coix lacryma-jobi, um cereal filogene- ticamente relacionado ao milho (Leite et al., 1999). A anÆlise de extratos protØicos dos diversos órgªos do tabaco transforma- do com o cassete de expressªo de- monstrou a produçªo do hormônio recombinante especificamente nas se- mentes (Fig. 3B). O seqüenciamento da regiªo amídica do hGH purificado a partir das sementes indicou a presença de resíduos idŒnticos aos encontrados no hormônio natural. Esse resultado demonstra que o peptídio sinal adicio- nado, de maneira similar ao peptídio sinal original, pôde ser reconhecido como um sinal de endereçamento, ten- do sido adequadamente processado. Posteriormente, ensaios de ligaçªo a receptores específicos mostraram que o hormônio produzido em sementes de tabaco apresenta propriedades simi- lares às da proteína nativa, dando uma clara indicaçªo de sua funcionalidade (Leite et al., 2000). O nível de expressªo do hGH re- combinante obtido em sementes de tabaco resultou um rendimento de pro- duçªo de, aproximadamente, 0,16% das proteínas solœveis da semente. O baixo rendimento deve-se possivelmen- te ao fato de um promotor originÆrio de uma planta monocotiledônea ter sido usado no controle da expressªo de genes em tabaco, uma planta dicotile- dônea. Corroborando com essa hipóte- se, resultados obtidos recentemente por nosso grupo demonstram rendi- mentos superiores (cerca de quatro vezes) em sementes de milho transgŒ- nico. Estimativas baseadas nesse rendi- mento indicam a possibilidade de se produzir, aproximadamente, 250 g de hGH a partir de uma tonelada de se- mente de milho transgŒnico (Fig. 3C). A baixa complexidade protØica que caracteriza o endosperma, aliada à re- duzida solubilidade em Ægua da maio- ria de suas proteínas, deve facilitar o desenvolvimento de processos indus- triais de extraçªo e purificaçªo do hGH produzido em sementes de milho trans- gŒnico. Com o objetivo de comparar o rendimento da produçªo de hGH re- combinante em sementes de diferentes espØcies de plantas, a mesma constru- çªo utilizada na transformaçªo de taba- co e de milho estÆ sendo testada em soja. Os experimentos com soja trans- gŒnica estªo sendo realizados em cola- boraçªo com os pesquisadores Dr. Elí- bio L. Rech e Dr. Francisco J. L. Aragªo, da EMBRAPA-Recursos GenØticos e Bi- otecnologia(Brasília, DF). Esse trabalho abriu perspectivas para a expressªo de outros fÆrmacos de Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 17 interesse econômico em sementes e, utilizando o mesmo sistema de expres- sªo, nosso grupo estÆ trabalhando atu- almente em projetos que visam à ex- pressªo de insulina humana e de um anticorpo em sementes de tabaco trans- gŒnicas. Agradecimentos Os autores agradecem o suporte tØcnico dado por Camilla Abbehausen, Daniela Stancato e Eduardo Kiyota, e o trabalho dos alunos de iniciaçªo cien- tífica FlÆvia Enara Furquin, MÆrio del Giœdice Paniago e Sylvia Morais de Sousa. Adilson Leite recebe bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Eneida A. Parizotto recebe bolsa do CNPq, Paulo C. De Lucca, Letícia Jung- mann e Alba C. da Silva recebem bolsa da FAPESP. Este trabalho recebe apoio financeiro da FAPESP atravØs do Proje- to TemÆtico PTE: 99/02198-3. Bibliografia Arakawa, T.; Chong, D.K.X.; Lan- gridge, W.H.R. 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Bio/ Techonology 7: 929-932, 1989. 18 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento PESQUISA Farmacologia de flavonóides no controle hiperlipidŒmico em animais experimentais FLAVONÓIDES Fotos/ilustraçıes cedidas pelos autores Renato Matos Lopes Mestrando do curso de Agroquímica Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular Universidade Federal de Viçosa renato@tdnet.com.br Tânia Toledo de Oliveira Doutora, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal de Viçosa ttoledo@mail.ufv.br Tanus Jorge Nagem PhD, Professor Adjunto do Departamento de Química da Universidade Federal de Ouro Preto tjnagen.bh@zaz.com.br Aloísio da Silva Pinto Mestre, Professor Assistente do Departa- mento de VeterinÆria da Universidade Federal de Viçosa aloisio@mail.ufv.br INTRODU˙ˆO Desordens coronarianas sªo uns dos problemas causados pelo acœmulo de colesterol, e tŒm sido causa de alta taxa de mortalidade no Brasil, Japªo, Inglaterra, Estados Unidos e outros países (Truswell, 1984). A aterosclerose e, em particular, a cardiopatia coronÆria, relaciona vÆrios fatores de risco, tais como: idade, sexo, obesidade, estresse emocional, baixos níveis de colesterol -HDL, fumo, dietas ricas em gordura saturada e ainda problemas genØticos. A importância de todos esses fatores derisco Ø correlacio- nada com o aumento dos níveis de colesterol no sangue, assim como as atividades pró-oxidantes de radicais livres sobre as lipoproteínas de baixa densidade (LDL) no nível endotØlio. O consumo de gorduras saturadas aumentam os valores do colesterol na corrente sangüínea, impedindo a atividade dos receptores de LDL e, conseqüentemente, dificultando a sua eliminaçªo (Leite, 1994). Níveis elevados de colesterol-HDL estªo associados com a diminuiçªo de risco da cardiopatia coronariana; seu efeito Ø oposto ao colesterol-LDL, uma vez que este transporta o colesterol para os tecidos, enquanto o HDL atua no transporte do colesterol em excesso para o fígado. O quociente colesterol LDL/colesterol- HDL Ø um indicativo confiÆvel de risco aterogŒnico. Nas populaçıes onde sªo altas as concentraçıes tanto do LDL como do HDL, os indivíduos com menores níveis de HDL estªo mais susceptíveis a padecer de cardiopatia coronariana. Ainda que os níveis de HDL possam estar condicionados geneticamente, a alimentaçªo Ø um fator determinante (Feinleb, 1984). As partículas de HDL facilitam o transporte de colesterol dos tecidos perifØricos ao fígado, para sua excreçªo. Os Æcidos saturados nªo reduzem os níveis de colesterol-HDL, mas aumentam a concentraçªo de colesterol-LDL. A maioria das investigaçıes epidemiológicas mostram uma correlaçªo positiva entre as concen- traçıes sØricas de triacialgliceróis e a cardiopatia coronariana (Feinleb, 1984). A reduçªo nas concentraçıes plasmÆticas de lipoproteínas LDL, VLDL podem diminuir o risco do infarto do miocÆrdio (Lipid Research, 1984). O esquema 1 apresenta a formaçªo de uma placa aterosclerótica. Partículas de LDL e plaquetas penetram no endotØlio e causam lesıes (1). Fatores de crescimento liberados pelas plaquetas estimulam as cØlulas musculares abaixo do endotØlio, causando proliferaçªo no sítio da lesªo. Todo processo Ø acompanhado pela migraçªo de monócitos e outras partículas de LDL (2), conseqüentemente, ocorre a formaçªo de cØlulas espumosas (3). Desenvolve-se, entªo uma aglome- raçªo na regiªo de fosfolipídios, colesterol e cÆlcio e, gradualmente, ocorre o endurecimento deste, formando saliŒncias fibrosas e resistentes que sªo as placas de ateroma. Como prevençªo da doença arterial coronariana, Ø comum o uso de fÆrmacos hipolipemiantes como adjuvantes da dietoterapia para pacientes com dislipopro- teinemia. A busca de novos fÆrmacos que possam atuar em uma reduçªo dos níveis de colesterol tem sido motivo de novas pesquisas. Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 19 FLAVONÓIDES Os flavonóides compıem uma ampla classe de substâncias de ori- gem natural, cuja síntese nªo ocor- re na espØcie humana. Entretanto, tais compostos possuem uma sØrie de propriedades farmacológicas que os fazem atuar sobre sistemas bio- lógicos. Conseqüentemente, mui- tas dessas propriedades atuam de forma benØfica para a saœde huma- na. Atualmente, jÆ foram identificadas mais de quatro mil substâncias pertencentes ao grupo dos flavonóides (Peterson & Dwyer, 1998) . Estruturalmente, os flavonóides constituem substâncias aromÆticas com 15 Ætomos de carbono (C 15 ) no seu esqueleto bÆsico, sendo com- postos fenólicos, que possuem nes- sa estrutura anØis aromÆticos C 6 -C 3 - C 6 . O esqueleto C 15 dos flavonóides Ø biogeneticamente derivado do fenilpropano (C 6 -C 3 ) e trŒs unida- des de acetato (C 6 ). Portanto, flavonóides sªo derivados de ben- zo-gama-pirona de origem vegetal (Yokozawa et al, 1997), podendo haver facilmente interconversªo entre eles (vide figura 1). A explicaçªo para a existŒncia de uma grande diversidade estrutu- ral dos flavonóides Ø explicada pelas modificaçıes que tais compostos podem sofrer, tais como: hidroxilaçªo, metilaçªo, acilaçªo, glicosilaçªo, entre outras (Koes et al, 1994). Consumidos em grandes pro- porçıes dentro de uma dieta huma- na regular, os flavonóides sªo en- contrados em vegetais, legumes, frutas, chÆs de ervas, mel, entre outros produtos de consumo coti- diano. Apesar do termo flavonóide derivar do latim flavus, que signifi- ca amarelo, observa-se que os gru- pos flavonóis e flavonas sªo incolo- res e que a classe das antocianinas possuem substâncias que variam no seu espectro de coloraçªo do verde ao azul. A tabela 1 apresenta algumas das principais classes de flavonóides, assim como alguns dos seus principais representantes e características. Propriedades farmacológicas dos flavonóides Diversos ensaios in vivo e in vitro vŒm comprovando e determi- nando a ampla variedade das ativida- des biológicas dos compostos flavo- noídicos. Segundo Ratty & Das (1998), algumas dessas propriedades farma- cológicas jÆ foram observadas por Szent-Gyorgi em 1936. Destacam-se, dentre outros, os seguintes efeitos dos flavonóides sobre os sistemas biológicos: capacidade antioxidativa (esta constitui a atividade mais eluci- dada pelos estudos atØ agora desen- volvidos); atividades antiinflamatória e de efeito vasodilatador; açªo antia- lØrgica; atividade contra o desenvol- vimento de tumores, anti - hepatotó- xica, antiulcerogŒnica; atuaçªo anti- plaquetÆria, bem como açıes antimi- crobianas e antivirais. Pesquisas re- centes demonstraram que alguns fla- vonóides atuam na inibiçªo da repli- caçªo viral do agente causador da Síndrome da ImunodeficiŒncia Hu- mana HIV (Lin et al. 1997). Sabe-se que os flavonóides po- dem inibir vÆrios estÆgios dos proces- sos que estªo diretamente relaciona- dos com o início da aterosclerose, como ativaçªo de leucócitos, adesªo, agregaçªo e secreçªo de plaquetas (Hladovec, 1986b), alØm de ativida- des hipolipidŒmicas (Lin et al, 1986) e aumento de atividades de recepto- res de LDL (Kirk et al, 1998). Segundo Anton & Beretz (1990), as propriedades farmacológicas dos flavonóides ainda nªo haviam sido totalmente avaliadas. Após uma dØ- cada de avanços nessa linha de pes- quisa, pode-se afirmar que novos estudos toxicológicos e farmacológi- cos devem ser realizados, uma vez que a ampla diversidade estrutural desses compostos - bem como a capacidade de interaçªo com outras substâncias - nos reporta a imaginar que novas descobertas ainda podem e devem ser realizadas. Com o objetivo de se avaliar a açªo hipolipidŒmica de flavonóides e de corantes naturais em animais ex- perimentais com hiperlipidemia in- duzida, o laboratório de BiofÆrmacos da Universidade Federal de Viçosa vem desenvolvendo uma sØrie de estudos para conhecer o potencial farmacológico desses compostos. A seguir, sªo descritas algumas metodologias empregadas pelo labo- ratório de BiofÆrmacos da Universi- dade Federal de Viçosa, utilizando-se coelhos com hiperlipidemia induzi- da a partir de uma dieta rica em Æcido cólico e colesterol ou aplicaçªo de Triton: METODOLOGIA GERAL. Considerando-se um nœmero de- terminado de coelhos machos, albi- nos, adultos, da Raça Nova Zelândia (com peso mØdio de 2500 ± 200g), dispostos em gaiolas individuais com temperatura local que varia entre 22 ± 3 0 C, e taxa de umidade relativa do ar situada na faixa de 70%. Esses animais sªo submetidos a uma dieta com raçªo comercial SOCIL, na pro- porçªo de 130 g ao dia e Ægua potÆvel ad libitum ( figura 2). Após o período de adaptaçªo às condiçıes locais, os animais sªo or- Esquema 1: Formaçªo da placa aterosclerótica 20 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento denados em grupos, de acordo com o tratamento a ser aplicado: a) Grupo controle; b) Controle + substâncias indutoras de hipercolesterolemia; c) Controle + substâncias indutoras de hipercolesterolemia + substâncias teste (flavonóides ou medicamen- tos). Os tratamentos sªo efetuados durante períodos predeterminados de tempo e, normalmente o trata- mento dos animais Ø realizado por via oral atravØs de cÆpsulas (figura 3). Amostrasde sangue sªo retiradas antes, durante e após o tratamento desses animais para verificaçªo e acompanhamento dos efeitos dos tra- tamentos sobre os constituintes lipí- dicos, o sangue retirado Ø centrifuga- do a 7100 G por 15, para obtençªo do soro. As dosagens sorológicas sªo realizadas e os resultados do coleste- rol, do colesterol-HDL e dos triacilgli- ceróis sªo obtidos por meio de Kits Biolab no equipamento multipara- mØtrico AlizŒ (figura 4). As substâncias utilizadas como indutores das hiperlipidemias sªo: colesterol a 1% e Æcido cólico 0,1% misturados à raçªo, assim como a aplicaçªo intraperitonial de Triton WR 1339 na dose de 300mg/kg de peso corporal do animal, utilizando como veículo NaCl 0,9%. Triton Ø tambØm conhecido como tyloxapol, um detergente nªo aniôni- co de estrutura polimØrica da Sigma, cuja utilizaçªo vem sendo ampla- mente empregada para promover hi- perlipidemia em cobaias (Mathur et al., 1964; Sharma, 1979; Choi et al., 1991). RESULTADOS OBTIDOS Nossos trabalhos demonstram que naringenina e chitosan tŒm efeitos sobre lipídios no soro de coelhos com hiperlipidemia induzida por Tri- ton. Certificou-se, inclusive, que a associaçªo entre naringenina e chis- tosan foram mais eficazes no controle do metabolismo lipídico. Os resulta- dos obtidos demonstram que, em um efeito sinØrgico das duas substâncias- teste, promovem uma reduçªo de 71,42% de triacilgliceróis, em compa- raçªo com o grupo de animais que apresentaram hiperlipidemia induzi- da pelo Triton ( Lopes, 2000). O flavonóide Naringina associado à antocianina e ao carmim (corantes naturais utilizados na indœstria de alimentos) reduziram em atØ 70,21% os triacilgliceróis e em 63,01% os níveis de colesterol em ratos hiperli- pidŒmicos, atravØs de Triton. Narin- gina e antocianinas foram tambØm as responsÆveis pelo acrØscimo de 15,27% de colesterol HDL, quando comparado aos animais tratados ape- nas com a raçªo e o indutor ( Nagem et al., 1999). Dessa forma, a associa- çıes entre naringina/antocianina e naringina/carmim demonstraram alta eficiŒncia na reduçªo dos níveis de colesterol e triacilglicerol. Os flavonóides quercetina, mori- na e o medicamento Æcido nicotínico, empregados de forma isolada e asso- ciada, apresentaram açªo no metabo- lismo lipídico em ratos machos hiper- lipidŒmicos (Santos et al. 1999a). Os resultados mostraram uma reduçªo de 83,77% de triacilgliceróis e 76,89% de colesterol, quando se empregou um tratamento conjunto de morina e Æcido nicotínico. Quercetina e Æcido nicotínico promoveram uma varia- çªo positiva em 21,96% para o coles- terol-HDL. O Æcido nicotínico Ø um medica- mento empregado de forma usual no controle de níveis de lipídios no organismo. Açıes hipolipidŒmicas desse medicamento decorrem da ini- biçªo da lipólise do tecido adiposo, mobilizaçªo dos Æcidos graxos, redu- çªo da esterificaçªo dos triacilglice- róis no fígado e aumento da lipase Figura 1: Interconversªo dos principais grupos de flavonóides. Adaptado de Domingues (1973) FIGURA 2: Coelho da Raça Nova Zelândia confinado em gaiola individual durante o tratamento com a substância-teste Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 21 lipoprotØica ( Goodman & Gilmans, 1996). Diversos compostos flavonoídi- cos de diferentes plantas, que foram extraídos, isolados, identificados e quantificados, foram transformados quimicamente e empregados em en- saios biológicos para avaliaçıes dos seus potenciais farmacológicos sobre lipídios em ratos (Santos et al, 1999b; CLASSES Antocianinas Flavanas (mono, bi e triflavans) Flavanonas Flavonas Flavonóis Isoflavonóides COLORA˙ˆO Azul, vermelha e violeta Incolor Incolor para um amarelo pÆlido. Amarelo pÆlido Amarelo pÆlido Incolor EXEMPLOS Cianidina; Delfinidina; Peonidina. Catequina; Epicatequina Luteoforol; Procianidina. Theaflavina Hesperidina; Naringenina. Apigenina; Luteolina; Diosmetina; Tangeretina; Nobiletina Quercetina; Rutina; Mircetina; Kaempherol Daidzeína; Genisteína. COMENT`RIOS Antocianinas estªo predominantemente em frutas e flores e provavelmente foram os primeiros flavonóides a serem isolados provenientes de pigmentos florais, conforme indicam seus próprios nomes. Sªo usadas como corantes. Flavanas sªo encontradas em frutas e chÆs (verdes ou pretos). Biflavanas sªo encontradas em frutas, lœpulo, nozes e bebidas como chÆs e Ægua de coco. O sabor peculiar de algumas bebidas, frutas, chÆs e vinhos Ø devido, principalmente, à presença das biflavanas. Flavanonas sªo encontradas quase que exclusivamente em frutas cítricas. Flavonas sªo encontradas quase que exclusivamente em frutas cítricas. Mas tambØm em cereais, frutas, ervas e vegetais. Conferem o pigmento amarelo em flores. Os compostos mais comuns sªo a apigenina e a luteolina. Os flavonóis estªo presentes em diversas fontes, sendo predominantes em vegetais e frutas. A quercetina Ø o principal representante da classe. Isoflavonóides sªo encontrados quase que exclusivamente em legumes, particularmente na soja. Fonte: Adaptado de Peterson & Dwyer, 1998 Tabela 1: Principais classes de flavonóides e descriçªo de suas características bÆsicas Nagem et al, 1995; Santos et al, 1999c). CONCLUSÕES Os resultados obtidos demons- tram reduçıes estatisticamente sig- nificativas para os níveis de coles- terol e de triacilgliceróis, assim como aumento dos valores de co- lesterol-HDL, destacando-se, inclu- sive, efeitos sinØrgicos dos com- postos flavonoídicos testados. Dessa forma, Ø fundamental o de- senvolvimento de novas pesqui- sas sobre o potencial dos flavonói- des no tratamento e na prevençªo das hiperlipidemias, uma vez que a obtençªo de novos resultados servirªo de instrumentos para a utilizaçªo desses produtos na pre- vençªo de doenças cardiovascula- res. As interaçıes com outros nœ- cleos de pesquisas para o desen- volvimento de novas metodologi- as de anÆlises permitirªo aprofun- dar os conhecimentos sobre os FIGURA 4: Equipamento AlizŒ (Analisador AutomÆtico de Bioquímica), capaz de realizar anÆlises de concentra- çıes de constituintes sangüíneos, aproximadamen- te 180 testes/hora FIGURA 3: Recipiente lacrado e identificado contendo as cÆpsulas com a substância-teste a ser utilizada durante o ensaio biológico mecanismos de açıes desses com- postos naturais, assim como obter novas avaliaçıes de suas proprieda- des farmacológicas. Evidencia-se tambØm a importân- cia e a aplicabilidade de avaliaçıes de toxicidade de flavonóides sobre sistemas biológicos. Essa afirmaçªo reside no fato de que ensaios toxico- lógicos permitirªo o emprego de doses 22 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento REFER˚NCIAS Anton, R ; Beretz, A.(1990). Flavonoids: antithrombotic agents or nutrientes? Bull. Acad. Natle. MØd. , 174:6 - 709-14. Choi, J.S.; Yokosawa, T.; Oura, H. (1991). Antihyperlipidemic effect of flavonoids from prunus davidiana. Jour. Nat. Prod. 54(1):218-224. Domingues, X.A. MØtodos de Investigación Fitoquímica. 1 a Ed. Editorial Limusa. MØxico (1973). Feinleb, M.(1984). The magnitude and nature of the decrease in coronary artery disease mortality rate. American Journal of Cardiology. Vol.54:2c-6c. Goodmans, J.G.; Gilman, A.G.; Limbird, L.E. The pharmacological basis of therapeutics 9 a Ed. The McGraw- Hill Company,. pp. 1843, 1996. Hladovec, J (1986b). The effect of antithrombotics in a new model of arterial thrombosis. 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Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 23 Anúncio COBRAFI Conselho Brasileiro de Fitossanidade (REPETE FOTOLITO) Obs.: Saiu na página 37 da edição anterior nº 16 24 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento SAÚDE Resposta imune e proteçªo induzida por vacinas de BCG recombinante-DTP Vacinas de BCG Recombinante-DTP Fotos cedidas pelos autores Waldely Oliveira Dias PhD pela Escola Paulista de Medicina Pesquisadora do Instituto Butantan Centro de Biotecnologia. RogØrio Pietro Mazzantini Centro de Biotecnologia - Instituto Butantan Mestrando do Curso Interunidades em Biotecnologia. Eliane Namie Miyaji PhD pela Universidade de Sªo Paulo, Pós- Doutoranda no Instituto Butantan Centro de Biotecnologia. Ivan Pereira Nascimento Doutorando do Departamento de Bioquímica - Instituto de Química USP. Centro de Biotecnologia, Instituto Butantan. Denise Silvina Piccini Quintas Horton PhD pela Escola Paulista de Medicina Pesquisadora do Instituto Butantan Luciana Cezar de Cerqueira Leite PhD pela Universidade de Sªo Paulo Pesquisadora do Instituto Butantan lccleite@quim.iq.usp.br A imunoprofilaxia, ou vacinaçªo, Ø a medida mais eficiente e menos one- rosa na prevençªo de doenças infecci- osas. A erradicaçªo da varíola e o sucesso com a tríplice (DTP - difteria, tØtano e pertussis, ou tosse comprida) e com a Sabin sªo provas contunden- tes da importância desses programas de vacinaçªo. No entanto, fatores cul- turais, sociais e econômicos dificul- tam a realizaçªo de diversas campa- nhas de vacinaçªo, especialmente em países em desenvolvimento, onde os sistemas de saœde sªo por vezes defi- citÆrios. Essa conjuntura levou a co- munidade científica a um esforço para desenvolver vacinas multivalentes. Em especial, procuram-se veículos vivos de apresentaçªo de antígenos, uma vez que a expressªo contínua do imu- nógeno poderia eliminar a necessida- de de vÆrias doses de reforço para se alcançar uma proteçªo mÆxima, o que Ø o caso de vÆrias vacinas atualmente em uso. Veículos que tŒm sido parti- cularmente investigados sªo: Vaccí- nia, Salmonella atenuada, ou BCG (Bacilo Calmette-Guerin, vacina con- tra a tuberculose), com resultados em- polgantes (1). O Bacilo de Calmette-Guerin, BCG Albert Calmette e Camille Guerin, trabalhando no Instituto Pasteur, de Lille, no início do sØculo, atenuaram uma cepa virulenta de Mycobacterium bovis ao longo de 13 anos com 215 passagens sucessivas. A imunizaçªo com essa cepa foi entªo testada em diversas espØcies de animais experi- mentais para demonstrar que, alØm de nªo ocorrer reversªo para a virulŒn- cia, tambØm conferia resistŒncia a um desafio subseqüente com M.bovis vi- rulento ou M.tuberculosis. Essa cepa, hoje conhecida como Bacilo de Cal- mette-Guerin, ou BCG, foi utilizada oralmente, pela primeira vez, em 1921, e sua aplicaçªo generalizada foi reco- mendada pela Liga das Naçıes, em 1927. Hoje o BCG Ø a vacina mais utiliza- da no mundo, tendo jÆ sido adminis- trada a 3 bilhıes de indivíduos, com uma freqüŒncia baixíssima de efeitos adversos sØrios. Isso torna o BCG um bom candidato a veículo para apre- sentaçªo de antígenos heterólogos, tendo em vista a possível validaçªo de uma vacina recombinante baseada em BCG. Uma vacina multivalente, que utilize BCG como veículo vivo, apre- sentaria vÆrios outros fatores vantajo- sos, como: I) o BCG Ø a œnica vacina recomendada pela WHO (Organiza- çªo Mundial da Saœde) para ser admi- nistrada ao nascimento; II) requer ape- nas uma imunizaçªo para conferir imunidade celular duradoura, pois o BCG pode permanecer no organismo por anos (dependendo do indivíduo) - a apresentaçªo contínua dos antíge- nos eliminaria a necessidade de pro- gramas de vacinaçªo seqüenciais, que Ø o caso de diversas vacinas em uso atualmente; III) seu processo de pro- duçªo Ø de baixo custo, sendo vendi- da atualmente a apenas 55 centavos de dólar; IV) o BCG Ø um dos mais efetivos adjuvantes conhecidos para induçªo de imunidade celular em ani- mais e humanos; e V) estudos recen- tes tŒm reanalisado a possibilidade de uma vacinaçªo oral com BCG, de- monstrando a induçªo de respostas humorais e celulares, inclusive em tecidos mucosos. Todas essas vanta- gens favorecem o uso da cepa viva atenuada de BCG como veículo mul- tivacinal para a induçªo de imunidade humoral e celular contra diversos pa- tógenos (2, 3). BCG recombinante MicobactØrias como M.tuberculosis ou BCG infectam macrófagos e po- dem sobreviver por longos períodos no seu interior, estimulando continu- amente o sistema imune. VÆriosestu- dos tŒm demonstrado que BCG re- combinante expressando proteínas heterólogas pode induzir os 3 tipos de resposta imune necessÆrios para pro- teçªo contra vÆrios patógenos: I) pro- duçªo de anticorpos IgG por cØlulas B; II) proliferaçªo de linfócitos T e produçªo de linfocinas, inclusive in- terferon-gama (IFN-γ); III) e produçªo de linfócitos T-citotóxicos, com restri- çªo por classe I do complexo princi- pal de histocompatibilidade (Figura 1). Antígenos de diversos patógenos virais, bacterianos e de parasitas, como HIV, Streptococcus pneumoniae, Clos- tridium tetani, Borrelia burgdorferi, Plasmodium falciparum, Schistosoma mansoni, etc, foram expressos em BCG recombinante, induzindo res- postas humorais e/ou celulares e, em alguns casos, levando à proteçªo con- tra um desafio com o patógeno (2,3). A Vacina Tríplice - DTP A vacina tríplice - DTP convencio- nal mostrou-se extremamente eficien- Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 25 te no controle de infecçıes por difte- ria, tØtano e pertussis (tosse compri- da), quando a vacinaçªo completa Ø alcançada. Essa vacina Ø constituída de anatoxina diftØrica e anatoxina te- tânica (as respectivas toxinas detoxifi- cadas por tratamento químico) e por cØlulas inteiras de Bordetella pertussis, quimicamente inativadas. Um incon- veniente na tecnologia utilizada na produçªo da vacina tríplice Ø a neces- sidade de manipulaçªo de grandes quantidades de material tóxico na pre- paraçªo de cada um dos componen- tes. Embora essa vacina seja muito eficiente, algumas vezes tem sido rela- cionada a efeitos colaterais indesejÆ- veis. AlØm disso, Ø necessÆria a aplica- çªo de diversas doses para se alcançar a proteçªo mÆxima, o que pode levar a uma cobertura reduzida, especial- mente em países em desenvolvimen- to. Assim, a cobertura mundial para vacinaçªo com DTP, que estava esta- cionada hÆ anos em 80%, em 1998 caiu para 74%, sendo a baixa cobertu- ra concentrada nos países em desen- volvimento. Isso significa que 1 em cada 4 crianças no mundo nªo estÆ coberta contra esses patógenos, resul- tando em uma mortalidade anual de quase 1 milhªo de crianças (4). Por- tanto, existe um esforço para a aplica- çªo de novas tecnologias para o de- senvolvimento de vacinas contra tØta- no, difteria e pertussis, buscando-se alternativas para reduçªo do nœmero de doses necessÆrias. A utilizaçªo de vetores vivos de apresentaçªo de an- tígenos poderia ser, neste caso, extre- mamente vantajoso. BCG recombinante - DTP O objetivo deste trabalho consiste em desenvolver uma vacina multiva- lente, utilizando BCG como veículo vivo para apresentaçªo de antígenos de difteria, tØtano e pertussis. Utiliza- mos os seguintes antígenos: I) para a fraçªo diftØrica, o CRM 197, toxina diftØrica, com uma mutaçªo que elimi- na sua atividade tóxica, mas mantØm a sua imunogenicidade (gentilmente cedido pelo Dr. Rino Rappuoli, Bioci- ne, ItÆlia); II) para a fraçªo tetânica, o fragmento C da toxina tetânica (FC), que se tem mostrado atóxico e imuno- gŒnico (clonado pela Dra. Ana Lucia T.O. Nascimento, Instituto Butantan); e III) para a fraçªo pertussis, o gene da Subunidade 1 da toxina pertussis (S1PT), com 2 mutaçıes que a tornam atóxica, porØm mantendo sua imuno- genicidade (PT-9K/129G) (fornecido pelo Dr. Rino Rappuoli). No desenvolvimento de uma vaci- na de BCG recombinante, a expressªo da proteína heteróloga pode ser conseguida atravØs de um vetor de expressªo extracromossomal ou a par- tir de um vetor integrativo, sendo que o primeiro, em geral, leva a maiores níveis de expressªo e o segundo, a expressªo mais estÆvel. Os vetores de expressªo extracromossomais tŒm sido mais utilizados, sendo vetores-ponte com origem para replicaçªo em mico- bactØria e em Escherichia coli, onde Ø realizada toda a manipulaçªo genØtica dos vetores. Os vetores de expressªo devem ter um marcador de seleçªo para isolar os transformantes, onde se usa em geral um gene de resistŒncia a antibiótico. O gene que tem sido mais usado Ø o gene Tn903, que confere resistŒncia a kanamicina, uma vez que as micobactØrias sªo naturalmente re- sistentes a antibióticos β-lactâmicos (3). O nível de expressªo e localizaçªo dos antígenos sªo fatores importantes para o nível de resposta imune indu- zida. Sªo os promotores que regem o nível de expressªo. Os promotores micobacterianos que tŒm sido mais utilizados sªo os promotores das pro- teínas de choque tØrmico, hsp60 e hsp70. Mais recentemente, outros pro- motores tŒm sido utilizados para a expressªo de proteínas heterólogas, como o promotor pAN, isolado de M.paratuberculosis; os promotores dos antígenos de 18kDa, 19kDa e 85A, de M.tuberculosis, e o promotor mutado da β-lactamase de M.fortuitum, pBlaF*. Outro fator importante na resposta imune induzida Ø a localizaçªo do antígeno heterólogo. A fusªo com seqüŒncias sinais de exportaçªo de diferentes proteínas de micobactØria pode levar à exportaçªo dos antíge- nos e, conseqüentemente, à alteraçªo na resposta imune induzida (2,3). Nós utilizamos vetores de expres- sªo que contŒm o promotor pBlaF*, que levou a elevada expressªo de antígenos de outros patógenos, com ou sem a seqüŒncia sinal de exporta- çªo da β-lactamase (ssBlam) (gentil- mente cedidos pela Dra. Brigitte Gic- quel, Instituto Pasteur, Paris), que os direcionaria à exportaçªo. Assim, o vetor pJEM17 leva à expressªo do gene nativo e o vetor pLA71 coloca o gene em fusªo com ssBlam (Figura 2). Abordagem Experimental A Figura 3 ilustra a abordagem experimental utilizada. Os genes dos antígenos heterólogos de tØtano, dif- teria e pertussis, respectivamente, FC, CRM197 e S1PT, foram amplificados por PCR a partir de plasmídeos con- tendo os genes e clonados nos vetores de expressªo em micobactØria con- tendo o promotor pBlaF*, pJEM17 e pLA71, sem fusªo e com fusªo com a seqüŒncia sinal da β-lactamase, res- pectivamente. BCG eletrocompeten- tes foram transformados por eletropo- raçªo e plaqueados em meio sólido para crescimento de micobactØria con- tendo kanamicina (o plasmídeo con- tØm o gene de resistŒncia a este anti- biótico) para seleçªo dos transfor- mantes. Colônias de BCG recombinante resistentes à kanamicina, portanto con- tendo os vetores, foram cultivadas em meio líquido, tambØm contendo ka- namicina. Uma parte foi utilizada para preparaçªo de extratos protØicos por sonicaçªo e extraçªo com detergente SDS e outra parte foi utilizada para Tabela 1: SobrevivŒncia de camundongos imunizados com rBCG-S1PT contra desafio com B. pertussis virulentaa Grupo SobrevivŒncia Salina 1/10 rBCG-S1PT 8/10 DTP 9/10 a Grupos de 10 camundongos imunizados 2 semanas antes com 106 CFU/0,5 ml of rBCG-S1PT, ou o controle negativo recebendo 0,5 ml de salina e o controle positivo recebendo 0,4 ml de DPT, foram submetidos a desafio intracerebral com uma dose letal de cepa virulenta de B. pertussis. A sobrevivŒncia foi monitorada por 17 dias. 26 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento preparaçıes vacinais congeladas em glicerol a -80º C. Os extratos protØicos foram analisados por eletroforese em gel de poliacrilamida (SDS-PAGE) e por Western blot (reaçªo com anticor- pos específicos), para verificaçªo da expressªo dos antígenos heterólogos. Na revelaçªo dos Western blots, foram utilizados anticorpos específicos: I) soro policlonal anti-anatoxina tetâni- ca e II) anti-anatoxina diftØrica produ- zido em cavalos no Instituto Butantan, e III) anticorpos monoclonais anti- toxina pertussis (cedidos pelo Dr. Yuji Sato, NIH, do Japªo). A localizaçªo dos antígenos foi verificada por extra- çªo diferencial com detergente Triton X-114, em que se separam as fraçıes de citosol (aquosa), membrana celular (detergente) e parede celular (insolœ- vel) (5). Preparaçıes vacinais de clones de BCG recombinante que expressaram os antígenos heterólogosforam, en- tªo, administrados intraperitonealmen- te em grupos de 5 a 10 camundongos Balb/c, NIH, ou Swiss, a uma dose de 106 unidades formadoras de colônia (CFUs) em 0,5 mL de salina apirogŒn- cia (Figura 3). Foram tambØm admi- nistrados: salina, BCG e BCG conten- do os vetores vazios, como grupos controles negativos e DTP, como con- trole positivo. Os camundongos fo- ram sangrados por via retro-orbital a cada 30 dias por atØ 6 meses. A indu- çªo de resposta imune humoral foi avaliada por ELISA, onde se verificou a presença de anticorpos homólogos específicos contra os antígenos nos soros dos camundongos imuniza- dos. Para as preparaçıes de BCG- S1PT, avaliou-se tambØm a induçªo de resposta imune celular específica contra toxina pertussis (PT), dosan- do-se a liberaçªo de IL-4 e IFN-γ por linfócitos esplŒnicos isolados dos ca- mundongos imunizados, após estí- mulo com toxina pertussis detoxifi- cada (dPT). Camundongos imunizados com as diferentes vacinas de BCG recom- binante expressando os antígenos de difteria, tØtano e pertussis, foram entªo submetidos a ensaios para ve- rificaçªo do nível de proteçªo indu- zida. A proteçªo contra tØtano Ø verificada pela capacidade do soro de camundongos vacinados em neu- tralizar a toxina tetânica ativa. O ensaio pode ser in vivo, onde a toxina tetânica Ø administrada aos camundongos vacinados, ou in vitro onde a toxina Ø misturada com o antissoro e o complexo administra- do em camundongos nªo vacinados. Verifica-se a sobrevivŒncia dos ani- mais por 4 dias. A proteçªo contra difteria Ø avaliada pela capacidade de soroneutralizaçªo da toxina diftØ- rica in vitro, verificando a toxicidade da mistura toxina-antissoro aplicada sobre culturas de cØlulas de mamífe- ro (CØlulas Vero). A sobrevivŒncia das cØlulas Ø avaliada após 3 dias. A proteçªo contra pertussis Ø avaliada pela sobrevivŒncia dos camundon- gos imunizados após desafio intrace- rebral com cepa virulenta de Borde- tella pertussis, seguida por 14 dias. Resultados: Expressªo dos Antígenos Heterólogos em rBCG Os vetores de expressªo de mico- bactØria contendo os antígenos de tØtano, difteria e pertussis foram ele- troporados em BCG e as colônias resistentes à kanamicina, seleciona- das e cultivadas para a preparaçªo de extratos protØicos e lotes de vacinas. Os extratos protØicos foram analisa- dos por Western blot. Os extratos protØicos de clones de BCG recombinante (rBCG) transfor- mados com os vetores contendo o gene FC, sem ou com fusªo com ssBlam, respectivamente, rBCG-JFC e rBCG-LAFC, mostraram expressªo da proteína heteróloga por Western blot revelado com antissoro anti-anatoxi- na tetânica, com os respectivos pesos moleculares esperados: rBCG-JFC apresentou uma banda de ~ 51 kDa e rBCG-LAFC de ~ 55 kDa (incluindo 4kDa da ssBlam). No entanto, os ex- perimentos de localizaçªo do antíge- no heterólogo no BCG mostraram que, em ambas as construçıes, o FC se encontrava no citosol, indicando que, nesse caso, a fusªo com ssBlam nªo resultou em exportaçªo do antígeno. Clones de rBCG transformados com os vetores de expressªo contendo o antígeno de difteria CRM197 mostra- ram expressªo da proteína em Wes- tern blot quando revelado com antis- soro anti-anatoxina diftØrica (6). O clone de rBCG-JCRM197 apresentou a banda de peso molecular esperado a ~50 kDa. JÆ o clone de rBCG-LA- CRM197 apresentou uma banda de mesmo peso molecular, indicando que a fusªo com ssBlam nªo foi estÆvel. O interessante Ø que, em ambas as cons- truçıes, o antígeno se localizou na fraçªo de membrana, mesmo sem a seqüŒncia sinal de exportaçªo, suge- rindo uma afinidade própria da prote- ína pela membrana celular. No caso de rBCG-S1PT (contendo a subunidade S1 da toxina pertussis mutada), realizamos apenas a cons- truçªo em fusªo com ssBlam, pois relatos da literatura haviam indicado uma dificuldade de expressÆ-la sem fusªo em outros sistemas. O Western blot revelado com anticorpo anti-PT mostrou uma banda de ~30kDa, pou- co acima da banda de S1 da toxina Figura 1. Resposta imune induzida por BCG recombinante Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 27 pertussis (de 26,2 kDa). O S1PT re- combinante localizou-se na fraçªo de parede celular (Figura 4, 2 e 3), indi- cando ter havido uma tentativa de exportaçªo do antígeno que nªo che- gou a se completar (7). Resposta Imune e Proteçªo induzida pelas vacinas de rBCG em camundongos Camundongos Balb/c ou NIH fo- ram imunizados com as preparaçıes vacinais de rBCG-JFC, rBCG-LAFC, rBCG-JCRM197 ou rBCG-LACRM197, ou diferentes combinaçıes desses. Um reforço foi realizado nas mesmas con- diçıes após 2 meses e meio. A forma- çªo de anticorpos anti-anatoxina tetâ- nica ou diftØrica foi avaliada mensal- mente nos soros dos camundongos vacinados, durante 6 meses, por ELI- SA. Imunizaçªo com rBCG expressan- do FC em ambas as construçıes indu- ziu a formaçªo de anticorpos anti- anatoxina tetânica, mostrando, entªo, uma elevaçªo dos títulos sØricos após o reforço. A expressªo de FC, com e sem fusªo, com ssBlam mostrou-se equivalente, porØm a resposta humo- ral foi mais elevada sem a fusªo, indicando ser a expressªo do gene nativo mais adequada. A imunizaçªo de camundongos com rBCG expres- sando CRM197 tambØm induziu à for- maçªo de anticorpos anti-anatoxina diftØrica, que foi aumentada após o reforço (6). TambØm, nesse caso, a construçªo sem fusªo com ssBlam induziu a um nível maior de anticor- pos anti-anatoxina diftØrica. Quando os camundongos foram imunizados com uma mistura de rBCG expressan- do FC e rBCG expressando CRM197, ambos sem fusªo, a resposta imune induzida contra cada um foi aumenta- da, evidenciando um efeito adjuvante de rBCG-FC sobre a resposta contra difteria e a recíproca, de rBCG-CRM197 contra o tØtano. O soro obtido dos camundongos imunizados com a mis- tura de rBCG-FC e rBCG-CRM197 apre- sentou um padrªo de isótipos de imu- noglobulina preponderantemente IgG1, semelhante ao obtido com as vacinas convencionais compostas pe- las respectivas anatoxinas. Esse mes- mo soro foi capaz de neutralizar a atividade da toxina tetânica in vitro e in vivo. O mesmo soro foi tambØm capaz de neutralizar a atividade da toxina diftØrica in vitro sobre cØlulas Vero. Camundongos Swiss foram imuni- zados com as preparaçıes vacinais de rBCG-S1PT, e a induçªo de resposta humoral específica contra PT seguida por ELISA do soro dos camundongos imunizados por atØ 6 meses. A induçªo de anticorpos anti-PT foi baixa. A res- posta celular foi avaliada por liberaçªo de IL-4 e IFN-γ de linfócitos esplŒnicos de animais imunizados. Uma elevada liberaçªo de INF-γ pelos linfócitos, após estímulo com dPT, caracterizou uma resposta celular tipo Th1 (7). Esses camundongos foram submetidos a de- safio intracerebral com dose letal de cepa virulenta de B.pertussis, apresen- tando uma elevada sobrevivŒncia, com- parÆvel à obtida com a vacina tríplice (Tabela I). Discussªo A expressªo dos antígenos de difte- ria, tØtano e pertussis em BCG atravØs dos vetores de expressªo em micobac- tØria contendo o promotor pBlaF* mos- trou-se adequada, levando à induçªo de elevados níveis de anticorpos anti- anatoxina tetânica e diftØrica, e de uma resposta celular contra a toxina pertus- sis. A resposta humoral obtida contra tØtano e difteria pela mistura de rBCG- FC e rBCG-CRM197 foi capaz de neu- tralizar a atividade das respectivas toxi- nas tetânica e diftØrica. Nossos resulta- dos evidenciaram um efeito adjuvante recíproco de rBCG-FC e rBCG- CRM197. A expressªo de FC em rBCG jÆ havia sido descrita utilizando outros vetores, mas a proteçªo induzida foi parcial. A expressªo de CRM197 em veículos vivos de apresentaçªo de antígenos tem se mostrado difícil. Esta Ø a primeira vez que se obtØm a expressªo de CRM197 em BCG. A imunizaçªo de camundongos com rBCG-S1PT induziu a umaelevada resposta celular específica contra PT, que foi capaz de proteger os animais contra um desafio intracerebral com dose altamente virulenta B. pertussis. A expressªo em BCG de S1PT em fusªo com FC havia sido recentemen- te descrita, porØm a resposta celular induzida foi baixa. Estamos investi- gando, atualmente, a resposta imune induzida pela administraçªo conjunta de rBCG-FC, rBCG-CRM197 e rBCG- S1PT, com a expectativa de que pro- priedades adjuvantes dos antígenos combinados possam ainda aumentar a resposta imune induzida contra cada um dos patógenos. Nossos estudos demonstraram que rBCG expressando os antígenos de DTP induzem resposta imune efici- ente e protetora contra tØtano, difteria e pertussis. No entanto, uma vez que essas sªo vacinas vivas, podendo per- manecer no organismo por longos períodos, nªo seria aceitÆvel sua ad- ministraçªo em humanos, pela possi- bilidade de disseminaçªo do gene de Figura 2. Vetores de expressªo de antígenos heterólogos em micobactØria. Os vetores pJ-Ag e pLA-Ag contŒm origem de replicaçªo em E.coli (ori-E.coli) e origem de replicaçªo em micobactØria (ori- mico), o gene de resistŒncia à kanamicina (Km), e o promotor mutado da β-lactamase de M.fortuitum, pBlaF*. pJ-Ag expressa o gene do antígeno nativo e pLA-Ag expressa os gene em fusªo, com a seqüŒncia sinal da βlactamase (ssBlam) (ss). Ag pode ser FC, CRM197 ou S1PT 28 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento resistŒncia a antibiótico para outras bactØrias. Recentemente foi descrito um sistema de expressªo em BCG, utilizando cepas auxotróficas, desen- volvidas para posterior complementa- çªo com um vetor que expresse o gene eliminado, conjuntamente com o antí- geno recombinante. Dessa forma, evi- ta-se a seleçªo com antibiótico e, con- seqüentemente, o uso do gene de resis- tŒncia, produzindo-se uma cepa de rBCG adequada para administraçªo em humanos. Estamos atualmente desen- volvendo esse sistema no laboratório, para posterior verificaçªo da resposta imune induzida pelos antígenos de DTP expressos dessa forma. Em conjunto, este trabalho repre- senta um fato inØdito na expressªo dos 3 antígenos de DTP em um mesmo sistema, com induçªo de resposta imu- ne protetora contra cada um dos pató- genos, condiçªo necessÆria à imple- mentaçªo de qualquer uma das vaci- nas. Nossos resultados indicam que rBCG-DTP poderia constituir uma vaci- na de dose œnica, eficiente e de baixo custo, contra tuberculose, tØtano, dif- teria e pertussis, com claras vantagens para países em desenvolvimento. ReferŒncias: 1) Levine, M.M., Lagos, R. 1997 Vaccines and vaccination in a histori- cal perspective, 1-12. . In M.M. Levine, G.C. Woodrow, J.B. Kaper, G.S. Co- bon (ed.), New generation vaccines, 2nd ed. Marcel Dekker, Inc. NY. 2) Gicquel, B. 1995 BCG as a vector for the construction of multiva- lent recombinant vaccines. Biologi- cals 23, 113-8. 3) Fennelly, G.J., W.R. Jacobs Jr., and B.R. Bloom. 1997. The BCG as a recombinant vaccine vector, p. 363- 385. In M.M. Levine, G.C. Woodrow, J.B. Kaper, G.S. Cobon (ed.), New generation vaccines, 2nd ed. Marcel Dekker, Inc. NY. 4) WHO/V&B/99.17 WHO Vacci- ne Preventable Diseases Monitoring Figura 4. Localizaçªo da subunidade S1 da toxina pertussis em BCG recombinante analisada por Western blot. Lisado de BCG recombinante foi fracionado por centrifugaçªo e particionado em detergente. As amostras corresponden- tes a cada fraçªo ou locali- zaçªo foram aplicadas em gel de SDS-PAGE, transferidas para uma membrana de nitrocelulose e submetidas a um imunoensaio utilizando um soro policlonal contra a toxina pertussis Figura 3. Construçªo e teste de vacinas de BCG recombinante System, 1999 Global Summary. 5) Parish, T., P.R. Wheeler. 1998. Preparation of cell-free extracts from mycobacteria, p. 77-89. In, T. Parish and N.G Stoker (ed.), Methods in Molecular Biology, Vol. 101: Mycobacteria Proto- cols, Humana Press, Totowa, NJ. 6) Miyaji, E.N., Mazzantini, R.P., Dias, W.O., Nascimento, A.L.T.O, Marcovistz, R., Matos, D.S., Raw, I., Winter, N., Gicquel, B., Rappuoli, R. and Leite, L.C.C. Induction of Neutralizing Anti- bodies Against Diphtheria Toxin by Pri- ming with Recombinant Mycobacterium bovis BCG Expressing CRM 197 , a Mutant Diphtheria Toxin, submetido (2000). 7) Nascimento, I.P., Dias, W.O., Ma- zzantini, R.P., Miyaji, E.N., Gamberini, M., Quintillo, W., Gebara, V.C., Cardo- so, D.F., Ho, P.L., Raw, I. Winter, N., Gicquel, B., Rappuoli, R., Leite, L.C.C. Recombinant BCG Expressing S1-Per- tussis Toxin induces Protection against an Intracerebral Challenge with Live Bordetella pertussis in Mice, Infection Immunity, 68 (9), 4877-4883 (2000). Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 29 Anúncio ANBIO Associação Nacional de Biossegurança (FOTOLITO NOVO) Obs.: Fotolito fornecido em anexo 30 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento PEPT˝DEOS ANTIMICROBIANOS Uma alternativa no combate a microrganismos resistentes Maura Vianna Prates Aluna de doutorado do curso de Pós-graduaçªo do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília/UnB. mprates@unb.br Carlos Bloch Jœnior Professor adjunto do Instituto de Química da Universidade de Brasília/UnB, Pesquisador do Cenargen/Embrapa. cbloch@cenargen.embrapa.br s ameaças à saœde de seres vivos causadas por infecçıes de microrganis- mos resistentes a antibió- ticos e a vÆrios agentes germicidas vŒm atingindo índices ja- mais registrados. Muitos microrganis- mos tŒm desenvolvido resistŒncia tan- to contra os jÆ bem estabelecidos antibióticos de uso convencional quanto contra os antibióticos de œlti- ma geraçªo (Austin D. J., et al., 1999), causando graves problemas de saœde pœblica e vultosos prejuízos econô- micos. O impacto da crescente resis- tŒncia de microrganismos a medica- mentos e a substâncias específicas tem movimentado vÆrios grupos de pesquisa, assim como a indœstria far- macŒutica para desenvolvimento de novas drogas que sejam capazes de lidar efetivamente com as estratØgias de adaptaçªo que esses organismos elaboram, em face de todo o tipo de situaçªo adversa. O surgimento da resistŒncia a an- timicrobianos Ø um exemplo clÆssico de evoluçªo em resposta a uma forte pressªo de seleçªo. Hospitais e ou- tros estabelecimentos constituem uma comunidade ecológica particular, na qual diversos tipos de micróbios cir- culam e interagem entre si direta- mente, por meio da reproduçªo e da troca de plasmídeos, e/ou indireta- mente, por meio de interaçıes entre pacientes e funcionÆrios. O corpo humano Ø um conhecido habitat de uma microflora muito di- versificada, composta de populaçıes benØficas, populaçıes prejudiciais à saœde e populaçıes que vivem co- mensalmente, as quais exercem pou- ca influŒncia sobre seu hospedeiro em condiçıes normais. A respeito dos microrganismos patogŒnicos, a maior preocupaçªo Ø o surgimento de cepas resistentes aos antimicrobi- anos disponíveis. Entretanto, os mi- crorganismos comensais estabelecem um tipo de problema diferente da- quele imposto pelos microrganismos patogŒnicos. Sob condiçıes normais, eles vivem em locais como a pele ou Fotografias gentilmente cedidas pelo Prof. Antônio Sebben Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 31 o trato respiratório, causando pouco ou nenhum problema. PorØm, quan- do transferidos para regiıes estØreis, como a corrente sangüínea e os pul- mıes, eles podem ser malØficos e provocar sØrios distœrbios na saœde do hospedeiro (Stewart F. M., et al., 1998). Uma vez que os antimicrobianos sªo introduzidos para tratar os verda- deiros patógenos e nªo os comen- sais, vÆrios fatores de transferŒncia de resistŒncia sªo assim dissemina- dos e podem ser transmitidos a linha- gens sensíveis, por meio do contato entre as cØlulas. Muitos fatores de virulŒncia,como, por exemplo, os de Staphylococcus aureus, sªo carrega- dos por plasmídeos e podem ser consignados entre diferentes linha- gens. Sem dœvida, esse Ø o principal mecanismo para o rÆpido espalha- mento de linhagens com resistŒncia mœltipla (Brock, T. D., et al.,1994). AlØm disso, o problema da resistŒn- cia introduz questıes relacionadas com a duraçªo e com a intensidade do tratamento, com as estratØgias que envolvem o uso de vÆrias drogas concomitantemente e com o rigor que deve ser obedecido por parte dos pacientes. PROBLEM`TICA DA RESIST˚NCIA A DROGAS A infecçªo hospitalar vem desper- tando interesse nªo somente para a Ærea sanitÆria como tambØm para a econômica, devido, sobretudo, à ver- satilidade com que os microrganis- mos causadores tŒm driblado a açªo de drogas. A infecçªo hospitalar atin- ge dois milhıes de norte-americanos a cada ano e cerca de setenta mil acabam morrendo. O S. aureus Ø um dos microrganismos mais comumen- te encontrados em hospitais e um dos principais agentes causadores da in- fecçªo hospitalar. A resistŒncia da bactØria S. aureus a antibióticos vem crescendo assustadoramente, mesmo em se tratando de drogas poderosas e de amplo espectro como a metici- lina. Em 1981, 5% da populaçªo de S. aureus eram resistentes a este antibi- ótico. Dez anos depois a porcenta- gem aumentou para 38% e as estima- tivas atuais sªo de cerca de 50% de resistŒncia à meticilina (http:// www.bhj.org/journal/1997/3901_jan/ special_064.htm). Infecçıes causadas por microrga- nismos resistentes nªo atingem so- mente a saœde humana. Na pecuÆria, grandes sªo os problemas enfrenta- dos pelos criadores de gado leiteiro susceptível à mastite, uma condiçªo inflamatória da glândula mamÆria cau- sada por bactØrias, (S.aureus, E. coli e P. aeruginosa, principalmente) que acarreta mudança das características físicas do œbere e do leite, em vacas. As perdas na indœstria leiteira dos Estados Unidos somam mais de dois bilhıes de dólares por ano. Os custos incluem a diminuiçªo da produçªo e a perda da qualidade do leite, seja provocada pela inflamaçªo propria- mente dita, seja causada pelo uso de antibióticos para o tratamento e as despesas com veterinÆrios, com labo- ratórios e com a perda dos animais (http://classes.aces.uiuc.edu/AnS- ci308/mastitisintro.html). O mesmo quadro pode ser verifi- cado no que diz respeito aos fitopa- tógenos. O surgimento de resistŒncia de fungos fitopatogŒnicos de impor- tância agronômica Ø considerado um fator limitante na eficÆcia e na vida œtil das mais variadas estratØgias de controle de doenças (Heaney S., et al., 1994). Muitos gŒneros tais como Aspergillus, Botrytis, Venturia, Ustila- go, Marnaporte, Colletotrichum, Al- ternaria, Cercospora, Cladosporium e Penicillium, tŒm desenvolvido es- tratØgias elegantes de resistŒncia con- tra os fungicidas mais amplamente empregados como os da classe dos benzimidazóis, das estrobilurinas, das fenoxiquinolinas e das anilinopirimi- dinas (Steffens, J. J., et al., 1996). Nos œltimos anos, tem-se consta- tado que mesmo fungicidas de amplo espectro de açªo como o Benomyl, tornaram-se alvo de resistŒncia. O emprego deste fungicida tem-se mos- trado cada vez mais ineficiente para combater a antracnose, doença pro- vocada pelo gŒnero Colletotrichum sp., em culturas de diversas fruteiras susceptíveis e, sobretudo, contra a doença da flor preta em morango (Tanaka, M. A. S., et al., 1997). Conforme comentado anterior- mente, o uso indiscriminado de dro- gas Ø o principal fator de induçªo à resistŒncia; contudo, a prevençªo desse abuso nªo Ø garantia de que a susceptibilidade seja um fator rever- sível, uma vez que os efeitos provo- cados pelos antimicrobianos na fisio- logia e ecologia dos microrganismos impossibilitam, cada vez mais, o re- torno ao estado de susceptibilidade anterior. Dessa forma, o uso de novas tecnologias para o desenvolvimento de drogas mais eficazes constitui uma estratØgia promissora no campo da biotecnologia, uma vez que possibi- litarÆ a iniciativa de prospeçªo de novas classes de molØculas naturais e/ou sintØticas, capazes de neutrali- zar ou de danificar o patógeno-alvo ao invØs de inviabilizÆ-lo genetica- mente, inibindo assim o desenvolvi- mento da resistŒncia (Heinemann, J. A., et al, 2000). Atualmente, peptíde- os antimicrobianos de origem animal Figura 1a: Phyllomedusa tarsius: "Perereca da Floresta" - espØcie amazônica 32 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento estªo sendo utilizados como mode- los para o desenho de novas drogas com aplicaçªo nas Æreas agrícola e de saœde. Para tanto, seqüŒncias anfifíli- cas de peptídeos vŒm sendo dese- nhadas, sintetizadas e testadas in vi- tro, a fim de permitirem a obtençªo de genes com potencial de resistŒn- cia a fitopatógenos, bem como com- postos ativos para a fabricaçªo de drogas de amplo espectro e de mœl- tipla aplicabilidade. Um exemplo dessa abordagem sªo os anÆlogos sintØticos da magai- nina II, peptídeo proveniente da se- creçªo da pele do anfíbio africano Xenopus laevis (Zasloff, M., 1987) que foram testados com sucesso na inibiçªo da germina- çªo de conídios de Cryphonectria parasi- tica, Fusarium oxys- porum f. sp. lycopersi- ci, e Septoria musiva, e que nªo provoca- ram nenhuma interfe- rŒncia detectÆvel na germinaçªo de pólen dos organismos hos- pedeiros, alØm de se- rem eficazes tambØm contra as bactØrias Agrobacterium tume- faciens, Erwinia amylovora e Pseudo- monas syringae. As diferenças significativas encontradas na sensibilidade entre os microrga- nismos e as cØlulas vegetais tŒm mostrado que tais peptídeos podem ser œteis como modelos para o dese- nho de genes de resistŒncia (Powell, W. A., et al., 1995). O uso das magaininas na agricul- tura nªo se restringe a cultivares frutíferos ou alimentícios de um modo geral, mas abrange tambØm o ramo de plantas ornamentais geneticamente modificadas, as quais expressam ge- nes de magaininas resistentes a fun- gos e outros patógenos causadores de lesıes. Da mesma forma, a magai- nina II jÆ vem sendo utilizada como princípio ativo na fabricaçªo de dro- gas como o LOCILEX, que Ø um creme de uso tópico com açªo micro- bicida e empregado no tratamento da infecçªo de œlceras diabØticas. AlØm disso, derivados da magainina II tŒm sido amplamente aplicados nas tera- pias contra o câncer, no tratamento de conjuntivites, de acne, de doenças sexualmente transmissíveis, de mico- ses, alØm de serem drogas promisso- ras no tratamento da gripe (http:// www.magainin.com). SUBST´NCIAS BIOATIVAS DE ORIGEM NATURAL Venenos e toxinas de origem na- tural hÆ muito representam uma fon- te de fascínio para o homem, graças aos seus extraordinÆrios efeitos far- macológicos. Sua utilizaçªo científica tem contribuído com sucesso para a elucidaçªo de vÆrios mecanismos fi- siológicos, como demonstrado por Claude Bernard em seus experimen- tos clÆssicos da dØcada de 1850, com o curare (Erspamer, V., 1994), as- sim como sua exploraçªo industrial para o uso terapŒutico, a exemplo de vÆrias comunidades indígenas e na medicina popular (Daly et al. 1992). Os vertebrados, mais precisamen- te os anfíbios da ordem Anura, repre- sentam um verdadeiro laboratório de bioquímica, tendo em vista o arsenal de toxinas que fabricam. Nas cØlulas que revestem as paredes de glându- las granulares presentes na pele des- ses animais Ø produzida uma varieda- de de princípios ativos que compre- endem molØculas alifÆticas, aromÆti- cas e heterocíclicas, alØm de uma diversificada gama de esteróides, de alcalói- des, de aminas biogŒni- cas, de derivados guani- dínicos, de proteínas e de peptídeos, incluindo-se na produçªo desses dois œltimos, seus precursores e todo o sistema enzimÆ- tico envolvido na sua bi- ossíntese. Essas molØcu- las acumulam-se em grâ- nulos, os quais compıem a luzde glândulas dØrmi- cas e sªo liberadas medi- ante estímulos apropria- dos. Seu papel Ø muito Figura 1b: Leptodactylus ocellatus: "Rª-Manteiga" - amplamente distribuída no Brasil Figura 1c: Dendrobates galactonotus: EspØcie amazônica Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 33 diversificado sobre as funçıes fi- siológicas da pele ou na defesa contra predadores e microrganis- mos. Grande nœmero desses com- postos jÆ se encontra caracteriza- do estrutural e funcionalmente (Sebben, A. et al., 1993). Entre todos os tipos de molØ- culas mencionados acima, os pep- tídeos tŒm despertado bastante interesse devido às suas ativida- des como mediadores farmacoló- gicos e à descoberta de molØculas homólogas ou anÆlogas em teci- dos do trato gastrointestinal e sistema nervoso de mamíferos. O exemplo mais freqüente de molØcu- las encontradas em ambos os grupos sªo as taquicininas, as ceruleínas, o hormônio liberador de tirotropina, as bobesinas e os peptídeos opióides (Erspamer, V. e Melchiorri, P., 1980). O primeiro relato da ocorrŒncia de peptídeos com atividade antibac- teriana e hemolítica na pele de anfí- bio data de 1969, quando foi identi- ficada a bombinina, um peptídeo de 24 resíduos de aminoÆcidos, prove- niente da secreçªo cutânea do anuro europeu Bombina variegata (Csor- das, A. e Michl, H., 1970). No final da dØcada de 1980, foram isoladas as magaininas de Xenopus laevis (Zaslo- ff, M., 1987) e, somente a partir daí, outros peptídeos com atividade mi- crobicida de origens diferentes co- meçaram a ser estudados mais deta- lhadamente. Atualmente, as magaini- nas representam uma das mais bem estudadas classes de peptídeos anti- bióticos, os quais sªo considerados efetores da imunidade inata, agindo em uma primeira linha de defesa contra infecçıes bacterianas e fœngi- cas nos organismos superiores (Zas- loff, M., 1992; Boman, H. G., 1995; Nicolas, P., 1995; Barra, D., et al., 1998). GL´NDULAS DE VENENO Especificamente nos anfíbios hÆ pelo menos dois tipos de glândulas dØrmicas denominadas mucosas e granulares, alØm das glândulas paro- tóides posteriores aos olhos da mai- oria dos anuros. As mucosas encon- tram-se distribuídas no tegumento e sua secreçªo umectante promove a hidrataçªo da pele por onde ocorrem cerca de 90% das trocas gasosas (Orr, R. T., 1986). As glândulas granulares, tambØm chamadas glândulas serosas ou de veneno, podem estar distribuídas ao longo de todo o corpo ou concentra- das em algumas Æreas, formando pro- tuberâncias, especialmente na regiªo dorsal do animal (Duellman, E. W. e Trueb, L., 1986). Em muitas espØcies, essas glândulas, juntamente com as glândulas parotóides secretam subs- tâncias bioativas que constituem um novo sistema de defesa coordena- do pelo sistema nervoso, diferente daquele constituído pelas cØlu- las T e B do sistema imune, e detŒm a capacidade de promo- ver a síntese de peptídeos de baixa massa molecular com ati- vidade antimicrobiana de am- plo espectro, efetivos contra bac- tØrias e fungos. Tal ocorrŒncia poderia explicar a acentuada resistŒncia desses grupos de an- fíbios a doenças (Nicolas, P e Delfour, A., 1994). O lume das glândulas sero- sas e das parotóides Ø rico em grânulos que armazenam secre- çıes tóxicas. Em situaçıes de perigo, um estímulo nervoso Ø recebido pe- las paredes glandulares provocando a contraçªo da musculatura local e causando uma descarga sincronizada do seu conteœdo. Após a liberaçªo da secreçªo, o sistema glandular inicia seu processo de regeneraçªo, que pode variar de poucas horas a alguns dias, dependendo da espØcie de an- fíbio, atØ que o conteœdo do lume glandular seja reconstituído (Delfino, G., et al., 1990). PEPT˝DEOS ANTIMICROBIANOS Mais de cinqüenta peptídeos anti- microbianos de anfíbios jÆ foram iso- lados, tendo como principal caracte- rística a natureza catiônica e a capa- cidade de permeabilizar membranas de microrganismos. Podem ser agru- pados segundo sua estrutura primÆ- ria e muitos sªo encontrados em indivíduos do mesmo gŒnero e atØ mesmo em indivíduos de gŒneros distintos, pertencentes à mesma subfa- mília ou nªo. Em 1970, a bombinina foi descrita como um peptídeo anti- bacteriano e hemolítico isolado da secreçªo da pele do anfíbio B. varie- gata (Csordas, A. e Michl, H., 1970). Pouco tempo depois, outras bombi- ninas foram detectadas na secreçªo do mesmo anfíbio, as quais diferiram entre si por poucos resíduos de ami- noÆcidos (Simmaco, M., et al., 1991). Peptídeos do tipo bombinina tam- bØm foram isolados da espØcie B. orientalis e mostraram pouquíssima variaçªo em relaçªo aos encontrados em B. variegata. As bombininas pos- suem amplo espectro de açªo contra microrganismos em geral, porØm apre- Figura 2: Exemplar adulto de Physalaemus fuscomaculatus. Notar o aspecto granuloso da pele dorsal. Marca- do pelo acœmulo de glândulas granulosas Figura 3: Corte histológico da pele de anfí- bio mostrando a epiderme (E) e as glândulas granulosas (G) e muco- sas (M) localizadas na derme. Aumento: 100 X Coloraçªo: Azul de toluidina 34 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento sentam toxicidade se- letiva contra cØlulas sangüíneas, provocan- do a lise das mesmas (Gibson, B. W., et al., 1991). A secreçªo da pele de Xenopus laevis tam- bØm tem sido objeto de intensa investigaçªo. Nessa secreçªo, foram detectados o TRH (hor- mônio liberador de ti- rotropina), a xenopsi- na e a ceruleína, com potente atividade hipo- tensora. AlØm desses peptídeos bioativos, foram encontrados ain- da peptídeos homólo- gos às bombininas, de- nominados magaini- nas, que tambØm sªo encontradas no estômago do anfíbio, porØm sem funçªo definida nesse órgªo. Os peptídeos de defesa isolados da pele de Xenopus sp. estªo agrupa- dos em subfamílias de acordo com sua origem biossintØtica. A xenopsi- na e a ceruleína sªo molØculas de estrutura e atividades farmacológicas anÆlogas às da neurotensina e da gastrina/CCK (colecistocinina) dos mamíferos, respectivamente. Esses peptídeos adotam a estrutura de hØ- lice anfifílica quando em ambiente hidrofóbico, sendo ativos em doses micromolares contra uma variedade de bactØrias gram-positivas, gram- negativas, fungos e leveduras (Be- vins, C. L. e Zasloff, M., 1990). As magaininas I e II sªo peptídeos ho- mólogos que possuem um amplo espectro de açªo antimicrobiana. Em doses micromolares, interrompem o crescimento e/ou induzem a lise os- mótica de diversos tipos de bactØrias gram-positivas e gram-negativas e de protozoÆrios. Elas sªo capazes de induzir uma lise irreversível das cØlu- las tumorais hematopoiØticas e de tumores sólidos de diversas origens, mas nªo provocam efeito sobre cØlu- las diferenciadas de eucariotos (Zas- loff, M., 1987). As espØcies do gŒnero Rana de diferentes Æreas geogrÆficas tŒm-se mostrado igualmente interessantes, no que se refere ao conteœdo de peptídeos antimicrobianos da pele. Foram detectados peptídeos com ati- vidade antimicrobiana nas espØcies R. esculenta (Simmaco, M., et al., 1993, 1994), R. brevipoda (Morikawa, N., et al., 1992), R. catesbeiana (Cla- rk, D. P., et al., 1994) R. rugosa (Park, J. M., et al., 1994; Suzuki, S., et al., 1995) e R. temporaria (Simmaco, M., et al., 1996) denominados esculenti- nas, brevininas, ranalexinas, rugosi- nas e temporinas, respectivamente. A particularidade encontrada nos pep- tídeos desse gŒnero Ø a sua estrutura- çªo secundÆria, a qual Ø decisiva no modo de interaçªo toxina/microrga- nismo, distinta de todas as outras atØ entªo descritas (Simmaco M., et al., 1998). Na AmØrica do Sul, os hilídeos da subfamília Phyllomedusinae consti- tuem uma fonte muito rica de peptí- deos antimicrobianos. Atualmente quatro espØcies do gŒnero Phyllome- dusa vŒm sendo estudadas: P. bicolor (Daly, J. W., et al., 1992; Mor, A., et al., 1994; Charpentier,S., et al., 1998), P. sauvagei (Mor, A., et al., 1991; Mor, A. e Nicolas, P., 1994a), P. distincta (Batista, C., et al., 1999) e P. tarsius (Prates, M. V., 1999). Nesse gŒnero foram detectados potentes agentes antimicrobianos denominados der- maseptinas, com amplo espectro de atividade antimicrobiana e cicatri- zante. As dermaseptinas sªo molØculas catiôni- cas de 24 a 34 resíduos de aminoÆcidos que for- mam uma cadeia linear com estrutura secundÆ- ria aleatória em solven- te aquoso, porØm orde- nada (α-hØlice) quan- do em meio apolar (Mor, A., et al., 1991; Mor, A. e Nicolas, P., 1994a; Mor, A., et al., 1994; Mor, A. e Nicolas, P., 1994b). Outras espØcies, tais como P. rhodei e P. burmeisteri, tambØm tŒm sido investigadas como provÆveis produ- toras de peptídeos anti- microbianos, da família das dermaseptinas. AlØm disso, peptídeos relacionados com as dermaseptinas foram detectados em outros hilídeos dessa subfamília, nas espØcies Pa- chymedusa dacnicolor e Agalychnis annae, ambas provenientes da AmØ- rica Central (Wechselberger, C., 1998) . As dermaseptinas exercem ativi- dade lítica sobre bactØrias gram-posi- tivas e gram-negativas, protozoÆrios ciliados, leveduras e fungos filamen- tosos em concentraçıes micromola- res (Fleury, Y., et al., 1998). Contudo, tais efeitos citolíticos nªo foram ob- servados em cØlulas de mamíferos, devido, possivelmente, à estrutura e à composiçªo da membrana celular desses animais. De fato, estudos de citólise usando lipossomas de dife- rentes composiçıes fosfolipídicas e crescente concentraçªo de colesterol (característica de animais superiores) mostraram maior resistŒncia dessas membranas artificiais à ruptura (Ba- tista, C. V. F., 1999). A adenoregulina de P. bicolor Ø um peptídeo de estru- tura similar às dermaseptinas, mas foi isolada primeiramente por sua fun- çªo farmacológica neurotransmisso- ra, que consiste na sua capacidade de induzir a ligaçªo de agonistas aos receptores A1 de adenosina, prova- velmente devido à presença de D- aminoÆcidos em sua composiçªo (Daly, J. W., et al., 1982). Posterior- mente, foi relatada sua atividade an- Peptídeos Magaininas Bombininas Dermaseptinas Brevininas Caerinas Gaegurinas Rugosinas Buforina Ranalexinas Xenoxinas Temporinas Maculatinas Esculentinas Pipininas PGLa Xenopsina (fragmento precursor) Levitídeo (fragmento precursor) Ceruleína (fragmento precursor) Ceruleína Frenatina Anfíbios Xenopus sp. Bombina sp. Phyllomedusa sp. Rana brevipoda Litoria sp. Rana rugosa Rana rugosa Bufo bufo Rana catesbeiana Xenopus sp. Rana temporaria Litoria genimaculata Rana esculenta Rana pipiens Xenopus laevis Xenopus laevis Xenopus laevis Xenopus laevis Litoria cerulea Litoria infrafrenata Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 35 timicrobiana, semelhante a das ou- tras dermaseptinas. Da mesma forma, muitas espØcies australianas de anfíbios do gŒnero Litoria tŒm sido estudadas por apre- sentarem peptídeos antimicrobianos. As espØcies L. xanthomera e L. chloris revelaram a presença de peptídeos antimicrobianos denominados caeri- nas (Stone, D. J. M., et al., 1992; Steinborner, S. T., et al., 1997; Stein- borner, S. T., et al., 1998), e as espØ- cies L. splendida e L. cerulea, o pep- tídeo ceruleína, todos ativos contra bactØrias gram-positivas (Stone, D. J. M., et al., 1992; Waugh, R. J., et al., 1993). JÆ as espØcies L. infrafrenata e L. genimaculata apresentaram peptí- deos denominados frenatinas e ma- culatinas (Raftery, M. J., et al., 1996; Rosek, T., et al., 1998), sendo o primeiro de amplo espectro e o se- gundo, com atividade semelhante à das caerinas. Na tabela, estªo listados os princi- pais peptídeos com atividade antimi- crobiana encontrados nas secreçıes da pele ou em outros órgªos de anfíbios anuros. CONCLUSˆO O recente progresso da indœstria farmacŒutica relacionado com a des- coberta e a produçªo de novos agen- tes antimicrobianos nªo vem alcan- çando o sucesso desejado na conten- çªo da mutagŒnese de resistŒncia a drogas desenvolvida pelos microrga- nismos. Enquanto os mecanismos de resistŒncia criados por muitos micró- bios vŒm-se tornando cada dia mais eficazes, as drogas conhecidas mos- tram-se cada vez menos eficientes no combate às patologias. A resistŒncia microbiana a drogas Ø um problema complexo, uma vez que consiste no produto de um processo natural e, muito mais que isso, essencial, nªo somente para a origem, como tam- bØm para a evoluçªo de todos os seres vivos, o qual fundamenta-se na mutaçªo espontânea, na transferŒn- cia e recombinaçªo de genes, crian- do assim variabilidade genØtica atu- ante na seleçªo natural. A bactØria Pseudomonas aerugi- nosa possuí em seu genoma alguns genes codificadores de proteínas for- madoras de bombas, as quais podem ser a chave para a elucidaçªo do mecanismo de resistŒncia contra di- versas classes de antibióticos (Stover, C. K., 2000). A hipótese aceita atual- mente sugere que bactØrias gram- negativas, grupo do qual a P. aerugi- nosa faz parte, podem resistir ao efeito letal de muitos antimicrobia- nos, utilizando uma estratØgia de bombeamento dos agentes químicos para fora das cØlulas bacterianas mais rapidamente do que seu acœmulo no interior destas. Dessa forma, tais pro- teínas formadoras de bombas teriam a capacidade de conferir a essas bactØrias a propriedade de resistŒn- cia (Nikaido, H., 1998). Ainda nªo foi esclarecido o procedimento da evo- luçªo das bombas. Especula-se que elas teriam surgido da necessidade dos microrganismos em eliminar to- xinas naturalmente presentes no seu ambiente (Greenberg, E. P., 2000). Sabendo disso, torna-se cada vez mais importante a investigaçªo e a descoberta de drogas capazes de atu- arem diretamente sobre a parede e a membrana plasmÆtica, provocando lise e morte celular, ao primeiro con- tato. AtØ onde se tem registro, sabe- se que mesmo os mais sofisticados mecanismos de defesa desenvolvi- dos pelos microrganismos ainda nªo sªo suficientes para neutralizar uma açªo do tipo detergente produzida por peptídeos de carÆter catiônico. O modo de defesa mediado pela resposta humoral e celular confere aos vertebrados uma proteçªo espe- cífica e de longa duraçªo contra os microrganismos patogŒnicos, porØm nªo Ø de forma alguma adaptado para responder rapidamente e de maneira eficaz a uma invasªo micro- biana local, por ocasiªo de uma le- sªo. Uma das descobertas mais inte- ressantes a esse respeito revelou que, alØm da resposta imune celular alta- mente específica, os vertebrados pos- suem um mecanismo químico de defesa, composto por peptídeos an- timicrobianos, anÆlogo ao encontra- do em invertebrados (Boman, H. G. e Haltmark, D., 1987; Lehrer, R. I., et al., 1991). A maioria dos peptídeos antimi- crobianos descritos atØ o momento tem correspondentes de estrutura idŒntica ou similar nos mamíferos e invertebrados. Sua presença nos ver- tebrados, considerada como efetora ancestral da imunidade, possui muito mais que um significado vestigial. No que diz respeito às vantagens, nªo Ø surpreendente o que esse sistema de defesa química pode conferir ao hospedeiro. De fato, um repertório fixo, porØm extenso, de pequenos peptídeos antimicrobia- nos oferece aos animais superiores um modo de controle particular- mente rÆpido e eficaz contra a pro- liferaçªo microbiana (Nicolas, P. e Delfour, A., 1994). As possibilidades de aplicaçªo dos peptídeos antimicrobianos pela agroindœstria, assim como pela in- dœstria farmacŒutica, sªo inœmeras. Um trabalho sistemÆtico de prospe- çªo dessas molØculas, com identifi- caçªo e síntese química em larga escala, possibilitarÆ, nªo somente um grande avanço na produçªo de novas drogas, melhor conhecimen- to biológico das espØcies doadoras, reconhecimento do valor de cada uma delas, como novas categorias de recursos genØticose, por fim, a necessidade de preservaçªo desses animais. Agradecimentos: Os autores de- sejam agradecer ao Professor Antô- nio Sebben pelas fotos deste artigo, à EMBRAPA-CENARGEN e à Funda- çªo Universidade de Brasília. ReferŒncias BibliogrÆficas AUSTIN, D. J., KRISTINSSON, K. G. e ANDERSON, R. M., (1999). Proc. Natl., Acad. Sci. USA, 96:1152- 1156. BATISTA, C. V. F. (1999) Tese de Doutorado, Universidade de Brasí- lia-DF. BATISTA, C. V. F., SILVA, L. R., SEBBEN, A., SCALONI, A., FERRA- RA, L., PAIVA, G. 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A mudança na radiaçªo líquida mØdia no topo da troposfera, decorrente de uma altera- çªo na radiaçªo solar ou infraverme- lha, Ø designada forçante radiativa. Os principais gases responsÆveis pelo efeito estufa adicional sªo: o dióxido de carbono (CO 2 ), o metano (CH 4 ), o óxido nitroso (N 2 O), clorofluorcarbo- nos (CFCs) e ozônio (O 3 ). Estima-se que, se a taxa atual de aumento desses gases no planeta continuar pelo próxi- mo sØculo, as temperaturas mØdias globais subirªo 0,3oC por dØcada, com uma incerteza de 0,2 oC a 0,5 oC por dØcada (Cotton & Pielke, 1995), de modo que, no ano 2100, o aquecimen- to global estaria compreendido na faixa de 1,0 a 3,5 oC (European Comis- sion, 1997). A Figura 1 mostra a con- tribuiçªo relativa de gases para o au- mento da forçante radiativa global, e a Tabela 1 mostra as atividades princi- pais responsÆveis pelas emissıes, tem- po de permanŒncia e taxa atual de acrØscimo desses gases na atmosfera. A agricultura Ø uma atividade alta- mente dependente de fatores climÆti- cos, como temperatura, pluviosidade, umidade do solo e radiaçªo solar. Os principais efeitos das alteraçıes des- ses fatores na agricultura certamente incidiriam na produtividade e no ma- nejo das culturas, assim como nossistemas sociais, econômicos e de políticas pœblicas. A mudança climÆti- ca pode afetar a produçªo agrícola de vÆrias formas: pela mudança nos fato- res climÆticos, incluídos a freqüŒncia e a severidade de eventos extremos; pelo aumento da produçªo, devido ao efeito fertilizador do carbono por cau- sa da maior concentraçªo de CO 2 atmosfØrico; pela alteraçªo da intensi- dade da colheita, devido a uma mu- dança no nœmero de graus-dia de crescimento, ou devido a modificaçªo da ocorrŒncia e a severidade de pra- gas e doenças (Shaw, 1997), entre outros efeitos. Estudos baseados em modelos de circulaçªo geral (GCM) tŒm mostrado que a produtividade de vÆrias culturas tende a diminuir em algumas regiıes do globo e a aumen- tar em outras, de tal modo que a produçªo em Æreas tropicais e subtro- picais, principalmente na `frica sub- Saara, devido às grandes Æreas de clima Ærido e semi-Ærido e sua depen- dŒncia de agricultura, tende a ser mais afetada em relaçªo às regiıes tempe- radas (Jones et al., 1997, CGIAR, 1998). Ao mesmo tempo em que constitui uma atividade potencialmente influ- enciÆvel pela mudança do clima, a agricultura tambØm contribui para o efeito estufa, com emissıes de gases como o metano (CH 4 ), dióxido de carbono (CO 2 ), monóxido de carbono (CO), óxido nitroso (N 2 O) e óxidos de nitrogŒnio (NO x ). Estimam-se que 20% do incremento anual da forçante radi- ativa global sªo devidos ao setor agrí- cola considerando-se o efeito dos ga- ses metano, óxido nitroso e gÆs carbô- nico (baseado em IPCC, 1996a), ex- cluída a fraçªo correspondente às mudanças do uso da terra relaciona- das com as atividades agrícolas (15%). O metano e o óxido nitroso sªo os principais gases emitidos pelo setor agropecuÆrio, e contribuem com 15% e 6%, respectivamente, para a forçante radiativa global (Cotton & Pielke, 1995). As fontes agrícolas de gases de efeito estufa sªo o cultivo de arroz irrigado por inundaçªo, a pecuÆria, dejetos animais, o uso agrícola dos solos e a queima de resíduos agrícolas. O culti- vo de arroz irrigado por inundaçªo, a pecuÆria domØstica e seus dejetos, assim como a queima de resíduos agrícolas promovem a liberaçªo de metano (CH 4 ) na atmosfera. Estima-se que cerca de 55% das emissıes antró- picas de metano provŒm da agricultu- Figura 1: Contribuiçªo relativa de gases provenientes de atividades antrópicas ao efeito estufa (baseado em Krupa, 1997) 1 Tg = 1012 gramas Fotos cedidas pela autora Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 39 ra e da pecuÆria juntas (IPCC,1995). Os solos agrícolas, pelo uso de fertili- zantes nitrogenados, fixaçªo biológi- ca de nitrogŒnio, adiçªo de dejetos animais, incorporaçªo de resíduos cul- turais, entre outros fatores, sªo res- ponsÆveis por significantes emissıes de óxido nitroso (N 2 O). A queima de resíduos agrícolas nos campos libe- ram, alØm do metano (CH 4 ), tambØm óxido nitroso (N 2 O), óxidos de nitro- gŒnio (NO x ) e monóxido de carbono (CO). Criada em 1992, durante a Confe- rŒncia das Naçıes Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, com a finalidade de proteger o sistema cli- mÆtico global para as presentes e futuras geraçıes, a Convençªo Qua- dro de Mudança do Clima estabeleceu compromissos para os países signatÆ- rios, a fim de que estes se responsabi- lizassem pela elaboraçªo de inventÆri- os periódicos das emissıes antrópicas de gases e pela formulaçªo e imple- mentaçªo de programas nacionais vol- tados para a mitigaçªo da mudança do clima, bem como pela promoçªo e cooperaçªo para o desenvolvimento, aplicaçªo e difusªo de tecnologias, prÆticas e processos de reduçªo ou prevençªo das emissıes de gases de efeito estufa. A seguir, sªo identifica- das algumas opçıes de reduçªo de gases traço potencialmente aplicÆveis ao setor agropecuÆrio brasileiro. Dado que o metano constitui o principal gÆs produzido por atividades agrícolas no país, uma atençªo especial Ø dada neste artigo às opçıes para a sua reduçªo. Opçıes e medidas para a reduçªo das emissıes de gases de efeito estufa Campos inundados de arroz O cultivo de arroz irrigado por inundaçªo (Foto 1) Ø uma importante fonte de emissªo de metano (CH 4 ), contribuindo com 16% das emissıes antrópicas de metano (Figura 2). Es- tima-se em 20 a 100 teragramas1 (mØ- dia de 60 Tg) por ano a taxa de emissªo desse gÆs nos campos de arroz irrigado (IPCC, 1995). O metano Ø produzido nos solos inundados, durante a decomposiçªo anaeróbia de substâncias orgânicas, mediante a açªo de bactØrias (metanogŒnicas). A con- diçªo mais importante para a sua formaçªo Ø de anaerobiose (ausŒncia de oxigŒnio), que ocorre no solos sob inundaçªo. A matØria orgânica rica em carbono presente nesses solos consti- tui o fator mais importante para a produçªo de metano, tendo como origem as raízes mortas de plantas de arroz, as algas e plantas aquÆticas na Ægua de inundaçªo, exudatos de raí- zes (secreçıes) de plantas de arroz, fertilizantes orgânicos adicionados e a matØria orgânica existente no solo. Os materiais mais facilmente degradÆveis (como exudatos de raízes de plantas de arroz, adubo verde) contribuem para taxas mais elevadas de produçªo de metano. AlØm do tipo de substrato orgânico, a composiçªo, a textura e, principalmente, a temperatura dos so- los sªo fatores que influenciam a pro- duçªo de metano nos campos de arroz inundado. O metano produzido nos campos de arroz Ø liberado para a atmosfera por vÆrias rotas, sendo a principal delas por transporte difusivo pelo aerŒnquima (tecido vascular de aeraçªo). Segundo demonstrado por Bont et al. (1978), a presença de plantas de arroz facilita o escape de metano para a atmosfera na ordem de 7 a 10 vezes mais que solos inundados sem cultivo de arroz. A formaçªo de bolhas de gÆs na superfície da Ægua e sua difusªo na Ægua do solo constitu- em outras vias de escape de metano a partir desses sistemas agrícolas. Do total de metano gerado por essa fonte, cerca de 90% sªo atribuí- dos ao continente asiÆtico. No Brasil, Principal fonte antrópica Tempo de vida na atmosfera Taxa anual atual de aumento Contribuiçªo relativa ao efeito estufa antrópico GÆs Carbônico (CO 2 ) Combustíveis fósseis, desflorestam- ento 50-200 anos 0,5% 60% Metano (CH 4 ) Cultivo de arroz inundado, pecuÆria, combustíveis fósseis, queima de biomassa 10 anos 0,9% 15% Óxido Nitroso (N 2 O) Fertilizantes, conversªo do uso da terra 150 anos 0,3% 5% Clorofluor- carbonetos (CFCs) Refrigeradores, aerossóis, processos industriais 60-100 anos 4% 12% Ozônio (O 3 ) Hidrocarbonetos (com NOx), queima de biomassa Semanas a meses 0,5-2,0% 8% Monóxido de Carbono (CO) Combustíveis fósseis, queima de biomassa meses 0,7-1,05 - Vapor d·Ægua (H 2 O) Conversªo de uso da terra, irrigaçªo dias desconhecido desconhecido Tabela 1- Gases traço atmosfØricos significantes para o aumento do efeito estufa (krupa, 1997) 40 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento estima-se uma con- tribuiçªo de 0,3 Tg (Tg = 1012 gramas) de metano proveniente do cultivo de arroz irrigado (Embrapa, 1998). Essa cultura re- presenta cerca de 55% do total de arroz produzido no país, embora este seja ain- da um grande impor- tador de arroz (mais de 1/4 da produçªo nacional). Desde que a produçªo de me- tano ocorre em solos sob condi- çıes de anaerobiose, regimes de inundaçªo intermitentes, condici- onados às precipitaçıes pluvio- mØtricas, ou de mœltipla aeraçªo devem promover reduçªo das emissıes de metano. Outras op- çıes de reduçªo incluem: a) melhoramento vegetal de- senvolvimento de novas cultiva- res, seleçªo e geraçªo de plantas de arroz com baixas taxas de emis- sıes de metano.De acordo com estudos de Minami & Neue (1994), as variaçıes no coeficiente de di- fusªo na transiçªo da raiz para o aerŒnquima parecem desempenhar um importante papel na emissªo de metano entre as variedades de arroz. b) aceleraçªo da decomposi- çªo de metano atravØs da oxida- çªo por breves interrupçıes da inundaçªo. O aumento da drena- gem de Ægua (troca da lâmina dÆgua) e a secagem intermitente do solo ou no fim da esta- çªo de crescimento resul- ta na oxidaçªo do metano retido no solo. Sabe-se, contudo, que ciclos alter- nativos de anaerobiose e aerobiose, que favorecem a reduçªo das emissıes de metano, aumentam a emis- sªo de N 2 O, quando com- parado às condiçıes de anaerobiose ou aerobiose permanentes. c) modificaçªo do ma- nejo de fertilizaçªo, de for- ma que se opte pela adiçªo de material orgânico compostado, onde a matØria orgânica facilmen- te mineralizÆvel encontra-se jÆ de- composta e humificada, fornecendo menos substrato para as bactØrias me- tanogŒnicas. Queima de biomassa na agricultura A combustªo da biomassa de resí- duos de colheita e de culturas agríco- las na prØ-colheita (Foto 2), como prÆtica agrícola, leva à produçªo de metano, óxido nitroso (N 2 O), óxidos de nitrogŒnio (NO x ) e monóxido de carbono (CO), alØm do dióxido de carbono (CO 2 ). O fogo libera carbono da biomassa durante a combustªo e acentua diretamente a liberaçªo de carbono do solo do qual a vegetaçªo foi queimada. No Brasil Ø freqüente a queima de cana-de-açœcar na prØ- colheita (para auxiliar a colheita ma- nual), e, em menor escala, a queima dos resíduos da cultura do algodªo, para contro- le fitossanitÆrio. Embora ocorra liberaçªo de CO 2 durante a queima da cana-de-açœcar, as emis- sıes desse gÆs nªo sªo consideradas como uma emissªo líquida ao longo do tempo por esses siste- mas, pois, no ciclo se- guinte da cultura, o CO 2 emitido Ø reabsorvido (IPCC, 1996b). No Brasil estima-se que a queima de cana-de-açœcar e de resíduos de algodªo herbÆceo, juntos, gerem emis- sıes de 2,8 Tg de CO, 0,1 Tg de CH 4 , 0,006 Tg de N 2 O e 0,2 Tg de NO x (Embrapa, 1999a). As emissıes de gases provenientes da queima de cana- de-açœcar correspondem a 97% des- ses totais. A cultura do algodªo herbÆ- ceo, alØm de apresentar produçıes bem menores (cerca de 1,3 milhıes de toneladas, em 1994, segundo IBGE (1997)), proporcionalmente à cana- de-açœcar (292 milhıes de toneladas), tem empregado cada vez menos a prÆtica de queima dos resíduos após a colheita. Entre as medidas possíveis para reduzir as emissıes de gases provenientes da queima de resíduos agrícolas no Brasil destacam-se: a) corte mecânico da cana-de-açœcar e aproveitamento energØtico da biomas- sa, com consequente diminuiçªo de desperdícios de matØria vegetal e ener- gia; b) a reduçªo de queimadas de culturas e de seus resíduos; c) uso de prÆticas agrícolas de conservaçªo dos solos; d) aplicaçªo e implantaçªo de legislaçªo relacionada com o controle de queimadas nas unidades de federaçªo. PecuÆria Herbívoros ruminantes, como bovinos, ovinos, bu- balinos e caprinos produ- zem metano atravØs da fer- mentaçªo entØrica, um pro- cesso digestivo que ocorre no rœmen. As emissıes glo- bais desse gÆs geradas a partir dos processos entØri- cos sªo estimadas em 80 milhıes de toneladas anuais, correspondendo a cerca de 22% das emissıes totais de metano geradas por fontes antrópicas Figura 3: Principais fontes antrópicas de emissıes de óxido nitroso (N 2 O) para a atmosfera (baseado em IPCC, 1995) Figura 2: Fontes globais de emissªo de metano proveni- ente de atividades antrópicas (baseado em IPCC, 1995) Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 41 (U.S.EPA, 2000) (Figura 2). A produçªo de metano dÆ-se tam- bØm a partir dos dejetos animais, prin- cipalmente quando manipulados na forma líquida, em condiçıes de anae- robiose. As emissıes globais de meta- no provenientes dessa fonte sªo esti- madas em cerca de 25 milhıes de toneladas por ano (IPCC, 1995), cor- respondendo a 7% das emissıes totais de metano. No Brasil, 68% da pecuÆria Ø repre- sentada por bovinos (87% de corte e 13% de leite, aproximadamente), com pouco mais de 163 milhıes de animais em 1998 (IBGE, 2000), sendo conside- rado o maior rebanho bovino do mundo com fins comerciais. Grande parte desses animais Ø do tipo zebuí- no, criados em sistemas predominan- temente extensivos, de baixo investi- mento de capital (Foto 3). O aumento da produçªo animal tem sido devido, em grande parte, ao elevado nœmero de animais e nªo tanto da produtivida- de. A produtividade mØdia anual de leite no país, como exemplo, Ø de pouco mais de 1.000 kg/vaca/ano, para um total de 17 milhıes de vacas ordenhadas, segundo dados do Insti- tuto Brasileiro de Geografia e Estatís- tica - IBGE), e, mesmo assim, a produ- çªo nacional, em 1998, totalizou cerca de 20 bilhıes de litros. Do total das emissıes de metano no Brasil, a pecuÆria, atravØs da fer- mentaçªo entØrica e dos dejetos, con- tribui com cerca de 96% do total, com emissıes estimadas em 9,7 Tg de CH 4 , em 1994 (Embrapa, 1999b). Desse total, a pecuÆria bovina contribui com 96% das emissıes, sendo que as ou- tras categorias de animais (bubalinos, muares, caprinos, asininos, eqüinos, suínos), juntas, sªo responsÆveis pe- los 4% restantes das emissıes de me- tano. As emissıes provenientes de suínos sªo consideradas negligenciÆ- veis (1kg CH 4 /animal/ano). Os fatores de emissªo de metano, que sªo obtidos a partir do consumo de alimento e da taxa de sua conver- sªo em metano, variam em funçªo do sistema de produçªo e das caracterís- ticas dos animais. Para bovinos de leite, por exemplo, os valores mØdios de fatores de emissªo podem variar de 81 a 118 kg de metano/animal/ano na AmØrica do Norte e em países do leste europeu, respectivamente, enquanto, em países africanos e asiÆticos, esti- mam-se emissıes entre 36 a 56 kg de metano/animal/ano (IPCC, 1995). A intensidade da emissªo de meta- no depende do tipo de animal, da quantidade e grau de digestibilidade da massa digerida e do esforço ao qual o animal Ø submetido. Em bovinos, a taxa de conversªo em metano Ø esti- mada, em mØdia, em 6% da energia bruta do alimento ingerido. Desde que a produçªo de metano varia de acordo com a quantidade e qualidade do alimento digerido (U.S.EPA, 1990a,b), as vÆrias modalidades e con- diçıes de sistemas de criaçªo de ani- mais domØsticos implicam fatores di- ferentes de emissªo de metano. As opçıes de reduçªo das emis- sıes de metano na atividade pecuÆria estªo associadas ao aumento da pro- dutividade animal, com o objetivo de se obterem maiores valores de produ- çªo animal por quantidade de metano emitido. Ruminantes manejados extensiva- mente podem ter suas emissıes redu- zidas por meio da melhoria da diges- tªo fermentativa no rœmen, adminis- trando-se dietas a base de urØia e de proteínas e fornecendo nutrientes vi- tais. No Brasil, onde a maior parte das emissıes de metano provŒm de Æreas extensivas de pastagem, a suplemen- taçªo alimentar de gado em pasto com proteínas constitui um fator limitante para significante parte das proprieda- des rurais. Devem ser, pois, investiga- das alternativas alimentares, em fun- çªo dos recursos naturais, condiçıes climÆticas e estrutura sócio-econômi- ca específicas de cada regiªo. O au- mento da produtividade animal por meio de suplementaçªo alimentar, controle de zoonoses, melhoramento genØtico e de taxas de reproduçªo, e outras melhorias, pode contribuir para a estratØgia de reduçªo das emissıes de metano por unidade de produto (Embrapa, 1999d). Com esse intuito, programas governamentais de apoio à produçªo animal, muitos deles atu- almente em fase de implementaçªo, sªo fundamentais para o alcance deste objetivo. Abioengenharia de alimen- tos Ø uma oportunidade a ser explora- da no melhoramento da eficiŒncia dos processos microbianos com vistas à otimizaçªo da digestªo de fibras no rœmen e síntese microbiana. Outras possibilidades incluem o desenvolvi- mento de organismos que oxidam metano ou outros sumidouros de hi- drogŒnio no rœmen, usando engenha- ria genØtica (Embrapa, 1999b). O desenvolvimento de modernas tØcnicas de mediçªo e de monitora- mento das emissıes de gases traço tŒm propiciado a avaliaçªo das emis- sıes de metano em pequenos e gran- des ruminantes, sob diferentes siste- mas de produçªo. Para animais man- tidos em regime de pastagens, desta- ca-se a tØcnica do traçador (interno) hexafluoreto de enxofre (SF 6 ) (John- son & Johnson (1995)). Nessa tØcnica, um dispositivo de permeaçªo, que libera o SF 6 a uma taxa conhecida, Ø colocado no rœmen do animal, de modo que amostras de metano sªo coletadas nas proximidades da boca e do nariz do animal (Foto 4- Foto do Tom Wirth, USEPA). Assume-se nes- se mØtodo que o padrªo de emissªo de SF 6 simule o padrªo de emissªo de CH 4 . As concentraçıes do metano e do traçador sªo entªo determinadas pela cromatografia gasosa ou outro mØtodo de quantificaçªo. A partir da taxa conhecida de liberaçªo do traça- dor no rœmen e das concentraçıes de metano e do traçador nas amostras de gÆs, calcula-se o metano produzido pelo animal (U.S.EPA, 2000). Outros mØtodos de mediçªo empregados sªo: mØtodo de câmara fechada, (para ani- mais confinados), mØtodo de traçador externo e mØtodo micrometeorológi- co. Por meio de estimativas acuradas das taxas de emissªo de metano deri- vada de ruminantes, bem como do seu monitoramento, com base no uso Foto 1: Cultivo de arroz irrigado por inundaçªo fonte antrópica de emissªo de metano para a atmosfera 42 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento de tØcnicas como as acima descritas, Ø possível se estabelecerem diferentes estratØgias de manejo animal voltadas para a reduçªo das emissıes de meta- no por unidade de produto (leite, carne, etc.). Solos Agrícolas Os solos sªo um importante reser- vatório de carbono ativo, orgânico e inorgânico, e desempenham um im- portante papel no ciclo do carbono global. A agricultura tem sido respon- sÆvel por significativas perdas de car- bono pelo solo, atravØs de prÆticas agrícolas de baixa sustentabilidade ambiental. Entre essas prÆticas, citam- se a araçªo excessiva, gradeaçªo e desmatamentos, que expıem os solos a processos de erosªo e compactaçªo e, por conseguinte, à reduçªo dos níveis de matØria orgânica no solo. AlØm disso, fatores como a fertilizaçªo inadequada, a queima de restos cultu- rais e o cultivo intensivo das terras, contribuem para o aumento dessas perdas. Em contraste, prÆticas agríco- las que restauram a capacidade dos solos como reservatório de carbono incluem: reflorestamento, cultivo de culturas perenes (culturas extrativis- tas, como seringueira, cacau, casta- nhas, fruticultura, etc.), uso adequado de fertilizantes químicos e adubos orgânicos, pastagens bem manejadas, agrofloresta e prÆticas de conservaçªo do solo (Embrapa, 1999d). Os reflorestamentos estocam car- bono e, se mantidos intactos ou se seus produtos florestais forem usados em aplicaçıes durÆveis, essa estoca- gem adicional pode ser significativa. A produtividade de florestas de folho- sas, como o eucalipto, no Brasil, Ø uma das mais elevadas do mundo (30m3/ha/ano), contribuindo para a fixaçªo de carbono em cerca de 9 ton C/ha/ano (Sociedade Brasileira de Sil- vicultura, 1999), o que evidencia o potencial do setor para fixar carbono atmosfØrico. Sistemas agroflorestais, mediante a utilizaçªo de prÆticas sus- tentÆveis de manejo de florestas, po- dem tambØm ser uma importante con- tribuiçªo à mitigaçªo do efeito estufa, à medida que sªo evitadas emissıes por atividades mais predatórias (des- matamento e queima de florestas), ficando grande parte do carbono esto- cado no sistema solo-vegetaçªo. A implantaçªo de florestas (reflo- restamentos) ou culturas permanen- tes em Æreas degradadas por ativida- des agrícolas, alØm da recomposiçªo vegetal de Æreas ribeirinhas e de pro- teçªo ambiental (como as de risco de erosªo, montantes de bacias de abas- tecimento, etc.), sªo oportunidades para capturar (ou sequestrar) carbono atmosfØrico, ao mesmo tempo que restauram outras propriedades ambi- entais e influi em indicadores econô- micos. Programas de reflorestamento e recuperaçªo de Æreas de proteçªo ambiental vŒm sendo implementadas mais recentemente, em decorrŒncia do estabelecimento de consórcios de bacias hidrogrÆficas e de outras inici- ativas governamentais e nªo governa- mentais para a restauraçªo de Æreas florestais, em diversos estados brasi- leiros. Os solos agrícolas constituem tam- bØm uma das mais importantes fontes de óxido nitroso (N 2 O) para a atmos- fera, o que se dÆ por meio de adiçıes de fertilizantes nitrogenados sintØti- cos, da deposiçªo de dejetos animais ricos em nitrogŒnio, da fixaçªo bioló- gica de nitrogŒnio aumentada, e do cultivo de solos orgânicos e minerais atravØs da mineralizaçªo da matØria orgânica. As emissıes de N 2 O dos solos ocorrem como conseqüŒncia dos processos microbiológicos de desnitrificaçªo e nitrificaçªo, a partir de nitrogŒnio mineral. A desnitrifica- çªo2 , que Ø o processo mais importan- te nesse caso, consiste na reduçªo microbiana do nitrato (NO 3 -) a formas intermediÆrias de N, e entªo a formas gasosas (NO, N 2 O e N 2 ) liberadas na atmosfera (Embrapa, 1999c). As esti- mativas globais de emissªo de N 2 O indicam uma mØdia de 5,7 Tg N/ano (IPCC, 1995), sendo que os solos cul- tivados e os dejetos da pecuÆria con- tribuem com quase 70% do total das fontes (Figura 3). No Brasil, os dejetos animais depositados nos solos consti- tuem uma das principais fontes de emissªo de óxido nitroso (0,1 Tg N/ ano). Algumas das medidas de redu- çªo das emissıes de óxido nitroso sªo: o uso eficiente de fertilizantes sintØticos, o tratamento de dejetos animais, manejo de nutrientes do solo, uso de inibidores de nitrificaçªo, inte- graçªo da agricultura e pecuÆria. O setor agropecuÆrio pode contri- buir para a mitigaçªo da mudança do clima pela aplicaçªo de diferentes prÆticas de reduçªo das emissıes de gases de efeito e pela proteçªo e expansªo de sumidouros e reservató- rios de carbono. Os principais desafi- os para o alcance desse objetivo resi- dem: a) na identificaçªo de sinergias entre os objetivos de aumento de produtividade e o equilíbrio climÆtico global; b) na produçªo de alimentos limpos e seguros para o consumo humano, com menor impacto ambi- ental; c) na adoçªo de boas prÆticas em sistemas agrícolas; d) no fomento ao desenvolvimento de pesquisa bÆsi- ca para compreender os processos, prÆticas e tØcnicas que influenciam as emissıes de gases nos diferentes agros- sistemas, desde que uma produtivida- de agrícola maior possa ser obtida com o conhecimento e uso de melho- res tØcnicas. Entre as açıes e estratØgias possí- veis de ser empregadas como contri- buiçªo à reduçªo de gases de efeito estufa, destacam-se: a) recuperar Ære- as degradadas, com o objetivo adicio- nal de fixar carbono atmosfØrico; b) adotar política agrícola orientada para a conversªo de terras degradadas ou Foto 2: Queima de cana-de- açucar prÆtica geradora de gases de efeito estufa, como monóxido de carbono (CO), metano (CH4), óxido nitroso (N2O) e óxidos de nitrogŒnio (NOx). Foto: Humberto Rocha 2 Desnitrificaçªo : NO 3 - => NO 2 => 2NO => N 2 O => N2 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 43 abandonadas para uso florestal e re- generaçªo de florestas, assim como para propiciar meios e recursos para a adoçªo de boas prÆticas agropecuÆri- as e tecnologias; c)incentivar ativida- des agroflorestais sustentÆveis, como alternativa de exploraçªo de floresta de forma nªo predatória e que, ao mesmo tempo, favoreçam o estoque de carbono nos solos e na vegetaçªo; d) desenvolver tecnologias que inte- grem objetivos de produtividade e reduçªo das emissıes de gases; e) fomentar o desenvolvimento de pes- quisa para a compreensªo dos proces- sos que influenciam o fluxo de gases entre sistemas agropecuÆrios e a at- mosfera; f) promover a melhoria de informaçªo tØcnica, social e econômi- ca, que subsidiem o delineamento das características dos sistemas de produ- çªo agrícola e animal geradores de gases traço, permitindo açıes de mo- nitoramento. 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Foto 3: Gado de corte em sistema de produçªo extensivo 44 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento TØcnicas Moleculares em SEMENTES PESQUISA Aplicaçªo de tØcnicas moleculares no controle de qualidade das sementes Fotos cedidas pelas autoras Maria Laene Moreira de Carvalho PhD, Prof. Adjunta IV do Depto. de Agricultura-UFLA Maria das Graças Guimarªes Carvalho Vieira Prof. Titular do Depto. de Agricultura-UFLA Édila de Resende Von Pinho Prof. Adjunto do Depto de Agricultura-UFLA Universidade Federal de Lavras /UFLA/DAG email: sementes@ufla.br termo qualidade das se- mentes envolve aspec- tos genØticos, físicos, fisi- ológicos e sanitÆrios que, avaliados de maneira in- tegrada, propiciam o conheci- mento do valor real e do poten- cial de utilizaçªo de um lote de sementes. A pesquisa na Ærea de biologia molecular associada ao controle de qualidade de se- mentes tem evoluído rapidamen- te e novas tØcnicas tŒm-se mos- trado œteis na obtençªo de clas- ses distintas de marcadores mo- leculares que auxiliam na eluci- daçªo dos fatores que afetam a qualidade, na manipulaçªo e identificaçªo do material genØti- co, assim como na preservaçªo desses materiais. Tais tØcnicas permi- tem o monitoramento durante todo o processo produtivo, eliminando custos e garantindo a qualidade. Marcadores moleculares na determinaçªo da qualidade genØtica de sementes O registro de diferentes cultivares e os problemas que envolvem a comer- cializaçªo nacional e internacional de sementes fazem com que a habilidade de distinguir e de identificar cultivares se torne um ponto crucial para o mo- nitoramento e controle desse comØr- cio. No Brasil, pela lei de no 9.456, de 1997, foi instituída a proteçªo de culti- vares, que reconhece a propriedade intelectual e os direitos ao titular de materiais genØticos protegidos. Nessa lei, a caracterizaçªo de forma precisa da cultivar Ø um dos pontos essenciais para garantir o direito de propriedade intelectual. Para ser submetida à prote- çªo, a nova cultivar, ou a cultivar essencialmente derivada, deve se apre- sentar distinta de outra, utilizando-se para isto descritores homogŒneos quan- to às suas características em cada estÆ- dio de desenvolvimento e estÆveis quanto à repetiçªo dessas característi- cas ao longo de geraçıes sucessivas. Atualmente, para submeter uma culti- var à proteçªo, sªo usados marcadores morfológicos, que apresentam uma sØrie de inconvenientes, como a neces- sidade de um grande nœmero desses descritores, que, na sua maioria, serªo identificados em nível de planta inteira ou adulta; comoa necessidade de amplo espaço físico para a avaliaçªo do material; alØm de possíveis influŒn- cias do ambiente no qual estªo inseri- dos. Comparados aos morfoló- gicos, os marcadores molecula- res se mostram mais versÆteis, rÆpidos e seguros. Os princi- pais marcadores moleculares utilizados para a identificaçªo de cultivares e da pureza genØ- tica envolvem a anÆlise de pro- teínas e de DNA. A utilizaçªo da eletroforese de proteínas em identificaçªo de cultivares se baseia no fato de estas serem produtos dos genes e, portanto, poderem ser consideradas como marcado- res para os genes que as codi- ficam. Na maioria das espØcies, prote- ínas de armazenamento de sementes exibem considerÆvel polimorfismo com relaçªo à carga, tamanho, ou ambos os parâmetros. AlØm do mais, elas sªo codificadas em vÆrios lócus, estªo pre- sentes comparativamente em grandes quantidades e sªo prontamente extraí- veis. No caso de espØcies autógamas, pode ocorrer uma base genØtica estrei- ta, dificultando a certificaçªo da pureza genØtica pelo uso dessa tØcnica. Nas espØcies alógamas, as populaçıes de indivíduos expressam uma ampla vari- edade de caracteres fenotípicos. Estes indivíduos podem ser geneticamente distintos, contendo diferentes combi- naçıes de lócus em homozigose e heterozigose, incluídos aqueles que codificam para proteínas de armazena- mento e isoenzimas. Neste caso, Ø indicada a anÆlise em bulk, para que se tenha todo o genoma da populaçªo representado. FIGURA 1. Diferenciaçªo de cultivares de cafeeiro por RAPD, utilizando o primer OP- I20. UFLA- Lavras, MG. 2000. Acima de cada linha encontra- se a denominaçªo das cultiva- res. (Gentilmente cedido por Padilha, L., aluna do curso de Doutorado em Fitotecnia/ Sementes da UFLA) Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 45 As isoenzimas, por sua vez, devem ser usadas com muito critØrio para este fim, pois determinados sistemas enzi- mÆticos podem apresentar variaçıes em funçªo do estÆdio de deterioraçªo em que as sementes se encontram ou quando estªo presentes microrganis- mos em associaçªo com as sementes. Existem diversas tecnologias base- adas no polimorfismo do DNA utiliza- das para identificaçªo de cultivares e determinaçªo da pureza genØtica em lotes de sementes. A principal vanta- gem do uso de DNA Ø que eles nªo sªo afetados pelo ambiente, permitindo uma anÆlise mais objetiva e precisa. Entre as tØcnicas utilizadas, destacam- se: RFLP (fragmentos de restriçªo de segmentos polimórficos) RAPD (poli- morfismo do DNA amplificado ao aca- so); os microsatØlites ou SSRs (sequŒn- cia simples repetida) e o AFLP (frag- mentos de comprimento polimórfico amplificado). A tØcnica de RFLP propicia alto nível de discriminaçªo entre indivídu- os, alta reprodutibilidade e tem apre- sentado resultados positivos quando utilizado na identificaçªo de cultivares de milho e soja. No entanto, para espØcies como tomate e trigo, alguns autores tŒm revelado que essa tØcnica nªo detecta muita variaçªo, o que pode inviabilizar sua utilizaçªo na identifica- çªo e certificaçªo da pureza genØtica dessas espØcies. A des- peito dessas vantagens, a anÆlise de RFLP Ø lenta, requer grande quantida- de de material da planta, exige trabalho intensivo, muito espaço em labora- tório e apresenta custo elevado, o que restringe seu uso em programas de controle de qualidade para certificaçªo da pureza genØtica. MØtodos baseados em PCR (reaçªo em cadeia da polimerase) tais como RAPD, AFLP e SSR ou microsatØlites tŒm sido preferencialmente utilizados para anÆlise da pureza genØtica e uma vez que pequenas quantidades de DNA sªo requeridas, os perfis podem ser obtidos mais rapidamente do que com RFLPs. Desses mØtodos, o RAPD Ø o menos aceito, devido ao baixo grau relativo de complementaridade entre o primer e a seqüŒncia de DNA alvo, o que torna o teste de difícil padroniza- çªo. O baixo anelamento relativo do primer tambØm resulta em falhas na amplificaçªo de algumas bandas pa- rentais do híbrido em F1. Sobretudo falhas na reprodutibilidade de resulta- dos comprometem grandemente a pre- cisªo e a praticidade do uso de RAPDs para anÆlise de pureza genØtica, fazen- do com que este mØtodo seja utilizado com grande cuidado. No entanto, o RAPD tem sido bastante usado em etapas iniciais de diferenciaçªo (Fig1); após a detecçªo de polimorfismo, os produtos RAPD sªo clonados e se- qüenciados, redesenhando primers PCR, mais longos e entªo convertendo esses marcadores ao acaso para regi- ıes amplificadas caracterizadas por se- qüŒncia (marcadores SCARs). Nesse caso, a amplificaçªo da seqüŒncia es- pecífica do DNA ocorre em temperatu- ras de pareamento mais elevadas, o que torna o processo mais reproduzí- vel. A tecnologia AFLP combina, em parte, as tØcnicas RFLP e RAPD. Nesta tØcnica, o DNA Ø clivado com enzimas de restriçªo, e os fragmentos obtidos sªo amplificados por PCR a partir de primers complementares aos adapta- dores que foram previamente ligados às extremidades dos fragmentos. Des- sa forma, a maioria das dificuldades apresentadas em RAPD Ø resolvida, pelo uso de condiçıes de alta adstrin- gŒncia para o anelamento do primer PCR. Ressalta-se no entanto, que tanto RAPD quanto AFLP sªo marcadores dominantes, o que torna sua utilizaçªo um problema prÆtico para anÆlise de pureza genØtica, uma vez que os hete- rozigotos podem nªo ser detectÆveis. Um exemplo de utilizaçªo da tØcnica de AFLP para diferenciaçªo de cultiva- res de algodoeiro pode ser visualizado na Fig. 2. Simples SeqüŒncias Repetidas (SSRs) ou microsatØlites consis- tem de pequenas seqüŒn- cias , com 1 a 4 nucleo- tídeos de comprimento, repetidas ao longo do genoma, podendo ocor- rer tanto em regiıes co- dificadoras quanto em re- giıes nªo codificadoras. Devido a erros (inser- çıes/deleçıes) durante o processo de replicaçªo do DNA, que normalmente ocorrem com mais freqüencia nessas regiıes repetidas do genoma, os microsatØlites sªo normalmente polimorfos. As regi- ıes com seqüŒncias simples repetidas sªo amplificadas individualmente atra- vØs de PCR, pela utilizaçªo de um par de primers específicos que sªo com- plementares às sequŒncias œnicas que flanqueiam os microsatØlites. Essas re- giıes do genoma que contŒm a se- qüŒncia repetida devem ser inicial- mente identificadas, isoladas e seqüen- ciadas, o que demanda tempo e eleva FIGURA 2. Diferenciaçªo de cultivares de algodoeiro por AFLP. UFLA Lavras/MG, 2000. As setas indicam distinçªo das cultivares colorida e precoce, das demais.(Gentilmente cedida por Mann,R.S., aluna do curso de Doutorado Fitotecnia / Sementes / UFLA) FIGURA 3. Padrıes de microssatØlites de linhagens e híbrido de milho pelo primer bnlg2291 em folhas e sementes (5 repetiçıes). UFLA, Lavras, MG. 2000. (Gentilmente cedida por Salgado, K.C.C., aluna do curso de mestrado em Fitotecnia/Sementes/UFLA.) 46 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento o custo operacional. Ao contrÆrio do RAPD e AFLP, lócus SSR sªo codomi- nantes, multialØlicos, ou seja, todos os alelos de um determinado lócus po- dem ser detectados e discrimina- dos, alØm de serem somaticamen- te estÆveis. Apesar da tecnologia SSR ser onerosa em sua implemen- taçªo, hÆ de se ressaltar que, no caso de plantas, estªo à disposi- çªo, no mercado, pares de pri- mers para diversas espØcies de interesse econômico, o que viabi- liza o seu uso na identificaçªo e anÆlise de pureza genØtica. Marca- dores SSRs tambØm tŒm sido utili- zados para detectar a contamina- çªo genØtica em campos de produçªo de sementes (Fig 3). Apesar da recomendaçªo do uso de marcadores bioquímicos pela Interna- tional Seed Testing Association (ISTA) e pela Assocation of Official Seed Analysts (AOSA) e da gama de tØcnicas disponíveis, a escolha do mØtodo mo- lecular a ser utilizado vai depender da estrutura genØticade cada espØcie, do seu modo de reproduçªo, do tamanho do seu genoma e, sem dœvida, da relaçªo custo/benefício. HÆ de se res- saltar ainda a necessidade de investi- mentos nestas tecnologias, de forma que sejam adaptadas e postas à dispo- siçªo para uso em anÆlises rotineiras de laboratório. Marcadores moleculares na determinaçªo da qualidade fisiológica de sementes TŒm sido desenvolvidas pesqui- sas para detectar as diversas reaçıes metabólicas que envolvem síntese e degradaçªo de molØculas durante o desenvolvimento, a germinaçªo e a deterioraçªo de sementes. No processo de morfogŒnese tem sido utilizado marcadores moleculares, como a β-tubulina, com a finalidade de acompanhar as seqüŒncias de proces- sos que ocorrem durante a divisªo celular. A atividade da β-tubulina pode ser detectada pelas tØcnicas de imuno- detecçªo ( Fig 4). Esse tipo de anÆlise tem grande aplicaçªo em pesquisas relacionadas com envigoramento de sementes e em estudos de tolerância a dessecaçªo. Durante a fase de maturaçªo das sementes, a anÆlise do acœmulo de materiais de reserva por meio de mar- cadores moleculares pode fornecer in- dícios da qualidade das sementes. Pro- teínas termoestÆveis como as LEA pro- teinas (Late Embriogenise Abundant) tŒm sido utilizadas como um dos indi- cativos de tolerância à dessecaçªo, e a atividade da enzima α-amilase, como marcador relacionado com a tolerância à secagem de sementes de milho. Isoenzimas tambØm podem ser utili- zadas como marcadores de dormŒncia, germinaçªo e deterioraçªo. A enzima α-amilase tem se apresentado eficiente para monitorar a intensidade de dor- mŒncia de sementes de arroz ao longo do armazenamento (Fig 5), e a endo-β- mananase, como marcador no proces- so de germinaçªo. A perda da viabilidade das sementes no processo de deterioraçªo Ø precedi- da por reduçªo na capacidade de sinte- tizar proteínas, devido ao declínio de componentes como ribossomos, RNA mensageiro e alteraçıes em nível de transcriçªo e traduçªo, com o envelhecimento das sementes. A integridade e o metabolismo celu- lar dependem da grande variedade de enzimas e proteínas estruturais de cada espØcie. Desta forma, os testes mais sensíveis para determinar o estÆdio de deterioraçªo sªo aqueles que medem a atividade de certas enzimas associadas com a quebra das reservas ou com a biossíntese de tecidos novos. As proteínas de armaze- namento tambØm podem sofrer mudan- ças resultantes de quebras parciais ou de degradaçªo para subunidades. A atividade específica de enzimas e a integridade das proteínas de armaze- namento tŒm sido determinada por meio de tØcnicas de eletroforese e usadas como marcadores do processo de dete- rioraçªo das sementes. As enzimas mais pesquisadas nesse sentido sªo aquelas que atuam no processo de respiraçªo, a exemplo da malato desidrogenase, ou aquelas envolvidas no metabolismo de ligaçªo nitrogŒnio-carbono, (fundamen- tal no processo de germinaçªo de se- mentes), como a glutamato desidro- genase ou ainda aquelas que possu- em funçıes específicas no metabolis- mo dos lipídeos, como Ø o caso das esterases. Ainda tem sido considera- do o estudo da atividade de enzimas removedoras de peróxidos como as peroxidases, catalases, peroxido dis- mutase, entre outras, e enzimas liga- das à destruturaçªo do sistema de membranas, a exemplo da esterase, fosfatase Æcida e alcalina (Fig 6). JÆ as proteínas de armazenamento tŒm sido utilizadas para detecçªo de estÆgios mais avançados de deterioraçªo. No intuito de melhorar o desempe- nho de sementes com determinados níveis de deterioraçªo, tem-se trabalha- do por meio da restriçªo hídrica (pri- ming). Para o monitoramento desta tØc- nica, a eletroforese de isoenzimas espe- cíficas (Fig 7) vem sendo recomendada. Muitas vezes podem ocorrer manifesta- çıes bioquímicas indesejÆveis em fun- çªo do mØtodo de condicionamento empregado, o que pode ser detectado pelos perfis eletroforØticos de enzimas envolvidas na rota anaeróbica, a exem- FIGURA 4. Acumulaçªo de β tubulina em embriıes de sementes de tomate durante a germinaçªo. (Gentilmente cedido por Delmondez, R., bolsista recØm-Doutor em Fitotecnia/ Sementes da UFLA) Figura 5. Perfis eletroforØticos de atividade enzimÆtica da α-amilase, em sementes de arroz recØm- germinadas, antes e após o armazenamento. UFLA, Lavras- MG, 2000. (Gentilmente cedido por Vieira, A.R. Doutor em Fitotecnia/ Sementes da UFLA) Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 47 plo da Ælcool desidrogena- se. Em œltima anÆlise, fica evidenciado que o uso de marcadores moleculares para avaliaçªo da qualida- de fisiológica das semen- tes, apesar de jÆ ter tido um avanço expressivo, ainda requer muitas pesquisas, antes de que seja estabelecido como ferramenta decisiva em programas de controle de qualidade. Marcadores moleculares na determinaçªo da qualidade sanitÆria Os mØtodos tradicionais para iden- tificaçªo de fungos envolvem estudos de sua morfologia na planta infectada e nos meios de cultura. Esses mØtodos sªo geralmente demorados e podem ser pouco conclusivos ou levar a erros de interpretaçªo. TØcnicas moleculares, baseadas na imunologia e anÆlises de Æcidos nuclØi- cos tŒm sido aplicadas em diversas Æreas da micologia, o que tem gerado grandes perspectivas para o desenvol- vimento de mØtodos rÆpidos, sensíveis e específicos no diagnóstico de pató- genos de plantas, comumente transmi- tidos por sementes. Por um grande período de tempo, as isoenzimas e proteínas foram os marcadores mole- culares mais escolhidos. Recentemen- te, com o advento cada vez mais rÆpido do conhecimento em ciŒncias, outras tØcnicas baseadas em molØculas de DNA e RNA foram disponibilizadas. RFLP foi a principal tØcnica mole- cular utilizada para identificaçªo de isolados fœngicos antes da reaçªo de polimerase em cadeia, no entanto, apresenta algumas desvantagens, como requerer grande quantidade de DNA para visualizaçªo em autoradiografia, DNA de alta qualidade, intacto e sem inibidores de enzimas de restriçªo. Marcadores moleculares baseados em microssatØlites podem ser obtidos para a discriminaçªo de tÆxons. Este mØtodo jÆ foi testado em fungos, de- tectando polimorfismo inter e intraes- pecíficos nos patógenos. Apesar da utilizaçªo desta tØcnica ter auxiliado na identificaçªo e caracterizaçªo de fun- gos, ela apresenta a desvantagem de necessitar do conhecimento prØvio das seqüŒncias do organismo a ser estuda- do, para a construçªo dos primers. O RAPD tem-se apresentado como um mØtodo viÆvel, e tem detec- tado variaçıes em muitos organismos (Fig 8). Apesar de seu problema de repetiçªo, existe a possibilidade de, aliado a este, usar-se SCARs, onde fragmentos sªo seqüenciados e pri- mers maiores construídos. Esses pri- mers sªo mais longos e específicos para um lócus, o que possibilita a sua utilizaçªo por diferentes laboratórios. Outro mØtodo que pode ser utiliza- do e que tem algumas vantagens sobre o RAPD, Ø o AFLP. Uma vantagem significante do AFLP sobre o RAPD Ø que muitos fragmentos sªo gerados e, conseqüentemente, mais ban- das podem ser detectadas com uma simples amplificaçªo. Para algumas espØcies de fungos, tem-se ainda utilizado outros recursos, como a anÆlise de DNA mitocondrial o que tem permitido a identificaçªo entre isolados, apesar de em alguns casos apenas possibili- tar diferenciaçªo entre espØcies. A anÆlise da regiªo ITS (Internal Transcribed Spacers) Ø indicada para a identificaçªo de espØcies de microrga- nismos, inclusive nos casos em que a taxonomia Ø controvertida, pois esta regiªo Ø pouco variÆvel em estudos intra-específicos, e apresenta variabili- dade em torno de 0-2%. A escolha das melhores tØcnicas para avaliaçªo da qualidade genØtica, fisiológica ou sanitÆria de lotes de se- mentes, depende de vÆrios fatores, in- cluídasa finalidade da anÆlise, as carac- terísticas das espØcies e a relaçªo custo/ benefício. O desenvolvimento de tØcni- cas moleculares tem evoluído de modo extremamente rÆpido, possibilitando maior segurança e confiabilidade dos resultados na avaliaçªo e no controle da qualidade de sementes. FIGURA 6. Padrıes enzimÆticos da fosfatase Æcida de Aspergillus glaucus, Aspergillus flavus e de sementes de algodoeiro inocula- das e nªo inoculadas com ambos os fungos separadamente e submetidos a envelhecimento artificial. UFLA Lavras MG, 1995 FIGURA 7. Padrıes isoenzimÆti- cos de sementes de cafeeiro submetidas a diferentes potenci- ais hídricos nos tempos de 3 e 6 dias, reveladas para Ælcool desidrogenase (ADH). UFLA, Lavras - MG, 1998. (Gentilmente cedido por Camargo, R., aluno de doutorado em Fitotecnia/ Semen- tes da UFLA) FIGURA 8. Padrıes de ampli- ficaçıes obtidos com DNA extraído de 3 isolados de C. gossypii e 1 isolado de C. gossypii var. cephalosporioides. Nas linhas, a seqüŒncia dos isolados 1, 2 e 3 (C. gossypii) e do isolado 4 (C. gossypii var. cephalosporioides), 1o grupo de 4 foram amplificados pelo primer A 4 e o 2o grupo, pelo primer A 7 . UFLA MG 1998 48 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento to, fatores relacionados com a disse- minaçªo da doença, freqüentemen- te associados à pobreza, mudaram o quadro de euforia para um cenÆrio de recrudescimento do flagelo. Tal situaçªo agrava-se com o apareci- mento de bacilos resistentes às dro- gas habituais, fruto, na maioria das vezes, de tratamentos irregulares, com grandes percentuais de aban- dono. O problema pode ser reversí- vel desde que sejam tomadas medi- das urgentes e inovadoras em vÆrias frentes. O CPT, dando sua parcela de contribuiçªo para a soluçªo des- ses problemas, desenvolveu tecno- logias avançadas para testes prØ- clínicos de novos medicamentos an- timicobacterianos e coloca à dispo- siçªo das Universidades, Institutos de Pesquisas e Empresas FarmacŒu- ticas a possibilidade de testar produ- tos obtidos por cada uma dessas Instituiçıes. A TB um problema secular às portas do terceiro milŒnio Na sua marcha desafiadora a TB atingiu em âmbito mundial, e nos tempos atuais, 10 milhıes de casos novos, com 3 milhıes de mortes por ano, representando 18,5% de todas as mortes em adultos entre 15-59 anos - a fase mais produtiva da populaçªo mundial. Cerca de meta- de dos doentes nunca tiveram trata- mento. Segundo a OMS, 32% da populaçªo mundial estÆ infectada com o bacilo da TB e, portanto, com maior risco de adoecer por reativa- çªo e, tambØm, por infecçªo exóge- na. Entre 1850 e 1950, um bilhªo de pessoas morreram de TB. Na dØcada passada, 300 milhıes de pessoas foram infectadas, 90 milhıes de no- vos casos da doença apareceram e 30 milhıes de pessoas morreram. Morreram mais pessoas de TB em 1996 do que em qualquer ano da história. As perspectivas para elimi- nar o bacilo da tuberculose do gran- de nœmero de indivíduos infectados um terço da populaçªo mundial, sªo baixas. O bacilo se aloja com maior freqüŒncia no pulmªo, por tempo indefinido, mas pode infectar outros órgªos, permanecendo con- tido pelas cØlulas de defesa do orga- nismo. Em decorrŒncia da diminui- çªo da resistŒncia orgânica (desnu- triçªo, subnutriçªo, estresse ou asso- ciaçªo de outras doenças), o bacilo tende a se reproduzir intensamente e pode levar o indivíduo à morte, caso nªo seja tratado devidamente. A primeira droga contra a TB, a estreptomicina, foi descoberta em 1946. Na dØcada de 50, outras dro- gas foram pesquisadas e surgiram as primeiras associaçıes medicamen- tosas. Naquela Øpoca, acreditava-se que a erradicaçªo da doença estaria próxima. Contudo, uma sØrie de fatores estÆ contribuindo para a dis- seminaçªo da TB, entre os quais podemos destacar: a pobreza, o uso incorreto da terapŒutica; o abando- no do tratamento; a alta capacidade infectante desses agentes; as via- gens migratórias constantes; a ocor- rŒncia de grandes aglomerados po- pulacionais e a co-infecçªo pelo HIV. Como o tratamento da doença Ø feito exclusivamente por medica- mentos, e os que estªo atualmente em uso, alØm de causarem graves efeitos colaterais, estªo sendo inefi- 48 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento O Centro de Pesquisas em Tu- berculose (CPT) da Faculdade de Medicina de Ribeirªo Preto USP anuncia a sua disponibilidade de realizar ensaios prØ-clínicos de no- vos medicamentos contra o bacilo da tuberculose (TB). Todos os con- tatos devem ser feitos com a Dra. Ana Olívia de Souza (e-mail: olivia@rpm.fmrp.usp.br) ou com o Dr. CØlio Lopes Silva (e-mail clsilva@fmrp.usp.br) Desde que o alemªo Robert Koch anunciou a descoberta do bacilo da TB, em 1882, a prevençªo e o trata- mento da doença desafiam cientis- tas em todo o mundo. E pela dimen- sªo que essa doença infecto-conta- giosa tem alcançado na atualidade - 2 bilhıes de pessoas infectadas e 3 milhıes de mortes anuais - tornou particularmente importante o de- senvolvimento de um novo medica- mento para o tratamento dessa en- fermidade, por uma equipe de pes- quisadores do CPT - USP, coordena- da pelo professor CØlio Lopes Silva e pela Dra. Ana Olívia de Souza. Segundo a Organizaçªo Mundial de Saœde, a TB Ø um flagelo milenar. No passado, a doença foi disseminada pelos fluxos migratórios e em decor- rŒncia das guerras e da colonizaçªo das novas terras descobertas a partir do sØculo XV. Antes dos antibióti- cos, o tratamento da TB era precÆrio, com elevada taxa de mortes dos indivíduos afetados. O advento da quimioterapia, baseada nos antibió- ticos, com índice esperado de cura de atØ 95% dos casos, deu origem à euforia pela possível erradicaçªo de- finitiva da peste branca. No entan- Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 49 cientes contra cepas resis- tentes, Ø indispensÆvel que se desenvolvam novos me- dicamentos, novos fÆrma- cos ou novas formulaçıes farmacŒuticas para o combate à TB. Informaçıes sobre as atividades do CPT AlØm do desenvolvimen- to da terapia gŒnica, que Ø usada, tanto para a pre- vençªo como para o trata- mento da TB jÆ instalada, o CPT estÆ envolvido com a realizaçªo de ensaios de susceptibilidade de mico- bactØrias a produtos sintØ- ticos e a extratos e/ou fraçıes purificadas de plantas, fungos, bactØrias do solo etc., abrangendo todas as etapas na fase prØ-clínica da tria- gem de uma droga candidata a medicamento anti-TB. As tØcnicas aplicadas nos ensaios seguem os padrıes adotados internacional- mente assim como os padrıes do Centro de Controle e Prevençªo de Doenças (CDC/EUA). A triagem prØ-clínica Ø constituída de 4 eta- pas. Na primeira etapa determina- se a concentraçªo inibitória míni- ma contra o bacilo utilizando o sistema automatizado MB/Bact ou a microdiluiçªo em placa. Nesses testes, cepas de Mycobacterium sp sªo submetidas diretamente em contato com a açªo da droga em teste. As drogas que atingem 90% de inibiçªo do crescimento mico- bacteriano passam para a segunda etapa dos testes. Na segunda eta- pa, os ensaios sªo repetidos para confirmar a concentraçªo que ini- be 99% do crescimento micobacte- riano. Outro fator de extrema im- portância e tambØm considerado em nossos ensaios Ø a determina- çªo da toxicidade de um compos- to. Para essa finalidade, vÆrias li- nhagens de cØlulas sªo utilizadas nos ensaios para determinaçªo con- centraçªo da droga que inibe 50% da proliferaçªo celular e verificadas tam- bØm a açªo das drogas sobre orga- nelas celulares como lisossomas e mitocôndrias. Com os resultados ob- tidos nessa etapa, calcula-se o índice de seletividade da droga utilizando- se os parâmetros acima avaliados. Como requisito para a droga ser submetida aos testes da terceira eta- pa, esse índice deve ser igual ou superior a 10. As drogas seleciona- das para a terceira etapa sªoavalia- das sobre as micobactØrias localiza- das dentro dos macrófagos as cØlulas que albergam o bacilo da TB na infecçªo e na doença. Essa etapa Ø crítica e de grande importância, uma vez que, para a droga ser efetiva, ela deve permear a membra- na celular e atingir o interior do macrófago onde a micobactØria estÆ presente. A droga ainda deve resistir às condiçıes do meio intracelular para combater os bacilos. Muitas drogas sªo inefetivas porque nªo atingem o interior do macrófago ou porque, de alguma forma, sªo de- gradadas no citoplasma celular. Após 15 dias do início dos testes, determi- na-se o nœmero de bactØrias que sobreviveram, a concentraçªo bac- tericida mínima, a capacidade da droga em retardar o início do cresci- mento micobacteriano após a remo- çªo da droga, e a dose efetiva para a reduçªo de 50% do crescimento micobacteriano intracelular. As dro- gas com atividade dentro dos pa- drıes estabelecidos pelo CPT, avali- adas frente a vÆrias cepas isoladas de pacientes portadores de TB, e resis- tentes a uma das drogas utilizadas na quimioterapia da TB, passarªo para a quarta etapa. Na quarta etapa, os testes sªo realizados em animais de experimentaçªo como camundon- gos, cobaias e macacos. Eles sªo experimentalmente infectados com bacilos da TB e tratados com as drogas em teste. Durante o trata- mento, monitora-se o nœmero de bacilos presentes em órgªos como o baço e o pulmªo. Os dados obtidos na quarta etapa indicam se uma droga apresenta potencial terapŒuti- co para a quimioterapia da TB e a viabilidade de continuidade dos ensaios na fase clínica. Dr. CØlio Lopes Silva clsilva@fmrp.usp.br Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 49 50 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento Desvendando o Código GenØtico PESQUISA Um quebra-cabeça que começa a ser montado Newton Portilho Carneiro Ph.D. Biologia Molecular newtonc@cnpms.embrapa.br Embrapa Milho e Sorgo - Sete Lagoas, MG AndrØa Almeida Carneiro Ph.D. Biologia Molecular andreac@cnpms.embrapa.br Embrapa Milho e Sorgo - Sete Lagoas, MG ClÆudia Teixeira Guimarªes D.S. Biologia Molecular claudia@cnpms.embrapa.br Embrapa Milho e Sorgo - Sete Lagoas, MG Edilson Paiva Ph.D. Biologia Molecular edilson@cnpms.embrapa.br Embrapa Milho e Sorgo - Sete Lagoas, MG Os genes sªo as unidades biológicas responsÆveis em determi- nar as características de um organismo. Apesar de atualmente conhecer- mos como as informaçıes contidas nos genes sªo codificadas em proteínas, muitas dessas proteínas / genes nªo possuem uma funçªo conhecida. Como descobrir a(s) funçªo(ıes) de uma proteína codificada por um determinado gene? Proteínas podem ter funçıes enzimÆticas, estruturais ou de reserva, a que iremos nos referir nesta discussªo, como funçıes bioquímicas. Contudo, funçıes bioquímicas estªo encaixadas em um contexto mais amplo, como por exemplo: proteínas participam de processos de regulaçªo celular, de defesa, de tolerância a estresses, etc, os quais serªo referidos neste texto como funçªo biológica de uma proteína. Este artigo tem por objetivo descrever alguns dos mecanismos utilizados para o estudo da funçªo bioquímica e biológica de proteínas codificadas por um gene ou em grande escala, por grupos de genes. Seqüenciamento de Genes Projetos Genomas Existem basicamente dois tipos de projetos genoma. Um chamado estru- tural que Ø o seqüenciamento total do genoma, e outro funcional, que se baseia no seqüencimento apenas dos genes expressos. A estratØgia mais utilizada para genomas estruturais Ø a chamada shotgun, que Ø uma se- qüŒncia em grande escala de subclo- nes de fragmentos de DNA jÆ mapea- dos. Estudos estruturais de genomas estruturais tŒm a principal vantagem de combinarem o seqüenciamento e o mapeamento físico dos genes, mas a desvantagem de um elevado custo. Considerando esse aspecto, estÆ sen- do feito o seqüenciamento total do genoma, apenas de organismos com genomas pequenos ou daqueles que jÆ tŒm grande financiamento. Por ou- tro lado, o genoma funcional Ø base- ado apenas no seqüenciamento dos genes expressos e tem a vantagem de poder caracterizar a expressªo tem- poral e local dos genes. O seqüencia- mento no genoma funcional Ø feito em cerca de 800 pares de bases (bp) de apenas uma das fitas de cDNA. Considerando que as bibliotecas de cDNA sªo montadas direcionalmente, a maior parte do seqüenciamento Ø feito a partir da extremidade 5 do cDNA, devido ser a mais informativa e conservada. Embora possa haver er- ros de leitura nas seqüŒncias geradas, estes nªo comprometem, na maio- ria dos casos, a identificaçªo dos correspondentes genes. Desta for- ma, milhares de seqüŒncias podem ser determinadas com um limitado investimento. A terminologia do in- glŒs para etiqueta dos genes Ø cha- mada de Express Sequence Tags (ESTs). O banco de dados de ESTs tem mostrado ser uma grande fonte de identificaçªo, principalmente da fun- çªo bioquímica de muitos genes e de funçıes biológicas que podem ser inferidas com base na freqüŒn- cia de certos genes, que sªo identi- ficados em bibliotecas de cDNAs construídas sob diferentes condi- çıes. Exemplificando: uma proteí- na X pode ser identificada como uma quinase (funçªo bioquímica) atra- vØs do seqüenciamento do gene que a codifica e da comparaçªo com o banco de dados. Se essa mesma pro- teína for identificada apenas em teci- dos ou orgªos que sofreram o ataque de um patógeno Y , esse fato pode levantar a suspeita de que a proteína Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 51 X esteja relacionada com os processos de defesa contra o organismo Y (funçªo biológi- ca). Atualmente (Outubro/ 2000), mais de 5 milhıes de seqüŒncias, correspondendo a genes de vÆrios organismos estªo disponíveis em bancos de dados pœblicos. Os proje- tos genomas, no início dos anos 90, começaram seqüen- ciando principalmente genes abundantes e indicavam que cerca de 60% das seqüŒncias eram desconhecidos. Como jÆ era de se esperar, pesquisa- dores das mais diversas Æreas foram depositando informaçıes de seqüŒn- cias e suas funçıes no banco de da- dos. Para muitos desses genes, as funçıes foram determinadas pela uti- lizaçªo da combinaçªo de uma sØrie de estudos que envolveu caracteriza- çªo de mutantes, níveis e localizaçıes da expressªo gŒnica, modificaçıes de substratos específicos, hibridaçªo in situ, mapeamento, interaçªo proteína- proteína in vitro e in vivo entre outros. Essas seqüŒncias gŒnicas, cujas fun- çıes jÆ estªo determinadas, servem de suporte para a identificaçªo da funçªo gŒnica de novas seqüŒncias deposita- das em bancos de dados. Quantos genes sªo desconhecidos hoje, com- parando-se com o início dos anos 90? A comparaçªo de seqüŒncias pode ser feita a nível de nucleotídeos, amino- Æcidos ou de domínios funci- onais. As anÆlises de compa- raçªo sªo feitas enviando-se a seqüŒncia editada para o ban- co de dados e os resultados sªo devolvidos em uma forma chamada de e value. Quanto menor esse valor, maior a si- milaridade da seqüŒncia com aquela presente no banco de dados. Cabe ao pesquisador responsÆvel determinar qual Ø o limite mínimo para conside- rar que uma seqüŒncia estÆ qualitativa ou quantitativamente representada no banco de dados pœblicos. Apesar do sistema de bioinformÆtica estar bas- tante sofisticado nesses projetos, Ø difícil para um computador indicar o que pode ser considerado um novo gene, um membro de uma família gŒnica ou variaçıes de um alelo. Hoje, projetos genomas descrevem que para um e value de 10-25 existem cerca de 35% de genes desconhecidos. Existe um grande nœmero de pro- jetos genomas sendo desenvolvidos no mundo. Um resumo dos ESTs depositados em banco de dados pœ- blicos pode ser acessado no endereço internet http:// www.ncb i .n lm.n ih .gov/ dbEST/dbEST_summary.html. No Brasil, projetos genoma tŒmsido principalmente realizados no Estado de Sªo Paulo, com o auxílio da Fapesp (Fundaçªo de Apoio à Pesquisa, do Estado de Sªo Paulo). Como um seqüenciamento per si pode ser œtil na determi- naçªo da biologia de um gene? Dependendo do nœmero de clones seqüenciados e das va- riedades das bibliotecas de cDNAs construídas, Ø possível tirar conclusıes relacionadas à abun- dância, expressªo temporal e espacial de muitos genes. Apesar de muitos desses seqüenciamentos serem feitos a partir do final 5 do gene, Ø possível ter toda a regiªo codante do gene devido à presença de clones de cD- NAs derivados de mRNA de diferentes tamanhos. A bioinformÆtica pode re- conhecer um bom seqüenciamento, retirar regiıes dos vetores, submeter automaticamente a anÆlise do Blast e montar contigs ou grupos de se- qüŒncias que tenham overlaps e, com isso, caracterizar membros de uma família, alelos, single nucleoti- deo polymorphism (SNPs) etc. Nem sempre os projetos genomas pœblicos descrevem as seqüŒn- cias desconhecidas. A vanta- gem de um banco de dados disponibilizar as seqüŒncias desconhecidas Ø a oportuni- dade que um pesquisador poder comparar as expres- sıes de um gene em outros organismos e de sugerir pro- vÆveis funçıes. As seçıes a seguir descrevem processos usados para auxiliar a melhor descriçªo da(s) funçªo(ıes) gŒnica(s). GenØtica Direta e Reversa GenØtica direta Ø um processo que envolve, inicialmente, a anÆlise do fenótipo e depois o isolamento e a identificaçªo do gene responsÆvel pela característica. Genes tŒm sido isolados por clonagem posicional, mutagŒnese com inserçªo de transposons ou de T- DNA, por escrutínio de bibliotecas de Figura 1 - Mutaçªo por antisenso. A CØlula nªo mutante contendo o gene X; B Construçªo contendo o gene X na orientaçªo antisenso; C - CØlula A trans- formada com construçªo B. CØlula da Planta Mutante na Proteina X Figura 2 - Co-supressªo de promotor. O experimento de SDS-PAGE demonstra que a proteína X nªo existe mais na planta transgŒnica contendo a construçªo gŒnica 52 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento DNA expresso e por tØcnicas de expressªo diferencial (diffe- rental display). Com o aumento da capaci- dade de clonar, modificar e examinar as atividades biológi- cas de segmentos de DNA, a caracterizaçªo de um gene pode tambØm ser realizada pela uti- lizaçªo de uma rota inversa, denominada de genØtica rever- sa. Esse novo processo parte de um gene cuja estrutura mo- lecular Ø conhecida e procede por explorar a contribuiçªo do gene para um determinado fe- nótipo. Assim sendo, um cami- nho experimental parte do gene como uma seqüŒncia de nucle- otídeos para a sua funçªo cor- respondente. Sendo a seqüŒncia do gene conhecida, sua funçªo pode ser desvendada pela sua inativaçªo por meio da recombinaçªo homóloga com uma seqüŒncia defeituosa, ou pela diminuiçªo da sua expressªo por tØc- nicas de antisenso ou de co-supres- sªo. TØcnicas de GenØtica Reversa Usadas para Manipular Genes e para Produzir Organismos Mutantes Mutaçªo por Perda da Funçªo GŒnica Nesse próximo seguimento de- monstraremos como tØcnicas de re- combinaçªo homóloga, antisenso e co-supressªo podem ser empregadas para mutar um gene conhecido, fa- zendo com que ele se torne nªo fun- cional e a importância das plantas transgŒncias como importantes ferra- mentas cientifícas para auxiliar na iden- tificaçªo da funçªo gŒnica. Recombinaçªo Homóloga A recombinaçªo homóloga Ø a alteraçªo de uma pequena parte da seqüŒncia de um gene de interesse que geralmente Ø feita com a incorpo- raçªo de um gene marcador e a rein- troduçªo desse gene mutado no orga- nismo de origem. Uma vez dentro do organismo de interesse, o gene muta- do tem a capacidade de substituir o gene nativo pela recombinaçªo ho- móloga, criando um organismo mu- tante. Um gene marcador pode ser o gene bar de seleçªo para o herbicida fosfinotricine (PPT). As plantas con- tendo o gene modificado com o mar- cador sªo selecionadas na presença do herbicida e, após ficar demonstra- do a incorporaçªo do gene modifica- do no genoma da planta transforma- da, essa Ø autofecundada e, por estu- dos moleculares, Ø possível identificar a planta que tenha apenas o alelo modificado (homozigose). A planta homozigota para o gene modificado de interesse pode apresentar ou nªo um fenótipo aparente, mas as plantas com os fenótipos mutantes eviden- tes podem proporcionar uma forma rÆpida de correlacionar o fenótipo com o gene modifi- cado. MØtodos de distœrbio da funçªo gŒnica, via recombina- çªo homóloga tŒm sido descri- tos para leveduras e ratos, sen- do poucos os casos descritos em plantas. Uma aplicaçªo com sucesso da recombinaçªo ho- móloga, em plantas foi a de- monstrada para o gene AGL MADS-box, em Arabidopsis. Antisenso A metodologia do antisenso envol- ve a introduçªo, na cØlula, de molØcu- las de RNA ou de DNA, construídas artificialmente, que sejam complemen- tares (antisenso) ao RNA mensageiro (mRNA) do gene de interesse. Uma das hipóteses para explicar o motivo pelo qual o RNA antisenso pode cau- sar mutaçıes no organismo transfor- mado Ø o fato de que estas molØculas de RNA ou de DNA artificiais se ligam ao mRNA celular, inativando-o (Fig. 1). Usando essa tecnologia, o antisen- so do gene da chalcone sintase (chs), responsÆvel pela pigmentaçªo das flo- res, foi introduzido em plantas de petœnia e de tabaco, resultando em plantas com alteraçªo na pigmenta- çªo das suas flores (fenótipo mutan- te). Sheehy et al. (1988) tambØm usa- ram a tecnologia do antisenso para inibir a produçªo de enzimas respon- sÆveis pelo desenvolvimento do fruto do tomate, produzindo, assim, um tomate mutante com o amadureci- mento retardado. Co-supressªo Na tØcnica de co-supressªo, um gene de interesse Ø engenheirado por meio de tØcnicas de biologia molecu- lar, para superexpressar uma proteína de interesse. Uma vez que a cØlula possui uma maquinaria minuciosa- mente ajustada, qualquer alteraçªo nos níveis de expressªo de uma pro- teína produz uma grande confusªo Figura 3 - Identificaçªo de um gene utilizando transposon por meio de genØtica direta. A grande maioria dos indivíduos F1 do cruzamento entre um indivíduo A contendo um transposon ativo com o indiví- duo mutante de interesse B serªo normais devido à comple- mentaçªo do alelo normal da linhagem A, contudo, em uma freqüŒncia baixa na populaçªo F1, o transposon estarÆ inserido no locus do indivíduo A corresponde ao gene mutado do indivíduo B. Nesse caso, o indivíduo F1 serÆ semelhante ao indivíduo B. Dessa forma o alelo mutado do indivíduo B pode ser substituído pelo transposon, um marcador conhecido, atravØs de cruzamen- tos, e o gene de interesse identificado atravØs da constru- çªo de uma biblioteca genômica Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 53 nos mecanismos de regulaçªo celular. Como conseqüŒncia, na maioria das vezes, a superexpressªo de uma pro- teína na cØlula faz com que a produ- çªo dessa proteína seja desligada e, ao contrÆrio do que seria espera- do, forma-se, entªo, um orga- nismo mutante, que nªo pro- duz a proteína de interesse. Isso pode acontecer a nível de gene ou a nível de promotor. Um exemplo de co-supressªo a nível de promotor Ø demons- trado na Figura 2 onde um mutante foi produzido nªo na proteína que estava sendo su- perexpressa, mas na proteína de onde foi retirado o promo- tor. Embora seja difícil compre- ender como a superexpressªo de um gene possa ocasionar a diminuiçªo da síntese de sua proteína, vÆrios experimentos tŒm sido realizados demons- trando a ocorrŒncia desse fato. O primeiro resultado de co- supressªo foi obtido por meio de um estudo envolvendo a variaçªo da co- loraçªo de flores de petœnia pela introduçªo do gene da chs sob o controledo promotor 35S. Mutaçªo por Inserçªo de Transposon ou T-DNA Transposons Transposons sªo elementos de DNA que tŒm a capacidade de sair de uma regiªo do genoma e se incorpo- rar em outra. Sendo o movimento do transposon um processo aleatório, quando estes elementos pulam em um genoma, podem se inserir no meio de um gene, tornando-o inativo. Em plantas, uma sØrie de transposons tŒm sido usados como ferramenta, tanto na genØtica direta quanto na reversa, para isolamento e caracteri- zaçªo de vÆrios genes ou fenótipos. O princípio da tØcnica estÆ descrito na Figura 3. O primeiro gene de planta clonado por transposon, via genØtica direta, foi o gene bronze, de milho, que codifica UDP-glucose:flavonóide 3-O-glucosiltransferase, uma enzima da via metabólica das antocianinas (Fedoroff et al., 1984). A genØtica reversa usando mutan- tes por inserçªo de transposons foi descrita, inicialmente, em Drosophila melanogaster. Essa metodologia Ø ba- seada em uma reaçªo em cadeia da polimerase (PCR Polymerase Chain Reaction), que utiliza um primer com- plementar ao final do transposon e outro complementar ao final do gene. Dessa forma, os produtos de Polime- rase Chain Reaction (PCR) só serªo obtidos se um transposon estiver inse- rido no gene de interesse. Genes que tiveram sua expressªo alterada pela inserçªo do transposon sªo recupera- dos por meio da amplificaçªo por PCR do DNA extraído do indivíduo com fenótipo mutante. Esse processo tem sido utilizado na identificaçªo de ge- nes em Caenorhabditis elegans e mi- lho. A família dos transposons Mutator (Mu) em plantas apresenta altas taxas de mutaçıes e tem alto grau de con- servaçªo nas extremidades das se- qüŒncias invertidas. Essas duas carac- terísticas sªo bastante interessantes, pois ajudam a selecionar alelos que contenham os elementos Mu cuja se- qüŒncia Ø previamente conhecida. In- serçıes dos elementos Mu podem ser identificadas pela amplificaçªo por PCR. O gene mutado pode, entªo, ser recuperado e propagado em semen- tes F 2 . Outros aspectos importantes desse processo, e essenciais para a anÆlise de um menor nœmero de plan- tas, sªo o nœmero de transposiçªo e o nœmero de cópias do transposon Mu na planta. A tecnologia de caracteriza- çªo de funçıes gŒnicas atravØs do Mu foi utilizada pela primeira vez em milho pela Pioneer Hi-Bred Co., sen- do denominada Trait Utility System (TUSC) (Fig. 4). Bensen et al. (1995) utilizaram a tØcnica do TUSC para caracterizar o mutante Anther ear1 (An1), cujo produto gŒnico estÆ en- volvido na síntese do primeiro inter- mediÆrio tetracíclico na via da biossín- tese de giberelina (GA). A mutaçªo An1 resultou em um fenótipo respon- sivo à GA, que inclui uma altura redu- zida de planta, atraso na maturidade e desenvolvimento de flores perfeitas em espigas normalmente pestiladas. Um projeto financiado pela Natio- nal Science Foundation (NSF) coor- denado pela Dra. Virginia Walbot (Uni- versidade de Stanford, EUA) tem por objetivo demonstrar a funcionalidade de genes de milho usando dois mØto- dos complementares: o seqüencia- mento de DNA genômico flanquean- do as inserçıes do transposon Mu e a identificaçªo e caracterizaçªo dos in- divíduos mutantes contendo esses Figura 4 TUSC (Trait Utility System in Corn). Plantas conten- do transposons ativos sªo multi- plicadas para a montagem de uma biblioteca de mutantes. Conhecendo a freqüŒncia com que o transposon se multiplica e se insere em regiıes codantes, pode-se calcular teoricamente o nœmero de plantas necessÆrias para se ter um transposon em cada gene. Cada planta mutante Ø autofecundada e as sementes estocadas. Uma reaçªo de PCR Ø feita com DNA extraído de folhas de grupos de plantas dessa biblioteca de mutantes, usando- se um primer do transposon e um primer do gene (a seqüŒncia de ambos Ø conhecida). A hibridaçªo Ø feita para auxiliar no escrutínio de um grande nœmero de plantas. Os grupos de plantas cujo sinal foram positivos sªo subdivididos atØ que seja encontrada a planta que conte- nha o transposon inserido no gene. Para aumentar a chance de encontrar a planta mutante, testa- se uma sØrie de primers de um œnico gene simultaneamente 54 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento transposons. Um banco de mu- tantes estÆ sendo criado usando plantas transformadas com os elementos Mu contendo o plas- mídeo Bluescript (Fig. 5). A nova inserçªo contendo o transposon poderÆ ser seletivamente clona- da direto em E. coli, gerando uma biblioteca de mutaçªo in- sercional para anÆlise de DNA. Cada planta F 2 serÆ autofecunda- da e as sementes serªo estocadas no Maize Genetics Cooperative Stock Center, um órgªo especi- almente criado para armazenar os estoques de sementes muta- das. Os usuÆrios poderªo utilizar a tØcnica de PCR para seleçªo de uma coleçªo de plasmídeos que foram in- seridos em genes de interesse. Cerca de 50.000 ESTs, flanqueadas pelo trans- poson Mu, jÆ foram completamente seqüenciados durante o primeiro ano do projeto. O objetivo final Ø seqüen- ciar cerca de 150.000 segmentos de DNA genômico contendo inserçıes do transposon Mu. T-DNA O T-DNA Ø um segmento de DNA presente no plasmídeo Ti (DNA nªo cromossômico) de Agrobacterium tu- mefaciens, uma bactØria de solo que causa tumores quando infecta plan- tas. O tumor Ø causado pela capacida- de da bactØria de transferir seu T-DNA para as cØlulas vegetais. O T-DNA contØm genes que codificam hormô- nios e aminoÆcidos necessÆrios à so- brevivŒncia da AgrobactØria dentro da planta. Cientistas descobriram que podiam alterar este fragmento de DNA substituindo os genes nativos por qualquer gene de interesse e, que esses novos genes continuariam sen- do transferidos para as plantas pelo sistema mediado pela bactØria. A par- tir dessa descoberta, o T-DNA passou a ser usado como uma ferramenta na genØtica direta e reversa de maneira semelhante aos transposons. O T- DNA se insere aleatoriamente no meio de genes tornando-os nªo funcionais e produzindo um organismo mutante. A funçªo do gene Agamous de Arabi- dopsis foi caracterizada como sendo um regulador transcricional necessÆ- rio para o desenvolvimento floral uti- lizando essa metodologia (Yanofsky et al., 1990). GenØtica reversa em Arabidopsis usando grandes populaçıes de plan- tas mutadas, com um elemento de inserçªo, taes como o T-DNA de A. tumenfaciens. Grandes populaçıes de plantas mutantes foram geradas para constituir uma biblioteca de in- serçªo. Em Arabidopsis, uma unidade de transcriçªo tem em mØdia 2.5 kb (intron e exon), o que significa que um genoma de 100 Mb pode ser dividido em cerca de 40.000 genes. Para ter 95% de chance de acertar um dos genes, sªo necessÆrias 120.000 inserçıes aleatórias independentes. O DNA Ø extraído de plantas mutageni- zadas e agrupadas em grupos maio- res. Inserçıes simples podem ser de- tectadas por PCR em grupos de cerca de milhares de indivíduos. Depen- dendo da natureza da populaçªo usa- da, grupos ou supergrupos po- dem ser organizados em matri- zes de duas ou trŒs dimensıes para facilitar a determinaçªo fi- nal do indivíduo carregando a inserçªo desejada. As reaçıes de PCR sªo realizadas em su- pergrupos de DNA usando-se combinaçıes de oligonucleotí- deos do gene e do elemento de inserçªo. Os produtos de PCR sªo carregados em um gel de agarose, transferidos para mem- brana e hibridizados com son- das produzidas a partir do gene de interesse e do elemento de inserçªo. Apesar do PCR ape- nas permitir a amplificaçªo do gene mutado pelo elemento de inserçªo, backgrounds podem ocorrer. Desta forma, apenas as bandas que hibridi- zarem com ambas sondas serªo leva- das adiante. Uma vez que o produto de PCR tenha sido confirmado e se- qüenciado, o supergrupo pode ser subdividido em grupos cada vez me- nores. A determinaçªo final da linha mutantepode ser obtida em menor tempo, dependendo do esquema de agrupamento dos DNAs. Uso de Microarrays de DNA para Estudar a Expressªo de Genes em Todo o Genoma de Um Organismo O microarray Ø uma metodologia utilizada para comparar a expressªo de um grande nœmero de genes, si- multaneamente. Essa tØcnica empre- ga arranjos (arrays), que contŒm um grande nœmero de genes robotica- mente distribuídos de forma ordenada sobre placas de vidro. A quantificaçªo dos níveis de expressªo na tecnologia de microarray Ø baseada em experi- mentos onde os milhares de clones de cDNA sªo hibridizados com duas son- das marcadas com diferentes fluores- cŒncias (geralmente uma que emite cor vermelha e outra, verde). As son- das podem ser conjuntos de cDNAs gerados a partir de cØlulas ou de tecidos em duas situaçıes diferentes que se deseje comparar (por exem- plo: resistŒncia e suscetibilidade ao alumínio). Os resultados sªo produzi- dos sob forma de diferentes intensida- des de fluorescŒncia, que sªo capta- das por microscopia de fluorescŒncia Figura 5 Projeto NSF coorde- nado pela Dr“. Virginia Walbot (University of Stanford). O transposon contendo uma marca de seleçªo para resistŒncia à ampicilina em bactØria Ø transfe- rido para o milho por transfor- maçªo. As plantas sªo multiplica- das e sªo feitas bibliotecas genômicas a partir de colunas e fileiras de plantas contendo esses transposons engenheirados, inseridos aleatoriamente no genoma. Os plasmídeos origina- dos da biblioteca genômica contendo esse cassetes sªo seqüenciados e as plantas que contŒm os transposons inseridos nos genes de interesse sªo identificadas Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 55 a laser, em funçªo dos diferentes níveis de expressªo de cada gene. A imagem dos pontos fluores- centes Ø processada por compu- tadores e programas específicos, sendo gerada simultaneamente uma grande quantidade de in- formaçªo (Fig. 6). A tecnologia de microarrays nªo fornece apenas informaçıes sobre a funçªo de genes anôni- mos, o que favorecerÆ bastante os processos de genØtica rever- sa, mas tambØm constitui uma ferramenta indispensÆvel para estudos globais de expressªo gŒnica, com grandes aplicaçıes nos estudos de biologia molecu- lar e fisiologia vegetal. Apesar do microarray ser um dot blot de RNA, grande nœmero de conclusıes podem ser tiradas com o uso desse processo. Uma importante aplicaçªo da tec- nologia de microarray Ø o fato que muitos arrays podem ser produzidos para servir como uma plataforma co- mum entre vÆrios pesquisadores. Se aclopado para o desenvolvimento de um banco de dados centralizado, os pesquisadores serªo capazes de pes- quisar em multiplos grupos de dados diferentes padrıes de expressªo de interesse. Com essa tecnologia, serÆ possível acessar o impacto de específi- co tratamento, fatores ambientais, estÆ- gios de desenvolvimento e efeitos na expressªo global de todos os genes em um transgŒnico, estudos envolvendo heterosis e produtividade, anÆlise com- parativa de organismos de genomas menores, como vírus, melhoramento assistido por marcadores, fingerprin- ting e escrutínio de germoplasma para identificar genes envolvidos em pro- cessos específicos, entre outros. Devi- do a informaçªo gerada por estudos de microarrays ser quantitativa, mudan- ças sœbitas na expressªo de um gene podem ser detectadas e podem substi- tuir metodologias de subtraçªo e diffe- rential display. Apesar da obtençªo de cDNAs de organismos procariotas ser difïcil devi- do principalmente à falta do poli A+ e à alta instabilidade dos mRNAs, esses organismos ainda sªo um excelente sistema para anÆlise de microarray devido principalmente ao seu genoma pequeno (em torno de 3 Mb) e a grande variabilidade de mutantes disponíveis. Estudos de microarrays podem ser usados para comparar o organismo selvagem com mutantes, em uma sØ- rie de fatores específicos. A anÆlise de expressªo gŒni- ca em grande escala oferece grandes vantagens, porØm esse processo possui limitaçıes. Uma clara limitaçªo na aplicaçªo des- sa tecnologia Ø a grande quan- tidade de RNA necessÆria du- rante a etapa de hibridaçªo. A quantidade de RNA total para uma hibridaçªo Ø de 50 a 200 µg (2 a 5 µg para mRNAs). Certa- mente, os resultados gerados por esse processo nªo determi- nam a funçªo de um gene, mas fornecem uma forte ferramenta para a sua compreensªo. Os resultados fornecidos por esse processo servem para indicar genes candidatos interessantes para estudos mais detalhados. Estu- dos adicionais terªo de ser feitos para verificar se os níveis de transcriçªo alterados refletem mudanças na sínte- se ou turnover. AlØm disso, uma resposta diferente pode estar relacio- nada com processos pós-transcricio- nais como fosforilaçªo, metilaçªo, gli- colisaçªo, etc. Devido a essa grande capacidade de anÆlise de transcritos ao mesmo tempo, a tecnologia de microarray pode, muitas vezes, antecipar os pro- jetos genomas de seqüenciamento es- trutural e funcional. Os microarrays hoje sªo construídos a partir de clones conhecidos. Essa etapa envolve se- qüenciamento de genes, identificaçªo de clones em placas de estoque, ma- nipulaçıes desses clones para novas placas de estoque, reaçıes de PCR e eletroforese em gel de agarose para confirmar a eficiŒncia do processo, etc. Uma nova idØia que tem surgido Ø o uso de microarrays sem o seqüen- ciamento prØvio. Clones de bibliote- cas normalizadas sªo submetidos a amplificaçªo do inserto por PCR e automaticamente transferidos para o microarray. Assumindo que a quanti- dade de clones raros tenha aumenta- do em relaçªo aos abundantes na normalizaçªo da biblioteca, e que, em cada lâmina de vidro, podem ser orga- nizados pelo menos 10.000 clones, o processo pode tornar-se bem mais simples e interessante. Clones relacio- nados com o estresse poderiam ser isolados com base na confecçªo de uma biblioteca de cDNA de raiz de Figura 6 - AnÆlise de expressªo gŒnica usando microarray. O mRNA total de cada situaçªo Ø usado para preparar sondas de cDNA usando a transcriptase reversa na presença de um nucleotídeo marcado com fluo- rescŒncia. Um dos grupos de mRNA Ø marcado com um nucleotídeo com fluorescŒncia verde e o outro, com fluorescŒn- cia vermelha. As duas sondas sªo misturadas e hibridizadas com o DNA no microarray. Assim, a relativa abundância de cada mRNA Ø comparada por um analisador de imagem atravØs do sinal gerado pelas duas sondas. O objetivo do processo Ø identificar genes cujos sinais gerados foram mais voltados para o verde ou para o vermelho. Aqueles clones, cujo mRNA nªo sªo diferencial- mente expressos entre as duas populaçıes de mRNA, terªo uma cor intermediaria entre verde e vermelho, aqui representada pela cor amarela. Os clones represen- tados pela cor cinza representam aqueles que estªo representados em pequenas quantidades nas sondas. Toda a anÆlise de ima- gem Ø feita em um computador que calcula intensidade de sinal gerado na hibridaçªo 56 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento uma planta tolerante ao es- tresse, e sondas de cDNAs da planta tolerante e da planta susceptível ao mes- mo estresse marcados com duas fluorescŒncias dife- rentes. Um robô de micro- array Ø capaz de colocar 16 amostras em 48 placas de vidro, lavar e secar a sonda para o próximo gru- po de cDNA em 70 segun- dos. Assim, cerca de 10.000 amostras podem ser im- pressas em, aproximada- mente, 12 horas. VÆrios sis- temas robotizados mais rÆpidos e efi- cientes para a impressªo e processa- mento dos cDNA nas placas de vidro, alØm de metodologias cada vez mais sensíveis e precisas para detecçªo e anÆlise dos resultados tŒm sido desen- volvidos e disponibilizados. No exem- plo anterior, apenas clones expressos diferencialmente seriam seqüenciados. Portanto, mesmo que tenhamos clo- nes repetidos, estaremoscom um nœ- mero de clones para seqüenciamento bastante reduzido em relaçªo a um seqüenciamento aleatório. Se na prÆ- tica de microarrays pode, ou poderÆ em um futuro próximo, ser usado sem auxílio de classificaçªo prØvia dos clones, grupos que tenham, ou este- jam desenvolvendo, organismos con- trastantes para diversas caraterísticas de interesse, estarªo com excelentes ferramentas para ajudar a identificar os genes envolvidos em vÆrios pro- cessos fisiológicos. Linhas recombi- nantes provinientes de cruzamentos de indivíduos contrastantes e mutan- tes sªo as melhores opçıes, atualmen- te, para as anÆlises de microarrays. Vantagens e desvantagens do microarray baseado em fragmentos de DNA Existem basicamente dois proces- sos em que os microarrays podem ser confeccinados. Um Ø a impressªo de oligos e o outro, os de framentos de DNA previamente isolados na lâmina de vidro. O microarray baseado em oligos, em particular aqueles produzi- dos por mØtodo de fotolitografia, tem alta densidade (250.000 olinucleotide- os/cm2) e sªo mais consistentes nos arrays comparados com os microar- rays baseados em fragmentos de DNA. O potencial de colocar clones em locais errados pode ser evitado no mØtodo do oligo porque sªo sintetiza- dos in situ, baseado na seqüŒncia do gene obtido diretamente do banco de dados. AlØm disso, devido à seqüŒn- cia que os hibridiza no microarray baseado em oligo ser muito curta (20 a 25 nucleotídeos), as reaçıes de hibridaçªo sªo muito sensíveis na tro- ca de um simples nucleotídeo, ao contrÆrio do mØtodo baseado no frag- mento de DNA. Isso faz microarrays baseado em oligonucleotideos parti- cularmente apropriados para genotipagem e apli- caçıes de seqüencia- mento. A maior desvan- tagem do microarray baseado em oligos Ø que sua construçªo depende da disponibilidade de um banco de dados seguro. Ao contrÆrio de micro- arrays baseados em frag- mentos de DNA, infor- maçıes de seqüŒncias nªo sªo necessÆrias para a constru- çªo. Em comparaçªo à dot blots de clones arranjados em membranas de filtro, microarrays sªo mais sensíveis, exibindo uma dinâmica mais ampla e permitindo uma anÆlise simultânea de duas sondas complexas. Assim, ape- sar dos dot blots poderem ser apropri- ados para pequena escala, apenas microarrays baseados em fragemen- tos de DNA podem fornecer anÆlises em escala genômica. Uma desvanta- gem do processo, similar em qualquer outro mØtodo de hibridaçªo, Ø o fato de que hibridaçªo cruzada entre mem- bros de uma família gŒnica pode ocor- rer, ocasionando uma anÆlise confusa de expressªo gŒnica de membros de uma mesma família. SAGE (Serial Analysis of Gene Expression) SAGE Ø a extensªo lógica do se- qüenciamento de EST. Um inventÆrio de mRNAs Ø feito com base no se- qüenciamento de cDNAs curtos, clo- nados em tandem. O tamanho desses cDNAs Ø o suficiente para identificar genes correspondentes no banco de dados. O padrªo de restriçªo desses genes diferentes estÆ relacionado com a abundância relativa de cada cDNA. Os padrıes gerados pelo SAGE tŒm sido estudados em humanos e em levedura, contudo tŒm sido pouco utilizados em plantas. Um prØ-requisi- to para a identificaçªo dos ESTs Ø a disponibilidade de um banco de da- dos grande para a espØcie estudada. Essa tØcnica Ø poderosa, mas nªo Ø conveniente para a comparaçªo de muitas amostras diferentes e para o estudo de transcritos raros. Figura 7 - Identificaçªo de interaçªo proteína-proteína (in vitro). A) A proteína de interesse Ø clonada em um vetor de expres- sªo em bactØria que permite a sua purificaçªo em uma coluna de afinidade. Um extrato de proteínas produzido nas cØlulas vegetais Ø tambØm submetido à coluna que jÆ contØm fixada a proteína de interesse. A coluna Ø lavada e as proteínas que intera- girem com a proteína de interes- se podem ser seqüenciadas ou usadas para produzir anticorpos que serªo utilizados em uma biblioteca de expressªo de cDNA. B) Proteínas X e Y produzi- das em E. coli sªo misturadas e passadas atravØs de uma coluna de níquel. Se a proteína Y interagir com a X, ambas ficarªo retidas na coluna. O processo pode ser visualizado por anticorpos ou raio-X, caso a proteina Y esteja marcada com radioatividade Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 57 Proteomics Estudo do Perfil ProtØico de Um Organismo Cientistas tŒm utilizado o ter- mo proteomics para descrever as anÆlises do perfil protØico de um organismo. O comportamen- to de muitas proteínas em um proteoma pode ser monitorado por meio de gØis de eletroforese em duas dimensıes. Nesse pro- cesso, proteínas provenientes de cØlulas ou de tecidos em duas condi- çıes fisiológicas diferentes (por exem- plo, plantas resistentes e sensíveis a uma determinada doença ou condi- çªo de estresse) sªo extraídas, aplica- das em gØis e comparadas qualitativa e quantitativamente. As proteínas pre- sentes em apenas um dos gØis ou que tenham a sua quantidade alterada sªo fortes candidatadas para atuarem no controle do processo em estudo. A partir da identificaçªo das proteínas de interesse, pode-se, utilizando-se as tØcnicas de biologia molecular, isolar sua seqüŒncia gŒnica e caracterizÆ-la. Localizaçªo Celular de um mRNA ou Proteína para Inferir sobre sua Funçªo Os genes sªo transcritos em molØ- culas de RNAs mensageiros (mRNA), que sªo traduzidos em proteínas. Es- sas sªo transportadas para locais espe- cíficos dentro da cØlula de um deter- minado tecido ou organismo. Enquan- to alguns genes codificam para prote- ínas que sªo expressas em todas as cØlulas de um indivíduo durante toda a sua vida (genes constitutivos), ou- tros codificam para proteínas que sªo expressas apenas em algumas cØlulas, ou em um determinado período de desenvolvimento, ou em resposta a algum estímulo externo (genes teci- do-específicos). A localizaçªo de uma proteína ou de seu mRNA nas cØlulas ou tecidos onde sªo produzidos Ø uma importante fonte de informaçªo, que pode auxiliar na determinaçªo da funçªo de um gene ou proteína. Um dos princípios dessa metodologia Ø a identificaçªo do mRNA ou da proteína de interesse por meio de sondas espe- cíficas. As sondas após se ligarem à proteína ou ao mRNA em estudo sªo detectadas com o auxílio de tØcnicas de microscopia. Uma vez conhecida a localizaçªo da molØcula dentro de um organismo podem ser programados experimentos mais refinados para a definiçªo de sua funçªo. TØcnicas de hibridizaçıes in situ tŒm sido ampla- mente utilizadas para localizar genes e os seus produtos em cromossomos, tecidos e cØlulas de diversos organis- mos. Interaçªo Proteína-Proteína A caracterizaçªo da funçªo gŒnica pode ser auxiliada por meio de estu- dos de interaçªo proteína-proteína in vitro e in vivo. A observaçªo de que uma proteína, cuja funçªo Ø desco- nhecida, interage com uma que Ø conhecida pode sugerir que as duas proteínas fazem parte do mesmo pro- cesso ou que podem estar localizadas no mesmo compartimento celular. Os dois tipos de testes (in vitro e in vivo) podem ser usados para verificar a existŒncia de interaçªo entre duas proteínas conhecidas, identificar no- vas proteínas que interagem com uma proteína em estudo e identificar regiıes dentro de uma proteína que sªo importantes no processo de reconhecimento e da interaçªo. Existe um grande nœmero de alter- nativas e variaçıes para estudar as interaçıes entre proteínas (Fig. 7). Apesar de bastante informativas, as reaçıes in vitro podem masca- rar os resultados reais devido à impossibilidade de se reproduzir in vitro todas as condiçıes exis- tentes nas cØlulas in vivo. Por esse motivo, foram desenvolvidos proto- colos que estudam a interaçªo entre proteínas in vivo. Uma maneira eficiente para detec- çªo de interaçªo in vivo Ø utilizar o sistema híbrido duplo de levedura. Esse processo constitui a construçªo de duasproteínas de fusªo, por enge- nharia genØtica. Uma delas gera um híbrido entre seqüŒncias para um do- mínio que se liga ao DNA do fator de transcriçªo Gal4 (aminoÆcidos 1-147) e a proteína de interesse. Um segundo plasmídeo de expressªo contØm uma seqüŒncia que ativa o fator de transcri- çªo Gal4 (aminoÆcidos 768-881) fun- dida com cDNAs (Fig. 8). Os cDNAs sªo provenientes de bibliotecas de onde existem genes candidatos. Des- sa forma, se as duas proteínas expres- sas na levedura sªo capazes de intera- gir, o complexo resultante ativarÆ a transcriçªo dos promotores contendo sítios de ligaçªo para o Gal4, gerando uma colônia azul em meio contendo um substrato apropriado (X-GAL). O sucesso dessa metodologia foi primei- ramente demonstrado pela interaçªo Gal4-Gal80 (Fig. 8). Conclusªo Desde a redescoberta das leis de Gregor Mendel, cientistas começaram a questionar a natureza do gene. Que tipo de molØcula seria o gene? Como a informaçªo contida em uma molØ- cula poderia ser transmitida para as próximas geraçıes? Por que e como apareceriam indivíduos mutantes? Apenas em meados do sØculo XX, com a descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick, essas e muitas outras questıes começaram a ser respondidas. Nas primeiras trŒs dØcadas após a compreensªo da es- trutura do DNA, o conhecimento a Figura 8 - Interaçªo proteína- proteína in vivo. A- O ativador de transcriçªo GAL4 possui dois domínios: um que se liga ao DNA e outro que ativa a transcriçªo; B e C - Os dois domínios foram separados: o primeiro pode ser fundido à proteína de interesse (B) e o segundo, à proteína desconhecida (C); D - As colônias de levedura contendo os dois plasmídeos cujas proteínas intera- gem serªo azuis em meio conten- do X-GAL (substrato para a enzima), devido à resconstituiçªo do fator de transcriçªo GAL4 e à ativaçªo do gene da beta-galacto- sidase (lac Z) 58 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento respeito de sua biologia cresceu fan- tasticamente. Dentro desse período, ficou conhecida a natureza química dos genes, como a informaçªo genØ- tica era armazenada, como as cØlulas respondiam a essa informaçªo e como ela era transmitida de uma geraçªo para outra. A partir dos anos 70, cientistas aprenderam a manipular a molØcula de DNA utilizando as tØcnicas de bio- logia molecular. Inaugurou-se a era da tecnologia do DNA recombinante, tam- bØm denominada engenharia genØti- ca. Desde entªo, a biologia molecular tem experimentado grandes avanços tecnológicos que tŒm culminado em importantes fontes de conhecimento sobre a funçªo, expressªo e regulaçªo de genes em diferentes organismos. Trabalhos de isolamento, seqüencia- mento e caracterizaçªo de um ou poucos genes eram comumente pu- blicados atØ a dØcada de 90. Atual- mente, um œnico laborató- rio pode seqüenciar 1000 (ou mais) genes por dia. Um pesquisador pode utili- zar os dados gerados e che- gar a conclusıes muito mais precisas sobre a funçªo de um gene em poucas sema- nas de trabalho, do que outro, em muitos meses de trabalho, hÆ alguns anos atrÆs. Hipóteses podem ser testadas muito mais rÆpida e precisamente. EstÆ haven- do um redirecionamento na maneira como os grupos conduzem seus projetos de pesquisas na Ærea da biolo- gia molecular. A primeira fase dos chamados projetos genoma, seqüenciamento de genes, estÆ gerando uma grande quantidade de informaçıes, as quais serªo provavelmente, multipli- cadas com a implementaçªo da se- gunda fase, ou seja, com a anÆlise funcional do material seqüenciado. Neste texto foram mencionadas meto- dologias que tŒm por objetivo auxiliar na identificaçªo da funçªo gŒnica tan- to em âmbito bioquímico como bioló- gico. Entre elas, os microarrays tŒm revolucionado a anÆlise funcional de seqüŒncias gŒnicas em grande escala, uma vez que diferenças nos níveis de expressªo de milhares de genes po- dem ser detectados simultaneamente. Desta forma, vÆrios genes ainda des- conhecidos poderªo ter suas funçıes biológicas desvendadas utilizando esse processo. Em um futuro nªo muito distante, ao invØs de se comprarem kits para construçªo de bibliotecas, serªo compradas bibliotecas jÆ arran- jadas em matrizes, e o pesquisador testarÆ sondas diferentes. Os resulta- dos serªo organizados nªo mais em ESTs, mas em níveis de expressªo desses genes sob diferentes condi- çıes. As metodologias de anÆlise gŒ- nica, tanto individuais quanto em lar- ga escala, fornecerªo um acesso a informaçıes sem precedentes para todas as Æreas da biologia. Entre elas, a agropecuÆria serÆ amplamente be- neficiada, uma vez que existe grande necessidade de identificar e de estu- dar genes que sejam responsÆveis por conferir resistŒncia a doenças, tole- rância a estresses bióticos e abióticos, Figura 10 - Processo de seleçªo de leveduras contendo os plasmídios pAS2 e pACT2 e seleçªo das leveduras contendo interaçªo entre as proteínas X e Y Figura 9 - Esquema dos plasmí- dios usados no sistema de levedura de híbrido duplo. Os plasmidios pAS2 e pACT2 contŒm as proteínas de fusªo de ligaçªo no DNA (DBD) e ativa- çªo de transcriçªo (DAD), respectivamente. Os genes Trp e Leu permitem que a levedura cresça em meio sem triptofano e leucina. O gene Ap seleciona os plasmídios em Escherichia coli. HA Ø a proteína hemoaglutinina e pode ser usada como proteína repórter de leveduras transfor- madas aumento da qualidade nutricional, entre outras características de interes- se econômico. ReferŒncias BENSEN, R.J.; JOHAL, G.S.; CRA- NE, V.C.; TOSSBERG, J.T.; SCHNA- BLE, P.S.; MEELEY, R.B.; BRIGGS, S.P. (1995). Cloning and characterization of the maize An1 gene. Plant Cell 7: 75-84. FEDEROFF, N.V.; FURTEK, D.B.; NELSON, O.E. (1984). Cloning of the bronze locus in maize by a simple and generalized procedure using the trans- posable element Activator (Ac). Proc. Natl. Acad. Sci. USA 81: 3825-3829 SHEEHY, E.R.; KRAMER, M.; HI- ATT, W.R. (1988). Reduction of poly- galacturonase activity in tomato fruit by antisense RNA. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 85: 8805-8809. YANOFSKY, M.F.; MA, H.; BOW- MAN, J.L.; DREWS, G.N.; FELDMANN, K.A.; MEYEROWITZ, E.M. (1990). The protein encoded by the Arabidopsis ho- meotic gene agamous resembles trans- cription factors. Nature 346: 35-39. Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 59 CARTAS SE˙ˆO DE CARTAS Para entrar em contato com Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento vocŒ pode enviar sua correspondŒncia via Internet, fax ou carta para esta seçªo. A critØrio do editor, as mensagens pode- rªo ser publicadas resumidamente. Nossos endereços sªo: Redaçªo de Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento: SRTV/Sul Quadra 701 Ed. PalÆcio do RÆdio II, sala 215 Cep 70340-902 Brasília DF Tel: (061) 225-1512 Fax: (061)224-2830 Home-page: www.biotecnologia.com.br Email: kl3@biotecnologia.com.br Prezados Senhores, O motivo dessa mensagem Ø solicitar informaçıes. Fui escalado para uma discussªo sobre a MP2052 durante o próximo EVINCI (Curitiba/PR - UFPR), em uma mesa-redonda, na qual esta- rªo presentes representantes do IBA- MA. Tenho acompanhado algumas listas de discussªo e percebo que o desconhecimento sobre o assunto Ø geral, indo desde os alunos da gradu- açªo atØ o MCT e CNPq, que suspen- deram os processos de projetos com cooperaçªo internacional atØ que os advogados do IBAMA possam enten- der a lei. Preciso de sugestıes sobre temas que podem ser discutidos. JÆ estou preparando uma pequena pau- ta para meu discurso mas queria mais sugestıes. Aproveito o ensejo para informar que produzo um boletim enviado por e-mail para cerca de uma centena de estudiosos da Ærea de Ornitologia em todo o Brasil e vÆrios países da AmØrica do Sul. FERNANDO COSTA STRAUBE Mülleriana: Sociedade Fritz Müller de CiŒncias Naturais E-mail: juruva@milenio.com.br Prezado Sr.Fernando, Estamos dispo- nibilizandoum espaço no nosso site, denominado BIOCORREIO, para tro- ca de informaçıes entre pesquisado- res, portanto poderÆ deixar essa sua mensagem para que algum eventual pesquisador entre em contato com vocŒ. Basta enviar novamente sua mensagem A/C de Biocorreio do por- tal www.biotecnologia.com.br. Prezado Senhores, Sou fruticultor de Mamªo, MaracujÆ, Banana, e algumas CucurbitÆceas como Abóbora e Melancia. HÆ algum tempo jÆ utilizo produtos como Meta- rhizium anisopliae e Beauveria bassi- ana, e tenho obtido excelentes resul- tados. Vejo no processo de controle biológico uma saída saudÆvel para a produçªo de alimentos e outros pro- blemas sanitÆrios. Sou assinante da revista biotecnologia e gostaria de dar a minha participaçªo, parabenizando primeiramente, por este excelente tra- balho. Como produtor, sinto que a maioria dos colegas produtores nªo conhecem nenhuma tecnologia de controle fitossanitÆrio biológico, e estªo extremamente bitolados com o uso de controles convencionais químicos. Vejo a necessidade de mudar isso mediante disponibilidade de informa- çıes, o que procuro fazer um pouco aqui em minha regiªo. Sinto que hÆ poucos produtos no mercado para que possamos utilizar e nªo sªo bem divulgados, sendo difícil para o pro- dutor encontrar tais informaçıes. Os produtos que, eventualmente, neces- site manipular na própria propriedade para aplicaçªo sªo muito rejeitados pelo produtor por entenderem que nªo hÆ tempo e pessoal treinado para isso. Assim, a minha opiniªo seria no sentido de criarem uma coluna dentro da revista onde disponibilizassem in- formaçıes dos produtos existentes, suas finalidades e formas de utiliza- çªo. Sem mais, subscrevo-me. Atenciosamente Hugo Yamada Prezado Sr.Hugo, Acusamos e agradecemos seu e mail, assim como informamos que sua su- gestªo foi encaminhada. Meu nome Ø Ricardo Alexandre Gue- des da Silva e sou universitÆrio. Curso biologia, estou no 6” período, na UPE e tenho conhecimento de informÆti- ca/internet. Estou procurando vagas de pesquisador (laboratório) e quero informaçıes sobre a Ærea. Ricardo A.G da Silva e-mail: fouly@uol.com.br Prezado Ricardo, No momento estamos disponibili- zando um espaço em nosso site na Internet, por meio do Portal Biotec- nologia chamado Biocurriculum, espaço no qual o senhor poderÆ disponibilizar o seu curriculum. Caso tenha interesse, envie o seu curriculum A/C da sessªo Biocurri- culum. Prezado Sr. VocŒ poderia me enviar o intervalo de pÆginas do artigo Extraction of DNA from Plants SOLUTIONS FOR COMMONLY FOUND PROBLEMS publicado na revista Biotecnologia (volume 9, ano 1999)? Desde jÆ, lhe agradeço muito pela atençªo! Flavio Ayres Prezado Sr. FlÆvio, O artigo Extraçªo de DNA de plan- tas - soluçıes para problemas comu- mente encontrados estªo na ediçªo n” 9 da Revista Biotecnologia. PÆgs. 40, 41, 42, 43. VocŒs poderiam me informar sobre o Dermanyssus, pois estou desen- volvendo um trabalho universitÆrio e nªo estou encontrando nada so- bre esse assunto. Desde jÆ agradeço, Fleury fleuri@osite.com.br Caro Sr. Fleury, todo o material que dispomos encontra-se em nosso site. Pedimos por gentileza que faça uma pesquisa no nosso sistema de busca, a fim de encontrar o assunto deseja- do. 60 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento FUNDA˙ˆO GIACOMETTI (Repete Fotolito) Obs.: Saiu na PÆg. 31 da ediçªo anterior (n”16) Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento 61 MONSANTO (Repete Fotolito) Obs.: Saiu na pÆgina 49 da ediçªo anterior (n”16) EMBRAPA (Repete Fotolito) Obs.: Saiu na 3“ Capa da ediçªo anterior (n”16)